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Psicologia: Teoria e Pesquisa Jul-Set 2010, Vol. 26 n. 3, pp.

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Satisfação Conjugal: Revisão Integrativa da Literatura Científica Nacional1
Fabio Scorsolini-Comin2 Universidade Federal do Triângulo Mineiro Manoel Antônio dos Santos Universidade de São Paulo (Ribeirão Preto)
RESUMO - Este estudo tem por objetivo apresentar uma revisão integrativa acerca do construto ‘satisfação conjugal’. A partir das bases de dados LILACS e SciELO (1970-2008), foram recuperados e analisados 10 trabalhos. A maioria trata da definição de conceitos (e.g., ajustamento, qualidade) relacionados ao tema. Encontram-se investigações em diferentes contextos de casais e de construção de instrumentos de mensuração. Os estudos revelam que o relacionamento conjugal está positivamente associado à saúde e à qualidade de vida, principalmente nos anos de maturidade e velhice, embora seja apontada a necessidade de um maior número de estudos sistemáticos no contexto brasileiro. Palavras-chave: satisfação conjugal; relações conjugais; psicologia positiva.

Marital Satisfaction: Integrative Review of National Scientific Literature
ABSTRACT - This study aims to present an integrative review of the construct ‘marital satisfaction’. Ten studies, recovered from LILACS and SciELO databases (1970-2008), were analyzed. Most of the studies deal with the definition of concepts (e.g., adjustment, quality) related to the subject. There are investigations in different couple contexts and of construction of measurement instruments. The studies show that the marital relationship is positively associated with health and quality of life, especially in the maturity and oldness. Further systematic studies in the Brazilian context are needed. Keywords: marital satisfaction; marital relationship; positive psychology.

Segundo Machado (2007), a necessidade de se estar com o outro é algo típico do ser humano. Tal necessidade começa no nascimento, nas primeiras relações com as figuras de referência. Assim, somos constituídos pelos relacionamentos que estabelecemos, motivo pelo qual é muito importante investigarmos como se dão esses vínculos. De acordo com as reflexões de Lipovetsky (2006/2007), a nova ordem cultural na contemporaneidade valoriza os laços emocionais e sentimentais, as trocas íntimas entre as pessoas e a proximidade comunicacional com o outro. Perlin (2006) afirma que, a despeito de, na modernidade, o casamento ter sido locus da vida comum e ponto de partida para a formação da família, atualmente há um estágio no qual as relações são marcadas por um aprofundamento do individualismo, que estimula a instabilidade do relacionamento íntimo e leva a constantes reformulações dos projetos conjugais; esses fenômenos contemporâneos evidenciam a necessidade de aceitação das heterogeneidades, das descontinuidades e efemeridades das relações. Féres-Carneiro (1998) considera
1 Os autores agradecem ao apoio financeiro recebido da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Processo FAPESP 2007/52584-5) para a realização desta pesquisa. Endereço para correspondência: Departamento de Psicologia do Desenvolvimento, da Educação e do Trabalho, Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Avenida Getúlio Guaritá, 159, 3º andar, Abadia. Uberaba, MG. CEP: 38025-440. E-mail: scorsolini@psicologia.uftm. edu.br.

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o casamento contemporâneo representante de uma relação de intensa significação na vida das pessoas, envolvendo alto grau de intimidade e um grande investimento afetivo. Encontrar alguém para compartilhar a vida e ter filhos parece ser um busca incansável, e o casamento ainda configura um rito de passagem muito significativo em várias sociedades (Scorsolini-Comin & Santos, 2008). Segundo dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2007), em 2006 o total de casamentos no Brasil foi de 889.828, número 6,5% maior do que o apurado no ano anterior, confirmando a tendência de crescimento que vem sendo registrada no país desde 2002. Segundo o documento de divulgação da pesquisa, o aumento pode estar relacionado à legalização de uniões consensuais. Além disso, os pesquisadores atribuem a expansão também à realização de casamentos coletivos, que têm o atrativo da redução de custos. De acordo com os autores da pesquisa, a questão dos custos é responsável também pela realização do maior número de casamentos no mês de dezembro, quando o pagamento do 13º salário e outros benefícios aumentam a disponibilidade financeira. A pesquisa mostra que, em 2006, do total de casamentos realizados, 85,2% ocorreram entre solteiros. No entanto, houve declínio nesse tipo de casamento, que em 1996 representava 90,9% do total. Por outro lado, é crescente a proporção de casamentos de indivíduos divorciados com cônjuges solteiros. O porcentual de homens divorciados
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que têm que investigar até que ponto esses termos são sinônimos ou representam modelos distintos de compreensão da relação conjugal. as principais tendências que têm sido contempladas e as perspectivas de pesquisas futuras. como satisfação conjugal. casamentos saudáveis proporcionam mais suporte aos cônjuges do que relações maritais insatisfatórias e o apoio emocional dos pais às mães favorece o desenvolvimento saudável dos filhos (Dessen & Braz. Segundo Fernandes (2000). Na operacionalização dessa revisão. Método Trata-se de um estudo de revisão integrativa. Para Norgren. consenso matrimonial. pois os indivíduos esperam encontrar nesses relacionamentos uma compatibilidade afetiva. Assim sendo. sexual e intelectual” (p. provocados por uma relação conjugal insatisfatória. 26 n. qualidade matrimonial. Diniz (1993) e Perlin (2006). de modo a possibilitar um maior direcionamento dos estudos sobre o construto e discutir as tendências dessas publicações.: Teor. A. como definido nas pesquisas de Dela Coleta (1989. existem padrões a serem seguidos. como para seus filhos. Brasília. e. O ajustamento conjugal. Por exemplo. de cometerem suicídio. de forma que o leitor possa identificar as características reais dos estudos revisados. As consequências negativas das relações maritais insatisfatórias. Souza. Santos que casaram com mulheres solteiras passou de 4. Hammerschmidt e Sharlin (2004). 2006.F. Seguindo os procedimentos de Ganong (1987). estabelecimento dos critérios para a seleção da amostra. o objetivo do presente estudo é apresentar uma revisão integrativa da literatura científica acerca do tema satisfação conjugal. Dias (2000) afirma que o casamento contemporâneo tem algumas características determinantes. O que já está bem consolidado é que a literatura é uníssona ao apontar a satisfação no casamento como um fator fundamental na vida de um casal (Scorsolini-Comin & Santos. felicidade matrimonial. sucesso matrimonial. as formas de comunicação e as estratégias de resolução de conflitos empregadas pelo casal influenciam o desenvolvimento de padrões de cuidado dos filhos e a qualidade das relações entre os genitores e suas crianças. ainda segundo resgate feito por Dessen e Braz (2005). Após o levantamento das publicações. a conjugalidade é fundamental para o bem-estar psicológico e social dos indivíduos. casamento e satisfação se tornaram. Para Dessen e Braz (2005).. a revisão integrativa permite a construção de uma análise ampla da literatura. Ainda segundo Perlin (2006). 526 diversos termos são utilizados na literatura científica. no qual interferem diversas variáveis. de estarem envolvidos em acidentes automobilísticos. entre as quais está a busca da felicidade. Jul-Set 2010. O relacionamento conjugal está associado à saúde e qualidade de vida. segundo revisão realizada por essa autora. Também houve aumento do porcentual de casamentos entre cônjuges divorciados. recentemente. bem como as perspectivas de produção na área. assim como reflexões sobre a realização de futuras pesquisas. particularmente no que tange às relações que pais e mães mantêm com suas crianças. o relacionamento marital tem sido apontado. os resumos foram lidos e analisados segundo Psic. O casamento transforma-se ao longo do ciclo de vida familiar e. Em todas as bases de dados foi utilizado o unitermo satisfação conjugal. tem sido definido como uma resultante social que satisfaz necessidades básicas do indivíduo. segundo Costa (2005). 2005). principalmente nos anos de maturidade e velhice. Evocando o trabalho de outros autores. embora os métodos para a condução de revisões integrativas variem. seguir padrões de rigor e clareza na revisão e crítica. de mortalidade em função de doenças em geral. portanto. estabilidade matrimonial. Entretanto. De acordo com Beyea e Nicoll (1998). Esse questionamento inspira a realização de novas revisões na literatura. Como destacado por Perlin (2006). Procedimento As buscas nas bases foram realizadas em um único dia. do divórcio ou da separação do casal. estreitamente interdependentes. 1992. De qualquer modo. a satisfação é um elemento fundamental em um relacionamento interpessoal.9% em 1996 para 2. possivelmente. Diniz. da satisfação e do amor. existe uma verdadeira diversidade de definições do que seja a satisfação no casamento. entre outras. 1993). A literatura. “o desejo intenso de estar com o outro motiva o casamento e determina a escolha do parceiro. como um fator preponderante para a qualidade de vida das famílias. é necessário delinear qual é o estatuto desse construto na produção científica. focalizando o construto satisfação conjugal. utilizamos as seguintes etapas: seleção da questão temática.2% do total de casamentos realizados no país em 1996 para 6. Mas. 2008). embora o fato de um casamento durar não necessariamente signifique que o mesmo seja satisfatório para os cônjuges. a satisfação conjugal é um fenômeno complexo. de exposição à incidência de doenças físicas. Kaslow. e Pesq. buscando evidenciar o perfil dos trabalhos publicados em fontes de pesquisa de impacto no contexto brasileiro. Scorsolini-Comin & M. dentro de nossa estrutura política e econômica. contribuindo para discussões sobre métodos e resultados de pesquisa. homicídio ou outros atos de violência. pp. 525-531 . análise e interpretação dos resultados e apresentação da revisão. de 0. Essa grande diversidade na terminologia gera dificuldades para comparar resultados de estudos distintos e impõe um desafio para os pesquisadores. uma revisão integrativa sumariza pesquisas passadas e tira conclusões globais de um corpo de literatura de um tópico em particular. o nível de satisfação também varia com o decorrer dos anos de convívio conjugal. 66). sendo necessário que se discutam as contemporâneas formas com que vêm se desenhando os casamentos e as uniões estáveis. tanto para os cônjuges.5% em 2006.2% em 2006. em uma rede de acesso público de uma universidade pública do Estado de São Paulo. ao longo da história do ocidente. 3. integração matrimonial (Dela Coleta. É necessário. De acordo com Perlin (2006). ajuste matrimonial. assim. O casamento. aponta inúmeros prejuízos diretos e indiretos. como a que será aqui apresentada. satisfação matrimonial. 2006). Vol. incluem o aumento do risco de os cônjuges apresentarem psicopatologias.

. Bystronski & Jablonski. 1989). Outras pesquisas selecionadas. O último eixo se refere à mensuração da satisfação conjugal.Satisfação Conjugal: Revisão Integrativa os critérios de inclusão/exclusão estabelecidos. tempo de casado. 2006).DAS). Wachelke. Entre os instrumentos utilizados. 2004). Dos sete trabalhos excluídos. e Pesq. ainda.: Teor. foram selecionados apenas artigos publicados em periódicos indexados (Scorsolini-Comin & Amorim. o que revela a necessidade de contextualização do tema investigado. trabalhos publicados nos idiomas inglês. Visando assegurar uma ampla abrangência desta revisão. 2003) e durante a gravidez (Oriá. tão necessário para garantir a qualidade da produção científica. 2005). 1992). 2003.. Desses. analisados. 1987. 2004. deve-se destacar a prevalência da Escala de Ajustamento Diádico (Dyadic Adjustment Scale . 2001). Complexidade do tema e eixos dos trabalhos publicados Como será apresentado na análise crítica dos trabalhos. 2004. teóricos e de revisão acerca do tema. resenhas. livros e capítulos de livros. analisar-se-ão em profundidade 10 trabalhos. O levantamento compreendeu o período de 1970 a 2008. na tentativa de recuperar uma amostra abrangente de trabalhos produzidos a respeito do tema. dois tematizavam a infertilidade. Um segundo eixo de trabalhos consiste na investigação da satisfação conjugal em diferentes contextos. 1987). Perlin & Diniz. e um dizia respeito à orientação para pais de crianças com transtornos de comportamento. renda. Essas autoras são consideradas grandes referências no Brasil e lideram a tradição de trabalhos publicados nessa temática. e. dissertações. Sendo assim. a fim de buscar apenas trabalhos submetidos a um processo rigoroso de avaliação. Os resumos condizentes com os critérios adotados foram selecionados. Esse critério se deve ao fato de que em uma das bases de dados (LILACS) há um alto registro desses trabalhos. Como critérios de inclusão. Foram excluídas. pp. Perlin & Diniz. o que revela a atualidade do tema.. especificamente. Psic. 2005. Jul-Set 2010. tais como o locus de controle conjugal (Dela Coleta. espanhol e português. a partir tanto de estudos de validação quanto de aplicação de instrumentos internacionalmente reconhecidos (Magagnin & cols.. os instrumentos utilizados. Análise crítica dos trabalhos selecionados A pluralidade das satisfações conjugais: revisão de conceitos. No primeiro trabalho selecionado. um se ocupava do sofrimento feminino em relação ao trabalho. foram excluídos diversos tipos de trabalhos. em casamentos de longa duração (Norgren & cols. publicações distantes do tema.. 2008). Um terceiro eixo destacado corresponde aos trabalhos que correlacionavam variáveis da satisfação conjugal a outras. na transição da conjugalidade para a parentalidade (Magagnin & cols. 2005). a semelhança de atitudes entre os cônjuges e a percepção interpessoal (Miranda. ou seja. dois abordavam o suporte social no contexto de enfermagem. Na presente revisão. 2003. trabalhos empíricos. Nesse eixo encontram-se também trabalhos que analisaram a influência de variáveis — idade. desde as características de personalidade dos cônjuges e as experiências que eles trazem das suas famílias de origem até a maneira como eles constroem o relacionamento a dois. a maioria dos trabalhos selecionados nessas bases encontra-se disponível em português. 1987) e a estrutura de poder nas famílias (Rodrigues. observa-se que 70% deles se concentram nos anos 2000. Wagner & Falcke. 2004). Os trabalhos selecionados foram recuperados na íntegra e. escolaridade e filhos — sobre a satisfação conjugal (Miranda. Apenas 30% dos trabalhos foram produzidos na década de 1990. Em relação ao idioma. 2006. 1992. abordou-se. foram consultadas as seguintes bases: LILACS e SciELO. como trabalhos relacionados ao casamento entre pessoas soropositivas ou uniões homossexuais. autoestima. um versava sobre suporte emocional em tratamentos de câncer de mama. 12 foram selecionados a partir dos critérios de inclusão/exclusão e serão aqui analisados em profundidade. Alves & Silva. Norgren & cols. Para esta revisão. Wagner & Féres-Carneiro. Essa complexidade motivou o desenvolvimento de um eixo de trabalhos de revisão crítica da literatura científica (Mosmann. Destaque-se que dois artigos selecionados foram registrados nas duas bases. Norgren & cols. uma vez que seu entendimento não é uníssono na literatura (Perlin. tais como artigos não indexados. desenvolvida por Graham Spanier em 1976. Norgren & cols. 26 n.. posteriormente. Períodos e idiomas de publicação dos trabalhos Em relação ao ano de publicação dos trabalhos selecionados. Tal complexidade deve-se ao fato de que ela é composta por diferentes variáveis. Wagner e Falcke (2001) destacam que a satisfação conjugal é um construto de complexa definição. A escala foi traduzida e adaptada para a população brasileira por Magagnin e cols. contribuindo para a caracterização das pesquisas na área (Dela Coleta.. 2004). Segundo essas 527 Resultados e Discussão Na busca pelo unitermo satisfação conjugal nas bases SciELO e LILACS. Vol. foram encontrados 19 artigos (quatro na SciELO e 15 na LILACS). os quais poderiam não ter passado por um processo de avaliação pelos pares. Faggiani & Natividade. Tal abrangência de tempo objetivou traçar um perfil das publicações ao longo desses 38 anos. como em pesquisas com casais de duplo trabalho (Perlin & Diniz. (2003) e é referida em boa parte dos estudos desta revisão (Magagnin & cols. ainda. Miranda. apresentam um breve mergulho na literatura científica acerca do tema. Andrade. a comunicação. O trabalho mais antigo entre os selecionados data de 1987. 525-531 . teses.. partindo-se daí para a busca dos trabalhos completos. com 30% no ano de 2004. 3. destacam-se: artigos publicados apenas em periódicos indexados. 2004). os quais constituíram o corpus da pesquisa. Cruz. embora não sejam estudos de revisão. Mosmann e cols. Brasília. (2006) apresentam uma revisão da literatura científica a respeito do termo qualidade conjugal.

a psicopatologia. acontece o encaixe entre sistemas míticos de duas estruturas familiares diferentes. Assim. as características de personalidade. destacaremos. ou seja. (2006) destaca que a conceituação do que seria um casamento satisfatório é uma tarefa árdua no meio científico. o nível socioeconômico e o tempo de casamento. O estudo identifica os processos e variáveis associadas à satisfação conjugal em casamentos de longa duração. casais que trabalham. Ela seria afetada também por fatores do meio ambiente. as respostas fisiológicas dos cônjuges. foram elencadas. a seguir. referem que é fundamental a existência de tolerância e respeito pela família do outro. o relacionamento conjugal está associado à saúde e à qualidade de vida. pp. Dentre esses fatores encontram-se o bem-estar dos cônjuges e de seus filhos. Quanto à percepção do futuro do relacionamento. A satisfação conjugal em diferentes contextos de investigação. a atitude madura é caracterizada pela capacidade de evitar que as famílias de 528 ambos os cônjuges entrem em conflito. embora o fato de um casamento durar não necessariamente signifique que o mesmo é satisfatório para os cônjuges. identifica-se a falta de clareza conceitual acerca das variáveis que o compõem. Os resultados mostraram que a maioria dos participantes está satisfeita com seus relacionamentos. quando as pessoas se casam ou passam a viver em união conjugal. ou seja. 2006. O artigo de Mosmann e cols. além das variáveis de personalidade e biodemográficas. há uma carência de estudos que investiguem. Assim. é uma atitude a respeito do próprio relacionamento conjugal. a partir da análise de cinco principais teorias sobre o tema: Troca Social. com profundidade. Um ponto que se coloca em aberto e que será discutido posteriormente neste trabalho se refere à mensuração desse construto. número de filhos e presença deles em casa. Comportamental. muitas vezes. formando um novo sistema baseado nos sistemas familiares de cada cônjuge. embora essas variáveis estejam correlacionadas com a qualidade da relação conjugal. ou seja. Scorsolini-Comin & M. Em outro trabalho selecionado na presente revisão. a depressão. esse artigo apresenta uma revisão da literatura na área com o objetivo de mapear o conceito de qualidade conjugal. se dá por meio do encontro dos sistemas de crenças das famílias de origem dos cônjuges. há uma diversidade de definições do que seja a satisfação no casamento. Outro trabalho. o que é a satisfação conjugal. 2001). ou não. que como ninguém se separa totalmente de sua família de origem. O estudo quantitativo de Perlin e Diniz (2005) avaliou a satisfação no casamento de homens e mulheres que optaram por relacionamentos de duplo trabalho. 3. Os trabalhos existentes não seriam orientados por uma teoria de sustentação adequada. por mais independente que seja. Tal complexidade deve-se ao fato de que ela é composta por diferentes variáveis. Na revisão dessas autoras. Nesse trabalho. Da análise empreendida a partir desse conjunto de trabalhos (Mosmann & cols. nem possuiriam uma clara definição metodológica capaz de produzir reflexões e avanços nos estudos acerca dessa temática. da autoria de Norgren e cols. 525-531 . Nesse sentido. Assim. Teoria da Crise e Interacionismo Simbólico. Pensando especificamente na satisfação conjugal. corroborando apontamentos também lançados por Mosmann e cols. o número de filhos e a presença. e Pesq. alguns dos contextos de investigação da satisfação conjugal recuperados nesta revisão. 1989). consequentemente. Segundo o artigo. a partir dos estudos resgatados. A. Os resultados questionam a ideia vigente de falência do casamento e da família e apontam para uma transformação das relações. Brasília. investiga os casamentos de longa duração.. ficou evidente o comprometimento de homens e mulheres em investirem na manutenção do casamento. consolidada nos primeiros anos de relacionamento conjugal. sendo que as mulheres apresentaram média de satisfação inferior à dos homens. as características sociodemográficas. As autoras retomam uma definição extraída de outro artigo selecionado e que será aqui analisado: a satisfação é uma reação subjetivamente experienciada no casamento. é mister que se conheça de onde partem essas investigações e quais os aspectos que contribuíram para a construção de determinados conceitos. entretanto. Segundo revisão de Perlin e Diniz (2005). As autoras apontam que. na última década. 26 n. Wagner e Falcke (2001) também atestam a complexidade da definição de satisfação conjugal. de uma nova família. Nesse sentido. as autoras destacam que a satisfação é um elemento fundamental em um relacionamento interpessoal. Jul-Set 2010. nível socioeconômico e tempo de casamento. principalmente nos anos de maturidade e velhice. Apego. as autoras destacam que dificilmente um casal poderá estabelecer uma relação afetiva e sexualmente feliz se não tiver conseguido uma boa independização dos pais. identifica um grande número de estudos que apontam para um alto índice de fatores que se associam à definição do conceito de satisfação conjugal. Santos pesquisadoras assinalam em seu trabalho de revisão. (2006). a saúde física do casal. o grau de escolaridade. grau de escolaridade. Wagner e Falcke (2001) destacam que a formação do casal e. parte de um determinado contexto de investigação.: Teor. Perlin e Diniz (2005) destacam que outros trabalhos afirmam que a satisfação conjugal é afetada por fatores conscientes e inconscientes. preservando o bom relacionamento entre ambas. é o resultado da diferença entre a percepção da realidade do casamento e as aspirações que os cônjuges têm para a relação (Dela Coleta. Wagner & Falcke. as variáveis que se relacionam à satisfação conjugal. A análise das pesquisas trazidas no artigo de Wagner e Falcke leva-nos a considerar que no conceito de satisfação conjugal estão implicadas tanto as experiências precoces do sujeito na sua família. assim como combinações dessas variáveis. tais como: o sexo. uma vez que a análise das pesquisas internacionais da área. aspectos internos da psique. A partir das questões de transgeracionalidade. Mas a pergunta: “o que é satisfação?” pode ser muito mais complexa do que se imagina. destacamos a pluralidade de conceitos e definições relativos à satisfação conjugal. tais como sexo. (2004). Como mensurar a satisfação conjugal se essa noção ainda se encontra em processo de definição por parte de diversos autores? Como avaliar um construto sem que haja uma voz uníssona que delimite as especificidades do mesmo? A definição de uma noção. Salientam. desde as características de personalidade dos cônjuges e as experiências que eles trazem das suas famílias de origem até a maneira como eles constroem o relacionamento a dois. deles dentro de casa. Vol. com Psic. tanto emocional como economicamente. apesar da ampla utilização do conceito de qualidade conjugal.F. como também os aspectos vivenciais da relação diádica atual..

assim como corresponder. as quais as autoras salientaram como repercussões positivas ou negativas da gravidez na sexualidade dessas mulheres. a gravidez pôde ser identificada como uma variável relevante que influencia na melhoria da qualidade percebida da relação conjugal. A questão da transição para a parentalidade também é trazida em outros estudos. Segundo o modelo apresentado por essa autora. o abandono do parceiro e diminuição da atividade sexual. Os resultados indicaram uma queda do poder decisório do marido. Miranda (1987) analisou empiricamente a inter-relação entre satisfação conjugal e três aspectos considerados relevantes em uma relação diádica: comunicação. (2003) investigou longitudinalmente a transição da conjugalidade para a parentalidade quanto ao ajustamento diádico e à satisfação conjugal de casais primíparos. Jul-Set 2010. sem dúvida. consenso e expressão de afeto. Os resultados alcançados pelo estudo de Miranda apontaram a percepção interpessoal e a autoestima como as variáveis de maior importância relativa. entre os instrumentos utilizados está a Dyadic Adjustment Scale (DAS). Rodrigues. a satisfação conjugal é. além da idade. 2007. 83). com o passar do tempo. Quanto às primeiras repercussões. que trabalham no sentido de que. 3. quando ambos são internos. e Pesq. Em cerca de metade dos casais estudados. boa habilidade de comunicação. essencialmente. semelhança de atitudes e percepção interpessoal. Nos estudos de Perlin e Diniz (2005). ao delimitar o início das famílias. (2004). foram utilizados os seguintes instrumentos: Lista de classificação de problemas. Fonseca. pelo fato de suas experiências de sucesso e fracasso serem reforçadas ao longo do relacionamento conjugal. das mudanças dos papéis sexuais e da possível crise de identidade masculina. Entretanto. as pessoas mais externas tenderiam a se tornar ainda mais externas e os mais internos tornar-se-iam mais internos. Assim. Examinou. traduzida para a população brasileira por Magagnin e cols. destacou-se que 71% relataram situações/experiências vivenciadas. definindo um dar e receber recíproco e espontâneo. Teve-se. (2004) e Magagnin e cols. Vol. passada e estimada para o futuro. deverá sentir-se mais satisfeita no casamento. “tornam-se pais.g. Os autores notaram uma preferência por uma estrutura autonômica de poder conjugal.. Esses resultados são discutidos à luz das transformações sociais decorrentes da revolução sexual. Satisfação conjugal e autoritarismo não mostraram associações com poder do marido. constataram que a sexualidade na gravidez ainda envolve tabus. 2003. na medida em que percebem sua capacidade de resolução de conflitos na relação conjugal. renda. a partir do estudo. Esse modelo também propõe que. econômico. (2003) e tendo sua avaliação estrutural conduzida por Hernandez (2008). pode-se identificar que a satisfação conjugal está associada ao ajustamento conjugal. um conceito subjetivo. fatores que propiciam intimidade no relacionamento. ao menos um dos cônjuges estava satisfeito. como os de Menezes e Lopes (2007). decorrendo da congruência entre as expectativas e aspirações que os cônjuges têm e a realidade vivenciada no casamento. a influência de outras variáveis (idade. Satisfação conjugal e outras variáveis. O estudo de Magagnin e cols. Bystronski e Jablonski (1989) estudaram a estrutura de poder em famílias. Segundo Perlin e Diniz (2005). contentamento. O nascimento do primogênito. na visão da mulher. No estudo de Norgren e cols. como consequência. emocional e sexual do casal. a partir Psic. Esse trabalho constitui. a transição para o casamento e suas peculiaridades como fase inicial do desenvolvimento do casal têm sido relativamente pouco consideradas pelos teóricos que se ocupam em estudar os casais e as famílias. Oriá. a oportunidade de inferir que a mulher. companheirismo. Passos. coesão.: Teor. pois implica ter as próprias necessidades e desejos satisfeitos. segundo Menezes e Lopes (2007). Portanto. Dela Coleta (1992) apresenta um estudo quantitativo para mensurar a relação entre o locus de controle conjugal e a satisfação conjugal atual. também vem sendo abordado por alguns pesquisadores (e. Ainda. ao que o outro espera. à expressão de afeto. foram referidos a melhora do relacionamento conjugal.Satisfação Conjugal: Revisão Integrativa mais de 20 anos. a DAS é considerada uma das medidas mais sólidas e globais da qualidade das relações interpessoais pela coerência dos itens agrupados em quatro subescalas que abarcam áreas fundamentais dos relacionamentos: satisfação. a estar mais satisfeitos com o casamento. capacidade de resolução de problemas e habilidade de comunicação. se os cônjuges estiverem satisfeitos com seu status econômico e forem praticantes de sua crença religiosa. Sobre as segundas. que antes constituíam apenas um casal. tenderiam. Romanelli. coesão. alguns estudos recentes também têm enfatizado que a transição para a parentalidade acarreta a diminuição na satisfação conjugal. é a primeira experiência de parentalidade vivida pelo casal” (Menezes & Lopes. Norgren e cols. coloca-se em uma posição de inferioridade na relação conjugal. demonstraram associações ocasionais. tempo de casado. por sua vez. 2007. Em outro trabalho. escolaridade e filhos) sobre a satisfação conjugal. a pessoa com predominância de locus de controle interno deverá se empenhar para resolver seus problemas conjugais e. à proximidade. também. além da DAS.. 1995). afeição e segurança. baseando-se nas respostas fornecidas por duas amostras de casais residentes no Rio de Janeiro. 2005. (2003). em especial. talvez por força de condicionantes socioculturais. No grupo de 35 gestantes estudadas. Questionário de avaliação de estratégias de resolução de 529 . Para essas autoras. no ano de 1971. pp. Mensurando a satisfação conjugal. O casamento. A idade se correlacionou positivamente com o maior poder do marido. p. quando comparados com os obtidos há mais de duas décadas. também. Féres-Carneiro. 26 n. De acordo com os resultados desse trabalho. de modo geral. e as demais variáveis demográficas consideradas. Alves e Silva (2004). 525-531 de instrumentos de avaliação desses construtos. entre os processos críticos que determinam as principais transições desenvolvimentais que os casais costumam passar. uma réplica de um estudo conduzido por Centers e colaboradores. com casais americanos residentes em Los Angeles. Comparando-se casais satisfeitos e insatisfeitos foi possível identificar que a satisfação aumenta quando há proximidade. Brasília. a transição para a parentalidade é uma das maiores mudanças por que o sistema familiar pode passar. É o momento em que os cônjuges. trabalhando com o contexto de gravidez e a sua repercussão nos aspectos social. estratégias adequadas de resolução de problemas. o sentimento de feminilidade aguçada e obtenção de maior prazer sexual. Relaciona-se com sensações e sentimentos de bem-estar. autoestima. à coesão. em maior ou menor escala. progenitores de uma nova família. o casal.

composta por fatores capazes de medir aspectos componentes da satisfação com o relacionamento. identifica um grande número de estudos que apontam para um alto índice de fatores que se associam à definição do conceito de satisfação conjugal. Nesse sentido. 3. oriundo de um outro sistema familiar. conforme apontado por Mosmann e cols. A. a fim de contribuir com o delineamento de novas investigações e novos saberes. individualidade e heterogeneidade. (2006) e de Wagner e Falcke (2001) de que a conceituação do que seria um casamento satisfatório é uma tarefa árdua no meio científico. pela definição e opção metodológica por um dos termos correntes. Andrade. conforme utilizado por pesquisadores de referência na área (Dela Coleta. de como o tema vem sendo abordado e difundido em nosso contexto. Magagnin & cols. em 1988. A possibilidade de operacionalizar uma revisão integrativa da literatura científica só foi possível. 26 n. segundo Wagner e Falcke. e Pesq. resgatadas em ambos artigos. da satisfação conjugal. Diniz. e o papel dessa instituição em nossa sociedade e na estrutura dos relacionamentos estabelecidos pelas pessoas. (2006). Dicke e Hendrick. Considerações Finais A atualidade do tema satisfação conjugal é algo acentuado na literatura. (2003) foi aplicada a Escala de Avaliação da Relação. assim como a sua complexidade e a multiplicidade de vozes que são evocadas quando se discute ou se estuda a satisfação no relacionamento diádico. 2006).. (2004) e Scorsolini-Comin e Santos (2008). Concordamos com a percepção de Mosmann e cols. o que ainda não encontra suficiente respaldo na literatura nacional. que possui a sua subjetividade. a partir dos dados apresentados nesta revisão integrativa.HSP). desenvolvida por Hendrick.F. Souza e Cruz (2007).. ou seja. Menezes & Lopes. que ampliem as possibilidades de aplicação em contextos diferenciados. mas não apenas em termos estatísticos ou demográficos. Em estudo posterior de Wachelke. Como capturar essas nuanças no estudo da satisfação conjugal? A delimitação do construto analisado deve ser acompanhada por uma adequada mensuração do mesmo. sobre a validação fatorial desse mesmo instrumento. mas a partir de seus instrumentos de mensuração. 1993. Assim. No entanto. que investiguem não apenas a satisfação conjugal em diferentes contextos e na relação com outras variáveis. embora seja possível ter uma noção bastante precisa. 525-531 . Essa multiplicidade também foi atestada no presente trabalho e pode ser justificada. é necessário que outros diálogos sejam fomentados a partir da aproximação com a literatura aqui apresentada. o que não necessariamente corresponde à noção de satisfação conjugal. dando visibilidade para o conhecimento produzido e.. ao mesmo tempo.. a nosso ver. Santos conflitos e comunicação (Health and Stress Profile . Scorsolini-Comin & M. é preciso debruçar-se na busca de compreender o contexto do casamento em nosso país. Vol..g. 2007). A percepção satisfatória do casamento é uma tendência na atual configuração do vínculo conjugal em nossa sociedade ou estaria diretamente ligada às especificidades de definição dos construtos de avaliação e sua consequente mensuração? Como apreender essas nuanças a partir dos estudos recuperados na presente revisão? Como não há uma única resposta para essa questão. 1992. Perlin. na mesma medida em que enfatiza a produção nacional. 2003. Wachelke e cols. como apontado por Norgren e cols. Os estudos destacam a tradução de um instrumento (DAS) para nosso contexto. destaca-se a premência de desenvolvimento de outros trabalhos. alguns questionamentos abrem possibilidades de interlocução a serem investigadas por estudos futuros: quais as especificidades culturais de nosso contexto que deveriam estar contempladas nos estudos da satisfação conjugal? Como o contexto vem sendo apreendido na perspectiva desses instrumentos de mensuração? Qual o espaço que tem sido ocupado por investigações específicas nessa temática em nosso país. Brasília. No contexto brasileiro. Nessa direção. mas não apresentam sólidos instrumentos desenvolvidos e validados semanticamente no Brasil.: Teor. como qualidade conjugal. a preocupação de conhecer o contexto nacional e a especificidade do casamento (e da percepção que o indivíduo tem acerca do mesmo) deve permear o desenvolvimento de instrumentos de mensuração. Mosmann & cols. tal como apresentada neste estudo. sucesso conjugal ou outros. ajustamento diádico. na medida da urgência da demanda da ciência psicológica. apontando as áreas lacunares. 2004. 2005. a fim de que possam agregar conhecimentos aos estudos já produzidos. 530 Psic. apontando para uma relativa robustez do instrumento e dos aspectos analisados ao tratar com populações de características demográficas distintas. Lista de motivos que levam o casal a permanecer junto e Lista de componentes de satisfação conjugal. uma vez que a avaliação das dimensões que constituem esse construto só é possível a partir de instrumentos cientificamente validados. 2006). a relevância da revisão integrativa repousa em permitir sistematizar as produções veiculadas na contemporaneidade. pelo fato do casamento ser um momento em que se abre a porta da família para a entrada de um novo membro. os autores destacaram que alguns itens podem apresentar flutuações na representatividade do construto de satisfação com o relacionamento. os estudos sobre satisfação devem estar pautados em critérios científicos rígidos. Tal complexidade fica evidente quando a satisfação conjugal é investigada juntamente com conceitos correlatos. Jul-Set 2010. Por esse movimento. à exceção de instrumentos que mensuram a satisfação em relacionamento de casal (Wachelke & cols. 2007. Norgren & cols. pode obscurecer contribuições internacionais ao estudo da satisfação conjugal. ao se examinarem alguns artigos (e.. 2004. deve-se apontar que o escopo do estudo. os resultados confirmaram sua estrutura fatorial. pp. Retomando as reflexões de Perlin (2006). uma vez que a análise das pesquisas internacionais na última década. No trabalho de Magagnin e cols. (2004) realizaram um estudo para descrever a construção e validação da Escala Fatorial de Satisfação em Relacionamento de Casal (EFS-RC). que tenham a satisfação conjugal como objeto de estudo e não apenas como um construto tangencial? Desse modo. Inevitavelmente. Dessen & Braz.

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