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Paula Pimenta

Apaixonada por palavras

Paula Pimenta Apaixonada por palavras

Introdução

A paixonada por palavras. Assim sou eu, assim sempre fui, até onde consigo recordar. Muito antes de aprender a

ler eu já folheava livros e revistas, sonhando em desvendar

aquelas letras agrupadas, em descobrir o significado daque- le mundo de papel que passava diante dos meus olhos. E, quando comecei a ler, nunca mais parei. É rara a ocasião em que não estou com um livro por perto, e mais raro ainda é o momento em que não estou com um bloco e uma caneta. Sempre anotando, pensando por escrito. Porque, se o amor

à

primeira vista aconteceu com as palavras lidas, o mesmo,

e

ainda mais forte, aconteceu com as manuscritas.

Na faculdade, cursei Jornalismo. Logo no começo, ao terem contato com meus textos, meus professores indagavam:

“Isso é uma crônica? Onde está o formato jornalístico?”. Foi quando percebi que narrar imparcialmente não era bem o que

Minha vontade era de escrever para transmitir os

meus sentimentos, criar histórias, comover. Por esse motivo,

acabei me transferindo de curso, me formei em Publicidade

e passei a levar a escrita como um hobby. A partir dessa época, alguns dos meus textos começaram

a ser publicados em alguns sites literários, e os comentá-

rios de quem lia me motivavam a escrever mais e mais. Foi quando fui convidada para ser colunista fixa do Crônica do Dia, um site de crônicas do qual eu era visitante assídua, e

eu queria

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por isso me senti realmente honrada com o convite. Escrevi

por vários anos, conquistei meus primeiros leitores fiéis e fui desenvolvendo meu estilo, criando minha forma própria de me expressar. Aprendi que para se fazer uma boa crônica não basta narrar algum fato e opinar sobre ele. É preciso usar uma lente de aumento, colorir os acontecimentos do dia a dia, para que eles possam despertar emoções, causar reações Quando comecei a escrever romances, deixei as crônicas um pouco adormecidas, por pura falta de tempo, mas sempre tive vontade de reunir as já escritas em um livro. Quando essa oportunidade surgiu e fui escolher as que entrariam (pois tenho um acervo de quase 150 delas), fiz uma verdadeira viagem no tempo. Li textos que criei há mais de dez anos e me surpreendi ao constatar o quanto ainda me pareço com

a pessoa que eu era, em alguns aspectos

quanto sou diferente agora, em vários outros. Porque as pala-

vras registradas no papel permanecem congeladas, enquanto

o autor delas continua vivendo, aprendendo, mudando, cres-

Mas também o

cendo. Por isso mesmo, minha autocrítica teve vontade de editar várias dessas crônicas, mas preferi apenas inserir a data, pois, apesar de atualmente pensar diferente sobre algumas

coisas, aqueles pensamentos foram os que estavam comigo em cada uma das fases que já vivi e foram importantes para que eu chegasse a quem hoje sou. O resultado final eu apresento agora, para todos vocês que são tão apaixonados por palavras quanto eu. Obrigada pela companhia e boa leitura!

agora, para todos vocês que são tão apaixonados por palavras quanto eu. Obrigada pela companhia e

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Regresso da ilusão

dezembro/2000

“Perfeita mesmo é a imagem que você tem daquele menino lindo que nunca mais viu.”

Essa foi a primeira frase que escrevi na minha agenda do último ano do colégio. Naquela época, a moda era passar todo verão em Cabo Frio, e eu lembro que essa citação se aplicou perfeitamente a um moreno de olhos verdes que eu e minhas amigas acabamos nunca conhecendo. Mas a imagem dele até hoje é inesquecível. De lá pra cá os requisitos mudaram. A vida ensina que conteúdo vale bem mais do que embalagem. Comecei a tomar birra dos muito bonitos ou muito ricos. Chega a ser preconceito da minha parte: se o cara tem um carro caríssimo, provavelmente deve gostar só de louras siliconadas, pagode e de conversar sobre futilidades. Já se é muito bonito, só serve pra ser amigo. Sou muito ciumenta pra ficar me estressando com a concorrência, e, por experiência própria, preocupar-se demais com a aparência só pra ficar à altura do galã é perda de um tempo que poderia ser bem melhor aproveitado ma- lhando a inteligência. Dizem os psicólogos que ainda crianças formamos em nossa mente uma imagem idealizada da pessoa que gosta- ríamos de amar. Daí surge o “amor à primeira vista”. Ao bater o olho em alguém que te remeta à tal imagem do subconsciente, surge uma sensação de familiaridade, e aí

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você enlouquece. Muito científico e nada romântico. Prefiro aquela historinha que eu aprendi nos filmes da Disney. Um

dia o príncipe vai passar, ver a menina cantando no bosque, se encantar por sua voz e, ao cruzarem o primeiro olhar, uau! Paixão instantânea, amor pro resto da vida. Que bom, agora já podemos nos preocupar com os outros problemas, como a carreira, o regime, o corte do cabelo E movida por essa ilusão, embora cada dia mais cética, foram-se anos. Alguns príncipes passaram por aqui. Uns se transformaram em sapos, outros em bruxos malvados, e outros viraram simplesmente bons amigos. Foi nesse momento – já quase me rendendo ao ponto de vista psicológico, sem mais um pingo de inocência e achando que depois que acaba a adolescência a paixão deixa de acontecer – que levei um susto que me fez mudar o rumo. Tudo começou quando inventei de fazer vestibular para cursar uma segunda faculdade, Música dessa vez. Pelo menos eu poderia trabalhar com o que realmente gosto, viraria professora de canto para crianças e tentaria colocar na cabeça delas um pouco de bom gosto pra salvar o futuro musical do país Pensando assim, acordei revoltadíssima em pleno sába- do, às seis da madrugada, depois de ter dormido apenas uma hora e meia no máximo por causa do aniversário do meu último “sapo”, ao qual eu insisti em ir mesmo sabendo que ele estaria acompanhado. Mas afinal ele tinha me convida-

Fui. Porém, acordei querendo que

um meteoro destruísse aquela faculdade, os vestibulares, as

Ah, podia destruir logo o mundo inteiro, assim

do com tanto jeitinho

manhãs

pelo menos eu não teria que acordar cedo nunca mais! E lá fui eu, como se fosse uma zumbi, dirigindo para o fim do mundo (não tinha um lugar mais longe pra colocarem essa faculdade, não?!), reclamando da vida sem parar. Pra piorar ainda mais minha intolerância, a primeira prova era

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de aptidão, e individual, e, com a boa ideia que a minha mãe teve de colocar meu nome com uma das últimas letras do alfabeto, eu fiquei lá três horas completamente à toa enquanto esperava me chamarem, tentando disfarçar minhas pálpebras caindo, sendo o mais antipática possível com meus colegas de infelicidade que tentavam puxar assunto, alheios ao meu mau humor Quando eu já estava achando que não ia sair daquele lugar nunca mais, escutei um nome conhecido! “Sou eu!”, levantei correndo. Aleluia! Vou acabar com isso logo pra poder dormir pra sempre! Minha cama querida, me aguarde, já estou chegando! Fui pelo caminho indicado por uma funcionária que apontou para uma porta: “Você vai entrar na sala 3, quem vai te examinar é o Thiago”. Mal escutei isso e ela me em- purrou pra dentro de uma salinha com um piano no fundo e, bem na minha frente, uma imagem completamente irreal, um oásis, um café, um energético, um balde d’água na minha cara. Meus Deus! Se tivessem me avisado, eu teria acordado mais cedo pra arrumar melhor o cabelo! O que estou fazendo com essa roupa sem graça? Por que eu não passei perfume? Minhas olheiras devem estar terríveis!

Por essa eu não esperava. Lá estava ele

mesmo. O príncipe dos meus sonhos de Bela Adormecida,

a imagem materializada do meu subconsciente. “Paula, você tem que cantar uma música, qualquer música, só pra eu ouvir sua voz e sua afinação.” Nossa, igual ao desenho, será que ele vai ficar encantado? E cantei. O mais bonito possível. Soltei a voz como

nunca. E ele ficou me olhando cantar

E depois, enquanto

eu fazia o resto da prova. Ao final, ele me levou até a porta da sala. Tchau, Paula. Tchau, Thiago.

Ah, o Thiago

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No domingo teve outra prova. Dormi menos ainda. Acordei ainda mais cedo. Cabelo, corretivo, perfume suave

e nem sinal do Thiago. No mínimo dormi mesmo

naquela sala de espera e ele foi o sonho bom. No mínimo foi só pra eu recordar como era tudo antes da inocência se perder.

No mínimo foi só pra ficar com aquela imagem perfeita. Do

menino lindo que eu nunca mais vou ver

de bebê

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Apaixonada por palavras

julho/2001

Odeio cantadas. Flores não me seduzem. Chocolates então, nem pensar. O que me comove são palavras. No caminho de casa, passo por uma pista de cooper onde há barras e aparelhos de ginástica. Em qualquer hora do dia ou da noite, rapazes de fazer inveja aos galãs glo- bais puxam ferros, correm como se fossem tirar a mãe da forca, levantam pesos, malham até o dedão do pé. Ao lado deles, garotas soltam suspiros para cada flexão de braço, lançam exclamações para cada bíceps trabalhado, fazem votação para definir qual peitoral é o mais sarado. Deixo tudo para elas. Tais rapazes não merecem um segundo olhar meu. Para mim, músculo em excesso é inversamente proporcional à inteligência. Fim de semana. Depois de muita insistência, aceito o convite das minhas amigas para ir dançar, mesmo sa- bendo que me arrependerei. Lugar dos infernos. Quente, barulhento, enfumaçado. E ainda por cima tenho que escutar aquela mesma frase: “E aí, gata, vem sempre por aqui?”. Fico na dúvida entre vomitar, sair correndo ou fingir que sou surda. Outra situação: o moço é lindo. Toca violão. Minha família gosta dele. Já estou quase convencida de que é minha alma gêmea. E então ele me manda um cartão:

“Não me canço de te olhar”. É, querido, vai ter que olhar

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para o outro lado. Cansada estou eu de quem não sabe

escrever nem em português. Mas por que eu sou tão viciada em palavras? Por ter crescido lendo enquanto minhas amigas brincavam de pique-esconde? Por minha primeira paixão ter sido

o Cebolinha, nos gibis da Turma da Mônica? Por amar

poesia desde que nasci? Não sei. O fato é que me desperta curiosidade quem sabe escrever o que pensa. Garotos que escrevem bem têm um charme diferente. Suas palavras me acariciam de tal forma que se tornam vitais para minha sobrevivência. Se eles têm tanto cuidado com a escrita, imagine o carinho que teriam comigo Ah, os homens que sabem escrever! Alguns conseguem ser tão sinestésicos, que chego a perceber a voz deles por

entre as linhas. Os que mais me impressionam são os que adivinham meu pensamento, mesmo sem me conhecer. É indescri-

tível a sensação de ler um texto e me identificar

totalmente com as palavras do escritor.

É como

se ele tivesse roubado a ideia que eu ainda não havia tido mas que já existia em mim. Emocionante perceber, na medida em que meus olhos vão descendo por sobre o texto, que existe alguém que pensa exatamente como eu. Infelizmente, a recíproca não é verdadeira. O sexo masculino, no geral, ainda se sensibiliza mais com um corpo esculpido do que com a forma que as escritoras dão às suas frases. No dia em que eu encontrar um que se importe mais com o que eu escrevo do que com a minha embalagem, eu me caso. Desde que a proposta seja feita por escrito.

E que, por trás daquelas palavras, existam óculos em vez

de músculos.

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