Giselda Brito Silva (Org.

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ISBN 85-874-5937-6 Copyright © Giselda Brito Silva Direitos desta edição reservados à EDITORA DA UFRPE Rua Dom Manoel de Medeiros, s/n – Dois Irmãos. Recife/PE. CEP: 52.171-300 Fone: (081) 3320 6000 Email: editora@ufrpe.br Web site: www.ufrpe.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright (lei nº 9.610/98). Os conceitos, redação e correção textual neste livro são de inteira responsabilidade dos autores. 1ª. Edição – 2007 Revisão dos originais e formatação: Giselda Brito Silva Apoio na leitura dos textos e avaliação dos conteúdos: João Fábio Bertonha Capa: Giselda Brito Silva As imagens utilizadas na montagem da capa foram retiradas de Prontuários Funcionais da AIB do Arquivo Público do Estado de Pernambuco (APEJE) e do livro Imagens do Sigma, organizado por Luiz Henrique Sombra e Luiz Felipe Hirtz Guerra, editado pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1998. Ficha catalográfica Setor de Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE
E82 Estudos do integralismo no Brasil / Giselda Brito Silva, organizadora. - Recife: Ed. da UFRPE, 2007. 260 p. : il. ISBN: 85-874-5937-6 Inclui bibliografia. 1. Brasil – História 2. Integralismo 3. Autoritarismo 4. Igreja 5. Tradição (Teologia) 6. Perseguição política 7. Ditadura e ditadores I. Silva, Giselda Brito CDD 981

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Apresentação Hélgio Trindade

Introdução João Fábio Bertonha

Textos de

Ana Maria Dietrich * Edgar Bruno Franke Serratto * Emília Carnevali da Silva * Gilberto Grassi Calil * Giselda Brito Silva * Leandro Pereira Gonçalves * Leonardo Ayres Padilha * Raimundo Barroso Cordeiro Jr * Renato Alencar Dotta * René E. Gertz * Rodrigo Christofoletti * Tatiana da Silva Bulhões

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SUMÁRIO Apresentação Hélgio Trindade Introdução João Fábio Bertonha 1. Pesquisas sobre o integralismo na década de 1970 René E. GERTZ 2. Origens do integralismo em debate: pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20 Leonardo Ayres PADILHA 3. Integralismo e Historiografia Edgar Bruno Franke SERRATTO 4. O Integralismo em Pernambuco: ascensão e queda da AIB-PE Giselda Brito SILVA 5. O Legionário Integralista: um novo homem para uma nova era Raimundo Barroso CORDEIRO JÚNIOR 6. O homem no espelho e a Legião Cearense do Trabalho: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da SILVA 7. Tradição e Cristianismo em Minas Gerais: O nascimento do Integralismo em Juiz de Fora Leandro Pereira GONÇALVES 8. A imprensa integralista de São Paulo e os trabalhadores urbanos (1932-1938) Renato Alencar DOTTA 9. Integralismo Proh Pudor! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo Rodrigo CHRISTOFOLETTI 10. Entre Sigmas e Suásticas: nazistas e integralistas no Sul do Brasil Ana Maria DIETRICH 11. Fotografias, gênero e autoritarismo: representações de feminino pela Ação Integralista Brasileira Tatiana da Silva BULHÕES 12. 1955: A campanha de Plínio Salgado à Presidência Gilberto Grassi CALIL

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APRESENTAÇÃO Hélgio Trindade

Os estudos e pesquisas sobre o Integralismo, que no passado foram relegados a um segundo plano pela historiografia brasileira, estão gerando um renovado interesse por jovens pesquisadores de várias regiões do país. Vale lembrar que, nas décadas de 1970 e 1980, um primeiro grupo de pesquisadores debruçou-se sobre o tema produzindo a primeira série de teses, pesquisas e ensaios. O resultado certamente foi o de trazê-lo para a produção acadêmica de algumas instituições universitárias nacionais. Os enfoques e as interpretações nem sempre foram convergentes, mas o Integralismo passou a ser valorizado como um tema relevante para vários historiadores consagrados. Além de Edgard Carone que o incorporou em seu livro sobre a Segunda Republica (1930-1937), o Integralismo entrou na História Geral da Civilização Brasileira (Período Republicano e em verbetes do Dicionário Histórico1 Biográfico do CPDOC. Após ter integrado a enciclopédia História do Século 2 20, dirigida por Francisco Weffort , os especialistas internacionais inserem o Integralismo na categoria dos fascismos extra-europeus. A Ação Integralista Brasileira (AIB) adquire então legitimidade acadêmica pela consagração da literatura internacional com os estudos comparativos de Juan Linz, Stanley 3 Payne, Pierre Milza, Stein Larsen e Alessandro Campi , entre outros.

 Professor titular de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1 CARONE, Edgard . A Republica Nova (1930-1937). São Paulo: Difel, 1974; FAUSTO, Boris (dir). Historia Geral da Civilização Brasileira (Brasil Republicano). Sociedade e Política. T.III. 3º Vol. São Paulo: Difel, 1981; Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro:1930-1983. Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu (coord). Rio de Janeiro: Editora Forense- Universitária, 1984. 2 História do Século XX. São Paulo: Editora Abril. n.52, 1974. 3 LINZ, Juan. Some notes toward a comparatives study of fascism in sociologica historical perspective. In: Laqueur, Water (edit). Fascism a reader´s guide. Berkeley: University California Press, 1976; MILZA, Pierre. Les fascismes. Paris: Imprimerie National, 1985; PAYNE, Stanley G. Historia del Fascismo. Barcelona: Edit.Planeta, 1995; LARSEN, Stein U. (edit). Fascism outside Europe. New York: Columbia

segundo diferentes olhares. Os estudos monográficos ou temáticos são fundamentais para o avanço da problemática não só pela riqueza e variedade de enfoques. partido e ideologia que. Esses estudos têm contribuído para uma visão mais complexa sobre as metamorfoses do movimento. University Press. Rosa (org). é uma iniciativa meritória e que já apoiou os esforços do Grupo de Estudiosos do 4 Integralismo (GEINT). Alessandro. mas pela presença de novos centros de documentação e diversidade das fontes de dados disponíveis. Que cos´è il fascismo? Interpretazione e prospettive di ricerca. Lidia e CAVALARI. o Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. R. Certamente uma nova geração de pesquisadores está com a palavra para lançar um olhar critico e criativo sobre os estudos fundadores e trazer a sua contribuição. o Integralismo precisa ser analisado à luz das diferentes situações cuja explicação não se esgota apenas pelas análises mais abrangentes.. penetraram não somente em alguns centros maiores. CAMPI. Nesta perspectiva. 2003. Integralismo: novos estudos e reinterpretações. mas nas profundezas do Brasil. o Partido de Representação Popular (PRP). em São Paulo. Roma: Ideazione Edit. Ao desenvolverem pesquisas regionais e locais estão enriquecendo os estudos sobre a diversidade das manifestações da AIB e seu sucedâneo.6 Na última década os estudos sobre o Integralismo foram retomados de forma vigorosa por uma nova geração de jovens historiadores e cientistas sociais. Rio Claro: Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. POSSAS. 2001. 4 DOTTA. Este novo livro testemunha de forma eloqüente a atualidade do tema e a diversidade de abordagens e contribuições inéditas. Como toda ideologia e organização que arregimenta adeptos e fiéis de vários extratos sociais e em contextos regionais diversos. . 2004. inclusive publicando os resultados de suas pesquisas .

Na verdade. em que a produção relativa ao movimento era centralmente de integralistas (ou de seus herdeiros do Partido de Representação Popular) ou de seus opositores. Ao procurar o que seria. tanto elementos práticos. resolvi iniciar alguns estudos a respeito do integralismo. como o clima político e social e a economia interna das Universidades. Não me recordo de suas palavras exatas. era a obra do Hélgio Trindade e seus interlocutores diretos. praticamente. mas ele ressaltou como tudo o que havia. mas. como as alterações teórico-metodológicas dentro da disciplina histórica e a disponibilidade de fontes. o questionei sobre o que poderia ler a respeito. posteriormente. vi que havia alguma coisa a mais. Só levando em conta esses elementos é que podemos compreender a caminhada dos estudos relacionados ao tema. houve uma primeira fase. objeto de estudo das ciências sociais. . Assim. dos anos 30 até. como se consolidaram enquanto campo analítico. os artigos e as teses se sucedem e podemos notar como esta é uma temática longe de atingir o esgotamento. em boa medida. Os livros. Depois. ainda um jovem estudante de graduação em História. essencialmente. A partir da 5 Doutor em História pela Unicamp. Numa segunda fase. Alcir Lenharo. dado o seu próprio caráter militante. entre os anos 70 e 80. a situação mudou radicalmente e os estudos do integralismo não apenas se expandiram de forma acentuada. a produção histórica sobre o integralismo. o meu orientador.7 INTRODUÇÃO 5 João Fábio Bertonha Em fins da década de 1980. pesquisando com mais vagar. o integralismo foi. grosso modo. como qualquer outra. refletiu. claro. os 60. Passados menos de vinte anos. Esses livros e artigos são. mas que não era realmente muito. professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR e pesquisador do CNPq. parte da bibliografia dos estudiosos do integralismo. são essencialmente fontes primárias e não mais do que isso.

além disso. foram reexaminados e a história regional começou a ser . etc. Os contatos dos integralistas com os movimentos fascistas europeus e as suas relações com os imigrantes. livros. História política era considerada perda de tempo e. grosso modo. sociólogos) e não de historiadores. Gilberto Vasconcelos. filósofos. deixaram temáticas como o integralismo para seus colegas das ciências sociais. Marilena Chauí e outros. houve uma explosão de cursos de graduação e pós-graduação. o que também foi de importância para que as pesquisas deslanchassem. são estas obras centralmente de cientistas sociais (cientistas políticos. Abriu-se espaço para estudar o integralismo. nas mudanças sociais. um trabalho intenso de análise do discurso (então no auge do seu prestígio dentro das ciências humanas). os historiadores. envolvendo José Chasin. como ênfase no estudo dos conceitos. nos estudos de classe. o que permitiu uma renovação da história política. Além disso. etc. o que reflete as próprias prioridades da disciplina histórica naqueles anos. Essa produção nos ensinou muito e apoiou tudo o que veio depois. fortemente influenciados pelo marxismo e pela Escola de Annales. entre o final dos anos 80 e o início dos 90 Vários elementos ajudam a explicar porque foi nesse momento que os historiadores passaram a olhar com mais interesse o movimento dos camisas verdes. publicado em 1975). Esse fato deixou aquilo que foi escrito sobre o integralismo naqueles anos marcado por alguns elementos. o Estado Novo. uma seleção clássica de fontes (jornais. Nessa época. por este e outros motivos. foram postas a disposição dos historiadores. Mas muitas outras questões precisavam ser respondidas e apenas com a entrada dos historiadores no campo as coisas mudaram. os historiadores. revistas). novas fontes. Curiosamente.8 primeira grande obra de pesquisa sobre o integralismo (o livro do Hélgio Trindade. Num primeiro momento. houve toda uma série de debates mais do que conhecidos. etc. os quais deram uma nova vida aos estudos do tema. o PCB. o grosso dos trabalhos se concentrou em “fechar” algumas das questões deixadas pela camada anterior. No campo da produção pratica da História. estavam envolvidos com a chamada história econômica e social e mais interessados em grandes estudos estruturais. O mais importante deles foi que a História se libertou da já mencionada ênfase na história econômica e social. o que permitiu o surgimento de uma nova e mais numerosa geração de pesquisadores. salvo exceções. especialmente os italianos e os alemães. como as da polícia política. o que ocorreu.

jovens pesquisadores que utilizam o prisma teórico do historiador para abordar temáticas novas ou. trazendo coisas novas e novos elementos para repensar o que foi o movimento. nos artigos de Ana Maria Dietrich. Pernambuco. com suas personalidades. a participação dos negros e das mulheres no movimento. inclusive com o uso de novas fontes. há artigos que avançam para o período pós Segunda Guerra. podem transformar a história em uma coleção de discursos iguais. Claro que essa nova historiografia também trouxe. Ao mesmo tempo. Vemos. por exemplo. Na verdade. enquanto outras sub-temáticas podem se esgotar na repetição. Estudos sobre discursos e memórias sem uma analise crítica e uma síntese. na maioria. reunindo trabalhos de. O anti-semitismo integralista. como o relacionamento da AIB com os militares ou o cinema integralista. ao lado da explosão numérica. aliás. já comentada. Giselda Silva e Leandro Gonçalves. até agora centrada no campo católico. assim. Mas o momento é mais de vivacidade do que de crise na área. o que é perigoso. idéias e perspectivas atuando na história do país por muitas décadas ainda e mesmo hoje). como nos artigos citados acima e no de Raimundo Cordeiro sobre o Ceará. etc – já tinha sido abordado na década anterior. Este último.9 explorada. permite que ampliemos a discussão sobre as pontes entre o integralismo e as religiões cristãs. O presente livro indica claramente essa situação. como o de Gilberto Calil sobre a campanha presidencial de Plínio Salgado à Presidência em 1955 e o . Os estudos regionais continuam bem representados. como não podia deixar de ser. e de forma extremamente positiva (pois é um erro imaginar que a AIB tenha desaparecido em 1938. Também há temas que ainda aguardam os seus historiadores. num processo que prossegue. ao analisar os contatos do integralismo com o metodismo. rever aquelas já estudadas pela historiografia. os discursos e as memórias de e sobre os integralistas e outros temas passaram a ser abordados. houve um extraordinário desdobramento em termos de temas e problemáticas. em trabalhos como os de Renè Gertz e Josênio Parente. temas clássicos como o relacionamento entre nazistas e integralistas no sul do Brasil ou aquele entre católicos e integralistas recebendo um novo tratamento. o interior de São Paulo e Minas Gerais. no mínimo. mas se consolidou efetivamente nos anos 90. problemas e/ou outras questões. dos estudos a respeito do integralismo. esse novo filão – que nos trouxe conhecimentos sobre cidades no Rio Grande do Sul. Nos últimos anos.

Reale e Salgado e um ou outro texto sobre líderes regionais. demonstrando. A primeira escreve um texto na fronteira entre a história de gênero e as representações fotográficas. por sua vez. dentro de histórias de vida. além de memórias e livros auto-celebrativos dos próprios integralistas. são indicativos de um novo filão de pesquisa relativamente negligenciado nas décadas passadas e que vai lentamente se abrindo. Já tínhamos. fazem. o das biografias e o das relações entre os líderes integralistas. Seu texto. as mudanças e continuidades dentro da trajetória da direita nacional no século XX. As bases sociais do movimento são investigadas. como tendo a sua base social essencialmente nas classes médias. Parecemos distantes do momento em que teremos que abandonar essa idéia. duas das áreas de maior interesse para a nova geração de historiadores. análises historiográficas a respeito do integralismo. por Renato Dotta no seu artigo sobre a relação entre o integralismo e os trabalhadores urbanos em São Paulo. Os artigos de Renè Gertz e Edgar Serrato. como também de outros secundários. alguns trabalhos sobre Barroso. utilizando estratégias de escrita diversas. na verdade. mas o trabalho de Dotta indica como essa visão tem que ser.10 de Rodrigo Christofoletti a respeito da Enciclopédia integralista dos anos 50. indicam como esse campo de estudos tem se desenvolvido. ou seja. no mínimo. Mas faltam ainda estudos biográficos mais densos não apenas dos três principais líderes. Os artigos de Tatiana Bulhões e Leonardo Padilha também indicam perfeitamente as novas preocupações dos estudiosos do movimento. Estas estão se tornando mais comuns recentemente e. Afinal de contas. como ele demonstra. regionais e de simples militantes. também foram seduzidos pelos ideais integralistas nos anos 30. no sentido da existência de uma bibliografia tão ampla que foge da capacidade de administração de um . mas numa visão mais histórica e menos determinista. matizada. como os demais movimentos fascistas. É uma tradição considerar o integralismo. e o de Emília Carnevali da Silva sobre Severino Sombra. mais do que tudo. pois trabalhadores e operários. Seria fundamental também que tais ensaios biográficos extrapolassem o período do próprio integralismo. Já o segundo tenta entender a produção literária e a formação ideológica de Plínio Salgado. ainda não chegamos ao ponto de “perda de controle”. Padilha também sugere caminhos para a produção da biografia de Plínio Salgado (o que também tenho tentado fazer) e a memória construída em torno dela. por sua vez.

de forma a orientar os que se iniciam no tópico.11 único pesquisador. o presente livro é não apenas um indicativo da vitalidade do campo dos estudos a respeito do integralismo no momento atual como se configura numa excelente contribuição dentro dele. Já estamos muito longe do momento em que os estudiosos do integralismo não tinham interlocutores e deviam se resignar ou a debater com os militantes ou a ler e reler os poucos textos disponíveis. o que é algo a se comemorar. o que é um bom sinal. Mas já estamos num momento em que a massa de livros e artigos demanda textos que os organizem e historicizem. Enfim. .

dera uma guinada nas suas posições políticas e se tornara um dos críticos mais categorizados do regime militar. Hoje. 1974. para ver os comentários que se fizeram naquela época. e quais as eventuais “atualizações” ou vinculações que se estabeleceram com a realidade dos anos 1970. Gertz Este pretende ser um depoimento pessoal muito breve sobre meus estudos a respeito do integralismo. neste momento. São Paulo: DIFEL. fora defendida em 1971.12 1. 6 TRINDADE. numa possível tentativa de justificação da oportunidade dessas * Professor nos Departamentos de História da PUCRS e da UFRGS. Se minha memória não está falhando. Deve ter sido importante. dois anos após o início da presidência do general Emílio Garrastazu Médici. pois. o livro hoje clássico de Hélgio Trindade sobre a Ação Integralista Brasileira (AIB) 6 tinha sido recém publicado. ocasião em que manifestara simpatia pelo movimento. penso que seria interessante recorrer a essas resenhas. na década de 1970. Tese de doutorado na Universidade de Paris I. ele se tinha ocupado de forma bastante intensa com a AIB nos anos 1930. especificamente à tese. . não me lembro mais de nenhum detalhe do conteúdo desse comentário sobre a obra. mas. Infelizmente. Não tenho mais presente nem os textos nem o conteúdo das resenhas mais rápidas publicadas na imprensa sobre o livro de Trindade. Plínio Salgado. quando ingressei no curso de mestrado em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). uma delas era de Alceu Amoroso Lima. e que eram afixadas no quadro de avisos do curso. havia dito que permitira que os “plinianos” da década de 1930 tivessem chegado ao poder. afinal. Hélgio. PESQUISAS SOBRE O INTEGRALISMO NA DÉCADA DE 1970 * René E. de cujo governo o ex-chefe-nacional da AIB. e tinha como título “A interpretação do integralismo vem do Sul”. Em 1975. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. e o autor era professor desse curso.

A indistinção conceitual anticientífica – já que. mesmo que ele nos informa ter optado originalmente pela idéia de “geração” e passado a preferir. o que o teria levado a considerar como fascistas pessoas. São Paulo: Duas Cidades. Este apresentou. Ordem burguesa e liberalismo político. de alguma forma. mais tarde. Assim. em 1975. Hoje está na moda dizer-se que se deve estudar o integralismo. 7 7 Essa idéia é sugerida pela observação feita por Florestan Fernandes. governos fortes não seriam. 1978. a predisposição para um profundo engajamento político. apenas aqueles que defendiam de forma entusiástica uma reconstitucionalização imediata para. na qual afirma não enxergar nenhuma utilidade no estudo do integralismo (VASCONCELOS. 15-63 (a crítica ao trabalho de Trindade está nas p. depois. Gilberto. o termo “fase” (“Perante o Tribunal da História”: o anticomunismo da Ação Integralista Brasileira [1932-1937]. 8 A palavra “onda” encontra-se num trabalho de Rodrigo Santos de OLIVEIRA. Dissertação (Mestrado em História). na realidade do início da década de 1930.13 pesquisas . um texto intitulado “Paradigma e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira”. para comparar tudo isso com a direção que tomaram as 8 várias “ondas” posteriores de pesquisa sobre a AIB. São Paulo: Brasiliense. o antiliberalismo seria outra dessas características que não pode ser apontada como privilégio do fascismo. fascistas. 2004 p. o voluntarismo. Fernandes escreveu: “O que me põe de quarentena [em escrever o prefácio] é o assunto. Grosso modo. Wanderley Guilherme dos. Não partilho dessa opinião” (p. A ideologia curupira: análise do discurso integralista. na apresentação ao trabalho de Gilberto Vasconcelos. seguindo a lógica de Trindade. p. pois – em partindo desse princípio – a própria Aliança Nacional Libertadora deveria ser classificada como tal. grupos e movimentos que apresentavam características que não constituem exclusividade fascista. voltar ao status quo anterior à Revolução de 1930 escapariam da classificação de “fascistas”. em SANTOS. pode-se dizer que Trindade foi acusado de não distinguir entre uma série de conceitos. 30-31). . 1979). 9 Esse texto foi publicado. segundo Wanderley Guilherme. constituiria tarefa de toda ciência classificar em conceitos cada vez mais distintivos e precisos a realidade material. ipso facto. Porto Alegre: PUCRS. a ser citado a seguir. Lembro-me com mais detalhes – e posso consultá-la até hoje – de uma polêmica em que Hélgio Trindade se envolveu com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. social e política – levaria a que. também não constituiria característica exclusivamente fascista. no qual dedicou cerca de duas páginas a 9 uma crítica do texto do primeiro. 11). 28 e segs.

: Pilger-Druckerei. 1940. Edgard. destacando que fora interpretado de forma totalmente equivocada por Wanderley Guilherme. São Paulo: DIFEL. Rh. naturalmente. 1976. defendida em 1972 nos Estados Unidos. 1934-1938. Hélio. p. mesmo que destacasse diversas características que o 10 aproximariam desse “tipo” de regime. na realidade. 1974. O regime de Vargas: os anos críticos. Karl-Heinrich. em Porto Alegre. Elmer R. Revista do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (da UFRGS). 1932-1938. ano IV. A República Nova (1930-1937). o livro de Hélio Silva intitulado 1938: 11 Terrorismo em campo verde . 1971. Speyer a. 14 BROXSON. cujo original. Nicolau de Flue. em inglês. na Alemanha. Trindade. o creador do integralismo na literatura brasileira.14 Hélgio Trindade respondeu a essa crítica. Tese (Doutorado em História) Washington: The Catholic University of América. 1972. Hélgio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Lera. entrementes. Robert M. Eu era um simples aluno de mestrado e não tinha informações sobre outras pessoas que estivessem realizando estudos sobre o integralismo. Outros trabalhos de que só tomei conhecimento mais tarde – mesmo . o resumo de algumas partes do trabalho de Trindade (Carone. no qual a tese de Trindade é inserida. mas que só seria publicado no Brasil em 1980. tivera acesso à tese de doutorado de Carlos 12 Henrique Hunsche. Alguns anos depois. Stuttgart/Alemanha: Kohlhammer-Verlag. e que possui um capítulo dedicado ao 13 integralismo. Plínio Salgado. em termos benevolentes. Porto Alegre. talvez como um dos primeiros pesquisadores brasileiros. O trabalho não conteria uma classificação simplória do integralismo como fascismo. e. O livro de Hunsche. Essa mesma revista publica um artigo de Juan Lins sobre “O integralismo e o fascismo internacional”. 10 TRINDADE. atribuiu a ele. era de 1970. 194-231). que. 135-143. a que o historiador tivera acesso antes da publicação. defendida na década de 1930. por exemplo. por essa época. 128-134. Não tive acesso. eram qualificações que o próprio Plínio Salgado atribuíra ao fascismo. 11 SILVA. ao livro de Robert Levine sobre O regime de Vargas. viria a descobrir outra tese defendida na Alemanha naquela época e também publicada lá (em português): Gut. 1980. Texto e contexto: nota crítica a alguns aspectos do estudo “Paradigma e História” de Wanderley Guilherme dos Santos. p. em textos que escrevera ainda antes da fundação da AIB. 12 HUNSCHE. Aquilo que se encontrava em Edgard Carone era. 13 LEVINE. está traduzido para o português e pode ser obtido no Centro de Documentação sobre a AIB e o PRP. no contexto dos estudos internacionais sobre os fascismos (p. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1938: Terrorismo em campo verde. Plínio Salgado and Brazilian integralism. praticamente. a elaboração de qualificações sobre aquilo que seria o fascismo que. Também não conhecia a tese de doutorado de Elmer 14 Broxson. Der brasilianische Integralismus. 1938.

vol. J. 1972. ainda antes de sua edição em livro. . São Paulo: DIFEL. nº 3. Mesmo assim. em 1935. Ação Intergalista Brasileira: fascism in Brazil. e das quais só tomei conhecimento depois da publicação.15 Talvez tivesse entendido melhor a polêmica entre Wanderley Guilherme e Hélgio Trindade se soubesse das teses então em andamento de J. presidente da ANL. Stanley E. p. Washington. nº 2. Chasin e de Gilberto Vasconcelos. 15 respectivamente. sobre a possibilidade de classificálo entre os fascismos. Tinha a intenção de dedicar-me ao estudo da Aliança Nacional Libertadora (ANL) no Rio Grande do Sul. 15 CHASIN. Mesmo que as matérias publicadas por alguns órgãos da então nascente “imprensa nanica” sobre o estudo de Hélgio Trindade. hoje em dia. em 1978 e 1979. se refletem a discussão sobre o caráter “mimético” ou não do integralismo. 1974. quero dizer que meu ingresso no campo de estudos sobre o integralismo não se deu a partir de uma batalha nas barricadas teóricas e metodológicas em que se tentava decidir sobre o alfa e o ômega do movimento e. Margaret TODARO. História Geral da Civilização Brasileira [vol. tivessem despertado meu interesse e constituído uma das motivações para meu ingressado no mestrado em Ciência Política da UFRGS. eventualmente até sobre os destinos da humanidade. Nelas. IX. Boris [dir. mas no final da longa conversa. 1981. Luso-Brazilian Review. A modéstia de minhas pretensões pode ser inferida do próprio fato de que não ingressei no mestrado com a decisão tomada de que faria uma dissertação sobre o integralismo. Com tudo isso. Fui muito bem recebido. Madison. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda. que dei uma contribuição de algum valor. cit. 54.]. "Integralism and Brazilian catholic church " The American Historical Review. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. vol.. 1932-1938. G. não vinha decidido a transformar esse tema em interesse central de minha atividade de pesquisa. por tabela. 10]. In: FAUSTO. op. 16 Um comentário de Hélgio Trindade sobre esses trabalhos pode ser encontrado em seu texto intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30”. VASCONCELLOS. o escritor me deu o seguinte conselho: “Para o meu bem [de Dyonélio que já existissem naquele momento – foram: HILTON. procurei o escritor Dyonélio Machado. Depois de ter lido a então escassa bibliografia geral sobre esse assunto e de ter reunido algumas poucas informações a respeito de sua atividade no estado. 304-316. 1978. penso. e também sobre os interesses daquele momento 16 subjacentes ao estudo desse fenômeno do passado. Williams. Sempre tive muita consciência de que me inseria numa discussão teórico-metodológica de menor abrangência e que mordia esse tema apenas pelas beiradas.

tratava-se de um jornal em língua alemã. por não dominar o alemão. não pudera analisar o conteúdo. e sua expansão nas regiões de colonização alemã do sul do Brasil. 1994. 1976. 18 Caxias do Sul elegeu três vereadores integralistas. 143-174. Com a negativa do ex-presidente da ANL em colaborar com informações. mas o fato de que notei desde os primeiros números que algumas opiniões preconcebidas que eu tinha sobre o integralismo. p. A conversa com Dyonélio aconteceu no início de 1976. esquece essa história”. São Leopoldo. Para o seminário. Relatou que. mas que. interessava mais o conteúdo doutrinário. nessa temática e ir apresentando. conseguira o jornal com a família proprietária da gráfica em que fora impresso. não se confirmavam na leitura levou-me a sistematizar todos os conteúdos – mesmo aqueles que não se referiam a aspectos doutrinários. que deveria desembocar. editado em um dos mais típicos municípios de colonização germânica do Rio Grande do Sul. Acabei recorrendo também a algumas outras fontes. Como eu demorasse um pouco para definir o tema e a fonte a que me dedicaria. município que. num total de exatas 52 edições semanais. durante suas pesquisas para a tese. In: Anais do 2º Simpósio de História da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul. no final do período. os avanços feitos na sua pesquisa. 17 Meu projeto só foi concretizado quase 20 anos depois por Diorge Alceno KONRAD (1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul. elegera um vereador integralista nas eleições 18 municipais gaúchas de 1935. e todas elas me diziam que a história contada como líquida e certa – e na qual também eu acreditara até 19 então – não era tão líquida e certa assim. Hélgio apareceu. e por isso sugeriu que eu o fizesse. de alguma forma. Paralelamente aos conteúdos desenvolvidos pelo professor.16 Machado] e para o teu bem. ao lado de Caxias do Sul – típico de colonização italiana –. todos os participantes do seminário deveriam escolher um assunto que se enquadrasse. Comecei a fazer um levantamento sistemático do conteúdo do jornal. tive de 17 abandonar esse projeto. Dissertação (Mestrado em História). na sala de aula com um volume encadernado do jornal integralista Der Kampf. e no primeiro semestre desse ano me matriculei numa disciplina sobre “Pensamento político brasileiro no século XX”. . portanto ao “pensamento” integralista. no decorrer do semestre. de novembro de 1936 a novembro de 1937. editado em Novo Hamburgo. certo dia. 19 O paper semestral está publicado sob o título “O integralismo e os teutobrasileiros no Rio Grande do Sul”. Como o título indica. ministrada por Hélgio Trindade. Porto Alegre: PUCRS. num paper semestral.

com as forças armadas. Hélgio Trindade havia escrito que não abordara três temas que considerava merecedores de uma investigação. e como se supunha como evidente que o próprio nazismo deveria estar promovendo a expansão da AIB no Brasil. na tese de doutorado. As pesquisas me levaram a não poder negar que o integralismo tivera um sucesso maior nas regiões de colonização alemã e italiana. em grande parte. seu irmão de fé. mas outros aspectos pressupostos como líquidos e certos. por exemplo. 1977. de que falarei a seguir –. como na apresentação do seu trabalho. Estaria tudo claro. Nessa perspectiva.17 E qual era essa história? Em resumo. Ela ficou pronta em 1977. e com as populações de origem imigrantista e os fascismos europeus. e com a atenção voltada exclusivamente para tudo aquilo que acontecia na Alemanha. ou seja. . num verdadeiro Estado dentro do Estado. Porto Alegre: UFRGS. a rigor nem haveria necessidade de explicar qualquer coisa. Como o integralismo era um partido nos mesmos moldes do nazismo alemão. mais ou menos a seguinte. talvez valesse a pena citar seus créditos. teriam resistido de forma tenaz e sistemática a uma integração política e cultural na realidade brasileira desde que chegaram aqui. sem aderir ao Brasil. indicava que nem tudo era tão absolutamente claro. Como minha pesquisa semestral no jornal e em algumas outras fontes a que recorri. não puderam ser comprovados. sem se nacionalizar. e fundamentais no estabelecimento da lógica que supostamente explicaria essa correlação. alguns dados sobre a atividade 20 Considerando que ela não foi publicada – mesmo que seu conteúdo tenha sido aproveitado. completamente desinteressados e apáticos em relação à vida política brasileira. e como eu estava à procura de um tema de dissertação – depois do abandono da idéia de me dedicar à história da ANL – e ainda. muitas vezes sem saber que eram brasileiros. mantendo-se “enquistados” em território nacional. a adesão relativamente grande de alemães e descendentes era considerada algo absolutamente normal e óbvio. a saber: a relação do integralismo com a Igreja Católica. eu tinha um tema para minha dissertação. a partir de 1824. sobretudo no sul do Brasil. principalmente no sul do país – por tudo isso. pois seu conteúdo não foi totalmente integrado na tese: O integralismo e os teuto-brasileiros no Rio Grande do Sul: contribuição para a interpretação de um fenômeno político controvertido. e a situação não demandaria qualquer explicação. havia uma evidente correlação estatística entre a densidade da influência alemã (e italiana) na população e a densidade da presença integralista. Assim. tendo sido defendida em outubro 20 daquele ano. porém. Os alemães e seus descendentes.

(orgs. e os atores políticos contemporâneos faziam uma clara distinção entre nazistas e integralistas – coisa que nas interpretações correntes não acontecia. el al. enquanto sua polícia batia nos integralistas – fossem de origem alemã ou não. o qual. podendo contrariar tendências gerais ou condicionamentos materiais. Essa equação. em função da total identidade de interesses e de ideologia entre ambos. havia exceções. apesar de católico. 2004. de forma que o encaravam com muita suspeita. Der Heimatbote. o objeto de estudo não é inerte e tem vontade própria. editado no interior de Santa Cruz do Sul. no mínimo. Imgart. 54. culturais. teria conduzido. Nas Ciências Humanas. Pode-se citar um exemplo: sem dúvida. Imigração e imprensa. Imgart Grützmann também mostrou que ao menos um almanaque germanista. Também ficaram muito patentes as profundas reservas que o movimento germanista – o qual.). o maior líder integralista de Novo Hamburgo. o governador Flores da Cunha mantinha um relacionamento muito estreito e cordial com a representação diplomática do governo nazista e era assíduo nas festas dos militantes da suástica. p. pelo fato deste defender um nacionalismo que tinha na fusão racial e na constituição de um melting pot brasileiro um dos seus grandes objetivos. ao integralismo. naturalmente. podia ser caracterizado como um personagem bastante “germânico”. Porto Alegre/São Leopoldo: EST/Instituto Histórico de São Leopoldo. por sua vez. . econômicos.18 nazista no Brasil indicavam que. e esse aspecto ainda era reforçado pelo fato de que germanistas luteranos enxergavam no integralismo um movimento muito influenciado pelo catolicismo. Nesse sentido. no Brasil e no Chile. 21 GRÜTZMANN. o partido nazista não apoiou de forma irrestrita a difusão da AIB entre os teuto-gaúchos. de que os descendentes de alemães constituíram um “quisto étnico”. encontrável tanto na bibliografia quanto no senso comum. que. teria escancarado as portas ao nazismo. que eu não consultei na época. In: DREHER. Martin N. sociais. Essas exceções. não conseguiram invalidar uma tendência geral que dificultava em muito a equação corriqueira. por sua vez. Evidentemente. era muito mais favorável à AIB do que mostraram as análises dos demais almanaques de língua 21 alemã arrolados em meu trabalho. vereador eleito nas eleições de novembro de 1935. porém. Wolfram Metzler. intelectuais. defendia a prática da segregação étnica dos descendentes de alemães como programa – tinha em relação ao integralismo. O mesmo acontecia com as autoridades do interior do estado. concretizado na força do movimento “germanista”. havia muitas décadas. O almanaque (Kalender) na imigração alemã na Argentina.

Nesse distrito se registrou uma densidade eleitoral integralista muito maior do que no restante do município. O problema da hipótese de que a variável “educação autoritária” poderia explicar a simpatia pelo integralismo consistia no fato de que. Em primeiro lugar. Como. Evidentemente. o levantamento dos nomes dos integralistas mostrou que tinham características socioeconômicas e etárias muito específicas: eram jovens e sua trajetória de vida mostrava uma tendência para a ascensão social. Além disso. Temos aqui uma explicação política universal. era difícil testá-la com instrumentos minimamente intersubjetivos. que independe totalmente da variável étnica. essa característica . aparentemente. na realidade empírica tropeçava. O problema começava pela definição daquilo que é uma “educação autoritária”. o integralismo com seu descompromisso com as oligarquias tradicionais foi favorecido. metodologicamente. perfeita.19 que. Citei. a toda hora. uma certa rigidez na observação de algumas regras da convivência cotidiana. o caso do distrito de Campo Bom. Mas eu simplesmente defendia – e continuo defendendo – a tese de que ela é dispensável para explicar a presença integralista nas regiões de colonização alemã. para outros poderiam constituir imperativo de qualquer convivência democrática. criado em 1927. Diante das evidências de que a variável étnica não podia servir de forma tão direta quanto sempre se imaginara para a explicação da difusão integralista entre os “alemães”. dei destaque a fatores políticos. Muitas atitudes que para meu orientador poderiam parecer autoritárias. Em resumo: não embarquei nessa proposta. ficou muito claro que naquelas localidades. em que havia uma densidade maior de integralistas havia um problema político local não resolvido. na época. refletia uma lógica absoluta. por exemplo. E. Claro. e cuja sede se localizava muito mais próximo do que a sede do primeiro. A recíproca também era verdadeira – eu não tinha como provar que a variável étnica não tinha absolutamente nada a ver. como. a oposição oligárquica não podia ou não queria ceder a essa reivindicação. constatei que havia ali um movimento que vinha desde a virada da década de 1930 – e que se estendeu Estado Novo a dentro – lutando pela desanexação de São Leopoldo para ser anexado a Novo Hamburgo. integrando o município de São Leopoldo. e até geracionais. Ao consultar a documentação da prefeitura. meu orientador sugeriu que deveria procurar a explicação na “educação autoritária” que essa gente havia internalizado. em contradições. às vezes nos distritos. socioeconômicos. aparentemente. não deixei de ver alguns problemas na minha posição. cognominado “berço da imigração alemã” no Rio Grande do Sul. nesse sentido.

tinham conseguido eleger oito prefeitos e 72 vereadores. Berlim: Freie Universität Berlin. Dawid D. houvera uma presença maciça de prefeitos e funcionários vindos de fora dessas regiões. buscadas em escassa bibliografia secundária. os integralistas tinham conseguido eleger quatro vereadores. MORAES. 1991 [dissertação de mestrado]. arquivos partidários e arquivos de organizações que se dedicavam aos assim chamados “alemães no exterior”. E. Um passo adiante em relação à dissertação. Certo. acrescentei um número considerável de informações àquelas 22 Estudos posteriores ao meu têm introduzido algumas pequenas correções àquilo que escrevi. germanismo e suas eventuais ligações com o integralismo tinham sido indiretas. Mas nas regiões de colonização durante toda a Primeira República houvera de parte do governo uma restrição política. Jürgen. mas nenhum deles encontrou algo completamente diferente (BARTELT. MÜLLER. Brasilien. Na dissertação de mestrado. restringindo. Pessoas assim existiam também em outras regiões.20 não era privilégio das regiões de colonização. Suttgart: Verlag Hans-Dieter Heinz. bibliografia especializada sobre o nazismo etc. Estava aí um problema: como explicar essa enorme diferença no sucesso alcançado nos dois estados? Esses dois 22 aspectos vieram a constituir o plus da tese em relação à dissertação. Chile und Mexico. imprensa alemã e imprensa de língua alemã do Brasil (à qual eu não tivera acesso aqui). 1998. A outra frente nova era sugerida por uma informação encontrada no decorrer da pesquisa para a dissertação: nas eleições municipais de novembro de 1935. . 1931 bis 1939. o mercado político para os cidadãos locais. essas regiões apresentavam uma maior dinâmica econômica que as demais regiões. Die Auslandsorganisation der NSDAP in Brasilien im Rahmen der deutsch-brasilianischen Beziehungen. em contrapartida. 2002. portanto. Nationalsozialismus in Lateinamerika: die Auslandsorganisation der NSDAP in Argentinien. Berlim: Technische Universität Berlin. germanismo e integralismo. as pesquisas em fontes alemãs – arquivos do ministério das relações exteriores. e assim se juntavam restrições de mercado político com maior presença de setores em transição social. Tendo obtido uma bolsa para fazer o doutorado na Alemanha. Tese (Doutorado em História). portanto. De uma maneira geral. resolvi continuar com o tema envolvendo nazismo. nesse sentido. as descobertas feitas em todas essas fontes confirmaram as conclusões básicas da dissertação. isto é. as fontes alemãs sobre nazismo. nas eleições municipais de março de 1936 em Santa Catarina. buscando espaço no mercado político. Konflikt und Anerkennung: die Ortsgruppen der NSDAP in Blumenau und in Rio de Janeiro. seriam. Luís Edmundo de Souza. no Rio Grande do Sul.

Mas mais uma vez a empiria. e tudo seria muito mais “alemão”. ou a tentativa de verificação dessa visão através de dados mais objetivos. Nesse sentido. escassos. que no Rio Grande do Sul tiveram um papel muito importante na manutenção da “germanidade”. mostrei. não a confirmava. mal administradas. em Santa Catarina apareciam desestruturadas. em Santa Catarina vários cidadãos de sobrenome alemão ocuparam esse cargo desde o início da República. sem uma presença dominante na sociedade. incluindo sua defesa diante dos perigos representados por uma eventual interferência do Estado. estaduais e federais. que as do Rio Grande do Sul. o quadro era completamente diferente: os sobrenomes dos prefeitos dos principais municípios típicos de colonização alemã só excepcionalmente não eram alemães. por exemplo. se no Rio Grande do Sul os sobrenomes dessa origem nos cargos de prefeito não eram totalmente ausentes. Como medir se os descendentes de alemães de Santa Catarina eram “mais alemães” que os do Rio Grande do Sul? Os indícios antes indicavam que as igrejas. eram. Uma série de referências sobre as regiões de colonização desse estado indicava que suas populações de origem alemã estavam muito mais segregadas e. na época. porém. No que tange especificamente ao . Se no Rio Grande do Sul o primeiro candidato a governador com sobrenome alemão só veio a existir em 1950 – e se até 2005 nenhum cidadão de sobrenome alemão ocupou esse cargo. não-integradas. se não impunha um veto total à explicação corrente. que se a Liga de Sociedades Germânicas de Porto Alegre dizia no primeiro artigo de seus estatutos que sua função era a de congregar todos os “alemães” de Porto Alegre e também do interior. Lá se falaria um alemão ainda muito mais “puro” que aqui. Disso decorreria uma explicação relativamente lógica para a presença mais densa do integralismo. portanto. aparentemente.21 que já apresentara ali. convincente e inquestionável. Outros indicadores de “integração” apontaram na mesma direção. ao menos como titular –. mensuráveis. Em Santa Catarina. no mínimo. em Santa Catarina apresentavam-se com o único objetivo de fornecer lazer. Outra vez se estava diante de uma explicação muito plausível e. Uma análise da presença de “alemães” em cargos políticos na Primeira República mostrou que. no mínimo. defendendo seus interesses diante das autoridades municipais. Um avanço mais significativo. o primeiro artigo da Liga de Sociedades Germânicas de Joinville dizia que sua função básica era promover 20 festas anuais. As associações recreativas e culturais que aqui tinham tido uma função importantíssima na manutenção dessa mesma “germanidade”. trouxeram as informações específicas sobre Santa Catarina.

metafísicas. mas foi completamente ignorada pela imprensa de ambos. até os anos 1930. a parte “tradicional” do estado. que falava de uma interpretação nova. por sua vez. aberto – de longa data entre as regiões de colonização alemã e as regiões tradicionais.22 integralismo. Correio do Livro (UnB. não fora assimilado como “revisionista”. Se no Rio Grande do Sul. Pesquisas posteriores à minha confirmam cada vez mais essa assertiva. ainda era economicamente a de maior peso. para as oligarquias tradicionais de origem não-alemã. explica a existência de maiores clivagens internas a elas. o fato de que em Santa Catarina a Revolução de 1930 representou uma troca dos detentores do poder estadual. Pelo contrário. inclusive constatei que grande parte das lideranças integralistas das regiões de colonização alemã estava casada com mulheres de origem não-alemã. A tese só foi publicada em 1987. mais de cinco anos depois de concluída. Recebi recortes de jornais como Cidade de Rio Claro (SP). Em resumo. SP). portanto. Diário de Pernambuco. não conseguem explicar a maior densidade integralista. um único resenhista. E. O que efetivamente era diferente era a “integração” econômica dos descendentes de alemães. correspondentemente à maior importância econômica relativa das regiões de colonização de lá. na verdade. algo parecido não acontecia em Santa Catarina há muito tempo. educação ou cultura política autoritária etc. também lá tudo pode ser explicado através de variáveis muito racionais e universais. dentre aqueles de cujo texto tomei conhecimento – por isso peço desculpas se estou . de forma que meu texto. também naquele estado. Além disso. também se pode explicar a presença política mais intensa. Mas a impressão que tive foi a de que os resenhistas não leram o texto ou o leram e não o entenderam. Isso gerou um conflito latente – e. O Estado do Paraná. Por isso. mas nos trechos que refletiam comentários mais pessoais dos comentaristas transpareciam suas concepções muito tradicionais. O Estado do Maranhão. Teve uma repercussão relativamente boa na imprensa ao norte dos dois estados aos quais se dedicava. como conspiração nazista. às vezes. do que nas do estado gaúcho. Essa importância econômica e política. explicações transcendentais. Correio Popular (Campinas. Brasília). a parte sul. os “alemães” apareciam com maior visibilidade do que no Rio Grande do Sul e a “colônia” era tida como mais alemã. a assim chamada “Campanha”. tivemos um pós-1930 muito mais conflituoso que no Rio Grande do Sul. A maioria pareceu ter lido apenas o release da editora. portanto. A rigor.

Aos “germanistas” mostrei que existiram nazistas agressivos. Se tivesse descoberto grandes conspirações contra a nacionalidade. 24 BERTONHA. Sua edição continua encalhada. a utilização e a importância dessa variável. Between Sigma and Fascio: an analysis of the relationship between Italian fascism and Brazilian integralism. no 355. algum comentário com enfoque diverso –. por um lado. p. Ela está matematicamente. porém. João Fábio. Senhor.23 desmerecendo. Penso que – além de eventuais problemas de distribuição – essa pouca repercussão entre um público mais amplo se deve a dois fatores básicos: em primeiro lugar. João Fábio Bertonha insinuou uma pequena crítica – ao lado de rasgados elogios – por eu ter exagerado. O autor tem razão: como sugere ao analisar o integralismo entre os “italianos”. de emocionante. foi Roney Cytrynowicz. não atingiu um público maior. Eu. O livro. Roney. necessariamente. É claro que ambos não podiam ter gostado dessa minha conclusão. uma besta nazista. vol. . meu texto não podia agradar nem a gregos nem a troianos. ou ignorando. Mas. leu o livro com atenção e o entendeu perfeitamente. 37. menos uma história espetacular. de 12 de janeiro de 1988. que escreveu um comentário de duas páginas muito 23 pertinentes para a revista Senhor. Madison. apesar de ter recebido certo reconhecimento entre especialistas. 99. minha história não contém nada de especial. e na Feira do Livro de Porto Alegre. chegou a ser colocado nos balaios de liquidação. São Paulo. Luso-Brazilian Review. que as grandes personalidades “alemãs” nem sempre eram benquistas entre a população etc. no sentido de ter insistido demais que a variável étnica não tinha absolutamente qualquer importância na análise e interpretação do integralismo nas regiões de 24 colonização alemã do sul do Brasil. metodologicamente. estatisticamente presente na evidente correlação positiva entre densidade de população com origem alemã (e italiana) e densidade de sucesso do integralismo. p. o livro narra tudo. em 2004. 2000. Um Reich de poucos súditos. nº 1. no início de 1988. que existiram integralistas ferozes. 60-61. integralista. É tudo tão natural. minhas pesquisas mostraram que é muito difícil controlar. tão pouco excitante! Em segundo lugar. lhe responderia que. a “preço de banana”. certamente teriam sido comentados em muitos jornais e em muitas revistas. mas todos os autores que tentaram uma explicação – sobretudo exclusiva – a partir dela 23 CYTRYNOWICZ. essa variável não pode ser ignorada de todo. ou seja lá o que fosse. enormes arsenais clandestinos e coisas do gênero. Mas aos “germanófobos” mostrei que pelo simples fato de ter um sobrenome alemão um cidadão não era.

mas não como inspirador. e penso ter mostrado de forma convincente as dificuldades em que ela se emaranha. um livro mais recente de minha autoria sobre a política sul-riograndense mostrou que as descobertas sobre aquilo que aconteceu nas regiões de colonização alemã nos anos 25 25 Talvez tenha algum sentido lembrar aqui um exemplo fictício que costuma ser utilizado pelos estatísticos para dar um exemplo de falsa correlação ou correlação espúria: o fato de que a absoluta maioria das pessoas que adoecem de câncer do pulmão seja fumante não prova que o mal vem do fumo – o câncer pode derivar do fósforo com que o fumante acende o cigarro. essa linha de trabalho foi a que mais prosperou. Mas também penso que os “estudos regionais”. a isso que ele chama de “estudos regionais” tenham tido conhecimento dos meus trabalhos e. Nesse sentido. 26 “A dissertação de Gertz desencadeou uma onda de estudos regionais” (op. me fez sentir a necessidade de exagerar em sentido oposto. p. 35). justamente para deixar o claro possível onde estavam as divergências. Portanto.. Rodrigo de Oliveira. em trabalho recente. 1988. Certamente se trata de um ato de benevolência de um orientando para com seu orientador. de fato. sem exceção. tentei uma explicação alternativa. meu tratamento da questão foi ideal-típico. O que admito é que. que. desde os anos 1980. Eu tinha diante de mim uma bibliografia que apontava numa direção. pois não imagino que todos aqueles que se dedicaram. porque permitiram descobrir aspectos da realidade histórica não só no campo restrito do próprio movimento. mas também muitas coisas que se localizam nas suas adjacências. tenham optado por essa linha. justamente por tentar derrubar uma explicação profundamente internalizada. fiz a crítica dessa bibliografia. por isso. revelaram-se mais úteis do que as grandes sínteses. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. cit. . muitas vezes. Por outro lado. Talvez os “estudos regionais” sobre o integralismo tenham tido maior difusão em função do “balde de água fria” que Florestan Fernandes derramou sobre os pesquisadores. me classificou como pioneiro e inspirador daquilo que chama de estudos regionais sobre o 26 integralismo. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado.24 invariavelmente incorreram em contradições insolúveis. eventualmente. Ricardo Benzaquen de. a partir deles. mesmo que alguns estudos “totalizantes” de bom nível tenham sido produzidos após a década de 1970 – penso em trabalhos como o de Ricardo 27 Benzaquen de Araújo. e. 27 ARAÚJO. me entendo como um dos precursores. ao declarar na citada introdução ao livro de Gilberto Vasconcellos que não via qualquer importância no estudo do integralismo em si.

O aviador e o carroceiro: política. as informações obtidas nesse livro sobre a vida política em Novo Hamburgo nos anos 1920. Inversamente. René E. 2002. Porto Alegre: EDIPUCRS. etnia e religião nos Rio Grande do Sul dos anos 1920. firmaram de forma definitiva minha convicção de que as explicações que dei para a votação integralista em 1935 naquele município 28 estavam absolutamente corretas.25 1930. abria perspectivas muito interessantes para olhar para os anos anteriores. . 28 Gertz. por exemplo.

teve razões internas ou externas? E.26 2. . 29 Mestre em História pela PUC-RJ. a história do pensamento social brasileiro procura estudar. indica um cuidado profícuo com a pesquisa. etc. 29 Leonardo Ayres Padilha Grosso modo.). um contexto mental específico. estabelecendo estratégias de aproximação construídas a posteriori. nomeando-o de movimento “pós-parnasiano”. Não que isto seja irrelevante. por várias razões (estabelecimento de uma sensação de segurança. Houve tentativas de equacionar o problema. desvendar influências. as soluções resultavam. por uma definição esquemática do ambiente intelectual em que se dava o processo. Daí a preocupação sistemática em formular os “ismos”. É neste sentido que surgem as indagações: o fenômeno que desestabilizou a vida cultural brasileira nos anos 20. sejam elas de cunho historiográfico. Elucidar a especificidade de um autor à luz do diálogo travado no interior de um grupo ajuda o entendimento das relações produzidas durante a construção do seu argumento. estabelecer os contornos das gerações e períodos de continuidade ou renovação. crítico ou sob a forma do ensaio. ou ao menos passavam. ao contrário: situar o objeto de estudo. e nos que seguiram. ORIGENS DO INTEGRALISMO EM DEBATE pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20. Enfim. independente da resposta à questão anterior. ou ainda. Não é diferente o caso das avaliações do modernismo brasileiro. constituição de esquemas explicativos. como a definição dos seus antecedentes como “pré-modernistas”. quais foram as motivações dentro dos respectivos contextos? A procura de uma filiação para a década que se iniciou em 1920 foi questão premente. os argumentos dos intelectuais com o intuito de organizá-los numa corrente de pensamento ou definí-los a partir de um conjunto de referências comuns – como. tentando compreendê-lo a partir de um horizonte particular. por exemplo. ímpeto por classificação. com a justificativa de que este período foi radicalmente distinto de tudo o que se passara até então na vida cultural brasileira.

Os argumentos que se seguem tentam elencar alguns problemas que surgiram para quem optou conscientemente ou não por essa via e. em geral são fluidos. grande parte de suas obras a partir dos anos 30. se atribua ao integralismo um caráter direitista. i. provocava uma percepção ainda mais engessada. cuja referência se encontra na bibliografia. uma vez analisado o movimento do sigma..e. a polarização política corresponderia à ideológica. Assim. a tendência das interpretações segue o mesmo caminho. a análise é baseada numa analogia direta e artificialmente construída a partir de posições políticas e 30 Uma das opções para se entender a trajetória de Plínio Salgado antes da fundação da AIB. na verdade. é a inserção deste autor no contexto a que ele efetivamente pertenceu: o do movimento modernista.27 Não é por acaso então que a década posterior. não erroneamente.. Como as correntes políticas se definiam com mais clareza. O trajeto é o oposto: “justifica-se” (novamente a posteriori) o caminho político-militante escolhido por Plínio Salgado. os anos 30. i. os rumos tomados pelos que se debruçaram sobre a trajetória intelectual de Plínio Salgado antes da fundação da Ação Integralista Brasileira (1932) eram norteados por uma associação quase automática entre a produção do autor anterior ao surgimento dos camisas-verdes e os manifestos integralistas nos quais se transformaram. construir um outro leque de opção a serem explorada. e (b) embora. fica fácil (mas forçoso) enxergar o seu casulo oculto. que os escritos do autor são classificados como produto de um pseudo-modernismo. ao serem concebidos. Com raras exceções. . equivocadamente. em 1932. como ele próprio diz. ambíguos e até mesmo constituem-se por meio de contradições próprias do processo de auto-formação. na medida deste 30 trabalho. é. mesmo que durante a investigação as evidências porventura apontem para a necessidade de se tomar um outro caminho.e. porém já constituído dez anos antes. Essa identificação imediata aparentemente soluciona de uma única vez dois tipos de problemas que. É deste problema que este texto se propõe a tratar: ao se pensar esquematicamente a formação teórica do integralismo – buscando no passado de seu líder uma ideologia que já se apresentasse como semente do anauê – a interpretação fica comprometida até o fim com essa versão. mesmo no que se refere às origens dos sistemas de pensamento que. tendo em vista sua “secundária” contribuição ao debate travado na década anterior. são oriundos de uma carência de pesquisas: (a) a questão da formação ideológica de Salgado. Esta interpretação foi objeto de minha dissertação de mestrado. contudo.

1985. assim. o autor se atém a inúmeras repetições através de exemplos. in M. Ad Hominem / Una. quando o modernismo já entrara em nova fase. a não ser de datas. no que diz respeito às interpretações históricas. ao contrário. Marilena. São Paulo / Belo Horizonte. a eclosão da Revolução de 1930 e a fundação da Ação Integralista Brasileira. e. o faz procurando verificar as relações causais entre seu trabalho como redator do Correio Paulistano – que era o órgão oficial de imprensa do Partido Republicano Paulista (PRP) –. Na verdade. se colocam as obras aqui brevemente citadas: (a) o 31 livro de Gilberto Vasconcellos constrói uma esquema que.17-149. É neste sentido que. nas poucas vezes em que se refere à trajetória de Plínio Salgado na década anterior a 1932. 33 CHAUÍ. 31 VASCONCELLOS. este raciocínio é ainda mais nítido. Paz e Terra: Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. Gilberto. “Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira”. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo híper-tardio. Ideologia curupira: análise do discurso integralista. Guardadas as devidas proporções. 1999. desde o “início”. Ideologia e mobilização popular. sem a pretensão de esgotar a totalidade das referências. i. O espaço reservado ao exame do Plínio pré-1930 é configurado como “véspera do movimento”. Chauí & FRANCO. 32 CHASIN. Rio de Janeiro. a maioria das análises sobre o pensamento modernista do autor de Discurso às estrelas se orienta pelo caminho que ele traçou nos anos 30.. 2 ed. do argumento integralista. Plínio Salgado somente é pensado especificamente como integrante da renovação estética de 1922 de maneira específica pelos “manuais” de história literária.28 ideológicas que são transportadas imediatamente para o âmbito da pesquisa – o que certamente não é um bom ponto de partida. (c) 33 Marilena Chauí compreende o integralismo quase que unicamente sob a dinâmica da luta de classes. bem como todo o contexto sociopolítico brasileiro. entre os contextos das duas décadas no que diz respeito aos argumentos do autor em questão. faz a ideologia integralista já estar claramente presente – como tal – no discurso modernista de Plínio Salgado. é aquela associação com o seu futuro integralista que ocupa lugar principal. embora bem construída. São Paulo: Brasiliense. a tese de Vasconcellos não delimita uma diferença. . para “confirmar” a presença. José. (b) já no texto de José Chasin. por conta de uma combinação entre dependência econômica e cultural e sentimento telúrico.e. 1979. a 32 associação é bem-vinda. Maria Sylvia de Carvalho. p. às vezes consultando quase que exclusivamente os escritos do próprio Plínio Salgado.

1979. com o intuito de se introduzir a discussão. A observação se concentrará na parte do texto dedicado ao período em questão. Rio de Janeiro: FGV. (Corpo e Alma do Brasil). ajuda a compreender como se desmembrou o argumento de Plínio Salgado nos anos 30.29 Alheios a esse desenvolvimento. Ricardo Benzaquen de. In: AMADO. este não é objetivo. Neste sentido. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. 35 MORAES. a questão é da construção de sentidotemporal para a “história de vida” e. Rio de Janeiro: Graal. motivos. como contraponto. Marieta de Moraes (orgs. mesmo que para isso recorra à construção de caminhos que. Usos e abusos da história oral. criação de vários outros sentidos (causas. no momento em que eram percorridos. incluíram a questão proposta aqui. 1988. mais importante do que a produção de um sentido-causa para uma determinada trajetória. São Paulo / Rio de Janeiro: DIFEL. 1978. Giovanni. 2 ed. Estes dois trabalhos são particularmente importantes para a construção do argumento deste texto que se inicia. Eduardo Jardim de. A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica. através de análise que interpreta seus escritos como integrantes de um diálogo peculiar entre os conceitos de “totalitarismo” e “revolução”. O que se quer é retomar aquele ponto de onde se partirá. Para tornar essa 36 questão mais clara. teses e outros livros que. Apesar da obra de 34 ARAÚJO. a partir daí. destaco ainda o livro de 34 Ricardo Benzaquen de Araújo que. “Usos da biografia”. . As análises que se preocupam em estabelecer nexos diretos entre os momentos avaliados se caracterizam por um argumento em que. de alguma maneira. Seria possível ainda citar um sem número de artigos. 36 TRINDADE. o argumento desenvolvido neste trabalho: entende-se a produção modernista de Plínio Salgado como prólogo à sua atividade política e militante. 1998. o primeiro como referência e o segundo como uma possibilidade de interlocução. em sua reflexão.167-82. e até histórias inteiras) para a 37 elaboração de um fio que liga os mais diversos episódios . p. o compreende na dinâmica do movimento modernista. Hélgio. Ver: LEVI. FERREIRA. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado. 37 Giovanni Levi faz um comentário sobre esse raciocínio anacrônico numa perspectiva crítica aos próprios historiadores. apesar de não estudar especificamente a trajetória do autor de O esperado.). o relato pretende ser versão acabada. e ainda o texto de Eduardo Jardim de 35 Moraes onde. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. No entanto. que o tornara mais famoso anos mais tarde. evoca-se agora o livro que talvez seja o mais completo sobre o fenômeno integralista. Janaína. nunca foram sequer imaginados. embora não trate do período aqui estudado.

189-90. FERREIRA. Janaína. nomeado “pensar 38 BOURDIEU. p.. 40 Note-se que esta é uma questão teórica básica para as ciências sociais – e humanas – mas que. meio e fim. op. A própria maneira de se encarar o relato biográfico define o 40 trabalho que será empreendido : para quê ela.” .). ou seja. a biografia. op. deve referirse a ele e só terá (ou construirá) significado nele: “Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos. cit. cujo caminhar só me aventuro quando tematiza o saber histórico. a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações”. seja aceitação acrítica de um relato que. portanto. 39 O autor está preocupado com a biografia enquanto construção de uma trajetória que só pode estar num mundo social e assim. sem outro vínculo que não a associação a um ‘sujeito’ cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio.. não pode ser considerado mais idôneo do que qualquer outro. é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto do metrô sem levar em conta a estrutura da rede. “A ilusão biográfica”. não se tratarem de biografias. p. Marieta de Moraes (orgs. ainda assim as reflexões teóricas sobre esse gênero da escrita podem ajudar a desvendar o ponto aqui proposto sobre as interpretações acerca da trajetória de Plínio Salgado. in AMADO. uma suposta verdade histórica. seja por estabelecimento de uma lógica temporal que não corresponde àquela em questão. serve? Maria Helena Werneck procura assumir essa questão partindo de um aspecto negativo que ajudará a formular o positivo. Pierre Bourdieu define esse tipo de situação como “história de vida”. Em ambos os casos há uma descaracterização do que se está a estudar. às vezes. bem como com relação de causalidade entre as partes. In: BOURDIEU.cit. parece ser desprezada por debates que priorizam a discussão metodológica. Mesmo sabendo do desenvolvimento sociológico que o autor dará ao trecho 39 assinalado. grifo acrescentado. ou mesmo as outras fontes em questão.30 Trindade. conseguem separar totalmente como se fossem ingredientes de uma mistura que dependesse unicamente do seu sujeito: poderíamos entrar numa discussão. por si. isto é.189. sobre a pós-modernidade. e (b) a vida como história – representando o que “realmente” passou. onde há “privilégio concedido à sucessão longitudinal dos acontecimentos constitutivos da vida considerada como história em 38 relação ao espaço social no qual eles se realizam.. Pierre. ou pior (aí assumo minha posição – ratificando a centralidade de uma perspectiva que não existe sem a reflexão teórica). . com princípio. podem ser expostas duas interpretações que não se anulam: (a) a história como vida – pretendendo assim significar uma totalidade acabada.

e. Maria Helena. É desse modo que se está propondo aqui uma observação acerca da construção da visão de Hélgio Trindade sobre a relação entre a vida e obra literária de Plínio Salgado da década de 1920.31 saudável sobre biografias” – nos apresentando a visão nietzscheana. In: O homem encadernado. está se referindo às biografias de artistas.. 41 . “Um pensar saudável sobre biografias”.e. UERJ. num novo tempo). De um lado a preocupação incansável de se remeter cada “passo interpretativo” a um contexto específico que não está antes ou depois dele. p. uma das propriedades) da representação é justamente a apresentação de algo de novo (i. pode-se encarar com pessimismo a constatação da dupla dificuldade do trabalho que está por vir no exercício de se entender os escritos de tom biográfico. nesse caso. não se pode tomar como solução o mergulho na pergunta é possível dar sentido à vida passada de um indivíduo? Em primeiro lugar porque um dos limites (ou melhor. Rio de Janeiro: Ed. Hélgio Trindade defendia sua tese de doutoramento intitulada L’action intégraliste brésilienne: un 41 WERNECK. fatalmente de maneira distinta. a curiosidade positiva e pragmática dos biógrafos está orientada menos para as virtudes da criação que para ‘uma multidão de pormenores da vida e da obra’. 1996. que é destruído pela informação crítica e biográfica.. 42 É importante frisar que Nietzsche. a arte não alcançaria o objetivo de ensinar a viver e 43 a esquecer os problemas.cit. H. o conhecimento que deriva dessa curiosidade impediria a irradiação do espírito à distância. op. 43 WERNECK. assim. e/ou imputar um significado que a própria história não representou. E ainda. O desafio está lançado. M.23. Dito isto. de outro. Sem o véu do esquecimento. Em Paris. Desse modo. os biógrafos – ao tentarem atingir uma verdade – 42 anulariam o que há de melhor na vida (então reescrita): a arte . Assim. seriam de pouco proveito quaisquer pretensões de se atingir a “verdade” – por concordar com a idéia de Nietzsche e por saber o lugar específico que as ciências humanas e sociais ocupam na produção do conhecimento. o esforço que consiste em desvendar o que foi criado pelo relato para dar sentido às lacunas da memória. Para o filósofo. é vital assinalar que. fins do ano de 1971. Ainda assim. mas o constitui. p.17-30.

dos princípios que se constituiriam como norte do primeiro movimento de massas do Brasil. H.. Preocupado em desvendar a origem ideológica dos camisas-verdes. passa pelo homem – mais figurante do que astro – da Semana de 1922. nesta fase [1920-5]. o dito “objeto” de Trindade não é especificamente Plínio Salgado. Trindade elabora uma história que se constitui sempre determinada pelo que viria a acontecer – a luz do fim do túnel.cit. se explica mais pela influência da revolução literária do que por sua experiência política em partidos 44 tradicionais”. Plínio Salgado exercia seu último mandato como deputado federal pelo estado de São Paulo. de um passado onde o protagonista já demonstrava a vocação. respectivamente. era membro da Comissão de Educação e Cultura da Câmara. o lugar de sujeito e objeto de uma análise histórica. no desenvolvimento da literatura do autor: “a evolução ideológica de Salgado. buscando as respostas na trajetória político-intelectual de Salgado. 45 Digo “fantasiosa” dentro naquela perspectiva de se criar explicações a posteriori como justificativas dos atos que se seguiram. Essa informação pode soar simples tendo em vista a já apresentação do título da tese. o cientista político busca o início das formulações. ao status de fundador da doutrina integralista. mas o movimento e organização política que fundou: a Ação Integralista Brasileira. estes também são problemas da análise biográfica. já iluminaria o percurso desde a entrada. No entanto. Descrevendo desta maneira esses episódios (ambos à luz do ano de 1971). Voltando uma década antes do fenômeno integralista. Contudo. diante dos professores René Rémond. p. Traçando um caminho que vai do aprendiz de jornalista. e chega. particularmente nesta mesma data. Neste ano. entretanto é muito importante para o argumento que será construído a seguir. o que não é o caso do livro de Trindade. Trindade concede tom biográfico ao seu estudo. Na verdade. é possível interpretar os textos. pelo romancista social (quando sofre a “metamorfose ideológica”). . finalmente. op. Celso Furtado e Georges Lavau. ainda que muitas vezes 45 “fantasiosa”.42. mesmo quando estes são profundamente descomprometidos com qualquer grau de objetividade. apesar das complicações já citadas. Reafirmo que. De uma perspectiva de remontar a origem de uma experiência política. pode parecer estranho – e mesmo artificial – que esses dois “personagens” tomam. não é isso que acontece na narrativa de 44 TRINDADE. filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e.32 mouvement de type fasciste des années 30. se espera uma descrição. na verdade.

43. Tentar entender a trajetória do futuro chefe da AIB de uma maneira contextualista. que era a do Brasil. p. op. 48 Ibid. os problemas. Constatado o problema brasileiro e o destino da nação. a mudança se 50 impunha: militância. vida provincial e vida na grande cidade’. 50 Plínio Salgado une algumas crônicas suas que saíram no Correio Paulistano e as publica num volume único intitulado Literatura e Política (ver bibliografia). mas como ratificação da “metaformose salgadiana”. Conglomerado de raças de várias procedências. situacionista. seu objetivo principal é descrever a ‘vida rural. Hélgio Trindade também analisa este livro. e a “força” da sociedade brasileira. de culturas. A revolução literária. até então. umas querendo sobrepujar as outras”. 1971. a mensagem do livro é o ‘nacionalismo’. um diagnóstico da vida brasileira. simultaneamente. da literatura à política. onde a política passa a predominar sobre a literatura (Trindade. mas. numa passagem. 49 Ibid.35-69. .49-55). ou ainda. na verdade. desvenda a situação política “por trás” do texto: “a problemática que está subjacente no romance [O estrangeiro]. delas. e 48 de outro porque não protagonizava nenhum movimento – ele estava no meio das transformações. Salgado formula seu ideário. um estudo sociológico. como autor. e foi desse modo que sua formação política se deu através da literatura: seu primeiro romance é. para Salgado. o autor reconstrói o caminho do seu personagem através de etapas que constituem o que ele chama de “metamorfose ideológica”. Ao invés disso e de maneira muito inteligente. é claro 46 Digo “novo” porque Salgado trabalhava no Correio Paulistano – Jornal que era órgão oficial de propaganda do Partido Republicano Paulista (PRP). p. é “a formação de São Paulo. cit. No entanto. p.57. onde as correntes migratórias 49 de diversas origens estão por realizar uma grande fusão étnica”. não concebia a 46 idéia da criação de um partido político novo como meio de se aplicar 47 suas idéias. de um lado porque elas ainda estavam em formação . 47 Trindade. justamente por viver a mutação literária que “sofria” a cultura brasileira não poderia estar alienado. não participara. que não a de que seu caminhar foi muito peculiar. À luz de uma história em que são revelados. Plínio Salgado. passa a não ser suficiente. nos primórdios do movimento modernista. É então que Trindade.. Daí a importância da noção da “metamorfose ideológica” no raciocínio de Trindade: foi Plínio Salgado que viveu esta mudança particular. a formação. procurar o ambiente literário da década de 1920 na biografia de Salgado significa correr o sério risco de não chegar à conclusão alguma. p.33 Trindade. H.

mas por estar em uma de suas extremidades – não à margem. op. através análise dos “casos extremos”. “biografia 51 LEVI.. cit. op.34 que de acordo com a relação que estabeleceu com o seu meio.178.) o artigo de Michel Vovelle sobre a biografia: ‘o estudo de caso representa o retorno necessário à experiência individual. p. Hélgio Trindade não contrasta enfaticamente as diferenças da trajetória de Salgado em relação ao seu tempo. p.. Trindade se aproximaria da que.. estabelece 54 a ponte entre sua atividade de escritor e de ideólogo político”. busca representatividade de suas trajetórias – mesmo quando estas sugerem que o que se estuda possa ser um caso isolado. mas por meio de suas margens. Neste raciocínio. Podemos citar aqui (. contudo. lança-se luz precisamente sobre as margens do campo social dentro do qual são possíveis esses casos. sua vida seria o que 51 Giovanni Levi chama de caso extremo: não como paradigma modernista ou máxima expressão do movimento. o contexto não é percebido em sua integridade e exaustividade estáticas. A nomeação dada ao estudo (consultada em Levi).176. penso que a mudança aqui sugerida não altera o sentido dado pelo autor. não é esse o seu caminho. 52 Na verdade. mesmo que possa 53 parecer atípica’ . cit..48.. esta política) e se tornou predominantemente política. p. Diz o autor: . O caso de Salgado foi desenvolvido na margem. p. no que ela tem de significativo. cit. porque a revolução que pregava rapidamente se desvinculou da literatura (embora não a abandonasse – os livros do autor deixaram talvez de viver a mutação estética para virar divulgação da outra mutação. e ter vivido esta metamorfose significou uma diferença de trajeto em relação aos outros modernistas. 53 Ibid. escrita em pleno período modernista. H. mas na margem.176-7. segundo tipologia de Levi... Sua obra romanesca. 54 TRINDADE. Descrevendo os casos extremos. Dentre as mais diversas posturas biográficas que se pode assumir. op. O início efetivo da mudança se dá em O estrangeiro: “a metamorfose ideológica de Plínio Salgado se processa sob a atmosfera intelectual da revolução estética. G. . Giovanni Levi diz “biografia e os casos extremos” e não “através”.esse caso [o da biografia através dos casos 52 extremos ]..

sempre sonhando torná-lo 56 uma grande e respeitada Nação. É conveniente ainda citar outro exemplo dessa escrita que pretende formar uma cadeia de causalidades em direção a um fim previamente traçado. meu pai. a parte . realmente de sua autoria. Na verdade. Maria Amélia Salgado. estadista e político de grande valor e um dos homens mais injustiçados no cenário da vida nacional. o autor cria um caso extremo (na margem) do modernismo. em obra mais completa sobre essa figura ímpar. etc. apesar de ter amado com todas as forças de sua alma o Brasil. muito preocupado em ligar o “presente” integralista ao passado de Salgado. Amparada por uma autoridade tida por muitos como incontestável (a da convivência familiar). diz-se. a não ser genericamente numa nota 57 explicativa que precede o texto. portanto. Mas a minha intenção primeira foi dar o passo inicial. mas procurei preservar. está ligada muito mais ao direcionamento que Trindade vai dar ao seu argumento (gênese do integralismo) do que a defesa – do próprio autor – do caminho assim definido. das mais interessantes do seu tempo.XI. Isto é. em primeiro lugar. trata-se de um texto eminentemente biográfico. 2001. 56 LOUREIRO. Todavia. Agora. O desconforto que motivou a escrita de Loureiro (seu pai fora e é – no momento em que escreve – injustiçado) determina o conteúdo de seu texto: a pretensão de se contar a verdade nem sempre está em autobiografias de título fulano por ele mesmo. intelectual de talento. Entremeei-as de considerações que me pareceram pertinentes. sendo. sua filha Maria Amélia Salgado Loureiro publicou em 2002 o livro que lhe parecia ser a narrativa reveladora da “verdadeira” história dessa personalidade que foi o seu pai. São Paulo: GRD. Plínio Salgado. 57 O único trecho do livro que aborda a questão das referências é o seguinte: “Os capítulos referentes a sua infância foram redigidos segundo anotações por ele deixadas. A filha do biografado não cita a origem de cada fonte. Grifo acrescentado. despretensiosa. Plínio Salgado não escreveu nenhum livro de memórias – talvez exceto o que se refere especificamente as suas viagens à 55 Europa e Oriente. talvez na intenção de escrever uma autobiografia. a ver se animava autores mais capacitados a empenhar-se numa tarefa maior. p. ao máximo a redação primitiva.35 através de caso extremo”. mas logo em seguida revelando as mais profundas intenções. quando diz: não sei se fiz alguma coisa que preste. sua perspicácia não 55 Ver referência na bibliografia.

117.”. daí a importância e legitimidade de exercitar a lembrança. lia muito. teve a oportunidade de escrevê-la. que esta alusão à figura do chefe de governo serve a um objetivo específico (notoriedade do autor). por serem as únicas notícias detalhadas que possuo dessa época de sua vida”. ainda como revisor. uma prova “externa” de tanta aptidão. do que “faz-se por si”: “depois do almoço. Loureiro diz que seu pai apoiou Washington Luís com condição de este garantisse idoneidade nas eleições e respeito ao referente ao seu exílio em Portugal. talvez para que ele não seja cobrado. numa ausência do então redator da coluna “Notas Políticas”. do próprio país. além de almejar fazer justiça à memória do pai. É curioso ressaltar. Ligar a inteligência do personagem às influências externas seria transformar sua originalidade. meu pai. como também cumprimentos do então presidente do estado de São Paulo e futuro presidente da 59 república. pois retirei a maioria dos textos das cartas endereçadas a mim e meu marido. Essas qualidades aparecem como definidoras do caminho de Salgado e. como e porque a autora afirma isto ou aquilo. Grifo acrescentado. Loureiro. porque logo depois. Devagar. i. op. O norte singularizado que conduziu a escrita de Hélgio Trindade (formação das idéias integralistas). mas sim analisar seu conteúdo e tentar descobrir suas construções.36 está no fato de reunir documentos. Loureiro Júnior. assim como o próprio Plínio pensava. mas em revisitar a sua própria memória e torná-la pública. onde. 58 Ibid. não está na ciência. o que não só lhe rendeu a ascensão ao novo cargo.116.. p. Plínio dirigia-se à Biblioteca Pública para estudar. Há de se construir. p. entretanto. mas sua maior escola foi a vida – sua inteligência era a sensibilidade. Lia. Fazia-se por si. Todavia. portanto. E o livro que mais leu nesse tempo foi o livro da 58 vida. onde comprava livros baratos. LOUREIRO.. Washington Luís. por isso Plínio estudava muito. não vem ao caso criticar de antemão o texto de Loureiro. mas na intuição (ou sentimento). se multiplicou em Plínio Salgado. um reconhecimento. seu “verdadeiro” valor. É justamente aí que se segue a descrição do episódio que teria marcado de vez a sua entrada para a redação do Correio Paulistano: Salgado. A verdade. em uma segunda versão. Freqüentava “sebos”.. Maria Amélia Salgado. Um dos exemplos mais característicos da genialidade pode ser personificado na figura do autodidata.e. . também é. entretanto.cit. praticamente escrita por ele. 59 Ibid. constrói seu texto a partir da noção de gênio individual – tanto artístico quanto político (nota-se uma proposital confusão entre os termos na sua narrativa) – e caráter íntegro.

É imprescindível fazer ressalvas a uma eventual associação direta: (a) para fugir do anacronismo é necessário datar as situações – séculos XIII. H. sem ter de violentar a sua 60 consciência”. para a sua inquietude e desenvolvimento espiritual que fez com que o caso vivido servisse de inspiração para seus escritos..38. descreve o que seria um exemplo de um tipo de exercício desta.37 regime representativo para que pudesse “sentir-se à vontade para redigir seus artigos no Correio. 61 Werneck. das exposições e edições comemorativas. conseguir traçar caminhos firmes em meios em terras bem lamacentas. a admiração convertida em livro demonstra a dimensão do elogio ao homem. Todavia. Cf. mas as ressalta como que 62 uma prova de caráter e de superação . posteriormente. 62 Num dos acontecimentos narrados (o da morte do padrinho). a partir do século XVIII: ao lado das cerimônias nas academias. a literatura da paternidade. p. p. op.76-81. Plínio. Maria Helena Werneck num resumo que faz da história do desenvolvimento da biografia. op. . O panegírico e o elogio fúnebre. O elogio é a moeda que salda uma dívida da humanidade 61 com o grande homem perseguido. M. ou biografia do pai. como que se servindo do dom a ele outorgado. cit. A atribuição de valor incontestável à figura de Salgado logo no início da narrativa que se refere à formação de sua personalidade – e que vai desembocar na publicação de O estrangeiro – não significa outra coisa que não admiração. Loureiro.cit. (b) não parece que Loureiro quer consagrar-se como escritora e sim fazer justiça ao pai.. consagra o filho escritor. que destaca o mérito em face do nascimento e explora a satisfação com a infelicidade como justificativa e lei do gênero.118. e passagem do XX para o XXI. dão lugar a uma nova ‘morfologia do elogio’. p. (c) a autora não se refere a uma postura de Salgado que revela satisfação com as infelicidades sofridas. ainda 60 Ibid. característicos da biografia clássica. Loureiro chama a atenção para a força de Salgado e. das peças de teatros em louvor de feitos gloriosos do grande homem. desvenda as conclusões da autora como que vestígios.

foi uma das figuras importantes da 64 Semana de Arte Moderna e. Loureiro só dá verdadeira importância ao momento do modernismo em que as revoluções estéticas já tinham “evoluído” para uma produção de reflexão sobre a nacionalidade – justamente o período em que foi publicado o romance primeiro de Salgado. segundo a autora. ao contrário do que dissera Trindade.A. LOUREIRO. vê a arte como fator de consciência nacional: “E continuando suas reflexões. pois a palavra ‘escola’ não está relacionada. E concluindo. da fascinação pelo pai. Procuravam. e assim sagrá-lo no hall dos ilustres brasileiros: 63 O nome completo da escritora é Maria Amélia Salgado Loureiro. onde uma das partes é composta por um elemento eterno. Nos domínios da arte e da literatura sentiam-se os efeitos de um estado de espírito comum a todos os brasileiros. mas pressupõe a idéia de nacionalidade. apenas. Assim. algo novo. 66 Há em Plínio duas concepções de arte que se intercedem. agora Salgado começava a se distinguir dentre os outros autores de seu tempo. Isso começou. Plínio Salgado declarava que sendo a arte de um país resultante de sua consciência nacional. servindo à noção de que o autor é original. A importância de Plínio para o Brasil correspondia desse modo ao valor que esta nação representava para ele e. Segue a legitimação do caminho do pai. A passagem que se segue é de suma importância para inserção do autor na fundação de algo verdadeiramente novo.. Plínio Salgado. op. no Brasil ainda não se pode falar em ‘escola’. A segunda concepção. da época em que era chamada de 63 Amelinha . 64 Cf. além disso. A primeira exposta acima – e servindo como crítica ao modernismo europeu – a vê como dividida. cuida muito mais desse ideal do que a política oportunista. inglesas e portuguesas. este movimento do qual participara ativamente “encarnava” o íntimo dos brasileiros: “os sentimentos nacionais se polarizavam na evocação do grande acontecimento para cuja comemoração se faziam os preparativos. p. Op. felizmente. É esse anseio que leva os artistas a representarem que nos lega tradições francesas. os cultores de todos os ramos de arte. o que era mais significativo. M.119-120. a grupos de tendências estéticas semelhantes.119-128. cit. Plínio afirma que.S. p. principalmente. cit. naquele momento.. menos a tradição nacional”.38 presentes. suas idéias estavam prestes a consagrá-lo. então. descobria-se um forte desejo de ‘criar a Pátria’: ‘A arte. ambas trabalhadas com propósitos diferentes por Loureiro. apontam-se os valores 66 eternos da arte e do pensamento. que 65 expressasse o Brasil cem anos depois de se tornar independente”. 65 Ibid. . numa reflexão – com a qual ela parece concordar – sobre a arte: criticando os modernistas europeus que se posicionavam como revoltosos contra as fórmulas antigas.

Seus objetivos eram puramente estéticos e literários. motivação interna – de escrever um romance. e então.) Um dia viajou pela Araraquarense a convite (. uma vivência do mundo: Plínio Salgado.. Mas o seu grande sonho era publicar um livro. pois. segundo sua própria interpretação do mundo exterior e interior. centrada nele. As palavras grifadas.120. nascia dali um sentido de brasilidade que. Quando o escreveria? (. ou do neoclassicismo. Entretanto. i. Um livro que exprimisse a realidade brasileira. dando-se ampla autonomia aos escritores e artistas para que se expressassem livremente. que estava nascendo com 67 Ibid. p.e. Plínio Salgado elaborara um pensar genuinamente novo (porque profundo) sobre a nacionalidade: esta deveria ser exercida a partir de referentes internos (interior). assumida. Salgado tivera vontade – foi um desejo. Já o tinha no pensamento: seria um romance. aqui resumido: superando (entretanto) um reducionismo (puramente) característico daquele primeiro momento da revolução modernista. .. representam um argumento importante da autora sobre a originalidade de seu biografado. não necessariamente em sua ordem. Sua trajetória lhe fora revelada. a Monte Aprazível.). No terceiro dia fizeram a mais desejada das excursões.. mas a sua concretização só pôde ocorrer através de uma experiência externa. se tornou profundo e de conseqüências sociais e políticas da maior 67 importância.39 Esse momento revolucionário das letras e das artes inspirava-se. essa concepção. firmara-se no cenário jornalístico com seus artigos no Correio Paulistano. serviu para a própria autora analisar a história do pai... posteriormente. a esse tempo. É interessante notar que esse pensamento original. no desejo de libertação das formas acadêmicas.

op. pronto a desvendar as características nacionais.” – fazia do autor personagem ímpar. trataria essa questão. mas sem. A originalidade de Plínio confunde-se com a “verdadeira” contribuição da Semana.126-7. Aliada a essas condições estava sua 70 71 genialidade expressa no pioneirismo e qualidade de visionário. p. não apenas a partir da visão dele como sendo única (expressão incontestável da individualidade). e à cachoeira do Avanhadava. chama a atenção para o comprometimento da visão que toma o sujeito biografado (entretanto pode-se pensar o mesmo para o biógrafo. foi de expressão íntima nacional). já que esse sujeito não é necessariamente empírico) como uno.. entendendo o predicado eterno da arte e aplicando-o ao nosso meio.129-130.124. . que é complexa (em si. em 1966. revelando-lhe o tema que desenvolveria no 68 romance. 69 Ibid. Borges. onde Marília Rothier Cardoso. é narrada a partir da trajetória de Salgado (o que não é incomum numa biografia). A história do Brasil.cit. com sua destreza discursiva.. em Loureiro. O que era escrito objetivava o ataque à situação até então presente. p.119. não só participou do movimento modernista (lembrando que. O estrangeiro também era apreciação social. bem como a produzir reflexão que as contemplasse. p. Antevisão do futuro nacional. contudo.121-122. mas como se o que acontecesse à sua volta fosse algoritmo de sua vitalidade intelectual e política. e porque envolve o próprio narrador). como o superou no tempo: enquanto outros ainda se perdiam em experiências estéticas. op. Foi em Monte Aprazível que Plínio sentiu o primeiro toque de inspiração. 71 Sobre sua qualidade de visionário. não havia nenhuma prosa realmente representativa do movimento. produzir algo “moço”. segundo a autora. p. 69 contudo. grifo acrescentado. p.. Plínio já formatava o caráter 72 nacional. ver o episódio do loteamento da cidade de São Paulo.. Essa centralidade subjetiva pode ser teoricamente contestada em Retorno à biografia.” e afetação “.. cit. ver o caso do seu posicionamento frente às eleições de 17 de fevereiro de 1924. Na verdade. A própria conjuntura parecia conspirar a seu favor... Essa combinação – projeção “já o tinha no pensamento.40 uma dúzia de casas. 70 Sobre o pioneirismo de Salgado.sentiu o toque de inspiração. 72 Ibid. 68 Ibid. à luz de Jorge Luis Borges.

O que se tentou aqui foi encontrar um espaço nesta discussão. podemos também aproveitar essa condição do texto para compreender a questão da autoria. PUC-Rio / Loyola. ou tampouco quis reconstruir peculiarmente a ponte entre a vida do autor antes de depois do fatídico ano de 1932. Contudo. fora de época. Marília Rothier. simultaneamente. i. Este trabalho não pretendeu biografar o personagem Plínio Salgado em época raramente estudada. o autor argentino indica a primazia da divisão. Dito isso. p. antes de denunciar a multiplicidade do sujeito. pertencente a uma tradição biográfica que remete ao texto de James 75 Boswell (1936) sobre Samuel Johnson. apresentar 73 Por de maneira simples entenda-se como um talento pedagógico. não são aqui convocados para que se possa. neste final.e. já podemos interpretar o desenvolvimento do texto de Loureiro – centrado na unicidade (intelectual. também. 75 Situação descrita em Retorno à biografia. 74 CARDOSO. SCHOLLHAMMER. podemos olhar para o livro de Hélgio Trindade que. uma parte do livro de Trindade para servir ao propósito deste trabalho. o reflexo e ápice das capacidades de Salgado. mesmo não pretendendo ser 76 uma biografia. Neste sentido. negando seu valor. leitura exclusiva – que a autora faz – da obra (no caso em pauta.120.. inclusive. no mínimo. justamente em relação a esta época da vida de Salgado. embora possa parecer que foi escolhida. Caberia ainda estender a observação à. é fundamental. identificando-se com o mesmo e. O estrangeiro) como sendo. In: OLINTO. distanciando-se dele”. e se possível fugir desses mecanismos quase automáticos que caracterizaram as visões acima apresentadas. Os escritos de Loureiro e Trindade..118-22. que. de caráter) do personagem Plínio – como. 74 simultaneamente. construir o argumento. Heidrun Krieger. op. o fazem melhor e. marcantemente teleológica do texto do referido cientista político. 73 . na verdade. por isso. quase que às escuras. Borges recorre “a máxima de uma filosofia hindu do século V que. neste caso. p. política e. interpretado como duas unidades. quanto no que diz respeito à condição de escritora em que se põe a sua filha. Cardoso. Ainda nesta reflexão. cit. certamente. Rio de Janeiro / São Paulo: Ed.e. tanto em relação ao próprio biografado (em relação ao seu primeiro romance). “Retorno à biografia”.41 de uma maneira simples. exemplificando-a na sua maior singeleza. se revela (pelo menos na parte trabalhada) como um tipo particular de história de vida. apresenta o sujeito como duplo: o eu observa-se como outro. Karl Eric.. pode ser encarado como duplo. Literatura e mídia. 2002. o meio (1/2). ao descrever os homens como espectadores de seus próprios atos. 76 Reforço a idéia de que. portanto qualidade de se narrar sumariamente. i. a alternativa se deu por causa da característica.

Plínio Salgado não tinha dúvidas de que aquela “comunhão” que mencionada por ele em Discurso às estrelas. pode perder-se no meio de disputas inócuas por definição: o contexto determina ou é determinado? Aliás. ele atinge uma caminho compreensivo. O próprio processo histórico da continuidade (ou se quiser da conservação) é dinâmico. O fio condutor existe. às vezes. mas que também torna-se mais precisa no seu desenvolvimento porque mais consciente de suas limitações. Um rumo talvez menos específico. denotam uma certa perspectiva por mim defendida: a medida que o historiador deixa a tentativa quase insana de almejar confundir-se com os documentos. combatido no início deste texto. setembro de 2005. ao mesmo tempo em que conduz. deixar que eles “falem por si”. É claro que é possível estabelecer inúmeras relações consistentes entre a produção intelectual de Plínio Salgado antes e depois de 1932. é conduzido. recria a todo o tempo os conteúdos a serem preservados. embora não sejam conclusivas. Texto produzido em: Rio de Janeiro. não é por acaso que o próprio conceito de determinação confunde-se frequentemente com o de definição. no entanto. senão com a própria atuação política. precisava ser pensada novamente (e possivelmente numa nova forma) num contexto de luta entre integralistas e comunistas. mas certamente mais denso e complexo. É apenas para isso que quero chamar a atenção: o contexto.42 algumas questões que. é verdade. que a princípio é mais difusa. Termo tão corriqueiro no mundo da história que. . para se aprofundar numa outra. ou seja.

M. a primeira dificuldade com que os pesquisadores se deparam é a da falta de um balanço geral sobre a historiografia já produzida. 78 BORGES. mais especificamente. R. Entendemos que é somente após o conhecimento prévio dos trabalhos já realizados e os métodos de abordagem utilizados nestes. P. que não nos deteremos a longas críticas e análises sobre os referidos estudos. INTEGRALISMO E HISTORIOGRAFIA 77 Edgar Bruno Franke Serratto Em se tratando de estudos que contemplem a Ação Integralista Brasileira (AIB) como objeto principal. realizar um 77 Licenciado em História pela Universidade Tuiti do Paraná. M. . Neste momento. das problemáticas e da metodologia que já foram aplicadas nos estudos e que podem vislumbrar as novas possibilidades de pesquisa.) Historiografia brasileira em perspectiva. para com seu objeto. comentar algumas produções.43 03. pelo menos até começo dos anos 2000. São Paulo: Contexto. Como sabemos. Este panorama ainda se apresenta restrito se considerarmos a quantidade de trabalhos. o levantamento bibliográfico se apresenta como de suma importância para a orientação das leituras. pois nosso intuito é o de. coletânea de artigos e outros que não nos chegam devido às limitações editoriais impostas aos autores e recém pesquisadores. V. H. (org. minimamente. que se dedicam respectivamente à historiografia produzida acerca dos anos 30 e do Estado Novo. porém. C. momento que envolve nossa temática com reflexões de estudos e conceitos recentemente utilizados. ou seja. 1998. Estado Novo: novas histórias In: FREITAS. Anos 30: história e historiografia e CAPELATO. apresenta-se mais consciente e consistente para dar os primeiros passos em sua pesquisa. Este artigo tem a pretensão de apresentar aos leitores e pesquisadores do Integralismo um breve panorama da produção historiográfica nacional e internacional. Ressaltamos. ao dos artigos de Vavy Pacheco Borges e Maria 78 Helena Capelato. que a visão do pesquisador. pretende-se a elaboração de um texto próximo aos dos artigos encontrados na coletânea Historiografia Brasileira em Perspectiva.

que aqui ganharam uma nova interpretação e assimilação. do ponto de vista de um panorama historiográfico geral de toda a produção já realizada. como nos aponta Wanderley Santos. B. e BERTONHA. apesar de incompletos. . contudo. dado que.O Brasil republicano: sociedade e política (1930-1964). F. In: Ciclo de Palestras sobre política: idéias e práticas políticas que marcaram a história do Brasil no século XX. J. as quais 79 TRINDADE. Todavia.44 mapeamento mínimo da historiografia como pontos de leituras para futuros iniciantes. H. mostram-se com alguma abrangência para nosso tópico. CALDEIRA. Outro importante motivo. Mas. ed. 79 problemas de pesquisa e tendências historiográficas”. Rio de Janeiro: Bertrand. cit. 302. 1996. foi por muito tempo taxada por esta mesma acusação. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30. 1999. Em nossas leituras observamos que na segunda metade da década de 1940 e durante a década de 1950.. foi a crença de que o Integralismo não passara de um mimetismo dos fascismos 80 europeus. (org.) História Geral da Civilização Brasileira . não tivemos estudos que elegeram a AIB como principal objeto de análise em função da conjuntura política. p. In: FAUSTO. Antes de iniciarmos as considerações acerca da historiografia sobre o integralismo. Estas posições. de C. não fora somente a AIB que sofrera com a alegação de que não passava de uma mera imitação de um modelo europeu. Curitiba. R. não eram unânimes. utilizamos as informações obtidas em uma palestra ministrada pelo João Fábio Bertonha. Nestas duas décadas. Além destes materiais. Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937). 6. não se mostrou atraente para tornarse objeto de novos trabalhos da historiografia brasileira. J. 80 Wanderley Santos foi citado em: TRINDADE. o Brasil restabeleceu e reconsolidou a democracia. Convém esclarecer que tais estudos. João Cruz Costa (acerca do pensamento político nacional e uma de nossas bases de leitura e posterior análise) defendia que no Brasil não ocorreu a simples cópia ou apropriação fiel das idéias vindas da Europa. Por isso. já na década de 1960. São Paulo: Annablume. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas. op. toda a história do pensamento político brasileiro. um movimento autoritário de nosso passado até então recente. também. H.. 2004. intitulada “Integralismo: fontes. gostaríamos de assinalar que a base inicial de leitura para esta discussão foi o artigo de Hélgio Trindade intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30” e a introdução do trabalho “Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937)” de João Ricardo de Castro Caldeira.

quando uma nova política e uma nova consciência se sobrepõem ao antigo jogo entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais com seus “falsos líderes”. Outro ponto a ser assinalado é a desvalorização. São Paulo: FAPESP. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. que colocavam o ano de 1930 como divisor de duas fases distintas da história republicana brasileira. sociais e culturais. dentro deste novo panorama. p. Porém. e assim. políticas. Podemos constatar que algo parecido ocorreu com a AIB. aquele discurso produzido por Vargas e sua base de apoio. Logo. que é o dos vencedores e não dos 83 vencidos. foi o discurso de seus opositores e não o 81 Esta é a tese central defendida em: COSTA. já que não faziam parte deste discurso. 1978. 1967. Contribuição a história das idéias no Brasil.45 eram determinadas por inúmeros fatores particulares. 83 DE DECCA. como nos 82 indica Trindade. Ideologia e mobilização popular. Para a nova dinâmica mundial do pós-guerra. esta por muito tempo se mostrou impregnada pela memorização de um discurso produzido pelos “vencedores”.. quando a historiografia sobre o assunto utilizou-se de um discurso oriundo de uma memória triunfante. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 82 TRINDADE. do autoritarismo e do fascismo. . como as 81 condições econômicas. C. nesta memória que a historiografia da década de 1950 e 1960 se apoiou. C. por sua vez. diferentemente do caso explorado por De Decca. os movimentos autoritários e fascistas deveriam ficar somente na memória e é. e que também estavam desejosas de mudanças. 2 ed. 302. In: Revista ciência e cultura. E. Ou seja. 1977.. referindo-se a historiografia que tratou da Revolução de 30. A. M Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. Ver mais sobre a entrada das idéias européias no Brasil com um enfoque mais específico acerca do Integralismo em: CHAUÍ. Devemos também levar em conta a participação da União Soviética no contexto mundial. exatamente. C. M e FRANCO. VESENTINI. cit. A falta de considerações acerca das outras forças políticas e sociais que agiam dentro deste contexto histórico brasileiro. “salvando” a nação de uma inevitável decadência. como uma das vitoriosas após a Segunda Guerra Mundial. que colocou a ideologia de esquerda. foram anuladas. M. "revolução dos vencedores: considerações sobre a constituição da memória histórica a propósito da “revolução de 30”. op. In: CHAUÍ. a ascensão dos movimentos fascistas por todo o globo e o trauma das trincheiras e do holocausto deveriam ser esquecidos e não relembrados ou estudados. por preconceito ideológico. S. Segundo Edgar De Decca. . H. J.

Baseada nesta visão. o que se justifica. deixada pelos opositores do Integralismo e. a um estereótipo comum a todas as formas de fascismos. até a sua revisão na década de 1970. temos vários trabalhos que contemplam a história política republicana brasileira. uma vez que nunca chegou ao poder e. por muitas vezes. Um bom exemplo desta historiografia é o trabalho de João Cruz Costa. somente citada em breves passagens. op. como se fosse uma espécie de: “só para dizerem que eu não esqueci”. apresentamos dois trechos de trabalhos distintos do referido autor. Conseqüentemente. Ver mais sobre Faria Brito In: COSTA. Porém. em menor grau. e que gozou de grande prestígio devido a sua pregação de que a metafísica iria ressurgir dentro do pensamento filosófico. F. No primeiro.criado pelos opositores do Integralismo. que mesmo tendo defendido a tese de que a vida política e intelectual brasileira não se tratava de uma simples cópia das que iam pelo mundo. fato que é 84 denominado por Bertonha como a historiografia do parágrafo. se colocou em oposição ao regime vigente. cit. Esta historiografia é baseada na memória comum. pelo fato de a nossa república ser ainda muito jovem. como os comunistas. não se utilizou devidamente desta idéia quando se referiu ao Integralismo. na maioria destes trabalhos a participação da AIB na conjuntura nacional apresenta-se quase que obsoleta. que são utilizados sem nenhuma análise ou contestação. principalmente. nos textos doutrinários do movimento. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas. Panorama da história da filosofia no Brasil. Foi exatamente este discurso estereotipado e discriminatório . ao se debruçar sobre 85 a produção do intelectual Farias Brito e a crítica que o mesmo produz para com as vertentes científicas e racionalistas presentes no 84 BERTONHA. os estudos que contemplam a história política brasileira nunca foram deixados de lado pelos estudiosos das mais variadas áreas das ciências humanas. 85 Farias de Brito (1862-1917) foi um intelectual brasileiro formado dentro do grupo germanista de Recife.46 próprio discurso Integralista que permeou esta memorização. . os liberais e o próprio governo de Vargas . São Paulo : Cultrix. nas décadas de 1950 e 1960. J. C. Para exemplificar tal situação. 1960.que a historiografia se apropria e transmite. Lembremos que este movimento não pode ser visto como o “vencedor”. a participação da AIB é apresentada como de pouca importância. Entretanto. além de ser atrelado. seja da vertente italiana ou alemã. como já citado anteriormente.

sem nos remeter a consideração de que Farias Brito teve tão grande influência na ideologia Integralista. que o Integralismo é tratado somente como um partido fascista de “vaga” ideologia. das realidades nacionais (.47 pensamento brasileiro do início do século XX. criava inquietação. O que tal movimento pretendia era o estabelecimento do que eles chamavam de ‘estado integral’. revelando a falta de um trabalho analítico por parte do autor. como afirma o autor. em nosso segundo exemplo. Cruz Costa..”.Cruz Costa cita a existência do Integralismo afirmando que: “Foi. o da esquerda e o da direita (o integralismo) – reflexos de uma luta que se processava na Europa -. ao introduzir a AIB dentro do contexto político e histórico da década de 1930.pois este pregava o ressurgimento da metafísica dentro do pensamento nacional . Foi seu nome o pretexto.. aproveitável aos desígnios de Vargas. e 86 Ibid. misturava-se outras receitas de reacionários da Europa. Contudo. Nesse movimento que se afirmava nacionalista. em virtude dêsse reformismo ou dêsse regeneracionismo que o partido fascista do Brasil. de onde lhe vinha o nome. Já. Como os fascismos europeus. não foi este o “sustentáculo” da ideologia integralista. o integralismo correspondia às aspiração das camadas conservadoras. o movimento integralista (o da Ação Integralista Brasileira). o faz em apenas um único parágrafo: A propaganda dos extremismos. de início. O pensamento de Brito realmente teve influência sobre a ideologia integralista e principalmente sobre as idéias de Plínio Salgado. o ideólogo de sua política. apoiando-se nas classes conservadoras. diziam. unida a uma visão tanto pré-conceitual como preconceituosa. do filósofo morto. pois. o sustentáculo da vaga (grifos 86 nossos) ideologia dos camisas-verdes do Brasil.) nunca se falou tanto e se explorou tanto essa realidade nacional. Outro ponto a ser destacado. podemos perceber. 63. . síntese final. o integralismo fêz. p. Logo após o fim da revolução de 1932 surgia em São Paulo. . em uma obra que pretende entender o pensamento político brasileiro até o início do século XX e isto. lançado pelo escritor Plínio Salgado.. de Portugal. é que a AIB é contemplada somente neste breve parágrafo. Neste trecho.

F. Neste trecho. e HILTON. S. Contudo. o que novamente nos remete a uma visão preconceituosa do fascismo e. encontramos uma enormidade de pontos que contribuíram para construir uma série de análise e clichês na historiografia sobre o integralismo no período. para os quais parte da colônia alemã não concordava com o nacionalismo pregado pela AIB. Quanto aos pontos de análise. são vistos como irmãos gêmeos idênticos do Integralismo. Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo. nos chama atenção a generalização da AIB para com os outros partidos fascistas europeus. O Brasil e a crise internacional: 1930-1945. uma ideologia nacionalista. . conseqüentemente. J. 88 BERTONHA. Cruz Costa afirma que existiu uma natural adesão das colônias e descendentes de alemães e italianos ao movimento. a priori. a exemplo da grande luta das colônias italianas contra os fascismos. Em um segundo momento. 103. Primeiramente vamos aos clichês: o parágrafo único que tenta dar conta de todas informações necessárias para o entendimento do que foi o Integralismo. mesmo considerando que o Cruz Costa pertence a uma época de historiadores. Pequena história da república. 1989. dando pouca importância às particularidades que o diferem destas demais experiências. e de Stanley Hilton intitulado O Brasil e a crise 88 internacional: 1930-1945. Naturalmente apoiavam-nos colônias italiana e alemã e grande número se descendentes de alemães 87 e italianos. 1977. Portanto. ed. sendo a sua ideologia reduzida a uma visão simplista. do Integralismo. a consideração acerca de que o principal. ou quase único. 1999. temos. o que é sabido que não ocorreu. conservadora e apoiada nos fascismos internacionais que. sendo suas condições de produção diferentes das atuais. e qual foi a sua participação na vida política brasileira é o primeiro e o mais visível deles. ou seja. 3. São Paulo: Brasiliense.48 contou também com o apoio de alguns altos dignitários do clero católico. Por fim. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. C. 87 COSTA. São Paulo: Annablume. por sua vez. J. apoio da AIB dava-se dentro das classes conservadoras. 1919-1945. 1919-1945. p. vale a pena ressaltar suas idéias em comparação aos trabalhos de Bertonha intitulado Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo.

p. em: BANBIRA. T. Este mesmo autor afirma que foi por este motivo. uma vez que estes pesquisadores privilegiavam a história dos partidos de esquerda. "Brasil: nacionalismo. H. a produção desenvolveu-se qualitativamente na década de 1970. ainda mais longe de adotarem o Integralismo como objeto de estudo. Para Trindade. também originários do mesmo pensamento marxista. cientistas políticos e historiadores acabaram por ser influenciados pelo modelo de análise marxista. quem pretendesse consultar obras de referência sobre o 89 Ver mais sobre a fascistização dos militares na ditadura instaurada em 1964. V. para muitos estudiosos.. deixando os estudos destas décadas. populismo e ditadura: cinqüenta anos de crise social ". . In: América Latina: história de meio século. Brasília: UnB. o que se mostra como um resultado comum dentro dos interesses de pesquisa. Já ao final da década de 1960. estes estudos elegeram a política como tema principal. tornando-se praticamente o único modelo de análise utilizado na década de 1970. que dentro dos estudos acerca das idéias políticas no Brasil. cit. coloca novamente as tendências conservadoras. . principalmente a marxista. Sociólogos.301. 1988. cabe lembrar que importantes trabalhos foram produzidos após o golpe de 1964. autoritárias. que enfatizava os aspectos materiais e econômicos. filósofos. Entretanto. ou até 89 mesmo. assumem o papel de carro chefe da produção intelectual dos principais centros acadêmicos e de pesquisa do Brasil.49 visualizamos uma certa inapropriação de Cruz Costa na palavra “naturalmente”. pois na década de 1960. para provar que “a história é filha do seu tempo” e que são os problemas de hoje que instigam os historiadores em seus estudos sobre o passado. 90 TRINDADE. op. já que o governo militar instalado em 1964. Ao contrário do modelo de análise marxista. as correntes de análise materialistas e estruturalistas. fascistas dentro da política brasileira. uma das conseqüências mais positivas da retomada do estudo do pensamento político autoritário do período entre as duas guerras é a valorização da ideologia enquanto campo de pesquisa considerado crucial à compreensão do processo mais amplo de 90 transformação da sociedade brasileira. SANTOS.

50 assunto. ser citados. Desta forma é somente na década de 1970 que foram realizados os primeiros trabalhos que contemplam a AIB como objeto central de análise. apresenta um panorama e crítica da historiografia produzida sobre o assunto e a grande coletânea de documentos estudados por Edgar 92 Carone. da cultura e da vida política nacional. os primeiros trabalhos que deram destaque à participação política do Integralismo no contexto nacional. Do lado da produção nacional. A revolução de 30: história e historiografia de Boris Fausto. Também. como: O ciclo Vargas de Hélio Silva. da filósofa Marilena Chauí. que. . sobre o período em questão. José Chasin. intitulado O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio (1978). intitulado A ideologia curupira: análise do discurso integralista (1977). 92 Ibid. e mais especificamente. no mínimo. o do. intitulado Apontamentos para uma crítica da razão integralista (1978) e. a produção de brasilianistas. Assim. em nossas terras.. p. Contribuição à história da idéias no Brasil (1967). a produção nacional. o qual consiste em uma reunião de documentos referentes ao período. cabe citar. os trabalhos do sociólogo Gilberto Vasconcellos. em função do panorama cronológico que oferece das diversas correntes do pensamento mundial que. podemos identificar duas vertentes de pesquisa: de um lado. o trabalho que mais se destaca 91 Ibid. Os trabalhos produzidos na década de 1960 não prestigiaram como deveriam a participação da AIB na vida política brasileira. também sociólogo. de outro. por fim. consideramos que devem. como sugere seu título. que acabam por também contemplar a presença integralista neste contexto. p. transformando esta década na mais importante para a historiografia que trata deste movimento.300. ou seja. tiveram relevância na formação do pensamento. pois tivemos um grande número de estudos e publicações unidos a diferentes métodos de análise e abordagens. estrangeiros que se dedicaram aos estudos referentes à história do Brasil. temos como principais exemplos. contudo. a exemplo do já citado estudo de Cruz Costa. iria 91 encontrar poucas publicações. 299. intitulado.

analisa sua ideologia e perfil do chefe. IX 95 Ibid. H. uma vez 93 VACONCELLOS. p. com o intuito de se traçar um perfil do movimento como um todo. As relações do Integralismo com as demais forças sociais da política brasileira. mas. CHAUÍ. Op. Trindade ressalta. o trabalho de Trindade foi o mais utilizado pelos estudiosos do tema até os dias atuais. Além disso. também são abordados. como com o catolicismo e as classes médias urbanas. segundo esse 94 autor. op. mas também uma nova concepção de 95 autoritarismo. Temas como a origem social e as motivações de adesão ao movimento por parte dos militantes. J. organização e rituais. 1978. In: TRINDADE. cultural. X. 1979. Trindade situa a AIB dentro do contexto social. 2. Juan. igualmente estão presentes. CHASIN. Prefácio a segunda edição. além de a compara com as demais experiências fascistas européias. Já no prefácio do referido trabalho. traçando um retrato sociológico das lideranças e dos militantes do movimento. . Neste estudo. Juan Lins ressalta a enormidade de fontes trabalhadas. as características próprias da experiência brasileira. A ideologia curupira: análise do discurso integralista. H. ed. político e econômico nacional. cit. e TRINDADE.51 deste período produzido pelo historiador Hélgio Trindade. apresenta uma perspectiva de abordagem que fornece elementos fundamentais para uma compreensão da organização burocrática do movimento. que foram utilizados como agentes de mobilização do movimento. p. Sem dúvida. E isso se deve a que seu trabalho não somente fornece elementos centrais para se pensar a relação integralismo com o fascismo. e isso. apontando as particularidades do caso integralista. ele desbanca a necessidade da existência de um contexto social e político determinado para a ascensão das idéias fascistas dentro de uma nação. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. G. além disso. São Paulo: Brasiliense. assim como o estudo sobre a formação intelectual e política de Plínio Salgado. Por fim. algo que até então só se tinha verificado em trabalhos que tratam do fascismo alemão ou italiano. M. O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio. 1977. São Paulo: DIFEL. pelo tanto que instigou de novas pesquisas sobre o assunto. (primeira edição 1974) 94 LINS.cit. São Paulo: Ciências Humanas. bem como a sua dinâmica interna de organização. intitulado 93 Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30 (1974). apontando que não foram somente os discursos antiliberal e anticomunista...

H. típica da historiografia deste período. que se refere a “imagem de crise” socioeconômica e também cultural. 98 TRINDADE. no mínimo. pela qual passava o Brasil das décadas de 1920 e 1930. mas a uma crise política e cultural. é justamente este contexto sócio-econômico diferenciado que deve ser questionado e entendido dentro do percurso histórico do movimento fascista brasileiro. não demorou a contribuir para os estudos a esse respeito. sua pesquisa foi realizada com fontes de edição posterior a 1945. e CALDEIRA. Logo. . para o surgimento de um movimento de cunho fascista. sua construção e seus destinatários. op. Ela se opõe à Trindade quanto à identificação do Integralismo com os fascismos. Primeiramente. assim como sua principal temática. para ir contra as afirmações de Trindade. p.. Entretanto. 18. identificando dentro do discurso da AIB. quando muitos indícios do caráter 96 Ibid. quando estas já tinham sido alteradas frente a readequação da doutrina integralista ao novo contexto democrático nacional. o surgimento da AIB não era uma resposta a uma 96 crise econômica. cit. C. 313. 97 CALDEIRA. R. neste ponto que encontramos outro problema de seu trabalho. o fato de o capitalismo brasileiro ser considerado como hipertardio. ressaltando. instigada por este primeiro trabalho. Ele contesta a idéia de que as condições sócio-econômicas do Brasil nas décadas de 1920 e 1930 são. justifica a idéia de que a AIB não pode ser caracterizada como um movimento fascista. exatamente. Chauí. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30. semelhantes às condições encontradas na Itália e na Alemanha fascista. englobando suas fontes. Tal crítica se apresenta como de senso comum no que se refere a estes estudos. 18. as idéias não estão fora do lugar quando encontramos 98 os motivos pelos quais as estas aqui chegaram . de C. Outro modo pelo qual Chasin afirma ser o Integralismo um movimento não fascista é a sua análise para com os textos de Plínio Salgado e é. Ressaltamos que este estudo se debruça sobre a analise do discurso.. p XV. p. elementos característicos de um pensamento autoritário que surge dentro das classes médias brasileiras e une este ao bojo das discussões nacionalistas que 97 estavam em pauta durante a década de 1920. op. Outro autor que discorda da proximidade da ideologia Integralista à fascista é Chasin.52 que para o autor.. p. C. O autor se apropria de uma análise marxista. que se apóia na não existência de condições dentro do modo de produção capitalista brasileiro do período. ou de qualquer outro movimento desta natureza. de C. cit. R. cit. op.

Deste modo. ele não leva em conta que a debilidade destas forças agiu justamente no fortalecimento da AIB em sua primeira fase se 101 expansão. 305 e 307. 102 TRINDADE. Entretanto. op. 102 são desenvolvidas. mais uma vez temos um problema próximo ao apontado no trabalho de Chasin. Salgado era o menos fascista se compararmos a sua produção à de Gustavo Barroso e 99 Miguel Reale. H. um forte partido comunista e um grande proletariado urbano-industrial. A sua análise no nível ideológico. H. em nossas terras. principalmente. op. vinha de sua organização. que é a “utopia autonomística” integralista. a qual só se apresenta claramente no pensamento pliniliano pré-integralista. p. e somente as produzidas por Salgado.53 fascista da ideologia já tinham sido escamoteados. uma vez que as teorias que pretendem “salvar” o Brasil da luta de classes e do mundo capitalista. 311-312. a crítica quanto a considerar o Integralismo como um movimento fascista. por Miguel Reale.. este trabalho se apresenta como uma grande contribuição. Mais uma vez. 18-19.. não existiu uma forte tradição liberal. Quanto às fontes utilizadas pelo autor. durante e depois do período de existência da AIB. 101 CALDEIRA. A maioria das fontes escolhidas foram resgatadas do período pré-integralista. Contudo. 316. que o autor fundamenta a tese central de seu trabalho. E isso. E é justamente devido à utilização destas fontes. .. a AIB foi um movimento político e. p. cit. grande parte do seu caráter fascista. de C. uma vez que o autor acompanha a evolução de seu pensamento antes. C. de sua solidariedade para com os fascismos internacionais e de suas 100 atitudes políticas. 99 TRINDADE. sem levar em conta que dos teóricos do movimento. 100 Ibid. está presente no trabalho de Vasconsellos. não adequadas para a sua proposta de estudo. de sua base social de recrutamento. Vasconcellos repete o mesmo erro de Chasin. também não levou em conta que mais do que um conjunto de idéias.. que apóia a impossibilidade de fazermos esta afirmação. R. no fato de que. cit. cit. que foram fatores básicos para o surgimento dos fascismos europeus. p. deixando de lado os outros ideólogos integralistas e parte das produções realizadas durante a existência da AIB. p. de seus militantes. op. ao procurar entender a experiência brasileira usando como base os casos europeus. destacamos que do ponto de vista de se analisar a obra política pliniana.

uma vez que este personagem de nosso folclore habita o interior do território nacional. 1978. um nacionalismo exacerbado e uma influência ou. São Paulo: FFLCH/USP. que ao analisar o autoritarismo brasileiro do período de 1930 a 1945 inclui entre os intelectuais estudados o 104 nome de Plínio Salgado. como na tradição intelectual autoritária nacional. A principal temática destes trabalhos está baseada na suposta constatação . temos excelentes conclusões neste trabalho. em todo fascismo coexistem. como a consideração acerca da ideologia integralista ter suas principais bases apoiadas. solidariedade ideológica com o fascismo internacional. Neste caso.da caracterização da AIB como um movimento fascista. 1976. precisamente. . paradoxalmente.54 Esta utopia consiste em um projeto que visa o isolamento do Brasil das nações capitalistas hegemônicas. No entanto. para o autor. tornado-o auto-suficiente. o que 103 Tanto a “utopia autonomística” quanto a “irracionalidade” do pensamento integralista correspondem a tese central deste trabalho. ficando longe das influências européias que chegavam pelo Atlântico. o que para Trindade já é um fato consumado. J. e MEDEIROS. uma vez que para ele. a singularidade do discurso ideológico fascista se configura. Rio de Janeiro: FGV. esta constatação não se apresenta suficiente para identificar a especificidade da AIB frente aos movimentos europeus. que analisa as relações da AIB com a Igreja Católica durante a década de 1930 e o estudo Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945 de Jarbas Medeiros (1978). É por este motivo que Vasconcellos nomeia tal idéia como a “ideologia curupira”. Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945. os trabalhos: A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939 de Oscar de Figueiredo Lustosa (1976). pois estas influências ideológicas são vistas como resultantes de um extremo “irracionalismo” integralista. In: Revista de História. O. "A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939".ou sua negação . e não 103 como uma característica original da experiência brasileira. até mesmo. no tipo de combinação entre o nacionalismo nascente em cada sociedade onde ele florescia e a percepção de um sentido da história marchando para o fascismo em escala internacional. Apesar disto. 104 LUSTOSA. Também merecem ser citados. de F. não chegando próximo ao litoral. tanto no fascismo europeu.

H. O Brasil e a crise internacional: 19301945. T. 15. 19. são um dos grandes responsáveis pelo caráter fascista do movimento. op. 1982. op. que nos aponta não ser possível entender o Integralismo somente pelo discurso de um único ideólogo e sem levar em conta seus militantes. trazemos a colocação de Castro Caldeira que sintetiza adequadamente esta produção ao afirmar que: na década de 1970. Por fim. Concordando que foi exatamente isso que ocorreu com esta historiografia. 306.. Rio de Janeiro: Paz e Terra. 9 ed. que. Aqui. Estes estudos. Essa tendência decorreu em grande parte das influências do pensamento estruturalista sobre aquelas ciências. vale a pena ainda enfatizamos a produção dos brasilianistas. com exceção do trabalho de Hélgio Trindade. p. que ressalta a grande importância do Integralismo dentro do contexto político nacional e suas relações com o 108 governo de Vargas. privilegiando mais as ações e relações da AIB e seus integrantes. já bastante conhecidos dos estudiosos da área e que por isso que se destacam dentro desta historiografia são: Thomas Skidmore com o estudo Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1975). Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. cit. buscando explicações e articulações a nível nacional e internacional. a qual privilegiou a análise ideológica. os estudos das ciências humanas foram razoavelmente marcados pela análise do discurso. Entretanto. com as demais forças sociais e 107 institucionais brasileiras e internacionais. op. cit. também se baseavam quase que exclusivamente nos textos doutrinários de Salgado... 106 CALDEIRA. como já foi dito. de C. 107 Ibid. J. Os principais autores brasilianistas. Stanley Hilton com o trabalho O Brasil e a crise internacional: 1930-1945 (1977) e Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil (1977).55 conduziria necessariamente com ecletismo 105 do discurso. e HILTON. p. S. R. que se diferem da produção nacional devido ao enfoque utilizado pela maioria dos trabalhos. p. que privilegiaram as análises da 106 dimensão superestrutural da sociedade. 108 SKIDMORE. Robert Levine com a obra O regime Vargas: os anos críticos 1934-1938 (1980) e John W. HILTON. Biografia política (s/d). Dulles com Getúlio Vargas.. F. convém esclarecer que estes 105 TRINDADE. cit. Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem . S.

este pensamento se apresenta fortemente influenciado pelo fascismo. Já em seu trabalho Suástica sobre o Brasil. R. que para ele eram o operariado. Quanto ao pensamento estadonovista. esta participação ocorria devido à simpatia dos integralistas para com a causa do Terceiro Reich. Getúlio Vargas. embora. s/d. Já na década de 1980. Hilton afirma que esta participação se dava por meio do empréstimo de escritórios para as reuniões dos espiões. e DULLES J. provenientes da crise de 1929. já que para Levine. 109 CALDEIRA. pois para este autor. op. W. iniciamos com o trabalho de Skidmore. o qual procura entender como funcionavam as relações entre os integralistas e seus opositores. 1977. Para ele. um breve panorama desta produção. o primeiro que iremos tratar é O Brasil e a crise internacional. por meio 109 da implantação do Estado Integral. alemã no Brasil. Biografia política. ed. Por fim. Rio de Janeiro. posteriormente. entendendo que as discussões acerca de se considerar ou não a AIB como um movimento fascista. Renes. 2. por este se diferir dos demais. 19. na ajuda para com o disfarce destes e no recolhimento de informações. uma espécie de solidariedade ideológica. J. também são analisadas. Robert Levine nos traz um amplo panorama da experiência integralista dentro da vida política nacional. p. os governos estaduais e as colônias de imigrantes alemães do sul do país. LEVINE. neste trabalho. cit. .56 trabalhos não tratam exclusivamente da AIB. uma vez que se aproxima fortemente da produção nacional. já que o autor compara a AIB as experiências européias e. não se faziam mais pertinentes. este sim é analisado a fim de se entender a sua essência. sendo de grande valia a sua contribuição para com esta historiografia. ressaltando-se que. a considera como um movimento de cunho fascista. R. O regime Vargas: os anos críticos (1934-1938). enfatizamos que. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. o autor aponta a participação de um pequeno círculo de militantes do sigma nas práticas de espionagem dos nazistas em nosso país. Quanto aos trabalhos de Hilton. Com o intuito de apresentar. o fascismo seria a principal característica da ideologia dos camisas verdes. neste último caso. esta oposição ocorria pelo fato de que o forte nacionalismo 110 contido na ideologia do movimento não era compartilhado por estes . mas dedicam importantes análises a este movimento. O apoio das classes médias ao partido e a sua tentativa de superação das dificuldades econômicas. longe de sê-lo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. F..1980. 110 Ibid. de C.

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encontramos um capítulo inteiramente dedicado a AIB, e um segundo, dedicado às relações entre o Integralismo e o Estado Novo. No primeiro deles, o autor analisa a ideologia integralista considerando-a como autoritária, nacionalista, anticomunista, 111 antiliberalista, anti-semita e com pesada hierarquia , que era “copiada” do partido Nazista alemão, entretanto, afirma que a sua maior influência veio do fascismo italiano. As considerações que o autor apresenta acerca das proximidades políticas e ideológicas da AIB para com a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que representava a outra extremidade do espectro político nacional, ou seja, a esquerda, merecem um destaque especial. Ele aponta que ambos os movimentos “se organizavam em células; ambos procuravam atrair as classes médias e trabalhadoras; ambos atacavam o statu quo do Estado e de seus opositores, o domínio econômico estrangeiro, e o fracasso 112 revolucionário da Aliança Liberal” , partido que colocou Vargas no poder, em 1930. Levine também compara a AIB com as outras forças políticas de oposição ao governo que surgiram após a revolução de 30, as quais só se diferenciavam do pensamento Integralista no encaminhamento de soluções aos problemas políticos, uma vez que estes se baseavam em uma concepção totalitarista e mecanicista de Estado, o Integral. Em um segundo momento, o autor analisa a relação da AIB com a Igreja Católica, com o meio militar, com políticos de influência no 113 governo, com os intelectuais e com o governo federal ; além de fazer uma breve biografia de Salgado e Barroso, incitando uma possível disputa entre ambos no que se refere à liderança do partido. Até mesmo os rituais e cerimônias integralistas são abordados por Levine. No segundo capítulo, o autor narra as relações políticas entre a AIB e o Estado Novo, desde o acontecido golpe de 1937 até o fim do governo de Vargas em 1945, ressaltando as manobras políticas ocorridas na cúpula estadonovista e integralista, sejam elas sendo suas ações em conjunto ou suas discórdias. Assinala-se, também, que as fontes utilizadas para a realização desta pesquisa, foram, além da bibliografia nacional e internacional que abordou o período, os livros doutrinários e jornais integralistas, assim como os relatórios, documentos e cartas, tanto do governo quanto do movimento. Dado esta análise inicial sobre os estudos acerca da AIB na década de 1980 pelos brazilianistas, como vemos no trabalho de
111 Ibid. 112 LEVINE, R. op. cit., p. 129. 113 CALDEIRA, J. R. de C. op. cit., p. 19.

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Levine e outros, as pesquisas e as publicações sobre o tema continuaram crescendo nesse sentido de estudos comparativos com os movimentos europeus. Retomando às analises sobre a produção no Brasil nesta década, vale a pena ainda destacar dois importantes trabalhos que não tratam especificamente do Integralismo, mas que se apresentam como leituras importantes para se compreender o período em que o movimento atuou. O primeiro deles é o trabalho de Alcir Lenharo, 114 intitulado Sacralização da política (1986), no qual o autor apresenta novas perspectivas de análise e interpretação para melhor entendermos as idéias do pensamento autoritário presente na política brasileira da década de 1930. Por isso, tal obra se mostra referência obrigatória para qualquer estudo que contemple esta área de estudos. O segundo, é o conjunto de quatro volumes da coleção História geral da civilização brasileira: o Brasil republicano (1986), sob direção de Boris Fausto, nos quais o volume terceiro, Sociedade e política (1930-1964), e o volume quarto, Economia e cultura (1930115 1964) , contemplam, como já referido em seus títulos, a década de 1930. Estes trabalhos reúnem vários artigos de diversos estudiosos das mais diferentes áreas das ciências humanas, como o artigo Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30 (1981) de Hélgio Trindade. Neste último artigo, o autor discute os problemas e as perspectivas dos estudos sobre a AIB. Apresenta um breve panorama da historiografia que tratou o integralismo durante a década de 1970, realizando um bom balanço e análise, seguido da réplica a seus críticos. Até mesmo algumas considerações sobre os estudos da política nacional republicana são apontadas. O descrédito com que a historiografia tratou os fascismos também é resgatada, seguida de alguns apontamentos para a justificação desta atitude. Um breve panorama da evolução do pensamento de Salgado, o alerta para posterior alteração dos textos Integralistas, após 1945, e as considerações sobre os diferentes níveis de análise da doutrina integralista - que correspondem ao âmbito dos dirigentes doutrinadores, separando o pensamento de Salgado, Barroso e Reale, e dos militantes - também estão presentes neste artigo. Outro trabalho que também merece ser citado é o de Jorge Zaverucha, intitulado A questão do integralismo diante da herança

114 LENHARO, A. Sacralização da política. 2 ed. Campinas: Papirus, 1986. 115 FAUSTO, B. (org.) op. cit.

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fascista (1984), que une-se à tese de Trindade em considerar o 116 Integralismo como movimento fascista. Outros trabalhos deste período foram: Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio Salgado, de Ricardo Benzaquen de Araújo (1988), pesquisa esta que possui uma proposta de caráter ensaístico e não acadêmico, interpretando a ideologia de Salgado e ressaltando suas tendências espiritualistas e totalitárias; e o livro de René Gertz (1987) intitulado O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo e integralismo, que analisa a relação entre os imigrantes alemães e os integralistas no Rio Grande do Sul e em Santa 117 Catarina. É ainda no final desta década e, principalmente, durante a década de 1990 que os estudos sobre o Integralismo deixaram de contemplar somente os aspectos autoritários e/ou fascistas da AIB e passam a contemplar suas especificidades, tais como a relação do Integralismo com os imigrantes, com o meio militar, a participação feminina e dos negros dentro do movimento, as políticas regionais, a simbologia e as festividades. Da mesma forma, o anti-semitismo dentro do discurso e das práticas do partido. Temos durante este período, recortes mais específicos, mostrando um panorama difuso daquele que 118 vinha sendo produzido nas décadas anteriores . Alguns títulos que representam esta historiografia são os trabalhos de Roney Cytrynowicz (1992), intitulado Integralismo e antisemitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, o de Fábio Bertonha (1992), A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, o de Castro Caldeira (1999), Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937) e o trabalho de Rosa Maria Feiteiro Cavalari

116 CHAUÍ, M. Notas sobre o pensamento conservador dos anos 30: Plínio Salgado, In: ANTUNES, R., FERRANTE, V. B. e MORAES, R (org.) Inteligência brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986. e ZAVERUCHA J. A questão do integralismo diante da herança fascista, In: Revista Ciência e Tópicos. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1984. 117 ARAÚJO, R. B, de Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio salgado, Rio de Janeiro: Zahar, 1988. e GERTZ, R. Os teuto-brasileiros e o integralismo: contribuições para a interpretação de um fenômeno político controverso. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. 118 BERTONHA, Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas, op. cit.

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(1999), Integralismo: ideologia e organização de um movimento de 119 massa no Brasil (1932-1937). No trabalho de Caldeira, temos um estudo a nível regional que nos abre a possibilidade não só de entender como a AIB se inseriu no panorama político maranhense, mas também nos leva a entender como funcionava sua organização a nível regional. Este trabalho contempla a passagem da caravana de Barroso, o discurso anticomunista integralista, as lutas conta a ANL e a relação do movimento com a política regional maranhense. Ressalta-se, que o autor considera como principal motivação para a ascensão do Integralismo no estado, uma resposta ao surgimento da ANL no Estado. No entanto, maior destaque deve ser dado ao trabalho de Feiteiro Cavalari o qual analisa a pedagogia fascista, os símbolos e rituais integralistas como responsáveis pela união, sociabilização ideológica, propaganda, agremiação, mobilização política, submissão à hierarquia e disciplina. A autora também analisa como se processou a criação de uma identidade para o movimento, onde se destaca a participação das mulheres integralistas, “as blusas verdes” que, dentro das escolas, ambulatórios e creches integralistas, pretendiam por meio de ações filantrópicas e educacionais atender às necessidades da população e agregar novos adeptos para o partido. A rede de jornais integralistas, nacionais e regionais, também é estudada, porém, como meios de divulgação e doutrinação, assim como os programas de rádio, uma vez que a retórica dos líderes integralistas era a grande responsável pelo crescimento numérico e manutenção de seus militantes. O rádio era a maneira mais direta de relacionamento da cúpula integralista com seus “soldados”. Nesse sentido, o trabalho de Feiteiro Cavalari corresponde exatamente a esta nova historiografia dos anos de 1990. A produção historiográfica presente, de início do século XXI, dá continuidade a historiografia da década passada e, dentre os trabalhos que até hoje foram publicados, citamos os seguintes: O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil de Fábio Bertonha (2001), Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social no
119 CYTRYNOWICZ R. Integralismo e anti-semitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História da FFLCH-USP, 1992; BERTONHA, F. A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, In: História & Perspectiva (Uberlândia), Vol.7, 1992.; CALDEIRA C. op. cit. e CAVALARI R. M. F. Integralismo: ideologia e organização de uma movimento de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: EDUSC, 1999.

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Brasil / 1930-1954 de R. S. Rose (2001) e o segundo volume da coleção O Brasil republicano que traz um artigo de Marcos Chor Maio e Roney Cytrynowicz (2003) intitulado Ação integralista brasileira: um 120 movimento fascista no Brasil . Por fim, também, cabe citar, neste momento, a coletânea de artigos produzidos após o I Encontro de Pesquisadores do Integralismo, realizado, em 2002, no Arquivo Público do Município de Rio Claro, que chegou ao grande público, em 2004, 121 com o titulo de “Integralismo: novos estudos e reinterpretações”. Nesta produção contemporânea, destacamos este trecho que nos traz as seguintes observações acerca dos artigos: Lembranças do esquecimento: datas e comemorações do Movimento Integralista Brasileiro, A ação feminina integralista no Maranhão, Notas sobre o anticomunismo integralista, A formação do Partido de representação Popular e a intervenção integralista na política brasileira, O trabalho através do discurso integralista, A educação no projeto integralista, O Integralismo e a mulher, Intelectuais brasileiros na ideologia integralista: autoritarismo, ensino e a busca de raízes nacionais, Integralismo e Eugenia e Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e 122 História.

120 BERTONHA, F. O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001; ROSE, R. S. Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social do Brasil (1930-1945), São Paulo: Companhia das Letras, 2001. e MAIO, M. C. e CYTRYNOWICZ R Ação integralista brasileira: um movimento fascista no Brasil, In: FERREIRA, J e DELGADO, L. de A. N. (org.) O Brasil republicano – o tempo do nacional-estatismo: do inicio da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 121 DOTTA, R. A., POSSAS, L. M. V. e CAVALARI, R. M. F. (org.) Integralismo: novos estudos e reinterpretações, Rio Claro: Arquivo do Município, 2004. 122 Os autores destes artigos são agora nomeados respectivamente na ordem de apresentação de seus trabalhos: Rodrigo Christofoletti, Castro Caldeira, Rodrigo santos de Oliveira, Gilberto Grassi Calil, Renato Alencar Dotta, Rosa Maria Faiteiro Cavalari, Lídia M. Vianna Possas, Alexandre Blankl Batista, Endrica Geraldo e João Fábio Bertonha.

Para Bertonha.. e pretendem que o resultado seja a expressão da verdade pura. ele discute questões como a herança fascista. foi consolidada. memória e esquecimento (2005) . que a atual historiografia que voltada a AIB. é imediatamente atacado como mentira. A. assim como nos indica o título desta última coletânea citada.) op. só nos resta apresentar o trabalho de Gilberto Calil (2001). esqueceram algumas coisas. e CAVALARI. Tudo o que saia deste roteiro pré-estabelecido. Além disso. F. V. refere-se à necessidade de se estudar a memória produzida pelos militantes integralistas sobre a sua própria história. além de também abordar a memória criada pelos próprios militantes sobre o seu passado. R. M. nos apresenta uma enorme gama de novos estudos. . R. justamente. como também promove novas abordagens para temas que já foram estudados. no decorrer dos anos. memória e esquecimento.. Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e História. remontaram os acontecimentos. citamos o trabalho de Rogério Lustosa Victor. como já foi citado. L. 124 VICTOR. p. os temas que a atual historiografia sobre o integralismo está abordando e que. Eles formularam uma visão própria do acontecido.62 A lista de títulos (citada em rodapé) se justifica pelo fato de apresentar. Dentro desta perspectiva de análise. uma memória particular por parte dos militantes. Victor aborda a memória que os atuais livros didáticos constroem sobre a AIB e a sua participação na história brasileira. Outro importante ponto a ser enfatizado. In: DOTTA. POSSAS. convenientemente. etc. 123 deturpação. Neste estudo. má fé. R. intitulado O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP 123 BERTONHA. F. Por fim. L. (org. o autor analisa a memória criada pelo Estado Novo e pela imprensa do período acerca da AIB. 2005. tem a pretensão de construir um panorama mais detalhado do movimento. Goiânia: UCG. O integralismo nas águas do Lete: história. Neste percurso. o golpe de Vargas em 1937 e o Putch Integralista de 1938. M. J. Entendemos então. mesmo que seja por um milímetro. 157. intitulado O integralismo nas águas do Lete: 124 história. cit.

para que os pesquisadores já de longa data possam mais uma vez refletir sobre as produções existentes. cabe esclarecer que somos conscientes de não contemplarmos toda a bibliografia que abordou a AIB. este trabalho se apresenta como o mais completo estudo sobre o PRP até então realizado. no qual é analisado o fim da AIB e a sua rearticulação após 1945 com a criação do PRP. também são abordados. Assim. Porto Alegre: EDIPUCRS. 125 125 CALIL.G. que o presente artigo sirva como uma espécie de guia de leitura para os pesquisadores que estão iniciando seus estudos sobre este tema. também. o seu discurso anticomunista e logicamente a sua participação no processo político brasileiro. G.63 (1945-1950) . os elementos mobilizadores de sua militância. Esperamos. 2001. o seu projeto político. Entendemos que as apresentações e comentários estabelecidos até aqui. A estrutura interna do PRP. se mostram suficientes para a apresentação da historiografia que abordou a AIB. ou até mesmo. pela própria impossibilidade de tal empreitada. transformando-se em um referencial obrigatório para qualquer estudo posterior que pretender abordar o Integralismo no pósguerra. O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP (19451950). . Para finalizar.

área de concentração: Literatura Brasileira.64 TRADIÇÃO E CRISTIANISMO: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora 126 Leandro Pereira Gonçalves 127 As primeiras leituras bibliográficas sobre o integralismo confirmaram a inexistência de um completo estudo sobre a atuação deste movimento na cidade de Juiz de Fora. e-mail: leandropgoncalves@gmail. Aqui. Tradição e Cristianismo: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora. realizado em 1973. a Ação Integralista Brasileira (AIB) teve sua semente 126 Este artigo baseia-se em minha Monografia de conclusão de curso de Especialização em História do Brasil (PUC/MG) 127 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.cujo título é Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. Além da ausência de estudos do movimento na cidade de Juiz de Fora. se deve. À exceção de um trabalho que relata o integralismo de forma bem factual . Especialista em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. a escolha do tema.com . realizado na época pelo acadêmico Maurício de Castro Corrêa. nada mais se encontra sobre a atuação do movimento na cidade. Licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. ainda. Trata-se de um trabalho apresentado no IIº Prêmio de Pesquisa promovido pelo DCE da Universidade Federal de Juiz de Fora. à percepção das particularidades do movimento nesta cidade em relação às demais localidades. que serviu de base para tratar do tema dentro das novas condições e possibilidades do trabalho historiográfico acerca do integralismo no Brasil. quando muitos militantes ainda estavam vivos.

Esse movimento foi decisivo na formação política da década de 1930. investiu na construção ideológica de controle da população pela educação metodista.65 plantada dentro de uma instituição religiosa metodista. tendo ampla repercussão no campo político e social no Brasil. Sua organização. Iniciando suas atividades no princípio da década de 1930. Logo após o lançamento oficial da Ação Integralista Brasileira. sob a liderança do escritor e jornalista Plínio Salgado. que através de um grande centro educacional secular denominado Instituto Granbery. divulgado para todo o país. a AIB passou a atuar formalmente através do Manifesto de outubro de 1932. mas a base inicial se encontra na Igreja Metodista. logrou intenso e rápido crescimento ascendente até a decretação do Estado Novo em novembro de 1937. O movimento integralista surgiu através do interesse de vários grupos de intelectuais no Brasil. A hierarquia do movimento colocava Plínio Salgado como Chefe Nacional e todos os demais membros tinham que jurar obediência às suas ordens. todos eles descontentes com a política existente até então. A partir de então. diferente. A Igreja Católica chegou a apoiar o movimento na cidade. quando foi proibido de atuar juntamente com outros partidos e movimentos. de muitas localidades onde o catolicismo foi o grande pioneiro. com a integração do discurso integralista conservador ao discurso metodista do contexto religioso da década de 1930. priorizava a arregimentação de militantes e seu enquadramento em uma estrutura hierárquica e burocrática. Foi justamente através da força dos ideólogos metodistas que nasceu o integralismo juizforano. fortemente influenciada pelos movimentos fascistas europeus. sem discussão. que veiculava um discurso previamente preparado de acordo com a situação. portanto. Plínio Salgado inicia suas .

assim. Mostraremos um pouco de toda essa atuação na cidade de Juiz de Fora. bastante realistas até que Getúlio Vargas resolveu por fim às pretensões do líder integralista em 1937. Na crise liberal. assim. que possuíam tendências políticas. o socialismo. o Integralismo chegou ao auge de suas atividades.66 articulações políticas pelo país. as opções eram comunismo e fascismo. vangloriava-se de que o número de seus militantes alcançava a cifra de um milhão de pessoas. e as famílias religiosas tradicionais. onde a AIB passou a se destacar logo após três conferências doutrinárias ocorridas nos dias . defendendo principalmente a tradição. ficaram ao lado do fascismo. As pretensões integralistas em atingir o poder pareciam. na Zona da Mata mineira. o integralismo propõese a combater o liberalismo. com milhares de células espalhadas por todo o país e. mais forte combate ao comunismo. Ao analisar a década de 1930. a AIB no principal partido de extrema-direita em busca do poder nos anos 30. aglutinando o apoio da mocidade e transformando. Plínio Salgado. o comunismo. Com esse discurso ideológico de combate em defesa às tradições cujo lema é: Deus. Descartando. no Brasil. principalmente. No país. Em 1936. os integralistas contaram com um expressivo número de filiados. Pátria e Família. logo se depara com as ações da Ação Integralista Brasileira. movimento político de extremo conservadorismo que se articula com os discursos religiosos. defendia que sua milícia reunia cerca de cem mil indivíduos em condições de combate. Ao mesmo tempo. essas famílias investem no integralismo que apresenta grande relação entre a religião e a política. o capitalismo internacional e as sociedades secretas vinculadas ao judaísmo e à maçonaria.

20 out. para divulgar as ideologias políticas integralistas entre os professores e alunos. do Museu Granbery. 128 realizadas pelo Chefe das Milícias Integralistas. Gustavo Barroso. digno presidente da Academia Brasileira de Letras!” 129 A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora fez parte do que era chamado de Bandeira ou Caravana Integralista. 130 Desse grupo. utilizou seu prestígio de presidente da ABL. 130 Sobre sua presença na escola pode ser comprovada pelas fotos de 20 e/ou 21 de outubro de 1933 no Arquivo fotográfico Dr. p. Tarboux. 129 O Granberyense. 1. Gustavo Barroso. da Educação e da economia”. o pioneiro do movimento integralista em Juiz de Fora foi o professor de Sociologia Oscar Machado.67 20. com os títulos: “A Inquietação do século XIX e a Reconstrução do século XX” e “O sentido Novo da Política. movimento que tinha como objetivo a doutrinação. divulga a seguinte manchete: “O Granbery orgulha-se de ter como hóspede de honra. que em seu jornal de circulação interna do dia 20 de outubro de 1933. a divulgação e a propagação da ideologia integralista pelo Brasil. Comunismo e Integralismo”. Já última conferência ocorreu no salão de festas do Pálace Hotel. Gustavo Barroso. O Chefe das Milícias Integralistas. o ilustre brasileiro Dr. presidente da Academia Brasileira de Letras. intitulada: “Liberalismo. A inserção do Integralismo em Juiz de Fora A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora ocorreu através do Instituto Granbery da Igreja Metodista. 1933. 21 e 22 de outubro de 1933. então diretor dos cursos Ginasial e Comercial do Instituto Granbery da Igreja Metodista e membro da Igreja Metodista Central de Juiz de Fora que cedeu as 128 As duas primeiras conferências foram realizadas no salão do Instituto Granbery da Igreja Metodista. . Juiz de Fora.

pág. quando ocorreu a posse do professor Oscar Machado como primeiro chefe municipal do integralismo. além de Barroso. 69. 132 Em março de 1934. 132 CORRÊA. A Igreja Metodista no campo da educação O metodismo. ministro da Igreja Anglicana que teve a oportunidade de viajar por cinqüenta anos. pregando e organizando uma sociedade metodista por todo Reino Unido. p. um grupo de integralistas chegou à cidade ampliando a consolidação do movimento. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora.º 1719. que fez parte do movimento Reforma Protestante. Essas viagens tiveram como meta destacar os problemas sociais da época oriundos da Revolução Industrial. o professor iniciou o processo de divulgação e ampliação do movimento com a preparação de um forte veículo de propaganda através do jornal O Sigma. No dia 27 de novembro de 1933. 1973. 131 Segundo Maurício Corrêa. Maurício de Castro. apontada como responsável por uma transformação de toda 131 Rol n.68 dependências do colégio para Gustavo Barroso. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. o chefe dos integralistas. sob as idéias de John Wesley.º 01. proferiu uma série de conferências doutrinárias para divulgar a ideologia integralista. nasceu na Inglaterra no século XVIII. pelo Pastor César Darcorso Filho. Transferido para Porto Alegre em 11/09/1934. Sua visita foi fundamental para consolidar a fundação do núcleo municipal que ganhou muitos adeptos logo após a visita do Chefe em dezembro de 1933. Data de recepção na Igreja Metodista Central: 09/01/1930. instalou-se a organização da milícia integralista juizforana e da sede oficial do movimento. . Após o lançamento da semente integralista. A partir daí. também Plínio Salgado teve atuação em Juiz de Fora. 58. livro n.

O metodismo chegou ao Brasil através das missões dos Estados Unidos. no século XIX. com uma identidade liberal e progressista.69 estrutura social inglesa. tendo como participação a Igreja Metodista. os metodistas iniciaram um movimento de expansão religiosa com muito sucesso. sendo o maior movimento protestante dos Estados Unidos. Após o processo de Independência das Treze Colônias e a formação dos Estados Unidos da América. presente no século XVIII. o ensino ocupou um lugar privilegiado na ação social. marca do Iluminismo liberal. servindo para construir escolas destinadas a instrução de todos. O metodismo chegou ao Brasil com os ideais do liberalismo já consolidados na América do Norte e foram justamente esses ideais que exerceram um especial atrativo naqueles que desejavam modificações. inclusive tornando-se muito poderosa na América do Norte. Em pouco . No decorrer do século XVIII. As idéias de John Wesley foram ainda a base da organização de uma educação destinada especificamente aos adultos. A Igreja Metodista em pouco tempo se expandiu por todo o Reino Unido. a difusão do Iluminismo permitiu a abertura de novas formas de pensamentos religiosos. devido a uma política escravocrata e tradicional que era a do Brasil. civilização e progresso. Com isso a expansão do metodismo ocorreu no meio urbano. Com isso. com vários princípios como o individualismo. na América Inglesa. favorecida por uma burguesia em ascensão com características modernas e por instituições de ensino que começavam a ser criadas. É nesse contexto que o metodismo chega a Juiz de Fora no ano de 1884. Os metodistas além de quererem implantar a religião no Brasil. tendo uma primeira tentativa entre 1836 e 1841 e a segunda investida iniciada em 1876. têm o objetivo de transmitir os valores estadunidenses de liberdade.

desde os seus primórdios. op. Com esse objetivo. pautada no liberalismo. . Segundo Clifton E. 133 as instituições metodistas de ensino privilegiavam os filhos dos membros da Igreja com o objetivo de criar homens de moral elevada capaz de influenciarem a comunidade em que viviam. Peri. Peri. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. Olmstead apud MESQUIDA. Olmstead. 1994. 97. 135 Letters of John Wesley apud MESQUIDA. op. 134 A educação metodista e o integralismo em Juiz de Fora A Igreja Metodista. Em pouco tempo. Peri. p. o Collegio Americano Granbery. avançou por toda a região mineira. 146. por isso a necessidade de se construir escolas. chegou aos Estados Unidos como uma grande força religiosa influenciando a vida e a cultura da população. p. 134 MESQUIDA. Identificava-se como a nação 133 Clifton E. o metodismo difunde na sociedade juizforana uma cultura protestante estadunidense. era a instituição religiosa de maior denominação e dominação nos Estados Unidos. tendo como objetivo reformar o caráter e a vida dos homens. o metodismo se transformou numa das maiores forças educacionais da Inglaterra no século XIX e de forma rápida. no ano de 1890. cit. cit. ponto estratégico usado na doutrina. 162. p. inclusive a cidade de Juiz de Fora. teve uma característica básica em sua doutrina ideológica que era a de ser um movimento reformador e educativo. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. com a fundação de uma instituição de ensino. 135 observa-se o pensamento do seu fundador sobre a educação. Em Letters of John Wesley. Na segunda metade do século XIX. de criar uma obra educacional com teor missionário. A educação passou a ser vista como um processo de formação contínua do indivíduo.70 tempo.

137 o Journal of the General Conference of the Methodist Episcopal Church (1880) publicou que o metodismo dos Estados Unidos manifesta um profundo sentimento nacionalista e a aceitação à política liberal. a cabeça pensante que tem como objetivo manipular a massa. cit. como diz Marilena Chauí. 136 quando os pregadores metodistas falam. dando assim legitimidade ao expansionismo imperialista. pois esse 136 Hooding Carter apud MESQUIDA. trabalhadora.108-109. Segundo Mesquida. op. ao político. os políticos os ouvem com a mesma atenção que suas próprias congregações. pela educação e liberdade. ou seja. p. Peri. Por isso acreditava que as nações mais evoluídas tinham o dever de civilizar as nações mais atrasadas do mundo. que foi enviado ao Brasil. cit. honesta. 137 MESQUIDA. O nacionalismo religioso metodista. Peri. obediente.71 escolhida por Deus como dominante. A educação metodista passou a ser então um canal de convicção intelectual. É nessa linha de raciocínio. p. que está presente nos Estados Unidos. . difundir. op. mas também. valores e ideais da América do Norte. O liberalismo foi o principal referencial teórico dessa expansão. Essa dominação não só é restrita ao campo religioso. o ideólogo. devido à liberdade conquistada após a Guerra Civil. O metodismo tem como objetivo onde quer que seja. Segundo Hooding Carter. por isso as instituições de ensino têm como propósito modelar e promover essas idéias. propunha comunicar ao mundo. formar uma população livre. o progresso e todas as forças racionais e morais que fazem o aperfeiçoamento da civilização americana. 212. algumas missões procurando promover a ideologia estadunidense no continente.

1981. entre eles a cidade de Juiz de Fora conhecida como o Vaticano do Metodismo Brasileiro. 139 De acordo com esse pensamento. A Igreja Metodista. 138 A educação metodista passou a ser o produto das idéias e do pensamento e é assim que surgiu a ideologia como criação de domínio da realidade. inicialmente. pois não seria. pontos estratégicos para defender e propagar os princípios liberais. cit. pois as opiniões passaram com o tempo e com a força dos intelectuais a ser uma idéia vista como verdadeira e válida para toda a sociedade. Marilena. 140 Expositor Cristão apud MESQUIDA. p. São Paulo: Ática. que era algo vangloriado pela elite intelectual e política. Os colégios metodistas mostram claramente o desejo de se dedicar particularmente à formação das elites. Percebe-se mais uma vez que a instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação concedendo privilégios aos membros da elite religiosa. São Paulo: Aste-Juerp. op. 140 é registrado que a doutrina tem como 138 CHAUÍ. O protestantismo brasileiro. a conversão das classes sociais importantes. passa a exercer influência sobre a cultura da elite e da nação. formados pelo Instituto Granbery. Esses. Os missionários metodistas estavam conscientes de que era no interior que sua dominação ideológica iria ocorrer com maior sucesso. 2004. desenvolver sua doutrina em municípios do interior. 154. Emile-G. nada mais serão do que porta vozes dos ideólogos que é o próprio metodismo. nas grandes cidades. 139 LÉONARD. a educação metodista tem como objetivo estratégico. p. sendo suas instituições educacionais.387. Convite a Filosofia.72 grupo teve como finalidade transmitir o pensamento de todos de acordo com os seus interesses. Peri. então. . 55. No periódico metodista: Expositor Cristão. p.

políticas e religiosas do país. op.73 objetivo resolver as questões sociais. a educação. Os educadores queriam criar uma nova mentalidade no cidadão. Entre os documentos relacionados por Mesquida 141 . existe a necessidade de formar uma concepção política nos educandos para que os ideólogos tenham a garantia de 141 MESQUIDA. políticas e religiosas do país. a educação metodista tem como objetivo proporcionar uma doutrina de dominação ideológica elitizada desde o seu início com John Wesley. cit. A ação da educação metodista pode ser vista como a conquistadora da hegemonia cultural. p. E é justamente dessa exigência de criar uma mentalidade para se ter a hegemonia cultural que passamos a falar do Diretor dos Cursos Ginásio e Comércio do Instituto Granbery. por isso dedicaramse à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural. Já que a idéia inicial das instituições metodistas é a de formar pessoas que possam resolver as questões sociais. Partindo do princípio que foram os missionários estadunidenses que implantaram o metodismo no Brasil e. . Peri.157. A característica principal dessa educação era privilegiar o liberalismo. conseqüentemente. para que o colégio fosse um centro de influências poderosas e agressivas. marco da política e da economia dos Estados Unidos no início do século XX. o liberalismo passa a ser a base de doutrinação dos estabelecimentos de ensino no Brasil. destaca-se o “Livro de atas da diretoria do Colégio Americano Granbery (18951912)” sobre o objetivo do corpo docente que era a de ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. que irá conduzir perfeitamente a prática educativa pautada no iluminismo e no liberalismo. representante de uma sociedade considerada mais evoluída. Como já foi dito.

Em pouco tempo. já que por ocupar um posto de destaque dentro da Instituição e por contar com todos os mecanismos a seu favor.74 seus interesses. p. 142 CHAUÍ. Como já foi citado. cit. 142 fica a cargo dos intelectuais. O domínio ideológico de Oscar Machado começou no momento em que ele mesmo convidou para estar presente. op.387. o cargo de Chefe Municipal do Integralismo. O professor Oscar Machado foi considerado um desses. A responsabilidade da formação de uma ideologia é do ideólogo que segundo Marilena Chauí. É a partir daí que se observa uma força do integralismo dentro do Instituto Granbery. esse realizou uma série de conferências. as palavras de Oscar Machado penetraram no corpo docente e discente do colégio. no Instituto Granbery. Cabe lembrar que não está sendo afirmado que o Granbery é integralista. membro da Igreja e com raízes metodistas. tendo inclusive. iniciou um movimento de persuasão de suas idéias como sendo de todos. um dos militantes mais destacados da Ação Integralista Brasileira. De acordo com periódicos de circulação interna. que é alvo de análise. que era formar um grupo anticomunista e posteriormente um integralista em Juiz de Fora. o chefe das milícias integralistas Gustavo Barroso. em 1933. . Marilena. moldando o pensamento de todos. que julgam as idéias verdadeiras e transformam-nas em idéias válidas para toda a sociedade. muito menos a Igreja Metodista. Ele foi o principal responsável pela divulgação e propagação do integralismo no Instituto e pioneiro na cidade. alcançando assim seu objetivo inicial. ele próprio. o Professor Oscar Machado era uma pessoa detentora de grande respeito dentro da Instituição. mas certos grupos de domínio ideológico dentro da instituição.

mas. sim. Gustavo Barroso. Sua excelência não virá realizar um desejo seu. desde já hipotecamos-lhe a nossa sincera gratidão. p. Gustavo Barroso. pelo que. Autor de cinqüenta e tantos livros. que se impõe pela personalidade intangível e pelo idealismo sadio. porém uma filosofia que realiza um 143 O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. que para ele não é uma simples ditadura. Em uma de suas palestras. Juiz de Fora. 20 out. 1933. redator chefe do nosso popular ‘Fon-Fon’. De acordo com um artigo do periódico O Granberyense: O Dr. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. verifica-se que existe uma posição de doutrinação política nas conferências. Certos de que tudo o que pleiteamos é pela honra da pátria. coloca-se ainda como líder invulnerável do Partido Integralista. o ilustre brasileiro Dr. Mas nas palestras realizadas por ele no Instituto Granbery nos dias 20 e 21 de outubro. saudamo-la na pessoa ilustre 143 do dr. . 1. certos de que sua vinda ao Granbery marcará um ponto iluminoso nas nossas páginas e terá um dos mais raros acontecimentos na nossa vida colegial. conhecedor profundo de todo o movimento político do Brasil.75 sendo duas delas dentro do Granbery. colaborador de inúmeras revistas. deixa claro a sua defesa do regime fascista. bem como pelo caráter inflexível. Gustavo Barroso é um desses brasileiros preclaros. atender gentilmente a um convite nosso. Como pode ser observado é muito claro no artigo que a vinda de Gustavo Barroso não tem ligação com a política integralista e com sua posição de intelectual.

utilizando seu prestígio por ser 144 BARROSO. que Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora com o objetivo de doutrinar. p. criando assim um novo sentido da vida. 1. no salão nobre do importante estabelecimento de ensino. em manipular as posições políticas dos dominados na instituição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. no jornal de maior acesso na cidade o Diário Mercantil: Deverá chegar amanhã à cidade. O Integralismo de Norte a Sul. do grupo pensante. renovando e reconstituindo a doutrina política dos Estados cristãos. que é dado como verdade absoluta dentro da instituição. p.76 projeto cultural na sociedade. Juiz de Fora. 120. 1933. realizar uma conferência literária. nome de grande projeção na nossa 145 literatura. 19 out. o ilustre escritor brasileiro Gustavo Barroso. 1934. Gustavo. a convite do Centro Cívico do Granbery. mesmo não sendo o divulgado pelo Instituto Granbery. Essa passa a ter acesso a esse discurso. Diário Mercantil. como se nota por exemplo. às 8 horas da noite. 145 GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. Observa-se. com isso. A vinda de Gustavo Barroso foi algo noticiado em toda a imprensa local. . Essa conferência terá lugar amanhã. Vê se bem que o Granbery vai proporcionar ao mundo intelectual de Juiz de Fora uma grande noite de indizível prazer artístico. presidente da Academia Brasileira de Letras. Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora a fim de. 144 De forma tendenciosa percebe-se a expansão do pensamento político de Gustavo Barroso. Vê-se isso como mais uma tentativa dos ideólogos. ou seja. ao ensejo de ouvir a palavra encantadora de Gustavo Barroso.

posteriormente. Nacionalismo. 2. 146 A dominação intelectual é algo que está presente de forma explícita dentro do Instituto. algo que irá ajudar muito os interesses integralistas. esse projeto não fica obviamente restrito à vinda de Gustavo Barroso. Ainda nessa edição existe uma entrevista do Professor Oscar Machado com o título “Acerca de um movimento patriótico”. p. . Juiz de Fora. com esse projeto de expansão ideológica. em que Oscar Machado tem o objetivo de continuar. liderado pelo Professor Oscar Machado. Mas esse não é o alvo desta investigação ficando restrita ao início do movimento dentro do Instituto Granbery da Igreja Metodista. inclusive da Igreja Católica. apenas deixa-se fermentar por elas”. um artigo intitulado “Nacionalismo” de autoria de A. Vasconcelos e nele mais uma vez notam-se passagens em que os pensantes se julgam superiores à massa: “A multidão não assimila idéias. inicialmente dentro do Granbery para. 1933. é visto que as idéias de Marilena Chauí são aplicadas em Juiz de Fora na década de 30. Continuando. 20 out. inicia um projeto de dominação ideológica da massa. então. A. onde contará com o apoio de diversos segmentos. De forma rápida. em que um grupo de intelectuais. observa-se na mesma edição sobre a vinda de Gustavo Barroso anunciado no periódico O Granberyense. O Granberyense. Mas. Pode-se dizer que a presença dele foi o início da chamada dominação ideológica.77 presidente da ABL. expandir por toda a cidade. comentando a visita de Gustavo Barroso e ali se pode perceber quais são as posições do Professor sobre o integralismo que começa a estar presente dentro do Granbery: 146 VASCONCELOS.

) Acho que o integralismo tem vantagens sobre as demais correntes políticas (.78 Acho que Gustavo Barroso veio ao Granbery numa hora oportuníssima (. 9.) É isso que nós estávamos precisando ouvir o que ele disse. existe no Brasil uma inquietação que deve ser abolida.. Pode-se.. Portanto.. Quer vistamos a camisa verde ou não. O Granberyense.. Vê o homem total. 20 out. Essa é a 147 concepção totalitária da vida. pois são as que mais se adequam ao espírito de vida dos que fazem parte desse meio.. A grande maioria dos granberyenses reagiu favoravelmente diante do apelo feito ao espírito moço pelo eminente brasileiro que nos visitou (.. por exemplo. que as palavras e as doutrinas integralistas entram na instituição com o apoio incondicional de um líder do próprio Granbery. então. superpõe a ambas a Religião. 1933.) A principal dessas vantagens é a concepção filosófica que serve de base à doutrina integralista (... ..) O Integralismo une esses dois aspectos da vida pela influência do Espírito.) As massas humanas precisam marchar para frente (.) A inquietação social contemporânea repercute enormemente em nosso meio (. Tudo resolve pela mentira do voto.... os granberyenses devem seguir as doutrinas do sigma. Gustavo Barroso propõe a solução: ser integralista porque é mais vantajoso que as outras doutrinas existentes.. (. Acerca de um movimento patriótico. p. do outro lado.. todos nós devemos ser integralistas. hipertrofia um aspecto do indivíduo. considerado nesse meio 147 MACHADO. Juiz de Fora. verificar facilmente.) O Socialismo.. exagera o aspecto econômico da vida (. Oscar. razão e espírito. integral – corpo.. Crê o homem cívico.) O liberalismo. Logo tem lugar para a Economia e a Política. mas completando. De acordo com Oscar Machado.

Só assim pode o povo identificar-se com a Nação.. decorre da concepção do Universo (.. (. para tornar possível a disciplina. harmonia entre as forças que se processam dentro da órbita da sociedade humana. As correntes políticas não dão unidade ao pensamento.) A Revolução integralista é um esforço para conseguir o equilíbrio. ..) O Integralismo. (. porque conservam o povo na ignorância. pela ausência do senso hierárquico e pelo desprestígio da autoridade..) E o Brasil precisa de um grande surto nacionalista.79 um detentor da intelectualidade formadora de opiniões. crê na unidade de pensamento. Por isso é superior às demais correntes políticas.. (. o Estado precisa ter autoridade para intervir e disciplinar a vida coletiva.(. que é o ponto de vista totalitário.. isto.. Só existe unidade nacional quando existe unidade cultural.) O Integralismo. como pode ser visto na seqüência da entrevista: Aceito a concepção integralista. ordem. Não dão. (..) O mundo contemporâneo caracteriza-se pela indisciplina. 148 Ibid.. (... aliás.. A sociedade é um conjunto de atividades profissionais em função harmônica. porém..) O movimento integralista é no sentido de integrar todas as forças sociais do país na expressão da nacionalidade.) O integralista tem certeza da 148 vitória.) O sistema corporativo sobre o qual se baseia a organização social integralista visa precisamente a essa chaga social que é a luta classista. Para combater esses males. é a grande tendência do século XX... (..

. pois as práticas do professor Oscar Machado. em pouco tempo essa fala será colocada em prática. pelo qual se batem os indivíduos e as multidões.. Com esse discurso e com a idéia de ser o pensante da ideologia. como diretor. o nosso maior problema no Brasil continua sendo o da educação.80 Podem ser vistos. inclusive. mas educação no sentido da criação de uma mentalidade nova que venha substituir a anarquia mental e moral deste nosso século XX. nessa entrevista.. tantas vezes mal interpretado...) Senhores. O outro é o conceito da autoridade. Um é o conceito da liberdade. que os ideais integralistas estão presentes no líder da instituição de ensino que ocupa o posto de diretor e professor de Sociologia.) Nós assumimos a direção do Ginásio e da E. (.. tantas vezes mal compreendido. e. pela . dentro da instituição. de Comércio numa hora em que graves acusações pesam sobre a coletividade granberyense no que diz respeito as suas diretrizes educativas (. publicado na íntegra no periódico O Granberyense: Desde o princípio dos tempos.) Queremos estabelecer um regime baseado em harmonia da autoridade com liberdade. de outro lado. dois conceitos têm muitas vezes se chocado. como já foi mencionada pela fundação do núcleo integralista na cidade e. serão de acordo com a doutrina integralista. que tem servido de um lado à audácia dos prepotentes. como se observa na transcrição de um discurso feito por ele no momento de abertura das aulas em 1934. as inclinações baixas dos desordeiros (. algumas vezes se associado e raras vezes se integrado.

A doutrina do sigma.. Pode-se ver uma transposição do ideário integralista dentro da instituição. integralistas. 150 SALGADO. 1935.81 implantação da ordem.. Oscar. (..) não pode existir governo forte sem cultura forte. ao analisar o discurso de Plínio Salgado: Nós. 3. (. Só ela cria a disciplina. São Paulo: Revista dos tribunais. Diz ainda que quer estabelecer uma harmonia da autoridade com a liberdade. Como se percebe.. Plínio. Existe uma mistura das práticas integralistas com as ações existentes dentro do Colégio onde o propósito da educação metodista é a de criar uma nova mentalidade no cidadão e Oscar Machado propõe em seu discurso a formação de uma nova mentalidade educacional.) quando nós. 63-64. O que se observa de oposto a esse propósito tão 149 MACHADO.. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. mas que a liberdade é o maior dom humano. o Granbery será dirigido com autoridade e educação e deve ter como objetivo a ordem.. não falamos em ditaduras e sim ‘num regime’. O Granberyense.) queremos um governo forte. Um regime é o que queremos (. De acordo com Oscar Machado. . Juiz de Fora. a disciplina e a hierarquia.) a liberdade é o maior dom humano. Oscar Machado diz que dentro do Instituto Granbery deve existir autoridade com liberdade e nos faz remeter a Plínio Salgado quando diz que o Brasil tem que ter um governo forte.. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio.. p. no Brasil (. p. 150 Porque cria a consciência de necessidade. falamos em governos fortes. da disciplina e da 149 hierarquia. 1934. 15 abr.

Dois mil integralistas recepcionaram. sede da 17ª Região mineira.82 igualitário é a doutrina defendida. pelos pioneiros da educação metodista: o liberalismo. Eliza. . era o integralismo. No jornal integralista Acção de São Paulo é possível ver um relato do movimento em Juiz de Fora: Numa espetacular consagração: O Integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica: Juiz de Fora. sob calorosos aplausos. Um exemplo claro do integralismo no cotidiano do Granbery pode ser observado no periódico da instituição na sessão “Um pouco de humorismo”. (. a comitiva que desta capital partiu no sábado. 151 Podemos notar que realmente a doutrinação ocorreu e a massa teve acesso à ideologia proposta pelos pensantes. Já no tempo de Oscar Machado. ela logo toma posição de sentido e estende a mão em correta saudação integralista. horas de profundo entusiasmo cívico. Por quê? Porque toda vez que ela toca a campanhia para a saída do refeitório. O Granberyense. em uma piada envolvendo uma funcionária do Granbery: “Até hoje a pessoa que continua como integralista irresistível é a D. p. 27. 15 abr. A partir dessas doutrinações ideológicas. a elite intelectual alcança seu objetivo. sob a orientação do dr. Juiz de Fora.) A comitiva viajou de 151 UM POUCO de humorismo. 12. Miguel Reale. A partir de 1934.. Mas o objetivo final é o mesmo: dedicar-se à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural. 1934. De fato o integralismo passou a fazer parte do Instituto Granbery. Juiz de Fora já tem uma sede própria da AIB e o movimento na cidade passa a ter um destaque nacional durante todo o período em que esteve em funcionamento.. viveu no domingo passado.

.) Impressionados com o entusiasmo invulgar dos elementos que constituíram a comitiva. Volto encantado com o alto sentido de disciplina dos camisas-verdes na 17ª Região 152 da Província de Minas Gerais. quisemos ouvir o dr. 1. O objetivo do estudo não é pesquisar totalmente o movimento em Juiz de Fora. políticas e 152 NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. p. sendo recebida em Juiz de Fora.. pois os privilégios serão dados aos filhos dos membros da Igreja com o propósito de influenciarem positivamente a comunidade. o movimento integralista em Juiz de Fora merece um destaque especial na historiografia devido a sua força e as suas particularidades.83 automóvel. A instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação. São Paulo. 1937. mas sim. Não foi a intenção esgotar as informações sobre a fundação do integralismo em Juiz de Fora. . Após análise. com vibrantes manifestações dos camisasverdes locais (.) A minha impressão sobre o Integralismo em Juiz de Fora é magnífica. Miguel Reale (. pois a educação metodista subsiste com o propósito de se dedicar à formação das elites. muito menos do movimento de uma maneira completa. mas apenas elucidar alguns pontos no processo de sua consolidação na cidade com a forte presença do Instituto Granbery da Igreja Metodista. Acção. O ponto principal dessa análise foi o conceito de ideologia que é sem dúvida a ligação entre as duas instituições.. sendo capazes de resolverem as questões sociais. a de promover uma discussão entre as doutrinas educacionais da Igreja Metodista com o propósito da Ação Integralista na cidade.. 1 dez.

São Paulo: AsteJuerp. São Paulo: Ática. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROSO. O protestantismo brasileiro. Gustavo. O que é ideologia. para que o Granbery seja um centro de influências poderosas e agressivas. 1973. Os educadores. principalmente através do Professor Oscar Machado. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. também. Convite a filosofia. que como se nota tem uma forte influência dentro da instituição. 2003. 1934. São Paulo: Brasiliense. Emile-G. Mais uma vez. Diário Mercantil. LÉONARD. 2004. 19 out. Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. 1933. têm como objetivo ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. encontra-se o integralismo na década de 1930. 1978. São Paulo: Paz e terra. Junto a esse processo de dominação. Juiz de Fora: Letras e notas. ___. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. In: Ideologia e mobilização popular. p. Maurício de Castro. GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. 1. Rio de Janeiro: Civilização brasileira. Juiz de Fora. Ana Lúcia. O Integralismo de norte a sul. ___. CORRÊA. . a elite intelectual é o grupo pensante que influencia a consciência social e tem o poder de transmitir as idéias dominantes para toda a sociedade. 1981. CHAUÍ. Marilena. 2003.84 religiosas do país. grande defensor do movimento. A inserção do metodismo em Juiz de Fora. CORDEIRO.

MARX. ___. NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. O Granberyense. v. As crises de um ideal: os primórdios do Instituo Granbery. 20 out. pp. p. 1934. ROCHA. Karl. 1994. A ideologia alemã. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. 1967. Ideologia e Utopia. Direitos e deveres do homem. 1956. 1982. o ilustre brasileiro Dr. ___. Arsênio Firmino D. Espírito da burguesia. São Paulo: Guanumby. Juiz de Fora. 5-176. p. ENGELS. São Paulo. O Granberyense. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. 1935. p.85 MACHADO. 1950. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio. p. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. São Paulo: Voz do oeste. A doutrina do sigma. 20 out. ___. Juiz de Fora. 1933. 1949. NOVAES NETTO. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. 1 dez. São Paulo: Martins Fontes. Peri. O conceito cristão da democracia. ___. RICOEUR. Friedrich. ___. Juiz de Fora. In: ___. 3. O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. Acerca de um movimento patriótico. Manifesto de outubro de 1932. MESQUIDA. São Paulo: Revista dos tribunais. Isnard. 1. Histórias da História do metodismo no Brasil. São Paulo: Imprensa metodista. 2002. Mensagem às pedras do deserto. 1. Lisboa: Edições 70. Acção. Gustavo Barroso. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. Piracicaba: UNIMEP. Obras completas. Paul. 9. Plínio. . SALGADO. 1933.15. São Paulo: Américas. 1937. 1951. 1986. 1997. 15 abr. ___. Oscar.

1979. José Gonçalves. São Paulo: Imprensa metodista. Porto Alegre: Difel/UFRGS. O Granberyense. . História do metodismo no Brasil. Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 30. SALVADOR. O Integralismo brasileiro perante a nação. Lisboa: Oficina gráfica. 15 abr. VASCONCELOS. p. UM POUCO de humorismo. A. 1937. VASCONCELLOS. 1934. O que é integralismo. Juiz de Fora. ___. 2. Hélgio. Juiz de Fora. 1979. Nacionalismo. 1979. 12. Rio de Janeiro: Schmidt. Gilberto. Ideologia curupira: análise do discurso integralista. 1946. São Paulo: Brasiliense. O Granberyense. TRINDADE. 1933.86 ___. 20 out. p.

política e religiosa que contribuíram para a atuação e expansão do integralismo em Pernambuco. . Contudo. Aqui. característica comum entre outros intelectuais da época ligados ao pensamento político brasileiro. propaga a ideologia do movimento para seus familiares. interessa-nos. Em nossas leituras acerca do movimento. mas também por se ter aqui uma sociedade cujo catolicismo era fortemente protegido por um grupo de famílias tradicionais e proprietárias que se amedrontaram com a chegada das idéias comunistas e com a crise da liberal-democracia.87 4. não se trata apenas de localizar discursos de um grupo de intelectuais católicos e tomá-los como a causa do relativo sucesso do Integralismo no Estado. discutir alguns dos fatores internos ligados ao surgimento e atuação da AIB (Ação Integralista Brasileira) no Estado de Pernambuco e suas especificidades locais e regionais. O INTEGRALISMO EM PERNAMBUCO: Uma história entre tantas da Ação Integralista Brasileira 153 Giselda Brito Silva (UFRPE) os estudos do integralismo no Brasil comportam uma série de fatores diversos que vão das questões externas às internas e viceversa. em seguida. Aqui. consideramos que as questões relativas à chegada. É importante lembrar que os discursos e propostas integralistas encontraram neste Estado um campo de possibilidades de dizibilidade e circulação das idéias integralistas não apenas pelas condições sócio-políticas e culturais dos que lhes apresentaram. pertencentes às grandes famílias locais. Imbuídos de uma mentalidade que mesclava uma contradição entre o moderno e o conservador. esses intelectuais locais tomaram para si a responsabilidade de propagar o movimento no Estado em clima de profunda euforia política e “revolução espiritualista”. situada na 153 Professora da Graduação e Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco. particularmente. atuação e expansão do integralismo em Pernambuco estiveram diretamente ligadas à ação de um grupo de intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. que. em sua maioria. tivemos então como ponto de produção de sentido dos discursos integralistas uma base familiar.

Entretanto.88 desordem pós-1930 em meio aos conflitos mundias. o surgimento das idéias comunistas e a Liberal-democracia pareciam a esses indivíduos como incapazes de resolverem muitos dos problemas. política e parentela serem os referenciais da sociedade rural que se estendia ao urbano. algo unia os indivíduos desta sociedade. A proposta ateísta dos comunistas soava como uma grande ameaça às bases sócio-culturais de uma sociedade ainda muito presa aos valores das grandes famílias latifundiárias e conservadoras. econômico e cultural ao qual se pertencia. dando-lhes uma identidade: pobres ou ricos eram marcados pela presença do catolicismo na estrutura familiar. constituindo-se num dos lugares de maior recepção dos discursos integralistas. Era comum às famílias irem à missa aos domingos em jejum. político. orar antes das refeições. o sujeito ao ser apresentado lhe era imediatamente perguntado: quem é sua família? Você é parente de quem? Daí. Do outro lado. . A família era uma referência do lugar social. com grandes famílias tradicionais e políticos provenientes das mesmas. juntamente com a proposta de modernidade da sociedade. mas. político e ideológico. Em nossas pesquisas percebemos que os pontos fundamentais da recepção do integralismo no Estado estavam diretamente ligados à ação e discursos anticomunistas propostos pelos integralistas. mais a crise econômica. As leituras das fontes escritas e orais são indicativas de um clima de grande tensão no campo social. mais a concepção de recuperação dos valores morais e tradicionais centrados no lema “Deus. o clima do pós—guerra. na sociedade. como diziam. Outro ponto fundamental. e ex-integralista. etc. acreditava-se em céu e inferno e os comunistas tinham chegado para destruir essa fé. Pátria e Família”. é o fato de que Pernambuco dos anos trinta se caracterizava por uma sociedade profundamente católica. geradores de uma profunda ameaça à ordem das estruturas tradicionais vigentes. Nesta sociedade. Segundo um dos meus entrevistados. pedir benção aos mais velhos da rua. Parecendo mais. que sustentavam um modelo patrimonialista e burocrático pelo qual se confundiam o espaço e as coisas do público com o privado. ao deitar. Assim. desclassificavam o liberalismo como um sistema político-econômico e social viável para uma sociedade organizada pela tensão da oposição ordem versus desordem. ainda relacionado às questões acima.

pesam. com pouco referencia ao fascismo ou ao nazismo. os discursos dos lideres integralistas no Estado. procuravam congregar o político ao religioso e aos aspectos familiares tão comuns na sociedade local. Não se tratava de discursos que foram silenciados. e que garantiu à Ação Integralista Brasileira (AIB) forte atuação política e ideológica durante toda a década de 30. os intelectuais mais conservadores encontrariam na proposta integralista uma opção para a crise da “liberal-democracia” e para a ameaça comunista. promoveriam a segurança nacional e o fortalecimento do país. como já destacamos. mas que logo caiu em repetição e circulação. que ganhava campo com as manifestações grevistas e um clima de agitação no Estado.89 Dessa maneira. identificados como provas da desordem. A nação era apresentada como uma grande família formada por famílias menores que. Adequando-se às necessidades locais. Os principais responsáveis pela produção e reprodução dos discursos integralistas no Estado foram. anticomunistas e antiliberais. fogem um pouco à regra geral da historiografia que parte das questões e influências externas como fatores motivadores do integralismo no Brasil. consideramos que o relativo sucesso da proposta integralista em Pernambuco. Neste Estado. o Integralismo foi apresentado à sociedade como um movimento espiritual de resgate das tradições e valores então ameaçados. O Manifesto de 32 fora lido em Praça pública e repetido nos bairros pelos quais se fundavam os núcleos. o Estado reforçou os discursos de Estado forte com o Manifesto-Progama. centralizado e hierarquicamente organizado em classes. Declarando-se insatisfeitos com os resultados políticos. mais uma proposta alternativa ao liberalismo e ao comunismo. especialmente por Andrade Lima Filho e outros no plano estadual. . sociais e econômicos da “Revolução” de 1930. guiadas e orientadas por uma doutrina cristã católica. o catolicismo e o anticomunismo do movimento. O anticomunismo e o antiliberalismo formavam a unidade do discurso que em sua dispersão atingiam vários lugares de possibilidades de sentido. principalmente. Surgiu como um movimento de idéias nacionalistas. um grupo de intelectuais e estudantes de Direito. propondo uma “revolução espiritualista” com decisiva atuação na ordem social bastante próxima do conservadorismo aqui reinante entre as grandes famílias entre as quais circulou. com remanescentes ainda nos anos 40. Em 1936. cujo conteúdo era o projeto político-doutrinário de um Estado Integral. Além da proposta política de um Estado forte e intervencionista.

.Segundo Hélgio Trindade. seus depoimentos. p. Inicialmente. livros de memórias e outros evidenciavam a profunda frustração e desgosto com a política praticada pelo governo de Getúlio Vargas e seu projeto com a liberal democrático no período de 1930 a 1934. provocador de todas as revoluções burguesas e que talvez nos irá levar inconsciente e delirante até a revolução marxista (. centro do Recife. Em novembro de 1932. quando então nasceu a Ação Integralista Brasileira. os intelectuais foram um dos grupos que mais criaram expectativas com a campanha da Aliança Liberal em Pernambuco. acrescentando à leitura outros discursos pronunciados por Plínio Salgado em São Paulo e no Rio de Janeiro. Depois de 1930. alguns intelectuais passaram a declarar a falência da liberaldemocracia e a alertar a população para o avanço do comunismo.. liberal. rousseauneano. manifestaram-se publicamente em favor do integralismo através dos principais jornais da época. Hélgio. o 154 . Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. (. deveria ter sido publicado em junho de 32.) foi o espirito individualista. por biografias. 1979. Neste Jornal criaram uma coluna através da qual criticavam o Liberalismo. seus discursos se concentravam mais em criticas ao liberalismo apontado como o principal responsável pelo clima de instabilidade e gerador do comunismo: A origem dos erros e de todos os males de nossa vida republicana não foi a forma presidencialista. na hoje conhecida Praça 13 de Maio. Através de artigos e enquêtes. São Paulo: Difel.. veiculados pelos principais jornais do Estado. O “Manifesto”. entretanto o desencadeamento da Revolução Constitucionalista de São Paulo prorrogara a publicação para outubro de 32. que só teria fim com a implantação de um governo forte que valorizasse os aspectos morais e espirituais”.123 . especialmente através do Jornal Pequeno.90 Em Pernambuco. eles passam a ler em público o “Manifesto de Outubro de 32”.) penso que só um regimen forte sera capaz de dominar a demagogia. o “Manifesto de Outubro de 32” recebeu este nome porque foi publicado nesta data. In: TRINDADE. eles lançaram o “Manifesto do Recife” em apoio ao “Manifesto de Outubro de 32”.. através do qual Plínio 154 Salgado havia lançado a Ação Integralista Brasileira. Durante todo o ano de 1932. destacando o clima de desordem política e social. Declarando-se desorientados e desiludidos. como um fomentador do espírito individualista “causador de todos os males sociais.

. Recife. Jornal Pequeno. Recife.) Agora mesmo. 26. vejo a quase unanimidade dos collegas da Faculdade não dar grande importancia ao problema presidencialismo ou parlamentarismo. Temos vivido até hoje num clima revolucionario esse appello (sic) à revolução é no dizer de Hélio Vianna uma fatalidade dos povos sem educação social e política.Depoimento de Andrade Lima Filho. posteriormente.11. O nosso problema é retomar as nossas tradições (. estudante da Faculdade de Direito do Recife. 156 . Todo o problema cultural. .11.) precisamos de uma 156 orientação nacionalista.Depoimento de Otto Guerra.. Ha o econômico. a indisciplina 155 latentes no nosso povo...o facto político deixou de ser o unico a interessar o Estado. 05. catedrático da Faculdade de Direito do Recife e membro da Ação Católica e.. um “leaders da ‘Ação Universitária Integralista no Recife”.91 revolucionarismo.. sob uma orientação nacionalista centralizadora: Nós precisamos é de um governo forte (. evidenciando a total descrença no Liberalismo e a crença na solução para o problema através da implantação de um governo forte: Morte ao Liberalismo . membro da “Ação Universitária Catholica e. que recebe novas dimensões (. Jornal Pequeno." Outros apontavam a crise liberal como conseqüência do pluripartidarismo e das brigas entre os partidos políticos e defendiam o fim dos partidos. 25. No Brasil a grande geratriz das luctas armadas tem sido inegavelmente a política tortuosa dos partidos.. Ha o religioso.. Todo o problema da reestruturação social do Estado. Hoje mais do que nunca precisamos de um 157 executivo forte.Depoimento de Alvaro Lins. bem como chefe nuclear do Integralismo em Pernambuco.1932.1932.11. posteriormente.. 155 . a desordem.) o Brasil se verá livre das erupções subversivas. diretor do “Quinzenário da Ação Integralista Brasileira.” Outros depoimentos eram mais diretos na defesa do projeto autoritário e antidemocrático.1932.. Jornal Pequeno. 157 . membro da Ação Integralista Brasileira de Pernambuco.

não se trata apenas de um discurso bem articulado entre o político e o religioso...92 Estes são alguns dos fragmentos dos discursos produzidos no contexto que retomamos para mostrar o interdiscurso presente entre integralistas e intelectuais do Estado quanto a proposta de um governo forte. resultando na defesa e credulidade do projeto autoritário e centralizador. mas de discursos que circularam e não silenciaram porque encontraram uma sociedade na qual se visualiza uma produção de sentido. não deixamos de identificar fragmentos de discursos simpáticos aos movimentos nacionalistas europeus. para outros (.) Para uns em determinado momento: um governo forte. pautado na liderança de um chefe nacional que promete combater o comunismo e o liberalismo.) Após a guerra a Alemanha não poderia por certo ter uma republica federal do tipo da Suissa. que fosse obedecido em suas ordens. (. no respeito que todos sentissem pela idéia do util e do justo.) uma forma . bastando apenas. (. de uma proposta de Estado forte (a exemplo dos modelos que se observa na Europa).. Em alguns lugares é possível identificar discursos que se aproximam do nacionalismo forte.. medo e ansiedade que circulava entre esse grupo que reproduz o discurso integralista. nem de um discurso político construído sob uma base espiritualista contra uma materialista identificada como responsável pela desordem. Por outro lado. Pelos discursos acima se pode localizar as declarações de frustração. mas das possibilidades de ser dito naquele momento e repetido por outros que passam a reproduzir os discursos integralistas. Ou seja.. apesar de no Estado prevalecer a questão do catolicismo e tradicionalismo. Entre alguns membros do “Comité Pró-Constituinte” circulava os nomes de Hitler e Mussolini: Mussolini tanto faria um bom governo com ‘fascio’ como com a republica. O mal que desequilibra o governo de muitos povos é o não saber obedecer. Lembramos aqui que a reprodução e circulação de um discurso não depende apenas de um enunciador(s). sobretudo. As condições do momento naquelle tempo como ainda hoje não permitiam um governo cuja unica fortaleza estivesse apenas na fragilidade de sua estructura e. E quem não sabe obedecer também não sabe mandar..

. além de fazer uma reavaliação crítica da crise e dos males da liberal-democracia. temos o investimento na questão da luta de classes e a proteção da propriedade privada.. DOPS ... conforme a sua 160 vocação (. “Manifesto de Outubro de 32”. como já destacamos.. p. pela honestidade. o fim da agitação social. Jornal Pequeno. Folheto s.. através de uma fórmula filosófica que defendia a harmonia social do político com o religioso: “. (.) O capitalismo atenta hoje contra esse direito.) a grande coisa vem da habilidade 158 na aplicação. baseado como se acha no individualismo desenfreado. que ameaçava a classe proprietária. ao soldado. Consideremos ainda que a proposta integralista..) destróe a familia para melhor escravisar o operário..) Temos que adotar novos processos reguladores da produção e do commercio.Ibid. pela inteligência..) até no governo da Nação.93 liberal (. destróe a religião (.. na capacidade técnica..especialmente a rural.) O direito de propriedade é fundamental para nós. de suma importância para as famílias proprietárias que temiam a propaganda comunista: A questão social deve ser resolvida pela cooperação de todos (. alguns intelectuais que se declaram desiludidos com a crise liberal e ameaçados pela agitação social e o avanço comunista. 18.d. Recife.) O que nós desejamos dar ao operariado. homem vale pelo trabalho e pelo sacrifício em favor da Familia. "Membro do ‘Comité . da Pátria e da Sociedade. Vale pelo estudo. nas artes. pregava o fim da luta de classes e. ao marinheiro. (. tendo por fim o bem-estar da Nação e o 159 elevamento moral das pessoas”. Plínio. de modo que o governo possa evitar os desequilibrioss nocivos à estabilidade social. APEJE. Os maiores fomentadores dessas idéias são.SALGADO.Constituinte". é a possibilidade de subir..Prontuário 4938. ao campones... 158 .) destróe a iniciativa de cada um (.1932 159 . 2 160 .Pró.11. Em outro fragmento do discurso extraído do Manifesto de Outubro...Depoimento de Gil Duarte. 5 . pelo progresso nas ciências... p. conseqüentemente. O communismo (sic) não é uma solução (.

4 162 . precisa ter 162 uma perfeita consciencia do Principio de Autoridade”. Daí propunha investir no Partido Único como a solução para as brigas em torno do regionalismo e do separatismo: “Nosso ideal não nos permite entrar em combinação com qualquer partido político. para lograr prestigio no Interior e no Exterior. uma forma de reaver seu poder local: “O municipio é uma reunião de familias.p. As interferências nos Municípios causaram muita insatisfação nos proprietários locais que tinham acesso ao poder público local. e salvar-se do communismo (sic) internacionalista. principalmente. mas. porque não possuía um governo forte. Aqui também se destacava a questão do nacionalismo.. Era o caso dos atingidos com as novas Leis Municipalistas. a proposta de um governo forte e autoritário da Ação Integralista Brasileira era a solução ideal para a agitação social e o avanço do comunismo: “Uma Nação. capaz de se impor às classes. que está 161 entrando no seu corpo. (. a 161 .Ibid. Acreditamos que estes insatisfeitos passaram a ver na proposta integralista de defesa da autonomia municipal.” Para alguns desiludidos e insatisfeitos da época. político e econômico e por ter aberto brecha para as soluções de esquerda. o integralismo vinha como um movimento de idéias dizendo-se contra os partidos políticos.. pois não reconhecemos partidos: “reconhecemos a Nação. de modo a escapar ao dominio estrangeiro.) Os municipios devem ser autonomos em tudo o que respeita a seus interesses peculiares.. Declarando-se combatente dessa política. p. quando este tentou moralizar as administrações municipais..7 .. bastante discutida no período entre-guerras. porque o municipio é uma reunião de moradores que aspiram o bem 163 estar e o progresso locaes”. Dentro desta visão. como um cancro.Ibid. (. Alguns itens do “Manifesto de Outubro de 32” atraiam outros setores da sociedade. que não estavam satisfeitos com as interferências do Governo no pós-30.. conhecida como “Política do Café com leite” ou “Política dos Governadores” com suas fraudes eleitorais e voto cabresto. para vêr fructificar os seus esforços. solidamente construida. No caso brasileiro. a crise da liberal-democracia devia-se não apenas à sua incapacidade de lidar com o problema social.Ibid.94 A descrença nos partidos políticos era outro componente em destaque dos males da Primeira República.3 163 . para progredir em paz. criadas pelo Interventor.) Nossa Patria precisa de estar unidade e forte. que a ameaça dia-a-dia.p.

95 classe média nacional e local também enfrentava o dilema da crise liberal e do perigo comunista. os advogados. os marinheiros . o imperialismo russo. Aqui. o tapuio amazonico. os trabalhadores de todas as estradas.) unir todos os brasileiros num só espírito. operariado de todas as regiões. capichabas. colonos sitiantes. paroaras.SALGADO. Levantamo-nos num grande movimento nacionalista. hervateiros do Paraná e Santa Catarina. calús. principalmente. apontado 164 . que representa o capitalismo sovietico.) nós somos contra a influencia do communismo. dentro do conturbado contexto que precedeu a Segunda Guerra Mundial.3-4 .. o sertanejo das provincias nortistas e centraes.. para as questões de defesa ideológica. garimpeiros. Goyaz. Folheto citado. O nacionalismo do integralismo expandia-se. vaqueiros.. De um lado.. o integralismo passava a ser visto como o único movimento de caráter nacional capaz de fazer frente ao avanço do comunismo em meio à agitação nacional. a polícia se encarregava de divulgar a ação dos comunistas nas fábricas e comércio. (sic) Matto Grosso. para afirmar o valor do Brasil (. aggregados. em virtude da instabilidade política do pós-30. funccionarios (sic). p. gauchos dos pampas.. os boiadeiros e tropeiros de Minas.. o integralismo alimentava essa imagem perigosa do comunismo. do outro a ação governo se encarregavam de confirmar tal perigo com “provas” resultantes da ação policialesca. pequenos artifices de São Paulo.) Eles se envergonham do cabloco e do negro da nossa terra (. os soldados. calungas..todos os que que ainda têm no coração amor (. os caiçaras e piraquaras.) e 164 entusiasmo pelo Brasil. Assim. Plínio. Como em Pernambuco as autoridades propagavam uma imagem bastante ameaçadora do comunismo. os professores.(. a mocidade das escolas. que pretende reduzir-nos a uma capitania. os artistas. o nordestino. os medicos.. influenciados pelas idéias nacionalistas do entre-guerras e enfrentando a crise local. os defensores do nacionalismo se sentem atraídos pela proposta nacionalista do Integralismo: Os nossos lares estão empregnados de extrangeirismos. engenheiros.

espirituais e nacionalistas . Segundos os integralistas. Ella (sic) é a base da felicidade (. eis o que é a familia.. . facções locaes..6-7. op. a mulher nos empregos e na vida moderna colocava em risco a estrutura da sociedade e ameaçava a produção nacional porque desequilibrava as famílias e. base da sociedade pernambucana: Tão grande é a importância que damos às Classes Productoras (sic) e Trabalhadoras. a luta de classes e a agitação social: Pretendemos realizar o Estado Integralista. quanto a que damos à Familia. capaz de equilibrar todas as classes. entre o 165 .SALGADO.. anttagonismo entre policiais estaduais e o Exercito. as próprias classes trabalhadoras masculinas. O problema familiar era associado. segundo eles. Pelo projeto integralista. Em oposição à ação dos comunistas. economia desorganizada. Plínio. os males iam da inserção da mulher à penetração das idéias comunistas desorganizando o trabalhador. cit.além dos valores morais. numa nova reorganização das classes. estadualismos em lucta pela hegemonia.96 entre elas a causa das agitações e manifestações dos trabalhadores locais. entre o governo e o povo. Neste caso. fonte perpetua de espiritualidade (. a proposta integralista não se mostrou atraente para as classes conservadoras apenas porque defendeu soluções políticas e sociais para o contexto conturbado do pós-30. esperança de perpetuação no sangue e na lembrança affectuosa (sic). principalmente. Já no mundo do trabalho. livre de todo e qualquer principio de divisão: partidos políticos. sob um “Estado forte e autoritário”.a estrutura familiar e proprietária.) 165 Tirem a familia ao homem e fica o animal. p. o integralismo se propunha a proteger a propriedade privada de tais idéias. desenvolvendo o “espírito harmonioso”. caudilhismo.) estimulos de todos os dias. evitando assim o perigo à propriedade privada. mas também porque apresentou um projeto que defendeu . a solução para a crise estava centrada no sindicato corporativista. à questão liberal que teria posto em xeque o matrimonio com a mulher sendo absorvida no mundo do trabalho. luctas de classes.. antagonismos demilitares e civis..

Pensava-se o integralismo como : .LEFORT. ao mesmo tempo.. . propunham-se soluções dentro dele. Criticava-se o capitalismo.Ibid.. com uma nova proposta que não ameaçava as bases do sistema. 1974..8 168 . familiares e patrióticos sob um 167 governo forte. entre estes e a massa popular.. 166 . bem como pelo que acenava o integralismo como solução aos problemas internos do país. investir na preservação do velho. A Evolução. através da análise desses discursos. Claude.. Recife. 167 . podemos dizer que o Integralismo ganhou o campo político de Pernambuco na década de 30 porque se adequou aos problemas locais.) levantemos mais uma vez o braço forte. Esboço de uma gênese da ideologia nas sociedades modernas.) na realização da grandeza 166 do Brasil (. Out. Tradução de Marilena Chaui..97 governo e intelectuais. que não resguardasse os valores espirituais. p. que o “Manifesto de Outubro de 32” deve ser melhor compreendido pela mentalidade da época entre os intelectuais e a sociedade. (. p. E porque defendia uma proposta coerente com os anseios da sociedade. Maio de 1935.“A Flama Verde da Esperança”.p.. Para estes. especialmente pelo seu discurso cristão. e descansaremos à sombra do manto verde 168 as fadigas passadas.1. mas. Estudos CEBRAP 10. todos os scientistas(sic). Em Pernambuco. Ano II. à vista dos brasileiros naufragos condenados pelos desgovernos dos traidores. Dez. Pelo que destacamos até o momento. Basta de tormento e de luta (. todos os profissionais (.uma flama verde de esperança se estende no litoral hospitaleiro..8.) e influir mesmo no Mundo. todos os artistas. nov. anticomunista e antiliberal. Alguns autores afirmam que o sucesso da proposta integralista ocorreu porque esta se ocupou em denunciar a decomposição da ideologia burguesa e de lançar medo na ideologia comunista. o integralismo tornou-se atraente também porque se ocupou de propagar a impotência de qualquer outra forma de governo. pelo que se buscava no campo das esperanças políticas e sociais. constatamos.. prometendo.) Pretendemos mobilizar todas as capacidades technicas..

. o integralismo atendia. e muito. entre eles membros da Igreja Católica também viam algum significado no integralismo. promove um retorno aos discursos de valorização do espírito sobre a razão e o materialismo capitalista.Editor. São Paulo: Companhia das Letras. em 1934. e. garantindo que “Deus dirige os destinos dos homens e do universo”. 1994. p. O apoio desses grupos ao integralismo.357 170 . da Juventude Católica (JC) e outros grupos laicos apoiados pelos reformadores da Igreja no Estado. de orientação protestante. 4 ed. Chatô: o rei do Brasil.. existe Alma. encontro na arranda de sua mocidade um emocionante ponto de contato com o programa dos ‘Diários Associados’: ‘a unidade política e espiritual do Brasil’. Os 169 integralistas ofereciam um espetáculo de fé e esperança. Fernando. aos fins pretendidos pela Igreja Católica. Rio de Janeiro: Schmidt . levara setores protestantes da sociedade a reagir contra o integralismo. Segundo os protestantes. declarando-o uma “Ação Intrigalista Brasileira” que teria vindo para fazer renascer a inquisição. pois para esses “. o Jornal O Escudo.p. os membros da Ação Universitária Católica (AUC). pelos católicos do estado. situado no Rio de Janeiro.” Segundo os depoimentos..MORAIS. também aprovavam o discurso espiritualista do Integralismo. e mais tarde. por outro lado. da Ação Operária Católica (AOC).existe Deus.SALGADO. Pátria e Família”. inimigos da Igreja desde a Idade Moderna. pois. as grandes famílias tradicionais do Estado viam no lema do movimento as três palavras mais caras para a sociedade pernambucana: “Deus. os integralistas projetaram uma imagem de unidade e fé.. Em 1933.98 Segundo Fernando Morais. A concepção de homem e de universo defendida pelo “Manifesto de Outubro de 32”. principalmente. Plínio.37 . como consequencia natural. com essa também se posicionam os intelectuais católicos ligados ao Centro Dom Vital. o 169 .mesmo divergindo dos pontos cardeais da ideologia integralista. o integralismo passa a ser assimilado entre os que defendem uma concepção de sociedade na qual o espírito divino se sobrepõe sobre as ações humanas guiadas pela mão divina. tudo se relaciona com 170 estas duas idéas. Dessa forma.” Os grupos católicos de maior representatividade no estado são os que fazem parte da Ação Católica Brasileira (ACB). como nos diz: “. Elas eram repetidas. O que é o Integralismo. 1937.. além de simpatizarem com o discurso anticomunista do movimento que combatia o ateísmo..

Não.) . (. é o massacre.10. é a castidade. é o heroísmo. Ano I n. é o defloramento da massa..1934. das tradições nacionais. A esquerda é a violência. unica e exclusivamente. em face da questão religiosa..) Não apoiamos este movimento porque a sua implantação entre nós importará na extinção de nossa liberdade. esse periódico circulava as seguintes idéias de Plínio Salgado: Todos os paises estão apprehensivos.) O sonho dourado da Igreja Católica é tornar-se a religião do Estado para ‘salvar o Brasil’ o integralismo faz-lhe a risonha promessa de torna-la oficial (.“O Integralismo e a Igreja Evangélica”. é o pudor individual e colletivo. . Em 1936. Também não encararei quanto à solução que pretende dar à debatida questões social. é a blasfêmia. é o golpe cruel. 11. é o incêndio. é 171 .. A Revista Fronteiras é outro lugar de produção de sentindo dos discursos integralistas articulado na fronteira entre o político e o religioso.º. é a virtude. 3. é o sacrifício. momento de auge da atuação e expansão do integralismo no Estado.. é a religiosidade. nem suas pretensões governamentais. A direita é a união sagrada em torno da bandeira da Pátria.99 Jornal Evangélico do Recife . Recife. é o assassinato frio. E então adeus liberdade! A Idade Média ressurgirá com ‘todo o esplendor de suas 171 belezas’”. Analisa-lo-ei. é a delicadeza do sentimento.A Defesa expressam suas leituras dos discursos e propostas integralistas: Não vou aqui analisar o integralismo sob o ponto de vista econômico. problema que nos interessa sobremodo e que entra nas cogitações dos ‘senhores integrais’(. sentem que estão se approximando os tempos em que cada qual deverá tomar o seu logar na esquerda ou na direita.. é o sangue organizado. Todos aquelles que acreditam em Deus.. A Defesa.

agosto de 1936. Arquivos da Cúria Metropolitana do Recife. (Jornal integralista de divulgação da AIB na cidade de Pesqueira). nos seus livramentos geraes. 173 SALGADO. se dedicava a publicar notas do pensamento religioso e da família que compunham os discursos integralistas. somos a dignidade da Nação. na cidade de Pesqueira. In: A Marcha. Somos extremistas no culto 172 das virtudes. p. 16.100 a honra de uma nação. Chamam-nos extremistas (. que importa tenha a nossa Patria por castigo sobre os mãos. (. 174 Ibid. “Perante Deus e Perante a Patria”. pelo seu livre-arbitrio. Desta forma.. Recife: APEJE. sem possuirmos uma elite realmente adextrada que esteja em condições de por em 172 “Plínio Salgado”. temos cumprido o nosso dever. porém Deus conduz a sociedade..) por toda imensa carta geografia da Patria. o ideal católico presente no discurso integralista foi particularmente influente na intelectualidade católica.3. para que Ele vos guarde e 173 vos inspire. o jornal A Marcha. pelas quais se pode reforçar a verificação do investimento da AIB nestes campos: Si é verdade que a creatura humana se move. Em janeiro de 1936. 22 de janeiro de 1936. sob a direção de Everardo A. de passar atravez de desgraças imprevisiveis? Agora. Fronteiras.) somos extremistas em nosso amor a Deus. Pela revista A Ordem. os povos.. como amanhã. p. anda hoje um balbucio de preces que elevam a Deus. christianizando a nação e o Estado. Pesqueira. P. então. sofre com a revolução integralista. que sofre com o mundo. Essa “Nação protegida por Deus” seria. um pressuposto importante para o bem das famílias: “A gente desse Brazil.. Esse tipo de propaganda integralista alcançou grande sucesso nos meios católicos e entre as classes tradicionais da sociedade. . Recife. Maciel. “é inútil tentarmos influir no governo do paiz. na qual a proposta integralista foi bem aceita. alguns intelectuais católicos defendiam que. vae afirmar os 174 direitos da família”.

p. quanto nos meios católicos temos a imbricação dos discursos anticomunista e antiliberal revelando a interdiscursividade. Plínio Salgado destacava-se diante de outros líderes políticos porque era 175 “Dever Cultural”. abril de 1932.) era bem o retrato do Brasil..4 . (.” Além desse discurso imbricado entre o político e religioso. 26. de Pátria.) seu nome é quase um simbolo e o observador criterioso dos nossos problemas não pode contemplalo. com desdém que em nós provoca o espetáculo cotidiano dos nulos. A questão da confiança na moral. “Um Chefe . jornal que posteriormente mudou seu nome para A Tribuna. em 23 de maio de 1934. Recife. José da Costa. que marcava o efeito de sentido dos discursos integralistas entre os católicos. 176 A Tribuna Religiosa.1934. Plínio Salgado. 177 . Ação .09.101 movimento as grandes massas eleitoraes. A Ordem. Recife.PORTO. A Tribuna Religiosa.Plínio Salgado na literatura brasileira”. APEJE. nº. na palavra dada era um costume da época que pesava na avaliação dos indivíduos. como governante supremo do destino dos povos. publicou o seguinte: “Ação Integralista Brasileira inscreveu como princípios fundamentais da sua doutrina de conceitos eternos de Deus.) O literato 177 do Brasil (. 30.. foi um homem de família altamente religiosa. Para os simpáticos do integralismo no Estado. criado sob rígidos valores moraes. Recife: APEJE.. além de grande literário e nacionalista da década de 20 e 30.Quinzenário de Propaganda Integralista. Expressando a união das idéias defendidas por ambos. Costa Porto colocou em palavras precisas a imagem que se tinha de Plínio Salgado no campo da literatura e sua projeção nacional: A figura de Plínio Salgado avulta com o brilho inconfundivel dos valores reais (. que tinham definido sua personalidade. Recife.. realidade natural e imperecível que as teorias internacionalistas do judeu Marx e de seus 176 sucessores não conseguiram nem conseguirão destruir jamais. Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Olinda e Recife.” Tanto entre os integralistas. é importante destacar a figura de Plínio Salgado que aqui em Pernambuco será reproduzida como um intelectual carismático cuja ação literária ultrapassa o campo das reflexões e vai passa a se dedicar ao campo das ações políticas. Segundo os depoimentos. em torno de nossas idéias 175 constructoras...APEJE. 23 de maio de 1934. .

era absolutamente necessário para organizar a vida política do país.. morais e religiosos. tudo o que fizesse ou dissesse seriam sempre considerados como verdades. J. Afinal. Para os integralistas. de Palavra e de Fibra (..) foi uma filosofia para 179 o povo brasileiro . Com esta imagem e discursos. especialmente dentro do contexto de descrença política do pós-30. com isso ingressou quase totalmente toda a classe alta. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. e era justamente o que o partido apresentava: Deus. Plínio Salgado e a Ação Integralista Brasileira projetaram-se com grande impacto na sociedade pernambucana desde a cidade do Recife às cidades do interior do Estado onde passou a implantar núcleos que obedeciam as diretrizes da organização burocrática do movimento. Neste momento de descrédito nos partidos políticos.o país naquele momento precisava de caráter. trabalhar pela Pátria e pela sua família. a sociedade de modo geral aceitou (.um homem de Vergonha. Plínio Salgado e o integralismo significavam uma esperança de moralização do campo político.01. e os defendia muito bem dentro da trilogia do movimento: “Deus.F.) 178 sentiamos que podíamos confiar nele.... Pátria e Família. Resultado.102 considerado: “. as oligarquias continuavam atuando em seus domínios. de moral...”.1994. que resguardava todos os valores ameaçados: .. 179 . 07. J.BRANCO. Pátria e Família”. ameaçando voltar ao poder nas próximas eleições e o comunismo ameaçava tomar conta da situação. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. O indivíduo crê em Deus. Naquele momento. 178 . . A disciplina e militarização do movimento eram apresentadas como os pontos fundamentais da seriedade do movimento e um modelo do que seria o Estado Integral. Plínio Salgado tinha respeito aos valores nacionais. muitos acreditaram que o autoritarismo que permeava o discurso do movimento e do Chefe Nacional.. C. novembro de 1994. que a “Revolução” de 1930 não havia conseguido resolver... Cabo. um novo dentro do velho. de dignidade.SARAIVA. Por isso. Significava uma esperança de mudança sem ameaçar o sistema. Recife.. as classes pareciam agitadas e em conflito com os líderes revolucionários.

Visto que. de onde saiam os intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. se em Pernambuco o movimento foi recepcionado entre intelectuais católicos. onde o integralismo conseguiu instalar núcleos com o apoio dos estudantes da Faculdade de Direito do Recife. os departamentos e secretarias responsáveis por determinada função enviavam ordens do Chefe Provincial para os chefes municipais. na “Província de Pernambuco”. como era chamado o Estado de Pernambuco pelos integralistas.103 Por outro lado.” Tratava-se de adotar certas estratégias políticas. Nesses núcleos houve casos de desobediência tolerada. não podemos deixar de fazer referências às famílias católicas e tradicionais do Estado. a burocracia e autoritarismo do movimento atuaram sob condições locais bastante complexas. e estes para os distritais. Em certos casos. porque muitos temiam envolver-se num projeto político que não tivesse o apoio do poder local. que tinham certa independência econômica e política. isto não significava que o movimento tivesse perdido seu sentido doutrinário de formar a nação integral acima das forças particulares. condicionadas ao apoio dos chefes locais. as dificuldades para se instalar um núcleo eram bem maiores. Muitas vezes. Em grande parte das cidades. onde foram instalados núcleos integralistas. para que os núcleos fossem instalados e funcionassem com sucesso os integralistas precisavam do aval das grandes famílias locais. a atuação e expansão do movimento ficavam. Uma vez que. Devido a essa questão. principalmente as mulheres e crianças que faziam parte da ala feminina e dos plinianos do movimento no Estado. a quantidade de adeptos era pequena em relação aos núcleos da Capital. Para os lideres do integralismo. No interior do Estado. implantar todas as normas rígidas do movimento sobre os membros de certas cidades significava arriscar-se a perder os poucos adeptos que havia conseguido. que não eram cumpridas. Alguns chefes integralistas diziam nas reuniões. . então. No interior do Estado. especialmente entre os economicamente dependentes. que se tratava de “ceder aqui para que o movimento cresça ali. para enfrentar as dificuldades locais. O apoio do chefe de família era fundamental para o sucesso do integralismo no Estado. comerciantes e outros profissionais liberais. Especialmente nas cidades do interior do Estado. nestas cidades as condições não eram tão favoráveis quanto no Recife. onde o mandonismo local ainda era muito forte. Este fato levou o integralismo a funcionar sob normas menos rígidas nos núcleos das cidades pequenas do que em outros núcleos instalados no Recife. Sendo esse integralista todo o resto da família aderia.

quer no Provincial.Excia o donativo de 500$000 (quinhentos mil reis) feito ao nosso movimento por intermédio do nosso companheiro Dr. 180 . (o grifo é nosso) A AIB em Pernambuco recebeu outros auxílios de proprietários locais que não eram inscritos na organização integralista. quando os proprietários locais apoiavam. conforme dita o Estatuto da Ação Integralista Brasileira. 181 . que determina ser: expressamente vedada à Ação Integralista Brasileira. e.“Donativos”.) A Ação Integralista Brasileira manter-se-á pela contribuição de todos os 181 integralistas. . Contudo isto não impedia que o integralismo recebesse os donativos oferecidos.Dr.º 4938 .” É importante destacar que. quer no ambito Municipal.) venho agradecer a V.“Da vida economico-financeira da Ação Integralista Brasileira” Estatuto da Ação Integralista Brasileira.Sr. Alguns proprietários que simpatizavam com o movimento emprestavam caminhões para levar os integralistas do local para desfiles e comícios no Recife.. Jornal Ação 14.1934 .. Prontuário Funcional n. Entretanto. recusavam-se a vestir a “camisa-verde” e a inscrever-se na AIB-PE para não se comprometer com outros acordos políticos locais. Entendemos que.Secretaria Provincial de Finanças. Francisco Lopes Filho. O apoio destes proprietários locais era muito importante para o sucesso e expansão do movimento em determinadas cidades do interior. ou municipais (. Chefe Provincial de 180 Pernambuco. receber donativos cujo volume. Donativo: Em nome da Ação Integralista Brasileira (. por excessivo. venha criar compromissos moraes e diminuição da autoridade do chefe nacional ou dos chefes provinciais. como se pode ver pelos documentos da AIB-PE: “Exmo. Belmiro Corrêa de Araujo.... os chefes integralistas eram obrigados a adotar posturas “flexíveis”.104 não resultando.APEJE. diante das dificuldades locais e para não perder os poucos elementos conseguidos. como era de se esperar pelos deveres dos integralistas..10. principalmente no Nacional. na eliminação dos membros desobedientes. essa também era uma postura contraria às normas do Estatuto da Ação Integralista Brasileira.DOPS.

Os investigadores do delegado ficavam olhando a gente de longe. onde os indivíduos apresentavam-se com uma postura do tipo militar: fardados. marchando e cantando o Hino Nacional. Bezerro.. que enfrentava o regime e o governo instituído. José Antonio Mello. Segundo depoimento do Sr. além de garantir novas adesões entre membros de sua família.1995. cooperavam até vendendo galinhas para participar das conferencias do Recife. este fato não muda o temor que tinham de ingressar numa organização do tipo do integralismo. esse tipo de apoio significava ajuda financeira e material para o funcionamento do núcleo. mas sua adesão estava ligada à simpatia ou adesão do seu patrão.. Muitas vezes.MELLO... 182 Faltou apoio do povo e do exército. líder integralista em Bezerro. O povo tinha vontade de 182 ...) Tinhamos muita esperança no movimento. Mello. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. eles podiam até simpatizar com o integralismo. . trabalhadores e agregados. Tinhamos muita esperança no movimento (.”.) eramos agricultores da região e tinhamos parentes na prefeitura local (. Devido à sua situação de dependência.. amigos.105 Como se pode daí aferir. porque minha familia era muito respeitada aqui e ninguém se atrevia a bulir com a gente. Outras familias aderiram porque meu pai apoiou (. Entretanto. foram poucos os trabalhadores rurais que aderiram à AIB-PE: Além de simpatizar com as idéias do movimento o cabra tinha que ter coragem para enfrentar o chefe local. eramos muito jovens e sonhadores. estava a adesão dos trabalhadores nas cidades do interior. Nestas cidades. Eu entrei somente porque queria uma nova organização política para o Brasil e pela religiosidade do movimento.. mais cautela havia. 14. Vinculada a essas questões. Como nos disse o Sr. Poucos se atreviam. alguns empregados do campo também aderiram. “movimento quanto maior.) foi um grande sonho. participavam sem ninguém obrigar. José Antonio A. o integralismo chamou a atenção com suas “caravanas” e desfiles. Eu tive sorte.10.

O que se percebe é que nas cidades do interior do Estado de Pernambuco os meios de comunicação eram muito precários e os jornais não circulavam entre a população. Esses eram mais comentados pelos intelectuais que mantinham contato com o contexto externo. que o lema “Deus. a ameaça às raízes cristãs e ao avanço do comunismo como conseqüência da crise liberal do que idéias fascistas de um partido de massa aos moldes italiano e alemão.106 participar. desordem e ameaça das tradições do que em Hitler e Mussolini. a conjuntura externa é muito pouco citada entre os documentos de Pernambuco. alguns dos quais não foram citados aqui. . 183 Esperavam a decisão dos grandes. De modo geral. ficando essa mais alheia ao que se passava na Europa. O governo e os lideres locais integralistas se dedicavam a propagar no Estado muito mais a desordem espiritual. Também suas famílias dependiam de seus informes em épocas de férias e visitas desses intelectuais. constituem a base de atuação e expansão do integralismo no Estado de Pernambuco. principalmente. Pátria e Família”. para depois se posicionarem. o discurso comunista os mais repetidos e que produziam sentido nessas cidades e entre essas famílias. então.Ibid. sendo muito mais repetido o avanço comunista e a desordem da sociedade brasileira após a “revolução de 1930”. entendemos que o anticomunismo e o antiliberalismo em favor da preservação dos valores católicos e da estrutura famílias. Pelos documentos da AIB que circulavam nas cidades do interior do Estado destaca-se com grande repetição o ateísmo do comunismo como um dos males que assolava a sociedade. Assim. Fala-se muito em anarquia. foi o discurso católico e. assim como nas cidades grandes. como um lugar de produção de sentido dos discursos integralistas por uma série de fatores internos. De qualquer maneira. 183 . mas também tinham medo das conseqüências políticas. sendo a ameaça sobre a propriedade privada a segunda queixa. A sociedade pernambucana se caracteriza.

propondo formas novas de enfrentamento das temáticas da “velha ordem aristocrática”. econômico e político. identifica na década de 1920 a eclosão das condições históricas e intelectuais que dariam origem aos confrontos político-ideológicos das décadas seguintes. A mentalidade revolucionária inspira-se no aspecto fáustico. Brasil Repúblicano. social e estético. criador. finalmente. Sua tradução no plano político é invariavelmente voluntarista. 3 . Os temas da identidade nacional e da realização histórica da Nação se apresentaram à juventude como chamamento à realização da tarefa de salvar o Brasil do arcaísmo social. Sociedade e Instituição a (1889-1930). conquista e permanência no poder.) Historia Geral da Civilização Brasileira III. Bolivar de. carismático. O LEGIONÁRIO INTEGRALISTA: um novo homem para uma nova era 184 Raimundo Barroso Cordeiro Júnior (UFPB) A historiografia brasileira. p. « Um pensamento Político Autoritário na Primeira República. possibilitando o surgimento de um número considerável de projetos políticos reformadores. 2º volume. parte da juventude das grandes cidades brasileiras deixou transbordar suas expectativas político-reformistas. do Romantismo. permitindo que se constitua um imaginário revolucionário nas gerações que vivenciaram aquele momento de voluntarismo e engajamento na questão nacional. Rio de Janeiro: Difel. quer em sua forma 185 anarquista. In : FAUSTO. 362. quer. Esse período é apresentado como o cenário da emergência de correntes de pensamento político. esteticista. mobilizante quer na deificação fichteana da Nação e do Estado. Uma Interpretação ». no mito soreliano. Tomo III.107 5. edição. Modernizar significava. A ação política vai estabelecer a tonalidade da colorida efervescência daqueles anos. culminando com a “revolução de 1930”. em suas diversas abordagens. redimensionar os critérios políticos de acesso. Boris (org. 1977. para além dos limites do circuito fechado das 184 Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba. . 185 LAMOUNIER. pois. Nas primeiras décadas do século XX.

edição. ditadura do proletariado etc. crenças partilhadas por membros de uma sociedade. 11 . O nacionalismo é o principal mediador e o elo comum entre os projetos que se rivalizam nos anos 1930. a linguagem e os símbolos políticos que atuam sobre as instituições e definem as práticas e as forças políticas de uma sociedade. Conf. hora de conflitos entre os políticos tradicionais e os novatos.). Ele se apodera dos participantes da Revolução: tenentes. Giacomo. Antes dirigidos hegemonicamente pelo anarquismo. Gianfranco. “Cultura Política”. Varriale et al. Dicionário de Política. as normas. Ceará e outros locais. Foi a hora das legiões revolucionárias em São Paulo. Durante algum tempo. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. foram arregimentados os pensadores militantes que se confraternizavam em torno da busca das raízes da nacionalidade. a MATTTEUCCI. normas. sob a direção de tenentes onde doutrinários como Francisco Campos. Norberto. Nicola. líderes políticos. Compõem a cultura política o conhecimento. PAQUINO. O nacionalismo virou regra geral para o ativismo das novas gerações preocupadas com a reconstrução do país. In: BOBBIO. Tradução de Carmen C. . pedra de toque de outros clubes pelo quais os tenentes desejavam conquistar a opinião pública e acertar suas próprias divergências. cuja profundidade foi atestada pela Revolução paulista de 1932. do Clube 3 de Outubro. SANI. chefes locais. os trabalhadores urbanos assalariados encontrarão no Partido Comunista uma opção a mais para mediar os conflitos com os patrões. Esse novo universo social se constitui na mesma dinâmica em que seus membros se fazem como sujeitos de uma nova cultura 186 política . agremiações literárias ou simplesmente confrarias boêmias. 1998. Dessa forma. o ativismo foi proporcional à incerteza sobre a verdadeira orientação do governo provisório.108 sociedades culturais. Minas Gerais. devemos entender por cultura política o conjunto de atitudes. O ativismo conquistou 186 Segundo Sani. pp. aproximavam-se em torno da noção de realidade nacional para dela tirar os ensinamentos emancipatórios da Nação. tendo como objeto fenômenos políticos. as tendências. atingindo uma amplitude significativa no seio da sociedade. Daí surgirão os movimentos políticos que definirão a intensidade das mudanças. nas décadas iniciais do século XX. mesmo que os objetivos fossem diversos e opostos (democracia liberal. a exemplo do Partido Comunista como novo elemento no interior das lutas pela organização e mobilização do operariado. 306-308.

A entidade teve sua criação oficializada em 1931. Entre o Povo e a Nação. Edgard. 1990. sua direção e métodos assemelham-se aos dos movimentos fascistas fato que o aproxima 188 logo a Plínio Salgado. cuja militância se dirigia à organização e mobilização de trabalhadores.A Legião Cearense do Trabalho É na esteira das discussões e expectativas desse contexto de ebulição de idéias. a Legião Cearense do Trabalho consegue a adesão do operariado. A Legião Cearense do Trabalho. católicos. 295296. . do desvirtuamento moral em função do oportunismo e dissimulação dos políticos profissionais e da ignorância geral sobre o verdadeiro Brasil. reacionários ou revolucionários. posto que o entendia como caudatário da inoperância proposital dos parasitas do poder.. p. desencadearam movimentos e sonharam com a tomada do 187 poder. 1974. Cf. 188 CARONE. até as associações de profissionais 187 PÉCAUT. ao fim dos anos vinte. MONTENEGRO. João Alfredo de Souza. 1986. jovem tenente de orientação católica. que surge a Legião Cearense do Trabalho (LCT). 115. Enquanto as outras agremiações pretendem o apoio da pequena burguesia. O Integralismo no Ceará. p. A Segunda República. 189 Segundo MONTENEGRO. passou. a enveredar pelos caminhos do engajamento partidário. 75. formado no interior da Reação Católica e 189 movimentos de recristianização. Ótica. São Paulo: Ed. Variações Ideológicas. a formação católica de Sombra baseou-se em Santo Tomás de Aquino. . antecessor da Ação Integralista Brasileira criada por Plínio Salgado. IOCE. A ação militante da intelectualidade. de maior ou menor envergadura. Bardieff e Bergson. dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil. Fortaleza. Os Intelectuais e a Política no Brasil. muito freqüentemente adversária do exercício puramente político. 2. São Paulo: Difel.109 também os intelectuais. movimento político filiado ao pensamento catolicismo integral. após a “peregrinação” política de Severino Sombra.. Daniel. fundaram centros. p. criado pelo tenente Severino Sombra. que aderiram às legiões.

190 Os fundadores da Legião Cearense do Trabalho aproveitaram os espólios políticos da Aliança das Classes Trabalhistas e da União Operária Cearense. Sebastião Rogério Barros da. empregados da Light. enaltecendo a fraternidade acima das desigualdades acidentais. Essas associações quase sempre possuíam uma estrutura ainda ligada à tradição do mutualismo e do assistencialismo. Demonstrar às outras classes a exeqüibilidade deste projeto através da apresentação do operariado cearense “docilizado” e coeso. Através da valorização do trabalho é possível construir o mundo ético ideal. automobilistas. sapateiros. congregando cerca de 9 mil associados.110 existentes em Fortaleza. lavadeiras e pedreiros. entre outras. Muitas destas associações eram de natureza beneficente. . alfaiates. as seguintes: tecelões. As categorias profissionais que pertenciam ao elenco de sociedades inscritas na Legião eram. engraxates. Fortaleza: NUDOC . Ver : O Legionário. incluindo dezenas de “Círculos Operários e Trabalhadores Católicos”. ambulantes. 5. (1930-1937)”. bombeiros. a partir de uma pauta de reivindicações que inclui bandeiras tais como co-gestão e divisão de lucros nas fábricas. (mimeo. empregados em hotéis e cafés. 2-3. Apesar do conservadorismo evidente do movimento legionário.) p. a sua prática sindical demarcou pontualmente bandeiras políticas aparentemente “avançadas” para a época. a LCT o define como elemento de propagação da possibilidade efetiva de construção de uma sociedade regida pela colaboração universal. junho de 1933. trabalhadores portuários e gráficos.Universidade Federal da Ceará. representando os interesses de elementos ligados ao trabalho assalariado e autônomo no Ceará. p. 191 190 A opção pelos trabalhadores revela a importância atribuída ao trabalho pela LCT. Da mesma forma. passa a ser então a estratégia política de reconhecimento social da direção legionária. a influência do pensamento tenentista sobre a doutrina legionária reproduzirá uma atitude de voluntarismo e bravura em face da causa da salvação do país e à construção da Nação. padeiros. 191 PONTE. Ao incorporar o operariado à sua doutrina. Dessa primeira iniciativa foram conquistadas as adesões de 11 associações de diversas profissões. ambas inativas no início dos anos 1930. “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho. carpinteiros. O discurso legionário valoriza a necessidade de um instrumento de coerção social exterior ao indivíduo. 1990. considerado como elemento mediador das novas relações sociais que serão instauradas na nova era.

não reconhece a burguesia. A centralidade do trabalho no discurso legionário tem seus vínculos com a origem católica do movimento. a sinceridade e o desprendimento de como agimos. elle trabalha para manter a sua vida e a de sua família com a dignidade que lhe exige sua condição de ser racional e livre. em sua causalidade como em sua finalidade. O trabalho é «pessoal e necessário». apenas o bem social.111 Entretanto. enfatizando os seus aspectos ideológicos orientados pelo humanismo cristão. os “humilhados”. Envolta num indifferentismo criminoso e de uma ingratidão lastimável. quando ella é que seria a grande prejudicada na victoria do communismo. por conseguinte. por intermédio de sua humildade e aquiescência à ordem natural das coisas. nem sempre recebeu das classes proprietárias a compreensão e o apóio que esperavam pelo esforço de organização dos trabalhadores em torno da política de colaboração entre as classes. são pegos de empréstimo à causa da LCT como exemplo de boa vontade. o 192 O LEGIONÁRIO. p. e permanece hostil ao nosso movimento dizendo-se paradoxalmente. . E elle a faz. Executando uma obra o homem põe nella sua própria pessoa. Mesmo em condições sociais adversas o homem pobre demonstra. A forma como a intelectualidade legionária pensa o trabalho e projeta o trabalhador procuram se diferençar substancialmente dos demais ideários políticos do período. 02. anti192 communista. procurando reunir as classes trabalhadoras e orientá-las num sentido de ordem. O homem realizando-o deixa-lhe uma marca humana. Este elemento concederia ao ideal legionário a autoridade e reconhecimento por parte daqueles que ansiavam por uma alternativa sociopolítica para a sociedade brasileira. Assim. sem nenhum interesse individual (grifo d'O Legionário) tendo em vista. os “injustiçados”. sua superior altivez ao ensinar aos “acidentalmente diferentes” o caminho para a harmonia universal. 18 de maio de 1933.

O projeto de valorização do trabalho e do trabalhador. expressa sua essência autoritária. o bruto. O Estado é a fonte e 193 SOMBRA. tem o objetivo de despolitizar a Questão Social. Assim. p. portanto. uma união de homens livres. Esse contrato visa uma associação humana. Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. Severino. do seu valor moral e não pode. . A positividade do trabalho humano destrói as desigualdades acidentais entre os homens. com consciência moral e dignidade fundamental idênticas e não simplesmente a 193 coisa fabricada.112 trabalho está impregnado da pessoa humana.controle a dinâmica das relações entre pessoas. considerado como o elo integrador do social. simplificada na sua suposta natureza ética.o Estado . O Ideal Legionário. patrão e operário gozam do prazer de ver seus esforços serem consagrados no surgimento do produto. o Estado corporativista se transforma. ao passo que manifesta seu pessimismo em relação à natureza humana. A militância responsável para novos comportamentos sociais. 1932. Sendo o homem originalmente inclinado para cometer ações maléficas à existência coletiva. cuja exeqüibilidade somente é possível pela aceitação inconteste do princípio regulador do Estado e do intelectual tecnocrata. Por intermédio do estabelecimento de um rigoroso quadro ético-comportamental. ser tratado como uma simples mercadoria. o aspecto material da participação. estabelece o paradigma da colaboração e submissão política e técnica dos trabalhadores frente à intelectualidade vaticinada para comandá-los. 10. A obra realizada é uma obra coletiva do operario e do patrão que o dirigiu e forneceu-lhe o material necessário. quando transformado na ação que religa os homens e os liberta das ingerências imprevisíveis do mundo natural Ao mesmo tempo ressalta a infinita superioridade daqueles que se irmanam por ocasião do manifesto supremo de sua humanidade. a LCT propõe que um elemento exterior . enunciado fundante do ideário da LCT. A relevância dada pelo legionarismo ao Estado. pois. no sujeito instituinte de uma socialidade de tipo novo. o material. E a associação entre os dois não pode ser regulada por um contrato tendo em vista apenas a produção.

em hipótese alguma. com o intuito de dar prosseguimento ao projeto. passa a ser o propósito quase exclusivo do chefe da Legião. Tristão de Athayde recusa o convite. Para decepção do dirigente legionário. em julho de 1932.113 repassador de orientações éticas para o bom viver em sociedade e sua autoridade não pode. ser agredida por nenhum cidadão ou instituição da sociedade civil. Sombra buscava. Encontrar em São Paulo um aliado que acolhesse a proposta de se tornar o representante do movimento legionário nascido no Ceará. Sua finalidade explícita era mobilizar e organizar os trabalhadores do Ceará. e posteriormente do Brasil. A Legião Brasileira do Trabalho Passados os primeiros embates. conceito que abominavam”. Durante o primeiro semestre do ano de 1932. op. os principais aliados seriam Olbiano de Melo em Minas Gerais e Leão Sobrinho no Rio Grande do Sul. indicando o nome de Plínio Salgado. . p. Sebastião R. Entretanto. principalmente. Da. o apoio de São Paulo por sua importância no cenário político nacional. ficaram impedidos de realizar o encontro que certamente selaria a fundação da LBT. tendo iniciada a revolução constitucionalista de São Paulo. 3. através da implantação de um Estado forte e centralizado. a LCT pretendia organizar e educar o operariado cearense na defesa do trabalho contra os excessos do capital. A “Legião Cearense do Trabalho” foi mais uma das várias entidades que surgiram inspiradas pela vontade de redefinir os rumos da vida política nacional. aqueles que fariam da LCT e de seu chefe notícia política constante. “Definindo-se como antiliberal e anticomunista. mas 194 sem recorrer à luta de classes. B. dirigentes de movimentos semelhantes a LCT. Contudo.cit. contra os “excessos e injustiças do capital”. Tristão de Athayde será o primeiro contatado para assumir esse compromisso. conseqüência da velocidade com que se arregimentavam suas forças. 1. mantiveram correspondência Salgado e Sombra. Nos planos traçados para a deflagração da LBT. nos moldes da pregação do “Manifesto ao Operariado Brasileiro” de 1º de maio de 1932: 194 PONTE. A Legião Brasileira do Trabalho (LBT) seria a vitoriosa expansão do ideal Legionário por todos os estados do país. Severino Sombra vai amadurecendo a idéia de transformá-la em um organismo classista de dimensões nacionais.

outras Legiões. vindo a presenciar em pouco tempo ampla repercussão dos ideais integralistas. S. avante. Voltando ao Ceará com a finalidade de compor uma unidade político-militar de apoio aos constitucionalistas. a decisão de se aliar ao contingente político da AIB. oficializado na sigla Ação Integralista Brasileira (AIB). in: O Legionário. 10 de maio de 1932. doutrinária e institucional. mesmo antes de chegar a Fortaleza. . Portanto. sob o novo comando. Plínio Salgado divulgou seu manifesto no mesmo ano da revolução constitucionalista (1932). realizará o pacto de adesão aos princípios de Salgado. ressaltando sua independência política. a Legião Brasileira do Trabalho seja a grande organização victoriosas dos elementos trabalhadores. 01.114 Ouvi sua palavra. Operários. dentro da ordem. pela sociedade. 196 Severino Sombra permaneceu exilado em Portugal até o início do ano de 1934. marchando para o Futuro [sic]. Isto significa que cada 195 SOMBRA. Avaliando que os revoltosos paulistas pudessem sair vitoriosos do confronto com o governo Vargas . pelo 195 trabalho. sua prisão fora decretada pelo Presidente. e formae nos Estados. Ao chegar em São Paulo no momento da eclosão da revolução constitucionalista. Era certamente a oportunidade de manifestar sua oposição ao liberalismo da Revolução de 30 e especificamente a Vargas. subindo ao poder o também tenente Jeovah Mota. operários do Brasil. a LCT. A partir dessa campanha de consolidação do Integralismo. foi confirmada ao desembarcar no porto.o tenente Sombra passou a apóia-los incondicionalmente. passou a ser de natureza individual.isto é destituí-lo do cargo e de poder . em breve. Com a expulsão do líder fundador da LCT. para que. Severino Sombra vai sofrer a primeira e definitiva derrota política. que. Esta nova fase representa o período da aproximação dos legionários com o recém-criado Movimento Integralista. processou-se imediatamente sua substituição. cujas propostas de política sindical atentavam explicitamente contra o modelo organizativo legionário. p. . pelo Brasil. Seu fundador fora aquele mesmo que se comprometera com Sombra na construção da LBT. reivindicando justiça e offerecendo à Pátria sua collaboração honesta e imprescindível. lugar de onde partiria por um tempo de exílio forçado em 196 Portugal.

Princípios como corporativismo. o Integralismo está organizado e representado pela Legião Cearense do Trabalho! Os operários desta província são soldados fiéis e disciplinados 197 da Legião Integralista.115 legionário. a tentativa de dividir com Plínio Salgado a liderança do movimento integralista e. alimentado pelo desejo de mudar aquela instituição pelas bases e a partir dela mesma. pois. Severino Sombra o buscará a AIB. posteriormente. o que representa uma demonstração notória de empatia com o credo político de Plínio Salgado. a conquistar a chefia geral. confirmou sua participação nas hostes do Integralismo. 12 de agosto de 1933. frustrou-se no Congresso Integralista de Vitória naquele mesmo ano. 198 O rompimento foi motivado pela adesão de alguns legionários à Ação Integralista Brasileira. fato que merece relevância. Mesmo porque o antigo líder rompera com a LCT e sua nova chefia antes mesmo de findar o seu período de 198 ostracismo . ou a camiza verde oliva da mocidade pensante e laboriosa. 1. a maioria dos associados da LCT.) No Ceará. estiveram sempre em alta cotação no corolário doutrinário do legionarismo e do Integralismo. permitindo-se. O legionário pode vestir indifferentemente. a blusa mescla do Trabalho dignificante e dignificado. vislumbrar pontos de dissenso. O retorno de Severino Sombra ao Brasil não significou a retomada dos trabalhos e a direção legionária. cujo sentido aponte para um mais profundo conservadorismo político de uma das partes acordantes. patriótica e sadia. Chefe Jeovah Mota. Apesar das evidências manifestas no acordo de “cooperação mútua”. (. centralização política etc. revezando na medida das circunstâncias e solenidades as camisas.. teria a ampla liberdade de unir-se aos membros da doutrina do sigma. O seu substituto.. Apesar da articulação realizada em alguns simpatizantes. é o que se apresenta como perspectiva de autonomia da LCT. No entanto. Estado forte. Assim. p. ora cáqui ora verde-oliva. 197 O LEGIONÁRIO.. A aproximação entre as duas tendências reflete um grau de reciprocidade e parentesco de ideário. agrupada sob o estandarte do Integralismo. . se assim desejasse. consolidou-se no cargo conquistando o apoio e a simpatia dos comandados.

envolvendo os chamados sombristas e os simpatizantes de Jeovah Mota. No Ceará. manifestaram sua oposição radical ao Governo de Vargas. sempre que lhes foi conveniente. p. Enquanto sombristas e legionários se hostilizavam . 199 PONTE. a revolução que prometteu muito para fazer pouco. Em outubro de 1930 “quando triumphava a revolução.116 O desempenho político da LCT em seguida será ofuscado. op. pelo menos no que diz respeito à divulgação por intermédio da imprensa. emergiram novas organizações operárias como a Liga Operária Independente que combatia a dominação 199 político-ideológica da LCT. mais uma vez na expectativa de melhores janeiros. O Pensamento Católico Reformista A LCT nasce das preocupações de jovens sobre o destino histórico do país. no poder de dirigir as massas legionárias. ora para um sindicalismo mais autônomo e combativo (face ao crescimento das forças democráticas em torno da Aliança Nacional Libertadora. janeiros que não fossem comparados aos quarenta da velha República que só miséria trouxe aos infortunados párias desse colosso 200 de Brasil”. inclusive. por exemplo. p. da. 1990. liberais e antifascistas em 1935). 11 de março de 1933. . O declínio certamente atinge não somente as personalidades que garantiram a existência efetiva da instituição.chegam a acontecer brigas de ruas e invasões de sede .a conjuntiva nacional de 1934-1935 atraiu o operariado ora para o trabalhismo varguista.D. 8. socialistas. pela ascensão vertiginosa atingida pelo Integralismo. mas se verificou. as classes trabalhistas ficaram. Efeitos previstos em função dos conflitos vividos no interior daquela agremiação. orientando sua militância política pelo movimento de recristianização da modernidade realizado pela Igreja Católica através do apostolado leigo. 03.cit . frente única que articulou comunistas. Sebastião R. Esses moços antiliberais não apoiaram a Revolução de 1930 e. 200 O LEGIONÁRIO. 4.

(. Nas democracias modernas vemos a «hipertrofia do poder político. O envolvimento da LCT com a Igreja católica é determinante. Lutar para salvá-la da conseqüência última de todos os seus erros 201 do comunismo catastróphico e aniquillador. montada sobre normas e preceitos católicos. Dessa maneira. denotando o desapego moderno às coisas da espiritualidade. o repúdio do poder espiritual e a anarchia do poder econômico».) Lutar por esta humanidade jogada pelas tempestades que ella mesma semeou ao longo da história. inclusive para viabilizar sua fundação que se efetivou através do consentimento das autoridades eclesiásticas locais. desde o apontar da auto-affirmação individualista da Renascença até o repugnante technicalismo capitalista americano.) Pio IX 201 SOMBRA. op. burguesas e materialistas que marcham para o suicídio. .. (... A Igreja Católica apresentou suas críticas à modernidade. apresenta-se como a alternativa política para o liberalismo e o socialismo. Democracias individualistas. onde se recalca em termos explícitos a impossibilidade da Igreja de se reconciliar com a sociedade moderna. ressaltando o processo de abandono da esfera religiosa invadida pelo laicismo materialista. o pensamento legionário realiza a proposta para o apostolado leigo. elaborando um discurso que é a expressão organizada da Ação Católica. 1932. 12. inserindo-se nos planos de atuação da Igreja sobre a problemática do mundo moderno industrial. expondo as causas da desorganização social instaurada pelo capitalismo da Revolução Industrial e sua repercussão nos diversos aspectos da existência humana. porquanto tal sociedade quer excluir a Igreja e a religião da vida pública.117 A LCT representa um momento importante na história dos movimentos sociopolíticos nacionais. p. As premissas da concepção integral do catolicismo se encontram na Syllabus de Pio X (1864).. cit. Seu projeto de sociedade integral. S. Os quadros legionários são representantes de uma formação política oriunda da experiência da juventude católica.

intransigente.) Ela [«Rerum Novarum»] se tornou também o texto básico do catolicismo integral. em conseqüência. 11. depois assentando as bases para novas relações entre a Igreja e o Estado e. Os Intelectuais e a Política no Brasil. Gianfranco. 636. Daniel. 44-45. 1990. MATTTEUCCI. Émile. Norberto. primeiro visando a restaurar nas escolas católicas uma rígida disciplina de pensamento com o retorno à tradição tomista. p. p. Dicionário de Política. a Igreja se apresenta como defensora do povo cristão. dando sobretudo a ordem social cristã um conteúdo consentâneo com os dados concretos do tempo. “Integralismo”. que provocaram a desordem social. Leão XIII retoma a iniciativa.. de onde se originará necessariamente o movimento socialista. temor inspirado pela multiplicação anárquica de interesses particulares ou pessimismo devido à desorganização do social: eis o que levou grande parte dos 203 intelectuais a aderir a uma ideologia de Estado. que se revela. Desconfiança em relação ao funcionamento do capitalismo da época ou condenados por princípio de sua lógica. Contra a burguesia e a sua revolução. . das categorias mais pobres e desafortunadas. 203 PÉCAUT.(. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Nicola. PAQUINO. Ótica. In: BOBBIO.. Entre o Povo e a Nação. É reencaminhar os homens para os desígnios de seu destino glorioso. 1998. a partir de mecanismos da planificação estatal. com acentuados aspectos sociais. dúvida sobre a viabilidade do liberalismo político no Brasil ou antipatia doutrinária em relação às próprias premissas do liberalismo. São Paulo: Ed. esquecidas pela nova ordem 202 burguesa. ed. Reorganizar a sociedade implica em redirecioná-la para o combate à degeneração moral e ética vivenciada na “Idade Moderna”. somente possível de ser reencontrado pela recuperação dos laços de fraternidade e harmonia universais. É assim que se explicam as suas diversas intervenções.118 mantivera-se na defensiva. 202 POULAT. finalmente.

enraizados durante o Império e mantidos depois. Na teoria social cristã. mas significa que a teoria social cristã é. 205 PÉCAUT. basicamente. Henri Massis. Se o encontro desses jovens com os incansáveis peregrinos da Igreja conduziu parte da juventude cearense ao seio doutrinário do Integralismo. 1996. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Com a formação da sociedade católica se dará o cruzamento do destino político do pensamento legionário e os ensinamentos intercambiados pelos intelectuais do clero. uma teoria de 204 ação. certos bispos esforçaram-se para arrancar a Igreja de seus costumes de submissão diante do Estado. Os intelectuais devem se entender como “os bons e fortes” que se encarregam de reerguer os atingidos pela decadência civilizacional e corrigir “os maus e orientarem os transviados”. parece que há uma relevante colaboração daquela instituição religiosa na consolidação deste pensamento político. inicia-se um amplo processo de divulgação da palavra da hierarquia católica sobre as contradições do mundo moderno.119 O clima de guerra contra os desvios da humanidade é ressaltado na pregação aos jovens intelectuais católicos. 160. na medida em que devem encarar sua missão histórico-espiritual como uma cruzada em favor da recuperação da pessoa humana. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. portanto. bem como a capacidade dos agentes de escolher entre diferentes objetivos e projetos. cit. “Teoria social cristã”. o voluntarismo e o caráter intencional da conduta humana são enfatizados. ao mesmo tempo em que propõe um engajamento ao apostolado emancipador dos males liberados pelos tempos corrompidos. In: OUTHWAITE. Jacques Maritain e outros . Charles Maurras. e que seria dirigido sucessivamente por Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. Quanto aos intelectuaisleitores de Joseph de Maistre. William e BOTTOMORE. 27-28. as injustiças. Daniel. A partir de então. Francis P. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. op. p. Os equívocos. reduzir os intelectuais que sem dúvida. p. A partir de 1916. . Léon Bloy. 1990. simpatizavam com um racionalismo deliberadamente reacionário. apesar da separação entre ambos estabelecida pela República. a miséria espiritual a 204 MCHUGH.sonhavam com a contra-revolução 205 católica. Isso não exclui a análise e discussão de estruturas. O movimento católico organizado nessa época em torno do Centro Dom Vital. Tom.

para além da simples recondução daqueles que se afastaram da fé. a compreensão é que liberalismo.. a participação dos leigos nas atividades apostólicas da Igreja através do movimento católico. 160. cit. Cf. desempenhando um grau de importância significativa na prática política de seus militantes. A influência dessas idéias na formação intelectual legionária é evidente. . a tarefa da juventude. defendendo a idéia de retorno a um universo existencial mantido e substantivado por fundamentos éticos. socialismo e comunismo são momentos indistintos de uma só origem causal promotora do dissenso social. Portanto.120 materialização das relações humanas. recairão as responsabilidades de se transformarem em reformadores sociais. Na discussão sobre as matrizes intelectuais. MCHUGH. É uma proposta que se lança acima da experiência democrático-liberal e do pensamento revolucionário e socialista. 206 De acordo com Mchugh “a teoria social cristã pode ser encarada como práxis. Sobre as novas gerações. o de facilitar o florescimento de uma vida boa e justa na polis”. a saber. democracia. Segundo FERRARI (1998). remonta à primeira metade do século XIX. Em uma palavra. p. na medida em que esses programas prático-doutrinários são entendidos como elementos originários de uma matriz histórica. será a de libertar a humanidade dos males provocados pela indústria e pelo liberalismo. operários etc. modelada a partir do “Ideal Legionário”. a Revolução Francesa. Francis P. constata-se a presença indiscutível do pensamento reformista da Igreja Católica. Esta militância em forma de apostolado. constituir-se-ão nos alvos da 206 práxis do catolicismo reformista. quando se iniciaram movimentos católicos de oposição ao Estado liberal em defesa do direito da Igreja de definir e decidir sobre os modos de vida na sociedade moderna. seja nomeada como Ação católica ou ação dos católicos. op. corrigindo os descaminhos históricos da modernidade e reconduzindo a sociedade à sua idade de ouro perdida e desprezada pelos excessos do materialismo. qual seja. moços católicos. congregando leigos e clérigos. por em prática um projeto integral de homem e sociedade. visava. recriando um organismo social de acordo com os princípios da Igreja. É nesse clima de arregimentação reformista que Severino Sombra encontra resposta positiva ao seu projeto de sociedade. no sentido aristotélico de um estudo da sociedade com um fim. leigos. agora transformada em quadros da Ação Católica. políticas e doutrinárias da LCT.

. op. . quando se viveu uma época resplandecente de paz e estabilidade social. Convém ressaltar que o seu desempenho político não é dado somente por seu discurso de oposição aos agentes da “desordem social mundial”. reconhecido ou ignorado. Neste sentido. Defendê-lo do liberalismo econômico que.somente seria possível através de uma ação prático-política de convencimento das classes sobre a necessidade de uma nova ordem social eticamente sustentável. protegido. com vistas a recristianização da sociedade. o corporativismo. por suas características organizativas junto às massas trabalhadoras. parecendo exaltá-lo. sobretudo.121 5. mas. p. 09. Nós estamos vivendo uma extra-limitação da chamada Idade Moderna. cit.a idade de ouro perdida . quanto mais fugimos ao signo 207 SOMBRA. Severino. o movimento político da LCT se distingue de outras experiências conservadoras de inclinação fascista no país.) Nós precisamos sobretudo defender o trabalho. 1932. sua intervenção no mundo do trabalho dá-se com o intuito de “harmonizar” a realidade moderna industrial caracterizada pelos efeitos danosos do “machinismo”. rebaixa-o a uma 207 condição servil anti-humana. A «Legião» organiza o operariado para que. Esta é dominada pelo individualismo e nós já não passamos sem o sindicalismo. regula actualmente suas relações com o capital. Reconstituir esse passado remoto . Defendê-lo do communismo que. E quanto mais nos associamos. educado e coheso.. do “tecnicalismo capitalista” e da “auto-affirmação individualista”. O legionário – um novo homem para uma nova era Ao se apresentar como crítico do comunismo e do liberalismo por intermédio do ideário cristão reformista. (. alimentando esperanças de retorno a um mundo ético abandonado. elle se torne um collaborador honesto e consciente das outras classes. Vai longe o tempo em que Turgot podia dizer que a fonte de todo o mal era a faculdade de associar-se outorgada aos operários de uma mesma profissão.

ao mesmo tempo em que elabora uma crítica aos efeitos da sociedade moderna sobre o homem. 209 O LEGIONÁRIO. realiza um discurso apologético sobre a sociedade do trabalho. Era mais simples. a LCT optou por eleger como parceiro-interlocutor os elementos das classes econômicas. A especificidade do movimento se manifesta quando a ação política legionária se volta para o trabalhador e a partir deste sujeito coletivo inicia o caminho de retorno ao “mundo bom”.Era que não alcançaremos mais. 208 sangue. p. A lei universal do trabalho imposta pelo próprio Creador à humanidade há de ser cumprida até o fim dos tempos. p. vida. Todo homem tem a obrigação precípua de trabalhar para ganhar o necessário à sua subsistência e a daquelles por quem é responsável. menos artificial e em que predominam os valores moraes sobre os valores econômicos. 12-13. e arrasta 209 pelo mundo uma vida parasitária. 208 Ibid. Era que se estabeleça sobre um humanismo real. Assim. como uma necessidade invencível Maldição para os que. a sua militância se desenvolve em meio a uma aparente contradição. 03 de feveriero de 1934. integral e não inhumano como o que criou a cultura moderna e conseqüentemente sua civilização. mais ultrapassamos as fronteiras na Idade Moderna e penetramos na Idade Nova que viverá sob o signo corporativista e orgânico. Era em que a humanidade esteja menos asphixiada pelos vapores da machina e possa retomar o ritmo humano que perdeu em contato com os machinismos. negligentemente. segundo tudo faz crer. não se querem submeter à lei do trabalho. . Enquanto o Integralismo de Plínio Salgado prezou por uma abordagem de raízes culturalistas e destinou sua mensagem para as chamadas classes médias urbanas. 01.122 do individualismo. qual seja. vontade. mas para o advento da qual empenharemos intelligencia.

adultos e principalmente crianças . entretanto. para a formação das mentalidades futuras. Para nós. mentor e organizador de um programa de educação operária . posteriormente. Desta forma. A ênfase dada à educação dos trabalhadores aproxima o pensamento legionário da noção iluminista de emancipação por meio do esclarecimento. não há melhor caminho a seguir do que formar a alma da mocidade escolar. o papel pedagógico da missão legionária excede as preocupações de natureza imediatista. 08 de abril de 1933.com a instalação de escolas inicialmente noturnas e. militantes legionários e integralistas. dos princípios que devem servir de base à formação mental do Brasil novo! As escolas legionárias e jocistas estão nesse caso. a LCT promoverá insistente reflexão sob a necessidade de preparar um novo homem para a nova era. As escolas legionárias funcionarão com professores voluntários. Helder Câmara conquistará 210 O LEGIONÁRIO. solidária e produtiva. O projeto pedagógico da LCT será liderado pelo Padre Helder Câmara. da colaboração entre as classes e da re-espiritualização do homem. . p. visando normatizar suas ações fora e dentro do lugar da produção. em nome da reabilitação da imagem original de sociedade orgânica e harmônica. abastecida pela vigília perseverante que observa os princípios de um novo humanismo. 02. sem aderir aos princípios políticos da Revolução Francesa. Portanto. O discurso legionário se apresenta como regime disciplinar. para disciplina e consciência das massas operárias que amanhã teem de continuar. levar desde a escola primária o influxo dos ideaes. é fundamental para os seus projetos estabelecer os mecanismos possibilitadores de uma visão de mundo operária ancorada no ideário da positividade do trabalho. Sem instrucção será quase impossível realizar as aspirações operárias a completa 210 reivindicação dos seus direitos. A catequese legionária manifesta sua fé na sociedade nova. ou realizar a obra patriótica de reorganização nacional por que nos batemos actualmente. fundada sobre as bases da hierarquia (à semelhança da Igreja Católica).123 Para que se realize a promessa de um novo mundo. diurnas. ao se projetar sobre o mundo de vida da coletividade ligada ao universo do trabalho.

O jocismo foi fundado em Fortaleza pelo tenente Severino Sombra. p. Excia. Inculcar no meio dos trabalhadores as noções de decência. o jocismo realizou núcleos de divisões para a meninada pobre em todos os arrebaldes da cidade. Para tanto. Como os operários são os interlocutores imediatos da ação ressocializadora da LCT. Arcebispo Metropolitano a 211 abrir as escolas da JOC.. é estimulá-lo a acreditar no caráter sagrado da ordem social. autorizado por S.JOC. Portanto. da perda da espiritualidade.. o Sr. seja qual for o vosso mister. 06 de maio de 193. Dessa forma. transforma-se na finalidade precípua do legionarismo.o salário . legionários. prepondera no ideário da LCT corrigir os hábitos perversos próprios dos regimes liberais e do programa comunista. a fim de effectuar as despezas da 212 subsistencia necessária à vossa família.levae para casa. antes que sejam capturados inteiramente pelo superficialismo da sociedade industrial. do sensualismo do consumo. em setembro de 1931 (. Essa preocupação de natureza ética está definida no discurso legionário. mas estabelecer mecanismos de manutenção da harmonia e de defesa dos valores fundamentais da pessoa humana.) De setembro de 1931 a fevereiro de 1932. só se efetivará quando todos reconhecerem a essência corrompida do mundo moderno. 04. A superação dos males que impregnam a humanidade de “materialismo”. 212 O LEGIONÁRIO. ressaltando os aspectos sacralizantes da família e do trabalho. entregae-vos a vosso trabalho. depois o atributo do vosso trabalho . Em 11 de fevereiro de 1932 o padre Helder Câmara. é necessário indicar uma 211 O LEGIONÁRIO.124 notoriedade e respeito a partir da organização da Juventude Operária Católica . Assim. .. 06 de novembro de 1933. 03. retidão e altruísmo. detestaes o quanto possível o jogo.. p. A recristianização da sociedade impunha não somente um esforço de condução da sociedade a uma convivência coletiva mediada pela espiritualidade. mudar o comportamento do homem pobre trabalhador. dever. convinha iniciar essas tarefas para sua pronta conversão moral.

João Alfredo de Souza. Assim. É para o movimento de recristianização que o legionário volta seu apostolado. quais sejam o tradicionalismo radical e o racionalismo católico. o catolicismo desvinculado dos condicionamentos sócio-culturais determinando a incidência natural do moralismo.. Dessa forma. E revelando. por conseguinte. o aviltamento inconseqüente das 213 ciências empíricas. a delimitar em campos opostos o espírito e a matéria. dos valores sociais. op.. 1986. seriam transpostas todas as barreiras históricas à solidariedade humana. (. agindo de maneira voluntarista e altruísta para a conquista da comunidade ideal. exacerbando a soberba do racionalismo e do antropocentrismo antiespiritualista. O que o tradicionalismo mais radical não aceitava era a subjugação das consciências. A terceira via se apresenta na proposta do corporativismo onde. opondo-se às expectativas contemporâneas de se transferir para a ciência o papel de orientadora das ações humanas. A rejeição ao intelectualismo e à razão pressupõe a tese da livre manifestação do Espírito. cit. pelo utilitarismo que acabava anestesiando o sentido transcendental. 61. expressa duas características ideológicas fundantes do seu ideário.125 alternativa de organização social que substitua o capitalismo e o comunismo. neste ponto de vista o desconhecimento das virtualidades espirituais e éticas do cotidiano da técnica. O discurso legionário defende um modelo de sociedade orgânica baseada em princípios ético-religiosos. quando a “intuição” assume um papel relevante na orientação do homem frente às evidências das realidades concretas. p. . da racionalidade social. do afã utilitário. pelo imediatismo das práticas empíricas.) O racionalismo católico tendia. O pensamento legionário considera que o intelectualismo aprofunda as contradições da modernidade e aprofunda o distanciamento do homem em relação à unidade divina criadora. o transcendente e o imanente. segundo o entendimento dos intelectuais da LCT. da visão superior do homem e da sociedade. a LCT defende um mundo e uma vida social livres 213 MONTENEGRO. Daí o sobrenaturalismo.

216 Ibid. Lutaremos contra a mecanização cada vez mais intensa da vida. o combate ao individualismo e a revalorização da pessoa. 1932. o patrão e o operário. 115) 215 SOMBRA. a finalidade dessa conquista está associada a 214 um movimento de retorno do homem à vida comunitária. 1996. S. cit. mais humana (grifo nosso). o governante e 216 o governado”. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. De acordo com o pensamento legionário. posto que dela surgirão as condições de possibilidade de instaurar a nova era. Sonhamos com a volta a uma vida mais simples. que pode sintetizar o sentimento de oposição às sociedades modernas. 19. o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936). p. elaborou uma explicação sobre as diferenças entre sociedade e comunidade. . p. op. In: OUTHWAITE. Lutaremos contra a introdução das machinas. exemplo de solidariedade verdadeira. Tom. a atitude negativa quanto aos partidos políticos corrobora a finalidade social do programa legionário. contemporâneo dos movimentos conservadores do início do século XX. Cf. da ambição desmedida. qual seja. A palavra de ordem é estimular a união operária. Para isso seria preciso recusar frontalmente a estrutura partidária atomizadora dos homens. SHORE. contraria os princípios da vida comunitária. do egoísmo desenfreado. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. a Idade Moderna e a Renascença promoveram o surgimento do indivíduo e provocaram o desaparecimento da pessoa como fundamento de todas coisas. 214 Embora o conceito de comunidade seja “vago” e “evasivo”. 17. Embora não se furte de imaginar a construção de vias que possibilitem o acesso dos trabalhadores ao poder. segundo Shore. Cris. resultado deplorável do orgulho possessivo. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. William e BOTTOMORE. Repellimos o technicalismo monstruoso da civilização yankee e que a Russia communista quer imitar.126 dos artificialismos produzidos pelo individualismo. através de uma sociedade que seja realmente um fim para o indivíduo e um meio para a pessôa desenvolver-se e attingir seu 215 fim der ser racional e livre. Neste sentido. pp. 115-117. p. “Comunidade”. O indivíduo. onde as diferenças casuais são esquecidas pelo princípio moral promotor da “igualdade essencial entre o rico e o pobre.

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Em conseqüência disso, a proposta cooperativista da vida em comunidade visa estabelecer relações no interior do ambiente de trabalho que permita fluir a “pessoa”, sufocada pelo individualismo. “Em seu aspecto cooperativista a «Legião» pretende criar um ambiente material menos grosseiro para o operário, sem as cores da miséria que o revertem tão commumente por meio de uma assistência carinhosa 217 nas fábricas, nos lares e nas escolas”. A partir de então, os operários se reconheceriam como elementos indispensáveis na conquista e manutenção da ordem universal instituída pela paz social, harmonia nos interesses díspares e colaboração entre as classes. No ideal legionário, o cooperativismo não possui nenhuma conotação de classe, ou algo que permita a radicalização de antagonismos sociais, ao contrário, é o fundamento de uma solidariedade instaurada no interior das diferenças sociais. A nova era se libertaria da concorrência desleal propugnada pelo liberalismo econômico, subsidiado pelas leis da oferta e da procura, e recuperaria a economia no seu significado clássico de administração das necessidades da casa. Procedendo desta maneira, a LCT destitui a legitimidade e necessidades pressupostas nos fundamentos das práticas macro-econômicas ao sugerir uma economia de feições estritamente domésticas e familiares. A crítica legionária às injunções econômicas da modernidade instaura-se na constatação da ausência de qualquer ética nas relações no seio do mercado. Aqui, prevaleceria a ambição, a falcatrua, a dissimulação; enquanto que na organização comunitária, a camaradagem, a troca desinteressada e o senso de justo preço preponderariam por sobre quaisquer conveniências particulares ou interesses escusos. Se ao homem cabe se preocupar, especialmente, com as coisas do espírito, sua sustentação material é simplesmente um acidente enfadonho que marca sua condição biológica. Obstáculo que pode ser resolvido através da cooperação entre todos os envolvidos no trabalho produtivo, representando o trabalho necessário apenas para a sobrevivência orgânica, livre, pois, de concorrência ou ambição. Enquanto um mantem os mais estreitos laços de amisades com os seus operários, o outro lamentavelmente deixa-se possuir dos sentimentos de hostilidades as mais descabidas para com os pobres (...) um
217 Ibid. p. 17.

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transforma a sua fábrica num lugar saldável, onde trabalhar é um prazer, e collaborar com o patrão dando-lhe um rendimento máximo, é uma necessidade que todos sustam imperiosamente. E o outro (...) foz da fábrica um suplício, onde tudo é abafado e asphixiante, onde o trabalho tem o trono do fel (...) Na fábrica de um, a alegria, o prazer, a amisade desenvolvendo-se em mil formas 218 de colaboração. Trabalho, eficiência, vida. A prática política da LCT sugere um processo de conciliação entre a sociedade moderna e a construção de um universo social diferente, caracterizado pela fraternidade e cooperação universais. Para disso, o projeto político de terceira via é exposto como um programa doutrinário apolítico. Essa astúcia discursiva nega a validade moral do fazer político, ao mesmo tempo em que recorre a uma argumentação política como condição necessária à realização de seu 219 projeto social. Isto é, fazer política em nome do apolitismo . A apoliticidade justificada pela idéia de atomização do social provocada pelos partidos e a inescrupulosa conduta dos políticos profissionais. Felizmente o operário de 1933 já não é aquelle inconsciente e automato miserável de annos atraz. Já possue um espirito de classe esclarecido e alerta, e está em condições de resistir aos manejos da politicagem profissional a serviço da plutocracia. O operário de hoje é um libertado. É um consciente. É um forte. Livre, consciente, disciplinado, elle, no campo politico como nos demais campos, será a grande força que extirpará do Brasil, auxiliado e dirigido pela mocidade, o politiquismo coronelício, o plutocrata insaciavel, e desfraldará a
218 O LEGIONÁRIO, 27 de maio de 1933. p. 01. 219 De acordo com Ferrari, este falseamento da ação política no discurso católico é possível pois que “não há distinção, nessa perspectiva, entre ‘religioso’ e ‘político’: os dois planos convergem num modelo ideal de sociedade hierarquicamente estruturada ...”. Cf. FERRARI, Liliana. “Ação Católica”. In: BOBBIO, Norberto, MATTTEUCCI, Nicola, PAQUINO, a Gianfranco. Dicionário de Política. 11 . edição. Tradução de Carmen C. Varriale et al. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998, p. 9.

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Bandeira Legionária (sic!), símbolo (sic!) de 220 uma nova ordem e de uma nova vida. A nova ordem social defendida pela LCT é defendida através da exaltação do sentimento de nacionalidade e valorização da Nação, entendida como espaço de manifestação do espírito de harmonia e da valorização da esfera ético-moral-espiritual da existência humana. A Nação é o lugar onde os trabalhadores podem ser felizes. A sua construção nos modelos legionários reabilitaria a sociedade fragmentária criada pela modernidade industrial, conduzindo-a até a unidade nacional, garantida pela fraternidade universal entre o povo e as instituições políticas. Essa tarefa só poderia ser confiada àqueles que demonstram efetivamente compromisso, altruísmo e devoção, ou seja, aos jovens e aos trabalhadores. Os primeiros, incompreendidos pelos antigos, enquanto os outros se submetem à exploração, alimentando a ganância desmesurada do capitalista. Somente estes elementos possuem a experiência prática das desventuras do mundo contemporâneo, que os capacita a questioná-lo e, movidos pelo ardor da justiça, transformá-lo para melhor. Queremos uma nova Revolução. Revolução que destruindo, venha ordenar e construir. Que despedaçando mitos, venha refazer a unidade e trazer a estabilidade social. Que anniquilla o utópico e absurdo sistema em que vivemos e affirma uma nova ordem. Que venha reagir contra a falta de unidade, e força dos Estados modernos, acabando com 221 as guerras civis. O catolicismo, como filosofia de base do movimento legionário, sugere como fim da sociedade, a recomposição de uma infra-estrutura de relações sociais que remontam à vida comunitária, desprezada pela Idade Moderna desagregadora. Entretanto, o esforço de elucidação da problemática da sociedade moderna, longe de ser entendida ou divulgada como simplesmente uma verdade revelada, apresenta-se revestida de uma teoria da crise da modernidade a partir da qual todas as reflexões sobre a condição humana advirão. No discurso legionário é constante o uso de palavras como sadio e doentio, demonstrando uma preocupação civilizadora com a
220 O LEGIONÁRIO, 22 de abril de 1933. p. 01. 221 O LEGIONÁRIO, 01 de maio de 1933. p. 08.

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higienização moral da sociedade moderna. Essa abordagem organicista sobre os elementos do conflito social invoca um silogismo para a crise, na medida em que por sadio compreende-se tudo quanto se referir à alternativa de substituição do status quo. Isto é, sadio é tudo que reflete os bens morais e éticos identificados como principais “mercadorias” do mercado das relações humanas. De outra forma, o doentio se expressa na sua ligação estreita com tudo que ilude o homem, na lógica de legitimação da modernidade industrial capitalista. Portanto, o apelo ao consumo, o elogio às riquezas do materialismo, o desprezo pela espiritualidade, denotam a substância virulenta e deletéria da Idade Moderna. Nessa mesma linha de raciocínio, faz-se necessário aos que lutam por uma nova era, segundo a doutrina da LCT, atentar e reconhecer os fatores que possibilitam ao sistema decadente escamotear a profundidade de sua crise. Não paramos na simples contemplação ridícula das legislações sociaes que o liberalismo nos offerece a título de esmola, simples cafiaspirinas para cura de dores de cabeça, quando se trata de curar todo um organismo cheio de doenças já seculares e que exigem uma terapêutica enérgica e 222 eficiente. A higiene do social, por conseguinte, representa, na terapia para uma nova era marcada pela saúde moral da humanidade, índice de larga importância no projeto da redenção universal. Eliminar as sujeiras infecciosas lançadas pelo sistema degenerado das relações interpessoais, adquire o estatuto de imprescindibilidade histórica. Mesmo que para se atingir essa meta, a sociedade tenha que se submeter aos excessos da centralização do poder nas mãos daqueles eleitos, proprietários do saber remediador da crise. Até porque, para o pensamento legionário, o fortalecimento do poder, quer seja do Estado ou do indivíduo, é elogiável e defendido, pois representa uma das bases de sua orientação doutrinária, qual seja, o princípio de autoridade. O importante mesmo é que a fuga deste cativeiro que esmaga o homem integral, escravo inerme dos vícios e encantos do mundo da vida sensualista do capitalismo, seja empreendida vitoriosamente sob

222 O LEGIONÁRIO, 16 de setembro de 1933. p. 03.

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a liderança do messias autorizado por revelação, seguindo o caminho que vai dar nas terras onde prepondera a fraternidade e a harmonia. Trazemos, para todos os que são victimas dos erros sociaes presentes uma palavra de fé e combate. Por entre a confusão angustiosa, a rebeldia desordenada, a crescente anarquia que correm o mundo e abarcam-no tragicamente, fazemos soar a 223 voz salvadora do Ideal Legionário. Desta forma, a LCT executa sua atividade política com o intuito de formar uma nova mentalidade, para que a sociedade integral seja aceita verticalmente como única solução possível ao mundo desequilibrado do capitalismo industrial. A atuação da LCT foi toda atravessada pelo recurso constante da ritualização e cerimonialização de seus atos, apelando à sensibilização do indivíduo através do artifício da encenação coletiva. As grandes demonstrações coletivas tinham a intenção de manifestar a confiança na solidariedade e na indiferenciação entre as pessoas. O sentimento de camaradagem e colaboração perpétua é sua principal arma para propiciar o engajamento pessoal na causa. Ao propor uma sociedade unificada e sem conflitos, a Legião expõe essa proposta nas solenidades, ao arregimentar, com um máximo de organização, centenas de legionários uniformizados e orientados pela mesma bandeira e o mesmo slogan. As condições de possibilidades de realização da sociedade integral estão dadas em escala diminuta nas solenidades dos desfiles, onde se visualiza apenas a uniformidade verde da massa. O desejo legionário de construir um corpo social sem fraturas, implica na intenção de efetivar a supremacia do institucional sobre o privado. É, pois, a apologia da prevalência do espaço público sobre a esfera da privacidade. Processa-se, dessa forma, o apagamento das marcas da individualidade e se erige o totalitarismo da coletividade. A Legião Cearense do Trabalho representa, pois, um elemento significativo na produção de projetos sociais e na constituição da memória social dos trabalhadores, afora seus desdobramentos políticos posteriores, posto que simboliza uma experiência pioneira de política voltada para as massas.

223 O LEGIONÁRIO, 01 de março de 1933. p. 04

1996. William e BOTTOMORE. Rio de Janeiro: Difel. Fortaleza. MATTTEUCCI. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Dicionário de Política. 1974. Tradução de Carmen C. Tomo III. Nicola. pp. Tom. PAQUINO. 1932. Sebastião Rogério Barros da. 345-374. Simone (coord. Varriale et al. Nicola. 1990. pp. Edgard. Norberto. SOMBRA. “Um Pensamento Político Autoritário na Primeira República. PÉCAUT. Uma Interpretação”. MONTENEGRO. 1998.132 Referências Bibliográficas CARONE. Varriale et al.). pp. Francis P. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. São Paulo: Ed. Tradução de Carmen C. Boris (org. pp. In: BOBBIO. Entre o Povo e a Nação. Norberto. Gianfranco. Sebastião Rogério Barros da. Variações Ideológicas. 11 .) História Geral da Civilização Brasileira III. pp. edição. Dicionário de Política. História do Ceará. MCHUGH. Severino. 359-375. Daniel. Gianfranco. O Brasil Republicano. Dicionário de Política. SANI. “Integralismo”. 1990. 306-308. . São Paulo: Difel. a 11 . Ótica. PONTE. In: SOUZA. João Alfredo de Souza. “A Legião Cearense do Trabalho”. 1977. edição. 160-163. Bolivar de. Tradução de Carmen C. POULAT. “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho. a Nicola. (mimeo. FERRARI. PAQUINO. PONTE. a Sociedade e Instituição (1889-1930). In: FAUSTO. Fortaleza: UFC/Fundação Demócrito Rocha. 1998.). IOCE. O Ideal Legionário. pp. O Integralismo no Ceará. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. 2º volume. “Cultura Política”. edição. In: OUTHWAITE. MATTTEUCCI. 1998. Os Intelectuais e a Política no Brasil. In: BOBBIO. 3 . In: BOBBIO. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 635-636. A Segunda República. “Teoria social cristã”. 1989. (1930-1937)”. edição. PAQUINO. Gianfranco. Norberto. Giacomo. MATTTEUCCI. Liliana. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. 1986. Émile. Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. Fortaleza: NUDOC Universidade Federal da Ceará. “Ação Católica”. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. a 11 . LAMOUNIER. 9-10. Varriale et al.

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oferecendo os subsídios necessários para que se efetivasse o projeto. importadas tanto no tempo como no espaço. São Paulo.e num momento tido como divisor de águas na historiografia brasileira. bastaria a importação de idéias consagradas. É então que se “processa o enfrentamento do arcaico-rural como característica definidora da natureza estrutural da sociedade. 7. A Igreja colocou-se como um dos principais veículos do discurso legionário. Raimundo Barroso. p 177 / 8. Nasceu em uma região de fraca industrialização . p. Editora Moderna.surgiu como alternativa à crise da sociedade industrial.8. Jr.meta dos discursos do idealizador da Legião . 1992. O HOMEM NO ESPELHO E A LEGIÃO CEARENSE DO TRABALHO: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da Silva (PUC/SP) A Legião Cearense do Trabalho .LCT . Império.134 6. Se realmente o Integralismo lançou as suas raízes a partir do Ceará. Para este vazio ser preenchido. por ser uma época de intensa preparação para os grandes confrontos político-ideológicos das décadas seguintes.e as circunstâncias que os envolveram. 225 Ver mais em: SILVA. já que se sentia à parte do poder. Francisco de Assis. com os questionamentos provenientes de diversos segmentos urbanos em 224 defesa de uma nova ordem social ”. substituindo o capitalismo e o comunismo. em conformação com o pensamento autoritário que estabelecia a idéia de vazio. História do Brasil: Colônia. porquanto. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Ceará – Departamento de Ciências Sociais e Filosofia. com a manipulação dos fatos. República. desde a Questão 225 Religiosa . A Legião Cearense do Trabalho: Política e Imaginário no Integralismo Cearense(1931 – 1937). temos então que buscar os nexos que viabilizaram este fato. Foi através dela que se criou a idéia do uso de imagens consagradas. . onde tem a identificá-lo uma série de discursos que retiram a possibilidade de rigorosa coerência 224 CORDEIRO. se realmente nasceu ali. Fortaleza. utilizando-se da imagem santificada da fé. 1992. Objetivamos buscar um entendimento nas relações estabelecidas entre os trabalhadores .o Estado do Ceará .

despontou na região. em um curto período. Fortaleza : Editora Imprensa Oficial do Estado do Ceará. p 11. Surgiu tanto pela imigração.2004. O anarco-sindicalismo desembarcou junto com a imigração. onde o “credo verde” surgia.. a de Gustavo Barroso e a de Miguel Reale. já que tinha como agravante o fato de ser sacudida por “invasões” de retirantes em cada seca que se apresentava. porém a região norte-nordeste não ficou incólume às grandes transformações. Como a LCT anunciava um projeto pacificador foi aceita imediatamente pelos participantes da classe dominante assim como pelos próprios trabalhadores. 228 MONTEIRO. como fruto de uma imensa elaboração doutrinária. Isso acontecia com maior freqüência no centro-oeste do país. O Integralismo no Ceará – Variações Ideológicas. com expressiva participação dos europeus na composição da classe operária brasileira. A Ação Integralista Brasileira – AIB . na Pátria e na Família a sua razão de ser. ou seguir as vias místicas que lhes 228 eram dadas. num primeiro momento. Douglas Teixeira. “por uma práxis edificante mobilizadora de seguimentos médios e de grupos operários: a Legião Cearense do 226 Trabalho” . p 43. p 125. nesta região a partir da união com a LCT. São Paulo : Editora Bertrand Brasil. . Canudos e contestado”. “A noção legionária de trabalho constrói-se 226 Cf. 227 CORDEIRO. e não apenas as três correntes clássicas: a de Plínio Salgado. como pela chegada de trabalhadores da zona rural. op. vol 9. A LCT foi um movimento trabalhista de cunho corporativo. atendendo ao chamado do projeto varguista. a classe trabalhadora industrial. IN: História Geral da Civilização Brasileira . Nos anos 30. representando o interesse de 71 associações e de 20 mil trabalhadores assalariados e autônomos. nasceu um fenômeno que atingiu o Brasil – o operariado urbano. MONTENEGRO. Existiu entre 1931 a 227 1937 . “Um Confronto Entre Juazeiro. para trilhar os caminhos da rebeldia sem projeto. O Integralismo pôde então. ousando assumir a condição de sujeitos” . cit. ser implantado.Brasil Republicano. Com a expansão capitalista.135 ideológica. compondo. João Alfredo de Sousa. assim. 1986. os movimentos sociais “irromperam no curso de uma História dramática de submissão. por oferecer uma indústria mais desenvolvida. Dentro da classe trabalhadora foram eles que difundiram a idéia de transformação radical da sociedade pela via revolucionária socialista ou anarquista. por contar com o forte apelo religioso do homem íntegro que via em Deus. apesar de esquecida nos centros do poder.

no jovem o gosto pelo conhecimento. a fim de cuidar dos velhos pais e de um irmão paralítico. assumindo um caráter obrigatório. dos hindus até a literatura contemporânea. filho do Dr. Só em 1922 229 CORDEIRO. Raimundo. Muito jovem ainda seguiu para o Rio de Janeiro. o fizeram perto do nascimento dele. 230 Recebeu do tio “Biblioteca Internacional de Obras Celebres”. Privando mesmo da amizade de seu filho. certamente havia a interpretação e explicação pelo tio. cujo vazio político propiciou um solo fértil às idéias totalitárias. Com a morte do avô passou a ser criado por uma tia: dona Marocas. Como sempre prometiam ao avô materno visitá-lo. Simone de. p 338.) Uma Nova Historia do Ceará. carente de estudos prévios de natureza econômica e social. UFSS. o grande escritor José de Alencar. Ms. colocando assim. Não existia. Seu avô coronel Joaquim José de Souza Sombra. que moravam no Rio de Janeiro e tinham oito filhos. Fundação Universitária “Severino Sombra”. 2004. era do Partido Conservador e foi durante 15 anos prefeito de Maranguape e amigo pessoal do Senador Alencar. No inicio do século XX. 1-O Homem de ação e de reflexão: Severino Sombra Nasceu Severino Sombra na cidade de Maranguape-CE. que se decidira pela vida celibatária. diariamente ao seu tio 230 enfermo. Vassouras-RJ. naquele momento. as grandes obras universais . Vicente Liberalino de Albuquerque e de dona Francisca Sombra de Albuquerque. onde cursou a Escola Militar do Realengo.” Fortaleza: Edições Demócrito Rocha. dos ramaianos. o que serviu de pretexto para o velho enfermo pedir aos seus pais para que o criasse. dispersa. recebidas através de um outro tio. Severino Sombra. os jovens intelectuais brasileiros agitavam-se em debates que conclamavam a sociedade para projetos reformistas. formou-se uma classe sem noção de organização. . então Coronel do Exército Nacional: Luiz Sombra. composta de 24 volumes que trazia desde a cultura dos vedas. uma organização católica que representasse a Igreja no âmbito dessas discussões. em 8 de Junho de 1907. Uma das obrigações do menino era ler. In: SOUZA.136 a partir de uma explicação religiosa da sua natureza divina. Outro modelo foi o militarismo visto pelo prisma da interpretação familiar. impondo-se de maneira punitiva ao homem que 229 tem que prover sua existência material ” Assim. (org. “A Legião Cearense do Trabalho”. Jr. Após essas leituras.

O centro D. cuja elaboração ideológica começava pela crítica à modernidade. Oliveira Vianna. Em 1929. Pois estava impregnado das idéias de São Tomás de Aquino. Porém foi envolvido em uma questão pertinente ao comando militar.) História do Ceará. que acarretou sua transferência para o Rio Grande do Sul. estando afastado de tudo. Desde o inicio. Vital no Rio de Janeiro. e tantos outros que refletiam sobre o Brasil legal versus o Brasil real. Vital . apontado por Alberto Torres. assim como a adoção de idéias antiliberais e anticomunistas. Outro elemento que compôs sua ideologia foi a "questão nacional". (org.137 é que foi fundado o Centro D. Quando ainda na escola Militar. In: SOUZA. a possibilidade de se inserir na esteira das discussões e expectativas quanto ao contexto da época. 232 PONTE. largamente apresentada por grupos de intelectuais não só católicos. quando retorna ao seu Estado de origem. Sebastião Rogério de Barros da. passando a assumir a ideologia da “reação e ordem”. passou a ser dirigido por Alceu do Amoroso Lima. mas também teóricos que pensavam em "endireitar o Brasil". lógico seria ser contra a Revolução liberal. inspirado na encíclica “Rerun Novarum”. tinha como meta a Renovação Católica “que deveria atrair leigos e operários 232 para o seio da Igreja Católica ”. o que lhe rendeu uma prisão e. Esses questionamentos vieram a corroborar com a sua idéia de começar a transformação da sociedade brasileira. refletiu que “aquele era o momento” de se tomar uma medida reformuladora aos destinos dos trabalhadores que eram vistos por ele como desprotegidos e órfãos do poder. aproveitando o momento histórico em que a sociedade via com bons olhos a participação dos tenentes no cotidiano de suas vidas. 365. organizou e implantou a Legião Cearense do Trabalho. 1989. como Euclides da Cunha. p. Por se colocar contra o Liberalismo. Severino Sombra recebeu forte influência católica e seus primeiros estudos foram nesta direção. Simone. Fundação Demócrito Rocha . entrou em contato com o Centro D. “A Legião Cearense do trabalho”. Fortaleza : UFC. tornou-se uma personalidade de projeção nas lutas sociais e políticas 231 O movimento espiritualista tem seu inicio a partir da fundação da revista “A Ordem” e do Centro D. Logo após sua chegada foi questionado sobre a “fase pré-revolucionária”. Então. O movimento criado por ele pretendia fixar no meio operário cearense. após sua morte precoce. Uma agremiação que congregava a jovem intelectualidade católica em torno dos ideais nacionalistas e reformadores dentro de uma perspectiva da Igreja católica. a Igreja. que viria a propiciar a ela. apregoada por Jackson de Figueiredo. Vital foi criado por Jackson de Figueiredo e que. a idéia de volta ao lirismo da Idade Média. 231 . Vital e os estudos realizados lá lhe inculcaram as necessidades de obediência às normas hierárquicas da Igreja.

criando as bases à reformulação social e à renovação católica. p 33. 2004.com a sua ordem de congraçamento para reivindicações. A Igreja católica mantinha interesse na preservação do modelo tradicional de sociedade. As classes. as forças productoras.. Essa preocupação surgiu com a bula papal “Rerum Novarum”. o seu fim ”. os homens de trabalho. encíclica que tratava especificamente da questão operária. Paraná : Editora da Universidade de Maringá. precizam tomar o lugar que lhes compete na vida nacional. . Quarenta anos após seu lançamento. Por ser interpretada como a terceira via entre o capitalismo e o comunismo. apresentando uma crítica feroz ao modernismo. 1954. foi prontamente aceita pelos dois lados do sistema produtivo cearense. O PÊNDULO DA HISTÓRIA : Tempo e Eternidade no Pensamento Católico (1800-1900). já que para ela “aceitar a teoria de progresso e da perfeição humana seria. A Legião Cearense do Trabalho vem até vós com o seu brado de alerta. Ivan. p 45. no jornal 233 católico“O Nordeste ”. 236. servindo de veículo para suas críticas ao sistema político e conclamando as classes sociais a cooperar entre si pelo resgate dos ideais humanistas. A modernidade era vista por ela como fonte de todo o mal que afligia a humanidade. além de lançar também folhetos.138 do Ceará. subscrevia com o pseudônimo de Agathon. Doutrina Social da Igreja.(. panfletos. que instigava nos pobres o ódio aos que possuem riquezas. 234 Panfleto entregue na porta dos estabelecimentos pelos legionários. de Pio XI. etc. quanto fazer causa comum com aqueles que exigiam. Editora Loiola. cit .. conclamando os trabalhadores 234 a compor esta Legião. É mister que no Brasil Novo as forças economicas e espirituaes collaborem na direção do Paiz. tanto negar seus próprios fundamentos.. 236 de Leão XIII . A LCT foi idealizada e organizada por Severino Sombra na época. Condenava a alternativa socialista. com a sua palavra de enthusiasmo. p 115. Elaborou as diretrizes do seu movimento em uma cartilha chamada “O Ideal Legionário”. recebeu reforço da encíclica “Quadragésimo Anno”.CAMACHO.)” 235 MANOEL. Ildefonso. Para difundir suas idéias. ela reforça o direito à propriedade e à harmonia entre as classes sociais. no período da implantação da LCT : "Apello aos homens de trabalho do Ceará. ou pelo menos 235 vaticinavam. Considerada uma dos grandes marcos da doutrina social da Igreja. um jovem tenente que. op. Severino Sombra publicou o jornal “O legionário”. por ser antiliberal não reconhecia a 233 MONTENEGRO. Rio de Janeiro : Petrópolis.

. Tudo leva a crer que essa manifestação 239 foi uma imitação do episódio da “Marcha sobre Roma ”. como em “A Legião de Outubro”. A nota vem com a assinatura de representantes insuspeitos. op. O Integralismo teve sua pré-fase em 1922. . para a criação do Partido Fascista Brasileiro. 288. integralismo. que estrangeiros inimigos do Brasil desejam implantar em 240 nossa Pátria. p.. Edgard.Fascismo. Ela foi um movimento trabalhista e contou com o fato relevante de ter precedido o Integralismo e de ter sido uma das primeiras manifestações dos trabalhadores 237 cearenses. cit. Entre os ensaios para se chegar a AIB. milhares de milicianos fascistas(os camisas negras)invadiram a capital. de Amaro 237 CORDEIRO. p 125. Organizou esse movimento contando com o apoio dos que comungavam com seus pensamentos: Helder Câmara. realizando a primeira manifestação fascista 238 que se tem noticia no Brasil. 14. entre outros. São Paulo: Difusão Européia do Livro. faremos valer nosso pensamento. o então Tenente Jehovah Motta. capaz de amparar os trabalhadores brasileiros em suas reivindicações. São Paulo: Editora Ática. A Ação Social Brasileira e o Partido Fascista Brasileiro. João Fábio. um grupo de italianos organizou o “Partido Fascista”. cit. foram mais sofisticados e anunciam um esquema que viria a se repetir. op.139 Revolução de 30 que empossou Getúlio Vargas. 290 241 Ibid. p. Ver mais em: BERTONHA. Muitos fracassaram. p. 240 CARONE. nazismo. p. com a fundação da Legião do Cruzeiro do Sul.Os movimentos que antecederam o Integralismo no Brasil. diferentemente dos contemporâneos de vida curta. todos da mais alta relevância dentro do cenário nacional. trazia a seguinte conclamação: Prestigiando o governo que o povo impôs à Nação. Neste sentido aguardai o manifesto que faremos publicar no dia 18 do corrente. Pouca ou nenhuma notícia se tem sobre ambos. de combate ao comunismo. 2002. A Segunda República. 239 Partindo de várias regiões da Itália. contamos com os contemporâneos da LCT. 238 CARONE. 2. 1973. porém o Jornal do Comércio de 14 de novembro de 1930. Em 1928. 290 e 291. mas deixaram a 241 oportunidade dos atores entrarem novamente em cena .

com o Partido Nacionalista de São Paulo. . 187. Esta presunção. Este último teve seu “programamanifesto” publicado em março de 1931. Astrojildo. um documento que se pode considerar característico de ideologia confusa. mostrando já o germe do Integralismo. Ensaios Históricos e Políticos. de Olbiano de Melo. de 1931. O Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo. constitui. 243 PEREIRA. p. livro que analisava o antagonismo nos regimes fascista e soviético. redigida por Plínio Salgado e assinada por várias personalidades consideradas da "esquerda”. Seus autores ou signatários estão convencidos de que lhes cabe a gloriosa predestinação de regenerar e salvar o Brasil . que pretende haver traçado "uma diretriz definida e clara em face dos problemas fundamentais" do país. promulgando um sentimento esquerdista que recebeu de Astrojildo Pereira a seguinte crítica: Penso haver contribuído para desmascarar a mistificação. Neste livro. direitista da extrema direita. Aos que antecederam a AIB. que é originariamente inevitável. 1979. com o Partido Nacional Sindicalista. e redigido por Plínio 243 Salgado . O manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo foi publicado no jornal “O Tempo”.140 Lanari e Francisco Campos (março de 1931).Itália – Brasil”. forcejando por atribuir-se a direção de 244 movimentos políticos . firmado por homens da esquerda e tendo como chefe o General Miguel Costa. contraditória e delirante de certa camada de intelectuais e pequenos burgueses. de São Paulo. na realidade. portanto. e seria inofensiva se limitada a círculos privados. de Miguel Costa. onde efetuou uma análise do “manifesto-programa” da Legião Revolucionária de São Paulo. Astrojildo Pereira publicou “URSS. 295. das "idéias" e 242 Ibid. p. feito a pedido do Comitê Central do PCB. com a pequena ala do Partido Socialista 242 Brasileiro. 175. de Mario Antunes. podemos juntar a Legião Cearense do Trabalho. encontra-se o ensaio denominado “Manifesto da Contra Revolução". apresenta grave perigo para a coletividade quando tenta enveredar pelo domínio publico. de Cristiano das Neves e com a Legião Revolucionária de São Paulo. por sua expressão e seu conteúdo. em março de 1931. mostrando no meu artigo o caráter fundamentalmente fascista. p. 244 Ibid. São Paulo: Editora Alfa-Omega. Em 1935.

. A interpretação fascista deve-se ao fato de que nos encontros dos legionados ser feita uma chamada oral que era respondida por todos com a palavra: “Pronto”. está e estará ao 245 serviço da burguesia contra o operariado. E. de um partido fascista declarado. do Trabalho consegue a 246 adesão dos operários. Plínio é sempre o mesmo. 246 CARONE. p.. logo depois. hoje integralista. sua direção e métodos assemelhamse aos dos movimentos fascistas.141 dos "princípios" contidos ali. onde reverenciavam a bandeira da Legião. hoje como provavelmente amanhã ele sempre esteve. Severino Sombra perde a liderança e é reintegrado no 247 Exercito. (. Anteontem como ontem. a Legião em 1932 foi absorvida pelos integralistas . diz mais: A verdade é que o movimento inicial cabe ao tenente Severino Sombra. Qual nada.. op. 298. fora o antigo perrepista Plínio Salgado. Severino Sombra. 295-296. e . cit. E. ontem legionário. mais tarde um dos fundadores e hoje dito "chefe nacional" do Integralismo. ao contrário. p. ontem como hoje. isto é.. Participavam dos desfiles cívicos.) Não me venham dizer que o homenzinho é que mudou: anteontem perrepista. mostra que a LCT foi exclusivamente voltada aos trabalhadores. e que sua intenção é dirigir os sindicatos operários de Fortaleza. . Porém. Fez. fato que o aproxima logo de Plínio Salgado (. cuja intenção era a de prepará-los para que vivessem em melhor situação econômica e social: "A LCT foi um dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil.). 247 Ibid. Enquanto as outras agremiações pretendiam o apoio da pequena burguesia. O 1º de Maio foi incorporado ao calendário das festas solenes com desfiles que lembravam as “paradas 245 Ibid. p. a Legião C. . unindo-os em torno de suas reivindicações. a semelhança do fascismo italiano. e a sua ideologia também.187 e 188. também uso de um uniforme (um blusão mescla com um emblema na manga). como é notório. O redator do Manifesto..

p 647. as vezes. também não podemos deixar só para ela a responsabilidade histórica. e em especial o nordestino. Consideravam seu chefe Severino Sombra. 1978. Assim como. Ao procurar nas raízes da alma do povo nordestino e na sua natureza geográfica. Não podemos ignorar o fato de que o retirante nordestino.. falar em questões que envolvem os trabalhadores do período estudado. procurava subsídios ao seu viver sob os auspícios da fé. contraditoriamente. p. Isso revela que de um modo geral “em sua modalidade rústica [o catolicismo] tem suas raízes mais importantes plantadas no solo da Grande Tradição judaico-cristão. pelas mudanças nos modelos econômicos. R.142 militares”. José. 340 249 CHASIN. que o cerca. foi um dos Estados nordestinos em que se constituiu um lugar privilegiado de reprodução ideológica. não o dia do trabalhador. e pelo 249 capitalismo hiper-tardio . cit. Portanto. O Integralismo de Plínio Salgado. que criaram nele o sentido de ser a infância da classe no Brasil. Forma de Regressividade no Capitalismo Hiper-tardio. temos que questionar se por não terem ainda a capacidade de “se organizarem em classe”. particularmente. O Ceará. o operariado cearense no meio das conjunturas. . Se em primeiro momento. a esperança messiânica do Reino de Deus em 250 uma terra renovada ”. onde sobressaem. percebemos as razões de ter sido ali o nascedouro de movimentos que deram coloração ao cenário nacional.. cit. agentes que no caso brasileiro é a quem devemos realmente creditar o sucesso do discurso da direita daquela época.. como militante especial (.) uma espécie de sacerdote que soleniza o cotidiano da entidade 248 que representa . op. a religião teve sua cota de participação na decisão e adesão dos trabalhadores ao chamamento do Severino Sombra.. Pátria e Família". Há uma “variante do catolicismo designada como rústico”. 250 MONTEIRO. op. 248 CORDEIRO. o “1º de Maio é o dia do trabalho. p 45. Isso na verdade foi gestado pela fraca industrialização nordestina.. 2. é na concepção religiosa. que vamos buscar o entendimento aos movimentos sociais que têm a sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja. vitimado pelas secas constantes. São Paulo: Editora Ciências Humanas. componente aproveitado por aqueles que usavam o lema "Deus.A religião.

largamente difundido. Com o prenúncio deste acontecimento. Essas ideologias criaram uma rede de persuasão que refletiu-se nos quatro cantos do mundo. deu ainda maior conotação aos campos sagrados da fé. Portanto. a proteção que necessitavam. É. mostrava o valor da doutrina católica aos trabalhadores. na Itália e o Nazismo. crises econômicas surgiram na Europa. usadas na elaboração de um discurso que conclamava os trabalhadores brasileiros para a perspectiva de uma melhoria de vida. Este fato. Ibiapina foi visto como profeta e curador. na Península Ibérica. Pe.um missionário no sertão. retraindo o fluxo de capital para o Brasil. No meio de toda essa ‘reviravolta”. a disciplinação do pensamento deste sertanejo que. estavam comprometidas com a preparação da guerra. Ao consagrar e dar em comunhão a uma das suas beatas. surgiram os “movimentos sociais” como resposta. seguindo o mesmo caminho. de maneira geral. etc. Ao fundar algumas “casas de caridade”. nos fornecerá talvez a compreensão do que se passou. surge no Nordeste um precursor de Cícero Romão Batista – o Padre Mestre Ibiapina . Já por volta de 1853. Houve uma diminuição da importação de produtos manufaturados e as nações que investiam em nosso país. Padre Cícero. Foram eles: o Integralismo. O Movimento Legionário criado por Sombra.143 vitimado por uma série de vicissitudes análogas à sua região. na concepção religiosa que vamos buscar o entendimento dos movimentos sociais que tiveram sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja. 4. com os pés no chão e a roupa desbotada pelo sol escaldante. Mussolini e Hitler tiveram suas imagens apregoadas no Brasil. não se limitando às práticas piedosas e filantrópicas. O período “entre guerras” foi rico em acontecimentos marcantes para o mundo. O mundo passava pelo vendaval de grandes transformações. de açudes. em 1913. propondo a eles o papel de vanguarda de uma nova ordem.A sua pretensão: dar resposta ao mundo em crise. levou a alma do povo oprimido à buscar na Igreja Católica. também. o Fascismo. que desenvolveu uma intensa militância religiosa. havia enterrado junto com as . a hóstia se transformou em sangue. mas estendendo seu campo de atividade à construção de 251 estradas. na Alemanha. Sardinha.

que dessem conta de reencaminhar a humanidade no trajeto perdido. de materiais de construção e etc. O modelo urbano industrial. A preocupação por parte do governo getulista em conter a politização e emancipação do operariado concorre. assim como atender algumas das suas reivindicações. Raimundo. fruto da economia gerada por esse produto. 124. p. B.144 suas últimas sementes. . por não ter mais 252 nada ou alguém para acreditar. o proletariado urbano não seria senão “uma pequena mancha” 253 em um imenso oceano agrário . o Estado tentou tutelar a classe operária e impedir a autonomia de suas organizações sindicais. cit. orientar. 1976. Segundo Boris Fausto. Naquele momento. o mundo também assistia à falência do liberalismo e a consolidação do nazi-fascismo. revelando a necessidade de se pensar em uma redefinição das políticas nacionais. Derivada das condições inerentes à produção cafeeira. Trabalho Urbano e Conflito Social (1890 – 1920 ). educar. Essa indústria incipiente situava-se principalmente nas capitais dos Estados do Rio de Janeiro. no contexto de trinta. que se tornaria “caso 252 CORDEIRO Júnior. que antes de 1930 tinham referência na agro-exportação. naquele momento. Essa mudança. valorizar os operários. Se o Estado nacional brasileiro buscava. propiciou a questão social trazida na esteira da contradição entre a burguesia agrária e a classe operária. advindas da conjuntura internacionais pré-guerra e das contradições inerentes ao próprio processo de modernização. A emergência e a consolidação da “nova ordem” não podem ser analisadas apenas em função das condições sócio-políticas. 253 FAUSTO. de São Paulo e de Pernambuco. passou a assumir o modelo industrial. efetivou uma mudança comportamental no meio proletário urbano. seguiu “o canto da sereia legionária ”. gestado na Revolução de 30 como resultado de uma política econômica de incentivo à industrialização e como política social trabalhista de cunho corporativista. Esses movimentos tinham os mesmos objetivos em comum: proteger. os mantinha afastados dos perigos que os comunistas acenavam. para explicar o surgimento e expansão de movimentos políticos. de vestuário. São Paulo: DIFEL. op.. os vinculados aos ensinamentos apregoados pela Igreja. sua identidade. O processo de industrialização era frágil. p. constituindo-se no eixo da crise do estado oligárquico. encabeçada pela reorientação dos modelos econômicos. Com isso. significando que traziam para as classes dominantes a chamada questão social. a acumulação ou a concentração de renda. os seus próprios sonhos e. de calçados. 5. consubstanciava-se numa produção basicamente composta do ramo têxtil.

preparada por Jackson de Figueiredo. Outros setores da sociedade também se sentiam insatisfeitos com os caminhos indicados pela mudança na reorganização da política-econômica e começaram a articular movimentos que procuravam responder as ansiedades surgidas pela 255 falta de projeto político das elites.Algumas Cenas Brasileiras. 1978. p 19. defendendo o catolicismo renovado sob a inspiração de filósofos franceses e caminhando para o Tradicionalismo Social. . levando-os a questionar a situação nacional. Em março de 1932. na França”. Marilena . mas a possível mobilização de alguns já era temida pelas classes 254 conservadoras . fazendo-os acreditar que poderiam alcançar o que prometia.145 de polícia”. Maria Silvia Carvalho. 5. de 23 de março de 1932. Analisara o papel das sociedades secretas. Sentia- 254MUNAKATA. no Ceará. já que os trabalhadores eram continuadamente bombardeados por “novas idéias”. Em um artigo nesse jornal. O discurso ideológico da Legião. FRANCO. fundado em 1922. Kazumi. Por ser desorganizada.As primeiras atividades: uma das tendências da frente integralista. Dissertação (Mestrado de História) Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. a classe operária era incapaz de tomar decisões que influíssem na política nacional. possibilitou a Severino Sombra provocar em seus legionados a crença de seus conhecimentos sociais e políticos. por De Maistre”. Sombra descreve o grupo: “Era um grupo de formação antiliberal. como dos militantes do Partido Comunista Brasileiro. São Paulo. pretendendo a renovação católica. por traduzir a necessidade de levar em consideração essa classe e o seu peso político. 1982. tinha em mente trazer para sua terra natal o embasamento político-social adquirido no Cento D. 255 CHAUI. Mimeo. Ele próprio estudara a fundo a “história da contra revolução. A questão operária passou a ser motivo de preocupação. p 10. cuja reflexão era trazer à juventude a efervescência glamurosa do Rio de Janeiro. Ideologia e mobilização CEDEC. por De Bonald. tão influentes na deflagração da Revolução Francesa. tanto dos anarquistas. Vital. assim como a recorrência ao uso das imagens. São Paulo: Editora Paz e Terra. Quando deu início a sua atividade intelectual no jornal católico “O Nordeste”. anunciou-se a breve fundação da Sociedade de Estudos Político -SEP-.

desagradando o chefe da polícia local. entendeu que aquela era a hora de se fazer alguma coisa pelo país. Chegando em Passo Fundo. permitindo a estes a conscientização dos direitos e deveres materiais e morais. após muita reflexão. discussões. sem a qual não se 256 faria uma revolução.. Como esta era fruto de uma aliança liberal e ele combatia o liberalismo. mas faltava-lhes o realismo propiciado por uma ideologia bem urdida. Vassouras. Aderira à pregação de Jackson de Figueiredo. colocando em seu lugar a representação de classes em consonância com um Estado forte e centralizado. Não podia aceitar a doutrinação dos tenentes. Eduardo Gomes. pretendendo ampliar o corporativismo nas bases de uma legislação social que abolisse o partidarismo. convidando Alceu de Amoroso Lima para isto. Nesse período. Severino Sombra decidiu ampliá-lo para todo o Brasil. Apud. Sombra agitou a cidade pacata com a sua práxis causando tamanho reboliço. Propunha um contrato coletivo.apresentavam excelente conteúdo moral. 117. Severino Sombra. com a participação dos operários nos lucros da empresa. Diante da expansão do movimento legionário no Ceará. RJ. então dominante. este recusou o convite. op. Com o controle da economia e da política. enfim. a ponto de desagradar “alguns”. além de preconizar a cogestão.146 se revoltado com o contexto político brasileiro. Por estar dirigindo o Centro D. MONTENEGRO. a obediência às oito horas de trabalho diário. a Revolução de 30 foi deflagrada.Juarez Távora. do limite de trabalho para menores e mulheres. ele agiu como determinava a lei. Numa briga entre soldados do quartel em que servia com soldados da policia civil. Tinha como objetivo o reformismo para o Brasil. surgiria um novo país. . foi preso. do repouso dominical. ao mesmo tempo em que tomassem conhecimento das questões econômicas e se preparassem para ascender a pequenas propriedades através de cooperativas. que telegrafou ao governador e pediu sua transferência para o RS. boas intenções no agir e no aceno de reformas. RS . sem conflitos sociais e hierarquizado dentro da ordem e do progresso. mas sugeriu o nome do jornalista paulista 256 SOMBRA. 257 Quando chegou em Fortaleza imbuído do sentimento renovador católico. motivando a criação de “O Ideal Legionário”. definindo-a como uma organização com finalidade econômica. A LCT prometia educar os legionados. cartilha que trazia as bases da LCT. com a fixação e o cumprimento de um salário vital. publicou panfletos. cujos ícones . que buscava “uma nova base para a renovação política brasileira”. cit. Vital. política e social. Siqueira Campos .Ms. atuou como escritor em jornais. ele promoveu palestras. O que transformou seu ideal foi o episódio ocorrido no 8º 257 Regimento de Passo Fundo.

P. Plínio Salgado aceitou levar ao Sul do país a Legião 258 Trabalhista Brasileira . que falava da necessidade de se reunirem com urgência. se não fundirmos numa só. convocou uma reunião em São Paulo. Vassouras-RJ.) para realização do movimento cultural que eu projetara. juntamente com outros intelectuais da direita – em sua maioria estudantes de Direito do Largo São Francisco . para que ele não fracassasse.147 Plínio Salgado." SOMBRA. Você sabe pelo que lhe disse dos responsáveis pelas conseqüências da desagregação que pode ressaltar.. em fins de1931. que escrevia no jornal “A Razão”. Memórias. de Minas Gerais. Fita nº 8. a 258 Quando a Legião estava para se expandir ao resto do país.. Sombra muda seu nome para Legião Brasileira do Trabalho. mostrei o meu pensamento para muitos.) Indicaram-me o escritor Plínio Salgado.articulava já a fundação de um movimento autoritário em nível nacional: a Ação Integralista Brasileira. Mas. Severino Sombra. Eu tive de assumir a chefia do movimento aqui.E. com o estouro da Revolução Constitucionalista. Museu Severino Sombra. para que fosse um dos participantes da grande missão de estender a Legião Brasileira do Trabalho ao Brasil inteiro. corremos o risco de vermos dispersar-se em movimentos desconexos o maior movimento da mocidade brasileira de todos os tempos”. alegando a 259 necessidade de criação de uma base ideológica . . em julho de 1932.. sentindo a demora de noticias por parte de Plínio Salgado. Severino. que escrevia” Notas Políticas”no jornal “A Razão”. ao criar a Sociedade de Estudos Políticos(SEP).Centro de Documentação e Informação Cientifica “Professor Casemiro Reis Filho” Cedik-PUC/SP 259 “Com essas idéias (expandir a LBT).. “Se essa reunião não se efectuar logo. venho ao Rio. porém. (. Alguns dias antes da data marcada para a realização da reunião. Entrevista. Também a organização operária no sul. Após entendimentos. e de que já havia entrado em contato com Olbiano de Melo. porém pediu um prazo para isto. o encontro não se efetivou. de São Paulo(. nos moldes da sua é urgente e depende de você. recebeu uma carta de Salgado. em São Paulo. Olbiano de Melo queria padronizar as informações. para haver uma absoluta unidade de idéias.) Entendemo-nos Ficou resolvida a creação de uma SOCIEDADE DE ESTUDOS POLITICOS (S.

148 mentalidade do Norte e do Sul” (. se afastou do Integralismo. Ms SS. Museu SS – Vassouras-RJ. o seu grande golpe: ir ao Norte. contrariando sua idéia. Vassouras. A dolorosa guerra civil prolongou-se por mais de três meses impedindo a reunião de se efetivar. Memórias. ao perceber que Plínio Salgado havia dado uma roupagem mais urbana ao movimento e que. de ter apropriado e incorporado seu projeto. Foi mandado para Portugal. em Recife. com seus companheiros debaixo de vaias e insultos. em João Pessoa. explorar na Bahia. de onde saíra com seus companheiros debaixo de vaias e insultos. com ameaças contra os jovens militares que exerciam atividades políticas. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários. ao juntar as fardas caqui da LCT com as verdes do Integralismo. aproveitar o meu movimento. retornou ao Ceará a fim de apelar aos companheiros de militância na tentativa de arregimentar forças por um movimento pacificador.. No mesmo ano. que era proletária e sindical. Severino Sombra não compareceu ao encontro.) Plínio 260 Salgado. porém. RJ.” SOMBRA. A Verdade Sobre a Ação Integralista Brasileira. realizado no Teatro Municipal.. Ao voltar para o Brasil. Um belo dia. permanecendo no exílio por um ano. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários. p 6 261 “Em Lisboa. aceitou participar do Integralismo. em Natal e em Fortaleza o idealismo da mocidade que 260 SOMBRA. deixando o local. porém. Por coerência com seus pontos de vista integrou-se aos brasileiros que desejavam a paz. soube da fundação da Ação Integralista e da filiação do seu movimento 261 legionário . Desacreditado em São Paulo (. vejo em jornal chegado do Brasil.) planeja então. Severino. realizado no Teatro Municipal. De Lisboa Severino Sombra escreveu: Um belo dia. Após acusar Plínio Salgado de ter plagiado suas obras. acusado de articular forças nordestinas para auxiliar São Paulo contra o governo de Vargas.. vejo em jornal chegado do Brasil. .. Memórias. Impedido pela Revolução. onde estive durante todo o tempo de exílio. não recebi nenhuma noticia do senhor Plínio Salgado. 1984. Lá. ele foi preso. acabou por envolver a classe média. Ao perceber que a luta se arrastava e que no Rio de Janeiro era constante a ameaça de golpes. porém.

Sombra recebeu a seguinte carta de Plínio Salgado: Sombra. conto já com o apoio dos“camisas verdes”em São Paulo. Medicina. fato que é negado por Sombra. Escola de Comercio e Gymnasio de S. quando afirma que nunca havia recebido dele nenhuma carta. o que ele estava desenvolvendo aqui. a cousa vae indo muito bem. o operariado. Memórias. que pedem. Paraíba e Goyaz. (Nota Oficial mandada 262 SOMBRA. Ainda no exílio. Já tenho núcleos no Amazonas. . Rio. há tempos. em São Paulo”.149 eu chamara a luta e junto a qual fizera 262 propaganda em seu nome. No Distrito Federal. o Olbiano de Mello caminha vitorioso. RJ. Paulo. Escrevi-lhe. Plínio Salgado continua a relatar. além dos do Estados que citei acima. op. “Vou publicar uma revista Estudos Integralistas. conto já com o apoio dos ferroviários da Mogyana. como se fizesse uma prestação de contas. Em Minas Geraes. Tenho doutrinado. Engenharia. Venho hoje lhe contar que o movimento em que você me poz. Sorocabana e Nordeste. Já alistei mais de 3. Pará. podendo vestir-lhes a “camisa verde”. Severino. uma longa carta. grande parte dos voluntários paulistas vieram comnosco. em São Paulo.000 “camisas verdes”em São Paulo. marcha victoriosamente. Organizei núcleos integralistas na faculdade de Direito. da qual não tive resposta (Severino afirmou nunca ter recebido tal carta). Um delles foi meu candidato à Constituinte (cumpria justamente uma pena. cit. Quando lemos a introdução desta carta. sem cessar. No Rio Grande do Sul estou começando. Vassouras. tem-se a impressão de que nunca foi interrompido o diálogo entre eles. como participante e responsável por um dos movimentos mais liberais e plutocrata realizado no Brasil”. Pharmacia. Bahia e Recife. Paulista.

Andrino Braga. Helder Câmara escreveu no jornal “A Ação”. Como se pode observar. Helder Câmara afirmava que seu antes amigo feria agora os 263 Carta aberta à população do Rio Grande do Sul. 264 CÂMARA. em que elle fazia referências ao Congresso de Victória. p 74. até budhista 263 poderia ingressar. Paulo!!!” 7. mais tarde Sombra diria numa entrevista gravada pertencente ao CEDIK: “Ah! O Sr Plínio que deixara S. Helio F. Paulo sangrando de dor e viera ao Congresso Revolucionário do Rio. “O Integralismo em face do Catolicismo”. crítica feroz ao antigo companheiro. assinada por Humberto Della Méa. Onde dizia: “a relação do Integralismo com falsos católicos. de 11 de fevereiro de 1934. 1958. já havia conhecido. Carta dirigida aos principais jornais do Rio Grande do Sul colocam os motivos que os levaram a tomarem tal atitude.150 publicar em Recife (Jornal Pequeno” de 22 de Março de 1934) Em desabafo. Eduardo Martins Gonçalves.A Dissidência de Severino Sombra. aceitando até budistas: O Triunvirato Provincial procurando elucidar essa dúvida deu uma carta assinada pelo Dr. Vassouras-RJ. andava agora. que o movimento que se dizia cristão passava agora a ser somente “deista”. não foi somente Severino Sombra que se desligou da AIB. que causa ojeriza aos seus amigos de 264 ontem ”. Sporleder. como o exemplo citado dos participantes do Sul do país. Leães Sobrinho. Enumeraram que dentro das hostes integralistas havia: maçons. Horacio Duarte. In: Enciclopédia do Integralismo V. dizia que nelle. para demonstrar o christianismo do movimento. desde os primeiros tempos um traidor em potencial: o Severino Sombra. Ao tomar conhecimento de dissidência dele. Em carta aberta a população do Rio Grande do Sul. porém sua dissidência foi vista por seus antigos companheiros como uma traição. Pedro Weinmann. IV. que existia tal desorganização dentro da hierarquia. outros membros da AIB também o fizeram. e onde. Severino SOMBRA. Rio de Janeiro: Editora Livraria Clássica Brasileira. Helder. falta de sinceridade no relato dos dados. . Alcino Trindade. choramingando pedidos aos “amigos de S. no qual tomara parte como representante desta Província.

quando da sua ordenação sacerdotal não reconhecia mais o antigo amigo e reclamava deste ter enviado uma carta as Autoridades Eclesiásticas. Isto deveria bastar para a Igreja. que fora afilhado de Severino Sombra. Por todas essas circunstâncias. p. Quais os nexos que levaram Severino Sombra a estruturar um ideal capaz de organizar um movimento que trazia em seu bojo a filosofia social-cristã. a cidade de Deus e a cidade da terra..“Mais uma vez surgiram dúvidas sobre perigos de heresias na doutrina e prática integralista.. op. a LCT representou um momento importante na História dos movimentos de massa no 266 Brasil . O que pretendemos é mostrar até que ponto "certas contingências" moldam o modo de ser e de pensar de alguns indivíduos. Não foi objetivo desse artigo falar da biografia de Severino Sombra. Se compreendermos suas motivações e sua interpretação. deste momento da historiografia. O Padre. cit. bem intencionados uns mal intencionados outros. .. que abria uma brecha nas fileiras integralistas: Católicos. estruturada nos moldes do período medieval. têm tentado jogar uma contra a outra.” Suas queixas reportavam o desentendimento entre os participantes do Sigma liderados por Severino Sombra. . talvez possamos encontrar alguma idéia para as soluções que nos apresentam o momento político atual. sempre se repete. que o nacionalismo orgânico das pátrias totalitárias é o sentido novo do século. a História como o pêndulo de um relógio. 74. de logo se prestasse a focalizar todos os belos valores positivos que a nova idéia contém. Que todos os que se levantaram em pontos diversos do Brasil contra a doutrina do Sigma meditem no que lhes manda um sacerdote camisa-verde da província do Ceará. Não aprende.151 sentimentos cristãos daqueles que de boa vontade ansiavam pelas reformas no meio trabalhista brasileiro. ao que parece. 374. que pregava o retorno à terra. 266 PONTE. 265 esperando ser condenado por elas o movimento. tomando sua posição providencial na caminhada humana. visto que. A LCT sendo corporativa propunha a abolição das classes e imprimia a esse movimento a necessidade de um governo forte. É com esse objetivo que nos lançamos 265 Ibid. p.

2-10. iniciou cedo sua vida intelectual. 268Ibid. mas também pelas inúmeras atividades que desempenhou ao longo da vida. por um judeu que há um século subordina a economia brasileira ao interesses do 267 banqueirismo internacional e faz do governo uma marionete ”. Com esse trabalho ele denunciava aos brasileiros o que ele considerava que estava por trás do “mal do mundo”. Gustavo Barroso. Somente a partir de “O Integralismo em Marcha” que ele adotara suas ideologias anti-semitas. A Crítica Romântica à Miséria Brasileira de Gustavo Barroso. Gustavo Barroso não foi apenas conhecido pela ampla produção literária. em 1914. 1989. . Das três vertentes sobre as quais se diz da formação do integralismo.O Integralismo: conclusões finais. Assim passa em 1933. Brasília: Editora Universidade de Brasília. nascido em 29 de dezembro de 1888. através da compreensão do passado buscarmos entender o nosso presente. Francisco Martins. Dissertação (Mestrado em História). 8.152 nesta pesquisa. as causas do depauperamento de nossa economia e encontra essa causa a partir dos primeiros empréstimos externos tomados a banqueiros judeus logo aos a Independência e que se desdobraram e assumiram uma nova forma de 269 colonização Acreditando nas igualdades humanas traçou analogias entre os cantadores sertanejos e os menestréis medievais. In : Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro. p. 267 RAGO FILHO. Foi secretario do Estado do Interior e da Justiça. p. Antonio. Publicando a sua primeira obra integralista. no Ceará . 269 SOUZA. Ao teorizar sobre a nova posição política procurou na análise histórico-economica. após a tradução que fez do “O Protocolo de Sião”. 64. a integrar as fileiras verdes. “O Integralismo”. então presidente da Academia de Brasileira de Letras. em Fortaleza. Cearense. 1982. Quando lançou “Brasil – Colônia de Banqueiros” tenta demonstrar que a crise nacional é “produzida historicamente pelo capital inglês “mas precisamente por Rotschild. Departamento de PósGraduação em Historia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo São Paulo. Empenhou-se no projeto de renovar a sociedade “da restauração do culto de seu glorioso 268 passado ”. p. 8. político. que ele entrará em contato com as idéias plínianas. jornalista. onde reúne uma série de conferencias datadas do mesmo ano. escritor. Foi advogado. Leu pela primeira vez o Manifesto de Outubro de 1932. já com 44 anos.

Formou com Barroso e Salgado o tripé da 270 SIMÔES. não uma expressão mimética de fenômenos como o fascismo italiano e muito menos do nazismo. após contato com as idéias integralistas vistas por ele naquele momento como capazes de dar uma resposta ao artificialismo em que estavam submetidas as intelectualidades brasileiras. portanto. 2005. Afastou-se do movimento após o golpe de 37. à organização jurídico-política ordenamento de um Estado modernizador. p. assumiu a tarefa de teorizar princípios desta filosofia política ligada ao processo revolucionário que se 271 desdobrava ”. escritor. op.grupos de intelectuais que percorriam o país para divulgar e criar novos grupos. 64.Aderiu a AIB em 1933. o segundo homem no integralismo. 271 SOUZA. além de ser membro do 270 Conselho Supremo . da Economia. político. Renata Duarte. da Ciência Jurídica e finalmente ao nível da reflexão da filosofia política. Essa seria a base sobre a qual alicerçaria o arcabouço da unidade planejada para a 272 integração e respectivos ordenamentos” . professor do Largo São Francisco.Para ele haveria uma possibilidade de aglutinar os interesses dos sindicatos e respectivas corporações.. “Corporação e sindicato. . dentro das nossas especificidades e. 56. o integralismo era fruto de um amadurecimento analítico dos problemas que rondavam o nosso país. Jurista famoso. p. 272 Ibid. Estado de São Paulo. Foi o comandante-geral das milícias integralistas e respondia pela secretaria Nacional de Educação Moral e Cívica. aderiu ao integralismo em 1933. Programa de Estudos de Pós-Graduados em Educação: História. Integralismo e Ação Católica: Sistematizando as Propostas Políticas e Educacionais de Plínio Salgado. Ele nascido na mesma cidade de Plínio São Bento do Sapucaí.153 elegendo-se deputado Federal no ano seguinte. que tomando a si a posição de vanguarda entre os jovens de sua época. Reale toma o socialismo como um valor que se vinculará a toda a problemática brasileira. sem sombra de dúvidas. uma proposta mais tecnicista. Jackson de Figueiredo e Alceu do Amoroso Lima no Período de 1921 a 1945. Foi. p. serão trabalhados ao nível da sociologia. cit. Dissertação (Mestrado em Educação). Já para Miguel Reale. Política e Sociedade da Pontifícia Universidade de São Paulo. por discordar da aliança feita entre o integralismo com os liberais em 1938. 64.Ele inicia assim uma corrente visando mais o desenvolvimento social vinculado ao problema da liberdade “Essa corrente foi iniciada com a reflexão jurídico-poíitica. São Paulo. Foi um dos responsáveis pelas “bandeiras” .Coube a ele dentro das fileiras do credo verde. em 1910. conceitos que para ele.

como foi o caso em nosso país. a Legião é a precursora da legislação trabalhista 275 no Brasil” . São Paulo: DIFEL. a partir da Carta Del Lavorno. a respeito ver: MELQUIOR.M. Já. na página 115. em sua obra citada. p. traz a afirmativa de que “a Legião Cearense do Trabalho teve uma grande repercussão política.F. mas o projeto político que a AIB ofereceu em 1932. Apud. vê o Integralismo como resposta ao capitalismo hipertardio. cit. os trabalhadores deveriam ser isentos de culpa. a compreensão da sua capacidade de influir nos vários segmentos da sociedade brasileira. 115. M. 1983. TRINDADE.neste contexto. negando sua identidade com o fascismo europeu. além da natureza ideológica do movimento. p. não permitindo por parte dos trabalhadores. mas.Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937) Bauru. até porque esses “sucessos da direita no Brasil’ só se deram em função das 273 TRINDADE. 21. 1999. “temente a Deus" e.. 274 SOMBRA. as condições históricas que permitiram o seu 276 nascimento.” Uma outra corrente intelectual. 1974. a ponto de ter precedido e reforçado a 273 convergência ideológica de direita que se manifestou nessa época” . p. 277 CAVALARI. o Integralismo seria uma ideologia reacionária e utópica.São Paulo.).. 114.154 base integralista. Quando a historiografia nacional questiona o Integralismo. Integralismo : fascismo brasileiro na década de 30. em nossa leitura é bastante problemática a afirmação sobre a criação das leis trabalhistas no país. pelo contrário. Esta corrente “a analisar . R. Partindo do pressuposto que a crítica do Integralismo tem sucumbido “a explicação mimética. 26. pois muitos já o fizeram. Feiteiro. 275 Embora Hélgio Trindade tenha afirmado isso.. liderada pela interpretação chasiniana. sobre a biografia de Plínio Salgado desnecessário se faz discorrer sobre ela.“uma forma de 277 regressão” no desenvolvimento do capitalismo nacional. forte. p. sujeito à lei de oferta e procura: “A influência da Carta Del Lavoro. SP : EDUSC. op. H. determinante. 276 CAVALARI. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. A LCT criou as bases do Integralismo e demonstrou que Plínio Salgado já tinha a pretensão de criar um Estado integral. 257-354. Nos dois casos. p. Este foi um movimento de expressão. Hélgio. . O forte sentimento religioso e místico do nordestino. J. quando foi fundada. que defendia o trabalho e que não aceitava 274 a possibilidade deste ser tratado como mercadoria . G. fica evidente (. era emprestado da Legião criada por Sombra. “Grandeza de Batle” In : O Argumento Liberal. a fraca industrialização que ocorria nos Estados brasileiros que se situavam fora do eixo Rio. R.

o 279 Estado é o sujeito histórico do Brasil. Silvia.  EMÍLIA CARNEVALI DA SILVA . cultural e religiosa ocorridas entre as duas guerras mundiais.. op. na verdade o Integralismo não pode ser repudiado pela História.21. M. já que a classe média não dispunha de nenhum projeto social e político. 9.. Apud. cit.cit. São Paulo. ajudado pelos militares. p. que somente o Estado poderia "preencher". op. 279 CHAUÍ. Nascido desse vazio político. FRANCO. pois foi uma resposta às transformações políticas.155 contingências mostradas. Embora tenha sido desqualificado pela 278 historiografia como mero fascismo caboclo . Os operários desorganizados. 2006. fornecendo o espaço para a penetração de idéias totalitaristas. fizeram com que surgisse "um vazio de poder". São Paulo. 20 . Marilena.Mestre em História Política. Pontifícia Universidade Católica. CAVALARI. à falta de uma burguesia nacional plenamente constituída. p 19. . 278 TRINDADE. econômica.

19. Já há muito está superado o conceito de que a imprensa. Olbiano de Mello. Na imprensa integralista não foi diferente. por ser tendenciosa – seja a “grande imprensa”. 280 CAPELATO. Paulo. pretendo fazer uma análise da trajetória da imprensa integralista na capital paulista. Tal tema – a relação entre integralistas e trabalhadores – também tem sido pouco estudado.156 8.os trabalhadores foi pouco comum. a imprensa é um vasto e diversificado depositário de informações. dentre outros). 1980.ou sobre . Neste texto. Como é sabido. No que tange à imprensa partidária – ainda mais desprezada – esquece-se que ela pode ser uma fonte fundamental a respeito do partido ou ideologia dos quais determinado periódico é porta-voz. Miguel Reale. que foi um dos principais periódicos integralistas do país na década de 1930. no máximo. as quais ocupavam espaços consideráveis em vários de seus jornais. Nestes. Maria Helena & PRADO. – não seria útil para a investigação historiográfica. a de caráter partidário etc. esse caráter tendencioso pode elucidar muito mais a respeito da própria fonte do que sobre seu objeto de descrição. No que tange à questão operária. No dizer de Maria Helena Capelato e Maria Lígia Prado. poderia ser encontrada. documento riquíssimo para a pesquisa histórica. “a escolha de um jornal como objeto de estudo justifica-se por entender-se a imprensa fundamentalmente como instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na 280 vida social”. p. Esse artigo pretende ser uma contribuição para o conhecimento da imprensa integralista e do espaço reservado às questões sindicias e trabalhistas nessa mesma imprensa. um discurso específico voltado para . uma temática sindical-corporativa. . A IMPRENSA INTEGRALISTA DE SÃO PAULO E OS TRABALHADORES URBANOS (1932-1938) Renato Alencar Dotta De uma forma geral. Enfatizei a análise do jornal Acção. centrando-me nas questões sindicais e trabalhistas. São Paulo: Alfa-Ômega. Gustavo Barroso. O Bravo Matutino – Imprensa e ideologia: o jornal O Estado de S. verifiquei que nos livros doutrinários de autores integralistas (Plínio Salgado. Maria Lígia.

anexo II. cit. . do Rio de Janeiro. op.. Aliás. não há textos sobre operários ou trabalho. publicavam artigos 281 de chefes e militantes. João R. A “Sigma Jornaes Reunidos” chegou a ter 88 jornais (CAVALARI. René. 1966. Integralismo e Política Regional – A Ação Integralista no Maranhão (1933-1937).. Nos quatro exemplares encontrados. p. História da Imprensa Brasileira. Rio de Janeiro. Havia ainda jornais que não pertenciam ao movimento. 1987. Rosa M. Nelson Werneck. v. os jornais publicados no interior do estado. havia até uma folha integralista em língua alemã em Novo Hamburgo (RS). p.58). 282 Como exemplo. A imprensa do movimento integralista era bem abrangente. simpatizando abertamente com a causa integralista. e CALDEIRA. Rosa M. cit. Antes de analisarmos o Acção. op. P..84 % de todo o país. Não encontrei listas de jornais simpatizantes.157 que era. Os exemplares são de datas com 281 Detive-me nos jornais da capital paulista e que tinham alcance por todo o estado. Várias capitais . chamada Der Kampf. Estão excluídos. além de alguns fatos políticos. nem é citado seu caráter partidário. Para uma ampla relação dos periódicos integralistas. cit. faremos uma pequena retrospectiva da imprensa 283 do movimento publicada na capital paulista .de Manaus a Porto Alegre . Entre seus artigos. op. 100.e cidades de interior dos estados possuíam. mas há indicações valiosas sobre isso em GERTZ. 384. de Nelson Werneck Sodré. estão textos de interesse cultural e livresco. que incluía ainda revistas de circulação nacional. Civilização Brasileira. e que muito pouco poderia informar sobre a relação entre integralistas e trabalhadores. TRINDADE. um dos principais jornais integralistas do país. Mercado Aberto. e era o porta-voz do Departamento Universitário da AIB da Província de São Paulo. As revistas eram Anauê (sediada no Rio de Janeiro) e Panorama (com redação em São Paulo e sob a responsabilidade de Miguel Reale). com 16. um jornal diário ou semanário diretamente vinculado ao movimento.. Quanto aos jornais. Anna Blume. S. p. o estado de São Paulo tinha 476 472 trabalhadores na indústria. Paulo. foi A Offensiva. O Fascismo no Sul do Brasil. O segundo contingente ficava no Distrito Federal. formando uma cadeia de jornais de nível nacional que foi batizada de “Sigma Jornaes Reunidos”. op. ou 42. pois. 1999. O primeiro jornal da AIB publicado na cidade de São Paulo (aliás. 283 O único periódico integralista do qual encontramos referência na História da Imprensa Brasileira. lançado em dezembro de 1932. Alegre. V. 361-3 e CAVALARI. o primeiro no Brasil) foi O Integralista.. mas que. no auge do movimento. cit.78 %. em 1939. CARONE.. de caráter abstrato. O foco sobre a imprensa integralista no estado de São Paulo – e não outro estado – se justifica porque o mesmo já possuía naquele 282 momento o maior contingente operário do Brasil. SODRÉ. p. porém.

os outros exemplares são: dois de 1935 e um de 1936). Esse fato seria um dos estopins da chamada Revolução Constitucionalista. 285 BASTOS. nenhum artigo referente à questão trabalhista. por exemplo. A data escolhida para o surgimento do jornal não foi casual: 23 de maio. Oswaldo. juntamente com uma multidão a redação de um jornal favorável ao governo Vargas. a maior parte dos textos desse exemplar foi escrita por militantes da AIB e referentes ao integralismo. de caráter mais geral. O Aço Verde foi um periódico integralista publicado na cidade de São Paulo. efeméride já celebrada pela elite paulista como um símbolo de 284 resistência ao governo Vargas. Sob a direção de Adelmo Sampaio. de periodicidade semanal. . os estudantes Miragaia. foram considerados “mártires” pela elite paulista. em resposta aos exploradores do sangue ainda quente de uma mocidade generosa! É o batismo de fogo de uma geração. que cai sem vida! É mais tarde. O Aço Verde. Não existe. isso já em 1935. seu primeiro número possui oito páginas. Os jovens. Martins. não sendo possível precisar uma periodicidade (o número 1 é de dezembro de 1932. Apesar do título vago. p. nesse mesmo dia era empastelado por motivos semelhantes o jornal A Razão. que despertou para glória da vida no lamaçal das trincheiras! (. 23/5/1935 (nº 1).158 espaços de tempo variáveis entre si.2.. sua irmã que veste uma camisa verde. datado de outubro de 1933.) O Aço Verde aparece neste dia histórico de Piratininga gloriosa – para ser a grande Tribuna donde falarão os moços paulistas a palavra moça da 285 Revolução Integralista. Dirigido por Osvaldo Bastos. 284 Em 23 de maio de 1932. “O nosso aparecimento”. do qual localizamos apenas o exemplar de número 4. que veiculava os artigos de Plínio Salgado antes da criação da AIB. Dráusio e Camargo foram mortos num protesto depois de atacarem. tinha por subtítulo: “Gazeta Literária-Política-Noticiosa”. contudo. com a intenção de atingir um maior público.. É a mocidade de uma Província humilhada por uma ditadura inepta que se ergue forte e luta! É Miragaia. Outro periódico integralista sediado em São Paulo chamava-se Variedades. Curiosamente. mais conhecidos pela sigla MMDC.

Terra e Liberdade”. 8. Sem Deus. 1.) 286 FUNARI. TERRA e LIBERDADE. Uma tônica do jornal será o anticomunismo. não há justiça. é patente. (. . Clemente. o texto “Pão. à frente dos ‘aliancistas’ daquela Província. Só o Integralismo dará Pão. 23/5/1935 (nº 1). que segue uma estrutura que será recorrente em outros artigos de jornal: critica-se o capitalismo e o liberalismo. desqualifica o mote da ANL ao mesmo tempo que exalta o da AIB (“Deus. “O operariado em face do Integralismo”. logo não há terra. não há dignidade humana.159 Embora não houvesse uma seção voltada ao operariado no semanário. inclusive no meio operário. por fim. depois a “ilusão” do comunismo e. 30/5/1935 (nº 2). logo não há pão. as notícias e textos doutrinários dirigidos aos trabalhadores eram freqüentes. Só o Integralismo dará PÃO. que vinha arrebanhando um número crescente de militantes. voltado para a Aliança Nacional Libertadora (ANL)... O Aço Verde. Terra e Liberdade. p. Assim. mostra-se que a “solução” seria o Estado forte corporativo representado pelo 286 integralismo. 287 “Pão. Sem Pátria. Terra e Liberdade”. em nome da justiça de Deus. O Aço Verde. logo não há liberdade. da 287 honra da Pátria e dos direitos da Família! Somado a esse anticomunismo. Pátria e Família”): Operários! Vosso lugar é com os vossos companheiros que aos milhares já estão no Integralismo. p. diversos nomes de judeus. Vimos na organização do diretório de Belo Horizonte. o antisemitismo também aparece nas páginas do jornal: O consórcio entre o comunismo disfarçado da Aliança Nacional Libertadora e o Judaísmo Internacional. é publicado o artigo “O operariado em face do Integralismo”. não há direitos nacionais. para os Sem Família. Logo no primeiro número.

Não sabemos quando O Aço Verde deixa de circular. datado de 19 de outubro de 1935.. para ti e para teus filhos! Vem ajudar os teus companheiros! Entra. 289 “Aos trabalhadores rurais! Aos colonos! Aos sitiantes! Leiam com atenção!”. um modelo de boletim para trabalhadores rurais. como estás. p. Henry Ford. César. que trabalha o dia inteiro e não tens conforto em casa. Esse boletim era para ser reproduzido pelos núcleos integralistas do interior do estado e distribuídos “aos milhares. 8. 288 “Aliança & Judaísmo S. p. E a estupidez burguesa ainda assim ficará pensando que o problema judaico é uma criação da fantasia dos Srs. muito embora com um discurso calcado nos dogmas integralistas do anticomunismo e até no anti-semitismo. 20/6/1935 (nº 5). 8. teve entre os seus oradores os conhecidos hebreus.”. nem instrução para teus filhos.000 camisas-verdes! 289 O jornal também não deixou de defender a política trabalhista da Itália fascista. em texto que diz que aquele país era “uma imensa 290 oficina em que o trabalho se desenvolve num ritmo fecundo e feliz”. Leunroth (sic) e Fúlvio Abramo. “Fascismo e trabalho”. para as fileiras dos 450. 290 RIVELLI. nem crédito. .) Isso assim. vemos que o jornal integralista que antecede o Acção já procurava manter um diálogo com os trabalhadores. O exemplar mais recente encontrado é o de nº 17. proprietário do Rink São Paulo. 8. nesse mesmo número. não é vida! Isso precisa acabar! Precisa raiar dias melhores. p. nem livros. A. 6/7/1935 (nº 7). já. Leon de Poncins. nem descanso na velhice (. é publicado. em todas as cidades”: Lavrador humilde. que os convoca a entrarem na AIB. O Aço Verde.. do povo alemão e dos 288 integralistas? À caça de adeptos e eleitores. O Aço Verde. Através dessa rápida análise.160 O último comício anti-integralista. realizado em local cedido pelo judeu Saul Cag. O Aço Verde. 20/6/1935 (nº 5).

Vozes. p. uma seção chamada “Syndicalismo” – depois “A Nota Syndical” . Rosa M. quando a AIB sofre um grande impulso em termos de quantidade 291 de adeptos. mas de circulação nacional. temos em fins de 1933: cerca de 20 mil inscritos.. anúncios publicitários. por seus fins propagandísticos. já que o jornal chegou a uma circulação de 78 mil exemplares em nível 292 estadual . sobretudo a partir de 1935. houve desde o primeiro número do Acção. 1. Ou seja. o número teria saltado para 918 mil. 291 A Offensiva. Para se ter uma idéia da importância da questão do trabalhador no movimento integralista. Entre os militantes. 292 Ver Acção. Quanto ao número de filiados da AIB. que devem ser examinados com cuidado. em tese. Em 8/5/1937. entrevistas com pessoas do meio sindical. A Imprensa Operária no Brasil – 1880-1920. em 1936. 380 mil. não podemos esquecer que havia uma tradição de imprensa operária. 34. Assim. Petrópolis. há indicação de que Acção circula em “mais de 400 municípios e distritos brasileiros.que vai marcar presença no jornal até praticamente a extinção da AIB como partido político em dezembro de 1937. A seção sindical circulava diariamente. cit. chegado a 1 milhão 352 mil militantes inscritos.. em 1934. sobretudo a última (posição estratégica. mas podemos crer que ressoava para além da esfera das fileiras verdes. 6 (“Não há município de São Paulo que não receba este jornal. Além da seção sindical. op. temos apenas os computados pelos próprios integralistas. a coluna fica restrita àquele texto principal e o noticiário referente ao trabalhador invade outras páginas do jornal. 180 mil.” 293 Apesar de o analfabetismo ser alto neste momento (sendo que provavelmente. De início. operários de diversos centros urbanos do estado de São Paulo poderiam tomar conhecimento dos pareceres 293 do jornal. à exceção da capa). . com redação no Rio de Janeiro. CAVALARI. V. Cavalari colhe esses dados do jornal Monitor Integralista de 7/10/1936. e até julho de 1937.”) e 12/11/1937. além do texto principal. o Acção certamente era uma importante caixa de ressonância das idéias e ideais integralistas. 1935. p. p. Maria Nazareth. Esta – nem sempre assinada – variou de formato através do tempo. 1978. havia convocações sindicais profissionais. Sobre essa tradição ver: FERREIRA. vemos que era comum os jornais integralistas fazerem referências a operários e trabalhadores em geral. muitos dos não-alfabetizados eram trabalhadores de baixa renda). p. existem notícias referentes às questões do trabalho.3. Alguns meses depois. p.161 Assim. por exemplo. 4. já que tal página tende a ficar mais exposta que as outras. 22/10/1936. possuía uma “Página Syndical”. em geral ligada a anarquistas ou socialistas.

Castro Jr.162 Tal momento. Euclides Figueiredo. o Gen.. teve seu primeiro número lançado em 7 de outubro de 1936. a AIB deixa de existir como partido político. residência oficial do presidente Vargas e sua família. . há um Congresso Operário Integralista. pp. Otávio Mangabeira e o Cel. O diário continua circulando ditadura Vargas adentro. porém com a prescrição do termo “integralismo”. Contudo.” BELLOCH. ordens expedidas pelo Tribunal de Segurança Nacional. de nível nacional. A primeira sede da redação do jornal localizava-se na Rua do Carmo. o Acção vai oficialmente apoiar o Estado Novo. p. depois (a partir do dia 294 Além das estatísticas referentes ao número de adeptos. um indicador mais confiável são os números referentes às eleições de 1936: “Nas eleições municipais realizadas em alguns estados nesse mesmo mês [março 1936]. ambos no Rio de Janeiro. Alzira Alves de (orgs. 37-57. Sobre esse episódio. quarto aniversário de fundação da Ação Integralista. por fim. Esse plano foi utilizado como pretexto para o golpe de novembro de 1937. v. A grande maioria de soldados e marinheiros envolvidos (além de alguns civis) era formada por integralistas. o ponto culminante dessa aproximação/colaboração foi a confecção do chamado “Plano Cohen” –suposto plano de subversão comunista – por um integralista. 1º andar. já citadas. cobre ainda um período particularmente dinâmico do movimento: desde 1935 há 294 uma tendência crescente da militância . vol. Olímpio Mourão Filho. Suas ações restringiram-se basicamente ao dia 11 de maio de 1938. cit. Além disso. capitalizando o clima de anticomunismo existente no país: elegeu 24 prefeitos e mais de quinhentos vereadores em Santa Catarina. Entre os líderes da conspiração estavam Belmiro Valverde. o cap. mas também de grupos liberais (dela participaram representantes da família Mesquita. e o Ten. Paulo. S. O diário Acção. e a AIB passa a se chamar 296 Associação Brasileira de Cultura (ABC). e. analisado nas páginas do Acção. 296 Nesse período. O jornal deixa de existir a menos de um mês antes da “Intentona Integralista” de 11 de maio de 1938. Ceará. e o Ministério da Marinha. Alagoas. no 295 final do mesmo ano há a aproximação com o governo de Vargas e a cancelamento das eleições presidenciais de 1938. Esta consistiu de uma revolta que exprimia a insatisfação . Severo Fournier (estes últimos. no Rio. órgão da AIB na capital paulista. totalizando cerca de 250 mil votos.em dezembro de 1936. antes do golpe do Estado Novo. 17. HILTON. quando foram atacados o Palácio Guanabara. quando. a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República. Hélio. a AIB conseguiu uma importante vitória. em maio de 1937. 3056 (verbete “Plínio Salgado”). op.não só de integralistas. Stanley.) op. entre os líderes). Israel e ABREU. cit.. cit. não-integralistas). 3. SILVA. sem opções. a imprensa integralista mostra apoio a iniciativas governamentais. 295 Entre os principais fatos que apontam uma crescente aproximação entre a AIB e o governo federal estão a suspensão da perseguição e a libertação dos integralistas presos na Bahia. op..

9/10/1936. na Rua Irmã Simpliciana. sendo. 1. Não é à toa que ele surge exatamente em 1936. Pretendia ser um jornal de circulação estadual (ou “provincial”. naturalmente. é uma pequena rua no lado norte da Praça da Sé. Aquele. op. n º 17-A. o maior investimento. na qual Plínio Salgado sairia candidato. provavelmente. Rosa M. A Offensiva (do qual. O prefeito de Cravinhos foi Pedro de Gasperi. unificou-se todos os periódicos da AIB numa rede. pois aproximavam-se as eleições presidenciais de 1938. O diário Acção. em termos de imprensa. p. p. Para um melhor controle. com redação no Rio de Janeiro. sem dúvida. Os jornais integralistas tinham como razão mesma de sua existência. 84. chamada Sigma Jornaes Reunidos. Bento Fontão Lippel. 300 Principal jornal da AIB. Este foi considerado o “Ano Verde”. tendo se tornado um dos mais importantes veículos publicitários do partido. 299 Os candidatos a prefeito do Sigma venceram em Presidente Prudente e Cravinhos. A Offensiva foi fundado por Plínio Salgado a 17/5/1934 e extinto em março de 1938. no 297 centro de São Paulo . com oficinas próprias. p. Acção. circulou ininterruptamente até 23 de abril de 1938. Por tudo isso. Dirigido por seu fundador. 1. criada em 1935 e subordinada à Secretaria Nacional de Propaganda. hoje. o Acção por vezes reproduzia 300 matérias) . era ferroviário.163 3/8/1937). Inicialmente semanal.. era parte 298 deste “consórcio jornalístico”. . Acção foi. os camisas-verdes tiveram importantes vitórias nas eleições de 1936 em diversos estados. tinha circulação nacional. provavelmente a seção paulista da AIB possuía dinheiro em caixa para financiar um jornal diário mais ou menos nos moldes do vespertino integralista carioca. 298 CAVALARI. o periódico integralista de maior longevidade nos anos 30. ser lido em outros estados. tinha como chefe de redação Madeira de Freitas. O vereador da capital era José Cyrillo Jr. 3/8/1937. Vislumbravam a hipótese que parecia cada vez mais palpável de chegar ao poder. depois diário e matutino. A Rua Irmã Simpliciana. cit. 297 “Jornal ‘Acção’ ” (anúncio). dois prefeitos e vários 299 vereadores incluindo um na capital. chegando a eleger no estado de São Paulo. a divulgação da doutrina partidária. sobretudo após a tentativa fracassada de tomada do poder conhecida como Intentona Comunista (o sentimento anticomunista era muito explorado pelos integralistas). já durante a vigência do Estado Novo. ligando esta à Rua Venceslau Brás. se possível. por sinal. Com exceção das segundas-feiras. Acção. nos termos integralistas) e. pois além da crescente militância. da AIB em São Paulo.

Vitale foi militante na AIB. Miguel. São Paulo. tornando-se 301 depois membro da Câmara dos Quatrocentos . Adeus! – Desafios de uma vida (memórias). passou a pertencer ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). Olbiano de Mello e Oliveira Viana.) op. Gustavo Barroso.. Hélgio. Advogado e jornalista. V. Entre seus colaboradores estavam Miguel Reale. depois do Estado Novo entrou no Partido Social Democrático (PSD) em 1949. 305 Ibid. Cintra era também chefe municipal da AIB em São Bernardo. Ernani Silva Bruno. Mário Mazzei Guimarães (advogado) e 303 Benedito Vaz eram os redatores principais das notícias. 101. Nos anos 40. e José Ribeiro de Barros (desta última data até a extinção do periódico. 187. Mico. Alzira Alves de (orgs. três 302 meses depois). 4 (verbete “Benedito Vaz”). mas não teve papel de destaque na AIB. 302 Mário Mazzei Guimarães foi chefe municipal da AIB em Colina. 304 REALE. Volume 1: Destinos Cruzados. uma das poucas fontes de informação sobre o 304 Acção. op. p. cit. São Paulo. em suas Memórias. era “membro destacado da JOC (Juventude Operária Católica)”. Damião Duque de. juntamente com alguns amigos próximos. Luis da Câmara Cascudo. v. p. Hélio Viana.. que escrevia com freqüência no jornal. 301 A Câmara dos Quatrocentos. formada em junho de 1937 era “composta de militantes de diversas províncias integralistas”. Edições GRD. Integralismo – O fascismo. VITALE. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1936. BELLOCH.. Saraiva. Adeus. o Acção teve como diretor e editor Miguel Reale. “Acção foi um vespertino vibrátil e até mesmo agressivo. É interessante acompanhar as lembranças de Miguel Reale. órgão consultivo da AIB. 110-117. Além destes. e no ano seguinte elegeu-se deputado federal pelo seu estado natal na mesma legenda. Segundo o ex-teórico integralista. 110-111. FARIAS. pp.. 3 (verbete “A Ofensiva”). Israel e ABREU. 3518-9. op. 303 Benedito Vaz nasceu em Ipameri (GO) em 28/8/1913. TRINDADE. v. 1996. pp. e Paulo Paulista de Ulhoa Cintra como “secretário” da folha. . Tosco como um moirão mal lavrado e à pressa fincado na terra para servir de marco militar. João. Memórias. trabalharia como redatorchefe do grupo jornalístico Folhas da capital paulista.. Segundo Damião Duque de Farias.. aos quais 305 manifestou seu propósito de fundar um diário em São Paulo. no núcleo de Barretos. 175. cit. 1998. município localizado na região de Barretos (SP). pp. p.164 Durante toda sua existência. Em Defesa da Ordem – Aspectos da práxis conservadora católica no meio operário em São Paulo (1930-1945). São Paulo: Hucitec. Israel e ABREU. denunciava tanto a Thiers Martins Moreira na secretaria e Santos Maia na gerência. p. 2425. Reale lembra da criação do jornal praticamente como uma iniciativa pessoal. Já a gerência passou pelas mãos de Eduardo Graziano (médico) até 14/1/1938. Advogado. BELLOCH. 1986. Alzira Alves.. cit. A partir de 1965.

60 centímetros de altura por 48 de largura. p. o jornal não pretendia ser apenas um repetidor do que se lia nos livros e panfletos integralistas. Segundo Cavalari. .. mesmo antes do Estado Novo. Armando de Salles Oliveira. 309 Cf. CAVALARI.165 pobreza dos recursos como a inexperiência dos ‘focas’ que o 306 redigiam”. o jornal se pretendia de circulação estadual. e às vezes até fora do estado. 79. 308 “Nova fase”. p. 28/9/1937.. p. Contudo. pois tudo isso era veiculado de uma maneira a direcionar o pensamento do leitor e/ou militante. Miguel Reale afirma que. contudo. desde o problema da dívida externa às causas determinantes da persistente crise agrícola e 310 industrial” . Rosa M. cartuns . Tal esforço visava. mais exatamente 49 centímetros de altura por 33 de largura. sobretudo de líderes integralistas. ou seja. “os jornais do interior. e eventualmente. A partir do dia 28 de setembro até sua dissolução. 12/11/1937. p. fins doutrinários. Seu formato. partido do governo estadual “se valia ilicitamente das leis de exceção (baixadas pelo Governo Federal para combater o comunismo) a fim de nos impor uma rígida censura. Rosa M. o jornal 308 passa de vespertino para matutino . p. Tendo atingido uma tiragem declarada de 78 mil 307 exemplares . Ao mesmo tempo. fotos de reuniões do movimento (em sua maioria com os militantes fazendo a saudação com o braço e 309 ostentando o sigma e bandeiras). M. 307 Acção. 3. o Acção passa a ter um formato mais próximo do “tablóide”. de acordo com Reale. O jornal muitas vezes era impedido de fazer críticas ao Partido Constitucionalista (PC). do então candidato às frustradas eleições presidenciais de 1938. 1. p. aqueles que chegavam até o militante mais distante. do número 1 até 27/9/1937). o jornal foi alvo de censura. Assim como os demais jornais integralistas sediados em capitais. “era preocupação diuturna dos colaboradores a análise da conjuntura social e econômica do País. 115.. Mas. op. as imagens da folha eram basicamente fotos personalistas. em seu primeiro ano de existência (isto é. era próximo do formato que hoje chamamos de “standard”. Acção. com um censor como cérbero a 306 Ibid. cit. op.. 310 REALE. id. cit. 113. editados nos grandes centros onde se concentrava a elite dirigente do Movimento”. O PC. 90. eram organizados de modo a reproduzir os jornais maiores. CAVALARI.

apesar de existentes desde o início da circulação do jornal. tema central desta sua tese de 313 doutoramento. . 315 Ibid. Destacando reportagens. São Paulo. 417. as afirmações de anti-semitismo. situando a imprensa como importante divulgadora do preconceito contra os judeus nesse momento histórico. p. 311 Ibid. mas vedava todas em relação ao candidato da oligarquia paulista Salles Oliveira. pp. Tucci Carneiro. Maria Luiza Tucci.. edição. A única análise de caráter histórico realizada sobre este jornal é de autoria de Maria Luiza Tucci Carneiro em seu livro O 312 Anti-semitismo na Era Vargas (1930-1945) . a autora aponta que o periódico “expressou. além de assinaturas e publicidade em suas páginas. 313 Segundo Tucci Carneiro. 353. a censura do Partido Constitucionalista permitia toda e qualquer crítica ao candidato oficial às eleições presidenciais de 1938 José Américo de Almeida. cit. p. conforme veremos adiante. p. 314 Id. Brasiliense. mas não dedique nem uma linha à censura do Estado Novo. Qualificando-o de “mensageiro anti-semita”. Tucci Carneiro analisa o linguajar antijudaico do diário. 2a. privilegia a análise de dois diários: O Estado de S. O anti-semitismo na Era Vargas (19301945) – Fantasmas de uma geração. Paulo e Acção. De acordo com a pesquisa de Tucci Carneiro. frases e títulos de notícias referentes aos judeus (ou não necessariamente concernentes a eles) publicados no Acção. através do noticiário nacional e internacional. 393.. ramerrão comum naquele período em diversos setores na sociedade brasileira. muito mais intensa. É curioso que Reale enfatize a censura armandista. 1995. ao preço de duzentos réis. um delineado posicionamento anti-semita”. Segundo Reale. op. período que a autora identificou como sendo de “um revigoramento do anti-semitismo político e xenófobo nos bastidores do 315 governo Vargas”. serão realmente significativas depois do golpe de Estado de 1937.166 domicílio. a cujo critério palmar éramos obrigados a submeter não só 311 os artigos como todo o noticiário!” O financiamento do Acção era feito através da compra em bancas. nas linhas e entrelinhas de seu texto. os integralistas tiveram um papel importante nesta difusão do pensamento anti-semita no Brasil dos anos 30: “o maior número de obras anti-semitas publicadas durante a era Vargas é de autoria de integralistas”.. 403-417. 312 CARNEIRO. tendência difundida 314 entre vários setores do movimento integralista.

é provável que o Acção tenha sido. 317 REALE. por ser formada por vários textos.. as atividades e as reivindicações das ações profissionais. “Ação”. O Manual Geral de Redação da Folha de São Paulo. p. diz que coluna “tem dois sentidos: ou é o espaço usualmente reservado a um colunista ou cada uma das faixas verticais em que as 318 páginas são divididas” .. há apenas um verbete no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. 319 REALE. ao contrário do apontado no verbete que afirma que teria sido Alfredo Egídio de 316 Souza Aranha. A. Dentro do jornal. sim. bem como os principais momentos de sua trajetória. (orgs. M. Miguel Reale . in BELLOCH. PAULO. 4. I. até 23 de abril de 1938. a saber “Syndicalismo” e “A Nota Syndical”. 2a. analisar suas seções sindicais. além do noticiário referente ao trabalhador. de fundar a AIB. cit. Como o caso de “Syndicalismo” não é nenhum desses (apesar de “A Nota Syndical”. cit. 10. sempre precedidas de um tópico ilustrativo de um 317 papel do sindicato no mundo contemporâneo. antes. p. pp. Manual Geral de Redação. cit. A (São Paulo)”. “talvez. 318 FOLHA DE S. e muda sua configuração.) op. portanto. op. Apenas nos permitimos reafirmar que Miguel Reale foi sozinho o diretor do Acção. I.” Optei por não chamar as partes sindicais do jornal de “coluna”. . Sobre esse jornal ver verbete “Razão. p.167 Além deste estudo. etapa correspondente ao momento que vai da proibição dos partidos políticos até a extinção do jornal. São Paulo. 114. o primeiro jornal do Brasil a dedicar toda uma secção especial ao movimento sindical. e ABREU. não é tecnicamente uma coluna. desta última data até 2 de dezembro de 1937. ao contrário de “A Nota Syndical”. privilegiei. v. op. e dessa edição. 2891-2. 114. edição revista e ampliada. ao lado de Reale . quando a seção sindical passa a se chamar “A Nota Syndical”. conforme já dito. e ABREU. Neste último período verifica-se que não há mais nenhuma seção sindical. a AIB deixa de 316 COHN. do diário A Razão. 1987. A. 1. Segundo Miguel Reale recorda em suas Memórias.. no qual Plínio Salgado escrevia em 1931-2. 319 conforme sugestão do editor do diário.) op.. cit. Alfredo Egídio foi editor. Podemos dividir o material sindical do Acção em três períodos diferentes: de 7 de outubro de 1936 a 12 de março de 1937 foi o momento de circulação da seção “Syndicalismo”. (orgs. anunciando as reuniões. por um motivo muito simples: “Syndicalismo”. v. no qual ela relaciona brevemente as principais características do diário. Amélia. assinado por Amélia Cohn. sim) optamos classificar conjuntamente “Syndicalismo” e “A Nota Syndical” como seções. M. In: BELLOCH. por exemplo.

indicando o que era o sindicato para o integralismo. chamado “Se aqui fosse assim. por vários textos. como Itália e Portugal) e temas correlatos. No primeiro número do jornal. em 28/1/1938: “Logo [depois do golpe de 10 de novembro de 1937] os jornais. ou seja.” (Apud SILVA. havendo censura oficial.”. havia apenas um texto principal. assim como a morosidade da justiça em punir os violadores das leis.. 1. até desaparecerem.. proibiu elogios até literários sobre livros de minha autoria. que muitas vezes não eram respeitados pelos patrões. mas. os sindicatos em outros países (sobretudo onde havia regimes autoritários. p. Além disso. proibiu que se usassem as palavras integralismo.. quais as vantagens que o operário integralista teria com a ascensão da AIB ao poder. na página 4.) A censura de imprensa começou a dar ordens que mais parecem de inimigos de V. história do sindicalismo. na maioria das vezes. integralista. se consolidou apenas a partir do número 4 (10/10/1936). Hélio. Proibiu a publicação de meu nome muitas vezes ou em tipo que ultrapassasse o tamanho indicado.2. a ridicularizar o movimento integralista. Alguns diretores de jornais me informavam que recebiam ordens diretas de autoridades de abrir fogo contra nós. relatando um episódio ocorrido na Itália fascista referente à expulsão de um empresário da Confederação das Indústrias local por ter agredido fisicamente um 320 Trecho de carta de Plínio Salgado a Getúlio Vargas. havia um texto doutrinário. De fato. . Outra espécie de texto muito recorrente era o texto reivindicatório. Em geral. durando até março de 1937. op. a 7 de outubro de 1936.. Exa. de reclamações do trabalhador em relação aos direitos adquiridos da legislação trabalhista então em voga. porém. cit. As profissões mais citadas no período estudado foram os bancários e os ferroviários. Esse formato. integral. Diária. começaram a me atacar.. as menções a termos integralistas vão diminuindo conforme passam os dias.As seções sindicais e o noticiário referente ao trabalho 1. ao observarmos as páginas do Acção.168 existir legalmente enquanto partido político e nem sequer o termo “integralismo” e derivados podem ser mencionados nas páginas do 320 jornal .1 – “Syndicalismo” Essa seção surgiu logo na primeira edição do jornal.2 . 375. Podemos confirmar esta reclamação de Salgado. (. etc. ela não era composta por apenas um texto. grifo meu). havia anúncios de reuniões sindicais e dos Grupos Profissionais integralistas e balanços de reuniões já acontecidas.

cit. o tom dessa notícia é claramente voltado para os 323 empresários. Livraria H. 7/10/1936.169 operário que trabalhava para ele. 99. 322 Perspectivas Integralistas ). o de divulgar notas sobre organizações não necessariamente sindicais. não creditado. . 1936).” REALE. página 2. cit. M. sendo obrigado a transcrever trechos de meus livros. in: Obras Políticas (1a. Acção. que eram usados “quando se queria fixar determinadas idéias” tidas como essência do pensamento 324 a ser transmitido . Memórias. 322 REALE. Tal fato. “Associação dos Proprietários de Imóveis”. “Clube Zoológico do Brasil”. Rosa. Vejamos alguns: “Sociedade de Medicina Legal e Criminologia”. 323 “O decreto N º 20. Há uma nota sobre associação não necessariamente operária. Salário justo e Educação. pp. “Nem sempre os atribulados empenhos partidários me deixavam lazer bastante para escrever o artigo de fundo do jornal. diversas edições. Na edição do dia 8 de outubro. em detrimento de estrangeiros. escolhendo sempre tópicos que focalizavam a posição do Integralismo perante o Fascismo europeu ou tratavam da questão social ou problemas econômicos. Acção. Algumas vezes havia fotografias e. 4. 325 “Syndicalismo”. durante certo tempo a seção possuía inserções ou lembretes. notas a respeito 321 de sindicatos e associações diversas. 1983 (Cadernos da UnB). ladeando o título da seção sindical estavam as frases: Trabalhadores do Brasil – Uni-vos contra o Capitalismo e o Comunismo O Integralismo dará aos trabalhadores 325 Trabalho.. 2. op. “Federação Paulista das Sociedades de Rádio”. p. havia uma notícia referente à lei dos dois terços. pois várias delas não tem qualquer vínculo com o mundo sindical. mas assemelha-se a um resumo de trecho de livro de Reale. 324 CAVALARI. Rio de Janeiro. que obrigava a todas as empresas a terem um mínimo de dois terços de empregados brasileiros em seus quadros. p. aliás. número 2. 15-67 (1a. além do texto histórico e doutrinário (“Evolução do Sindicato”. Acção. Brasília. p. Aliás.291 que estabeleceu o mínimo de 2/3 de empregados brasileiros nas empresas vai ser cumprido – O Departamento Nacional do Trabalho fixa o prazo para entrega das relações dos empregados”. op. p. Assim. e apenas uma sobre um sindicato propriamente dito: “Sindicato dos Proprietários de Açougue”. 115. edição. fase – 1931/1937). Antunes. Editora Universidade de Brasília. M.. 321 Algumas muito estranhas. “Perspectivas Integralistas”. não se repete posteriormente. 8/10/1936. Ao lado desse texto.

Levantei esta hipótese . na maioria das vezes. Esses lembretes não precisavam ser necessariamente referentes às atividades sindicais. disposta em formato vertical. Obviamente. 327 A técnica dos lembretes é estudada por CAVALARI. tais textos não deixam de ser. Orestes Medeiros Pullin. referente à história das organizações sindicais e do corporativismo. 30/10/1936. normalmente. Devemos reparar no caso acima que. Ela surgiu em 12/3/1937. era composta por um texto. subscrevia-a B. 328 Isto é. Os avisos dos 326 Esses três últimos exemplos foram extraídos de “Syndicalismo”.2 . Assim. 99101. inserindo o integralismo como o mais novo capítulo desta trajetória. e sua última aparição se deu em 6/11/1937. o uso das maiúsculas para enfatizar o objeto central da 327 mensagem.I. nos dois últimos exemplos. ou ainda Ormelin (não identificado).170 Além disso. doutrinários. (Benedito Vaz. em substituição à seção “Syndicalismo”.2. Quando o era. 4. A seção.V. não era assinada. voltado para o trabalho ou o sindicato.. Secretário Provincial das Corporações e Serviços 329 Eleitorais). em várias edições os lembretes permeavam os textos diversos da seção. encontramos frases como: O Integralismo é uma Revolução Sindicalista O ‘CAMISA-VERDE’ que não estiver inscrito em seu sindicato não está cumprindo seu dever. depois de estar ausente em várias edições (a imediatamente anterior havia aparecido em 30/10).“A Nota Syndical” Esta seção. O texto que compunha a seção era normalmente histórico e/ou 328 doutrinário ou comentava algum fato político que acontecia no momento. Acção. 329 É possível que Ormelin seja o chefe do Grupo Profissional dos Farmacêuticos (integralista). op. cit. Rosa. também. p.B. pp. 1. mas também ao funcionamento da AIB de uma forma geral: A TAXA DO SIGMA é a única arma de que 326 dispõe a A. e por algum anúncio de reunião sindical.

19/1/1937. passa a haver a seção “À Margem da Vida Brasileira”. que se faça uma ressalva: a partir de maio. A 2/12/1937. p. ocupava grande parte da página. ex. por sua visibilidade privilegiada) . 2. É importante. A seção. estão postas lado a lado fotos oficiais de Plínio Salgado e Getúlio Vargas. p. 1. Na página 4. assim. na qual. que somente poderia subsistir desde que mudasse de identidade e renunciasse à ação política. porém. todos os partidos políticos são extintos. e também era diária. Antonio de Azevedo. Acção. não era assinada. p. o novo regime é apoiado pelas lideranças camisas-verdes. com os preparativos para o plebiscito interno da AIB que vai escolher Plínio Salgado como candidato da agremiação para as eleições presidenciais de 1938. 332 Ver a edição de 11/11/1937. nota-se que a “Nota” vai se tornando um espaço em que se tenta convencer o trabalhador a não votar nos outros dois candidatos: Armando de Sales Oliveira e José Américo de Almeida.3 . Em seu primeiro mês. O título estava em letras garrafais e na parte superior da página. por exemplo. incluindo a AIB. 1/6/1937. . Acção. também diária. p. e que normalmente relatava as atividades dos núcleos integralistas do estado. 28/11/1936. a situação dos integralistas é complexa. 16: “1500 tecelões em greve” sobre reivindicações na Fábrica de Tecidos Jafet. 330 Por exemplo. Os integralistas criam. 2. passaram a ter manchete de última página (local 330 de destaque no corpo do jornal. sendo que alguns acontecimentos tidos como mais importantes como greves. As notícias relativas ao trabalhador se espalharam pelo jornal. “Vésperas de Eleições – Recomeçaram as promessas”. a Associação Brasileira de observando as letras iniciais e finais do nome de Pullin. 1o/10/1937. por exemplo) foram muito reduzidos. com textos diversos que comentam a situação política e social no país. 331 V. 4. in: “A Nota Synidcal”. a partir da eleição de Salgado . ao mesmo tempo em que dava loas ao advento do Estado 331 Integral. p. muito embora a AIB e o próprio jornal tenham 332 declarado apoio à nova ordem política . As convocações dos Grupos de Trabalho integralistas passaram a ser na seção “Movimento Integralista”. Depois do golpe do Estado Novo (10/11/1937). BRANDÃO. inclusive sobre o trabalho.O noticiário referente ao trabalho: do golpe do Estado Novo até a extinção do jornal. em primeira página.171 sindicatos referentes às reuniões (convocações.

e a todo o pessoal redatorial e das oficinas. um grupo de integralistas é preso por ter saudado o delegado local com um “anauê”. A ação da censura se faz sentir. como o Acção . nosso secretário.172 Cultura (ABC) e não podem mais ostentar sua simbologia característica. o sigma. 333 Além do Acção. continua sendo publicado até meados de março de 1938. há um cerrado tiroteio entre a polícia e integralistas em Campo Grande. retribuindo as felicitações. e nem mesmos os termos “integralismo” ou “integralista” podem ser veiculados em sua imprensa. no dia 10 de janeiro de 1938. já que. a Carta de 1937 defende postulados corporativistas e antiliberais. entre outros motivos. a qual persiste 333 em alguns casos. 1/1/1938. que agradeceu a 334 gentileza. é apenas aparente. Acção. a perseguição que a polícia pratica contra esses rebeldes. armas e documentos são confiscados. tem seu fechamento decretado pela polícia a 21 do mesmo mês (SILVA. Esta harmonia que o jornal tenta passar. de circulação nacional. 27. em 23 de fevereiro. seus agradecimentos pelas deferências recebidas e fazendo votos de felicidades para o corrente ano. cit. após o 10 de novembro. como a camisa-verde.. p. suas sedes invadidas e fechadas pela polícia. também integralista. sendo diversas armas apreendidas e presas 24 pessoas. que ora se inicia. os integralistas se dividem em dois grupos: aqueles que aceitam a nova situação política. vários integralistas são acusados de distribuição de boletins contrários ao Estado Novo e indiciados ao Tribunal de Segurança Nacional. a saudação “anauê”. as bandeiras. op. A comunicação foi recebida pelo Dr. uma semana depois. 3. Paulo Paulista. também no Rio. de Recife. contudo. ontem. p. pregados durante toda a existência da AIB. H. 334 “Departamento de Censura”. Em Barra Mansa. É importante lembrar de duas coisas: primeiro.). e 335 segundo. militantes integralistas são detidos e presos. 335 Hélio Silva faz um apanhado dos acontecimentos: desde o fechamento da AIB. de transmitir à ‘Acção’. no estado do Rio. o diário carioca A Offensiva. provavelmente um recado sutil aos leitores: Departamento da Censura O Departamento da Censura teve a gentileza. O Diario do Nordeste. Vejamos esta nota. e os rebeldes à nova ordem. .

naquele momento. 1999. 338 Sobre a criatividade da imprensa em burlar a censura institucional (num período posterior). 28/12/1937. As notícias internacionais agora predominam sobre as nacionais e mesmo as de caráter local diminuíram muito. 195-8. . 5/2/1938. não faz a menor menção a esses fatos. 4. 12 – Também todos que querem viver piamente em Jesus Cristo. se declara oficialmente favorável à nova situação. CARONE. que teriam sido distribuídos por militantes 336 integralistas. 336 “Obediência à lei”. sem qualquer explicação aparente (por exemplo.. obviamente. O texto fazia referência a “boletins apreendidos pela polícia” no Rio de Janeiro. Imprensa e Estado Autoritário (1968-1978). há uma transcrição do capítulo 3 da 2 ª Epístola de Paulo a Timóteo. 16 e 22.. mantém-te firme naquelas coisas que aprendeste e que te foram confiadas. porque um dia venceriam.. uma data religiosa). “Obediência à lei” foi a manchete do Acção a 28/12/1937.. fim que me proponho. Bauru. Essa estratégia (seria. caridade. Em algumas ocasiões. como venceram os cristãos . 1.. op. É interessante notar que o Acção parece querer se utilizar de discursos velados para manter firmes os ideais e as posturas dos militantes. 98-110. EDUSC. Edgard. op. de fato?) de apelar para discursos religiosos. passavam os integralistas. Acção. 15. Hélio.. p. padecerão perseguição (. fé. A própria ABC não ocupa muito espaço nas páginas do jornal. modo de viver. 337 “Prediz o apóstolo das perigosas heresias”. Maria Aparecida de. sobretudo pp. 337 sabendo de quem as aprendeste. eram transcritas longas passagens bíblicas. Acção. porém. longanimidade. Na edição do dia 5 de fevereiro de 1938. Censura. a folha não está totalmente passiva. em geral na página 4.173 O jornal.). V. pp. respectivamente pp. ver AQUINO. Contudo. vejamos a manchete do dia 4/1/1938: SILVA. 14 – Tu. p. porém. 10 – Tu porém tens seguido a minha doutrina. parece pretender convencer os ex-camisas-verdes para permanecerem firmes em seus 338 ideais. O Estado Novo. ao passo que o anti-semitismo tem uma presença mais significativa do que anteriormente. A imprensa integralista. tb. cit. Por exemplo.). paciência (. Pode-se pensar aqui em uma comparação das dificuldades dos primeiros tempos do cristianismo com os problemas políticos que. cit.

343 Acção. Porém. amiga dos judeus. sem 343 pagar indenização fixada por lei” Apesar de. não havíamos encontrado nenhuma manchete de caráter anti-semita. 1. a 16/12/1937. a ABC continua atraindo adeptos. p. tradicional atividade de fim de ano da AIB de distribuição de brinquedos às crianças carentes. 8/1/1938. As notícias concernentes aos trabalhadores ou aos sindicatos são menos freqüentes. 12. 342 Por exemplo. p. p. 12. 339 Acção. volta a dar o mesmo destaque alguns dias depois. 8/1/1938. quando aparecem notícias ou notas sobre isso. . 1. 1. as referências ao movimento “ex-integralista” diminuíram muito. que diz: “Milhares de inscrições na ABC” Não há mais nenhuma seção ou coluna sindical. subsiste como mostra esse título de uma notícia de primeira página: “O Natal das crianças pobres em Jaú – A atividade das 340 senhoras e senhorinhas da filial da ABC nessa cidade” Segundo o Acção. na última página: “As operárias injustamente demitidas pela Tecelagem Jafet – Acção fornece a seus leitores dados pormenorizados da clamorosa injustiça cometida por um capitalista estrangeiro contra operários brasileiros – 40 contos de indenização que 344 não foram pagos”. o jornal não ter nem citado eventos sobre o ocorrido. sendo que várias edições deixam de ter qualquer referência ao assunto. no período anterior analisado (outubro de 1936 a fevereiro de 1937). lucrará com a 339 ação da judiaria. conforme a manchete do dia 341 8/1/1938. Para se ter uma idéia. 13/1/1938. Comparado com o período anterior ao Estado Novo. O “Natal das Crianças Pobres”. na última página. a 8/1/1938. 14/1/1938. Acção publica a página 7 um texto intitulado “Mentalidade”. p. são de apoio ao novo regime e à sua política sindical e 342 trabalhista. nas edições seguintes. 4/1/1938. mas ainda aparecem. que elogia o corporativismo sindical existente na Carta Constitucional de 1937. 344 Acção. Em geral. a notícia em destaque: “A Fiação e Tecelagem Jafet despede 36 operárias.174 Realizam-se os planos dos Protocolos dos Sábios de Sião! Os judeus internacionais criam um fundo de 80 milhões de contos para combater os países nacionalistas! A Inglaterra. 340 Acção. 341 Acção. p.

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E, depois de mais uma semana de silêncio, o jornal exige atitude das autoridades estadonovistas, colocando mesmo em dúvida sua eficiência: Continuam as queixas dos operários contra a Tecelagem Jafet – Existe ou não justiça social no Brasil? Serão os capitalistas estrangeiros mais fortes que o Estado? As operárias demitidas injustamente da fiação e tecelagem Jafet esperam a indenização que lhes cabe por injusta demissão – Que faz e para que serve o Departamento Estadual do 345 Trabalho? Contudo, a partir de meados de fevereiro, o jornal vai tomando cada vez mais uma expressão conformista, opaca. Quase nada, nas páginas de Acção, lembra o “vespertino vibrátil e agressivo” a que se 346 refere Reale, do período anterior ao Estado Novo. Acção deixou de circular no dia 23 de abril de 1938, número 464. Em sua carta de despedida aos leitores, o jornal não explica o motivo de seu desaparecimento: Esta tribuna vai desaparecer; nós não conversaremos mais com o Brasil através das colunas de Acção; porém, isso não significa que hemos desaparecido: há no coração de todos nós uma chama sempre viva acalentando um Ideal e o Ideal não morre quando uma 347 tribuna desaparece!

345 Acção, 20/1/1938, p. 12. 346 Com exceção, talvez, dos artigos elogiosos ao corporativismo, doutrina coincidente com a da Constituição de 1937. Por exemplo, o artigo “O sistema corporativo e a democracia moderna”, o qual elogia uma suposta substituição de intermediários entre cidadãos e governo: partidos políticos por sindicatos. Acção, 10/3/1938, p. 4. 347 “Aos leitores de Acção”, Acção, 23/4/1938, p. 2.

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Observamos a importância de ressaltar aqui que um grupo político, não obstante sua linha autoritária e, nesta altura dos acontecimentos, oficialmente apoiando o governo, teve seus movimentos tolhidos pelo próprio governo, situação que acabou levando aos acontecimentos de maio de 1938, conhecido como a 348 “Intentona Integralista”. A imprensa integralista – não obstante seu caráter partidário e tendencioso - nos ajuda a conhecer melhor a visão de mundo da AIB, aqui particularmente a respeito dos trabalhadores assalariados. Tal observação evidencia a importância do estudo dessa fonte a partir de toda a gama de temas de que foi portadora (como política nacional, economia, política internacional, cultura etc.), o que faz dela um manancial para um maior conhecimento não somente da trajetória desse movimento político, mas também a respeito da política e sociedade brasileiras nesse período.

348 Sobre as diferentes reações dos integralistas ao Estado Novo (e viceversa), anteriormente à Intentona Integralista, v. CARONE, Edgard. O Estado Novo. São Paulo, Difel, 1977, p. 193-205.

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9. INTEGRALISMO PROH PUDOR! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo
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Rodrigo Christofoletti

A partir da segunda metade da década de 1940, verificou-se a abertura de um novo horizonte nas articulações político-partidárias do país. Após a derrocada de Vargas, em 1945, siglas foram recriadas, partidos rearticularam-se e, no bojo desse novo cenário de redemocratização, surgiu um partido que, embora estigmatizado por sua atuação anterior, tentou transformar alguns de seus princípios políticos visando a aproximação com o eleitorado que reconquistava o direito de voto. Tratava-se da sigla liderada pelo líder integralista, Plínio Salgado, o PRP (Partido de Representação Popular), herdeiro da AIB (Ação Integralista Brasileira). O novo partido, que durante os seus dezenove anos de atuação parlamentar (1945-64) configurou-se como uma das agremiações políticas mais controversas do citado período, teve atuação de retaguarda, centrando foco nas articulações de bastidores da política nacional. O PRP constituiu-se no instrumento de intervenção política dos integralistas durante todo o chamado período democrático. É interessante notar que o integralismo do pós-guerra, mais especificamente da segunda metade da década de 1950, tenha ressurgido não como uma mudança política propriamente dita, mas essencialmente como uma transformação de linguagem. Essa transformação se deu, aliás, de maneira incompleta, pois seus quadros desvalorizaram inicialmente a essência ideológica da extinta AIB e depois a reafirmaram (em partes), estabelecendo uma contradição interna no movimento. O problema consistiu em não explicar, não repolitizar, não enquadrar o movimento à nova realidade do pós-guerra. Foi nesse contexto contraditório de redemocratização que ocorreu o retorno do integralismo.

349 Mestre em História e Educador da Universidade de São Paulo.

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Imprensa nacional versus Integralismo O clima de liberdade partidária que o país viveu no contexto constitucional e democrático de pouco mais de 18 anos entre a queda da uma ditadura e a emersão de outra, estimulou o exercício de independência e expansão dos meios de comunicação. A grande imprensa sempre fez do tema político sua tônica, selecionando, caricaturando e adaptando a realidade a partir de “instantâneos” do real. Os antagonismos políticos tornavam-se, então, agudos e se refletiam claramente na imprensa. Na maioria das vezes, a contraposição ideológica saltava das manchetes desses jornais para tomar parte na vida cotidiana da sociedade civil. Foi diante deste cenário de definidas posições ideológicas, que se deu o reavivamento da simbologia integralista. Se nos anos 40 a esfera político-partidária conheceu a reestruturação institucional da sigla integralista, agora o poder simbólico da instituição buscava reajustes. Desde 1945, a relação entre o integralismo e os jornais da imprensa brasileira foi marcada por atritos. Longe de se manter indiferente, tal relação primava, de um lado, pela hostil e virulenta manifestação antiintegralista e de outro, pela pequena, mas não menos contundente auto-afirmação verde. A grande imprensa, preocupada com a manutenção da ordem democrática passou a fazer o papel de porta voz de uma sociedade desgostosa da permanência do integralismo no cenário político nacional. As acusações acirraram os ânimos de ambos os lados. Este enfrentamento tornou-se mais evidente a partir de 1957, quando se intensificaram as campanhas contestatórias às comemorações dos 25 anos do movimento integralista. Segundo Plínio Salgado, “enquanto as penas do integralismo foram molhadas nas tintas da convicção, a alquimia da grande 350 imprensa fez-se sentir de maneira nociva”. Isto equivale a pensar que tanto o integralismo quanto a imprensa de grande circulação intensificaram suas acusações. Então, o dístico em desuso serviu como alerta para grande parte da imprensa da época: Integralismo 351 Proh Pudor.

350 SALGADO, P. A Marcha, 3/11/1957, p. 9. 351 “Integralismo: Oh! Vergonha!”: Mote das campanhas veiculadas na maioria dos jornais de grande circulação do país.

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A grande imprensa noticiou as comemorações integralistas de maneira bastante variada: de um absoluto descaso a mais fervorosa agressividade. Dias após ocorrer as festividades do Jubileu de Prata integralista (primeira semana de outubro de 1957), O Diário Popular (SP) publicou um artigo cujo título exprimia a posição do jornal com relação à volta integralista. O jornal questionava que tipo de mudança 353 teria ocorrido no integralismo . A suposta contradição entre o discurso de Salgado e a ação do movimento foi fomentada pelas 354 acusações de “uma fantasiosa demonstração de poder” – que chegava às páginas dos jornais pelo caminho inverso. Seu lugar, 355 segundo o próprio Diário Popular, “era as páginas de fundo” , um eufemismo para designar as páginas policiais que na época fechavam os jornais. Outro periódico que questionou a alegação de que o integralismo havia se transformado num movimento brando foi o Última Hora/RJ. O vespertino teve, num primeiro momento, uma postura meramente informativa que se modificou com o passar das primeiras semanas do mês de outubro. Sob o título “Bodas de Prata Verde. 356 Sigma e rituais renasce o integralismo no Brasil” , dispensou mais de meia página detalhando sua organização e festividade. Como o jornal de Samuel Wainer não era simpático nem ao integralismo nem ao seu chefe, Plínio Salgado, a ênfase dada à manifestação integralista no Teatro João Caetano - RJ (sede das comemorações do jubileu) teve um caráter peculiar. Os jornais Folha da Tarde e Folha da Noite deixaram implícita em sua linha editorial a contrariedade frente à reformulação do movimento. Ambos os jornais imprimiram, a rigor, as mesmas notícias:
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352 No presente trabalho foram analisados os seguintes periódicos: O Estado de S. Paulo; Correio Paulistano; Folha da Manhã, Folha da Tarde; Folha da Noite; Diário Popular; Diário de Notícias; O Jornal; Diário Carioca; Tribuna da Imprensa; A Notícia; Gazeta de Notícias; Jornal do Brasil; O Globo;. Última Hora; Diário da Noite; Diário de Notícias/RS; Diário de Notícias/RS e Gazeta de Vitória – ES. Também foram pesquisados alguns periódicos integralistas: Idade Nova; A Marcha; Boletim PRP –RS. 353 “Transformação do quê?”. Diário Popular, 7/10/1957, Caderno 1, p.2. Todas as citações deste trabalho seguem a grafia original, sem atualizações ortográficas. 354 Diário Popular. 9/10/1957. 355 Ibid. 356 Última Hora/RJ, 12/10/1957, p.7.

as novas gerações obtiveram maior influência nas decisões do partido. e sem disfarces. Quatro anos depois foi inaugurada a Folha da Manhã e em 1945 a Folha da Tarde. O sentido da transposição do legado não era apenas cultural. A troca de uma instituição política para uma de cunho político cultural. retorna ostensivamente. à atividade os integralistas”. Diferentemente de seus congêneres do Grupo Folha. Noticiou as festividades. mas MIB. p. as Folhas juntaram-se dando origem à Folha de S. a idéia de transferência de ‘posse e poder’ surgiu carregada de simbolismos. aos mais novos que podem ser 357 “Com Sigma camisa verde e anauê. à 357 atividade os integralistas!”. e novo nome: agora não é mais AIB.órgãos de reajuste político/ideológico implícitos do integralismo . Paulo. adjetivada como non sense. Que jamais amadureça!” Em outro trecho retirado da extensa reportagem da Folha da Manhã. 358 O jornal Folha da Noite foi inaugurado em 1921. Folha da Tarde.3. 8/10/1957.. 359 Folha da Manhã. o editorial de 8 de outubro dirigiu um veemente repúdio à permanência dos integralistas: Por estar de novo nas ruas. Entretanto e infelizmente. vem de encontro com os propósitos dos Integralistas de reeducarem as novas gerações de acordo com os novos 358 preceitos da agremiação. p. empolga os meios integralistas a volta do Sigma e a oficialização da 359 galinha verde como símbolo . De acordo com as Folhas: O movimento ressurge agora sob um novo dístico. 9/10/1957.4 & Folha da Noite. Com a criação dos Centros de Cultura da Juventude . p.180 “Com Sigma camisa verde e anauê. pouco teríamos a noticiar. segundo assessores de Salgado – deverá substituir o PRP em breve. que. p.3. retorna ostensivamente. . o integralismo assusta. o matutino Folha da Manhã tomou a celebração a partir de uma perspectiva mais desfavorável. explicitando sua oposição diante do novo integralismo: “Sob os 5 lustros deste movimento. Em 1960.4. 9/10/1957. 10/9/1957. Folha da Tarde. Movimento Integralista Brasileiro. Se não aos cobras criadas. mas principalmente político. Tal questão se mostrou como novidade dentro do PRP. Finalizando sua apreciação quanto ao retorno integralista e sua celebração.

. Estão eles. para que não haja ceticismo em torno do novo perigo integralista.. Restam-nos saber. 9/10/1957. oficializar a galinha verde como símbolo da vergonha e da sua ação política. Paulo.. Com um texto de abordagem tão ácida quanto os publicados por seus concorrentes. Paulo criticou o que chamou de apelo sensacionalista do PRP. ou galinhas?”. p. O periódico situou as celebrações num bojo maior de conflitos político/ideológicos. se procurou embaraçar num enredo ridículo a doutrina que perfilaram em 32. p.181 ludibriados pelo canto da sereia maviosa transvertida de democrática verde. descrevendo as celebrações como o ápice de 362 um conflituoso e “apopléctico retorno”. O jornal O Estado de S.. prontos para explorar os pontos mais vulneráveis da democracia nacional. para sabermos qual é a resposta! Um repúdio ao 361 integralismo.5 362 O Estado e S. A metáfora biológica da apoplexia. Chegase à audácia de colocar-se de novo o problema do fardamento e da milícia. como a manutenção de um arcaísmo. o democrata consciente não pode deixar de bradar a todos. acentuando alguns elementos: Aceitando o que identificam como provocação extremista. como sendo o integralismo “um quisto sanguíneo que 360 “Editorial: O perigo Verde!”. Folha da Manhã.. (. Fênix..9.. Correio Paulistano. . 361 “Águias.) Portanto. o jornal Correio Paulistano noticiou as bodas de prata do movimento de maneira incisiva. paralelamente às comemorações do jubileu de prata. (.) o retorno do inatingível.8. p. águias ou meras galinhas (. de que aves se tratam na realidade. Os integralistas vão institucionalizados pela nova sigla. 8/10/1957. a ver se nos livramos da ameaça sem o mesmo processo 360 sofrido em 1937. com a qual declararam..) Temos que alertarmos a toda a nova geração sobre essa sereia. 8/10/1957. ou a atenção do inevitável? Resta-nos apenas marcarmos o dia. imitações baratas do fascismo mundial.

durante a comemoração. Além da ressurreição pré programada do Manifesto Integralista que propagava anteriormente a dissolução dos partidos. justamente por este ter servido o movimento em períodos conturbados e difíceis. 7) – Centenas de adeptos de Plínio Salgado compareceram ontem no Theatro João Caetano. tomada como espécie de bhrama ou nirvana penosamente conquistado pelo membro integralista. Segundo a crença integralista. Como pano de fundo. tal homenagem visava a aproximação entre o auto-escalão integralista e as famílias dos falecidos. houve a volta dos rituais. porém contundente escrito.182 estourara na sociedade brasileira. uma estranha homenagem aos mártires que nunca morrem. 8/10/1957. foi continuamente utilizada pela maioria dos jornais da época. vazando intenções espúrias para 363 todos os lados”. Seria a 364 volta dos estridentes centuriões? Outro ponto de discórdia entre O ESP e os integralistas foi a forma como o primeiro se referiu aos chamados “milicos do além”. (Da sucursal . num momento em que se encontravam em condições de abandono e orfandade. Na hierarquia festiva do movimento. A contraposição ideológica deu lugar ao escárnio: “Houve. cuja sutileza amenizava o caráter ácido do pequeno. 364 “Volta o Integralismo com seus antigos símbolos”. a celebração do culto aos milicos do além ocupava um lugar todo especial. O texto do jornal reacende uma questão central para os integralistas. ajuda financeira e até profissional. A idéia de imortalidade no integralismo contém uma simbologia própria. todos os mortos continuariam hierarquicamente lutando a favor dos que se mantiveram na luta cotidiana. 365 Ibid. bem como da disponibilidade de escolas para os filhos dos falecidos. A manutenção da doutrina consubstanciava-se por meio do oferecimento à família órfã de toda a sorte possível de provimento material e psicológico. então mais acirrada que nunca: a passagem do legado. O Estado de S. p. Entende-se que a exacerbação da proteção familiar visava antes de tudo apadrinhar a família do exmilitante objetivando que não se afastassem do ideário integralista. uma nota de canto de página do O ESP. Rio. 9. Paulo. Em especial. Isto porque – segundo o jornal – os integralistas nunca 365 morrem: vão para a milícia do além!”. . Nesse 363 Ibid. uma espécie de tutela.

que noticiou a celebração espelhada na “magnificência carismática do Chefe Integralista”. O Integralismo foi denominado de “Insepulto” e “envernizado de segunda mão”. alguns periódicos não pouparam frases de efeito e ataques veementes ao projeto refundador de Salgado. Os adversários do integralismo não perderam a oportunidade de ridicularizar a denominação ‘milícia do além’.. p.. o 366 primeiro passo para a efetivação integral”.. Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. juntamente com os hurras surgiu também a mística integralista do Chefe. supervalorizando o acontecimento: O Insepulto Integralismo e seu curioso ritual: Dispersou qualquer dúvida quanto a esse particular a onerosa celebração verde que encerrou-se ontem a noite. A despeito disso. Sintomático. que rendeu demoradas gargalhadas. O que para os integralistas significava “a manutenção da tradição.183 sentido. Caetano.23. Estrato 4. A festa foi só do Integralismo... 1936. Reeditado n A Marcha em 12 de novembro de 1957.. destacando a contrariedade destes com relação ao integralismo. Com exceção dos jornais Tribuna da Imprensa e Diário 367 Carioca . o partido bem que não anda bem das pernas mesmo. que o chefe não pôde entrar pela porta da frente do Teatro J.episódio passível de chacotas – era coberto de um simbolismo bastante significativo para os integrantes do movimento. a maioria dos jornais da grande imprensa carioca focou a celebração integralista com menor animosidade que a mídia paulistana. A consulta desses jornais está temporariamente interditada devido à microfilmagem dos mesmos. Porém. Tanto. para a exterioridade não passava de um descompasso com relação ao presente. Os oradores em momento algum lembraram de mencionar o PRP. . Necessitou entrar pela porta dos fundos para evitar os arrebatamentos de 366 “As cerimônias da Milícia do Além”. Protocolos e Rituais. o retorno das homenagens aos “milicos do além” [militantes já falecidos] . de propriedade dos jornalistas Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand. 367 Em ambos periódicos podem ser encontradas importantes informações sobre as comemorações. pelo jornal Diário de Notícia.

Tem toda razão o nosso confrade em assinalar a sombria idéia fixa daqueles que sonham em andar pra trás quando o mundo inteiro sonha andar pra frente. enquanto o planeta todo se ocupava em focar a bola que os russos atiraram no espaço a mais de 900 quilômetros de altura. empolgados 368 rememoração integralista. o Diário de Notícias abriu suas páginas para um dos mais significativos adversários do Integralismo: o intelectual e líder católico. pela Dias após a veiculação da primeira notícia publicada sobre as festividades integralistas. Grifos meus. o impacto das acusações desferidas contra o movimento integralista soou como uma vingança pessoal: Tivemos nessa semana o satélite artificial e a noitada integralista. os integralistas do pósguerra viam-se solidarizados com alguns setores da igreja católica. mas longe mais ainda está da linha do Integralismo!!! Ou do Anauê!!! (. Para comemorar o 25º aniversário da AIB. os adeptos sobreviventes de Salgado se reúnem numa fúnebre sou irrè. E ainda tem mais. tecendo um paralelo entre o que julgava moderno e anacrônico para a época.) Em termos políticos todos querem andar pra trás. e assim vai o 368 “Com Anauês e Hurras ao Chefe Nacional encerrou-se ontem a Convenção Integralista”. significativos representantes do catolicismo apreendiam a reorganização integralista de modo contrário. Em linhas nada condescendentes. Corção atacou veementemente o Integralismo.. de outro. Diário de Notícias.. E é triste para ele e para mim ter que falar de Integralismo na hora em que todos falam em geofísica de rádio astronomia e de viagens interplanetárias. Gustavo Corção. 8/10/1957.8. Devo antes dizer que não acredito muito que o futuro da humanidade esteja na linha do satélite. .. Se de um lado..184 seus companheiros. Sim senhores. Sob a tinta do intelectual católico. p. há um simulacro entre o governo pessedista de JK e o Integralismo: O senhor presidente consulta o senhor Plínio e este consulta os mortos.

daí concluir enfaticamente: “nos opomos 372 inequivocamente ao integralismo e sua antidemocracia”.B. o PRP protocolou seu registro no TSE. 1945. Os 369 “Noitada Integralista.172. Ser popular hoje em dia não é arregimentar fardas a esmo. a revista católica A Ordem. camisas verdes. Da mesma maneira com que a imprensa contrapôs-se ao PRP e às comemorações dos 25 anos integralistas.185 Brasil para trás com velocidade maior que a 369 do famoso satélite.173. A Ordem.5. O seu ressurgimento foi considerado pela revista como “um grave erro. que na época era dirigida por Alceu Amoroso Lima. p. Paulo. um incentivo à propagação 371 comunista” . em franca contradição com as tendências contemporâneas ressuscita símbolos. reacionarismo. p. desde 1945. Grifos meus. Por: Gustavo Corção”. Não bastassem as referências nada lisonjeiras publicadas por Gustavo Corção no Estado de S. saudações indígenas. Integralismo”. Jornal do Brasil. P.. Tal reconstituição causou furor na imprensa de grande circulação. p.. passou a publicar em seus editoriais. RJ. um veemente repúdio à reorganização integralista. 9/10/1957. 370 “Comunismo. set.. Diário de Notícias. RJ: 10/10/1957. e foi escrever seus livros em tranqüila vilegiatura em Portugal e agora. Por isso precisamos noticiar que ressurge entre nós as coisas verdes. Ainda segundo a revista. como partido regularmente adequado à nova ordem democrática. que nem mesmo o surto comunista poderia 370 justificar” . 372 Ibid. também repudiou a reedição da passeata integralista. 373 “Camisas verdes para Museu: Ressurgem entre nós as coisas verdes”. simulacro de um dos episódios mais cultuados pelo movimento. Definitivamente não há espírito pro 373 Integralismo vingar.4. que noticiou a “nova incursão plinista” carregando nos adjetivos: A tirania está em voga apenas na cabeça dos que não respeitam a vontade popular. p. 371 Ibid.. braços levantados à Romana.) Plínio guardou a camisa verde no fundo do Baú. No mesmo mês de setembro de 1945. 20 anos depois. que o destacou em suas primeiras páginas. p.167-168. tratava-se de um “claro retardamento da evolução democrática. . (. O caráter antidemocrático do PRP foi o mote explorado pelo Jornal do Brasil.

o que se comprovou foi que a matéria publicada por Manchete não foi uma matéria de capa. As manifestações se iniciaram.186 jornais noticiaram a realização da marcha segundo posturas que variaram entre a aguda contraposição e o mais profundo desprezo. em diversos meios de comunicação das mais distantes localidades do país. Em maio de 1958. e sim. . a Manchete publica uma matéria intitulada: 374 “Vergonha Verde vem ai!” . numa justaposição que aumentava a relevância da matéria. no afã de superdimencionar a notícia editaram a fotografia de Salgado e próceres juntamente com o logotipo da Manchete. A citação. isto sugere que os integralistas. denunciou o caráter ‘aproveitador da nova/velha sigla’. Sob uma atmosfera sensacionalista. Damiano Gullo (diretor regional do PRP/SP) e Leovegildo Pereira Ramos. com relação à frustrada comemoração dos integralistas paulistas. às 5 horas da manhã da penúltima quarta-feira. sugerindo que a reportagem tivesse sido destacada da capa da revista.) Remanescentes da antiga Ação Integralista Brasileira comemoraram. com uma “cerimônia de saudação ao nascimento do sol”. Prosseguiram com a inauguração de uma “exposição histórica” do integralismo e uma passeata. mais uma das muitas matérias constituintes da revista. sintetiza a postura da grande imprensa frente ao integralismo. o 25º aniversário da primeira “marcha” dos camisas-verdes. fachada pseudo374 A despeito da fotografia publicada no jornal A Marcha trazer o logotipo da Revista Manchete no canto superior direito (ver foto). realizada naquela cidade em 1933. Portanto. Descreveu a matéria: As galinhas travestidas de águia tentam galvanizar o falecido fascismo caboclo (. completamente ofuscado pela chuva. por vários dias. respectivamente representantes das gerações de 32 e 58. perfilados e mantendo o característico gesto de saudação Anauê. Das matérias publicadas pelos mais variados segmentos da grande imprensa.. debaixo d’água. Por outro lado. apesar de longa. encerrando-se com a convenção do PRP. no sábado.. na qual focaliza Plínio Salgado. sendo reproduzida. talvez. durante a semana. o exemplo de contrariedade mais contundente tenha sido o da revista Manchete. a notícia do frustrado episódio integralista espalhou-se por todo o território nacional.

Necessitamos descobrir quem acoberta esses proto-integralistas e congêneres. À frente de todas as manifestações.) ele ainda terá chance.) e desde de lá.187 democrática dos plinistas de hoje. Após 1955.. Desde 45 nos encontramos (. mais uma vez. Grifos meus. para que não deixemos passar as mesmas vergonhas que outrora o Brasil 375 foi obrigado a conhecer . o sr.) O problema é que Marinho e seu jornalzinho não respeita sua vez (. No início do período de rearticulação partidária. Mas a verdade é que a manifestação de há duas semanas atraiu muito pouca gente. havia se constituído num opositor sistemático do integralismo. declarou que se enganaram os que supõem morto o integralismo. Acusado pelo jornal O Globo de se equiparar a um copiador compulsivo. Nos anos 50 a contraposição ideológica continuou.. 376 O Globo.. Salgado reagiu enfaticamente: Quem diria que voltaria no local onde fui condenado à forca pelos comunistas para comemorar o jubileu de prata e força integralista sob os olhares atentos e aplausos festivos da população brasileira. representante de uma ideologia anacrônica e um farsante da retórica.. Ideologia anacrônica? Copiador compulsivo? A resposta é dada nesta noite: um cérebro e um corpo forte: eis o resultado do melhor possível (. as acusações entre Salgado e Roberto Marinho acabaram rompendo a esfera ideológica. Plínio Salgado. nº 317 – 17 de maio de 1958. outra revista de envergadura nacional. comprovando.. a revista O Cruzeiro. a ambígua relação entre Chateaubriand e Salgado. desde os anos 40. chefe nacional daquele que em tempos foram conhecidos como galinhas-verdes e agora se rebatizaram como águias-brancas.. se algum dia virar um jornalista de verdade. teria uma postura menos inquisitiva com relação ao integralismo. sendo poucos os que ainda não se acanham de usar camisa verde em público. . esta é mais uma prova que a força se faz em conjunto. me faz ou 376 375 Revista Manchete...

. O jornal A Marcha passou a publicar reiteradamente réplicas que buscavam inverter os argumentos dos periódicos. a própria vergonha da Nação.O Globo. que fora incisiva contra os militantes integralistas dias após a celebração do jubileu. numa época de desbriamentos e desbragamentos impudicos. da revista Manchete.5.) de agora em diante. Grifos meus.188 manda fazer sempre a mesma pergunta: 377 fraquinho esse repertório não Marinho? Na esteira da agressividade e dissimulação da réplica pliniana endereçada ao proprietário de O Globo.10. antes de tudo. será o grande ‘slogan’ de nossas campanhas. p. pelo rádio e pela Tribuna Parlamentar. na boca de nossos oradores e na penna de nossos jornalistas. Que venha a Vergonha Verde para dar vergonha a quem já a perdeu. A Marcha exprime os sentimentos de todos os integralistas e agradece à Manchete – profética e iluminada . 377 As luzes do archote! Estão de volta as gerações do Sigma. A frase é verdadeiramente formidável! E (. e em especial.. Entre todas as homenagens rendidas ao Integralismo pela imprensa.) Por isso tudo. bem assessorado. 8/10/1957. diversos outros jornais receberam prontas respostas do movimento integralista: “A contra ofensiva da imprensa integralista: ideologia e produtos”.. nenhuma foi mais expressiva e eloqüente que a da Revista Manchete da capital federal. O Integralismo é considerado. o magnífico cartaz com que nos apresentamos à Nação. pela televisão.. p. 378 “Editorial: Vergonha da Nação: A devida interpretação!”. demonstrando que o projeto de permanência integralista era. Publicando o mais belo dos clichês sobre a comemoração grandiosa ocorrida em São Paulo.a frase interpretativa 378 do atual momento histórico nacional. aquela revista o marginou com um título que é um aviso profético: ‘Vergonha Verde Vem Aí!’. As respostas integralistas não tardaram. (. A Marcha 5/1/1958..

. como se sentem politicamente as novas gerações. sustentando sua contraposição à figura do líder integralista que. Hoje não. que era importante naquele momento para contrapor a uma idéia fascistizante de camisas caqui e preta. p. a Folha da Manhã priorizou estratos da entrevista e discurso de Salgado. O verde morreu só no uniforme.4. 27 de fevereiro de 1971. 8/10/1957. 381 “Não voltarão os camisas verdes”. o PRP apresentou-se como uma alternativa aos “gêneros do mercado 380 disponíveis no momento” : o representante de uma política de moralização. ao ser indagado sobre a comemoração e a rememoração do antigo movimento. Era essa a diferença. com especial enfoque ao fortalecimento da UDN e à articulação entre o PTB e o PSD. os integralistas apresentavam-se à nação como os únicos e verdadeiros “bastiões da vergonha e da honradez políticas: 379 virtudes. mesmo que para muitos tal artifício tenha soado como uma artimanha estritamente demagógica. vieram a acentuar o caráter combativo da sigla. isto é. imperceptíveis no cenário político de então”. O exemplo das réplicas publicadas nos mais diversos jornais da época. Folha da Manhã. Utilizando-se de uma manobra político-discursiva bastante incomum. 381 fica. mas não conseguiram. no início da década de 1970. mas veste roupagens diferentes As respostas integralistas aos ataques da grande imprensa compuseram mais um capítulo no projeto de supervalorização do movimento. p. Ver: Plínio Salgado na Câmara dos Deputados. Boletim PRP – RS. que tentava se restabelecer publicamente como uma real possibilidade de 379 Notas. Hoje o ideário . respondeu: Não. Em matéria de duas colunas cujo título era: “Não voltarão os camisas verdes?”..189 Assim. Mais importante é que hoje a chama não morreu.6 . parcialmente sugerido pelo antigo general. não voltarão os camisas verdes. Perfis Parlamentares da Câmara dos Deputados. 380 Aqui fazemos referência à metáfora utilizada por Salgado num de seus discursos na bancada da Câmara dos Deputados. 13/5/1958. Sei da anacronia deste símbolo. seguidas da contundente resposta ao artigo da revista Manchete. Salgado faz uma retrospectiva das coligações políticas realizadas pelo PRP em finais da década de 50. que fora inclusive sugerido. Quiseram queimar o verde do uniforme assim como fizeram com as matas do relampejo febril. na comemoração do 40º aniversário da AIB.

forneceram o tema para uma campanha de valorização do integralismo. o maior montante do dinheiro utilizado para a manutenção dos quadros do jornal. o semanário era mantido com a colaboração dos assinantes e dos pouco mais de 50 anunciantes fixos. sob a direção de Plínio Salgado e a redação de Gumercindo R. A propaganda. a mensagem institucional. por sua vez. dentre as muitas alternativas do cenário político. destinou um significativo espaço para a propaganda de sua doutrinação e vendagem de seus produtos. e a gama de produção que derivava do novo ingrediente: 382 o marketing. fomentando o consumo de bens produzidos pela denominada indústria cultural incipiente. 1990. São Paulo: Ática. Os festejos das bodas de prata. mas promissora. bem como para 382 BAHIA.145. a mídia impressa integralista. Jornal História e Técnica. Nesse sentido. dentre os quais se destacavam empresas de projeção internacional. o que estimulava a permanência cotidiana dessa cultura material. como o anúncio a varejo. como empresas aéreas. que favoreceu o fortalecimento do consumo no setor editorial.que permaneceu como órgão oficial do partido até 1965. Entretanto. órgão oficial de imprensa do Partido de Representação Popular foi o mais significativo periódico do integralismo de pós-guerra. Com uma circulação nacional. bem como as respostas às acusações dos grandes jornais. No entanto. mas também da materialidade expressa na vendagem de seus produtos. de laticínios. . Nessas intervenções encontramos o divisor de águas entre a tímida postura do Partido de Representação Popular pré-1957 e o caráter mais ofensivo adquirido pela sigla a partir de então. oi fundamental o papel desempenhado pelo jornal A Marcha . Depois dos anos 50 os fatores do progresso brasileiros incorporaram-se a receita jornalística de grande escala o produto de nova forma de veiculação. A compra de suvenires despertava no simpatizante a manutenção de sua lembrança e o sentimento de pertencimento ao integralismo. a celebração não se alimentou apenas das questões públicas (os festejos populares). redimensionando as perspectivas do setor jornalístico brasileiro.190 escolha. p. por sua vez. Juarez. Foi. A Marcha. passou a desempenhar papel fundamental no panorama político e ideológico. portanto a otimização da imprensa-empresa. Se a imprensa posicionou-se contrariamente ao reaparecimento da mística e simbologia integralistas. empresas farmacêuticas dentre outras. Dórea.

ao mesmo tempo em que havia as seções políticas e econômicas. p. O público dA Marcha era. orgulha-se de poder ser chamado de órgão oficial do Partido de Representação Popular e de ter em seus leitores . com a clara intenção de reapresentar as “logomarcas” integralistas: o Sigma e a galinha verde. Uma vez que o jornal era semanal. o caderno adolescente e o infantil. noticiando o que o brasileiro precisa saber. cinzeiros.384 a marca de quase 50 mil brasileiros Anúncios como estes foram veiculados a parir de abril de 1957 e perduraram até o final de 1958. a meta inicial pretendida pelo jornal era a casa dos 50 mil. a tiragem d’A 383 Marcha oscilou entre 25 e 30 mil exemplares semanais. Entre 1957 e 1959. hoje e sempre o PRP e A Marcha estão do lado do verdadeiro patriota. réguas. termômetros com a figura do líder integralista imersa no interior do tubo medidor. principalmente. diversas vezes foram publicados balanços da empresa que apontam para números aproximados. a rede de distribuição d’A Marcha abrangia a maioria das grandes cidades do país. utensílios de cozinha. p. calendários. Havia no jornal seções diferenciadas para abarcar todas as faixas etárias. 384 A Marcha. Enquanto a voz da verdade. havia também o suplemento feminino. enquanto a pena e a tinta do patriotismo estiverem trabalhando por um Brasil melhor. os correligionários do PRP e simpatizantes do integralismo. Entretanto. A tiragem oficial do semanário é desconhecida. Assim. Você não tem o que temer.9. 17/5/1958.191 manutenção do maquinário provinha das assinaturas. nesses 6 anos de prestação de serviço. Entretanto. 383 A Marcha. geralmente voltadas ao público masculino adulto. Entretanto. carteiras de fósforos. . diplomas artísticos. Ontem. A Marcha. do Amazonas ao Rio Grande do Sul. que em março de 1958 foram contabilizadas em mais de 25 mil em todo o território nacional. lapiseiras. Mas para isso é preciso que divulgue nosso ideal. flâmulas do Sigma e de Salgado. jogos de chá com o Sigma impresso.9. 26/9/1958. Dentre os produtos oferecidos com vistas à comemoração das bodas de prata integralista estavam distintivos do PRP. Divulgue nosso jornal. que se diferenciavam pelo gênero (homens e mulheres usavam distintivos diferenciados). formas de bolo. foi a partir de setembro de 1957 que o jornal passou a anunciar uma gama significativa de produtos e suvenires. Divulgue nosso partido.

Grifo meu. Nesse sentido. adquira os objetos que recordam esse fato histórico e guarde-os para que passem. que dizia o seguinte: Integralista. Procurando abarcar as mais diversas clientelas. Empresários. Perceba a preocupação dos integralistas com relação de seu ideário simbólico junto às gerações futuras. pratos de louça e discos promocionais 385 com jingles integralistas. as mercadorias integralistas chegavam à residência do consumidor em prazo bastante curto.3. E se você não pode vir. Todos esses produtos movimentaram um considerável aparato industrial e comercial que dava suporte à marca integralista. O jornal foi o fórum das discussões partidárias e o armazém mais bem sortido dos integralistas. um dos pilares da conceituação propagandística do movimento. Outros materiais foram elaborados. 386 Propaganda veiculada no jornal A Marcha de 27/9/1957. o que gerou um fluxo contínuo de remessas. que se valeram de malas diretas e reembolso postal. encarregue seu companheiro que vier de comprar e levar 386 para você uma dessas lembranças. como carimbos e fotografias de Plínio Salgado em vários tamanhos e autografadas. as propagandas desses produtos ganharam vida. Assim. Nas páginas dos jornais perrepistas. a seus filhos. principalmente no período de setembro a novembro de 1957. especialmente os números de setembro de 1957 a abril de 1958. . O interessado enviava seu pedido e os integralistas remetiam os produtos. é emblemático o texto constituinte da Tabela de preços dos suvenires da campanha dos 25 anos. Sua vendagem foi organizada pelos integralistas. foram os responsáveis pela fabricação e distribuição desses produtos. Em consonância com a indústria cultural que se formalizara. tais anúncios objetivavam “falar a língua dos que tomavam contato com eles [produtos]”. broches. Um exemplo dessa prática foi o serviço de Caixa Postal mantido pelo movimento. se você vem ao Rio assistir às comemorações de 7 de outubro. o Sigma apresentou seus produtos visando atingir os mais variados setores sociais. netos e bisnetos. no período máximo de uma semana. de mão em mão. p. 385 A Marcha. em especial n’A Marcha.192 canetas esferográficas. industriais e comerciantes simpatizantes do movimento e ligados aos mais diferentes ramos.

conhecimentos que vão da moda aos cuidados pessoais e domésticos.. uma vez que ela era vista pelo integralismo como a responsável pela administração do lar. para uma cruzada de redenção nacional pela sua 387 acção decidida. ao adolescente.. apresentando um significativo número de produtos. portanto é oferecer tudo que seja importante para a mulher para o desempenho de sua elevada missão. O primeiro segmento social a ser atingido pelo assédio propagandístico dos produtos que levavam a marca Sigma foi o das mulheres.193 Por meio dos anúncios. ao colecionador. p.. comunicavam-se com os mais diferenciados receptores. Falava-se à dona de casa. Esta rotulação limitava a sua ação social. . de acordo com os integralistas. seguiam sendo caracterizadas pelas funções domésticas. esta dedicada exclusivamente às mulheres(.. comunicar-se diretamente com a figura da mulher dona de casa. No estrato abaixo. o das donas de casa..5.Além desses objetivos procuramos despertar para os problemas sociais. assim sendo uma reparação rigorosa e completa lhe deve ser ministrada tendo por base a educação integral (.. Tal postura indica os limites da modernização do discurso integralista: as mulheres. ao provedor do lar.) Eis porque daqui desta página feminina procuraremos abordar todos esses aspectos.) Nosso objetivo.. e para isso instituiu. deseja como um jornal de base cultural penetrar mais profundamente nos lares. dentre outras. do pequeno conselho ao trabalho de arregimentação da mulher. aos militantes saudosistas.. ao trabalhador. tem-se a dimensão de como o direcionamento se deu: A Marcha em sua nova fase não quer levar apenas as notícias semanais aos seus leitores e a orientação doutrinária. Os anúncios integralistas buscavam. o que aprofundou as contradições entre as posturas do 387 A Marcha. ou. 5/4/1958. ao invés de companheiras. Vale notar que a realidade feminina da época contradizia o discurso passadista apresentado pelo Integralismo. de maneira mais específica. patriótica e cristã.

A casa continuava sendo vista como o espaço social feminino. os anúncios voltados aos militantes propriamente ditos eram divididos em algumas 388 A Marcha. mais preparada. no qual a mulher interagia tão somente no sentido de proporcionar à família bemestar e comodidade. visando abarcar um amplo espectro de pessoas. que se confundiam. atestando o descompasso integralista. Simultaneamente aos estratagemas utilizados para aproximar a dona de casa da doutrinação. resquícios bastante marcantes de tal postura. seguindo uma das preocupações mais diretas do partido: arregimentar novos simpatizantes para a sigla. sua esposa e todos juntos serão trazidos à verdade. os integralistas defendiam o casamento. Venha participar das sessões de doutrinação. nos anos 50. A Nação depende de vc.Deixe que o PRP 388 venha até vc. A despeito da questão sobre a subserviência feminina no integralismo. com a própria doutrinação. 15/9/1956. ter sido mais complexa nos anos 30 percebe-se. No trecho abaixo é clara a preocupação do partido em trazer para seus quadros o provedor do lar: Poesia para o Bom Homem Se tu és o provedor do Lar. por exemplo. A educação feminina era defendida com o objetivo de preparar a mulher para ser uma mãe melhor. então. condenavam a luta pela emancipação feminina e também incorporaram uma série de valores modernos em relação à mulher e à família. Evidenciou-se. o que trata das eventuais dores e rega as alegrias do lar.mãe. Lá vc poderá levar seus filhos. Obedecendo a estratégias bastante variadas. dona de casa . . os integralistas afinaram sua busca de prática doutrinal. muitas vezes. uma campanha conjugada. p. para ter condições de formar seus filhos sob novos critérios higiênicos etc. no entanto desapontar a tríade de sua vida. Vc que provê seu lar provenha de inteligência sua família. a maternidade. Nos anos 30. A figura masculina foi privilegiada. O integralismo depende de vc.possuía papel de destaque nos projetos integralistas. a mulher . Não podes.5. No discurso médico. a família depende de vc.194 partido e a prática social. e atentos aos demais segmentos da sociedade.

explorando pontos de aproximação particulares. a força e a possibilidade desse ideal mostraram-se profundamente arcaicos frente à realidade dos anos 50 e 60. Entretanto. a aceitação. um selo. passando a fumar Cigarros do Sigma. 389 A sofisticação das estratégias arquitetadas pelos integralistas criou. constituição de novos órgãos ligados ao partido. As propagandas comparativas: “Somos nós o diferencial entre o passado carcomido e o futuro representável”. no espaço de seis meses de celebrações. um calendário rememorativo que contemplou festas populares. para a imprensa não integralista. (a exemplo dos Águias Brancas). não foram suficientes para revigorar o movimento. Somos o partido da Nação. Segundo os jornais de grande circulação. as que traziam embutidos nos textos um “chamamento imperativo”: “seja um correligionário do PRP!”. e aquelas cujo texto dirigiu-se a um público indiferenciado: Todos podem se filiar ao PRP: se não vejamos: podem ao menos ajudar aos companheiros consumindo seus produtos: Um caixa de fósforos. mas sem dúvida foi este um dos mais interessantes e contraditórios momentos vividos pelo integralismo. 389 Todos esses anúncios foram publicados no jornal A Marcha durante os meses de março a setembro de 1957. . percebe-se que os agentes de celebração conseguiram congregar a propaganda e a doutrinação com vistas à efetiva partilha de seu ideal: um futuro partilhado por todos aqueles ligados ao movimento. simulações históricas. você está ajudando a nos promover.195 sessões específicas. mostrando ao Brasil que somos bem mais que meros arregimentados de pessoas e idéias. A despeito das comemorações dos 25 anos do integralismo servirem para colocá-lo novamente na ordem do dia. As celebrações não se limitaram às festividades públicas e às mordazes críticas trocadas com a imprensa. bem como a produção de uma série variada de produtos que ostentavam a marca integralista. as de interpretação subjacente: “O Brasil anda bem? Porque você não o Recupera e o melhora Praticando?”. uma marca de cigarro que vc mude. Independente de tais estratégias e do grau de sucesso conseguido por elas. o descompassado discurso integralista havia caducado devido à contradição que sua permanência causava ao estabelecimento da democracia.

Em decorrência disto. ideologia política inadequada à nova conjuntura político-democrática. a oposição da grande imprensa frente ao integralismo mostrou-se. Adequando-se à nova diretiva pluripartidária. que não estava tão morto assim havia conseguido permanecer no cotidiano das páginas dos jornais. a imprensa de grande circulação dos anos 50 foi unânime em afirmar que os “jacarés falantes do integralismo”. As intenções corporativistas do partido. o integralismo passou a requerer status de “atento 390 paladino da nova democracia”. sobretudo para lembrar os esquecidos e incautos que a democracia exigia credenciais bastante claras. os demais elementos fundadores da doutrina integralista passaram por radicais transformações. nunca como protagonista de uma efetiva reestruturação simbólico-política. . assim como sua postura antiliberal arrefeceram-se. Neste sentido. Nesse sentido. mas atraindo para si a luminosidade de holofotes coadjuvantes. O dístico Proh Pudor simultânea e paradoxalmente estigmatizou o movimento integralista ajudando o integralismo a permanecer em evidência. Com exceção do anticomunismo. Assis Chateaubriant foi profético: o cachorro morto. No entanto. nov/1946. nada disso ajudava a caracterizá-lo como um movimento político afastado do que fora nos anos 30. na sua forma mais acabada. tal como enfatizou Mario de Andrade. mesmo congregando os matizes mais variados.196 Resumo da ópera O contexto político dos anos 50 diferiu profundamente daquele que viu nascer o integralismo. As credenciais integralistas foram cassadas no 390 Boletim PRP/RS. tipo de aparição que serviu. aos olhos da grande imprensa de circulação nacional. Acusados de não possuírem propostas adequadas nem para o presente nem para o futuro os integralistas fixaram suas investidas nos poucos jornais que o movimento dispunha. agora instituído como presidente do partido. a partir de finais da década de 1950. o antagonismo criado entre o movimento integralista do pós-guerra e a imprensa de grande circulação favoreceu a permanência do integralismo nas discussões e páginas dos jornais. significaram um enorme retrocesso político. O PRP passou seus primeiros quinze anos de atuação parlamentar (1945-1960) se defendendo das acusações de envolvimento com o fascismo italiano. e da presença sempre marcante da figura do “chefe”. apresentando-se como parceiro do novo regime. que permaneceu como um elemento arraigado da doutrina do novo partido. Em contrapartida.

HALLEWELL. Imperialismo e Cultura. FGV/Cepedoc. A Nova face do verde: o Integralismo no pós guerra e a criação do PRP. J. SP. COHN. 1998. 4 volumes. 1984. BAHIA. 1971. SP. Vértice. Rio de Janeiro. Gilberto. SP. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. HALBWACHS. Referências A Enciclopédia do Integralismo. Renato. Cia da Ed. RJ: Livraria Clássica Brasileira. Presença. 1957-1961. CALIL. 1976. Edusp. A Memória Coletiva. Petrópolis: Vozes. Maurice. DICIONÁRIO HISTÓRICO BIOGRÁFICO (1930-1983). Santos. O livro no Brasil . Laurence. São Paulo.(org) Comunicação e Indústria cultural. Brasiliense. IANNI.197 momento em que resolveram retomar sua simbologia. Otávio. 1988. Nacional/Edusp. 1960.uma história. 1981. mesmo em nome de uma nova roupagem pseudo-democrática. Dissertação de Mestrado na PUC-RS. . Três fases do jornalismo Brasileiro. Gabriel. ORTIZ. 1990. 12 vol.

onde estavam concentradas as colônias alemãs fundadas desde a metade do século XIX. März 1935. Por outro lado. Neste sentido. Tinha cerca de 2. historiadora e jornalista. ENTRE SIGMAS E SUÁSTICAS Nazistas e integralistas no Sul do Brasil 391 Ana Maria Dietrich Um dos principais efeitos da tropicalização do nazismo foi a adesão de teuto-brasileiros às fileiras do integralismo principalmente nos estados do Sul do país. Herausgegeben vom Deutschen Ausland-Institut Stuttgart. havia um explícito repúdio ao integralismo justificado pelas regras da Organização do Partido Nazista no Exterior que deixavam claro que os alemães não deveriam participar da política local do país de hospedagem (Gastland). Mestre em História Social.900 membros. Jahrgang 18. p. o integralismo pode ser identificado como uma importante característica do nazismo tropical por ser visto como algo extraordinário que não estava nos planos originais da organização do partido nazista no exterior. O anauê que muitos teutos-brasileiros declamavam nas ruas de Blumenau. para os representantes do Reich.8%) era de cidadãos alemães. O Partido Nazista no Brasil estava ligado à Organização do Partido Nazista no Exterior e era o maior grupo das 83 filiais do partido nazista espalhadas no mundo. Harmonia e Rio do Sul em Santa Catarina é aqui considerado uma reação “tropical” ao nazismo exportado e segregado que não admitia nas suas fileiras os miscigenados. . Na perspectiva do III Reich. dos quais a grande maioria (92. 125. Zeitschrift für die Runde vom Auslandsdeutschtum. In: Der Auslanddeutsche. 392 “Die integralistische Bewegung in Brasilien“. Ele deixava de fora um grande contingente da comunidade alemã. os chamados 391 Ana Maria Dietrich é doutoranda em História Social pelo NEHO/ Departamento de História/ USP em parceria com o Centro de Estudos de AntiSemitismo da Universidade Técnica de Berlim. Tropicalização é aqui entendido como o processo de amoldamentos e modificações do nazismo enquanto ideologia e nas estruturas organizacionais do partido nazista instalado no Brasil. o integralismo representou uma onda 392 de nativismo local que ameaçava o Deutschtum (germanismo) .198 10.

quanto os integralistas queriam o engajamento desta população. René Ernaini. uniformes e hinos. o governo nazista pensou em formas para a inclusão política e social desta “categoria”. Berlim. Alguns traços de caráter atrairiam a população de descendentes de alemães para o partido integralista: “a valorização da 393 SEITENFUS apud GERTZ. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Os Deutschbrasilianer se encontravam em um nível inferior aos alemães puros. 395 Ata R79005. Além da “roupagem”. formaram uma nova categoria dentro de uma maior Auslandsdeutsch (alemães estrangeiros). A Federação 25 de Julho desempenhou em grande parte este papel. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. 1987. Tal organização representaria os interesses e as exigências dos teuto-brasileiros. Porto Alegre: Mercado Aberto. René Ernaini. para defender os interesses desta categoria . marchas. que não precisariam. Ministério das Relações Exteriores. Este é um dos motivos indicado pelos alemães nazistas para a grande adesão de brasileiros descendentes de alemães às fileiras integralistas. Integralismo. p. 1937. 21. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. ou seja. Alemanha . pois representavam uma força que não pode ser deixada de ser considerada – tanto em termos numéricos. Mas. Em alemão. tanto os colonos alemães apoiavam o integralismo. 394 GERTZ. o integralismo com seus desfiles. chamados de Deutschbrasilianer (alemãesbrasileiros). Integralismo. Nazismo. mas ainda interessante. quanto ideológicos – afinal. então recorrer 396 ao integralismo . o apoio do integralismo aconteceu em via dupla. que serviria. cuja forma se assemelhava às demonstrações nazistas foi mais sedutor. Segundo Natália Cruz. A solução encontrada foi a formação de uma associação de amigos de Hitler. o integralismo teria atraído também pelo seu conteúdo ideológico. Nazismo. 1987. Inferior. criando-se uma hierarquia racial dentro da própria comunidade alemã. mas ainda faltava um grande caminho para se tornar uma organização dinâmica e disciplinada.199 teuto-brasileiros. em 395 tese. Inconformados e estimulados a se engajar politicamente – os descendentes de alemães viram no integralismo uma alternativa viável. 80% desta comunidade era 394 simpatizante do regime hitlerista . Ainda que formalmente não lhe eras permitido a participação efetiva dentro do partido. Porto Alegre: Mercado Aberto. 396 Revista Deutschtum im Ausland. considerando que a comunidade de teutos somava 900 mil 393 integrantes . Alemanha. que não podiam entrar no partido por não serem portadores da cidadania alemã.

desde 1935.200 ordem e do trabalho. 398 RIBAS.Si tu fosses allemão.. faziam questão de mostrar semelhanças entre os dois movimentos políticos. a Ação Integralista Brasileira também se valeu de propaganda em alemão. Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos.) Anauê! . portanto. A mesma autora cita o envolvimento de alemães supostamente espiões nazistas com o integralismo.. então ingresse para as camisas verdes lideradas por Plínio Salgado.. N.). Punhal Nazista no Coração do Brasil. O Estado de Hitler. nas Legiões Integralistas e vem vestir a camisa verde dos que se batem pelo bem do Brasil” – constava em um panfleto que circulou na década 398 de 1930 . Para conseguir o engajamento desta fatia da população. em vez de se ligarem aos partidos tradicionais. p. possuiriam um forte “idealismo pátrio”. Os integralistas. certamente serias Nacional Socialista.. através de suas associações no exterior. fazendo-os se identificarem com um partido realmente nacional. “. seu braço se levanta para Hitler que fez a Alemanha livre do caos marxista e comunista (. observou o crescimento e desenvolvimento do integralismo como força política no Brasil.) És brasileiro. Mímeo. 137. Antonio de Lara. por exemplo. sempre citando o regime nacional-socialista de Adolf Hitler como paralelo ao que acontecia no Brasil: Se você é um alemão nacional-socialista e é agradecido à sua Pátria de origem. (. 399 Ibid.. Caracterizando-o tal movimento 397 CRUZ. além de utilizar em sua propaganda efeitos e símbolos similares à da propaganda nazista como. O integralismo é um apelo do Brasil para todos que são aqui nascidos! É um chamado da terra que te 399 acolheu de forma hospitaleira (.. os comunistas e o judaísmo internacional. 397 que representavam apenas interesses regionais” . inscreve-te. Florianópolis. havia diversas semelhanças nos princípios do integralismo e do nazismo e ambos tinham como alvo a democracia liberal.. . virtudes cultivadas pela AIB. o sigma sob o mapa do Brasil. Imprensa Oficial do Estado. Segundo Cruz. 2005.

o que eram vistos como aspectos positivos pelo III Reich. denominada até 1938 como Der Auslanddeutsche . localizado em Stuttgart. A suposta “ameaça” do integralismo foi registrada em relatórios realizados pelo corpo diplomático alemão no Brasil e por membros do partido nazista. . Apesar de observar as tendências anti-semitas e o combate ao comunismo. visto como nativismo lusitano que tinha como “grande pretensão” fazer do Brasil um Estado semelhante aos países do oeste europeu. engloba o conceito de brasilidade de tal maneira. como se os brasileiros pudessem formar um estado nacional que tem como os europeus do oeste como modelo. Observar a maneira irônica que se referem aos brasileiros colocando em dúvida a capacidade de se formar um estado nacional semelhante aos europeus: O integralismo. linguisticamente e 400 Revista Deutschtum im Ausland. 401 A partir de 1938. 401 Tal revista. é denominada Deutschtum im Ausland. Atenção especial se dava a juventude alemã. com o “Heil Hitler” tropicalizado para o “anauê”. que em parte também aderiu ao 400 integralismo . A visão do III Reich do movimento integralista destacava principalmente a questão racial que visava melhorar a raça com a diminuição da porcentagem de negros e índios e o aumento dos europeus. era completamente contrário a que os alemães e seus descendentes se filiassem a este movimento. o que era enfatizado nos relatórios e artigos é a ameaça ao Deutschtum. cidade que na época recebeu o título “Cidade dos alemães no Exterior”. A Revista Deutschtum im Ausland (Espírito de ser Alemão no Exterior) também se ocupou desta temática. A citação abaixo mostra uma tentativa dos alemães de compreender o integralismo. mas da América do Sul e do mundo inteiro. A preocupação era que este movimento iria afetar o Deutschtum (germanismo). que se apresenta no mundo como um nativismo lusitano. era o periódico do Institut Deutsches Ausland (Instituto dos Alemães no Exterior). Alemanha.201 pejorativamente como nativismo. Eles caracterizavam tal conceito de raça como Lusotum (lusitanidade) em contraposição ao Deutschtum (germanismo). Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. 1935. também como um Estado que historicamente. Tal periódico contém diversos artigos sobre nao só alemães no Brasil.

quando. . ao nosso entender tropicalizada. tanto Salgado quanto Gustavo Barroso. os dois partidos nazista e integralista e tinha o símbolo da suástica e do sigma 403 na fachada . os discursos se misturavam e a colaboração se dava em diferentes níveis. René. a fim de conquistar a numerosa colônia teuto-brasileira. As ordens vindas da Organização do Partido Nazista no Exterior sediada na Alemanha eram obedecidas de maneira diversa. supostamente. fizeram questão de 405 relembrar suas raízes germânicas de seus descendentes . quando estava no exílio. p. através de um enviado. o secretário de estudos da AIB de Pindamonhangaba teria 402 Hünsche. ao mesmo tempo. Cumpre-se notar que esta fala data do pós-guerra. Alemanha. Plínio. apud. que mostram sedes dos dois movimentos que funcionavam sob o mesmo endereço. 1987. por exemplo. 403 RIBAS.202 sociologicamente tivesse 402 unidade aproximada. Da parte das lideranças integralistas. em outros momentos. não-colaboração e até menosprezo. Berlim. p. fez uma retrospectiva da história do integralismo e mandou publicar um “manifesto diretiva” em 9 de setembro de 1945.129. Porto Alegre: Mercado Aberto. p. Ministério das Relações Exteriores. de Santa Catarina. 404 GERTZ. No livro O Punhal Nazista no Coração do Brasil vemos publicada uma foto de uma sede localizada na cidade de Rio do Sul (SC) que abrigava. November 1941. Salgado. Punhal Nazista no Coração do Brasil. Plínio Salgado teria feito um acordo diplomático em que não mais ofenderia os nazistas no seu discurso. . enfatizando o perigo dos camisas cáquis nazis do qual os camisas 404 verdes iriam proteger o Brasil . Integralismo. as atitudes variavam entre aproximações e distanciamentos. 116. Mas. Germanismo. „Die Tätigkeit des Nazismus in Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506. 405 Ibid. teria feito em 1935 um contato para pedir apoio financeiro e moral para a luta contra o comunismo. Antonio de Lara. Verificamos alguns registros de fotos. O jornal Blumenauer Zeitung. Nazismo. 184. Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. chegou a ser o porta voz dos dois grupos ao mesmo tempo. Imprensa Oficial do Estado. formado uma Mesmo com toda esta visão do III Reich de não-aceitação. O Fascismo no Sul do Brasil. a realidade dos círculos das colônias alemãs do Sul do Brasil era diferente. No cotidiano destes alemães e teutos brasileiros. toda a associação de nazistas deveria ser repudiada pelos integralistas. Florianópolis. Ainda. ele afirmou que o Brasil estava ameaçado pelas doutrinas estrangeiras. No mesmo ano de 1936.

Todo este movimento não mudou a idéia do III Reich sobre o integralismo que era visto como perigo e ainda mais. 1995. um dos principais veículos da 407 propaganda nazista publicado por Julius Streicher . Barroso teria tido. era considerado um grande simpatizante do nazismo. Maria Luiza Tucci. Anti-Semitismo na Era Vargas. Segundo René Gertz. Sao Paulo: Editora Brasiliense. a figura do número 2 do partido integralista.il/eial/VII_1/gertz.ac. A influência política alema no Brasil da década de 30. o integralismo foi lembrado pelo jornal no período de seu início (1934-1935) e “esquecido” no momento 408 de sua maior expansão (1935-1938) . 335. 407 CARNEIRO. chegando a enviar livros anti-semitas de sua autoria para serem resenhados pela revista do instituto. http://www. . as opções simpáticas de Gustavo Barroso ao nazismo são evidentes: Entre as lideranças integralistas Gustavo Barroso sempre foi considerado o mais germanófilo e pró-nazista. p. . também. Estudos Interdisciplinários da América Latina y el Caribe.htm 409 Ibid. p. para o DAI (Deutsches AuslandInstitut – Instituto alemão do exterior) é colocado o seguinte problema: 406 Ibid. receptividade para seus artigos no jornal alemão Der Stürmer. 408 GERTZ. René. Mas a tentativa foi frustrada. E não há dúvida de que Barroso em diversas oportunidades tentou aproximar-se do 409 Nazismo e do Instituto Ibero-Americano. fato que nunca aconteceu. Gustavo Barroso. sobretudo em função de seu ferrenho anti-semitismo. Em ofício da A. Mesmo com alguns artigos que elogiavam Barroso e outros que demostravam uma simpatia pelo “fascismo à brasileira”. sendo que parte de sua família tinha o sobrenome Dodt.203 pedido dinheiro a Embaixada Alemã para uma viagem cujo propósito 406 seria levar o integralismo para uma linha alemã . Costumava citar sua descendência alemã. como algo extraordinário. 135. Ele também foi convidado junto a outras autoridades brasileiras para visitar a Alemanha e melhorar as relações entre o Brasil e a Alemanha.tau. O. Barroso permaneceu na Alemanha durante 5 semanas em 1940. O mesmo líder integralista tentou em diversos momentos a aproximação com o Instituto Iberoamericano de Berlim.

dois teuto412 brasileiros haviam morrido pelo integralismo . 1937. A nosso ver. Os camisas verdes e seu grito de anauê vistos. Alemanha 413 Ibid. como eram chamados os países onde estavam localizadas comunidades de alemães. era proibido aos partidários a participação 410 Ibid. 136. 411 Revista Deutschtum im Ausland. os integralistas utilizavam em sua propaganda que só com o integralismo seria preservado o Deutschtum (germanismo). como solidariedade a Gastland (terra de hospedagem). Segundo a revista Deutschtum im Ausland. que neste momento. O discurso ideológico semelhante fez com que os descendentes de alemães se beneficiassem da estrutura integralista 411 para desenvolver o programa do nazismo . nos quais os alemães e seu Deutschtum não seriam valorizados. existem apenas brasileiros e estrangeiros. contra toda a vontade e orientação do III Reich. Isto poderia acabar se tornando um ruído diplomático entre os dois países. “Nós não conhecemos a expressão “alemães de Blumenau”. O problema se intensificou com o golpe integralista e a suspeita de que alguns alemães nazistas teriam participado. idéia que não tinha crédito na Alemanha. 413 Em Blumenau. pejorativamente como uma mera imitação do nazismo. 20. Por outro lado. Segundo a revista. sempre haveria uma diferença entre os brasileiros integralistas e os “outros”. se viam em um namoro comercial muito intenso. os alemães deveriam ter o cuidado de não se "misturar" com os estrangeiros. Os tais “problemas extraordinários” não estavam previstos nas diversas regras e diretrizes propostas pela A. aos grupos dos partidos nazistas no exterior. esta mistura ideológica que. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. . p. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. 21. causaram sérias preocupações aos alemães nazistas. p. 1935. O. não devendo nem mesmo usar a língua local. aconteceu no Brasil. um grande grupo de estrangeiros. p. Alemanha 412 Revista Deutschtum im Ausland. Em contrapartida. é tida como o principal ponto da tropicalização do nazismo e da resistência à tropicalização proferida pelas lideranças nazistas.” Pelos "mandamentos" dos divulgadores do nazismo no exterior.204 “A questão do integralismo coloca nosso trabalho alemão no Brasil 410 diante de problemas extraordinários” .

Alemanha 416 Revista Deutschtum im Ausland. Junker Dünnhaupt Verlag. a revista relata a vitória maciça nas eleições de 1936 dos integralistas nas prefeituras das cidades do Sul. 1937. Nos estados do Sul. Emil. o Brasil contaria com 3. Jaraguá. 1937. A força do movimento no Sul do País. Do Rio 414 Ehrlich. (Auslandsorganisation der NSDAP – Organização do Partido Nazista no Exterior) instituídos a partir do decreto do Führer de 1937. com 560 mil e em Santa Catarina. Berlin. Destes. Alemanha . região que se concentrava o maior número de teutos e de alemães. a preocupação maior se dava com os alemães.3 milhões de votos. Nos anos 1930. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. 19. também é enfatizada. havia 10 deveres da A. 2. no qual você é hóspede. Temia-se que se os alemães aderissem aos ensinamentos integralistas aconteceria a miscigenação e a raça ariana desapareceria em duas ou três 415 gerações . Herausgegeben von Paul MeierBenneckenstein. Isto aponta para a adesão dos teutos que votaram e apoiaram os integralistas e também pode ser visto como um dos fatores da 416 dificuldade de se opor politicamente a tal movimento . Para provar tal força eleitoral. Você não deve entrar na política de uma terra estrangeira. Harmonia e São Bento) e Rio Grande do Sul. estariam localizados 125 mil adeptos do integralismo. Apesar da discussão sobre a adesão de teuto-brasileiros. 1937. Não se intrometa nesta política. Der Organisatorische Aufbau des Dritten Reiches. Os nazistas deveriam se manter neutros com relação à política interna e 414 não poderiam divulgar suas idéias a estrangeiros . Joinville. II. Heft 13. Participar do movimento integralista infringia diretamente tal mandamento. Rio do Sul. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Efetivamente uma grande porcentagem do Deutschtum (germanismo) de Santa Catarina marcha nas fileiras integralistas. Segundo Emil Ehrlich. Die Auslandsorganisation der NSDAP. p. os dois primeiros referem-se a este princípio de “não intervenção”: “1. nem mesmo por meio de conversas”. Seguir as leis do país. Entre eles. A política da terra de hospedagem deve ser deixada para seus moradores. principalmente em Santa Catarina (Blumenau.205 na política local em eleições ou movimentos revolucionários. cerca de 850 mil eram a favor do integralismo. O. 415 Revista Deutschtum im Ausland. se concentraria a maior parte de votantes. Schifften der Deutschen Hochschule für Politik.

. fez com que jornais brasileiros passassem a prestar mais atenção ao partido nazista no 417 Revista Deutschtum im Ausland.. em 1931. citado como integralista destacado e Comandante da Milícia Integralista. 113. Em outro momento. Florianópolis. Em caso algum. Antonio de Lara. p. que escreveu em carta para o seu pai na Alemanha. Imprensa Oficial do Estado. 7/10/1937. 661. sobre as influências nazistas no Brasil. procurarei mulher que ajude um pouco o marido e não uma que saiba apenas vestir-se bem para agradar outro homem. morto em Jaraguá (SC). Alguns teutos brasileiros chegaram a morrer como mártires da Ação Integralista Brasileira. p. Meus filhos deverão ter sangue limpo e não virem ao 419 mundo sifilíticos. Germano Sacht 418 morreu no mesmo dia e local que Ricardo . se alguma vez o fiser. Alemanha 418Jornal "Acção". 420 Ibid. ele escreve: “No que se refere à preguiça e comodismo. de 3 de setembro de 1937. em 7/10/1936 eram os mais lembrados pelos próprios integralistas.. Em 1932. morto em conflito de rua em São Sebastião do Caí (RS) com a polícia em 24 de fevereiro de 1935 e Ricardo Grünwaldt. Alguns destes alemães que mantinham este pensamento racista proclamavam-se integralistas. em que se nota uma forte apresentação do 417 integralismo. ele volta a fazer comentários 420 pejorativos sobre o Brasil. José Luiz Schroeder. p. . . São Paulo. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. É o caso do alemão Hans Walter Taggesell. p. 3. 112 e 113. Punhal Nazista no Coração do Brasil. Vários relatos reportam a esta espécie de “racismo tropical” difundido entre a comunidade alemã no Brasil.206 Grande do Sul vem também das antigas regiões de colonização alemã próximas a São Leopoldo. Nova Hamburgo e Santa Cruz como também das mais novas regiões de colonização no nordeste e leste do estado. Uma reportagem no jornal inglês Times. chamando-o de “terra de macacos” . o brasileiro certamente não é superado por nenhum povo no mundo”. datada de 1929: Quando me casar. 419 RIBAS. porém com brasileira. Junho de 1937.

afirma-se que havia infiltração 421 nazista . de controles 421 “O Times e as influências nazistas no Brasil” in Correio da Manhã. de intenção nazista?” O jornal chega a descrever a situação das colônias alemãs no Sul do Brasil como um simulacro das ditaduras alemãs e italiana. isolados. mentalidade pura da raça germânica? b) Ou será particularista. o principal questionamento era com relação a nacionalização do povo alemão no Brasil. predilecções. Alemanha. no Brasil. por descaso em eral dos poderes públicos. . arremedo de regimens totalitários. Ministério das Relações Exteriores. não é possível a existência de campos de 422 concentração. entregues a si mesmos. principalmente em Santa Catarina. publicou diversas reportagens sobre o movimento nazista no Sul do Brasil e fez várias referências ao integralismo e à “mistura ideológica” entre as duas correntes. Segundo o Times. verifica-se afinal a existência de verdadeiro simulacros de dictaduras. de ordem política. outubro de 1937. através de perguntas como “o elemento allemão se deixa de boa vontade absorver pelo brasileiro. Paralelamente. que fazia até o uso de boicote contra empresas que não eram aliadas à causa alemã: Em algumas colônias mais recuadas do centro principal que é Blumenau. desde que. Perguntava-se se havia intenção de uma invasão de Hitler no Brasil por uma política de expansão territorial. Ata 104939. do Rio de Janeiro. Berlim. O medo da invasão militar fica implícito neste trecho. quando se refere à construção de uma Alemanha em solo brasileiro: Os núcleos germânicos. O jornal colocou em cheque a germanização da colônia alemã no Sul do Brasil. Alemanha. Ministério das Relações Exteriores. que atento a matéria do Times. O jornal o Globo. Berlim. em outubro de 1937. 422 O Globo.207 Brasil. Ata 104939. a) será puramente racial: manutenção de costumes. 3/09/1937. e cuja arma principal é o “boycott”. foi um destes jornais brasileiros. livres. integra-se sem relutância na nacionalidade brasileira ou resiste?” ou “Qual o sentido desta resistência.

em abril de 1938. uma vez que alguns líderes. Eles são acusados de maus-administradores.208 conacionalizadores. anti-comunista e anti-liberal. sem especificar quem a tinha falado. os segundos transgridem estas normas. tiveram grande repercussão no III Reich. era anti-semita. De fato. A explicação para tal mistura é que a população teuta condenava o “nazismo de exportação” dos nazistas tradicionais e se identificavam mais com o integralismo. como o caso do chefe da cidade de Taió (SC). . costumes e idioma próprios. o jornal faz uma distinção entre dois “tipos” de integralista. identificado com Friss. Os artigos. Os primeiros são considerados nacionalistas e lutam pelo bem estar do Brasil. o jornal publicou também uma série de artigos sobre o governo integralista nas prefeituras. poucos meses depois. com sua mentalidade. Em reportagem de outubro de 1937. enfatizando principalmente a mágestão. No corpo da matéria. A frase foi atribuída para a “gente integralista”. tanto do Times quanto do O Globo. que segundo o jornal. o jornal abre com a manchete: “Nao prometemos nada”. Desse modo formou-se o que alguns commentadores atrícios tem apontado como “um pedaço da Allemanha” tratando de se consolidar sob os céos do 423 Brasil” . Ao citar as semelhanças entre as duas correntes. da parte dos nazistas também havia certa confusão. adensaram-se a sua moda. pelo seu discurso. Sem deixar de expressar a sua opinião contra o movimento integralista. As reportagens foram arquivadas em atas no Ministério das Relaçoes Exteriores e exaustivamente analisadas pelos diplomatas. Segundo o jornal. acentuando-se mais o lado germanizado. que caracterizou-as como uma campanha difamatória contra a Alemanha. o partido nazista foi proibido e alguns dos líderes partidários foram presos. que compareceu a um ato público em Rio Sul (SC) ostentando o sigma ao lado da suástica. a opinião é explícita: “Blumenau nao teve o prazer de receber nenhum resultado 423 Ibid.

385. entre eles seu líder máximo Hans Henning von 427 Cossel. Com o golpe integralista de 1938. 427 Ata R127506. „ A decepção causada pela estréia dos integralistas no governo de Blumenau. acredita que 424 „Não prometemos nada.as sinecuras. Observações de um blumenauense. Uma primeira corrente acredita no separatismo entre os dois movimentos e a segunda. In O Globo.209 verdadeiramente apreciável da propalada açção renovadora e 424 progressista do sigma” . 426 Revista Deutschtum im Ausland. outubro de 1937. Ministério das Relações Exteriores.. Berlim. A preocupação passa a ser outra: a suspeita de que partidários do nazismo no Brasil. Algumas prisões foram efetuadas. Alemanha. Os estudos que exploram as relações entre o nazismo e integralismo divergem entre si. 1938. Como havia muitos trabalhadores nesta obra que não-integralistas. os trabalhadores que não eram adeptos do integralismo teriam encontrado problemas. O que eles chamavam antes de um “Brasil integralista” dada a força com que o movimento se expandiu nos anos 1930. por exemplo. . 428 Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. teriam participado do golpe integralista . mas nada ficou provado. os integralistas passam a 426 serem vistos pelo III Reich como incapazes de se chegar ao poder . Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. com o fracasso do golpe. Em entrevista ao jornal O Radical. Ministério das Relações Exteriores. O jornal refere-se. 425 „A preferência aos trabalhadores integralistas em obras públicas e os casos que a respeito surgiram em Blumenau. outubro de 1937. a visão do III Reich sobre o integralismo muda de perspectiva. Ministério das Relações Exteriores. Ministério das Relações ExterioresBerlim. November 1941. 425 representados pelo jornal “Alvorada” teriam reclamado . „Die Tätigkeit des Nazismus n Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506.Berlim. Berlim. Alemanha. Ata 104939. Em obras públicas.o secretário Schubert Jr. Alemanha.” O Globo. 384. Ata 104939. Alemanha. os integralistas. às obras da Estrada de Ferro Santa Catarina. Cossel se isenta da culpa com relação ao golpe de 11 de maio 428 de 1938 . Neste momento. Tal acontecimento gera uma série de ruídos diplomáticos e o integralismo e sua ameaça ao Deutschtum é colocado em segundo plano. a atenção do III Reich se volta para um outro acontecimento importante na história das relações entre a Alemanha e o Brasil: a proibição do partido nazista local pelo governo brasileiro. p.

2 Integralismo e nacional-socialismo. N. Mímeo. chefe do partido nazista no Rio Grande do Sul. já que o integralismo.. Integralismo. O Fascismo no Sul do Brasil. 2005.210 houve uma grande colaboração. e o nazismo não simpatizava com a idéia integralista de nacionalização das minorias étnicas no Brasil. temia a influência imperialista do Reich Alemão. Nazismo. principalmente o capítulo 4. . Germanismo. Natália Cruz e Bailey Diffie. Recomendamos a leitura da obra de René Gertz supra-citada para o aprofundamento destas questõ es. O nosso levantamento bibliográfico neste artigo se dará de maneira resumida. Cruz enfatiza que apesar das séries de evidências apontarem para uma colaboração entre as duas correntes. Porto Alegre: Mercado Aberto. 431 CRUZ. Não se pode desconsiderar que a relação entre o nazismo e o integralismo também era marcada por desconfianças mútuas. Balley apud GERTZ. 1987. Nazismo. indentificam uma corrente com a outra. p. Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos. 119-120.2. outros estudos que. Há ainda. O Fascismo no Sul do Brasil. Bailey Diffie corroborou tais afirmações acrescentando que ações isoladas dos nazistas agiam em prol do integralistas. de uma maneira simplista. 430 DIFFIE. o que incluiria a assimilação cultural 431 dos alemães residentes no país. p. 429 CARONE. podemos citar Edgar Carone. palestras no Sul do Brasil para esclarecer o racismo alemão e financiamento do movimento 429 integralista pelo Banco Alemao Transatlântico . p. . Entre aqueles que defendem o colaboracionismo. como movimento extremamente nacionalista. sem prestar atenção às devidas peculariedades. René. Germanismo. que mantinha relações com os integralistas. Porto Alegre: Mercado Aberto. René. Ele acrescenta que os nazistas queriam 430 “dominar” o Sul do Brasil . Integralismo. deve-se levar em conta as diferenças marcadas principalmente pelo caráter nacionalista de ambas. 1987. Edgar Carone cita possíveis variáveis deste colaboracionismo como a publicacao em Santa Catarina do já citado jornal integralista Der Blumenauer Zeitung em língua alemã. como foi o caso de Walter Honig. 119. Edgar apud GERTZ.

foi pontuado a todo momento que a realidade que analisamos foi da região sul do brasil. assim como Arthur von Magnus. foi citado pela imprensa alema na época que a subida do movimento integralista ajudou o o 434 Brasil a ser retirado da “órbita americana” . 432 HILTON. 433 HARMS-BALTZER apud GERTZ. René. p. é que não houve. ainda deverá ser analisado pela historiografia. Germanismo. A tal “mistura ideológica” deveria ser evitada.211 Stanley Hilton. o movimento integralista e os descendentes de alemães faziam uma oposição ao partido nazista no Brasil. onde se concentrava o maior número de teutos-brasileiros. Nazismo. O Fascismo no Sul do Brasil. Tal pensamento a respeito do golpe integralista é 433 compartilhado por Käte Harms-Baltzer . o integralismo era um movimento local de caráter nativista que deveria ser ignorado pelos alemães e teutos residentes no Brasil. A nossa posição. 1987. p. Integralismo. Germanismo. 1987. Ele considera improvável a participação nazista no golpe integralista e acredita. Manfred apud GERTZ. p. Outra variável levada em consideração é a diferença regional. vemos diversos exemplos que mostram um trabalho em conjunto entre os dois partidos. 122. Integralismo. Colunas e colaborar com o movimento “fascista local”. Como se deu a relacao entre integralismo e nazismo em estados de outras regioes do Brasil. Segundo Manfred Kossok. René. 116-121. umas das diretrizes do governo nazista na época seria conseguir a hegemonia comercial e para isto teria se organizado em diferentes frentes: dominar os mercados de matéria-prima. Nesta última frente. tendo em vista os documentos analisados. O Fascismo no Sul do Brasil. em nenhum momento. Integralismo. Para Magnus. O Fascismo no Sul do Brasil. Na práxis. defende que entre nazistas e integralistas houve mais 432 conflitos que aproximações . uma política oficial de colaboracionismo entre os dois partidos. 121. Nazismo. na posição contrária. Porto Alegre: Mercado Aberto. 434 KOSSOK. 1987. Germanismo. Neste artigo. Porto Alegre: Mercado Aberto. a história é outra. Com relação às tentativas individuais de aproximação. apenas aconteceu em níveis individuais. Nazismo. Porto Alegre: Mercado Aberto. que se houve colaboração. integralista e nazista. . René. Stanley e MAGNUS apud GERTZ. influenciar alemães e descendentes para trabalharem como 5ª. Ao ver do III Reich.

útil. 436 Mestranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (TEMPO/IFCS/UFRJ)... a tua Família. MULHER. necessária. .) Crê. Deante do qual nunca tenhas de corar de vergonha de ti mesma. têm suas condutas delimitadas. sendo está passível de inserções documentais e revisões até a defesa do Mestrado. (. sinceramente. assim como no discurso textual. abnegada (. ardentemente.. fundada em 1932 e posta na ilegalidade em 1937 pelo Estado Novo. e como tal.). e acima de tudo. honesta. produziu e divulgou um amplo discurso imagético sobre o cotidiano de seus militantes e sua ideologia através da fotografia.) XI Faze de tua consciência um espelho límpido. militantes mulheres que participaram do movimento. As “blusas-verdes”.. (. Pelas imagens que o movimento produziu das mesmas. sê sempre.. escrito por Iveta Ribeiro e publicado em A Ofensiva. ama. inteligente. temos uma forma de visualizar as representações do feminino na sociedade brasileira. simples. respeitosa. 435 A análise apresentada neste artigo reflete o estágio atual da minha pesquisa documental. e serve conscientemente. caritativa. FOTOGRAFIAS.. a tua Pátria.. GÊNERO E AUTORITARISMO: representações do feminino pela Ação Integralista Brasileira 435 Tatiana da Silva Bulhões 436 (.212 11. neste discurso. em Deus. (Três regras de conduta do “Breviário da mulher integralista”. de 5/1/37) A Ação Integralista Brasileira.) VI Na paz ou nas horas de lucta..

As referências teóricas e metodológicas que orientam a pesquisa e análise imagética deste trabalho estão intimamente ligadas ao campo de uma história social onde a fotografia é pensada como 437 Muitas destas imagens fotográficas se encontram arquivadas e publicadas pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro à disposição dos interessados.213 Considerando-se que tanto a escolha do objeto fotografado quanto a posição de produção de sua imagem são o resultado das condições históricas das relações sociais e expressam os significados culturais de uma época.125. A fotografia integralista apresenta uma memória da militância integralista e sua identidade em relação a um Brasil em franca redefinição política e social. silêncio”. p. monumentalizando seu dia-a-dia.7 440 LE GOFF. 439 POLLAK. lugares nos informam sobre o passado – e também como monumento – algo que traduz valores.B. Michael. . As novas condições de escrita da história. de 439 “enquadramento de memória” . o cinema. os livros produzidos pelos seus ideólogos. denominado por Pollak. O conjunto fotográfico e os periódicos integralistas analisados retratam militantes e uma autoimagem do movimento. Estudos Históricos. Rosa Maria Feitero. Consideramos. Rio de Janeiro.3. 2003. Ver: CAVALARI. v. “Memória. 438 Outros exemplos de instrumentos de propaganda utilizados pelo Integralismo são o rádio. ainda. Jacques. 1989. tal como sugere Jacques Le Goff quando trata dos “materiais 440 da memória coletiva e sua forma científica. p. que as fotografias fazem parte de um processo. História e Memória. o objetivo central de nossa pesquisa tem sido investigar as formas de produzir e divulgar as fotografias do 437 movimento no Rio de Janeiro e o lugar da mulher nas mesmas. a história”.I. p. n.525. idéias. esquecimento. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. revistas ilustradas. permiti-nos considerar a fotografia como documento para a história – marca de uma materialidade passada. Além disso. São Paulo: UNICAMP. pessoas.2. no qual uma determinada imagem do movimento e de seus militantes é escolhida e enquadrada como a verdadeira a ser perpetuada e que procura construir no presente a coesão do grupo a que pertenceu projetando essa imagem também para o futuro. “Documento/Monumento”. tradições e comportamentos contribuintes da formação de uma identidade coletiva e de uma memória que se quis perenizada para o futuro. na década de 1930.1999. interessa-nos rastrear os usos e produção de significados dessas imagens e suas utilizações no amplo leque de instrumentos de 438 propaganda utilizados pela A. na qual objetos. tanto regionais quanto nacionais. São Paulo: EDUSC. panfletos e jornais.

dirigente ou não. por exemplo) e o modo que 441 elas apareciam no material de divulgação. pretende-se nesta pesquisa ir além desta esfera. entre 1933 e 1937. mas também hierarquias entre eles.) Muitas memórias. Ver: JOLY. Pascal. pessoas. Ela é constitutiva da realidade desse objeto.. Laura A. bem como as técnicas fotográficas usadas na produção fotográfica. em linhas gerais. CARDOSO. Representações: Contribuição a um debate transdisciplinar. 2000. separada das questões sociais (quem fotografa? Por que fotografa? Quais as intenções/objetivos?) e do tempo histórico em que foi produzida. consolidando não somente as diferenças. folhetos. Grenoble: Presses Universitaires de Grenoble. p. (orgs. In. Martine. Marta E. Helenice Rodrigues da. In: MACIEL. “a percepção de um objeto como signo do mesmo. Introdução à analise da Imagem. construiu em seu discurso textual e imagético padrões de feminino e masculino em consonância com sua filosofia e visão de mundo. 1996. Além disso. locais. Sendo assim foram delimitadas pela 442 intelectualidade. indagando os usos e escolhas dos produtores das fotos. no final do século XIX. da subjetividade de quem o vincula e do sistema social no qual se inscreve a relação sujeito-objeto”. Jurandir.16. intimamente ligadas aos argumentos dos discursos médicos eugênicos e de inspiração cristã desta época. Tais representações se tornam instrumentos de poder integralista. as formas como foram divulgadas (periódicos integralistas ou não. Apud SILVA. opiniões. . Campinas. entre outros). Campinas. Contudo. São Paulo: Papirus. “Os famintos do Ceará”. gestos. 2004 442 O conceito de representação também é compreendido nesta análise à luz da psicologia social e da semiótica. 1996. São Paulo: Papirus. Images et représentations sociales – De la théorie des représentations à la étude des images sociales. os sentidos dados à fotografia no Brasil da década de 1930. Barbosa em seu trabalho sobre as fotos da seca no Ceará. A Ação Integralista Brasileira. Jacinto.33 e MOLINER. et al. São Paulo: Olho d’Água. como aponta Bourdieu em seu estudo sobre 441 Tais preocupações com análise da fotografia são similares às de Marta E. apesar de ter como meta a analise do conteúdo do corpus fotográfico (objetos.86. como algo que existe para significar ou designar o objeto” e conforme afirma o psicólogo Pascal Moliner “correspondem a um conjunto de crenças. Ciro Flamarion e MALERBA. “A história como ‘representação do passado’: a nova historiografia francesa”. p. A imagem não existe apenas em função do desenvolvimento técnico ou da possibilidade colocada pelo equipamento. como sendo. J. outras histórias. do movimento representações dos gêneros. pág. exposições. comportamentos referentes a esse objeto. BARBOSA.214 prática social e expressão de relações sociais e significados culturais. cabe comparar as representações de feminino nas fotografias integralistas com outras fotos da sua época.

assim como impõem as definições legítimas das 443 divisões de mundo. Modernizando o casamento: a leitura do casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. crenças e sentimentos que dão ordem e significado a um processo político. Cleusa Gomes. 11 (5). São Paulo. por exemplo. 1991.1-3. . evidencia minha opção pelo conceito de gênero tal como proposto por Joan Scott. 445 SILVA. 447 Entendo Cultura política neste trabalho como “um conjunto de atitudes. 2001. p. “O mundo como representação”. 446 SCOTT. neste caso aos integralistas . A consciência de que o discurso integralista construiu representações do gênero feminino. ao pensá-lo como categoria útil de análise histórica e uma forma de indicar as 446 construções sociais dos papéis femininos e masculinos . pp. a propaganda política. contra o casamento e a desigualdade de direitos entre os gêneros. intimamente ligadas à sociedade da sua época – por este motivo não são dados “naturais”-. e que estas estão imersas em relações de poder e de hierarquia. marcou e 445 mesmo transformou o discurso conservador destas décadas . onde existem muitas hierarquias. A fotografia à serviço da propaganda e da memória do Integralismo: o caso da revista Anauê! Na década de 30. Dabat e Maria Betânia Ávila). era fator integrante da cultura 447 política brasileira e internacional da época e adquiriu enorme 443 BOURDIEU. pp. pois elas são muito mais o resultado das relações sociais em determinado momento histórico. 1991 . Ressalto que estas representações não são “criações” separadas da sociedade e do tempo histórico em que foram elaboradas visto que é preciso mais que uma certa sintonia entre aquilo que está sendo mostrado e o público que receberá a mensagem.117 e 118. dão a conhecer e fazem reconhecer. pois estas fazem ver e fazem crer. de fundo biológico. Recife. SOS Corpo. Pierre. já que não se pode entender as representações como imposições simplesmente. Roger. O poder simbólico. 444 Ver: CHARTIER. Campinas: Unicamp. como fenômeno da sociedade e da cultura de massas. mas onde também são possíveis negociações e 444 improvisações . A crítica elaborada por mulheres intelectuais. 1989.182. Dissertação de mestrado. Gênero: uma categoria de análise histórica (tradução de Christine R. cristão e antifeminista. p.137. Joan. nas décadas 1920 e 1930. In: Estudos Avançados. feministas ou não.215 representações.

O nazismo e o fascismo se utilizaram desse recurso e sua influência se fez perceber aqui no Brasil. Maria Helena Rolim. vol.5-12. n.3. Benedito Silva. Uberlândia. p. Hitler. um avanço 448 considerável dos meios de comunicação . 450 SILVA.1. a massa. jul/dez 1992. p. (7): 87-110.24. Gisèle. Fotografia e Sociedade. Heinrich Hoffman. Rio de Janeiro. Escola de Comunicação da UFRJ. 452 Ver: BERTONHA. Dissertação de Mestrado. quando ocorreu. Leandro Piquet.216 importância. Lacerda ao analisar este artigo. O Estado Novo também vai utilizar a fotografia. atingindo diretamente suas emoções e 451 paixões”. incluindo a 452 fotografia. que tirava suas fotos e escolhia as que parecessem mais 449 adequadas aos fins da propaganda alemã. Revista do Serviço Público. Propaganda política no varguismo e no peronismo. p. 1998. “A máquina simbólica do Integralismo: Propaganda e controle político no Brasil dos anos 30”. E mais.2. Editora Vega. na década de 1940. ela se faz muito mais a poder de símbolos do que através de argumentos. em seu artigo nesta revista. como veículos de propaganda governamental . A leitura do periódico Revista do Serviço Público .1. O Integralismo também se insere na cultura política da sua época e utilizou largamente artifícios propagandistas. Karina e CARNEIRO. Segundo o regulamento da Secretaria Nacional de Propaganda 450 pondo em evidência as regras e pressupostos nos quais se baseia o comportamento de seus atores”. s/d. n. Benedito. assim como a imprensa e o cinema. 1998. 1999.1940. tinha um fotógrafo de confiança. Multidões em cena. Fotografia e discurso político no Estado Novo: uma análise do projeto editorial “Obra Getuliana”. 448 CAPELLATO. . In: Estudos Históricos. KUSCHNIR.. Rio de Janeiro. São Paulo: Papirus. Campinas. dá algumas indicações do entendimento do sentido da propaganda naquela época. mar.34. João Fábio. para manter seus militantes e conquistar mais adeptos . o que tornaria sua leitura de fácil apreensão. afirma que a propaganda possuía natureza emocional e para chamar a atenção do receptor deveria estar baseada em “argumentos dramaticamente convincentes e símbolos poderosamente emocionantes”. In: História e Perspectivas. 449 FREUND. afirma que. 451 LACERDA. Lisboa. p. em âmbito mundial. v.125. As dimensões subjetivas da Política: Cultura Política e Antropologia da Política. a técnica de propaganda se beneficiaria da “falta de pensamento crítico por parte do receptor. Rio de Janeiro. Aline Lopes de. “Como se caça a versátil atenção humana”. por exemplo.

RJ. A 458 Diretiva n° 1. p.) A revista Anauê! reflete o carinho dos “camisas-verdes” pela causa do Sigma.7. também parece indicar esta intenção do movimento de utilizar a foto para propaganda de si: “ (. mais caprichada. Fundo DESPS. irá crescendo o número de assinantes. 458 Folhas 85-92 da pasta 17. Série Integralismo. 1936. . À medida que se for compreendendo que a revista está intimamente ligada ao trabalho de propaganda de nosso movimento. isto é. Fundo DESPS. 457 Folha 107 da pasta 17. As fotografias circulavam em periódicos integralistas e possivelmente em periódicos não integralistas que fossem simpáticos à causa da AIB. Fundo DESPS. relata o julgamento do concurso de cartazes. seu poder de sugestão e transmissibilidade da idéia”. Um Boletim da Província da Guanabara. datado de 27 de fevereiro de 1937.117. Série Integralismo.. feitos por militantes.N. Série Integralismo. Livraria Clássica Brasileira. Um trecho do editorial da revista ilustrada 455 integralista. 1959. n. mas as imagens em geral. eram utilizadas com fins propagandísticos e mereciam cuidados e investimentos por parte da AIB. que tinha ramificações em nível estadual e municipal. onde ocorreu “uma cuidadosa consideração de desenho e cor” e se avaliou “a significação. Uma das perguntas do questionário procura descobrir se o Núcleo tem utilizado a fotografia em seus eventos ou textos de propaganda. ano II. Fundo DESPS. a intenção e a simbólica do cartaz e procurou-se examinar sua capacidade didática. e ela aparecerá então mais bonita. 454 Folhas 97 e 98 da pasta 12. aponta como uma das informações que deve conter o relatório do Departamento Provincial de Imprensa “publicações feitas da imprensa sobre o 453 Enciclopédia do Integralismo.).9. Não só a fotografia.. apresentados no 3° aniversário da Província da Guanabara. os jornais não integralistas do seu município. 456 Folhas 9 a 12 da pasta 2. por meio de um questionário. mais elegante”. Anauê!. Um relatório da Secretaria Municipal de Propaganda do 454 Núcleo Integralista de Ipanema . investigando inclusive se existiam integralistas infiltrados no corpo de 457 funcionários e qual a posição do jornal em relação ao movimento . v. Série Integralismo. de circulação nacional. da Secretaria Nacional de Imprensa. ela era 453 “um dos setores fundamentais da Ação Integralista Brasileira”. Uma das orientações da Secretaria Nacional de Imprensa às Secretarias Municipais era identificar. por exemplo. 455 Anauê!.P. de 30 de maio 456 de 1936 .217 (S. indica a importância dada pelo movimento à fotografia como fator de propaganda de si. de 1936 .

Rio de Janeiro: Relume Dumará. ser o comentário múltiplo. p. um tema. provavelmente.. Jorge Pedro. com menos espaço para dúvidas. por exemplo. Florianópolis: Letras Contemporâneas. onde se afirma que “é dever de cada núcleo 459 Fon. que ela reservava algumas páginas para mostrar “o Integralismo nos 459 Estados”.1. Filosofia da Caixa Preta. a civilização ascensional do Brasil. fon”. 2002. narrar ou comentar visualmente uma história. Outra característica do fotojornalismo desta época era o objetivo básico de suas reportagens: “mostrar o desenrolar das atividades cotidianas. 2000. não enfatizando necessariamente um acontecimento 463 privilegiado”. nos anos de 1935 e 1936. diferentemente do texto escrito. uma idéia. 1935-36.83. instantâneo e fiel dessa viagem de uma nação 461 para o seu grandioso porvir”. 461 Cruzeiro. em todas as suas manifestações. Observei na pesquisa à revista ilustrada “Fon. ano 1.B. nº 5. A Revista ilustrada Cruzeiro. op. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. 1928. cit.I. Vilém. p. em períodos semanais. chamado o “número das multidões”. Segundo ele “o observador confia nas imagens técnicas tanto quanto confia em seus 462 próprios olhos” A confiabilidade naquilo que as imagens fotográficas representam promoveu sua proliferação nas revistas ilustradas da época. Estas orientações internas indicam a existência de esforços para aproximar a AIB da imprensa diária não integralista e que.218 Integralismo. n.14. assim como pelos produtores de seus periódicos. por exemplo.25. p. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Observa-se isto em um panfleto sobre a revista ilustrada “Anauê!”. 462 FLUSSER. lançada em novembro de 1928. dessa época. Os sentidos de veracidade e confiabilidade ligados à imagem fotográfica também são partilhados pela intelectualidade da A. de 1935. no Brasil e no mundo. 460 SOUZA. Chapecó: Grifos. fon!. chegar de forma mais direta e objetiva a nossa compreensão. Tal concordância entre a realidade e sua representação seria reforçada pelo que Vilén Flusser explica ser a capacidade da imagem fotográfica de. que se propunha à descrição da realidade como 460 ela era . enviadas pelo Departamento Provincial de Imprensa”. textos e imagens do movimento foram enviados pelos departamentos provinciais de imprensa da AIB. . A propaganda integralista através da fotografia era reforçada pelo caráter de “foto-descrição” do fotojornalismo. em seu editorial advogava ser “o espelho em que se refletirá. Esta postura tem como premissa que o que está ilustrado é a própria verdade. 463 LACERDA. no Rio de Janeiro.

é um recurso amplamente explorado na difusão da imagem do chefe e produz um efeito de onipresença do líder integralista na vida cotidiana dos militantes. 1935. na casa de militantes. A divulgação recorrente da figura do Chefe Nacional.64. onde estava escrito “Viva o Entegralismo de Plínio Salgado”e a outra focalizando a frente de um “mocambo” em 464 Panfleto 152. através do seu grande número de fotografias e desenhos o cotidiano do movimento. de 1935 . Está feito de modo a ser facilmente destacado e colocado num quadro que deverá honrar a sala de visita de todo integralista. jan. nas suas páginas. 466 Anauê!. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro.1.. e mais que isso comprovar. que pela evidência esmagadora dos seus argumentos fotográficos. Por isso não pode faltar nos lares brasileiros o retrato do Chefe Nacional. o nascimento e morte de militantes. uma focalizando o muro de uma casinha em Pernambuco. Plínio Salgado. como verdadeiros subnúcleos. . está gritando do Acre ao Chuí: nenhuma força humana deterá mais a marcha gloriosa dos 464 soldados do Sigma!”. n º 4. Fundo DESPS. ano I.219 e de cada ‘camisa-verde’ assinar a revista. a Idéia. o Chefe não é uma pessoa e sim. ano 1. encontra-se o incentivo aos militantes para que mantenham a imagem do chefe até no seu espaço privado. o lar. de 1935. Um exemplo do que afirmo está na revista de 466 nº 4. tendo o caráter de “mostrar”.. p. out. Afinal. como concentrações de militantes.) o Integralismo é a Revolução da Família. 465 às famílias. Uma análise desta revista indica vários usos e funções que a fotografia tinha na imprensa ilustrada como fator de propaganda e construção de memória do Integralismo. Aí o tem os leitores. seja com sua presença aos eventos integralistas. O exemplo da revista integralista Anauê! é interessante aqui por ser uma representante do fotojornalismo da época. assiste igual direito” . congressos integralistas. Na leitura de um trecho do editorial do primeiro número da Revista Anauê!. 465 Anauê!. n. o que alarga ainda mais o sentido de onipresença da figura do líder em sua vida diária: “ (. seja com sua fotografia sempre presente nas paredes dos núcleos integralistas./1935. não é justo que só os núcleos possuam a fotografia do Chefe. Duas fotografias. de “testemunhar”. e principalmente. difundir idéias e convencer o receptor da veracidade do seu conteúdo. A fórmula utilizada pela revista de conferir ao meio fotográfico a função de mostrar. o que o texto escrito afirma é algo flagrante. Além disso. Série Integralismo.

nas fazendas e nas metrópoles que o Integralismo vai penetrando vitoriosamente. Em outros números da revista também se encontram pequenos contos 467 Anauê!. sua esposa e seu filhinho fazendo a saudação integralista. ele diz que seis meses depois ele passou de trem em Mojolos e vários integralistas entraram no veículo. segundo ele: “Nezinho.8. que se apresentou como Nezinho. . Em cima das fotos um texto afirma: “Não é só nos quartéis. onde “tivera oportunidade de avaliar a força de uma doutrina salvadora e ao mesmo tempo as dimensões das (suas) responsabilidades”. descalça com o filho nú no colo. encontrei um exemplo interessante disto. n. Quando o trem para numa pequena localidade chamada Monjolos. ele também está prestando juramento de fidelidade a mim”. mar/1936. vemos que a interligação entre foto e texto difunde idéias e procura convencer os leitores. Além da intenção de comprovar. o mesmo com “o olhar vivo e sagaz de quem sabe que domina facilmente o antagonista” responde: “. com poucas letras. em um exercício de propaganda do integralismo. A fotografia em conjunto com o texto também estabelece relações.No momento em que presto juramento de fidelidade ao Chefe. nas academias. Nestas duas historinhas acima. Aí vê o leitor mais duas provas de atração irresistível que a Doutrina do Sigma exerce sobre os brasileiros de todas as categorias.220 Recife. observa-se também a valorização das pessoas humildes e sem ou com pouca instrução. uma fotografia mostrava Nezinho. p. ano II. Quando Mourão “se preparava para ir ao auxílio daquele integralista de poucas letras e muitas virtudes”. vivo.29. Ao lado da história. Na pequena história o integralista Olympio Mourão relata que estava no trem voltando de sua viagem a várias localidades brasileiras. entra um engenheiro no trem e após escutar a conversa por algum tempo pergunta ao “caboclo” se ele não se sentia “vexado” em prestar juramento de fidelidade a um homem de carne e osso. entra um “legítimo tipo do caboclo brasileiro. Sobre a frase no muro da casinha o texto ressalta: “E Almeida Salles (um dos militantes da foto) já encontrou a Idéia precedendo o pregador”. são. Na revista n º 8 . onde se vê uma senhora. inteligente e duma chispa de audácia e altivez no olhar”. cria afinidades e produz sentimentos de identificação com as 467 pessoas e eventos retratados. o Sigma pintado no topo da parede e dois militantes uniformizados do seu lado. de todas as classes sociais”. Concluindo o relato. Enquanto conversavam. muitas virtudes e inteligência fizera o milagre”. O rapaz diz a Mourão que é o único integralista da localidade e que se achava “senhor de muito poucas letras” para fundar um núcleo local.

pensam muitos outros: não julgam capazes de serem boas esposas e mães de família as moças que freqüentam os bailes de 468 hoje”. p. sendo a conduta da mulher novamente delimitada. em uma cerimônia cheia de símbolos integralistas. jul/1936. distribuindo mantimentos e roupas. da integralista Nair Nilza Perez. Ele diz a mãe que a moça não deve gostar de ir a bailes. voltados para as leitoras. onde um “militar graduado” pede a sua mãe que o ajude a encontrar uma noiva. sem autoria. no Natal. Nos textos desta militante universitária. Ela aparecia em concentrações. Nair Nilza. posando com suas companheiras do Departamento Feminino em frente ao seu núcleo. Os textos e artigos escritos sobre as mulheres eram de autoria de dirigentes. a militante integralista também é evidenciada. Em seus argumentos o Integralismo quer “a mulher superior (em relação à mulher comunista e liberal norte-americana). ano II.11. a partir de 1936. sem autoria. com crianças e homens a sua volta. “O integralismo e a mulher”. Pode-se supor que estes textos. “Decálogo da boa esposa”. ago/1935. homens e mulheres. uniformizada.221 onde o caboclo é citado como uma pessoa simples. na maioria das vezes ligados à fotografias. lutando na vida prática ao lado dos homens com estímulo e alegria. Na Anauê! 469 de n º 3 .22. No diálogo entre foto e texto. por exemplo. ou casando com algum militante. está próxima ao texto. que vai se identificar com eles e se interessar em participar do movimento. n. Anauê!.4. ilustrando o espírito. Sua conduta é delineada através destas imagens e também de pequenos textos. 470 PEREZ. na Escola integralista junto aos seus alunos. do núcleo de Joinville. são direcionados a um público específico. n. como também.11. n. a fotografia do casamento de Nayr Ferreira e Theodoro G. jul/1936. . ela tenta convencer que o Integralismo não irá privar a mulher “de todos os seus direitos públicos e políticos” e ela 470 não ficará “tolhida no seu anseio de liberdade” . algo presente a todo o momento na revista. como um. 3. ano II.8. p. 469 Anauê!. O texto termina com a afirmação “Como este oficial. com suas companheiras. p. que aparece no n º 11 da revista. cursando as Faculdades. mas detentora de grande sabedoria. A militante integralista também era alvo fundamental da propaganda integralista nas páginas desta revista. Renneberg. Neste pode ser percebido o intuito de construir a imagem da esposa submissa e propriedade do marido. e não se esquecendo nunca de sua condição de 468 Anauê!. ano I.

no Rio de Janeiro. 474 Sobre o Fotoclube Brasileiro ver: MAUAD. como a obtenção de empregos antes restritos aos homens e o direito ao voto. 2001. colocando-a no mesmo plano intelectual dos homens e fazendo dela deputada. Nair tenta atrair não só as donas de casa. lutavam por seus direitos políticos. É interessante notar que a produção fotográfica neste momento. quando na leitura de um trecho do apelo da revista. Unicamp. Aqueles que tivessem recursos financeiros suficientes podiam comprar sua máquina.. A condição da mulher evoluiu graças à “revolução espiritual” realizada pelo cristianismo e não pelas “lutas femininas por igualdade de direitos”. n. pp. fez a A. fotógrafos e Secretários de Propaganda. Creio que a aquisição de algumas liberdades pelas mulheres neste momento. set /1936. jurista. 1990. Percebe-se também na revista ilustrada “Anauê!” o uso da fotografia para construção da memória e da identidade integralistas. in: Anauê!. Modernizando o casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). p. 471 escritora. adaptar seu discurso repressor e formular uma argumentação. e se identificavam com seu discurso imbuído de argumentos anti-feministas. Nair N. da mesma forma que o restante da intelectualidade brasileira conservadora da época. as fotografias. era tarefa. Ana Maria. p. fundado em 1923. mas também as mulheres que queriam ou precisavam trabalhar. na primeira metade do século XX.“A civilização e a Mulher”. ao contrário dos escritos dos integralistas mais conservadores. Sob o signo da imagem. Dissertação de Mestrado em História. esposa. ano II. A produção fotográfica e o controle dos códigos de representação social da Classe Dominante. “o desenvolvimento da civilização (cristã) libertou a mulher dos preconceitos. de outubro de 1935. jul/1936.13. Em seu texto. Rio de Janeiro. que virá de encontro aos desejos do Chefe Nacional.222 mãe. mas também de fotógrafos amadores entre os militantes. filha”. n° 12. que atraísse a mulher brasileira . médica”. tanto textual 472 quanto imagética.B. Tese de Doutorado defendida na UFF. no Rio de Janeiro . aos seus militantes. . 34. e até fazer os cursos para fotógrafos iniciantes oferecidos 474 pelo Fotoclube Brasileiro. A produção destes suportes materiais de memória. Cleusa Gomes. não é mais monopólio de alguns fotógrafos profissionais. que insiste em que “Anauê!” seja um museu portátil do 473 Integralismo”. não só de fotógrafos contratados pela revista. 472 Sobre o discurso conservador sobre a mulher nesta época ver: SILVA. A partir de então.I. ano II.11. 473Anauê!.31-32. anti-comunistas e cristãos. nota-se que eles são convidados “a enviar a esta redação a sua colaboração fotográfica. A 471 PEREZ.

476 Ver: MAUAD. a sua forma de expressão fotográfica. categoria que compreende um estudo das escolhas do fotógrafo. na década de 1930 e apreendida dos seus Núcleos e Jornais no Rio de Janeiro pela Delegacia Especial de Segurança Política e Social (D. fundo DESPS. APERJ. direita e centro) da foto e objeto central.P. .223 A. A análise de alguns aspectos do conteúdo fotográfico desta série permite também problematizar a representação de feminino produzida pelo Integralismo e sua conduta sendo delineada através da fotografia O método de análise do conteúdo e das técnicas fotográficas neste trabalho se baseia no método histórico-semiótico. e finalmente. direção (esquerda. criado pela professora Ana Maria Mauad da Universidade Federal Fluminense. que abrange a lógica existente na representação dos objetos e sua relação com a experiência vivida pelas integralistas. que compreende as pessoas retratadas. abriga em si uma forma de expressão e uma forma de conteúdo.E.S.B. o espaço da vivência. já digitalizado. da Série Integralismo. que compreende o espaço físico representado na foto e sua relação com as “camisas verdes”. pp. op. analisada aqui. vivências e eventos femininos que se tornaram objeto do ato fotográfico. No plano de conteúdo. A fotografia. além de uma reflexão sobre o ofício do fotógrafo na década de 30 no Brasil. Visualizando a militante integralista: análise da técnica e conteúdo fotográficos A série fotográfica. mas são entendidos como inter476 relacionados 475 475 Estas fotografias fazem parte de um conjunto. No plano de expressão.). Estes planos serão analisados separadamente. 93-96. cit. Estão incluídos aí os itens: sentido (horizontal e vertical). por volta de 82 fotografias .B. foi produzida pela A. o espaço do objeto. analiso o espaço fotográfico.I. o espaço da figuração. a relação entre os gêneros e as hierarquias presentes. após a implantação do Estado Novo e colocação do partido na ilegalidade em dezembro de 1937. que abrange as atividades. através da atribuição de “tarefas fotográficas” aos seus militantes procurou transmitir a impressão de que estava aberta a todos a construção da memória e identidade do movimento.S. analiso os seguintes espaços: espaço geográfico. O eixo da análise é a codificação da noção de espaço. da mesma forma que outros sistemas de signos.I.

ou dos fotógrafos. como na relação entre os grupos sociais e o Estado. a extensa legislação chamada de Protocolos e Rituais. e o equipamento fotográfico utilizado. pois todos ali são companheiros.B . Deve haver uma alegria sã. Zahar. onde se tomavam as grandes decisões do movimento.I. o aplicarei.224 A seguir. suponho que se usou uma máquina leve e com alto nível de definição da imagem em variadas condições luminosas. o Rio de Janeiro. direção central e o objeto central é a figuração coletiva. p. A mensagem transmitida por essas escolhas espaciais enfatiza significados de aglutinação. devido à presença de fotografias com a movimentação dos seus atores e em alguns momentos fora do espaço privado. 1988. comunicativa. suponho que ocorreu um deslocamento do espaço privado de controle do feminino. Embora não identificados a identidade do fotógrafo. o integralista era informado que neste espaço “não se discute política. verifiquei que o espaço geográfico predominante é o urbano. o enquadramento predominante da mulher no corpus fotográfico é: sentido horizontal. As mulheres estavam presentes nestes momentos. Totalitarismo e Revolução. ARAÚJO. O Núcleo integralista era o espaço por excelência da normatização e do controle do militante. Embora elas não estivessem no espaço privado. de união e confluência de interesses entre homens e mulheres. participando ativamente como colaboradoras do movimento. Identifiquei alguns aspectos do plano de expressão das fotos: o tipo de foto que predomina é a fotografia posada. nem se fala mal de ninguém. de retratar pessoas. Em uma das leituras obrigatórias de todo integralista. de forma simplificada. tanto no interior da sociedade. a visão de mundo integralista tem o caráter totalitário. . pugnas de futebol. ricos e 477 Como aponta Ricardo Benzaquen477. contrariando o discurso de alguns integralistas mais conservadores. e de quem encomendou a foto. Ricardo Benzaquén de. do lar para o núcleo integralista (na maioria do conjunto fotográfico elas aparecem em núcleos ou espaços integralistas fechados e observada pelos integralistas homens). 21. objetos e lugares de seu controle e escolha. estando esta análise sujeita a revisões ao longo do processo de pesquisa. religião. de coletividade. RJ. que estão 477 estreitamente relacionados com o caráter totalitário da A. sem divisões. na medida em que persegue um ideal de sociedade uniforme. No plano de conteúdo do conjunto das fotos. a fim de expor algumas impressões sobre o conteúdo das fotos. tendo como valor básico a participação obrigatória e generalizada de todos e buscando a eliminação total de todas as diferenças. mostrando a intencionalidade do fotógrafo. O Integralismo de Plínio Salgado.

Tais objetos garantem a manutenção da identidade da integralista. posam para o fotógrafo. a bandeira nacional. Endrika. p. a fronte erguida. além de divulgar os ideais de nacionalismo e de respeito e obediência ao Chefe Nacional.I. exposta abaixo.. que estão imbuídos de uma gama de simbologia e ritualística: uniformes. miniaturas do cristo crucificado. poderosos e humildes. capítulo VIII. Edição do Núcleo Municipal de Niterói. 2001. pintadas na parede ou em cartazes.98. vemos meninas levando bicicletas no último desfile do movimento. ela dará o primeiro passo e marchará”. Rio de Janeiro. Unicamp.B. indica também a representação homogênea e única das militantes. a foto de Plínio Salgado. em 1937. as bandeiras nacional e integralista e no centro delas a foto do Chefe Nacional. Um exemplo do que está sendo afirmado aqui é a fotografia I0137.225 pobres. e ali estão unidos pelo bem do 478 Brasil”. A sua presença. Na parede da direita está pintado o texto: “Nós despertaremos a Pátria. No espaço do objeto estão à sua volta objetos do cotidiano integralista. em uma data não identificada da década de 1930. assim como uma padronização da postura. Rio de Janeiro. 1937. . somente existe a militante integralista. Dissertação (Mestrado em História). 478 Protocolos e Rituais. não há indícios de individualismo. de acordo com seu gênero. As militantes uniformizadas. artigo 89. e a presença da Educação Física na A. tirada no Núcleo da Gamboa. frases. símbolos integralistas como o Sigma e a bandeira integralista. Nós a ergueremos. que segundo Geraldo era utilizada pelo movimento como instrumento de 479 militarização. A raça e a nação: a família como alvo dos projetos integralistas de nação brasileira nas décadas de 20 e 30. 479 GERALDO. promovendo disciplina e hierarquia . recomendadas pelo Protocolos e Rituais que estivessem nos Núcleos integralistas. Em outra foto (I0139) abaixo. com a mesma postura e posição. De pé. Ao fundo.

ser . notei que a mulher. Estas representações indicam as associações feitas pelo integralismo com a figura feminina: exercer seu papel “natural” de maternidade.226 Foto I0137 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Foto I0139 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Analisando o espaço da figuração. na maioria das fotos vem acompanhada da presença masculina e infantil.

F. finalmente..aponta para a representação da mulhersoldado integralista. com algumas exceções. até 15 anos de idade. Sendo assim. além de uma linguagem bélica no seu discurso. A postura ereta e rígida .P. vol.I.a mulher está com o semblante sério e de braços cruzados em praticamente todas as fotos coletivas. em toda a série fotográfica selecionada. apontam para a intenção de militarizar corporal e psicologicamente seus integrantes. tendo cada um deles uma chefia.N. Campinas. através da escola ativa. In: Enciclopédia do Integralismo.B.N. essa militarização do corpo. p. esse aprimoramento físico. comício pró-candidatura de Plínio 480 480 Como afirmamos anteriormente.. 1986. desfiles públicos. congressos femininos. Municipal e Distrital. todos os brasileiros. estão relacionadas à A. e educar. é flagrante.F. 482 A S. o olhar fotográfico contemplou atos oficiais . Nas fotografias onde estão presentes crianças e adolescentes. 9. a mesma representação feminina disciplinada e obediente. a conduta feminina no discurso integralista é delimitada utilizando argumentos dos discursos médicos eugênicos. 481 Sobre este discurso de militarização corporal dos brasileiros ver: LENHARO. defendido pelos intelectuais integralistas. cívico. Não há fotos de vivências femininas que não sejam aquelas no âmbito da convivência com seus companheiros integralistas. .reuniões da Secretaria de 482 Arregimentação Feminina e Plinianos . 2 ed.227 “colaboradora” e dependente do homem . disciplinar. E. também é vista a mesma postura e gesto. intelectual e físico”.A. o que mostra a intenção em retratar que as mulheres desde muito cedo se tornam “soldados do integralismo”. solenidades nos Núcleos Municipais. Idéias eugênicas e fascistas de melhoria da raça pela sua disciplinarização e “docilização” através do esporte e de defesa de uma militarização corporal e psicológica dos brasileiros – tornando-os “soldados da pátria” -. O Departamento Feminino tinha por objetivos “arregimentar. sendo que cada um destes subdividia-se nos Departamentos Nacional. cit.P era composta pelos Departamentos Feminino e de Plinianos. de uniformes no cotidiano de militantes e dirigentes. SP: Papirus. onde o público feminino e as dirigentes são o principal foco. perpassam o discurso da intelectualidade brasileira na década de 481 1930 . Os integralistas se inserem nessa discussão e a presença de milícias organizadas no movimento. Alcir.A. no espaço da vivência observei que as atividades e vivências femininas retratadas pelo fotógrafo. Provincial. Regulamento da S. de modo a realizar o seu aperfeiçoamento moral. Sacralização da política. de ambos os sexos. Na fotografia onde mulheres integralistas são retratadas. op. onde elas esboçam um sorriso . orientar e controlar as atividades femininas no Movimento” e o Departamento dos Plinianos “reunir.168.

I. o outro masculino. juravam fidelidade ao Chefe Nacional e ao Integralismo. Batizado de plinianos. “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. em 1933.. neste trabalho. Contudo. Lisboa: Relógio D’água Ed. virados em direção ao nascer do sol.113 a 115. Não há uma só atividade entre estas citadas acima que não esteja imersa em rituais ou simbologias ligadas à A. visita aos militantes nas suas Universidades. e no comício da candidatura de Plínio Salgado. 484 CAVALARI. Cavalari aponta que o Integralismo distribuiu milhares de panfletos no Brasil inteiro incentivando o voto feminino e que ele queria conquistar 484 este voto para chegar à presidência. e não através da discussão ou da liberdade de expressão.62. o exercício da política pela mulher é visualizado na fotografia de forma estritamente ligada aos interesses do movimento. concentrações. Técnica. Além disso. Um aspecto nos atos oficiais me chamou atenção. 1992. gostaria de esclarecer que não é meu objetivo vitimizar a mulher integralista ou localizar a fonte da dominação num ponto fixo.228 Salgado. Sobre esse modo de se fazer e exercer a política concordo com Walter Benjamin ao afirmar que “o fascismo tende naturalmente a uma estetização da vida 485 política”. mas sim analisar e problematizar o discurso imagético produzido pela Ação 483 Solenidade criada para homenagear o primeiro desfile integralista.B. como se fossem cerimônias católicas. Considerações finais Para Concluir esta exposição. p.B. Linguagem e Política. 485 BENJAMIN. em rituais. Sobre Arte. Isto fica claro ao notar que não há fotos de mulheres em comício de outros candidatos ou votando em outros candidatos. p. onde os militantes no dia 23 de abril. provavelmente para escolha de dirigentes. é incentivada pelo movimento (a ponto de uma integralista discursar em apoio a Plínio Salgado no comício de sua candidatura). cit. festas dos plinianos.. retratada em votações. . op. entendia o exercício da política pelos seus militantes muito mais pela sua participação em desfiles. mesmo sendo óbvio que as militantes iriam votar em Plínio conscientes e orgulhosas de seu ato.I. sessões de entrega de diplomas às militantes que fizeram cursos oferecidos pelo Integralismo e o evento integralista denominado 483 “Matinas de Abril” – e atos cotidianos do movimento – Casamento de militantes. Walter. a A. A participação política feminina. em São Paulo. entrega de mantimentos às famílias carentes e momentos de descontração com os militantes..

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Integralista Brasileira e as formas que este era divulgado e imbuído de um caráter verídico. Por meio de um exercício de intertextualidade, meu propósito é mostrar que a fotografia, pensada como expressão de relações sociais e significados culturais, foi utilizada pelo movimento como forma de poder, ao usá-la para propaganda política e construção de sua memória. Deixando claro, o desejo de abandonar um viés explicativo do uso desta imagem para “manipular” mentes inocentes ou vítimas do processo. Identificando aspectos da forma integralista de ver o feminino e o mundo, tais como a militarização, a determinação biológica, o catolicismo, além dos usos e funções que a fotografia teve para o movimento, adquire sentido a representação da mulher-soldado integralista, com seu corpo militarizado, obediente e disciplinada, se comportando, politicamente e socialmente, da forma que ele quer. Embora a pesquisa aos periódicos integralistas e não integralistas favoráveis ao movimento, além da busca às informações sobre os fotógrafos que produziam as fotos integralistas, ainda estejam inconclusas, vislumbrei com as fontes que possuo a delimitação da conduta feminina, alvo da propaganda do movimento através da fotografia, e a naturalização das relações e diferenças entre os gêneros. Este Discurso imagético determina a conduta ideal pela presença de representações pautadas na ideologia integralista e censura a conduta, chamada pelos militantes de “vergonhosa”, pela ausência de representações pautadas na liberdade feminina.

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12. 1955: A CAMPANHA DE PLÍNIO SALGADO À PRESIDÊNCIA

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Gilberto Grassi Calil

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O movimento integralista é quase sempre lembrado por sua trajetória nos anos 30, quando constituiu uma organização de massas com projeto fascista e forte mobilização de setores médios. Um dos poucos eventos lembrados da trajetória integralista posterior ao Estado Novo é a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República, em 1955, quando obteve expressiva votação. A apresentação da candidatura do “Chefe Integralista”, no entanto, não foi um fato isolado e eventual mas, ao contrário, pode ser melhor compreendido se analisado no contexto da trajetória do integralismo durante o chamado
486 Este artigo é parte do sexto capítulo da tese de doutorado O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965), defendido em fevereiro de 2005 na Universidade Federal Fluminense, sob orientação da Profa. Dra. Virgínia Fontes. 487 Professor adjunto do Colegiado de História e do Programa de PósGraduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná; Doutor em História Social (UFF).

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período democrático (1945-1964), particularmente através do Partido de Representação Popular. Este artigo tem como objetivo discutir a importância desta candidatura neste contexto, situando-a em uma fase específica da trajetória do integralista no pós-guerra, iniciada em 1952, a qual denominamos de “independência partidária”, em oposição ao período anterior (1945-1951), cuja ênfase principal da estratégia integralista era a realização sistemática de alianças com os mais diversos partidos políticos, visando a obtenção do reconhecimento do alegado “caráter democrático” do integralismo, a consolidação de seu registro partidário e o acesso a postos governamentais e 488 parlamentares, no âmbito dos estados e municípios.

A política de independência partidária No início da década de 1950, o processo de institucionalização do integralismo estava bastante avançado, com a consolidação do PRP como instrumento fundamental de sua intervenção política. Naquele momento, no entanto, uma expressiva parcela da militância integralista mostrava-se descontente ou desanimada com aquilo que percebia como uma “acomodação” do movimento, manifestando seu desejo de uma retomada da ofensiva política por parte do integralismo. As reações de descontentamento frente à nova estratégia assumida pelo integralismo no pós-guerra ocorreram desde os primeiros movimentos de articulação partidária, em 1945, mas intensificaram-se em conseqüência dos resultados modestos obtidos pelo PRP nas eleições de 1950. Em resposta a este descontentamento e à tendência à estagnação do PRP, entre 1952 e 1957 a direção integralista tomou um conjunto de iniciativas visando dinamizar o movimento, dotá-lo de novas estruturas e colocá-lo politicamente na ofensiva. A primeira destas iniciativas foi a “independência partidária”, que tinha como objetivo o lançamento de candidaturas próprias pelo PRP e o reforço de sua identidade integralista. O principal desdobramento desta política foi a candidatura presidencial de Plínio Salgado, em 1955, que teve grande impacto no interior do integralismo e colocou-o no centro do embate político nacional.

488 Ver a respeito 1945-1952: Afirmação Institucional e aliança com o pólo conservador. In: CALIL, Gilberto. O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965). Tese de Doutorado. Niterói: UFF, 2005, p. 379-437.

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A proposta de adoção de uma “política de independência partidária” surgiu de um grupo de integralistas do Rio Grande do Sul, descontentes com o acordo que o PRP estabeleceu com o PTB nas eleições municipais em 1951 e com a fracassada tentativa de obter cargos no governo estadual petebista. Como afirma a historiadora Claudira Cardoso, “como resultado de todo esse processo, percebemos que a direção do PRP sofreu um certo desgaste, na medida em que os acordos firmados com outras agremiações não 489 trouxeram concretamente os resultados esperados”. Em depoimento oral, Alberto Hoffmann, dirigente do PRP na época, também explica a “independência partidária” como decorrência dos insucessos do partido nas coligações até então, relatando que: “o pessoal estava desiludido 490 de coligações”. Em setembro daquele ano, Salgado recebeu “uma moção da concentração regional de Novo Hamburgo, aprovada também pelas de Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Ijuí, Caxias do Sul, Passo Fundo e Bagé, pela qual os populistas gaúchos desejam fazer uma política independente, sem quaisquer acordos com outros partidos políticos, nem mesmo quando houver nestes acordos relação com os interesses 491 nacionais do PRP”. Em 1953, o descontentamento com a política de alianças do PRP no Rio Grande do Sul levou à construção de uma candidatura própria ao governo estadual nas eleições do ano seguinte. A defesa da “independência partidária” foi levada à Convenção Nacional do PRP pela bancada do Rio Grande do Sul, propondo que o PRP deveria “disputar sempre que possível com candidato próprio a governança estadual” e, “em caso de não ser absolutamente possível a candidatura própria ao cargo acima e aconselhável o apoio a outro candidato, fazê-lo com a mais completa independência, não solicitando e nem acordando a cessão de cargo algum”. Além disso, solicitava “que determine o Diretório Nacional estudar a viabilidade do candidato próprio à presidência da República, como expressão de independência
489 CARDOSO, Claudira. Partido de Representação Popular: política de alianças e participação nos governos estaduais do Rio Grande do Sul de 1958 e 1962. Dissertação (Mestrado em História). Porto Alegre: PUCRS, 1999, p. 26-27. 490 CALIL, Gilberto Grassi & SILVA, Carla Luciana. Depoimento de Alberto Hoffmann. Porto Alegre: CDAIBPRP, 2003, p. 34. 491 Correspondência do Presidente Nacional do PRP Plínio Salgado ao Vice Presidente em Exercício do PRP-RS, Guido Mondin, 1.9.1952 (CDAIBPRP). Os acervos consultados serão referidos pelas siglas: CDAIBPR (Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Representação Popular, em Porto Alegre) e APHRC (Arquivo Público e Histórico de Rio Claro).

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partidária”. Embora aquela Convenção não tenha aprovado uma política nacional de “independência partidária”, definiu “que o Rio Grande do Sul iria com chapa própria, tanto para deputados estaduais, como federais, senador e governador de Estado, devendo nas demais unidades da Federação o partido tomar as deliberações que fossem 493 mais convenientes”. Em março de 1954, a VIII Convenção Regional do PRP gaúcho aprovou, por 23 votos a 16, proposição que estabelecia que “O PRP não fará coligações, alianças ou acordos 494 bilaterais com nenhum partido”. Ainda naquele ano, a IX Convenção Regional do partido aprovou uma proposição que reivindicava o aprofundamento da linha de “independência partidária”, solicitando “que a convenção se dirija ao Diretório Nacional, propondo a independência partidária em todo o território nacional, e que em 1955 o PRP concorra com candidato 495 próprio à Presidência da República”. O manifesto de lançamento da candidatura própria, de Wolfram Metzler, afirmava que “depois de termos, sinceramente, tentado colaborar com outras entidades partidárias”, o PRP decidira “total desligamento de todo este passado político caracterizado pelo despistamento, pelo não cumprimento da palavra empenhada, pela pasmaceira administrativa, pela falta de planejamento e de realizações 496 concretas e definitivas”. O relativo êxito da campanha de Metzler, obtendo 8,4% dos votos e aumentando as bancadas estadual e federal de deputados, estimulou a militância dos outros estados a mobilizar-se pela candidatura própria à presidência. Ainda no início de 1954, o jornal Diário de Notícias relatou esta mobilização, apresentando-na como reação ao esvaziamento do partido: A maioria dos elementos do PRP com assento nos diversos legislativos foram eleitos em coligação de legenda, principalmente com a UDN. Depois de eleitos, por força de atração, foram sendo assimilados pelos partidos. É o caso nítido do deputado Raymundo
492 Ata da XI Convenção Nacional, 11.12.1953 – Livro de Atas da Fundação e das Convenções Nacionais do PRP (APHRC - Fundo Plínio Salgado 023.004.004). 493 Convenção Nacional do PRP. A Marcha, Rio de Janeiro, 18.12.1953, p. 9. 494 Ata da VIII Convenção Regional do PRP-RS, 21.3.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 495 Ata da IX Convenção Regional do PRP-RS, 25.7.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 496 Ao povo do Rio Grande do Sul: Lançamos Wolfram Metzler porque não queremos que o Rio Grande continue se empobrecendo, espoliado por falsa política (Panfleto) (CDAIBPRP).
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. querem burlar essa 498 mesma Constituição. fascista ou soviético).. No entanto. Plínio Salgado a tomar uma atitude heróica.. de unhas e dentes. É de pasmar que esses homens que sustentam. agora às vésperas 497 das eleições. na prática.12.1954. sejam eles quem.) são os primeiros a pretender em nosso país. após o suicídio de Getúlio Vargas e no contexto conservador do governo Café Filho. Naquele momento. de modo a salvar o partido. 498 Adhemar de Barros acredita na democracia. 2. Rio de Janeiro. cujo objetivo era a imposição de uma “união nacional” visando o lançamento de uma “candidatura única” nas eleições presidenciais. constituiu-se um forte movimento. que não pode subsistir sem 497 Vai voltar à atividade política a Ação Integralista Brasileira. de Juscelino Kubitschek. O mesmo aconteceu com o deputado Jorge Lacerda. a Direção Nacional do partido já discutia o lançamento da candidatura de Plínio Salgado. Naquele momento. Porto Alegre. para isto. logicamente. de acordo com Salgado. a opção pelo lançamento da candidatura de Salgado já havia sido tomada. das proposições contrárias ao pluripartidarismo. A Marcha. O movimento pela “candidatura única”. 1. sob alegação de que fariam o país retornar à instabilidade política e social do governo Vargas. de Santa Catarina. É muito hipócrita.. Diário de Notícias. especialmente. a morte da Democracia. pois outra coisa não seria o conglomerado dos partidos em torno de um único nome. propagada por setores conservadores. era necessário combater a proposta de uma “candidatura única”. os ortodoxos do partido resolveram forçar o sr..2. e diante de tais evidências. 21. o que levou os integralistas a ironizar a proposta de “união nacional”: Os que se arrogam defensores da Democracia em nosso país (. o que pode determinar a morte dos partidos e. Nessas condições.1954 (CDAIBPRP). É muito farisaísmo. também considerado hoje em dia mais udenista do que do PRP. seria responsável pelo “enfraquecimento da consciência da diferenciação partidária. capitaneado pela UDN. nem mais nem menos do que um “partido único” (tipo nazista. o dispositivo da Constituição que proíbe até mesmo a inscrição nos programas de partido.234 Padilha. O PRP contra a União Nacional No final de 1954. Este movimento opunha-se às prováveis candidaturas de Adhemar de Barros e. p.

Quer dizer. Rio de Janeiro. homens de outros partidos. Nesse sentido. 500 Entrevista de Plínio Salgado.(abril 1955)– Original datilografado (APHRC .1955. Etelvino Lins. 499 499 SALGADO. o motivo do 500 desencanto do eleitorado brasileiro pelos partidos”. Plínio. p. naquele momento duramente criticada por A Marcha e considerada como uma farsa e uma ameaça à democracia: O ponto básico das “demarches” fixa-se na retirada de todos os nomes atualmente em foco como candidatos. 14.. 14. 501 SALGADO.1955.6. A Marcha.010). Se concretizado esse desejo dos golpistas teremos em breve tempo as botas de um militar a governar esse país discricionariamente. em última análise. A Marcha.) Pretendem. 10. sondagens e consultas vem sendo feitas. um partido único. Palavras a uma democracia suicida. 3. pretende-se. Plínio. a imiscuir-se na vida íntima de um partido que não é o seu. Para Salgado. 502 Pretendem os golpistas a retirada de todas as candidaturas para surgir um ditador: envolvidos na trama os srs. em vez de se apresentarem candidatos ou candidato em contraposição ao do PSD./d.004. ainda permanecia a articulação dos setores mais conservadores em defesa da “candidatura única”. p. o lançamento da candidatura Kubitschek pelo PSD era legítimo e deveria ser respeitado pelos demais partidos: Quando um partido. . cujo termo expressivo é o ‘cambalacho’ e cuja concretização se chama ‘barganha’. Palavras a uma democracia suicida. nomeando um Presidente da República. s.1. Rio de Janeiro. 1 e 4.Fundo Plínio Salgado 011. lança o seu candidato.1. a conclamar céus e terras para que se retire essa candidatura a fim de que surja outra que possa congregar todos os partidos em torno dela. O povo brasileiro não suportará este esbulho e saberá reagir a essa nova forma de 502 subversão.. p. assim. Mas isso não é democracia e muito 501 menos democracia do tipo liberal. pois “é justamente este artifício. (.235 partidos”. Rio de Janeiro. como no caso do PSD. começam a falar em “salvação nacional”. Em meados de junho de 1955. A Marcha. que não corresponderá aos anseios dos brasileiros. os dutristas e os dorminhocos da “eterna vigilância”. 3. impor ao povo mais essa farsa.1955.

ainda. Embora não tenhamos encontrado nenhuma prova deste acordo na documentação integralista. no final de março de 1955. hora e local para um breve entendimento”. a eleição de Kubitschek por uma margem de votos muito inferior à votação recebida por Salgado confere plausibilidade a esta tese. fiz um apelo a Plínio Salgado para apresentar e manter sua candidatura. menos evidente: os entendimentos secretos entre Salgado e Juscelino Kubitschek. O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. solicitando também da Presidência dia. Presidente [Salgado] a 503 Entrevista Particular com o Ex-Presidente Juscelino Kubitschek. Maria Vitória. . Grifo meu. convencendo-o de que sua candidatura fortaleceria a posição democrática no Brasil. cabe observar que alguns indícios reforçam a hipótese. os defensores da candidatura Juarez Távora sustentaram que a candidatura de Salgado visava apenas tirar dividir os votos conservadores de forma a facilitar a eleição de Kubitschek. O acordo entre Plínio Salgado e Juscelino Kubitschek Durante toda a campanha eleitoral. o Diretório Nacional do PRP “autorizou o sr. era lógica se considerarmos a perspectiva de lançamento da candidatura presidencial de Plínio Salgado. era condicionada também por outro elemento. esta declaração também desmente a afirmação de Salgado. Além de contrariar a versão sustentada pelo PRP. a existência de um acordo secreto por meio do qual Kubitschek financiaria a candidatura de Salgado. quando o PSD comunicou oficialmente da escolha do nome de Kubitschek como candidato a presidência e dirigiu ao PRP “um convite para um pronunciamento a respeito. In: BENEVIDES. Rio de Janeiro: Paz e Terra. Não se poderia mais impor a tese da candidatura única – agora já 503 seriam dois candidatos. Kubitschek admitiu explicitamente as conversações: Como meus opositores martelavam muito na tecla do candidato único. Na argumentação udenista sugeriase.236 A veemente crítica dos integralistas à proposta de uma “candidatura única”. De fato. destacando-se a posterior participação do PRP no governo Kubitschek. Ainda em dezembro de 1954. Mas além disso. p. Em entrevista concedida quase duas décadas depois. 1956-1961. 293. 1976. de que não conhecia pessoalmente Kubitschek.

veementemente repelidas pelos integralistas.55/16)..1950 (APHRC-Pprp 12. Em 1932 alugou-se ao Fascismo. 506 Em maio de 1950. embora naquele momento tenha descartado esta possibilidade. Telegrama de José Sales a Plínio Salgado. Eis o seu 505 retrato fiel: ALUGA-SE.001.004). Já à vésperas da eleição de 1950. meados de 1954. no mínimo. recebeu do Diretório Municipal de Garanhuns a seguinte mensagem: “Populistas Garanhuns apóiam entusiasticamente sugestão convencionais Varginha apresentação candidatura nosso presidente Plínio Salgado sucessão presidencial pelo bem do Brasil”.10. Estranhamente. Objetivamente pode-se afirmar que a candidatura de Salgado beneficiou Kubitschek. 3. retirando de Távora um contingente de votos que lhe daria a vitória. O lançamento da candidatura de Salgado A definição de Salgado pelo lançamento de sua candidatura ocorreu bem antes da Convenção que a aprovou.1954 – Livro de Atas do Diretório Nacional e do Conselho Nacional do PRP (APHRC-Pprp 021. A primeira manifestação pública indicando seu lançamento teria ocorrido em julho de 1953.12. Não existem elementos que permitam confirmar a veracidade destas denúncias.) você se alugou por 10 milhões de cruzeiros ao Juscelino. .. Sua decisão estava tomada desde.5.05. que disse: “Plínio é um homem que traz escrito na testa Aluga-se”. 505 Correspondência de Florival Rosa a Plínio Salgado. em março de 1955. 12. que possivelmente ocorreu secretamente. Uma carta recebida por Salgado depois da eleição mencionava um suborno que teria sido pago por Kubitschek para que ele mantivesse sua candidatura: Quem tem razão é o Joel Silveira. em 1937 alugou-se a Getúlio Vargas e agora em 1955 (. não há nenhum registro posterior nas atas do Diretório Nacional acerca deste encontro. durante uma concentração 504 Ata do Diretório Nacional. que viu em sua candidatura o único meio de derrotar Juarez Távora. Salgado recebera telegramas propondo 506 sua candidatura.237 entrar em entendimento e responder à consulta logo que julgar 504 conveniente”. 14. em pelo menos dois aspectos: a desmoralização da tese da “candidatura única” e a divisão do eleitorado conservador. mas é possível que a opção tivesse sido feita ainda bem antes. por exemplo.10.50/1).1955 (APHRCPprp 14.

1956. em que o PRP irá com chapa própria. pois. operarem em qualquer partido. 8.12. daqui a 5 meses precisamente. até ao dia em que um grande motivo chame todos a se unirem. No entanto. 17. faculdades de direito. . em chapa própria e em coligações no estado de Minas Gerais. o dever de dar essa oportunidade a todos os brasileiros e tal oportunidade é a 507 507 Cf. academias de letras.1954 (APHRC .6. A Marcha. p. e 028. As desculpas dadas por muitos antigos integralistas e por muitos brasileiros que simpatizam com as idéias integralistas é a de que o PRP é um partido igual aos outros. que seria lançada possivelmente pelo estado de 510 Minas Gerais. De acordo com A Marcha. A popularidade de Plínio Salgado. entre 1952 e 1955”. com Plínio Salgado como candidato a deputado federal. como paraninfo de turmas universitárias. “entre 1953 e fins de 1954. 509 Abaixo-assinados (APHRC . Essa resolução é inabalável. na documentação pessoal de Salgado. Salgado comunicava oficialmente que pretendia lançar sua candidatura: Em 25 de dezembro deste ano. ao retirar sua candidatura a deputado federal. sociedades de agricultores. tem crescido muito lentamente.008). prefeituras e câmaras municipais. 028. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira.Fundo Plínio Salgado 017. podendo portanto todos os que vêem no integralismo a salvação nacional. 7. principiando com 90. SALGADO.238 de Diretórios Municipais do PRP do Vale do Paraíba Visando aumentar suas possibilidades eleitorais. Rio de Janeiro. 510 Foram feitas diversas estimativas e projeções sobre as possibilidades eleitorais do partido em 1954. em palestras em diversos tipos de entidades.007. mas todas apontavam possibilidades de que o contingente de votos ficasse abaixo do que seria aceitável para o “Chefe Nacional”. grupos religiosos. Salgado teria feito conferências em “mais de duas centenas de cidades do Brasil. p. sindicatos.006. 1. deverei lançar a campanha presidencial. Temos um compromisso de honra com os que morreram por nossa idéia e com milhares de brasileiros que acreditam em nós e esperam algo de nós no atual momento. O PRP. Temos.001). associações femininas. recebendo um número crescente de telegramas de 508 apoio. universidades. atingindo 146 mil em 1947 e 252 mil em 1950. como partido. 508 Ibid. “elevando-se a milhares em princípios de 1954”.Fundo Plínio Salgado 028.1954. p. concentrações marianas. centros operários. porque chegamos a um ponto tal que temos de dar uma satisfação definitiva à Nação. Em julho de 1954. Livro Verde de minha campanha. encontramos alguns poucos telegramas e algumas dezenas de abaixo assinados. Comportamento Eleitoral. desmentindo os 509 números apresentados. de ensino técnico e normal. Plínio. Plínio Salgado falou em 185 cidades brasileiras”.001. 9.000 votos em 1945.

513 Indicado Plínio Salgado pela convenção paulista do PRP.1954. De modo geral. (junho 1954) (APHRC . realizou-se nesta Capital uma reunião de presidentes de Diretórios Regionais do Partido de Representação Popular. substancial. é udenista em Minas. a qual decidiu que também “nas próximas eleições municipais. Ora. O PRP só pode e deverá ser PRP e para tal vamos pleitear que a Convenção 511 Comunicado de Plínio Salgado ao Diretório Nacional.Fundo Plínio Salgado 019.1954. 29. Para o dirigente integralista Loureiro Júnior: A verdade é que possuímos uma ideologia.004. levados pelos interesses eleitorais de caráter regional e particular. em nossa atividade prática. límpido. Em outubro. a toda a militância integralista: Nos dias 21 e 22 do corrente. s. em Santa Catarina. 19. Nosso partido despersonaliza-se. . Entretanto. O PRP no momento. diversas convenções regionais ratificaram seu apoio à candidatura. um pensamento doutrinário. 1. e assim por diante. a fim de: 1º) exporem ao Presidente Nacional a situação da agremiação em cada Estado. Minas Gerais e São Paulo. a decisão foi comunicada aos presidentes dos diretórios regionais e logo. Pernambuco. p..) A Convenção Nacional do PRP. 2º) sugerirem ao Diretório Nacional as medidas mais urgentes no sentido da reestruturação do Partido e. disputando sozinhos os cargos de prefeito e vereador”. é pessedista em São Paulo. 3º) manifestarem a sua opinião sobre o problema da sucessão presidencial da República. após as eleições de 3 de outubro. A partir de então. exato. que deverá reunir-se em 512 fevereiro. 512 O PRP e a sucessão presidencial. os Presidentes Regionais revelaram o desejo da coletividade partidária no sentido de que o PRP tenha candidato próprio. abster-se de quaisquer coligações locais com outros 513 partidos. Rio de Janeiro. A ênfase na “independência partidária” levava a uma espécie de autocrítica em relação à política de alianças até então adotada. Rio de Janeiro. 3.001). ameaçando dessa forma a unidade em sua ação em plano nacional. no Estado do Rio.239 apresentação da nossa candidatura à Presidência da República. e que atende perfeitamente às aspirações do povo brasileiro. a começar pelas do Rio Grande do Sul.11. A Marcha./d.. A Marcha. lançará a sua proclamação ao povo brasileiro. p. (.10. através de A Marcha. Bahia. toma em cada Estado as mais diferentes colorações políticas. antes que surjam outras candidaturas. chegamos quase a contradizer nossa doutrina. isso é um absurdo. E isso 511 deve ser feito já.

3. 518 Contra a farsa de alianças e coligações pró-candidato único. realizada entre 19 e 21 de março de 1955.11. p. Origem da candidatura Plínio Salgado.2. Rio de Janeiro. a divergência tornou-se pública. A divergência explicitou-se em uma reunião do Diretório Nacional. Rio de Janeiro.12. 516 Cf.1954. no entanto.Recortes). Um dos objetivos pronunciados do lançamento da candidatura própria era atrair os integralistas afastados do PRP.. A hora. 514 Desfraldar bandeira e marchar: imperativo nacional a candidatura Plínio Salgado. cit. a candidatura própria sofreu acirrada oposição dos diretórios 519 regionais de Pernambuco e Rio de Janeiro.240 Nacional trace uma linha de autonomia partidária. com o rompimento de Raymundo Padilha com o PRP. In: Livro verde de minha campanha. 517 A crise nas hostes integralistas. afirmando retoricamente que “nunca houve maior 518 coesão e disciplina dentro do Partido do que agora” . “alguns meios perrepistas pretendem alijar Plínio Salgado da direção nacional. 1 e 9. até há pouco sem nenhum 515 contato com o PRP”. a Convenção oficializou a candidatura. p. op.). na qual o deputado federal Raymundo Padilha manifestou-se veementemente contrário à candidatura própria. colocando em seu lugar Raymundo Padilha.1955. p. já que o grêmio dirige-se em duas alas. Na Convenção Nacional. A Marcha. A Marcha. Naquele momento. Plínio. Rio de Janeiro. p.1955 (CDAIBPRP . em 22 de novembro. 519 Cf. 1 e 11. Origem da candidatura Plínio Salgado. Plínio. Porto Alegre. p. op.. “em 516 entrevistas à imprensa.1954. Ainda assim. In: Livro verde de minha campanha. iniciando campanha aberta e declarando. SALGADO. 1. 515 Recenseamento moral a candidatura Plínio Salgado. De acordo Salgado. (. A dissidência se confirmou. Salgado negava a existência de uma crise no PRP. cit. Conforme o jornal A Hora... e a firme decisão de Salgado de levá-la adiante precipitaria a formação de uma dissidência. determinando que o 514 nosso partido tenha candidatos próprios aos cargos eletivos. 15. 26. SALGADO. 18. dando início à campanha eleitoral propriamente dita. na Convenção do PRP do Distrito Federal. com uma “Mensagem ao Povo Brasileiro”.2. A luta interna ameaça solapar a frágil unidade interna do PRP. “assistimos o retorno de centenas de adeptos do Sigma. a opção pela candidatura própria à presidência não era consensual no interior do partido. o seu desacordo”. 18. A Marcha. discurso pronunciado por Salgado no encerramento da Convenção e irradiado para todo o país. Assim. uma 517 pró-Plínio e outra pró-Padilha”. . 16.

Os comitês-populares: um espetáculo comovente. comerciários.00). em sua quase totalidade. e sua abrangência além dos limites partidários. 15.1955 (CDAIBPRP – Correspondência do Diretório Nacional). Um panfleto trazia um 520 Aproximadamente R$ 3.009. chamados sucessivamente.php. entregaram ao sr. (O valor corresponde a aproximadamente R$ 12. municipais e de base. funcionários públicos. cidadãos que nunca militaram no 523 PRP ou na extinta Ação Integralista Brasileira”. os integralistas buscavam formar uma rede de “comitês populares” para impulsioná-la.1955. . antes de ser lançada. 3.009). Segundo o dirigente integralista Luis Compagnoni. de acordo com um planejamento nacional hierarquicamente estruturado.1. encaminhassem-na ao Comitê Nacional e informassem Plínio 521 Salgado. A 15 de abril. Já naquele momento buscava-se caracterizar a campanha de Salgado como “popular”. A estrutura da campanha era claramente hierárquica: o Comitê Nacional de Propaganda determinava que “qualquer nova idéia de propaganda. que “toda propaganda deverá ser 525 orientada sobre o tema ‘Plínio Salgado – Candidato do Povo’”. 522 Cf. Luis. os comitês eram “formados.fee.br/sitefee/pt/content/servicos/pg_atualizacao_valores. COMPAGNONI. ainda. 523 Ibid.241 A campanha eleitoral Em janeiro de 1955. Todos os comitês deveriam se formar a partir de uma lista de contribuição financeira. indicando os dois elementos que marcariam toda a campanha de Salgado: seu pretenso caráter popular.4. 525 Ibid. “representantes de cerca de oitenta comitês.30 em valores atualizados de acordo com tabela de conversão disponível em http://www. 22. operários. p. A Marcha.500. 524 Diretiva nº 1 do Comitê Nacional de Propaganda (APHRC . Na cerimônia.tche. realizou-se uma primeira “cerimônia de entrega das contribuições dos Comitês Populares” da Guanabara. Assim. Plínio Salgado mais de trinta e 522 nove mil cruzeiros”.Fundo Plínio Salgado 018.00. ainda antes do lançamento oficial da candidatura de Salgado. foram formados comitês estaduais. seja submetida e aprovada pelo CNP” para que houvesse total uniformidade na propaganda da 524 candidatura. Rio de Janeiro. bancários. 521 Como se organizam os “Comitê Popular Pró-Candidatura de Plínio Salgado à Presidência da República”. transformando-se em comitê de ação eleitoral e propaganda quando 520 obtivessem um mínimo de dez contribuições de CR$ 10. A caracterização “popular” da candidatura era buscada através de diversos instrumentos. Estabelecia. por elementos proletários.

001).242 “apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e do interior brasileiro”. esse homem existe e 526 chama-se Plínio Salgado. dor e humilhação!.001. porque existem homens pobres nos quais não se pode confiar. 24. é certo que um grande número de comitês foi formado. um homem que nasceu pobre e pobre cresceu. com centenas de milhares de brasileiros empunhando listas de contribuições para a 529 nossa candidatura”. De acordo com relatório do Comitê paranaense. O panfleto propunha aos operários que elegessem um brasileiro Patriota.Fundo Plínio Salgado 067. Mesmo alegando ser o candidato “pobre”. Honesto. frio. afirmando que “precisamos eleger um presidente que saiba que ganhamos a irrisória quantia de CR$ 30. 526 Apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e interior brasileiro. A Marcha. Rio de Janeiro. as visitas às 528 fábricas. que depois de eleito olhe para baixo. Na documentação de Plínio Salgado consta 530 uma lista de 125 comitês apenas na cidade de São Paulo.Fundo Plínio Salgado 089. 1 e 4.005).001).1955. A pobreza em si não é virtude.00 a CR$ 50. . Panfleto (APHRC .11. Salgado tomava cuidado para não se afastar do discurso da conciliação de classes: “Não faço alarde da pobreza.6. A Marcha.00 por dia e que em muitos lares existem muitas boquinhas a pedir comida”.9. um homem que já sofreu na sua própria carne fome. até o trabalho individual”. 23. operários sofredores.1955. um homem que já foi operário [sic].Fundo Plínio Salgado 018. 529 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha. Cristão. teriam sido formados “dezenas de milhares de comitês populares. 527 Plínio abre o livro de sua vida. Rio de Janeiro. Exagero à parte.001. Para Compagnoni. Culto. 1 e 4.013.1955 (APHRC . Esse homem. como existem ricos honestos que juntaram o que tem pelo trabalho aliado ao bom 527 senso”. “a penetração nos bairros da capital. p. olhe para o operário. p. junto às massas operárias se operou por várias formas simultâneas: desde os comícios. 530 Comitês Plínio Salgado em São Paulo (APHRC . 27. 528 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. olhe pela pobreza. A principal estratégia foi a formação de comitês populares.

estabelecendo inclusive que “a parte doutrinária e programática deve ser exposta pelo próprio candidato”.1955. mais de 1. Caso Salgado não estivesse presente. 536 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. Plínio pede dinheiro e o povo dá. 16. 4. o de Campinas oitenta mil. O comício de Curitiba rendeu sessenta mil cruzeiros. com indicações específicas sobre como criticar os demais candidatos e como abordar temas como o comunismo. 6. Nos comícios. A Marcha.010.Fundo Plínio Salgado 089.) Acredito que até o presente momento. A Marcha. Em 15 minutos. p.8. Rio de Janeiro.001).000 pessoas”. São milhares de cheques. 532 Cf. e mais de 5.000 em Curitiba. 534 90 mil pessoas em Belo Horizonte. da sua vida e da sua obra”.. 23. . (. 19. A Marcha. Uma diretriz indicava minuciosamente como deveriam se portar os oradores. em abril uma reunião teria reunido “os 531 dirigentes dos 298 comitês populares” da capital paulista.000 cruzeiros para Plínio.11. 4.000 pessoas 534 535 em Belo Horizonte e 80.013. em Recife. Rio de Janeiro.. 535 Foi o maior comício que o povo de Curitiba já presenciou até agora.Fundo Plínio Salgado 018. 12. 533 Também para a realização dos comícios havia grande preocupação em manter a homogeneidade na linha de campanha. o de Belo Horizonte setenta mil. reunindo 90. o orador principal deveria seguir um roteiro pré-definido.9. e que portanto “compete aos oradores que precedem Plínio Salgado falar da pessoa do candidato. recolheram 35. A Marcha. p.1955. 27. Os simpatizantes da candidatura eram chamados ainda a financiar o programa radiofônico da campanha. além de dever tratar Salgado sempre como “Candidato do Povo”. Mais de trezentos comitês populares fundados no Norte e Nordeste.000 de brasileiros já tenha contribuído com dinheiro para a campanha de 537 Plínio. Rio de Janeiro. p. O caráter popular da campanha se traduziria também na campanha popular de arrecadação financeira: De todo o Brasil chegam recursos para Plínio. sob o apelo de que 531 Reunião de Presidentes de Comitês Populares na capital paulista. de vales postais. Rio de Janeiro. Comitê Nacional de Propaganda: Instruções para oradores (APHRC .5. os comícios de encerramento da campanha se 533 constituíram em grandes atos populares. 1 e 5. p.4. p.000.005). 537 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha.1955.1955 (APHRC . No norte e 532 nordeste teriam sido fundados “mais de trezentos” comitês: De acordo com A Marcha. Rio de Janeiro.1955.243 Segundo A Marcha. A Marcha.1955. caminhões e 536 ônibus. 15. onde Salgado teria sido recepcionado no aeroporto por “cerca de 500 automóveis. 1 e 2. de ordens bancárias.9.

Rio de Janeiro.001).1955.8. Rio de Janeiro. p. 538 538 É preciso que os brasileiros ouçam a palavra de Plínio Salgado. e três vezes a partir de agosto.1955. A Marcha.11. 539 Plínio Salgado duas vezes por semana na Rádio Globo. Rio de Janeiro. 3. o verdadeiro candidato da união Nacional. A Marcha. Tal perspectiva fica evidente no editorial do jornal integralista A Marcha: Quando vemos centenas e centenas de chefes políticos do PSD. no legítimo candidato de União 541 Nacional. como é “o caso do industrial Sr. 540 retransmitido por 20 emissoras. 540 Batalha final pela Rádio Globo.Fundo Plínio Salgado 089. Salgado pretendia ser reconhecido como “verdadeiro candidato da União Nacional”. 27. que permanecerão fiéis aos respectivos partidos no tocante à sucessão estadual. Apresentando-se como “candidato do povo”. por ser ele o melhor candidato.8. Arlindo Araújo. A Marcha. Evidentemente não eram divulgadas as contribuições mais volumosas recebidas. 26. Mesmo tendo argumentado que cada partido político deveria apresentar seu candidato. em evidente contradição com o discurso anteriormente assumido em oposição à uma candidatura de União Nacional e de defesa da necessidade de candidaturas com projetos distintos. 541 Plínio. p.1955. proprietário dos Laboratórios Antisardina. do PTB. Salgado buscou ainda o apoio de membros de outros partidos e das “classes produtoras”. que além dos anúncios feitos em A Marcha.244 “Plínio Salgado é o candidato pobre”. As contribuições teriam permitido que o programa passasse a ser veiculado duas vezes por 539 semana a partir de junho. imprimiu um milhão de prospectos e fez intensa campanha pessoal junto as pessoas de sua reputação”. custeou programas de Rádio.1955. da UDN. 12.013. p. 3. os quais eram divulgados como evidência da amplitude de sua candidatura. por força de lógicas deduções cívicas. A Marcha.5. por ser esta atitude um imperativo da própria consciência – então sim verificamos o mais surpreendente fenômeno desta quadra da vida política nacional: Plínio Salgado transformado naturalmente. mas que votarão nele para Presidente da República. . Rio de Janeiro. 6. do PR e de outros partidos comparecerem à presença de Plínio Salgado para dizer-lhe que o acompanharão na disputa da suprema magistratura da Nação. 1º. p. Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. uma vez indicado pelo PRP. 7. 19. Salgado não se assumia como expressão daquele partido e apresentava sua candidatura como suprapartidária.6.1955 (APHRC .

que Salgado assumia abertamente posições reacionárias. no entanto. “ao contrário da sabatina de Juscelino. De acordo com o Diário Carioca: Juscelino e Juarez discordam das classes produtoras em dois pontos capitais: a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas e a exploração do petróleo.Fundo Plínio Salgado 112. 1-2 (APHRC . buscando qualificar-se como interlocutor confiável. examinando-a em seu conjunto e apontando soluções reais e objetivas dentro dos princípios doutrinários”. de Porto Alegre. Rio de Janeiro. pois suas idéias satisfizeram plenamente as suas 542 pretensões. De acordo com o jornal.7. p.1955. são favoráveis à participação direta dos empregados nos lucros das empresas. p.004. “as classes produtoras ficaram empolgadas com o desenvolvimento do 544 plano do sr. de Recife. sistematicamente.245 Embora se apresentando como “candidato do povo”. Desta forma. 544 Ibid. como o fim do monopólio estatal do petróleo. a propostas do “candidato popular” seduziam as “classes conservadoras”.7. 2 (APHRC . de pé.REC 55).004. o plenário ouviu atentamente e sob os maiores aplausos o pronunciamento de Plínio Salgado. Plínio Salgado”. O Dia. estabelecer e reforçar vínculos com setores da classe dominante. Juscelino e Juarez. com a 543 mais prolongada salva de palmas”. que os demais candidatos não proclamavam publicamente. o apoio de Salgado à revisão da lei da Petrobrás “foi saudado pelo plenário. com ampla repercussão na imprensa. Para o Correio do Povo. que 542 Quem mais satisfez os conservadores foi Plínio Salgado. em contraposição às demais candidaturas.1955. 7. Recife. mas como prêmio à atividade e capacidade de cada um. Salgado tentava ainda caracterizar sua candidatura como “doutrinária”. o que ficou especialmente claro em sua participação na Mesa Redonda das Associações Comerciais do Brasil.Fundo Plínio Salgado 112. Fica evidente. Diário Carioca. 543 Apud Em São Paulo Plínio Salgado fala às Associações Comerciais do Brasil. que apreciou a realidade brasileira à margem dos interesses políticos. satisfeitas com a defesa de medidas antipopulares. Além de apresentar-se como candidato “popular” e “suprapartidário”. 11. Salgado buscou reconhecimento e apoio junto a classe dominante. ao mesmo tempo buscava.REC 55). Segundo O Dia. As classes produtoras são favoráveis à participação dos empregados no lucro das empresas. Apenas Plínio Salgado mereceu toda a receptividade (embora inicialmente fosse antipatizado) das classes conservadoras. e. . nesse aspecto.

e que “os políticos profissionais não cuidam dos interesses da Pátria. os promesseiros. e “os comunistas e socialistas. para compor um Ministério. mas dos seus próprios interesses” e “são escolhidos e indicados pelos próprios sócios políticos e também interessados em devorar os dinheiros públicos”. afirmando-se que “a desilusão é geral com os 547 demagogos. empreendendo uma obra de fortalecimento econômico. 1 e 2. Não tendo compromissos com governadores de Estado. dentro de qualquer partido ou fora dessas agremiações políticas. orientador da ação e executor de um plano geral de realizações. não será possível arrancar o Brasil das suas atuais dificuldades. nem com partidos políticos. 546 Ibid. contra a anarquia”. nem mesmo com o meu.011).Fundo Plínio Salgado 018. a não ser quanto aos princípios doutrinários. os mentirosos”. contra a desunião 548 dos brasileiros. social e moral da Nação. Panfleto (APHRC . do sr.1955.Fundo Plínio Salgado 018. Panfleto (APHRC . Rio de Janeiro. A Marcha.5. 12. Tal “doutrina” conduzia à proposta de despolitização do governo. debaixo da bandeira do Partido Social Progressista. político. Salgado também seria o único dos candidatos sem compromisso com o comunismo. sua candidatura seria “contra a politicagem profissional. Sua “doutrina” se resumiria “num critério governamental que considera os problemas brasileiros no seu conjunto e não isoladamente cada um”. os homens culturalmente mais competentes. Em contrapartida. 548 Porque. em “íntima conexão uns 545 com os outros”. p.011). financeiro. 546 moralmente mais perfeitos. tecnicamente mais fortes. Além de se apresentar como o único com conteúdo doutrinário.010. mas de uma doutrina e de um programa. Tal posição ensejava uma crítica genérica aos “políticos profissionais”. Adhemar de 545 Esta minha candidatura não é propriamente a candidatura de uma pessoa. como fica expresso em sua proposta de formação de um ministério “técnico”: Sem um Ministério homogêneo quanto à compreensão e interpretação das realidades e das necessidades brasileiras e quanto ao critério ordenador dos problemas. contra o roubo organizado. “o Partido Comunista do Brasil apóia Juscelino e João Goulart”.246 seriam resultado de “conchavos políticos”. . penso que estarei em condições de ir buscar. 547 Proclamação ao Povo Brasileiro. pois “O Partido Socialista Brasileiro apóia Juarez Távora”.010.

010.002.4.Fundo Plínio Salgado 018. A Marcha. que é hoje o Prefeito daquela 549 Capital”. lembrando-lhes do “dever de quem prestou um juramento e do qual foi desobrigado por ato espontâneo e liberal do depositário deste” e do “dever diante de Deus e da Pátria e da própria consciência”. 553 Carta aos integralistas de primeira hora. (APHRC . “Os tubarões da política 551 sempre ganharam eleições gastando rios de dinheiro”). para mudar só Plínio Salgado”). Destacam-se as frases com sentido dúbio “Com seu voto ajude a endireitar o país” e “Está na hora de endireitar o Brasil”. chamando todo aquele que “por uma razão ou outra não está ao lado de Plínio Salgado neste terrível momento em que passa nossa Pátria”. “Um governo sem os sagrados princípios da fé cristã será como uma criatura sem alma ou um corpo sem vida”). Com Plínio Salgado queremos torná-la realidade”.010.009).007). p. enfatizando o cristianismo (“Deus dirige o destino dos Povos! Graças a Deus já temos em quem votar”. 29. e a oposição aos “políticos tradicionais” (“Trancai as portas do Brasil contra a orgia organizada dos políticos profissionais”. O objetivo de atrair os antigos integralistas afastados do movimento foi perseguido através de diversas iniciativas.1955. 551 Comitê Nacional de Propaganda. A Marcha publicou uma “Carta aos integralistas da primeira hora”. “É ele o candidato de milhares de operários e digno portanto do voto de todos aqueles que desejam ver entre nós a queda do burguesismo oficializado”). Rio de Janeiro.Fundo Plínio Salgado 018. O Comitê Nacional de Propaganda enviou aos comitês 550 populares 17 “sugestões de legenda para muros” e 37 slogans a serem utilizados. apelando para que voltassem “a 553 lutar ao lado de Plínio Salgado”.247 Barros.Fundo Plínio Salgado 016. (APHRC . seu alegado caráter popular (“Só quem trabalha tem direito de governar”. 5. Slogans da candidatura de Plínio Salgado (APHRC .001). s.Fundo Plínio Salgado 014.009. Uma correspondência enviada aos integrantes dos “memoráveis dias da Ação Integralista Brasileira” convocava-lhes: “É pelo vosso passado de luta que hoje vos conclamamos a participar da campanha pró552 candidatura de Plínio Salgado”. deram a vitória ao seu candidato. . 550 Sugestão de legenda para muros (APGRC ./d.011). 552 Correspondência do Comitê Feminino do Distrito Federal aos exintegrantes da Ação Integralista Brasileira. “Em Deus pomos o princípio e o fim de nossa doutrina política. Panfleto. Salgado incumbiu ainda um oficial da Marinha integralista a fazer um levantamento entre seus pares do 549 Brasil versus Rússia Soviética. a idéia de mudança (“Para continuar como está qualquer candidato serve.

a imprensa e especialmente os defensores da candidatura Juarez Távora especulavam sobre sua possível retirada. ainda que vigore o princípio da maioria 559 absoluta. A Marcha. 18. assegurando sua inviabilidade eleitoral. 558 Entrevista concedida por Plínio Salgado à United Press em agosto de 1955 (APHRC .55/6). outros. 554 Relatório Confidencial do Almirante Jatyr de Carvalho Serejo.8. e afirmava que se o fizesse “estaria traindo a confiança de milhares de 556 brasileiros”. convidando-os para “sua cooperação na cruzada de salvação nacional”. É falso! É mentira! Serão capazes de dizer inclusive que Plínio morreu”. Já o Comitê paranaense alertava “que os inimigos do Brasil estão e irão continuar propalando – com o propósito de desorientar o povo – a cínica e pérfida mentira de que Plínio Salgado desistiu ou desistirá de sua candidatura. Rio de Janeiro. Afirmando que sua candidatura pertencia ao povo. Não acredite: Plínio Salgado não desistirá.005). Salgado avisava para que os integralistas ficassem de sobre-aviso. o que foi respondido através de reiterados desmentidos pelos integralistas. Rio de Janeiro.9. pois “estes boatos irão recrudescer e quero acreditar que nas vésperas da eleição eles virão com absoluta intensidade para perturbar a ação 557 eleitoral daqueles que querem transformar o Brasil”.1955 (APHRC-Pprp 18. Na medida em que se aproximava a data da eleição.013. Para tanto.08. 3. Salgado assegurava que não renunciaria. 555 Ibid. 556 Plínio: minha candidatura é definitiva.Fundo Plínio Salgado 089.1955.Fundo Plínio Salgado 001. dirigiu uma circular aos oficiais que foram integralistas.6. 10.004. poucos adversários (de um modo geral os não muito considerados na classe) e ainda um grupo que. os integralistas contavam com grande contingente de adeptos dentre os oficiais da Marinha.248 apoio com que ainda contava naquele setor militar. tendo pertencido à AIB. 28. p. pelo que se está passando em todos os Estados do 558 Brasil. Vencerei o pleito. p. embora fiéis ao pensamento. 557 Sou homem de doutrina. jamais desistirei! A Marcha. Nos anos 30.004). Ao mesmo tempo repetia continuamente que acreditava em sua eleição: Vou às eleições de outubro com a finalidade de alcançar vitória e posso dizer. o fizeram não 554 por convicção mas por interesse próprio”.1955. Desde o lançamento da candidatura Salgado. que essa vitória está assegurada. . Panfleto (APHRC . 4. o qual concluiu que “na esfera superior há muito elemento que continua firme. além de enviar um 555 manifesto a todos os oficiais da Marinha. mais temerosos de atitudes francas.

Para segundo lugar indico dois candidatos: Juscelino e Adhemar. São Paulo. lhe garantiriam a vitória: I – Seu valor pessoal. VIII – O elemento religioso que toma conhecimento do seu trabalho. V – Os Comitês Populares. 3 (CDAIBPRP. Perto de 5 mil cupons já apurados na prévia. sua cultura. o jornal A Marcha publicou uma projeção da votação que cada candidato obteria por estado. 2. 563 Plínio vencerá com 2.249 Acredito na minha vitória e até mesmo por maioria absoluta.930.1955. VII – O Partido de Representação Popular. 559 Plínio Salgado otimista. Correio Católico. IX – O fracasso dos governos e dos políticos que todos vêem. Gazeta de Santa Cruz.REC 55). Ganharei em Minas. Santa Cruz do Sul. portanto. 562 As dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado.8. 561 É o caso.011). por exemplo. sua formação moral e cristã. eram reunidas em um panfleto sobre as “Dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado” e que. “doutrinário” e “suprapartidário”. p.1955. Espírito Santo. IV – Centros de Juventude espalhados em todo o Brasil.Fundo Plínio Salgado 112. 27. A publicação desta improvável projeção visava neutralizar a campanha promovida pelos defensores da candidatura de Juarez Távora.850 votos. junto a várias outras. 16.9.003. Juarez Távora será o 560 último. 9. Rio Grande do Sul. segundo a qual Salgado venceria a eleição com 2. X – O esfacelamento dos partidos que não 562 tem mais autoridade. o que parece indicar uma participação organizada dos integralistas para a produção daqueles resultados. 560 De Fortaleza. As alegações que remetiam ao caráter “popular”. p. 14.850 563 votos (quatro vezes a votação efetivamente recebida). que pregava o “voto útil” visando derrotar Kubitschek. VI – Os antigos integralistas que reconhecem o valor do candidato. Uberaba. III – A imprensa do interior que publica sempre os seus artigos.1955 (APHRC .7. utilizados como argumentos eleitorais. p.Recortes). da prévia realizada pelo Correio Católico de Uberaba.Fundo Plínio Salgado 018.9. II – Um milhão de livros espalhados pelo Brasil. A Gazeta. agrupamentos de homens do trabalho. A Marcha. Em algumas prévias promovidas por rádios e jornais Salgado 561 aparecia em primeiro lugar. Embora seja pouco provável que a direção integralista realmente acreditasse em suas possibilidades de vitória. Panfleto (APHRC . . 5 (CDAIBPRPRecortes).010.1955. Rio de Janeiro. Ganharei ainda no Paraná. Rio Grande do Norte e Bahia.930.

p. Rio de Janeiro. O PRP buscava crescer disputando a base social pequeno burguesa da UDN e seus aliados. 567 Juarez é o Perón brasileiro.3. foi classificado pelo PRP como “o partido dos comunistas de sacristia. Rio de Janeiro. A Marcha. sustentando que “a grande maioria dos ex-integralistas votará contra o 564 Máscaras ao chão. 24. Para A Marcha Juarez seria “um candidato de tendências totalitárias que procura atrair. A Marcha. quando o PDC apoiou Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. 1 e 5. cujos chefes se enfeitam com a fita de congregados marianos. trazendo no coração a 564 estrela vermelha de Moscou”. como o Partido Democrata Cristão. 3. Este conflito tinha como objeto principal a disputa pelo eleitorado conservador. Alguém não está usando. 1 e 12. A Marcha. Em 1953. Rio de Janeiro. 566 As contradições de Juarez Távora. ex-integralista e principal líder da “Intentona de 1938”. 1 e 4. p. 565 Juarez e o socialismo. A UDN. Rio de Janeiro.250 PRP X UDN – o conflito aberto pelo eleitorado conservador A eleição presidencial de 1955 acirrou ao extremo o conflito entre os integralistas e o udenismo. p. Ou o general se mostra confuso nesta quadra conturbada de sua vida.1953. Sorel e 565 outras belezas deste quilate. enfurecida e desesperada pela crise econômica e financeira 567 que o país atravessa”. no caso. 13. 10.1955. cujos principais pontos provêm diretamente do cérebro de Marx. p. de sinceridade. Juarez teve que se comprometer com um programa socialista.6.1955. A candidatura de Távora era repetidamente criticada pelos integralistas por ter recebido o apoio do Partido Socialista Brasileiro: O PSB homologou a candidatura Juarez Távora à Presidência da República. Para merecer o apoio das hostes de Trotski e Marx.6. A disputa de votos entre Salgado e Juarez Távora ensejou ataques mútuos os mais diversos. Eis o que se deduz desse casamento imprevisto da linha auxiliar comunista (os socialistas do sr. contra-atacava divulgando declaração de Belmiro Valverde. . João Mangabeira) com os católicos do Monsenhor Arruda 566 Câmara. por sua vez. ou os partidos que o apóiam estão agindo de má-fé.6. A Marcha.1955. 1 e 4. as classes trabalhadoras bem como a pequena burguesia desorientada e confusa. na qual manifestava seu apoio a Juarez. com promessas demagógicas.

Sabe que.) A conduta do sr.) Recuso o apelo que me foi dirigido.251 sr.. o ‘Enviado de Deus’ (. dando-me a mais surpreendente e estarrecedora vitória eleitoral de nossa História.. . Rio de Janeiro. Também a Tribuna da Imprensa. pedindo. passou a afirmar o caráter democrático desse partido quando a guerra destroçou o nazi-fascismo. As críticas centravam-se na qualificação de Salgado como fascista e a inviabilidade de sua candidatura: Fundador e chefe de um partido fascista.. fascista no programa.. difama e calunia. mas sim uma doutrina... Os brasileiros que sufragarão o meu nome a 3 de outubro próximo. Plínio Salgado. que está fazendo apenas uma agitação para ampliar futuramente seu partidinho. certo de que. nos métodos. assim procedendo. Plínio Salgado. 10. 1 e 5 (CDAIBPRP – Recortes). envolvendo em suas mentiras. Tribuna da Imprensa. em apelar para que eu desista de minha candidatura. p.9. que não comporta transigências com partidos de esquerda. até no uniforme e no ritual macaqueados dos modelos italiano e alemão. quando sabe. Rio de Janeiro. 20. de bases nitidamente espiritualistas. 568 568 Plínio sem o apoio dos camisas-verdes. 569 MAGALHÃES Júnior.1955. Tribuna da Imprensa. Plínio Salgado”. dizendose crente na vitória (e por maioria absoluta!) assume aos olhos de 570 todas as pessoas sensatas o papel de um imbecil.) É grave o engano dos orientadores da campanha do General.. contra-atacava: “Plínio mente. em favor da vitória daquele ilustre e respeitável militar patrício. infâmias e calúnias o general Juarez Távora.) Mas um exame mais atento e minucioso do comportamento do ‘profeta’ do integralismo conduzirá à certeza de que 569 nele predomina o espertalhão”. ao suporem que a minha desistência iria carrear votos para o seu candidato. constitui um caso de psiquiatria. dirigida por Carlos Lacerda. melhor do que ninguém. que é um autêntico “candidato suicida”.9. (. p.1955. de inspiração materialista.) Enfrenta o ridículo de anunciar que vai ser eleito e por maioria absoluta. que Juarez Távora se retirasse do pleito e o apoiasse: Insistem os dirigentes da campanha eleitoral do General Juarez Távora. Misto e paranóico e embusteiro o sr. É o paranóico ‘iluminador’.. (.. não seguem um homem.. (. (. 3 (CDAIBPRPRecortes). o chefe fascista brasileiro. ao contrário. condenado fatalmente ao último lugar na votação e com uma soma de sufrágios irrisória em relação aos demais. Rafael. Salgado revidava os apelos para que retirasse sua candidatura. 570 Ibid.

de Joel Silveira. e alegando que jamais poderia fazê-lo.4. Tribuna da Imprensa. Em 1956. A Marcha. formulo de volta. 27. 1 e 15. na verdade. Ah! Isso impediram mesmo. uma exortação para que desista ele de sua candidatura. A Marcha. comemorava a derrota da UDN: O prazer dos integralistas foi este. Salgado publicou o Livro verde de minha campanha. por vezes. op. Esse prazer nós temos. e confirmadas as previsões de que a votação recebida por Salgado determinaria a derrota de Távora. ao General Juarez Távora. desde a sua fundação. para concluir que “dentro da cabeça desses caluniadores não existem. reconhecidamente derrotada até pelos seus 571 próprios seguidores. 573 "A Tribuna da Imprensa como sempre". dirigido por Roxo 572 Loureiro. 573 que agora estorcem de raiva. por sua vez. dos Tibérios do nosso tempo. p. E a história não foi escrita à moda da UDN dos salafrários. fosse eleito. de Osório Borba. Rio de Janeiro. as “calúnias e injúrias” seriam decorrência do “ínfimo nível moral a que chegou a sociedade brasileira do nosso tempo” e da “influência e. ação direta do 571 Juarez: considera-te fora da sucessão! A Marcha.. O que há lá dentro é da competência da City ou das Águas e Esgotos. Para ele.9. sustentando que nunca ter sido “oficialmente procurado por Juarez Távora. Ao fazêlo. conhecedoras do material que conduzem as 574 descargas das sentinelas”. 81 e 87. qualquer aliança de seus partidários. 1955. pois “o PRP proíbe. irmão de seu genro Loureiro Júnior. dando seqüência à troca de acusações. cit. em quem reconhecemos um grande patriota. sem referência (CDAIBPRP-Recortes). metidos a moralistas. miolos. .252 sirvo melhor à Pátria a quem dediquei toda a minha vida e que dispensa novas demonstrações do meu espírito de renúncia. de Adauto. para felicidade e pelo bem do Brasil. 21. 572 De negócio em negócio Plínio enche o papo. p. O jornal sustentava que Loureiro seria “o homem que manda hoje em Plínio e o domina totalmente”. de Juraci. exatamente: impediram que o candidato de Lacerda. 16. de Corção. para solicitar a retirada da minha candidatura”. 12. respondendo às críticas que recebeu durante sua campanha. Derrotamos os caluniadores de Plínio Salgado. Livro verde de minha campanha. de Jânio. p. 574 SALGADO. 15. tanto com o Partido Comunista como com o Partido Socialista”. nem pelos próceres da UDN. de Chico Mangabeira. os udenistas denunciavam suposto envolvimento de Salgado na falência fraudulenta do Banco Nacional Interamericano. Passada a eleição.1956. Rio de Janeiro.

principalmente em virtude do apoio dos integralistas à posse e ao governo de Kubitschek. e 45.1956. o resultado surpreendeu os grupos dominantes “que controlam as máquinas de coação para extorquir votos. Salgado enviou uma carta aos militantes agradecendo os serviços prestados à candidatura e garantindo que ela foi vitoriosa. de trabalho 577 sistemático. A maior parte dos votos foi obtida em pequenos municípios. 577 Circular de Plínio Salgado.000 eleitores (91. A distribuição da votação foi bastante desigual: Salgado foi o segundo mais votado no Paraná. Assim.1. em face das reiteradas proclamações de Plínio de que seria vencedor. A Marcha. montadas em todo o território nacional./d.3%.949 votos.000 eleitores. 95. Ainda assim. p.018 votos).5%) e Bahia (13. O conflito persistiria nos anos seguintes. 1964. 578 Levantamento realizado a partir dos dados publicados em TRIBUNAL Superior Eleitoral.7% nas cidades com mais de 20. pois a diferença entre Kubitschek e Távora foi de apenas 466. Para A Marcha.016). ou 8. 575 Os resultados alcançados e sua repercussão no PRP Salgado atingiu. os dirigentes integralistas tentaram apresentar o resultado obtido como uma grande vitória.6%).486 votos). 9 volumes. e recebeu expressivas votações também no Espírito Santo (18. afirmando que “nenhum partido. . a maior votação obtida nacionalmente pelo movimento integralista em um processo eleitoral.006. embora os melhores percentuais tenham 578 sido alcançados em estados populosos: Salgado obteve 21. em toda história do movimento. 19. 3. afinal. Santa Catarina (17.8% nas cidades com menos de 575 Ibid. 20.379 votos. (APHRC .253 comunismo”. com mais quatro anos de doutrinação.6% de seus votos nas capitais (154. levou essa quantidade de votos” e garantindo que “está plenamente provado que. as cúpulas dos chamados grandes partidos”. Volume 3. 576 Plínio Salgado surpreendeu os grupos dominantes. atingindo 24% dos votos. A votação recebida por Salgado reforçou a tese dos udenistas de que a candidatura de Salgado mudaria o resultado das eleições. isoladamente. Brasília: Imprensa Oficial. 576 isto é.8%). “batalhando contra três poderosas máquinas”. s.000 e 20. 714. 12. conquistaremos o triunfo”. o resultado obtido deve ter frustrado os militantes mais entusiasmados. p. Dados Estatísticos.Fundo Plínio Salgado 014.9% nas cidades que detinham entre 10. Rio de Janeiro.

política que seria mantida ainda nos dois anos seguintes. sejam em sua maioria urbanos. o marechal Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes. 3 e 8. Alguns meses depois.7% do total de seus votos em apenas 10 municípios (todos eles de colonização germânica). nem daqueles que aspiram a reformas largas e decisivas dos costumes políticos e das normas administrativas em nosso País. O desfraldar de uma bandeira própria deu ao partido herdeiro da doutrina espiritualista e cristã da democracia orgânica uma energia nova que se revelou numa verdadeira ressurreição. embora o apoio à posse e posterior participação no governo de Juscelino Kubitschek introduzisse uma contradição que terminaria por minar esta política. em todos os estados predominaram os votos provenientes da pequena burguesia. Salgado foi o candidato mais votado em 18 municípios do Paraná e em 11 municípios de Santa Catarina.4. sejam pequenos proprietários rurais. 27. reintroduzindo os integralistas na dinâmica de alianças e 579 SALGADO. a de 1945 e a de 1950. Embora dignos dos sufrágios dos brasileiros.000 habitantes (326. Salgado captou 46. A despeito das diferenças.254 10.1956.. Salgado avaliava que a candidatura própria tinha dado ao PRP consciência de sua autonomia e de sua força eleitoral: Nunca o PRP poderia ter adotado uma orientação mais certa.939 votos). a certeza de nossa força. não polarizavam os anseios mais profundos dos integralistas. cujos méritos pessoais não negamos. Neste último estado. uma atitude de maior clarividência. O pleito de outubro passado incutiu-nos 579 também. . Ergueu-se uma força nova! A Marcha. Plínio. p. Esta avaliação deu novo fôlego à “independência partidária”. como nos estados do Sul e Espírito Santo. O pleito de outubro deu consciência de autonomia. de autodeterminação a um partido que vinha perdendo a substância pela adesão a candidatos estranhos à sua doutrina em duas eleições sucessivas. como em São Paulo e Minas Gerais. atingindo maioria absoluta em alguns deles. Rio de Janeiro.

onde os integralistas coligaram-se com o PTB. inclusive no Rio Grande do Sul. A médio prazo.255 coligações. . Certamente a candidatura própria cumpriu uma função importante na unificação do movimento e motivação de seus militantes. o resultado obtido não foi suficiente para garantir a manutenção da “independência partidária” e impedir a retomada das alianças e coligações e da participação em gestões conduzidas por outros partidos. abalada em virtude das oscilações da política de alianças até então seguida. no entanto. Guido Mondin. apoiando a eleição de Leonel Brizola ao governo estadual e elegendo o primeiro senador integralista. o que se concretizaria no final de 1957 quando o PRP assumiu a presidência do Instituto Nacional de Imigração e Colonização no governo Kubitschek e se aprofundaria com as inúmeras alianças realizadas em 1958. apoiado pelo PTB. reforçando sua identidade. berço da política de “independência partidária”.

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