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O QUE É SEMÂNTICA

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PARTE I

O QUE É SEMÂNTICA

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a sintaxe. chamaremos de gramática. 2001:99) 2 . como pronunciar as palavras.CAPÍTULO 1 A INVESTIGAÇÃO DO SIGNIFICADO 1. entendendo-se por gramática o sistema de regras e/ou princípios que governam o uso dos signos da língua. que é o conjunto de palavras de uma língua. a morfologia. que é o estudo dos sons de uma língua e de como esses sons se combinam para formar as palavras. este livro apoia-se na premissa básica de que a habilidade linguística do ser humano é baseada em um conhecimento específico que o falante tem sobre a língua e a linguagem. pela presença de um verbo principal conjugado e. a descrição linguística tem diferentes níveis de análise: o léxico. como construir as palavras. semanticamente. A Investigação Linguística Semântica é o estudo do significado das línguas. Apesar de não ser uma introdução a qualquer teoria específica. que é o estudo de como as palavras podem ser combinadas em sentenças. Ao conhecimento da língua. Refletindo essa divisão. e a semântica. como construir as sentenças1 e como entender o significado das palavras e das sentenças. Este livro é uma introdução à teoria e à prática da semântica na linguística moderna. 1 "Sentença (S) pode ser definida. que é o estudo do significado das palavras e das sentenças." (Pires de Oliveira. pela expressão de um pensamento completo. que é o estudo das construções das palavras. sintaticamente. É esse conhecimento que o linguista busca investigar. a fonologia. A linguística assume que o falante de qualquer língua possui diferentes tipos de conhecimento em sua gramática: o vocabulário adquirido.

na medida do possível. primeiramente. veremos noções que. Neste livro.Ao conhecimento da linguagem. esse conhecimento permite que um falante de português saiba que as duas sentenças abaixo descrevem a mesma situação: (1) a. A semântica. são sentenças que se referem a situações contraditórias: (2) a. é o ramo da linguística voltado para a investigação do significado das sentenças. que o semanticista busca descrever o conhecimento semântico que o falante tem de sua língua. b. ou seja. pode ser usada em situações comunicativas concretas. b. repetindo. Esse mesmo conhecimento também permite que um falante de português saiba que as duas sentenças abaixo não podem se referir à mesma situação no mundo. 2. assumimos. até hoje. como um todo. atualmente. associaremos o uso da língua. O João acredita. A pragmática estuda a maneira pela qual a gramática. tentarei. mais especificamente. o nosso principal objeto de estudo: a semântica. A área da linguística que descreve a linguagem denomina-se pragmática. que a terra é quadrada. Por exemplo. Semântica e Pragmática Localizemos. O João é um engenheiro mecânico. Ainda. ora no campo da linguagem. que a terra é quadrada. Como assumimos que o linguista busca descrever o conhecimento linguístico que o falante tem de sua língua. situá-las em seus domínios de conhecimento. ora estão no campo da língua. O João ainda pensa. o conhecimento semântico que o falante do português do Brasil tem o leva a atribuir duas interpretações para a sentença abaixo: 3 . o emprego da gramática dessa língua nas diferentes situações de fala. O João não é um engenheiro mecânico. ou seja.

Portanto. com uma entonação e uma expressão facial que significam: claro que quero!) Evidentemente não é o sistema linguístico que permite a interpretação da sentença em (4b): o item lexical não levaria a uma interpretação oposta a que todos nós provavelmente entendemos. o falante de (4a) entender o falante de (4b)? São fatores extralinguísticos como. até seus gestos. no campo da prosódia. às vezes. Não!!! (responde o interlocutor. antes de seguirmos com o nosso estudo sobre os fenômenos semânticos. Você quer um milhão de dólares sem fazer nada? b.(3) A gatinha da minha vizinha anda doente. ao contrário. da expressão corporal etc. dentro do domínio de teorias pragmáticas. então. a sua expressão facial. vem sendo explorado por alguns estudiosos que alguns aspectos do significado são explicados em termos das intenções dos falantes. O que faz. então. ou seja. 4 . Repare na sentença abaixo: (5) A porta está aberta. Por exemplo. Veja (4): (4) a. é importante salientar que a investigação linguística do significado ainda interage com o estudo de outros processos cognitivos. fica claro que nem sempre o sistema semântico é o único responsável pelo significado. por exemplo. além dos processos especificamente linguísticos. Existe um consenso entre os semanticistas de que fatos como esses são relevantes para qualquer teoria que se proponha a investigar a semântica. o sistema semântico tem o seu significado alterado por outros sistemas cognitivos para uma compreensão final do significado. já entramos. Entretanto. são fenômenos dessa natureza que serão o alvo de uma investigação semântica. a entonação que o falante de (4b) usa. através da investigação das ações intencionais dos falantes. Portanto. Parece bem provável que certos aspectos do significado encontrem-se fora do estudo de uma teoria semântica. em várias situações. Tais teorias podem ajudar a explicar como as pessoas fazem para significar mais do que está simplesmente dito.

Por outro lado. 5 . a sentença (5) não será entendida como o estado de a porta estar aberta ou não. isto é. A pragmática estuda os usos situados da língua e lida com certos tipos de efeitos intencionais. de como as pessoas a colocam em uso. mas sim. com o nosso conhecimento sobre o mundo. Vejamos ainda essa mesma sentença em outra situação: um estudante muito agitado está atrapalhando a aula. boas maneiras. chamamos de semântica. intenções.O que significa essa sentença? Que existe uma determinada situação em que um objeto denominado porta encontra-se em um estado de não fechado (seja não trancado ou apenas afetado em seu deslocamento). devemos entender o que o professor falou explicitamente. o professor dirige-se a ele. Agora imaginemos o seguinte: um professor está dando aula e algum estudante para na frente da sala e fica olhando para dentro. com uma atitude amigável. se não entendêssemos também qual era a intenção dele ao falar aquela expressão para determinada pessoa em determinado contexto. o que a sentença em português a porta está aberta significa. com o que permanece constante quando certa expressão é proferida. Por um lado. ao longo do livro. como um convite para que o estudante entre. a esse tipo de conhecimento. nos exemplos dados. 1987. Entender o que o professor falou em cada contexto específico parece envolver dois tipos de conhecimento. Veja discussão mais detalhada em Levinson (1983) e Mey (1993). 2 Existem algumas correntes teóricas que não acreditam em tal divisão. A sentença (5) será entendida como uma ordem para que o estudante saia. 1987). não conseguiríamos entender o que o professor falou. chamamos de pragmática. Certamente. A semântica pode ser pensada como a explicação de aspectos da interpretação que dependem exclusivamente do sistema da língua e não. o leitor verá. só que agora sua intenção é repreender esse aluno. em outros termos. o professor diz a mesma sentença. ou fazem essa divisão de uma maneira distinta (Lakoff. e profere a sentença em (5). vemos que o significado vai além do sentido do que é dito. que nem sempre é tão clara essa divisão e que nem sempre conseguimos precisar o que está no terreno da semântica e o que está no terreno da pragmática2. a esse tipo de conhecimento. Langacker. nessa situação. podemos dizer que a semântica lida com a interpretação das expressões linguísticas. Portanto. Como entendemos esse significado? Esse conhecimento tem relação com a nossa experiência sobre comportamentos em salas de aula. Entretanto.

6 . A utilização de aspas duplas indica o proferimento da sentença. a expressão destacada ser um homem da sentença (6b) de menção e a expressão ser um homem da sentença (6a) de uso3. Certamente. a ação realizada. isso significa que é a menção da expressão que está sendo utilizada. o uso da sentença. Qual o significado de ser um homem? b. Chamaremos. A semântica preocupa-se com o significado de sentenças e de palavras como objetos isolados e. Qualquer falante do português aceitaria a resposta dada acima como sendo boa. ou seja. não vai variar de conteúdo de acordo com quem a responde ou de acordo com o contexto. certamente será outra. É fácil justificar essa resposta. A outra diz respeito a questões metafísicas. se for feita a um homem do campo. Já a questão em (6a) terá uma resposta que vai variar com o contexto: se a pergunta for feita a um filósofo. a sentença (b) é a adequada. Menção. Língua Objeto e Metalinguagem A diferença entre uso e menção de uma sentença também ajudará a compreender as noções de semântica e pragmática. de uma determinada idade adulta". para um filósofo. do sexo masculino. portanto. para um homem do campo. pois. Para entendermos essa diferença.2. pois. o significado em teorias semânticas não é tão abrangente quanto o uso que se faz na linguagem cotidiana. dizendo que "ser um homem quer dizer ser humano. Perceba que a resposta do significado para ser um homem. Fica claro.. primeiramente vejamos o significado da palavra significado. pode significar simplesmente questões de ordem prática. que 3 Quando a expressão aparece entre aspas simples ou itálico (geralmente dentro do texto). Qual o significado de 'ser um homem'? Qual das sentenças acima trata a palavra significar do ponto de vista semântico? Certamente. por exemplo. como aquele que sustenta a casa etc. teremos uma resposta. Por exemplo. Poderíamos responder. Observe as sentenças abaixo: (6) a.1 Uso. a resposta a (6b) estaria ligada somente à relação entre as palavras da expressão destacada ser um homem. em (6b). ser um homem pode implicar questões de ordem existencial etc.

seria impossível tratar de tantas questões. pois estamos estudando a língua usando a própria língua para descrevê-la. o português brasileiro para descrever os fenômenos linguísticos observados. por exemplo. pois. Isso se deve ao fato de que a semântica não pode ser estudada somente como a interpretação de um sistema abstrato. Veja que a física pode se valer da matemática para explicitar certos fenômenos físicos. neste manual. mas também tem que ser estudada como um sistema que interage com outros sistemas no processo da comunicação e expressão dos pensamentos humanos. Separar as noções de menção e de uso também facilita perceber a distinção entre língua objeto e metalinguagem. que tem que usar a língua para descrever seu objeto de estudo – a própria língua. isoladas de seu contexto. o objeto de estudo da física é o fenômeno físico e a metalinguagem para descrevê-la pode ser a matemática. A adoção de uma metalinguagem diferente da própria língua elimina prováveis distúrbios na análise linguística. Vejamos. ou seja. Exemplos disso seriam a linguagem da lógica de predicados. usada em teorias de semântica formal. ou a linguagem por estruturas arbóreas. Além dessas propriedades. 3. poderemos estabelecer que o objeto de estudo do linguista é a menção da língua e a metalinguagem usada é a língua em uso. Entretanto. existem teorias que preferem usar algum tipo de formalismo como metalinguagem.o objeto de estudo da semântica é a menção das sentenças e das palavras. a maior parte dos fenômenos básicos dessa tarefa semântica. Porém. os 7 . Como tal distinção nem sempre é tão nítida. mesmo dentro de um estudo semântico. usada nas teorias sintáticas de cunho gerativista . em um só livro. existem também algumas propriedades pragmáticas que sempre são consideradas relevantes. e o objeto de estudo da pragmática é o uso das palavras e das sentenças. os semanticistas estão de acordo quanto a algumas propriedades preliminares da língua que uma teoria semântica deve explicar. o linguista brasileiro usa a própria língua. terei que optar por recortes. Já. Portanto. Tentarei explorar. inseridas em determinado contexto. pois. É muito difícil o trabalho do linguista. se fizermos a distinção entre uso e menção. Objeto de Estudo da Semântica Como já realcei acima.

assuntos específicos a serem aqui estudados: a composicionalidade e a expressividade das línguas. o problema é outro. você nunca ouviu essa sentença antes. Em todas as línguas. Desse modo. mesmo se nunca tivermos ouvido a expressão anteriormente. No caso das palavras. isso significa essencialmente escrever um dicionário. uma teoria semântica deve. você pode facilmente entender seu conteúdo. pelo menos. embora as palavras das duas sentenças sejam as mesmas. um significado. Provavelmente. mas deve ser capaz de enunciar de que modo essa relação depende da ordem das palavras ou de outros aspectos da estrutura gramatical da sentença. No caso das sentenças. altamente complexas ou não. uma teoria semântica deve não só apreender a natureza exata da relação entre o significado de palavras e o significado de sentenças. 3. não se trata de um simples processo de acumulação: gatos perseguem cães e cães perseguem gatos não significam a mesma coisa. Como isso é possível? A experiência de se entender frases nunca escutadas antes parece muito com a experiência de se somar números que você nunca somou antes: (8) 155 + 26 = 181 8 . têm associadas a elas significados que nós não temos nenhum problema para entender. mas. Entretanto. Portanto. ser capaz de atribuir a cada palavra e a cada sentença o significado (ou significados) que lhe(s) é (são) associado(s) nessa língua. as palavras podem ser organizadas de modo a formar sentenças e o significado dessas sentenças depende do significado das palavras nelas contidas. as propriedades semânticas e as noções de referência e representação. em relação a qualquer língua. Observe que as infinitas expressões sintáticas. Por exemplo: (7) O macaco roxo tomava um sorvete no McDonald’s. ainda assim.1 Composicionalidade e Expressividade das Línguas Todas as línguas dependem de palavras e de sentenças dotadas de significado: cada palavra e cada sentença estão convencionalmente associadas a.

some as unidades. de algum jeito. mas um sistema complexo.2 Propriedades Semânticas (e Pragmáticas) Os falantes nativos de uma língua têm algumas intuições sobre as propriedades de sentenças e de palavras e as maneiras como essas sentenças e palavras se relacionam. as combina e faz chegar a um resultado final. parte da tarefa de uma teoria semântica deve ser falar alguma coisa sobre o significado das palavras e falar alguma coisa sobre os algoritmos que combinam esses significados para se chegar a um significado da sentença. Esse comportamento linguístico é mais uma prova de que seu conhecimento sobre o significado não é uma lista de sentenças. centenas debaixo de centenas. mesmo sem ter consciência. sabe deduzir várias outras sentenças verdadeiras a partir da primeira. que é o significado da sentença. dezenas debaixo de dezenas. 9 . Provavelmente. Ou seja. pois.Chegamos ao resultado em (8). c. Portanto. dentro do estudo semântico. com a palavra como a menor unidade dessa composição e as frases e sentenças como a maior unidade de análise. de alguma forma. as questões abordadas envolvem. Em todos os capítulos deste livro. d. se um falante sabe o significado de uma determinada sentença. intuitivamente. coloque os números na vertical. o falante de uma língua. Tentemos explicitar o procedimento que nos fez chegar ao resultado em (8): (9) a. b. Por exemplo. transporte para a casa da dezena o que ultrapassar 9. esse processo de construção do significado. entendemos a sentença em (7): sabemos o que cada palavra significa e conhecemos o algoritmo que. repita a operação para as dezenas e as centenas. Essas intuições parecem refletir o conhecimento semântico que o falante tem. Lidaremos. 3. porque nós conhecemos alguma coisa dos números e sabemos o algoritmo da adição (as etapas seguidas para adicioná-los). conservando as unidades debaixo de unidades. por um processo semelhante.

diz-se. que carro é hipônimo da expressão alguma coisa. para se afirmar a sentença (a). a verdade da sentença (10b). b) As relações de paráfrase e de sinonímia: (13) a. João fumava. tem-se. que são propriedades que estão no âmbito da semântica e também da pragmática. então. Portanto. De (12). João comprou alguma coisa. Puxa! Está frio aqui. pode-se dizer que a sentença (a) sugere uma possível interpretação como a de (b). como uma ilustração. a partir da verdade da sentença (10a). b. então. pois. b. outra tarefa da semântica deve ser caracterizar e explicar essas relações sistemáticas entre palavras e entre sentenças de uma língua que o falante é capaz de fazer. mostrarei abaixo quais são essas propriedades: a) As relações de implicação como hiponímia. que (10a) acarreta (10b).tem um conhecimento sistemático da língua que lhe permite fazer operações de natureza bastante complexa. Estudaremos essas relações de implicação nos capítulos 2 e 8. pressuposição e implicatura conversacional: (10) a. Veremos essas relações detalhadamente mais à frente. Porém. percebe-se que. João parou de fumar. Você quer que eu feche a janela? Das sentenças acima. 10 . O garoto chegou. (12) a. acarretamento. b. (11) a. b. tem-se que tomar (b) como verdade. que (11a) pressupõe (11b). João comprou um carro. Também se pode inferir que o sentido da expressão alguma coisa está contido no sentido da palavra carro. O menino chegou. pode-se dizer que qualquer falante deduz. diz-se. Em relação ao exemplo (11).

João está feliz. Essas relações serão vistas no capítulo 3. temos. sem que haja nenhuma interferência do conteúdo informacional da sentença. O que leva as sentenças a serem contraditórias são as palavras feliz e triste. as condições de felicidade de um proferimento. qualquer falante tem a intuição de que as duas sentenças não podem ocorrer ao mesmo tempo e. (a) também o é. 11 . ou. Também essas noções serão investigadas no capítulo 3. chamadas de antônimos. podemos perceber que a palavra menino pode ser trocada por garoto. assim. Estudaremos mais detalhadamente essas propriedades nos capítulos 3 e 8. uma relação de sinonímia entre essas palavras. Em (14). que (13a) é paráfrase de (13b). Uso. e se (b) é verdadeira. se a sentença (a) é verdadeira. ou seja. b. para ilustrar o que conhecemos como anomalia: uma sentença com um significado totalmente incoerente. então. a sentença (b) também é verdadeira. ou seja. c) As relações de contradição e de antonímia: (14) a. d) As relações de anomalia e de adequação: (15) Ideias verdes incolores dormem furiosamente. Uma característica das expressões anômalas é a sua inadequação para o uso na maioria dos contextos. que têm sentidos opostos e são. João está triste. aqui. o clássico exemplo de Chomsky (1957). por isso. diz-se que são sentenças contraditórias. Diz-se. Também as sentenças acima passam a mesma informação. como também são conhecidas. são capazes de estabelecer as condições de adequação ao contexto.No par de sentenças acima. As pessoas parecem ser capazes de julgar se determinadas expressões são adequadas ou não para serem proferidas em contextos particulares. então.

Veremos isso detalhadamente no capítulo 4. assento ou João pulou do alto de um banco. esse tipo de relação que atualmente é mais conhecida na literatura como papéis temáticos (essa noção também é conhecida como papéis participantes. A Maria recebeu um prêmio. o item lexical banco gera as duas interpretações possíveis para a sentença: João pulou do alto de um banco. como geradoras desse fenômeno. b. Jackendoff (1983. O João matou seu colega. 12 . entre outras questões. Em (16a). de anáfora. ou seja. c. de papéis temáticos. como Gruber (1965). O João jogou a bola. papéis semânticos ou relações temáticas): (17) a. Não só o léxico e/ou a sintaxe geram as ambiguidades das línguas. b. Diferentes questões estão implicadas nas ambiguidades das sentenças em português. incluirei. de dêixis. neste livro. prédio. d. mas também é comum observar questões de escopo. casos semânticos profundos. a ocorrência de sentenças que têm dois ou mais significados: (16) a. O motorista trombou no caminhão com um Fiat. João pulou de cima do banco. por exemplo. ou o motorista trombou no caminhão que estava com um Fiat em cima. A Maria preocupa sua mãe. 1990) e outros. f) Os papéis temáticos Seguindo a posição de alguns linguistas. Em (16b). é a organização estrutural da sentença que gera a ambiguidade: o motorista com um Fiat trombou no caminhão.e) As relações de ambiguidade e de vagueza Uma teoria semântica também pretende explicar as diversas ambiguidades que existem na língua.

existindo um membro típico ou central das categorias e outros menos típicos ou mais periféricos. paciente é apenas um dos papéis temáticos possíveis. A proposta da teoria dos protótipos é conceber os conceitos como estruturados de forma gradual. existem certos objetos que estão no limiar da divisão de duas ou mais categorias. As metáforas são entendidas. Veremos a noção dos protótipos no capítulo 6.. que cada objeto pertença a uma única categoria específica. que assume a incapacidade de conceituarmos os objetos do mundo (mesmo abstratos) de uma maneira discreta. ou seja. 13 . Nos exemplos acima. mais geralmente entre os verbos das línguas. são conhecidas como papéis temáticos. outros são mais prototípicos. 1975). Existe uma ideia recorrente de mudança. quando uma xícara passa a ser uma tigela: será xícara quando seu diâmetro for 5 cm. mas com características de tigela? Ou será uma tigela com características de xícara? Portanto. Como ilustra o exemplo em (18): (18) Este problema está sem solução: não consigo achar o fio da meada. como uma comparação que envolve identificação de semelhanças e transferência dessas semelhanças de um conceito para o outro. isto é. geralmente. um paralelismo semântico. 7 cm.Todas as sentenças acima têm uma estrutura semântica comum. de afetação: o colega mudou de estado de vida. há vários outros que serão estudados no capítulo 6. por exemplo. a mãe mudou de estado psicológico. Como veremos. mas 15 cm? Já será uma tigela? Ou ainda será uma xícara. possuem um maior número de traços de uma determinada categoria.. 10 cm. Outro ponto a ser investigado neste manual é a metáfora. a Maria teve uma mudança em suas posses e a bola teve uma mudança de lugar. Essas relações similares que se estabelecem entre os itens lexicais. podemos dizer que o elemento em itálico tem o papel temático de paciente e definimos paciente como o elemento cuja situação mudou com o efeito do processo expresso pela sentença. g) Os protótipos e as metáforas A noção de protótipos surge com Rosch (1973. Linguistas que trabalham com a ideia de protótipos assumem que não sabemos diferenciar.

ainda veremos verbos perfomativos. exemplos em que se emprega a metáfora. No capítulo 8. o significado está associado a uma representação mental. sabemos. o que vai além de uma simples descrição. Os cognitivistas afirmam que a metáfora faz parte da linguagem ordinária e é vista como sendo uma maneira relevante de se pensar e falar sobre o mundo. o significado é associado a uma noção de referência. em textos jornalísticos. na realidade. para outros. sugerir. também. temos: (19) a. ilocutivo e perlocutivo. h) Os atos de fala Apesar de o papel central do uso da língua ser a descrição de estados de fatos.Transpõe-se o conceito da meada de lã. que são verbos que já trazem implícitos uma ação. que só se consegue desenrolar quando se tem a ponta do fio. b. tais como. perguntar. Os fenômenos semânticos que serão tratados 14 . como ordenar. a linguagem é a própria ação em situações como essas. 3. Existe uma divisão sobre essa questão: para alguns linguistas. Também a noção de metáfora será vista no capítulo 7. Aviso-te que será a última vez. ou semântica referencial. veremos esses tipos de atos de fala existentes na linguagem. A metáfora tem sido vista. que a linguagem tem outras funções. ou seja. como a forma mais importante de linguagem figurativa e atinge o seu maior uso na linguagem literária e poética.3 Referência e Representação Um terceiro ponto a ser estudado por uma teoria semântica diz respeito à natureza do significado. ou ainda semântica de valor de verdade. Entretanto. para o conceito de um problema complicado. As teorias que tratam do significado sob o ponto de vista da referência são chamadas de semântica formal. ou semântica lógica. publicitários e mesmo na nossa linguagem do dia a dia. é fácil encontrar. tradicionalmente. da ligação entre as expressões linguísticas e o mundo. ato locutivo. Como exemplos de verbos perfomativos. Eu te ordeno sair imediatamente.

um ponto relevante a ser investigado por uma teoria linguística é a relação entre a língua e o mundo: o significado externo da língua. Ainda temos alguns outros linguistas que concebem a possibilidade de essas duas abordagens serem complementares. Por exemplo. 4 e 5. No capítulo 5. quando falamos. segundo Barwise & Perry (1983). e aprender o que significam essas palavras é conhecer a referência delas no mundo: (20) 'Noam Chomsky' refere-se a um famoso linguista. se estamos nos referindo ao mesmo linguista a que todas as pessoas se referem quando usam o nome Noam Chomsky. 3. dos falantes. Portanto. que não tem relação com a referência no mundo são conhecidas como teorias mentalistas. 15 . de fazer a mesma ligação entre as situações do mundo. o significado é uma questão de representação mental. representam ou codificam o conhecimento semântico do falante. Parece ser verdade a afirmação de que se a nossa fala sobre o mundo funciona tão bem é por causa das similaridades fundamentais das nossas representações mentais. O foco da questão está em entender o que os ouvintes podem inferir sobre os estados e os processos cognitivos. é uma relação entre expressões e objetos extralinguísticos.dentro dessa perspectiva teórica estão nos capítulos 2. ou ainda cognitivas. O estudo da representação envolve a ligação entre linguagem e construtos mentais que. O sucesso da comunicação depende apenas de partilhar representações e não. As teorias que tratam do significado do ponto de vista representacional. A ideia geral é que temos maneiras de representar mentalmente o que é significado por nós e pelos outros. as representações mentais. ou seja. As pessoas se entendem porque são capazes de reconstruir as representações mentais nas quais os outros se baseiam para falar. ou representacionais. Ao contrário. tratarei da relação de referência e sentido. que se dá entre expressões linguísticas. de alguma maneira. Estudaremos alguns fenômenos semânticos sob a ótica da abordagem mentalista nos capítulos 6 e 7. mais especificamente. Referência não é uma relação como implicação ou contradição. Só podemos usar a sentença acima de uma forma adequada. certas palavras fazem referência a determinados objetos.

línguaobjeto e metalinguagem. 1) e Cann (1993. Exercícios I. Lyons (1977. 1). cap. Exemplifique linguisticamente e explique os dois tipos de conhecimento que estão envolvidos no significado do que é dito. 1). Pires de Oliveira (2001. uso.4. cap. cap. Chierchia & McConnell-Ginet (1990. cap. Em inglês: Saeed (1997. cap. 1). 1). cap. 5. Indicações Bibliográficas (livros acessíveis sobre os temas abordados no capítulo) Em português: Chierchia (2003. 1) e Kempson (1977. cap. III. 1). 1). cap. cap. 1). 16 . Hurford & Heasley (1983. Explique as propriedades básicas da linguagem que teorias semânticas devem abordar. Faça uma relação entre seus exemplos e as noções de menção. Larson & Segal (1995. II.

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