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Arteterapia, doente mental e família: um cuidado integrado e possível em saúde mental na nossa atualidade?

Arteterapia, doente mental e família: um cuidado integrado e possível em saúde mental na nossa atualidade?

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Material enviado ao Portal Banco Cultural pela Profª Ana Cláudia Afonso Valladares (FEN-UFG) - Coordenadora do Conselho Editorial da Revista Científica de Arteterapia Cores da Vida e presidente da Associação Brasil Central de Arteterapia (ABCA)

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05/07/2013

VALLADARES, A. C. A. “Arteterapia, doente mental e família: um cuidado integrado e possível em saúde mental na nossa atualidade?”. Rev.

Arteterapia: Imagens da Transformação. Rio de Janeiro: Clínica Pomar, v.12, n.12, p.09-32, 2006.

Arteterapia, doente mental e família. Um cuidado integrado e possível em saúde mental na nossa atualidade?1
Art therapy, sick mental and family. An integrated care and possible in mental health in our present time? Profª Dnda. Ana Cláudia Afonso Valadares

Resumo: A autora deste artigo se propõe a realizar uma reflexão teórica e prática sobre a importância da arteterapia no novo paradigma de atenção em saúde mental, com enfoque à pessoa com transtorno mental e seus familiares, como um processo que auxilia na reabilitação desses usuários. A autora ainda ilustra o texto com algumas experiências de arteterapia aplicadas a esta clientela. Abstract: The author of this article intends to accomplish a theoretical and practical reflection on the importance of the art therapy in the new paradigm of attention in mental health, with focus to the person with mental upset and their relatives, as a process that aids in those users' rehabilitation. The author still illustrates the text with some experiences of applied art therapy the this clientele. “As sessões de arteterapia vão ajudar na ampliação de habilidades e aumentar a autonomia do usuário, valorizando a singularidade e desenvolvimento do potencial criativo muitas vezes latente nesta clientela, que são aspectos importantes para o cuidado integral e holístico, minimizando as diferenças, fortalecendo as práticas inclusivas e resgatando o prazer de estar atuando” (Valladares, 2004, p. 124).

a) Reflexões sobre a história da loucura e a Reforma Psiquiátrica: O Brasil vem passando por mudanças significativas nos cuidados à saúde mental, desencadeadas pelas transformações gerais no contexto de saúde brasileira, bem como pela incorporação de elementos da Reforma Psiquiátrica. Este processo de Reforma Psiquiátrica, ocorrido no Brasil, foi encabeçado pelo Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental, no qual sua principal meta era a desinstitucionalização, isto é, a negação da instituição asilar como tratamento e a sua substituição por novas práticas que efetivaram a participação das famílias e comunidades (do modelo hospitalocêntrico para o modelo preventivista-comunitário). A Reforma Psiquiátrica significa um processo contínuo de reflexões e transformações no trabalho com a loucura, com a diferença e sofrimento mental, eventos que ocorrem simultaneamente nas áreas
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Pesquisa inserida no Núcleo de Estudos e Pesquisa em Saúde Integral da FEN/UFG.

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assistenciais, culturais e conceituais. Buscam, sobretudo, transformar as relações que a sociedade, os sujeitos e as instituições estabelecem com a superação do estigma, da segregação e desqualificação, produzindo um novo “imaginário social”, diferentemente do que existiu ao longo dos anos, como a periculosidade, irrecuperabilidade e incompreensão do doente mental. Nos últimos anos, no Brasil, novos serviços foram criados objetivando adequarem-se à nova política de saúde mental, como a concepção do trabalho inter e transdisciplinar desenvolvido por profissionais de saúde, com a promoção de projetos terapêuticos individualizados e a reabilitação psicossocial, o que exigiu deles requalificação e expansão dos papéis profissionais, para prestação do cuidado em saúde mental. Conseqüentemente, houve o envolvimento da sociedade com o doente mental, seja na lida, na individualização da assistência ou na inserção social do doente mental. Esse envolvimento da sociedade com o doente lhe ofereceu maior autonomia e suporte social, bem como grupos de apoio, locais para moradia e meios de subsistência. Isso significou o resgate do indivíduo comosujeito-no-mundo, por lhe oferecer condições para desenvolver capacidades para lidar com o cotidiano, conviver e aceitar suas limitações. Presume-se que, com a reabilitação psicossocial, o doente mental passe a ser visto como um sujeito que vive em um determinado território, que estabelece relações sociais e que tem uma família. Cabe salientar que desenvolver e aplicar um programa de reabilitação psicossocial significa: estabelecer a possibilidade de acolhimento, de cuidado, de construção de vínculos e de sociabilidade ao sujeito em sofrimento psíquico; oferecer espaços para inclusão da diferença, para superação de medos e preconceitos; propor formas mais humanizadas e integradoras; e ainda criar espaços para a aprendizagem e valorização da fala, da escuta, do registro, do respeito, da dignidade, da responsabilidade, do acompanhamento, da inclusão da família e da reinserção social. Na reabilitação psicossocial lida-se com o ser complexo, pois esse processo visa maior subjetividade e singularidade no atendimento às pessoas em sofrimento psíquico. A reabilitação social, sobretudo, busca ações que favorecem o aumento das possibilidades de recuperação dos doentes mentais e a diminuição dos efeitos desabilitantes da cronificação dos indivíduos, ações essas que envolvem o indivíduo, a família e a comunidade em cuidados complexos e delicados (Pitta, 2001). Assim, uma das questões mais relevantes em relação à reabilitação psicossocial do doente mental não envolve somente mudanças no seu tratamento, mas, sobretudo, no tipo de serviço que o atende, uma vez que uma das tarefas mais importantes desse serviço de saúde mental é a de ajudar o indivíduo, permanentemente, a gerar “sentido” em sua vida, seja por meio da construção afetiva, relacional, material, habitacional ou produtiva. Esse novo sentido pode se dar em espaços abertos e não protegidos (diferente dos manicômios), fazendo aflorar um cenário de vida, um sonho de liberdade e a sua inclusão social (Saraceno, 1999). Nesse processo, está incluída a valorização das práticas terapêuticas que busquem o exercício da cidadania. Entende-se que a reabilitação psicossocial abrange contratualidade em quatro grandes cenários: habitação; rede social; família e trabalho, como valor social. Frente ao exposto, é pertinente afirmar que o co-envolvimento da família é um importante aspecto a ser considerado nos projetos de reabilitação, tornando-a protagonista e responsável pelo processo de tratamento e organização da vida do doente mental. Por isso, atualmente, a preocupação com a saúde mental não se restringe apenas à pessoa doente, mas a toda estrutura da sociedade em que ela está inserida, e da qual a família é parte integrante. Assim, transformar as relações que existem entre a família e o doente mental é um dos grandes desafios a serem enfrentados pela Reforma Psiquiátrica. E cabe ao profissional de saúde

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mental a responsabilidade de contemplar no seu contexto de atendimento, o indivíduo em sua totalidade, e também sua família.

b) Reflexões sobre o co-envolvimento da família no tratamento da doença mental Pode-se afirmar que alterações importantes ocorrem na família quando um dos seus membros sofre de um transtorno psíquico. Estudos (Saraceno, 1999 e Melman, 2002) mostram que a doença mental, em geral, desencadeia graves danos no plano psicológico, no da organização da própria vida do indivíduo e também no plano material, que passa a vivenciar, no decorrer do tempo, distúrbios e desabilitações psicossociais. Pois, o convívio diário dos familiares com uma pessoa com transtorno mental dentro da casa, e fora do circuito hospitalar, traz sérias dificuldades para estas famílias, como encargos físicos, emocionais, econômicos e sociais. Essa é uma tarefa difícil, trabalhosa, complexa, que exige grandes responsabilidades. A família, ademais, representa o primeiro núcleo social do indivíduo, onde se esboçam as relações com o mundo, portanto, o núcleo familiar é a primeira interação de reabilitação e constitui um núcleo que acolhe o doente mental e que atende às suas necessidades materiais e afetivas. Fica evidente que ao partilhar um local comum, familiares e usuários enfrentarão conflitos e antagonismos, entretanto para amenizar as dificuldades enfrentadas pela família na convivência com o doente mental, o serviço deve estar apto a possibilitar que os familiares sejam capazes de exprimir também suas necessidades e sentimentos (Melman, 2002). Construir programas de intervenção e desenvolvimento que promovam a saúde e o bemestar dos pacientes, assim como acolher o sofrimento mental do paciente são aspectos relevantes, mas também a presença dos familiares no acompanhamento desses elementos demonstra uma atitude saudável e benéfica em saúde mental, idéia esta ainda pouco explorada na atualidade, dentro da área da saúde mental ou da arteterapia. Por outro lado, é vital ampliar a capacidade de resistir e crescer numa situação tão adversa como a da doença mental, permitindo a abertura de um novo território existencial, isto é, experimentar novos gestos, novas possibilidades, um novo campo de intervenções, no qual a comunicação verbal não é o que mais importa. Valoriza-se nesse contexto a multiplicidade de formas de linguagem não-verbais, como os gestos, maneirismos, as somatizações, os silêncios, os choros etc. Repensar o cuidado dispensado aos pacientes psiquiátricos e familiares, sob a perspectiva da construção-invenção de um outro modo de tratar os pacientes, é um caminho que indica a criatividade, a espontaneidade e o lúdico. Diferentes modos de abordar os problemas e de explorar potenciais criativos, como veículo de mudança pessoal e de transformação da realidade externa, ocorrem por meio de processos coletivos. A esse respeito, Tavares (2004) também reforça que a experiência criativa proporciona uma ruptura no movimento de repetição da doença mental. c) Reflexões sobre arteterapia no novo paradigma de atenção em saúde mental “A linguagem artística é um caminho de expressão, comunicação e síntese da experiência pessoal do sujeito, é fruto das atividades consciente e inconsciente, integra aspectos afetivos e cognitivos de saúde e doença, sendo portanto o seu entendimento muito útil para ampliar a compreensão do ser humano.” (Santana, 2004)

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A arteterapia é um processo terapêutico com predominância do não-verbal, que permite a transformação com o uso de materiais expressivos, possibilitando a emergência de conteúdos inconscientes para confronto, elaboração e expansão do indivíduo (Philippini, 2004b). A arteterapia, então, permite desenvolver a comunicação e a expressão com a utilização de materiais expressivos; acolher essas imagens simbólicas que surgiram com a valorização das experiências de vida dos pacientes e, posteriormente, facilitar as transformações pelos materiais expressivos. Os objetivos da arteterapia, nesse contexto, podem ser - desenvolver a autonomia criativa; - valorizar a subjetividade e liberdade de expressão; - ampliar habilidades, autopercepção de si e do outro; - facilitar a catarse - permitir as trocas sociais e a integração São desafios enfrentados pelo arteterapeuta, construir um cuidado que envolva um espaço acolhedor, mas não ameaçador e que permita à pessoa doente expor seus sentimentos, comunicarse com maior naturalidade e dar conta da complexidade e da amplitude de suas potencialidades. Assim, elaborar estratégias e práticas terapêuticas para facilitar a comunicação, mesmo as nãoverbais (plásticas), mas que sejam audíveis de alguma forma é uma necessidade humana. Nesse sentido, é importante construir práticas que possam permitir “(...) um olhar mais atento aos talentos e as potencialidades de sua clientela, reforçando os aspectos mais saudáveis e criativos da subjetividade dos sujeitos envolvidos.” (Melman, 2002, p.132). Tais proposições com características do processo arteterapêutico vêm-se constituindo em experiências positivas, em vários estados brasileiros, como São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás e Rio Grande do Sul, por isso, acredita-se que a arteterapia muito poderia contribuir para a reabilitação do sofrimento mental. Para Valladares & Fussi (2003), a arteterapia é um processo de estímulo à criatividade, pois permite ao participante expressar-se e comunicar suas idéias e emoções, além de contribuir para o aumento da sua auto-estima e expansão emocional, diminuindo sua ansiedade. É oportuno ressaltar que esta técnica permite acesso ao conteúdo do inconsciente, por meio da expressão artística, linguagem menos formal e “(...) o símbolo configurado em materialidade leva à compreensão, transformação, estruturação e expansão de toda a personalidade do indivíduo que a criou” (Philippini, 2004b, p.78). A arteterapia procura valorizar a singularidade do sujeito sem perder de vista o coletivo, utilizando a arte, que é um caminho de expressão, de comunicação e síntese da experiência pessoal da pessoa. Representa, ainda, conteúdos inconscientes e conscientes, integra aspectos afetivos e cognitivos de saúde e doença, sendo benéfica para ampliar a compreensão do ser humano (Santana, 2004). Allessandrini (2004) refere que as atividades artísticas possibilitam à pessoa simbolizar suas percepções sobre o mundo, sobretudo quando não consegue expressar-se verbalmente ou através da linguagem escrita. A arteterapia cria circunstâncias propícias para que o indivíduo exercite sua criatividade de forma espontânea, trabalhando com outras linguagens não-verbais, como a sonora, a corporal e a plástica, além de exercitar os estímulos auditivo, visual, motor, cognitivo e a fala, entre outros. Enfim, a arteterapia dá maior liberdade ao indivíduo para expressar suas emoções, cria oportunidades que levam os doentes mentais e seus familiares a aceitar com mais naturalidade as situações desfavoráveis, ajudando-os a se adaptar melhor às mudanças no seu cotidiano, diminuindo as situações de estresse e restabelecendo o equilíbrio emocional. Da mesma maneira, a arteterapia pode ajudar o ambiente terapêutico a parecer menos hostil, tornando-o mais descontraído e natural.

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A Reforma Psiquiátrica, a desinstitucionalização e a reabilitação psicossocial são caminhos que pertencem a este tempo presente, tempo que está sendo construído gradativamente, com a contribuição de cada profissional. Diante do exposto, sugere-se que a arteterapia, concomitante aos outros tratamentos, seja utilizada como forte aliada na promoção da integração, criatividade e liberdade da pessoa em sofrimento mental e de seus familiares e comunidade.

d) Experiências criativas de arteterapia na saúde mental “Prazer que pode vir da surpresa da mistura de cores e da gestação de imagens a partir de borrões e manchas iniciais, comunicando afetos esquecidos ou nunca experimentados. Prazer de tocar o barro que, sob a pressão, o calor e o trabalho das mãos, concretiza objetos e personagens. Prazer de ver o ritmo e a evolução dos traços que, da garatuja às formas mais elaboradas, representam emoções” (Philippini, 2004a, p.89) A estrutura teórica norteadora do presente estudo repousou na contribuição da arteterapia como desencadeadora do processo criativo e estimuladora do imaginário, para facilitar a expressão simbólica e a ordenação das experiências internas dos participantes. Aplicando a arteterapia, a autora deste trabalho realizou em uma Instituição Aberta de atendimento à Saúde Mental, em uma cidade do interior de São Paulo/SP, no segundo semestre de 2004, uma experiência que teve a duração de dois meses. A amostra foi composta por pacientes psiquiátricos adultos, e seus familiares (crianças, adolescentes e adultos) de ambos os sexos. O grupo foi formado por pessoas aquiescentes ao processo, sendo permitida a participação de mais de um elemento por família, devendo cada sessão ter no máximo dez participantes. A Fig 1. ilustra o convite apresentado aos usuários e familiares para formação do grupo.

Fig 1. ilustra o convite apresentado aos usuários e familiares para formação do grupo. As intervenções de arteterapia constaram-se de atividades espontâneas/livres e dirigidas, nas quais se utilizaram dinâmicas variadas de acordo com a necessidade do grupo, visando à integração de seus componentes, bem como propiciar um clima de descontração e respeito mútuo, elementos necessários para estimular o relato de experiências e sentimentos vivenciados pelos seus participantes. Essas intervenções de arteterapia favoreceram a conduta focal e imediata, e garantiram a privacidade e a segurança do relacionamento arteterapeuta-cliente, durante o atendimento. Sabe-se que não existem fórmulas mágicas para o ato do cuidar, mas a invenção, a busca de possibilidades várias, são alguns exemplos que podem ser inseridos na prática dos arteterapeutas

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que trabalham em saúde mental, conforme os novos paradigmas vigentes. Para tanto, devem ter como princípio básico o respeito às potencialidades e às limitações de cada fase humana. Realizou-se uma análise descritiva e exploratória de três sessões desenvolvidas, que se encontram descritas a seguir: Atividade 1: Desenho livre O desenho que se atém à expressão gráfica objetiva a forma, a precisão, o desenvolvimento da atenção, da concentração, da coordenação viso-motora e espacial, bem como ajuda a concretizar alguns pensamentos pela linguagem figurativa, portanto, favorece a objetivação da imagem. Primeiramente, o arteterapeuta desenvolveu com os elementos do grupo um relaxamento corporal e mental. A seguir, sugeriu que os participantes, de olhos cerrados, reportassem na imaginação seus momentos de vida atuais, deixando-se experimentar as sensações corporais, os movimentos, a maneira de olhar para si e para o mundo à sua volta. Depois, propôs que os participantes fizessem um desenho projetivo com a representação desses sentimentos e sensações, em uma contextualização livre. Estimulou a pessoa a dar um título às obras produzidas e a escrever palavras ou frases soltas, de forma poética ou não, podendo, assim, caracterizar uma escrita criativa, que registraria as principais emoções despertadas, o tema abordado, ou fatos significantes que ocorreram durante a confecção da obra proposta. Após o término desta etapa, as pessoas puderam compartilhar seus trabalhos com os demais membros do grupo e falar sobre o mesmo, caso quisessem. A seqüência sugerida teve o propósito de ajudar na orientação do pensamento do participante. Para realizarem esse trabalho, utilizaram os seguintes materiais: giz de cera, carvão, lápis de cor, giz colorido, pincel atômico, canetas hidrográficas, lápis preto e borracha, carvão preto e papel sulfite branco (tamanhos A3 e A4) e cartolina branca. As Fig. 2 e Fig. 3 expõem a representação gráfica de uma criança (familiar de um doente mental) com 8 anos de idade. O desenho, da Fig. 3, expressa sua projeção interna, seus medos e reações ao relatar a existência de um ser malvado invadindo a vida de uma família de patos, como mostra o desenho.

Fig. 2 ilustra a representação gráfica - série 1 - da criança (familiar A), durante a 1ª sessão de arteterapia.

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“Era uma vez um patinho e a patinha eles iam la na bera do Rio beber água e um dia tinha um lago e eles entraram e viu um bicho grande e mauvado e eles saíram correndo para casa todos assustado por causa do grande mostro mauvado” Fig. 3 ilustra a representação gráfica - série 2 - da criança (familiar A), durante a 1ª sessão de arteterapia. Na Fig. 42, outra criança, com 10 anos de idade, também representando o familiar do doente mental. Expressa certo desequilíbrio no trabalho ao projetar o sol e as nuvens entre os planos da terra e da casa. As nuvens escuras do desenho – sugerem pressão ambiental; a casa se apresenta sem linha de base – sugere comprometimento emocional e dificuldades de contato firme com a realidade. Janelas só se encontram nos telhados – podendo indicar uma certa dificuldade de contato direto, contato vivido mais na base da fantasia e da imaginação. Ênfase no telhado – pode sugerir tentativa de defesa da ameaça de perda do controle pela fantasia ou distorção da percepção da realidade. Nota-se, pelos desenhos, que mesmo não estando diagnosticadas como “doentes”, as crianças relatam medos e desequilíbrios em seus trabalhos, algo que deve ser acolhido e trabalhado para não gerar uma série de danos às mesmas. Fica evidente, então, a importância de se desenvolver um trabalho de arteterapia junto a essa clientela.

Fig. 4 mostra o desenho da criança (familiar B), durante a 1ª sessão de arteterapia.

Atividade 2: Mandala
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Análise da casa baseada em livros de desenhos projetivos

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A mandala é a representação simbólica da psique. Significa, sobretudo, a imagem utilizada para consolidar o ser interior ou para favorecer a meditação em profundidade. Ademais, ela possui finalidade dupla, a de conservar a ordem psíquica, se ela já existe; ou de restabelecê-la, se ela desapareceu, exercendo também uma função estimulante e criadora (Jung, 1964). A confecção da mandala favoreceu a organização de estruturas pela junção e articulação de formas prontas ou criação de novas formas. Inicialmente, os participantes viram jogos de mandalas já confeccionadas para que pudessem escolher entre as existentes, as que mais se identificavam com eles: cor, traçado, movimento, linha, tom, direção, forma, textura ou símbolo. Depois, eles puderam ler o significado dessas mandalas escolhidas, em duplas, refletir sobre a sensação e o sentimento que estas despertaram neles, e se isso tinha algo a ver com a vida deles no momento atual. A partir desta discussão, em duplas, os participantes puderam livremente colocar no grupo sua experiência. Posteriormente, propôs-se a confecção da sua própria mandala, semelhante ou não à mandala escolhida. Para esse fim, utilizaram CDs como o círculo da mandala, e ainda cola colorida, materiais gráficos e perfurantes, fios de lãs, adesivos, lantejoulas, brocal e purpurina. No final da sessão os participantes puderam mostrar os trabalhos e falar sobre os mesmos, que foram expostos sob a forma de cortina. Nesta etapa, desencadearam-se reflexões pessoais, como: Quem sou eu? Do que eu necessito? Quais meus objetivos e metas? O que eu gostaria de realizar? O que eu preciso aprender? O que eu preciso transformar? O que estou deixando para trás ou que novos comportamentos eu posso ter? A Fig. 5 mostra as mandalas sendo construídas, expostas de forma coletiva e a Fig. 6 ilustra o trabalho final, a “cortina de mandalas”. As atividades com mandalas foram bem aceitas pelos pacientes, porque perceberam que delas emergiu a harmonia pessoal. Disseram que se sentiram mais equilibrados, mais livres, autônomos e originais, porque este trabalho possibilitou a eles a reflexão de “correr o risco” de traçar suas próprias rotas, trilhar seus caminhos, buscar suas próprias idéias e de lutar para torná-las realidade.

Fig. 5 mostra a construção das mandalas pelo grupo, durante a 2ª sessão de arteterapia.

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Fig. 6 ilustra o trabalho final, a “cortina de mandalas”, desenvolvido pelo grupo durante a 2ª sessão de arteterapia.

Atividade 3: Pintura do corpo humano: feminino X masculino3 A pintura possui uma função de expansão, de soltura, trabalha o relaxamento dos mecanismos defensivos de controle e ainda favorece a expansão da emoção, pela função libertadora. Ademais, objetiva a coordenação motora fina e viso-motora e a discriminação visual. A pintura propicia a criação de representações bidimensionais, utilizando as possibilidades que a tinta oferece, como a pastosidade, a facilidade de misturas, a formação de novas cores, a marca da pincelada, a cobertura rápida de planos, a mancha, entre outras. No entanto, a técnica da pintura apresenta como obstáculos os limites das superfícies, da valorização das tonalidades e das cores (Pain & Jarreau, 2001). Os participantes fizeram representações do corpo humano nas formas masculino e feminino, no tamanho real no papel, tendo como modelo uma pessoa de cada sexo, escolhida livremente entre os elementos do grupo. Grupos distintos executaram o trabalho, ficando as mulheres encarregadas de criar a personagem feminina e os homens, o boneco masculino. Utilizaram, para tanto, instrumentos de colagem e de desenho, além da pintura. Após a criação dos personagens houve a apresentação das obras, que possuíam características distintas. Ao confeccionarem os personagens, foi se estabelecendo a relação da dinâmica grupal entre os pacientes, com algumas pessoas querendo impor suas opiniões sobre as dos demais: os silenciosos e os mais ativos ou passivos no processo. No final, os participantes puderam expor seus trabalhos, descrever pensamentos, idéias, iluminações ou frustrações que ocorreram durante o processo de confecção da obra e, assim, se relacionaram, compartilhando a obra. Os materiais utilizados foram: tinta guache colorida, pincéis, jornal, tecidos coloridos, colas com e sem purpurina coloridas, giz de cera, canetas hidrocores, lápis preto, pincel atômico, fios de lã, adesivos, lantejoulas, brocal e purpurina. A Fig. 7 ilustra uma personagem fictícia: “Maria Eugênia, adolescente de 15 anos, que trabalha num circo de bailarina. A personagem adora brincar com as crianças e com os animais do circo. No momento, encontra-se sem namorado, mas gosta de sair para passear, dançar, ir ao cinema, tomar um lanche, adora ir a “baladas”. Também vive na zona rural e trabalha ordenhando as vacas, colhendo milho, alimentando e cuidando das galinhas e do gado. Ela tem irmãos, pais e avós maternos. É uma personagem “rebelde” e desobediente, cursa o 1º colegial, porém é
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Análise das figuras baseadas em livros de desenhos projetivos

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expansiva, tem muitos amigos, é brincalhona e ainda gosta de brincar de bonecas; em alguns momentos é “chata” e “fresca”. Pretende se casar e ter seis filhos, viajar e conhecer lugares novos, além de querer ser a dona do circo”. A figura feminina criada pelos participantes foi bem configurada, sem fragmentação ou distorção, colorida, é criativa e sorridente. Expõe certo dinamismo, movimentação e profundidade, é rica em detalhes e suas proporções são equilibradas. Houve a omissão do pescoço – podendo indicar dificuldade de coordenação dos impulsos, perda de controle, sensação de desamparo perante os impulsos, comportamento impulsivo, imaturidade e regressão. Nota-se, também, predominância nas partes genitais femininas, no cabelo comprido e no uso de adornos – podendo expressar certo exibicionismo, vitalidade ou preocupação sexual, desejo de atrair o sexo oposto, necessidade de chamar a atenção.

Fig. 7 ilustra a personagem “Maria Eugênia”, desenho realizado por um grupo feminino (A), durante a 3ª sessão de arteterapia.

A Fig. 8 expõe outra personagem feminina, a “Ana Júlia. Possui quatro anos de idade, mora com os pais e um irmão, gosta de brincar de cavalinho, de boneca, de carrinho, de bicicleta, de patins, de fazer bagunça, subir na cama. Reside em Ipiranga/SP, vai regularmente à escolinha e almeja ser médica . O grupo relatou que a personagem era muito tímida, que não conseguia falar...”. Esta figura feminina foi bem configurada, sem distorção, com poucas cores e chorona, mas com proporções equilibradas. O grupo não contornou seu corpo completo, que ficou fragmentado. Confeccionaram somente a parte superior do corpo (tronco, membros superiores e cabeça), assim, não estão presentes o abdômen e membros inferiores – podendo significar certa dificuldade de movimentação ou ainda de sentimentos de constrição e castração ambiental, deterioração, retraimento e falta de confiança nos contatos sociais. Os braços amputados – podem indicar um sentimento de castração. Esta personagem apresenta-se com a face toda encoberta pela cor marrom – significando certa dificuldade para desvelar suas máscaras, sua personalidade, seus sentimentos e desejos, dificuldade de contato com o exterior, pessoa passiva, insegura. Os botões, na linha central – podem indicar forte dependência materna. A idade da figura é bem inferior à dos criadores – o que pode sugerir imaturidade, fixação emocional em alguma fase ou reação a traumas.

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Fig. 8 expõe a personagem “Ana Júlia”. Desenho realizado por um grupo feminino (B), durante a 3ª sessão de arteterapia.

As Fig. 9 e Fig. 10 ilustram a personagem masculina, com nome fictício de “Nilton. Um adolescente de 20 anos, solteiro, cursando o 3º colegial. Não é etilista nem alcoólatra; gosta de esportes, como andar de bicicleta, correr, jogar bola, praticar natação, esportes de aventuras e aulas de academia. Trabalha como office-boy em uma instituição particular, é um funcionário pontual e assíduo, possui as seguintes características pessoais: é nervoso e rebelde, porém não é revoltado com a vida nem com a família. Também gosta de sair, ir à lanchonetes, encontrar a turma da escola. Admira cachorro e passarinho; exercita desenhar objetos por lazer; almeja ser professor de educação física, casar e ter dois filhos. Figura masculina bem configurada e rica em detalhes, especialmente na face, as outras partes são menos expressivas – podendo sugerir sentimentos de menos valia, inferioridade, inadequação, preocupação com a crítica ou vergonha a respeito das outras partes do corpo. O personagem não apresenta fragmentação ou distorção da imagem. A pintura criativa mostra profundidade; expressa um sorriso discreto. Apresenta cores frias (verde, azul) nos membros inferiores e superiores, que podem significar a expressão de características balsâmicas, calmantes ou retardo de movimento, quanto ao resto do corpo, predominam as cores quentes (vermelho e amarelo), expressando atividade, dinamismo e acelerando o metabolismo. A cabeça e o tronco dão a idéia de dinamismo, diferentemente dos membros que não se movem ou não acompanham a dinâmica da personagem. Apresenta um certo desequilíbrio de proporções dos elementos visuais, sugerindo desproporção ampliada dos membros superiores em relação ao restante do corpo – podendo indicar comportamento compensatório para sentimentos de insuficiência de manipulação, dificuldades de contato ou inadequação nas relações com as pessoas e/ou com o ambiente; fantasia e ambição maiores que a capacidade de realização.

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Fig. 9 ilustra o personagem “Nilton”. Desenho realizado por um grupo masculino, durante a 3ª sessão de arteterapia.

Fig. 10 ilustra detalhe da cabeça do personagem “Nilton”. Desenho realizado por um grupo masculino durante a 3ª sessão de arteterapia.

Pela análise dos trabalhos, constatou-se, que ao se expressarem pela arte, de forma lúdica, os criadores projetaram seus elementos vitais, expressando-se a si próprios. Percebe-se que um simples personagem fez emergir conteúdos e conflitos internos e inconscientes nos seus participantes, o que valoriza a importância do trabalho arteterapêutico com esta clientela. Pelo exposto, verificou-se que os participantes muito se beneficiaram com a aplicação da arteterapia, porque tendo danos no plano psicológico, eles precisavam desenvolver seu potencial criativo, sua auto-expressão, sua imaginação, sua espontaneidade e sua autonomia; também canalizar tensões, exteriorizar seus sentimentos e emoções e comunicarem o que pensavam e sentiam (facilitadas pelo processo não-verbal). As sessões de arteterapia ora apresentadas favoreceram a expressão de pensamentos e sentimentos dos participantes dos grupos de uma forma mais lúdica, que puderam ser trabalhados no contexto terapêutico, onde compartilharam dificuldades e anseios relacionados à própria vida. Considera-se, assim, que foi muito importante desenvolver este trabalho com esta clientela, pois a

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ajudou a expor seus conteúdos internos emergentes e a trabalhar esses mesmos conteúdos durante e fora das sessões (utilizando-se de outros processos psicoterapêuticos individualizados), pois, possivelmente, em outras situações, mas que muitas vezes não seriam trazidos à tona com tanta naturalidade e facilidade. Ademais, nas sessões de arteterapia cria-se um espaço para a liberdade, a alegria e o resgate do brincar. Nessa perspectiva, as sessões de arteterapêutica beneficiam, sobremaneira, o equilíbrio emocional dos seus participantes, auxiliando-os a se expressar e a superar bloqueios, medos, inseguranças e a reconhecer seu potencial criador, mantendo, assim, uma relação mais saudável consigo mesmo e com os outros. Esse processo pode ser evidenciado, sobretudo, pela mudança de comportamento dos integrantes do grupo, após o término do processo.

Considerações Finais A assistência à doença mental, em sua história, sempre apontou a impossibilidade da família estar junto, conviver e cuidar do doente mental. Tratar do doente mental significou, durante anos, a separação do seu contexto social e familiar. Assim, possibilitar transformações e recriar as relações já existentes não é algo fácil para os profissionais arteterapeutas que trabalham em saúde mental. A experiência psicótica (agressividade e sofrimento) projeta-se na vida cotidiana do doente mental e do familiar, desvitalizando-a. Nesse sentido, cabe aos profissionais de saúde, em especial aos arteterapeutas e aos demais serviços, a responsabilidade da inserção de familiares e usuários no novo modelo de atenção à saúde mental, propiciando à família que se reorganize e assim garanta um suporte emocional positivo ao membro doente, no convívio diário. Mas o sucesso desse processo depende da participação dos usuários e de seus familiares, condição imprescindível para a continuidade da “vida”. A saúde mental vem ampliando seus conhecimentos e utilizando-se dessas práticas na assistência a seus usuários, com experiências alternativas e criativas, ou melhor, com práticas não-convencionais disponíveis não apenas para uso, mas para investigações sistematizadas. A utilização das artes, no âmbito da saúde mental, proporciona mudanças de atitudes e de comportamentos, aspectos que, vividos positivamente com os clientes, promovem melhoria na sua qualidade de vida e na de seus familiares. Assim, o investimento no trabalho e em práticas alternativas e criativas com famílias e pessoas com transtornos mentais é fator importante no novo cenário da atenção em saúde mental. Este tipo de atendimento, no qual se incluem as sessões de arteterapia, permite que se valorize o potencial existente em cada ser humano, objetivando melhorar sua saúde e qualidade de vida para sua reintegração familiar e social. As sessões de arteterapia facilitam a expressão da subjetividade dos participantes e auxiliam, sobremaneira, tanto na auto-expressão, como na elaboração de conteúdos internos (sentimentos, emoções, lembranças etc) e alívio de tensões. Permitem, ainda, que o criador possa expressar seus sentimentos, adquirir consciência dos mesmos e, em seguida, melhorar a ativação e a estruturação do processo de seu desenvolvimento interno. Ao valorizar a expressão em si, dá-se mais liberdade ao criador, que pode seguir seu instinto e deixar o racional em segundo plano, tornando-se mais autêntico e saudável. As sessões de arteterapia conseguiram resgatar aspectos mais saudáveis da personalidade, ademais, familiares e doentes mentais alcançaram a percepção de que seus sentimentos e emoções poderiam ser compartilhados com pessoas que tinham vidas semelhantes às suas, de forma profícua.

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Concluindo, trabalhar com portadores de transtornos mentais e familiares possibilita o resgate da cidadania; ultrapassar a exclusão, a rejeição, o isolamento e o preconceito; permite a troca com o outro que possui características semelhantes e ainda, favorece o compartilhar de dificuldades e anseios relacionados ao próprio transtorno mental, podendo os personagens se expressarem e lidarem de uma forma mais natural com a doença. Este trabalho pode trazer contribuições importantes para a área de saúde mental, pois a arteterapia é uma prática acessível ao tratamento de familiares e doentes mentais, cujos resultados vêm sendo satisfatórios. É importante também apontar que este estudo poderá ser utilizado em contextos de arteterapia clínica ou institucional, tendo em vista o valor e a eficácia do trabalho arteterapêutico aqui demonstrados.

Profª Dnda. Ana Cláudia Afonso Valadares Arteterapeuta, Presidente da Associação Brasil Central de Arteterapia (ABCA), Membro do Conselho Diretor da União Brasileira das Associações de Arteterapia (UBAAT), Professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Doutoranda pela Universidade de São Paulo (USP). Email: aclaudiaval@terra.com.br

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