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saúde mental no trabalho

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SAÚDE MENTAL NO TRABALHO: DESAFIOS E SOLUÇÕES

Lys Esther Rocha*

1 INTRODUÇÃO
O tema Saúde Mental no Trabalho: desafios e soluções corresponde a um livro organizado por Débora Miriam Raab Glina e Lys Esther Rocha (GLINA & ROCHA, 2000). Deste livro participaram pesquisadores e profissionais de saúde de diferentes regiões do Brasil que atuam e estudam diferentes atividades com o objetivo de dar visibilidade e ampliar as discussões sobre as situações de saúde potencialmente geradoras de repercussões na saúde mental dos trabalhadores e as ações que vêm sendo realizadas para reconhecer e prevenir estes agravos. Neste sentido seria impossível reunir em uma palestra tema tão abrangente. Considerando a minha formação como médica do trabalho e doutorado em Medicina Preventiva, optei por restringir o tema para Prevenção em Saúde Mental e Trabalho: desafios e soluções. Mesmo assim, não pretendemos abranger as diferentes possibilidades, iremos apresentar a nossa experiência na construção de um modelo de prevenção em saúde mental no trabalho e um caso em que ocorreu a aplicação deste modelo. Ao revolucionar as formas de utilização e de transmissão de informações, a introdução da microeletrônica conduziu à incorporação de novos equipamentos e procedimentos aos processos de trabalho possibilitando a integração entre sistemas produtivos em níveis cada vez mais complexos. Vivemos um período de intensas modificações dos processos de trabalho. Ao longo das últimas décadas, uma “nova” forma de trabalhar e de produzir vem sendo construída, com implicações sociais relevantes no âmbito das relações do trabalho e da geração de empregos: substituição de postos de trabalho; exigências de maior qualificação profissional; surgimento de novas categorias profissionais e intensificação do ritmo de trabalho. Estas modificações geraram aumento das exigências mentais, incluindo os aspectos cognitivos, emocionais e psicossociais, em diver* Auditora-Fiscal do Ministério do Trabalho em São Paulo e Docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

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sas ocupações. Além disso, a publicação do Decreto n. 3.048 de 06/ 05/1999 pelo Ministério da Previdência e Assistência Social discriminando os Transtornos Mentais Relacionados ao Trabalho traz novos desafios aos profissionais de saúde e de recursos humanos de organizações públicas e privadas no reconhecimento e prevenção destas patologias. A prevenção visando a Saúde Mental no Trabalho vem sendo incorporada apenas recentemente pelas empresas devido a dificuldade de caracterização da inter-relação entre os distúrbios psíquicos dos trabalhadores e as situações de trabalho (GLINA & ROCHA, 2006). O programa de prevenção pode gerar maior dinamismo, flexibilidade e inovação nas organizações fazendo uso de potencialidades dos trabalhadores através da possibilidade de participação (LEVI, 2005). 1.1 ETAPAS DA CONSTRUÇÃO DE UM PROGRAMA DE PREVENÇÃO 1.1.1 Etapa diagnóstica No início de um Programa de Prevenção visando a Saúde Mental no Trabalho deve-se definir a sua abrangência: para toda empresa, para um setor ou para uma ocupação específica; o período de duração com o cronograma das diferentes etapas e as facilidades e dificuldades existentes na empresa para a implantação do Programa. Às vezes é interessante a criação de um comitê que pense a construção do programa reunindo profissionais de diversos departamentos e setores. Os membros deste comitê devem receber um treinamento enfocando os aspectos teóricos da saúde mental no trabalho e metodologias de análise e intervenção em situações de trabalho. Na definição do diagnóstico da situação é importante conhecer e compreender o contexto da empresa em relação à sua estrutura, organograma, histórico, número de funcionários. Atualmente estas informações podem ser conhecidas através dos Manuais de Qualidade das Empresas. Após esta fase deve ser feito um diagnóstico do setor ou ocupação a ser realizada a intervenção caracterizando as atividades do setor e também as características sócio-demográficas dos trabalhadores do setor (sexo, idade, escolaridade, naturalidade, condições de vida). No diagnóstico das atividades realizadas no setor a análise ergonômica do trabalho tem sido um instrumento importante para avaliação de possíveis fatores presentes na situação de trabalho associados aos problemas de saúde identificados. 127

A análise da situação de trabalho deve incluir: - o ambiente de trabalho: ruído, temperaturas extremas (calor/ frio), agentes químicos, iluminação; - a organização do trabalho: a avaliação do processo de trabalho, o tipo de tecnologia utilizada, as jornadas de trabalho, o trabalho noturno ou em turnos fixos ou alternantes, as pausas, o ritmo de trabalho, os pagamentos com prêmios associados à produção, os planos de ascensão e carreira, a presença de “conflito de papel”, a descrição das tarefas, a capacidade decisória no trabalho; - o conteúdo do trabalho: possibilidade de influenciar o próprio trabalho, a quantidade de informação, a presença de tomada de decisões rápidas, a responsabilidade no trabalho, seja por outras pessoas ou por materiais, a presença de trabalhos extremamente monótonos, a possibilidade de um pequeno erro, ou de um lapso momentâneo e atenção, terem conseqüências graves ou mesmo desastrosas; - os fatores psicossociais do trabalho que compreendem a percepção dos trabalhadores da situação do trabalho e as relações humanas do trabalho considerando superiores, colegas ou clientes (KALIMO et al.,1988). Este conjunto de fatores aparece integrado e interdependente. As repercussões na saúde dos trabalhadores dependem da personalidade, experiência individual e expectativas em relação ao trabalho. De maneira geral, quando o trabalho apresenta elevados requisitos psicológicos e cognitivos, associado a baixo poder decisório e baixo nível de apoio social, a possibilidade de aparecer repercussões na saúde dos trabalhadores é alta. Os indicadores de repercussões da presença destes fatores estão relacionados com as condições de saúde dos trabalhadores e associados ao desempenho do trabalhador na empresa. Entre os indicadores de saúde, destaca-se a morbidade psicossomática e psiquiátrica. Diante de uma situação de trabalho com a presença destes fatores os trabalhadores podem apresentar reações de estresse decorrentes de diversos mecanismos patogênicos (cognitivos, afetivos, de conduta ou fisiológicos) que se sob certas condições de intensidade, freqüência ou duração, podem provocar o aparecimento de doenças psicossomáticas e psiquiátricas. Estudos epidemiológicos sobre trabalhadores expostos a fatores de estresse no trabalho detectaram as seguintes perturbações funcionais: “sintomas musculares (por exemplo, tensão e dor); sintomas gastrointestinais (por exemplo, dispepsia, indigestão, vômito, pirose e irritação do colo); sintomas cardíacos (por exemplo: palpitação, arritmias 128

e dores inframamilares); sintomas respiratórios (por exemplo: dispnéia e hiperventilação); sintomas do sistema nervoso central (por exemplo: reações neuróticas, insônia, debilidade, desmaios e dores de cabeça); sintomas genitais (por exemplo: dismenorréia, frigidez e impotência)”. (LEVI, 1988, p. 82). Os dados de alta freqüência de acidentes de trabalho e consumo exagerado de medicamentos e a percepção dos trabalhadores de insatisfação no trabalho também podem indicar a presença de fatores de estresse. Em relação aos indicadores de desempenho no trabalho temos: altos índices de absenteísmo e/ou atrasos e/ou de rotatividade; baixa produtividade em determinado setor da empresa ou ocupação; sabotagem; inadequação do desempenho em relação a quantidade e qualidade da produção; insegurança nas decisões e sobrecarga voluntária de trabalho. Um importante fator para diminuir as reações dos trabalhadores é o suporte social, seja através dos colegas, supervisores e familiares.

- Instrumentos de Diagnóstico da Situação
Entre os instrumentos utilizados para diagnóstico da situação destacamos as entrevistas, a análise ergonômica do trabalho e questionários. As entrevistas permitem a coleta de dados objetivos, tais como, estatísticas, registros escritos, censos, etc. quanto dados relativos a representações, valores, crenças, sentimentos e opiniões do entrevistado. A entrevista pode ser individual ou coletiva. No primeiro caso, normalmente, ocorre a interação do entrevistado com um ou mais entrevistadores. No segundo caso, de forma geral, existe um ou mais entrevistadores e mais de um entrevistado. Os critérios para definir o número e quem serão os entrevistados dependem dos objetivos do programa de prevenção. A análise ergonômica do trabalho permite a transformação das situações de trabalho para que elas correspondam às possibilidades e às capacidades dos trabalhadores (AHOEN et al., 1981). O objetivo da análise ergonômica é determinar os fatores que contribuem para uma sub ou sobrecarga de trabalho, sendo que esta análise implica necessariamente na avaliação de como os trabalhadores se ressentem desta carga (WISNER, 1987). Na realização da análise ergonômica de trabalho é efetuada a observação da atividade de trabalho (descrever o que se faz e como se faz: gestos do trabalhador, o que se olha, o que 129

se toca, a postura adotada, os deslocamentos efetuados, as pessoas com as quais se encontra, o que se escuta, procedimentos adotados, conhecimentos utilizados, o que se memoriza, o que o trabalhador diz em relação à tarefa) e o diálogo com os trabalhadores (escolha do momento da observação: quando? o quê? quanto tempo?, na elaboração do protocolo de observações e na interpretação dos resultados). A análise ergonômica, por ser uma avaliação em profundidade do trabalho, deve ser solicitada após a identificação do setor e/ou ocupação que necessitam de uma intervenção. Os questionários servem para obter-se a percepção subjetiva dos trabalhadores quanto às suas situações de trabalho, indicando pontos a serem melhorados e também repercussões na saúde relacionados ao estresse. Os questionários são geralmente preenchidos individualmente pelos trabalhadores e analisados posteriormente em nível de grupo. Os trabalhadores devem preencher voluntária e anonimamente os questionários, a não ser quando exista o objetivo de identificar pessoas que necessitem de apoio individual. A aplicação, o processamento dos dados e a interpretação dos resultados devem contar com a participação de um profissional do serviço de saúde, ou membros do Comitê do Programa de Prevenção. A interpretação dos resultados exige um conhecimento holístico da situação, contextualizando os dados obtidos. 1.1.2 Planejamento e implementação da intervenção Após o diagnóstico é necessário planejar e implementar a intervenção. Uma estratégia que tem se mostrado eficaz é a apresentação do diagnóstico a todas as pessoas envolvidas na solução dos aspectos levantados e discussão sobre as formas de intervenção. Para cada problema ou aspecto pode-se criar uma equipe, que se reunirá o número de vezes e com a periodicidade necessária para que a intervenção seja detalhada, implantada e avaliada. Esta equipe deve envolver os trabalhadores de diversos cargos e níveis hierárquicos e até trabalhadores de diferentes setores, sendo a expansão do comitê de prevenção incorporando os trabalhadores do setor/ocupação estudado. Em seguida, deve ocorrer comunicação das propostas aos empregados, relatando os pontos principais do diagnóstico, especificando o que será feito, por que e o que se espera obter enquanto resultado prático. Devem ser definidas estratégias para adesão ao programa de prevenção. A principal estratégia é a criação de espaços públicos de discussão, isto é, espaços e momentos em que se pode falar de pro130

blemas e propostas concretas para melhorias, envolvendo a maioria das pessoas nas discussões. As informações devem circular e as pessoas devem sentir-se livres para poder opinar, participar. 1.1.3 Avaliação da intervenção É preciso avaliar continuamente o que está sendo realizado para serem feitas as correções necessárias ao longo da intervenção. Um programa de prevenção deve ser visto como um processo contínuo em que, a melhoria em alguns aspectos pode gerar “novas” ações. O critério de avaliação do programa deve ser estabelecido pelo grupo que definir as ações e metas, de acordo com os objetivos e problemas identificados. Podem ser comparadas as queixas de sintomas antes e depois da intervenção, ou criar um grupo de comparação. Os resultados podem ser vistos através de exames médicos ou observando modificações de hábitos (fumo, exercício, dieta) e/ou coleta de dados de peso, altura, pressão sanguínea, batimento cardíaco e colesterol. Os resultados também podem ser avaliados pela produtividade (qualidade e quantidade), redução das perdas do processo e satisfação no trabalho.

2 CARACTERÍSTICAS BÁSICAS DE UM PROGRAMA DE PREVENÇÃO VISANDO A SAÚDE MENTAL
Os programas de prevenção muitas vezes buscam a saúde mental incluindo apenas ações baseadas nos indivíduos, sem analisar e intervir nos fatores das situações de trabalho, resultando em baixa eficiência destes programas. É fundamental a determinação de um conjunto de ações nas situações de trabalho e também para os indivíduos. LEVI (1988, p. 168) destaca que as atividades de prevenção devem basear-se: a) em um conceito amplo de ser humano e seu ambiente, isto é, numa abordagem eqüitativa e integral dos aspectos físico, mental, social e econômico; b) em um critério ecológico, ou seja, na consideração da complexa dinâmica representada pelas ações recíprocas entre o indivíduo e o ambiente; c) em um critério cibernético, isto é, na vigilância e avaliação contínuas e em bases interdisciplinares dos efeitos das modificações do ambiente sobre o trabalhador; d) em um critério democrático ou participativo, isto é, que permita ao traba131

lhador a máxima influência possível sobre sua própria situação. 2.1. Ações de prevenção visando o indivíduo Para os trabalhadores é preciso ensinar a reconhecer os sintomas de estresse e as situações de trabalho que possam afetar a sua saúde mental. As ações individuais incluem: tentar ter controle sobre os fatores de estresse, usar os recursos disponíveis, mudança de atitude sobre si mesmo. Ao tentar ter controle sobre os fatores o trabalhador pode optar por um novo planejamento do seu trabalho estabelecendo metas realistas para si e/ou ações de simplificação da vida e do trabalho, relativização da importância do trabalho na vida. O uso dos recursos disponíveis diz respeito à conversa com amigos ou pessoas de confiança sobre os próprios problemas; busca de apoio social; busca de ajuda de profissionais (médico, psicólogo, etc); busca de informações. A mudança de atitude sobre si mesmo implica em alterar crenças como a necessidade de ser estimado ou aprovado por todas as pessoas importantes em sua vida, de ser plenamente competente, adequado e realizado sob todos os aspectos para considerar-se digno de valor, de acreditar que deve ter controle de tudo, de que deve ser perfeito sempre. As mudanças podem incluir ser afirmativo, aprender a expressar sentimentos, ter hobbies, realizar exercícios físicos, dieta e aprender a relaxar e meditar. O comportamento afirmativo envolve a capacidade de comunicação interpessoal não agressiva, de exigir direitos, dizendo não quando necessário, e impondo limites. Os exercícios físicos trazem benefícios clínicos durante o seu desempenho, logo após ou a longo prazo. É importante considerar o local onde se realizarão os exercícios e seu caráter não obrigatório. Com referência à dieta deve-se levar em conta a qualidade, quantidade, adequação e harmonia dos nutrientes. 2.2 Ações nas situações de trabalho As ações nas situações de trabalho baseiam-se no diagnóstico dos fatores das situações de trabalho. Na avaliação da situação é importante considerar a duração e a força de cada fator do local de trabalho. Uma intervenção tem sempre que estabelecer medidas a curto, médio e longo prazo. Outro aspecto relacionado ao programa de prevenção reside na identificação de fatores “protetores”, isto é, de processos psicossociais que exercem um papel de “amortecedor”, para os indivíduos, das conseqüências psicológicas e/ou fisiológicas da exposição 132

aos fatores. A situação saudável de trabalho seria a que permitisse o desenvolvimento do indivíduo, alternando exigências e períodos de repouso, numa interação dinâmica homem e ambiente. Tarefas que envolvem alto grau de tensão, se encaradas como desafio ou oportunidade de aprendizagem, tendem a não ser percebidas como estressantes. O suporte social, envolvendo a sociabilidade dentro do local de trabalho e também as ações da família e dos grupos extra-trabalho, atuaria como um fator protetor (Karasek & Theorell, 1990). As necessidades humanas fundamentais a serem atendidas no trabalho são: o controle sobre o trabalho; a interação pessoal; a percepção de suas atividades dentro do conjunto do processo de produção; o reconhecimento social pelo trabalho desenvolvido, e outras necessidades ligadas ao contexto socioeconômico e cultural (ROCHA & GLINA, 2000). De acordo com MARTINO (1992) os programas destinados a eliminar ou reduzir o estresse devem concentrar-se na melhoria da organização do trabalho, podendo incluir melhorias do planejamento e conteúdo do trabalho, estabelecimento de metas de produção realistas, melhor organização do tempo de trabalho e melhor interface entre trabalhadores e máquinas ou novas tecnologias. As modificações das situações de trabalho podem sofrer resistência na implantação das ações pois as pessoas reagem fortemente a uma mudança de uma situação habitual, por isto devem participar do processo de implantação das modificações.

3 ESTUDO DE CASO: PREVENÇÃO EM SAÚDE MENTAL DO TRABALHO PARA ANALISTAS DE SISTEMAS
A atividade dos analistas de sistemas consiste em transformar operações realizadas manual ou mecanicamente em procedimentos a serem executados através de um sistema informatizado, cujas características variam segundo as necessidades dos futuros usuários e cuja criação envolve operações, como: entrada, armazenamento, tratamento, consulta, análise e atualização de dados. Constitui, portanto, uma atividade profissional criativa, cuja concretização envolve a utilização de habilidades diferenciadas, bem como uma relação de caráter específico entre o profissional e o computador, o qual, diferentemente do que simples usuário final, cabe ao analista de sistemas “programar”. A análise das repercussões do trabalho sobre a saúde freqüentemente inicia-se pela observação, por parte do médico do tra133

balho de uma empresa ou serviço de saúde, do aumento da freqüência de trabalhadores apresentando determinados sintomas. É então que surge a pergunta: “será que tais sintomas estão relacionados com o trabalho?”. No caso dos analistas de sistemas, restavam sem resposta inúmeras indagações, derivadas de observações empíricas freqüentes, como por exemplo: “após um certo tempo os analistas ‘abandonam a profissão’ - abrem negócio próprio, não relacionado à área de informática”; “apresentam problemas cardíacos, talvez pelo ‘estresse da profissão’”; “apresentam grande freqüência de casamentos desfeitos”. Tais constatações estariam de alguma forma relacionadas ao trabalho dessa categoria profissional? Como explicar o fato intrigante de que uma profissão criativa, que propõe desafios novos e constantes e, como já foi dito, envolve criatividade e habilidades diferenciadas, pudesse provocar nos trabalhadores uma fadiga de tal forma intensa que levasse alguns deles ao abandono da profissão? Com base nas observações empíricas mencionadas, e diante da escassez de informações e pesquisas sobre a atividade dos analistas de sistemas no Brasil, o Sindicato dos Empregados de Empresas de Processamento de Dados de São Paulo¹ encaminhou demanda ao Ministério do Trabalho para o desenvolvimento de estudos e ações para esta categoria. A revisão da literatura. Por ocasião da revisão da literatura nacional e internacional, fase preliminar de toda investigação, constatou-se extrema escassez de informações sobre a categoria dos analistas de sistemas. A equipe do NIOSH (National Institute of Occupational Safety and Health) realizou um estudo sobre analistas de sistemas e supervisores de uma empresa federal de processamento de dados dos Estados Unidos (COHEN, 1984), através da realização de entrevistas semi-estruturadas, contemplando aspectos positivos e negativos do trabalho. Entre os aspectos positivos então levantados, mereceram destaque: a satisfação com o trabalho (os profissionais percebiam a importância do produto de sua atividade); a utilização do computador mais que como uma ferramenta (os profissionais divertiam-se ao usá-lo); a flexibilidade de horário e a dinamicidade do trabalho. Entre os aspectos negativos observaram-se: a qualidade do equipamento, a indisponibilidade do terminal e o tempo de resposta do sistema (fatores que dificultavam o cumprimento da carga de trabalho dentro dos prazos fixados), além de problemas de relacionamento com superiores hierárquicos. Em 134

relação ao ambiente de trabalho, as queixas relacionavam-se à presença de sistemas de ar condicionado e à dificuldade de concentração decorrente de conversas entre os colegas. Entre os problemas de saúde, as referências incluíram: secura dos olhos, nariz e garganta, sinusites, alergias, resfriados e gripes, queimação e lacrimejamento dos olhos, dor de cabeça, irritabilidade, depressão, tensão, fadiga severa e distúrbios psicossomáticos, como indisposição do estômago. GREDILLA e GONZALES (1991) também verificaram alterações psicossomáticas e psíquicas em analistas de sistemas e programadores, obtendo a seguinte prevalência de sintomas: ansiedade, 24%; alteração do sono, 16,3%, e falta de concentração, 20,4%. MERLO (1999) destacou que a atividade dos analistas é considerada “a parte mais nobre” do processo de trabalho em informática no Brasil, e que os profissionais sentem prazer no trabalho, mas são submetidos a pressões, por parte da direção da empresa, quanto ao cumprimento dos prazos de produção.

4 A CONSTRUÇÃO DO REFERENCIAL TEÓRICO E METODOLÓGICO
Um dos desafios ao se pensar na elaboração de um Programa de Prevenção em Saúde Mental e Trabalho é conhecer as diferentes abordagens utilizadas no estudo da relação entre saúde mental e trabalho, pois o processo saúde-doença é permeado pelo entrelaçamento de aspectos biológicos e sociais (DEJOURS, 1987; KALIMO et al., 1981; FRANKENHAUSER & GARDELL, 1976). Nesse caso, optou-se pela chamada ‘abordagem do estresse’, uma vez que esta: a) pressupõe um enfoque multidisciplinar dos aspectos psicossociais e emocionais, no âmbito de um contexto multifatorial e sistêmico do estresse; b) aborda a relação homem-ambiente de forma ampla, envolvendo trabalho, família e características pessoais; c) inclui no modelo de pesquisa não apenas fatores de estresse, mas também aspectos que levam à satisfação no trabalho; d) utiliza-se de estudos epidemiológicos para a análise de ocupações, associando fatores presentes no trabalho a repercussões sobre a saúde (KALIMO, 1986). O conceito de estresse é complexo e varia de acordo com diferentes grupos de estudo. Para os objetivos da presente investigação, optou-se pela definição utilizada por autores escandinavos como Kalimo (1980:14), que conceitua o estresse como “uma relação de desequilíbrio entre o ambiente e o indivíduo; os fatores do ambiente são denomina135

dos ‘fatores de estresse’ ou ‘estressores’ e a resposta do indivíduo é caracterizada pelo termo geral de ‘reação de estresse’ ”. Segundo esta concepção, o estresse não é visto somente como resultado de fatores exógenos, mas como um produto da dinâmica particular que se estabelece entre a situação do ambiente físico e social e o indivíduo, sua personalidade, seu padrão de comportamento e as circunstâncias de sua vida. Tendo em vista a natureza multifacetada do objeto de estudo, optou-se por uma abordagem interdisciplinar, reunindo profissionais de diversas especialidades: medicina, enfermagem, sociologia, psicologia, ergonomia, epidemiologia e estatística. Além disso, com o objetivo de obter-se uma aproximação mais acurada da realidade, optou-se pela integração de “olhares”: o da subjetividade, destacado pela metodologia qualitativa, e o da objetividade, proporcionado pela metodologia quantitativa. A abordagem qualitativa compreendeu a realização de conversas informais, entrevistas semi-estruturadas, observação dos postos de trabalho e análise ergonômica da tarefa. A abordagem quantitativa correspondeu à elaboração e aplicação de questionários a um grupo de analistas de sistemas. Neste estudo deve ser destacada a participação do Sindicato dos Trabalhadores em todas as etapas e as negociações relativas ao desenvolvimento do estudo no interior das empresas facilitadas pelo fornecimento, por parte do Delegado Regional do Trabalho de São Paulo, de uma carta que ressaltava a importância da investigação para o Ministério do Trabalho. A avaliação qualitativa procurou apreender, em profundidade, a forma pela qual o processo de trabalho é vivenciado e percebido por um pequeno grupo de trabalhadores. Em outras palavras, busca uma visão holística do conjunto de fenômenos e de percepções subjetivas relativos a uma situação particular. Já a avaliação quantitativa abrange um grande número de profissionais, permitindo análises estatísticas e a comparação de grupos diferentes quanto a determinadas variáveis. A etapa das entrevistas semi-estruturadas realizou-se de acordo com os procedimentos definidos por MINAYO (1993), tendo compreendido: elaboração de roteiro, realização das entrevistas, gravação e transcrição das falas. O roteiro constou de: história de vida, abrangendo os dados pessoais e familiares e a formação educacional; história de trabalho, incluindo a descrição de funções anteriores e de repercussões do trabalho sobre a saúde e a vida; cotidiano atual, com ênfase nas condições de vida, organização do tempo de lazer e vida fami136

liar; trabalho atual, enfocando a descrição detalhada das atividades, fatores de satisfação e insatisfação no trabalho, relação com os colegas e chefes; condições de saúde, patologias e alterações do sono; opinião crítica sobre o próprio trabalho; expectativas anteriores e atuais. O estudo das condições de trabalho contemplou o ambiente de trabalho, o posto de trabalho, os equipamentos e a forma de organização do trabalho. Num primeiro momento, realizou-se um levantamento da tecnologia empregada no processo de produção e do quadro organizacional em que estava inserida a atividade dos analistas de sistemas. Além disso, através de entrevistas com profissionais de cada setor, verificou-se a forma de atuação das Gerências de Recursos Humanos, do Serviço Médico de Empresa e da Comissão Interna de Prevenção de Acidentes. A análise ergonômica das tarefas dos analistas de sistemas baseou-se em entrevistas individuais com estes profissionais e chefes imediatos, bem como na observação dos locais de trabalho e das suas atividades. Foi elaborado em questionário específico a partir da composição de aspectos contemplados nos seguintes instrumentos: avaliação do trabalho com terminal de vídeo (ELIAS e CAIL, 1982; FERNANDES, 1992), e estresse e trabalho (ELO et al, 1992, ELO, 1986). Além disso, a análise do conteúdo das entrevistas individuais e coletivas, bem como das informações levantadas sobre as condições de trabalho dos analistas de sistemas, constituíram importante contribuição para a elaboração do questionário. A aplicação deste instrumento foi feita para 553 analistas de sistemas. Diante da hipótese do estudo, de que a profissão de analista de sistemas implicava em repercussões sobre a vida e a saúde dos profissionais, organizou-se a classificação dos dados em três conjuntos, englobando o primeiro as condições de trabalho; o segundo, as repercussões sobre a vida e a saúde; e o terceiro, os fatores intervenientes nessa associação. 4.1 Analisando os Resultados Verificou-se que 328 (59,3%) dos analistas de sistemas pesquisados pertenciam ao gênero masculino. A menor idade registrada entre os profissionais foi 18 anos e a maior 56 anos, sendo a média de 33 anos, com desvio de 7,6. No que diz respeito às condições de trabalho, os fatores mais significativos levantados foram: satisfação no trabalho; relacionamento com 137

a chefia; fatores de incômodo ou fadiga como a exigência de tempo e carga mental do trabalho. A análise das variáveis agrupadas no primeiro fator, satisfação no trabalho, demonstrou que os analistas de sistemas extraem prazer do trabalho, prazer este associado ao conteúdo do trabalho, à possibilidade de aprender na função, de não realizar as mesmas atividades todos os dias e de poder criar. “O que empolga é ser uma profissão totalmente diferente das outras, pelo menos por onde eu passei, como auxiliar de escritório... É positivo conhecer coisas novas... O que empolga são os desafios, que vêm como um relâmpago!”. A satisfação com o trabalho também apareceu relacionada com a percepção do significado do trabalho, cujo produto é considerado útil pela população. “Existe um lance de ‘criação de filho’: você se envolve a tal ponto, que você passa por todas as etapas. Você se coloca no lugar do usuário, você tem que pensar num sistema que dê lucro para o banco, tem que pensar no sistema tecnicamente, inclusive como ele vai funcionar para ser rápido, para ver se é eficiente para os usuários. Você percebe como uma coisa tão grande!” O relacionamento com a chefia, segundo fator detectado como significativo no âmbito das condições de trabalho, foi percebido como positivo, tendo sido alvo das referências: meu chefe leva em consideração minha opinião; meu chefe me dá suporte quando necessário; meu chefe reconhece as dificuldades do trabalho; recebo manifestação de reconhecimento quando realizo um bom trabalho; há um clima de descontração no setor. “Quando você tem que fazer nos períodos de maior pressão, a chefia chega mais junto para te ajudar, se o número de pessoas é pouco. O que eu sinto é que, se não estou seguindo o caminho certo, ele chama e fala: ‘Olha, vamos rever o que você está fazendo’”. As relações com a chefia mostraram-se menos amigáveis na empresa estatal, devido à indicação de chefes por critérios políticos e não por competência técnica, o que representa um aumento da tensão para os analistas. Fatores relacionados às condições de trabalho referidos como geradores de incômodo e fadiga foram: prazos curtos, sobrecarga de trabalho e períodos irregulares de trabalho. Os prazos curtos encontram-se relacionados à pressão exercida pelos clientes e ao impacto político e social inerente ao produto do trabalho. Muitas vezes esses prazos eram inegociáveis, como foi o caso de produtos que respon138

dem a propostas políticas, mudanças econômicas ou de legislação, ou mesmo a compromissos assumidos pela diretoria da empresa. Já a sobrecarga de trabalho esteve associada ao volume intenso de serviço. “Noventa e nove por cento dos critérios ou listas de gerência são atropelados pelos ‘incêndios’... Não existem prazos intocáveis: o mercado financeiro, naquele momento, é que manda... A área de sistemas fica no meio do caminho”. Quanto aos horários irregulares de trabalho, sua freqüência dependeu de uma série de aspectos: fase do projeto, ramo de atividade econômica da empresa e horário para acessar a máquina central. “O horário de trabalho é de oito horas por dia, mas você fica à disposição da empresa por 24 horas. Então você pega picos de trabalho, fica instalando... Tem que fazer testes, ver se está funcionando, aí você não tem horário de trabalho: passa trinta e seis, quarenta horas seguidas numa empresa”. A carga mental do trabalho também foi apontada como fator gerador de incômodo e fadiga, associada ao trabalho constante com a mente, ao pensar detalhadamente e ao alto grau de responsabilidade. “A responsabilidade do analista é como a do médico, quando ele cria um sistema, enquanto ele permanecer na empresa, ele vai ficar responsável por aquele sistema, qualquer probleminha que ocorrer, vai todo mundo correr atrás dele, ele vai ser cobrado para dar uma solução, como que ele não previu aquilo antes?”. A atividade dos analistas de sistemas exigiu um intenso trabalho mental, requerendo constantes tomadas de decisões. Ao mesmo tempo em que se referiram a discutir os problemas e ouvir opiniões de colegas e chefes, os analistas de sistemas destacaram que o trabalho é basicamente individual, processando-se no interior da mente. Durante a fase de projeto do sistema foram utilizados fluxogramas, com o objetivo de prever todas as conseqüências possíveis de cada operação que o computador irá efetuar. Paralelamente, e também relacionada à carga mental do trabalho, foi mencionada a necessidade de que os analistas de sistemas acompanhem a constante proliferação do conhecimento na área de informática. “Na atividade do analista, ele não pode deixar pontas soltas porque a máquina não toma decisões. Fazemos dois a três serviços em paralelo, com uma concentração muito grande; sempre tenho uma luzinha ligada, porque se esquecer acarreta problemas e conseqüências”. No desenvolvimento de um sistema, o erro é considerado inadmissível. A crença dos profissionais de que não podem errar relaciona-se 139

à consciência que têm da dimensão incalculável dos prejuízos que certos erros podem acarretar. 4.2 Repercussões sobre a saúde mental e psicossocial As repercussões do trabalho sobre a saúde mental dos analistas de sistemas variaram de acordo com o posto de trabalho, o ambiente de trabalho e a organização do trabalho, além de depender das características de personalidade dos indivíduos, de suas histórias de vida e de sua trajetória ocupacional. As repercussões de saúde mental identificadas compreenderam: sintomas relacionados com o estresse; fadiga mental e aspectos do trabalho interferindo na vida pessoal e familiar. Segundo a classificação formulada pela Organização Mundial da Saúde (WHO, 1987), as repercussões do trabalho sobre a saúde mental e psicossocial de trabalhadores que utilizam terminal de vídeo foram caracterizadas como “distúrbios relacionados com o estresse”, divididos em distúrbios fisiológicos, distúrbios psicológicos e alterações do comportamento. Entre os analistas de sistemas pesquisados observou-se, na categoria distúrbios fisiológicos, a presença de sintomas como: problemas de apetite, palpitação e dor no peito; na categoria distúrbios psicológicos, queixas de concentração difícil, atenção instável, problemas de memória, irritabilidade e nervosismo. “O estresse que a gente fala é bastante cansaço, irritabilidade, a gente fala alto, você se esquece das coisas”. “Uma situação que eu senti quando eu tive estresse foi uma perda de memória, um desligamento total. Você perde um pouco a responsabilidade, não está nem aí com as coisas. Dá uma pane. Tem que parar.” Entre as alterações do comportamento foram verificadas alterações do sono, incluindo sonhos com o trabalho, dificuldade de desligar a mente dos problemas do trabalho ao final da jornada e pensar no trabalho nos dias de repouso. “É como se você descansasse o corpo, a mente não. Sabe quando você dorme, mas acorda no outro dia e não se sente descansada? Você deita e dorme, mas a cabeça está funcionando. Inclusive, às vezes, você acorda de madrugada com a solução do problema. Meu sono não é tranqüilo. Eu, quando vou dormir cedo, acordo às três horas da madrugada, fico rolando na cama e não consigo dormir mais”. A fadiga, especialmente a fadiga mental, aparece com destaque entre as queixas referidas pelos analistas de sistemas. KAWAKAMI et 140

al. (1997), analisando os efeitos dos estressores do trabalho sobre a saúde de produtores de software (engenheiros, técnicos e programadores) em uma empresa de processamento de dados, relatavam que a sobrecarga e os conflitos no trabalho estão associados à depressão e ansiedade, ao mesmo tempo em que o suporte por parte dos colegas e a habilidade para usar o computador foram considerados como fatores protetores. “Às vezes prefiro ficar em casa sozinha, sem fazer nada, absolutamente nada, descansando. O desgaste que eu estou tendo aqui, eu não vou recuperar nunca. E não é só isso... É o físico e o mental. O mental prejudica muito mais”. Em relação à interferência do trabalho sobre a vida pessoal e familiar, alguns aspectos merecem destaque. A absorção mental intensa, inerente ao trabalho, permeia a vida extra-trabalho. O trabalho mental pode realizar-se em qualquer circunstância da vida cotidiana, o que se observa entre os analistas de sistemas, que referem encontrar soluções para os problemas do trabalho durante o trajeto, durante o sono e durante o banho. Em relação a tal fato, merece destaque a menção recorrente, entre os analistas de sistemas pesquisados, ao desejo de descobrir “um botão” que desligue a mente à saída da empresa. MERLO (1999:246), analisando analistas de sistemas de uma empresa de processamento de dados, afirma que “uma das conseqüências desses períodos sobrecarregados de trabalho, nos quais os prazos são muito curtos, é que o trabalho termina por invadir o tempo e o espaço da vida privada. O analista impregna-se a tal ponto de sua tarefa, que ele não consegue parar de pensar no trabalho após deixar a empresa”. “Eu chego em casa e minha mulher pergunta tudo, quer saber tudo e eu não falo nada, fica aquele silêncio porque estou pensando no problema. Você não consegue se ligar... Acho que minha mulher tem que ser que nem a máquina, só falar se eu perguntar. Fica mais fácil de se relacionar quando a pessoa é da área. Se está quieto, sabe que alguma coisa está processando”. Os analistas de sistemas demonstram ter uma relação de caráter específico com o computador, que apresenta desafios constantes e induz a uma atitude de busca pela perfeição, seja por uma “identificação” do profissional com a máquina, seja pela necessidade de evitar as conseqüências dos erros. “O que eu acho que prende mesmo, o que fascina mesmo, para mim, é o desafio. Você tem determinada coisa que você sabe que é possível fazer. Você fica tentando fazer e não está conseguindo. Você
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se sente desafiado. É aquela coisa do analista, eu sou o bom, eu faço”. O fato de não se permitir errar e estar sempre em busca de um trabalho perfeito conduz o analista de sistemas a uma elevada autoexigência e à conseqüente intolerância para consigo mesmo e para com as demais pessoas, nas quais se incluem familiares e subordinados. “Eu acho que o analista de sistema, quando ele chega em casa, ele exige demais de quem está do lado dele, exige muito dos filhos. Ele é muito lógico, não admite erro dos filhos. Ele é muito exigente. Imagina a exigência com a esposa!”. Uma das manifestações registradas por ocasião das entrevistas demonstra semelhança com o quadro de aceleração mental descrito por SELIGMANN-SILVA (1985): “a aceleração mental consiste no condicionamento da mente a trabalhar num ritmo, e com o mesmo raciocínio das máquinas - o operador vai como que se tornando mais acelerado, trabalhando cada vez mais e mais depressa”. “O que me impressiona é a aceleração mental. Você chega em casa e liga a televisão, você não quer conversar com ninguém, você liga a televisão e fica umas duas horas vendo televisão e depois não lembra nada do que viu. Não tem nada a ver, você nem quer ver televisão, você só quer diminuir seu ritmo mental”. Ao lado da absorção pela máquina, a elaboração de um programa exige, como já foi dito, a utilização de raciocínio lógico, formal, binário (sim/não) para cada operação a ser efetuada pelo computador. Este tipo de raciocínio exerce efeitos significativos na forma de utilização da linguagem, segundo REBECCHI (1990: 50): “muitas vezes, as perguntas e as seqüências de operações formuladas pela máquina têm pouca correspondência com o uso cotidiano que fazemos de nossas habilidades cognitivas. Há a redução da conversação interativa para uma simples troca de informações, que tende a anular todos os aspectos de informalidade e redundância, necessários na interação humana”. “Existe a dificuldade de conversar com a família: você chega em casa e você acha as pessoas cada vez mais burras. É que elas não têm o mesmo ritmo de atividade mental, de raciocínio. Porque eu acho que, principalmente na área de análise e de programação, você acaba assimilando um tipo de raciocínio próprio do computador. Nós temos um negócio que a gente chama de ‘fluxograma’. Aquele desenhinho lá. Então, aquele desenhinho está cheio de perguntinhas ‘sim’ ou ‘não’. A resposta é sempre ‘sim’ ou ‘não’... Você não aceita a resposta ‘mais ou menos’. Tem que ser ‘sim’ ou ‘não’, e tem que ser rapidinho... É
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difícil o relacionamento”. A impaciência e a irritação sentidas pelos analistas em diferentes situações foram também discutidas por ocasião da realização das entrevistas. REBECCHI (1990:18), ao analisar a relação entre tempo e trabalho nas tarefas com terminal de vídeo, aponta para a ocorrência de “uma dilatação (psicológica) do tempo de espera e uma forte condensação do tempo de trabalho”, acrescentando que “a dilatação dos tempos de espera é conseqüência da intensificação/condensação do trabalho”. Este ponto é considerado como “absolutamente decisivo” pelo autor, através da justificativa de que: “nos serviços informatizados, a quantidade de trabalho é muito maior. É claro que será necessário realizar pesquisas quantitativas, mas tudo indica que o consumo de energia psíquica aumentou de modo impressionante” (grifos do autor). Entre as repercussões do trabalho sobre a vida pessoal e familiar, SELIGMANN-SILVA (1995, p. 301) relata um quadro de alterações da personalidade que tem sido estudado por diferentes autores, sob as denominações de ‘embotamento afetivo’ (FRANKENAHEUSER, 1981) e ‘alexitimia’ (KARASEK e THEORELL, 1990). Seligmann-Silva designa-o de ‘síndrome de insensibilidade’, quadro cujo denominador comum é o empobrecimento da vida relacional. Estas alterações dizem respeito a ocupações que se caracterizam por esforço mental constante e intenso, e diferenciam-se de acordo com a natureza das atividades e as características da organização do trabalho, variando, ainda, de acordo com a cultura vigente na empresa. A partir de suas pesquisas sobre estresse e tecnologia, FRANKENHAEUSER (1981, p. 507) ressalta que, em relação ao ‘embotamento afetivo’, atenção especial deveria ser dada ao risco de ‘superestimulação’, da qual podem decorrer sérias conseqüências para a esfera emocional: “quando somos excessivamente bombardeados com estímulos fortes e freqüentes, a resposta do sistema nervoso gradualmente enfraquece, os estímulos perdem seu impacto e as reações diminuem. O efeito fisiológico do estresse torna-se menos intenso e o sentimento de desconforto enfraquece. Mas o mesmo ocorre com os sentimentos de envolvimento, empatia e consideração pelos outros. Como é muito natural, a erosão emocional é um processo ‘invisível’ e há um risco de não percebermos o desgaste gradual de nossa capacidade de envolvimento psicológico”. Na descrição oferecida por SELIGMANN-SILVA (1995, p. 301) o quadro clínico envolve “a diminuição das demonstrações de afeto, sendo uma alteração geralmente mais notada pelos familiares do que 143

pelo próprio trabalhador. O cônjuge observa um ‘esfriamento’, que é muitas vezes interpretado como desamor. A capacidade e disposição para o prazer na inter-relação humana se restringem. Isso inclui desde a vida sexual até os relacionamentos familiares, as amizades e os mantidos nas diferentes esferas sociais” (grifos da autora). Elementos da síndrome da insensibilidade podem estar sendo manifestados pelos analistas de sistemas quando se referem à atitude de tornar-se “exigente, crítico, perfeccionista e metódico”, consigo próprio e com os outros - familiares, colegas, chefes -, em associação com à dificuldade de lidar com as emoções. Paralelamente, a absorção mental intensa pode ser sentida, pelos familiares, como ‘indiferença’. Os profissionais referem ser objeto da queixa de que são ‘desligados’, o que tende a ser interpretado, pelos cônjuges, como uma diminuição da espontaneidade na vida sexual e, pelas empresas, como um certo ‘desleixo’ na forma de apresentação pessoal, tudo isto acompanhado de um “confinamento” em grupos sociais ligados à área de informática. “Quando não estou trabalhando, estou em casa. Mas eu não sei até que ponto eu gosto de ficar em casa, por causa dos questionamentos, de conversar. A família questiona o desligamento”. Tais alterações de comportamento são associadas, pelos analistas de sistemas, aos seguintes fatores relacionados ao trabalho: a relação constante e absorvente com a máquina é vista como indutora da busca pela perfeição, ao mesmo tempo em que leva à perda da comunicação com as pessoas; além disso, a ‘rigidez’ exigida pela necessidade de evitar erros, associada à superestimulação decorrente do uso constante do raciocínio e às exigências de tempo, ocasionariam a inibição da expressão das emoções. As atividades de lazer foram citadas como parte das estratégias individuais dos trabalhadores para facilitar o ‘desligamento’ da mente, reduzir a carga mental do trabalho, melhorar as relações com os familiares e reduzir o ritmo mental. As atividades de lazer compreendem: exercícios físicos, trabalhos manuais e artísticos. “A gente sente como ‘válvula’, porque se sente pressionado pelo seu trabalho. Tem que fazer alguma coisa... No geral, o pessoal procura trabalhos manuais, alguma coisa para fazer com as mãos, sem pensar, ou então trabalhar com madeira, fazer móveis, esculturas ”. 4.3 Do estudo às transformações: a convenção coletiva A apresentação dos resultados da presente investigação aos sindi144

catos dos trabalhadores e dos empregadores da área de processamento de dados resultou na formação de um Grupo Tripartite que, incluindo representantes da DRT/SP (Delegacia Regional do Trabalho de São Paulo); SINDPD/SP (Sindicato dos Trabalhadores de Processamento de Dados e Empregados de Empresas de Processamento de Dados de São Paulo) e SEPROSP (Sindicato das Empresas de Processamento de Dados e Serviços de Informática do Estado de São Paulo), elaborou um Manual destinado à divulgação de informações entre os profissionais e uma Convenção Coletiva voltada para a categoria dos analistas de sistemas e profissionais assemelhados (MTE,2000) . O documento oferece orientação de caráter abrangente às empresas, além de promover a conscientização do trabalhador no sentido de amenizar as conseqüências potencialmente negativas da profissão, assim preservando suas condições físico-mentais e garantindo melhorias na qualidade de vida. O conteúdo da Convenção contempla os seguintes itens: as condições ambientais de trabalho (ruído, conforto visual, conforto térmico, qualidade do ar), as características do mobiliário (cadeira, mesa de trabalho), do posto de trabalho (as divisórias, as salas de reuniões, as estantes, os objetos de uso pessoal), dos equipamentos (o monitor de vídeo, o uso de notebook), da organização do trabalho (os cronogramas de desenvolvimento e implantação dos projetos, a atualização tecnológica, a avaliação e reconhecimento do trabalho, o analista alocado no cliente), dos programas de prevenção (Programa de Controle de Saúde Ocupacional, Programa de Prevenção de Riscos Ambientais, Comissão Interna de Prevenção de Acidentes). Na implantação da Convenção no município de São Paulo foi importante a verificação dos aspectos da organização do trabalho principalmente quanto ao plano de cargos e salários e das formas de reconhecimento do profissional.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
O Programa de Prevenção para os analistas de sistemas apontou para aspectos da saúde mental de outros profissionais e usuários de computador como a presença de absorção mental intensa pelo trabalho e computador e as repercussões como o embotamento afetivo e síndrome da insensibilidade. Com a expansão da utilização do computador estes aspectos devem ser analisados nas situações de trabalho. 145

A apresentação do caso de intervenção nas situações de trabalho dos analistas de sistemas demonstrou a complexidade da prevenção da saúde mental no trabalho. Nestas situações devem sempre ser selecionados os referenciais teóricos e metodológicos para a escolha de procedimentos adequados aos objetivos da intervenção. Neste exemplo destacamos a importância da participação dos trabalhadores em todas as etapas.

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Notas de Rodapé ¹ Este estudo foi financiado pela Secretaria de Segurança e Saúde do Trabalhador do Ministério do Trabalho, tendo sido apresentado como Tese de Doutorado para a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1996: Rocha, L.E. “Estresse Ocupacional em Profissionais de Processamento de Dados: condições de trabalho e repercussões na vida e saúde dos analistas de sistemas”.

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