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COSTA PINTO. 1998. O Negro No Rio de Janeiro

COSTA PINTO. 1998. O Negro No Rio de Janeiro

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L. A.

Costa Pinto

0 Negro no
Çfâe/açÕex c/e ^/\ aças n a / r i a <J o a . c d a d e cm<

Aámla/ixxrs

Rio de Janeiro

uTRJ
Reitor Vice-reitor Coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura Myrian Dauelsbcrg Paulo Alcantara Gomes José Henrique Vilhena de Paiva

KDITORA UI R]
Diretora Editora Executiva Coordenadora de Produção Conselho Editorial Yvonnc Maggic Maria Teresa Kopschicz dc Banos Ana Carreiro Yvonnc Maggie (presideme), Afonso CarJos Marques dos Samos, Ana Cristina Zaliar, Carlos Lcssa, Fernando Lobo Carneiro, Peter Fry, Silviano Santiago

:

O NEGRO NO RIO DE JANEIRO
RELAÇÕES DE RAÇAS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA

L A. Costa

Pinto

apresentação Marcos Chor Maio

2a edição
Editora UFRJ

1998

Copyright © by L. A. Costa Pinto I a edição publicada pela Cia. Editora Nacional, São Paulo, 1953.

Ficha Catalogra'fica elaborada pela Divisão de Processamento Técnico - SIBI/UFRJ P659n Pinto, L. A. Costa O negro no Rio de Janeiro: relações de raças n u m a sociedade em m u d a n ç a / L. A. Costa Pinto 2. ed. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1998. 308 p.; 1 6 X 2 3 cm 1. Negro - Rio de Janeiro 2. Estudos afro-brasileiros I. Título C D D 305.89608153 ISBN 85-7108-139-5

Capa Adriana M o r e n o Edição de texto Maria Teresa Kopschitz de Barros Revisão Cecília Moreira Josette Babo Maria Beatriz Guimarães Projeto Gráfico Luciano Figueiredo Ana Carreiro Editoração Eletrônica Alice Brito Janise Duarte Universidade Federal do Rio de Janeiro Fórum de Ciência e Cultura Editora UFRJ Av. Pasteur, 250/sala 107 - Rio de Janeiro CEP: 22.295-900 Tel.: (021) 295-1595 r.124 a 127 Fax: (021) 542-3899 E-mail: editora@forum.ufrj.br

Apoio

t

Fundação Universitária José Bonifácio

À memória de Nina Rodrigues é dedicado este trabalho.

e Artur

Ramos

por conseguir que en la sociedad presente no haya mártires. (Francisco Ayala. (Vicente cie Carvalho. pues que no puede haberios sin que existan al mismo tiempo sus verdugos. História de la libertad) . Fugindo ao cativeiro) Todos estamos obligados a esforzarnos.Fica um pouco de trapo em cada espinho E uma gota de sangue em cada trapo.

Sumário Prefácio à segunda edição Prefácio Costa Pinto h primeira edição 11 13 17 e a crítica ao "negro como espetáculo" M a r c o s Chor Maio Nota da Editora 53 51 Introdução Parte Primeira A Situição Racial Demografia 71 Estratificação social 87 Ecologia 125 Situação cultural 151 Atitudes. estereótipos e relações de raças 169 Parte Segunda Movimentos Sociais Associações tradicionais 213 Associações de novo tipo 235 Tensões raciais niima sociedade em mudança Referências bibliográficas 301 271 .

Movimentos Sociais . e m todo o desenvolvimento da exposição. a nosso juízo. pela indicação de perspectivas que devem vir a ser exploradas por outros estudos de a p r o f u n d a m e n t o . Aceito por ele. a r e s p o n s a b i l i d a d e cabe. convidamos o Dr. que utilizou aquelas notas como bibliografia. a p r e o c u p a ç ã o de. entretanto.a s ao pé da página sempre q u e f o i aproveitada no texto u m a c o n t r i b u i ç ã o original do Dr. em p r i n c í p i o . especialistas ou não. em seguida. em última análise. sem dificuldade. que foi imposta pelo d e s d o b r a m e n t o natural dos trabalhos da pesquisa. Ainda assim. termina-se. c i t a n d o . que desenvolvam o esforço aqui apenas iniciado . informalmente redigidas. com o que o t r a b a l h o se conclui. N o que tange. Esta apresentação. tentando. os nossos agradecimentos pela c o l a b o r a ç ã o prestada e pelo ensejo que nos p r o p o r c i o n o u algumas vezes de trocar idéias c o m ele sobre partes do manuscrito — l a m e n t a n d o sinceramente . a preocupação de evitar q u e o nosso trabalho se resumisse a u m m e r o catálogo de dados e i n f o r m a ç õ e s s o b r e a ocorrência do preconceito racial e n t r e nós. à redação e às interpretações q u e se e n c o n t r a m nos referidos capítulos. referentes aos m o v i m e n t o s e associações negras n o Rio d e Janeiro. por outro lado.e s t u d a m o s os problemas da vida associativa e liderança. ser lida e c o m p r e e n d i d a por todos q u a n t o s se interessem pelos assuntos aqui abordados. Edison Cordeiro. e m bases contratuais. i n t e r p r e t a r o estado atual das tensões raciais n o Rio de Janeiro.14 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO N a Parte S e g u n d a . Cremos que o escopo a d o t a d o confere à iniciativa da UNESCO n o Brasil a envergadura e a substância científica que. de acordo c o m o qual se desdobrariam os trabalhos d a pesquisa. efetivála d o m o d o q u e havíamos desejado. * * D e p o i s de p r o n t o o plano. T i v e m o s . Edison C a r n e i r o para se associar a nós na realização da tarefa. fazê-la de m o d o que não se restringisse a p e n a s ao círculo restrito dos especialistas e pudesse. merece ter. exclusivamente. T i v e m o s também. o convite para essa cooperação. seus múltiplos afazeres não lhe p e r m i t i r a m . entretanto. assim. coubelhe preparar notas. a q u e m assina estas linhas. sobre p a r t e da matéria contida nos capítulos I e II d a Parte Segunda. ao Dr. Registramos aqui. espírito científico e técnica m o d e r n a o e s t u d o sociológico das relações de raças n o Rio de Janeiro. na p r e o c u p a ç ã o de fazer com seriedade. Edison Cordeiro. sem subalternizar a apresentação de um problema tão relevante.e q u e consiste.

I o de maio Dia d o T r a b a l h o . embora seus n o m e s estejam aqui omitidos. também. o primeiro. direta o u i n d i r e t a . de 1952. A. pois e n c h e r i a m páginas. direta ou i n d i r e t a m e n t e colaboraram com nosso esforço e t o r n a r a m material e moralmente possível a tarefa de estudar as relações entre p r e t o s e b r a n c o s na Capital do Brasil. pelos que ainda restaram e q u e c a b e r á a outros indicar e corrigir. Prof. c h e f e d o setor de estudos sobre raças do Departamento de Ciências Sociais d a m e s m a instituição. A preparação datilográfica do manuscrito coube a D . Aos ilustres amigos D r . no que deles d e p e n d i a . Vítor N u n e s Leal e D r . Darci Ribeiro. Alfred M é t r a u x . Finalmente. é c o m p r a z e r q u e estendemos os nossos a g r a d e c i m e n t o s a todos quantos. por se t e r e m prestado a ouvir a leitura d e largos t r e c h o s d o manuscrito e pelas observações e comentários críticos com que nos a j u d a r a m a d i m i n u i r os seus d e f e i t o s . mas. Costa P i n t o . Mês da Abolição. a resolução dos diversos p r o b l e m a s administrativos e burocráticos q u e inevitavelmente surgem no c a m i n h o de u m a pesquisa patrocinada p o r u m organismo internacional e sediado l o n g e d o c a m p o de trabalho. devemos u m caloroso e especial agradecimento. A Maria Clara e M u r i l o Bevilaqua e a Léo Rodrigues de A l m e i d a agradecemos a inestimável c o l a b o r a ç ã o prestada na revisão das p r o v a s . Rio de Janeiro.aos quais r e g i s t r a m o s t a m b é m os nossos agradecimentos. L o u r d e s C o s t a P i n t o . a e x e c u ç ã o e a responsabilidade intelectual desta pesquisa.PREFÁCIO ÀTRIMEIRA EDIÇÃO 15 n ã o ter sido possível dividir c o m ele. L. À s u a b o a vontade e espírito de colaboração m u i t o deve a marcha deste estudo. delegado p e r m a n e n t e d o Brasil junto à UNESCO e o s e g u n d o . O b v i a m e n t e . não lhes c a b e n e n h u m a responsabilidade. como havíamos desejado. p e l a c o n s t a n t e disposição que sempre r e v e l a r a m d e facilitar. Heber Peti . Igual e especial a g r a d e c i m e n t o estende-se também aos e s t i m a d o s colegas e amigos. à Senhorita Zenaide A n d r a d e e ao Sr. Paulo Berredo Carneiro e Dr. n ã o s ó pela distinção que nos conferiram indicando-nos para assumir o e n c a r g o desta pesquisa.

em fase de extremo o t i m i s m o . Talvez a proposta d a "pesquisa-piloto".Costa Pinto e a crítica ao "negro como espetáculo" A reedição de O negro no Rio de Janeiro não significa apenas o reconhecimento da importância d e u m a obra mas também representa u m m o m e n t o de reflexão a respeito d o projeto UNESCO.2 Na segunda metade d a década de 40. 3 como foi d e n o m i n a d a a pesquisa no Brasil financiada pela . a UNESCO. verificação e superação dos grandes dilemas vividos pela h u m a n i d a d e em matéria étnica. N o entanto. n ã o m e d i u esforços em encontrar soluções universalistas que cancelassem os efeitos perversos do racialismo. Esse q u a d r o se t o r n o u ainda mais dramático c o m a persistência do racismo em. uma investigação sobre os agentes e agências que estiveram envolvidos no processo de formulação. c o m u n i d a d e científica e dirigentes políticos — dos fatores que levaram aos resultados catastróficos da Segunda G u e r r a M u n d i a l em nome da raça. o cientista social que teve mais consciência n a época do valor da investigação. decisão e gestação do amplo leque de pesquisas desenvolvidas no início da década d e 50 revela uma complexa ação c o n c e r t a d a que resultou no projeto UNESCO. O Brasil foi escolhido. p a r a ser um dos pólos de problematização. sem dúvida. a UNESCO espelhava a perplexidade e a ânsia de inteligibilidade — por parte de intelectuais. 1 Luiz d e A g u i a r Costa Pinto foi. e m perspectiva comparada com a negativa experiência racial norte-americana.diversas partes do mundo. Diante desse cenário. o processo de descolonização africana e asiática. m u n i d a da razão iluminista. o surgimento da G u e r r a Fria. u m ciclo de pesquisas sobre as relações raciais no Brasil p a t r o c i n a d o pela agência internacional c o m significativo impacto no c a m p o das ciências sociais no Brasil. Basta lermos a introdução deste livro. do nacionalismo xenofóbico e das disparidades socioeconômicas. É comumente aceito q u e a imagem paradisíaca das interações raciais n o Brasil foi o principal pré-requisito para transformar o País e m o b j e t o d e interesse e de pesquisa da UNESCO. e a perpetuação de grandes desigualdades sociais em escala planetária.

N o e n t a n t o . o objetivo político da UNESCO.i. procurando apresentar o Brasil como modelo p a r a o m u n d o . atrasadas e m o d e r n a s revelaram u m cenário multifacetado e m q u e mais u m a vez foi reiterada a singularidade brasileira. suscitados pelo trágico desenvolvimento científico e ideológico-político de concepções sobre raça e cultura que haviam em parte resultado no nazismo (Métraux. de fato.s e em associação dois c o n j u n t o s bastante complexos de esforços intelectuais que conjugavam atividades d e pesquisa sistemática e desígnios e motivações de ordem menos estritamente científica.i" (lt. D e outro modo. éticos e culturais — de cientistas sociais e u r o p e u s e norte-americanos. D e outro lado. de agosto a o u t u b r o de 1949. uma vez que teria "apresentfado] a solução mais ricntífica c mais h u m a n a para o problema. p. Ao se encontrar na UNESCO. 71-74). A presença d e Artur Ramos naUNESCO e sua atuação c o m o idealizador de u m p r o j e t o internacional de estudos sobre o Brasil c o n s t i t u e m u m m o m e n t o especialmente significativo para as ciências sociais brasileiras. a resolução da UNESCO de "organizar no Brasil u m a investigação sobre contatos e n t r e raças o u grupos étnicos. está a série de reflexões que no Brasil v i n h a m se fazendo há décadas a respeito das questões levantadas pela convivência de raças diversas na f o r m a ç ã o e história do País (Skidmore. 1950). dada a trajetória de seu pensamento e de sua obra. políticos. É então que confluem e p õ e m .111101. I 'M V |> I /">)• i unviri-ííi».18 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO organização supranacional. com o objetivo d e d e t e r m i n a r os fatores econômicos. nas zonas rurais e urbanas. e tendo em Artur Ramos u m representante não só institucional m a s quase emblemático. a sociabilidade positiva que caracterizava os retratos do Brasil naquele m o m e n t o não impediu que cientistas sociais visualizassem no projeto UNESCO a o p o r t u n i d a d e de desvelar os impasses existentes na sociedade brasileira e de indicar alguns possíveis caminhos a serem trilhados. sociais. tão a g u d o entre outros povos. D e u m lado. culturais e psicológicos favoráveis ou desfavoráveis à existência de relações harmoniosas entre raças e grupos é t n i c o s " / O inventário de dados e análises e m diferentes regiões. estão os q u e s t i o n a m e n t o s críticos — teóricos. mi . 1 9 9 3 [ 1 9 7 4 ] ) . contivesse uma certa dose de ingenuidade cm face dos p r o f u n d o s constrangimentos que norteavam aquele contexto histórico. exemplificados n a atuação do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. Artur Ramos c o n t i n u o u a compreender o Brasil como u m "laboratório de civilização" (Bilden. da jiiiMuia ilir laijith t: ilr < nlini. 1929. não trouxe qualquer tipo de limitação ao trabalho conjunto e n t r e cientistas sociais nacionais e estrangeiros t e n d o em vista cumprir.

idéia original de Artur Ramos. engajada. acadêmicas e políticas. N o plano institucional. ora vista como uma dívida social (Ramos. 1947. atingiu o cargo de diretor da instituição e foi professor de Artur Ramos. É nesse contexto q u e emerge o sociólogo Costa Pinto c o m o u m personagem central na c o n s t r u ç ã o desta rede de relações institucionais. em 1941.APRESENTAÇÃO 19 e n t a n t o . é preso por oito meses p o r suas atividades políticas antiestadonovistas. 132. p. Costa Pinto a b a n d o n a o segundo ano do pré-médico. 6 De família abastada. alicerçado na proposta d e u m a antropologia de intervenção. d o t e m a d a incorporação de segmentos sociais marginalizados. trabalhou com N i n a Rodrigues na Faculdade de M e d i c i n a da Bahia. 1942. N o início d e 1939 ingressa no recém-criado Curso d e Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia (FNFi) mas. 1938. p o u c o t e m p o depois. o então aluno d a F N F i esteve envolvido na criação da Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia. p . que se p r o p u n h a a incentivar as atividades acadêmicas n o interior da FNFi (Azeredo. 1986)7 N o . 1951. p. médico. p. E m 1937. e se prepara para entrar na Faculdade de Direito. proprietária de engenhos no Recôncavo baiano (Pang. junto com a família. 1939. C o m a morte do pai. José de Aguiar Costa Pinto. o futuro sociólogo veio para o Rio de Janeiro. bem c o m o a existência do "preconceito de cor" no Brasil (Ramos. 124-126). Dessa forma. ora percebida como dificuldade afeita à condição de minoria nos estados d o Sul (Ramos. 62-63). Artur R a m o s . das profundas desigualdades sociais entre brancos e negros. 173-174. por parte do antropólogo. A questão da inserção dos negros na sociedade brasileira estava presente e m sua obra. antigo curso secundário. A trajetória acadêmica e profissional de Costa Pinto sofreu duas grandes influências: Artur Ramos e Jacques Lambert. o sociólogo estabeleceu fortes laços profissionais e de amizade que tiveram reflexos definitivos em sua carreira. 146). parece não ter limitado o reconhecimento. A trajetória de Costa Pinto Luiz de Aguiar Costa Pinto nasceu cm Salvador em 6 de fevereiro d e 1920. N o antigo Distrito Federal envolveu-se n o movimento estudantil e militou n a Juventude Comunista. 5 Sua visão de uma cooperação entre as raças no Brasil admitia o reconhecimento do "problema do negro". Com o primeiro. p. procurou viabilizar a "integração d e negros e índios ao mundo moderno". 1979). seu avô foi senador da República e o pai.

por dois anos. n a qual permanceu como professor de sociologia até 1945. 1986. xi-xii). Ao tratar de algumas experiências históricas das lutas de famílias n o Nordeste brasileiro. Costa Pinto foi convidado a ser assistente de Jacques Lambert n a cadeira de sociologia. em nosso passado. n o qual estabelece uma interface entre sociologia e demografia. Em 1942. Costa Pinto publicou diversos trabalhos cm Sociologia. Em 1939. Jacques Lambert influenciou Costa P i n t o em. a ascendência sobre Costa Pinto se d e u tanto em termos teóricos q u a n t o n o plano da inserção profissional. 9 E m 1937. pelo menos. os dois estiveram juntos na luta contra o nazismo (Ramos. inspirado em livro de Lambert (La vengeancc privée et les fondements du droit public international). 230). Durante sua permanência n o Departamento de Ciências Sociais. O sociólogo tinha u m a sólida formação jurídica. 1943). N o caso de Jacques Lambert. da "hipertrofia do poder privado e a atrofia do poder político como condições propícias ao aparecimento. 8 É importante lembrar que as relações entre Artur Ramos e Costa Pinto não se limitaram ao âmbito da universidade. 1980 [1949]. Alguns artigos do sociólogo apareceram no famoso Suplemento Literário do Diária de Notícias. 1996. de inspiração durkheimiana. os dois sociólogos elaboraram um amplo m a p e a m e n t o da composição e dos problemas da população contemporânea (Lambert & Costa Pinto. 1944). os dois professores da F N F i ministraram cursos de antropologia e sociologia na Universidade do Povo. vindo a estudar nos E U A e produzir uma obra sobre a história d a constituição norte-americana. revista científica pertencente i Escola Livre dc Sociologia c Política (SP). Lambert chegou ao Brasil. fruto de cursos dados na F N F i . Seus estudos 10 versam sobre o ensino das Ciências Sociais. p. demografia e sociologia política na Universidade d o Rio Grande do Sul (Pereira de Queiroz. o n d e lecionou. p. da vingança privada c o m o m o d o típico de controle social" (Costa Pinto. Em 1946 em pleno período de democratização d o País. dois trabalhos: o primeiro foi um estudo sobre a influência do domínio familial no período colonial. u m a instituição educacional sob liderança de intelectuais de esquerda (Azeredo. ao terminar o curso. Costa Pinto trabalha com a hipótese. aspectos teóricos e empíricos da pesquisa sociológica e relações raciais. p.13 O NEGRO N O R I O DE JANEIRO período da Segunda Guerra Mundial. fez parte da missão francesa qtte a j u d o u a criar a então Universidade do Brasil. 100). a profissionalização do sociólogo. . Em outro trabalho.

B e n j a m i n Zimmerman). p. 8-9) c o m o t a m b é m nos encontros com os pesquisadores que traziam relatórios de seus respectivos trabalhos de campo ( C o s t a Pinto. p.. Costa Pinto pleiteou j u n t o a Pierson a possibilidade d e vir a realizar o i urso de d o u t o r a d o e m Sociologia na Universidade d e C h i c a g o (idem. 1950). p. Este estudo teria inicialmente u m a abordagem liislrtric. para cm seguida se ater especialmente à "estrutura social d e m o d o a mostrar as múltiplas . passou a a c u m u l a r o cargo de professor d a F a c u l d a d e Nacional de Ciências E c o n ô m i c a s d a Universidade do Brasil e. N o p r i m e i r o semestre de 1950. 26-28).o-social c ecológica da . p. do fórum da UNESCO que debateu o estatuto científico d o conceito de raça (Costa P i n t o . p. iniciativa de Anísio Teixeira. Diversos estudos de c o m u n i d a d e foram realizados por cientistas sociais americanos e brasileiros t e n d o à f r e n t e Charles Wagley e seus a l u n o s d e doutorado em Columbia ( H a r r y W i i l i a m Huntchinson. da educação e da a d m i n i s t r a ç ã o pública. o sociólogo b a i a n o foi convidado por Anísio T e i x e i r a e Charles Wagley para participar d o projeto Columbia University/Estado da Bahia. p. 1989. Em 1944.APRESENTAÇÃO 21 Em 1946. 1987. 81). 6 8 .13 E m 1947.7 5 ) . 61. órgão vinculado à C o n f e d e r a ç ã o Nacional do Comércio. de 1 9 4 8 a 1 9 5 2 . p o r i n d i c a ç ã o d e Artur Ramos. defende tese de livre-docência sobre o ensino da Sociologia na escola s e c u n d á r i a . Costa Pinto p r e s t o u assessoria ao projeto não só na f o r m u l a ç ã o teórica do mesmo (idem.6 9 . e n t ã o secretário de Educação e S a ú d e do governo Otávio Mangabeira. 7 4 . pois C o s t a P i n t o tinha sido vinculado ao e n t ã o Partido Comunista do Brasil ( P C B ) e preso por atividades políticas. 1950). A i n d a n a década de 40. além d e T a l e s d e Azevedo e alguns auxiliares ( W a g l e y et al.12 Embora fosse aceito pela universidade e tivesse c o n s e g u i d o licença para se ausentar do Brasil. desenvolveu pesquisas nas áreas d e demografia e sociologia das profissões na Divisão de Pesquisas do I n s t i t u t o M a u á . E m 1949 participou. o governo norteamericano n e g o u o visto de entrada no País. Este projeto tinha por objetivo a p r e s e n t a r subsídios de natureza sociológica e antropológica colhidos em alguns m u n i c í p i o s do interior da Bahia c o m o i n t u i t o de implementar um processo d e modernização dessas áreas no â m b i t o d a saúde. por i n t e r m é d i o d e A r t u r Ramos.írcn. Marvin H a r r i s . Cabia t a m b é m ao sociólogo elaborar um t r a b a l h o sociológico sobre a zona do R e c ô n c a v o . Costa Pinto assistiu ao curso de Donald Pierson sobre m é t o d o s e técnicas de pesquisa em Ciências Sociais ministrado no DASP 1 1 e m a n t e v e correspondência com o sociólogo d a Escola Livre de Sociologia e P o l í t i c a (Pierson.

D a r c i Ribeiro. Costa Pinto p a r t i c i p o u cio I o Congresso do Negro Brasileiro. u m a das razões que motivou Artur R a m o s a aceitar o convite para assumir u m cargo d e direção na UNESCO foi a possibilidade de fortalecer institucionaímente o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i . Na verdade. Edison C a r n e i r o e Guerreiro Ramos. em maio do ano -z ver ao nosso eminente para o estudo da dos grupos assimilação ao e os problemas conseguintes que eles apresentam para a sua integração Se este plano for aprovado. 1950. amigo. Foi nesta etapa de sua carreira ascendente que Costa P i n t o . 1 5 A o e n t ã o reitor da Universidade do Brasil. especialmente no c a m p o da pesquisa. e m u i t o especialmente suas sugestões c o m relação à organização do ensino d e Ciências Sociais desde a escola p r i m á r i a e aos trabalhos de campo a serem realizados na América Latina". N a fase cie elaboração do p r o g r a m a cie 1951 do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. virá com a apresentação r dos nossos próximo.. 1982). p. P e d r o Calmon. Charles Wagley. e m 1950. 14 Entre 26 de agosto e 4 d e s e t e m b r o de 1950. foi convidado a participar d a pesquisa da UNESCO. FNFi e UNESCO: O ensaio de uma aliança institucional Sem dúvida. Tenho grandes oportunidade planos que j'1 Mariani.22 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO direções que a m u d a n ç a social p o d e t o m a r na zona do Recôncavo" (Wagley et al. o f ó r u m promovido pelo T E N procurava estabelecer uma aliança entre intelectuais e movimento negro t e n d o em vista u m a atuação política que alterasse as condições de vida da população afro-brasileira (Nascimento. não e mundo contatos tantas escritos}'' à Conferência [Clemente] de Florença. aí na F a c u l d a d e . teremos uma nossos grupos negro e indígena possibilidade enorme de estudar com as culturas vezes tenho em seus dentro dos pontos de vista que defendido em meus cursos e meus trabalhos . ocorrido no Rio clc Janeiro. a ser a p r o v a d o na Conferência de Florença. 20). sob o patrocínio do Teatro Experimental d o Negro (TEN). Ramos avaliava q u e a nossa maior programas Ministro mecanizados aculturação moderno. aos 3 0 anos. O evento c o n t o u c o m a presença de antropólogos c sociólogos como Roger Bastide. dominantes. o antropólogo afirmava e m carta a C o s t a Pinto que: "na organização desse p r o g r a m a não esqueci das sugestões q u e colhi em nossa última reunião d o D e p a r t a m e n t o .

e m Ciência Política. rica e frustrada experiência d a Universidade do Distrito Federal (UDF). em Sociologia. primeiro reitor da U D F . 2) estimular a formação de u m n o v o t i p o de intelectual capaz de atuar c o m competência numa sociedade n o r t e a d a por princípios técnico-científicos e m contexto democrático. p. c m escala ampliada. Gilberto Freire e Sérgio B u a r q u e de Holanda. vinculada à Universidade do Brasil. 214219). 3) vincular essa perspectiva universitária ao a m b i e n t e político.ítico-social d e Anísio Teixeira e Pedro Ernesto a p ó s a Revolta Comunista de 35 levou ao e n f r a q u e c i m e n t o da UDF. S c h w a r t z m a n et al. Artur Ramos encara seu envolvimento na direção d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais d a UNESCO c o m o u m d e s d o b r a m e n t o . Alguns integrantes da extinta U D F foram absorvidos pela n o v a estrutura. a U D F baseou-se e m três propósitos: 1) superar o bacharelismo elitista que era uma característica c o m u m entre os intelectuais brasileiros. o ministro C a p a n e m a . social e cultural do antigo D i s t r i t o Federal e. 35). 1996. p. p o r m e i o de articulações entre Afrâiiio Peixoto. e A n d r é Gross.APRESENTAÇÃO 23 C o m o se pode observar. a U D F contou com a colaboração de intelectuais que c o m e ç a v a m a despontar na época. ao lado dos professores franceses J a c q u e s Lambert. do trabalho q u e v i n h a realizando como catedrático d a cadeira de Antropologia e Etnologia d a F N F i . verdadeiro embaixador d a cultura francesa no Brasil. c o m o A r t u r R a m o s . que veio a ser definitivamente fechada em 1938. e G e o r g e D u m a s . D e s s e m o d o . tinha sido criada há dez anos por força do projeto d o e n t ã o ministro da Educação e Saúde. u m ano depois do início da experiência centralizadora da ditadura do E s t a d o N o v o (1937-1945). Por vias burocráticas e autoritárias. i m p e d i u a continuidade da proposta educacional da UDF. como foi o caso de Artur R a m o s . entre o u t r o s (Oliveira.. N o c a m p o das ciências sociais. .244-261. L e m b r a n d o a proposta universitária d o s primórdios da USP. Sua origem a d v é m d a derrota da curta. 1984. c o m o apoio de setores católicos e de remanescentes do movimento integralista. chancelado pela gestão p o p u l a r do então prefeito Pedro Ernesto ( C o n n i f f . particularmente. A d e r r o t a do programa po. voltá-la p a r a as demandas da estrutura d e e n s i n o básico (Barbosa. Essa instituição. Projeto ousado d e Anísio Teixeira. G u s t a v o Capanema. a FNFi foi criada sob estrito controle do Estado e dos setores conservadores. 1981). p. u m a missão francesa chegou ao Rio de Janeiro. 1995. A repressão iniciada com a renúncia forçada de Anísio Teixeira e a deposição de P e d r o E r n e s t o descaracterizou o projeto acadêmico inicial e afastou parte dos professores da universidade.

] apesquisaera u m a aspiração. a estabelecer contatos internacionais. especialmente com os Estados Unidos. A m o r t e do antropólogo significou o fim da associação. T . a partir de sua cadeira de Antropologia e Etnologia. 1945). A frágil institucionalização das ciências sociais no Rio de Janeiro nesse período (Almeida. debate acadêmico e pesquisa. algumas delas ministradas por pesquisadores estrangeiros (Radclife-Brown. Artur Ramos. Ao longo de sua existência. A entidade. criou a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etnologia (SBAE) em 1941. Esta atitude do antropólogo rendeu-lhe importante reconhecimento no pós-guerra favorecendo a sua escolha para a equipe da UNESCO. Era dele. Melville Herskovits) e u m n ú m e r o reduzido de publicações (Azeredo. 1987) p o d e ser ilustrada pelo depoimento de C o s t a Pinto:"[.. Artur Ramos continuou a publicar artigos e livros.24 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Ao longo dos anos 40. mas de uma maneira muito individual. 484-485). a superação dos limites impostos pela vida acadêmica na FNFi 1 8 e representava também a concretização de u m projeto. L y n n S m i t h . tinha por objetivo aliar o ensino à pesquisa. Ele inspirou-se em instituições norte-americanas que havia c o n h e c i d o em sua viagem aos E U A em 1941. a falta de recursos e a dificuldade de Artur Ramos para ampliar seu espaço institucional na F N F i resultou no enfraquecimento gradativo das atividades da SBAE. Em carta a Paulo Carneiro. p. No entanto. 1986). respondendo ao convite feito p o r Julian Huxley. há muito tempo acalentado. p. Donald Pierson. a participar de cursos e conferências ministrados fora da universidade (Ramos. Além das atividades da SBAE e da cadeira de Antropologia e Etnologia. A pesquisa teve atuação m u i t o tímida. 1943). Ramos l a n ç o u dois manifestos contra o racismo que imperava na Europa (Ramos. Ramos afirmava: "Certamente que considero esse posto [diretor do . 1989.. de criar institucionalmente um espaço n a F N F i onde houvesse a interseção entre ensino. a SBAE promoveu simpósios. Na verdade. A fase áureadaSBAE (1941-1945) se c o n f u n d e com os primórdiosdo D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i . Nunca houve pesquisa propriamente. 1995. indicando assim alimitada capacidade de rotinização d o trabalho acadêmico na antiga FNFi. de transformar a antropologia numa ciência social aplicada. não era da faculdade" (Costa Pinto. o convite para a direção do Departamento de Ciências Sociais da U N E S C O 1 7 significava.1 9 4 9 . Por meio da SBAE. Neste caso. De fato. em face das dificuldades enfrentadas na universidade. sediada n a FNFi. para Artur Ramos. palestras. a FNFi esteve voltada essencialmente para o ensino. C o n t u d o . 1 9 4 1 . parece que houve a tentativa d e u m "reforço-mútuo" (Rubino. O [Artur] Ramos fazia alguma coisa. a criação da SBAE significou a tentativa de Artur Ramos. 14).

. 20 D e qualquer modo. 19 Artur R a m o s envolveu professores d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i em suas atividades na UNESCO. que não chegou a realizá-la.]". 22 Ao aceitar o convite para participar do fórum da UNESCO sobre a temática racial.. T a l tarefa ficou a cargo da Comissão Nacional da UNESCO. sem dúvida. 1950. A participação do sociólogo brasileiro no simpósio da UNESCO sobre u m a definição de raça que desse respaldo à luta anti-racista. Djacir Menezes foi cor vidado para participar d e u m a coletânea patrocinada pela UNESCO sobre métodos em ciência política (Menezes. O s esforços em estreitar os elos com a F N F i ficam ainda mais nítidos quando Ramos afirma que a presença de Costa P i n t o na reunião de experto sobre o conceito de raça deve-se "a sua cooperação continuada com os meus e s t u d o s e p e s q u i s a s " . C o s t a Pinto lembrava ao seu antigo mestre para "que não [fosse] perdida n e n h u m a chance de dar o possível a n d a m e n t o que estivefsse] ao seu alcance ao financiamento pelaUNESCO da pesquisa que planejei sobre migrações internas [. a serviço da cultura mundial". Era. 23 . 228-232). N o intervalo dos dois meses de sua gestão. Ciência e C u l t u r a (IBECC). de colega de universidade e os vínculos de amizade com o então diretor do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. Costa Pinto participou do colóquio em Paris sobre a questão racial (Costa Pinto. especialmente. o Instituto Brasileiro de Educação. 1950). Além disso. nos diversos graus de ensino".APRESENTAÇÃO 25 Departamento d e Ciências Sociais da UNESCO] c o m o de grande importância e creio que de algum m o d o poderei tomá-lo c o m o u m a tarefa de extensão universitária. Costa Pinto sugere a realização de uma reunião "para estabelecermos u m programa mínimo de Ciências Sociais. constam pedidos de informação acerca do acesso a publicações daUNESCO ou das regras para filiação n a então recém-criada Associação Internacional de Sociologia. D a correspondência mantida entre os dois professores da então Universidade d o Brasil. uma grande oportunidade para dar um salto qualitativo nas relações ensino/pesquisa na FNFi e. C o s t a P i n t o não havia demonstrado m a i o r interesse pelo tema das relações raciais. em sua carreira profissional. Artur Ramos também t o m o u a iniciativa de sugerir um artigo "sobre as minorias étnicas no Brasil e suas influências nas relações internacionais". essa p r o p o s t a revela as intenções de Artur Ramos d e alçar o Brasil À condição de objeto de pesquisa da UNESCO. deve-se principalmente a sua condição de ex-aluno dileto de Artur Ramos. Costa P i n t o tinha plena consciência d o significado da presença de Artur Ramos n a agência internacional. 2 1 Até aquele m o m e n t o . p.

O sociólogo escreveu ao representante do Brasil na U N E S C O . em carta ao dirctor-geral da U N E S C O J a i m e Torres Bodet. pois já tinha sido indicado na versão preliminar do programa e l a b o r a d o p o r A r t u r Ramos e. relatando que antes de partir para a U N E S C O . D o i s dias após o falecimento d o a n t r o p ó l o g o brasileiro. pedia a confirmação de sua participação no colóquio da U N E S C O sobre a questão racial. p.26 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO A m o r t e súbita de Artur Ramos. Paulo Carneiro. e m m a i o de 1950. que se realizaria nos dias 13 e 14 de dezembro de 1949. 282-287). 2 4 Costa Pinto não apenas p a r t i c i p o u d a reunião de Paris mas t a m b é m p r o c u r o u dar continuidade à idéia de A r t u r R a m o s de realizar "estudos sociais e etnológicos no Brasil". Todavia. ao ler u m artigo do diretor-interino do D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da U N E S C O . especialmente o p r o g r a m a do Departamento de Ciências Sociais para 1951N a pauta estava a p r o p o s t a d o C o m i t ê Executivo da UNESCO de realizar uma pesquisa sobre relações raciais em algum país da América Latina. R o b e r t Angell (1950. N o entanto. C o s t a Pinto continuou a m a n t e r contatos c o m a organização internacional. P a u l o Carneiro 2 7 fazia parte d o C o m i t ê Executivo da instituição. C o s t a Pinto estava apreensivo q u a n t o aos rumos da decisão final em F i o r e n ç a e procura mobilizar aliados potenciais. com o objetivo de colher subsídios para a sua plataforma de t r a b a l h o na agência internacional. Costa Pinto p r o c u r o u a c q m p a n h a r o processo decisório da assembléia. Costa Pinto afirma q u e A r t u r R a m o s teria incluído no esboço d o p r o g r a m a a ser aprovado na C o n f e r ê n c i a de Fiorença a proposta apresentada a i n d a n o Brasil.. impossibilitou q u a l q u e r plano mais arrojado de trabalho c o n j u n t o entre o Departamento d e Ciências Sociais da FNFi e a U N E S C O . por sua vez. Costa Pinto sugeriu " u m grande survey n o Brasil a fim de estudar as tensões sociais e as mudanças de estrutura social resultante dessa tradição histórica (. N a ocasião. 2 6 O Brasil era u m forte c o n c o r r e n t e . no dia 31 de o u t u b r o d e 1949.) de u m a sociedade patriarcal e agrícola para uma economia industrial e urbana. Costa Pinto. na m e d i d a e m que Angell mencionava v a g a m e n t e u m a pesquisa n u m a "área m e n o s desenvolvida do globo". o sociólogo brasileiro ficou em d ú v i d a q u a n t o à decisão da escolha do Brasil pelo C o m i t ê Executivo da U N E S C O . 25 Por ocasião da C o n f e r ê n c i a Geral de Fiorença. A r t u r R a m o s reuniuse com os professores d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sócias da F N F i . Vale a pena apresentar de f o r m a m a i s detalhada a atuação d o cientista social. Estudado no Brasil o p r o b l e m a p o d e servir de amostra para o q u e se passa em todas as áreas menos desenvolvidas".. C o s t a Pinto pede . M e s m o assim. Nesse sentido.

o sociólogo se contrapunha à proposta inicial d a instituição internacional de realizar a pesquisa apenas em uma área tradicional. reorganização de serviços e t u d o dependia dos resultados de Florença". apesar d e todo interesse que tinha pelo Brasil. além d o mais esperavam-se mudanças de pessoal. informa ao representante brasileiro na UNESCO que já tinha escrito a Robcrt Angell "expondo a cie c o m o o plano [da pesquisa no Brasil] surgiu e o que tinha cm mente ao propô-l[o]". C o s t a P i n t o responde à carta de Métrr ux renovando sua proposta de que parte da pesquisa da UNESCO fosse realizada no Rio de Janeiro. 3 0 Finalmente. 33 Nesse sentido. na qual o antropólogo brasileiro informa-lhe sobre o avanço das negociações com a equipe de Wagley na Bahia e que "haverá uma seleção de n o m e s . baseada na fé de ofício dos candidatos. 32 Na condição de professor cio D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da F N F i e m e m b r o da equipe da pesquisa C o l u m b i a University/Estaclo da Bahia. a verdade é que não havia naquele m o m e n t o (8 de junho) nada estabelecido sobre qualquer plano ou programa de estudo para o Departamento. que "dizia que. e nas indicações das pessoas d e reconhecida autoridade científica n o c a m p o das ciências sociais (.. Disse-lhe também que o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia da Universidade do Brasil estava inteiramente à disposição da UNESCO para realizar a pesquisa. a saber. o a n t r o p ó l o g o Alfred Metraux. Em outras palavras. " t e m o s o pessoal (somos sete professores de Ciências Sociais). Em agosto.3'1 Para isso. 3 5 .. 29 em n o m e de Robcrt Angell. N a m e s m a carta. Costa Pinto recebeu carta de Paulo Carneiro 3 1 comunicando-lhe que a Conferência Geral de Florença havia escolhido o Brasil.23 U m a semana depois. R u i Coelho. "analisando a situação racial brasileira na perspectiva cie u m a sociedade em franco processo de industrialização". contava com a possibilidade de realização de um convênio entre a instituição à qual pertencia e à UNESCO. Costa P i n t o recebeu uma carta do chefe do Setor d e Estudos Raciais do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. O sociólogo elogia o representante brasileiro na U N E S C O por sua atuação na escolha do Brasil para "o estudo sobre as tensões raciais".APRESENTAÇÃO 27 a Paulo Carneiro para "fazer o possível para q u e essa escolha recaia no Brasil". só nos falta o auxílio financeiro e o prestígio da UNESCO para c u m p r i r m o s a tarefa". a Bahia. após duas semanas.) [para] a constituição de outras equipes semelhantes que trabalharão em outras regiões d o país". Costa Pinto recebe carta do assistente de Alfred Métraux.

Estabelece. N o s dois relatórios de suas viagens ao Brasil.28 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO E m b o r a Costa Pinto destaque o pioneirismo de sua instituição de ensino na formulação do projeto UNESCO. 3 7 Ciasse com aparência de raça Costa Pinto escreve alguns artigos (1946. de corte racialista —• q u e estabelece u m a correlação entre hierarquia racial. É importante registrar que o autor se baseou no e s t u d o de Donald Pierson (1945) para chegar a tal conclusão. apresentados por Alfred Métraux à UNESCO. O artigo Sobre as classes sociais marca o início das tímidas incursões de Costa Pinto no terreno d a análise das relações raciais até o final da década de 40. se envolveu na pesquisa do Rio de Janeiro. 248). Enfim. considerada conservadora pelo sociólogo. . que havia definido n a conferência de Florença uma linha de investigação sobre os impactos da modernização em áreas subdesenvolvidas. de acompanhamento da decisão de Florença e de sua inserção na pesquisa. colaborou na resolução adotada pela UNESCO de u m a pesquisa a ser desenvolvida no Brasil e se propunha a realizar u m estudo sobre as relações raciais em u m contexto de industrialização. o etnólogo e jornalista Edison Carneiro. p. com os brancos n a t u r a l m e n t e n o topo e os negros na base da pirâmide. 1948) nos quais p r o c u r o u refinar seu instrumental teórico-metodológico tendo em vista suas preocupações a respeito do tema da mudança social. Vaie lembrar que apenas o sociólogo baiano. não há qualquer registro de contatos institucionais com o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da então Faculdade Nacional de Filosofia. e a estrutura de classes — o sociólogo afirma. nesse momento. que não pertencia aos quadros da FNFi. então. Ao criticar a corrente sociológica. Costa Pinto era colega e amigo de Artur Ramos. utilizando o exemplo d a colonização do continente americano. 36 Alfred Métraux sintetiza bem o papel d e Costa Pinto no processo de formulação do projeto. Costa Pinto foi. que a partir dos "intensos contatos raciais e culturais entre negros escravos e brancos colonizadores. com a colaboração de seu conterrâneo. encontram-se h o j e certas organizações em que a cor e a classe tendem a coincidir com fatores de discriminação social" ( C o s t a Pinto. incorporado à pesquisa da UNESCO em n o v e m b r o de 1950. O interesse do sociólogo convergia com os objetivos d a UNESCO. as ciências sociais no Rio de Janeiro pareciam gozar de pouco prestígio no interior da agência internacional. 1946. u m a c o n s t a n t e interiocução com a sociologia acadêmica. 1947.

da competição fundamental p. e a divisão geográfica da cidade do Rio de Janeiro espelhando a estrutura social. 181). 182). p. Em 1947.APRESENTAÇÃO 29 Na resenha do livro de M á r i o Filho. em casos individuais. 182). Gradin) a possibilidade d e ascensão social dos negros no Brasil. Costa Pinto ressalta a importância do livro por revelar. de a linha de cor se identificar c o m a linha de classe. No final da década de 40. 183) setores da vida classe. espacial das claises sociais faz manifestações esportiva e revela. com que os clubes de via em e canais petos quais o antagonismo de raça e de bairro assume aspectos novos por que mascara de um lado o de outro lado. a sua presença mesmo antagonismo (idem. p. O negro seria um b o m exemplo para ilustrar essas mudanças. Fausto. Pela primeira vez. os dois fatores de diferenciação social deixam de estar identificados" (idem. Costa Pinto foi convidado pelo seu exprofessor Artur Ramos. social onde menos se espera encontrá-los. de grupo. então diretor do Departamento de Ciências Sociais . Mário Filho demonstra que esses jogadores são os melhores indicadores da "distância entre a montanha e a planície. o cientista social critica a ideologia da democracia racial. a existência de um padrão ecológico das agremiações esportivas. apresentando inúmeras evidências "sobre aspectos p o u c o conhecidos da luta de classes e do preconceito racial no Brasil" (Costa Pinto. Costa Pinto já indicava alguns elementos que estariam presentes na pesquisa posterior d o sociólogo. O negro no futebol brasileiro. Segundo o sociólogo: essa distribuição sejam. Costa P i n t o e n a l t e c e a o b r a por indicar c o m a c u i d a d e as transformações que vinham ocorrendo no esporte com o advento d o processo de assalariamento. e como esta última predomina como fator de discriminação quando. o livro oferece diversos exemplos quanto à "tendência . p. que credita ao estrelato de determinados jogadores (Leônidas. ou seja: relações raciais subsumidas à luta de classes. a crítica à ideologia da democracia racial. O sociólogo considera que o jornalista Mário Filho enfatizou em demasia o aspecto racial quando. 1947a. p. N o final da resenha. a partir das relações sociais que norteariam a prática do futebol. Domingos. entre a classe e sua 'aristocracia'" (idem. gerando u m a série de conflitos de interesses entre "cartolas" e jogadores e indicando assim a superação de relações que eram até então regidas pelo paternalismo (idem. O trabalho sobre o desenvolvimento da profissionalização do futebol brasileiro destaca as tensões e conflitos vividos pelos negros neste processo. formas. Costa Pinto elucida sua perspectiva sociológica no que tange às relações raciais. 182). na verdade.

Para o sociólogo. 4) que raça é menos u m fato biológico do que um mito social. 17. Os pontos centrais do polêmico documento foram: 1) a capacidade mental das raças são semelhantes. 7-12). em escala mundial. 18) os problemas na índia. As diversas formas de perpetuação das disparidades sociais criariam "mecanismo[s] ideológico[s] pelo[s] quafis] se f o r m a m os preconceitos de raça. 3) não existe qualquer possibilidade de se estabelecer u m a correlação entre determinados agrupamentos religiosos e/ou nacionais e tipologias raciais. ênfases do autor). sempre em ligação com as os tratamentos das minorias 1950. N a sua perspectiva. 1950. 2) a miscigenação não resulta cm degeneração biológica. p. E m sua intervenção no fórum da UNESCO em dezembro de 1949. na União Soviética. 5) as indagações sobre "a pertinência da utilização de conceito de raça c o m o f u n d a m e n t o para a análise dos fenômenos econômicos. para participar dc um debate acerca dc uma definição científica d o conceito dc raça que resultou na Primeira Declaração sobre Raça. Costa P i n t o dava continuidade ao projeto de Artur Ramos. Unidos. no México. a agência internacional tinha estabelecido u m programa de luta contra o racismo que incluía u m a definição "desracializacla" da n o ç ã o dc raça. p. de perfil interdiscipiinar e r e u n i n d o equipes de pesquisadores de diversos países. . Nessa ocasião. culturais e psicológicos vêm acompanhadas por u m a visão que estaria baseada num pressuposto darwiniano de que o homem naturalmente teria uma vocação para a sociabilidade e a cooperação (Costa Pinto. p. tendo íntima relação c o m a dominação numa sociedade de classes e. raça seria u m a variável dependente na dinâmica dos conflitos sociais. Assim. Costa Pinto questionou a aplicabilidade do conceito de raça para o entendimento das desigualdades étnicas existentes no m u n d o . na Palestina observar. pontos de observação no Brasil. seria fácil encontrar por exemplo. divulgada cm m a i o de 1950. sociais. Ao citar o Brasil como um possível objeto de investigação sociológica. estruturas para sociais. Costa Pinto sugeriu na reunião de Paris que fossem realizadas análises c o m base em pesquisas sobre relações étnicas.30' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO cia UNKSGO. diversas outras regiões desse tipo raciais" .o que nos permitiria diferentes encontradas (Costa Pinto. denominou e as diversas nacionais c excelentes e em nos Estados que Park na África cio "ponteiras soluções étnicas. parã tais investigações. decisão e futuro escopo cio projeto UNESCO que veio a ser realizado no Brasil no início da década de 50. c o m o poder do imperialismo (idem. p. o cientista social marca o início do seu envolvimento c o m a idéia. 17). mesmo q u a n d o se apresentam como etiquetas soi-disant científicas" {idem. Sul.

reivindicativas. Edison Carneiro formou-se em Direito em 1935.APRESENTAÇÃO 31 Para a realização d a pesquisa sobre as relações raciais n o R i o de Janeiro. 1988 [1935]. um homem de cor q u e tinha ligações próximas com as lideranças do movimento negro. segundo Costa P i n t o . publicou diversos livros sobre a história e a cultura do negro n o Brasil. do qual participavam Jorge Amado. do I o Congresso d o Negro Brasileiro. como veremos adiante. i n f l u e n c i a d o por Artur Ramos. D e d i c o u . Edison Carneiro se identificava com a visão do sociólogo no q u e tange à consideração dos problemas do negro como fundamentalmente vinculados à estrutura social capitalista (Carneiro. .s e na pesquisa. 237-241). em Salvador. 38 Baiano e m u l a t o . ou seja. o n d e c o n t i n u o u sua carreira de jornalista. p. e s e n d o u m dos organizadores do 2° Congresso Afro-brasileiro. culturais. 1994 [1947]. Em 1939. 13-15). E m 1949. aquilo que. Costa Pinto escolheu Edison Carneiro não apenas pelos méritos de suas investigações mas por ser. como foi o caso da a n t r o p ó l o g a norte-americana Ruth Landes (Landes. O intelectual baiano teve papel fundamental n a pesquisa sobre as relações entre brancos e negros no Rio de Janeiro. o etnólogo mudou-se para o Rio de Janeiro. Eclison Carneiro fazia parte d a C o m i s s ã o Nacional do Folclore. Por ocasião da pesquisa da UNESCO. ao mesmo tempo. havia um ponto de convergência essencial entre os dois intelectuais baianos no que tange ao desenvolvimento da pesquisa.. n o ano seguinte. Nas décadas d e 3 0 e 40. Nesse sentido. p. r e u n i n d o . Edison tornou-se u m a referência obrigatória para diversos cientistas sociais que aportavam na Bahia. Costa Pinto contou com a c o l a b o r a ç ã o do jornalista e etnólogo Edison Carneiro (1912-1972). Costa Pinto criticava c o m o a fase afro-brasileira dos estudos sobre o negro. sob o patrocínio da UNESCO. foi co-organizador com Abdias N a s c i m e n t o c Alberto Guerreiro Ramos da Conferência Nacional do N e g r o e.não só as tradicionais e recreativas. simultaneamente. os materiais necessários para uma análise do p r o b l e m a da liderança dentro dessas organizações". na parte relativa aos movimentos sociais de corte étnico. A partir de 1933. mas t a m b é m as mais recentes: políticas. tendo participado do 1° Congresso Afro-brasileiro. "ao estudo das instituições dos g r u p o s de cor no Rio de Janeiro . 3 9 Embora estivesse voltado para os estudos históricos e etnológicos. A i n d a na década de 30. envolveu-se com pesquisas sobre os cultos afro-brasileiros. assistenciais etc. Aidano do C o u t o Ferraz e outros.Desde o início d a d é c a d a de 30 participou de um círculo de intelectuais modernistas. em Recife.

q u e sofre o preconceito sutil. e que é constantemente visto como estrangeiro em sua própria terra. não se atenta para o lado problemático da condição do negro no Brasil. manancial de onde nascerá. D e início. ele lamenta que os adeptos de "um Brasil mais europeu. como aconteceu com a pesquisa entre negros e brancos. Sérgio Buarque demonstra u m a clara insatisfação com as elites europeizantes. o sociólogo se inspira no artigo Negros e brancos. renovados a partir da década de 30. advêm da crença de que o negro não é problema e sim "espetáculo" (idem. Nesse sentido. N a verdade "o negro como espetáculo" . Costa Pinto delineia a abordagem conferida à investigação. Com isso. Dessa forma. p. 13.. talvez. p. p. suscitada pela UNESCO" (idem. 66). no qual o autor discute os trabalhos desenvolvidos pela denominada Escola Nina Rodrigues. p. 9)' í() por Sérgio Buarquc de H o l a n d a . 14). 1976 [1962].]" (idem. superando a "aventura pessoal" (Fernandes. Para isso. as limitações de q u e sofrem os estudos afro-brasileiros. u m a nova cultura [. que tem por base o realce atribuído ao "aspecto exótico do africanismo" (idem.32' O NEGRO N O R I O D E JANEIRO O trabalho da UNESCO representou um novo patamar no padrão de pesquisa existente à época. apresenta um conjunto de críticas às pesquisas etnográficas da fase "afro-brasileira" (final do século X I X até a década de 40 do presente século). menos africano" não "admit[amj que o caldeamento de raças realizado em escala sem exemplo po[ssa] significar enriquecimento de potencialidades. continua o autor de Raízes do Brasil. Raramente caía do céu u m a o p o r t u n i d a d e promissora. No privilégio dado ao estudo da influência cultural africana sobre a sociedade brasileira. Afinal. apenas com o " t e m p o que dispusesse do próprio lazer e de algumas sobras do próprio salário. que se entorpecem com "a opinião fácil de que o tempo apagará bem cedo e sem deixar vestígios toda a influência africana na formação brasileira" (idem. Sérgio Buarque acredita que há um elogio ao negro. publicado n o início da década de 40 (Holanda. ênfase do autor). 13).. p. o trabalho sociológico era realizado com ausência de apoio financeiro. 66). p. excludentes. cabe lembrar que a crítica sociológica de Sérgio Buarque não importa na eliminação da dimensão cultural. capitaneada por Artur Ramos. recursos e trabalho em equipe. que é vítima das imprecisões dos censos demográficos e da ideologia do btanqueamento. Costa Pinto e a crítica ao "negro como espetáculo" N a primeira parte do livro O negro no Rio de Janeiro. o patrocínio da agência internacional representava prestígio. N o entanto. Até então. 1978 [1944]. 13). p.

]" (Costa Pinto. 1952. Costa Pinto acreditava q u e a pesquisa da UNESCO poderia se constituir em uma excelente oportunidade p a r a o Brasil u conhecer-se melhor a si m e s m o [. conflito. lembrando o "ciclo de relações raciais" (competição...41 ou. o da inclusão. o cientista social se contrapõe aos estudos a n t r o p o l ó g i c o s e históricos. ou seja. 32-33). 149-151). enquanto a perspectiva sociológica preconizada por Sérgio Buarque poderia ser vista sob um n o v o registro. c o m o atraso das relações sociais n o País. sem levar em consideração a estrutura das relações sociais. A investigação lo sociólogo no antigo D i s t r i t o Federal representa um esforço de afirmação da sociologia como ciência capaz de interpretar o amplo painel de mudanças sociais existente n o Brasil naquela época. Nesse sentido. É nessa perspectiva que se pode entender a apropriação das críticas de Sérgio Buarque de H o l a n d a aos estudos afro-brasileiros feita p o r Luiz de Aguiar Costa Pinto. como seria o caso da ideologia da democracia racial. os estudos de N i n a Rodrigues. 1953. E m seu estudo sobre as relações raciais no Rio de Janeiro. acomodação e assimilação) formulado por Robert Park ( 1 9 5 0 .]" (Costa Pinto. p. p. O r a interessados pelas investigações acerca dos constructos raciais. a seu ver. Artur Ramos e Gilberto Freire espelhariam a realidade d e u m a sociedade tradicional. d e f o r m a mais ampla. destacando as características intrínsecas às raças (físicas e psíquicas). que. p. p. mantêm e estão agravando os fatores de tensão racial [.. só uma leitura sociológica elucidaria os novos desafios ditados pelo cenário advindo com o desenvolvimento capitalista e as novas relações das classes sociais derivadas da passagem "da c o n d i ç ã o d e escravo à de proletário e da condição de proletário à de negro de classe m é d i a [.. Costa Pinto critica também a tradição de estudos étnicos desenvolvidos pela Escola Sociológica d e Chicago.]" (idem.. as especificidades do desenvolvimento capitalista n o Brasil (Costa Pinto. 85). Para desenvolver tal e m p r e e n d i m e n t o . 1953. 91).. Para isso. estariam sintonizados com o passado. os processos de aculturação. Desse p o n t o d e vista. que concebe as diferenças raciais como um processo em si m e s m o ou a partir dos efeitos da dinâmica das interações interétnicas. os traços culturais e religiosos de origem africana. no bojo de uma sociedade em m u d a n ç a . o autor procurou "compreender as condições estruturais que. p.APRESENTAÇÃO 33 seria a síntese da ótica da exclusão. Costa Pinto afirma que seria necessário . 86). ora b u s c a n d o os fundamentos histórico-sociais q u e dariam substância a uma enganosa crença de uma identidade nacional positiva. geram.

étnica. França. p. só é tem estão vezes. a investigação das relações raciais se constituiriam em um i n s t r u m e n t o privilegiado para a ínteligibílidade dos impasses. Costa Pinto. o sociólogo acreditava que o Oriente suscitaria soluções históricas mais atraentes f r e n t e aos problemas experimentados pela sociedade brasileira (Costa Pinto.. 1953.". e c o n ô micos. Diante desse quadro.. p. o Brasil se caracterizaria "pela coexistência. dos obstáculos e dos processos de mudança social que estariam ocorrendo na sociedade brasileira. nem um nem o u t r o possuídos da devida força histórica para d o m i n a r sozinho o panorama e i m p r i m i r rumo definido e sentido claro à civilização brasileira. a sociologia teria a função de elucidar as complexas transformações estruturais advindas com a modernização. Costa Pinto vislumbrou a oportunidade de investigar os aspectos peculiares de um país subdesenvolvido. p. (Costa se abandonam as falácias cttlturalistas noção ciara das circunstâncias envolvidas na configuração podem assumir [. 1955. c o l o c a n d o .. Para o sociólogo. tem [. p. denominado em t r a b a l h o posterior de marginalidade estrutural (Costa Pinto. p. de problemas comuns às sociedades capitalistas desenvolvidas.].. 1 9 5 6 . Costa Pinto c h a m a a atenção da "coexistência desses dois m u n d o s marginalizando a sua estrutura de alto a baixo.. E m p l e n o contexto dos primórdios da Guerra-Fria e do avanço do socialismo não apenas na Europa como na Ásia.] 95) estejam ligadas a fatores Pinto. se atém aos estereótipos em relação ao negro com base na escala de distância social de Emory Bogardus. lado a lado com problemas típicos de estruturas agrárias atrasadas. na medida em que o conhecimento de u m a realidade sob impacto recente d o processo de urbanização e industrialização poderia oferecer alternativas ao concerto das nações. 27-29. educacionais. a p a r e n t e m e n t e dual. neutralizando-se reciprocamente. n a q u a í evidencia forte preconceito em relação aos casamentos interétnicos. substancialmente Partindo da crítica ao viés culturalista. 21). por meio d e dados censitários (demográficos." (idem. 20-21). muitas embora de ordem completamente diversa ".. 1952. evitando assim a mera repetição dos padrões vigentes nos países capitalistas desenvolvidos (EUA. expressão total considerada e que. Inglaterra). o que c se qíte não étnicas.. 65).34' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO dar ao trnço étnico possível quando o valor que realmente objetivas. n a fase de transição já longa e penosa que atravessa. Portanto.. ecológicos) mostra as profundas disparidades sociais entre brancos e negros. Em seguida.

segundo Costa P i n t o .acrescidas do desenvolvimento da industrialização e da urbanização levaram à proletarização de amplas parcelas de negros e pardos. que gera situações d e competição e de mobilidade social. a fundação da República e a vigência das instituições liberais .c maioria da população urbana d o Brasil (idem. de identificação da população de cor c o m as reivindicações do proletariado. por parte dos setores sociais dominantes. Dessa forma. eis o caminho trilhado pela p o p u l a ç ã o de cor na ex-capital do País ao longo de setenta anos de mobilidade social (idem. segundo o autor. p. São essas transformações que suscitam a maior visibilidade do preconceito racial. ameaçados de perder suas posições sociais.APRESENTAÇÃO 35 mais uma vez em q u e s t ã o a ideologia da democracia racial. Essa situação vincula-se a outros dois importantes aspectos: os atributos sociais associados à cor (posições sociais. D a condição de escravo à de proletário. N o quadro da sociedade tradicional. Não cabe. N o e n t a n t o . 111). 190-191). 99). preconceito racial e movimentos sociais d e corte étnico. haveria u m processo de alinhamento. até a década de 30. a fonte explicativa para as práticas discriminatórias contra negros e pardos. p. que em geral levam ao "embranquecimento" da pessoa de cor. p. o preconceito racial era difuso à medida que as posições sociais de brancos c negros na estrutura sócio-econômica eram tão solidamente desiguais. Entretanto. agrária. com o avanço do processo de desenvolvimento capitalista. 183-184). O leitor de O negro no Rio de janeiro terá o privilégio de acompanhar a apresentação detalhada e objetiva da argumentação desenvolvida pelo sociólogo. Desse modo. que tornava dispensável a utilização de mecanismos discriminatórios ( i d e m . F i n a l m e n t e dedicase no estudo dos movimentos sociais negros. Costa P i n t o considera que as mudanças sociais ocorridas a partir do final do século X I X . na qual seria constrangedor qualquer menção à condição racial d e u m indivíduo (idem. educação). assiste-se ao surgimento de atitudes reativas. vale ressaltar um aspecto c o n t e m p l a d o p o r Costa Pinto em sua obra: as relações entre estrutura social. não se localiza no passado escravocrata e. que constituiria a granc.com o fim da escravidão. e uma etiqueta das relações raciais. neste momento. no presente que ainda n ã o se encontra totalmente configurado. expor a densa e minuciosa pesquisa de Costa Pinto. que prevaleceu. podendo assim sofrer injunções diversas de natureza econômica e social que acabem por criar . sim. c o m base no preconceito racial. p.

do sentir. 2 6 9 . Sob o impacto d o desenvolvimento capitalista e o processo de mobilidade social vertical.36' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO circunstâncias agravantes em matéria étnica (iciem. a despeito do seu afã de representar o negro e m geral. limita-se a contemplar os intentos e as mazelas vividos pelos negros d e classe média "duplamente asfixiados p o r sua condição de raça e de classe" (idem. que. p. p. cultural e nacionalmente brasileiros. ênfases do autor) e as de n o v o tipo. ditada pelo paternalismo. p. à coreografia. Essa elite viveria o d r a m a da ascensão e das barreiras advindas dos estereótipos. à mística. a p r e s e n t a n d o "a contribuição do africano à estética. Costa Pinto classifica as associações em dois níveis: as tradicionais. p. 274). 257. à música. essa nova liderança mantém-se em uma redoma n a medida em que não consegue sensibilizar as "massas de cor" que. 275). particularmente de intelectuais. 259). . Tal dualidade provocaria a elevação do número de negros distanciados "das massas de cor" e que se transformariam em "porta-vozjes] natura[is] das angústias e das aspirações de seu grupo étnico e n q u a n t o grupo social" (idem. estariam mais identificadas com movimentos de corte classista (partidos. das lutas.2 5 8 . como acontecia na sociedade tradicional. Para dar maior substância às suas reflexões. ênfases do autor). p. N o entanto. Agora estaríamos diante de "novas elites" que buscam afirmar sua negritude (idem. dos problemas. Diante desse cenário. social. ocorre u m a diferenciação interna entre os negros com o surgimento de u m a p e q u e n a parcela de classe média. Para ilustrar o seu argumento. p. etnicamente negros" (idem. E nesse último perfil de organização social que o autor concentrará seus esforços de pesquisa e reflexão. 270). à cultura defolk brasileira" (idem. do pensar e do agir de brasileiros.7 0 ) . o sociólogo reafirma o caráter elitista do movimento negro que. segundo Costa Pinto. por serem proletárias. religiosas. Costa Pinto detém-se especialmente na análise d o Teatro Experimental do Negro ( T E N ) . O sociólogo concebe que a nova forma de ascensão dos negros já não é mais individual e nem tem interesse em "branquear-se". 184). voltadas às atividades recreativas. p. especialmente no século XIX. sindicatos) e não étnicos (idem. formando u m a "elite negra" (idem. 2 5 7 . em s u m a . mais identificadas com "a história viva e contemporânea das aspirações. p. o sociólogo vai apresentar na última parte de sua obra a análise do associativismo negro. culturais.

ou a participação no processo eleitoral de 1950 . seria u m ator fundamental n o processo de mudança social. assumindo aos poucos a consciência do seu lugar na história. uma nova mentalidade e estilo de comportamento. 278). assim. p... cada vez mais como classe" (idem. p. a ação política da "elite negra" não conseguiria discernir a diferença entre a aparência étnica e a essência de classe de sua condição social. p. Dito de outra forma. Ela se expressaria por meio da ideologia da negritude preconizada pelo T E N e que. Ao longo da análise crítica sobre o T E N . e destrói-o e vence-o em mil batalhas quotidianas. pensando.] assum[e] a envergadura de um movimento. c o m o a Convenção Nacional do Negro (1949) e o I Congresso do N e g r o Brasileiro (1950). A constituição de movimentos sociais de corte racial revelaria a "falsa consciência" do negro que conseguiu escapar à proletarização.além da elaboração de cursos de alfabetização. isolada. segundo Costa Pinto. segundo Costa Pinto. 332-333). 337. significaria. ênfases do autor). em cada forma ou circunstância em que se manifesta. trazendo. no País" (idem. Por sua vez. o "negro proletário" agiria de m o d o diverso da classe média negra. permanecendo. na m e d i d a em que "[o] encara sempre face a face. de caráter universal. em relação ao racismo. o autor observa que a conscientização de classe e não étnica do "negro-massa" estaria em sintonia com o contexto político nacional e internacional que apontaria para diversas m u d a n ç a s r u m o à superação do problema racial.APRESENTAÇÃO 37 devido "à dinâmica da tensão racial. de atividades sociopsicológicas c o m o o sociodrama. não logrou ir além dos limites classistas dos seus membros (idem.. é freqüente observar-se o tom irônico de Costa Pinto a respeito das formulações e propostas da . "um racismo às avessas" (idem. Assim. por conseqüência. de fato. a edição do jornal Quilombo — o T E N . p. p. sem dúvida. 284).. mais que isso: de um grupo depressão [. mais como massa. Em contrapartida. O negro proletarizado. Mesmo c o m a organização de eventos políticos. Costa Pinto concebe essas qualidades d o "negro-massa" a partir de um diagnóstico que indica que o incremento de u m a economia de tipo industrial opera u m processo de proletarização de grandes contingentes da população. sentindo e agindo menos como raça. [.]" (idem. 276-277). o T E N seria a "mais legítima expressão ideológica da pequena burguesia intelectualizada e pigmentada n o Rio de Janeiro e.

a crítica ao "negro como espetáculo" implica em severo questionamento da ideologia tradicional das relações raciais expressa pela crença de que o Brasil seria u m a democracia racial. nesse caso. elites negras que sofrem os percalços da ascensão social devido às barreiras raciais constroem ideologias raciais que informam sua luta contra os obstáculos à mobilidade social procurando se respaldar nas massas. distante daqueles a q u e m busca representar e investida da consciência de sua s i n g u l a r i d a d e . de criplomelanistno. de práticas sociopsicológicas com a elaboração de uma ideologia da negritude. pode-se inferir que Costa Pinto encontra-se mais uma vez diante de u m fenômeno que guarda semelhança com a visão do "negro como espetáculo". " u m constante r. Finalmente. u m a minoria de intelectuais. como instrumentos de conscientização política. Congresso Nacional Africano/África do Sul. seria freqüentemente reafirmado em situações de tensão racial por meio da expressão "no Brasil não existe problema racial" (Costa Pinto. inserido no suposto projeto revolucionário liderado pela classe operária. que combina a utilização do teatro. p. consciente d o p r o j e t o internacionalista em curso. com lei sociológica. Se o movimento negro de novo tipo emerge do moderno desenvolvimento capitalista. O sociólogo apresenta u m a série de exemplos históricos ( N A A C P / E U A . 1953. 16). Este mito. seu isolamento e alienação representariam o atraso em face das transformações/ 1 2 Sem entrar no mérito das críticas específicas ao T E N apresentadas por Costa Pinto. que é interpretado como íalsa consiciência. atinada. Elasenbalg se indaga sobre qual atitude os negros devem ter para se contrapor ao racismo enquanto o "negro proletário". circunscrita a determinado contexto. n ã o estaria sensível.38' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO associação. é visto c o m o algo exótico. 265). Frente Negra Brasileira) que sugere outro tipo de reflexão. Afinal. Carlos Hasenbalg alerta para o problema de se c o n f u n d i r a análise de uma experiência. 1996. no m o m e n t o em que os "negros proletários" começariam a t o m a r consciência de seu papel em u m a sociedade em mudança e aos poucos suspenderiam todas as barreiras impostas pela sociedade de classes r u m o a u m a nova etapa da história da h u m a n i d a d e . 325). segundo Costa Pinto. I n d o além. pela especificidade do problema racial. O projeto político-cultural liderado pelo então ator e jornalista Abdias Nascimento e pelo sociólogo Guerreiro Ramos. 1947. a saber.doiço dc esconder a existência do problema dn cor" (Sereno. p. p. próprio à ambígua situação que vivem em geral setores de classe média agravada. Nesse sentido. . Este seria mais um exemplo. não gera a mudança radical da estrutura capitalista (Hasenbalg.

positivamente. p. Na medida e m q u e . "antes de tudo. 1953. foi do "escravo ao proletário". 1979. p. 29 e 171). d e grau. . à criação de barreiras raciais.'" Nesse sentido. há um certo descompasso "entre a ideologia racial tradicional e a nova situação racial' (Costa Pinto. onde a população de cor só veio a ser incorporada no sistema de trabalho urbano como operária. 11). por outro. Não é à toa que ao longo do livro o sociólogo critica. 326). antropólogos e sociólogos norte-americanos. 148. 2 4 ) . 161. 30. o u a historiadores. n o intervalo compreendido entre a Abolição e o final da década de 40. que ocorre no período pós-abolicionista. referência indireta a Gilberto Freire. a formação de movimentos sociais negros de caráter rcivindicatório. n ã o de espécie" (Costa Pinto. 1953. autores brasileiros. E n f i m . A análise d o sociólogo a respeito do deslocamento d a posição social de escravo. a situação brasileira n ã o seria substantivamente distinta da norte-americana. a passagem do "escravo ao proletário" só vem a reforçar a crença de C o s t a Pinto de que as tensões raciais só a d q u i r e m importância com o processo de urbanização e industrialização. que o limite da mobilidade social d o negro no Rio de Janeiro. p. Costa Pinto afirma. p. característico da situação anterior a 1888. à de proletário. advindas da mobilidade social d a população de cor. c o m o já foi visto. 1953. p.APRESENTAÇÃO 39 As indagações de Costa Pinto chegam ao limite de considerar que não haveria diferença qualitativa entre o preconceito racial verificado nos EUA e o racismo à brasileira. ênfases do autor). em diversas ocasiões. como é o caso das favelas. s e e s t a r i a d i a n t e d o s efeitos d o s i s t e m a capitalista que. as relações raciais n o Brasil (idem. seriam. p. O desenvolvimento capitalista estaria g e r a n d o u m cenário de crescentes tensões sociais que levam. mesmo reproduziria. principalmente a partir da década d e 3 0 (Beiguelman. segundo C o s t a Pinto. Essa avaliação do autor merece uma atenção especial. ocorre até mesmo segregação residencial étnica. 1996. 1953. constam g u a r d a n d o a l g u m a s pai i iculai idades nos d o i s p a í s e s . Ele observa que as diferenças existentes entre os dois países. N e s s a perspectiva. as análises comparativas e n t r e o contexto norteamericano e o brasileiro vinham servindo mais para obscurecer do que para elucidar a situação nacional. N a verdade. e. d o t a d o s de u m a "concepção falsa de orgulho nacional" (Costa Pinto. que tenderiam a idealizar. Hasenbalg. q u a n t o ao racismo. por u m lado. p. não apreende as adversidades sofridas pelo negro nos grandes centros urbanos.

40' O N E G R O N O RIO DE JANEIRO temente. obra que contribui para uma reflexão. não é u m a . a ascensão no interior da sociedade tradicional de pardos e negros (as "honrosas excessões"). formular refletirem consciência de meio o uma mudança dela. no Brasil. uma série de "imprecisões". 230) das quais vão ensaiar aquele supremo objetivo de predeterminar ação no presente. aparece de maneira nítida na seguinte passagem do livro de Costa Pinto: a forma mais autêntica compreendê-la e mais expressiva de os homens e interpretá-la. só vêm a confirmar a densidade do trabalho do sociólogo. comprometidos com um Brasil m o d e r n o e com uma intervenção esclarecida na definição dos rumos d o País. c o n c e b i a m seu campo disciplinar específico c o m o "um saber racional equivalente a u m a forma de consciência superior. p. c o m o o sociólogo observa no censo etc. desigualdades na estrutura de classes e. por conseguinte. 1953. o sistema de classificação de cores n o Brasil que implicaria uma d i m e n s ã o cultural e social e. A constatação de uma certa tensão entre argumentos de ordem mais geral e as reações de Costa Pinto frente aos d a d o s da pesquisa que ele colhe. C o m o observa Glaucia Villas Bôas (1989). alteram a posição social dos indivíduos. frente ao tema da mudança social. no que se refere à comparação entre os dois países. a saber: a ideologia do b r a n q u e a m e n t o . 110 q u a d r o das relações raciais. os sociólogos. A conclusão a que chega o autor. Contribu[iriam desta forma] para a realização. No momento em q u e surgem propostas de racialização da sociedade brasileira. tentar social na qual estão envolvidos é tomar programas ação que visem controlá-la futuro pela e organizar agências especificas por (Costa Pinto. por conseguinte. ocorre em detrimento de u m a série de singularidades apontadas pelo próprio sociólogo ao longo do seu trabalho. de nova etapa d o processo civilizatório" (p. os atributos associados à cor que. sem subterfúgios. especialmente no capítulo Atitudes. sobre um t e m a tão controverso como o racismo n o Brasil. eles acreditavam que seus trabalhos científicos estavam comprometidos c o m o "avanço da história". Raça. Embora de m o d o s distintos e freqüentemente envolvidos em controvérsias. 1). estereótipos e relações de raças. em diversas situações. para Costa Pinto. O negro no Rio de Janeiro: relações de raças numa sociedade em mudança é. u m dos produtos mais bem acabados do " t e m p o dos sociólogos" na década de 50. é muito bem-vinda a reedição de O negro no Rio de Janeiro. sem dúvida. A afirmação do papel relevante e mesmo imprescindível dos sociólogos.

tão necessária frente aos grandes desafios deste final de século. p. Azevedo ( 1 9 5 3 ) . atores e imagens) c 2 (Da Bahia para o Brasil: o projeto UNESCO de relações raciais) da minha tese de d o u t o r a d o ( M a i o . uma homenagem ao sociólogo norte-americano que havia recém-falecido (Costa Pinro. in Coleção Artur Informações biográficas extraídas de Costa Pinto ( 1 9 8 9 . 4 2 T h e P r o g r a m m e of UNESCO proposed by the Executive Board. . que se apresentam no âmbito das relações raciais. Roger Bastide e Florestan Fernandes (1955). 14/9/1949. (1952). Resolutions For 1951. devem ser combatidas c o m políticas públicas redistributivas. 6 7 Costa P i n t o m i n i s t r o u duas palestras patrocinadas pela SBAE: a primeira. 78. 1997). Marcos C h o r M a i o Doutor em Ciência Política. p. 40. Nogueira (1955). de caráter universal. de análise. Biblioteca Nacional. C o s t a Pinto fez parte da comissão que elaborou a s e g u n d a edição Coluna e integralismo. 1995) Ramos. versava sobre a sociologia do conhecimento. 20/3/1950. Part II—• Draft Carta de A r t u r R a m o s a Jorge Kingston. substantivada. do livro Quinta Trata-se de u m a publicação de denúncia das atividades integralistas no Brasil. IUPERJ Pesquisador da Casa de Oswaldo Cruz/FI0CRUZ Notas ' Os resultados das pesquisas do projeto UNESCO f o r a m publicados e m : Wagley ec al. 8 E m 1943. É nessa perspectiva que Costa Pinto nos convida. Costa Pinto (1953). 5 Seção de Manuscritos.APRESENTAÇÃO 41 categoria essencializada. decisão e estruturação do p r o j e t o UNESCO. in the p r o g r a m m c of UNESCO proposed by the Executive Board. c o m o cidadãos e intelectuais. a pensar e agir de forma abrangente e generosa sobre a dinâmica da m u d a n ç a social. Statement of methods. apresento uma análise do processo de discussão. -1 Invesrigações-piloto ou projetos-piloto são "experiments carried o u t by agreement with g o v c r n m c n t s a n d their assistance. their purpose b e i n g to test or demonstrate under typical c o n d i t i o n s thc methods best calculated to assist M e m b e r States in dealing with spccific problcms". D o seu p o n t o de vista sociológico emerge a concepção de que as desigualdades sociais. editado pela União Nacional dos Estudantes. intitulada Sociologia e mudança social (Costa Pinto. UNESCO Archives. 1950.. Paris. Paris. em 1943. UNESCO Archives. Ribeiro (1956). 1944). sobre a obra dc R o b e r t Park. 1947). Nos capítulos 1 ( O Brasil como modelo para a UNESCO: contexto. A segunda palestra.

the hope of course. [Arvid] Brodersen is Acting Head. do qual p a r t i c i p o u t a m b é m o sociólogo Guerreiro Ramos. Seção dc Manuscritos. I F C H / U N I C A M P . Coleção Artur Ramos. 5 / 9 / 1 9 4 4 . Salary.700 but r u n s u p closer to 10. I mentioned your n a m e a n d w a s asked i f l would write quite informally to i n q u i r e if you would be interested in the p o s i t i o n . conceituada revista d c ciências sociais dessa época (Costa P i n t o . is something around U S $ 6. Carta de Artur Ramos a D o n a l d Pierson. 13/10/1949. 15/9/1944. 1946. no entanto. carta de Artur Ramos a D o n a l d Pierson. E m sua carta a Freire. It would need to be for at least o n e year. 1958). Hadley Cantril escreve: "I have talked in the past few days with those m o s t responsible for the running of UNESCO. p r o v a v e l m e n t e foi dado em 1942. da UNESCO. As o u r p r o g r a m expands and takes on Üfe. I t h i n k . Em sua resposta. in Coleção Artur Seção de Manuscritos. carta de Donald Pierson a A r t u r Ramos. " Pelas informações colhidas cm Azeredo (1986. Projeto His. logo após o f ó r u m organizado em Paris s o b r e " T e n s i o n s that Cause W a r s " (verão d e 1 9 4 8 ) . Carta de Artur Ramos a Pedro C a l m o n . s o m e m e l l o w wisdom. s o n d o u informalmente Gilberto Freire sobre a viabilidade de o sociólogo brasileiro vir a tornar-se diretor d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da UNESCO. l p . that you w o u l d be interested for even a long time. 1944. 1947. 1949. 2 8 / 8 / 1 9 4 4 .42' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO . C o s t a Pinto publicou trabalhos e m o u t r a s revistas. (Carta de Hadley C a n t r i l a Gilberto Freire. C a n t r i l . O primeiro cientista social a ser c o n v i d a d o a assumir a direção do D e p a r t a m e n t o d e Ciências Sociais da UNESCO foi Gilberto Freire. 15 Carta de Artur Ramos a C o s t a P i n t o . 2 3 / 9 / 1 9 4 4 . Biblioteca Nacional. Ramos. Arquivo do I n s t i t u t o Gilberto Freire. and ali the other qualifications you would know better than I. in Acervo Donald Pierson. p. in Coleção Artur Seção de Manuscritos. Seu trabalho Recôncavo: laboratório de u m a experiência h u m a n a (Costa Pinto. 8 / 9 / 1 9 4 4 . 13 14 12 D e p o i m e n t o de Luiz de Aguiar C o s t a P i n t o prestado ao autor (27/7/1995)- Costa Pinto tinha u m a visão e x t r e m a m e n t e crítica dos estudos de c o m u n i d a d e .tória d a A n t r o p o l o g i a no Brasil. além de ser o resultado de seu c o m p r o m i s s o c o m o projeto Columbia University/Estado da Bahia.000". para o objetivo d e nosso texto. T h e y have been kind enough to ask m y advice about a candidate to serve as H e a d of the Social Science D e p a r t m e n t here. Biblioteca N a c i o n a l . 153-154) e Pierson (1987. p. professor d e psicologia social da Universidade de Princeton e c o o r d e n a d o r d o projeto "Tensions Affecting International Understanding". não deixa de ser u m a resposta aos estudos de comunidade desenvolvidos pela e q u i p e de Charles Wagley. Biblioteca N a c i o n a l . c o m o o Digesto Econômico e Financeiro. 1948. Ramos. destaco os artigos q u e apareceram em Sociologia. 1 9 5 0 ) . carta de A r t u r R a m o s a D o n a l d Pierson. it b e c o m e s m o r e and more essential to have a h e a d w h o has standing in the field.J I n f o r m a ç ã o prestada por Costa P i n t o e m entrevista dada ao autor em 2 / 8 / 1 9 9 5 . H a d l e y Cancrií. 61) o curso do DASP. C a r t a de Donald Pierson a Artur Ramos. 2 9 / 9 / 1 9 4 9 . 13/8/1948. ) Cantril recebeu u m a carta de G i l b e r t o Freire com a exposição de motivos d a recusa em aceitar o convite i n f o r m a l d o psicólogo social.

Em entrevista ao autor em 2 7 / 7 / 1 9 9 5 . 215). p.1. in Race questions & protcction of minorities. Coleção Artur Ramos. 2 7 / 1 0 / 1 9 4 9 . Part I up to 3 0 / V I / 5 0 ( B O X REG 145). 2 / 1 1 / 1 9 4 9 . Paulo Berredo C a r n e i r o (1901-1981) nasceu no R i o d e J a n e i r o e sua família tinha raízes nas elites políticas imperiais no Maranhão. 29/9/1949. (. Costa Pinto. Costa Pinto chegou a d e s e n v o l v e r u m a pesquisa sobre migrações internas ( C o s t a Pinto. 1952). C disse: 'aqui está o h o m e m para o d e p a r t a m e n t o de ciências sociais'. 4 0 . Paris. os dois grossos v o l u m e s da Introdução à antropologia brasileira. 1 p. A p e s a r de não sabermos as razões apresentadas p o r Freire. 24 a Ramos. 1 3 / 1 0 / 1 9 4 9 . 1 p. Arquivo da Família de Paulo C a r n e i r o . 1950. " Carta dc A r t u r R a m o s a Paulo Carneiro. Biblioteca Nacional. Seção de Manuscritos. a f i r m o u : "Eles [os professores da P F C L da U S P ] e r a m em maior número. 21 22 20 Coleção Artur Ramos Idem. Biblioteca N a c i o n a l . 24/9/1949. Seção Carta de C o s t a P i n t o a Jaime Torres Bodet. Carta d e C o s t a P i n t o a Artur Ramos. ao c o m p a r a r as ciências sociais cm São Paulo c o m o q u e acontecia no Rio de Janeiro. Carta d e C o s t a P i n t o a A r t u r Ramos. O próprio [Artur] Ramos se queixava disso. O pai. 323. Carta d e A i t u r R a m o s a Alceu Maynard de Araújo. UNESCO Archives. UNESCO 25 Archives." Carta de A r t u r R a m o s a Pedro Calmon. Ele foi c o n v i d a d o e seguiu para Paris. C o s t a Pinto apresentou sua versão s o b r e o motivo que teria levado Artur R a m o s à direção do Departamento de Ciências Sociais da UNESCO: "O Paulo C a r n e i r o m e c o n t o u que quando recebeu o livro dele [Artur Ramos].. Ele. apuei Azeredo (1986. B o d e t c o n c o r d o u imediatamente. Arquivo do Instituto G i l b e r t o Freire). p. praticamente n e n h u m . ' T h e P r o g r a m m e o f UNESCO proposed by the Executive B o a r d . Part II — Draft Resolutions For 1 9 5 1 .. Havia a l g u é m respondendo interinamente.APRESENTAÇÃO 43 agradece a carta de Freire m a s n á o entra em detalhes sobre os m o t i v o s a p r e s e n t a d o s pelo sociólogo p e r n a m b u c a n o ( C a r t a de Hadley Cantni/Gilberto Fteire. e importante lembrar q u e n a é p o c a Gilberto Fteitecr» D e p u t a d o Federal pela U n i ã o Democrática Nacional ( U D N ) c estava envolvido no projeto dc criação d e u m instituto de pesquisa em P e r n a m b u c o ( F r e s t o n . Biblioteca N a c i o n a l . 1. Mário Barbosa 27 2r . p. N ó s n á o t í n h a m o s nenhum. o D e p a r t a m e n t o dc Ciências Sociais [da UNESCO] estava vacante não havia chefe. quando foi chefiar o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da UNESCO.. Ele foi a o m e x i c a n o Torres Bodet. Coleção Artur de Manuscritos. 14 de maio d e 1 9 4 9 . A carta de G i l b e r t o Freire a Hadley Cantril não foi e n c o n t r a d a .) T i n h a m a p o i o d a universidade cm que ensinavam. Seção de Manuscritos. REC. Em d e p o i m e n t o ao a u t o r (10/8/1995). Seu lado paterno era p r o f u n d a m e n t e ligado ao positivismo. M i n a s Gerais e Rio de Janeiro. diretor geral da UNESCO. 2 1 / 9 / 1 9 4 8 . 1989). foi e x a t a m e n t e buscando um ambiente d e t r a b a l h o q u e aqui e!e não tinha" .

o Serviço dc Proteção ao fndio. em 20/9/1995Carta de Costa P i n t o a Paulo Carneiro. N o ano de 1927 reccbeu u m a bolsa de estudos para realizar uma investigação científica no Instituto Pastcur.3 8 8 ) . deixou marcas definitivas no positivista brasileiro substituindo o cientista pelo político universalista e anti-racista q u e teve papel central na decisão da UNESCO dc realizar a pesquisa das relações raciais no Brasil. filho de Paulo C a r n e i r o . M » Idem. As i n f o r m a ç õ e s sobre Paulo Carneiro foram extraídas das seguintes fontes: Lins (1971. . p. Paulo C a r n e i r o h e r d o u essa influência paterna. 31/5/1950. 42-48). Ela é m e n c i o n a d a na carta de Costa Pinto a P a u l o C a r n e i r o . Paulo Carneiro chegou a abrigar em sua residência m e m b r o s d a resistência francesa. Além disso. Foi professor da Escola N o r m a l dc 1 9 2 2 a 1927 e assistente da cadeira dc Q u í m i c a Geral da Escola Politécnica dc 1 9 2 3 a 1 9 2 7 . Funcionário d o Ministério d a Agricultura.44' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Carneiro. 1995. cm 1944. em Londres. in Arquivo da Família de Paulo Carneiro. antes e d u r a n t e a S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l . é escolhido delegado d o Brasil na primeira Assembléia das N a ç õ e s U n i d a s . Em 1942. Nesse ú l t i m o . Paulo Carneiro foi delegado permanente do Brasil na UNESCO. C u r r í c u l o s da UNESCO. outro positivista. 1. entrevista dada ao a u t o r p o r Mário Carneiro. C o m a libertação da França. foi m e m b r o do comitê executivo da organização n a maior parte do tempo q u e esteve envolvido com o trabalho da agência internacional. c o m a declaração d e guerra do Brasil contra as forças d o Eixo. P a u l o Carneiro volta ao Brasil. o tema da incorporação de índios e negros à civilização ocidental (Bastide. o n d e p e r m a n e c e u atei 1931. p. D u r a n t e a S e g u n d a Guerra Mundial esteve cm estreito c o n t a t o com o Embaixador Souza D a n t a s — representante da diplomacia brasileira. Paulo Carneiro fica preso j u n t o com a missão diplomática brasileira. quando concluiu seu d o u t o r a d o pela Universidade de Paris. A carta de C o s t a Pinto a Robert Angell não foi e n c o n t r a d a . criou junto com o M a r e c h a l R o n d o n . Paulo Carneiro volta a Paris e m 1 9 3 6 para continuar suas investigações científicas no Instituto Pasteur. com base cm sua pesquisa sobre o guaraná. p e r m a n e c e u por 14 meses. mas n o início dc 1946. Ciência c C u l t u r a (UNESCO). lutou pela Abolição d a Escravidão e foi participante ativo na f u n d a ç ã o d a República. p r i m e i r o c o m o ministro (1946-1958) e depois c o m o embaixador (1958-1965). 1947. 81). j u n t o com Souza D a n t a s .. q u e mais resistiu às "circulares secretas" do Itamaraty proibindo a concessão de vistos para a entrada de judeus no Brasil ( M i l g r a m . in Arquivo da Família de Paulo Carneiro. C a b e lembrar que fazia parte do ideário positivista desenvolvido no Brasil. 28/ 6/1950. p. A experiência da Segunda G r a n d e G u e r r a . Formou-se cm q u í m i c a industrial na Escola Politécnica d o Rio dc Janeiro. 3 6 7 . levado p a r a o c a m p o de prisioneiros de Baden-Bacten e a seguir para o dc Godesberg. 1 p. 2 ' A carta que Costa P i n t o recebeu de Alfred Métraux com d a t a de 8 / 6 / 1 9 5 0 não foi encontrada. Entre 1951 e 1952 foi presidente d o C o m i t ê Executivo da UNESCO. N o m e s m o a n o t o r n o u . e no primeiro governo Vargas chegou a assumir o cargo dc m i n i s t r o da Agricultura. p.s e representante do Brasil na C o m i s s ã o Preparatória da Organização das N a ç õ e s U n i d a s para Educação.

in Race questions & p r o t e c t i o n o f minorities. 3 1 / 7 / 1 9 5 0 . UNESCO Archives.SCO t i n h a a intenção de estudar as relações entre negros. it w o u l d . Race questions & p r o t e c t i o n of minorities. REG 323. p r o v a v e l m e n t e d e a g o s t o de 1950. ví C a r t a cie C o s t a Pinto a Alfred Metrattx. Pertencendo aos quadros d o Serviço dc Proteção aos í n d i o s ( S P I ) . Rui. Part I ( B o x R E G 1 4 6 ) . in R a c e q u e s t i o n s & protection of m i n o r i t i e s . t h a n to s t a r t f t o m scratches in Rio (de J a n e i r o ] " ( C a r t a de Rui Coelho a Charles W a g l e y . UNESCO Archives 37 M é t r a u x . q u e h a v i a estudado na Escola Livre d e Sociologia e Política. UNESCO A r c h i v e s . — 2 0 d é c .12 A 102. c o n s i d e r a n d o a c e r t a d a a decisão do staff dc não c i r c u n s c r e v e r a pesquisa à Bahia. P a r t II u p t o 3 1 / V U / 5 0 ( B O X R E G 1 4 5 ) . ( M é t r a u x .. in Race q u e s t i o n s & p r o t e c t i o n of minorities. Neste caso. UNESCO Archives. Ela Arquivo de Paulo Carneiro. 1 p. e n c o n t r a . C o s t a P i n t o foi ainda mais enfático. p. as pesquisas nas áreas m e t r o p o l i t a n a s . Part II u p t o 3 1 / V I I / 5 0 ( B O X R E G 145). 1 4 / 9 / 1 9 5 0 . b e better for us [UNESCO] to try to c o m p l e t e t h e m w i t h lirtle additional expenses. o n d e a p r e s e n t a o seu p r i m e i r o relatório de pesquisa. in Race questions & p r o t e c t i o n o f m i n o r i t i e s . p . in S t a t e m e n t o n R a c e . 1 9 5 0 ) .1. E m contraposição. UNESCO Archives. onde o 5 a n t r o p ó l o g o a f i r m a q u e "if some good studies have a l r e a d y b e e n carried o u t in São Paulo.1. 2 3 / 6 / 1 9 5 0 . c m s e t e m b r o d e 1950. C a r t a d e Luiz de Ag uiar Costa P i n t o a Alfreci M c t r a u x . Alfreci & Coelho.1. consta u m a lista d e c i e n t i s t a s sociais. Darci Ribeiro foi citado na c o r r e s p o n d ê n c i a entre o staffàa UNESCO e os p e s q u i s a d o r e s q u e se encontravam no Brasil. •v> M é t r a u x . p. in Race questions & p r o t e c t i o n of minorities. Rapport sur m i s s i o n a u Brcsil.APRESENTAÇÃO 45 31 A c a r t a dc P a u l o Carneiro a Costa P i n t o . Alfred Métraux. 1-4. Suggestions f o r research on race rclations in Brazil. R E G 323. 1 9 5 0 ) . p. Rapport au directeur général s u r mission au Brésil (16 nov. in th Família " I d e m .s e a p e n a s o mineiro Darci Ribeiro. 1 . 1. brancos e índios. n ã o foi encontrada. — 2 0 d é c . R E G file 323. R E G 323. N a segunda versão da p r o p o s t a d e organização do Projeto UNESCO. 1 / 9 / 1 9 5 1 . REG 323. é m e n c i o n a d a n a carta cie Costa Pinto a Paulo C a r n e i r o d e 2 8 / 6 / 1 9 5 0 . Part II u p to 3 1 / V I I / 5 0 ( B O X R E G 145). 4 . in R a c e questions & p r o t e c t i o n o f m i n o r i t i e s . Rapport au directeur général s u r mission au Brcsil (16 nov. 4. 3. p e r h a p s . Part II u p . Part II u p to 3 1 / V I I / 5 0 ( B O X R E G 145). 1 . Em c a r t a a Alfred Métraux. revelariam os e l e m e n t o s d e m u d a n ç a na sociedade brasileira. < a carta de R u i C o e l h o a C h a r l e s Wagley. e l a b o r a d a p o r Alfred Métraux e R. Alfred. R E G 3 2 3 . l . UNESCO Archives). 55 C a r t a d e R u i C o e l h o a Costa Pinto.1. que representaria u m q u a d r o de relações tradicionais. O u t r o e x e m p l o do pape! secundário a t r i b u í d o ao R i o de J a n e i r o no processo de e s t r u t u r a ç ã o d a pesquisa. R E G 3 2 3 . D o Rio de Janeiro. UNESCO Archives. p . to 31/VII/50 (BOX REG 145). p. Alfred. 9 . P a r t I u p to 3 0 / V I / 5 0 ( B O X R E G 145). e b o m lembrar que em ptincípio a pesquisa d a UNE. t a n t o no Rio de janeiro q u a n t o e m São Paulo.5 . p.ui C o e l h o . c o m o c a n d i d a t o potencial a tratar do t e m a das relações entre índios e brancos. UNESCO Archives).1. R E G 323. 2 9 / 1 0 a 1 2 / 1 2 / 1 9 5 1 . P a r t II u p to 3 1 / V I I / 5 0 (BOX R E G 145).1 0 .

Dissertação de Mestrado em Sociologia. de Antropologia.46' M O NEGRO NO RIO DE JANEIRO As informações sobre E d i s o n Carneiro foram extraídas de: O l i v e i r a & Costa Lima (1987. The Nation. 2 8 2 . Trata-se da primeira crítica sociológica aos estudos afro-brasileiros. p. Brazil. ver: M a i o (1997a). publicado pela Livraria M a r t i n s E d i t o r a c m 1944. 2. n. 1 / 9 / 1 9 5 1 . 2. São Paulo: F F L C H / U S P . A análise c o m p a r a t i v a entre o preconceito racial nos E U A e n o Brasil elaborada por Costa Pinto destoa. Relações raciais brancos em São Paulo. p. (1987). n. Edison. 40 O artigo N e g r o s e b r a n c o s foi publicado no Diário de Notícias e n t r e os anos de 1940 e 1941. CXXVIII. 42 43 Sobre a p o l ê m i c a suscitada pelo livro de Costa Pinto. p. Recife: Editora Massangana. O projeto da UDF e a formação de intelectuais na década de 30. São Paulo: Editora Anhembi. laboratory of civilization. 15-19). v. AZEREDO. Quilombo. p. Les élites de couleur dans une ville brésilienne. F E R N A N D E S . C o s t a P i n t o considera que a diferença entre os dois países é cie intensidade e não de "diversidade q u a n t o à natureza" (Nogueira. n. ''' Carta de Luiz de Aguiar Costa Pinto a Alfred Métraux. Tales. ( 1 9 8 6 ) . Rio de Janeiro: IFCS/UFRJ. CARNEIRO. Paulo Roberto. Estudos sobre o preconceito de cor no Brasil. Castelos de Areia: Dilemas da institucionalização das Ciências Sociais no Rio de Janeiro. AZEVEDO. Paris: UNESCO. . p. p. BEIGUELMAN. Rosangela N a i r d e . (1953). 7-8. UNESCO Archivcs. Rio de Janeiro. Estudos Brasileiros. 401-402). p. 147-152. BARBOSA. 4 1 . v. 71-74. Part I (Box REG 146). s e g u n d o O r a c i Nogueira.2 8 7 . Informativo ANGELL.6 0 . 1. ( [ 1 9 8 8 ] 1 9 3 5 ) . 1 9 5 5 a . Para O r a c i . s e n d o i n c o r p o r a d o à primeira edição do livro Cobra de vidro. American Sociological Review. 16 de janeiro. ano II. 41 Nesse caso C o s t a P i n t o l e m b r a a mesma linha de reflexão crítica d e Myrdal (1944) a respeito d a Escola Sociológica de Chicago. (1950). 1930-1964. 24. 415). 1950. (1953). dos outros estudos p a t r o c i n a d o s pela UNESCO. p. Edison Carneiro. Referências bibliográficas ALMEIDA. Revista BILDEN. ( 1 9 9 6 ) . 15. (1929). 1 2 A 102. Florestan. V i l h c n a (1995. Antropólogos epioneiros: a história da sociedade brasileira de antropologia e etnologia. Boletim Bibliográfico. 6. p. R E G file 3 2 3 . 2. UNESCO and social science research. Roger. in Stntement on Race. ( 1 9 5 5 ) . n. Maria H e r m í n i a Tavares de. Afroentre negros e BASTIDE. Paula. v. Situação do negro no Brasil. Rudiger. Robert.

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na presente edição. relações de raças n u m a sociedade em mudança foi publicado em 1953. . da Editora O Negro no Rio de Janeiro-. seu texto integral. T o d o s os quadros estatísticos foram revistos. esta ú l t i m a expressão. Agradecemos a prestimosa colaboração de Maria Coeli Scalon e Glaucia Villas Bôas na revisão e correção deste material. uma vez q u e foi a forma utilizada em diversas passagens do texto. da Editora UFRJ. algumas alterações. N a capa da primeira edição. na edição que ora apresentamos ao leitor. Entretanto. mesmo quando sua s o m a não é igual a 100%. Adotamos. além dos evidentes erros de revisão tipográfica. reproduz. para melhor compreensão dos mesmos. da Coleção Brasiliana. fizeramse necessárias. n a q u a l o livro foi inserido. a modificação e padronização dos títulos. tornando-se indispensável. 276. foram reestruturadas para seguir a padronização de texto da Coleção Clássicos do Pensamento Social Brasileiro. contidos na primeira edição. com fidelidade. Os dados percentuais foram mantidos. pela Companhia Editora Nacional. v. o subtítulo figura como "relações de raça n u m a sociedade em mudança". da Editora UFRJ. As divisões das partes e a numeração dos capítulos. série 5 a . e m alguns casos.Nota. por acreditarmos ter sido esta a escolha do autor. Esta segunda edição. enquanto em sua folha de rosto lê-se "relações de raças numa sociedade em mudança".

para com eles discutir idéias e planos. pela natureza original das . durante a troca de idéias que se estabeleceu.Introdução Histórico da pesquisa . e n o r m e desilusão. à procura de u m a explicação fácil para os problemas extremamente difíceis e complexos que aqui são t r a t a d o s . O leitor lépido e ingênuo que quiser ler este livro de trás para frente. sugerimos a conveniência de a UNESCO p e n s a r seriamente em tornar a América Latina e. o m e s m o estado de espírito de q u e m o escreveu. Artur Ramos partiu para c h e f i a r o Departamento de Ciências Sociais da UNESCO. Naquela reunião. Foi há alguns anos atrás. durante a sua curta passagem. seus objetivos e finalidades. c o m o aconselhamos. Q u a n d o o nosso mestre e a m i g o Prof.Bases metodológicas — O s estudos "afro-brasileiros" e o t i p o de abordagem do problema aqui p r o p o s t o . terá. por certo. mais u m a vez. iria. assumindo assim. e voltará então. ser útil ao m u n d o e h o n r a r a ciência brasileira com os f r u t o s de sua extraordinária energia intelectual. n o qual. dafl«^/«£mesma e d e suas conclusões. diante dos problemas que aqui são tratados. a ler cuidadosamente esta introdução ao tema desenvolvido. o que parece condição indispensável à perfeita compreensão dos objetivos da análise. indo logo à última página. especialmente. reuniu os seus colegas d o D e p a r t a m e n t o de Ciências Sociais da Faculdade Nacional de Filosofia da U n i v e r s i d a d e do Brasil. sem correr o risco de sérias incompreensões — entregar este trabalho à divulgação sem preceder a apresentação das análises q u e ele contém de uma notícia geral sobre os antecedentes desta pesquisa. t o m a n d o conhecimento prévio dos nossos propósitos e dos nossos pontos de p a r t i d a . o Brasil u m l a b o r a t ó r i o de pesquisas sobre as relações h u m a n a s . Seria de todo inconveniente — seria m e s m o quase impossível. os conceitos básicos e a metodologia utilizada. concernentes à s u a f u t u r a atuação naquele posto. q u e pela p r i m e i r a vez nos ocorreu a idéia q u e hoje alcança sua etapa final. precisamente em setembro de 1949.

de dois estilos históricos. o aspecto. de novos estilos de vida e de novos rumos históricos.. nem somente o avanço para o futuro. afirmando explicitamente — pois nesses . com que se topa a cada passo. só pode ser visto como essa procura confusa.e disso o Brasil é expressivo exemplo o que principalmente caracteriza sua estrutura de sociedade não é somente a sobrevivência do passado. mas insistimos. De fato .54' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO estruturas sociais existentes nesta parte do m u n d o . Naquela reunião. não somente na superfície mas na própria base e no próprio plano estrutural de seu arcabouço. vivendo um presente que é c o m p o s t o de um passado morto e da perspectiva infecunda. É antes. marginalizando a sua estrutura de alto abaixo.. não desenvolvemos a análise desse problema n e m de suas últimas implicações. que as chamadas "elites" lhe querem formalmente impor como futuro. nossos. defendendo a opinião de que o impacto da civilização industrial e urbana sobre esses países é algo sociologicamente novo e diferente do surgimento daquela civilização nas áreas do m u n d o em que ela nasceu. quase diríamos. sobre a natureza original dos nossos problemas. de que temos a mais viva lembrança. quando não convulsa. engendrar as soluções que gerou nas estruturas sociais em que historicamente surgiu. na fase de transição já longa e penosa que atravessam. dos chamados países subdesenvolvidos. o que muito menos podemos fazer aqui. que lembram situações pelas quais outros países já passaram há u m ou mais séculos atrás. marginalizada e bifronte. que esses países oferecem à observação do sociólogo é o de organismos que. que se não pode limitar a repetir aqui as mesmas situações nem. senão impossível. cujos sinais objetivos se i m p õ e m à observação de qualquer um. que se ofereciam ao estudo cm condições que talvez hoje não encontrem semelhança em nenhuma parte da terra. repletas de situações e de problemas de interesse científico universal. pois era o que interessava no momento. segundo pensamos e naquela ocasião dissemos. e acima de tudo.às vezes dramático. lado a lado com problemas típicos de estruturas agrárias atrasadas. participam simultaneamente de duas épocas. a coexistência desses dois mundos. nem um nem outro possuídos da devida força histórica para dominarem sozinhos o pan o r a m a e imprimirem rumo definido e sentido claro à civilização brasileira que assim permanece.. pela coexistência. pois foi o nosso último encontro com Artur Ramos antes do rápido abraço no aeroporto. por isto mesmo. de problemas comuns às sociedades capitalistas desenvolvidas. Este presente. especialmente. Em conseqüência disso. de outras saídas e soluções. neutralizando-se reciprocamente. analisado com realismo. Essas estruturas se caracterizam. de dois mundos.

ao menos chamar a atenção para o fato. de que tudo isso. o Comitê de Peritos sobre Relações de Raças. a ser designado pela Conferência Geral. Quando. podia e devia ser objeto de análise científica. h a v i a m imprimido à idéia um endereço certo e específico. uma das tarefas q u e devia cumprir era indicar novos c a m p o s de pesquisas. q u e para os cientistas sociais eles se apresentem. conseguimos incluir explicitamente o e s t u d o . para nós.talvez o principal . neste plano. era u m setor de pesquisas em que restava ainda m u i t o . o " e x e m p l o " americano ou o "modelo" francês são. para a u m e n t a r o sentimento de opressão subjetiva causada por sua perda irreparável. q u e foi a grande tarefa a que se dedicou Artur Ramos em Paris. que deviam ser t e n t a d o s a fim de lançar mais luz sobre a questão racial. naquela ocasião. entretanto. Julgamos ter conseguido.INTRODUÇÃO 55 assuntos é preciso ser explícito — que. na maior parte das vezes. Em relação ao c a m p o m u i t o mais vasto atrás referido. e ele a concretizou n o p l a n o de uma grande pesquisa sobre relações de raça "num país da América L a t i n a " . Na relação dos temas e p r o b l e m a s sugeridos para futuras pesquisas. ele nos escreveu algumas vezes . e que o fato de esses problemas serem hoje campo de acirrada p u g n a econômica. nos seus m ú l t i p l o s e variadíssimos aspectos. a experiência d e outros países é bastante conhecida e os característicos originais de nossa experiência. já que. política e ideológica não devia impedir. muito pelo contrário. em dezembro de 19^9. d e p o i s da notícia de seu falecimento — e assegurou-nos que nossa conversa n ã o f o r a esquecida. m a t é r i a de estudo. que tivemos a honra de integrar.excelente começo. Suas preferências culturais e profissionais. como campo de pesquisas. p o r ele convocado. com o objetivo de conhecer os fatores que contribuem para dar ao q u a d r o étnico de uma sociedade nacional a feição própria que apresenta. reuniu-se em Paris. mas um. pois o material empírico existe em abundância.duas cartas suas nos chegaram quase juntas. o setor p a r ticular em que hoje laboramos é apenas um começo. depois do falecimento de A r t u r Ramos. visto o problema deste ângulo. Durante a preparação do plano de trabalhos do Departamento.a fazer. o "caso" inglês. a efervescência do Oriente. no que se refere ao Brasil. precisamente por isto m e s m o . embora seja assunto sobre o qual muito se fale.' prenuncia muito mais nossas alternativas históricas do que a p l e n i t u d e cansada do Ocidente no qual e s t a m o s geograficamente incluídos. paradigmas do que evitar e n ã o do que fazer.

56' O NEGRO N O R I O DE JANEIRO da situação racial brasileira. Alfred Métraux. sem alterações notáveis. pela Conferência de Fiorença (maio de 1950). Pretendeu-se utilizar o mecanismo já montado e os trabalhos já em andamento para realizar. então Secretário de Educação e Saúde do Estado da Bahia. e o Dr. Do ponto de vista metodológico ela foi de decisiva importância. para realizar pesquisas sociais n o interior do Estado. finalmente. no plano do Departamento de Ciências Sociais. Durante os trabalhos da Conferência. a pesquisa sobre relações de raça.Berredo Carneiro. por carta. sem estarem sofrendo ainda. Com isto queríamos distinguir o aspecto brasileiro do problema. inclusive. Fizemos o que esteve ao nosso alcance para evitar essa limitação do campo e dos objetivos do estudo. julgando. Naquela ocasião estava ali operando a equipe estabelecida por Anísio Teixeira. a resolução d o Prof. pela primeira vez neste País. as conseqüências das mudanças de estrutura em processo na sociedade brasileira e que constituem exatamente o que há de novo e essencial na situação. o estudo sociológico do negro nas áreas . procuramos convencer o Prof. Em novembro de 1950 veio ao Brasil. de cuja direção tínhamos a honra de participar. Morris Ginsberg. para concretizar os planos do trabalho que deveria ter início no começo do ano seguinte. tal como se desenvolve noutras áreas do País. para campo da pesquisa que a ela seria apresentada. planejada pela UNESCO. dentro do quadro tradicional. em cheio. para decisão final. substituto interino de Artur Ramos na chefia do Departamento. portanto. da situação da América Latina em geral — com a qual ele estava confundido na redação originalmente proposta pelo Prof. como representante do Departamento de Ciências Sociais da U N E S C O . graças à atuação brilhante e eficiente daquele nosso delegado e representante permanente junto À U N E S C O . nosso companheiro de C o m i t ê . Foi fundamentalmente justa e fecunda. Originalmente a intenção fora concentrar todos os esforços e recursos n u m a só área. insistindo sobre a necessidade de manter a coerência com as idéias mestras e as perspectivas que inspiraram essa iniciativa desde o seu berço e que ficariam por certo frustradas se nos restringíssemos ao estudo do problema n u m a área em que as relações de raças se desenrolam.. O Prof. Paulo. Robert Angell. que seria a Bahia. que assim se acumulariam argumentos para a escolha do Brasil. das vantagens que o Brasil oferecia para este estudo e não foi difícil. pois ensejou a possibilidade de ser feito. através deles. conseguir que o plenário internacional decidisse a realização no Brasil daquela sonhada pesquisa. a seu convite. Métraux de não concentrar o estudo na Bahia.

e a inércia mental. hoje. hoje em acelerado processo de superação.que entregamos ao Prof. nos produtos desses processos sobre diversos . Partimos da verificação de que os estudos sobre o negro n o Brasil quase que se limitaram. etapas decisivas de seu desenvolvimento. só serviu para nos convencer da validez das premissas metodológicas ali estabelecidas. nas comunidades urbanas e industrializadas do sul do País. ou. anedótico e diferente nesse processo. d e outro.n o qual o centro do interesse estava localizado na assimilação do africano ao N o v o Mundo. a tradição dos estudos sobre relações de raças n o Brasil especialmente sobre seu mais desenvolvido e importante capítulo. a encarar o negro como um "espetáculo" . em Salvador — os objetivos d o nosso trabalho no Rio de Janeiro já estavam perfeitamente explícitos e não sofreram alterações de conteúdo em conseqüência do trabalho de campo que. sentimo-nos perfeitamente à vontade para abordar a análise das relações entre negros e brancos n o Rio de Janeiro do ponto de vista q u e julgávamos devia o problema ser cientificamente abordado. até hoje. antropológico e histórico sobre o processo de integração do africano ao Brasil. Em verdade. Métraux para dirigir a parte da pesquisa que se realizaria na Capital d o Brasil.INTRODUÇAC • 57 metropolitanas do Rio de Janeiro e São Paulo. o quadro tradicional das relações de raças. de exótico. Métraux em d e z e m b r o de 1950. e da atitude pessoal e metodologicamente clara e definida que d e n t r o deles havíamos sempre mantido. sob pena de perder a envergadura científica e a seriedade intelectual que deve ter. Já era tempo dc dizer um "basta" e dc corrigir esse bias. mais particularmente. Em face desses precedentes.esteve até h o j e ligada á coleta cie material etnográfico. cultivaram por tanto t e m p o e exportaram para todo o m u n d o . pouco ou quase nada existe d e sério sobre o estudo sociológico do processo de integração do negro brasileiro à sociedade brasileira. c o n t i n u a r apresentando ao m u n d o .para usar a feliz expressão d o escritor Sérgio Buarque de H o l a n d a . No primeiro esboço do plano destas pesquisas . especialmente sobre o que há de bizarro. q u a n d o fomos honrados com o convite d o Prof. De fato. problema q u e continua quase virgem n o f u n d o do nosso laboratório social e que vive. como o q u e há de mais novo e fundamental na situação racial brasileira. dc um Indo. a pesquisa da U N E S C O sobre relações de raças no Brasil não podia. em monografias folclóricas e ensaios de literatura histórica. que se refere ao negro . de resto. q u e uma concepção falsa de o r g u l h o nacional.

diretamente. que teve a posição dirigente. em última análise.u. o estoque de influência q u e ele trouxe para cá e despejou fartamente na argamassa com que a história c i m e n t o u o chão e as vigas mestras da civilização brasileira. por sua vez.i.nas quais a marca etnocentrista é evidente — resultaram fundamentalmente do fato de os dois principais grupos étnicos que contribuíram para a formação da população brasileira terem ocupado. não separado d o branco pela distância imensa que separa o vértice da base de uma pirâmide social rigidamente estratificada. que se "civilizava" na medida em q u e assimilava os seus padrões dominantes.e foi nessa posição que intervieram na formação da sociedade brasileira . r r o n ô m i r a s . vestuário. sua condição de escravo. o brasileiro negro e o processo de sua integração nos quadros da sociedade brasileira . .íi. música. não-escravo. condicionaram u m modo característico de colocar e estudar a questão racial no Brasil. N ã o se pode separar as orientações dessa fase e esse tipo de estudos sobre o negro no Brasil da atitude mental que ela reflete e que. culturais c físicas.vic. n o sentido de configurar não só o q u a d r o geral dos contatos e relações raciais mas também. é produto direto do q u a d r o tradicional das relações de raças no Brasil.l>ií. porque u m arraigado estereótipo os convencera de que nada havia a estudar em relação ao negro igual a nós. e toda a curiosidade intelectual e m t o r n o do que o negro tinha de diferente do branco. que foi por onde c o m e ç a r a m no Brasil os estudos sobre o assunto. culinária. O negro brasileiro. Essas formas de pensamento . reflete aquela atitude mental q u e resulta destas <!i.sociais.agiram. que a maior parte dos estudos sobre o negro no . O q u e o negro tinha de diferente de nós era o que se oferecia ao estudo: suas matrizes africanas. Essas distâncias sociais. N o u t r o s termos. ao negro não-africano.1n<. multiplicavam-se pelas diferenças culturais e físicas que acentuavam e objetivavam essa demarcação. o drama de sua vinda para o N o v o Mundo. não-analfabeto. As distâncias que socialmente separavam os grupos étnicos no espaço formado pelas relações que entre si mantinham . jamais despertaram o interesse sério dos estudiosos do negro no Brasil. isto significa. ou melhor. Isso permitiu ao grupo.da condição de escravo à de proletário e da condição de proletário à de negro de classe média —.v. olhar pata o outro como um exótico.t. não trabalhadorrural. língua. inclusive. por sua vez.58' O NEGRO NO RIO DE JANEIRO setores da vida brasileira: religião. posições afastadas por distâncias sociais imensas: negros e brancos entraram em contato no Novo M u n d o dentro de um contexto n o qual o preto começou a existir historicamente c o m o propriedade privada do branco. nesse processo histórico.

chegamos até a década de 30 . de um lado. não necessariamente branco do ponto de vista e'tnico . da antropologia. em todos os quadrantes da terra.censão e fastígio da "era vitoriana". e em posições extremamente desiguais. encara um grupo estranho. 1 em que a expansão do comércio e d a conquista pôs em contato. Foram disciplinas que se forjaram n o estudo dos "povos primitivos". como m é t o d o s de abordagem.praticamente na estaca zero destes estudos. primeiramente. houve. do outro. então. marca o começo desta fase e. a etnografia e a antropologia. entretanto. E m relação a esse grupo encarado c o m o estranho e sobre o lastro permanente da exploração da sua força de trabalho. muitas de suas obras foram divulgadas . a todos os erros e limitações da medicina legal. da qual nos afastamos pelas veredas da etnografia. até que o interesse em tornar livre o trabalho do escravo coroou o interesse humanitário pela miséria do negro e conseguiu a sua libertação legal. A abundante e variada . era da "europeização do mundo". Depois veio a piedade. refletindo diretamente a atitude mental do branco socialmente superior ao encarar o não-branco socialmente colocado em posição inferior. maiores efeitos. que se desenvolveram. mas submisso. como não podia deixar de ser. só então. Para encarar o negro como espetáculo. o m e d o natural que tem o opressor de que o oprimido se rebele contra ele. com sua obra. formaram seus instrumentos conceituais e treinaram seus métodos e técnicas de pesquisas paralelamente à as.INTRODUÇÃO 59 Brasil reflete o modo como o branco . da história e do folclore.quando. e os "nativos". por assim dizer. preenche quase sozinho esse começo. n í í u o s o b r e o nc|>ro n o B r a s i l a c r e s c e n t o u a o s e s t u d o s d c . da psiquiatria c da antropologia selecionista de seu tempo. piedade que se esparramou sobre o problema sem produzir. o produto culturalmente mais refinado deste contato entre estruturas diversas. trabalhador infatigável e honesto. tinham virtudes excepcionais. Tais disciplinas integraram no seu esquema de conceitos e técnicas de trabalho as premissas intelectuais que resultaram desse quadro e representam. E m conseqüência da influência m e n o r das obras de Manuel Querino e do parêntese aberto nesses estudos pela morte de N i n a Rodrigues.da posição social dirigente q u e sempre ocupou. N i n a Rodrigues. o branco europeu e civilizado. a fase d a curiosidade intelectual e as primeiras tentativas de análise séria do problema. o medo.e também desigual — produção que resultou ilo i n t e r e s s e e i n o f .social o u sociologicamente branco. Segiiu-se. como dizia Artur Ramos.

entrou a galope no carnê da inteligência nacional. O s estudos de etnografia. universidades e institutos europeus e norte-americanos no coração da África. multiplicada pela contingência da diferença de nacionalidade. são as mais importantes. em que os estudos "afro-brasileiros" viveram sua fase áurea.60' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Nina Rodrigues um enorme cadastro de "sobrevivências africanas". mais "afro" do que "brasileira". pela poesia no Brasil: o negro. as mudanças de estrutura econômica e social que se operavam no Brasil começavam a produzir os seus efeitos sobre o quadro das relações sociais entre os grupos étnicos que n o Brasil coexistem e convivem. O negro foi introduzido no Brasil para o trabalho na agricultura. Desta fase emanaram alguns estudos fundamentais e aos mais importantes dentre eles está inovidavelmente ligado o nome do Prof. tiveram grande voga em certa época precisamente porque esta era a atitude mental predominante na sociedade na qual e para qual eles eram feitos. A quase totalidade dos estudos de cientistas estrangeiros sobre a situação racial brasileira reflete. Na verdade. somadas às distâncias sociais. cujos ecos. duas parecem ter sido fundamentais: o processo de "industrialização" e o processo de "urbanização". que. u m pouco dêmodês. pela literatura de ficção e de ensaio. D e n t r e essas mudanças estruturais. Foi a fase "afrobrasileira". impregnados dessa atitude mental. nas Antilhas. como tema. e. estudos do tipo e de envergadura semelhante às pesquisas custosas levadas a efeito por museus. no caso dos estudiosos brasileiros. nas ilhas do Pacífico ou no próprio Brasil. no meio rural. pelas artes plásticas. pelo folclore. O surgimento e a expansão de u m a economia industrial m o d e r n a e o desenvolvimento e a lenta preeminência de uma civilização urbana no Brasil são fenômenos que significaram o início de uma série de contradições estruturais e profundas no interior de uma sociedade que começava . antropologia e história social do negro. essa limitação do approach etnográfico. dos característicos particulares do "caso brasileiro" e com recursos muito mais limitados. E foi por esta via que o assunto entrou para o rol dos temas mais explorados pela música. Artur Ramos e de seu grupo de colaboradores. as diferenças são de grau e resultam de distâncias nacionais e culturais maiores. viveu neste País as principais etapas de sua história até os começos deste século. porém. que através dessa prospecção realizaram aqui. servindo-se das mesmas técnicas. Exatamente naquele período de nossa história. também. que foram procuradas c o m afã em todos os setores da vida social deste País por uma geração de estudiosos. se prolongam até os nossos dias.

as formas sociais que sobre esta base repousavam. trabalhador agrícola ou lúmpen . não somente na condição e no hábitat. entre as quais u m a distância crescente se cava. preso ao branco por laços de dependência imediata e pessoal. entre a ideologia racial tradicional e a nova situação racial. Nesta série de cultural lags sucessivos e acumulados incluem-se as contradições. mas a ideologia e os hábitos mentais permaneceram os mesmos. físicas e econômicas e parecendo tão "misterioso" em conseqüência das distâncias culturais que os separavam — era a entidade . Independentemente da vontade dos líderes do surto "afro-brasileiro". principalmente.. do objeto da observação. mas a despeito de tudo era ainda o africano. vivendo. uma abstração tomou o lugar dos fatos.místico e musical. a industrialização e o desenvolvimento capitalista passara a viver uma nova etapa de sua evolução histórica . real e concreto. chegou a ser até honestamente "avançada". ignorante.INTRODUÇÃO 61 a m u d a r as suas bases sem mudar. a urbanização. mais que isso. havendo mesmo indisfarçável irritação quando se constatavam os efeitos desses novos processos que perturbavam a pureza original. E na medida em q u e essas condições se ampliavam. além de altamente respeitável. dele remotamente afastado por distâncias sociais. debaixo de seus olhos. servil e malandro. negro-homem. na medida em que a primeira resiste em se transformar e a segunda rapidamente se transforma. hoje visíveis. n o mesmo ritmo. A escravidão fora legalmente abolida. O negro africano. escravo.nascendo. consciente ou inconscientemente considerada na fase "afro-brasileira" desses estudos. que foi moda em certa época até ser supervalorizado como motivo estético e paracientífico. que estava ali . de laboratório. cômico e exótico. que com a Abolição. não o brasileiro de cor. na mentalidade e no estilo de comportamento. para assim se prestar melhor àquele tipo de estudo. morrendo na frente deles. que se desejava o mais possível "respeitado em sua integridade cultural". impedindo-os de ver a distância que crescia entre o africano abstrato que estudavam e o novo negro. O desenvolvimento de u m a economia de tipo industrial proletarizou e urbanizou gtandes massas de cor. . nas suas preocupações. sem alterações correspondentes. mas. a verdade é que. e como conseqüência. configurando o quadro que boje temos nas áreas metropolitanas. o negro iniciara o processo de sua integração nos novos quadros da sociedade brasileira. com uma abstração. a República. cada vez mais. os estudos sobre o negro laboravam. que continuava a ser estudado. cuja filosofia de vida.

os p r o d u t o s das relações de raças . Acontece. no interior das sociedades nacionais que diferentes grupos étnicos conjuntamente f o r m a m . Este trabalho. Inadvertido disto é que. Trata-se. tudo mais sendo considerado como sefosse igual. . que. da assimilação. nem diminuí-lo. certo ou errado. somente as diferenças étnicas os separam. o que significa dizer que se evitou. Trata-se.tudo isso que se estuda no capítulo da aculturação. m u i t a s vezes. nao-étnicas. Para não ir m u i t o longe. da acomodação etc. estudar as relações de raças de um p o n t o de vista sociológico significa dar ao traço étnico o valor que realmente tem. Em nossa opinião.desempenham.. . dentro da configuração total. é que deve ser lido e apreciado. na m e d i d a do possível. assim. de fazer um estudo sociológico do negro — e não etnográfico ou histórico . embora substancialmente estejam ligadas a fatores de ordem completamente diversa.62' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Uma reviravolta completa neste tipo de abordagem do problema foi preconizada naquela nota prévia e no plano de trabalho. etc. no qual propusemos q u e se fiz esse o estudo do negro arrancando de bases inteiramente diferentes. muito mais a f u n ç ã o de mascarar a natureza real das relações concretas de que historicamente resultaram. de estudar as relações de raças elas mesmas e não os seus produtos. ou alguns de seus p r o d u t o s . podem assumir e a s s u m e m expressão étnica. que procuramos. o bom senso de muitos desconcerta-se vendo apresentado como "acomodação" o que é fruto evidente de u m a situação de conflito. noutras palavras. pois com isto procuramos evitar cometer o mais sério erro que vicia u m grande número de estudos sobre relações de raças feitos na América. como até então se tem preferencialmente feito entre nós.analisar o p r o b l e m a dentro do quadro total cm que as relações de raças concretamente se estabelecem na área estudada. e especialmente nos Estados Unidos. é um relatório de pesquisas. q u e muitas vezes vem à tona como d e p o i m e n t o dos mais flagrantes que indicam a existência dele. muitas vezes. c o m esse espírito foi escrito c como tal. Ao dizermos que seu escopo é sociológico estamos afirmando. por isto mesmo. em primeiro lugar. poderia servir de exemplo o conhecido estereótipo de que "no Brasil não existe preconceito racial". As implicações deste approach são fundamentais. que estão envolvidas na configuração total considerada e que. o que só é possível fazer quando se tem noção clara das circunstâncias objetivas. e que consiste em considerar que. ainda. não raro. o refúgio cômodo da monografia puramente descritiva ou do ensaio cheio de insinuações e vazio de análises. sem hipertrofiá-lo.

de nossa cidade e do nosso tempo é possível q u e . que. d a capacidade que tem de ser socialmente igual a qualquer outro grupo étnico desde que isso seja sociologicamente possível. antes de continuar a leitura deste livro. devem. vivas ou mortas. que ainda não se curaram da fobia racista e que ficarão desiludidas d e ver que o problema não é aqui tratado. A primeira cfelas foi a discussão frontal a respeito da superada questão de saber se o negro é ou não igual ao branco. de e n c o n t r o à sensibilidade de respeitáveis figuras. Essa posição involuntária e um tanto i n c ô m o d a de cobaias resulta.INTRODUÇÃO 63 É sempre dentro das estruturas sociais historicamente concretas que grupos étnicos diversos entram em relações e sem se compreender ao vivo a correlação interdependente e dinâmica que existe entre as relações d e raças e o contexto dentro do qual se estabelecem pode-se ir. não podiam deixar de ser referidas e analisadas. cumpre-nos agora referir também alguma coisa c o m a qual não nos preocupamos. no impulso. pois não seria possível deixar as bases de nossas sondagens descerem ao nível em que se situa a opinião dos que ainda pretendem que seja levada a sério a noção de que o negro é um ser inferior. ler u m ABC de antropologia e lá se instruírem sobre a matéria. do p o n t o de vista de suas potencialidades genéticas. se acaso estão interessadas em saber o q u e a ciência moderna tem de estabelecido sobre o assunto. da importância que elas têm na fatia d a realidade social que pretendíamos estudar. até ao registro dos fatos. alguma vez os o m b r o s tenham ido. por sua vez. jamais à sua análise e interpretação científica. O que se afirma na já famos'a Declaração sobre a raça exprime o que a ciência tem estabelecido sobre o assunto e isto está implícito no esquema conceituai deste trabalho. q u a n d o se vai. de suas qualidades biológicas. Seestas foram algumas das nossas preocupações básicas n a metodologia desta pesquisa. As muitas pessoas que ainda têm dúvidas sobre o assunto. Enterrando em cheio a mão na vida de nosso País. Esta questão ficou de lado p o r q u e a consideramos já sobejamente resolvida pela história e exaustivamente esclarecida pela ciência. De qualquer sorte se apesar da nossa . inadvertidamente. O s problemas sociais não aparecem c o m o estrelas isoladas: são sempre e n c o n t r a d o s como parte de constelações e só c o m o tais podem ser estudados e c o m p r e e n d i d o s . assim foi que procedemos. por sua relação com o assunto. Se a ciência avança tornando as conclusões de estudos anteriores como pontos de partida para novos estudos.

quanto mais enxergamos dentro dele mais claro nos parece que ele é inesgotável. consistem no nosso despreparo de espírito para prever as fases mais agudas da tensão racial em processo. acaso restou motivo de ressentimento.64' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO preocupação de respeitar a opinião e a dignidade de cada uma. de que os esforços ora feitos já terão alcançado muito se conseguirem apenas contribuir para colocar os e s t u d o s sociológicos sobre as relações de raças no Brasil num plano autenticamente científico. nacionais ou estrangeiros. Por outro lado. o desenrolar da pesquisa nos convenceu de que palmilhávamos um caminho quase virgem e não podia querer derrubar toda a floresta q u e m se dava por muito feliz cm ter aberto uma pequena clareira. Certo ou errado. oprimidos pela pobreza científica dos conceitos com que laboram. apressamo-nos a apresentar as nossas antecipadas desculpas e a garantia mais formal de que a intenção de ferir quem quer que seja não nos passou. Estamos convencidos. julgam se livrar das dificuldades pelo fato de desconhecê-las. o problema do emprego de pessoas portadoras de defeito . provendo conscientemente os meios de seu t r a t a m e n t o esclarecido. pela mente. mais do que ninguém. por exemplo. o que pretendem dizer é que o p r o b l e m a do preconceito ou da discriminação racial entre nós não é igual às feições extremas que assume ou assumiu nos Estados Unidos. outros confirm a m . Na maioria dos casos. não é tarefa para um cientista. uns afirmam. O u t r a preocupação que não tivemos foi a de encerrara assunto aqui tratado. a importância e a significação do problema que constitui o objeto de nossa pesquisa não saltam aos olhos de todos ao seu simples enunciado. Não tivemos a ingenuidade de supor que o assunto ficaria esgotado. Do m e s m o modo. martelando em nossos ouvidos que "no Brasil não existe problema racial". Analisá-lo e compreendê-lo. em nenhum momento. Se procuramos transmitir aos que nos lêem essa impressão e esse estado de espírito é porque estamos convencidos de que um dos efeitos mais sérios e u m a das conseqüências mais características do desembaraço com que alguns observadores. em toda sua extensão e gravidade. é programa para gerações de cientistas e m u i t o nos felicitaremos se os futuros leitores deste trabalho e n t e n d e r e m isso com a mesma clareza com que a cada dia os fatos nos i m p u s e r a m essa verificação. se pretendêssemos estudar. E por não poderem ou não saberem estudar a questão fora desse esquema dicotomizado. na Alemanha nazista ou na África do Sul. Há mesmo os que se dizem fartos do assunto e acham que se devia falar menos sobre ele.

ou que sua importância é m u i t o pequena e não justifica o esforço. Começasse ele a trabalhar. Passando-a em revista. E mesmo o especialista a quem se desse esse tema para pesquisa talvez achasse. D o que ficou dito e do que adiante será verificado. que era o que fundamentalmente nos interessava. de começo. voltasse sua atenção sistematicamente para o assunto. ela nos foi útil principalmente para situar a nossa pesquisa em face dos objetivos perseguidos por aqueles estudos anteriores. que de início parecia tão restrito. a maior parte das pessoas que não têm defeito físico estaria inclinada a achar que há m u i t o s outros assuntos mais importantes carecendo de estudo. logo perceberia a envergadura real de seu objeto dc estudo. A mesma observação se aplica aos estudos citados sobre as relações de raças noutros pontos do Brasil. serviram-nos eventualmente para algumas comparações com a situação de outros países ou. pudesse ele constituir matéria para um estudo sério. que não o olhasse apenas do ângulo do pitoresco. Essa bibliografia. por conseqüência. dizer algumas palavras sobre o procedimento da pesquisa. pode-se concluir quanto foi eventual e aleatório o material que se encontra na biblioteca "afrobrasileira" e que aqui pudemos utilizar para os objetivos do presente estudo. q u e não existe muito material sobre o problema. provavelmente. os inúmeros outros aspectos com que ele está ligado. a meditar sobre as proporções do problema para a sociedade e para os indivíduos diretamente interessados. no Brasil. o que muito nos ajudou no esforço de deslocar o eixo da análise do estudo das "sobrevivências" que resultam das relações de raças para a consideração dessas próprias relações. que vêm citadas nas notas de rodapé ou ao fim do volume. pelo seu valor metodológico. e o material. iria aparecendo em ondas volumosas. principalmente.INTRODUÇÃO 65 físico. Atitude semelhante constatamos em muitas pessoas d u r a n t e a preparação deste trabalho. Cumpre-nos. As referências bibliográficas estrangeiras. que é crescida. onde o negro no passado servia tão bem para trabalhar e para apanhar. agora. que não se advertiam da significação que t e m a questão racial para o Brasil e para o m u n d o e que por não terem jamais assistido ao linchamento de um negro por u m a turba enfurecida não julgavam que. Impõe-se. ao menos do ponto de vista humano. dispensamo-nos de citá-la. . que o leitor assuma diante deste livro um estado de espírito semelhante àquele com que ele foi escrito — senão do ponto de vista científico.

especialmente aquelas escritas por negros que. com negros de diversas condições sociais. mesmo quando apresentadas por intelectuais e como análises de problemas. que tivemos de submeter a rigoroso crivo. assunto em que ele. e já referidas no Prefácio. foram utilizadas por nós como fontes de documentação e não foram integradas ipsis litteris ao texto. Desta forma colhemos abundante material. A estas entrevistas. crônicas publicadas na imprensa negra ou não-negra do Rio de Janeiro. comentários. como depoimentos — o que de resto é não somente legítimo mas também recomendável do ponto de vista da sociologia do conhecimento. embora originalmente preparadas para esta pesquisa. geração e sexo. editoriais. Estas notas. Edison Carneiro. conferências. isto é. utilizamos sempre. níveis de instrução. a fim de não reduzir este trabalho a um mero catálogo das informações recolhidas. que vêm indicadas nas referências bibliográficas. slogans e até a publicidade comercial impressa nos jornais negros. A maior parte delas foi de entrevistas informais. e nelas se baseie q u a n t o aqui vai escrito. em face do escopo desse estudo. discursos. reduzimos sua apresentação ao justo necessário para documentar as hipóteses centrais do trabalho. o que significa dizer que o Dr. legendas. categorias profissionais. com diversos líderes negros. ensaios. feito à luz dos objetivos e d o escopo da pesquisa. Edison Carneiro está isento de qualquer responsabilidade pela interpretação que demos às suas informações. o entrevistado era conduzido a dar seu depoimento e a expor suas opiniões sem ter conhecimento de que elas estavam sendo captadas c o m o material de análise de uma situação . juntaram-se as notas e observações resultantes das visitas e entrevistas que pessoalmente fizemos. procurando sempre descobrir as conotações existentes entre t u d o o que flui da vida social do negro em todos os setores e o quadro estrutural dentro do qual ele está integrado na comunidade metropolitana. sobre dados biográficos e pertinentes às suas atividades à frente do movimento negro no Rio de Janeiro. outra parte consistiu no relato de informações colhidas por ele em entrevistas. especialmente realizadas para este fim. Este crivo também foi aplicado às notas escritas especialmente para esta pesquisa pelo Dr. Aproveitamos do mesmo m o d o artigos. como etnólogo. assim como notas.66' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Foi-nos de grande utilidade a leitura das teses apresentadas ao I o Congresso Brasileiro do Negro. Embora utilizadas. Boa parte dessas notas referia-se a informações sobre aspectos da vida e da organização das macumbas cariocas e das escolas de samba. é notório especialista. clichês.

feitas especialmente para esta pesquisa. cujos n o m e s são aqui omitidos.INTRODUÇÃO 67 social dada. através de sondagens diretas. também. e Túlio Hostílio M o n t e n e g r o . em suma. que ao lado das técnicas formais de coleta de dados e da documentação escrita utilizada e sempre citada nas páginas que se seguem. u m a fonte permanente e infinitamente variada. noticiário da imprensa. fotografias. feitas por meio de testes p a r a análise de atitudes e estereótipos raciais. negaramse a colaborar no estudo científico das relações de raças no R i o d e Janeiro: estas abordagens fracassadas contribuíram para não poucas páginas deste livro. famílias das relações do Autor etc. A todos eles. divulgados em publicações diversas do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística. cujos resultados são apresentados e discutidos no capítulo VI deste livro. Algumas elaborações.observadas d o ponto de vista dos objetivos d a pesquisa. exprimimos aqui os nossos calorosos agradecimentos. por nós solicitados. 2 Escusado é dizer que as esferas predominantemente brancas incluíramse também no campo das observações. especialmente naquelas que fizemos c o m negros de instrução mais elevada. b r a n c o s e pretos. pelos dados estatísticos que nos forneceram. sugestões p a r a leituras. não só o comportamento de indivíduos mas também o f u n c i o n a m e n t o de instituições . . as notícias e os "casos" que sabiam. brancos e pretos.clubes. II. também. G i o r g i o Mortara e ao Dr. àqueles que. u m a m o n t a n h a de documentação que nos e n c h e u páginas e páginas de cadernos de notas. finalmente. consistiu na participação consciente. I V e V da Parte Primeira são dados oficiais. bem como ao Prof. verbalmente ou por escrito. Os dados estatísticos elaborados nos capítulos I. obras de assistência social. nos trouxeram. as informações de que dispunham. e. recortes de jornais. que vêm citadas no texto e nas referências bibliográficas. os seus depoimentos. espontaneamente o u a nosso pedido. Estes agradecimentos se estendem a todos quantos. ou líderes e dirigentes do movimento n e g r o . noutras. experiências pessoais sobre mil situações concretas e vividas. aos quais. Escusado é dizer. M a n u e l D i é g u e s Jr. devêmo-las à gentileza e cooperação dos Drs. registramos nossa p r o f u n d a gratidão. III. interessada e cientificamente alertada d o cientista . repartições. indicações bibliográficas. Os mesmos agradecimentos n ã o p o d e m ser negados. Ernani Thimóteo d e Barros. de onde fluiu boa parte do material aqui apresentado e interpretado. os nossos objetivos eram inicialmente expostos e toda apreciação do material recolhido foi feita levando em conta esse detalhe. escolas.

em última análise. Foi para nós de extraordinário valor científico a participação como observador. Experiências como aquelas e f o n t e dc documentação tão rica e tão direta. v. na maioria dos casos. T e n d o assistido a quase t o d a s as suas reuniões e tendo. (1949). e "tomar consciência do processo histórico que se desenrola em t o r n o de si". por vocação e por profissão. é. o que <?'. e n c o n t r a m o s . o papel d e u m a grande "mesa-redonda" em q u e u m a elite negra expôs e discutiu seus problemas. n . Chame-se isto de insight. 3 4 . duvidar metodicamente do que a outros parece óbvio. 9 e ss. toda gente a vive. para o estudioso. u m a fonte permanente e insubstituível de elementos que ele procura. sim. fazer sua análise e sua crítica.68' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO na situação social que lhe coube estudar. assumir dentro delas diferentes papéis. cumpre ao sociólogo observá-la. especialmente. por escolha da assembléia. presidido as duas primeiras. a l g u n s problemas do negro-massa e do povo brasileiro em geral. votou sua vida ao estudo científico das relações humanas . e m a i s agitadas.para q u e m .. O conclave nada teve d e c o m u m com os anteriores congressos "afrobrasileiros" e representou. o que se . o artigo A questão racial e o m u n d o democrático. 2 Boletim Internacional de Ciências Sociais da UNESCO. coleções inteiras de documentação secundária. observação participante ou de qualquer o u t r o nome. devemos a essa experiência a possibilidade de ver ao vivo o desenrolar dc uma fase decisiva do processo social cuja análise é o objeto central desta pesquisa. o estudo científico da vida cotidiana. o fato é que . p. trabalhar com hipóteses que incidam nas fronteiras entre o conhecido e o por conhecer . e observar. substituem. enterra em cheio a mão na vida h u m a n a . pois ali encontramos desejaria que fossem as relações de raça neste País. sessões ordinárias. I. Mergulhado nela. na bibliografia c o r r e n t e sobre a situação racial brasileira. Notas ' C f . mas p o u c o s a conhecem. Verstehen. para o cientista social. n o s trabalhos do I o Congresso do Negro Brasileiro. na verdade.participar deliberadamente d e determinadas esferas destas relações. reunido no Rio de Janeiro em agostos e t e m b r o de 1950.. sua última c o n t r i b u i ç ã o científica. pois sociologia é.e fazer o que o gênio de Goethe pôs na boca de seu personagem: .

Parte Primeira A SITUAÇÃO RACIAL .

97 41.1<i .i pupuluç.88%. de m o d o geral.63 1940) 63.oi»|>ld.59 3.31 3 L 26. Do ponto de vista da composição étnica. que representavam. enquanto que os de cor diminuíram de 61. na primeira data.2')L 2.11 42. SEGUNDO A COR. que tem aumentado sua quota sobre a população total.i<li>.206.302. 6.426 1890 43.índices diferenciais de natalidade c m o r t a l i d a d e Significação sociológica d o s d a d o s analisados. 1 N o Q u a d r o I vê-se que entre 1872 e 1940 os brancos.CAPÍTULO Demografia C o m p o s i ç ã o é t n i c a da população do Rio de Janeiro —Evolução da representação dos grupos de cor .11% da população.DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO EM DIVERSOS CENSOS.1i> haviam Miln (nililii iiilns <|ii.53 21. 38.853.043. I M I C Í M . QUADRO I .1 cor <l.1 H O O* ilmlits Militr a <-<>iii|iasiv.576 K:/V>MÍ. a tendência d o m i n a n t e na população brasileira t e m sido.262JOH 1 .440 4. ii. BRASIL 1872-1940 População recenseada Cor Dados absolutos 1872 Branca 1'arda Preta Amarela NIMÍI: Percentagens • 1940 1872 38.89% para 35.inili> esle rviiiiln liii i. cm IVSO.lo I I I .198 '). no sentido do crescimento da parte branca da população. em virtude do crescimento m e n o s acelerado da quota dos não-brancos.74 1890 6.65 0.') )4.w|>mnlo .23 14.52%.") )6. passaram a 63.1 5 19. nestes últimos setenta anos.1.542 24.Sexo e idade . .40 14.097.

noutras regiões do País. milita a maior natalidade da população de cor . a parte branca da população. de um maior incremento natural em conseqüência dos índices de mortalidade também mais elevados dos grupos não-brancos. em que o contingente de população branca d i m i n u i u ligeiramente. A completa indeterminação dos critérios censitários. pela influência ponderável e permanente q u e têm tido. na maioria dos casos. ou deseja. no mesmo período. entretanto. Espírito Santo. c) a passagem dos pardos e dos pretos à condição de brancos. 2 Contra aqueles fatores. advirta-se. aconselha. São Paulo. Entre eles podem ser ressaltados. os seguintes: a) a contribuição trazida pelos imigrantes. por conseqüência. não tem sido uniforme em todas as regiões do território nacional. que vêm aumentar. Rio de Janeiro. todos atuando no mesmo sentido. consistiu na diminuição registrada em todas as unidades.48% da população total. Pará. Rio Grande do Sul. há unidades federadas em que o crescimento da quota de brancos foi muito diminuto (na Bahia ela passou de 24 para 2 9 % no período considerado). Minas Gerais. embora claramente definida. que é igualmente arbitrária a discriminação entre pardos e brancos pois todas essas classificações. A marcha do fenômeno. A quota de pretos diminuiu nos Estados de Santa Catarina. mas sem conseguir alterar suas conseqüências. quanto aos pardos. com exceção da Bahia.3 Por outro lado. Mato Grosso. aumentou nas demais unidades.mas isto não tem sido razão bastante para modificar o sentido da tendência secular. encará-los em c o n j u n t o para a maior parte das elaborações estatísticas. 7 9 % para 43. c o m o fator extremamente importante. e outras ainda. em conseqüência da constante e profunda mestiçagem que se vem historicamente operando no Brasil entre os grupos étnicos que aqui coexistem. no que se refere à discriminação entre esses dois grupos. c o m o o Rio Grande do Norte. só refletem a opinião do recenseado sobre o g r u p o étnico no qual ele julga. A prevalência da população branca sobre o total da população brasileira.72' O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Esta tendência à diminuição dos grupos de cor na massa demográfica do Brasil resulta de diversos fatores. Bahia e no Distrito Federal. inclusive. que resulta. . b) as taxas de mortalidade relativamente maiores dos pardos e pretos. Para os estados do sul do País é q u e se têm dirigido as maiores ondas de imigração exterior c isso contribui. para o maior crescimento relativo da q u o t a de brancos na região meridional do Brasil. estar incluído. Paraná. passando de 4 3 . quase que exclusivamente.

13% para 1 2 . prevaleceu t a m b é m a tendência geral notada no País n o sentido do aumento progressivo do contingente de brancos no c o n j u n t o da população. a composição étnica do Distrito Federal.13 20. na Capital da República.30 17.00 E n q u a n t o que a proporção dos brancos passou. Vejamos agora. Dos dados atrás apresentados verifica-se que.00 1950 69. projetada sobre esse f u n d o .00 100. a p o p u l a ç ã o do Distrito Federal .71 12.00 55.31 17. largamente esboçado.50%/ Apesar de seguir a tendência dominante até 1940 e apresentar um aumento progressivo da quota de brancos. entretanto. de 2 0 .79) — 24. no m e s m o período. aprofundar aqui este aspecto d o estudo da situação racial brasileira. especialmente q u a n d o somos pessimistas a respeito d a possibilidade de serem encontrados outros critérios biológicos absolutamente objetivos q u e permitam uma exata classificação dos grupos étnicos.31 (28. 8 6 % .80) 0. diminuiu de 24. 3 0 % e a dos pardos.21% para 6 9 .DEMOGRAFIA 73 Q u e isto t e n h a relevante valor sociológico. E o que se destaca n o Q u a d r o II: QUADRO I I - EVOLUÇÃO DA POPULAÇÃO.94 (37. de 55.09 0.66 (44.50 (29.62) 0.34 1 1940 71. objeto específico de nossa análise. 6 6 % para 17. DISTRITO FEDERAL - 1872-1950 Distrito Federal Cor Censos (%) 1872 Branca Preta Parda (Preta e Parda) Amarela Não declarada TOTAL 1890 62. entre 1872 e 1950.10 11.28) — — — 100.21 24.04 0. a dos pretos. SEGUNDO A COR.86 12. Não seria possível. POR CENSOS. n i n g u é m p o d e duvidar.30 100.19 100. nem mesmo desejável.

Esta predominância. As análises preliminares que se vão seguir visam demonstrar esse fato. de ordem econômica e sociológica. de u m a situação particular ao Rio de Janeiro. para colocar e m bases objetivas. entretanto. em seus principais aspectos. sobre a situação das categorias étnicas que aqui vivem e sobre o tipo de relações que entre si mantêm. que teremos adiante de analisar. sendo inferior à média nacional. de m o d o direto. DISTRITO FEDERAI. o que se reflete.00 829.790 O que primeiro se observa ao analisar esses dados é que. Acresce.146 130. a quota dos brancos aqui encontrada é menor do que a de todos os estados da Região Sul.30 100.35 17.309 190.425 1.06 0. que aqui se concentram e multiplicam.215 216. que decorre da circunstância de aqui estar um centro industrial importante e a maior concentração urbana do País. o contingente de cor. os termos da questão.30 100. Embora superior à média nacional. SEGUNDO A COR. QUADRO 111 POPULAÇÃO POR SEXO.85 0.48 13.701 1. 5 .153. portanto.00 absolutos 831. n ã o é c o m u m a todc os grupos: entre os amarelos. servem.86 11.661 % 68. é que principalmente resultam os traços particulares da situação demográfica e da composição étnica da comunidade metropolitana. que se retrata visivelmente na composição demográfica da cidade.02 0.725 332 3. por outro lado. entretanto.49 0. sua fisionomia demográfica e sociológica. as mulheres constituer maioria sobre o total. à encontrada nos mesmos estados.74 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO revela no período considerado uma evolução que segue linhas peculiares. a circunstância de ser o R i p de Janeiro a sede pletórica de órgãos.210 700 3. ainda. com geralmente acontece nas grandes aglomerações urbanas. repartições e serviços oficiais e privados.29 16. Trata-se. campo definido de nossa pesquisa. excede. - 1950 Homens Cor Dados absolutos Brancos Preto Pardos Amarelos Não declarada TOTAL Mulheres Dados % 71. acentuando os aspectos específicos de. por outro lado.688 162.214. os homens constituem contingente maior. N o Q u a d r o III temos a população do Distrito Federal discriminada por grupos de cor e por sexo. Desses dois fatores.

Estado do Rio. O s estados mais próximos. reciprocamente. não teriam dúvidas em se declararem de cor. Écerto que determinado n ú m e r o dos que. maior a prevalência masculina nas correntes demográficas que se deslocam. contribuem predom i n a n t e m e n t e com população feminina. em geral. nas respectivas c o m u n i d a d e s de origem. pois este seria o ú n i c o meio direto de se obter informações sobre o caráter seletivo ou . nas migrações. a apuração censitária desprezou este aspecto. nas correntes de migrações internas. que convergem de vários pontos do território nacional para a metrópole. Vejamos. revelam. Nesse segundo tipo se incluem as migrações que das zonas rurais dos estados vizinhos ou próximos demandam a cidade do Rio de Janeiro. naquelas que têm origem em regiões mais distantes. discriminandose p o r sexo. e n q u a n t o que os homens. que apresentam altas quotas de população rural que se desloca para o Distrito Federal. como Minas. neles encontramos o saldo residual das trocas de populações processadas anteriormente àquela data. em primeiro lugar. é nítida a predominância masculina.DEMOGRAFIA 75 A superioridade feminina nos grupos d e população não-branca no Rio d e Janeiro . o papel qtte têm as migrações internas na c o m p o s i ç ã o étnica da população cio Distrito Federal. Espírito Santo. nos deslocamentos a curta distância. 6 N ú c l e o urbano e industrial em expansão. constituem a maioria dentre os que provêm de regiões mais 'afastadas da Capital d o País. quanto maior a distância. É sabido que. especialmente os dois primeiros. seria de grande valor a discriminação pela cor dos nascidos num ponto do território nacional e residentes noutro. mas apesar do caráter de aproximação que t ê m todas essas indicações. T o m a n d o por base os habitantes nascidos noutras unidades da Federação e residentes n o Distrito Federal em 19Í0. especialmente naqueles de caráter rural-urbano.excetuados os amarelos — parece resultar de dois fatores de primordial importância: a) a maior mortalidade masculina entre os de cor e b) a alta representação de mulheres de cor. N ã o existem informações quantitativas q u e nos permitam uma visão do caráter etnicamentc seletivo dessas migrações interiores. quando discriminadas pelos sexos. o Distrito Federal tem atraído fortes correntes de migração interior e estas. caracteristicamente. em regra. aqui talvez preferissem clarear seus matizes. costumam predominar as mulheres. vê-se confirmado o padrão a que acabamos de nos referir. o seguinte: nas migrações que partem das zonas rurais mais próximas as mulheres constituem maioria.

a indústria têxtil. Dessas e outras circunstâncias resulta que o Distrito Federal apresenta u m a composição étnica que discrepa. pelos escritórios e pelas repartições públicas são fatores inerentes ao núcleo urbano que influem de modo decisivo no atrair população de cor. do padrão dominante no sul do País. notadamente feminina. por exemplo. Nas idades senis. diferença parcialmente compensada pela maior mortalidade destes. que representa um numeroso r a m o de ocupação feminina no Distrito Federal e na qual as operárias dc cor comparecem com índices elevados.76 O NEGRO N O R I O DE JANEIRO não. nessas migrações que do interior se ciirigem para a área metropolitana d o Distrito Federal. população adulta e ativa que aflui à comunidade metropolitana em busca de emprego. Apesar dos "erros de envelhecimento" tão freqüentes nos velhos. sociológicos e demográficos que têm historicamente influído para o crescimento do Distrito Federal. A esses fatores alia-se. em Santa Catarina ou no Paraná. Assim como a composição p o r sexos e em conseqüência dos fatores econômicos. mais fraca ainda entre os brancos do que entre os de cor. no qual as mulheres de cor constituem a maioria. é relativamente elevada a quota de habitantes de cor. que acaso t e n h a m as migrações internas sob os diferentes grupos étnicos. d i m i n u i a proporção dos pretos no c o n j u n t o da população em conseqüência da maior mortalidade neste grupo. para aumentar a quota dos brancos. u m característico geral das populações urbanas que é a fraca natalidade. parece resultar . o caráter mais impessoal das relações sociais na vida u r b a n a é fator que contribui. pela maior presença de elementos de cor. as oportunidades abertas ao trabalho feminino pelos serviços. ainda. como se verá em mais de u m a passagem deste trabalho. o serviço clomcstico. por fim. e ainda mais freqüente nos de cor. Estamos fortemente inclinados a tomar como bem fundada a hipótese de que. para que muitas pessoas de cor procurem numa comunidade maior meios de ascender na escala social. Aqui não só a imigração contribuiu relativamente menos do que. e. segregador ou dispersivo. ao lado dos demais. Por outro lado. mas também essa influência foi contrabalançada pelos contingentes de cor que entram por via das migrações internas. a fraca representação destas idades mais avançadas.3 9 anos. Em todos eles destaca-se o grupo de 2 0 . t a m b é m a composição por idades dos diversos grupos étnicos apresenta u m a distribuição muito característica. além de ser um característico c o m u m às populações urbanas. Disto existem indicações circunstanciais m u i t o seguras. especialmente a mortalidade masculina.

COMPOSIÇÃO DOS GRUPOS ÉTNICOS. a hipótese de que é bastante significativa a influência das migrações internas para aumentar a representação das mulheres de cor em idade ativa no conjunto da população.606 23.199 19.698 20.810 21.828 16.723 12.341 21.060 667 216. por outro lado.868 79.429 78.957 68.69 70 .652 2.510 26.936 2. S E G U N D O A FAIXA ETÁRIA.851 20.260 81.282 20. QUADRO I V .802 12.356 131.059 831.088 Homem 16.800 829.395 90.862 779 308 455 130.434 10.745 4.947 87.734 9.447 34.090 39.864 1.491 25.149 984 255 527 199.896 22.140 687 162. DISTRITO FEDERAI.742 16.088 70.097 15.981 79.207 2.226 65.049 69. Entre as mulheres essa .398 15.24 25 .215 Homem 26.672 132. Esta situação. como os "erros de envelhecimento" são mais f r e q ü e n t e s e n t r e os pretos.567 1.191 21. em todos os três principais grupos étnicos os homens de 2Ç>-29 anos estão em maior número do que os de 10-19 anos.340 6.511 5 .872 98.256 30.429 21.9 10 15 14 19 69.29 30 .768 5. Branco Idades Homem 87. Neste caso.154 10. De fato. POR SEXO.479 18.015 1.59 60 .DEMOGRAFIA 77 evidentemente da maior mortalidade dos homens de cor.79 80 e mais Idade ignorada TOTAL Analisada mais de perto a pirâmide das idades da população carioca discriminada pela cor. mais uma vez.309 Mulher 16.107 1.729 6. fato q u e está diretamente ligado ao status econômico e social inferior q u e o c u p a m n a estrutura social. Pardo 20 .210 Mulher 25.161 24.931 66.49 50 .265 16.126 Mulher 85.899 13.831 20.464 12.818 12.042 2.555 13. fica invertida se c o n s i d e r a r m o s a proporção dos habitantes em idaoe senil em cada grupo étnico ( Q u a d r o IV).725 Preto .39 40 .292 14.319 105.015 20. parece confirmar-se. estes comparecem com maior representação.038 5.282 31.

aparecem como um processus. da análise das tendências de fecundidade nesses grupos. em 1950 manteve-se a mesma tendência ao aumento da proporção dos brancos com o subir da idade. em busca de ocupação nas indústrias e no serviço doméstico no Rio de Janeiro. E m conseqüência dessa correlação inversa — descontando-se a maior freqüência de "erros de envelhecimento" entre os pretos — ocorre que. A despeito das deficiências das estatísticas vitais e dos dados do registro civil. nas classes sociais em que as práticas restritivas de natalidade estão mais difundidas. sua parte de responsabilidade na diversa composição por idades dos grupos étnicos no Rio de Janeiro. elas têm maior probabilidade de sobreviver. Assim é que a menor proporção de brancos em idades infantis e juvenis . os brancos constituem esmagadora maioria. o que tudo indicava ser conseqüência do êxodo de moças desta cor. na medida cm q u e avançam as idades. q u a n d o observadas desse ângulo.78 O NEGRO N O RIO D E JANEIRO predominância só se encontrava em 1940 entre os pretos. característica conhecida e m todos os países de estrutura social . o que por sua vez acontece não em função de característicos antropológicos mas exclusivamente porque. tende a aumentar a q u o t a dos brancos. elas têm maior probabilidade de morrer. das zonas rurais adjacentes. O s índices diferenciais de natalidade e mortalidade têm também. As situações demográficas. A menor mortalidade dos brancos e a maior mortalidade dos pretos resulta cm que. 6 9 % no grupo de 0-19 anos para 7 9 . na sua evolução. já em 1950. têm sobre a organização da sociedade q u e originalmente os engendrou. com nitidez.0 a 19 — parece evidentemente resultar da mais fraca taxa de natalidade neste grupo. bem c o m o seus fatores e conotações sociológicas. transparecem. prefiguram a ação reversível que os fenômenos demográficos. O estado e a dinâmica dos diferentes grupos étnicos que compõem a população do Distrito Federal. naturalmente. e n q u a n t o que embora nasça um maior n ú m e r o de crianças pretas. É pois u m excelente instrumento de pesquisa sobre os aspectos sociológicos das relações interétnicas o que encontramos na análise das taxas diferenciais de reprodução dessas populações. também entre as mulheres brancas. 2 7 % no de 60-79 anos em 1940. que passa de 6 8 . especialmente do Estado do Rio de Janeiro e de Minas Gerais. imediatamente ligado à estrutura social que o condiciona e. o grupo de 20-29 excedeu o de 10-19 anos de idade. ao mesmo tempo. naquelas idades de 20-29 anos. embora nasça um menor n ú m e r o de crianças brancas.

38 14.46 100. representa.68 0.00 Sobre o t o t a l dos filhos n a s c i d o s vivos ( % ) 63. para o crescimento demográfico do País. ou seja. o que tudo decorre. 8 Todos os grupos étnicos que formam a população brasileira participam com intensidade aproximadamente igual.00 21. ao lado da China. N o Q u a d r o V se incluem os dados essenciais para uma visão geral do c o m p o r t a m e n t o dos principais grupos étnicos n o que se refere à fecundidade. que discrepam bastante da situação nacional. 7 pode-se afirmar c o m segurança que a população do Brasil se singulariza por sua alta natalidade: nosso País. os índices de fecundidade e prolificidade na população quase t o t a l m e n t e urbana do Rio de Janeiro se destacam com características bastantes peculiares. e t a m b é m alta é a prolificidade dessas m u l h e r e s .00 Brancas Pardas Pretas Amarelas TOTAL Sobre esse f u n d o da situação demográfica do País em c o n j u n t o .51 100.34 0.FECUNDIDADE E PROLIFICIDADE EM MULHERES E FILHOS NASCIDOS. em conseqüência de seu tipo. SEGUNDO A COR. um dos grandes focos nacionais de reprodução demográfica d o m u n d o moderno. cujo movimento e tendências refletem a predominância da parcela de população rural no Brasil. em função de fatores sociológicos e não étnicos. em todos eles é bastante elevado o contingente de mulheres q u e c o n t r i b u e m para a reprodução.' QUADRO V . proporcionalmente à sua representação absoluta na população.15 15. a fecundidade no Rio de Janeiro é m e n o r . p o r excelência .48 21. B R A S I L 1940 Cor Sobre o total das m u l h e r e s de 15 anos e mais idade (%) 63. da índia e da União Soviética. Corno ficou dito. como foi provado. por assim dizer.DEMOGRAFIA 79 e nível educacional semelhante ao nosso. em comparação às médias nacionais.

E desse p o n t o dc vista o que se observa é que.0 Pretas (a) 224. DISTRITO Filh D tidos.5 Pretas (c) 441. verificase que a uma proporção maior de mulheres brancas prolíficas. A menor fecundidade das mulheres brancas e relativamente maior das pretas e pardas resulta ainda evidente quando analisamos a variação da quota de mulheres prolíficas nos diversos grupos de cor (índice b). de acordo com os d a d o s censitários.0 entre as pardas. por 100 mu heres S de 15 anos e mais de idade Em geral 224. o número médio de filhos tidos por cem mulheres de 15 anos e mais de idade (índice a) é de 223. as mulheres pretas e pardas.5 Brancas 56.9 entre as pretas. do total de mulheres de 15 anos e mais de idade. embora sem diferenças notáveis. que tive ram filhos nascido vivos Em geral 403. que assim se colocam em ordem crescente de fecundidade. nascidos rivos.8 N o t a : Cf. estas mais do que aquelas. nascidos vivos. •— cit. corresponde . urbano. Ela indica que.8 entre as pretas e 229. Comparando-se esses dados com os anteriores. O que nos importa aqui.3 Brancas 223. e n q u a n t o que as brancas se colocam um p o u c o abaixo da média. que.1 Pardas 229. Isto significa.3 Pretas (b) 50. noutros termos. de comunidade.1 entre as mulheres brancas.8 Brancas 393.80 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO QUADRO V I FEDERAL FECUNDIDADE E PROLIFICIDADE SEGUNDO A COR.3 entre as pardas e para 50.7 Pardas 54.8 Proporção das mulheres que tiveram filhos nasc idos vivos por 00 mulheres de 1 5 anos e mais de dade Em geral 55. a proporção das que tiveram filhos vivos é de 55.7 entre as mulheres brancas e descendo para 54. subindo p a r a 56.5 em conjunto. entretanto.9 Filhos tidos. é a análise comparada entre os diversos grupos étnicos (Quadro VI).3 Pardas 421. Estudos sobre a fecundidade etc. em cada grupo de cem mulheres de 15 anos e mais de idade. têm uma taxa cumulativa de fecundidade acima da média. 224.

no primeiro caso. de taxas diferenciais de fecundidade e de prolificidade características. aqui. a queda da natalidade . porém. independentemente de fatores antropológicos. a menor fecundidade das mulheres brancas comparadas c o m as mulheres pardas e pretas. daí resulta. que são igualmente sociológicas tanto as razões que explicam.com inteira independência d o fator étnico. Parece não haver dúvida de que a menor prolificidade das mulheres brancas em comparação com as de cor resulta da identificação desse grupo com as camadas sociais superiores.DEMOGRAFIA 81 um número menor de filhos tidos. Isto significa. cuja prova e significação adiante será mais l o n g a m e n t e demonstrada. essas camadas são predominantemente brancas. Neste caso consideram-se n ã o mais as mulheres em geral mas aquelas que tiveram filhos. n o Distrito Federal. As taxas diferenciais de fecundidade dos grupos étnicos p o d e m ainda ser apreciadas de o u t r o m o d o . d e populações rurais e urbanas e. enquanto que o g r u p o preto se situa preferencialmente naquela camada social que é. considerando o índice c do Q u a d r o V I . Trata-se. a menor fecundidade das mulheres do Distrito Federal comparadas com as dos outros estados. quanto. no segundo caso. noutros termos. a dos proletarii.como de resto se tem observado em todas as populações — começa pelas camadas superiormente colocadas na "pirâmide social". Esses fatos. O caráter urbano da população do Rio de Janeiro afeta a natalidade de toda sua população. em q u e a restrição voluntária dos nascimentos é mais difundida. em todos os grupos étnicos. se as taxas de mortalidade infantil não sacrificassem mais os grupos de cor. tenderiam a ser decisivos na composição étnica d a população do Distrito Federal. quando comparada c o m a dos demais estados onde a população rural predomina. 10 . a u m e n t a n d o expressivamente a representação dos grupos de cor (na hipótese de ela depender apenas do incremento natural). como. no Brasil. que as mulheres brancas refletem em primeiro lugar e mais intensamente a d i m i n u i ç ã o da natalidade. nas quais ocorre com mais freqüência a restrição voluntária d a natalidade. enquanto que entre as pretas e pardas a uma menor proporção d e mulheres prolíficas corresponde u m n ú m e r o maior de filhos. entre a proporção de mulheres prolíficas e o número de filhos tidos por essas mulheres. traduz a diferença de fecundidade entre as mulheres dos diversos grupos étnicos e resulta do fato de o grupo branco se confundir c o m as camadas de status superior. Na população do Distrito Federal. no mais completo sentido da expressão. Essa correlação inversa. em última análise. de classes sociais superiores o u inferiores .

82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO As variações observadas através das gerações indicam. podemos agora encarar o problema da natalidade.21 . Em relação ao quadro nacional é baixa a taxa de natalidade no Rio de Janeiro.23 98.53 24. por sua vez. A variação d a fecundidade entre as mulheres dos diversos grupos étnicos no Distrito Federal parece ser.45 (89. que as diferenças encontradas na fecundidade dos diversos grupos de cor são mais acentuadas nas gerações mais novas. por exemplo.000 mulheres de 15 a 49 anos) 83. 1 2 Considerando per se os diversos grupos de cor notamos nítidas divergências nas respectivas taxas de natalidade. pois nas idades de 50 anos e mais as diferenças entre as brancas e pardas.000) habitantes Fecundidade (1.82) 27. embora possa ser considerada alta em relação ao quadro internacional: 24.95) 108. SEGUNDO A COR. e n q u a n t o que nas idades de 35 a 39 anos a variação é de 268 entre as brancas para 342 entre as pardas.000 no período 1939-41. que àquele está estreitamente relacionado (Quadro VII).74 28.12 (27.29 85.TAXAS DE NATALIDADE E DE FECUNDIDADE. DISTRITO FEDERAL 1940 Cor Natalidade (1. portanto. variam dc 439 para as primeiras a 414 para as segundas.91 26.37 78.21 por 1. fenômeno relativamente recente." Tendo em mente essas informações gerais sobre a fecundidade dos diversos grupos étnicos no Distrito Federal. como se constata no q u a d r o abaixo transcrito: Q U A D R O V I I .36 Branca Parda Preta (Parda e preta) Amarela TOTAL 22.

que a fuga ao registro civil é maior entre a população de cor do que a branca. DISTRITO FEDERAL 1939-1941 Cor Branca Parda Preta (Parda e preta) TOTAL Taxa de mortalidade (por 1.38 240. q u a n d o em verdade é precisamente o contrário que acontece. QUADRO V I I I . prova indireta do nível educacional nitidamente inferior em que os de cor permanecem. atingindo 227 por 1. c interessante notar que essa retificação inverte a tendência do f e n ô m e n o .e aqui. primeiramente. E portanto o baixo nível econômico e social das massas de cor do Distrito Federal — ou das classes a que pertencem cm sua maior parte . Vê-se no quadro que nasce um maior número de crianças brancas do que de cor.TAXAS DE MORTALIDADE NO PRIMEIRO ANO DE VIDA.000 crianças brancas e que esse índice quase se duplica para as crianças de cor.000 nascidos. por essa forma. a taxa de fecundidade por mil mulheres é expressivamente maior para as de cor do que para as brancas. que em relação ao número de mulheres em idade fecunda de cada grupo étnico. que. mais uma vez. foi preciso retificá-los à luz dos resultados censitários.000 nascidos vivos) 123. se nos limitamos a considerar os deficientes dados do registro civil. Esta messe de nascimentos de crianças de cor é infelizmente ceifada em alta escala pela mortalidade infantil . por o u t r o lado.24 .DEMOGRAFIA 83 Notemos. expressas no Q u a d r o VIII. indicando. em face da "absoluta inverossimilhança" dos dados registrados.60) 159. e são os dados retificados que aqui se apresentam.41 (227.73 204. vê-se t a m b é m . As taxas diferenciais de mortalidade infantil. de que a natalidade dos preços e pardos no Rio d e Janeiro é menor do que a dos brancos. entretanto. revelam de modo lamentavelmente significativo que morrem antes do primeiro aniversário 123 sobre 1. SEGUNDO A COR.o que dá a impressão. a população de cor paga o doloroso tributo da posição inferior que ocupa no sistema de estratificação social da comunidade metropolitana.

A justificação deste p r o c e d i m e n t o . Esses grupos de cor representavam.s e nos próprios critérios referidos n a s f o n t e s censitárias consultadas. a maior parte deles integrando as camadas mais pobres da população. Estatística 2 Demográfica. q u e incluem os diversos tipos d e mestiçagem encontrados n o Brasil.84 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Chega. calculou em 4 milhões a quota de transferência . nas declarações censitárias. 1950. 11. a d o t a n d o hipóteses e estimativas baseadas c m dados dc pardos dos censos d e 1 8 7 2 c 1840. n. O P r o f . cm 1950. mais de meio milhão de habitantes do Distrito Federal. em conseqüência das baixas condições econômicas e culturais em que vive esse setor da população na Capital do País. especialmente. a 20—25% a quota de crianças pretas e pardas que falecem antes de completarem o primeiro ano de vida. G i o r g i o M o r t a r a . portanto. serão repetidamente justificados. p o r motivos que. . pretos e pardos. IBGE. C f . Estudos sobre a composição da p o p u l a ç ã o d o Brasil segundo a cor. cujas condições de vida estão nesses ciados diretamente refletidas. estão s o m a d o s aqueles que. no correr destas páginas. Ver-se-á q u e muitas vezes.CIASSE E RAÇA N O R I O DE JANEIRO População total 100 População ativa Empregados Empregadores C O 50 H t < tN o C O C N co • 1 Brancos De cor Notas Nestas elaborações nosso interesse está concentrado sobre os c o n t i n g e n t e s de brancos. GRÁFICO I . os pretos aos pardos. e n c o n t r a . aos pardos. preferimos falar d o s " g r u p o s de cor". Só e v e n t u a l m e n t e nos referiremos aos a m a r e l o s o u a quaisquer outras discriminações. P o r o u t r o lado n a maioria dos quadros que se vão seguir. somando. figuram sob a rubrica "de cor não declarada".

segundo a q u a l o problema racial americano desapareceria no f u t u r o cm conseqüência do " b r a n q u e a m e n t o " progressivo da população dc cor. representam.. os brancos. n o s decênio 1930-1940. 3 A i n f l u ê n c i a das migrações externas no a u m e n t o d a quota dos brancos e circunstância q u e . a figurar c o m o b r a n c o s . É provável que isso a c o n t e ç a pela queda da mortalidade q u e foi observada e que beneficia p r i n c i p a l m e n t e as classes sociais cm que os de cor se c o n c e n t r a m . op. decorre de um postulado explícito na projetada legislação que regulará o a s s u n t o . H . W . E. W. Eckard. 6. d e 32. Já n o ú l t i m o censo de 1950 observase u m a d i m i n u i ç ã o relativa da quota de brancos c o m p e n s a d a p o r u m aumento proporcional da representação d o s de cor. 8 0 % . flagrantemente m e n o s d o que a estimada para o Brasil. 6 9 . aug. John Soe. v. cit. sc somente o pasúng fosse solução p a r a o problema racial americano. Entre 1 9 4 0 e 1 9 5 0 os pretos aumentaram de 4 6 . Escusado é dizer que a nossa a s c e n d ê n c i a histórica é muito menos exclusivamente européia do que o texto do projeto parece supor. e n q u a n t o que os de cor aumentaram a respectiva q u o t a . conclui-sc ter sido aproximadamente de 59 mil por a n o o índice de passing entre esses dois g r u p o s naquele período..20% na q u o t a d o s b r a n c o s é quase coincidente com o a u m e n t o d e 1.. a tendência ao b r a n q u e a m e n t o é u n i f o r m e cm curva ascendente. 1947. 1. 71. W .. M a y . em 1 9 5 0 . 4 Se c o n s i d e r a m o s o período que decorre e n t r e 1 8 7 2 e 1940.DEMOGRAFIA 85 e seus d e s c e n d e n t e s para o grupo branco no Deríodo q u e decorreu entre aquelas duas datas (cf. Rcv.29% verificado na quota dos de cor m a i s os de cor não declarada.10% da p o p u l a ç ã o carioca. 13 n.. . p. Nos Estados U n i d o s . Parece lícito supor. of Social. Is l h e a m e r i c a n negro bccaming ligther? Amcr.. aliás. Aceitando-sc cssaestimativa. permanecendo iguais os d e m a i s fatores das migrações internas q u e sc dirigiam à Capital da República vindas d o interior. q u e representavam. especialmente dos pretos. 4. 3 8 ) . p. 6 1 % . 437 c ss. Kcphart. LI1. o que nos i m p e d e d e verificar se a mesma tendência ocorre n o â m b i t o nacional. E m b o r a os brancos se apresentem como parcela m a i o r em 1940 e em 1950. N ã o se d i v u l g o u ainda o resultado definitivo das a p u r a ç õ e s sobre a composição étnica da p o p u l a ç ã o geral do Brasil em 1950. 1946. já que a mortalidade parece ter d i m i n u í d o principalmente cm função de m e d i d a s de saúde pública e higiene social. Cf. T h e M c a s u r c m c n t of negro "pass" id. que o a u m e n t o da representação proporcional dos pretos n a população do Distrito Federal é u m a conseqüência direta. e m 1940. 1948. pois os brancos. Burma. neste ú l t i m o decênio sua superioridade relativa d i m i n u i u e m relação aos de cor. n. pois ela tem como um dos seus objetivos d e f e n d e r a nossa "ascendência européia" (!).41% e os pardos de 3 6 . 18 c ss. p. jul. A diminuição de 1. ter-se-ia q u e esperar 6 mil anos por essa solução. Jour. The Am. no mesmo período. s e g u n d o os cálculos dc E. H o w many negrões "pass". p.600. dc 2 8 . Ecknrd. 6 2 % para 2 9 . 1 8 % . E s t e ú l t i m o artigo í um comentário crítico à opinião dc Ralph Linton. o que significa uma quota a n u a l cie transferência de 2. entretanto. D a análise d e Kcphart o argumento de Linton resulta insustentável pois. 4 9 8 e ss. em cujas correntes os elementos d e cor estão fartamente representados. M. segundo d e m o n s t r o u Eckard. 26 mil pessoas c o m p u t a d a s c o m o colored passaram por miscigenação e "branqueamento". n. 8 0 % .

a de número 137. Magrassi. Costa Pinto. A. L.. Em 1940. embora o n ú m e r o de homens brancos já seja menor do q u e o d e mulheres da mesma cor. da representação elevada das m u l h e r e s d e cor nas correntes de migração i n t e r n a q u e se dirigem para o Distrito Federal. nas quais os homens adultos t e n d e m a predominar. Londres. Para m a i o r indicação dc informações sobre o assunto. cit. 1952. 90-120. Problèmes démografiques Cf. A lacuna foi parcialmente suprida pelo Prof. realizando elaborações e enunciando estimativas baseadas nos dados dos r e c e n s e a m e n t o s nacionais. os homens ainda constituíam m a i o r i a . Vitalstatisties and public health work in the tropies. Lambert. h a v e n d o 953 mulheres para cada grupo de mil homens. Migrações internas no Brasil. A. entre os brancos residentes no Distrito Federal. ver.86 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO 5 Esta circunstância está a indicar q u e n a q u e l e s grupos étnicos formados p r i n c i p a l m e n t e por influência das migrações exteriores. n a série Análises de resultados d o censo demográfico. além da citada publicação do IBGE. IBGE. 7 1947. esta d i f e r e n ç a c m u i t o mais acentuada nos g r u p o s p r e t o e pardo. Dos resultados assim alcançados é que nos servimos na presente análise. 8 9 C f . p. Estudos sobre a fecundidade e a proliftcidade e nos diversos grupos de cor. Costa Pinto e J. Costa Pinto. 1949. já em 1950 o número dc m u l h e r e s brancas era maior do que o de h o m e n s da mesma cor. Rio de J a n e i r o : Instituto de Economia da F u n d a ç ã o M a u á . 12 A determinação da taxa de natalidade da p o p u l a ç ã o brasileira não pode ser d i r e t a m e n t e feita em face da deficiência do registro civil. Lambert. Cf. . L. 6 S o b r e o assunto cf. op. sobre o D i s t r i t o Federal. provavelmente. L. J. a composição por sexos deixa refletir o fato nitidamente. J. em conseqüência. Granville Edge. contemporains. G e o r g i o Mortara. A. Consultor Técnico d o I n s t i t u t o Brasileiro de Geografia e Estatística. da mulher no Brasil no conjunto da população 10 11 Cf. Em 1950. 1944.

que coexistem n o Distrito Federal. circunstâncias históricas particulares fizeram com que estratificação de raça e estratificação de classe não sejam duas realidades independentes. Esta afirmação. cuja interpretação sociológica quase se confunde com o próprio escopo desta pesquisa. mas apenas dois ângulos pelos quais p o d e ser observada a configuração única e total das relações de classe e raça n o Brasil. a situação social dos grupos étnicos.sua história e seu estado presente . como resultado do tipo de comunidade urbana e industrial que tem assumido o Rio de Janeiro nas últimas décadas.CAPITULOU Estratificação social A importância f u n d a m e n t a l do problema . A esta tarefa destina-se este capítulo. 110 primeiro plano cie qualquer análise científica a q u e se pretenda submetê-la. no plano científico. De fato.está no coração da situação racial brasileira e deve estar.Casta e classe . que reunirá os dados essenciais. p o r conseqüência. mais visivelmente do que em qualquer parte. pois aqui. o que há de fundamental e o q u e há de acessório e secundário a respeito de . O problema da estratificação social . que é central na metodologia deste estudo.C o n c e i t o d e classe social e de estratificação .Significação sociológica dos dados apresentados. carece de ser documentadamente provada antes que dela passemos a retirar todas as conseqüências e implicações que ela comporta. muito especialmente quando o interesse se c o n c e n t r a n u m a organização social caracterizada pela competição crescente q u e d e n t r o dela se desenvolve. Parece-nos realmente m u i t o difícil discernir.A participação cios grupos étnicos nos diversos g r u p o s e r a m o s de atividade econômica — A posição dos grupos de cor na "pirâmide social" no R i o d e Janeiro . bem como as relações que entre si mantêm são fatos que não podem ser compreendidos fora do quadro da estratificação social em que se encontram.

tudo mais sendo perfeitamente igual. D e fato. classe ou império n o tratamento sociológico dos problemas de convivência e relações entre grupos étnicos . Ainda não foi feita.' Essa posição metodológica.preconceito que. além de insuficiente. temos a impressão de que é precisamente aí que o problema fundamental tem começo. esse m o d o de entender o problema é claudicante do ponto de vista conceituai. caracterizamse pela rigorosa vigilância que procura manter contra toda influência deformadora de ideologias de raça. enquanto que. eles estão estratificados num sistema de classes. à necessidade de trabalhar com hipóteses audaciosas. Q u e r nos parecer que esta mera descrição dos aspectos mais aparentes de u m a e outra situação está longe de ser suficiente para encerrar o problema. se essas hipóteses são fecundas como roteiro de pesquisa e se nos ajudam a procurar compreender os fatos. Parece mesmo que o ponto máximo de avanço atingido nessa questão consistiu em se concluir que. N a d a disso importa. no Brasil. A disposição de abordar o problema por esta forma nos leva. negros e brancos estratificam-se n u m sistema de castas. entretanto. infelizmente. aceitando como fato estabelecido que somente traços antropológicos os distinguem e separam. a análise séria e frontal. desde que nos limitemos a fazer observações sobre o c o m p o r t a m e n t o recíproco dos indivíduos de grupos étnicos diferentes que entram em contato.88 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO relações inter-raciais. bem como o modo de abordar os problemas concretos de pesquisa. sem a m e n o r dúvida. que são sempre o teste real e supremo de qualquer conhecimento. com critério rigorosamente científico. mais que isso. pois casta e classe não são dois . ao conformismo com as meias verdades solenes de que estão repletos o pensamento tradicional e as opiniões acadêmicas sobre tais assuntos. Referências ao sistema de estratificação social relacionado ao problema dos contatos raciais podem ser encontradas nas obras de quase todos os pesquisadores. nos Estados Unidos. por definição. nacionais ou estrangeiros. pela qual a importância d o assunto no contexto do problema clama há muito tempo. a nosso juízo é justamente por essas diferenças ligadas à estrutura social que a pesquisa deve começar. que dela decorrem. que estudaram relações de raças no Brasil. claramente definida. avessas. porém. é muito mais freqüente na bibliografia especializada do que geralmente se supõe.

não são. ou reconstruindo. A esse desfecho foi conduzido o problema na África do Sul. roubando a estas a pureza e objetividade que devem ter. reversíveis. E fundamental. formas de estratificação do tipo de casta. Por outro lado. e não faltam também no Brasil os que resmungam em voz baixa que essa devia ser a "solução" a ser adotada para o nosso problema racial. A atual desagregação das barreiras de casta nas zonas urbanas da parte setentrional dos Estados Unidos exemplifica uma fase desse processo. sobre o qual já nos demoramos noutros lugares. Por isso. tornar claros os conceitos de ciasse e de estratificação social com que vamos laborar. a se petrificar. em conseqüência d o agravamento das tensões existentes entre os grupos étnicos que ali convivem. de u m mesmo fenômeno. dois pólos opostos . t e n d e m a se transformar em sistemas de classe. antes. antes de iniciar esta análise.2 . a fim d e facilitar a inteligência do texto e das interpretações que.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 89 fenômenos de espécie diferente: representam. que a focalização do assunto exceda o mero jogo de palavras com que muita vez se procura suprir a falta de conceitos. os sistemas de classe . material q u e nos permite objetivamente determinar posições básicas na organização econômica e social considerada. Para isso não retomaremos aqui a discussão do conceito científico de classe social.tendem a se enrijecer. como meio dc resistência à sua própria transformação histórica. Só então será possível atingir toda a complexidade da questão e evitar que a ronda dos preconceitos e valorações que cercam o assunto se misturem com as hipóteses e indagações científicas. Em verdade. e de tantos modos se manifesta.q u a n d o a maior mobilidade social que ele permite ameaça a simetria do próprio sistema . assumindo. pretender encerrar n u m só capítulo todas as análises que o problema comporta. nele iremos desembocar seguindo coerentemente qualquer caminho. por conseqüência. reunimos aqui o material existente e disponível sobre a estratificação social dos grupos étnicos no Rio de Janeiro. Cumpre-nos ainda. dois mundos. c o m o formas de estratificação social. deixando para apreciar a plena significação sociológica desses fatos na medida em que se desdobrar a análise de cada ângulo particular sobre o qual a estratificação diretamente influi.são duas fases de um mesmo processo. O s sistemas de casta. nem vantajoso. A importância da diversa posição social dos grupos étnicos no tipo e nas perspectivas das relações de raças é tamanha. sobre elas irão repousar. dois momentos. adiante. que não é possível. quando historicamente superados pelos fatores de mudança social que operam em suas bases.

Logo se faz notar. cujo ajustamento resulta n u m quadro particular que se distingue bastante dos característicos sociológicos dominantes no quadro nacional. Partindo dessas proposições introdutórias passemos agora à análise dos dados. A esse r e s p e i t o a s i t u a ç ã o c m 1 9 4 0 . que entendemos a classe como u m c o n j u n t o de relações sociais. Nas indústrias extrativas a tendência é semelhante. a distribuição da população pelos diversos ramos de atividade econômica é um aspecto no qual se refletem os traços peculiares em que a situação do Distrito Federal se distingue da situação do Brasil c o m o u m todo. pois se transformam com a transformação histórica Az organização social da produção. A e s t r a t i f i c a ç ã o social d a c o m u n i d a d e metropolitana obviamente r e f l e t e e s s a s d i f e r e n ç a s d e t i p o e c o n ô m i c o e. é preciso ter em mente. no que se refere aos quadros de ocupação da população ativa. mais uma vez. e do fato de aqui estar um dos maiores centros industriais do País. para o objetivo presente.está r e t r a t a d a n o s . d o m e s m o m o d o .56% dos homens que têm atividade extradoméstica. que as atividades agrícolas — às quais no Brasil está ligada mais da metade da população masculina de dez anos e mais ocupam no Distrito Federal 3. a essas d i f e r e n ç a s t a m b é m c o r r e s p o n d e m formas diversas dc p a r t i c i p a ç ã o d o s g r u p o s étnicos no s i s t e m a d c c s t r a t i f i c a ç ã o social. Partindo dessas premissas. e usamos a palavra estratificação para designar o sistema total de posições sociais que resulta da existência. enquanto que a proporção dos dedicados às indústrias de transformação e à variedade de serviços engendrados pelas condições urbanas do Rio de Janeiro é muito maior aqui do que no conjunto do País. como dado preliminar. que as condições econômicas e sociais tipicamente metropolitanas da capital do Brasil criam para sua população problemas específicos e formas também específicas de solucioná-los.90 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO Basta-nos indicar. Aqui. que aquelas relações e essas posições não são fixas e imutáveis. Em conseqüência do caráter nitidamente urbano da quase totalidade da população do Distrito Federal. que definem u m a posição objetiva na sociedade. da pluralidade e das diferenças entre as classes no interior de u m a sociedade. por exemplo. conceituamos as classes sociais como grandes grupos ou camadas de indivíduos que ocupam a mesma posição na organização social da produção.q u e é a d a t a m a i s r e c e n t e a q u e se r e f e r e m os d a d o s e x i s t e n t e s .

CJ -< .Ü tí C 9 cj < 10 U o s u £ a.. O N <n co O c — •i — C N O gO co tO — N H O a a \o co IO rON NO NO 9 C S 00 o NO co 1 NO 3 a £ CO NO oi C O in in vo OI < IO too -tf' O O N oo < rco NO NO co O O CS o co O N IO — t ci tfTf <ri o Si oo C O — C O O O OI OI ooo o 00 OI cs OI cs vn 04 m C O í o "53 Í3 S < G o < T3 u O ON ON 0 3 co p O oO N oO C l/o pi o 6 o W O 3 C N O O 00 ^iCIN t~01 ( M uo ON CO OI o u a. o E o -a -a -a -r* -o a "O .ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 91 o R e < 0) o XS -o ia P- O N O O co C O o co . cn O N C O N O m o co O N O C O C O C O co m ^o oo ro co o 11 — N O NO tO — O C O ffl M D C O C O •—• oO C tco oo C O OI C O O N in •o ON co oO C o) NÍ VI) oo IO V O NO C •d cx "d < Si 3 "O o U e trt d -O n o eu o "3 tá o a) o « rt u </> ri O "3 o 4 i a s -S o 6 -a .a.

81% .2. que nas atividades agrícolas e extrativas. como nas indústrias de transformação. a superioridade da quota de ocupação dos brancos é visível em ambos os sexos.17. Observe-se. em índices proporcionais.92 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO números do Q u a d r o IX. de ambos os sexos.52%.e ainda m e n o r do que a dos pretos . A proporção dos brancos ocupados neste grupo de atividades .. por exemplo. N o sexo feminino a quota das brancas ocupadas neste ramo . ainda assim. a sua análise deixa-nos entrever aspectos muito expressivos da posição econômica e social da população de cor no Distrito Federal. Fraca também tem sido a infiltração da população de cor nesse setor de atividades . mas.e mais fraca ainda no comércio de valores e crédito. As atividades de transporte e comunicações aparecem na Capital da República como outro importante ramo de atividade e nelas. no plano nacional o m e s m o se verifica .21. no qual. que foi principalmente essa a posição historicamente conquistada pela grande maioria da população de cor no q u a d r o da comunidade metropolitana após a abolição do trabalho escravo no Brasil. merecem atenção especial. essa i m p r e s s ã o será confirmada quando discriminarmos os ocupados neste ramo pelo característico de cor combinado com a situação de empregado e empregador. a maioria esmagadora dos ocupados está na condição de empregado. Ficará nitidamente evidente.47%.é inferior à dos pardos .29. são apenas preliminares e só indicam as grandes linhas da distribuição dos grupos étnicos pelos diversos ramos de ocupação. O s dados relativos às indústrias de transformação.5% . n a massa do proletariado industrial do Rio de Janeiro. Esses dados referentes à ocupação total. ramos de atividade de representação relativamente fraca no Distrito Federal. por ramos de atividade.74% . não atingem 1% de todos os ocupados de cor de ambos os sexos. que traduzem a repartição dos grupos étnicos pelos principais ramos de atividade econômica.é inferior à das pretas . com referência aos dois sexos. embora superior à das pardas .97% . Nas atividades de comércio. então.13. os pretos e pardos aparecem em número nitidamente superior ao dos brancos. Desde q u e os limites entre pretos e pardos são arbitrários e não homogêneos. n o Rio de Janeiro.2. Adiante. por sua natureza. entre os homens.aliás. em qualquer de suas modalidades. que representam no Distrito Federal a atividade extradoméstica com maior proporção de ocupados. o fato q u e ressalta é a forte representação dos grupos de cor. as quotas dos pretos e pardos excedem a dos . Aqui.

depois vêm as amarelas e. n o Brasil. está na maior parte integrado nesta classe. empregadas d e escritório etc. aeromoças. brasileiros descendentes de chineses e japoneses residentes no Rio de Janeiro. provavelmente os brancos representarão forte maioria . a condição de oficial das forças armadas é bastante para "branquear" qualquer um. intérpretes. A composição étnica desse grupo torna-se assim assaz significativa. em qualquer parte d o Brasil. Em face do recrutamento obrigatório. no conjunto do Brasil. ensino particular e culto. justiça e e n s i n o público e b) profissões liberais.36%. Curioso é notar que a q u o t a de homens pretos ocupados no serviço público civil é menor do que a dos amarelos. entre os homens. 3 No que se refere às mulheres a superioridade neste ramo de ocupação está com as brancas.telefonistas. a dos pardos.48% da parte ativa da população. enquanto que no Distrito Federal essa q u o t a se eleva para 5. Já entre as mulheres ocupadas neste ramo . representando não raro aquela parte mais ativa e de mais forte "consciência de classe". especialmente nas condições urbanas peculiares ao Rio de Janeiro: basta dizer que. depois. Atentemos agora para dois outros ramos de ocupação c u j a posição social é muito significativa: a) administração pública. Neles temos. aqueles dois ramos de atividade o c u p a m 1. Os pardos constituem a maior q u o t a dos ocupados na defesa nacional e segurança pública no Distrito Federal. . os pretos. nesta ordem. No primeiro daqueles ramos — serviço público civil — a q u o t a maior é. em parte. com quotas menores. considerando os quadros permanentes. a composição étnica dos quadros móveis das forças armadas há de sempre representar u m a amostra aproximada da composição étnica das idades recrutáveis para o serviço militar. à quase total exclusão dos pretos do oficialato nas forças armadas do País. — a quota das brancas é superior à das pretas e pardas somadas. as pardas e as pretas. seguindo-se os brancos e. neste ramo a quota dos pretos é a m e n o r dentre os três grupos considerados. o q u e há de se dever. por sua condição. por outro lado. nos quais o oficialato deve representar alta porcentagem.ESTRATIFICAÇAO SOCIAL 93 brancos.não só por ser mais difícil aos matizes mais escuros atingir os postos superiores mas t a m b é m por que. o grosso da classe média u r b a n a e a quase totalidade do grupo dos chamados "intelectuais" que.

só teria sua verdadeira significação realmente demonstrada se tivéssemos uma discriminação dessas ocupações por categoria de função.que essa proporção se m a n t e n h a desde o nível dos praças até aos altos comandos. e m v e r d a d e . dentro de sua hierarquia. que. aliás. o governo. pois o combate ao racismo alemão foi u m dos slogans generosos em nome dos quais ela foi feita. Pouco significa. discutir se há ou não. tampouco. nas funções subalternas do serviço público. Aqui provavelmente ocorre o mesmo que entre os ocupados na defesa nacional: a maioria dos pardos que ali foi encontrada não significa que essa composição étnica se estenda a todos os graus de hierarquia e o fato de haver uma maioria de pardos no total não implica — muito ao contrário . o p r o b l e m a m a i s s u t i l c o n s i s t e na seleção p r e f e r e n c i a l . em contradição prática consigo mesmo . a situação tornou-se mais aguda. da existência de barreiras raciais em carreiras do serviço público.na aplicação desses princípios.94 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO A ligeira vantagem dos homens pardos sobre os brancos nas ocupações do serviço público civil . N e m nega. 4 A presença de um elevado n ú m e r o de pessoas de cor no serviço público no Rio de Janeiro nada exprime. a minorar a aparência odiosa das discriminações feitas à sombra do próprio Capitólio. e muitas vezes comprovado. a sua explicação particular no próprio mecanismo das relações raciais e na posição do Estado em face dos problemas por ela criados. o fato evidente. Mesmo nos Estados Unidos. como a magistratura. sobre a colocação delas na hierarquia das funções.6. onde as discriminações contra os elementos de cor têm raízes tão profundas na organização social. a diplomacia e o oficialato das forças armadas. cm tese. Daí resultou u m a representação maior desses grupos no funcionalismo público da capital d o país. em maior ntimero. Durante a última guerra mundial. pois na verdade o aspecto mais grave do problema não consiste na pura e simples exclusão ou admissão de elementos de cor nessas c a r r e i r a s . sendo de t o d o provável que os de cor se concentrem. diretamente. constituem a maior parte das funções existentes. especialmente. por tradição. 4 0 % . da marinha. barreiras dc cor no serviço público. A presença de elementos de cor nos quadros do serviço público tem. portanto. portanto.52% para 6 . tendo a obrigação constitucional de não fazer discriminação entre cidadãos de diferentes grupos étnicos. e houve a necessidade de intervenções mais enérgicas do poder público no sentido dc permitir a admissão de homens e mulheres de cor como funcionários nas repartições de Washington. sempre se viu em contradição com seus agentes — ou seja.

Com estes exemplos tem-se uma indicação do tipo heterogêneo de atividades a que a denominação se refere. p o r q u e seria "botar o carro na frente dos bois". higiene pessoal (cabeleireiros.24% entre os pardos e 0.). está longe de impedir o funcionamento dos critérios discriminativos.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 95 . alfaiates. Mais uma vez. . transportes manuais e de propulsão humana (carregadores etc. modistas etc.).).nas condições peculiares ao Brasil — é essencial que não esteja escrito nas leis. a quota d o grupo branco é bastante maior d o q u e a dos demais.de elementos q u e n ã o são de cor para gozar da oportunidade de ascender a carreiras. serventes etc. Aqui também. espetáculos. culto etc. pensões. que s e m p r e e n c o n t r a m alegações não-étnicas p a r a se justificarem.profissões liberais. manicuras etc. tintureiros. estão os brancos.por critérios que em regra não são confessados . por outro lado. restaurantes etc.). Neste ramo.s h o m e n s deste grupo. os serviços aos quais aquela designação se refere. depois dos amarelos.em ambos os sexos. entre os homens. de cada grupo étnico. diversões e desportos. Antes de analisarmos a composição étnica dos ocupados q u e se reúnem sob a rubrica censitária de "serviços de atividades sociais". depois os . depois dos brancos. é preciso saber. porque "o que diria de nós o estrangeiro se fôssemos lá fora representados por um tição?" etc. o fato de os amarelos se representarem em proporção maior nesses ramos de ocupação do que os pretos e mulatos serve para ressaltar a baixa representação desses últimos nessas ocupações: 1. conservação e reparação de objetos de uso pessoal (sapateiros. o que. presentes no Distrito Federal.p o r q u e "lugar de negro é na cozinha". ensino particular. Sob esse título estão reunidos os ocupados nas seguintes atividades: hospedagem e alimentação (hotéis. 5 No segundo dos grupos considerados como representativos d e largo setor da classe média urbana . que têm aqui as atividades q u e ocupam maior número do. É neste plano que se faz o peneiramento desfavorável ao e l e m e n t o de cor e. barbeiros. para uma justa interpretação dos dados numéricos. por isto mesmo. é claro que para que ela funcione com eficiência . funções o u p o s t o s hierárquicos aos quais está ligada a idéia de que é inconveniente q u e sejam ocupados por pessoas de cor .65% entre os pretos. assistência médico-sanitária (enfermeiros. proporcionalmente ao número de habitantes de dez anos e mais de idade. v ê m os amarelos com a maior quota de ocupados neste grupo.).

a quota percentual desses grupos de cor nas classes e posições sociais diversas existentes dentro da estrutura da sociedade. finalmente. um meio essencial de pesquisa é a análise do sistema de estratificação social num momento dado.250 pessoas de cor/' que entre esses pretos mais da metade . Parece-nos que para constatar os resultados objetivos da mobilidade social já ocorrida. parece não haver dúvida de que temos aí um ponto de referência objetivo e seguro para compreender a intensidade e a significação da mobilidade social de fato ocorrida nesta sociedade. quem fala em estratificação social refere-se. É sobre esse fundo real. os pretos. Esta visão geral sem dúvida fornece-nos material para algumas indicações e hipóteses sobre o problema da estratificação social dos grupos étnicos. dos diversos grupos e camadas que o c u p i m a mesma posição na organização social da produção. que se pode. necessariamente. Só depois disto é possível. no plano vertical. f u n d a r em bases sólidas a construção de hipóteses fecundas e operativas. por exemplo . e m relação a estes grupos . as brancas. depois as pretas e. então. De fato. em que iremos encontrar não somente as necessárias informações objetivas sobre o estado do problema n u m dado instante. mas está longe de esgotar a questão. para os diferentes grupos étnicos. o quadro da distribuição dos grupos étnicos no Rio de Janeiro pelos diversos ramos de atividade. também. mas também os elementos empíricos para compreender o processo e a dinâmica da mobilidade. Quando sabemos que em 1872 havia no Distrito Federal 122. formado pela situação objetiva da população de cor na sociedade.independentemente de qualquer juízo de valor. dos resultados objetivos da mobilidade social operada na sociedade em questão desde o desaparecimento da barreira legal. setenta anos depois. partindo dessa análise. com a abolição do estatuto escravagista. é o que nos cabe fazer agora e através dela é que poderemos ter u m a visão mais completa da estrutura de classes e. Parece ter ficado bem claro.embora desafinando d o coro . capazes d e nos orientar no esforço de discernir as perspectivas e o sentido da evolução do fenômeno para o futuro. Entre as mulheres a ordem de colocação é diversa: em primeiro lugar estão as pardas.96 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO pardos e. por último.e entre os pardos mais de um terço — era de escravos. em resultado das análises feitas. Esta análise. a estratos superpostos 11a hierarquia interna da "pirâmide social" considerada. de que esses resultados são o mais autêntico produto. e observamos.

que são os negros — fração mínima da população de cor — que ascenderam na escala social. alcançarem o padrão social dos grupos dirigentes. Cremos. vai erguendo. que ele não nasceu apenas para trabalhar e para apanhar — c o m o u m a ilustre dama mandou dizer ao Autor destas linhas quando soube q u e ele estava perdendo o seu tempo dedicando-se ao estudo do negro n o Rio de Janeiro. adiante. há quatro séculos.que é que de fato simbolizam? Geralmente se entende q u e eles.. a civilização brasileira. os C r u z e Souza . simbolizam m u i t o mais e melhor a envergadura e proporções das barreiras.. mais u m a maneira de fuga atrás de símbolos. Não é por mera coincidência que tais "honrosas exceções". os Juliano Moreira. c o m seu rastro de cometas. que o negro não é um ser inferior. esses homens-símbolos os José do Patrocínio. argamassada com seu suor e seu sangue.compreender a significação sociológica das sempre apontadas "honrosas exceções" de homens de cor q u e venceram a barreira e ascenderam a posições sociais superiores. como minoria í n f i m a que constituem. e n t r e t a n t o . essas verdades elementares. sobre cujos ombros. que essas exceções não só confirmam o fato objetivo e inconteste da concentração da população de cor nas posições inferiores da sociedade. não pela minoria. que tudo isso se demonstra m u i t o melhor. mas t a m b é m q u e a supervalorização delas. pela elite. Ver-se-á. d e m o n s t r a m a capacidade que tem o negro de. subjetivas outras. que tiveram e tem de vencer os homens de cor neste País para furarem as linhas e. não significa qualquer . c o m que ele procura muitas vezes escapar do seu quotidiano de pária. materiais umas. sobreviventes bem-sucedidas da grande luta pela ascensão social. pingam quase que à razão de uma por geração. por u m c a m i n h o de pedras. as "honrosas exceções". distinguindo-se nas artes. significa. nas letras. os resultados efetivos de um processo anterior. nas ciências e na política. mas pela presença e atuação n a história da sociedade no Brasil da própria massa de cor. como h á os q u e pensam. q u a n d o feita pelo próprio negro. por sua atuação na vida nacional. merecer uma vida melhor d o que aquela que realmente vive. como prova da inexistência de barreiras raciais. Neste sentido. o u pelas exceções. Não duvidamos de que as "honrosas exceções" sirvam para demonstrar. mais uma forma dessas barreiras ideologicamente se manifestarem e. em certo sentido. Na verdade. n u m m o m e n t o dado e atual. os Luís Gama. Evidentemente o estudo da mobilidade social da população de cor feito através da análise d e estatísticas que refletem. feita pelo branco. pela milionésima vez.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 97 de exclamações um t a n t o alvares .

os que querem apenas estudar a situação e os que. com que até hoje se procurou suprir a falta dessa documentação. A importância dessa informação é absolutamente f u n d a m e n t a l . que é a seguinte: laborando c o m u m material acessível a outros. Ninguém p o d e duvidar de que nisto consiste uma das excelências desse procedimento.98 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO desprezo pelas chamadas análises "compreensivas" de fenômenos desta natureza. em 1940. b) para cada r a m o de atividade. das barreiras existentes à m o b i l i d a d e social dos grupos de cor. dentro de cada grupo étnico. não precisamos recorrer a essas tentativas de interpretação. muitas análises deste t i p o teremos de fazer. pretendem. geralmente muito mais temperamentais do que científicas. c) para cada sexo e d) para cada uma das posições sociais fundamentais. quantos ocupam em cada ramo d c atividade econômica. permitem determinar. u m a vantagem metodológica evidente. e adiante transcritos. Isto tem. à condição de m e m b r o s das camadas superiormente colocadas n o sistema de estratificação social? Os Quadros q u e aqui inserimos permitem dar a esta pergunta respostas específicas a) para cada grupo de cor. Com isto torna-se possível verificar . a margem de erro tão freqüente em tais estudos e que consiste em confundir a análise de u m a estrutura social com a justificativa sub-reptícia de seus desajustamentos. pois ela responde objetivamente a u m a questão essencial para nosso estudo: qual o volume da quota de descendentes de escravos em 1872 (data do último censo antes da Abolição) e libertos em 1888 que tinham conseguido passar. utilizando os dados censitários.para cada grande ramo de atividade econômica encontrado n o Distrito Federal. limitamos. por outro lado. empregadores. . no correr deste trabalho. diferentes posições na organização social da produção: empregados. através d o s canais de capilaridade social. transformá-la. na coleta d e ciados sobre a mobilidade. q u e é precisamente evitar que. t a m b é m . mais do q u e de análise.e não supor ou imaginar . as nossas técnicas deixem de ser instrumento de verificação de situações reais para se transformarem em mecanismos de racionalização e justificação. Significa apenas que." já que o ponto de partida empírico da interpretação proposta está à disposição de todos: os que se aproveitam e os q u e são vítimas do desajustamento. trabalhadores por conta própria etc. 7 Os dados disponíveis. mais que isso. mesmo porque. até certo ponto. o grau e a intensidade da ascensão social dos indivíduos de cor que neles estão ocupados. objetivos e quantificáveis que existem sobre o problema.

quantos são pretos. porém. pretos e pardos do Rio de janeiro.entre os empregados. XIII. isto signiiica a possibilidade de verificar e afirmar — e não supor ou imaginar . de empregador etc. reciprocamente. fenômeno só aparentemente paradoxal. na história e na organização da economia brasileira.indústria. essas circunstâncias indicam que a composição étnica. que tem desnorteado alguns analistas de nossa economia e de nossa sociedade. comércio. X I V e XV). o principal fator responsável pela larga circulação que tiveram. existem. XI. — quantos são brancos. no Brasil e no exterior. agricultura etc. caracterizandose com u m vértice minúsculo. empregadores etc. em nossa opinião. é pertinente advertir que. ao lado dos característicos capitalistas de nossa estrutura econômica. quantos ocupam a posição de empregado. poder econômico e influência política são tão grandes quanto diminuta a sua representação numérica no conjunto da população. por exemplo. Antes de analisar mais de perto esses dados. O que daí resulta n o plano da estratificação social é que a nossa "pirâmide" social como um t o d o — independentemente de fatores étnicos — apresenta um contorno muito pouco piramidal. separado por u m segmento médio muito débil de u m a vasta e volumosa base. em certa época. particularmente acentuados nas condições de u m a comunidade metropolitana. quantos são pardos. ou a falta de desejo de interpretá-los cientificamente. A relevância sociológica dessas informações explica-se por si mesma e dispensa maiores explanações. de cada ramo de atividade econômica . falsas e apressadas opiniões sobre o estado verdadeiro da Situação racial neste País. tem sido. Apenas desejamos assinalar que a falta desses elementos informativos.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 99 N o u t r o s termos. N o que aqui nos interessa em particular. e. cujo prestígio social. XII. entre os brancos. passemos agora à análise das situações concretas (Quadros X. . do grupo dos empregadores significará a participação das diferentes etnias na pequeníssima camada que detém e manipula o controle efetivo dos meios de produção. e que consiste no fato de a economia brasileira estar apenas começando a se expandir e já estar fortemente concentrada. fatores persistentes que a t o r n a m caracteristicamente mais centralizada do que outras economias nacionais ao passarem pelo estágio de desenvolvimento em que hoje nos encontramos. T e n d o em mente essas premissas..

pecuária etc.000 3. OCUPADOS EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS.650 263 48 891 356 4 519 6 6 71 15 3 53 — — 3 3 — — — • — Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Indústrias de transformação Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador AuiAuomo Membro da família Pofjiçíiti ifuioríuln 149 — 6 91.424 12 45 100 59 8 33 — — .901 6.410 ' 691 4.191 19.097 299 421 4.139 56.100 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO QUADRO X - DISTRIBUIÇÃO DOS HOMENS DE 10 ANOS E MAIS.434 82 1. Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Indústrias extrativas H o m e n s de 10 a n o s e m a i s Pretos Pardos Amarelos 10.280 7 26 2.501 22.842 6.566 3. D I S T R I T O FEDERAL 1940 Atividade principal e posição n a o c u p a ç ã o Brancos Agricultura.251 90 321 20.150 26 725 43 44 746 591 — 5.011 1.988 2. POR COR.951 99 2.221 9.129 80. SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO.H()1 3 l<) 7.213 148 1.259 3 123 71 65 1 5 — — 89.426 440 161 2.606 95 1.086 22.167 232 712 5 75 24.128 4.139 36 .829 1.

O a (orais referem-se a cada r a m o dc atividade principal.100 3.632 41.002 7 358 — 10. 10.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 101 (continuação) Comércio de valores etc.394 18 168 6. l r q u a d r o a r a i r ^ o i i a p a r d o s ihrliii oi li.536 305 6.886 10.905 391 5.556 20 100 165 122 16 27 — — 45 12.tí)irn n I r s d c c o r n ã o declarada.946 8.077 324 1.455 4.— — — 11 — 1 3 — 43.771 37 1.876 37.200 17 618 — 40 39 — 1 — — 28 51 59.309 3 33 181 169 — 524 458 11 52 — 9 9 .746 8. . ensino particular culto Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada 9.602 — .896 14.837 5.027 164 445 6.153 117 2.395 6.459 19 518 343 282 8 48 — 996 671 11 293 2 19 11 7 — 3 — 5 1 N o t a : N t " . Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Profissões liberais.

318 1.174 81 449 26 44 7.102 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO QUADRO X I - DISTRIBUIÇÃO DAS MULHERES DE 10 ANOS F.215 268 775 104 58 1.990 4. DISTRITO FEDERAI.774 13. SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO. pecuária etc. POR COR.259 2 51 — 3 2.420 6. MAIS.246 2. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias extrativas Brancas 421 149 32 142 46 52 61 40 1 9 — — Pretas 100 46 1 36 13 4 28 21 — Pardas 156 60 3 65 17 11 23 18 — A m a r e i as 3 — — 2 1 — 1 1 — — — — Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias de transformação Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc. 1940 M u l h e r e s d e 10 a n o s c mais Atividade principal e posição na ocupação Agricultura. OCUPADAS EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS.180 3 53 — 4.798 13 156 1 22 732 639 8 78 4 3 39 33 — 10 10 — — — — 10 233 181 — 4 2 — 45 2 5 11 9 — 1 — 1 2 2 — — — 2 — — 5 1 6 — — . Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada 4 — 5 — 11 13.

— 19 25.1 c a t e g o r i a p a r d o s i n c l u i os h a b i t a n t e s de cor não d e c l a r a d a .005 140 23 10 — — 12 1 5.574 31 33 4.082 3. .478 1.049 9 1. O s t o t a i s r e f e r e m sc a cada r a m o de a t i v i d a d e p r i n c i p a l .893 5 5. 813 2.083.754 6 34 — 45 37 — 236 224 — — — — 3 — — 9 3 8.076 135 102 — 426 279 3 82 1 61 — — — — — 29 — 4 .368 10 9 3.— Nota: N e s t e q u a d r o .941 50 1. ensino particular culto Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada 2. 361 — — .222 10.125 2.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 103 (continuação) Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Profissões liberais.438 283 130 12.537 2.

997 — 81 10.841 428 686 10 35 10.370 435 159 10. pecuária etc. EM CADA 10 MIL.007 8 48 10. SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO.546 34 47 10.300 — — 10.288 525 96 10.000 2.893 198 5.000 9.741 210 992 57 Amarelos 10.000 8.493 115 353 2 37 10.104 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO QUADRO X I I .066 2.000 7.307 1.000 9. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias extrativas Brancos 10.847 90 2.000 4.923 189 1.000 3.000 10.354 682 4.465 — — 10.386 39 523 1 51 10. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada 1.000 5.000 7.825 67 67 10.900 800 3.000 6.816 15 57 10.288 332 1.000 7.196 87 2.000 8.524 25 92 10.069 290 4.996 45 5.000 7.337 608 55 10.000 9. POR COR.DISTRIBUIÇÃO DOS HOMENS DE 10 ANOS E MAIS. D I S T R I T O F E D E R A L 1940 H o m e n s d e 10 a n o s e m a i s ( % e m 1 0 m i l ) Atividade principal e posição na ocupação Agricultura.155 141 704 — — 10. OCUPADOS EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS.000 5.000 3.426 144 147 10.922 — Pardos 10.000 8.000 — — — — Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias de transformação Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc.113 422 7.343 3 34 Pretos 10.000 9.000 .

750 — 250 _ — — 44 10.399 — 10.000 d.391 57 2.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 10 5 (continuação) Transportes e com única ções Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Serviços eati vidades so ciais Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada Profissões liberais.449 107 2.000 7. ensino particular culto Empregado Empregador Autônomo Membro da família Posição ignorada 10.352 28 75 10.000 9.230 4 38 10.482 — 47 10.942 20 191 10.032 15 403 10. O s t o t a i s r e f e r e m se a cada r a m o d c a t i v i d a d e principal.335 18 91 10. .000 9.394 970 1.892 653 2.000 7.000 6.370 15 568 — 10.636 — — 70 10.000 8.000 6.312 238 5.222 233 1.000 7.639 89 1.364 — 2.727 — 146 909 Nota: Neste q u a d r o a c a t e g o r i a p a r d o s inclui os h a b i t a n t e s de cor n ã o d e c l a r a d a .000 6.000 8.737 110 2.385 11 560 — 10.000 9.

DISTRIBUIÇÃO DOS HOMENS DE 10 ANOS E MAIS.— — 7 13 — — — — Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indiístriasde Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Comércio de mercadorias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc.635 5.209 3.727 6.437 5.642 2.739 1.364 6. EM RAMOS DE ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS.015 9.184 6.224 7.270 9.818 8.598 9.185 8. pecuária Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Indústrias extrativas etc.842 6.445 396 478 37 322 96 392 173 194 — 5 5 2 6 — — 10 9 8 13 __ — 9 10 — — — 80 — 110 «1 1 .664 4. POR COR.669 2.565 5.330 6. EM CADA 10 MIL.522 317 923 576 1.615 1.493 465 2.754 2.541 10.526 1.571 5.317 9.566 549 866 510 1.566 9.802 9.530 306 2.582 9.778 1.522 8.374 3.680 9.172 8. DISTRITO FEDERAL 1940 Atividade principal e posição na ocupação H o m e n s d e 10 a n o s e m a i s ( e m 10 m i l ) Brancos Pretos Pardos Amarelos Agricultura.919 ' 1.094 9.385 6.579 1.479 — 2.897 1.994 1. 5.370 776 947 153 571 382 928 501 526 328 379 — 39 18 37 68 .490 1.847 225 1.97 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO QUADRO X I V .898 6. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignonula transformação 765 — 1.288 1.535 6.672 9.000 8.579 1. SEGUNDO A POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO.

542 1.048 8.506 288 1.000 6.725 7.065 1.422 8.134 836 881 91 880 — • 2. ensinoparticular culto Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada 7.522 9. .108 168 562 — 1.540 242 434 247 71 — 702 1.582 7.913 7.045 1.884 410 970 — 6 7 — 2 — — 1.170 7.695 21 22 39 15 — 763 _ 8 11 — • 9.702 8.033 339 431 952 350 4 — 92 18 Nota: Neste quadro a categoria pardas inclui os habitantes de cor não declarada.801 7.001 9.414 9. Os totais referemse a cada ramo de atividade principal.048 9.087 1.591 9.466 10.403 1.494 9.779 1.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 109 (continuação) Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Profissões liberais.418 1.

250 — Amarelas 44 — — 82 130 — 89 125 — — — — 2. ATIVIDADES EXTRADOMÉSTICAS. OCUPADAS E M RAMOS DF.371 370 2.DISTRIBUIÇÃO DE MULHERES DE 10 ANOS E MAIS.895 872 908 290 868 364 448 285 253 — — — — — — 5 5 1.000 10.625 — Pardas 2.688 597 2.571 1. Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição i g n o r a d a mercadorias transformação extrativas .789 8.143 1.469 1.035 2.974 7.653 2.761 5.534 8.294 2.889 5.843 .380 1.208 1.824 9.000 5.8.657 9.471 1.630 5.857 6.710 8. SEGUNDO A POSIÇÃO N A O C U P A Ç Ã O .340 2.110 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO QUADRO X V .845 8.222 — 2.374 2.351 6. M u l h e r e s d e 10 a n o s e m a i s ( e m 10 m i l ) Brancas 6. etc.620 9.398 5. pecuária Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Indústrias Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Indústrias de Empregado Empregador Autônomo M e m b r o d a família Posição ignorada Comércio de Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Comércio de valores etc.793 — 2. P O R C O R .454 8.832 9.804 278 1.429 . DISTRITO F E D E R A L 1940 Atividade principal e posição n a ocupação Agricultura.621 9.553 6.000 8.316 278 257 — 5 3 11 — 500 182 746 80 69 — 149 15 15 — — — — 345 — — 862 — 8.796 5.642 2.000 — Pretas 1.191 5.478 2.663 10.778 — — 7.068 1. EM CADA 10 MIL.081 309 805 — 2.353 833 2.

ESTRATIFICAÇAO SOCIAL 111 (continuação) Transportes e comunicações Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Serviços e atividades sociais Empregado Empregador Autônomo M e m b r o da família Posição ignorada Profissões liberais.957 _ 1.000 7.430 35 535 — r^r^ i Nota: Neste quadro a categoria pardas inclui os habitantes de cor não declarada.086 1.369 8.853 Empregador 9.080 2.373 7.558 7.423 1.000 Posição ignorada 9.092 9. .535 — — 6 6 523 4 585 9.111 2. Os totais referemse a cada ramo de atividade principal.134 10.180 957 2. ensino particular culto 9.434 — 566 — — Autônomo 250 9.037 6.000 1.919 1.391 — 145 123 — 763 743 — — — — 652 — 1.491 6.043 707 — — M e m b r o da família 9.852 1.734 6.013 238 749 — — Empregado 307 840 8.507 — — 7.445 309 1.904 1.

Por outro lado. entre os pardos e pretos. a própria composição do mercado de trabalho . dentro de cada . C o m o se vê. ela. dentre os pretos o c u p a d o s no ramo considerado. p o r é m .15% dos pretos e 0.86.aqui. nesta posição. Em que pese a acentuada diferença de grau e padrão. em todos eles. 94. em nenhum ramo de atividade econômica. Bullock verificou para os Estados Unidos. E n t r e os pretos. a quota de brancos é predominante.87% são empregadores. Aqui. no comércio de valores e crédito também rião há pretos como empregadores. a quota de empregados é inferior a 70%. mesmo de início de carreira. no comércio-de mercadorias.98. às quais se liga a idéia de u m a m a i o r convivência de que o empregado seja de cor branca. a quota de brancos é avantajadamente maior do que a dos demais grupos de cor. essas quotas são em regra mais altas do que entre os brancos. entre os pardos essa quota é de 93.112 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO U m fato que logo prende a atenção é que entre os empregadores. a quota de empregadores atinge 3%. a situação é completamente outra. aliás. 0. entre os pardos essa quota é de 1.96 são empregados assalariados. Neste sentido a identificação da condição social de "senhor" ou de "patrão" com a condição étnica de "branco" parece não ter sofrido alterações notáveis na c o m u n i d a d e urbana e industrial do Rio de Janeiro na última década da primeira metade do século XX: embora em todos os ramos de atividade os empregadores sejam minoria. existe menos de um na posição de empregador. em n e n h u m ramo de atividade. Se considerarmos aposição de empregado. entretanto. O percentual máximo de empregadores entre os pardos é de 2. se vai manifestar q u a n d o sc trata de ascender na hierarquia das funções ou quando se trata de selecionar empregados para determinadas funções.10. as quotas de empregados. n o que se refere à participação dos diversos grupos de cor. 8 E m cada cem pretos na agricultura da zona rural do Distrito Federal. são sempre elevadas. em cada cem pretos ocupados nas indústrias de transformação. em todos os ramos de atividade. entre os pardos s o m e n t e em dois setores de atividade a quota de empregados é inferior a esse limite. como o Prof. 8 5 % dos pretos e 93. e m cada cem pretos ocupados neste ramo.93 são empregados. em todos os grupos étnicos. mais do que lá — não permite a discriminação absoluta. nas indústrias de transformação são empregadores 1. é quase idêntico. Comparando-se. 71. 9 3 .70% dos pardos ocupados nas atividades de transportes e comunicações são empregados. N a indústria extrativa (no Distrito Federal as principais atividades deste ramo são a pesca e a exploração de pedreiras) não há pretos como empregadores. em cada cem pretos nela ocupados. na agricultura.39% dos pardos nelas ocupados. nos dois países.

quantos por cento têm esta ou aquela posição na ocupação. . sobre o total de indivíduos na mesma posição na ocupação. Vejamos agora a mesma situação encarada de outro modo: em cada ramo de atividade.14 nas profissões liberais. quantos são pretos. Como se vê. 1 0 são de cor.82 nos serviços e atividades sociais e 94. Assim. a mesma situação. temos visto a questão colocada nos seguintes termos: em cem pretos (ou pardos ou brancos) ocupados em determinado ramo de atividade.67 nas profissões liberais. 95. verificamos que em cem empregadores nas atividades agrícolas no Distrito Federal. observada de outro ângulo. São dois modos de formular a m e s m a pergunta. 011 pardos. 34. Talvez. pretos. Já entre os empregados a situação é bastante outra: aqui está concentrada a massa da população de cor. embora a representação dos elementos de cor seja sempre maior entre os empregados do que entre os empregadores. ou brancos. Até agora. 96. enquanto que 12. entre os empregadores. 2 3 . 84. constata-se a mínima representação dos de cor entre os empregadores e a f o n e concentração deles na posição d e empregados.17.02 no comércio dc mercadorias. nas indústrias extrativas 49.13 nas indústrias de transformação. 14. Sobre cem empregadores.24 nas indústrias de transformação.). Só uma pesquisa mais minuciosa e demorada poderia estudar mais particularmente o f e n ô m e n o por meio de inquéritos dedicados a cada ramo de atividade. as posições de classe.35 nas indústrias extrativas. pois em todos os demais a quota de brancos excede de 9 0 % .09 são pardos e 3.82 nos transportes e comunicações. 29.20%.37 são brancos. mesmo na condição de empregado varia o contingente de cor com a variação do status do r a m o de atividade: entre os industriários 49.ESTRATIFICAÇAO SOCIAL 113 grupo étnico. f o r m u l a n d o a questão da segunda forma. os de cor branca representam 95. dentre os empregadores (ou empregados etc. este ramo é o ramo de atividade em que os brancos. sendo que no primeiro caso a porcentagem é calculada sobre o total de indivíduos da mesma cor. E m cem empregados na agricultura 4 8 . permita melhor compreensão do padrão d o m i n a n t e de estratificação social dos grupos étnicos no Distrito Federal. 92. 8 7 nos serviços e atividades sociais.72 são de cor.72% dos empregados são de cor.22 nos transportes e comunicações. 94.20 n o comércio de valores. 14. têm a menor quota. 98.25 n o comércio de mercadorias e 7. por exemplo. enquanto que entre os bancários essa quota é de 7. e no segundo.72 no comércio de valores e crédito.

N o caso presente. De fato. contrastados c o m os 8 6 . concreta e p r o f u n d a m e n t e diferentes .c i s t o se j u s t i f i c a p o r m a i s d c . deixar à c h a m a d a "livre concorrência" o encargo de decidir a questão fundamental da desigualdade dos homens reais .e o homem real. os problemas e as perspectivas do campo de estudos..e não "de escravo a cidadão". na majestade de seu igualitarismo. uma das mágicas mais sutis da ideologia liberal engendrada no século XVIII foi reivindicar a igualdade de todos os cidadãos perante a lei. na medida em que vamos elaborando maior soma de materiais. representam uma indicação objetiva desta situação e das perspectivas de mais de meio milhão de homens e mulheres de cor que vivem na Capital do Brasil. O s 846 empregadores de cor aqui encontrados em 1940.114 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO E m face desses dados parece não haver dúvida de que de escravo a proletário foi a maior distância percorrida pela grande massa dos homens e mulheres de cor no Distrito Federal nos últimos setenta anos de mobilidade social. Sobre essa situação muito ainda terá de ser dito no decorrer deste trabalho. os limites. fórmula que sempre lhe permitiu. p a r e c e .homens abstratamente iguais .não dos cidadãos — perante as situações sociais concretas — não perante a lei. na prática. mas já agora. sem precisar modificar a fraseologia libertária. proletário ou burguês. D e p o i s d c p a s s a r m o s c m revista n p o s i ç ã o d o s d i f e r e n t e s g r u p o s é t n i c o s n o s q u a d r o s o c u p a c i o n a i s . a diferença é fundamental. Dizemos deliberadamente de escravo a proletário . lançar hipóteses mais seguras e fecundas que nos levem a ver também com mais clareza o estado atual c os fatores dc mudança que o p e r a m no quadro das relações raciais da comunidade em estudo." É para evitar tais nebulosidades na enunciação de um diagnóstico científico que preferimos ser claros e explícitos no dizer que de escravo a proletário consistiu o máximo alcance da mobilidade social das massas de cor n o Rio de Janeiro. proíbe igualmente pobres e ricos de roubarem pão e dormirem nos bancos dos jardins. o que nos permitirá. 8 5 4 trabalhadores assalariados.n o s i m p o r t a n t e a n a l i s a r os í n d i c e s d e o c u p a ç ã o f e m i n i n a n o D i s t r i t o F e d e r a l .foi uma fórmula ideal para conter em suas dobras mistificações ideológicas de toda sorte e de há muito já foi escalpelada por u m escritor francês com esta frase de extrema ironia: "A lei. e cada vez mais. Esta distinção entre o cidadão .. daqui para diante. tornam-se também mais claros o perfil.

o comércio. a ocupação feminina diferenciandose entre os diversos grupos étnicos c o m o se diferencia no Distrito Federal. a condição de empregado é mais freqüente entre as mulheres do que entre os homens. i s t o é. de instrução e de cor . p o d e m resultar indiretamente esclarecidos. como é sabido. Fsta sil n a ç ã o i d e a l . comuns aos dois sexos. nas indústrias de transformação. que. de m o d o geral. Por fim. especialmente. Isto parece indicar que. que contra a ascensão social das mulheres de cor na hierarquia social ~ além das barreiras. N o Brasil. com a natural exceção do r a m o de atividades agropecuárias e extrativas. a m u l h e r d c c o r l e m s i d o idealizada c o m o dc p r a z e r sexual d o h o m e m . por meio desta análise. Além disto. a quota proporcional de mulheres de cor ocupadas neste ramo na posição de empregado é superior à dos homens. incidindo sobre a mulher dc qualquer condição étnica c. dc classe. o Distrito Federal v e m reproduzindo nesses últimos trinta anos muitas situações e problemas já vividos por outras regiões do m u n d o ao inaugurarem os seus primeiros passos no caminho da Revolução Industrial. d o h o m e m instrumento b r a n c o . com evidência. maior n o Distrito Federal do que no conjunto do Brasil. é o lugar par cxceílence onde a mão-de-obra f e m i n i n a encontra oportunidade de trabalho fora do âmbito doméstico. em regra. os serviços e atividades sociais. tratando-se de um centro industrial em crescimento.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 115 uma razão. sobre a de cor. Esses maiores índices de ocupação. O primeiro fato que se p o d e observar é que a quota proporcional de mulheres ocupadas em atividades extradomésticas é. por conseqüência. referida a 1940. mantêm-se para todos os grupos étnicos. ora. a administração pública são os ramos nos quais os índices de ocupação feminina no Distrito Federal mais ultrapassam as médias nacionais. por outro lado.existe u m a outra. naquele r a m o de ocupação extradoméstico em que a população de cor encontra sua grande oportunidade de emprego no Rio de Janeiro. como a solicitação crescente da força de trabalho da m u l h e r para atividades extradomésticas t e m repercussões profundas em setores fundamentais da estrutura social. O padrão da distribuição das mulheres de cor pelos diversos ramos de atividade acompanha. Observe-se que. No Quadro XVI temos os dados estatísticos nos quais esta situação se retrata. inclusive sobre as relações interétnicas. essa variação pode significar correlações com outros aspectos da situação em estudo que. Em primeiro lugar por se tratar de uma comunidade metropolitana. a história social destas áreas e m processo de industrialização está a indicar. específica de sexo. Dir-se-ia. As indústrias de transformação. as grandes linhas atrás analisadas para o sexo masculino.

97 2.10 N o t a : N e s t e q u a d r o a categoria p a r d a s i n c l u i os h a b i t a n t e s d e c o r n ã o declarada.52 1.11 0.02 9.26 0. de 1.11 0.27 0.12 0.75 72.0 10.07 0.00 0.57 0.33 0. BRASIL E D I S T R I T O FEDERAL - Mu Iheres de dez e mais anos (%) R a m o de atividade Brancas Distrito Federal Agricultura.01 1.07 0.03 Brasil Pardas Distrito Federal Brasil Pretas Distrito Federal Brasil Amarelas Distrito Federal Brasil transformação Comércio de mercadorias Comércio v a l o r e s etc.00 7.00 0.06 0.87 6.05 0.46 100.00 12.21 0.58 0.01 justiça e ensino público Defesa nacional e segurança pública 2.08 — 0.116 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO QUADRO SEGUNDO X V I O .38 0.34 0.04 0.20 0.53 100. .00 12.65 100.04 0.77 0.14 2.90 0.02 0.55 74.12 5.14 0.43 3.01 — 0.39 100.13 0.01 0.00 sociais domésticas 74. POR 1940 COR.26 70.05 71. Serviços e atividades Atividades e escolares O u t r a s atividades e condições TOTAL inativas 11.09 0.20 0.02 — 0.20 0.10 2.03 10.10 3.19 0.91 0.53 0. R A M O DE A T I V I D A D E .81 1.DISTRIBUIÇÃO DE MULHERES DE I O ANOS E MAIS.00 11.02 0.47 2. Transportes e comunicações Administração pública.00 7.24 100.82 0.00 11.46 0.57 0.01 7.02 0. ensino p a r t i c u l a r c u l t o etc.99 3.03 0.57 100.60 0.00 10.40 1.01 0. pecuária Indústrias Indústrias etc.38 0.73 100.00 Profissões liberais.24 6.82 0.34 100.19 18.55 0.17 0.34 0.81 76.57 0.86 83.04 0.43 0.51 0.22 0.15 0.25 4. extrativas de 2.27 79.

de "mulher q u e n t e " . n o u t r a s classes sociais. descle a infância. n a prática. pois outra não t e m sido.489^ . até preferida pela classe inferior. nessa arraigada a t i t u d e das camadas. no teatro. quota m u i t o expressiva como fração da p o p u l a ç ã o total do mesmo sexo. 8 6 . historicamente. Quando descemos das situações de conjunto para a análise particular de determinados tipos de ocupação é que vamos realmente encontrar situações mais sociologicamente expressivas das condições de ocupação feminina n o Distrito Federal no que se refere à diversa participação dos grupos étnicos. a importância desse g r u p o na população ativa feminina n o Rio d e Janeiro. de objeto preferido para o p r a z e r (implicitamente obsceno e extraconjugal) tem sido propagada e d i f u n d i d a de todas as formas: no samba. na novela. Q u a n d o a m u l h e r de cor começa a ascender por outras formas na escala social . sem s o m b r a d e dúvida. C o m p a r a n d o se com o total da população masculina os empregados domésticos deste sexo representam pequena fração. n a canção. por exemplo.além de outros óbices comuns à cor i n d e p e n d e n t e de sexo. e ao sexo independente de cor — encontra. o serviço doméstico era a grande oportunidade de ocupação feminina. Isto. De acordo com os padrões tradicionais da economia e da sociedade brasileiras. já as mulheres empregadas domésticas representam 9.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 117 de "rainha". 1. tem significado apenas o elogio d o concubinato. n o romance. nas áreas industrializadas do sul d o País.03% da população feminina do Rio de Janeiro. qualquer atividade extradoméstica remunerada a que u m a m u l h e r se dedicasse era bastante para afastá-la do tipo ideal da mulher de classe dirigente. 9 O recenseamento de 1940 encontrou no Distrito Federal 7 4 . o emprego doméstico. na trova. cuja significação para o nosso estudo resulta não apenas da importância estatística e do n ú m e r o elevado das que se dedicam a essa atividade mas também pela importância que isso tem no condicionar. a esferas sociais diversas dos baixos níveis em que vive a maior parte da população negra e mestiça. especialmente da mulata. que via numa "casa de família" u m ambiente melhor para suas filhas d o q u e n u m a "oficina". nas condições objetivas do patriarcalismo doméstico brasileiro. a via principal de acesso d a m u l h e r de cor. 3 1 5 empregados domésticos. para ficar evidente.82% das mulheres que t ê m u m a atividade extradoméstica r e m u n e r a d a . por outro lado. na anedota. Hoje este padrão. Observemos. um fator de resistência à sua ascensão como força de perpetuação de seu status subalterno. . 0 7 % dos quais do sexo feminino. atitudes e estereótipos na criança brasileira a respeito da posição "natural" da mulher de cor na sociedade. Basta dizer q u e as empregadas domésticas representam 100.

63 0. absorvendo 58. embora o número absoluto de empregados domésticos brancos seja maior do q u e o de qualquer outro grupo étnico.03 A primeira circunstância a notar é que.13 100. QUADRO X V I I - DISTRIBUIÇÃO DOS EMPREGADOS DOMÉSTICOS. que.17 1.78 31. os brancos representam a maioria.67 13.546 86 63.936 2. 3. POR SEXO.964 28. 1940 SEGUNDO A COR. Entre as mulheres o maior n ú m e r o de empregadas domésticas rneonltii sr entre as pretas: em cada com mulheres pretas presentes no Rio de Janeiro em 1940. revela curiosa distribuição.15 1.44 9.53% dos ocupados neste tipo de serviço. já em relação ao número total de habitantes de cada grupo.00 3.001 17.22 100. Isto significa.334 23 10. A discriminação dos empregados domésticos por sexo e etnia.351 58.53 18.55 0.14 27.10 44.48 18.47 eram empregadas domésticas. e m b o r a em relação ao número de habitantes de cada grupo étnico os domésticos pretos e pardos apresentem maior proporção.41 são empregados domésticos. noutras palavras. que se registra no Qaudro XVII.118 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO está sofrendo completa transformação — mas sua persistência ainda é visível nos costumes e valores sociais relacionados ao problema. enquanto que para cada cem brancos somente 1.058 1.17 têm essa ocupação.47 16.331 28.70 22. os domésticos pretos c pardos no Rio de Janeiro.75 3. essa proporção era . 31.41 3. DISTRITO FEDERAL - Homens % de empregados por cada grupo de cor Mulheres % dc empregados por cada grupo dc cor Cor Dados absolutos % Dados % Brancos Pardos Pretos Amarelos TOTAL 6. entre os homens empregados domésticos.00 1.

em conseqüência da mesma atitude. e a condição de sexo e de cor. que as correlações entre o serviço doméstico em hotéis. Por exemplo.44 entre as pardas e de 3. —. especialmente de cor. N o serviço doméstico em habitações coletivas parece ser mais freqüente a utilização de mão-de-obra masculina para determinadas funções. especialmente estrangeiros. no Rio de Janeiro. mesmo que no ramo de atividade apareçam elementos de todas as cores. não raro. d e c o r c d e . é na medida em q u e à ocupação se liga uma idéia de superioridade de status que os elementos de cor escasseiam. mais uma vez. e o feito em casas particulares. inclusive sob a alegação de que esta é a preferência dos hóspedes. criadas de servir etc. A preferência pelo estrangeiro para certos serviços fica indiretamente d e m o n s t r a d a pelo fato de 24. prefeririam também empregados brancos. 10 Como já foi a n t c r i o r m o t c o b s e r v a d o . outras funções menos qualificadas . gozam de preferência. p o r o u t r o lado é de todo provável que para tal serviço seja mais forte o critério discriminativo da cor. funções de m o r d o m o . dc outro. homens brancos e. Isso demonstra que. adiante. se correlaciona com linhas de sexo e de cor. por sua vez. copeiro. 6 3 % . chofer de carros particulares. Assim é que no ramo de serviço doméstico parece existir u m a certa hierarquia de posições que.67 entre as brancas.055) serem estrangeiros ou naturalizados. para a mulher de cor o emprego doméstico tem sido. e ainda é. a s i t u a ç ã o d a s atividades d o m é s t i c a s a s s a l a r i a d a s . Ver-se-á. na direção do que já foi apontado. mesmo aprendizagem. As tendências expressas por esses dados parecem indicar. muitas vezes. são principalmente preenchidas por mulheres. q u e é u m a das g r a n d e s o p o r t u n i d a d e s d e g a n h o d e vida d a m u l h e r d c c o r n o R i o d e J a n e i r o . ficam indiretamente evidenciadas q u a n d o analisamos a distribuição ecológica dos empregados domésticos no Rio de Janeiro. quase metade das empregadas domésticas no Distrito Federal.lavadeiras. estrangeiros.39% dos h o m e n s ocupados em serviços domésticos n o Rio de Janeiro (representando u m total de 137. em c o n j u n t o as pretas e pardas representavam 4 4 .ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 119 de 16. arrumadeiras. especialmente em casas particulares. p a r e c e t a m b é m i n d i c a r n a c u m u l a ç ã o d e f a t o r e s l i g a d o s à c o n d i ç ã o d c sexo s o b r e a q u e l e s d c c l a s s e . de u m lado. a julgar pelo n ú m e r o crescente de casos recentemente ocorridos em estabelecimentos desse tipo que se negam a receber hóspedes pretos e que. jardineiro ou certas funções n o serviço doméstico de hotéis de maior preço exigem certas habilidades. e nelas não só os h o m e n s são preferidos como também. a grande o p o r t u n i d a d e de ocupação remunerada. pensões etc.

entre as pardas. magistério particular e culto. naqueles ramos enumerados.5 de profissão liberal. Os dados disponíveis e aqui elaborados permitem essa visão do estado estrutural do problema.população de dez anos e mais.35% eram de .totalizava na data do último censo. por traduzir não apenas status econômico mas também social e cultural.120 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO instrução no determinar para a m u l h e r de cor uma situação particularmente inferior dentro do sistema de estratificação social que aqui prevalece. esta quota. 3 4 2 . é o que se refere ao funcionalismo público e às profissões liberais. Outro grupo dc atividade econômica que merece análise relacionada à condição de sexo. Discriminados pela condição étnica vê-se que. que exerce. cujos dados completos f o r a m divulgados e são conhecidos. atividade remunerada . para os grupos de cor. desse total. Como se viu. A quota percentual de mulheres pretas e pardas ocupadas no serviço público civil no Distrito Federal n ã o chega a um. Nas profissões liberais os índices de ocupação feminina são. é possível passar agora a tentar uma visão do conjunto. Escusado é reiterar. 55 é a proporção entre as pardas. por outro lado. * * * Analisada a estratificação dos grupos étnicos em cada um dos principais ramos de atividade econômica.4. com u m mínimo de palpite e larga margem de objetividade. 74. ainda menores d o q u e n o serviço público: em cem mulheres pretas existem 1. é de 3. que esses índices são nitidamente superiores aos encontrados no conjunto da população do Brasil. sem voltar às mesmas considerações. queremos apenas abordar a questão do ponto de vista da discriminação por sexo. entre os homens. A população economicamente ativa no Distrito Federal . vinte são funcionárias públicas. que é expressão e síntese do que ocorre em cada um daqueles setores de produção. sendo menor a parcela das pretas do que a das pardas: em cada grupo de dez mil mulheres pretas presentes no Rio de Janeiro. 0 6 7 pessoas de ambos os sexos. O assunto já foi anteriormente abordado e agora. essas quotas são mais elevadas em todos os grupos.

50% e a de empregados diminuía para 92. na condição de empregados. nas duas principais categorias de posição na ocupação: 99.65% eram de pessoas de cor.939 322.340 . QUADRO X V I I I DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO.96%. ou seja. os empregados representam 92.727 19. enqranto que a dos de cor é de 0.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 121 brancos e 25.50%. q u e representam aproximadamente 7 3 % da população total e aproximadamente 7 4 % da população ativa. estão na condição de empregados na proporção de 9 9 . que na população total representam a p r o x i m a d a m e n t e 27% e na população ativa aproximadamente 25%. entre os brancos. i n d e p e n d e n t e m e n t e da cor. que exprimem as grandes linhas de estratificação de classe e de raça n o Rio de Janeiro.82% eram empregadores e 94. 6 5 % de cor distribuíam-se do seguinte m o d o .50%. os dc cor. apresentam-se n o Quadro XVIII e de acordo com eles foi esboçada a "pirâmide social" q u e visa objetivar graficamente a sua significação. Os dados sobre o conjunto. embora sejam minoria no conjunto da população e da população ativa. No total. Aqueles 2 5 .96% eram empregadores. dentro do grupo étnico. embora os brancos representem sobre o conjunto uma quota três vezes m a i o r do que os de cor. S E G U N D O A 1940 POSIÇÃO NA OCUPAÇÃO. 0 4 % . maior quota relativa na condição de empregado: as pessoas de cor. uma quota proporcionalmente menor do que estes. N o u t r a s palavras. eles têm. P o r outro lado.091 235. dentre os brancos. POR COR.18% eram empregados.128 342. DISTRITO FEDERAL - Cor Posição Brancos Empregadores Empregados TOTAL TOTAL Pardos e Pretos 848 86.50%. têm.067 19.249 254. 5.879 87. Inversamente. entre os brancos a quota de empregadores subia para 7. a q u o t a proporcional de empregadores é de 7.04% eram empregados e 0.

p. da UNESCO (Paris. pode-se. 2 4 2 e ss. à luz desses dados. X. afirmar que o fato mais notável da mobilidade social até lroje operada e que representa. o maior afastamento em relação ao padrão tradicional de emprego quase exclusivo nas plantações tropicais. concretamente conseguido. após 1888 e 1891. n. 3 Em 1940 os amarelos representavam 0 . também. de que a análise detida desse momento.122 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Resumindo os traços principais da situação da população de cor no sistema de estratificação social n o Distrito Federal. c o m o . Embora permaneçam teoricamente abertas a eles as portas de outras camadas sociais e os meios de atingi-las. o progresso objetivo. o p e d i d o antecipado de uma fotografia do candidato f u n c i o n a m como meios. científica e não apenas sentimental. n. é representado pela proletarização em massa dos homens e mulheres de cor. 2 Cf. Mas estamos convencidos. e a identificação de sua condição e de suas aspirações com a condição e as aspirações das classes trabalhadoras. p.31%. p. 20-21. Sobre as classes sociais. 156 e ss. e os pretos. no r e c r u t a m e n t o para certos empregos em empresas particulares. 4. Para outras funções. quando a candidatura ao e m p r e g o deve ser feita por carta. a exigência dc "boa aparência" (obviamente ao critério do empregador) o u . paralela à sua integração nas condições da vida urbana. 4 5 E m anúncios de jornais. 613. 1948. A. noutros casos. das outras etapas que estão por vir. Pesquisa sobre o padrão de vida do comerciaria no Distrito Federal. Notas 1 Cf. que constituem a esmagadora maioria da população urbana deste País. um capítulo apenas. p. Sociologia. v. 2-3. L. diretos e eficientes de fazer a seleção. v. Costa Pinto. XII. n. Frazier. a de girl de c o m p a n h i a de revista. 0 9 % da população do Distrito Federal Cf. colocase hoje como condição essencial para a compreensão objetiva. foi a urbanização acompanhada de intensa proletarização. p u b l i c a d a na revista Sociologia. 1 e ss. dezembro de 1949). que é o escopo fundamental desta pesquisa. p. Bem sabemos que isto é u m capítulo. v. 1949. pela população de cor com o desenvolvimento da economia industrial e das instituições liberais. 1945. 1949. 1. nossa intervenção na reunião d o C o m i t ê de Peritos sobre Relações de Raças. A estrutura da sociedade rural brasileira.. F. da história social do negro brasileiro. nem sequer esses recursos são utilizados: no Diário de Notícias. 11. p o r exemplo. matutino . nas indústrias extrativas e no serviço doméstico. The negro in the United States. VIII. Sociologia. ao mesmo tempo.

O levantamento da i m p r e n s a q u e interpreta as aspirações dos grupos p i g m e n t a d o s tem refletido nitidamente essa p r e o c u p a ç ã o . " Id. . em destaque. no problema da cor: s o b r e isso há um acordo tácito. Neste anúncio lê-se a s e g u i n t e exigência: "candidatas de cor b r a n c a " . Cf. Frazier. n. Segundo fomos i n f o r m a d o s esse dispositivo regimental da "nota d e oficialato" foi modificado depois disto. n.. v. foi publicado. 12. 13. 66. passim. C e r t a feita dois jovens não a obtiveram e recorreram aos tribunais. também Oraci N o g u e i r a . J a n . 14. reunido t a m b é m n o Rio de Janeiro. LII. na edição de 8 de d e z e m b r o d e 1951. a valorização d o papel da "rnãe preta" na nossa formação social c o m o prova de injustiça do t r a t a m e n t o q u e o branco dá à empregada preta. S„ v. Rev. "a criação de u m a Associação Profissional das Empregadas D o m é s t i c a s " . Conccrning ethnic research. n. 4 . Palm Jr. 1 9 4 8 . por meio de editoriais. Nem o c a n d i d a t o n e m o Itamaraty. 1947. 287 e ss.. é freqüente nos estereótipos d o b r a n c o sobre o negro. p. f a l a m . 4. Discrimination The J.. 5. id. U m dos p o n t o s d o p r o g r a m a de realização do Conselho Nacional de Mulheres Negras instalado no Rio d e J a n e i r o e m 1950. o que t o r n o u p ú b l i c a a questão. IX. E s c u s a d o é dizer que o julgamento e suas razões são mantidas sob o mais rigoroso sigilo. Eeb. entre os porta-vozes d o s s e n t i m e n t o s do grupo negro. Am. 448 e ss. 1951. em toda a pendência. v. 3. a p r o v a d o nas provas intelectuais e reprovado n o exame "psicotécnico". n. candidato à carreira de cônsul. An americam dilcmma. M a r . r e p o r t a g e n s e artigos assinados. 1948 e G u n n a r M y n d a l . A. . The Am. " d i p l o m á t i c o " . Atitude desfavorável de alguns a n u n c i a n t e s de São Paulo. c o n f o r m e nota divulgada pelo vespertino A 6 7 Notícia. Jour. of Soe. M a i s r e c e n t e m e n t e fato semelhante ocorreu n o C e n t r o de Preparação de Oficiais da Reversa. p. Racial attitudes and the cmploymcnt of negrões. J u n c . id. u m anúncio convidando candidatas a se a p r e s e n t a r e m para serem selecionadas a fim d e integrarem o corpo de girls de grande e s p e t á c u l o musicado.ESTRATIFICAÇÃO SOCIAL 123 dos de maior circulação n o Rio de Janeiro. E m 1 9 5 1 . 1. v. um dos assuntos do temário era o p r o b l e m a das domésticas. 357 e ss. Sociological theory and race relations.344 pretos e 5 5 . LVI. E. feita em s e n t i d o depreciativo. • ® As organizações negras d o Rio de Janeiro têm tomado n í t i d a consciência do problema das empregadas domésticas. Soe. p. 4. segundo uma m a n c h e t e d o jornal Qtúlombo. cm relação aos e m p r e g a d o s de cor. os jovens que t e r m i n a m o c u r s o d a Escola Naval devem obter d o C o n s e l h o do Almirantado a chamada " n o t a d e oficialato". muito in urban employment. Sociologia. Apr. W . 1 9 4 7 . d o mesmo autor Race contacts and t h e social strueture. e sobre ele f o r a m apresentadas teses e estabelecidas acaloradas discussões. era. n. v. Bullock. 2. 3 2 8 e ss. N o Congresso do Negro. Sobre e s t u d o s d e relações de raças em particular ver F. da mesma m a n e i r a q u e a identificação da mulher negra c o m a empregada doméstica. n. a p e n d i x . De resto. u m a vez sequer. R o d a pelos tribunais o caso dc u m p a r d o . Esta nota é eliminatória e basta q u e o guarda-marinha tenha um voto c o n t r a p a r a n ã o poder prosseguir na carreira. v. hoje torna-se i g u a l m e n t e freqüente. só se podendo conhecer o resultado final. p. Esses p r o b l e m a s d e metodologia são longamente discutidos e m n o s s o trabalho Sociologia e m u d a n ç a social. Sociologia. N a marinha. em setembro d o m e s m o ano. Por coincidência a m b o s e r a m mulatos.9 0 6 pardos. n. d c Leonard Bloom.. IV. A. v.

d e n u n c i a r a m a discriminação que seus m e m b r o s d e cor . no salão dc u m sindicato no Rio dc Janeiro. f i c o u em minoria e a discussão prosseguiu. à imprensa. que a n t i g a m e n t e eram promovidas por associações d c intelectuais brancos c que serviam dc ensejo para transbordamentos sentimentais s o b r e a fidelidade e doçura daquele símbolo. já que há e m p r e g a d a s d e todas as cores e aquele congresso era só de negro. pela U n i ã o Cultural dos Homens de Cor. as c o m e m o r a ç õ e s d o "dia da mãe preta". vinham sofrendo por parte d e hospitais e hotéis do Rio de Janeiro. e pela p r i m e i r a vez se não estamos enganados. um dos congressistas presentes i n t e r p e l o u a mesa sobre a pertinência d e se discutir aquele assunto. por outro lado. que no Congresso d o N e g r o acima citado.124 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO caracterisricamente. na sessão e m q u e se debatia o problema das empregadas domésticas. Esse ponto de vista. e n t r e t a n t o . em sessão pública. f o r a m promovidas. em comunicados. É c u r i o s o assinalar. N ã o há m u i t o t e m p o os sindicatos de enfermeiros e a s c e n s o r i s t a s .

o p a d r ã o ecológico das diferenciações raciais.Influência da composição étnica dos empregado» d o m é s t i c o s sobre o padrão ecológico .CAPÍTULO III 'Ecologia Repartição rios grupos étnicos na área urbana d o Rio de Janeiro . que obriga — pela força do costume. vedando-lhe o acesso a outros lugares nos quais o grupo privilegiado monopoliza o direito de se instalar. a concentração de população predominantemente pobre. inferiorizado pelo grupo dominante. quando a incapacidade econômica da parcela maior de um grupo étnico o mantém restrito àquelas áreas deterioradas do mapa geográfico e social de uma comunidade. apesar da constante alegação de sua inexistência.Significação sociológica d o s dados apresentados. resulta. a superlotação dos domicílios. da lei. com igual nitidez. índice de elevada segregação de fato. objetivamente. a força coercitiva do costume. os índices de desajustamento social de t o d a espécie tendem a se multiplicar e. U m dos aspectos maios odiosos da discriminação racial é a segregação residencial.para que o fenômeno tenha lugar. ou de ambos — a população de determinado grupo étnico. do ponto de vista sociológico.Formas e índices de segregação especial dos grupos de cor . logram o mesmo resultado e demarcam. ou como foi na Alemanha nazista . não raro. não por mera coinci- . daquela q u e talvez seja a forma mais coercitiva. não é preciso que esta segregação esteja escrita na lei — c o m o é em certas partes dos EUA. por serem difusas não são m e n o s eficientes. Nestas áreas. Por outro lado. mais intransponível e mais radical de segregação. N u m caso e noutro os efeitos são os mesmos para a população que permanece nas íreas deterioradas. Obviamente. pela incapacidade material do g r u p o inferiorizado de usar da proclamada prerrogativa formal de poder residir o n d e quiser e ter pleno acesso aos recursos da comunidade.O p r o b l e m a das favelas do ponto de vista das relações de raças . pois que permanece. imposto por sanções que. a limitar o seu direito de morar ao âmbito de determinados bairros ou ruas.

tarefa que sc torna muito mais sutil e difícil nas comunidades em que predomina um tipo menos formal de segregação. de outro. o que. os índices demográficos etc.126 O N E G R O NO RIO DE JANEIRO dência. e. Não raro. por outro lado. em subáreas urbanas relativamente bem delimitadas. nas quais a distância física que o separa dos outros grupos reflete uma distância também . buscando para ele a melhor interpretação. é verdade. Aos ouvidos do leigo a palavra segregação soa com significado extremo e estereotipado e logo açode à mente a idéia de gueto. a eles. por o u t r o lado. higiene. nestes estudos. a criminalidade. que está longe de se prestar ao estudo de todas as formas possíveis de segregação espacial de grupos sociais. evidentemente. de fenômenos diretamente correlacionados a ela. que encontravam no primeiro plano. na m e s m a área. segundo se t e m podido observar. transportes. ou de Bairro Chinês que a literatura e o cinema descreveram e exibiram para o grande público. não é preciso que a realidade coincida com esses tipos extremos e ideais de segregação para que mereça ser estudada. em regra. habitações etc. o trabalho de pesquisa do padrão ecológico das relações raciais. Haverá segregação residencial étnica na capital do Brasil? Este o problema sobre o qual o presente capítulo procurará reunir material pertinente. a concentração. Ao nosso estudo não bastaria. de Harlem. Correlações extremamente interessantes foram observadas. contentando-se com a colocação binária do problema. escolas. é reservada menor parcela das verbas municipais para melhoria dos serviços públicos. a competição econômica. N o seu significado técnico. o não peremptório que a maior parte das pessoas estaria disposta a oferecer como resposta àquela pergunta. entre a segregação. A segregação tout court. é mais fácil ter lugar no isolamento voluntário do que n o imposto. étnicos ou não. impressionados pela evidência da segregação racial. o c o m p o r t a m e n t o político. tais pesquisas se limitaram a destacar a coexistência dos dois fenômenos. mais diretamente dependente da incapacidade econômica característica deste ou daquele grupo em comparação com outros dentro da mesma sociedade. entretanto. assim. t a m p o u c o esses casos jamais significaram segregação absoluta. tipo gueto. facilitando. sem descer à indagação mais profunda das conotações existentes entre a própria segregação e outros aspectos da estratificação social em causa. tem permitido. de u m lado. a expressão segregação indica aquelas formas de relativo isolamento de um grupo dentro de uma estrutura maior. Para o sociólogo. lado a lado.

n a mentalidade.ECOLOGIA 127 existente no espaço social. ou a voluntária. que vários tipos de segregação p o d e m ocorrer. que resulta daqtiele processo. dado e fato objetivo. além deste que aqui nos interessa — a segregação residencial. Pesquisa desse tipo ainda n ã o foi feita no Rio de Janeiro. nos costumes . c o m o a dos negros americanos no sul dos Estados Unidos 2 . no vestuário. O Prof. é possível distinguir na expressão u m sentido transitivo: a segregação como processo segregador. Afastemos do espírito o estereótipo do gueto ou d o Harlem. entre grupos que se chocam. tipos sociais definidos.. L. e ver-se-á que tem pleno cabimento investigar se aqui. c o m o é freqüente. ainda. sem que a pesquisa se deixe impressionar. produto da competição e da seleção de tipos sociais que se atraem pela analogia. reage sobre a própria estrutura que a engendrou. é a determinação de zonas ecológicas no perímetro da cidade. sem nenhum critério ecológico e obediente apenas às necessidades da administração mu- . c o m as divisões administrativas da área urbana. particulares e extremas do fenômeno. que se manifestam de diversos modos . existe algum padrão de segregação residencial na repartição dos diferentes grupos étnicos pelas regiões. e que é forçada a um por outro que tenha a capacidade material necessária para t a n t o . finalmente. para não nos desviarmos excessivamente dos nossos objetivos fundamentais. c o m o foi originalmente a dos guetos judetis n a Europa. historicamente. traçadas mais ou menos arbitrariamente. e à segregação ativa. A segregação. zonas. W i r t h distingue outras variedades d o fenômeno: a segregação imposta. e um sentido substantivo: a segregação como estado segregado. Elemento essencial para uma análise desse tipo. em zonas e circunscrições distritais. na nossa cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro. produto de situações de conflito. na gíria. em tudo. Ele se refere. mais ou menos extremas. dentro deste esquema conceituai. em que se podem diferenciar dois tipos sociais. mais ou menos dramáticas. condicionando. ao lado dos que se referem à repartição geográfica da população de cor. pelo grau e pelas formas com que o fenômeno ocorre n o u t r a s situações concretas. por isto. Como se vê. conseqüência dos antagonismos que existem numa sociedade repleta de diferenciações e oposições internas. É fácil conceber. que são formas concretas. circunscrições e áreas sociais da comunidade. à segregação passiva. 1 O grau e as formas específicas d e estas distâncias se correlacionarem e se revelarem é coisa a ser investigada e m e d i d a em cada caso particular. Contentamonos. n e m nos caberia fazê-la no âmbito desta.na f o r m a da habitação.

Tijuca. Santa Teresa). que justificam a noção corrente. os teatros e cinemas. nela reside u m a população predominantemente suburbana e pobre. servem. onde se localizam as zonas suburbanas remotas e a zona rural do município. proletária. em três direções. ao menos. separados por distâncias consideráveis e pelo uso quase exclusivo de transportes coletivos. que os caracteriza como nicho preferencial das classes alta. o centro da cidade icity). Glória. os negócios (comércio e bancos). ela nos permite discernir tendências que. suburbano e interurbano. média e pobre. o Município do Distrito Federal pode ser dividido em duas grandes regiões fáceis de identificar: a) região oriental. Nova Iguaçu etc. independentemente da situação objetiva de cada um dc seus habitantes. O primeiro setor dirige-se no sentido noroeste e nordeste. irradiam-se. de classe média inferior e. O segundo setor volta-se p a r a a direção sudeste e sudoeste (Copacabana.. áreas satélites do núcleo metropolitano do Rio de Janeiro. confinante com o limítrofe Estado do Rio. A mobilidade de sua população se caracteriza pela rotinização diária entre os locais de trabalho e residência. corresp o n d e n d o às circunscrições de Inhaúma. as repartições oficiais. ocupando pequena fração do território dela. especialmente. núcleo histórico da expansão da cidade e centro da região metropolitana. que se prolonga pelo litoral atlântico e interior. embora não de todo correta. Esse zoneamento serviu de base à apresentação dos resultados censitários e foram apenas ligeiramente modificados na divulgação dos dados. Madureira. Aqui. de documentação de apoio. Piedade. ponto de convergência e concentração das linhas de transportes urbano. Penha. e nele se estendem bairros residenciais de classe média superior a abastada. a densidade demográfica é máxima durante o dia e m í n i m a durante a noite.). e b) a vasta região ocidental. mas. Na primeira região encontra-se. Pavuna etc. quando a população reflui para os locais de residência. com o objetivo de alcançar u m a divisão mais próxima do estado atual da cidade como aglomeração demográfica. ainda assim. Gávea. no centro. Esta zona transborda o Distrito Federal. Irajá. por confirmarem visivelmente hipóteses que outros dados já autorizam. Em torno desse centro e dele separados por áreas intersticiais bem características. Lagoa. Anchieta. invade o Estado do Rio (Caxias. ou tradicionalmente . setores residenciais s o c i o l o g i c a m e n t e bem definidos que. à beira da baía de Guanabara. D o ponto de vista geográfico. apresentam estilos de vida relativamente específicos.128 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO nicipal e à tradição. 3 A insuficiência dessas divisões para um estudo aprofundado de ecologia dos grupos étnicos é flagrante.

ECOLOGIA

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ocupados por estas classes, c o m o a Tijuca, ou mais recentemente criados n a orla do mar, como Copacabana. N ã o raro, a distância dessas zonas e m relação ao centro é equivalente à que separa as zonas do setor nordeste-noroeste acima referidas, mas o tipo h u m a n o , social e econômico que habita os bairros do setor sudeste-sudoeste é acentuadamente diverso e a preferência q u e as classes mais abastadas dão a esses p o n t o s é o que representa, do nosso p o n t o d e vista, o traço principal de sua fisionomia como zona urbana, como área social. Entre esses dois setores, na direção oeste, encontra-se a terceira das grandes divisões citadas, representada pelos bairros dc Engenho Velho, Andaraí, Engenho Novo, Méier etc. (que geralmente a população d e n o m i n a d e "zona norte"), caracterizada por u m a heterogeneidade maior de sua p o p u l a ç ã o : n o centro-oeste zonas industriais se misturam com zonas residenciais proletárias; no oeste, além de uma parte da zona industrial, encontra-se u m a fração de classe média abastada e ainda núcleos de população já nitidamente s u b u r b a n a . O novo (Grajaú) e o tradicional (Méier, São Cristóvão) mesclam-se aqui, permitindo a coexistência de núcleos definidos de classe média estável com características áreas de transição. Por toda essa região orientr!, espalhando-se pelas subdivisões q u e sumariamente delimitamos, a topografia particular da cidade p e r m i t i u a formação dos aglomerados residenciais que são as "favelas" de m o d o tal q u e quase não há uma altitude na região oriental do Rio dc Janeiro o n d e a comunidade não tenha colocado a parte mais baixa e mais p o b r e de sua população, nesses núcleos dc. miséria alcandorada onde o d e s a j u s t a m e n t o econômico e social atinge estados muito avançados. Oposta a este vasto e condensado conjunto, estende-se a região ocidental, mais vasta ainda, e formada pelas circunscrições de C a m p o G r a n d e , Guaratiba, Jacarepaguá, Realengo e Santa Cruz. Aqui habita a p o p u l a ç ã o rural. Além dessas duas regiões continentais pode-se ainda identificar u m a terceira, composta pelas ilhas que se encontram no interior do E s t a d o da Guanabara (Governador etc.)/ 1 Esta brevíssima descrição das grandes divisões do Distrito Federal deve ser acompanhada no M a p a I, p. 145, onde damos os limites destas grandes divisões e tem-se u m a noção da distribuição das favelas pelo território da cidade. Sobre o fundo desse esquema, que dentro de suas limitações p r e t e n d e compensar a falta de u m z o n e a m e n t o ecológico rigorosamente feito, analisemos agora como ocorre a repartição dos característicos étnicos d a p o p u l a ç ã o .

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N E G R O N O RIO DE JANEIRO

QUADRO X I X - DISTRIBUIÇÃO DA POPULAÇÃO, POR COR, SEGUNDO CIRCUNSCRIÇÕES URBANAS. RIO DE JANEIRO (REGIÃO ORIENTAL) 1940

População (°/o) Circunscrições Brancos
Anchieta Pavuna Madureira Piedade Gávea Tijuca Irajá Penha Inhaúma Engenho N o v o Méier Andaraí Rio Comprido Lagoa Glória Copacabana SantaTercsa São Cristóvão Engenho Velho Gamboa Espírito Santo Santa Rita Ajuda Santo Antônio Candelária Santa Ana São Domingos Sacramento São José 53,42 58,86 59,53 70,29 65,29 71,51 69,69 72,31 77,32 71,14 73,82 80,47 71,34 73,81 78,42 78,81 79,10 75,36 82,13 69,43 78,89 84,18 84,23 84,65 85,04 85,93 87,69 87,92 88,43 Pretos

Pardos
32,17 27,65 25,10 20,29 15,48 13,27 18,67 19,73 15,55 12,12 10,83 9,82 15,32 15,55 11,74 8,76 12,81 16,82 11,07 19,14 14,66 11,46 7,04 10,81 11,37 9,96 8,74 8,95 4,63

14,28 13,41 15,34 9,26 19,14 15,16 11,60 7,91 6,98 16,72 15,35 9,67 13,30 10,58 9,74 12,31 8,00 7,77 6,72 11,37 6,39 4,27 8,65 4,29 3,42 3,99 3,52 3,08 6,87

ECOLOGIA

131

Do capítulo anterior, e das análises ali procedidas, parece-nos ter resultado evidente a tendência histórica da concentração dos grupos de cor no Distrito Federal nas camadas proletárias da população, p a r e c e n d o ter sido esta a mais nítida direção e o maior alcance da mobilidade social realizada pelas grandes massas destas populações, depois da abolição d o regime de trabalho escravo que sobre elas pesava. Desta verificação é q u e retiramos a hipótese fundamental do presente capítulo, procurando ver, n a análise ecológica, se a hipótese permanece o u deve ser modificada à luz desse n o v o critério de apreciação. Noutros termos, o que nos interessa é verificar, t o m a n d o a situação residencial como índice d a situação social, qual o padrão de acordo c o m o qual vivem as quotas de 7 1 % de brancos, 11% de pretos e 1 7 % de pardos que compunham a p o p u l a ç ã o do Rio de Janeiro em 1940. 5 A distribuição dos diversos grupos de cor pelas zonas urbanas encontrase no Quadro XIX. N e l e se vê, para cada grupo de cem habitantes de cada zona urbana, quantos pertencem a cada um dos três grupos étnicos considerados. No Quadro XX temos o grupamento desta distribuição por setores.

QUADRO X X -

DISTRIBUIÇÃO POR COR, SEGUNDO OS

SETORES URBANOS. RLO DE JANEIRO (REGIÃO ORIENTAL)

- 1940 Setores Brancos Noroeste Sudoeste Nordeste Oeste Sudeste Centro-oeste Centro-este 61,79 68,70 72,96 75,70 76,44 77,70 80,66 População ( % ) Pretos 13,05 • 17,00 8,80 13,50 10,86 7,41 6,44 Pardos 25,03 14,30 18,16 10,80 12,62 14,82 12,79

132

O NEGRO NO RIO DE JANEIRO

Considerando-se, em primeiro lugar, as duas grandes regiões do Distrito Federal, observamos que os brancos, por serem avantajada maioria no conjunto da população, predominam em ambas; o que importa, aos objetivos do estudo, por conseqüência, não é o predomínio absoluto deste 011 daquele grupo em cada zona, mas a variação relativa da minoria nas diversas regiões e, principalmente, nas diferentes subdivisões de cada uma. A esse respeito constata-se que, em princípio, quanto maior a urbanização, maior a quota de brancos: na região oriental, inteiramente urbanizada, os brancos representam 72,91% da população, enquanto que na região ocidental, com extensas partes rurais, essa q u o t a desce para 60,02%. Por outro lado, o padrão rural-urbano aqui não se aplica sem restrições, pois na região ocidental os núcleos de população .suburbana são também elevados e possivelmente isto influi na distribuição espacial dos grupos étnicos. Como dissemos, esta primeira divisão é excessivamente geral para permitir o destaque de tendências seguras. Cumpre subdividir cada u m a delas se quisermos discernir as grandes linhas da estrutura ecológica. Para isso tomemos por base a região oriental, que continha, em 1940, 8 5 % da população do Distrito Federal e na qual as áreas sociais melhor se diferenciam. Aqui parece confirmar-se, sem sombra de dúvida, a hipótese formulada: quanto mais proletária a área, maior a quota de população de cor. No nordeste e noroeste, em cada cem habitantes, 4 8 , 1 2 são de cor; essa proporção é de 23,48 n o sudeste-sudoeste e de 46,63% no oeste-centrooeste. Este padrão parece corresponder aproximadamente às grandes linhas da estratificação social, e deve ser entendido como um reflexo a) da composição étnica das diversas classes sociais e b) da distribuição dessas classes pelas zonas urbanas. Se nos detivermos a considerar os aspectos particulares do problema veremos a prova disso se destacar dos dados. Assim, por exemplo, observamos que a circunscriçao isolada que apresenta maior quota proporcional d e pretos - 19,14% - é a Gávea, q u e está exatamente no setor sul, aquele que, em conjunto, apresenta m e n o r quota de habitantes desta cor. Este fato, além de indicar que as divisões m u i t o amplas devem ser evitadas, resulta, antes de mais nada, de ser a Gávea um bairro com forte núcleo industrial e grande concentração de população proletária, residente nas favelas que ali se e n c o n t r a m , o que demonstra, ao lado de i n ú m e r o s outros casos concretos, que o padrão ecológico é, principalmente, u m p r o d u t o da estratificação social.6

ECOLOGIA

133

Considerando a vasta região ocidental do município, p r e d o m i n a n temente suburbana e rural, e as cinco subdivisões que a c o m p õ e m , observamos que as quotas de população branca, embora prevaleçam, são em geral menores do que as encontradas na região oriental. Nesta parte do Distrito Federal a composição étnica é a seguinte:

QUADRO X X I -

COMPOSIÇÃO POR GRUPOS DE C O R ,

SEGUNDO AS CIRCUNSCRIÇÕES DA REGIÃO O C I D E N T A L . DISTRITO FEDERAL 1940

Grupos de cor CircunscriçÕes Santa C r u z Guaratiba C a m p o Grande Jacarepaguá Realengo Brancos 51,01 52,26 58,32 61,67 62,75 Pretos e Pardos 48,18 47,74 41,61 38,23 37,12

Nas ilhas a quota dos brancos é de 66,03%, a dos pretos, 8,51% e a dos pardos, 2 5 , 3 9 % . O fato de na região ocidental haver uma maioria masculina, deverá ser fator de diminuição da quota dos pretos; este fator, por sua vez, está visivelmente compensado pelo contingente de homens pretos ocupados como empregados ou rendeiros na agricultura local. Por outro lado, como já dissemos, deve ser t a m b é m alto o contingente dos que, embora t e n h a m suas atividades noutra zona, ali residam, população que, a julgar pela média mais baixa do valor locativo das habitações, provavelmente se inclui nas camadas sociais menos afortunadas. Ao que ficou exposto devemos ainda acrescentar a análise de dois fatores de decisiva influência sobre a repartição ecológica dos grupos étnicos no Rio de Janeiro e que, se de um lado impedem que a segregação transpareça no primeiro plano da análise, só demonstram, por outro lado, o quanto ela está relacionada com o sistema de estratificação social existente na comunidade urbana. Q u e r e m o s nos referir à composição por cor do grupo dos empregados domésticos e dos habitantes das favelas do Rio de Janeiro.

anteriormente. No centro da cidade é curioso observar que os empregados domésticos constituem a quota maior. o que realmente só começa a se difundir e generalizar da classe média superior para cima. Glória. por exemplo. situação ecológica. mínima é a quota dos brancos. no centro da cidade. as representações dos grupos de cor. o entrelaçamento desses três fatores. enquanto que. Já vimos. pensões. aumentando assim. em sua maior parte. resulta. Observe-se. Tijuca etc. por sua vez. É sabido. p r e d o m i n a m os homens. mais uma vez. como a maioria dos empregados domésticos do sexo masculino é de cor branca. Santa Teresa. de pessoas de certo grupo étnico evidentemente influem em sentido contraditório sobre a distribuição dos grupos de cor no mapa urbano: a condição étnica e social dos empregados domésticos tende a fazê-los aparecer nas zonas proletárias da cidade. C o m os dados em mãos é possível demonstrar. Lagoa. finalmente. que a maioria dos ocupados no serviço doméstico remunerado no Distrito Federal é de cor preta e parda.134 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Analisemos. 0 5 % dos empregados domésticos. q u e se não distribui igualmente por todas as camadas sociais a possibilidade de ter empregados domésticos. como ocorre. e b) concentração. É o que se observa no Quadro XXII. entre os empregados domésticos. Essas duas circunstâncias — a) concentração do poder de manter empregados domésticos em famílias de certas camadas sociais. Isto parece resultar do fato de.e não em casas de famílias. nestas zonas. que a grande concentração dos empregados domésticos encontra-se nas circunscrições residenciais preferidas pelas classes mais abonadas: Copacabana. a questão dos empregados domésticos. possibilidade que aliás cada vez mais se restringe em conseqüência da solicitação dessa mão-de-obra pelo mercado de trabalho industrial que se expande na cidade. por outro lado. o serviço doméstico ser principalmente exercido em hotéis. que é seu local de trabalho. condição étnica. entre os empregados domésticos do centro da cidade.. ou. em conjunto. ali se encontram 6 9 . tenham 32. nos bairros residenciais. tende a levá-los para as zonas mais abastadas. Embora essas zonas. que compõem o setor sudeste-sudoeste da cidade. aos quais constantemente temos de nos referir: estratificação social. as demais zonas reunidas têm pouco mais de 30% dos empregados domésticos. menor ainda para as mulheres do que para os homens deste grupo étnico. nos edifícios. primeiramente.19% da população da cidade. 7 . a superioridade dos desta cor na zona do centro. o fato de o local de residência d o empregado doméstico geralmente se confundir com o local de residência do patrão. pelos cabineiros .

69 3.00 8. nas outras zonas de maior concentração de empregados domésticos. C a m p o Grande. onde as quotas de empregadas domésticas caem m u i t o .64 4.01 0.47 28.00 12.61 8 4 .14 0.99 0.04 13. nas zonas proletárias.07 20. os de cor são sempre maioria e ás mulheres predominam sobre os homens. 1 9 4 0 Homens e Mulheres 100.52 2.00 3.83 28. Glória. Copacabana.61 13. 1 3 7 3 .11 5. P O R S E X O E C O R . 5 3 80.40 2.00 100.37 5. Santa Cruz.47 20.00 100. I n h a i í m a Guaratiba.80 8.03 2. 6 6 2 3 . Lagoa.09 3.15 22.79 2 3 . São Cristóvão Irajá.08 0. diminui também. 1 2 21.05 3. Parece evidente que é ponderável a influência desse fato sobre a composição étnica d a população de algumas zonas urbanas d o R i o de Janeiro. a diferença entre a . Pavuna. entre eles.38 35.39 25.07 1. Santa Teresa e Glória observa-se que.33 31.05 0. Ajuda São D o m i n g o s . Rio Comprido. Gávea E n g e n h o Velho.85 3.00 Homens Zonas Brancos Pretos Amarelos Pardos Total Brancas Pretas Muihats Amarelas Pardas Total 1» 2a 3a 13.95 1.93 24.11 0.15 19.68 29.43%.27 16.00 100. empregadas domésticas naquelas zonas. A distribuição das circunscrições pelas zonas urbanas é a seguinte: Zonas Ia 2a 3' 411 511 6-> 7a 8 il Circunscrições q u e compreendem: Candelária.33 18.33 5.02 — — — 4. Sacramento. entre os homens.81 20.39 86.41 0.14 27. 5 a 6 a 7a 8" Total Notas : 100. P i e d a d e .08 0.33 46.00 100. E n g e n h o Novo.50 6.05 21. Ilhas. Penha. Realengo Excluído o centro. visivelmente. Gamboa Santo A n r ô n i o . Espírito Santo Santa Teresa.45 20. Andaraí Méier.28 12.39 15.63 37.00 100. diferença evidentemente relacionada ao contingente de mulheres de cor.24 — 0.61 8. Jacarepaguá.00 100. 7 3 20.74 3.35 28. Por outro lado. a proporção dos brancos era de 83.80 29.12 2 3 .05 0.81 2 6 . S E G U N D O AS Z O N A S D O D I S T R I T O F E D E R A L . 5 3 7 1 .00 100.10 0.03 6.47 19.99 7 7 .13 0.65 32. Tijuca.15 3.12 0.61 13. 6 7 5.87 26.50 9 0 . Tomando-se para exemplo Copacabana.13 0.21 4.22 38.ECOLOGIA 135 QUADRO X X I I - D I S T R I B U I Ç Ã O D E EMPREGADOS DOMÉSTICOS.96% e n q u a n t o que entre as mulheres esta proporção descia para 74. Santa Ana.50 10. Madureira. Dados proporcionais a c e m empregados em cada zona 2.26 45. 3 2 86. Santa Rita. São José. 0 0 87.39 1.

estranho e vasto laboratório sociológico. Vejamos. aproximadamente 29 são de cor. resistindo a uma forte atração. Isto significa. quase virgem de estudos sérios. vindos de outros pontos do País. nem o estado atual do problema per se constituem. essa circunstância parece demonstrar. agora. a segregação desses grupos na estrutura da comunidade.136 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO composição étnica dos dois sexos. q u e as grandes massas de população de cor no Distrito Federal só nas camadas mais baixas da estratificação social encontraram o modo e o lugar de nela se integrarem.837 favelados —. c) que a presença de núcleos favelados em todas as zonas da região oriental do Rio de Janeiro (ver Mapa 1) influi como fator ponderável na dispersão desses grupos por toda a região. não enveredarmos pelos inúmeros e complexos problemas em que ele se decompõe e que caracterizam esse m u n d o de desajustamentos sociais. pitoresco e demagogia. a falar no problema das favelas. de cada cem habitantes das favelas. que a representação dos grupos de cor na população . o outro fator. o mesmo acontecendo com os provavelmente elevados contingentes de população de cor que. Interessa-nos. apenas. até certo ponto. sobre u m total de 138. temos que nos concentrar sobre os pontos específicos de que pretendemos tratar a fim de. aqui. como imigrantes nacionais. como nessa classe se encontra a maior parte da população de cor que vive no Distrito Federal. daí resulta u m a alta representação destes grupos de cor na população das favelas. legenda. nosso objeto f u n damental de estudo. de cada cem habitantes. e sobre outra forma. mais u m a vez. entram na cidade. Diversos fatores têm histórica e sociologicamente contribuído para a formação das favelas do Rio de Janeiro. noutros termos. aproximadamente 71 são de cor. 8 Queremo-nos referir às favelas. n o decorrer de outras pesquisas. cercadb por u m a muralha de sentimentalismo.98. e d) que. mascarando assim. demonstrar: a) que nas favelas vive elevada quota da classe operária d o Distrito Federal e que não é apenas a mala vita que ali é obrigada a viver. sendo de cor 70. mas nem a análise desses fatores. Toda vez que somos obrigados.95 da população das favelas . em busca de outros objetivos. atrás referido. aproximadamente 7 vivem nas favelas. Dentre cada cem habitantes do Rio de Janeiro. b) que.506 habitantes. dessa redistribuição dos grupos de cor — ou das classes sociais em que esses grupos predominantemente se concentram — pelo mapa ecológico do Distrito Federal.

tendem a redistribuir aquela p o p u l a ç ã o por todas as circunstâncias urbanas. A respeito d o c e n t r o urbano e das zonas intersticiais que lhe são adjacentes. Como ali se vê. a composição étnica se modifica com o expressivo aumento da quota dos de cor. o esquema conceituai sobre o qual alguns ecologistas propõem índices de determinação da segregação residencial de . encontram-se favelas. em cada cem habitantes desta zona . que as favelas. onde a população de cor encontra oportunidade de ocupação. a maior porcentagem delas está n o norte. em cujas favelas deve estar concentrada a maior parte da população de cor do centro da cidade. da p r o p o r ç ã o deies na população total da c o m u n i d a d e . em conjunto. a segregação espacial dos grupos étnicos. Também já vimos que esta é a circunscrição que apresenta maior quota de população de cor n o Rio de janeiro: mais de 19% de sua população em 1940 era de cor. os brancos nela predominam fortemente. no padrão ecológico da cidade.ECOLOGIA 137 das favelas é muitas vezes maior. na redistribuição d o s grupos de cor pelas diversas zonas urbanas. dentro dele.que constitui o centro-oeste da divisão aqui adotada . porém. e especialmente n a região oriental. qual a significação desses fatos. em cada cem favelados 71 são de cor) e porque estão disseminadas por quase toda a cidade.10 Se adotássemos. evitando assim: a) que a concentração dos pretos e pardos nas camadas social e economicamente mais baixas da população. Isto pode ser deduzido pela repartição delas na área urbana representada n o mapa. portanto. classe na qual a população de cor está fortemente concentrada no Distrito Federal. como na zona da Gamboa. E m terceiro lugar vem o centro. em determinadas subdivisões desta zona. A proximidade da zona portuária e de outros locais de trabalho. h á núcleos de população proletária favelada. quase igual ao triplo.oitenta são brancos. é curioso n o t a r que. em quase todos os distritos urbanos do Rio de Janeiro. Vejamos. a essa luz. a Gávea é a zona que apresenta m a i o r concentração. p o r q u e apresentam cotas elevadas de população d e cor (em conjunto. do ponto de vista sociológico. porém. Em primeiro lugar observemos a influência que têm as favelas. Parece evidente.' segue-se o sul e. b) que a concentração dessas classes nos pontos sociologicamente mais deteriorados da comunidade configurem. há de ser responsável pela utilização da topografia do centro da cidade para a formação desses núcleos de habitação proletária.

Se considerarmos. à luz daquele critério. existirá completa segregação. forte segregação da população de cor numa área que apresenta. ecologicamente definida. veríamos que o p r o b l e m a ganharia aspectos diferentes. ora tendendo para o outro de repartição inteiramente ao acaso. já que aqui a distância fundamental é entre a base e o vértice de uma pirâmide de classes. de comportamento. esta distância se mede no plano vertical: quer no espaço social. as favelas em conjunto. para as favelas. de educação. entre classes. no extremo oposto do gradiente. aqui no Rio de Janeiro.aqueles conhecidos característicos das áreas segregadas.. aplicando-o às favelas. D e acordo. como f o r m a n d o uma área natural. por exemplo. observamos que a proporção de população de cor nesta situação ecológica . de desorganização etc. . De acordo c o m o conceito inicialmente exposto. como se elas formassem conjuntamente o q u e e m ecologia humana se chama uma "área natural". Somente a população total das favelas foi classificada de acordo com a cor. aproporção de população de cor sobre apopulação total é de 27% de acordo com o q u e acima ficou dito. Calvin S c h m i d e Clarence Schrag. o n d e . quando nas áreas em que residirem os membros de u m g r u p o racial não se encontrar residindo n e n h u m membro do outro grupo. .índice que eles aplicaram ao estudo do fenômeno em 44 cidades norte-americanas . não existe segregação quando a população da minoria de cor distribui-se ao acaso p o r todas as áreas urbanas. não é possível negar que a distância d o espaço físico está a refletir nitidamente a distância no espaço social.138 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO grupos étnicos no interior de uma c o m u n i d a d e . o mesmo não foi feito para a população de cada favela separadamente. isto é. com o índice de segregação proposto pelos professores Julius Jahn. Poderíamos afirmar que a segregação não existe em todas as subdivisões ecológicas da cidade em que a proporção de população de cor for aproximadamente de 27%. porém. N o Rio de Janeiro.71% . da Universidade de W a s h i n g t o n " . a distância é medida do vale para o monte. ora se aproximando de um tipo de completa segregação.é suficientemente elevada para indicar. E n t r e esses dois casos extremos e ideais distribuem-se as situações concretas. a população de cor distribui-se pelas diversas áreas em proporção igual àquela em que se encontra em relação ao total da população da cidade. com a diferença de que. de muitos outros pontos de vista — condições de habitação. para o alto dos morros. equivalente à proporção sobre a população total. neste caso. inversamente. quer no espaço físico. onde está a população mais pobre do Rio de Janeiro e onde em cada 10 habitantes 7 são de cor.

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Desta forma não nos resta a possibilidade de indicar exatamente, para a população de cor de cada bairro, qual a proporção dos favelados, qual a proporção dos não-favelados, o que representaria, sem dúvida, valiosa informação para os objetivos do presente estudo. Só indireta e aproximadamente isso pode ser avaliado, se considerarmos que, em cada favela, a população de cor guarda, em relação à população total, a mesma proporção que no c o n j u n t o — 7 0 , 9 5 % . Nessa hipótese, de u m a proporcionalidade igual,12 que aqui usamos para substituir a informação direta, se distribuirmos as favelas existentes pelas diferentes zonas da divisão aqui adotada observamos um fato curioso: n o setor nordeste-noroeste, em cuja população se encontra a maior q u o t a de população de cor (48,12%), é o n d e é m e n o r o número de favelados — 9.982; enquanto que no setor sudeste-sudoeste, onde a quota dos de cor desce a menos de metade (23,48%) - nestes a população favelada sobe para 3 9 . 5 9 6 . Esta correlação inversa parece sugerir (aceitando-se a hipótese formulada) que as favelas apresentam-se como núcleos segregados de população pobre e de cor exatamente nos bairros onde os brancos constituem a maioria e que elas encontram menores razões econômicas e sociais para se formarem naqueles bairros o n d e maior é o número de habitantes de cor e menor a distância social e étnica entre favelados e não-favelados. Se concordarmos em que grande parte da população da favela vive em função e a serviço dos mais afortunados que residem nas áreas não-faveladas adjacentes e se verificarmos que, em regra, o favelado que tem atividade econômica definida tem sua atividade na mesma zona em que reside, a hipótese parecerá ainda provável. 13 As ocupações e o nível de salários ganhos, ao lado de outros índices possíveis de determinar com os dados em mãos, completam a demonstração do entrelaçamento daqueles três fatores inicialmente referidos: estratificação social, situação ecológica e cqndição étnica. O Q u a d r o XXIII distribui os habitantes das favelas por grupos de ocupação. Nele se vê que o maior contingente é o dos inativos, o das ocupações não especificadas e o dos que não declaram a ocupação. Ocorre, porém, que mais da metade dos incluídos nesta rubrica é de crianças de 0-13 anos de idade, que totalizam 46.869, impropriamente incluídos n u m a discriminação de atividades. E m verdade, os trabalhadores nas indústrias - especialmente de construção civil —, nos transportes e no comércio constituem a grande massa da população ativa das favelas, ao lado dos empregados domésticos; e embora não tenhamos u m a discriminação por posição na ocupação, parece desnecessário a f i r m a r que a quase totalidade deles ê de empregados, trabalhadores não-qualificados ou semiqualificados, como se p o d e deduzir da escala de salários que inserimos no Quadro XXIV.

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182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO

QUADRO X X I I I -

HABITANTES DAS FAVELAS, POR SEXO, SEGUNDO O 1949

RAMO DE ATIVIDADE. RLO DE JANEIRO -

H a b i t a n t e s e m favelas Atividade Homens Agricultura I n d ú s t r i a e m geral C o n s t r u ç ã o civil Comércio Transportes e comunicações Administração, segurança p ú b l i c a e defesa nacional Empregos domésticos Inativos e outras
TOTAL

Mulheres 35 2.894

Total 136 14.289 10.573 5.210 4.064

101 11.395 10.573 4.602 4.043

608 21

2.834 2.375 33.030 68.953

105 9.531 56.680 69.884

2.939 11.906 89.710 138.837

QUADRO X X I V - SALÁRIOS DOS HABITANTES DAS FAVELAS, POR SEXO, SEGUNDO CLASSES DE GRANDEZAS. RLO DE JANEIRO 1949

Salários (Cr$) Até 2 0 0 201 - 400 401 - 600 601 - 800 801 1.000 1.500

H a b i t a n t e s das favelas Homens 1.239 2.812 4.973 7.327 9.740 8.996 2.243 Mulheres 3.900 5.264 2.214 947 471 166 50

1.001 -

M a i s de 1 . 5 0 0

Nota: Estão excluídos os rendimentos dos inativos.

ECOLOGIA

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Aí se vê que, excluídos os inativos, a classe modal d e salários é de 801-1.000 cruzeiros, sendo que, no conjunto, a maioria dos t r a b a l h a d o r e s residentes nas favelas têm salários abaixo de 800 cruzeiros mensais. N á o espanta, por conseqüência, que das 34.567 moradias recenseadas, 2 6 . 3 1 3 n ã o tenham fossa ou esgoto; q u e 8 4 , 4 1 % delas não tenham água; e q u e , q u a n t o ao valor, 64,06% permaneçam na classe de até 8 mil cruzeiros; q u e 6 1 , 6 1 % não disponham de luz elétrica; que 47,17% tenham piso de terra b a t i d a ; e que 61,91% dos habitantes recenseados sejam analfabetos. Mais da metade dos moradores das favelas do Distrito Federal é de nascidos noutras unidades da Federação, o que vem indiretamente reforçar a hipótese de que nessas correntes de migração interior que d e m a n d a a Capital do País bastante expressivas são as quotas dos grupos de cor. Atinge a 6 1 , 8 6 % da população das favelas a proporção dos oriundos de outros p o n t o s do território nacional. Lamentavelmente não foi apurada no censo a n a t u r a l i d a d e dos brasileiros correlacionando com a cor e o local de presença p a r a q u e se pudesse ter uma visão mais direta do caráter seletivo de cor das migrações internas no Brasil, f e n ô m e n o que é hoje um dos característicos d o m i n a n t e s da situação demográfica d o País. Depois de passar em revista esses dois fatores14 - composição étnica do grupo dos empregados domésticos e da população favelada - , q u e nos parecem muito importantes no estudo ecológico dos grupos étnicos n a capital do País, podemos tentar a aplicação do índice de Jahn, Calvin S c h m i d e Schrag às circunscrições urbanas. 1 5 Aplicado à região oriental do Rio de janeiro, o índice citado revela tendências bastante significativas. Para destacá-las, façamos u m g r u p a m e n t o em classes de maior ou m e n o r afastamento, para mais ou para menos, em relação ao índice de 2 7 % , que indica no Rio de Janeiro o estado de nãosegregação. No Q u a d r o X X V temos a dispersão em torno daquele ponto. Comecemos a analisar os dados a partir daquelas zonas que apresentam maior afastamento para menos em relação à média. A maior parte das zonas incluídas no grupo E (menos de vinte habitantes de cor em cada cem) são as que compõem o centro d a cidade. Das zonas que na divisão m u n i c i p a l constituem o centro, só a G a m b o a não se inclui neste grupo. Aqui, o n ú m e r o de residências é pequeno e muitas delas são apartamentos de alto valor locativo, não sendo de surpreender, portanto, que a quota de residentes d e cor 1 seja baixa.

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182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO

QUADRO X X V - ÍNDICE DE SEGREGAÇÃO ECOLÓGICA DA POPULAÇÃO DU C O R , POR ZONAS URBANAS. R I O DE JANEIRO

- 1940 G R U P O A: z o n a s c o m m a i s d e 4 0 % Pavuna Anchieta Madureira G R U P O B: mais d e 3 0 % Gávea Piedade Gamboa Irajá ' G R U P O C : mais de 2 7 % Engenho Novo Rio C o m p r i d o Tijuca G R U P O D: menos de 2 7 % Méier Lagoa S. Cristóvão Inhaúma Copacabana Espírito Santo Santa Teresa G R U P O E: m e n o s d e Penha Andaraí E n g e n h o Velho Santa Rita Ajuda Santo A n t ô n i o Candelária Santa A n a São D o m i n g o s Sacramento São José 46,42 41,06 40,44 - m e n o s de 4 0 % 34,62 30,55 30,51 30,27 - m e n o s de 3 0 % 28,84 28,62 28,43 m a i s de 2 0 % 26,18 25,13 24,59 22,52 21,07 21,05 20,81 20% 19,14 19,49 17,79 15,73 15,69 15,10 14,79 12,95 12,26 12,03 10,50

N o t a : S e n d o 2 7 % » p o r c e n t a g e m d a p o p u l a ç ã o d c c o r s o b r e a p o p u l a ç ã o total d a c i d a d e , os a f a s t a m e n t o s , p a r a m a i s o u p a r a m e n o s , c m t o r n o d e s t e í n d i c e indicam o grau d e segregação p o r z o n a s u r b a n a s .

ECOLOGIA

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O grupo D é f o r m a d o pelas zonas que têm mais d e 2 0 % d a população de cor sem atingir 2 7 % ; elas, representam, por assim dizer, o l i m i t e inferior de variação em t o r n o d a média. Neste grupo estão alguns bairros n o s quais já julgamos ter d e m o n s t r a d o que o elevado número d e e m p r e g a d o s domésticos certamente c o n t r i b u i para aumentar a representação dos e l e m e n t o s de cor. Zonas como Santa T e r e s a , Glória, Copacabana, não fosse a i n f l u ê n c i a do serviço doméstico, possivelmente estariam incluídas no g r u p o E, e n ã o neste. Ao lado delas estão zonas tipicamente suburbanas, c o m o o M é i e r . Desta classe em d i a n t e estão os diversos graus de segregação, razão pela qual, para observá-los m e l h o r , dividimos a distribuição em m a i o r n ú m e r o de grupamentos. O grupo C inclui as mais baixas variações acima d a média; e como a ausência de segregação é indicada não pela perfeita coincidência c o m a média mas por uma p e q u e n a variação expressa por valores p r ó x i m o s a ela, julgamos que até o limite de 3 0 % no caso presente, a discrepância não é expressiva. Já no grupo B essa expressividade não pode ser contestada, pois aqui não somente encontramos zonas como a Gamboa, que se d e s t a c o u do conjunto do centro-oeste, caracterizado pelo baixo índice de p o p u l a ç ã o d e cor, e que aqui se inclui c e r t a m e n t e por causa das favelas que ali se e n c o n t r a m , mas também encontramos a Gávea, que, já ficou dito, é núcleo de acentuada concentração de população d e cor, que já se afasta de 7% em relação à média. Chegamos, f i n a l m e n t e , no último grupo, às zonas e m q u e o afastamento da média chega ao dobro do observado na classe anterior: são as zonas do noroeste da cidade - Madureira, Pavuna, Anchieta. Nesta última zona a quota de população de cor ultrapassa de 19% a média q u e deveria ser encontrada no caso de não-segregação, indicativo de u m a distribuição inteiramente ao acaso.
* * *

Tudo o que atrás ficou exposto foi a análise do material existente sobre a ecologia dos grupos étnicos no Rio de Janeiro. R e u n i n d o os seus resultados, tentemos agora u m a síntese interpretativa do problema. Parece evidente q u e não é possível compreender o m o d o como as relações interétnicas influíram sobre a repartição dos grupos no perímetro da comunidade sem manejar, simultaneamente, com os três conceitos básicos de qualquer estudo - e n ã o s o m e n t e deste - sobre o problema da segregação racial. Esses três conceitos básicos são: a) posição social, b) situação ecológica,

que foram os mais altos q u e lograram atingir na escala social. faz c o m que nas zonas predominantemente brancas . de esses fatores simultaneamente atuarem é o que explica não somente o nosso. e diversas. Até aqui . a diferença é essencialmente degrau. se separam por diferenças sociais acentuadas. principalmente brancas. Dentre esses fatores peculiares destacamos. duas o u mais empregadas domésticas. as relações entre grupos étnicos n o Distrito Federal. dois deles: a) o problema da composição étnica dos empregados domésticos e b) o problema da composição étnica da população das favelas. não de espécie. que é nas zonas mais deterioradas do mapa urbano que os grupos de cor encontram o nicho o n d e se instalam e vivem. O m o d o particular. para esse grupo. A alta concentração de elementos de cor. o local de trabalho se confundir com o local de residência. Da análise do padrão ecológico resultou evidente a concentração dos elementos de cor da população d o Rio de Janeiro nas camadas mais pobres da sociedade e. mas também qualquer padrão ecológico de relações de raças. de m o d o decisivo. Esses fatores agem.o que ocorre no Rio dc Janeiro é exatamente o que ocorre em todas as sociedades nas quais coexistem grupos étnicos diversos e que. encontradas cm diferentes comunidades. bem como a circunstância de serem principalmente famílias de certa classe social e. Sobre este fundo. as que podem ter uma. q u e vão desde o tipo ou o momento sociológico que hoje apresentam. histórica e sociologicamente variável. ou atravessam. fatores os mais diversos. para redistribuir os grupos de cor entre as circunscrições administrativas e as áreas sociais em q u e a cidade se subdivide. por conseqüência. Se acaso isto não ressalta de modo evidente das pesquisas de ecologia procedidas noutras comunidades. pois entre as situações concretas. o p e r a m os fatores peculiares. ao lado das diferenças étnicas. que são próprios e específicos da comunidade e m questão. principalmente mulheres. Isto vale dizer. então. por sua importância. em regra. cresceu e se expandiu. portanto.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO c) condição étnica. paralelamente ao nível das posições sociais mais subalternas. n o u t r o s termos.e ressalvadas as diferenças de grau . no grupo profissional dos empregados domésticos e o fato de. a concentração desses grupos étnicos nas zonas de moradia em que aquelas classes predominam. estamos convencidos de que a culpa é da metodologia empregada e não da realidade observada. para especial análise. até aos característicos geográficos e topográficos da região e m que o núcleo urbano surgiu.

entretanto. Nordeste 7. que ocorre toda vez que grupos étnicos diversos. feiras em torno de situações sociais particulares. esse fato perturba a simetria do padrão a q u e as pesquisas norte-americanas. as favelas. q u e contribui para dar uma configuração particular ao padrão ecológico da repartição dos grupos étnicos na cidade d o Rio de Janeiro. temos aqui apenas uma variante concreta. independentemente de sua localização no espaço físico. e a concentração nelas de grandes massas de cor. mas que aparecem c o m o u m a unidade quando conjuntamente comparadas com outras áreas sociais urbanas. O outro fator. que. C a m p o Grande 3.ECOLOGIA 145 e predominantemente afortunadas apareça uma população de c o r cuja presença nessas zonas só se explica em função de sua ocupação e posição social. obviamente age no sentido de redistribuir esses grupos mais pobres e mais pigmentados por todo o perímetro da comunidade. Acontece. R i o de J a n e i r o - 1949 . que c o n j u n t a m e n t e formam. Realengo 5. Santa Cruz 2. Centro-oeste 11. talvez mais diretamente influente. Estatisticamente. acostumaram os consumidores da abundante bibliografia ecológica q u e nos Estados Unidos produzem e exportam. Àluz de u m critério sociológico. Sociologicamente. DISPERSÃO DAS F A V E I A S PELAS DIVERSAS Z O N A S D O D I S T R I T O FEDERAL LEGENDA (1949) Região ocidental 1. entretanto. O fato de existirem favelas em quase todas as circunscrições urbanas. por falta de outros elementos e de pesquisas anteriores. constituem. Sudoeste í Fonte: C e n s o d a s f a v e l a s . Noroeste : 8. Jacarepaguá Região oriental 6. Centro-este 12. uma área social bem definida que pode se subdividir em tipos. Oeste i 9. Guaratiba 4. íesulta da alta concentração de elementos de cor na população das favelas. porém. tão variante c tão concreta quanto a situação em qualquer comunidade d e u m fenômeno social único e universal. em posições sociais diferentes. Sudeste 10. as circunscrições delimitadas neste estudo o foram por um critério exclusivamente administrativo e visam a atender as necessidades do governo municipal e não à compreensão científica da estrutura ecológica da cidade. e n t r a m em relações permanentes no bojo de uma estrutura maior.

em algumas zonas. ou seja. apesar desses dois fatores de redistribuição da população de cor por todas as zonàs urbanas do Rio de Janeiro. Faz-se mister. Há. 71 são de cor. em cada cem habitantes. encontramos zonas nas quais a quota de concentração da população de cor ultrapassa de 19% o índice que deveria ser encontrado na hipótese de uma distribuição inteiramente ao acaso. como no setor noroeste da cidade. c o m o Madureira. portanto. Essa grande diferença. é a forma mais expressiva pela qual se manifesta aqui a segregação étnica. continuar a perseguir os objetivos finais desta pesquisa. enquanto que nas outras zonas a fraca proporção de elementos de cor desce. E m certos setores. Para compreendê-los integralmente é preciso projetar esses fatos sobre o contexto da configuração total. Pavuna e Anchieta. 40. 41 e 46%. o padrão ecológico representa valioso instrumento de trabalho. por conseqüência. quase o dobro do índice indicativo de não-segregação. de maior ou menor concentração dos grupos étnicos nas áreas urbanas. entre a proporção dos elementos de cor no Rio de Janeiro e a proporção dos elementos de cor nas áreas mais deterioradas da cidade. . a que se chega é que nelas a segregação existe e em índice altamente expressivo: enquanto que. estamos convencidos.e pela posição q u e eles ocupam no sistema de vida social da cidade a conclusão. a q u o t a dos pretos e pardos na diferentes zonas devia girar em torno de 2 7 % . 16 Ao lado disso. Se a distribuição dos grupos de cor nas zonas urbanas do Rio de Janeiro fosse inteiramente ao acaso. 27 são de cor. em cada cem habitantes do Rio de Janeiro. na população das favelas. a proporção de habitantes de cor atinge. e em certas zonas. como é lícito fazer. dentro da qual se desenrolam as relações de raças no Rio de Janeiro. documentadamente provada.146 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Admitindo. para cujo esclarecimento. entretanto. que as favelas do Rio de Janeiro constituem uma área social caracteristicamente definida pelo tipo social de seus habitantes . que obedece a fatores sociológicos de significação e de identificação evidentes. u m a escala de situações. a quase u m terço do índice não-segregativo.

o p .. A influência d o s empregados domésticos na re-distribuição ecológica dos grupos de cor nas cidades norte-americanas. somados aos p a r d o s . 2 1 O grupo amarelo ( 0 . data do último censo das favelas. cit. a omissão da declaração expressa d a cor tenha correspondido ao desejo de não declarar a mestiçagem. 3 No Anuário estatístico do Distrito Federal relativo ao a n o d e 1 9 3 8 encontrase minuciosa delimitação dos distritos urbanos da cidade. cm m u i t o s casos. se não leva na devida conta cm seu e s q u e m a metodológico e nas suas técnicas de pesquisa a variável fundamental que é a e s t r u t u r a social. t a m b é m . Este ponto dc vista p r o c u r a m o s desenvolver e documentar a m p l a m e n t e e m curso d e extensão universitária sobre o a s s u n t o d a d o na Faculdade de Filosofia do I n s t i t u t o Lafayctte. Sempre j u l g a m o s .ologia humana se r e d u z a p u r o s exercícios dc geometria sociológica. que os dados se r e p o r t a m à situação de 1940. a preferência pelo e m p r e g a d o branco deve corresponder à atitude discriminativa equivalente ao que se refere aos hóspedes. p. por conseqüência. foram. "cabeças de porco" e demais formas de habitação coletiva que enchem a cidade e o n d e r e s i d e m quotas de população pobre e d e cor. 237. os de cor não declarada ( 0 . se nosso objetivo f u n d a m e n t a l fosse o estudo ecológico e não como r e a l m e n t e é. 1 9 % ) . que a e . aliás. por não terem sido d i v u l g a d o s ainda os resultados equivalentes d o censo de 1950.a m e r i c a n o a segregação residencial. c o m e ç a r a m a aparecer nos Estados U n i d o s leis i m p o n d o ao negro n o r t e . somente a partir de 1 9 1 0 . Os que acaso se s u r p r e e n d e m de estarmos discutindo o p r o b l e m a c o m referência ao negro brasileiro d e v e m se recordar que. por se ter presumido que. fato que u l t m a m e n t e se tem observado e m alguns hotéis de luxo no Rio de Janeiro. Excluímos desta análise a população dos porões. As m o d i f i c a ç õ e s introduzidas neste zoncamento. para efeito da apresentação dos resultados do censo d e 1 9 4 0 constam da análise n° 124 da série Análise dos resultados do censo d e m o g r á f i c o . Convém frisar. de acordo com o ponto de vista q u e prevaleceu na divulgação dos resultados censitários. em 1947. Já assinalamos q u e é provável que nestes estabelecimentos de h a b i t a ç ã o coletiva. em regra. Frazier. 0 9 % ) foi aqui desprezado por sua insignificância numérica. o volume Censo das fivelas (1949) do Departamento de G e o g r a f i a e Estatística da Prefeitura do Distrito Federal. XIII. C f . mas não f o r a m levados em conta aqui. v. 4 Niterói e o u t r o s p o n t o s fluminenses da margem da baía são satélites d o Distrito Federal. o aspecto ecológico das relações étnicas. "cortiços". que essa distribuição se refere às condições d e 1949. este é o conceito exposto na Encyclopaedia of social sciences. 10 8 7 6 5 . C o n v é m n o t a r m a i s u m a vez. ' O s u r g i m e n t o de novos núcleos favelados e o d e s a p a r e c i m e n t o d e outros é fenômeno freqüente na d i n â m i c a da transformação urbana d o Rio de Janeiro. como certamente d e v e r i a m ser.ECOLOGIA 147 Notas C o m « i m p l e m e n t a ç õ e s que julgamos pertinente introduzir. é observada por F.

nascidos já no Rio dc Janeiro. por conseqüência. Espírito Santo e E s t a d o d o Rio são os estados que mais fornecem residentes para as favelas do Distrito Federal. Servimo-nos"deste porque ele nos parece ter s o b r e o u t r o s a vantagem dc i n d e p e n d e r d o v o l u m e total dc população de cor na c o m u n i d a d e . The journey M to work. l i d a n d o . n o c o n j u n t o e e m cada sexo separadamente. tabela 9.r III ! ! | H H I du prnlilritia <)(>•: m n i . region and regionalism. M i n a s Gerais. apenas. e a prestação d c serviços. 6 5 4 . nas quais os nascidos n o u t r a s unidades da Federação t e n d e m a a u m e n t a r . v i n d a s das zonas rurais destes estados. K. q u e a s s e g u r a m aos cariocas maioria na população favelada.. r e p r e s e n t a v a m .. analisam de perto o problema das favelas. 15 Já estavam p r o n t a s estas análises q u a n d o tivemos acesso a u m a seleção dc resultados do censo d e m o g r á f i c o d e 1950 referentes à população das favelas d o Rio d e Janeiro e que dizem respeito. A veracidade da i n f o r m a ç ã o e a validez d a interpretação ficam i n t e i r a m e n t e sob a responsabilidade do autor da r e p o r t a g e m . as indústrias d e t r a n s f o r m a ç ã o . Am..148 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO " T h e M e a s u r e m e n t of ecological segregation. das quais 1 1 3 . e m b o r a para as mais antigas seja t a m b é m provável que a p r o p o r ç ã o d c brancos seja u m p o u c o m a i o r d o q u e no c o n j u n t o da população favelada. 12. City. e R. Sobre as c o n o t a ç õ e s sociológicas do d e s l o c a m e n t o d a p o p u l a ç ã o u r b a n a entre os locais de residência e de trabalho. porém. N ã o há.i do |acarc7. u m a comissão que representava os habitantes daquela (avela p r o c u r o u a redação . 30-31. inclusive sob esta forma. E s c u s a d o é dizer que outros índices já foram p r o p o s t o s para d e t e r m i n a r o grau de segregação. c o m o n ã o era provável q u e houvesse. com o c o m p a r e c i m e n t o p e r c e n t u a l dessa população em cada z o n a u r b a n a . n e n h u m a e x t r a o r d i n á r i a discrepância entre as informações d o censo d e m o g r á f i c o c as do censo das favelas. i|il. m a i s do q u e o d o b r o dos brancos. e n c a m i n h a m . E m 1 9 5 0 o n ú m e r o de pessoas rcccnscadas a t i n g i u a 1 6 8 . 123 e ss.ihdi> o noliihíliii da imprensa >. Rev. 3 1 8 d e c o r e 5 5 . r e p r e s e n t a m os dois m a i o r e s ramos. p r e e m i n ê n c i a a i n d a mais acentuada entre as m u l h e r e s q u e .inho.s e q u e os nascidos no Distrito Federal estão c o n c e n t r a d o s nas baixas idades e t e n d e m a d i m i n u i r nas idades crescentes. indicando. 2 9 3 . 13 S o b r e as distâncias entre o local dc residência e o local dc t r a b a l h o dos favelados. p. Entre estes há s u p e r i o r i d a d e de homens. u m a das quais foi dedicada ao tema que aqui nos o c u p a . O s dc cor. como se vê. 1947. o vespertino O Globo publicou u m a série de reportagens sobre as favelas. do qual seriam v í t i m a s os m e m b r o s da minoria d e b r a n c o s q u e lá vivem. v. L i e p m a n n . à situação tal como se e n c o n t r a v a dois a n o s depois dc a p u r a d o s os d a d o s até agora apresentados. mesmo com outros o b j e t i v o s . . 12 A hipótese é provável em relação às favelas m a i s r e c e n t e m e n t e formadas. A nós i m p o r t a assinalar. O b s e r v a n d o . cf.3 0 3 . na população favelada. que são os filhos destes.. n o t a . ver o v o l u m e Censo das Favelas. " R e c e n t e m e n t e .s e . Soe. e n t r e as mulheres. 4 3 6 brancos. a segregação racial impressiona a q u a n t o s . J u n . 1 9 4 7 . its significance for industrial a n d c o m m u n i t y life. p o r é m . a composição de idades. p. D i c k n s o n . T a m b é m não há m u i t o tempo.s e para a Capital do País em c o r r e n t e s c o n t í n u a s d e migração interior. 1945 p. A o r e p ó r t e r afigurouse até q u e n a s favelas havia forte preconceito racial. O s nascidos no Distrito Federal r e p r e s e n t a m a maior parte. e n q u a n t o q u e e n t r e os de cor a parcela maior é a das m u l h e r e s . i d o i r s da íavrl. entre os homens. Q u a n t o à ocupação. q u e .

. s e n d o impossível determinar. d e diversas formas indiretas. registrada pelo censo que nelas foi feito em 1 9 4 9 e de que nos servimos para as elaborações desse capítulo.ECOLOGIA 149 do m a t u t i n o Diário de Noticias para protestar c o n t r a os despejos em massa. Esses. são fatos que apenas e x p r i m e m . mais de 5 0 % dos q u e integravam a comissão eram nitidamente negros. embora mestiços. dentre os restantes. e outros. a c o m p o s i ç ã o étnica da população das favelas. Na fotografia que ilustrava a noticia. pelas c o n d i ç õ e s d o clichê. quantos. e r a m também de cor.

colocação da questão. Numa sociedade em cujos códigos se inscreve a máxima da "igualdade de todos perante a lei" e cuja estrutura econômica gera e mantém extrema desigualdade entre os diversos grupos que a compõem. E m face da contradição. inclusive.Significação sociológica dos dados apresentados.sociologicamente e r r ô n e a e ideologicamente primária . .Alfabetização. que por sua vez se relacionam com a situação educacional no Rio de Janeiro. fica'sempre larga margem à ideologia dos grupos que eventualmente ocupam posição d o m i n a n t e para hipertrofiarem a importância do fator educacional lançando sobre ele a responsabilidade de todas aquelas situações estruturais objetivas que engendram as posições desiguais. e m face. das oportunidades educacionais. grau de instrução e conclusões de cursos . na medida em q u e se compreender o problema da educação como um dos aspectos do funcionamento das estruturas sociais. Caise.não raro..de que o baixo nível de educação dos g r u p o s que sofrem práticas discriminativas é a causa única de sua inferiorização e que. é responsável pelo baixo nível de instrução. não precisamos argumentar longamente para demonstrar a conveniência da análise daqueles aspectos das relações interétnicas. por outro lado. tem sido uma aparente "solução" para esse impasse gerado pela falsa .Educação e criminalidade .C A P Í T U L O IV Situação cultural Oportunidades educacionais . então. a crença na inferioridade inata de certos grupos étnicos. esta posição social. para iluminar muitos problemas ligados à posição e à mudança de posição dos diversos grupos que nela coexistem. inevitavelmente. Ainda que se não participo d a opinião . dar-lhes mais educação é o remédio para tudo. por conseqüência. que se desenrola no interior de uma sociedade.. compreender-se-á também a significação que p o d e ter a análise do processo educativo.Formação das eiites de cor . Precisamente porque. no círculo vicioso: o baixo nível de instrução é responsável pela posição social inferior dos grupos de cor. na mente de muitos. o racismo. deliberadamente falsa .

. Antes de analisá-los. só nos censos é que se torna possível conhecer a composição por cor dos analfabetos e alfabetizados. entretanto.152 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Teremos. E m face dessa disparidade de critério é lícito assinalar que. Fora das fontes censitárias nenhuma informação estatística oficial encontramos sobre situação educacional com discriminação por cor. uma posição privilegiada. 8 2 % de seus habitantes de dez e mais anos de idade sabem ler e escrever. preocupados principalmente em recolher e aproveitar. é resultado de expressivas diferenças entre os diversos grupos de cor. N o Quadro X X V I encontram-se os dados que c o n f i r m a m esta afirmação. só fazem refletir. no plano das idéias. em relação ao c o n j u n t o do País. por outro lado. os elementos que p o d e m oferecer à exata colocação do p r o b l e m a das relações interétnicas na cidade do Rio de Janeiro. Esta situação de conjunto.69% entre os homens e 7 7 . pois é a Unidade da Federação que tem as mais altas quotas de alfabetizados: 8 1 . Constatando que essas contradições. de 4 3 . O fato de neste capítulo sobre a educação só contarmos com informações censitárias não significa pobreza de indicações significativas. muito ao contrário. de deixar de parte a discussão frontal desses problemas q u e encontramos à margem do c a m i n h o de nossa pesquisa. os dados divulgados nas publicações oficiais e outros que obtivemos no Serviço Nacional de Recenseamento1 são ricos de elementos sociologicamente valiosos para a compreensão deste aspecto da situação étnica no Distrito Federal. porém. O primeiro elemento de que se dispõe é a discriminação bruta dos diversos grupos étnicos em alfabetizados e analfabetos. 0 1 % entre as mulheres. em 1940. contradições mais p r o f u n d a s que existem no plano objetivo da estrutura social. 0 4 % . inerentes à tese de que o nível educacional é o fator precípuo da posição inferior dos grupos de cor. preeminência que se manifesta para ambos os sexos: 86. No c o n j u n t o da população do Brasil a quota de alfabetização era. o que nos interessa é procurar nessas situações objetivas os elementos de uma interpretação sociológica d o problema em tela. que as estatísticas criminais apresentam minuciosamente discriminados pela condição étnica os violadores da lei penal. de cada um. é preciso ter em mente que o Distrito Federal apresenta. certamente. dos que ainda estão estudando etc. m u i t o do que se encontra nas estatísticas criminais seria melhor c o m p r e e n d i d o e mais seguramente remediado se as estatísticas educacionais estivessem igualmente interessadas em assinalar a condição étnica dos que comparecem em seus registros. E pertinente observar. dos que concluíram cursos dos diversos graus. porém. As estatísticas educacionais brasileiras não discriminam os dados por cor.

porém . ela desce para 53. porém. em certa parte.07 75. o baixo nível de alfabetização desses grupos no Rio de Janeiro reflete condições de outros estados vizinhos. que é a quota mais baixa dos grupos considerados.82 Brancos Pretos Pardos Amarelos TOTAL A quota de alfabetização entre os brancos é a mais elevada.555 1.64%. Assim. fortemente acentuada nas gerações mais antigas. Só nos grupos de idade de trinta anos para cima a superioridade masculina passa a ser flagrante. tende a desaparecer nas mais novas.254 1.SITUAÇÃO CULTURAL 153 QUADRO X X V I - PROPORÇÃO DA P O P U L A Ç Ã O ALFA- BETIZADA D E 1 0 A N O S E M A I S . entre os pretos.561 159. entre os de cor. também. as quotas de alfabetização são maiores para os homens em todos os grupos étnicos. M a s parece não restar dúvida. Em relação a cada sexo.150.573 948 1. é que encontramos quotas equivalentes entre os dois sexos.106 236. Discriminando-se os grupos por idades. de que o fato de em cada cem negros residentes .60 81. S E G U N D O A C O R .e ainda mais entre os pretos do que os pardos —. D I S T R I T O FEDERAL 1940 Cor População de 10 anos e mais 1.009. encontram-se diferenças muito significativas do ponto de vista dos fatores sociológicos que interferem n o grau de alfabetização. a inferioridade das quotas femininas é mais acentuada do que entre os brancos.711 % 87. é fato que. entre os brancos.406. pois já nos seguintes a inferioridade da quota feminina começa a se revelar e vai crescendo na medida em que as idades a u m e n t a m .844 85. só no primeiro grupo de idade.346 177.84%.84 53. a inferioridade da alfabetização feminina. Supondo-se elevado o contingente de população de cor que aflui para o Distrito Federal nas correntes de migração interior. E n t r e os de cor. ultrapassando a do total: 87.64 75. de cinco a nove anos. em que pese essa circunstância.476 Alfabetizados Dados Absolutos 886.

presentes noutras zonas . porém. A situação econômica cronicamente deficitária e premente. por outro lado. p r o d u t o e reflexo da igual posição q u e este grupo ocupa na comunidade. as maiores quotas de alfabetizados não estavam nas zonas urbanas o n d e maior era a concentração residencial do grupo de cor. onde maior é a concentração residencial daqueles grupos.08 entre cem mulheres da mesma cor. que isto deve resultar de duas circunstâncias principais: a) do fato de entre as mulheres de cor. Q u e r nos parecer. as maiores quotas de alfabetizadas aparecem. De fato. entre as mulheres de cor. que afeta. parecendo indiretamente indicar que os h o m e n s de cor alfabetizados tendem a se dispersar eco logicamente em conseqüência de ascender socialmente. ou seja. principalmente a massa de cor de mais baixo status social e econômico e de mais baixo nível de instrução. de uma séria limitação de perspectivas de ascensão social.são. como hipóteses provisórias. tanto entre as pretas como entre as pardas.040 escravos existentes no Rio de Janeiro em 1872 somente 3 2 9 eram alfabetizados . em larga escala. entre a população dc cor. portanto indica u m a taxa de alfabetização muito baixa. a análise minuciosa dos fatores que podem explicar esse fato. É impossível aprofundar aqui. os principais fatores dessa situação educacional. coincidentemente. A repartição ecológica dos alfabetizados e analfabetos no Distrito Federal indica que as maiores quotas masculinas de alfabetização da população de cor estão n a zona centro-oeste da região oriental da cidade. da mão-de-obra infantil e juvenil em tarefas remuneradas fora do lar. característica do desajustamento e m . em determinadas zonas. Trata-se.q u e vivem as famílias das camadas mais pobres da população carioca. nas zonas urbanas. como meio de ajudar a sustentar o orçamento doméstico. porém. decorrente da deficiência e mau funcionamento de um sistema institucional básico e não de pretensas qualidades intelectuais inerentes ao grupo de cor. do ponto de vista do grupo étnico considerado.quase metade. O fato é significativo pois indica que. pela análise dessas mesmas informações. O m e s m o já não acontece. o número de analfabetos é de 36.46 serem analfabetos . 2 bem como o passado escravo ainda recente — dos 45. nos subúrbios da região nordeste da cidade. que obrigam a prematura utilização.s e cada sexo em separado. principalmente. T o m a n d o . as mulheres de cor. em face da carência de dados e de meios.154 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO no Distrito Federal 46.12 entre cem h o m e n s pretos e de 54. como adiante ficará demonstrado de m o d o insofismável. em 1940. enquanto que a concentração reúne e circunscreve. de natureza inteiramente objetiva.

da posição que tem ocupado em face do funcionamento do seu sistema educacional. as oportunidades de ascensão social decorrentes da pura alfabetização. independe por completo da condição étnica ou de qualidades inatas de diversa capacidade intelectual. a quota de alfabetização é muito baixa. A não ser que aceitemos a preliminar absurda de que os pretos d o Distrito Federal são. N o caso da população humílima dessas áreas deterioradas da cidade. para as mulheres de cor. inteiramente desligados da condição étnicas diretamente dependentes da posição que o grupo historicamente tem o c u p a d o na sociedade brasileira e. . também não é a instrução a condição principal que lhes falta para u m a efetiva melhora de situação. em conjunto. que têm. Realmente. se não é a falta d e instrução a causa principal da residência n a favela. serem elevados os contingentes de empregadas domésticas. As informações e dados existentes sobre a alfabetização dos diversos grupos étnicos dão-nos. Acre. ainda. Paraíba. os elementos para demonstrar objetivamente que a situação educacional de um grupo dentro de u m a comunidade maior sendo. produto de fatores essencialmente sociológicos. A prova mais elementar desse fato — q u e só vem ao encontro de exaustivos estudos mais especializados sobre o assunto — pode ser encontrada no fato de a quota de alfabetizados entre os pretos e pardos no Distrito Federal ser maior d o que a quota dc alfabetizados entre os brancos de outros estados. composta em 7 1 % de elementos de cor. por sua condição étnica. Rio G r a n d e do Norte.91% são analfabetos. são uma resultante de fatores essencialmente sociológicos. por conseqüência. Em cada cem favelados 61. Piauí. Minas Gerais. no conjunto d o País e em cada unidade per se em comparação com a população branca da mesma unidade.3 N a população das favelas. Pernambuco. Sergipe.SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9 urbanas. os pretos do Distrito Federal têm índice de alfabetização maior do que o índice médio de alfabetização da população branca no conjunto do País.ipital d o País. b) de serem menores. como de fato é. entre as quais o índice de analfabetização é elevado. Bahia. Goiás e Alagoas. só p o d e r e m o s concluir que as mais baixas quotas de alfabetização que eles apresentam no Distrito Federal. que representam na população das favelas um grupo numeroso. mais inteligentes e mais bem dotados do que os brancos de todas essas unidades da Federação. Maranhão. O índice real de analfabetismo dos adultos deve ser ainda maior se excluirmos do cálculo os menores de sete anos. uma situação educacional mais atrasada do que a c. fica ainda mais evidente que. e maior do que a apresentada pelos brancos em treze unidades da Federação: Paraná.

a partir dele. A situação de fato. faz com que. para compreender a real situação educacional dos diversos grupos de cor. diminuindo a probabilidade de sobrevivência. que. entre os pretos. pela diversa composição etária dos diferentes grupos étnicos a que os dados se referem. sendo maior entre os pretos. nos diferentes graus de ensino. Partindo-se dessa premissa. pode haver diferenças menores do que entre dois alfabetizados. na qual temos a quota percentual de pessoas de cada grupo étnico que naquela data estavam cursando cada grau d e ensino. Por fim. dos quais um apenas sabe ler. a situação ficará ainda melhor esclarecida se considerarmos. existem também acentuadas diferenças entre a significação social e cultural da conclusão de cursos de nível acima daquele mínimo.. verificase que a situação e a perspectiva dos diversos grupos étnicos no Rio d e Janeiro ficam melhor compreendidas quando analisamos a diversa participação que têm nas oportunidades educacionais que estão acima da pura alfabetização.156 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Saber ler. 38% das pessoas desta cor estavam no grupo de idade de 0-19 anos. esta percentagem era de 41%. é a q u e pode ser vista no Quadro XXVII. ou fica refletido. Realmente. escrever e contar é o mínimo de instrução necessária para incluir um indivíduo na condição de alfabetizado e nada mais exprime senão esse mínimo. pelo grau de instrução. Isto significa. retratada pelo inquérito censitário de 1 9 4 0 — que são os últimos dados completos existentes sobre o assunto . É óbvio que as estatísticas educacionais se deixem necessariamente influir. para cada um deles. em 1940. pois. entre os brancos. escrever e contar e o outro é portador de u m diploma universitário. e n q u a n t o que. saber as quotas respectivas dos que encontraram meios de prosseguir a educação em níveis acima do mínimo e crescentemente se aparelharam para utilizarem a instrução como instrumento de vida e de melhoria de vida. não basta conhecer. a respectiva quota de alfabetização. ela tenda a se concentrar nas baixas idades. entre um analfabeto e um alfabetizado. de que aquela é apenas uma parte. Assim é que. em cada grupo étnico. as quotas dos que concluíram cursos e lograram completar a formação a pretender tipos diferentes de emprego. e reproduz. entre os alfabetizados de cada grupo. Por outro lado. noutros termos. no caso presente. portanto. os mesmos aspectos de participação frustrada que têm os grupos de cor nos benefícios de vida social. A mortalidade. A situação educacional dos grupos de cor no Rio de Janeiro reflete os característicos dominantes da situação social total. do ponto de vista d o status econômico e social. sendo extremamente . é necessário também. no que ele depende.

24 % Grau não declarado % 7.00 % 16.341 100.011 7. fica mais acentuada entre os pretos e pardos. que se observa quando passamos do grau e l e m e n t a r para o médio e deste para o superior.00 237.05 891 3.00 Pardos % 100. é produto direto do fato de as grandes massas de cor que conseguem estudar não conseguirem oportunidades de instrução além do nível elementar em que. SEGUNDO O G R A U D E ENSINO.636 100. 1 5 7 negros que naquela data estavam recebendo instrução. tende igualmente a resultar maior d e n t r o do grupo o índice dos que estão cursando escolas de grau elementar.00 100.88 18. fora das . por isso mesmo.090 69.43 Dados absolutos 53. ou seja.157 100.97 21.92 91.56% dos pretos de 5 a 39 anos estarem cursando um grupo escolar. 6 3 6 recebiam instrução elementar. se concentra a maior quota dos negros que t ê m qualquer grau de instrução.63 4.01 5.50 533 0. Note-se q u e a queda violent.984 95.07 54.567 que recebiam instrução de grau não declarado.00 171. em que se p e s e m os progressos recentemente alcançados.567 6.69%.84 12. Isto resulta cie q u e os níveis de instrução acima do primário permanecem ainda.12 49.22 100. Deste m o d o .65 20. Dos 2 4 .00 Dados absolutos 247. embora esteja presente em t o d o s os grupos.586 72.26 1.715 73.20%) cursavam escolas superiores.89 0. 2 1 . 2 5 6 100.84 14.580 3.69 63 0.00 Brancos Pretos Dados absolutos 24.SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9 Q U A D R O X X V I I .26 4.99 4.989 83. enquanto q u e 891.10 44.56 9.48 % Grau e l e m e n t a r % Grau médio ':% 71. 3.09 % 7.15 % 76.87 2 0 . o fato de 89.25 Nota: Inclusive as pessoas d e c o r n á o declarada.888 20. além de resultar de u m a pirâmide de idade em que as baixas p r e d o m i n a m .48 7. dos índices. cursavam escolas secundárias e 63 apenas (0.548 100.00 6.32 Grau s u p e r i o r 11. DISTRITO FEDERAL 1940 Grau de ensino TOTAIS Total Dados absolutos 325.49 1. havendo mais de 1.790 16.00 100.74 4.P E S S O A S D E 5 A 3 9 ANOS QUE ESTÃO R E C E B E N D O I N S T R U Ç Ã O POR COR. baixa a quota percentual de pretos que prosseguem os estudos através dos níveis médio e superior.103 7.636 89.

Finalmente. os brancos representavam 71.158 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO possibilidades das grandes massas de jovens de todas as cores. 2 0 % eram brancos. à luz desses dados. 4. 9 1 % eram brancos. porém. u m curso qualquer. são mais fortes ainda aquelas que existem entre as quotas dos que.62% eram pretos. ao "preto ignorante".09% t i n h a m certificados de cursos superiores. A verdade. 9 5 6 (2. de qualquer grau.956 p r e t o s que em todas as épocas anteriores a 1940. de fato. que está no vértice. 7. os pardos 18. que está na base. 5 0 % pretos. cie c a d a cem universitários cariocas. 356. por sua vez.325 pessoas que haviam concluído.91% e os pretos 9. a história desenhou a escala de gradação dos matizes que se hierarquizam do "doutor branco". o que resulta da taxa diferencial de evasão escolar q u e se observa entre os grupos étnicos n o Distrito Federal. desse total. até aquela data. e que naquela sobreviviam.15%). pois. t i n h a m certificados de cursos feitos. verifica-se que dos 9. n o grau superior a situação do branco era de quase monopólio. 35-178 (9. É o que se p o d e verificar no Quadro XXVIII. em cada cem estudantes de curso secundário. aparecem como verdadeira raridade de nosso laboratório étnico e sociológico. C o m o se vê.852 (88. dificuldades ao desenvolvimento cultural q u e se acentuam na medida em q u e vamos considerando aquelas classes sociais nas quais os elementos de cor estão fortemente concentrados na sociedade brasileira. a parcela dos brancos era de 310. . já que. na data do inquérito. a questão se apresenta de m o d o não menos significativo.23% pardos e 0 .10%. 7.31%). 6 2 % haviam concluído apenas o curso primário. em 1940. a dos pardos. Assim. que. é que a situação não está toda exposta n o que atrás ficou dito.37%) e a dos negros. Redistribuindo esses d a d o s pelos diferentes graus dos cursos concluídos. a pirâmide educacional reproduz a pirâmide d e classes e nesta. haviam c o n c l u í d o os cursos iniciados. no Distrito Federal. No grau médio as diferenças eram maiores. 9 .58% o secundário e 1. Se analisarmos o problema de outro ângulo e procurarmos ver no total dos que estudam em cada grau de ensino qual a quota de cada grupo étnico. Por aí se vê a mínima probabilidade que tinha um negro na capital d o País de vir a ser "doutor" até a data recente de 1940 e só assim se pode c o m p r e e n d e r o alarido que faziam os primeiros estudiosos do negro brasileiro e m torno das "honrosas exceções". 9 5 .91%. entre os que estavam recebendo instrução de grau elementar.32% eram pardos c 1. Existiam. Se são fortes as diferenças entre os membros de cacla grupo étnico que estavam recebendo instrução. 8 8 .

00 Pardos % 100.46 270 2. 83. finalmente.179 100.76 28.03%. DISTRITO Grau de ensino TOTAIS Total Dados absolutos 355.81% dos que terminaram cursos de nível médio.e mesmo a ser considerado como tal nas relações de etiqueta com outras pessoas o que necessariamente influi como fator de hipertrofia daqueles índices referentes aos brancos.62 3.506 81.13% e 2 .32 % 2.909 61. 3 7 % dos portadores de diplomas de cursos superiores! N ã o resta a menor dúvida de que a condição de portador de um diploma universitário. pois estão muito abaixo da expressão da parcela que esse grupo representa no c o n j u n t o da população.57 8.88 12.38 877 2.57 % 87. porém. SEGUNDO O GRAU D E E N S I N O .88 28.00 % 9.13 5.71 2.16 1.50% dos que tinham concluído o curso primário.055 7.00 Brancos Pretos Dados absolutos 9.852 100.00 100.956 100.52 100. representavam 87.088 3. As quotas respectivas dos parcos que t i n h a m concluído cursos dos três graus eram as seguintes: 81. 4 9 % . e 9 6 . Os brancos. 1 9 4 0 POR COR.83 88. seria razão bastante para levar u m pardo ou mulato de pele mais clara a declarar-se branco .620 13.534 3. O fato é compreensível e provavelmente ocorreu influindo nos índices estatísticos. O fundamental.00 227.987 100.88 % Grau elementar 83.09 0.00 100.71 11. n a situação racial peculiar ao Brasil.00 189.238 63.24% dos que haviam concluído cursos de todos os graus.03 12.823 88.63 27.13 % Grau não declarado 88.38 % Nota: Inclusive as pessoas d e c o r não declarada.35 9.160 24.55 % Grau médio 93. 93.86 4.09 82.58 0.785 26. E m b o r a ligeiramente maiores que os dos negros. 13.070 8.00 Dacios absolutos 310.49 108 1. esses índices estão longe de indicar u m a situação lisonjeira.24 % Grau superior 96.90 755 7.00 100.80 Dados absolutos 35.176 3.49 3.P E S S O A S DE 1 0 ANOS E MAIS QUE P O S S U E M C U R S O COMPLETO OU DIPLOMA D E E S T U D O S FEDERAL. é saber que .SITUAÇÃO CULTURAL 1 59 QUADRO X X V I I I .

se pensasse. entretanto. o que exigia do elemento de cor que ascendia e daqueles que o recebiam em seu círculo a obediência à regra da etiqueta racial que i m p u n h a tratarse como se fosse branco ao pardo que conseguisse se aproximar dos níveis sociais superiores. para isso. Adiante. por outro lado. em aumentar a qualificação técnica e intelectual do . não só porque indicam o estado atual e estrutural de u m aspecto básico do problema mas t a m b é m porque nos fornecem um corte transversal numa fase de um processo de convivência entre negros e brancos que está em funcionamento há quase quatrocentos anos! A verdade. primeiro. autenticamente. Julgamos necessário porém. 4 As condições peculiares de nossa economia pouco desenvolvida e a forma histórica através da qual a força de trabalho da população de cor participou de seu processo e de sua estrutura sempre permitiram e possibilitaram a participação do negro na economia do País sem ser indispensável. seu desenvolvimento intelectual e técnico. só depois. aqui mesmo. a primeira observação que ocorre fazer é a respeito da interdependência que existe entre a situação educacional e a estratificação social dos grupos étnicos. "relações de raças no Brasil" e delas são. de que essa permanente mistificação da própria condição étnica e social na vida quotidiana dos elementos de cor que se promoviam n a escala dos status sociais é o f u n d a m e n t o sociopsicológico em que se apóia o estereótipo do "mulato pernóstico". o de um instrumento. Por o u t r o lado. a educação e a elevação do nível cultural do negro. A este respeito. o preço baixo e a relativa facilidade de obtenção dessa força produtiva fez com que toda vez que se precisava de produzir mais. por excelência. já que seu papel era. em aumentar o número de negros no trabalho e. um dos mais típicos. destacar que esses índices numéricos exprimem. difundidos e integrados estereótipos que se pode encontrar na sociedade brasileira. é que essas expressões numéricas da situação educacional só valem na m e d i d a em que nos permitirem compreender o significado sociológico que t ê m . E a nós nos parece que ela está meridianamente a indicar a identificação objetiva da posição de dominante com a condição de branco. em visão de conjunto. um depoimento expressivo. o assunto será mais amplamente desenvolvido e novos elementos serão lançados à discussão. no quadro da configuração total das relações sociais entre os grupos étnicos no Rio de Janeiro. muito mais do que as idílicas dissertações correntes sobre o que se desejaria que elas fossem.160 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO interpretação se lhe dá. vivo e insofismável. Não temos dúvida.

de outro. povo e negrada. passou a ter um papel de s u m a importância. essa duplicidade de atitudes se revela não somente em relação ao negro stricto sensu mas a tudo que vem de baixo. A urbanização crescente do negro e a sua integração progressiva nos quadros de uma economia em processo dc industrialização f o r a m aos poucos criando. e ser. na m e d i d a e m que. a educação. Q u e r e m o s assinalar aqui. é interpretado c o m o sinal de inquietação e insatisfação das massas de cor. em conseqüência do fato de asituaçãopessoal d e alguns negros isolados estar hoje rapidamente se transformando no problema social de uma elite negra. a formação de uma elite d e negros instruídos. no Brasil. um atributo objetivo e subjetivo de enorme significação no diferenciar um negro da massa dos negros e no promovê-lo a u m a posição socialmente mais próxima da d o branco. nos quais inevitavelmente germina a ambição de subir e galgar posições. As conseqüências desse lento processo têm extraordinária importância no mecanismo das relações de raças. o que h a b i t u o u o branco no Brasil a sempre pensar nele c o m o se fosse um bloco indiferenciado. via dc regra. o que de fato foi até bem p o u c o t e m p o . mais uma vez. no lugar mais próprio. monopólio do branco. a ambivalência de valores que existe na sociedade a respeito da mobilidade social d o negro por via da educação: de u m lado. especialmente pelo fato de ela ter sido tradicionalmente. portanto. q u e busca para si um lugar no espaço social. Resultou daí. entretanto. especialmente nas áreas urbanas e no momento atual. que esses negros que ascendiam procuravam vender e ampliar para a geração seguinte.SITUAÇÃO CULTURAL 161 trabalhador. os germes de uma estratificação social d e n t r o do grupo étnico. uma lamentável homogeneidade social. em nossa sociedade. Nesse processo de diferenciação. assim como nos programas e n a ideologia que os conduzem. . considera-se que o alevantamento cultural das massas de cor é a condição mais importante a ser atendida p a r a ensejar a sua ascensão social. o n d e e quando seus primeiros frutos c o m e ç a m a aparecer e a amadurecer. q u e esse problema se reflete d i r e t a m e n t e na origem e na estrutura das associações e movimentos negros no Rio d e Janeiro. para o negro. os primeiros passos de uma diferenciação econômica e ocupacional. que não são nada estimulantes e que visam. massas e massas de cor são expressões usadas c o m o sinônimas. porém. frontalmente. contra a muralha representada pelas expectativas tradicionais do branco. Ver-se-á adiante. t e n d o para isso de lutar. reconduzir o negro ao seu lugar. Escusado é dizer que aqui. a de seus filhos. como não podia deixar de ser. não raro até c o m o prova de intolerável petulância e insolência contra o branco.

que exprimem. "É necessário ensinar a ciência ao povo. pois o futuro do Brasil assim o exige: mas. ensine as modernas conquistas do espírito humano. mas. a tradição deve ser respeitada". mas. "É necessário que todos unam os seus esforços para resolver os problemas da Pátria. como dizem os "americanos". embora os que são seus representantes se julguem movidos por outra motivação. "E necessário reconhecer que todos nasceram iguais perante a lei. mas sim no pano de f u n d o dc nossa política educacional e na fdosofia da educação que a inspira.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Obviamente essa duplicidade valorativa n e m sempre é explícita e seu enunciado não deve ser procurado apenas nos lábios de um ou outro indivíduo. mas. "É necessário não temer as inovações. mas. mas. e sem estímulo isto não vai para a frente". "É necessário educar o povo para acabar com o analfabetismo. " O negro deve ser igual ao branco. o desejo de renovar e o desejo de conservar. pois todos somos filhos de Deus. mas. Alguns desses postulados contraditórios. é preciso evitar que a ralé crie asas pois os tempos de hoje estão m u i t o mudados". no m o d o de ser e funcionar das instituições culturais brasileiras. é preciso esperar que o povo esteja preparado para recebê-las". "É necessário progredir para não perecer. do jeito que essa negrada está ficando ninguém sabe onde vamos parar". para que diabo filho de cozinheira quer ser doutor?" . mas. "É necessário que a escola. "business is business" e ninguém faz negócio para ter prejuízo". é u m a falta de respeito essas liberdades que essa negrada anda tomando hoje em dia". a ciência não explica t u d o e é até perigosa quando pretende fazê-lo". pois lá é que se encontram as verdades eternas". não p o d e m permanecer iguais porque assim desapareceria o estímulo. simultaneamente. para ser moderna. nas seguintes racionalizações: "É necessário difundir a instrução. "É necessário abrir escolas pata todos. mas. mas. o "humanismo". a base da educação do povo deve ser o pensamento clássico. poderiam talvez ser assim traduzidos.

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A enunciação desses valores ambivalentes e mutuamente exclusivos poder-se-ia prolongar por m u i t o tempo, entretanto, o que importa é apenas exemplificar e assinalar que, nas dobras mais recônditas da cultura brasileira, é muito menos generalizada d o que no plano das opiniões confessadas a unanimidade a respeito de que a negrada precisa ser instruída e educada, pois existem, fortemente arraigadas, expectativas contrárias a isto, e m u i t a s até escandalosamente alarmadas ante as possíveis conseqüências dessa ascensão educacional do negro. Quando no plano das leis as oportunidades são iguais para t o d o s e no plano da estrutura social e dos costumes as desigualdades são flagrantes, a insatisfação das elites negras vai resultando na medida em que elas se edticam e vislumbram diante de si toda u m a escala àestatiis a ser galgada. A contradição, por outro lado, se multiplica precisamente porque não é possível e n c o n t r a r bandeira mais pacífica do que a educação para, debaixo dela, lutar pela ascensão social dos homens de cor. Se por causa da educação, e precisamente por causa dela, estão se f o r m a n d o elites negras insatisfeitas na sociedade brasileira, é que algo mais p r o f u n d o e estrutural está em jogo. N o dia em que as massas de cor tomarem consciência disso terá começo a fase mais aguda e decisiva do problema das relações de raças neste País. É por si mesma evidente a relação existente entre a situação econômica e social dos grupos de cor no Brasil, de um lado, e a situação educacional, do outro. Isto não tem impedido, entretanto - antes é nesta correlação q u e se baseia - a formação, em nosso meio, daquele mecanismo ideológico d o "círculo vicioso", tão bem caracterizado por GunnarMyrdal no seu c o n h e c i d o inquérito sobre as relações raciais nos Estados Unidos: o h o m e m de cor, porque ocupa na sociedade u m a posição inferior, não tem oportunidades educacionais e, porque não se instrui nem se educa, conserva-se em posição social e econômica inferior. N a verdade, porém, esse processo não se desenrola mecanicamente, linearmente, sempre no mesmo plano, pois que ele se agrava na medida em que funciona, gerando estados de extrema tensão social. D a í resulta que os elementos de cor colocam-se em tal posição que passam a ser necessariamente, e independentemente de sua vontade, a fonte dos fatos e argtimentos de que se servem os brancos que têm p r e c o n c e i t o p a r a demonstrarem a validez de seus pontos de vista sobre a inferioridade inata do elemento de cor. De fato, p o r é m , o que ocorre é que a população de cor na sociedade brasileira foi historicamente colocada, como grupo, n u m a posição social tal que lhe cabe o papel de expi imir, por diversas formas de c o m p o r -

164

182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO

tamento e de atuações na vida social, tudo o que h á de injusto, de contraditório, de falso e de errado na organização social de que são membros. 5 Não é como negros, mas como m e m b r o s de uma sociedade que distribui tão desigualmente entre os que a integram as oportunidades econômicas, sociais e educacionais, que o seu comportamento, muitas vezes, parece esforçar-se para confirmar tudo o que de mau e pejorativo lhes é atribuído como se fosse defeito intrínseco à condição étnica. Dentro desse enquadramento conceituai, e somente dentro dele, é que é possível encontrar u m a interpretação científica, por exemplo, para as estatísticas criminais, que, de certo m o d o , tão bem completam e iluminam os elementos fornecidos pelas estatísticas educacionais que atrás apresentamos. Servimo-nos, a este passo, dos dados divulgados pelo Dr. Nelson Hungria sobre a criminalidade dos homens de cor no Brasil e obtidos através de u m inquérito feito, em 1950, entre as penitenciárias de quatro dos principais estados brasileiros, inclusive o Distrito Federal. 6 N o Quadro XXIX reproduzem-se os dados apresentados pelo desembargador Nelson Hungria:

QUADRO X X I X - POPULAÇÃO PRESIDIÁRIA, POR COR, SEGUNDO QUATRO UNIDADES DA FEDERAÇÃO 1950

U n i d a d e s da Federação Distrito Federal Estado do Rio Minas Gerais São Paulo

P o p u l a ç ã o Presidiária Total 1.932 126 662 322 Brancos 762 55 240 217 Prelos c pardos 1.170 71 422 105 Pretos 491 33 125 52 Pardos 679 38 297 53

As informações aí contidas parecem confirmar nitidamente a correlação atrás referida entre: 1) posição econômica e social; 2) nível educacional; 3) condição étnica e 4) índice de delinqüência. D e fato, em todas as Unidades consideradas, a proporção de delinqüentes de cor é sempre superior à proporção desses grupos étnicos no total da população. Assim é que, no Distrito Federal, os grupos de cor representam, em 1 9 5 0 / 3 0 % da população total e contribuíram,

SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9

entretanto, com 61% da criminalidade, avaliada esta pela composição étnica dos presidiários da Penitenciária Central, Penitenciária para Mulheres de Bangu, e Colônia Penal C â n d i d o Mendes. No vizinho Estado d o Rio de Janeiro os elementos de cor representavam, naquela data, 4 0 % da população total e 57% da população presidiária. Em Minas Gerais e São Paulo a quota dos grupos de cor eram, respectivamente, 39% e 12% sobre a população total e 64% e 33% sobre a população recolhida aos presídios. E m São Paulo, se considerarmos apenas os crimes de furto, a quota dos de cor eleva-se a 4 5 % . Isto significa, noutros termos, q u e o crime do negro no Brasil é, essencialmente, crime de pobre!8 Aqui, mais uma vez, as situações estruturais, de fato, representam a nossa principal p r e o c u p a ç ã o . Nosso objetivo, por isso m e s m o , foi principalmente reunir, de cada face do problema, inclusive daquela que se refere ao estado educacional das massas de cor no Rio de Janeiro, os elementos necessários a uma posterior interpretação de conjunto do processo e das perspectivas das relações de raças na comunidade metropolitana. Desta apresentação, parece terem resultado flagrantes os fatores em que se baseia o "círculo vicioso" a que nos referimos: a situação de classe dos elementos de cor representa u m a forte barreira ao seu desenvolvimento cultural, que assim se frustra e atrofia; e essa frustração e atrofia é aplicada, q u a n d o convém, em função de u m a inferioridade biológica e não sociologicamente circunstancial. Foi a este processo, que aqui tem lugar tão visivelmente à superfície dos fatos, que Bernard Shaw quis se referir quando c o m e n t o u com ironia: "faz-se o negro passar a vida a engraxar sapatos e depois prova-se a inferioridade moral e biológica do negro pelo fato de ele ser engraxate". 9 É à luz de dados objetivos e reais sobre a situação cultural d o negro no Distrito Federal que essa mistificação do preconceito racial deve ser encarada pois aqui, como sempre, é no contexto das estruturas sociais que as engendram que as idéias e os valores e n c o n t r a m sua última explicação. E adiante, q u a n d o se tentar essa análise frontal dos valores que presidem as relações étnicas neste País, ver-se-á que, lançadas nessas bases, esta análise se afigtira mais despida das aderências sentimentalistas que tão freqüentemente, entre nós, têm prejudicado a pureza do rigor científico que deve ter.

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182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO

Notas
' Registramos aqui nossos agradecimentos aos Drs. T ú l i o Hostílio Montcncgro e M a n u e l D i e g u e s Jr. pelas facilidades que nos p r o p o r c i o n a r a m na obtenção desses dados, alguns deles n ã o publicados ainda. Sobre o assunto, embora não se referindo d i r e t a m e n t e a famílias de cor mas a u m a a m o s t r a d e famílias de diferentes categorias étnicas, igualadas pelo traço comum de suas baixas rendas, cf. L. A. Costa Pinto, Pesquisa sobre o padrão de vida do comerciaria do Distrito Federal (1948), Instituto dc Economia da F u n d a ç ã o M a u á . Sobre a atividade econômica dos filhos menores, ver especialmente p. 9 7 - 1 1 0 .
3 2

No

Brasil, para a mulher de cor, especialmente a mestiça, as vias mais

freqüentes d e ascensão social, dentro do padrão tradicional d e relações de raças, eram as o p o r t u n i d a d e s q u e se lhe abriram cm conseqüência da fraca resistência que sua posição social p e r m i t i a à ssdução do h o m e m branco. A i n d a hoje o folclore ancdótico f r e q ü e n t e m e n t e registra o fato. A instrução da mulher de cor c o m o canal de mobilidade social é f e n ô m e n o recente, que não ocorre sem ter que venccr certas resistências, algumas abertamente declaradas. U m a prova disso, aliás odiosa, e n c o n t r a - s e n u m fato que chegou a repercutir n o P a r l a m e n t o Brasileiro em 1950. C o n s t a t a n d o q u e n o Catálogo de obras sociais do Distrito Federal, editado pela Legião Brasileira d e Assistência, apareciam diversos e s t a b e l e c i m e n t o s q u e exigiam como condição dc a d m i s s ã o que a recolhida fosse de cor branca, o d e p u t a d o Jonas Correia pediu informações ao Ministério dc Educação sobre essa d i s c r i m i n a ç ã o . O presidente da Legião, juiz E l m a n o C a r d i m , em ofício de 21 dc j u l h o d e 1 9 5 0 , i n f o r m o u ao Ministro que, n u m d o s estabelecimentos citados, o Asilo B o m Pastor, a discriminação era feita devido a u m p e d i d o do seu fundador, o ex-senador da República, Dr. Mário de Andrade Ramos, "baseando-se cm que depois de educadas é difícil colocar as meninas de cor, o que n ã o acontece com as brancas" (grifo nosso). C o m o se vê, as barreiras á mobilidade da m u l h e r d e cor, combatidas por muitos, só s e r v e m para estimular outros atos que visam multiplicar aquelas barreiras. Sobre a f u n ç ã o social da boa aparência no mecanismo da m o b i l i d a d e feminina, veias observações de W a r n e r , Havighurst e Loeb em p. 37 e ss.
1 1

Who

shall

be educated?,

1946,

O s c o n h e c i m e n t o s que hoje temos a respeito d o processo de socialização nas

diferentes classes sociais é o bastante para nos permitir dizer q u e n e n h u m a generalização pode mais ser feita sobre "a criança". Nós devemos p e r g u n t a r : "A criança de que classe social? Q u e vive e m qual ambiente cultural?"(Aüison Davis, Social class influences upon learning, 1 9 5 1 , p. 11-12). Aliás esses conhecimentos atuais a q u e se refere o Prof. Allison Davis estão já d o c u m c n t a d a m e n t e expostos no livro de F. Engcls, Die Lagc Klassen in England, 1845, cf. a t r a d u ç ã o f r a n c e s a , 1933, derarbeitendren e s p e c i a l m e n t e na

p. 160 e ss., T o m o I, o n d e se encontram abundantes fatos e análises q u e antecipadamente c o m p r o v a m o q u e Allison Davis e R. Havighurst f o r m u l a r i a m mais tarde da seguinte forma: a s i g n i f i c a ç ã o chave do conceito de classe social p a r a os que estudam o desenvolvimento d o c o m p o r t a m e n t o h u m a n o resulta de q u e a classe define e sistematiza diferentes a t m o s f e r a s educativas para as crianças de diferentes classes sociais (cf. Davis

SITUAÇÃO CULTURAL 1 5 9

e Havighurst, Social class and color differences

in child-rearing,

Am.

Soe. Rev., Dec.,

1946, v. 11, n. 6, p. 698 e ss. Ver t a m b é m , M a r t h a Ericson, Child-rearing and social status, The Am. Jotirn. of Soe., Nov., 1946, v. LII, n. 3, p. 190-192; sobre as influências ideológicas do sistema de classes de u m a sociedade sobre o sistema educacional, ver nossa tese O ensino da sociologia na escola secundária, Rio dc Janeiro, 1947. A aplicação para que se dessas premissas metodológicas ao caso brasileiro, o n d e cor e status historicamente se i d e n t i f i c a r a m de maneira quase total, é a b s o l u t a m e n t e indispensável c o m p r e e n d a a formação e a fisionomia do q u e se poderia chamar, de acordo com Linton c Kardincr, a "personalidade básica do negro brasileiro". Nela, o que se encontra é, antes e acima de tudo, o precipitado c o m p o r t a m e n t a l de uma situação de extrema desigualdade de posição e de classe social, q u e n ã o só limita as possibilidades objetivas de acesso à educação formal como t a m b é m confere ao modus recipiendi do educando negro o caráter duplamente formal de t r e i n a m e n t o sistemático para viver uma vida da qual a vida diariamente lhe demonstra q u a n t o ele está distante. P o r outro lado, sua vizinhança, seu meio está todo penetrado da noção de que os pretos e os brancos, os ricos e os pobres, os privilegiados c os dc :graçados f o r m a m dois m u n d o s à parte. Essa d i c o t o m i a da vida e da sociedade - quer c o m o coisa imutável à qual é preciso de alguma f o r m a se adaptar, quer como iniqüidade q u e é preciso combater — constitui o lastro básico da filosofia que emana da situação o c u p a d a pelo negro na sociedade brasileira.
5 N o Brasil, e especialmente no Rio d e Janeiro, a anedota é sempre um mostruário dc estereótipos. Há pouco tempo circulou u m a anedota que exprime com fidedignidade essa posição do negro na concepção do b r a n c o , que o identifica sempre com "o o u t r o lado": dois indivíduos conversavam e um dizia para o outro: quando passam dois brancos c o r r e n d o , penso - lá vão dois atletas t r e i n a n d o ; q u a n d o passam dois negros correndo, já sei — estão fugindo da polícia. N ã o há dúvida... são réus!

" Nelson Hungria, A criminalidade dos h o m e n s cie cor no Brasil, Revista Forense, v. C X X X I V , fase. 573, mar, 1952, p. 5 e ss. N o s dois volumes (1942 e 1947) da p u b l i c a ç ã o Crime e contravenções, do Serviço d e Estatística Demográfica, Moral e Política do Ministério da Justiça, encontram-se, t a m b é m , abundantes informações sobre o assunto. Elas se apresentam, entretanto, de f o r m a tão prolixa e analítica, e sem quadros de resumos, que tornam extremamente penosa a sua utilização.
7

Esta estimativa sobre a c o m p o s i ç ã o p o r cor das populações consideradas foi

feita s o b r e os resultados do recenseamento de 1940, acrescidos, para o último decênio, da taxa geométrica anual de 2%.' * N a interpretação desses dados é preciso ter em mente, por outro lado, q u e u m m a i o r contingente de elementos de cor nos presídios não significa necessariamente m a i o r incidência de delitos entre eles, mas sim maior incidência d e condenações, o q u e é coisa diversa. Em inquérito preliminar feito pela licenciada Malca Beidcr, em 1950, q u a n d o aluna de Sociologia da Faculdade Nacional de Filosofia, sobre a composição social e étnica dos corpos de jurados no D i s t r i t o Federal e Niterói, ficou exaustivamente d e m o n s t r a d a a concentração deles entre os brancos de classe média e superior. ' G. B. S. Man and superman, 1 9 1 6 , p. XVIII.

erguidas à categoria de "razões de Estado". mas também no fato de se poder surpreender aqui discrepâncias entre a atitude real e a opinião confessada. senão o reflexo dc uma contradição mais p r o f u n d a e f u n d a m e n t a l que ocorre . e que são. em grande parte.Nossos inquéritos c a análise d c seus resultados . e assim.Significação sociológica dos d a d o s apresentados. e é no plano de atitudes que ele carece . A significação de uma análise deste tipo não está apenas no plano metodológico. sobre o assunto que nos permite tocar diretamente n u m dos pontos críticos da situação racial brasileira. o problema n o Brasil reveste aspectos mais interiorizados.Sua f o r m a ç ã o e f u n ç ã o no mecanismo das relações dc raças . como se observa noutros lugares. estereótipos e relações de raças C o n c e i t o de atitude c de estereótipo . gerado pelas relações entre esses grupos.em conseqüência das transformações que se operam nas bases da sociedade brasileira — entre a estrutura social e os seus produtos ideológicos. atitudes e estereótipos raciais. Essa contradição que se revela entre os valores sociais c as pautas de conduta individual não é. o n d e os valores sociais ligados à discriminação racial cristalizam-se em normas. por outro lado. em visão de conjunto. de forma aparente e dramática. mais sutis. n ã o raro em normas jurídicas. N a fase particular de desenvolvimento histórico em que se encontram hoje as relações interétnicas no Brasil é de extrema pertinência que o observador lance suas vistas para o problema dos valores. 1 N e m sempre aqui aquelas contradições se objetivam.O problema da mestiçagem e a diversa incidência dc estereótipos sobre o negro e o m u l a t o . responsáveis pelo caráter que hoje têm e pelo rumo que terão a m a n h ã essas mesmas relações. Por motivos que aos poucos estamos procurando diagnosticar. mas que só mais tarde. e impõem-se com a força sancionadora das leis. aquele que reside precisamente na naturc/a sutil e subjetivada das reações que ela provoca no comportamento individual.CAPÍTULO V Atitudes. é possível documentadamente interpretar.

desenvolvendo análises q u e aqui apenas ensaiamos. A a t i t u d e . E importante acentuar aqui as implicações principais deste conceito. ou predisposições. há que c o m p r e e n d e r q u e as atitudes são socialmente f o r m a d a s e é c o m o resultado de experiências sociais anteriores que as atitudes são adquiridas e integradas às pautas individuais de conduta. a percepção e outros processos psicológicos — é inerente à sua própria conceituação. c o n f u n d i d a s . por muito tempo. foi o que levou a psicologia social de certa época a hipertrofiar a i m p o r t â n c i a dos "instintos". . t o r n a r explícito o quadro conceituai c o m que estamos trabalhando.170 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO de ser estudado cuidadosamente. em errto srnl ido. foram apresentadas pelos escritores racistas como biologicamente d e t e r m i n a d a s e hereditariamente transmitidas. é c o n v e n i e n t e . com os quais muitas atitudes foram. definir precisamente as premissas donde p a r t i m o s . C o m o se vê. já se inclui até a memória. entretanto. e isso é essencial.e hoje. Nada menos verdadeiro. pois nelas reside o que o conceito tem de fundamental. a reagir de determinada forma em face de determinada pessoa. o conceito acima proposto e n t e n d e a atitude como um "estado de p r o n t i d ã o " . tem atitude hostil ao negro. a fim de dar à exposição a necessária fluidez e permitir aos que a seguem n o ç ã o exata dos fundamentos teóricos das proposições apresentadas. a outra. As atitudes raciais. socialmente adquiridas. em certo sentido. u m a predisposição. a este passo. mesmo sem estar agredindo um negro cm plena praça pública. entretanto. mas se não confunde com ela. E m primeiro lugar. Esta completa. sendo predisposição. uma t e n d ê n c i a a agir de certa forma. pois o caráter socialmente adquirido das atitudes . ao lado delas. Em segundo lugar. para mais clara inteligência do texto. mais do que nunca. no processo de formação da personalidade. pndr existir m e s m o que não exista a ação correspondente. capacidade e orientação potencial de agir de certa f o r m a . a predisposição a agir de uma c não de outra forma no m o m e n t o cm que a atitude sc manifestar cm atos. coisa ou situação. * * * N o contexto deste trabalho usamos a expressão atitude p a r a designar aquelas tendências. por exemplo. Assim. alguém que tenha uma atitude hostil ao negro. Até d o r m i n d o ele tem a atitude e ela representa a tendência. a atitude com a ação. sem confundir. A relativa constância de algumas atitudes adquiridas n a fase plástica da vida infantil.

muitas vezes. essa repressão c frustração de atitudes podem conduzir a conflitos internos. a que ela se opõe. Em muitas circunstâncias. Assim. que nos parecem de grande importância n o condicionamento das atitudes que e n c o n t r a m o s nos estudantes do Rio de Janeiro por nós investigados. a l i á s . porque vão de encontro a outra o r d e m de valores e normas. um empregador que tenha tido sucessivas experiências fracassadas com empregados de cor — pela acumulação dessas experiências sempre num mesmo sentido . não será demais apontar os principais mecanismos por meio dos quais elas se formam e se difundem. entretanto. a mascarar-se de diversas formas. E i s . a sublimações c transferencias. chega até a ser d c deliberada simulação. d e certo grau e pressão. RELAÇÕES DE RAÇAS 171 Desse m o d o . a atitude pode existir. que é aquela pela qual geralmente os indivíduos são julgados pelos que com eles e n t r a m em contato na vida quotidiana. Antes. o q u e torna u t ó p i c a s ( n o m a i s a u t ê n t i c o s e n t i d o da .p o d e gerar uma atitude hostil aos " h o m e n s d e cor" em geral. hipótese dc atitudes formadas p o r acumulação verifica-se mesmo n i t i d a m e n t e . por acumidaçãosucessiva de experiências d o mesmo tipo. t a m b é m socialmente aprovadas. D e n t r e eles. Exposto sumariamente o conceito de atitude c o m que estamos operando. através de u m m e c a n i s m o que. queremos destacar quatro. primeiramente. engendrada p o r certos tipos de influencias sociais. sem que os controles. As atitudes se podem formar. só significam a ruptura do equilíbrio entre a atitude real e a opinião confessada. obrigando-a a interiorizar-se c a d a vez mais. ESTEREÓTIPOS F. julgamos que assim será mais fácil c o m p r e e n d e r a natureza do fenômeno que a d i a n t e procuraremos estudar. às vezes. sanções e coerções da vida social permitam que ela esteja freqüentemente se manifestando em atuações abertas. a explosões agressivas. Na da sociedade. a desajustamentos da personalidade e a estados neuróticos que eventualmente se manifestam de modo aparentemente abrupto e surpreendente e que. e se conservem virtuais p o r muito tempo. porém.1 i c l a ç á o r n t i c a íoima< ao d c d e t e r m i n a d a s a t i t u d e s e a estrutura p o i s q u e a c o n s t â n c i a das e x p e r i ê n c i a s s o c i a i s n u m s e n t i d o só i n d i c a a n a t u r e z a e s t r u t u r a l das c i r c u n s t â n c i a s q u e p e r m i t e m essa a c u m u l a ç ã o .A T I T U D E S . independentemente de quaisquer atributos individuais. Essas racionalizações das atitudes que se chocam com os valores confessadamente aceitos fazem c o m q u e elas se apresentem de formas as m a i s diversas. à base dos inquéritos feitos no decorrer desta pesquisa. para que possam ficar mais claros os processos pelos quais as atitudes são geradas e propagadas.

divulgado pela imprensa com luxo de informações e minúcias. sociais sem haver a preocupação de alterar os fatores estruturais que permitem e condicionam essas acumulações de experiências formadoras das atitudes que se pretende modificar. sociais e educacionais fazem do negro o veículo fácil de todas as aberrações sociais. N o Brasil. ou. é o que falta a muitos planos e sugestões puramente catequistas de combate ao preconceito racial e é o que os destina. que. Nas camadas' superiores da sociedade brasileira.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO expressão) todas as tentativas de impedir a propagação de atitudes ligadas a determinadas formações. haja u m a fusão de atitudes contrárias à ascensão social das massas trabalhadoras com atitudes contrárias à ascensão social da população de cor. u m a atitude de hostilidade contra os "homens de cor" em geral. 2 Enquanto que nos casos anteriores há um processo mais ou menos lento de formação das atitudes. ao fracasso. A palavra. as condições necessárias á formação de uma atitude. dos quadros tradicionais de organização social que aqueles dois movimentos. geralmente de forte conteúdo emocional. as condições econômicas. q u a n d o experiências dramáticas. separando-se de outras mais gerais ou associando-se a outras análogas. conhecer os detalhes de um crime bárbaro cometido p o r u m homem de cor. ao menos. quer indicar os diversos modos através dos quais uma atitude. Assim. por exemplo. pode gerar. tendem a se integrar n u m a atitude tínica de defesa. que abale as raízes psicológicas da atitude anterior. que passam a ser considerados autores potenciais de crimes semelhantes. ter início. por meio de uma traumatização. criam. no que se refere á formação de atitudes raciais. sobre o fundo de uma ideologia conservadora do status quo. aumentando de maneira espantosa a freqüência estatística com que ele aparece na crônica da criminalidade. e essa condição. Esses dois feixes de atitudes. em muitas pessoas. vai-se t o r n a n d o cada vez mais definida e mais específica. diz-se que elas se formam por traumatização. consciente ou inconsciente. Mesmo a substituição de certas atitudes por outras inteiramente opostas pode ter lugar. a história tornou tão análogas. ou deformações. irremediavelmente. realizando por salto o que na acumulação ocorre por fases. subitamente. relativamente elementar. da mala vita em todas as suas manifestações. que não é especificamente . a partir de um ponto inicial. produtos da m u d a n ç a social. nas condições peculiares à sociedade brasileira. a identificação histórica da população de cor com as camadas laboriosas e mais pobres da sociedade tem servido para que. no caso. Essa verificação. A integração é outro processo pelo qual muitas atitudes se formam. tendem a alterar. do misticismo.

RELAÇÕES DE RAÇAS 173 negra. da educação sistemática. da melhoria d e sua posição na escala de valores que a sociedade cultiva a seu respeito e que os brancos integram. comunidade etc. Quisemos. orientador. da imprensa diária. N o u t r o s termos. Isto acontece porque. u m sacerdote. f o r m a m . Por outro lado. colocados em posição de prestígio. a grande influência dos grupos de contato secundário. ou. as formas de condicionamento das atitudes acima enumeradas representam tipos. ESTEREÓTIPOS F. escola. 3 Evidentemente. oficina. N e s t a hipótese o processo geralmente t e m lugar quando ao modelo se liga u m a idéia qualquer de prestígio ou dominação: pai. do rádio na formação das atitudes e n a sua propagação. nas suas pautas de conduta. geram atitudes anti-sociais semelhantes. chefe. porque elas nos pareceram indispensáveis ajusta interpretação dos resultados a que chegamos nos inquéritos feitos no Distrito Federal para determinar diretamente as atitudes raciais que inspiram o comportamento da amostra de população por nós estudada. mas estão longe de esgotai" as infinitas situações por meio das quais elas concretamente se formam na vida social. imitam-se atitudes socialmente aprovadas numa esfera social determinada: família. por sua vez. um líder intelectual ou político. imitados. mestre. líder. atualizar na mente do leitor essas noções sumárias. é fonte permanente de fatos que traumatizam o espírito da população branca. imitando-se tais modelos. um colégio particular. engendrando atitudes hostis ao negro. uma autoridade piiblica que tenha atitudes racistas são fontes latentes de propagação de suas atitudes e modelos que. seita. ao menos. As escolas foram tomadas ao acaso. embora seja específica da organização social em que o negro vive. Três delas são estabelecimentos oficiais de ensino médio e a quarta. n a sociedade de massas do nosso t e m p o . As atitudes ainda se p o d e m formar por imitação. das técnicas de propaganda. ginásio tradicional da zona sul da cidade. Como se vê. escolhidas aquelas nas quais foram obtidas condições que facilitavam a coleta do material. isto significa que u m educador. há que ter em vista. do livro. partido. Neste caso ela é formada pela reprodução d o comportamento de um modelo. desde cedo. guia. Esta amostra foi composta de aproximadamente 350 4 alunos de escolas secundárias do Rio de Janeiro.s e em barreira potente contra a melhoria da condição social dos h o m e n s de cor. entretanto. em conseqüência d o prestígio de que desfrutam tais pessoas nas esferas sociais em que a t u a m . do cinema. atitudes que. .ATITUDES. a responsabilidade social de alguém nessa posição na propagação de preconceitos raciais é tanto maior quanto maior a capacidade que têm suas atitudes de virem a ser imitadas.

a fim de que os resultados do c o n j u n t o refletissem apenas as atitudes dos alunos brancos. entre os limites extremos de 13 a 22 anos. a atitude crítica do adulto. Esta explicação completava a preocupação havida. entre 13 e 18 anos. Por outro lado. adolescentes de classe média. segundo as idades. por certo. por isto m e s m o . mais de uma vez já tivemos a oportunidade de fazer a crítica sistemática do mau hábito que têm alguns pesquisadores de generalizar conclusões baseadas apenas em resultados de testes escritos. embora vivendo uma fase repleta de conflitos afetivos. já plenamente desenvolvida. substituindo-as por opiniões confessadas. diante delas. O adolescente. de sempre pedir as opiniões sobre os grupos de cor simultaneamente com as opiniões sobre outros grupos nacionais. sem que tenha. O instrumento de coleta utilizado foi o questionário escrito. perfeitamente à vontade para declarar q u e estes a que chegamos só valem na medida em que eles coincidem c o m resultados semelhantes que alcançamos por outras vias de investigação e de interpretação da situação racial n o Rio de Janeiro. crises emocionais e revisão de valores. 5 A aplicação dos testes entre adolescentes foi deliberada. Esta coincidência sé m a n t é m . ou seja. o inquérito feito entre crianças não daria. por refletir mais diretamente as influências que lhe são inculcadas não somente no lar mas t a m b é m nas esferas mais largas de que já participa. países. perigo que pareceu-nos maior se trabalhássemos com adultos. especialmente organizado com a preocupação dc facilitar ao máximo a tarefa de q u e m o respondia. a mesma dose de confiança na segurança das respostas. Entre eles foram encontrados 38 alunos de cor . em geral. havendo concentração maior nas idades inferiores daquela distribuição. Os seus objetivos reais foram omitidos e os professores apenas explicavam às turmas que o questionário visava conhecer a opinião dos jovens de todos os países sobre os jovens de outros grupos. nos principais . p o r é m apenas formais. nações e raças. na preparação do questionário. 6 Bem sabemos quanto ainda é tosco o instrumento que empregamos nesta sondagem.174 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO O s inquéritos distribuíam-se. e indicada não apenas pela maior facilidade que se e n c o n t r a em trabalhar com eles numa operação deste tipo. pareceu-nos devia ser o tipo escolhido. que o são na sua esmagadora maioria. Ficamos.pouco mais de 10% — cujas respostas foram apuradas em separado. atitudes e estereótipos sobre a população de cor. sem deixar transparecer que nosso interesse se concentrava na determinação de opiniões. por outro lado. partiu-se da preliminar segundo a qual eles tinham menor facilidade e mais fraca intenção de racionalizar suas atitudes. Ao lado disto.

que. sondagens como essa devem ser muitas vezes repetidas e diversificadas nos seus processos e objetivos a fim d e ampliar cada vez mais a área conhecida da tão falada e ainda t ã o p o u c o estudada situação racial brasileira. o grupo permite a penetração dos indivíduos da condição étnica que está sendo estudada. c) tentar a identificação d e alguns estereótipos raciais mais aparentes sobre o negro e o mulato. Emory Bogardus 7 e já largamente aplicados por ele e p o r outros. o que nos deixa. ibidem 3) Você acha que seus país se importariam se você levasse para u m a festa de aniversário em sua casa um conhecido: idem. A apuração das respostas permite ver até que p o n t o de aproximação. material e equipe. como vizinhos seus. ESTEREÓTIPOS F. como empregada sim ou não adiante de cada uma): uma chinesa uma negra uma argentina uma mulata uma americana 2) Você se importa de ter. c o m m a i o r abundância de recursos. A escala que propusemos aos nossos inquiridos foi a seguinte: 1) Você se importa de ter em sua casa. ibidem (escreva . O primeiro problema foi analisado por meio dos processos sugeridos pelo Prof. RELAÇÕES DE RAÇAS 175 resultados atingidos. por outro lado. b) tentar verificar a influência que têm a condição de negro e a condição de mulato na maior ou menor simpatia ou hostilidade revelada em relação às pessoas de cor em geral. Nosso questionário. restringindo deliberadamente seus objetivos a alguns poucos problemas específicos. É óbvio. A escala consiste n u m a série de perguntas que configuram situações de crescente aproximação e intimidade com referência a indivíduos d e diversa condição étnica. uma família: idem. em relação à esfera mais íntima. morando na mesma rua ou n o m e s m o edifício.ATITUDES. visava recolher material empírico sobre' as três seguintes questões: a) tentar a determinação objetiva de u m a escala de distância social. satisfatoriamente recompensados pelo esforço. quanto à fidedignidade.

A pergunta seguinte cria uma situação de maior intimidade e aproximação mas que pode ainda ser formal. em parte. ter-se-á o m á x i m o grau de intimidade material e afetiva. a de vizinhos n a mesma rua ou edifício. ibidem 5) V o c ê se i m p o r t a r i a se s e u irmão (ou irmã) se casasse c o m uma pessoa: idem. à situação que mais freqüentemente se ajusta à experiência d o jovem brasileiro de classe média no que se refere à posição dos elementos de cor no âmbito doméstico. A redação desta pergunta obrigou-nos a perguntar ao aluno qual a provável opinião dos pais. qual seja. preferimos evitar este problema de conflito de opiniões p e r g u n t a n d o explicitamente o que achava sobre a provável atitude dos pais. ibidem A gradação proposta nas perguntas acima transcritas é discutível c o m o é igualmente discutível qualquer outra que se proponha em substituição a esta. reflitam.176 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO 4) Você se importa que o inspetor ou encarregado de disciplina do colégio seja: idem. pois se trata de convidar alguém para uma festa cm casa. Este inconveniente nos pareceu diminuto pois é de todo provável que todas as respostas. Por outro lado. frustrados. A apuração das respostas a esta pergunta nos convenceu de que seus objetivos foram. As duas últimas perguntas sucedem-se configurando o problema do matrimônio c o m pessoa de cor criando uma relação de parentesco. como não é provável que o jovem tivesse a liberdade de fazer tal convite indo de encontro à vontade dos pais. ibidem 6) Você mesmo se casaria com u m a pessoa: idem. Em seguida. configurou-se uma situação de igualdade sem intimidade. redação que discrepa das demais. a opinião dominante na família do aluno. correspondendo. O objetivo foi começar colocando os grupos em posição subalterna. principalmente. resultante do casamento de u m irmão com pessoa de cor e. 8 A pergunta seguinte estabelece diante do inquirido uma relação hierárquica de u m a pessoa de cor que tem sobre ele u m a parcela de autoridade. por sua vez. 9 . Neste caso. a posição de empregado. do casamento do próprio inquirido com pessoa nesta condição étnica. finalmente. e não somente esta. pelos motivos que adiante serão analisados.

tendem a agravar o p r o b l e m a racial neste País. só podia ser apontado como livre d e preconceitos porque. do qual estamos historicamente nos afastando. jurídica e psicológica da população de cor e m todos os planos da vida nacional. U m a vaga tolerância. Por isto m e s m o . e que se caracterizava pela subalternização econômica. Esta observação. pois aqui temos u m característico exemplo de q u e só assumindo um ponto de vista rigorosamente crítico em face do que o senso c o m u m e a meia ciência consideram óbvio é possível progredir no sentido d e uma verdadeira ciência das relações humanas. O que em primeiro lugar se observa é que o número absoluto dos que revelaram não ter preconceito racial é maior do que o dos que indicaram possuí-lo. ESTEREÓTIPOS F. Desse modo. a desnecessidade de pensar n u m assunto que já parecia tão b e m regulado pelo fluxo da vida quotidiana desempenharam. com a qual a maioria dos que analisam sttperficialmente o problema parece se contentar. resultantes das transformações que se estão operando na sociedade brasileira. no Brasil. RELAÇÕES DE RAÇAS 177 A apuração e análise cias respostas obtidas por esta série de p e r g u n t a s revelaram alguns aspectos que nos parecem dignos de menção. defrontando uma situação em mudança. ainda não entraram plenamente em jogo todos os fatores que. é desempenhada pelo preconceito. carece de m a i s cuidadosa análise. a função que. a impressão de que tudo decorria da ordem natural das coisas e. b) hoje. fazendo repousar sobre ela u m exagerado otimismo. A subordinação objetiva da parte negra e mestiça d a população e a lentidão com que ela subjetivamente reagia contra essa situação tornavam socialmente desnecessárias as atitudes discriminativas. a interpretação correta daquele primeiro resultado dos inquéritos procedidos deve levar e m conta o seguinte: a) no que se refere às relações de raças. para nós é aquela que. certa certeza í n t i m a de que tudo estava no seu devido lugar. n o contexto deste estudo.ATITUDES. já que estas não estavam. pela luz qLte p o d e m trazer ao estudo da situação racial brasileira. ameaçadas pela mobilidade social dos elementos de cor q u e era praticamente nula. gerada pelas condições objetivas dò paternalismo. o preconceito não tinha uma função d e f i n i d a na defesa de determinadas posições sociais. e preferindo n ã o discutir esses resultados por considerálos óbvios. no Brasil. O I n ã o L se sentiam. no plano psicológico. o padrão social anterior. dentro dele. n o u t r a s fases do processo. devemos ser cautelosos nas afirmações eufóricas sobre a ausência de preconceito. e dentro do padrão tradicional das relações de raças. pois estamos colocados num p o n t o . na maioria dos casos.

a hostilidade ao negro revelou-se mais forte do que ao mulato. com referência aos mulatos do que com referência aos negros. em regra. ainda não é possível. a discriminação contra o negro revelou-se mais forte do que contra o mulato. ou bedel. o aluno não o encara c o m o alguém que possa ser considerado socialmente superior a ele.foi parcialmente frustrado. Evidentemente. sobre assunto de tal relevância. Dissemos que a maior parte das respostas revelam atitudes não discriminativas e m todas as perguntas. não resta a menor dúvida de que a tensão racial em perspectiva e em processo torna alterando o padrão muito mais importante a análise dos fatores que estão ainda tradicional do que a mera constatação do que acaso dele remanesce. em todas as demais. por outro lado. referentes à atitude em relação à vizinhança com pessoas de cor e ao empregado doméstico de cor. no seu colégio. naquelas perguntas. cientificamente. quer dele próprio.178 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO da curva histórica em que. exerça ação supervisora e disciplinadora sobre eles. o c u p a d o por pessoa de cor. quer mestiço — ocorreu na pergunta n ú m e r o quatro. porém. que se refere ao inspetor ou encarregado da disciplina. embora nas relações c o m os alunos o inspetor. A não ser na primeira e segunda perguntas. no quadro geral dos status dentro do estabelecimento. sugerindo a idéia de que a aversão aumenta na medida em que escurece a pigmentação da pele. o número de respostas indicando ojeriza foi maior. é maior n a hipótese de o inspetor ser negro do que na hipótese dele ser mulato. O inspetor é u m empregado do colégio e como tal os alunos o encaram. sua posição é tão subalterna que. quer de pessoa da família do inquirido. não . mas. o n ú m e r o dos que disseram que não gostariam de ver esse posto. Isto porque. 1 0 A m e n o r freqüência de respostas indicando atitudes discriminativas contra os elementos de cor . Mesmo assim. menos naquelas que se referem ao casamento interétnico. concluir com tão exagerada segurança. por outro lado. D e fato.quer preto. que o objetivo desta pergunta — q u e foi ver como o aluno branco reagiria à idéia de ter uma pessoa de cor em posição de exercer sobre ele uma ação disciplinadora. não é necessário e fatal que a situação racial brasileira evolua no sentido do agravamento extremo dos problemas de convivência interétnica. Essa exceção é significativa e adiante nos demoraremos mais na sua análise. decorrente de sua própria função . Este p o n t o é fundamental e de sua incompreensão resulta grande parte das impropriedades já ditas e escritas sobre a situação racial brasileira. p o r pequena diferença. É preciso confessar aqui. a verdade é que.

deslocando-se do grupo profissional para o grupo étnico que com ele. que não foi nessa pergunta que ocorreu o menor número de respostas discriminativas.é. nas duas perguntas finais da escala. de empregados domésticos. em nossa sociedade. Escusado é dizer que essa institucionalização do status pessoal p o d e ocorrer e com freqüência ocorre na sociedade em geral. que esta foi u m a das poucas perguntas da escala estabelecida nas quais a atitude hostil ao mulato revelou-se mais forte do que contra o negro. historicamente. e de ser esta. o que sc refere às atitudes com respeito ao intercasamento de pessoas de filiação étnica diversa. como já assinalamos. pareceu-nos elevado o número dos que. entre autoridade e prestígio. num total de pouco mais de trezentos estudantes. de anjo rebelado. como acaso se poderia esperar cm face da tradição e da posição subalterna social considerada. Em face das circunstâncias atrás referidas e documentadas. ESTEREÓTIPOS F. do empregado doméstico dos novos tempos . Convém assinalar. a posição mais distante . fazendo com que — como nos narrou Koster — um preto capitão-mor seja encarado como sc fosse branco. Essa diferença entre status formal e status pessoal. foi baixo o número das que indicavam preconceito contra a e m p r e g a d a doméstica de cor. que exploravam o t e m a da falta de empregadas domésticas no Rio de Janeiro. e pelo novo tipo. domésticas de cor. no seio d a família brasileira. entretanto. que indicam ser de empregado doméstico a posição tradicional do elemento de cor. especialmente feminino. que ao assunto se referem. em suas residências. descarregarse contra o elemento de cor a tensão social gerada nas áreas metropolitanas e industrializadas do Brasil pela carência. dá à função um caráter por demais institucionalizado e possivelmente isso influiu na circunstância de ser esta a pergunta em relação à qual ocorreu o m e n o r número de respostas indicativas de preconceito. RELAÇÕES DE RAÇAS 179 c o m o uma autoridade superior. E possível que isto se explique pelo fato de. Em relação ao total das respostas.resultado q u e será surpreendente para os que têm o u falsa ou ingenuamente interpretado a significação sociológica da mestiçagem no Brasil .ATITUDES. Aqui. o número de respostas indicativas de oposição ao intercasamento . n a escala por nós configurada. H o u v e até respostas cômicas.por ser a mais subalterna —.cada vez'mais diverso da amorável e servil "mãe preta" de a n t i g a m e n t e — transfere-se para o elemento de cor. Um dos resultados mais característicos que encontramos . Dir-se-ia que o preconceito contra as novas atitudes. mais uma vez. por outro lado. identificado. Note-se. está. indicaram não querer.

a coerência das respostas se acentua e sc define n u m a atitude nítida e fortemente discriminativa contra as pessoas de cor. foi-lhes perguntado se eles m e s m o s se casariam com pessoa preta. ao menos. essas mesmas gradações. do mesmo modo. que tratam do intercasamento cie q u e m respondia.s e altos e baixos. a uma menor clareza e coerência na definição de atitudes referentes ao intercasamento com pessoas mestiças. entretanto.quando. enquanto que.180 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO parece assinalar o ponto crítico de transição entre as duas grandes linhas de orientação em que podem ser grupadas as respostas obtidas: a) u m a tendência vagamente não-discriminativa às primeiras perguntas. pelo m o d o c o m o se revelam. na hipótese de o próprio inquirido casar-se com pessoa mestiça. Note-se. p r e d o m i n a n d o . aqui como em qualquer parte e como em relação a qualquer preconceito. de maneira ainda mais típica. Existem gradações na intensidade com que o preconceito se manifesta. uma atitude não-discriminativa. que o n ú m e r o de pessoas que indicaram n ã o ter opinião formada sobre o assunto foi maior quando se figurava a hipótese de casamento com mulato do que quando se tratava de negro. 198 responderam que se opunham a esse casamento. os que discordaram d o matrimônio de seu irmão (ou irmã) c o m pessoa desta condição étnica f o r a m 177 e passaram. e revelada nas respostas b) u m a tendência nitidamente discriminativa com relação às duas últimas. é m e n o r q u a n d o sc trata de opinar sobre o casamento ctnicamcnte misto de um irmão (ou irmã) e maior quando a pergunta se refere ao próprio inquirido. Assim é que a atitude hostil em relação ao intercasamento é mais forte q u a n d o se trata de preto do que quando se trata de mulato. da primeira a quarta. em relação aos primeiros. logo em seguida. . traduzem. o que sugere atitudes mais integradas em relação a estes. c o m pessoa de cor. ainda. a presença dele. aqui. P e r g u n t a n d o a um grupo de 313 moços e moças se se importariam com o fato de u m seu irmão (ou irmã) casar-se com u m a pessoa de cor preta. as dificuldades da própria definição rigorosa do que seja um mestiço e a situação de marginal biológico e social em que ele se encontra conduziriam à ambivalência ou. enquanto nos anteriores graus da escala de distância social que a p r e s e n t a m o s aos nossos inquiridos e n c o n t r a m . E m relação ao mulato. para 208. desde que se coloca diante dos jovens inquiridos o problema do connubium inter-racial. ou de um parente seu. no conjunto. D e fato. n ú m e r o que aumentou para 2 5 4 — mais de dois terços .

ser resumidos da segtiinte forma: a) tende a se acentuar a atitude discriminativa contra as pessoas d e cor. Neste sentido. de que a aproximação e intimidade com o negro é mais hostilizada pelo branco do que quando se trata de um mulato. N ã o raro.para desespero daqueles que gostam de encontrar respostas fáceis para as interrogações extremamente difíceis que a realidade social põe diante de nós —e resulta de um número de variáveis interdependentes m u i t o mais plural do que geralmente se supõe. nas respostas a todas as perguntas. embora haja clara predominância das respostas não-discriminativas. a ser menos acentuado o preconceito em relação à aproximação com o mulato do que em relação ao negro. corresponae realmente ao fato. Assim. a questão é m u i t o mais complexa . independentemente dos matizes. d e n t r o de cada situação configurada. muitas delas tendem a fracassar. freqüentemente existem entre brancos e pessoas de cor. e intercorrentemente. a aspiração de um progressivo "branqueamento". agora documentado. RELAÇÕES DE RAÇAS 181 Os resultados a que chegamos na análise daquelapartedo questionário empregado que procurou estabelecer u m a escala de distância social p o d e m . que a questão da maior ou m e n o r receptividade do branco ao elemento de cor não é um problema c o m p o r t a n d o apenas alternativas polares. representando maioria absoluta e relativa das respostas. assim. b) nas posições de maior distância social a definição das atitudes é menos nítida. na medida em que aumenta o grau de aproximação e intimidade nas relações sociais. Nas posições de mais aproximação e intimidade (intercasamento racial) as atitudes discriminativas revelam-se nítidas e definidas. ESTEREÓTIPOS F. O problema depende não só das posições sociais respectivas do branco e da pessoa de cor. do grau e natureza da relação a ser estabelecida e.ATITUDES. por exemplo. Ver-sc-á adiante. q u a n d o for abordado o problema dos estereótipos. Na verdade. das circunstâncias mais ou menos públicas ou privadas dentro das quais as relações se vão estabelecer. t a m b é m . do matiz mais ou menos pigmentado d o indivíduo de cor. sim ou não. n u m plano de igualdade relativamente formal. considerados quer individualmente. entretanto. que m u t u a m e n t e se excluem. precisamente porque se mantêm naquele nível relativamente formal. pró ou contra. e até a se transformarem . relações de companheirismo. c) há uma tendência clara. mas também. que se podem manter por tempo indefinido. quer como grupo. que se nota tão vivo em muitos elementos de cor.

da exclusão de alguém do círculo das relações mais íntimas dc outrem.tanto maior quanto ela deliberadamente o esconde. ganham maior intimidade. dificilmente deixa de se considerar de alguma forma estigmatizada por saber que a sua cor influiu como fator de limitação de sua capacidade de participação em determinadas esferas sociais. é claro. como forma precária de acomodação. acima enunciada em termos gerais. Quando. aquele que você escolheria: . em cada uma das combinações. o que daí resulta é que o branco não se sente racista p o r isto. que com seu cripto-racismo evita de ser considerado racista tout court num país onde "não existe o preconceito de raça". em suma. para uma terceira. Os testes feitos com o grupo de jovens brancos que tomamos como amostra nos inquéritos a que procedemos permitem observar alguns ângulos dessa questão. por ser tal atitude considerada "deselegante". esta. para não vulgarizá-lo pela exteriorização e pela aparência de que faz muita questão daquilo que lhe negam . como convém "entre cavalheiros". Geralmente. é o que resulta. acaso. c muito raro que a condição étnica não seja apontada como fator. Relações assim mais íntimas são sempre em menor número do q u e aquelas apenas formais. em regra. obtida através da obediência a essas regras de etiqueta racial.e uma relativa paz e tranqüilidade de consciência por parte do branco. dentre aquelas. passíveis de mensuração através do emprego de questionários. um companheiro para ir em sua casa estudar com você para a próxima prova parcial. tudo decorrendo dc acordo com o b o m tom. esses critérios consideram que determinada pessoa de cor serve como mero "companheiro" mas não serve como "amigo". na prática. Assim é que obtivemos 3 1 4 respostas à seguinte pergunta: "Imaginemos que você tenha de escolher. exatamente q u a n d o se tornam menos formais. já que admite o companheirismo com pessoa de cor. porém. embora freqüentemente possa haver a preocupação de omitir esse fato. direto ou indireto. já que estas últimas. são selecionadas dentre as primeiras à luz de um critério mais rigoroso de afinidades sociais e psicológicas. precisamente porque muitas pessoas que. em cada uma das duplas abaixo relacionadas. U m p r o f u n d o ressentimento por parte da pessoa dc cor . podem não servir como "amigas". as boas maneiras e a boa educação.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO em incompatibilidade. obrigam a freqüentar. podem ser boas como "colegas". Escreva. a apresentar à família. penetram em círculos mais estreitos de aproximação.

o mulato teve uma preferência maior do que o negro. a situação é bem outra. sendo que.00% Isto significa que quase a metade das escolhas feitas elegiam o branco. 9 0 0 escolhas que se distribuíram da seguinte forma.66% 146 = 16. cor.22% 900 = 100. Na verdade.22% 218 = 24. Segue-se.90% 144 = 12. ao menos. a t o t a l i d a d e ou. em que a escolha deve ser feita entre as duas variantes Ae. segundo a cor: Brancos Pretos Mulatos Indiferentes Total 422 = 46. D e acordo com as últimas conseqüências das opiniões ingênuas. ESTEREÓTIPOS F.não a cor mas as qualidades morais e intelectuais é que lhes importariam na escolha do companheiro.ATITUDES. indicando a preferência nítida do jovem branco por u m o u t r o branco para seu companheiro de estudos. em conjunto. Escolheram: Entre um branco e um mulato Entre um mulato e um preto Entre um preto e um branco 206 128 — 111 35 75 73 Branco 216 Mulato 28 Preto Indiferente 70 Vê-se nos dados acima que os pretos e mulatos também mereceram a preferência de muitos. excluído o branco e. quanto ao valor n u m é r i c o da parcela. Já esta aparente preferência pelo preto desaparece na segunda linha. . extremadas e despistadoras de alguns observadores otimistas da situação racial brasileira. como se vê. na primeira linha os m u l a t o s tiveram menor número de escolhas d o que os pretos na terceira linha. neste caso. a esmagadora maioria das respostas obtidas devia ser desse tipo. a que se refere aos "indiferentes". para os quais-segundo as justificativas que escreveram em seus questionários . RELAÇÕES DE RAÇAS 1 83 Entre um branco e um mulato Entre um m u l a t o e um preto Entre um preto e um branco - escolheria o escolheria o escolheria o Ao todo foram feitas pelo grupo.

Explicá- . Por outro lado. embora em contínuo processo. trata se escolhas e oportunidades. essa aparente contradição. Assim é que. Adiante. nem se manifestem.184 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Mais uma vez encontramos aqui a contradição aparente. atitudes de oposição e julgamentos negativos precisamente porque neles se encontra o d o c u m e n t o vivo. contradição que poderia ser enunciada assim: do ponto de vista do julgamento tipos de relações. o preto teve maior número de escolhas do que o mulato. Isto parece indicar que existem aqui duas linhas de tendências. quase como sinônimo de "vergonha nacional". A mestiçagem. no plano sociológico e psicológico. para determinados que. entretanto. Daí é que flui esse duplo resultado. uma para e tem. que se caracteriza pelo fato de a mestiçagem. quando por ser mulato. aparentemente contraditórias para q u e m analisar o problema de um ponto de vista formal e que. não se façam. de modo limitado mas não menos expressivo. ou seja. sem gerar tensões e ressentimentos. a propósito da incidência de estereótipos brancos a respeito d e pretos e mulatos. embora seja majoritária em ambos os casos. só dialeticamente podem ser entendidas. voltaremos ao assunto com mais vagar. Isto faz com que a mestiçagem e os produtos de a mestiçagem. cotejando-se: a) o branco com o preto. a ponto de os membros de u m grupo terem entrado na nossa história social na condição de propriedade privada dos membros de outro grupo. precisamente de outros do branco. é aspecto dos mais sutis e p r o f u n d o s da situação racial brasileira. d a n o s s a mesma "democracia racial". que vivem c encarnam o processo. por ocorrerem dialeticamente. gerar contra os híbridos. nos resultados do presente inquérito. que vai tornar-se ainda mais expressiva q u a n d o analisarmos os estereótipos raciais colhidos no inquérito. o mulato. a preferência pelo branco. vantagem sobre o negro. . Esse duplo contexto. daquele cruzamento entre extremos. que está em contínuo processo. usando-se agora a expressão em sentido às vezes quase pejorativo. representam escolhas por ser mulato. biológico e sociológico. e b) o branco com o mulato. revelou-se que.quando o branco foi excluído como alternativa de escolha e esta devia ser feita entre um mulato c um preto. foi maior na alternativa b) do que na alternativa a). inversamente. neste caso o mulato teve nítida preferência. apontada como meio e prova de nossa chamada "democracia racial". que aos poucos está vindo à t o n a nas condições competitivas das comunidades metropolitanas e que transparece. ele desvantagens relações. resulta do cruzamento de grupos étnicos que historicamente têm ocupado posições sociais extremamente desiguais. tipos de oportunidades.

a seguir. que o monossílabo. desprevenidamente. em toda sua complexidade. Demos muita atenção. imagens e explicações que tendem a se fixar e permanecer. é representada pelo estereótipo que t e m o s em mente a respeito do que i m a g i n a m o s que as coisas são. do ponto de vista qualitativo o comentário pode. idéias ou sistemas de idéias que. as racionalizações das atitudes que estávamos tentando captar. não lógica. exprimir padrões de respostas que representam um depoimento precioso sobre o estado de espírito de quem está respondendo. A expressão estereótipo . RELAÇÕES DE RAÇAS 185 lo.ATITUDES.pictures in our heads — usada por Lippmann" quer indicar precisamente essas idéias e imagens que t e m o s em mente. a fim de que fique clara e patente a significação que têm essas formas estereotipadas de pensar e d e julgar no mecanismo das relações inter-raciais. muitas vezes. Se. a estas respostas que se procuravam justificar por m e í j de comentários e comparações. na certeza de que aí vinham à tona. entretanto. não demonstrada. se desenvolvem e passam a se integrar ao sistema de valores de um grupo e às pautas individuais . durante a apuração. A análise desses resul tados não se pode reduzir ao plano exclusivamente estatístico. de ironia. é conveniente fixar s u m a r i a m e n t e o conceito básico com q u e vamos laborar. resistindo à revisão crítica e racional. quantitativamente. que assumiam a forma de chiste. este diz m u i t o mas não diz tudo. entretanto. só será possível ao traçarmos o quadro gera! das tensões raciais que hoje estão em processo na nossa sociedade. obscurece. u m não puro e simples vale t a n t o q u a n t o um comentário igualmente negativo. de defesa ou de acusação. caracterizam o conretido alógico de nossos pensamentos. que c o n s t i t u e m a parte subinteligente de nossas opiniões e julgamentos sobre pessoas. coisas e situações sociais com as quais entramos em relações e a respeito das quais agimos. a outra parte. u m a vez mais. apenas parcialmente verdadeiras e resultantes de experiências concretas. julgamentos e ações. As opiniões correntes que temos sobre as coisas são. p o r isto mesmo. As situações típicas nas quais os estereótipos nascem. quanto o questionário pedia explicitamente que se respondesse com monossílabos — analisaremos. generalizando o resultado de experiências parciais e limitadas. Desse modo. como depoimento. Aqui. na sua frieza. em regra. quando aqui falamos em estereótipos queremos nos referir a essas imagens. também. as respostas obtidas no inquérito que visava determinar os estereótipos raciais existentes no grupo que nos serviu de amostra. E S T E R E Ó T I P O S F. explicações. Ao lado da análise dessas respostas racionalizadas — t a n t o mais valiosas. em grande parte não comprovadas nem demonstradas.

relações de raças e conflitos religiosos e internacionais". A gama variável de estereótipos. ou pessoa de cor de fato a que estivermos nos referindo pode ser uma coisa ou outra. q u a n d o falamos do "negro". na de outros pode ser a de ser inferior. ao invés de cada tipo. coisa ou pessoa. fazendo o indivíduo ver. eles como que se interpõem entre a percepção e a realidade. num característico sistema de reações estereotipadas. q u e é sempre socialmente engendrada. ou mestiço. "poeta". entretanto. poder-se-ia dizer que o preconceito racial consiste. "capitalista". diferenças de classes.para citar exemplos corriqueiros —. na vida s o c i a l — não no contato existentes sobre o negro. O negro. já que estereótipos diferentes podem existir em torno de u m a mesma situação. o estereótipo correspondente que. que são adquiridas. O que importa assinalar. o estereótipo correspondente. a imagem. 1 2 De fato. uma vez formados e consolidados os estereótipos. a imagem que se forma na m e n t e de uns pode ser a do mártir. Assim. a diferentes interlocutores. pela força estabilizadora que têm e pela fixidez que os caracteriza. dificultam ou facilitam o estabelecimento de contatos e experiências novas. palavras como "senador". ou seja. o retrato.1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO de conduta de seus membros são as situações de conflito social e de antagonismos e tensões intergrupais. principalmente. em certo sentido.'3 com o negro mas através da assimilação das opiniões . é que. por sua vez. se pronunciarmos. relações que se estabelecem à base de emoções. Em relação ao negro. avaliações. na conversa comum com um g r u p o de pessoas. varia em relação à posição de cada u m em face das expressões concretas do que aquelas palavras exprimem no mecanismo das relações sociais. c o n f o r m e o caso. do "mulato". as situações e pessoas paisam a ser apreciadas à luz dos estereótipos existentes. "protestante" . que. em parte. por diversos modos. o u de "pessoas de cor". Kimball Y o u n g — "os estereótipos refletem. logo se desenha na mente de cada um dos circunstantes o quadro. "No nosso tempo" — diz o Prof. Quando não se trata apenas de ouvir falar mas de entrar em relações com pessoas que se incluem n u m a categoria qualquer sobre a qual nossos estereótipos estão formados. julgamentos. mais ou menos integradas. "selvagem". n a de t e r c e i r o s p o d e ser a d e uma pessoa igual às demais diferindo apenas pela cor da pele. ou uma terceira. só é compreendida quando compreendemos as relações concretas que existem entre cada situação e as demais situações com as quais ela se relaciona.

como sendo um p r o d u t o da inferioridade racial. E S T E R E Ó T I P O S F. Resultantes de experiências anteriores. pois em torno deles tendem a se f o r m a r correntes de opinião. inerte e subinteligente n o c h a m a d o "senso comum". como diz Lippmann. por outro lado. é possível compreender a função que tem no processo de mudança social. que são criações do grupo e não do indivíduo. na medida em q u e os estereótipos existem e se propagam. entre nós. que impedem ou dificultam a ascensão social do negro. por outro lado. dentro de uma estrutura maior. quer de ordem objetiva. Ela consiste no seguinte: o negro. sua consolidação e propagação dificulta a aquisição de novas experiências. E somente encarando-o dentro dessa perspectiva. historicamente colocado em posição econômica e social inferior. Daí se segue que os sistemas de estereótipos dos grupos socialmente dominantes. na medida em que. experimental e inovador. recorda Kirrtball Young. que "o estereótipo nunca é neutro". os estereótipos agem como força estabilizadora e. gera e mantém estereótipos que funcionam como barreiras. grandemente.A T I T U D E S . por outro lado. Nesse sentido pod< -se afirmar que as formas estereotipadas de pensamento e julgamento são exatamente o contrário do espírito crítico e científico e a negação do pensamento racional. ele é forjado e está sempre refletindo situações de conflito social. acreditamos nós. o estereótipo tem largo papel na economia d o esforço de pensar e se f u n d a m e n t a . Os estereótipos. do que está estabelecido. mais difíceis de modificar. a respeito dos que estão inferiormente colocados. RELAÇÕES DE RAÇAS 187 A inferiorização circular do negro na sociedade brasileira tem sido. na inércia mental e na falta de espírito crítico. e maior número de pessoas passa a adotá-los. os grupos se afastam e e n t r a m em competição. eles se tornam mais consolidados. quer de o r d e m subjetiva. Ele vem a ser o que há de alógico. ideologias e movimentos sociais. tendem a se estabelecer e consolidar. mais integrados e. essa opinião. um fecundo filão de estereótipos raciais. pela inércia que opõe à revisão d o estabelecido e à aceitação de inovações. d e n t r o d e cada grupo. Em verdade. É de f u n d a m e n t a l importância compreender. parciais e frustradas. como dissemos. por via de conseqüência. neste sentido. C o m o se vê. sempre representam mecanismos de defesa do que existe. fazendo com que produtos do preconceito e da desigualdade de oportunidades sejam utilizados para a sua própria justificação. são a negação do pensamento crítico. defesa que se torna mais . pelos portadores do preconceito. tem essa posição social explicada e justificada. e de uma interpretação útil dessas experiências.

que justifica e organiza a vida. u m negro. isto representa uma ameaça ao "nosso m u n d o " . em sua casa. um candidato que vê declinarem as possibilidades eleitorais desua candidatura diz. Estruturados cm concepções do m u n d o e cm esquemas interpretativos gerais. um ideólogo que contempla melancólico a decadência do seu mundo elabora toda uma concepção da história para convencer aos demais de que aquilo é a decadência do ocidente. Já dissemos que também houve u m que respondeu à mesma pergunta: .188 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO evidente e mais cerrada. pessoas e situações com as quais entra em contato. ou então: "Não. Duvidar e discutir o estereótipo é. demonstravam a tolerância em relação às pessoas de cor como segunda e inevitável alternativa. houve os que responderam: "Não. filho d e u m a lavadeira. c o m irritada d e s o l a ç ã o : O Brasil está perdido! A força estabilizadora dos estereótipos resiste à mudança e se opõe ao espírito renovador gerado pela própria mudança. e como "nosso mundo". n u m a entrevista à imprensa. para nós. É como amostra. por m e i o de questionários. é "o mundo". Não poucas respostas oferecidas às perguntas que c o m p u n h a m a escala de distância social. e que foram colhidas através de sondagens diretas. duvidar ou ameaçar a sua vaiidez como explicação e julgamento do mundo. esses sistemas de valores competem entre si em grandes pugnas ideológicas. O estereótipo. traz para ela a aprovação e compreensão dos demais. justifica e sanciona a "nossa" conduta em face dos outros e. tal como ela é. Se se põe em dúvida o estereótipo que temos e cultivamos. ameaçar o m u n d o que o produziu como uma explicação que convém. Mesmo em relação à condição de empregada doméstica. a defesa dos nossos estereótipos sempre se nos afigura como a defesa de algo necessário à permanência do "mundo". mas preferia uma branca". precisamente no momento em que se começa a discutir. coisas. que são o reflexo na mente dos homens da transformação incoercível da realidade social. põe as coisas e m seus lugares. desses sistemas valorativos gerados pelas situações e mudanças de situações raciais no Rio de Janeiro que devem ser encaradas as respostas que adiante serão analisadas. se não encontrasse uma branca". em nossa p r e s e n ç a . perguntados se se importariam de ter pessoas de cor nesta condição. entre os mesmos estudantes cujas atitudes raciais p r o c u r a m o s atrás identificar. sendo o retrato que o grupo faz de si mesmo e dos outros grupos. que atrás analisamos. que satisfaz. por isto mesmo. exclamou. racionaliza. que estamos assistindo ao fim da civilização. em ótima colocação. pequena amostra. u m ricaço racista ao ver o filho reprovado n u m exame no qual fora aprovado. explica. na medida em que é coparticipado.

à última pergunta. portanto. E S T E R E Ó T I P O S F. Analisando a freqüência de respostas às duas perguntas que se referem a este problema já dissemos que a maioria. quer absoluta. manifestou-se nitidamente contra o m a t r i m ô n i o com pessoas de cor. seja de q u e cor ela for". naquele m o m e n t o e naquelas circunstâncias. em conseqüência principalmente da industrialização. aliás. o problema fundamental é o da cor. Alguns inquiridos que se permitiram buscar razões para esta atitude fornecem-nos indicações valiosas sobre os fatores sociais que a condicionam. referente ao casamento com negro. respondeu: "Não me importaria de casar c o m um descendente de pretos mas contanto que não se notasse a cor". são tanto mais expressivas q u a n t o se reportam a uma condição nitidamente subalterna e que corresponde à posição tradicional da mulher de cor na família brasileira. sem a m e n o r dúvida. interpretação tanto mais pertinente q u a n t o é notório que a atração da mão-de-obra feminina para outros ramos de atividade. Neste sentido. Ao lado do problema do serviço doméstico. sua necessidade e sua procura. Assim encontramos uma jovem que.fica explícito no fim quando vem enfaticamente declarado . Esta circunstância. tende a d i m i n u i r a oferta de mão-de-obra feminina para o serviço doméstico. s o m a d a ao fato de ser esta ainda a posição em que se encontrava a maior parte das mulheres de cor que no Distrito Federal têm uma atividade remunerada fora d o âmbito doméstico. parece indicar que cresce a tendência a tolerar a e m p r e g a d a de cor como um mal necessário. A natureza e intensidade das resistências ao e m p r e g a d o de cor.contanto que não se notasse a cor.A T I T U D E S . o problema do empregado doméstico era mais i m p o r t a n t e para quem respondia. revela que. sinal mais aparente da filiação étnica.casar-me-ia com descendentes de pretos . O que se insinua no começo da resposta . . mas não que o problema da cor fosse inexistente. Este modo de responder. quer relativa. para os que assim pensam. e não a filiação étnica c o m o tal. reveladas por estas respostas. a u m e n t a n d o . que deixaria de ter importância desde que não fosse aparente. RELAÇÕES DE RAÇAS 189 "Lá em casa estamos precisando de uma empregada. esta última resposta reflete o mesmo estado de espírito q u e transparece explicitamente noutra resposta à mesma pergunta: "Se fosse possível preferiria uma branca". os comentários mais significativos às perguntas feitas são aqueles que se referem ao casamento interétnico. Parece visível aqui que.

nenhuma de rapazes. em que uma jovem perguntada se se importaria com o casamento de um irmão (ou irmã) com um negro respondeu textualmente: "Sim. via de regra. não esconde. ela mesma. Mas a frase "provavelmente evitaria filhos" é bastante expressiva do reconhecimento de que essa tolerância p o d e acarretar ônus para a prole: já que não lhe basta individualmente deixar de ter o preconceito. . Pelo contrário. por isto. o preconceito contra o negro. E extremamente significativa. por exemplo. ou tendo fracamente. por causa dos meus sobrinhos". havendo muitos que blasonam o n ú m e r o de mulatinhos com que ajudaram a povoar este País. porém. a possibilidade de casarse com um negro. É difícil saber. E note-se que. sem análise mais aprofundada. mas provavelmente evitaria filhos". C o m o se vê. reconhece. Até onde vai a tolerância em aceitar como marido um negro ~ ela vai. Dessa maneira. se acaso há uma tendência à infecundidadc voluntária nos casamentos mistos. por outro lado. extraconjugal. É difícil. é uma outra resposta encontrada. Todas essas respostas são de moças. outra jovem respondeu: "Talvez sim. n o caso. não implica em responsabilidade para o h o m e m . N o mesmo sentido. o branco é a mulher. épreciso que a sociedade deixe de tê-lo. entre os cônjuges. o que significa que sua descendência seria não negra. ou reconhece-se capaz de ir — ainda que sob a forma de um "talvez sim". não tendo. entretanto. mas mestiça. que reconhece a existência do preconceito na sociedade em que ela vive e. quem dá a resposta é uma jovem branca. que isto venha ocorrer quando. Acreditamos. a mulher de cor. À mesma pergunta. e talvez ainda mais expressiva. determinar as últimas razões desse fato. com negras e mulatas. que entre elas não estaria ausente a circunstância de o jovem brasileiro branco considerar a ligação sexual com mulher de cor alguma coisa que. noutras respostas que àquela se assemelham no f u n d o . a freqüência dessas respostas no sentido de evitar casamentos interétnicos por causa dos filhos 011 tolerá-los contanto que se evitem filhos. evitaria filhos que poderiam vir a ser vítimas dele. a concepção d o m i n a n t e é a de que. c o m diferentes variações. de qualquer sorte. sem afirmar com segurança. para relações sexuais não-conjügais. por nossa parte.1 82 O N E G R O N O R I O D E JANEIRO Esse mesmo tema aparece. por se referir não ao próprio casamento mas ao de u m irmão (ou irmã). Parece mais provável. com os elementos disponíveis. a circunstância de a quase totalidade dos rapazes interrogados declarar-se contra a idéia de se casarem com mulher de cor está longe de indicar qualquer repugnância à ligação meramente sexual.

Na parte do questionário reservada à coleta de estereótipos raciais eles já não apenas transparecem.. h u m i l d e .A T I T U D E S . mais especificamente. Logo abaixo da relação indicamos exemplos de expressões que podiam ser usadas. para cada um. francês. N ã o tem outro significado. Apesar d o esclarecimento houve nítida tendência a escolher uma dentre as sugeridas q u e foram. ficando esclarecido que não eram obrigatórias e que OLitras podiam ser empregadas. sujo. eventualmente. que encontramos aspectos e x t r e m a m e n t e interessantes da maneira c o m o o sistema de valores reflete as posições. No que se refere.. mulata para f. trabalhador. d) forte hostilidade. esportivo. fleumático. d i v i d i m o s as respostas em quatro grandes grupos indicativos de: a) simpatia. as seguintes: inteligente. E S T E R E Ó T I P O S F. exprimem-se com clareza. negro. p o u c o inteligente. corajoso. Quer nos parecer q u e a análise destas respostas revela. paciente. b) hostilidade. inferior. Os grupos relacionados. mulato. melhor definisse o grupo. judeu. por exemplo.. para efeito de comparação. u m a q u a l i d a d e ou característico que. a mulata. chinês. é mulher cie eleição. RELAÇÕES DE RAÇAS 191 ou. O m e i o utilizado para fazer essa coleta foi o comumeme usado: relacionamos dez grupos diversos e pedimos q u e indicassem. hipócrita. na o p i n i ã o do inquirido. primeiramente. Consideramos como fortemente simpá- . diz a frase feita. foram os seguintes: norte-americano. nesta ordem. Só fizemos apuração minuciosa das respostas que se referiam aos negros e mulatos. diferenças de posições e antagonismos entre as categorias étnicas que c o n v i v e m no Distrito Federal. nesta m e s m a ordem. valente. gosta de mandar. traidor. brasileiro. apuramos respostas dadas com relação aos demais grupos. apreciados. que o número de respostas encontradas com relação ao negro foi ligeiramente maior do que com relação ao mulato: 311 indicaram um traço característico do negro e só 305 fizeram o mesmo para o mulato. c) forte simpatia.. e foram. ao caráter apreciativo ou depreciativo do traço ou característico escolhido para designar cada grupo étnico. português. fala muito. nem outra possível interpretação. inglês. De vários m o d o s esses resultados podem ser. russo. negocista. o estereótipo corrente de que a mulata é sexualmente mais compensadora: branca para casar. preguiçoso. Cumpre notar. havendo seis que deixaram sem resposta a p e r g u n t a que se referia ao mulato. pernóstico. escolhendo amostras ao acaso. brigão. negra para trabalhar.'através das formas estereotipadas de julgar.

destacando-se.da p e r m a n ê n c i a observada. ao critério do Autor.93 13. m a s foi u n i f o r m e para todos os questionários. p o r outras palavras.s e cm duas categorias básicas de simpáticas ou hostis. . cm relação ao mulato. a freqüência em relação ao negro é maior do que em relação ao mulato. em categorias aparte. de base patriarcalista. De acordo com esse critério de apuração as freqüências encontradas para cada grupo étnico é p a r a c a d a categoria de resposta são as que se registram n o Q u a d r o XXX: QUADRO X X X - DISTRIBUIÇÃO POR COR. O limite entre essas nuanças teve de ser necessariamente arbitrário.93 100.81 0.36 1.00 Nesses dados observa-se q u e a m e n o r freqüência coincide. isto deve resultar . p a r a os dois grupos étnicos. DISTRITO FEDERAL - Características Negro Dados absolutos Mulato % Dados absolutos % 29. SEGUNDO CARAC1940 TERÍSTICAS.26 59. de alguns fracos remanescentes de u m a a t i t u d e anterior.64 8.192 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO ticas aquelas que traduziam u m a convicção militante de solidariedade ao g r u p o considerado e entre as f o r t e m e n t e hostis só incluímos as respostas q u e usavam a expressão "inferior" para classificar os grupos de cor.pobres diabos! — c quase inexistente. de forma inequívoca. ou que t r a d u z i a m essa idéia. de solidariedade quase piedosa cm relação ao negro .18 — 91 186 2 26 6 311 311 100.19 1.69 40. isto indica que todas as respostas g r u p a m . Ao menos parcialmente. nos materiais por nós recolhidos. Noutros termos. cm relação ao negro. ainda assim. na apuração. nesta categoria. as que revelavam essas mesmas orientações em cambiantcs fortemente acentuadas.00 Simpatia Hostilidade Forte simpatia Forte hostilidade Não responderam TOTAL 139 125 6 41 — 44.a julgar pelas respostas típicas encontradas . nas respostas indicativas de "forte simpatia".

vindo em segundo lugar as simpáticas. com já para o negro a freqüência maior está nas respostas simpáticas — seguindo-se as hostis.61 — 100 . A contradição parece-nos puramente aparente e nela julgamos encontrar f u n d a m e n t o para u m a hipótese fundamental a respeito da situação racial nas áreas urbanas e industrializadas do Brasil e que se refere à marginalidade do mulato. a soma das respostas a) hostis e fortemente hostis é maior do que a soma das respostas b) simpáticas e fortemente simpáticas.19%.93 100 53. Na verdade. para os dois grupos.38 46.17 29. que está cruzando a linha de cor. o fato de se aceitar mais facilmente a aproximação com pessoa de cor de matiz mais claro não impede que. a maioria dos quais visa destacar. t a n t o para o mulato quanto para o negro. dual. e n q u a n t o que agora constatamos u m a concentração maior de julgamentos hostis incidindo sobre o mulato. de julgamentos hostis com referência ao mulato. na mesma dc resposta: para o mulato a maior freqüência está n a categoria das hostis .90 1. pois que tem implicações sociológicas evidentes . O fato de encontrarmos uma concentração acentuada.26%.. Verificamos ali que as resistências à aproximação diminuíam na medida em q u e o matiz da epiderme branqueava. 8 0 % . como se vê no Q u a d r o XXXI: QUADRO X X X I - PERCENTUAL POR COR.A T I T U D E S . A maior freqüência já não coincide. parece contradizer a tendência antes revelada. DISTRITO FEDERAL % Características Negro Hostis e í o r t e m e n t e hostis S i m p á t i c o s e f o r t e m e n t e simpáticos N ã o respondera m lolal Mulato 68.69%. 46. uma onda de julgamentos estereotipados. venha a incidir sobre o mestiço. ambivalente da posição social c étnica e do c o m p o r t a m e n t o dos que estão vivendo o processo de passagem dc uma condição para outra. SEGUNDO CARAC- TERÍSTICAS. Isto nos parece ainda evidenciado quando notamos que. E S T E R E Ó T I P O S F. direta ou indiretamente. RELAÇÕES DE RAÇAS 193 categoria respostas 29. d u r a n t e o processo depassing— que não é apenas biológico. na apuração da escala le distância social.5 9 . a natureza marginal. 40. mais de 50%.

em relação à condição cio negro. Assim. parece-nos q u e esse comportamento diverso em face do negro e do mulato resulta de u m a pluralidade de razões. de empregado e patrão. sempre foi um elemento discrepantc da simetria desse sistema em que os traços étnicos tão bem coincidiam com as posições sociais. portanto. da simples apresentação de resultados numéricos. com uma dispersão maior de freqüências. que já predominam nas comunidades urbanas.e não analisar ou compreender . a sua condição social real e objetiva. a condição em que efetivamente o negro se encontra no sistema de status social na Capital do Brasil e.n o s tentar compreender porque sobre o mulato incidiu uma barreira de estereótipos mais nitidamente configurada e integrada. por outro lado. nem p o d e alcançar. com relação ao mulato. na medida em que aí se reflete uma situação social mais geral. já que o mulato. por que reflete situações objetivas. que ela nunca se caracterizou tão bem quanto em relação ao negro. mas de que necessita ter u m a explicação qualquer. o que explica seu grande poder d e propagação entre os que precisam apenas explicar . embora presente. Essa análise. C u m p r e . em regra.1 82 O NEGRO N O RIO DE J A N E I R O O que houve. entre as quais as mais importantes são as seguintes: em primeiro lugar encontramos. enquanto que entre os negros a dispersão entre as diversas categorias dc respostas foi maior. Essa explicação. i m p u n h a ao grupo branco dirigente obrigações de caridade e assistência em relação ao preto socialmente inferior. Nesse sentido ficou plenamente confirmado que o estereótipo é. enquanto que sobre o negro.as . muito sintomaticamente não encontramos n e n h u m a sobrevivência em relação ao mulato e acreditamos. nos deve conduzir. os restos evidentes de u m a solidariedade piedosa. pois sobre ela a c o n d u t a vai se pautar. remanescente do tipo tradicional de relações de raças no Brasil entre senhores e escravos. parece muitas vezes parcialmente verdadeira. Dessa ideologia tradicional que. ela se revelou menos integrada. p o r definição. acima de tudo. foi uma concentração maior das respostas na categoria das hostis. a explicação que o senso comum oferece àquilo cuja complexidade ele não alcança. Em segundo lugar. de raízes nitidamente patriarcais e hoje objetivamente superada pelas relações contratuais. o m o d o como o senso comum vê e interpreta essa posição objetiva do negro na comunidade. aliás. para a consideração direta da realidade viva e complexa que neles está refletida. dentro do padrão também tradicional dc relações de raças no Brasil. essencialmente. tudo parece indicar que os traços escolhidos pelos componentes de nossa amostra para caracterizar o negro refletem.

u m ser excepcionalmente despido dc inteligência. RELAÇÕES D E RAÇAS 195 situações sociais. por via dos fatores históricos que desde a origem d e f i n i r a m sua posição na sociedade brasileira. que. E m verdade. na verdade. têm tido sua educabilidade deformada e impedida pelo desamparo em que vivem e pela atmosfera antieducativa em que vegetam. antes e acima de tudo.um dos estereótipos sobre o negro mais encontradiços. porém rixento. muito paciente. mas também. Por outro lado. c cada vez mais. c com a interpretação científica dos fatos. Trata-se. que inspiram u m a ideologia e que pautam uma conduta nas relações interétnicas. tia os obriga. a pensar e a agir. o que é essencial. a função que desempenham no perpetuar as situações objetivas das quais são beneficiários os grupos no seio dos quais são gerados. na sociedade em que o negro vive e na qual as classes dominantes são predominantemente compostas d e brancos. portanto. de valores que resultam de uma situação objetiva. como explicações dos fatos. o que há de inverdade e deformação no estereótipo não resulta de mera coincidência e tem sempre uma função na dinâmica das relações humanas. que só pode ser compreendida quando compreendemos o papel que desempenham os estereótipos n o quadro geral da m u d a n ç a social e das tensões que dela resultam. mas ao mesmo tempo humilde. "trabalha muito e não se cansa" etc. embora u m trabalhador extraordinário que por mais que trabalhe não se cansa? Evidentemente os estereótipos registrados traduzem. não só as inverdades que contêm. não só na amostra estudada mas na sociedade em geral significa. então. "trabalhador". qual a significação sociológica da concentração de respostas nesses característicos. "humilde". As formas tradicionais de exploração do trabalho h u m a n o no Brasil comportavam a total ausência de qualquer . Analisadas essas legendas cm cotejo com os fatos. "Pouco inteligente" . especialmente nos quatro primeiros acima indicados? Acaso isso indica que o negro é.A T I T U D E S . "paciente". de fato. percebe-se. As frases e expressões que. as classes sociais a que o negro pertence em massa. com mais e mais característica freqüência. entretanto muito trabalhador. ESTEREÓTIPOS F. apareceram nas respostas referentes ao negro são deste tipo: "Pouco inteligente". a interpretação que o mundo e a esfera social a que pertencem aqueles jovens brancos dão à posição social do negro. cultivados e donde se propagam esses estereótipos a respeito dos outros grupos inferiormente colocados na escala-social. a explicação que oferecem a um problema diante do qual n vida quotidi. "brigão".

na mesma medida em que a organização social é passível de transformação. explicar essa falta de educação como conseqüência da falta de inteligência é a função do estereótipo. . nas condições econômicas. ao fato de. problemas que obrigassem as elites a pensar e a agir no sentido de resolvê-los. sociais e educacionais em que ele permanece na sociedade brasileira. O negro. A função mistificadora do estereótipo consiste. que os que assim responderam — e que são apenas parte de uma corrente m u i t o mais vasta dos que pensam analogamente . surgirem entre eles as taxas mais elevadas de delinqüência e que realmente se explicam como produtos desses fatores sociológicos e não por causas étnicas. ou "mulato". a associação real e objetiva que existe entre os elementos a) classe social. n u m a favela. sem que a elevação do nível técnico e a cidadania consciente fossem. d) desajustamento social e econômico. diplomado na escola de criminalidade que são as favelas ou. na linguagem deformante do estereótipo. Os "white collar criminais"não aparecem nas folhas dos jornais com a freqüência com que se estampa a fisionomia mísera e boçal do malandro do morro. por muito tempo. que estão à origem do tipo social do malandro. "Negro". incarna-o na figura a) de um negro ou mestiço. mutável. de m o d o primário e parcialmente verdadeiro. Hoje. sendo dele parte essencial. capitão da areia carioca. N a verdade a expressão indica. "Brigão " foi outra maneira muito preferida de caracterizar o negro que e n c o n t r a m o s nas sondagens feitas entre jovens brancos. a fixidez de um traço congênito ao negro. não raro. negro ou mestiço.conferem. b) condição étnica. que assim transfere para a irremediabilidade do plano biológico a causa de uma situação que é essencialmente de ordem sociológica e. O facies estereotipado do malandro carioca. portanto. sofreu em cheio aquelas limitações e foi sempre conservado nos níveis educacionais equivalentes ao nível social e econômico em que se encontrava. que o senso comum configurou e à base do qual julga e interpreta os homens e os fatos da mala vita da metrópole. como peça da máquina produtiva e como elemento passivo do mecanismo societário.1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO intelectualização das operações de trabalho. e "morro" são elementos essenciais d o estereótipo do malandro e nisso refletem. c) situação ecológica e. em interpretar como fatalidade biológica o que é produto da organização social. nas sucursais desta escola que são alguns estabelecimentos de assistência aos m e n o r e s abandonados. de m o d o que as mais largas camadas da população puderam se integrar no sistema econômico e social. entre os quais os negros constituem a parcela maior. neste caso. mais u m a vez. b) que vive no m o r r o . principalmente. mais u m a vez.

sempre e m favor dos beneficiários dela. a c o n d i ç ã o humilde de fato que tem o negro-massa na comunidade mas. ridículo. também. "pernóstico". 3 0 % usa a expressão "pernóstico" para caracterizar o mulato. H O L I V C um questionário que resumiu o estado de espírito desta parte da amostra caracterizando o mestiço com duas únicas palavras . a jocosidade. "falador". e que. fundamentalmente. R E L A Ç Õ E S D E RAÇAS 197 A função útil dos estereótipos raciais reside. Nesse sentido a palavra humilde pode indicar ignorante. habitante de morro etc. p o r o u t r o lado. o papel desastrado q u e o estereótipo associa a essas figuras pigmentadas de lendas e historietas infantis. Nesse sentido. o estereótipo definido pelo uso das expressões "traidor". esse estado ou condição que se designa c o m a palavra humilde ê utilizado como matéria-prima para a configuração de tipos cômicos com que. Especialmente o primeiro daqueles qualificativos . etc. que também f o r a m freqüentes. sem o menor esforço mental de reflexão e análise. também foram freqüentes na caracterização do negro. eles servem não somente para definir u m papel para cada indivíduo na sociedade. inconveniente. toda vez que se pensa n u m mulato e se tenta qualificá-lo.mereceu impressionante preferência nas respostas. Expressões como humilde. personagem velho de mais de meio século. N u m conjunto de 305 questionários. analfabeto."pernóstico" . automaticamente repetida. Depois de "pernóstico". essencialmente. "falador" e " t r a i d o r " foram os julgamentos estereotipados que mais caracteristicamente se definiram no inquérito que fizemos. parecendo apresentar-se na mente dos inquiridos como uma verdade tranqüila e inconteste.ATITUDES. modelo dc muitas que constituem leitura habitual e tradicional da criança brasileira. rude. Esta quota seria m u i t o maior se incluíssemos ali as variantes "convencido". No que se refere ao mulato. d e posição social e dc ciasse. ESTEREÓTIPOS F. . s e g u n d o parece. têm todas como paradigma original a já famosa figura d o negro Benjamim. para m a n t e r e m a situação total que resulta dessa diversidade de papéis. e outras desta ordem. Não raro."quinta coluna" —. em apresentar explicações raciais para situações que são. mal vestido. "fala m u i t o " . a criança brasileira cedo se familiariza.. O Tko-Tico. deseducado. em primeiro lugar. de acordo com a discriminação étnica q u e lhe é atribuída pelos critérios dominantes. "hipócrita" e "falso" foi o que mais caracteristicamente se configurou. "tem complexo". mas. através do folclore o u da literatura escrita. neste caso da humildade de condição e da rusticidade de espírito resulta a comicidade. E o caso da conhecida revista infantil. representam uma maneira geral e vaga de se referir a uma série m ú l t i p l a de formas pelas quais essa h u m i l d a d e de condições se revela nas relações sociais concretas. "hipócrita". Elas refletem.

uma situação de d o m í n i o absoluto sobre a mulher de cor.deixa claramente evidenciado que existe sobre o m u l a t o u m conjunto mais integrado e melhor definido de julgamentos e valorações estereotipadas do que sobre o negro. Neste fato simples e evidente. antes de mais nada. tão óbvio que sobre ele m u i t o s se escusam de meditar. Dir-se-ia. "serve a duas bandeiras". para agravá-las. e para esta. Assim as expressões "humilde" e "sentimental" foram empregadas. aplica-se inteiramente às condições brasileiras e nele ficam inteiramente r e t r a t a d a s : "It has been rather the social inequality to equaLity occwed" . que o mulato oferece-se como mais vasto campo de formação de estereótipos precisamente porque. O mulato. com freqüência quase igual. A análise dos resultados obtidos — c o m o já avançamos . é a estaca zero do problema da mestiçagem no Brasil.198 O NEGitO N O RIO D E JANEIRO querendo com isto indicar que o mulato é alguém que "cruzou as linhas". por definição. por outro lado. é. é que o mulato brasileiro. como conseqüência direta da inferiorização social do negro. que certos estereótipos definiramse com igual intensidade tanto para negros q u a n t o para mulatos. como mestiço. a respeito da mestiçagem nos Estados Unidos. em suma. para o h o m e m branco. que se processou. Esta configuração sociológica. para caracterizar um ou outro dos grupos étnicos considerados. sobre as quais. é. sobre os quais é preciso refletir sociologicamente. o diagnóstico de Royce. se tem acumulado grossa camada de opiniões superficiais. citado por Myrdal. 1 4 O primeiro desses fatos. o que torna a m u l h e r de cor presa fácil da concupiscência d o homem branco. e em grande parte sc processa. como tipo social e psicológico. p o r sua simples existência e presença.'5 which has been responsible for ofthe races than any in so far approach has the mixture. um p r o d u t o d a extrema desigualdade de posições sociais existente entre os dois grupos étnicos de cujo cruzamento ele resulta. reside. para dele tirar todas as conseqüências que comporta. as such Desta desigualdade resultava. um marginai Escusado é dizer. é um mestiço de negro e branco. neste sentido. Neste sentido. sem base na observação dos fatos. entretanto. um m u n d o de contradições sociais e psicológicas. a rigidez e simetria do esquema de linhas étnicas e de posições sociais em q u e pretos e brancos se têm historicamente defrontado na sociedade brasileira. quebra. uma condição de absoluta acessibilidade ao assalto sexual daquele. estrutural. nas condições peculiares à situação racial brasileira. interpretações de tão fácil aceitação q u a n t o pobres de substância científica. .

no nosso sistema de estratificação social. entretanto. ela se justifica em sua aplicação à situação presente. 16 A respeito da situação atual d o intercasamento étnico a documentação estatística é praticamente nula. é a natureza extraconjugal dessas relações mistas. especialmente d a mulata. o jovem brasileiro. historicamente. como companheira sexual. ainda q u a n d o se diz liberto de preconceitos raciais. não são mais do que puras racionalizações da acessibilidade da mulata à sedução do branco. Até hoje. sob a forma d e hipótese. considerado capaz de silenciar os que argumentam em contrário. pelos que têm preconceito. o mais claro. quando não são filhos d e dois mestiços. b) a ilegitimidade é maior entre os filhos dc uniões em que a mulher é o elemento mais escuro e o h o m e m . Na medida em que foram lentos e restritos os efeitos da mobilidade social dos grupos de cor e em que permanece. queremos registrar aqui c o m o produto da experiência e observação pessoal: a) a maior parte dos mestiços brasileiros. não é preciso fazer-se esforço. . para saber quanto é difundida e n t r e nós a noção de que ela é mulher de eleição para a concubinagem. fato que os resultados dos inquéritos a que p-ocedemos. D u a s observações. E S T E R E Ó T I P O S f. são gerados de uniões nas quais o homem é o elemento de pigmentação mais clara do que a mulher. N ã o há pergunta mais brasileira do que esta em qualquer discussão ou troca de idéias sobre igualdade racial e ela é feita. gagueja quando alguém lhe pergunta se seria capaz de casar-se com uma negra ou gostaria de ver uma filha ou i r m ã sua casar-se com um negro. para desfrutar a condição de esposa. Como dissemos. é mais do que uma hipótese. todo o material legendário e folclórico que pode ser recolhido a respeito das pretendidas extraordinárias qualidades da mulher de cor. mas não pudemos deixar escapar a oportunidade de indicar as principais premissas em que elas se baseiam. A segunda é apenas uma decorrência da primeira: se a maior parte das uniões de homens brancos coin mulheres de cor são extraconjugais. u m a acentuada diferença de posição objetiva entre os grupos étnicos. e que antes apresentamos. A primeira. plenamente confirma. sociologicamente relevante. Apesar dos atrativos proclamados pelo estereótioo. apenas hipóteses. que se destaca d o problema. porém.ATITUDES. aliás. triunfantemente. RELAÇÕES D E RAÇAS 199 O segundo fato. é um fato. como argumento final e decisivo. Não conhecemos o registro de documentação cientificamente expressiva referente às virtudes excepcionais da mulata para o casamento com o branco.

Essa v a n t a g e m do mulato sobre o negro como que é compensada pelo fato de. que são outras tantas variantes. de várias formas. o mulato estar sempre mais próximo do que o negro de cruzar a linha social de cor. quase todos. e o do mulato brasileiro em geral. tira-teima etc. Ela é que explica a ambivalência dos julgamentos e dos valores ligados à explicação do seu papel. o que faz com que sobre ele particularmente incidam os estereótipos que visam definir sua posição. doçura ou afetividade. em diversos contextos de frases. Recente pesquisa feita pela revista Conjuntura Econômica. embora indiretamente.200 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO forçosamente os frutos dessas uniões tendem a ser também.não somente biológico mas t a m b é m sociológico . 17 Esta sumária colocação do problema da mestiçagem visava a destacar o status marginal . vivido. 18 N u m a sociedade em que as posições de classe e de etnia tão nitidamente se identificaram. etc. Esta definição de posição é um p r o b l e m a quotidiano. Tais vocábulos. comportam. Dita de certa forma a expressão "mulatinho" pode ser tão pejorativa quanto. reúne dados que.. em conseqüência dela. maiores as suas oportunidades de transpor as barreiras à ascensão social. n o u t r o s casos. e que se reflete. mulato. Essa ambivalência reflete-se de mil maneiras. o indivíduo. entretanto. constante.e humilhação. pardo. roxo. quanto mais branco. e por tanto tempo. Esses diminutivos. por todo mulato brasileiro que está em processo de adquirir um status social diverso daquele em que permanece a maioria esmagadora dos que lhe são etnicamente semelhantes e dos quais ele socialmente se distancia. por outro lado. o vocábulo "negrinha" . da Fundação Getúlio Vargas. ou. do ponto de vista estritamente jurídico. Mestiço. por sua vez. escuro. não só naquele plano dos julgamentos que os demais grupos étnicos fazem sobre ele mas t a m b é m no plano mais objetivo de seu comportamento concreto. inclusive na multiplicidade de m o d o s e palavras existentes para designar os diversos graus de mestiçagem e os diversos estados de maior ou m e n o r receptividade ou h o s t i l i d a d e e m r e l a ç ã o a o m e s t i ç o . estão longe de significar sempre carinho. que depende diretamente da cor de outros traços étnicos aparentes. nem sempre consciente. ilegítimos. ressaltam. em verdade.do mulato carioca. p o d e n d o muitas vezes traduzir desprezo . marginalidade que é o traço mais saliente que os estereótipos correntes sobre ele. robustcccm a hipótese. "moreno". a intenção deliberada de ferir. permanente. ou menos preto. em particular. muitas vezes dramático. os respectivos diminutivos. indicam a procura de expressões que permitam referência à condição étnica sem ferir a sensibilidade das pessoas a respeito das quais são usadas.

a maioria delas de acentuada sutileza. tratando-se o elemento de cor como sefosse branco. três grandes linhas no sentido das quais esse processo de definição de posição tem lugar: a) os mecanismos de defesa e purificação racial do grupo branco tendem a pôr em foco o que há de preto no mulato.. valores. ou melhor. de definir a posição dos elementos de cor pela discriminação positiva de alguns e negativa do grupo . transfere-se para. em grande parte. n o m í n i m o . que oferece às vezes aspectos contraditórios pois não raro a discriminação se faz. aliás. A necessidade. com que se favorece individualmente este ou aquele elemento de cor. Originada provavelmente ainda no período da escravidão. até o negro do eito. ou mulato. por o u t r o lado. é outro m o d o característico de se revelar o preconceito contra o negro ou o mulato em geral. julgamentos estereotipados cuja função útil é precisamente conservá-lo n o seu lugar. ainda se julga a si mesmo à luz de critérios. ou seja. para assim reconduzilo ao seu Ingar. e às vezes da cama.ATITUDES. fazia cafuné. liberalidade que em regra provoca ressentimentos. mas são exceções". pois trata-se de lograr o efeito sem violentar abertamente a opinião confessada de que "no Brasil não existe preconceito racial". já que tratar alguém como se fosse é em certo sentido o mesmo q u e declarar-lhe claramente que não é. que iam da mucama que trabalhava em casa. no lugar inferior que historicamente tem ocupado na sociedade brasileira. através dessas "honrosas exceções". esta discriminação positiva de alguns elementos de cor individualmente considerados. e negativa do grupo como um todo. representa. do que a individualização da consideração que um branco dá a u m elemento de cor: "este negro. quando se estabeleciam gradações de preferência do senhor branco. discriminação que geralmente se faz à luz de um critério essencialmente branco. Embora não seja a única." Parece-nos haver aqui. igualmente característica. puro e anônimo instrumento de trabalho. consciente ou inconscientemente. a conveniência de respeitar o grande slogan resulta em toda uma complexa etiqueta racial. E S T E R E Ó T I P O S f. Isto é feito de várias formas. Essa discriminação positiva. R E L A Ç Õ E S DE RAÇAS 201 para indicar o último grau de ofensa e agressão verbal.. privava da intimidade. uma das maneiras mais típicas pelas quais a ideologia racial do grupo dominante. Outra forma. e é aceita pelo grupo inferiormente colocado na escala social que. A.20 Nada mais freqüente. a noção subalterna implícita em muitas expressões que designam a mestiçagem é a de um nascimento ilegítimo. B ou C são pessoas com quem se p o d e conversar. muitas vezes com exageradas amabilidades.

aquele sentimento está sendo muitas vezes substituído pela noção de que o que ascende é um trânsfuga. perman e n t e m e n t e preocupado com o seu problema pessoal de como passar para "o outro lado ". opinião negra exerce sobre os m e m b r o s do grupo que são seus líderes atuais ou potenciais. cada vez menos uniforme e generalizado. porém já existente.202 182O N E G R O N O R I O DE J A N E I R O como um todo transparece na adoção freqüente de um critério d t geração para aprovar ou condenar o comportamento do negro ou do mulato em face do branco: "antigamente o negro era respeitador. insolente. para recordar-lhe a inferioridade social da origem —. cada vez mais. q u e q u e r s e r igual a o b r a n c o . "branco em comissão". De fato não é pequena . sabia tomar o seu lugar. H o j e é diferente.para qualificar os que tendem a passar do nível da massa para o nível da elite. especialmente da família. só servia. apesar das boas intenções. q u e n ã o toma o seu lugar. essa n e g r a d a quer ser igual ao branco". está sendo hoje. "mosca no leite " s ã o e x p r e s s õ e s características. por outras formas mais sistemáticas. Negro metido. O sentimento de orgulho da população de cor que vê um dos seus penetrar em esferas superiores — homenagem que o indivíduo recebia não raro c o m o pesada carga pois. muitas vezes.2] A segunda definição que visa a estabelecer o papel do mulato ou do negro evoluído é o da população de cor como um todo a respeito desta minoria que dela se destacou. ou. "Negropó metido de arroz".22 Essas modalidades difusas e informais de controle são completadas. algumas de forte sentido pejorativo. negro trabalhador. Nas comunidades urbanas e industrializadas. são modos de caracterizar o negro de hoje. pernóstico. entretanto. negro respeitador. não confundia a sala com a cozinha. etc. Negro fiel. q u e só p e n s a em ser doutor etc. usadas não somente por brancos em relação aos de cor que penetram em seu meio. no seio das organizações . negro que se assunta são expressões que ocorrem com freqüência em conversa de branco para se caracterizar o negro de antigamente.e tende a crescer cada vez mais — a ação de controle que a ainda informe e embrionária. "macaco de cartola ". em conseqüência do aspecto racial que têm recentemente assumido muitos conflitos e tensões sociais nessas áreas. são adotadas e adaptadas . embora permaneça visível c o m o atitude da maioria dos que estão mais próximos daquele que está ascendendo. "negro a besta ".. sabia se comportar. todas repassadas de ironia e ressentimento. mas também pela própria população de cor — onde tais expressões algumas vezes se originam. muitas vezes. "mulatopachola".

àquelas posições sociais e m que o mulato mais facilmente d o que o negro pode penetrar e que têm sido. em nossa sociedade. o produto instável de uma constante acomodação que acaba por se c o n f u n d i r com a rotina da vida quotidiana e que. monopólio do branco. do papel social do m u l a t o o u do negro evoluído-. sofre m e n o s do que este a ação de certa ordem de preconceitos de marca. não . o mulato. de t o d o s os matizes. c o m o essas instituições são dirigidas por pessoas de posição social análoga. desde a d e n ú n c i a franca à maledicência mais subalterna. a que n o s referimos. aquela que ele p r ó p r i o faz de seu papel e de acordo c o m a qual organiza as suas pautas de c o n d u t a na sociedade. grosso modo. para isso. 2 3 É como uma resultante desses critérios e avaliações antagônicas q u e surge a terceira definição. c o m o que para compensar a vantagem o b t i d a em conseqüência do que nele há de branco. o que ele tem de negro é o seu g r a n d e handienp. de todos os instrumentos. organizadas em esquemas diversos. As múltiplas contradições entre essas duas definições do papel social d o mulato ou do negro evoluídosão visíveis e só se explicam dentro do c o n t e x t o da situação total. De fato. historicamente. RELAÇÕES DE RAÇAS 203 de homens de cor e através da i m p r e n s a que elas mantêm. parecem produzir efeitos ainda mais nitidamente caracterizados sobre o comportamento individual q u a n d o se trata do mulato. E S T E R E Ó T I P O S f. o controle é recíproco. Já aqui. ele é ajudado pelo q u e nele há de branco. p o r q u e mestiço de branco e preto. neste caso. O marginal é marginal p o r q u e tem de corresponder às expectativas de comportamento de dois grupos. Essas contradições. ou de cor.ATITUDES. poderia ser caracterizada como o repúdio teórico e a conciliação prática das contradições existentes entre as duas definições anteriores. i g u a l m e n t e passíveis daquela reserva e daquele comentário. Por outro lado. assumindo a forma de luta de campanário. sua m e s m a condição de negro e branco faz c o m que ele seja encarado por certos setores do grupo branco como u m a espécie de vanguarda de uma invasão dos elementos de cor em geral. cada u m fiscalizando as tendências de t o d o s os outros e usando. e m que matiz da epiderme e outros traços aparentes da condição étnica representam o critério essencial da discriminação: neste caso. por sua vez. cuja condição biológica de mestiço como q u e serve de lente de aumento para os problemas relacionados com a definição d e status. Necessariamente essa terceira definição é uma redefinição permanente. pois é precisamente isso o que o estereótipo focaliza e destaca.

entre si. da voz. Aqui importa destacar somente que é n o clima destas definições e redefinições. aparentemente inexplicáveis. O verbalismo abundante. que cerca a minoria dos homens de cor que compõem a "elite" social dos grupos não-brancos. que tende a resultar cada vez mais importante no esquema psicossociológico de um grupo que sente objetivamente se multiplicarem diante de si barreiras e práticas discriminatórias racistas e ouve. estamos longe de afirmar q u e t o d o mestiço ou negro brasileiro seja u m marginal. adiante. São infinitamente variáveis as formas de se manifestar o mecanismo de frustração-agressão. de que para isso tendem aqueles que tomam consciência étnica do seu p r ó p r i o "caso" e procuram racionalizar os problemas da adaptação com que se defrontam. do traje. e não raro antagônicas. é um m u n d o de reações inesperadas. Ao analisarmos. 25 . O b v i a m e n t e . o pernosticismo característico. por causa do característico étnico. o exagero dos gestos. 24 A conduta de quem vive essa situação e a interioriza profundamente. contraditórias. Elas vão do misticismo mais alvar às explosões de talento. ao mesmo tempo. que se sucedem sem aparente relação lógica. da gargalhada. q u a n d o servem de f u n d a m e n t o à formação de estereótipos. da hipocondria mais solitária à exteriorização mais gritante. o artificialismo estudado. Não resta a menor dúvida. que se originam os estereótipos correntes sobre a sua personalidade e o seu comportamento. nem mesmo afirmamos que esta situação seja fatal para todos aqueles que se destacaram da homogeneidade da massa formada pelos seus irmãos de cor. ao ponto de ela se tornar a chave de sua vida interior e o problema básico de sua vida de relação. automaticamente. o dinamismo nervoso e ruidoso da c o n d u t a — que muitas vezes chega realmente a atingir o nível do talento criador e outras não consegue ultrapassar o da simples simulação . a mentalidade dos homens de cor que por qualquer via ascendem do nível da massa e n e m p o r isso se integram. muitas vezes contraditórias. à melancolia e m e s m o à angústia que lastreia. p o r é m . nas condições da tensão racial. reações ao ressentimento. Foi disso que tomou consciência no Congresso do Negro (agosto de 1950) um jovem orador q u a n d o dramaticamente exclamou em m e i o ao debate: "O maior inimigo do negro cie elite no Brasil é o negro-massa". a origem social deste p r o b l e m a será tratada com mais vagar.parecem ser. mil vozes bradarem aos seus ouvidos o slogan q u e já correu o mundo inteiro: " N o Brasil não existe preconceito racial". na esfera socialmente superior e etnicamente branca.204 1 82 O N E G R O N O R I O D E JANEIRO raro antagônicos. do ponto de vista da psicologia social. a multiplicação das tensões raciais q u e a mudança de estrutura econômica e social está criando nas áreas metropolitanas do Brasil.

como verdade pacífica. com o que realmente é. é o supremo estereótipo que resulta do estado atual em que se encontra o problema das relações d e raças no Brasil. sem sombra de dúvida. da situação racial até agora exposta. nos quais procuraremos verificar o m o d o pelo qual. Autores nacionais e estrangeiros o têm repetido. insistentemente. E S T E R E Ó T I P O S f. e não c o m o que desejaríamos que fosse. É o que procuraremos fazer nos capítulos que se seguem.A T I T U D E S . resultam movimentos sociais que exprimem o seu conteúdo e que.96 % 99.50 % [Empregadores brancos E m p r e g a d o s brancos 0. Aqui utilizamos o conceito estereotipado c o m o hipótese de trabalho. lutam por sua transformação. Mas outros aspectos fundamentais do problema carecem ainda de ser analisados antes de ser tentada u m a interpretação final. RELAÇÕES DE RAÇAS 205 Este.5 % | 22. dentro dele. PIRÂMIDE DE CIASSE E RAÇA NO RIO DE JANEIRO 7. Das análises até agora procedidas a validez científica daquela proposição sai f o r t e m e n t e abalada.04 % I Empregadores pretos | Empregados pretos . convencidos de que o m á x i m o teste de uma afirmação corno esta só pode ser o frio cotejo com os fatos.

Ramos. F. aqui ou e m qualquer parte. na qual c o m e n t a n d o a freqüência com q u e as folhas diárias estampam retratos dc negros autores de delitos ele diz: "até parece q u e n ã o existem tipos de outros grupos étnicos c o m esses maus atributos no Brasil" (p. 1949. h outrance. pode-se dizer que no Brasil não houve "sistema escravagista". Ao analisar. à p. 5 4 3 . c) da pobreza conceituai da sociologia acadêmica no estudar.4 7 etc. é ressaltada a f u n ç ã o dessas "criaturas paradigmáticas" — para usar a expressão dc um porta-voz — no processo de arregimetitação c mobilização ideológica do negro contra a linha de cor. a tese do jornalista n e g r o José Bernardo da Silva. Este. chega a afirmar que em face da facilidade com que ocorria a mobilidade do status escravo para o homem livre no Brasil antes da Abolição. separaram os questionários r e s p o n d i d o s pelos alunos que. p. os resultados de cada g r u p o de testes. b) do desejo de fazer. 22-27. este problema da diferença existente enrre a atitude real c a opinião confessada é de extraordinária importância. 1947. S u p l e m e n t o do Diário cie Notícias. finalmente. 6 de abril de 1952. 4 4 . citada na bibliografia inserta no fim deste volume. t a m b é m entre os negros.206 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Notas 1 N a s condições peculiares da fase em que hoje se encontra o desenvolvimento das relações dc raças no Brasil. passim. por outro lado. Race rclations in a democracy. q u e boa parte d a falsa maneira de colocar o estudo das relações d e raças no Brasil decorre nas obras d c observadores estrangeiros: a) das fontes cm q u e se baseiam. Ver também Ina Brown. in: When people rneet. d o c o n j u n t o . por o u t r o lado.a m e r i c a n a . para cada u m a das baterias de testes que formavam o questionário. o que dá. 222. J o h n s o n . Um herói da negritude. Escusado é dizer. Isto parece ser. só h o u v e "pessoas individualmente escravizadas". u m n ú m e r o variável de respostas. T h e e c o h o m i c basis of race rclations. Ver-se-á adiante q u e . a crítica à ideologia racista n o r t e . o que os leva a forçar as diferenças encontradas. onde boa parte dos status respectivos dos grupos étnicos em c o n t a t o p o d e ser conhecida pela simples leitura das leis e dos códigos. T a n n e m b a u m . eram considerados por todos c o m o s e n d o "de cor" a julgar pelos traços físicos aparentes. 1949. d) das naturais distâncias n a c i o n a i s c culturais que separam esses e s t u d i o s o s das peculiaridades d a situação brasileira. 3). p. uma grande fonte de erros e dc falsas interpretações para os estudiosos estrangeiros da situação racial brasileira. Dizemos aproximadamente porque embora tivesse sido este o n ú m e r o de questionários apurados n e m s e m p r e todos os estudantes responderam todas as perguntas. A. Cf. armadilha dc cujos percalços muitos deles l a m e n t a v e l m e n t e não souberam escapar. Cf. 2 E o negro brasileiro observa. alguns e x e m p l o s dessas opiniões falaciosas de observadores estrangeiros sobre a situação racial brasileira em Charles S. nas respectivas t u r m a s . 106. G. sente os resultados disso c protesta contra essa prática. Cf. Slave and citizens. as situações de conflito e. E c nesse s e n t i d o que o estudo sociológico das relações de raças no Brasil afigura-se algo m u i t o mais difícil e complexo do que nos Estados U n i d o s o u na África do Sul. os índices estão calculados sobre o total das respostas obtidas para cada g r u p o c não sobre o total da amostra. O critério de discriminação dos inquéritos cm "alunos brancos" e "alunos dc cor" foi pedido aos professores das turmas que aplicaram os testes que. separadamente.

pois n ã o sc tratava de um teste de conhecimentos m a s de opiniões. pois representam sempre conceitos que resultam das posições respectivas e das relações sociais concretas que entre si estabelecem os grupos d e n t r o das estruturas sociais que j u n t a m e n t e se f o r m a m . de mera coincidência. Apresentação mais didática do p r o b l e m a p o d e ser encontrada em Dr. dos adultos. 17. A social distance scale. Yvete Costa Pinto. Neste sentido é q u e tem razão o Prof. Sociology and Social Research. Handbook of social psychology. As opiniões e os valores existentes n ã o resultam. Para u m a análise crítica extensiva do problema. Esta observação só se aplica escala de distância social. Bogardus. p. E f u n d a m e n t a l compreender que em regra os estereótipos integram-se no esquema de atitudes c valores que constituem as pautas individuais d e c o n d u t a . '' C o n v é m q u e lique esclarecido que todas as precauções f o r a m tomadas no sentido de assegurar aos estudantes a certeza de que poderiam responder c o m o máximo de liberdade. Ninguém nasce portador de u m a o p i n i ã o sobre o negro e a opinião de cada u m é sempre o produto da interiorização das opiniões dominantes no seu meio e q u e são inculcadas aos mais novos pela ação sistemática ou assistemática. Crutchfield. também. n u m a fase inicial da formação d a personalidade. Race attitudes. VII c X I I . 12 13 Kimball Young. a situação é diversa e pareceu-nos q u e aqui existem estereótipos m u i t o mais característicos c difundidos em relação ao m u l a t o d o q u e cm relação ao negro. aliás.2 4 7 . em psiquiatria. d o mesmo. Isto. 2 6 5 .2 7 1 (1933). U m a explanação prévia procurou convencê-los de q u e não havia respostas certas ou erradas. 1944. Klingberg. 191. variando o t e m p o e o lugar. com largo apoio bibliográfico. 1 3 9 . 1 ' Antes de ter larga circulação das ciências sociais c o n t e m p o r â n e a s com o significado específico q u e h o j e possui. para designar uma alteração do c o m p o r t a m e n t o de certos doentes mentais que se caracterizava pela repetição de gestos e palavras. Ficou. * N u m ú n i c o questionário a resposta a esta p e r g u n t a foi a seguinte: "Eles se i m p o r t a r i a m . Charles S. por exemplo. 1 9 4 8 . N o que sc refere aos estereótipos. em seguida. p. p. Theory and problems of social psychology. formal ou informal. RELAÇÕES D E RAÇAS 207 A este passo queremos deixar aqui registrados nossos agradecimentos aos ilustres colegas Prof. v. Álvaro Kiikerrc e M a u r í c i o dc M a g a l h ã e s Carvalho pela colaboração inestimável que prestaram a este estudo. Characteristlcs of the american negro. 1948. J o h n s o n ao afirmar que "as práticas costumeiras que presentemente se d e n o m i n a m 'relações raciais' são apenas m e c a n i s m o s sociais que nascem da necessidade de facilitar o controle d e um grupo por outro". Immigration and racial attitudes ( 1 9 2 8 ) passim. ver o estudo de Eugcne H e r o w i t z . assinalando. Krech e R. elas podem assumir . V. na medida em que ela surge e se desenvolve em conseqüência da socialização d o indivíduo. cap. 7 f> E. p o r sua vez. como v e r e m o s em breve. VI.A T I T U D E S . mas eu não". inteiramente ao critério deles a resolução de assinar ou deixar dc assinar as respostas. que. ESTEREÓTIPOS f. a palavra era usada. de f o r m a t o t a l m e n t e desinteressada. In: O . A o p r i m e i r o deles agradecemos t a m b é m a cooperação valiosa que prestou na apuração d o s m e s m o s . aplicando os questionários entre os alunos dc suas turmas. sugere ulteriores investigações sobre as variações nas atitudes raciais c m f u n ç ã o das gerações.

p. afastando-se do grupo negro. Rcconhccia-o. " C f . 1952. no Rio de Janeiro.". as sociedades de h o m e n s d e cor participaram ativamente dos trabalhos e lograram ser eleitas para funções p e r m a n e n t e s n a instituição que do Congresso resultou. Josiah Royce. é particularmente visível no que se refere ao i n t e r c a s a m e n t o racial c às suas conseqüências sociais c morais. ) .. 7. p. conversando s e p a r a d a m e n t e com uns c outros. Q u a n d o se reuniu. 1954. A coexistência de UberaUdãde teórica e discriminação prática. Brancos na Bahia 20 epretos ( T r a d . queremos Talvez fosse dispensável mas. p. o que ocorre na medida cm que. 2 1 . Pierson. sobre o qual. poucas p á g i n a s adiante: " O problema (pois) é mais sociológico do que antropológico". jul. p. T h e economic basis of racc rclations. no sentido dc Parle c Stonequist. ele e n c o n t r a resistências k sua integração no grupo branco. Race questions. o Congresso das Organizações N ã o . c o m ser e t n i c a m e n t c mestiço de brancos e pretos.G o v e r n a m e n t a i s .355. cap. característica do c r i p t o m e l a n i s m o tão d i f u n d i d o no Brasil. 37 e ss. 1 9 0 8 . 1. Le métissnge au Brésil. usase a expressão tira-teima para designar n u m a família aquele q u e p o r traços físicos iniludíveis indica a existência de mestiçagem anterior n u m a família hoje considerada branca. que socialmente consiste no desejo de esconder aquele c r u z a m e n t o q u e mancha a genealogia! Fora desse contexto a expressão não faria sentido. é difícil encontrar assunto tão brasileiro e tão f r e q ü e n t e m e n t e referido nas obras d e ensaístas e escritores nacionais e estrangeiros. 218. . provincialism and other american problems. Introdução 15 h antropologia brasileira. ano V. 374. e D . v. 360. 1949. d o n d e lhe resulta a posição referida. E confessava o saudoso mestre. alegando inclusive. p. CF.2 0 8 1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO aspectos d i f e r e n t e s mas sempre são a expressão racial " d e u m conflito básico dc interesses". tende a ocupar uma posição social (e não apenas étnica) marginal entre as posições sociais que os outros grupos têm historicamente o c u p a d o n a sociedade brasileira. para evitar incomprccnsõcs deixar esclarecido q u e isto não significa que cada mulato c necessariamente um "homem marginal". Q u a n d o . 1951. 2. A r t u r R a m o s . aliás. o Prof. 14 D c fato. . E para maior precisão Royce acrescenta: "It toas the social inequality ofthe plantation days that began the process of mixture. Cf. a necessidade de se unirem para c o n j u n t a m e n t e d a r e m combate ao preconceito racial de q u e são vítimas igualmente negros e j u d e u s . u m a relação e u m a interpretação dessas denominações dc graus de mestiçagem cm A r t u r R a m o s . G u n n a r M y r d a l . chap.. isto indica e v i d e n t e m e n t e a existência de uma teima. Artur Ramos: "os estudos sobre a mestiçagem no Brasil ainda não foram realizados c o m rigoroso critério científico". ainda assim. An american dilema. entretanto. por exemplo. Pois b e m : nada mais chocante p a r a o A u t o r do que verificar. ín: When people meet. n. j u n t o aos representantes das organizações israelitas. O que queremos dizer é que o grupo. Cf. como grupo. por iniciativa d o C e n t r o dc Informações das N a ç õ e s U n i d a s . pouco antes de falecer. Ao m e n o s urna delas cabalou f o r t e m e n t e n a assembléia para obter votos. 1947.. 17 Is Cf. 1944. III e IV. Conjuntura econômica.2 2 . VI. exista tão p o u c a coisa séria c cientificamente estabelecida.

que encarnam o mesmo p r o b l e m a desde que a posição econômica e o nível d e instrução somam-se íi cot como fatores diretos d e determinação da posição social. o Amor. portador de um diploma universitário que. nas camadas cm que p r e d o m i n a m pessoas socialmente homem-fronteira. não só não acredita na superioridade d o branco. 2> 21 21 Essa posição de homem-fronteira c m u i t o característica d o mulato. logrado uma integração c o m p l e t a p o r causa da cor. enquanto que muitos b r a n c o s os consideravam um mal necessário. mas. atitude (ácil de observar não s o m e n t e n o s movimentos e associações das elites negras mas nas reações do negro c o m u m . Neste caso. professor de ensino secundário.'por iguais p o r é m e t n i c a m e n t e brancas.í n e g r o s . mas não lhe c exclusiva. ESTEREÓTIPOS f. na exclamação de um negro culto e inteligente. para não negar na prática os princípios de fraternidade e tolerância q u e teoricamente defendiam. qual o mulato. tendem a se comportar como se assim julgassem. e com maior dose de r e s s e n t i m e n t o . a não ser a superioridade de status econômico c social q u e a vida quotidiana lhe demonstra à sacicdadc. evoluindo do nível cm que ainda se conserva a grande massa da população de cor. as a t i t u d e s que nela são formadas não p o d i a m t a m b é m sofrer grandes transformações. em g r a n d e parte. q u e e m alguns casos nasceu e floresceu ainda s o b o regime escravo e que se conservou na d e p e n d ê n c i a da atmosfera servi!. sem sombra de mestiçagem étnica. H. Seria grave erro considerar assim. b) a s e g u i n t e geração dos nascidos e f o r m a d o s após a Abolição e já na vigência das instituições republicanas e liberais. do negro-massa e no seu comportamento p e r a n t e o branco.onrc mental. grupos e subgrupos cm que os participantes se repartiam de acordo com as respectivas orientações. Ela transparece. a gritar essa convicção igualitária e a lutar por ela. às vezes difícil de suportar. esta a p a r e n t a estar realmente convencida d a s u p e r i o r i d a d e do branco e é com relativa n a t u r a l i d a d e que se porta servilmente d i a n t e dele. cada vez mais. referindo-se as barreiras raciais q u e encontrou para ingressar n u m . E a forma de acomodação q u e e n c o n t r a r a m para sobreviverem n u m m u n d o em que o branco c dirigente. negros recintos. aliás. seria talvez muis correto distinguir três gerações: a) a mais antiga. que até b i o l o g i c a m e n t e a vive e simboliza. Pareceu visível. que eles ocorrem com t a n t o m a i o r freqüência. p o r outro lado. ao entrar em c o n t a t o com as diferentes divisões c subdivisões. por fim. n a m e d i d a cm que sua situação pessoal lhes assegura m e n o r dependência em relação ao b r a n c o e maior possibilidade de alargar seu hori/. Aqui. Muitas vezes. c) a terceira geração. a mesma situação de exemplo. no decorrer dos trabalhos do Congresso d o Negro (1950). cm pé de igualdade com os d e m a i s delegados. estes. d r a m a t i c a m e n t e . de uma grandiosa obra de confraternização. o negro evoluído vive. quando usados por urn n e g r o c o n t r a ou a respeito de um mulato ou vice-versa. e m conversa. em q u e quase t u d o permaneceu igual ou p i o r d o que era antes de 1888 e se a e s t r u t u r a social não sofreu profundas alterações. entretanto. teve a o p o r t u n i d a d e d e verificar o grau em que ocorrem a r g u m e n t o s dessa natureza nas discussões ideológicas entre elementos de cor. tendem a sc libertar da n o ç ã o de q u e são inferiores a ele. Esta situação é freqüente na sociedade rural. mas também tende. sem ter. A esse respeito os depoimentos textuais recolhidos enchem páginas de u m c a d e r n o de notas. R E L A Ç Õ E S D E RAÇAS 209 que os negros supunham esrar ali p a r t i c i p a n d o . e após n realização dele.A T I T U D E S .

m u i t a s vezes. Estavam presentes a esta reunião. os Professores Roger Bastide e Charles Wagley e o Dr. Henrique Dias. uniformizado pela cor e i n d e p e n d e n t e de classe.. disse o seguinte: "O clube X me recusa c o m o sócio e eu m e recuso a ir dançar n u m a gafieira. secretário do Congresso. N u m caso e n o u t r o a estereotipia do nome reflete d i r e t a m e n t e a existência do tipo social que lhe c o r r e s p o n d e : não se trata apenas de u m b o m jogador mas. herói negro d a luta contra os holandeses. 25 O Autor jamais esquecerá a n o i t e cm que. falando pela segunda vez. Sucederam-se os discursos de protesto. o fez em tom de escusa. por sua vez. N o passado. propostas dc cassação d a palavra. usada por brancos. as tropas de linha formadas por soldados d e cor: neste caso. repassado de emoção.gritou um apartante — sc o orador acaba de afirmar que no Brasil o problema racial não existe?" E a p e r g u n t a ficou sem resposta. através do uso de símbolos e generalizações aplicáveis a todo o grupo. q u e r indicar o negro de classe inferior. Escusado é dizer. n a boca do negro de classe média. O n d e devo então procurar relações e divertimento? Com os que são iguais a m i m . que a mesma expressão. Filho. . H o u v e vaias e protestos. Hoje. Este. de um negro q u e j o g a bem. Isto é feito. além de Edison Carneiro.2 1 0 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO clube recreativo do Rio de Janeiro. p o r exemplo. e m b o r a confirmasse Seu ponto de vista e tentasse cxplicá-lo. D a r c i R i b e i r o . N e s t e caso o conhecido desportista negro serve d e s í m b o l o uniformemente para a massa f o r m a d a pelos de sua cor. 1A A expressão "negro-massa". no decorrer da qual um congressista negro afirmou que "no Brasil não existe preconceito racial". por outro lado. que apresentavam o autor da declaração como um p u r o i n s a n o . gritos e assovios que n ã o custaram p o u c o à presidência da sessão fazer cessar.. A o n d a de protestos que se levantou da assembléia t r a n s f o r m o u a reunião numa t o r m e n t a . e entremeado dc constantes apelos à unidade e harmonia q u e s e g u n d o pensava devia reinar entre os h o m e n s d e c o r pois só assim resolveriam o seu p r o b l e m a . os "henriques" queriam indicar. como assinala M á r i o "Leônidãs" generalização semelhante ocorre t o d a vez q u e os brancos irresistivelmente c h a m a m de todo rapazote preto q u e c o m e ç a a dar chutes numa bola. desde o d e revolta até o de piedade. " Q u e problema . além de outros estudiosos c o n v i d a d o s que assistiram ao episódio. Mas quais são os iguais a m i m : os que têm a m e s m a cor ou os que têm a m e s m a educação?" (O depoimento é a u t ê n t i c o e foi recolhido no decorrer da presente pesquisa). como convidado. essencialmente. proferidos cm todos os tons. presidiu u m a das memoráveis sessões do I o Congresso Brasileiro do Negro. servia d e s í m b o l o . pretende indicar o n e g r o e m geral.

Parte Segunda MOVIMENTOS SOCIAIS .

É pertinente destacar. produtos autênticos das relações de raças. ao menos da f o r m a e do sentido de sua evolução. representarem. a agir sobre elas. sobre o qual necessariamente se deve Fixar a atenção de quem pretende estudar sociologicamente o estado atual de desenvolvimento das relações interétnicas no Rio de Janeiro. para o futuro.quer do p o n t o de vista d a função que elas d e s e m p e n h a m nas relações dos grupos de cor com a sociedade total. quer do p o n t o de vista dos processos de seleção e peneiramento dos líderes no interior dessas associações . ao mesmo tempo. porém. no decorrer da exposição. fundamentalmente. um desses fatores. o que de fundamental procuramos.Irmandades — Associações negras e associações populares: confusão freqüente de conceitos — Sua significação sociológica. Isto ocorre. em segundo lugar. que. noutros termos. esses movimentos passam. e julgamos deva ser procurado.Macumbas . O estudo das associações negras no Distrito Federal e dos problemas de liderança a elas relacionados . c o m o idéia preliminar. dentro da configuração total em que as relações d c raças aqui se desenrolam. senão do seu conteúdo. Queremos nos referir ao fato de esses movimentos. resume todos os demais e exprime. portanto.CAPÍTULO I Associações tradicionais Importância do estudo do movimento associativo — Classificação das associações e sua caracterização . na análise dos movimentos associativos do negro. em certo sentido. em primeiro lugar.Escolas de s a m b a . determinando parte substancial. o resultado atual de mudanças que se vêm operando há longo t e m p o n o quadro histórico das relações de raças no Brasil e. Isto significa.é um ponto básico de interesse. os fatores que conferem a este aspecto d o problema uma importância singular. Confiamos que venham a ficar plenamente ressaltados. depois de formados. que. c o m o q u e a antecipação das perspectivas que essas relações têm diante de si. desde já. como conseqüência inevitável da direção e do ritmo em que se está modificando a estrutura social do Brasil .

que se distinguem pelos meios e modos que r e c o m e n d a m para atingir a diversidade de objetivos que enxergam nas situações concretas. do mesmo m o d o u m problema não resolvido está no f u n d o de todo movimento social. Daí se não deve concluir. esta verdade tem particular aplicação às estruturas sociais: aqui. também. por sua vez. da irresolução dos problemas . donde decorrem. o dos que querem mudar. De diversa forma os grupos envolvidos têm refletido essas mudanças: a muitas delas já nos referimos. o que em particular nos interessa é destacar que a forma mais autêntica e mais expressiva de os homens refletirem uma m u d a n ç a social na qual estão envolvidos ê t o m a r consciência dela. que as mudanças sociais são. mais ou menos deformada. mais ou menos nítida. Deste ponto de vista é que as associações de homens de cor no Rio de Janeiro devem ser sociologicamente encaradas como a tomada de consciência. que implicam n o aparecimento de uma série de problemas novos e no agravamento de muitos antigos. De fato. de outras teremos de falar adiante. indissoluvelmente ligado a ela. Os interesses se dividem. a resistência das situações estabelecidas às transformações sociais e aos seus efeitos parece ser f e n ô m e n o tão inevitável quanto essas próprias transformações.aiar aquele supremo objetivo de predeterminar o futuro pela ação no presente. d e n t r o dela. ao contrário. se é verdade que nada existe de imutável. só por isto. automaticamente aceitas por todos que por elas são afetados. numa variedade infinita de setores e orientações. e o dos que querem conservar. não só entre os dois campos básicos. então. o quadro tradicional das relações de raças. mas. assim como as resistências à mudança geram os problemas sociais. formular programas de ação que visem controlá-la e organizar agências específicas por meio das quais vão ens. tentar compreendê-la e interpretá-la. problemas em face dos quais separam-se os grupos de acordo com as posições objetivas que ocupam na estrutura social.214 182O N E G R O N O R I O DE J A N E I R O e. a mutabilidade é condição da própria sobrevivência. E nessas resistências e contradições conseqüentes que têm origem os problemas sociais que toda transformação acarreta. Por imposição dessas mudanças têm havido alterações importantes na posição do negro. entretanto. Sobre o terreno assim historicamente preparado é que germinam e florescem os movimentos sociais. as diferentes linhas de solução que para eles preconizam. alterações deposição no sentido mais largo do termo. De fato. na economia e na sociedade nacional. Aqui.

do mascaramento sob a forma de simulada indiferença até ao sacrifício sob a forma de martírio. H á de t u d o . em conseqüência disso. primária. nessas associações. de programas. Umas e . a tomada de consciência assume feição ideológica e chega até à sofisticação de anunciar. repleto de temas para dissertações literárias e paracientíficas. b) da m u l t i p l i c i d a d e de aspectos e formas particulares em que os problemas f u n d a m e n t a i s de convivência interétnica se concretizam e se impõem à consideração. sofre sua capacidade de plenamente participar da vida social. alguma coisa bastante diferente daquela homogeneidade escura e exótica da senzala. de status.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 215 relativos aos seus interesses materiais. na escala de situações históricas que definem as etapas sucessivas por que têm passado as relações entre negros e brancos na sociedade brasileira. em sua história. poder de atração dessas organizações é p r o d u t o d e três ordens fundamentais de fatores: a) das variantes históricas de posição dos grupos de cor no quadro de suas relações com o branco.diferenciações de classe. porém. imediata e espontânea da inferioridade social do negro e das limitações que. o que se encontra é apenas u m a tomada de consciência prática. de u m p o n t o de vista acadêmico. uma " nova técnica científica" para o tratamento "catártico" dos problemas de relações de raças. a tornar o negro brasileiro m o d e r n o . e tudo reflete as flutuações através das quais a vivência do problema se transforma em consciência dele. e c) das diferenciações internas existentes n o seio da população de cor . q u e vai da passividade à agressividade. da obsessão à fuga. sob a forma de mensagem redentora. de filiação ideológica e tantas outras. noutros casos. Na maioria dos casos. suas aspirações e suas perspectivas. papel. cada vez mais. os movimentos e associações negras refletem. as diferenças d e tipo. que é como tradicionalmente se apresenta nos estereótipos que o branco tem em mente a seu respeito. É óbvio que. d a negação da sua exsitência à hipertrofia de sua significação. Nesse s e n t i d o . diversa tem sido a importância momentânea e c o n j u n t u r a l deste ou daquele problema e diversas também têm sido as possibilidades efetivas e as formas expressivas d o negro reagir diante deles. função. e q u e se revela mesmo quando. que vive nas áreas urbanas d o País. uma multiplicidade de formas e uma multiplicidade àe graus daquela tomada de consciência total ou parcial de seu problema. que tendem. estruturas. de geração. liderança. prestígio. de educação. de ideologia condutora. A variedade e a diversidade de associações. seu status. objetivos. seus valores. olha p a r a ele c o m o um bizarro e pitoresco espetáculo.

a posição das massas de cor na sociedade brasileira permite um extraordinário acúmulo de condições objetivas desfavoráveis a elas. fases características — especialmente as mais recentes — d o desenvolvimento de um processo. 1 dentro dos quais o n ú m e r o de membros atuantes é muito menor do que o de pessoas vagamente interessadas.2 D e resto.2 1 6 1 82 O N E G R O N O R I O DE JANEIRO outras refletem. de embrutecimento intelectual. de desestímulo moral. q u a n d o não elimina por completo. ao "amassar essa ganga". Está ainda por se fazer — aliás. que faz parte da constelação dessas chamadas "condições objetivas" um tal estado de desamparo material. por outro lado. compreender o mecanismo pelo quâl todas elas reunidas definem. por outro lado. acontece. portanto. com isto elas apenas refletem um característico saliente . cada uma também à sua maneira. Mais uma vez. movimentos de cúpula. construindo a história social d o negro com os materiais que a história lhes fornece. de quase fazer a biografia de algumas dessas associações. e é sobre esse f u n d o que vão. é preciso que se diga. nossa preocupação essencial se volta para a visão de conjunto. de inércia mental. no correr da pesquisa. impõese seja feito com critério sociológico. quase tudo está ainda por ser feito . então. neste campo. porém. que dificulta ao extremo. tentar suprir aqui essa lacuna. fases diversas de seu desenvolvimento. c muito menor ainda do que o volume das "massas de manobra" em n o m e das quais falam e em função de cujos interesses as organizações declaram viver e lutar. como traço comum. o perfil sociopsicológico do negro brasileiro. a perspectiva imediata de as mais largas camadas da população de cor ouvirem o apelo dessas associações e terem uma participação intensa nessas ações organizadas "de elites agressivas". particularizando e detalhando para cada uma. como tipos. Elá que encará-las. ao menos para as principais. que elas são. pois a maioria delas nem sequer logrou ter história. como se todas formassem uma só. que poderiam conduzir a ações permanentes de reivindicação. De fato. até explosivas. primeiramente.a história monográfica dessas associações e movimentos. cada uma de sua maneira. tão efêmeras que têm sido e tão pouco profundo o sulco que deixaram. e se acaso tivemos. as variantes concretas desse processo geral acima esboçado. por definição. por exemplo. será possível diagnosticar as tendências e variantes que os principais tipos e x p r i m e m e representam. foi procurando sempre. Não nos interessa. Não é difícil verificar. O estudo das associações de h o m e n s de cor. de falta de treino para uma vida associativa de nível menos puramente vegetativo. e só depois disto. neste capítulo.

Em toda fase que decorre entre o fim das associações abolicionistas até a terceira década d o século XX muitos episódios desses ocorreram e passaram sem grande ruído. debaixo d e u m a e de outra liderança. porque tais associações parece que só passam a exercer u m a f u n ç ã o útil quando. a igualdade efetiva com o branco. resulta do próprio q u a d r o d e relações dc raças peculiar ao Brasil e está presente e explica a rotina d o nascimento. desamparados. surgiram e desapareceram sem deixar rastro brilhante. Outro não foi. a tendência inevitável era que tais associações se tornassem vazias de conteúdo. Viveram como crisálidas e morreram todas q u a n d o foi decretada a libertação dos escravos. analisado o problema de outro ângulo. que cedo desapareciam sob o crescente indiferentismo e a vaga impressão de que este ou aquele "incumbido". por todo o País. agitando reivindicações cuja premência elas. social e cultural dos homens de cor. de um lado. em suas grandes linhas. o comportamento passivo. razão pela qual. então. N o Brasil. embora nenhuma delas tivesse logrado sobreviver à consecução daquele m a g n o objetivo. de maneira a criar u m a reputação sequer regional. precisamente. agora é que a situação está começando a atingir este estágio. o destino das sociedades abolicionistas que proliferaram por todo o País. falando às massas negras uma língua que elas não e n t e n d i a m . o combate ao preconceito — que tendiam a fracassar. independentemente delas. antes. d o prestígio da . a luta p o r sua ascensão social. ainda é. o presidente. que delas se utilizava para se projetar individualmente. o secretário o u a diretoria se encarregariam de fazer o resto. cabe a uma elite arrastar as massas na aceleração desse processo. Em suma. o impulso para trocar a chefia do branco pela liderança d e u m a elite do próprio grupo étnico é tendência altamente expressiva. esta ascensão já atingiu um certo estágio e. 3 Essa falta dc interesse e dinamização.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 217 da vida política do Brasil. não sentiam. como um todo. o caráter eventual e episódico de grande número dessas associações. tendendo a servirem apenas d e veículo dos interesses e aspirações mais ou menos confessáveis de uma minoria. a chama do ideal. exatamente o m e s m o . a constância do estímulo. especialmente aquelas q u e tinham por objetivo expresso o alevantamento do nível econômico. vida e morte de mais d e u m a centena de organizações de h o m e n s de cor que. que ainda é a terra de tantos revoltados e de tão poucos revolucionários! Sempre foi relativamente fácil o movimento de adesão a essas associações mas aos associados sempre faltava a permanência do interesse. mas. aliás.

cuja preocupação era branquear-se o mais q u e possível e aproveitar-se individualmente do status livre que obteye em 1888 e. portanto. e antes de ele começar a produzir seus primeiros frutos no bojo das mudanças de estrutura que se operavam na sociedade brasileira. nos folguedos e festas religiosas. sem grandes alterações de função e de estrutura. ocasião de licença geral. escolas de samba. mais ou menos prolongada. que exigem certa perícia e treinamento e. Neste período. Começou então o negro a participar ou a tomar a iniciativa de formar associações de novo tipo. de outro lado.218 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO pequena elite negra. seus dias santificados. os negros se associaram. ou em jogos. reunia. este fato começou a produzir os seus efeitos sociais e. sua semelhança com as irmandades brancas. do apoio e do interesse das massas dc cor do País. como produto sincrético. no Rio d e Janeiro. e que continuamente se misturavam ao catolicismo. mais ou menos regular. em grupos recreativos. de fundamental importância é a diferenciação social que começou ase produzir . suas missas solenes. f o r m a d o s por negros e mestiços "evoluídos" e o "negro-massa". como a de São Benedito. suas festas. davam o seu colorido e seu ruído às comemorações. das quais. principalmente nas religiões de origem africana que seus ancestrais trouxeram para a América. a camada que ali satisfazia suas necessidades formais de vida mística e associativa fora do âmbito da família. é costume denominar "religiões afro-brasileiras". Enquanto esse processo fundamental tinha lugar. como as congadas. seus desfiles. não .entre os estratos de elite. entre estes.no plano econômico. n o plano nacional. de forma relativamente permanente e estruturada. Mais recentemente. As Irmandades de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos H o m e n s Pretos. que então davam início ao grande processo de deslocamento para os núcleos u r b a n o s e de integração progressiva n o nascente proletariado industrial. social e cultural . uma verdadeira babel religiosa a que. a macumba é o exemplo local. entre nós. seus símbolos. aprendizagem anterior. As massas de cor acompanhavam as procissões e. o espírito associativo dos homens de cor revelou-se. assim. Ao lado dessas associações religiosas. adiantado o processo de urbanização d o negro e de sua integração nos quadros operários de uma economia industrial em expansão. a vida associativa do negro decorria dentro dos quadros tradicionais. sob a égide da religião "oficial". ranchos. quase que exclusivamente no campo religioso. como a capoeira de Angola. gerando. ao espiritismo e a outras seitas místicas.

4 . o que ela principalmente exprime é que as associações que chamamos de tradicionais resultam. com a presença de um Imperador. participação e ascensão social plena. de que falava M a n n h e i m . em verdade. inicialmente. que hoje elas coexistem. n o Brasil. Em terreno doado na R u a da Vala (hoje Uruguaiana). Esta distinção não é exclusivamente cronológica. na Sé.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 219 somente recreativas. do padrão tradicional das relações entre negros e brancos no Brasil. tão ligados. para onde. embora o seja em certo sentido. e coroavam o Rei e a Rainha do Congo. Escusado é dizer. à sorte dos escravos. 12 anos mais tarde. em 1822. desde os começos do século XVIII. e m primeiro lugar. Vejamos. mas t a m b é m tendem e pretendem imprimir a elas uma nova direção. não gostava da vizinhança. aliás. um pouco naquela situação de "coisas contemporâneas mas não coetâneas". que bem exprime a fase de característica transformação que estão atravessando as relações de raças neste País. Sabe-se q u e os homens de cor já possuíam imagens desses santos. tal como nas igrejas da mesma invocação em todo o País. as instituições tradicionais do negro no Rio de Janeiro. e é assim. ali erigiram e inauguraram a sua igreja em 1725. entretanto. n o M o r r o do Castelo. Nesta igreja os escravos realizavam a festa do Divino. O Cabido da Sé. f o r a m pedir ao Príncipe Dom Pedro que permanecesse no Brasil. intelectuais. mas também destinadas a satisfazer as suas necessidades artísticas. ao que parece. c o m o as "gafieiras". deste quadro sumário. esportivas e outras de natureza reivindica tiva e para lutar declaradamente contra os obstáculos materiais e preconceituais que encontra ao seu desenvolvimento. se transferiria o Cabido. enquanto que as aqui chamadas de novo tipo não só resultam das alterações que vem sofrendo aquele q u a d r o tradicional das relações de raças. A mais antiga dentre elas parece ser a Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e de São Benedito dos Homens Pretos. por outro lado. nela teve sede o Senado da Câmara e lá se reuniram os patriotas que. e cabem perfeitamente dentro dele. fazer uma distinção entre dois tipos de instituições: as que denominaremos a) tradicionais e as q u e c h a m a r e m o s b ) de novo tipo. Até a chegada de D o m João VI ao Brasil essa igreja seria a Catedral do Rio de Janeiro. * -M * Pode-se concluir. que para estudarmos as associações do negro n o Rio de Janeiro devemos.

que fique nítida a função que t i n h a m tais cerimônias no contexto mais geral dos antagonismos de classe e de raça q u e separavam negros escravos de senhores brancos. distribuindo esmolas e libertando pretos. u m a curiosa condição: era que o tesoureiro devia sempre ser homem branco. A festa do Divino Espírito Santo era u m a velha tradição portuguesa da era dos descobrimentos. acima destes governadores de nação ficava um Rei do Congo. o viajante inglês H e n r y Kosten referiase à zombaria com que encaravam a autoridade desses "reis". aos poucos. q u e tinham por missão se responsabilizar pela "paz social" de então. de tal modo que hoje a proporção d c n e g r o s c n i r c os s e u s a s s o c i a d o s é p e q u e n a / ' D r r r s l o . rico e de confiança de quem detinha e manipulava as finanças da I r m a n d a d e explicase por si mesma. dança e comedoria. sendo o escravo um semovente despido de atributos de pessoa jurídica. foi. Ela consistia no seguinte: explorando antigas práticas tribais africanas. m u d a n d o a sua constituição étnica. as autoridades permitiam a "eleição" de governadores de nação (previamente aprovados pela polícia). depois. representante que era de toda a comunidade servil. que a aprovava. que devia ser u m menino branco. exigindo. q u e merecesse a aprovação das autoridades eclesiásticas. porém. também "eleito". U m a coisa e outra não impedem. inclusive porque. q u a n t o aos brancos. e de desfilar pela cidade. velando pela conduta dos negros pertencentes à mesma filiação tribal. que culminava com a coroação de um Imperador. a princípio somente de negros escravos. tolerada pelos brancos. não poderia praticar m u i t o s dos atos que decorreriam de sua função de tesoureiro. com grande pompa e sob m u i t o aplauso. rico. Função religiosa e função recreativa sempre foram as principais nestas instituições. A condição de ser branco. Depois de eleitos. Já a eleição d o Rei do Congo tinha uma finalidade mais prática e mais imediata: era uma festa instituída e.220 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO A organização dessa Irmandade foi evidentemente feita p o r intervenção da Igreja oficial. de boa família. entretanto. 5 A Irmandade. O significado religioso e o simbolismo profano da cerimônia mesclavam-se perfeitamente e ambos tinham a sua razão de ser num ritual festivo e religioso de escravos e para escravos. Para os negros estas "eleições" e "coroações" eram principalmente oportunidades de folguedo. o rei e seu cortejo eram recebidos na igreja d o Rosário. na m e d i d a c m q u e o negro foi tendo de encarar problemas de outra natureza e foi conquistando . com atribuições mais amplas. com o objetivo de cultivar a docilidade da massa escrava. que saía em cortejo pelas ruas.

negra — a influencia mística e litúrgica da religião católica. Neste sentido. tão original quanto a . em intrincada mescla. tidas c o m o religiões negras e nas quais encontramos tanto brancos quanto pretos. sendo-lhes oferecidas. a crença que existe é de que tais mártires do cativeiro são bons intercessores de pedidos e agem como intermediários para a obtenção de graças imploradas. a linguagem do símbolo religioso também foi sendo superada e hoje. fundamental. Do ponto de vista da composição étnica da multidão que vimos. as formas de expressão predominantes oferecem.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 221 outras formas menos simbólicas de colocar esses novos problemas. ao lado da nave principal. Queremos nos referir ao culto dos mártires do cativeiro. elementos de variadas proveniências. pelo ritual ou pela teologia. em troca. Por outro lado. muito embora. na Avenida Passos. pelo menos.é grande a romaria de crentes que vão fazer preces j u n t o aos túmulos. entre a realidade e a fantasia. missas pelo repouso de suas almas. toda sua mística e liturgia deixa transparecer essa influência. onde estão depositados ossos. o que observamos foi a mesma coisa q u e também verificamos nas m a c u m b a s d o Rio de Janeiro. como poderá verificar pessoalmente qualquer um que queira formar opinião segura sobre a distância que existe. a idéia opci/ll q u e se faz da religião indígena. uns túmulos de escravos. dizer-se que a macumba é "religião negra" no Rio de Janeiro. dinheiro. c o m o veremos. flores e velas. místico. pode-se afirmar q u e a macumba constitui um dos melhores exemplos da extensão e da variedade do sincretismo religioso operado n o Rio de Janeiro.ou. Anualmente. sem dúvida. Nelas. em que entram. diga-se de passagem. . nestes assuntos. mártires da escravidão. a contribuição cultural do negro foi. A propósito dessas irmandades religiosas é pertinente assinalar um fato c o n t e m p o r â n e o nosso e bastante significativo. O elemento indígena -. porém. a visita que lá fizemos não nos permita dizer. mesmo quando conservam u m lastro profundo. Se é verdade que é quase impossível. que são lançados nos túmulos. aliás. que ali dizem terem sido de negros. existem. já se pode dizer que é tão forte . esta impossibilidade é ainda maior do ponto de vista da composição étnica dos q u e a freqüentam. no dia 13 de maio — data da abolição da escravatura . que se trate de u m c u l t o exclusivo ou mesmo p r e d o m i n a n t e m e n t e de negros. N a Igreja de Nossa Senhora da Lampadosa. n o dia 13 de maio. originalmente. H o j e . ajoelhada e rezando j u n t o aos túmulos desses escravos.e no sentido brasileiro da expressão. nivelados pela mística. no Rio de Janeiro. de origem principalmente nagô. de n e n h u m a maneira. manifestações de aspecto inteiramente diverso.

a criar uma também crescente e importante divisão na macumba. a história natural de todas as religiões. no fundamental. t a m b é m . entre as diversas outras linhas que derivam do fundo comum. As sessões. os deuses e os demônios. uma virgem benfazeja. danças e passos extravagantes. aos nossos olhos. tanto na mística. ou por insatisfação c o m a religião oficial. Artur Ramos. cada u m a com seu chefe: Iara.. as semelhanças são ainda muito maiores do que as diferenças.222 182O N E G R O N O R I O D E J A N E I R O resultante da vaga recente de indianismo literário — também contribui com parcela apreciável. o bozó e o despacho. procurando a macumba para satisfazer as suas necessidades de vida mística. Cosme e D a m i ã o . que pessoas vindas de outras partes. Entre estas. cada vez mais. Araribóia. c o m o dizia o Prof. aliás.. que é a ligadura mais forte que se e n c o n t r a prendendo todos esses elementos n u m a aparente unidade de crença e de culto. brasileiros de outros estados.ou. catolicismo c protestantismo. vêm. "magia branca". não-negras. Esse interesse tende. u m patriarca barbado. Diferenças sutis são apresentadas pelos prosélitos de uma e de outra c o m o traços distintivos de seus ritos e crenças. e b) como centro de curandeirismo. seccionando-a em duas linhas: a de umbanda. em p e r m a n e n t e processo. por sua vez. E o que explica. Santa Rita. palmas e cantorias. Admitindo todos esses elementos. nesse sentido. pois nela e n c o n t r a m a pajelança e o candomblé. H á alguns anos que elementos das camadas superiores. concorrem na macumba . em suas grandes linhas.é preciso que se diga . e sintam nela um pouco de sua própria crença. como seria melhor dizer. E mais que isso.sobre uma grossa camada de profunda e lamentável ignorância. Não resta dtivida. Pai Cabinda. e a de quimbanda 7 . que é o próprio "sincretismo avassalador". o espiritismo e o shamanismo. principalmente. toda sorte de elementos mágicosimbólicos que florescem em toda parte como concepções de folk sobre o m u n d o e a vida. a m a c u m b a constitui. pois há tambores rufando. de que. Santo A n t ô n i o . u m a grande síntese e reproduz aqui. estrangeiros de todos os países. são ruidosas. assim c o m o . ou por moda. às vezes . como nos ritos e na liturgia. crentes de todas as religiões. "magia negra". filiados de todas as seitas. da sociedade. Pai Benguela etc. um diabo feio. como: a) centro recreativo. crenças e práticas espíritas. a superstição e o exorcismo. o tambor de mina e o catimbó. por sua vez. via de regra. subdividem-se em legiões. superstições de evidente selo medieval. porém. trajes bizarros. À m a c u m b a se liga a comunidade. Essas linhas. tudo isso jazendo . e tuttiquanti. nas macumbas — a magia de todos os tempos e de todas as origens. sintam-se à vontade n a m a c u m b a .

nas vésperas das eleições. por o u t r o lado. que o curandeiro exerce o seu ofício. é que se começa a ir à m a c u m b a para ver. Não é sem cautela. especialmente q u a n d o se trata de exercer a medicina: prescrever remédios.ASSOCIAÇÕES T R A D I C I O N A I S 223 comidas e bebidas. p e r i o d i c a m e n t e . infusões. repreende. c o m a n d a . que são retribuídas com esmolas. Seu prestígio de líder espiritual e sua posição d e n t r o do culto levam-no a manter contato constante e amistoso com as autoridades policiais do bairro. também. q u a n t o à cor e quanto à posição social. sua situação econômica permite-o ajudar alguns prosélitos mais desafortunados. na comunidade. as consultas... Há. E freqüente ver um curandeiro dizer c o m orgulho: "ainda mesmo n o sábado passado tive dois Cadillacs parados n a minha porta". para se distrair. receitar chás. encaminha. faz t u d o . Já a magia ele a pratica com mais liberdade: fornece amuletos.ao lado de sua função lúdica e do curandeirismo . neste pequeno m u n d o de seu burgo. muitas vezes. superiormente colocados. liderança procurada. que o chefe d o culto ou seus acólitos dão aos crentes. lê e adivinha o futuro. multidões se reúnem n a sua sede para ver o espetáculo. . protege. recomenda formas rituais de conduta. o curandeirismo. q u e é. A clientela é a mais variada. o único espetáculo acessível com que se conta na redondeza.q u e a macumba tem com 'a c o m u n i d a d e circundante é a função de liderança q u e tem o curandeiro. Ela tem. suas relações pessoais com membros de o u t r a classe.e mais: aconselha. não raro u m líder real. que lá vão em busca de consolo para suas mazelas físicas e espirituais. p o r isso. na vizinhança. u m a função lúdica na vida de seus m e m b r o s . Esta. os que chamam o curandeiro em sua própria residência. é uma terceira relação direta . aliás. p o r solícitos candidatos a qualquer coisa. não raro. N o s dias festivos. e utilizada muitas vezes. banhos com ervas etc. Outro laço associativo essencial na macumba é a magia.. pratica o cnvoútcment. no subúrbio ou no m o r r o . piepara despachos a serem depositados nas esquinas e encruzilhadas. e sua maior habilidade mental e verbal o tornam um líder latente. E latente o perigo de ele se envolver com a repressão policial se não age com discrição. Por isso. onde a consulta é feita e o n d e têm lugar cerimônias religiosas particulares. e que p o d e m ser desde a busca de um remédio para curar uma ferida renitente até u m recurso mágico para se melhorar n o emprego ou reconquistar u m marido transviado.

Edison Carneiro. pequenos comerciantes de bebidas. não-negros. as escolas de samba do Distrito Federal. A proibição. Sinal dos tempos. artistas populares. pintores. como que insatisfeitas com a religião "oficial" e tradicional. muito particularmente. noutros termos. atualmente. São João de M e n t i etc. ou mesmo da África. são o . associações populares especificamente recreativas e tradicionalmente ligadas ao negro. que foram. no conteúdo como na forma se algum dia o foi —. sinal de que ela é. escultores de imagens. suas práticas. que exercem grande fascínio e despertam grande curiosidade sobre as multidões e. mais ainda. são as mais freqüentadas por elementos de classe média e superior. costureiras.têm. 8 Dissemos que essas formas populares de religião no Brasil — embora não somente elas. no Rio de Janeiro. já que hoje o negro na macumba comparece muito mais como crente do que como negro. "religião negra". do uso de tambores ou outros ritos ruidosos faz com que as macumbas de umbanda se localizem nos municípios limítrofes do Estado do Rio. o rádio. Aliás. Edison Carneiro. Caxias. entre as classes superiores. em certas regiões do País. muitas vezes exclusivamente disso. finalmente.224 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Esta função de liderança. por sua vez. velas. em certo sentido. 9 Segundo a opinião do D r . cabanas e. ervas. essa curiosidade. N o perímetro desta. produtos típicos para o culto. É preciso que se diga. o mesmo também acontece . a matriz original do que neste País se chama de povo. cada vez menos. fabricantes de instrumentos típicos e. em regra. Há. pela macumba por parte das classes superiores. o que significa. que as macumbas. no Distrito Federal. que já tendem mesmo a perder o nome tradicional de macumba. centros. é o que há de mais novo na história contemporânea da macumba. que não raro vêm da Bahia. de seus ritos. a televisão. uma pequena legião de artesãos suburbanos: santeiros. como forma institucionalizada de recreação popular. seus "mistérios". as revistas ilustradas rivalizam-se na exibição. ao lado da função religiosa. embora estejam fora da jurisdição administrativa do governo da cidade (Nilópolis. uma função recreativa extremamente importante e claramente definida. segundo depoimento prestado pelo Dr. ao lado das religiosas. Referimo-nos às escolas de samba. u m tanto esnobe. e são mais conhecidas por tendas. estão em grande moda: o cinema. pois com a religião oficial. ficam as macumbas de outra linha.). tem uma base efetiva no fato de viver da macumba. que se incluem na região metropolitana do Rio de Janeiro. entretanto. em tom fantástico c legendário. senão no sentido político ao menos no sentido sociológico.

luas e sóis. q u e se alternam indefinidamente. nem solidariedade do grupo de participantes. católico. cercado por elementos masculinos. geralmente em impecável roupa branca. torres. representam u m cortejo de caráter religioso. O segundo elemento folclórico original são os r a n c h o s e ternos de Reis. a viagem dos Reis Magos a Belém e. com predominância das formas profanas. ou violão. ocasionalmente uma viola. donde provavelmente se reria originado o nome da dança. fogos d e bengala ou lanternas chinesas. de fácil memorização. que lhe dão o direito de samba ou transferem esse direito a outrem. a i n d a segundo a opinião do Dr. de fato. com seu ritmo característico e marcado. ou cavaquinho. treino e graça de quem dança. o elemento essencial do ritmo e da melodia. chamados "ciganas" o u "baianas". como tal.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 225 resultado de um processo de fusão entre: a) o samba de roda d a Bahia. fechando o cortejo. 1 0 A orquestra costumeira é um conjunto de prato e faca. Consistem n u m a procissão que comemora e p r e t e n d e reproduzir." . Nas formas que assumiram entre as festas populares do Brasil. embarcações. Edison Carneiro. esses cortejos trazem à frente. u m a orquestra. embora já existam alguns consagrados.. O samba de roda é conhecido nas regiões Leste e N o r d e s t e d o Brasil e é essencial e originalmente uma dança rural. hoje em a d i a n t a d o processo de urbanização. d e p e n d e n d o principalmente da habilidade. e se isola do resto da multidão. acompanhados pelas palmas e pelas vozes dos circunstantes. os volteios característicos. q u e é o que dá. como que predispõe a pessoa àqueles passos e meneios típicos da coreografia do samba. entretanto. O s passos da dança. tanto na música q u a n t o na dança. O terno. Até há pouco tempo isto chamava-se "semba". além de um estandarte. b) os ternos e ranchos de Reis e c) as modinhas u r b a n a s d o fim d o s é c u l o passado. às vezes um ganzá ou um reco-reco. que geralmente o acompanha por curiosidade. não obedecem obrigatoriamente a nenhum padrão. animais etc. H á s e m p r e u m a estrofe de solo e uma estrofe de coro. Qualquer pessoa pode participar do samba. ou rancho. tem iluminação própria. por u m a corda que os aficcionados m a n t ê m em volta e à certa distância dos integrantes. que carregam figuras alegóricas. f o r m a n d o a roda. A única exigência é a de o dançarino passar a primeira vez de bailar a outra pessoa d a roda p o r meio da "imbigada" ou "umbigada" — gesto que consiste em bater o próprio ventre 110 ventre da pessoa escolhida. segue-se um grupo de figurantes femininos. A música. v e m outro grupo masculino. Seu desenvolvimento não exige nenhuma organização prévia. dando e recebendo "imbigadas".

a ingratidão. que teve nascimento a escola de samba. abundantemente. até a Primeira Guerra Mundial. Azul em Vaz Lobo. nunca mais deixou. quase todos os bairros da cidade tinham uma ou mais escolas disputando a preferência do público. T ê m elas um característico c o m u m : são langues canções de amor. Habitualmente é a moça mais b o n i t a e a melhor bailarina. Independentes. Como bem o diz u m samba popular: A primeira escola de samba Foi no Estácio de Sá. que desenvolve passos de dança de iniciativa própria.. aliás. o desconsolo. Oswaldo e m R a n g u . em dois logradouros famosos da cidade. por causa daquela primazia. as canções populares do Fim do século passado foram o terceiro elemento de cujo caldeamento as escolas de samba parecem ter resultado. Finalmente. nos primeiros anos do segundo quartel deste século: no Largo do Estácio e n a Praça Onze. que não só a música mas também a literatura registram. em que o homem (mais recentemente.stftçíw Primeira. n o m o r r o d a M a n g u e i r a . e Branco. com grande margem de criação pessoal. como tema predileto. em do no morro Cruz. de figurar em destaque nas canções populares que comemoram os fastos do samba. 110 Lohloti. também a mulher) lamenta e chora o amor perdido. ponto d e interseção de linhas de transporte que conduziam às zonas norte e s u b u r b a n a da cidade. mais tarde.. a saudade. como forma de associação lúdica. sob o peso d o desprestígio que as condições de vida moderna cedo haveriam de impor. sob geral aceitação popular. originaram o samba carioca e geraram.2 2 6 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO A porta-estandarte carrega o pendão característico d o terno. Portela. culturalmente fundidos. fato novo e tipicamente carioca no capítulo da recreação popular nacional.. Unidos . outros morros. o n d e desemboca a ladeira que leva ao Morro e Favela de São Carlos. As músicas e danças modernas nem de longe ameaçavam ainda a uniformidade chorosa desses temas e melodias. 12 Foi no Rio de Janeiro. a escola de samba. d o Salgueiro.. O Largo do Estácio. D a í a escola de samba partiu para conquistar outros largos. F. Esses três elementos. Paz e Amor. outros subúrbios. e vem custodiada por um personagem chamado "mestre-sala". quando teve fim aquela fase de aparente disponibilidade sentimental — fim rápido. a traição. Essa era a nota dominante dos l u n d u s e modinhas do tempo da Monarquia. o abandono. Cabttçn. Trcf Mosqueteiros.

aliás. outras vezes resolvendo-se em f o r t e pancadaria.em suma. afinal. e tantos outros sambistas têm seus nomes ligados a famosas escolas d e samba. enquanto que os "cartazes". O número efetivo. sociológica e. que se incumbem de fazer letra e música para os sambas que as escolas privativamente apresentam nos desfiles carnavalescos. Unidos de Vila Isabel. As duas entidades existentes funcionam com representação das escolas filiadas. pois. a Confederação. até que.. Muitas escolas. Todas essas escolas. n ã o raro. finalmente. populares no sentido estrito d a palavra. embora o sambista da cscola lenha ampla iniciativa na composição. Via de regra.e vêm fazer exibições na Praça Onze. para estimular a antipatia recíproca e a rivalidade entre as escolas. n ã o deponde de sua exclusiva decisão a escolha do "enredo". durante o Carnaval. "descem o m o r r o " — expressão já consagrada que indica as circunstâncias de ordem ecológica. resultou a formação de um novo organismo. do motivo central que lhe . as escolas descontentes passam d e u m a entidade para outra.. ou seja. depois. m a s c o m direito a um único voto. c o m m a n d a t o de um ano. recentemente. A União Geral. geralmente depois d o Carnaval e cia distribuição dos prêmios. multiplicaram-se. A diretoria é eleita entre esses delegados. T o d o s . a melodias sempre lembradas e cantadas pela população dos m o r r o s e subúrbios do Rio de janeiro q u e os transformou em figuras quase legendárias. delegação geralmente composta de dois membros. n a Associação das Escolas de Samba. a Federação das Escolas de S a m b a . Deixa Mulher. p o r é m . que as congregava. que toda a população conhece. já que sua fama é grande especialmente no mundo dentro do qual yive a escola de samba.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 227 União do Uruguai. conseguiu-se derivar a pugna para a disputa dos p r ê m i o s oficiais estabelecidos pela Prefeitura Municipal. Assim. Paulo da P o r t e l a e Cartola. Em breve. orgulham-se de ter seus sambistas particulares. principalmente. havendo surgido. Caprichosos dos Pilares. às vezes animada de espírito esportivo. reuniram-se. f u n d a d a em 1934. um t e r c e i r o órgão. As escolas de samba têm sido o caldo de cultura de f a m o s o s sambistas.. estabeleceu-se entre elas acirrada c o m p e t i ç ã o . da primitiva União Geral das Escolas d e Samba. racial. portanto. D a í resultou uma série de incompatibilidades e decisões ao invés da e m u l a ç ã o cordial que se pretendia.. que estão presentes à sua origem . O critério parcial q u e m u i t a s vezes prejudicou a justiça da distribuição desses prêmios contribuiu. conta hoje com 3 4 escolas filiadas. . pela publicidade comercial. hoje tornados ídolos populares. Assim é que. são impostos. oscila muito.

gosto e imaginação. . traz cabeleira longa e e m p o a d a . com barra dc arminho. o ritmo particular. em conjunto. vem a porta-estandarte e o baliza. lembra muito o terno ou o maracatu. que fazem o coro e dançam. carros. têm muita coisa de diferente dos sambas e marchas carnavalescas que o grande público conhece e consome. motivos. s a m b a m e evoluem os figurantes. fantasias. feitas especialmente para as escolas. n a rua. a r m a d o do seu leque. Consultam-se livros.1 Esta é a parte principal da escola. depois de escolhê-lo após longas meditações e discussões. "definem o enredo". inilii|iiai. que representam grandes homens do passado. na sua esfera. o chapéu na mão agradecendo os aplausos. símbolos. movimenta-se a escola de samba. cidades ou países. bailar. a alegoria q u e a escola. Há também uma corda q u e circunda o grupo e o separa do público em redor. a cuja cadência desfilam. isto é. tem a disposição tradicional já descrita. como característica. brancas e altas. Logo em seguida vêm as "baianas". de roupa branca. com que se abana e abana a portaestandarte. o que não impede que. acontecimentos ou épocas. cm par com a porta-estandarte. costureiras e compositores para concretizar a idéia. 1 3 Geralmente o traje dessas moças. a fim de permitir relativo desembaraço nos requebros da dança e manter a unidade do conjunto. calça luvas e meias. Não raro traz u m a espada à cinta e com ela faz mesuras e poses. depois da escolha. orgulhosa de sua obra. São melodias particulares. e superá-la. ciirvnr se. os mais experimentados são ouvidos e. que geralmente só se reproduzem pela via oral. Somente os diretores mais categorizados o conhecem. têm. cores.1. O traje e as figuras.2 2 8 1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO cabe musicar. tenham g r a n d e aceitação e circulação. Este "enredo" é m a n t i d o durante todo o ano sob o mais rigoroso sigilo. representa. Sua fantasia quase sempre é vistosa. constituem o chamado "enredo". que é central n o c o n j u n t o . culote. de seda. E como são feitas para acompanhar o cortejo. a cada ano escolhido pela escola para t e m a do desfile. típica dos folguedos populares brasileiros que se desenvolvem com o grtipo em marcha. Este é um pajem. marcha a diretoria da escola. a que consome mais dinheiro e exige mais trabalho. que são as cantoras c bailarinas da escola — também chamadas "pastoras" —. é mobilizada a equipe de carpinteiros. Uma capa de cetim de cores brilhantes. À frente. depois do "enredo". a fim de evitar que outras escolas rivais possam se utilizar da m e s m a idéia. O cortejo. Tais melodias. Cabe a essa figura. D e n t r o d o perímetro assim circunscrito. endomingados. decoradores. N o Cortejo. h qual serve de cavalheiro.

é regida pelo silvo do apito d o "diretor da bateria". "enfezam" o ritmo. agogôs. O cortejo termina com a "bateria": tambores. em grande número. ou grupos de associados. que arrasta e estimula os demais e que hoje já faz parte integrante e essencial d o c o n j u n t o orquestral da escola. de dentro da escola pode surgir uma outra iniciativa competições atléticas. aquele p e q u e n o grupo dirigente é quem faz e decide tudo. de criar focos de interesse . na mão. precária. que comanda as vozes. Reunir os sócios. que c o m a n d a as evoluções. envergando longos paletós. O poder e a organização associativa da escola de samba é. Às vezes. pandeiros. Às vezes. c h a p é u de feltro de aba larga. De outra parte. u m a batucada e a escola. Finalmente. Só a aproximação do carnaval e os ensaios para a exibição conseguem dar vida à escola. cuícas. As baianas têm sua diretora. é praticamente impossível. um passeio. De fato. Desfilam gingando de modo especial e característico. ao ritmo da música. escolas de capoeira. do mesmo modo a academia e a bateria. q u e mantêm a flama à custa de muita dedicação. na qual se resume praticamente a escola entre u m carnaval e o seguinte. funciona como um clube recreativo. ou cobrar mensalidades. não é a escola de s a m b a em si que atrai os associados — é o carnaval. sem nenhuma preocupação de ouvir os associados. que vela pela consonância entre o canto e a bateria. a p r ó p r i a diretoria. calças largas nos joelhos e de boca m u i t o estreita. melhor. em geral. em algumas delas. cada qual m u i t o zeloso da autoridade absoluta que tem n a esfera que lhe compete. q u a n t o mais. por um reduzido grupo de aficcionados. tamborins. Durante todo o ano as escolas vegetam. promove uma festa. na qual os instrumentos de percussão predominam de m o d o absoluto. freqüentadas apenas. V ê m geralmente trajados caracteristicamente. o mais contagiante ritmo que se pode conceber. e u m diretor de harmonia. 15 D o p o n t o de vista que em particular nos interessa. que faz o coro masculino. surdos. tudo isso na verdade resulta do esforço de poucos e não representa. esporadicamente. T u d o vem da pequena esfera dirigente.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 229 Segue-se a chamada "academia". sapatos compridos e bicudos. C a d a u m a dessas partes de que se c o m p õ e o cortejo tem seu diretor. A orquestra. c o m o pode parecer. o p r o d u t o de u m esforço associativo permanente e c o m u m . grupos teatrais etc. que está constantemente se fazendo ouvir. Elá ainda um diretor de canto. a rapaziada da escola. Recentemente tem havido essa preocupação. Este coro masculino é o que dá vigor à cantoria. o diretor geral c o m a n d a todo o préstito.

divertimento de negro. e tradicionalmente consideradas como traços característicos de status inferior. como divertimento de pobre. e nos produtos culturais que fluem de sua existência e funcionamento. Além disso. o que se explica pelo fato de seus membros se recrutarem. noutro plano. da coreografia. atraem cada vez menos o interesse daqueles q u e procuram ascender socialmente. entre os negros. traços que hoje se apresentam. Nestas associações. mais próximas dos padrões da classe dirigente e da sociedade branca. o que há de negro nessas associações lúdicas populares é: b) a presença e a freqüência de brasileiros negros. o financiamento não vem. que é o momento máximo e principal razão de ser de sua existência. porque são tradicionais. e em adiantado estado. já hoje se pode observar o desenvolvimento. o u vem em quota diminuta. A i n d a assim. Isto que é facilmente observável na conduta . como de resto é facilmente observável em situações semelhantes ocorridas noutros lugares. nas escolas de samba — q u e são um produto genuinamente urbano . portanto. Para a preparação dos préstitos. que. de outras instituições recreativas. N e s t e sentido. ao estudarmos as macumbas cariocas. nas classes pobres da cidade e de nessas classes pobres estar concentrada a grande massa de cor do Distrito Federal. por isto mesmo. da recreação e demais setores do folclore nacional. o que ocorre simultaneamente com uma certa atitude de repulsa às formas tradicionais de folk. Esse público é a classe operária do Rio de Janeiro. que não apenas os preparativos para o carnaval. embora haja. onde o status de um grupo sofre alterações em conseqüência de mudanças sociais em processo. o que vale dizer: é a classe e m que está a maioria esmagadora dos negros que aqui vivem. nada existe de especificamente negro.sofrendo em alta escala. é que as escolas de samba são. O público disponível para integrar e animar a vida dessas associações delas fica quase totalmente afastado. especialmente. dos próprios associados: o auxílio oficial ou doações de particulares abonados são as fontes de receita.230 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO permanente. n o mais autêntico e peculiar significado brasileiro da expressão. aquele processo (para repetir mais uma vez as palavras de A r t u r Ramos) de "sinctetismo avassalador" que já assinalamos. e a significação que as escolas de samba têm na sua vicia ê intermitente — emocionalmente intensa mas de curta duração. facilmente identificáveis: a) traços visíveis e marcantes da influência trazida pelo africano à formação da música. por via d a imitação das formas de c o m p o r t a m e n t o do branco.

porque podem pagar o seu preço e. formas de transição entre os tipos de associações d e folk. e que se organizam e funcionam sob a f o r m a de clubes de dança. pelo fato de cobrarem preço mais barato à entrada e. dissabor a que se arriscaria uma pessoa de cor se tentasse penetrar num estabelecimento de maior preço e. . entre muitas outras formas. o que se exprime não é a saga do africano na terra estranha q u e para ele. na sua estrutura. que constituem grande parte de seus freqüentadores. em suma. 1 7 Essas formas tradicionais de vida associativa correspondem. à coreografia. à cultura de folk brasileira. as associações de novo tipo . que. p o r q u e não têm sua entrada impedida pelo porteiro do estabelecimento. era a nossa terra . a um padrão também tradicional de relações de raças no Brasil. são formas expressivas . cultural e nacionalmente brasileiros. dando lugar ao desenvolvimento de outros tipos de associação recreativa que nada têm de semelhante às escolas de samba. por isso. neste sentido. donde se originam.das quais passaremos a nos ocupar agora — é que são.através das quais se assinala.ASSOCIAÇÕES TRADICIONAIS 231 individual e que resulta do fato de. Essas "gafieiras" — como o Clube Elite. no meio urbano cm que as estudamos. f u n ç ã o e ideologia. à música. de novo tipo. Representam. associações de vida mais permanente. freqüentado quase que exclusivamente por brancos. do sentir. em segundo lugar. sendo associações recreativas freqüentadas por aquelas classes de status inferior. e as formas novas. As segundas. 1 8 As primeiras. por isto que correspondem ao padrão tradicional das relações entre negros e brancos no Brasil. mais uma vez. do pensar e do agir de brasileircs. viver com distinção e boas maneiras é o mesmo que viver como branco. c o m o dissemos. à mística. etnicamente negros. por sua vez. dos problemas. não são mais do que "gafieiras" mais caras. em nossa sociedade. ou. também ocorre no plano das relações institucionalizadas e do comportamento grupai. engendradas pela nova posição social e econômica do negro na comunidade metropolitana. como talvez fosse melhor dizer. das lutas.recreativas ou religiosas . ou a Flor do Abacate. Queremos nos referir às "gafieiras". Ao brasileiro negro. social. e que ali vão por duas razões elementares: em primeiro lugar.diferenciam-se daqueles estabelecimentos mais caros. por isso mesmo. pois nelas. porque. nelas comparecem contingentes elevados de pessoas de cor.mas a história viva e contemporânea das aspirações. ou qualquer outra 16 . a contribuição do africano à estética. as genuínas associações do negro brasileiro. que funcionam c o m o qualquer nightclub.

4 5 3 C f . |MI. 1951. q u e hoje assumem individualidade própria. um negro não-ignorante. I S < o r i u p t r l a ' . I rli|üu>. um negro nãotrabalhador rural. inclusive. segundo nos declarou e n c o n t r a m .:ÍII tlr'. das quais surge. com a sua situação objetiva e c o m as expectativas de comportamento que a respeito dele existem exprimindo tudo isso. '. informes e também. ligados a essas cerimônias..s e no seu provocante ensaio Democracia y misticismo.i'. Neste sentido poder-se-ia mesmo dizer q u e u m a coisa c a negação da outra. sociologicamente novas. proletário.. M S especialmente preparado para esta pesquisa pelo Dr. não raro. de diversa forma. < les IGUAI i d o . Cf. deixaram p o r completar a igreja que estavam l e v a n t a n d o em louvor a São Benedito. Edison Cordeiro. são. ora lugar d e m a c u m b a ( T . inconformado com as pechas e os clichês que sobre ele existem. México. que cada n o v a organização que se cria começa sempre p o r fazer a autópsia das anteriores. desconexas.cll l i v i o httll>flll(. quase todas ainda larvárias.t>. também. ou intelectual. de classe média. Notas ' É preciso não confundir aqui " m o v i m e n t o de c ú p u l a " com "movimento dc v a n g u a r d a " . Os p o n t o s de partida desta análise.ílit.. por outro lado. e m b o r a não seja possível antecipar. visto ao reverso. c o m o o maracatu c o afoxé.1'. . . passos. pretensam e n t e científicas. A q u i s o f n m t | j v m . A julgar pelo c a m i n h o já percorrido não resta dúvida de q u e u m dia chegará mesmo o dia diferente. um negro brasileiro. cm ligação com outros elementos c influências folclóricas. o JII . a a p o n t a r as causas dc seus fracassos c a declarar que "desta vez será diferente. G 7 Idem.ci di II C. e casos especiais.l I t l I U HI. livre. 2 Essa expressão devemo-la ao Prof. urbano.lll il iltltril/mltifjil .q u e pode ser um ideal como o da A b o l i ç ã o ou a bolsa de um candidato a d e p u t a d o q u e nas vésperas dc eleições torna-se " a m i g o de n e g r o s " . Esse caráter de reação a um estímulo imediato . um novo negro não-escravo. T a m b é m .ficou simbolizado no caso dc negros escravos dc certa cidade de M i n a s Gerais que.. figurações. As e x p r e s s õ e s u m b a n d a e q u i m b a n d a d e r i v a m da p a l a v r a a n g o l a n a q u e designa ou o próprio ritual".1. Assim sc desenvolveram. com precisão. auto p o p u l a r que celebra um acontecimento histórico d o C o n g o . um negro não-servil. o cortejo do rei do C o n g o está presente nas cangadas.IN-sac. i n d i s t i n t a m e n t e . um negro não-africano. Escusado é dizer. que tem em preparo um e s t u d o sociológico do papel das "elites agressivas" na vida social contemporânea. ". em q u e consistirá essa diferença. s e g u n d o A r t u r R a m o s . pl. " o r a feiticeiro ou sacerdote. altamente sofisticadas e mesmo.232 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO Elas são novas não apenas no sentido cronológico. Edison Carneiro. ou. M S citado. até. Djacir Menezes. no sentido de que resultam de situações relativamente recentes na história social deste País. com o advento da Abolição.

apesar de as mais importantes lerem o u t r o caráter. a abundante bibliografia q u e ele transe leve. nele se baseia a descrição da estrutura do cortejo. e m certo sentido. existem também associações recreativas — c o m o o citado Niger's Club ~ c esportivas. 15 T u d o isso tem sua i m p o r t â n c i a imediata. no Rio de J a n e i r o . E esta a situação atual dos cultos e práticas m á g i c a s nos principais pontos do País. o terno seja c o n h e c i d o c o m o n o m e de cordão. C f . ou cordão. ao qual i n f e l i z m e n t e e. 3. como disse o Prof. As observações q u e pessoalmente fizemos em 1 9 5 0 e 1951 nos subúrbios do Rio de Janeiro e m u n i c í p i o s vizinhos confirmam p l e n a m e n t e o diagnóstico. A denominação não implica e m q u e estejam vestidas com o traje característico da baiana. L. 16 Recentemente fundou-se n o R i o dc Janeiro o Niger's Club. A r t u r Ramos: "Magia e simulação". Sociologicamente. News frontiers of religion. cd. tiveram sua entrada i m p e d i d a por um comissário de polícia por serem pretos. " Esta corda. n a p o r t a d o Elotel Glória. Apenas um exemplo. canto. Edison Carneiro. 1943. Yinger. * Em suma. Kntrc . 17 . o primeiro dirigente e ator. pois. geralmente são um p r o d u t o e. noutros lugares.. v. com facilidade. na distribuição dos prêmios. 10 9 MS especialmente redigido p a r a esta pesquisa. embora nossa maneira d e e n t e n d e r o fenômeno não careça de socorrerse da noção de "mentalidade pré-lógica". 16). a s e g u n d a a estrela principal do Teatro Experimental d o N e g r o . p. A. daí a necessidade de cada uma das partes f u n c i o n a r como uma unidade. M. Segunda Parte c. 1933. 1946. Reportamò-nos. dados a cada uma das partes do c o n j u n t o : enredo. Igualmente. apud J. ao conceito de associação d e tipo tradicional. a tradição manda que o sistema seja d e p o n t o s . Edison C a r n e i r o . d o c u m e n t o citado. atrás exposto. que se segue. como assinalam Yinger e Swift. n o fim do volume. deu lugar a q u e . Swift Jr. se tanto. I. convidados ambos para o tradicional Baile dos Artistas. harmonia etc. das escolas d c s a m b a . a propagação desses ritos e crenças religiosas entre as classes médias e superiores só por si d e m o n s t r a m que cias dispensam a h i p ó t e s e d o pré-logismo para serem e n t e n d i d a s . nasceram neste século. n . Estas informações históricas s o b r e a origem das escolas de samba n o s f o r a m prestadas pelo Dr. boate d e negros já com um caráter ainda menos " p o p u l a r " c mais sofisticado do que as "gafieiras". Edison Carneiro n o d o c u m e n t o citado. Historicamente as escolas de s a m b a são recentes. 20.ASSOCIAÇÕES T R A D I C I O N A I S 233 brasileira. entre estas. à moda das filhas-dc-santo. 14 13 12 Isto ocorreu. A m a i o r s o m a de pontos é que indica o v e n c e d o r . passim) . Religion in the struggle of power. para justificar o estudo. p. p o r t a n t o . 1949. em 1 9 4 9 . Cf. Abdias do Nascimento e R u t h d e S o u z a . Cf. o sucesso dessas novas religiões e novas seitas. por exemplo.is de nono tipo. d o c u m e n t o citado. pois da perfeição dessas unidades c que resulta a m e l h o r colocação do conjunto. poder-se-iam s o m a r m u i t o s outros. O negro brasileiro. a i n d a em voga ao tempo em que A r t u r R a m o s colheu o seu material e hoje já i n t e i r a m e n t e superada (Lévi-Bruhl. t ê m trinta anos. um protesto c o n t r a a crise da religião oficial e institucionalizada. Aliás. i <'alegoria (lestas roíilim-mns ao m e n o s u m a : a Associação Atlética Filhos dc lsbano. Cf.

uma fração ainda insignificante embora crescente do grupo a que pertence. tem sido a de que o sistema de posições sociais em q u e historicamente se situam pretos e brancos em nossa sociedade. N ã o é possível compreendê-las. por exemplo. ou funcionário público. Isso resulta. Para estes. que cm face da massa negra age. a premissa. como um todo. antes de mais nada. vencendo • toda sorte de fatores contrários. As associações que aqui chamamos dc tradicionais são negras. ou profissional liberal. está certo. reage e se comporta como toda elite em face de qualquer massa.Significação sociológica cio p r o b l e m a estudado. dc elite negra. portanto. das condições adversas ao seu desenvolvimento em que aquele grupo. de conformar-se às regras do jogo. a posição de empregador. por conseqüência. cada um por si. Se toda elite.As mudanças de estrutura social e o a p a r e c i m e n t o das novas associações — O r g a n i z a ç ã o . ou que é portador de diploma universitário. por definição.Antigas e novas elites. como está. é uma camada pequena que se destaca de um corjnts social maior. no sentido de que são populares — neste sentido são tão negras q u a n t o .CAPITULOU Associações de novo tipo Movimentos associativos d a elite negra . pelo desenvolvimento e polimento individuais. t ê m galgado a escala social.. por excelência. numericamente. observando-se as cifras. a elite negra tem esse atributo hipertrofiado e é. sua caracterização e o problema da definição dc seu papel . se tem mantido na sociedade brasileira. no Rio de Janeiro. ainda que sumariamente. que aqui estamos chamando de "elite negra". associações de elite. Trata-se então. aqui. ao que parece. o perfil deste grupo de negros social e culturalmente evoluídos. consciente o u inconscientemente aceita. obedecê-las à risca e. facilmente se verifica quanto historicamente têm sido lentas e estritamente pessoais essas vias e possibilidades de ascensão dos elementos de cor que. o futebol . sobre a proporção de negros que têm. sem primeiro traçar. esforçar-se para ser. . D e fato. programas e atividades — F o r m u l a ç õ e s i d e o l ó g i c a s . atrás apresentadas. enquanto que as de novo tipo são.

u m a das "honrosas exceções" — assimilando os padrões e valores dos grupos dirigentes. social e psicológica dc massa é o que justifica. de perspectiva ideológica. em situações muito pessoais. Evidentemente u m a tal aceitação das expectativas cie comportamento da sociedade branca transformadas em plano d e vida e em n o r m a de boa conduta só podia funcionar na prática e na prática só f u n c i o n o u em casos individuais. náo raro. como programa e como perspectiva ideológica está cci to ou errado. no mais c o m p l e t o sentido da expressão. de organização e de liderança dos movimentos sociais do negro. a urbanização d o negro. Por outro lado. inclusive. q u e gera e coloca dentro da situação total problemas inteiramente novos de orientação. há que ser constatado que a formação e a presença de elites de cor. uma tarefa de brancos. ou apenas embrionários. a pequena elite que dele se destacou. os estereótipos sobre o negro que integram aquele padrão. a crescente complexidade de u m a sociedade de base industrial em desenvolvimento criaram sérias assimetrias e profundas contradições n a forma e no conteúdo da estrutura social dentro da qual coexistem e convivem no Brasil pretos e brancos. pois significa um resultado da estratificação de classe e de status q u e se estabelece entre os próprios negros. Em suma. promovendo-se. assim. onde dirigir negros era. que em bloco se distinguia em t u d o e por tudo do estrato branco a ela superposto. como até meio século ou menos atrás. é hoje u m dos problemas mais importantes e m a i s caracteristicamente novos da situação racial brasileira. independentemente de discutir se isto como plano. àquela minoria que pode ser a p o n t a d a ao negro-massa. q u e parece ser o estereótipo melhor definido a respeito das aspirações das antigas elites negras. pois inclusive a permanência deste na condição econômica. é esforçar-se para ser "um negro de alma branca". "negro de vergonha". ser aceita e adotada por n e n h u m grupo como grupo. H o j e é m e n o s fácil. c o m o "negro às direitas". problemas até então inexistentes. o funcionamento das instituições republicanas e liberais. . e até realça pelo contraste. por excelência. ignaro e pobre d i a b o . Depois da Abolição. mas não pode. por definição. no quadro tradicional das relações interétnicas neste País. p r o d u t o sedimentado da longa e lenta evolução do negro brasileiro. pensar no negro c o m o u m a massa homogênea e indiferenciada. o que implica no surgimento de u m a variável sem precedente no q u a d r o das relações de raças no Brasil.236 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO na medida d o possível.

diverso. donde resulta um processo q u e se poderia chamar de formação de quadros negros e mestiços.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 237 U m a das novas variáveis surgidas é e x a t a m e n t e a diferenciação social interna n o grupo d e cor. estreitamente relacionado à ascensão cultural do h o m e m de cor. do negro ou mestiço que desejava distinguir-se. as letras. 1 É de fundamental importância. q u a n d o revelam. meios dc uma elite negra cruzar a linha de cor e procurar se branquenr pelo fato dc pensar e sentir c o m o brancos. n o Brasil. por definição. não é de hoje que nossa história cultural registra a presença e a atuação de homens de cor ocupando posição destacada no mundo intelectual. como problema de m i n o r i a que é. pelo elogio enfático dessas figuras de exceção. principalmente. Precisamente porque as barreiras raciais não se corporifcaram entre nós em leis e instituições declaradamente cliscriminativas. um tema predileto de referência e citação. aliás. ao menos subjetivamente. e para compreender a significação que ele t e m no quadro geral das relações de raça no Brasil. É este. p o r é m .histórica nítida e que o papel dessa elite cultural negra tende a ser hoje. com j ocorreu noutros países. De fato. a integração da g r a n d e massa do proletariado e a p r o m o ç ã o de u m a minoria às fileiras da classe m é d i a . u m a atitude simpática em relação a um negro freqüentemente vem associada a u m conceito depreciativo sobre . para certos brancos. do que foi no passado. especialmente de seus setores intelectuais. não podia deixar d e estar. verificar que há aqui t a m b é m uma variante . gerados pela própria tensão racial e destinados a desempenhar no seu processas u m papel de extraordinária significação. solução para u m a minoria. uma acentuada preferência. e provavelmente será cada vez mais para o futuro. as artes. especialmente nas condições peculiares ao Brasil. Exatamente por ser via individual. que sempre foi entre nós u m dos mais típicos canais de capilaridade social. a ilustração sempre foram. q u e permanece ainda nos mais baixos níveis de desenvolvimento cultural. a aceitação de cânones valorativos e comportamentais d o grupo branco sempre mereceu. a opinião que fazem da massa negra em geral: entre nós. aqui. na análise desse problema. cuja importância se multiplica. corno brecha pela qual tentar. perfurar a linha de cor. a erudição. pela distância que logo se estabelece entre um negro instruído e a massa negra. c a m i n h o para poucos. Esse problema da formação de u m a elite negra. em certo sentido exatamente o oposto.

porém.238 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO o negro. por parte de muitos negros. atingir a classe média. Ter-se-ia aí um precioso filão de pesquisa para entender certos mecanismos sociopsicológicos das relações de raça. a análise de seu papel nas relações de raça no Brasil. pagou seu tributo à ideologia de sua classe: já tinham em mãos u m a lei batizada com o nome de Lei Áurea. na qual os preconceitos não se cristalizaram em leis e mantiveram-se no plano mais recôndito das atitudes. essa definição de papel era relativamente fácil e os expoentes da inteligência negra têm seus nomes ligados às campanhas liberais pela liquidação do status servil. alcançado o objetivo que julgavam fundamental. da falta desses estudos de base. Apesar. e os intelectuais negros. a citação e louvor dessas figuras. então. era quase tudo . porém. funcionando c o m o "exceções". principalmente os das gerações nascidas no fim do século passado e começo do atual. Essa minoria negra que logrou. Está por ser feita. entretanto. no jornalismo como na eloqüência oratória. de que. do mesmo m o d o . ainda hoje. o material informativo e biográfico existente. et pour cause. agora era tentar resolver os demais problemas fazendo de conta que eles não existiam. Depois de 1888. contanto que certas oportunidades lhe estejam abertas. enfrentaram-na. sob critério sociológico seguro. permite. em todos os planos: em prosa e verso. Esta era u m a questão que se impunha não só aos intelectuais negros como aos intelectuais brancos de formação liberal. o problema consistia em branquear tudo que fosse passível de branqueamento. Assim.era a concepção que a antiga elite negra fazia a respeito de qual devia ser o seu . m u i t o facilmente se convenceu a maioria dos negros evoluídos. observar o contraste que existe entre duas concepções sobre qual deva ser o papel d o negro evoluído numa sociedade predominantemente branca. funcionando como "símbolos". não só enquanto vivos. neste caso. A ausência de barreiras legais abria ao negro a possibilidade teórica de ascender do nível da senzala. frontalmente. bem como a coexistência de negros destacados de gerações diversas. Antes da Abolição. mas também depois de mortos. M u i t a s dessas figuras de negros ilustres do passado já foram biografadas. a presença de u m a hierarquia de fato levava-o a usar essa possibilidade expressa na majestade do igualitarismo jurídico no sentido de ser o menos negro e o mais branco que lhe fosse possível. tornar-se "negro de alma branca" — e alma. daí por diante. é feita muitas vezes como quem maneja símbolos que demonstram a capacidade teórica que têm os homens de cor de se desenvolverem.

"com doces tons de ouro". para exprimir essa preocupação pela cor branca das coisas e das formas. o mais nórdico poeta do Brasil". o objeto desse amor é "a mulher tudesca". E o poeta. O anseio e a aspiração eram u m misto do desejo de misturar-se c o m a sociedade branca e da vontade de afastar-se da sociedade negra: entre esses extremos as situações concretas resultaram n u m a escala variada de afastamento de u m extremo e de aproximação em relação ao outro. e que para isto se prestava admiravelmente. E q u a n d o canta o amor à sua própria esposa negra. ao menos em espírito. Ele fala também na "ânsia de ser b r a n c o " . T r a n s p o r individualmente a linha de cor era a m e t a a atingir e. 3 Quando ama. u m instrumento predileto. a celebridade literária foi. quase obsessivo. mulatismo e bacharelismo. u m dos poucos realmente possíveis aliás. a linha social da cor. f o r m a s claras D e luares. O simbolismo. c u j a alma tem a forma "singela e branca da hóstia". Por isto mesmo. faz dela "um sonho branco". dentro das formas oferecidas pela cultura brasileira. foram expressões quase sinônimas.. q u e "conseguiu ser. b r a n c a s . branca. o brilho nas artes. n o Brasil. o desenvolvimento intelectual.. foi o meio de q u e se serviu. exprime isso em estrofes: Amas a lua que e m b r a n q u e c e o s matos Ó negra juriti A flor-de-laranjeira. que faz de sua vida subjetiva matéria-prima de versos e que pensa em voz alta o q u e o u t r o s escondem até de si mesmos. e loura. d e neblinas!. por t u d o o que significa simbolicamente a cor branca. para isso. " d a cor nupcial de flor-de-laranjeira". Deste amor. e adiante exprime noutro verso: Amas tudo q u e l e m b r e o b r a n c o .ASSOCIAÇÕES DE N O V O T I P O 239 papel n o quadro das relações raciais. . . . Ó formas alvas. o melhor exemplo deu-o Cruz e Souza. o s n í v e o s cactos E tens horror de ti! c o m o cantou o poeta Gonçalves Crespo. 2 Em Cruz e Souza a busca subjetiva da cor branca é kit motiv de t o d a sua obra poética. em certa época. corrente literária a que se filiou e de que foi a maior figura no Brasil. deste anseio de subir racialmente e de passar. esse filho de africanos. usados por pretos e mulatos para superar a linha de cor. de n e v e s .

e n x e r g a . A sobriedade. não raro extremamente severa consigo m e s m o . do tipo tradicional. a intolerável semelhança c o m o negro-massa. Mas n e m t o d o s t i n h a m e têm o seu gênio e a sua sensibilidade. e procuram então viver c o m dignidade o que entendem ser a sua adversidade . t r a n s f o r m a n d o . da cor branca. sentindose dela d i s t a n t e .o " p r í n c i p e d e ébano". d a condição subalterna. d o tipo " m u l a t o pernóstico". "coisa d e n e g r o " . é europeu. que ele queria d o l o r o s a m e n t e exprimir e cia qual. c o m o o c h a m o u u m intelectual negro c o n t e m p o r â n e o . seu irmão. que pretende ser o "supercivilizado dos sentidos". como negro.a em jóia poética. náo t e m problema: cada um deve fazer como ele fez e resolver o seu problema pessoal. 5 Este negro náo forma associações de negros. pelo fato de ter u m a sensibilidade hipertrofiada para vigiar qualquer deslize que logo poderia ser interpretado como. da origem escrava. calam. como protesto contra o fato de ser. no estilo. q u e ele odeia e adora ao m e s m o t e m p o . n o f u n d o . o u seja. A frustração de Cruz e Souza . que ele psicologicamente representa como seu m a i o r inimigo. n o caso. vinga-se chamando-a d e c o r da "névoa glacial". O b s e s s ã o da cor./ ' o seu estro extravasava. é clássico. mesmo q u a n d o espalhafatosamente procurava superar essa tristeza com a alegria nervosa mais epidérmica do que psicológica. aliás de u m a tristeza digna. porque acha que o negro.. é ariano. recalcam. nas preferências e brada. da censura da sociedade branca transformada em autocensura moral. era condição de status e resttltava dc uma permanente autocrítica. um triste. tornava-o. o "meu poeta". G u a r d a m . vai ao ponto de algumas . discreta. com sua conduta. na forma.quando não suja na entrada. não escreve sobre problemas negros nem se interessa intelectualmente p o r eles.a adversidade da cor. embora sentissem o u sintam a mesma frustração. c o m o Cruz e Souza.. o supersubalternizado na condição: mais que isso. na sociedade e m q u e vivia. Esse ressentimento latente d o n e g r o evoluído da geração passada.a c o m o "sombra dolente de camélias b r a n c a s " . quando estuda o problema. suja na saída". na sociedade cm q u e vive. N o f u n d o ele era um triste. nem forma nas existentes. o "cisne negro da p o e s i a brasileira". náo estuda o u se bate pelos problemas do negro. no gosto. precisamente p o r q u e são negras e a sua maior preocupação é esquecer que é negro. q u e t i n h a para ele. é nórdico. u m a significação c o n c r e t a e v i d e n t e .2 4 0 1 82 O NEGRO N O RIO D E JANEIRO E a t é q u a n d o fala da sombra.

E explícita. a tentativa d e utilizar novos "meios". uma querela insignificante. tinham a preocupação dc branquear-se. n o seu lugar e ele sente. Noutros termos. estudando problemas de raça e assimilação. dc. as novas elites negras pretendem ascender como elites negras. . para o futuro. na medida em q u e ascendiam.de reagir ao p r o b l e m a e de tentar superá-lo. mais personalista. diante de si. então. E. um apelido. um bate-boca na rua. Assim. Escusado é dizer que as novas elites de cor não se distinguem das antigas elites7 por não terem acaso. novas "pistas". Enquanto que as antigas elites. novas "técnicas".ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 241 vezes tornar-se racista. apologéticas da negritude. ele "até n e m parece um negro". O que ocorre é que diante desses problemas e dessas novas agravantes — e possivelmente em conseqüência delas mesmas . Esta distinção. declarada e orgulhosamente negras. uma nova definição do papel d o negro de elite no quadro das relações de raças e de novas maneiras d e atuar sobre elas. c o m extrema intensidade. ele até se agrava. 6 de "representar-se em dois planos ao mesmo tempo". Peio contrário. negras mais do que nunca. a "arianização". menos passiva e mais organizada. novas "táticas". que rasga de c h o f r e a realidade diante dele. em inúmeros aspectos.a reação das novas elites é diversa c mais agressiva. confere à formação das elites negras contemporâneas uma significação toda especial. o que se tem é. dc serem atraídas por essa ideologia de revalorização étnica.conforme expressões textuais empregadas por alguns porta-vozes 8 . novos "processos" . por conseqüência. u m fato qualquer. coloca-o de novo. sem deixarem de ser negras. quando já está quase convencido disto. gera u m comentário. mesmo um pequeno fracasso ou um pequeno sucesso. em comparação com o padrão anteriormente descrito. tais problemas. novas "alavancas". q u e nosso mal é o negro e o nosso remédio. na qual não se percebe logo no primeiro plano o que tem de falaz e o que contém de fecundo. confundindo-se em t u d o com o extrato branco superiormente colocado. um riso. a intenção de fazer. não só o problema perdura como. o "drama d e ser dois". menos pessoal — embora. que é fundamental. fazer-se especialista em estudos de antropologia e história social para tentar provar. um olhar às vezes. novos "mecanismos". pois muito dificilmente deixarão as novas gerações. certo ponto de vista. por excelência.

a situação política nacional era inteiramente adversa a movimentos e organizações como estas. em sua estrutura. que é o que exprimem. as associações de n o v o tipo do negro contemporâneo n o Rio de Janeiro. de base popular e caráter reivindicativo. em cujo painel ideológico a luta contra o racismo teve significação tão destacada. às mudanças de estrutura da sociedade brasileira. D a í resulta toda uma nova — histórica e sociologicamente nova colocação do problema. As associações negras de novo tipo começaram a nascer no Brasil depois da revolução de 1930 e têm sua curta história diretamente ligada não só. mas ele é. de modo. aos acontecimentos e às orientações que. a partir daquela data. O Rio de Janeiro e São Paulo. especialmente.e do m u n d o .242 182O NEGRO N O R I O DE JANEIRO O intelectual de cor tende a viver boa parte da vida num status que reflete. entre as do Rio de Janeiro. foram as sedes destas associações formadas pelo negro de novo tipo e. Por isso m e s m o . que em particular nos interessam. . área onde se desenvolviam pioneiramente as mudanças de estrutura que estavam contribuindo para colocar o problema em novos termos. em suma. a partir de 1935 e. na composição. o mesmo que tende a sentir um número cada vez maior d e negros. na medida em que o problema pessoal dos homens de cor evoluídos é apenas u m reflexo de um problema social de u m número crescente de negros que se diferenciam das massas de cor. Daquelas que primeiro surgiram nenhuma sobreviveu até hoje: apareceram como sintomas e disso não conseguiram passar. particularmente reivindicações desse tipo. marcam a vida política do Brasil . Por que terá sido esta a fase de nossa evolução contemporânea em que começaram a surgir associações negras que. intelectuais ou não. aproximadamente com o restabelecimento do regime representativo e do fim da Segunda Guerra Mundial. todas aquelas atualmente existentes foram fundadas de 1944 para cá. ora menos intenso. Seu desenvolvimento intelectual multiplica sua sensibilidade a esse problema. de 1937 a 1945. que se reflete em graus diversos de tomada de consciência prática desses novos aspectos.numa fase agitada pelas crises e tensões que assinalam todo o período. o intelectual habilita-se a exprimir esse problema e faz-se o porta-voz natural das angústias e das aspirações de seu grupo étnico enquanto grupo social. na estrutura. lato sensu. De resto. p r o g r a m a e ideologia. stricto sensu. ora mais. mas também. o peso de sua posição dual. inteiramente novas e estranhas no quadro das relações de classe e de raça no Brasil.

dentro de um continente que começava a atingir sua maioridade para o m u n d o e dentro de um m u n d o em plena gestação de uma nova civilização. sobre a sociedade em mudança. que somente dentro dele podem ser compreendidos em sua plena significação. muito mais populares do que negras.assinalou o crescer da inquietação social e política q u e rcsultava dessas mudanças estruturais. do ponto de vista de suas respectivas posições. eram tão diversas das associações tradicionais. outros vindos dos aspectos universais d a crise brasileira. sobre os fatores. Sincronizado com o m u n d o e estruturalmente marginalizado d e n t r o dele. vindos uns dos aspectos brasileiros da crise universal. surgimento e expansão de u m p a r q u e industrial que não cessaria mais de se desenvolver.de 1922. que representavam o esteio exclusivo de nossa estrutura econômica. crescimento dos núcleos urbanos e de sua influência. haviam sido teatro de acontecimentos fundamentais n a v i d a brasileira: crise dos principais produtos agrícolas. Todo um ciclo de movimentos políticos de diversa índole e orientação . A primeira relação direta e fundamental a ser destacada entre essa situação total e o problema particular que estamos analisando revela-se no tipo social do novo negro que comparece nesses movimentos associativos. de 1937 a 1942. de 1942 a 1945. foi campo em que se cruzaram fogos. ou seja. o processo e as perspectivas dessa mudança. pois o que muitas vezes lhe parecia um progresso a ser conquistado era algo que noutras partes a história estava definitivamente superando. . desde o fim da Primeira Guerra M u n d i a l deste século. de 1935 a 1937. que abrange toda uma nação em fase decisiva de seu desenvolvimento. é que estão situados os movimentos sociais do negro brasileiro contemporâneo. extremamente heterogêneo. ampliação d a esfera cosmopolita dentro do horizonte brasileiro. dc 1930 a 1935. formação. e deste ciclo agitado fluiu p e r m a nentemente um magma ideológico. marcha crescente da burguesia p a r a o controle da governança do País. do tipo daquelas que atrás e s t u d a m o s ? De certo não por mera coincidência! Os anos anteriores a 1930. Dentro deste q u a d r o geral. nesse período.ASSOCIAÇÕES DE N O V O TIPO 243 no programa e na ideologia. feito das formulações programáticas c o m que os grupos envolvidos na ronda dessa fase de nossa história social recente interpretavam e agiam. declínio progressivo d o monopólio que os interesses agrários detinham sobre o poder político. produtos deste contexto. o Brasil. crescimento e presença política do proletariado nacional. de 1945 até hoje .

na administração. nas carreiras liberais. finalmente. o pleno acesso e participação do negro cm todas as esferas e benefícios da vida social. já referida. representam barreiras a serem vencidas e dificuldades a serem superadas pelos elementos e m ascensão. no pequeno comércio. n o início de um processo lento de diferenciação social dentro do grupo étnico. regulada principalmente por relações pessoais. . procura assumir e desempenhar à testa das massas de cor. Para atingir esse alvo. Na medida em que essa mobilidade se processa. Neste sentido. que cedo começava t a m b é m a produzir mudanças equivalentes no plano da mentalidade. no plano das aspirações. do recrutamento de trabalhadores especializados para funções de diversa hierarquia social. de solidariedade específica d e cor. o abandono da ocupação agrícola semi-servil. da seleção de quadros para postos e e m p r e g o s dc comando. A segunda relação direta e fundamental a ser assinalada entre a mudança social e as associações de novo tipo é a função de liderança que a elite negra. direção e chefia em diversos níveis e setores da estrutura empresarial e. para isso.2 4 4 1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO O proletariado industrial e urbano no Brasil tem c o m o núcleos históricos o imigrante e o escravo livre. fazendo apelo aos impulsos de afirmação étnica e tentando dirigi-los. ao porem uma idéia-força em movimento. a posição histórica e objetiva das massas de cor na sociedade brasileira e a ideologia tradicional p r e d o m i n a n t e numa sociedade dirigida por brancos. na possibilidade de essa diferenciação repercutir n o próprio sistema de estratificação social. por meio do ingresso de elementos de cor em determinados setores da classe média urbana: nos serviços. o emprego na indústria. daí. a migração para as cidades. a integração nos quadros de u m a economia industrial e numa esfera de relações nitidamente contratuais significaram o começo de uma mudança radical de posição. A identificação do negro com o proletariado . n o p l a n o dos estereótipos do branco sobre o preto — implicou. os mecanismos de consciência grupai. do estado de espírito e. formada em conseqüência daquela diferenciação social. estas associações encarnam e levam à prática aquela nova definição. ganha v o l u m e e intensidade. inevitavelmente. no artesanato. em última análise. como resultado da qualificação da mão-de-obra no mercado de trabalho. da mobilidade profissional. tende o desejo para as suas últimas conseqüências — q u e são. tal como procedem todas as elites agressivas. de revalorização dos "valores da raça". como é a nossa. estimulando.identificação de fato e identificação simbólica. Para este. sobre qual deva ser a atitude da elite negra no interior de uma sociedade de brancos em q u e a linha de cor não se cristalizou em leis.

ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 245 A terceira relação direta e fundamental. u m a criação do homem de cor marginal q u e .s e "hemem ansioso". fundamentalmente. que julgamos deva ser destacada entre a fase atual de m u d a n ç a social e as associações negras de n o v o tipo é a contingência a que se reduziram d e serem movimentos de c ú p u l a que geralmente só encontram no seio das massas de cor indiferença e desinteresse. n a possível comparação com outros. e que as f o r m o u para si. que vêm assinalando nos últimos tempos sua presença e atuação na vida política brasileira representam para as massas de cor.embora não para as elites negras . inevitavelmente envolvidas nesse processo. as possibilidades e as limitações que derivam de seu enquadramento no meio. ao fato de as grandes massas de cor n o Brasil estarem social e economicamente identificadas com o proletariado e tenderem fortemente . de resto. o apelo cias associações específicas de homens de cor soa apenas como linguagem ladina de espertalhões e aproveitadores. A associação de novo tipo é. de mobilidade e dc resistência que e n c o n t r a à sua mobilidade e às suas aspirações. A radicalização progressiva. político e ideológico . antes que todo valor objetivo". um problema de extrato pigmentado superiormente colocado. na sociedade e no tempo em que vive e de q u e é produto. duplamente asfixiado por sua condição de raça e de classe. portanto. para quem "o ser mais. por excelência. para elas . Isto está ligado. u m foco de atração ideológica militante em face d o qual. por sua vez. chega a constituir o fim de sua ânsia. do mal incurável dc não saber falar outra linguagem que não seja a do seu horizonte de extrato médio.no plano associativo. c o m t o d a s as virtudes e defeitos. para resolverem problemas seus.o que faz. o valer mais etc. "pescadores de águas turvas". 10 . O p r o b l e m a social não resolvido que essas associações e movimentos negros têm à sua origem e como sua razão de ser é.a atuarem n a vida brasileira muito mais na ó r b i t a de sua classe do que na de sua raça.' A elite q u e se forma nessas associações.. especialmente de "mulatos pernósticos". dc status. por sua vez. de aspirações.. as lutas e a organização da classe operária. recorre a Max Scheler e d e n o m i n a . conseqüência das anteriores. quando não antagonismo e oposição. sofre. que diferenciou da massa negra e mestiça e que ansiosamente se dedica à busca dos meios e modos: a) de e n t e n d e r e b) de resolver o seu específico problema . para não se chamar a si mesmo de marginal.

que assim teatralizavam a posição socialmente subalterna do negro na estrutura social. nascendo como uma trupe de artistas de cor. dando motivo. foi. mais que isso: de um grupo de pressão. stricto sensu. p a u t a n d o . principalmente. aquela que g a n h o u maior envergadura e mais repercussão no quadro da situação em que atuou. geralmente bufões ou ridículos. ao vezo e à rotina do puro trabalho etnográfico ou do ensaio simplesmente sugestivo. pois. fugindo. pintar-se um branco de preto e dar-lhe o desempenho feria a sensibilidade dos negros de vocação . quando u m a peça exigia um negro em papel de destaque. desde que nasceu até que passou a viver a vida apenas latente que hoje vive. mais u m a vez. aos poucos. e m t o r n o dele. pela dinâmica da tensão racial. em primeiro lugar. O fato de. o n d e t u d o explica tudo e nada fica provado. T o m e m o s . teve relativo sucesso.que na verdade representam conclusões de pesquisa mais ampla e aqui são apresentadas como introdução à análise dos casos náo só é possível como também se impõe voltar agora a atenção para os pontos fundamentais do material recolhido que d o c u m e n t a m a hipótese central. f u n ç ã o semelhante. sem dúvida. que mais parece um bazar desarrumado. como resultado de sua existência e funcionamento. pois nesse caráter. Neste sentido. dentre essas associações aqui chamadas de n o v o tipo. Originalmente o grupo surgiu como um protesto c o n t r a a ausência do negro nos palcos brasileiros. de sabor folclórico. O T E N nasceu em 1944 como grupo teatral e. aliás. como uma associação. a assumirem a envergadura cie u m movimento. uma estrutura e u m a ideologia que excederam de m u i t o seus propósitos originais. outras organizações surgissem depois dele com estrutura.s e sobre seu modelo. embora em certo m o m e n t o os seus dirigentes tivessem tido a ilusão de estar controlando esse processo e i m p r i m i n d o a ele uma direção desejada. ou contra sua presença apenas em papéis de segunda categoria. enquanto funcionou. foram levados. que se reuniram numa atitude de protesto contra a linha de cor que lhes dificultava a ascensão." havendo fracassado mais tarde pela má sorte que teve como tal e não como grupo de teatro. D e fato. e onde o acessório e o f u n d a m e n t a l se misturam e se nivelam sem n e n h u m critério de pertinência científica n o uso do material recolhido. o T E N p o d e e deve mesmo ser encarado m u i t o mais como um movimento do que. nunca deixou de ser o que a tensão racial o obrigou a ser. objetivos e. se foram desenvolvendo. o Teatro Experimental do Negro (TEN) que.246 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO Colocado o problema à luz dessas perspectivas e a b o r d a d o o seu estudo a partir dessas premissas . a que.

como se despista a o TEN. E. Instalado no Rio de Janeiro. do Negro. que durante algum tempo seria a mais legítima expressão ideológica da p e q u e n a burguesia intelectualizada e pigmentada no Rio de janeiro. Abdias assistiu a uma série d e conferências do teatrólogo Pascoal Carlos Magno. após algumas atividades. insistindo sobre a necessidade d o teatro negro. no depoimento que se segue. Hd cinco anos passados. o fundador obter meu apoio à sua iniciativa curiosidade pelo movimento. É o que transparece. dirigidos por Abdias Nascimento. em seguida. como esse que vos fala. esta descoberta Uma maçada porque me obrigava a uma representava uma maçada. desta cidade. enxerguei a pista jamais que ele estava abrindo na vida . entretanto. de maior p o d e r de compra. pelas perspectivas que abria.e destacarem. em que negros "freudizados"se reuniam para carpir o destino da raça. Aproveitando a deixa. pois a presença de pretos afugentava a freguesia branca. Parecia. e foi u m dos negros paulistas que vieram ao Rio protestar contra a tentativa dos comerciantes da Rua Direita. u m verdadeiro fascínio. mas não teve êxito. oferecido por u m intelectual de cor que viria a ser mais tarde u m dos mentores do movimento. Para essa camada o movimento foi u m a verdadeira revelação e sobre ela exerceu às vezes. tendo sido um dos promotores de uma convenção de homens de cor na cidade de Campinas (São Paulo). Para um homem pegado de mau jeito pela sorte. e que está ainda com a vida por organizar. desta vez com mais sorte. enxerguei a intuição nacional. Ele conta assim a maneira como foi conquistado pelo movimento de Abdias: Há cinco anos surgiu no Rio o TEN. dedicado a representar peças em que eles tivessem a oportunidade de se revelarem e . um demagogo e a um negro ladino. cujo sucesso no palco despertou a atenção de outros negros que a ele se agregaram. vi. Ficou. diversões (parecia a princípio) tais como a Convenção Nacional Era mais um clube de e. 1 1 A primeira tentativa de Abdias foi feita em São Paulo. no País. que Abdias suspeitada Nascimento carregava em si. alegando que com isso t i n h a m prejuízo. vi. parecia que se tratava de mais um centro de cultura de recalques. ampliando a estrutura e os objetivos do movimento. e. a criar um grupo teatral só de negros. em certo momento. e assim nasceu o T E N . Várias conversas. por exemplo.ASSOCIAÇÕES DE N O V O T I P O 247 artística e ievou alguns deles. sem dúvida. deste encontro. do TEN me procurava para e eu o despistei. Abdias retomou a idéia. Nessa ocasião ele já se destacara na luta contra o preconceito racial. de proibir que pessoas de cor se concentrassem naquela via pública aos sábados à tarde. a Acompanhei vários encontros com o fimdador do TEN.

num plano de espiritualidade. de que o Teatro Experimental do Negro é a alma mater'• Atraindo a elite. aliás. lutar como elite.] manipulando as sobrevivências paideumáticas. de intuição. • "É esta uma das finalidades mais importantes d o nosso movimento: a de suscitar o florescimento de uma elite de homens de cor.15 . não da massa. mas captando e sublimando a sua profunda vivência ingênua [. apesar d o n o m e . acrescentando em seguida: Não é com elocubrações de gabinete que atingiremos e organizaremos esta massa (de cor). É o que revela. sem se confundir "com certo tipo de reivindicador contumaz". que permitia ao intelectual negro de classe média. através de um teatro assentado nas reminiscências míticas e nos impulsos místicos do negro..u N i n g u é m melhor do que alguém que viveu o processo podia descrever esse aspecto de revelação. que honestamente só poderia ser uma: a de tornar-7ne um aliado de Abdias Nascimento. mas da elite. preparatório de novos vôos. o seu fundador ao declarar em discurso: "o TEN não é. visão considerada genial da tomada de consciência prática de seu problema. A força daquela intuição venceu as minhas resistências e até mesmo o meu escrúpulo em confundir-me com certo tipo de reivindicador contumaz. na prática. c o m o passo inicial. e cada vez mais forçado pela tensão racial a tornar mais nítidos seus reais objetivos e sua verdadeira função. preocupado em não fazer arregimentação de massas. apenas uma entidade de objetivos artísticos. órgão do TEN. em sua arregimentação. na esfera da cultura". passou a multiplicar suas atividades e a fazer. de descoberta de "pista jamais suspeitada".. temeroso de ser c o n f u n d i d o com certo tipo de reivindicador contumaz..248 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO decisão. capazes de empreendimentos de envergadura. o jornal Qttilombo. já então ampliado em sua estrutura. A necessidade da fundação deste movimento foi inspirada pelo imperativo da organização social da gente de cor". mas numa espiritualidade. sem aparentar ser um "freudizado". 1 4 que continua: "A unidade desta elite (que pode integrar os temperamentos pessoais mais diversos e contraditórios até) não se estriba n u m a arregimentação. como diz. que se prenckm às matrizes culturais africanas. Ai dos homens para quem as idéias existem. o TEN. "pela valorização do h o m e m de cor". em editorial. na realização da obra pela valorização do homem de cor.

em conseqüência de seu baixo nível cultural .uma estrutura e um programa destinados a bater . frustração q u e o forçou a transformarse d e u m grupo teatral e m u m movimento social. N a sua história curta e nesta breve caracterização vê-se que a linha de cor gerou o grupo teatral e experimental de negros e este. os meios de ação eleitos para atingi-los foram desadequados". baseado na convicção de q u e as massas de cor. As proporções verdadeiras deste vasto movimento social. A situação racial brasileira. portanto. deixou de "representar" e . em face da tensão racial.. acrescentando: "Há.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 249 A o procurar identificar as razões do fracasso de outras associações negras.a linha de cor não só na ribalta. 16 T e m o s assim. conceitos e "técnicas letradas". as sobrevivências africanas. Ele é um campo de polarização psicológica. d e n t r o do próprio negro em q u e m a sociedade inoculou um complexo de h u m i l d a d e que é o seu mais forte inimigo. a o r d e m dos meios e a ordem dos fins[. q u e o motivo (do fracasso) estava e está em que osfins destas associações. q u e a t i n g i u seu p e r í o d o d e maior vigor aparente quando. como declararam repetidamente. obrigou-o. inclusive. em sua predisposição para responder aos apelos de t u d o o que é místico e fantástico e que sejam fortes em "teluricidade". evitando o mesmo desfecho. só sendo possível alcançá-las " m a n i p u l a n d o " o misticismo. sua ideologia. seu sentimentalismo. sua "vivência ingênua".] O T E N pertence à ordem dos meios. n o sentido de aproveitar-lhes as experiências. onde se está formando o núcleo de um movimento social de vastas proporções". Abdias assim o define textualmente: "Adestrar gradativamente a gente negra nos citilos de c o m p o r t a m e n t o da classe média e superior da sociedade brasileira".. na prática. suas tendências artísticas e musicais.não podem ser atingidas por idéias. a superar a limitação deliberada de seus objetivos artísticos originais. mas em todas as frentes. cujas barreiras o T E N quis inicialmente desbordar por vias laterais. seu m o v i m e n t o . por assim dizer. seu gosto pela recreação. a camada que pode ser realmente atingida pelo seu apelo e em cuja posição e perspectiva ele pode ter ressonância. um movimento cujo objetivo é adestrar o negro nos estilos das camadas predominantemente brancas e socialmente dirigentes da sociedade brasileira. e tudo confirma. pela representação. o objetivo supremo e expresso de sua idéia-força. e m b o r a fossem algumas vezes corretamente identificados. pela exteriorização.afirma Abdias que a mentalidade do negro é "pré-lógica" (sic) . diz ainda Abdias: "Parece-nos. foi levado a transformar-se num movimento .

concursos de beleza. cm nome da democracia. E com referência particular ao eleitorado da capital do País declarava em artigo de fundo do seu jornal: "Saibam os partidos e os candidatos que mais cie um milhão de votos da massa negra pode e quer decidir da vitória". Abdias nem sequer concorreu de fato. quer no plano das atividades de seus múltiplos órgãos e departamentos dependentes.que foi. o próprio Abdias. um número correspondente de vagas para candidatos negros e mulatos". aliás. conselhos e toda a constelação de setores de atividades em que o T E N se havia desdobrado permaneceram no papel e na sessão de instalação. miram com o desfecho das eleições. editar um jornal e melhorar sua apresentação. a desempenhar o seu papel de elite militante. O período áureo do T E N não foi pura e originalmente artístico. dos brancos e. os inúmeros órgãos. murchou. nas quais. A euforia foi tamanha que o diretor do T E N lançou aos partidos a sua candidatura e u m deles lançou sua candidatura ao eleitorado. seus propósitos. sua influência aos olhos dos negros. "Somos vinte milhões dc brasileiros [. morreu. representariam um teste decisivo.250 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO passou a funcionar n o quadro das tensões raciais como u m "grupo de pressão". realizar seus bailes elegantes. donde nunca passaram. mas não recebido . congressos e conferências. principalmente. a reivindicar auxílio governamental concedido. As eleições nacionais de 1950. Já há dois anos caiu o pano. 1 7 Na sua propaganda eleitoral o candidato frisava a importância numérica da população dc cor no Prnsil e alinhava as iniciativas que ele pessoalmente havia tomado em favor da população negra.. foi o pré-eleitoral ( 1 9 4 9 . museus. senão como ideal ao menos como associação atuante. aliás. quer no plano de suas realizações artísticas. golpeado por uma manobra eleitoral do próprio partido que lhe patrocinou a candidatura.5 0 ) . . a sede desapareceu e os credores apareceram. porém. quando o entusiasmo de seus dirigentes e a generosidade interessada de candidatos brancos a postos eletivos forneceu os meios psicológicos e financeiros para o T E N ter uma sede própria. O T E N . 18 O despertar deste sonho eleitoral19 revelou uma realidade bastante crua: Quilombo deixou de sair. aos seus próprios olhos. terminando por indicar um candidato às eleições municipais de 1950 .a aumentar sua envergadura. Milhões e milhões dc esperanças. institutos. e a t r u p e que se tornou um grupo de pressão e sonhou o sonho cândido da negritude adestrada nos estilos das classes dirigentes declinou.] a exigir. entretanto..

mas sim social. no Brasil. tinham por finalidade "promover a valorização social das riquezas eugênicas e estéticas" da mulher negra e mestiça e lograr..no m e c a n i s m o das tensões raciais.algumas das principais . de acordo com o objetivo explícito d e seus organizadores. que é o reverso de sua inferiorização n o plano econômico. . profissional e moral. econômica. O "recalcamento" da mulher de cor no Brasil.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 251 na data e m q u e escrevemos. t a m b é m . é. Talvez ele até resulte mais d o fato de haver uma valoração principalmente deste tipo. Esses concursos.tudo leva a crer que a valorização de que a mulher de cor está carecendo não é precisamente de ordem estética ou eugênica no sentido em que tais expressões são empregadas pelos promotores desses concursos de beleza. saiu de circulação. c o m o comparecimento dc figuras cie destaque mundano. n e m por falta de procura por parte do h o m e m branco. o que íoi chamado dc "dcsrccnlcamento em massa". tentou ditar a sua "linha". sem dúvida. social e intelectual. embora não tenhamos dúvida de que vive n o ideal dos que o animaram e existe latente nas raízes da situação racial brasileira. em certa época. não é provável que exista p o r falta de valoração estética. a mais provável fonte desse "recalcamento". que o T E N tentou irradiar a sua ação. Foram feitos três ou q u a t r o desses concursos. resultante da posição social inferior dos grupos de cor na nossa sociedade e cm face dos estereótipos correntes entre brancos sobre as excepcionais qualidade. Este excesso de valoração puramente carnal. Foi através dos órgãos e setores conexos. mobilizar seguidores e prosélitos e tornar-se um movimento em marcha. foi u m produto e um símbolo. sob o patrocínio de órgãos da imprensa. das olhadas com mais desconfiança pelos negros de geração mais antiga 20 — foram os concursos de beleza para a eleição da Rainha das Mulatas e da Boneca de Piche. o que por sua vez resulta da posição social que a mulher d e cor ocupa em face do homem branco.impõe-se sejam estudadas em particular.embora.' da mulher de cor para as relações sexuais extraconjugais — que é um dos estereótipos raciais melhor caracterizados que se podem encontrar neste país . à sedução d o h o m e m branco. pois cada uma delas são formas e variantes específicas do papel básico q u e o T E N desempenhou. por este meio. de que o TEN. U m a das iniciativas mais ruidosas e de mais sucesso publicitário dentre as promovidas pelo TEN . resultando na coroação das eleitas em bailes de gala. ou quis desempenhar — mas sempre exprimiu . Por isto mesmo estas atividades correlatas . E m face da acessibilidade da mulher negra e mulata. em princípio. ao lado da atividade artística.

que levou a efeito como ponto básico do programa do Instituto N a c i o n a l do Negro. com as turmas assim formadas. tendo em vista a eliminação das dificuldades emocionais que impedem a plena realização da personalidade da gente de cor". não só do explícito reconhecimento. também. em nossa sociedade. excepcionalmente. quer seja de caráter antropológico. Tratase. a função de destacar aos olhos do homem de cor as qualidades estéticas da mulher d o seu próprio grupo étnico. mas. Aliás. que o "desrecalcamento em massa" que os teóricos d o T E N visavam a atingir nesses concursos dc beleza de ébano era. a inscrição de elementos estranhos aos quadros do Teatro N e g r o . um dos departamentos que c o m p u n h a m o seu sistema. na qual caberia aos prélios de beleza negra demonstrar que existem qualidades estéticas e eugênícas plenamente desejáveis. da existência de fatores que conduzem a dificuldades emocionais. do homem de cor. principal-mente. histórico. no conjunto. a função psicológica. o T E N pretendia ir. Nesse sentido. . de despertar nele o interesse pela mulher de cor. Para isso não é preciso procurar provas indiretas. era o "departamento científico" que visava p r o m o v e r estudos relativos "a tudo q u a n t o se referia a assunto negro. Segundo ainda a mesma fonte. "atuar nos morros. tais concursos parece que desempenhariam. feito por líderes d o movimento negro. assim. 21 Ao lado dos espetáculos teatrais e dos concursos d e beleza. em regra.252 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO T u d o parece indicar. no qual as matrículas estavam abertas para os elementos do T E N . O I n s t i t u t o do Negro. na sociedade em que ele vive. acima de tudo. para q u e m . pois o assunto é abordado diretamente na i m p r e n s a negra. sociológico. 2 2 De acordo c o m o que se lê no órgão de divulgação d o movimento. por conseqüência. terreiros e associações de gente de cor". "admitindo-se. é extremamente significativo notar a recente preocupação da elite negra com sua aparência estética. outro dos mais característicos setores de atividade do T E N como m o v i m e n t o social e cultural do negro é o que se refere aos ensaios de "grupoterapia". Sua atividade principal consistiu n u m "seminário de grupoterapia". à sua esfera étnica e social. que impedem a plena realização da personalidade da gente de cor. a mulher branca é relativamente muito mais inacessível do que a mulher de cor para o homem branco. religioso ou lingüístico". através da escolha da mulher-símbolo. de convencê-lo de que não é um frustrado pelo fato d e sua capacidade de escolha estar f o r t e m e n t e limitada. p r o m o v e n d o a valorização do negro por m e i o destas "purgações" de seus recalques. o "seminário" tinha por objetivo "formar uma turma de técnicos hábeis para organizar grupos.

segundo Guerreiro. se dirijam às áreas de concentração da população de cor com a finalidade de purgá-las de seus distúrbios emocionais e de sua angústia psicológica. ou seja. M o r e n o . n o m e q u e preferiu dar à soeiometria de J. confusão que.inclusive "treinar". especialmente graças aos esforços d o médico e sociólogo austríaco Jacob L. cometeu "erros graves. Saint-Simon e Robert O w e n são. as ansiedades que lhe resultam na personalidade em conseqüência do papel frustrado que lhe cabe no palco da sociedade. a terapêutica catártica preconizada consiste em inverter os termos do problema. E n t r e t a n t o . no indivíduo que se submete a essas figurações.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 253 de formar turmas de técnicos hábeis que. L. Partindo da noção de que "a essência da sociedade é o drama". os temores. Estes. fazendo d o palco uma miniatura da sociedade e nele configurando situações teatralizadas nas quais o "paciente" (sic) representa papéis que lhe permitam extravasar na p e q u e n a sociedade do palco as angústias. A psicanálise.e nisto consiste o objetivo "clínico" . embora acertassem nos seus diagnósticos sobre os desajustamentos entre a estrutura da sociedade e a natureza h u m a n a .. o principal dos quais é a confusão do biológico c o m o social". O dirigente e responsável teórico p o r este setor de atividades do T E N foi o Sr. porém. "novas formas de conduta". que visem sua "readaptação" na vida social. Moreno foi quem mais decisivamente contribuiu para " u m a nova interpretação para o significado d o drama" e confessa que é na obra n u m e r o s a de Moreno que se baseia "grande parte de seu ensaio". declarando que suas raízes vêm de longe. Guerreiro expõe sua concepção sobre o q u e eíe chama de "sociatria". Erich Fromm. espera-se . apesar de representar "o início da fase científica da sociatria". Charles Peguy. C o m isto. "só recentemente foi inteiramente desfeita. N a aula inaugural do seminário. desde a catarsis de Aristóteles.. 23 Segundo Guerreiro. não encontraram uma "terapêutica acertada" para a resolução deste problema. Rilke. Alberto Guerreiro Ramos e nos seus artigos para o jornal do m o v i m e n t o é que se encontram os materiais doutrinários referentes a este aspecto da atuação do Teatro Experimental do Negro. dois "faróis" donde derivam as correntes de pensamento que deram origem à "sociatria".diz-se enfaticamente . de alívio . na sua opinião. "esta espécie de libertação interior". as emoções.o "mecanismo fundamental do psicodrama" é a catarsis. Augusto Cornte. em caravana. têm também destacadas as suas contribuições ao problema. Moreno".

Assim. isto sim. que a voga dessas idéias e práticas. sempre na sua opinião. a herança da escravidão. a chave mágica do extravazamento d e t u d o o que a fome. retomando "a significação original d o teatro como processo catártico". imaginativamente. que a angústia psicológica da cor e as limitações ideológicas da classe juntaram-se aqui para preparar o terreno no qual floresceria a utópica aspiração de sair pelos morros. dentro d o contexto da situação racial brasileira contemporânea. no Rio de Janeiro. a "casade cachorro". C o m o não podia deixar de ser. Em verdade. ou seja. da concepção e da atuação do T E N foram carecendo. em formas artísticas de pensamento . o T E N . significa muito mais do que mera coincidência.. o analfabetismo. finalmente. pelas favelas e pelos subúrbios levando a mensagem redentora da catarsís. conseguiu "transformar a luta de classes n u m processo de cooperação". estes e outros aspectos da teoria e da prática.hic locus non est. é que o movimento t e n t o u enveredar por "uma pista jamais suspeitada entre nós. . e a tentativa de contornar emocionalmente essas barreiras por meio de u m mecanismo dramático d t faz de conta que somos brancos-. significa a existência de negros de classe média querendo se adestrar nos estilos de sua classe. no fim d a primeira metade do século XX. entre intelectuais negros da classe média. o segredo da purgação dos recalques. significa a existência dc barreiras às possibilidades objetivas deste adestramento e o conseqüente aparecimento de um estado de angústia entre esses negros. deste País e deste mundo. na vida — que certamente representa. a doença.que Guerreiro considera "uma das iniciativas de maior gravidade e profundidade na vida cultural do País"24 . adestrar os [de] cor nos estilos de comportamento da classe média e superior". e o salário de fome. pelo teatro. significa a racionalização da luta frontal contra essas barreiras. Interessa-nos destacar. Evidentemente. com o que. o preconceito e a linha de cor puseram na alma do h o m e m do povo desta cidade. não cabe discutir aqui as teorias e os passes de terapêutica catártica preconizados pela "sociatria". aos poucos. com este "achado". o baixo padrão de vida. teria de ser travada com os que propuseram originalmente tais concepções e para isto . donde lhe resulta a "ansiedade" de que o drama p r e t e n d e "purgá-lo". a de. significa. inclusive p o r q u e esta polêmica. no plano metodológico. que não fazem para "não se c o n f u n d i r e m com o tipo do reivindicador contumaz".254 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO da alma que resulta de ele representar no palco papéis que desejaria muito representar.mas que objetivamente não consegue representar na estrutura social de que participa.

poetas. jamais lhe deram u m a formulação explícita e sistemática. fonte. das preferências. Para desempenhar essa função de ideologia d o movimento negro. escritores. seu temperamento e suas ambições de encontro à realidade de classe e de raça e m que estão situados. nessa fase larvária de sua gestação como ideologia . uma bandeira de luta de forte conteúdo emocional e místico. num valor supremo para eles. dir-se-ia que eles "sentem" a negritude. na ânsia de fugir ao quotidiano. m u i t o mais sentido do que pensado. A negritude. homens de sensibilidade multiplicada pelo choque de sua vocação. portanto. ainda.está longe ainda de ganhar o odor d o suor das massas em m o v i m e n t o perseguindo uma idéia-força. e os brancos que em torno do tema fazem variações. representa. racionalizaram a sua queixa e. pequena elite intelectual da pequena burguesia negra. portanto. apenas.da qual é possível q u e n u n c a passe . sob o qual se abrigam para dizerem "sem medo e s e m v e r g o n h a " : niger sumi . de despertar. já refletindo nitidamente uma situação social mas ainda longe das massas. ou. transformaram sua cor. o que seria melhor do que afirmar que eles a "pensaram". sentido. útil como m i t o nas horas de ascensão. das pugnas. necessária como consolo e como comunhão mística entre os iniciados nas horas de adversidade. c o m p o n d o um sistema de idéias. É preciso que se diga que os próprios intelectuais negros que falam da negritude.a idéia de negritude. algo informe. dos estilos. a formulação particular que essa clique vanguardeira dá à racionalização de seu problema e ainda guarda. ao menos. que racionalizasse. vivendo sua fase larvária e indefinida. capaz de se propagar. a negritude. é que surgiu — e continua hoje em plena elaboração . que se impusesse ao m o v i m e n t o negro como um todo. das variantes pessoais dc posição social e de mentalidade dos intelectuais negros de cuja cabeça b r o t o u a idéia. pelos iniciados . muitas vezes de dissabores. subproduto ideológico da situação social de uma pequena elite de negros. das formulações pragmáticas. é u m a ideologia por vir a ser. dos esquemas de conceitos definidos. u m a filosofia da vida. cheira ao incenso místico das idéias de seita. Artistas.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 255 de se integrarem organicamente numa ideologia mais geral. q u e a formularam como corpo coordenado de idéias e interpretações sobre o p r o b l e m a atual do negro brasileiro. P o r enquanto. p o r excelência. de arrastar os homens negros com a força estimulante que têm as grandes idéias e as mensagens redentoras.a marca muito nítida dos temperamentos. que justificasse e imprimisse certa lógica a todos esses setores e iniciativas isolados de pensamento e de ação. Além disso.

o abstrato . a sentir. No momento em que lançamos na vida nacional o mito da negritude fazemos questão de proclamá-la com toda clareza.256 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO O processo... o acessório. [. embora só ho']e. por efeito dc uma pressão universal.] Apresta-se. o místico. E mais ainda: "durante muito tempo (a negritude) será uma elaboração cultural cuja fruição se restringirá a um p e q u e n o grupo de intelectuais"...d.] É uma se acha que as A negritude não é um fermento do ódio. exuberante de entusiasmo. doce e estranha noiva de todos nós brancos e trigueiros [. a agir em função dessa concepção invertida c mistificada das coisas.. Vejamos alguns exemplos de como os que escreveram sobre a negritude a ela se referem... sempre esteve presente nesta cultura (a brasileira). Não é tim cisma. (G.. "uma terapêutica espiritual". portanto. subjetividade.. com seu sortilégio. em discurso lido na sessão de encerramento do Congresso cdo Negro) [. "termo de valor catártico e psicanalítico".] (idem) É sempre neste tom que a negritude fala de si mesma: "é todo um humanismo". a pensar...] É um título de glória e de orgidho para o Brasil o de terse constituído no berço da negritude. o contingente. (assim) o país. que ainda se encontra "em sua fase . Ramos) [. a fôrma. o fundamental..é a forma pela qual o termo raça é colocado na equação. Aqui. o conteúdo.] A negritude.(Agnaldo Camargo. ingenuidade. e passase a enxergar. o concreto é o fato de a diferenciação social dentro do grupo negro ter dado lugar à formação de u m a elite. [. esteja emergindo para a lúcida consciência de sua fisionomia. paixão. Um elemento passional que inserido nas categorias clássicas cia sociedade brasileira e enriquece de stibstância humana.] A negritude. por intermédio de uma parte de sua i n t e l i g c n t z i a (o TEN) para oferecer ao mundo uma metodologia genérica de tratamento de questões raciais. considera-se essa abstração como um fato. sensualidade. O s textos escritos em que a idéia da negritude é referida são poucos 25 e em n e n h u m deles se encontra sequer uma tentativa de perfurar a névoa que a cerca e dar-lhe u m a formulação clara do que ela pretende ser. " u m a comoção idiossincrática do universo". " u m a superação do imperialismo antropológico e sociológico". essa sensibilidade e alma do negro debruçada sobre os problemas do universo [. Uma vivência. mistério.. (idem) [. é o mesmo da formação de todo mito. Esta é a nossa profunda convicção. que luta contra a linha de cor e para ascender nos quadros sociais existentes. retirase dos fatos u m a abstração.

Esse característico. para libertá-los "do medo e da vergonha de proclamar sua condição racial".ASSOCIAÇÕES DE N O V O T I P O 257 heróica. à dança. q u a n d o o nome brotou do berro. a negritude significa uma fuga do quotidiano e um refúgio no fantástico. apresentada ao Congresso do Negro. T u d o pré-existia. portanto.especialmente às artes e à literatura . e. às artes. em conseqüência de atributos específicos de raça. de uma "cosmovisão". como diz Guerreiro. bebendo. Nesse sentido. percebe-se. aquele que é sentido por alguns intelectuais negros e que querem se servir da idéia da negritude como "verdadeira terapêutica espiritual". a ganhar as plumagens verbais que lhe dariam. pesando-o e discutindo. para obterem "a libertação do medo e da vergonha de proclamar sua condição racial" (sic). com suas respectivas esposas. o problema é a b o r d a d o do ponto de vista particular da estética. grita: Viva a negritude! Fez-se silêncio e todos passaram a meditar sobre o significado do termo. Estava descoberta a palavra que serviria para batizar a racionalização de seu problema quotidiano e. erguendo o copo de cerveja. aliás. Abdias c Guerreiro. na mente dos iniciados. 28 Na tese de Ironides. como dissemos. à poesia. Ironides. em suma. perante o Congresso do Negro. que a idéia da negritude é m u i t o mais sentida do que pensada pelos q u e falam dela e exprime. veio vestir u m a situação já existente e concreta na ordem dos fatos. como u m a mística de libertação subjetiva.. E essa aplicação consiste cm afirmar que o negro. c o m e n d o . sobre c o m o a palavra foi encontrada: certa noite. 26 Através dessas expressões enfáticas e rebarbativas. divertiam-se em família.". 27 Essa "terapêutica" atua por meio dc u m a supervalorização puramente sentimental da contribuição do negro à civilização brasileira .um pathos. cantando e dançando. semelhante à judaica. na casa de u m deles. pois os homens que vivem o s e u p a t h o s s í o uns solitários. tem u m a sensibilidade hiperdesenvclvida. alguém. são criaturas paradigmáticas. dc idéia revelada. transparece um pouco. A certa altura. levado pelo entusiasmo do momento. da narrativa feita por Ironides Rodrigues. . que o predestina à música. a envergadura de uma concepção do m u n d o .mecanismo de compensação de tudo quanto resulta de adverso ao intelectual negro em conseqüência da linha de cor na sociedade em que ele vive.. ao canto. passando. daí por diante. à literatura. antes de mais nada — como diz com muito acerto Alberto Guerreiro Ramos .

religiosas e recreativas. Por isso é que a idéia da negritude pode ser. por excelência. já assinalamos. cachaça no buxo e viola na mão". seu poder d e propagação. das quais resultou sua característica contribuição à cultura d t f o l k no Brasil — outra ordem dc fatos que. este tem t a m b é m sua atração. não só impediu que sua contribuição civilizadora fosse. que. pouco floresceram. f o r m a que. aqui como nos Estados Unidos. esse exclusivismo. aparente e ilusória à "estética da negritude". precisamente a mesma falsa interpretação do problema que leva os negros entusiasmados com a idéia da negritude a exalçar um extraordinário pendor musical que enxergam na raça — esse mesmo pendor. E como todo estereótipo. que ficaram embotadas. aqui. pelos seus característicos de violentação física e cultural do negro. N ã o é por mera coincidência. desligados de seu enquadramento real e histórico. também. marcante e diversificada noutras direções. Neste sentido. O pendor para as artes e o traço marcadamente sentimental da contribuição do negro ao cadinho de civilizações que a história criou no Novo M u n d o não são traços ou atributos específicos do negro como raça. a negritude e a antinegritude confraternizam-se em t o r n o da mesma visão errada e racista do problema.é apontada pelos estereótipos da sociedade branca como prova de que "negro não dá mesmo para outra coisa". servem aparentemente para confirmar aquele ponto de vista. aqui. também. C o m o se vê. traz uma confirmação faiaz. que atua até sobre os próprios rivais da idéia. que marcou e marca até hoje sua trajetória e a de seus descendentes nas sociedades nacionais de que participa neste continente. o que torna relativamente fácil à tese encontrar em nossa história exemplos que. Prova disso é . desligada de seu contexto. igual e falsamente interpretado nos mesmos termos da tese da negritude. em conseqüência das condições adversas de sua transplantação para a América como escravo. "negro só está contente com chicote no l o m b o . aliás. em última análise. essa preeminência do sentimental na contribuição do negro às civilizações do Novo Mundo significa mesmo u m a deformação e uma limitação sociais e históricas das suas potencialidades. como até forçou que ela só se pudesse realizar desta maneira. isto resultou da forma social e histórica particular através da qual o negro destribalizado foi introduzido na América.258 182O N E G R O N O R I O DE JANEIRO Já assinalamos a significação disso tudo como via dc ascensão social do h o m e m de cor na sociedade brasileira. ou melhor. como traço intrínseco à raça e "paideumático" . diagnosticada como um grande e perigoso estereótipo de um grupo de intelectuais negros a respeito do negro. que as associações tradicionais do negro brasileiro foram.

que certamente seria acoimada de racista pela opinião branca. existem e funcionam hoje. em outras tantas frentes nas quais a elite negra leva a efeito a sua luta p o r u m lugar no espaço social ocupado pelas classes média e superior da sociedade brasileira. Embora seja quase certo que os líderes de cada uma discordem dessa opinião. mais elaborado. idéia que não foi avante em conseqüência da oposição dos que julgavam prematura e perigosa a iniciativa. nem pretender as complicadas sutilezas daquela concepção. em conseqüência de uma proposta de delegados dos negros de São Paulo. A verdade. de ênfase maior ou menor q u e cada uma dá a este ou àquele aspecto ou consigna na luta c o m u m q u e estão travando contra o q u e c h a m a m "a herança da escravidão". assim. mesmo sem assumir essas f o r m a s doutrinárias. prepara-se agora (março de 1952) para lançar em circulação um periódico que se chamará — A voz. p o r t a n t o . representa. ampliada p o r Abdias Nascimento. contra as barreiras objetivas e subjetivas q u e encontram nos costumes e nas instituições. N o último certame.29 A idéia da negritude. e m cujo seio começou a elaboração de seu enunciado. do T E N . 30 As diferenças. chegou-se a discutir a criação de uma Confederação Nacional de Entidades Negras. na prática. do ângulo da análise em que aqui sío observadas. líder que foi dos que mais combateram este grupo durante o Congresso do Negro. aliás. da negritude. é que. outras associações da categoria destas que aqui chamamos de novo tipo e que resultam. a verdade é que.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 259 que um dos líderes negros que mais se revela avesso ao grupo da negritude. e c o m o cristalização ideológica. o subproduto mais sofisticado. entre todas elas as semelhanças são m u i t o maiores do que as diferenças e não seria m e s m o impossível vê-las. no Rio de Janeiro. Iniciativas como a Conferência Nacional do Negro (1949) e o I o Congresso Brasileiro do N e g r o (1950). no futuro. exatamente p o r isto. são de nuança. como meios de acerto das diferenças e como etapas de progressiva identificação dos objetivos c o m u n s . esse grande estereótipo de alguns negros a respeito do negro. em certo sentido. m a r c h a r e m para uma fusão estrutural em t o r n o d o que têm de comum nas origens e nos objetivos. p o r é m . em particular. Essas outras associações têm seu fundamento sociológico precisamente nas mesmas condições de m u d a n ç a estrutural que ressaltamos a p r o p ó s i t o do T E N : são água da mesma fonte. das mudanças em processo n o quadro das relações raciais 110 Brasil e. mais sutil e. nas quais as discrepâncias entre as associações negras vêm à tona. . no Rio de Janeiro. servem. às vezes em tom amargo. Seu estudo havia de ser feito ao lado.

José Bernardo. como há entre alguns intelectuais mais sensíveis do T E N . as atitudes e as intenções do dirigente do T E N . aliás. de outro. n e n h u m receio de serem confundidos . o caráter de competição. N a verdade. Apesar disso. refletem uma atitude de maior sobriedade. característica dos negros evoluídos de outra geração. o que acontece é que há. Uagacê.2 6 0 1 82 O NEGRO N O RIO DE JANEIRO nas atitudes e nos estereótipos dos brancos e nos hábitos e na mentalidade dos próprios negros. c o m o tipo de atividades a que se d e d i c o u .31 O primeiro. em que toda a matéria do anterior era reproduzida com exceção d o referido artigo. às vezes. nem o m ú t u o combate é a tarefa essencial a que essas associações se dedicam. o próprio José Bernardes. Muito ao contrário. moral e cultural d o negro. tirar aquele n ú m e r o de circulação. os gestos oficiais de cordialidade são freqüentes. por exemplo. a União dos Homens de Cor. neste ponto. e a ambição de liderar não permite romper. O T E N atraiu principalmente. os intelectuais. orientador da Uagacê. depois de sua atitude n o Congresso do Negro e do bloqueio que teve sua tese por parte dos outros elementos. a segunda nasceu e se mantém mais propriamente como associação. principalmente. resolveu. os artistas. não raro tem-se mesmo a impressão de certa emulação entre elas. Q u a n d o . mas isso não acontece necessariamente sob a forma de pugna franca e hostilidade aberta de u m a contra a outra. foi u m grupo teatral que se tornou grupo de pressão. p o r o u t r o lado.de um lado o T E N e. o passado. definiu-se a si m e s m o como "uma espiritualidade". em relação aos líderes d a Uagacê. os escritores. escreveu n o seu j o r n a l Himalaia um artigo de fundo sob o título O congresso do negro Abdias. f o r t e m e n t e critico quanto à pessoa. os estudantes. Essas diferenças entre as duas associações têm assumido. Não há isso. E o que visivelmente se nota no que distingue os dois principais órgãos de liderança do negro n o Rio de Janeiro atualmente . como vimos. A Uagacê recrutou e atraiu mais outros setores sociais da população negra e nela parece não haver. por via. em relação aos "intelectuais" do T E N . como não poucas vezes acontece em situações semelhantes. os dirigentes do T E N não escondem uma noção de superioridade e certo desprezo pelos "reivindicadores contumazes" e pelos processos de luta q u e adotam. uma profunda desconfiança por parte dos dirigentes da Uagacê que. dias depois. da assistência social. q u e desde o primeiro dia de existência proclama ser organização destinada à ação contra o preconceito de cor e pelo alevantamento material. lançando outro em seu lugar.

e do estilo de luta —.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 261 com o tipo de "reivindicador contumaz".. sabem bem porque são e parecem dispostos a continuar sendo enquanto lhes for possível. ou então: "Já estamos em tempo de fazer pelo negro alguma coisa de mais objetivo". jornalista José Bernardo da Silva. Para isso. medicamentos etc. preocupa-se mais diretamente com ela e aponta como solução para o p r o b l e m a do negro a assistência social. que resultam do fato de a Uagacê ter praticamente nascido no seio do "Centro Espírita Jesus do Himalaia" com sede em Niterói. calçados. Ao lado das diferenças de composição. alimentos. Ao lado disso. no estilo das agremiações de caridade e assistência. como meio de atender aos seus problemas imediatos de miséria econômica e social. José Bernardo da Silva apresentou uma tese na qual surgiam exclamações como estas: "Basta de congressos culturais". com o que se chama "a vivência ingênua" d o negromassa. o estilo de trabalho do T E N mais facilmente congrega pessoas de orientação filosófica a mais diversa. que se aproveita. principalmente. Por outro lado. um órgão cultural. há. às vezes bastante acre. enquanto que a Uagacê. combate a toda e qualquer original). mas não se quer confundir. cabendo ao presidente. a União apresentou ao Congresso: 1. discriminação racial (grifado no . que está mais próxima desta "vivência". costuma organizar caravanas que visitam bairros e cidades vizinhas promovendo a distribuição de roupas. associação religiosa à qual a Uagacê tem seu destino fortemente ligado: o líder d o C e n t r o Espírita. que provocaram forte reação. é o "orientador" da U n i ã o e age como seu prestigiado mentor. Joviano Severino de Melo. O que de "m ais objetivo" a Uagacê propõe vem indicado nas propostas que. e outras dessa natureza. diferenças de mentalidade. no q u e se refere à "linha tática". a Uagacê dedicando-se mais às reivindicações imediatas. a principal diferença entre os dois organismos reside n o fato dc o T E N pretender ser. e c o m o resultado dessas discrepâncias. sob a forma de discussão. de aplauso para uns. a parte mais executiva e o que se poderia chamar "relações c o m o público". Essas discrepâncias de tática vieram nitidamente à tona n o Congresso do Negro. por intermédio de seu "orientador". também. contumazes na reivindicação. o T E N atraindo mais os setores intelectuais da p e q u e n a burguesia negra . às populações pobres. Os homens da Uagacê são. de condenação para outros. de fato.

32 financiar A última proposição que é a chave de todas as outras. escolhidos pela sua elevação cultural e seus princípios humanitários e cristãos. incrementar-e difundir a alfabetização das crianças. a bolsa recheada) de alguns homens ricos e poderosos (e. donde sairão na prática os meios materiais de levar à aplicação o plano assistencial apresentado.determina. como vemos. nos sertões e nos litorais. a Uagacê desempenha também uma intensa atividade c o m o grupo de pressão. o dia da assinatura da Declaração Universal dos Direitos do Homem. por excelência. pequenas cooperativas de víveres. como atividade prática. providenciar sobre a criação de u m órgão econômico capaz de devidamente os empreendimentos indicados. criação de grupos educacionais sob a orientação de competentes educadores sociais. postos médico-assistenciais. Ao lado disso. cultural e moral ao negro de qualquer nacionalidade. provavelmente. quando a firma norte-americana Sydney Ross recusou-se a aceitar uma candidata a emprego por ser de cor. condição social. agitou o problema.262 182O N E G R O N O R I O DE JANEIRO 2. todos os anos. acompanhado de fotógrafos e jornalistas. crença política ou religiosa. 6. fundação de escolas. a começar pelo âmbito familiar. adolescentes e adultos do grupo étnico afro-brasileiro. na tese. Recomendava-se ainda. 5.. obviamente. assim. e a qualquer membro dos demais grupos étnicos desde q u e n ã o sejam i n i m i g o s d o s negros ( g r i f o d o Autor). não avança detalhes sobre o modus faciendi da criação desse órgão econômico financiador das iniciativas.] do que anda por aí com o nome de Estado Nacional". de "tocar os corações bondosos e os espíritos construtivo e humanitário (e. dentro dos quadros sociais existentes e por eles rigorosamente respeitados — impõe-se. brancos).. os meios eleitos para enfrentá-los e a assistência. deu entrevistas. roupas e calçados nas favelas. 33 A categoria de problemas que a Uagacê reputa como mais importantes para o negro . A Uagacê comemora. trocou correspondência com o gerente da empresa e levou-o a afirmar em carta que não fora aquela a razão da recusa de admissão da jovem escura. seus dirigentes participam ativamente do C o n s e l h o das Organizações Não- . No corpo da tese as únicas indicações a respeito q u e p o d e m ser encontradas sobre o assunto referem-se h necessidade. 3. 4. da associação. que isto devia ser feito "sem o auxílio direto [. amparo material. Assim. também. com solenidades públicas. para reunir os meios. Joviano compareceu à firma.

ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 263 Governamentais. feita "sob a invocação de São Benedito e dos Santos Protetores". a publicação do jornal Himalaia?* e as cartas. mantendo-se mais.. também. no sentido dc c o m b a t e r a linha dc cor. e nos distintivos que seus m e m b r o s usam no peito. finalmente. c o m o movimento de cúpula q u e é. esquecendo o que ele sofre aqui mesmo no Brasil. Recentemente. nos quais as figuras que aparecem são todas brancas e nenhuma negra. . reunida cm Paris. uma branca. a q u e m foi agradecer a sanção da lei que considera crimes comuns os atos de discriminação racial. Desde sua fundação em 1949. o u t r a preta. A elas sc junta. a Uagacê é extremamente formal e exigente na escolha e seleção de seus membros. o n d e colocam sempre na ordem do dia o p r o b l e m a do combate ao preconceito racial. q u e comparece na bandeira. ao contrário das outras que nisto são mais liberais e até descuidadas. patrocinado pelo Escritório de Informações das Nações Unidas no Rio dc Janeiro. obteve u m a audiência do Presidente da República. é formado p o r duas mãos entrelaçadas. e protestaram c o n t r a o fato dc não haver negros na carreira diplomática." (a negra e o português). telegramas. c o m ironia. preenchem fichas e prestam informações antes de serem admitidos. a Uagacê não tem ampliado muito os seus quadros associativos. ocasião em que subscrevem u m compromisso solene de lutar contra a discriminação racial. especialmente contra a ausência dc negros na delegação brasileira à última Assembléia das N a ç õ e s Unidas. Neste sentido. onde um delegado brasileiro branco discursou contra a opressão do negro na Aí rica do Sul. p o r força da dedicação de seus próprios dirigentes que absorvem toda a vida da associação. que sofrem sindicância. na mesma oportunidade os líderes da Uagacê concitaram o Presidente da República a nomear um negro Ministro de Estado. 35 O símbolo da União. entrevistas. panfletos com que os seus dirigentes protestam e reagem toda vez que têm c o n h e c i m e n t o de qualquer manifestação d e preconceito ou discriminação racial. Na ocasião protestaram. nos papéis oficiais. Pstcs são apenas alguns exemplos das diversas formas pelas quais a Uagacê exerce sua função de g r u p o de pressão. seu orientador. representando a confraternização das duas raças e que Joviano.. manifestos. interpreta como sendo " m i n h a M ã e lavadeira e meu Pai quitandeiro. acompanhado d o presidente da associação. abaixo-assinados. contra os cartazes oficiais distribuídos a propósito da data de l1' de maio. para demonstrar que seu governo não é racista.

corte e costura. d u r a n t e certo tempo. no Rio de Janeiro. 36 O presidente da União Cultural. d e nível mais elevado. A verdade. alfabetização de adultos etc. comentava fatos relativos ao alevantamento d o nível social dos homens de cor e ao combate ao preconceito racial. que assinala e reflete as novas situações de tensão racial surgidas no Brasil em conseqüência das mudanças sociais em progresso.deliberadamente ou não — a União Cultural. Em certo sentido. com os cursos q u e pôs em funcionamento. não deixou de demonstrar certa dose de autocrítica e realismo em face das necessidades d o meio e das suas possibilidades de atuar dentro dele. em que pesem as discrepâncias. seção que se intitulava A voz do negro. No ano corrente (1952) esta associação instalou-se em nova sede e deu início aos seus cursos de culinária. N ã o é por acaso que tais cursos constituem o pesadelo de muitas donas de casa. ora em tom de protesto. Os cursos de corte e costura. p o r é m . representam u m a prova do foco de atração que são de fato para as empregadas domésticas.264 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO Primitivamente um apêndice da Uagacê. é que . funcionando por toda parte — cada bairro da cidade com quatro ou cinco deles sempre cheios. professor secundário. por exemplo. C o m o ficou dito. a maioria delas de o r d e m personalista. com horários n o t u r n o s e preços módicos . manteve uma seção permanente num diário do Rio de Janeiro. em nossa presença. O assunto serviu até de motivo para pilhérias e expressões irônicas por parte de intelectuais negros. .. José Pompílio da H o r a . na qual. ora em tom de lamento. Seu contato com a massa negra ainda é mais reduzido e esta associação quase que se tem reduzido a um círculo de amigos.. Hoje a União Cultural tornou-se independente. hoje. dirigida pelo Sr. existe também no Rio d e Janeiro a União Cultural dos H o m e n s de Cor. que aí encontram hoje sua principal oportunidade de mobilidade profissional. t a m b é m candidato a vereador nas últimas eleições. a natureza dos cursos abertos pela União Cultural deu causa a certa desilusão para alguns elementos negros que dela esperavam outra espécie de atividade orientadora. compreendemos melhor as verdadeiras perspectivas das associações de novo tipo do negro brasileiro contemporâneo quando as observamos do p o n t o de vista de como todas elas reunidas formam um movimento.. que as distinguem e separam.

u m a deliberada e interessadíssima omissão voluntária. p. nem muito m e n o s indiferença tranqüila. segundo diz. que é uma p e r m a n e n t e racionalização poética. especialmente seus excelentes Quatro ensaios sobre Cruz e Souza. C f . teve primorosa e d u c a ç ã o e t r a t a m e n t o dc menino rico. toda ela m a r c a d a . A poesia afro-brasileira ( 1 9 4 3 ) . 13 e 14 de maio de 1888 e o m o d o c o m o a Abolição entrou no diário de s e u p e r s o n a g e m quase à força e. leiam-se os registros d o s dias 7. Provavelmente. em toda sua biografia e em diversas mostras de sua bibliografia. C r u z e Souza em outros idiomas. feita por mão de g ê n i o . por exemplo. Roger Bastide. m u i t a s vezes. 5. Parece ser.. n. p. Quilombo. tendo que ganhar sua subsistência como repórter e pequeno f u n c i o n á r i o . C r u z e Souza viveu na adversidade e morreu tuberculoso. essa teria sido u m a das razões da fraca originalidade do que ele c h a m a "a poesia afro-brasileira". o p . n. às vezes. R o g e r Bastide. Machado d e Assis m o s t r a . com certeza. pelo c o n t r á r i o . sinais deste estado de espírito. 1950. 17-19.1 2 8 . resta-nos. ele se refere à criação escrita e erudita. D o mesmo a u t o r ver Naissance de la poésie nègre au Brèsil. Essa omissão não significa desinteresse. a caracterizarse.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 265 Para coroar esta análise.pois tinha como função social útil à m i n o r i a negra que a criava permitir a ela sentir-se branca pelo fato de imitar o b r a n c o . muito da amargura q u e está presente na sua poesia reflete t a m b é m a sua situação particular e pessoal de deelassé. principalmente pela omissão em relação a tudo que l e m b r a s u a condição étnica e que sugira a c o n d i ç ã o social em que está a massa esmagadora d o s ex-escravos. não à oral e folclórica. é u m d e p o i m e n t o . a contragosto. E m certo sentido. 4.. especialmente p. d o quotidiano amargo dc um negro evoluído da antiga elite negra. No Memorial de Aires. C o m o falecimento de seu p r o t e t o r e especialmente na fase de sua vida d e c o r r i d a n o Rio de Janeiro. cit. finalmente. 5 Essa tristeza digna. Présence africaine. essa sobriedade como condição de status. O b v i a m e n t e . 215 e ss. toda ela feita à luz desta hipótese fundamental. leva. que estavam muito mais p e r t o deles do que da elite negra de hoje. "pelo estigma da i m i t a ç ã o " . p o r o u t r o lado. em c u j o bojo ocorrem e se explicam os fatos que hoje caracterizam a situação racial brasileira. Notas Segundo o Prof. atitude que se t o m a c o m o marca externa e ostensiva de status s u p e r i o r . R o g e r Bastide. . 2 1 Cf. p o i s C r u z e Souza. a n o II. 7. p. ' Escusado é dizer q u e a biografia do poeta Cruz e Souza justifica p l e n a m e n t e e até impõe essa maneira de i n t e r p r e t a r a sua obra. 4 Ironides Rodrigues. filho de um escravo e d c u m a mulher livre. escravidão da qual muitos deles foram c o n t e m p o r â n e o s . jan. n e m indiferença. A omissão nestes casos. lançar uma vista de conjunto sobre este problema das tensões sociais. o homem de cor que na geração passada a: cendeu intelectual e socialmente. que lhe foi d a d o pela família dc quem seu pai f o r a escravo. 8 7 .

134-139. p. V. mas aqui. sem discutir a eficiência terapêutica do c h a m a d o "sociodrama". Quilombo. é o título dc u m livro dc versos. O filho pródigo. embora tenham significado cronológico. " Para conceituação e análise d o s grupos de pressão e do seu f u n c i o n a m e n t o nas tensões raciais. obra de estreia do poeta c sociólogo d c cor. aliás. 1950. fundamentalmente. 1 9 5 0 . Moreno. O drama de ser dois (1937). Todos os filhos de Deus têm asas e Moleque sonhador. Exposição das atividades d o T E N . Alberto Guerreiro Ramos. Edições Q u i l o m b o . Filhos de Santo. 6. por falta de recursos para custear a impressão. através das quais vêm à tona depoimentos a respeito. ano I. q u a n d o aqui as empregamos. . de Morais Pinho.266 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO '' Esse. fev. L a m e n t a v e l m e n t e . O . Calígula. de Lúcio C a r d o s o . 8. Auto da noiva. pois a distinção repousa. aliás. algo semelhante às expressões novas e antigas classes médias já sociologicamente consagradas.6 3 6 . o folheto Relações d e Raças no Brasil (1950). queremos destacar como ele reflete. discurso de instalação da Conferência N a c i o n a l d o Negro. O s grífos estão n o original. em variantes d e estado de espírito. nas situações d c conflito e nas lutas de prestígio ganham m a i o r liberdade de expressão c usam de u m a f r a n q u e z a rude ao se manifestarem a respeito dos líderes e movimentos concorrentes. J r . 11. de Joaquim Ribeiro. O n e g r o no Brasil e um exame de consciência. engendradas por m u d a n ç a s operadas no contexto total das relações de raças. Key.1 7 Cf. 6 3 4 . dc 0 ' N e i l l . o mesmo fenômeno e a mesma função no q u a d r o das relações de raças. f u n d a m e n t a l m e n t e . n. . como meio dc alcançar o q u e Guerreiro chama de "desrccalcamcnro em massa" c da "purgação" psicológica. de Rosário Fusco. mai. 13 Alberto Guerreiro R a m o s . 9 . esra coletânea de discursos não p ô d e circular largamente. c h a m a n d o A atenção para aspectos que passariam muitas vezes desapercebidos ao observador d e fora. E m b o r a representem. n e m c mesmo o mais importante. 1. n. 35-36... diretamente. Contatos raciais no Brasil. Espirito e filosofia do teatro experimental do negro. esse significado não é exclusivo. cf. a existência desse d r a m a social. passim. de J. e b e m assim a bibliografia selecionada q u e o autor apresenta. Alberto Guerreiro R a m o s . p. privando os estudiosos e interessados de curiosíssimos depoimentos s o b r e as feições ideológicas assumidas por cerra corrcnte do movimento social negro no Rio d e Janeiro. Foram encenadas as seguintes peças: Imperador Jones. H 15 12 in: Quilombo. Relações de raças no Brasil. parties andpressuregroups ( 1 9 4 8 ) . editado pelo j o r n a l negro Quilombo. q u e r e m a r i a cm época mais recente aplicar entre os negros do Rio de Janeiro as técnicas psicolerápicas d e j . * Cf.1 2 . mesmo nas próprias opiniões que líderes d e umas associações fazem sobre líderes de outras. Abdias Nascimento. cit. 1. in: op. Politics. d o m e s m o autor. de C a m u s — e n t r e as principais. p. 1949. dez. especialmente p. As expressões novas elites c antigas elites.. 9 Essa concepção transparece. A maior parte desses d e p o i m e n t o s p o d e ser encontrada em números diversos de Quilombo. ano II. Aruanda. Neste sentido elas e x p r i m e m . 1948. passim. p. que hoje também está c o m sua circulação interrompida por falta de meios. D e n t r o em pouco teremos cie voltar c o m mais vagar ao assunto.

para t e r m o s o bom meio social que possam substituir os a n t r o s dc perdição. 6.s e com a apresentação social dc nossa raça". p o r exemplo. Quilombo.. jun. para termos as nossas casas. p o r e m . Nossa vida cívica advém de nossa p r o s p e r i d a d e econômica. E adiante. ano I. l a m e n t a n d o o fato de os negros votarem e m c a n d i d a t o s brancos. i n t e i r a m e n t e fora de suas perspectivas. Isto significaria que a votação deAbdias beneficiaria a legenda do partido. nessa mesma crônica i n t i t u l a d a Plebeus c patrícios. horas de decentes distrações. c h e g a m o s a u m a conclusão: nada conseguiremos sem os nossos legítimos e fieis representantes nas várias casas do congresso. s e m p r e d e n t r o de uma grande moral e ordem" (Artigo d e 2 8 / 1 0 / 4 9 ) . principal financiador das atividades do T E N .. " p r e o c u p a n d o . 17 C f .. por exemplo. E c o n d e n a . n u m a crônica intitulada O voto é a nossa vitória: "Depois de muito pensar. e m seguida.. D u r a n t e os preparativos e a propaganda eleitoral t o d a a p u b l i c i d a d e em torno d e A b d i a s preparava sua eleição para vereador municipal. Candidatos negros c m u l a t o s . responsabilizando o que ele chama de "complexo dc incapacidade" pelo fato de os negros n ã o terem "carros de luxo". diz textualmente: "Na hora das eleições os nossos votos perdem logo a cor negra.. "cheios de estampados ou de cor vermelha [. j u n t o s c o m nossas famílias. os nossos a p a r t a m e n t o s em todos os edifícios. reproduzido em panfletos de p r o p a g a n d a eleitoral sob o título Os negros e a eleição de Abdías Nascimento e. José Pompííio d a H o r a . Ainda noutro artigo (9/11/49).. Noutra crônica ele fala na necessidade do negro de "vestir-se h i g i e n i c a m e n t e d e acordo com sua cor"[ ]. a n o II. A b d i a s desinteressouse de sua p r o p a g a n d a já nas vésperas do pleito c nem sequer foi ao T r i b u n a l Eleitoral fazer a regularização final de sua inscrição. intitulada Aspecto real da vida. fev. Nós c a sucessão.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 267 .. 1950. Vejam-se.. um escritório eleitoral. montou. 1 1. por exemplo: "Utilizando os recursos da c u l t u r a e do saber.". p.. apela para os negros nesses termos: "devemos ter mais brilho. neste período. E adiante. Quantas lojas d e cidadãos negros temos? Quais os armazéns o n d e trabalhe o negro sendo ele proprietário? Q u a n t o s bares ou casas dc móveis de q u e ele é d o n o ? Precisamos de tudo isto. 3. "bailes". 1949. nas vésperas das eleições. os cabelos esticados das moças e rapazes negros. para elegerem os magos da nossa n u n c a alcançada igualdade. essas palavras de P o m p í l i o da H o r a na coluna "A voz do n e g r o " . " A e s p e r a n ç a n o voto empolgou realmente os líderes negros d a classe média nas eleições de 1 9 5 0 .. na sua coluna "A voz do negro". Este anseio está sempre p r e s e n t e nas linhas ou nas entrelinhas d o q u e escreve. as listas d o s candidatos do partido a deputados e vereadores. P o m p í l i o d a H o r a volta ao assunto. que exige quociente eleitoral m a i o r . "casa própria" . I. Em face disso. para isso u m industrial branco candidato a d e p u t a d o .. N ã o temos u m c l u b e social onde possamos passar. p. p . devemos ligar em sermos dignos de nossos irmãos brancos". n. Ao se divulgarem.r ' I d e m .. o artigo dc Abdias do Nascimento. ainda no m e s m o periódico. I. mas não teria a m e n o r possibilidade real de elegê-lo. A b d i a s fora incluído entre os c a n d i d a t o s a deputado. j u n t a m e n t e c o m A b d i a s . de toda u m a classe: o setor intelectual da pequena burguesia negra. Escusado c dizer que isto não representa apenas u m a opinião ou aspiração pessoal do diretor do T E N . N u m a crônica.] q u e n ã o correspondem à tonalidade d e stia cor". " f o r m a t u r a " etc. (sic). para sermos negociantes. n. diz ele. . mas a aspiração coletiva de todo um setor. os trajes berrantes.

e Teoria e prática do psicodrama. recolhidas pelo Autor em entrevistas. 4. num jornal negro. principalmente. 1950.268 O N E G R O N O RJ O DE JANEIRO fraternidade e justiça". O complexo desapareceu. 1950. n. Ele se refere explicitamente ao que chama "exibições de n u d i s m o " . infelizmente. 6. fev. j u n .portador de complexos ligados à a p a r ê n c i a da raça. 6. ele pensou por muito t e m p o q u e era uma prova de imitação de branco e d e autodesesrima étnica. em t o r n o dos quais existem cm nossa sociedade m u i t o s estereótipos menosprezantes.. 1 9 4 9 . j a n . parece indício muito expressivo das reações psicológicas que estão surgindo em face do novo esquema da situação racial. c o m privações. por exemplo. Quilombo. 1950.. A estética da negritude (1950).. Barbosa. o cronista promete aos leitores um s e g u n d o artigo. jul. ano II. mas libertou-se desse c o m p l e x o pensando que quando u m a m u l h e r branca o n d u l a o seu cabelo está i m i t a n d o a negra. Assim. e d u c a teus filhos. a sua principal f o n t e . fcv. p. só eram ventilados por brancos e sempre com intenções depreciativas. n. os relativos ao cabelo cncarapinhado e ao cheiro de seu corpo. de sua atuação. 1949. náo encontramos em nossa coleção do jornal. q u e . n. para o Autor. 9. n. educa-os para o bem do Brasil" (artigo dc 9/ 10/49). 11. s e g u n d o ele diz. ano I. dedicado especialmente a ele. 24 Qiiilombo. 6-7. é sempre supervalorativa a linguagem desses líderes quando falam do m o v i m e n t o . p . 5. 25 Cf. a crônica intitulada Da beleza racial.embota em processo dc superação . n. Aliás. N o seu artigo o jornalista João Conceição discute f r a n c a m e n t e que. tese ao I o C o n g r e s s o do Negro Brasileiro. razão para o complexo. Cf. n. como. intitulada Mora. quando verificou que m u i t o s brancos tinham também o tal desconcertante odor. . cm regra. O u t r o complexo semelhante. por exemplo. p. C o m o voto mostraremos. d e que o jornalista se confessa vítima. maio. por exemplo. elegendo nossos irmãos. se declara . acrescentando: "Estamos fartos de h u m i l h a ç õ e s oriundas de todos os lados e não recebemos com agrado aquelas vindas e p a t r o c i n a d a s por nós mesmos". E. Cf. Escusado i dizer q u e a discussão franca c aberta de tais problemas. ano I. O alisamento do cabelo. alem das notas e i n f o r m a ç õ e s dc conselhos de beleza cm diversos n ú m e r o s do jornal Redenção. p. id. no artigo citado. 7. ano II. o p r o t e s t o contra esses concursos constitui tema de u m a das citadas crônicas de Pompílio da H o r a . c o artigo Revelações rogerianas. onde ele diz enfaticamente: "Repelimos estas iniciativas por considerá-las ofensivas e afrontosas para a família negra brasileira". p. e q u e t a m b é m diz ter superado. Quilombo. Ironides Rodrigues. 22 23 21 Quilombo. U m a experiência de grupoterapia. . era o ligado ao que ele chama de "odor desconccrtante" dos negros. id. Sobre esse segundo complexo. O cronista. se temos ou não consciência dos s o f r i m e n t o s espirituais a que somos sujeitos e das h u m i l h a ç õ e s que a cada passo se deparam a n t e nós". n o u t r o tempo. 20 D e geração mais antiga e de moral mais conservadora... Os vivos debates q u e neste conclave foram travados na n o i t e e m que esta tese foi discutida e aprovada representaram. Apresentação da g r u p o t e r a p i a . finaliza: "Minha raça. E conclui: " O voto é a nossa vitória. aliás. 6. 6. feita por um escritor negro. 3. 1950. alem d e algumas manifestações verbais de desagrado.... portanto. 9. embora com sacrifícios. O voto é o sol da nossa integridade moral e cívica. p. dramático. dc seus pró-homens. não havendo. d o jornalista negto João Conceição. de suas criações e. assinada por J.

6 d e abril d e 1 9 5 2 . através dc um artigo. dos estados d e espirito. 26 Essas variações não muito claras sobre a negritude. aliás. C f .s e n u m artigo recente em que G u e r r e i r o faz o necrológio de Aguinaldo C a m a r g o . porém. cit. portanto. mártir e príncipe da negritude. seu a r t i g o U m herói da negritude. para explicar u m a atitude específica de um grupo ctnico d i a n t e d a vida social. Observa-se. num documento daquela o r d e m . loc. 29 Em entrevista c o m o Autor. por assim dizer. o desdobramento de u m a seção p e r m a n e n t e que Joviano mantém no jornal Himalaia. u m compromisso entre orientações diversas. d e que. historicamente colocado e m situação desfavorável em q u a l q u e r sociedade nacional existente no m u n d o . A Declaração final. no correr dos debates. a Declaração reflete. senão o conteúdo. sob o título dc "A voz d o n e g r o " . ao m e n o s a sonoridade da palavra negritude c o m e ç a a p r o d u z i r os seus efeitos de propagação c a captar prosélitos. O r f c u Negro. das discussões e manifestações verbais d o s q u e esposam a idéia.coincidem os resultados de q u a l q u e r análise séria e honesta da situação racial n o Brasil. Notese que Aguinaldo m o r r e u atropelado por um automóvel ao atravessar u m a rua do bairro em que morava. d c q u e m estamos falando. U m h e r ó i da negritude. u m dos seus melhores artistas . De resto. Além desse artigo a maior p a r t e d o material existente só pode ser apreciado através d e observação direta e participante das opiniões. dirigido pelo jornalista negro José B e r n a r d o d a Silva. A. e n c o n t r a m . para ele. não tem o sentido q u e lhe e m p r e s t a m os dirigentes do movimento d o T E N . 11. declara que os problemas do negro brasileiro são u m a parte dos problemas do povo brasileiro em geral e que só assim podem ser encaradoseresolvidos. jun.e que é ali apreciado como um herói.. Alberto Guerreiro R a m o s . Cf. p o r t a n t o . loc. 1950. 10.. Joviano Severíno d e M e l o . Apresentação da negritude. Ramos. r e c o n h e c e u ter sofrido alguma influência d o existencialismo de Sartre. feitas q u a s e à moda de devaneio. 27 28 Cf. id. Q u e r significar loletividade negra.ASSOCIAÇÕES DE NOVO TIPO 2 <59 direta de observação sobre o significado sociológico da n e g r i t u d e .. o Sr. atitudes. parece n ã o h a v e r dúvida d e que uma formulação tão geral c o m o aquela é aplicável ao problema d e qualquer g r u p o étnico. c o m o a invocação de fatores biológicos. [como] palavra. cit. antes de mais nada. c o cerne e o n ú c l e o d o racismo cm qualquer variante o u m o d a l i d a d e . . também. Um herói da negritude. comissário de polícia e ator do TEN — aliás. N ã o resta a menor dúvida. entre outras recomendações e afirmações. Quilombo. S u p l e m e n t o do Diário de Noticias. A propósito da n e g r i t u d e . de outro lado. Ironides. indicar que. E p e r t i n e n t e assinalar que o novo jornal será. n. que ele traduziu para Quilombo. a p r e s e n t a d a assim em termos muito gerais — a única possível. muitas das quais abertamente se 30 . encarada como depoimento d e u m a situação cm processo e indício das tendências ideológicas que dentro dela operam. aprovada na última sessão d o C o n g r e s s o . a n o II. declarou q u e negritude. n i n g u é m p o d e negar que. A mudança da epígrafe parece. p. quiçá diametralmente opostas. por m e i o d e entrevistas. ela é u m g r a n d e achado. G . G i l b e r t o Freire. observações feitas no Congresso d o N e g r o e conversas informais com l/deres negros. Com esta afirmação. É de n o t a r q u e essa "cosmovisão" no dizer de G u e r r e i r o é "resultante de uma compenetração peculiaríssima de fatores históricos e biológicos" (grifo do Autor)./ jul.

oficinas de costura. 35 Alisto-me na U n i ã o d o s H o m e n s dc Cor do Distrito Federal. cm face d o preconceito de cor. cit. Tese apresentada ao 1.. à letra e. José Bernardo da Silva. assegurasse a igualdade e os direitos a todos os brasileiros. sem distinção dc c o r . p a r e c e r foi aprovado e a tese. t a m b é m foi. No plenário foi relator da tese o artista do T E N . 32 (1950). Alisto-me nesta U n i ã o para combater o preconceito de cor. ingressa como assalariada de firmas. excluída dos programados Cf. adquirir a sua Singer e manter ateliê próprio de costura. in fine. e m b o r a a Lei Imperial . a família negra é colocada à margem da política e da alta administração do País.353 dc 13 de m a i o d c 1888. p r i n c i p a l m e n t e . mas n ã o logrou ser eleito. 147.270 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO opuseram. B e r n a r d o . a sua escravidão moral e cívica. p. A esperança da e m p r e g a d a doméstica que faz tais cursos é s e m p r e ascender ao artesanato. q u e continua sendo tratada o f i c i a l m e n t e . cumprir o m a n d a m e n t o d e Jesus Cristo: "Amai-vos uns aos outros" (sic). José. herdado da escravidão. c a n d i d a t o a deputado no Estado do Rio. magazines. (As observações entre parêntese são do A u t o r . sem levar e m c o n t a os direitos dos homens. 31 Isto ocorreu com o n.Congresso do N e g r o Brasileiro Himalaia. ) Seu diretor. durante os trabalhos d o Congresso. que emitiu parecer favorável à a p r o v a ç ã o das sugestões finais e contrário à p u b l i c a ç ã o do trabalho nos Anais do Congresso. 33 M q u e deveriam ter sido publicados. . às implicações desta afirmação da Declaração final. N a prática c sempre uma pequena minoria q u e alcança realizar esse objetivo c a m a i o r p a r t e . portanto. por esta via. nas últimas eleições. de 23 dc setembro dc 1 9 5 0 d o periódico Cf. loc. com injustiça social. c p a r a fielmente 36 continua. ano III. ao espirito. O Anais. 4 . s o c i e d a d e dc fins sociais c cívicos.3. da família negra. fábricas de r o u p a s . Aguinaldo C a m a r g o .

o que aqui particularmente nos importa é formulá-lo e e m seguida utilizá-lo como i n s t r u m e n t o de pesquisa sobre as relações de raças n o Rio de Janeiro.Influência do tem-po e do m u n d o — Racionalizações da tensão racial — O r i e n t a ç õ e s e perspectivas. de diversos modos e em diversos graus de intensidade. D e q u a l q u e r sorte. N ã o seria difícil provar. o interesse da inteligência humana se concentra sobre o q u e se passa na intimidade das coisas. f u g i n d o a explanações que poderiam nos levar para longe do objetivo perseguido. b) que resulta de um conflito virtual ou potencial existente no fundo da situação social considerada. facilmente se percebe q u e o que há de novo no estudo das tensões é sua voga atual na preocupação da sociologia acadêmica. Visto a essa luz. sob a forma de . C h e g a a ser algo comparável ao extraordinário interesse que. e c) que vem à tona. o problema. E para isso. deixando de parte o m u i t o que se poderia dizer sobre a história desse conceito. aliás. na física. que. existe desde que existe sociedade h u m a n a na face da terra. porque. como problema.Modos de se manifestar " B o d e s expiatórios" O C r i p t o m e l a n i s m o brasileiro . na verdade. as tensões sociais representam: a) uma fase de um processo em desenvolvimento. O estudo das tensões sociais constitui u m dos capítulos para os quais mais se tem voltado a atenção da moderna sociologia. podemos resumidamente indicar que. os dois temas representam u m só problema visto de dois ângulos diversos: num caso. têm hoje os estudos sobre a energia nuclear. em certo sentido.CAPÍTULO ÍII Tensões raciais numa sociedade em mudança I m p o r t â n c i a d o problema das tensões sociais — Fatores antecedentes . n o u t r o ele se volta para a análise do m o d o pelo qual: a) as relações dos homens c o m as coisas e b) as relações dos h o m e n s entre si reciprocamente se influenciam. em essência.

que elas estão diretamente ligadas às situações em mudança e q u e os conflitos virtuais que originam as tensões em regra resultam da resistência que as estruturas sociais o p õ e m aos fatores de transformação social que ela mesma desprende de seu p r ó p r i o seio pelo fato de existir e funcionar. têm sempre uma história. aí t a m b é m ficou o que há de fundamentai no conceito. evidencia. assume formas secundárias e acessórias. Assim. p o r o u t r o lado. Configura-se. que começa a f e t a n d o o comportamento individual d e alguns.272 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO "descargas de tensão". o enunciado que lhe d e m o s deixa claro que as tensões. para os objetivos específicos que temos em mira. fatores antecedentes que precisam ser considerados n a sua análise e compreensão. ilude. de instabilidade e de insegurança. Por outro lado. de nervosismo. assim. finalmente. como fase de u m processo em desenvolvimento. e então. do céu ou das nuvens. elas se formam dentro das estruturas sociais e são produto de seu f u n c i o n a m e n t o histórico. para desenvolvimento. Isto significa. alastra-se pelo corpo da sociedade c o m o um todo. aquele estado de suspense. sua gestação é lenta e em círculo vicioso. de longe. na medida em q u e se vai forjando. a própria tensão. . no seu n o r m a l desenvolvimento. o conflito que está no f u n d o de toda tensão social vem à tona de diversas maneiras. Evidentemente ficou aí u m mundo de indicações que exigiriam. que. mascara-se. porém. pela acumulação e agravamento de tensões sucessivas. uma situação de crise em que uma sociedade. quantitativa e qualitativamente. aberta e declarada. ou atinge um desfecho sob a forma de crise. Nenhuma tensão social. gerando lentamente aquela expectação. que as tensões não se despejam sobre uma sociedade. apresenta-se sob disfarces os mais variados e descarrega-se sobre as costas dos "bodes expiatórios" que as circunstâncias do momento histórico lhe vão proporcionando. vai também produzindo os fatores de seu crescente agravamento. em outros termos. vindas de fora. transforma-se na inquietação característica dos grupos sociais mais diretamente envolvidos por ela e. coloca diante de si problemas estruturais de tal natureza e profundidade que ela m e s m a não pode resolver sem se transformar. e a tensão é contida. até q u e o conflito encontra meios de se "acomodar". acreditamos. portanto. sendo virtual e assim podendo permanecer por m u i t o t e m p o . uma longa exposição esclarecedora. aparece inteira e de u m só jato no interior de uma sociedade.

Esta prática. e não corresponde a n e n h u m a exigência de método sociológico. do que se passa numa situação arbitrariamente tomada como modelo. concretos. tanto q u a n t o os tipos sociais de relações de raças. que não c o n d u z a coisa nenhuma de real valor científico. e pela própria natureza do assunto que trata. algumas conclusões válidas s o b r e os principais característicos e as perspectivas atuais da situação racial brasileira. que é inteiramente arbitrário. nas Antilhas ou em qualquer outra parte do m u n d o o n d e pretos e brancos convivem no bojo de u m a sociedade nacional. situações concretas. Vejamos agora. tipos sociais. onde o p r o b l e m a é mais conhecido . salvo em relação a algumas partes do mundo colonial. Se. .da formação ao desfecho . na África do Sul. Para isto. mas realizar aquele estudo tendo em mente o "clichê" de outros países é fazê-lo consistir na p r o c u r a formal do que se encontra aqui que acaso seja igual.T E N S Õ E S RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM M U D A N Ç A 273 Essa. tomar-se a situação dc opressão racial noutro país . numa palavra. particulares. manifestações históricas específicas.. Isto significa. muito bem. é pura e simplesmente mistificar. noutras palavras. mais ou menos. resumida em suas grandes linhas .é que as tensões raciais que aqui se desenrolam são casos particulares. se ele pode ser útil ao nosso estudo. quisermos c o m p a r a r seus característicos com os de outros países. que ocorrem nos Estados U n i d o s . este capítulo terá o duplo escopo de a) reunir e interpretar materiais já apresentados no corpo desta pesquisa e b) tentar extrair deles. depois de estudada minuciosamente a situação racial brasileira. partindo deste conceito. históricos. infelizmente tão d i f u n d i d a em tais estudos. a história natural das tensões sociais. o procedimento é legítimo e pode ser útil de diversos pontos de vista. ou acaso seja diferente. os traços peculiares à situação norte-americana.. em certo sentido. exatamente o inverso e a negação do que tão f r e q ü e n t e m e n t e se faz em tais estudos . é colocar o problema num nível metodologicamente primário.e que representa.geralmente se escolhem os Estados Unidos. transformá-la e m modelo e ir julgar todas as demais situações concretas de relações de raça q u e existem no mundo conforme elas reproduzam. geralmente c o n d u z a um resultado fácil de ser antecipado e que. A primeira noção que se deve ter em mente na realização desta tarefa . Evidentemente concluir assim não é concluir. e neles f u n d a m e n t a r . consiste em levar qualquer pesquisa sobre relações de raças a desembocar na conclusão de que tudo vai bem porque não está tão ruim quanto no Deep South.

nas quais os fatores. que são particularmente intensas e visíveis nas áreas metropolitanas. se conservar como uma igualdade puramente j u r í d i c a e uma capacidade p u r a m e n t e teórica de desfrutá-la. foi u m acontecimento de importância decisiva n o condicionamento das etapas posteriores pelas quais a situação deveria passar. caracterizou por tanto tempo o seu status scrvil c servia dc f u n d a m e n t o do que aqui se tem chamado dc "padrão tradicional" das relações de raças no Brasil. pelo negro evoluído e pelo branco liberal. Este será. Quando o desenvolvimento da estrutura econômica e social. h sua história. portanto. um Patrocínio. assegurando-lhes os meios de garantir a sua subsistência por meio do trabalho qualificado ou de ocupações não-manuais características da ciasse média.' Os negros que. no que se refere à posição social. por muito tempo. às mudanças que vem sofrendo. surgiram as premissas de um novo ciclo na história das relações de raças neste País: o negro passou a ter capacidade jurídica de cidadão. durante a escravidão. como força de trabalho privadamente apropriada pelo senhor branco. N a prática. pela distância que estabeleciam entre sua posição e a posição em que se conservaram as massas de cor. de um lado. à situação racial brasileira. ser referido. .embora sempre crescente — de negros. passou a ter igualdade teórica em relação ao branco e isto apesar de. * % * O fato de o negro ter começado a sua história no Brasil como escravo. antes de mais nada. aos seus característicos peculiares e atuais.274 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO O estudo das tensões raciais n o Rio de Janeiro deve.que ascenderam a níveis sociais superiores singularizaramse. antes de tudo. u m Luís Gama . que tiveram a possibilidade de ascender a níveis superiores do sistema de estratificação social e procuraram ampliar essa vantagem para seus descendentes nas gerações seguintes. e as lutas mantidas pelo próprio escravo. floresceram e frutificaram na Abolição da Escravatura. essa igualdade no plano dos direitos e prerrogativas dc cidadania plena beneficiou apenas um n ú m e r o reduzido . é o marco zero das tensões raciais neste País: durante mais de trezentos anos esta foi a posição do negro na economia e na sociedade. portanto. individualmente destacaramse dessa homogeneidade da senzala e alguns .um Reboliças. o nosso procedimento. de outro lado. o processas e as perspectivas das nossas tensões raciais se apresentam em contornos mais nítidos e mais fáceis de observação e diagnóstico. daí decorrendo tudo mais que.

o escravo de antes. . os antigos escravos. paralelamente. medida legal que resultou de imposições econômicas que a tornaram historicamente necessária. u m a renovação estrutural da economia agrária. Foi. após o declínio econômico que se seguiu ao fast/gio da cultura d o ca fé na região. em suas linhas f u n d a m e n t a i s . já q u e se tratava de uma agricultura comercial.expandiram-se com vigor crescente. foi o núcleo original do proletariado brasileiro. depois da Primeira Guerra Mundial deste século. a marcha dos exescravos para as cidades. 2 A crise agrária que se seguiu à liberação do braço escravo. depois da abolição do sistema escravista ocorreu a transformação em massa da antiga massa escrava no ponto dc partida do trabalho livre e assalariado neste País. caracterizando um novo capítulo da história social do Brasil. q u e passaram a ser. já que o negro. T o d a a zona decadente do vale d o rio Paraíba. que formaram as antigas elites negras. A agricultura praticada no estilo do sistema dc plantações sempre foi. manteve-se igual. entretanto. ao lado dc seus efeitos jurídicos. como não p o d i a deixar de ser. produziu. devendo precariamente absorver sob formas sociais diversas. como antes. a situação racial. c u j a m ã o de-obra era condição indispensável de seu funcionamento lucrativo. C o m a abolição do status$ctv\\ do trabalho não ocorreu. forneceu abundantes quotas de população de cor para aqueles dois principais centros metropolitanos do sul do País.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 275 Estes primeiros negros evoluídos. e acelerou. o seu germe histórico. tradicionalmente. setor predominante da economia brasileira e para ela é que foi importada e dirigida a força de trabalho do africano. cuja arcabouço. de u m lado. também. produzindo essencialmente para exportar. ascenderam por capilaridade e viveram e exprimiram de diversa f o r m a na vida brasileira o seu problema de "representar-se em dois planos ao m e s m o tempo": socialmente superiores como classe e socialmente inferiores q u a n t o ao status da raça. porém. tinham sido as fazendas.dois m o d o s de encarar o problema fundamental e único de mudança de estrutura econômica e social . incrementou a imigração estrangeira. de outro. que corre entre Rio de Janeiro e São Paulo. e na condição de trabalhador livre e assalariado. assim c o m o a própria crise de braços para a lavoura que agravara a crise agrária. que esse processo assumiu novo ritmo. na medida em que urbanização e industrialização . efeitos econômicos e sociais de extraordinária significação par. A Abolição. os núcleos de expansão da nova etapa da civilização brasileira.

Noutros termos. em particular.quase que apenas há u m a geração . para os extratos superiores deste grupo. condicionaram. c diversas em tudo que daí decorre. formas específicas de reagir diante dos problemas de contato racial e. os lábios e outros sinais servem de marca visível e iniludível de identificação desses traços da condição étnica com tudo a que eles estão ligados n o passado e no presente da estrutura social. por parte do grupo branco. Destas novas situações originaram-se. a problemas novos de mobilidade e ascensão social para o grupo como um todo e. isto significa que ao estudarmos o estado atual das tensões raciais no Rio de Janeiro. isto somado ao fato óbvio. originadas no padrão tradicional das relações de raças — e que hoje podem ser todas reunidas n u m a fórmula única e muito usada n a terminologia de combate das associações negras: a herança da escravidão. isro influiu de modo direto e decisivo: a) concentrando grandes massas de cor n o proletariado industrial urbano. 64 anos . c) dando nascimento. o que precisamos ter sempre claro no espírito é que estamos analisando as formas e expressões raciais assumidas pelas tensões sociais que resultam das mudanças em processo no b o j o da sociedade brasileira como um todo. para isto. dentro de u m m u n d o em crise estrutural. o nariz. dentro do grupo negro. e continuam condicionando. ligadas c o m o estão aos demais problemas de u m a sociedade em mudança. dentro de uma sociedade na qual ele passou a ser considerado livre há. todo o material c os conceitos já expostos nos capítulos anteriores deste trabalho. de uma compleição e aparência física em que a cor da pele. O status social do negro no Rio de Janeiro é hoje condicionado pelas alterações que está sofrendo um conjunto de coordenadas . b) incrementando a diferenciação interna do g r u p o de cor em extratos e classes sociais diversas. por sua vez. o cabelo. sociais. psicológicas. de uma parte. situações de tensão racial. apenas. e no caso concreto. manipulando. eis o lastro donde foram . culturais. formas também características de se comportar diante"delas que. o grande painel de fundo das tensões que aqui estamos estudando e ao caracterizarmos assim as suas grandes linhas recordamo-nos do conceito lapidar de R u t h Benedict: quando falamos dc conflito de raças. que se f o r m a m sempre que problemas mais gerais e mais profundos ligados à transformação social assumem expressão racial.econômicas. como conseqüência.276 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO Sobre as relações de raças. Este.. mas por isso não menos f u n d a m e n t a l . Mais de trezentos anos de status escravo. o fundamental está na palavra conflito e não na palavra raça.

nas expectativas arraigadas cuja transformação não se faz sem originar tensões e problemas de variável duração e gravidade. Igualmente. Esse fato. o incremento do preconceito e da discriminação está ligado à destribalização do negro c à sua integração nos quadros da sociedade de tipo calculista que a colonização m o d e r n a criou ali. T a m b é m nos Estados U n i d o s . não tinha. o lugar que tradicionalmente ocupava no sistema dc relações sociais. porque as posições sociais estavam tão bem m a r c a d a s e aparentemente tão imutáveis que a função de mecanismo de defesa de situações ameaçadas que o preconceito geralmente tem. está sendo o fator principal das discriminações que ele vem sofrendo. como tal nasciam. Antes. na personalidade dos negros e dos brancos. então. natural e biologicamente justificado quanto o seu de grupo dominante. biologicamente justificado. Naquela estrutura de relações. nas opiniões que fazem sobre e]es mesmos e cada um sobre o o u t r o . outros escravos. n a África d o Sul. fundamentais permaneceram m e s m o depois de juridicamente abolidos. nunca houve lugar para um d e f i n i d o preconceito racial.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 277 gerados. aliás. a ascensão social d o negro e o seu afastamento da posição tradicional que tem ocupado na sociedade brasileira. negros encontram obstáculos . 3 A primeira lei norte-americana de segregação racial foi decretada já na primeira década deste século. n o Brasil.que o preconceito. nos costumes e nas instituições. negros e brancos na sociedade brasileira eram uns senhores. não é original. t e n d o integrado nas suas pautas individuais de conduta e no comportamento recíproco de uns em relação aos outros o ethos predominante na estrutura social d e n t r o d a qual conviviam e que c o n j u n t a m e n t e formavam. e a discriminação a t u a m fundamentalmente no sentido de reconduzir ao seu lugar o negro que historicamente sai desse lugar. natural. a lição dessas experiências nacionais indica sobejamente — e a d o Brasil confirma . nos últimos tempos. nem cabimento. neste país. e enquanto os seus traços. antes da abolição. Hoje. formavam sua mentalidade e viviam. n e m razão de ser. Assim. Por paradoxal que isto possa parecer. lugar que a ideologia do grupo socialmente dirigente e etnicamente diferenciado considera próprio. tão próprio. a situação racial jamais apresentou os aspectos que hoje apresenta e que decorrem de fatores que. e m escala crescente. dentro da qual se formou a ideologia também tradicional d o b r a n c o sobre a posição que o negro deve ocupar no sistema de posições sociais. sé» agora estão começando a operar e a produzir os seus efeitos.

c o m o o diagnosticou Robert Park. por exemplo. c o m o antes assinalamos. além de ser um erro. Quando uma situação racial atinge esse círculo vicioso é que ela está seguramente rumando para u m estado de crise. é quase u m crime. em condições de igualdade de posição c o m o branco. apesar de subalternas. como empregado. que se encontram os sinais mais evidentes de uma tensão em processo. E m b o r a se multipliquem os casos de barreiras raciais aparecendo em ocupações que. enfrentando as patrulhas avançadas do preconceito e. E é precisamente por isso também. garçons de hotéis de luxo. primeiro e mais intensamente a ação discriminadora dos estereótipos: como os sapadores n a guerra. n u m dos fatores principais de sua frustração. aliás.que indique claramente sua função e posição. precisamente porqtie já existem negros em condições de aspirar essas oportunidades à luz de todos os critérios e exigências. tornando o próprio remédio u m elemento de agravação do mal que pretende curar. e m todos os lugares onde sua presença. sofre. —. via de regra. u m a f o r m a elementar de resistência da ordem social aos efeitos de sua própria transformação e de suas últimas conseqüências. n e n h u m a objeção costuma existir se o negro está ali servindo. exigem contato mais íntimo e direto com o branco — enfermeiros. instituições. resulta. sendo uma das conseqüências dessas mudanças estruturais. clubes. cultural e social d o negro. que o mestiço. ambientes sociais e tantas outras esferas de convivência com brancos. pois aqui se nota que a elevação profissional. o fato é que em salões. meio caminho para chegar a branco. por o u t r o lado. t a m b é m . o que torna o preconceito. O fato de a ascensão social do negro proccssar-sc no bojo das mudanças de estrutura que têm lugar na sociedade como u m todo. e mesmo em residências particulares onde está afastada pelos costumes e pelo preconceito a hipótese d e u m negro penetrarem posição igual ao branco. em compensação. instituições diversas. em posição nitidamente definida — pelo uniforme profissional por exemplo . 4 . na prática. q u e de uma parte é apresentada c o m o condição necessária para gozar plenamente da igualdade jurídica. em relação ao qual a inadvertência.278 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO e i m p e d i m e n t o s na porta de carreiras. N a prática isso se revela de vários modos. sofre restrições. cabeleireiros. é. na vida quotidiana. c o m o . poder estar presente e m a n t e r contato com brancos. muitas vezes. barbeiros etc. no fato de o negro. atacando-o pelos flancos e pela retaguarda. É neste p o n t o . m e n o s o da condição étnica de branco. desde que esteja n a posição subalterna de empregado. vão à frente.

5 Outro exemplo característico. e que indica outra modalidade de a tensão social se manifestar. no apogeu de seu prestígio. nas charges d o h u m o r i s m o falado. tendo sempre. 110 qual se t e m procurado encontrar comprovantes d o que chamam "democracia racial" pelo fato de muitas conhecidas figuras de jogadores terem sido de cor.todas brancas. escrito ou representado. Mário Filho relata uma variedade de exemplos que demonstram como muitos desses ídolos esportivos. Pois bem: mais de uma vez. U m informante chegou mesmo a avançar uma explicação mais elaborada. sempre tiveram de defrontar a linha de cor na esfera social do p r ó p r i o clube reagindo a ela de diversas formas. que sentiam. por exemplo. ora mais mascarada. a seguinte exclamação: "Se dependesse de mim e u m a n d a r i a esterilizar todos os negros do Brasil". E de u m dos informantes em que colhemos essa racionalização. ouvimos.TENSÕES RACIAIS NUMA S O C I E D A D E EM MUDANÇA 279 São diversas. à qual se ligava por motivos que não vem a pêlo discutir u m conteúdo emocional profundo. c o que fiz recair sobre o aumento do número dc motoristas de cor a responsabilidade do aumento d o número de atropelamentos e desastres de automóveis no Rio de Janeiro. de pessoas diversas . criou a tragédia diária d o deslocamento da população dos locais de trabalho para os locais de residência e vice-versa e passou a ocupar. depois desta teoria étnica dos problemas do trânsito. em mais de uma fonte. as formas de se tn mifestar essa resistência das situações tradicionalmente estabelecidas aos efeitos das mudanças sociais de base. quando depois de terem dado no gramado todo esforço pela vitória da sua equipe. em q u e os "bodes expiatórios" se apresentam de forma diversamente elaboráda. o conservantismo estrutural. O problema do trânsito n o Rio de Janeiro. é claro . no f u n d o . em conseqüência d o crescimento rápido da cidade nos últimos tempos. especialmente no futebol. que vale como ilustração e q u e selecionamos dentre muitos. quanto à maneira d e se apresentarem. . N o s esportes. as mais variadas. viam-se discretamente desencorajados a não comparecerem à noite n o baile comemorativo da vitória nos salões do seu próprio clube. como fundo comum. desde apura malandragem até o ressentimento profundo. nas páginas dos periódicos. as mais inesperadas.como explicação para o p r o b l e m a de trânsito o alegado a u m e n t o do número de motoristas de cor. nas conversas e nos comentários. ouvimos. ora mais visível. q u e p e r m i t e bem observar como a criação desses "bodes expiatórios" funciona c o m o mecanismo de descarga de tensões criadas por fatores que. p o r exemplo. u m lugar equivalente ao de um grande e fundamental motivo de preocupação d o carioca de hoje.

a freqüência a cursos noturnos de alfabetização ou a cursos profissionais. a apresentação são fatores que surgem no esquema das relações sociais ligadas ao serviço doméstico e que facilmente geram tensões pela natureza íntima eface-to-faceque essas relações necessariamente têm.que a criança brasileira forma. ou contra a simples imitação do comportamento do branco. as exigências de limitação da jornada de trabalho feitas sob as mais diversas alegações.especialmente entre patroas e empregadas . Geralmente essas tensões. como em toda parte. aos 18 anos. a maquiagem. efetivamente não passa da aspiração. sociológico e moral . A esse respeito o setor de serviço doméstico está repleto de exemplos e aqui. Neste caso é diretamente contra esta aspiração.cada vez menos pessoal. cada vez mais contratual . a explicação para o fato seria a seguinte: a "negrada". desde cedo. em várias "frentes".280 182O NEGRO NO RIO DE JANEIRO nada têm de especificamente étnicos. o lastro básico de suas atitudes raciais. da mentalidade. a causa dos problemas dc trânsito na metrópole. em conseqüência da aspiração que se generaliza entre os negros de conquistar posições superiores. aqui se observa — talvez pelo contraste com o tipo anterior de empregada negra dos velhos tempos — u m a reação emocional mais forte do branco às mudanças que verifica n o plano do comportamento. Para dispensar demonstrações mais longas desta afirmação basta recordar que é ainda cm f u n ç ã o das relações interétnicas que se passam n o âmbito doméstico entre patrões e empregados . A mobilidade ocupacional do serviço doméstico para as indústrias. que resultam da transição que o serviço doméstico está sofrendo no seu enquadramento econômico.assumem um caráter racial quando. que as resistências se revelam. Por outro lado. no f u n d o . o que lhes dá maior rendimento e mais independência: essa "negrada" no volante passa a ser. muitas vezes. nada têm a ver diretamente com a condição étnica dos grupos envolvidos . é convocada para o serviço militar. 6 Assim. especialmente de corte e costura. quando são desligados do serviço ativo não querem voltar para suas antigas ocupações mais subalternas e preferem ser motoristas. no exército aprende a dirigir automóvel. o tipo de relações interétnicas que o serviço doméstico obriga entre pretos e brancos reveste este aspecto do problema de u m a importância singular no mecanismo das tensões raciais. a tensão se manifesta. então. m e s m o q u a n d o essa conquista. a preocupação com o traje. que deixam cada vez mais de corresponder às expectativas tradicionais d o patrão branco. dos hábitos e dos costumes do negro.

em termos raciais. obviamente. porém. Além de negra.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 281 que.salvo no caso de serem pagos altos salários . m e s m o para as mulheres. a respeito do assunto. É freqüente por exemplo — e até c o m e n t a d o . O aspecto racial da questão comparece. n o caso. branca d e classe média. Assim. O "granfinismo". q u a n d o surgem para as massas de cor. do "eito" ou "da enxada". funcionam essencialmente como grupos profissionais. atualmente . é demais". o negro também os cria c utiliza toda vez que t o m a uma falsa consciência do seu problema e resiste em compreender o que nele há de social e o que há de étnico. referia-se a todas essas mudanças d e comportamento em face do patrão branco. principalmente porque se exercem numa esfera mais contratual e menos penetradas da idéia tradicional de dependência pessoal em relação ao empregador.como provavelmente era —.essas ocupações domésticas desceram de seu status anterior e as outras gozam de um forte poder de atração. como classes sociais e não como etnias. como mecanismo de descarga das tensões causadas pelo conflito virtual que ali está presente. não é só na m e n t e do branco que a tensão racial cria "bodes expiatórios". máxime sc fosse família de classe superior . do ponto de vista sociológico. que vão desde o uso do b a t o m nos lábios até ao pedido de férias remuneradas! Aliás. que ocupavam posição considerada mais subalterna. mesmo se não significam vantagens econômicas visíveis e imediatas. que é bem expressivo dessa racionalização. Hoje. considerava-se até como sinal de posição também relativamente superior d e uma mulher de cor em relação a outras. como "bode expiatório". metida a granfina. ouvimos o seguinte comentário. outras oportunidades d e ocupação fora da esfera de dependência pessoal em que se sentem n o âmbito de famílias brancas — oportunidades que estão nas indústrias e nos serviços os mais diversos . mais precisamente. em face do serviço doméstico há também entre os negros u m a evidente mudança de atitude. diretamente ligada a essas mudanças estruturais: tradicionalmente a situação d e empregada numa casa de família branca. Em conseqüência disso. de problemas q u e n a d a têm de intrinsecamente étnicos: "Se tenho de suportar uma cozinheira m e t i d a a granfina. De uma dona de casa. Essa noção se originou. ao menos que seja branca. neste caso. o u . no período da escravidão.a condição de doméstica muitas vezes inferioriza uma mulher de cor em face de outras d a mesma cor que ganham a vida noutro tipo de atividade remunerada. das pequenas vantagens e da diferença de tratamento que as "negras de casa" logravam e m relação aos "da roça".

o negro que se utiliza de uma racionalização desta ordem quando acaso não leva a melhor numa competição de mérito. e em diverso grau de intensidade. que racionalizações desse tipo jamais teriam lugar nem sentido fora das condições de tensão racial.segundo a qual "no Brasil não existe preconceito racial". outras atuais.o fato de negros tenderem a racionalizar o seu fracasso individual. que já correu o m u n d o inteiro e que. Esta constância intransigente em negar importância à raça e ao preconceito de raça.282 182O NEGRO N O RIO DE JANEIRO na imprensa negra . escritos por brasileiros e estrangeiros. que a define como "o medo de confessar e o desejo de esconder a importância que realmente se dá à questão da raça e da cor" 7 parece ajustar-se plenamente à situação brasileira nesta fase de desenvolvimento da nossa questão racial e naquelas áreas em que as mudanças de estrutura social melhor caracterizam a transição em processo. já faz parte do nosso orgulho nacional. se a desculpa não fosse verossímil . Dir-se-ia quase ser esta a forma mais difundida e característica de o criptomelanismo brasileiro se manifestar.preliminares inerentes à tensão racial e com as quais está contando. o estereótipo de que entre nós "não existe linha de cor".mais estes do que aqueles . que a mais bem definida e caracterizada racionalização da tensão racial no Brasil é a velha e repetida afirmação mil vezes desmentida pelos fatos. umas históricas. repetindo-a como um dogma atrás do qual se esconde o ressentimento e o mal-estar gerado pela tensão racial. não fosse ela ao menos possível. para configurar as bases dessa situação. entretanto. que aqui empregamos nesse sentido específico. ou "não existe preconceito de raça ou de cor" resulta da natureza extrema . E preciso que se note por outro lado.que encontraram largo curso em alguns ensaios de literatura histórica. em inúmeras circunstâncias. mil vezes repetida pelos homens. Evidentemente concorrem causas diversas. por isso mesmo. apontando como causa dele a perseguição racial. usada por Renzo Sereno. parece mesmo uma forma bem definida dc esse interesse se revelar dentro dc um contexto sociológico e moral em que a etiqueta das relações de raças tradicionalmente obriga a tratar como assunto "delicado" o problema da origem e da condição étnica. N a mente de muitos e nas racionalizações do senso comum . A expressão criptomelanismo. tanto negros quanto brancos . que para muitos constitui assunto de permanente preocupação e ressentimento. consciente ou inconscientemente. se a explicação não tivesse precedentes comprovados. A nós nos parece. e que tiveram larga divulgação e publicidade dentro e fora do Brasil —.

o que define e caracteriza a discriminação. irem criando. em p a r t e n e n h u m a . facilmente identificáveis. c o m p a r a d a com uma situação racial onde vale t u d o contra a raça oprimida — " f r o m persuaston to bombing. que não é o fato de cada negro estar sofrendo a cada dia uma violência física ou uma estúpida violação de seus direitos humanos. ao cripto-racismo existente nas relações entre negros e brancos nas áreas metropolitanas d o Brasil. mais ou menos generalizados. de insatisfação. antes e a c i m a de tudo . entre diferentes regiões do mesmo país. aliás. Diferenças de grau. por sua ocorrência.o estado atual da situação racial brasileira chega a parecer quase um paraíso.. que resulta da convicção de que a discriminação ou o preconceito poderão atingi-los. como diz M y r d a l a propósito da situação d o negro norteamericano . as diferenças encontradas n a situação dos dois países são. talvez se encontre. . de desequilíbrio e de angústia psicológica. em conseqüência de um característico seu que não está ao seu alcance modificar. mesmo p o r q u e essa situação. A discriminação consiste. mais o u menos freqüentes. desse ponto de vista. em relação ao judeu nos Estados Unidos uma situação mais comparável. está n o rosto. de grau. sua crueldade. existem gradações neste estado de coisas e a intensidade do fenômeno. u m a série sucessiva de eventos d e maior ou menor importância imediata. não de espe'cie. uma preterição. como estado permanente. não existe.e nisto está sua injustiça. a noção clara e opressiva de que. nos lábios. de instabilidade. nos cabelos. no espírito dos membros de um grupo. Mas quando ocorrem e se multiplicam e se divulgam casos de colégios e obras sociais que não aceitam alunos de cor. u m a injustiça. antes de tudo. sua aberração — no fato de.a fim de identificar tipos e graus variáveis d e tensão . na pele. Evidentemente. especialmente na Alemanha nazista e nos Estados Unidos. sociologicamente. Evidentemente. mais ou menos condenados pelo que vagamente se c h a m a de "opinião pública". em muitos aspectos. nem jamais existiu. uma "despreferência". De uma vez por todas é preciso que se compreenda. aqui como lá. que é variável. E se acaso se pretenda fazer comparações entre p r o b l e m a s raciais dos dois países . Esta expectativa é que cria nos m e m b r o s de um grupo vítima de discriminações de qualquer grau ou natureza — mesmo quando não estão sendo vítimas de nenhum ato atual de discriminação — um sentimento de insegurança. pode resultar numa maior o u menor intensidade de suas conseqüências. por pertencerem a este grupo. de medo. eles podem vir a sofrer u m a violência. dentro de uma sociedade. e n t r e t a n t o . seu crime. Entretanto.TENSÕES RACIAIS N U M A SOCIEDADE EM MUDANÇA 283 e espetacular que a situação racial tem assumido noutros países. n o plano das relações sociais. uma ofensa à sua dignidade pessoal. n a sua inevitável compleição e aparência. uma grosseria.

neste ou naquele país. muito se falou e ainda se fala. E i s t o o q u e já foi c h a m a d o " t h e chance nature ofrace díscritnination": ela ocorrerá ou não. apresentado como uma espécie de avis rara. da idéia de que tal poderia ter acontecido. E embora. A tentativa de encontrar os fatores messiânicos desta situação ideal. no caso do Brasil. histórica e sociológica. conhecidos o u etnicamente iguais . dependendo. O erro maior consiste. sem jamais ter havido a preocupação séria de utilizá-la como hipótese de trabalho a ser cotejada com os fatos. por muito t e m p o . a situação racial nas colônias portuguesas na África. mais que isso. o fato é que ele passou a vida sob o peso.que muitos c h a m a m de apenas isto . parentes. entretanto. dependendo de um n ú m e r o infinito de variáveis e fatores. na omissão deliberada de fatos e evidências f u n d a m e n t a i s feita em nome de u m a tese messiânica a que se resolveu denominar "filosofia brasileira no tratamento das questões raciais". em que os grupos entram em relações e da fase de desenvolvimento e m que ela é observada. da configuração total. com este ou c o m aquele. isto jamais lhe aconteça. segundo a atuação de u m a serie enorme c variável de circunstâncias. neste ou noutro tempo. para ver se resistia. acima da história e da sociologia. que paira acima dos fatos. o ressentimento. da qual. hotéis o n d e hóspedes de cor não penetram. a revolta íntima. Este é o problema: as formas concretas c particulares que cie assume nesta ou naquela situação nacional o u regional. o mal-estar. encarregam-se de reduzir às suas devidas proporções e de demonstrar q u e esses fatores nada têm de messiânicos. de configuração específica e.gera o estado de espírito en suspens e a opressão psicológica que caracteriza e martiriza toda provável vítima de qualquer violência. mutável dentro de u m mesmo país. ou não. inteiramente contingente. em atributos extraordinários do colonizador português. a própria experiência brasileira na sua fase atual e. . o desconforto e a angústia da expectativa de q u e um dia poderá ser ele a vítima da discriminação. a este teste. isto . aqui como em qualquer parte. mas a simples e ainda que remota probabilidade de vir a ocorrer . ambientes d e toda ordem cm cujo pórtico a linha dc cor se manifesta. por acaso. clubes e associações onde pessoas de cor n ã o podem entrar como associadas.porque já ocorreu com muitos outros. diversos n a quantidade como na qualidade.284 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO estabelecimentos e instituições que rejeitam empregados de cor. carreiras e profissões em que a cor é obstáculo à entrada ou ascensão. é outro aspecto. aliás. presente e arrasador.é mais do q u e suficiente para que o homem de cor sinta a insegurança.

mas. a função.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 285 Aliás. esta influência se revela t a m b é m d e o u t r a forma. o que pode ocorrer t a n t o e m hotéis. Roy Nash.. ou da "contribuição v o l u n t á r i a " ao racismo norte-americano oferecida também por alguns brasileiros. d e i x a n d o de resistir às mudanças que se o p e r a m n o f u n d o da situação e passando a desempenhar. também já referida. embora afirme que se fosse negro escolheria o Brasil para viver. depois da Abolição d a Escravatura. m u i t a s vezes. c o n v é m notar. c a d a vez mais. não como imposição aberta d e cidadãos norte-americanos ou do g o v e r n o daquele país. que acaso p o s s a haver. Neste caso. que estão. que se fazia. d e mascarar a existência e as verdadeiras proporções do problema. . em compensação. de m o d o tal que. muitas vezes funciona c o m o m e c a n i s m o de compensação pelo fato de. reconhece que as atitudes raciais são LI ma das coisas más que os Estados U n i d o s estão exportando para o Brasil. ou seja. resolvemos a nossa questão racial. que procuram assim agradar os norte-americanos. a partir da entrada do Brasil na S e g u n d a Guerra Mundial. feita p o r brasileiros em face de norte-americanos. E apresentada desta f o r m a logo se vê que a questão t o m a u m aspecto inteiramente diverso daquele c o m que aparece nos estereótipos correntes sobre o assunto. u m norte-americano que estudou e conhece b e m o Brasil. coisa q u e vocês não conseguiram. Nc ste caso. 8 A o l a d o d a imposição aberta. a ausência de violência n a discriminação racial imposta ao negro. sob a forma de criptornelanismo. c assinala e reconhece que isto acontece.. pelo reforçamento do c r i p t o m e i a n í s m o . seus amigos e fregueses. a tradição brasileira nesses assuntos — tradição que está sendo aceleradamente substituída por novos tipos d e e n q u a d r a m e n t o estrutural do p r o b l e m a — nunca foi precisamente a ausência de preconceito. esses estereótipos. desnecessária em face de distâncias sociais tão extremas. a negação sistemática e p u r a m e n t e sentimental da existência d o preconceito no Brasil é apenas m a i s u m a forma de ele se mascarar. nos últimos dez anos. L a m e n t a v e l m e n t e . o que se p r e t e n d e dizer é o seguinte: "Somos a backward country" mas. acrescente influência norte-americana nos estilos de vida e d e mentalidade do brasileiro m o d e r n o transformou-se em mais uma das coordenadas a que nossas atitudes raciais d e v e m ser referidas. aparentemente paradoxal. hoje. raciocinando de modo muito característico aos "latino-americanos". por assim dizer. o que se observa é q u e a alegação dc que "no Brasil n ã o existe preconceito de cor". mas como u m a espécie de contribuição voluntária de a l g u n s brasileiros. cafés e outros estabelecimentos comerciais como também n o p l a n o das relações de amizade. clubes. e m troca. aqui haver muita coisa r u i m q u e lá não há.

analisemos as perspectivas de tensão racial que têm diante de si. começando pelo segundo. O fator essencial dessa tomada de consciência é representado pela resistência dos extratos brancos superiores em aceitar essa mobilidade ascencional no negro evoluído. o mesmo pode-se dizer aqui c o m referência à classe média negra ou aos negros de classe média. Analisá-lo cientificamente é u m a tarefa apenas começada. foi depois de o processo de diferenciação social ter atingido um certo grau que c o m e ç o u a produzir os seus efeitos. apresentam duas ordens de perspectivas que parecem indicar os caminhos prováveis d e seu futuro desenvolvimento. na ideologia dos . situação ligada. tornada vanguarda de um grupo q u e ascendia de uma situação social inferior. de nosso p r o b l e m a racial. assim. agora é que ela está começando a surgir. 5 É nesse processo de acumulação histórica de fatores. que resultou numa diferenciação interna em extratos e classes sociais diferentes. entre os quais se inclui a tomada de consciência étnica. D o ponto de vista de cada um desses fatores. esse grupo teve de tomar consciência dela e m termos também raciais e. sociologicamente combinados de modo diverso de acordo com o desenvolvimento da situação total. pela combinação sociologicamente nova dos fatores que a história acumulou e c o n t i n u a acumulando na sociedade brasileira. analisadas do ponto de vista da posição do negro. diante da qual existe ainda um vasto campo quase inteiramente virgem de estudos sérios. e da solução. tal como se apresentam ao observador. Hoje.286 O NEGRO N O RÍO DEJIWELRO Como se vê. principalmente por parte dos intelectuais. pura mistificação consciente ou inconsciente do problema pois a verdade é que a nossa questão racial está longe de ser resolvida: em certo sentido. lutar contra elas em movimentos raciais. perspectivas que resultam da posição e das mudanças de posição do negro na sociedade brasileira e da diferenciação processada dentro do próprio grupo. Esses fatores são os seguintes: a) a proletarização das massas de cor nas zonas urbanas do País e b) a estratificação operada dentro do grupo negro. que estão as matrizes da compreensão. S e n d o raciais as barreiras encontradas. as tensões raciais n o Rio de Janeiro. por parte dos negros de extrato superior. de sua situação e de seu problema social. resistência que cresceu na medida em que a ascensão também deixou de ser estritamente individual e passou a ser social. Do mesmo modo que já se disse que a burguesia já existia c o m o classe antes de tomar consciência disso. Uma elite intelectualizada.

que torna a raça uma entidade mística . antes de mais nada. que a idéia da negritude não é negra. é. É. é o resultado da tomada dc consciência ( t a m b é m em termos falsos. mas mesmo antes disso ela se revela: a) na mudança de atitude e de . pois a evidência lhe impunha a cada dia a noção de que as barreiras sociais d o presente representavam um p r o d u t o direto da posição social do passado.a idéia da negritude. u m a "cosmovisão". da idéia q u e os brancos fazem sobre eles. à condição étnica. d o m e s m o m o d o que se pode aqui mais u m a vez repetir que não há u m problema do negro . em suma. na cabeça de negros.pois o problema c o branco que tem sobre o negro falsas idéias e age de acordo com essas idéias falsas . Isto é que cria u m a consciência de raça. Essas proporções de ideologia e de "cosmovisão" só são assumidas pela consciência da raça quando ela atinge certo grau de desenvolvimento. A supervalorização da raça. Nesse sentido. representa u m a atualização quase forçada e imposta da sua condição étnica na consciência do negro pequeno-burguês. uma racionalização de tensões sociais concretas. Vista assim . nas quais grupos dominantes e etnicamente diferentes.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 287 extratos superiores.também sc poderia dizer. é branca.mística no sentido de que representa a extrapolação para o plano do fantástico de uma experiência pessoal quotidianamente vivida e falsamente interpretada. uma ideologia de raça. atrás analisada. toda u m a concepção do mundo. em verdade. diga-se de passagem) da resistência que o branco faz à ascensão social do negro. é que a ideologia da negritude. u m racismo às avessas. só podia tomar em termos étnicos a consciência de seu problema. a entidade da qual e m a n a toda uma filosofia de vida. é o florescimento na cabeça de uma elite negra de u m a semente que lá foi plantada pelas atitudes dos brancos. Noutras palavras. que a torna a medida de todas as coisas. condição e consciência que lhe são recordadas pelas barreiras étnicas que encontra no caminho de sua ascensão social. um mecanismo d e defesa manejado por u m a elite agressiva. bandeira e formulação das aspirações de uma elite negra em luta pela ascensão social.c assim é a dialética das coisas . levam os discriminados a fazer da causa de seu problema a bandeira mística de sua redenção. inversamente. usando a raça como critério de discriminação contra alguns. por exemplo. daquele q u e menos desejaria pensar que é negro. forma mais sofisticada e elaborada dessa consciência de raça 110 Brasil. que ele ocupou até época recente da história da sociedade em que vive. é o reflexo invertido.

de outro. em processo ainda larvário. um elevado grau de naiveté. tuclo isso. em face d o branco. que tenta mobilizar os sentimentos do grupo c o m o u m todo em apoio do extrato superior que luta contra as barreiras à sua ascensão social10 contando. do ponto de vista da função que desempenham no mecanismo das tensões raciais. c) pela emergência no seio de uma elite intelectualizada. para isso.2 8 8 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO comportamento do negro. Como plano estratégico. do fato de eles serem a formulação. supervalorativa da raça. tendo. das aspirações e do fracasso das aspirações de um grupo de classe média — quase sempre na condição. entretanto. organizações e movimentos expressivos dentro do grupo negro e. para os mecanismos de motivação da solidariedade negra. que as contradições internas que se encontram nesses esquemas ideológicos resultam. como alvo c objetivo supremos a atingir: "o adestramento ela gente de cor nos estilos de comportamento da classe média e superior". o q u e vale d i z e r . com o que chama de "vivência ingênua" da massa negra. por outro lado. d a s classes tradicionalmente brancas da sociedade brasileira. A imaturidade do desenvolvimento dessa consciência de raça. tanto o da massa quanto o da elite. como o foram. de uma ideologia étnica. por outro lado. bastando. q u e torna desnecessário discutir seus argumentos. e. que um grupo militante suponha que esse f u n d a m e n t o existe e socialmente atue na base dessa suposição. como esquemas doutrinários. de u m lado.que pretende ascender não étnica mas socialmente. b) no surgimento de atividades. se acaso pudesse ser levada à prática e se o acaso fosse mais do que apenas uma consigna de luta contra as barreiras q u e a p e q u e n a b u r g u e s i a n e g r a e n c o n t r a n o c a m i n h o dc sua a s c e n s ã o . já que para isso não é indispensável que tenham fundamento. essa a s c e n s ã o d c u m a e l i t e n e g r a na s o c i e d a d e b r a s i l e i r a é l e n t a m a s é possível — tão possível q u e se está r e a l i z a n d o ." E essencial compreender. esse verdadeiro caráter de ideologia de classe média de uma elite negra intelectualizada. finalmente. rcvcla-se pelo desfecho utópico a que ela conduziria. fundamentalmente. de impedir que tais concepções sejam aqui analisadas. D e fato. para as "matrizes africanas". para a supervalorização dos valores negros. as contradições das quais não se pode libertar como expressão étnica de um problema que fundamentalmente não é étnico fazem com q u e esses produtos mais elaborados das tensões sociais que estamos analisando apresentem. aliás. em termos étnicos. tanto quanto hoje c inócuo discutir cientificamente qualquer explicação racista cie problemas sociais.d e n t r o d o s q u a d r o s . Isto está longe. para tanto. É isso. sempre na mentalidade . o que explica o paradoxo de se apelar para a ideologia da negritude.

vanguarda de u m q u a d r o maior. Quando o preconceito o atinge ele reage de pronto. É. sentido e agindo m e n o s como raça. muitas vezes violentamente. moralmente batido pela ciência e pela história. hoje. aquela inquietação característica das elites q u e saíram de seu lugar tradicional. que ele encontra também seu apoio subjetivo c seu meio so< ial objetivo. ao menos. consistindo antes n u m sistema de atitudes e estereótipos q u e não raro se contradizem e não apresentam qualquer coerência. pelo fato de o tipo social do branco pobre ser relativamente recente em nossa história social -. o negro-massa encara-o sempre face a face. c o m o quem repele uma afronta pessoal. . à sua maneira. dentro dos percalços que a situação encerra. E como o preconceito não se apresenta numa frente única e unida. nesse enquadramento sociológico de classe . Não discute pomposamente. o negro-massa não sente aquela angústia pesada. q u e c o n s i s t i a e m c o n s i d e r a r como se fosse branco o elemento de cor que ascendia. d e seu sistema de estratificação e de acordo c o m os valores e as atitudes que elas encerram. cujas barreiras criam nos evoluídos o "drama de ser dois". seu chão. Ele é um só. a verdade é que a ascensão do negro-massa só será possível no bojo da ascensão cias massas que eles integram e tudo indica que o negro-massa está t o m a n d o disso uma consciência muito clara. . sua r.extremamente facilitado no plano da ideologia e das atitudes. a ascensão dessa elite é possível nos quadros sociais existentes. consciente dessa sua posição e desejoso de merecê-la sem p a r a isso repudiar a sua condição étnica. cada vez mais como classe. aquela frustração asfixiante. ou seja. dentro da estrutura social. como homem simples. Se. e diretamente. naquelas esferas puristas. N o passado essa ascensão foi estritamente individual e feita através do processo d e branqueamento. pensando. em cada forma ou circunstância em que se manifesta. aliás. u De sua parte. e apesar deles. Se o problema surge ele simplesmente o enfrenta. e é o que sempre foi na sociedade brasileira: negro e proletário. Ele não participa. Nem aspira à participação. despida das ilusões c limitações características da pequena burguesia negra. n e m elabora explicações sofisticadas sobre opaidetinta de sua negritude. apoiado pela lei e cristalizado n u m a doutrina. mais como massa.iiz.em que o nepro sc encontra na socicdada brasileira. na medida em que é e permanece massa.sua força dc Ante». como h o m e m do povo. e destrói-o e vence-o em mil batalhas quotidianas.TENSÕES RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM MUDANÇA 289 sociais existentes. as dificuldades que esse processo está encontrando resultam do fato da ascensão ser de um grupo. ou.

E possível. se o problema do negro brasileiro consiste em que lhe falta o jeitão do branco e estará resolvido quando ele imitar esse jeitão. que já integra não só os padrões de comportamento. se esta é a nova técnica de resolver problemas de relações de raças. não é possível serem todos das classes superiores pois. para a posição da classe social com a qual a própria história dessa sociedade o confundiu. quando os seus planos forem bem sucedidos. espécie de "tira-teima" às avessas. e caracterizarse menos pela cor negra da pele do que pela cor branca da "alma". sem dúvida. no tipo de sociedade em que vivemos n o Brasil. é que ela espera u m dia. porém. que ela apontará como prova de que "no Brasil não existe preconceito de cor". não é possível haver classes sociais sem estarem híerarquizadas. e não a este ou aquele negro. os padrões de pensamento das classes superiores. a uma elite de negros. assim. 11 O que não é correto. que lhe permite viver e enfrentar a vida com a dignidade do homem do povo e com a segurança de que a evolução social está a seu favor. se isto é apresentado como solução ao negro. entretanto. por estes caminhos. sempre fará sentido lutar para ser diplomata ou oficial de marinha. acaso. no plano histórico. Para isso. o que implica em dizer que essa ascensão significará uma renovação dos quadros estruturais da sociedade que ele integra e das mudanças que o futuro reserva. Estando socialmente embaixo. como classe. é deixar dc reconhecer que tal estado de espírito e tais slogans n e m sequer encontram lugar na lista de prioridades das aspirações de milhões de brasileiros de cor. não tem diante dc si outra perspectiva de subir senão com tudo o que vem de baixo. emergir da maioria e formar um pequeno cabeço sobre a planície escura. terá de saltar muitos obstáculos. Acontece. mas também. e está perfeitamente correto que lute por isso.2 9 0 1 82 O N E G R O N O RIO DE JANEIRO em suma. o seu lugar. que. seria o seguinte: teríamos uma sociedade em que os não-negros estariam repartidos. pois e criminoso e injusto que. se esta é a ideologia preconizada por uma elite. subir socialmente. não possa sê-lo só por que tem a pele preta. se é possível haver hierarquia social sem classes. merecendo. e o resultado extravagante a que seríamos conduzidos pelas últimas conseqüências hipotéticas dessa ideologia. apenas o seguinte: passar todos os negros para as classes superiores. o negro-massa. Se negros para ascenderem precisam se adestrar nos modos e maneiras das classes dirigentes'. uns nas . provavelmente para constituir o segmento pigmentado da classe média. Para esta minoria.

110 País "onde não existe preconceito de cor". também aqui se pode dizer. liquidarem e m suas fileiras a linha da cor. e com isso diz-se tudo q u a n t o ao efeito moral de uma lei . das relações raciais. regular o que nesses assuntos depende d e u m a lei. os atos de discriminação racial. todos. q u e estrondo não menor se produziria n o Brasil se algum dia as grandes massas de cor deste País dessem ouvidos aos chamamentos dessa ideologia de raça e enveredassem pelos caminhos sem saída que ela lhes apontam.e c o m isso diz-se tudo quanto ao seu efeito moral salutar e sua eficiência prática discutível. se puder. D o m e s m o modo. e m b o r a ainda com aspecto p u r a m e n t e punitivo. mas todos eles i n d e p e n d e n t e m e n t e de sua p o s i ç ã o o b j e t i v a adestrados nos estilos de comportamento das classes superiores. nas classes dirigentes. porém. Outros problemas. e os negros. outros nas inferiores. Ou então. entretanto. em 1951. passíveis de sanção penal. 14 Assim. se é verdade. É por demais evidente q u e a medida prova a existência do ato q u e pune. isto p r o d u z i r á u m estrondo que será ouvido n o m u n d o inteiro e determinará rumos surpreendentes à civilização norte-americana. no caso presente. e num grau passível de punição. parece que começam a se configurar com a regulamentação pela lei. como diz Myrdal. Tais contradições e aberrações na lógica interna dessas posições ideológicas só se explicam e compreendem quando observamos a função que têm no contexto d a situação total e que é. que n o dia em que os sindicatos trabalhistas nos Estados Unidos. em nome d a solidariedade de classes. a d e mobilizar as massas de todo o g r u p o como massas de manobra para sustentação e apoio das reivindicações especificas de uma pequena parte d o p r ó p r i o grupo. do aparecimento. o aspecto que desejamos assinalar. aparentemente desnorteante. Localizada dentro do mecanismo das tensões raciais ora em processo no Brasil e relacionada com outras tendências q u e dentro delas se manifestam. de uma lei q u e torna crimes comuns. e m face da opinião corrente no m u n d o a respeito da situação racial brasileira. a lei referida pode indicar o começo de u m a orientação inteiramente imprevista para a teimosia de uns . já q u e este se impõe à primeira vista.T E N S Õ E S RACIAIS N U M A SOCIEDADE EM MUDANÇA 291 classes superiores. apenas entrevistos hoje. a lei c o n t f a discriminação só poderá. pois que já assume o caráter de ato anti-social. * * * É ainda d e n t r o dessa configuração e desse processus que se pode compreender o fato. como remédio. o que seria u m contra-senso não menor: os negros t a m b é m estariam repartidos cnrre aquelas classes. Não é este.

juridicamente igual a todos os cidadãos. ente abstrato. além cie como uma demonstração "oficial" da existência do preconceito. por sua vez. dentro das tensões raciais existentes e em agravamento neste País. às vezes. o direito específico de não terem praticamente negados alguns direitos mais gerais que .uns na imprensa. dúvida. o tratamento das relações de raças pela lei. independentemente de cor. Por outro lado. LIouve quem a denominasse "uma espécie de escarmento".292 182O N E G R O N O RIO DE JANEIRO e a inércia mental de outros. e que se pode resumir na f ó r m u l a separate but equal. pode indicar mais uma manifestação de ressentimento pelo fato dc a lei não distinguir. salvo engano. estava na lei por exclusão — todos são iguais perante a lei. náo será surpreendente se conduzir à situação que caracteriza as relações de raças nas cidades setentrionais dos Estados Unidos. O modo pessimista pelo qual a lei foi recebida pela elite negra em geral determinou um t o m de reserva que nos parece sociologicamente mais significativo do que. outros diretamente por nós — indica esse estado de espírito. De fato. Agora. pela primeira vez. "creio que o preconceito de cor continuará existindo. p o d e indicar o começo de um processo que. acrescentando que "sua provável ineficácia prática não lhe desmerecerá o conteúdo. tratando a todos pura e simplesmente como negros. 15 Como se vê. a impressão geral é de que ela foi recebida. n o Brasil. com amargura. e atribui-se a estes. Houve mesmo quem a considerasse "prejudicial" ou comentasse: "veremos se ela funciona ou não". não sabem ou não querem encarar com realismo o problema. na legislação republicana. U m a seleção de depoimentos de negros colhidos a esse propósito . como não podia distinguir. pessimismo e. nem lhe matara o espírito". no Brasil. Essa amargura das elites. religião etc. até então. regulamenta-se em lei o c o m p o r t a m e n t o de brancos em relação a negros. o júbilo dos que a consideraram como "a nova Lei Áurea". que não podem. negro-elite de negro-massa. porém de difícil aplicação prática". o negro vinha comparecendo como o liberto de 1888. Isto porque há muitas maneiras e modos de ser burlada a lei". o u ainda. o que t a m b é m houve. o q u e pata as elites significa nivelamento pelo mais baixo. como negros. ou disse "que é lamentável que tenhamos necessidade de uma lei c o m o esta". como cidadão. Houve quem a considerasse "útil. sexo. "talvez mais eficaz do que uma monografia folclórica". ou " u m a providenciazinha". com desconfiança. em face da natureza sub-reptícia do preconceito c da ideologia racial das classes superiores e brancas.

pode vir a ser. e pelo papel nela desempenhado pela legislação escrita. O r a . nas circunstâncias que menciona.T E N S Õ E S RACIAIS NUMA SOCIEDADE EM M U D A N Ç A 293 a lei já atribuía a todos os cidadãos. a influir no rumo c no sentido das tensões raciais. entretanto.390. Evidentemente. tecnicamente.390 passará a ser um fator objetivo. de 25 de julho d e 1951. . E possível que a ela se siga u m a legislação copiosa. quer negativo. independentemente da intenção do legislador atual e dependentemente do r u m o q u e acaso venham a tomar as tensões raciais neste País. tecnicamente. u m extraordinário boideversement das tendências. É significativo. a declarar que são puníveis os q u e violarem determinados princípios já solenemente presentes em leis anteriores e mais gerais. recreação. que tal venha a acontecer. substitutiva desta. a julgar pela experiência de outros países. independentemente d a condição étnica. parece destinar-se. São alternativas e é muito cedo para verificar. Parece certo. de m o d o igual ao branco. ou que ela permaneça como monumento à boa intenção que a inspirou. entretanto. na jurisprudência que emanar dos tribunais perante os quais ela for invocada. visando a assegurar a negros e brancos o direito de terem educação.hotéis. uma das pré-condições já existe: a entidade jurídica negro. embora não seja impossível. . obras de assistência c outro setores institucionalizados da vida social iguais mas separados. neste estrito sentido. que o mais provável seja os fatos se desdobrarem. principalmente na sua aplicação a casos concretos. u m a tal atitude da lei em face da tensão racial. e até inspirada no desejo de remediar sua inoperância prática. dos rumos e das orientações q u e têm tido na estrutura social brasileira. sem que a lei citada venha a significar. Para isto. e. além disso. obedientes à lógica que os tem presidido até hoje. assim como a julgar pelos característicos d a situação racial brasileira. a entrada e freqíientação em estabelecimentos privados . daí. porém. a lei n° 1. definida e caracterizada p o r sua condição étnica. distritos residenciais. de qualquer ponto de vista. quer positivo. o prelúdio de u m a outra legislação.. o fato é que. que para isso não t e n h a podido evitar de legislar especificamente sobre o negro como pessoa de direito. embora não afirmemos que isto seja fatal. a lei n° 1. dentre elas. N ã o c provável. presente no espírito e no texto da legislação ordinária. ainda que para declarar que ele deve ser tratado. agora em vigor. Apesar de o princípio geral ser o da igualdade perante a lei e agora se regulamentar. restaurantes etc. qual aquela que os fatos elegerão. acima de t u d o .

miraculosamente já resolvida n o passado. que vem da luta frontal contra todas as formas de alienação da liberdade — especialmente aquela que se trava nas áreas coloniais e semicoloniais da terra . de ascensão das massas. como supõem outros. Dentro dessa estrutura. buscando ainda suas formas definidas de expressão e o sopro renovador que vem do t e m p o e do m u n d o em que vivemos. aqui ou em qualquer parte. estão agora produzindo seus principais efeitos. seja qual for a forma e a intensidade com que se apresente. de definição de rumos para o futuro. de auto-afirmação. e como interrogação igual a todas as interrogações que sobre ela pairam. formas adequadas de se exprimir. A época é de surto libertário. Mas também não existe.294 182O N E G R O N O R I O D E J A N E I R O * * % N ã o existe no Brasil uma filosofia racista definida e forte dando apoio e sanção moral à discriminação racial: até hoje o cripto-racismo tem desempenhado esse papel. nessa corrente de renovação social que abala o século. As situações básicas que estão imprimindo novos rumos ao problema racial brasileiro são recentes. D e n t r o desses amplos limites. às vezes dramática. portanto. dessas mudanças de estruturas e dessa procura. ao sociólogo. rumem na direção dos desfechos catastróficos que parecem ser os únicos que muitos esperam para conferir ao problema a importância que ele realmente tem. o que importa é saber qual dos dois termos se transformará em ritmo e cadência mais rápidos no bojo da estrutura social d o Brasil: a questão racial ou a evolução social necessária para evitá-la? C o m o se vê. ou messianicamente incapaz de se transformar para o futuro. como acham uns. nos limites do necessário à função que as camadas brancas superiores lhe destinam. como parte de uma gestalte suas perspectivas não se desligam das perspectivas que tem diante de si a sociedade brasileira. cientificamente identificáveis. de velhos e novos anseios populares em ascensão. como fato igual a todos os fatos que compõem a configuração total. apenas uma variante da interrogação fundamental que se coloca diante de todas as questões básicas em que p o d e ser decomposta. de minorias. e em agravamento. a situação racial brasileira está colocada em cheio. a realidade brasileira no nosso tempo. para análise. que no Brasil existe uma questão racial se por isto se entende o padrão peculiar que essa questão tem assumido no . N ã o diremos.permitirão por certo que muitos fatores acumulados na estrutura social do Brasil venham à tona e encontrem. afigura-se. valores imutáveis e absolutos que impeçam que as tensões raciais existentes. Não é uma variável independente.

isto s i m . negro. a longo t e r m o . A o q u e parece essa "cordialidade" não i m p e d i u q u e u m Luís Gama. Op. p. cit. descobriu que no Brasil. que há uma questão racial em processo de agravamento. no Brasil n ã o . Uma revisão crítica desse conceito foi proposta por J. mata sempre em legítima defesa". outros alegam q u e aqui a situação é singular porque o brasileiro e u m " h o m e m cordial".. bradasse certa feita: " O escravo que mata o senhor. Não é por mera c o i n c i d ê n c i a . m u d a m . porém. m a i s u m a vez. O Abolicionismo. e continua engendrando. A l m a n s u r H a d d a d no seu ensaio. 107 e passim. C f . 106. onde se d e m o n s t r a q u e n ã o h á sistema escravagista que n ã o seja. social e m o r a l m e n t e falando. ninguém dispõe d a segura resposta. passim.. seja em que c i r c u n s t â n c i a for. mais a i n d a . r e s p o n d e u antecipadamente a isto. havia uma mobilidade social i n t e n s a e que facilmente se passava d o status escravo para o de liberto e. ex-escravo e a d v o g a d o de escravos. Notas 1 Algumas tentativas t ê m sido feitas para diminuir a significação desse f a t o e outras ate para negar que no Brasil t e n h a havido sistema escravocrata. T a n n e m b a u m . nas referências bib iográficas ao fim desse volume. contemporâneo da escravidão.s e os fatos para conservar a e x p l i c a ç ã o . cit. E sobre a hipótese da mobilidade. u m a crise ou uma solução. acrescenta. ao declarar q u e o n ú m e r o de escravos que se libertavam do cativeiro pelo suicídio devia ser t ã o elevado q u a n t o o dos que sc vingavam pelo h o m i c í d i o dos feitores que os a t o r m e n t a v a m c o m castigos c torturas. p a s s i m . dentro da estrutura social na qual ela se e n c o n t r a e estreitamente relacionada com outras tensões também em processo nas bases e no corpo desta estrutura. c o m e n t a n d o os resultados da chamada Lei do V e n t r e Livre: o Estado liberta 5 mil escravos. 105. cit. D i r e m o s . a q u i o q u e houve foram negros " i n d i v i d u a l m e n t e escravizados". com os característicos e as formas particulares com que a história a e n g e n d r o u .. O u t r o s reconhecem o sistema. C o m o o s f a t o r e s não se ajustam ao sistema explicativo. por exemplo. diz que nos Estados Unidos houve u m s i s t e m a escravagista. senão a história do futuro. antes da Abolição. uma violentação da d i g n i d a d e e da personalidade humana c q u e o fato d e esporadicamente alguns escravos q u e r e r e m permanecer com seus senhores depois d e libertos só mostra o grau de servidão s u b j e t i v a c de desamparo objetivo a q u e o cativeiro os reduziu. Para esta dtivida. O p . pode resultar. por definição. J o a q u i m N a b u c o . q u e "a escravidão c a liberdade. mas a l e g a m sua "benignidade". A p u d Haddad. op. F r a n k T a n n e m b a u m .. seleção d e m u i t o s outros que se enquadram plenamente dentro da interpretação p r o p o s t a . que é inevitável e que é o dado f u n d a m e n t a l de todo o problema que aqui foi estudado. Desta interdependência. eram (no Brasil) estados m u i t o próximos um do outro.TENSÕES RACIAIS N U M A S O C I E D A D E EM MUDANÇA 295 interior de outras estruturas sociais diversas da nossa. em face dos fatos aqui apresentados. também n ã o d i r e m o s que ela não existe. os p a r t i c u l a r e s 3 5 mil e a morte 300 mil.

. 2-3 (1948).. 1 Cf. que e n c o n t r o u em Porto Rico uma situação racial cm pontos semelhantes à do Brasil e que. Costa Pinto. u m a b o a apresentação histórica d o p r o b l e m a dos "brancos pobres" e dos "indenturedservants'\ escravos brancos. t a m b é m .ta. 15. A estrutura da sociedade rural brasileira.. A esse propósito r e c o r d a r m o . cit. o n d e ressalta a aplicação do conceito a u m a situação concreta. 1950. porque a e m p r e g a d a negra que os acompanhava. c o m m u i t a felicidade apontou o Brasil c o m o exemplo de uma situação racial caracterizada pelo criptomelanismo ver outro artigo. p.. * Trata-se de um artigo para o periódico negro americano The Crisis. O negro no futebol brasileiro 1947. 3 8 2 insccurity in Puerto Rico. Apr.. Cryptomelanism. apenas. e m n e n h u m a esfera social havia e n t ã o "esse abismo intransponível entre as raças c o m o mais tarde se desenvolveu". informações c exemplos de preconceito e discriminação racial no Rio de J a n e i r o . O p . o livro dc J. v. Psychiatry. por exemplo. X. 5-29. . embora d e c e n t e m e n t e trajada. nos Estados U n i d o s . U m exemplo. n.n o s d o depoimento prestado pelo P r o f . p.a m c r i c a n a teria função tão importante lá n o desenvolvimento peculiar da situação racial n o s Estados Unidos e cuja ausência na formação da sociedade brasileira é assunto de capital importância c tão pouco c o n s i d e r a d o pelos que têm estudado nos últimos t e m p o s a situação racial no Brasil. Mario Filho. n ã o fosse nossa preocupação evitar que essa pesquisa sc transformasse num catalogo de casos. p. 1949. delegado permanente do Brasil j u n c o à UNESCO. também. A. 294 c ss. Nesta obra encontra-se. cuja presença e c u j o papel na formação da sociedade n o r t e . 3.. 5 6 slavery. aspects of Puerto Rico's race problcm. A s t u d y of color relations and personal Aug. n. 1 9 4 7 . id. Curiosamente. o Dr. Race patterns and prcjudice in Puerto Rico. 1951). fatos. v. ainda de Maxime W . Soe.. Rev. Cf. ao qual urna longa lista poderia ser somada. dc abril de 1951.296 182O N E G R O N O R I O D E JANEIRO que hoje os líderes negros consideram u m a das suas principais tarefas combater o q u e c h a m a m "a herança psicológica da escravidão" q u e consiste no fato dc os negros o l h a r e m a si mesmo com os olhos do senhor b r a n c o " . n. -1 Coisa que se pode confirmar em q u a l q u e r compêndio de história social n o n c americana. desses que têm inspirado n o Brasil tantos ensaios de literatura histórica. o fato dc ter chamado nossa atenção p a r a esse artigo em carta que teve a gentileza dc nos enviar. Gordon. p.. c o n v i d a d o s por amigos para assistirem a uma festa n u m clube dos mais exclusivistas do Rio de Janeiro. especialmente p. tiveram de voltar da porta sem p o d e r e m entrar no clubc. Agradecemos ao escritor negro brasileiro. R o m e u Cruzoé. como.. v. 4 O Autor tem disso uma experiência m u i t o próxima. que a f i r m a que no período colonial. 156 c ss. autor do r o m a n c e sobre preconceito de raça no Brasil i n t i t u l a d o A maldição de Canaã (Rio de J a n e i r o . c ss. L. Paulo C a r n e i r o . Gordon C u l t u r a l Am. a p u d Maxime W . Sociologia. não envergava o u n i f o r m e de empregada doméstica que o clubc exige c o r n o condição para uma moça dc cor cruzar os seus portões. 7 Cf. foi uma das pessoas que nos p r e s t a r a m esse depoimento. Capi. 2.lism and 1 9 4 4 . T r u s l o w A d a m s . Seus filhos. Renzo Sereno. S o b r e este problema cf. passim. ouvido dc terceiro. 14. Provincial society (1927). 105. Jun. o excelente estudo dc Eric Williams.

D e s i s t i n d o d e a r g u m e n t a r sobre seu direito de j o r n a l i s t a profissional. ao mesmo t e m p o q u e reforçam os mecanismos d e solidariedade g r u p a i . e falando corretamente o seu inglês. d a UNESCO. q u e cedo pode se tornar u m h o m e m .. Quilombo.aos olhos dos liderados — a s s i m c o m o a posição real ou simulada d e d i r i g e n t e de massas negras . podem ser vantagens o u d e s v a n t a g e n s para o líder. audácia c. está l o n g e d e ser o único ou sequer o m a i s i m p o r t a n t e condicionamento das novas a t i t u d e s raciais observadas. se o quiser. principalmente b o n s c o n t a t o s pessoais com círculos brancos. assinalando o mesmo fato em relação à propagação do preconceito d e raça n a F r a n ç a . que muito facilmente. Redenção. sua carreira de líder. este jornalista. foi o que o c o r r e u c o m o jornalista negro João Conceição e q u e ele narrou em entrevista ao p e r i ó d i c o 1950. ao mesmo t e m p o . u m a m i g o . u m e l e m e n t o perigoso e suspeito. Senzala ( h o j e desaparecidos). q u e . simplesmente deu a v o l t a à t r i b u n a . ou. u m aliado. Q u a n d o se d i s p u t o u n o Rio de Janeiro o c a m p e o n a t o m u n d i a l d e f u t e b o l . jornal n e g r o .s í m b o l o das aspirações das massas negras. embora o fato exista. uma glória. escolha títulos que... u m elemento útil. p o d e ser c o n s i d e r a d o u m i/der prestigiado. d e que ambos fomos m e m b r o s e m 1 9 4 9 . e n c a m i n h o u se para o lugar r e s e r v a d o à i m p r e n s a . estes n o m e s c estes órgãos formulam. um demagogo. o que torna qualquer negro a p e n a s instruído. u m carreirista.aos olhos d o s c í r c u l o s brancos . perante o C o m i t ê d e P e r i t o s sobre Relações de Raças. do jornal negro n o r t e . um líder cm potencial d e n e g r o s . " É inevitável assinalar por outro lado . O controle constante dos fatores q u e p o d e m conduzir a essa variável definição d e seu papel na mente dos negros que estão embaixo dele c dos brancos que estão acima dele é parte fundaAssim. um oportunista. assíduo nas rodas j o r n a l í s t i c a s . exibiu suas credenciais de c o r r e s p o n d e n t e . d o M u s e u d o H o m e m de Paris. Apesar de exibir suas c r e d e n c i a i s . (cm organização) etc. '' U m a terceira m o d a l i d a d e de se revelar mesmo i n d i r e t a m e n t e a i n f l u ê n c i a norteamericana nas atitudes raciais d e certos brasileiros. sabendo c o m b i n a r c o m habilidade esses fatores. para q u e esteja e m condições virtuais de iniciar. Escusado é dizer. s u a entrada foi impedida. /I voz da negritude a linha de cor.. políticas e literárias. por outro l a d o . o líder pode ser muitas vezes.T E N S Õ E S RACIAIS N U M A SOCIEDADE EM M U D A N Ç A 297 Claude Lévy-Strauss. q u e u m m í n i m o dc avanço ou d e s e m b a r a ç o i n t e l e c t u a l permite a um negro u m a v a n t a j a d o afastamento em relação ao nível c u l t u r a l e m q u e a massa dc cor ainda se e n c o n t r a n o Brasil. em como diretor doRedenção. a o conceito de uns ou de outros. n u m dos jogos. constância.e isso vai aqui a f i r m a d o s e m qualquer intenção aleivosa . À l u z d e o u t r o s padrões.a l f a b e t i z a d o . com agilidade mental. u m l a d i n o . a q u i c o m o lá. d c estar ali pata fazer para seu jornal a r e p o r t a g e m s o b r e o jogo. u m s í m b o l o . Pittsburg courierc assim não só p ô d e p e n e t r a r na bancada da imprensa.conforme a situação e o m o m e n t o . u m mártir. entretanto. apenas um s e m i . ao contrário. s o c i a l m e n t e superiores. q u e dc fato 6. refletindo u m e s t a d o d e fato e de espírito. ultima Hora. Sem comentários. que exprime sempre a p o s i ç ã o e os p o n t o s de vista desta elite intelectualizada. c o m o foi a t e efusivamente N ã o é p o r m e r a coincidência que a imprensa negra d o R i o d e Janeiro. a s p e c t o externo. lembram fatos c fases de u m a l u t a histórica. u m protesto contra . em atividade profissional. A a p r o x i m a ç ã o e m relação aos círculos brancos s o c i a l m e n t e superiores .a m e r i c a n o recebido.

2 9 8 1 82 O NEGRO NO RIO DE JANEIRO

mental dos planos táticos da liderança negra e explica muitas a p a r e n t e s contradições de seu pensamento, atuação c comportamento individual. O p r o b l e m a se torna na prática tanto mais c o m p l e x o q u a n t o aqui; ao contrário do que acontece n o u t r a s situações raciais, a função do líder não é acomodar aspirações agressivas das massas, pois no Brasil as massas negras já se t o r n a m inquietas, às vezes radicais, mas a i n d a não-agressivas. Agressivas tornam-se p r i n c i p a l m e n t e as elites na medida precisamente e m q u e se sentem, em certo sentido, desajudadas d o apoio das grandes massas de cor, q u e n ã o as seguem.
12

Sem dúvida essas limitações também são o p r o d u t o da íluidez que ainda negritude,

apresentam os resultados ideológicos das tensões raciais entre nós. N o caso da

como vimos, chega a ser mais u m sentimento do que p e n s a m e n t o . Essa íluidez c indeterminação, aliás, ficou patenteada no Congresso Brasileiro d o N e g r o (1950), no qual sc desenrolou t o d o sem saber precisamente se era a) sobre o n e g r o o u b) do negro, se era um conclave para e s t u d o s ou para reivindicações. Essa s e g u n d a orientação, na prática, prevaleceu n i t i d a m e n t e , havendo até surgido, no próprio congresso, teses contra ele, que pediam mais ação c m e n o s discussão. Nesse sentido, aliás, c o m o o c o m p a r c c i m e n t o ao congresso foi quase q u e exclusivamente de negros da p e q u e n a burguesia, pôde-se observar que a i n d e t e r m i n a ç ã o dos objetivos era mais dos dirigentes d o c e r t a m e do que das assembléias que a ele c o m p a r e c e r a m . Por outro lado não resta d ú v i d a d c que outro fator dessa íluidez ideológica é o fato dos negros, em grande parte, o l h a r e m a si mesmos com os olhos dos brancos.
13

É curioso observar q u e essa luta, apesar dc acesa, admite e n t r e t a n t o , na mente compromissos e acomodações. Parece q u e sc aceita, por

dc alguns negros evoluídos,

exemplo, c o m o f ó r m u l a conciliatória, que negros sejam representantes diplomáticos do Brasil cm países onde a maioria da população também seja negra: E t i ó p i a , Libéria, Haiti. C f , a esse respeito, a crônica dc Pompílio da Hora, que se tem d e s t a c a d o na luta pela entrada de negros na carreira diplomática, na sua coluna "A voz d o n e g r o " , intitulada U m proeminente jurista, na qual sc aponta, inclusive, cm favor d a q u e l a fórmula, o exemplo dos Estados U n i d o s . É freqüente, aliás, encontrar nos escritos d o s líderes negros brasileiros, que gozam os "benefícios" do que os ideólogos c h a m a m a "nossa democracia racial", referências elogiosas, algumas quase dc inveja, relativas ao progresso do negro nos Estados U n i d o s . Escusado é dizer que isto revela mais u m a f o r m a c o m p l e t a m e n t e falsa de colocar a apreciação objetiva das diferenças e peculiaridades d a situação racial dos dois países. Por exemplo, q u a n d o o Dr. Ralph Bunche foi d i s t i n g u i d o c o m o prêmio Nobcl, o tom d o editorial c o m q u e Quilombo comentou o fato vale c o m o u m d e p o i m e n t o .
H

Escusado é dizer q u e a maior parte dos brancos de classe s u p e r i o r que em movimentos

nossa presença se m a n i f e s t a m sobre esses movimentos do negro — os c h a m a d o s aqui de novo tipo, d o n d e se d e s p r e n d e essa ideologia - os considera c o m o racistas, baseando-se para isso n o seu exclusivismo, que, aliás, é p r á t i c o e n ã o teórico, já que todos dizem estar abertos a negros e brancos. Recentemente n u m a enquete de jornal foram colhidas várias opiniões a respeito, inclusive, s u r p r e e n d e n t e m e n t e , a do dirigente do T e a t r o E x p e r i m e n t a l do Negro, acusado t e m p o s atrás pela imprensa precisamente das m e s m a s tendências. O fato, aliás, encontra sua explicação como manifestação da hostilidade latente que existe entre os dirigentes d e associações negras

T E N S Õ E S RACIAIS N U M A S O C I E D A D E E M M U D A N Ç A

299

u m a s das quais era nominalmente citada, n o d e p o i m e n t o de A b d i a s Nascimento que, replicado, ao q u e saibamos, náo ofereceu resposta. D e q u a l q u e r sorte, o que há dc racismo agressivo nos movimentos negros é p u r a m e n t e u m m e c a n i s m o dc defesa e uma tentativa d e superação do racismo no branco. Cf., em Ultima 2 4 / 1 0 / 1 9 5 1 d o m e s m o jornal.
15

Hora,

a reportagem

Associações dc u m a só cor podem formar perigosos quistos, e a réplica na edição dc Esses depoimentos, os que não colhemos em corrcspondência escrita de negros,

estão publicados n o Jornal de Letras, ano II, n. 26, ago. 1951, p . 15, n u m a enquete com líderes negros a propósito da sanção da lei.

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(Agradecemos ao Dr. Thomaz Pompeu Accioli Borges a gentileza de nos ter cedido para consulta as cópias fotográficas dos originais deste livro, mandadas a fazer pela Fundação Getúlio Vargas, ainda antes de o trabalho ser enviado à publicação).
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em cartão supremo 250 g/m 2 . O miolo foi impresso em papel off-set 90 g/m 2 e a capa. para a Editora UFRJ.Este livro foi composto em AGaramond. em junho de 1998. pela Gráfica Serrana. .

„: . Os resultados da p e s q u i s a l e v a m C o s t a Pinto a uma visão cética d a s o l u ç ã o dos p r o blemas raciais. o sociólogo p e r gunta pelos movimentos sociais d c c o m b a t e ao preconceito c às d e s i g u a l d a d e s l i d e r a d o s pelos negros no B r a s i l . c r i a n d o . segundo ele. Aprofundando o e s t u d o . um fosso intransponível e n t r e os p a r t i c i pantes do movimento c os n e g r o s p o b r e s . e n f a t i z a n d o a i m portância dos centros de u m b a n d a e d a s a gremiações de escolas de s a m b a . GLAUCIA V I L L A S BÒAS R'<//. essas atitudes tenderiam a sc a g r a v a r n o f u t u r o . P o r é m . assim. r e s s a l t a n d o as particularidades b r a s i l e i r a s . Ao c o n t r á r i o . o alvo de sua análise c de s u a c r í t i c a é o m o v i mento da elite negra do Rio de J a n e i r o .c brancos c diferente nos dois p a í s e s . Transcorridos quarenta anos. Seu prognóstico se d i s t i n g u e radicalmente daquele de seus c o m p a n h e i r o s de geração. c u j a estratégia. financiado pela ÜNKHCO s o b r e as r e l a ç õ e s raciais no Brasil: não a c r e d i t a q u e as m u danças sociais trazidas pela i n d u s t r i a l i z a ç ã o do País possam acabar com o p r e c o n c e i t o e a discriminação racial. m a s t a m b é m a atualidade c pertinência de s u a s teses.mm UI W . D e s c r e v e d i f e r e n t e s modalidades de associação. sociólogos q u e t a m b é m p a r t i c i p a r a m do projeto dc pesquisa e n c o m e n d a d o c. l e v a v a à i n t e g r a ç ã o de apenas pequeno n ú m e r o d e n e g r o s n o s padrões da classe média carioca. RM ) A. c a b e r á aos leitores do livro julgar não só a o r i g i n a l i d a d e da contribuição de Costa Pinto.

EDITORA . a p e n s a r e a g i r d e f o r m a a b r a n g e n t e e generosa «obre. n ã o é u m a c a t e goria ossencializada. c o m o c i d a d ã o s e intelectuais. tão necessária f r e n te aos grandes desafios d e s t e final <le século. q u e se a p r e s e n t a m no âmbito das relações r a c i a i s .Vlii ais Ciiok M vio . substantivada. s o b r e u m t e m a tão controverso c o m o o r a c i s m o n o B r a s i l . R a ç a . para Costa Pinto. li nessa perspectiva que. Do seu p o n t o de vista s o c i o l ó g i c o e m e r g e a concepção dc q u e as d e s i g u a l dades sociais. dc análise. M . a d i n â m i ca d a nuidança social.N o m o m e n t o e m que surgem p r o p o s t a s cie r a cializnção da sociedade brasileira. devem ser c o m b a l i d a s com políticas públicas i c d i s l r i b u t i v a s . C o s t a Pinto nos c o n v i d a . de c a r á t e r u n i v e r s a l . s e m s u b t e r f ú g i o s . o b r a q u e contribui para uma reflexão. é m u i t o b e m v i n d a a reedição dc 0 negro no [tio dc Janeiro.

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