MARX Karl;DURKHEIM Émile;WEBER Max.Um toque de clássicos.Editora UFMG-Belo Horizonte:2 edição revista e ampliada.2003.

INTRODUÇÃO “A marca da Europa moderna foi, sem dúvida, a instabilidade, expressa na forma de crises nos diversos âmbitos da vida material, cultural e moral. Foi no cerne dessas dramáticas turbulências que nasceu a Sociologia enquanto um modo de interpretação chamado a explicar o “caos” até certo ponto assustador em que a sociedade parecia haver-se tornado”. (p. 9)

MUDANÇAS RESULTANTES DA INDUSTRIALIZAÇÃO “Mudanças na organização política e jurídica, nos modos de produzir e de comerciar exerciam um mútuo efeito multiplicador e geravam conflitos ideológicos e políticos de monta”. (p. 9) “O avanço do capitalismo como modo de produção dominante na Europa ocidental foi desestruturando, com velocidade e profundidade variadas, tanto os fundamentos da vida material como as crenças e os princípios morais, religiosos, jurídicos e filosóficos em que se sustentava o antigo sistema”. (p. 9-10) “A partir da segunda metade do século 18, com a primeira revolução industrial e o nascimento do proletariado, cresceram as pressões por uma maior participação política, e a urbanização intensificou-se, recriando uma paisagem social muito distinta da que antes existia”. (p. 10) “A capitalização e modernização da agricultura provocaram o êxodo de milhares de famílias que, expulsas de seu habitat ancestral, vagavam à procura de trabalho. As cidades, receptoras desses fluxos contínuos, foram crescendo acelerada e desordenadamente. Cenário de feiras periódicas, elas recebiam pequenos produtores locais e mercadores estrangeiros e, sob o manto de sua intensa atividade, albergavam uma população de mendigos, desocupados, ladrões, saltimbancos, piratas de rios e de cais, traficantes e aventureiros em busca de todo tipo de oportunidades. A cidade acenava a todos com a possibilidade de maior liberdade, proteção, ocupação e melhores ganhos, embora para muitos tais promessas não chegassem a cumprir-se”. (p. 10) “A fome, a falta de esgotos e de água corrente nas casas, o lixo acumulado e as precárias regras de higiene contribuíam para a proliferação de doenças e a intensificação de epidemias que elevavam as taxas de mortalidade da população em geral, e dos pobres, das crianças e parturientes em particular”. (p. 10) “Entre 1800-1850, o crescimento populacional da Europa foi de 43%. Alguns países ultrapassaram os 50%. Na França, no início do século 19, a expectativa média de vida subiu a 38 anos, e 7% da população já chegavam aos 60 anos, embora 44% não passassem dos 20”. (p. 11)

iniciada no século 16. na Europa como na América.“Foi em 1833. diferenças entre o modo de viver dos dois sexos”. de uma forma ou de outra. (p. era ainda. 11) “Muitas revoltas tiveram como alvo as próprias máquinas. não havendo. a maioria dos campos de conhecimento. sendo o turno da noite reservado para que freqüentassem a escola”. Barão de la Brede e de Montesquieu. como a liberdade e a razão”. parte integral dos grandes sistemas filosóficos. a progressiva redefinição das questões últimas colocadas tradicionalmente pela reflexão filosófica. claramente diferenciados do lugar do trabalho. tendo lançado mão do conhecimento histórico e empírico para fundar seus argumentos. instituindo o livre exame. como no chamado movimento ludista.(p. (p. envolverá. organizados em disciplinas específicas. como na Antigüidade Clássica. do raciocínio hipotético-dedutivo característico dos contratualistas”.10 A Reforma protestante. (p. foi um filósofo político de grande impacto sobre as ciências sociais. fez da consciência individual o principal nexo com a divindade”. dos espaços privados. no início. distanciando-se. A constituição de saberes autônomos. foi um momento importante nessa trajetória. substituindo-a por correntes de pensamento de base individualista. regenerando o mundo através da conquista da natureza e promovendo a felicidade aqui na terra. 14) “Entre os benefícios alcançados. que crianças entre 9 e 13 anos foram proibidas de trabalhar em jornadas de mais de 9 horas.(p. como a Biologia ou a própria Sociologia. (p. nas casas burguesas da Inglaterra. destruídas pelos operários enfurecidos. a Reforma colocou sobre o fiel essa responsabilidade e. o Século das Luzes . o hábito de viver juntos criou nos seres humanos sentimentos doces como o amor conjugal e paterno.o Iluminismo”. e somente nas fábricas têxteis da Inglaterra. 12) “Aos processos de ordem socioeconômica. tornou-se bandeira e símbolo do movimento de crítica cultural que marca o Setecentos. 15) . (p. A luta por melhores condições de trabalho. assim. foi árdua. hoje enquadrados sob o rótulo de ciências. dominante na Antigüidade e no período medieval. e novos direitos foram sendo aos poucos conquistados e acrescentados à legislação social e trabalhista em diversos países”. (p. 11) “O infanticídio era secretamente praticado e moralmente admitido. conhecido como Montesquieu (1689-1755). Um sentimento de família mais próximo do que existe nos dias de hoje deve-se também ao aparecimento. mudanças culturais contribuirão para suplantar a concepção orgânica. 13) “Charles Louis de Secondat. embora o proletariado urbano demorasse ainda a alcançar esse benefício”. 12) ANTECEDENTES INTELECTUAIS DA SOCIOLOGIA “Até o século 18. 12-13) “A confiança na razão e na capacidade de o conhecimento levar a humanidade a um patamar mais alto de progresso. e as que tinham entre 13 e 16 anos por mais de 12 horas. Ao contestar a autoridade da Igreja como instância última na interpretação dos textos sagrados e na absolvição dos pecados.

PRIMEIRAS SOCIOLOGIAS: ORDEM. existindo apenas a Humanidade. a partir de qualquer perspectiva que se o considere”. EVOLUÇÃO. 21) . uma construção do pensamento pré-positivo. a cujas partes corresponderiam distintas funções”. 20) “O inglês Herbert Spencer (1820-1903) foi o sociólogo mais representativo dessa corrente. É a permanência das relações existentes entre as partes constitutivas que faz a individualidade de um todo e que a distingue da individualidade das partes. Para o espírito positivo. já que nosso desenvolvimento provém da sociedade.” Sendo os indivíduos . particularmente. mas um verdadeiro ser animado. (p. CONTRADIÇÕES.organismos sujeitos às leis biológicas..+ Uma sociedade não é mais do que um nome coletivo empregado para designar certo número de indivíduos. CAOS. estimulando a utilização de analogias entre a sociedade e os organismos. “o homem propriamente dito não existe. afirmando que tudo o que é humano além do nível meramente fisiológico deriva da vida social. sobrevivência”. 20) “*. independentes de toda finalidade. é fundamentalmente um sistema geral do conhecimento humano que se antepõe à “filosofia negativa” com a pretensão de organizar. segundo Comte. Ambos se dedicaram não só a delimitar e a investigar um grande número de temas como a dar-lhes uma clara definição sociológica”. mais ou menos vigoroso. do espírito teológico-metafísico. Ele difundiu o chamado darwinismo social . como uma estrutura que unifica seus componentes diferenciados.. (p. A sociedade era vista como um sistema vivo. Comte acreditava que “ninguém possui o direito senão de cumprir sempre o seu dever””.(p. 20) “A Sociologia começou a se consolidar enquanto disciplina acadêmica e a inspirar rigorosos procedimentos de pesquisa a partir das reflexões de Émile Durkheim (1858-1917) e de Max Weber (1864-1920). 18) “A chamada “filosofia positiva”.unidades elementares . dotado de funções e relações ordenadas. portanto. garantindo a continuidade harmônica do todo em atividade”. não têm outra razão que a arbitrariedade das vontades individuais”.28 O individualismo é. das desigualdades sociais. através de conceitos como: evolução. 19) “Comte rejeitava a concepção contratualista de que a sociedade é formada de indivíduos. o arranjo e a distribuição das funções reguladoras da convivência social estariam submetidos às mesmas leis do mundo natural”. 19) “Teoria evolucionista exerceu profunda atração sobre a Sociologia e a Antropologia. (p. luta. “A sociedade não seria “um simples aglomerado de seres vivos cujas ações. seleção natural. (p. Contrariamente às concepções iluministas e racionalistas do direito individual. (p. o que evidencia o predomínio do coletivo.a teoria do evolucionismo biológico aplicada à compreensão dos fenômenos e. e não de destruir a sociedade”. (p.

chegando com freqüência a contestar tendências intelectuais dominantes de seu tempo. do organicismo alemão e do socialismo de cátedra. em tal sentido. estar ela própria livre de contradições”. (p. Nesse sentido. (p. 67) “Durkheim recebe também a influência da filosofia racionalista de Kant. fundada em princípios morais que poderiam revigorar a sociedade moderna. (p. do darwinismo. foi ao que chamou de individualismo utilitarista representado por Herbert Spencer. racionalmente organizada nos moldes do exército prussiano do qual copiou o rígido sistema de hierarquia e autoridade”. a Economia e a Psicologia. deu continuidade à idéia comtiana de instituir uma religião de cunho secular. 68) . 22) “Foi a partir da obra realizada sobretudo por Marx. mas não excluía o diálogo com a História. O positivismo foi a corrente de pensamento que teve maior influência sobre o método de investigação que ele elegeu como o mais correto para a coleta dos dados. 22) “A Sociologia era. e continua a ser. para quem a cooperação é o resultado espontâneo das ações que os indivíduos executam visando atender a seus interesses particulares. (p. (p. senão que as refunde num novo sistema. (p. Durkheim via na ciência social uma expressão da consciência racional das sociedades modernas. portanto. deixou um considerável número de herdeiros intelectuais. tornando-se o primeiro professor universitário dessa disciplina. 22) ÉMILE DURKHEIM – CAPITULO 2 INTRODUÇÃO “Émile Durkheim foi um dos pensadores que mais contribuiu para a consolidação da Sociologia como ciência empírica e para sua instauração no meio acadêmico. Um dos alvos da crítica durkheimiana. um debate entre concepções que procuram dar resposta às questões cruciais de cada época. a fim de que a Sociologia ultrapassasse os obstáculos impostos pelas noções vulgares e pela afetividade”. Pesquisador metódico e criativo. Por inspirar-se na vida social. Durkheim e Weber que a Sociologia moderna se configurou como um campo de conhecimento com métodos e objeto próprios. Mas seu pensamento não apenas faz eco às idéias recebidas. O sociólogo francês viveu numa Europa conturbada por guerras e em vias de modernização. não pode. Valores e instituições que antes eram considerados de um ponto de vista supra-histórico passam a ser entendidos como frutos da interação humana”. e sua produção reflete a tensão entre valores e instituições que estavam sendo corroídos e formas emergentes cujo perfil ainda não se encontrava totalmente configurado”. embora apontasse os limites de cada uma dessas disciplinas na explicação dos fatos sociais”.“Durkheim foi um liberal democrata disposto a levar à frente os ideais revolucionários de 1789. 21-22) “O Príncipe Otto von Bismarck constituiu na Alemanha uma burocracia forte.

crenças morais etc”. considera que. 70) “Eles são. Na fase positivista que marca o início de sua produção. (p. 70) “Para tentar comprovar o caráter externo desses modos de agir. é uma síntese e. 70) “As representações coletivas são uma das expressões do fato social. segundo as épocas e os países. 68) “*.. representando-os através de suas lendas. mitos. 69) “Da perspectiva do autor. em virtude de sua superioridade. as crianças são constrangidas (ou educadas) a seguir horários. concepções religiosas. mais do que uma soma. independente do sentimento ou da importância que alguém individualmente lhes dá *. (p. vestir-se. ao suicídio. conversar etc. externo aos membros da sociedade e que exerce sobre seus corações e mentes uma autoridade que os leva a agir. então. (p.. (p. que não sejamos vencidos. por exemplo. todo comportamento instituído pela coletividade”. (p. a uma natalidade mais ou menos forte etc. Desde muito pequenas. (p. mais fluidos. por exemplo.” (p. que vão sendo estabelecidos pelas sucessivas gerações”.) Estamos mergulhados numa atmosfera de idéias e sentimentos coletivos que não podemos modificar. dos movimentos coletivos. para tornar-se uma ciência autônoma.. (. dançar. Eles também possuem uma realidade objetiva. negociar.. “as forças morais contra as quais nos insurgimos reagem contra nós e é difícil. de “toda crença.A ESPECIFICIDADE DO OBJETO SOCIOLÓGICO “A Sociologia pode ser definida.” (p. 71) “Outro componente fundamental do conjunto dos fatos sociais são os valores de uma sociedade. por exemplo. a trabalhar”. das correntes de opinião “que nos impelem com intensidade desigual. É o caso das correntes sociais. rir. segundo Durkheim. os modos de circulação de pessoas e de mercadorias. por isso. a desenvolver certos comportamentos e maneiras de ser e. Durkheim argumenta que eles têm que ser internalizados por meio de um processo educativo. a pensar e a sentir de determinadas maneiras”.. de pensar ou de sentir. lembra.. assim como os diferentes aspectos da vida não se acham decompostos nos átomos contidos na célula: a vida está no todo e não nas partes”. da sua gênese e do seu funcionamento”. essa esfera do conhecimento precisava delimitar seu objeto próprio: os fatos sociais”. ou seja.+”. 71) . mais tarde. 69) “A sociedade. as coisas de que se utilizam e o solo que ocupam. (p. a sociedade não é o resultado de um somatório dos indivíduos vivos que a compõem ou de uma mera justaposição de suas consciências”. ao casamento. 71) “Quando optamos pela não-submissão. de comunicarse. 69) “Os fatos sociais podem ser menos consolidados. Elas compreendem os modos “como a sociedade vê a si mesma e ao mundo que a rodeia” como. não se encontra em cada um desses elementos. cantar. a massa de indivíduos que a compõem. ideais de bondade ou de beleza. (p. à vontade.+ O fato social é algo dotado de vida própria. são as maneiras de agir. como a ciência “das instituições.

As “crenças e práticas sociais agem . mesmo sob constrangimento. da repressão. mais ou menos íntimo. Inegavelmente coativas.16 A primeira delas e a mais fundamental é considerá-los como coisas. portanto. aparecem-nos como desejáveis. 75) “Em suma. elas. (p. mais ou menos atravessado por cursos de água e por diferentes vias de comunicação que estabelecem contato. 74) “Os homens não esperaram o advento da ciência social para formular idéias sobre o direito. da sociedade aparecem assim como um simples desenvolvimento das idéias que formulamos a respeito da sociedade. Considerada sob esta perspectiva. Tal método deveria ser estritamente sociológico”. (p. 74) “A organização da família. pois não podiam passar sem elas em sua existência”. (p. no entanto. entre os habitantes”. (p. da justiça etc”. a moral. ter a atitude mental e comportar-se diante dos fatos da mesma maneira que o faria qualquer cientista: considerar que se acha diante de objetos ignorados porque “as representações que podem ser formuladas no decorrer da vida. dispersa nos campos ou concentrada nas cidades etc. (p. embora seu cumprimento se dê com um esforço que nos arrasta para fora de nós mesmos. há que estudar a sociedade no seu aspecto exterior. (p. ela surge como que constituída por uma massa de população. estão destituídas de valor científico e devem ser afastadas”. ao se apresentarem como “coisas agradáveis de que gostamos e que desejamos espontaneamente”. do contrato. e que por isso mesmo eleva-nos acima de nossa própria natureza. definir previamente os fenômenos tratados a partir dos caracteres exteriores que lhes são comuns. independentemente de suas manifestações individuais.O MÉTODO DE ESTUDO DA SOCIOLOGIA SEGUNDO DURKHEIM “No estudo da vida social. conseqüentemente. o Estado e a própria sociedade. 73) “O sociólogo deve. disposta de determinada maneira num território. da maneira mais objetiva possível”. do Estado. uma das preocupações de Durkheim era avaliar qual método permitiria fazê-lo de maneira científica.: ocupa um território mais ou menos extenso. tendo sido efetuadas sem método nem crítica. e considerá-los. em segundo lugar. a família. as regras morais possuem uma autoridade que implica a noção de dever e. 73) “Durkheim estabelece regras que os sociólogos devem seguir na observação dos fatos sociais. (p. situado de determinada maneira em relação aos mares e aos territórios dos povos vizinhos. 72-73) “Primeiro. as características já mencionadas. do Estado. mostram uma outra face. de uma certa densidade. Daí seguem-se alguns corolários: afastar sistematicamente as prenoções. 74) A DUALIDADE DOS FATOS MORAIS “As regras morais são fatos sociais e apresentam. superando as deficiências do senso comum.

só nos representa no que temos de pessoal e distinto. SOLIDARIEDADE E OS DOIS TIPOS DE CONSCIÊNCIA “Conquanto não tenha sido o primeiro a apresentar explicação para o problema. artísticas. (p. administrativas. (p. mas a sociedade agindo e vivendo em nós. (p. constituindo-se de “um conjunto mais ou . Durkheim elaborou o conceito de solidariedade social. (p.” (p. como nas funções políticas. A outra. a qual pode ser orgânica ou mecânica. nisso é que faz de nós um indivíduo. 75-76) “Durkheim refere-se a essa necessidade de revigorar os ideais coletivos como a razão de muitos dos ritos religiosos que voltam a reunir os fiéis. para fazer renascer e alentar neles as crenças comuns”. 78) “A divisão do trabalho não é específica do mundo econômico: ela se encontra em outras áreas da sociedade. abre-se espaço para o desenvolvimento das dessemelhanças. não representa a nós mesmos. 79) “À medida que a comunidade ocupa um lugar menor. ao contrário. 79) OS DOIS TIPOS DE SOLIDARIEDADE “Os laços que unem os membros entre si e ao próprio grupo constituem a solidariedade. A solidariedade é chamada mecânica quando “liga diretamente o indivíduo à sociedade. da personalidade autônoma”.(p. Quando tais vínculos assemelham-se aos que ligam um déspota aos seus súditos. “mecânicos”. permitindo o desenvolvimento da personalidade”. procurou mostrar como se constitui e se torna responsável pela coesão entre os membros dos grupos. antes dispersos e isolados. é “literalmente uma coisa de que a sociedade dispõe”. 77) “Essa consciência comum ou coletiva corresponde ao “conjunto das crenças e dos sentimentos comuns à média dos membros de uma mesma sociedade [que] forma um sistema determinado que tem vida própria”. a consciência comum passa a ocupar uma reduzida parcela da consciência total. de acordo com o tipo de sociedade cuja coesão procuram garantir. 77) “Segundo o autor. possuímos duas consciências: “Uma é comum com todo o nosso grupo e. por isso.sobre nós a partir do exterior". (p. por conseguinte. sim. judiciárias. 76-77) COESÃO. os quais se encontram dentro de nós”. sua ascendência também é distinta daquela de que desfrutam nossos hábitos. científicas etc”. O indivíduo não se pertence. 78) “Nas sociedades onde se desenvolve uma divisão do trabalho. sem nenhum intermediário”. da individualidade. a natureza destes é análoga à dos laços que unem um proprietário a seus bens: não são recíprocos mas. (p. e de que maneira varia segundo o modelo de organização social”.

por . de fator externo e objetivo que simboliza os elementos mais essenciais da solidariedade social”. portanto. caiba tão somente à psicologia. atua com ímpeto passional”. onde a divisão do trabalho está presente. por seu caráter. 79) “Quando a sociedade passa a ser formada por um conjunto de hordas. sendo baseada na paixão. já que esta. de maneira mecânica e irracional. uma prática coletiva. pode estender-se incontrolavelmente. 82) “Sendo a consciência coletiva tão significativa e disseminada. Esse é um tipo de sociedade polissegmentar simples agregado homogêneo. É uma grosseira arma defensiva contra a ameaça. 82) “A vingança é exerci da contra o agressor na mesma intensidade com que a violação por ele perpetrada atingiu uma crença. ou só serve secundariamente. ou seja. não é pelo temperamento do suicida. somente existem indivíduos no sentido moderno da expressão quando se vive numa sociedade altamente diferenciada. é obra da vingança. e serve.como sua família . por conseguinte. 83) “Às vezes a pena sobrepassa os culpados e atinge inocentes . 83) “Considerando que o suicídio é um ato da pessoa e que só a ela atinge. o Direito é uma forma estável e precisa. para corrigir o culpado ou para intimidar seus possíveis imitadores!” Ela existe para sustentar a vitalidade dos laços que ligam entre si os membros dessa sociedade. nas sociedades complexas.menos organizado de crenças e sentimentos comuns a todos os membros do grupo: é o chamado tipo coletivo”. uma tradição. De fato.Nas sociedades primitivas é a assembléia do povo que faz justiça sem intermediários”. feri-la é uma violência que atinge a todos aqueles que se sentem parte dessa totalidade”. (p. (p. (p. 81) “O papel do Direito seria. um mito ou qualquer outro componente mais ou menos essencial para a garantia da continuidade daquela sociedade. de natureza familiar e política. (p. análogo ao do sistema nervoso: regular as funções do corpo”. assim. evitando que se relaxem e debilitem. Não obstante se sustente nos costumes difusos. 82) “Assim a pena “não serve. (p. por ser um fenômeno moral. tudo indica que deva depender exclusivamente de fatores individuais e que sua explicação. e na qual a consciência coletiva ocupa um espaço já muito reduzido em face da consciência individual”. 80) “Segundo Durkheim. é sinal que se tornou mais complexa e passa a chamar-se clã. a solidariedade que mantém unidos tais membros”. (p. não pode ser diretamente observada. fundado numa forte solidariedade mecânica”. (p.porque. (p. 81) OS INDICADORES DOS TIPOS DE SOLIDARIEDADE “Durkheim utiliza-se da predominância de certas normas do Direito como indicador da presença de um ou do outro tipo de solidariedade. que são seus segmentos. (p.

85) MORALIDADE E ANOMIA “Conflitos e desordens seriam os sintomas da anomia jurídica e moral presentes na vida econômica. cujo desenvolvimento havia sido tão extraordinário nos últimos dois séculos que elas acabaram por deixar de ocupar seu antigo lugar secundário”. mais rudimentares nos aspectos sociais. um sentimento de todo. (p. (p. Por isso. e com a sensação de hostilidade geral e de desconfiança mútua quando eles se tornam crônicos”.” (p. (p. principalmente. 90) “As chamadas doutrinas socialistas são.. somos. 88) “Durkheim reconhece que a anarquia é dolorosa. antes de mais. 88) “Como o sociólogo francês o percebia. procuram-se. (p. (p. de fato. 89) “Pessoas que são parte de um grupo que possui em comum “idéias. seriam satisfeitas nessa área com “poucos gastos” em relação às dos homens. à falta de regulamentação das atividades econômicas. os indivíduos sofrem com os conflitos e desordens.. daqueles que pensam que ela é. sentimento e ocupações” são atraídas umas em direção às outras. 91) “Durkheim discorda daqueles que acusam a divisão do trabalho de ter reduzido o trabalhador a uma máquina que repete rotineiramente os mesmos movimentos sem relacionar as operações que lhe são exigi das a um propósito”. 91) “Durkheim argumenta que “o trabalho só se divide espontaneamente se a sociedade está constituída de tal maneira que as desigualdades sociais expressam exatamente as desigualdades naturais”. essencialmente relativas a esta esfera da vida coletiva que se chama vida econômica. pelos fatos da sua história privada que em geral se explica a sua decisão?” (p. socialmente mais complexos”. moral”. associam-se e acabam por constituir um grupo especial do qual vem a desprender-se uma vida moral. tal estado de anarquia não poderia ser atribuído somente a uma distribuição injusta da riqueza mas. acredita que uma mulher viúva ou solteira suportaria melhor a solidão. porque as necessidades femininas. pelo contrário. entram em relações. 84) “Durkheim acreditava que a lacuna gerada pela carência de vida social era maior nos povos modernos do que entre os primitivos e afligia os homens mais do que as mulheres.seus antecedentes. (p. (p. Isto não quer dizer que a questão social seja uma questão de salários. cujo progresso sem precedentes não tinha sido acompanhado pelo desenvolvimento de instituições dotadas de uma autoridade capacitada a regulamentar os interesses e estabelecer limites”. 92) MORAL E VIDA SOCIAL .

evidenciam o essencial. embora possam existir consciências que não se ajustem à moralidade de seu tempo. ela é o bem. a possuir a melhor constituição moral”. conforma-os a justos limites. 95-96) RELIGIÃO E MORAL “É como parte dessa preocupação com o estudo da moralidade que a religião ocupa um espaço importante na obra de Durkheim. ou as mais abastadas. existe uma moral comum e geral àqueles que pertencem a uma coletividade e uma infinitude de consciências morais particulares que a expressam de modo distinto”. Negá-la é negar a sociedade e. No entanto. podem consagrar seu amor-próprio não a ser as maiores. porém. acredita Durkheim. 96) . sua autonomia. o melhor que possa. são sentidas como desejáveis e. Por isso. e sim o organizar. possuem um respeito especial. em sua clareza e simplicidade. se nada mais fosse do que uma soma dos indivíduos que a constituem. (p. 95) “A existência de contradições entre os sentimentos patriótico e cosmopolita exigiria um esforço de conciliação por parte do Estado que se fixaria como tarefa essencial. homens. É com base nela que a opinião pública e os tribunais julgam. dominar as próprias paixões. possui uma moral.“A moral consiste em “um sistema de normas de conduta que prescrevem como o sujeito deve conduzir-se em determinadas circunstâncias”. e os deveres cívicos não passarão de forma mais particular dos deveres gerais da humanidade. considerar outros interesses que não os próprios. em um certo momento de sua história. o estender as fronteiras. subordina-se a fins mais altos. Esta. Para adquirir humanidade é indispensável superar-se. de seus cidadãos. (p. 93) “Em toda a sua obra. chamar a uma vida moral mais e mais alta o maior número de seus membros. (p.. É a ela que se almeja.. não poderia ter valor moral superior à soma do valor moral de cada um de seus elementos”. os membros da sociedade são estimulados a superar sua natureza individual”. E é a sociedade que ensina aos homens a virtude do sacrifício. (p. tais normas distinguem-se de outros conjuntos de regras porque envolvem uma noção de dever. (p. mais tarde oculto pelo secundário e o acessório”.) As sociedades. (. e a subordinação de seus fins individuais a outros mais elevados”. no sentido completo da palavra.. As religiões primitivas são o ponto de partida de seu estudo por considerar que. da privação. 94) “O homem livre é aquele que contém seu egoísmo natural. o homem não é humano senão porque vive em sociedade” e sair dela é deixar de sê-lo. constituem uma obrigação. “na verdade.) Não tenha o Estado outro fim senão fazer. um individualismo desregrado adviria da falta de disciplina e de autoridade moral da sociedade”.. não o crescer. e sim a ser as mais justas. 93) “Cada povo. (p. as mais bem organizadas. (p. para cumpri-las. (. submete os desejos ao império da vontade. Durkheim procura comprovar os princípios que fundamentam sua concepção de sociedade. 94) “A sociedade é a melhor parte de nós”.

e também incorpora o mal. produtos da cooperação”. objetos. 99) “Reduzido apenas aos preceitos individuais. onde as sociedades “são obrigadas a renovar-se e a procurar-se laboriosamente e dolorosamente”.o empirismo e o apriorismo . e que expressam coisas sociais”. A origem dos conceitos só pode ser a comunidade. ou como noções muito simples que qualquer um pode apreender de suas experiências pessoais.crenças comuns a todos aqueles que se unem numa mesma comunidade moral chamada Igreja”. (p. isto é. que as grandes cerimônias religiosas buscam satisfazer.isto é. reflete as aspirações “para o bem. (p. Seus velhos ideais e divindades estão morrendo. que são estados de opinião.79 Os fenômenos religiosos são de duas espécies: as crenças. separadas. e constituem a matéria do pensamento lógico. elaborações individuais. a morte. de mediocridade moral” que recobre as fontes de calor contidas na sociedade”.“As religiões são constituídas por “um sistema solidário de crenças e de práticas relativas às coisas sagradas . são universais e impessoais. Sendo. (p. como propunham os empiristas”. pessoas etc”. não seria um homem. (p. 96) “O que ocupa o pensamento são as crenças comuns. as quais traduziriam estados da coletividade.e propõe que seja reconhecida a origem social das categorias. (p. 99) “As categorias não devem ser tomadas como fatos primeiros. mantidas à distância e isoladas pelas interdições aplicadas às profanas. 98) “As categorias do entendimento seriam instrumentos coletivos de pensamento que os grupos humanos forjaram ao longo de séculos e através dos quais as inteligências se comunicam. pois. pois não seria um ser social que sempre pensou por meio de conceitos. Mesmo os interesses materiais. já que são . que se encontram em constante movimento. que exprimem modos de conduta”. 97) A TEORIA SOCIOLÓGICA DO CONHECIMENTO “A religião representa a própria sociedade idealizada. o homem não seria distinto dos animais. 96) “As coisas sagradas são protegidas. imanentes ao espírito e portanto impenetráveis pela análise. são de ordem pública. as tradições comuns. Elas podem ser palavras. lugares. sendo. e é através deles que os indivíduos se comunicam. o belo. alimentos. e os homens encontram-se num “período de frio. em princípio. Estes exprimem a maneira pela qual a sociedade representa as coisas para si. interditas . logo. e os ritos. as coisas sociais. opostos às representações sensíveis. as lembranças comuns dos grandes antepassados. (p. (p. representações. 97) “Durkheim refere-se a seu tempo como uma época de profunda perturbação. 98) “Durkheim questiona as duas teses que até então procuraram explicar a questão do conhecimento e de sua racionalidade . e mesmo os aspectos mais repugnantes e vulgares da vida social”. animais. (p. como pensavam os aprioristas. o ideal coletivo de que eles são a reencarnação: em uma palavra. portanto social”. o ideal”.

a profunda fé mantida por Durkheim na capacidade de convivência entre indivíduos idiossincráticos. atesta sua sensibilidade para as tendências de mudança. (p. (p. assim como sua esperança no exercício da liberdade responsável num quadro de justiça social e de ideais cosmopolitas que se estenderia a toda a humanidade”. 100) “Por outro lado... (p. capazes de extinguir o “frio moral” pelo qual passavam as sociedades industriais”.compartilhados por todos e “dependem da maneira como ela é constituída e organizada”. sem que se pusesse em risco a existência da vida social. embora de caráter pacífico e mesmo reformista.+ Durkheim esteve atento para o surgimento de novas crenças. 100) . 99-100) CONCLUSÕES “*. gerados em períodos revolucionários ou de grande intensidade da vida social. ideais e representações.