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Wittgenstein e a Natureza da Linguagem: Tentativa de Síntese_por Marco Antônio Bomfoco

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05/10/2014

Wittgenstein e a natureza da linguagem: tentativa de síntese – por Marco Antônio Bomfoco

Na ilustração de Sir John Tenniel, Alice conversa com o Gato de Cheshire. (Alice in Wonderland, Lewis Carroll, 1865.)

Tradicionalmente se divide a evolução do pensamento filosófico de Ludwig Wittgenstein (Viena, 1889 - Cambridge, 1951) em duas fases. A primeira fase é a da publicação do Tractatus Logico-Philosophicus, em 1921, e a segunda é a representada pelas Investigações Filosóficas, obra publicada postumamente em 1953. Pode-se dizer que estas obras representam duas filosofias diferentes. De qualquer maneira, a preocupação dominante ou ideia central nas duas épocas é a compreensão dos problemas tradicionais da filosofia através da linguagem. Wittgenstein valeu-se de duas imagens ou metáforas que, como veremos a seguir, podem resumir as duas fases do seu pensamento: no Tractatus predomina a idéia da linguagem como "espelho" do mundo; já nas Investigações a noção de "jogo" é introduzida para explicar a linguagem como um conjunto de jogos de linguagem. Portanto, na primeira fase Wittgenstein desenvolveu a teoria figurativa ou pictórica do significado, enquanto na segunda tratou o significado como uma função do uso. Ou seja, o significado resulta da prática, do costume ou hábito. Desse modo, o último pensamento de Wittgenstein deve ser compreendido por contraste ao pensamento da primeira fase. As concepções de linguagem e lógica desenvolvidas por G. Frege, B. Russell e mais tarde por G. E. Moore foram as principais influências no pensamento de Wittgenstein. Apresentamos a seguir algumas observações iniciais sobre as duas obras mais importantes de Wittgenstein com o objetivo de elaborar um resumo para uso pessoal que esperamos possa servir aos iniciantes no estudo da filosofia da linguagem.

A obra de Wittgenstein situa-se dentro do grande movimento filosófico conhecido como filosofia analítica. A filosofia analítica começou a se configurar entre o final do século XIX e o início do século XX a partir do estudo do significado desenvolvido por Frege. Nesta época, deu-se a "virada linguística", ou seja, a revolução filosófica que trouxe a linguagem para o centro da discussão da filosofia ocidental. Na verdade, a filosofia analítica preocupa-se principalmente com a análise do significado. Autores como B. Russell e G. Frege consideravam a linguagem lógica mais adequada do que a linguagem comum para representar o pensamento. Esses autores desenvolveram estudos fundamentais sobre o significado. Nesta tradição, pode-se inserir a primeira fase do pensamento de Wittgenstein. Dentro do movimento analítico, destacou-se até meados dos anos 1950 a escola do positivismo lógico, que se inspirou no Tractatus de Wittgenstein. Em síntese, no séc. XX a filosofia ocidental vai dividir-se em duas grandes linhas de investigação que ainda dominam a filosofia contemporânea, a saber: a filosofia analítica e as várias linhas abrangidas pela filosofia continental. Para Wittgenstein, os problemas filosóficos são, na verdade, problemas de linguagem. Consequentemente, toda filosofia seria uma crítica da linguagem. Desse modo, ele parte do pressuposto que os problemas da filosofia podem ser solucionados através da observação de como a linguagem funciona. Numa palavra, os problemas filosóficos seriam problemas de linguagem. Restava encontrar a linguagem ideal para servir de modelo de análise. No positivismo dominante da época, supõe-se que as linguagens científicas, mais precisamente a lógico-matemática ou a científico-natural, constituam-se na língua perfeita. A linguagem lógico-matemática configura-se, então, no centro da reflexão filosófica de Wittgenstein. A linguagem comum ou ordinária deveria ficar de fora. Esta postura antimetafísica está condensada no aforismo que encerra o Tractatus: "sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar" (n. 7). Nega-se, portanto, a possibilidade de a linguagem alcançar a metafísica, estabelecendo-se, assim, um claro limite para a linguagem humana. Nesta perspectiva, os limites do pensamento seriam delineados pelos limites da linguagem em que era conduzido. Wittgenstein expressa-se assim: "os limites da minha linguagem significam os limites do meu mundo" (n. 5.6) Note-se que, em sua primeira fase, Wittgenstein acreditava que fosse possível resolver os problemas filosóficos. No entanto, na segunda fase, a das Investigações, ele reconheceu que o objetivo da filosofia não é resolver os problemas, mas descrevê-los para então dissolvê-los. Descrever já é começar a entender a linguagem. Passamos, desta maneira,

da ordem da explicação para a da descrição dos problemas. O que na sua última filosofia se constituirá na descrição das práticas linguísticas. O significado é dado, portanto, pelas circunstâncias. Em suma, a linguagem não tem uma norma como se pensou no Tractatus, mas um conjunto de normas ou regras. Estas regras flexíveis organizam os jogos que se instauram à medida que vamos emitindo proposições sobre o mundo na forma de sentenças. Jogos da linguagem são, portanto, a prática do uso da língua. Wittgenstein reconheceu, por fim, que uma língua primitiva é um jogo de linguagem. O objetivo do Tractatus é provar que existe um isomorfismo entre mundo e linguagem. Esta obra foi considerada por B. Russell como um acontecimento de suma importância no mundo filosófico. Em sua argumentação, Wittgenstein tentou provar que o mundo dos

fatos é a própria linguagem. Nos termos de Wittgenstein, "o mundo é a totalidade dos fatos" (Tractatus, n. 1.1). Assim sendo, a estrutura do mundo é a estrutura da linguagem. Daí vem a metáfora do espelho. A linguagem espelha o mundo, e o mundo espelha a linguagem. No Tractatus, a essência da linguagem é a sua estrutura lógica ou "forma lógica", na tradição de Frege e Russell. Busca-se, assim, o que está por detrás da linguagem. É o que Wittgenstein quer dizer quando afirma que o sentido do mundo tem de residir fora dele (Tractatus, n. 6.41). Por outro lado, nas Investigações Wittgenstein compreende que não existe uma linguagem ideal, ou única, que seria a imagem da realidade, mas "linguagens", isto é, conjuntos de práticas linguísticas que ele passa a chamar de jogos de linguagem. Ao mesmo tempo Wittgenstein reconhece que a estrutura lógica da linguagem pode ser visível na sua superfície. É claro que agora não se trata mais de procurar o que está por detrás da linguagem, já que o que há está à nossa vista, revelando-se, enfim, no uso da linguagem, nos hábitos das comunidades linguísticas. O trabalho de Wittgenstein ultrapassa a filosofia e a lógica e adentra a psicologia. Na realidade, a argumentação de Wittgenstein torna-se antifundacionista. Ou seja, opõe-se às posições essencialistas que predominavam na filosofia. Isto significa que o sábio austríaco passou a atacar a chamada "linguagem privada", ou "mentalês" como esta passou a ser denominada no final do século XX. Não haveria, portanto, uma natureza humana comum. De certa forma, sua versão superou autores como Descartes,

Rousseau e a tradição empirista. No entanto, Witgenstein não se posiciona explicitamente em relação ao problema tradicional mente-corpo. Parece que para ele a questão estaria mal colocada, além de ser talvez irrespondível. É certo que não se interessava pelo modo tradicional de discutir o problema, como observou Joachim Schulte. De qualquer forma, Wittgenstein nunca foi um behaviorista, e isso ele disse explicitamente, nem mesmo um behaviorista lógico. É importante observar agora que a diferença entre as duas filosofias de Wittgenstein não assume na realidade esta separação tão clara. Já na introdução do Tractatus B. Russell observou que Wittgenstein havia encontrado um modo de dizer muitas coisas sobre aquilo que, segundo Wittgenstein, nada se poderia dizer! O chamado "inexprimível" ou o mistério acaba por se exprimir no Tractatus. Muito significativamente percebe-se que o conflito entre o mundo interior e o mundo exterior está presente na sua primeira obra. Na verdade, a ideia que aquilo que pode ser dito pela linguagem faz parte do discurso científico, restando para a ética ou a crença religiosa a categoria de nonsense, não se manteve em pé nem mesmo dentro da argumentação do Tractatus. Mais adiante, Wittgenstein assumiu que existe um sujeito empírico que pode ser alcançado pela linguagem e um sujeito metafísico que só pode ser alcançado pela mística. Aprendemos com Wittgenstein que a linguagem não pode ser tratada como um fóssil, de forma normativa, mas deve ser vista como uma forma de vida. Afinal, não se procura mais entender a linguagem para desvendar seu significado, mas, ao contrário, procura-se investigar o seu uso. E isto se dá através das formas pelas quais afirmamos, declaramos, pedimos, oramos, agradecemos, imprecamos, saudamos, interrogamos, negamos, etc. Após as Investigações, o empirismo radical que considerava os problemas clássicos da moral e da filosofia como sem sentido porque inexprimíveis pela única linguagem dita autêntica, como dissemos, a da ciência, perde sua razão de ser. Deve-se, por conseguinte, separar-se a esfera do pensamento e a esfera da vida imediata. Wittgenstein reconheceu o que chamou de "graves erros" do Tractatus. A sua primeira posição era errônea. Seja como for, ao aproximar-se cada vez mais da mística acabou por surpreender seu protetor B. Russell, um agnóstico. Não há dúvida que a honestidade intelectual de Wittgenstein é uma das fontes do encanto da sua personalidade e do seu estilo filosófico. Marco Antônio Bomfoco

Bibliografia básica KENNY, Anthony. An Illustrated Brief History of Western Philosophy. Oxford: Blackwell, 2007. RUSSELL, Bertrand. Introducción al Tractatus. In: WITTGENSTEIN, L. Tractatus LogicoPhilosophicus. Madrid: Alianza Editorial, 2007. SPIERLING, Volker. Kleine Geschichte der Philosophie. München: Piper, 2006. SCHULTE, Joachim. Experience & Expression. Wittgenstein's Philosophy of Psychology. Oxford: Clarendon, 1995. WITTGENSTEIN, Ludwig. Philosophical Investigations. Disponível em: http://www.scribd.com/doc/2916793/Ludwig-Wittgenstein-Philosophical-Investigations

Marcadores: A. Kenny, B. Russell, empirismo lógico, filosofia da linguagem, G. E. Moore, G. Frege, J. Schulte, jogos de linguagem, L. Wittgenstein, metafísica, mística, teoria do conhecimento, V. Spierling

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