Giselda Brito Silva (Org.

)

2
ISBN 85-874-5937-6 Copyright © Giselda Brito Silva Direitos desta edição reservados à EDITORA DA UFRPE Rua Dom Manoel de Medeiros, s/n – Dois Irmãos. Recife/PE. CEP: 52.171-300 Fone: (081) 3320 6000 Email: editora@ufrpe.br Web site: www.ufrpe.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright (lei nº 9.610/98). Os conceitos, redação e correção textual neste livro são de inteira responsabilidade dos autores. 1ª. Edição – 2007 Revisão dos originais e formatação: Giselda Brito Silva Apoio na leitura dos textos e avaliação dos conteúdos: João Fábio Bertonha Capa: Giselda Brito Silva As imagens utilizadas na montagem da capa foram retiradas de Prontuários Funcionais da AIB do Arquivo Público do Estado de Pernambuco (APEJE) e do livro Imagens do Sigma, organizado por Luiz Henrique Sombra e Luiz Felipe Hirtz Guerra, editado pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1998. Ficha catalográfica Setor de Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE
E82 Estudos do integralismo no Brasil / Giselda Brito Silva, organizadora. - Recife: Ed. da UFRPE, 2007. 260 p. : il. ISBN: 85-874-5937-6 Inclui bibliografia. 1. Brasil – História 2. Integralismo 3. Autoritarismo 4. Igreja 5. Tradição (Teologia) 6. Perseguição política 7. Ditadura e ditadores I. Silva, Giselda Brito CDD 981

3

Apresentação Hélgio Trindade

Introdução João Fábio Bertonha

Textos de

Ana Maria Dietrich * Edgar Bruno Franke Serratto * Emília Carnevali da Silva * Gilberto Grassi Calil * Giselda Brito Silva * Leandro Pereira Gonçalves * Leonardo Ayres Padilha * Raimundo Barroso Cordeiro Jr * Renato Alencar Dotta * René E. Gertz * Rodrigo Christofoletti * Tatiana da Silva Bulhões

4

SUMÁRIO Apresentação Hélgio Trindade Introdução João Fábio Bertonha 1. Pesquisas sobre o integralismo na década de 1970 René E. GERTZ 2. Origens do integralismo em debate: pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20 Leonardo Ayres PADILHA 3. Integralismo e Historiografia Edgar Bruno Franke SERRATTO 4. O Integralismo em Pernambuco: ascensão e queda da AIB-PE Giselda Brito SILVA 5. O Legionário Integralista: um novo homem para uma nova era Raimundo Barroso CORDEIRO JÚNIOR 6. O homem no espelho e a Legião Cearense do Trabalho: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da SILVA 7. Tradição e Cristianismo em Minas Gerais: O nascimento do Integralismo em Juiz de Fora Leandro Pereira GONÇALVES 8. A imprensa integralista de São Paulo e os trabalhadores urbanos (1932-1938) Renato Alencar DOTTA 9. Integralismo Proh Pudor! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo Rodrigo CHRISTOFOLETTI 10. Entre Sigmas e Suásticas: nazistas e integralistas no Sul do Brasil Ana Maria DIETRICH 11. Fotografias, gênero e autoritarismo: representações de feminino pela Ação Integralista Brasileira Tatiana da Silva BULHÕES 12. 1955: A campanha de Plínio Salgado à Presidência Gilberto Grassi CALIL

05 07 12 26

47

64

84

106

130

146

167

187

201 220

5

APRESENTAÇÃO Hélgio Trindade

Os estudos e pesquisas sobre o Integralismo, que no passado foram relegados a um segundo plano pela historiografia brasileira, estão gerando um renovado interesse por jovens pesquisadores de várias regiões do país. Vale lembrar que, nas décadas de 1970 e 1980, um primeiro grupo de pesquisadores debruçou-se sobre o tema produzindo a primeira série de teses, pesquisas e ensaios. O resultado certamente foi o de trazê-lo para a produção acadêmica de algumas instituições universitárias nacionais. Os enfoques e as interpretações nem sempre foram convergentes, mas o Integralismo passou a ser valorizado como um tema relevante para vários historiadores consagrados. Além de Edgard Carone que o incorporou em seu livro sobre a Segunda Republica (1930-1937), o Integralismo entrou na História Geral da Civilização Brasileira (Período Republicano e em verbetes do Dicionário Histórico1 Biográfico do CPDOC. Após ter integrado a enciclopédia História do Século 2 20, dirigida por Francisco Weffort , os especialistas internacionais inserem o Integralismo na categoria dos fascismos extra-europeus. A Ação Integralista Brasileira (AIB) adquire então legitimidade acadêmica pela consagração da literatura internacional com os estudos comparativos de Juan Linz, Stanley 3 Payne, Pierre Milza, Stein Larsen e Alessandro Campi , entre outros.

 Professor titular de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1 CARONE, Edgard . A Republica Nova (1930-1937). São Paulo: Difel, 1974; FAUSTO, Boris (dir). Historia Geral da Civilização Brasileira (Brasil Republicano). Sociedade e Política. T.III. 3º Vol. São Paulo: Difel, 1981; Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro:1930-1983. Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu (coord). Rio de Janeiro: Editora Forense- Universitária, 1984. 2 História do Século XX. São Paulo: Editora Abril. n.52, 1974. 3 LINZ, Juan. Some notes toward a comparatives study of fascism in sociologica historical perspective. In: Laqueur, Water (edit). Fascism a reader´s guide. Berkeley: University California Press, 1976; MILZA, Pierre. Les fascismes. Paris: Imprimerie National, 1985; PAYNE, Stanley G. Historia del Fascismo. Barcelona: Edit.Planeta, 1995; LARSEN, Stein U. (edit). Fascism outside Europe. New York: Columbia

inclusive publicando os resultados de suas pesquisas . o Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. Alessandro. Ao desenvolverem pesquisas regionais e locais estão enriquecendo os estudos sobre a diversidade das manifestações da AIB e seu sucedâneo. Que cos´è il fascismo? Interpretazione e prospettive di ricerca. Rosa (org).. Esses estudos têm contribuído para uma visão mais complexa sobre as metamorfoses do movimento. o Partido de Representação Popular (PRP).6 Na última década os estudos sobre o Integralismo foram retomados de forma vigorosa por uma nova geração de jovens historiadores e cientistas sociais. CAMPI. mas nas profundezas do Brasil. 2004. em São Paulo. Como toda ideologia e organização que arregimenta adeptos e fiéis de vários extratos sociais e em contextos regionais diversos. 4 DOTTA. Lidia e CAVALARI. o Integralismo precisa ser analisado à luz das diferentes situações cuja explicação não se esgota apenas pelas análises mais abrangentes. 2003. penetraram não somente em alguns centros maiores. Roma: Ideazione Edit. 2001. partido e ideologia que. Nesta perspectiva. segundo diferentes olhares. Este novo livro testemunha de forma eloqüente a atualidade do tema e a diversidade de abordagens e contribuições inéditas. POSSAS. Certamente uma nova geração de pesquisadores está com a palavra para lançar um olhar critico e criativo sobre os estudos fundadores e trazer a sua contribuição. R. Integralismo: novos estudos e reinterpretações. mas pela presença de novos centros de documentação e diversidade das fontes de dados disponíveis. Os estudos monográficos ou temáticos são fundamentais para o avanço da problemática não só pela riqueza e variedade de enfoques. é uma iniciativa meritória e que já apoiou os esforços do Grupo de Estudiosos do 4 Integralismo (GEINT). Rio Claro: Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. . University Press.

como o clima político e social e a economia interna das Universidades. houve uma primeira fase. Na verdade. são essencialmente fontes primárias e não mais do que isso. dos anos 30 até. Passados menos de vinte anos. ainda um jovem estudante de graduação em História. a situação mudou radicalmente e os estudos do integralismo não apenas se expandiram de forma acentuada. pesquisando com mais vagar. tanto elementos práticos. como as alterações teórico-metodológicas dentro da disciplina histórica e a disponibilidade de fontes. posteriormente. Alcir Lenharo. Depois. como qualquer outra. mas que não era realmente muito.7 INTRODUÇÃO 5 João Fábio Bertonha Em fins da década de 1980. parte da bibliografia dos estudiosos do integralismo. mas ele ressaltou como tudo o que havia. grosso modo. objeto de estudo das ciências sociais. Ao procurar o que seria. mas. Não me recordo de suas palavras exatas. dado o seu próprio caráter militante. Assim. os artigos e as teses se sucedem e podemos notar como esta é uma temática longe de atingir o esgotamento. Esses livros e artigos são. Numa segunda fase. o integralismo foi. como se consolidaram enquanto campo analítico. refletiu. o meu orientador. era a obra do Hélgio Trindade e seus interlocutores diretos. vi que havia alguma coisa a mais. Só levando em conta esses elementos é que podemos compreender a caminhada dos estudos relacionados ao tema. entre os anos 70 e 80. a produção histórica sobre o integralismo. em boa medida. praticamente. . resolvi iniciar alguns estudos a respeito do integralismo. essencialmente. claro. Os livros. professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR e pesquisador do CNPq. os 60. em que a produção relativa ao movimento era centralmente de integralistas (ou de seus herdeiros do Partido de Representação Popular) ou de seus opositores. o questionei sobre o que poderia ler a respeito. A partir da 5 Doutor em História pela Unicamp.

filósofos. foram postas a disposição dos historiadores. uma seleção clássica de fontes (jornais. etc. envolvendo José Chasin. o que permitiu uma renovação da história política. são estas obras centralmente de cientistas sociais (cientistas políticos. Essa produção nos ensinou muito e apoiou tudo o que veio depois. O mais importante deles foi que a História se libertou da já mencionada ênfase na história econômica e social. foram reexaminados e a história regional começou a ser . por este e outros motivos. o que também foi de importância para que as pesquisas deslanchassem. os historiadores. nos estudos de classe. o que permitiu o surgimento de uma nova e mais numerosa geração de pesquisadores. novas fontes. Abriu-se espaço para estudar o integralismo. estavam envolvidos com a chamada história econômica e social e mais interessados em grandes estudos estruturais. o Estado Novo. entre o final dos anos 80 e o início dos 90 Vários elementos ajudam a explicar porque foi nesse momento que os historiadores passaram a olhar com mais interesse o movimento dos camisas verdes. os historiadores. salvo exceções.8 primeira grande obra de pesquisa sobre o integralismo (o livro do Hélgio Trindade. publicado em 1975). No campo da produção pratica da História. como as da polícia política. nas mudanças sociais. etc. grosso modo. revistas). Além disso. Nessa época. etc. Esse fato deixou aquilo que foi escrito sobre o integralismo naqueles anos marcado por alguns elementos. houve uma explosão de cursos de graduação e pós-graduação. o PCB. Num primeiro momento. especialmente os italianos e os alemães. fortemente influenciados pelo marxismo e pela Escola de Annales. além disso. Gilberto Vasconcelos. Marilena Chauí e outros. o grosso dos trabalhos se concentrou em “fechar” algumas das questões deixadas pela camada anterior. um trabalho intenso de análise do discurso (então no auge do seu prestígio dentro das ciências humanas). houve toda uma série de debates mais do que conhecidos. o que ocorreu. sociólogos) e não de historiadores. deixaram temáticas como o integralismo para seus colegas das ciências sociais. Curiosamente. como ênfase no estudo dos conceitos. livros. o que reflete as próprias prioridades da disciplina histórica naqueles anos. os quais deram uma nova vida aos estudos do tema. Mas muitas outras questões precisavam ser respondidas e apenas com a entrada dos historiadores no campo as coisas mudaram. Os contatos dos integralistas com os movimentos fascistas europeus e as suas relações com os imigrantes. História política era considerada perda de tempo e.

Giselda Silva e Leandro Gonçalves. Vemos. esse novo filão – que nos trouxe conhecimentos sobre cidades no Rio Grande do Sul. rever aquelas já estudadas pela historiografia. os discursos e as memórias de e sobre os integralistas e outros temas passaram a ser abordados. assim. dos estudos a respeito do integralismo. num processo que prossegue. como o de Gilberto Calil sobre a campanha presidencial de Plínio Salgado à Presidência em 1955 e o . já comentada. aliás. jovens pesquisadores que utilizam o prisma teórico do historiador para abordar temáticas novas ou. Nos últimos anos. enquanto outras sub-temáticas podem se esgotar na repetição. idéias e perspectivas atuando na história do país por muitas décadas ainda e mesmo hoje). permite que ampliemos a discussão sobre as pontes entre o integralismo e as religiões cristãs. houve um extraordinário desdobramento em termos de temas e problemáticas. Claro que essa nova historiografia também trouxe. Pernambuco. temas clássicos como o relacionamento entre nazistas e integralistas no sul do Brasil ou aquele entre católicos e integralistas recebendo um novo tratamento. Ao mesmo tempo. etc – já tinha sido abordado na década anterior. como não podia deixar de ser. como o relacionamento da AIB com os militares ou o cinema integralista.9 explorada. Também há temas que ainda aguardam os seus historiadores. problemas e/ou outras questões. por exemplo. podem transformar a história em uma coleção de discursos iguais. o interior de São Paulo e Minas Gerais. O presente livro indica claramente essa situação. reunindo trabalhos de. Os estudos regionais continuam bem representados. nos artigos de Ana Maria Dietrich. até agora centrada no campo católico. na maioria. no mínimo. Mas o momento é mais de vivacidade do que de crise na área. ao analisar os contatos do integralismo com o metodismo. ao lado da explosão numérica. trazendo coisas novas e novos elementos para repensar o que foi o movimento. a participação dos negros e das mulheres no movimento. em trabalhos como os de Renè Gertz e Josênio Parente. mas se consolidou efetivamente nos anos 90. Na verdade. Este último. Estudos sobre discursos e memórias sem uma analise crítica e uma síntese. inclusive com o uso de novas fontes. há artigos que avançam para o período pós Segunda Guerra. com suas personalidades. e de forma extremamente positiva (pois é um erro imaginar que a AIB tenha desaparecido em 1938. O anti-semitismo integralista. o que é perigoso. como nos artigos citados acima e no de Raimundo Cordeiro sobre o Ceará.

são indicativos de um novo filão de pesquisa relativamente negligenciado nas décadas passadas e que vai lentamente se abrindo.10 de Rodrigo Christofoletti a respeito da Enciclopédia integralista dos anos 50. além de memórias e livros auto-celebrativos dos próprios integralistas. Afinal de contas. utilizando estratégias de escrita diversas. duas das áreas de maior interesse para a nova geração de historiadores. A primeira escreve um texto na fronteira entre a história de gênero e as representações fotográficas. Padilha também sugere caminhos para a produção da biografia de Plínio Salgado (o que também tenho tentado fazer) e a memória construída em torno dela. mais do que tudo. como também de outros secundários. como os demais movimentos fascistas. demonstrando. por sua vez. regionais e de simples militantes. por sua vez. por Renato Dotta no seu artigo sobre a relação entre o integralismo e os trabalhadores urbanos em São Paulo. É uma tradição considerar o integralismo. alguns trabalhos sobre Barroso. Reale e Salgado e um ou outro texto sobre líderes regionais. no sentido da existência de uma bibliografia tão ampla que foge da capacidade de administração de um . Parecemos distantes do momento em que teremos que abandonar essa idéia. ainda não chegamos ao ponto de “perda de controle”. e o de Emília Carnevali da Silva sobre Severino Sombra. também foram seduzidos pelos ideais integralistas nos anos 30. análises historiográficas a respeito do integralismo. As bases sociais do movimento são investigadas. as mudanças e continuidades dentro da trajetória da direita nacional no século XX. mas o trabalho de Dotta indica como essa visão tem que ser. Já tínhamos. como tendo a sua base social essencialmente nas classes médias. como ele demonstra. Seria fundamental também que tais ensaios biográficos extrapolassem o período do próprio integralismo. Seu texto. Já o segundo tenta entender a produção literária e a formação ideológica de Plínio Salgado. indicam como esse campo de estudos tem se desenvolvido. pois trabalhadores e operários. fazem. matizada. ou seja. Os artigos de Tatiana Bulhões e Leonardo Padilha também indicam perfeitamente as novas preocupações dos estudiosos do movimento. o das biografias e o das relações entre os líderes integralistas. Os artigos de Renè Gertz e Edgar Serrato. mas numa visão mais histórica e menos determinista. Mas faltam ainda estudos biográficos mais densos não apenas dos três principais líderes. no mínimo. dentro de histórias de vida. Estas estão se tornando mais comuns recentemente e. na verdade.

o presente livro é não apenas um indicativo da vitalidade do campo dos estudos a respeito do integralismo no momento atual como se configura numa excelente contribuição dentro dele. o que é algo a se comemorar. de forma a orientar os que se iniciam no tópico. Mas já estamos num momento em que a massa de livros e artigos demanda textos que os organizem e historicizem. .11 único pesquisador. o que é um bom sinal. Já estamos muito longe do momento em que os estudiosos do integralismo não tinham interlocutores e deviam se resignar ou a debater com os militantes ou a ler e reler os poucos textos disponíveis. Enfim.

fora defendida em 1971. PESQUISAS SOBRE O INTEGRALISMO NA DÉCADA DE 1970 * René E. ocasião em que manifestara simpatia pelo movimento. pois. Plínio Salgado. 6 TRINDADE. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. . São Paulo: DIFEL. não me lembro mais de nenhum detalhe do conteúdo desse comentário sobre a obra. numa possível tentativa de justificação da oportunidade dessas * Professor nos Departamentos de História da PUCRS e da UFRGS. dois anos após o início da presidência do general Emílio Garrastazu Médici. Infelizmente. Deve ter sido importante. Gertz Este pretende ser um depoimento pessoal muito breve sobre meus estudos a respeito do integralismo. uma delas era de Alceu Amoroso Lima. mas. 1974.12 1. neste momento. Se minha memória não está falhando. afinal. ele se tinha ocupado de forma bastante intensa com a AIB nos anos 1930. quando ingressei no curso de mestrado em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). de cujo governo o ex-chefe-nacional da AIB. para ver os comentários que se fizeram naquela época. e tinha como título “A interpretação do integralismo vem do Sul”. dera uma guinada nas suas posições políticas e se tornara um dos críticos mais categorizados do regime militar. Não tenho mais presente nem os textos nem o conteúdo das resenhas mais rápidas publicadas na imprensa sobre o livro de Trindade. e o autor era professor desse curso. Em 1975. havia dito que permitira que os “plinianos” da década de 1930 tivessem chegado ao poder. penso que seria interessante recorrer a essas resenhas. na década de 1970. Hélgio. e quais as eventuais “atualizações” ou vinculações que se estabeleceram com a realidade dos anos 1970. o livro hoje clássico de Hélgio Trindade sobre a Ação Integralista Brasileira (AIB) 6 tinha sido recém publicado. e que eram afixadas no quadro de avisos do curso. Tese de doutorado na Universidade de Paris I. Hoje. especificamente à tese.

o voluntarismo. social e política – levaria a que. 28 e segs. voltar ao status quo anterior à Revolução de 1930 escapariam da classificação de “fascistas”. o que o teria levado a considerar como fascistas pessoas. 15-63 (a crítica ao trabalho de Trindade está nas p. a ser citado a seguir. na qual afirma não enxergar nenhuma utilidade no estudo do integralismo (VASCONCELOS. constituiria tarefa de toda ciência classificar em conceitos cada vez mais distintivos e precisos a realidade material. Dissertação (Mestrado em História). 1978. Assim. Não partilho dessa opinião” (p. no qual dedicou cerca de duas páginas a 9 uma crítica do texto do primeiro. fascistas. o antiliberalismo seria outra dessas características que não pode ser apontada como privilégio do fascismo. mesmo que ele nos informa ter optado originalmente pela idéia de “geração” e passado a preferir.13 pesquisas . grupos e movimentos que apresentavam características que não constituem exclusividade fascista. Gilberto. depois. a predisposição para um profundo engajamento político. seguindo a lógica de Trindade. A ideologia curupira: análise do discurso integralista. na realidade do início da década de 1930. Lembro-me com mais detalhes – e posso consultá-la até hoje – de uma polêmica em que Hélgio Trindade se envolveu com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. ipso facto. Porto Alegre: PUCRS. Este apresentou. Wanderley Guilherme dos. mais tarde. de alguma forma. em 1975. um texto intitulado “Paradigma e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira”. 11). segundo Wanderley Guilherme. em SANTOS. pois – em partindo desse princípio – a própria Aliança Nacional Libertadora deveria ser classificada como tal. A indistinção conceitual anticientífica – já que. São Paulo: Duas Cidades. 8 A palavra “onda” encontra-se num trabalho de Rodrigo Santos de OLIVEIRA. pode-se dizer que Trindade foi acusado de não distinguir entre uma série de conceitos. São Paulo: Brasiliense. Grosso modo. governos fortes não seriam. . p. apenas aqueles que defendiam de forma entusiástica uma reconstitucionalização imediata para. Fernandes escreveu: “O que me põe de quarentena [em escrever o prefácio] é o assunto. para comparar tudo isso com a direção que tomaram as 8 várias “ondas” posteriores de pesquisa sobre a AIB. o termo “fase” (“Perante o Tribunal da História”: o anticomunismo da Ação Integralista Brasileira [1932-1937]. 1979). 30-31). Hoje está na moda dizer-se que se deve estudar o integralismo. 9 Esse texto foi publicado. na apresentação ao trabalho de Gilberto Vasconcelos. 2004 p. também não constituiria característica exclusivamente fascista. Ordem burguesa e liberalismo político. 7 7 Essa idéia é sugerida pela observação feita por Florestan Fernandes.

por essa época. destacando que fora interpretado de forma totalmente equivocada por Wanderley Guilherme.: Pilger-Druckerei. 12 HUNSCHE. em textos que escrevera ainda antes da fundação da AIB. São Paulo: DIFEL. 1974. Speyer a. Karl-Heinrich. o livro de Hélio Silva intitulado 1938: 11 Terrorismo em campo verde .14 Hélgio Trindade respondeu a essa crítica. O livro de Hunsche. 1940. Porto Alegre. na realidade. atribuiu a ele. 14 BROXSON. O trabalho não conteria uma classificação simplória do integralismo como fascismo. A República Nova (1930-1937). Nicolau de Flue. Robert M. Também não conhecia a tese de doutorado de Elmer 14 Broxson. Revista do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (da UFRGS). em inglês. 1938: Terrorismo em campo verde. que. mesmo que destacasse diversas características que o 10 aproximariam desse “tipo” de regime. entrementes. Alguns anos depois. defendida em 1972 nos Estados Unidos. a elaboração de qualificações sobre aquilo que seria o fascismo que. 1934-1938. Trindade. 1980. 10 TRINDADE. viria a descobrir outra tese defendida na Alemanha naquela época e também publicada lá (em português): Gut. praticamente. Não tive acesso. no qual a tese de Trindade é inserida. 11 SILVA. Eu era um simples aluno de mestrado e não tinha informações sobre outras pessoas que estivessem realizando estudos sobre o integralismo. Stuttgart/Alemanha: Kohlhammer-Verlag. em termos benevolentes. Edgard. Elmer R. ao livro de Robert Levine sobre O regime de Vargas. 128-134. Hélgio. Hélio. 135-143. eram qualificações que o próprio Plínio Salgado atribuíra ao fascismo. 13 LEVINE. Plínio Salgado. mas que só seria publicado no Brasil em 1980. cujo original. o resumo de algumas partes do trabalho de Trindade (Carone. e. naturalmente. p. Texto e contexto: nota crítica a alguns aspectos do estudo “Paradigma e História” de Wanderley Guilherme dos Santos. tivera acesso à tese de doutorado de Carlos 12 Henrique Hunsche. 1971. era de 1970. O regime de Vargas: os anos críticos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. na Alemanha. 1932-1938. Der brasilianische Integralismus. p. Essa mesma revista publica um artigo de Juan Lins sobre “O integralismo e o fascismo internacional”. a que o historiador tivera acesso antes da publicação. talvez como um dos primeiros pesquisadores brasileiros. o creador do integralismo na literatura brasileira. Aquilo que se encontrava em Edgard Carone era. ano IV. Lera. 194-231). por exemplo. 1938. Rh. no contexto dos estudos internacionais sobre os fascismos (p. e que possui um capítulo dedicado ao 13 integralismo. Outros trabalhos de que só tomei conhecimento mais tarde – mesmo . em Porto Alegre. 1972. 1976. Plínio Salgado and Brazilian integralism. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. defendida na década de 1930. Tese (Doutorado em História) Washington: The Catholic University of América. está traduzido para o português e pode ser obtido no Centro de Documentação sobre a AIB e o PRP.

quero dizer que meu ingresso no campo de estudos sobre o integralismo não se deu a partir de uma batalha nas barricadas teóricas e metodológicas em que se tentava decidir sobre o alfa e o ômega do movimento e.]. não vinha decidido a transformar esse tema em interesse central de minha atividade de pesquisa. nº 2. Fui muito bem recebido. Nelas. Madison. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. mas no final da longa conversa. que dei uma contribuição de algum valor. se refletem a discussão sobre o caráter “mimético” ou não do integralismo. . 15 respectivamente. Mesmo assim. 1972. In: FAUSTO. o escritor me deu o seguinte conselho: “Para o meu bem [de Dyonélio que já existissem naquele momento – foram: HILTON. 16 Um comentário de Hélgio Trindade sobre esses trabalhos pode ser encontrado em seu texto intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30”. A modéstia de minhas pretensões pode ser inferida do próprio fato de que não ingressei no mestrado com a decisão tomada de que faria uma dissertação sobre o integralismo. em 1978 e 1979. Sempre tive muita consciência de que me inseria numa discussão teórico-metodológica de menor abrangência e que mordia esse tema apenas pelas beiradas. Tinha a intenção de dedicar-me ao estudo da Aliança Nacional Libertadora (ANL) no Rio Grande do Sul. Chasin e de Gilberto Vasconcelos. hoje em dia. e também sobre os interesses daquele momento 16 subjacentes ao estudo desse fenômeno do passado. penso. IX. 1932-1938. 1981. tivessem despertado meu interesse e constituído uma das motivações para meu ingressado no mestrado em Ciência Política da UFRGS. Mesmo que as matérias publicadas por alguns órgãos da então nascente “imprensa nanica” sobre o estudo de Hélgio Trindade. e das quais só tomei conhecimento depois da publicação. Williams. em 1935. nº 3.15 Talvez tivesse entendido melhor a polêmica entre Wanderley Guilherme e Hélgio Trindade se soubesse das teses então em andamento de J. 54. VASCONCELLOS. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda. Com tudo isso. 10].. Luso-Brazilian Review. por tabela. cit. p. op. 304-316. São Paulo: DIFEL. procurei o escritor Dyonélio Machado. Margaret TODARO. 1978. História Geral da Civilização Brasileira [vol. sobre a possibilidade de classificálo entre os fascismos. ainda antes de sua edição em livro. 15 CHASIN. Depois de ter lido a então escassa bibliografia geral sobre esse assunto e de ter reunido algumas poucas informações a respeito de sua atividade no estado. G. "Integralism and Brazilian catholic church " The American Historical Review. Stanley E. presidente da ANL. vol. eventualmente até sobre os destinos da humanidade. Washington. vol. J. Boris [dir. Ação Intergalista Brasileira: fascism in Brazil. 1974.

Comecei a fazer um levantamento sistemático do conteúdo do jornal. de novembro de 1936 a novembro de 1937. p. e todas elas me diziam que a história contada como líquida e certa – e na qual também eu acreditara até 19 então – não era tão líquida e certa assim. Com a negativa do ex-presidente da ANL em colaborar com informações. por não dominar o alemão. no final do período. Como o título indica. no decorrer do semestre. A conversa com Dyonélio aconteceu no início de 1976. ao lado de Caxias do Sul – típico de colonização italiana –. os avanços feitos na sua pesquisa. Dissertação (Mestrado em História). município que. e no primeiro semestre desse ano me matriculei numa disciplina sobre “Pensamento político brasileiro no século XX”. mas que.16 Machado] e para o teu bem. e sua expansão nas regiões de colonização alemã do sul do Brasil. que deveria desembocar. tratava-se de um jornal em língua alemã. esquece essa história”. durante suas pesquisas para a tese. . 1976. In: Anais do 2º Simpósio de História da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul. não se confirmavam na leitura levou-me a sistematizar todos os conteúdos – mesmo aqueles que não se referiam a aspectos doutrinários. num total de exatas 52 edições semanais. Relatou que. ministrada por Hélgio Trindade. tive de 17 abandonar esse projeto. não pudera analisar o conteúdo. Porto Alegre: PUCRS. interessava mais o conteúdo doutrinário. editado em Novo Hamburgo. 18 Caxias do Sul elegeu três vereadores integralistas. mas o fato de que notei desde os primeiros números que algumas opiniões preconcebidas que eu tinha sobre o integralismo. Paralelamente aos conteúdos desenvolvidos pelo professor. de alguma forma. todos os participantes do seminário deveriam escolher um assunto que se enquadrasse. 143-174. 17 Meu projeto só foi concretizado quase 20 anos depois por Diorge Alceno KONRAD (1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul. São Leopoldo. editado em um dos mais típicos municípios de colonização germânica do Rio Grande do Sul. conseguira o jornal com a família proprietária da gráfica em que fora impresso. 1994. elegera um vereador integralista nas eleições 18 municipais gaúchas de 1935. portanto ao “pensamento” integralista. na sala de aula com um volume encadernado do jornal integralista Der Kampf. Acabei recorrendo também a algumas outras fontes. nessa temática e ir apresentando. 19 O paper semestral está publicado sob o título “O integralismo e os teutobrasileiros no Rio Grande do Sul”. e por isso sugeriu que eu o fizesse. Como eu demorasse um pouco para definir o tema e a fonte a que me dedicaria. Hélgio apareceu. certo dia. num paper semestral. Para o seminário.

não puderam ser comprovados. completamente desinteressados e apáticos em relação à vida política brasileira. e como se supunha como evidente que o próprio nazismo deveria estar promovendo a expansão da AIB no Brasil. sem se nacionalizar. e com as populações de origem imigrantista e os fascismos europeus. e fundamentais no estabelecimento da lógica que supostamente explicaria essa correlação. talvez valesse a pena citar seus créditos. mas outros aspectos pressupostos como líquidos e certos. teriam resistido de forma tenaz e sistemática a uma integração política e cultural na realidade brasileira desde que chegaram aqui. em grande parte. porém. tendo sido defendida em outubro 20 daquele ano. Estaria tudo claro. de que falarei a seguir –. . Hélgio Trindade havia escrito que não abordara três temas que considerava merecedores de uma investigação. principalmente no sul do país – por tudo isso. seu irmão de fé.17 E qual era essa história? Em resumo. 1977. eu tinha um tema para minha dissertação. pois seu conteúdo não foi totalmente integrado na tese: O integralismo e os teuto-brasileiros no Rio Grande do Sul: contribuição para a interpretação de um fenômeno político controvertido. Assim. Ela ficou pronta em 1977. mantendo-se “enquistados” em território nacional. por exemplo. muitas vezes sem saber que eram brasileiros. e como eu estava à procura de um tema de dissertação – depois do abandono da idéia de me dedicar à história da ANL – e ainda. alguns dados sobre a atividade 20 Considerando que ela não foi publicada – mesmo que seu conteúdo tenha sido aproveitado. Como o integralismo era um partido nos mesmos moldes do nazismo alemão. a saber: a relação do integralismo com a Igreja Católica. Como minha pesquisa semestral no jornal e em algumas outras fontes a que recorri. mais ou menos a seguinte. sobretudo no sul do Brasil. num verdadeiro Estado dentro do Estado. ou seja. sem aderir ao Brasil. a adesão relativamente grande de alemães e descendentes era considerada algo absolutamente normal e óbvio. e a situação não demandaria qualquer explicação. e com a atenção voltada exclusivamente para tudo aquilo que acontecia na Alemanha. com as forças armadas. As pesquisas me levaram a não poder negar que o integralismo tivera um sucesso maior nas regiões de colonização alemã e italiana. como na apresentação do seu trabalho. havia uma evidente correlação estatística entre a densidade da influência alemã (e italiana) na população e a densidade da presença integralista. Nessa perspectiva. Os alemães e seus descendentes. Porto Alegre: UFRGS. indicava que nem tudo era tão absolutamente claro. na tese de doutorado. a partir de 1824. a rigor nem haveria necessidade de explicar qualquer coisa.

não conseguiram invalidar uma tendência geral que dificultava em muito a equação corriqueira. intelectuais. . por sua vez. Essas exceções. de que os descendentes de alemães constituíram um “quisto étnico”. o governador Flores da Cunha mantinha um relacionamento muito estreito e cordial com a representação diplomática do governo nazista e era assíduo nas festas dos militantes da suástica. Nas Ciências Humanas. 54. Também ficaram muito patentes as profundas reservas que o movimento germanista – o qual. enquanto sua polícia batia nos integralistas – fossem de origem alemã ou não. teria conduzido. teria escancarado as portas ao nazismo.). e os atores políticos contemporâneos faziam uma clara distinção entre nazistas e integralistas – coisa que nas interpretações correntes não acontecia. Imgart Grützmann também mostrou que ao menos um almanaque germanista. pelo fato deste defender um nacionalismo que tinha na fusão racial e na constituição de um melting pot brasileiro um dos seus grandes objetivos. em função da total identidade de interesses e de ideologia entre ambos. podia ser caracterizado como um personagem bastante “germânico”. vereador eleito nas eleições de novembro de 1935. O almanaque (Kalender) na imigração alemã na Argentina. que eu não consultei na época. Imigração e imprensa. el al. p. e esse aspecto ainda era reforçado pelo fato de que germanistas luteranos enxergavam no integralismo um movimento muito influenciado pelo catolicismo. Porto Alegre/São Leopoldo: EST/Instituto Histórico de São Leopoldo. Imgart. naturalmente. ao integralismo. de forma que o encaravam com muita suspeita. Wolfram Metzler. o qual. podendo contrariar tendências gerais ou condicionamentos materiais. Essa equação. editado no interior de Santa Cruz do Sul. o objeto de estudo não é inerte e tem vontade própria. o maior líder integralista de Novo Hamburgo. defendia a prática da segregação étnica dos descendentes de alemães como programa – tinha em relação ao integralismo. culturais. apesar de católico. sociais. era muito mais favorável à AIB do que mostraram as análises dos demais almanaques de língua 21 alemã arrolados em meu trabalho. Nesse sentido. por sua vez. havia exceções. Pode-se citar um exemplo: sem dúvida. concretizado na força do movimento “germanista”. no Brasil e no Chile. 2004. havia muitas décadas. que. Martin N. porém. econômicos. Evidentemente. In: DREHER.18 nazista no Brasil indicavam que. (orgs. no mínimo. encontrável tanto na bibliografia quanto no senso comum. 21 GRÜTZMANN. o partido nazista não apoiou de forma irrestrita a difusão da AIB entre os teuto-gaúchos. O mesmo acontecia com as autoridades do interior do estado. Der Heimatbote.

o levantamento dos nomes dos integralistas mostrou que tinham características socioeconômicas e etárias muito específicas: eram jovens e sua trajetória de vida mostrava uma tendência para a ascensão social. Muitas atitudes que para meu orientador poderiam parecer autoritárias. criado em 1927. O problema da hipótese de que a variável “educação autoritária” poderia explicar a simpatia pelo integralismo consistia no fato de que. meu orientador sugeriu que deveria procurar a explicação na “educação autoritária” que essa gente havia internalizado. a toda hora. não deixei de ver alguns problemas na minha posição. uma certa rigidez na observação de algumas regras da convivência cotidiana. na época. Ao consultar a documentação da prefeitura. constatei que havia ali um movimento que vinha desde a virada da década de 1930 – e que se estendeu Estado Novo a dentro – lutando pela desanexação de São Leopoldo para ser anexado a Novo Hamburgo. e cuja sede se localizava muito mais próximo do que a sede do primeiro. Nesse distrito se registrou uma densidade eleitoral integralista muito maior do que no restante do município. nesse sentido. que independe totalmente da variável étnica. essa característica . o caso do distrito de Campo Bom. como. socioeconômicos. Em resumo: não embarquei nessa proposta. o integralismo com seu descompromisso com as oligarquias tradicionais foi favorecido. aparentemente. Além disso. Evidentemente. Claro. perfeita. em contradições. às vezes nos distritos.19 que. integrando o município de São Leopoldo. Temos aqui uma explicação política universal. por exemplo. Diante das evidências de que a variável étnica não podia servir de forma tão direta quanto sempre se imaginara para a explicação da difusão integralista entre os “alemães”. Como. metodologicamente. e até geracionais. E. em que havia uma densidade maior de integralistas havia um problema político local não resolvido. Em primeiro lugar. O problema começava pela definição daquilo que é uma “educação autoritária”. cognominado “berço da imigração alemã” no Rio Grande do Sul. refletia uma lógica absoluta. A recíproca também era verdadeira – eu não tinha como provar que a variável étnica não tinha absolutamente nada a ver. ficou muito claro que naquelas localidades. para outros poderiam constituir imperativo de qualquer convivência democrática. aparentemente. era difícil testá-la com instrumentos minimamente intersubjetivos. a oposição oligárquica não podia ou não queria ceder a essa reivindicação. Citei. dei destaque a fatores políticos. Mas eu simplesmente defendia – e continuo defendendo – a tese de que ela é dispensável para explicar a presença integralista nas regiões de colonização alemã. na realidade empírica tropeçava.

as descobertas feitas em todas essas fontes confirmaram as conclusões básicas da dissertação. germanismo e suas eventuais ligações com o integralismo tinham sido indiretas. 1931 bis 1939. resolvi continuar com o tema envolvendo nazismo. no Rio Grande do Sul. Jürgen. A outra frente nova era sugerida por uma informação encontrada no decorrer da pesquisa para a dissertação: nas eleições municipais de novembro de 1935. tinham conseguido eleger oito prefeitos e 72 vereadores. germanismo e integralismo. acrescentei um número considerável de informações àquelas 22 Estudos posteriores ao meu têm introduzido algumas pequenas correções àquilo que escrevi. essas regiões apresentavam uma maior dinâmica econômica que as demais regiões. Konflikt und Anerkennung: die Ortsgruppen der NSDAP in Blumenau und in Rio de Janeiro. 1998. . Estava aí um problema: como explicar essa enorme diferença no sucesso alcançado nos dois estados? Esses dois 22 aspectos vieram a constituir o plus da tese em relação à dissertação. De uma maneira geral. os integralistas tinham conseguido eleger quatro vereadores. Berlim: Technische Universität Berlin. bibliografia especializada sobre o nazismo etc. Na dissertação de mestrado. MÜLLER. isto é. nesse sentido. Um passo adiante em relação à dissertação. Certo. buscando espaço no mercado político. Berlim: Freie Universität Berlin. Chile und Mexico. Die Auslandsorganisation der NSDAP in Brasilien im Rahmen der deutsch-brasilianischen Beziehungen. e assim se juntavam restrições de mercado político com maior presença de setores em transição social. portanto. nas eleições municipais de março de 1936 em Santa Catarina. Tese (Doutorado em História). Pessoas assim existiam também em outras regiões. Mas nas regiões de colonização durante toda a Primeira República houvera de parte do governo uma restrição política. E. Suttgart: Verlag Hans-Dieter Heinz. 1991 [dissertação de mestrado]. restringindo. Dawid D. Nationalsozialismus in Lateinamerika: die Auslandsorganisation der NSDAP in Argentinien. mas nenhum deles encontrou algo completamente diferente (BARTELT. arquivos partidários e arquivos de organizações que se dedicavam aos assim chamados “alemães no exterior”. houvera uma presença maciça de prefeitos e funcionários vindos de fora dessas regiões. seriam. Tendo obtido uma bolsa para fazer o doutorado na Alemanha. o mercado político para os cidadãos locais. em contrapartida. Brasilien. portanto. imprensa alemã e imprensa de língua alemã do Brasil (à qual eu não tivera acesso aqui). MORAES. Luís Edmundo de Souza. as fontes alemãs sobre nazismo.20 não era privilégio das regiões de colonização. buscadas em escassa bibliografia secundária. as pesquisas em fontes alemãs – arquivos do ministério das relações exteriores. 2002.

Outros indicadores de “integração” apontaram na mesma direção. Um avanço mais significativo. incluindo sua defesa diante dos perigos representados por uma eventual interferência do Estado. que no Rio Grande do Sul tiveram um papel muito importante na manutenção da “germanidade”. em Santa Catarina apareciam desestruturadas. Uma análise da presença de “alemães” em cargos políticos na Primeira República mostrou que. No que tange especificamente ao . ao menos como titular –. mostrei. mensuráveis. Uma série de referências sobre as regiões de colonização desse estado indicava que suas populações de origem alemã estavam muito mais segregadas e. eram. aparentemente. trouxeram as informações específicas sobre Santa Catarina. porém. se no Rio Grande do Sul os sobrenomes dessa origem nos cargos de prefeito não eram totalmente ausentes. estaduais e federais. no mínimo. convincente e inquestionável. não a confirmava. Mas mais uma vez a empiria. Outra vez se estava diante de uma explicação muito plausível e. o quadro era completamente diferente: os sobrenomes dos prefeitos dos principais municípios típicos de colonização alemã só excepcionalmente não eram alemães. na época. escassos. sem uma presença dominante na sociedade. no mínimo. em Santa Catarina apresentavam-se com o único objetivo de fornecer lazer. portanto. ou a tentativa de verificação dessa visão através de dados mais objetivos. que as do Rio Grande do Sul. o primeiro artigo da Liga de Sociedades Germânicas de Joinville dizia que sua função básica era promover 20 festas anuais. não-integradas. Em Santa Catarina. As associações recreativas e culturais que aqui tinham tido uma função importantíssima na manutenção dessa mesma “germanidade”. por exemplo. Lá se falaria um alemão ainda muito mais “puro” que aqui. Nesse sentido. defendendo seus interesses diante das autoridades municipais. Disso decorreria uma explicação relativamente lógica para a presença mais densa do integralismo. mal administradas. Como medir se os descendentes de alemães de Santa Catarina eram “mais alemães” que os do Rio Grande do Sul? Os indícios antes indicavam que as igrejas. em Santa Catarina vários cidadãos de sobrenome alemão ocuparam esse cargo desde o início da República. Se no Rio Grande do Sul o primeiro candidato a governador com sobrenome alemão só veio a existir em 1950 – e se até 2005 nenhum cidadão de sobrenome alemão ocupou esse cargo. que se a Liga de Sociedades Germânicas de Porto Alegre dizia no primeiro artigo de seus estatutos que sua função era a de congregar todos os “alemães” de Porto Alegre e também do interior.21 que já apresentara ali. se não impunha um veto total à explicação corrente. e tudo seria muito mais “alemão”.

Diário de Pernambuco. às vezes. E. também lá tudo pode ser explicado através de variáveis muito racionais e universais. Além disso. A tese só foi publicada em 1987. um único resenhista. Recebi recortes de jornais como Cidade de Rio Claro (SP). para as oligarquias tradicionais de origem não-alemã. correspondentemente à maior importância econômica relativa das regiões de colonização de lá. Correio Popular (Campinas. mas nos trechos que refletiam comentários mais pessoais dos comentaristas transpareciam suas concepções muito tradicionais. Correio do Livro (UnB. de forma que meu texto. Por isso. a assim chamada “Campanha”.22 integralismo. A rigor. Pelo contrário. mais de cinco anos depois de concluída. Pesquisas posteriores à minha confirmam cada vez mais essa assertiva. algo parecido não acontecia em Santa Catarina há muito tempo. dentre aqueles de cujo texto tomei conhecimento – por isso peço desculpas se estou . também naquele estado. SP). a parte sul. explica a existência de maiores clivagens internas a elas. O Estado do Maranhão. aberto – de longa data entre as regiões de colonização alemã e as regiões tradicionais. o fato de que em Santa Catarina a Revolução de 1930 representou uma troca dos detentores do poder estadual. Brasília). Isso gerou um conflito latente – e. portanto. inclusive constatei que grande parte das lideranças integralistas das regiões de colonização alemã estava casada com mulheres de origem não-alemã. mas foi completamente ignorada pela imprensa de ambos. não fora assimilado como “revisionista”. A maioria pareceu ter lido apenas o release da editora. O que efetivamente era diferente era a “integração” econômica dos descendentes de alemães. explicações transcendentais. ainda era economicamente a de maior peso. como conspiração nazista. os “alemães” apareciam com maior visibilidade do que no Rio Grande do Sul e a “colônia” era tida como mais alemã. a parte “tradicional” do estado. O Estado do Paraná. Em resumo. por sua vez. na verdade. portanto. Se no Rio Grande do Sul. não conseguem explicar a maior densidade integralista. Teve uma repercussão relativamente boa na imprensa ao norte dos dois estados aos quais se dedicava. também se pode explicar a presença política mais intensa. tivemos um pós-1930 muito mais conflituoso que no Rio Grande do Sul. metafísicas. do que nas do estado gaúcho. que falava de uma interpretação nova. Essa importância econômica e política. educação ou cultura política autoritária etc. Mas a impressão que tive foi a de que os resenhistas não leram o texto ou o leram e não o entenderam. até os anos 1930.

vol. lhe responderia que. a “preço de banana”. algum comentário com enfoque diverso –. tão pouco excitante! Em segundo lugar. uma besta nazista. não atingiu um público maior. por um lado. no 355. e na Feira do Livro de Porto Alegre. porém. É claro que ambos não podiam ter gostado dessa minha conclusão. apesar de ter recebido certo reconhecimento entre especialistas. que escreveu um comentário de duas páginas muito 23 pertinentes para a revista Senhor. 99. estatisticamente presente na evidente correlação positiva entre densidade de população com origem alemã (e italiana) e densidade de sucesso do integralismo. integralista. no sentido de ter insistido demais que a variável étnica não tinha absolutamente qualquer importância na análise e interpretação do integralismo nas regiões de 24 colonização alemã do sul do Brasil. O livro. menos uma história espetacular. João Fábio Bertonha insinuou uma pequena crítica – ao lado de rasgados elogios – por eu ter exagerado. Eu. o livro narra tudo. Um Reich de poucos súditos. 2000. Between Sigma and Fascio: an analysis of the relationship between Italian fascism and Brazilian integralism. metodologicamente. mas todos os autores que tentaram uma explicação – sobretudo exclusiva – a partir dela 23 CYTRYNOWICZ. em 2004. É tudo tão natural. 60-61. de 12 de janeiro de 1988. meu texto não podia agradar nem a gregos nem a troianos. Mas aos “germanófobos” mostrei que pelo simples fato de ter um sobrenome alemão um cidadão não era. Senhor. a utilização e a importância dessa variável. Ela está matematicamente. p. São Paulo. . Roney. leu o livro com atenção e o entendeu perfeitamente. Se tivesse descoberto grandes conspirações contra a nacionalidade. Madison. minhas pesquisas mostraram que é muito difícil controlar. certamente teriam sido comentados em muitos jornais e em muitas revistas.23 desmerecendo. que existiram integralistas ferozes. Mas. chegou a ser colocado nos balaios de liquidação. 37. nº 1. Penso que – além de eventuais problemas de distribuição – essa pouca repercussão entre um público mais amplo se deve a dois fatores básicos: em primeiro lugar. que as grandes personalidades “alemãs” nem sempre eram benquistas entre a população etc. de emocionante. enormes arsenais clandestinos e coisas do gênero. Aos “germanistas” mostrei que existiram nazistas agressivos. 24 BERTONHA. O autor tem razão: como sugere ao analisar o integralismo entre os “italianos”. ou ignorando. minha história não contém nada de especial. p. no início de 1988. ou seja lá o que fosse. essa variável não pode ser ignorada de todo. foi Roney Cytrynowicz. necessariamente. Sua edição continua encalhada. João Fábio. Luso-Brazilian Review.

e penso ter mostrado de forma convincente as dificuldades em que ela se emaranha. porque permitiram descobrir aspectos da realidade histórica não só no campo restrito do próprio movimento. Rodrigo de Oliveira. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado. eventualmente. e. mesmo que alguns estudos “totalizantes” de bom nível tenham sido produzidos após a década de 1970 – penso em trabalhos como o de Ricardo 27 Benzaquen de Araújo. Eu tinha diante de mim uma bibliografia que apontava numa direção. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. me entendo como um dos precursores.24 invariavelmente incorreram em contradições insolúveis. Portanto. essa linha de trabalho foi a que mais prosperou. 1988. que. 26 “A dissertação de Gertz desencadeou uma onda de estudos regionais” (op. . justamente para deixar o claro possível onde estavam as divergências. por isso. de fato. p. tentei uma explicação alternativa. O que admito é que. ao declarar na citada introdução ao livro de Gilberto Vasconcellos que não via qualquer importância no estudo do integralismo em si. justamente por tentar derrubar uma explicação profundamente internalizada. pois não imagino que todos aqueles que se dedicaram. mas não como inspirador. a partir deles. um livro mais recente de minha autoria sobre a política sul-riograndense mostrou que as descobertas sobre aquilo que aconteceu nas regiões de colonização alemã nos anos 25 25 Talvez tenha algum sentido lembrar aqui um exemplo fictício que costuma ser utilizado pelos estatísticos para dar um exemplo de falsa correlação ou correlação espúria: o fato de que a absoluta maioria das pessoas que adoecem de câncer do pulmão seja fumante não prova que o mal vem do fumo – o câncer pode derivar do fósforo com que o fumante acende o cigarro. mas também muitas coisas que se localizam nas suas adjacências. Nesse sentido. meu tratamento da questão foi ideal-típico.. me classificou como pioneiro e inspirador daquilo que chama de estudos regionais sobre o 26 integralismo. desde os anos 1980. cit. muitas vezes. em trabalho recente. me fez sentir a necessidade de exagerar em sentido oposto. tenham optado por essa linha. Por outro lado. Certamente se trata de um ato de benevolência de um orientando para com seu orientador. a isso que ele chama de “estudos regionais” tenham tido conhecimento dos meus trabalhos e. revelaram-se mais úteis do que as grandes sínteses. Ricardo Benzaquen de. Mas também penso que os “estudos regionais”. fiz a crítica dessa bibliografia. Talvez os “estudos regionais” sobre o integralismo tenham tido maior difusão em função do “balde de água fria” que Florestan Fernandes derramou sobre os pesquisadores. 27 ARAÚJO. sem exceção. 35).

as informações obtidas nesse livro sobre a vida política em Novo Hamburgo nos anos 1920.25 1930. etnia e religião nos Rio Grande do Sul dos anos 1920. firmaram de forma definitiva minha convicção de que as explicações que dei para a votação integralista em 1935 naquele município 28 estavam absolutamente corretas. por exemplo. René E. Inversamente. 28 Gertz. abria perspectivas muito interessantes para olhar para os anos anteriores. O aviador e o carroceiro: política. 2002. Porto Alegre: EDIPUCRS. .

ímpeto por classificação. estabelecer os contornos das gerações e períodos de continuidade ou renovação. por várias razões (estabelecimento de uma sensação de segurança. estabelecendo estratégias de aproximação construídas a posteriori. 29 Mestre em História pela PUC-RJ. como a definição dos seus antecedentes como “pré-modernistas”. etc. indica um cuidado profícuo com a pesquisa. Enfim. as soluções resultavam. Houve tentativas de equacionar o problema. quais foram as motivações dentro dos respectivos contextos? A procura de uma filiação para a década que se iniciou em 1920 foi questão premente. por exemplo. 29 Leonardo Ayres Padilha Grosso modo. constituição de esquemas explicativos. ou ainda. desvendar influências. e nos que seguiram. É neste sentido que surgem as indagações: o fenômeno que desestabilizou a vida cultural brasileira nos anos 20. com a justificativa de que este período foi radicalmente distinto de tudo o que se passara até então na vida cultural brasileira. independente da resposta à questão anterior.26 2. os argumentos dos intelectuais com o intuito de organizá-los numa corrente de pensamento ou definí-los a partir de um conjunto de referências comuns – como. sejam elas de cunho historiográfico. crítico ou sob a forma do ensaio. . ou ao menos passavam. ORIGENS DO INTEGRALISMO EM DEBATE pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20.). teve razões internas ou externas? E. Não que isto seja irrelevante. Daí a preocupação sistemática em formular os “ismos”. Não é diferente o caso das avaliações do modernismo brasileiro. ao contrário: situar o objeto de estudo. a história do pensamento social brasileiro procura estudar. tentando compreendê-lo a partir de um horizonte particular. por uma definição esquemática do ambiente intelectual em que se dava o processo. nomeando-o de movimento “pós-parnasiano”. um contexto mental específico. Elucidar a especificidade de um autor à luz do diálogo travado no interior de um grupo ajuda o entendimento das relações produzidas durante a construção do seu argumento.

e. Com raras exceções. é. uma vez analisado o movimento do sigma. ambíguos e até mesmo constituem-se por meio de contradições próprias do processo de auto-formação. são oriundos de uma carência de pesquisas: (a) a questão da formação ideológica de Salgado. Essa identificação imediata aparentemente soluciona de uma única vez dois tipos de problemas que. os anos 30. . que os escritos do autor são classificados como produto de um pseudo-modernismo.. a polarização política corresponderia à ideológica. ao serem concebidos. mesmo no que se refere às origens dos sistemas de pensamento que. se atribua ao integralismo um caráter direitista. contudo. cuja referência se encontra na bibliografia. Esta interpretação foi objeto de minha dissertação de mestrado. os rumos tomados pelos que se debruçaram sobre a trajetória intelectual de Plínio Salgado antes da fundação da Ação Integralista Brasileira (1932) eram norteados por uma associação quase automática entre a produção do autor anterior ao surgimento dos camisas-verdes e os manifestos integralistas nos quais se transformaram.27 Não é por acaso então que a década posterior. construir um outro leque de opção a serem explorada. i. mesmo que durante a investigação as evidências porventura apontem para a necessidade de se tomar um outro caminho. grande parte de suas obras a partir dos anos 30. na medida deste 30 trabalho. a análise é baseada numa analogia direta e artificialmente construída a partir de posições políticas e 30 Uma das opções para se entender a trajetória de Plínio Salgado antes da fundação da AIB. e (b) embora. a tendência das interpretações segue o mesmo caminho. tendo em vista sua “secundária” contribuição ao debate travado na década anterior. Como as correntes políticas se definiam com mais clareza. em geral são fluidos. O trajeto é o oposto: “justifica-se” (novamente a posteriori) o caminho político-militante escolhido por Plínio Salgado. fica fácil (mas forçoso) enxergar o seu casulo oculto. provocava uma percepção ainda mais engessada. na verdade. como ele próprio diz. Assim. porém já constituído dez anos antes. é a inserção deste autor no contexto a que ele efetivamente pertenceu: o do movimento modernista. não erroneamente.e. em 1932.. equivocadamente. É deste problema que este texto se propõe a tratar: ao se pensar esquematicamente a formação teórica do integralismo – buscando no passado de seu líder uma ideologia que já se apresentasse como semente do anauê – a interpretação fica comprometida até o fim com essa versão. i. Os argumentos que se seguem tentam elencar alguns problemas que surgiram para quem optou conscientemente ou não por essa via e.

é aquela associação com o seu futuro integralista que ocupa lugar principal. a maioria das análises sobre o pensamento modernista do autor de Discurso às estrelas se orienta pelo caminho que ele traçou nos anos 30. Ideologia e mobilização popular. É neste sentido que. a tese de Vasconcellos não delimita uma diferença. p. assim. Ideologia curupira: análise do discurso integralista. ao contrário. 1985. São Paulo: Brasiliense. São Paulo / Belo Horizonte. o faz procurando verificar as relações causais entre seu trabalho como redator do Correio Paulistano – que era o órgão oficial de imprensa do Partido Republicano Paulista (PRP) –. in M. e. às vezes consultando quase que exclusivamente os escritos do próprio Plínio Salgado. desde o “início”.. 1979. 1999. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo híper-tardio. 32 CHASIN. nas poucas vezes em que se refere à trajetória de Plínio Salgado na década anterior a 1932. a 32 associação é bem-vinda. Plínio Salgado somente é pensado especificamente como integrante da renovação estética de 1922 de maneira específica pelos “manuais” de história literária. Maria Sylvia de Carvalho. i. para “confirmar” a presença. 33 CHAUÍ. a não ser de datas. bem como todo o contexto sociopolítico brasileiro. O espaço reservado ao exame do Plínio pré-1930 é configurado como “véspera do movimento”. se colocam as obras aqui brevemente citadas: (a) o 31 livro de Gilberto Vasconcellos constrói uma esquema que. Chauí & FRANCO. sem a pretensão de esgotar a totalidade das referências. “Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira”. a eclosão da Revolução de 1930 e a fundação da Ação Integralista Brasileira. Paz e Terra: Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. o autor se atém a inúmeras repetições através de exemplos. quando o modernismo já entrara em nova fase. Gilberto. Ad Hominem / Una. Rio de Janeiro.e. (b) já no texto de José Chasin. no que diz respeito às interpretações históricas. . Guardadas as devidas proporções. José. (c) 33 Marilena Chauí compreende o integralismo quase que unicamente sob a dinâmica da luta de classes. 2 ed. do argumento integralista. Na verdade. Marilena.17-149. por conta de uma combinação entre dependência econômica e cultural e sentimento telúrico. 31 VASCONCELLOS. faz a ideologia integralista já estar claramente presente – como tal – no discurso modernista de Plínio Salgado. embora bem construída. entre os contextos das duas décadas no que diz respeito aos argumentos do autor em questão. este raciocínio é ainda mais nítido.28 ideológicas que são transportadas imediatamente para o âmbito da pesquisa – o que certamente não é um bom ponto de partida.

35 MORAES. a questão é da construção de sentidotemporal para a “história de vida” e. Rio de Janeiro: FGV. 1988. como contraponto. a partir daí.29 Alheios a esse desenvolvimento. 37 Giovanni Levi faz um comentário sobre esse raciocínio anacrônico numa perspectiva crítica aos próprios historiadores. o relato pretende ser versão acabada. No entanto. o compreende na dinâmica do movimento modernista. Apesar da obra de 34 ARAÚJO. nunca foram sequer imaginados. e ainda o texto de Eduardo Jardim de 35 Moraes onde. evoca-se agora o livro que talvez seja o mais completo sobre o fenômeno integralista. de alguma maneira. Ver: LEVI. As análises que se preocupam em estabelecer nexos diretos entre os momentos avaliados se caracterizam por um argumento em que. motivos. 2 ed. Usos e abusos da história oral. Rio de Janeiro: Graal. ajuda a compreender como se desmembrou o argumento de Plínio Salgado nos anos 30. embora não trate do período aqui estudado. com o intuito de se introduzir a discussão. 36 TRINDADE. e até histórias inteiras) para a 37 elaboração de um fio que liga os mais diversos episódios .167-82. 1998. Hélgio. o argumento desenvolvido neste trabalho: entende-se a produção modernista de Plínio Salgado como prólogo à sua atividade política e militante. Ricardo Benzaquen de. Seria possível ainda citar um sem número de artigos. teses e outros livros que. em sua reflexão. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. no momento em que eram percorridos. incluíram a questão proposta aqui. O que se quer é retomar aquele ponto de onde se partirá. este não é objetivo. 1978. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado. In: AMADO. Estes dois trabalhos são particularmente importantes para a construção do argumento deste texto que se inicia. Neste sentido. . apesar de não estudar especificamente a trajetória do autor de O esperado. Para tornar essa 36 questão mais clara. Marieta de Moraes (orgs. A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica. São Paulo / Rio de Janeiro: DIFEL. (Corpo e Alma do Brasil). “Usos da biografia”. criação de vários outros sentidos (causas.). Janaína. que o tornara mais famoso anos mais tarde. o primeiro como referência e o segundo como uma possibilidade de interlocução. destaco ainda o livro de 34 Ricardo Benzaquen de Araújo que. p. mesmo que para isso recorra à construção de caminhos que. FERREIRA. A observação se concentrará na parte do texto dedicado ao período em questão. mais importante do que a produção de um sentido-causa para uma determinada trajetória. Giovanni. 1979. através de análise que interpreta seus escritos como integrantes de um diálogo peculiar entre os conceitos de “totalitarismo” e “revolução”. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. Eduardo Jardim de.

189.cit.. e (b) a vida como história – representando o que “realmente” passou. p. serve? Maria Helena Werneck procura assumir essa questão partindo de um aspecto negativo que ajudará a formular o positivo.. isto é. Janaína. cit. parece ser desprezada por debates que priorizam a discussão metodológica. por si. uma suposta verdade histórica. às vezes. a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações”. portanto. p. 40 Note-se que esta é uma questão teórica básica para as ciências sociais – e humanas – mas que. .30 Trindade. bem como com relação de causalidade entre as partes. Mesmo sabendo do desenvolvimento sociológico que o autor dará ao trecho 39 assinalado. não pode ser considerado mais idôneo do que qualquer outro. “A ilusão biográfica”. A própria maneira de se encarar o relato biográfico define o 40 trabalho que será empreendido : para quê ela.” ..). seja aceitação acrítica de um relato que. op.189-90. sem outro vínculo que não a associação a um ‘sujeito’ cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio. a biografia. podem ser expostas duas interpretações que não se anulam: (a) a história como vida – pretendendo assim significar uma totalidade acabada. ou pior (aí assumo minha posição – ratificando a centralidade de uma perspectiva que não existe sem a reflexão teórica). seja por estabelecimento de uma lógica temporal que não corresponde àquela em questão. meio e fim. ainda assim as reflexões teóricas sobre esse gênero da escrita podem ajudar a desvendar o ponto aqui proposto sobre as interpretações acerca da trajetória de Plínio Salgado. ou seja. Pierre. é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto do metrô sem levar em conta a estrutura da rede. conseguem separar totalmente como se fossem ingredientes de uma mistura que dependesse unicamente do seu sujeito: poderíamos entrar numa discussão. 39 O autor está preocupado com a biografia enquanto construção de uma trajetória que só pode estar num mundo social e assim. nomeado “pensar 38 BOURDIEU. onde há “privilégio concedido à sucessão longitudinal dos acontecimentos constitutivos da vida considerada como história em 38 relação ao espaço social no qual eles se realizam. Pierre Bourdieu define esse tipo de situação como “história de vida”. in AMADO. FERREIRA. Em ambos os casos há uma descaracterização do que se está a estudar. deve referirse a ele e só terá (ou construirá) significado nele: “Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos. op. sobre a pós-modernidade. cujo caminhar só me aventuro quando tematiza o saber histórico. Marieta de Moraes (orgs. não se tratarem de biografias. ou mesmo as outras fontes em questão. com princípio. grifo acrescentado. In: BOURDIEU.

uma das propriedades) da representação é justamente a apresentação de algo de novo (i. E ainda. nesse caso. os biógrafos – ao tentarem atingir uma verdade – 42 anulariam o que há de melhor na vida (então reescrita): a arte . UERJ. 1996.e. Maria Helena. o esforço que consiste em desvendar o que foi criado pelo relato para dar sentido às lacunas da memória. o conhecimento que deriva dessa curiosidade impediria a irradiação do espírito à distância. O desafio está lançado.cit. In: O homem encadernado. fins do ano de 1971. p. fatalmente de maneira distinta. p. a curiosidade positiva e pragmática dos biógrafos está orientada menos para as virtudes da criação que para ‘uma multidão de pormenores da vida e da obra’. é vital assinalar que. de outro.23. Desse modo. Rio de Janeiro: Ed. mas o constitui. Dito isto.31 saudável sobre biografias” – nos apresentando a visão nietzscheana. Sem o véu do esquecimento. Em Paris. e. seriam de pouco proveito quaisquer pretensões de se atingir a “verdade” – por concordar com a idéia de Nietzsche e por saber o lugar específico que as ciências humanas e sociais ocupam na produção do conhecimento. H. Para o filósofo. 41 . Assim.. não se pode tomar como solução o mergulho na pergunta é possível dar sentido à vida passada de um indivíduo? Em primeiro lugar porque um dos limites (ou melhor. Ainda assim. assim. num novo tempo). De um lado a preocupação incansável de se remeter cada “passo interpretativo” a um contexto específico que não está antes ou depois dele.17-30. que é destruído pela informação crítica e biográfica. a arte não alcançaria o objetivo de ensinar a viver e 43 a esquecer os problemas.. op. Hélgio Trindade defendia sua tese de doutoramento intitulada L’action intégraliste brésilienne: un 41 WERNECK. M. 43 WERNECK. 42 É importante frisar que Nietzsche. está se referindo às biografias de artistas. É desse modo que se está propondo aqui uma observação acerca da construção da visão de Hélgio Trindade sobre a relação entre a vida e obra literária de Plínio Salgado da década de 1920. pode-se encarar com pessimismo a constatação da dupla dificuldade do trabalho que está por vir no exercício de se entender os escritos de tom biográfico. e/ou imputar um significado que a própria história não representou. “Um pensar saudável sobre biografias”.

filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e. ao status de fundador da doutrina integralista. de um passado onde o protagonista já demonstrava a vocação. o que não é o caso do livro de Trindade. Trindade elabora uma história que se constitui sempre determinada pelo que viria a acontecer – a luz do fim do túnel. Contudo. passa pelo homem – mais figurante do que astro – da Semana de 1922. De uma perspectiva de remontar a origem de uma experiência política. Traçando um caminho que vai do aprendiz de jornalista. Voltando uma década antes do fenômeno integralista. o cientista político busca o início das formulações. mas o movimento e organização política que fundou: a Ação Integralista Brasileira. estes também são problemas da análise biográfica. o dito “objeto” de Trindade não é especificamente Plínio Salgado.42. diante dos professores René Rémond. Celso Furtado e Georges Lavau. p. finalmente. se explica mais pela influência da revolução literária do que por sua experiência política em partidos 44 tradicionais”. se espera uma descrição. . não é isso que acontece na narrativa de 44 TRINDADE. Trindade concede tom biográfico ao seu estudo. respectivamente. apesar das complicações já citadas. dos princípios que se constituiriam como norte do primeiro movimento de massas do Brasil. já iluminaria o percurso desde a entrada. pelo romancista social (quando sofre a “metamorfose ideológica”). é possível interpretar os textos. pode parecer estranho – e mesmo artificial – que esses dois “personagens” tomam. Preocupado em desvendar a origem ideológica dos camisas-verdes. No entanto. e chega. mesmo quando estes são profundamente descomprometidos com qualquer grau de objetividade. Neste ano. op. na verdade. Plínio Salgado exercia seu último mandato como deputado federal pelo estado de São Paulo.cit. buscando as respostas na trajetória político-intelectual de Salgado. o lugar de sujeito e objeto de uma análise histórica. Reafirmo que. Na verdade.. Essa informação pode soar simples tendo em vista a já apresentação do título da tese. Descrevendo desta maneira esses episódios (ambos à luz do ano de 1971). particularmente nesta mesma data. H. no desenvolvimento da literatura do autor: “a evolução ideológica de Salgado. entretanto é muito importante para o argumento que será construído a seguir.32 mouvement de type fasciste des années 30. nesta fase [1920-5]. era membro da Comissão de Educação e Cultura da Câmara. ainda que muitas vezes 45 “fantasiosa”. 45 Digo “fantasiosa” dentro naquela perspectiva de se criar explicações a posteriori como justificativas dos atos que se seguiram.

49-55). da literatura à política. justamente por viver a mutação literária que “sofria” a cultura brasileira não poderia estar alienado. até então.35-69. mas. como autor. e foi desse modo que sua formação política se deu através da literatura: seu primeiro romance é. Constatado o problema brasileiro e o destino da nação. onde as correntes migratórias 49 de diversas origens estão por realizar uma grande fusão étnica”. Salgado formula seu ideário. À luz de uma história em que são revelados. os problemas. não participara.. 1971. . cit. passa a não ser suficiente. que não a de que seu caminhar foi muito peculiar. Conglomerado de raças de várias procedências. e 48 de outro porque não protagonizava nenhum movimento – ele estava no meio das transformações. a formação. p. seu objetivo principal é descrever a ‘vida rural. situacionista. Tentar entender a trajetória do futuro chefe da AIB de uma maneira contextualista. é claro 46 Digo “novo” porque Salgado trabalhava no Correio Paulistano – Jornal que era órgão oficial de propaganda do Partido Republicano Paulista (PRP). vida provincial e vida na grande cidade’. mas como ratificação da “metaformose salgadiana”. desvenda a situação política “por trás” do texto: “a problemática que está subjacente no romance [O estrangeiro]. de um lado porque elas ainda estavam em formação . um estudo sociológico. 49 Ibid. simultaneamente. H. No entanto. Ao invés disso e de maneira muito inteligente. 50 Plínio Salgado une algumas crônicas suas que saíram no Correio Paulistano e as publica num volume único intitulado Literatura e Política (ver bibliografia). um diagnóstico da vida brasileira. A revolução literária. Plínio Salgado. p. não concebia a 46 idéia da criação de um partido político novo como meio de se aplicar 47 suas idéias. a mudança se 50 impunha: militância. de culturas. p.57. op. e a “força” da sociedade brasileira. na verdade. 47 Trindade. p.33 Trindade. Daí a importância da noção da “metamorfose ideológica” no raciocínio de Trindade: foi Plínio Salgado que viveu esta mudança particular.43. procurar o ambiente literário da década de 1920 na biografia de Salgado significa correr o sério risco de não chegar à conclusão alguma. o autor reconstrói o caminho do seu personagem através de etapas que constituem o que ele chama de “metamorfose ideológica”. numa passagem. a mensagem do livro é o ‘nacionalismo’. umas querendo sobrepujar as outras”. delas. ou ainda. é “a formação de São Paulo. É então que Trindade. onde a política passa a predominar sobre a literatura (Trindade. para Salgado. que era a do Brasil. 48 Ibid. nos primórdios do movimento modernista. Hélgio Trindade também analisa este livro.

..) o artigo de Michel Vovelle sobre a biografia: ‘o estudo de caso representa o retorno necessário à experiência individual. penso que a mudança aqui sugerida não altera o sentido dado pelo autor. 53 Ibid.. Descrevendo os casos extremos.. Podemos citar aqui (.. Neste raciocínio.178. sua vida seria o que 51 Giovanni Levi chama de caso extremo: não como paradigma modernista ou máxima expressão do movimento. Trindade se aproximaria da que. Diz o autor: . o contexto não é percebido em sua integridade e exaustividade estáticas. através análise dos “casos extremos”. op. porque a revolução que pregava rapidamente se desvinculou da literatura (embora não a abandonasse – os livros do autor deixaram talvez de viver a mutação estética para virar divulgação da outra mutação. Sua obra romanesca. op. não é esse o seu caminho. mas por meio de suas margens. e ter vivido esta metamorfose significou uma diferença de trajeto em relação aos outros modernistas. O caso de Salgado foi desenvolvido na margem. esta política) e se tornou predominantemente política. p. Dentre as mais diversas posturas biográficas que se pode assumir. . “biografia 51 LEVI. busca representatividade de suas trajetórias – mesmo quando estas sugerem que o que se estuda possa ser um caso isolado. Giovanni Levi diz “biografia e os casos extremos” e não “através”. escrita em pleno período modernista. mas por estar em uma de suas extremidades – não à margem.48. p. cit. p.. op.esse caso [o da biografia através dos casos 52 extremos ].176-7.. segundo tipologia de Levi. 52 Na verdade. no que ela tem de significativo. lança-se luz precisamente sobre as margens do campo social dentro do qual são possíveis esses casos. 54 TRINDADE. estabelece 54 a ponte entre sua atividade de escritor e de ideólogo político”. contudo.176. cit. cit. H.34 que de acordo com a relação que estabeleceu com o seu meio. G. Hélgio Trindade não contrasta enfaticamente as diferenças da trajetória de Salgado em relação ao seu tempo. A nomeação dada ao estudo (consultada em Levi).. p. O início efetivo da mudança se dá em O estrangeiro: “a metamorfose ideológica de Plínio Salgado se processa sob a atmosfera intelectual da revolução estética. mesmo que possa 53 parecer atípica’ . mas na margem.

2001. sua perspicácia não 55 Ver referência na bibliografia. realmente de sua autoria. Isto é. Mas a minha intenção primeira foi dar o passo inicial. sendo. Amparada por uma autoridade tida por muitos como incontestável (a da convivência familiar). portanto. mas logo em seguida revelando as mais profundas intenções. Na verdade. Grifo acrescentado. o autor cria um caso extremo (na margem) do modernismo. intelectual de talento. ao máximo a redação primitiva. O desconforto que motivou a escrita de Loureiro (seu pai fora e é – no momento em que escreve – injustiçado) determina o conteúdo de seu texto: a pretensão de se contar a verdade nem sempre está em autobiografias de título fulano por ele mesmo. meu pai. São Paulo: GRD.XI. em obra mais completa sobre essa figura ímpar. Todavia. em primeiro lugar. a não ser genericamente numa nota 57 explicativa que precede o texto. despretensiosa. Maria Amélia Salgado. 56 LOUREIRO. A filha do biografado não cita a origem de cada fonte. É conveniente ainda citar outro exemplo dessa escrita que pretende formar uma cadeia de causalidades em direção a um fim previamente traçado. Plínio Salgado. Plínio Salgado não escreveu nenhum livro de memórias – talvez exceto o que se refere especificamente as suas viagens à 55 Europa e Oriente. apesar de ter amado com todas as forças de sua alma o Brasil. das mais interessantes do seu tempo. muito preocupado em ligar o “presente” integralista ao passado de Salgado. quando diz: não sei se fiz alguma coisa que preste. p. trata-se de um texto eminentemente biográfico. Agora. mas procurei preservar. Entremeei-as de considerações que me pareceram pertinentes. 57 O único trecho do livro que aborda a questão das referências é o seguinte: “Os capítulos referentes a sua infância foram redigidos segundo anotações por ele deixadas. etc. está ligada muito mais ao direcionamento que Trindade vai dar ao seu argumento (gênese do integralismo) do que a defesa – do próprio autor – do caminho assim definido. talvez na intenção de escrever uma autobiografia. diz-se. sempre sonhando torná-lo 56 uma grande e respeitada Nação. estadista e político de grande valor e um dos homens mais injustiçados no cenário da vida nacional. sua filha Maria Amélia Salgado Loureiro publicou em 2002 o livro que lhe parecia ser a narrativa reveladora da “verdadeira” história dessa personalidade que foi o seu pai.35 através de caso extremo”. a ver se animava autores mais capacitados a empenhar-se numa tarefa maior. a parte .

Grifo acrescentado. numa ausência do então redator da coluna “Notas Políticas”. É curioso ressaltar. por serem as únicas notícias detalhadas que possuo dessa época de sua vida”.117. talvez para que ele não seja cobrado. meu pai. do próprio país. A verdade. do que “faz-se por si”: “depois do almoço.”. Ligar a inteligência do personagem às influências externas seria transformar sua originalidade. mas sua maior escola foi a vida – sua inteligência era a sensibilidade. praticamente escrita por ele. Plínio dirigia-se à Biblioteca Pública para estudar. Washington Luís. se multiplicou em Plínio Salgado. LOUREIRO. O norte singularizado que conduziu a escrita de Hélgio Trindade (formação das idéias integralistas). como e porque a autora afirma isto ou aquilo. mas sim analisar seu conteúdo e tentar descobrir suas construções. Devagar. entretanto.cit.e. onde comprava livros baratos. Todavia. Há de se construir.. Maria Amélia Salgado. daí a importância e legitimidade de exercitar a lembrança. como também cumprimentos do então presidente do estado de São Paulo e futuro presidente da 59 república. Freqüentava “sebos”. portanto. constrói seu texto a partir da noção de gênio individual – tanto artístico quanto político (nota-se uma proposital confusão entre os termos na sua narrativa) – e caráter íntegro. por isso Plínio estudava muito. não está na ciência.36 está no fato de reunir documentos. É justamente aí que se segue a descrição do episódio que teria marcado de vez a sua entrada para a redação do Correio Paulistano: Salgado. porque logo depois. Um dos exemplos mais característicos da genialidade pode ser personificado na figura do autodidata. além de almejar fazer justiça à memória do pai. lia muito. também é. Essas qualidades aparecem como definidoras do caminho de Salgado e. entretanto.116. 59 Ibid. mas em revisitar a sua própria memória e torná-la pública. que esta alusão à figura do chefe de governo serve a um objetivo específico (notoriedade do autor). ainda como revisor. assim como o próprio Plínio pensava. o que não só lhe rendeu a ascensão ao novo cargo. Loureiro. Loureiro Júnior. seu “verdadeiro” valor. . um reconhecimento. 58 Ibid. E o livro que mais leu nesse tempo foi o livro da 58 vida. não vem ao caso criticar de antemão o texto de Loureiro. p. em uma segunda versão. Lia. p. teve a oportunidade de escrevê-la. Loureiro diz que seu pai apoiou Washington Luís com condição de este garantisse idoneidade nas eleições e respeito ao referente ao seu exílio em Portugal. pois retirei a maioria dos textos das cartas endereçadas a mim e meu marido.. Fazia-se por si. i. mas na intuição (ou sentimento). op.. onde. uma prova “externa” de tanta aptidão.

. Loureiro. conseguir traçar caminhos firmes em meios em terras bem lamacentas. op.37 regime representativo para que pudesse “sentir-se à vontade para redigir seus artigos no Correio. característicos da biografia clássica. . p. a partir do século XVIII: ao lado das cerimônias nas academias. posteriormente. como que se servindo do dom a ele outorgado. das peças de teatros em louvor de feitos gloriosos do grande homem. Cf. consagra o filho escritor. a admiração convertida em livro demonstra a dimensão do elogio ao homem. e passagem do XX para o XXI.cit.76-81. para a sua inquietude e desenvolvimento espiritual que fez com que o caso vivido servisse de inspiração para seus escritos.118. Loureiro chama a atenção para a força de Salgado e.38. Maria Helena Werneck num resumo que faz da história do desenvolvimento da biografia. cit. p. op. M. A atribuição de valor incontestável à figura de Salgado logo no início da narrativa que se refere à formação de sua personalidade – e que vai desembocar na publicação de O estrangeiro – não significa outra coisa que não admiração. das exposições e edições comemorativas. ou biografia do pai. mas as ressalta como que 62 uma prova de caráter e de superação .. ainda 60 Ibid. (b) não parece que Loureiro quer consagrar-se como escritora e sim fazer justiça ao pai. 62 Num dos acontecimentos narrados (o da morte do padrinho). dão lugar a uma nova ‘morfologia do elogio’. H. (c) a autora não se refere a uma postura de Salgado que revela satisfação com as infelicidades sofridas. O elogio é a moeda que salda uma dívida da humanidade 61 com o grande homem perseguido. a literatura da paternidade. O panegírico e o elogio fúnebre. Todavia. descreve o que seria um exemplo de um tipo de exercício desta. p. 61 Werneck. sem ter de violentar a sua 60 consciência”. que destaca o mérito em face do nascimento e explora a satisfação com a infelicidade como justificativa e lei do gênero. Plínio. desvenda as conclusões da autora como que vestígios. É imprescindível fazer ressalvas a uma eventual associação direta: (a) para fugir do anacronismo é necessário datar as situações – séculos XIII.

inglesas e portuguesas. 64 Cf. além disso. M. Plínio Salgado. naquele momento. no Brasil ainda não se pode falar em ‘escola’. numa reflexão – com a qual ela parece concordar – sobre a arte: criticando os modernistas europeus que se posicionavam como revoltosos contra as fórmulas antigas. Plínio Salgado declarava que sendo a arte de um país resultante de sua consciência nacional. . Segue a legitimação do caminho do pai. e assim sagrá-lo no hall dos ilustres brasileiros: 63 O nome completo da escritora é Maria Amélia Salgado Loureiro. Isso começou..S. ambas trabalhadas com propósitos diferentes por Loureiro. A primeira exposta acima – e servindo como crítica ao modernismo europeu – a vê como dividida. os cultores de todos os ramos de arte. cit. Loureiro só dá verdadeira importância ao momento do modernismo em que as revoluções estéticas já tinham “evoluído” para uma produção de reflexão sobre a nacionalidade – justamente o período em que foi publicado o romance primeiro de Salgado. servindo à noção de que o autor é original. ao contrário do que dissera Trindade. apontam-se os valores 66 eternos da arte e do pensamento. A segunda concepção. onde uma das partes é composta por um elemento eterno.38 presentes. É esse anseio que leva os artistas a representarem que nos lega tradições francesas. este movimento do qual participara ativamente “encarnava” o íntimo dos brasileiros: “os sentimentos nacionais se polarizavam na evocação do grande acontecimento para cuja comemoração se faziam os preparativos. a grupos de tendências estéticas semelhantes. segundo a autora. da época em que era chamada de 63 Amelinha . Op. agora Salgado começava a se distinguir dentre os outros autores de seu tempo. que 65 expressasse o Brasil cem anos depois de se tornar independente”. felizmente. Procuravam. apenas.A. algo novo. da fascinação pelo pai. Nos domínios da arte e da literatura sentiam-se os efeitos de um estado de espírito comum a todos os brasileiros.. p. então. p. E concluindo. menos a tradição nacional”. vê a arte como fator de consciência nacional: “E continuando suas reflexões. LOUREIRO. cuida muito mais desse ideal do que a política oportunista. Assim. Plínio afirma que. 66 Há em Plínio duas concepções de arte que se intercedem. o que era mais significativo. 65 Ibid. mas pressupõe a idéia de nacionalidade.119-120. suas idéias estavam prestes a consagrá-lo. op. foi uma das figuras importantes da 64 Semana de Arte Moderna e. principalmente. pois a palavra ‘escola’ não está relacionada. cit.119-128. A importância de Plínio para o Brasil correspondia desse modo ao valor que esta nação representava para ele e. A passagem que se segue é de suma importância para inserção do autor na fundação de algo verdadeiramente novo. descobria-se um forte desejo de ‘criar a Pátria’: ‘A arte.

39 Esse momento revolucionário das letras e das artes inspirava-se. Sua trajetória lhe fora revelada. Mas o seu grande sonho era publicar um livro. a Monte Aprazível. aqui resumido: superando (entretanto) um reducionismo (puramente) característico daquele primeiro momento da revolução modernista. nascia dali um sentido de brasilidade que. ou do neoclassicismo. Um livro que exprimisse a realidade brasileira. i. Plínio Salgado elaborara um pensar genuinamente novo (porque profundo) sobre a nacionalidade: esta deveria ser exercida a partir de referentes internos (interior). dando-se ampla autonomia aos escritores e artistas para que se expressassem livremente. Já o tinha no pensamento: seria um romance. que estava nascendo com 67 Ibid.) Um dia viajou pela Araraquarense a convite (. motivação interna – de escrever um romance.e. É interessante notar que esse pensamento original. se tornou profundo e de conseqüências sociais e políticas da maior 67 importância.).. firmara-se no cenário jornalístico com seus artigos no Correio Paulistano. uma vivência do mundo: Plínio Salgado.. e então. mas a sua concretização só pôde ocorrer através de uma experiência externa.. não necessariamente em sua ordem. representam um argumento importante da autora sobre a originalidade de seu biografado. p. . Entretanto. As palavras grifadas. serviu para a própria autora analisar a história do pai. a esse tempo. no desejo de libertação das formas acadêmicas. assumida.. posteriormente. No terceiro dia fizeram a mais desejada das excursões. segundo sua própria interpretação do mundo exterior e interior. Seus objetivos eram puramente estéticos e literários.120. centrada nele. Quando o escreveria? (. pois.. Salgado tivera vontade – foi um desejo. essa concepção.

Aliada a essas condições estava sua 70 71 genialidade expressa no pioneirismo e qualidade de visionário. produzir algo “moço”. p. 70 Sobre o pioneirismo de Salgado.. op. Essa combinação – projeção “já o tinha no pensamento. como o superou no tempo: enquanto outros ainda se perdiam em experiências estéticas. em 1966.. Antevisão do futuro nacional. grifo acrescentado.. p.. e porque envolve o próprio narrador). cit.. Na verdade.124. não só participou do movimento modernista (lembrando que. revelando-lhe o tema que desenvolveria no 68 romance.” – fazia do autor personagem ímpar.. mas sem. contudo. ver o episódio do loteamento da cidade de São Paulo. Plínio já formatava o caráter 72 nacional. entendendo o predicado eterno da arte e aplicando-o ao nosso meio. A história do Brasil. ver o caso do seu posicionamento frente às eleições de 17 de fevereiro de 1924. segundo a autora. que é complexa (em si. mas como se o que acontecesse à sua volta fosse algoritmo de sua vitalidade intelectual e política. p. 69 Ibid. trataria essa questão.129-130. não havia nenhuma prosa realmente representativa do movimento. p.” e afetação “. p. onde Marília Rothier Cardoso. . bem como a produzir reflexão que as contemplasse. à luz de Jorge Luis Borges. já que esse sujeito não é necessariamente empírico) como uno. foi de expressão íntima nacional). pronto a desvendar as características nacionais. 68 Ibid. op.. O estrangeiro também era apreciação social. O que era escrito objetivava o ataque à situação até então presente. Essa centralidade subjetiva pode ser teoricamente contestada em Retorno à biografia. é narrada a partir da trajetória de Salgado (o que não é incomum numa biografia).40 uma dúzia de casas. com sua destreza discursiva.126-7. A própria conjuntura parecia conspirar a seu favor.sentiu o toque de inspiração. 72 Ibid. A originalidade de Plínio confunde-se com a “verdadeira” contribuição da Semana. não apenas a partir da visão dele como sendo única (expressão incontestável da individualidade).121-122. chama a atenção para o comprometimento da visão que toma o sujeito biografado (entretanto pode-se pensar o mesmo para o biógrafo. 71 Sobre sua qualidade de visionário.119. em Loureiro. e à cachoeira do Avanhadava.cit. 69 contudo. Borges. Foi em Monte Aprazível que Plínio sentiu o primeiro toque de inspiração.

a alternativa se deu por causa da característica. o fazem melhor e. op. Contudo. inclusive. Literatura e mídia. justamente em relação a esta época da vida de Salgado. é fundamental. Os escritos de Loureiro e Trindade. construir o argumento. por isso. pode ser encarado como duplo. O que se tentou aqui foi encontrar um espaço nesta discussão. podemos olhar para o livro de Hélgio Trindade que. e se possível fugir desses mecanismos quase automáticos que caracterizaram as visões acima apresentadas. quanto no que diz respeito à condição de escritora em que se põe a sua filha. tanto em relação ao próprio biografado (em relação ao seu primeiro romance).. embora possa parecer que foi escolhida.e. mesmo não pretendendo ser 76 uma biografia. In: OLINTO. que. p. leitura exclusiva – que a autora faz – da obra (no caso em pauta. 2002. simultaneamente. Karl Eric. Dito isso. apresenta o sujeito como duplo: o eu observa-se como outro. identificando-se com o mesmo e. uma parte do livro de Trindade para servir ao propósito deste trabalho. PUC-Rio / Loyola. Heidrun Krieger. também. política e. não são aqui convocados para que se possa. p. certamente. o reflexo e ápice das capacidades de Salgado. ou tampouco quis reconstruir peculiarmente a ponte entre a vida do autor antes de depois do fatídico ano de 1932. Rio de Janeiro / São Paulo: Ed. neste final. i. Ainda nesta reflexão. 74 simultaneamente. o autor argentino indica a primazia da divisão. Marília Rothier. de caráter) do personagem Plínio – como.e. 75 Situação descrita em Retorno à biografia. cit. podemos também aproveitar essa condição do texto para compreender a questão da autoria. na verdade. “Retorno à biografia”. Cardoso. Borges recorre “a máxima de uma filosofia hindu do século V que. O estrangeiro) como sendo.118-22.. neste caso.. exemplificando-a na sua maior singeleza. i. quase que às escuras. 73 . se revela (pelo menos na parte trabalhada) como um tipo particular de história de vida. interpretado como duas unidades. Neste sentido. o meio (1/2). pertencente a uma tradição biográfica que remete ao texto de James 75 Boswell (1936) sobre Samuel Johnson.120. SCHOLLHAMMER. marcantemente teleológica do texto do referido cientista político. antes de denunciar a multiplicidade do sujeito. apresentar 73 Por de maneira simples entenda-se como um talento pedagógico. já podemos interpretar o desenvolvimento do texto de Loureiro – centrado na unicidade (intelectual. negando seu valor. fora de época. Caberia ainda estender a observação à. 74 CARDOSO.41 de uma maneira simples. 76 Reforço a idéia de que. ao descrever os homens como espectadores de seus próprios atos. distanciando-se dele”. Este trabalho não pretendeu biografar o personagem Plínio Salgado em época raramente estudada. portanto qualidade de se narrar sumariamente. no mínimo.

Termo tão corriqueiro no mundo da história que. É claro que é possível estabelecer inúmeras relações consistentes entre a produção intelectual de Plínio Salgado antes e depois de 1932. mas certamente mais denso e complexo. setembro de 2005. que a princípio é mais difusa. Plínio Salgado não tinha dúvidas de que aquela “comunhão” que mencionada por ele em Discurso às estrelas. recria a todo o tempo os conteúdos a serem preservados. embora não sejam conclusivas. é conduzido. O próprio processo histórico da continuidade (ou se quiser da conservação) é dinâmico. combatido no início deste texto. deixar que eles “falem por si”. ou seja. no entanto. . para se aprofundar numa outra. ao mesmo tempo em que conduz. às vezes. não é por acaso que o próprio conceito de determinação confunde-se frequentemente com o de definição. precisava ser pensada novamente (e possivelmente numa nova forma) num contexto de luta entre integralistas e comunistas. É apenas para isso que quero chamar a atenção: o contexto. é verdade. Um rumo talvez menos específico. Texto produzido em: Rio de Janeiro. denotam uma certa perspectiva por mim defendida: a medida que o historiador deixa a tentativa quase insana de almejar confundir-se com os documentos. pode perder-se no meio de disputas inócuas por definição: o contexto determina ou é determinado? Aliás. O fio condutor existe. senão com a própria atuação política.42 algumas questões que. ele atinge uma caminho compreensivo. mas que também torna-se mais precisa no seu desenvolvimento porque mais consciente de suas limitações.

C. INTEGRALISMO E HISTORIOGRAFIA 77 Edgar Bruno Franke Serratto Em se tratando de estudos que contemplem a Ação Integralista Brasileira (AIB) como objeto principal. a primeira dificuldade com que os pesquisadores se deparam é a da falta de um balanço geral sobre a historiografia já produzida. Este panorama ainda se apresenta restrito se considerarmos a quantidade de trabalhos. pelo menos até começo dos anos 2000. R. minimamente. P. comentar algumas produções. Neste momento. pois nosso intuito é o de. 1998. ou seja. V. coletânea de artigos e outros que não nos chegam devido às limitações editoriais impostas aos autores e recém pesquisadores. Como sabemos. apresenta-se mais consciente e consistente para dar os primeiros passos em sua pesquisa. o levantamento bibliográfico se apresenta como de suma importância para a orientação das leituras. que a visão do pesquisador. Anos 30: história e historiografia e CAPELATO. momento que envolve nossa temática com reflexões de estudos e conceitos recentemente utilizados. Este artigo tem a pretensão de apresentar aos leitores e pesquisadores do Integralismo um breve panorama da produção historiográfica nacional e internacional. para com seu objeto.) Historiografia brasileira em perspectiva.43 03. 78 BORGES. ao dos artigos de Vavy Pacheco Borges e Maria 78 Helena Capelato. pretende-se a elaboração de um texto próximo aos dos artigos encontrados na coletânea Historiografia Brasileira em Perspectiva. São Paulo: Contexto. M. (org. M. realizar um 77 Licenciado em História pela Universidade Tuiti do Paraná. das problemáticas e da metodologia que já foram aplicadas nos estudos e que podem vislumbrar as novas possibilidades de pesquisa. Estado Novo: novas histórias In: FREITAS. porém. H. que não nos deteremos a longas críticas e análises sobre os referidos estudos. que se dedicam respectivamente à historiografia produzida acerca dos anos 30 e do Estado Novo. mais especificamente. Ressaltamos. . Entendemos que é somente após o conhecimento prévio dos trabalhos já realizados e os métodos de abordagem utilizados nestes.

302. as quais 79 TRINDADE. p. . toda a história do pensamento político brasileiro. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas.. H. do ponto de vista de um panorama historiográfico geral de toda a produção já realizada. J.44 mapeamento mínimo da historiografia como pontos de leituras para futuros iniciantes. 2004. 80 Wanderley Santos foi citado em: TRINDADE. já na década de 1960. dado que. não tivemos estudos que elegeram a AIB como principal objeto de análise em função da conjuntura política. Mas. (org.. o Brasil restabeleceu e reconsolidou a democracia. São Paulo: Annablume. F. foi por muito tempo taxada por esta mesma acusação. intitulada “Integralismo: fontes. Por isso. Todavia. 79 problemas de pesquisa e tendências historiográficas”. H. Além destes materiais. In: Ciclo de Palestras sobre política: idéias e práticas políticas que marcaram a história do Brasil no século XX. Nestas duas décadas. Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937). João Cruz Costa (acerca do pensamento político nacional e uma de nossas bases de leitura e posterior análise) defendia que no Brasil não ocorreu a simples cópia ou apropriação fiel das idéias vindas da Europa. Em nossas leituras observamos que na segunda metade da década de 1940 e durante a década de 1950. R. B. de C. In: FAUSTO. Antes de iniciarmos as considerações acerca da historiografia sobre o integralismo. Curitiba. op. apesar de incompletos. não se mostrou atraente para tornarse objeto de novos trabalhos da historiografia brasileira.) História Geral da Civilização Brasileira . também. Estas posições. gostaríamos de assinalar que a base inicial de leitura para esta discussão foi o artigo de Hélgio Trindade intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30” e a introdução do trabalho “Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937)” de João Ricardo de Castro Caldeira. J. Outro importante motivo. ed. um movimento autoritário de nosso passado até então recente. CALDEIRA. contudo. que aqui ganharam uma nova interpretação e assimilação. utilizamos as informações obtidas em uma palestra ministrada pelo João Fábio Bertonha. não fora somente a AIB que sofrera com a alegação de que não passava de uma mera imitação de um modelo europeu. e BERTONHA. não eram unânimes. mostram-se com alguma abrangência para nosso tópico. cit. 1996. Rio de Janeiro: Bertrand. 6. Convém esclarecer que tais estudos. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30. como nos aponta Wanderley Santos.O Brasil republicano: sociedade e política (1930-1964). 1999. foi a crença de que o Integralismo não passara de um mimetismo dos fascismos 80 europeus.

como as 81 condições econômicas. exatamente. 83 DE DECCA. Ideologia e mobilização popular. Porém. foi o discurso de seus opositores e não o 81 Esta é a tese central defendida em: COSTA. por sua vez. M e FRANCO. VESENTINI. In: Revista ciência e cultura. por preconceito ideológico. 82 TRINDADE. A falta de considerações acerca das outras forças políticas e sociais que agiam dentro deste contexto histórico brasileiro. C.. Logo. Contribuição a história das idéias no Brasil. sociais e culturais. E. “salvando” a nação de uma inevitável decadência. como nos 82 indica Trindade. H. que é o dos vencedores e não dos 83 vencidos. Ver mais sobre a entrada das idéias européias no Brasil com um enfoque mais específico acerca do Integralismo em: CHAUÍ. referindo-se a historiografia que tratou da Revolução de 30. S. Para a nova dinâmica mundial do pós-guerra. São Paulo: FAPESP. In: CHAUÍ. p. M Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. A. cit. 1977. que colocavam o ano de 1930 como divisor de duas fases distintas da história republicana brasileira. e que também estavam desejosas de mudanças. Outro ponto a ser assinalado é a desvalorização. a ascensão dos movimentos fascistas por todo o globo e o trauma das trincheiras e do holocausto deveriam ser esquecidos e não relembrados ou estudados. op. C. os movimentos autoritários e fascistas deveriam ficar somente na memória e é. foram anuladas.. dentro deste novo panorama. quando a historiografia sobre o assunto utilizou-se de um discurso oriundo de uma memória triunfante. esta por muito tempo se mostrou impregnada pela memorização de um discurso produzido pelos “vencedores”. como uma das vitoriosas após a Segunda Guerra Mundial. C. políticas. Segundo Edgar De Decca. Ou seja. 1967. J. diferentemente do caso explorado por De Decca. 302. e assim. aquele discurso produzido por Vargas e sua base de apoio. . Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. já que não faziam parte deste discurso. . Podemos constatar que algo parecido ocorreu com a AIB. que colocou a ideologia de esquerda. quando uma nova política e uma nova consciência se sobrepõem ao antigo jogo entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais com seus “falsos líderes”. "revolução dos vencedores: considerações sobre a constituição da memória histórica a propósito da “revolução de 30”. do autoritarismo e do fascismo. 1978. nesta memória que a historiografia da década de 1950 e 1960 se apoiou. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. M. 2 ed.45 eram determinadas por inúmeros fatores particulares. Devemos também levar em conta a participação da União Soviética no contexto mundial.

principalmente. fato que é 84 denominado por Bertonha como a historiografia do parágrafo. Porém. 85 Farias de Brito (1862-1917) foi um intelectual brasileiro formado dentro do grupo germanista de Recife. a participação da AIB é apresentada como de pouca importância.que a historiografia se apropria e transmite. os estudos que contemplam a história política brasileira nunca foram deixados de lado pelos estudiosos das mais variadas áreas das ciências humanas. No primeiro.46 próprio discurso Integralista que permeou esta memorização. deixada pelos opositores do Integralismo e. Foi exatamente este discurso estereotipado e discriminatório . Ver mais sobre Faria Brito In: COSTA. até a sua revisão na década de 1970. por muitas vezes. Lembremos que este movimento não pode ser visto como o “vencedor”. uma vez que nunca chegou ao poder e. como os comunistas. Para exemplificar tal situação. como já citado anteriormente. São Paulo : Cultrix. não se utilizou devidamente desta idéia quando se referiu ao Integralismo. ao se debruçar sobre 85 a produção do intelectual Farias Brito e a crítica que o mesmo produz para com as vertentes científicas e racionalistas presentes no 84 BERTONHA. F. Baseada nesta visão. se colocou em oposição ao regime vigente. op. e que gozou de grande prestígio devido a sua pregação de que a metafísica iria ressurgir dentro do pensamento filosófico. pelo fato de a nossa república ser ainda muito jovem. como se fosse uma espécie de: “só para dizerem que eu não esqueci”.criado pelos opositores do Integralismo. na maioria destes trabalhos a participação da AIB na conjuntura nacional apresenta-se quase que obsoleta. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas. seja da vertente italiana ou alemã. Panorama da história da filosofia no Brasil. Entretanto. C. os liberais e o próprio governo de Vargas . 1960. temos vários trabalhos que contemplam a história política republicana brasileira. apresentamos dois trechos de trabalhos distintos do referido autor. além de ser atrelado. a um estereótipo comum a todas as formas de fascismos. Esta historiografia é baseada na memória comum. nas décadas de 1950 e 1960. nos textos doutrinários do movimento. J. . somente citada em breves passagens. o que se justifica. Um bom exemplo desta historiografia é o trabalho de João Cruz Costa. que mesmo tendo defendido a tese de que a vida política e intelectual brasileira não se tratava de uma simples cópia das que iam pelo mundo. que são utilizados sem nenhuma análise ou contestação. em menor grau. Conseqüentemente. cit.

Já. criava inquietação.. o ideólogo de sua política. O pensamento de Brito realmente teve influência sobre a ideologia integralista e principalmente sobre as idéias de Plínio Salgado. de início. Cruz Costa. sem nos remeter a consideração de que Farias Brito teve tão grande influência na ideologia Integralista. unida a uma visão tanto pré-conceitual como preconceituosa. Foi seu nome o pretexto. o movimento integralista (o da Ação Integralista Brasileira).Cruz Costa cita a existência do Integralismo afirmando que: “Foi. podemos perceber. p.47 pensamento brasileiro do início do século XX. de Portugal. o integralismo fêz. ao introduzir a AIB dentro do contexto político e histórico da década de 1930. misturava-se outras receitas de reacionários da Europa.) nunca se falou tanto e se explorou tanto essa realidade nacional. e 86 Ibid.. o faz em apenas um único parágrafo: A propaganda dos extremismos. . das realidades nacionais (. em virtude dêsse reformismo ou dêsse regeneracionismo que o partido fascista do Brasil. que o Integralismo é tratado somente como um partido fascista de “vaga” ideologia. Como os fascismos europeus.”. o integralismo correspondia às aspiração das camadas conservadoras. apoiando-se nas classes conservadoras. pois. o da esquerda e o da direita (o integralismo) – reflexos de uma luta que se processava na Europa -. Neste trecho. . O que tal movimento pretendia era o estabelecimento do que eles chamavam de ‘estado integral’. Nesse movimento que se afirmava nacionalista. revelando a falta de um trabalho analítico por parte do autor. 63. lançado pelo escritor Plínio Salgado. Logo após o fim da revolução de 1932 surgia em São Paulo. do filósofo morto.pois este pregava o ressurgimento da metafísica dentro do pensamento nacional . aproveitável aos desígnios de Vargas. síntese final. Outro ponto a ser destacado.. diziam. o sustentáculo da vaga (grifos 86 nossos) ideologia dos camisas-verdes do Brasil. em uma obra que pretende entender o pensamento político brasileiro até o início do século XX e isto. Contudo. é que a AIB é contemplada somente neste breve parágrafo. em nosso segundo exemplo. como afirma o autor. não foi este o “sustentáculo” da ideologia integralista. de onde lhe vinha o nome.

o que é sabido que não ocorreu. sendo suas condições de produção diferentes das atuais. Portanto. ou quase único. Contudo. Naturalmente apoiavam-nos colônias italiana e alemã e grande número se descendentes de alemães 87 e italianos. Cruz Costa afirma que existiu uma natural adesão das colônias e descendentes de alemães e italianos ao movimento. a priori. vale a pena ressaltar suas idéias em comparação aos trabalhos de Bertonha intitulado Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. para os quais parte da colônia alemã não concordava com o nacionalismo pregado pela AIB. O Brasil e a crise internacional: 1930-1945. uma ideologia nacionalista. 1989. por sua vez. J. p. C. são vistos como irmãos gêmeos idênticos do Integralismo. mesmo considerando que o Cruz Costa pertence a uma época de historiadores. Em um segundo momento. 1999. 3. ed. ou seja. São Paulo: Annablume.48 contou também com o apoio de alguns altos dignitários do clero católico. 1919-1945. a exemplo da grande luta das colônias italianas contra os fascismos. encontramos uma enormidade de pontos que contribuíram para construir uma série de análise e clichês na historiografia sobre o integralismo no período. dando pouca importância às particularidades que o diferem destas demais experiências. 103. 1919-1945. Pequena história da república. e HILTON. Primeiramente vamos aos clichês: o parágrafo único que tenta dar conta de todas informações necessárias para o entendimento do que foi o Integralismo. temos. sendo a sua ideologia reduzida a uma visão simplista. . nos chama atenção a generalização da AIB para com os outros partidos fascistas europeus. e qual foi a sua participação na vida política brasileira é o primeiro e o mais visível deles. Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo. São Paulo: Brasiliense. conseqüentemente. Neste trecho. conservadora e apoiada nos fascismos internacionais que. e de Stanley Hilton intitulado O Brasil e a crise 88 internacional: 1930-1945. apoio da AIB dava-se dentro das classes conservadoras. 87 COSTA. Por fim. o que novamente nos remete a uma visão preconceituosa do fascismo e. 1977. F. a consideração acerca de que o principal. S. Quanto aos pontos de análise. do Integralismo. 88 BERTONHA. J.

cientistas políticos e historiadores acabaram por ser influenciados pelo modelo de análise marxista. populismo e ditadura: cinqüenta anos de crise social ".301. H. principalmente a marxista. 1988. uma das conseqüências mais positivas da retomada do estudo do pensamento político autoritário do período entre as duas guerras é a valorização da ideologia enquanto campo de pesquisa considerado crucial à compreensão do processo mais amplo de 90 transformação da sociedade brasileira. Este mesmo autor afirma que foi por este motivo. Entretanto. T. "Brasil: nacionalismo. In: América Latina: história de meio século. o que se mostra como um resultado comum dentro dos interesses de pesquisa. filósofos. estes estudos elegeram a política como tema principal. uma vez que estes pesquisadores privilegiavam a história dos partidos de esquerda. cabe lembrar que importantes trabalhos foram produzidos após o golpe de 1964. op. p. Sociólogos. SANTOS. Já ao final da década de 1960. quem pretendesse consultar obras de referência sobre o 89 Ver mais sobre a fascistização dos militares na ditadura instaurada em 1964. Brasília: UnB.. que enfatizava os aspectos materiais e econômicos. 90 TRINDADE. para provar que “a história é filha do seu tempo” e que são os problemas de hoje que instigam os historiadores em seus estudos sobre o passado. . cit. autoritárias. ainda mais longe de adotarem o Integralismo como objeto de estudo. para muitos estudiosos. que dentro dos estudos acerca das idéias políticas no Brasil. . também originários do mesmo pensamento marxista. V. fascistas dentro da política brasileira. a produção desenvolveu-se qualitativamente na década de 1970.49 visualizamos uma certa inapropriação de Cruz Costa na palavra “naturalmente”. pois na década de 1960. assumem o papel de carro chefe da produção intelectual dos principais centros acadêmicos e de pesquisa do Brasil. já que o governo militar instalado em 1964. tornando-se praticamente o único modelo de análise utilizado na década de 1970. Para Trindade. ou até 89 mesmo. em: BANBIRA. as correntes de análise materialistas e estruturalistas. coloca novamente as tendências conservadoras. Ao contrário do modelo de análise marxista. deixando os estudos destas décadas.

José Chasin. pois tivemos um grande número de estudos e publicações unidos a diferentes métodos de análise e abordagens. os trabalhos do sociólogo Gilberto Vasconcellos. transformando esta década na mais importante para a historiografia que trata deste movimento. p. como sugere seu título. 92 Ibid. consideramos que devem. o qual consiste em uma reunião de documentos referentes ao período. intitulado A ideologia curupira: análise do discurso integralista (1977). contudo. em nossas terras. p. intitulado O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio (1978). também sociólogo. em função do panorama cronológico que oferece das diversas correntes do pensamento mundial que. Contribuição à história da idéias no Brasil (1967). como: O ciclo Vargas de Hélio Silva. no mínimo. os primeiros trabalhos que deram destaque à participação política do Integralismo no contexto nacional. a produção de brasilianistas. cabe citar. e mais especificamente. o do. da cultura e da vida política nacional. A revolução de 30: história e historiografia de Boris Fausto. ou seja. intitulado. Desta forma é somente na década de 1970 que foram realizados os primeiros trabalhos que contemplam a AIB como objeto central de análise. ser citados. .. sobre o período em questão. 299. podemos identificar duas vertentes de pesquisa: de um lado. Assim. temos como principais exemplos. o trabalho que mais se destaca 91 Ibid. de outro. a produção nacional. tiveram relevância na formação do pensamento. apresenta um panorama e crítica da historiografia produzida sobre o assunto e a grande coletânea de documentos estudados por Edgar 92 Carone. que.300. que acabam por também contemplar a presença integralista neste contexto. estrangeiros que se dedicaram aos estudos referentes à história do Brasil. a exemplo do já citado estudo de Cruz Costa. intitulado Apontamentos para uma crítica da razão integralista (1978) e. Do lado da produção nacional. Também. da filósofa Marilena Chauí. Os trabalhos produzidos na década de 1960 não prestigiaram como deveriam a participação da AIB na vida política brasileira.50 assunto. iria 91 encontrar poucas publicações. por fim.

com o intuito de se traçar um perfil do movimento como um todo. Temas como a origem social e as motivações de adesão ao movimento por parte dos militantes. também são abordados. G. O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio. assim como o estudo sobre a formação intelectual e política de Plínio Salgado.. segundo esse 94 autor. J. X. Op. 1979. 1978. mas também uma nova concepção de 95 autoritarismo. CHAUÍ. ed. São Paulo: Ciências Humanas. pelo tanto que instigou de novas pesquisas sobre o assunto. igualmente estão presentes. Sem dúvida. As relações do Integralismo com as demais forças sociais da política brasileira. (primeira edição 1974) 94 LINS. além disso. Prefácio a segunda edição. M. o trabalho de Trindade foi o mais utilizado pelos estudiosos do tema até os dias atuais. . além de a compara com as demais experiências fascistas européias. político e econômico nacional. uma vez 93 VACONCELLOS. Por fim. E isso se deve a que seu trabalho não somente fornece elementos centrais para se pensar a relação integralismo com o fascismo. traçando um retrato sociológico das lideranças e dos militantes do movimento.51 deste período produzido pelo historiador Hélgio Trindade. p. mas. São Paulo: DIFEL. Trindade situa a AIB dentro do contexto social. intitulado 93 Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30 (1974). IX 95 Ibid. A ideologia curupira: análise do discurso integralista. e isso. as características próprias da experiência brasileira. bem como a sua dinâmica interna de organização. organização e rituais. que foram utilizados como agentes de mobilização do movimento. Já no prefácio do referido trabalho. apontando que não foram somente os discursos antiliberal e anticomunista. 1977. cit. Trindade ressalta. H. e TRINDADE. algo que até então só se tinha verificado em trabalhos que tratam do fascismo alemão ou italiano. analisa sua ideologia e perfil do chefe. Neste estudo. op. p. ele desbanca a necessidade da existência de um contexto social e político determinado para a ascensão das idéias fascistas dentro de uma nação. CHASIN. apresenta uma perspectiva de abordagem que fornece elementos fundamentais para uma compreensão da organização burocrática do movimento. 2. Juan. São Paulo: Brasiliense.cit. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. cultural. Além disso. Juan Lins ressalta a enormidade de fontes trabalhadas.. In: TRINDADE. apontando as particularidades do caso integralista. H. como com o catolicismo e as classes médias urbanas.

18. Ela se opõe à Trindade quanto à identificação do Integralismo com os fascismos. cit. p XV. neste ponto que encontramos outro problema de seu trabalho. Entretanto. Chauí. Primeiramente. cit. quando muitos indícios do caráter 96 Ibid. 18.. O autor se apropria de uma análise marxista. R. englobando suas fontes. de C. Logo. sua construção e seus destinatários. é justamente este contexto sócio-econômico diferenciado que deve ser questionado e entendido dentro do percurso histórico do movimento fascista brasileiro. C. Outro autor que discorda da proximidade da ideologia Integralista à fascista é Chasin. de C. instigada por este primeiro trabalho.. que se apóia na não existência de condições dentro do modo de produção capitalista brasileiro do período. ressaltando. 98 TRINDADE. mas a uma crise política e cultural. op. Ele contesta a idéia de que as condições sócio-econômicas do Brasil nas décadas de 1920 e 1930 são. . Outro modo pelo qual Chasin afirma ser o Integralismo um movimento não fascista é a sua análise para com os textos de Plínio Salgado e é. C. R. H. exatamente.. típica da historiografia deste período. para o surgimento de um movimento de cunho fascista. o surgimento da AIB não era uma resposta a uma 96 crise econômica. no mínimo. para ir contra as afirmações de Trindade. as idéias não estão fora do lugar quando encontramos 98 os motivos pelos quais as estas aqui chegaram . pela qual passava o Brasil das décadas de 1920 e 1930. p. semelhantes às condições encontradas na Itália e na Alemanha fascista. e CALDEIRA. ou de qualquer outro movimento desta natureza. 97 CALDEIRA. Tal crítica se apresenta como de senso comum no que se refere a estes estudos. que se refere a “imagem de crise” socioeconômica e também cultural. Ressaltamos que este estudo se debruça sobre a analise do discurso. p. não demorou a contribuir para os estudos a esse respeito. cit. op. op.52 que para o autor. sua pesquisa foi realizada com fontes de edição posterior a 1945. elementos característicos de um pensamento autoritário que surge dentro das classes médias brasileiras e une este ao bojo das discussões nacionalistas que 97 estavam em pauta durante a década de 1920. 313. quando estas já tinham sido alteradas frente a readequação da doutrina integralista ao novo contexto democrático nacional. p. identificando dentro do discurso da AIB. justifica a idéia de que a AIB não pode ser caracterizada como um movimento fascista. o fato de o capitalismo brasileiro ser considerado como hipertardio. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30. assim como sua principal temática.

99 TRINDADE. R. que apóia a impossibilidade de fazermos esta afirmação. H. durante e depois do período de existência da AIB. sem levar em conta que dos teóricos do movimento. uma vez que o autor acompanha a evolução de seu pensamento antes. principalmente. cit. Quanto às fontes utilizadas pelo autor. ao procurar entender a experiência brasileira usando como base os casos europeus. grande parte do seu caráter fascista. 18-19.. 102 TRINDADE. H. a AIB foi um movimento político e. p. de sua base social de recrutamento. 101 CALDEIRA. e somente as produzidas por Salgado. de sua solidariedade para com os fascismos internacionais e de suas 100 atitudes políticas. Vasconcellos repete o mesmo erro de Chasin. Contudo.. a qual só se apresenta claramente no pensamento pliniliano pré-integralista. que foram fatores básicos para o surgimento dos fascismos europeus. p. ele não leva em conta que a debilidade destas forças agiu justamente no fortalecimento da AIB em sua primeira fase se 101 expansão. 102 são desenvolvidas. que o autor fundamenta a tese central de seu trabalho. Deste modo.. cit. op. p. cit. 316. E é justamente devido à utilização destas fontes. deixando de lado os outros ideólogos integralistas e parte das produções realizadas durante a existência da AIB. E isso. não adequadas para a sua proposta de estudo. 311-312. não existiu uma forte tradição liberal. mais uma vez temos um problema próximo ao apontado no trabalho de Chasin. 100 Ibid. também não levou em conta que mais do que um conjunto de idéias. que é a “utopia autonomística” integralista. no fato de que. Entretanto. de C. A maioria das fontes escolhidas foram resgatadas do período pré-integralista. C. 305 e 307. op. A sua análise no nível ideológico.53 fascista da ideologia já tinham sido escamoteados. . Salgado era o menos fascista se compararmos a sua produção à de Gustavo Barroso e 99 Miguel Reale. op. p. em nossas terras. Mais uma vez. por Miguel Reale. vinha de sua organização. está presente no trabalho de Vasconsellos. um forte partido comunista e um grande proletariado urbano-industrial. este trabalho se apresenta como uma grande contribuição. a crítica quanto a considerar o Integralismo como um movimento fascista.. destacamos que do ponto de vista de se analisar a obra política pliniana. uma vez que as teorias que pretendem “salvar” o Brasil da luta de classes e do mundo capitalista. de seus militantes.

tanto no fascismo europeu. J. um nacionalismo exacerbado e uma influência ou. Apesar disto. não chegando próximo ao litoral. como na tradição intelectual autoritária nacional. 104 LUSTOSA. uma vez que este personagem de nosso folclore habita o interior do território nacional. os trabalhos: A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939 de Oscar de Figueiredo Lustosa (1976). temos excelentes conclusões neste trabalho.da caracterização da AIB como um movimento fascista. que analisa as relações da AIB com a Igreja Católica durante a década de 1930 e o estudo Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945 de Jarbas Medeiros (1978). Rio de Janeiro: FGV. uma vez que para ele. o que para Trindade já é um fato consumado. e MEDEIROS. A principal temática destes trabalhos está baseada na suposta constatação . . ficando longe das influências européias que chegavam pelo Atlântico. de F. para o autor. paradoxalmente. tornado-o auto-suficiente.ou sua negação . O. o que 103 Tanto a “utopia autonomística” quanto a “irracionalidade” do pensamento integralista correspondem a tese central deste trabalho. esta constatação não se apresenta suficiente para identificar a especificidade da AIB frente aos movimentos europeus.54 Esta utopia consiste em um projeto que visa o isolamento do Brasil das nações capitalistas hegemônicas. São Paulo: FFLCH/USP. É por este motivo que Vasconcellos nomeia tal idéia como a “ideologia curupira”. e não 103 como uma característica original da experiência brasileira. até mesmo. precisamente. que ao analisar o autoritarismo brasileiro do período de 1930 a 1945 inclui entre os intelectuais estudados o 104 nome de Plínio Salgado. In: Revista de História. a singularidade do discurso ideológico fascista se configura. Neste caso. Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945. pois estas influências ideológicas são vistas como resultantes de um extremo “irracionalismo” integralista. como a consideração acerca da ideologia integralista ter suas principais bases apoiadas. 1976. Também merecem ser citados. no tipo de combinação entre o nacionalismo nascente em cada sociedade onde ele florescia e a percepção de um sentido da história marchando para o fascismo em escala internacional. "A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939". No entanto. solidariedade ideológica com o fascismo internacional. 1978. em todo fascismo coexistem.

trazemos a colocação de Castro Caldeira que sintetiza adequadamente esta produção ao afirmar que: na década de 1970. já bastante conhecidos dos estudiosos da área e que por isso que se destacam dentro desta historiografia são: Thomas Skidmore com o estudo Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1975). privilegiando mais as ações e relações da AIB e seus integrantes. cit. buscando explicações e articulações a nível nacional e internacional. que. Entretanto. 1982. op. cit. p.. O Brasil e a crise internacional: 19301945. 108 SKIDMORE. convém esclarecer que estes 105 TRINDADE. Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem .. 15. 19. com exceção do trabalho de Hélgio Trindade. op.. 9 ed. S. R. Por fim. a qual privilegiou a análise ideológica. p. também se baseavam quase que exclusivamente nos textos doutrinários de Salgado. F. que privilegiaram as análises da 106 dimensão superestrutural da sociedade. Estes estudos. 306. Rio de Janeiro: Paz e Terra. os estudos das ciências humanas foram razoavelmente marcados pela análise do discurso.55 conduziria necessariamente com ecletismo 105 do discurso. com as demais forças sociais e 107 institucionais brasileiras e internacionais. S. vale a pena ainda enfatizamos a produção dos brasilianistas. Dulles com Getúlio Vargas. que ressalta a grande importância do Integralismo dentro do contexto político nacional e suas relações com o 108 governo de Vargas.. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. T. 106 CALDEIRA. cit. 107 Ibid. Stanley Hilton com o trabalho O Brasil e a crise internacional: 1930-1945 (1977) e Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil (1977). Os principais autores brasilianistas. J. H. op. p. de C. Essa tendência decorreu em grande parte das influências do pensamento estruturalista sobre aquelas ciências. são um dos grandes responsáveis pelo caráter fascista do movimento. HILTON. Aqui. Robert Levine com a obra O regime Vargas: os anos críticos 1934-1938 (1980) e John W. e HILTON. Concordando que foi exatamente isso que ocorreu com esta historiografia. que se diferem da produção nacional devido ao enfoque utilizado pela maioria dos trabalhos. que nos aponta não ser possível entender o Integralismo somente pelo discurso de um único ideólogo e sem levar em conta seus militantes. como já foi dito. Biografia política (s/d).

cit. entendendo que as discussões acerca de se considerar ou não a AIB como um movimento fascista. Biografia política. que para ele eram o operariado. posteriormente. o qual procura entender como funcionavam as relações entre os integralistas e seus opositores. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. este pensamento se apresenta fortemente influenciado pelo fascismo. a considera como um movimento de cunho fascista. op.1980. enfatizamos que. esta participação ocorria devido à simpatia dos integralistas para com a causa do Terceiro Reich. s/d. neste último caso. o autor aponta a participação de um pequeno círculo de militantes do sigma nas práticas de espionagem dos nazistas em nosso país. embora. esta oposição ocorria pelo fato de que o forte nacionalismo 110 contido na ideologia do movimento não era compartilhado por estes . 110 Ibid. de C. os governos estaduais e as colônias de imigrantes alemães do sul do país. F.56 trabalhos não tratam exclusivamente da AIB. LEVINE. Já em seu trabalho Suástica sobre o Brasil. Renes. o fascismo seria a principal característica da ideologia dos camisas verdes. por este se diferir dos demais. por meio 109 da implantação do Estado Integral. uma espécie de solidariedade ideológica. Por fim. Já na década de 1980. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. alemã no Brasil. um breve panorama desta produção. uma vez que se aproxima fortemente da produção nacional. p. R. 1977. já que o autor compara a AIB as experiências européias e. na ajuda para com o disfarce destes e no recolhimento de informações. W. o primeiro que iremos tratar é O Brasil e a crise internacional. também são analisadas. Robert Levine nos traz um amplo panorama da experiência integralista dentro da vida política nacional. 19. 2. mas dedicam importantes análises a este movimento. O regime Vargas: os anos críticos (1934-1938). não se faziam mais pertinentes. neste trabalho. Quanto aos trabalhos de Hilton. Hilton afirma que esta participação se dava por meio do empréstimo de escritórios para as reuniões dos espiões. provenientes da crise de 1929. Rio de Janeiro.. . O apoio das classes médias ao partido e a sua tentativa de superação das dificuldades econômicas. este sim é analisado a fim de se entender a sua essência. Com o intuito de apresentar. Para ele. J. Getúlio Vargas. R. 109 CALDEIRA. já que para Levine. iniciamos com o trabalho de Skidmore. longe de sê-lo. e DULLES J. ressaltando-se que. Quanto ao pensamento estadonovista. ed. sendo de grande valia a sua contribuição para com esta historiografia. pois para este autor.

57
encontramos um capítulo inteiramente dedicado a AIB, e um segundo, dedicado às relações entre o Integralismo e o Estado Novo. No primeiro deles, o autor analisa a ideologia integralista considerando-a como autoritária, nacionalista, anticomunista, 111 antiliberalista, anti-semita e com pesada hierarquia , que era “copiada” do partido Nazista alemão, entretanto, afirma que a sua maior influência veio do fascismo italiano. As considerações que o autor apresenta acerca das proximidades políticas e ideológicas da AIB para com a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que representava a outra extremidade do espectro político nacional, ou seja, a esquerda, merecem um destaque especial. Ele aponta que ambos os movimentos “se organizavam em células; ambos procuravam atrair as classes médias e trabalhadoras; ambos atacavam o statu quo do Estado e de seus opositores, o domínio econômico estrangeiro, e o fracasso 112 revolucionário da Aliança Liberal” , partido que colocou Vargas no poder, em 1930. Levine também compara a AIB com as outras forças políticas de oposição ao governo que surgiram após a revolução de 30, as quais só se diferenciavam do pensamento Integralista no encaminhamento de soluções aos problemas políticos, uma vez que estes se baseavam em uma concepção totalitarista e mecanicista de Estado, o Integral. Em um segundo momento, o autor analisa a relação da AIB com a Igreja Católica, com o meio militar, com políticos de influência no 113 governo, com os intelectuais e com o governo federal ; além de fazer uma breve biografia de Salgado e Barroso, incitando uma possível disputa entre ambos no que se refere à liderança do partido. Até mesmo os rituais e cerimônias integralistas são abordados por Levine. No segundo capítulo, o autor narra as relações políticas entre a AIB e o Estado Novo, desde o acontecido golpe de 1937 até o fim do governo de Vargas em 1945, ressaltando as manobras políticas ocorridas na cúpula estadonovista e integralista, sejam elas sendo suas ações em conjunto ou suas discórdias. Assinala-se, também, que as fontes utilizadas para a realização desta pesquisa, foram, além da bibliografia nacional e internacional que abordou o período, os livros doutrinários e jornais integralistas, assim como os relatórios, documentos e cartas, tanto do governo quanto do movimento. Dado esta análise inicial sobre os estudos acerca da AIB na década de 1980 pelos brazilianistas, como vemos no trabalho de
111 Ibid. 112 LEVINE, R. op. cit., p. 129. 113 CALDEIRA, J. R. de C. op. cit., p. 19.

58
Levine e outros, as pesquisas e as publicações sobre o tema continuaram crescendo nesse sentido de estudos comparativos com os movimentos europeus. Retomando às analises sobre a produção no Brasil nesta década, vale a pena ainda destacar dois importantes trabalhos que não tratam especificamente do Integralismo, mas que se apresentam como leituras importantes para se compreender o período em que o movimento atuou. O primeiro deles é o trabalho de Alcir Lenharo, 114 intitulado Sacralização da política (1986), no qual o autor apresenta novas perspectivas de análise e interpretação para melhor entendermos as idéias do pensamento autoritário presente na política brasileira da década de 1930. Por isso, tal obra se mostra referência obrigatória para qualquer estudo que contemple esta área de estudos. O segundo, é o conjunto de quatro volumes da coleção História geral da civilização brasileira: o Brasil republicano (1986), sob direção de Boris Fausto, nos quais o volume terceiro, Sociedade e política (1930-1964), e o volume quarto, Economia e cultura (1930115 1964) , contemplam, como já referido em seus títulos, a década de 1930. Estes trabalhos reúnem vários artigos de diversos estudiosos das mais diferentes áreas das ciências humanas, como o artigo Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30 (1981) de Hélgio Trindade. Neste último artigo, o autor discute os problemas e as perspectivas dos estudos sobre a AIB. Apresenta um breve panorama da historiografia que tratou o integralismo durante a década de 1970, realizando um bom balanço e análise, seguido da réplica a seus críticos. Até mesmo algumas considerações sobre os estudos da política nacional republicana são apontadas. O descrédito com que a historiografia tratou os fascismos também é resgatada, seguida de alguns apontamentos para a justificação desta atitude. Um breve panorama da evolução do pensamento de Salgado, o alerta para posterior alteração dos textos Integralistas, após 1945, e as considerações sobre os diferentes níveis de análise da doutrina integralista - que correspondem ao âmbito dos dirigentes doutrinadores, separando o pensamento de Salgado, Barroso e Reale, e dos militantes - também estão presentes neste artigo. Outro trabalho que também merece ser citado é o de Jorge Zaverucha, intitulado A questão do integralismo diante da herança

114 LENHARO, A. Sacralização da política. 2 ed. Campinas: Papirus, 1986. 115 FAUSTO, B. (org.) op. cit.

59
fascista (1984), que une-se à tese de Trindade em considerar o 116 Integralismo como movimento fascista. Outros trabalhos deste período foram: Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio Salgado, de Ricardo Benzaquen de Araújo (1988), pesquisa esta que possui uma proposta de caráter ensaístico e não acadêmico, interpretando a ideologia de Salgado e ressaltando suas tendências espiritualistas e totalitárias; e o livro de René Gertz (1987) intitulado O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo e integralismo, que analisa a relação entre os imigrantes alemães e os integralistas no Rio Grande do Sul e em Santa 117 Catarina. É ainda no final desta década e, principalmente, durante a década de 1990 que os estudos sobre o Integralismo deixaram de contemplar somente os aspectos autoritários e/ou fascistas da AIB e passam a contemplar suas especificidades, tais como a relação do Integralismo com os imigrantes, com o meio militar, a participação feminina e dos negros dentro do movimento, as políticas regionais, a simbologia e as festividades. Da mesma forma, o anti-semitismo dentro do discurso e das práticas do partido. Temos durante este período, recortes mais específicos, mostrando um panorama difuso daquele que 118 vinha sendo produzido nas décadas anteriores . Alguns títulos que representam esta historiografia são os trabalhos de Roney Cytrynowicz (1992), intitulado Integralismo e antisemitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, o de Fábio Bertonha (1992), A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, o de Castro Caldeira (1999), Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937) e o trabalho de Rosa Maria Feiteiro Cavalari

116 CHAUÍ, M. Notas sobre o pensamento conservador dos anos 30: Plínio Salgado, In: ANTUNES, R., FERRANTE, V. B. e MORAES, R (org.) Inteligência brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986. e ZAVERUCHA J. A questão do integralismo diante da herança fascista, In: Revista Ciência e Tópicos. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1984. 117 ARAÚJO, R. B, de Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio salgado, Rio de Janeiro: Zahar, 1988. e GERTZ, R. Os teuto-brasileiros e o integralismo: contribuições para a interpretação de um fenômeno político controverso. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. 118 BERTONHA, Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas, op. cit.

60
(1999), Integralismo: ideologia e organização de um movimento de 119 massa no Brasil (1932-1937). No trabalho de Caldeira, temos um estudo a nível regional que nos abre a possibilidade não só de entender como a AIB se inseriu no panorama político maranhense, mas também nos leva a entender como funcionava sua organização a nível regional. Este trabalho contempla a passagem da caravana de Barroso, o discurso anticomunista integralista, as lutas conta a ANL e a relação do movimento com a política regional maranhense. Ressalta-se, que o autor considera como principal motivação para a ascensão do Integralismo no estado, uma resposta ao surgimento da ANL no Estado. No entanto, maior destaque deve ser dado ao trabalho de Feiteiro Cavalari o qual analisa a pedagogia fascista, os símbolos e rituais integralistas como responsáveis pela união, sociabilização ideológica, propaganda, agremiação, mobilização política, submissão à hierarquia e disciplina. A autora também analisa como se processou a criação de uma identidade para o movimento, onde se destaca a participação das mulheres integralistas, “as blusas verdes” que, dentro das escolas, ambulatórios e creches integralistas, pretendiam por meio de ações filantrópicas e educacionais atender às necessidades da população e agregar novos adeptos para o partido. A rede de jornais integralistas, nacionais e regionais, também é estudada, porém, como meios de divulgação e doutrinação, assim como os programas de rádio, uma vez que a retórica dos líderes integralistas era a grande responsável pelo crescimento numérico e manutenção de seus militantes. O rádio era a maneira mais direta de relacionamento da cúpula integralista com seus “soldados”. Nesse sentido, o trabalho de Feiteiro Cavalari corresponde exatamente a esta nova historiografia dos anos de 1990. A produção historiográfica presente, de início do século XXI, dá continuidade a historiografia da década passada e, dentre os trabalhos que até hoje foram publicados, citamos os seguintes: O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil de Fábio Bertonha (2001), Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social no
119 CYTRYNOWICZ R. Integralismo e anti-semitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História da FFLCH-USP, 1992; BERTONHA, F. A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, In: História & Perspectiva (Uberlândia), Vol.7, 1992.; CALDEIRA C. op. cit. e CAVALARI R. M. F. Integralismo: ideologia e organização de uma movimento de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: EDUSC, 1999.

61
Brasil / 1930-1954 de R. S. Rose (2001) e o segundo volume da coleção O Brasil republicano que traz um artigo de Marcos Chor Maio e Roney Cytrynowicz (2003) intitulado Ação integralista brasileira: um 120 movimento fascista no Brasil . Por fim, também, cabe citar, neste momento, a coletânea de artigos produzidos após o I Encontro de Pesquisadores do Integralismo, realizado, em 2002, no Arquivo Público do Município de Rio Claro, que chegou ao grande público, em 2004, 121 com o titulo de “Integralismo: novos estudos e reinterpretações”. Nesta produção contemporânea, destacamos este trecho que nos traz as seguintes observações acerca dos artigos: Lembranças do esquecimento: datas e comemorações do Movimento Integralista Brasileiro, A ação feminina integralista no Maranhão, Notas sobre o anticomunismo integralista, A formação do Partido de representação Popular e a intervenção integralista na política brasileira, O trabalho através do discurso integralista, A educação no projeto integralista, O Integralismo e a mulher, Intelectuais brasileiros na ideologia integralista: autoritarismo, ensino e a busca de raízes nacionais, Integralismo e Eugenia e Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e 122 História.

120 BERTONHA, F. O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001; ROSE, R. S. Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social do Brasil (1930-1945), São Paulo: Companhia das Letras, 2001. e MAIO, M. C. e CYTRYNOWICZ R Ação integralista brasileira: um movimento fascista no Brasil, In: FERREIRA, J e DELGADO, L. de A. N. (org.) O Brasil republicano – o tempo do nacional-estatismo: do inicio da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 121 DOTTA, R. A., POSSAS, L. M. V. e CAVALARI, R. M. F. (org.) Integralismo: novos estudos e reinterpretações, Rio Claro: Arquivo do Município, 2004. 122 Os autores destes artigos são agora nomeados respectivamente na ordem de apresentação de seus trabalhos: Rodrigo Christofoletti, Castro Caldeira, Rodrigo santos de Oliveira, Gilberto Grassi Calil, Renato Alencar Dotta, Rosa Maria Faiteiro Cavalari, Lídia M. Vianna Possas, Alexandre Blankl Batista, Endrica Geraldo e João Fábio Bertonha.

. Outro importante ponto a ser enfatizado. Tudo o que saia deste roteiro pré-estabelecido. intitulado O integralismo nas águas do Lete: 124 história. 157. e pretendem que o resultado seja a expressão da verdade pura. esqueceram algumas coisas. remontaram os acontecimentos. refere-se à necessidade de se estudar a memória produzida pelos militantes integralistas sobre a sua própria história. O integralismo nas águas do Lete: história. os temas que a atual historiografia sobre o integralismo está abordando e que. F. Victor aborda a memória que os atuais livros didáticos constroem sobre a AIB e a sua participação na história brasileira. F. Eles formularam uma visão própria do acontecido. POSSAS. M. L. e CAVALARI. 2005. tem a pretensão de construir um panorama mais detalhado do movimento.. assim como nos indica o título desta última coletânea citada. o autor analisa a memória criada pelo Estado Novo e pela imprensa do período acerca da AIB. é imediatamente atacado como mentira. Goiânia: UCG. nos apresenta uma enorme gama de novos estudos. Dentro desta perspectiva de análise. 124 VICTOR.) op. foi consolidada. J. etc.62 A lista de títulos (citada em rodapé) se justifica pelo fato de apresentar. (org. o golpe de Vargas em 1937 e o Putch Integralista de 1938. justamente. ele discute questões como a herança fascista. memória e esquecimento (2005) . como já foi citado. Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e História. R. cit. p. no decorrer dos anos. Neste estudo. Além disso. Por fim. L. Entendemos então. V. convenientemente. só nos resta apresentar o trabalho de Gilberto Calil (2001). 123 deturpação. . má fé. que a atual historiografia que voltada a AIB. Neste percurso. mesmo que seja por um milímetro. A. R. memória e esquecimento. M. In: DOTTA. citamos o trabalho de Rogério Lustosa Victor. uma memória particular por parte dos militantes. R. intitulado O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP 123 BERTONHA. como também promove novas abordagens para temas que já foram estudados. além de também abordar a memória criada pelos próprios militantes sobre o seu passado. Para Bertonha.

no qual é analisado o fim da AIB e a sua rearticulação após 1945 com a criação do PRP. Esperamos. também são abordados. Assim. G. Porto Alegre: EDIPUCRS. se mostram suficientes para a apresentação da historiografia que abordou a AIB. pela própria impossibilidade de tal empreitada. Para finalizar. também. Entendemos que as apresentações e comentários estabelecidos até aqui. o seu discurso anticomunista e logicamente a sua participação no processo político brasileiro. O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP (19451950). cabe esclarecer que somos conscientes de não contemplarmos toda a bibliografia que abordou a AIB. A estrutura interna do PRP. para que os pesquisadores já de longa data possam mais uma vez refletir sobre as produções existentes. o seu projeto político. este trabalho se apresenta como o mais completo estudo sobre o PRP até então realizado. os elementos mobilizadores de sua militância. 125 125 CALIL.G. 2001. que o presente artigo sirva como uma espécie de guia de leitura para os pesquisadores que estão iniciando seus estudos sobre este tema.63 (1945-1950) . ou até mesmo. . transformando-se em um referencial obrigatório para qualquer estudo posterior que pretender abordar o Integralismo no pósguerra.

Licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. a Ação Integralista Brasileira (AIB) teve sua semente 126 Este artigo baseia-se em minha Monografia de conclusão de curso de Especialização em História do Brasil (PUC/MG) 127 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. Especialista em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Trata-se de um trabalho apresentado no IIº Prêmio de Pesquisa promovido pelo DCE da Universidade Federal de Juiz de Fora. à percepção das particularidades do movimento nesta cidade em relação às demais localidades.cujo título é Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. Tradição e Cristianismo: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora.com . ainda. Aqui. nada mais se encontra sobre a atuação do movimento na cidade. se deve. quando muitos militantes ainda estavam vivos. e-mail: leandropgoncalves@gmail. realizado na época pelo acadêmico Maurício de Castro Corrêa. que serviu de base para tratar do tema dentro das novas condições e possibilidades do trabalho historiográfico acerca do integralismo no Brasil. realizado em 1973. a escolha do tema. Além da ausência de estudos do movimento na cidade de Juiz de Fora.64 TRADIÇÃO E CRISTIANISMO: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora 126 Leandro Pereira Gonçalves 127 As primeiras leituras bibliográficas sobre o integralismo confirmaram a inexistência de um completo estudo sobre a atuação deste movimento na cidade de Juiz de Fora. À exceção de um trabalho que relata o integralismo de forma bem factual . área de concentração: Literatura Brasileira.

Esse movimento foi decisivo na formação política da década de 1930. com a integração do discurso integralista conservador ao discurso metodista do contexto religioso da década de 1930. mas a base inicial se encontra na Igreja Metodista. divulgado para todo o país. A Igreja Católica chegou a apoiar o movimento na cidade. a AIB passou a atuar formalmente através do Manifesto de outubro de 1932. sob a liderança do escritor e jornalista Plínio Salgado. fortemente influenciada pelos movimentos fascistas europeus. sem discussão. portanto. Plínio Salgado inicia suas . A partir de então. diferente. Sua organização. logrou intenso e rápido crescimento ascendente até a decretação do Estado Novo em novembro de 1937. quando foi proibido de atuar juntamente com outros partidos e movimentos. A hierarquia do movimento colocava Plínio Salgado como Chefe Nacional e todos os demais membros tinham que jurar obediência às suas ordens. priorizava a arregimentação de militantes e seu enquadramento em uma estrutura hierárquica e burocrática. que veiculava um discurso previamente preparado de acordo com a situação. Logo após o lançamento oficial da Ação Integralista Brasileira. investiu na construção ideológica de controle da população pela educação metodista. Iniciando suas atividades no princípio da década de 1930. tendo ampla repercussão no campo político e social no Brasil. que através de um grande centro educacional secular denominado Instituto Granbery. de muitas localidades onde o catolicismo foi o grande pioneiro. todos eles descontentes com a política existente até então. Foi justamente através da força dos ideólogos metodistas que nasceu o integralismo juizforano. O movimento integralista surgiu através do interesse de vários grupos de intelectuais no Brasil.65 plantada dentro de uma instituição religiosa metodista.

mais forte combate ao comunismo. na Zona da Mata mineira. aglutinando o apoio da mocidade e transformando. Em 1936. ficaram ao lado do fascismo.66 articulações políticas pelo país. com milhares de células espalhadas por todo o país e. Com esse discurso ideológico de combate em defesa às tradições cujo lema é: Deus. o comunismo. defendendo principalmente a tradição. essas famílias investem no integralismo que apresenta grande relação entre a religião e a política. assim. Mostraremos um pouco de toda essa atuação na cidade de Juiz de Fora. as opções eram comunismo e fascismo. Ao mesmo tempo. o socialismo. o capitalismo internacional e as sociedades secretas vinculadas ao judaísmo e à maçonaria. Na crise liberal. vangloriava-se de que o número de seus militantes alcançava a cifra de um milhão de pessoas. defendia que sua milícia reunia cerca de cem mil indivíduos em condições de combate. no Brasil. Plínio Salgado. e as famílias religiosas tradicionais. As pretensões integralistas em atingir o poder pareciam. No país. principalmente. onde a AIB passou a se destacar logo após três conferências doutrinárias ocorridas nos dias . bastante realistas até que Getúlio Vargas resolveu por fim às pretensões do líder integralista em 1937. movimento político de extremo conservadorismo que se articula com os discursos religiosos. assim. logo se depara com as ações da Ação Integralista Brasileira. Pátria e Família. o Integralismo chegou ao auge de suas atividades. os integralistas contaram com um expressivo número de filiados. Ao analisar a década de 1930. o integralismo propõese a combater o liberalismo. Descartando. a AIB no principal partido de extrema-direita em busca do poder nos anos 30. que possuíam tendências políticas.

p. Tarboux. digno presidente da Academia Brasileira de Letras!” 129 A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora fez parte do que era chamado de Bandeira ou Caravana Integralista. Juiz de Fora. 128 realizadas pelo Chefe das Milícias Integralistas. presidente da Academia Brasileira de Letras. . divulga a seguinte manchete: “O Granbery orgulha-se de ter como hóspede de honra. do Museu Granbery. 20 out. utilizou seu prestígio de presidente da ABL. o ilustre brasileiro Dr. então diretor dos cursos Ginasial e Comercial do Instituto Granbery da Igreja Metodista e membro da Igreja Metodista Central de Juiz de Fora que cedeu as 128 As duas primeiras conferências foram realizadas no salão do Instituto Granbery da Igreja Metodista. com os títulos: “A Inquietação do século XIX e a Reconstrução do século XX” e “O sentido Novo da Política. o pioneiro do movimento integralista em Juiz de Fora foi o professor de Sociologia Oscar Machado. 129 O Granberyense. intitulada: “Liberalismo. O Chefe das Milícias Integralistas. Comunismo e Integralismo”. A inserção do Integralismo em Juiz de Fora A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora ocorreu através do Instituto Granbery da Igreja Metodista. 21 e 22 de outubro de 1933. a divulgação e a propagação da ideologia integralista pelo Brasil. 130 Desse grupo. 1933. Já última conferência ocorreu no salão de festas do Pálace Hotel. Gustavo Barroso. 130 Sobre sua presença na escola pode ser comprovada pelas fotos de 20 e/ou 21 de outubro de 1933 no Arquivo fotográfico Dr. Gustavo Barroso. movimento que tinha como objetivo a doutrinação. da Educação e da economia”. 1. que em seu jornal de circulação interna do dia 20 de outubro de 1933.67 20. Gustavo Barroso. para divulgar as ideologias políticas integralistas entre os professores e alunos.

sob as idéias de John Wesley. No dia 27 de novembro de 1933. A Igreja Metodista no campo da educação O metodismo. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. 1973. pelo Pastor César Darcorso Filho. 132 Em março de 1934. 69. A partir daí. 131 Segundo Maurício Corrêa. proferiu uma série de conferências doutrinárias para divulgar a ideologia integralista. Maurício de Castro. quando ocorreu a posse do professor Oscar Machado como primeiro chefe municipal do integralismo. p. pregando e organizando uma sociedade metodista por todo Reino Unido.68 dependências do colégio para Gustavo Barroso. Sua visita foi fundamental para consolidar a fundação do núcleo municipal que ganhou muitos adeptos logo após a visita do Chefe em dezembro de 1933. além de Barroso. instalou-se a organização da milícia integralista juizforana e da sede oficial do movimento. 132 CORRÊA.º 1719. Data de recepção na Igreja Metodista Central: 09/01/1930. apontada como responsável por uma transformação de toda 131 Rol n. Após o lançamento da semente integralista. também Plínio Salgado teve atuação em Juiz de Fora. ministro da Igreja Anglicana que teve a oportunidade de viajar por cinqüenta anos. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. o professor iniciou o processo de divulgação e ampliação do movimento com a preparação de um forte veículo de propaganda através do jornal O Sigma. 58.º 01. livro n. Essas viagens tiveram como meta destacar os problemas sociais da época oriundos da Revolução Industrial. nasceu na Inglaterra no século XVIII. Transferido para Porto Alegre em 11/09/1934. um grupo de integralistas chegou à cidade ampliando a consolidação do movimento. que fez parte do movimento Reforma Protestante. pág. o chefe dos integralistas. .

Após o processo de Independência das Treze Colônias e a formação dos Estados Unidos da América. Em pouco . no século XIX. devido a uma política escravocrata e tradicional que era a do Brasil. O metodismo chegou ao Brasil através das missões dos Estados Unidos. na América Inglesa. inclusive tornando-se muito poderosa na América do Norte. os metodistas iniciaram um movimento de expansão religiosa com muito sucesso. com vários princípios como o individualismo. a difusão do Iluminismo permitiu a abertura de novas formas de pensamentos religiosos. Com isso. servindo para construir escolas destinadas a instrução de todos. No decorrer do século XVIII.69 estrutura social inglesa. Com isso a expansão do metodismo ocorreu no meio urbano. favorecida por uma burguesia em ascensão com características modernas e por instituições de ensino que começavam a ser criadas. sendo o maior movimento protestante dos Estados Unidos. civilização e progresso. É nesse contexto que o metodismo chega a Juiz de Fora no ano de 1884. com uma identidade liberal e progressista. tendo como participação a Igreja Metodista. A Igreja Metodista em pouco tempo se expandiu por todo o Reino Unido. tendo uma primeira tentativa entre 1836 e 1841 e a segunda investida iniciada em 1876. O metodismo chegou ao Brasil com os ideais do liberalismo já consolidados na América do Norte e foram justamente esses ideais que exerceram um especial atrativo naqueles que desejavam modificações. marca do Iluminismo liberal. Os metodistas além de quererem implantar a religião no Brasil. têm o objetivo de transmitir os valores estadunidenses de liberdade. presente no século XVIII. As idéias de John Wesley foram ainda a base da organização de uma educação destinada especificamente aos adultos. o ensino ocupou um lugar privilegiado na ação social.

135 observa-se o pensamento do seu fundador sobre a educação. 97. inclusive a cidade de Juiz de Fora. chegou aos Estados Unidos como uma grande força religiosa influenciando a vida e a cultura da população. 162. o metodismo difunde na sociedade juizforana uma cultura protestante estadunidense. avançou por toda a região mineira. Em pouco tempo. p. Peri. Olmstead apud MESQUIDA. o metodismo se transformou numa das maiores forças educacionais da Inglaterra no século XIX e de forma rápida. cit. pautada no liberalismo. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. op. Peri. Na segunda metade do século XIX. Olmstead. 134 MESQUIDA. cit. no ano de 1890. Em Letters of John Wesley. o Collegio Americano Granbery. Segundo Clifton E. p. p. 134 A educação metodista e o integralismo em Juiz de Fora A Igreja Metodista. teve uma característica básica em sua doutrina ideológica que era a de ser um movimento reformador e educativo. era a instituição religiosa de maior denominação e dominação nos Estados Unidos.70 tempo. op. . tendo como objetivo reformar o caráter e a vida dos homens. 1994. Peri. desde os seus primórdios. com a fundação de uma instituição de ensino. Com esse objetivo. ponto estratégico usado na doutrina. 146. A educação passou a ser vista como um processo de formação contínua do indivíduo. por isso a necessidade de se construir escolas. Identificava-se como a nação 133 Clifton E. 135 Letters of John Wesley apud MESQUIDA. de criar uma obra educacional com teor missionário. 133 as instituições metodistas de ensino privilegiavam os filhos dos membros da Igreja com o objetivo de criar homens de moral elevada capaz de influenciarem a comunidade em que viviam.

op. p. honesta. ou seja. algumas missões procurando promover a ideologia estadunidense no continente. . O metodismo tem como objetivo onde quer que seja. Segundo Hooding Carter. cit. Peri. pois esse 136 Hooding Carter apud MESQUIDA. obediente. É nessa linha de raciocínio. como diz Marilena Chauí. pela educação e liberdade. A educação metodista passou a ser então um canal de convicção intelectual. 137 o Journal of the General Conference of the Methodist Episcopal Church (1880) publicou que o metodismo dos Estados Unidos manifesta um profundo sentimento nacionalista e a aceitação à política liberal. o ideólogo. Essa dominação não só é restrita ao campo religioso. difundir. O nacionalismo religioso metodista. Segundo Mesquida. devido à liberdade conquistada após a Guerra Civil. o progresso e todas as forças racionais e morais que fazem o aperfeiçoamento da civilização americana.71 escolhida por Deus como dominante. a cabeça pensante que tem como objetivo manipular a massa. 136 quando os pregadores metodistas falam. O liberalismo foi o principal referencial teórico dessa expansão. que está presente nos Estados Unidos.108-109. 212. Por isso acreditava que as nações mais evoluídas tinham o dever de civilizar as nações mais atrasadas do mundo. dando assim legitimidade ao expansionismo imperialista. trabalhadora. que foi enviado ao Brasil. 137 MESQUIDA. cit. op. valores e ideais da América do Norte. propunha comunicar ao mundo. ao político. por isso as instituições de ensino têm como propósito modelar e promover essas idéias. mas também. formar uma população livre. p. os políticos os ouvem com a mesma atenção que suas próprias congregações. Peri.

pontos estratégicos para defender e propagar os princípios liberais. Os missionários metodistas estavam conscientes de que era no interior que sua dominação ideológica iria ocorrer com maior sucesso. No periódico metodista: Expositor Cristão. São Paulo: Ática. p. 154. 1981. a conversão das classes sociais importantes. 138 A educação metodista passou a ser o produto das idéias e do pensamento e é assim que surgiu a ideologia como criação de domínio da realidade.72 grupo teve como finalidade transmitir o pensamento de todos de acordo com os seus interesses. 140 é registrado que a doutrina tem como 138 CHAUÍ. nada mais serão do que porta vozes dos ideólogos que é o próprio metodismo. a educação metodista tem como objetivo estratégico. 139 LÉONARD. p. entre eles a cidade de Juiz de Fora conhecida como o Vaticano do Metodismo Brasileiro. desenvolver sua doutrina em municípios do interior. inicialmente. A Igreja Metodista. Emile-G. 140 Expositor Cristão apud MESQUIDA.387. sendo suas instituições educacionais. pois não seria. Convite a Filosofia. São Paulo: Aste-Juerp. formados pelo Instituto Granbery. op. nas grandes cidades. . Esses. então. passa a exercer influência sobre a cultura da elite e da nação. Percebe-se mais uma vez que a instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação concedendo privilégios aos membros da elite religiosa. p. Os colégios metodistas mostram claramente o desejo de se dedicar particularmente à formação das elites. pois as opiniões passaram com o tempo e com a força dos intelectuais a ser uma idéia vista como verdadeira e válida para toda a sociedade. 139 De acordo com esse pensamento. 55. 2004. que era algo vangloriado pela elite intelectual e política. cit. O protestantismo brasileiro. Marilena. Peri.

Partindo do princípio que foram os missionários estadunidenses que implantaram o metodismo no Brasil e. conseqüentemente. existe a necessidade de formar uma concepção política nos educandos para que os ideólogos tenham a garantia de 141 MESQUIDA. E é justamente dessa exigência de criar uma mentalidade para se ter a hegemonia cultural que passamos a falar do Diretor dos Cursos Ginásio e Comércio do Instituto Granbery. cit. A característica principal dessa educação era privilegiar o liberalismo. a educação metodista tem como objetivo proporcionar uma doutrina de dominação ideológica elitizada desde o seu início com John Wesley.157. representante de uma sociedade considerada mais evoluída. Peri. Os educadores queriam criar uma nova mentalidade no cidadão. destaca-se o “Livro de atas da diretoria do Colégio Americano Granbery (18951912)” sobre o objetivo do corpo docente que era a de ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. Como já foi dito. . Entre os documentos relacionados por Mesquida 141 . para que o colégio fosse um centro de influências poderosas e agressivas. marco da política e da economia dos Estados Unidos no início do século XX. políticas e religiosas do país. op. a educação. por isso dedicaramse à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural. Já que a idéia inicial das instituições metodistas é a de formar pessoas que possam resolver as questões sociais. A ação da educação metodista pode ser vista como a conquistadora da hegemonia cultural. políticas e religiosas do país. o liberalismo passa a ser a base de doutrinação dos estabelecimentos de ensino no Brasil. que irá conduzir perfeitamente a prática educativa pautada no iluminismo e no liberalismo.73 objetivo resolver as questões sociais. p.

esse realizou uma série de conferências. De acordo com periódicos de circulação interna. muito menos a Igreja Metodista. um dos militantes mais destacados da Ação Integralista Brasileira. O domínio ideológico de Oscar Machado começou no momento em que ele mesmo convidou para estar presente. o chefe das milícias integralistas Gustavo Barroso. Cabe lembrar que não está sendo afirmado que o Granbery é integralista. no Instituto Granbery.74 seus interesses. A responsabilidade da formação de uma ideologia é do ideólogo que segundo Marilena Chauí. moldando o pensamento de todos. op. as palavras de Oscar Machado penetraram no corpo docente e discente do colégio. em 1933. tendo inclusive.387. cit. 142 CHAUÍ. já que por ocupar um posto de destaque dentro da Instituição e por contar com todos os mecanismos a seu favor. Em pouco tempo. membro da Igreja e com raízes metodistas. o Professor Oscar Machado era uma pessoa detentora de grande respeito dentro da Instituição. alcançando assim seu objetivo inicial. o cargo de Chefe Municipal do Integralismo. . Como já foi citado. que é alvo de análise. ele próprio. 142 fica a cargo dos intelectuais. mas certos grupos de domínio ideológico dentro da instituição. O professor Oscar Machado foi considerado um desses. Ele foi o principal responsável pela divulgação e propagação do integralismo no Instituto e pioneiro na cidade. Marilena. p. É a partir daí que se observa uma força do integralismo dentro do Instituto Granbery. iniciou um movimento de persuasão de suas idéias como sendo de todos. que julgam as idéias verdadeiras e transformam-nas em idéias válidas para toda a sociedade. que era formar um grupo anticomunista e posteriormente um integralista em Juiz de Fora.

porém uma filosofia que realiza um 143 O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. redator chefe do nosso popular ‘Fon-Fon’.75 sendo duas delas dentro do Granbery. mas. conhecedor profundo de todo o movimento político do Brasil. que para ele não é uma simples ditadura. coloca-se ainda como líder invulnerável do Partido Integralista. De acordo com um artigo do periódico O Granberyense: O Dr. Juiz de Fora. 1. atender gentilmente a um convite nosso. saudamo-la na pessoa ilustre 143 do dr. Gustavo Barroso é um desses brasileiros preclaros. Certos de que tudo o que pleiteamos é pela honra da pátria. sim. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. que se impõe pela personalidade intangível e pelo idealismo sadio. 1933. Mas nas palestras realizadas por ele no Instituto Granbery nos dias 20 e 21 de outubro. 20 out. bem como pelo caráter inflexível. o ilustre brasileiro Dr. p. verifica-se que existe uma posição de doutrinação política nas conferências. deixa claro a sua defesa do regime fascista. Gustavo Barroso. Gustavo Barroso. pelo que. Em uma de suas palestras. Sua excelência não virá realizar um desejo seu. colaborador de inúmeras revistas. Como pode ser observado é muito claro no artigo que a vinda de Gustavo Barroso não tem ligação com a política integralista e com sua posição de intelectual. Autor de cinqüenta e tantos livros. certos de que sua vinda ao Granbery marcará um ponto iluminoso nas nossas páginas e terá um dos mais raros acontecimentos na nossa vida colegial. desde já hipotecamos-lhe a nossa sincera gratidão. .

nome de grande projeção na nossa 145 literatura. em manipular as posições políticas dos dominados na instituição. ao ensejo de ouvir a palavra encantadora de Gustavo Barroso. Vê se bem que o Granbery vai proporcionar ao mundo intelectual de Juiz de Fora uma grande noite de indizível prazer artístico. O Integralismo de Norte a Sul. 1933. Essa passa a ter acesso a esse discurso. 1934. a convite do Centro Cívico do Granbery. renovando e reconstituindo a doutrina política dos Estados cristãos. no salão nobre do importante estabelecimento de ensino. com isso. Juiz de Fora. p. 145 GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. às 8 horas da noite. o ilustre escritor brasileiro Gustavo Barroso. ou seja. como se nota por exemplo. . 144 De forma tendenciosa percebe-se a expansão do pensamento político de Gustavo Barroso. que é dado como verdade absoluta dentro da instituição. no jornal de maior acesso na cidade o Diário Mercantil: Deverá chegar amanhã à cidade.76 projeto cultural na sociedade. Diário Mercantil. 120. que Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora com o objetivo de doutrinar. Gustavo. do grupo pensante. 1. utilizando seu prestígio por ser 144 BARROSO. mesmo não sendo o divulgado pelo Instituto Granbery. A vinda de Gustavo Barroso foi algo noticiado em toda a imprensa local. Essa conferência terá lugar amanhã. Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora a fim de. 19 out. p. Vê-se isso como mais uma tentativa dos ideólogos. realizar uma conferência literária. Observa-se. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. criando assim um novo sentido da vida. presidente da Academia Brasileira de Letras.

p. com esse projeto de expansão ideológica. observa-se na mesma edição sobre a vinda de Gustavo Barroso anunciado no periódico O Granberyense. posteriormente. Vasconcelos e nele mais uma vez notam-se passagens em que os pensantes se julgam superiores à massa: “A multidão não assimila idéias. Ainda nessa edição existe uma entrevista do Professor Oscar Machado com o título “Acerca de um movimento patriótico”. onde contará com o apoio de diversos segmentos. Continuando. De forma rápida. 146 A dominação intelectual é algo que está presente de forma explícita dentro do Instituto. expandir por toda a cidade. O Granberyense. em que Oscar Machado tem o objetivo de continuar. . Mas. em que um grupo de intelectuais. 1933. é visto que as idéias de Marilena Chauí são aplicadas em Juiz de Fora na década de 30. A. 20 out. Juiz de Fora. liderado pelo Professor Oscar Machado. inicialmente dentro do Granbery para. esse projeto não fica obviamente restrito à vinda de Gustavo Barroso. apenas deixa-se fermentar por elas”. Pode-se dizer que a presença dele foi o início da chamada dominação ideológica. um artigo intitulado “Nacionalismo” de autoria de A. Nacionalismo.77 presidente da ABL. comentando a visita de Gustavo Barroso e ali se pode perceber quais são as posições do Professor sobre o integralismo que começa a estar presente dentro do Granbery: 146 VASCONCELOS. inicia um projeto de dominação ideológica da massa. algo que irá ajudar muito os interesses integralistas. 2. então. inclusive da Igreja Católica. Mas esse não é o alvo desta investigação ficando restrita ao início do movimento dentro do Instituto Granbery da Igreja Metodista.

. 1933. Essa é a 147 concepção totalitária da vida. por exemplo. que as palavras e as doutrinas integralistas entram na instituição com o apoio incondicional de um líder do próprio Granbery. exagera o aspecto econômico da vida (. hipertrofia um aspecto do indivíduo.) A inquietação social contemporânea repercute enormemente em nosso meio (...) O liberalismo. do outro lado..) As massas humanas precisam marchar para frente (. O Granberyense. existe no Brasil uma inquietação que deve ser abolida. todos nós devemos ser integralistas. os granberyenses devem seguir as doutrinas do sigma. (. integral – corpo. Logo tem lugar para a Economia e a Política..) O Socialismo. Gustavo Barroso propõe a solução: ser integralista porque é mais vantajoso que as outras doutrinas existentes. Quer vistamos a camisa verde ou não. superpõe a ambas a Religião. Portanto. considerado nesse meio 147 MACHADO.) Acho que o integralismo tem vantagens sobre as demais correntes políticas (. Pode-se.. Juiz de Fora..) A principal dessas vantagens é a concepção filosófica que serve de base à doutrina integralista (.... pois são as que mais se adequam ao espírito de vida dos que fazem parte desse meio. p. razão e espírito.) É isso que nós estávamos precisando ouvir o que ele disse.. 9... verificar facilmente. Vê o homem total. 20 out. então. Acerca de um movimento patriótico. Crê o homem cívico. Oscar... Tudo resolve pela mentira do voto. .. De acordo com Oscar Machado.) O Integralismo une esses dois aspectos da vida pela influência do Espírito.78 Acho que Gustavo Barroso veio ao Granbery numa hora oportuníssima (. A grande maioria dos granberyenses reagiu favoravelmente diante do apelo feito ao espírito moço pelo eminente brasileiro que nos visitou (. mas completando.

é a grande tendência do século XX. ..(. porém. As correntes políticas não dão unidade ao pensamento.79 um detentor da intelectualidade formadora de opiniões... (... isto. ordem..) O integralista tem certeza da 148 vitória. (....) O movimento integralista é no sentido de integrar todas as forças sociais do país na expressão da nacionalidade.) O mundo contemporâneo caracteriza-se pela indisciplina. Para combater esses males. Só assim pode o povo identificar-se com a Nação. Só existe unidade nacional quando existe unidade cultural.) O Integralismo. harmonia entre as forças que se processam dentro da órbita da sociedade humana.... A sociedade é um conjunto de atividades profissionais em função harmônica. pela ausência do senso hierárquico e pelo desprestígio da autoridade..) O sistema corporativo sobre o qual se baseia a organização social integralista visa precisamente a essa chaga social que é a luta classista.) A Revolução integralista é um esforço para conseguir o equilíbrio. (. o Estado precisa ter autoridade para intervir e disciplinar a vida coletiva.. para tornar possível a disciplina.) O Integralismo. (. porque conservam o povo na ignorância. Não dão. (.) E o Brasil precisa de um grande surto nacionalista. que é o ponto de vista totalitário. (. decorre da concepção do Universo (.. como pode ser visto na seqüência da entrevista: Aceito a concepção integralista.. Por isso é superior às demais correntes políticas. 148 Ibid. aliás. crê na unidade de pensamento.

. pela . como diretor. Com esse discurso e com a idéia de ser o pensante da ideologia. serão de acordo com a doutrina integralista. dois conceitos têm muitas vezes se chocado.) Queremos estabelecer um regime baseado em harmonia da autoridade com liberdade. (. dentro da instituição..) Nós assumimos a direção do Ginásio e da E.) Senhores. em pouco tempo essa fala será colocada em prática.. de Comércio numa hora em que graves acusações pesam sobre a coletividade granberyense no que diz respeito as suas diretrizes educativas (. que tem servido de um lado à audácia dos prepotentes... Um é o conceito da liberdade. mas educação no sentido da criação de uma mentalidade nova que venha substituir a anarquia mental e moral deste nosso século XX. tantas vezes mal interpretado. pelo qual se batem os indivíduos e as multidões.. como já foi mencionada pela fundação do núcleo integralista na cidade e. algumas vezes se associado e raras vezes se integrado. tantas vezes mal compreendido. inclusive. de outro lado. como se observa na transcrição de um discurso feito por ele no momento de abertura das aulas em 1934. as inclinações baixas dos desordeiros (. pois as práticas do professor Oscar Machado.80 Podem ser vistos. publicado na íntegra no periódico O Granberyense: Desde o princípio dos tempos. que os ideais integralistas estão presentes no líder da instituição de ensino que ocupa o posto de diretor e professor de Sociologia. nessa entrevista. o nosso maior problema no Brasil continua sendo o da educação. O outro é o conceito da autoridade. e.

. mas que a liberdade é o maior dom humano. 150 Porque cria a consciência de necessidade. não falamos em ditaduras e sim ‘num regime’. Oscar Machado diz que dentro do Instituto Granbery deve existir autoridade com liberdade e nos faz remeter a Plínio Salgado quando diz que o Brasil tem que ter um governo forte. Só ela cria a disciplina.. 3. (. 1935. 150 SALGADO. 1934. integralistas.) queremos um governo forte.) não pode existir governo forte sem cultura forte. De acordo com Oscar Machado.. a disciplina e a hierarquia.81 implantação da ordem. falamos em governos fortes. Plínio. A doutrina do sigma. 63-64. Como se percebe. o Granbery será dirigido com autoridade e educação e deve ter como objetivo a ordem. Pode-se ver uma transposição do ideário integralista dentro da instituição. O Granberyense.. Um regime é o que queremos (... p. . Juiz de Fora.) quando nós. 15 abr.. O que se observa de oposto a esse propósito tão 149 MACHADO. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. no Brasil (. Diz ainda que quer estabelecer uma harmonia da autoridade com a liberdade. ao analisar o discurso de Plínio Salgado: Nós. Oscar. (. da disciplina e da 149 hierarquia. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio. São Paulo: Revista dos tribunais. Existe uma mistura das práticas integralistas com as ações existentes dentro do Colégio onde o propósito da educação metodista é a de criar uma nova mentalidade no cidadão e Oscar Machado propõe em seu discurso a formação de uma nova mentalidade educacional.. p.) a liberdade é o maior dom humano.

82 igualitário é a doutrina defendida. De fato o integralismo passou a fazer parte do Instituto Granbery. sob a orientação do dr. pelos pioneiros da educação metodista: o liberalismo. Juiz de Fora já tem uma sede própria da AIB e o movimento na cidade passa a ter um destaque nacional durante todo o período em que esteve em funcionamento. Já no tempo de Oscar Machado.) A comitiva viajou de 151 UM POUCO de humorismo. 15 abr. era o integralismo. Miguel Reale.. No jornal integralista Acção de São Paulo é possível ver um relato do movimento em Juiz de Fora: Numa espetacular consagração: O Integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica: Juiz de Fora. horas de profundo entusiasmo cívico. (. 1934. Juiz de Fora. Um exemplo claro do integralismo no cotidiano do Granbery pode ser observado no periódico da instituição na sessão “Um pouco de humorismo”. Dois mil integralistas recepcionaram. Mas o objetivo final é o mesmo: dedicar-se à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural. Eliza. O Granberyense. 27. a elite intelectual alcança seu objetivo. viveu no domingo passado. sob calorosos aplausos. em uma piada envolvendo uma funcionária do Granbery: “Até hoje a pessoa que continua como integralista irresistível é a D. sede da 17ª Região mineira. 151 Podemos notar que realmente a doutrinação ocorreu e a massa teve acesso à ideologia proposta pelos pensantes. Por quê? Porque toda vez que ela toca a campanhia para a saída do refeitório. p. a comitiva que desta capital partiu no sábado. . ela logo toma posição de sentido e estende a mão em correta saudação integralista. A partir dessas doutrinações ideológicas. A partir de 1934.. 12.

. São Paulo. muito menos do movimento de uma maneira completa. pois a educação metodista subsiste com o propósito de se dedicar à formação das elites. Após análise. pois os privilégios serão dados aos filhos dos membros da Igreja com o propósito de influenciarem positivamente a comunidade. p.. A instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação. com vibrantes manifestações dos camisasverdes locais (. O ponto principal dessa análise foi o conceito de ideologia que é sem dúvida a ligação entre as duas instituições. políticas e 152 NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. 1. o movimento integralista em Juiz de Fora merece um destaque especial na historiografia devido a sua força e as suas particularidades. sendo capazes de resolverem as questões sociais. Volto encantado com o alto sentido de disciplina dos camisas-verdes na 17ª Região 152 da Província de Minas Gerais. mas sim. 1 dez.. sendo recebida em Juiz de Fora. mas apenas elucidar alguns pontos no processo de sua consolidação na cidade com a forte presença do Instituto Granbery da Igreja Metodista. Acção.83 automóvel. Não foi a intenção esgotar as informações sobre a fundação do integralismo em Juiz de Fora. quisemos ouvir o dr. a de promover uma discussão entre as doutrinas educacionais da Igreja Metodista com o propósito da Ação Integralista na cidade.. O objetivo do estudo não é pesquisar totalmente o movimento em Juiz de Fora. Miguel Reale (. 1937.) Impressionados com o entusiasmo invulgar dos elementos que constituíram a comitiva..) A minha impressão sobre o Integralismo em Juiz de Fora é magnífica.

19 out. encontra-se o integralismo na década de 1930. O Integralismo de norte a sul. Emile-G. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROSO. São Paulo: AsteJuerp. ___. 1. São Paulo: Brasiliense. grande defensor do movimento. O protestantismo brasileiro. p. In: Ideologia e mobilização popular. 1973. 2003. GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. 2004. 1981. para que o Granbery seja um centro de influências poderosas e agressivas. Mais uma vez. Gustavo. têm como objetivo ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. CORDEIRO. a elite intelectual é o grupo pensante que influencia a consciência social e tem o poder de transmitir as idéias dominantes para toda a sociedade. 1933. São Paulo: Paz e terra. O que é ideologia. CORRÊA. A inserção do metodismo em Juiz de Fora. Ana Lúcia. 1934. CHAUÍ. que como se nota tem uma forte influência dentro da instituição. Os educadores.84 religiosas do país. principalmente através do Professor Oscar Machado. Diário Mercantil. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. Maurício de Castro. LÉONARD. Juiz de Fora: Letras e notas. São Paulo: Ática. Junto a esse processo de dominação. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. . ___. Convite a filosofia. Marilena. Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. Juiz de Fora. Rio de Janeiro: Civilização brasileira. 1978. também. 2003.

São Paulo: Guanumby. 1956. Juiz de Fora. Karl. Ideologia e Utopia. 20 out. 20 out. In: ___. São Paulo: Américas. Piracicaba: UNIMEP. 1986. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. Manifesto de outubro de 1932. p. 1 dez.85 MACHADO. Friedrich. ___. 1937.15. NOVAES NETTO. Plínio. ___. São Paulo. p. Espírito da burguesia. Peri. São Paulo: Revista dos tribunais. 5-176. pp. 1935. 2002. Isnard. 1933. 1934. p. A doutrina do sigma. 3. MESQUIDA. 1. ___. Acção. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. São Paulo: Imprensa metodista. 1982. São Paulo: Voz do oeste. 9. ___. Histórias da História do metodismo no Brasil. ___. Obras completas. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio. Oscar. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. O Granberyense. Juiz de Fora. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. MARX. Acerca de um movimento patriótico. 1949. O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. São Paulo: Martins Fontes. A ideologia alemã. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. Juiz de Fora. v. ENGELS. SALGADO. . 1994. O Granberyense. ___. p. O conceito cristão da democracia. 1951. Gustavo Barroso. ROCHA. Paul. 1950. RICOEUR. As crises de um ideal: os primórdios do Instituo Granbery. NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. o ilustre brasileiro Dr. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. 1997. 1967. 15 abr. Arsênio Firmino D. 1. 1933. Lisboa: Edições 70. Mensagem às pedras do deserto. Direitos e deveres do homem.

Gilberto. A. . Hélgio. José Gonçalves. VASCONCELOS. VASCONCELLOS. Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 30. Juiz de Fora. São Paulo: Imprensa metodista. O Integralismo brasileiro perante a nação. 1946. São Paulo: Brasiliense. p. 1979. p. 2. 1934. ___. Juiz de Fora. 1979. 1933. Porto Alegre: Difel/UFRGS. SALVADOR. O Granberyense. UM POUCO de humorismo.86 ___. O que é integralismo. História do metodismo no Brasil. 12. O Granberyense. Lisboa: Oficina gráfica. TRINDADE. 20 out. 15 abr. Rio de Janeiro: Schmidt. Ideologia curupira: análise do discurso integralista. 1937. 1979. Nacionalismo.

discutir alguns dos fatores internos ligados ao surgimento e atuação da AIB (Ação Integralista Brasileira) no Estado de Pernambuco e suas especificidades locais e regionais. Aqui. esses intelectuais locais tomaram para si a responsabilidade de propagar o movimento no Estado em clima de profunda euforia política e “revolução espiritualista”. Em nossas leituras acerca do movimento. mas também por se ter aqui uma sociedade cujo catolicismo era fortemente protegido por um grupo de famílias tradicionais e proprietárias que se amedrontaram com a chegada das idéias comunistas e com a crise da liberal-democracia. consideramos que as questões relativas à chegada. É importante lembrar que os discursos e propostas integralistas encontraram neste Estado um campo de possibilidades de dizibilidade e circulação das idéias integralistas não apenas pelas condições sócio-políticas e culturais dos que lhes apresentaram. O INTEGRALISMO EM PERNAMBUCO: Uma história entre tantas da Ação Integralista Brasileira 153 Giselda Brito Silva (UFRPE) os estudos do integralismo no Brasil comportam uma série de fatores diversos que vão das questões externas às internas e viceversa. propaga a ideologia do movimento para seus familiares. que. Aqui. Imbuídos de uma mentalidade que mesclava uma contradição entre o moderno e o conservador.87 4. em sua maioria. característica comum entre outros intelectuais da época ligados ao pensamento político brasileiro. Contudo. . tivemos então como ponto de produção de sentido dos discursos integralistas uma base familiar. atuação e expansão do integralismo em Pernambuco estiveram diretamente ligadas à ação de um grupo de intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. particularmente. política e religiosa que contribuíram para a atuação e expansão do integralismo em Pernambuco. interessa-nos. em seguida. pertencentes às grandes famílias locais. situada na 153 Professora da Graduação e Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco. não se trata apenas de localizar discursos de um grupo de intelectuais católicos e tomá-los como a causa do relativo sucesso do Integralismo no Estado.

Parecendo mais. desclassificavam o liberalismo como um sistema político-econômico e social viável para uma sociedade organizada pela tensão da oposição ordem versus desordem. As leituras das fontes escritas e orais são indicativas de um clima de grande tensão no campo social. A família era uma referência do lugar social. o surgimento das idéias comunistas e a Liberal-democracia pareciam a esses indivíduos como incapazes de resolverem muitos dos problemas. etc. mais a crise econômica. como diziam. Segundo um dos meus entrevistados. político. mas. Nesta sociedade. Pátria e Família”. Era comum às famílias irem à missa aos domingos em jejum. algo unia os indivíduos desta sociedade. que sustentavam um modelo patrimonialista e burocrático pelo qual se confundiam o espaço e as coisas do público com o privado.88 desordem pós-1930 em meio aos conflitos mundias. orar antes das refeições. mais a concepção de recuperação dos valores morais e tradicionais centrados no lema “Deus. Entretanto. e ex-integralista. Outro ponto fundamental. Em nossas pesquisas percebemos que os pontos fundamentais da recepção do integralismo no Estado estavam diretamente ligados à ação e discursos anticomunistas propostos pelos integralistas. . dando-lhes uma identidade: pobres ou ricos eram marcados pela presença do catolicismo na estrutura familiar. é o fato de que Pernambuco dos anos trinta se caracterizava por uma sociedade profundamente católica. acreditava-se em céu e inferno e os comunistas tinham chegado para destruir essa fé. ao deitar. o sujeito ao ser apresentado lhe era imediatamente perguntado: quem é sua família? Você é parente de quem? Daí. com grandes famílias tradicionais e políticos provenientes das mesmas. político e ideológico. Assim. o clima do pós—guerra. pedir benção aos mais velhos da rua. geradores de uma profunda ameaça à ordem das estruturas tradicionais vigentes. política e parentela serem os referenciais da sociedade rural que se estendia ao urbano. na sociedade. A proposta ateísta dos comunistas soava como uma grande ameaça às bases sócio-culturais de uma sociedade ainda muito presa aos valores das grandes famílias latifundiárias e conservadoras. econômico e cultural ao qual se pertencia. juntamente com a proposta de modernidade da sociedade. ainda relacionado às questões acima. Do outro lado. constituindo-se num dos lugares de maior recepção dos discursos integralistas.

pesam. como já destacamos. cujo conteúdo era o projeto político-doutrinário de um Estado Integral.89 Dessa maneira. guiadas e orientadas por uma doutrina cristã católica. o Estado reforçou os discursos de Estado forte com o Manifesto-Progama. consideramos que o relativo sucesso da proposta integralista em Pernambuco. o catolicismo e o anticomunismo do movimento. especialmente por Andrade Lima Filho e outros no plano estadual. Surgiu como um movimento de idéias nacionalistas. Declarando-se insatisfeitos com os resultados políticos. O Manifesto de 32 fora lido em Praça pública e repetido nos bairros pelos quais se fundavam os núcleos. fogem um pouco à regra geral da historiografia que parte das questões e influências externas como fatores motivadores do integralismo no Brasil. Além da proposta política de um Estado forte e intervencionista. centralizado e hierarquicamente organizado em classes. propondo uma “revolução espiritualista” com decisiva atuação na ordem social bastante próxima do conservadorismo aqui reinante entre as grandes famílias entre as quais circulou. . anticomunistas e antiliberais. com remanescentes ainda nos anos 40. sociais e econômicos da “Revolução” de 1930. promoveriam a segurança nacional e o fortalecimento do país. com pouco referencia ao fascismo ou ao nazismo. que ganhava campo com as manifestações grevistas e um clima de agitação no Estado. mas que logo caiu em repetição e circulação. os intelectuais mais conservadores encontrariam na proposta integralista uma opção para a crise da “liberal-democracia” e para a ameaça comunista. procuravam congregar o político ao religioso e aos aspectos familiares tão comuns na sociedade local. Os principais responsáveis pela produção e reprodução dos discursos integralistas no Estado foram. um grupo de intelectuais e estudantes de Direito. A nação era apresentada como uma grande família formada por famílias menores que. principalmente. identificados como provas da desordem. Não se tratava de discursos que foram silenciados. os discursos dos lideres integralistas no Estado. Em 1936. o Integralismo foi apresentado à sociedade como um movimento espiritual de resgate das tradições e valores então ameaçados. mais uma proposta alternativa ao liberalismo e ao comunismo. Neste Estado. O anticomunismo e o antiliberalismo formavam a unidade do discurso que em sua dispersão atingiam vários lugares de possibilidades de sentido. Adequando-se às necessidades locais. e que garantiu à Ação Integralista Brasileira (AIB) forte atuação política e ideológica durante toda a década de 30.

) penso que só um regimen forte sera capaz de dominar a demagogia. eles lançaram o “Manifesto do Recife” em apoio ao “Manifesto de Outubro de 32”. Depois de 1930. In: TRINDADE. deveria ter sido publicado em junho de 32. Hélgio. provocador de todas as revoluções burguesas e que talvez nos irá levar inconsciente e delirante até a revolução marxista (. acrescentando à leitura outros discursos pronunciados por Plínio Salgado em São Paulo e no Rio de Janeiro. veiculados pelos principais jornais do Estado. p. alguns intelectuais passaram a declarar a falência da liberaldemocracia e a alertar a população para o avanço do comunismo. através do qual Plínio 154 Salgado havia lançado a Ação Integralista Brasileira. Através de artigos e enquêtes.90 Em Pernambuco. os intelectuais foram um dos grupos que mais criaram expectativas com a campanha da Aliança Liberal em Pernambuco.Segundo Hélgio Trindade. o “Manifesto de Outubro de 32” recebeu este nome porque foi publicado nesta data. quando então nasceu a Ação Integralista Brasileira. seus discursos se concentravam mais em criticas ao liberalismo apontado como o principal responsável pelo clima de instabilidade e gerador do comunismo: A origem dos erros e de todos os males de nossa vida republicana não foi a forma presidencialista. centro do Recife. destacando o clima de desordem política e social..) foi o espirito individualista. Em novembro de 1932. especialmente através do Jornal Pequeno. São Paulo: Difel. que só teria fim com a implantação de um governo forte que valorizasse os aspectos morais e espirituais”. Durante todo o ano de 1932.123 . eles passam a ler em público o “Manifesto de Outubro de 32”. o 154 . manifestaram-se publicamente em favor do integralismo através dos principais jornais da época. rousseauneano. Neste Jornal criaram uma coluna através da qual criticavam o Liberalismo. na hoje conhecida Praça 13 de Maio. Inicialmente. como um fomentador do espírito individualista “causador de todos os males sociais. Declarando-se desorientados e desiludidos. por biografias. O “Manifesto”. 1979.. seus depoimentos. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30.. liberal. entretanto o desencadeamento da Revolução Constitucionalista de São Paulo prorrogara a publicação para outubro de 32. livros de memórias e outros evidenciavam a profunda frustração e desgosto com a política praticada pelo governo de Getúlio Vargas e seu projeto com a liberal democrático no período de 1930 a 1934.. (.

Depoimento de Otto Guerra. No Brasil a grande geratriz das luctas armadas tem sido inegavelmente a política tortuosa dos partidos. membro da “Ação Universitária Catholica e." Outros apontavam a crise liberal como conseqüência do pluripartidarismo e das brigas entre os partidos políticos e defendiam o fim dos partidos.11. catedrático da Faculdade de Direito do Recife e membro da Ação Católica e..91 revolucionarismo. 25. Jornal Pequeno..) o Brasil se verá livre das erupções subversivas.. evidenciando a total descrença no Liberalismo e a crença na solução para o problema através da implantação de um governo forte: Morte ao Liberalismo .1932.” Outros depoimentos eram mais diretos na defesa do projeto autoritário e antidemocrático.Depoimento de Andrade Lima Filho. 156 . diretor do “Quinzenário da Ação Integralista Brasileira. . membro da Ação Integralista Brasileira de Pernambuco. Hoje mais do que nunca precisamos de um 157 executivo forte. posteriormente..o facto político deixou de ser o unico a interessar o Estado. 26.11. Jornal Pequeno. estudante da Faculdade de Direito do Recife.. que recebe novas dimensões (.1932.. Recife..) precisamos de uma 156 orientação nacionalista. a indisciplina 155 latentes no nosso povo. Todo o problema da reestruturação social do Estado. bem como chefe nuclear do Integralismo em Pernambuco. posteriormente.11.) Agora mesmo. Temos vivido até hoje num clima revolucionario esse appello (sic) à revolução é no dizer de Hélio Vianna uma fatalidade dos povos sem educação social e política.1932. Todo o problema cultural. um “leaders da ‘Ação Universitária Integralista no Recife”. 157 ..Depoimento de Alvaro Lins. O nosso problema é retomar as nossas tradições (. 155 ... vejo a quase unanimidade dos collegas da Faculdade não dar grande importancia ao problema presidencialismo ou parlamentarismo. sob uma orientação nacionalista centralizadora: Nós precisamos é de um governo forte (. Ha o religioso. Ha o econômico. Recife. Jornal Pequeno. a desordem. 05.

. medo e ansiedade que circulava entre esse grupo que reproduz o discurso integralista.. Pelos discursos acima se pode localizar as declarações de frustração. sobretudo.) Para uns em determinado momento: um governo forte. Por outro lado. Lembramos aqui que a reprodução e circulação de um discurso não depende apenas de um enunciador(s). não deixamos de identificar fragmentos de discursos simpáticos aos movimentos nacionalistas europeus. (. E quem não sabe obedecer também não sabe mandar. que fosse obedecido em suas ordens. mas de discursos que circularam e não silenciaram porque encontraram uma sociedade na qual se visualiza uma produção de sentido. apesar de no Estado prevalecer a questão do catolicismo e tradicionalismo. nem de um discurso político construído sob uma base espiritualista contra uma materialista identificada como responsável pela desordem. bastando apenas. não se trata apenas de um discurso bem articulado entre o político e o religioso.. de uma proposta de Estado forte (a exemplo dos modelos que se observa na Europa). Ou seja.) uma forma .. Entre alguns membros do “Comité Pró-Constituinte” circulava os nomes de Hitler e Mussolini: Mussolini tanto faria um bom governo com ‘fascio’ como com a republica.) Após a guerra a Alemanha não poderia por certo ter uma republica federal do tipo da Suissa. (. no respeito que todos sentissem pela idéia do util e do justo. para outros (. pautado na liderança de um chefe nacional que promete combater o comunismo e o liberalismo. O mal que desequilibra o governo de muitos povos é o não saber obedecer.92 Estes são alguns dos fragmentos dos discursos produzidos no contexto que retomamos para mostrar o interdiscurso presente entre integralistas e intelectuais do Estado quanto a proposta de um governo forte.. Em alguns lugares é possível identificar discursos que se aproximam do nacionalismo forte. mas das possibilidades de ser dito naquele momento e repetido por outros que passam a reproduzir os discursos integralistas. resultando na defesa e credulidade do projeto autoritário e centralizador. As condições do momento naquelle tempo como ainda hoje não permitiam um governo cuja unica fortaleza estivesse apenas na fragilidade de sua estructura e..

p...Constituinte".. conforme a sua 160 vocação (.. de modo que o governo possa evitar os desequilibrioss nocivos à estabilidade social. destróe a religião (.Pró. de suma importância para as famílias proprietárias que temiam a propaganda comunista: A questão social deve ser resolvida pela cooperação de todos (.. além de fazer uma reavaliação crítica da crise e dos males da liberal-democracia. APEJE. "Membro do ‘Comité .Ibid. 18. Recife. baseado como se acha no individualismo desenfreado.Depoimento de Gil Duarte. pela honestidade.) Temos que adotar novos processos reguladores da produção e do commercio.. pelo progresso nas ciências. 158 . O communismo (sic) não é uma solução (.) O direito de propriedade é fundamental para nós. pregava o fim da luta de classes e. tendo por fim o bem-estar da Nação e o 159 elevamento moral das pessoas”. conseqüentemente. 5 .) destróe a familia para melhor escravisar o operário. ao campones. é a possibilidade de subir. que ameaçava a classe proprietária. 2 160 . “Manifesto de Outubro de 32”. Jornal Pequeno. ao marinheiro. DOPS .) O que nós desejamos dar ao operariado... nas artes.. homem vale pelo trabalho e pelo sacrifício em favor da Familia. Os maiores fomentadores dessas idéias são.. ao soldado.especialmente a rural. Plínio..1932 159 . na capacidade técnica. temos o investimento na questão da luta de classes e a proteção da propriedade privada. alguns intelectuais que se declaram desiludidos com a crise liberal e ameaçados pela agitação social e o avanço comunista.) a grande coisa vem da habilidade 158 na aplicação..Prontuário 4938. Consideremos ainda que a proposta integralista.. p. Em outro fragmento do discurso extraído do Manifesto de Outubro.93 liberal (. (... através de uma fórmula filosófica que defendia a harmonia social do político com o religioso: “.. Vale pelo estudo. da Pátria e da Sociedade.) O capitalismo atenta hoje contra esse direito.d.) até no governo da Nação..) destróe a iniciativa de cada um (. Folheto s. o fim da agitação social. como já destacamos.11.SALGADO.. pela inteligência. (.

quando este tentou moralizar as administrações municipais.4 162 . e salvar-se do communismo (sic) internacionalista. (.Ibid.. solidamente construida. a 161 . que não estavam satisfeitos com as interferências do Governo no pós-30.Ibid. Daí propunha investir no Partido Único como a solução para as brigas em torno do regionalismo e do separatismo: “Nosso ideal não nos permite entrar em combinação com qualquer partido político.. p.7 .p. uma forma de reaver seu poder local: “O municipio é uma reunião de familias. para vêr fructificar os seus esforços. para progredir em paz. para lograr prestigio no Interior e no Exterior. que está 161 entrando no seu corpo. (.3 163 .. capaz de se impor às classes. que a ameaça dia-a-dia.Ibid. precisa ter 162 uma perfeita consciencia do Principio de Autoridade”.. como um cancro. Alguns itens do “Manifesto de Outubro de 32” atraiam outros setores da sociedade. Dentro desta visão. bastante discutida no período entre-guerras. político e econômico e por ter aberto brecha para as soluções de esquerda. a proposta de um governo forte e autoritário da Ação Integralista Brasileira era a solução ideal para a agitação social e o avanço do comunismo: “Uma Nação. o integralismo vinha como um movimento de idéias dizendo-se contra os partidos políticos. As interferências nos Municípios causaram muita insatisfação nos proprietários locais que tinham acesso ao poder público local. porque o municipio é uma reunião de moradores que aspiram o bem 163 estar e o progresso locaes”.94 A descrença nos partidos políticos era outro componente em destaque dos males da Primeira República. porque não possuía um governo forte.) Os municipios devem ser autonomos em tudo o que respeita a seus interesses peculiares.p. pois não reconhecemos partidos: “reconhecemos a Nação. Era o caso dos atingidos com as novas Leis Municipalistas. de modo a escapar ao dominio estrangeiro. conhecida como “Política do Café com leite” ou “Política dos Governadores” com suas fraudes eleitorais e voto cabresto. a crise da liberal-democracia devia-se não apenas à sua incapacidade de lidar com o problema social. Aqui também se destacava a questão do nacionalismo. principalmente. Declarando-se combatente dessa política. criadas pelo Interventor.. mas. No caso brasileiro.) Nossa Patria precisa de estar unidade e forte.. Acreditamos que estes insatisfeitos passaram a ver na proposta integralista de defesa da autonomia municipal.” Para alguns desiludidos e insatisfeitos da época.

. operariado de todas as regiões. capichabas. os advogados. que pretende reduzir-nos a uma capitania. Assim. Folheto citado.3-4 ... o tapuio amazonico.. vaqueiros. O nacionalismo do integralismo expandia-se.todos os que que ainda têm no coração amor (. os caiçaras e piraquaras. hervateiros do Paraná e Santa Catarina.) unir todos os brasileiros num só espírito. gauchos dos pampas. o sertanejo das provincias nortistas e centraes. em virtude da instabilidade política do pós-30.. os soldados. Aqui. os marinheiros . aggregados. a polícia se encarregava de divulgar a ação dos comunistas nas fábricas e comércio. calús. garimpeiros. Goyaz. De um lado. para as questões de defesa ideológica. dentro do conturbado contexto que precedeu a Segunda Guerra Mundial. calungas. principalmente. os artistas.) nós somos contra a influencia do communismo. os trabalhadores de todas as estradas.) e 164 entusiasmo pelo Brasil. funccionarios (sic). colonos sitiantes. p. os professores. engenheiros. o integralismo alimentava essa imagem perigosa do comunismo. a mocidade das escolas. influenciados pelas idéias nacionalistas do entre-guerras e enfrentando a crise local. Levantamo-nos num grande movimento nacionalista. Como em Pernambuco as autoridades propagavam uma imagem bastante ameaçadora do comunismo..) Eles se envergonham do cabloco e do negro da nossa terra (. o integralismo passava a ser visto como o único movimento de caráter nacional capaz de fazer frente ao avanço do comunismo em meio à agitação nacional. os medicos.95 classe média nacional e local também enfrentava o dilema da crise liberal e do perigo comunista.(. os defensores do nacionalismo se sentem atraídos pela proposta nacionalista do Integralismo: Os nossos lares estão empregnados de extrangeirismos. para afirmar o valor do Brasil (..SALGADO.. que representa o capitalismo sovietico. o imperialismo russo. o nordestino. (sic) Matto Grosso. Plínio. apontado 164 . do outro a ação governo se encarregavam de confirmar tal perigo com “provas” resultantes da ação policialesca. pequenos artifices de São Paulo. os boiadeiros e tropeiros de Minas. paroaras.

mas também porque apresentou um projeto que defendeu . numa nova reorganização das classes. Neste caso.. principalmente. anttagonismo entre policiais estaduais e o Exercito. Plínio. economia desorganizada. fonte perpetua de espiritualidade (.) estimulos de todos os dias.. facções locaes.6-7.além dos valores morais. estadualismos em lucta pela hegemonia. op. entre o governo e o povo. evitando assim o perigo à propriedade privada. o integralismo se propunha a proteger a propriedade privada de tais idéias. eis o que é a familia. à questão liberal que teria posto em xeque o matrimonio com a mulher sendo absorvida no mundo do trabalho. capaz de equilibrar todas as classes. . antagonismos demilitares e civis. as próprias classes trabalhadoras masculinas. base da sociedade pernambucana: Tão grande é a importância que damos às Classes Productoras (sic) e Trabalhadoras. sob um “Estado forte e autoritário”. p. livre de todo e qualquer principio de divisão: partidos políticos. segundo eles. Ella (sic) é a base da felicidade (. a mulher nos empregos e na vida moderna colocava em risco a estrutura da sociedade e ameaçava a produção nacional porque desequilibrava as famílias e. a solução para a crise estava centrada no sindicato corporativista. Pelo projeto integralista. desenvolvendo o “espírito harmonioso”. cit.) 165 Tirem a familia ao homem e fica o animal. esperança de perpetuação no sangue e na lembrança affectuosa (sic)... a luta de classes e a agitação social: Pretendemos realizar o Estado Integralista. Em oposição à ação dos comunistas.a estrutura familiar e proprietária. luctas de classes. quanto a que damos à Familia. Segundos os integralistas. espirituais e nacionalistas .96 entre elas a causa das agitações e manifestações dos trabalhadores locais.. entre o 165 . Já no mundo do trabalho. a proposta integralista não se mostrou atraente para as classes conservadoras apenas porque defendeu soluções políticas e sociais para o contexto conturbado do pós-30. caudilhismo. os males iam da inserção da mulher à penetração das idéias comunistas desorganizando o trabalhador.SALGADO. O problema familiar era associado.

Basta de tormento e de luta (. Recife. Esboço de uma gênese da ideologia nas sociedades modernas. Out. Dez. A Evolução. p. prometendo.) Pretendemos mobilizar todas as capacidades technicas.. com uma nova proposta que não ameaçava as bases do sistema. bem como pelo que acenava o integralismo como solução aos problemas internos do país. Estudos CEBRAP 10. através da análise desses discursos.p..) na realização da grandeza 166 do Brasil (. à vista dos brasileiros naufragos condenados pelos desgovernos dos traidores. E porque defendia uma proposta coerente com os anseios da sociedade. (. Em Pernambuco. propunham-se soluções dentro dele. e descansaremos à sombra do manto verde 168 as fadigas passadas... Claude. que não resguardasse os valores espirituais. Pensava-se o integralismo como : . Pelo que destacamos até o momento. familiares e patrióticos sob um 167 governo forte. investir na preservação do velho. Alguns autores afirmam que o sucesso da proposta integralista ocorreu porque esta se ocupou em denunciar a decomposição da ideologia burguesa e de lançar medo na ideologia comunista. Maio de 1935.uma flama verde de esperança se estende no litoral hospitaleiro. entre estes e a massa popular. que o “Manifesto de Outubro de 32” deve ser melhor compreendido pela mentalidade da época entre os intelectuais e a sociedade. o integralismo tornou-se atraente também porque se ocupou de propagar a impotência de qualquer outra forma de governo.. todos os scientistas(sic).8 168 . nov. anticomunista e antiliberal.LEFORT.“A Flama Verde da Esperança”..Ibid. podemos dizer que o Integralismo ganhou o campo político de Pernambuco na década de 30 porque se adequou aos problemas locais. Ano II.97 governo e intelectuais.. 166 . p. pelo que se buscava no campo das esperanças políticas e sociais.. todos os profissionais (.) levantemos mais uma vez o braço forte. todos os artistas. especialmente pelo seu discurso cristão. .. mas. Tradução de Marilena Chaui.) e influir mesmo no Mundo.1. constatamos. Criticava-se o capitalismo.8. 1974. 167 . ao mesmo tempo.. Para estes.

Pátria e Família”.98 Segundo Fernando Morais. Os 169 integralistas ofereciam um espetáculo de fé e esperança.SALGADO.” Segundo os depoimentos. Chatô: o rei do Brasil. pelos católicos do estado.Editor.” Os grupos católicos de maior representatividade no estado são os que fazem parte da Ação Católica Brasileira (ACB). São Paulo: Companhia das Letras. Plínio. entre eles membros da Igreja Católica também viam algum significado no integralismo. como nos diz: “... 1994. principalmente. com essa também se posicionam os intelectuais católicos ligados ao Centro Dom Vital. aos fins pretendidos pela Igreja Católica. levara setores protestantes da sociedade a reagir contra o integralismo. Dessa forma. e. de orientação protestante.357 170 . pois. o Jornal O Escudo. 4 ed. as grandes famílias tradicionais do Estado viam no lema do movimento as três palavras mais caras para a sociedade pernambucana: “Deus. o 169 . o integralismo atendia. promove um retorno aos discursos de valorização do espírito sobre a razão e o materialismo capitalista. pois para esses “. e muito. Rio de Janeiro: Schmidt .MORAIS. o integralismo passa a ser assimilado entre os que defendem uma concepção de sociedade na qual o espírito divino se sobrepõe sobre as ações humanas guiadas pela mão divina. Em 1933.. como consequencia natural. p. declarando-o uma “Ação Intrigalista Brasileira” que teria vindo para fazer renascer a inquisição. O que é o Integralismo. Fernando.p. situado no Rio de Janeiro. tudo se relaciona com 170 estas duas idéas. Elas eram repetidas. por outro lado. 1937. Segundo os protestantes. em 1934. existe Alma. também aprovavam o discurso espiritualista do Integralismo.mesmo divergindo dos pontos cardeais da ideologia integralista. da Ação Operária Católica (AOC).. garantindo que “Deus dirige os destinos dos homens e do universo”. A concepção de homem e de universo defendida pelo “Manifesto de Outubro de 32”.. os integralistas projetaram uma imagem de unidade e fé..existe Deus. e mais tarde. os membros da Ação Universitária Católica (AUC).37 . encontro na arranda de sua mocidade um emocionante ponto de contato com o programa dos ‘Diários Associados’: ‘a unidade política e espiritual do Brasil’. O apoio desses grupos ao integralismo. além de simpatizarem com o discurso anticomunista do movimento que combatia o ateísmo. inimigos da Igreja desde a Idade Moderna. da Juventude Católica (JC) e outros grupos laicos apoiados pelos reformadores da Igreja no Estado.

99 Jornal Evangélico do Recife . esse periódico circulava as seguintes idéias de Plínio Salgado: Todos os paises estão apprehensivos. Todos aquelles que acreditam em Deus. é o sacrifício.A Defesa expressam suas leituras dos discursos e propostas integralistas: Não vou aqui analisar o integralismo sob o ponto de vista econômico. .10. é o massacre. (. A esquerda é a violência. A Defesa. E então adeus liberdade! A Idade Média ressurgirá com ‘todo o esplendor de suas 171 belezas’”. problema que nos interessa sobremodo e que entra nas cogitações dos ‘senhores integrais’(. é o pudor individual e colletivo.. Analisa-lo-ei. momento de auge da atuação e expansão do integralismo no Estado.1934. é o golpe cruel. é o assassinato frio.) . unica e exclusivamente. é a virtude. 11. Ano I n. é o heroísmo.“O Integralismo e a Igreja Evangélica”. em face da questão religiosa. é a castidade. Não.º. é o sangue organizado.. é a blasfêmia.) Não apoiamos este movimento porque a sua implantação entre nós importará na extinção de nossa liberdade. é 171 ... é o incêndio. é a delicadeza do sentimento. é a religiosidade. Em 1936. é o defloramento da massa. 3.. A Revista Fronteiras é outro lugar de produção de sentindo dos discursos integralistas articulado na fronteira entre o político e o religioso. nem suas pretensões governamentais.) O sonho dourado da Igreja Católica é tornar-se a religião do Estado para ‘salvar o Brasil’ o integralismo faz-lhe a risonha promessa de torna-la oficial (. das tradições nacionais. A direita é a união sagrada em torno da bandeira da Pátria.. Também não encararei quanto à solução que pretende dar à debatida questões social. Recife. sentem que estão se approximando os tempos em que cada qual deverá tomar o seu logar na esquerda ou na direita.

então. que importa tenha a nossa Patria por castigo sobre os mãos. alguns intelectuais católicos defendiam que. p.. o ideal católico presente no discurso integralista foi particularmente influente na intelectualidade católica. P. “é inútil tentarmos influir no governo do paiz. Somos extremistas no culto 172 das virtudes. somos a dignidade da Nação. de passar atravez de desgraças imprevisiveis? Agora. sem possuirmos uma elite realmente adextrada que esteja em condições de por em 172 “Plínio Salgado”. Arquivos da Cúria Metropolitana do Recife. o jornal A Marcha. 174 Ibid. 22 de janeiro de 1936. Pela revista A Ordem. (. agosto de 1936. para que Ele vos guarde e 173 vos inspire. que sofre com o mundo. “Perante Deus e Perante a Patria”.) por toda imensa carta geografia da Patria. Chamam-nos extremistas (. se dedicava a publicar notas do pensamento religioso e da família que compunham os discursos integralistas. Em janeiro de 1936. Desta forma. Essa “Nação protegida por Deus” seria. p.. um pressuposto importante para o bem das famílias: “A gente desse Brazil.100 a honra de uma nação. christianizando a nação e o Estado. 173 SALGADO. sofre com a revolução integralista. pelas quais se pode reforçar a verificação do investimento da AIB nestes campos: Si é verdade que a creatura humana se move. anda hoje um balbucio de preces que elevam a Deus. temos cumprido o nosso dever. vae afirmar os 174 direitos da família”.3. como amanhã.. sob a direção de Everardo A. na qual a proposta integralista foi bem aceita. os povos. na cidade de Pesqueira. Fronteiras. . porém Deus conduz a sociedade. nos seus livramentos geraes. pelo seu livre-arbitrio. Pesqueira. Recife: APEJE. Esse tipo de propaganda integralista alcançou grande sucesso nos meios católicos e entre as classes tradicionais da sociedade.) somos extremistas em nosso amor a Deus. (Jornal integralista de divulgação da AIB na cidade de Pesqueira).. Recife. In: A Marcha. Maciel. 16.

Plínio Salgado.) seu nome é quase um simbolo e o observador criterioso dos nossos problemas não pode contemplalo.Plínio Salgado na literatura brasileira”. Recife. com desdém que em nós provoca o espetáculo cotidiano dos nulos. A Tribuna Religiosa.. Costa Porto colocou em palavras precisas a imagem que se tinha de Plínio Salgado no campo da literatura e sua projeção nacional: A figura de Plínio Salgado avulta com o brilho inconfundivel dos valores reais (. José da Costa.4 . APEJE. em torno de nossas idéias 175 constructoras. Recife: APEJE. Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Olinda e Recife. Ação . 177 . como governante supremo do destino dos povos. Plínio Salgado destacava-se diante de outros líderes políticos porque era 175 “Dever Cultural”. .) era bem o retrato do Brasil. 30. (.APEJE. abril de 1932. em 23 de maio de 1934.. realidade natural e imperecível que as teorias internacionalistas do judeu Marx e de seus 176 sucessores não conseguiram nem conseguirão destruir jamais. quanto nos meios católicos temos a imbricação dos discursos anticomunista e antiliberal revelando a interdiscursividade. Expressando a união das idéias defendidas por ambos.” Tanto entre os integralistas. 23 de maio de 1934. foi um homem de família altamente religiosa. Recife. publicou o seguinte: “Ação Integralista Brasileira inscreveu como princípios fundamentais da sua doutrina de conceitos eternos de Deus. que marcava o efeito de sentido dos discursos integralistas entre os católicos. Segundo os depoimentos.. na palavra dada era um costume da época que pesava na avaliação dos indivíduos.09. Para os simpáticos do integralismo no Estado. além de grande literário e nacionalista da década de 20 e 30. “Um Chefe .PORTO. nº..) O literato 177 do Brasil (. Recife. A questão da confiança na moral. jornal que posteriormente mudou seu nome para A Tribuna. de Pátria..101 movimento as grandes massas eleitoraes. 176 A Tribuna Religiosa. criado sob rígidos valores moraes. que tinham definido sua personalidade.. A Ordem.Quinzenário de Propaganda Integralista. p.” Além desse discurso imbricado entre o político e religioso. é importante destacar a figura de Plínio Salgado que aqui em Pernambuco será reproduzida como um intelectual carismático cuja ação literária ultrapassa o campo das reflexões e vai passa a se dedicar ao campo das ações políticas.1934. 26.

de moral. Neste momento de descrédito nos partidos políticos. a sociedade de modo geral aceitou (. que resguardava todos os valores ameaçados: ... 179 ..F. Afinal. Plínio Salgado e o integralismo significavam uma esperança de moralização do campo político. Significava uma esperança de mudança sem ameaçar o sistema. ameaçando voltar ao poder nas próximas eleições e o comunismo ameaçava tomar conta da situação. trabalhar pela Pátria e pela sua família.01. com isso ingressou quase totalmente toda a classe alta. muitos acreditaram que o autoritarismo que permeava o discurso do movimento e do Chefe Nacional.. era absolutamente necessário para organizar a vida política do país.. de Palavra e de Fibra (. Resultado.SARAIVA. Por isso. e era justamente o que o partido apresentava: Deus..um homem de Vergonha. Recife.. Naquele momento.102 considerado: “. tudo o que fizesse ou dissesse seriam sempre considerados como verdades.) foi uma filosofia para 179 o povo brasileiro . . Para os integralistas. J.. especialmente dentro do contexto de descrença política do pós-30..o país naquele momento precisava de caráter. O indivíduo crê em Deus. e os defendia muito bem dentro da trilogia do movimento: “Deus.1994..”.. Com esta imagem e discursos. as classes pareciam agitadas e em conflito com os líderes revolucionários.) 178 sentiamos que podíamos confiar nele. Plínio Salgado tinha respeito aos valores nacionais. morais e religiosos..BRANCO. Plínio Salgado e a Ação Integralista Brasileira projetaram-se com grande impacto na sociedade pernambucana desde a cidade do Recife às cidades do interior do Estado onde passou a implantar núcleos que obedeciam as diretrizes da organização burocrática do movimento. J. novembro de 1994. de dignidade. um novo dentro do velho. Cabo. 178 . que a “Revolução” de 1930 não havia conseguido resolver. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. 07. Pátria e Família”. as oligarquias continuavam atuando em seus domínios. A disciplina e militarização do movimento eram apresentadas como os pontos fundamentais da seriedade do movimento e um modelo do que seria o Estado Integral. Pátria e Família. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. C.

Especialmente nas cidades do interior do Estado. isto não significava que o movimento tivesse perdido seu sentido doutrinário de formar a nação integral acima das forças particulares. que tinham certa independência econômica e política. a quantidade de adeptos era pequena em relação aos núcleos da Capital. as dificuldades para se instalar um núcleo eram bem maiores. onde o mandonismo local ainda era muito forte. Sendo esse integralista todo o resto da família aderia. para enfrentar as dificuldades locais. a burocracia e autoritarismo do movimento atuaram sob condições locais bastante complexas. . se em Pernambuco o movimento foi recepcionado entre intelectuais católicos. Este fato levou o integralismo a funcionar sob normas menos rígidas nos núcleos das cidades pequenas do que em outros núcleos instalados no Recife. onde o integralismo conseguiu instalar núcleos com o apoio dos estudantes da Faculdade de Direito do Recife. Nesses núcleos houve casos de desobediência tolerada. Visto que. Em certos casos.103 Por outro lado. Em grande parte das cidades. especialmente entre os economicamente dependentes. principalmente as mulheres e crianças que faziam parte da ala feminina e dos plinianos do movimento no Estado. implantar todas as normas rígidas do movimento sobre os membros de certas cidades significava arriscar-se a perder os poucos adeptos que havia conseguido. No interior do Estado. Muitas vezes. de onde saiam os intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. que não eram cumpridas. e estes para os distritais. que se tratava de “ceder aqui para que o movimento cresça ali. comerciantes e outros profissionais liberais. nestas cidades as condições não eram tão favoráveis quanto no Recife. os departamentos e secretarias responsáveis por determinada função enviavam ordens do Chefe Provincial para os chefes municipais. na “Província de Pernambuco”. não podemos deixar de fazer referências às famílias católicas e tradicionais do Estado. para que os núcleos fossem instalados e funcionassem com sucesso os integralistas precisavam do aval das grandes famílias locais. a atuação e expansão do movimento ficavam. então. Para os lideres do integralismo. Devido a essa questão. Uma vez que. No interior do Estado. O apoio do chefe de família era fundamental para o sucesso do integralismo no Estado. onde foram instalados núcleos integralistas. Alguns chefes integralistas diziam nas reuniões. como era chamado o Estado de Pernambuco pelos integralistas. porque muitos temiam envolver-se num projeto político que não tivesse o apoio do poder local.” Tratava-se de adotar certas estratégias políticas. condicionadas ao apoio dos chefes locais.

Alguns proprietários que simpatizavam com o movimento emprestavam caminhões para levar os integralistas do local para desfiles e comícios no Recife. como era de se esperar pelos deveres dos integralistas.. Chefe Provincial de 180 Pernambuco.. conforme dita o Estatuto da Ação Integralista Brasileira. Jornal Ação 14. e.“Da vida economico-financeira da Ação Integralista Brasileira” Estatuto da Ação Integralista Brasileira. ..104 não resultando.DOPS. por excessivo. que determina ser: expressamente vedada à Ação Integralista Brasileira. essa também era uma postura contraria às normas do Estatuto da Ação Integralista Brasileira.º 4938 . Francisco Lopes Filho. recusavam-se a vestir a “camisa-verde” e a inscrever-se na AIB-PE para não se comprometer com outros acordos políticos locais.Sr.. na eliminação dos membros desobedientes.10. 180 .Secretaria Provincial de Finanças.1934 . ou municipais (. venha criar compromissos moraes e diminuição da autoridade do chefe nacional ou dos chefes provinciais. O apoio destes proprietários locais era muito importante para o sucesso e expansão do movimento em determinadas cidades do interior. como se pode ver pelos documentos da AIB-PE: “Exmo. quer no Provincial. Entendemos que.“Donativos”. Prontuário Funcional n. Contudo isto não impedia que o integralismo recebesse os donativos oferecidos. (o grifo é nosso) A AIB em Pernambuco recebeu outros auxílios de proprietários locais que não eram inscritos na organização integralista. diante das dificuldades locais e para não perder os poucos elementos conseguidos. Donativo: Em nome da Ação Integralista Brasileira (. principalmente no Nacional. Belmiro Corrêa de Araujo. quer no ambito Municipal. quando os proprietários locais apoiavam.Dr..Excia o donativo de 500$000 (quinhentos mil reis) feito ao nosso movimento por intermédio do nosso companheiro Dr.) venho agradecer a V.APEJE..) A Ação Integralista Brasileira manter-se-á pela contribuição de todos os 181 integralistas. Entretanto. 181 . receber donativos cujo volume. os chefes integralistas eram obrigados a adotar posturas “flexíveis”.” É importante destacar que.

porque minha familia era muito respeitada aqui e ninguém se atrevia a bulir com a gente. Outras familias aderiram porque meu pai apoiou (.. além de garantir novas adesões entre membros de sua família.10. o integralismo chamou a atenção com suas “caravanas” e desfiles. “movimento quanto maior. este fato não muda o temor que tinham de ingressar numa organização do tipo do integralismo. Nestas cidades. onde os indivíduos apresentavam-se com uma postura do tipo militar: fardados. O povo tinha vontade de 182 . foram poucos os trabalhadores rurais que aderiram à AIB-PE: Além de simpatizar com as idéias do movimento o cabra tinha que ter coragem para enfrentar o chefe local. Eu tive sorte. Muitas vezes. estava a adesão dos trabalhadores nas cidades do interior. 182 Faltou apoio do povo e do exército. mais cautela havia. amigos. Entretanto. Como nos disse o Sr. Bezerro.) eramos agricultores da região e tinhamos parentes na prefeitura local (... participavam sem ninguém obrigar. Os investigadores do delegado ficavam olhando a gente de longe. alguns empregados do campo também aderiram. Tinhamos muita esperança no movimento (. que enfrentava o regime e o governo instituído. Segundo depoimento do Sr.”. . Devido à sua situação de dependência... esse tipo de apoio significava ajuda financeira e material para o funcionamento do núcleo... Eu entrei somente porque queria uma nova organização política para o Brasil e pela religiosidade do movimento. Mello. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. 14. eles podiam até simpatizar com o integralismo. José Antonio A. Vinculada a essas questões.1995. cooperavam até vendendo galinhas para participar das conferencias do Recife. trabalhadores e agregados. mas sua adesão estava ligada à simpatia ou adesão do seu patrão.105 Como se pode daí aferir..) foi um grande sonho. José Antonio Mello.MELLO.) Tinhamos muita esperança no movimento. Poucos se atreviam. líder integralista em Bezerro. marchando e cantando o Hino Nacional. eramos muito jovens e sonhadores.

183 Esperavam a decisão dos grandes. Pelos documentos da AIB que circulavam nas cidades do interior do Estado destaca-se com grande repetição o ateísmo do comunismo como um dos males que assolava a sociedade. De qualquer maneira. que o lema “Deus.106 participar. O governo e os lideres locais integralistas se dedicavam a propagar no Estado muito mais a desordem espiritual. então. desordem e ameaça das tradições do que em Hitler e Mussolini. alguns dos quais não foram citados aqui. Esses eram mais comentados pelos intelectuais que mantinham contato com o contexto externo. assim como nas cidades grandes. o discurso comunista os mais repetidos e que produziam sentido nessas cidades e entre essas famílias. constituem a base de atuação e expansão do integralismo no Estado de Pernambuco. sendo muito mais repetido o avanço comunista e a desordem da sociedade brasileira após a “revolução de 1930”. a conjuntura externa é muito pouco citada entre os documentos de Pernambuco. . A sociedade pernambucana se caracteriza. Fala-se muito em anarquia. foi o discurso católico e. como um lugar de produção de sentido dos discursos integralistas por uma série de fatores internos. entendemos que o anticomunismo e o antiliberalismo em favor da preservação dos valores católicos e da estrutura famílias. principalmente. De modo geral. sendo a ameaça sobre a propriedade privada a segunda queixa. 183 . para depois se posicionarem. Pátria e Família”. O que se percebe é que nas cidades do interior do Estado de Pernambuco os meios de comunicação eram muito precários e os jornais não circulavam entre a população.Ibid. Também suas famílias dependiam de seus informes em épocas de férias e visitas desses intelectuais. a ameaça às raízes cristãs e ao avanço do comunismo como conseqüência da crise liberal do que idéias fascistas de um partido de massa aos moldes italiano e alemão. mas também tinham medo das conseqüências políticas. ficando essa mais alheia ao que se passava na Europa. Assim.

edição. conquista e permanência no poder. social e estético. Sua tradução no plano político é invariavelmente voluntarista. .) Historia Geral da Civilização Brasileira III. p. redimensionar os critérios políticos de acesso. « Um pensamento Político Autoritário na Primeira República. propondo formas novas de enfrentamento das temáticas da “velha ordem aristocrática”. criador.107 5. permitindo que se constitua um imaginário revolucionário nas gerações que vivenciaram aquele momento de voluntarismo e engajamento na questão nacional. para além dos limites do circuito fechado das 184 Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba. Bolivar de. 1977. A mentalidade revolucionária inspira-se no aspecto fáustico. O LEGIONÁRIO INTEGRALISTA: um novo homem para uma nova era 184 Raimundo Barroso Cordeiro Júnior (UFPB) A historiografia brasileira. parte da juventude das grandes cidades brasileiras deixou transbordar suas expectativas político-reformistas. identifica na década de 1920 a eclosão das condições históricas e intelectuais que dariam origem aos confrontos político-ideológicos das décadas seguintes. no mito soreliano. mobilizante quer na deificação fichteana da Nação e do Estado. finalmente. econômico e político. 2º volume. carismático. em suas diversas abordagens. Esse período é apresentado como o cenário da emergência de correntes de pensamento político. culminando com a “revolução de 1930”. do Romantismo. Boris (org. pois. A ação política vai estabelecer a tonalidade da colorida efervescência daqueles anos. Os temas da identidade nacional e da realização histórica da Nação se apresentaram à juventude como chamamento à realização da tarefa de salvar o Brasil do arcaísmo social. possibilitando o surgimento de um número considerável de projetos políticos reformadores. 362. 185 LAMOUNIER. Uma Interpretação ». Nas primeiras décadas do século XX. Tomo III. quer em sua forma 185 anarquista. quer. Sociedade e Instituição a (1889-1930). esteticista. Modernizar significava. Brasil Repúblicano. 3 . Rio de Janeiro: Difel. In : FAUSTO.

devemos entender por cultura política o conjunto de atitudes. In: BOBBIO. pp. aproximavam-se em torno da noção de realidade nacional para dela tirar os ensinamentos emancipatórios da Nação. atingindo uma amplitude significativa no seio da sociedade. pedra de toque de outros clubes pelo quais os tenentes desejavam conquistar a opinião pública e acertar suas próprias divergências. Nicola. o ativismo foi proporcional à incerteza sobre a verdadeira orientação do governo provisório. “Cultura Política”. Minas Gerais. as normas. nas décadas iniciais do século XX. O nacionalismo é o principal mediador e o elo comum entre os projetos que se rivalizam nos anos 1930. Durante algum tempo. hora de conflitos entre os políticos tradicionais e os novatos. Varriale et al. Conf. Norberto.108 sociedades culturais. Giacomo. tendo como objeto fenômenos políticos. Dessa forma. crenças partilhadas por membros de uma sociedade. as tendências. cuja profundidade foi atestada pela Revolução paulista de 1932. agremiações literárias ou simplesmente confrarias boêmias. normas. ditadura do proletariado etc. sob a direção de tenentes onde doutrinários como Francisco Campos. foram arregimentados os pensadores militantes que se confraternizavam em torno da busca das raízes da nacionalidade. SANI. Gianfranco. Tradução de Carmen C. a linguagem e os símbolos políticos que atuam sobre as instituições e definem as práticas e as forças políticas de uma sociedade. a MATTTEUCCI. Antes dirigidos hegemonicamente pelo anarquismo. Esse novo universo social se constitui na mesma dinâmica em que seus membros se fazem como sujeitos de uma nova cultura 186 política . 11 . O nacionalismo virou regra geral para o ativismo das novas gerações preocupadas com a reconstrução do país. Foi a hora das legiões revolucionárias em São Paulo. 1998. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Ceará e outros locais. Daí surgirão os movimentos políticos que definirão a intensidade das mudanças. chefes locais. a exemplo do Partido Comunista como novo elemento no interior das lutas pela organização e mobilização do operariado. mesmo que os objetivos fossem diversos e opostos (democracia liberal. Ele se apodera dos participantes da Revolução: tenentes.). edição. Compõem a cultura política o conhecimento. . os trabalhadores urbanos assalariados encontrarão no Partido Comunista uma opção a mais para mediar os conflitos com os patrões. líderes políticos. Dicionário de Política. PAQUINO. O ativismo conquistou 186 Segundo Sani. 306-308. do Clube 3 de Outubro.

O Integralismo no Ceará. do desvirtuamento moral em função do oportunismo e dissimulação dos políticos profissionais e da ignorância geral sobre o verdadeiro Brasil. São Paulo: Difel. Ótica. . que surge a Legião Cearense do Trabalho (LCT). Os Intelectuais e a Política no Brasil. reacionários ou revolucionários. criado pelo tenente Severino Sombra. formado no interior da Reação Católica e 189 movimentos de recristianização. 2. 189 Segundo MONTENEGRO. católicos. desencadearam movimentos e sonharam com a tomada do 187 poder. movimento político filiado ao pensamento catolicismo integral. passou. MONTENEGRO. 75.A Legião Cearense do Trabalho É na esteira das discussões e expectativas desse contexto de ebulição de idéias. A Legião Cearense do Trabalho.109 também os intelectuais. A Segunda República. A entidade teve sua criação oficializada em 1931. sua direção e métodos assemelham-se aos dos movimentos fascistas fato que o aproxima 188 logo a Plínio Salgado. Variações Ideológicas. Entre o Povo e a Nação. a enveredar pelos caminhos do engajamento partidário. IOCE. 295296. 1986. ao fim dos anos vinte. até as associações de profissionais 187 PÉCAUT. após a “peregrinação” política de Severino Sombra. p. que aderiram às legiões. antecessor da Ação Integralista Brasileira criada por Plínio Salgado. p. muito freqüentemente adversária do exercício puramente político. a Legião Cearense do Trabalho consegue a adesão do operariado. . fundaram centros. 1974. 1990. jovem tenente de orientação católica. 115. 188 CARONE. A ação militante da intelectualidade.. Fortaleza. Daniel. Cf. João Alfredo de Souza. cuja militância se dirigia à organização e mobilização de trabalhadores. a formação católica de Sombra baseou-se em Santo Tomás de Aquino. p. Enquanto as outras agremiações pretendem o apoio da pequena burguesia. de maior ou menor envergadura. Bardieff e Bergson.. dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil. posto que o entendia como caudatário da inoperância proposital dos parasitas do poder. São Paulo: Ed. Edgard.

Apesar do conservadorismo evidente do movimento legionário. bombeiros. empregados da Light. representando os interesses de elementos ligados ao trabalho assalariado e autônomo no Ceará. “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho. carpinteiros. entre outras. 190 Os fundadores da Legião Cearense do Trabalho aproveitaram os espólios políticos da Aliança das Classes Trabalhistas e da União Operária Cearense. considerado como elemento mediador das novas relações sociais que serão instauradas na nova era. lavadeiras e pedreiros. As categorias profissionais que pertenciam ao elenco de sociedades inscritas na Legião eram. 5. Sebastião Rogério Barros da. 191 PONTE. trabalhadores portuários e gráficos. passa a ser então a estratégia política de reconhecimento social da direção legionária. automobilistas. a sua prática sindical demarcou pontualmente bandeiras políticas aparentemente “avançadas” para a época. incluindo dezenas de “Círculos Operários e Trabalhadores Católicos”. 191 190 A opção pelos trabalhadores revela a importância atribuída ao trabalho pela LCT.Universidade Federal da Ceará. . Muitas destas associações eram de natureza beneficente. a partir de uma pauta de reivindicações que inclui bandeiras tais como co-gestão e divisão de lucros nas fábricas. padeiros. Demonstrar às outras classes a exeqüibilidade deste projeto através da apresentação do operariado cearense “docilizado” e coeso. Da mesma forma. Fortaleza: NUDOC . Dessa primeira iniciativa foram conquistadas as adesões de 11 associações de diversas profissões. junho de 1933. enaltecendo a fraternidade acima das desigualdades acidentais. Através da valorização do trabalho é possível construir o mundo ético ideal. O discurso legionário valoriza a necessidade de um instrumento de coerção social exterior ao indivíduo. alfaiates. a LCT o define como elemento de propagação da possibilidade efetiva de construção de uma sociedade regida pela colaboração universal. (mimeo. Ao incorporar o operariado à sua doutrina. as seguintes: tecelões. empregados em hotéis e cafés. Essas associações quase sempre possuíam uma estrutura ainda ligada à tradição do mutualismo e do assistencialismo. 1990. (1930-1937)”. sapateiros.) p. engraxates.110 existentes em Fortaleza. a influência do pensamento tenentista sobre a doutrina legionária reproduzirá uma atitude de voluntarismo e bravura em face da causa da salvação do país e à construção da Nação. ambulantes. p. ambas inativas no início dos anos 1930. Ver : O Legionário. congregando cerca de 9 mil associados. 2-3.

procurando reunir as classes trabalhadoras e orientá-las num sentido de ordem. p. 02. . nem sempre recebeu das classes proprietárias a compreensão e o apóio que esperavam pelo esforço de organização dos trabalhadores em torno da política de colaboração entre as classes. Envolta num indifferentismo criminoso e de uma ingratidão lastimável. a sinceridade e o desprendimento de como agimos. os “humilhados”. Este elemento concederia ao ideal legionário a autoridade e reconhecimento por parte daqueles que ansiavam por uma alternativa sociopolítica para a sociedade brasileira. os “injustiçados”. por intermédio de sua humildade e aquiescência à ordem natural das coisas. A centralidade do trabalho no discurso legionário tem seus vínculos com a origem católica do movimento. não reconhece a burguesia.111 Entretanto. E elle a faz. O trabalho é «pessoal e necessário». Executando uma obra o homem põe nella sua própria pessoa. Mesmo em condições sociais adversas o homem pobre demonstra. A forma como a intelectualidade legionária pensa o trabalho e projeta o trabalhador procuram se diferençar substancialmente dos demais ideários políticos do período. por conseguinte. o 192 O LEGIONÁRIO. quando ella é que seria a grande prejudicada na victoria do communismo. sem nenhum interesse individual (grifo d'O Legionário) tendo em vista. em sua causalidade como em sua finalidade. enfatizando os seus aspectos ideológicos orientados pelo humanismo cristão. e permanece hostil ao nosso movimento dizendo-se paradoxalmente. apenas o bem social. sua superior altivez ao ensinar aos “acidentalmente diferentes” o caminho para a harmonia universal. anti192 communista. Assim. 18 de maio de 1933. são pegos de empréstimo à causa da LCT como exemplo de boa vontade. elle trabalha para manter a sua vida e a de sua família com a dignidade que lhe exige sua condição de ser racional e livre. O homem realizando-o deixa-lhe uma marca humana.

expressa sua essência autoritária. o bruto. O projeto de valorização do trabalho e do trabalhador. o material. A militância responsável para novos comportamentos sociais. O Estado é a fonte e 193 SOMBRA. enunciado fundante do ideário da LCT.112 trabalho está impregnado da pessoa humana. . considerado como o elo integrador do social. Assim. o aspecto material da participação. pois. uma união de homens livres. 1932. patrão e operário gozam do prazer de ver seus esforços serem consagrados no surgimento do produto. p. Por intermédio do estabelecimento de um rigoroso quadro ético-comportamental. no sujeito instituinte de uma socialidade de tipo novo. o Estado corporativista se transforma. ao passo que manifesta seu pessimismo em relação à natureza humana. Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. E a associação entre os dois não pode ser regulada por um contrato tendo em vista apenas a produção. tem o objetivo de despolitizar a Questão Social. A obra realizada é uma obra coletiva do operario e do patrão que o dirigiu e forneceu-lhe o material necessário. Esse contrato visa uma associação humana. Sendo o homem originalmente inclinado para cometer ações maléficas à existência coletiva. A relevância dada pelo legionarismo ao Estado. cuja exeqüibilidade somente é possível pela aceitação inconteste do princípio regulador do Estado e do intelectual tecnocrata. 10.o Estado . A positividade do trabalho humano destrói as desigualdades acidentais entre os homens. do seu valor moral e não pode. simplificada na sua suposta natureza ética. Severino. estabelece o paradigma da colaboração e submissão política e técnica dos trabalhadores frente à intelectualidade vaticinada para comandá-los. quando transformado na ação que religa os homens e os liberta das ingerências imprevisíveis do mundo natural Ao mesmo tempo ressalta a infinita superioridade daqueles que se irmanam por ocasião do manifesto supremo de sua humanidade. com consciência moral e dignidade fundamental idênticas e não simplesmente a 193 coisa fabricada. ser tratado como uma simples mercadoria. portanto.controle a dinâmica das relações entre pessoas. a LCT propõe que um elemento exterior . O Ideal Legionário.

Encontrar em São Paulo um aliado que acolhesse a proposta de se tornar o representante do movimento legionário nascido no Ceará. Entretanto. em hipótese alguma. 1. dirigentes de movimentos semelhantes a LCT. A Legião Brasileira do Trabalho (LBT) seria a vitoriosa expansão do ideal Legionário por todos os estados do país. conceito que abominavam”. Sebastião R. Tristão de Athayde recusa o convite. conseqüência da velocidade com que se arregimentavam suas forças. A Legião Brasileira do Trabalho Passados os primeiros embates. contra os “excessos e injustiças do capital”. passa a ser o propósito quase exclusivo do chefe da Legião. Sombra buscava. Da. principalmente. . nos moldes da pregação do “Manifesto ao Operariado Brasileiro” de 1º de maio de 1932: 194 PONTE. com o intuito de dar prosseguimento ao projeto. mas 194 sem recorrer à luta de classes. 3.cit. em julho de 1932. indicando o nome de Plínio Salgado. os principais aliados seriam Olbiano de Melo em Minas Gerais e Leão Sobrinho no Rio Grande do Sul. Severino Sombra vai amadurecendo a idéia de transformá-la em um organismo classista de dimensões nacionais. B. tendo iniciada a revolução constitucionalista de São Paulo. Durante o primeiro semestre do ano de 1932. A “Legião Cearense do Trabalho” foi mais uma das várias entidades que surgiram inspiradas pela vontade de redefinir os rumos da vida política nacional. Nos planos traçados para a deflagração da LBT. p. Contudo. ser agredida por nenhum cidadão ou instituição da sociedade civil. aqueles que fariam da LCT e de seu chefe notícia política constante. Sua finalidade explícita era mobilizar e organizar os trabalhadores do Ceará. “Definindo-se como antiliberal e anticomunista. mantiveram correspondência Salgado e Sombra. o apoio de São Paulo por sua importância no cenário político nacional. através da implantação de um Estado forte e centralizado. ficaram impedidos de realizar o encontro que certamente selaria a fundação da LBT. Tristão de Athayde será o primeiro contatado para assumir esse compromisso. Para decepção do dirigente legionário.113 repassador de orientações éticas para o bom viver em sociedade e sua autoridade não pode. a LCT pretendia organizar e educar o operariado cearense na defesa do trabalho contra os excessos do capital. op. e posteriormente do Brasil.

outras Legiões. . p. a LCT.114 Ouvi sua palavra. doutrinária e institucional. Severino Sombra vai sofrer a primeira e definitiva derrota política. foi confirmada ao desembarcar no porto. passou a ser de natureza individual. avante.isto é destituí-lo do cargo e de poder . mesmo antes de chegar a Fortaleza. que. sob o novo comando. em breve. 01. cujas propostas de política sindical atentavam explicitamente contra o modelo organizativo legionário. operários do Brasil. Esta nova fase representa o período da aproximação dos legionários com o recém-criado Movimento Integralista. Voltando ao Ceará com a finalidade de compor uma unidade político-militar de apoio aos constitucionalistas. . para que. 196 Severino Sombra permaneceu exilado em Portugal até o início do ano de 1934. reivindicando justiça e offerecendo à Pátria sua collaboração honesta e imprescindível. lugar de onde partiria por um tempo de exílio forçado em 196 Portugal. sua prisão fora decretada pelo Presidente. Operários. oficializado na sigla Ação Integralista Brasileira (AIB). Com a expulsão do líder fundador da LCT. a Legião Brasileira do Trabalho seja a grande organização victoriosas dos elementos trabalhadores. A partir dessa campanha de consolidação do Integralismo. Portanto. Plínio Salgado divulgou seu manifesto no mesmo ano da revolução constitucionalista (1932). ressaltando sua independência política. e formae nos Estados. pelo 195 trabalho. in: O Legionário. Avaliando que os revoltosos paulistas pudessem sair vitoriosos do confronto com o governo Vargas .o tenente Sombra passou a apóia-los incondicionalmente. marchando para o Futuro [sic]. dentro da ordem. a decisão de se aliar ao contingente político da AIB. 10 de maio de 1932. Era certamente a oportunidade de manifestar sua oposição ao liberalismo da Revolução de 30 e especificamente a Vargas. pela sociedade. realizará o pacto de adesão aos princípios de Salgado. subindo ao poder o também tenente Jeovah Mota. Ao chegar em São Paulo no momento da eclosão da revolução constitucionalista. Seu fundador fora aquele mesmo que se comprometera com Sombra na construção da LBT. vindo a presenciar em pouco tempo ampla repercussão dos ideais integralistas. S. pelo Brasil. processou-se imediatamente sua substituição. Isto significa que cada 195 SOMBRA.

posteriormente. O seu substituto. 12 de agosto de 1933. Mesmo porque o antigo líder rompera com a LCT e sua nova chefia antes mesmo de findar o seu período de 198 ostracismo . frustrou-se no Congresso Integralista de Vitória naquele mesmo ano.. revezando na medida das circunstâncias e solenidades as camisas. Chefe Jeovah Mota. (. Estado forte. cujo sentido aponte para um mais profundo conservadorismo político de uma das partes acordantes. consolidou-se no cargo conquistando o apoio e a simpatia dos comandados. Apesar das evidências manifestas no acordo de “cooperação mútua”. Assim. a tentativa de dividir com Plínio Salgado a liderança do movimento integralista e. o Integralismo está organizado e representado pela Legião Cearense do Trabalho! Os operários desta província são soldados fiéis e disciplinados 197 da Legião Integralista.. 1. ou a camiza verde oliva da mocidade pensante e laboriosa. vislumbrar pontos de dissenso. confirmou sua participação nas hostes do Integralismo. agrupada sob o estandarte do Integralismo. é o que se apresenta como perspectiva de autonomia da LCT. permitindo-se. alimentado pelo desejo de mudar aquela instituição pelas bases e a partir dela mesma. Princípios como corporativismo. Apesar da articulação realizada em alguns simpatizantes. O legionário pode vestir indifferentemente. 197 O LEGIONÁRIO. se assim desejasse. pois. teria a ampla liberdade de unir-se aos membros da doutrina do sigma. patriótica e sadia. a blusa mescla do Trabalho dignificante e dignificado. Severino Sombra o buscará a AIB. ora cáqui ora verde-oliva. 198 O rompimento foi motivado pela adesão de alguns legionários à Ação Integralista Brasileira.) No Ceará. a maioria dos associados da LCT. p. centralização política etc. No entanto. estiveram sempre em alta cotação no corolário doutrinário do legionarismo e do Integralismo.115 legionário. a conquistar a chefia geral. O retorno de Severino Sombra ao Brasil não significou a retomada dos trabalhos e a direção legionária. fato que merece relevância. A aproximação entre as duas tendências reflete um grau de reciprocidade e parentesco de ideário. . o que representa uma demonstração notória de empatia com o credo político de Plínio Salgado..

sempre que lhes foi conveniente. manifestaram sua oposição radical ao Governo de Vargas.a conjuntiva nacional de 1934-1935 atraiu o operariado ora para o trabalhismo varguista. mas se verificou. orientando sua militância política pelo movimento de recristianização da modernidade realizado pela Igreja Católica através do apostolado leigo. Efeitos previstos em função dos conflitos vividos no interior daquela agremiação. No Ceará. frente única que articulou comunistas. envolvendo os chamados sombristas e os simpatizantes de Jeovah Mota. p. janeiros que não fossem comparados aos quarenta da velha República que só miséria trouxe aos infortunados párias desse colosso 200 de Brasil”.D. da. op. ora para um sindicalismo mais autônomo e combativo (face ao crescimento das forças democráticas em torno da Aliança Nacional Libertadora. p. mais uma vez na expectativa de melhores janeiros. pelo menos no que diz respeito à divulgação por intermédio da imprensa. Sebastião R. pela ascensão vertiginosa atingida pelo Integralismo.116 O desempenho político da LCT em seguida será ofuscado. Esses moços antiliberais não apoiaram a Revolução de 1930 e. inclusive. 8. Em outubro de 1930 “quando triumphava a revolução. emergiram novas organizações operárias como a Liga Operária Independente que combatia a dominação 199 político-ideológica da LCT. Enquanto sombristas e legionários se hostilizavam . liberais e antifascistas em 1935). socialistas. 199 PONTE. . O Pensamento Católico Reformista A LCT nasce das preocupações de jovens sobre o destino histórico do país. por exemplo. 200 O LEGIONÁRIO. O declínio certamente atinge não somente as personalidades que garantiram a existência efetiva da instituição. 03. a revolução que prometteu muito para fazer pouco. as classes trabalhistas ficaram.chegam a acontecer brigas de ruas e invasões de sede .cit . no poder de dirigir as massas legionárias. 11 de março de 1933. 1990. 4.

O envolvimento da LCT com a Igreja católica é determinante. 12. Nas democracias modernas vemos a «hipertrofia do poder político.) Lutar por esta humanidade jogada pelas tempestades que ella mesma semeou ao longo da história.. montada sobre normas e preceitos católicos. expondo as causas da desorganização social instaurada pelo capitalismo da Revolução Industrial e sua repercussão nos diversos aspectos da existência humana. Os quadros legionários são representantes de uma formação política oriunda da experiência da juventude católica. denotando o desapego moderno às coisas da espiritualidade. ressaltando o processo de abandono da esfera religiosa invadida pelo laicismo materialista. Seu projeto de sociedade integral.) Pio IX 201 SOMBRA. 1932. porquanto tal sociedade quer excluir a Igreja e a religião da vida pública.117 A LCT representa um momento importante na história dos movimentos sociopolíticos nacionais. inserindo-se nos planos de atuação da Igreja sobre a problemática do mundo moderno industrial.. inclusive para viabilizar sua fundação que se efetivou através do consentimento das autoridades eclesiásticas locais. apresenta-se como a alternativa política para o liberalismo e o socialismo. burguesas e materialistas que marcham para o suicídio. op. Dessa maneira. cit. (. (.. . elaborando um discurso que é a expressão organizada da Ação Católica. p.. onde se recalca em termos explícitos a impossibilidade da Igreja de se reconciliar com a sociedade moderna. A Igreja Católica apresentou suas críticas à modernidade. o pensamento legionário realiza a proposta para o apostolado leigo. Lutar para salvá-la da conseqüência última de todos os seus erros 201 do comunismo catastróphico e aniquillador. desde o apontar da auto-affirmação individualista da Renascença até o repugnante technicalismo capitalista americano. S. o repúdio do poder espiritual e a anarchia do poder econômico». Democracias individualistas. As premissas da concepção integral do catolicismo se encontram na Syllabus de Pio X (1864).

1998. depois assentando as bases para novas relações entre a Igreja e o Estado e. 11. Os Intelectuais e a Política no Brasil. p. Émile. em conseqüência. Dicionário de Política. a partir de mecanismos da planificação estatal. Contra a burguesia e a sua revolução. Desconfiança em relação ao funcionamento do capitalismo da época ou condenados por princípio de sua lógica. 1990.118 mantivera-se na defensiva. das categorias mais pobres e desafortunadas. Leão XIII retoma a iniciativa. Reorganizar a sociedade implica em redirecioná-la para o combate à degeneração moral e ética vivenciada na “Idade Moderna”. Gianfranco. p. intransigente. 203 PÉCAUT.) Ela [«Rerum Novarum»] se tornou também o texto básico do catolicismo integral. a Igreja se apresenta como defensora do povo cristão. ed.. PAQUINO. esquecidas pela nova ordem 202 burguesa. “Integralismo”. com acentuados aspectos sociais. 202 POULAT. Norberto. São Paulo: Ed. que provocaram a desordem social. temor inspirado pela multiplicação anárquica de interesses particulares ou pessimismo devido à desorganização do social: eis o que levou grande parte dos 203 intelectuais a aderir a uma ideologia de Estado. É reencaminhar os homens para os desígnios de seu destino glorioso. de onde se originará necessariamente o movimento socialista. . Brasília: Editora da Universidade de Brasília. finalmente. que se revela. Nicola. Entre o Povo e a Nação. 636. somente possível de ser reencontrado pela recuperação dos laços de fraternidade e harmonia universais. dúvida sobre a viabilidade do liberalismo político no Brasil ou antipatia doutrinária em relação às próprias premissas do liberalismo. primeiro visando a restaurar nas escolas católicas uma rígida disciplina de pensamento com o retorno à tradição tomista. É assim que se explicam as suas diversas intervenções. MATTTEUCCI. dando sobretudo a ordem social cristã um conteúdo consentâneo com os dados concretos do tempo. Ótica. Daniel.(.. 44-45. In: BOBBIO.

In: OUTHWAITE. 1996. p. na medida em que devem encarar sua missão histórico-espiritual como uma cruzada em favor da recuperação da pessoa humana. Se o encontro desses jovens com os incansáveis peregrinos da Igreja conduziu parte da juventude cearense ao seio doutrinário do Integralismo. Tom. O movimento católico organizado nessa época em torno do Centro Dom Vital. Charles Maurras.119 O clima de guerra contra os desvios da humanidade é ressaltado na pregação aos jovens intelectuais católicos. “Teoria social cristã”. Na teoria social cristã. simpatizavam com um racionalismo deliberadamente reacionário. inicia-se um amplo processo de divulgação da palavra da hierarquia católica sobre as contradições do mundo moderno. . 1990. bem como a capacidade dos agentes de escolher entre diferentes objetivos e projetos. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. parece que há uma relevante colaboração daquela instituição religiosa na consolidação deste pensamento político. op. Léon Bloy. uma teoria de 204 ação. basicamente. A partir de 1916. Francis P. e que seria dirigido sucessivamente por Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. Com a formação da sociedade católica se dará o cruzamento do destino político do pensamento legionário e os ensinamentos intercambiados pelos intelectuais do clero. apesar da separação entre ambos estabelecida pela República. ao mesmo tempo em que propõe um engajamento ao apostolado emancipador dos males liberados pelos tempos corrompidos. cit. 160. certos bispos esforçaram-se para arrancar a Igreja de seus costumes de submissão diante do Estado. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 205 PÉCAUT. Quanto aos intelectuaisleitores de Joseph de Maistre.sonhavam com a contra-revolução 205 católica. 27-28. William e BOTTOMORE. o voluntarismo e o caráter intencional da conduta humana são enfatizados. Isso não exclui a análise e discussão de estruturas. A partir de então. Daniel. Henri Massis. p. reduzir os intelectuais que sem dúvida. a miséria espiritual a 204 MCHUGH. Os equívocos. Os intelectuais devem se entender como “os bons e fortes” que se encarregam de reerguer os atingidos pela decadência civilizacional e corrigir “os maus e orientarem os transviados”. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Jacques Maritain e outros . enraizados durante o Império e mantidos depois. as injustiças. mas significa que a teoria social cristã é. portanto.

Segundo FERRARI (1998). a Revolução Francesa. Cf. na medida em que esses programas prático-doutrinários são entendidos como elementos originários de uma matriz histórica..120 materialização das relações humanas. Portanto. a tarefa da juventude. Sobre as novas gerações. Em uma palavra. Francis P. leigos. recairão as responsabilidades de se transformarem em reformadores sociais. a compreensão é que liberalismo. políticas e doutrinárias da LCT. democracia. Esta militância em forma de apostolado. para além da simples recondução daqueles que se afastaram da fé. congregando leigos e clérigos. desempenhando um grau de importância significativa na prática política de seus militantes. o de facilitar o florescimento de uma vida boa e justa na polis”. constata-se a presença indiscutível do pensamento reformista da Igreja Católica. quando se iniciaram movimentos católicos de oposição ao Estado liberal em defesa do direito da Igreja de definir e decidir sobre os modos de vida na sociedade moderna. será a de libertar a humanidade dos males provocados pela indústria e pelo liberalismo. op. visava. agora transformada em quadros da Ação Católica. qual seja. É uma proposta que se lança acima da experiência democrático-liberal e do pensamento revolucionário e socialista. a saber. defendendo a idéia de retorno a um universo existencial mantido e substantivado por fundamentos éticos. no sentido aristotélico de um estudo da sociedade com um fim. seja nomeada como Ação católica ou ação dos católicos. MCHUGH. 206 De acordo com Mchugh “a teoria social cristã pode ser encarada como práxis. p. . cit. recriando um organismo social de acordo com os princípios da Igreja. constituir-se-ão nos alvos da 206 práxis do catolicismo reformista. moços católicos. A influência dessas idéias na formação intelectual legionária é evidente. corrigindo os descaminhos históricos da modernidade e reconduzindo a sociedade à sua idade de ouro perdida e desprezada pelos excessos do materialismo. Na discussão sobre as matrizes intelectuais. por em prática um projeto integral de homem e sociedade. 160. a participação dos leigos nas atividades apostólicas da Igreja através do movimento católico. socialismo e comunismo são momentos indistintos de uma só origem causal promotora do dissenso social. remonta à primeira metade do século XIX. É nesse clima de arregimentação reformista que Severino Sombra encontra resposta positiva ao seu projeto de sociedade. modelada a partir do “Ideal Legionário”. operários etc.

somente seria possível através de uma ação prático-política de convencimento das classes sobre a necessidade de uma nova ordem social eticamente sustentável. com vistas a recristianização da sociedade. o movimento político da LCT se distingue de outras experiências conservadoras de inclinação fascista no país.121 5. 09. Convém ressaltar que o seu desempenho político não é dado somente por seu discurso de oposição aos agentes da “desordem social mundial”.) Nós precisamos sobretudo defender o trabalho.. o corporativismo. sobretudo. rebaixa-o a uma 207 condição servil anti-humana. protegido. Defendê-lo do communismo que. E quanto mais nos associamos. educado e coheso. quando se viveu uma época resplandecente de paz e estabilidade social. Neste sentido. Esta é dominada pelo individualismo e nós já não passamos sem o sindicalismo.. quanto mais fugimos ao signo 207 SOMBRA. regula actualmente suas relações com o capital.a idade de ouro perdida . Vai longe o tempo em que Turgot podia dizer que a fonte de todo o mal era a faculdade de associar-se outorgada aos operários de uma mesma profissão. do “tecnicalismo capitalista” e da “auto-affirmação individualista”. O legionário – um novo homem para uma nova era Ao se apresentar como crítico do comunismo e do liberalismo por intermédio do ideário cristão reformista. Defendê-lo do liberalismo econômico que. Severino. parecendo exaltá-lo. sua intervenção no mundo do trabalho dá-se com o intuito de “harmonizar” a realidade moderna industrial caracterizada pelos efeitos danosos do “machinismo”. alimentando esperanças de retorno a um mundo ético abandonado. (. A «Legião» organiza o operariado para que. cit. mas. Reconstituir esse passado remoto . . por suas características organizativas junto às massas trabalhadoras. Nós estamos vivendo uma extra-limitação da chamada Idade Moderna. elle se torne um collaborador honesto e consciente das outras classes. op. reconhecido ou ignorado. 1932. p.

mais ultrapassamos as fronteiras na Idade Moderna e penetramos na Idade Nova que viverá sob o signo corporativista e orgânico. realiza um discurso apologético sobre a sociedade do trabalho. a LCT optou por eleger como parceiro-interlocutor os elementos das classes econômicas. negligentemente. vontade. como uma necessidade invencível Maldição para os que. Todo homem tem a obrigação precípua de trabalhar para ganhar o necessário à sua subsistência e a daquelles por quem é responsável. vida. 03 de feveriero de 1934. Era que se estabeleça sobre um humanismo real. e arrasta 209 pelo mundo uma vida parasitária. não se querem submeter à lei do trabalho. a sua militância se desenvolve em meio a uma aparente contradição. integral e não inhumano como o que criou a cultura moderna e conseqüentemente sua civilização. menos artificial e em que predominam os valores moraes sobre os valores econômicos. mas para o advento da qual empenharemos intelligencia. . Assim. p. A lei universal do trabalho imposta pelo próprio Creador à humanidade há de ser cumprida até o fim dos tempos. Enquanto o Integralismo de Plínio Salgado prezou por uma abordagem de raízes culturalistas e destinou sua mensagem para as chamadas classes médias urbanas. p. A especificidade do movimento se manifesta quando a ação política legionária se volta para o trabalhador e a partir deste sujeito coletivo inicia o caminho de retorno ao “mundo bom”.Era que não alcançaremos mais. 01. segundo tudo faz crer. Era em que a humanidade esteja menos asphixiada pelos vapores da machina e possa retomar o ritmo humano que perdeu em contato com os machinismos. 209 O LEGIONÁRIO. ao mesmo tempo em que elabora uma crítica aos efeitos da sociedade moderna sobre o homem. Era mais simples. 208 Ibid. qual seja.122 do individualismo. 208 sangue. 12-13.

Sem instrucção será quase impossível realizar as aspirações operárias a completa 210 reivindicação dos seus direitos. 02. Para nós. p. em nome da reabilitação da imagem original de sociedade orgânica e harmônica. para a formação das mentalidades futuras. o papel pedagógico da missão legionária excede as preocupações de natureza imediatista. As escolas legionárias funcionarão com professores voluntários. diurnas. O discurso legionário se apresenta como regime disciplinar. posteriormente. levar desde a escola primária o influxo dos ideaes. Helder Câmara conquistará 210 O LEGIONÁRIO. ao se projetar sobre o mundo de vida da coletividade ligada ao universo do trabalho. não há melhor caminho a seguir do que formar a alma da mocidade escolar. visando normatizar suas ações fora e dentro do lugar da produção. mentor e organizador de um programa de educação operária . 08 de abril de 1933. Desta forma. é fundamental para os seus projetos estabelecer os mecanismos possibilitadores de uma visão de mundo operária ancorada no ideário da positividade do trabalho. a LCT promoverá insistente reflexão sob a necessidade de preparar um novo homem para a nova era. A ênfase dada à educação dos trabalhadores aproxima o pensamento legionário da noção iluminista de emancipação por meio do esclarecimento. Portanto. A catequese legionária manifesta sua fé na sociedade nova. para disciplina e consciência das massas operárias que amanhã teem de continuar. ou realizar a obra patriótica de reorganização nacional por que nos batemos actualmente.com a instalação de escolas inicialmente noturnas e.123 Para que se realize a promessa de um novo mundo. sem aderir aos princípios políticos da Revolução Francesa. entretanto. . militantes legionários e integralistas. O projeto pedagógico da LCT será liderado pelo Padre Helder Câmara.adultos e principalmente crianças . solidária e produtiva. dos princípios que devem servir de base à formação mental do Brasil novo! As escolas legionárias e jocistas estão nesse caso. abastecida pela vigília perseverante que observa os princípios de um novo humanismo. fundada sobre as bases da hierarquia (à semelhança da Igreja Católica). da colaboração entre as classes e da re-espiritualização do homem.

do sensualismo do consumo. p.. . O jocismo foi fundado em Fortaleza pelo tenente Severino Sombra.. Portanto. convinha iniciar essas tarefas para sua pronta conversão moral.) De setembro de 1931 a fevereiro de 1932.. 04. é estimulá-lo a acreditar no caráter sagrado da ordem social.. seja qual for o vosso mister.levae para casa. Essa preocupação de natureza ética está definida no discurso legionário. Arcebispo Metropolitano a 211 abrir as escolas da JOC. só se efetivará quando todos reconhecerem a essência corrompida do mundo moderno. Como os operários são os interlocutores imediatos da ação ressocializadora da LCT. 03. A superação dos males que impregnam a humanidade de “materialismo”.o salário . Dessa forma. prepondera no ideário da LCT corrigir os hábitos perversos próprios dos regimes liberais e do programa comunista. mas estabelecer mecanismos de manutenção da harmonia e de defesa dos valores fundamentais da pessoa humana. o jocismo realizou núcleos de divisões para a meninada pobre em todos os arrebaldes da cidade. a fim de effectuar as despezas da 212 subsistencia necessária à vossa família. retidão e altruísmo. A recristianização da sociedade impunha não somente um esforço de condução da sociedade a uma convivência coletiva mediada pela espiritualidade. 06 de maio de 193. Assim. depois o atributo do vosso trabalho . em setembro de 1931 (. Excia. autorizado por S. transforma-se na finalidade precípua do legionarismo. entregae-vos a vosso trabalho. o Sr.124 notoriedade e respeito a partir da organização da Juventude Operária Católica . ressaltando os aspectos sacralizantes da família e do trabalho. é necessário indicar uma 211 O LEGIONÁRIO. dever. p.JOC. detestaes o quanto possível o jogo. mudar o comportamento do homem pobre trabalhador. da perda da espiritualidade. legionários. Inculcar no meio dos trabalhadores as noções de decência. Em 11 de fevereiro de 1932 o padre Helder Câmara. antes que sejam capturados inteiramente pelo superficialismo da sociedade industrial. 06 de novembro de 1933. Para tanto. 212 O LEGIONÁRIO.

expressa duas características ideológicas fundantes do seu ideário. o aviltamento inconseqüente das 213 ciências empíricas. Daí o sobrenaturalismo. o transcendente e o imanente. A rejeição ao intelectualismo e à razão pressupõe a tese da livre manifestação do Espírito. quando a “intuição” assume um papel relevante na orientação do homem frente às evidências das realidades concretas. João Alfredo de Souza. .. É para o movimento de recristianização que o legionário volta seu apostolado. 1986. exacerbando a soberba do racionalismo e do antropocentrismo antiespiritualista. por conseguinte. cit. da racionalidade social. dos valores sociais. Assim. O discurso legionário defende um modelo de sociedade orgânica baseada em princípios ético-religiosos. neste ponto de vista o desconhecimento das virtualidades espirituais e éticas do cotidiano da técnica.125 alternativa de organização social que substitua o capitalismo e o comunismo. o catolicismo desvinculado dos condicionamentos sócio-culturais determinando a incidência natural do moralismo.) O racionalismo católico tendia. do afã utilitário. p. A terceira via se apresenta na proposta do corporativismo onde. pelo imediatismo das práticas empíricas. pelo utilitarismo que acabava anestesiando o sentido transcendental. O pensamento legionário considera que o intelectualismo aprofunda as contradições da modernidade e aprofunda o distanciamento do homem em relação à unidade divina criadora. segundo o entendimento dos intelectuais da LCT. seriam transpostas todas as barreiras históricas à solidariedade humana. (. quais sejam o tradicionalismo radical e o racionalismo católico. agindo de maneira voluntarista e altruísta para a conquista da comunidade ideal. Dessa forma. da visão superior do homem e da sociedade. a delimitar em campos opostos o espírito e a matéria. opondo-se às expectativas contemporâneas de se transferir para a ciência o papel de orientadora das ações humanas. 61. a LCT defende um mundo e uma vida social livres 213 MONTENEGRO. op. E revelando. O que o tradicionalismo mais radical não aceitava era a subjugação das consciências..

. Embora não se furte de imaginar a construção de vias que possibilitem o acesso dos trabalhadores ao poder. a atitude negativa quanto aos partidos políticos corrobora a finalidade social do programa legionário. contraria os princípios da vida comunitária. 115-117. De acordo com o pensamento legionário. que pode sintetizar o sentimento de oposição às sociedades modernas. In: OUTHWAITE. William e BOTTOMORE. qual seja. Tom. pp. SHORE. a Idade Moderna e a Renascença promoveram o surgimento do indivíduo e provocaram o desaparecimento da pessoa como fundamento de todas coisas. exemplo de solidariedade verdadeira. o governante e 216 o governado”. p. Cf. A palavra de ordem é estimular a união operária. mais humana (grifo nosso). Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. o combate ao individualismo e a revalorização da pessoa. Lutaremos contra a introdução das machinas. Para isso seria preciso recusar frontalmente a estrutura partidária atomizadora dos homens. Neste sentido. o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936). onde as diferenças casuais são esquecidas pelo princípio moral promotor da “igualdade essencial entre o rico e o pobre. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. Cris. posto que dela surgirão as condições de possibilidade de instaurar a nova era. “Comunidade”. 19. resultado deplorável do orgulho possessivo. 214 Embora o conceito de comunidade seja “vago” e “evasivo”.126 dos artificialismos produzidos pelo individualismo. 1996. Sonhamos com a volta a uma vida mais simples. através de uma sociedade que seja realmente um fim para o indivíduo e um meio para a pessôa desenvolver-se e attingir seu 215 fim der ser racional e livre. a finalidade dessa conquista está associada a 214 um movimento de retorno do homem à vida comunitária. segundo Shore. elaborou uma explicação sobre as diferenças entre sociedade e comunidade. O indivíduo. do egoísmo desenfreado. p. da ambição desmedida. contemporâneo dos movimentos conservadores do início do século XX. p. cit. Repellimos o technicalismo monstruoso da civilização yankee e que a Russia communista quer imitar. 216 Ibid. Lutaremos contra a mecanização cada vez mais intensa da vida. 17. S. op. 1932. 115) 215 SOMBRA. o patrão e o operário.

127
Em conseqüência disso, a proposta cooperativista da vida em comunidade visa estabelecer relações no interior do ambiente de trabalho que permita fluir a “pessoa”, sufocada pelo individualismo. “Em seu aspecto cooperativista a «Legião» pretende criar um ambiente material menos grosseiro para o operário, sem as cores da miséria que o revertem tão commumente por meio de uma assistência carinhosa 217 nas fábricas, nos lares e nas escolas”. A partir de então, os operários se reconheceriam como elementos indispensáveis na conquista e manutenção da ordem universal instituída pela paz social, harmonia nos interesses díspares e colaboração entre as classes. No ideal legionário, o cooperativismo não possui nenhuma conotação de classe, ou algo que permita a radicalização de antagonismos sociais, ao contrário, é o fundamento de uma solidariedade instaurada no interior das diferenças sociais. A nova era se libertaria da concorrência desleal propugnada pelo liberalismo econômico, subsidiado pelas leis da oferta e da procura, e recuperaria a economia no seu significado clássico de administração das necessidades da casa. Procedendo desta maneira, a LCT destitui a legitimidade e necessidades pressupostas nos fundamentos das práticas macro-econômicas ao sugerir uma economia de feições estritamente domésticas e familiares. A crítica legionária às injunções econômicas da modernidade instaura-se na constatação da ausência de qualquer ética nas relações no seio do mercado. Aqui, prevaleceria a ambição, a falcatrua, a dissimulação; enquanto que na organização comunitária, a camaradagem, a troca desinteressada e o senso de justo preço preponderariam por sobre quaisquer conveniências particulares ou interesses escusos. Se ao homem cabe se preocupar, especialmente, com as coisas do espírito, sua sustentação material é simplesmente um acidente enfadonho que marca sua condição biológica. Obstáculo que pode ser resolvido através da cooperação entre todos os envolvidos no trabalho produtivo, representando o trabalho necessário apenas para a sobrevivência orgânica, livre, pois, de concorrência ou ambição. Enquanto um mantem os mais estreitos laços de amisades com os seus operários, o outro lamentavelmente deixa-se possuir dos sentimentos de hostilidades as mais descabidas para com os pobres (...) um
217 Ibid. p. 17.

128
transforma a sua fábrica num lugar saldável, onde trabalhar é um prazer, e collaborar com o patrão dando-lhe um rendimento máximo, é uma necessidade que todos sustam imperiosamente. E o outro (...) foz da fábrica um suplício, onde tudo é abafado e asphixiante, onde o trabalho tem o trono do fel (...) Na fábrica de um, a alegria, o prazer, a amisade desenvolvendo-se em mil formas 218 de colaboração. Trabalho, eficiência, vida. A prática política da LCT sugere um processo de conciliação entre a sociedade moderna e a construção de um universo social diferente, caracterizado pela fraternidade e cooperação universais. Para disso, o projeto político de terceira via é exposto como um programa doutrinário apolítico. Essa astúcia discursiva nega a validade moral do fazer político, ao mesmo tempo em que recorre a uma argumentação política como condição necessária à realização de seu 219 projeto social. Isto é, fazer política em nome do apolitismo . A apoliticidade justificada pela idéia de atomização do social provocada pelos partidos e a inescrupulosa conduta dos políticos profissionais. Felizmente o operário de 1933 já não é aquelle inconsciente e automato miserável de annos atraz. Já possue um espirito de classe esclarecido e alerta, e está em condições de resistir aos manejos da politicagem profissional a serviço da plutocracia. O operário de hoje é um libertado. É um consciente. É um forte. Livre, consciente, disciplinado, elle, no campo politico como nos demais campos, será a grande força que extirpará do Brasil, auxiliado e dirigido pela mocidade, o politiquismo coronelício, o plutocrata insaciavel, e desfraldará a
218 O LEGIONÁRIO, 27 de maio de 1933. p. 01. 219 De acordo com Ferrari, este falseamento da ação política no discurso católico é possível pois que “não há distinção, nessa perspectiva, entre ‘religioso’ e ‘político’: os dois planos convergem num modelo ideal de sociedade hierarquicamente estruturada ...”. Cf. FERRARI, Liliana. “Ação Católica”. In: BOBBIO, Norberto, MATTTEUCCI, Nicola, PAQUINO, a Gianfranco. Dicionário de Política. 11 . edição. Tradução de Carmen C. Varriale et al. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998, p. 9.

129
Bandeira Legionária (sic!), símbolo (sic!) de 220 uma nova ordem e de uma nova vida. A nova ordem social defendida pela LCT é defendida através da exaltação do sentimento de nacionalidade e valorização da Nação, entendida como espaço de manifestação do espírito de harmonia e da valorização da esfera ético-moral-espiritual da existência humana. A Nação é o lugar onde os trabalhadores podem ser felizes. A sua construção nos modelos legionários reabilitaria a sociedade fragmentária criada pela modernidade industrial, conduzindo-a até a unidade nacional, garantida pela fraternidade universal entre o povo e as instituições políticas. Essa tarefa só poderia ser confiada àqueles que demonstram efetivamente compromisso, altruísmo e devoção, ou seja, aos jovens e aos trabalhadores. Os primeiros, incompreendidos pelos antigos, enquanto os outros se submetem à exploração, alimentando a ganância desmesurada do capitalista. Somente estes elementos possuem a experiência prática das desventuras do mundo contemporâneo, que os capacita a questioná-lo e, movidos pelo ardor da justiça, transformá-lo para melhor. Queremos uma nova Revolução. Revolução que destruindo, venha ordenar e construir. Que despedaçando mitos, venha refazer a unidade e trazer a estabilidade social. Que anniquilla o utópico e absurdo sistema em que vivemos e affirma uma nova ordem. Que venha reagir contra a falta de unidade, e força dos Estados modernos, acabando com 221 as guerras civis. O catolicismo, como filosofia de base do movimento legionário, sugere como fim da sociedade, a recomposição de uma infra-estrutura de relações sociais que remontam à vida comunitária, desprezada pela Idade Moderna desagregadora. Entretanto, o esforço de elucidação da problemática da sociedade moderna, longe de ser entendida ou divulgada como simplesmente uma verdade revelada, apresenta-se revestida de uma teoria da crise da modernidade a partir da qual todas as reflexões sobre a condição humana advirão. No discurso legionário é constante o uso de palavras como sadio e doentio, demonstrando uma preocupação civilizadora com a
220 O LEGIONÁRIO, 22 de abril de 1933. p. 01. 221 O LEGIONÁRIO, 01 de maio de 1933. p. 08.

130
higienização moral da sociedade moderna. Essa abordagem organicista sobre os elementos do conflito social invoca um silogismo para a crise, na medida em que por sadio compreende-se tudo quanto se referir à alternativa de substituição do status quo. Isto é, sadio é tudo que reflete os bens morais e éticos identificados como principais “mercadorias” do mercado das relações humanas. De outra forma, o doentio se expressa na sua ligação estreita com tudo que ilude o homem, na lógica de legitimação da modernidade industrial capitalista. Portanto, o apelo ao consumo, o elogio às riquezas do materialismo, o desprezo pela espiritualidade, denotam a substância virulenta e deletéria da Idade Moderna. Nessa mesma linha de raciocínio, faz-se necessário aos que lutam por uma nova era, segundo a doutrina da LCT, atentar e reconhecer os fatores que possibilitam ao sistema decadente escamotear a profundidade de sua crise. Não paramos na simples contemplação ridícula das legislações sociaes que o liberalismo nos offerece a título de esmola, simples cafiaspirinas para cura de dores de cabeça, quando se trata de curar todo um organismo cheio de doenças já seculares e que exigem uma terapêutica enérgica e 222 eficiente. A higiene do social, por conseguinte, representa, na terapia para uma nova era marcada pela saúde moral da humanidade, índice de larga importância no projeto da redenção universal. Eliminar as sujeiras infecciosas lançadas pelo sistema degenerado das relações interpessoais, adquire o estatuto de imprescindibilidade histórica. Mesmo que para se atingir essa meta, a sociedade tenha que se submeter aos excessos da centralização do poder nas mãos daqueles eleitos, proprietários do saber remediador da crise. Até porque, para o pensamento legionário, o fortalecimento do poder, quer seja do Estado ou do indivíduo, é elogiável e defendido, pois representa uma das bases de sua orientação doutrinária, qual seja, o princípio de autoridade. O importante mesmo é que a fuga deste cativeiro que esmaga o homem integral, escravo inerme dos vícios e encantos do mundo da vida sensualista do capitalismo, seja empreendida vitoriosamente sob

222 O LEGIONÁRIO, 16 de setembro de 1933. p. 03.

131
a liderança do messias autorizado por revelação, seguindo o caminho que vai dar nas terras onde prepondera a fraternidade e a harmonia. Trazemos, para todos os que são victimas dos erros sociaes presentes uma palavra de fé e combate. Por entre a confusão angustiosa, a rebeldia desordenada, a crescente anarquia que correm o mundo e abarcam-no tragicamente, fazemos soar a 223 voz salvadora do Ideal Legionário. Desta forma, a LCT executa sua atividade política com o intuito de formar uma nova mentalidade, para que a sociedade integral seja aceita verticalmente como única solução possível ao mundo desequilibrado do capitalismo industrial. A atuação da LCT foi toda atravessada pelo recurso constante da ritualização e cerimonialização de seus atos, apelando à sensibilização do indivíduo através do artifício da encenação coletiva. As grandes demonstrações coletivas tinham a intenção de manifestar a confiança na solidariedade e na indiferenciação entre as pessoas. O sentimento de camaradagem e colaboração perpétua é sua principal arma para propiciar o engajamento pessoal na causa. Ao propor uma sociedade unificada e sem conflitos, a Legião expõe essa proposta nas solenidades, ao arregimentar, com um máximo de organização, centenas de legionários uniformizados e orientados pela mesma bandeira e o mesmo slogan. As condições de possibilidades de realização da sociedade integral estão dadas em escala diminuta nas solenidades dos desfiles, onde se visualiza apenas a uniformidade verde da massa. O desejo legionário de construir um corpo social sem fraturas, implica na intenção de efetivar a supremacia do institucional sobre o privado. É, pois, a apologia da prevalência do espaço público sobre a esfera da privacidade. Processa-se, dessa forma, o apagamento das marcas da individualidade e se erige o totalitarismo da coletividade. A Legião Cearense do Trabalho representa, pois, um elemento significativo na produção de projetos sociais e na constituição da memória social dos trabalhadores, afora seus desdobramentos políticos posteriores, posto que simboliza uma experiência pioneira de política voltada para as massas.

223 O LEGIONÁRIO, 01 de março de 1933. p. 04

MATTTEUCCI. edição. Émile. Liliana. pp. a Nicola. O Brasil Republicano. Sebastião Rogério Barros da.). Varriale et al. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Gianfranco. edição. Variações Ideológicas. MATTTEUCCI. 1990. Fortaleza: UFC/Fundação Demócrito Rocha. PONTE. Boris (org. 1998. 1990. PAQUINO. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. PÉCAUT. Varriale et al. 359-375. 635-636. 2º volume. In: BOBBIO. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. SOMBRA. Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. . Norberto. 306-308. MCHUGH. In: BOBBIO. 1998. pp. pp. Tomo III. 9-10. Sebastião Rogério Barros da. (mimeo. LAMOUNIER. “Integralismo”. Varriale et al.132 Referências Bibliográficas CARONE. PONTE. Tradução de Carmen C. Norberto. 1989. São Paulo: Difel. Tradução de Carmen C. Simone (coord. 1974. In: SOUZA. O Integralismo no Ceará. Ótica. Nicola. “A Legião Cearense do Trabalho”. Tom. Bolivar de. a 11 . 3 . pp. História do Ceará. Uma Interpretação”. MONTENEGRO. In: BOBBIO. IOCE. 1998. a Sociedade e Instituição (1889-1930).) História Geral da Civilização Brasileira III. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. São Paulo: Ed. “Um Pensamento Político Autoritário na Primeira República. Gianfranco. Daniel. edição. William e BOTTOMORE. Nicola. Fortaleza. FERRARI. Severino. 11 . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. Norberto. 160-163. 1996. 345-374. MATTTEUCCI. pp. Os Intelectuais e a Política no Brasil. Entre o Povo e a Nação. edição. A Segunda República. In: FAUSTO.). “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho. PAQUINO. Fortaleza: NUDOC Universidade Federal da Ceará. João Alfredo de Souza. (1930-1937)”. “Teoria social cristã”. pp. 1932. SANI. “Ação Católica”. Tradução de Carmen C. PAQUINO. In: OUTHWAITE. O Ideal Legionário. POULAT. Gianfranco. a 11 . Rio de Janeiro: Difel. “Cultura Política”. Dicionário de Política. Dicionário de Política. Dicionário de Política. 1986. Francis P. Giacomo. Edgard. 1977.

“Comunidade”. . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. William e BOTTOMORE. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. Ferdinand. pp. Tom. 115-117. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. 1947. TÖNNIES. 1996. In: OUTHWAITE. Cris.133 SHORE. Buenos Aires: Losada. Comunidad y Sociedad.

com os questionamentos provenientes de diversos segmentos urbanos em 224 defesa de uma nova ordem social ”.e num momento tido como divisor de águas na historiografia brasileira. . A Legião Cearense do Trabalho: Política e Imaginário no Integralismo Cearense(1931 – 1937).o Estado do Ceará . 7. onde tem a identificá-lo uma série de discursos que retiram a possibilidade de rigorosa coerência 224 CORDEIRO.meta dos discursos do idealizador da Legião . já que se sentia à parte do poder. A Igreja colocou-se como um dos principais veículos do discurso legionário. se realmente nasceu ali. 1992. utilizando-se da imagem santificada da fé. República. por ser uma época de intensa preparação para os grandes confrontos político-ideológicos das décadas seguintes. substituindo o capitalismo e o comunismo.8. Se realmente o Integralismo lançou as suas raízes a partir do Ceará. Império. desde a Questão 225 Religiosa . com a manipulação dos fatos.e as circunstâncias que os envolveram.surgiu como alternativa à crise da sociedade industrial. porquanto.LCT . Objetivamos buscar um entendimento nas relações estabelecidas entre os trabalhadores . Fortaleza. em conformação com o pensamento autoritário que estabelecia a idéia de vazio. História do Brasil: Colônia. p. Jr. Francisco de Assis.134 6. oferecendo os subsídios necessários para que se efetivasse o projeto. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Ceará – Departamento de Ciências Sociais e Filosofia. Editora Moderna. Foi através dela que se criou a idéia do uso de imagens consagradas. Nasceu em uma região de fraca industrialização . 225 Ver mais em: SILVA. bastaria a importação de idéias consagradas. O HOMEM NO ESPELHO E A LEGIÃO CEARENSE DO TRABALHO: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da Silva (PUC/SP) A Legião Cearense do Trabalho . temos então que buscar os nexos que viabilizaram este fato. p 177 / 8. Para este vazio ser preenchido. São Paulo. 1992. importadas tanto no tempo como no espaço. Raimundo Barroso. É então que se “processa o enfrentamento do arcaico-rural como característica definidora da natureza estrutural da sociedade.

Dentro da classe trabalhadora foram eles que difundiram a idéia de transformação radical da sociedade pela via revolucionária socialista ou anarquista. porém a região norte-nordeste não ficou incólume às grandes transformações. com expressiva participação dos europeus na composição da classe operária brasileira. “A noção legionária de trabalho constrói-se 226 Cf. MONTENEGRO. 227 CORDEIRO. cit. João Alfredo de Sousa. ousando assumir a condição de sujeitos” . A Ação Integralista Brasileira – AIB . O anarco-sindicalismo desembarcou junto com a imigração. para trilhar os caminhos da rebeldia sem projeto. a classe trabalhadora industrial. p 43. Com a expansão capitalista.135 ideológica. IN: História Geral da Civilização Brasileira .2004. como fruto de uma imensa elaboração doutrinária. Isso acontecia com maior freqüência no centro-oeste do país.despontou na região. nasceu um fenômeno que atingiu o Brasil – o operariado urbano. vol 9. op. Surgiu tanto pela imigração. O Integralismo no Ceará – Variações Ideológicas. os movimentos sociais “irromperam no curso de uma História dramática de submissão. Nos anos 30. já que tinha como agravante o fato de ser sacudida por “invasões” de retirantes em cada seca que se apresentava. p 125. na Pátria e na Família a sua razão de ser. “por uma práxis edificante mobilizadora de seguimentos médios e de grupos operários: a Legião Cearense do 226 Trabalho” . apesar de esquecida nos centros do poder. ou seguir as vias místicas que lhes 228 eram dadas. ser implantado. e não apenas as três correntes clássicas: a de Plínio Salgado. por oferecer uma indústria mais desenvolvida. Como a LCT anunciava um projeto pacificador foi aceita imediatamente pelos participantes da classe dominante assim como pelos próprios trabalhadores. 1986. compondo. 228 MONTEIRO. Existiu entre 1931 a 227 1937 . por contar com o forte apelo religioso do homem íntegro que via em Deus. “Um Confronto Entre Juazeiro. Fortaleza : Editora Imprensa Oficial do Estado do Ceará. representando o interesse de 71 associações e de 20 mil trabalhadores assalariados e autônomos. a de Gustavo Barroso e a de Miguel Reale. assim. . onde o “credo verde” surgia. Canudos e contestado”. A LCT foi um movimento trabalhista de cunho corporativo. O Integralismo pôde então. em um curto período. atendendo ao chamado do projeto varguista. num primeiro momento.Brasil Republicano.. Douglas Teixeira. nesta região a partir da união com a LCT. São Paulo : Editora Bertrand Brasil. como pela chegada de trabalhadores da zona rural. p 11.

carente de estudos prévios de natureza econômica e social. Outro modelo foi o militarismo visto pelo prisma da interpretação familiar. diariamente ao seu tio 230 enfermo. Após essas leituras. Jr. dos ramaianos. Seu avô coronel Joaquim José de Souza Sombra. 230 Recebeu do tio “Biblioteca Internacional de Obras Celebres”. o que serviu de pretexto para o velho enfermo pedir aos seus pais para que o criasse. Só em 1922 229 CORDEIRO. em 8 de Junho de 1907. naquele momento. Uma das obrigações do menino era ler. filho do Dr. dispersa. . que moravam no Rio de Janeiro e tinham oito filhos. recebidas através de um outro tio. Muito jovem ainda seguiu para o Rio de Janeiro. o grande escritor José de Alencar. 2004. era do Partido Conservador e foi durante 15 anos prefeito de Maranguape e amigo pessoal do Senador Alencar. no jovem o gosto pelo conhecimento. os jovens intelectuais brasileiros agitavam-se em debates que conclamavam a sociedade para projetos reformistas. composta de 24 volumes que trazia desde a cultura dos vedas. Ms. colocando assim. Não existia. In: SOUZA. Fundação Universitária “Severino Sombra”. Vassouras-RJ. o fizeram perto do nascimento dele. (org. cujo vazio político propiciou um solo fértil às idéias totalitárias.” Fortaleza: Edições Demócrito Rocha. a fim de cuidar dos velhos pais e de um irmão paralítico. formou-se uma classe sem noção de organização. então Coronel do Exército Nacional: Luiz Sombra. certamente havia a interpretação e explicação pelo tio. impondo-se de maneira punitiva ao homem que 229 tem que prover sua existência material ” Assim. uma organização católica que representasse a Igreja no âmbito dessas discussões. 1-O Homem de ação e de reflexão: Severino Sombra Nasceu Severino Sombra na cidade de Maranguape-CE. dos hindus até a literatura contemporânea.136 a partir de uma explicação religiosa da sua natureza divina. No inicio do século XX.) Uma Nova Historia do Ceará. que se decidira pela vida celibatária. as grandes obras universais . Vicente Liberalino de Albuquerque e de dona Francisca Sombra de Albuquerque. Severino Sombra. onde cursou a Escola Militar do Realengo. Privando mesmo da amizade de seu filho. “A Legião Cearense do Trabalho”. Como sempre prometiam ao avô materno visitá-lo. assumindo um caráter obrigatório. Raimundo. Com a morte do avô passou a ser criado por uma tia: dona Marocas. UFSS. Simone de. p 338.

apontado por Alberto Torres. Então. Em 1929. Outro elemento que compôs sua ideologia foi a "questão nacional". após sua morte precoce. In: SOUZA. lógico seria ser contra a Revolução liberal. Desde o inicio. a possibilidade de se inserir na esteira das discussões e expectativas quanto ao contexto da época. apregoada por Jackson de Figueiredo. o que lhe rendeu uma prisão e.) História do Ceará. Vital foi criado por Jackson de Figueiredo e que. 1989. como Euclides da Cunha. quando retorna ao seu Estado de origem. Sebastião Rogério de Barros da. “A Legião Cearense do trabalho”. Oliveira Vianna. 232 PONTE. Severino Sombra recebeu forte influência católica e seus primeiros estudos foram nesta direção. passou a ser dirigido por Alceu do Amoroso Lima. organizou e implantou a Legião Cearense do Trabalho. estando afastado de tudo. Fortaleza : UFC. Uma agremiação que congregava a jovem intelectualidade católica em torno dos ideais nacionalistas e reformadores dentro de uma perspectiva da Igreja católica. aproveitando o momento histórico em que a sociedade via com bons olhos a participação dos tenentes no cotidiano de suas vidas. Simone. 365. tinha como meta a Renovação Católica “que deveria atrair leigos e operários 232 para o seio da Igreja Católica ”. mas também teóricos que pensavam em "endireitar o Brasil". Fundação Demócrito Rocha . que viria a propiciar a ela. Porém foi envolvido em uma questão pertinente ao comando militar. p. Vital no Rio de Janeiro. passando a assumir a ideologia da “reação e ordem”. Esses questionamentos vieram a corroborar com a sua idéia de começar a transformação da sociedade brasileira. O movimento criado por ele pretendia fixar no meio operário cearense. inspirado na encíclica “Rerun Novarum”. Vital e os estudos realizados lá lhe inculcaram as necessidades de obediência às normas hierárquicas da Igreja. 231 . cuja elaboração ideológica começava pela crítica à modernidade. (org. Por se colocar contra o Liberalismo. a Igreja. e tantos outros que refletiam sobre o Brasil legal versus o Brasil real. Quando ainda na escola Militar. que acarretou sua transferência para o Rio Grande do Sul. tornou-se uma personalidade de projeção nas lutas sociais e políticas 231 O movimento espiritualista tem seu inicio a partir da fundação da revista “A Ordem” e do Centro D. Vital . assim como a adoção de idéias antiliberais e anticomunistas. Logo após sua chegada foi questionado sobre a “fase pré-revolucionária”.137 é que foi fundado o Centro D. Pois estava impregnado das idéias de São Tomás de Aquino. refletiu que “aquele era o momento” de se tomar uma medida reformuladora aos destinos dos trabalhadores que eram vistos por ele como desprotegidos e órfãos do poder. O centro D. entrou em contato com o Centro D. a idéia de volta ao lirismo da Idade Média. largamente apresentada por grupos de intelectuais não só católicos.

Para difundir suas idéias. panfletos. os homens de trabalho. encíclica que tratava especificamente da questão operária. no período da implantação da LCT : "Apello aos homens de trabalho do Ceará.CAMACHO. Condenava a alternativa socialista. criando as bases à reformulação social e à renovação católica. A LCT foi idealizada e organizada por Severino Sombra na época. Ivan. Severino Sombra publicou o jornal “O legionário”. foi prontamente aceita pelos dois lados do sistema produtivo cearense. ela reforça o direito à propriedade e à harmonia entre as classes sociais.(. op. Quarenta anos após seu lançamento. p 33. A Igreja católica mantinha interesse na preservação do modelo tradicional de sociedade. etc. Considerada uma dos grandes marcos da doutrina social da Igreja. quanto fazer causa comum com aqueles que exigiam. 1954. Paraná : Editora da Universidade de Maringá..com a sua ordem de congraçamento para reivindicações. Editora Loiola... 2004. conclamando os trabalhadores 234 a compor esta Legião.)” 235 MANOEL. que instigava nos pobres o ódio aos que possuem riquezas. tanto negar seus próprios fundamentos. as forças productoras. apresentando uma crítica feroz ao modernismo. O PÊNDULO DA HISTÓRIA : Tempo e Eternidade no Pensamento Católico (1800-1900). com a sua palavra de enthusiasmo. Doutrina Social da Igreja. cit . no jornal 233 católico“O Nordeste ”. Rio de Janeiro : Petrópolis. A modernidade era vista por ela como fonte de todo o mal que afligia a humanidade. 234 Panfleto entregue na porta dos estabelecimentos pelos legionários. A Legião Cearense do Trabalho vem até vós com o seu brado de alerta. 236. Elaborou as diretrizes do seu movimento em uma cartilha chamada “O Ideal Legionário”. 236 de Leão XIII . além de lançar também folhetos. precizam tomar o lugar que lhes compete na vida nacional. o seu fim ”. As classes. ou pelo menos 235 vaticinavam. por ser antiliberal não reconhecia a 233 MONTENEGRO. de Pio XI. . recebeu reforço da encíclica “Quadragésimo Anno”. subscrevia com o pseudônimo de Agathon. já que para ela “aceitar a teoria de progresso e da perfeição humana seria. um jovem tenente que. p 45. servindo de veículo para suas críticas ao sistema político e conclamando as classes sociais a cooperar entre si pelo resgate dos ideais humanistas. Ildefonso.138 do Ceará. p 115. É mister que no Brasil Novo as forças economicas e espirituaes collaborem na direção do Paiz. Por ser interpretada como a terceira via entre o capitalismo e o comunismo. Essa preocupação surgiu com a bula papal “Rerum Novarum”.

cit. Entre os ensaios para se chegar a AIB. todos da mais alta relevância dentro do cenário nacional. cit. São Paulo: Difusão Européia do Livro. São Paulo: Editora Ática. com a fundação da Legião do Cruzeiro do Sul.Fascismo. op.Os movimentos que antecederam o Integralismo no Brasil. 14. Ela foi um movimento trabalhista e contou com o fato relevante de ter precedido o Integralismo e de ter sido uma das primeiras manifestações dos trabalhadores 237 cearenses.. Em 1928. p 125. p. 238 CARONE. 2002. porém o Jornal do Comércio de 14 de novembro de 1930. A nota vem com a assinatura de representantes insuspeitos. A Ação Social Brasileira e o Partido Fascista Brasileiro. integralismo. 290 e 291. de Amaro 237 CORDEIRO. 2. Ver mais em: BERTONHA. Tudo leva a crer que essa manifestação 239 foi uma imitação do episódio da “Marcha sobre Roma ”. como em “A Legião de Outubro”. João Fábio. 239 Partindo de várias regiões da Itália. mas deixaram a 241 oportunidade dos atores entrarem novamente em cena . que estrangeiros inimigos do Brasil desejam implantar em 240 nossa Pátria. realizando a primeira manifestação fascista 238 que se tem noticia no Brasil. A Segunda República. para a criação do Partido Fascista Brasileiro. contamos com os contemporâneos da LCT. 288. op. O Integralismo teve sua pré-fase em 1922. Edgard. capaz de amparar os trabalhadores brasileiros em suas reivindicações. 290 241 Ibid. milhares de milicianos fascistas(os camisas negras)invadiram a capital. p. p. faremos valer nosso pensamento. diferentemente dos contemporâneos de vida curta. p. nazismo. Organizou esse movimento contando com o apoio dos que comungavam com seus pensamentos: Helder Câmara. o então Tenente Jehovah Motta. Pouca ou nenhuma notícia se tem sobre ambos. um grupo de italianos organizou o “Partido Fascista”. . entre outros. Neste sentido aguardai o manifesto que faremos publicar no dia 18 do corrente. 240 CARONE. Muitos fracassaram. foram mais sofisticados e anunciam um esquema que viria a se repetir. trazia a seguinte conclamação: Prestigiando o governo que o povo impôs à Nação.139 Revolução de 30 que empossou Getúlio Vargas. de combate ao comunismo. . 1973.

redigida por Plínio Salgado e assinada por várias personalidades consideradas da "esquerda”. 243 PEREIRA. apresenta grave perigo para a coletividade quando tenta enveredar pelo domínio publico. livro que analisava o antagonismo nos regimes fascista e soviético. que pretende haver traçado "uma diretriz definida e clara em face dos problemas fundamentais" do país. Neste livro. das "idéias" e 242 Ibid. forcejando por atribuir-se a direção de 244 movimentos políticos . direitista da extrema direita. Ensaios Históricos e Políticos.140 Lanari e Francisco Campos (março de 1931). Aos que antecederam a AIB. O manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo foi publicado no jornal “O Tempo”. promulgando um sentimento esquerdista que recebeu de Astrojildo Pereira a seguinte crítica: Penso haver contribuído para desmascarar a mistificação. constitui. na realidade. encontra-se o ensaio denominado “Manifesto da Contra Revolução". 244 Ibid. de Cristiano das Neves e com a Legião Revolucionária de São Paulo. firmado por homens da esquerda e tendo como chefe o General Miguel Costa. p. podemos juntar a Legião Cearense do Trabalho.Itália – Brasil”. portanto. de Mario Antunes. e seria inofensiva se limitada a círculos privados. de 1931. por sua expressão e seu conteúdo. . mostrando no meu artigo o caráter fundamentalmente fascista. Astrojildo. Esta presunção. mostrando já o germe do Integralismo. contraditória e delirante de certa camada de intelectuais e pequenos burgueses. de Olbiano de Melo. Em 1935. São Paulo: Editora Alfa-Omega. Este último teve seu “programamanifesto” publicado em março de 1931. p. que é originariamente inevitável. de São Paulo. com o Partido Nacional Sindicalista. de Miguel Costa. 175. feito a pedido do Comitê Central do PCB. Seus autores ou signatários estão convencidos de que lhes cabe a gloriosa predestinação de regenerar e salvar o Brasil . e redigido por Plínio 243 Salgado . com o Partido Nacionalista de São Paulo. p. 295. onde efetuou uma análise do “manifesto-programa” da Legião Revolucionária de São Paulo. 1979. O Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo. um documento que se pode considerar característico de ideologia confusa. com a pequena ala do Partido Socialista 242 Brasileiro. em março de 1931. Astrojildo Pereira publicou “URSS. 187.

E.. 247 Ibid. de um partido fascista declarado. . ao contrário. p. 246 CARONE. logo depois. e . fora o antigo perrepista Plínio Salgado. Severino Sombra perde a liderança e é reintegrado no 247 Exercito. Qual nada. a Legião em 1932 foi absorvida pelos integralistas . E. hoje como provavelmente amanhã ele sempre esteve.. e a sua ideologia também. hoje integralista.. onde reverenciavam a bandeira da Legião. Fez. também uso de um uniforme (um blusão mescla com um emblema na manga).) Não me venham dizer que o homenzinho é que mudou: anteontem perrepista.). Enquanto as outras agremiações pretendiam o apoio da pequena burguesia. (. sua direção e métodos assemelhamse aos dos movimentos fascistas. p. como é notório. está e estará ao 245 serviço da burguesia contra o operariado. ontem legionário.141 dos "princípios" contidos ali. cuja intenção era a de prepará-los para que vivessem em melhor situação econômica e social: "A LCT foi um dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil.187 e 188. a semelhança do fascismo italiano. 298. O redator do Manifesto. p.. Participavam dos desfiles cívicos. cit. e que sua intenção é dirigir os sindicatos operários de Fortaleza. Porém. op. Anteontem como ontem. O 1º de Maio foi incorporado ao calendário das festas solenes com desfiles que lembravam as “paradas 245 Ibid. Severino Sombra. mais tarde um dos fundadores e hoje dito "chefe nacional" do Integralismo. isto é.. fato que o aproxima logo de Plínio Salgado (. do Trabalho consegue a 246 adesão dos operários. . 295-296. mostra que a LCT foi exclusivamente voltada aos trabalhadores. Plínio é sempre o mesmo. ontem como hoje. a Legião C. unindo-os em torno de suas reivindicações. diz mais: A verdade é que o movimento inicial cabe ao tenente Severino Sombra. A interpretação fascista deve-se ao fato de que nos encontros dos legionados ser feita uma chamada oral que era respondida por todos com a palavra: “Pronto”.

procurava subsídios ao seu viver sob os auspícios da fé. O Ceará. Portanto. temos que questionar se por não terem ainda a capacidade de “se organizarem em classe”.. Pátria e Família". pelas mudanças nos modelos econômicos.. onde sobressaem. Forma de Regressividade no Capitalismo Hiper-tardio. 1978. contraditoriamente. 248 CORDEIRO.142 militares”. a esperança messiânica do Reino de Deus em 250 uma terra renovada ”. que vamos buscar o entendimento aos movimentos sociais que têm a sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja. 250 MONTEIRO. cit. vitimado pelas secas constantes. p 45.. não o dia do trabalhador. que criaram nele o sentido de ser a infância da classe no Brasil. Se em primeiro momento. São Paulo: Editora Ciências Humanas. agentes que no caso brasileiro é a quem devemos realmente creditar o sucesso do discurso da direita daquela época.. 2. o operariado cearense no meio das conjunturas. percebemos as razões de ter sido ali o nascedouro de movimentos que deram coloração ao cenário nacional.) uma espécie de sacerdote que soleniza o cotidiano da entidade 248 que representa . também não podemos deixar só para ela a responsabilidade histórica. p. cit. Ao procurar nas raízes da alma do povo nordestino e na sua natureza geográfica. op. op. o “1º de Maio é o dia do trabalho. foi um dos Estados nordestinos em que se constituiu um lugar privilegiado de reprodução ideológica. Assim como. como militante especial (. é na concepção religiosa. a religião teve sua cota de participação na decisão e adesão dos trabalhadores ao chamamento do Severino Sombra. 340 249 CHASIN.A religião. as vezes. falar em questões que envolvem os trabalhadores do período estudado. R. .. Isso revela que de um modo geral “em sua modalidade rústica [o catolicismo] tem suas raízes mais importantes plantadas no solo da Grande Tradição judaico-cristão. que o cerca. componente aproveitado por aqueles que usavam o lema "Deus. Consideravam seu chefe Severino Sombra. Isso na verdade foi gestado pela fraca industrialização nordestina. Não podemos ignorar o fato de que o retirante nordestino. e pelo 249 capitalismo hiper-tardio . Há uma “variante do catolicismo designada como rústico”. José. O Integralismo de Plínio Salgado. particularmente. e em especial o nordestino. p 647.

Já por volta de 1853. de maneira geral. na Península Ibérica. mostrava o valor da doutrina católica aos trabalhadores. Houve uma diminuição da importação de produtos manufaturados e as nações que investiam em nosso país. Padre Cícero. havia enterrado junto com as . em 1913. a proteção que necessitavam. usadas na elaboração de um discurso que conclamava os trabalhadores brasileiros para a perspectiva de uma melhoria de vida. O Movimento Legionário criado por Sombra. O mundo passava pelo vendaval de grandes transformações. também. etc. Essas ideologias criaram uma rede de persuasão que refletiu-se nos quatro cantos do mundo. Este fato.143 vitimado por uma série de vicissitudes análogas à sua região. Portanto. Sardinha. Com o prenúncio deste acontecimento. não se limitando às práticas piedosas e filantrópicas. Ao fundar algumas “casas de caridade”. Ibiapina foi visto como profeta e curador. seguindo o mesmo caminho. retraindo o fluxo de capital para o Brasil. com os pés no chão e a roupa desbotada pelo sol escaldante. levou a alma do povo oprimido à buscar na Igreja Católica. a hóstia se transformou em sangue. Pe. surgiram os “movimentos sociais” como resposta. Mussolini e Hitler tiveram suas imagens apregoadas no Brasil. propondo a eles o papel de vanguarda de uma nova ordem. Foram eles: o Integralismo. a disciplinação do pensamento deste sertanejo que. largamente difundido.um missionário no sertão. Ao consagrar e dar em comunhão a uma das suas beatas.A sua pretensão: dar resposta ao mundo em crise. estavam comprometidas com a preparação da guerra. surge no Nordeste um precursor de Cícero Romão Batista – o Padre Mestre Ibiapina . No meio de toda essa ‘reviravolta”. 4. na Itália e o Nazismo. de açudes. É. mas estendendo seu campo de atividade à construção de 251 estradas. que desenvolveu uma intensa militância religiosa. nos fornecerá talvez a compreensão do que se passou. crises econômicas surgiram na Europa. na Alemanha. deu ainda maior conotação aos campos sagrados da fé. na concepção religiosa que vamos buscar o entendimento dos movimentos sociais que tiveram sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja. O período “entre guerras” foi rico em acontecimentos marcantes para o mundo. o Fascismo.

passou a assumir o modelo industrial. Raimundo. de vestuário. a acumulação ou a concentração de renda. consubstanciava-se numa produção basicamente composta do ramo têxtil. significando que traziam para as classes dominantes a chamada questão social. os mantinha afastados dos perigos que os comunistas acenavam. orientar. sua identidade. Trabalho Urbano e Conflito Social (1890 – 1920 ). São Paulo: DIFEL. Com isso. Segundo Boris Fausto. 5.144 suas últimas sementes. propiciou a questão social trazida na esteira da contradição entre a burguesia agrária e a classe operária. seguiu “o canto da sereia legionária ”. 1976. p. op. Naquele momento. revelando a necessidade de se pensar em uma redefinição das políticas nacionais. o Estado tentou tutelar a classe operária e impedir a autonomia de suas organizações sindicais. gestado na Revolução de 30 como resultado de uma política econômica de incentivo à industrialização e como política social trabalhista de cunho corporativista. naquele momento. de calçados. constituindo-se no eixo da crise do estado oligárquico. Derivada das condições inerentes à produção cafeeira. O processo de industrialização era frágil. no contexto de trinta. efetivou uma mudança comportamental no meio proletário urbano. de materiais de construção e etc. encabeçada pela reorientação dos modelos econômicos. . de São Paulo e de Pernambuco. O modelo urbano industrial. 253 FAUSTO. que se tornaria “caso 252 CORDEIRO Júnior. que antes de 1930 tinham referência na agro-exportação. assim como atender algumas das suas reivindicações. o mundo também assistia à falência do liberalismo e a consolidação do nazi-fascismo. fruto da economia gerada por esse produto. advindas da conjuntura internacionais pré-guerra e das contradições inerentes ao próprio processo de modernização. Se o Estado nacional brasileiro buscava. A preocupação por parte do governo getulista em conter a politização e emancipação do operariado concorre. para explicar o surgimento e expansão de movimentos políticos. valorizar os operários. B. os seus próprios sonhos e. Essa indústria incipiente situava-se principalmente nas capitais dos Estados do Rio de Janeiro. os vinculados aos ensinamentos apregoados pela Igreja. por não ter mais 252 nada ou alguém para acreditar. Essa mudança. Esses movimentos tinham os mesmos objetivos em comum: proteger. o proletariado urbano não seria senão “uma pequena mancha” 253 em um imenso oceano agrário . p. cit. A emergência e a consolidação da “nova ordem” não podem ser analisadas apenas em função das condições sócio-políticas. educar. 124.. que dessem conta de reencaminhar a humanidade no trajeto perdido.

por traduzir a necessidade de levar em consideração essa classe e o seu peso político. 255 CHAUI. por De Bonald. a classe operária era incapaz de tomar decisões que influíssem na política nacional. Marilena . fazendo-os acreditar que poderiam alcançar o que prometia. Outros setores da sociedade também se sentiam insatisfeitos com os caminhos indicados pela mudança na reorganização da política-econômica e começaram a articular movimentos que procuravam responder as ansiedades surgidas pela 255 falta de projeto político das elites. Quando deu início a sua atividade intelectual no jornal católico “O Nordeste”. Mimeo. assim como a recorrência ao uso das imagens. como dos militantes do Partido Comunista Brasileiro. fundado em 1922. tinha em mente trazer para sua terra natal o embasamento político-social adquirido no Cento D. cuja reflexão era trazer à juventude a efervescência glamurosa do Rio de Janeiro. Em março de 1932. de 23 de março de 1932. possibilitou a Severino Sombra provocar em seus legionados a crença de seus conhecimentos sociais e políticos. anunciou-se a breve fundação da Sociedade de Estudos Político -SEP-. já que os trabalhadores eram continuadamente bombardeados por “novas idéias”. p 19. defendendo o catolicismo renovado sob a inspiração de filósofos franceses e caminhando para o Tradicionalismo Social. p 10. Maria Silvia Carvalho. por De Maistre”. 1978.Algumas Cenas Brasileiras. Kazumi. Vital. tanto dos anarquistas. São Paulo. . mas a possível mobilização de alguns já era temida pelas classes 254 conservadoras . São Paulo: Editora Paz e Terra. Sombra descreve o grupo: “Era um grupo de formação antiliberal. 5. A questão operária passou a ser motivo de preocupação.145 de polícia”. Sentia- 254MUNAKATA. FRANCO. na França”. preparada por Jackson de Figueiredo. Em um artigo nesse jornal. Ele próprio estudara a fundo a “história da contra revolução. pretendendo a renovação católica. O discurso ideológico da Legião. levando-os a questionar a situação nacional. Por ser desorganizada. Dissertação (Mestrado de História) Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Analisara o papel das sociedades secretas. 1982. no Ceará. Ideologia e mobilização CEDEC. tão influentes na deflagração da Revolução Francesa.As primeiras atividades: uma das tendências da frente integralista.

Como esta era fruto de uma aliança liberal e ele combatia o liberalismo.Juarez Távora. motivando a criação de “O Ideal Legionário”. Vassouras. foi preso. sem a qual não se 256 faria uma revolução. 117. O que transformou seu ideal foi o episódio ocorrido no 8º 257 Regimento de Passo Fundo. enfim. sem conflitos sociais e hierarquizado dentro da ordem e do progresso. colocando em seu lugar a representação de classes em consonância com um Estado forte e centralizado. após muita reflexão. com a fixação e o cumprimento de um salário vital. Por estar dirigindo o Centro D. publicou panfletos. entendeu que aquela era a hora de se fazer alguma coisa pelo país. Tinha como objetivo o reformismo para o Brasil. Sombra agitou a cidade pacata com a sua práxis causando tamanho reboliço. que telegrafou ao governador e pediu sua transferência para o RS. então dominante. que buscava “uma nova base para a renovação política brasileira”. 257 Quando chegou em Fortaleza imbuído do sentimento renovador católico. Nesse período. Aderira à pregação de Jackson de Figueiredo. op. MONTENEGRO. Diante da expansão do movimento legionário no Ceará.apresentavam excelente conteúdo moral. além de preconizar a cogestão. Numa briga entre soldados do quartel em que servia com soldados da policia civil. boas intenções no agir e no aceno de reformas. convidando Alceu de Amoroso Lima para isto. A LCT prometia educar os legionados. atuou como escritor em jornais. definindo-a como uma organização com finalidade econômica. Chegando em Passo Fundo. mas sugeriu o nome do jornalista paulista 256 SOMBRA. Siqueira Campos . a obediência às oito horas de trabalho diário. cartilha que trazia as bases da LCT. pretendendo ampliar o corporativismo nas bases de uma legislação social que abolisse o partidarismo. Severino Sombra decidiu ampliá-lo para todo o Brasil. permitindo a estes a conscientização dos direitos e deveres materiais e morais. discussões. RJ. Propunha um contrato coletivo. Vital. do repouso dominical. do limite de trabalho para menores e mulheres. RS . surgiria um novo país. com a participação dos operários nos lucros da empresa.Ms. Severino Sombra. ele agiu como determinava a lei. a ponto de desagradar “alguns”. Não podia aceitar a doutrinação dos tenentes. mas faltava-lhes o realismo propiciado por uma ideologia bem urdida. política e social.. cit. cujos ícones . Com o controle da economia e da política. ao mesmo tempo em que tomassem conhecimento das questões econômicas e se preparassem para ascender a pequenas propriedades através de cooperativas.146 se revoltado com o contexto político brasileiro. Apud. este recusou o convite. Eduardo Gomes. ele promoveu palestras. . desagradando o chefe da polícia local. a Revolução de 30 foi deflagrada.

se não fundirmos numa só. o encontro não se efetivou. Olbiano de Melo queria padronizar as informações. venho ao Rio. convocou uma reunião em São Paulo. corremos o risco de vermos dispersar-se em movimentos desconexos o maior movimento da mocidade brasileira de todos os tempos”. porém pediu um prazo para isto. com o estouro da Revolução Constitucionalista. de Minas Gerais..) Indicaram-me o escritor Plínio Salgado. e de que já havia entrado em contato com Olbiano de Melo. Você sabe pelo que lhe disse dos responsáveis pelas conseqüências da desagregação que pode ressaltar. em julho de 1932. Fita nº 8.) para realização do movimento cultural que eu projetara. Eu tive de assumir a chefia do movimento aqui. de São Paulo(. ao criar a Sociedade de Estudos Políticos(SEP)." SOMBRA. alegando a 259 necessidade de criação de uma base ideológica . Mas. a 258 Quando a Legião estava para se expandir ao resto do país. Após entendimentos. mostrei o meu pensamento para muitos. em fins de1931..Centro de Documentação e Informação Cientifica “Professor Casemiro Reis Filho” Cedik-PUC/SP 259 “Com essas idéias (expandir a LBT).147 Plínio Salgado. (. Alguns dias antes da data marcada para a realização da reunião. Severino. Museu Severino Sombra.P. Entrevista. que falava da necessidade de se reunirem com urgência. Memórias.. Também a organização operária no sul. que escrevia no jornal “A Razão”. nos moldes da sua é urgente e depende de você. Sombra muda seu nome para Legião Brasileira do Trabalho.. juntamente com outros intelectuais da direita – em sua maioria estudantes de Direito do Largo São Francisco . .) Entendemo-nos Ficou resolvida a creação de uma SOCIEDADE DE ESTUDOS POLITICOS (S. porém. sentindo a demora de noticias por parte de Plínio Salgado. “Se essa reunião não se efectuar logo. Vassouras-RJ. recebeu uma carta de Salgado. para que fosse um dos participantes da grande missão de estender a Legião Brasileira do Trabalho ao Brasil inteiro. em São Paulo. Severino Sombra. Plínio Salgado aceitou levar ao Sul do país a Legião 258 Trabalhista Brasileira .articulava já a fundação de um movimento autoritário em nível nacional: a Ação Integralista Brasileira. para haver uma absoluta unidade de idéias.E. para que ele não fracassasse. que escrevia” Notas Políticas”no jornal “A Razão”.

deixando o local. em Recife. 1984. acusado de articular forças nordestinas para auxiliar São Paulo contra o governo de Vargas.) planeja então. vejo em jornal chegado do Brasil. porém. Ms SS. acabou por envolver a classe média. realizado no Teatro Municipal. soube da fundação da Ação Integralista e da filiação do seu movimento 261 legionário . A Verdade Sobre a Ação Integralista Brasileira. Um belo dia. Lá. Após acusar Plínio Salgado de ter plagiado suas obras. Ao voltar para o Brasil. com seus companheiros debaixo de vaias e insultos. não recebi nenhuma noticia do senhor Plínio Salgado. RJ. vejo em jornal chegado do Brasil. Impedido pela Revolução. ao juntar as fardas caqui da LCT com as verdes do Integralismo. No mesmo ano..” SOMBRA. Museu SS – Vassouras-RJ. De Lisboa Severino Sombra escreveu: Um belo dia. A dolorosa guerra civil prolongou-se por mais de três meses impedindo a reunião de se efetivar. Severino Sombra não compareceu ao encontro. retornou ao Ceará a fim de apelar aos companheiros de militância na tentativa de arregimentar forças por um movimento pacificador. com ameaças contra os jovens militares que exerciam atividades políticas. Severino. porém. de onde saíra com seus companheiros debaixo de vaias e insultos. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários. se afastou do Integralismo. Memórias.148 mentalidade do Norte e do Sul” (. onde estive durante todo o tempo de exílio. o seu grande golpe: ir ao Norte. p 6 261 “Em Lisboa.) Plínio 260 Salgado. Memórias. ele foi preso. aproveitar o meu movimento.. Ao perceber que a luta se arrastava e que no Rio de Janeiro era constante a ameaça de golpes. Vassouras. Foi mandado para Portugal.. Por coerência com seus pontos de vista integrou-se aos brasileiros que desejavam a paz. ao perceber que Plínio Salgado havia dado uma roupagem mais urbana ao movimento e que. . Desacreditado em São Paulo (. realizado no Teatro Municipal. aceitou participar do Integralismo. em João Pessoa. porém. explorar na Bahia. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários. que era proletária e sindical.. em Natal e em Fortaleza o idealismo da mocidade que 260 SOMBRA. permanecendo no exílio por um ano. de ter apropriado e incorporado seu projeto. contrariando sua idéia.

Medicina. da qual não tive resposta (Severino afirmou nunca ter recebido tal carta). fato que é negado por Sombra. Engenharia. em São Paulo. Bahia e Recife.149 eu chamara a luta e junto a qual fizera 262 propaganda em seu nome. Um delles foi meu candidato à Constituinte (cumpria justamente uma pena. Memórias. além dos do Estados que citei acima. Já tenho núcleos no Amazonas. No Rio Grande do Sul estou começando. conto já com o apoio dos“camisas verdes”em São Paulo. podendo vestir-lhes a “camisa verde”. quando afirma que nunca havia recebido dele nenhuma carta. Em Minas Geraes. RJ. Vassouras. Rio. em São Paulo”. conto já com o apoio dos ferroviários da Mogyana. o Olbiano de Mello caminha vitorioso. tem-se a impressão de que nunca foi interrompido o diálogo entre eles. grande parte dos voluntários paulistas vieram comnosco. Pará. Escrevi-lhe. No Distrito Federal. que pedem. Já alistei mais de 3. Sombra recebeu a seguinte carta de Plínio Salgado: Sombra. o operariado. . Paulista. Paraíba e Goyaz. o que ele estava desenvolvendo aqui. Venho hoje lhe contar que o movimento em que você me poz. op. “Vou publicar uma revista Estudos Integralistas. há tempos. como participante e responsável por um dos movimentos mais liberais e plutocrata realizado no Brasil”. sem cessar. Quando lemos a introdução desta carta. marcha victoriosamente. Sorocabana e Nordeste. (Nota Oficial mandada 262 SOMBRA. Plínio Salgado continua a relatar. Organizei núcleos integralistas na faculdade de Direito. como se fizesse uma prestação de contas. Ainda no exílio.000 “camisas verdes”em São Paulo. Escola de Comercio e Gymnasio de S. uma longa carta. Pharmacia. Paulo. cit. Tenho doutrinado. Severino. a cousa vae indo muito bem.

Pedro Weinmann. andava agora. aceitando até budistas: O Triunvirato Provincial procurando elucidar essa dúvida deu uma carta assinada pelo Dr. mais tarde Sombra diria numa entrevista gravada pertencente ao CEDIK: “Ah! O Sr Plínio que deixara S. até budhista 263 poderia ingressar. 264 CÂMARA.150 publicar em Recife (Jornal Pequeno” de 22 de Março de 1934) Em desabafo. Helio F. Vassouras-RJ. falta de sinceridade no relato dos dados. Enumeraram que dentro das hostes integralistas havia: maçons. 1958. Alcino Trindade. “O Integralismo em face do Catolicismo”. Sporleder. p 74. Eduardo Martins Gonçalves. Helder Câmara escreveu no jornal “A Ação”. como o exemplo citado dos participantes do Sul do país. Helder Câmara afirmava que seu antes amigo feria agora os 263 Carta aberta à população do Rio Grande do Sul.A Dissidência de Severino Sombra. de 11 de fevereiro de 1934. em que elle fazia referências ao Congresso de Victória. que causa ojeriza aos seus amigos de 264 ontem ”. Em carta aberta a população do Rio Grande do Sul. já havia conhecido. Ao tomar conhecimento de dissidência dele. desde os primeiros tempos um traidor em potencial: o Severino Sombra. Severino SOMBRA. e onde. crítica feroz ao antigo companheiro. Horacio Duarte. Paulo!!!” 7. não foi somente Severino Sombra que se desligou da AIB. Rio de Janeiro: Editora Livraria Clássica Brasileira. Onde dizia: “a relação do Integralismo com falsos católicos. no qual tomara parte como representante desta Província. Andrino Braga. Como se pode observar. porém sua dissidência foi vista por seus antigos companheiros como uma traição. IV. Carta dirigida aos principais jornais do Rio Grande do Sul colocam os motivos que os levaram a tomarem tal atitude. Helder. Leães Sobrinho. que existia tal desorganização dentro da hierarquia. choramingando pedidos aos “amigos de S. dizia que nelle. que o movimento que se dizia cristão passava agora a ser somente “deista”. assinada por Humberto Della Méa. outros membros da AIB também o fizeram. . In: Enciclopédia do Integralismo V. Paulo sangrando de dor e viera ao Congresso Revolucionário do Rio. para demonstrar o christianismo do movimento.

op. visto que. a cidade de Deus e a cidade da terra. quando da sua ordenação sacerdotal não reconhecia mais o antigo amigo e reclamava deste ter enviado uma carta as Autoridades Eclesiásticas. Isto deveria bastar para a Igreja. tomando sua posição providencial na caminhada humana. a História como o pêndulo de um relógio. O que pretendemos é mostrar até que ponto "certas contingências" moldam o modo de ser e de pensar de alguns indivíduos. Não aprende. talvez possamos encontrar alguma idéia para as soluções que nos apresentam o momento político atual. . Quais os nexos que levaram Severino Sombra a estruturar um ideal capaz de organizar um movimento que trazia em seu bojo a filosofia social-cristã. que abria uma brecha nas fileiras integralistas: Católicos.. a LCT representou um momento importante na História dos movimentos de massa no 266 Brasil . O Padre. Não foi objetivo desse artigo falar da biografia de Severino Sombra. ao que parece. deste momento da historiografia. que pregava o retorno à terra.” Suas queixas reportavam o desentendimento entre os participantes do Sigma liderados por Severino Sombra. Por todas essas circunstâncias. que fora afilhado de Severino Sombra. cit. . A LCT sendo corporativa propunha a abolição das classes e imprimia a esse movimento a necessidade de um governo forte. Que todos os que se levantaram em pontos diversos do Brasil contra a doutrina do Sigma meditem no que lhes manda um sacerdote camisa-verde da província do Ceará. 266 PONTE. 265 esperando ser condenado por elas o movimento. p.151 sentimentos cristãos daqueles que de boa vontade ansiavam pelas reformas no meio trabalhista brasileiro. que o nacionalismo orgânico das pátrias totalitárias é o sentido novo do século. Se compreendermos suas motivações e sua interpretação. estruturada nos moldes do período medieval. têm tentado jogar uma contra a outra. É com esse objetivo que nos lançamos 265 Ibid.. 374. sempre se repete. de logo se prestasse a focalizar todos os belos valores positivos que a nova idéia contém.“Mais uma vez surgiram dúvidas sobre perigos de heresias na doutrina e prática integralista. p. 74.. bem intencionados uns mal intencionados outros.

em Fortaleza. Dissertação (Mestrado em História). onde reúne uma série de conferencias datadas do mesmo ano. Publicando a sua primeira obra integralista. então presidente da Academia de Brasileira de Letras. as causas do depauperamento de nossa economia e encontra essa causa a partir dos primeiros empréstimos externos tomados a banqueiros judeus logo aos a Independência e que se desdobraram e assumiram uma nova forma de 269 colonização Acreditando nas igualdades humanas traçou analogias entre os cantadores sertanejos e os menestréis medievais.O Integralismo: conclusões finais. “O Integralismo”. Cearense. p. Gustavo Barroso não foi apenas conhecido pela ampla produção literária. 1989. 268Ibid. após a tradução que fez do “O Protocolo de Sião”. Com esse trabalho ele denunciava aos brasileiros o que ele considerava que estava por trás do “mal do mundo”. nascido em 29 de dezembro de 1888. Gustavo Barroso. jornalista. 8. 1982. A Crítica Romântica à Miséria Brasileira de Gustavo Barroso. 269 SOUZA. político. Das três vertentes sobre as quais se diz da formação do integralismo. mas também pelas inúmeras atividades que desempenhou ao longo da vida. Foi advogado. através da compreensão do passado buscarmos entender o nosso presente. Antonio. escritor. In : Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro. por um judeu que há um século subordina a economia brasileira ao interesses do 267 banqueirismo internacional e faz do governo uma marionete ”. Foi secretario do Estado do Interior e da Justiça. já com 44 anos. Quando lançou “Brasil – Colônia de Banqueiros” tenta demonstrar que a crise nacional é “produzida historicamente pelo capital inglês “mas precisamente por Rotschild. p. Somente a partir de “O Integralismo em Marcha” que ele adotara suas ideologias anti-semitas. em 1914. Brasília: Editora Universidade de Brasília. no Ceará . . Francisco Martins. 8. Assim passa em 1933. a integrar as fileiras verdes. 64. Empenhou-se no projeto de renovar a sociedade “da restauração do culto de seu glorioso 268 passado ”. Leu pela primeira vez o Manifesto de Outubro de 1932. 2-10. 267 RAGO FILHO. que ele entrará em contato com as idéias plínianas. Ao teorizar sobre a nova posição política procurou na análise histórico-economica. Departamento de PósGraduação em Historia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo São Paulo.152 nesta pesquisa. p. iniciou cedo sua vida intelectual.

Ele nascido na mesma cidade de Plínio São Bento do Sapucaí. Formou com Barroso e Salgado o tripé da 270 SIMÔES. Reale toma o socialismo como um valor que se vinculará a toda a problemática brasileira. Integralismo e Ação Católica: Sistematizando as Propostas Políticas e Educacionais de Plínio Salgado. não uma expressão mimética de fenômenos como o fascismo italiano e muito menos do nazismo. portanto. Afastou-se do movimento após o golpe de 37.Coube a ele dentro das fileiras do credo verde. após contato com as idéias integralistas vistas por ele naquele momento como capazes de dar uma resposta ao artificialismo em que estavam submetidas as intelectualidades brasileiras. Dissertação (Mestrado em Educação). p. Renata Duarte.grupos de intelectuais que percorriam o país para divulgar e criar novos grupos.Para ele haveria uma possibilidade de aglutinar os interesses dos sindicatos e respectivas corporações. em 1910. escritor. Programa de Estudos de Pós-Graduados em Educação: História.Aderiu a AIB em 1933. professor do Largo São Francisco. 271 SOUZA. por discordar da aliança feita entre o integralismo com os liberais em 1938. 272 Ibid. op. 56. 2005. da Ciência Jurídica e finalmente ao nível da reflexão da filosofia política. dentro das nossas especificidades e. político. Estado de São Paulo. “Corporação e sindicato.. Jackson de Figueiredo e Alceu do Amoroso Lima no Período de 1921 a 1945. o integralismo era fruto de um amadurecimento analítico dos problemas que rondavam o nosso país. o segundo homem no integralismo. p. assumiu a tarefa de teorizar princípios desta filosofia política ligada ao processo revolucionário que se 271 desdobrava ”. além de ser membro do 270 Conselho Supremo . aderiu ao integralismo em 1933. da Economia. p. conceitos que para ele. Foi. 64. serão trabalhados ao nível da sociologia.Ele inicia assim uma corrente visando mais o desenvolvimento social vinculado ao problema da liberdade “Essa corrente foi iniciada com a reflexão jurídico-poíitica.153 elegendo-se deputado Federal no ano seguinte. sem sombra de dúvidas. Foi um dos responsáveis pelas “bandeiras” . uma proposta mais tecnicista. Foi o comandante-geral das milícias integralistas e respondia pela secretaria Nacional de Educação Moral e Cívica. Política e Sociedade da Pontifícia Universidade de São Paulo. à organização jurídico-política ordenamento de um Estado modernizador. . Jurista famoso. 64. Já para Miguel Reale. que tomando a si a posição de vanguarda entre os jovens de sua época. São Paulo. cit. Essa seria a base sobre a qual alicerçaria o arcabouço da unidade planejada para a 272 integração e respectivos ordenamentos” .

mas o projeto político que a AIB ofereceu em 1932. na página 115.F. 1983. M. cit. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. Nos dois casos. G. Apud. p. Esta corrente “a analisar . que defendia o trabalho e que não aceitava 274 a possibilidade deste ser tratado como mercadoria . não permitindo por parte dos trabalhadores. além da natureza ideológica do movimento. Quando a historiografia nacional questiona o Integralismo. 114. em nossa leitura é bastante problemática a afirmação sobre a criação das leis trabalhistas no país. R. era emprestado da Legião criada por Sombra. 275 Embora Hélgio Trindade tenha afirmado isso. Feiteiro. até porque esses “sucessos da direita no Brasil’ só se deram em função das 273 TRINDADE. p.Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937) Bauru. A LCT criou as bases do Integralismo e demonstrou que Plínio Salgado já tinha a pretensão de criar um Estado integral.. p. como foi o caso em nosso país. a respeito ver: MELQUIOR. Partindo do pressuposto que a crítica do Integralismo tem sucumbido “a explicação mimética. R. 21. a ponto de ter precedido e reforçado a 273 convergência ideológica de direita que se manifestou nessa época” . O forte sentimento religioso e místico do nordestino. a fraca industrialização que ocorria nos Estados brasileiros que se situavam fora do eixo Rio. o Integralismo seria uma ideologia reacionária e utópica. 277 CAVALARI. em sua obra citada. Este foi um movimento de expressão. forte.” Uma outra corrente intelectual. TRINDADE.. São Paulo: DIFEL. os trabalhadores deveriam ser isentos de culpa. negando sua identidade com o fascismo europeu. liderada pela interpretação chasiniana.São Paulo. a Legião é a precursora da legislação trabalhista 275 no Brasil” . traz a afirmativa de que “a Legião Cearense do Trabalho teve uma grande repercussão política. 26. sobre a biografia de Plínio Salgado desnecessário se faz discorrer sobre ela. Hélgio. 257-354. 274 SOMBRA. op. mas. H. . SP : EDUSC. fica evidente (. J. Já. sujeito à lei de oferta e procura: “A influência da Carta Del Lavoro.neste contexto. pelo contrário. a partir da Carta Del Lavorno. “Grandeza de Batle” In : O Argumento Liberal.“uma forma de 277 regressão” no desenvolvimento do capitalismo nacional. Integralismo : fascismo brasileiro na década de 30. p. a compreensão da sua capacidade de influir nos vários segmentos da sociedade brasileira. 276 CAVALARI. p.154 base integralista. vê o Integralismo como resposta ao capitalismo hipertardio. pois muitos já o fizeram. 1974. 1999.M. determinante. “temente a Deus" e. 115. quando foi fundada.. as condições históricas que permitiram o seu 276 nascimento.).

p 19. M. na verdade o Integralismo não pode ser repudiado pela História. cit..cit.  EMÍLIA CARNEVALI DA SILVA . São Paulo. Pontifícia Universidade Católica. São Paulo. CAVALARI. Embora tenha sido desqualificado pela 278 historiografia como mero fascismo caboclo . pois foi uma resposta às transformações políticas.21. Silvia. op. op. econômica. fizeram com que surgisse "um vazio de poder".155 contingências mostradas. fornecendo o espaço para a penetração de idéias totalitaristas. já que a classe média não dispunha de nenhum projeto social e político. FRANCO. que somente o Estado poderia "preencher".Mestre em História Política. Nascido desse vazio político. 279 CHAUÍ. 2006.. Os operários desorganizados. 9. 20 . Marilena. o 279 Estado é o sujeito histórico do Brasil. p. à falta de uma burguesia nacional plenamente constituída. cultural e religiosa ocorridas entre as duas guerras mundiais. 278 TRINDADE. ajudado pelos militares. Apud. .

No que tange à imprensa partidária – ainda mais desprezada – esquece-se que ela pode ser uma fonte fundamental a respeito do partido ou ideologia dos quais determinado periódico é porta-voz. por ser tendenciosa – seja a “grande imprensa”. um discurso específico voltado para . . dentre outros).156 8. a de caráter partidário etc. no máximo. No que tange à questão operária. Enfatizei a análise do jornal Acção. Maria Helena & PRADO. Como é sabido. esse caráter tendencioso pode elucidar muito mais a respeito da própria fonte do que sobre seu objeto de descrição. poderia ser encontrada. p. A IMPRENSA INTEGRALISTA DE SÃO PAULO E OS TRABALHADORES URBANOS (1932-1938) Renato Alencar Dotta De uma forma geral. Miguel Reale. O Bravo Matutino – Imprensa e ideologia: o jornal O Estado de S. 1980. Olbiano de Mello. Esse artigo pretende ser uma contribuição para o conhecimento da imprensa integralista e do espaço reservado às questões sindicias e trabalhistas nessa mesma imprensa. Nestes. Gustavo Barroso. pretendo fazer uma análise da trajetória da imprensa integralista na capital paulista.ou sobre . centrando-me nas questões sindicais e trabalhistas. Neste texto. – não seria útil para a investigação historiográfica. 19. Já há muito está superado o conceito de que a imprensa. 280 CAPELATO. que foi um dos principais periódicos integralistas do país na década de 1930. as quais ocupavam espaços consideráveis em vários de seus jornais. “a escolha de um jornal como objeto de estudo justifica-se por entender-se a imprensa fundamentalmente como instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na 280 vida social”.os trabalhadores foi pouco comum. São Paulo: Alfa-Ômega. No dizer de Maria Helena Capelato e Maria Lígia Prado. Maria Lígia. Tal tema – a relação entre integralistas e trabalhadores – também tem sido pouco estudado. uma temática sindical-corporativa. a imprensa é um vasto e diversificado depositário de informações. documento riquíssimo para a pesquisa histórica. Na imprensa integralista não foi diferente. Paulo. verifiquei que nos livros doutrinários de autores integralistas (Plínio Salgado.

e CALDEIRA. V. op. 384. p. ou 42. e era o porta-voz do Departamento Universitário da AIB da Província de São Paulo. O segundo contingente ficava no Distrito Federal. Integralismo e Política Regional – A Ação Integralista no Maranhão (1933-1937). anexo II. p. p. p. Várias capitais . Entre seus artigos. nem é citado seu caráter partidário. em 1939.de Manaus a Porto Alegre . História da Imprensa Brasileira. 1966. que incluía ainda revistas de circulação nacional. Rosa M. 283 O único periódico integralista do qual encontramos referência na História da Imprensa Brasileira.. João R. pois. . 100. um jornal diário ou semanário diretamente vinculado ao movimento.. estão textos de interesse cultural e livresco. Mercado Aberto. simpatizando abertamente com a causa integralista. publicavam artigos 281 de chefes e militantes. O primeiro jornal da AIB publicado na cidade de São Paulo (aliás. de caráter abstrato. 361-3 e CAVALARI. cit. Anna Blume. Para uma ampla relação dos periódicos integralistas. 282 Como exemplo. P. op. Aliás. Rio de Janeiro. o estado de São Paulo tinha 476 472 trabalhadores na indústria. A imprensa do movimento integralista era bem abrangente. havia até uma folha integralista em língua alemã em Novo Hamburgo (RS). foi A Offensiva.. As revistas eram Anauê (sediada no Rio de Janeiro) e Panorama (com redação em São Paulo e sob a responsabilidade de Miguel Reale). op. Paulo. os jornais publicados no interior do estado. v. chamada Der Kampf. 1999. Os exemplares são de datas com 281 Detive-me nos jornais da capital paulista e que tinham alcance por todo o estado. SODRÉ.. formando uma cadeia de jornais de nível nacional que foi batizada de “Sigma Jornaes Reunidos”. Quanto aos jornais. do Rio de Janeiro. cit. com 16. op. Não encontrei listas de jornais simpatizantes. O Fascismo no Sul do Brasil. S. porém. O foco sobre a imprensa integralista no estado de São Paulo – e não outro estado – se justifica porque o mesmo já possuía naquele 282 momento o maior contingente operário do Brasil.157 que era. Civilização Brasileira. Rosa M.. não há textos sobre operários ou trabalho. de Nelson Werneck Sodré. René. Havia ainda jornais que não pertenciam ao movimento. Nelson Werneck.84 % de todo o país.58). além de alguns fatos políticos. A “Sigma Jornaes Reunidos” chegou a ter 88 jornais (CAVALARI. Nos quatro exemplares encontrados. o primeiro no Brasil) foi O Integralista.e cidades de interior dos estados possuíam.. 1987.78 %. no auge do movimento. CARONE. lançado em dezembro de 1932. TRINDADE. Alegre. um dos principais jornais integralistas do país. faremos uma pequena retrospectiva da imprensa 283 do movimento publicada na capital paulista . mas há indicações valiosas sobre isso em GERTZ. Antes de analisarmos o Acção. mas que. cit. cit. Estão excluídos. e que muito pouco poderia informar sobre a relação entre integralistas e trabalhadores.

de periodicidade semanal. os outros exemplares são: dois de 1935 e um de 1936). por exemplo. Dráusio e Camargo foram mortos num protesto depois de atacarem. não sendo possível precisar uma periodicidade (o número 1 é de dezembro de 1932.158 espaços de tempo variáveis entre si. O Aço Verde. que veiculava os artigos de Plínio Salgado antes da criação da AIB. É a mocidade de uma Província humilhada por uma ditadura inepta que se ergue forte e luta! É Miragaia. do qual localizamos apenas o exemplar de número 4. Martins. foram considerados “mártires” pela elite paulista. com a intenção de atingir um maior público. tinha por subtítulo: “Gazeta Literária-Política-Noticiosa”.. O Aço Verde foi um periódico integralista publicado na cidade de São Paulo. Outro periódico integralista sediado em São Paulo chamava-se Variedades. Os jovens. Esse fato seria um dos estopins da chamada Revolução Constitucionalista. seu primeiro número possui oito páginas. Apesar do título vago. de caráter mais geral. contudo.. que cai sem vida! É mais tarde.) O Aço Verde aparece neste dia histórico de Piratininga gloriosa – para ser a grande Tribuna donde falarão os moços paulistas a palavra moça da 285 Revolução Integralista. datado de outubro de 1933. p. Curiosamente.2. . sua irmã que veste uma camisa verde. em resposta aos exploradores do sangue ainda quente de uma mocidade generosa! É o batismo de fogo de uma geração. os estudantes Miragaia. nesse mesmo dia era empastelado por motivos semelhantes o jornal A Razão. juntamente com uma multidão a redação de um jornal favorável ao governo Vargas. Dirigido por Osvaldo Bastos. isso já em 1935. Não existe. nenhum artigo referente à questão trabalhista. que despertou para glória da vida no lamaçal das trincheiras! (. efeméride já celebrada pela elite paulista como um símbolo de 284 resistência ao governo Vargas. mais conhecidos pela sigla MMDC. Oswaldo. Sob a direção de Adelmo Sampaio. A data escolhida para o surgimento do jornal não foi casual: 23 de maio. 23/5/1935 (nº 1). 284 Em 23 de maio de 1932. 285 BASTOS. “O nosso aparecimento”. a maior parte dos textos desse exemplar foi escrita por militantes da AIB e referentes ao integralismo.

8. o antisemitismo também aparece nas páginas do jornal: O consórcio entre o comunismo disfarçado da Aliança Nacional Libertadora e o Judaísmo Internacional. p. Sem Deus. Logo no primeiro número. Assim. desqualifica o mote da ANL ao mesmo tempo que exalta o da AIB (“Deus. que segue uma estrutura que será recorrente em outros artigos de jornal: critica-se o capitalismo e o liberalismo. . Terra e Liberdade”. é publicado o artigo “O operariado em face do Integralismo”. 287 “Pão. Clemente. não há direitos nacionais. da 287 honra da Pátria e dos direitos da Família! Somado a esse anticomunismo. não há dignidade humana. TERRA e LIBERDADE. Terra e Liberdade”. não há justiça. Só o Integralismo dará Pão.. O Aço Verde. depois a “ilusão” do comunismo e. logo não há pão. logo não há terra. 1. voltado para a Aliança Nacional Libertadora (ANL). para os Sem Família. é patente. as notícias e textos doutrinários dirigidos aos trabalhadores eram freqüentes. mostra-se que a “solução” seria o Estado forte corporativo representado pelo 286 integralismo. p. inclusive no meio operário. por fim.159 Embora não houvesse uma seção voltada ao operariado no semanário. (. diversos nomes de judeus. 23/5/1935 (nº 1). logo não há liberdade. “O operariado em face do Integralismo”. que vinha arrebanhando um número crescente de militantes. Pátria e Família”): Operários! Vosso lugar é com os vossos companheiros que aos milhares já estão no Integralismo. o texto “Pão. Terra e Liberdade.) 286 FUNARI. Vimos na organização do diretório de Belo Horizonte. Sem Pátria. 30/5/1935 (nº 2). O Aço Verde.. à frente dos ‘aliancistas’ daquela Província. Uma tônica do jornal será o anticomunismo. Só o Integralismo dará PÃO. em nome da justiça de Deus.

Não sabemos quando O Aço Verde deixa de circular. 6/7/1935 (nº 7). p. para as fileiras dos 450. “Fascismo e trabalho”. E a estupidez burguesa ainda assim ficará pensando que o problema judaico é uma criação da fantasia dos Srs. O Aço Verde. um modelo de boletim para trabalhadores rurais. como estás. O Aço Verde. Leon de Poncins. que os convoca a entrarem na AIB. realizado em local cedido pelo judeu Saul Cag.. que trabalha o dia inteiro e não tens conforto em casa. Leunroth (sic) e Fúlvio Abramo. para ti e para teus filhos! Vem ajudar os teus companheiros! Entra. não é vida! Isso precisa acabar! Precisa raiar dias melhores. O Aço Verde. nesse mesmo número.160 O último comício anti-integralista. Henry Ford. datado de 19 de outubro de 1935. 20/6/1935 (nº 5). 20/6/1935 (nº 5). 290 RIVELLI. nem livros. p. vemos que o jornal integralista que antecede o Acção já procurava manter um diálogo com os trabalhadores. nem crédito. nem instrução para teus filhos. 8. teve entre os seus oradores os conhecidos hebreus. em todas as cidades”: Lavrador humilde. em texto que diz que aquele país era “uma imensa 290 oficina em que o trabalho se desenvolve num ritmo fecundo e feliz”. já. p. nem descanso na velhice (. é publicado.”.000 camisas-verdes! 289 O jornal também não deixou de defender a política trabalhista da Itália fascista. 8.. 288 “Aliança & Judaísmo S. proprietário do Rink São Paulo. Através dessa rápida análise. . César. do povo alemão e dos 288 integralistas? À caça de adeptos e eleitores. O exemplar mais recente encontrado é o de nº 17. 289 “Aos trabalhadores rurais! Aos colonos! Aos sitiantes! Leiam com atenção!”. 8.) Isso assim. A. Esse boletim era para ser reproduzido pelos núcleos integralistas do interior do estado e distribuídos “aos milhares. muito embora com um discurso calcado nos dogmas integralistas do anticomunismo e até no anti-semitismo.

. quando a AIB sofre um grande impulso em termos de quantidade 291 de adeptos. sobretudo a última (posição estratégica. já que o jornal chegou a uma circulação de 78 mil exemplares em nível 292 estadual . Esta – nem sempre assinada – variou de formato através do tempo. muitos dos não-alfabetizados eram trabalhadores de baixa renda). em tese. em 1936. 292 Ver Acção. possuía uma “Página Syndical”. 1935.”) e 12/11/1937. 180 mil. chegado a 1 milhão 352 mil militantes inscritos. Alguns meses depois. De início. op. CAVALARI. 380 mil. 22/10/1936.” 293 Apesar de o analfabetismo ser alto neste momento (sendo que provavelmente. Para se ter uma idéia da importância da questão do trabalhador no movimento integralista. entrevistas com pessoas do meio sindical. por exemplo. temos apenas os computados pelos próprios integralistas. havia convocações sindicais profissionais. houve desde o primeiro número do Acção. Rosa M.. mas podemos crer que ressoava para além da esfera das fileiras verdes. Ou seja. p. temos em fins de 1933: cerca de 20 mil inscritos. Além da seção sindical. . sobretudo a partir de 1935. que devem ser examinados com cuidado. por seus fins propagandísticos. Vozes. operários de diversos centros urbanos do estado de São Paulo poderiam tomar conhecimento dos pareceres 293 do jornal. a coluna fica restrita àquele texto principal e o noticiário referente ao trabalhador invade outras páginas do jornal. há indicação de que Acção circula em “mais de 400 municípios e distritos brasileiros. em 1934. Maria Nazareth. o número teria saltado para 918 mil. em geral ligada a anarquistas ou socialistas. A Imprensa Operária no Brasil – 1880-1920. p. Em 8/5/1937. 6 (“Não há município de São Paulo que não receba este jornal. mas de circulação nacional. 1. 291 A Offensiva. p.161 Assim. anúncios publicitários. 4. V. vemos que era comum os jornais integralistas fazerem referências a operários e trabalhadores em geral. à exceção da capa). o Acção certamente era uma importante caixa de ressonância das idéias e ideais integralistas. Cavalari colhe esses dados do jornal Monitor Integralista de 7/10/1936. existem notícias referentes às questões do trabalho. já que tal página tende a ficar mais exposta que as outras. 1978. Petrópolis. Quanto ao número de filiados da AIB. Entre os militantes. Assim. A seção sindical circulava diariamente. com redação no Rio de Janeiro. p. além do texto principal. Sobre essa tradição ver: FERREIRA. e até julho de 1937. não podemos esquecer que havia uma tradição de imprensa operária. cit.que vai marcar presença no jornal até praticamente a extinção da AIB como partido político em dezembro de 1937. uma seção chamada “Syndicalismo” – depois “A Nota Syndical” . 34. p.3.

cit. Entre os líderes da conspiração estavam Belmiro Valverde. Alagoas. S. há um Congresso Operário Integralista. e o Ten. o Acção vai oficialmente apoiar o Estado Novo. 1º andar. ambos no Rio de Janeiro. v. 17. quarto aniversário de fundação da Ação Integralista. Esse plano foi utilizado como pretexto para o golpe de novembro de 1937. Esta consistiu de uma revolta que exprimia a insatisfação . op. 3. cobre ainda um período particularmente dinâmico do movimento: desde 1935 há 294 uma tendência crescente da militância . no 295 final do mesmo ano há a aproximação com o governo de Vargas e a cancelamento das eleições presidenciais de 1938. Euclides Figueiredo. O jornal deixa de existir a menos de um mês antes da “Intentona Integralista” de 11 de maio de 1938. vol..” BELLOCH. de nível nacional. e a AIB passa a se chamar 296 Associação Brasileira de Cultura (ABC). Alzira Alves de (orgs. e. o cap.não só de integralistas. órgão da AIB na capital paulista. teve seu primeiro número lançado em 7 de outubro de 1936. porém com a prescrição do termo “integralismo”. a imprensa integralista mostra apoio a iniciativas governamentais. a AIB deixa de existir como partido político. Israel e ABREU. a AIB conseguiu uma importante vitória. O diário continua circulando ditadura Vargas adentro. 37-57. antes do golpe do Estado Novo. quando. Sobre esse episódio.. . o Gen. p.) op. em maio de 1937. depois (a partir do dia 294 Além das estatísticas referentes ao número de adeptos. Otávio Mangabeira e o Cel. Hélio. Stanley. ordens expedidas pelo Tribunal de Segurança Nacional. HILTON. por fim. Olímpio Mourão Filho. já citadas. mas também de grupos liberais (dela participaram representantes da família Mesquita. cit. um indicador mais confiável são os números referentes às eleições de 1936: “Nas eleições municipais realizadas em alguns estados nesse mesmo mês [março 1936]. O diário Acção. A grande maioria de soldados e marinheiros envolvidos (além de alguns civis) era formada por integralistas. Contudo. no Rio. cit. Além disso. pp. Paulo. capitalizando o clima de anticomunismo existente no país: elegeu 24 prefeitos e mais de quinhentos vereadores em Santa Catarina. a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República. analisado nas páginas do Acção.162 Tal momento. 296 Nesse período..em dezembro de 1936. quando foram atacados o Palácio Guanabara. 3056 (verbete “Plínio Salgado”). e o Ministério da Marinha. sem opções. o ponto culminante dessa aproximação/colaboração foi a confecção do chamado “Plano Cohen” –suposto plano de subversão comunista – por um integralista. op. Ceará. 295 Entre os principais fatos que apontam uma crescente aproximação entre a AIB e o governo federal estão a suspensão da perseguição e a libertação dos integralistas presos na Bahia. residência oficial do presidente Vargas e sua família. não-integralistas). SILVA. Castro Jr. Severo Fournier (estes últimos. Suas ações restringiram-se basicamente ao dia 11 de maio de 1938. totalizando cerca de 250 mil votos. A primeira sede da redação do jornal localizava-se na Rua do Carmo. entre os líderes).

ligando esta à Rua Venceslau Brás. O prefeito de Cravinhos foi Pedro de Gasperi. ser lido em outros estados. . Aquele.. o periódico integralista de maior longevidade nos anos 30. Para um melhor controle. já durante a vigência do Estado Novo. Rosa M. hoje. A Offensiva (do qual. em termos de imprensa. 1. por sinal. Com exceção das segundas-feiras. 297 “Jornal ‘Acção’ ” (anúncio). era parte 298 deste “consórcio jornalístico”. Por tudo isso. tinha como chefe de redação Madeira de Freitas. p. 3/8/1937. unificou-se todos os periódicos da AIB numa rede. Este foi considerado o “Ano Verde”. tinha circulação nacional. pois além da crescente militância. p. depois diário e matutino. chegando a eleger no estado de São Paulo. sendo. A Rua Irmã Simpliciana. O vereador da capital era José Cyrillo Jr. Dirigido por seu fundador. provavelmente. pois aproximavam-se as eleições presidenciais de 1938. com redação no Rio de Janeiro. o maior investimento. naturalmente. era ferroviário. criada em 1935 e subordinada à Secretaria Nacional de Propaganda. Acção foi. p. é uma pequena rua no lado norte da Praça da Sé. tendo se tornado um dos mais importantes veículos publicitários do partido. A Offensiva foi fundado por Plínio Salgado a 17/5/1934 e extinto em março de 1938. chamada Sigma Jornaes Reunidos. Os jornais integralistas tinham como razão mesma de sua existência. n º 17-A. 298 CAVALARI. Não é à toa que ele surge exatamente em 1936. o Acção por vezes reproduzia 300 matérias) . na Rua Irmã Simpliciana. 300 Principal jornal da AIB. op. 84. 9/10/1936. os camisas-verdes tiveram importantes vitórias nas eleições de 1936 em diversos estados. se possível. Pretendia ser um jornal de circulação estadual (ou “provincial”. Inicialmente semanal. da AIB em São Paulo. a divulgação da doutrina partidária. provavelmente a seção paulista da AIB possuía dinheiro em caixa para financiar um jornal diário mais ou menos nos moldes do vespertino integralista carioca. Bento Fontão Lippel. circulou ininterruptamente até 23 de abril de 1938.163 3/8/1937). nos termos integralistas) e. O diário Acção. sem dúvida. Acção. 299 Os candidatos a prefeito do Sigma venceram em Presidente Prudente e Cravinhos. Vislumbravam a hipótese que parecia cada vez mais palpável de chegar ao poder. Acção. sobretudo após a tentativa fracassada de tomada do poder conhecida como Intentona Comunista (o sentimento anticomunista era muito explorado pelos integralistas). 1. cit. na qual Plínio Salgado sairia candidato. dois prefeitos e vários 299 vereadores incluindo um na capital. com oficinas próprias. no 297 centro de São Paulo .

pp. Cintra era também chefe municipal da AIB em São Bernardo. mas não teve papel de destaque na AIB. BELLOCH. Tosco como um moirão mal lavrado e à pressa fincado na terra para servir de marco militar. Adeus! – Desafios de uma vida (memórias). . Advogado e jornalista. Segundo Damião Duque de Farias. Gustavo Barroso. p. denunciava tanto a Thiers Martins Moreira na secretaria e Santos Maia na gerência. op.. É interessante acompanhar as lembranças de Miguel Reale. Nos anos 40. Mico. 3518-9. município localizado na região de Barretos (SP). 301 A Câmara dos Quatrocentos. em suas Memórias. 4 (verbete “Benedito Vaz”). o Acção teve como diretor e editor Miguel Reale. BELLOCH. Além destes. Adeus. Edições GRD. Memórias. que escrevia com freqüência no jornal. op. cit. Em Defesa da Ordem – Aspectos da práxis conservadora católica no meio operário em São Paulo (1930-1945). Vitale foi militante na AIB. V. “Acção foi um vespertino vibrátil e até mesmo agressivo. tornando-se 301 depois membro da Câmara dos Quatrocentos .. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1936. 1986. VITALE. p.. e José Ribeiro de Barros (desta última data até a extinção do periódico. 305 Ibid. era “membro destacado da JOC (Juventude Operária Católica)”. v. 1998. Volume 1: Destinos Cruzados. órgão consultivo da AIB. Integralismo – O fascismo. e Paulo Paulista de Ulhoa Cintra como “secretário” da folha. São Paulo. Ernani Silva Bruno. Advogado. pp. 110-111. cit. 2425. Miguel. p. Hélgio. Israel e ABREU. Alzira Alves. Damião Duque de. 175. juntamente com alguns amigos próximos. Reale lembra da criação do jornal praticamente como uma iniciativa pessoal. São Paulo. Mário Mazzei Guimarães (advogado) e 303 Benedito Vaz eram os redatores principais das notícias. trabalharia como redatorchefe do grupo jornalístico Folhas da capital paulista. passou a pertencer ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). FARIAS.. São Paulo: Hucitec. 302 Mário Mazzei Guimarães foi chefe municipal da AIB em Colina.) op. 110-117.. formada em junho de 1937 era “composta de militantes de diversas províncias integralistas”. 303 Benedito Vaz nasceu em Ipameri (GO) em 28/8/1913.164 Durante toda sua existência. 101.. Entre seus colaboradores estavam Miguel Reale. Segundo o ex-teórico integralista. 187. aos quais 305 manifestou seu propósito de fundar um diário em São Paulo. Israel e ABREU. Hélio Viana. TRINDADE. 1996. Saraiva. Já a gerência passou pelas mãos de Eduardo Graziano (médico) até 14/1/1938. João. Alzira Alves de (orgs. depois do Estado Novo entrou no Partido Social Democrático (PSD) em 1949. 304 REALE. A partir de 1965. e no ano seguinte elegeu-se deputado federal pelo seu estado natal na mesma legenda. uma das poucas fontes de informação sobre o 304 Acção. pp. no núcleo de Barretos. Olbiano de Mello e Oliveira Viana. Luis da Câmara Cascudo. v. 3 (verbete “A Ofensiva”). três 302 meses depois).. cit. p.

op. desde o problema da dívida externa às causas determinantes da persistente crise agrícola e 310 industrial” .. p. Armando de Salles Oliveira.165 pobreza dos recursos como a inexperiência dos ‘focas’ que o 306 redigiam”. o jornal não pretendia ser apenas um repetidor do que se lia nos livros e panfletos integralistas. “era preocupação diuturna dos colaboradores a análise da conjuntura social e econômica do País. Seu formato. Contudo. Miguel Reale afirma que. p. do então candidato às frustradas eleições presidenciais de 1938. 12/11/1937. e eventualmente. id. Acção. contudo. M. Ao mesmo tempo. fotos de reuniões do movimento (em sua maioria com os militantes fazendo a saudação com o braço e 309 ostentando o sigma e bandeiras). era próximo do formato que hoje chamamos de “standard”. Rosa M. op. o jornal se pretendia de circulação estadual. 79. 28/9/1937. o jornal foi alvo de censura. 3. 113. Segundo Cavalari. 307 Acção. Mas.. do número 1 até 27/9/1937). ou seja. p. cartuns . A partir do dia 28 de setembro até sua dissolução. o Acção passa a ter um formato mais próximo do “tablóide”. 115. sobretudo de líderes integralistas.. 308 “Nova fase”. Tal esforço visava. Rosa M. CAVALARI. O PC. 90. as imagens da folha eram basicamente fotos personalistas. e às vezes até fora do estado. eram organizados de modo a reproduzir os jornais maiores. “os jornais do interior. p. mesmo antes do Estado Novo. fins doutrinários. em seu primeiro ano de existência (isto é. o jornal 308 passa de vespertino para matutino . Assim como os demais jornais integralistas sediados em capitais. . partido do governo estadual “se valia ilicitamente das leis de exceção (baixadas pelo Governo Federal para combater o comunismo) a fim de nos impor uma rígida censura. cit. Tendo atingido uma tiragem declarada de 78 mil 307 exemplares . aqueles que chegavam até o militante mais distante.. 1. 310 REALE. 60 centímetros de altura por 48 de largura. O jornal muitas vezes era impedido de fazer críticas ao Partido Constitucionalista (PC). de acordo com Reale. pois tudo isso era veiculado de uma maneira a direcionar o pensamento do leitor e/ou militante. com um censor como cérbero a 306 Ibid. mais exatamente 49 centímetros de altura por 33 de largura. p. editados nos grandes centros onde se concentrava a elite dirigente do Movimento”. 309 Cf. cit. CAVALARI. p.

cit. 2a. De acordo com a pesquisa de Tucci Carneiro. A única análise de caráter histórico realizada sobre este jornal é de autoria de Maria Luiza Tucci Carneiro em seu livro O 312 Anti-semitismo na Era Vargas (1930-1945) . 353. p. um delineado posicionamento anti-semita”. a cujo critério palmar éramos obrigados a submeter não só 311 os artigos como todo o noticiário!” O financiamento do Acção era feito através da compra em bancas.166 domicílio. a autora aponta que o periódico “expressou. situando a imprensa como importante divulgadora do preconceito contra os judeus nesse momento histórico. mas não dedique nem uma linha à censura do Estado Novo. O anti-semitismo na Era Vargas (19301945) – Fantasmas de uma geração. nas linhas e entrelinhas de seu texto. São Paulo. muito mais intensa.. 314 Id. 417. Segundo Reale. tendência difundida 314 entre vários setores do movimento integralista. 403-417. tema central desta sua tese de 313 doutoramento. Destacando reportagens. 313 Segundo Tucci Carneiro. . ao preço de duzentos réis. apesar de existentes desde o início da circulação do jornal.. frases e títulos de notícias referentes aos judeus (ou não necessariamente concernentes a eles) publicados no Acção. conforme veremos adiante. p.. 393. pp. através do noticiário nacional e internacional. 1995. Maria Luiza Tucci. além de assinaturas e publicidade em suas páginas. período que a autora identificou como sendo de “um revigoramento do anti-semitismo político e xenófobo nos bastidores do 315 governo Vargas”. Brasiliense. privilegia a análise de dois diários: O Estado de S. edição. Qualificando-o de “mensageiro anti-semita”. serão realmente significativas depois do golpe de Estado de 1937. os integralistas tiveram um papel importante nesta difusão do pensamento anti-semita no Brasil dos anos 30: “o maior número de obras anti-semitas publicadas durante a era Vargas é de autoria de integralistas”. ramerrão comum naquele período em diversos setores na sociedade brasileira. É curioso que Reale enfatize a censura armandista. Tucci Carneiro analisa o linguajar antijudaico do diário. 315 Ibid. p. Paulo e Acção. 311 Ibid. 312 CARNEIRO. op. as afirmações de anti-semitismo. Tucci Carneiro. mas vedava todas em relação ao candidato da oligarquia paulista Salles Oliveira. a censura do Partido Constitucionalista permitia toda e qualquer crítica ao candidato oficial às eleições presidenciais de 1938 José Américo de Almeida.

” Optei por não chamar as partes sindicais do jornal de “coluna”. Podemos dividir o material sindical do Acção em três períodos diferentes: de 7 de outubro de 1936 a 12 de março de 1937 foi o momento de circulação da seção “Syndicalismo”. e muda sua configuração. Neste último período verifica-se que não há mais nenhuma seção sindical. e dessa edição. a AIB deixa de 316 COHN. 114. Manual Geral de Redação.167 Além deste estudo. PAULO. por exemplo. Sobre esse jornal ver verbete “Razão. 318 FOLHA DE S. conforme já dito. 2891-2. do diário A Razão. anunciando as reuniões. 1987. O Manual Geral de Redação da Folha de São Paulo. (orgs. no qual ela relaciona brevemente as principais características do diário. cit. de fundar a AIB. Alfredo Egídio foi editor. pp. 1. ao contrário do apontado no verbete que afirma que teria sido Alfredo Egídio de 316 Souza Aranha. São Paulo. I. 2a.. antes.. “talvez. edição revista e ampliada... (orgs. ao lado de Reale . ao contrário de “A Nota Syndical”. cit. 4. até 23 de abril de 1938. e ABREU. as atividades e as reivindicações das ações profissionais. sim. Segundo Miguel Reale recorda em suas Memórias. Como o caso de “Syndicalismo” não é nenhum desses (apesar de “A Nota Syndical”. assinado por Amélia Cohn. 10. M. sempre precedidas de um tópico ilustrativo de um 317 papel do sindicato no mundo contemporâneo. In: BELLOCH. sim) optamos classificar conjuntamente “Syndicalismo” e “A Nota Syndical” como seções. 319 conforme sugestão do editor do diário. A. . v. desta última data até 2 de dezembro de 1937. analisar suas seções sindicais. 319 REALE. Miguel Reale . por um motivo muito simples: “Syndicalismo”. é provável que o Acção tenha sido. bem como os principais momentos de sua trajetória. não é tecnicamente uma coluna. por ser formada por vários textos. o primeiro jornal do Brasil a dedicar toda uma secção especial ao movimento sindical. e ABREU. no qual Plínio Salgado escrevia em 1931-2. p. “Ação”. Amélia. in BELLOCH. quando a seção sindical passa a se chamar “A Nota Syndical”. Apenas nos permitimos reafirmar que Miguel Reale foi sozinho o diretor do Acção.) op. Dentro do jornal. cit.) op. v. I. a saber “Syndicalismo” e “A Nota Syndical”. privilegiei. portanto. p. além do noticiário referente ao trabalhador. A. etapa correspondente ao momento que vai da proibição dos partidos políticos até a extinção do jornal. diz que coluna “tem dois sentidos: ou é o espaço usualmente reservado a um colunista ou cada uma das faixas verticais em que as 318 páginas são divididas” . op. há apenas um verbete no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. op. 317 REALE. cit. 114. M. p. A (São Paulo)”.

. cit. havia um texto doutrinário. chamado “Se aqui fosse assim. começaram a me atacar. de reclamações do trabalhador em relação aos direitos adquiridos da legislação trabalhista então em voga. De fato. quais as vantagens que o operário integralista teria com a ascensão da AIB ao poder. assim como a morosidade da justiça em punir os violadores das leis. havendo censura oficial. havia apenas um texto principal. Diária. se consolidou apenas a partir do número 4 (10/10/1936). Alguns diretores de jornais me informavam que recebiam ordens diretas de autoridades de abrir fogo contra nós. as menções a termos integralistas vão diminuindo conforme passam os dias. porém. proibiu que se usassem as palavras integralismo. os sindicatos em outros países (sobretudo onde havia regimes autoritários.” (Apud SILVA. Em geral. integralista.2. ou seja. a ridicularizar o movimento integralista. história do sindicalismo.. por vários textos. havia anúncios de reuniões sindicais e dos Grupos Profissionais integralistas e balanços de reuniões já acontecidas. No primeiro número do jornal.. Outra espécie de texto muito recorrente era o texto reivindicatório. que muitas vezes não eram respeitados pelos patrões. na página 4.. indicando o que era o sindicato para o integralismo. Proibiu a publicação de meu nome muitas vezes ou em tipo que ultrapassasse o tamanho indicado. Hélio. 1.”.168 existir legalmente enquanto partido político e nem sequer o termo “integralismo” e derivados podem ser mencionados nas páginas do 320 jornal . op.. 375. integral. proibiu elogios até literários sobre livros de minha autoria. Esse formato. ela não era composta por apenas um texto. durando até março de 1937. em 28/1/1938: “Logo [depois do golpe de 10 de novembro de 1937] os jornais.2 . até desaparecerem.. relatando um episódio ocorrido na Itália fascista referente à expulsão de um empresário da Confederação das Indústrias local por ter agredido fisicamente um 320 Trecho de carta de Plínio Salgado a Getúlio Vargas. As profissões mais citadas no período estudado foram os bancários e os ferroviários.1 – “Syndicalismo” Essa seção surgiu logo na primeira edição do jornal. p. etc.As seções sindicais e o noticiário referente ao trabalho 1. Podemos confirmar esta reclamação de Salgado. na maioria das vezes. Exa.) A censura de imprensa começou a dar ordens que mais parecem de inimigos de V. ao observarmos as páginas do Acção. grifo meu). a 7 de outubro de 1936. mas. como Itália e Portugal) e temas correlatos. Além disso. (.

edição. Tal fato. em detrimento de estrangeiros. Na edição do dia 8 de outubro. Memórias. 322 Perspectivas Integralistas ). 4. op. 7/10/1936.291 que estabeleceu o mínimo de 2/3 de empregados brasileiros nas empresas vai ser cumprido – O Departamento Nacional do Trabalho fixa o prazo para entrega das relações dos empregados”. cit. M. 115. Há uma nota sobre associação não necessariamente operária. p. 322 REALE. Salário justo e Educação. que eram usados “quando se queria fixar determinadas idéias” tidas como essência do pensamento 324 a ser transmitido . página 2. sendo obrigado a transcrever trechos de meus livros. mas assemelha-se a um resumo de trecho de livro de Reale. não creditado.169 operário que trabalhava para ele. “Associação dos Proprietários de Imóveis”. Livraria H. aliás. fase – 1931/1937). pp. escolhendo sempre tópicos que focalizavam a posição do Integralismo perante o Fascismo europeu ou tratavam da questão social ou problemas econômicos. Aliás. ladeando o título da seção sindical estavam as frases: Trabalhadores do Brasil – Uni-vos contra o Capitalismo e o Comunismo O Integralismo dará aos trabalhadores 325 Trabalho. M. “Federação Paulista das Sociedades de Rádio”. 325 “Syndicalismo”. Rosa. 1936). o tom dessa notícia é claramente voltado para os 323 empresários. Algumas vezes havia fotografias e.. p. durante certo tempo a seção possuía inserções ou lembretes. Antunes. além do texto histórico e doutrinário (“Evolução do Sindicato”. Vejamos alguns: “Sociedade de Medicina Legal e Criminologia”. 99. número 2. Brasília. que obrigava a todas as empresas a terem um mínimo de dois terços de empregados brasileiros em seus quadros. 323 “O decreto N º 20. Rio de Janeiro. Acção.” REALE. Editora Universidade de Brasília. Assim.. notas a respeito 321 de sindicatos e associações diversas. 8/10/1936. havia uma notícia referente à lei dos dois terços. o de divulgar notas sobre organizações não necessariamente sindicais. diversas edições. Acção. 1983 (Cadernos da UnB). pois várias delas não tem qualquer vínculo com o mundo sindical. não se repete posteriormente. Ao lado desse texto. e apenas uma sobre um sindicato propriamente dito: “Sindicato dos Proprietários de Açougue”. 324 CAVALARI. 321 Algumas muito estranhas. 2. in: Obras Políticas (1a. “Nem sempre os atribulados empenhos partidários me deixavam lazer bastante para escrever o artigo de fundo do jornal. cit. . 15-67 (1a. Acção. “Perspectivas Integralistas”. op. “Clube Zoológico do Brasil”. p. p.

subscrevia-a B.I. e sua última aparição se deu em 6/11/1937. também.“A Nota Syndical” Esta seção. encontramos frases como: O Integralismo é uma Revolução Sindicalista O ‘CAMISA-VERDE’ que não estiver inscrito em seu sindicato não está cumprindo seu dever. 329 É possível que Ormelin seja o chefe do Grupo Profissional dos Farmacêuticos (integralista). o uso das maiúsculas para enfatizar o objeto central da 327 mensagem. Os avisos dos 326 Esses três últimos exemplos foram extraídos de “Syndicalismo”. A seção. em substituição à seção “Syndicalismo”. 4. voltado para o trabalho ou o sindicato. na maioria das vezes. e por algum anúncio de reunião sindical. referente à história das organizações sindicais e do corporativismo. Quando o era. 99101. normalmente. (Benedito Vaz. não era assinada.170 Além disso. Devemos reparar no caso acima que. tais textos não deixam de ser. inserindo o integralismo como o mais novo capítulo desta trajetória.. op. Orestes Medeiros Pullin. ou ainda Ormelin (não identificado). depois de estar ausente em várias edições (a imediatamente anterior havia aparecido em 30/10). 30/10/1936. Levantei esta hipótese . Acção. doutrinários. p. cit.2. Ela surgiu em 12/3/1937.V.B. Obviamente. mas também ao funcionamento da AIB de uma forma geral: A TAXA DO SIGMA é a única arma de que 326 dispõe a A.2 . 328 Isto é. Secretário Provincial das Corporações e Serviços 329 Eleitorais). nos dois últimos exemplos. em várias edições os lembretes permeavam os textos diversos da seção. 1. Assim. disposta em formato vertical. O texto que compunha a seção era normalmente histórico e/ou 328 doutrinário ou comentava algum fato político que acontecia no momento. pp. era composta por um texto. Rosa. 327 A técnica dos lembretes é estudada por CAVALARI. Esses lembretes não precisavam ser necessariamente referentes às atividades sindicais.

incluindo a AIB. em primeira página. As notícias relativas ao trabalhador se espalharam pelo jornal.O noticiário referente ao trabalho: do golpe do Estado Novo até a extinção do jornal. p. que se faça uma ressalva: a partir de maio. p. porém. por exemplo. e que normalmente relatava as atividades dos núcleos integralistas do estado. A 2/12/1937. 2. . a situação dos integralistas é complexa. com os preparativos para o plebiscito interno da AIB que vai escolher Plínio Salgado como candidato da agremiação para as eleições presidenciais de 1938. 332 Ver a edição de 11/11/1937. por exemplo) foram muito reduzidos. Antonio de Azevedo. Depois do golpe do Estado Novo (10/11/1937).171 sindicatos referentes às reuniões (convocações. “Vésperas de Eleições – Recomeçaram as promessas”. passaram a ter manchete de última página (local 330 de destaque no corpo do jornal. 1o/10/1937. Na página 4. Os integralistas criam. assim. com textos diversos que comentam a situação política e social no país. As convocações dos Grupos de Trabalho integralistas passaram a ser na seção “Movimento Integralista”. o novo regime é apoiado pelas lideranças camisas-verdes. a partir da eleição de Salgado . na qual. passa a haver a seção “À Margem da Vida Brasileira”. todos os partidos políticos são extintos. sendo que alguns acontecimentos tidos como mais importantes como greves. 2. ao mesmo tempo em que dava loas ao advento do Estado 331 Integral. por sua visibilidade privilegiada) . p. É importante. 4. a Associação Brasileira de observando as letras iniciais e finais do nome de Pullin. 16: “1500 tecelões em greve” sobre reivindicações na Fábrica de Tecidos Jafet. p. 1/6/1937. inclusive sobre o trabalho. 19/1/1937. Acção. também diária. Em seu primeiro mês. nota-se que a “Nota” vai se tornando um espaço em que se tenta convencer o trabalhador a não votar nos outros dois candidatos: Armando de Sales Oliveira e José Américo de Almeida. Acção. e também era diária. 330 Por exemplo. 28/11/1936. A seção. in: “A Nota Synidcal”. não era assinada. O título estava em letras garrafais e na parte superior da página. que somente poderia subsistir desde que mudasse de identidade e renunciasse à ação política. ocupava grande parte da página. muito embora a AIB e o próprio jornal tenham 332 declarado apoio à nova ordem política . estão postas lado a lado fotos oficiais de Plínio Salgado e Getúlio Vargas. 1. 331 V. p. ex. BRANDÃO.3 .

após o 10 de novembro. é apenas aparente. como a camisa-verde. vários integralistas são acusados de distribuição de boletins contrários ao Estado Novo e indiciados ao Tribunal de Segurança Nacional. continua sendo publicado até meados de março de 1938. já que. as bandeiras. também no Rio. nosso secretário. a perseguição que a polícia pratica contra esses rebeldes. A comunicação foi recebida pelo Dr. 3. retribuindo as felicitações. seus agradecimentos pelas deferências recebidas e fazendo votos de felicidades para o corrente ano. o sigma. Em Barra Mansa. Vejamos esta nota. no estado do Rio. a Carta de 1937 defende postulados corporativistas e antiliberais. de transmitir à ‘Acção’. A ação da censura se faz sentir. que ora se inicia. . cit. p. Acção. a qual persiste 333 em alguns casos. Paulo Paulista. armas e documentos são confiscados. O Diario do Nordeste. a saudação “anauê”. sendo diversas armas apreendidas e presas 24 pessoas.. militantes integralistas são detidos e presos. 334 “Departamento de Censura”. provavelmente um recado sutil aos leitores: Departamento da Censura O Departamento da Censura teve a gentileza. há um cerrado tiroteio entre a polícia e integralistas em Campo Grande. o diário carioca A Offensiva. tem seu fechamento decretado pela polícia a 21 do mesmo mês (SILVA. 1/1/1938. 335 Hélio Silva faz um apanhado dos acontecimentos: desde o fechamento da AIB. contudo.). entre outros motivos.172 Cultura (ABC) e não podem mais ostentar sua simbologia característica. também integralista. um grupo de integralistas é preso por ter saudado o delegado local com um “anauê”. os integralistas se dividem em dois grupos: aqueles que aceitam a nova situação política. de circulação nacional. de Recife. que agradeceu a 334 gentileza. pregados durante toda a existência da AIB. p. como o Acção . 27. H. e nem mesmos os termos “integralismo” ou “integralista” podem ser veiculados em sua imprensa. É importante lembrar de duas coisas: primeiro. ontem. em 23 de fevereiro. op. uma semana depois. 333 Além do Acção. e os rebeldes à nova ordem. e 335 segundo. Esta harmonia que o jornal tenta passar. suas sedes invadidas e fechadas pela polícia. e a todo o pessoal redatorial e das oficinas. no dia 10 de janeiro de 1938.

ver AQUINO. . caridade. parece pretender convencer os ex-camisas-verdes para permanecerem firmes em seus 338 ideais. Por exemplo. 28/12/1937. O Estado Novo. fim que me proponho. Acção. Pode-se pensar aqui em uma comparação das dificuldades dos primeiros tempos do cristianismo com os problemas políticos que. V. longanimidade. As notícias internacionais agora predominam sobre as nacionais e mesmo as de caráter local diminuíram muito. 336 “Obediência à lei”. vejamos a manchete do dia 4/1/1938: SILVA. eram transcritas longas passagens bíblicas. Acção. 195-8. naquele momento. cit. op. Maria Aparecida de. 98-110. Contudo.. Essa estratégia (seria. porém. respectivamente pp. Na edição do dia 5 de fevereiro de 1938. “Obediência à lei” foi a manchete do Acção a 28/12/1937. 15. uma data religiosa). obviamente. Imprensa e Estado Autoritário (1968-1978). O texto fazia referência a “boletins apreendidos pela polícia” no Rio de Janeiro. ao passo que o anti-semitismo tem uma presença mais significativa do que anteriormente. padecerão perseguição (. CARONE.. É interessante notar que o Acção parece querer se utilizar de discursos velados para manter firmes os ideais e as posturas dos militantes. 4. p. 12 – Também todos que querem viver piamente em Jesus Cristo. A própria ABC não ocupa muito espaço nas páginas do jornal.). Edgard. p. de fato?) de apelar para discursos religiosos. 16 e 22. 1999. modo de viver. mantém-te firme naquelas coisas que aprendeste e que te foram confiadas. pp. porém. não faz a menor menção a esses fatos. paciência (. 1. op. em geral na página 4. há uma transcrição do capítulo 3 da 2 ª Epístola de Paulo a Timóteo. sobretudo pp. A imprensa integralista. que teriam sido distribuídos por militantes 336 integralistas. EDUSC. se declara oficialmente favorável à nova situação. Hélio. como venceram os cristãos . porque um dia venceriam.173 O jornal. 5/2/1938. fé. cit. passavam os integralistas. a folha não está totalmente passiva.)... 10 – Tu porém tens seguido a minha doutrina. sem qualquer explicação aparente (por exemplo. 338 Sobre a criatividade da imprensa em burlar a censura institucional (num período posterior). Em algumas ocasiões. Bauru. 14 – Tu... 337 sabendo de quem as aprendeste. tb. Censura. 337 “Prediz o apóstolo das perigosas heresias”.

na última página. a 16/12/1937. 343 Acção. 344 Acção. sem 343 pagar indenização fixada por lei” Apesar de. p. que diz: “Milhares de inscrições na ABC” Não há mais nenhuma seção ou coluna sindical. nas edições seguintes. As notícias concernentes aos trabalhadores ou aos sindicatos são menos freqüentes. Em geral. 342 Por exemplo. tradicional atividade de fim de ano da AIB de distribuição de brinquedos às crianças carentes. 13/1/1938. 8/1/1938. não havíamos encontrado nenhuma manchete de caráter anti-semita. 12. 14/1/1938. são de apoio ao novo regime e à sua política sindical e 342 trabalhista. as referências ao movimento “ex-integralista” diminuíram muito. p. amiga dos judeus. a 8/1/1938. quando aparecem notícias ou notas sobre isso. lucrará com a 339 ação da judiaria. mas ainda aparecem. p. 4/1/1938. 1. volta a dar o mesmo destaque alguns dias depois. . a ABC continua atraindo adeptos. que elogia o corporativismo sindical existente na Carta Constitucional de 1937. no período anterior analisado (outubro de 1936 a fevereiro de 1937). 341 Acção. 8/1/1938. subsiste como mostra esse título de uma notícia de primeira página: “O Natal das crianças pobres em Jaú – A atividade das 340 senhoras e senhorinhas da filial da ABC nessa cidade” Segundo o Acção. Para se ter uma idéia. conforme a manchete do dia 341 8/1/1938. O “Natal das Crianças Pobres”. Acção publica a página 7 um texto intitulado “Mentalidade”. p. 1. o jornal não ter nem citado eventos sobre o ocorrido. sendo que várias edições deixam de ter qualquer referência ao assunto. 1. 340 Acção. a notícia em destaque: “A Fiação e Tecelagem Jafet despede 36 operárias. 12. p. Porém. 339 Acção. na última página: “As operárias injustamente demitidas pela Tecelagem Jafet – Acção fornece a seus leitores dados pormenorizados da clamorosa injustiça cometida por um capitalista estrangeiro contra operários brasileiros – 40 contos de indenização que 344 não foram pagos”.174 Realizam-se os planos dos Protocolos dos Sábios de Sião! Os judeus internacionais criam um fundo de 80 milhões de contos para combater os países nacionalistas! A Inglaterra. Comparado com o período anterior ao Estado Novo.

175
E, depois de mais uma semana de silêncio, o jornal exige atitude das autoridades estadonovistas, colocando mesmo em dúvida sua eficiência: Continuam as queixas dos operários contra a Tecelagem Jafet – Existe ou não justiça social no Brasil? Serão os capitalistas estrangeiros mais fortes que o Estado? As operárias demitidas injustamente da fiação e tecelagem Jafet esperam a indenização que lhes cabe por injusta demissão – Que faz e para que serve o Departamento Estadual do 345 Trabalho? Contudo, a partir de meados de fevereiro, o jornal vai tomando cada vez mais uma expressão conformista, opaca. Quase nada, nas páginas de Acção, lembra o “vespertino vibrátil e agressivo” a que se 346 refere Reale, do período anterior ao Estado Novo. Acção deixou de circular no dia 23 de abril de 1938, número 464. Em sua carta de despedida aos leitores, o jornal não explica o motivo de seu desaparecimento: Esta tribuna vai desaparecer; nós não conversaremos mais com o Brasil através das colunas de Acção; porém, isso não significa que hemos desaparecido: há no coração de todos nós uma chama sempre viva acalentando um Ideal e o Ideal não morre quando uma 347 tribuna desaparece!

345 Acção, 20/1/1938, p. 12. 346 Com exceção, talvez, dos artigos elogiosos ao corporativismo, doutrina coincidente com a da Constituição de 1937. Por exemplo, o artigo “O sistema corporativo e a democracia moderna”, o qual elogia uma suposta substituição de intermediários entre cidadãos e governo: partidos políticos por sindicatos. Acção, 10/3/1938, p. 4. 347 “Aos leitores de Acção”, Acção, 23/4/1938, p. 2.

176
Observamos a importância de ressaltar aqui que um grupo político, não obstante sua linha autoritária e, nesta altura dos acontecimentos, oficialmente apoiando o governo, teve seus movimentos tolhidos pelo próprio governo, situação que acabou levando aos acontecimentos de maio de 1938, conhecido como a 348 “Intentona Integralista”. A imprensa integralista – não obstante seu caráter partidário e tendencioso - nos ajuda a conhecer melhor a visão de mundo da AIB, aqui particularmente a respeito dos trabalhadores assalariados. Tal observação evidencia a importância do estudo dessa fonte a partir de toda a gama de temas de que foi portadora (como política nacional, economia, política internacional, cultura etc.), o que faz dela um manancial para um maior conhecimento não somente da trajetória desse movimento político, mas também a respeito da política e sociedade brasileiras nesse período.

348 Sobre as diferentes reações dos integralistas ao Estado Novo (e viceversa), anteriormente à Intentona Integralista, v. CARONE, Edgard. O Estado Novo. São Paulo, Difel, 1977, p. 193-205.

177
9. INTEGRALISMO PROH PUDOR! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo
349

Rodrigo Christofoletti

A partir da segunda metade da década de 1940, verificou-se a abertura de um novo horizonte nas articulações político-partidárias do país. Após a derrocada de Vargas, em 1945, siglas foram recriadas, partidos rearticularam-se e, no bojo desse novo cenário de redemocratização, surgiu um partido que, embora estigmatizado por sua atuação anterior, tentou transformar alguns de seus princípios políticos visando a aproximação com o eleitorado que reconquistava o direito de voto. Tratava-se da sigla liderada pelo líder integralista, Plínio Salgado, o PRP (Partido de Representação Popular), herdeiro da AIB (Ação Integralista Brasileira). O novo partido, que durante os seus dezenove anos de atuação parlamentar (1945-64) configurou-se como uma das agremiações políticas mais controversas do citado período, teve atuação de retaguarda, centrando foco nas articulações de bastidores da política nacional. O PRP constituiu-se no instrumento de intervenção política dos integralistas durante todo o chamado período democrático. É interessante notar que o integralismo do pós-guerra, mais especificamente da segunda metade da década de 1950, tenha ressurgido não como uma mudança política propriamente dita, mas essencialmente como uma transformação de linguagem. Essa transformação se deu, aliás, de maneira incompleta, pois seus quadros desvalorizaram inicialmente a essência ideológica da extinta AIB e depois a reafirmaram (em partes), estabelecendo uma contradição interna no movimento. O problema consistiu em não explicar, não repolitizar, não enquadrar o movimento à nova realidade do pós-guerra. Foi nesse contexto contraditório de redemocratização que ocorreu o retorno do integralismo.

349 Mestre em História e Educador da Universidade de São Paulo.

178
Imprensa nacional versus Integralismo O clima de liberdade partidária que o país viveu no contexto constitucional e democrático de pouco mais de 18 anos entre a queda da uma ditadura e a emersão de outra, estimulou o exercício de independência e expansão dos meios de comunicação. A grande imprensa sempre fez do tema político sua tônica, selecionando, caricaturando e adaptando a realidade a partir de “instantâneos” do real. Os antagonismos políticos tornavam-se, então, agudos e se refletiam claramente na imprensa. Na maioria das vezes, a contraposição ideológica saltava das manchetes desses jornais para tomar parte na vida cotidiana da sociedade civil. Foi diante deste cenário de definidas posições ideológicas, que se deu o reavivamento da simbologia integralista. Se nos anos 40 a esfera político-partidária conheceu a reestruturação institucional da sigla integralista, agora o poder simbólico da instituição buscava reajustes. Desde 1945, a relação entre o integralismo e os jornais da imprensa brasileira foi marcada por atritos. Longe de se manter indiferente, tal relação primava, de um lado, pela hostil e virulenta manifestação antiintegralista e de outro, pela pequena, mas não menos contundente auto-afirmação verde. A grande imprensa, preocupada com a manutenção da ordem democrática passou a fazer o papel de porta voz de uma sociedade desgostosa da permanência do integralismo no cenário político nacional. As acusações acirraram os ânimos de ambos os lados. Este enfrentamento tornou-se mais evidente a partir de 1957, quando se intensificaram as campanhas contestatórias às comemorações dos 25 anos do movimento integralista. Segundo Plínio Salgado, “enquanto as penas do integralismo foram molhadas nas tintas da convicção, a alquimia da grande 350 imprensa fez-se sentir de maneira nociva”. Isto equivale a pensar que tanto o integralismo quanto a imprensa de grande circulação intensificaram suas acusações. Então, o dístico em desuso serviu como alerta para grande parte da imprensa da época: Integralismo 351 Proh Pudor.

350 SALGADO, P. A Marcha, 3/11/1957, p. 9. 351 “Integralismo: Oh! Vergonha!”: Mote das campanhas veiculadas na maioria dos jornais de grande circulação do país.

179
A grande imprensa noticiou as comemorações integralistas de maneira bastante variada: de um absoluto descaso a mais fervorosa agressividade. Dias após ocorrer as festividades do Jubileu de Prata integralista (primeira semana de outubro de 1957), O Diário Popular (SP) publicou um artigo cujo título exprimia a posição do jornal com relação à volta integralista. O jornal questionava que tipo de mudança 353 teria ocorrido no integralismo . A suposta contradição entre o discurso de Salgado e a ação do movimento foi fomentada pelas 354 acusações de “uma fantasiosa demonstração de poder” – que chegava às páginas dos jornais pelo caminho inverso. Seu lugar, 355 segundo o próprio Diário Popular, “era as páginas de fundo” , um eufemismo para designar as páginas policiais que na época fechavam os jornais. Outro periódico que questionou a alegação de que o integralismo havia se transformado num movimento brando foi o Última Hora/RJ. O vespertino teve, num primeiro momento, uma postura meramente informativa que se modificou com o passar das primeiras semanas do mês de outubro. Sob o título “Bodas de Prata Verde. 356 Sigma e rituais renasce o integralismo no Brasil” , dispensou mais de meia página detalhando sua organização e festividade. Como o jornal de Samuel Wainer não era simpático nem ao integralismo nem ao seu chefe, Plínio Salgado, a ênfase dada à manifestação integralista no Teatro João Caetano - RJ (sede das comemorações do jubileu) teve um caráter peculiar. Os jornais Folha da Tarde e Folha da Noite deixaram implícita em sua linha editorial a contrariedade frente à reformulação do movimento. Ambos os jornais imprimiram, a rigor, as mesmas notícias:
352

352 No presente trabalho foram analisados os seguintes periódicos: O Estado de S. Paulo; Correio Paulistano; Folha da Manhã, Folha da Tarde; Folha da Noite; Diário Popular; Diário de Notícias; O Jornal; Diário Carioca; Tribuna da Imprensa; A Notícia; Gazeta de Notícias; Jornal do Brasil; O Globo;. Última Hora; Diário da Noite; Diário de Notícias/RS; Diário de Notícias/RS e Gazeta de Vitória – ES. Também foram pesquisados alguns periódicos integralistas: Idade Nova; A Marcha; Boletim PRP –RS. 353 “Transformação do quê?”. Diário Popular, 7/10/1957, Caderno 1, p.2. Todas as citações deste trabalho seguem a grafia original, sem atualizações ortográficas. 354 Diário Popular. 9/10/1957. 355 Ibid. 356 Última Hora/RJ, 12/10/1957, p.7.

Tal questão se mostrou como novidade dentro do PRP. p. Noticiou as festividades.4. O sentido da transposição do legado não era apenas cultural. 9/10/1957. pouco teríamos a noticiar. Diferentemente de seus congêneres do Grupo Folha. p. 9/10/1957. o editorial de 8 de outubro dirigiu um veemente repúdio à permanência dos integralistas: Por estar de novo nas ruas. Finalizando sua apreciação quanto ao retorno integralista e sua celebração. Se não aos cobras criadas. e novo nome: agora não é mais AIB. mas principalmente político. a idéia de transferência de ‘posse e poder’ surgiu carregada de simbolismos. aos mais novos que podem ser 357 “Com Sigma camisa verde e anauê.3. . Folha da Tarde. Paulo. p. o matutino Folha da Manhã tomou a celebração a partir de uma perspectiva mais desfavorável. 10/9/1957. Que jamais amadureça!” Em outro trecho retirado da extensa reportagem da Folha da Manhã. empolga os meios integralistas a volta do Sigma e a oficialização da 359 galinha verde como símbolo .. adjetivada como non sense.180 “Com Sigma camisa verde e anauê. vem de encontro com os propósitos dos Integralistas de reeducarem as novas gerações de acordo com os novos 358 preceitos da agremiação. retorna ostensivamente.3. 358 O jornal Folha da Noite foi inaugurado em 1921. Quatro anos depois foi inaugurada a Folha da Manhã e em 1945 a Folha da Tarde. Folha da Tarde. A troca de uma instituição política para uma de cunho político cultural. explicitando sua oposição diante do novo integralismo: “Sob os 5 lustros deste movimento.órgãos de reajuste político/ideológico implícitos do integralismo . à 357 atividade os integralistas!”. à atividade os integralistas”. mas MIB. Movimento Integralista Brasileiro. 359 Folha da Manhã. 8/10/1957. as Folhas juntaram-se dando origem à Folha de S.as novas gerações obtiveram maior influência nas decisões do partido.4 & Folha da Noite. Com a criação dos Centros de Cultura da Juventude . Em 1960. Entretanto e infelizmente. segundo assessores de Salgado – deverá substituir o PRP em breve. De acordo com as Folhas: O movimento ressurge agora sob um novo dístico. que. retorna ostensivamente. e sem disfarces. p. o integralismo assusta.

ou a atenção do inevitável? Resta-nos apenas marcarmos o dia. 9/10/1957. Com um texto de abordagem tão ácida quanto os publicados por seus concorrentes.) Portanto. o democrata consciente não pode deixar de bradar a todos. . Restam-nos saber. p. como a manutenção de um arcaísmo. Folha da Manhã.) Temos que alertarmos a toda a nova geração sobre essa sereia. para sabermos qual é a resposta! Um repúdio ao 361 integralismo. O periódico situou as celebrações num bojo maior de conflitos político/ideológicos. Correio Paulistano. 8/10/1957. (. Paulo. prontos para explorar os pontos mais vulneráveis da democracia nacional. Fênix. A metáfora biológica da apoplexia. como sendo o integralismo “um quisto sanguíneo que 360 “Editorial: O perigo Verde!”. com a qual declararam..8. acentuando alguns elementos: Aceitando o que identificam como provocação extremista. oficializar a galinha verde como símbolo da vergonha e da sua ação política. imitações baratas do fascismo mundial. p. paralelamente às comemorações do jubileu de prata. p.181 ludibriados pelo canto da sereia maviosa transvertida de democrática verde. 8/10/1957.9.. o jornal Correio Paulistano noticiou as bodas de prata do movimento de maneira incisiva. Estão eles.) o retorno do inatingível. 361 “Águias. para que não haja ceticismo em torno do novo perigo integralista.. descrevendo as celebrações como o ápice de 362 um conflituoso e “apopléctico retorno”. (. se procurou embaraçar num enredo ridículo a doutrina que perfilaram em 32.. Chegase à audácia de colocar-se de novo o problema do fardamento e da milícia.. ou galinhas?”.. Paulo criticou o que chamou de apelo sensacionalista do PRP. de que aves se tratam na realidade.. a ver se nos livramos da ameaça sem o mesmo processo 360 sofrido em 1937. águias ou meras galinhas (. O jornal O Estado de S. Os integralistas vão institucionalizados pela nova sigla..5 362 O Estado e S.

p. 7) – Centenas de adeptos de Plínio Salgado compareceram ontem no Theatro João Caetano. uma espécie de tutela. tomada como espécie de bhrama ou nirvana penosamente conquistado pelo membro integralista. bem como da disponibilidade de escolas para os filhos dos falecidos. porém contundente escrito. A contraposição ideológica deu lugar ao escárnio: “Houve. ajuda financeira e até profissional. Seria a 364 volta dos estridentes centuriões? Outro ponto de discórdia entre O ESP e os integralistas foi a forma como o primeiro se referiu aos chamados “milicos do além”. Nesse 363 Ibid. Segundo a crença integralista. vazando intenções espúrias para 363 todos os lados”. O Estado de S. Isto porque – segundo o jornal – os integralistas nunca 365 morrem: vão para a milícia do além!”. (Da sucursal . uma estranha homenagem aos mártires que nunca morrem. justamente por este ter servido o movimento em períodos conturbados e difíceis. Na hierarquia festiva do movimento. todos os mortos continuariam hierarquicamente lutando a favor dos que se mantiveram na luta cotidiana. cuja sutileza amenizava o caráter ácido do pequeno. tal homenagem visava a aproximação entre o auto-escalão integralista e as famílias dos falecidos. a celebração do culto aos milicos do além ocupava um lugar todo especial. uma nota de canto de página do O ESP. 9. 8/10/1957. A manutenção da doutrina consubstanciava-se por meio do oferecimento à família órfã de toda a sorte possível de provimento material e psicológico.182 estourara na sociedade brasileira. Rio. então mais acirrada que nunca: a passagem do legado. Entende-se que a exacerbação da proteção familiar visava antes de tudo apadrinhar a família do exmilitante objetivando que não se afastassem do ideário integralista. O texto do jornal reacende uma questão central para os integralistas. Como pano de fundo. . durante a comemoração. foi continuamente utilizada pela maioria dos jornais da época. 364 “Volta o Integralismo com seus antigos símbolos”. Em especial. Paulo. num momento em que se encontravam em condições de abandono e orfandade. houve a volta dos rituais. 365 Ibid. Além da ressurreição pré programada do Manifesto Integralista que propagava anteriormente a dissolução dos partidos. A idéia de imortalidade no integralismo contém uma simbologia própria.

Os adversários do integralismo não perderam a oportunidade de ridicularizar a denominação ‘milícia do além’. Protocolos e Rituais.23. O que para os integralistas significava “a manutenção da tradição. o retorno das homenagens aos “milicos do além” [militantes já falecidos] . Necessitou entrar pela porta dos fundos para evitar os arrebatamentos de 366 “As cerimônias da Milícia do Além”. alguns periódicos não pouparam frases de efeito e ataques veementes ao projeto refundador de Salgado. p. Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Os oradores em momento algum lembraram de mencionar o PRP. juntamente com os hurras surgiu também a mística integralista do Chefe. de propriedade dos jornalistas Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand..episódio passível de chacotas – era coberto de um simbolismo bastante significativo para os integrantes do movimento. que o chefe não pôde entrar pela porta da frente do Teatro J. A festa foi só do Integralismo.. o 366 primeiro passo para a efetivação integral”. Tanto.. Reeditado n A Marcha em 12 de novembro de 1957. destacando a contrariedade destes com relação ao integralismo. para a exterioridade não passava de um descompasso com relação ao presente.. O Integralismo foi denominado de “Insepulto” e “envernizado de segunda mão”. a maioria dos jornais da grande imprensa carioca focou a celebração integralista com menor animosidade que a mídia paulistana. o partido bem que não anda bem das pernas mesmo. Caetano. Estrato 4.. Sintomático. A consulta desses jornais está temporariamente interditada devido à microfilmagem dos mesmos. pelo jornal Diário de Notícia. que rendeu demoradas gargalhadas. Com exceção dos jornais Tribuna da Imprensa e Diário 367 Carioca . que noticiou a celebração espelhada na “magnificência carismática do Chefe Integralista”. 367 Em ambos periódicos podem ser encontradas importantes informações sobre as comemorações.. . Porém. supervalorizando o acontecimento: O Insepulto Integralismo e seu curioso ritual: Dispersou qualquer dúvida quanto a esse particular a onerosa celebração verde que encerrou-se ontem a noite. A despeito disso. 1936.183 sentido.

p.. Corção atacou veementemente o Integralismo. enquanto o planeta todo se ocupava em focar a bola que os russos atiraram no espaço a mais de 900 quilômetros de altura. significativos representantes do catolicismo apreendiam a reorganização integralista de modo contrário. Em linhas nada condescendentes. Grifos meus. pela Dias após a veiculação da primeira notícia publicada sobre as festividades integralistas. o impacto das acusações desferidas contra o movimento integralista soou como uma vingança pessoal: Tivemos nessa semana o satélite artificial e a noitada integralista. Diário de Notícias.8. E ainda tem mais. Gustavo Corção. os adeptos sobreviventes de Salgado se reúnem numa fúnebre sou irrè. o Diário de Notícias abriu suas páginas para um dos mais significativos adversários do Integralismo: o intelectual e líder católico.. Para comemorar o 25º aniversário da AIB. Sim senhores. E é triste para ele e para mim ter que falar de Integralismo na hora em que todos falam em geofísica de rádio astronomia e de viagens interplanetárias. há um simulacro entre o governo pessedista de JK e o Integralismo: O senhor presidente consulta o senhor Plínio e este consulta os mortos. mas longe mais ainda está da linha do Integralismo!!! Ou do Anauê!!! (..184 seus companheiros. Devo antes dizer que não acredito muito que o futuro da humanidade esteja na linha do satélite. Se de um lado.. os integralistas do pósguerra viam-se solidarizados com alguns setores da igreja católica.) Em termos políticos todos querem andar pra trás. Tem toda razão o nosso confrade em assinalar a sombria idéia fixa daqueles que sonham em andar pra trás quando o mundo inteiro sonha andar pra frente. 8/10/1957. empolgados 368 rememoração integralista. tecendo um paralelo entre o que julgava moderno e anacrônico para a época. de outro. Sob a tinta do intelectual católico. . e assim vai o 368 “Com Anauês e Hurras ao Chefe Nacional encerrou-se ontem a Convenção Integralista”.

braços levantados à Romana. passou a publicar em seus editoriais. Grifos meus. Jornal do Brasil. camisas verdes. RJ: 10/10/1957. p. que na época era dirigida por Alceu Amoroso Lima. também repudiou a reedição da passeata integralista. Por: Gustavo Corção”. 371 Ibid.4. tratava-se de um “claro retardamento da evolução democrática. 9/10/1957. O caráter antidemocrático do PRP foi o mote explorado pelo Jornal do Brasil. Não bastassem as referências nada lisonjeiras publicadas por Gustavo Corção no Estado de S. desde 1945. 370 “Comunismo.B. Tal reconstituição causou furor na imprensa de grande circulação. um veemente repúdio à reorganização integralista. Definitivamente não há espírito pro 373 Integralismo vingar. Diário de Notícias. simulacro de um dos episódios mais cultuados pelo movimento. Paulo. p. Os 369 “Noitada Integralista. p. Ainda segundo a revista. RJ. a revista católica A Ordem.5.172. Ser popular hoje em dia não é arregimentar fardas a esmo. que noticiou a “nova incursão plinista” carregando nos adjetivos: A tirania está em voga apenas na cabeça dos que não respeitam a vontade popular. P..185 Brasil para trás com velocidade maior que a 369 do famoso satélite.. que o destacou em suas primeiras páginas. um incentivo à propagação 371 comunista” . daí concluir enfaticamente: “nos opomos 372 inequivocamente ao integralismo e sua antidemocracia”. set.167-168. 372 Ibid. No mesmo mês de setembro de 1945.. Por isso precisamos noticiar que ressurge entre nós as coisas verdes.. p. 20 anos depois. e foi escrever seus livros em tranqüila vilegiatura em Portugal e agora. A Ordem. p. saudações indígenas. o PRP protocolou seu registro no TSE. 373 “Camisas verdes para Museu: Ressurgem entre nós as coisas verdes”. . em franca contradição com as tendências contemporâneas ressuscita símbolos.) Plínio guardou a camisa verde no fundo do Baú. que nem mesmo o surto comunista poderia 370 justificar” .173. Integralismo”. (. reacionarismo. O seu ressurgimento foi considerado pela revista como “um grave erro. como partido regularmente adequado à nova ordem democrática. Da mesma maneira com que a imprensa contrapôs-se ao PRP e às comemorações dos 25 anos integralistas. 1945.

durante a semana. debaixo d’água. Sob uma atmosfera sensacionalista. respectivamente representantes das gerações de 32 e 58. completamente ofuscado pela chuva. sendo reproduzida. perfilados e mantendo o característico gesto de saudação Anauê. Das matérias publicadas pelos mais variados segmentos da grande imprensa. Portanto. A citação. Prosseguiram com a inauguração de uma “exposição histórica” do integralismo e uma passeata. às 5 horas da manhã da penúltima quarta-feira. mais uma das muitas matérias constituintes da revista. numa justaposição que aumentava a relevância da matéria. denunciou o caráter ‘aproveitador da nova/velha sigla’. . Damiano Gullo (diretor regional do PRP/SP) e Leovegildo Pereira Ramos.) Remanescentes da antiga Ação Integralista Brasileira comemoraram. sugerindo que a reportagem tivesse sido destacada da capa da revista. Por outro lado. fachada pseudo374 A despeito da fotografia publicada no jornal A Marcha trazer o logotipo da Revista Manchete no canto superior direito (ver foto).186 jornais noticiaram a realização da marcha segundo posturas que variaram entre a aguda contraposição e o mais profundo desprezo. Descreveu a matéria: As galinhas travestidas de águia tentam galvanizar o falecido fascismo caboclo (.. talvez. realizada naquela cidade em 1933. As manifestações se iniciaram. o exemplo de contrariedade mais contundente tenha sido o da revista Manchete. o que se comprovou foi que a matéria publicada por Manchete não foi uma matéria de capa. na qual focaliza Plínio Salgado. a notícia do frustrado episódio integralista espalhou-se por todo o território nacional. no afã de superdimencionar a notícia editaram a fotografia de Salgado e próceres juntamente com o logotipo da Manchete. a Manchete publica uma matéria intitulada: 374 “Vergonha Verde vem ai!” . sintetiza a postura da grande imprensa frente ao integralismo. o 25º aniversário da primeira “marcha” dos camisas-verdes. Em maio de 1958. encerrando-se com a convenção do PRP. com relação à frustrada comemoração dos integralistas paulistas. apesar de longa. em diversos meios de comunicação das mais distantes localidades do país.. isto sugere que os integralistas. com uma “cerimônia de saudação ao nascimento do sol”. por vários dias. e sim. no sábado.

sendo poucos os que ainda não se acanham de usar camisa verde em público. mais uma vez. Acusado pelo jornal O Globo de se equiparar a um copiador compulsivo. outra revista de envergadura nacional. se algum dia virar um jornalista de verdade. . Desde 45 nos encontramos (. para que não deixemos passar as mesmas vergonhas que outrora o Brasil 375 foi obrigado a conhecer .) O problema é que Marinho e seu jornalzinho não respeita sua vez (. a ambígua relação entre Chateaubriand e Salgado. teria uma postura menos inquisitiva com relação ao integralismo. me faz ou 376 375 Revista Manchete. declarou que se enganaram os que supõem morto o integralismo. Nos anos 50 a contraposição ideológica continuou.. Necessitamos descobrir quem acoberta esses proto-integralistas e congêneres.187 democrática dos plinistas de hoje. representante de uma ideologia anacrônica e um farsante da retórica.) ele ainda terá chance. Plínio Salgado. a revista O Cruzeiro. desde os anos 40.. Após 1955. Salgado reagiu enfaticamente: Quem diria que voltaria no local onde fui condenado à forca pelos comunistas para comemorar o jubileu de prata e força integralista sob os olhares atentos e aplausos festivos da população brasileira. o sr... esta é mais uma prova que a força se faz em conjunto. havia se constituído num opositor sistemático do integralismo.. Ideologia anacrônica? Copiador compulsivo? A resposta é dada nesta noite: um cérebro e um corpo forte: eis o resultado do melhor possível (. 376 O Globo. Mas a verdade é que a manifestação de há duas semanas atraiu muito pouca gente. nº 317 – 17 de maio de 1958.. À frente de todas as manifestações. as acusações entre Salgado e Roberto Marinho acabaram rompendo a esfera ideológica... comprovando. Grifos meus. No início do período de rearticulação partidária. chefe nacional daquele que em tempos foram conhecidos como galinhas-verdes e agora se rebatizaram como águias-brancas.) e desde de lá.

) de agora em diante. 8/10/1957. A Marcha 5/1/1958. bem assessorado.. A Marcha exprime os sentimentos de todos os integralistas e agradece à Manchete – profética e iluminada . pela televisão.. pelo rádio e pela Tribuna Parlamentar. a própria vergonha da Nação. Grifos meus.188 manda fazer sempre a mesma pergunta: 377 fraquinho esse repertório não Marinho? Na esteira da agressividade e dissimulação da réplica pliniana endereçada ao proprietário de O Globo. O Integralismo é considerado. da revista Manchete.10. (. será o grande ‘slogan’ de nossas campanhas. O jornal A Marcha passou a publicar reiteradamente réplicas que buscavam inverter os argumentos dos periódicos. p...O Globo. As respostas integralistas não tardaram.) Por isso tudo. antes de tudo. numa época de desbriamentos e desbragamentos impudicos. nenhuma foi mais expressiva e eloqüente que a da Revista Manchete da capital federal. . Entre todas as homenagens rendidas ao Integralismo pela imprensa. e em especial.5. demonstrando que o projeto de permanência integralista era. que fora incisiva contra os militantes integralistas dias após a celebração do jubileu. aquela revista o marginou com um título que é um aviso profético: ‘Vergonha Verde Vem Aí!’. diversos outros jornais receberam prontas respostas do movimento integralista: “A contra ofensiva da imprensa integralista: ideologia e produtos”. p. 378 “Editorial: Vergonha da Nação: A devida interpretação!”. 377 As luzes do archote! Estão de volta as gerações do Sigma. o magnífico cartaz com que nos apresentamos à Nação. na boca de nossos oradores e na penna de nossos jornalistas. Publicando o mais belo dos clichês sobre a comemoração grandiosa ocorrida em São Paulo. Que venha a Vergonha Verde para dar vergonha a quem já a perdeu. A frase é verdadeiramente formidável! E (.a frase interpretativa 378 do atual momento histórico nacional.

Hoje não. que tentava se restabelecer publicamente como uma real possibilidade de 379 Notas. o PRP apresentou-se como uma alternativa aos “gêneros do mercado 380 disponíveis no momento” : o representante de uma política de moralização. no início da década de 1970. O verde morreu só no uniforme. 27 de fevereiro de 1971. que era importante naquele momento para contrapor a uma idéia fascistizante de camisas caqui e preta. mesmo que para muitos tal artifício tenha soado como uma artimanha estritamente demagógica. mas veste roupagens diferentes As respostas integralistas aos ataques da grande imprensa compuseram mais um capítulo no projeto de supervalorização do movimento. não voltarão os camisas verdes. Utilizando-se de uma manobra político-discursiva bastante incomum. que fora inclusive sugerido.. isto é. Folha da Manhã. Boletim PRP – RS. Quiseram queimar o verde do uniforme assim como fizeram com as matas do relampejo febril. 381 “Não voltarão os camisas verdes”.4. Em matéria de duas colunas cujo título era: “Não voltarão os camisas verdes?”. O exemplo das réplicas publicadas nos mais diversos jornais da época. Era essa a diferença. imperceptíveis no cenário político de então”. parcialmente sugerido pelo antigo general. com especial enfoque ao fortalecimento da UDN e à articulação entre o PTB e o PSD. 8/10/1957. p. mas não conseguiram. a Folha da Manhã priorizou estratos da entrevista e discurso de Salgado.6 . como se sentem politicamente as novas gerações. Mais importante é que hoje a chama não morreu. p. Hoje o ideário . 13/5/1958.189 Assim. Ver: Plínio Salgado na Câmara dos Deputados. os integralistas apresentavam-se à nação como os únicos e verdadeiros “bastiões da vergonha e da honradez políticas: 379 virtudes. seguidas da contundente resposta ao artigo da revista Manchete. 381 fica.. ao ser indagado sobre a comemoração e a rememoração do antigo movimento. 380 Aqui fazemos referência à metáfora utilizada por Salgado num de seus discursos na bancada da Câmara dos Deputados. Salgado faz uma retrospectiva das coligações políticas realizadas pelo PRP em finais da década de 50. vieram a acentuar o caráter combativo da sigla. Sei da anacronia deste símbolo. na comemoração do 40º aniversário da AIB. Perfis Parlamentares da Câmara dos Deputados. sustentando sua contraposição à figura do líder integralista que. respondeu: Não.

a celebração não se alimentou apenas das questões públicas (os festejos populares). Dórea. sob a direção de Plínio Salgado e a redação de Gumercindo R. Depois dos anos 50 os fatores do progresso brasileiros incorporaram-se a receita jornalística de grande escala o produto de nova forma de veiculação. redimensionando as perspectivas do setor jornalístico brasileiro. A Marcha. o semanário era mantido com a colaboração dos assinantes e dos pouco mais de 50 anunciantes fixos. Entretanto. como empresas aéreas. p. Jornal História e Técnica. que favoreceu o fortalecimento do consumo no setor editorial. a mensagem institucional. a mídia impressa integralista. dentre os quais se destacavam empresas de projeção internacional. oi fundamental o papel desempenhado pelo jornal A Marcha . destinou um significativo espaço para a propaganda de sua doutrinação e vendagem de seus produtos. o maior montante do dinheiro utilizado para a manutenção dos quadros do jornal. por sua vez. empresas farmacêuticas dentre outras. Se a imprensa posicionou-se contrariamente ao reaparecimento da mística e simbologia integralistas. A propaganda. passou a desempenhar papel fundamental no panorama político e ideológico. por sua vez. órgão oficial de imprensa do Partido de Representação Popular foi o mais significativo periódico do integralismo de pós-guerra. dentre as muitas alternativas do cenário político. fomentando o consumo de bens produzidos pela denominada indústria cultural incipiente. portanto a otimização da imprensa-empresa. de laticínios. Foi. São Paulo: Ática. No entanto. bem como as respostas às acusações dos grandes jornais. Juarez. Nesse sentido. mas também da materialidade expressa na vendagem de seus produtos. A compra de suvenires despertava no simpatizante a manutenção de sua lembrança e o sentimento de pertencimento ao integralismo. Com uma circulação nacional. 1990. . Nessas intervenções encontramos o divisor de águas entre a tímida postura do Partido de Representação Popular pré-1957 e o caráter mais ofensivo adquirido pela sigla a partir de então. o que estimulava a permanência cotidiana dessa cultura material.que permaneceu como órgão oficial do partido até 1965. e a gama de produção que derivava do novo ingrediente: 382 o marketing. como o anúncio a varejo.190 escolha. forneceram o tema para uma campanha de valorização do integralismo.145. mas promissora. Os festejos das bodas de prata. bem como para 382 BAHIA.

jogos de chá com o Sigma impresso. havia também o suplemento feminino. formas de bolo. ao mesmo tempo em que havia as seções políticas e econômicas. Mas para isso é preciso que divulgue nosso ideal. 384 A Marcha. Dentre os produtos oferecidos com vistas à comemoração das bodas de prata integralista estavam distintivos do PRP. calendários. a meta inicial pretendida pelo jornal era a casa dos 50 mil. nesses 6 anos de prestação de serviço. lapiseiras.191 manutenção do maquinário provinha das assinaturas. p. foi a partir de setembro de 1957 que o jornal passou a anunciar uma gama significativa de produtos e suvenires. 26/9/1958. 383 A Marcha. . principalmente. que se diferenciavam pelo gênero (homens e mulheres usavam distintivos diferenciados). Entretanto. diplomas artísticos. o caderno adolescente e o infantil.9. hoje e sempre o PRP e A Marcha estão do lado do verdadeiro patriota. Havia no jornal seções diferenciadas para abarcar todas as faixas etárias. enquanto a pena e a tinta do patriotismo estiverem trabalhando por um Brasil melhor. os correligionários do PRP e simpatizantes do integralismo. Ontem. Entre 1957 e 1959. Divulgue nosso partido. Uma vez que o jornal era semanal. a rede de distribuição d’A Marcha abrangia a maioria das grandes cidades do país. Entretanto. que em março de 1958 foram contabilizadas em mais de 25 mil em todo o território nacional. Entretanto.9. orgulha-se de poder ser chamado de órgão oficial do Partido de Representação Popular e de ter em seus leitores . A tiragem oficial do semanário é desconhecida. réguas. 17/5/1958. p. Enquanto a voz da verdade. A Marcha. Assim. diversas vezes foram publicados balanços da empresa que apontam para números aproximados. com a clara intenção de reapresentar as “logomarcas” integralistas: o Sigma e a galinha verde. Você não tem o que temer. Divulgue nosso jornal. O público dA Marcha era. cinzeiros. termômetros com a figura do líder integralista imersa no interior do tubo medidor. geralmente voltadas ao público masculino adulto. flâmulas do Sigma e de Salgado. a tiragem d’A 383 Marcha oscilou entre 25 e 30 mil exemplares semanais. do Amazonas ao Rio Grande do Sul. carteiras de fósforos. utensílios de cozinha.384 a marca de quase 50 mil brasileiros Anúncios como estes foram veiculados a parir de abril de 1957 e perduraram até o final de 1958. noticiando o que o brasileiro precisa saber.

de mão em mão. industriais e comerciantes simpatizantes do movimento e ligados aos mais diferentes ramos. Todos esses produtos movimentaram um considerável aparato industrial e comercial que dava suporte à marca integralista. no período máximo de uma semana. como carimbos e fotografias de Plínio Salgado em vários tamanhos e autografadas.192 canetas esferográficas. E se você não pode vir. em especial n’A Marcha. netos e bisnetos. se você vem ao Rio assistir às comemorações de 7 de outubro. o que gerou um fluxo contínuo de remessas. principalmente no período de setembro a novembro de 1957. foram os responsáveis pela fabricação e distribuição desses produtos. Um exemplo dessa prática foi o serviço de Caixa Postal mantido pelo movimento. as mercadorias integralistas chegavam à residência do consumidor em prazo bastante curto. Empresários. que se valeram de malas diretas e reembolso postal. o Sigma apresentou seus produtos visando atingir os mais variados setores sociais. Perceba a preocupação dos integralistas com relação de seu ideário simbólico junto às gerações futuras. O jornal foi o fórum das discussões partidárias e o armazém mais bem sortido dos integralistas. que dizia o seguinte: Integralista. Nas páginas dos jornais perrepistas. as propagandas desses produtos ganharam vida. Procurando abarcar as mais diversas clientelas. p. . encarregue seu companheiro que vier de comprar e levar 386 para você uma dessas lembranças. é emblemático o texto constituinte da Tabela de preços dos suvenires da campanha dos 25 anos. O interessado enviava seu pedido e os integralistas remetiam os produtos. pratos de louça e discos promocionais 385 com jingles integralistas. Outros materiais foram elaborados. um dos pilares da conceituação propagandística do movimento. 385 A Marcha. especialmente os números de setembro de 1957 a abril de 1958. 386 Propaganda veiculada no jornal A Marcha de 27/9/1957. tais anúncios objetivavam “falar a língua dos que tomavam contato com eles [produtos]”. Assim. a seus filhos. Nesse sentido. Sua vendagem foi organizada pelos integralistas. adquira os objetos que recordam esse fato histórico e guarde-os para que passem. broches.3. Em consonância com a indústria cultural que se formalizara. Grifo meu.

..) Eis porque daqui desta página feminina procuraremos abordar todos esses aspectos. ao colecionador. o que aprofundou as contradições entre as posturas do 387 A Marcha. aos militantes saudosistas. ao adolescente. patriótica e cristã. comunicavam-se com os mais diferenciados receptores. p.. para uma cruzada de redenção nacional pela sua 387 acção decidida. esta dedicada exclusivamente às mulheres(. do pequeno conselho ao trabalho de arregimentação da mulher. de maneira mais específica. O primeiro segmento social a ser atingido pelo assédio propagandístico dos produtos que levavam a marca Sigma foi o das mulheres.. conhecimentos que vão da moda aos cuidados pessoais e domésticos. Vale notar que a realidade feminina da época contradizia o discurso passadista apresentado pelo Integralismo. . dentre outras. tem-se a dimensão de como o direcionamento se deu: A Marcha em sua nova fase não quer levar apenas as notícias semanais aos seus leitores e a orientação doutrinária.. ao invés de companheiras. o das donas de casa. Tal postura indica os limites da modernização do discurso integralista: as mulheres.Além desses objetivos procuramos despertar para os problemas sociais. Falava-se à dona de casa. Os anúncios integralistas buscavam. ao trabalhador. seguiam sendo caracterizadas pelas funções domésticas. Esta rotulação limitava a sua ação social. deseja como um jornal de base cultural penetrar mais profundamente nos lares.. ao provedor do lar.193 Por meio dos anúncios. comunicar-se diretamente com a figura da mulher dona de casa. apresentando um significativo número de produtos. No estrato abaixo. e para isso instituiu. assim sendo uma reparação rigorosa e completa lhe deve ser ministrada tendo por base a educação integral (.. uma vez que ela era vista pelo integralismo como a responsável pela administração do lar. portanto é oferecer tudo que seja importante para a mulher para o desempenho de sua elevada missão.) Nosso objetivo. 5/4/1958.. ou. de acordo com os integralistas.5.

muitas vezes. Venha participar das sessões de doutrinação. o que trata das eventuais dores e rega as alegrias do lar. no entanto desapontar a tríade de sua vida. A educação feminina era defendida com o objetivo de preparar a mulher para ser uma mãe melhor. sua esposa e todos juntos serão trazidos à verdade. Simultaneamente aos estratagemas utilizados para aproximar a dona de casa da doutrinação. os anúncios voltados aos militantes propriamente ditos eram divididos em algumas 388 A Marcha.Deixe que o PRP 388 venha até vc. seguindo uma das preocupações mais diretas do partido: arregimentar novos simpatizantes para a sigla. No discurso médico. atestando o descompasso integralista. Lá vc poderá levar seus filhos. e atentos aos demais segmentos da sociedade.5. por exemplo. resquícios bastante marcantes de tal postura. nos anos 50. a família depende de vc.mãe. visando abarcar um amplo espectro de pessoas. no qual a mulher interagia tão somente no sentido de proporcionar à família bemestar e comodidade.194 partido e a prática social. No trecho abaixo é clara a preocupação do partido em trazer para seus quadros o provedor do lar: Poesia para o Bom Homem Se tu és o provedor do Lar. mais preparada. que se confundiam. A figura masculina foi privilegiada.possuía papel de destaque nos projetos integralistas. com a própria doutrinação. A despeito da questão sobre a subserviência feminina no integralismo. O integralismo depende de vc. A casa continuava sendo vista como o espaço social feminino. uma campanha conjugada. então. a maternidade. p. . Evidenciou-se. os integralistas defendiam o casamento. Não podes. para ter condições de formar seus filhos sob novos critérios higiênicos etc. os integralistas afinaram sua busca de prática doutrinal. Nos anos 30. a mulher . ter sido mais complexa nos anos 30 percebe-se. A Nação depende de vc. dona de casa . 15/9/1956. condenavam a luta pela emancipação feminina e também incorporaram uma série de valores modernos em relação à mulher e à família. Obedecendo a estratégias bastante variadas. Vc que provê seu lar provenha de inteligência sua família.

e aquelas cujo texto dirigiu-se a um público indiferenciado: Todos podem se filiar ao PRP: se não vejamos: podem ao menos ajudar aos companheiros consumindo seus produtos: Um caixa de fósforos. (a exemplo dos Águias Brancas). um calendário rememorativo que contemplou festas populares. A despeito das comemorações dos 25 anos do integralismo servirem para colocá-lo novamente na ordem do dia. não foram suficientes para revigorar o movimento. as de interpretação subjacente: “O Brasil anda bem? Porque você não o Recupera e o melhora Praticando?”. as que traziam embutidos nos textos um “chamamento imperativo”: “seja um correligionário do PRP!”. explorando pontos de aproximação particulares. uma marca de cigarro que vc mude. para a imprensa não integralista. a força e a possibilidade desse ideal mostraram-se profundamente arcaicos frente à realidade dos anos 50 e 60. o descompassado discurso integralista havia caducado devido à contradição que sua permanência causava ao estabelecimento da democracia. um selo. Segundo os jornais de grande circulação. constituição de novos órgãos ligados ao partido. passando a fumar Cigarros do Sigma. bem como a produção de uma série variada de produtos que ostentavam a marca integralista. 389 A sofisticação das estratégias arquitetadas pelos integralistas criou. você está ajudando a nos promover. Independente de tais estratégias e do grau de sucesso conseguido por elas. simulações históricas. mostrando ao Brasil que somos bem mais que meros arregimentados de pessoas e idéias. mas sem dúvida foi este um dos mais interessantes e contraditórios momentos vividos pelo integralismo. Somos o partido da Nação. As propagandas comparativas: “Somos nós o diferencial entre o passado carcomido e o futuro representável”. Entretanto. a aceitação. As celebrações não se limitaram às festividades públicas e às mordazes críticas trocadas com a imprensa. percebe-se que os agentes de celebração conseguiram congregar a propaganda e a doutrinação com vistas à efetiva partilha de seu ideal: um futuro partilhado por todos aqueles ligados ao movimento. 389 Todos esses anúncios foram publicados no jornal A Marcha durante os meses de março a setembro de 1957.195 sessões específicas. no espaço de seis meses de celebrações. .

Neste sentido. o antagonismo criado entre o movimento integralista do pós-guerra e a imprensa de grande circulação favoreceu a permanência do integralismo nas discussões e páginas dos jornais. que não estava tão morto assim havia conseguido permanecer no cotidiano das páginas dos jornais. Assis Chateaubriant foi profético: o cachorro morto. tipo de aparição que serviu. apresentando-se como parceiro do novo regime. mas atraindo para si a luminosidade de holofotes coadjuvantes. Em decorrência disto. na sua forma mais acabada. agora instituído como presidente do partido. As intenções corporativistas do partido.196 Resumo da ópera O contexto político dos anos 50 diferiu profundamente daquele que viu nascer o integralismo. mesmo congregando os matizes mais variados. No entanto. a partir de finais da década de 1950. ideologia política inadequada à nova conjuntura político-democrática. Acusados de não possuírem propostas adequadas nem para o presente nem para o futuro os integralistas fixaram suas investidas nos poucos jornais que o movimento dispunha. assim como sua postura antiliberal arrefeceram-se. nunca como protagonista de uma efetiva reestruturação simbólico-política. Com exceção do anticomunismo. o integralismo passou a requerer status de “atento 390 paladino da nova democracia”. . nada disso ajudava a caracterizá-lo como um movimento político afastado do que fora nos anos 30. Nesse sentido. Adequando-se à nova diretiva pluripartidária. aos olhos da grande imprensa de circulação nacional. tal como enfatizou Mario de Andrade. e da presença sempre marcante da figura do “chefe”. significaram um enorme retrocesso político. nov/1946. O dístico Proh Pudor simultânea e paradoxalmente estigmatizou o movimento integralista ajudando o integralismo a permanecer em evidência. As credenciais integralistas foram cassadas no 390 Boletim PRP/RS. a oposição da grande imprensa frente ao integralismo mostrou-se. os demais elementos fundadores da doutrina integralista passaram por radicais transformações. O PRP passou seus primeiros quinze anos de atuação parlamentar (1945-1960) se defendendo das acusações de envolvimento com o fascismo italiano. que permaneceu como um elemento arraigado da doutrina do novo partido. a imprensa de grande circulação dos anos 50 foi unânime em afirmar que os “jacarés falantes do integralismo”. Em contrapartida. sobretudo para lembrar os esquecidos e incautos que a democracia exigia credenciais bastante claras.

Nacional/Edusp.197 momento em que resolveram retomar sua simbologia. 1971. Edusp. Brasiliense. SP. ORTIZ.(org) Comunicação e Indústria cultural. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. Gilberto. SP. Gabriel. 4 volumes. HALLEWELL. 1998. São Paulo. Cia da Ed. J. HALBWACHS. . Referências A Enciclopédia do Integralismo. Renato. Imperialismo e Cultura. 1984. 1957-1961. IANNI. Três fases do jornalismo Brasileiro. 1976. 1988. FGV/Cepedoc. RJ: Livraria Clássica Brasileira. Rio de Janeiro. 1981. 12 vol. DICIONÁRIO HISTÓRICO BIOGRÁFICO (1930-1983). 1960. Maurice. Vértice. Dissertação de Mestrado na PUC-RS. Otávio. A Nova face do verde: o Integralismo no pós guerra e a criação do PRP.uma história. Presença. O livro no Brasil . CALIL. Petrópolis: Vozes. BAHIA. A Memória Coletiva. Santos. mesmo em nome de uma nova roupagem pseudo-democrática. 1990. SP. Laurence. COHN.

para os representantes do Reich. onde estavam concentradas as colônias alemãs fundadas desde a metade do século XIX. März 1935. Zeitschrift für die Runde vom Auslandsdeutschtum. Ele deixava de fora um grande contingente da comunidade alemã. Neste sentido. Jahrgang 18. Tropicalização é aqui entendido como o processo de amoldamentos e modificações do nazismo enquanto ideologia e nas estruturas organizacionais do partido nazista instalado no Brasil. . Tinha cerca de 2. Mestre em História Social.900 membros.198 10. O Partido Nazista no Brasil estava ligado à Organização do Partido Nazista no Exterior e era o maior grupo das 83 filiais do partido nazista espalhadas no mundo. O anauê que muitos teutos-brasileiros declamavam nas ruas de Blumenau. Por outro lado. historiadora e jornalista. Harmonia e Rio do Sul em Santa Catarina é aqui considerado uma reação “tropical” ao nazismo exportado e segregado que não admitia nas suas fileiras os miscigenados. o integralismo pode ser identificado como uma importante característica do nazismo tropical por ser visto como algo extraordinário que não estava nos planos originais da organização do partido nazista no exterior. p. Na perspectiva do III Reich. os chamados 391 Ana Maria Dietrich é doutoranda em História Social pelo NEHO/ Departamento de História/ USP em parceria com o Centro de Estudos de AntiSemitismo da Universidade Técnica de Berlim. o integralismo representou uma onda 392 de nativismo local que ameaçava o Deutschtum (germanismo) . In: Der Auslanddeutsche. havia um explícito repúdio ao integralismo justificado pelas regras da Organização do Partido Nazista no Exterior que deixavam claro que os alemães não deveriam participar da política local do país de hospedagem (Gastland). 125. ENTRE SIGMAS E SUÁSTICAS Nazistas e integralistas no Sul do Brasil 391 Ana Maria Dietrich Um dos principais efeitos da tropicalização do nazismo foi a adesão de teuto-brasileiros às fileiras do integralismo principalmente nos estados do Sul do país. dos quais a grande maioria (92. 392 “Die integralistische Bewegung in Brasilien“.8%) era de cidadãos alemães. Herausgegeben vom Deutschen Ausland-Institut Stuttgart.

tanto os colonos alemães apoiavam o integralismo. Os Deutschbrasilianer se encontravam em um nível inferior aos alemães puros. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. quanto os integralistas queriam o engajamento desta população. o governo nazista pensou em formas para a inclusão política e social desta “categoria”. o integralismo teria atraído também pelo seu conteúdo ideológico. 1987. 21. Alemanha . Este é um dos motivos indicado pelos alemães nazistas para a grande adesão de brasileiros descendentes de alemães às fileiras integralistas. A solução encontrada foi a formação de uma associação de amigos de Hitler. 396 Revista Deutschtum im Ausland. marchas. Nazismo. René Ernaini. A Federação 25 de Julho desempenhou em grande parte este papel.199 teuto-brasileiros. para defender os interesses desta categoria . Mas. o integralismo com seus desfiles. cuja forma se assemelhava às demonstrações nazistas foi mais sedutor. mas ainda faltava um grande caminho para se tornar uma organização dinâmica e disciplinada. Inferior. Integralismo. Nazismo. Inconformados e estimulados a se engajar politicamente – os descendentes de alemães viram no integralismo uma alternativa viável. René Ernaini. uniformes e hinos. 1937. em 395 tese. Porto Alegre: Mercado Aberto. quanto ideológicos – afinal. mas ainda interessante. Porto Alegre: Mercado Aberto. formaram uma nova categoria dentro de uma maior Auslandsdeutsch (alemães estrangeiros). Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. então recorrer 396 ao integralismo . considerando que a comunidade de teutos somava 900 mil 393 integrantes . Berlim. 1987. que não podiam entrar no partido por não serem portadores da cidadania alemã. que serviria. que não precisariam. Além da “roupagem”. criando-se uma hierarquia racial dentro da própria comunidade alemã. Integralismo. chamados de Deutschbrasilianer (alemãesbrasileiros). Alguns traços de caráter atrairiam a população de descendentes de alemães para o partido integralista: “a valorização da 393 SEITENFUS apud GERTZ. pois representavam uma força que não pode ser deixada de ser considerada – tanto em termos numéricos. Alemanha. Em alemão. o apoio do integralismo aconteceu em via dupla. Segundo Natália Cruz. 394 GERTZ. p. Tal organização representaria os interesses e as exigências dos teuto-brasileiros. ou seja. Ainda que formalmente não lhe eras permitido a participação efetiva dentro do partido. Ministério das Relações Exteriores. 395 Ata R79005. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. 80% desta comunidade era 394 simpatizante do regime hitlerista .

desde 1935. Para conseguir o engajamento desta fatia da população. A mesma autora cita o envolvimento de alemães supostamente espiões nazistas com o integralismo.. a Ação Integralista Brasileira também se valeu de propaganda em alemão. os comunistas e o judaísmo internacional. o sigma sob o mapa do Brasil. Punhal Nazista no Coração do Brasil. por exemplo.200 ordem e do trabalho.. 398 RIBAS. Caracterizando-o tal movimento 397 CRUZ. p.. N..) Anauê! . sempre citando o regime nacional-socialista de Adolf Hitler como paralelo ao que acontecia no Brasil: Se você é um alemão nacional-socialista e é agradecido à sua Pátria de origem. Antonio de Lara. certamente serias Nacional Socialista. fazendo-os se identificarem com um partido realmente nacional. O integralismo é um apelo do Brasil para todos que são aqui nascidos! É um chamado da terra que te 399 acolheu de forma hospitaleira (. observou o crescimento e desenvolvimento do integralismo como força política no Brasil. Os integralistas. 2005. em vez de se ligarem aos partidos tradicionais. 397 que representavam apenas interesses regionais” . nas Legiões Integralistas e vem vestir a camisa verde dos que se batem pelo bem do Brasil” – constava em um panfleto que circulou na década 398 de 1930 . seu braço se levanta para Hitler que fez a Alemanha livre do caos marxista e comunista (. inscreve-te. Mímeo. através de suas associações no exterior. Segundo Cruz. . Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos.) És brasileiro. além de utilizar em sua propaganda efeitos e símbolos similares à da propaganda nazista como.. “. virtudes cultivadas pela AIB. possuiriam um forte “idealismo pátrio”. então ingresse para as camisas verdes lideradas por Plínio Salgado.. (.. portanto. faziam questão de mostrar semelhanças entre os dois movimentos políticos. 399 Ibid. O Estado de Hitler.). havia diversas semelhanças nos princípios do integralismo e do nazismo e ambos tinham como alvo a democracia liberal. Florianópolis.Si tu fosses allemão. Imprensa Oficial do Estado. 137.

Tal periódico contém diversos artigos sobre nao só alemães no Brasil. A Revista Deutschtum im Ausland (Espírito de ser Alemão no Exterior) também se ocupou desta temática. A preocupação era que este movimento iria afetar o Deutschtum (germanismo). mas da América do Sul e do mundo inteiro. com o “Heil Hitler” tropicalizado para o “anauê”. cidade que na época recebeu o título “Cidade dos alemães no Exterior”. engloba o conceito de brasilidade de tal maneira. como se os brasileiros pudessem formar um estado nacional que tem como os europeus do oeste como modelo. Alemanha. 1935. localizado em Stuttgart. Apesar de observar as tendências anti-semitas e o combate ao comunismo. que se apresenta no mundo como um nativismo lusitano. era o periódico do Institut Deutsches Ausland (Instituto dos Alemães no Exterior). Eles caracterizavam tal conceito de raça como Lusotum (lusitanidade) em contraposição ao Deutschtum (germanismo). A suposta “ameaça” do integralismo foi registrada em relatórios realizados pelo corpo diplomático alemão no Brasil e por membros do partido nazista. Observar a maneira irônica que se referem aos brasileiros colocando em dúvida a capacidade de se formar um estado nacional semelhante aos europeus: O integralismo. 401 Tal revista. visto como nativismo lusitano que tinha como “grande pretensão” fazer do Brasil um Estado semelhante aos países do oeste europeu. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. A citação abaixo mostra uma tentativa dos alemães de compreender o integralismo. A visão do III Reich do movimento integralista destacava principalmente a questão racial que visava melhorar a raça com a diminuição da porcentagem de negros e índios e o aumento dos europeus. Atenção especial se dava a juventude alemã. linguisticamente e 400 Revista Deutschtum im Ausland. era completamente contrário a que os alemães e seus descendentes se filiassem a este movimento. que em parte também aderiu ao 400 integralismo . o que eram vistos como aspectos positivos pelo III Reich. . 401 A partir de 1938. o que era enfatizado nos relatórios e artigos é a ameaça ao Deutschtum. é denominada Deutschtum im Ausland.201 pejorativamente como nativismo. denominada até 1938 como Der Auslanddeutsche . também como um Estado que historicamente.

que mostram sedes dos dois movimentos que funcionavam sob o mesmo endereço. Imprensa Oficial do Estado. os discursos se misturavam e a colaboração se dava em diferentes níveis. 1987. Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. através de um enviado. Nazismo. ao mesmo tempo. ao nosso entender tropicalizada. ele afirmou que o Brasil estava ameaçado pelas doutrinas estrangeiras. Antonio de Lara. não-colaboração e até menosprezo. René. p. 404 GERTZ. 405 Ibid. „Die Tätigkeit des Nazismus in Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506. Mas. toda a associação de nazistas deveria ser repudiada pelos integralistas. Integralismo. por exemplo. 116. a realidade dos círculos das colônias alemãs do Sul do Brasil era diferente. Plínio Salgado teria feito um acordo diplomático em que não mais ofenderia os nazistas no seu discurso. os dois partidos nazista e integralista e tinha o símbolo da suástica e do sigma 403 na fachada . formado uma Mesmo com toda esta visão do III Reich de não-aceitação. Germanismo. Alemanha. p. 403 RIBAS. p. Plínio.202 sociologicamente tivesse 402 unidade aproximada. de Santa Catarina. O jornal Blumenauer Zeitung. Da parte das lideranças integralistas. Verificamos alguns registros de fotos. 184.129. em outros momentos. o secretário de estudos da AIB de Pindamonhangaba teria 402 Hünsche. As ordens vindas da Organização do Partido Nazista no Exterior sediada na Alemanha eram obedecidas de maneira diversa. chegou a ser o porta voz dos dois grupos ao mesmo tempo. quando. No livro O Punhal Nazista no Coração do Brasil vemos publicada uma foto de uma sede localizada na cidade de Rio do Sul (SC) que abrigava. Ainda. as atitudes variavam entre aproximações e distanciamentos. Salgado. No mesmo ano de 1936. Florianópolis. apud. No cotidiano destes alemães e teutos brasileiros. Berlim. teria feito em 1935 um contato para pedir apoio financeiro e moral para a luta contra o comunismo. . O Fascismo no Sul do Brasil. fizeram questão de 405 relembrar suas raízes germânicas de seus descendentes . a fim de conquistar a numerosa colônia teuto-brasileira. Porto Alegre: Mercado Aberto. supostamente. tanto Salgado quanto Gustavo Barroso. Punhal Nazista no Coração do Brasil. enfatizando o perigo dos camisas cáquis nazis do qual os camisas 404 verdes iriam proteger o Brasil . fez uma retrospectiva da história do integralismo e mandou publicar um “manifesto diretiva” em 9 de setembro de 1945. Cumpre-se notar que esta fala data do pós-guerra. . November 1941. Ministério das Relações Exteriores. quando estava no exílio.

Anti-Semitismo na Era Vargas. Sao Paulo: Editora Brasiliense. 408 GERTZ. um dos principais veículos da 407 propaganda nazista publicado por Julius Streicher . A influência política alema no Brasil da década de 30. 407 CARNEIRO. também. 135. O. Costumava citar sua descendência alemã. p. p.tau. Barroso permaneceu na Alemanha durante 5 semanas em 1940. E não há dúvida de que Barroso em diversas oportunidades tentou aproximar-se do 409 Nazismo e do Instituto Ibero-Americano. 1995.ac. sendo que parte de sua família tinha o sobrenome Dodt. . fato que nunca aconteceu. para o DAI (Deutsches AuslandInstitut – Instituto alemão do exterior) é colocado o seguinte problema: 406 Ibid. René. receptividade para seus artigos no jornal alemão Der Stürmer. Ele também foi convidado junto a outras autoridades brasileiras para visitar a Alemanha e melhorar as relações entre o Brasil e a Alemanha.203 pedido dinheiro a Embaixada Alemã para uma viagem cujo propósito 406 seria levar o integralismo para uma linha alemã . Barroso teria tido. sobretudo em função de seu ferrenho anti-semitismo. o integralismo foi lembrado pelo jornal no período de seu início (1934-1935) e “esquecido” no momento 408 de sua maior expansão (1935-1938) . chegando a enviar livros anti-semitas de sua autoria para serem resenhados pela revista do instituto. . Mas a tentativa foi frustrada. O mesmo líder integralista tentou em diversos momentos a aproximação com o Instituto Iberoamericano de Berlim. Estudos Interdisciplinários da América Latina y el Caribe. a figura do número 2 do partido integralista. as opções simpáticas de Gustavo Barroso ao nazismo são evidentes: Entre as lideranças integralistas Gustavo Barroso sempre foi considerado o mais germanófilo e pró-nazista. Maria Luiza Tucci. Em ofício da A. http://www.htm 409 Ibid. Todo este movimento não mudou a idéia do III Reich sobre o integralismo que era visto como perigo e ainda mais. Segundo René Gertz.il/eial/VII_1/gertz. Gustavo Barroso. era considerado um grande simpatizante do nazismo. Mesmo com alguns artigos que elogiavam Barroso e outros que demostravam uma simpatia pelo “fascismo à brasileira”. 335. como algo extraordinário.

que neste momento. O discurso ideológico semelhante fez com que os descendentes de alemães se beneficiassem da estrutura integralista 411 para desenvolver o programa do nazismo . como solidariedade a Gastland (terra de hospedagem). Alemanha 412 Revista Deutschtum im Ausland. aos grupos dos partidos nazistas no exterior. Os tais “problemas extraordinários” não estavam previstos nas diversas regras e diretrizes propostas pela A. Em contrapartida. se viam em um namoro comercial muito intenso. Segundo a revista Deutschtum im Ausland. . Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. pejorativamente como uma mera imitação do nazismo. 411 Revista Deutschtum im Ausland. “Nós não conhecemos a expressão “alemães de Blumenau”. dois teuto412 brasileiros haviam morrido pelo integralismo . Os camisas verdes e seu grito de anauê vistos. p. 413 Em Blumenau. nos quais os alemães e seu Deutschtum não seriam valorizados. O problema se intensificou com o golpe integralista e a suspeita de que alguns alemães nazistas teriam participado. 1937. 21. é tida como o principal ponto da tropicalização do nazismo e da resistência à tropicalização proferida pelas lideranças nazistas. idéia que não tinha crédito na Alemanha. Por outro lado. os integralistas utilizavam em sua propaganda que só com o integralismo seria preservado o Deutschtum (germanismo). 1935.” Pelos "mandamentos" dos divulgadores do nazismo no exterior. Isto poderia acabar se tornando um ruído diplomático entre os dois países. Segundo a revista. um grande grupo de estrangeiros. O. p. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. contra toda a vontade e orientação do III Reich. esta mistura ideológica que. como eram chamados os países onde estavam localizadas comunidades de alemães. 136. p. aconteceu no Brasil. Alemanha 413 Ibid. os alemães deveriam ter o cuidado de não se "misturar" com os estrangeiros. existem apenas brasileiros e estrangeiros.204 “A questão do integralismo coloca nosso trabalho alemão no Brasil 410 diante de problemas extraordinários” . sempre haveria uma diferença entre os brasileiros integralistas e os “outros”. causaram sérias preocupações aos alemães nazistas. 20. era proibido aos partidários a participação 410 Ibid. A nosso ver. não devendo nem mesmo usar a língua local.

Entre eles. Die Auslandsorganisation der NSDAP. Junker Dünnhaupt Verlag. região que se concentrava o maior número de teutos e de alemães. Do Rio 414 Ehrlich. o Brasil contaria com 3. principalmente em Santa Catarina (Blumenau. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. havia 10 deveres da A. Schifften der Deutschen Hochschule für Politik. Efetivamente uma grande porcentagem do Deutschtum (germanismo) de Santa Catarina marcha nas fileiras integralistas. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Para provar tal força eleitoral. Heft 13. Temia-se que se os alemães aderissem aos ensinamentos integralistas aconteceria a miscigenação e a raça ariana desapareceria em duas ou três 415 gerações . Alemanha .205 na política local em eleições ou movimentos revolucionários. cerca de 850 mil eram a favor do integralismo. Jaraguá. (Auslandsorganisation der NSDAP – Organização do Partido Nazista no Exterior) instituídos a partir do decreto do Führer de 1937. Segundo Emil Ehrlich. 415 Revista Deutschtum im Ausland. A política da terra de hospedagem deve ser deixada para seus moradores. Berlin. A força do movimento no Sul do País. 19. Os nazistas deveriam se manter neutros com relação à política interna e 414 não poderiam divulgar suas idéias a estrangeiros .3 milhões de votos. 2. nem mesmo por meio de conversas”. com 560 mil e em Santa Catarina. no qual você é hóspede. Não se intrometa nesta política. se concentraria a maior parte de votantes. Apesar da discussão sobre a adesão de teuto-brasileiros. Seguir as leis do país. Joinville. Rio do Sul. a preocupação maior se dava com os alemães. Isto aponta para a adesão dos teutos que votaram e apoiaram os integralistas e também pode ser visto como um dos fatores da 416 dificuldade de se opor politicamente a tal movimento . Participar do movimento integralista infringia diretamente tal mandamento. a revista relata a vitória maciça nas eleições de 1936 dos integralistas nas prefeituras das cidades do Sul. p. também é enfatizada. Alemanha 416 Revista Deutschtum im Ausland. Destes. Emil. Nos anos 1930. Você não deve entrar na política de uma terra estrangeira. 1937. 1937. Nos estados do Sul. II. Harmonia e São Bento) e Rio Grande do Sul. O. os dois primeiros referem-se a este princípio de “não intervenção”: “1. estariam localizados 125 mil adeptos do integralismo. Herausgegeben von Paul MeierBenneckenstein. Der Organisatorische Aufbau des Dritten Reiches. 1937.

. fez com que jornais brasileiros passassem a prestar mais atenção ao partido nazista no 417 Revista Deutschtum im Ausland. São Paulo. sobre as influências nazistas no Brasil. em 1931. Em outro momento. p. morto em Jaraguá (SC). citado como integralista destacado e Comandante da Milícia Integralista. em que se nota uma forte apresentação do 417 integralismo. 661. Imprensa Oficial do Estado. 3. É o caso do alemão Hans Walter Taggesell. Germano Sacht 418 morreu no mesmo dia e local que Ricardo . Nova Hamburgo e Santa Cruz como também das mais novas regiões de colonização no nordeste e leste do estado. 420 Ibid. procurarei mulher que ajude um pouco o marido e não uma que saiba apenas vestir-se bem para agradar outro homem.206 Grande do Sul vem também das antigas regiões de colonização alemã próximas a São Leopoldo. Uma reportagem no jornal inglês Times. datada de 1929: Quando me casar. Alemanha 418Jornal "Acção". Em caso algum. morto em conflito de rua em São Sebastião do Caí (RS) com a polícia em 24 de fevereiro de 1935 e Ricardo Grünwaldt.. Florianópolis. Meus filhos deverão ter sangue limpo e não virem ao 419 mundo sifilíticos. ele escreve: “No que se refere à preguiça e comodismo. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Alguns destes alemães que mantinham este pensamento racista proclamavam-se integralistas. em 7/10/1936 eram os mais lembrados pelos próprios integralistas. . que escreveu em carta para o seu pai na Alemanha. o brasileiro certamente não é superado por nenhum povo no mundo”. 7/10/1937. p. de 3 de setembro de 1937. Em 1932. . 113. 419 RIBAS. ele volta a fazer comentários 420 pejorativos sobre o Brasil. 112 e 113. Junho de 1937. p. chamando-o de “terra de macacos” . José Luiz Schroeder. se alguma vez o fiser. p. Alguns teutos brasileiros chegaram a morrer como mártires da Ação Integralista Brasileira. Vários relatos reportam a esta espécie de “racismo tropical” difundido entre a comunidade alemã no Brasil.. porém com brasileira. Antonio de Lara. Punhal Nazista no Coração do Brasil.

O jornal colocou em cheque a germanização da colônia alemã no Sul do Brasil. principalmente em Santa Catarina. por descaso em eral dos poderes públicos. de controles 421 “O Times e as influências nazistas no Brasil” in Correio da Manhã. Ministério das Relações Exteriores. Ata 104939. Berlim. predilecções. que fazia até o uso de boicote contra empresas que não eram aliadas à causa alemã: Em algumas colônias mais recuadas do centro principal que é Blumenau. foi um destes jornais brasileiros. a) será puramente racial: manutenção de costumes. não é possível a existência de campos de 422 concentração. do Rio de Janeiro. Paralelamente. . isolados. arremedo de regimens totalitários. Alemanha. verifica-se afinal a existência de verdadeiro simulacros de dictaduras. mentalidade pura da raça germânica? b) Ou será particularista. no Brasil. em outubro de 1937. O jornal o Globo. publicou diversas reportagens sobre o movimento nazista no Sul do Brasil e fez várias referências ao integralismo e à “mistura ideológica” entre as duas correntes. de intenção nazista?” O jornal chega a descrever a situação das colônias alemãs no Sul do Brasil como um simulacro das ditaduras alemãs e italiana. Ministério das Relações Exteriores. integra-se sem relutância na nacionalidade brasileira ou resiste?” ou “Qual o sentido desta resistência. 422 O Globo. entregues a si mesmos. afirma-se que havia infiltração 421 nazista . o principal questionamento era com relação a nacionalização do povo alemão no Brasil. e cuja arma principal é o “boycott”. que atento a matéria do Times. de ordem política. Perguntava-se se havia intenção de uma invasão de Hitler no Brasil por uma política de expansão territorial.207 Brasil. 3/09/1937. outubro de 1937. Ata 104939. Alemanha. Segundo o Times. livres. quando se refere à construção de uma Alemanha em solo brasileiro: Os núcleos germânicos. Berlim. O medo da invasão militar fica implícito neste trecho. através de perguntas como “o elemento allemão se deixa de boa vontade absorver pelo brasileiro. desde que.

a opinião é explícita: “Blumenau nao teve o prazer de receber nenhum resultado 423 Ibid. A explicação para tal mistura é que a população teuta condenava o “nazismo de exportação” dos nazistas tradicionais e se identificavam mais com o integralismo. Segundo o jornal. Ao citar as semelhanças entre as duas correntes. enfatizando principalmente a mágestão. tanto do Times quanto do O Globo. que caracterizou-as como uma campanha difamatória contra a Alemanha. Em reportagem de outubro de 1937. A frase foi atribuída para a “gente integralista”. Sem deixar de expressar a sua opinião contra o movimento integralista. tiveram grande repercussão no III Reich. era anti-semita.208 conacionalizadores. costumes e idioma próprios. . com sua mentalidade. sem especificar quem a tinha falado. como o caso do chefe da cidade de Taió (SC). Eles são acusados de maus-administradores. que segundo o jornal. As reportagens foram arquivadas em atas no Ministério das Relaçoes Exteriores e exaustivamente analisadas pelos diplomatas. pelo seu discurso. que compareceu a um ato público em Rio Sul (SC) ostentando o sigma ao lado da suástica. De fato. o jornal abre com a manchete: “Nao prometemos nada”. o jornal faz uma distinção entre dois “tipos” de integralista. uma vez que alguns líderes. poucos meses depois. em abril de 1938. acentuando-se mais o lado germanizado. No corpo da matéria. o jornal publicou também uma série de artigos sobre o governo integralista nas prefeituras. os segundos transgridem estas normas. da parte dos nazistas também havia certa confusão. adensaram-se a sua moda. identificado com Friss. Os artigos. Os primeiros são considerados nacionalistas e lutam pelo bem estar do Brasil. Desse modo formou-se o que alguns commentadores atrícios tem apontado como “um pedaço da Allemanha” tratando de se consolidar sob os céos do 423 Brasil” . anti-comunista e anti-liberal. o partido nazista foi proibido e alguns dos líderes partidários foram presos.

428 Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. Ministério das Relações Exteriores. O que eles chamavam antes de um “Brasil integralista” dada a força com que o movimento se expandiu nos anos 1930. Observações de um blumenauense. .as sinecuras. Alemanha. mas nada ficou provado. Alemanha. Cossel se isenta da culpa com relação ao golpe de 11 de maio 428 de 1938 . os integralistas. p. Algumas prisões foram efetuadas. os trabalhadores que não eram adeptos do integralismo teriam encontrado problemas. Em obras públicas. às obras da Estrada de Ferro Santa Catarina. outubro de 1937. 1938.Berlim. Berlim.o secretário Schubert Jr. 426 Revista Deutschtum im Ausland. Ata 104939. November 1941. 427 Ata R127506. 425 representados pelo jornal “Alvorada” teriam reclamado . entre eles seu líder máximo Hans Henning von 427 Cossel. Ministério das Relações ExterioresBerlim. Como havia muitos trabalhadores nesta obra que não-integralistas. acredita que 424 „Não prometemos nada. a visão do III Reich sobre o integralismo muda de perspectiva. por exemplo. Neste momento. 385. teriam participado do golpe integralista . Com o golpe integralista de 1938. „ A decepção causada pela estréia dos integralistas no governo de Blumenau. 425 „A preferência aos trabalhadores integralistas em obras públicas e os casos que a respeito surgiram em Blumenau.209 verdadeiramente apreciável da propalada açção renovadora e 424 progressista do sigma” . os integralistas passam a 426 serem vistos pelo III Reich como incapazes de se chegar ao poder . com o fracasso do golpe. Ministério das Relações Exteriores. „Die Tätigkeit des Nazismus n Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506. a atenção do III Reich se volta para um outro acontecimento importante na história das relações entre a Alemanha e o Brasil: a proibição do partido nazista local pelo governo brasileiro. O jornal refere-se. Berlim. 384. Ministério das Relações Exteriores. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. outubro de 1937.. A preocupação passa a ser outra: a suspeita de que partidários do nazismo no Brasil. Uma primeira corrente acredita no separatismo entre os dois movimentos e a segunda. Ata 104939. Alemanha. Os estudos que exploram as relações entre o nazismo e integralismo divergem entre si. Em entrevista ao jornal O Radical.” O Globo. Tal acontecimento gera uma série de ruídos diplomáticos e o integralismo e sua ameaça ao Deutschtum é colocado em segundo plano. Alemanha. In O Globo.

temia a influência imperialista do Reich Alemão. Balley apud GERTZ. O nosso levantamento bibliográfico neste artigo se dará de maneira resumida. René. N. Ele acrescenta que os nazistas queriam 430 “dominar” o Sul do Brasil . Cruz enfatiza que apesar das séries de evidências apontarem para uma colaboração entre as duas correntes. 430 DIFFIE. Mímeo.2 Integralismo e nacional-socialismo. indentificam uma corrente com a outra. e o nazismo não simpatizava com a idéia integralista de nacionalização das minorias étnicas no Brasil. como foi o caso de Walter Honig. Natália Cruz e Bailey Diffie. Porto Alegre: Mercado Aberto. 429 CARONE. O Fascismo no Sul do Brasil.2. o que incluiria a assimilação cultural 431 dos alemães residentes no país. Integralismo. Edgar apud GERTZ. Entre aqueles que defendem o colaboracionismo. palestras no Sul do Brasil para esclarecer o racismo alemão e financiamento do movimento 429 integralista pelo Banco Alemao Transatlântico . deve-se levar em conta as diferenças marcadas principalmente pelo caráter nacionalista de ambas. que mantinha relações com os integralistas. Germanismo. 431 CRUZ. O Fascismo no Sul do Brasil. 1987. sem prestar atenção às devidas peculariedades. Edgar Carone cita possíveis variáveis deste colaboracionismo como a publicacao em Santa Catarina do já citado jornal integralista Der Blumenauer Zeitung em língua alemã. 1987. p. Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos. . Germanismo. de uma maneira simplista. p. Porto Alegre: Mercado Aberto. p. . 119-120.210 houve uma grande colaboração. como movimento extremamente nacionalista.. outros estudos que. René. Não se pode desconsiderar que a relação entre o nazismo e o integralismo também era marcada por desconfianças mútuas. Há ainda. Nazismo. chefe do partido nazista no Rio Grande do Sul. já que o integralismo. Nazismo. principalmente o capítulo 4. 119. Recomendamos a leitura da obra de René Gertz supra-citada para o aprofundamento destas questõ es. Bailey Diffie corroborou tais afirmações acrescentando que ações isoladas dos nazistas agiam em prol do integralistas. podemos citar Edgar Carone. Integralismo. 2005.

Outra variável levada em consideração é a diferença regional. assim como Arthur von Magnus. 1987. Neste artigo. Com relação às tentativas individuais de aproximação. tendo em vista os documentos analisados. defende que entre nazistas e integralistas houve mais 432 conflitos que aproximações . Porto Alegre: Mercado Aberto. 122. Germanismo. Tal pensamento a respeito do golpe integralista é 433 compartilhado por Käte Harms-Baltzer . Porto Alegre: Mercado Aberto. . apenas aconteceu em níveis individuais. Germanismo. Na práxis. Ele considera improvável a participação nazista no golpe integralista e acredita. Segundo Manfred Kossok. Germanismo. O Fascismo no Sul do Brasil. Integralismo. Porto Alegre: Mercado Aberto. onde se concentrava o maior número de teutos-brasileiros. integralista e nazista. Ao ver do III Reich. Integralismo. Manfred apud GERTZ. Nazismo. Como se deu a relacao entre integralismo e nazismo em estados de outras regioes do Brasil. René. Nazismo. Nazismo.211 Stanley Hilton. 432 HILTON. 116-121. Nesta última frente. que se houve colaboração. O Fascismo no Sul do Brasil. p. Integralismo. influenciar alemães e descendentes para trabalharem como 5ª. A nossa posição. na posição contrária. O Fascismo no Sul do Brasil. 1987. a história é outra. A tal “mistura ideológica” deveria ser evitada. 121. p. o integralismo era um movimento local de caráter nativista que deveria ser ignorado pelos alemães e teutos residentes no Brasil. 434 KOSSOK. Stanley e MAGNUS apud GERTZ. o movimento integralista e os descendentes de alemães faziam uma oposição ao partido nazista no Brasil. foi pontuado a todo momento que a realidade que analisamos foi da região sul do brasil. 1987. uma política oficial de colaboracionismo entre os dois partidos. em nenhum momento. René. Para Magnus. 433 HARMS-BALTZER apud GERTZ. foi citado pela imprensa alema na época que a subida do movimento integralista ajudou o o 434 Brasil a ser retirado da “órbita americana” . p. René. é que não houve. ainda deverá ser analisado pela historiografia. vemos diversos exemplos que mostram um trabalho em conjunto entre os dois partidos. umas das diretrizes do governo nazista na época seria conseguir a hegemonia comercial e para isto teria se organizado em diferentes frentes: dominar os mercados de matéria-prima. Colunas e colaborar com o movimento “fascista local”.

212 11.) VI Na paz ou nas horas de lucta. necessária. fundada em 1932 e posta na ilegalidade em 1937 pelo Estado Novo. e serve conscientemente. GÊNERO E AUTORITARISMO: representações do feminino pela Ação Integralista Brasileira 435 Tatiana da Silva Bulhões 436 (. têm suas condutas delimitadas. 436 Mestranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (TEMPO/IFCS/UFRJ). sinceramente. honesta. FOTOGRAFIAS. (. MULHER. Deante do qual nunca tenhas de corar de vergonha de ti mesma. caritativa. sê sempre.. temos uma forma de visualizar as representações do feminino na sociedade brasileira. em Deus.). Pelas imagens que o movimento produziu das mesmas. ardentemente. escrito por Iveta Ribeiro e publicado em A Ofensiva. sendo está passível de inserções documentais e revisões até a defesa do Mestrado.. ama.) XI Faze de tua consciência um espelho límpido. neste discurso. a tua Família. produziu e divulgou um amplo discurso imagético sobre o cotidiano de seus militantes e sua ideologia através da fotografia. a tua Pátria. abnegada (. . (Três regras de conduta do “Breviário da mulher integralista”...) Crê. útil. e como tal. simples. assim como no discurso textual... inteligente... respeitosa. e acima de tudo. 435 A análise apresentada neste artigo reflete o estágio atual da minha pesquisa documental. militantes mulheres que participaram do movimento. de 5/1/37) A Ação Integralista Brasileira. As “blusas-verdes”. (.

esquecimento. silêncio”.125. a história”. “Documento/Monumento”. v. denominado por Pollak. Estudos Históricos. Rosa Maria Feitero. 438 Outros exemplos de instrumentos de propaganda utilizados pelo Integralismo são o rádio.525. p. revistas ilustradas. p. o cinema. idéias. “Memória.2. que as fotografias fazem parte de um processo. na década de 1930. Consideramos. Jacques. interessa-nos rastrear os usos e produção de significados dessas imagens e suas utilizações no amplo leque de instrumentos de 438 propaganda utilizados pela A. p. 1989. pessoas. São Paulo: EDUSC. n. A fotografia integralista apresenta uma memória da militância integralista e sua identidade em relação a um Brasil em franca redefinição política e social. 2003.3.7 440 LE GOFF. permiti-nos considerar a fotografia como documento para a história – marca de uma materialidade passada.1999. São Paulo: UNICAMP. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Além disso. tradições e comportamentos contribuintes da formação de uma identidade coletiva e de uma memória que se quis perenizada para o futuro. As referências teóricas e metodológicas que orientam a pesquisa e análise imagética deste trabalho estão intimamente ligadas ao campo de uma história social onde a fotografia é pensada como 437 Muitas destas imagens fotográficas se encontram arquivadas e publicadas pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro à disposição dos interessados.I.213 Considerando-se que tanto a escolha do objeto fotografado quanto a posição de produção de sua imagem são o resultado das condições históricas das relações sociais e expressam os significados culturais de uma época. . ainda. os livros produzidos pelos seus ideólogos. Michael. na qual objetos. Rio de Janeiro. As novas condições de escrita da história. monumentalizando seu dia-a-dia. 439 POLLAK.B. O conjunto fotográfico e os periódicos integralistas analisados retratam militantes e uma autoimagem do movimento. de 439 “enquadramento de memória” . tanto regionais quanto nacionais. o objetivo central de nossa pesquisa tem sido investigar as formas de produzir e divulgar as fotografias do 437 movimento no Rio de Janeiro e o lugar da mulher nas mesmas. lugares nos informam sobre o passado – e também como monumento – algo que traduz valores. no qual uma determinada imagem do movimento e de seus militantes é escolhida e enquadrada como a verdadeira a ser perpetuada e que procura construir no presente a coesão do grupo a que pertenceu projetando essa imagem também para o futuro. tal como sugere Jacques Le Goff quando trata dos “materiais 440 da memória coletiva e sua forma científica. História e Memória. Ver: CAVALARI. panfletos e jornais.

dirigente ou não. por exemplo) e o modo que 441 elas apareciam no material de divulgação. as formas como foram divulgadas (periódicos integralistas ou não. outras histórias. A imagem não existe apenas em função do desenvolvimento técnico ou da possibilidade colocada pelo equipamento. entre outros). Helenice Rodrigues da. da subjetividade de quem o vincula e do sistema social no qual se inscreve a relação sujeito-objeto”. como aponta Bourdieu em seu estudo sobre 441 Tais preocupações com análise da fotografia são similares às de Marta E. Contudo. como sendo.) Muitas memórias. Além disso. bem como as técnicas fotográficas usadas na produção fotográfica. em linhas gerais. Introdução à analise da Imagem. os sentidos dados à fotografia no Brasil da década de 1930.86. Marta E. p. In. apesar de ter como meta a analise do conteúdo do corpus fotográfico (objetos. et al. pág. 1996. como algo que existe para significar ou designar o objeto” e conforme afirma o psicólogo Pascal Moliner “correspondem a um conjunto de crenças. Barbosa em seu trabalho sobre as fotos da seca no Ceará. cabe comparar as representações de feminino nas fotografias integralistas com outras fotos da sua época. p. (orgs. Tais representações se tornam instrumentos de poder integralista. J. Apud SILVA. mas também hierarquias entre eles. separada das questões sociais (quem fotografa? Por que fotografa? Quais as intenções/objetivos?) e do tempo histórico em que foi produzida. São Paulo: Papirus. A Ação Integralista Brasileira. Jacinto. “Os famintos do Ceará”. Representações: Contribuição a um debate transdisciplinar. Martine. do movimento representações dos gêneros.33 e MOLINER. Sendo assim foram delimitadas pela 442 intelectualidade. no final do século XIX. pessoas. Campinas. “a percepção de um objeto como signo do mesmo. intimamente ligadas aos argumentos dos discursos médicos eugênicos e de inspiração cristã desta época. opiniões. Campinas. folhetos. exposições.. In: MACIEL. gestos. 2000. 2004 442 O conceito de representação também é compreendido nesta análise à luz da psicologia social e da semiótica. locais. São Paulo: Papirus. comportamentos referentes a esse objeto. CARDOSO. 1996. Jurandir. construiu em seu discurso textual e imagético padrões de feminino e masculino em consonância com sua filosofia e visão de mundo. Images et représentations sociales – De la théorie des représentations à la étude des images sociales. “A história como ‘representação do passado’: a nova historiografia francesa”. BARBOSA. Pascal. Laura A. Ver: JOLY. consolidando não somente as diferenças. Grenoble: Presses Universitaires de Grenoble. São Paulo: Olho d’Água.16.214 prática social e expressão de relações sociais e significados culturais. . indagando os usos e escolhas dos produtores das fotos. Ciro Flamarion e MALERBA. pretende-se nesta pesquisa ir além desta esfera. entre 1933 e 1937. Ela é constitutiva da realidade desse objeto.

“O mundo como representação”. 1989. . Campinas: Unicamp.137. 11 (5). SOS Corpo. p. evidencia minha opção pelo conceito de gênero tal como proposto por Joan Scott. 1991. Dissertação de mestrado. assim como impõem as definições legítimas das 443 divisões de mundo. contra o casamento e a desigualdade de direitos entre os gêneros. Recife. nas décadas 1920 e 1930. cristão e antifeminista. Modernizando o casamento: a leitura do casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). A fotografia à serviço da propaganda e da memória do Integralismo: o caso da revista Anauê! Na década de 30. intimamente ligadas à sociedade da sua época – por este motivo não são dados “naturais”-. 1991 . onde existem muitas hierarquias. São Paulo. mas onde também são possíveis negociações e 444 improvisações .215 representações. Roger. por exemplo.182. pois estas fazem ver e fazem crer. como fenômeno da sociedade e da cultura de massas. 445 SILVA. marcou e 445 mesmo transformou o discurso conservador destas décadas . era fator integrante da cultura 447 política brasileira e internacional da época e adquiriu enorme 443 BOURDIEU. e que estas estão imersas em relações de poder e de hierarquia. Joan. Dabat e Maria Betânia Ávila). a propaganda política. neste caso aos integralistas . Pierre. O poder simbólico. pp. de fundo biológico. Gênero: uma categoria de análise histórica (tradução de Christine R. A crítica elaborada por mulheres intelectuais. ao pensá-lo como categoria útil de análise histórica e uma forma de indicar as 446 construções sociais dos papéis femininos e masculinos . Cleusa Gomes. 444 Ver: CHARTIER. dão a conhecer e fazem reconhecer. 2001. In: Estudos Avançados. feministas ou não. Ressalto que estas representações não são “criações” separadas da sociedade e do tempo histórico em que foram elaboradas visto que é preciso mais que uma certa sintonia entre aquilo que está sendo mostrado e o público que receberá a mensagem. 447 Entendo Cultura política neste trabalho como “um conjunto de atitudes. p.117 e 118. já que não se pode entender as representações como imposições simplesmente. 446 SCOTT. A consciência de que o discurso integralista construiu representações do gênero feminino.1-3. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. crenças e sentimentos que dão ordem e significado a um processo político. pp. pois elas são muito mais o resultado das relações sociais em determinado momento histórico.

5-12. 452 Ver: BERTONHA. Revista do Serviço Público. Campinas. afirma que a propaganda possuía natureza emocional e para chamar a atenção do receptor deveria estar baseada em “argumentos dramaticamente convincentes e símbolos poderosamente emocionantes”. Uberlândia. “Como se caça a versátil atenção humana”. p. Aline Lopes de. como veículos de propaganda governamental . assim como a imprensa e o cinema. um avanço 448 considerável dos meios de comunicação .34. Dissertação de Mestrado. Rio de Janeiro. “A máquina simbólica do Integralismo: Propaganda e controle político no Brasil dos anos 30”. mar.24. v. 1999.3.216 importância.1. vol. Fotografia e Sociedade. Benedito. p. 449 FREUND. s/d. Hitler. (7): 87-110. Multidões em cena.2.125. 451 LACERDA. Segundo o regulamento da Secretaria Nacional de Propaganda 450 pondo em evidência as regras e pressupostos nos quais se baseia o comportamento de seus atores”. In: Estudos Históricos. a técnica de propaganda se beneficiaria da “falta de pensamento crítico por parte do receptor. KUSCHNIR. em seu artigo nesta revista. p. jul/dez 1992. 1998. por exemplo. incluindo a 452 fotografia. dá algumas indicações do entendimento do sentido da propaganda naquela época. . Maria Helena Rolim. Escola de Comunicação da UFRJ. 450 SILVA. n. atingindo diretamente suas emoções e 451 paixões”. que tirava suas fotos e escolhia as que parecessem mais 449 adequadas aos fins da propaganda alemã. As dimensões subjetivas da Política: Cultura Política e Antropologia da Política. p. n. Fotografia e discurso político no Estado Novo: uma análise do projeto editorial “Obra Getuliana”. ela se faz muito mais a poder de símbolos do que através de argumentos. quando ocorreu.1. Lisboa. na década de 1940. O Integralismo também se insere na cultura política da sua época e utilizou largamente artifícios propagandistas.. a massa. O nazismo e o fascismo se utilizaram desse recurso e sua influência se fez perceber aqui no Brasil. In: História e Perspectivas. São Paulo: Papirus.1940. Editora Vega. afirma que. Heinrich Hoffman. Propaganda política no varguismo e no peronismo. 1998. O Estado Novo também vai utilizar a fotografia. Karina e CARNEIRO. Lacerda ao analisar este artigo. tinha um fotógrafo de confiança. 448 CAPELLATO. Rio de Janeiro. o que tornaria sua leitura de fácil apreensão. Rio de Janeiro. E mais. para manter seus militantes e conquistar mais adeptos . em âmbito mundial. João Fábio. Benedito Silva. Gisèle. A leitura do periódico Revista do Serviço Público . Leandro Piquet.

N. Série Integralismo.217 (S. de circulação nacional. por meio de um questionário. investigando inclusive se existiam integralistas infiltrados no corpo de 457 funcionários e qual a posição do jornal em relação ao movimento . 454 Folhas 97 e 98 da pasta 12.P. Fundo DESPS. também parece indicar esta intenção do movimento de utilizar a foto para propaganda de si: “ (. relata o julgamento do concurso de cartazes. ela era 453 “um dos setores fundamentais da Ação Integralista Brasileira”. mais elegante”. 1959. À medida que se for compreendendo que a revista está intimamente ligada ao trabalho de propaganda de nosso movimento. 457 Folha 107 da pasta 17. por exemplo. 1936. p. v.) A revista Anauê! reflete o carinho dos “camisas-verdes” pela causa do Sigma. seu poder de sugestão e transmissibilidade da idéia”. Um relatório da Secretaria Municipal de Propaganda do 454 Núcleo Integralista de Ipanema . Série Integralismo. que tinha ramificações em nível estadual e municipal. de 1936 . a intenção e a simbólica do cartaz e procurou-se examinar sua capacidade didática. os jornais não integralistas do seu município. As fotografias circulavam em periódicos integralistas e possivelmente em periódicos não integralistas que fossem simpáticos à causa da AIB. 458 Folhas 85-92 da pasta 17. de 30 de maio 456 de 1936 . eram utilizadas com fins propagandísticos e mereciam cuidados e investimentos por parte da AIB. Fundo DESPS.. RJ. indica a importância dada pelo movimento à fotografia como fator de propaganda de si. Anauê!.9. Um trecho do editorial da revista ilustrada 455 integralista. onde ocorreu “uma cuidadosa consideração de desenho e cor” e se avaliou “a significação. aponta como uma das informações que deve conter o relatório do Departamento Provincial de Imprensa “publicações feitas da imprensa sobre o 453 Enciclopédia do Integralismo.). ano II. mais caprichada. Série Integralismo. Uma das orientações da Secretaria Nacional de Imprensa às Secretarias Municipais era identificar. Série Integralismo. mas as imagens em geral.7. Livraria Clássica Brasileira. Uma das perguntas do questionário procura descobrir se o Núcleo tem utilizado a fotografia em seus eventos ou textos de propaganda. n. Um Boletim da Província da Guanabara. A 458 Diretiva n° 1. da Secretaria Nacional de Imprensa. Não só a fotografia. Fundo DESPS. . Fundo DESPS. e ela aparecerá então mais bonita.117. feitos por militantes. irá crescendo o número de assinantes.. datado de 27 de fevereiro de 1937. 455 Anauê!. isto é. 456 Folhas 9 a 12 da pasta 2. apresentados no 3° aniversário da Província da Guanabara.

2000. 2002. p. chegar de forma mais direta e objetiva a nossa compreensão. 461 Cruzeiro. fon”. Observa-se isto em um panfleto sobre a revista ilustrada “Anauê!”. diferentemente do texto escrito. narrar ou comentar visualmente uma história.Rio de Janeiro: Relume Dumará.83. no Brasil e no mundo. enviadas pelo Departamento Provincial de Imprensa”. não enfatizando necessariamente um acontecimento 463 privilegiado”. chamado o “número das multidões”. A Revista ilustrada Cruzeiro. fon!. 1928. nº 5. Esta postura tem como premissa que o que está ilustrado é a própria verdade. nos anos de 1935 e 1936. p. a civilização ascensional do Brasil. Observei na pesquisa à revista ilustrada “Fon. op. de 1935. Jorge Pedro. Florianópolis: Letras Contemporâneas.. que ela reservava algumas páginas para mostrar “o Integralismo nos 459 Estados”.25. com menos espaço para dúvidas. 463 LACERDA. n. Estas orientações internas indicam a existência de esforços para aproximar a AIB da imprensa diária não integralista e que. em períodos semanais. por exemplo.1.B. instantâneo e fiel dessa viagem de uma nação 461 para o seu grandioso porvir”. ano 1. . um tema. textos e imagens do movimento foram enviados pelos departamentos provinciais de imprensa da AIB. 462 FLUSSER.14. 1935-36. p. em todas as suas manifestações. Chapecó: Grifos. Os sentidos de veracidade e confiabilidade ligados à imagem fotográfica também são partilhados pela intelectualidade da A. Vilém. que se propunha à descrição da realidade como 460 ela era . por exemplo. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Tal concordância entre a realidade e sua representação seria reforçada pelo que Vilén Flusser explica ser a capacidade da imagem fotográfica de. A propaganda integralista através da fotografia era reforçada pelo caráter de “foto-descrição” do fotojornalismo. assim como pelos produtores de seus periódicos.218 Integralismo. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. onde se afirma que “é dever de cada núcleo 459 Fon. lançada em novembro de 1928.I. 460 SOUZA. Outra característica do fotojornalismo desta época era o objetivo básico de suas reportagens: “mostrar o desenrolar das atividades cotidianas. em seu editorial advogava ser “o espelho em que se refletirá. no Rio de Janeiro. uma idéia. ser o comentário múltiplo. Segundo ele “o observador confia nas imagens técnicas tanto quanto confia em seus 462 próprios olhos” A confiabilidade naquilo que as imagens fotográficas representam promoveu sua proliferação nas revistas ilustradas da época. dessa época. cit. provavelmente. Filosofia da Caixa Preta.

não é justo que só os núcleos possuam a fotografia do Chefe. congressos integralistas. 465 às famílias. Está feito de modo a ser facilmente destacado e colocado num quadro que deverá honrar a sala de visita de todo integralista. A fórmula utilizada pela revista de conferir ao meio fotográfico a função de mostrar. ano I. jan. como verdadeiros subnúcleos.. seja com sua fotografia sempre presente nas paredes dos núcleos integralistas. seja com sua presença aos eventos integralistas. como concentrações de militantes. n. Série Integralismo. out. o lar. 1935. Na leitura de um trecho do editorial do primeiro número da Revista Anauê!. Além disso. p. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. e principalmente.1.219 e de cada ‘camisa-verde’ assinar a revista. Aí o tem os leitores. assiste igual direito” . tendo o caráter de “mostrar”. encontra-se o incentivo aos militantes para que mantenham a imagem do chefe até no seu espaço privado. o que alarga ainda mais o sentido de onipresença da figura do líder em sua vida diária: “ (. nas suas páginas. através do seu grande número de fotografias e desenhos o cotidiano do movimento. Afinal. Plínio Salgado. O exemplo da revista integralista Anauê! é interessante aqui por ser uma representante do fotojornalismo da época. na casa de militantes. ano 1.. 466 Anauê!. n º 4. 465 Anauê!. . difundir idéias e convencer o receptor da veracidade do seu conteúdo.64. e mais que isso comprovar. Um exemplo do que afirmo está na revista de 466 nº 4. onde estava escrito “Viva o Entegralismo de Plínio Salgado”e a outra focalizando a frente de um “mocambo” em 464 Panfleto 152. é um recurso amplamente explorado na difusão da imagem do chefe e produz um efeito de onipresença do líder integralista na vida cotidiana dos militantes. de 1935 . Por isso não pode faltar nos lares brasileiros o retrato do Chefe Nacional. Fundo DESPS. de 1935. o Chefe não é uma pessoa e sim. está gritando do Acre ao Chuí: nenhuma força humana deterá mais a marcha gloriosa dos 464 soldados do Sigma!”.) o Integralismo é a Revolução da Família./1935. Uma análise desta revista indica vários usos e funções que a fotografia tinha na imprensa ilustrada como fator de propaganda e construção de memória do Integralismo. a Idéia. o nascimento e morte de militantes. Duas fotografias. uma focalizando o muro de uma casinha em Pernambuco. que pela evidência esmagadora dos seus argumentos fotográficos. o que o texto escrito afirma é algo flagrante. A divulgação recorrente da figura do Chefe Nacional. de “testemunhar”.

o Sigma pintado no topo da parede e dois militantes uniformizados do seu lado.220 Recife. sua esposa e seu filhinho fazendo a saudação integralista. O rapaz diz a Mourão que é o único integralista da localidade e que se achava “senhor de muito poucas letras” para fundar um núcleo local. ele diz que seis meses depois ele passou de trem em Mojolos e vários integralistas entraram no veículo. vivo. em um exercício de propaganda do integralismo.No momento em que presto juramento de fidelidade ao Chefe. Na pequena história o integralista Olympio Mourão relata que estava no trem voltando de sua viagem a várias localidades brasileiras. são. observa-se também a valorização das pessoas humildes e sem ou com pouca instrução. onde se vê uma senhora. com poucas letras. . mar/1936. Na revista n º 8 . nas academias. nas fazendas e nas metrópoles que o Integralismo vai penetrando vitoriosamente. A fotografia em conjunto com o texto também estabelece relações. entra um “legítimo tipo do caboclo brasileiro. inteligente e duma chispa de audácia e altivez no olhar”. que se apresentou como Nezinho. descalça com o filho nú no colo. Aí vê o leitor mais duas provas de atração irresistível que a Doutrina do Sigma exerce sobre os brasileiros de todas as categorias. Sobre a frase no muro da casinha o texto ressalta: “E Almeida Salles (um dos militantes da foto) já encontrou a Idéia precedendo o pregador”. Quando Mourão “se preparava para ir ao auxílio daquele integralista de poucas letras e muitas virtudes”. Quando o trem para numa pequena localidade chamada Monjolos. Nestas duas historinhas acima.29. muitas virtudes e inteligência fizera o milagre”. ele também está prestando juramento de fidelidade a mim”. cria afinidades e produz sentimentos de identificação com as 467 pessoas e eventos retratados. p. Além da intenção de comprovar. entra um engenheiro no trem e após escutar a conversa por algum tempo pergunta ao “caboclo” se ele não se sentia “vexado” em prestar juramento de fidelidade a um homem de carne e osso.8. ano II. encontrei um exemplo interessante disto. vemos que a interligação entre foto e texto difunde idéias e procura convencer os leitores. onde “tivera oportunidade de avaliar a força de uma doutrina salvadora e ao mesmo tempo as dimensões das (suas) responsabilidades”. Concluindo o relato. segundo ele: “Nezinho. Ao lado da história. Em outros números da revista também se encontram pequenos contos 467 Anauê!. de todas as classes sociais”. Em cima das fotos um texto afirma: “Não é só nos quartéis. o mesmo com “o olhar vivo e sagaz de quem sabe que domina facilmente o antagonista” responde: “. Enquanto conversavam. uma fotografia mostrava Nezinho. n.

Nos textos desta militante universitária. na maioria das vezes ligados à fotografias. mas detentora de grande sabedoria. a fotografia do casamento de Nayr Ferreira e Theodoro G. n. lutando na vida prática ao lado dos homens com estímulo e alegria. do núcleo de Joinville.11. posando com suas companheiras do Departamento Feminino em frente ao seu núcleo. Pode-se supor que estes textos. A militante integralista também era alvo fundamental da propaganda integralista nas páginas desta revista. Em seus argumentos o Integralismo quer “a mulher superior (em relação à mulher comunista e liberal norte-americana). distribuindo mantimentos e roupas. “Decálogo da boa esposa”. Renneberg. ilustrando o espírito. jul/1936. com crianças e homens a sua volta. Neste pode ser percebido o intuito de construir a imagem da esposa submissa e propriedade do marido. Na Anauê! 469 de n º 3 . ela tenta convencer que o Integralismo não irá privar a mulher “de todos os seus direitos públicos e políticos” e ela 470 não ficará “tolhida no seu anseio de liberdade” . p. Nair Nilza. Sua conduta é delineada através destas imagens e também de pequenos textos. p. n.221 onde o caboclo é citado como uma pessoa simples. Ela aparecia em concentrações. ou casando com algum militante. uniformizada. ago/1935. em uma cerimônia cheia de símbolos integralistas. Ele diz a mãe que a moça não deve gostar de ir a bailes. Os textos e artigos escritos sobre as mulheres eram de autoria de dirigentes. sem autoria. Anauê!. “O integralismo e a mulher”. algo presente a todo o momento na revista.4. No diálogo entre foto e texto. por exemplo. e não se esquecendo nunca de sua condição de 468 Anauê!.8. são direcionados a um público específico. como um. que vai se identificar com eles e se interessar em participar do movimento. está próxima ao texto. no Natal. a militante integralista também é evidenciada. ano II. como também. da integralista Nair Nilza Perez. na Escola integralista junto aos seus alunos. 3. O texto termina com a afirmação “Como este oficial. jul/1936. cursando as Faculdades.22. ano II. ano I. p. que aparece no n º 11 da revista. pensam muitos outros: não julgam capazes de serem boas esposas e mães de família as moças que freqüentam os bailes de 468 hoje”. n. 469 Anauê!. . sem autoria. com suas companheiras. 470 PEREZ. homens e mulheres. sendo a conduta da mulher novamente delimitada. onde um “militar graduado” pede a sua mãe que o ajude a encontrar uma noiva. a partir de 1936.11. voltados para as leitoras.

Modernizando o casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). 1990. as fotografias. A partir de então. Em seu texto.I..31-32. É interessante notar que a produção fotográfica neste momento. 472 Sobre o discurso conservador sobre a mulher nesta época ver: SILVA. médica”. no Rio de Janeiro . fotógrafos e Secretários de Propaganda. Creio que a aquisição de algumas liberdades pelas mulheres neste momento. set /1936. A condição da mulher evoluiu graças à “revolução espiritual” realizada pelo cristianismo e não pelas “lutas femininas por igualdade de direitos”.222 mãe. Nair tenta atrair não só as donas de casa. e se identificavam com seu discurso imbuído de argumentos anti-feministas. aos seus militantes. 2001. de outubro de 1935. lutavam por seus direitos políticos. Dissertação de Mestrado em História. A produção fotográfica e o controle dos códigos de representação social da Classe Dominante. anti-comunistas e cristãos.11. ao contrário dos escritos dos integralistas mais conservadores. quando na leitura de um trecho do apelo da revista. que virá de encontro aos desejos do Chefe Nacional. 34. filha”. p. pp. da mesma forma que o restante da intelectualidade brasileira conservadora da época. mas também de fotógrafos amadores entre os militantes. esposa. 473Anauê!. n° 12. no Rio de Janeiro. Ana Maria. Nair N. adaptar seu discurso repressor e formular uma argumentação.13. A 471 PEREZ. jurista. Sob o signo da imagem. como a obtenção de empregos antes restritos aos homens e o direito ao voto. 474 Sobre o Fotoclube Brasileiro ver: MAUAD. Percebe-se também na revista ilustrada “Anauê!” o uso da fotografia para construção da memória e da identidade integralistas. que atraísse a mulher brasileira . jul/1936. Aqueles que tivessem recursos financeiros suficientes podiam comprar sua máquina. não é mais monopólio de alguns fotógrafos profissionais. mas também as mulheres que queriam ou precisavam trabalhar. fundado em 1923. Tese de Doutorado defendida na UFF. que insiste em que “Anauê!” seja um museu portátil do 473 Integralismo”. n. “o desenvolvimento da civilização (cristã) libertou a mulher dos preconceitos. era tarefa. p. colocando-a no mesmo plano intelectual dos homens e fazendo dela deputada. Rio de Janeiro. 471 escritora. ano II. tanto textual 472 quanto imagética. in: Anauê!. Cleusa Gomes.“A civilização e a Mulher”. fez a A. não só de fotógrafos contratados pela revista. ano II. na primeira metade do século XX.B. nota-se que eles são convidados “a enviar a esta redação a sua colaboração fotográfica. Unicamp. . A produção destes suportes materiais de memória. e até fazer os cursos para fotógrafos iniciantes oferecidos 474 pelo Fotoclube Brasileiro.

B. .I. por volta de 82 fotografias . já digitalizado. a relação entre os gêneros e as hierarquias presentes. O eixo da análise é a codificação da noção de espaço.E. através da atribuição de “tarefas fotográficas” aos seus militantes procurou transmitir a impressão de que estava aberta a todos a construção da memória e identidade do movimento. direita e centro) da foto e objeto central. que compreende o espaço físico representado na foto e sua relação com as “camisas verdes”.S. Estão incluídos aí os itens: sentido (horizontal e vertical). a sua forma de expressão fotográfica.B. No plano de conteúdo. pp. APERJ. da mesma forma que outros sistemas de signos. abriga em si uma forma de expressão e uma forma de conteúdo.). direção (esquerda. o espaço do objeto. que abrange a lógica existente na representação dos objetos e sua relação com a experiência vivida pelas integralistas. 93-96. analiso os seguintes espaços: espaço geográfico.223 A.I. op. analisada aqui. analiso o espaço fotográfico. Estes planos serão analisados separadamente. o espaço da figuração.P. na década de 1930 e apreendida dos seus Núcleos e Jornais no Rio de Janeiro pela Delegacia Especial de Segurança Política e Social (D. criado pela professora Ana Maria Mauad da Universidade Federal Fluminense. 476 Ver: MAUAD. cit. A fotografia. categoria que compreende um estudo das escolhas do fotógrafo. além de uma reflexão sobre o ofício do fotógrafo na década de 30 no Brasil. foi produzida pela A. e finalmente. mas são entendidos como inter476 relacionados 475 475 Estas fotografias fazem parte de um conjunto. da Série Integralismo. A análise de alguns aspectos do conteúdo fotográfico desta série permite também problematizar a representação de feminino produzida pelo Integralismo e sua conduta sendo delineada através da fotografia O método de análise do conteúdo e das técnicas fotográficas neste trabalho se baseia no método histórico-semiótico. No plano de expressão. Visualizando a militante integralista: análise da técnica e conteúdo fotográficos A série fotográfica. o espaço da vivência. após a implantação do Estado Novo e colocação do partido na ilegalidade em dezembro de 1937. que abrange as atividades. vivências e eventos femininos que se tornaram objeto do ato fotográfico. que compreende as pessoas retratadas.S. fundo DESPS.

o Rio de Janeiro. Embora não identificados a identidade do fotógrafo. a fim de expor algumas impressões sobre o conteúdo das fotos. Deve haver uma alegria sã. de união e confluência de interesses entre homens e mulheres. o integralista era informado que neste espaço “não se discute política. onde se tomavam as grandes decisões do movimento. de retratar pessoas. religião. ricos e 477 Como aponta Ricardo Benzaquen477. tendo como valor básico a participação obrigatória e generalizada de todos e buscando a eliminação total de todas as diferenças. RJ. objetos e lugares de seu controle e escolha. 1988. 21. como na relação entre os grupos sociais e o Estado. . o enquadramento predominante da mulher no corpus fotográfico é: sentido horizontal. suponho que se usou uma máquina leve e com alto nível de definição da imagem em variadas condições luminosas. devido à presença de fotografias com a movimentação dos seus atores e em alguns momentos fora do espaço privado. participando ativamente como colaboradoras do movimento. pois todos ali são companheiros. A mensagem transmitida por essas escolhas espaciais enfatiza significados de aglutinação. de coletividade. Identifiquei alguns aspectos do plano de expressão das fotos: o tipo de foto que predomina é a fotografia posada. O Núcleo integralista era o espaço por excelência da normatização e do controle do militante. verifiquei que o espaço geográfico predominante é o urbano. na medida em que persegue um ideal de sociedade uniforme. Totalitarismo e Revolução. Zahar. suponho que ocorreu um deslocamento do espaço privado de controle do feminino. do lar para o núcleo integralista (na maioria do conjunto fotográfico elas aparecem em núcleos ou espaços integralistas fechados e observada pelos integralistas homens). pugnas de futebol. direção central e o objeto central é a figuração coletiva. contrariando o discurso de alguns integralistas mais conservadores. o aplicarei. nem se fala mal de ninguém. mostrando a intencionalidade do fotógrafo. O Integralismo de Plínio Salgado. No plano de conteúdo do conjunto das fotos. e de quem encomendou a foto.B . estando esta análise sujeita a revisões ao longo do processo de pesquisa. p. ARAÚJO. a visão de mundo integralista tem o caráter totalitário. de forma simplificada. a extensa legislação chamada de Protocolos e Rituais. Ricardo Benzaquén de. e o equipamento fotográfico utilizado. Em uma das leituras obrigatórias de todo integralista. As mulheres estavam presentes nestes momentos. Embora elas não estivessem no espaço privado. que estão 477 estreitamente relacionados com o caráter totalitário da A.224 A seguir. ou dos fotógrafos. sem divisões.I. tanto no interior da sociedade. comunicativa.

capítulo VIII.98. recomendadas pelo Protocolos e Rituais que estivessem nos Núcleos integralistas. somente existe a militante integralista. p. frases. . que segundo Geraldo era utilizada pelo movimento como instrumento de 479 militarização. em 1937. tirada no Núcleo da Gamboa. 479 GERALDO. Ao fundo. Rio de Janeiro. Edição do Núcleo Municipal de Niterói. em uma data não identificada da década de 1930. assim como uma padronização da postura. Nós a ergueremos. Em outra foto (I0139) abaixo. Dissertação (Mestrado em História). Na parede da direita está pintado o texto: “Nós despertaremos a Pátria. artigo 89. Um exemplo do que está sendo afirmado aqui é a fotografia I0137. e a presença da Educação Física na A. promovendo disciplina e hierarquia . 2001. vemos meninas levando bicicletas no último desfile do movimento. Unicamp. A sua presença. as bandeiras nacional e integralista e no centro delas a foto do Chefe Nacional. pintadas na parede ou em cartazes. No espaço do objeto estão à sua volta objetos do cotidiano integralista.B. e ali estão unidos pelo bem do 478 Brasil”. símbolos integralistas como o Sigma e a bandeira integralista. a fronte erguida. posam para o fotógrafo. miniaturas do cristo crucificado. que estão imbuídos de uma gama de simbologia e ritualística: uniformes. a foto de Plínio Salgado.225 pobres. De pé. Tais objetos garantem a manutenção da identidade da integralista. A raça e a nação: a família como alvo dos projetos integralistas de nação brasileira nas décadas de 20 e 30. indica também a representação homogênea e única das militantes. 1937. além de divulgar os ideais de nacionalismo e de respeito e obediência ao Chefe Nacional. não há indícios de individualismo. com a mesma postura e posição. ela dará o primeiro passo e marchará”. exposta abaixo. poderosos e humildes.. Endrika.I. Rio de Janeiro. de acordo com seu gênero. 478 Protocolos e Rituais. a bandeira nacional. As militantes uniformizadas.

226 Foto I0137 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Foto I0139 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Analisando o espaço da figuração. notei que a mulher. ser . Estas representações indicam as associações feitas pelo integralismo com a figura feminina: exercer seu papel “natural” de maternidade. na maioria das fotos vem acompanhada da presença masculina e infantil.

orientar e controlar as atividades femininas no Movimento” e o Departamento dos Plinianos “reunir.. em toda a série fotográfica selecionada. .F. estão relacionadas à A. 9. no espaço da vivência observei que as atividades e vivências femininas retratadas pelo fotógrafo. o olhar fotográfico contemplou atos oficiais . O Departamento Feminino tinha por objetivos “arregimentar.reuniões da Secretaria de 482 Arregimentação Feminina e Plinianos .168. sendo que cada um destes subdividia-se nos Departamentos Nacional. 482 A S. essa militarização do corpo. apontam para a intenção de militarizar corporal e psicologicamente seus integrantes. o que mostra a intenção em retratar que as mulheres desde muito cedo se tornam “soldados do integralismo”. todos os brasileiros. solenidades nos Núcleos Municipais. a conduta feminina no discurso integralista é delimitada utilizando argumentos dos discursos médicos eugênicos.aponta para a representação da mulhersoldado integralista. onde o público feminino e as dirigentes são o principal foco.N. Sacralização da política. comício pró-candidatura de Plínio 480 480 Como afirmamos anteriormente. disciplinar. desfiles públicos. a mesma representação feminina disciplinada e obediente. Provincial. Municipal e Distrital. cit. p. intelectual e físico”. além de uma linguagem bélica no seu discurso. 481 Sobre este discurso de militarização corporal dos brasileiros ver: LENHARO. 2 ed.A. Idéias eugênicas e fascistas de melhoria da raça pela sua disciplinarização e “docilização” através do esporte e de defesa de uma militarização corporal e psicológica dos brasileiros – tornando-os “soldados da pátria” -. de ambos os sexos. Campinas. é flagrante. onde elas esboçam um sorriso . Alcir. A postura ereta e rígida . vol.A. Nas fotografias onde estão presentes crianças e adolescentes.P. In: Enciclopédia do Integralismo. através da escola ativa. de modo a realizar o seu aperfeiçoamento moral. cívico. até 15 anos de idade. 1986. tendo cada um deles uma chefia. esse aprimoramento físico. Não há fotos de vivências femininas que não sejam aquelas no âmbito da convivência com seus companheiros integralistas. op.N.I. com algumas exceções.P era composta pelos Departamentos Feminino e de Plinianos. Na fotografia onde mulheres integralistas são retratadas. e educar.F.. Sendo assim. de uniformes no cotidiano de militantes e dirigentes. perpassam o discurso da intelectualidade brasileira na década de 481 1930 . finalmente. E. Regulamento da S. congressos femininos.a mulher está com o semblante sério e de braços cruzados em praticamente todas as fotos coletivas. também é vista a mesma postura e gesto.227 “colaboradora” e dependente do homem .B. defendido pelos intelectuais integralistas. SP: Papirus. Os integralistas se inserem nessa discussão e a presença de milícias organizadas no movimento.

virados em direção ao nascer do sol. Lisboa: Relógio D’água Ed.228 Salgado.B. Batizado de plinianos. p. cit. Técnica. Walter. 1992. onde os militantes no dia 23 de abril.113 a 115. neste trabalho. festas dos plinianos. 484 CAVALARI.I. entendia o exercício da política pelos seus militantes muito mais pela sua participação em desfiles. é incentivada pelo movimento (a ponto de uma integralista discursar em apoio a Plínio Salgado no comício de sua candidatura).62. 485 BENJAMIN. em 1933. e não através da discussão ou da liberdade de expressão. Contudo. retratada em votações. juravam fidelidade ao Chefe Nacional e ao Integralismo.. como se fossem cerimônias católicas. Além disso. Sobre Arte. mesmo sendo óbvio que as militantes iriam votar em Plínio conscientes e orgulhosas de seu ato. visita aos militantes nas suas Universidades. op. Linguagem e Política. Considerações finais Para Concluir esta exposição.B. gostaria de esclarecer que não é meu objetivo vitimizar a mulher integralista ou localizar a fonte da dominação num ponto fixo. entrega de mantimentos às famílias carentes e momentos de descontração com os militantes. mas sim analisar e problematizar o discurso imagético produzido pela Ação 483 Solenidade criada para homenagear o primeiro desfile integralista. A participação política feminina.. Sobre esse modo de se fazer e exercer a política concordo com Walter Benjamin ao afirmar que “o fascismo tende naturalmente a uma estetização da vida 485 política”. p. Um aspecto nos atos oficiais me chamou atenção. Isto fica claro ao notar que não há fotos de mulheres em comício de outros candidatos ou votando em outros candidatos. Não há uma só atividade entre estas citadas acima que não esteja imersa em rituais ou simbologias ligadas à A. e no comício da candidatura de Plínio Salgado. sessões de entrega de diplomas às militantes que fizeram cursos oferecidos pelo Integralismo e o evento integralista denominado 483 “Matinas de Abril” – e atos cotidianos do movimento – Casamento de militantes. Cavalari aponta que o Integralismo distribuiu milhares de panfletos no Brasil inteiro incentivando o voto feminino e que ele queria conquistar 484 este voto para chegar à presidência.I. a A. em rituais. provavelmente para escolha de dirigentes. o outro masculino. “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. o exercício da política pela mulher é visualizado na fotografia de forma estritamente ligada aos interesses do movimento. em São Paulo. concentrações. ..

229
Integralista Brasileira e as formas que este era divulgado e imbuído de um caráter verídico. Por meio de um exercício de intertextualidade, meu propósito é mostrar que a fotografia, pensada como expressão de relações sociais e significados culturais, foi utilizada pelo movimento como forma de poder, ao usá-la para propaganda política e construção de sua memória. Deixando claro, o desejo de abandonar um viés explicativo do uso desta imagem para “manipular” mentes inocentes ou vítimas do processo. Identificando aspectos da forma integralista de ver o feminino e o mundo, tais como a militarização, a determinação biológica, o catolicismo, além dos usos e funções que a fotografia teve para o movimento, adquire sentido a representação da mulher-soldado integralista, com seu corpo militarizado, obediente e disciplinada, se comportando, politicamente e socialmente, da forma que ele quer. Embora a pesquisa aos periódicos integralistas e não integralistas favoráveis ao movimento, além da busca às informações sobre os fotógrafos que produziam as fotos integralistas, ainda estejam inconclusas, vislumbrei com as fontes que possuo a delimitação da conduta feminina, alvo da propaganda do movimento através da fotografia, e a naturalização das relações e diferenças entre os gêneros. Este Discurso imagético determina a conduta ideal pela presença de representações pautadas na ideologia integralista e censura a conduta, chamada pelos militantes de “vergonhosa”, pela ausência de representações pautadas na liberdade feminina.

230

12. 1955: A CAMPANHA DE PLÍNIO SALGADO À PRESIDÊNCIA

486

Gilberto Grassi Calil

487

O movimento integralista é quase sempre lembrado por sua trajetória nos anos 30, quando constituiu uma organização de massas com projeto fascista e forte mobilização de setores médios. Um dos poucos eventos lembrados da trajetória integralista posterior ao Estado Novo é a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República, em 1955, quando obteve expressiva votação. A apresentação da candidatura do “Chefe Integralista”, no entanto, não foi um fato isolado e eventual mas, ao contrário, pode ser melhor compreendido se analisado no contexto da trajetória do integralismo durante o chamado
486 Este artigo é parte do sexto capítulo da tese de doutorado O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965), defendido em fevereiro de 2005 na Universidade Federal Fluminense, sob orientação da Profa. Dra. Virgínia Fontes. 487 Professor adjunto do Colegiado de História e do Programa de PósGraduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná; Doutor em História Social (UFF).

231
período democrático (1945-1964), particularmente através do Partido de Representação Popular. Este artigo tem como objetivo discutir a importância desta candidatura neste contexto, situando-a em uma fase específica da trajetória do integralista no pós-guerra, iniciada em 1952, a qual denominamos de “independência partidária”, em oposição ao período anterior (1945-1951), cuja ênfase principal da estratégia integralista era a realização sistemática de alianças com os mais diversos partidos políticos, visando a obtenção do reconhecimento do alegado “caráter democrático” do integralismo, a consolidação de seu registro partidário e o acesso a postos governamentais e 488 parlamentares, no âmbito dos estados e municípios.

A política de independência partidária No início da década de 1950, o processo de institucionalização do integralismo estava bastante avançado, com a consolidação do PRP como instrumento fundamental de sua intervenção política. Naquele momento, no entanto, uma expressiva parcela da militância integralista mostrava-se descontente ou desanimada com aquilo que percebia como uma “acomodação” do movimento, manifestando seu desejo de uma retomada da ofensiva política por parte do integralismo. As reações de descontentamento frente à nova estratégia assumida pelo integralismo no pós-guerra ocorreram desde os primeiros movimentos de articulação partidária, em 1945, mas intensificaram-se em conseqüência dos resultados modestos obtidos pelo PRP nas eleições de 1950. Em resposta a este descontentamento e à tendência à estagnação do PRP, entre 1952 e 1957 a direção integralista tomou um conjunto de iniciativas visando dinamizar o movimento, dotá-lo de novas estruturas e colocá-lo politicamente na ofensiva. A primeira destas iniciativas foi a “independência partidária”, que tinha como objetivo o lançamento de candidaturas próprias pelo PRP e o reforço de sua identidade integralista. O principal desdobramento desta política foi a candidatura presidencial de Plínio Salgado, em 1955, que teve grande impacto no interior do integralismo e colocou-o no centro do embate político nacional.

488 Ver a respeito 1945-1952: Afirmação Institucional e aliança com o pólo conservador. In: CALIL, Gilberto. O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965). Tese de Doutorado. Niterói: UFF, 2005, p. 379-437.

232
A proposta de adoção de uma “política de independência partidária” surgiu de um grupo de integralistas do Rio Grande do Sul, descontentes com o acordo que o PRP estabeleceu com o PTB nas eleições municipais em 1951 e com a fracassada tentativa de obter cargos no governo estadual petebista. Como afirma a historiadora Claudira Cardoso, “como resultado de todo esse processo, percebemos que a direção do PRP sofreu um certo desgaste, na medida em que os acordos firmados com outras agremiações não 489 trouxeram concretamente os resultados esperados”. Em depoimento oral, Alberto Hoffmann, dirigente do PRP na época, também explica a “independência partidária” como decorrência dos insucessos do partido nas coligações até então, relatando que: “o pessoal estava desiludido 490 de coligações”. Em setembro daquele ano, Salgado recebeu “uma moção da concentração regional de Novo Hamburgo, aprovada também pelas de Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Ijuí, Caxias do Sul, Passo Fundo e Bagé, pela qual os populistas gaúchos desejam fazer uma política independente, sem quaisquer acordos com outros partidos políticos, nem mesmo quando houver nestes acordos relação com os interesses 491 nacionais do PRP”. Em 1953, o descontentamento com a política de alianças do PRP no Rio Grande do Sul levou à construção de uma candidatura própria ao governo estadual nas eleições do ano seguinte. A defesa da “independência partidária” foi levada à Convenção Nacional do PRP pela bancada do Rio Grande do Sul, propondo que o PRP deveria “disputar sempre que possível com candidato próprio a governança estadual” e, “em caso de não ser absolutamente possível a candidatura própria ao cargo acima e aconselhável o apoio a outro candidato, fazê-lo com a mais completa independência, não solicitando e nem acordando a cessão de cargo algum”. Além disso, solicitava “que determine o Diretório Nacional estudar a viabilidade do candidato próprio à presidência da República, como expressão de independência
489 CARDOSO, Claudira. Partido de Representação Popular: política de alianças e participação nos governos estaduais do Rio Grande do Sul de 1958 e 1962. Dissertação (Mestrado em História). Porto Alegre: PUCRS, 1999, p. 26-27. 490 CALIL, Gilberto Grassi & SILVA, Carla Luciana. Depoimento de Alberto Hoffmann. Porto Alegre: CDAIBPRP, 2003, p. 34. 491 Correspondência do Presidente Nacional do PRP Plínio Salgado ao Vice Presidente em Exercício do PRP-RS, Guido Mondin, 1.9.1952 (CDAIBPRP). Os acervos consultados serão referidos pelas siglas: CDAIBPR (Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Representação Popular, em Porto Alegre) e APHRC (Arquivo Público e Histórico de Rio Claro).

233
partidária”. Embora aquela Convenção não tenha aprovado uma política nacional de “independência partidária”, definiu “que o Rio Grande do Sul iria com chapa própria, tanto para deputados estaduais, como federais, senador e governador de Estado, devendo nas demais unidades da Federação o partido tomar as deliberações que fossem 493 mais convenientes”. Em março de 1954, a VIII Convenção Regional do PRP gaúcho aprovou, por 23 votos a 16, proposição que estabelecia que “O PRP não fará coligações, alianças ou acordos 494 bilaterais com nenhum partido”. Ainda naquele ano, a IX Convenção Regional do partido aprovou uma proposição que reivindicava o aprofundamento da linha de “independência partidária”, solicitando “que a convenção se dirija ao Diretório Nacional, propondo a independência partidária em todo o território nacional, e que em 1955 o PRP concorra com candidato 495 próprio à Presidência da República”. O manifesto de lançamento da candidatura própria, de Wolfram Metzler, afirmava que “depois de termos, sinceramente, tentado colaborar com outras entidades partidárias”, o PRP decidira “total desligamento de todo este passado político caracterizado pelo despistamento, pelo não cumprimento da palavra empenhada, pela pasmaceira administrativa, pela falta de planejamento e de realizações 496 concretas e definitivas”. O relativo êxito da campanha de Metzler, obtendo 8,4% dos votos e aumentando as bancadas estadual e federal de deputados, estimulou a militância dos outros estados a mobilizar-se pela candidatura própria à presidência. Ainda no início de 1954, o jornal Diário de Notícias relatou esta mobilização, apresentando-na como reação ao esvaziamento do partido: A maioria dos elementos do PRP com assento nos diversos legislativos foram eleitos em coligação de legenda, principalmente com a UDN. Depois de eleitos, por força de atração, foram sendo assimilados pelos partidos. É o caso nítido do deputado Raymundo
492 Ata da XI Convenção Nacional, 11.12.1953 – Livro de Atas da Fundação e das Convenções Nacionais do PRP (APHRC - Fundo Plínio Salgado 023.004.004). 493 Convenção Nacional do PRP. A Marcha, Rio de Janeiro, 18.12.1953, p. 9. 494 Ata da VIII Convenção Regional do PRP-RS, 21.3.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 495 Ata da IX Convenção Regional do PRP-RS, 25.7.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 496 Ao povo do Rio Grande do Sul: Lançamos Wolfram Metzler porque não queremos que o Rio Grande continue se empobrecendo, espoliado por falsa política (Panfleto) (CDAIBPRP).
492

propagada por setores conservadores. . a opção pelo lançamento da candidatura de Salgado já havia sido tomada. nem mais nem menos do que um “partido único” (tipo nazista. a morte da Democracia. a Direção Nacional do partido já discutia o lançamento da candidatura de Plínio Salgado. Nessas condições. Rio de Janeiro. O mesmo aconteceu com o deputado Jorge Lacerda. que não pode subsistir sem 497 Vai voltar à atividade política a Ação Integralista Brasileira. especialmente. para isto.. pois outra coisa não seria o conglomerado dos partidos em torno de um único nome. Naquele momento.) são os primeiros a pretender em nosso país. É muito hipócrita. era necessário combater a proposta de uma “candidatura única”. de acordo com Salgado. de modo a salvar o partido. agora às vésperas 497 das eleições. 21. Naquele momento. de Santa Catarina. sob alegação de que fariam o país retornar à instabilidade política e social do governo Vargas. fascista ou soviético). cujo objetivo era a imposição de uma “união nacional” visando o lançamento de uma “candidatura única” nas eleições presidenciais. O movimento pela “candidatura única”... seria responsável pelo “enfraquecimento da consciência da diferenciação partidária. É de pasmar que esses homens que sustentam. e diante de tais evidências. após o suicídio de Getúlio Vargas e no contexto conservador do governo Café Filho. No entanto. capitaneado pela UDN. das proposições contrárias ao pluripartidarismo. Diário de Notícias. A Marcha.1954 (CDAIBPRP). O PRP contra a União Nacional No final de 1954. o dispositivo da Constituição que proíbe até mesmo a inscrição nos programas de partido. 498 Adhemar de Barros acredita na democracia. os ortodoxos do partido resolveram forçar o sr. na prática. o que pode determinar a morte dos partidos e. o que levou os integralistas a ironizar a proposta de “união nacional”: Os que se arrogam defensores da Democracia em nosso país (. Este movimento opunha-se às prováveis candidaturas de Adhemar de Barros e.234 Padilha. 1. Porto Alegre. de unhas e dentes. também considerado hoje em dia mais udenista do que do PRP. querem burlar essa 498 mesma Constituição. p. de Juscelino Kubitschek. É muito farisaísmo. Plínio Salgado a tomar uma atitude heróica.1954. logicamente..12. constituiu-se um forte movimento. 2. sejam eles quem.2.

o motivo do 500 desencanto do eleitorado brasileiro pelos partidos”. cujo termo expressivo é o ‘cambalacho’ e cuja concretização se chama ‘barganha’. ainda permanecia a articulação dos setores mais conservadores em defesa da “candidatura única”..Fundo Plínio Salgado 011. p. os dutristas e os dorminhocos da “eterna vigilância”. nomeando um Presidente da República. 3. Etelvino Lins. em última análise. 501 SALGADO. Plínio. O povo brasileiro não suportará este esbulho e saberá reagir a essa nova forma de 502 subversão. sondagens e consultas vem sendo feitas. 14. 1 e 4. Mas isso não é democracia e muito 501 menos democracia do tipo liberal. A Marcha. começam a falar em “salvação nacional”. p. A Marcha. o lançamento da candidatura Kubitschek pelo PSD era legítimo e deveria ser respeitado pelos demais partidos: Quando um partido. naquele momento duramente criticada por A Marcha e considerada como uma farsa e uma ameaça à democracia: O ponto básico das “demarches” fixa-se na retirada de todos os nomes atualmente em foco como candidatos.1955. s. 10.010).(abril 1955)– Original datilografado (APHRC .6. Rio de Janeiro. como no caso do PSD. impor ao povo mais essa farsa. Nesse sentido. (. 499 499 SALGADO./d.004. a conclamar céus e terras para que se retire essa candidatura a fim de que surja outra que possa congregar todos os partidos em torno dela. Plínio.1. Para Salgado. que não corresponderá aos anseios dos brasileiros. pretende-se. assim. Palavras a uma democracia suicida. 502 Pretendem os golpistas a retirada de todas as candidaturas para surgir um ditador: envolvidos na trama os srs. p. lança o seu candidato. 3. 14.1955. a imiscuir-se na vida íntima de um partido que não é o seu. um partido único. Rio de Janeiro. homens de outros partidos.. . Em meados de junho de 1955.) Pretendem. Palavras a uma democracia suicida. Rio de Janeiro. A Marcha. Quer dizer. em vez de se apresentarem candidatos ou candidato em contraposição ao do PSD.1.235 partidos”. Se concretizado esse desejo dos golpistas teremos em breve tempo as botas de um militar a governar esse país discricionariamente. pois “é justamente este artifício. 500 Entrevista de Plínio Salgado.1955.

Além de contrariar a versão sustentada pelo PRP. convencendo-o de que sua candidatura fortaleceria a posição democrática no Brasil. os defensores da candidatura Juarez Távora sustentaram que a candidatura de Salgado visava apenas tirar dividir os votos conservadores de forma a facilitar a eleição de Kubitschek. Mas além disso. esta declaração também desmente a afirmação de Salgado. era lógica se considerarmos a perspectiva de lançamento da candidatura presidencial de Plínio Salgado. p. 293. de que não conhecia pessoalmente Kubitschek. era condicionada também por outro elemento. Ainda em dezembro de 1954. 1956-1961. In: BENEVIDES. cabe observar que alguns indícios reforçam a hipótese. ainda. Na argumentação udenista sugeriase. hora e local para um breve entendimento”. 1976. Em entrevista concedida quase duas décadas depois. a existência de um acordo secreto por meio do qual Kubitschek financiaria a candidatura de Salgado. Grifo meu. Presidente [Salgado] a 503 Entrevista Particular com o Ex-Presidente Juscelino Kubitschek. Rio de Janeiro: Paz e Terra. destacando-se a posterior participação do PRP no governo Kubitschek. Embora não tenhamos encontrado nenhuma prova deste acordo na documentação integralista. O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. . solicitando também da Presidência dia. menos evidente: os entendimentos secretos entre Salgado e Juscelino Kubitschek. fiz um apelo a Plínio Salgado para apresentar e manter sua candidatura.236 A veemente crítica dos integralistas à proposta de uma “candidatura única”. quando o PSD comunicou oficialmente da escolha do nome de Kubitschek como candidato a presidência e dirigiu ao PRP “um convite para um pronunciamento a respeito. Não se poderia mais impor a tese da candidatura única – agora já 503 seriam dois candidatos. a eleição de Kubitschek por uma margem de votos muito inferior à votação recebida por Salgado confere plausibilidade a esta tese. De fato. Kubitschek admitiu explicitamente as conversações: Como meus opositores martelavam muito na tecla do candidato único. o Diretório Nacional do PRP “autorizou o sr. Maria Vitória. no final de março de 1955. O acordo entre Plínio Salgado e Juscelino Kubitschek Durante toda a campanha eleitoral.

12.55/16).001. Já à vésperas da eleição de 1950.50/1).1950 (APHRC-Pprp 12. 14. A primeira manifestação pública indicando seu lançamento teria ocorrido em julho de 1953. O lançamento da candidatura de Salgado A definição de Salgado pelo lançamento de sua candidatura ocorreu bem antes da Convenção que a aprovou.5. Não existem elementos que permitam confirmar a veracidade destas denúncias. recebeu do Diretório Municipal de Garanhuns a seguinte mensagem: “Populistas Garanhuns apóiam entusiasticamente sugestão convencionais Varginha apresentação candidatura nosso presidente Plínio Salgado sucessão presidencial pelo bem do Brasil”. Objetivamente pode-se afirmar que a candidatura de Salgado beneficiou Kubitschek. 12. que disse: “Plínio é um homem que traz escrito na testa Aluga-se”. por exemplo. Sua decisão estava tomada desde.237 entrar em entendimento e responder à consulta logo que julgar 504 conveniente”. em pelo menos dois aspectos: a desmoralização da tese da “candidatura única” e a divisão do eleitorado conservador. meados de 1954. Em 1932 alugou-se ao Fascismo. .1955 (APHRCPprp 14. não há nenhum registro posterior nas atas do Diretório Nacional acerca deste encontro. Estranhamente.004). embora naquele momento tenha descartado esta possibilidade. no mínimo. em 1937 alugou-se a Getúlio Vargas e agora em 1955 (. mas é possível que a opção tivesse sido feita ainda bem antes. 505 Correspondência de Florival Rosa a Plínio Salgado. 506 Em maio de 1950.. em março de 1955. Telegrama de José Sales a Plínio Salgado.10. Salgado recebera telegramas propondo 506 sua candidatura.) você se alugou por 10 milhões de cruzeiros ao Juscelino. que viu em sua candidatura o único meio de derrotar Juarez Távora. que possivelmente ocorreu secretamente. retirando de Távora um contingente de votos que lhe daria a vitória. Eis o seu 505 retrato fiel: ALUGA-SE.05.10.1954 – Livro de Atas do Diretório Nacional e do Conselho Nacional do PRP (APHRC-Pprp 021. durante uma concentração 504 Ata do Diretório Nacional. Uma carta recebida por Salgado depois da eleição mencionava um suborno que teria sido pago por Kubitschek para que ele mantivesse sua candidatura: Quem tem razão é o Joel Silveira.. 3. veementemente repelidas pelos integralistas.

ao retirar sua candidatura a deputado federal. O PRP. como partido. 1. A Marcha. em palestras em diversos tipos de entidades. universidades. principiando com 90. grupos religiosos. As desculpas dadas por muitos antigos integralistas e por muitos brasileiros que simpatizam com as idéias integralistas é a de que o PRP é um partido igual aos outros. atingindo 146 mil em 1947 e 252 mil em 1950. e 028. No entanto. em chapa própria e em coligações no estado de Minas Gerais. centros operários. deverei lançar a campanha presidencial. “elevando-se a milhares em princípios de 1954”. p. daqui a 5 meses precisamente. como paraninfo de turmas universitárias.006. Temos.12. Plínio.238 de Diretórios Municipais do PRP do Vale do Paraíba Visando aumentar suas possibilidades eleitorais. o dever de dar essa oportunidade a todos os brasileiros e tal oportunidade é a 507 507 Cf. Plínio Salgado falou em 185 cidades brasileiras”. mas todas apontavam possibilidades de que o contingente de votos ficasse abaixo do que seria aceitável para o “Chefe Nacional”.1954 (APHRC .007. Rio de Janeiro. 509 Abaixo-assinados (APHRC .000 votos em 1945. “entre 1953 e fins de 1954. com Plínio Salgado como candidato a deputado federal. Temos um compromisso de honra com os que morreram por nossa idéia e com milhares de brasileiros que acreditam em nós e esperam algo de nós no atual momento. 9. 508 Ibid. p. operarem em qualquer partido.001). De acordo com A Marcha. .Fundo Plínio Salgado 028.001. sindicatos. encontramos alguns poucos telegramas e algumas dezenas de abaixo assinados. na documentação pessoal de Salgado. Essa resolução é inabalável. sociedades de agricultores. Salgado comunicava oficialmente que pretendia lançar sua candidatura: Em 25 de dezembro deste ano. concentrações marianas.008). 1956. de ensino técnico e normal. prefeituras e câmaras municipais. Comportamento Eleitoral. 8. entre 1952 e 1955”.1954. Salgado teria feito conferências em “mais de duas centenas de cidades do Brasil. podendo portanto todos os que vêem no integralismo a salvação nacional. Livro Verde de minha campanha. academias de letras. associações femininas. SALGADO. porque chegamos a um ponto tal que temos de dar uma satisfação definitiva à Nação. recebendo um número crescente de telegramas de 508 apoio. Em julho de 1954.Fundo Plínio Salgado 017. até ao dia em que um grande motivo chame todos a se unirem. que seria lançada possivelmente pelo estado de 510 Minas Gerais.6. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira. 7. A popularidade de Plínio Salgado. 17. faculdades de direito. tem crescido muito lentamente. em que o PRP irá com chapa própria. 028. desmentindo os 509 números apresentados. 510 Foram feitas diversas estimativas e projeções sobre as possibilidades eleitorais do partido em 1954. pois. p.

levados pelos interesses eleitorais de caráter regional e particular. no Estado do Rio. s. é udenista em Minas. e assim por diante. um pensamento doutrinário. realizou-se nesta Capital uma reunião de presidentes de Diretórios Regionais do Partido de Representação Popular. 2º) sugerirem ao Diretório Nacional as medidas mais urgentes no sentido da reestruturação do Partido e.1954. Ora. a qual decidiu que também “nas próximas eleições municipais. a fim de: 1º) exporem ao Presidente Nacional a situação da agremiação em cada Estado. antes que surjam outras candidaturas. p. Pernambuco. 1. é pessedista em São Paulo. chegamos quase a contradizer nossa doutrina. substancial..11. isso é um absurdo. lançará a sua proclamação ao povo brasileiro. límpido. 512 O PRP e a sucessão presidencial. 19. Rio de Janeiro.Fundo Plínio Salgado 019. em nossa atividade prática. Nosso partido despersonaliza-se. p. O PRP no momento. disputando sozinhos os cargos de prefeito e vereador”.10. a começar pelas do Rio Grande do Sul. A partir de então. através de A Marcha. toma em cada Estado as mais diferentes colorações políticas. 3º) manifestarem a sua opinião sobre o problema da sucessão presidencial da República. após as eleições de 3 de outubro. os Presidentes Regionais revelaram o desejo da coletividade partidária no sentido de que o PRP tenha candidato próprio. a decisão foi comunicada aos presidentes dos diretórios regionais e logo.. (junho 1954) (APHRC . Para o dirigente integralista Loureiro Júnior: A verdade é que possuímos uma ideologia. exato.004. A Marcha. Minas Gerais e São Paulo. O PRP só pode e deverá ser PRP e para tal vamos pleitear que a Convenção 511 Comunicado de Plínio Salgado ao Diretório Nacional.239 apresentação da nossa candidatura à Presidência da República. . diversas convenções regionais ratificaram seu apoio à candidatura. Rio de Janeiro. A Marcha. Em outubro. 29. a toda a militância integralista: Nos dias 21 e 22 do corrente.001). e que atende perfeitamente às aspirações do povo brasileiro. A ênfase na “independência partidária” levava a uma espécie de autocrítica em relação à política de alianças até então adotada.1954. em Santa Catarina. abster-se de quaisquer coligações locais com outros 513 partidos. Bahia.) A Convenção Nacional do PRP. 513 Indicado Plínio Salgado pela convenção paulista do PRP. E isso 511 deve ser feito já. (. ameaçando dessa forma a unidade em sua ação em plano nacional. De modo geral. 3./d. Entretanto. que deverá reunir-se em 512 fevereiro.

o seu desacordo”.).11.1954. Plínio. Origem da candidatura Plínio Salgado. SALGADO. op. Assim. a opção pela candidatura própria à presidência não era consensual no interior do partido. p. na Convenção do PRP do Distrito Federal. Naquele momento. 18. op. Rio de Janeiro. uma 517 pró-Plínio e outra pró-Padilha”.Recortes). 3.. “em 516 entrevistas à imprensa. .240 Nacional trace uma linha de autonomia partidária. “alguns meios perrepistas pretendem alijar Plínio Salgado da direção nacional. afirmando retoricamente que “nunca houve maior 518 coesão e disciplina dentro do Partido do que agora” . até há pouco sem nenhum 515 contato com o PRP”.2. 517 A crise nas hostes integralistas. “assistimos o retorno de centenas de adeptos do Sigma. Na Convenção Nacional. já que o grêmio dirige-se em duas alas. A Marcha. a divergência tornou-se pública.. In: Livro verde de minha campanha. A hora. A dissidência se confirmou.1954. SALGADO. Origem da candidatura Plínio Salgado. 18. 1 e 9. Ainda assim. 15. Rio de Janeiro.1955. a Convenção oficializou a candidatura. 514 Desfraldar bandeira e marchar: imperativo nacional a candidatura Plínio Salgado. e a firme decisão de Salgado de levá-la adiante precipitaria a formação de uma dissidência.1955 (CDAIBPRP . 16. 26. In: Livro verde de minha campanha.. com o rompimento de Raymundo Padilha com o PRP. 516 Cf. discurso pronunciado por Salgado no encerramento da Convenção e irradiado para todo o país. na qual o deputado federal Raymundo Padilha manifestou-se veementemente contrário à candidatura própria. Porto Alegre. 519 Cf. (. A Marcha. p. colocando em seu lugar Raymundo Padilha. 1. 518 Contra a farsa de alianças e coligações pró-candidato único. dando início à campanha eleitoral propriamente dita. Conforme o jornal A Hora. Plínio. p. 515 Recenseamento moral a candidatura Plínio Salgado. cit. iniciando campanha aberta e declarando. De acordo Salgado.12.. 1 e 11.2. A Marcha. A divergência explicitou-se em uma reunião do Diretório Nacional. Salgado negava a existência de uma crise no PRP. com uma “Mensagem ao Povo Brasileiro”. realizada entre 19 e 21 de março de 1955. cit. a candidatura própria sofreu acirrada oposição dos diretórios 519 regionais de Pernambuco e Rio de Janeiro. A luta interna ameaça solapar a frágil unidade interna do PRP. Um dos objetivos pronunciados do lançamento da candidatura própria era atrair os integralistas afastados do PRP. p. determinando que o 514 nosso partido tenha candidatos próprios aos cargos eletivos. no entanto. em 22 de novembro. Rio de Janeiro. p.

30 em valores atualizados de acordo com tabela de conversão disponível em http://www. A caracterização “popular” da candidatura era buscada através de diversos instrumentos. “representantes de cerca de oitenta comitês. cidadãos que nunca militaram no 523 PRP ou na extinta Ação Integralista Brasileira”. A Marcha. 22.br/sitefee/pt/content/servicos/pg_atualizacao_valores.241 A campanha eleitoral Em janeiro de 1955. e sua abrangência além dos limites partidários. de acordo com um planejamento nacional hierarquicamente estruturado.tche. encaminhassem-na ao Comitê Nacional e informassem Plínio 521 Salgado. Segundo o dirigente integralista Luis Compagnoni. Assim. operários. 522 Cf. p. 523 Ibid. Todos os comitês deveriam se formar a partir de uma lista de contribuição financeira.500. A estrutura da campanha era claramente hierárquica: o Comitê Nacional de Propaganda determinava que “qualquer nova idéia de propaganda. 524 Diretiva nº 1 do Comitê Nacional de Propaganda (APHRC . que “toda propaganda deverá ser 525 orientada sobre o tema ‘Plínio Salgado – Candidato do Povo’”. Um panfleto trazia um 520 Aproximadamente R$ 3. 15.00. ainda antes do lançamento oficial da candidatura de Salgado. municipais e de base. (O valor corresponde a aproximadamente R$ 12.Fundo Plínio Salgado 018. seja submetida e aprovada pelo CNP” para que houvesse total uniformidade na propaganda da 524 candidatura. A 15 de abril. 3. funcionários públicos. os integralistas buscavam formar uma rede de “comitês populares” para impulsioná-la.1.4.1955. Na cerimônia. chamados sucessivamente.php. em sua quase totalidade. comerciários. 525 Ibid. 521 Como se organizam os “Comitê Popular Pró-Candidatura de Plínio Salgado à Presidência da República”.fee. ainda. antes de ser lançada. realizou-se uma primeira “cerimônia de entrega das contribuições dos Comitês Populares” da Guanabara. bancários. Os comitês-populares: um espetáculo comovente. transformando-se em comitê de ação eleitoral e propaganda quando 520 obtivessem um mínimo de dez contribuições de CR$ 10.00).1955 (CDAIBPRP – Correspondência do Diretório Nacional). por elementos proletários. foram formados comitês estaduais. Estabelecia. Luis. COMPAGNONI.009). os comitês eram “formados. Já naquele momento buscava-se caracterizar a campanha de Salgado como “popular”. . entregaram ao sr.009. indicando os dois elementos que marcariam toda a campanha de Salgado: seu pretenso caráter popular. Rio de Janeiro. Plínio Salgado mais de trinta e 522 nove mil cruzeiros”.

p.11. 23. um homem que já sofreu na sua própria carne fome.013. olhe pela pobreza. junto às massas operárias se operou por várias formas simultâneas: desde os comícios. Cristão. p. 527 Plínio abre o livro de sua vida. um homem que nasceu pobre e pobre cresceu. Na documentação de Plínio Salgado consta 530 uma lista de 125 comitês apenas na cidade de São Paulo.00 por dia e que em muitos lares existem muitas boquinhas a pedir comida”. 529 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha.Fundo Plínio Salgado 018. até o trabalho individual”. Exagero à parte.00 a CR$ 50. De acordo com relatório do Comitê paranaense. Mesmo alegando ser o candidato “pobre”. operários sofredores. é certo que um grande número de comitês foi formado. as visitas às 528 fábricas. 27. 1 e 4. esse homem existe e 526 chama-se Plínio Salgado. Para Compagnoni. A Marcha.1955. “a penetração nos bairros da capital. Rio de Janeiro.1955. 1 e 4. Salgado tomava cuidado para não se afastar do discurso da conciliação de classes: “Não faço alarde da pobreza. olhe para o operário. um homem que já foi operário [sic]. 528 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. A pobreza em si não é virtude.001. A principal estratégia foi a formação de comitês populares. Honesto.242 “apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e do interior brasileiro”. afirmando que “precisamos eleger um presidente que saiba que ganhamos a irrisória quantia de CR$ 30.Fundo Plínio Salgado 089. teriam sido formados “dezenas de milhares de comitês populares. O panfleto propunha aos operários que elegessem um brasileiro Patriota. frio. Esse homem. Rio de Janeiro. . dor e humilhação!. Culto.1955 (APHRC . porque existem homens pobres nos quais não se pode confiar.Fundo Plínio Salgado 067. A Marcha. 526 Apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e interior brasileiro. como existem ricos honestos que juntaram o que tem pelo trabalho aliado ao bom 527 senso”. com centenas de milhares de brasileiros empunhando listas de contribuições para a 529 nossa candidatura”. que depois de eleito olhe para baixo.001).001). Panfleto (APHRC . 24.6.9. 530 Comitês Plínio Salgado em São Paulo (APHRC .001.005).

da sua vida e da sua obra”. 23.9. 535 Foi o maior comício que o povo de Curitiba já presenciou até agora. em Recife. A Marcha. de vales postais. 537 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha. Plínio pede dinheiro e o povo dá. Uma diretriz indicava minuciosamente como deveriam se portar os oradores. e mais de 5. A Marcha. reunindo 90. Rio de Janeiro.9. O caráter popular da campanha se traduziria também na campanha popular de arrecadação financeira: De todo o Brasil chegam recursos para Plínio. p.. A Marcha. 533 Também para a realização dos comícios havia grande preocupação em manter a homogeneidade na linha de campanha.1955. Mais de trezentos comitês populares fundados no Norte e Nordeste.1955 (APHRC . 1 e 5.) Acredito que até o presente momento.010.1955. caminhões e 536 ônibus. 4.4. o de Campinas oitenta mil. p. 1 e 2.000 cruzeiros para Plínio. em abril uma reunião teria reunido “os 531 dirigentes dos 298 comitês populares” da capital paulista. Caso Salgado não estivesse presente.013.5.Fundo Plínio Salgado 089. Comitê Nacional de Propaganda: Instruções para oradores (APHRC . p.000 de brasileiros já tenha contribuído com dinheiro para a campanha de 537 Plínio. São milhares de cheques. o de Belo Horizonte setenta mil. 19. (. com indicações específicas sobre como criticar os demais candidatos e como abordar temas como o comunismo. 6. 16.1955. Rio de Janeiro. onde Salgado teria sido recepcionado no aeroporto por “cerca de 500 automóveis. mais de 1. 534 90 mil pessoas em Belo Horizonte. e que portanto “compete aos oradores que precedem Plínio Salgado falar da pessoa do candidato. A Marcha. de ordens bancárias. p.243 Segundo A Marcha. estabelecendo inclusive que “a parte doutrinária e programática deve ser exposta pelo próprio candidato”. Os simpatizantes da candidatura eram chamados ainda a financiar o programa radiofônico da campanha. 532 Cf.000 pessoas 534 535 em Belo Horizonte e 80.8.11. . 15. 536 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. sob o apelo de que 531 Reunião de Presidentes de Comitês Populares na capital paulista. O comício de Curitiba rendeu sessenta mil cruzeiros. Nos comícios. No norte e 532 nordeste teriam sido fundados “mais de trezentos” comitês: De acordo com A Marcha.001). Rio de Janeiro. Rio de Janeiro.000. além de dever tratar Salgado sempre como “Candidato do Povo”.1955.000 pessoas”.Fundo Plínio Salgado 018. 12. 4. o orador principal deveria seguir um roteiro pré-definido. p. os comícios de encerramento da campanha se 533 constituíram em grandes atos populares.000 em Curitiba.005). Rio de Janeiro. Em 15 minutos. 27.. recolheram 35.1955. A Marcha.

244 “Plínio Salgado é o candidato pobre”. 540 Batalha final pela Rádio Globo. 541 Plínio. mas que votarão nele para Presidente da República. A Marcha. Tal perspectiva fica evidente no editorial do jornal integralista A Marcha: Quando vemos centenas e centenas de chefes políticos do PSD. A Marcha. 3. que permanecerão fiéis aos respectivos partidos no tocante à sucessão estadual.001). Rio de Janeiro. As contribuições teriam permitido que o programa passasse a ser veiculado duas vezes por 539 semana a partir de junho.5. Rio de Janeiro. Apresentando-se como “candidato do povo”. do PTB. Arlindo Araújo. Rio de Janeiro. por força de lógicas deduções cívicas. 540 retransmitido por 20 emissoras. Salgado não se assumia como expressão daquele partido e apresentava sua candidatura como suprapartidária.1955. por ser esta atitude um imperativo da própria consciência – então sim verificamos o mais surpreendente fenômeno desta quadra da vida política nacional: Plínio Salgado transformado naturalmente. p. 538 538 É preciso que os brasileiros ouçam a palavra de Plínio Salgado.11. no legítimo candidato de União 541 Nacional. proprietário dos Laboratórios Antisardina.8. 26.1955.1955.Fundo Plínio Salgado 089. o verdadeiro candidato da união Nacional.013. 27. 539 Plínio Salgado duas vezes por semana na Rádio Globo. que além dos anúncios feitos em A Marcha. custeou programas de Rádio. como é “o caso do industrial Sr. os quais eram divulgados como evidência da amplitude de sua candidatura. por ser ele o melhor candidato.6. da UDN. Rio de Janeiro. 1º. p. Evidentemente não eram divulgadas as contribuições mais volumosas recebidas.8. . Mesmo tendo argumentado que cada partido político deveria apresentar seu candidato. 19. Salgado buscou ainda o apoio de membros de outros partidos e das “classes produtoras”. e três vezes a partir de agosto. Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. A Marcha. uma vez indicado pelo PRP. 12.1955. 7. imprimiu um milhão de prospectos e fez intensa campanha pessoal junto as pessoas de sua reputação”. A Marcha. Salgado pretendia ser reconhecido como “verdadeiro candidato da União Nacional”. 3. p. em evidente contradição com o discurso anteriormente assumido em oposição à uma candidatura de União Nacional e de defesa da necessidade de candidaturas com projetos distintos. 6. do PR e de outros partidos comparecerem à presença de Plínio Salgado para dizer-lhe que o acompanharão na disputa da suprema magistratura da Nação.1955 (APHRC . p.

o plenário ouviu atentamente e sob os maiores aplausos o pronunciamento de Plínio Salgado. Salgado tentava ainda caracterizar sua candidatura como “doutrinária”. a propostas do “candidato popular” seduziam as “classes conservadoras”. 11.REC 55). p. “ao contrário da sabatina de Juscelino. satisfeitas com a defesa de medidas antipopulares. De acordo com o jornal.Fundo Plínio Salgado 112. no entanto. 1-2 (APHRC . que os demais candidatos não proclamavam publicamente. As classes produtoras são favoráveis à participação dos empregados no lucro das empresas. Além de apresentar-se como candidato “popular” e “suprapartidário”. mas como prêmio à atividade e capacidade de cada um. que Salgado assumia abertamente posições reacionárias. o apoio de Salgado à revisão da lei da Petrobrás “foi saudado pelo plenário. Diário Carioca. “as classes produtoras ficaram empolgadas com o desenvolvimento do 544 plano do sr. Apenas Plínio Salgado mereceu toda a receptividade (embora inicialmente fosse antipatizado) das classes conservadoras.1955. nesse aspecto. que apreciou a realidade brasileira à margem dos interesses políticos. com ampla repercussão na imprensa.004. de Recife. sistematicamente.1955. pois suas idéias satisfizeram plenamente as suas 542 pretensões. buscando qualificar-se como interlocutor confiável. Para o Correio do Povo. Desta forma. de Porto Alegre. Juscelino e Juarez. Salgado buscou reconhecimento e apoio junto a classe dominante. o que ficou especialmente claro em sua participação na Mesa Redonda das Associações Comerciais do Brasil. estabelecer e reforçar vínculos com setores da classe dominante. como o fim do monopólio estatal do petróleo. com a 543 mais prolongada salva de palmas”. 543 Apud Em São Paulo Plínio Salgado fala às Associações Comerciais do Brasil.Fundo Plínio Salgado 112. De acordo com o Diário Carioca: Juscelino e Juarez discordam das classes produtoras em dois pontos capitais: a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas e a exploração do petróleo. p. O Dia. Segundo O Dia. que 542 Quem mais satisfez os conservadores foi Plínio Salgado.245 Embora se apresentando como “candidato do povo”. examinando-a em seu conjunto e apontando soluções reais e objetivas dentro dos princípios doutrinários”.REC 55). de pé. Recife. e. ao mesmo tempo buscava. Rio de Janeiro.7. em contraposição às demais candidaturas. Plínio Salgado”.7. Fica evidente. .004. 2 (APHRC . 544 Ibid. 7. são favoráveis à participação direta dos empregados nos lucros das empresas.

em “íntima conexão uns 545 com os outros”. Adhemar de 545 Esta minha candidatura não é propriamente a candidatura de uma pessoa. 547 Proclamação ao Povo Brasileiro. mas dos seus próprios interesses” e “são escolhidos e indicados pelos próprios sócios políticos e também interessados em devorar os dinheiros públicos”. e “os comunistas e socialistas. empreendendo uma obra de fortalecimento econômico. 546 moralmente mais perfeitos. Panfleto (APHRC . Além de se apresentar como o único com conteúdo doutrinário. social e moral da Nação. tecnicamente mais fortes. e que “os políticos profissionais não cuidam dos interesses da Pátria. os promesseiros.011). p.010. Panfleto (APHRC . pois “O Partido Socialista Brasileiro apóia Juarez Távora”. nem mesmo com o meu.1955. a não ser quanto aos princípios doutrinários. A Marcha. político.010. contra a desunião 548 dos brasileiros. 548 Porque. nem com partidos políticos. Tal “doutrina” conduzia à proposta de despolitização do governo. Em contrapartida. mas de uma doutrina e de um programa. 546 Ibid. os homens culturalmente mais competentes. Rio de Janeiro. Não tendo compromissos com governadores de Estado. como fica expresso em sua proposta de formação de um ministério “técnico”: Sem um Ministério homogêneo quanto à compreensão e interpretação das realidades e das necessidades brasileiras e quanto ao critério ordenador dos problemas. debaixo da bandeira do Partido Social Progressista. contra a anarquia”. contra o roubo organizado. . afirmando-se que “a desilusão é geral com os 547 demagogos. Sua “doutrina” se resumiria “num critério governamental que considera os problemas brasileiros no seu conjunto e não isoladamente cada um”.011). orientador da ação e executor de um plano geral de realizações. 1 e 2. não será possível arrancar o Brasil das suas atuais dificuldades. Salgado também seria o único dos candidatos sem compromisso com o comunismo. para compor um Ministério.5.246 seriam resultado de “conchavos políticos”. penso que estarei em condições de ir buscar. do sr. “o Partido Comunista do Brasil apóia Juscelino e João Goulart”. os mentirosos”. dentro de qualquer partido ou fora dessas agremiações políticas.Fundo Plínio Salgado 018.Fundo Plínio Salgado 018. Tal posição ensejava uma crítica genérica aos “políticos profissionais”. sua candidatura seria “contra a politicagem profissional. financeiro. 12.

551 Comitê Nacional de Propaganda.Fundo Plínio Salgado 014.001).247 Barros. que é hoje o Prefeito daquela 549 Capital”. Rio de Janeiro. e a oposição aos “políticos tradicionais” (“Trancai as portas do Brasil contra a orgia organizada dos políticos profissionais”.010. p. deram a vitória ao seu candidato. “É ele o candidato de milhares de operários e digno portanto do voto de todos aqueles que desejam ver entre nós a queda do burguesismo oficializado”). (APHRC . seu alegado caráter popular (“Só quem trabalha tem direito de governar”./d. Salgado incumbiu ainda um oficial da Marinha integralista a fazer um levantamento entre seus pares do 549 Brasil versus Rússia Soviética. Com Plínio Salgado queremos torná-la realidade”.011). 550 Sugestão de legenda para muros (APGRC .007). chamando todo aquele que “por uma razão ou outra não está ao lado de Plínio Salgado neste terrível momento em que passa nossa Pátria”. Slogans da candidatura de Plínio Salgado (APHRC . (APHRC . para mudar só Plínio Salgado”). s. Uma correspondência enviada aos integrantes dos “memoráveis dias da Ação Integralista Brasileira” convocava-lhes: “É pelo vosso passado de luta que hoje vos conclamamos a participar da campanha pró552 candidatura de Plínio Salgado”. O objetivo de atrair os antigos integralistas afastados do movimento foi perseguido através de diversas iniciativas.010. . Panfleto.009). “Os tubarões da política 551 sempre ganharam eleições gastando rios de dinheiro”). 29. 553 Carta aos integralistas de primeira hora.Fundo Plínio Salgado 016.009. Destacam-se as frases com sentido dúbio “Com seu voto ajude a endireitar o país” e “Está na hora de endireitar o Brasil”.4. apelando para que voltassem “a 553 lutar ao lado de Plínio Salgado”. “Em Deus pomos o princípio e o fim de nossa doutrina política. “Um governo sem os sagrados princípios da fé cristã será como uma criatura sem alma ou um corpo sem vida”). lembrando-lhes do “dever de quem prestou um juramento e do qual foi desobrigado por ato espontâneo e liberal do depositário deste” e do “dever diante de Deus e da Pátria e da própria consciência”. 552 Correspondência do Comitê Feminino do Distrito Federal aos exintegrantes da Ação Integralista Brasileira.Fundo Plínio Salgado 018. a idéia de mudança (“Para continuar como está qualquer candidato serve. A Marcha. 5.002. O Comitê Nacional de Propaganda enviou aos comitês 550 populares 17 “sugestões de legenda para muros” e 37 slogans a serem utilizados. enfatizando o cristianismo (“Deus dirige o destino dos Povos! Graças a Deus já temos em quem votar”.Fundo Plínio Salgado 018.1955. A Marcha publicou uma “Carta aos integralistas da primeira hora”.

embora fiéis ao pensamento. Na medida em que se aproximava a data da eleição. além de enviar um 555 manifesto a todos os oficiais da Marinha.004). 555 Ibid. 4. convidando-os para “sua cooperação na cruzada de salvação nacional”. e afirmava que se o fizesse “estaria traindo a confiança de milhares de 556 brasileiros”. os integralistas contavam com grande contingente de adeptos dentre os oficiais da Marinha. Não acredite: Plínio Salgado não desistirá. Rio de Janeiro.1955 (APHRC-Pprp 18.6. Já o Comitê paranaense alertava “que os inimigos do Brasil estão e irão continuar propalando – com o propósito de desorientar o povo – a cínica e pérfida mentira de que Plínio Salgado desistiu ou desistirá de sua candidatura. 558 Entrevista concedida por Plínio Salgado à United Press em agosto de 1955 (APHRC . A Marcha. dirigiu uma circular aos oficiais que foram integralistas. outros.Fundo Plínio Salgado 001. jamais desistirei! A Marcha. Salgado avisava para que os integralistas ficassem de sobre-aviso.1955. Afirmando que sua candidatura pertencia ao povo. Rio de Janeiro. o que foi respondido através de reiterados desmentidos pelos integralistas. assegurando sua inviabilidade eleitoral. Desde o lançamento da candidatura Salgado.9. tendo pertencido à AIB.004.013. o qual concluiu que “na esfera superior há muito elemento que continua firme.248 apoio com que ainda contava naquele setor militar. 18.Fundo Plínio Salgado 089. Nos anos 30. Para tanto.8. p. poucos adversários (de um modo geral os não muito considerados na classe) e ainda um grupo que. pelo que se está passando em todos os Estados do 558 Brasil. o fizeram não 554 por convicção mas por interesse próprio”. 10. 554 Relatório Confidencial do Almirante Jatyr de Carvalho Serejo. É falso! É mentira! Serão capazes de dizer inclusive que Plínio morreu”.005). a imprensa e especialmente os defensores da candidatura Juarez Távora especulavam sobre sua possível retirada. 556 Plínio: minha candidatura é definitiva. p.1955. que essa vitória está assegurada. 557 Sou homem de doutrina. ainda que vigore o princípio da maioria 559 absoluta. mais temerosos de atitudes francas.55/6). Panfleto (APHRC . 3. 28. Vencerei o pleito. pois “estes boatos irão recrudescer e quero acreditar que nas vésperas da eleição eles virão com absoluta intensidade para perturbar a ação 557 eleitoral daqueles que querem transformar o Brasil”. Salgado assegurava que não renunciaria.08. Ao mesmo tempo repetia continuamente que acreditava em sua eleição: Vou às eleições de outubro com a finalidade de alcançar vitória e posso dizer. .

930. agrupamentos de homens do trabalho. As alegações que remetiam ao caráter “popular”.850 votos. Rio de Janeiro. Rio Grande do Norte e Bahia. VI – Os antigos integralistas que reconhecem o valor do candidato. 561 É o caso. segundo a qual Salgado venceria a eleição com 2. 14. 560 De Fortaleza. Rio Grande do Sul.249 Acredito na minha vitória e até mesmo por maioria absoluta.Fundo Plínio Salgado 112. o jornal A Marcha publicou uma projeção da votação que cada candidato obteria por estado. Santa Cruz do Sul. portanto. .REC 55).1955. IV – Centros de Juventude espalhados em todo o Brasil. Perto de 5 mil cupons já apurados na prévia. 5 (CDAIBPRPRecortes).8.9. A Gazeta. 2. Correio Católico. Para segundo lugar indico dois candidatos: Juscelino e Adhemar. sua formação moral e cristã. Gazeta de Santa Cruz. 559 Plínio Salgado otimista. Ganharei em Minas. II – Um milhão de livros espalhados pelo Brasil. 562 As dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado. 27. Uberaba. Ganharei ainda no Paraná. da prévia realizada pelo Correio Católico de Uberaba.Fundo Plínio Salgado 018. por exemplo. X – O esfacelamento dos partidos que não 562 tem mais autoridade. sua cultura.1955 (APHRC . A Marcha. que pregava o “voto útil” visando derrotar Kubitschek. Espírito Santo. 16.Recortes).9. Embora seja pouco provável que a direção integralista realmente acreditasse em suas possibilidades de vitória. o que parece indicar uma participação organizada dos integralistas para a produção daqueles resultados. Panfleto (APHRC . Juarez Távora será o 560 último. A publicação desta improvável projeção visava neutralizar a campanha promovida pelos defensores da candidatura de Juarez Távora. São Paulo. VIII – O elemento religioso que toma conhecimento do seu trabalho. 9.011).7. Em algumas prévias promovidas por rádios e jornais Salgado 561 aparecia em primeiro lugar.1955. 3 (CDAIBPRP.850 563 votos (quatro vezes a votação efetivamente recebida). p. lhe garantiriam a vitória: I – Seu valor pessoal. 563 Plínio vencerá com 2. utilizados como argumentos eleitorais. p. eram reunidas em um panfleto sobre as “Dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado” e que.010. p. V – Os Comitês Populares. III – A imprensa do interior que publica sempre os seus artigos.1955. IX – O fracasso dos governos e dos políticos que todos vêem. junto a várias outras. “doutrinário” e “suprapartidário”.930. VII – O Partido de Representação Popular.003.

trazendo no coração a 564 estrela vermelha de Moscou”. Para merecer o apoio das hostes de Trotski e Marx. ou os partidos que o apóiam estão agindo de má-fé.1955. 13. p. cujos principais pontos provêm diretamente do cérebro de Marx. 1 e 5. quando o PDC apoiou Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. Juarez teve que se comprometer com um programa socialista. . 1 e 12.6. A Marcha. Eis o que se deduz desse casamento imprevisto da linha auxiliar comunista (os socialistas do sr. João Mangabeira) com os católicos do Monsenhor Arruda 566 Câmara. Este conflito tinha como objeto principal a disputa pelo eleitorado conservador.1953.1955. sustentando que “a grande maioria dos ex-integralistas votará contra o 564 Máscaras ao chão. O PRP buscava crescer disputando a base social pequeno burguesa da UDN e seus aliados. cujos chefes se enfeitam com a fita de congregados marianos. na qual manifestava seu apoio a Juarez. Em 1953.250 PRP X UDN – o conflito aberto pelo eleitorado conservador A eleição presidencial de 1955 acirrou ao extremo o conflito entre os integralistas e o udenismo. com promessas demagógicas. Rio de Janeiro. enfurecida e desesperada pela crise econômica e financeira 567 que o país atravessa”. contra-atacava divulgando declaração de Belmiro Valverde. 24. p. A Marcha. 566 As contradições de Juarez Távora. 567 Juarez é o Perón brasileiro.3. de sinceridade. foi classificado pelo PRP como “o partido dos comunistas de sacristia. Alguém não está usando. 1 e 4. 565 Juarez e o socialismo. 3. p. A disputa de votos entre Salgado e Juarez Távora ensejou ataques mútuos os mais diversos. como o Partido Democrata Cristão. as classes trabalhadoras bem como a pequena burguesia desorientada e confusa. Para A Marcha Juarez seria “um candidato de tendências totalitárias que procura atrair.6. por sua vez. Ou o general se mostra confuso nesta quadra conturbada de sua vida. 1 e 4. A UDN. ex-integralista e principal líder da “Intentona de 1938”. Rio de Janeiro.1955. Rio de Janeiro. 10. no caso. A Marcha. p.6. Rio de Janeiro. Sorel e 565 outras belezas deste quilate. A candidatura de Távora era repetidamente criticada pelos integralistas por ter recebido o apoio do Partido Socialista Brasileiro: O PSB homologou a candidatura Juarez Távora à Presidência da República. A Marcha.

9. passou a afirmar o caráter democrático desse partido quando a guerra destroçou o nazi-fascismo. dirigida por Carlos Lacerda. Plínio Salgado”. 570 Ibid. difama e calunia. Misto e paranóico e embusteiro o sr.. Os brasileiros que sufragarão o meu nome a 3 de outubro próximo. certo de que. Salgado revidava os apelos para que retirasse sua candidatura. As críticas centravam-se na qualificação de Salgado como fascista e a inviabilidade de sua candidatura: Fundador e chefe de um partido fascista. ao suporem que a minha desistência iria carrear votos para o seu candidato.) Mas um exame mais atento e minucioso do comportamento do ‘profeta’ do integralismo conduzirá à certeza de que 569 nele predomina o espertalhão”. (. Plínio Salgado. Plínio Salgado. o ‘Enviado de Deus’ (. 10. que é um autêntico “candidato suicida”. envolvendo em suas mentiras. p.. nos métodos. fascista no programa. . o chefe fascista brasileiro.251 sr. que está fazendo apenas uma agitação para ampliar futuramente seu partidinho. É o paranóico ‘iluminador’. mas sim uma doutrina. Rio de Janeiro. Rafael. infâmias e calúnias o general Juarez Távora. Rio de Janeiro.) Enfrenta o ridículo de anunciar que vai ser eleito e por maioria absoluta.. Também a Tribuna da Imprensa... quando sabe. assim procedendo. (.9. Sabe que. que Juarez Távora se retirasse do pleito e o apoiasse: Insistem os dirigentes da campanha eleitoral do General Juarez Távora. de bases nitidamente espiritualistas. melhor do que ninguém. dizendose crente na vitória (e por maioria absoluta!) assume aos olhos de 570 todas as pessoas sensatas o papel de um imbecil. constitui um caso de psiquiatria..) A conduta do sr. p. 20. condenado fatalmente ao último lugar na votação e com uma soma de sufrágios irrisória em relação aos demais. (. que não comporta transigências com partidos de esquerda.1955. em apelar para que eu desista de minha candidatura. não seguem um homem.. 568 568 Plínio sem o apoio dos camisas-verdes. contra-atacava: “Plínio mente. em favor da vitória daquele ilustre e respeitável militar patrício. (.. ao contrário. dando-me a mais surpreendente e estarrecedora vitória eleitoral de nossa História. Tribuna da Imprensa.1955. 3 (CDAIBPRPRecortes). pedindo. 1 e 5 (CDAIBPRP – Recortes). 569 MAGALHÃES Júnior.. até no uniforme e no ritual macaqueados dos modelos italiano e alemão. de inspiração materialista.) Recuso o apelo que me foi dirigido.) É grave o engano dos orientadores da campanha do General.. Tribuna da Imprensa.

exatamente: impediram que o candidato de Lacerda. Passada a eleição. Livro verde de minha campanha. Esse prazer nós temos.9. dirigido por Roxo 572 Loureiro. formulo de volta. 27. A Marcha. por sua vez. 15. de Adauto. Em 1956. 573 que agora estorcem de raiva. de Osório Borba. 573 "A Tribuna da Imprensa como sempre". Derrotamos os caluniadores de Plínio Salgado. de Jânio. para solicitar a retirada da minha candidatura”. fosse eleito. respondendo às críticas que recebeu durante sua campanha. nem pelos próceres da UDN. uma exortação para que desista ele de sua candidatura. A Marcha. p. 21. p.1956. por vezes. conhecedoras do material que conduzem as 574 descargas das sentinelas”. irmão de seu genro Loureiro Júnior. Rio de Janeiro. os udenistas denunciavam suposto envolvimento de Salgado na falência fraudulenta do Banco Nacional Interamericano. dando seqüência à troca de acusações. comemorava a derrota da UDN: O prazer dos integralistas foi este. e alegando que jamais poderia fazê-lo. tanto com o Partido Comunista como com o Partido Socialista”. de Juraci.4. desde a sua fundação. E a história não foi escrita à moda da UDN dos salafrários.252 sirvo melhor à Pátria a quem dediquei toda a minha vida e que dispensa novas demonstrações do meu espírito de renúncia. miolos. dos Tibérios do nosso tempo. sem referência (CDAIBPRP-Recortes).. . Rio de Janeiro. ao General Juarez Távora. 16. ação direta do 571 Juarez: considera-te fora da sucessão! A Marcha. 1 e 15. cit. 1955. metidos a moralistas. O que há lá dentro é da competência da City ou das Águas e Esgotos. para felicidade e pelo bem do Brasil. p. em quem reconhecemos um grande patriota. Ao fazêlo. pois “o PRP proíbe. Para ele. 574 SALGADO. as “calúnias e injúrias” seriam decorrência do “ínfimo nível moral a que chegou a sociedade brasileira do nosso tempo” e da “influência e. para concluir que “dentro da cabeça desses caluniadores não existem. de Joel Silveira. reconhecidamente derrotada até pelos seus 571 próprios seguidores. 12. sustentando que nunca ter sido “oficialmente procurado por Juarez Távora. 81 e 87. qualquer aliança de seus partidários. 572 De negócio em negócio Plínio enche o papo. na verdade. op. Ah! Isso impediram mesmo. e confirmadas as previsões de que a votação recebida por Salgado determinaria a derrota de Távora. Salgado publicou o Livro verde de minha campanha. de Chico Mangabeira. O jornal sustentava que Loureiro seria “o homem que manda hoje em Plínio e o domina totalmente”. Tribuna da Imprensa. de Corção.

o resultado obtido deve ter frustrado os militantes mais entusiasmados. principalmente em virtude do apoio dos integralistas à posse e ao governo de Kubitschek. 576 isto é. com mais quatro anos de doutrinação. A Marcha. em face das reiteradas proclamações de Plínio de que seria vencedor. as cúpulas dos chamados grandes partidos”.379 votos. 9 volumes.016)./d. 578 Levantamento realizado a partir dos dados publicados em TRIBUNAL Superior Eleitoral. 19.000 e 20. Para A Marcha. Salgado enviou uma carta aos militantes agradecendo os serviços prestados à candidatura e garantindo que ela foi vitoriosa. afinal. s.486 votos). 12. pois a diferença entre Kubitschek e Távora foi de apenas 466.7% nas cidades com mais de 20.9% nas cidades que detinham entre 10. p. a maior votação obtida nacionalmente pelo movimento integralista em um processo eleitoral. Dados Estatísticos. 3. conquistaremos o triunfo”.000 eleitores (91. A distribuição da votação foi bastante desigual: Salgado foi o segundo mais votado no Paraná. os dirigentes integralistas tentaram apresentar o resultado obtido como uma grande vitória. O conflito persistiria nos anos seguintes. de trabalho 577 sistemático. 577 Circular de Plínio Salgado.8% nas cidades com menos de 575 Ibid. afirmando que “nenhum partido. 575 Os resultados alcançados e sua repercussão no PRP Salgado atingiu.6%). atingindo 24% dos votos. . 20. embora os melhores percentuais tenham 578 sido alcançados em estados populosos: Salgado obteve 21. p. ou 8. (APHRC . Rio de Janeiro. 1964.949 votos.006. o resultado surpreendeu os grupos dominantes “que controlam as máquinas de coação para extorquir votos.1.8%).Fundo Plínio Salgado 014. Ainda assim.1956. Santa Catarina (17. “batalhando contra três poderosas máquinas”. A maior parte dos votos foi obtida em pequenos municípios.5%) e Bahia (13. 576 Plínio Salgado surpreendeu os grupos dominantes.6% de seus votos nas capitais (154. A votação recebida por Salgado reforçou a tese dos udenistas de que a candidatura de Salgado mudaria o resultado das eleições. Volume 3.018 votos).3%. 714. e recebeu expressivas votações também no Espírito Santo (18. em toda história do movimento. isoladamente.000 eleitores. e 45. levou essa quantidade de votos” e garantindo que “está plenamente provado que. Assim.253 comunismo”. 95. Brasília: Imprensa Oficial. montadas em todo o território nacional.

reintroduzindo os integralistas na dinâmica de alianças e 579 SALGADO.4.. Alguns meses depois.939 votos). de autodeterminação a um partido que vinha perdendo a substância pela adesão a candidatos estranhos à sua doutrina em duas eleições sucessivas. o marechal Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes. 3 e 8. O desfraldar de uma bandeira própria deu ao partido herdeiro da doutrina espiritualista e cristã da democracia orgânica uma energia nova que se revelou numa verdadeira ressurreição. nem daqueles que aspiram a reformas largas e decisivas dos costumes políticos e das normas administrativas em nosso País. atingindo maioria absoluta em alguns deles. Plínio. Salgado foi o candidato mais votado em 18 municípios do Paraná e em 11 municípios de Santa Catarina. a certeza de nossa força. uma atitude de maior clarividência. Neste último estado. cujos méritos pessoais não negamos. como nos estados do Sul e Espírito Santo. p. não polarizavam os anseios mais profundos dos integralistas.000 habitantes (326. 27. política que seria mantida ainda nos dois anos seguintes. A despeito das diferenças. O pleito de outubro passado incutiu-nos 579 também. a de 1945 e a de 1950. em todos os estados predominaram os votos provenientes da pequena burguesia. sejam pequenos proprietários rurais.7% do total de seus votos em apenas 10 municípios (todos eles de colonização germânica). Esta avaliação deu novo fôlego à “independência partidária”.254 10. Rio de Janeiro. Embora dignos dos sufrágios dos brasileiros.1956. . sejam em sua maioria urbanos. Salgado avaliava que a candidatura própria tinha dado ao PRP consciência de sua autonomia e de sua força eleitoral: Nunca o PRP poderia ter adotado uma orientação mais certa. como em São Paulo e Minas Gerais. Ergueu-se uma força nova! A Marcha. embora o apoio à posse e posterior participação no governo de Juscelino Kubitschek introduzisse uma contradição que terminaria por minar esta política. Salgado captou 46. O pleito de outubro deu consciência de autonomia.

.255 coligações. A médio prazo. berço da política de “independência partidária”. Certamente a candidatura própria cumpriu uma função importante na unificação do movimento e motivação de seus militantes. o resultado obtido não foi suficiente para garantir a manutenção da “independência partidária” e impedir a retomada das alianças e coligações e da participação em gestões conduzidas por outros partidos. apoiando a eleição de Leonel Brizola ao governo estadual e elegendo o primeiro senador integralista. abalada em virtude das oscilações da política de alianças até então seguida. apoiado pelo PTB. o que se concretizaria no final de 1957 quando o PRP assumiu a presidência do Instituto Nacional de Imigração e Colonização no governo Kubitschek e se aprofundaria com as inúmeras alianças realizadas em 1958. inclusive no Rio Grande do Sul. no entanto. reforçando sua identidade. Guido Mondin. onde os integralistas coligaram-se com o PTB.