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Henrique Pizzolato foi condenado no STF, de forma
quase unânime, por quatro crimes. Pode ter sido uma
decisão errada, em todos os casos
por Lia Imanishi e Raimundo Rodrigues Pereira
UMA HISTÓRIA
EXEMPLAR
Política 2
HENRIQUE PIZZOLATO FOI diretor de Comunicação e Marketing do Banco do Brasil
(BB) do início do primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva até pouco depois
do estouro do mensalão, em agosto de 2005, quando foi afastado como um dos denunciados no
escândalo. Em agosto passado, sete anos depois, foi condenado no Supremo Tribunal Federal (STF)
por quatro crimes: corrupção passiva, dois peculatos e lavagem de dinheiro. Foram 44 votos; cada
um dos 11 ministros votou em cada uma das acusações. Só um voto não foi por sua condenação, o
de Marco Aurélio de Mello, que o absolveu do crime de lavagem de dinheiro.
Na história que publicamos a seguir tentaremos provar que todas as quatro condenações são
injustas, mesmo a por corrupção, em cuja defesa ele apresentou uma versão, de fato, pouco convincente
para 326 mil reais que recebeu do valerioduto, esquema montado pelo então tesoureiro do PT,
Delúbio Soares, e pelo publicitário mineiro Marcos Valério. Nosso argumento nesse caso: ao réu
cabe o benefício da dúvida; a acusação, à qual cabe o ônus da prova, não provou que Pizzolato não
repassou o dinheiro para o PT do Rio de Janeiro, como ele alega. Diremos mais: a condenação pelos
dois peculatos, essencial para “provar” a teoria do mensalão, simplesmente não se sustenta nos fatos.
Henrique Pizzolato tem 60 anos. For-
mou-se em arquitetura, com especiali-
zação em urbanismo. Estudou também
comunicação social durante três anos.
Em 1974, ainda universitário, passou em
concurso para escriturário do Banco do
Brasil (BB), onde, ao longo de 32 anos
de carreira, ocupou diversos cargos, até
chegar ao topo, em fevereiro de 2003,
como diretor de Marketing e Comuni-
cação, nomeado pelo recém-empossado
presidente do banco, Cássio Casseb. Já
conhecia Casseb do conselho da Brasil
Telecom, no qual este representava a
Telecom Itália e ele, a Previ, o fundo de
SHQVmRGRVIXQFLRQiULRVGR%%,QÁXLX
em sua nomeação também, é claro, sua
militância no PT, no qual ingressou logo
na fundação, ainda estudante universi-
tário. Depois, foi eleito presidente do
Sindicato dos Bancários do Rio Grande
do Sul e do Paraná, para onde se mudou
antes de ir para o Rio de Janeiro, em
Copacabana, onde mora até hoje. Foi
no movimento sindical que Pizzolato
conheceu, por volta de 1985, Luiz
Gushiken, então presidente do Sindicato
dos Bancários de São Paulo e depois
deputado federal pelo PT. Durante
cinco meses, ele, Gushiken e Eduardo
Jorge, também deputado federal pelo
PT, dividiram um apartamento em Bra-
sília. Pizzolato os convidou a trocar os
quartos de hotel pagos pela Câmara dos
Deputados pelo apartamento funcional
da Associação Nacional dos Funcioná-
rios do BB, da qual era dirigente. Em
2002 seu mandato na Previ terminou
UM HOMEM CONDENADO
Trinta e dois anos de carreira até o topo do Banco do Brasil.
E, de repente, Pizzolato se transformou num pária
e veio a campanha de Lula, da qual
Gushiken foi, junto com José Dirceu,
um dos dirigentes. Pizzolato começou
então a trabalhar ativamente para eleger
Lula. Como a Previ tem investimentos
junto a grandes empresas em diversos
setores – hoteleiro, ferroviário, portuá-
rio, bancário, mineração, infraestrutura,
turismo, lazer e imobiliário –, o partido
lhe deu a função de apresentar o plano
de governo petista em reuniões com os
líderes patronais dos sindicatos, asso-
FLDo}HVHHQWLGDGHVGHVVHVVHWRUHVDÀP
de obter apoio. Lula eleito, Gushiken
foi ser ministro da Secretaria de Comu-
nicação Social e Assuntos Estratégicos
da Presidência da República e superior
hierárquico de Pizzolato em relação aos
assuntos relativos à publicidade do BB.
Tudo parecia ir muito bem até 3
de agosto de 2005, quando a vida de
Pizzolato virou de cabeça para baixo.
Em manchetes de jornais, foi acusado
de receber R$ 326.660,27 encaminhados
a ele pelo empresário Marcos Valério, da
agência de publicidade DNA. Valério já
era tido como o operador do mensalão,
o grande escândalo do início do governo
Lula, e a Comissão Parlamentar Mista
de Inquérito (CPMI) dos Correios, a
mais importante de três formadas para
investigar o caso, pegava fogo. O di-
nheiro fora sacado por um contínuo da
Previ, Luiz Eduardo Ferreira da Silva,
em uma agência do Banco Rural, no
centro do Rio de Janeiro. Levado a de-
por na Polícia Federal (PF), o contínuo
DÀUPRX TXH 3L]]RODWR OKH WHOHIRQRX H
pediu que fosse buscar “documentos”
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Pizzolato: a acusação de corrupção
é a que mais dói. “Fui humilhado,
execrado em praça pública. Tudo
com insinuações, hipóteses.
Não apresentaram uma prova”
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no Banco Rural. Lá chegando, disse
no depoimento, foi levado a uma sala
interna do banco, onde lhe entregaram
dois embrulhos em papel pardo, os
quais disse ter levado pessoalmente
a Pizzolato, em seu apartamento em
Copacabana. Foi a notícia mais quente
dos jornais do dia seguinte. As matérias
destacavam que, pouco tempo depois
do recebimento do dinheiro, Pizzolato
comprara um apartamento de 400 mil
UHDLV YLVWR FRPR SURYD VXÀFLHQWH GH
sua culpabilidade. Quinze dias depois,
Pizzolato depôs na CPMI dos Correios.
Seu advogado pediu habeas corpus ao
67)SDUDOKHJDUDQWLURGLUHLWRGHÀFDU
calado, o que foi negado. Pizzolato disse
no depoimento que suas ações no BB
tinham sido aprovadas por Gushiken, o
que causou sensação ainda maior por-
que, àquela altura, a questão do dinheiro
que teria recebido de Valério já estava
associada a outra denúncia, maior: a de
ter desviado 73,8 milhões de reais do BB
ilegalmente para as empresas do publi-
citário. Pizzolato então estaria dizendo
ter feito isso a mando de Gushiken, um
dos maiores dirigentes do governo Lula.
O mensalão não mais iria sair do
noticiário dos jornais nos próximos sete
anos. Pizzolato disse, em depoimento
judicial, depois, que a sua inquirição
pelos deputados e senadores na CPMI
foi uma tortura, que se sentiu “humilha-
do”, “achincalhado”. Hoje vive recluso
no apartamento em Copacabana. Não
fala com a imprensa. Para Retrato do
Brasil, sua única concessão foi enviar
pela internet, a 7 de setembro, através de
seu advogado, Marthius Sávio Lobato,
em Brasília, uma declaração da Receita
Federal com a qual buscava provar que,
após uma devassa em suas contas, nada
fora apurado contra ele. Mas RB teve
cerca de oito horas de conversas com
Lobato, que estudou na Universidade
de Brasília, onde foi aluno de Gilmar
Mendes, um dos ministros do STF hoje
no julgamento do caso.
Lobato diz que considera seu cliente
um injustiçado. Conta que, na primeira
vez em que Pizzolato falou para os autos
da Ação Penal 470 (AP 470) – ou seja,
em depoimento judicial, tendo ele, como
advogado, ao lado, em 14 de fevereiro de
2008 – o juiz da 7ª Vara Federal Criminal,
Marcelo Granado, abriu a audiência para
toda a imprensa, fato que, diz ele, “não
ocorreu em nenhum outro depoimento
dos litisconsortes passivos, para utilizar a
própria expressão do STF”. Lobato diz
que ainda tentou anular o depoimento,
mas o ministro Joaquim Barbosa negou
o pedido sob o fundamento de que o
processo não está sob sigilo.
Depois de aberta a AP 470, Barbosa
expediu as chamadas “cartas de ordem”
para que os réus fossem ouvidos pela
Justiça em seus estados de origem. Em
2008, quando terminou seu depoimen-
to no Rio, o juiz Granado concedeu a
Pizzolato o direito de, “como pessoa
humana”, dizer mais algumas palavras
em sua defesa, se quisesse. Pizzolato
disse: “Eu queria dizer da minha revolta,
da minha insatisfação da forma como
eu fui envolvido nesses fatos, porque
HXWLYHDPLQKDFDUUHLUDSURÀVVLRQDO
14 | retratodoBRASIL 63
Valério:
Delúbio
mandou
R$ 2.676.660,67
para o PT-RJ.
R$ 326.660,67
via Pizzolato
destruída, tive a minha família exposta,
fui humilhado, fui execrado em praça
pública, fui julgado, fui satanizado em
público [...] tudo a partir de insinuações,
não foi apresentado um documento;
tudo a partir de hipóteses”.
Lobato disse a RB que Pizzolato
tinha saído dessa fossa e se animara
com a preparaçao das alegaçoes Fnais de
sua defesa, entregues ao STF em 30 de
agosto do ano passado. Mas a sentença
dos ministros do STF o teria arrasado. O
crime de corrupção passiva é, talvez, o
que mais lhe doa. A acusação é a de que
ele embolsou os 326 mil reais repassados
por Valério, justamente para facilitar os
desvios dos dois crimes de peculato,
um de 2,9 milhões de reais e outro de
73,8 milhões de reais. E, para encobrir
a corrupção cometeu outro crime, o
de “lavagem de dinheiro”, ocultando
origem, movimentação e destino dos
recursos recebidos de Valério a 15 de
janeiro de 2004.
No seu depoimento, Pizzolato disse
que naquele dia recebeu uma ligação
em seu celular de uma mulher que dizia
ser a secretária de Valério, pedindo que
Fzesse o ía·or de ir buscar documentos
para o PT” em um “escritório” no cen-
tro da cidade. Pelo fato de estar muito
ocupado, diz Pizzolato, acertou com a
secretária mandar outra pessoa em seu
lugar, no dia seguinte, com o compro-
misso de entregar os documentos ao
representante do PT que iria procurá-lo
no mesmo dia. Pizzolato diz que rece-
beu uns envelopes do contínuo Silva e
os repassou, como combinado, a uma
pessoa do PT que o procurou. Diz que
não abriu os envelopes, não quis saber
o nome do emissário do partido e nunca
mais viu a cara dele.
Lobato nega todos os crimes dos
quais Pizzolato é acusado. Diz que
Barbosa não analisou as provas apre-
sentadas por ele nos autos. No caso da
corrupção, diz, Barbosa e os juízes prin-
cipalmente especularam sobre a versão
que Pizzolato deu para a encomenda
recebida de Valério. A acusação, diz
Lobato, primeiro trabalhou muito para
provar que Pizzolato teria comprado um
apartamento de 400 mil reais, no mês
seguinte ao recebimento de dinheiro de
Valério, mas fracassou. Pizzolato provou
que comprou o apartamento com suas
economias, com um cheque do BB e
mais 100 mil reais em espécie, resultado
da venda de dólares que comprara – ele
mostrou o comprovante de aquisição.
Em depoimento judicial, Valério
disse que o diretório do PT do estado
do Rio de Janeiro, de acordo com o
então tesoureiro do PT, Soares, tinha
débitos de campanha de 2002, estava
se preparando para as eleições munici-
pais de 2004 e foi o que mais recebeu
recursos do esquema comandado por
Soares. O tesoureiro do PT, então, so-
licitou a ele que remetesse um total de
R> 2.6¯6.660,6¯ ao P1 numinense. As
pessoas indicadas para o recebimento
foram Manuel Severino, Carlos Ma-
nuel e Pizzolato, disse Valério. Os R$
326.660,67 repassados via Pizzolato
seriam parte desse total. Valério disse
também que Pizzolato trabalhou na
campanha eleitoral de 2002 com Soares,
no Rio de Janeiro.
Lobato diz, com razão, que o ônus
da prova é da acusação: “Cadê a prova
de que Pizzolato pegou esse dinheiro
para ele?”. Ao depor na CPMI em
2005, Pizzolato abriu para a Justiça,
imediatamente, todos os seus sigilos
bancario, Fscal e teleíonico. Mostrou
que tinha recursos mais que suFcientes
para comprar o apartamento que a
acusação sugeria ter saído de suborno
recebido. Em 2005, por exemplo, rece-
bia 4 mil reais da Previ, 19 mil reais do
BB, 18 mil reais a título de participação
no conselho da Embraer e mais 4 mil
reais devido à atuação no conselho da
Associação Nacional dos Funcionários
do BB. Lobato mostra a RB o imposto
de renda de Pizzolato que está nos
autos. Em 2003, seu patrimônio era
de R$ 1.304.725,45. Em 2004, de R$
1.768.090,23, já incluído o apartamento
comprado em fevereiro daquele ano. Seu
rendimento bruto anual em 2004 foi de
R$ 717.611,46 – aproximadamente 60
mil reais por mês. “A Receita Federal
e a Polícia Federal não conseguiram
encontrar nenhuma irregularidade nas
contas de Pizzolato”, diz Lobato.
Pizzolato tem razão? Ele pode ter
omitido fatos e o nome de pessoas em
sua versão da história, o que a tornou
pouco crível. Mas, aceitando-se a tese do
caixa dois, sua versão pode ser verdadei-
ra. L ele merece, pelo menos, o beneFcio
da dúvida, nesse caso. Mais ainda porque
os dois crimes de peculato de que é acu-
sado, e pelos quais ele teria recebido o
suborno, podem ter sido simplesmente
inventados para sustentar a tese do men-
salão, como relatamos a seguir.
O relator da CPMI dos Correios, Osmar Serraglio, nas alturas: a oposição comemora
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ONDE ESTAVAM OS DOCUMENTOS?
Barbosa disse que o BB não tinha recibos do dinheiro gasto por
Valério. Mas sabia que estavam com a CBMP, controlada pela Visa
Visanet é o nome fantasia da Compa-
nhia Brasileira de Meios de Pagamento
(CBMP), fundada no Brasil em 1995 e
que passou a operar mais amplamente
a partir de 2001. O capital controlador
da CBMP é da Visa International Ser-
vice (Visa), que tem 10%; do Bradesco,
com 39%; e do BB, 32%. O restante
está dividido entre cerca de 20 outros
sócios – bancos como Itaú, Santander
e BankBoston. Pode-se dizer, porém,
que o controle da CBMP sempre foi
da Visa, empresa americana do mundo
Fnanceiro globalizado criado nas últi-
mas décadas. Ela é a possuidora dos
direitos dos cartões de crédito e débito
da bandeira com seu nome, emitidos em
cerca de 200 países.
A partir de 2001 a CBMP começou
a operar no Brasil o Fundo de Incentivo
Visanet (FIV), “com o objetivo único”,
como diz um de seus documentos, “de
realizar ações de marketing destinadas a
incentivar o uso dos cartões Visa pelos
consumidores”. O FIV era formado
por uma porcentagem dos negócios
com os cartões e a CBMP destinava
os recursos assim obtidos a ações de
promoção e marketing dos mesmos,
a serem comandadas pelos sócios. O
dinheiro movimentado pelos cartões
da bandeira Visa é monumental: no
mundo, passa de 5 trilhões de dólares
por ano. No Brasil, é mais de 1 bilhão
de reais anualmente, somando-se ape-
nas os negócios feitos com os cartões
Visa do BB.
A CBMP arrecadou para o FIV
cerca de meio bilhão de reais entre 2001
e Fns de 2005, quando o íundo íoi en-
cerrado; na verdade, mudou de nome,
devido à má repercussão das histórias
divulgadas a respeito dele no mensalão.
O BB foi o líder dos negócios com
cartões de bandeira Visa nesse período.
Sua parte no FIV foi grande e crescente:
aproximadamente 150 milhões de reais
entre os anos de 2001 e 2004: 60 mi-
lhões de reais nos anos 2001–2002 – no
governo Fernando Henrique Cardoso,
portanto – e 90 milhões de reais nos
anos 2003–2004, já no governo Lula,
quando Pizzolato era diretor de Comu-
nicação e Marketing do BB.
Desde a criação da CBMP, o FIV
tinha um regulamento que cada sócio
deveria observar para usar os recursos.
participação no FIV, em 2001, o BB
decidiu, por questoes Fscais, que os
recursos do FIV não passariam por seu
orçamento. E nunca fez um contrato
especíFco com a CBMP nem com a
agência DNA para o uso dos recursos
do FIV. Essa situação persistiu até
meados de 2004.
A DNA trabalhava com publicidade
e promoção para o BB desde 1995.
Entre 2001 e 2002 dividia os trabalhos
de promoção com uso do dinheiro do
FIV com outras agências contratadas
para ser·ir o banco. No Fnal de 2002,
ainda no governo FHC – destaque-se,
para melhor entendimento de nossa
história –, o BB decidiu dividir os tra-
balhos das suas agências entre as áreas
de negócios chamadas de “governo”,
“atacado” e “varejo” e escalou a DNA
para o varejo, em que se encontravam
os serviços para promoção de seus
cartões com bandeira Visa.
O ministro Barbosa conhece bem
toda essa história. Sabe, por exemplo,
que os originais dos recibos dos servi-
ços da DNA prestados ao BB eram da
CBMP e que a companhia resistiu judi-
cialmente por longo tempo a entregar
tais recibos, mesmo com o escândalo
do mensalão, depois de ter sido de-
terminado, a 11 de janeiro de 2006,
pelo então presidente do STF, Nelson
Jobim, o acesso de peritos do Instituto
Nacional de Criminalística “a todos os
documentos da empresa no período de
2001 até janeiro de 2006”. Em junho de
2006, quando Barbosa já era, no STF, o
ministro encarregado de supervisionar
o andamento do inquérito 2.245, rela-
tivo ao mensalão, ele recebeu uma
Ele previa a cobertura para atividades
de promoção de todo tipo. No seu
item III.4, definia as “ferramentas
mercadológicas”, a serem usadas.
Lram especiFcadas algumas dezenas
dessas ferramentas, como: “publicidade
em mídias de massa”, “TV, rádio,
revistas, jornais, outdoors, mobiliário
urbano, front e back lights, painéis,
etc.”; “merchandi si ng, trabal hos
de pl anej amento, cri ação, l ayout,
editoração, produção, veiculação e
comissão de agência de publicidade”;
programas de Fdelizaçao ou promoçao
para portador no ponto de venda,
nas agências bancárias, via internet,
correio, telefone ou locais de grande
fluxo de portadores para estimular
venda do plástico; de planejamento e
criaçao, produçao de material graFco,
de divulgação e de apoio, contratação
de promotores, compra de benefícios,
brindes, prêmios, taxas governamentais
de aprovação e alvarás”. E por aí afora.
O FIV era administrado por um
comitê gestor, formado por um presi-
dente, um diretor de Finanças e Admi-
nistração e outro de Marketing, todos
da Visanet, a quem cabia ·eriFcar se
os recursos estavam sendo emprega-
dos “de acordo com as diretrizes, a
estratégia do negócio e as condições do
Regulamento”. Os recibos dos gastos
da agência de publicidade DNA, de Va-
lério, tao citados no mensalao, Fca·am
com a CBMP, que fazia pagamentos
diretamente a agência. Ao deFnir sua
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Já em 2005 Valério afirmava
ter feito os trabalhos pagos pelo
Fundo de Incentivos Visanet: na
foto, advogados dele entregam
o que seriam suas provas à
CPMI dos Correios (o relator,
Serraglio, à esquerda; ao centro,
o presidente, Amir Lando)
16 | retratodoBRASIL 63
petição do então procurador-geral,
Antonio Fernando de Souza, relatando
as diFculdades impostas pela CBMP ao
acesso dos peritos a sua documentaçao.
Souza requisitou “busca e apreen-
sao` na sede da empresa, além da que-
bra do sigilo do nuxo de comunicaçoes
e de dados em sistemas de iníormatica
e telematica` da CBMP. Barbosa apro-
vou os pedidos do procurador-geral e
a busca íoi íeita, mas a empresa apelou
ao S1l para reconsideraçao da decisao.
A CBMP ja ha·ia encerrado as ati·ida-
des do lIV em Fns de no·embro de
2005, mas uma intensa disputa judicial
entao ja esta·a em curso. O BB tinha
suspendido o contrato com a DNA
em íunçao do escandalo do mensalao.
1inha também alterado o modo de
relacionar-se com a empresa de Valério
ja em meados de 2004, para melhorar o
controle dos gastos.
Valério ingressou com açoes na
Justiça para cobrar do BB por ser·iços
íeitos e que nao teriam sido pagos. Lm
junho de 2009, ja com a AP 4¯0 com
dois anos de andamento, Barbosa en-
·iou ao BB um questionario relati·o ao
possí·el descumprimento de contrato
com a agência de publicidade no que
diz respeito ao bonus de ·olume ,BV,
reíerente ao período de íe·ereiro de
2003 a julho de 2005`. A escolha das
datas, que coincidem com a entrada e a
saída de Pizzolato da Dimac, a diretoria
de Marketing e Comunicaçao do BB, é
ób·ia: Barbosa ja tinha Pizzolato como
um al·o. Por que ele íez isso, ·isto que
a auditoria a que te·e acesso mostra·a
claramente: que o lIV tinha sido ope-
rado por Pizzolato exatamente como
nos anos 2001–2002; que os recursos
eram sempre adiantados a DNA e as
outras agências, em cerca de 80° do
total a ser gasto, antes de as despesas
serem íeitas, e que íora na época em
que Pizzolato era diretor do BB, em
meados de 2004, que tinham sido íeitas
mudanças - alias, bem-sucedidas - na
gestão do FIV, para evitar possíveis
abusos· Mais ainda: por que ele aceitou
a denúncia e encaminhou a condenaçao
somente de Pizzolato se a CPMI dos
Correios tinha pedido o indiciamento
de mais quatro pessoas, entre as quais
três dirigentes de setores ligados a
publicidade e promoçao do banco que
assinaram com ele as autorizaçoes para
os adiantamentos íeitos a DNA, de
Valério· As respostas serao dadas nas
paginas seguintes.
Receitas do FIV
utilizadas pelo
Banco do Brasil
Adiantamentos
às agencias de
publicidade
Gastos com notas
fiscais em poder
da CBMP
Gastos sem
notas fiscais
R$ milhões R$ milhões % R$ milhões % %
2001 28,83 26,4 91,57 28,76 99,76 0,24
2002 32,03 21,9 68,37 31,99 99,88 0,12
2003 38,43 29,7 77,28 38,28 99,61 0,39
2004 52,01 34,1 65,56 51,45 98,92 1,08
BARBOSA NÃO VIU
Os números da auditoria mostram o que o relator
provavelmente não quis ver
A tabela acima foi construída a partir da auditoria feita por 20 técnicos do BB por
quatro meses, logo após a denúncia do mensalão. Ela mostra que o Fundo de Incenti-
vo Visanet (FIV) foi operado pelo BB, entre 2001 e 2004, da mesma forma, tanto nos
anos do governo FHC (2001–2002) como nos anos do governo Lula (2003–2004).
Diz o relatório da auditoria que as regras para uso do fundo pelo BB tiveram
duas fases: uma, de sua criação, em 2001 , até meados de 2004, quando o banco,
em função de não ter adotado “definições formais acerca dos direcionamentos
estratégicos”, como tipo de “eventos ou ações que poderiam ser patrocinados”,
adotou “como referencial básico, o Regulamento de Constituição e Uso do Fun-
do” da CBMP, que é sua “legítima proprietária”; e outra, do segundo semestre
de 2004 até dezembro de 2005, quando o banco criou uma norma própria para
o controle dos recursos do fundo.
Os auditores fizeram simulações por amostragem para verificar a porcentagem
das ações de incentivo para as quais existiam comprovantes, no banco, de que elas
tinham sido de fato realizadas. Procuraram os documentos existentes no próprio
banco – notas fiscais, faturas, recibos emitidos pelas agências para pagar os ser-
viços e despesas de fornecedores para produzir as ações. Referente ao período
2001–2002, não foram localizados esses documentos. Já com relação aos anos
2003 e 2004, entre as 93 ações encaminhadas à Visanet, nas 33 ações selecionadas
como amostra para a análise, para três delas não havia qualquer documento e para
20 havia parte dos documentos. Ou seja: somando-se as ações com falta absoluta
de documentos às com falta parcial, estas chegavam a 45% do total de recursos
despendidos. Os auditores procuraram então os mesmos documentos na CBMP,
que, por estatuto, era a dona dos recursos e a controladora de sua aplicação. A
falta de documentação comprobatória foi, então, muito pequena em proporção aos
valores dos gastos autorizados, como se vê ma última coluna da tabela.
Para condenar Pizzolato, o relator Barbosa não destacou esses dados. Não os
viu ou não os quis ver?
S
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Pelas datas dos
pedidos se vê,
claramente.
O relator e o
procurador
geral queriam
pegar Pizzolato
O PEQUENO PILAR DO MENSALÃO
É a acusação que trata dos bônus de volume. E tem lei do
Congresso, contra a qual se insurge o presidente do STF
Os dois peculatos – desvios de 2,9
milhões de reais e 73,8 milhões de reais
do BB – que Pizzolato teria cometido
a favor da agência DNA, de Valério,
formam os pilares de sustentação do
mensalão. Se a acusação não consegue
provar esses dois desvios, a tese do
mensalão desmorona (ver “O herói do
mensalão”, nesta edição). O pequeno
peculato trata do bônus de volume (BV).
O que signiFca o BV· A acusaçao é de
que a DNA de Valério embolsava inde-
·idamente boniFcaçoes que seriam do
BB, dadas a ela, pelas empresas com as
quais contratava serviços para promo-
ção dos cartões Visa do BB, em função
do volume dessas contratações. No
interrogatório judicial de Pizzolato, em
2008, o juiz Granado leu um trecho da
denúncia do então procurador-geral que
aFrma·a que as boniFcaçoes de ·olume
pagas pelos fornecedores de serviços
para a DNA – jornais, TVs, empresas de
promoção contratadas pelo publicitário
para os trabalhos de estímulo ao uso
dos cartões Visa do BB – deveriam ter
sido repassadas ao BB pela agência de
Valério e não o foram. O próprio Gra-
nado informou que esse procedimento
era antigo: cinco agências, entre 2000
e 2005, embolsaram esses BVs e não
apenas a DNA.
Pizzolato fez, então, primeiro, um
esclarecimento. Mostrou que existem
dois tipos de boniFcaçao. Uma é o BV,
fruto da relação entre a agência de pu-
blicidade e o fornecedor de mídia – TVs,
rádios, jornais, revistas, etc. “O nome
ja diz, é uma boniFcaçao em íunçao do
volume”, disse Pizzolato. Não se restrin-
ge ao volume de publicidade veiculado
pela agência por um cliente, como o
BB. Todas as agências que prestavam
serviços para o banco tinham vários
clientes e o BV era dado pelas empresas
de mídia às agências pelo volume total
de anúncios veiculados. “Isso, doutor, é
praticado em todo o mercado, público
e privado”, disse Pizzolato a Grana-
do. O próprio Tribunal de Contas da
Uniao ,1CU, conFrma isso em uma
auditoria a que Granado tinha se refe-
rido, acrescentou Pizzolato: |O 1CU[
diz que o BV foi praticado no Banco
do Brasil de 2000 a 2005, por todas as
cinco agências que prestaram serviços
ao banco nessa época”. Pizzolato ex-
plicou depois que o BV se distingue
de boniFcaçao de espaço, que ·em da
relação entre o BB e os fornecedores
de mídia. “Os fornecedores – jornais,
rádios, televisões – costumam oferecer
uma boniFcaçao de espaço, de mídia,
para que o período de compra seja mais
longo. Por exemplo, eu comprei 60 dias
de espaço no Valor Econômico. O Valor
Econômico me faz uma proposta: se você
comprar noventa dias ou seis meses eu
te oíereço, como boniFcaçao de mídia,
o caderno especial de domingo, porque
vou lançar um caderno especial, um
encarte. Pode dizer também: eu te dou
mais 5% de desconto”. Nesse caso, o
banco participa da negociação. E todo
esse tipo de boniFcaçao íoi re·ertido
para o BB, disse Pizzolato ao juiz. Nesse
caso, nao ha transaçao Fnanceira, disse
Pizzolato a Granado.
O próprio procurador-geral Souza,
na denúncia apresentada ao STF em
2006, citou uma apuraçao do 1CU na
qual constava que a DNA teria recebido
esses BVs indevidamente desde 2000,
num valor de 4,3 milhões de reais. Mas,
como Souza já tinha como foco Pizzo-
lato, ele destacou que, desse dinheiro,
“2,9 milhões se referiam ao período de
31/03/2003 a 14/06/2005, da gestão
de Pizzolato na Diretoria de Marketing
do Banco do Brasil”. Como já se disse,
Barbosa também visava pegar Pizzolato,
quando, em 2009, com a AP 470 já em
pleno curso, enviou interrogatório à
direção do BB da época pedindo infor-
mações sobre eventual descumprimento
de contrato por BVs, exatamente no
período em que Pizzolato estava no
banco. O banco, no entanto, respondeu
de modo mais amplo. Disse que existiam
no 1CU cinco processos sobre BVs que
tratavam do BB, envolvendo justamente
as cinco grandes agências que prestavam
serviços para o banco entre 2000 e
2005: Grottera, Lowe, DNA, D+Brasil
e Ogilvy.
O BB mostrou a Barbosa que
apresentou recursos contra decisão
do 1CU que manda·a o banco pedir
auditoria nas cinco agências, para poder
juntar, aos autos do processo naquele
tribunal, todas as notas Fscais relati·as
a serviços de BVs emitidas por essas
cinco agências. O BB mostrou que
isso não foi aceito por nenhuma delas.
1odas iníormaram que as notas Fscais
relativas a BVs, por dizerem respeito a
negociações privadas entre elas e seus
fornecedores, nada tinham a ver com
seus contratos Frmados com o Banco
do Brasil” e não estavam contempladas
entre os documentos que poderiam ser
Fscalizados pelo banco.
As defesas de Pizzolato e Valério
mostraram nos autos, com testemunhos
importantes – de vários destacados
proFssionais do meio de comunicaçao
e marketing –, que o Ministério Público
tinha feito uma interpretação equivoca-
da do BV. 1odos aFrmaram que o BV
não pertence à empresa contratante (no
caso, o BB), e sim à agência de publi-
cidade. Uma dessas testemunhas íoi o
diretor-geral da Rede Globo, Octávio
Florisbal, que criou o BV no mercado
de propaganda e marketing brasileiro.
Ele disse que “praticamente todos os
veículos impedem que a agência repasse
esses volumes ou esses valores para os
anunciantes`: No caso especíFco da
empresa em que eu trabalho, toda vez
que nós temos conhecimento de que
uma determinada agência está repas-
sando a boniFcaçao de ·olume para
um determinado anunciante, nós sus-
pendemos esse plano, porque esse não
é o objetivo”. Florisbal citou normas
do mercado de publicidade, decisões
e acordo recente “entre anunciantes,
agências e veículos” para comprovar que
o BV é “direito da agência e não deve
ser repassado aos anunciantes, sejam
da iniciativa privada, sejam anunciantes
de estatais”.
Barbosa, o relator do julgamento
do mensalão, citou diversas vezes, para
condenar Pizzolato, os termos do
18 | retratodoBRASIL 63
contrato entre o BB e a DNA. Leu um
dos seus itens, que diz que a agência
deveria “envidar esforços para obter as
melhores condições nas negociações
junto a terceiros e transferir, integral-
mente, ao banco, os descontos especiais
(além dos normais previstos em tabelas),
boniFcaçoes, reaplicaçoes, prazos espe-
ciais de pagamento e outras vantagens”.
As boniFcaçoes citadas no contrato,
diz Lobato, sao as tais boniFcaçoes de
mídia” oferecidas pelos fornecedores
para estimular vendas por períodos
mais longos.
No TCU, ao analisar o caso DNA–
BB, a ministra Ana Arraes considerou
regular o íato de a agência Fcar com o
BV. Tomou como base a Lei 12.232,
sancionada em 2010, que autoriza isso
explicitamente, em dois artigos, um
deles referindo-se a contratos encerra-
dos antes de a lei entrar em vigor. Ela
tomou por base a votação de processos
idênticos, Frmados pelo BB com outras
empresas, relatados pelo ministro do
TCU Marcos Vinicios Vilaça. Ao funda-
mentar essa decisao o ministro aFrmou:
Além de inútil na pratica, a quantiFca-
ção de BV é algo impossível de contro-
lar, porque o prêmio depende, primeiro,
da política de incentivos do ofertante
e, segundo, dos investimentos feitos à
ordem de outros contratos que a agência
possui. Tenho assistido, perplexo, ao
Tribunal orientar as entidades públicas
a efetuarem auditorias em agências de
publicidade para apuração do bônus de
Quanto ao grande peculato, o desvio de
73,8 milhões de reais do BB para Valério,
que teria sido feito sob o comando de Pi-
zzolato, tanto o relator Joaquim Barbosa
como o revisor Ricardo Lewandowski
apresentaram em seus votos para os
nove colegas do STF um cenário abso-
lutamente incrível. Entre 2003 e 2004, no
cargo de diretor do BB, Pizzolato teria
comandado, sozinho, o desvio daqueles
milhões de reais do banco para a agência
de publicidade DNA, principalmente
na forma de adiantamentos, sem que se
tenha comprovado a realização de qual-
quer propaganda ou promoção. Também
isoladamente ele teria prorrogado um
contrato de publicidade com a DNA,
no período de abril a setembro de 2003.
E, além disso, sem qualquer processo
licitatório, Pizzolato teria dado a conta
de publicidade do Banco Popular, lan-
çado na época pelo BB, para a mesma
agência do operador do mensalão, como
se fosse o dono de uma espécie de “casa
O DESVIO NA “CASA DA MÃE JOANA”
A se acreditar nas descrições do relator e do revisor da AP 470,
Pizzolato teria tirado 73,8 milhões de reais do BB na “mão grande”
volume. Não vejo cabimento nisso”.
O fato é que a Lei 12.232/2010,
que dispõe sobre as normas gerais para
licitação e contratação de serviços de
publicidade pela União, foi editada
para regulamentar o que já existia nas
relações de fato entre agências e anun-
ciantes públicos e privados. O projeto
que deu origem à lei é do então depu-
tado e hoje ministro da Justiça, José
Eduardo Cardozo. É de 2008 e legaliza
a retenção, pelas agências, dos BVs nos
contratos com as empresas estatais. O
projeto aprovado foi o emendado pelos
parlamentares Milton Monti (PR–SP) e
Claudio Vignati (PT–SC). Vignati diz
que a emenda foi pedida pelo setor de
publicidade, porque as agências sempre
retiveram na prática os BVs. Para sanar
a polêmica que havia, o que era “uso e
costume” foi colocado na lei. O minis-
tro Ayres Britto, presidente do STF, ao
condenar Pizzolato e Valério, saiu-se
com uma proposta disparatada: atacou
a lei íeita pelo Congresso: Lssa lei íoi
preparada intencionalmente, maquina-
damente, para coonestar com os autos
desta Ação Penal 470”. Para Britto, a lei
“é um atentado descarado ao artigo 5º,
inciso 36, da Constituição, que fala do
princípio de segurança jurídica, dispo-
sitivo que é verdadeira cláusula pétrea”.
O presidente da suprema corte, ago-
ra, além de dar sentença, parece querer
mandar o Congresso fazer nova lei. E
revisar dezenas e dezenas de contratos
feitos pelas estatais, que respeitaram os
BVs nas últimas décadas.
Ana Arraes, no centro da foto, o ministro
Vilaça, à esquerda, e Ayres Britto, à
direita: pelo TCU, ela reafirmou as regras
e ele considerou que era absurdo ser
diferente. Já o presidente do STF se
rebelou contra a lei
A
B
r
S
T
F
A
B
r
19 63 retratodoBRASIL |
Barbosa e Lewandowski ignoraram
também a auditoria do BB, já citada, feita
por 20 técnicos ao longo de quatro meses.
Ela, como vimos, mostra que os recursos
usados pelo banco para publicidade dos
cartões de bandeira Visa foram geridos
por Pizzolato basicamente como o ha-
viam sido nos anos 2001–2003. Entre
2001 e 2004, dos cerca de 150 milhões
de reais pagos pela CBMP para ações de
incentivo ao uso dos cartões de bandeira
Visa do BB, tanto no período 2001–2002,
quando foram usados 60 milhões de reais,
como nos anos 2003 e 2004, quando se
usaram 90 milhões de reais, sempre cerca
de 80% dos recursos foram antecipados
pela CBMP, a pedido do BB, para as
agências de publicidade contratadas pelo
banco.
As antecipações, mostrou o trabalho
dos auditores, tanto as de 2001–2002
como as de 2003–2004, foram repassadas
às agências de publicidade contra a apre-
VHQWDomRGHGRFXPHQWRVÀVFDLVQRYDORU
global das ações. No caso das do período
2001–2002, no documento do BB que
pedia as antecipações constava o valor de
cada ação. No caso das de 2003–2004, o
valor de cada ação era apresentado em 93
ações de incentivos distintas, cada uma de-
ODV´GHVFULWDVHPQRWDWpFQLFDHVSHFtÀFDµ
em documento da Dimac.
O relator também não mencionou o
fato de na gestão de Pizzolato terem sido
introduzidas melhorias no controle dos
gastos nem citou um fato que obviamente
deveria ser de seu amplo conhecimento,
por constar de um documento encami-
nhado a ele pelo defensor de Valério, Mar-
celo Leonardo. O documento mostra que,
em 17 de janeiro de 2006, o então gerente
executivo de atendimento e controle do
BB, Rogério Souza de Oliveira, informou
à DNA que havia um saldo negativo de
pouco mais de 2 milhões de reais de des-
pesas realizadas até 14 de dezembro de
2004, sobre o qual era necessário que a
agência prestasse contas. No documento,
Leonardo contra-argumentou dizendo
que os gastos efetuados em ações de
incentivo de interesse do BB–Visanet em
2005 foram de 12,9 milhões de reais e que,
portanto, existe uma diferença, não da
DNA para o BB, mas do BB para a DNA.
Leonardo disse ainda que a maior
parte dos recursos repassados pela Vi-
sanet, em torno de 66%, foi empregada
no pagamento de veiculação junto às
maiores empresas de mídia do País. Ele
apresentou uma relação de pagamentos
feitos pela agência, com o número das
Barbosa
inventou que
depoimentos
de amigos
não valem. De
onde ele tirou
essa regra?
GDPmH-RDQDµJLJDQWHHSXGHVVHGHFLGLU
tudo sozinho.
No caso das quatro notas técnicas
de liberação de recursos para a DNA
apresentadas por Barbosa para incrimi-
nar Pizzolato, o comitê de marketing da
Visanet examinou todas as suas ações e as
aprovou. Essas notas técnicas são planos
de trabalho elaborados pelos gerentes exe-
cutivos das áreas de varejo e publicidade
GREDQFRTXHUHFHEHPR´GHDFRUGRµGRV
diretores dessas áreas. No caso das notas
apontadas como ilegais, em todas elas
3L]]RODWRDSHQDVGHXRVHX´GHDFRUGRµ
em conjunto com os demais diretores.
Além disso, apesar de Barbosa descon-
siderar o fato, todas tinham, no mínimo,
a assinatura dos dois gerentes executivos
dos comitês de marketing do BB – Cláudio
de Castro Vasconcelos e Douglas Macedo
– e dos dois diretores das áreas de varejo
e marketing – respectivamente, Fernando
Barbosa de Oliveira e Pizzolato.
Como o dinheiro do fundo Visanet é
considerado privado, conforme as inter-
pretações tanto do BB como da Visanet,
em seu voto para incriminar Pizzolato,
Barbosa disse que não importava se os
recursos eram públicos ou privados, mas,
sim, que Pizzolato tinha a posse deles e
os desviou em benefício da DNA e em
prejuízo dos cofres públicos. E deu o
exemplo do peculato do carcereiro, que
trabalha em uma cadeia pública, mas
rouba os pertences dos presos, que são
privados.
“Mas e se o dinheiro estivesse na con-
WD FRUUHQWH GR SUHVR"µ GL] R DGYRJDGR
Lobato. “O carcereiro conseguiria tocar
no dinheiro? Não, o dinheiro só sairia de
lá se o próprio preso, ou seu representante
legal, o retirasse. É o que acontece no
caso do Pizzolato. O dinheiro não estava
no BB e só quem podia tirá-lo do fundo
Visanet eram os representantes legais do
BB junto ao fundo. Pizzolato não tinha
essa representação; logo, não tinha a posse
GRGLQKHLURµGLVVH/REDWR
Barbosa insistiu em dizer que Pizzo-
lato autorizava sozinho os adiantamentos
de recursos para a DNA, desconsideran-
do todos os depoimentos em juízo de
dirigentes do BB que trabalhavam com ele
e que testemunharam em sua defesa. Vas-
concelos, funcionário do BB por 25 anos,
que trabalhou na Dimac, reconheceu sua
assinatura em algumas notas e esclareceu:
“No Banco do Brasil não existem deci-
sões individualizadas. Todas as decisões
são por comitê. Então, a primeira decisão
é da divisão, depois vai para a gerência
executiva, para a diretoria e, dependendo
do valor, pode subir ao Conselho Diretor
do banco. Rapidamente, pelo que eu vi,
essa nota foi submetida ao Conselho Di-
retor do Banco do Brasil, pelo valor do
dispêndio. Ela foi primeiro aprovada no
comitê da Diretoria de Marketing, depois
no Comitê de Comunicação, de que fazem
parte outros diretores da empresa, e, por
ÀPQR&RQVHOKR'LUHWRUGREDQFR1D
diretoria de Marketing, quatro pessoas;
no Comitê de Comunicação, se não me
engano, são nove diretores; no Conselho
Diretor do banco tenho a impressão de
que são o presidente e mais sete vice-
SUHVLGHQWHVµ
“Em algum caso era possível a
Henrique Pizzolato assinar e autorizar
sozinho qualquer verba de publicidade
e propaganda, seja verba do Banco do
%UDVLOVHMDGD9LVDQHW"µTXLVVDEHU/R-
bato. Vasconcelos respondeu: “Como
eu disse anteriormente, as decisões são
todas colegiadas. Nem o presidente do
EDQFRWRPDGHFLV}HVLVRODGDVµ(VVHUH-
gime colegiado foi instituído no BB em
1995, quando o banco foi reestruturado,
durante o governo FHC.
Vasconcelos confirmou ainda “o
sucesso das campanhas publicitárias
desenvolvidas pela DNA, que coloca-
ram o Banco do Brasil na liderança do
faturamento de cartões de crédito entre
RV EDQFRV DVVRFLDGRV j 9LVDQHWµ 8P
indício de que a publicidade foi realizada
e, como disse Vasconcelos, com sucesso,
está no aumento do volume de negó-
cios dos cartões emitidos pelo BB com
bandeira Visa. Esse volume cresceu em
média 35% no período de 2001 a 2004,
enquanto o mercado teve aumento de
29% no mesmo período.
20 | retratodoBRASIL 63
21 63 retratodoBRASIL |
Não ter
contrato da DNA
com a Visanet
também foi
decisão de 2001.
Não foi ideia
de Pizzolato
SOBROU APENAS PIZZOLATO
Cinco foram indiciados pela CPMI. Gushiken saiu, porque já havia um chefe da quadrilha
política. E saíram os três do governo FHC. Porque atrapalhavam a tese do mensalão petista
FERNANDO
BARBOSA OLIVEIRA
Diretor de Varejo do BB
CLÁUDIO
VASCONCELOS
Gerente executivo no BB
DOUGLAS MACEDO
Gerente executivo no BB
INDICIADO
PELA
CPMI DOS
CORREIOS
DENUNCIADO
PELA
PGR
CONDENADO
POR
BARBOSA
HENRIQUE
PIZZOLATO
Diretor de Comunicação
e Marketing do BB
LUIZ GUSHIKEN
ministro da secretaria
de Comunicação Social e
Assuntos Estratégicos
do governo Lula
notas Fscais emitidas para íornecedores,
os ·alores e as comissoes de·idas a DNA,
em que os maiores ·alores sao pagos as
emissoras de 1V Globo, Record, SB1 e
Bandeirantes, além de ·arias agências de
publicidade subcontratadas, como a D-,
a Meta 29, a Ogil·y e a Markplan, além
de casas de show, da BB1ur - Viagens e
1urismo e outras empresas.
A denúncia diz ainda que, embora o
BB tenha contratado três agências para
cuidar da publicidade, apenas a DNA íoi
beneFciada com antecipaçoes de recursos.
Isso é íalso, diz Lobato. Lm 2001-
2002 íoram íeitas antecipaçoes para todas
as empresas de publicidade do BB que
presta·am ser·iços de promoçao dos
cartoes Visa. No segundo semestre de
2002, ainda sob o go·erno llC, a direçao
do banco reestruturou os negócios de
publicidade em três pilares: para o ·arejo,
responsa·el pelos negócios da pessoa
íísica, para o atacado, com os negócios de
pessoas jurídicas, e para o go·erno, que
trata de negócios com preíeituras, camaras
municipais, assembleias estaduais, estados
e órgaos públicos. Decidiu-se que cada
uma das três grandes agências publicita-
rias que a época presta·am ser·iços para o
BB Fcaria com um desses pilares: a Lowe,
com a area de go·erno, a Grottera, com o
atacado, e a DNA, que ja presta·a ser·iços
ao banco ha·ia quase dez anos, Fcaria
com o ·arejo, no qual esta·a o trabalho de
promoçao dos cartoes de bandeira Visa.
O ministro Barbosa considerou gra·e,
Fnalmente, o íato de nao existir contrato
entre a Visanet e a DNA. O Instituto
Nacional de Criminalística pediu a Visa-
net esse contrato, em 2006. A empresa
respondeu que ele nao existia, porque os
recursos para as açoes planejadas pelo
BB para promo·er os cartoes Visa eram
pagos por ela diretamente aos respecti·os
íornecedores contratados, cotados e ne-
gociados pelo próprio BB. Se a Visanet
nao tinha contrato íormal com a DNA,
embora se beneFciasse com a publicidade
de ·enda desses cartoes pelo BB, tampou-
co o BB tinha contrato com a Visanet.
Um parecer do departamento jurídico do
banco, de agosto de 2004, que se encontra
nos autos da AP 4¯0, explica que o íundo
de incenti·os da Visanet nao íoi criado,
em 2001 , por um con·ênio entre o BB e
a Visanet, mas, sim, íeito por uma decla-
raçao unilateral de ·ontade` da empresa
de cartoes, que se dispos a pagar as açoes
de incenti·o ao uso dos cartoes, desde que
elas atendessem as condiçoes pre·istas
em seu regulamento. O parecer diz ainda
que a íorma escolhida pelo BB, de nao
íazer passar os recursos pelo orçamento
do banco, era a melhor do ponto de ·ista
tributario e nao cria·a problemas com
a Receita lederal. Lm suma, nao ha·ia
contrato entre DNA e BB para ser·iços
de promoçao dos cartoes Visa porque isso
implicaria des·antagens Fscais para o BB.
L isso nao íoi uma ideia de Pizzolato, mas
do departamento jurídico do BB.
Por último, o relator Barbosa nao
considerou rele·ante que só Pizzolato,
dos quatros signatarios das notas técnicas
que íormalizariam o suposto des·io de
¯3,8 milhoes de reais do BB para Valério,
íoi denunciado pelos dois procuradores-
gerais, Souza e Gurgel. Como o des·io
nao íoi pro·ado, pela argumentaçao que
acaba de ser exposta, isso nao seria um
problema maior. O problema é que a ar-
gumentaçao exposta neste artigo consta
dos autos, mas nao íoi usada por Barbo-
sa. 1al·ez porque ele, na maior parte do
tempo, esti·esse tomado por uma íúria
acusatória`, como disseram os jornalistas
Marcelo Coelho e Janio de lreitas, em
artigos publicados pelo diario Folha de
S.Paulo, e 1ereza Cru·inel, do Correio
Braziliense. Ou tal·ez porque, como disse
o sociólogo \anderley Guilherme dos
Santos, o ministro Joaquim Barbosa,
em uma de suas ino·açoes, declarou, íora
dos autos, que iria desconsiderar ·arios
depoimentos dados em relaçao ao P1
e a alguns dos acusados porque ha·iam
sido emitidos por amigos, colegas de
Parlamento, mas considerou outros
depoimentos. A lei nao diz isso, nao ha
fundamento disso em lei. Um ministro
diz que ·ai desconsiderar depoimentos
porque sao de pessoas conhecidas como
amigas dos réus, mas pinça outros, e
ninguém na Corte considera isso uma
aberraçao· Parece-me que o julgamento
terminara por ser um julgamento de
exceçao`.

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