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Thomas Kuhn e a Revolução Científica

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Thomas Kuhn e a Revolução Científica
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Published by: Filomena Borges on Dec 19, 2012
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Ao contrário da religião, que repete as mesmas verdades há séculos, sem cogitar um único corte epistemológico, a ciência não é dogmática

. Ao avançar revendo os seus conceitos e paradigmas, este tipo de “conhecimento” refere-se a uma prática sistemática baseada num método científico. Segundo Thomas Kuhn o desenvolvimento típico de uma disciplina científica dá-se ao longo da seguinte estrutura aberta: fase pré-paradigmática, ciência normal, crise, revolução, nova ciência normal, nova crise e nova revolução. Para este autor, a palavra revolução tem sentido através de um evento cíclico que se completa. Deste modo, Kuhn defende que a ciência passa por alguns “períodos” bem definidos. Nomeadamente os períodos de “ciência normal” e os períodos de “ciência extraordinária”. Esses períodos estão directamente relacionados com a mudança de paradigmas. A fase de ciência normal é caracterizada pela aceitação praticamente axiomática de um paradigma qualquer, enquanto a fase de ciência extraordinária é caracterizada pela substituição do paradigma vigente por outro. Durante a fase de ciência normal, as pesquisas são feitas sob os moldes do paradigma vigente. Eventualmente existe um ou dois problemas que não podem ser resolvidos pelo paradigma os quais recebem o nome de “anomalias”. As anomalias podem-se acumular até ao ponto em que a credibilidade do paradigma é afectada. No processo, um novo paradigma pode substituir o antigo, resultando no período de “ciência extraordinária”. Uma vez que o paradigma antigo é substituído pelo novo, a “revolução” completa-se, voltando para o período de ciência normal. Embora uma revolução científica kuhniana provoque mudanças na ciência, essas mudanças não são necessariamente “bruscas” ou profundas. Em geral, afectam apenas a parte da comunidade científica envolvida com o paradigma que foi substituído. Para exemplificar este fenómeno preconizado por Kuhn, podemos recorrer a uma recente “revolução” ocorrida no campo da medicina. Até aos anos 80, a úlcera gástrica era atribuída a factores de personalidade, desequilíbrio da secreção de suco gástrico, entre outros factores, sendo que o seu tratamento incluía até cirurgia. Contudo, em 1983 descobriu-se que a úlcera é uma

Apesar de ao longo da exploração de um paradigma. até que o paradigma não consegue explicar dados contraditórios sendo necessária uma revolução científica para estabelecer um paradigma alternativo. Utilizando a analogia anterior. ela é desenvolvida segundo regras relativamente bem definidas. de facto. Kuhn entende a ciência normal como uma actividade de resolução de “quebracabeças”. a actividade flui normalmente. o cientista deve persistir tenazmente no seu compromisso com o paradigma. com isto. Nestas situações de crise. tais alternativas . causada pelo “Helycobacter pilori” passando a doença a ser tratada com antibióticos. Do mesmo modo. essa restrição é essencial ao desenvolvimento da ciência. Imre Lakatos chamou a atenção para o facto de hipóteses múltiplas protegerem o corpo central de uma dada teoria. Este é apenas um pequeno exemplo. Quando o quebra-cabeças sem solução a que Kuhn denomina de “anomalias” se multiplica. um pré-requisito para a revolução. que pode levar à crise é. cortar o canto de uma peça do quebra-cabeças para que se encaixe numa determinada posição. Desta forma. o cientista só conseguirá ir fundo no estudo da Natureza se centrar a sua atenção numa gama seleccionada de fenómenos e princípios teóricos explicativos. resiste por longos períodos aos melhores esforços dos melhores cientistas. e em um certo sentido selectiva. Embora a ciência normal seja uma actividade direccionada. não pode ser levado ao extremo. enquanto o “mapa” paradigmático se apresentar frutífero. é tempo de considerar a substituição do próprio paradigma. sendo imprescindível uma revolução kuhniana para a modificar. Para Thomas Kuhn a ciência é formada por paradigmas que dirigem as experimentações efectuadas ao longo de um desenvolvimento científico e. membros mais ousados e criativos da comunidade científica propõem alternativas de paradigmas. Perdida a confiança no paradigma vigente. através do qual é possível comprovar que o funcionamento defeituoso. e não surgirem embaraços sérios no ajuste empírico da teoria. já que. No caso da ciência. Um dos pontos importantes destacados por Kuhn é que. como eles.doença infecciosa. e incide sobre áreas vitais da teoria paradigmática. está fora de questão. alguns desses quebra-cabeças se mostrem de difícil solução. o dever do cientista é insistir no emprego das regras e princípios paradigmáticos fundamentais enquanto puder. por exemplo. esse apego ao paradigma.

no caso das ciências. Embora existam factores e argumentos favoráveis no que se refere á substituição ao encarceramento. de que as instituições. Contudo. enquanto não surgir um outro que se revele superior a ele em praticamente todos os aspectos. o paradigma até então adoptado não ser abandonado. respectivamente. quanto à adopção de penas alternativas: A ideia de que determinadas penas privativas de liberdade venham a ser substituídas por penas alternativas tem vindo a ser discutida e colocada como uma alternativa eficaz à crise do sistema penitenciário. Atentemos então a uma medida recentemente implementada no Brasil. que ofereçam resultados a curto prazo e que façam com que a pena cumpra a sua função ressocializadora. em um caso e em outro. como no caso das Revoluções Balcânicas do séc. “consideraremos revoluções científicas aqueles episódios de desenvolvimento não cumulativo nos quais um paradigma mais antigo é total ou parcialmente substituído por um novo. no caso político. visam realizar mudanças. no caso das revoluções científicas. e políticas. ou os paradigmas. o ordenamento jurídico brasileiro considera a adopção de tais medidas um factor decisivo para a reforma do seu sistema penitenciário dadas as inúmeras vantagens dessas medidas serem concretizadas desde logo. usando como meio de acção a força ou a persuasão. mesmo durante a crise. A diferença básica reside no facto de. A importância da crise deve-se ao facto de os membros da comunidade serem levados a escolher novas instituições ou paradigmas. incompatível com o anterior”. Kuhn faz um paralelo entre revoluções políticas e revoluções científicas. oferecendo o que o sistema prisional brasileiro mais necessita: soluções eficazes. De acordo com Kuhn. . culminando numa revolução. Ainda comparando revoluções políticas e científicas. deixaram de funcionar adequadamente. Kuhn afirma que elas podem ser localizadas. assemelhando-se ao que ocorreu na fase pré-paradigmática. no caso das revoluções políticas. no caso das revoluções políticas ou científicas. que são proibidas pelas instituições.começam a ser levadas a sério por um número crescente de cientistas. ou pelos paradigmas. XX. como no caso da descoberta do raio X ou até mesmo no caso das revoluções científicas. instalandose um período de discussões e divergências sobre os fundamentos da ciência. existem também críticas no que se refere à adopção de tais medidas. restrito a um grupo da comunidade. afirmando que aparece um sentimento crescente. As revoluções políticas e científicas.

O significado das crises consiste exactamente no facto de indicarem que é chegada a ocasião para renovar os “instrumentos”. a função da revolução. . Se a ciência progride é porque contém em si os meios mediante os quais o paradigma "falha". é possível afirmar que a perspectiva desenvolvida ao longo deste texto. para além de sublinhada a importância concedida à teoria. Enquanto os instrumentos proporcionados por um paradigma continuam capazes de resolver os problemas que este define. que visa não apenas diminuir o contingente carcerário das prisões. tratando-se não só de formular hipóteses mas também de as refutar. Se a ciência normal tem como função fornecer aos cientistas a oportunidade de desenvolverem detalhadamente uma teoria. justamente. Se toda a investigação é feita com base num paradigma e se esse paradigma contém elementos de variada natureza. parecer que Kuhn se limita a dar uma explicação puramente descritiva da natureza das ciências.As penas alternativas surgem nesse contexto como uma medida de política criminal. por exemplo. aplicando toda a sua energia e todo o seu esforço. tendo em vista o facto de ele não ser retirado do seu convívio social e de não sofrer a influência do ambiente “depressivo” da prisão. não há experiência nem ciência. a história da ciência consiste numa série de conjecturas. a priori. quais então as consequências de Kuhn para uma nova ideia de ciência? Em primeiro lugar. a ciência move-se com maior rapidez e aprofunda-se ainda mais através da utilização confiante desses mesmos instrumentos. Segundo a perspectiva popperiana. como a entende Popper. a ciência não progrediria. sem teoria. ele apenas estabelece as funções da ciência normal e da revolução. O que Kuhn propõe é um progresso que se faz mediante a revolução. Apesar de. Deste modo. Esta situação clarifica de forma breve a mensagem que Kuhn pretende transmitir ao defender que “uma nova teoria apenas surge após o fracasso caracterizado na actividade normal da resolução de problemas”. permitindo o salto para um outro. oferece um novo questionamento de toda a ciência experimental. Kuhn adianta que se permanecesse neste período normal. sendo esta. é também questionada uma concepção de história “secular” da ciência. mas também possibilitar uma maior efectivação do carácter educativo da pena. proporcionando uma maior oportunidade de “socialização” do criminoso. Em segundo lugar.

como aliar a historicidade da ciência a esse seu objectivo.A ciência. se há história. No entanto. justamente. . consequentemente. tanto mais sensível este será como indicador de anomalias e. visto que cada teoria aperfeiçoa a anterior e é. de uma ocasião para a mudança de paradigma”. que é a formulação de proposições científicas verdadeiras? Nesta perspectiva a ciência constrói-se por acumulação. A ciência tem então como horizonte a produção de verdades e a apresentação de teorias explicativas da realidade. sem ele as descobertas são “novidades relativas a factos”. mas para resolver estes problemas são formuladas hipóteses que posteriormente são postas de parte. portanto. Tal como refere Kuhn: “é preciso que a pesquisa orientada por um paradigma seja um meio particularmente eficaz de induzir mudanças nesses mesmos paradigmas que as orientam” pois “quanto maiores forem a precisão e o alcance de um paradigma. que pode levar à crise. este conceito cumulativo que Kuhn questiona. para Popper. é um pré. Há. enquanto as invenções são “novidades concernentes à teoria”. um crescimento contínuo e constante das ciências que contraria a teoria de Thomas Kuhn na qual a ciência avança por rupturas. “O sentimento de funcionamento defeituoso. começa com problemas referentes à explicação do mundo ou do universo.requisito para a revolução” uma vez que.

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