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SAMIZDAT
impróprio para menores de 18 anos

Especial
www.revistasamizdat.com

13
fevereiro
2009
ano II

ficina

Erotismo
O irresistível poder do
desejo
SAMIZDAT 13
fevereiro de 2009

Edição, Capa e Diagramação: Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada


Henry Alfred Bugalho a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
Todas as imagens publicadas são de domínio público ou
Revisão Geral royalty free.
Joaquim Bispo As idéias expressas e a revisão das obras são de inteira
­responsabilidades de seus autores ou tradutores.
Autores
Caio Rudá
Carlos Alberto Barros
Editorial
Giselle Natsu Sato
Guilherme Rodrigues Lembro-me de quando era adolescente e eu e meus ami-
Henry Alfred Bugalho gos tínhamos de contrabandear revistas eróticas, que ficavam
Joaquim Bispo escondidas em fundos de armários ou embaixo da cama.
José Espírito Santo A internet tornou tudo mais fácil e qualquer busca no
Marcia Szajnbok
Google traz milhões de imagens, vídeos e textos.
O erotismo é parte da vida cotidiana de todos nós, é um
Maria de Fátima Santos
aspecto inegável da nossa natureza humana. Reprimida, na
Maristela Scheuer Deves maior parte do tempo, mas inextinguível.
Pedro Faria Sem dúvida que boa parte daqueles que chegarão a esta
Volmar Camargo Junior edição especial erótica da SAMIZDAT estarão em busca de
Zulmar Lopes satisfação física. Este é um objetivo mais que legítimo, apesar
de não ser exatamente a intenção da revista ou dos autores.
Mas a nossa grande esperança é que também consigamos
Autores Convidados
atingir o verdadeiro apreciador da literatura erótica, e prin-
Isidro Iturat cipalmente, aquele que gosta de toda literatura; pois assim
Leo Borges como o erotismo faz parte de nossas vidas, ele também per-
Mariana Valle tence à escrita e à Arte.
Escrevemos para os olhos de todos, bem como para os
olhos dos poucos.
Textos de:
Anaïs Nin
Henry Alfred Bugalho
António Botto
Dalton Trevisan
Paul Éluard

Imagem da capa:
http://www.flickr.com/photos/
ssh/9639429/sizes/o/

www.revistasamizdat.com
Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

COMUNICADO
SAMIZDAT Especial - Humor 8

ENTREVISTA
Maria Isabel Moura 10

MICROCONTOS
Henry Alfred Bugalho 14
Joaquim Bispo 15
Pedro Faria 16
Caio Rudá 16
Giselle Natsu Sato 17

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
Lolita, de Vladimir Nabokov 18
Henry Alfred Bugalho

Meninas Malvadas 21
Alian Moroz

AUTOR EM LÍNGUA PORTUGUESA


As Loucuras do Minotauro 22
Dalton Trevisan

António Botto 28

CONTOS
De Encantamentos e Feitiços 32
Volmar Camargo Junior

O Corruptor 36
Henry Alfred Bugalho
António Carpinteiro 42
Maria de Fátima Santos

Ninguém está a ver! 46


Joaquim Bispo
Uma Noite 54
Guilherme Rodrigues
A Sinfonia 56
Zulmar Lopes
Marcinha se revolta 58
Pedro Faria
Ecdise 62
Marcia Szajnbok
Dona Sonia e o ponto G 66
Giselle Natsu Sato

Autor Convidado
No Elevador 70
Mariana Valle
O Jardim dos Amantes 72
Leo Borges
10 indrisos eróticos 78
Isidro Iturat

TRADUÇÃO
A Mulher de Véu 82
Anaïs Nin
Deitar com Ela 88
Paul Éluard

TEORIA LITERÁRIA
Erotismo, para além do sexo 90
Henry Alfred Bugalho

CRÔNICA
As Mulheres na Literatura Erótica 96
Giselle Natsu Sato
Auto-ajuda 98
Joaquim Bispo
A doçura desta dor 100
Joaquim Bispo
POESIA
Laboratório Poético e Erótico 102
Volmar Camargo Junior
Minha Cria 103
Carlos Alberto Barros
Um punhado de versos pretensamente
eróticos 104
Caio Rudá de Oliveira
Transa 105
Maria de Fátima Santos
Teu corpo 106
José Espírito Santo
oI 107
José Espírito Santo
Primeira vez 108
Maristela Scheuer Deves

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 109

SEÇÃO DO LEITOR
Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista.
Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários.
Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Rese-
nha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convi-
dado.
Escreva-nos para:
revistasamizdat@hotmail.com
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiram,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprirmir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exenplo dum samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

6 SAMIZDAT fevereiro de 2009


6
E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substitua
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido Ao serem obrigados a bur-
pelo mercado. larem a indústria cultural, os Enfim, “Samizdat” porque a
autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- o ­diálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

www.samizdat-pt.blogspot.com

www.revistaamizdat.com 7
Comunicado

SAMIZDAT Especial

Humor
8 SAMIZDAT fevereiro de 2009
8
O lugar onde

Estamos preparan- tos mais extensos do que a boa Literatura


do a quarta edição do umas 2500 palavras.
­SAMIZDAT Especial, é fabricada
contemplando o gênero 5 - Por se tratar duma
­Humor. obra de divulgação, não
serão pagos direitos
1 - Todos os colabora- autorais. A publicação e
dores fixos do E-Zine po- a distribuição do E-Zine
dem participar e sugerir não acarretará, tampouco,
autores colaboradores; em custos para os autores
participantes.
2 - Também serão
aceitos textos enviados 6 - A SAMIZDAT
voluntariamente por ­Especial - Humor será
autores externos, para as publicada durante o mês
seguintes seções do E- de maio no blog, e na
Zine: edição em .PDF em 1 de
junho. Por isto, solicita-se
a - Resenha de Livros; aos autores interessados

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
que entrem em contato
b - Teoria Literária ou até o final de abril, atra-
do Humor; vés do e-mail

c - Autor convidado revistasamizdat@hotmail.com


(prosa ou poesia);
Indicando, no assunto
d - Traduções; do e-mail, SAMIZDAT
Especial 4, e em qual se-
e - Crônicas; ção o texto se enquadra
(ver item 2).
f - charges, ou carica-
turas.

3 - Serão seleciona- Abraços a todos,


dos, ao todo, entre 3 e
http://www.flickr.com/photos/billselak/1043526089/sizes/l/

5 textos para cada uma Equipe da SAMIZDAT


das seções acima, mas a
edição do E-Zine possui o www.revistasamizdat.com
direito de selecionar mais
ou menos obras.

4 - Não há limites
de palavras, mas como
se trata duma publica-
ção voltada para o meio
digital, solicita-se que
não sejam enviados tex-
ficina
www.oficinaeditora.org

9
Entrevista

Maria Isabel Moura


Maria Isabel Moura nasceu
na Covilhã, em 1955. Nas suas
palavras, cresceu e aprendeu a
magia da leitura na aldeia dos
Trinta, em plena Serra da Estre-
la; o resto dos estudos, correndo
a geografia portuguesa: em Sin-
tra, com a sua serra e neblinas,
num palácio onde reis e rainhas
arrastaram saias, paixões, sofri-
mentos, loucuras e exílios; em
Espinho, com o mar feito fúria,
comendo ruas e casas e deixando
maresias e poemas no ar; em
Lisboa, onde se deixou perder,
encantada, pelas calçadas de
uma cidade vestida de rosa. Re-
side actualmente em Guimarães,
cidade em que as pedras ainda
têm a medida dos sonhos...

É colaboradora do Jornal do
Fundão.
Trabalha em parceria com
Matos Costa, seu ilustrador
constante e companheiro de
vida... Devido ao tema a que como se escrevem todos
este número da revista é os textos…, e porque,
Obra publicada: dedicado, a entrevista de pessoalmente, considero a
Maria Isabel Moura gira literatura erótica, a in-
Vinte maneiras diferentes de à volta do livro Todo o fantil e a policial as mais
contar a mesma história – Pré- começo é involuntário, difíceis e queria saber até
mio Nacional de Conto Manuel
descrito como um ro- que ponto eu as conse-
da Fonseca 1998;
mance erótico que foge guia dominar.
Todo o começo é involuntário, ao tom comum na litera-
com prefácio de Urbano Tavares tura portuguesa.
Rodrigues, Editorial Teorema, Sabemos que o conside-
2001; ra “apenas” erótico. Não
Vou dar pontapés na Lua, Porque escreveu este acha que a crueza car-
contos infantis, Edições Afronta- livro? nal de alguns trechos
mento, 2004. Maria Isabel Moura – (http://www.geocities.
Pelo prazer da escrita, com/arsenio_grilo/mou-
ra.html), aconselharia a

10 SAMIZDAT fevereiro de 2009


10
admiti-lo como porno- MIM – Neste livro, é
gráfico? Na sua percepção, o através de toda a violên-
Estes anos depois, como que diferencia a litera- cia e sexo, que se matam
acha que foi qualificado tura erótica escrita por os fantasmas de toda
pelos leitores? um homem daquela es- uma vida e se renasce.
crita por uma mulher? De modo que sim, estão
MIM – E como falar da lá todos esses elementos...
vida sem crueza carnal? MIM – Creio, e aqui
Como descrever uma entro no campo das
guerra, uma fome, sem incertezas, que a escrita Na descrição da obra
ser cruento? masculina preocupa-se pela editora, é mencio-
E depois destes anos to- menos com os porquês. nado que a sua escri-
dos, estranhamente, não Que na literatura erótica ta se aproxima da “de
tenho ecos nenhuns dos feminina é muito impor- Sade, de Henry Miller,
leitores... tante saber o que motiva de Anais Nin”. Concor-
as personagens. da com isso?
MIM – Como poderia
Importa-se com a dis- não estar? São três ícones
tinção entre erotismo Li numa entrevista
e pornografia? Como (http://www.arlindo-cor- da literatura erótica e
reia.com/061102.html), era exactamente o que eu
definiria cada um des-
tes géneros? que preferiu abordar as estava a tentar escrever.
fantasias masculinas às
A diferença está no femininas. Não sendo
“que” se diz ou no Na já citada entrevista,
homem, recorreu a que encontrei este trecho:
“como” se diz? fontes para saber dessas
MIM – Importo e muito!! fantasias? Que há de di-
É como a diferença entre ferente entre “fantasias MTH – Sente-se mais
brejeirice e ordinarice. femininas” e “fantasias perto, literariamente,
A segunda ofende os masculinas”? do Henry Miller ou da
ouvidos e o intelecto; a MIM – Onde fui buscar Anais Nin?
primeira é divertida, con- as fantasias masculinas? MIM – A Anais Nin é
voca o riso e a alegria. O Pois, vampirizando todas mais poética e eu espe-
erotismo é aliciante, cria- as confidências, todas as ro ter posto neste livro
tivo, leva o leitor a recriar conversas, todas as vidas alguma poesia, portanto
o que lê. A pornografia é que por mim passaram. E sinto-me mais perto da
facial, sem margens ima- não é essa a vocação do Anais Nin.
ginativas e as persona- escritor, a de vampirizar
gens movimentam-se sem as vidas alheias?
depois nem antes. Não apenas no seu
livro, mas também
O filósofo Georges Ba- na prosa de ficção de
Qual é a função da li- taille traça uma relação outros autores que já
teratura erótica, na sua entre sexo, violência e tenha lido, quando
opinião? morte – todas são ins- acontece a aproximação
MIM – A mesma função tâncias de transgressão entre prosa e poesia?
de toda a literatura: abrir da normatividade, de MIM – As palavras são
a alma, abrir as compor- liberação da nossa ani- uma coisa muito engra-
tas do sonho, da vida, do malidade. çada, têm textura, cor,
mundo, do estarmos aqui, Identifica estes elemen- sabor... e quando um
agora e vivos! Que honra, tos na sua escrita? texto em prosa consegue
esta de estarmos vivos. que a paisagem para lá

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www.revistaamizdat.com 11
da janela seja a de dentro leitores e a crítica por- MIM – Existirá sempre
dos nossos olhos, entrá- tuguesa? A forte heran- um mercado para o eró-
mos na poesia. ça católica de Portugal tico, já que sexo é vida e
é um obstáculo a ser queremos estar vivos.
superado pelos autores Quanto a eu escrever ou-
Falando da sua obra: de literatura erótica?
como se processa a po- tros livros eróticos, não
esia na sua prosa? Está E de leitores e críti- sei... para já brinco com
no todo da obra (o que cos brasileiros – ou, ao micro-relatos, e vasculho
qualifica todo o roman- menos, não-portugueses a minha infância naquilo
ce como uma grande – já recebeu algum que chamo o Alfabeto
metáfora) ou está em comentário? Sabe como das Saudades...
alguns pontos em que foi a receptividade des-
a narrativa se dilui em te seu romance fora de
Portugal? Qual foi o maior obstá-
expressão poética? culo que teve de supe-
MIM – Neste livro, a MIM – O estranho deste rar para consolidar a
escrita processa-se em livro é a discrição com sua carreira literária?
ondas, depois de um tre- que tem caminhado. Não Quais são os grandes
cho o mais cruento pos- tenho praticamente ecos desafios para um escri-
sível, segue-se a acalmia nenhuns, o que me tem tor, actualmente?
poética. Foi um processo espantado francamente.
Na altura do lançamento, MIM – Os desafios são
voluntário. os mesmos de sempre:
e exactamente por causa
Ao contrário, na literatu- da herança católica, es- ter leitores. E nem sequer
ra infantil, tento que todo perava algum escândalo, quero entrar na polémi-
o texto seja poético. mas fez-se um enorme ca de editor, distribuidor,
silêncio. Talvez este silên- escritor... Isso dá de ime-
cio seja bem mais signi- diato o cansaço de todas
Numa época dominada as respostas, de todos os
por imagens, pelo ci- ficativo do que todas as
polémicas. debates...
nema, pelos vídeos no
YouTube, existe espa-
ço para o erotismo em A publicação dum livro
palavras? Ou, melhor deste cariz criou obstá-
dizendo, para quem culos às suas posterio-
escreve? res publicações? E à sua
MIM – Para começar, vida pessoal? Coordenação da entrevista:
para mim mesma. MIM – Precisamente de- Joaquim Bispo
E, espero, desejo, anseio, vido ao enorme silêncio
que o espaço da literatu- que se fez à volta deste
ra continue a existir. A livro, não senti problemas Perguntas feitas por:
palavra escrita deixa todo de espécie alguma. Creio Henry Alfred Bugalho
o espaço aberto para o que o facto de ser prefa-
Joaquim Bispo
sonho, para o raciocínio, ciado por Urbano Tavares
para a recriação. No fun- Rodrigues tenha influên- Maria de Fátima Santos
do, para uma liberdade cia. Volmar Camargo Junior
que os audiovisuais não
dão.
Tenciona escrever mais
livros na linha deste?
Como é a recepção Existe mercado para o
das suas obras entre os erótico?

12 SAMIZDAT fevereiro de 2009


12
O lugar onde
a boa Literatura
é fabricada
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ficina
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Microcontos
A Visita
Henry Alfred Bugalho
- Deixa eu abrir tua blusa.
- ...
- Que peitinhos bonitinhos.
- ...
- Que pele macia.
- Tio, a mãe ‘tá vindo!
Eles se aprumam.
- E aí, o que vocês estão conversando?
- A Lili estava me contando sobre a escola. Pelo que
posso ver, essa minha sobrinha é ótima... aluna.

Espiando

http://www.flickr.com/photos/bengarland/2872360061/sizes/l/
Henry Alfred Bugalho

Era um voyeur.
Brincava sozinho, vendo a vizinha trocar
de roupa.
Numa noite, ela abriu toda a cortina, ace-
nou para ele e se despiu.

Brochou.

A passageira
http://www.flickr.com/photos/p-dub/2285714389/sizes/o/

alegre
Henry Alfred Bugalho

Tinha orgasmo duas vezes ao dia. Treme-


lique do ônibus indo e voltando do trabalho.

http://www.flickr.com/photos/mndigital/444840314/sizes/l/

14 SAMIZDAT fevereiro de 2009


14
Acto falhado
Joaquim Bispo

Antes de se deitar, Fábio resolveu dar-se o mimo de uma pequena ceia.


Pôs a mesa com todos os requintes, sem esquecer o guardanapo. Pegou
no atiçador e começou a espevitar o tição da lareira, enquanto pensava
em Susana.
Com o corpo dela no pensamento, fechou os olhos e esqueceu-se que
continuava a atiçar o fogo. Um momento foi quanto bastou. De súbito,
percebeu que o leite ia levantar fervura, mas só quando foi por fora to-
mou consciência que Susana não estava lá para o conter.
Derramou-se todo.
Acabrunhado, foi-se deitar ainda com fome.

O segredo
Joaquim Bispo

Catarina não se calava, enquanto não matasse a curiosidade:


– Só te perguntei se tinhas alguma cunha, porque é sabido que o Vas-
concelos apenas admite louras altas para a secção dele. Ora tu, morena
e redondinha, como é que conseguiste entrar? Tu não me leves a mal. É
que parece que havia louras a concorrer …
Marília, já cansada de dar respostas evasivas à amiga, decidiu que era
hora de lhe revelar o segredo. Abriu a malinha de mão e mostrou o con-
teúdo, onde sobressaía um objecto ovóide cor-de-rosa de cinco por três
centímetros.
– Este ovinho é a resposta – concluiu, com um sorriso seguro.
– Não compreendo. Um ovo de plástico? O que é que isso tem que ver?
– Este ovinho é um vibrador de uso interno, sem fios. É comandado por
este controlo remoto de sete velocidades. Uso-o para as faltas do Pedro, e
também por desfastio no emprego. Devias comprar um. É silencioso, não
se dá por ele, mas mexe-se dentro de nós, vibrando ou pulsando, confor-
me a velocidade. Quando vou a uma entrevista com um homem, ponho-o
dentro de mim, como um tampão, e, na altura, ligo-o na velocidade dois.
Há muito tempo que descobri que os homens não lhe resistem. Um hu-
medecer de lábios, um mexer no cabelo, podem ser interpretados como
manobras de manipulação, por um homem experiente; a excitação bran-
da que este ovinho provoca no meu corpo não tem defesa. Por detrás do
brilho genuíno no meu olhar, o homem, de alguma maneira, capta a onda
de prazer sensual que o meu cérebro activado emite. É fatal.

15
Microcontos

Ejaculação Precoce
Pedro Faria

- Adorei o jantar hoje... gostaria de subir pro meu apê?


- Ahhhhhhhhhhhhhhh...

Contos Precoces
Caio Rudá

Sonho erótico

Acordou melado.

Necrofilia

O corpo jazia. Os libidinosos saprófagos comiam-no des-


pudoradamente.

Transæ
Caio Rudá

Passada uma década, ela lá, sentada com o namorado. Seu corpo havia ganhado mais
curvas e mais volume; meus olhos, mais volúpia. Seios cabíveis em minhas mãos des-
pudoradas, fina cintura e pernas longas e ousadas vestidas num short de palmo e meio,
convite ao sétimo pecado capital.
O namorado, um sujeito não muito bonito. No máximo um peitoral estufando uma ridí-
cula camiseta rosa. Sua vantagem deveria ser o sexo: ou bem dotado ou bom deitado. E
eu, com tais dádivas agraciado. Tê-la, apenas uma questão de oportunidade.
Esperei até que ela fosse ao banheiro, unissex como se previamente definido por Asmo-
deus. Copo no balcão, em delírios lascivos a segui.
Dentro da cabine, sua vasta pélvis encaixada em mim, de surpresa. Sem reação. Gostou.
Minhas mãos nas coxas largas. Virou-se e arriscou apalpar-me. Descoberto o volume.
Esboços de gozo no sorriso. Calças abaixo, pênis para cima. Mais que macias, mãos má-
gicas, fazendo crescer, inchar, enrijecer.
Não fosse o som da descarga ao lado, ela não teria sido espantada. Da minha mente.

http://www.flickr.com/photos/samueljudge/502040063/sizes/o/

16 SAMIZDAT fevereiro de 2009


16
http://www.flickr.com/photos/niinac/1203532803/sizes/m/
A filha da carola e seus pecados
Giselle Natsu Sato

A filha da carola e seus pecados

Após a morte da mãe, vivia assombrada pelo medo. Temia o fardo dos pecados que
carregava. E as pragas da defunta carola. Na missa de sétimo dia, reuniu forças e foi ao
confessionário. Tremia, o lenço na testa enxugando o suor contínuo. Desistiu. Naquela
noite, o puteiro festejou o retorno de ‘’Maria Boqueteira’’.

Prova Final
Giselle Natsu Sato

Era exibida, obscena e descarada. Puxou o tecido, roçando


de leve a pele nua. Insinuou a mão sentindo a umidade.
Separou as pernas, deslizou o corpo na cadeira até a beira-
da. Com a ponta do sapato, dava impulso, balançando as
coxas e quadril. Totalmente exposta, primeira fileira, sala
lotada e prova final.
O professor deixou a turma sozinha e saiu às pressas.
Calmamente, ela tirou o papelzinho com a cola e copiou
as respostas.

www.revistaamizdat.com 17
Recomendações de Leitura

Lolita
de Vladimir Nabokov
,
Henry Alfred Bugalho

18 SAMIZDAT fevereiro de 2009


18
Nunca é fácil se aproxi- Lolita, para os íntimos. A primeira parte do
mar dum livro como “Loli- romance possui alguns
ta”, de Vladimir Nabokov. Lolita tem apenas 12 trechos eróticos, mas de
Abrimos suas páginas reple- anos e, aparentemente, é maneira alguma a escrita
tos de opinões prévias, de uma adolescente como ou- de Nabokov se torna vul-
preconceitos, de interpreta- tra qualquer: deslumbrada gar. Através de metáforas,
ções herdadas de outros ou pelos galãs de Hollywood duma escolha quase ab-
da nossa experiência com e mascadora de chiclete. surda pela palavra certa, o
as adaptações cinematográ- Imediatamente, Humbert autor contorna seu objeto e
ficas. se apaixona por ela, se é sublima o comportamento
que a fixação do protago- execrável do protagonista.
Eu já assisti às duas nista pode ser considera- Na segunda parte, as cenas
versões para o cinema, a de da paixão. Antes de tudo, eróticas quase desapare-
1962, dirigida por ­Stanley ­Humbert tem um desejo cem e inicia o afastamento
Kubrick e com roteiro carnal incontrolável pela entre ­Humbert e Lolita,
do próprio Nabokov, e a menina. que culiminará com a fuga
mais recente, de 1997, com da menina e o assassinato
­Jeremy Irons no elenco. Humbert se casa com que arruinará a vida de
Charlotte, mãe de Lolita, ­Humbert.
Nenhuma das duas im- apenas para poder se apro-
pressionam, nem pela his- ximar ainda mais da garota. Qualquer um que assis-
tória, nem para quem busca tiu aos filmes sobre “Lolita”
o elemento erótico. O filme A morte de Charlotte li- conseguirá visualizar o
de Kubrick é contido - não berta Humbert e o permite desenvolvimento do enredo,
se poderia esperar mais da finalmente se tornar amante mas apenas a leitura permi-
época -, enquanto a última de Lolita. Ambos partem te o acesso ao maravilhoso
versão é fraca. numa viagem pelos EUA, de estilo literário de Nabokov.
costa a costa, vagando por
Felizmente, Nabokov e hotéis de beira de estrada, A princípio, Lolita é
sua “Lolita” são muito maio- fugindo para poderem viver apresentada a nós quase
res do que o estrago feito uma existência condenada como uma vítima da lascí-
pelo cinema. Logo nas pri- pela sociedade. via de Humbert, porém, aos
meiras páginas, nas primei- poucos, o quadro se inverte
ras linhas, temos as doses Humbert é muito racio- e Humbert se converte na
http://www.flickr.com/photos/9914762@N06/2758486378/sizes/l/

iniciais de genialidade de nal, apesar de seu compor- presa de Lolita, submeten-


Nabokov. A escrita magis- tamento passional; ele sabe do-se a todos os caprichos
tral deste autor russo-ame- que o relacionamento entre da menina. Contudo, do
ricano extrapola qualquer um homem e uma menina mesmo modo que o roman-
adaptação, é irreprodutível. de 12 anos é condenável ce de Machado de Assis
e durante todo o romance “Dom Casmurro” nos lança
O narrador da obra é ele tenta se justificar: apre- questionamentos sobre a
Humbert Humbert, um senta vários argumentos e fidelidade de Capitu, sem
intelectual francês obcecado inúmeros casos semelhantes nos permitir uma respos-
por ninfetas. Ele se muda no curso da História e, por ta conclusiva, posto que a
para os EUA e, na casa da alguns momentos, até chega narração é feita a partir da
sua senhoria, conhece a a convencer o leitor. visão do protagonista, Ben-
filha dela, Dolores Hayes, ou

www.revistaamizdat.com 19
tinho, em “Lolita” também bases da hipócrita socieda-
não podemos ter certeza de americana, desmantela
até que ponto a narração a fachada dos costumes,
de Humbert é fidedigna. do puritanismo. O fato é
Humbert sempre se dirige a que se “Lolita” fosse um
nós leitor e a um juri ima- mero panfleto pedofilista, o
ginário; ele se defende; ele romance dificilmente teria
justifica seus atos; por isto, se tornado um dos maiores
não podemos esperar que clássicos da literatura do
ele esteja nos contando toda século XX.
a verdade, mas sim apenas
a verdade que ele quer que O erotismo de Nabokov
vejamos. não se funda em cenas se-
xuais, mas sim no confronto
Há uma crítica burra entre tabu e desejo, entre
que alega ser “Lolita” uma vontade e repressão, entre Lolita
apologia à pedofilia. Isto permitido e proibido - é o
Autor: Vladimir Nabokov
seria equivocado, se não conflito que todo ser huma-
fosse uma crítica absurda. no tem de empreender, seja Editora: Vintage
Nabokov está longe de de- para aceitá-lo ou reprimi-lo.
fender sexo com menores;
a crítica do autor é muito
mais profunda, atinge as

http://blog.syracuse.com/shelflife/2008/04/nabokov.jpg

20 SAMIZDAT fevereiro de 2009


20
Recomendações de Leitura

Meninas
Malvadas
Alian Moroz um mundo de opções. Ao Basta dar uma olhada
logo da história esteve pre- com atenção. Quem sabe,
É possível escrever um sente em todas as formas de sentadas em algum café,
texto erótico e ao mesmo arte. O proibido, o que está por trás do livro Meninas
tempo, preservar o bom oculto por trás dos panos, Malvadas, observando o
gosto? Usar a sensualidade é o que nos excita. Aquilo entre e sai das pessoas...
como aliada e contar boas que existe muito além do Apresentação feita. Deite,
histórias? obvio, age como o impulso. role e deleite-se. É diversão
Somos naturalmente atraí- garantida, o prazer é todo
Giselle Sato, diz que sim. dos.
Vai além: propõe espiar seu.
pelo buraco da fechadura
e deixar a inibição de lado. Meninas Malvadas é um
Reais ou imaginárias, a livro erótico. Dentro do
escritora não revela. estilo ágil da escritora apre-
Existem pistas, detalhes senta enredos temperados
do cotidiano, o que torna a com humor, terror, suspense
leitura muito interessante. e dramas. As personagens
Se o leitor se identificar deste livro, se ainda não
com algum personagem, é sabem o que querem, estão
livre para seguir em frente. descobrindo o caminho.
São mulheres ousadas,
conhecem o próprio corpo
Para a escritora, sexo vai e desejos. Levam a camisi-
muito além do físico, está nha na bolsa e escolhem
na imaginação de cada um. os parceiros, sem medo de
O que torna tudo permi- ser feliz. Sônia, Jana, Angel
tido. Traições, vinganças, e tantas outras...Em comum,
fetiches, taras, romance e a audácia de saber como se
fantasias. Cenas do dia-a- Meninas Malvadas
goza.
dia, desejos escondidas no Autor: Giselle Natsu Sato
fundo da gaveta. São retra- Onde estão estas mulhe- Editora: Temátika
tos que formam um álbum res fantásticas, que abraçam
o mundo com as pernas e Publicação: 2008
delicioso. Vibrante e atual.
amam pequenas maldades?
Sexo é um tema que abre

www.revistaamizdat.com 21
Autor em Língua Portuguesa

As Loucuras do
Minotauro Dalton Trevisan

http://www.flickr.com/photos/30666446@N03/2872456211/sizes/o/

22 SAMIZDAT fevereiro de 2009


22
— Sabe que toda família É você. da blusinha branca, já se
curitibana tem um louqui- — ... defende.
nho fechado no porão? — Assim não.
— Me conte a tua vida.
— ... Disse que trabalha desde os — Como será que é? Muita
— Não. Sente no sofá. Aqui é onze anos. O que aconteceu vontade de ver o biquinho.
melhor. nos últimos dez? — Igual ao das outras.
— Estou com pressa doutor. — Primeiro a mãe veio — Aí que se engana. Cada
— É loiro natural teu cabelo? morar aqui. Viúva, uma peitinho é diferente. Um
tropa de filhos. De oito sou tem o bico mais escuro. Ou-
— Clareio com xampu. a terceira. Ela não se acos- tro durinho e rosado. O teu
— Pensou na minha propos- tumou. Daí eu fiquei. Como deve ser assim.
ta? um traste esquecido.
— Nunca reparei.
— Não vim aqui para isso. — Morava com quem?
— Sabe que um é mais pe-
— De fato. É que a assinatu- — Na casa de outra menina. queno que outro? Será o teu
ra na procuração não con- — Pagava com meu traba- esquerdo?
fere. lhinho. Na vida nada é de — ...
— Uns rabinhos que in- graça. Daí fui mudando de
ventei. Para enfeitar. Só de emprego. E hoje aqui estou. — De uma, o seio raso da
nervosa. Sofrida e triste. taça de champanha. De ou-
tra, bojudo copo de conha-
Pego na mãozinha — ela — Esses anos terão sido que para aquecer na palma
deixa. difíceis. Não quer ou não da mão.
— O que eu quero é isso. gosta de falar? A palma de
tua mão está úmida. Será de — ...
Por mim ficava a manhã
inteira. Namorando você. aflita? — Pensou na minha propos-
Mãozinha dada. É o que me Os dedos entrelaçados, vez ta? Umas poucas de conces-
basta. em quando os aperto — uma sões.

Longe o olhinho azul, quem em cinco ela responde. — Como assim?


está enjoada de ouvir elogio. — Acho que sim. — Primeiro pego na tua
Me achego e beijo a face — — De mim não tenha medo. mão. O que já deixou. Isso é
sem pintura, que maravilha. bom. Me faz tanto bem.
— E hei de ter?
Fagueira penugem de nêspe- Não me contenho e agarro
ra madurinha. — Já que não fala de tua uma e outra.
vida. Me conte como você é.
— Na boquinha? Bem de Que mãozinha linda. Quan- — Depois te apalpo. Aqui.
leve. to você tem de quadril? Em delírio apalpo a coxa
— Não. — Não sei. trêmula.
— Hoje está cheirosa. Afagando e medindo coxa — Daí te beijo. Não esse bei-
Perfumou-se para vir aqui. acima. jinho na face. Um turbilhão
Mais indiferente que pareça. louco de beijos.
— Calculo uns noventa.
— É francês. E dou um, dois, três. De leve,
— Emagreci bastante. para não assustar.
— Nem precisa. Já viu ma- — E o teu peitinho? Posso
cieira iluminada em flor — Enfim um beijo de língua.
pegar? Que você retribui.
toda suspirosa de abelha?
Alcanço o primeiro botão

www.revistaamizdat.com 23
Dardejo a lingüinha de la- — ... Como está me vendo assim
gartixa sequiosa debaixo da — Uma empadinha recheada eu fico: todinho vestido. De
pedra. de camarão e premiada com colete abotoado e gravata.
— Sabe o que é acabar? azeitona preta. — ...
— ... — ... — Até de óculo. Só tiro o
— Sabe ou não? — Já viu canarinha branca paletó. Nenhum perigo para
se banhando de penas arre- você.
— Para mim é terminar
alguma coisa. piadas na sua tigela florida? — ...

— Não é bem isso. Os livros — ... — Em troca dessa alegria lhe


dizem orgasmo. A parte — Você faz de mim uma ofereço um prêmio. Duas
mais gostosa do ato sexual. criança com bichas que notas novas.
Já experimentou? come terra. —...
— Não sei o que é. — Assim eu encabulo, dou- — Quer experimentar hoje?
— Será que é fria? Ou não tor. — Próxima vez eu resolvo.
achou quem te entendesse. — No meio das pernas um — Por que não agora? Já está
Te iniciasse com doçura e botão chamado cli-tó-ris. Ali aqui. Tão fácil. Até choven-
paciência. Sabe o que eu é que meu dedinho ia bulir. do. Mais aconchegante.
faria? Cada vez mais afrontada e — Hoje, não.
— ... afogueada.
— Você que sabe. Só não
— Te ajudava a baixar essa — Depois te beijava da creio na tua frieza. Tudo me
calça azul. Abria as tuas ponta do cabelo até a unha diz que é moça fogosa. Essa
pernas. E com este dedinho encarnada do pé. Cada boca vermelha e carnuda. É
acordava o teu vulcão. pedacinho escondido de teu de quem gosta. Mais uma
— Credo, doutor. corpo. Afastava essa coxa coisa, anjo. Enquanto eu
branquinha de arroz lavado falava, o teu narizinho abria
Interessada, quem sabe. Um em sete águas. E me perdia
tantinho incrédula. e fechava.
no teu abismo de grandes
— Nunca mais seria a lábios de rosa. — ...
mesma. Chamaria você de Agora a mãozinha quente e — Veja. Como está fremente.
nuvem, anjo, estrela. O que molhada. — ...
alguém jamais disse a nin-
guém. Sabe, Maria? — Sou homem de certa — Ninguém te diz nada? O
idade. Com a minha vivên- noivinho não te canta?
— ... cia faria você sentir prazer — Cantar, todos cantam. Eu
— Você é a redonda lua ver- até no terceiro dedinho do sei me defender.
de do olho amarelo... pé esquerdo. De tanto gozo
— Por que a cisma da vir-
— Nossa, doutor. sairia flutuando pela janela
gindade? Se gosta dele, al-
sobre os telhados da praça
— ...que, aos cinco anos, gum mal em deitar no sofá?
Tiradentes.
desenhei na capa do meu — Prefiro assim. Ele é ciu-
caderno escolar. — ...
mento. Sempre está brigan-
— ... — E virgem, se quiser, você do.
continua.
— Mimosa flor com duas — Monstro moral. Só quer
tetas. Dália sensitiva com —... para ele. Já provou beijo de
bundinha. — Juro que te respeito. noventa segundos?

24 SAMIZDAT fevereiro de 2009


24
— Não contei. Envolvo-a nos braços. Ela
não corresponde.
— Ao teu noivo falta imagi- Um detetive...
nação. Fico um dia inteiro — Ai, me deixa. Beijar essa
olhando você. De joelho e carinha mais santa. Uma loira gostosa...
mão posta. Louvado essas E osculo as duas faces rosa-
graças que Deus te deu. dinhas. Um assassinato...
Agora um beijinho. Na boca.
— Agora a tua vez.
Seguro o rosto, forcejo, ela
resiste. Um furtivo beijo. Seco, unzi-
E o pau comendo entre
nho só.
— Ah, ingrata. Que tamanho as máfias italiana e
— Aqui o teu presente.
o teu pé. Isso você sabe. chinesa.
­
— Trinta e cinco. — Não posso, doutor.

— Bonitinho deve ser. Apos- -— Sabe que toda família


to que sem joanete. Sabe que curitibana...
as moças se masturbam? — Sou moça de princípios.
Você não tem experiência?
Todas têm. De noite pensa
— ...tem um louquinho fe- O Covil
chado no porão?
num rapaz bonito e brinca
com o dedinho. Nunca fez
— Cruzes, doutor. dos
isso? Ó maldito Minotauro uivan-
Sem resposta.
do e babando perdido no
próprio labirinto.
Inocentes
— Teu noivo é bonito?
— Me trate de você. Dou-
— Nem tanto. www.covildosinocentes.blogspot.com
tor já não sou. Apenas um
— Então algum artista fa- doidinho manso. De paixão
moso. Deixa ler a palma da cativo.
mão. Indecisa, morde o beicinho.
De repente muito curiosa. — De mim o que vai pen-
— Este xis é uma boa notí- sar?
cia. Que não esperava. Guarda na bolsa as duas
— O quê? notas. E concede o primeiro
— Rolar comigo no tapete. sorriso.

Nem sorri.
— Você não sonha, amor? Conto extraído da revista
Playboy, Dezembro/1982.
— Todos sonham. Eu, ter o
meu cantinho.
— Não é isso. De olho aber- Fonte: Releituras
to. Visões eróticas. Em toda
família...
— É tarde. Preciso ir, doutor. do
-- Então me dá um abraço. w
gr nl
Assim. át
oa
is d

25
Autor em Língua Portuguesa

“ geração de escritores, críticos e po- consagrados. Enclausura-se em


etas nacionais. Reunia ensaios assi- casa de tal forma que mereceu o
nados por Antonio Cândido, Mario apelido de O Vampiro de Curitiba,
de Andrade e Otto Maria Carpe- título de um de seus livros.
aux e poemas até então inéditos,
como O caso do vestido, de Carlos
Drummond de Andrade. Além disso, “O “Nélsinho” dos contos origi-
trazia traduções originais de Joyce, nalíssimos e antológicos, é consi-
Proust, Kafka, Sartre e Gide e era derado desde há muito “o maior
ilustrada por artistas como Poty, Di contista moderno do Brasil por três
Cavalcanti e Heitor dos Prazeres. quartos da melhor crítica atuante”.
Incorrigível arredio, há bem mais
de 35 anos, com com um prestígio
Já nessa época, Trevisan era avesso incomum nas maiores capitais
a fotografias e jamais dava entrevis- do País. Trabalhador incansável,
tas. Em 1959, lançou o livro Nove- fidelíssimo ao conto, elabora até
las Nada Exemplares - que reunia a exaustão e a economia mais

uma produção de duas décadas e absoluta, formiguinha, chuvinha
Não vou responder às perguntas
recebeu o Prêmio Jabuti da Câmara renitente e criadeira, a ponto de
simplesmente porque não posso, é
Brasileira do Livro - e conquistou chegar ao tamanho do haicai,
verdade; sou arredio, ai de mim!
o grande público. Acresce infor- Dalton Trevisan insiste ontem, hoje,
Incurávelmente tímido (um pouco
mar que o escritor, arisco, águia, em Curitiba e trabalhando sobre as
menos com as loiras oxigenadas!).”
esquivo, não foi buscar o prêmio, gentes curitibanas (“curitibocas”,
Já se escreveu e se comprovou que
enviando representante. Escreveu, vergasta-as com chibata impiedosa)
os demais vampiros não podem
entre outros, Cemitério de elefantes, e prossegue, com independência
encarar, sem pânico, um crucifixo.
também ganhador do Jabuti e do solene e temperamento singular, na
Ou réstias de alho, água corrente
Prêmio Fernando Chinaglia, da construção e dissecação da supra-
cristalina... Dalton não pode ver um
União Brasileira dos Escritores, realidade de luas, crianças, aman-
jornalista. Vendo, foge, literalmente
Noites de Amor em Granada e Mor- tes, velhos, cachorros e vampiros. E
foge, apavorado. Suas raras fotos
te na praça, que recebeu o Prêmio polaquinhas, deveras.”
surgidas na imprensa foram feitas
Luís Cláudio de Sousa, do Pen Club
às escondidas, como a que utiliza-
do Brasil. Guerra conjugal, um de
mos para ilustrar esta página. Em 2003, divide com Bernardo
seus livros, foi transformado em
filme em 1975. Suas obras foram Carvalho o maior prêmio literário
traduzidas para diversos idiomas: do país — o 1º Prêmio Portugal
Nascido em 14 de junho de 1925, o
espanhol, inglês, alemão, italiano, Telecom de Literatura Brasileira —
curitibano Dalton Jérson Trevisan
polonês e sueco. com o livro “Pico na Veia”.
sempre foi enigmático. Antes de
chegar ao grande público, quando
ainda era estudante de Direito, fonte: Releituras
Dedicando-se exclusivamente ao
costumava lançar seus contos em
conto (só teve um romance publi-
modestíssimos folhetos. Em 1945
cado: “A Polaquinha”), Dalton
estreou-se com um livro de quali-
Trevisan acabou se tornando o
dade incomum, Sonata ao Luar, e,
maior mestre brasileiro no gênero.
no ano seguinte, publicou Sete Anos
Em 1996, recebeu o Prêmio Minis-
de Pastor. Dalton renega os dois.
tério da Cultura de Literatura pelo
Declara não possuir um exemplar
conjunto de sua obra. Mas Trevisan
sequer dos livros e “felizmente já
continua recusando a fama. Cria
esqueci aquela barbaridade”.
uma atmosfera de suspense em
torno de seu nome que o transforma
Entre 1946 e 1948, editou a revista num enigmático personagem. Não
Joaquim, “uma homenagem a todos cede o número do telefone, assina
os Joaquins do Brasil”. A publi- apenas “D. Trevis” e não recebe
cação tornou-se porta-voz de uma visitas — nem mesmo de artistas

26 SAMIZDAT fevereiro de 2009


26
ficina

A Oficina Editora é uma utopia, um não-


lugar. Apenas no século XXI uma ­vintena
de autores, que jamais se ­encontraram
­fisicamente, poderia conceber um projeto
semelhante.
O livro, sempre tido em conta como umas
das principais fontes de cultura, ­tornou-se
apenas um bem de ­consumo, ­tornou-se um
elemento de exclusão c­ ultural.
A proposta da Oficina Editora é ­resgatar o
valor natural e primeiro da ­Literatura: de bem
cultural. ­Disponibilizando ­gratuitamente
­e-books e com o ­custo ­mínimo para ­livros
impressos, nossos ­autores ­apresentam
http://oficinaeditora.org/ a ­demonstração ­máxima de respeito à
­Literatura e aos ­leitores.

www.revistaamizdat.com 27
Autor em Língua Portuguesa

António Botto
António Botto (1897-1959) nasceu e a Civilização. Frequentava o provavelmente, o
no Casal de Concavada (Abran- café Martinho da Arcada, local de mais distinto conjun-
tes). O pai trabalhava nos barcos encontro eleito por vários inte- to de poesia homo-
que atracavam nesse ponto do lectuais da época. Com Fernando erótica de língua
Tejo, pelo que é natural a sua inti- Pessoa elaborou uma Antologia de portuguesa.» Além
midade com o rio e a sensibilidade Poemas Portugueses Modernos. desta obra, publicou:
à natureza que revela nos seus Em 1947 exilou-se no Brasil, para Cantigas de Saudade
poemas. Com cerca de onze anos, fugir às perseguições homófo- (1918), Canções do
foi para Lisboa na companhia dos bas de que foi vítima, morrendo Sul (1920), Motivos
pais, que se instalaram no bairro atropelado no Rio de Janeiro em de Beleza (1923),
de Alfama, cuja atmosfera popular 1959, onde vivia na mais dolorosa Curiosidades Estéticas (1924),
se reflecte também na sua poesia. miséria. Piquenas Esculturas (1925), Olim-
Trabalhou em livrarias e foi fun- Por entre a sua vasta obra, que in- píadas (1927), Dandismo (1928),
cionário público. Descrevem-no clui teatro e contos para crianças, Ciúme (1934), Baionetas da Morte
como magro, de estatura média, é mais conhecida a obra poética, (1936), A Vida que te Dei (1938),
«dandy», e como tendo «um sen- em que avulta Canções, publicada O Livro do Povo (1944), Ódio e
tido de humor sardónico, incisivo, em 1921, que foi causa de agita- Amor (1947), Fátima – Poema
uma mente e língua perversas e ção nos meios intelectuais portu- do Mundo (1955), Ainda não se
irreverentes, e sendo um conversa- gueses e de condenação nos meios Escreveu (1959). No Brasil, a an-
dor brilhante e inteligente.» Cola- religiosamente conservadores da tologia Bagos de Prata foi publi-
borou em quase todas as revistas época, por ser uma obra explici- cada pela Olavobrás, editorial de
literárias de vanguarda – Contem- tamente pederasta. «Homossexual Curitiba.
porânea, Athena, Águia e outras assumido (apesar de ser casado
que o levaram a uma grande mas- com Carminda Silva), a sua obra
sa de leitores, como a Ilustração, Pesquisa: Joaquim Bispo
reflecte muito da sua orientação
a Portucale, a Magazine Bertrand sexual e no seu conjunto será,

http://www.flickr.com/photos/jfl/2700211106/sizes/o/

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Andava a lua nos céus Que pelos céus caminhava. A linda noite sombria.

Andava a lua nos céus Aproximou-se; e em delírio Deram-se as bocas num beijo,
Com o seu bando de estrelas Procurou avidamente Um beijo nervoso e lento...
E avidamente beijou O homem cede ao desejo
Na minha alcova A minha boca de cravo Como a nuvem cede ao vento
Ardiam velas Que a beijar se recusou.
Em candelabros de bronze Vinha longe a madrugada.
Arrastou-me para ele,
Pelo chão em desalinho E encostado ao meu ombro Por fim,
Os veludos pareciam Falou-me de um pajem loiro Largando esse corpo
Ondas de sangue e ondas de Que morrera de saudade Que adormecera cansado
vinho À beira-mar, a cantar... E que eu beijara, loucamente,
Sem sentir,
Ele, olhava-me cismando; Olhei o céu! Bebia vinho, perdidamente
E eu, Bebia vinho..., até cair.
Placidamente, fumava, Agora, a lua, fugia,
Vendo a lua branca e nua Entre nuvens que tornavam

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Ouve, meu anjo

Ouve, meu anjo:


Se eu beijasse a tua pele?
Se eu beijasse a tua boca
Onde a saliva é mel?...
Anda vem...
Tentou, severo, afastar-se
Num sorriso desdenhoso;
Anda vem..., porque te negas,
Mas aí!
Carne morena, toda perfume?
A carne do assassino
Porque te calas,
É como a do virtuoso.
Porque esmoreces,
Boca vermelha – rosa de lume?
Numa atitude elegante,
Misterioso, gentil,
Se a luz do dia
Deu-me o seu corpo doirado
Te cobre de pejo,
Que eu beijei quase febril.
Esperemos a noite presos num beijo.

Na vidraça da janela,
Dá-me o infinito gozo
A chuva, leve, tinia...
De contigo adormecer
Devagarinho, sentindo
Ele apertou-me cerrando
O aroma e o calor
Os olhos para sonhar…
Da tua carne, meu amor!
E eu lentamente morria
Como um perfume no ar!
E ouve, mancebo alado:
Entrega-te, sê contente!
– Nem todo o prazer
Tem vileza ou tem pecado!

Anda, vem!... Dá-me o teu corpo


Em troca dos meus desejos...
Tenho saudades da vida!
Tenho sede dos teus beijos!

http://www.flickr.com/photos/justinbess/2744253857/sizes/o/

30 SAMIZDAT fevereiro de 2009


30
Não é ciume o que eu tenho

Não é ciúme o que eu tenho.


É pena,
Uma pena
Que me rasga o coração.

Essa mulher
Nunca pode merecer-te;

Não vive da tua vida,


Nem cabe na ilusão
Da tua sensibilidade,
- Mas é bela! Tu afirmas
E eu respondo que te enganas

A beleza -
Sempre foi
Um motivo secundário
No corpo que nós amamos;
A beleza não existe,
E quando existe não dura.
A beleza -
Não é mais do que o desejo
Fremente que nos sacode...
- O resto, é literatura.

Inédito
Conheço bem os teus nervos;
Deixaram nódoas de lume
Na minha carne trigueira;
Nunca te foram ao cu
- Esta carne que lembrava
Nem nas perninhas, aposto!
Laivos de luz outonal,
Doirada, sem consistência, Mas um homem como tu,
A aproximar-se do fim... Lavadinho , todo nu, gosto!

Eu já conheço o teu sexo, Sem ter pentelho nenhum


Tu já gostaste de mim.
com certeza, não desgosto,
Até gosto!
A frescura do teu beijo
E o poder do teu abraço, Mas... gosto mais de fedelhos.
Tudo isso eu devassei...
Vou-lhes ao cu
Não é ciúme o que eu tenho; Dou-lhes conselhos,
Mas quando te vi com ela Enfim... gosto!
Sem que me vissem, chorei...

www.revistaamizdat.com 31
Contos

De encantamento

32 SAMIZDAT fevereiro de 2009


32
os e feitiços
João, chamado João
Bico-doce, tinha um po-
der mágico. Sempre que
olhava nos olhos de uma
mulher, e a ela dissesse
“Olá, minha boneca”, no
tempo e no tom de voz
corretos, a tal jogava-se
Volmar Camargo Junior em seus braços, levava-o
v.camargo.junior@gmail.com ao canto escondido mais
próximo e, ali mesmo,
dava vazão aos seus instin-
tos de fêmea. Se ele profe-
risse qualquer outra pa-
lavra, ou as mesmas com
uma entoação diferente, o
encanto não funcionava.
Como efeito colateral, João
ficava alguns dias afônico,
e a mulher, sonhava com
lagartixas.

Um dia, chegou à cidade


uma certa Margot, criatu-
ra deslumbrante, capaz de
provocar no mais recatado
dos homens uma avassala-
dora e incontrolável ânsia
de estar entre suas pernas
– ou onde mais a curiosi-
dade permitisse. Natural-
mente, a notícia chegou
aos ouvidos do insaciável
João Bico-doce.

Tendo feito de tudo


para encontrá-la, João per-
correu os lugares aonde os
boatos o levavam. “Viste
a tal?”, perguntava ele, ao
que os perguntados res-
pondiam suspirosos, “Ah,
divina Margot...”, que era o
mesmo que um sim. Para
João, o pior foi ter andado
a cidade toda, de infer-
ninho em inferninho, de
boate em boate, de bar em
bar, e de todos os notí-
http://www.flickr.com/photos/82705724@N00/113041050/sizes/l/

www.revistaamizdat.com 33
vagos, ébrios, desvalidos, que a própria, a criatura endireitando a sobrance-
viúvos, policiais, qualquer que lhe estava roubando o lha, João sentiu subindo-
um – segundo sua própria sossego. Mesmo sem nun- lhe pela garganta as pala-
opinião – muito menos ca tê-la visto, pelas tantas vras de seu encantamento.
digno que ele, ouvir o e repetidas vezes que lhe Então, quando já penetrava
mesmo regozijo tardio, ouviu a descrição, soube no minúsculo vácuo entre
quase um novo gozo, “Ah, sem ter dúvidas de quem “Olá” e “ minha boneca”,
divina Margot...”. se tratava. E, mentalmente, Margot revidou: era uma
congratulou a capacidade contra-mágica.
A cisma de João Bico- de observação dos convi-
doce com a misteriosa e vas e à sua própria imagi- Dessas coisas que Deus
cobiçada Margot chegou a nação: a mulher não devia fez por acaso e que aca-
um ponto que ele, que até em nada à imagem que bam dando muito certo,
então nunca havia achado fazia dela – a quem, em a mulher foi munida das
necessário, gratificou a si sonho, fizera gemer como armas que, ao natural, são
mesmo por muitas horas, uma gata no cio. equivalentes muito mais
ora com a mão direi- eficazes que as usadas
ta, ora com a esquerda, (Para a preservação da pelos machos, e que para
imaginando-se a penetrar saúde dos nossos leitores, eles, só funcionam depois
a “maldita divina Margot”, e evitar que nossas leitoras de muito treino, como é
por trás, que era como possam sentir-se menos- o caso do “bico-doce” de
ele gostava de fazer. E fez prezadas, deixo-os à vonta- João. Pois, Margot, sem
isso com tanta intensidade, de para imaginar Margot contrariar o que se dizia
com tanto afinco que, após como uma Vênus, uma dela, era “divina”. E como
seis vezes ter derramado o Afrodite, uma Sherazade, uma força da natureza,
gozo pela casa, desfaleceu, ou como a encarnação Margot deu aquela me-
totalmente sem forças. do que possa ser a mu- xida no cabelo, seguida
lher mais apta a fazer um daquele olhar, meio de
Mal sabia ele que Mar- homem querer tê-la como viés, inquisitivo, perscruta-
got também estava infor- amante, ou, caso contrário, dor e convidativo, aquele
mada da existência do jogar-se de um viaduto.) ligeiro abrir e fechar de
garanhão, e que a fama lábios como quem engole
de sua lábia irresistível, e Num instante de ím- o último naco de sorvete,
quem poderá dizer, tam- peto, desses em que os deixando os lábios leve-
bém de seus atributos de homens parecem receber mente umedecidos daquele
homem, ultrapassara os uma carga extraordinária jeito. Claro está, todas as
limites da cidade. Também de coragem, da mesma mulheres fazem isso desde
ignorava João o fato de que os faz abrir túneis o primeiro casal – que só
que ela, a “divina” Margot, nas montanhas, man- foi expulso do paraíso por
o estava arrastando para dar foguetes ao espaço e causa dessa, ou melhor,
uma armadilha. pedir aumento de salário, daquela mexida no cabelo.
João aproximou-se de sua Mas, para Margot, a divi-
Dias depois, tendo re- musa. Puxou a cadeira
cuperado vigor suficiente na, tais eram os movimen-
oposta, sentando-se com tos ritualísticos de seu fei-
para ir até o boteco da es- malimolência diante dela;
quina tomar um café pre- tiço. E João, como se podia
eram os preparativos para esperar, foi enfeitiçado.
to, eis que João Bico-doce a dança do acasalamento.
encontrou, sentada a uma Passando de leve o indica- Sem se importar com o
das mesas, ninguém menos dor na ponta da língua e dono do boteco, livraram-

34 SAMIZDAT fevereiro de 2009


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se das roupas e, apoiados no balcão entre os potes
na mesa, João Bico-doce e de ovos coloridos, na pia
Margot, a divina, amaram- do banheiro, escorados nas
se como só dois amantes paredes do boteco, entre
tão peculiares, dotados de quatro paredes, de portas
poderes mágicos fariam. escancaradas, cercados
Digo amaram-se, porque pela multidão agradeci-
foi exatamente o que fize- da que não arredou pé
ram nos primeiros trinta antes que, entre os seios
minutos. Mas, nas vinte molhados de Margot, João
e quatro horas seguintes, deixasse cair uma última e
depois que a multidão tímida gota.
aglomerou-se dentro e fora
do boteco, de um jeito que O sol já nascia outra
nenhum carro pôde passar vez, e as pessoas, que nem
na rua, João e Margot fize- lembravam ter perdido
ram coisas para que amar um dia inteiro de traba-
é um delicado eufemismo. lho, seguiram suas vidas
Era sim, amor, mas era coi- normalmente. O dono do
sa muito humana também. bar ofereceu ao casal um
Nenhuma baixeza, que se revigorante café pingado
diga, porque entre quatro por conta da casa, o que
paredes nada pode ser foi gentilmente negado.
baixo desde que se esteja Nus, Margot e João
de acordo. E aos que ob- foram andando até a casa
servavam, com admiração, dele, pelo asfalto que ainda
algumas vezes aplaudiam, não havia começado a
outras vezes arregalavam aquecer. Sem acender as
os olhos, outras riam, ou- luzes ou abrir a janela
tras até se emocionavam, que dava para o mar de
era a inspiração que pre- telhados, deitaram-se na
cisavam para os dias, os cama de solteiro, e, muito
anos que se seguiam. João juntos, como só os enamo-
Bico-doce, quando sentia rados conseguem, dor-
que sua fêmea arrefecia, miram por dias a fio. Ela
dizia-lhe como só ele sabia sonhou ininterruptamente
dizer, sussurrado ao ouvi- com simpáticas e multi-
do, “Olá, minha boneca”. E coloridas lagartixas que
ela, quando sentia que seu caminhavam pela cidade,
vigor diminuía, bastava, tornando-a muito mais
ainda sentada e cavalgan- alegre. Ele, como acontece
do nele, encará-lo e abrir aos que dormem vencidos
os lábios como quem pela exaustão, balbuciou
diz “vem”, daquele jeito. não poucas vezes, com a
E assim foi, por um dia voz rouca, quase inaudível:
inteiro, no piso xadrez, em “Ah, divina Margot...”.
cima das toalhas também
xadrez de todas as mesas,

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Contos

Jef Harris - http://www.flickr.com/photos/jefharris/3120316831/in/set-72157611350230863/

Henry Alfred Bugalho


henrybugalho@gmail.com

O Corruptor
36 SAMIZDAT fevereiro de 2009
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Eu escovava os dentes, sar de nunca ter sido adepto de ensino privado da cidade,
quando minha mulher es- daqueles velhos preconcei- a maioria dos alunos per-
cancarou a porta do banhei- tos machistas, este fato me tencia ao mais alto estrato
ro, puxou-me pelo braço e diminuía diante dela, mesmo social daquele fim-de-mun-
me estapeou a cara com um que este apoucamento nunca do. A infra-estrutura surpre-
jornal enrolado. fosse verbalizado. endia, contudo, a arrogância
— Que isto, ‘tá louca? — Recebi com egoísta ale- da molecada também não
encolhido, eu me defendia gria a notícia da demissão ficava muito atrás. Mas ao
das investidas. de Júlia. Estávamos fodidos, pesar prós e contras, na mi-
privados da maior parte da nha concepção, ainda valia a
— Seu canalha, desgraça- pena termos nos arriscado.
do! — e, desenrolando o pe- nossa renda, minha esposa
riódico, esfregou-o na minha deprimida, contas atrasadas, Adianto que não sou
testa — estou indo para a a filha tendo de ser trans- nenhum homem bonito
casa da minha mãe. ferida dum ótimo colégio — passei dos trinta e cin-
particular para um colégio co, mechas grisalhas nas
Trêmulo, perplexo, apa- estadual, mas fui assolado têmporas e um pneuzinho
nhei o jornal e li a manchete por uma satisfação inco- incômodo —, mas também
da primeira página. mum, enfim, eu estava por não sou de se jogar fora.
cima da carne-seca em mi- Tive dias melhores, mas anos
nha própria casa. Também de casamento, um emprego
Professor depravado abusa
vislumbrei a oportunidade estressante e uma filha ado-
de aluna.
de, a longo prazo, contor- lescente põem qualquer um
narmos a situação e termos, pra baixo. Digo isto porque
E havia uma foto, não tanto Júlia quanto eu, uma bem sei do fetiche, se é que
muito definida, onde eu apa- vida muito melhor. posso definir assim, existen-
recia beijando uma menina. O e-mail dum amigo me te em relação a professores.
Eu poderia correr atrás de convenceu a tentar a vida Talvez seja parte da posição
Júlia e resmungar a afirma- noutra cidade. Há três anos, de autoridade e saber, duma
ção mais utilizada por quem ele ensinava num colégio figura sapiencial, provedor
foi pego no flagra: “Não é interiorano e dizia-me estar de conhecimento, em opo-
nada disto que você está satisfeito, bom salário e vida sição à burrice do mundo
pensando!” pacata. Contava-me também cotidiano. Assim, atire a
ter aberto uma vaga para primeira pedra quem nun-
Poderia, mas não fiz. A ca foi apaixonada por um
surpresa de ver-me tornado professor da minha área e
que, se eu desejasse, ele po- professor!
celebridade de maneira tão
inusitada privou-me de qual- deria entregar meu currículo E comigo não era exceção:
quer reação. Sentei-me no nas mãos do diretor. mesmo na rede pública, eu
piso do banheiro, chorando e Conversei com Júlia e nos estava habituado a receber
rindo de raiva. entusiasmamos com a idéia. bilhetinhos, comentários
Rafaela, minha filha, desa- jocosos das menininhas,
As coisas não eram tão coraçõezinhos no canto do
simples de serem explicadas. provou a mudança, temia
perder contato com as ami- quadro-negro ao chegar em
Cagadas nunca possuem ló- sala-de-aula. Nunca, mas
gica, sempre ocorrem numa gas, mas quando expusemos-
lhe nossa real situação, ela nunca mesmo, levei a sério
sucessão sem explanação tais investidas. Ética profis-
racional, e foi deste modo compreendeu que era isto
ou a bola de neve das dívi- sional acima de tudo, mes-
que me enredei nisto. mo que algumas das alunas
das que se acumulariam.
possuíssem atributos sufi-
Mudamo-nos em janeiro cientes para porem à prova
Eu lecionava na rede e, dois meses depois, assumi
pública, recebendo aquele esta ética.
meu cargo na escola. As con-
notório salário de miséria, dições eram diametralmente
estava frustrado, necessi- opostas às quais eu estava Não me lembro exa-
tando dar um passo além. acostumado na rede pública. tamente quando passei a
Ganhava menos da metade Por ser a única instituição reparar em Talita. Ela era
do ordenado de Júlia e, ape-

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aluna do terceiro ano, Ensino encarando, marotos, talvez garota e engolir a vergonha
Médio, não se destacava pela lendo meus pensamentos, de me achar um tarado. No
inteligência, mas também pois a mão que repousava entanto, a reação da menina
não compunha o grupo dos sobre a perna começou a me tranqüilizou, simples-
bagunceiros. Meu único brincar com a barra da saia, mente me ignorava, o que,
problema com ela era a subindo-a uns poucos centí- apesar de doloroso para as
incapacidade da menina em metros, e ela passou abrir e expectativas por mim ali-
ficar quieta e, por isto, logo fechar os joelhos, revelando mentadas, era a melhor atitu-
memorizei seu nome: e escondendo o que atraía de possível por parte dela.
— Por favor, Talita, dá minha atenção. Estava quase me esque-
para parar de conversar? — Fingi indiferença, apanhei cendo de tudo, mas, no final
e ela me fitava melindrada, um livro e simulei estar duma aula, Talita surgiu na
mascando chiclete em desa- absorto na leitura, mas, vez minha sala e me disse:
fio. ou outra, não resistia e meu — Professor, posso conver-
As provas bimestrais che- olhar era atraído por este sar com você?
garam. Ao aplicar a avalia- jogo de Talita. Às vezes, ela
estava concentrada na prova, Os alunos já haviam se
ção na turma dela, alunos retirado e, enquanto eu reco-
todos concentrados, meus sorrisinho safado; noutras,
cuidando-me, como se dis- lhia meu material, aquiesci:
olhos buscavam qualquer
movimento suspeito (não sesse: “eu sei de tudo”. — Estou com um sério
que eu fosse muito rigoro- O tempo da prova aca- problema, professor, e não
so com alunos colando) e, bou. Os alunos vieram e sei o que devo fazer.
acidentalmente, pousaram empilharam os papéis sobre Pensei que poderia ser
em Talita. Ela, cabisbaixa, minha mesa. Percebi que a algo relacionado às notas
cabelos loiros ocultando par- prova de Talita estava quase dela, pois o desempenho
cialmente seu rosto, maxilar toda em branco: dela era de regular para
movimentando-se no mascar — Estava difícil? — per- baixo.
do chiclete, caneta BIC os- guntei. — Eu sei como é, Talita,
cilando nos dedos nervosos.
— Acho que não — ela a fase pela qual você está
Então, avistei a outra mão
respondeu — Mas eu estava passando é barra, mas vai
sobre a coxa, pele lisinha, e,
pensando em outras coisas... passar. Acredite em mim,
obscurecida pela saia, na vão
— e sorriu para mim. também fui adolescente
das pernas entreabertas, a
e também não gostava de
calcinha branca. Fiquei sem reação, redu- estudar.
Contemplei a descoberta zido ao jovem que um dia
eu fora, sem traquejo para — Não tem nada a ver
por dois ou três segundos,
conversar com garotas, que com estudo, professor — ela
mas refugiei-me no meu
não sabia como se aproxi- molhou os lábios com a
livro de chamada. Porém,
mar delas. língua. Um péssimo sinal,
as faltas, notas e nomes de
pensei. Ela se aproximou,
alunos não me detiveram, — Hum — resmunguei. mas recuei um passo.
assim, voltei a buscar as co-
— E você, professor, em — Tive medo de vir até
xas adolescentes e o tesouro
que pensava? aqui... — ela acrescentou,
de algodão entre elas. Três
meses de abstinência de — Em nada, Talita — res- achegando-se ainda mais. Eu
sexo possuem este poder de pondi sem graça. até continuaria recuando,
tornar algo tolo, infantil, no porém fui prensado entre
maior dos estimulantes eró- Talita e minha mesa. Os pe-
ticos. Faz-nos imaginar o que Eu não conseguiria men- quenos seios dela se encos-
estaria por debaixo da peça surar como aquilo me afe- taram em meu tórax — Tive
íntima, imaginar carícias, faz tou. À noite, sonhava com as medo da sua reação.
o coração bater mais depres- pernas de Talita; de dia, mal
me concentrava nas minhas Eu queria que ela se calas-
sa e a respiração se acelerar. se, quer dizer, estava morren-
Das pernas, ascendi a vista atividades. As manhãs que se
seguiram foram angustian- do de curiosidade para ouvir
ao rosto de Talita e encon- o resto, mas tinha certeza de
trei os olhos azuis dela me tes, ter de entrar na sala da

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que nada bom sairia dali. Os instantes que aguar- da experiência. Após tantos
— Acho que estou apaixo- dei no meu carro, tenso, anos acostumado com uma
nada por você, professor — e, tamborilando com os dedos mesma mulher, um mes-
ao terminar esta sentença, os no volante, me devastavam. mo corpo, que já não tinha
lábios delas quase tocavam Nenhum sinal dela. Concluí a mesma forma de antes,
o meu. Ela fechou os olhos que Talita era idêntica à tomado por estrias por causa
e aguardou um beijo meu maioria das mulheres: elas da gravidez, flácido, sem a
como resposta. Esquivei-me lançam a isca, mas, na hora mesma agilidade e vigor,
lateralmente, apanhei minha da fisgada, puxam o anzol deparar-me com uma garota
pasta e retruquei: pra fora d’água, deixando- no auge físico, tudo no lugar,
nos boquiabertos, chupando pele irretocável, cheiro de
— Isto vai passar! Eu dedo. Elas querem se sentir frescor, que fazia de tudo em
também já me apaixonei por desejadas, e fim de papo. todos os lugares, era reju-
professoras — ri, trêmulo do venescedor, fazia-me sentir
pé à cabeça, e sumi da sala Mas eu estava enganado,
pois, cuidando o seu redor mais homem.
de aula, sob o olhar incen-
diado de Talita, dedo indi- para se certificar de que nin-
cador acariciando o lábio guém a via, Talita apareceu Menti para minha esposa,
inferior. e pulou para dentro do meu afirmando que, à tarde, eu
carro. Ria de emoção. realizaria trabalho voluntá-
Mal trocamos palavras no rio no colégio, alfabetizando
Depois disto, minha vida trajeto até chegarmos num jovens e adultos. As esposas
se tornou um inferno (no local ermo, a alguns quilô- são um bicho esperto, fare-
melhor sentido da palavra). metros da cidade, na beira jam de longe uma mentira,
Onde quer que eu fosse, dum riacho, onde podería- mas acatam-na para preser-
deparava-me com Talita; mos ter alguma privacidade. varem um relacionamento
simplesmente, não havia estável. Nada me tiraria da
mais lugar seguro para mim. Assim que desliguei o
motor, Talita saltou do banco cabeça que Júlia, desde este
E eu perdia o fôlego, a voz, o primeiro instante, percebeu
rebolado. Nunca antes uma do passageiro e se sentou no
meu colo, beijando-me deses- a minha mudança, a presen-
mulher me desmontou como ça no meu corpo do odor de
ela, e nem mulher de fato ela peradamente, deslizando as
mãos por meu torso, desafi- outra pessoa e que, ao con-
ainda era, apenas uma ga- trário de antigamente, quan-
rota, somente um ano mais velando meu cinto e lutando
para me livrar das calças. Eu do eu quase suplicava por
velha do que minha filha uma trepadinha no chuveiro
Rafaela, fato que levantava respondia na mesma altura,
apesar de um pouco atônito ou antes de dormirmos,
uma série de questões mo- agora eu nem me aproxima-
rais às quais eu me recusava com a agilidade da moça:
va mais dela, mesmo quando
a confrontar. No intervalo — Se esta for sua primeira era dela a iniciativa. As mu-
das aulas, com a imagem de vez, pode deixar que eu vou lheres percebem; Júlia fingiu
Talita na mente, eu corria ao com calma... — comentei, ter acreditado em mim, e eu
banheiro para me masturbar, querendo parecer gentil. fingi ter acreditado que ela
tentar me livrar daqueles — Minha primeira vez? havia acreditado.
pensamentos que me consu- Você só pode estar brincan-
miam. Logo, oficialmente, eu
do, né, professor! — Talita dava uma de bom samarita-
E como os bilhetinhos, as quase gargalhou na minha no, porém, na realidade, eu
piscadelas, as declarações de cara, sem deixar, no entanto, gastava as tardes com Talita
amor de Talita não cessaram, de prosseguir na tarefa de num motel. Mas as escapa-
resolvi que deveria criar nos libertar das roupas. das para motéis começaram
coragem e fazer aquilo que Transamos durante o a nos entediar, passamos
a natureza, aquele nosso res- dia inteiro e, apesar de um a nos encontrar em locais
quício animal, me impelia. pouco decepcionado, talvez mais arriscados, em público,
— Encontre-me no esta- ferido na minha hombrida- transando em banheiros de
cionamento, depois da aula de e na ilusão de querer ser restaurante e provadores de
— sussurrei no ouvido dela. o primeiro na vida duma loja. A excitação era tama-
mulher, não podia reclamar nha que atingimos o ápice

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ao fazermos sexo no banhei- crucificado por puro falso pórteres debandaram da casa
ro do colégio. Quanto mais moralismo. A própria Talita de Talita e foi aí que encon-
perigoso, melhor. havia me confidenciado que, trei uma oportunidade para
Não sei onde estava com antes de mim, ela já havia conversar com ela, numa
a cabeça quando deixei a transado com cinco rapazes noite em que os pais dela
situação sair de controle. O diferentes e com uma moça, saíram para ir à missa. Su-
modo de conduzirmos nosso ou seja, aos dezesseis anos pus que Talita deveria estar
relacionamento apontava ela havia tido mais parceiros de castigo em casa, punida
para o desfecho que esta- do que eu com quase qua- pelos transtornos causados.
va por vir. Qualquer boçal renta; minha avó se casou Bati à porta e foi ela
perceberia o tipo de envolvi- aos quatorze anos e pariu quem a abriu. Ao me ver,
mento existente entre Talita uma dúzia de filhos; Charles assustou-se:
e eu, mas ninguém tinha Chaplin só traçava ninfetas;
dizem até que Maria, a mãe — Vai embora, professor.
coragem para nos desmasca- Não posso conversar com
rar, até aquela maldita foto de Jesus, quando se casou
com José, contava com ape- você.
aparecer no jornal.
nas doze anos. Exemplos não No entanto, não obedeci.
A sociedade na qual vive- me faltariam e eu já tinha Entrei e tranquei a porta.
mos é regida por normas e até uma solução para este
leis hipócritas: tudo é per- — Serei breve, Talita. Vim
escândalo: em poucos anos,
mitido enquanto não for a pedir para você fugir co-
Talita seria maior de idade,
descoberto. Bastou uma foto migo, podemos nos casar e
nós nos casaríamos e tudo se
para pôr tudo a perder. Pri- apagar tudo de errado que
resolveria. Não posso dizer
meiro, a cena da Júlia, quan- aconteceu.
que eu a amava, mas certa-
do ela esfregou o jornal nas mente estava apaixonado e — Casar com você? — ela
minhas fuças. Depois, uma era dominado por um desejo riu, mãos na cintura — Não
ligação do diretor da esco- incontrolável. Não podería- seja ridículo! Até parece
la, manifestando a insólita mos exigir mais do que isto. que eu me casaria com um
declaração: velho!
Mesmo estando proibido
— Porra, professor, se de entrar no colégio, aguar- Isto foi uma tremenda
você quer comer uma aluna, dei na saída, à espera de duma contradição, ela não se
tudo bem, mas seja discre- Talita, mas não a vi. Dirigi, casaria com um velho, mas
to, professor. Esta não é a então, até a casa dela, mas transava com um. Expus-lhe
primeira vez que isto ocor- jornalistas a cercavam, todos este meu pensamento.
re, mas um escândalo deste querendo uma nesga da — São duas coisas dife-
não podia cair nas minhas manchete. rentes, professor. Tudo não
mãos. Agora quem terá de
Liguei no celular da passou duma aposta com
tomar uma providência para
menina, mas fui atendido minhas amigas.
solucionar este pepino será
eu. Você já deve imaginar secamente: — Como assim? — fiquei
que serei obrigado a demiti- — Não posso falar com sem rumo.
lo. Os filhos-da-puta dos pais você, professor. Ainda não — Eu contei para minhas
de alunos vão comer meu viu a merda que aconteceu? colegas que você estava
fígado! Entendi a reação dela, espiando por debaixo da
Quer dizer, eu recebia afinal de contas, estávamos minha saia. Elas duvidaram.
uma confirmação de que todos sob pressão. Júlia saiu Falei que você estava lou-
sexo entre professores e alu- de casa, levando consigo quinho por mim e que me
nos era costumaz, desde que Rafaela. Não posso dizer comeria se eu quisesse. Elas
não caísse na boca do povo. que isto me abalou, nosso duvidaram. E aí fizemos uma
Talvez, até este diretor já casamento já estava com aposta.
tivesse a sua cota de meni- os dias contados há anos e, — Mas por que ficou
ninhas nas costas. Foi neste se não fosse este escândalo, comigo tanto tempo? — eu
instante que parei e refleti seria outra razão, talvez mais suava, minhas mãos tremiam
sobre o que eu havia feito de frívola, talvez mais grave. e era como se um torno
errado, e percebi que seria Após alguns dias, os re- espremesse meu cérebro.

40 SAMIZDAT fevereiro de 2009


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— Porque era legal. Todas não seria completa assim. motivo e nenhum álibi. Mas,
elas ficaram babando quan- Avancei contra ela, socan- numa única e incongruente
do descobriram. Não era do mais uma vez a cabeça reação, eu apanhei o cadá-
ruim, professor, mas agora dela contra a parede. Ela ver pelas pernas e o arras-
acabou. Já estou até saindo ameaçou gritar, mas supri- tei para fora, jogando-o no
com outro rapaz, um surfis- mi os ganidos com uma das porta-malas do meu carro.
ta, pelo menos ele agüenta o mãos, enquanto a sufocava Pouco me importei se al-
tranco mais do que você. Só com a outra. Talita reagia, guém estava vendo.
ontem trepamos seis vezes... arranhando-me o rosto e o Dirigi para oeste, lancei
Sempre me considerei pescoço, mas eu era mais o corpo de Talita num rio,
um indivíduo racional, com forte e a subjuguei. Ela não amarrado a um pedregulho.
comportamentos sensatos, tentava mais gritar, por isto, Creio que chegarei à fron-
com objetivos bem definidos. só me dediquei a estrangulá- teira em umas sete ou oito
Nunca havia tipo um colap- la. Demorou um minuto ou horas. Dirigirei durante a
so emocional, nem arroubos dois até ela deixar de se mo- noite, a notícia do assassina-
de paixão, nem nada que ver, os olhos voltados para to somente se espalhará pela
me tirasse do meu casulo de cima, boca arreganhada. manhã, nos telejornais, só
racionalidade. Contudo, não Não posso, nem devo, então me tornarei realmen-
existe nada mais ofensivo esconder que senti prazer te um procurado. Quando
para um homem do que ter neste ato, acaso mais do que meu nome estiver na boca
seu desempenho sexual me- quando transava com ela. de todos, escandalizados
nosprezado — “filho-da-puta”, Uma impressão de superio- com o crime bárbaro, com o
“desgraçado”, “retardado” são ridade, de poder, de força me pedófilo, corruptor de ado-
ofensivos, mas “brocha”, “via- consumia, quase uma iden- lescentes, depravado, assas-
do”, “corno” não são somente tificação com o divino. A sino, eu terei desaparecido
ofensas, são capazes de fazer Deus era reputado o poder no Paraguai. Arranjarei um
um homem questionar toda de criar e destruir; naquele emprego, tentarei me virar
sua existência. momento, eu me igualava a com meu parco espanhol,
— Cale sua boca, sua va- Ele, destruindo o Universo conhecerei uma chinoca e
dia! — eu segurei Talita pelo em menor escala, privando terei filhos com ela.
braço. da vida uma de suas cria- E, um dia, quem sabe, eu
ções (talvez a mais imperfei- volto para esta cidade des-
— Você quer que eu ta delas) pelo mero capricho
minta, professor? Então, eu graçada e mate também o
de conservar a supremacia. escroto que me fotografou
minto: você é o gostosão, o Manifestou-se a verdade que
machão, o pau mais duro do com Talita, e o repórter sem
Raskolnikov entreviu: alguns caráter que arruinou minha
planeta! — e o tom de ironia nascem ordinários e, para
dela era tão doloroso que eu vida. Não por causa da foto
eles, as regras valem; outros do beijo, pois era apenas um
tinha vontade de me jogar são extraordinários, e estão
no chão e chorar. Mas não mero beijo, igual e insigni-
para além do bem e do mal. ficante a todos os demais
fiz isto, a ação que tomei
foi imprevisível para mim; Levantei-me e me preparei dados em Talita. Só o per-
segurei os cabelos dela e a para partir, mas refletindo doaria se a foto minha fosse
arremessei contra a parede, um pouco, percebi que pela do instante em que espiei
abrindo-lhe um talho na tes- cena do crime facilmente a calcinha da menina; este
ta. Surpresa, aterrorizada, ela, chegariam até mim. Na ver- sim foi o momento crucial,
mãos apoiadas na parede, dade, quase nada eu poderia responsável por tudo. Se eu
olhou-me de esguelha, san- fazer para ocultar minha tivesse de ser acusado de
gue lhe escorria pelo sobro- autoria no assassinato: im- algo, a única acusação plau-
lho, descendia pelo nariz. pressões digitais por todos sível seria esta: ter encon-
os lados, na porta, na parede, trado as pernas dela aberta,
Seria fácil eu me virar e e sabe mais lá onde; fibras convidando-me.
sair dali, deixando-lhe uma das minhas roupas, pegadas,
cicatriz como recordação De nada mais sou respon-
meu sangue e pele nas unhas sável.
minha, mas não, eu precisa- de Talita, talvez testemunhas,
va de mais, minha vingança e um motivo, eu tinha um

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Contos

António carpinteiro
Maria de Fátima Santos

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Carpinteirava como
se a plaina, deslizando
na madeira ainda quase
verde, fosse mão em cor-
po de mulher. Ficou-lhe
a plaina zanzando doida,
sem tino ele no alisar a
madeira sobre o banco.
E aquele raio de sol que
entra pela clarabóia e ele
sentindo o quente que
era a perna dela, mais
coxa do que perna, aper-
tando o seu corpo.
Era sempre assim ao
outro dia de uma noite
com Maria Elisa: a plai-
na deslizando sem que
a orientasse o mandar
de António. Distraído,
ele que tinha por costu-
me chegar na bicicleta
bamba que pintara de
vermelho. Haviam de
ter combinado uns dias
antes, ou à boca do mo-
mento de ficarem juntos:
um bilhete enviado por
mão de garoto a troco
de um punhado de bolo-
tas, umas pevides ou uns
grãos salteados em areia
quente. Um bilhete desig-
nando o dia, como por
exemplo: “quarta-feira”;
lacónico, sem preâmbulos
nem finais apaixonados.
Maria Elisa não escreve
dia de mês, nem hora:
era naquela quarta feira,
sabia ele e sabia ela e
por isso bastava escrever,
assim, cada bilhete. À
hora combinada, que era

http://www.flickr.com/photos/jpujo/2285582061/sizes/o/in/set-72157603810786563/

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sempre depois de estar dobrado do tamanho que do relógio sobre a cómo-
dormindo o povoado, ela trazia pedalando: e tri- da, marca cinco menos
ouvia (e estava certa que plicado, ri-se ela assim um quarto. Maria Elisa
só ela ouvia) o guinchar pensando, de quando ele quase a ter outro orgas-
cada vez mais guinchan- aplaina madeira de pinho mo. “ O último”, pensa
do: era a bicicleta dele, ainda verde, dobrado o ela, que Maria Elisa teme
era António que peda- corpo magro no banco que seja essa uma noite
lava. “O meu homem”, da oficina. com ponto final. Cresce o
como Maria Elisa o cha- António que chega- ritmo do seu corpo so-
mava, nua sobre a cama, ra a mando do bilhete, bre o corpo de António.
doirada dos mares onde entrado pela varanda Desfaz-se o que sobra das
passara o mês das férias. que dá para o jardim do tranças. Penetram-se o
António percebera-a quarto onde Maria Elisa sexo dela e o sexo dele.
doida do seu corpo num o aguarda, virgem, que O cabelo esvoaça como
dia em que consertava é como sua mãe a sabe: se fora véu, como se fora
uma tábua solta no soa- Dona Apreciação que a teia. Embaraça-se. Toca-
lho do quarto: este, onde tem noivada com o filho lhe o traseiro: o rabo
se encontram, furtivos, do Senhor Garcias de- dela, rechonchudo, gran-
sobre o tapete de Ar- sembargador e dono de de. O rabinho casto nas
raiolos que Dona Apre- vinhas e montados. Casa- saias de pregas que Maria
ciação bordou em noites mento com data marcada Elisa veste quando ajoelha
de invernia. Maria Elisa para sete de Outubro. na Igreja. Dona Apre-
suada, corada, as tranças ciação ao lado da filha,
Num ritmo arfante
castanhas quase desfeitas orando ambas. Dirão da
enrolam-se os corpos
sobre o corpo nu. Ela e sua virgindade os deu-
deles no cone de luar que
António carpinteiro, a ses e os santos. E ali no
entra pela janela na noite
quem sobrou, na pres- quarto, diriam que Maria
aparvalhada, de húmido
sa de ter-se inteiro nela, Elisa está rezando ajoe-
e de quente, de um mês
uma peúga preta com os lhada no sobrado. Dobra-
de Agosto terminando.
elásticos lassos, calçada do em dois, o corpo que
Maria Elisa e António, na
no pé esquerdo. Nuzinho, deve ser guardado, casto,
acepção crua da palavra,
deitado de barriga, Antó- para o esposo. É o que
fodem. Pela noite dentro,
nio tem nádegas rijas: um diz o padre Frederico nas
na casa silenciosa, o que
rabo chocolate que é a sessões de preparação
eles fazem é uma luta
cor do carpinteiro e nem para o casamento. Maria
para encontrar o desejo
férias de mar ele teve. Elisa geme, o rabo endoi-
de cada um no outro: a
Todo pele e osso excep- dado, apertado, instado
sua carne desvendada
to aquele pedaço do seu pelas mãos do carpintei-
poro a poro, descoberta
corpo. ro, tomado pelo sexo dele,
em cada interstício, cada mordido dos seus dentes,
Em rodando a noite, dobra de pele. ratado das unhas longas
ou que seja no início, ou Enquanto isso, o reló- que ela roça, crava pelos
ela o repete, Maria Elisa gio da torre dá badaladas corpos de um e outro no
segura-lhe o pénis, lam- de um quarto. O verde desespero do desejo.
be, morde, goza de vê-lo luminoso no mostrador

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Batem seis longas ba- Decote que deixa ver o louca, rodopiando am-
daladas. Nenhum deles cruzado das maminhas: bos entre os convidados,
ouviu bater as cinco, e virgens, como juraria, se rolando unidos sobre o
nem os quartos tal foi fosse isso preciso, Dona tapete vermelho da nave
o que não tem como se Apreciação ciosa de sua principal.
conte em palavra, seja ela filha resguardada para
escrita, seja ela falada, e aquele casamento ou ou-
António retira-se. Vai
nem que fosse imagem tro de igual interesse que
completar o serviço que
explicaria cada um deles ela tivesse desejado: ela, a
faz na sacristia.
no seu corpo e no corpo mãe ansiosa da resposta
do outro. Cada um deles que tarda menos de um
a tropeçar na madrugada, segundo, mas faz pairar Maria Elisa olha fi-
a lutar contra o sol que na Igreja um silêncio de xamente o altar em sua
há-de levantar-se e en- dúvida sem que cada um frente. Fixa a renda com
cher a casa e fazer deles por si lhe encontre fun- anjos e cachinhos de uva.
simplesmente Maria Elisa, damento, mas que causa O padre hesita e quase
filha devotada de Dona uma impressão como se que repete:
Apreciação, viúva de houvesse algo.
- Aceita…
Visconde, prometida ao
filho do Senhor Garcias; e Mas detém-se: a boca
Apenas António não num esgar como se o
António, mulato, carpin-
receia. Num ar de quem padre visse Maria Elisa e
teiro de móveis e arranja-
espreita à porta da sacris- o carpinteiro despedindo-
dor de portas e de tábuas
tia onde conserta uma se, como se ele soubesse
de soalho.
gaveta perra, ele sabe que que António estava ali
A bicicleta parece que Maria Elisa dirá o deseja- ofertando ela para o filho
não faz ruído quando do sim. Olha-a demora- do Senhor Garcias, para
António parte, já quase a do. Obriga-a que o note:
que ele se faça seu mari-
luz da alva despontando: que Maria Elisa, enquanto do.
e no entanto ele vai peda- poise os olhos no pano
lando… A nave da Igreja respi-
do altar e balbucie o
ra de alívio: Maria Elisa
sim, sinta as suas mãos
disse.
- Aceita por mari- entrando-lhe pelo decote,
soltando-lhe as fitas do Ela fala bem alto para
do… – início da per-
que António oiça:
gunta que o padre faz no véu que jogará sobre o
sacramento. quase marido: engenhei- - Sim, aceito.
ro, comerciante ou doutor
Faz-se silêncio na nave de leis, ele será apenas o
da Igreja onde o filho Maria Elisa ouve, e só
marido.
do Senhor Garcias vai a ela ouve, o guinchar da
casar com Maria Elisa. Que ela diga sim bicicleta que se afasta.
enquanto António lhe
Demora na resposta a desabotoa cada botão
noiva de branco: vestido do vestido de noiva, lhe
com decote mais ousado rasga o saiote e lhe pe-
do que desejou a mãe. netra o corpo numa foda

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Contos

http://www.flickr.com/photos/noc/9354828/in/set-231799/
Ninguém está a ver!
Joaquim Bispo

João era tímido, muito às galinhas no terreiro colegas, na Secundária, e


bom rapaz, mas, como fronteiro à casa da quinta a violar-lhes, com o olhar,
miúdo metido consigo, ou realizava outra activi- alguns recessos mais
engendrava muitos esque- dade na qual punha a sua íntimos, nem que fosse
mas, nem todos isentos graça de mulher. um pedaço de recatado
de perversidade. Nestas *** pescoço atrás da orelha
férias, trazia uma ideia sob o manto de cabelos.
João tinha dezassete
fisgada. Alimentava a ten- Desforrava-se em casa, a
anos e um caldo hormo-
tação de ver a tia despi- rememorar esses lampe-
nal a espicaçar-lhe as
da. Respeitava-a, tratava-a jos de céu. Era um mas-
entranhas e a desfear-lhe
como tia, que era, mas turbador compulsivo. A
a face. Era alto, magro
não podia evitar espiá-la masturbação era o con-
e um pouco desengon-
e imaginar as formas cur- solo de todos os aborre-
çado. Fosse pelo seu
vas de geometria variável cidos tempos mortos e de
aspecto desconchavado
que se lhe moviam por todas as frustrações da
e demasiado borbulhen-
debaixo das roupas. Uma sua pouco interessante
to ou pela sua timidez
vez por outra, já se tinha vida. Excitava-o a ideia de
crónica, o certo é que
masturbado a espreitá-la se deleitar sexualmente
não conseguia grandes
por detrás das vidraças junto de outras pessoas,
avanços com as raparigas.
da casa de banho, en- sem que alguém sus-
Deslumbrava-se a memo-
quanto ela dava de comer peitasse. Imaginava que
rizar a curva do seio das

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inventava uma maquineta vinha uma carrinha casa. Ele aproveitava para
que o masturbasse com buscar o que houvesse: ir até ao pego do riacho
os vagares que tivesse hortaliças, fruta, frangos, que bordejava a proprie-
programado, enquanto coelhos, ovos e queijos. A dade da tia e, se já tives-
ele, impávido e de mãos ajuda habitual do so- se feito a digestão, dava
bem à vista, estivesse brinho no fim de Verão uns mergulhos. Depois,
sentado numa esplanada, vinha a calhar, porque, deitava-se a secar, a gozar
ou viajasse no Metro e, além dos habituais tra- as carícias estimulantes
casualmente, percorresse balhos campestres, era o que o sol aplicava ao seu
com os olhos as mulhe- período de maiores co- corpo, a sentir alguma
res à sua volta. Quando lheitas. erecção confortante por
tomou conhecimento que Para João, era um dentro dos calções.
já existia tal apetrecho à período de grande liber- Certa vez, sobreveio-lhe
venda nas sex-shops, só dade ao ar livre, longe uma ideia. Atravessou a
não o comprou por não dos pais, e a maioria dos ribeira para o melancial
caber dentro das calças trabalhos estava longe do vizinho e escolheu
sem denúncia óbvia. de ser aborrecida. Tinha uma melancia exposta ao
algumas tarefas por conta sol, cujo pé seco indicava
As férias foram desti- dele. Ordenhar as cinco que estava madura. Com
nadas como nos outros cabras da tia, de manhã o inseparável canivete,
anos: faria três semanas e à noite, era uma delas. retirou uma rodela da
de praia em Agosto com Fora ele mesmo que a es- casca até atingir uma
os pais, em casa dos tios colhera. Apertar as tetas superfície conveniente da
de Viana do Castelo, pontiagudas das cabras, polpa, onde espetou dois
e depois iria mais três que lembravam as mami- dedos a criar um início
semanas para casa da nhas espetadas das cole- de galeria. O seu pénis
tia Isabel na Golegã. A gas, não se podia chamar erecto acabou de a rom-
tia vivia sozinha numa trabalho. Deleitava-se a per, num arrebatamento
quintarola, que explora- sentir a sua consistência de quentura a que uma
va, a poucos quilómetros e, geralmente, demorava ou outra pevide conferia
da vila. Era uma mulher mais que o necessário uma estimulação extra.
arruivada, de estatura para a tarefa. Em certas Imaginou que a vagina de
mediana e formas arre- tardes, no crepúsculo de uma mulher devia ser as-
dondadas, bonita e ainda mais um dia quente, en- sim, quente e apertada, só
jovem, de uns trinta e quanto se comprazia com que sem pevides. As ex-
poucos anos. Quando o a esquerda na ordenha periências boas são para
marido fora para Fran- das cabras, ordenhava-se repetir, só o preocupava
ça há três anos e por lá também com a direita, e que o vizinho notasse a
ficara com uma francesa, havia momentos em que diminuição do melancial.
tivera que meter mãos a sincronia era total, e o Certa vez, lembrou-se
à obra e, entre criação resultado semelhante. que Saramago também
e horta, lá se ia aguen- Na hora de maior calor, tinha deambulado por
tando. Dia sim, dia não, não se trabalhava fora de estas paisagens em liber-

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dade solitária, quando arranjar o copo de café deu a luz. Isabel dormia
vinha passar as férias com leite, para cada um, de lado, voltada para si
com os avós paternos, ali com que habitualmente e estava coberta ape-
perto, na Azinhaga. Os aconchegavam o estô- nas com um lençol.
seus olhos de adolescen- mago antes de deitar. O Aproximou-se e ficou
te também terão olhado que chamavam café não a admirá-la. Os cabelos
para as melancias quentes passava de uma mistura arruivados derramavam-
com pensamentos lú- de cevada, mas era recon- se pela almofada, o rosto
bricos? Ou a sua mente fortante. Desta vez, João adormecido enternecia, o
criativa de futuro escritor tirou uma cápsula farma- morro da anca alteava o
terá congeminado outras cêutica do bolso, abriu-a lençol, logo após o vale
maneiras mais engenho- e despejou o conteúdo da cintura. Sentou-se na
sas de gratificar os senti- num dos copos. Bebe- beira da cama. Era tão
dos e apaziguar o corpo? ricaram-nos, enquanto estranha esta situação.
assistiam a mais um bo- Estava ainda tenso, mas
cado da novela que a tia aos poucos ia ficando
Este ano, João alimen-
gostava. Desta vez, Isabel mais descontraído. Puxou
tava o desejo de ver a tia
começou a ser invadida o lençol até desnudar-
nua. Ela era muito bonita,
por um sono invencível. lhe os braços. A tia tinha
tinha olhos cor de mel e
Antes que se ficasse a uma camisa de dormir
uma boca pequena bem
dormir, despediu-se e foi cor-de-rosa que arqueava
desenhada num rosto
deitar-se. à altura do peito. Esticou-
cheiinho e, apesar de já
se para espreitar por
ter trinta e três anos, o
aquele decote invulgar-
seu corpo parecia tão O coração de João es-
mente amplo. As mamas
jovem como o da sua tava acelerado. Comprara
pareciam imensas. Ficou
professora de Português, uma caixa de hipnóticos
um momento absorto na
que tinha vinte e seis. a um colega, lera a bula
contemplação daquela vi-
Andava sempre de blu- e confirmara que uma
são tão desejada. Depois,
sas leves e largas onde as cápsula produzia um
com cuidado, empurrou
mamas, apesar do sutiã, sono profundo de umas
o corpo da tia até ficar
se deslocavam ao sabor quatro a seis horas, que
deitado de costas. Puxou-
das tarefas campestres não deixava lembrança.
lhe a camisa de dormir
que executava. Era muito Agora os dados estavam
para cima, até descobrir
excitante e, basicamen- lançados. Deixou passar
o peito. «Uauh!» Os bicos
te, era por elas que João três quartos de hora, para
grossos e rosados sobre
arquitectara um plano dar tempo ao medica-
os montes branquíssimos
arrojado e pouco éti- mento, depois dirigiu-se
eram mais perturbadores
co. Quando faltava uma ao quarto dela.
que alguma coisa que
semana para regressar a – Tia! – chamou a con- já tivesse visto. Sentiu o
Lisboa, tomou coragem firmar. – Tia Isabel! incómodo do seu pénis
para o pôr em prática.
Apurou o ouvido. tenso mas dobrado den-
À noite, a meio da nove-
Nada. Entrou no quarto tro das calças. Puxou-as
la da televisão, João foi
cautelosamente e acen- na cintura, meteu a mão

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e endireitou-o. Depois de a cobria. «Oh, my God!» Ia guardá-la para o dia
um momento, apeteceu- Uma pequena abertura seguinte.
lhe tocar aquelas mamas. rosada e entreaberta fê-lo
Quando arquitectara o suster a respiração. Era
Na verdade, quando
plano, só pensara em ver tão inexplicavelmente
acordou, uma erecção
a tia nua. Mas, porque bonita. Nenhuma amea-
mais intensa que a ha-
não tocar-lhe? Abriu am- ça transmitia, antes uma
bitual e a lembrança da
bas as mãos e colocou-as aceitação incondicional.
noite anterior foram estí-
sobre as mamas da tia. Ali estava o paraíso dos
mulos mais que suficien-
Depois, demorou-se a ex- homens. Mexeu-lhe com
tes para tirar uma meia
perimentar-lhes a consis- delicadeza a experimen-
da mesa-de-cabeceira e
tência e a macieza. Aper- tar a suavidade da carne.
cumprir uma gostosa
tou-as. Eram macias mas Aqueles lábios abriam-se
consolação. Desta vez
densas. E bem maiores do só com a acção de dois
com a mão esquerda, que
que as suas mãos conse- dedos. Sentia-a húmida.
a direita aplicou-a sobre
guiam abarcar. Ao vê-la Experimentou meter o
o nariz, sentindo o perfu-
vestida, nunca imaginara dedo médio. Deslizou su-
me inebriante da vagina
que fossem tão grandes. avemente para dentro do
iniciática. Com o corpo
Depois desceu os olhos corpo da tia. Como era
da tia em mente, tão pre-
pelo ventre alvo da tia. quente, húmido e brando!
sente como na noite an-
Descobriu-lhe as ancas e Nesse momento a tensão
terior, em breve o fundo
as coxas. A tia tinha uma do seu corpo ultrapassou
da meia travou o fruto do
cuequinha branca, com o ponto de não-retorno.
seu corpo mais uma vez
um debrum às florinhas. Fechou os olhos a tentar
levado ao engano.
Devia tirar-lha? Levan- fruir as duas sensações
tou-a na barriga. Uma concorrentes mas coliga- Todo o dia pensou se
púbis ruiva e de pêlos das no seu descontrolo, havia de repetir a faça-
lisos desarmou-o. Apesar porém, o êxtase do orgas- nha da noite anterior. À
da tia ser arruivada, sem- mo venceu e obrigou-o a medida que pensava, mais
pre imaginou que tivesse ceder-lhe toda a atenção, se lhe tornava admissível
uma púbis de pentelhos até as convulsões abran- tentar foder a tia. Era feio
pretos e revoltos, como a darem. da sua parte, mas para
sua. Não se atrevia a tirar ela era indiferente. O
Não esperava, não
a cueca à tia. Afastou-lhe que ela não sabia, não a
tinha previsto este des-
as coxas. Eram robustas podia incomodar.
controlo. Sentia-se todo
e lisas. Pousou a mão molhado dentro das Isabel acordou com a
direita sobre a zona da calças. Compôs as rou- vaga sensação de ter so-
vagina. Cedia à pressão. pas da tia o melhor que nhado com o ex-marido,
Era tão diferente de apal- pôde, voltou a colocá- mas não conseguia fo-
par as suas calças cheias, la deitada sobre o lado car a lembrança. Tinha
agora ainda mais repletas. direito, cobriu-a, apagou a ideia de ter ficado, de
Estava quente e muito a luz e saiu. Foi à casa de repente, com muito sono,
macia. Desviou para o banho e limpou-se, mas na noite anterior e não se
lado a nesga de pano que não lavou a mão direita. lembrava de se ter deita-

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do. Durante todo o dia similar à esperada, Isabel retesada do seu membro.
foi matutando naquele olhava para o ecrã, mas Vestiu o pijama e
súbito desejo de dormir. a sua cabeça estava a esperou ainda mais meia-
Uns olhares furtivos do processar decisões. Que hora. Depois, entrou no
sobrinho levaram-na a fazer? Tinha uma enorme quarto de Isabel que,
pôr a hipótese inverosí- curiosidade sobre o que o deitada e voltada para a
mil de ter sido drogada sobrinho andaria a fazer porta, de olhos fechados
por ele. Com que objecti- lá por casa enquanto ela mas de atenção bem aler-
vo? Resolveu ficar muito dormia drogada. ta, fingia dormir profun-
atenta. João, entretanto, es- damente. Não esperava
À noite, quando João forçava-se por conter o que ele entrasse no seu
foi preparar a beberagem nervosismo. A simples quarto, mas tencionava
do costume, Isabel ficou ideia de estar prestes a prosseguir a farsa até
a controlá-lo pelo reflexo encontrar-se com o corpo saber o que o sobrinho
difuso na porta da co- de uma mulher à sua dis- andava a tramar. João
zinha. Então, confirmou posição, poder explorá-lo acendeu a luzinha da
que o sobrinho tirava à vontade, sem olhares mesa-de-cabeceira que,
qualquer coisa do bolso desdenhosos nem reticên- protegida pelo abajur,
e fazia o gesto de a sacu- cias humilhantes, excita- derramou uma claridade
dir sobre os copos. Não va-o. Talvez fosse este o suave sobre a cama. A
podia beber daquele café! dia tão esperado em que tia estava linda a dormir
Quando João se sentou «perderia os três», que já tão suavemente como na
a seu lado no sofá e lhe o embaraçavam perante noite anterior. Tocou-lhe
estendeu o copo, Isabel a experiência alardeada os cabelos. Acariciou-os.
levantou-se anunciando: pelos colegas. Eram macios e levemen-
– Vou pôr um bocadi- Dez minutos depois, te ondeados. Cheirou-os.
nho de vinho do Porto e Isabel fingiu cabecear e Exalavam uma fragrância
natas; queres? foi-se deitar, como na inebriante. Encostou o
noite anterior. seu rosto ao da tia. Era a
– Não, tia, obrigado!
mesma macieza e quen-
Isabel moveu-se com Antes de se juntar a
tura que guardava como
diligência e precisão. ela, João foi à casa de ba-
lembrança das despedi-
Vazou o copo na pia, nho aliviar a tensão. Não
das e dos reencontros.
silenciosamente, resguar- queria falhar o objecti-
O seu pescoço cheirava
dando-se do reflexo que vo com uma ejaculação
a feno e a malmequeres.
denunciara o sobrinho, adiantada. Sentou-se na
Deitou-se de corpo esti-
pôs um pouco de leite do sanita, acariciando-se
cado encostado ao da tia
frigorífico, encheu com com gestos lentos, en-
e abraçou-a. Manteve-se
coca-cola, acrescentou quanto, de olhos fechados,
assim por minutos, ape-
natas de pacote e por fim recordava o corpo da tia.
nas a aspirar o aroma
juntou o vinho do Por- Pouco depois, um jorro
floral da tia, a sentir o
to. No sofá em frente do inundou a «boneca» de
seu corpo tenro cheio de
televisor, enquanto sorvia papel higiénico com que
ondulações, e a imaginar-
aquela bebida de aspecto envolvera a cabeçorra
se um dia casado com

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uma mulher assim, e a ação, ora… Antes isso! cada vez mais rápidos
dormir encostado a ela. Não podia era admitir e perturbadores. Era a
Isabel aguardava. Estra- que estivera acordada. única maneira de apro-
nhava este comportamen- Depois de João a ter apal- veitar, porque o seu pénis
to, mas ao mesmo tempo, pado toda, a ter despido, já pulsava em ejacula-
não lhe era completa- e ter beijado até alguns ções rápidas e potentes.
mente desagradável este pontos sensíveis que ela «Wow!» Como é que aqui-
terno amplexo masculino desconhecia, o corpo de lo podia ser ainda melhor
que há tanto tempo não Isabel estava abando- do que todos os orgasmos
sentia. nado e rendido. Notou que já tivera?! Sentiu um
Então, as coisas come- divertida alguma falta enorme reconhecimento
çaram a passar-se muito de prática, quando João para com a tia. Sem ela,
rapidamente. João passou pôs um preservativo, não ainda agora era um es-
a acariciar o contorno sem dificuldade. Seria a túpido virgem. Depois,
corporal da tia. As suas primeira vez? Seria ela iniciou a delicada tarefa
mãos percorreram a li- que iria «tirar os três» ao de repor tudo como se
nha da cintura e da anca sobrinho? Sentiu um or- lá não tivesse estado.
e depois da coxa. Isabel gulho contraditório nesta Lançou um último olhar
hesitava no que fazer. Se honra inesperada. Quan- terno à tia, saiu e pouco
reagisse, como ficaria a do o sobrinho entrou em depois adormecia cansa-
relação familiar? João si, abandonou qualquer do e feliz.
avançava por recônditos pensamento que não fos- Isabel sentiu o pa-
que não imaginara tão se a fruição do momento. roxismo do sobrinho e
excitantes: a dobra sob o «Santa Maria!» Há quanto conformou-se. Já estava
joelho, a nádega, a pas- tempo! João foi entrando meio esquecida de como
sagem do tronco para a e assestando todo o foco era ficar a meio caminho;
mama. Isabel não podia na sensação celestial de ali, felizmente, não preci-
estar mais confusa. Por mergulhar num oceano sava de fingir o orgasmo.
um lado, achava etica- quente e profundo, onde Depois dele sair, ajeitou-
mente asqueroso o que o apetecia rir e gritar e se e começou a acariciar-
sobrinho estava a fazer, abraçar o corpo amado. se com um dedo, depois
por outro, agradavam-lhe Nunca tinha experi- dois, enquanto a mão es-
algumas carícias que a mentado tal sensação de querda apertava ora uma
deixavam paradoxalmente plenitude. Parecia que a ora outra mama, mas não
vaidosa. Tinha deixado ir maior parte de si tinha conseguiu realizar-se.
as coisas longe de mais. entrado naquele túnel Parecia que faltava algo.
Desmascarar a situação, mágico. Sentia-se enor- As poucas vezes que se
agora, traria demasiados me. Demorou-se no mais masturbava, era no du-
constrangimentos. O que fundo da sua tia. Depois che, com a água quente
é que podia acontecer se sentiu a urgência. Tinha do chuveiro a lamber-lhe
continuasse a fingir? Uma querido ir devagar, sabo- o corpo, mas hoje não
queca do sobrinho? Sem rear, mas agora o corpo podia arriscar denunciar
o embaraço do reconhe- pedia-lhe pressa. Iniciou a sua vigília. Quando
cimento mútuo da situ- movimentos de vaivém, pressentiu que João ador-

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mecera, levantou-se e, si- pego, a meio da tarde, foi – João abre-me aquela
lenciosamente, foi ao pote vasculhar-lhe as coisas à garrafa de jeropiga que
dos chouriços, retirou procura da droga. Estava era do tio, se fazes favor.
um painho de tamanho numa das bolsas laterais O saca-rolhas está na
adequado, limpou-o bem da mochila. Era Flunitra- gaveta da esquerda.
do azeite e voltou para a zepam, um medicamento Apenas João saiu, Isabel
cama. Um quarto-de-hora hipnótico usado como trocou os copos e espe-
depois, a conjunção do tratamento da ansieda- rou. Depois deitou um
volume, da lubrificação de e da insónia. A bula gole de jeropiga no copo
oleosa, e das rugosidades afirmava que induzia o de onde iria beber.
naturais do enchido con- sono de forma rápida e
Passado um bocado,
cluíram o que o sobrinho intensa. Como efeitos
João cabeceava. Isabel
tinha iniciado. colaterais referia a amné-
ainda tentou que se fosse
sia para os eventos ocor-
deitar, mas ele, vergado
ridos sob a sua influência
Durante toda a ma- pelo sono, reclinou-se no
e avisava para o perigo
nhã, Isabel pensou no sofá e ali ficaria vestido
de vida que corria quem
que devia fazer. Podia até de manhã, se não
o associasse ao álcool.
simplesmente mostrar fosse o coração de tia de
«Filho da puta!» Sem ofen-
que não bebia o copo de Isabel. Foi buscar uma
sa para a irmã. Tinha-a
café, frustrando os pla- mantinha e o pijama
deixado beber o vinho do
nos do sacaninha. Mas dele, despiu-o, mas, quan-
Porto e não dissera nada.
também podia continuar do se preparava para lhe
a fingir que o bebia. O O dia de João foi de vestir o pijama, parou a
que a impedia de apro- redenção, um dia em que admirar o pequeno pi-
veitar as fodas do sobri- todos os temores e in- rilau dele, de cabecinha
nho? Perfeitas ainda não certezas sexuais tinham rosada meio escondida
eram, mas… A cavalo desaparecido. Todo o pelo prepúcio, repou-
dado… Nem sequer dia andou radiante e até sando sobre o escroto
precisava de se esforçar; cantarolou a caminho do escuro e enrugado pela
ele fazia tudo. Em rigor, pego. Nem se lembrou testosterona. Custava a
nem andava a foder com das melancias. Decidira creditar que aquilo, que
o sobrinho. Sem ninguém rapidamente que nessa agora parecia um batom
a ver, sem o João a saber noite foderia outra vez a em expositor de ouri-
da sua vigília, a situação tia, mas agora com mais vesaria, fosse o mesmo
não tinha esse pecadilho experiência. que na noite anterior tão
social. Ele é que andava a plenamente a preenche-
foder a tia. Só a incomo- À noite, quando João ra. Sentou-se na beira do
dava estar ali de perna pousou os copos de café sofá, pegou-lhe e baixou-
aberta, feita morta. Ape- na mesinha de apoio do lhe o prepúcio. A cabe-
sar de tudo, gostava de se sofá, Isabel decidiu que cinha cor-de-rosa fez-lhe
mexer mais. não queria andar a fo- pensar que um pénis era
Quando ele saiu para der «à Bela Adormecida». como se fosse um clítoris
dar um mergulho no Pediu: enorme. Tinham sorte

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os homens; o seu sexo dro que não sossegava por um momento. Que
era todo clítoris. Aquele, nem com o dono ador- loucura um orgasmo!
entretanto, crescera e não mecido. A sensação era
parava de crescer na sua sempre nova; só quando
No dia seguinte, João
mão. Em pouco tempo voltava a experimentá-la
não encontrava explica-
tinha um tamanho que é que reconhecia a lem-
ção para a soneira re-
ela achou até acima do brança dos momentos
pentina. Se calhar, tinha
que pensava ser normal. maravilhosos anteriores.
trocado os copos sem
Era um órgão mágico, o O que se seguiu tinha a
querer. Ou a tia o fize-
pénis dos homens. Fazia dolência auto-controlada
ra. Teria desconfiado de
o milagre da triplicação de uma masturbação e
alguma coisa? Reclamou
com apenas algumas ma- a verdade carnal de um
por ela lhe ter vestido o
nipulações. Ficou duro e pénis verdadeiro. Nunca
pijama, mais para lhe ver
tenso encimado por uma tinha tido a oportunida-
a reacção, mas Isabel não
glande lisa e brilhante. de de se deixar vir, sem
desarmou:
Parecia uma ameixa ver- pressas, num pénis ao seu
melha madura mas firme. dispor. Perdeu a noção – Eu andei contigo ao
Encostou-lhe a face. Era dos muitos minutos que colo, João, e já vi mais
muito suave como a pele iam passando. homens nus. Não te ia
de um bebé. Passou-a nos deixar a dormir vesti-
Tinha que arranjar um
lábios, deixou deslizar do. Vivo no campo, mas
homem para todos os
aquela cabeça túrgida em minha casa sempre
dias, pensou, envolta na
para dentro da sua boca. se usaram pijamas para
névoa de prazer. E, já ago-
Era como se metesse uma dormir.
ra, que desse uma mão-
ameixa ou um alperce zinha na quinta. Havia Pelo sim pelo não, João
inteiros na boca. Aper- de avaliar as intenções resolveu não voltar a
tou as pernas, sentindo a do Inácio, o rapaz da sua tentar drogar a tia. Daí
lubrificação em curso. idade que vinha buscar a dois dias, chegaram os
Conforme a ideia lhe hortaliças na carrinha. pais a buscá-lo e a passar
surgiu, começou a pô- Tinha sempre uma graça o fim-de-semana. Vol-
la em prática. Meteu as ou um piropo disfarçado tou para Lisboa cheio de
mãos por debaixo da saia e parecia ter um rabo auto-confiança. Agora,
e tirou as cuecas. Depois, firme. Com a sua face estava convencido que
escarranchou-se sobre o barbada no pensamento, era só isso que lhe faltava
sobrinho, um joelho de deliu-se em fluidos vagi- para engatar uma «chava-
cada lado sobre o sofá. nais e espasmos pélvicos, la» da sua turma que era
Pegou naquele batom ca- longamente. «Virgem linda linda como a tia.
beçudo, apontou-o à boca Santíssima!» Um gole de
do seu corpo, passou-o baba soltou-se-lhe da
duas ou três vezes nos boca para o peito ossudo
lábios a retocar a maqui- do sobrinho. O patético
lhagem e depois deixou- da situação e o contenta-
se ir. Foi-se sentando e mento do corpo fizeram-
recebendo aquele malan- na rir-se sem controlo,

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Contos

Uma Noite
Guilherme Rodrigues

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O lugar onde

Era uma noite fres- com as mãos e mordia a boa Literatura


ca e estrelada. A lua os lábios.
cheia clareava parte é fabricada
do quarto escarlate. O O que era? Não era,
vento suave esvoaçava não era. Continuou
as cortinas grenás. De dominada por este ser
robe de cetim e sentada sem ser. Não importa-
na poltrona, pensando va, queria mais, muito
na vida e fumando um mais.
cigarro. Quando, de
repente, sente um cala- Uma grande explosão
frio. Algo diz: no céu desfez tudo
num instante.
– Boa noite, querida.
– Vou embora.
– Quem está aqui?
Qual é seu nome? – – Não, não vá. Fique
perguntou assustada. comigo.

http://www.flickr.com/photos/ooocha/2630360492/sizes/l/
– Que importa meu – É hora de ir. Preciso.
nome e quem sou se
temos uma noite linda – Não o verei mais?
somente para nós? Não voltará?

Com medo e frio, ficou Foi-se da mesma forma


calada. Não havia res- que chegou.
postas.
A mulher, vertiginosa,
Sentiu uma mão morna chorou...
e leve esfregar-se em
uma de suas pernas, Desde então a noite
mas não era uma mão, passou para um tom
não era nada, apenas melancólico e român-
sentia. Não via nada. tico.
Sentia sua presença.

Era bom e gostava.


Deliciava-se. Nunca ti-
nha sentido nada igual.
Deixou-o prosseguir.
foto? Marta Madness

Por toda a noite fi-

ficina
cou se contorcendo e
gemendo. Arranhava,
apertava os lençóis

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Contos

Zulmar Lopes

SAMIZDAT fevereiro de 2009


A Sinfonia
http://www.flickr.com/photos/akiltopu/363870887/sizes/l/in/set-72157594357996797/
Deixou a água do chu- generosa. Coxas roliças, Um misto de excitação e
veiro percorrer todo o seu barriguinha sarada em ho- receio invadiu seu espírito
corpo, massageando a pele ras de malhação, peitinhos enquanto ela introduzia,
bronzeada. Em seguida, mu- durinhos, apessegados, e a centímetro, por centímetro,
nida de um sabonete barato, bunda incomensurável, de o celular encomendado
lavou-se com esmero, dando primeira grandeza, bunda pelo seu homem dentro
atenção à vulva intumes- brasileira, redonda, rotunda, da vagina, protegido por
cida que em minutos seria cuja liliputiana marca do um preservativo. Marcelo
ocupada por aquilo que biquíni desenhava uma seta Escorpião, traficante mais
seu amado desejava. Sor- invadindo o rego, como que perigoso da cidade, 400
riu marotamente, brincado sinalizando o ânus que seu anos de cana, teria o que
com os pentelhos duros, macho tanto apreciava. tanto ansiava naquela visita
espessos, que ele a proibira íntima semanal. Quando o
de depilar. “Se um dia você Atirou-se na cama, nua, o celular sumiu por inteiro
aparecer aqui com esta corpo úmido marcando os dentro do seu esconderijo,
buceta raspada, tu morre”, lençóis, desenhando em sua ela suspirou aliviada e foi
ameaçou-a inúmeras vezes. superfície um bem pouco se vestir.
Ela até pensou em fazer santo sudário. Na cabeceira,
uma depilação artística um tubo do seu lubrificante Só não contava em se
para agradá-lo, esculpindo predileto. Deitada de costas, tornar notícia em todos os
na penugem negra um co- pernas abertas, besuntou meios de comunicação do
raçãozinho ou mesmo uma a cona enquanto pensava país. Até no estrangeiro
fruta que seu amado apre- se deveria dar prossegui- ouvi-se falar dela, pois se
ciasse, mas, ordens eram mento ao que seu homem esquecera de desligar o apa-
ordens e não convinha a tanto queria. Amava-o sem relho. Os guardas do presí-
ela discutir. sombra de dúvidas, con- dio, atônitos, deram voz de
tudo, aquilo lhe parecia prisão àquela mulher ves-
Saiu do banho e dirigiu- uma insanidade. Mas era o tida como se estivesse indo
se para o quarto se enxu- desejo dele e ela, escrava da ao um templo evangélico
gando. Mirou-se no espelho, paixão, não tinha o direito quando, durante a revista,
contemplando aquilo que de lhe negar. ouviram sua vulva tocar a
a natureza fora com ela nona sinfonia de Beethoven.

O lugar onde http://www.flickr.com/photos/hidden_treasure/2474163220/sizes/l/

a boa Literatura
é fabricada

ficina
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Contos

Marcinha se revolta
Pedro Faria

58 SAMIZDAT fevereiro de 2009


58
“Ele vai ver, aquele viado” - Shhhh, calma – diz sinal de que César goza-
-, pensa Marcinha, enquan- ela, sussurrando com uma ria, ela enfia o cacete dele
to sai do quarto de hóspe- voz sensual. – Deixa eu te bem fundo, recebendo em
des da casa do namorado, ajudar. sua boca toda a porra do
à meia noite. Ela tinha tido César, sem saber o que irmãozinho de seu namo-
todo o trabalho de treinar fazer, não diz nada enquan- rado.
maneiras de fazer strip- to Marcinha se aproxima. Exausto e satisfeito, César
tease, e o babaca do Lúcio se solta em sua cadeira.
lhe chamara de puta quan- Ela se ajoelha diante
dele, olha para a tela do Marcinha olha para cima,
do ela lhe mostrara! Mas bem nos olhos dele, sor-
agora ela, que tinha passado computador. No vídeo, uma
morena sensual pagava um ri um perfeito sorriso de
esse fim de semana na casa puta, dá um beijinho e uma
do namorado dormindo no boquete a um jovem, que
aparentava ter a idade dele. lambida na cabeça do ca-
quarto dos hóspedes e se ralho dele, se levanta e sai,
enfiando na cama de Lúcio - Gosta disso? fechando a porta atrás de si.
para trepadas noturnas, Ele assente, ainda calado.
sabia como se vingar. Ela vai até a cozinha se
Ela agarra o pau dele, que preparar para a segunda
Caminhou silenciosa- mesmo com a situação se parte de seu plano.
mente pelo corredor do mantinha duro, e começa a
segundo andar, onde ficava Saindo da cozinha ela
massageá-lo. vai até o quarto dos pais de
seu quarto, e chegou até
o quarto de Lúcio. Olhou - Humm, que pau grosso! Lúcio. Ela sabia que seu José
muito bem para a porta, Deve ter um gosto ótimo. e dona Sônia estavam tendo
proferiu alguns insultos, e Ela passa a língua, da problemas, e dormiam em
avançou para a porta se- base até a cabeça. César camas separadas. Ela vaga-
guinte. Para o quarto de treme de prazer. rosamente abre a porta do
César, irmão caçula de quarto deles.
- Sim, ele realmente é
Lúcio, que tinha 18 anos, muito bom! Lá dentro, seu José dor-
dois a menos do que ela e mia na cama mais próxima
três a menos do que seu Ela faz então um boquete da porta. Marcinha nota
namorado. sensacional, se esforçando que ele dormia apenas de
como nunca tinha se esfor- cueca. Ela se aproxima dele,
Ela abre a porta, e para çado. Ela lambe a cabeça,
sua surpresa, César estava olha para a outra cama
faz sucção, lambe o saco para garantir que dona
acordado, se masturbando enquanto masturba o pau.
vendo vídeos de sacanagem Sônia ainda dormia. Então,
Num certo momento ela ela se deita ao lado de José,
na internet.
http://www.flickr.com/photos/25960000@N05/2675393523/sizes/l/

tira a camisa e esfrega os beijando seu pescoço e aca-


Ao ver Marcinha para- seios no pau dele, abaixan- riciando seu pau por cima
da na porta, César quase do sua cabeça e lambendo da cueca. Ele acorda assus-
arranca o próprio pau do a dele. Chupava como se tado, mas Marcinha olha
corpo. aquele fosse o último cara- em seus olhos e lhe faz um
- Márcia, o que, eu, espe- lho do mundo, e ela estives- sinal para ficar calado. Ele
ra... – Ele balbuciava coisas se o homenageando. César assente.
sem sentido, obviamente nesse ponto já agarrava
a cabeça dele, forçando-a Ela então tira sua calci-
assustado e constrangido. nha e fica por cima dele.
contra si, fazendo seu pau
Por sua vez, Marcinha alcançar a garganta. Marci- Ela se agacha, tira o pau
sorri, ao ver que não teria nha aceitava, e gemia a cada dele de dentro da cueca
metade do trabalho que movimento de sua língua e começa a masturbá-lo.
pensava que teria. experiente. Ao primeiro Quando ele fica duro, ela

www.revistaamizdat.com 59
o passa na entrada de sua gança, ela põe o objeto no Ela olha para ele satisfei-
boceta molhadinha, e fica chão e entra no quarto. ta, lhe dá a já tradicional
o esfregando contra seu Hipnotizada pelo tama- lambidinha na cabeça do
clitóris. José ensaia um nho do caralho do velho, ela caralho, e sai. Bernardo vol-
gemido, mas ela diz a ele tira sua cueca e começa a ta rapidamente a dormir.
para não gemer, porque chupá-lo, não acreditando No corredor, ela pega o
senão sua esposa acordaria. como uma pica podia ter objeto que carregava, um
Ele concorda, e aproveita aquele tamanho. Ela tenta copo, e vai até o quarto de
silenciosamente. Quase não enfiar o cacete o máximo Lúcio.
consegue manter seu silên- possível dentro de sua boca,
cio quando Marcinha senta Entrando, ela acende a
mas só consegue até um luz. Ele acorda assustado,
completamente sobre ele, pouco mais da metade. O
fazendo seu caralho ir bem e vê Marcinha na porta,
velho acorda, e vê a moça segurando um copo cheio
fundo naqueva rachinha lhe chupando.
apertada dela. Ela sobe e até a metade de um líquido
desce lentamente, lamben- - Eu sabia que você era branco.
do e mordendo seus lábios. uma putinha. Pode chupar, - Vê isso, seu viado? –,
Ela pega as mãos dele e as lambe essa pica, sua pira- diz ela, tentando manter a
coloca em seus seios, já fora nha. voz baixa para não acordar
da camisa. Acelerando o Excitada pelas palavras a casa toda. – Eu dei pro
ritmo, ela acha que não vai de Bernardo, ela chupa com seu irmão, pro seu pai e
conseguir não gemer, mas mais força e mais vontade. pro seu avô. Só queria te di-
se segura. Depois de alguns Passados alguns minutos, zer isso antes de ir embora,
minutos de cavalgada, ela se ele a pega, a vira de costas, seu corno moralista!
levanta e abocanha o pau arranca sua calcinha e enfia Ela então bebe o copo
dele, sentindo o gosto de de uma vez só seu pau na cheio com a porra de três
sua boceta, chupando com bucetinha dela. Ela solta gerações, bate a porta, e vai
voracidade, até ele rapida- um gemido um pouco mais embora, enquanto Lúcio,
mente gozar em sua boca. alto, mas não se importava. mais dormindo do que
Como fizera com seu filho Estava bom demais. O velho acordado, murmura insul-
mais novo, ela sorri para enfiava sem dó, ela achava tos antes do sono lhe arre-
José, e dá um beijinho na que seria rasgada ao meio. batar novamente e lhe dar
cabeça de seu pau, antes de E enquanto o fazia, a xinga- mais algumas horas de paz,
se levantar e sair. va de piranha, de puta, de até acordar e perceber que
De novo ela vai até a co- vadia, de boqueteira. E tudo aquilo não tinha sido um
zinha para se recompor. isso apenas a excitava mais. pesadelo.
Voltando para o quarto Vendo que iria gozar, Não tinha como ser.
de Lúcio com um objeto Bernardo a tira daquela po-
sição e lhe dá seu pau para O copo sujo de gozo fi-
na mão, ela passa por uma cara sobre sua escrivaninha.
porta aberta. Olhando em ela chupar.
seu interior, ela vê Bernardo, - Chupa! Eu quero gozar
o pai de dona Sônia, um se- na sua boca agora. Rio de Janeiro
nhor de 65 anos, dormindo Ela aceita, depois de Janeiro de 2008
de barriga para cima. Ela se ter gozado três vezes com
impressiona com o volume aquela pica dentro dela.
em sua cueca: Era maior
do que o de Lúcio, César e Ela chupa, e ele goza ra-
seu José. Notando que tinha pidamente em sua boca, um
mais uma chance de vin- volume enorme de porra.

60 SAMIZDAT fevereiro de 2009


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Contos

Marcia Szajnbok

ECDISE
62 SAMIZDAT fevereiro de 2009
62
Abriu os olhos e ini- passos. Divertia-se em a moça, rindo. Como
ciou a contagem regres- fechar os olhos em al- jamais falava com estra-
siva: 30, 29, 28... Quando guns trechos do caminho nhos, apenas dirigiu a ela
pensou – “zero!” – o des- e, apenas pelo controle um olhar interrogador:
pertador tocou. Sorriu, numérico, adivinhar onde está rindo do quê? E ela,
orgulhoso da própria estava. “Bingo!”, festejava que falava muito, e sem-
precisão. Tomou a agen- consigo mesmo sempre pre, até mesmo quando
da, já aberta na data que acertava. E acertava não tinha interlocutor, foi
correta sobre o criado- sempre. Por isso, aquela respondendo à questão
mudo, marcou a lápis manhã de quarta-feira foi não proferida:
um pontinho e, no canto um verdadeiro divisor de
da página, contabilizou águas em sua vida mate- - Machucou? A gente
1567: um mil e quinhen- maticamente controlada. tem que tomar cuidado.
tos e sessenta e sete dias Nesta cidade todo dia
- há quase cinco anos, Após atravessar a aparece um buraco novo,
seu relógio biológico avenida, deveria seguir ou um poste, ou um
mantinha-se absoluta- 44 passos e então virar à muro. Outro dia, eu esta-
mente exato! direita. Decidiu fazer ali va indo para casa e...
a brincadeira dos olhos
Sem acender as luzes, fechados. Foi seguindo, Sem conseguir pres-
pegou roupas limpas. firme e convicto, 43, 44... tar atenção a tudo o que
A monotonia dispensa- e bateu de cara num obs- ela dizia, foi se deixando
va iluminação: todas as táculo! Demorou alguns levar apenas pelo tom
camisas eram brancas, to- segundos para compre- de sua voz melodiosa e
das as cuecas cor da pele, ender que aquilo era alegre. Era uma moça
as calças e as meias eram um tapume. Surgido da bonita, morena, esguia,
pretas, sem detalhes. O noite para o dia, fecha- os olhos transbordavam
café da manhã tampouco va o acesso à rua onde expressão.
comportava surpresas. trabalhava. Destacado
http://www.flickr.com/photos/homingpigeon/321872954/sizes/l/

- Você vai ficar aí pa-


A mesa já ficava sempre do fundo roxo e preto, o
rado? Vem, vamos tomar
pronta na noite anterior, aviso amarelo ordenava
um café.
a torradeira a postos, “Desvio”, a seta autoritária
café-com-leite, pão e apontando para a esquer-
E ele foi. Sem contar os
manteiga. da.
passos, sem saber exata-
mente para onde, deixou-
O percurso de casa ao Atônito, não se movia.
se ir com ela. As palavras
trabalho era sempre feito Estava ali, mergulhado
lhe escapavam. O que o
a pé. Da porta do apar- no próprio desamparo,
mantinha como que hip-
tamento ao elevador do quando ouviu a risada.
notizado eram os movi-
prédio de escritórios, 648 Bem a seu lado estava

www.revistaamizdat.com 63
mentos. Ela andava gin- desmaiar. Uma espécie de todos os desafios que lhe
gando o quadril, movia as formigamento percorria- haviam proposto, a pon-
mãos enfatizando as fra- lhe todo o corpo. Tentava tualidade levada germani-
ses, arregalava os olhos, se concentrar: não perca camente a sério. Nenhum
jogava o cabelo para trás o controle, não perca o amigo íntimo demais,
com um movimento controle... O estômago não se pode confiar mui-
serpenteante do pesco- se contorcia, o mundo to nas pessoas. Nenhum
ço. Estava impressionado todo girava. Não con- enamoramento, a paixão
com aquele corpo – tudo seguiu evitar. O vômito nos desvia do bom equi-
nele comunicava. veio num jato. Sujou os líbrio. Nenhuma explosão
próprios sapatos, o bal- de ira, a violência nos
No balcão da padaria, cão da padaria, os pés da aproxima dos seres irra-
ela pediu: dois cafés. Pu- moça. Todos os olhares, cionais. Nunca passara
ros? Sim, puros. E ele ape- enojados, reprovavam-lhe por uma situação como
nas assistiu à cena, esque- severamente aquele ato. aquela. De fato, nunca
cido por um momento Tinha ganas de gritar, passara por situação
de que, até então, sempre de justificar, de explicar nenhuma. E agora, toda a
pedia um pingado. Sabo- que não fizera aquilo assepsia da vida parecia
reou o amargo da bebida de propósito, que sentia ter ido por água abaixo,
quente, e o cheiro que muito, que nunca passara mergulhada no mais pro-
subia da xícara misturou- por uma situação como saico dos produtos que
se ao perfume da moça e aquela... um corpo humano pode
ao aroma de pão recém produzir.
assado. Nunca passara por
uma situação como aque- Foi, novamente, o riso
Talvez tenha sido o la. Esse pensamento re- da moça que o acudiu.
excesso de cafeína e de verberava Via-se menino
olfato, talvez o exagero de comportado, adolescente - Ressaca em plena
expressividade que ema- contido, adulto regrado. quarta-feira? Mal, hein?!
nava daquela moça, ou Sempre tivera o esmero
o burburinho emocional Conduzido por ela,
de manter tudo em or-
que o invadia naquela entrou no cubículo es-
dem, a casa, o armário, os
manhã atípica. O mal- curo e malcheiroso que
estudos, a vida. E agora,
estar surgiu de repente. era o banheiro da pa-
isto! De que adiantara
Começou a suar frio, daria. Havia apenas o
tanto esforço? Para que
esfregava as mãos pro- vaso sanitário e uma pia
servira ter aberto mão de
curando a porta com o minúscula, sem sabonete,
tanta coisa? Dietas balan-
olhar. Tinha ímpetos de papel higiênico ou toa-
ceadas mesmo diante do
sair correndo, mas acha- lhas. Abriu ao máximo a
sorvete mais apetitoso,
va que, se levantasse, iria torneira, esperando um
a recusa automática a

64 SAMIZDAT fevereiro de 2009


64
jato de onde só saía um improviso, em pé, como atrasado para o trabalho,
filete de água. Precisa- bichos. Pareciam se co- e que nunca antes havia
va apenas lavar a boca, nhecer de longa data, faltado a nenhum com-
mas tinha necessidade tanto que os gestos se promisso profissional. No
de limpar-se por inteiro. entendiam. Não havia céu azul, nenhuma nu-
Começou pelo rosto e lugar para palavras. Ape- vem. Deixou-se ir, anô-
cabelo. Depois, tirou a nas movimentos, toques, nimo no meio da turba,
camisa e jogou água fria sensações. Ao final, ainda sem saber exatamente
no peito. Mecanicamente, ficaram ali abraçados, para onde os passos o
foi se despindo por com- conectados um ao outro, levariam. Viu-se refletido
pleto, molhando todo o em silêncio, tentando, na vitrine de uma loja.
corpo. Comprazia-se da cada um, reter no pró- Diante da estranha sen-
sensação provocada pela prio corpo a memória do sação de reconhecimento
água escorrendo sobre a gozo do outro. e perplexidade, sentiu
pele. Aquela limpeza sem vontade de rir. De início,
sabão lembrava mais um Foi ela, novamente, que até procurou conter-se,
batismo que um banho. pôs a vida em marcha. mas depois deixou o riso
Tremia, um pouco de vir. Veio tímido, depois
- Melhor você se re-
frio, um pouco não sabia foi crescendo, explodiu
compor. Quase num mo-
do quê. numa crise de gargalha-
vimento único, vestiu-se,
das, daquelas que fazem
Do lado de fora, a beijou-lhe de leve o rosto,
os olhos se encherem
moça se impacientava. e saiu.
de lágrimas. Os passan-
Bateu e, sem esperar tes olhavam, curiosos, e
Menos de cinco mi-
resposta, entreabriu a quanto mais se via obser-
nutos depois, também
porta. Quando deu com vado, mais gargalhava. O
ele retornava ao mun-
o homem nu, arrega- dia estava lindo. Queria
do real. Não deu muita
lou um pouco os olhos, caminhar. Estava livre,
importância aos risinhos
sorriu maliciosamente e naquele instante lhe
de canto e aos olhares
e entrou. Antes que ele bastava isso: caminhar e
divertidos que trocavam
tivesse tempo de dizer sentir o calor do sol.
os funcionários da pa-
ou fazer qualquer coisa, a
daria. Procurou-a junto
moça já havia levantado
ao balcão, na calçada, do
a saia, tirado as roupas de
outro lado da rua. Nada.
baixo, e se pendurado em
Desaparecera no meio da
seu pescoço, enlaçando-o
correnteza humana que
com as pernas pelo qua-
se deslocava pela aveni-
dril. A cena insólita era
da no meio da manhã.
bonita: um casal jovem,
Pensou que estava bem
amando-se assim, de

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Contos

Dona Sonia
e o ponto G
Giselle Natsu Sato Finalmente descobri o melhor, ou pior, amargo
mundo da internet. De- uma sede de quase dez
pois de ter presenteado anos. Fogo eu sempre
todos os netos, comprei tive, mas a família deci-
um laptop bem boniti- diu que estou idosa e não
nho e cheio de recursos. posso mais ter desejo.
Li por acaso os casos Minha vida agora são
quentes que acontecem filhos, netos e toda a cha-
on-line e queria experi- tice que abomino. Não
mentar. Apesar de não suporto novelas e não sei
ser uma mocinha, sou tricotar.
bem fogosa. Desde que o
falecido partiu desta para Em um site bobo de

66 SAMIZDAT fevereiro de 2009


66
encontros, vi a chance no lucro. Aceitei muitos podia fazer isto e ele de-
de sair da rotina e satis- novos amigos e a coisa sistiu. A esta altura, eu já
fazer a curiosidade. Meu ficou tão boa que teve estava teclando com meu
interesse foi crescendo, até uma mulher interes- paquera virtual, falando
conforme as conversas sada. Não descartei qual- obscenidades e me mas-
aconteciam. Muitos eram quer hipótese. Sou muito turbando loucamente:
inteligentes, educados e curiosa.
interessantes. Mas sempre - Se estivesse aí, te fazia
puxavam papo sobre sexo O garoto de 25 anos gozar na minha boca. -
e a conversa terminava com cara de bebê entrou Ele ficava repetindo mil
quente. Assim que me na tela. Papo bobo, per- vezes as mesmas coisas e
identifiquei com alguns, guntas sem graça e fui comecei a fantasiar...
selecionei e comecei a obrigada a ajudar. Onze
e meia, sábado o que ele Se ele estivesse naquele
me soltar. Juro que era
queria com uma senhora? instante comigo, deitados
apenas uma brincadeira
Falar sobre o tempo.... O no tapete macio, meia luz
sem maiores pretensões.
menino era muito tími- e o ar impregnado de
Mas não posso negar que
do, em meia hora estava tesão. O que eu não faria
se transformou em um
http://www.flickr.com/photos/gianita/21707279/sizes/o/

pelado diante da câmera, com aquele homem! Via-


vício.
falando as maiores barba- jei na voz macia e podia
Cheguei correndo das ridades. Assisti tudo até a sentir o gosto daquela
compras e fui ver quem última gotinha. Logo em pele suada. O cheiro dele
estava on-line. Não estava seguida, o show termi- eu sabia, acabei com-
muito cheio, normalmen- nou sem nem boa noite. prando o perfume que
te as coisas acontecem de Excluí o mal educado. ele garantiu usar. Meu
madrugada. Em compen- O segundo amiguinho peito quase explodia em
sação, mal entrei começa- da noite era o solitário uma dor urgente. Olhos
ram a chamadas... Depois carente aproveitando o grudados na tela do PC,
do perfil que criei, era sono da esposa. Também estremeci de prazer e
só sentar e ficar esperan- queria exibir os dotes. O gozamos juntos. Ele saiu
do os peixes comerem a recurso de câmera ficou imediatamente e eu fiquei
isca. Primeiro, roubei as claro no meu apelido: ‘’off ‘’alguns segundos. Este
fotos da minha filha mais Soninha webcam. Mais era especial, quase diário,
nova usando um biquíni explícito impossível. sentia como se fosse um
mínimo. Coisa antiga de compromisso. Sempre es-
dez anos atrás e dei uns O mal casado tinha perava por ele e quando
retoques. Em seguida, problemas visíveis de não aparecia ficava um
menti a idade descarada- dimensões mínimas. pouco triste. Nunca vou
mente, dos maus vividos Pediu que eu ligasse mi- ver pessoalmente qual-
cinqüenta e oito anos, nha câmera e mostrasse quer um deles e não me
descontei vinte e fiquei os seios. Claro que não incomodo nem um pou-

www.revistaamizdat.com 67
co. Nos meus sonhos, eles luzes e direcionei o foco Ele ia mandando e eu
criam vida e são amantes para a parte inferior do obedecia sem o menor
perfeitos. corpo. Era minha primei- pudor. O anonimato ga-
ra vez e estava excitadís- rantia a coragem de me
Uma e meia da manhã sima. Agradeci o hábito expor e partilhar com
recebi um e-mail deli- da depilação mensal. o desconhecido meus
cioso de um coleguinha, Ele elogiou e pediu que desejos. Os dedos entra-
várias fotos dele, nu, em eu focalizasse bem cada vam e saíam, apertavam
poses variadas. Engraça- detalhe. Não sei o que ele e buscavam pontos que
do como as pessoas são conseguia enxergar com ele dizia conhecer bem.
loucas enviando fotogra- a luz tão baixa, mas ele Foi quando toquei pela
fias e falando toda a vida. estava animado. Os dedos primeira vez o pedacinho
Logo em seguida, come- deslizaram para o meio de carne, logo na entrada
cei a conversar com um das pernas e deixei que da vagina, tateando senti
homem com o apelido ele ditasse as regras: a pele mais áspera que
de Carinhoso e Sedutor. o normal. Ali friccionei
Ele tinha um papo envol- - Quero que toque de e senti um prazer agudo
vente, conversamos um leve, só por cima... As- e doloroso. As solas dos
pouco sem falar sobre sim, sem pressa, agora pés queimavam e a sen-
sexo. Ele queria que eu vai usar só um dedinho e sação forte subia pelas
participasse, disse que a roçar o grelinho. Aumen- pernas. Senti que era uma
câmera estava quebrada e ta a luz um pouquinho, agonia sem fim aquele
ele insistiu: meu amor? toque. Foi tão súbito e in-
tenso que me desmanchei
- Se não quiser mostrar Pronto, aquele homem em gemidos altos. Já nem
o rosto, fique à vontade. lindo me chamando de olhava a tela e pouco me
Mas é bem melhor a dois, “meu amor”, desmontou importava o que ele fazia.
minha linda. a resistência. Joguei a luz Precisa gozar ou mor-
quase em iluminação reria. O orgasmo mais
- Eu gosto de olhar, é ginecológica e esperei. Já incrível chegou sofrido e
uma opção pessoal não sentia a umidade natural pouco a pouco, cresceu e
me exibir. aumentar só pensando no me engoliu. Perdi o fôle-
que viria:
- Se você se satisfaz go completamente entre-
desta forma, não está gue...
- Linda, minha flor
mais aqui quem falou. branquinha e delicada. Totalmente mole e
Ok? Eu apenas sugeri, Quase sem pelos e do satisfeita, vi que meu
mas a decisão é sua, meu jeito que eu gosto. Agora
parceiro também estava
amor. vamos brincar um pou- se recompondo. Fiquei
quinho. Vou pedir e você
Não sei o que deu na imaginando porque um
acompanha, pode ser?
minha cabeça, diminuí as homem tão bonito usava

68 SAMIZDAT fevereiro de 2009


68
a internet: ganda bem direta e sem
Henry Alfred Bugalho
disfarces. Divulgo meus A
GUI
Nova York
- Oi, meu lindo, não dotes no amor. Mostro
consegui te dar muita meu jeito e acho que dá
atenção. certo.

- Que isso? Soninha, - Muito esperto o mo-


para Mãos-de-VAca
você foi maravilhosa, fi- cinho. Até me interessei,
quei excitado só te ouvin- mas não sou exatamente... O Guia do Viajante Inteligente
do gozar. www.maosdevaca.com
- Já imaginava, Soni-
- Posso te fazer uma nha, e não tem a menor
pergunta? Acho que não importância. Vou mandar
devo ser a primeira, mas... meus contatos. Não deixe
de ligar. Beijos, querida,
- Olha, querida, você preciso dormir e você
está curiosa sobre a mi- também. Boa noite, linda!
nha aparência e vou ser
bem direto. Sou acompa- Fiquei um bom tempo
nhante e não gosto de ser olhando os números na
chamado de garoto de tela. Lentamente peguei a
programa. Minhas clien- agenda e anotei. Defini-
tes são bem selecionadas tivamente, era um caso a
e a coisa acontece de ou- se pensar com carinho.
tra maneira. Tenho nível Sair do virtual e cair na
superior, fiquei desem- real parecia uma propos-
pregado e descobri que ta irresistível. Além do
posso ganhar bem mais mais, ele era um profis-
desta forma. sional e eu já tinha ex-
perimentado a amostra
- Nossa! Tudo assim de grátis. Suspirei profunda-
supetão me pegou des- mente e pensei em linge-
prevenida. Você parece ries e quartos de motel.
um homem interessante. Nem sabia mais como
Infelizmente, continuo era isso... Bendita internet!
não entendo as razões do
que aconteceu agora.

- Normalmente a gran-
de maioria que gosta
deste recurso são pessoas
solitárias. É minha propa-

www.revistaamizdat.com 69
Autor Convidado

No Elevador Mariana Valle

Mariana Valle Era um belo dia de isso, ao entrar no eleva-


Escrevendo desde os 12 anos, verão. Daqueles que só a dor, mirou-se no espelho
essa carioca frequentou oficina cidade maravilhosa sabe a fim de dar os últimos
literária e traduziu sua adolescên-
cia em poesia, mas, ao entrar no produzir. Com o corpo retoques na aparência.
mercado de trabalho, abandonou fervendo sob o compor- Como acontece com to-
a escrita. Foi apenas em 2007, aos tado tailleur de marca, das as mulheres quando
33 anos, quando largou o empre-
ardia no peito de Daniela se olham no tal vidrinho
go como jornalista da TV Globo,
que Mariana se reencontrou com uma vontade irresistí- refletor, Daniela esqueceu
a literatura e lançou o blog www. vel de andar nua. Mas, do mundo à sua volta.
marianavalle.com, com seus po- embora sonhasse com Aliás, esqueceu até do
emas, contos, artigos e crônicas,
como a irônica série “Sorria, você
uma praia, ela estava motivo que a tinha leva-
está na Barra”, que dá nome a seu indo para o trabalho. E do ao elevador: ir para
primeiro livro, lançado em 2008. pra variar, atrasada. Por a garagem para pegar o

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carro. Por isso, Dani não çar o vizinho e ainda por Os dois corpos escor-
apertou sequer um bo- cima no elevador! regaram para o chão, ele
tão, mas mesmo assim, o por baixo, ela por cima, e
elevador pôs-se a descer. Fingindo inocência, assim, encaixados, dan-
E parou no quarto andar. afinal de contas um fingi- çaram num ritmo que
mento de vez em quando começou como o balanço
Gabriel, o vizinho não faz mal a ninguém, de um barco flutuando
boa vida que insiste em ela lançou um “O que por ondas calmas. Pouco
mostrar os músculos houve?”. O vizinho res- a pouco, a maré foi se
peitorais e abdominais pondeu com um beijo tornando violenta e, num
muito bem esculpidos no tão ardente que Daniela instante, já lembrava um
seu traje informal, short tinha a impressão de mar revolto pela tem-
e chinelo, entrou e deu estar queimando nos pestade. As ondas iam e
um sorriso acompanha- caldeirões do inferno, não vinham de tal maneira
do de um “bom-dia”. Ela, fosse aquele beijo o ato intensas que Daniela es-
com tal visão do paraíso, mais divino que experi- tava prestes a explodir de
lembrou-se do inferno de mentara. prazer num grito.
http://www.flickr.com/photos/funky64/3073123339/sizes/l/

dia que a esperava: muito


trabalho, broncas do che- A essa altura, já não - AAAAAHHHHHHH!
fe, aquela reunião maçan- era mais possível fingir
te com o cliente mala... surpresa ou consterna- - Calma - responde
Melhor nem lembrar! ção e ela deslizou as o vizinho - apertei sem
Daniela então esticou o mãos por aquela barriga querer o botão de emer-
braço para apertar o 3G, de tanquinho e parou gência, mas consegui
mas levou um baita susto com os dedos na borda matar a barata. Viu? Esta-
ao ser interrompida por superior do short. Foi mos são e salvos, e assim
aqueles músculos mo- beijando centímetro por você não vai se atrasar
renos. Gabriel apertava centímetro daquela pele, para o trabalho. Tenha
o botão de emergência, desde o pescoço até o um bom dia!
aquele botão que a gente short, que rapidamente
sempre sonhou apertar foi tirado com as afoi- Daniela demorou
um dia para ver como é. tas mãos de Daniela. O alguns segundos para
membro de Gabriel esta- se recompor e, quando
Esta era a sua oportu- va totalmente ereto e ela conseguiu encarar a ba-
nidade. Daniela sempre não via a hora de senti-lo rata morta no chão, uma
suspirou ao ver aquele dentro de si. O vizinho, lágrima escorreu len-
vizinho e sempre teve por sua vez, resolveu tamente pelo seu rosto.
curiosidade em saber despi-la com a pressa de Ela não chorava a morte
como seria transar no um faminto que come do bicho e sim porque
elevador. Ela só não podia um banquete após dias ali morria talvez a única
imaginar que iria unir de jejum. oportunidade de realizar
dois desejos num só: tra- seu desejo.

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Autor Convidado

Leo Borges

O Jardim dos
Amantes
72 SAMIZDAT fevereiro de 2009
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Eu lembro de meus oito ços, um véu no rosto. Seus Então, numa certa tarde em
anos, quando vi pela pri- trajes reluziam quase tanto que ela estava conversando
meira vez Samira, a vizinha quanto sua pele, mas mui- com minha mãe, paradas
de frente. Ela tinha o triplo to menos que seus olhos. perto do jardim onde co-
da minha idade, era casada, Nessas horas eu fazia o jogo lhia as flores, eu corri para
feições árabes; não era só das pétalas com alguns perto e disse, todo anima-
linda, era encantadora. De crisântemos vagabundos do: “Samira, eu também sou
noite eu ficava admirando que eu pegara no jardim. O seu amante!”.
pela janela aquela magnífi- bem-me-quer vencia sem-
ca mulher, buscando ângu- pre, mostrando o presságio - Que amante o que,
los para melhor admirá-la. tão natural quanto a vivaci- moleque! – gritou feroz-
Pra mim ela era a fada dade daquela dança. mente minha mãe. Não sei
das histórias infantis que como o safanão que ela me
tomou vida, uma entidade Minha mãe era mulher deu não desgrudou minha
que abençoava a todos com religiosa, mas não se im- cabeça do meu pescoço.
seu charme, beleza, carisma. portava com meu ingênuo Rodopiei zonzo. Ao reco-
Quando voltava da escola “namoro” com Samira. Até brar o equilíbrio, chorando,
eu passava no jardim pró- que certo dia ouvi uma vi Samira me defenden-
ximo à sua casa, arrancava conversa dela com uma do, brigando com minha
uma flor e parava à porta outra vizinha em que ela própria mãe, dizendo que
da minha rainha para ofe- falava da minha Sam. O ela nunca poderia ter me
recer-lhe, como uma ino- som daquele nome des- batido daquele jeito. Corri
cente oferenda de um guri pertou minha atenção e pra casa, pro quarto, pra
apaixonado. Muitas vezes parei escondido para tentar debaixo da cama, perdido
o marido atendia e achava entender melhor. Minha em meu mundo que, defini-
graça naquilo. Chamava mãe falou que Samira tinha tivamente, não tinha nada
Samira e mostrava a cena. um amante. Eu ri baixinho a ver com o mundo adul-
Eu ficava vermelho, mas e achei engraçado, porque to. Mas o fato de Samira
não perdia a oportunidade na verdade ela não tinha ter me defendido de uma
http://www.flickr.com/photos/pipdiddly/119482772/sizes/l/in/set-72057594102936305/

de receber um beijinho na ‘um’ amante. Ela tinha ‘vá- possível injustiça fez minha
testa da minha dançarina. rios’. Pelo menos na minha admiração por ela crescer
Sim, dançarina. Por vezes lógica de menino eu pensei e a dor serenar. A partir
a via dançando um rit- assim, achando ingenua- daquele momento eu tive
mo que, muito depois fui mente que a palavra aman- certeza de que ela era, de
saber, se chamava ‘dança te tinha a ver com a pala- verdade, minha amante.
do ventre’ para seu marido. vra amor, ou seja, coisa boa.
Muitos poderiam achar Ora, como Samira era uma Dez anos se passaram.
que ele era sortudo por ter pessoa querida por todos Durante esse tempo, mi-
aquela dádiva em casa, mas ali, todos eram, conseqüen- nha mãe deixou de falar
eu, mais que qualquer ou- temente, seus amantes! Saí com Samira, de convidá-la
tro, tinha a certeza de que alegre acreditando firme- para meus aniversários. Ela
ela dançava para mim. Do mente que eu também era não fez mal nenhum para
cárcere do meu quarto, via amante de Samira. Nesse Samira, mas fez mal para
seu corpo ondulando, orna- dia eu fiquei feliz, mais fe- mim. Não pude mais entre-
do com adereços nos bra- liz que em todos os outros. gar minhas flores para ela

www.revistaamizdat.com 73
e nem enamorá-la pela ja- vidro do carona descendo. em que apareceu para me
nela. Que mundo estranho Era Samira. buscar um vendedor ambu-
o dos adultos! Tempo de in- lante de flores que passava
congruências onde “amante” - Entra! – ela disse. por perto percebeu e man-
significa “ódio” e “amor” um dou: “não vai levar flores
sentimento proibido, re- Meu coração bateu forte pra sua amada?”. Eu ri da
chaçado com violência, aos ao vê-la. Ela estava linda situação e comprei dele
cascudos e pontapés. como sempre num vestido aquilo que sempre havia
branco que realçava sua dado pra ela. Quando en-
Com dezesseis comecei pele morena. Perguntou trei no carro ela levou um
a namorar uma menina algumas coisas e fui res- susto, mas vi que adorara
da minha idade. Aqueles pondendo, alegre por estar a surpresa. O relógio mar-
namoros de mãos dadas, perto dela. Indagou se mi- cava pouco mais de seis da
igreja aos domingos, cine- nha mãe estava mais calma. tarde.
ma às vezes. Famílias con- Perguntou por minha noiva,
servadoras, devotas. Aos de- o que me deixou ansioso. - Vamos por um outro
zoito, ficamos noivos. Não caminho hoje. O trânsito
era o que eu queria, mas - Nunca mais recebi por aqui está muito ruim –
era muito mais conveniente flores suas – brincou, des- disse.
para todos. Eu não gostava contraindo.
de Suellen, a minha noiva. Eu não sabia que existia
Eu saía com ela, mas não a Fiquei sabendo que o outro caminho. O atalho
conhecia, não tinha intimi- trajeto que ela fazia para pareceu longo demais, até
dade sequer para ofertar- voltar do trabalho passava que percebi que na verda-
lhe uma margarida vadia. pelo meu. Então, as caro- de ele não existia. Fiquei
Seria até traição, pegar uma nas começaram a se tornar perplexo quando ela parou
flor do meu santuário e freqüentes. Ela me deixava o carro na entrada de um
dar para alguém que não dois quarteirões antes de motel. Eu não imaginava
fosse a minha Sam. Samira nossas casas para minha que aquilo fosse verdade.
continuava nossa vizinha mãe não ficar sabendo. Talvez fosse mais um outro
e, ainda que eu não levasse Minha mãe não mais me sonho dos tantos que eu já
mais flores para ela, era batia, mas qualquer apro- tivera com ela. Mas se fosse
essa, sim, a minha verdadei- ximação com Samira era realidade era uma realida-
ra mulher, não só dos meus visto como uma tentação de esquisita, porque, para
desejos, mas da minha diabólica. Tão ingênua a minha eterna angústia, ela
vida. Foi então, numa tarde minha mãe! Era Samira, era casada.
muito chuvosa em que eu na verdade, meu anjo da
estava voltando do traba- guarda e era impressio- - Avisei a ele que vou
lho na papelaria, que um nante como ela me passava chegar mais tarde. Depois
carro parou ao meu lado. vibrações boas, fluídos que você liga pra sua mãe e pra
Eu estava com a mochila traziam calma e ao mesmo sua noiva e dá uma descul-
sobre a cabeça tentando tempo amor. Eu gostava de pa. Você vai aprender que
me proteger inutilmente da estar perto dela, de conver- em sua vida íntima nin-
água que caía abundante- sar com ela, de saber sobre guém deve se meter, nem
mente do céu, quando vi o sua vida. Numa das vezes sua noiva, nem sua mãe,

74 SAMIZDAT fevereiro de 2009


74
nem sua futura esposa. Isso Como vizinha de frente ela mágica brincava comigo,
se chama liberdade. conhecia minha vida de tão dançarina quanto sua
garoto regrado pela mãe dona. A língua ficava giran-
Minha cabeça ficou dan- conservadora. do, massageando a glande
do voltas. Eu tinha vontade com uma suavidade místi-
de ter aquela mulher desde Ela disse para que eu ca. Não conseguia contem-
meus sete, oito anos de ida- não me assustasse, porque plar bem a face de Samira
de, desejos impossíveis de tudo o que iria acontecer porque seu cabelo impedia
um garoto que finalmente era para o nosso prazer. uma visão apurada, mas
se realizava. Coisa de difícil Ela tomou a iniciativa de isso não importava, pois
compreensão. Tentações, me abraçar. Pude sentir sua chupada já dizia tudo,
flores, traições, pecados. aquela cintura que por dez mostrava o que eu não
Liberdade. Suellen não anos viviam desfilando em podia enxergar. Durante
entenderia bem isso. “Bem minha frente, separada de alguns minutos ela mamou
vindo ao mundo adulto”, mim por uma rua e um devagar, sem pressa. Eu
pensei, nervoso enquanto jardim. Logo senti final- estava quase gozando quan-
seguia cadenciado os passos mente o sabor gostoso de do ela, experiente, parou,
de Samira até o quarto do sua boca enquanto suas pressentindo isso. Fomos
motel. mãos varriam minhas cos- para o centro da cama e
tas. Aquilo era uma loucu- ela tirou sua última peça
Meu coração batia forte, ra, sem dúvida! Mas uma de roupa. Ficamos vestidos
numa mistura de medo e loucura que eu não abriria apenas com nossas alianças,
ansiedade, vontade e repres- mão, não naquele instante. a dela na mão esquerda, e a
são. Nunca tinha estado em Sentei na cama, orienta- minha na direita.
um quarto daqueles e achei do por ela. O nervosismo
interessante toda aquela atrapalhava minha con- De forma instintiva,
sofisticação, a piscina com centração e, por isso, meu comecei a mamar seus
uma pequena cascata, o pau não estava totalmente peitos, que eram fartos, do
teto com iluminação escon- duro. Sam, vestida apenas tamanho ideal para meu
dida em penumbra. Mas o com uma fina calcinha azul deleite. Ouvi seus primeiros
melhor foi o jogo sensual turquesa, era a representa- gemidos quando passei mi-
que Samira fez ao se despir. ção máxima de meu desejo. nha mão por sua buceta já
Parecia dançar para mim a Senti um arrepio que per- bastante molhada, enquan-
tal dança do ventre que an- correu todo o meu corpo to minha boca descia por
tes eu era obrigado a com- quando ela tocou minha seu corpo, sem descolar,
partilhar com seu esposo. glande com seus lábios. visitando o umbigo deli-
Seus 34 anos se revelaram Não tardou para que meu cado. Mesmo nunca tendo
juvenis, talvez mantidos pau crescesse tudo o que tido um contato com uma
pela seiva das flores que eu podia dentro de sua boca. mulher daquela maneira,
lhe dava quase diariamente. Como era gostoso aquilo! O parecia que éramos aman-
máximo que Suellen fizera tes há muito tempo. Tudo
- Sou virgem – declarei. comigo foi uma punheta acontecia sem mancada,
batida rápida e sem direi- sem erro, sem interrupção.
- Eu imaginava – disse to a gozo na sala de casa. Os atos eram leves, encai-
ela sorrindo com olhos. E agora aquela boquinha xados, simples, necessários.

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Não demorou e eu esta- sobre minhas costas. Aquilo dentro de uma mulher foi
va passeando com minha fazia com que eu entrasse tão contagiante que acabei
língua nas adjacências de nela com mais vontade, perdendo a noção da situa-
sua virilha, maravilhado. sem receios nem hesitações. ção e pedindo ela infantil-
Mesmo de olhos fechados Minha mãe tinha razão! mente em casamento. Por
encontrei sua bucetinha Samira não era minha sorte ela demorou para se
pulsando interessada. O amante, era muito mais que recompor, para voltar ao
aroma lembrava o das isso. Seus gemidos se trans- normal e nem entendeu o
flores do jardim de nossa formaram em gritos rati- que eu disse. Ali nós éra-
rua, de nossas vidas. Lambia ficando seus sentimentos. mos mais que amantes,
aquela carne quente ouvin- Ela não mais mexia, dan- mais que cônjuges ou mais
do os gemidos de Samira, çava sob mim, rebolando, que namorados. Desisti
que soavam como canções, instigando, querendo tudo, do noivado com Suellen,
ruídos sem nexo que eram como uma puta totalmente arranjei um trabalho que
mais honestos que um “eu fora de si. Sua verve árabe me desse maior suporte
te amo”. Coloquei a língua era traduzida no gingado financeiro, de maneira que
para dentro, tirando rápi- de seu quadril, executando eu não dependesse tanto da
do. Não sei se fazia certo, uma dança do véu ou algo minha mãe. Mantenho o
mas o certo nessas horas é parecido. O pau entrava e caso com Sam até hoje. A
um acordo mudo entre os saía já com ardor, impreg- diferença de idade em nada
envolvidos. E nesse nosso nando o quarto com cheiro atrapalha e, sempre que
acordo não havia engano, de sexo, de carne, de alma possível, nos vemos, apesar
só certezas. entregue. Como era gos- de ela continuar casada. Por
toso comer aquela mulher, vezes pergunto a ela se va-
- Vem que você vai virar torná-la minha amante. Um mos continuar eternamente
homem comigo agora – sonho infantil que agora se juntos nessa vida nem tão
disse. realizava. secreta, mas certamente
incrível, no que ela sempre
Uma revolução que não - Mete que você é meu, responde:
daria para descrever acon- mete que você é meu – gri-
teceu dentro de mim quan- tava ela e eu acreditava - A eternidade sempre
do senti meu pau tocando mais do que nunca naquilo, acaba, mas a liberdade
sua buceta totalmente pois sentia que ela era mi- não. Essa só acaba quando
receptiva, tão úmida quanto nha também, e que sempre não houver mais flores no
feliz. Samira me abraçava havia sido. jardim.
com força ao tempo em
que jogava suas pernas por Meu primeiro gozo

Léo Borges nasceu em setembro de 1974, é carioca, servidor público e amante da literatura. Formado em
Comunicação Social pela FACHA - Faculdades Integradas Hélio Alonso, participou da antologia de crônicas
"Retratos Urbanos" em 2008 pela Editora Andross.

76 SAMIZDAT fevereiro de 2009


76
ficina

No mês de novembro, foi lançado o A­ udiobook com


­contos de membros da Oficina da E-TL.

O CD foi produzido por Alian Moroz.

Conteúdo

1 - "Vovô Caneco", de Alian Moroz

2 - "O Menino Binário", de Carlos Barros

3 - "Coleção de Botões", de Giselle Sato

4 - "Noite Estrelada", de Guilherme Rodrigues

5 - "A Vingança de Bento Julião", de Henry


­Alfred B
­ ugalho

6 - "Os Ratos", de Joaquim Bispo

7 - "Esmeralda, Jade e Rubi", de José Espírito


Santo

8 - "Fissuras Íntimas", de Leo Borges

9 - "A Palhinha", de Maria de Fátima Santos

10 - "A Última Revolta de Jesus Cristo", de


­Rogers Silva

11 - "Com Carinho, Isolda", de Volmar Camargo Junior

As faixas do audiobook podem ser baixadas


­gratuitamente no enredeço abaixo:

http://oficinaeditora.org/2008/11/29/audiobook-da-oficina/

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Autor Convidado

10 indrisos eróticos
Isidro Iturat

EL CIMBREO
El movimiento parte en espiral
de la concavidad entre omoplatos
cuando camina la hembra hipersensual.

Baja a la nalga y danza la cadera


como danza en Brasil o en Senegal,
y el macho, loco, mira y se exaspera.

Ya en el Edén un árbol movió así

su fruto, y Eva dijo a Adán: “Es pera...”.

Mis ojos ven el norte a través de tu nuca,


los tuyos otean sures, a través de la mía;
mi espalda son dos senos que incipientes despuntan;

cuatro pulmones se superponen, y ausculta


dos corazones que bombean en la misma
tórax y cuatro sierpes que en el vientre se acunan.

Llega mi sexo al norte, al sur el tuyo excita;

y el desplazarse es danza del aquí, y todo, y ultra.

78 SAMIZDAT fevereiro de 2009


78

Miguel A. Garcia
LEDA EN EL ESTANQUE
¡Ah, qué hermoso cisne!
¡Qué plumaje tiene!
¡Mira, viene, viene!...

¡Qué dócil, qué cálido,


qué suave, qué afable!
(y qué acariciable...).

¿Qué hace entre mis piernas?

¿Qué hace?... ¡qué!... ¡ah!...

CÓPULA POR UNA MANADA DE TOROS

Ella, decúbito supino, será penetrada


por el primero por detrás. El segundo instala
en el febril yoni la linga, que, erguida, demanda

dar placer. Boca en la tercera verga, y no separa


la lengua el tacto con el glande. Luego, ella ama
con ambas manos a otros dos sus dos cerbatanas...

La que conozca el arte oculto hallará el nirvana

(esta destreza se consigue sólo con la práctica).

Vestida eres la mujer decente,


ser de costumbres que cuida el hogar,
como era en el siglo precedente.

Desnuda eres bestia sorprendente,


de caderamen-río-serpear
por fuera, avis rara iridiscente,

y adentro ardor que hasta ahora no se vio.

Sin decir nada me miras, y yo...

www.revistaamizdat.com 79
MENAGE A T...
Justine se come la verga de Paul.
Morena, lleva la marca del sol
en los pezones, y en el caracol.

Justine recibe la verga de Etienne


en...”¡animal!” y “¡cabrón!” y... “¡qué bien!...”.
La cama es mar de saliva y semén.

Justine, la diva lasciva de Paul.

Justine, la perra sumisa de Etienne.

SUEÑO DE LA FLOR DE LOTO


Soñé: una mujer de color de azafrán.
Soñé a la mujer de las joyas de jade,
del loto danzante en el pubis de pan.

Me dijo: “El rocío que posa en mi flor


el sol lo calienta y se endulza de amor,
repite quien prueba de este licor”.

De pétalos rosas quedé embriagado...

aguardo sin sueño ya el nuevo sopor.

CICCIOLINA Y EL BOA CONSTRICTOR


Hoy el perro no, el burro tampoco,
¡hoy el boa, el boa, el boa constrictor!
(tiene fría la sangre, pero da calor).

¡Psss! ¡psss! ¡psss! ¡boa! ¡boa!... tu cola me gusta


pues conforme entra... aumenta el grosor
(tienes fría la sangre, pero das calor).

Y si me hipnotizas, y tu lengua bífida

me lame... ¡ay, boa! ¡me darás calor!

80 SAMIZDAT fevereiro de 2009


80

Miguel A. Garcia
BALADA DE LAS DOS HERMANAS
La hermana mayor besa con su boca
a Juan, el pastor.
Un caballo en la cuadra se desboca.

La hermana menor ha oído el temblor


y no tiene poca
gana de ser yegua ni de ser mayor.

La hermana mayor sabe ya de amor.

La hermana menor relincha y se toca.

RETRATO DE INTERIOR EN VERSO:


MUJER DESNUDA APOYADA EN LA VENTANA
Puesto que no sabrían mis manos retratarte
con los pinceles húmedos y su policromía
habré de usar palabras para inmortalizarte:

el sol posee tus senos, tus nalgas la penumbra,


eres la media luna que en la mitad del día
de fuera a adentro tienta, de dentro a afuera alumbra.

Así de hermosa eres la invocación del arte:

cuerpo, amor, aire, ensueño... la obra se vislumbra.

Isidro Iturat nasceu em Vilanova i la Geltrú, Espanha,


em 1973. Escritor e professor de língua e literatura espa-
nholas. Reside em São Paulo desde 2005. Expressa-se
poeticamente através do indriso, a forma criada e "ba-
tizada" por ele mesmo, que já ganhou muitos adeptos,
alguns aqui na SAMIZDAT.

www.revistaamizdat.com 81
Tradução

A Mulher de Véu
Anaïs Nin
tradução: Henry Alfred Bugalho

http://www.flickr.com/photos/artsilva/1879658945/sizes/o/in/set-72157610882778092/
Certa vez, George foi a Todos os três observavam
um bar sueco que gostava a atividade do bar — ca-
e se sentou a uma mesa sais bebendo juntos, uma
para desfrutar duma noite mulher bebendo sozinha,
ociosa. Na mesa ao lado, ele um homem a procura de
notou um belo e elegante aventuras — e todos eles
casal, o homem educado pareciam estar pensando as
e bem vestido, a mulher mesmas coisas.
toda de preto, com um véu Enfim, o homem bem
sobre a face resplandecente vestido iniciou um diálo-
e brilhantes jóias coloridas. go com George, que agora
Ambos sorriram para ele. teve a oportunidade para
Eles não diziam nada um observar melhor a mulher
ao outro, como se fossem e a achou ainda mais bela.
velhos conhecidos e não Mas justamente quando ele
precisassem conversar. esperava que ela partici-

82 SAMIZDAT fevereiro de 2009


82
passe da conversa, ela disse ginava, no momento em um tanto infeliz, e ainda as-
algumas poucas palavras a que o vi. Você é o sujeito a sim impelido a contar esta
seu companheiro que Geor- quem procuro. Estou diante história. Ele prosseguiu:
ge não pode captar, sorriu dum problema imensamen- — Eu tenho de cuidar
e se foi. George quedou-se te delicado. Algo absolu- da felicidade desta mulher.
desanimado. Seu prazer tamente único. Não sei se Eu faria qualquer coisa por
naquela noite havia partido. você já teve muitas relações ela. Devotei minha vida a
Além disto, ele tinha apenas com mulheres difíceis, neu- satisfazer-lhe os caprichos.
alguns poucos dólares para róticas — Não? Percebo-o
gastar e não podia convidar por suas histórias. Bem, eu — Compreendo — Geor-
o homem para beber con- tenho. Talvez eu as atraia. ge disse — eu me sentiria
sigo e talvez descobrir um Neste momento, estou na do mesmo modo em rela-
pouco mais sobre a mulher. mais intricada das situa- ção a ela.
Para sua surpresa, foi o ções. Mal sei como sair — Agora, — disse o
homem quem se virou para dela. Preciso de sua ajuda. elegante desconhecido —
ele e disse: Você diz precisar de dinhei- se você quiser vir comigo,
— Se importaria em to- ro. Bem, eu posso sugerir poderá talvez resolver suas
mar um drinque comigo? uma maneira razoavelmente dificuldades financeiras
agradável para consegui-lo. por uma semana e, inci-
George aceitou. A con- Ouça com atenção. Há uma dentalmente, seu desejo por
versa seguiu de experiên- mulher que é rica e absolu- aventura.
cias com hotéis no sul da tamente linda — na verda-
França para a confissão de George corou de prazer.
de, irretocável. Ela poderia Deixaram o bar juntos. O
George de que ele estava ser amada com devoção
curto de grana. A resposta homem chamou um táxi.
por qualquer um que ela No táxi, deu a George cin-
do homem sugeriu que era quisesse, poderia se casar
extremamente fácil de se quenta dólares. Então disse
com qualquer que quisesse. que seria obrigado a vendá-
conseguir dinheiro. Ele não Mas por algum perverso
prosseguiu em dizer como. lo, porque George não de-
acidente de sua natureza — veria ver a casa para onde
Forçou George a confessar ela gosta apenas do desco-
um pouco mais. iria, nem a rua, pois nunca
nhecido. repetiria esta experiência.
George tinha uma fra- — Mas todo mundo gosta
queza comum a muitos George estava num tur-
do desconhecido — George bilhão de curiosidade agora,
homens; quando estava com disse, imediatamente pen-
humor expansivo, adorava com visões da mulher que
sando em viagens, encon- vira no bar assombrando-o,
contar seus feitos. Ele o fez tros inesperados, novas
numa linguagem envolven- vendo a cada momento a
situações. boca reluzente e os olhos
te. Insinuou que assim que
punha o pé na rua, alguma — Não, não do jeito dela. flamejantes dela por detrás
aventura se lhe apresentava, Ela se interessa apenas por do véu. O que ele havia
que nunca lhe faltava uma um homem que ela nunca gostado, particularmente,
noite interessante, ou uma tenha visto antes e que nun- era o cabelo dela. Gostou
mulher interessante. ca verá novamente. E, por de cabelo espesso a cair-lhe
este homem, ela fará qual- pelo rosto, um fardo gracio-
Seu companheiro sorria quer coisa. so, cheiroso e rico. Era uma
e ouvia. de suas paixões.
George consumia-se para
Quando George ter- perguntar se a mulher era A corrida não foi mui-
minou de falar, o homem aquela que estava sentada à to longa. Ele se submeteu
disse: mesa com eles, mas não ou- amistosamente a todo o
— Era isto que eu ima- sou. O homem parecia estar mistério. A venda foi re-

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tirada de seus olhos antes Ela havia trocado de seios uma proeminência
de ele deixar o táxi, para vestido. Vestia um estonte- ainda maior. Suas costas
que não atraísse atenção do ante vestido de cetim que eram como de uma dança-
taxista ou do porteiro, mas deixava seus ombros des- rina, e cada contorno inten-
o desconhecido contava, sa- nudos e que era suspenso sificava a riqueza de seus
biamente, que o brilho das por uma alça. George teve a quadris. Ela sorriu para ele.
luzes da entrada cegariam impressão de que o vestido Sua boca era macia, carnu-
George completamente. Ele cairia com um único gesto, da e estava entreaberta. Ge-
não conseguia enxergar descobrindo-a como uma orge se aproximou e pou-
nada a não ser luzes bri- cintilante bainha, e que sou a boca nos ombros nus
lhantes e espelhos. por debaixo apareceria sua dela. Nada poderia ser mais
Foi conduzido a um dos pele reluzente, que brilha- macio que sua pele. Que
interiores mais suntuosos ria como cetim e que seria tentação a de puxar o frágil
que jamais vira — todo igualmente suave para os vestido de seus ombros e
branco e espelhado, com dedos. expor os seios que disten-
plantas exóticas, mobília Ele havia dito para si em diam o cetim. Que tentação
extravagante coberta em silêncio. Ainda não conse- despi-la imediatamente.
damasco e um tapete tão guia acreditar que esta lin- Mas George sentia que
fofo que seus passos não da mulher se oferecia para esta mulher não poderia ser
podiam ser ouvidos. Ele foi ele, um total desconhecido. tratada tão sumariamente,
dirigido por uma sala atrás Envergonhou-se também. que ela requeria sutileza e
da outra, cada uma em O que ela esperava dele? engenho. Nunca ele havia
diferentes nuances, todas Qual era sua busca? Tinha dado a cada um de seus
espelhadas, que perdeu toda ela algum desejo irrealiza- gestos tanta consideração e
a noção de perspectiva. Por do? arte. Parecia determinado
fim, chegaram à última. Ele a empreender um longo
se engasgou de leve. Ele tinha apenas uma cerco, e como ela não havia
única noite para dar todos dado sinal de pressa, ele se
Estava num quarto com seus dons de amante. Nun-
uma cama canopeada posta demorou sobre os ombros
ca mais a veria novamente. nus, inalando a tênue e ma-
sobre um tablado. Havia pe- Poderia ser ele aquele a
les no chão e brancas corti- ravilhoso olor que vinha do
descobrir o segredo da na- corpo dela.
nas vaporosas nas janelas, e tureza dela e possuí-la mais
espelhos, mais espelhos. Ele de uma vez? Ele imaginava Poderia tê-la tomado ali
estava contente por poder quantos outros homens ha- mesmo, de tão potente que
suportar estas repetições viam vindo a este quarto. era o encantamento que
de si, reproduções infini- ela lançava, mas antes ele
tas dum belo homem, para Ela era extraordinaria- queria que ela fizesse um
quem o mistério da situa- mente amável, com um to- sinal, queria que ela esti-
ção havia dado um brilho que de cetim e veludo. Seus vesse excitada, e não tenra
de expectativa e prontidão olhos era negros e úmidos, e maleável como cera em
que ele nunca conhecera. O sua boca fulgurava, sua pele seus dedos.
que isto poderia significar? refletia a luz. Seu corpo era
perfeitamente harmonioso. Ela aparentava uma
Não tinha tempo para se incrível frieza, obediente,
indagar. Ela tinha as linhas incisi-
vas duma mulher singela mas sem sentimento. Ne-
A mulher com que ele unidas a uma provocativa nhum arrepio em sua pele,
havia estado no bar aden- maturidade. e apesar de sua boca estar
trou o quarto, e assim que entreaberta para beijar, ela
ela entrou, o homem que o Sua cintura era delgada, não correspondia.
trouxera desapareceu. que proporciona a seus

84 SAMIZDAT fevereiro de 2009


84
Permaneceram lá, perto de tentar deslizar sua mão vestido completamente,
da cama, sem falar. Ele des- entre as pernas, mais aber- deitar-se na cama com ela,
lizou suas mãos por sobre tas agora, de modo que ele sentindo todo o corpo dela
as curvas acetinadas do quase pode alcançar o sexo contra o seu. Começou a
corpo dela, como se para se dela. puxar o vestido para baixo
familiarizar com elas. Ela Com seus beijos, os e ela o ajudou. Seu corpo
permanecia imóvel. Ele len- cabelos dela se tornaram emergiu como o de Vênus
tamente se pôs de joelhos, revoltos e o vestido caiu de surgindo do mar. Ele a er-
enquanto beijava e acaricia- seus ombros e descobriram gueu, para que ela se dei-
va o corpo dela. Seus dedos parcialmente seus seios. Ele tasse totalmente na cama, e
sentiram que, sob o vestido, retirou todo o vestido com sua boca nunca cessava de
ela estava nua. Ele a condu- a boca, revelando os seios beijar cada parte do corpo
ziu até a beirada da cama e aos quais ele ansiava, ten- dela.
ela se sentou. Ele retirou os tadores, intumescidos e da Então, algo estranho
chinelos dela. Susteve os pés mais delicada pele, com os aconteceu. Quando ele se
dela em suas mãos. mamilos rosados tais quais inclinou para deliciar seus
Ela sorriu para ele, gen- duma jovem. olhos com a beleza do sexo
til e convidativamente. Ele A submissão dela quase dela, roseado, ela teve um
beijou-lhe os pés, e suas o fez querer machucá-la, calafrio, e George quase
mãos correram por sob as para estimulá-la de algum gritou de alegria.
dobras do vestido longo, jeito. As carícias o estimula- Ela murmurou:
sentindo as pernas suaves vam, mas não a ela. O sexo
até as coxas. — Tire suas roupas.
dela era cálido e macio
Ela abandonou os pés para seu dedo, obediente, Ele se despiu. Nu, ele co-
às mãos dele, mantendo-os mas sem vibrações. nhecia seu poder. Ele ficava
pressionados contra seu mais à vontade nu do que
George começou a pen- vestido, porque ele havia
peito, enquanto as mãos sar que o mistério da mu-
dele corriam para cima e sido um atleta, um nadador,
lher jazia em ela não ser um andarilho, um escala-
para baixo por debaixo do capaz de se excitar. Mas
vestido. Se a pele dela era dor de montanhas. E ele
isto não era possível. Seu sabia então que isto poderia
tão macia na extensão das corpo prometia tanta sen-
pernas, como seria então agradá-la.
sualidade. A pele era tão
perto de seu sexo, ali onde sensível, a boca tão carnu- Ela olhou para ele.
é sempre a mais macia? da. Era impossível que ela Estaria ela satisfeita?
As coxas dela se uniram, não sentisse. Agora ele a Quando ele se inclinou
pressionadas, de modo que acariciava continuamente, sobre ela, estava ela mais
ele não pudesse continuar oniricamente, como se não receptiva? Ele não conse-
a exploração. Ele se levan- tivesse pressa, aguardando guia determinar. A estas ho-
tou e debruçou-se sobre ela que a chama a incendiasse. ras, ele a desejava tanto que
para beijá-la numa posição não conseguia esperar para
reclinada. Enquanto ela se Havia espelhos todo ao
redor deles, repetindo a tocá-la com a ponta de seu
deitava, as pernas se abri- sexo, mas ela o impediu. Ela
ram ligeiramente. imagem da mulher deita-
da ali, os seios para fora queria beijar e manusear
Ele movimentou as mãos do vestido, seus belos pés o sexo dele. Ela se lançou
por todo o corpo dela, nus pendendo para fora da sobre ele com tamanha avi-
como se para excitar cada cama, as pernas ligeiramen- dez que George se viu com
parte dela com seu toque, te apartadas sob o vestido. as nádegas dela perto de
acariciando-a novamente seu rosto e podia beijá-la e
dos ombros aos pés, antes Ele precisava rasgar o acariciá-la à vontade.

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Neste momento, ele deles, e ela o sentiu em tinto homem se aproximou
estava tomado pelo desejo silêncio, encerrando-o. dele e sugeriu um agradável
de explorar e tocar cada Então ela apontou para o passatempo, observar uma
recôndito do corpo dela. Ele espelho e disse, rindo: magnífica cena amorosa, e
apartou a abertura do sexo como o amigo de George
dela com seus dois dedos, e — Olhe, parece até que era um voyeur declarado, a
deleitou seus olhos com a nós não fazemos amor, mas sugestão foi recebida com
pele brilhante, com o deli- sim que você apenas está imediata aceitação. Ele foi
cado mel a fluir, com os pe- sentado sobre seus joelhos, levado a uma casa miste-
los se encrespando ao redor e você, safadinho, você esta riosa, para um apartamento
de seus dedos. Sua boca se com ele dentro de mim suntuoso e, foi escondido
tornou mais e mais ávida, todo o tempo, e até tem ca- numa sala escura, de onde
como se houvesse se torna- lafrios. Ah, não posso mais ele pode ver uma ninfoma-
do um órgão sexual, capaz suportar isto, fingir que não níaca fazer amor com um
de satisfazê-la tanto que, se há nada dentro de mim. homem potente e particu-
continuasse a acariciar a Está me consumindo. Mete larmente bem dotado.
carne dela com sua língua, agora, mete!
O coração de George
ele alcançaria um prazer Então ela se jogou sobre parou.
totalmente desconhecido. ele para que ela pudesse re-
Enquanto ele mordiscava bolar sobre seu pênis ereto, — Descreva-a — ele disse.
sua carne com tal sensação obtendo desta dança eró- O amigo descreveu a
deliciosa, sentiu novamen- tica um prazer que a fazia mulher com a qual George
te que ela tinha calafrios gritar. E, ao mesmo tempo, havia feito amor, até mes-
de prazer. Ele a afastou de um relâmpago de êxtase mo o vestido de cetim. Ele
seu sexo, temendo que ela rompeu através do corpo também descreveu a cama
pudesse vir a experimentar de George. canopeada, os espelhos,
todo seu prazer meramente Apesar da intensidade do tudo. O amigo de George
ao beijá-lo e que ele fosse sexo, quando ele partiu, ela havia pagado cem dólares
impedido de se sentir den- não perguntou seu nome, pelo espetáculo, mas havia
tro dela. Era como se eles não pediu que ele voltasse. valido a pena e durou por
dois houvessem se tornado Ela lhe deu um leve beijo horas.
vorazmente famintos pelo nos lábios quase doloridos Pobre George. Por meses,
gosto da carne. E suas duas e o mandou embora. Por ele teve precauções com
bocas se fundiam uma na meses, a memória desta mulheres. Ele não conseguia
outra, buscando as línguas noite o assombrou e ele não acreditar em tal perfídia,
inquietas. conseguia repetir a experi- em tal encenação. Ele se
O sangue dela ago- ência com nenhuma outra tornou obcecado com a
ra fervia. A vagarosidade mulher. ideia de que todas as mu-
dele parecia ter causado Um dia, ele encontrou lheres que o convidavam
isto, enfim. Os olhos dela um amigo que havia aca- para seus apartamentos es-
brilhavam, sua boca não bado de ter recebido prodi- condiam algum espectador
conseguia largar o corpo gamente por alguns artigos detrás duma cortina.
dele. Então ele finalmente e que o convidou para um
a tomou, enquanto ela se drinque. Ele contou a Ge-
oferecia, abrindo sua vulva Conto extraído da obra “Del-
orge a espetacular história ta de Vênus”.
com os adoráveis dedos, duma cena que testemu-
como se não aguentasse nhara. Ele estava gastando
mais esperar. Mesmo então dinheiro abundantemente
eles suspenderam o prazer num bar quando um dis-

86 SAMIZDAT fevereiro de 2009


86
Anaïs Nin nasceu na França. Seu
pai foi o compositor Joaquin Nin,
que cresceu na Espanha, mas que
havia nascido em Cuba, e para
onde retornou. Sua mãe, Rosa
Culmell y Vigaraud, era de ascen-
dência cubana, francesa e dina-
marquesa. Anaïs Nin se mudou
para os Estados Unidos em 1914,
depois de seu pai ter abandonado
a família. Nos EUA, ela frequen-
tou escolas católicas, abando-
nou os estudos, trabalhou como
modelo e dançarina e retornou à
Europa em 1923.

Anaïs Nin estudou psicanálise com


Otto Rank e clinicou por um tempo
como analista leiga em Nova York.
Ela foi paciente de Carl Jung por
um período também.

Ao encontrar dificuldades para


conseguir publicar seus con-
tos eróticos, Anaïs Nin ajudou
a fundar a Siana Editions na
Franca, em 1935. Em 1939 e com
a deflagração da Segunda Guer-
ra Mundial, ela retornou a Nova
York, onde ela se tornou uma
celebridade entre a comunidade
do Greenwich Village.

Uma figura literária obscura por


quase toda sua vida, quando os di- foram publicados após sua morte As ideias de Anaïs Nin sobre as
ários dela - mantidos desde 1931 (1977, 1979). naturezas “masculina” e “femini-
- começaram a ser publicados em na” influenciaram a área do femi-
Anaïs Nin é conhecida também nismo conhecida como “feminis-
1966, Anaïs Nin surgiu diante do
por seus amantes, que incluem mo da diferença”. No fim da vida,
olhar público. Os dez volumes de
Henry Miller, Edmund Wilson, ela se disassociou das formas mais
“O Diário de Anaïs Nin” ainda
Gore Vidal e Otto Rank. Ela foi políticas do feminismo, acredi-
são bastante populares. Eles são
casada com Hugh Guiler, de Nova tando que o auto-conhecimento
mais do que simples diários; cada
York, que aceitava seus casos. através da redação de diários era
volume possui um tema e foram
Ela também teve um segundo fonte de liberação pessoal.
escritos provavelmente com a
casamento, bígamo, com Rupert
intenção de serem publicados.
Pole na Califórnia. Ela anulou o Fonte: http://womenshistory.about.
Cartas que ela trocou com amigos
casamento por volta da época em com/od/anaisnin/a/anais_nin.htm
íntimos, Henry Miller entre eles,
que ela estava conquistando fama
também foram publicadas. A
mundial. Ela estava morando com
popularidade dos diários trouxe
Pole, quando de sua morte, e ele
interesse para os romances pu-
viu a publicação da nova edição
blicados anteriomente. “Delta de
dos diários delas, sem cortes.
Vênus” e “Pequenos Pássaros”,
originalmente escritos em 1940,
http://collagesofabsurdistan.files.wordpress.com/2008/07/nin_32.jpg

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Tradução

Paul Éluard
tradução: Marcia Szajnbok

Deitar com Ela


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Paul Éluard (1895-1952) ganhou notoriedade
como «O Poeta da Liberdade », por referência a
sua atividade política junto ao Partido Comunista
na França dos anos 30, e pela força com que seus
poemas anti-nazistas circularam clandestinamen-
te durante a Segunda Guerra, encorajando em
muitos momentos as ações da resistência francesa.
Há, entretanto, uma outra vertente de sua obra,
igualmente importante, constituída pelos poemas
de amor e erotismo. Sua primeira mulher, Gala,
tornou-se a musa inspiradora de Salvador Dali. A
segunda, Nusch, encarnou a companheira perfeita,
nos anos que são os mais felizes de sua vida. Seus
poemas eróticos representam mais um aspecto do
caráter libertário de sua obra, sempre concebida
como veículo de conscientização política para seus
leitores.

Coucher avec elle Deitar com ela


Pour le sommeil côte à côte Para o sono lado a lado
Pour les rêves parallèles Para os sonhos paralelos

Coucher avec elle Deitar com ela


Pour l’amour absolu Para o amor absoluto
Pour le vice pour le vice Para o vício depravado
Pour les baisers de toute espèce Para trepar de todo jeito

Coucher avec elle Deitar com ela


Pour un naufrage ineffable Para um naufrágio inefável
Pour se prostituer l’un à l’autre Para se prostituir mutuamente
Pour se confondre Para se confundir

Coucher avec elle Deitar com ela


Pour se prouver et prouver vraiment Para se provar verdadeiramente
Que jamais n’a pesé sur l’âme Que jamais pesou
Et le corps des amants Quer na alma, quer no corpo dos amantes
Le mensonge d’une tache originelle A mentira de um pecado original

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Teoria Literária

Erotismo,
para além do sexo
Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

http://www.arterotismo.it/AgostineCaracci/car07.jpg

90 SAMIZDAT fevereiro de 2009


90
O ser humano sempre tico, é uma prática de re-
tentou se distanciar dos produção. Apesar de sua
demais animais. Aristóte- relação com o ato sexual,
les afirmava que “o ho- o erotismo e sexo não são
mem é um animal dotado sinônimos.
de fala”, mas recentemente
se descobriu que várias Entende-se o erotismo
outras espécies de animais como uma representação
possuem comunicação, às estética do sexo.
vezes bastante complexas; Desde muito cedo em
Marx encontra o cerne nossa História, o ser hu-
da humanidade em seu mano representa o corpo
caráter social, mesmo que e as funções sexuais; as
também haja intricadas formas grotescas, exage-
relações sociais entre radas, com que o corpo
outros animais; outros é recriado através de acima: a Vênus de Willendorf,
intelectuais buscam o esculturas ou pinturas escultura feminina feita entre 24
“ser humano” na crença pré-históricas, ou durante mil e 22 mil anos a.C.
em uma divindade, ou na a Antigüidade, parecem a esquerda (oposta): gravura de
Economia, ou nas Artes pretender estimular o re- Agostino Carraci, pintor italiano
— George Bataille, em ceptor e excitá-lo, muitas do século XVI.
sua obra “Erotismo”, afir- são símbolos de fertilida- abaixo: ilustração do Kama Sutra.
ma categoricamente que de, mas várias tendem a
o homem é um “animal apresentar o corpo huma-
erótico”. no e o sexo como objetos
Provavelmente, nenhum de desejo.
destes fatores individuais O erotismo, ao contrá-
serve para nos distinguir rio do ato sexual, não visa
das demais espécies; talvez estimular apenas os sen-
tenhamos de pensá-las em tidos, mas principalmente
conjunto, sendo o homem a imaginação. O sexo é
um animal que, em seu um ato físico (e por vezes
desenvolvimento, agregou mecânico) que culmina no
uma série de valores e gozo e relaxamento; o ero-
características e, por causa tismo é uma prática sim-
delas, distanciou-se de bólica, cujo prazer deriva
sua natureza instintiva, a da preparação, do adia-
ponto de renegá-la. mento, da incompletude,
Mas nosso objeto de do irrealizável e indizível.
investigação será esta A excitação proveniente
última asserção sobre o do erótico começa antes
erotismo. De fato, o sexo, do sexo, ou paralelamente,
a cópula, o acasalamento pois prescinde dele, e se
por si não é um ato eró- estende para depois. Seu

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objetivo é o prolongamen- versais, ou seja, no cerne Pornografia e erotismo,
to do estímulo, ao invés das interdições sociais, a ou a historicidade do
da satisfação dum clímax. primeira delas relaciona- erotismo
se ao sexo. Apesar de as
razões por detrás da proi- Um dos primeiros
Erotismo e tabu bição do incesto serem problemas que surge, ao
bastante pragmáticas, esti- se discutir o erotismo, é a
mular a exogamia (Claude eventual distinção entre
É fundamental compre-
Lévi-Strauss), o que permi- “erótico” e “pornográfico”.
endermos que erotismo
te um sistema de trocas
não existe sem tabus. Via de regra, define-
entre famílias e incentiva
Os tabus são interdi- uma maior harmonia se erótico como aquela
ções sociais de atos, pala- social, deste primeiro tabu representação sutil, ou
vras, objetos, ou assuntos sexual derivaria uma série que subentende o sexo,
considerados ofensivos de interdições: nudez, enquanto que o pornográ-
numa comunidade. falar sobre sexo, restrições fico seria uma reprodução
sexuais, repúdio aos ór- crua, ou até exagerada, do
O primeiro a trabalhar gãos sexuais, entre inúme- coito.
exaustivamente o tema ras outras.
foi Sigmund Freud (1856- Certamente que ne-
1939); segundo ele, as Em parte, o apelo do nhuma resposta definitiva
origens dos tabus são des- erotismo reside nesta pode ser dada sobre o
conhecidas e transcendem proibição, neste cons- assunto, pelo fato de que
o âmbito das religiões, trangimento em torno da o limite entre um e outro
são provenientes, possi- sexualidade, duma prática situa-se num ponto-cego,
velmente, de sociedades condenada ao ambiente num campo bastante dis-
pré-religiosas. privado e regida por nor- cutível.
mas de conduta aceitáveis. Na verdade, erotismo
O incesto é identificado
como um dos tabus uni- e pornografia dependem
de três fatores principais:

Dois afrescos encontrados na


cidade de Pompeia.

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1 – o fator histórico; 2 – o
fator social, e 3 – o fator
subjetivo.

Acredito que o fator


histórico seja o preponde-
rante na hora de traçar-
mos este horizonte.

Assim como em outros


gêneros, tais quais o ter-
ror e o humor, o erótico
depende muito do con-
texto histórico no qual
está inserido. Em épocas
de maior licenciosidade,
como em Roma antiga ou
durante os movimentos
de liberação sexual da
década de 70, erotismo e
pornografia tenderam a
se aproximar. Por outro
lado, a disseminação do
Cristianismo, a partir do
século I d.C., reforçou um
conjunto de condenações
morais em torno da sexu-
alidade.

O fator social também


está intimamente vin-
culado ao assunto, pois
tanto as classes superiores normas morais, mas que acima: ilustração da obra
na prática as violavam, ou “­Justine” de Marquês de Sade,
quanto as mais baixas ten- publicada em 1791.
dem a ser mais libertinas a aristocracia corrompida
(pelo que indicam as pes- e devassa. Deste modo, a que provém diretamente
quisas de Alfred Kinsey), compreensão do que é dos dois primeiros fato-
seja porque acreditam “pornográfico” ou “erótico” res, é aquele pertinente
estar acima das normas também depende do nível ao foro íntimo de cada
seguidas pelos demais, seja social, da formação reli- indivíduo, que julga, de
pelo desconhecimento ou giosa (há religiões mais acordo com sua própria
repúdio a elas. Os intelec- tolerantes ao sexo do que experiência e vivência, os
tuais iluministas atacaram outras), do país de origem limites da moralidade.
ferozmente, por exem- e da formação educacio-
nal. Deste modo, temos um
plo, a hipocrisia do clero
espectro de interpreta-
europeu, que apregoava Enfim, o fator subjetivo, ções que nos impede de

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Apesar de o erotismo ros resultados.
possuir várias formas de
manifestação, seja coti- Um texto erótico não
dianamente, enquanto fornece, pela própria
elemento das práticas natureza da leitura, seus
sexuais dos indivíduos, segredos de uma só vez.
ou seja de modos mais O leitor precisa explorá-lo
extraordinários, como linha após linha, palavra
dos êxtases místicos de por palavra. Esta delimi-
religiosos (associação feita tação permite o autor
por Bataille), o meio mais controlar a excitabilidade
corriqueiro ainda costuma do que diz, confere-lhe o
ser através da Arte. poder de ditar o ritmo, de
estabelecer como e quan-
O erotismo está pre- do deflagrará o estímulo,
sente no cinema, nas artes a cena erótica.
­ firmarmos, categorica-
a
plásticas, na fotografia, na
mente, onde começa e Alguns preferem uma
dança, na música, na tele-
acaba o “erótico”. Enquan- escrita direta, utilizando
visão e na literatura. Esta-
to autores como Marquês um jargão mais vulgar,
mos em constante contato
de Sade, D. H. Lawrence, outros optam pela suti-
com o erotismo, sendo as
Nabokov ou Henry Miller leza, por um léxico eufe-
artes visuais as principais
foram considerados por- místico. A qualidade não
detentoras deste filão.
nográficos por seus con- reside nestes pólos, mas
Cenas eróticas chocam,
temporâneos — por vezes sim como o autor se arti-
ao mesmo tempo em que
até sofrendo sanções, cula através deles.
atraem. Anúncios publi-
como aprisionamento ou
citários tendem a associar Mas talvez a grande
censura —, e em nossa
seus produtos à sexualida- importância do erotismo
época a literatura deles é
de; cenas eróticas na TV resida naquilo a que ele
erótica (mesmo que possa
aumentam a audiência; na se contrapõe: o erótico é
ser considerada pornográ-
salinha escura do cine- a contraparte da normati-
fica por alguns leitores),
ma, a cena erótica causa zação imposta a nós pelo
não temos garantia algu-
incômodo, todos seguram trabalho e pela rotina, é
ma de que aquilo por nós
a respiração, na tentativa uma de nossas válvulas
considerado pornográfico
de disfarçar a excitação. A escape.
hoje será classificado, no
imagem possui um poder
futuro, como erótico. O erotismo é um mo-
difícil de ser recriado em
outros formatos. A ima- mento de libertação; é
gem é instantânea, é atra- aquele instante no qual as
Arte e erotismo vés da visão que temos o amarras dos tabus, da mo-
conhecimento imediato do ralidade, do permitido, do
Nossa primeira concei- mundo. convencional se afrouxam.
tuação de erotismo esta- Uma vida de puro ero-
beleceu um vínculo entre No entanto, foi a Lite- tismo seria insustentável,
estesia e sexualidade. ratura que produziu os mas uma sem erotismo
melhores e mais duradou- algum seria insuportável.

94 SAMIZDAT fevereiro de 2009


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www.revistaamizdat.com 95
Crônica

As mulheres
na literatura erótica
Giselle Sato

96 SAMIZDAT fevereiro de 2009


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O lugar onde

Houve um tempo em co do partilhar e acolher. a boa Literatura


que escrever textos mais A essência feminina é
picantes eram feitos naturalmente doadora. é fabricada
quase heróicos. Escritoras Recebe, abastece, guarda
ousadas simpatizantes do e nutre. Em comum todas
gênero, arriscavam em estas escritoras não tive-
doses homeopáticas bur- ram medo de partilhar a
lar os costumes da época. percepção do sexo. Sem
Podemos citar várias e pudor descreveram sensa-
nem todas foram editadas ções até então sugeridas
em vida. Não vou mar- e algumas nem imagina-
telar na tecla enfadonha das.
deste período da história.
Prefiro falar em como O orgasmo feminino
a falta de liberdade in- não era assunto que se
fluenciou o trabalho des- discutisse. Imagino que as
tas mulheres. Ocultas por mulheres tinham acesso
conta do preconceito elas aos livros e liam as es-
se entregaram à inten- condidas, suspirando em
sidade. Foi um período cada verso e imaginando
extremamente frustrante, pra si o prazer sugerido.
mas a sensação do proi- O importante é que a voz
bido agiu como estímulo não estava calada, ainda
para que a voz reprimida que apenas sussurras-
criasse vida no papel. E se delícias, apregoava a
foram versos, romances liberdade da satisfação.
e pensamentos genuínos, Estas escritoras pionei-
gritos sufocados e canali- ras são referência para a
zados na literatura. nova geração de autoras
do gênero erótico. Ain-
A visão feminina pri- da existe o tabu sobre
ma pelo conjunto prazer as minúcias e o cuidado
e sentimento. Não que para não cair na porno-
seja um privilégio, gosto grafia grosseira. Mas a
de pensar que seguimos grande maioria não está
a emoção sem reservas preocupada em mascarar
http://www.flickr.com/photos/johnmcnab/3179557301/sizes/o/

e temos a sutileza como o texto. É um caminho


aliada. Quando a idéia novo que está abrindo
vai tomando forma, per- com algum receio. Mas
sonagens e tramas pare- o mercado é curioso e
cem exigir vida própria. imprevisível. A libido
Um texto erótico tem foi despertada e já não
toda a cadência e flui precisamos esconder as
em busca da resposta do preferências. De qualquer
leitor. Existe um cuidado maneira foi uma longa
em descrever formando
um conjunto completo.
Em cada ângulo um pou-
estrada e hoje finalmente
as portas estão abertas. ficina
www.oficinaeditora.org

97
Crônica

Auto-ajuda
Joaquim Bispo

fotos: Joaquim Bispo


Sabemos, caro leitor, como você gostaria de estar
sempre sempre in, infelizmente, as limitações huma-
nas obrigam-no a estar out, a maior parte do tempo.
Para essas longas horas, que nunca mais acabam,
para esses dias que se transformam em semanas, este
consultório sensual dá-lhe algumas dicas para não
morrer de inanição sensorial.

1. Se você é dos que gosta de um beijo bem chu-


pado e repenicado, experimente o beijo do cano do
aspirador. É inesquecível. Mas não exagere, que a sua
mulher pode desconfiar de tanta vontade de aspirar a
casa.

2. Se você faz longas viagens, nem sempre em com-


panhia galante, não se acabrunhe. Meta a mão fora
da janela, em concha, virada para a frente, aumente
a velocidade para 120 e desfrute de longos minutos
da consistência de um seio na sua mão. Pode apertar,
que a ilusão é convincente. Se o tempo estiver quente,
tanto melhor. Não há conversa chata dos acompa-
nhantes que o impeça de fruir o seu gesto inocente.

98
98
3. Se a sua mulher vai fazer pastéis de massa tenra,
filhós ou outra receita que obrigue a amassar farinha,
ofereça-se para amassar. A lisura e a consistência da
massa transmitem ao seu tacto a ilusão de carnes
tenras de uma mulher, só que, com massa, você pode
dar livre curso às mãos sem medo de magoar. Des-
frute, mas não dê a entender que gosta mais de amas-
sar que de comer.

4. Se é obrigado a fazer longos passeios a pé, com-


pre um cacho de uvas e consuma-o bago a bago. En-
quanto acaricia um entre os dedos, faça rebolar outro
nos lábios antes de a língua brincar com ele, como
faz com os mamilos da sua mulher. Distrai e faz bem
à saúde.

5. Se é época de diospiros, use e abuse. Compre


daqueles bem maduros, muito moles. Retire-se para a
privacidade que o acto pede, mergulhe de boca aber-
ta na sua polpa deliquescente, e sorva conjuntamente
as estruturas gomosas que lhe conferem uma ilusão
vulvar. A sofreguidão desse cunnilingus desvairado
vai deixar-lhe o rosto lambuzado, mas há certas coi-
sas que não são adequadas para comer à colher.

Nunca deixe, caro leitor, de estar atento ao que o


rodeia: uma protuberância numa árvore, um tufo
vegetal numa praia, o perfil de uma paisagem. O
mundo está cheio de oportunidades para você estar
­sempre on.

99
Crônica

Joaquim Bispo

A doçura desta dor

http://libraridan.files.wordpress.com/2008/07/st-theresa-in-ecstasy-cornaro-chapel.jpg

100 SAMIZDAT fevereiro de 2009


100
Este conjunto escultórico amor místico, no relato de esquerda do anjo a levantar
é obra do magistral Bernini Sta. Teresa. É bem evidente o hábito descomposto da
e encontra-se numa peque- o abandono físico da frei- freira, como quem afasta
na igreja de Roma. Chama- ra perante o anjo, como o uma última peça de roupa
se O êxtase de Sta. Teresa abandono da mulher aluada íntima, eleva a sensualida-
(1647-1652) e representa o perante o homem desejado. de do conjunto a um nível
episódio de amor místico O rosto do anjo reflecte nunca esperado num altar.
experimentado por Santa aquele doce júbilo que qual-
Teresa de Ávila (1515-1582), quer homem sente no mo- E, no entanto, que melhor
também conhecido por mento anterior à posse da ícone para venerar que as
«Transverberação de Sta. mulher rendida. O dardo doces penas do tesão ou a
Teresa». Foi a própria que não pode ser mais simbó- experiência transcendente e
relatou o seguinte: lico, na sua rigidez fálica sublime de um orgasmo?!
e na sua ponta penetrante.
Ao meu lado esquerdo O gesto delicado da mão
apareceu um anjo em for-
ma corporal. Não era alto
mas baixo e muito belo. E a
sua face estava tão afogue-
ada (…). Vi na sua mão
um longo dardo de ouro, na
ponta do qual julguei ver
uma pequena chama. Pare-
ceu-me que o fazia entrar
de momento a momento no
meu coração e que ele me
perfurava até ao fundo das
entranhas; quando o retira-
va, parecia-me que as arran-
cava também e me deixava
toda abrasada com um
grande amor de Deus. A
dor era tão grande que me
fazia gemer e, no entanto, a
doçura desta dor excessiva
era tal, que era impossível
querer vê-la terminada, e a
alma já não se contentava
senão com Deus. A dor não
era física, mas espiritual, se
bem que o corpo aí tivesse
a sua parte. Era uma tão
doce carícia de amor entre
a alma e Deus (…).

Como a muitos analistas


contemporâneos, não es-
capou a Bernini a vertente
do amor sensual aliado ao

www.revistaamizdat.com 101
Poesia

LABORATÓRIO POÉTICO
e erótico
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

Sedução

em ti escorro, me derramo e aquieto


murmuras algo feito quente e macio
http://www.flickr.com/photos/meliah/84482294/sizes/o/

dá-me teu núcleo noturno e delicado

como os tolos que seduzes


e a cada hora, maldita, bendita,
ora me abandonas e novamente amanhã

se vais, respiro o que restar de teu hálito

espalho em mim um fio de teu suor

Entrega-se

Mostra-se vil
Frágil, febril,
Tão hábil quanto inutilmente

Entrega-se inteira
Paulatina, imprecisa
Insensível e intensamente

Mutável, muda, imóvel,

Livre, enfim, completamente.

102 SAMIZDAT fevereiro de 2009


102
Poesia

Minha cria
Carlos Alberto Barros

Feita alta maré,


Sou bem mais que dama...
Te incendeio a cama,
Te lambuzo as pernas.
Tudo em mim se enerva,
Ao sugar-lhe a rama
Que, em riste, inflama
Meu licor-mulher.

Beba-o com fé,


Dentro, em mim, descamba.
E com a língua em samba,
Faz gemer tua Eva.
Meu quadril, eleva;
Abra-o em duas bandas.
Morda forte em ambas.
Cante minha ré.
http://www.flickr.com/photos/suelenpessoa/2055605930/sizes/o/in/set-72157603260015104/

Beije-me os pés,
Os meus dedos lamba,
Vem, me deixe bamba.
E me faça ébria;
De teus lábios, serva;
De teu membro, ama.
Em meus seios, mama:
Minha cria és!

103
Poesia

Um punhado de versos
pretensamente eróticos
Caio Rudá de Oliveira

Lapso

a razão é débil:
subjaz aos instintos atiçados
dilui-se no sangue fervente
exala no aroma dos corpos
perece ao pré-gozo
e retorna...
quando o prazer são ecos
pelo quarto

http://www.flickr.com/photos/demetriusgonzalez/3202539606/sizes/o/
Utopia

No rosto, um semblante
de vitória
No peito, um sentimento
de satisfação
No passado, a virgindade

Na verdade, uma fantasia


de adolescente

104 SAMIZDAT fevereiro de 2009


104
Poesia

Transa
Maria de Fátima Santos

Que topete esse


A gente transar com a criada
Ela de meia
Ela de liga
Ela sem mais veste que a barriga
Ela sem mais roupa que a pelagem
Ela galgando a gente
Ela cheiinha de pelo na virilha
Ela peludinha debaixo da axila
Ela pesada
Ela querendo mais do que fodendo
Ela pedindo
- lambe
-passa na dobra do cuzinho
-passa no debaixo do peito
Ela insistindo
http://www.flickr.com/photos/meliah/2183281163/sizes/o/
- Lambe, menino, lambe
Ou você acha que é só ir fodendo?

E a gente quase vomitando


E a gente de pau em riste
lambendo dobras suadas em azedo
Que topete esse

A gente poder sair gabando prós meninos


“hoje eu fodi ela duas vezes”

www.revistaamizdat.com 105
Poesia

Teu corpo José Espírito Santo

És morena beleza, natureza tesa que tenta


Fogo intenso aceso sem qualquer fio e pavio
Forte corrente e nós teu sinuoso leito de rio

És chama que inflama na cama e me chama


Calor forte que logo me aquece e enlouquece
Rumo perdido por teu corpo percorrer sem GPS

Quando subimos e descemos juntos o desejo


No prazeroso completar de “puzzle” encontrado
Nesse meu no teu a meio de percurso encaixado

Quando devagarinho, devagar, depressa


Colamos e percorremos juntos o caminho
Depressa, depressa, devagar, devagarinho...

106 SAMIZDAT fevereiro de 2009


106
oI
Poesia

José Espírito Santo


http://www.flickr.com/photos/suelenpessoa/2055605930/sizes/o/in/set-72157603260015104/

http://www.flickr.com/photos/demetriusgonzalez/2531060383/sizes/o/

Vem

Vamos meter teu ó que espera húmido, molhado e quente, fremente


em meu I extenso que já está pronto, com ponto e em ponto
e vamos colar, fazer bem bom sem palavra nem razão

Sempre diferente sempre, talvez por trás, talvez de frente,


sempre distinto único alto abaixo, Bach fuga, contraponto,
um oI pleno, gostoso e intenso, cheio de tesão

www.revistaamizdat.com 107
Poesia

Primeira vez
Maristela S. Deves

Você me fez ser mulher

http://www.flickr.com/photos/demetriusgonzalez/2274930848/sizes/o/
Me fez sentir diferente
Ficaram meus lábios doloridos
E no corpo, um prazer dormente.

Foi somente aquela noite


Agora nos vemos, é um ´oi´
E confesso que fico enciumada
Vendo outra de ti acompanhada
Mas eu não sinto rancor.

Pois não te amo, é verdade


Embora ficarás sempre em mim na saudade
Daquela primeira vez...

108 SAMIZDAT fevereiro de 2009


108
IZ
ESA OS
M
BR
SO
R E O S AU TO R E S D A
SOB

S A M I Z D AT
SOBRE OS AUT
ORES DA

SAMIZDAT
SOBRE OS AUTORES DA

SAMIZDAT
s
erto Barro esenhis-
Carlos Alb e n o r d estinos, d
, filh o d mado,
Paulistano i s t a p l ástico for
empre, a r t l como
ta desde s a v i d a profissiona
Começou s u eu ras-
escritor. t ã o , j á deixou s
, desde e n turais,
educador e a s e C entros Cul
G’s, Es c o l edagógi-
tro por ON s a r t í sticos e p
traba l h o fluência
através de q u e t ê m forte in
riênci a s ganiza
cos – expe A t u a lmente, or
SOBRE sobre seus
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s, estuda
e escreve
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m H i s t ó r i a da Arte
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pós-gradua
ção e
internet.

SA-
cações na
DA
para pu b l i
il.com
ador@hotma
carloseduc pot.com
nome.blogs
http://des

Dênis Moura é paulistano de pia, cearence de


mar e poeta de amar. Viaja tanto o céu estrelado quanto
o ciberespaço, mais com bits de imaginação que com
telescópios. Pensa que tudo se recria a cada Big Bang, seja
ele micro, macro ou social. Luta pela justiça, a paz e a
http://bonfireblaze.files.wordpress.com/2007/12/grafiti_wall.jpg

igualdade, com um giz na mão e uma pistola na outra. É


Tecnólogo a sonhar com Telemática social, com a demo-
cracia participativa eletrônica, onde o povo eleja menos
e decida mais. Publica estes dias sua primeira obra, um
Romance de Ficção Científica, e deixa engavetadas suas
apunhaladas poesias. É feito de bits, links e teia pra que
não desmaterialize, o clique, o blogue e o leia!

www.revistaamizdat.com 109
109
Giselle Sato
Giselle Sato é autora de Meninas Malvadas, A pequena
bailarina e Contos de Terror Selecionados. Se autodefine
apenas como uma contadora de histórias carioca. Estudou
Belas Artes, Psicologia e foi comissária de bordo. Gosta
de retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que
chegam a chocar pelos detalhes, funcionando como um
eficiente panorama da sociedade em que vivemos.

gisellenatsusato@gmail.com

s
Joaquim Bispo Guilherme Rodrigue
Ex-técnico de televisão, Estudante de Letras na
ado
xadrezista e pintor amador, Universidade do Sagr
de
licenciado recente em His- Coração, em Bauru, on
sempre morou . Nutre
tória da Arte, experimenta guas,
agora o prazer da escrita, grande paixão por Lín
,
em Lisboa. Literatura e Lingüística
ca
áreas em que se dedi
cada vez mais .

o
Henry Alfred Bugalh
a pela UFPR, com
É formado em Filosofi ra e
pecialista em Literatu
ênfase em Estética. Es as
atro romances e de du
História. Autor de qu
.
coletâneas de contos
Nova York, com sua
Mora, atualmente, em
sua cachorrinha.
esposa Denise e Bia,
.com
henrybugalho@gmail
www.maosdevaca.com

José Espírito Santo


Informático com licenciatura
e pós graduação na Faculdade
Marcia Szajnbok de Ciências da Universidade de
Médica formada pela Facul- Lisboa, trabalha há largos anos
dade de Medicina da Univer- em formação e consultoria, sendo
sidade de São Paulo, trabalha especialista em Bases de Dados,
como psiquiatra e psicanalista. Sistemas de Gestão Transaccional
Apaixonada por literatura e lín- e Middleware de “Messaging”. A
paixão pela escrita surgiu recen-
guas estrangeiras, lê sempre que
temente, tendo no ano de 2007
pode e brinca de escrever de vez produzido os livros “Esboços”
em quando. Paulistana convicta, (contos) e “Onde termina esta praia”
lo.
vive desde sempre em São Pau (poesia). Vive com a família em Port
ugal em Alverca, uma pequena
cidade um pouco a norte de Lisboa.
marciasz@hotmail.com
jjsanto@gmail.com
http://www.riodeescrita.blogspot.com
/

r Deves
Maristela Scheue
pequena ci-
Gaúcha nascida na
eçou a sonhar
dade de Pirapó, com
logo aprendeu
em ser escritora tão
ipalmente, con-
a ler. Escreve, princ
suspense
110 SAMIZDAT fevereiro
tosdeno s gêneros mistério,
2009
110 ônica s.
e terror, além de cr
Caio Rudá
hoje
Bahiano do interior,
Es tuda Psico-
mora na capital.
Fe deral
logia na Universidade Pedro Faria
dia
da Bahia e espera um Estuda Matemática na Univer-
o. En-
entender o ser human sidade Estadual do Rio de Janeiro,
ac on tec e, vai músico amador e escritor quando
quanto isso não
co di fi-
escrevendo a vida, de dá na telha. Nascido e criado no
ist cia.
ên
cando o enigma da ex Rio.
do, prê-
Não tem livro publica
e sequer
mio, reconhecimento punksterbass@hotmail.com
a. Mas
duas décadas de vid http://civilizadoselvagem.blogspot.com/
tencial
como consolo, um po
.
asseverado pela mãe

Maria de Fátima Santos


Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde
viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licencia-
da em Física tem sido professora de Física e Química.
Com poemas em vários livros, em co-autoria, é às pe-
quenas histórias, que lhe voam no teclado, que chama
“meus contos”. O blog Repensando (www.intervalos.
blogspot.com ) tem sido seu parceiro e motivador na
escrita dos últimos anos. Escreve pelo gosto de deixar
que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

Volmar Camargo Junior é gaúcho. Formado


em Letras pela Universidade de Cruz Alta, não
leciona por sua própria vontade. Entrou na ECT
em 2004, e desde então já morou em meia dúzia
de “Pereirópolis” pelo Rio Grande. Atualmente
vive com a esposa Natascha em Canela, na Serra
Gaúcha. Dividem o apartamento com Marie,
uma gata voluntariosa e cínica.

v.camargo.junior@gmail.com
http://recantodasletras.uol.com.br/autores/vcj
m
/ Zulmar Lopes
Zulmar Lopes é carioca. Forma
do em jorna-
lismo pela Universidade Gama
Filho, trabalha
como assessor de imprensa. Alm
a provinciana e
coração suburbano, encontra-s
e provisoriamen-
te exilado na cosmopolita Copac
abana, bairro
fonte de inspiração de personage
ns e situações
que compõem seus con www.revistaamizdat.com
tos. Escreve para fugir 111
do marasmo.
Também nesta edição,
textos de

Caio Rudá José Espírito Santo

Carlos Alberto Barros Marcia Szajnbok

Dênis Moura Maria de Fátima Santos

Giselle Natsu Sato Maristela Scheuer Deves

Guilherme Rodrigues Pedro Faria

Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

Joaquim Bispo Zulmar Lopes

112 SAMIZDAT fevereiro de 2009


112