Giselda Brito Silva (Org.

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ISBN 85-874-5937-6 Copyright © Giselda Brito Silva Direitos desta edição reservados à EDITORA DA UFRPE Rua Dom Manoel de Medeiros, s/n – Dois Irmãos. Recife/PE. CEP: 52.171-300 Fone: (081) 3320 6000 Email: editora@ufrpe.br Web site: www.ufrpe.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright (lei nº 9.610/98). Os conceitos, redação e correção textual neste livro são de inteira responsabilidade dos autores. 1ª. Edição – 2007 Revisão dos originais e formatação: Giselda Brito Silva Apoio na leitura dos textos e avaliação dos conteúdos: João Fábio Bertonha Capa: Giselda Brito Silva As imagens utilizadas na montagem da capa foram retiradas de Prontuários Funcionais da AIB do Arquivo Público do Estado de Pernambuco (APEJE) e do livro Imagens do Sigma, organizado por Luiz Henrique Sombra e Luiz Felipe Hirtz Guerra, editado pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1998. Ficha catalográfica Setor de Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE
E82 Estudos do integralismo no Brasil / Giselda Brito Silva, organizadora. - Recife: Ed. da UFRPE, 2007. 260 p. : il. ISBN: 85-874-5937-6 Inclui bibliografia. 1. Brasil – História 2. Integralismo 3. Autoritarismo 4. Igreja 5. Tradição (Teologia) 6. Perseguição política 7. Ditadura e ditadores I. Silva, Giselda Brito CDD 981

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Apresentação Hélgio Trindade

Introdução João Fábio Bertonha

Textos de

Ana Maria Dietrich * Edgar Bruno Franke Serratto * Emília Carnevali da Silva * Gilberto Grassi Calil * Giselda Brito Silva * Leandro Pereira Gonçalves * Leonardo Ayres Padilha * Raimundo Barroso Cordeiro Jr * Renato Alencar Dotta * René E. Gertz * Rodrigo Christofoletti * Tatiana da Silva Bulhões

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SUMÁRIO Apresentação Hélgio Trindade Introdução João Fábio Bertonha 1. Pesquisas sobre o integralismo na década de 1970 René E. GERTZ 2. Origens do integralismo em debate: pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20 Leonardo Ayres PADILHA 3. Integralismo e Historiografia Edgar Bruno Franke SERRATTO 4. O Integralismo em Pernambuco: ascensão e queda da AIB-PE Giselda Brito SILVA 5. O Legionário Integralista: um novo homem para uma nova era Raimundo Barroso CORDEIRO JÚNIOR 6. O homem no espelho e a Legião Cearense do Trabalho: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da SILVA 7. Tradição e Cristianismo em Minas Gerais: O nascimento do Integralismo em Juiz de Fora Leandro Pereira GONÇALVES 8. A imprensa integralista de São Paulo e os trabalhadores urbanos (1932-1938) Renato Alencar DOTTA 9. Integralismo Proh Pudor! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo Rodrigo CHRISTOFOLETTI 10. Entre Sigmas e Suásticas: nazistas e integralistas no Sul do Brasil Ana Maria DIETRICH 11. Fotografias, gênero e autoritarismo: representações de feminino pela Ação Integralista Brasileira Tatiana da Silva BULHÕES 12. 1955: A campanha de Plínio Salgado à Presidência Gilberto Grassi CALIL

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APRESENTAÇÃO Hélgio Trindade

Os estudos e pesquisas sobre o Integralismo, que no passado foram relegados a um segundo plano pela historiografia brasileira, estão gerando um renovado interesse por jovens pesquisadores de várias regiões do país. Vale lembrar que, nas décadas de 1970 e 1980, um primeiro grupo de pesquisadores debruçou-se sobre o tema produzindo a primeira série de teses, pesquisas e ensaios. O resultado certamente foi o de trazê-lo para a produção acadêmica de algumas instituições universitárias nacionais. Os enfoques e as interpretações nem sempre foram convergentes, mas o Integralismo passou a ser valorizado como um tema relevante para vários historiadores consagrados. Além de Edgard Carone que o incorporou em seu livro sobre a Segunda Republica (1930-1937), o Integralismo entrou na História Geral da Civilização Brasileira (Período Republicano e em verbetes do Dicionário Histórico1 Biográfico do CPDOC. Após ter integrado a enciclopédia História do Século 2 20, dirigida por Francisco Weffort , os especialistas internacionais inserem o Integralismo na categoria dos fascismos extra-europeus. A Ação Integralista Brasileira (AIB) adquire então legitimidade acadêmica pela consagração da literatura internacional com os estudos comparativos de Juan Linz, Stanley 3 Payne, Pierre Milza, Stein Larsen e Alessandro Campi , entre outros.

 Professor titular de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1 CARONE, Edgard . A Republica Nova (1930-1937). São Paulo: Difel, 1974; FAUSTO, Boris (dir). Historia Geral da Civilização Brasileira (Brasil Republicano). Sociedade e Política. T.III. 3º Vol. São Paulo: Difel, 1981; Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro:1930-1983. Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu (coord). Rio de Janeiro: Editora Forense- Universitária, 1984. 2 História do Século XX. São Paulo: Editora Abril. n.52, 1974. 3 LINZ, Juan. Some notes toward a comparatives study of fascism in sociologica historical perspective. In: Laqueur, Water (edit). Fascism a reader´s guide. Berkeley: University California Press, 1976; MILZA, Pierre. Les fascismes. Paris: Imprimerie National, 1985; PAYNE, Stanley G. Historia del Fascismo. Barcelona: Edit.Planeta, 1995; LARSEN, Stein U. (edit). Fascism outside Europe. New York: Columbia

4 DOTTA. Como toda ideologia e organização que arregimenta adeptos e fiéis de vários extratos sociais e em contextos regionais diversos. POSSAS. Roma: Ideazione Edit. mas pela presença de novos centros de documentação e diversidade das fontes de dados disponíveis. Ao desenvolverem pesquisas regionais e locais estão enriquecendo os estudos sobre a diversidade das manifestações da AIB e seu sucedâneo. Rio Claro: Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. University Press.. R. em São Paulo. Este novo livro testemunha de forma eloqüente a atualidade do tema e a diversidade de abordagens e contribuições inéditas. Certamente uma nova geração de pesquisadores está com a palavra para lançar um olhar critico e criativo sobre os estudos fundadores e trazer a sua contribuição. 2001. 2003. Rosa (org). Esses estudos têm contribuído para uma visão mais complexa sobre as metamorfoses do movimento. Que cos´è il fascismo? Interpretazione e prospettive di ricerca. CAMPI. Nesta perspectiva.6 Na última década os estudos sobre o Integralismo foram retomados de forma vigorosa por uma nova geração de jovens historiadores e cientistas sociais. Alessandro. mas nas profundezas do Brasil. o Partido de Representação Popular (PRP). 2004. penetraram não somente em alguns centros maiores. o Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. inclusive publicando os resultados de suas pesquisas . partido e ideologia que. Lidia e CAVALARI. . segundo diferentes olhares. Integralismo: novos estudos e reinterpretações. é uma iniciativa meritória e que já apoiou os esforços do Grupo de Estudiosos do 4 Integralismo (GEINT). o Integralismo precisa ser analisado à luz das diferentes situações cuja explicação não se esgota apenas pelas análises mais abrangentes. Os estudos monográficos ou temáticos são fundamentais para o avanço da problemática não só pela riqueza e variedade de enfoques.

Depois. Ao procurar o que seria. o questionei sobre o que poderia ler a respeito. mas ele ressaltou como tudo o que havia. objeto de estudo das ciências sociais. Numa segunda fase. refletiu. Assim. os artigos e as teses se sucedem e podemos notar como esta é uma temática longe de atingir o esgotamento. . a situação mudou radicalmente e os estudos do integralismo não apenas se expandiram de forma acentuada. como as alterações teórico-metodológicas dentro da disciplina histórica e a disponibilidade de fontes. entre os anos 70 e 80. mas que não era realmente muito. claro. resolvi iniciar alguns estudos a respeito do integralismo. em que a produção relativa ao movimento era centralmente de integralistas (ou de seus herdeiros do Partido de Representação Popular) ou de seus opositores. grosso modo. era a obra do Hélgio Trindade e seus interlocutores diretos. como o clima político e social e a economia interna das Universidades. como se consolidaram enquanto campo analítico. A partir da 5 Doutor em História pela Unicamp. professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR e pesquisador do CNPq. o integralismo foi. Passados menos de vinte anos. essencialmente. Na verdade. Não me recordo de suas palavras exatas. em boa medida. parte da bibliografia dos estudiosos do integralismo. mas. dado o seu próprio caráter militante. houve uma primeira fase. os 60.7 INTRODUÇÃO 5 João Fábio Bertonha Em fins da década de 1980. praticamente. o meu orientador. Os livros. a produção histórica sobre o integralismo. Esses livros e artigos são. Só levando em conta esses elementos é que podemos compreender a caminhada dos estudos relacionados ao tema. ainda um jovem estudante de graduação em História. são essencialmente fontes primárias e não mais do que isso. Alcir Lenharo. dos anos 30 até. posteriormente. como qualquer outra. pesquisando com mais vagar. tanto elementos práticos. vi que havia alguma coisa a mais.

o grosso dos trabalhos se concentrou em “fechar” algumas das questões deixadas pela camada anterior. o que permitiu uma renovação da história política. foram reexaminados e a história regional começou a ser . Mas muitas outras questões precisavam ser respondidas e apenas com a entrada dos historiadores no campo as coisas mudaram. Gilberto Vasconcelos. os historiadores. envolvendo José Chasin. Além disso. um trabalho intenso de análise do discurso (então no auge do seu prestígio dentro das ciências humanas). revistas). sociólogos) e não de historiadores. nas mudanças sociais. filósofos. como as da polícia política. o Estado Novo. o que também foi de importância para que as pesquisas deslanchassem. houve toda uma série de debates mais do que conhecidos. deixaram temáticas como o integralismo para seus colegas das ciências sociais. o que reflete as próprias prioridades da disciplina histórica naqueles anos. Os contatos dos integralistas com os movimentos fascistas europeus e as suas relações com os imigrantes. História política era considerada perda de tempo e. o PCB. Nessa época. houve uma explosão de cursos de graduação e pós-graduação. foram postas a disposição dos historiadores. etc. além disso. O mais importante deles foi que a História se libertou da já mencionada ênfase na história econômica e social. Curiosamente. o que ocorreu. por este e outros motivos. entre o final dos anos 80 e o início dos 90 Vários elementos ajudam a explicar porque foi nesse momento que os historiadores passaram a olhar com mais interesse o movimento dos camisas verdes. estavam envolvidos com a chamada história econômica e social e mais interessados em grandes estudos estruturais.8 primeira grande obra de pesquisa sobre o integralismo (o livro do Hélgio Trindade. o que permitiu o surgimento de uma nova e mais numerosa geração de pesquisadores. uma seleção clássica de fontes (jornais. grosso modo. novas fontes. fortemente influenciados pelo marxismo e pela Escola de Annales. livros. salvo exceções. Num primeiro momento. No campo da produção pratica da História. publicado em 1975). Marilena Chauí e outros. etc. são estas obras centralmente de cientistas sociais (cientistas políticos. nos estudos de classe. os quais deram uma nova vida aos estudos do tema. como ênfase no estudo dos conceitos. os historiadores. especialmente os italianos e os alemães. Essa produção nos ensinou muito e apoiou tudo o que veio depois. etc. Abriu-se espaço para estudar o integralismo. Esse fato deixou aquilo que foi escrito sobre o integralismo naqueles anos marcado por alguns elementos.

Pernambuco. com suas personalidades.9 explorada. mas se consolidou efetivamente nos anos 90. na maioria. até agora centrada no campo católico. permite que ampliemos a discussão sobre as pontes entre o integralismo e as religiões cristãs. os discursos e as memórias de e sobre os integralistas e outros temas passaram a ser abordados. assim. como o de Gilberto Calil sobre a campanha presidencial de Plínio Salgado à Presidência em 1955 e o . Mas o momento é mais de vivacidade do que de crise na área. Nos últimos anos. Na verdade. Os estudos regionais continuam bem representados. enquanto outras sub-temáticas podem se esgotar na repetição. rever aquelas já estudadas pela historiografia. Também há temas que ainda aguardam os seus historiadores. a participação dos negros e das mulheres no movimento. esse novo filão – que nos trouxe conhecimentos sobre cidades no Rio Grande do Sul. e de forma extremamente positiva (pois é um erro imaginar que a AIB tenha desaparecido em 1938. há artigos que avançam para o período pós Segunda Guerra. O anti-semitismo integralista. reunindo trabalhos de. no mínimo. etc – já tinha sido abordado na década anterior. ao lado da explosão numérica. como o relacionamento da AIB com os militares ou o cinema integralista. houve um extraordinário desdobramento em termos de temas e problemáticas. ao analisar os contatos do integralismo com o metodismo. o interior de São Paulo e Minas Gerais. Vemos. Giselda Silva e Leandro Gonçalves. por exemplo. em trabalhos como os de Renè Gertz e Josênio Parente. como não podia deixar de ser. o que é perigoso. Estudos sobre discursos e memórias sem uma analise crítica e uma síntese. problemas e/ou outras questões. como nos artigos citados acima e no de Raimundo Cordeiro sobre o Ceará. Este último. jovens pesquisadores que utilizam o prisma teórico do historiador para abordar temáticas novas ou. aliás. Claro que essa nova historiografia também trouxe. nos artigos de Ana Maria Dietrich. inclusive com o uso de novas fontes. já comentada. temas clássicos como o relacionamento entre nazistas e integralistas no sul do Brasil ou aquele entre católicos e integralistas recebendo um novo tratamento. num processo que prossegue. idéias e perspectivas atuando na história do país por muitas décadas ainda e mesmo hoje). trazendo coisas novas e novos elementos para repensar o que foi o movimento. dos estudos a respeito do integralismo. podem transformar a história em uma coleção de discursos iguais. Ao mesmo tempo. O presente livro indica claramente essa situação.

também foram seduzidos pelos ideais integralistas nos anos 30. Seu texto. por Renato Dotta no seu artigo sobre a relação entre o integralismo e os trabalhadores urbanos em São Paulo. Seria fundamental também que tais ensaios biográficos extrapolassem o período do próprio integralismo. como os demais movimentos fascistas. mas numa visão mais histórica e menos determinista. matizada. são indicativos de um novo filão de pesquisa relativamente negligenciado nas décadas passadas e que vai lentamente se abrindo. o das biografias e o das relações entre os líderes integralistas. mas o trabalho de Dotta indica como essa visão tem que ser.10 de Rodrigo Christofoletti a respeito da Enciclopédia integralista dos anos 50. por sua vez. Já tínhamos. Já o segundo tenta entender a produção literária e a formação ideológica de Plínio Salgado. no sentido da existência de uma bibliografia tão ampla que foge da capacidade de administração de um . Parecemos distantes do momento em que teremos que abandonar essa idéia. ainda não chegamos ao ponto de “perda de controle”. A primeira escreve um texto na fronteira entre a história de gênero e as representações fotográficas. Afinal de contas. indicam como esse campo de estudos tem se desenvolvido. dentro de histórias de vida. pois trabalhadores e operários. Os artigos de Renè Gertz e Edgar Serrato. Reale e Salgado e um ou outro texto sobre líderes regionais. regionais e de simples militantes. É uma tradição considerar o integralismo. análises historiográficas a respeito do integralismo. demonstrando. no mínimo. e o de Emília Carnevali da Silva sobre Severino Sombra. as mudanças e continuidades dentro da trajetória da direita nacional no século XX. Estas estão se tornando mais comuns recentemente e. Mas faltam ainda estudos biográficos mais densos não apenas dos três principais líderes. alguns trabalhos sobre Barroso. como ele demonstra. As bases sociais do movimento são investigadas. por sua vez. como tendo a sua base social essencialmente nas classes médias. na verdade. fazem. mais do que tudo. duas das áreas de maior interesse para a nova geração de historiadores. Os artigos de Tatiana Bulhões e Leonardo Padilha também indicam perfeitamente as novas preocupações dos estudiosos do movimento. utilizando estratégias de escrita diversas. Padilha também sugere caminhos para a produção da biografia de Plínio Salgado (o que também tenho tentado fazer) e a memória construída em torno dela. como também de outros secundários. além de memórias e livros auto-celebrativos dos próprios integralistas. ou seja.

. o presente livro é não apenas um indicativo da vitalidade do campo dos estudos a respeito do integralismo no momento atual como se configura numa excelente contribuição dentro dele. Já estamos muito longe do momento em que os estudiosos do integralismo não tinham interlocutores e deviam se resignar ou a debater com os militantes ou a ler e reler os poucos textos disponíveis. Mas já estamos num momento em que a massa de livros e artigos demanda textos que os organizem e historicizem. Enfim. o que é um bom sinal. de forma a orientar os que se iniciam no tópico.11 único pesquisador. o que é algo a se comemorar.

Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. na década de 1970. e que eram afixadas no quadro de avisos do curso. fora defendida em 1971. penso que seria interessante recorrer a essas resenhas. havia dito que permitira que os “plinianos” da década de 1930 tivessem chegado ao poder. Em 1975. para ver os comentários que se fizeram naquela época. Não tenho mais presente nem os textos nem o conteúdo das resenhas mais rápidas publicadas na imprensa sobre o livro de Trindade. quando ingressei no curso de mestrado em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). 1974. e o autor era professor desse curso. Hélgio. neste momento. pois. Se minha memória não está falhando. afinal. dois anos após o início da presidência do general Emílio Garrastazu Médici. . ele se tinha ocupado de forma bastante intensa com a AIB nos anos 1930. numa possível tentativa de justificação da oportunidade dessas * Professor nos Departamentos de História da PUCRS e da UFRGS. Infelizmente.12 1. o livro hoje clássico de Hélgio Trindade sobre a Ação Integralista Brasileira (AIB) 6 tinha sido recém publicado. especificamente à tese. não me lembro mais de nenhum detalhe do conteúdo desse comentário sobre a obra. uma delas era de Alceu Amoroso Lima. ocasião em que manifestara simpatia pelo movimento. PESQUISAS SOBRE O INTEGRALISMO NA DÉCADA DE 1970 * René E. Hoje. dera uma guinada nas suas posições políticas e se tornara um dos críticos mais categorizados do regime militar. e tinha como título “A interpretação do integralismo vem do Sul”. Deve ter sido importante. Plínio Salgado. Tese de doutorado na Universidade de Paris I. e quais as eventuais “atualizações” ou vinculações que se estabeleceram com a realidade dos anos 1970. São Paulo: DIFEL. de cujo governo o ex-chefe-nacional da AIB. 6 TRINDADE. Gertz Este pretende ser um depoimento pessoal muito breve sobre meus estudos a respeito do integralismo. mas.

apenas aqueles que defendiam de forma entusiástica uma reconstitucionalização imediata para. na apresentação ao trabalho de Gilberto Vasconcelos. pode-se dizer que Trindade foi acusado de não distinguir entre uma série de conceitos. em SANTOS. 7 7 Essa idéia é sugerida pela observação feita por Florestan Fernandes. mais tarde. Não partilho dessa opinião” (p. o antiliberalismo seria outra dessas características que não pode ser apontada como privilégio do fascismo. fascistas. um texto intitulado “Paradigma e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira”. Este apresentou. Ordem burguesa e liberalismo político. no qual dedicou cerca de duas páginas a 9 uma crítica do texto do primeiro. para comparar tudo isso com a direção que tomaram as 8 várias “ondas” posteriores de pesquisa sobre a AIB. seguindo a lógica de Trindade. Gilberto. 2004 p. 15-63 (a crítica ao trabalho de Trindade está nas p. voltar ao status quo anterior à Revolução de 1930 escapariam da classificação de “fascistas”. na qual afirma não enxergar nenhuma utilidade no estudo do integralismo (VASCONCELOS. 11). 1979). constituiria tarefa de toda ciência classificar em conceitos cada vez mais distintivos e precisos a realidade material. segundo Wanderley Guilherme. p. 9 Esse texto foi publicado. também não constituiria característica exclusivamente fascista. a ser citado a seguir. Dissertação (Mestrado em História). pois – em partindo desse princípio – a própria Aliança Nacional Libertadora deveria ser classificada como tal. mesmo que ele nos informa ter optado originalmente pela idéia de “geração” e passado a preferir. grupos e movimentos que apresentavam características que não constituem exclusividade fascista. Fernandes escreveu: “O que me põe de quarentena [em escrever o prefácio] é o assunto. o voluntarismo. governos fortes não seriam. em 1975.13 pesquisas . São Paulo: Brasiliense. 28 e segs. São Paulo: Duas Cidades. 1978. Wanderley Guilherme dos. o termo “fase” (“Perante o Tribunal da História”: o anticomunismo da Ação Integralista Brasileira [1932-1937]. A indistinção conceitual anticientífica – já que. 30-31). Lembro-me com mais detalhes – e posso consultá-la até hoje – de uma polêmica em que Hélgio Trindade se envolveu com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. . A ideologia curupira: análise do discurso integralista. ipso facto. social e política – levaria a que. a predisposição para um profundo engajamento político. Grosso modo. 8 A palavra “onda” encontra-se num trabalho de Rodrigo Santos de OLIVEIRA. de alguma forma. Hoje está na moda dizer-se que se deve estudar o integralismo. Assim. na realidade do início da década de 1930. Porto Alegre: PUCRS. depois. o que o teria levado a considerar como fascistas pessoas.

Hélio. ano IV. Aquilo que se encontrava em Edgard Carone era. Trindade. em termos benevolentes. Também não conhecia a tese de doutorado de Elmer 14 Broxson. Robert M. 1940. Plínio Salgado. Porto Alegre. Stuttgart/Alemanha: Kohlhammer-Verlag. a elaboração de qualificações sobre aquilo que seria o fascismo que.14 Hélgio Trindade respondeu a essa crítica. era de 1970. e que possui um capítulo dedicado ao 13 integralismo. Outros trabalhos de que só tomei conhecimento mais tarde – mesmo . Edgard. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1938. 135-143. no qual a tese de Trindade é inserida. defendida na década de 1930. cujo original. p. está traduzido para o português e pode ser obtido no Centro de Documentação sobre a AIB e o PRP. a que o historiador tivera acesso antes da publicação. O regime de Vargas: os anos críticos. Elmer R. Essa mesma revista publica um artigo de Juan Lins sobre “O integralismo e o fascismo internacional”. 10 TRINDADE. Plínio Salgado and Brazilian integralism. 1972. mesmo que destacasse diversas características que o 10 aproximariam desse “tipo” de regime. viria a descobrir outra tese defendida na Alemanha naquela época e também publicada lá (em português): Gut. 1974. em textos que escrevera ainda antes da fundação da AIB. tivera acesso à tese de doutorado de Carlos 12 Henrique Hunsche. O livro de Hunsche. 14 BROXSON. Eu era um simples aluno de mestrado e não tinha informações sobre outras pessoas que estivessem realizando estudos sobre o integralismo. Revista do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (da UFRGS). 13 LEVINE. defendida em 1972 nos Estados Unidos. 1980. atribuiu a ele. São Paulo: DIFEL.: Pilger-Druckerei. Rh. ao livro de Robert Levine sobre O regime de Vargas. 1932-1938. A República Nova (1930-1937). Alguns anos depois. 1938: Terrorismo em campo verde. em Porto Alegre. 11 SILVA. e. por essa época. praticamente. em inglês. 128-134. 194-231). p. mas que só seria publicado no Brasil em 1980. Karl-Heinrich. O trabalho não conteria uma classificação simplória do integralismo como fascismo. 1971. na Alemanha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. que. 1934-1938. Lera. por exemplo. no contexto dos estudos internacionais sobre os fascismos (p. eram qualificações que o próprio Plínio Salgado atribuíra ao fascismo. na realidade. destacando que fora interpretado de forma totalmente equivocada por Wanderley Guilherme. talvez como um dos primeiros pesquisadores brasileiros. Tese (Doutorado em História) Washington: The Catholic University of América. o creador do integralismo na literatura brasileira. Speyer a. Der brasilianische Integralismus. o resumo de algumas partes do trabalho de Trindade (Carone. 12 HUNSCHE. Texto e contexto: nota crítica a alguns aspectos do estudo “Paradigma e História” de Wanderley Guilherme dos Santos. Não tive acesso. o livro de Hélio Silva intitulado 1938: 11 Terrorismo em campo verde . Nicolau de Flue. naturalmente. entrementes. Hélgio. 1976.

Mesmo que as matérias publicadas por alguns órgãos da então nascente “imprensa nanica” sobre o estudo de Hélgio Trindade. vol. Mesmo assim. tivessem despertado meu interesse e constituído uma das motivações para meu ingressado no mestrado em Ciência Política da UFRGS. Com tudo isso. 15 respectivamente. Washington. "Integralism and Brazilian catholic church " The American Historical Review. 1974. G. nº 3. o escritor me deu o seguinte conselho: “Para o meu bem [de Dyonélio que já existissem naquele momento – foram: HILTON. Ação Intergalista Brasileira: fascism in Brazil.. se refletem a discussão sobre o caráter “mimético” ou não do integralismo. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda. mas no final da longa conversa.]. 54. 1981. por tabela. Madison.15 Talvez tivesse entendido melhor a polêmica entre Wanderley Guilherme e Hélgio Trindade se soubesse das teses então em andamento de J. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. VASCONCELLOS. procurei o escritor Dyonélio Machado. 16 Um comentário de Hélgio Trindade sobre esses trabalhos pode ser encontrado em seu texto intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30”. 1972. Fui muito bem recebido. 1932-1938. J. História Geral da Civilização Brasileira [vol. Sempre tive muita consciência de que me inseria numa discussão teórico-metodológica de menor abrangência e que mordia esse tema apenas pelas beiradas. 10]. Tinha a intenção de dedicar-me ao estudo da Aliança Nacional Libertadora (ANL) no Rio Grande do Sul. eventualmente até sobre os destinos da humanidade. sobre a possibilidade de classificálo entre os fascismos. hoje em dia. cit. não vinha decidido a transformar esse tema em interesse central de minha atividade de pesquisa. São Paulo: DIFEL. p. Williams. In: FAUSTO. 304-316. 1978. quero dizer que meu ingresso no campo de estudos sobre o integralismo não se deu a partir de uma batalha nas barricadas teóricas e metodológicas em que se tentava decidir sobre o alfa e o ômega do movimento e. em 1935. Luso-Brazilian Review. . op. IX. Stanley E. ainda antes de sua edição em livro. Chasin e de Gilberto Vasconcelos. penso. 15 CHASIN. que dei uma contribuição de algum valor. A modéstia de minhas pretensões pode ser inferida do próprio fato de que não ingressei no mestrado com a decisão tomada de que faria uma dissertação sobre o integralismo. nº 2. Nelas. presidente da ANL. em 1978 e 1979. Depois de ter lido a então escassa bibliografia geral sobre esse assunto e de ter reunido algumas poucas informações a respeito de sua atividade no estado. e também sobre os interesses daquele momento 16 subjacentes ao estudo desse fenômeno do passado. vol. e das quais só tomei conhecimento depois da publicação. Boris [dir. Margaret TODARO.

e sua expansão nas regiões de colonização alemã do sul do Brasil. Como o título indica. num total de exatas 52 edições semanais. ministrada por Hélgio Trindade. interessava mais o conteúdo doutrinário. A conversa com Dyonélio aconteceu no início de 1976. mas o fato de que notei desde os primeiros números que algumas opiniões preconcebidas que eu tinha sobre o integralismo. . e no primeiro semestre desse ano me matriculei numa disciplina sobre “Pensamento político brasileiro no século XX”. ao lado de Caxias do Sul – típico de colonização italiana –. durante suas pesquisas para a tese. nessa temática e ir apresentando. portanto ao “pensamento” integralista. elegera um vereador integralista nas eleições 18 municipais gaúchas de 1935. Acabei recorrendo também a algumas outras fontes. 17 Meu projeto só foi concretizado quase 20 anos depois por Diorge Alceno KONRAD (1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul. de alguma forma. de novembro de 1936 a novembro de 1937. Com a negativa do ex-presidente da ANL em colaborar com informações. num paper semestral. os avanços feitos na sua pesquisa. São Leopoldo. esquece essa história”. e todas elas me diziam que a história contada como líquida e certa – e na qual também eu acreditara até 19 então – não era tão líquida e certa assim. p. não pudera analisar o conteúdo. e por isso sugeriu que eu o fizesse. 19 O paper semestral está publicado sob o título “O integralismo e os teutobrasileiros no Rio Grande do Sul”. 143-174. município que. Como eu demorasse um pouco para definir o tema e a fonte a que me dedicaria. 1976.16 Machado] e para o teu bem. In: Anais do 2º Simpósio de História da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul. Relatou que. no decorrer do semestre. Para o seminário. 18 Caxias do Sul elegeu três vereadores integralistas. Dissertação (Mestrado em História). tive de 17 abandonar esse projeto. mas que. todos os participantes do seminário deveriam escolher um assunto que se enquadrasse. Porto Alegre: PUCRS. no final do período. não se confirmavam na leitura levou-me a sistematizar todos os conteúdos – mesmo aqueles que não se referiam a aspectos doutrinários. editado em Novo Hamburgo. certo dia. Paralelamente aos conteúdos desenvolvidos pelo professor. por não dominar o alemão. Hélgio apareceu. tratava-se de um jornal em língua alemã. Comecei a fazer um levantamento sistemático do conteúdo do jornal. editado em um dos mais típicos municípios de colonização germânica do Rio Grande do Sul. na sala de aula com um volume encadernado do jornal integralista Der Kampf. conseguira o jornal com a família proprietária da gráfica em que fora impresso. que deveria desembocar. 1994.

Porto Alegre: UFRGS. Como o integralismo era um partido nos mesmos moldes do nazismo alemão. na tese de doutorado. a adesão relativamente grande de alemães e descendentes era considerada algo absolutamente normal e óbvio. e com a atenção voltada exclusivamente para tudo aquilo que acontecia na Alemanha.17 E qual era essa história? Em resumo. 1977. ou seja. muitas vezes sem saber que eram brasileiros. Os alemães e seus descendentes. havia uma evidente correlação estatística entre a densidade da influência alemã (e italiana) na população e a densidade da presença integralista. em grande parte. mantendo-se “enquistados” em território nacional. como na apresentação do seu trabalho. principalmente no sul do país – por tudo isso. sem se nacionalizar. indicava que nem tudo era tão absolutamente claro. Estaria tudo claro. teriam resistido de forma tenaz e sistemática a uma integração política e cultural na realidade brasileira desde que chegaram aqui. a partir de 1824. Ela ficou pronta em 1977. alguns dados sobre a atividade 20 Considerando que ela não foi publicada – mesmo que seu conteúdo tenha sido aproveitado. Hélgio Trindade havia escrito que não abordara três temas que considerava merecedores de uma investigação. e como se supunha como evidente que o próprio nazismo deveria estar promovendo a expansão da AIB no Brasil. a saber: a relação do integralismo com a Igreja Católica. mas outros aspectos pressupostos como líquidos e certos. As pesquisas me levaram a não poder negar que o integralismo tivera um sucesso maior nas regiões de colonização alemã e italiana. sobretudo no sul do Brasil. a rigor nem haveria necessidade de explicar qualquer coisa. Nessa perspectiva. eu tinha um tema para minha dissertação. Como minha pesquisa semestral no jornal e em algumas outras fontes a que recorri. com as forças armadas. num verdadeiro Estado dentro do Estado. por exemplo. seu irmão de fé. e com as populações de origem imigrantista e os fascismos europeus. de que falarei a seguir –. mais ou menos a seguinte. e como eu estava à procura de um tema de dissertação – depois do abandono da idéia de me dedicar à história da ANL – e ainda. tendo sido defendida em outubro 20 daquele ano. pois seu conteúdo não foi totalmente integrado na tese: O integralismo e os teuto-brasileiros no Rio Grande do Sul: contribuição para a interpretação de um fenômeno político controvertido. completamente desinteressados e apáticos em relação à vida política brasileira. talvez valesse a pena citar seus créditos. sem aderir ao Brasil. . e fundamentais no estabelecimento da lógica que supostamente explicaria essa correlação. não puderam ser comprovados. Assim. e a situação não demandaria qualquer explicação. porém.

Essas exceções. Essa equação. (orgs. o maior líder integralista de Novo Hamburgo. Porto Alegre/São Leopoldo: EST/Instituto Histórico de São Leopoldo. pelo fato deste defender um nacionalismo que tinha na fusão racial e na constituição de um melting pot brasileiro um dos seus grandes objetivos.18 nazista no Brasil indicavam que. havia muitas décadas. por sua vez. Wolfram Metzler. defendia a prática da segregação étnica dos descendentes de alemães como programa – tinha em relação ao integralismo. de forma que o encaravam com muita suspeita. porém. podia ser caracterizado como um personagem bastante “germânico”. Também ficaram muito patentes as profundas reservas que o movimento germanista – o qual. Imigração e imprensa. de que os descendentes de alemães constituíram um “quisto étnico”. econômicos. 2004. e os atores políticos contemporâneos faziam uma clara distinção entre nazistas e integralistas – coisa que nas interpretações correntes não acontecia. teria conduzido. O almanaque (Kalender) na imigração alemã na Argentina. . O mesmo acontecia com as autoridades do interior do estado. Pode-se citar um exemplo: sem dúvida. intelectuais. o qual. Nesse sentido.). ao integralismo. In: DREHER. vereador eleito nas eleições de novembro de 1935. Nas Ciências Humanas. 21 GRÜTZMANN. enquanto sua polícia batia nos integralistas – fossem de origem alemã ou não. apesar de católico. o governador Flores da Cunha mantinha um relacionamento muito estreito e cordial com a representação diplomática do governo nazista e era assíduo nas festas dos militantes da suástica. Evidentemente. era muito mais favorável à AIB do que mostraram as análises dos demais almanaques de língua 21 alemã arrolados em meu trabalho. no Brasil e no Chile. Der Heimatbote. encontrável tanto na bibliografia quanto no senso comum. por sua vez. el al. sociais. não conseguiram invalidar uma tendência geral que dificultava em muito a equação corriqueira. no mínimo. 54. concretizado na força do movimento “germanista”. em função da total identidade de interesses e de ideologia entre ambos. e esse aspecto ainda era reforçado pelo fato de que germanistas luteranos enxergavam no integralismo um movimento muito influenciado pelo catolicismo. naturalmente. o objeto de estudo não é inerte e tem vontade própria. p. culturais. teria escancarado as portas ao nazismo. que eu não consultei na época. o partido nazista não apoiou de forma irrestrita a difusão da AIB entre os teuto-gaúchos. podendo contrariar tendências gerais ou condicionamentos materiais. editado no interior de Santa Cruz do Sul. Martin N. que. Imgart Grützmann também mostrou que ao menos um almanaque germanista. havia exceções. Imgart.

para outros poderiam constituir imperativo de qualquer convivência democrática. Em resumo: não embarquei nessa proposta. Ao consultar a documentação da prefeitura. era difícil testá-la com instrumentos minimamente intersubjetivos. Claro. e cuja sede se localizava muito mais próximo do que a sede do primeiro. Muitas atitudes que para meu orientador poderiam parecer autoritárias. Além disso. Nesse distrito se registrou uma densidade eleitoral integralista muito maior do que no restante do município. por exemplo. Citei. socioeconômicos.19 que. perfeita. em contradições. Mas eu simplesmente defendia – e continuo defendendo – a tese de que ela é dispensável para explicar a presença integralista nas regiões de colonização alemã. uma certa rigidez na observação de algumas regras da convivência cotidiana. Como. A recíproca também era verdadeira – eu não tinha como provar que a variável étnica não tinha absolutamente nada a ver. O problema começava pela definição daquilo que é uma “educação autoritária”. o integralismo com seu descompromisso com as oligarquias tradicionais foi favorecido. o caso do distrito de Campo Bom. a toda hora. cognominado “berço da imigração alemã” no Rio Grande do Sul. que independe totalmente da variável étnica. Temos aqui uma explicação política universal. como. na época. integrando o município de São Leopoldo. e até geracionais. não deixei de ver alguns problemas na minha posição. em que havia uma densidade maior de integralistas havia um problema político local não resolvido. metodologicamente. refletia uma lógica absoluta. O problema da hipótese de que a variável “educação autoritária” poderia explicar a simpatia pelo integralismo consistia no fato de que. o levantamento dos nomes dos integralistas mostrou que tinham características socioeconômicas e etárias muito específicas: eram jovens e sua trajetória de vida mostrava uma tendência para a ascensão social. a oposição oligárquica não podia ou não queria ceder a essa reivindicação. criado em 1927. essa característica . aparentemente. nesse sentido. dei destaque a fatores políticos. na realidade empírica tropeçava. constatei que havia ali um movimento que vinha desde a virada da década de 1930 – e que se estendeu Estado Novo a dentro – lutando pela desanexação de São Leopoldo para ser anexado a Novo Hamburgo. às vezes nos distritos. aparentemente. meu orientador sugeriu que deveria procurar a explicação na “educação autoritária” que essa gente havia internalizado. Em primeiro lugar. E. ficou muito claro que naquelas localidades. Diante das evidências de que a variável étnica não podia servir de forma tão direta quanto sempre se imaginara para a explicação da difusão integralista entre os “alemães”. Evidentemente.

1931 bis 1939. 1991 [dissertação de mestrado]. mas nenhum deles encontrou algo completamente diferente (BARTELT. MÜLLER. o mercado político para os cidadãos locais. Pessoas assim existiam também em outras regiões. Brasilien. . no Rio Grande do Sul. Konflikt und Anerkennung: die Ortsgruppen der NSDAP in Blumenau und in Rio de Janeiro. isto é. os integralistas tinham conseguido eleger quatro vereadores. germanismo e suas eventuais ligações com o integralismo tinham sido indiretas. acrescentei um número considerável de informações àquelas 22 Estudos posteriores ao meu têm introduzido algumas pequenas correções àquilo que escrevi. Jürgen. Mas nas regiões de colonização durante toda a Primeira República houvera de parte do governo uma restrição política. Berlim: Technische Universität Berlin. as pesquisas em fontes alemãs – arquivos do ministério das relações exteriores. arquivos partidários e arquivos de organizações que se dedicavam aos assim chamados “alemães no exterior”. Estava aí um problema: como explicar essa enorme diferença no sucesso alcançado nos dois estados? Esses dois 22 aspectos vieram a constituir o plus da tese em relação à dissertação. Um passo adiante em relação à dissertação. Dawid D. Na dissertação de mestrado. Suttgart: Verlag Hans-Dieter Heinz. Certo. Tese (Doutorado em História). 1998. nas eleições municipais de março de 1936 em Santa Catarina. portanto. imprensa alemã e imprensa de língua alemã do Brasil (à qual eu não tivera acesso aqui). De uma maneira geral. buscadas em escassa bibliografia secundária. houvera uma presença maciça de prefeitos e funcionários vindos de fora dessas regiões. bibliografia especializada sobre o nazismo etc. em contrapartida. portanto. buscando espaço no mercado político. restringindo. as fontes alemãs sobre nazismo. e assim se juntavam restrições de mercado político com maior presença de setores em transição social. germanismo e integralismo. Tendo obtido uma bolsa para fazer o doutorado na Alemanha. MORAES. Chile und Mexico. nesse sentido. 2002. Luís Edmundo de Souza. seriam. Die Auslandsorganisation der NSDAP in Brasilien im Rahmen der deutsch-brasilianischen Beziehungen. essas regiões apresentavam uma maior dinâmica econômica que as demais regiões. E. tinham conseguido eleger oito prefeitos e 72 vereadores. Nationalsozialismus in Lateinamerika: die Auslandsorganisation der NSDAP in Argentinien. A outra frente nova era sugerida por uma informação encontrada no decorrer da pesquisa para a dissertação: nas eleições municipais de novembro de 1935.20 não era privilégio das regiões de colonização. resolvi continuar com o tema envolvendo nazismo. Berlim: Freie Universität Berlin. as descobertas feitas em todas essas fontes confirmaram as conclusões básicas da dissertação.

Nesse sentido. eram. por exemplo. As associações recreativas e culturais que aqui tinham tido uma função importantíssima na manutenção dessa mesma “germanidade”. Disso decorreria uma explicação relativamente lógica para a presença mais densa do integralismo. sem uma presença dominante na sociedade. Se no Rio Grande do Sul o primeiro candidato a governador com sobrenome alemão só veio a existir em 1950 – e se até 2005 nenhum cidadão de sobrenome alemão ocupou esse cargo. Em Santa Catarina. se no Rio Grande do Sul os sobrenomes dessa origem nos cargos de prefeito não eram totalmente ausentes. ao menos como titular –. na época. no mínimo. se não impunha um veto total à explicação corrente. mostrei. que as do Rio Grande do Sul. Outra vez se estava diante de uma explicação muito plausível e. o primeiro artigo da Liga de Sociedades Germânicas de Joinville dizia que sua função básica era promover 20 festas anuais. incluindo sua defesa diante dos perigos representados por uma eventual interferência do Estado. em Santa Catarina apresentavam-se com o único objetivo de fornecer lazer. em Santa Catarina vários cidadãos de sobrenome alemão ocuparam esse cargo desde o início da República. Mas mais uma vez a empiria. no mínimo. Um avanço mais significativo. porém. Lá se falaria um alemão ainda muito mais “puro” que aqui. Uma análise da presença de “alemães” em cargos políticos na Primeira República mostrou que. portanto. Outros indicadores de “integração” apontaram na mesma direção. trouxeram as informações específicas sobre Santa Catarina. defendendo seus interesses diante das autoridades municipais. não-integradas. o quadro era completamente diferente: os sobrenomes dos prefeitos dos principais municípios típicos de colonização alemã só excepcionalmente não eram alemães. que no Rio Grande do Sul tiveram um papel muito importante na manutenção da “germanidade”. que se a Liga de Sociedades Germânicas de Porto Alegre dizia no primeiro artigo de seus estatutos que sua função era a de congregar todos os “alemães” de Porto Alegre e também do interior. ou a tentativa de verificação dessa visão através de dados mais objetivos. estaduais e federais. mensuráveis.21 que já apresentara ali. não a confirmava. escassos. mal administradas. Uma série de referências sobre as regiões de colonização desse estado indicava que suas populações de origem alemã estavam muito mais segregadas e. convincente e inquestionável. aparentemente. Como medir se os descendentes de alemães de Santa Catarina eram “mais alemães” que os do Rio Grande do Sul? Os indícios antes indicavam que as igrejas. e tudo seria muito mais “alemão”. em Santa Catarina apareciam desestruturadas. No que tange especificamente ao .

22 integralismo. a parte “tradicional” do estado. Recebi recortes de jornais como Cidade de Rio Claro (SP). Além disso. Brasília). também naquele estado. educação ou cultura política autoritária etc. mais de cinco anos depois de concluída. algo parecido não acontecia em Santa Catarina há muito tempo. não fora assimilado como “revisionista”. os “alemães” apareciam com maior visibilidade do que no Rio Grande do Sul e a “colônia” era tida como mais alemã. por sua vez. para as oligarquias tradicionais de origem não-alemã. O Estado do Paraná. um único resenhista. também lá tudo pode ser explicado através de variáveis muito racionais e universais. correspondentemente à maior importância econômica relativa das regiões de colonização de lá. metafísicas. portanto. tivemos um pós-1930 muito mais conflituoso que no Rio Grande do Sul. do que nas do estado gaúcho. às vezes. O que efetivamente era diferente era a “integração” econômica dos descendentes de alemães. Pesquisas posteriores à minha confirmam cada vez mais essa assertiva. Essa importância econômica e política. também se pode explicar a presença política mais intensa. Pelo contrário. Em resumo. Se no Rio Grande do Sul. mas foi completamente ignorada pela imprensa de ambos. Isso gerou um conflito latente – e. de forma que meu texto. o fato de que em Santa Catarina a Revolução de 1930 representou uma troca dos detentores do poder estadual. SP). não conseguem explicar a maior densidade integralista. que falava de uma interpretação nova. ainda era economicamente a de maior peso. Mas a impressão que tive foi a de que os resenhistas não leram o texto ou o leram e não o entenderam. como conspiração nazista. A rigor. Diário de Pernambuco. portanto. inclusive constatei que grande parte das lideranças integralistas das regiões de colonização alemã estava casada com mulheres de origem não-alemã. O Estado do Maranhão. dentre aqueles de cujo texto tomei conhecimento – por isso peço desculpas se estou . Correio do Livro (UnB. explica a existência de maiores clivagens internas a elas. E. A maioria pareceu ter lido apenas o release da editora. a parte sul. A tese só foi publicada em 1987. a assim chamada “Campanha”. mas nos trechos que refletiam comentários mais pessoais dos comentaristas transpareciam suas concepções muito tradicionais. até os anos 1930. na verdade. Correio Popular (Campinas. aberto – de longa data entre as regiões de colonização alemã e as regiões tradicionais. Teve uma repercussão relativamente boa na imprensa ao norte dos dois estados aos quais se dedicava. explicações transcendentais. Por isso.

p. de 12 de janeiro de 1988. Se tivesse descoberto grandes conspirações contra a nacionalidade. ou seja lá o que fosse. enormes arsenais clandestinos e coisas do gênero. Aos “germanistas” mostrei que existiram nazistas agressivos. a “preço de banana”. que as grandes personalidades “alemãs” nem sempre eram benquistas entre a população etc. . João Fábio. no início de 1988. ou ignorando. integralista. não atingiu um público maior. algum comentário com enfoque diverso –. chegou a ser colocado nos balaios de liquidação. nº 1. metodologicamente. É tudo tão natural. Um Reich de poucos súditos. 37. minhas pesquisas mostraram que é muito difícil controlar. menos uma história espetacular. O autor tem razão: como sugere ao analisar o integralismo entre os “italianos”. certamente teriam sido comentados em muitos jornais e em muitas revistas. a utilização e a importância dessa variável. João Fábio Bertonha insinuou uma pequena crítica – ao lado de rasgados elogios – por eu ter exagerado. mas todos os autores que tentaram uma explicação – sobretudo exclusiva – a partir dela 23 CYTRYNOWICZ. leu o livro com atenção e o entendeu perfeitamente. Between Sigma and Fascio: an analysis of the relationship between Italian fascism and Brazilian integralism. Mas aos “germanófobos” mostrei que pelo simples fato de ter um sobrenome alemão um cidadão não era. 24 BERTONHA. 60-61. Senhor. minha história não contém nada de especial. meu texto não podia agradar nem a gregos nem a troianos. lhe responderia que. e na Feira do Livro de Porto Alegre. São Paulo. apesar de ter recebido certo reconhecimento entre especialistas. Madison. no 355. que existiram integralistas ferozes. estatisticamente presente na evidente correlação positiva entre densidade de população com origem alemã (e italiana) e densidade de sucesso do integralismo. p. foi Roney Cytrynowicz. É claro que ambos não podiam ter gostado dessa minha conclusão. em 2004. que escreveu um comentário de duas páginas muito 23 pertinentes para a revista Senhor. Roney. o livro narra tudo. Penso que – além de eventuais problemas de distribuição – essa pouca repercussão entre um público mais amplo se deve a dois fatores básicos: em primeiro lugar. vol. Luso-Brazilian Review.23 desmerecendo. Sua edição continua encalhada. 99. necessariamente. por um lado. 2000. O livro. Eu. no sentido de ter insistido demais que a variável étnica não tinha absolutamente qualquer importância na análise e interpretação do integralismo nas regiões de 24 colonização alemã do sul do Brasil. Ela está matematicamente. uma besta nazista. de emocionante. tão pouco excitante! Em segundo lugar. porém. Mas. essa variável não pode ser ignorada de todo.

a partir deles. justamente para deixar o claro possível onde estavam as divergências. me fez sentir a necessidade de exagerar em sentido oposto.. desde os anos 1980. meu tratamento da questão foi ideal-típico.24 invariavelmente incorreram em contradições insolúveis. Eu tinha diante de mim uma bibliografia que apontava numa direção. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado. Certamente se trata de um ato de benevolência de um orientando para com seu orientador. me entendo como um dos precursores. Portanto. tentei uma explicação alternativa. Mas também penso que os “estudos regionais”. e. essa linha de trabalho foi a que mais prosperou. por isso. de fato. mas também muitas coisas que se localizam nas suas adjacências. Rodrigo de Oliveira. a isso que ele chama de “estudos regionais” tenham tido conhecimento dos meus trabalhos e. um livro mais recente de minha autoria sobre a política sul-riograndense mostrou que as descobertas sobre aquilo que aconteceu nas regiões de colonização alemã nos anos 25 25 Talvez tenha algum sentido lembrar aqui um exemplo fictício que costuma ser utilizado pelos estatísticos para dar um exemplo de falsa correlação ou correlação espúria: o fato de que a absoluta maioria das pessoas que adoecem de câncer do pulmão seja fumante não prova que o mal vem do fumo – o câncer pode derivar do fósforo com que o fumante acende o cigarro. p. mesmo que alguns estudos “totalizantes” de bom nível tenham sido produzidos após a década de 1970 – penso em trabalhos como o de Ricardo 27 Benzaquen de Araújo. Ricardo Benzaquen de. em trabalho recente. . eventualmente. 1988. muitas vezes. justamente por tentar derrubar uma explicação profundamente internalizada. pois não imagino que todos aqueles que se dedicaram. mas não como inspirador. porque permitiram descobrir aspectos da realidade histórica não só no campo restrito do próprio movimento. Nesse sentido. 27 ARAÚJO. fiz a crítica dessa bibliografia. tenham optado por essa linha. O que admito é que. Talvez os “estudos regionais” sobre o integralismo tenham tido maior difusão em função do “balde de água fria” que Florestan Fernandes derramou sobre os pesquisadores. que. sem exceção. e penso ter mostrado de forma convincente as dificuldades em que ela se emaranha. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 35). revelaram-se mais úteis do que as grandes sínteses. 26 “A dissertação de Gertz desencadeou uma onda de estudos regionais” (op. ao declarar na citada introdução ao livro de Gilberto Vasconcellos que não via qualquer importância no estudo do integralismo em si. me classificou como pioneiro e inspirador daquilo que chama de estudos regionais sobre o 26 integralismo. Por outro lado. cit.

René E. abria perspectivas muito interessantes para olhar para os anos anteriores. Inversamente. . 2002. etnia e religião nos Rio Grande do Sul dos anos 1920. O aviador e o carroceiro: política. firmaram de forma definitiva minha convicção de que as explicações que dei para a votação integralista em 1935 naquele município 28 estavam absolutamente corretas. por exemplo. Porto Alegre: EDIPUCRS. 28 Gertz. as informações obtidas nesse livro sobre a vida política em Novo Hamburgo nos anos 1920.25 1930.

Enfim.26 2. estabelecendo estratégias de aproximação construídas a posteriori. 29 Leonardo Ayres Padilha Grosso modo. crítico ou sob a forma do ensaio. ou ainda. estabelecer os contornos das gerações e períodos de continuidade ou renovação. e nos que seguiram. ORIGENS DO INTEGRALISMO EM DEBATE pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20. ou ao menos passavam. constituição de esquemas explicativos. É neste sentido que surgem as indagações: o fenômeno que desestabilizou a vida cultural brasileira nos anos 20. as soluções resultavam. um contexto mental específico. tentando compreendê-lo a partir de um horizonte particular. sejam elas de cunho historiográfico. 29 Mestre em História pela PUC-RJ. etc. por uma definição esquemática do ambiente intelectual em que se dava o processo. os argumentos dos intelectuais com o intuito de organizá-los numa corrente de pensamento ou definí-los a partir de um conjunto de referências comuns – como. Houve tentativas de equacionar o problema. independente da resposta à questão anterior. ímpeto por classificação. por exemplo. Daí a preocupação sistemática em formular os “ismos”. Não é diferente o caso das avaliações do modernismo brasileiro. . indica um cuidado profícuo com a pesquisa. como a definição dos seus antecedentes como “pré-modernistas”. a história do pensamento social brasileiro procura estudar. quais foram as motivações dentro dos respectivos contextos? A procura de uma filiação para a década que se iniciou em 1920 foi questão premente. Não que isto seja irrelevante. com a justificativa de que este período foi radicalmente distinto de tudo o que se passara até então na vida cultural brasileira. por várias razões (estabelecimento de uma sensação de segurança. nomeando-o de movimento “pós-parnasiano”. ao contrário: situar o objeto de estudo. Elucidar a especificidade de um autor à luz do diálogo travado no interior de um grupo ajuda o entendimento das relações produzidas durante a construção do seu argumento. teve razões internas ou externas? E. desvendar influências.).

mesmo que durante a investigação as evidências porventura apontem para a necessidade de se tomar um outro caminho. equivocadamente. que os escritos do autor são classificados como produto de um pseudo-modernismo. a tendência das interpretações segue o mesmo caminho. . Como as correntes políticas se definiam com mais clareza. fica fácil (mas forçoso) enxergar o seu casulo oculto. e (b) embora. Esta interpretação foi objeto de minha dissertação de mestrado. em 1932. uma vez analisado o movimento do sigma. se atribua ao integralismo um caráter direitista. na medida deste 30 trabalho. tendo em vista sua “secundária” contribuição ao debate travado na década anterior. os anos 30.. não erroneamente. são oriundos de uma carência de pesquisas: (a) a questão da formação ideológica de Salgado. ambíguos e até mesmo constituem-se por meio de contradições próprias do processo de auto-formação. O trajeto é o oposto: “justifica-se” (novamente a posteriori) o caminho político-militante escolhido por Plínio Salgado.e. i. ao serem concebidos. Essa identificação imediata aparentemente soluciona de uma única vez dois tipos de problemas que. contudo. Com raras exceções. grande parte de suas obras a partir dos anos 30. Assim.27 Não é por acaso então que a década posterior.e. porém já constituído dez anos antes. É deste problema que este texto se propõe a tratar: ao se pensar esquematicamente a formação teórica do integralismo – buscando no passado de seu líder uma ideologia que já se apresentasse como semente do anauê – a interpretação fica comprometida até o fim com essa versão. os rumos tomados pelos que se debruçaram sobre a trajetória intelectual de Plínio Salgado antes da fundação da Ação Integralista Brasileira (1932) eram norteados por uma associação quase automática entre a produção do autor anterior ao surgimento dos camisas-verdes e os manifestos integralistas nos quais se transformaram. i. na verdade. como ele próprio diz. cuja referência se encontra na bibliografia.. construir um outro leque de opção a serem explorada. a polarização política corresponderia à ideológica. a análise é baseada numa analogia direta e artificialmente construída a partir de posições políticas e 30 Uma das opções para se entender a trajetória de Plínio Salgado antes da fundação da AIB. é a inserção deste autor no contexto a que ele efetivamente pertenceu: o do movimento modernista. provocava uma percepção ainda mais engessada. mesmo no que se refere às origens dos sistemas de pensamento que. em geral são fluidos. é. Os argumentos que se seguem tentam elencar alguns problemas que surgiram para quem optou conscientemente ou não por essa via e.

e. Chauí & FRANCO. a eclosão da Revolução de 1930 e a fundação da Ação Integralista Brasileira. O espaço reservado ao exame do Plínio pré-1930 é configurado como “véspera do movimento”.e. . a maioria das análises sobre o pensamento modernista do autor de Discurso às estrelas se orienta pelo caminho que ele traçou nos anos 30. 2 ed. assim. Rio de Janeiro. 1999. São Paulo: Brasiliense. in M. p. Paz e Terra: Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. desde o “início”. 33 CHAUÍ. este raciocínio é ainda mais nítido. 31 VASCONCELLOS. Na verdade. Maria Sylvia de Carvalho. é aquela associação com o seu futuro integralista que ocupa lugar principal. 1979. por conta de uma combinação entre dependência econômica e cultural e sentimento telúrico. entre os contextos das duas décadas no que diz respeito aos argumentos do autor em questão. (b) já no texto de José Chasin. no que diz respeito às interpretações históricas. o faz procurando verificar as relações causais entre seu trabalho como redator do Correio Paulistano – que era o órgão oficial de imprensa do Partido Republicano Paulista (PRP) –.. 32 CHASIN. a não ser de datas. do argumento integralista. se colocam as obras aqui brevemente citadas: (a) o 31 livro de Gilberto Vasconcellos constrói uma esquema que. embora bem construída. Ad Hominem / Una. É neste sentido que. às vezes consultando quase que exclusivamente os escritos do próprio Plínio Salgado. Marilena. a 32 associação é bem-vinda. (c) 33 Marilena Chauí compreende o integralismo quase que unicamente sob a dinâmica da luta de classes. ao contrário. “Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira”. quando o modernismo já entrara em nova fase. para “confirmar” a presença. o autor se atém a inúmeras repetições através de exemplos. Gilberto. bem como todo o contexto sociopolítico brasileiro.28 ideológicas que são transportadas imediatamente para o âmbito da pesquisa – o que certamente não é um bom ponto de partida. sem a pretensão de esgotar a totalidade das referências. São Paulo / Belo Horizonte. i. 1985.17-149. Guardadas as devidas proporções. faz a ideologia integralista já estar claramente presente – como tal – no discurso modernista de Plínio Salgado. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo híper-tardio. Plínio Salgado somente é pensado especificamente como integrante da renovação estética de 1922 de maneira específica pelos “manuais” de história literária. nas poucas vezes em que se refere à trajetória de Plínio Salgado na década anterior a 1932. José. Ideologia e mobilização popular. Ideologia curupira: análise do discurso integralista. a tese de Vasconcellos não delimita uma diferença.

1988. e ainda o texto de Eduardo Jardim de 35 Moraes onde. No entanto. Estes dois trabalhos são particularmente importantes para a construção do argumento deste texto que se inicia. 37 Giovanni Levi faz um comentário sobre esse raciocínio anacrônico numa perspectiva crítica aos próprios historiadores. nunca foram sequer imaginados. em sua reflexão.). através de análise que interpreta seus escritos como integrantes de um diálogo peculiar entre os conceitos de “totalitarismo” e “revolução”. embora não trate do período aqui estudado. Ver: LEVI. mesmo que para isso recorra à construção de caminhos que. Hélgio. A observação se concentrará na parte do texto dedicado ao período em questão. apesar de não estudar especificamente a trajetória do autor de O esperado. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. Marieta de Moraes (orgs. A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica. no momento em que eram percorridos. . Rio de Janeiro: Jorge Zahar. “Usos da biografia”. criação de vários outros sentidos (causas. ajuda a compreender como se desmembrou o argumento de Plínio Salgado nos anos 30. 36 TRINDADE. incluíram a questão proposta aqui.29 Alheios a esse desenvolvimento. o argumento desenvolvido neste trabalho: entende-se a produção modernista de Plínio Salgado como prólogo à sua atividade política e militante. As análises que se preocupam em estabelecer nexos diretos entre os momentos avaliados se caracterizam por um argumento em que. a questão é da construção de sentidotemporal para a “história de vida” e. 1979. como contraponto. o primeiro como referência e o segundo como uma possibilidade de interlocução.167-82. de alguma maneira. Ricardo Benzaquen de. este não é objetivo. a partir daí. O que se quer é retomar aquele ponto de onde se partirá. Rio de Janeiro: Graal. Usos e abusos da história oral. (Corpo e Alma do Brasil). 35 MORAES. Eduardo Jardim de. Seria possível ainda citar um sem número de artigos. com o intuito de se introduzir a discussão. motivos. o relato pretende ser versão acabada. São Paulo / Rio de Janeiro: DIFEL. 1978. e até histórias inteiras) para a 37 elaboração de um fio que liga os mais diversos episódios . Neste sentido. o compreende na dinâmica do movimento modernista. Para tornar essa 36 questão mais clara. evoca-se agora o livro que talvez seja o mais completo sobre o fenômeno integralista. In: AMADO. que o tornara mais famoso anos mais tarde. Rio de Janeiro: FGV. FERREIRA. Janaína. mais importante do que a produção de um sentido-causa para uma determinada trajetória. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado. 2 ed. 1998. teses e outros livros que. Giovanni. p. Apesar da obra de 34 ARAÚJO. destaco ainda o livro de 34 Ricardo Benzaquen de Araújo que.

39 O autor está preocupado com a biografia enquanto construção de uma trajetória que só pode estar num mundo social e assim. p. cujo caminhar só me aventuro quando tematiza o saber histórico. não pode ser considerado mais idôneo do que qualquer outro.” . Marieta de Moraes (orgs.. conseguem separar totalmente como se fossem ingredientes de uma mistura que dependesse unicamente do seu sujeito: poderíamos entrar numa discussão.189-90. op. deve referirse a ele e só terá (ou construirá) significado nele: “Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos. parece ser desprezada por debates que priorizam a discussão metodológica. portanto. não se tratarem de biografias. bem como com relação de causalidade entre as partes. In: BOURDIEU. serve? Maria Helena Werneck procura assumir essa questão partindo de um aspecto negativo que ajudará a formular o positivo. . meio e fim. ainda assim as reflexões teóricas sobre esse gênero da escrita podem ajudar a desvendar o ponto aqui proposto sobre as interpretações acerca da trajetória de Plínio Salgado. FERREIRA. podem ser expostas duas interpretações que não se anulam: (a) a história como vida – pretendendo assim significar uma totalidade acabada. onde há “privilégio concedido à sucessão longitudinal dos acontecimentos constitutivos da vida considerada como história em 38 relação ao espaço social no qual eles se realizam. a biografia.cit. com princípio. sobre a pós-modernidade. Pierre. isto é. por si. Mesmo sabendo do desenvolvimento sociológico que o autor dará ao trecho 39 assinalado. Em ambos os casos há uma descaracterização do que se está a estudar. op. Pierre Bourdieu define esse tipo de situação como “história de vida”. cit.). nomeado “pensar 38 BOURDIEU. e (b) a vida como história – representando o que “realmente” passou. seja aceitação acrítica de um relato que. ou mesmo as outras fontes em questão. Janaína. p. uma suposta verdade histórica. ou seja.30 Trindade. A própria maneira de se encarar o relato biográfico define o 40 trabalho que será empreendido : para quê ela. grifo acrescentado. in AMADO. é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto do metrô sem levar em conta a estrutura da rede. a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações”. ou pior (aí assumo minha posição – ratificando a centralidade de uma perspectiva que não existe sem a reflexão teórica). às vezes.189.. 40 Note-se que esta é uma questão teórica básica para as ciências sociais – e humanas – mas que. “A ilusão biográfica”. seja por estabelecimento de uma lógica temporal que não corresponde àquela em questão. sem outro vínculo que não a associação a um ‘sujeito’ cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio..

In: O homem encadernado. Para o filósofo. num novo tempo).23. não se pode tomar como solução o mergulho na pergunta é possível dar sentido à vida passada de um indivíduo? Em primeiro lugar porque um dos limites (ou melhor. fins do ano de 1971. que é destruído pela informação crítica e biográfica. seriam de pouco proveito quaisquer pretensões de se atingir a “verdade” – por concordar com a idéia de Nietzsche e por saber o lugar específico que as ciências humanas e sociais ocupam na produção do conhecimento. Assim. os biógrafos – ao tentarem atingir uma verdade – 42 anulariam o que há de melhor na vida (então reescrita): a arte . nesse caso.31 saudável sobre biografias” – nos apresentando a visão nietzscheana. p. a curiosidade positiva e pragmática dos biógrafos está orientada menos para as virtudes da criação que para ‘uma multidão de pormenores da vida e da obra’. uma das propriedades) da representação é justamente a apresentação de algo de novo (i. H. pode-se encarar com pessimismo a constatação da dupla dificuldade do trabalho que está por vir no exercício de se entender os escritos de tom biográfico. Desse modo. fatalmente de maneira distinta. Dito isto. Rio de Janeiro: Ed. Ainda assim. UERJ. está se referindo às biografias de artistas. mas o constitui. 41 .17-30. E ainda. o conhecimento que deriva dessa curiosidade impediria a irradiação do espírito à distância. assim. de outro. Maria Helena.cit. e. 42 É importante frisar que Nietzsche.. M. é vital assinalar que. Em Paris. op.e. p. Hélgio Trindade defendia sua tese de doutoramento intitulada L’action intégraliste brésilienne: un 41 WERNECK. “Um pensar saudável sobre biografias”. Sem o véu do esquecimento. o esforço que consiste em desvendar o que foi criado pelo relato para dar sentido às lacunas da memória. É desse modo que se está propondo aqui uma observação acerca da construção da visão de Hélgio Trindade sobre a relação entre a vida e obra literária de Plínio Salgado da década de 1920. e/ou imputar um significado que a própria história não representou. 1996. O desafio está lançado. De um lado a preocupação incansável de se remeter cada “passo interpretativo” a um contexto específico que não está antes ou depois dele.. a arte não alcançaria o objetivo de ensinar a viver e 43 a esquecer os problemas. 43 WERNECK.

Contudo. Traçando um caminho que vai do aprendiz de jornalista. dos princípios que se constituiriam como norte do primeiro movimento de massas do Brasil. diante dos professores René Rémond. ainda que muitas vezes 45 “fantasiosa”. era membro da Comissão de Educação e Cultura da Câmara. p. é possível interpretar os textos. no desenvolvimento da literatura do autor: “a evolução ideológica de Salgado.32 mouvement de type fasciste des années 30.42. Trindade elabora uma história que se constitui sempre determinada pelo que viria a acontecer – a luz do fim do túnel. Descrevendo desta maneira esses episódios (ambos à luz do ano de 1971). se espera uma descrição. se explica mais pela influência da revolução literária do que por sua experiência política em partidos 44 tradicionais”. Plínio Salgado exercia seu último mandato como deputado federal pelo estado de São Paulo. 45 Digo “fantasiosa” dentro naquela perspectiva de se criar explicações a posteriori como justificativas dos atos que se seguiram. apesar das complicações já citadas. o que não é o caso do livro de Trindade. nesta fase [1920-5]. Na verdade. op. Voltando uma década antes do fenômeno integralista. H. No entanto. de um passado onde o protagonista já demonstrava a vocação. o lugar de sujeito e objeto de uma análise histórica. mas o movimento e organização política que fundou: a Ação Integralista Brasileira. mesmo quando estes são profundamente descomprometidos com qualquer grau de objetividade.. Neste ano. respectivamente. buscando as respostas na trajetória político-intelectual de Salgado. pelo romancista social (quando sofre a “metamorfose ideológica”). ao status de fundador da doutrina integralista. e chega. na verdade. Preocupado em desvendar a origem ideológica dos camisas-verdes. o dito “objeto” de Trindade não é especificamente Plínio Salgado. estes também são problemas da análise biográfica. entretanto é muito importante para o argumento que será construído a seguir. . não é isso que acontece na narrativa de 44 TRINDADE. pode parecer estranho – e mesmo artificial – que esses dois “personagens” tomam.cit. particularmente nesta mesma data. De uma perspectiva de remontar a origem de uma experiência política. o cientista político busca o início das formulações. passa pelo homem – mais figurante do que astro – da Semana de 1922. filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e. Essa informação pode soar simples tendo em vista a já apresentação do título da tese. Reafirmo que. Trindade concede tom biográfico ao seu estudo. Celso Furtado e Georges Lavau. já iluminaria o percurso desde a entrada. finalmente.

numa passagem. é “a formação de São Paulo.49-55). op. . vida provincial e vida na grande cidade’. mas como ratificação da “metaformose salgadiana”. Ao invés disso e de maneira muito inteligente.57. na verdade. 47 Trindade. seu objetivo principal é descrever a ‘vida rural. A revolução literária. que não a de que seu caminhar foi muito peculiar. que era a do Brasil. os problemas. É então que Trindade. mas. até então. a mudança se 50 impunha: militância. umas querendo sobrepujar as outras”. de culturas.33 Trindade. Constatado o problema brasileiro e o destino da nação. H. p. onde as correntes migratórias 49 de diversas origens estão por realizar uma grande fusão étnica”. ou ainda. passa a não ser suficiente. p. delas. 1971. desvenda a situação política “por trás” do texto: “a problemática que está subjacente no romance [O estrangeiro].43. não concebia a 46 idéia da criação de um partido político novo como meio de se aplicar 47 suas idéias. e foi desse modo que sua formação política se deu através da literatura: seu primeiro romance é. cit. nos primórdios do movimento modernista. o autor reconstrói o caminho do seu personagem através de etapas que constituem o que ele chama de “metamorfose ideológica”. um estudo sociológico. a formação. 48 Ibid. não participara. e 48 de outro porque não protagonizava nenhum movimento – ele estava no meio das transformações. da literatura à política. À luz de uma história em que são revelados. procurar o ambiente literário da década de 1920 na biografia de Salgado significa correr o sério risco de não chegar à conclusão alguma. é claro 46 Digo “novo” porque Salgado trabalhava no Correio Paulistano – Jornal que era órgão oficial de propaganda do Partido Republicano Paulista (PRP). para Salgado. Hélgio Trindade também analisa este livro. um diagnóstico da vida brasileira. como autor. simultaneamente. onde a política passa a predominar sobre a literatura (Trindade.. Daí a importância da noção da “metamorfose ideológica” no raciocínio de Trindade: foi Plínio Salgado que viveu esta mudança particular. p. 50 Plínio Salgado une algumas crônicas suas que saíram no Correio Paulistano e as publica num volume único intitulado Literatura e Política (ver bibliografia). a mensagem do livro é o ‘nacionalismo’. Conglomerado de raças de várias procedências. 49 Ibid. justamente por viver a mutação literária que “sofria” a cultura brasileira não poderia estar alienado. No entanto. p. Plínio Salgado. de um lado porque elas ainda estavam em formação . Tentar entender a trajetória do futuro chefe da AIB de uma maneira contextualista. e a “força” da sociedade brasileira.35-69. situacionista. Salgado formula seu ideário.

op. 52 Na verdade. H. Sua obra romanesca. Dentre as mais diversas posturas biográficas que se pode assumir. mas por estar em uma de suas extremidades – não à margem. Hélgio Trindade não contrasta enfaticamente as diferenças da trajetória de Salgado em relação ao seu tempo. 53 Ibid. contudo. op. O caso de Salgado foi desenvolvido na margem.. mas por meio de suas margens.48. cit. cit.34 que de acordo com a relação que estabeleceu com o seu meio. esta política) e se tornou predominantemente política. Diz o autor: . G.178.176-7. através análise dos “casos extremos”. porque a revolução que pregava rapidamente se desvinculou da literatura (embora não a abandonasse – os livros do autor deixaram talvez de viver a mutação estética para virar divulgação da outra mutação. mas na margem. “biografia 51 LEVI..) o artigo de Michel Vovelle sobre a biografia: ‘o estudo de caso representa o retorno necessário à experiência individual. estabelece 54 a ponte entre sua atividade de escritor e de ideólogo político”. p. não é esse o seu caminho. p.. busca representatividade de suas trajetórias – mesmo quando estas sugerem que o que se estuda possa ser um caso isolado. Trindade se aproximaria da que.. Podemos citar aqui (. O início efetivo da mudança se dá em O estrangeiro: “a metamorfose ideológica de Plínio Salgado se processa sob a atmosfera intelectual da revolução estética. mesmo que possa 53 parecer atípica’ . penso que a mudança aqui sugerida não altera o sentido dado pelo autor. sua vida seria o que 51 Giovanni Levi chama de caso extremo: não como paradigma modernista ou máxima expressão do movimento. cit. Giovanni Levi diz “biografia e os casos extremos” e não “através”. op. e ter vivido esta metamorfose significou uma diferença de trajeto em relação aos outros modernistas.. segundo tipologia de Levi. p. Descrevendo os casos extremos. ... escrita em pleno período modernista. p. no que ela tem de significativo. 54 TRINDADE.176.. Neste raciocínio.esse caso [o da biografia através dos casos 52 extremos ]. lança-se luz precisamente sobre as margens do campo social dentro do qual são possíveis esses casos. A nomeação dada ao estudo (consultada em Levi). o contexto não é percebido em sua integridade e exaustividade estáticas.

35 através de caso extremo”. p. É conveniente ainda citar outro exemplo dessa escrita que pretende formar uma cadeia de causalidades em direção a um fim previamente traçado. em primeiro lugar. diz-se. das mais interessantes do seu tempo. Mas a minha intenção primeira foi dar o passo inicial. O desconforto que motivou a escrita de Loureiro (seu pai fora e é – no momento em que escreve – injustiçado) determina o conteúdo de seu texto: a pretensão de se contar a verdade nem sempre está em autobiografias de título fulano por ele mesmo. meu pai. 2001. 56 LOUREIRO. trata-se de um texto eminentemente biográfico. Na verdade. sua filha Maria Amélia Salgado Loureiro publicou em 2002 o livro que lhe parecia ser a narrativa reveladora da “verdadeira” história dessa personalidade que foi o seu pai. estadista e político de grande valor e um dos homens mais injustiçados no cenário da vida nacional. sendo. Amparada por uma autoridade tida por muitos como incontestável (a da convivência familiar). portanto. a não ser genericamente numa nota 57 explicativa que precede o texto. Plínio Salgado não escreveu nenhum livro de memórias – talvez exceto o que se refere especificamente as suas viagens à 55 Europa e Oriente. apesar de ter amado com todas as forças de sua alma o Brasil. está ligada muito mais ao direcionamento que Trindade vai dar ao seu argumento (gênese do integralismo) do que a defesa – do próprio autor – do caminho assim definido. Grifo acrescentado. realmente de sua autoria. A filha do biografado não cita a origem de cada fonte. Entremeei-as de considerações que me pareceram pertinentes. a ver se animava autores mais capacitados a empenhar-se numa tarefa maior. sempre sonhando torná-lo 56 uma grande e respeitada Nação. Plínio Salgado. intelectual de talento.XI. muito preocupado em ligar o “presente” integralista ao passado de Salgado. sua perspicácia não 55 Ver referência na bibliografia. em obra mais completa sobre essa figura ímpar. o autor cria um caso extremo (na margem) do modernismo. 57 O único trecho do livro que aborda a questão das referências é o seguinte: “Os capítulos referentes a sua infância foram redigidos segundo anotações por ele deixadas. mas procurei preservar. quando diz: não sei se fiz alguma coisa que preste. São Paulo: GRD. Maria Amélia Salgado. a parte . despretensiosa. Isto é. talvez na intenção de escrever uma autobiografia. ao máximo a redação primitiva. etc. Todavia. mas logo em seguida revelando as mais profundas intenções. Agora.

pois retirei a maioria dos textos das cartas endereçadas a mim e meu marido.116. do próprio país.”. portanto. p. lia muito.cit. Washington Luís. também é. p. Essas qualidades aparecem como definidoras do caminho de Salgado e. onde comprava livros baratos. assim como o próprio Plínio pensava. ainda como revisor. mas em revisitar a sua própria memória e torná-la pública. seu “verdadeiro” valor. Grifo acrescentado. Lia. i. entretanto. . Maria Amélia Salgado.36 está no fato de reunir documentos. É curioso ressaltar. O norte singularizado que conduziu a escrita de Hélgio Trindade (formação das idéias integralistas). daí a importância e legitimidade de exercitar a lembrança. Loureiro diz que seu pai apoiou Washington Luís com condição de este garantisse idoneidade nas eleições e respeito ao referente ao seu exílio em Portugal. Devagar. 59 Ibid. além de almejar fazer justiça à memória do pai. uma prova “externa” de tanta aptidão. Loureiro Júnior. Há de se construir. se multiplicou em Plínio Salgado. o que não só lhe rendeu a ascensão ao novo cargo. entretanto. porque logo depois. Um dos exemplos mais característicos da genialidade pode ser personificado na figura do autodidata. constrói seu texto a partir da noção de gênio individual – tanto artístico quanto político (nota-se uma proposital confusão entre os termos na sua narrativa) – e caráter íntegro. que esta alusão à figura do chefe de governo serve a um objetivo específico (notoriedade do autor). meu pai. como e porque a autora afirma isto ou aquilo. onde. numa ausência do então redator da coluna “Notas Políticas”. 58 Ibid. mas na intuição (ou sentimento). Todavia. não está na ciência. Loureiro. mas sua maior escola foi a vida – sua inteligência era a sensibilidade. como também cumprimentos do então presidente do estado de São Paulo e futuro presidente da 59 república. em uma segunda versão.. não vem ao caso criticar de antemão o texto de Loureiro. Plínio dirigia-se à Biblioteca Pública para estudar. mas sim analisar seu conteúdo e tentar descobrir suas construções.e. praticamente escrita por ele.. op. por isso Plínio estudava muito. Fazia-se por si. E o livro que mais leu nesse tempo foi o livro da 58 vida. É justamente aí que se segue a descrição do episódio que teria marcado de vez a sua entrada para a redação do Correio Paulistano: Salgado. teve a oportunidade de escrevê-la.. do que “faz-se por si”: “depois do almoço. um reconhecimento. Freqüentava “sebos”. talvez para que ele não seja cobrado.117. Ligar a inteligência do personagem às influências externas seria transformar sua originalidade. por serem as únicas notícias detalhadas que possuo dessa época de sua vida”. LOUREIRO. A verdade.

. a admiração convertida em livro demonstra a dimensão do elogio ao homem. A atribuição de valor incontestável à figura de Salgado logo no início da narrativa que se refere à formação de sua personalidade – e que vai desembocar na publicação de O estrangeiro – não significa outra coisa que não admiração. sem ter de violentar a sua 60 consciência”. Loureiro chama a atenção para a força de Salgado e. 62 Num dos acontecimentos narrados (o da morte do padrinho). dão lugar a uma nova ‘morfologia do elogio’. Todavia. O elogio é a moeda que salda uma dívida da humanidade 61 com o grande homem perseguido. a literatura da paternidade. e passagem do XX para o XXI.38. (c) a autora não se refere a uma postura de Salgado que revela satisfação com as infelicidades sofridas. p. Maria Helena Werneck num resumo que faz da história do desenvolvimento da biografia. ou biografia do pai. O panegírico e o elogio fúnebre. a partir do século XVIII: ao lado das cerimônias nas academias. que destaca o mérito em face do nascimento e explora a satisfação com a infelicidade como justificativa e lei do gênero. das peças de teatros em louvor de feitos gloriosos do grande homem. É imprescindível fazer ressalvas a uma eventual associação direta: (a) para fugir do anacronismo é necessário datar as situações – séculos XIII. Loureiro. op. ainda 60 Ibid. H. Plínio. desvenda as conclusões da autora como que vestígios.76-81. (b) não parece que Loureiro quer consagrar-se como escritora e sim fazer justiça ao pai. p.. para a sua inquietude e desenvolvimento espiritual que fez com que o caso vivido servisse de inspiração para seus escritos. cit. característicos da biografia clássica. mas as ressalta como que 62 uma prova de caráter e de superação .cit. p. op. das exposições e edições comemorativas. . posteriormente. M. consagra o filho escritor.118. Cf. 61 Werneck. descreve o que seria um exemplo de um tipo de exercício desta.37 regime representativo para que pudesse “sentir-se à vontade para redigir seus artigos no Correio. conseguir traçar caminhos firmes em meios em terras bem lamacentas. como que se servindo do dom a ele outorgado.

119-128.A. apontam-se os valores 66 eternos da arte e do pensamento. descobria-se um forte desejo de ‘criar a Pátria’: ‘A arte. naquele momento. ao contrário do que dissera Trindade. op. A primeira exposta acima – e servindo como crítica ao modernismo europeu – a vê como dividida. no Brasil ainda não se pode falar em ‘escola’. o que era mais significativo. p. da fascinação pelo pai. menos a tradição nacional”. onde uma das partes é composta por um elemento eterno. Op. da época em que era chamada de 63 Amelinha . mas pressupõe a idéia de nacionalidade. Loureiro só dá verdadeira importância ao momento do modernismo em que as revoluções estéticas já tinham “evoluído” para uma produção de reflexão sobre a nacionalidade – justamente o período em que foi publicado o romance primeiro de Salgado. então.38 presentes. segundo a autora. E concluindo. 64 Cf. Isso começou. cuida muito mais desse ideal do que a política oportunista. Segue a legitimação do caminho do pai. Plínio afirma que. vê a arte como fator de consciência nacional: “E continuando suas reflexões. numa reflexão – com a qual ela parece concordar – sobre a arte: criticando os modernistas europeus que se posicionavam como revoltosos contra as fórmulas antigas. cit. A importância de Plínio para o Brasil correspondia desse modo ao valor que esta nação representava para ele e. este movimento do qual participara ativamente “encarnava” o íntimo dos brasileiros: “os sentimentos nacionais se polarizavam na evocação do grande acontecimento para cuja comemoração se faziam os preparativos. p. É esse anseio que leva os artistas a representarem que nos lega tradições francesas. principalmente. felizmente. 65 Ibid. 66 Há em Plínio duas concepções de arte que se intercedem. pois a palavra ‘escola’ não está relacionada.. apenas.. A passagem que se segue é de suma importância para inserção do autor na fundação de algo verdadeiramente novo. cit. servindo à noção de que o autor é original.119-120. agora Salgado começava a se distinguir dentre os outros autores de seu tempo. além disso. suas idéias estavam prestes a consagrá-lo. M. Plínio Salgado. foi uma das figuras importantes da 64 Semana de Arte Moderna e. LOUREIRO. . que 65 expressasse o Brasil cem anos depois de se tornar independente”. a grupos de tendências estéticas semelhantes. A segunda concepção. ambas trabalhadas com propósitos diferentes por Loureiro. inglesas e portuguesas. e assim sagrá-lo no hall dos ilustres brasileiros: 63 O nome completo da escritora é Maria Amélia Salgado Loureiro. algo novo.S. Nos domínios da arte e da literatura sentiam-se os efeitos de um estado de espírito comum a todos os brasileiros. Procuravam. os cultores de todos os ramos de arte. Plínio Salgado declarava que sendo a arte de um país resultante de sua consciência nacional. Assim.

essa concepção. Mas o seu grande sonho era publicar um livro. no desejo de libertação das formas acadêmicas. Entretanto. nascia dali um sentido de brasilidade que. uma vivência do mundo: Plínio Salgado. serviu para a própria autora analisar a história do pai. mas a sua concretização só pôde ocorrer através de uma experiência externa. Salgado tivera vontade – foi um desejo. dando-se ampla autonomia aos escritores e artistas para que se expressassem livremente. .. ou do neoclassicismo. não necessariamente em sua ordem. Plínio Salgado elaborara um pensar genuinamente novo (porque profundo) sobre a nacionalidade: esta deveria ser exercida a partir de referentes internos (interior). a esse tempo. assumida. pois. centrada nele.e.120. p. i. firmara-se no cenário jornalístico com seus artigos no Correio Paulistano. motivação interna – de escrever um romance. Já o tinha no pensamento: seria um romance. que estava nascendo com 67 Ibid... aqui resumido: superando (entretanto) um reducionismo (puramente) característico daquele primeiro momento da revolução modernista. se tornou profundo e de conseqüências sociais e políticas da maior 67 importância. posteriormente.) Um dia viajou pela Araraquarense a convite (. Um livro que exprimisse a realidade brasileira.). É interessante notar que esse pensamento original.39 Esse momento revolucionário das letras e das artes inspirava-se.. No terceiro dia fizeram a mais desejada das excursões.. representam um argumento importante da autora sobre a originalidade de seu biografado. Seus objetivos eram puramente estéticos e literários. Sua trajetória lhe fora revelada. Quando o escreveria? (. a Monte Aprazível. segundo sua própria interpretação do mundo exterior e interior. As palavras grifadas. e então.

p. em 1966. 71 Sobre sua qualidade de visionário. e à cachoeira do Avanhadava. é narrada a partir da trajetória de Salgado (o que não é incomum numa biografia).129-130. Essa combinação – projeção “já o tinha no pensamento. Antevisão do futuro nacional.121-122. op. foi de expressão íntima nacional).sentiu o toque de inspiração. p.cit.119.. como o superou no tempo: enquanto outros ainda se perdiam em experiências estéticas. op. e porque envolve o próprio narrador). 69 contudo.. 68 Ibid.124. entendendo o predicado eterno da arte e aplicando-o ao nosso meio. Borges.40 uma dúzia de casas. revelando-lhe o tema que desenvolveria no 68 romance. mas sem. bem como a produzir reflexão que as contemplasse. A originalidade de Plínio confunde-se com a “verdadeira” contribuição da Semana. trataria essa questão. p. não havia nenhuma prosa realmente representativa do movimento. Foi em Monte Aprazível que Plínio sentiu o primeiro toque de inspiração. p.. chama a atenção para o comprometimento da visão que toma o sujeito biografado (entretanto pode-se pensar o mesmo para o biógrafo. não apenas a partir da visão dele como sendo única (expressão incontestável da individualidade).. produzir algo “moço”. onde Marília Rothier Cardoso. segundo a autora. contudo. A história do Brasil.” e afetação “. com sua destreza discursiva. 72 Ibid. . em Loureiro.126-7.. cit.. já que esse sujeito não é necessariamente empírico) como uno. grifo acrescentado. 70 Sobre o pioneirismo de Salgado. ver o caso do seu posicionamento frente às eleições de 17 de fevereiro de 1924. pronto a desvendar as características nacionais. Aliada a essas condições estava sua 70 71 genialidade expressa no pioneirismo e qualidade de visionário. mas como se o que acontecesse à sua volta fosse algoritmo de sua vitalidade intelectual e política. não só participou do movimento modernista (lembrando que.. A própria conjuntura parecia conspirar a seu favor. ver o episódio do loteamento da cidade de São Paulo. 69 Ibid. Plínio já formatava o caráter 72 nacional. à luz de Jorge Luis Borges. O que era escrito objetivava o ataque à situação até então presente. O estrangeiro também era apreciação social.” – fazia do autor personagem ímpar. Na verdade. p. que é complexa (em si. Essa centralidade subjetiva pode ser teoricamente contestada em Retorno à biografia.

também. Ainda nesta reflexão. i. o meio (1/2).118-22. ao descrever os homens como espectadores de seus próprios atos. Os escritos de Loureiro e Trindade. 76 Reforço a idéia de que. não são aqui convocados para que se possa. ou tampouco quis reconstruir peculiarmente a ponte entre a vida do autor antes de depois do fatídico ano de 1932. 74 simultaneamente. 75 Situação descrita em Retorno à biografia. o autor argentino indica a primazia da divisão. o fazem melhor e. tanto em relação ao próprio biografado (em relação ao seu primeiro romance). mesmo não pretendendo ser 76 uma biografia. apresenta o sujeito como duplo: o eu observa-se como outro. Borges recorre “a máxima de uma filosofia hindu do século V que.41 de uma maneira simples.. uma parte do livro de Trindade para servir ao propósito deste trabalho. 74 CARDOSO. “Retorno à biografia”. construir o argumento.. negando seu valor. o reflexo e ápice das capacidades de Salgado. apresentar 73 Por de maneira simples entenda-se como um talento pedagógico. portanto qualidade de se narrar sumariamente. pode ser encarado como duplo. e se possível fugir desses mecanismos quase automáticos que caracterizaram as visões acima apresentadas.e. quanto no que diz respeito à condição de escritora em que se põe a sua filha. no mínimo.. distanciando-se dele”. antes de denunciar a multiplicidade do sujeito. justamente em relação a esta época da vida de Salgado. certamente. marcantemente teleológica do texto do referido cientista político. identificando-se com o mesmo e. p. Dito isso. Marília Rothier. política e. cit. embora possa parecer que foi escolhida. Este trabalho não pretendeu biografar o personagem Plínio Salgado em época raramente estudada. 73 . Neste sentido. SCHOLLHAMMER. inclusive. Contudo. podemos olhar para o livro de Hélgio Trindade que. 2002. de caráter) do personagem Plínio – como. a alternativa se deu por causa da característica. na verdade. quase que às escuras. neste final. por isso. O que se tentou aqui foi encontrar um espaço nesta discussão. p. interpretado como duas unidades. podemos também aproveitar essa condição do texto para compreender a questão da autoria. leitura exclusiva – que a autora faz – da obra (no caso em pauta. simultaneamente. já podemos interpretar o desenvolvimento do texto de Loureiro – centrado na unicidade (intelectual. op. é fundamental.120. Rio de Janeiro / São Paulo: Ed. In: OLINTO. i. Literatura e mídia. que. PUC-Rio / Loyola. Karl Eric. O estrangeiro) como sendo. neste caso. se revela (pelo menos na parte trabalhada) como um tipo particular de história de vida. Caberia ainda estender a observação à. Cardoso. fora de época. exemplificando-a na sua maior singeleza. pertencente a uma tradição biográfica que remete ao texto de James 75 Boswell (1936) sobre Samuel Johnson. Heidrun Krieger.e.

O próprio processo histórico da continuidade (ou se quiser da conservação) é dinâmico. setembro de 2005. mas certamente mais denso e complexo. que a princípio é mais difusa. mas que também torna-se mais precisa no seu desenvolvimento porque mais consciente de suas limitações. ele atinge uma caminho compreensivo. ao mesmo tempo em que conduz. É apenas para isso que quero chamar a atenção: o contexto. Plínio Salgado não tinha dúvidas de que aquela “comunhão” que mencionada por ele em Discurso às estrelas. precisava ser pensada novamente (e possivelmente numa nova forma) num contexto de luta entre integralistas e comunistas.42 algumas questões que. deixar que eles “falem por si”. senão com a própria atuação política. para se aprofundar numa outra. Um rumo talvez menos específico. é verdade. É claro que é possível estabelecer inúmeras relações consistentes entre a produção intelectual de Plínio Salgado antes e depois de 1932. não é por acaso que o próprio conceito de determinação confunde-se frequentemente com o de definição. no entanto. combatido no início deste texto. ou seja. . denotam uma certa perspectiva por mim defendida: a medida que o historiador deixa a tentativa quase insana de almejar confundir-se com os documentos. pode perder-se no meio de disputas inócuas por definição: o contexto determina ou é determinado? Aliás. Termo tão corriqueiro no mundo da história que. é conduzido. O fio condutor existe. Texto produzido em: Rio de Janeiro. embora não sejam conclusivas. às vezes. recria a todo o tempo os conteúdos a serem preservados.

comentar algumas produções. porém. coletânea de artigos e outros que não nos chegam devido às limitações editoriais impostas aos autores e recém pesquisadores. pois nosso intuito é o de. que se dedicam respectivamente à historiografia produzida acerca dos anos 30 e do Estado Novo. que a visão do pesquisador. realizar um 77 Licenciado em História pela Universidade Tuiti do Paraná.) Historiografia brasileira em perspectiva.43 03. Este artigo tem a pretensão de apresentar aos leitores e pesquisadores do Integralismo um breve panorama da produção historiográfica nacional e internacional. Ressaltamos. V. R. Estado Novo: novas histórias In: FREITAS. para com seu objeto. C. . São Paulo: Contexto. o levantamento bibliográfico se apresenta como de suma importância para a orientação das leituras. 1998. Neste momento. P. das problemáticas e da metodologia que já foram aplicadas nos estudos e que podem vislumbrar as novas possibilidades de pesquisa. 78 BORGES. Como sabemos. apresenta-se mais consciente e consistente para dar os primeiros passos em sua pesquisa. Este panorama ainda se apresenta restrito se considerarmos a quantidade de trabalhos. INTEGRALISMO E HISTORIOGRAFIA 77 Edgar Bruno Franke Serratto Em se tratando de estudos que contemplem a Ação Integralista Brasileira (AIB) como objeto principal. ao dos artigos de Vavy Pacheco Borges e Maria 78 Helena Capelato. momento que envolve nossa temática com reflexões de estudos e conceitos recentemente utilizados. que não nos deteremos a longas críticas e análises sobre os referidos estudos. Entendemos que é somente após o conhecimento prévio dos trabalhos já realizados e os métodos de abordagem utilizados nestes. ou seja. a primeira dificuldade com que os pesquisadores se deparam é a da falta de um balanço geral sobre a historiografia já produzida. Anos 30: história e historiografia e CAPELATO. pelo menos até começo dos anos 2000. M. minimamente. mais especificamente. H. pretende-se a elaboração de um texto próximo aos dos artigos encontrados na coletânea Historiografia Brasileira em Perspectiva. (org. M.

intitulada “Integralismo: fontes. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas. não eram unânimes.. 1996. op. Nestas duas décadas. H.. In: FAUSTO. p.O Brasil republicano: sociedade e política (1930-1964). Convém esclarecer que tais estudos. contudo. J. mostram-se com alguma abrangência para nosso tópico. foi por muito tempo taxada por esta mesma acusação. Antes de iniciarmos as considerações acerca da historiografia sobre o integralismo. como nos aponta Wanderley Santos. cit. o Brasil restabeleceu e reconsolidou a democracia.44 mapeamento mínimo da historiografia como pontos de leituras para futuros iniciantes. apesar de incompletos. não tivemos estudos que elegeram a AIB como principal objeto de análise em função da conjuntura política. toda a história do pensamento político brasileiro. 302. 80 Wanderley Santos foi citado em: TRINDADE. Outro importante motivo. que aqui ganharam uma nova interpretação e assimilação. Além destes materiais. Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937). (org. do ponto de vista de um panorama historiográfico geral de toda a produção já realizada. um movimento autoritário de nosso passado até então recente. F. não fora somente a AIB que sofrera com a alegação de que não passava de uma mera imitação de um modelo europeu. utilizamos as informações obtidas em uma palestra ministrada pelo João Fábio Bertonha. Estas posições. João Cruz Costa (acerca do pensamento político nacional e uma de nossas bases de leitura e posterior análise) defendia que no Brasil não ocorreu a simples cópia ou apropriação fiel das idéias vindas da Europa. 6. não se mostrou atraente para tornarse objeto de novos trabalhos da historiografia brasileira. 2004. B. CALDEIRA. Por isso. e BERTONHA. Mas. H. Rio de Janeiro: Bertrand. ed. Curitiba. J. de C. R. as quais 79 TRINDADE. . gostaríamos de assinalar que a base inicial de leitura para esta discussão foi o artigo de Hélgio Trindade intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30” e a introdução do trabalho “Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937)” de João Ricardo de Castro Caldeira. São Paulo: Annablume. 1999. já na década de 1960. In: Ciclo de Palestras sobre política: idéias e práticas políticas que marcaram a história do Brasil no século XX. também. Todavia.) História Geral da Civilização Brasileira . foi a crença de que o Integralismo não passara de um mimetismo dos fascismos 80 europeus. 79 problemas de pesquisa e tendências historiográficas”. dado que. Em nossas leituras observamos que na segunda metade da década de 1940 e durante a década de 1950. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30.

que é o dos vencedores e não dos 83 vencidos. Porém. A falta de considerações acerca das outras forças políticas e sociais que agiam dentro deste contexto histórico brasileiro. esta por muito tempo se mostrou impregnada pela memorização de um discurso produzido pelos “vencedores”. Podemos constatar que algo parecido ocorreu com a AIB. J. a ascensão dos movimentos fascistas por todo o globo e o trauma das trincheiras e do holocausto deveriam ser esquecidos e não relembrados ou estudados.45 eram determinadas por inúmeros fatores particulares. C. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. e que também estavam desejosas de mudanças. do autoritarismo e do fascismo. exatamente. op. H.. S. Contribuição a história das idéias no Brasil. . “salvando” a nação de uma inevitável decadência.. que colocou a ideologia de esquerda. nesta memória que a historiografia da década de 1950 e 1960 se apoiou. M e FRANCO. M Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. 2 ed. referindo-se a historiografia que tratou da Revolução de 30. In: CHAUÍ. foram anuladas. já que não faziam parte deste discurso. In: Revista ciência e cultura. dentro deste novo panorama. "revolução dos vencedores: considerações sobre a constituição da memória histórica a propósito da “revolução de 30”. quando a historiografia sobre o assunto utilizou-se de um discurso oriundo de uma memória triunfante. como uma das vitoriosas após a Segunda Guerra Mundial. VESENTINI. aquele discurso produzido por Vargas e sua base de apoio. Outro ponto a ser assinalado é a desvalorização. e assim. 1977. como nos 82 indica Trindade. diferentemente do caso explorado por De Decca. foi o discurso de seus opositores e não o 81 Esta é a tese central defendida em: COSTA. A. sociais e culturais. 1978. que colocavam o ano de 1930 como divisor de duas fases distintas da história republicana brasileira. Devemos também levar em conta a participação da União Soviética no contexto mundial. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. quando uma nova política e uma nova consciência se sobrepõem ao antigo jogo entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais com seus “falsos líderes”. 1967. Logo. os movimentos autoritários e fascistas deveriam ficar somente na memória e é. M. políticas. cit. Ou seja. Para a nova dinâmica mundial do pós-guerra. E. 83 DE DECCA. Ver mais sobre a entrada das idéias européias no Brasil com um enfoque mais específico acerca do Integralismo em: CHAUÍ. Segundo Edgar De Decca. 82 TRINDADE. como as 81 condições econômicas. por sua vez. por preconceito ideológico. . C. 302. São Paulo: FAPESP. C. Ideologia e mobilização popular. p.

a participação da AIB é apresentada como de pouca importância. Foi exatamente este discurso estereotipado e discriminatório . até a sua revisão na década de 1970. Porém. nos textos doutrinários do movimento. op. seja da vertente italiana ou alemã.criado pelos opositores do Integralismo. que são utilizados sem nenhuma análise ou contestação. Panorama da história da filosofia no Brasil. os estudos que contemplam a história política brasileira nunca foram deixados de lado pelos estudiosos das mais variadas áreas das ciências humanas. São Paulo : Cultrix. cit. se colocou em oposição ao regime vigente. deixada pelos opositores do Integralismo e. pelo fato de a nossa república ser ainda muito jovem. Entretanto. Conseqüentemente. somente citada em breves passagens. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas. não se utilizou devidamente desta idéia quando se referiu ao Integralismo. o que se justifica. como já citado anteriormente. em menor grau. temos vários trabalhos que contemplam a história política republicana brasileira. além de ser atrelado. Lembremos que este movimento não pode ser visto como o “vencedor”. e que gozou de grande prestígio devido a sua pregação de que a metafísica iria ressurgir dentro do pensamento filosófico. ao se debruçar sobre 85 a produção do intelectual Farias Brito e a crítica que o mesmo produz para com as vertentes científicas e racionalistas presentes no 84 BERTONHA. No primeiro. apresentamos dois trechos de trabalhos distintos do referido autor. Ver mais sobre Faria Brito In: COSTA. por muitas vezes. F.46 próprio discurso Integralista que permeou esta memorização. 1960. uma vez que nunca chegou ao poder e. . na maioria destes trabalhos a participação da AIB na conjuntura nacional apresenta-se quase que obsoleta. Para exemplificar tal situação. nas décadas de 1950 e 1960. J. a um estereótipo comum a todas as formas de fascismos. os liberais e o próprio governo de Vargas . Baseada nesta visão. principalmente. fato que é 84 denominado por Bertonha como a historiografia do parágrafo.que a historiografia se apropria e transmite. Esta historiografia é baseada na memória comum. Um bom exemplo desta historiografia é o trabalho de João Cruz Costa. C. como se fosse uma espécie de: “só para dizerem que eu não esqueci”. que mesmo tendo defendido a tese de que a vida política e intelectual brasileira não se tratava de uma simples cópia das que iam pelo mundo. como os comunistas. 85 Farias de Brito (1862-1917) foi um intelectual brasileiro formado dentro do grupo germanista de Recife.

diziam. lançado pelo escritor Plínio Salgado. do filósofo morto. .. aproveitável aos desígnios de Vargas.”. ao introduzir a AIB dentro do contexto político e histórico da década de 1930.. sem nos remeter a consideração de que Farias Brito teve tão grande influência na ideologia Integralista. o integralismo correspondia às aspiração das camadas conservadoras. misturava-se outras receitas de reacionários da Europa. e 86 Ibid. síntese final. criava inquietação. podemos perceber. Cruz Costa. 63. o integralismo fêz. em uma obra que pretende entender o pensamento político brasileiro até o início do século XX e isto. de onde lhe vinha o nome. das realidades nacionais (. Nesse movimento que se afirmava nacionalista. Foi seu nome o pretexto. Logo após o fim da revolução de 1932 surgia em São Paulo. Contudo. unida a uma visão tanto pré-conceitual como preconceituosa. Outro ponto a ser destacado. p. o faz em apenas um único parágrafo: A propaganda dos extremismos.47 pensamento brasileiro do início do século XX. o sustentáculo da vaga (grifos 86 nossos) ideologia dos camisas-verdes do Brasil.Cruz Costa cita a existência do Integralismo afirmando que: “Foi.. pois. como afirma o autor. O pensamento de Brito realmente teve influência sobre a ideologia integralista e principalmente sobre as idéias de Plínio Salgado. Neste trecho. não foi este o “sustentáculo” da ideologia integralista. de início. Já.pois este pregava o ressurgimento da metafísica dentro do pensamento nacional . apoiando-se nas classes conservadoras. em nosso segundo exemplo. O que tal movimento pretendia era o estabelecimento do que eles chamavam de ‘estado integral’. o ideólogo de sua política. é que a AIB é contemplada somente neste breve parágrafo. o movimento integralista (o da Ação Integralista Brasileira).) nunca se falou tanto e se explorou tanto essa realidade nacional. que o Integralismo é tratado somente como um partido fascista de “vaga” ideologia. revelando a falta de um trabalho analítico por parte do autor. o da esquerda e o da direita (o integralismo) – reflexos de uma luta que se processava na Europa -. em virtude dêsse reformismo ou dêsse regeneracionismo que o partido fascista do Brasil. de Portugal. . Como os fascismos europeus.

e HILTON. São Paulo: Brasiliense. a exemplo da grande luta das colônias italianas contra os fascismos. Primeiramente vamos aos clichês: o parágrafo único que tenta dar conta de todas informações necessárias para o entendimento do que foi o Integralismo. apoio da AIB dava-se dentro das classes conservadoras. ou seja. São Paulo: Annablume. são vistos como irmãos gêmeos idênticos do Integralismo. Neste trecho. 1989. ou quase único. Portanto. p. conservadora e apoiada nos fascismos internacionais que. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. encontramos uma enormidade de pontos que contribuíram para construir uma série de análise e clichês na historiografia sobre o integralismo no período. conseqüentemente. 1919-1945. e qual foi a sua participação na vida política brasileira é o primeiro e o mais visível deles. J. vale a pena ressaltar suas idéias em comparação aos trabalhos de Bertonha intitulado Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo. 3. 1919-1945. S. Cruz Costa afirma que existiu uma natural adesão das colônias e descendentes de alemães e italianos ao movimento. 88 BERTONHA. 103. 1977. Pequena história da república. Contudo. O Brasil e a crise internacional: 1930-1945. Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo. J. temos. F. uma ideologia nacionalista. sendo a sua ideologia reduzida a uma visão simplista. ed. dando pouca importância às particularidades que o diferem destas demais experiências. o que novamente nos remete a uma visão preconceituosa do fascismo e. o que é sabido que não ocorreu. a priori. a consideração acerca de que o principal. sendo suas condições de produção diferentes das atuais. para os quais parte da colônia alemã não concordava com o nacionalismo pregado pela AIB. Quanto aos pontos de análise. mesmo considerando que o Cruz Costa pertence a uma época de historiadores. 1999. nos chama atenção a generalização da AIB para com os outros partidos fascistas europeus. por sua vez. 87 COSTA. Em um segundo momento. C. . Naturalmente apoiavam-nos colônias italiana e alemã e grande número se descendentes de alemães 87 e italianos.48 contou também com o apoio de alguns altos dignitários do clero católico. e de Stanley Hilton intitulado O Brasil e a crise 88 internacional: 1930-1945. Por fim. do Integralismo.

a produção desenvolveu-se qualitativamente na década de 1970. tornando-se praticamente o único modelo de análise utilizado na década de 1970. Para Trindade. "Brasil: nacionalismo. já que o governo militar instalado em 1964. Sociólogos. pois na década de 1960. para provar que “a história é filha do seu tempo” e que são os problemas de hoje que instigam os historiadores em seus estudos sobre o passado. principalmente a marxista. Entretanto. 1988. ainda mais longe de adotarem o Integralismo como objeto de estudo. uma das conseqüências mais positivas da retomada do estudo do pensamento político autoritário do período entre as duas guerras é a valorização da ideologia enquanto campo de pesquisa considerado crucial à compreensão do processo mais amplo de 90 transformação da sociedade brasileira. também originários do mesmo pensamento marxista. autoritárias. as correntes de análise materialistas e estruturalistas. em: BANBIRA. cientistas políticos e historiadores acabaram por ser influenciados pelo modelo de análise marxista. deixando os estudos destas décadas. para muitos estudiosos. assumem o papel de carro chefe da produção intelectual dos principais centros acadêmicos e de pesquisa do Brasil. In: América Latina: história de meio século. estes estudos elegeram a política como tema principal. Já ao final da década de 1960. Ao contrário do modelo de análise marxista. H.49 visualizamos uma certa inapropriação de Cruz Costa na palavra “naturalmente”. Este mesmo autor afirma que foi por este motivo. populismo e ditadura: cinqüenta anos de crise social ".. o que se mostra como um resultado comum dentro dos interesses de pesquisa. Brasília: UnB. uma vez que estes pesquisadores privilegiavam a história dos partidos de esquerda. que dentro dos estudos acerca das idéias políticas no Brasil. que enfatizava os aspectos materiais e econômicos. . filósofos. cabe lembrar que importantes trabalhos foram produzidos após o golpe de 1964. V. coloca novamente as tendências conservadoras. T. quem pretendesse consultar obras de referência sobre o 89 Ver mais sobre a fascistização dos militares na ditadura instaurada em 1964. 90 TRINDADE. .301. p. SANTOS. fascistas dentro da política brasileira. ou até 89 mesmo. cit. op.

em nossas terras. intitulado O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio (1978). Os trabalhos produzidos na década de 1960 não prestigiaram como deveriam a participação da AIB na vida política brasileira. apresenta um panorama e crítica da historiografia produzida sobre o assunto e a grande coletânea de documentos estudados por Edgar 92 Carone. pois tivemos um grande número de estudos e publicações unidos a diferentes métodos de análise e abordagens. a exemplo do já citado estudo de Cruz Costa. o trabalho que mais se destaca 91 Ibid. ser citados. José Chasin. Desta forma é somente na década de 1970 que foram realizados os primeiros trabalhos que contemplam a AIB como objeto central de análise. iria 91 encontrar poucas publicações. da cultura e da vida política nacional. 299. de outro. Assim.50 assunto. 92 Ibid. p. a produção nacional. Também. tiveram relevância na formação do pensamento. intitulado. como: O ciclo Vargas de Hélio Silva. e mais especificamente. intitulado Apontamentos para uma crítica da razão integralista (1978) e. que. como sugere seu título. Do lado da produção nacional. podemos identificar duas vertentes de pesquisa: de um lado. consideramos que devem. por fim. da filósofa Marilena Chauí. o do. ou seja. sobre o período em questão. . temos como principais exemplos. transformando esta década na mais importante para a historiografia que trata deste movimento. os primeiros trabalhos que deram destaque à participação política do Integralismo no contexto nacional. em função do panorama cronológico que oferece das diversas correntes do pensamento mundial que. os trabalhos do sociólogo Gilberto Vasconcellos. no mínimo. que acabam por também contemplar a presença integralista neste contexto. também sociólogo.300. intitulado A ideologia curupira: análise do discurso integralista (1977). A revolução de 30: história e historiografia de Boris Fausto. o qual consiste em uma reunião de documentos referentes ao período. cabe citar. p.. a produção de brasilianistas. estrangeiros que se dedicaram aos estudos referentes à história do Brasil. Contribuição à história da idéias no Brasil (1967). contudo.

assim como o estudo sobre a formação intelectual e política de Plínio Salgado. ele desbanca a necessidade da existência de um contexto social e político determinado para a ascensão das idéias fascistas dentro de uma nação. organização e rituais. uma vez 93 VACONCELLOS. Juan Lins ressalta a enormidade de fontes trabalhadas.51 deste período produzido pelo historiador Hélgio Trindade. algo que até então só se tinha verificado em trabalhos que tratam do fascismo alemão ou italiano. p. CHASIN. Temas como a origem social e as motivações de adesão ao movimento por parte dos militantes. também são abordados. IX 95 Ibid. apresenta uma perspectiva de abordagem que fornece elementos fundamentais para uma compreensão da organização burocrática do movimento. Já no prefácio do referido trabalho. 2. In: TRINDADE. traçando um retrato sociológico das lideranças e dos militantes do movimento. H. Por fim. apontando as particularidades do caso integralista. analisa sua ideologia e perfil do chefe... bem como a sua dinâmica interna de organização. ed. H. 1979. Juan. São Paulo: Ciências Humanas. intitulado 93 Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30 (1974). Trindade situa a AIB dentro do contexto social.cit. igualmente estão presentes. e TRINDADE. além disso. . CHAUÍ. M. As relações do Integralismo com as demais forças sociais da política brasileira. p. mas. e isso. Prefácio a segunda edição. as características próprias da experiência brasileira. Neste estudo. op. Trindade ressalta. G. com o intuito de se traçar um perfil do movimento como um todo. Sem dúvida. que foram utilizados como agentes de mobilização do movimento. apontando que não foram somente os discursos antiliberal e anticomunista. cit. São Paulo: Brasiliense. segundo esse 94 autor. Op. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. pelo tanto que instigou de novas pesquisas sobre o assunto. 1977. mas também uma nova concepção de 95 autoritarismo. J. como com o catolicismo e as classes médias urbanas. além de a compara com as demais experiências fascistas européias. O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio. o trabalho de Trindade foi o mais utilizado pelos estudiosos do tema até os dias atuais. Além disso. X. São Paulo: DIFEL. E isso se deve a que seu trabalho não somente fornece elementos centrais para se pensar a relação integralismo com o fascismo. 1978. cultural. político e econômico nacional. (primeira edição 1974) 94 LINS. A ideologia curupira: análise do discurso integralista.

op. 98 TRINDADE.. instigada por este primeiro trabalho. 97 CALDEIRA. Primeiramente. sua pesquisa foi realizada com fontes de edição posterior a 1945. o surgimento da AIB não era uma resposta a uma 96 crise econômica. no mínimo. Ressaltamos que este estudo se debruça sobre a analise do discurso. Logo. justifica a idéia de que a AIB não pode ser caracterizada como um movimento fascista.. 18. C. neste ponto que encontramos outro problema de seu trabalho. . R. 313. de C. e CALDEIRA. Chauí. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30. semelhantes às condições encontradas na Itália e na Alemanha fascista. o fato de o capitalismo brasileiro ser considerado como hipertardio. Ele contesta a idéia de que as condições sócio-econômicas do Brasil nas décadas de 1920 e 1930 são. assim como sua principal temática. op. O autor se apropria de uma análise marxista.52 que para o autor. p. 18. p XV. sua construção e seus destinatários. quando muitos indícios do caráter 96 Ibid. não demorou a contribuir para os estudos a esse respeito. Entretanto. op. típica da historiografia deste período. cit. cit.. Ela se opõe à Trindade quanto à identificação do Integralismo com os fascismos. que se apóia na não existência de condições dentro do modo de produção capitalista brasileiro do período. é justamente este contexto sócio-econômico diferenciado que deve ser questionado e entendido dentro do percurso histórico do movimento fascista brasileiro. quando estas já tinham sido alteradas frente a readequação da doutrina integralista ao novo contexto democrático nacional. pela qual passava o Brasil das décadas de 1920 e 1930. cit. as idéias não estão fora do lugar quando encontramos 98 os motivos pelos quais as estas aqui chegaram . p. de C. Outro modo pelo qual Chasin afirma ser o Integralismo um movimento não fascista é a sua análise para com os textos de Plínio Salgado e é. R. ou de qualquer outro movimento desta natureza. H. ressaltando. mas a uma crise política e cultural. Tal crítica se apresenta como de senso comum no que se refere a estes estudos. identificando dentro do discurso da AIB. englobando suas fontes. C. p. para o surgimento de um movimento de cunho fascista. que se refere a “imagem de crise” socioeconômica e também cultural. Outro autor que discorda da proximidade da ideologia Integralista à fascista é Chasin. elementos característicos de um pensamento autoritário que surge dentro das classes médias brasileiras e une este ao bojo das discussões nacionalistas que 97 estavam em pauta durante a década de 1920. exatamente. para ir contra as afirmações de Trindade.

não adequadas para a sua proposta de estudo. H. Deste modo. Salgado era o menos fascista se compararmos a sua produção à de Gustavo Barroso e 99 Miguel Reale.. p. vinha de sua organização. 18-19. que foram fatores básicos para o surgimento dos fascismos europeus. cit. Mais uma vez. de sua solidariedade para com os fascismos internacionais e de suas 100 atitudes políticas. op. p. que apóia a impossibilidade de fazermos esta afirmação. A maioria das fontes escolhidas foram resgatadas do período pré-integralista. Quanto às fontes utilizadas pelo autor. em nossas terras. Contudo. H. 102 TRINDADE. de sua base social de recrutamento. E é justamente devido à utilização destas fontes. durante e depois do período de existência da AIB. . R. a AIB foi um movimento político e. p.. cit. 102 são desenvolvidas. de C. deixando de lado os outros ideólogos integralistas e parte das produções realizadas durante a existência da AIB. que o autor fundamenta a tese central de seu trabalho. sem levar em conta que dos teóricos do movimento.. um forte partido comunista e um grande proletariado urbano-industrial.53 fascista da ideologia já tinham sido escamoteados. p. E isso. de seus militantes. op. também não levou em conta que mais do que um conjunto de idéias. Entretanto. Vasconcellos repete o mesmo erro de Chasin. uma vez que o autor acompanha a evolução de seu pensamento antes. por Miguel Reale. 316. uma vez que as teorias que pretendem “salvar” o Brasil da luta de classes e do mundo capitalista. op. ele não leva em conta que a debilidade destas forças agiu justamente no fortalecimento da AIB em sua primeira fase se 101 expansão. no fato de que. 101 CALDEIRA. 99 TRINDADE. e somente as produzidas por Salgado. 100 Ibid. destacamos que do ponto de vista de se analisar a obra política pliniana. A sua análise no nível ideológico. C. 311-312. grande parte do seu caráter fascista. principalmente. não existiu uma forte tradição liberal. 305 e 307. cit. ao procurar entender a experiência brasileira usando como base os casos europeus. este trabalho se apresenta como uma grande contribuição. está presente no trabalho de Vasconsellos. a crítica quanto a considerar o Integralismo como um movimento fascista. mais uma vez temos um problema próximo ao apontado no trabalho de Chasin. que é a “utopia autonomística” integralista. a qual só se apresenta claramente no pensamento pliniliano pré-integralista..

de F. ficando longe das influências européias que chegavam pelo Atlântico. Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945. Também merecem ser citados. A principal temática destes trabalhos está baseada na suposta constatação .ou sua negação . paradoxalmente. No entanto. os trabalhos: A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939 de Oscar de Figueiredo Lustosa (1976). precisamente. até mesmo. solidariedade ideológica com o fascismo internacional. 1978. 104 LUSTOSA. temos excelentes conclusões neste trabalho. J. o que para Trindade já é um fato consumado. para o autor. um nacionalismo exacerbado e uma influência ou. In: Revista de História.da caracterização da AIB como um movimento fascista. que analisa as relações da AIB com a Igreja Católica durante a década de 1930 e o estudo Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945 de Jarbas Medeiros (1978). esta constatação não se apresenta suficiente para identificar a especificidade da AIB frente aos movimentos europeus. Rio de Janeiro: FGV. Apesar disto. a singularidade do discurso ideológico fascista se configura. tornado-o auto-suficiente. em todo fascismo coexistem. uma vez que este personagem de nosso folclore habita o interior do território nacional. e não 103 como uma característica original da experiência brasileira. não chegando próximo ao litoral.54 Esta utopia consiste em um projeto que visa o isolamento do Brasil das nações capitalistas hegemônicas. "A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939". o que 103 Tanto a “utopia autonomística” quanto a “irracionalidade” do pensamento integralista correspondem a tese central deste trabalho. . como na tradição intelectual autoritária nacional. tanto no fascismo europeu. Neste caso. como a consideração acerca da ideologia integralista ter suas principais bases apoiadas. no tipo de combinação entre o nacionalismo nascente em cada sociedade onde ele florescia e a percepção de um sentido da história marchando para o fascismo em escala internacional. e MEDEIROS. que ao analisar o autoritarismo brasileiro do período de 1930 a 1945 inclui entre os intelectuais estudados o 104 nome de Plínio Salgado. pois estas influências ideológicas são vistas como resultantes de um extremo “irracionalismo” integralista. O. É por este motivo que Vasconcellos nomeia tal idéia como a “ideologia curupira”. 1976. uma vez que para ele. São Paulo: FFLCH/USP.

que privilegiaram as análises da 106 dimensão superestrutural da sociedade. 106 CALDEIRA. HILTON. 19.. Stanley Hilton com o trabalho O Brasil e a crise internacional: 1930-1945 (1977) e Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil (1977).. F. Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem . 15.. H. vale a pena ainda enfatizamos a produção dos brasilianistas. também se baseavam quase que exclusivamente nos textos doutrinários de Salgado. 1982. S. S. como já foi dito. Dulles com Getúlio Vargas. buscando explicações e articulações a nível nacional e internacional. convém esclarecer que estes 105 TRINDADE. 108 SKIDMORE. Biografia política (s/d). Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. Rio de Janeiro: Paz e Terra. de C. já bastante conhecidos dos estudiosos da área e que por isso que se destacam dentro desta historiografia são: Thomas Skidmore com o estudo Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1975). com exceção do trabalho de Hélgio Trindade. cit. e HILTON. Concordando que foi exatamente isso que ocorreu com esta historiografia. 9 ed. p. O Brasil e a crise internacional: 19301945. Por fim. que nos aponta não ser possível entender o Integralismo somente pelo discurso de um único ideólogo e sem levar em conta seus militantes. Entretanto. são um dos grandes responsáveis pelo caráter fascista do movimento.. T. a qual privilegiou a análise ideológica. Robert Levine com a obra O regime Vargas: os anos críticos 1934-1938 (1980) e John W. p. os estudos das ciências humanas foram razoavelmente marcados pela análise do discurso. Aqui.55 conduziria necessariamente com ecletismo 105 do discurso. J. com as demais forças sociais e 107 institucionais brasileiras e internacionais. cit. trazemos a colocação de Castro Caldeira que sintetiza adequadamente esta produção ao afirmar que: na década de 1970. p. 107 Ibid. que se diferem da produção nacional devido ao enfoque utilizado pela maioria dos trabalhos. cit. privilegiando mais as ações e relações da AIB e seus integrantes. Estes estudos. op. que. Essa tendência decorreu em grande parte das influências do pensamento estruturalista sobre aquelas ciências. R. op. Os principais autores brasilianistas. op. que ressalta a grande importância do Integralismo dentro do contexto político nacional e suas relações com o 108 governo de Vargas. 306.

entendendo que as discussões acerca de se considerar ou não a AIB como um movimento fascista. op. Com o intuito de apresentar. de C. e DULLES J. por este se diferir dos demais. esta participação ocorria devido à simpatia dos integralistas para com a causa do Terceiro Reich. 110 Ibid. Já na década de 1980. 109 CALDEIRA. Já em seu trabalho Suástica sobre o Brasil. Renes. o autor aponta a participação de um pequeno círculo de militantes do sigma nas práticas de espionagem dos nazistas em nosso país. ed. s/d. Robert Levine nos traz um amplo panorama da experiência integralista dentro da vida política nacional. Para ele. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. O regime Vargas: os anos críticos (1934-1938). os governos estaduais e as colônias de imigrantes alemães do sul do país. R. mas dedicam importantes análises a este movimento. pois para este autor. Biografia política. p. posteriormente. 19. já que o autor compara a AIB as experiências européias e. Hilton afirma que esta participação se dava por meio do empréstimo de escritórios para as reuniões dos espiões.56 trabalhos não tratam exclusivamente da AIB. este pensamento se apresenta fortemente influenciado pelo fascismo. alemã no Brasil. ressaltando-se que. sendo de grande valia a sua contribuição para com esta historiografia. uma vez que se aproxima fortemente da produção nacional. LEVINE. Getúlio Vargas. neste último caso. esta oposição ocorria pelo fato de que o forte nacionalismo 110 contido na ideologia do movimento não era compartilhado por estes . na ajuda para com o disfarce destes e no recolhimento de informações. embora. F. o primeiro que iremos tratar é O Brasil e a crise internacional. Quanto ao pensamento estadonovista. longe de sê-lo. . enfatizamos que. o qual procura entender como funcionavam as relações entre os integralistas e seus opositores. Rio de Janeiro. cit. neste trabalho. também são analisadas. 2.1980. O apoio das classes médias ao partido e a sua tentativa de superação das dificuldades econômicas. este sim é analisado a fim de se entender a sua essência. J. por meio 109 da implantação do Estado Integral. o fascismo seria a principal característica da ideologia dos camisas verdes. já que para Levine. W. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Quanto aos trabalhos de Hilton. provenientes da crise de 1929. 1977. Por fim. que para ele eram o operariado. uma espécie de solidariedade ideológica.. iniciamos com o trabalho de Skidmore. não se faziam mais pertinentes. a considera como um movimento de cunho fascista. um breve panorama desta produção. R.

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encontramos um capítulo inteiramente dedicado a AIB, e um segundo, dedicado às relações entre o Integralismo e o Estado Novo. No primeiro deles, o autor analisa a ideologia integralista considerando-a como autoritária, nacionalista, anticomunista, 111 antiliberalista, anti-semita e com pesada hierarquia , que era “copiada” do partido Nazista alemão, entretanto, afirma que a sua maior influência veio do fascismo italiano. As considerações que o autor apresenta acerca das proximidades políticas e ideológicas da AIB para com a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que representava a outra extremidade do espectro político nacional, ou seja, a esquerda, merecem um destaque especial. Ele aponta que ambos os movimentos “se organizavam em células; ambos procuravam atrair as classes médias e trabalhadoras; ambos atacavam o statu quo do Estado e de seus opositores, o domínio econômico estrangeiro, e o fracasso 112 revolucionário da Aliança Liberal” , partido que colocou Vargas no poder, em 1930. Levine também compara a AIB com as outras forças políticas de oposição ao governo que surgiram após a revolução de 30, as quais só se diferenciavam do pensamento Integralista no encaminhamento de soluções aos problemas políticos, uma vez que estes se baseavam em uma concepção totalitarista e mecanicista de Estado, o Integral. Em um segundo momento, o autor analisa a relação da AIB com a Igreja Católica, com o meio militar, com políticos de influência no 113 governo, com os intelectuais e com o governo federal ; além de fazer uma breve biografia de Salgado e Barroso, incitando uma possível disputa entre ambos no que se refere à liderança do partido. Até mesmo os rituais e cerimônias integralistas são abordados por Levine. No segundo capítulo, o autor narra as relações políticas entre a AIB e o Estado Novo, desde o acontecido golpe de 1937 até o fim do governo de Vargas em 1945, ressaltando as manobras políticas ocorridas na cúpula estadonovista e integralista, sejam elas sendo suas ações em conjunto ou suas discórdias. Assinala-se, também, que as fontes utilizadas para a realização desta pesquisa, foram, além da bibliografia nacional e internacional que abordou o período, os livros doutrinários e jornais integralistas, assim como os relatórios, documentos e cartas, tanto do governo quanto do movimento. Dado esta análise inicial sobre os estudos acerca da AIB na década de 1980 pelos brazilianistas, como vemos no trabalho de
111 Ibid. 112 LEVINE, R. op. cit., p. 129. 113 CALDEIRA, J. R. de C. op. cit., p. 19.

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Levine e outros, as pesquisas e as publicações sobre o tema continuaram crescendo nesse sentido de estudos comparativos com os movimentos europeus. Retomando às analises sobre a produção no Brasil nesta década, vale a pena ainda destacar dois importantes trabalhos que não tratam especificamente do Integralismo, mas que se apresentam como leituras importantes para se compreender o período em que o movimento atuou. O primeiro deles é o trabalho de Alcir Lenharo, 114 intitulado Sacralização da política (1986), no qual o autor apresenta novas perspectivas de análise e interpretação para melhor entendermos as idéias do pensamento autoritário presente na política brasileira da década de 1930. Por isso, tal obra se mostra referência obrigatória para qualquer estudo que contemple esta área de estudos. O segundo, é o conjunto de quatro volumes da coleção História geral da civilização brasileira: o Brasil republicano (1986), sob direção de Boris Fausto, nos quais o volume terceiro, Sociedade e política (1930-1964), e o volume quarto, Economia e cultura (1930115 1964) , contemplam, como já referido em seus títulos, a década de 1930. Estes trabalhos reúnem vários artigos de diversos estudiosos das mais diferentes áreas das ciências humanas, como o artigo Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30 (1981) de Hélgio Trindade. Neste último artigo, o autor discute os problemas e as perspectivas dos estudos sobre a AIB. Apresenta um breve panorama da historiografia que tratou o integralismo durante a década de 1970, realizando um bom balanço e análise, seguido da réplica a seus críticos. Até mesmo algumas considerações sobre os estudos da política nacional republicana são apontadas. O descrédito com que a historiografia tratou os fascismos também é resgatada, seguida de alguns apontamentos para a justificação desta atitude. Um breve panorama da evolução do pensamento de Salgado, o alerta para posterior alteração dos textos Integralistas, após 1945, e as considerações sobre os diferentes níveis de análise da doutrina integralista - que correspondem ao âmbito dos dirigentes doutrinadores, separando o pensamento de Salgado, Barroso e Reale, e dos militantes - também estão presentes neste artigo. Outro trabalho que também merece ser citado é o de Jorge Zaverucha, intitulado A questão do integralismo diante da herança

114 LENHARO, A. Sacralização da política. 2 ed. Campinas: Papirus, 1986. 115 FAUSTO, B. (org.) op. cit.

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fascista (1984), que une-se à tese de Trindade em considerar o 116 Integralismo como movimento fascista. Outros trabalhos deste período foram: Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio Salgado, de Ricardo Benzaquen de Araújo (1988), pesquisa esta que possui uma proposta de caráter ensaístico e não acadêmico, interpretando a ideologia de Salgado e ressaltando suas tendências espiritualistas e totalitárias; e o livro de René Gertz (1987) intitulado O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo e integralismo, que analisa a relação entre os imigrantes alemães e os integralistas no Rio Grande do Sul e em Santa 117 Catarina. É ainda no final desta década e, principalmente, durante a década de 1990 que os estudos sobre o Integralismo deixaram de contemplar somente os aspectos autoritários e/ou fascistas da AIB e passam a contemplar suas especificidades, tais como a relação do Integralismo com os imigrantes, com o meio militar, a participação feminina e dos negros dentro do movimento, as políticas regionais, a simbologia e as festividades. Da mesma forma, o anti-semitismo dentro do discurso e das práticas do partido. Temos durante este período, recortes mais específicos, mostrando um panorama difuso daquele que 118 vinha sendo produzido nas décadas anteriores . Alguns títulos que representam esta historiografia são os trabalhos de Roney Cytrynowicz (1992), intitulado Integralismo e antisemitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, o de Fábio Bertonha (1992), A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, o de Castro Caldeira (1999), Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937) e o trabalho de Rosa Maria Feiteiro Cavalari

116 CHAUÍ, M. Notas sobre o pensamento conservador dos anos 30: Plínio Salgado, In: ANTUNES, R., FERRANTE, V. B. e MORAES, R (org.) Inteligência brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986. e ZAVERUCHA J. A questão do integralismo diante da herança fascista, In: Revista Ciência e Tópicos. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1984. 117 ARAÚJO, R. B, de Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio salgado, Rio de Janeiro: Zahar, 1988. e GERTZ, R. Os teuto-brasileiros e o integralismo: contribuições para a interpretação de um fenômeno político controverso. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. 118 BERTONHA, Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas, op. cit.

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(1999), Integralismo: ideologia e organização de um movimento de 119 massa no Brasil (1932-1937). No trabalho de Caldeira, temos um estudo a nível regional que nos abre a possibilidade não só de entender como a AIB se inseriu no panorama político maranhense, mas também nos leva a entender como funcionava sua organização a nível regional. Este trabalho contempla a passagem da caravana de Barroso, o discurso anticomunista integralista, as lutas conta a ANL e a relação do movimento com a política regional maranhense. Ressalta-se, que o autor considera como principal motivação para a ascensão do Integralismo no estado, uma resposta ao surgimento da ANL no Estado. No entanto, maior destaque deve ser dado ao trabalho de Feiteiro Cavalari o qual analisa a pedagogia fascista, os símbolos e rituais integralistas como responsáveis pela união, sociabilização ideológica, propaganda, agremiação, mobilização política, submissão à hierarquia e disciplina. A autora também analisa como se processou a criação de uma identidade para o movimento, onde se destaca a participação das mulheres integralistas, “as blusas verdes” que, dentro das escolas, ambulatórios e creches integralistas, pretendiam por meio de ações filantrópicas e educacionais atender às necessidades da população e agregar novos adeptos para o partido. A rede de jornais integralistas, nacionais e regionais, também é estudada, porém, como meios de divulgação e doutrinação, assim como os programas de rádio, uma vez que a retórica dos líderes integralistas era a grande responsável pelo crescimento numérico e manutenção de seus militantes. O rádio era a maneira mais direta de relacionamento da cúpula integralista com seus “soldados”. Nesse sentido, o trabalho de Feiteiro Cavalari corresponde exatamente a esta nova historiografia dos anos de 1990. A produção historiográfica presente, de início do século XXI, dá continuidade a historiografia da década passada e, dentre os trabalhos que até hoje foram publicados, citamos os seguintes: O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil de Fábio Bertonha (2001), Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social no
119 CYTRYNOWICZ R. Integralismo e anti-semitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História da FFLCH-USP, 1992; BERTONHA, F. A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, In: História & Perspectiva (Uberlândia), Vol.7, 1992.; CALDEIRA C. op. cit. e CAVALARI R. M. F. Integralismo: ideologia e organização de uma movimento de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: EDUSC, 1999.

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Brasil / 1930-1954 de R. S. Rose (2001) e o segundo volume da coleção O Brasil republicano que traz um artigo de Marcos Chor Maio e Roney Cytrynowicz (2003) intitulado Ação integralista brasileira: um 120 movimento fascista no Brasil . Por fim, também, cabe citar, neste momento, a coletânea de artigos produzidos após o I Encontro de Pesquisadores do Integralismo, realizado, em 2002, no Arquivo Público do Município de Rio Claro, que chegou ao grande público, em 2004, 121 com o titulo de “Integralismo: novos estudos e reinterpretações”. Nesta produção contemporânea, destacamos este trecho que nos traz as seguintes observações acerca dos artigos: Lembranças do esquecimento: datas e comemorações do Movimento Integralista Brasileiro, A ação feminina integralista no Maranhão, Notas sobre o anticomunismo integralista, A formação do Partido de representação Popular e a intervenção integralista na política brasileira, O trabalho através do discurso integralista, A educação no projeto integralista, O Integralismo e a mulher, Intelectuais brasileiros na ideologia integralista: autoritarismo, ensino e a busca de raízes nacionais, Integralismo e Eugenia e Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e 122 História.

120 BERTONHA, F. O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001; ROSE, R. S. Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social do Brasil (1930-1945), São Paulo: Companhia das Letras, 2001. e MAIO, M. C. e CYTRYNOWICZ R Ação integralista brasileira: um movimento fascista no Brasil, In: FERREIRA, J e DELGADO, L. de A. N. (org.) O Brasil republicano – o tempo do nacional-estatismo: do inicio da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 121 DOTTA, R. A., POSSAS, L. M. V. e CAVALARI, R. M. F. (org.) Integralismo: novos estudos e reinterpretações, Rio Claro: Arquivo do Município, 2004. 122 Os autores destes artigos são agora nomeados respectivamente na ordem de apresentação de seus trabalhos: Rodrigo Christofoletti, Castro Caldeira, Rodrigo santos de Oliveira, Gilberto Grassi Calil, Renato Alencar Dotta, Rosa Maria Faiteiro Cavalari, Lídia M. Vianna Possas, Alexandre Blankl Batista, Endrica Geraldo e João Fábio Bertonha.

má fé. Outro importante ponto a ser enfatizado. o autor analisa a memória criada pelo Estado Novo e pela imprensa do período acerca da AIB. F. Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e História. Além disso. 123 deturpação. Dentro desta perspectiva de análise. Tudo o que saia deste roteiro pré-estabelecido. refere-se à necessidade de se estudar a memória produzida pelos militantes integralistas sobre a sua própria história. uma memória particular por parte dos militantes. Neste estudo.) op. memória e esquecimento. e pretendem que o resultado seja a expressão da verdade pura. M. R. intitulado O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP 123 BERTONHA. (org. mesmo que seja por um milímetro. tem a pretensão de construir um panorama mais detalhado do movimento. Por fim. só nos resta apresentar o trabalho de Gilberto Calil (2001). que a atual historiografia que voltada a AIB.62 A lista de títulos (citada em rodapé) se justifica pelo fato de apresentar. 157. M. assim como nos indica o título desta última coletânea citada. etc. além de também abordar a memória criada pelos próprios militantes sobre o seu passado. e CAVALARI. como também promove novas abordagens para temas que já foram estudados.. remontaram os acontecimentos. ele discute questões como a herança fascista. Para Bertonha. Entendemos então. justamente. F. os temas que a atual historiografia sobre o integralismo está abordando e que. 124 VICTOR. convenientemente. o golpe de Vargas em 1937 e o Putch Integralista de 1938. . no decorrer dos anos. J. A. POSSAS. é imediatamente atacado como mentira. L. L. nos apresenta uma enorme gama de novos estudos. como já foi citado. citamos o trabalho de Rogério Lustosa Victor. R. foi consolidada. esqueceram algumas coisas. memória e esquecimento (2005) . Victor aborda a memória que os atuais livros didáticos constroem sobre a AIB e a sua participação na história brasileira. Goiânia: UCG. Eles formularam uma visão própria do acontecido. R. O integralismo nas águas do Lete: história.. intitulado O integralismo nas águas do Lete: 124 história. V. 2005. In: DOTTA. cit. Neste percurso. p.

Esperamos. no qual é analisado o fim da AIB e a sua rearticulação após 1945 com a criação do PRP. também. para que os pesquisadores já de longa data possam mais uma vez refletir sobre as produções existentes. . 125 125 CALIL. também são abordados. cabe esclarecer que somos conscientes de não contemplarmos toda a bibliografia que abordou a AIB. o seu discurso anticomunista e logicamente a sua participação no processo político brasileiro. ou até mesmo. transformando-se em um referencial obrigatório para qualquer estudo posterior que pretender abordar o Integralismo no pósguerra. 2001. se mostram suficientes para a apresentação da historiografia que abordou a AIB. o seu projeto político. A estrutura interna do PRP. Entendemos que as apresentações e comentários estabelecidos até aqui. O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP (19451950). os elementos mobilizadores de sua militância. G. Para finalizar. pela própria impossibilidade de tal empreitada. Porto Alegre: EDIPUCRS. Assim. que o presente artigo sirva como uma espécie de guia de leitura para os pesquisadores que estão iniciando seus estudos sobre este tema.63 (1945-1950) . este trabalho se apresenta como o mais completo estudo sobre o PRP até então realizado.G.

que serviu de base para tratar do tema dentro das novas condições e possibilidades do trabalho historiográfico acerca do integralismo no Brasil. Trata-se de um trabalho apresentado no IIº Prêmio de Pesquisa promovido pelo DCE da Universidade Federal de Juiz de Fora. e-mail: leandropgoncalves@gmail. se deve. Aqui. À exceção de um trabalho que relata o integralismo de forma bem factual .64 TRADIÇÃO E CRISTIANISMO: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora 126 Leandro Pereira Gonçalves 127 As primeiras leituras bibliográficas sobre o integralismo confirmaram a inexistência de um completo estudo sobre a atuação deste movimento na cidade de Juiz de Fora.cujo título é Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. Além da ausência de estudos do movimento na cidade de Juiz de Fora. à percepção das particularidades do movimento nesta cidade em relação às demais localidades. a escolha do tema. nada mais se encontra sobre a atuação do movimento na cidade. Tradição e Cristianismo: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora.com . realizado em 1973. ainda. a Ação Integralista Brasileira (AIB) teve sua semente 126 Este artigo baseia-se em minha Monografia de conclusão de curso de Especialização em História do Brasil (PUC/MG) 127 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. realizado na época pelo acadêmico Maurício de Castro Corrêa. Licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. área de concentração: Literatura Brasileira. quando muitos militantes ainda estavam vivos. Especialista em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Foi justamente através da força dos ideólogos metodistas que nasceu o integralismo juizforano. Esse movimento foi decisivo na formação política da década de 1930. Plínio Salgado inicia suas . diferente. portanto. Logo após o lançamento oficial da Ação Integralista Brasileira. investiu na construção ideológica de controle da população pela educação metodista.65 plantada dentro de uma instituição religiosa metodista. tendo ampla repercussão no campo político e social no Brasil. A Igreja Católica chegou a apoiar o movimento na cidade. fortemente influenciada pelos movimentos fascistas europeus. Iniciando suas atividades no princípio da década de 1930. O movimento integralista surgiu através do interesse de vários grupos de intelectuais no Brasil. A hierarquia do movimento colocava Plínio Salgado como Chefe Nacional e todos os demais membros tinham que jurar obediência às suas ordens. sem discussão. sob a liderança do escritor e jornalista Plínio Salgado. com a integração do discurso integralista conservador ao discurso metodista do contexto religioso da década de 1930. quando foi proibido de atuar juntamente com outros partidos e movimentos. todos eles descontentes com a política existente até então. mas a base inicial se encontra na Igreja Metodista. A partir de então. divulgado para todo o país. de muitas localidades onde o catolicismo foi o grande pioneiro. priorizava a arregimentação de militantes e seu enquadramento em uma estrutura hierárquica e burocrática. que veiculava um discurso previamente preparado de acordo com a situação. logrou intenso e rápido crescimento ascendente até a decretação do Estado Novo em novembro de 1937. a AIB passou a atuar formalmente através do Manifesto de outubro de 1932. que através de um grande centro educacional secular denominado Instituto Granbery. Sua organização.

Ao mesmo tempo. que possuíam tendências políticas. os integralistas contaram com um expressivo número de filiados. principalmente. No país. Na crise liberal. assim. e as famílias religiosas tradicionais. o Integralismo chegou ao auge de suas atividades. Ao analisar a década de 1930. logo se depara com as ações da Ação Integralista Brasileira. no Brasil. essas famílias investem no integralismo que apresenta grande relação entre a religião e a política. assim. ficaram ao lado do fascismo. Descartando. o socialismo. as opções eram comunismo e fascismo. a AIB no principal partido de extrema-direita em busca do poder nos anos 30. onde a AIB passou a se destacar logo após três conferências doutrinárias ocorridas nos dias .66 articulações políticas pelo país. Plínio Salgado. Pátria e Família. defendendo principalmente a tradição. Mostraremos um pouco de toda essa atuação na cidade de Juiz de Fora. Em 1936. o capitalismo internacional e as sociedades secretas vinculadas ao judaísmo e à maçonaria. o comunismo. aglutinando o apoio da mocidade e transformando. Com esse discurso ideológico de combate em defesa às tradições cujo lema é: Deus. movimento político de extremo conservadorismo que se articula com os discursos religiosos. com milhares de células espalhadas por todo o país e. vangloriava-se de que o número de seus militantes alcançava a cifra de um milhão de pessoas. defendia que sua milícia reunia cerca de cem mil indivíduos em condições de combate. o integralismo propõese a combater o liberalismo. mais forte combate ao comunismo. As pretensões integralistas em atingir o poder pareciam. na Zona da Mata mineira. bastante realistas até que Getúlio Vargas resolveu por fim às pretensões do líder integralista em 1937.

do Museu Granbery. que em seu jornal de circulação interna do dia 20 de outubro de 1933. Gustavo Barroso. Gustavo Barroso. . 130 Desse grupo. para divulgar as ideologias políticas integralistas entre os professores e alunos. movimento que tinha como objetivo a doutrinação. Comunismo e Integralismo”. 1933.67 20. Tarboux. Já última conferência ocorreu no salão de festas do Pálace Hotel. utilizou seu prestígio de presidente da ABL. 1. o ilustre brasileiro Dr. então diretor dos cursos Ginasial e Comercial do Instituto Granbery da Igreja Metodista e membro da Igreja Metodista Central de Juiz de Fora que cedeu as 128 As duas primeiras conferências foram realizadas no salão do Instituto Granbery da Igreja Metodista. o pioneiro do movimento integralista em Juiz de Fora foi o professor de Sociologia Oscar Machado. 20 out. A inserção do Integralismo em Juiz de Fora A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora ocorreu através do Instituto Granbery da Igreja Metodista. com os títulos: “A Inquietação do século XIX e a Reconstrução do século XX” e “O sentido Novo da Política. 129 O Granberyense. intitulada: “Liberalismo. presidente da Academia Brasileira de Letras. p. 21 e 22 de outubro de 1933. divulga a seguinte manchete: “O Granbery orgulha-se de ter como hóspede de honra. 130 Sobre sua presença na escola pode ser comprovada pelas fotos de 20 e/ou 21 de outubro de 1933 no Arquivo fotográfico Dr. Gustavo Barroso. 128 realizadas pelo Chefe das Milícias Integralistas. a divulgação e a propagação da ideologia integralista pelo Brasil. O Chefe das Milícias Integralistas. da Educação e da economia”. Juiz de Fora. digno presidente da Academia Brasileira de Letras!” 129 A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora fez parte do que era chamado de Bandeira ou Caravana Integralista.

também Plínio Salgado teve atuação em Juiz de Fora. p. A partir daí. No dia 27 de novembro de 1933. 69.68 dependências do colégio para Gustavo Barroso.º 01. pregando e organizando uma sociedade metodista por todo Reino Unido. quando ocorreu a posse do professor Oscar Machado como primeiro chefe municipal do integralismo. um grupo de integralistas chegou à cidade ampliando a consolidação do movimento. . Essas viagens tiveram como meta destacar os problemas sociais da época oriundos da Revolução Industrial. 58. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. 1973. além de Barroso. que fez parte do movimento Reforma Protestante. o professor iniciou o processo de divulgação e ampliação do movimento com a preparação de um forte veículo de propaganda através do jornal O Sigma. 132 CORRÊA. Data de recepção na Igreja Metodista Central: 09/01/1930. Transferido para Porto Alegre em 11/09/1934.º 1719. Sua visita foi fundamental para consolidar a fundação do núcleo municipal que ganhou muitos adeptos logo após a visita do Chefe em dezembro de 1933. proferiu uma série de conferências doutrinárias para divulgar a ideologia integralista. pelo Pastor César Darcorso Filho. Após o lançamento da semente integralista. 132 Em março de 1934. sob as idéias de John Wesley. nasceu na Inglaterra no século XVIII. instalou-se a organização da milícia integralista juizforana e da sede oficial do movimento. pág. A Igreja Metodista no campo da educação O metodismo. ministro da Igreja Anglicana que teve a oportunidade de viajar por cinqüenta anos. Maurício de Castro. apontada como responsável por uma transformação de toda 131 Rol n. o chefe dos integralistas. livro n. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. 131 Segundo Maurício Corrêa.

o ensino ocupou um lugar privilegiado na ação social. têm o objetivo de transmitir os valores estadunidenses de liberdade. Os metodistas além de quererem implantar a religião no Brasil. favorecida por uma burguesia em ascensão com características modernas e por instituições de ensino que começavam a ser criadas. no século XIX. As idéias de John Wesley foram ainda a base da organização de uma educação destinada especificamente aos adultos. presente no século XVIII. Após o processo de Independência das Treze Colônias e a formação dos Estados Unidos da América. com uma identidade liberal e progressista.69 estrutura social inglesa. na América Inglesa. tendo uma primeira tentativa entre 1836 e 1841 e a segunda investida iniciada em 1876. marca do Iluminismo liberal. No decorrer do século XVIII. com vários princípios como o individualismo. Com isso. O metodismo chegou ao Brasil através das missões dos Estados Unidos. O metodismo chegou ao Brasil com os ideais do liberalismo já consolidados na América do Norte e foram justamente esses ideais que exerceram um especial atrativo naqueles que desejavam modificações. civilização e progresso. a difusão do Iluminismo permitiu a abertura de novas formas de pensamentos religiosos. tendo como participação a Igreja Metodista. servindo para construir escolas destinadas a instrução de todos. É nesse contexto que o metodismo chega a Juiz de Fora no ano de 1884. os metodistas iniciaram um movimento de expansão religiosa com muito sucesso. sendo o maior movimento protestante dos Estados Unidos. devido a uma política escravocrata e tradicional que era a do Brasil. Com isso a expansão do metodismo ocorreu no meio urbano. Em pouco . A Igreja Metodista em pouco tempo se expandiu por todo o Reino Unido. inclusive tornando-se muito poderosa na América do Norte.

desde os seus primórdios. tendo como objetivo reformar o caráter e a vida dos homens. A educação passou a ser vista como um processo de formação contínua do indivíduo. ponto estratégico usado na doutrina. o metodismo difunde na sociedade juizforana uma cultura protestante estadunidense. 97. pautada no liberalismo. p. Peri. Peri. Na segunda metade do século XIX. Em Letters of John Wesley. 146. Peri. p. 134 A educação metodista e o integralismo em Juiz de Fora A Igreja Metodista. chegou aos Estados Unidos como uma grande força religiosa influenciando a vida e a cultura da população. era a instituição religiosa de maior denominação e dominação nos Estados Unidos. cit. o Collegio Americano Granbery. avançou por toda a região mineira. inclusive a cidade de Juiz de Fora. o metodismo se transformou numa das maiores forças educacionais da Inglaterra no século XIX e de forma rápida. op. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. com a fundação de uma instituição de ensino. Com esse objetivo. Identificava-se como a nação 133 Clifton E. 134 MESQUIDA.70 tempo. por isso a necessidade de se construir escolas. cit. Segundo Clifton E. 1994. Olmstead. 133 as instituições metodistas de ensino privilegiavam os filhos dos membros da Igreja com o objetivo de criar homens de moral elevada capaz de influenciarem a comunidade em que viviam. . 135 Letters of John Wesley apud MESQUIDA. Olmstead apud MESQUIDA. op. Em pouco tempo. teve uma característica básica em sua doutrina ideológica que era a de ser um movimento reformador e educativo. 135 observa-se o pensamento do seu fundador sobre a educação. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. no ano de 1890. de criar uma obra educacional com teor missionário. p. 162.

cit. devido à liberdade conquistada após a Guerra Civil. Por isso acreditava que as nações mais evoluídas tinham o dever de civilizar as nações mais atrasadas do mundo. op. algumas missões procurando promover a ideologia estadunidense no continente. por isso as instituições de ensino têm como propósito modelar e promover essas idéias.71 escolhida por Deus como dominante. pela educação e liberdade. mas também. p. como diz Marilena Chauí. Peri. 137 o Journal of the General Conference of the Methodist Episcopal Church (1880) publicou que o metodismo dos Estados Unidos manifesta um profundo sentimento nacionalista e a aceitação à política liberal. O nacionalismo religioso metodista. pois esse 136 Hooding Carter apud MESQUIDA. cit. obediente. Essa dominação não só é restrita ao campo religioso. Segundo Mesquida. difundir. . A educação metodista passou a ser então um canal de convicção intelectual. valores e ideais da América do Norte. Peri. honesta. 136 quando os pregadores metodistas falam. que foi enviado ao Brasil. p.108-109. trabalhadora. O metodismo tem como objetivo onde quer que seja. 212. que está presente nos Estados Unidos. formar uma população livre. É nessa linha de raciocínio. dando assim legitimidade ao expansionismo imperialista. op. propunha comunicar ao mundo. os políticos os ouvem com a mesma atenção que suas próprias congregações. a cabeça pensante que tem como objetivo manipular a massa. O liberalismo foi o principal referencial teórico dessa expansão. ou seja. o ideólogo. ao político. o progresso e todas as forças racionais e morais que fazem o aperfeiçoamento da civilização americana. 137 MESQUIDA. Segundo Hooding Carter.

p. 139 LÉONARD. então. que era algo vangloriado pela elite intelectual e política. p. 2004. Os missionários metodistas estavam conscientes de que era no interior que sua dominação ideológica iria ocorrer com maior sucesso. cit. Convite a Filosofia. Esses. a educação metodista tem como objetivo estratégico. entre eles a cidade de Juiz de Fora conhecida como o Vaticano do Metodismo Brasileiro. Peri. A Igreja Metodista. 139 De acordo com esse pensamento.387. inicialmente. p. O protestantismo brasileiro. 140 é registrado que a doutrina tem como 138 CHAUÍ. Marilena. a conversão das classes sociais importantes. op. pontos estratégicos para defender e propagar os princípios liberais. 1981. sendo suas instituições educacionais. 55. formados pelo Instituto Granbery. passa a exercer influência sobre a cultura da elite e da nação. desenvolver sua doutrina em municípios do interior. No periódico metodista: Expositor Cristão. Percebe-se mais uma vez que a instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação concedendo privilégios aos membros da elite religiosa. 154.72 grupo teve como finalidade transmitir o pensamento de todos de acordo com os seus interesses. 140 Expositor Cristão apud MESQUIDA. 138 A educação metodista passou a ser o produto das idéias e do pensamento e é assim que surgiu a ideologia como criação de domínio da realidade. São Paulo: Ática. nas grandes cidades. Os colégios metodistas mostram claramente o desejo de se dedicar particularmente à formação das elites. pois não seria. Emile-G. pois as opiniões passaram com o tempo e com a força dos intelectuais a ser uma idéia vista como verdadeira e válida para toda a sociedade. nada mais serão do que porta vozes dos ideólogos que é o próprio metodismo. . São Paulo: Aste-Juerp.

Peri.157. . Entre os documentos relacionados por Mesquida 141 . conseqüentemente. cit. destaca-se o “Livro de atas da diretoria do Colégio Americano Granbery (18951912)” sobre o objetivo do corpo docente que era a de ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. Os educadores queriam criar uma nova mentalidade no cidadão. políticas e religiosas do país. marco da política e da economia dos Estados Unidos no início do século XX. por isso dedicaramse à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural. Já que a idéia inicial das instituições metodistas é a de formar pessoas que possam resolver as questões sociais. o liberalismo passa a ser a base de doutrinação dos estabelecimentos de ensino no Brasil. políticas e religiosas do país. a educação. representante de uma sociedade considerada mais evoluída. p. para que o colégio fosse um centro de influências poderosas e agressivas. A característica principal dessa educação era privilegiar o liberalismo. A ação da educação metodista pode ser vista como a conquistadora da hegemonia cultural. op. existe a necessidade de formar uma concepção política nos educandos para que os ideólogos tenham a garantia de 141 MESQUIDA. a educação metodista tem como objetivo proporcionar uma doutrina de dominação ideológica elitizada desde o seu início com John Wesley.73 objetivo resolver as questões sociais. Como já foi dito. E é justamente dessa exigência de criar uma mentalidade para se ter a hegemonia cultural que passamos a falar do Diretor dos Cursos Ginásio e Comércio do Instituto Granbery. Partindo do princípio que foram os missionários estadunidenses que implantaram o metodismo no Brasil e. que irá conduzir perfeitamente a prática educativa pautada no iluminismo e no liberalismo.

muito menos a Igreja Metodista. De acordo com periódicos de circulação interna. O professor Oscar Machado foi considerado um desses. 142 fica a cargo dos intelectuais. É a partir daí que se observa uma força do integralismo dentro do Instituto Granbery. ele próprio. cit. que era formar um grupo anticomunista e posteriormente um integralista em Juiz de Fora. que é alvo de análise. A responsabilidade da formação de uma ideologia é do ideólogo que segundo Marilena Chauí. membro da Igreja e com raízes metodistas. op. Cabe lembrar que não está sendo afirmado que o Granbery é integralista. tendo inclusive. O domínio ideológico de Oscar Machado começou no momento em que ele mesmo convidou para estar presente. no Instituto Granbery. mas certos grupos de domínio ideológico dentro da instituição. o cargo de Chefe Municipal do Integralismo. em 1933.387. alcançando assim seu objetivo inicial. iniciou um movimento de persuasão de suas idéias como sendo de todos. Em pouco tempo. um dos militantes mais destacados da Ação Integralista Brasileira. Marilena. p. já que por ocupar um posto de destaque dentro da Instituição e por contar com todos os mecanismos a seu favor. moldando o pensamento de todos. 142 CHAUÍ. o Professor Oscar Machado era uma pessoa detentora de grande respeito dentro da Instituição. Ele foi o principal responsável pela divulgação e propagação do integralismo no Instituto e pioneiro na cidade. as palavras de Oscar Machado penetraram no corpo docente e discente do colégio.74 seus interesses. esse realizou uma série de conferências. Como já foi citado. o chefe das milícias integralistas Gustavo Barroso. que julgam as idéias verdadeiras e transformam-nas em idéias válidas para toda a sociedade. .

Sua excelência não virá realizar um desejo seu. Gustavo Barroso. que se impõe pela personalidade intangível e pelo idealismo sadio. Em uma de suas palestras. bem como pelo caráter inflexível. p. 1933.75 sendo duas delas dentro do Granbery. certos de que sua vinda ao Granbery marcará um ponto iluminoso nas nossas páginas e terá um dos mais raros acontecimentos na nossa vida colegial. Gustavo Barroso. pelo que. desde já hipotecamos-lhe a nossa sincera gratidão. Autor de cinqüenta e tantos livros. colaborador de inúmeras revistas. Mas nas palestras realizadas por ele no Instituto Granbery nos dias 20 e 21 de outubro. De acordo com um artigo do periódico O Granberyense: O Dr. porém uma filosofia que realiza um 143 O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. Gustavo Barroso é um desses brasileiros preclaros. Certos de que tudo o que pleiteamos é pela honra da pátria. 20 out. deixa claro a sua defesa do regime fascista. coloca-se ainda como líder invulnerável do Partido Integralista. 1. saudamo-la na pessoa ilustre 143 do dr. verifica-se que existe uma posição de doutrinação política nas conferências. que para ele não é uma simples ditadura. Como pode ser observado é muito claro no artigo que a vinda de Gustavo Barroso não tem ligação com a política integralista e com sua posição de intelectual. o ilustre brasileiro Dr. conhecedor profundo de todo o movimento político do Brasil. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. redator chefe do nosso popular ‘Fon-Fon’. Juiz de Fora. mas. atender gentilmente a um convite nosso. sim. .

às 8 horas da noite. nome de grande projeção na nossa 145 literatura. A vinda de Gustavo Barroso foi algo noticiado em toda a imprensa local. Vê se bem que o Granbery vai proporcionar ao mundo intelectual de Juiz de Fora uma grande noite de indizível prazer artístico. do grupo pensante. presidente da Academia Brasileira de Letras. p. como se nota por exemplo. Juiz de Fora. utilizando seu prestígio por ser 144 BARROSO. Essa passa a ter acesso a esse discurso. renovando e reconstituindo a doutrina política dos Estados cristãos. a convite do Centro Cívico do Granbery. O Integralismo de Norte a Sul. Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora a fim de. ao ensejo de ouvir a palavra encantadora de Gustavo Barroso. Essa conferência terá lugar amanhã. Vê-se isso como mais uma tentativa dos ideólogos. 19 out. 120. Gustavo. 1. mesmo não sendo o divulgado pelo Instituto Granbery. 145 GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. com isso.76 projeto cultural na sociedade. 144 De forma tendenciosa percebe-se a expansão do pensamento político de Gustavo Barroso. realizar uma conferência literária. o ilustre escritor brasileiro Gustavo Barroso. criando assim um novo sentido da vida. Observa-se. p. no jornal de maior acesso na cidade o Diário Mercantil: Deverá chegar amanhã à cidade. . 1934. Diário Mercantil. em manipular as posições políticas dos dominados na instituição. que é dado como verdade absoluta dentro da instituição. no salão nobre do importante estabelecimento de ensino. 1933. que Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora com o objetivo de doutrinar. ou seja.

2. Pode-se dizer que a presença dele foi o início da chamada dominação ideológica. Mas. O Granberyense. Ainda nessa edição existe uma entrevista do Professor Oscar Machado com o título “Acerca de um movimento patriótico”. em que Oscar Machado tem o objetivo de continuar. algo que irá ajudar muito os interesses integralistas. apenas deixa-se fermentar por elas”. então. onde contará com o apoio de diversos segmentos. liderado pelo Professor Oscar Machado. Mas esse não é o alvo desta investigação ficando restrita ao início do movimento dentro do Instituto Granbery da Igreja Metodista. observa-se na mesma edição sobre a vinda de Gustavo Barroso anunciado no periódico O Granberyense. . comentando a visita de Gustavo Barroso e ali se pode perceber quais são as posições do Professor sobre o integralismo que começa a estar presente dentro do Granbery: 146 VASCONCELOS. p. expandir por toda a cidade. com esse projeto de expansão ideológica. Vasconcelos e nele mais uma vez notam-se passagens em que os pensantes se julgam superiores à massa: “A multidão não assimila idéias. Nacionalismo. Juiz de Fora. em que um grupo de intelectuais. inicialmente dentro do Granbery para. De forma rápida. A. Continuando.77 presidente da ABL. 20 out. 146 A dominação intelectual é algo que está presente de forma explícita dentro do Instituto. é visto que as idéias de Marilena Chauí são aplicadas em Juiz de Fora na década de 30. esse projeto não fica obviamente restrito à vinda de Gustavo Barroso. inicia um projeto de dominação ideológica da massa. 1933. inclusive da Igreja Católica. um artigo intitulado “Nacionalismo” de autoria de A. posteriormente.

. razão e espírito. Crê o homem cívico.) A inquietação social contemporânea repercute enormemente em nosso meio (. Essa é a 147 concepção totalitária da vida. integral – corpo.) As massas humanas precisam marchar para frente (. superpõe a ambas a Religião.) O Integralismo une esses dois aspectos da vida pela influência do Espírito. Tudo resolve pela mentira do voto. p.. Gustavo Barroso propõe a solução: ser integralista porque é mais vantajoso que as outras doutrinas existentes.. mas completando.. Portanto. todos nós devemos ser integralistas. Oscar. A grande maioria dos granberyenses reagiu favoravelmente diante do apelo feito ao espírito moço pelo eminente brasileiro que nos visitou (..) A principal dessas vantagens é a concepção filosófica que serve de base à doutrina integralista (...) O Socialismo.) Acho que o integralismo tem vantagens sobre as demais correntes políticas (. O Granberyense.... verificar facilmente. 20 out. os granberyenses devem seguir as doutrinas do sigma. exagera o aspecto econômico da vida (..) O liberalismo.. . que as palavras e as doutrinas integralistas entram na instituição com o apoio incondicional de um líder do próprio Granbery. pois são as que mais se adequam ao espírito de vida dos que fazem parte desse meio. Juiz de Fora. Vê o homem total. Quer vistamos a camisa verde ou não. (. considerado nesse meio 147 MACHADO. De acordo com Oscar Machado. então.) É isso que nós estávamos precisando ouvir o que ele disse.. Pode-se. 9.. Logo tem lugar para a Economia e a Política.. hipertrofia um aspecto do indivíduo.. por exemplo. 1933.78 Acho que Gustavo Barroso veio ao Granbery numa hora oportuníssima (. existe no Brasil uma inquietação que deve ser abolida. do outro lado. Acerca de um movimento patriótico.

) O integralista tem certeza da 148 vitória. .. Para combater esses males. 148 Ibid... (. Só existe unidade nacional quando existe unidade cultural.. porém. As correntes políticas não dão unidade ao pensamento.. (.. isto. ordem.) O Integralismo. decorre da concepção do Universo (. para tornar possível a disciplina. harmonia entre as forças que se processam dentro da órbita da sociedade humana.) A Revolução integralista é um esforço para conseguir o equilíbrio.) O mundo contemporâneo caracteriza-se pela indisciplina.) O Integralismo..) E o Brasil precisa de um grande surto nacionalista. (... como pode ser visto na seqüência da entrevista: Aceito a concepção integralista.) O sistema corporativo sobre o qual se baseia a organização social integralista visa precisamente a essa chaga social que é a luta classista. (. Só assim pode o povo identificar-se com a Nação. Não dão. o Estado precisa ter autoridade para intervir e disciplinar a vida coletiva..(...) O movimento integralista é no sentido de integrar todas as forças sociais do país na expressão da nacionalidade. A sociedade é um conjunto de atividades profissionais em função harmônica. que é o ponto de vista totalitário.. é a grande tendência do século XX. porque conservam o povo na ignorância.. aliás. pela ausência do senso hierárquico e pelo desprestígio da autoridade. crê na unidade de pensamento..79 um detentor da intelectualidade formadora de opiniões.. (. Por isso é superior às demais correntes políticas. (.

Um é o conceito da liberdade. publicado na íntegra no periódico O Granberyense: Desde o princípio dos tempos.) Queremos estabelecer um regime baseado em harmonia da autoridade com liberdade. pela .. tantas vezes mal interpretado. em pouco tempo essa fala será colocada em prática. e. de outro lado. que os ideais integralistas estão presentes no líder da instituição de ensino que ocupa o posto de diretor e professor de Sociologia. O outro é o conceito da autoridade. como diretor. de Comércio numa hora em que graves acusações pesam sobre a coletividade granberyense no que diz respeito as suas diretrizes educativas (. (. que tem servido de um lado à audácia dos prepotentes... inclusive.. dois conceitos têm muitas vezes se chocado..) Senhores. mas educação no sentido da criação de uma mentalidade nova que venha substituir a anarquia mental e moral deste nosso século XX. como se observa na transcrição de um discurso feito por ele no momento de abertura das aulas em 1934. tantas vezes mal compreendido. como já foi mencionada pela fundação do núcleo integralista na cidade e. algumas vezes se associado e raras vezes se integrado.80 Podem ser vistos. as inclinações baixas dos desordeiros (. pelo qual se batem os indivíduos e as multidões. dentro da instituição.) Nós assumimos a direção do Ginásio e da E. o nosso maior problema no Brasil continua sendo o da educação. nessa entrevista.. pois as práticas do professor Oscar Machado. serão de acordo com a doutrina integralista. Com esse discurso e com a idéia de ser o pensante da ideologia.

150 Porque cria a consciência de necessidade.81 implantação da ordem.) a liberdade é o maior dom humano. p.. Pode-se ver uma transposição do ideário integralista dentro da instituição... 3. São Paulo: Revista dos tribunais. De acordo com Oscar Machado.. O que se observa de oposto a esse propósito tão 149 MACHADO. O Granberyense. mas que a liberdade é o maior dom humano. p. Um regime é o que queremos (. da disciplina e da 149 hierarquia. Oscar Machado diz que dentro do Instituto Granbery deve existir autoridade com liberdade e nos faz remeter a Plínio Salgado quando diz que o Brasil tem que ter um governo forte. Só ela cria a disciplina.. Existe uma mistura das práticas integralistas com as ações existentes dentro do Colégio onde o propósito da educação metodista é a de criar uma nova mentalidade no cidadão e Oscar Machado propõe em seu discurso a formação de uma nova mentalidade educacional.. integralistas.) quando nós. Como se percebe. a disciplina e a hierarquia. . Diz ainda que quer estabelecer uma harmonia da autoridade com a liberdade. não falamos em ditaduras e sim ‘num regime’. Plínio. falamos em governos fortes. no Brasil (.. 150 SALGADO. 63-64.. o Granbery será dirigido com autoridade e educação e deve ter como objetivo a ordem. ao analisar o discurso de Plínio Salgado: Nós. A doutrina do sigma. Juiz de Fora. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio. (. 1935. 15 abr. 1934.) queremos um governo forte.) não pode existir governo forte sem cultura forte. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. Oscar. (.

p.) A comitiva viajou de 151 UM POUCO de humorismo. 27. a elite intelectual alcança seu objetivo. Um exemplo claro do integralismo no cotidiano do Granbery pode ser observado no periódico da instituição na sessão “Um pouco de humorismo”. sede da 17ª Região mineira. Juiz de Fora já tem uma sede própria da AIB e o movimento na cidade passa a ter um destaque nacional durante todo o período em que esteve em funcionamento. A partir de 1934. Juiz de Fora. era o integralismo. sob a orientação do dr.. 1934.82 igualitário é a doutrina defendida. 12. sob calorosos aplausos. ela logo toma posição de sentido e estende a mão em correta saudação integralista. horas de profundo entusiasmo cívico. . viveu no domingo passado. O Granberyense. No jornal integralista Acção de São Paulo é possível ver um relato do movimento em Juiz de Fora: Numa espetacular consagração: O Integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica: Juiz de Fora. A partir dessas doutrinações ideológicas. a comitiva que desta capital partiu no sábado. Mas o objetivo final é o mesmo: dedicar-se à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural. Por quê? Porque toda vez que ela toca a campanhia para a saída do refeitório.. (. Miguel Reale. De fato o integralismo passou a fazer parte do Instituto Granbery. Eliza. 15 abr. pelos pioneiros da educação metodista: o liberalismo. em uma piada envolvendo uma funcionária do Granbery: “Até hoje a pessoa que continua como integralista irresistível é a D. Dois mil integralistas recepcionaram. 151 Podemos notar que realmente a doutrinação ocorreu e a massa teve acesso à ideologia proposta pelos pensantes. Já no tempo de Oscar Machado.

sendo capazes de resolverem as questões sociais. muito menos do movimento de uma maneira completa. 1937.83 automóvel.. . p. com vibrantes manifestações dos camisasverdes locais (. Não foi a intenção esgotar as informações sobre a fundação do integralismo em Juiz de Fora. o movimento integralista em Juiz de Fora merece um destaque especial na historiografia devido a sua força e as suas particularidades. A instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação. a de promover uma discussão entre as doutrinas educacionais da Igreja Metodista com o propósito da Ação Integralista na cidade. Miguel Reale (. mas apenas elucidar alguns pontos no processo de sua consolidação na cidade com a forte presença do Instituto Granbery da Igreja Metodista. O ponto principal dessa análise foi o conceito de ideologia que é sem dúvida a ligação entre as duas instituições. Volto encantado com o alto sentido de disciplina dos camisas-verdes na 17ª Região 152 da Província de Minas Gerais.) Impressionados com o entusiasmo invulgar dos elementos que constituíram a comitiva. Acção. São Paulo. pois os privilégios serão dados aos filhos dos membros da Igreja com o propósito de influenciarem positivamente a comunidade.. mas sim. políticas e 152 NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. Após análise. pois a educação metodista subsiste com o propósito de se dedicar à formação das elites. sendo recebida em Juiz de Fora. O objetivo do estudo não é pesquisar totalmente o movimento em Juiz de Fora. 1 dez..) A minha impressão sobre o Integralismo em Juiz de Fora é magnífica.. quisemos ouvir o dr. 1.

1. 1981. 2003. Marilena. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. 2003. CORRÊA. CORDEIRO. Ana Lúcia. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. Rio de Janeiro: Civilização brasileira. O protestantismo brasileiro. . 1973. a elite intelectual é o grupo pensante que influencia a consciência social e tem o poder de transmitir as idéias dominantes para toda a sociedade. O que é ideologia. 2004. São Paulo: Paz e terra. que como se nota tem uma forte influência dentro da instituição. 1978. grande defensor do movimento. têm como objetivo ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. Maurício de Castro. Emile-G. Junto a esse processo de dominação. São Paulo: Brasiliense. para que o Granbery seja um centro de influências poderosas e agressivas. Juiz de Fora: Letras e notas. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROSO. Gustavo. São Paulo: AsteJuerp. Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. 1933. também. Convite a filosofia. Os educadores. principalmente através do Professor Oscar Machado. O Integralismo de norte a sul.84 religiosas do país. ___. In: Ideologia e mobilização popular. 1934. LÉONARD. p. GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. Diário Mercantil. Juiz de Fora. 19 out. encontra-se o integralismo na década de 1930. CHAUÍ. A inserção do metodismo em Juiz de Fora. Mais uma vez. ___. São Paulo: Ática.

MESQUIDA. 1. Paul. São Paulo. SALGADO. Peri. 1 dez. NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. Manifesto de outubro de 1932. O Granberyense. Mensagem às pedras do deserto. 3. 1951. A doutrina do sigma. 9. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. 5-176. Piracicaba: UNIMEP. o ilustre brasileiro Dr. p. ___. p. v. 1933. 20 out. 2002. 1997. RICOEUR. Histórias da História do metodismo no Brasil. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. O Granberyense. São Paulo: Revista dos tribunais. Juiz de Fora. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio. São Paulo: Imprensa metodista.85 MACHADO. ___. p. São Paulo: Martins Fontes. In: ___. MARX. São Paulo: Américas. Oscar. pp. Juiz de Fora. ___. Karl. O conceito cristão da democracia. Direitos e deveres do homem. 1994. Espírito da burguesia. Ideologia e Utopia. A ideologia alemã. NOVAES NETTO. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. 1986. ___. 1937. 1982. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. As crises de um ideal: os primórdios do Instituo Granbery. 1956. Acerca de um movimento patriótico. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. Obras completas. 20 out. 1935. 1933. São Paulo: Voz do oeste. O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. 1. Arsênio Firmino D. ___. Acção. Lisboa: Edições 70. Friedrich. 15 abr. 1949. ___. 1967. Plínio. Juiz de Fora. Isnard. São Paulo: Guanumby. ROCHA. p. 1934.15. . 1950. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. ENGELS. Gustavo Barroso.

1937. Hélgio. VASCONCELLOS. p. Lisboa: Oficina gráfica. 20 out. 12. O Granberyense. VASCONCELOS. p. 1946. SALVADOR. Juiz de Fora. 1979. São Paulo: Brasiliense. São Paulo: Imprensa metodista. 15 abr. Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 30. 1933. 1979. Nacionalismo. Ideologia curupira: análise do discurso integralista. Gilberto. ___. 2. 1979. . Juiz de Fora. 1934. O que é integralismo. José Gonçalves. UM POUCO de humorismo. Porto Alegre: Difel/UFRGS. O Granberyense. A. TRINDADE. O Integralismo brasileiro perante a nação. História do metodismo no Brasil.86 ___. Rio de Janeiro: Schmidt.

situada na 153 Professora da Graduação e Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco. particularmente. mas também por se ter aqui uma sociedade cujo catolicismo era fortemente protegido por um grupo de famílias tradicionais e proprietárias que se amedrontaram com a chegada das idéias comunistas e com a crise da liberal-democracia. É importante lembrar que os discursos e propostas integralistas encontraram neste Estado um campo de possibilidades de dizibilidade e circulação das idéias integralistas não apenas pelas condições sócio-políticas e culturais dos que lhes apresentaram. propaga a ideologia do movimento para seus familiares. Aqui. esses intelectuais locais tomaram para si a responsabilidade de propagar o movimento no Estado em clima de profunda euforia política e “revolução espiritualista”. . política e religiosa que contribuíram para a atuação e expansão do integralismo em Pernambuco. tivemos então como ponto de produção de sentido dos discursos integralistas uma base familiar. que. consideramos que as questões relativas à chegada.87 4. não se trata apenas de localizar discursos de um grupo de intelectuais católicos e tomá-los como a causa do relativo sucesso do Integralismo no Estado. O INTEGRALISMO EM PERNAMBUCO: Uma história entre tantas da Ação Integralista Brasileira 153 Giselda Brito Silva (UFRPE) os estudos do integralismo no Brasil comportam uma série de fatores diversos que vão das questões externas às internas e viceversa. discutir alguns dos fatores internos ligados ao surgimento e atuação da AIB (Ação Integralista Brasileira) no Estado de Pernambuco e suas especificidades locais e regionais. pertencentes às grandes famílias locais. Aqui. em seguida. Imbuídos de uma mentalidade que mesclava uma contradição entre o moderno e o conservador. em sua maioria. Em nossas leituras acerca do movimento. interessa-nos. Contudo. atuação e expansão do integralismo em Pernambuco estiveram diretamente ligadas à ação de um grupo de intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. característica comum entre outros intelectuais da época ligados ao pensamento político brasileiro.

Segundo um dos meus entrevistados. mas. que sustentavam um modelo patrimonialista e burocrático pelo qual se confundiam o espaço e as coisas do público com o privado. com grandes famílias tradicionais e políticos provenientes das mesmas. Do outro lado. ainda relacionado às questões acima. desclassificavam o liberalismo como um sistema político-econômico e social viável para uma sociedade organizada pela tensão da oposição ordem versus desordem. mais a crise econômica. política e parentela serem os referenciais da sociedade rural que se estendia ao urbano. Nesta sociedade. Em nossas pesquisas percebemos que os pontos fundamentais da recepção do integralismo no Estado estavam diretamente ligados à ação e discursos anticomunistas propostos pelos integralistas. juntamente com a proposta de modernidade da sociedade. e ex-integralista. mais a concepção de recuperação dos valores morais e tradicionais centrados no lema “Deus. Era comum às famílias irem à missa aos domingos em jejum. como diziam. algo unia os indivíduos desta sociedade. A proposta ateísta dos comunistas soava como uma grande ameaça às bases sócio-culturais de uma sociedade ainda muito presa aos valores das grandes famílias latifundiárias e conservadoras. A família era uma referência do lugar social. na sociedade. . Entretanto. político e ideológico. econômico e cultural ao qual se pertencia. constituindo-se num dos lugares de maior recepção dos discursos integralistas. é o fato de que Pernambuco dos anos trinta se caracterizava por uma sociedade profundamente católica. Assim. orar antes das refeições. o sujeito ao ser apresentado lhe era imediatamente perguntado: quem é sua família? Você é parente de quem? Daí. As leituras das fontes escritas e orais são indicativas de um clima de grande tensão no campo social. Pátria e Família”. o surgimento das idéias comunistas e a Liberal-democracia pareciam a esses indivíduos como incapazes de resolverem muitos dos problemas. etc. dando-lhes uma identidade: pobres ou ricos eram marcados pela presença do catolicismo na estrutura familiar. Outro ponto fundamental. acreditava-se em céu e inferno e os comunistas tinham chegado para destruir essa fé. Parecendo mais. geradores de uma profunda ameaça à ordem das estruturas tradicionais vigentes. político. o clima do pós—guerra. pedir benção aos mais velhos da rua.88 desordem pós-1930 em meio aos conflitos mundias. ao deitar.

especialmente por Andrade Lima Filho e outros no plano estadual. os discursos dos lideres integralistas no Estado. Os principais responsáveis pela produção e reprodução dos discursos integralistas no Estado foram. com pouco referencia ao fascismo ou ao nazismo. Em 1936. sociais e econômicos da “Revolução” de 1930. Surgiu como um movimento de idéias nacionalistas. e que garantiu à Ação Integralista Brasileira (AIB) forte atuação política e ideológica durante toda a década de 30. Não se tratava de discursos que foram silenciados. O Manifesto de 32 fora lido em Praça pública e repetido nos bairros pelos quais se fundavam os núcleos. o catolicismo e o anticomunismo do movimento. procuravam congregar o político ao religioso e aos aspectos familiares tão comuns na sociedade local. anticomunistas e antiliberais. fogem um pouco à regra geral da historiografia que parte das questões e influências externas como fatores motivadores do integralismo no Brasil. Adequando-se às necessidades locais. identificados como provas da desordem. O anticomunismo e o antiliberalismo formavam a unidade do discurso que em sua dispersão atingiam vários lugares de possibilidades de sentido. um grupo de intelectuais e estudantes de Direito. mais uma proposta alternativa ao liberalismo e ao comunismo. o Integralismo foi apresentado à sociedade como um movimento espiritual de resgate das tradições e valores então ameaçados. cujo conteúdo era o projeto político-doutrinário de um Estado Integral. Declarando-se insatisfeitos com os resultados políticos. Neste Estado. . Além da proposta política de um Estado forte e intervencionista. guiadas e orientadas por uma doutrina cristã católica. promoveriam a segurança nacional e o fortalecimento do país.89 Dessa maneira. os intelectuais mais conservadores encontrariam na proposta integralista uma opção para a crise da “liberal-democracia” e para a ameaça comunista. consideramos que o relativo sucesso da proposta integralista em Pernambuco. como já destacamos. com remanescentes ainda nos anos 40. pesam. centralizado e hierarquicamente organizado em classes. principalmente. que ganhava campo com as manifestações grevistas e um clima de agitação no Estado. propondo uma “revolução espiritualista” com decisiva atuação na ordem social bastante próxima do conservadorismo aqui reinante entre as grandes famílias entre as quais circulou. mas que logo caiu em repetição e circulação. A nação era apresentada como uma grande família formada por famílias menores que. o Estado reforçou os discursos de Estado forte com o Manifesto-Progama.

. alguns intelectuais passaram a declarar a falência da liberaldemocracia e a alertar a população para o avanço do comunismo. destacando o clima de desordem política e social. quando então nasceu a Ação Integralista Brasileira. centro do Recife. liberal. através do qual Plínio 154 Salgado havia lançado a Ação Integralista Brasileira. Depois de 1930..) penso que só um regimen forte sera capaz de dominar a demagogia. Declarando-se desorientados e desiludidos.. provocador de todas as revoluções burguesas e que talvez nos irá levar inconsciente e delirante até a revolução marxista (. acrescentando à leitura outros discursos pronunciados por Plínio Salgado em São Paulo e no Rio de Janeiro. eles lançaram o “Manifesto do Recife” em apoio ao “Manifesto de Outubro de 32”. In: TRINDADE. Através de artigos e enquêtes. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. como um fomentador do espírito individualista “causador de todos os males sociais. o 154 .) foi o espirito individualista. por biografias. (. manifestaram-se publicamente em favor do integralismo através dos principais jornais da época. entretanto o desencadeamento da Revolução Constitucionalista de São Paulo prorrogara a publicação para outubro de 32. Em novembro de 1932. seus depoimentos. que só teria fim com a implantação de um governo forte que valorizasse os aspectos morais e espirituais”. veiculados pelos principais jornais do Estado. Durante todo o ano de 1932. Neste Jornal criaram uma coluna através da qual criticavam o Liberalismo. especialmente através do Jornal Pequeno. eles passam a ler em público o “Manifesto de Outubro de 32”. o “Manifesto de Outubro de 32” recebeu este nome porque foi publicado nesta data. os intelectuais foram um dos grupos que mais criaram expectativas com a campanha da Aliança Liberal em Pernambuco. 1979. seus discursos se concentravam mais em criticas ao liberalismo apontado como o principal responsável pelo clima de instabilidade e gerador do comunismo: A origem dos erros e de todos os males de nossa vida republicana não foi a forma presidencialista. deveria ter sido publicado em junho de 32. p. Inicialmente.. São Paulo: Difel. livros de memórias e outros evidenciavam a profunda frustração e desgosto com a política praticada pelo governo de Getúlio Vargas e seu projeto com a liberal democrático no período de 1930 a 1934. O “Manifesto”. rousseauneano. Hélgio. na hoje conhecida Praça 13 de Maio.Segundo Hélgio Trindade.123 .90 Em Pernambuco.

estudante da Faculdade de Direito do Recife. 26.. sob uma orientação nacionalista centralizadora: Nós precisamos é de um governo forte (.. um “leaders da ‘Ação Universitária Integralista no Recife”. evidenciando a total descrença no Liberalismo e a crença na solução para o problema através da implantação de um governo forte: Morte ao Liberalismo . membro da “Ação Universitária Catholica e. Ha o religioso. Todo o problema cultural.. Ha o econômico.) o Brasil se verá livre das erupções subversivas. Jornal Pequeno.11.11. O nosso problema é retomar as nossas tradições (.11. 25. No Brasil a grande geratriz das luctas armadas tem sido inegavelmente a política tortuosa dos partidos. catedrático da Faculdade de Direito do Recife e membro da Ação Católica e..1932.1932.Depoimento de Andrade Lima Filho. diretor do “Quinzenário da Ação Integralista Brasileira.1932... 05.. membro da Ação Integralista Brasileira de Pernambuco. 157 . 156 .91 revolucionarismo. 155 . Todo o problema da reestruturação social do Estado. Jornal Pequeno. que recebe novas dimensões (." Outros apontavam a crise liberal como conseqüência do pluripartidarismo e das brigas entre os partidos políticos e defendiam o fim dos partidos. posteriormente. bem como chefe nuclear do Integralismo em Pernambuco. a indisciplina 155 latentes no nosso povo.) Agora mesmo. . Jornal Pequeno. Temos vivido até hoje num clima revolucionario esse appello (sic) à revolução é no dizer de Hélio Vianna uma fatalidade dos povos sem educação social e política. posteriormente..o facto político deixou de ser o unico a interessar o Estado. Recife..Depoimento de Alvaro Lins.Depoimento de Otto Guerra.) precisamos de uma 156 orientação nacionalista.. Recife. vejo a quase unanimidade dos collegas da Faculdade não dar grande importancia ao problema presidencialismo ou parlamentarismo.” Outros depoimentos eram mais diretos na defesa do projeto autoritário e antidemocrático. Hoje mais do que nunca precisamos de um 157 executivo forte. a desordem.

apesar de no Estado prevalecer a questão do catolicismo e tradicionalismo. Pelos discursos acima se pode localizar as declarações de frustração.92 Estes são alguns dos fragmentos dos discursos produzidos no contexto que retomamos para mostrar o interdiscurso presente entre integralistas e intelectuais do Estado quanto a proposta de um governo forte. medo e ansiedade que circulava entre esse grupo que reproduz o discurso integralista.. pautado na liderança de um chefe nacional que promete combater o comunismo e o liberalismo. bastando apenas... que fosse obedecido em suas ordens. Entre alguns membros do “Comité Pró-Constituinte” circulava os nomes de Hitler e Mussolini: Mussolini tanto faria um bom governo com ‘fascio’ como com a republica. (. de uma proposta de Estado forte (a exemplo dos modelos que se observa na Europa). no respeito que todos sentissem pela idéia do util e do justo. mas das possibilidades de ser dito naquele momento e repetido por outros que passam a reproduzir os discursos integralistas. mas de discursos que circularam e não silenciaram porque encontraram uma sociedade na qual se visualiza uma produção de sentido.) uma forma .. Por outro lado. (..) Após a guerra a Alemanha não poderia por certo ter uma republica federal do tipo da Suissa. resultando na defesa e credulidade do projeto autoritário e centralizador. Lembramos aqui que a reprodução e circulação de um discurso não depende apenas de um enunciador(s). não se trata apenas de um discurso bem articulado entre o político e o religioso. E quem não sabe obedecer também não sabe mandar. Em alguns lugares é possível identificar discursos que se aproximam do nacionalismo forte. para outros (.. As condições do momento naquelle tempo como ainda hoje não permitiam um governo cuja unica fortaleza estivesse apenas na fragilidade de sua estructura e. O mal que desequilibra o governo de muitos povos é o não saber obedecer. Ou seja. sobretudo.) Para uns em determinado momento: um governo forte. não deixamos de identificar fragmentos de discursos simpáticos aos movimentos nacionalistas europeus. nem de um discurso político construído sob uma base espiritualista contra uma materialista identificada como responsável pela desordem.

. baseado como se acha no individualismo desenfreado. pelo progresso nas ciências. 18. alguns intelectuais que se declaram desiludidos com a crise liberal e ameaçados pela agitação social e o avanço comunista. destróe a religião (. Os maiores fomentadores dessas idéias são. p. 2 160 . de suma importância para as famílias proprietárias que temiam a propaganda comunista: A questão social deve ser resolvida pela cooperação de todos (.) a grande coisa vem da habilidade 158 na aplicação..Ibid. que ameaçava a classe proprietária... Vale pelo estudo..Depoimento de Gil Duarte. da Pátria e da Sociedade.. na capacidade técnica. pela honestidade. tendo por fim o bem-estar da Nação e o 159 elevamento moral das pessoas”. homem vale pelo trabalho e pelo sacrifício em favor da Familia. além de fazer uma reavaliação crítica da crise e dos males da liberal-democracia. p.SALGADO..Pró.especialmente a rural. pela inteligência. Plínio.11. Recife.Constituinte".93 liberal (.. através de uma fórmula filosófica que defendia a harmonia social do político com o religioso: “.1932 159 . nas artes.. O communismo (sic) não é uma solução (. conforme a sua 160 vocação (.) destróe a familia para melhor escravisar o operário..) destróe a iniciativa de cada um (.....) O que nós desejamos dar ao operariado. ao soldado. “Manifesto de Outubro de 32”. ao marinheiro. Consideremos ainda que a proposta integralista. de modo que o governo possa evitar os desequilibrioss nocivos à estabilidade social. (. 158 . conseqüentemente. o fim da agitação social.) Temos que adotar novos processos reguladores da produção e do commercio.Prontuário 4938..) O direito de propriedade é fundamental para nós.d. DOPS . ao campones. temos o investimento na questão da luta de classes e a proteção da propriedade privada. pregava o fim da luta de classes e.) O capitalismo atenta hoje contra esse direito.. APEJE. "Membro do ‘Comité . Jornal Pequeno.) até no governo da Nação.. Folheto s. como já destacamos. é a possibilidade de subir.. Em outro fragmento do discurso extraído do Manifesto de Outubro. (. 5 .

) Os municipios devem ser autonomos em tudo o que respeita a seus interesses peculiares. a 161 . (.Ibid...p. porque o municipio é uma reunião de moradores que aspiram o bem 163 estar e o progresso locaes”.p. bastante discutida no período entre-guerras. uma forma de reaver seu poder local: “O municipio é uma reunião de familias. de modo a escapar ao dominio estrangeiro.7 . quando este tentou moralizar as administrações municipais. mas.Ibid... que a ameaça dia-a-dia. o integralismo vinha como um movimento de idéias dizendo-se contra os partidos políticos. para vêr fructificar os seus esforços. capaz de se impor às classes. político e econômico e por ter aberto brecha para as soluções de esquerda. (. Declarando-se combatente dessa política. para lograr prestigio no Interior e no Exterior.3 163 . solidamente construida. Dentro desta visão. No caso brasileiro. que está 161 entrando no seu corpo. como um cancro.4 162 . e salvar-se do communismo (sic) internacionalista. Daí propunha investir no Partido Único como a solução para as brigas em torno do regionalismo e do separatismo: “Nosso ideal não nos permite entrar em combinação com qualquer partido político. conhecida como “Política do Café com leite” ou “Política dos Governadores” com suas fraudes eleitorais e voto cabresto. a proposta de um governo forte e autoritário da Ação Integralista Brasileira era a solução ideal para a agitação social e o avanço do comunismo: “Uma Nação. As interferências nos Municípios causaram muita insatisfação nos proprietários locais que tinham acesso ao poder público local... pois não reconhecemos partidos: “reconhecemos a Nação. para progredir em paz. Aqui também se destacava a questão do nacionalismo.” Para alguns desiludidos e insatisfeitos da época. porque não possuía um governo forte. a crise da liberal-democracia devia-se não apenas à sua incapacidade de lidar com o problema social.Ibid. principalmente.94 A descrença nos partidos políticos era outro componente em destaque dos males da Primeira República. que não estavam satisfeitos com as interferências do Governo no pós-30. Era o caso dos atingidos com as novas Leis Municipalistas. Alguns itens do “Manifesto de Outubro de 32” atraiam outros setores da sociedade. Acreditamos que estes insatisfeitos passaram a ver na proposta integralista de defesa da autonomia municipal. p. criadas pelo Interventor. precisa ter 162 uma perfeita consciencia do Principio de Autoridade”.) Nossa Patria precisa de estar unidade e forte.

o imperialismo russo. principalmente. o sertanejo das provincias nortistas e centraes. do outro a ação governo se encarregavam de confirmar tal perigo com “provas” resultantes da ação policialesca. Plínio. apontado 164 . para as questões de defesa ideológica. Goyaz. De um lado. Levantamo-nos num grande movimento nacionalista. os advogados. os artistas. os professores. pequenos artifices de São Paulo. dentro do conturbado contexto que precedeu a Segunda Guerra Mundial. os defensores do nacionalismo se sentem atraídos pela proposta nacionalista do Integralismo: Os nossos lares estão empregnados de extrangeirismos. o nordestino. influenciados pelas idéias nacionalistas do entre-guerras e enfrentando a crise local. os caiçaras e piraquaras.(.3-4 . colonos sitiantes. os boiadeiros e tropeiros de Minas. a mocidade das escolas.) e 164 entusiasmo pelo Brasil. Folheto citado.95 classe média nacional e local também enfrentava o dilema da crise liberal e do perigo comunista. o integralismo alimentava essa imagem perigosa do comunismo. garimpeiros. vaqueiros. que pretende reduzir-nos a uma capitania. os soldados.. funccionarios (sic). que representa o capitalismo sovietico. engenheiros.todos os que que ainda têm no coração amor (... em virtude da instabilidade política do pós-30.) nós somos contra a influencia do communismo. os trabalhadores de todas as estradas. capichabas. os marinheiros . o tapuio amazonico. O nacionalismo do integralismo expandia-se. gauchos dos pampas. hervateiros do Paraná e Santa Catarina.. aggregados. a polícia se encarregava de divulgar a ação dos comunistas nas fábricas e comércio.) unir todos os brasileiros num só espírito. paroaras. o integralismo passava a ser visto como o único movimento de caráter nacional capaz de fazer frente ao avanço do comunismo em meio à agitação nacional. para afirmar o valor do Brasil (.. Como em Pernambuco as autoridades propagavam uma imagem bastante ameaçadora do comunismo.. operariado de todas as regiões.SALGADO. calungas. (sic) Matto Grosso.. Assim.. calús. Aqui. os medicos. p.) Eles se envergonham do cabloco e do negro da nossa terra (.

quanto a que damos à Familia. mas também porque apresentou um projeto que defendeu . Pelo projeto integralista. à questão liberal que teria posto em xeque o matrimonio com a mulher sendo absorvida no mundo do trabalho. sob um “Estado forte e autoritário”. esperança de perpetuação no sangue e na lembrança affectuosa (sic). facções locaes.SALGADO. livre de todo e qualquer principio de divisão: partidos políticos.6-7.. O problema familiar era associado. cit.96 entre elas a causa das agitações e manifestações dos trabalhadores locais. p. espirituais e nacionalistas . evitando assim o perigo à propriedade privada. Ella (sic) é a base da felicidade (.. luctas de classes. eis o que é a familia. caudilhismo. a solução para a crise estava centrada no sindicato corporativista. Plínio. base da sociedade pernambucana: Tão grande é a importância que damos às Classes Productoras (sic) e Trabalhadoras. segundo eles.. principalmente. anttagonismo entre policiais estaduais e o Exercito. a luta de classes e a agitação social: Pretendemos realizar o Estado Integralista.. a proposta integralista não se mostrou atraente para as classes conservadoras apenas porque defendeu soluções políticas e sociais para o contexto conturbado do pós-30. Segundos os integralistas. economia desorganizada. capaz de equilibrar todas as classes. desenvolvendo o “espírito harmonioso”.. a mulher nos empregos e na vida moderna colocava em risco a estrutura da sociedade e ameaçava a produção nacional porque desequilibrava as famílias e.) 165 Tirem a familia ao homem e fica o animal.a estrutura familiar e proprietária. . os males iam da inserção da mulher à penetração das idéias comunistas desorganizando o trabalhador. fonte perpetua de espiritualidade (.) estimulos de todos os dias. numa nova reorganização das classes. estadualismos em lucta pela hegemonia. entre o 165 . Já no mundo do trabalho. antagonismos demilitares e civis.além dos valores morais. entre o governo e o povo. op. Em oposição à ação dos comunistas. o integralismo se propunha a proteger a propriedade privada de tais idéias. Neste caso. as próprias classes trabalhadoras masculinas.

) levantemos mais uma vez o braço forte. A Evolução... o integralismo tornou-se atraente também porque se ocupou de propagar a impotência de qualquer outra forma de governo.) e influir mesmo no Mundo.Ibid. todos os profissionais (. propunham-se soluções dentro dele. Estudos CEBRAP 10. podemos dizer que o Integralismo ganhou o campo político de Pernambuco na década de 30 porque se adequou aos problemas locais. Claude. Em Pernambuco. p.LEFORT. Tradução de Marilena Chaui. especialmente pelo seu discurso cristão. Criticava-se o capitalismo. constatamos.8 168 . (... através da análise desses discursos. Pelo que destacamos até o momento..p.uma flama verde de esperança se estende no litoral hospitaleiro. Maio de 1935.) Pretendemos mobilizar todas as capacidades technicas. Recife. pelo que se buscava no campo das esperanças políticas e sociais. E porque defendia uma proposta coerente com os anseios da sociedade. Pensava-se o integralismo como : .. com uma nova proposta que não ameaçava as bases do sistema. familiares e patrióticos sob um 167 governo forte. mas. prometendo. investir na preservação do velho. que não resguardasse os valores espirituais. ao mesmo tempo. Ano II. anticomunista e antiliberal. que o “Manifesto de Outubro de 32” deve ser melhor compreendido pela mentalidade da época entre os intelectuais e a sociedade. Alguns autores afirmam que o sucesso da proposta integralista ocorreu porque esta se ocupou em denunciar a decomposição da ideologia burguesa e de lançar medo na ideologia comunista. .) na realização da grandeza 166 do Brasil (. nov.1. Para estes.97 governo e intelectuais. p. todos os scientistas(sic). bem como pelo que acenava o integralismo como solução aos problemas internos do país. 1974. Basta de tormento e de luta (. Out. à vista dos brasileiros naufragos condenados pelos desgovernos dos traidores. entre estes e a massa popular. Dez... Esboço de uma gênese da ideologia nas sociedades modernas. todos os artistas. 166 . e descansaremos à sombra do manto verde 168 as fadigas passadas. 167 .“A Flama Verde da Esperança”.8...

. as grandes famílias tradicionais do Estado viam no lema do movimento as três palavras mais caras para a sociedade pernambucana: “Deus. como nos diz: “. Pátria e Família”. existe Alma. encontro na arranda de sua mocidade um emocionante ponto de contato com o programa dos ‘Diários Associados’: ‘a unidade política e espiritual do Brasil’. além de simpatizarem com o discurso anticomunista do movimento que combatia o ateísmo. da Ação Operária Católica (AOC). Rio de Janeiro: Schmidt . o integralismo atendia. entre eles membros da Igreja Católica também viam algum significado no integralismo.Editor. os integralistas projetaram uma imagem de unidade e fé. promove um retorno aos discursos de valorização do espírito sobre a razão e o materialismo capitalista. inimigos da Igreja desde a Idade Moderna. situado no Rio de Janeiro.” Segundo os depoimentos.. e. pois para esses “. Os 169 integralistas ofereciam um espetáculo de fé e esperança. também aprovavam o discurso espiritualista do Integralismo. o integralismo passa a ser assimilado entre os que defendem uma concepção de sociedade na qual o espírito divino se sobrepõe sobre as ações humanas guiadas pela mão divina. Plínio. Elas eram repetidas.p. tudo se relaciona com 170 estas duas idéas. em 1934.37 . levara setores protestantes da sociedade a reagir contra o integralismo.” Os grupos católicos de maior representatividade no estado são os que fazem parte da Ação Católica Brasileira (ACB). 4 ed. como consequencia natural. Chatô: o rei do Brasil. 1937. o 169 . com essa também se posicionam os intelectuais católicos ligados ao Centro Dom Vital.. os membros da Ação Universitária Católica (AUC). Em 1933. p. de orientação protestante. e muito. Segundo os protestantes.SALGADO.mesmo divergindo dos pontos cardeais da ideologia integralista. principalmente.. o Jornal O Escudo. da Juventude Católica (JC) e outros grupos laicos apoiados pelos reformadores da Igreja no Estado. Dessa forma. pois.357 170 . São Paulo: Companhia das Letras.existe Deus.. aos fins pretendidos pela Igreja Católica. pelos católicos do estado. e mais tarde. 1994. O que é o Integralismo.MORAIS. por outro lado. O apoio desses grupos ao integralismo. declarando-o uma “Ação Intrigalista Brasileira” que teria vindo para fazer renascer a inquisição. Fernando.. garantindo que “Deus dirige os destinos dos homens e do universo”. A concepção de homem e de universo defendida pelo “Manifesto de Outubro de 32”.98 Segundo Fernando Morais.

A Defesa expressam suas leituras dos discursos e propostas integralistas: Não vou aqui analisar o integralismo sob o ponto de vista econômico. das tradições nacionais. E então adeus liberdade! A Idade Média ressurgirá com ‘todo o esplendor de suas 171 belezas’”. problema que nos interessa sobremodo e que entra nas cogitações dos ‘senhores integrais’(. é o defloramento da massa. 3. unica e exclusivamente. Em 1936. é a blasfêmia. é o golpe cruel. A direita é a união sagrada em torno da bandeira da Pátria.) O sonho dourado da Igreja Católica é tornar-se a religião do Estado para ‘salvar o Brasil’ o integralismo faz-lhe a risonha promessa de torna-la oficial (.. momento de auge da atuação e expansão do integralismo no Estado. é o sacrifício. Analisa-lo-ei. é a castidade.99 Jornal Evangélico do Recife . é o incêndio. Ano I n. (. A esquerda é a violência.. Também não encararei quanto à solução que pretende dar à debatida questões social. Não.. é o sangue organizado.10. sentem que estão se approximando os tempos em que cada qual deverá tomar o seu logar na esquerda ou na direita. . esse periódico circulava as seguintes idéias de Plínio Salgado: Todos os paises estão apprehensivos. é a religiosidade.) . Recife. é 171 ..º.. A Defesa. Todos aquelles que acreditam em Deus. em face da questão religiosa. é o heroísmo. é a delicadeza do sentimento.. é a virtude. nem suas pretensões governamentais. é o pudor individual e colletivo.“O Integralismo e a Igreja Evangélica”. é o assassinato frio. 11.1934. A Revista Fronteiras é outro lugar de produção de sentindo dos discursos integralistas articulado na fronteira entre o político e o religioso.) Não apoiamos este movimento porque a sua implantação entre nós importará na extinção de nossa liberdade. é o massacre.

P. Desta forma. . sem possuirmos uma elite realmente adextrada que esteja em condições de por em 172 “Plínio Salgado”. (. um pressuposto importante para o bem das famílias: “A gente desse Brazil. alguns intelectuais católicos defendiam que. anda hoje um balbucio de preces que elevam a Deus. porém Deus conduz a sociedade. na cidade de Pesqueira. para que Ele vos guarde e 173 vos inspire. se dedicava a publicar notas do pensamento religioso e da família que compunham os discursos integralistas. p.. Em janeiro de 1936. 174 Ibid. Pesqueira. os povos. sofre com a revolução integralista.) somos extremistas em nosso amor a Deus. nos seus livramentos geraes. como amanhã. Essa “Nação protegida por Deus” seria. temos cumprido o nosso dever. o ideal católico presente no discurso integralista foi particularmente influente na intelectualidade católica.100 a honra de uma nação.) por toda imensa carta geografia da Patria. que sofre com o mundo. christianizando a nação e o Estado. Recife.. pelas quais se pode reforçar a verificação do investimento da AIB nestes campos: Si é verdade que a creatura humana se move.. 173 SALGADO. que importa tenha a nossa Patria por castigo sobre os mãos. Somos extremistas no culto 172 das virtudes. Fronteiras. Chamam-nos extremistas (. pelo seu livre-arbitrio. Maciel. na qual a proposta integralista foi bem aceita. 16. agosto de 1936. In: A Marcha. Pela revista A Ordem.. então. p. Esse tipo de propaganda integralista alcançou grande sucesso nos meios católicos e entre as classes tradicionais da sociedade. de passar atravez de desgraças imprevisiveis? Agora. “é inútil tentarmos influir no governo do paiz. sob a direção de Everardo A. “Perante Deus e Perante a Patria”. 22 de janeiro de 1936. (Jornal integralista de divulgação da AIB na cidade de Pesqueira). Arquivos da Cúria Metropolitana do Recife. o jornal A Marcha. Recife: APEJE. vae afirmar os 174 direitos da família”.3. somos a dignidade da Nação.

quanto nos meios católicos temos a imbricação dos discursos anticomunista e antiliberal revelando a interdiscursividade. 177 . com desdém que em nós provoca o espetáculo cotidiano dos nulos.. A Ordem. criado sob rígidos valores moraes. Plínio Salgado. p. publicou o seguinte: “Ação Integralista Brasileira inscreveu como princípios fundamentais da sua doutrina de conceitos eternos de Deus. Ação . . é importante destacar a figura de Plínio Salgado que aqui em Pernambuco será reproduzida como um intelectual carismático cuja ação literária ultrapassa o campo das reflexões e vai passa a se dedicar ao campo das ações políticas. Recife: APEJE. Recife.) seu nome é quase um simbolo e o observador criterioso dos nossos problemas não pode contemplalo. abril de 1932.) era bem o retrato do Brasil.” Tanto entre os integralistas.Plínio Salgado na literatura brasileira”. em 23 de maio de 1934. Costa Porto colocou em palavras precisas a imagem que se tinha de Plínio Salgado no campo da literatura e sua projeção nacional: A figura de Plínio Salgado avulta com o brilho inconfundivel dos valores reais (. 23 de maio de 1934..” Além desse discurso imbricado entre o político e religioso. em torno de nossas idéias 175 constructoras. na palavra dada era um costume da época que pesava na avaliação dos indivíduos. como governante supremo do destino dos povos. foi um homem de família altamente religiosa. Plínio Salgado destacava-se diante de outros líderes políticos porque era 175 “Dever Cultural”.PORTO.) O literato 177 do Brasil (.Quinzenário de Propaganda Integralista..APEJE.. Recife. 30. (. Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Olinda e Recife. “Um Chefe . 26. que tinham definido sua personalidade. jornal que posteriormente mudou seu nome para A Tribuna. 176 A Tribuna Religiosa. José da Costa. que marcava o efeito de sentido dos discursos integralistas entre os católicos.1934. nº.101 movimento as grandes massas eleitoraes. A Tribuna Religiosa. APEJE. Recife. Segundo os depoimentos.. realidade natural e imperecível que as teorias internacionalistas do judeu Marx e de seus 176 sucessores não conseguiram nem conseguirão destruir jamais.09.4 . Expressando a união das idéias defendidas por ambos.. Para os simpáticos do integralismo no Estado. além de grande literário e nacionalista da década de 20 e 30. A questão da confiança na moral. de Pátria.

) 178 sentiamos que podíamos confiar nele. tudo o que fizesse ou dissesse seriam sempre considerados como verdades. Com esta imagem e discursos. novembro de 1994. de moral. a sociedade de modo geral aceitou (. trabalhar pela Pátria e pela sua família.. muitos acreditaram que o autoritarismo que permeava o discurso do movimento e do Chefe Nacional. que a “Revolução” de 1930 não havia conseguido resolver. A disciplina e militarização do movimento eram apresentadas como os pontos fundamentais da seriedade do movimento e um modelo do que seria o Estado Integral. que resguardava todos os valores ameaçados: . Plínio Salgado e o integralismo significavam uma esperança de moralização do campo político. J. especialmente dentro do contexto de descrença política do pós-30. Plínio Salgado e a Ação Integralista Brasileira projetaram-se com grande impacto na sociedade pernambucana desde a cidade do Recife às cidades do interior do Estado onde passou a implantar núcleos que obedeciam as diretrizes da organização burocrática do movimento. e os defendia muito bem dentro da trilogia do movimento: “Deus. Significava uma esperança de mudança sem ameaçar o sistema.. de Palavra e de Fibra (. O indivíduo crê em Deus. com isso ingressou quase totalmente toda a classe alta. . C.1994.o país naquele momento precisava de caráter. Pátria e Família. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. 07.01. Recife. morais e religiosos. as oligarquias continuavam atuando em seus domínios.102 considerado: “..F.. Afinal.. de dignidade. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. Resultado.. as classes pareciam agitadas e em conflito com os líderes revolucionários. um novo dentro do velho...BRANCO. Para os integralistas.) foi uma filosofia para 179 o povo brasileiro . Plínio Salgado tinha respeito aos valores nacionais.. Cabo. J. Neste momento de descrédito nos partidos políticos.”. era absolutamente necessário para organizar a vida política do país. 179 . e era justamente o que o partido apresentava: Deus.SARAIVA. ameaçando voltar ao poder nas próximas eleições e o comunismo ameaçava tomar conta da situação.um homem de Vergonha. Naquele momento. Pátria e Família”... Por isso. 178 ..

de onde saiam os intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. O apoio do chefe de família era fundamental para o sucesso do integralismo no Estado. para que os núcleos fossem instalados e funcionassem com sucesso os integralistas precisavam do aval das grandes famílias locais. onde o integralismo conseguiu instalar núcleos com o apoio dos estudantes da Faculdade de Direito do Recife. a atuação e expansão do movimento ficavam. No interior do Estado. as dificuldades para se instalar um núcleo eram bem maiores. a burocracia e autoritarismo do movimento atuaram sob condições locais bastante complexas. que se tratava de “ceder aqui para que o movimento cresça ali. na “Província de Pernambuco”. para enfrentar as dificuldades locais. os departamentos e secretarias responsáveis por determinada função enviavam ordens do Chefe Provincial para os chefes municipais. No interior do Estado. Sendo esse integralista todo o resto da família aderia. Para os lideres do integralismo. principalmente as mulheres e crianças que faziam parte da ala feminina e dos plinianos do movimento no Estado. Muitas vezes. como era chamado o Estado de Pernambuco pelos integralistas. a quantidade de adeptos era pequena em relação aos núcleos da Capital. e estes para os distritais.” Tratava-se de adotar certas estratégias políticas. Este fato levou o integralismo a funcionar sob normas menos rígidas nos núcleos das cidades pequenas do que em outros núcleos instalados no Recife. se em Pernambuco o movimento foi recepcionado entre intelectuais católicos. onde o mandonismo local ainda era muito forte. Alguns chefes integralistas diziam nas reuniões.103 Por outro lado. Uma vez que. onde foram instalados núcleos integralistas. porque muitos temiam envolver-se num projeto político que não tivesse o apoio do poder local. não podemos deixar de fazer referências às famílias católicas e tradicionais do Estado. especialmente entre os economicamente dependentes. então. condicionadas ao apoio dos chefes locais. Visto que. . implantar todas as normas rígidas do movimento sobre os membros de certas cidades significava arriscar-se a perder os poucos adeptos que havia conseguido. Em certos casos. comerciantes e outros profissionais liberais. Especialmente nas cidades do interior do Estado. isto não significava que o movimento tivesse perdido seu sentido doutrinário de formar a nação integral acima das forças particulares. nestas cidades as condições não eram tão favoráveis quanto no Recife. que tinham certa independência econômica e política. Nesses núcleos houve casos de desobediência tolerada. Devido a essa questão. Em grande parte das cidades. que não eram cumpridas.

Sr. .” É importante destacar que. Donativo: Em nome da Ação Integralista Brasileira (. essa também era uma postura contraria às normas do Estatuto da Ação Integralista Brasileira. como se pode ver pelos documentos da AIB-PE: “Exmo. quando os proprietários locais apoiavam.“Donativos”. 181 . que determina ser: expressamente vedada à Ação Integralista Brasileira. quer no Provincial...“Da vida economico-financeira da Ação Integralista Brasileira” Estatuto da Ação Integralista Brasileira.) A Ação Integralista Brasileira manter-se-á pela contribuição de todos os 181 integralistas. Belmiro Corrêa de Araujo.º 4938 . Alguns proprietários que simpatizavam com o movimento emprestavam caminhões para levar os integralistas do local para desfiles e comícios no Recife. receber donativos cujo volume.. diante das dificuldades locais e para não perder os poucos elementos conseguidos..1934 .. como era de se esperar pelos deveres dos integralistas. Francisco Lopes Filho. e.. os chefes integralistas eram obrigados a adotar posturas “flexíveis”. na eliminação dos membros desobedientes.DOPS. Contudo isto não impedia que o integralismo recebesse os donativos oferecidos. (o grifo é nosso) A AIB em Pernambuco recebeu outros auxílios de proprietários locais que não eram inscritos na organização integralista.Dr.104 não resultando. O apoio destes proprietários locais era muito importante para o sucesso e expansão do movimento em determinadas cidades do interior. Entendemos que. ou municipais (. Jornal Ação 14.10. conforme dita o Estatuto da Ação Integralista Brasileira. recusavam-se a vestir a “camisa-verde” e a inscrever-se na AIB-PE para não se comprometer com outros acordos políticos locais.APEJE. venha criar compromissos moraes e diminuição da autoridade do chefe nacional ou dos chefes provinciais. Prontuário Funcional n. Chefe Provincial de 180 Pernambuco. 180 . principalmente no Nacional. por excessivo.) venho agradecer a V. quer no ambito Municipal. Entretanto.Excia o donativo de 500$000 (quinhentos mil reis) feito ao nosso movimento por intermédio do nosso companheiro Dr.Secretaria Provincial de Finanças.

) Tinhamos muita esperança no movimento. Segundo depoimento do Sr. alguns empregados do campo também aderiram. Entretanto. mais cautela havia. Vinculada a essas questões. Os investigadores do delegado ficavam olhando a gente de longe.105 Como se pode daí aferir. esse tipo de apoio significava ajuda financeira e material para o funcionamento do núcleo. porque minha familia era muito respeitada aqui e ninguém se atrevia a bulir com a gente.. estava a adesão dos trabalhadores nas cidades do interior. participavam sem ninguém obrigar. Poucos se atreviam.. Eu tive sorte. eramos muito jovens e sonhadores. amigos..) foi um grande sonho.”. 182 Faltou apoio do povo e do exército. onde os indivíduos apresentavam-se com uma postura do tipo militar: fardados. Nestas cidades.. eles podiam até simpatizar com o integralismo. além de garantir novas adesões entre membros de sua família. Eu entrei somente porque queria uma nova organização política para o Brasil e pela religiosidade do movimento. “movimento quanto maior.. foram poucos os trabalhadores rurais que aderiram à AIB-PE: Além de simpatizar com as idéias do movimento o cabra tinha que ter coragem para enfrentar o chefe local. 14. Tinhamos muita esperança no movimento (. Muitas vezes. Devido à sua situação de dependência. .. cooperavam até vendendo galinhas para participar das conferencias do Recife... O povo tinha vontade de 182 . Mello. Outras familias aderiram porque meu pai apoiou (.) eramos agricultores da região e tinhamos parentes na prefeitura local (. o integralismo chamou a atenção com suas “caravanas” e desfiles. Bezerro. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco.MELLO. José Antonio Mello. este fato não muda o temor que tinham de ingressar numa organização do tipo do integralismo. José Antonio A. trabalhadores e agregados. que enfrentava o regime e o governo instituído.1995. marchando e cantando o Hino Nacional. mas sua adesão estava ligada à simpatia ou adesão do seu patrão.10. Como nos disse o Sr. líder integralista em Bezerro.

para depois se posicionarem. A sociedade pernambucana se caracteriza. então. De qualquer maneira. alguns dos quais não foram citados aqui. a ameaça às raízes cristãs e ao avanço do comunismo como conseqüência da crise liberal do que idéias fascistas de um partido de massa aos moldes italiano e alemão. . a conjuntura externa é muito pouco citada entre os documentos de Pernambuco. Pátria e Família”. ficando essa mais alheia ao que se passava na Europa. O que se percebe é que nas cidades do interior do Estado de Pernambuco os meios de comunicação eram muito precários e os jornais não circulavam entre a população. o discurso comunista os mais repetidos e que produziam sentido nessas cidades e entre essas famílias. sendo a ameaça sobre a propriedade privada a segunda queixa. principalmente. Também suas famílias dependiam de seus informes em épocas de férias e visitas desses intelectuais. constituem a base de atuação e expansão do integralismo no Estado de Pernambuco. 183 . desordem e ameaça das tradições do que em Hitler e Mussolini. Fala-se muito em anarquia. O governo e os lideres locais integralistas se dedicavam a propagar no Estado muito mais a desordem espiritual. 183 Esperavam a decisão dos grandes. que o lema “Deus. Esses eram mais comentados pelos intelectuais que mantinham contato com o contexto externo. como um lugar de produção de sentido dos discursos integralistas por uma série de fatores internos. entendemos que o anticomunismo e o antiliberalismo em favor da preservação dos valores católicos e da estrutura famílias.Ibid. Assim. De modo geral. sendo muito mais repetido o avanço comunista e a desordem da sociedade brasileira após a “revolução de 1930”. Pelos documentos da AIB que circulavam nas cidades do interior do Estado destaca-se com grande repetição o ateísmo do comunismo como um dos males que assolava a sociedade.106 participar. foi o discurso católico e. assim como nas cidades grandes. mas também tinham medo das conseqüências políticas.

propondo formas novas de enfrentamento das temáticas da “velha ordem aristocrática”. Modernizar significava. 362. redimensionar os critérios políticos de acesso. Rio de Janeiro: Difel. p. mobilizante quer na deificação fichteana da Nação e do Estado. 185 LAMOUNIER. Esse período é apresentado como o cenário da emergência de correntes de pensamento político. Sociedade e Instituição a (1889-1930). quer. O LEGIONÁRIO INTEGRALISTA: um novo homem para uma nova era 184 Raimundo Barroso Cordeiro Júnior (UFPB) A historiografia brasileira. carismático. Tomo III. possibilitando o surgimento de um número considerável de projetos políticos reformadores. esteticista. Brasil Repúblicano.107 5. Nas primeiras décadas do século XX. Sua tradução no plano político é invariavelmente voluntarista. quer em sua forma 185 anarquista. em suas diversas abordagens. Boris (org. para além dos limites do circuito fechado das 184 Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba. permitindo que se constitua um imaginário revolucionário nas gerações que vivenciaram aquele momento de voluntarismo e engajamento na questão nacional. Bolivar de. identifica na década de 1920 a eclosão das condições históricas e intelectuais que dariam origem aos confrontos político-ideológicos das décadas seguintes. econômico e político. A mentalidade revolucionária inspira-se no aspecto fáustico.) Historia Geral da Civilização Brasileira III. parte da juventude das grandes cidades brasileiras deixou transbordar suas expectativas político-reformistas. In : FAUSTO. 2º volume. 1977. no mito soreliano. Uma Interpretação ». do Romantismo. conquista e permanência no poder. Os temas da identidade nacional e da realização histórica da Nação se apresentaram à juventude como chamamento à realização da tarefa de salvar o Brasil do arcaísmo social. pois. A ação política vai estabelecer a tonalidade da colorida efervescência daqueles anos. edição. . « Um pensamento Político Autoritário na Primeira República. culminando com a “revolução de 1930”. social e estético. finalmente. 3 . criador.

mesmo que os objetivos fossem diversos e opostos (democracia liberal. Daí surgirão os movimentos políticos que definirão a intensidade das mudanças. 306-308. os trabalhadores urbanos assalariados encontrarão no Partido Comunista uma opção a mais para mediar os conflitos com os patrões. SANI. devemos entender por cultura política o conjunto de atitudes. O ativismo conquistou 186 Segundo Sani. a MATTTEUCCI. O nacionalismo é o principal mediador e o elo comum entre os projetos que se rivalizam nos anos 1930. Durante algum tempo. 11 . as normas. a exemplo do Partido Comunista como novo elemento no interior das lutas pela organização e mobilização do operariado. a linguagem e os símbolos políticos que atuam sobre as instituições e definem as práticas e as forças políticas de uma sociedade. Giacomo. Gianfranco. cuja profundidade foi atestada pela Revolução paulista de 1932. nas décadas iniciais do século XX. Varriale et al. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Dicionário de Política. pedra de toque de outros clubes pelo quais os tenentes desejavam conquistar a opinião pública e acertar suas próprias divergências. Conf. crenças partilhadas por membros de uma sociedade. Foi a hora das legiões revolucionárias em São Paulo. PAQUINO. Ele se apodera dos participantes da Revolução: tenentes. Esse novo universo social se constitui na mesma dinâmica em que seus membros se fazem como sujeitos de uma nova cultura 186 política . Minas Gerais. Ceará e outros locais. líderes políticos. do Clube 3 de Outubro. edição. as tendências. ditadura do proletariado etc. hora de conflitos entre os políticos tradicionais e os novatos.108 sociedades culturais. . Nicola. O nacionalismo virou regra geral para o ativismo das novas gerações preocupadas com a reconstrução do país. Antes dirigidos hegemonicamente pelo anarquismo. 1998. Compõem a cultura política o conhecimento. pp. foram arregimentados os pensadores militantes que se confraternizavam em torno da busca das raízes da nacionalidade. “Cultura Política”. Norberto. sob a direção de tenentes onde doutrinários como Francisco Campos. In: BOBBIO.). chefes locais. agremiações literárias ou simplesmente confrarias boêmias. aproximavam-se em torno da noção de realidade nacional para dela tirar os ensinamentos emancipatórios da Nação. atingindo uma amplitude significativa no seio da sociedade. normas. o ativismo foi proporcional à incerteza sobre a verdadeira orientação do governo provisório. Tradução de Carmen C. Dessa forma. tendo como objeto fenômenos políticos.

. IOCE. Cf. Entre o Povo e a Nação. ao fim dos anos vinte. de maior ou menor envergadura. 2.109 também os intelectuais. p. jovem tenente de orientação católica. dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil. . A Legião Cearense do Trabalho. Daniel. 1974. 189 Segundo MONTENEGRO. a Legião Cearense do Trabalho consegue a adesão do operariado. Variações Ideológicas. criado pelo tenente Severino Sombra. movimento político filiado ao pensamento catolicismo integral. A ação militante da intelectualidade. desencadearam movimentos e sonharam com a tomada do 187 poder. São Paulo: Difel. que surge a Legião Cearense do Trabalho (LCT). 188 CARONE. João Alfredo de Souza. Enquanto as outras agremiações pretendem o apoio da pequena burguesia. católicos. p. p. a formação católica de Sombra baseou-se em Santo Tomás de Aquino. 1990. reacionários ou revolucionários.. MONTENEGRO. passou. muito freqüentemente adversária do exercício puramente político. O Integralismo no Ceará. . posto que o entendia como caudatário da inoperância proposital dos parasitas do poder. até as associações de profissionais 187 PÉCAUT. 1986. Ótica. que aderiram às legiões. sua direção e métodos assemelham-se aos dos movimentos fascistas fato que o aproxima 188 logo a Plínio Salgado. A entidade teve sua criação oficializada em 1931. a enveredar pelos caminhos do engajamento partidário. após a “peregrinação” política de Severino Sombra. Os Intelectuais e a Política no Brasil. formado no interior da Reação Católica e 189 movimentos de recristianização. do desvirtuamento moral em função do oportunismo e dissimulação dos políticos profissionais e da ignorância geral sobre o verdadeiro Brasil. Fortaleza. fundaram centros. São Paulo: Ed. antecessor da Ação Integralista Brasileira criada por Plínio Salgado. 295296. A Segunda República. 75. cuja militância se dirigia à organização e mobilização de trabalhadores.A Legião Cearense do Trabalho É na esteira das discussões e expectativas desse contexto de ebulição de idéias. 115. Edgard. Bardieff e Bergson.

considerado como elemento mediador das novas relações sociais que serão instauradas na nova era. a sua prática sindical demarcou pontualmente bandeiras políticas aparentemente “avançadas” para a época. Fortaleza: NUDOC . junho de 1933. “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho. carpinteiros. trabalhadores portuários e gráficos. Muitas destas associações eram de natureza beneficente. lavadeiras e pedreiros. 191 PONTE. As categorias profissionais que pertenciam ao elenco de sociedades inscritas na Legião eram.Universidade Federal da Ceará. 2-3. entre outras. as seguintes: tecelões. empregados da Light. a influência do pensamento tenentista sobre a doutrina legionária reproduzirá uma atitude de voluntarismo e bravura em face da causa da salvação do país e à construção da Nação. bombeiros. 5. ambulantes. 191 190 A opção pelos trabalhadores revela a importância atribuída ao trabalho pela LCT. Ao incorporar o operariado à sua doutrina. Ver : O Legionário. Da mesma forma. a LCT o define como elemento de propagação da possibilidade efetiva de construção de uma sociedade regida pela colaboração universal. automobilistas. alfaiates. (mimeo.110 existentes em Fortaleza. incluindo dezenas de “Círculos Operários e Trabalhadores Católicos”. (1930-1937)”. Apesar do conservadorismo evidente do movimento legionário. Dessa primeira iniciativa foram conquistadas as adesões de 11 associações de diversas profissões. Demonstrar às outras classes a exeqüibilidade deste projeto através da apresentação do operariado cearense “docilizado” e coeso. padeiros. empregados em hotéis e cafés. representando os interesses de elementos ligados ao trabalho assalariado e autônomo no Ceará. 1990. congregando cerca de 9 mil associados. O discurso legionário valoriza a necessidade de um instrumento de coerção social exterior ao indivíduo. p. passa a ser então a estratégia política de reconhecimento social da direção legionária. . sapateiros.) p. Essas associações quase sempre possuíam uma estrutura ainda ligada à tradição do mutualismo e do assistencialismo. enaltecendo a fraternidade acima das desigualdades acidentais. Através da valorização do trabalho é possível construir o mundo ético ideal. a partir de uma pauta de reivindicações que inclui bandeiras tais como co-gestão e divisão de lucros nas fábricas. 190 Os fundadores da Legião Cearense do Trabalho aproveitaram os espólios políticos da Aliança das Classes Trabalhistas e da União Operária Cearense. ambas inativas no início dos anos 1930. engraxates. Sebastião Rogério Barros da.

sua superior altivez ao ensinar aos “acidentalmente diferentes” o caminho para a harmonia universal. apenas o bem social. O homem realizando-o deixa-lhe uma marca humana. por intermédio de sua humildade e aquiescência à ordem natural das coisas. O trabalho é «pessoal e necessário». Envolta num indifferentismo criminoso e de uma ingratidão lastimável. 02. Este elemento concederia ao ideal legionário a autoridade e reconhecimento por parte daqueles que ansiavam por uma alternativa sociopolítica para a sociedade brasileira. anti192 communista. 18 de maio de 1933. p. procurando reunir as classes trabalhadoras e orientá-las num sentido de ordem. E elle a faz. e permanece hostil ao nosso movimento dizendo-se paradoxalmente. Mesmo em condições sociais adversas o homem pobre demonstra. . em sua causalidade como em sua finalidade. o 192 O LEGIONÁRIO. são pegos de empréstimo à causa da LCT como exemplo de boa vontade. quando ella é que seria a grande prejudicada na victoria do communismo. por conseguinte. nem sempre recebeu das classes proprietárias a compreensão e o apóio que esperavam pelo esforço de organização dos trabalhadores em torno da política de colaboração entre as classes. não reconhece a burguesia. A forma como a intelectualidade legionária pensa o trabalho e projeta o trabalhador procuram se diferençar substancialmente dos demais ideários políticos do período. os “humilhados”. Executando uma obra o homem põe nella sua própria pessoa. Assim. elle trabalha para manter a sua vida e a de sua família com a dignidade que lhe exige sua condição de ser racional e livre. A centralidade do trabalho no discurso legionário tem seus vínculos com a origem católica do movimento. enfatizando os seus aspectos ideológicos orientados pelo humanismo cristão.111 Entretanto. a sinceridade e o desprendimento de como agimos. sem nenhum interesse individual (grifo d'O Legionário) tendo em vista. os “injustiçados”.

10. Esse contrato visa uma associação humana. Severino. Por intermédio do estabelecimento de um rigoroso quadro ético-comportamental. com consciência moral e dignidade fundamental idênticas e não simplesmente a 193 coisa fabricada. O Ideal Legionário. o bruto. o Estado corporativista se transforma. cuja exeqüibilidade somente é possível pela aceitação inconteste do princípio regulador do Estado e do intelectual tecnocrata. quando transformado na ação que religa os homens e os liberta das ingerências imprevisíveis do mundo natural Ao mesmo tempo ressalta a infinita superioridade daqueles que se irmanam por ocasião do manifesto supremo de sua humanidade. considerado como o elo integrador do social. portanto. enunciado fundante do ideário da LCT. tem o objetivo de despolitizar a Questão Social. do seu valor moral e não pode. o aspecto material da participação. uma união de homens livres. ser tratado como uma simples mercadoria.o Estado . no sujeito instituinte de uma socialidade de tipo novo. patrão e operário gozam do prazer de ver seus esforços serem consagrados no surgimento do produto. ao passo que manifesta seu pessimismo em relação à natureza humana.112 trabalho está impregnado da pessoa humana. simplificada na sua suposta natureza ética. 1932. E a associação entre os dois não pode ser regulada por um contrato tendo em vista apenas a produção. A militância responsável para novos comportamentos sociais. Assim. . Sendo o homem originalmente inclinado para cometer ações maléficas à existência coletiva. A relevância dada pelo legionarismo ao Estado. pois. O Estado é a fonte e 193 SOMBRA. p.controle a dinâmica das relações entre pessoas. o material. expressa sua essência autoritária. A obra realizada é uma obra coletiva do operario e do patrão que o dirigiu e forneceu-lhe o material necessário. O projeto de valorização do trabalho e do trabalhador. estabelece o paradigma da colaboração e submissão política e técnica dos trabalhadores frente à intelectualidade vaticinada para comandá-los. a LCT propõe que um elemento exterior . Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. A positividade do trabalho humano destrói as desigualdades acidentais entre os homens.

principalmente. A “Legião Cearense do Trabalho” foi mais uma das várias entidades que surgiram inspiradas pela vontade de redefinir os rumos da vida política nacional. com o intuito de dar prosseguimento ao projeto. 1. ser agredida por nenhum cidadão ou instituição da sociedade civil. indicando o nome de Plínio Salgado. Contudo. contra os “excessos e injustiças do capital”. op. Sebastião R. conseqüência da velocidade com que se arregimentavam suas forças. “Definindo-se como antiliberal e anticomunista. conceito que abominavam”. o apoio de São Paulo por sua importância no cenário político nacional. Durante o primeiro semestre do ano de 1932. tendo iniciada a revolução constitucionalista de São Paulo. Da. . aqueles que fariam da LCT e de seu chefe notícia política constante. Nos planos traçados para a deflagração da LBT. em julho de 1932. mantiveram correspondência Salgado e Sombra. B. Sua finalidade explícita era mobilizar e organizar os trabalhadores do Ceará. ficaram impedidos de realizar o encontro que certamente selaria a fundação da LBT. Para decepção do dirigente legionário. passa a ser o propósito quase exclusivo do chefe da Legião. p. A Legião Brasileira do Trabalho (LBT) seria a vitoriosa expansão do ideal Legionário por todos os estados do país. em hipótese alguma. mas 194 sem recorrer à luta de classes. nos moldes da pregação do “Manifesto ao Operariado Brasileiro” de 1º de maio de 1932: 194 PONTE. 3. Encontrar em São Paulo um aliado que acolhesse a proposta de se tornar o representante do movimento legionário nascido no Ceará. Tristão de Athayde será o primeiro contatado para assumir esse compromisso. Sombra buscava.cit. através da implantação de um Estado forte e centralizado.113 repassador de orientações éticas para o bom viver em sociedade e sua autoridade não pode. Tristão de Athayde recusa o convite. A Legião Brasileira do Trabalho Passados os primeiros embates. e posteriormente do Brasil. Severino Sombra vai amadurecendo a idéia de transformá-la em um organismo classista de dimensões nacionais. a LCT pretendia organizar e educar o operariado cearense na defesa do trabalho contra os excessos do capital. dirigentes de movimentos semelhantes a LCT. Entretanto. os principais aliados seriam Olbiano de Melo em Minas Gerais e Leão Sobrinho no Rio Grande do Sul.

Severino Sombra vai sofrer a primeira e definitiva derrota política. 01. a Legião Brasileira do Trabalho seja a grande organização victoriosas dos elementos trabalhadores. foi confirmada ao desembarcar no porto. em breve. . a decisão de se aliar ao contingente político da AIB. avante. Voltando ao Ceará com a finalidade de compor uma unidade político-militar de apoio aos constitucionalistas. passou a ser de natureza individual. in: O Legionário. pelo 195 trabalho. doutrinária e institucional. a LCT. operários do Brasil. Portanto. Operários. Isto significa que cada 195 SOMBRA. p. Com a expulsão do líder fundador da LCT.o tenente Sombra passou a apóia-los incondicionalmente. A partir dessa campanha de consolidação do Integralismo. dentro da ordem. Esta nova fase representa o período da aproximação dos legionários com o recém-criado Movimento Integralista. cujas propostas de política sindical atentavam explicitamente contra o modelo organizativo legionário. Avaliando que os revoltosos paulistas pudessem sair vitoriosos do confronto com o governo Vargas . . 196 Severino Sombra permaneceu exilado em Portugal até o início do ano de 1934. pelo Brasil.isto é destituí-lo do cargo e de poder . sob o novo comando. lugar de onde partiria por um tempo de exílio forçado em 196 Portugal. outras Legiões. realizará o pacto de adesão aos princípios de Salgado. 10 de maio de 1932. pela sociedade. marchando para o Futuro [sic]. ressaltando sua independência política. processou-se imediatamente sua substituição. Plínio Salgado divulgou seu manifesto no mesmo ano da revolução constitucionalista (1932). S. para que. sua prisão fora decretada pelo Presidente. subindo ao poder o também tenente Jeovah Mota. vindo a presenciar em pouco tempo ampla repercussão dos ideais integralistas.114 Ouvi sua palavra. Seu fundador fora aquele mesmo que se comprometera com Sombra na construção da LBT. que. Ao chegar em São Paulo no momento da eclosão da revolução constitucionalista. reivindicando justiça e offerecendo à Pátria sua collaboração honesta e imprescindível. Era certamente a oportunidade de manifestar sua oposição ao liberalismo da Revolução de 30 e especificamente a Vargas. e formae nos Estados. mesmo antes de chegar a Fortaleza. oficializado na sigla Ação Integralista Brasileira (AIB).

a tentativa de dividir com Plínio Salgado a liderança do movimento integralista e. a conquistar a chefia geral. o Integralismo está organizado e representado pela Legião Cearense do Trabalho! Os operários desta província são soldados fiéis e disciplinados 197 da Legião Integralista. pois. estiveram sempre em alta cotação no corolário doutrinário do legionarismo e do Integralismo. alimentado pelo desejo de mudar aquela instituição pelas bases e a partir dela mesma. p.. Apesar da articulação realizada em alguns simpatizantes.115 legionário. Severino Sombra o buscará a AIB. a maioria dos associados da LCT. confirmou sua participação nas hostes do Integralismo. 198 O rompimento foi motivado pela adesão de alguns legionários à Ação Integralista Brasileira. 12 de agosto de 1933.) No Ceará. patriótica e sadia. A aproximação entre as duas tendências reflete um grau de reciprocidade e parentesco de ideário. Apesar das evidências manifestas no acordo de “cooperação mútua”.. O seu substituto. ora cáqui ora verde-oliva. cujo sentido aponte para um mais profundo conservadorismo político de uma das partes acordantes. vislumbrar pontos de dissenso. Estado forte. centralização política etc. ou a camiza verde oliva da mocidade pensante e laboriosa. frustrou-se no Congresso Integralista de Vitória naquele mesmo ano. . O legionário pode vestir indifferentemente. 197 O LEGIONÁRIO. revezando na medida das circunstâncias e solenidades as camisas. O retorno de Severino Sombra ao Brasil não significou a retomada dos trabalhos e a direção legionária. agrupada sob o estandarte do Integralismo. Assim. Mesmo porque o antigo líder rompera com a LCT e sua nova chefia antes mesmo de findar o seu período de 198 ostracismo . se assim desejasse. é o que se apresenta como perspectiva de autonomia da LCT. a blusa mescla do Trabalho dignificante e dignificado. o que representa uma demonstração notória de empatia com o credo político de Plínio Salgado. teria a ampla liberdade de unir-se aos membros da doutrina do sigma. 1. consolidou-se no cargo conquistando o apoio e a simpatia dos comandados. permitindo-se. (. Chefe Jeovah Mota.. No entanto. fato que merece relevância. Princípios como corporativismo. posteriormente.

emergiram novas organizações operárias como a Liga Operária Independente que combatia a dominação 199 político-ideológica da LCT. 200 O LEGIONÁRIO. a revolução que prometteu muito para fazer pouco. manifestaram sua oposição radical ao Governo de Vargas. inclusive. . envolvendo os chamados sombristas e os simpatizantes de Jeovah Mota. 11 de março de 1933. no poder de dirigir as massas legionárias. frente única que articulou comunistas.D. mais uma vez na expectativa de melhores janeiros. 4. 199 PONTE.chegam a acontecer brigas de ruas e invasões de sede .cit . No Ceará. Enquanto sombristas e legionários se hostilizavam . 1990. ora para um sindicalismo mais autônomo e combativo (face ao crescimento das forças democráticas em torno da Aliança Nacional Libertadora. Sebastião R. da. mas se verificou.116 O desempenho político da LCT em seguida será ofuscado.a conjuntiva nacional de 1934-1935 atraiu o operariado ora para o trabalhismo varguista. socialistas. p. sempre que lhes foi conveniente. O Pensamento Católico Reformista A LCT nasce das preocupações de jovens sobre o destino histórico do país. Esses moços antiliberais não apoiaram a Revolução de 1930 e. O declínio certamente atinge não somente as personalidades que garantiram a existência efetiva da instituição. pela ascensão vertiginosa atingida pelo Integralismo. janeiros que não fossem comparados aos quarenta da velha República que só miséria trouxe aos infortunados párias desse colosso 200 de Brasil”. op. orientando sua militância política pelo movimento de recristianização da modernidade realizado pela Igreja Católica através do apostolado leigo. Em outubro de 1930 “quando triumphava a revolução. 03. p. 8. as classes trabalhistas ficaram. liberais e antifascistas em 1935). pelo menos no que diz respeito à divulgação por intermédio da imprensa. por exemplo. Efeitos previstos em função dos conflitos vividos no interior daquela agremiação.

. inserindo-se nos planos de atuação da Igreja sobre a problemática do mundo moderno industrial. desde o apontar da auto-affirmação individualista da Renascença até o repugnante technicalismo capitalista americano. montada sobre normas e preceitos católicos.. porquanto tal sociedade quer excluir a Igreja e a religião da vida pública. burguesas e materialistas que marcham para o suicídio. (. Dessa maneira. 12. Os quadros legionários são representantes de uma formação política oriunda da experiência da juventude católica.. inclusive para viabilizar sua fundação que se efetivou através do consentimento das autoridades eclesiásticas locais. As premissas da concepção integral do catolicismo se encontram na Syllabus de Pio X (1864). p. o pensamento legionário realiza a proposta para o apostolado leigo. O envolvimento da LCT com a Igreja católica é determinante. elaborando um discurso que é a expressão organizada da Ação Católica. ressaltando o processo de abandono da esfera religiosa invadida pelo laicismo materialista. o repúdio do poder espiritual e a anarchia do poder econômico».) Lutar por esta humanidade jogada pelas tempestades que ella mesma semeou ao longo da história. Nas democracias modernas vemos a «hipertrofia do poder político. expondo as causas da desorganização social instaurada pelo capitalismo da Revolução Industrial e sua repercussão nos diversos aspectos da existência humana.. denotando o desapego moderno às coisas da espiritualidade. S.117 A LCT representa um momento importante na história dos movimentos sociopolíticos nacionais. cit. 1932.) Pio IX 201 SOMBRA. apresenta-se como a alternativa política para o liberalismo e o socialismo. . Democracias individualistas. Lutar para salvá-la da conseqüência última de todos os seus erros 201 do comunismo catastróphico e aniquillador. op. onde se recalca em termos explícitos a impossibilidade da Igreja de se reconciliar com a sociedade moderna. (. A Igreja Católica apresentou suas críticas à modernidade. Seu projeto de sociedade integral.

636. primeiro visando a restaurar nas escolas católicas uma rígida disciplina de pensamento com o retorno à tradição tomista. Reorganizar a sociedade implica em redirecioná-la para o combate à degeneração moral e ética vivenciada na “Idade Moderna”. Dicionário de Política. Leão XIII retoma a iniciativa. temor inspirado pela multiplicação anárquica de interesses particulares ou pessimismo devido à desorganização do social: eis o que levou grande parte dos 203 intelectuais a aderir a uma ideologia de Estado. somente possível de ser reencontrado pela recuperação dos laços de fraternidade e harmonia universais. esquecidas pela nova ordem 202 burguesa. É reencaminhar os homens para os desígnios de seu destino glorioso. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. que provocaram a desordem social. Gianfranco. 202 POULAT. que se revela. de onde se originará necessariamente o movimento socialista. Entre o Povo e a Nação. Daniel. dúvida sobre a viabilidade do liberalismo político no Brasil ou antipatia doutrinária em relação às próprias premissas do liberalismo.118 mantivera-se na defensiva. 44-45. “Integralismo”. É assim que se explicam as suas diversas intervenções. em conseqüência. a Igreja se apresenta como defensora do povo cristão. Ótica. intransigente. com acentuados aspectos sociais. depois assentando as bases para novas relações entre a Igreja e o Estado e. 11. In: BOBBIO. finalmente. p. a partir de mecanismos da planificação estatal.. Norberto. São Paulo: Ed.) Ela [«Rerum Novarum»] se tornou também o texto básico do catolicismo integral.. Desconfiança em relação ao funcionamento do capitalismo da época ou condenados por princípio de sua lógica. . PAQUINO. ed. 1998. 1990. Os Intelectuais e a Política no Brasil. 203 PÉCAUT. das categorias mais pobres e desafortunadas. Émile. p. Nicola. dando sobretudo a ordem social cristã um conteúdo consentâneo com os dados concretos do tempo.(. MATTTEUCCI. Contra a burguesia e a sua revolução.

cit. Isso não exclui a análise e discussão de estruturas. reduzir os intelectuais que sem dúvida. o voluntarismo e o caráter intencional da conduta humana são enfatizados. p. 160. p. bem como a capacidade dos agentes de escolher entre diferentes objetivos e projetos. O movimento católico organizado nessa época em torno do Centro Dom Vital. a miséria espiritual a 204 MCHUGH. Jacques Maritain e outros . Com a formação da sociedade católica se dará o cruzamento do destino político do pensamento legionário e os ensinamentos intercambiados pelos intelectuais do clero. basicamente. In: OUTHWAITE. ao mesmo tempo em que propõe um engajamento ao apostolado emancipador dos males liberados pelos tempos corrompidos. parece que há uma relevante colaboração daquela instituição religiosa na consolidação deste pensamento político. op. inicia-se um amplo processo de divulgação da palavra da hierarquia católica sobre as contradições do mundo moderno. Francis P. apesar da separação entre ambos estabelecida pela República. 205 PÉCAUT. portanto. as injustiças. Henri Massis. Os intelectuais devem se entender como “os bons e fortes” que se encarregam de reerguer os atingidos pela decadência civilizacional e corrigir “os maus e orientarem os transviados”.119 O clima de guerra contra os desvios da humanidade é ressaltado na pregação aos jovens intelectuais católicos. Se o encontro desses jovens com os incansáveis peregrinos da Igreja conduziu parte da juventude cearense ao seio doutrinário do Integralismo. e que seria dirigido sucessivamente por Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. . uma teoria de 204 ação. certos bispos esforçaram-se para arrancar a Igreja de seus costumes de submissão diante do Estado. Léon Bloy. A partir de então. “Teoria social cristã”. 1996.sonhavam com a contra-revolução 205 católica. mas significa que a teoria social cristã é. Daniel. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. 27-28. na medida em que devem encarar sua missão histórico-espiritual como uma cruzada em favor da recuperação da pessoa humana. simpatizavam com um racionalismo deliberadamente reacionário. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. A partir de 1916. 1990. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. Os equívocos. Charles Maurras. William e BOTTOMORE. Quanto aos intelectuaisleitores de Joseph de Maistre. Na teoria social cristã. Tom. enraizados durante o Império e mantidos depois.

Portanto. para além da simples recondução daqueles que se afastaram da fé. operários etc. constata-se a presença indiscutível do pensamento reformista da Igreja Católica. Segundo FERRARI (1998). seja nomeada como Ação católica ou ação dos católicos. por em prática um projeto integral de homem e sociedade. remonta à primeira metade do século XIX. a participação dos leigos nas atividades apostólicas da Igreja através do movimento católico. a tarefa da juventude. Esta militância em forma de apostolado. a Revolução Francesa. É nesse clima de arregimentação reformista que Severino Sombra encontra resposta positiva ao seu projeto de sociedade. a compreensão é que liberalismo.. MCHUGH. A influência dessas idéias na formação intelectual legionária é evidente. constituir-se-ão nos alvos da 206 práxis do catolicismo reformista. a saber. p. o de facilitar o florescimento de uma vida boa e justa na polis”. qual seja. congregando leigos e clérigos. Sobre as novas gerações. desempenhando um grau de importância significativa na prática política de seus militantes. Francis P. 160. cit. políticas e doutrinárias da LCT. na medida em que esses programas prático-doutrinários são entendidos como elementos originários de uma matriz histórica. op. . defendendo a idéia de retorno a um universo existencial mantido e substantivado por fundamentos éticos. leigos. modelada a partir do “Ideal Legionário”. será a de libertar a humanidade dos males provocados pela indústria e pelo liberalismo. democracia.120 materialização das relações humanas. recairão as responsabilidades de se transformarem em reformadores sociais. recriando um organismo social de acordo com os princípios da Igreja. moços católicos. É uma proposta que se lança acima da experiência democrático-liberal e do pensamento revolucionário e socialista. socialismo e comunismo são momentos indistintos de uma só origem causal promotora do dissenso social. no sentido aristotélico de um estudo da sociedade com um fim. Cf. Em uma palavra. 206 De acordo com Mchugh “a teoria social cristã pode ser encarada como práxis. corrigindo os descaminhos históricos da modernidade e reconduzindo a sociedade à sua idade de ouro perdida e desprezada pelos excessos do materialismo. Na discussão sobre as matrizes intelectuais. visava. agora transformada em quadros da Ação Católica. quando se iniciaram movimentos católicos de oposição ao Estado liberal em defesa do direito da Igreja de definir e decidir sobre os modos de vida na sociedade moderna.

09. Reconstituir esse passado remoto . quando se viveu uma época resplandecente de paz e estabilidade social. cit. elle se torne um collaborador honesto e consciente das outras classes. alimentando esperanças de retorno a um mundo ético abandonado. Nós estamos vivendo uma extra-limitação da chamada Idade Moderna. (. Defendê-lo do liberalismo econômico que. o corporativismo. op. reconhecido ou ignorado. do “tecnicalismo capitalista” e da “auto-affirmação individualista”. A «Legião» organiza o operariado para que. regula actualmente suas relações com o capital. Convém ressaltar que o seu desempenho político não é dado somente por seu discurso de oposição aos agentes da “desordem social mundial”.121 5. p. O legionário – um novo homem para uma nova era Ao se apresentar como crítico do comunismo e do liberalismo por intermédio do ideário cristão reformista. Defendê-lo do communismo que. quanto mais fugimos ao signo 207 SOMBRA. parecendo exaltá-lo. Severino. sua intervenção no mundo do trabalho dá-se com o intuito de “harmonizar” a realidade moderna industrial caracterizada pelos efeitos danosos do “machinismo”. 1932. E quanto mais nos associamos. Vai longe o tempo em que Turgot podia dizer que a fonte de todo o mal era a faculdade de associar-se outorgada aos operários de uma mesma profissão.) Nós precisamos sobretudo defender o trabalho. Esta é dominada pelo individualismo e nós já não passamos sem o sindicalismo.a idade de ouro perdida . o movimento político da LCT se distingue de outras experiências conservadoras de inclinação fascista no país. educado e coheso.. . rebaixa-o a uma 207 condição servil anti-humana. mas. por suas características organizativas junto às massas trabalhadoras. sobretudo. Neste sentido.somente seria possível através de uma ação prático-política de convencimento das classes sobre a necessidade de uma nova ordem social eticamente sustentável.. com vistas a recristianização da sociedade. protegido.

integral e não inhumano como o que criou a cultura moderna e conseqüentemente sua civilização. A especificidade do movimento se manifesta quando a ação política legionária se volta para o trabalhador e a partir deste sujeito coletivo inicia o caminho de retorno ao “mundo bom”. 01. 12-13. 208 sangue. vida. 209 O LEGIONÁRIO. a LCT optou por eleger como parceiro-interlocutor os elementos das classes econômicas. a sua militância se desenvolve em meio a uma aparente contradição. Todo homem tem a obrigação precípua de trabalhar para ganhar o necessário à sua subsistência e a daquelles por quem é responsável. . mais ultrapassamos as fronteiras na Idade Moderna e penetramos na Idade Nova que viverá sob o signo corporativista e orgânico. qual seja. Assim. ao mesmo tempo em que elabora uma crítica aos efeitos da sociedade moderna sobre o homem. mas para o advento da qual empenharemos intelligencia. como uma necessidade invencível Maldição para os que.122 do individualismo. negligentemente. não se querem submeter à lei do trabalho. p. 208 Ibid. Era mais simples. p. realiza um discurso apologético sobre a sociedade do trabalho. Era em que a humanidade esteja menos asphixiada pelos vapores da machina e possa retomar o ritmo humano que perdeu em contato com os machinismos. segundo tudo faz crer.Era que não alcançaremos mais. menos artificial e em que predominam os valores moraes sobre os valores econômicos. vontade. e arrasta 209 pelo mundo uma vida parasitária. A lei universal do trabalho imposta pelo próprio Creador à humanidade há de ser cumprida até o fim dos tempos. Enquanto o Integralismo de Plínio Salgado prezou por uma abordagem de raízes culturalistas e destinou sua mensagem para as chamadas classes médias urbanas. Era que se estabeleça sobre um humanismo real. 03 de feveriero de 1934.

Sem instrucção será quase impossível realizar as aspirações operárias a completa 210 reivindicação dos seus direitos. o papel pedagógico da missão legionária excede as preocupações de natureza imediatista. posteriormente. visando normatizar suas ações fora e dentro do lugar da produção. para a formação das mentalidades futuras. As escolas legionárias funcionarão com professores voluntários.123 Para que se realize a promessa de um novo mundo. O projeto pedagógico da LCT será liderado pelo Padre Helder Câmara. 08 de abril de 1933. p. A ênfase dada à educação dos trabalhadores aproxima o pensamento legionário da noção iluminista de emancipação por meio do esclarecimento. para disciplina e consciência das massas operárias que amanhã teem de continuar. ao se projetar sobre o mundo de vida da coletividade ligada ao universo do trabalho. . fundada sobre as bases da hierarquia (à semelhança da Igreja Católica). da colaboração entre as classes e da re-espiritualização do homem. dos princípios que devem servir de base à formação mental do Brasil novo! As escolas legionárias e jocistas estão nesse caso. A catequese legionária manifesta sua fé na sociedade nova. solidária e produtiva. O discurso legionário se apresenta como regime disciplinar. a LCT promoverá insistente reflexão sob a necessidade de preparar um novo homem para a nova era. Desta forma. levar desde a escola primária o influxo dos ideaes. é fundamental para os seus projetos estabelecer os mecanismos possibilitadores de uma visão de mundo operária ancorada no ideário da positividade do trabalho. diurnas. mentor e organizador de um programa de educação operária . ou realizar a obra patriótica de reorganização nacional por que nos batemos actualmente.com a instalação de escolas inicialmente noturnas e. sem aderir aos princípios políticos da Revolução Francesa. Portanto.adultos e principalmente crianças . em nome da reabilitação da imagem original de sociedade orgânica e harmônica. 02. Para nós. não há melhor caminho a seguir do que formar a alma da mocidade escolar. Helder Câmara conquistará 210 O LEGIONÁRIO. entretanto. abastecida pela vigília perseverante que observa os princípios de um novo humanismo. militantes legionários e integralistas.

em setembro de 1931 (. A recristianização da sociedade impunha não somente um esforço de condução da sociedade a uma convivência coletiva mediada pela espiritualidade. detestaes o quanto possível o jogo. 212 O LEGIONÁRIO. autorizado por S. legionários. transforma-se na finalidade precípua do legionarismo. mudar o comportamento do homem pobre trabalhador. 06 de maio de 193. 06 de novembro de 1933.JOC. o jocismo realizou núcleos de divisões para a meninada pobre em todos os arrebaldes da cidade. 03. dever. entregae-vos a vosso trabalho. ressaltando os aspectos sacralizantes da família e do trabalho..) De setembro de 1931 a fevereiro de 1932. Inculcar no meio dos trabalhadores as noções de decência. p.124 notoriedade e respeito a partir da organização da Juventude Operária Católica . convinha iniciar essas tarefas para sua pronta conversão moral. Portanto. Arcebispo Metropolitano a 211 abrir as escolas da JOC. retidão e altruísmo. 04. Excia. p. só se efetivará quando todos reconhecerem a essência corrompida do mundo moderno. do sensualismo do consumo. a fim de effectuar as despezas da 212 subsistencia necessária à vossa família. .levae para casa. Para tanto. o Sr. Assim. Essa preocupação de natureza ética está definida no discurso legionário. Como os operários são os interlocutores imediatos da ação ressocializadora da LCT. Dessa forma. O jocismo foi fundado em Fortaleza pelo tenente Severino Sombra. prepondera no ideário da LCT corrigir os hábitos perversos próprios dos regimes liberais e do programa comunista. A superação dos males que impregnam a humanidade de “materialismo”. Em 11 de fevereiro de 1932 o padre Helder Câmara. seja qual for o vosso mister. é estimulá-lo a acreditar no caráter sagrado da ordem social. depois o atributo do vosso trabalho . da perda da espiritualidade..o salário .. antes que sejam capturados inteiramente pelo superficialismo da sociedade industrial. é necessário indicar uma 211 O LEGIONÁRIO. mas estabelecer mecanismos de manutenção da harmonia e de defesa dos valores fundamentais da pessoa humana..

quais sejam o tradicionalismo radical e o racionalismo católico.125 alternativa de organização social que substitua o capitalismo e o comunismo. O pensamento legionário considera que o intelectualismo aprofunda as contradições da modernidade e aprofunda o distanciamento do homem em relação à unidade divina criadora. Dessa forma. O discurso legionário defende um modelo de sociedade orgânica baseada em princípios ético-religiosos. Daí o sobrenaturalismo. o transcendente e o imanente. É para o movimento de recristianização que o legionário volta seu apostolado. seriam transpostas todas as barreiras históricas à solidariedade humana. O que o tradicionalismo mais radical não aceitava era a subjugação das consciências. 61. João Alfredo de Souza. pelo imediatismo das práticas empíricas. expressa duas características ideológicas fundantes do seu ideário. da visão superior do homem e da sociedade. da racionalidade social. pelo utilitarismo que acabava anestesiando o sentido transcendental. Assim. cit.. por conseguinte. opondo-se às expectativas contemporâneas de se transferir para a ciência o papel de orientadora das ações humanas. E revelando. A rejeição ao intelectualismo e à razão pressupõe a tese da livre manifestação do Espírito. a LCT defende um mundo e uma vida social livres 213 MONTENEGRO. o aviltamento inconseqüente das 213 ciências empíricas. quando a “intuição” assume um papel relevante na orientação do homem frente às evidências das realidades concretas. segundo o entendimento dos intelectuais da LCT. 1986. o catolicismo desvinculado dos condicionamentos sócio-culturais determinando a incidência natural do moralismo. agindo de maneira voluntarista e altruísta para a conquista da comunidade ideal. p. a delimitar em campos opostos o espírito e a matéria. dos valores sociais. exacerbando a soberba do racionalismo e do antropocentrismo antiespiritualista. op. do afã utilitário. A terceira via se apresenta na proposta do corporativismo onde. . (.) O racionalismo católico tendia.. neste ponto de vista o desconhecimento das virtualidades espirituais e éticas do cotidiano da técnica.

Cris. Lutaremos contra a mecanização cada vez mais intensa da vida. elaborou uma explicação sobre as diferenças entre sociedade e comunidade. 115-117. o patrão e o operário. resultado deplorável do orgulho possessivo. Neste sentido. Cf. o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936). da ambição desmedida. p. Para isso seria preciso recusar frontalmente a estrutura partidária atomizadora dos homens. Repellimos o technicalismo monstruoso da civilização yankee e que a Russia communista quer imitar. op. 115) 215 SOMBRA. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. contemporâneo dos movimentos conservadores do início do século XX. 1996. qual seja. 1932. a finalidade dessa conquista está associada a 214 um movimento de retorno do homem à vida comunitária. 19. onde as diferenças casuais são esquecidas pelo princípio moral promotor da “igualdade essencial entre o rico e o pobre. Lutaremos contra a introdução das machinas. exemplo de solidariedade verdadeira. In: OUTHWAITE. . S. o governante e 216 o governado”. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. que pode sintetizar o sentimento de oposição às sociedades modernas. mais humana (grifo nosso). A palavra de ordem é estimular a união operária.126 dos artificialismos produzidos pelo individualismo. O indivíduo. Tom. 214 Embora o conceito de comunidade seja “vago” e “evasivo”. De acordo com o pensamento legionário. 216 Ibid. p. contraria os princípios da vida comunitária. pp. posto que dela surgirão as condições de possibilidade de instaurar a nova era. Sonhamos com a volta a uma vida mais simples. através de uma sociedade que seja realmente um fim para o indivíduo e um meio para a pessôa desenvolver-se e attingir seu 215 fim der ser racional e livre. a Idade Moderna e a Renascença promoveram o surgimento do indivíduo e provocaram o desaparecimento da pessoa como fundamento de todas coisas. William e BOTTOMORE. 17. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. cit. Embora não se furte de imaginar a construção de vias que possibilitem o acesso dos trabalhadores ao poder. segundo Shore. SHORE. p. o combate ao individualismo e a revalorização da pessoa. “Comunidade”. do egoísmo desenfreado. a atitude negativa quanto aos partidos políticos corrobora a finalidade social do programa legionário.

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Em conseqüência disso, a proposta cooperativista da vida em comunidade visa estabelecer relações no interior do ambiente de trabalho que permita fluir a “pessoa”, sufocada pelo individualismo. “Em seu aspecto cooperativista a «Legião» pretende criar um ambiente material menos grosseiro para o operário, sem as cores da miséria que o revertem tão commumente por meio de uma assistência carinhosa 217 nas fábricas, nos lares e nas escolas”. A partir de então, os operários se reconheceriam como elementos indispensáveis na conquista e manutenção da ordem universal instituída pela paz social, harmonia nos interesses díspares e colaboração entre as classes. No ideal legionário, o cooperativismo não possui nenhuma conotação de classe, ou algo que permita a radicalização de antagonismos sociais, ao contrário, é o fundamento de uma solidariedade instaurada no interior das diferenças sociais. A nova era se libertaria da concorrência desleal propugnada pelo liberalismo econômico, subsidiado pelas leis da oferta e da procura, e recuperaria a economia no seu significado clássico de administração das necessidades da casa. Procedendo desta maneira, a LCT destitui a legitimidade e necessidades pressupostas nos fundamentos das práticas macro-econômicas ao sugerir uma economia de feições estritamente domésticas e familiares. A crítica legionária às injunções econômicas da modernidade instaura-se na constatação da ausência de qualquer ética nas relações no seio do mercado. Aqui, prevaleceria a ambição, a falcatrua, a dissimulação; enquanto que na organização comunitária, a camaradagem, a troca desinteressada e o senso de justo preço preponderariam por sobre quaisquer conveniências particulares ou interesses escusos. Se ao homem cabe se preocupar, especialmente, com as coisas do espírito, sua sustentação material é simplesmente um acidente enfadonho que marca sua condição biológica. Obstáculo que pode ser resolvido através da cooperação entre todos os envolvidos no trabalho produtivo, representando o trabalho necessário apenas para a sobrevivência orgânica, livre, pois, de concorrência ou ambição. Enquanto um mantem os mais estreitos laços de amisades com os seus operários, o outro lamentavelmente deixa-se possuir dos sentimentos de hostilidades as mais descabidas para com os pobres (...) um
217 Ibid. p. 17.

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transforma a sua fábrica num lugar saldável, onde trabalhar é um prazer, e collaborar com o patrão dando-lhe um rendimento máximo, é uma necessidade que todos sustam imperiosamente. E o outro (...) foz da fábrica um suplício, onde tudo é abafado e asphixiante, onde o trabalho tem o trono do fel (...) Na fábrica de um, a alegria, o prazer, a amisade desenvolvendo-se em mil formas 218 de colaboração. Trabalho, eficiência, vida. A prática política da LCT sugere um processo de conciliação entre a sociedade moderna e a construção de um universo social diferente, caracterizado pela fraternidade e cooperação universais. Para disso, o projeto político de terceira via é exposto como um programa doutrinário apolítico. Essa astúcia discursiva nega a validade moral do fazer político, ao mesmo tempo em que recorre a uma argumentação política como condição necessária à realização de seu 219 projeto social. Isto é, fazer política em nome do apolitismo . A apoliticidade justificada pela idéia de atomização do social provocada pelos partidos e a inescrupulosa conduta dos políticos profissionais. Felizmente o operário de 1933 já não é aquelle inconsciente e automato miserável de annos atraz. Já possue um espirito de classe esclarecido e alerta, e está em condições de resistir aos manejos da politicagem profissional a serviço da plutocracia. O operário de hoje é um libertado. É um consciente. É um forte. Livre, consciente, disciplinado, elle, no campo politico como nos demais campos, será a grande força que extirpará do Brasil, auxiliado e dirigido pela mocidade, o politiquismo coronelício, o plutocrata insaciavel, e desfraldará a
218 O LEGIONÁRIO, 27 de maio de 1933. p. 01. 219 De acordo com Ferrari, este falseamento da ação política no discurso católico é possível pois que “não há distinção, nessa perspectiva, entre ‘religioso’ e ‘político’: os dois planos convergem num modelo ideal de sociedade hierarquicamente estruturada ...”. Cf. FERRARI, Liliana. “Ação Católica”. In: BOBBIO, Norberto, MATTTEUCCI, Nicola, PAQUINO, a Gianfranco. Dicionário de Política. 11 . edição. Tradução de Carmen C. Varriale et al. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998, p. 9.

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Bandeira Legionária (sic!), símbolo (sic!) de 220 uma nova ordem e de uma nova vida. A nova ordem social defendida pela LCT é defendida através da exaltação do sentimento de nacionalidade e valorização da Nação, entendida como espaço de manifestação do espírito de harmonia e da valorização da esfera ético-moral-espiritual da existência humana. A Nação é o lugar onde os trabalhadores podem ser felizes. A sua construção nos modelos legionários reabilitaria a sociedade fragmentária criada pela modernidade industrial, conduzindo-a até a unidade nacional, garantida pela fraternidade universal entre o povo e as instituições políticas. Essa tarefa só poderia ser confiada àqueles que demonstram efetivamente compromisso, altruísmo e devoção, ou seja, aos jovens e aos trabalhadores. Os primeiros, incompreendidos pelos antigos, enquanto os outros se submetem à exploração, alimentando a ganância desmesurada do capitalista. Somente estes elementos possuem a experiência prática das desventuras do mundo contemporâneo, que os capacita a questioná-lo e, movidos pelo ardor da justiça, transformá-lo para melhor. Queremos uma nova Revolução. Revolução que destruindo, venha ordenar e construir. Que despedaçando mitos, venha refazer a unidade e trazer a estabilidade social. Que anniquilla o utópico e absurdo sistema em que vivemos e affirma uma nova ordem. Que venha reagir contra a falta de unidade, e força dos Estados modernos, acabando com 221 as guerras civis. O catolicismo, como filosofia de base do movimento legionário, sugere como fim da sociedade, a recomposição de uma infra-estrutura de relações sociais que remontam à vida comunitária, desprezada pela Idade Moderna desagregadora. Entretanto, o esforço de elucidação da problemática da sociedade moderna, longe de ser entendida ou divulgada como simplesmente uma verdade revelada, apresenta-se revestida de uma teoria da crise da modernidade a partir da qual todas as reflexões sobre a condição humana advirão. No discurso legionário é constante o uso de palavras como sadio e doentio, demonstrando uma preocupação civilizadora com a
220 O LEGIONÁRIO, 22 de abril de 1933. p. 01. 221 O LEGIONÁRIO, 01 de maio de 1933. p. 08.

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higienização moral da sociedade moderna. Essa abordagem organicista sobre os elementos do conflito social invoca um silogismo para a crise, na medida em que por sadio compreende-se tudo quanto se referir à alternativa de substituição do status quo. Isto é, sadio é tudo que reflete os bens morais e éticos identificados como principais “mercadorias” do mercado das relações humanas. De outra forma, o doentio se expressa na sua ligação estreita com tudo que ilude o homem, na lógica de legitimação da modernidade industrial capitalista. Portanto, o apelo ao consumo, o elogio às riquezas do materialismo, o desprezo pela espiritualidade, denotam a substância virulenta e deletéria da Idade Moderna. Nessa mesma linha de raciocínio, faz-se necessário aos que lutam por uma nova era, segundo a doutrina da LCT, atentar e reconhecer os fatores que possibilitam ao sistema decadente escamotear a profundidade de sua crise. Não paramos na simples contemplação ridícula das legislações sociaes que o liberalismo nos offerece a título de esmola, simples cafiaspirinas para cura de dores de cabeça, quando se trata de curar todo um organismo cheio de doenças já seculares e que exigem uma terapêutica enérgica e 222 eficiente. A higiene do social, por conseguinte, representa, na terapia para uma nova era marcada pela saúde moral da humanidade, índice de larga importância no projeto da redenção universal. Eliminar as sujeiras infecciosas lançadas pelo sistema degenerado das relações interpessoais, adquire o estatuto de imprescindibilidade histórica. Mesmo que para se atingir essa meta, a sociedade tenha que se submeter aos excessos da centralização do poder nas mãos daqueles eleitos, proprietários do saber remediador da crise. Até porque, para o pensamento legionário, o fortalecimento do poder, quer seja do Estado ou do indivíduo, é elogiável e defendido, pois representa uma das bases de sua orientação doutrinária, qual seja, o princípio de autoridade. O importante mesmo é que a fuga deste cativeiro que esmaga o homem integral, escravo inerme dos vícios e encantos do mundo da vida sensualista do capitalismo, seja empreendida vitoriosamente sob

222 O LEGIONÁRIO, 16 de setembro de 1933. p. 03.

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a liderança do messias autorizado por revelação, seguindo o caminho que vai dar nas terras onde prepondera a fraternidade e a harmonia. Trazemos, para todos os que são victimas dos erros sociaes presentes uma palavra de fé e combate. Por entre a confusão angustiosa, a rebeldia desordenada, a crescente anarquia que correm o mundo e abarcam-no tragicamente, fazemos soar a 223 voz salvadora do Ideal Legionário. Desta forma, a LCT executa sua atividade política com o intuito de formar uma nova mentalidade, para que a sociedade integral seja aceita verticalmente como única solução possível ao mundo desequilibrado do capitalismo industrial. A atuação da LCT foi toda atravessada pelo recurso constante da ritualização e cerimonialização de seus atos, apelando à sensibilização do indivíduo através do artifício da encenação coletiva. As grandes demonstrações coletivas tinham a intenção de manifestar a confiança na solidariedade e na indiferenciação entre as pessoas. O sentimento de camaradagem e colaboração perpétua é sua principal arma para propiciar o engajamento pessoal na causa. Ao propor uma sociedade unificada e sem conflitos, a Legião expõe essa proposta nas solenidades, ao arregimentar, com um máximo de organização, centenas de legionários uniformizados e orientados pela mesma bandeira e o mesmo slogan. As condições de possibilidades de realização da sociedade integral estão dadas em escala diminuta nas solenidades dos desfiles, onde se visualiza apenas a uniformidade verde da massa. O desejo legionário de construir um corpo social sem fraturas, implica na intenção de efetivar a supremacia do institucional sobre o privado. É, pois, a apologia da prevalência do espaço público sobre a esfera da privacidade. Processa-se, dessa forma, o apagamento das marcas da individualidade e se erige o totalitarismo da coletividade. A Legião Cearense do Trabalho representa, pois, um elemento significativo na produção de projetos sociais e na constituição da memória social dos trabalhadores, afora seus desdobramentos políticos posteriores, posto que simboliza uma experiência pioneira de política voltada para as massas.

223 O LEGIONÁRIO, 01 de março de 1933. p. 04

(mimeo. Fortaleza: UFC/Fundação Demócrito Rocha. Gianfranco. 2º volume. 1998. Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. 3 . Severino. PAQUINO. Ótica. O Ideal Legionário. MATTTEUCCI. 1989. Liliana. Brasília: Editora da Universidade de Brasília.132 Referências Bibliográficas CARONE. PAQUINO. 359-375. “Integralismo”. PAQUINO. edição. pp. Nicola.). Daniel. SOMBRA. 1998. “A Legião Cearense do Trabalho”. (1930-1937)”. MATTTEUCCI. 635-636. 160-163. In: BOBBIO. A Segunda República. a 11 . Gianfranco. Varriale et al. “Um Pensamento Político Autoritário na Primeira República. Boris (org. História do Ceará. Dicionário de Política. In: BOBBIO. Sebastião Rogério Barros da. LAMOUNIER. Varriale et al. São Paulo: Difel. a 11 . “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho. O Brasil Republicano. In: BOBBIO. Tradução de Carmen C. PÉCAUT. Tom. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. “Teoria social cristã”. 9-10. Giacomo. 345-374. João Alfredo de Souza. 1998. Francis P. MCHUGH. Norberto. William e BOTTOMORE. . Dicionário de Política. Émile. SANI. Variações Ideológicas. Dicionário de Política. “Cultura Política”. Tomo III. edição. POULAT. São Paulo: Ed. IOCE. Norberto. 1986. 1977. Tradução de Carmen C. 11 . “Ação Católica”. Fortaleza. Edgard. Norberto. 1990. Sebastião Rogério Barros da. pp. pp. a Sociedade e Instituição (1889-1930). PONTE. MONTENEGRO. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. 1974. pp. MATTTEUCCI. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. pp. Varriale et al. Entre o Povo e a Nação. 1990.) História Geral da Civilização Brasileira III. Fortaleza: NUDOC Universidade Federal da Ceará. 1932. 1996. O Integralismo no Ceará. Tradução de Carmen C. In: FAUSTO. Rio de Janeiro: Difel. edição. FERRARI.). Os Intelectuais e a Política no Brasil. 306-308. Bolivar de. pp. Simone (coord. a Nicola. In: SOUZA. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. Nicola. Gianfranco. PONTE. In: OUTHWAITE. edição. Uma Interpretação”.

William e BOTTOMORE. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. 115-117. pp. 1947. Buenos Aires: Losada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. In: OUTHWAITE.133 SHORE. “Comunidade”. TÖNNIES. Ferdinand. 1996. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. Cris. Tom. Comunidad y Sociedad. .

o Estado do Ceará . se realmente nasceu ali. desde a Questão 225 Religiosa . Francisco de Assis. A Legião Cearense do Trabalho: Política e Imaginário no Integralismo Cearense(1931 – 1937). São Paulo. porquanto. A Igreja colocou-se como um dos principais veículos do discurso legionário. já que se sentia à parte do poder. por ser uma época de intensa preparação para os grandes confrontos político-ideológicos das décadas seguintes. O HOMEM NO ESPELHO E A LEGIÃO CEARENSE DO TRABALHO: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da Silva (PUC/SP) A Legião Cearense do Trabalho .e as circunstâncias que os envolveram. Raimundo Barroso. É então que se “processa o enfrentamento do arcaico-rural como característica definidora da natureza estrutural da sociedade. bastaria a importação de idéias consagradas.surgiu como alternativa à crise da sociedade industrial. p. Se realmente o Integralismo lançou as suas raízes a partir do Ceará. substituindo o capitalismo e o comunismo. Império. utilizando-se da imagem santificada da fé. com a manipulação dos fatos. 7. 225 Ver mais em: SILVA. 1992. oferecendo os subsídios necessários para que se efetivasse o projeto.8.LCT .e num momento tido como divisor de águas na historiografia brasileira. República. importadas tanto no tempo como no espaço. Nasceu em uma região de fraca industrialização . onde tem a identificá-lo uma série de discursos que retiram a possibilidade de rigorosa coerência 224 CORDEIRO. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Ceará – Departamento de Ciências Sociais e Filosofia.meta dos discursos do idealizador da Legião . História do Brasil: Colônia. temos então que buscar os nexos que viabilizaram este fato. Objetivamos buscar um entendimento nas relações estabelecidas entre os trabalhadores . com os questionamentos provenientes de diversos segmentos urbanos em 224 defesa de uma nova ordem social ”. Para este vazio ser preenchido. em conformação com o pensamento autoritário que estabelecia a idéia de vazio. p 177 / 8. Jr. Foi através dela que se criou a idéia do uso de imagens consagradas. . Editora Moderna. 1992.134 6. Fortaleza.

A Ação Integralista Brasileira – AIB . Como a LCT anunciava um projeto pacificador foi aceita imediatamente pelos participantes da classe dominante assim como pelos próprios trabalhadores. nesta região a partir da união com a LCT. e não apenas as três correntes clássicas: a de Plínio Salgado. apesar de esquecida nos centros do poder. Douglas Teixeira.despontou na região. “A noção legionária de trabalho constrói-se 226 Cf. compondo. como pela chegada de trabalhadores da zona rural. a de Gustavo Barroso e a de Miguel Reale. os movimentos sociais “irromperam no curso de uma História dramática de submissão. Surgiu tanto pela imigração. O Integralismo pôde então. O Integralismo no Ceará – Variações Ideológicas. ou seguir as vias místicas que lhes 228 eram dadas. porém a região norte-nordeste não ficou incólume às grandes transformações. em um curto período. por contar com o forte apelo religioso do homem íntegro que via em Deus. a classe trabalhadora industrial. IN: História Geral da Civilização Brasileira . onde o “credo verde” surgia. op. Com a expansão capitalista. A LCT foi um movimento trabalhista de cunho corporativo. atendendo ao chamado do projeto varguista. Canudos e contestado”. p 125. São Paulo : Editora Bertrand Brasil. p 11. João Alfredo de Sousa. nasceu um fenômeno que atingiu o Brasil – o operariado urbano. vol 9. assim. representando o interesse de 71 associações e de 20 mil trabalhadores assalariados e autônomos. 228 MONTEIRO. como fruto de uma imensa elaboração doutrinária.2004.135 ideológica. ser implantado. cit. num primeiro momento. para trilhar os caminhos da rebeldia sem projeto. ousando assumir a condição de sujeitos” . p 43.Brasil Republicano. MONTENEGRO. Dentro da classe trabalhadora foram eles que difundiram a idéia de transformação radical da sociedade pela via revolucionária socialista ou anarquista. com expressiva participação dos europeus na composição da classe operária brasileira. por oferecer uma indústria mais desenvolvida. já que tinha como agravante o fato de ser sacudida por “invasões” de retirantes em cada seca que se apresentava. 1986. Nos anos 30. Isso acontecia com maior freqüência no centro-oeste do país.. Fortaleza : Editora Imprensa Oficial do Estado do Ceará. na Pátria e na Família a sua razão de ser. . O anarco-sindicalismo desembarcou junto com a imigração. “por uma práxis edificante mobilizadora de seguimentos médios e de grupos operários: a Legião Cearense do 226 Trabalho” . 227 CORDEIRO. “Um Confronto Entre Juazeiro. Existiu entre 1931 a 227 1937 .

Não existia. (org. certamente havia a interpretação e explicação pelo tio. carente de estudos prévios de natureza econômica e social. cujo vazio político propiciou um solo fértil às idéias totalitárias. as grandes obras universais . diariamente ao seu tio 230 enfermo. recebidas através de um outro tio. Uma das obrigações do menino era ler.) Uma Nova Historia do Ceará. Privando mesmo da amizade de seu filho. em 8 de Junho de 1907. o que serviu de pretexto para o velho enfermo pedir aos seus pais para que o criasse. que se decidira pela vida celibatária. Só em 1922 229 CORDEIRO. formou-se uma classe sem noção de organização. Ms. então Coronel do Exército Nacional: Luiz Sombra. o grande escritor José de Alencar. dos ramaianos. 230 Recebeu do tio “Biblioteca Internacional de Obras Celebres”. Vassouras-RJ. composta de 24 volumes que trazia desde a cultura dos vedas. Como sempre prometiam ao avô materno visitá-lo. Após essas leituras. Com a morte do avô passou a ser criado por uma tia: dona Marocas. uma organização católica que representasse a Igreja no âmbito dessas discussões. naquele momento. colocando assim. . Vicente Liberalino de Albuquerque e de dona Francisca Sombra de Albuquerque. dispersa. no jovem o gosto pelo conhecimento.136 a partir de uma explicação religiosa da sua natureza divina. dos hindus até a literatura contemporânea. Fundação Universitária “Severino Sombra”. assumindo um caráter obrigatório. 1-O Homem de ação e de reflexão: Severino Sombra Nasceu Severino Sombra na cidade de Maranguape-CE. a fim de cuidar dos velhos pais e de um irmão paralítico. era do Partido Conservador e foi durante 15 anos prefeito de Maranguape e amigo pessoal do Senador Alencar. onde cursou a Escola Militar do Realengo. No inicio do século XX. Jr. Seu avô coronel Joaquim José de Souza Sombra. filho do Dr. Muito jovem ainda seguiu para o Rio de Janeiro. Outro modelo foi o militarismo visto pelo prisma da interpretação familiar. que moravam no Rio de Janeiro e tinham oito filhos. os jovens intelectuais brasileiros agitavam-se em debates que conclamavam a sociedade para projetos reformistas. “A Legião Cearense do Trabalho”. In: SOUZA. p 338. o fizeram perto do nascimento dele.” Fortaleza: Edições Demócrito Rocha. UFSS. 2004. Raimundo. Severino Sombra. Simone de. impondo-se de maneira punitiva ao homem que 229 tem que prover sua existência material ” Assim.

Sebastião Rogério de Barros da. passou a ser dirigido por Alceu do Amoroso Lima. aproveitando o momento histórico em que a sociedade via com bons olhos a participação dos tenentes no cotidiano de suas vidas. Simone. Desde o inicio. mas também teóricos que pensavam em "endireitar o Brasil". Oliveira Vianna. Por se colocar contra o Liberalismo. a Igreja. que viria a propiciar a ela. (org. Em 1929. organizou e implantou a Legião Cearense do Trabalho.) História do Ceará. Uma agremiação que congregava a jovem intelectualidade católica em torno dos ideais nacionalistas e reformadores dentro de uma perspectiva da Igreja católica. o que lhe rendeu uma prisão e. e tantos outros que refletiam sobre o Brasil legal versus o Brasil real. apregoada por Jackson de Figueiredo. “A Legião Cearense do trabalho”. Quando ainda na escola Militar. assim como a adoção de idéias antiliberais e anticomunistas. In: SOUZA. Pois estava impregnado das idéias de São Tomás de Aquino. Porém foi envolvido em uma questão pertinente ao comando militar. 1989. p. lógico seria ser contra a Revolução liberal. Fundação Demócrito Rocha . entrou em contato com o Centro D. Logo após sua chegada foi questionado sobre a “fase pré-revolucionária”. 231 . 232 PONTE. quando retorna ao seu Estado de origem. largamente apresentada por grupos de intelectuais não só católicos.137 é que foi fundado o Centro D. Vital foi criado por Jackson de Figueiredo e que. tinha como meta a Renovação Católica “que deveria atrair leigos e operários 232 para o seio da Igreja Católica ”. apontado por Alberto Torres. cuja elaboração ideológica começava pela crítica à modernidade. refletiu que “aquele era o momento” de se tomar uma medida reformuladora aos destinos dos trabalhadores que eram vistos por ele como desprotegidos e órfãos do poder. Esses questionamentos vieram a corroborar com a sua idéia de começar a transformação da sociedade brasileira. Vital . após sua morte precoce. a possibilidade de se inserir na esteira das discussões e expectativas quanto ao contexto da época. O movimento criado por ele pretendia fixar no meio operário cearense. Fortaleza : UFC. como Euclides da Cunha. Outro elemento que compôs sua ideologia foi a "questão nacional". O centro D. estando afastado de tudo. Severino Sombra recebeu forte influência católica e seus primeiros estudos foram nesta direção. Vital no Rio de Janeiro. Então. a idéia de volta ao lirismo da Idade Média. 365. que acarretou sua transferência para o Rio Grande do Sul. tornou-se uma personalidade de projeção nas lutas sociais e políticas 231 O movimento espiritualista tem seu inicio a partir da fundação da revista “A Ordem” e do Centro D. inspirado na encíclica “Rerun Novarum”. Vital e os estudos realizados lá lhe inculcaram as necessidades de obediência às normas hierárquicas da Igreja. passando a assumir a ideologia da “reação e ordem”.

encíclica que tratava especificamente da questão operária.. A modernidade era vista por ela como fonte de todo o mal que afligia a humanidade.com a sua ordem de congraçamento para reivindicações. o seu fim ”.CAMACHO. ou pelo menos 235 vaticinavam. tanto negar seus próprios fundamentos. Condenava a alternativa socialista. de Pio XI. no jornal 233 católico“O Nordeste ”.138 do Ceará.. que instigava nos pobres o ódio aos que possuem riquezas. ela reforça o direito à propriedade e à harmonia entre as classes sociais. Elaborou as diretrizes do seu movimento em uma cartilha chamada “O Ideal Legionário”. panfletos. op. cit . A Legião Cearense do Trabalho vem até vós com o seu brado de alerta. 1954. um jovem tenente que. foi prontamente aceita pelos dois lados do sistema produtivo cearense. Para difundir suas idéias. servindo de veículo para suas críticas ao sistema político e conclamando as classes sociais a cooperar entre si pelo resgate dos ideais humanistas. Quarenta anos após seu lançamento. A Igreja católica mantinha interesse na preservação do modelo tradicional de sociedade. Rio de Janeiro : Petrópolis. 234 Panfleto entregue na porta dos estabelecimentos pelos legionários. 236.(. Severino Sombra publicou o jornal “O legionário”. recebeu reforço da encíclica “Quadragésimo Anno”. O PÊNDULO DA HISTÓRIA : Tempo e Eternidade no Pensamento Católico (1800-1900). 236 de Leão XIII . com a sua palavra de enthusiasmo. quanto fazer causa comum com aqueles que exigiam.)” 235 MANOEL. Paraná : Editora da Universidade de Maringá. A LCT foi idealizada e organizada por Severino Sombra na época. Por ser interpretada como a terceira via entre o capitalismo e o comunismo. . já que para ela “aceitar a teoria de progresso e da perfeição humana seria. criando as bases à reformulação social e à renovação católica. p 33. conclamando os trabalhadores 234 a compor esta Legião. Considerada uma dos grandes marcos da doutrina social da Igreja. no período da implantação da LCT : "Apello aos homens de trabalho do Ceará. apresentando uma crítica feroz ao modernismo. precizam tomar o lugar que lhes compete na vida nacional. Doutrina Social da Igreja.. As classes. os homens de trabalho. p 45. Ildefonso. p 115. subscrevia com o pseudônimo de Agathon. Essa preocupação surgiu com a bula papal “Rerum Novarum”. por ser antiliberal não reconhecia a 233 MONTENEGRO. Ivan. além de lançar também folhetos. Editora Loiola. 2004. É mister que no Brasil Novo as forças economicas e espirituaes collaborem na direção do Paiz. as forças productoras. etc.

integralismo. realizando a primeira manifestação fascista 238 que se tem noticia no Brasil. 288.Os movimentos que antecederam o Integralismo no Brasil. São Paulo: Difusão Européia do Livro. nazismo. para a criação do Partido Fascista Brasileiro. Muitos fracassaram. Ela foi um movimento trabalhista e contou com o fato relevante de ter precedido o Integralismo e de ter sido uma das primeiras manifestações dos trabalhadores 237 cearenses. trazia a seguinte conclamação: Prestigiando o governo que o povo impôs à Nação. Ver mais em: BERTONHA. p. Organizou esse movimento contando com o apoio dos que comungavam com seus pensamentos: Helder Câmara. 290 241 Ibid. porém o Jornal do Comércio de 14 de novembro de 1930. 2.. milhares de milicianos fascistas(os camisas negras)invadiram a capital. Pouca ou nenhuma notícia se tem sobre ambos. Edgard. de Amaro 237 CORDEIRO. cit. com a fundação da Legião do Cruzeiro do Sul. cit. todos da mais alta relevância dentro do cenário nacional. São Paulo: Editora Ática. contamos com os contemporâneos da LCT. de combate ao comunismo. João Fábio. Tudo leva a crer que essa manifestação 239 foi uma imitação do episódio da “Marcha sobre Roma ”. 14. . capaz de amparar os trabalhadores brasileiros em suas reivindicações. O Integralismo teve sua pré-fase em 1922. p. A Ação Social Brasileira e o Partido Fascista Brasileiro. entre outros.139 Revolução de 30 que empossou Getúlio Vargas. faremos valer nosso pensamento. p. que estrangeiros inimigos do Brasil desejam implantar em 240 nossa Pátria. 240 CARONE. foram mais sofisticados e anunciam um esquema que viria a se repetir. Neste sentido aguardai o manifesto que faremos publicar no dia 18 do corrente. um grupo de italianos organizou o “Partido Fascista”. A nota vem com a assinatura de representantes insuspeitos. 238 CARONE. A Segunda República. 2002. Em 1928. o então Tenente Jehovah Motta. 1973. 239 Partindo de várias regiões da Itália. como em “A Legião de Outubro”. diferentemente dos contemporâneos de vida curta. 290 e 291. op. Entre os ensaios para se chegar a AIB. op. p. p 125. .Fascismo. mas deixaram a 241 oportunidade dos atores entrarem novamente em cena .

175. com a pequena ala do Partido Socialista 242 Brasileiro. que pretende haver traçado "uma diretriz definida e clara em face dos problemas fundamentais" do país. constitui. encontra-se o ensaio denominado “Manifesto da Contra Revolução". portanto. mostrando no meu artigo o caráter fundamentalmente fascista. p. livro que analisava o antagonismo nos regimes fascista e soviético. apresenta grave perigo para a coletividade quando tenta enveredar pelo domínio publico. com o Partido Nacional Sindicalista. firmado por homens da esquerda e tendo como chefe o General Miguel Costa. de Olbiano de Melo. por sua expressão e seu conteúdo. de Mario Antunes. O Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo. das "idéias" e 242 Ibid. Astrojildo Pereira publicou “URSS. promulgando um sentimento esquerdista que recebeu de Astrojildo Pereira a seguinte crítica: Penso haver contribuído para desmascarar a mistificação. contraditória e delirante de certa camada de intelectuais e pequenos burgueses. e redigido por Plínio 243 Salgado .Itália – Brasil”. de São Paulo. Neste livro. p. que é originariamente inevitável. com o Partido Nacionalista de São Paulo. direitista da extrema direita. Este último teve seu “programamanifesto” publicado em março de 1931. São Paulo: Editora Alfa-Omega. Astrojildo. Aos que antecederam a AIB. 243 PEREIRA. O manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo foi publicado no jornal “O Tempo”. e seria inofensiva se limitada a círculos privados. um documento que se pode considerar característico de ideologia confusa. de 1931. Em 1935. em março de 1931. Esta presunção. forcejando por atribuir-se a direção de 244 movimentos políticos .140 Lanari e Francisco Campos (março de 1931). feito a pedido do Comitê Central do PCB. Seus autores ou signatários estão convencidos de que lhes cabe a gloriosa predestinação de regenerar e salvar o Brasil . 244 Ibid. p. de Miguel Costa. na realidade. mostrando já o germe do Integralismo. 187. onde efetuou uma análise do “manifesto-programa” da Legião Revolucionária de São Paulo. redigida por Plínio Salgado e assinada por várias personalidades consideradas da "esquerda”. de Cristiano das Neves e com a Legião Revolucionária de São Paulo. . Ensaios Históricos e Políticos. podemos juntar a Legião Cearense do Trabalho. 1979. 295.

cit. sua direção e métodos assemelhamse aos dos movimentos fascistas.. a Legião C. do Trabalho consegue a 246 adesão dos operários. Participavam dos desfiles cívicos. e que sua intenção é dirigir os sindicatos operários de Fortaleza. e . diz mais: A verdade é que o movimento inicial cabe ao tenente Severino Sombra. Anteontem como ontem. (. Severino Sombra perde a liderança e é reintegrado no 247 Exercito. p. O redator do Manifesto.187 e 188. mais tarde um dos fundadores e hoje dito "chefe nacional" do Integralismo.. a Legião em 1932 foi absorvida pelos integralistas . cuja intenção era a de prepará-los para que vivessem em melhor situação econômica e social: "A LCT foi um dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil. ontem legionário. O 1º de Maio foi incorporado ao calendário das festas solenes com desfiles que lembravam as “paradas 245 Ibid. e a sua ideologia também.. E. fato que o aproxima logo de Plínio Salgado (. isto é. fora o antigo perrepista Plínio Salgado. p. também uso de um uniforme (um blusão mescla com um emblema na manga). unindo-os em torno de suas reivindicações. 246 CARONE. de um partido fascista declarado. onde reverenciavam a bandeira da Legião. mostra que a LCT foi exclusivamente voltada aos trabalhadores..141 dos "princípios" contidos ali.). Plínio é sempre o mesmo. E. ao contrário. hoje como provavelmente amanhã ele sempre esteve.) Não me venham dizer que o homenzinho é que mudou: anteontem perrepista. op. p. Qual nada. como é notório. ontem como hoje. A interpretação fascista deve-se ao fato de que nos encontros dos legionados ser feita uma chamada oral que era respondida por todos com a palavra: “Pronto”. logo depois. . 247 Ibid. hoje integralista. Enquanto as outras agremiações pretendiam o apoio da pequena burguesia. Fez. Porém. 298. a semelhança do fascismo italiano.. 295-296. . Severino Sombra. está e estará ao 245 serviço da burguesia contra o operariado.

onde sobressaem. op. p 647. não o dia do trabalhador. procurava subsídios ao seu viver sob os auspícios da fé. o operariado cearense no meio das conjunturas. José.. falar em questões que envolvem os trabalhadores do período estudado. e pelo 249 capitalismo hiper-tardio .. R. Consideravam seu chefe Severino Sombra. 1978.A religião. Portanto. percebemos as razões de ter sido ali o nascedouro de movimentos que deram coloração ao cenário nacional. 340 249 CHASIN.) uma espécie de sacerdote que soleniza o cotidiano da entidade 248 que representa . cit. e em especial o nordestino. . contraditoriamente. Há uma “variante do catolicismo designada como rústico”. foi um dos Estados nordestinos em que se constituiu um lugar privilegiado de reprodução ideológica. p 45. Pátria e Família". p. São Paulo: Editora Ciências Humanas. particularmente. 248 CORDEIRO. Se em primeiro momento. a religião teve sua cota de participação na decisão e adesão dos trabalhadores ao chamamento do Severino Sombra. Ao procurar nas raízes da alma do povo nordestino e na sua natureza geográfica. que vamos buscar o entendimento aos movimentos sociais que têm a sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja. pelas mudanças nos modelos econômicos.142 militares”. as vezes. como militante especial (. Não podemos ignorar o fato de que o retirante nordestino. temos que questionar se por não terem ainda a capacidade de “se organizarem em classe”. Isso revela que de um modo geral “em sua modalidade rústica [o catolicismo] tem suas raízes mais importantes plantadas no solo da Grande Tradição judaico-cristão. O Integralismo de Plínio Salgado. é na concepção religiosa. O Ceará.. também não podemos deixar só para ela a responsabilidade histórica.. op. Assim como. Forma de Regressividade no Capitalismo Hiper-tardio. o “1º de Maio é o dia do trabalho. componente aproveitado por aqueles que usavam o lema "Deus. 250 MONTEIRO. agentes que no caso brasileiro é a quem devemos realmente creditar o sucesso do discurso da direita daquela época. vitimado pelas secas constantes. cit. Isso na verdade foi gestado pela fraca industrialização nordestina.. 2. que criaram nele o sentido de ser a infância da classe no Brasil. que o cerca. a esperança messiânica do Reino de Deus em 250 uma terra renovada ”.

O Movimento Legionário criado por Sombra. Ao fundar algumas “casas de caridade”. propondo a eles o papel de vanguarda de uma nova ordem. O mundo passava pelo vendaval de grandes transformações. a proteção que necessitavam. largamente difundido. Ao consagrar e dar em comunhão a uma das suas beatas. a hóstia se transformou em sangue. surgiram os “movimentos sociais” como resposta. mostrava o valor da doutrina católica aos trabalhadores. etc. Com o prenúncio deste acontecimento. Pe. na concepção religiosa que vamos buscar o entendimento dos movimentos sociais que tiveram sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja. em 1913. mas estendendo seu campo de atividade à construção de 251 estradas. retraindo o fluxo de capital para o Brasil. Sardinha. com os pés no chão e a roupa desbotada pelo sol escaldante. de açudes. a disciplinação do pensamento deste sertanejo que. Foram eles: o Integralismo. Ibiapina foi visto como profeta e curador. É. de maneira geral. na Itália e o Nazismo. seguindo o mesmo caminho.A sua pretensão: dar resposta ao mundo em crise. No meio de toda essa ‘reviravolta”. o Fascismo. 4. usadas na elaboração de um discurso que conclamava os trabalhadores brasileiros para a perspectiva de uma melhoria de vida. Essas ideologias criaram uma rede de persuasão que refletiu-se nos quatro cantos do mundo. nos fornecerá talvez a compreensão do que se passou. Este fato. que desenvolveu uma intensa militância religiosa. estavam comprometidas com a preparação da guerra. havia enterrado junto com as . na Península Ibérica.143 vitimado por uma série de vicissitudes análogas à sua região. Já por volta de 1853. não se limitando às práticas piedosas e filantrópicas. Portanto. na Alemanha. deu ainda maior conotação aos campos sagrados da fé. Mussolini e Hitler tiveram suas imagens apregoadas no Brasil. surge no Nordeste um precursor de Cícero Romão Batista – o Padre Mestre Ibiapina . O período “entre guerras” foi rico em acontecimentos marcantes para o mundo. levou a alma do povo oprimido à buscar na Igreja Católica. Padre Cícero. também. Houve uma diminuição da importação de produtos manufaturados e as nações que investiam em nosso país.um missionário no sertão. crises econômicas surgiram na Europa.

de materiais de construção e etc. seguiu “o canto da sereia legionária ”. que se tornaria “caso 252 CORDEIRO Júnior. para explicar o surgimento e expansão de movimentos políticos. Esses movimentos tinham os mesmos objetivos em comum: proteger. . A emergência e a consolidação da “nova ordem” não podem ser analisadas apenas em função das condições sócio-políticas. Trabalho Urbano e Conflito Social (1890 – 1920 ). O modelo urbano industrial. o Estado tentou tutelar a classe operária e impedir a autonomia de suas organizações sindicais. p. Essa indústria incipiente situava-se principalmente nas capitais dos Estados do Rio de Janeiro. a acumulação ou a concentração de renda. op. A preocupação por parte do governo getulista em conter a politização e emancipação do operariado concorre. os vinculados aos ensinamentos apregoados pela Igreja. Derivada das condições inerentes à produção cafeeira. valorizar os operários. revelando a necessidade de se pensar em uma redefinição das políticas nacionais. que dessem conta de reencaminhar a humanidade no trajeto perdido. de vestuário. de calçados. consubstanciava-se numa produção basicamente composta do ramo têxtil. São Paulo: DIFEL. propiciou a questão social trazida na esteira da contradição entre a burguesia agrária e a classe operária. cit. Segundo Boris Fausto. gestado na Revolução de 30 como resultado de uma política econômica de incentivo à industrialização e como política social trabalhista de cunho corporativista. naquele momento. Essa mudança. 124. advindas da conjuntura internacionais pré-guerra e das contradições inerentes ao próprio processo de modernização. de São Paulo e de Pernambuco. que antes de 1930 tinham referência na agro-exportação. constituindo-se no eixo da crise do estado oligárquico. assim como atender algumas das suas reivindicações. sua identidade. por não ter mais 252 nada ou alguém para acreditar. no contexto de trinta. Se o Estado nacional brasileiro buscava. efetivou uma mudança comportamental no meio proletário urbano.. significando que traziam para as classes dominantes a chamada questão social. passou a assumir o modelo industrial. educar. os mantinha afastados dos perigos que os comunistas acenavam. Naquele momento. O processo de industrialização era frágil. encabeçada pela reorientação dos modelos econômicos. Raimundo.144 suas últimas sementes. os seus próprios sonhos e. 5. B. 253 FAUSTO. orientar. p. Com isso. 1976. o mundo também assistia à falência do liberalismo e a consolidação do nazi-fascismo. o proletariado urbano não seria senão “uma pequena mancha” 253 em um imenso oceano agrário . fruto da economia gerada por esse produto.

já que os trabalhadores eram continuadamente bombardeados por “novas idéias”. assim como a recorrência ao uso das imagens. Maria Silvia Carvalho. por traduzir a necessidade de levar em consideração essa classe e o seu peso político. anunciou-se a breve fundação da Sociedade de Estudos Político -SEP-. 255 CHAUI. na França”. Sentia- 254MUNAKATA. Mimeo. p 19. por De Maistre”. p 10. por De Bonald. Ideologia e mobilização CEDEC. Outros setores da sociedade também se sentiam insatisfeitos com os caminhos indicados pela mudança na reorganização da política-econômica e começaram a articular movimentos que procuravam responder as ansiedades surgidas pela 255 falta de projeto político das elites. a classe operária era incapaz de tomar decisões que influíssem na política nacional. preparada por Jackson de Figueiredo. Ele próprio estudara a fundo a “história da contra revolução. mas a possível mobilização de alguns já era temida pelas classes 254 conservadoras . FRANCO. fundado em 1922. Por ser desorganizada. Quando deu início a sua atividade intelectual no jornal católico “O Nordeste”. cuja reflexão era trazer à juventude a efervescência glamurosa do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado de História) Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. São Paulo. A questão operária passou a ser motivo de preocupação. 1978. tanto dos anarquistas. São Paulo: Editora Paz e Terra. de 23 de março de 1932. Sombra descreve o grupo: “Era um grupo de formação antiliberal. 1982. como dos militantes do Partido Comunista Brasileiro.145 de polícia”. fazendo-os acreditar que poderiam alcançar o que prometia.As primeiras atividades: uma das tendências da frente integralista. defendendo o catolicismo renovado sob a inspiração de filósofos franceses e caminhando para o Tradicionalismo Social. Marilena . Vital. tinha em mente trazer para sua terra natal o embasamento político-social adquirido no Cento D.Algumas Cenas Brasileiras. possibilitou a Severino Sombra provocar em seus legionados a crença de seus conhecimentos sociais e políticos. levando-os a questionar a situação nacional. pretendendo a renovação católica. O discurso ideológico da Legião. Kazumi. . no Ceará. Analisara o papel das sociedades secretas. 5. Em março de 1932. Em um artigo nesse jornal. tão influentes na deflagração da Revolução Francesa.

cit. além de preconizar a cogestão. Diante da expansão do movimento legionário no Ceará. boas intenções no agir e no aceno de reformas. discussões. Apud. do repouso dominical. este recusou o convite. Propunha um contrato coletivo.Juarez Távora. do limite de trabalho para menores e mulheres. Severino Sombra decidiu ampliá-lo para todo o Brasil. op. Vital. atuou como escritor em jornais. ele promoveu palestras. Numa briga entre soldados do quartel em que servia com soldados da policia civil. a obediência às oito horas de trabalho diário. RS . surgiria um novo país. que buscava “uma nova base para a renovação política brasileira”. mas faltava-lhes o realismo propiciado por uma ideologia bem urdida. Eduardo Gomes. foi preso. Por estar dirigindo o Centro D. desagradando o chefe da polícia local. ele agiu como determinava a lei. sem conflitos sociais e hierarquizado dentro da ordem e do progresso. Chegando em Passo Fundo. cujos ícones . Vassouras. ao mesmo tempo em que tomassem conhecimento das questões econômicas e se preparassem para ascender a pequenas propriedades através de cooperativas. Como esta era fruto de uma aliança liberal e ele combatia o liberalismo. que telegrafou ao governador e pediu sua transferência para o RS. a ponto de desagradar “alguns”.. Tinha como objetivo o reformismo para o Brasil. com a participação dos operários nos lucros da empresa. publicou panfletos. convidando Alceu de Amoroso Lima para isto. colocando em seu lugar a representação de classes em consonância com um Estado forte e centralizado.146 se revoltado com o contexto político brasileiro.apresentavam excelente conteúdo moral. mas sugeriu o nome do jornalista paulista 256 SOMBRA.Ms. cartilha que trazia as bases da LCT. com a fixação e o cumprimento de um salário vital. Nesse período. permitindo a estes a conscientização dos direitos e deveres materiais e morais. após muita reflexão. enfim. sem a qual não se 256 faria uma revolução. O que transformou seu ideal foi o episódio ocorrido no 8º 257 Regimento de Passo Fundo. entendeu que aquela era a hora de se fazer alguma coisa pelo país. Aderira à pregação de Jackson de Figueiredo. Severino Sombra. Não podia aceitar a doutrinação dos tenentes. 117. política e social. A LCT prometia educar os legionados. então dominante. . pretendendo ampliar o corporativismo nas bases de uma legislação social que abolisse o partidarismo. Sombra agitou a cidade pacata com a sua práxis causando tamanho reboliço. definindo-a como uma organização com finalidade econômica. Siqueira Campos . RJ. motivando a criação de “O Ideal Legionário”. Com o controle da economia e da política. 257 Quando chegou em Fortaleza imbuído do sentimento renovador católico. MONTENEGRO. a Revolução de 30 foi deflagrada.

" SOMBRA. mostrei o meu pensamento para muitos. em julho de 1932. nos moldes da sua é urgente e depende de você.Centro de Documentação e Informação Cientifica “Professor Casemiro Reis Filho” Cedik-PUC/SP 259 “Com essas idéias (expandir a LBT). em fins de1931. o encontro não se efetivou. que falava da necessidade de se reunirem com urgência. Memórias. venho ao Rio. .. que escrevia” Notas Políticas”no jornal “A Razão”. em São Paulo. convocou uma reunião em São Paulo.) Entendemo-nos Ficou resolvida a creação de uma SOCIEDADE DE ESTUDOS POLITICOS (S. com o estouro da Revolução Constitucionalista.articulava já a fundação de um movimento autoritário em nível nacional: a Ação Integralista Brasileira. Você sabe pelo que lhe disse dos responsáveis pelas conseqüências da desagregação que pode ressaltar.P. a 258 Quando a Legião estava para se expandir ao resto do país. se não fundirmos numa só. Vassouras-RJ.) Indicaram-me o escritor Plínio Salgado. (. Alguns dias antes da data marcada para a realização da reunião. corremos o risco de vermos dispersar-se em movimentos desconexos o maior movimento da mocidade brasileira de todos os tempos”. Plínio Salgado aceitou levar ao Sul do país a Legião 258 Trabalhista Brasileira . “Se essa reunião não se efectuar logo. Eu tive de assumir a chefia do movimento aqui. Mas. porém pediu um prazo para isto. Também a organização operária no sul. Severino. para que ele não fracassasse. Após entendimentos. porém. Fita nº 8. Olbiano de Melo queria padronizar as informações. alegando a 259 necessidade de criação de uma base ideológica .. de São Paulo(. de Minas Gerais. ao criar a Sociedade de Estudos Políticos(SEP).147 Plínio Salgado..E. e de que já havia entrado em contato com Olbiano de Melo. juntamente com outros intelectuais da direita – em sua maioria estudantes de Direito do Largo São Francisco .) para realização do movimento cultural que eu projetara.. que escrevia no jornal “A Razão”. Sombra muda seu nome para Legião Brasileira do Trabalho. Entrevista. para que fosse um dos participantes da grande missão de estender a Legião Brasileira do Trabalho ao Brasil inteiro. Severino Sombra. para haver uma absoluta unidade de idéias. Museu Severino Sombra. recebeu uma carta de Salgado. sentindo a demora de noticias por parte de Plínio Salgado.

1984. porém. permanecendo no exílio por um ano. Memórias. Um belo dia. . vejo em jornal chegado do Brasil. No mesmo ano. aceitou participar do Integralismo.” SOMBRA. ao juntar as fardas caqui da LCT com as verdes do Integralismo. se afastou do Integralismo. Vassouras. Desacreditado em São Paulo (. Museu SS – Vassouras-RJ.. em João Pessoa. Ao voltar para o Brasil. em Recife.. Severino Sombra não compareceu ao encontro. Lá. explorar na Bahia. acusado de articular forças nordestinas para auxiliar São Paulo contra o governo de Vargas. Ms SS. deixando o local.148 mentalidade do Norte e do Sul” (. de onde saíra com seus companheiros debaixo de vaias e insultos.. em Natal e em Fortaleza o idealismo da mocidade que 260 SOMBRA. Após acusar Plínio Salgado de ter plagiado suas obras. RJ. com ameaças contra os jovens militares que exerciam atividades políticas. soube da fundação da Ação Integralista e da filiação do seu movimento 261 legionário . Por coerência com seus pontos de vista integrou-se aos brasileiros que desejavam a paz. realizado no Teatro Municipal. que era proletária e sindical. De Lisboa Severino Sombra escreveu: Um belo dia. Ao perceber que a luta se arrastava e que no Rio de Janeiro era constante a ameaça de golpes. A Verdade Sobre a Ação Integralista Brasileira. Memórias. porém. onde estive durante todo o tempo de exílio. não recebi nenhuma noticia do senhor Plínio Salgado. A dolorosa guerra civil prolongou-se por mais de três meses impedindo a reunião de se efetivar.) planeja então. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários. vejo em jornal chegado do Brasil. contrariando sua idéia. Impedido pela Revolução. Foi mandado para Portugal. retornou ao Ceará a fim de apelar aos companheiros de militância na tentativa de arregimentar forças por um movimento pacificador.) Plínio 260 Salgado. realizado no Teatro Municipal. com seus companheiros debaixo de vaias e insultos. ele foi preso. p 6 261 “Em Lisboa. acabou por envolver a classe média. de ter apropriado e incorporado seu projeto. o seu grande golpe: ir ao Norte. ao perceber que Plínio Salgado havia dado uma roupagem mais urbana ao movimento e que.. porém. Severino. aproveitar o meu movimento. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários.

Quando lemos a introdução desta carta. em São Paulo”. o operariado. o Olbiano de Mello caminha vitorioso. op. o que ele estava desenvolvendo aqui. Paulista. Escrevi-lhe. a cousa vae indo muito bem. No Rio Grande do Sul estou começando. Sombra recebeu a seguinte carta de Plínio Salgado: Sombra. grande parte dos voluntários paulistas vieram comnosco. tem-se a impressão de que nunca foi interrompido o diálogo entre eles. . (Nota Oficial mandada 262 SOMBRA. Rio. Severino. que pedem. quando afirma que nunca havia recebido dele nenhuma carta. Tenho doutrinado. uma longa carta. Plínio Salgado continua a relatar. cit. Já tenho núcleos no Amazonas.149 eu chamara a luta e junto a qual fizera 262 propaganda em seu nome. conto já com o apoio dos“camisas verdes”em São Paulo. Em Minas Geraes. Pharmacia. Medicina. No Distrito Federal. Sorocabana e Nordeste. Vassouras. “Vou publicar uma revista Estudos Integralistas. Um delles foi meu candidato à Constituinte (cumpria justamente uma pena. além dos do Estados que citei acima. sem cessar. podendo vestir-lhes a “camisa verde”. RJ. Organizei núcleos integralistas na faculdade de Direito. da qual não tive resposta (Severino afirmou nunca ter recebido tal carta). conto já com o apoio dos ferroviários da Mogyana. Bahia e Recife. há tempos. Paulo. Paraíba e Goyaz. como participante e responsável por um dos movimentos mais liberais e plutocrata realizado no Brasil”. em São Paulo. Memórias.000 “camisas verdes”em São Paulo. Escola de Comercio e Gymnasio de S. Já alistei mais de 3. Ainda no exílio. como se fizesse uma prestação de contas. Pará. marcha victoriosamente. Venho hoje lhe contar que o movimento em que você me poz. fato que é negado por Sombra. Engenharia.

andava agora. Horacio Duarte. Ao tomar conhecimento de dissidência dele. crítica feroz ao antigo companheiro. Paulo sangrando de dor e viera ao Congresso Revolucionário do Rio. Helder Câmara afirmava que seu antes amigo feria agora os 263 Carta aberta à população do Rio Grande do Sul. Pedro Weinmann. até budhista 263 poderia ingressar. Em carta aberta a população do Rio Grande do Sul. Helder.A Dissidência de Severino Sombra. não foi somente Severino Sombra que se desligou da AIB. . dizia que nelle. 1958. p 74. Paulo!!!” 7. IV. falta de sinceridade no relato dos dados. porém sua dissidência foi vista por seus antigos companheiros como uma traição. já havia conhecido. assinada por Humberto Della Méa. In: Enciclopédia do Integralismo V. 264 CÂMARA. Rio de Janeiro: Editora Livraria Clássica Brasileira. que existia tal desorganização dentro da hierarquia. outros membros da AIB também o fizeram. Andrino Braga. Eduardo Martins Gonçalves. Alcino Trindade. Carta dirigida aos principais jornais do Rio Grande do Sul colocam os motivos que os levaram a tomarem tal atitude. Enumeraram que dentro das hostes integralistas havia: maçons. e onde. para demonstrar o christianismo do movimento. Sporleder. choramingando pedidos aos “amigos de S. desde os primeiros tempos um traidor em potencial: o Severino Sombra. que o movimento que se dizia cristão passava agora a ser somente “deista”. Leães Sobrinho. no qual tomara parte como representante desta Província. Helder Câmara escreveu no jornal “A Ação”. de 11 de fevereiro de 1934. “O Integralismo em face do Catolicismo”. Helio F. Onde dizia: “a relação do Integralismo com falsos católicos.150 publicar em Recife (Jornal Pequeno” de 22 de Março de 1934) Em desabafo. que causa ojeriza aos seus amigos de 264 ontem ”. aceitando até budistas: O Triunvirato Provincial procurando elucidar essa dúvida deu uma carta assinada pelo Dr. como o exemplo citado dos participantes do Sul do país. Como se pode observar. Severino SOMBRA. mais tarde Sombra diria numa entrevista gravada pertencente ao CEDIK: “Ah! O Sr Plínio que deixara S. em que elle fazia referências ao Congresso de Victória. Vassouras-RJ.

. 265 esperando ser condenado por elas o movimento.“Mais uma vez surgiram dúvidas sobre perigos de heresias na doutrina e prática integralista. a História como o pêndulo de um relógio. que o nacionalismo orgânico das pátrias totalitárias é o sentido novo do século. Por todas essas circunstâncias. que fora afilhado de Severino Sombra. Que todos os que se levantaram em pontos diversos do Brasil contra a doutrina do Sigma meditem no que lhes manda um sacerdote camisa-verde da província do Ceará. op. Isto deveria bastar para a Igreja. p. O que pretendemos é mostrar até que ponto "certas contingências" moldam o modo de ser e de pensar de alguns indivíduos. deste momento da historiografia. 266 PONTE. É com esse objetivo que nos lançamos 265 Ibid. A LCT sendo corporativa propunha a abolição das classes e imprimia a esse movimento a necessidade de um governo forte. visto que. Não foi objetivo desse artigo falar da biografia de Severino Sombra. cit.. Não aprende. Se compreendermos suas motivações e sua interpretação. 74. . ao que parece. talvez possamos encontrar alguma idéia para as soluções que nos apresentam o momento político atual. de logo se prestasse a focalizar todos os belos valores positivos que a nova idéia contém.151 sentimentos cristãos daqueles que de boa vontade ansiavam pelas reformas no meio trabalhista brasileiro.. Quais os nexos que levaram Severino Sombra a estruturar um ideal capaz de organizar um movimento que trazia em seu bojo a filosofia social-cristã. quando da sua ordenação sacerdotal não reconhecia mais o antigo amigo e reclamava deste ter enviado uma carta as Autoridades Eclesiásticas. têm tentado jogar uma contra a outra. bem intencionados uns mal intencionados outros. a LCT representou um momento importante na História dos movimentos de massa no 266 Brasil .” Suas queixas reportavam o desentendimento entre os participantes do Sigma liderados por Severino Sombra. p. estruturada nos moldes do período medieval. sempre se repete. que pregava o retorno à terra. que abria uma brecha nas fileiras integralistas: Católicos. a cidade de Deus e a cidade da terra. O Padre.. tomando sua posição providencial na caminhada humana. 374.

Com esse trabalho ele denunciava aos brasileiros o que ele considerava que estava por trás do “mal do mundo”. Antonio. a integrar as fileiras verdes. após a tradução que fez do “O Protocolo de Sião”. p. onde reúne uma série de conferencias datadas do mesmo ano. 267 RAGO FILHO. já com 44 anos. Empenhou-se no projeto de renovar a sociedade “da restauração do culto de seu glorioso 268 passado ”. Dissertação (Mestrado em História). 8. Das três vertentes sobre as quais se diz da formação do integralismo. as causas do depauperamento de nossa economia e encontra essa causa a partir dos primeiros empréstimos externos tomados a banqueiros judeus logo aos a Independência e que se desdobraram e assumiram uma nova forma de 269 colonização Acreditando nas igualdades humanas traçou analogias entre os cantadores sertanejos e os menestréis medievais. mas também pelas inúmeras atividades que desempenhou ao longo da vida. 1982. em 1914. Somente a partir de “O Integralismo em Marcha” que ele adotara suas ideologias anti-semitas. Gustavo Barroso não foi apenas conhecido pela ampla produção literária. Foi secretario do Estado do Interior e da Justiça. 8. 1989. Cearense. Gustavo Barroso. p. A Crítica Romântica à Miséria Brasileira de Gustavo Barroso. escritor. In : Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro. que ele entrará em contato com as idéias plínianas. . Foi advogado. Brasília: Editora Universidade de Brasília. iniciou cedo sua vida intelectual. no Ceará . 64. Leu pela primeira vez o Manifesto de Outubro de 1932. Departamento de PósGraduação em Historia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo São Paulo.O Integralismo: conclusões finais. 269 SOUZA. Quando lançou “Brasil – Colônia de Banqueiros” tenta demonstrar que a crise nacional é “produzida historicamente pelo capital inglês “mas precisamente por Rotschild. através da compreensão do passado buscarmos entender o nosso presente. jornalista. “O Integralismo”. 268Ibid. político. por um judeu que há um século subordina a economia brasileira ao interesses do 267 banqueirismo internacional e faz do governo uma marionete ”. Assim passa em 1933. 2-10. p. Francisco Martins. nascido em 29 de dezembro de 1888. em Fortaleza. Ao teorizar sobre a nova posição política procurou na análise histórico-economica. então presidente da Academia de Brasileira de Letras. Publicando a sua primeira obra integralista.152 nesta pesquisa.

op. 64. 64. 2005. Política e Sociedade da Pontifícia Universidade de São Paulo. Estado de São Paulo. que tomando a si a posição de vanguarda entre os jovens de sua época. Integralismo e Ação Católica: Sistematizando as Propostas Políticas e Educacionais de Plínio Salgado. cit. Foi o comandante-geral das milícias integralistas e respondia pela secretaria Nacional de Educação Moral e Cívica. Afastou-se do movimento após o golpe de 37. p.Aderiu a AIB em 1933. o segundo homem no integralismo. 56. Programa de Estudos de Pós-Graduados em Educação: História. em 1910. “Corporação e sindicato. 272 Ibid. p. Foi um dos responsáveis pelas “bandeiras” . portanto. uma proposta mais tecnicista. Foi. da Economia. além de ser membro do 270 Conselho Supremo .Para ele haveria uma possibilidade de aglutinar os interesses dos sindicatos e respectivas corporações. assumiu a tarefa de teorizar princípios desta filosofia política ligada ao processo revolucionário que se 271 desdobrava ”. Dissertação (Mestrado em Educação). aderiu ao integralismo em 1933. da Ciência Jurídica e finalmente ao nível da reflexão da filosofia política. à organização jurídico-política ordenamento de um Estado modernizador. dentro das nossas especificidades e. Reale toma o socialismo como um valor que se vinculará a toda a problemática brasileira. p. Formou com Barroso e Salgado o tripé da 270 SIMÔES. conceitos que para ele. Essa seria a base sobre a qual alicerçaria o arcabouço da unidade planejada para a 272 integração e respectivos ordenamentos” . professor do Largo São Francisco.Coube a ele dentro das fileiras do credo verde. Renata Duarte. . serão trabalhados ao nível da sociologia. Jackson de Figueiredo e Alceu do Amoroso Lima no Período de 1921 a 1945. após contato com as idéias integralistas vistas por ele naquele momento como capazes de dar uma resposta ao artificialismo em que estavam submetidas as intelectualidades brasileiras.. São Paulo. sem sombra de dúvidas.grupos de intelectuais que percorriam o país para divulgar e criar novos grupos.Ele inicia assim uma corrente visando mais o desenvolvimento social vinculado ao problema da liberdade “Essa corrente foi iniciada com a reflexão jurídico-poíitica. Já para Miguel Reale. Jurista famoso. não uma expressão mimética de fenômenos como o fascismo italiano e muito menos do nazismo. escritor. o integralismo era fruto de um amadurecimento analítico dos problemas que rondavam o nosso país. por discordar da aliança feita entre o integralismo com os liberais em 1938. 271 SOUZA. político.153 elegendo-se deputado Federal no ano seguinte. Ele nascido na mesma cidade de Plínio São Bento do Sapucaí.

1974. Quando a historiografia nacional questiona o Integralismo.Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937) Bauru. Hélgio. Apud. op. que defendia o trabalho e que não aceitava 274 a possibilidade deste ser tratado como mercadoria . vê o Integralismo como resposta ao capitalismo hipertardio.São Paulo. 1983. traz a afirmativa de que “a Legião Cearense do Trabalho teve uma grande repercussão política.). quando foi fundada. a compreensão da sua capacidade de influir nos vários segmentos da sociedade brasileira. negando sua identidade com o fascismo europeu. liderada pela interpretação chasiniana. mas.. forte. a ponto de ter precedido e reforçado a 273 convergência ideológica de direita que se manifestou nessa época” . Partindo do pressuposto que a crítica do Integralismo tem sucumbido “a explicação mimética. p. como foi o caso em nosso país. determinante. J. os trabalhadores deveriam ser isentos de culpa.” Uma outra corrente intelectual. Esta corrente “a analisar . Nos dois casos. Já. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. 276 CAVALARI.M. a Legião é a precursora da legislação trabalhista 275 no Brasil” . A LCT criou as bases do Integralismo e demonstrou que Plínio Salgado já tinha a pretensão de criar um Estado integral. a respeito ver: MELQUIOR. . 275 Embora Hélgio Trindade tenha afirmado isso. sujeito à lei de oferta e procura: “A influência da Carta Del Lavoro. TRINDADE. pelo contrário. O forte sentimento religioso e místico do nordestino.. fica evidente (. era emprestado da Legião criada por Sombra. SP : EDUSC. H. M. São Paulo: DIFEL. a partir da Carta Del Lavorno. Feiteiro. 114. além da natureza ideológica do movimento. R.F. o Integralismo seria uma ideologia reacionária e utópica.“uma forma de 277 regressão” no desenvolvimento do capitalismo nacional. sobre a biografia de Plínio Salgado desnecessário se faz discorrer sobre ela. até porque esses “sucessos da direita no Brasil’ só se deram em função das 273 TRINDADE.neste contexto. pois muitos já o fizeram. 115. não permitindo por parte dos trabalhadores. 26. em nossa leitura é bastante problemática a afirmação sobre a criação das leis trabalhistas no país. 274 SOMBRA. p. a fraca industrialização que ocorria nos Estados brasileiros que se situavam fora do eixo Rio. 257-354. cit. as condições históricas que permitiram o seu 276 nascimento. 277 CAVALARI. Este foi um movimento de expressão. em sua obra citada. p. p.. na página 115.154 base integralista. “Grandeza de Batle” In : O Argumento Liberal. R. 21. p. 1999. Integralismo : fascismo brasileiro na década de 30. G. “temente a Deus" e. mas o projeto político que a AIB ofereceu em 1932.

Embora tenha sido desqualificado pela 278 historiografia como mero fascismo caboclo . Nascido desse vazio político. São Paulo. que somente o Estado poderia "preencher". CAVALARI. p.155 contingências mostradas. op. Marilena.. pois foi uma resposta às transformações políticas. Os operários desorganizados. 9. fornecendo o espaço para a penetração de idéias totalitaristas. ajudado pelos militares. já que a classe média não dispunha de nenhum projeto social e político. o 279 Estado é o sujeito histórico do Brasil. na verdade o Integralismo não pode ser repudiado pela História. . FRANCO. São Paulo. cultural e religiosa ocorridas entre as duas guerras mundiais. p 19.cit. 279 CHAUÍ.  EMÍLIA CARNEVALI DA SILVA .Mestre em História Política. à falta de uma burguesia nacional plenamente constituída. econômica. Apud.21. cit. Silvia. M. op. 20 .. 2006. Pontifícia Universidade Católica. 278 TRINDADE. fizeram com que surgisse "um vazio de poder".

Nestes. Neste texto. Enfatizei a análise do jornal Acção. documento riquíssimo para a pesquisa histórica. “a escolha de um jornal como objeto de estudo justifica-se por entender-se a imprensa fundamentalmente como instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na 280 vida social”.ou sobre . Maria Lígia. as quais ocupavam espaços consideráveis em vários de seus jornais. verifiquei que nos livros doutrinários de autores integralistas (Plínio Salgado. por ser tendenciosa – seja a “grande imprensa”. 280 CAPELATO. No dizer de Maria Helena Capelato e Maria Lígia Prado. Miguel Reale. a imprensa é um vasto e diversificado depositário de informações. 19. dentre outros). Olbiano de Mello. Gustavo Barroso. no máximo. poderia ser encontrada. a de caráter partidário etc. uma temática sindical-corporativa. O Bravo Matutino – Imprensa e ideologia: o jornal O Estado de S. 1980. um discurso específico voltado para .156 8. esse caráter tendencioso pode elucidar muito mais a respeito da própria fonte do que sobre seu objeto de descrição. – não seria útil para a investigação historiográfica. que foi um dos principais periódicos integralistas do país na década de 1930. centrando-me nas questões sindicais e trabalhistas. Tal tema – a relação entre integralistas e trabalhadores – também tem sido pouco estudado. Como é sabido. p. Já há muito está superado o conceito de que a imprensa.os trabalhadores foi pouco comum. No que tange à questão operária. No que tange à imprensa partidária – ainda mais desprezada – esquece-se que ela pode ser uma fonte fundamental a respeito do partido ou ideologia dos quais determinado periódico é porta-voz. São Paulo: Alfa-Ômega. . pretendo fazer uma análise da trajetória da imprensa integralista na capital paulista. A IMPRENSA INTEGRALISTA DE SÃO PAULO E OS TRABALHADORES URBANOS (1932-1938) Renato Alencar Dotta De uma forma geral. Maria Helena & PRADO. Paulo. Esse artigo pretende ser uma contribuição para o conhecimento da imprensa integralista e do espaço reservado às questões sindicias e trabalhistas nessa mesma imprensa. Na imprensa integralista não foi diferente.

. 1999. Não encontrei listas de jornais simpatizantes.de Manaus a Porto Alegre . op. formando uma cadeia de jornais de nível nacional que foi batizada de “Sigma Jornaes Reunidos”. A “Sigma Jornaes Reunidos” chegou a ter 88 jornais (CAVALARI. op. e era o porta-voz do Departamento Universitário da AIB da Província de São Paulo. Estão excluídos.. havia até uma folha integralista em língua alemã em Novo Hamburgo (RS). além de alguns fatos políticos. faremos uma pequena retrospectiva da imprensa 283 do movimento publicada na capital paulista . Mercado Aberto. de Nelson Werneck Sodré. As revistas eram Anauê (sediada no Rio de Janeiro) e Panorama (com redação em São Paulo e sob a responsabilidade de Miguel Reale). p. um jornal diário ou semanário diretamente vinculado ao movimento. João R. o primeiro no Brasil) foi O Integralista. no auge do movimento. Integralismo e Política Regional – A Ação Integralista no Maranhão (1933-1937). História da Imprensa Brasileira. O Fascismo no Sul do Brasil. René. porém. TRINDADE. O segundo contingente ficava no Distrito Federal. 1966. não há textos sobre operários ou trabalho.78 %. chamada Der Kampf. V. 361-3 e CAVALARI. Entre seus artigos. e CALDEIRA. em 1939. 384.. que incluía ainda revistas de circulação nacional. Rosa M. Quanto aos jornais. O primeiro jornal da AIB publicado na cidade de São Paulo (aliás. Havia ainda jornais que não pertenciam ao movimento. mas que. 100. o estado de São Paulo tinha 476 472 trabalhadores na indústria. p. cit. Nelson Werneck. Anna Blume. Nos quatro exemplares encontrados. com 16. simpatizando abertamente com a causa integralista. 283 O único periódico integralista do qual encontramos referência na História da Imprensa Brasileira. S. foi A Offensiva. p. lançado em dezembro de 1932. SODRÉ..58). Os exemplares são de datas com 281 Detive-me nos jornais da capital paulista e que tinham alcance por todo o estado. v. ou 42. Civilização Brasileira. A imprensa do movimento integralista era bem abrangente. Alegre. cit. 1987. cit. Para uma ampla relação dos periódicos integralistas. nem é citado seu caráter partidário. mas há indicações valiosas sobre isso em GERTZ. Aliás.. de caráter abstrato. . cit. pois.157 que era. e que muito pouco poderia informar sobre a relação entre integralistas e trabalhadores. Rosa M. O foco sobre a imprensa integralista no estado de São Paulo – e não outro estado – se justifica porque o mesmo já possuía naquele 282 momento o maior contingente operário do Brasil.e cidades de interior dos estados possuíam. estão textos de interesse cultural e livresco. P. do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Antes de analisarmos o Acção. os jornais publicados no interior do estado.84 % de todo o país. 282 Como exemplo.. op. Paulo. um dos principais jornais integralistas do país. Várias capitais . publicavam artigos 281 de chefes e militantes. p. anexo II. CARONE. op.

os outros exemplares são: dois de 1935 e um de 1936). É a mocidade de uma Província humilhada por uma ditadura inepta que se ergue forte e luta! É Miragaia. por exemplo. em resposta aos exploradores do sangue ainda quente de uma mocidade generosa! É o batismo de fogo de uma geração. seu primeiro número possui oito páginas. não sendo possível precisar uma periodicidade (o número 1 é de dezembro de 1932. Sob a direção de Adelmo Sampaio. Martins. Os jovens. 284 Em 23 de maio de 1932. que veiculava os artigos de Plínio Salgado antes da criação da AIB. “O nosso aparecimento”.2. 285 BASTOS. Outro periódico integralista sediado em São Paulo chamava-se Variedades. Dráusio e Camargo foram mortos num protesto depois de atacarem. mais conhecidos pela sigla MMDC. Esse fato seria um dos estopins da chamada Revolução Constitucionalista.. 23/5/1935 (nº 1). O Aço Verde. isso já em 1935. Não existe. nenhum artigo referente à questão trabalhista. contudo.. p. O Aço Verde foi um periódico integralista publicado na cidade de São Paulo.) O Aço Verde aparece neste dia histórico de Piratininga gloriosa – para ser a grande Tribuna donde falarão os moços paulistas a palavra moça da 285 Revolução Integralista. . Curiosamente. tinha por subtítulo: “Gazeta Literária-Política-Noticiosa”. Apesar do título vago. Oswaldo. A data escolhida para o surgimento do jornal não foi casual: 23 de maio. Dirigido por Osvaldo Bastos. de caráter mais geral. juntamente com uma multidão a redação de um jornal favorável ao governo Vargas. a maior parte dos textos desse exemplar foi escrita por militantes da AIB e referentes ao integralismo. datado de outubro de 1933. os estudantes Miragaia. de periodicidade semanal. que despertou para glória da vida no lamaçal das trincheiras! (. nesse mesmo dia era empastelado por motivos semelhantes o jornal A Razão. efeméride já celebrada pela elite paulista como um símbolo de 284 resistência ao governo Vargas. sua irmã que veste uma camisa verde.158 espaços de tempo variáveis entre si. com a intenção de atingir um maior público. que cai sem vida! É mais tarde. do qual localizamos apenas o exemplar de número 4. foram considerados “mártires” pela elite paulista.

. Clemente. não há direitos nacionais. é patente.159 Embora não houvesse uma seção voltada ao operariado no semanário. que segue uma estrutura que será recorrente em outros artigos de jornal: critica-se o capitalismo e o liberalismo. o texto “Pão. Vimos na organização do diretório de Belo Horizonte. 8.. para os Sem Família. em nome da justiça de Deus. O Aço Verde. Sem Pátria. TERRA e LIBERDADE. O Aço Verde. por fim.) 286 FUNARI. que vinha arrebanhando um número crescente de militantes. 1. 287 “Pão. não há justiça. as notícias e textos doutrinários dirigidos aos trabalhadores eram freqüentes. (. diversos nomes de judeus. 23/5/1935 (nº 1). voltado para a Aliança Nacional Libertadora (ANL). Logo no primeiro número. Uma tônica do jornal será o anticomunismo.. desqualifica o mote da ANL ao mesmo tempo que exalta o da AIB (“Deus. o antisemitismo também aparece nas páginas do jornal: O consórcio entre o comunismo disfarçado da Aliança Nacional Libertadora e o Judaísmo Internacional. p. p. mostra-se que a “solução” seria o Estado forte corporativo representado pelo 286 integralismo. Terra e Liberdade”. depois a “ilusão” do comunismo e. 30/5/1935 (nº 2). à frente dos ‘aliancistas’ daquela Província. logo não há terra. Terra e Liberdade. logo não há pão. Terra e Liberdade”. Só o Integralismo dará PÃO. Assim. da 287 honra da Pátria e dos direitos da Família! Somado a esse anticomunismo. logo não há liberdade. Pátria e Família”): Operários! Vosso lugar é com os vossos companheiros que aos milhares já estão no Integralismo. Sem Deus. é publicado o artigo “O operariado em face do Integralismo”. Só o Integralismo dará Pão. não há dignidade humana. “O operariado em face do Integralismo”. inclusive no meio operário.

p. proprietário do Rink São Paulo. muito embora com um discurso calcado nos dogmas integralistas do anticomunismo e até no anti-semitismo. datado de 19 de outubro de 1935. já. é publicado. O Aço Verde. que os convoca a entrarem na AIB. nem instrução para teus filhos.000 camisas-verdes! 289 O jornal também não deixou de defender a política trabalhista da Itália fascista. 20/6/1935 (nº 5).. realizado em local cedido pelo judeu Saul Cag. nesse mesmo número. nem livros. em todas as cidades”: Lavrador humilde. p. Esse boletim era para ser reproduzido pelos núcleos integralistas do interior do estado e distribuídos “aos milhares. para ti e para teus filhos! Vem ajudar os teus companheiros! Entra. Não sabemos quando O Aço Verde deixa de circular. A. 8. O exemplar mais recente encontrado é o de nº 17. 289 “Aos trabalhadores rurais! Aos colonos! Aos sitiantes! Leiam com atenção!”. “Fascismo e trabalho”. teve entre os seus oradores os conhecidos hebreus.) Isso assim. Leunroth (sic) e Fúlvio Abramo. Henry Ford.. 8. O Aço Verde. Leon de Poncins. do povo alemão e dos 288 integralistas? À caça de adeptos e eleitores.”. p. para as fileiras dos 450. não é vida! Isso precisa acabar! Precisa raiar dias melhores. 288 “Aliança & Judaísmo S. nem crédito. um modelo de boletim para trabalhadores rurais. . vemos que o jornal integralista que antecede o Acção já procurava manter um diálogo com os trabalhadores. O Aço Verde. 6/7/1935 (nº 7). nem descanso na velhice (. que trabalha o dia inteiro e não tens conforto em casa. Através dessa rápida análise. E a estupidez burguesa ainda assim ficará pensando que o problema judaico é uma criação da fantasia dos Srs. como estás. 20/6/1935 (nº 5). César.160 O último comício anti-integralista. em texto que diz que aquele país era “uma imensa 290 oficina em que o trabalho se desenvolve num ritmo fecundo e feliz”. 290 RIVELLI. 8.

operários de diversos centros urbanos do estado de São Paulo poderiam tomar conhecimento dos pareceres 293 do jornal. existem notícias referentes às questões do trabalho. Vozes. por seus fins propagandísticos.”) e 12/11/1937. em geral ligada a anarquistas ou socialistas. além do texto principal. anúncios publicitários. Sobre essa tradição ver: FERREIRA. o Acção certamente era uma importante caixa de ressonância das idéias e ideais integralistas. não podemos esquecer que havia uma tradição de imprensa operária. chegado a 1 milhão 352 mil militantes inscritos. temos em fins de 1933: cerca de 20 mil inscritos. 22/10/1936. 1. já que tal página tende a ficar mais exposta que as outras. Assim. uma seção chamada “Syndicalismo” – depois “A Nota Syndical” . 34. mas de circulação nacional. quando a AIB sofre um grande impulso em termos de quantidade 291 de adeptos.161 Assim. 292 Ver Acção. Alguns meses depois. Petrópolis. entrevistas com pessoas do meio sindical. Ou seja. A Imprensa Operária no Brasil – 1880-1920. Rosa M. Maria Nazareth. já que o jornal chegou a uma circulação de 78 mil exemplares em nível 292 estadual .que vai marcar presença no jornal até praticamente a extinção da AIB como partido político em dezembro de 1937. com redação no Rio de Janeiro. Para se ter uma idéia da importância da questão do trabalhador no movimento integralista. possuía uma “Página Syndical”. há indicação de que Acção circula em “mais de 400 municípios e distritos brasileiros.3. temos apenas os computados pelos próprios integralistas. 1935. Esta – nem sempre assinada – variou de formato através do tempo.” 293 Apesar de o analfabetismo ser alto neste momento (sendo que provavelmente. 1978. 180 mil. o número teria saltado para 918 mil. CAVALARI. A seção sindical circulava diariamente. p. Entre os militantes. por exemplo. a coluna fica restrita àquele texto principal e o noticiário referente ao trabalhador invade outras páginas do jornal. à exceção da capa). que devem ser examinados com cuidado. . muitos dos não-alfabetizados eram trabalhadores de baixa renda). Em 8/5/1937. p. vemos que era comum os jornais integralistas fazerem referências a operários e trabalhadores em geral. cit.. em tese. 291 A Offensiva. havia convocações sindicais profissionais. houve desde o primeiro número do Acção.. sobretudo a última (posição estratégica. sobretudo a partir de 1935. p. De início. em 1936. 4. p. 380 mil. p. Quanto ao número de filiados da AIB. Além da seção sindical. V. Cavalari colhe esses dados do jornal Monitor Integralista de 7/10/1936. em 1934. mas podemos crer que ressoava para além da esfera das fileiras verdes. 6 (“Não há município de São Paulo que não receba este jornal. e até julho de 1937. op.

Esse plano foi utilizado como pretexto para o golpe de novembro de 1937. de nível nacional. cobre ainda um período particularmente dinâmico do movimento: desde 1935 há 294 uma tendência crescente da militância . a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República. O jornal deixa de existir a menos de um mês antes da “Intentona Integralista” de 11 de maio de 1938. capitalizando o clima de anticomunismo existente no país: elegeu 24 prefeitos e mais de quinhentos vereadores em Santa Catarina.. Israel e ABREU. Entre os líderes da conspiração estavam Belmiro Valverde. ambos no Rio de Janeiro. Contudo. órgão da AIB na capital paulista. O diário Acção. por fim. Sobre esse episódio. e o Ten. totalizando cerca de 250 mil votos.” BELLOCH. quarto aniversário de fundação da Ação Integralista.. 296 Nesse período. e o Ministério da Marinha. teve seu primeiro número lançado em 7 de outubro de 1936. cit. A primeira sede da redação do jornal localizava-se na Rua do Carmo. quando foram atacados o Palácio Guanabara. Alzira Alves de (orgs. p.) op. entre os líderes). a AIB conseguiu uma importante vitória. op. 37-57. vol. 3. não-integralistas). 1º andar. e a AIB passa a se chamar 296 Associação Brasileira de Cultura (ABC). S. HILTON. Além disso.não só de integralistas. analisado nas páginas do Acção. já citadas. Ceará. antes do golpe do Estado Novo. SILVA. Severo Fournier (estes últimos. porém com a prescrição do termo “integralismo”. a AIB deixa de existir como partido político. Otávio Mangabeira e o Cel.. em maio de 1937. mas também de grupos liberais (dela participaram representantes da família Mesquita. sem opções. e. no Rio. cit. pp. Alagoas. v. o ponto culminante dessa aproximação/colaboração foi a confecção do chamado “Plano Cohen” –suposto plano de subversão comunista – por um integralista. Esta consistiu de uma revolta que exprimia a insatisfação . Stanley. Suas ações restringiram-se basicamente ao dia 11 de maio de 1938. Castro Jr. Olímpio Mourão Filho. 295 Entre os principais fatos que apontam uma crescente aproximação entre a AIB e o governo federal estão a suspensão da perseguição e a libertação dos integralistas presos na Bahia. op. o Gen. 3056 (verbete “Plínio Salgado”). cit. depois (a partir do dia 294 Além das estatísticas referentes ao número de adeptos. 17. no 295 final do mesmo ano há a aproximação com o governo de Vargas e a cancelamento das eleições presidenciais de 1938. A grande maioria de soldados e marinheiros envolvidos (além de alguns civis) era formada por integralistas. há um Congresso Operário Integralista. o cap. o Acção vai oficialmente apoiar o Estado Novo. ordens expedidas pelo Tribunal de Segurança Nacional. Euclides Figueiredo. . Hélio. a imprensa integralista mostra apoio a iniciativas governamentais. um indicador mais confiável são os números referentes às eleições de 1936: “Nas eleições municipais realizadas em alguns estados nesse mesmo mês [março 1936]. residência oficial do presidente Vargas e sua família.em dezembro de 1936.162 Tal momento. O diário continua circulando ditadura Vargas adentro. quando. Paulo.

ser lido em outros estados. pois aproximavam-se as eleições presidenciais de 1938. depois diário e matutino. Inicialmente semanal. se possível. chamada Sigma Jornaes Reunidos. os camisas-verdes tiveram importantes vitórias nas eleições de 1936 em diversos estados. A Rua Irmã Simpliciana. . sem dúvida. no 297 centro de São Paulo . criada em 1935 e subordinada à Secretaria Nacional de Propaganda. O vereador da capital era José Cyrillo Jr. na qual Plínio Salgado sairia candidato. Bento Fontão Lippel. é uma pequena rua no lado norte da Praça da Sé. já durante a vigência do Estado Novo. naturalmente. Com exceção das segundas-feiras. Dirigido por seu fundador. 299 Os candidatos a prefeito do Sigma venceram em Presidente Prudente e Cravinhos. pois além da crescente militância. Pretendia ser um jornal de circulação estadual (ou “provincial”. sobretudo após a tentativa fracassada de tomada do poder conhecida como Intentona Comunista (o sentimento anticomunista era muito explorado pelos integralistas). 1. 297 “Jornal ‘Acção’ ” (anúncio). unificou-se todos os periódicos da AIB numa rede. sendo. 298 CAVALARI. o Acção por vezes reproduzia 300 matérias) .163 3/8/1937). com oficinas próprias. chegando a eleger no estado de São Paulo. da AIB em São Paulo. tinha como chefe de redação Madeira de Freitas. op. 300 Principal jornal da AIB. com redação no Rio de Janeiro. Aquele. na Rua Irmã Simpliciana. Acção. 1. dois prefeitos e vários 299 vereadores incluindo um na capital. o maior investimento. ligando esta à Rua Venceslau Brás. era ferroviário. circulou ininterruptamente até 23 de abril de 1938. Acção.. Para um melhor controle. em termos de imprensa. Acção foi. Os jornais integralistas tinham como razão mesma de sua existência. provavelmente. tendo se tornado um dos mais importantes veículos publicitários do partido. Não é à toa que ele surge exatamente em 1936. A Offensiva foi fundado por Plínio Salgado a 17/5/1934 e extinto em março de 1938. a divulgação da doutrina partidária. tinha circulação nacional. Rosa M. A Offensiva (do qual. Este foi considerado o “Ano Verde”. era parte 298 deste “consórcio jornalístico”. o periódico integralista de maior longevidade nos anos 30. por sinal. p. O prefeito de Cravinhos foi Pedro de Gasperi. 9/10/1936. p. provavelmente a seção paulista da AIB possuía dinheiro em caixa para financiar um jornal diário mais ou menos nos moldes do vespertino integralista carioca. nos termos integralistas) e. hoje. O diário Acção. cit. p. n º 17-A. Por tudo isso. 3/8/1937. 84. Vislumbravam a hipótese que parecia cada vez mais palpável de chegar ao poder.

e Paulo Paulista de Ulhoa Cintra como “secretário” da folha. mas não teve papel de destaque na AIB. era “membro destacado da JOC (Juventude Operária Católica)”. Cintra era também chefe municipal da AIB em São Bernardo. FARIAS. Entre seus colaboradores estavam Miguel Reale. op. . cit. Edições GRD. p. trabalharia como redatorchefe do grupo jornalístico Folhas da capital paulista.. v. Memórias. São Paulo: Hucitec. Advogado e jornalista. p. cit. Hélio Viana. v.. Adeus! – Desafios de uma vida (memórias). Nos anos 40. três 302 meses depois). denunciava tanto a Thiers Martins Moreira na secretaria e Santos Maia na gerência. Tosco como um moirão mal lavrado e à pressa fincado na terra para servir de marco militar. 187. “Acção foi um vespertino vibrátil e até mesmo agressivo. tornando-se 301 depois membro da Câmara dos Quatrocentos . 301 A Câmara dos Quatrocentos. São Paulo.. município localizado na região de Barretos (SP). 304 REALE. Ernani Silva Bruno. Damião Duque de. Reale lembra da criação do jornal praticamente como uma iniciativa pessoal. TRINDADE. Volume 1: Destinos Cruzados. passou a pertencer ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). 2425. 305 Ibid. Vitale foi militante na AIB. Segundo Damião Duque de Farias.. 1986. 3518-9.. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1936.. aos quais 305 manifestou seu propósito de fundar um diário em São Paulo. Adeus. Segundo o ex-teórico integralista. juntamente com alguns amigos próximos. É interessante acompanhar as lembranças de Miguel Reale. Alzira Alves de (orgs. 1998. Saraiva. pp. o Acção teve como diretor e editor Miguel Reale. João. em suas Memórias. VITALE. Miguel. pp. órgão consultivo da AIB. Advogado. 3 (verbete “A Ofensiva”). cit. Alzira Alves. Israel e ABREU. 110-111. 101. Mário Mazzei Guimarães (advogado) e 303 Benedito Vaz eram os redatores principais das notícias. e no ano seguinte elegeu-se deputado federal pelo seu estado natal na mesma legenda.164 Durante toda sua existência. no núcleo de Barretos. uma das poucas fontes de informação sobre o 304 Acção. Já a gerência passou pelas mãos de Eduardo Graziano (médico) até 14/1/1938. Olbiano de Mello e Oliveira Viana. Mico. Além destes. p. pp. p. formada em junho de 1937 era “composta de militantes de diversas províncias integralistas”.. 175. 302 Mário Mazzei Guimarães foi chefe municipal da AIB em Colina. Integralismo – O fascismo. que escrevia com freqüência no jornal. A partir de 1965. Hélgio.) op. São Paulo. 110-117. BELLOCH. Gustavo Barroso. depois do Estado Novo entrou no Partido Social Democrático (PSD) em 1949. op. Luis da Câmara Cascudo. BELLOCH. 303 Benedito Vaz nasceu em Ipameri (GO) em 28/8/1913. V. e José Ribeiro de Barros (desta última data até a extinção do periódico. Israel e ABREU. Em Defesa da Ordem – Aspectos da práxis conservadora católica no meio operário em São Paulo (1930-1945). 1996. 4 (verbete “Benedito Vaz”).

A partir do dia 28 de setembro até sua dissolução. 310 REALE. “os jornais do interior. contudo. sobretudo de líderes integralistas. 307 Acção. op. aqueles que chegavam até o militante mais distante. p. Assim como os demais jornais integralistas sediados em capitais. fins doutrinários. op. o jornal foi alvo de censura. o jornal 308 passa de vespertino para matutino . p. M. editados nos grandes centros onde se concentrava a elite dirigente do Movimento”. do então candidato às frustradas eleições presidenciais de 1938. de acordo com Reale.165 pobreza dos recursos como a inexperiência dos ‘focas’ que o 306 redigiam”. Tendo atingido uma tiragem declarada de 78 mil 307 exemplares . cit. 79. O jornal muitas vezes era impedido de fazer críticas ao Partido Constitucionalista (PC). Ao mesmo tempo. e às vezes até fora do estado. com um censor como cérbero a 306 Ibid. 113. cit. p. p. CAVALARI. id. Segundo Cavalari. 115. o jornal se pretendia de circulação estadual. 308 “Nova fase”. Armando de Salles Oliveira.. mais exatamente 49 centímetros de altura por 33 de largura. as imagens da folha eram basicamente fotos personalistas. partido do governo estadual “se valia ilicitamente das leis de exceção (baixadas pelo Governo Federal para combater o comunismo) a fim de nos impor uma rígida censura. Mas. eram organizados de modo a reproduzir os jornais maiores. e eventualmente. ou seja. pois tudo isso era veiculado de uma maneira a direcionar o pensamento do leitor e/ou militante. p. Tal esforço visava.. desde o problema da dívida externa às causas determinantes da persistente crise agrícola e 310 industrial” . em seu primeiro ano de existência (isto é. fotos de reuniões do movimento (em sua maioria com os militantes fazendo a saudação com o braço e 309 ostentando o sigma e bandeiras). Miguel Reale afirma que. do número 1 até 27/9/1937). o Acção passa a ter um formato mais próximo do “tablóide”. Contudo. p. 1. 3. 28/9/1937. CAVALARI. Rosa M. cartuns . mesmo antes do Estado Novo. o jornal não pretendia ser apenas um repetidor do que se lia nos livros e panfletos integralistas.. era próximo do formato que hoje chamamos de “standard”. 309 Cf. 90. “era preocupação diuturna dos colaboradores a análise da conjuntura social e econômica do País. Rosa M. Seu formato. 60 centímetros de altura por 48 de largura. 12/11/1937.. Acção. O PC. .

período que a autora identificou como sendo de “um revigoramento do anti-semitismo político e xenófobo nos bastidores do 315 governo Vargas”. os integralistas tiveram um papel importante nesta difusão do pensamento anti-semita no Brasil dos anos 30: “o maior número de obras anti-semitas publicadas durante a era Vargas é de autoria de integralistas”. 314 Id. 1995. 403-417. É curioso que Reale enfatize a censura armandista. p. 393. . situando a imprensa como importante divulgadora do preconceito contra os judeus nesse momento histórico. mas não dedique nem uma linha à censura do Estado Novo. Brasiliense. ao preço de duzentos réis. 315 Ibid. pp. a cujo critério palmar éramos obrigados a submeter não só 311 os artigos como todo o noticiário!” O financiamento do Acção era feito através da compra em bancas. conforme veremos adiante. além de assinaturas e publicidade em suas páginas. 313 Segundo Tucci Carneiro. Segundo Reale. 311 Ibid. mas vedava todas em relação ao candidato da oligarquia paulista Salles Oliveira. muito mais intensa. privilegia a análise de dois diários: O Estado de S.. Tucci Carneiro. ramerrão comum naquele período em diversos setores na sociedade brasileira. tema central desta sua tese de 313 doutoramento. apesar de existentes desde o início da circulação do jornal. 417. p. a autora aponta que o periódico “expressou. serão realmente significativas depois do golpe de Estado de 1937. O anti-semitismo na Era Vargas (19301945) – Fantasmas de uma geração. 312 CARNEIRO. a censura do Partido Constitucionalista permitia toda e qualquer crítica ao candidato oficial às eleições presidenciais de 1938 José Américo de Almeida. op. Paulo e Acção. Destacando reportagens.. frases e títulos de notícias referentes aos judeus (ou não necessariamente concernentes a eles) publicados no Acção.166 domicílio. 353. através do noticiário nacional e internacional. São Paulo. um delineado posicionamento anti-semita”. Maria Luiza Tucci. edição. tendência difundida 314 entre vários setores do movimento integralista. A única análise de caráter histórico realizada sobre este jornal é de autoria de Maria Luiza Tucci Carneiro em seu livro O 312 Anti-semitismo na Era Vargas (1930-1945) . Qualificando-o de “mensageiro anti-semita”. nas linhas e entrelinhas de seu texto. 2a. Tucci Carneiro analisa o linguajar antijudaico do diário. De acordo com a pesquisa de Tucci Carneiro.. p. cit. as afirmações de anti-semitismo.

Podemos dividir o material sindical do Acção em três períodos diferentes: de 7 de outubro de 1936 a 12 de março de 1937 foi o momento de circulação da seção “Syndicalismo”. 114. O Manual Geral de Redação da Folha de São Paulo. Miguel Reale . op. antes. por ser formada por vários textos.” Optei por não chamar as partes sindicais do jornal de “coluna”. 1987. ao contrário de “A Nota Syndical”. edição revista e ampliada. diz que coluna “tem dois sentidos: ou é o espaço usualmente reservado a um colunista ou cada uma das faixas verticais em que as 318 páginas são divididas” . as atividades e as reivindicações das ações profissionais. do diário A Razão. Alfredo Egídio foi editor. 2891-2. anunciando as reuniões. conforme já dito. privilegiei. I. analisar suas seções sindicais. Manual Geral de Redação. e ABREU. (orgs. Neste último período verifica-se que não há mais nenhuma seção sindical. de fundar a AIB. no qual ela relaciona brevemente as principais características do diário.167 Além deste estudo. v. “Ação”. e dessa edição. não é tecnicamente uma coluna. até 23 de abril de 1938. e ABREU. (orgs. In: BELLOCH. São Paulo. op. o primeiro jornal do Brasil a dedicar toda uma secção especial ao movimento sindical. in BELLOCH. 317 REALE. p. . além do noticiário referente ao trabalhador. PAULO. Apenas nos permitimos reafirmar que Miguel Reale foi sozinho o diretor do Acção. 2a. 4. ao lado de Reale . A. cit. sempre precedidas de um tópico ilustrativo de um 317 papel do sindicato no mundo contemporâneo. quando a seção sindical passa a se chamar “A Nota Syndical”.) op. M. etapa correspondente ao momento que vai da proibição dos partidos políticos até a extinção do jornal. é provável que o Acção tenha sido. cit. cit.. sim. I. por um motivo muito simples: “Syndicalismo”. “talvez. Amélia.) op. 114. A. por exemplo. v. Dentro do jornal. M. no qual Plínio Salgado escrevia em 1931-2. a AIB deixa de 316 COHN. 319 REALE. 319 conforme sugestão do editor do diário. 10. 1. sim) optamos classificar conjuntamente “Syndicalismo” e “A Nota Syndical” como seções. desta última data até 2 de dezembro de 1937. pp. Como o caso de “Syndicalismo” não é nenhum desses (apesar de “A Nota Syndical”. assinado por Amélia Cohn. p. a saber “Syndicalismo” e “A Nota Syndical”. A (São Paulo)”.. e muda sua configuração... p. ao contrário do apontado no verbete que afirma que teria sido Alfredo Egídio de 316 Souza Aranha. Sobre esse jornal ver verbete “Razão. 318 FOLHA DE S. há apenas um verbete no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. cit. bem como os principais momentos de sua trajetória. Segundo Miguel Reale recorda em suas Memórias. portanto.

2. Proibiu a publicação de meu nome muitas vezes ou em tipo que ultrapassasse o tamanho indicado.. os sindicatos em outros países (sobretudo onde havia regimes autoritários. porém. ela não era composta por apenas um texto. na página 4. integralista. as menções a termos integralistas vão diminuindo conforme passam os dias.2 . começaram a me atacar. Alguns diretores de jornais me informavam que recebiam ordens diretas de autoridades de abrir fogo contra nós. a 7 de outubro de 1936. relatando um episódio ocorrido na Itália fascista referente à expulsão de um empresário da Confederação das Indústrias local por ter agredido fisicamente um 320 Trecho de carta de Plínio Salgado a Getúlio Vargas. cit. p. mas. (. ou seja. Diária. De fato. No primeiro número do jornal. havia um texto doutrinário. Podemos confirmar esta reclamação de Salgado. .”. que muitas vezes não eram respeitados pelos patrões. op. proibiu que se usassem as palavras integralismo. indicando o que era o sindicato para o integralismo. havendo censura oficial. se consolidou apenas a partir do número 4 (10/10/1936). a ridicularizar o movimento integralista. por vários textos. havia anúncios de reuniões sindicais e dos Grupos Profissionais integralistas e balanços de reuniões já acontecidas.. 375. havia apenas um texto principal.1 – “Syndicalismo” Essa seção surgiu logo na primeira edição do jornal. durando até março de 1937. ao observarmos as páginas do Acção. Além disso.. chamado “Se aqui fosse assim. Hélio.. grifo meu).” (Apud SILVA.168 existir legalmente enquanto partido político e nem sequer o termo “integralismo” e derivados podem ser mencionados nas páginas do 320 jornal . Outra espécie de texto muito recorrente era o texto reivindicatório. proibiu elogios até literários sobre livros de minha autoria. Esse formato. assim como a morosidade da justiça em punir os violadores das leis. até desaparecerem. em 28/1/1938: “Logo [depois do golpe de 10 de novembro de 1937] os jornais. As profissões mais citadas no período estudado foram os bancários e os ferroviários. quais as vantagens que o operário integralista teria com a ascensão da AIB ao poder. história do sindicalismo. na maioria das vezes. etc. Em geral.) A censura de imprensa começou a dar ordens que mais parecem de inimigos de V. 1. como Itália e Portugal) e temas correlatos.As seções sindicais e o noticiário referente ao trabalho 1. Exa. integral.. de reclamações do trabalhador em relação aos direitos adquiridos da legislação trabalhista então em voga.

7/10/1936. notas a respeito 321 de sindicatos e associações diversas. em detrimento de estrangeiros. 323 “O decreto N º 20. e apenas uma sobre um sindicato propriamente dito: “Sindicato dos Proprietários de Açougue”. Ao lado desse texto. além do texto histórico e doutrinário (“Evolução do Sindicato”. o tom dessa notícia é claramente voltado para os 323 empresários. M. Acção. fase – 1931/1937). 325 “Syndicalismo”. p. Memórias. que eram usados “quando se queria fixar determinadas idéias” tidas como essência do pensamento 324 a ser transmitido . diversas edições. Aliás.291 que estabeleceu o mínimo de 2/3 de empregados brasileiros nas empresas vai ser cumprido – O Departamento Nacional do Trabalho fixa o prazo para entrega das relações dos empregados”. M. Livraria H. aliás. 4. Vejamos alguns: “Sociedade de Medicina Legal e Criminologia”. 115. “Nem sempre os atribulados empenhos partidários me deixavam lazer bastante para escrever o artigo de fundo do jornal. 321 Algumas muito estranhas. cit.. 322 REALE. pp. não se repete posteriormente. 2. Antunes. 1983 (Cadernos da UnB). número 2. p. o de divulgar notas sobre organizações não necessariamente sindicais. “Federação Paulista das Sociedades de Rádio”. página 2. “Perspectivas Integralistas”. 324 CAVALARI. p. não creditado.. escolhendo sempre tópicos que focalizavam a posição do Integralismo perante o Fascismo europeu ou tratavam da questão social ou problemas econômicos. 99. Rosa. 1936). “Clube Zoológico do Brasil”.” REALE. Algumas vezes havia fotografias e. edição. Brasília. 8/10/1936. cit. op. sendo obrigado a transcrever trechos de meus livros. Salário justo e Educação. 322 Perspectivas Integralistas ). Na edição do dia 8 de outubro. Rio de Janeiro. Tal fato. que obrigava a todas as empresas a terem um mínimo de dois terços de empregados brasileiros em seus quadros. p. havia uma notícia referente à lei dos dois terços. mas assemelha-se a um resumo de trecho de livro de Reale. pois várias delas não tem qualquer vínculo com o mundo sindical. in: Obras Políticas (1a. Acção. Editora Universidade de Brasília. durante certo tempo a seção possuía inserções ou lembretes. 15-67 (1a. Há uma nota sobre associação não necessariamente operária. . ladeando o título da seção sindical estavam as frases: Trabalhadores do Brasil – Uni-vos contra o Capitalismo e o Comunismo O Integralismo dará aos trabalhadores 325 Trabalho. Acção.169 operário que trabalhava para ele. op. Assim. “Associação dos Proprietários de Imóveis”.

Devemos reparar no caso acima que.170 Além disso. 30/10/1936. normalmente. Os avisos dos 326 Esses três últimos exemplos foram extraídos de “Syndicalismo”. Rosa. cit. disposta em formato vertical. na maioria das vezes. 328 Isto é. encontramos frases como: O Integralismo é uma Revolução Sindicalista O ‘CAMISA-VERDE’ que não estiver inscrito em seu sindicato não está cumprindo seu dever. Levantei esta hipótese . não era assinada. A seção. voltado para o trabalho ou o sindicato. e sua última aparição se deu em 6/11/1937. em substituição à seção “Syndicalismo”. ou ainda Ormelin (não identificado). referente à história das organizações sindicais e do corporativismo. em várias edições os lembretes permeavam os textos diversos da seção. Quando o era. Acção. depois de estar ausente em várias edições (a imediatamente anterior havia aparecido em 30/10). nos dois últimos exemplos. O texto que compunha a seção era normalmente histórico e/ou 328 doutrinário ou comentava algum fato político que acontecia no momento. era composta por um texto. subscrevia-a B. 4. Ela surgiu em 12/3/1937.. Esses lembretes não precisavam ser necessariamente referentes às atividades sindicais. 329 É possível que Ormelin seja o chefe do Grupo Profissional dos Farmacêuticos (integralista). 1.I. Secretário Provincial das Corporações e Serviços 329 Eleitorais). também. p. (Benedito Vaz. tais textos não deixam de ser. Orestes Medeiros Pullin. doutrinários.2. 99101. Obviamente. inserindo o integralismo como o mais novo capítulo desta trajetória.2 . mas também ao funcionamento da AIB de uma forma geral: A TAXA DO SIGMA é a única arma de que 326 dispõe a A.B. e por algum anúncio de reunião sindical.V. op. 327 A técnica dos lembretes é estudada por CAVALARI. o uso das maiúsculas para enfatizar o objeto central da 327 mensagem. pp.“A Nota Syndical” Esta seção. Assim.

todos os partidos políticos são extintos. A seção. 28/11/1936.O noticiário referente ao trabalho: do golpe do Estado Novo até a extinção do jornal. a partir da eleição de Salgado . ao mesmo tempo em que dava loas ao advento do Estado 331 Integral.171 sindicatos referentes às reuniões (convocações. Depois do golpe do Estado Novo (10/11/1937). 331 V. assim. nota-se que a “Nota” vai se tornando um espaço em que se tenta convencer o trabalhador a não votar nos outros dois candidatos: Armando de Sales Oliveira e José Américo de Almeida. estão postas lado a lado fotos oficiais de Plínio Salgado e Getúlio Vargas. p. As convocações dos Grupos de Trabalho integralistas passaram a ser na seção “Movimento Integralista”. por exemplo. Antonio de Azevedo. “Vésperas de Eleições – Recomeçaram as promessas”. 1o/10/1937. 19/1/1937. Acção. a Associação Brasileira de observando as letras iniciais e finais do nome de Pullin. a situação dos integralistas é complexa. e que normalmente relatava as atividades dos núcleos integralistas do estado. e também era diária. 2. O título estava em letras garrafais e na parte superior da página. sendo que alguns acontecimentos tidos como mais importantes como greves. 1/6/1937. na qual. ocupava grande parte da página. 4. As notícias relativas ao trabalhador se espalharam pelo jornal. que se faça uma ressalva: a partir de maio. ex. 332 Ver a edição de 11/11/1937. p. não era assinada. 2. Em seu primeiro mês. 330 Por exemplo. passa a haver a seção “À Margem da Vida Brasileira”. em primeira página. p. p. A 2/12/1937. 16: “1500 tecelões em greve” sobre reivindicações na Fábrica de Tecidos Jafet. com os preparativos para o plebiscito interno da AIB que vai escolher Plínio Salgado como candidato da agremiação para as eleições presidenciais de 1938. Acção. inclusive sobre o trabalho. incluindo a AIB. 1. É importante. por sua visibilidade privilegiada) . Na página 4. porém. . BRANDÃO. que somente poderia subsistir desde que mudasse de identidade e renunciasse à ação política. Os integralistas criam.3 . p. com textos diversos que comentam a situação política e social no país. por exemplo) foram muito reduzidos. passaram a ter manchete de última página (local 330 de destaque no corpo do jornal. muito embora a AIB e o próprio jornal tenham 332 declarado apoio à nova ordem política . in: “A Nota Synidcal”. também diária. o novo regime é apoiado pelas lideranças camisas-verdes.

contudo. como o Acção . a saudação “anauê”. Em Barra Mansa. que agradeceu a 334 gentileza. entre outros motivos. ontem. O Diario do Nordeste. Vejamos esta nota. provavelmente um recado sutil aos leitores: Departamento da Censura O Departamento da Censura teve a gentileza. Esta harmonia que o jornal tenta passar. de transmitir à ‘Acção’. 27. há um cerrado tiroteio entre a polícia e integralistas em Campo Grande. 334 “Departamento de Censura”. Acção. vários integralistas são acusados de distribuição de boletins contrários ao Estado Novo e indiciados ao Tribunal de Segurança Nacional. e 335 segundo. Paulo Paulista. 333 Além do Acção. op. o diário carioca A Offensiva. sendo diversas armas apreendidas e presas 24 pessoas. 1/1/1938. também no Rio. em 23 de fevereiro. seus agradecimentos pelas deferências recebidas e fazendo votos de felicidades para o corrente ano. p. 335 Hélio Silva faz um apanhado dos acontecimentos: desde o fechamento da AIB. A ação da censura se faz sentir. É importante lembrar de duas coisas: primeiro. nosso secretário. como a camisa-verde. 3. cit. pregados durante toda a existência da AIB. após o 10 de novembro. o sigma. suas sedes invadidas e fechadas pela polícia. . H. a qual persiste 333 em alguns casos.. as bandeiras. armas e documentos são confiscados. também integralista. a Carta de 1937 defende postulados corporativistas e antiliberais. e nem mesmos os termos “integralismo” ou “integralista” podem ser veiculados em sua imprensa. militantes integralistas são detidos e presos. é apenas aparente. e os rebeldes à nova ordem. uma semana depois. e a todo o pessoal redatorial e das oficinas. que ora se inicia. no estado do Rio. A comunicação foi recebida pelo Dr.172 Cultura (ABC) e não podem mais ostentar sua simbologia característica. continua sendo publicado até meados de março de 1938. os integralistas se dividem em dois grupos: aqueles que aceitam a nova situação política. tem seu fechamento decretado pela polícia a 21 do mesmo mês (SILVA. no dia 10 de janeiro de 1938. de circulação nacional. p. a perseguição que a polícia pratica contra esses rebeldes. retribuindo as felicitações. um grupo de integralistas é preso por ter saudado o delegado local com um “anauê”. já que.). de Recife.

“Obediência à lei” foi a manchete do Acção a 28/12/1937. obviamente. respectivamente pp. Bauru. 28/12/1937. que teriam sido distribuídos por militantes 336 integralistas. A imprensa integralista. fim que me proponho. ao passo que o anti-semitismo tem uma presença mais significativa do que anteriormente. sem qualquer explicação aparente (por exemplo. em geral na página 4. Essa estratégia (seria. 16 e 22.. 12 – Também todos que querem viver piamente em Jesus Cristo. sobretudo pp. 336 “Obediência à lei”. op. como venceram os cristãos . a folha não está totalmente passiva. fé. vejamos a manchete do dia 4/1/1938: SILVA.. 1. tb. Maria Aparecida de. passavam os integralistas.). cit. modo de viver.. 98-110. parece pretender convencer os ex-camisas-verdes para permanecerem firmes em seus 338 ideais. O texto fazia referência a “boletins apreendidos pela polícia” no Rio de Janeiro. Por exemplo. 337 sabendo de quem as aprendeste. op. Pode-se pensar aqui em uma comparação das dificuldades dos primeiros tempos do cristianismo com os problemas políticos que. 15. Em algumas ocasiões. 1999. EDUSC. se declara oficialmente favorável à nova situação. 338 Sobre a criatividade da imprensa em burlar a censura institucional (num período posterior). 195-8. 4.. Acção. Hélio. 5/2/1938. A própria ABC não ocupa muito espaço nas páginas do jornal. . uma data religiosa). O Estado Novo. CARONE. ver AQUINO. caridade. padecerão perseguição (. Imprensa e Estado Autoritário (1968-1978).. É interessante notar que o Acção parece querer se utilizar de discursos velados para manter firmes os ideais e as posturas dos militantes. 337 “Prediz o apóstolo das perigosas heresias”. pp.. As notícias internacionais agora predominam sobre as nacionais e mesmo as de caráter local diminuíram muito. porque um dia venceriam. Edgard.173 O jornal.). naquele momento. porém. p. não faz a menor menção a esses fatos. há uma transcrição do capítulo 3 da 2 ª Epístola de Paulo a Timóteo. paciência (. cit. 14 – Tu. Contudo. porém. longanimidade. Na edição do dia 5 de fevereiro de 1938. Censura. p. mantém-te firme naquelas coisas que aprendeste e que te foram confiadas. V. de fato?) de apelar para discursos religiosos. 10 – Tu porém tens seguido a minha doutrina. eram transcritas longas passagens bíblicas. Acção.

Para se ter uma idéia. a ABC continua atraindo adeptos. Comparado com o período anterior ao Estado Novo. são de apoio ao novo regime e à sua política sindical e 342 trabalhista. p. nas edições seguintes. sendo que várias edições deixam de ter qualquer referência ao assunto. . p. 1. na última página: “As operárias injustamente demitidas pela Tecelagem Jafet – Acção fornece a seus leitores dados pormenorizados da clamorosa injustiça cometida por um capitalista estrangeiro contra operários brasileiros – 40 contos de indenização que 344 não foram pagos”. a 16/12/1937. 339 Acção. 343 Acção. 14/1/1938. mas ainda aparecem. que diz: “Milhares de inscrições na ABC” Não há mais nenhuma seção ou coluna sindical. 341 Acção. sem 343 pagar indenização fixada por lei” Apesar de. não havíamos encontrado nenhuma manchete de caráter anti-semita. tradicional atividade de fim de ano da AIB de distribuição de brinquedos às crianças carentes. na última página. conforme a manchete do dia 341 8/1/1938. 13/1/1938. p. 340 Acção. 12. Acção publica a página 7 um texto intitulado “Mentalidade”.174 Realizam-se os planos dos Protocolos dos Sábios de Sião! Os judeus internacionais criam um fundo de 80 milhões de contos para combater os países nacionalistas! A Inglaterra. 342 Por exemplo. 344 Acção. p. Em geral. As notícias concernentes aos trabalhadores ou aos sindicatos são menos freqüentes. subsiste como mostra esse título de uma notícia de primeira página: “O Natal das crianças pobres em Jaú – A atividade das 340 senhoras e senhorinhas da filial da ABC nessa cidade” Segundo o Acção. que elogia o corporativismo sindical existente na Carta Constitucional de 1937. quando aparecem notícias ou notas sobre isso. 4/1/1938. 1. a notícia em destaque: “A Fiação e Tecelagem Jafet despede 36 operárias. 8/1/1938. amiga dos judeus. 12. p. Porém. a 8/1/1938. lucrará com a 339 ação da judiaria. 1. 8/1/1938. o jornal não ter nem citado eventos sobre o ocorrido. O “Natal das Crianças Pobres”. volta a dar o mesmo destaque alguns dias depois. as referências ao movimento “ex-integralista” diminuíram muito. no período anterior analisado (outubro de 1936 a fevereiro de 1937).

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E, depois de mais uma semana de silêncio, o jornal exige atitude das autoridades estadonovistas, colocando mesmo em dúvida sua eficiência: Continuam as queixas dos operários contra a Tecelagem Jafet – Existe ou não justiça social no Brasil? Serão os capitalistas estrangeiros mais fortes que o Estado? As operárias demitidas injustamente da fiação e tecelagem Jafet esperam a indenização que lhes cabe por injusta demissão – Que faz e para que serve o Departamento Estadual do 345 Trabalho? Contudo, a partir de meados de fevereiro, o jornal vai tomando cada vez mais uma expressão conformista, opaca. Quase nada, nas páginas de Acção, lembra o “vespertino vibrátil e agressivo” a que se 346 refere Reale, do período anterior ao Estado Novo. Acção deixou de circular no dia 23 de abril de 1938, número 464. Em sua carta de despedida aos leitores, o jornal não explica o motivo de seu desaparecimento: Esta tribuna vai desaparecer; nós não conversaremos mais com o Brasil através das colunas de Acção; porém, isso não significa que hemos desaparecido: há no coração de todos nós uma chama sempre viva acalentando um Ideal e o Ideal não morre quando uma 347 tribuna desaparece!

345 Acção, 20/1/1938, p. 12. 346 Com exceção, talvez, dos artigos elogiosos ao corporativismo, doutrina coincidente com a da Constituição de 1937. Por exemplo, o artigo “O sistema corporativo e a democracia moderna”, o qual elogia uma suposta substituição de intermediários entre cidadãos e governo: partidos políticos por sindicatos. Acção, 10/3/1938, p. 4. 347 “Aos leitores de Acção”, Acção, 23/4/1938, p. 2.

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Observamos a importância de ressaltar aqui que um grupo político, não obstante sua linha autoritária e, nesta altura dos acontecimentos, oficialmente apoiando o governo, teve seus movimentos tolhidos pelo próprio governo, situação que acabou levando aos acontecimentos de maio de 1938, conhecido como a 348 “Intentona Integralista”. A imprensa integralista – não obstante seu caráter partidário e tendencioso - nos ajuda a conhecer melhor a visão de mundo da AIB, aqui particularmente a respeito dos trabalhadores assalariados. Tal observação evidencia a importância do estudo dessa fonte a partir de toda a gama de temas de que foi portadora (como política nacional, economia, política internacional, cultura etc.), o que faz dela um manancial para um maior conhecimento não somente da trajetória desse movimento político, mas também a respeito da política e sociedade brasileiras nesse período.

348 Sobre as diferentes reações dos integralistas ao Estado Novo (e viceversa), anteriormente à Intentona Integralista, v. CARONE, Edgard. O Estado Novo. São Paulo, Difel, 1977, p. 193-205.

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9. INTEGRALISMO PROH PUDOR! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo
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Rodrigo Christofoletti

A partir da segunda metade da década de 1940, verificou-se a abertura de um novo horizonte nas articulações político-partidárias do país. Após a derrocada de Vargas, em 1945, siglas foram recriadas, partidos rearticularam-se e, no bojo desse novo cenário de redemocratização, surgiu um partido que, embora estigmatizado por sua atuação anterior, tentou transformar alguns de seus princípios políticos visando a aproximação com o eleitorado que reconquistava o direito de voto. Tratava-se da sigla liderada pelo líder integralista, Plínio Salgado, o PRP (Partido de Representação Popular), herdeiro da AIB (Ação Integralista Brasileira). O novo partido, que durante os seus dezenove anos de atuação parlamentar (1945-64) configurou-se como uma das agremiações políticas mais controversas do citado período, teve atuação de retaguarda, centrando foco nas articulações de bastidores da política nacional. O PRP constituiu-se no instrumento de intervenção política dos integralistas durante todo o chamado período democrático. É interessante notar que o integralismo do pós-guerra, mais especificamente da segunda metade da década de 1950, tenha ressurgido não como uma mudança política propriamente dita, mas essencialmente como uma transformação de linguagem. Essa transformação se deu, aliás, de maneira incompleta, pois seus quadros desvalorizaram inicialmente a essência ideológica da extinta AIB e depois a reafirmaram (em partes), estabelecendo uma contradição interna no movimento. O problema consistiu em não explicar, não repolitizar, não enquadrar o movimento à nova realidade do pós-guerra. Foi nesse contexto contraditório de redemocratização que ocorreu o retorno do integralismo.

349 Mestre em História e Educador da Universidade de São Paulo.

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Imprensa nacional versus Integralismo O clima de liberdade partidária que o país viveu no contexto constitucional e democrático de pouco mais de 18 anos entre a queda da uma ditadura e a emersão de outra, estimulou o exercício de independência e expansão dos meios de comunicação. A grande imprensa sempre fez do tema político sua tônica, selecionando, caricaturando e adaptando a realidade a partir de “instantâneos” do real. Os antagonismos políticos tornavam-se, então, agudos e se refletiam claramente na imprensa. Na maioria das vezes, a contraposição ideológica saltava das manchetes desses jornais para tomar parte na vida cotidiana da sociedade civil. Foi diante deste cenário de definidas posições ideológicas, que se deu o reavivamento da simbologia integralista. Se nos anos 40 a esfera político-partidária conheceu a reestruturação institucional da sigla integralista, agora o poder simbólico da instituição buscava reajustes. Desde 1945, a relação entre o integralismo e os jornais da imprensa brasileira foi marcada por atritos. Longe de se manter indiferente, tal relação primava, de um lado, pela hostil e virulenta manifestação antiintegralista e de outro, pela pequena, mas não menos contundente auto-afirmação verde. A grande imprensa, preocupada com a manutenção da ordem democrática passou a fazer o papel de porta voz de uma sociedade desgostosa da permanência do integralismo no cenário político nacional. As acusações acirraram os ânimos de ambos os lados. Este enfrentamento tornou-se mais evidente a partir de 1957, quando se intensificaram as campanhas contestatórias às comemorações dos 25 anos do movimento integralista. Segundo Plínio Salgado, “enquanto as penas do integralismo foram molhadas nas tintas da convicção, a alquimia da grande 350 imprensa fez-se sentir de maneira nociva”. Isto equivale a pensar que tanto o integralismo quanto a imprensa de grande circulação intensificaram suas acusações. Então, o dístico em desuso serviu como alerta para grande parte da imprensa da época: Integralismo 351 Proh Pudor.

350 SALGADO, P. A Marcha, 3/11/1957, p. 9. 351 “Integralismo: Oh! Vergonha!”: Mote das campanhas veiculadas na maioria dos jornais de grande circulação do país.

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A grande imprensa noticiou as comemorações integralistas de maneira bastante variada: de um absoluto descaso a mais fervorosa agressividade. Dias após ocorrer as festividades do Jubileu de Prata integralista (primeira semana de outubro de 1957), O Diário Popular (SP) publicou um artigo cujo título exprimia a posição do jornal com relação à volta integralista. O jornal questionava que tipo de mudança 353 teria ocorrido no integralismo . A suposta contradição entre o discurso de Salgado e a ação do movimento foi fomentada pelas 354 acusações de “uma fantasiosa demonstração de poder” – que chegava às páginas dos jornais pelo caminho inverso. Seu lugar, 355 segundo o próprio Diário Popular, “era as páginas de fundo” , um eufemismo para designar as páginas policiais que na época fechavam os jornais. Outro periódico que questionou a alegação de que o integralismo havia se transformado num movimento brando foi o Última Hora/RJ. O vespertino teve, num primeiro momento, uma postura meramente informativa que se modificou com o passar das primeiras semanas do mês de outubro. Sob o título “Bodas de Prata Verde. 356 Sigma e rituais renasce o integralismo no Brasil” , dispensou mais de meia página detalhando sua organização e festividade. Como o jornal de Samuel Wainer não era simpático nem ao integralismo nem ao seu chefe, Plínio Salgado, a ênfase dada à manifestação integralista no Teatro João Caetano - RJ (sede das comemorações do jubileu) teve um caráter peculiar. Os jornais Folha da Tarde e Folha da Noite deixaram implícita em sua linha editorial a contrariedade frente à reformulação do movimento. Ambos os jornais imprimiram, a rigor, as mesmas notícias:
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352 No presente trabalho foram analisados os seguintes periódicos: O Estado de S. Paulo; Correio Paulistano; Folha da Manhã, Folha da Tarde; Folha da Noite; Diário Popular; Diário de Notícias; O Jornal; Diário Carioca; Tribuna da Imprensa; A Notícia; Gazeta de Notícias; Jornal do Brasil; O Globo;. Última Hora; Diário da Noite; Diário de Notícias/RS; Diário de Notícias/RS e Gazeta de Vitória – ES. Também foram pesquisados alguns periódicos integralistas: Idade Nova; A Marcha; Boletim PRP –RS. 353 “Transformação do quê?”. Diário Popular, 7/10/1957, Caderno 1, p.2. Todas as citações deste trabalho seguem a grafia original, sem atualizações ortográficas. 354 Diário Popular. 9/10/1957. 355 Ibid. 356 Última Hora/RJ, 12/10/1957, p.7.

as Folhas juntaram-se dando origem à Folha de S. e novo nome: agora não é mais AIB. Folha da Tarde. vem de encontro com os propósitos dos Integralistas de reeducarem as novas gerações de acordo com os novos 358 preceitos da agremiação. aos mais novos que podem ser 357 “Com Sigma camisa verde e anauê. pouco teríamos a noticiar. retorna ostensivamente. Tal questão se mostrou como novidade dentro do PRP. p.3.as novas gerações obtiveram maior influência nas decisões do partido.órgãos de reajuste político/ideológico implícitos do integralismo . adjetivada como non sense. mas principalmente político. o integralismo assusta. Folha da Tarde. retorna ostensivamente. Com a criação dos Centros de Cultura da Juventude . p.. segundo assessores de Salgado – deverá substituir o PRP em breve. o matutino Folha da Manhã tomou a celebração a partir de uma perspectiva mais desfavorável. empolga os meios integralistas a volta do Sigma e a oficialização da 359 galinha verde como símbolo . p. mas MIB. que. à 357 atividade os integralistas!”. 10/9/1957. Noticiou as festividades. 359 Folha da Manhã.4. O sentido da transposição do legado não era apenas cultural. explicitando sua oposição diante do novo integralismo: “Sob os 5 lustros deste movimento. p. e sem disfarces. Diferentemente de seus congêneres do Grupo Folha. A troca de uma instituição política para uma de cunho político cultural. o editorial de 8 de outubro dirigiu um veemente repúdio à permanência dos integralistas: Por estar de novo nas ruas.180 “Com Sigma camisa verde e anauê. Quatro anos depois foi inaugurada a Folha da Manhã e em 1945 a Folha da Tarde. 8/10/1957. Entretanto e infelizmente. Se não aos cobras criadas. a idéia de transferência de ‘posse e poder’ surgiu carregada de simbolismos. Em 1960. 9/10/1957. Que jamais amadureça!” Em outro trecho retirado da extensa reportagem da Folha da Manhã. De acordo com as Folhas: O movimento ressurge agora sob um novo dístico. Paulo. 9/10/1957. à atividade os integralistas”. . 358 O jornal Folha da Noite foi inaugurado em 1921. Movimento Integralista Brasileiro.4 & Folha da Noite. Finalizando sua apreciação quanto ao retorno integralista e sua celebração.3.

Correio Paulistano. Fênix. Folha da Manhã. ou a atenção do inevitável? Resta-nos apenas marcarmos o dia.. o jornal Correio Paulistano noticiou as bodas de prata do movimento de maneira incisiva. para que não haja ceticismo em torno do novo perigo integralista. p.9.. 8/10/1957. como a manutenção de um arcaísmo. Restam-nos saber. O periódico situou as celebrações num bojo maior de conflitos político/ideológicos. águias ou meras galinhas (. o democrata consciente não pode deixar de bradar a todos. com a qual declararam. Estão eles.. de que aves se tratam na realidade.) o retorno do inatingível. 361 “Águias. p. Paulo. como sendo o integralismo “um quisto sanguíneo que 360 “Editorial: O perigo Verde!”. (. prontos para explorar os pontos mais vulneráveis da democracia nacional. se procurou embaraçar num enredo ridículo a doutrina que perfilaram em 32. ou galinhas?”..5 362 O Estado e S. paralelamente às comemorações do jubileu de prata.. p. Chegase à audácia de colocar-se de novo o problema do fardamento e da milícia. A metáfora biológica da apoplexia. 8/10/1957.. (.8. 9/10/1957. Paulo criticou o que chamou de apelo sensacionalista do PRP. imitações baratas do fascismo mundial. descrevendo as celebrações como o ápice de 362 um conflituoso e “apopléctico retorno”. acentuando alguns elementos: Aceitando o que identificam como provocação extremista. O jornal O Estado de S. . a ver se nos livramos da ameaça sem o mesmo processo 360 sofrido em 1937.181 ludibriados pelo canto da sereia maviosa transvertida de democrática verde. Os integralistas vão institucionalizados pela nova sigla.. oficializar a galinha verde como símbolo da vergonha e da sua ação política. para sabermos qual é a resposta! Um repúdio ao 361 integralismo..) Temos que alertarmos a toda a nova geração sobre essa sereia.) Portanto. Com um texto de abordagem tão ácida quanto os publicados por seus concorrentes.

uma estranha homenagem aos mártires que nunca morrem. Nesse 363 Ibid. bem como da disponibilidade de escolas para os filhos dos falecidos. Segundo a crença integralista. A idéia de imortalidade no integralismo contém uma simbologia própria. Como pano de fundo. Na hierarquia festiva do movimento. então mais acirrada que nunca: a passagem do legado. Paulo. Além da ressurreição pré programada do Manifesto Integralista que propagava anteriormente a dissolução dos partidos. Rio. foi continuamente utilizada pela maioria dos jornais da época. uma espécie de tutela. Seria a 364 volta dos estridentes centuriões? Outro ponto de discórdia entre O ESP e os integralistas foi a forma como o primeiro se referiu aos chamados “milicos do além”. num momento em que se encontravam em condições de abandono e orfandade. A manutenção da doutrina consubstanciava-se por meio do oferecimento à família órfã de toda a sorte possível de provimento material e psicológico. A contraposição ideológica deu lugar ao escárnio: “Houve. . tomada como espécie de bhrama ou nirvana penosamente conquistado pelo membro integralista. O texto do jornal reacende uma questão central para os integralistas. Isto porque – segundo o jornal – os integralistas nunca 365 morrem: vão para a milícia do além!”. 365 Ibid. vazando intenções espúrias para 363 todos os lados”.182 estourara na sociedade brasileira. (Da sucursal . 7) – Centenas de adeptos de Plínio Salgado compareceram ontem no Theatro João Caetano. durante a comemoração. cuja sutileza amenizava o caráter ácido do pequeno. O Estado de S. tal homenagem visava a aproximação entre o auto-escalão integralista e as famílias dos falecidos. p. porém contundente escrito. todos os mortos continuariam hierarquicamente lutando a favor dos que se mantiveram na luta cotidiana. houve a volta dos rituais. Entende-se que a exacerbação da proteção familiar visava antes de tudo apadrinhar a família do exmilitante objetivando que não se afastassem do ideário integralista. ajuda financeira e até profissional. 364 “Volta o Integralismo com seus antigos símbolos”. justamente por este ter servido o movimento em períodos conturbados e difíceis. 9. uma nota de canto de página do O ESP. a celebração do culto aos milicos do além ocupava um lugar todo especial. 8/10/1957. Em especial.

Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. o retorno das homenagens aos “milicos do além” [militantes já falecidos] .. juntamente com os hurras surgiu também a mística integralista do Chefe.. Os oradores em momento algum lembraram de mencionar o PRP. destacando a contrariedade destes com relação ao integralismo. Sintomático. de propriedade dos jornalistas Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand.183 sentido. Tanto. que rendeu demoradas gargalhadas. A festa foi só do Integralismo. o 366 primeiro passo para a efetivação integral”. a maioria dos jornais da grande imprensa carioca focou a celebração integralista com menor animosidade que a mídia paulistana. alguns periódicos não pouparam frases de efeito e ataques veementes ao projeto refundador de Salgado. 1936. que o chefe não pôde entrar pela porta da frente do Teatro J. Porém. A consulta desses jornais está temporariamente interditada devido à microfilmagem dos mesmos. p. . O que para os integralistas significava “a manutenção da tradição. Com exceção dos jornais Tribuna da Imprensa e Diário 367 Carioca . Protocolos e Rituais.. A despeito disso.. 367 Em ambos periódicos podem ser encontradas importantes informações sobre as comemorações. Necessitou entrar pela porta dos fundos para evitar os arrebatamentos de 366 “As cerimônias da Milícia do Além”. que noticiou a celebração espelhada na “magnificência carismática do Chefe Integralista”. para a exterioridade não passava de um descompasso com relação ao presente. supervalorizando o acontecimento: O Insepulto Integralismo e seu curioso ritual: Dispersou qualquer dúvida quanto a esse particular a onerosa celebração verde que encerrou-se ontem a noite. O Integralismo foi denominado de “Insepulto” e “envernizado de segunda mão”.episódio passível de chacotas – era coberto de um simbolismo bastante significativo para os integrantes do movimento.. pelo jornal Diário de Notícia. Reeditado n A Marcha em 12 de novembro de 1957. Caetano. Os adversários do integralismo não perderam a oportunidade de ridicularizar a denominação ‘milícia do além’. Estrato 4. o partido bem que não anda bem das pernas mesmo.23..

tecendo um paralelo entre o que julgava moderno e anacrônico para a época. Devo antes dizer que não acredito muito que o futuro da humanidade esteja na linha do satélite. pela Dias após a veiculação da primeira notícia publicada sobre as festividades integralistas.184 seus companheiros. enquanto o planeta todo se ocupava em focar a bola que os russos atiraram no espaço a mais de 900 quilômetros de altura.. Tem toda razão o nosso confrade em assinalar a sombria idéia fixa daqueles que sonham em andar pra trás quando o mundo inteiro sonha andar pra frente. E ainda tem mais. Se de um lado. 8/10/1957. o Diário de Notícias abriu suas páginas para um dos mais significativos adversários do Integralismo: o intelectual e líder católico. Para comemorar o 25º aniversário da AIB. . Grifos meus.8. E é triste para ele e para mim ter que falar de Integralismo na hora em que todos falam em geofísica de rádio astronomia e de viagens interplanetárias. empolgados 368 rememoração integralista. há um simulacro entre o governo pessedista de JK e o Integralismo: O senhor presidente consulta o senhor Plínio e este consulta os mortos. p. significativos representantes do catolicismo apreendiam a reorganização integralista de modo contrário. mas longe mais ainda está da linha do Integralismo!!! Ou do Anauê!!! (. Sob a tinta do intelectual católico. de outro. Diário de Notícias. e assim vai o 368 “Com Anauês e Hurras ao Chefe Nacional encerrou-se ontem a Convenção Integralista”. Corção atacou veementemente o Integralismo. Sim senhores. o impacto das acusações desferidas contra o movimento integralista soou como uma vingança pessoal: Tivemos nessa semana o satélite artificial e a noitada integralista. Em linhas nada condescendentes.... Gustavo Corção.) Em termos políticos todos querem andar pra trás. os integralistas do pósguerra viam-se solidarizados com alguns setores da igreja católica. os adeptos sobreviventes de Salgado se reúnem numa fúnebre sou irrè.

p. em franca contradição com as tendências contemporâneas ressuscita símbolos. camisas verdes. reacionarismo. que o destacou em suas primeiras páginas.. desde 1945. braços levantados à Romana. 9/10/1957.5. passou a publicar em seus editoriais. . Ainda segundo a revista. um veemente repúdio à reorganização integralista. também repudiou a reedição da passeata integralista. saudações indígenas. Da mesma maneira com que a imprensa contrapôs-se ao PRP e às comemorações dos 25 anos integralistas. a revista católica A Ordem. 1945. que nem mesmo o surto comunista poderia 370 justificar” . p.B. A Ordem. 20 anos depois. RJ. O caráter antidemocrático do PRP foi o mote explorado pelo Jornal do Brasil. Por isso precisamos noticiar que ressurge entre nós as coisas verdes.172. Por: Gustavo Corção”. 372 Ibid. (. RJ: 10/10/1957..4. Paulo.) Plínio guardou a camisa verde no fundo do Baú. set. p. Os 369 “Noitada Integralista. Jornal do Brasil. No mesmo mês de setembro de 1945. 370 “Comunismo. Grifos meus.. Integralismo”. e foi escrever seus livros em tranqüila vilegiatura em Portugal e agora. P. p. Tal reconstituição causou furor na imprensa de grande circulação. p. o PRP protocolou seu registro no TSE.167-168. 373 “Camisas verdes para Museu: Ressurgem entre nós as coisas verdes”.173. tratava-se de um “claro retardamento da evolução democrática. Não bastassem as referências nada lisonjeiras publicadas por Gustavo Corção no Estado de S.. Diário de Notícias. Ser popular hoje em dia não é arregimentar fardas a esmo. simulacro de um dos episódios mais cultuados pelo movimento. O seu ressurgimento foi considerado pela revista como “um grave erro.185 Brasil para trás com velocidade maior que a 369 do famoso satélite. que na época era dirigida por Alceu Amoroso Lima. 371 Ibid. daí concluir enfaticamente: “nos opomos 372 inequivocamente ao integralismo e sua antidemocracia”. um incentivo à propagação 371 comunista” . como partido regularmente adequado à nova ordem democrática. Definitivamente não há espírito pro 373 Integralismo vingar. que noticiou a “nova incursão plinista” carregando nos adjetivos: A tirania está em voga apenas na cabeça dos que não respeitam a vontade popular.

em diversos meios de comunicação das mais distantes localidades do país. realizada naquela cidade em 1933. denunciou o caráter ‘aproveitador da nova/velha sigla’. debaixo d’água. no afã de superdimencionar a notícia editaram a fotografia de Salgado e próceres juntamente com o logotipo da Manchete. por vários dias. A citação. sendo reproduzida. As manifestações se iniciaram. mais uma das muitas matérias constituintes da revista. a Manchete publica uma matéria intitulada: 374 “Vergonha Verde vem ai!” . e sim. às 5 horas da manhã da penúltima quarta-feira. apesar de longa. durante a semana. a notícia do frustrado episódio integralista espalhou-se por todo o território nacional. talvez. encerrando-se com a convenção do PRP. Descreveu a matéria: As galinhas travestidas de águia tentam galvanizar o falecido fascismo caboclo (. respectivamente representantes das gerações de 32 e 58. com relação à frustrada comemoração dos integralistas paulistas. sugerindo que a reportagem tivesse sido destacada da capa da revista. Em maio de 1958. Damiano Gullo (diretor regional do PRP/SP) e Leovegildo Pereira Ramos. Sob uma atmosfera sensacionalista. na qual focaliza Plínio Salgado.. o exemplo de contrariedade mais contundente tenha sido o da revista Manchete. com uma “cerimônia de saudação ao nascimento do sol”. Prosseguiram com a inauguração de uma “exposição histórica” do integralismo e uma passeata. isto sugere que os integralistas. completamente ofuscado pela chuva. Das matérias publicadas pelos mais variados segmentos da grande imprensa. sintetiza a postura da grande imprensa frente ao integralismo. o que se comprovou foi que a matéria publicada por Manchete não foi uma matéria de capa. perfilados e mantendo o característico gesto de saudação Anauê. . Portanto.) Remanescentes da antiga Ação Integralista Brasileira comemoraram. Por outro lado. o 25º aniversário da primeira “marcha” dos camisas-verdes. no sábado.186 jornais noticiaram a realização da marcha segundo posturas que variaram entre a aguda contraposição e o mais profundo desprezo.. fachada pseudo374 A despeito da fotografia publicada no jornal A Marcha trazer o logotipo da Revista Manchete no canto superior direito (ver foto). numa justaposição que aumentava a relevância da matéria.

me faz ou 376 375 Revista Manchete. À frente de todas as manifestações. a revista O Cruzeiro. se algum dia virar um jornalista de verdade. Salgado reagiu enfaticamente: Quem diria que voltaria no local onde fui condenado à forca pelos comunistas para comemorar o jubileu de prata e força integralista sob os olhares atentos e aplausos festivos da população brasileira. Grifos meus. Ideologia anacrônica? Copiador compulsivo? A resposta é dada nesta noite: um cérebro e um corpo forte: eis o resultado do melhor possível (. a ambígua relação entre Chateaubriand e Salgado. declarou que se enganaram os que supõem morto o integralismo. mais uma vez. sendo poucos os que ainda não se acanham de usar camisa verde em público. Após 1955.) ele ainda terá chance.. Necessitamos descobrir quem acoberta esses proto-integralistas e congêneres.... chefe nacional daquele que em tempos foram conhecidos como galinhas-verdes e agora se rebatizaram como águias-brancas. havia se constituído num opositor sistemático do integralismo. 376 O Globo.) e desde de lá. esta é mais uma prova que a força se faz em conjunto. o sr. outra revista de envergadura nacional. Nos anos 50 a contraposição ideológica continuou..187 democrática dos plinistas de hoje. as acusações entre Salgado e Roberto Marinho acabaram rompendo a esfera ideológica. desde os anos 40. .) O problema é que Marinho e seu jornalzinho não respeita sua vez (. Mas a verdade é que a manifestação de há duas semanas atraiu muito pouca gente. representante de uma ideologia anacrônica e um farsante da retórica. Desde 45 nos encontramos (. No início do período de rearticulação partidária. Acusado pelo jornal O Globo de se equiparar a um copiador compulsivo... nº 317 – 17 de maio de 1958. Plínio Salgado.. comprovando. para que não deixemos passar as mesmas vergonhas que outrora o Brasil 375 foi obrigado a conhecer . teria uma postura menos inquisitiva com relação ao integralismo.

demonstrando que o projeto de permanência integralista era. pela televisão. Entre todas as homenagens rendidas ao Integralismo pela imprensa. O Integralismo é considerado. As respostas integralistas não tardaram. Grifos meus. que fora incisiva contra os militantes integralistas dias após a celebração do jubileu. o magnífico cartaz com que nos apresentamos à Nação. Publicando o mais belo dos clichês sobre a comemoração grandiosa ocorrida em São Paulo. na boca de nossos oradores e na penna de nossos jornalistas. A Marcha exprime os sentimentos de todos os integralistas e agradece à Manchete – profética e iluminada . numa época de desbriamentos e desbragamentos impudicos. bem assessorado. 377 As luzes do archote! Estão de volta as gerações do Sigma. (.O Globo. aquela revista o marginou com um título que é um aviso profético: ‘Vergonha Verde Vem Aí!’. p. p. nenhuma foi mais expressiva e eloqüente que a da Revista Manchete da capital federal. diversos outros jornais receberam prontas respostas do movimento integralista: “A contra ofensiva da imprensa integralista: ideologia e produtos”. e em especial. antes de tudo. O jornal A Marcha passou a publicar reiteradamente réplicas que buscavam inverter os argumentos dos periódicos.188 manda fazer sempre a mesma pergunta: 377 fraquinho esse repertório não Marinho? Na esteira da agressividade e dissimulação da réplica pliniana endereçada ao proprietário de O Globo.) Por isso tudo. pelo rádio e pela Tribuna Parlamentar.5. será o grande ‘slogan’ de nossas campanhas. 8/10/1957. Que venha a Vergonha Verde para dar vergonha a quem já a perdeu. da revista Manchete.a frase interpretativa 378 do atual momento histórico nacional. a própria vergonha da Nação...) de agora em diante.10. 378 “Editorial: Vergonha da Nação: A devida interpretação!”. A Marcha 5/1/1958. A frase é verdadeiramente formidável! E (. ...

189 Assim. mesmo que para muitos tal artifício tenha soado como uma artimanha estritamente demagógica. Hoje o ideário . Boletim PRP – RS. 381 “Não voltarão os camisas verdes”. sustentando sua contraposição à figura do líder integralista que. Em matéria de duas colunas cujo título era: “Não voltarão os camisas verdes?”. o PRP apresentou-se como uma alternativa aos “gêneros do mercado 380 disponíveis no momento” : o representante de uma política de moralização. p. como se sentem politicamente as novas gerações. 13/5/1958. isto é. que tentava se restabelecer publicamente como uma real possibilidade de 379 Notas. não voltarão os camisas verdes. Ver: Plínio Salgado na Câmara dos Deputados.. 8/10/1957. mas não conseguiram. imperceptíveis no cenário político de então”. 380 Aqui fazemos referência à metáfora utilizada por Salgado num de seus discursos na bancada da Câmara dos Deputados. ao ser indagado sobre a comemoração e a rememoração do antigo movimento. que era importante naquele momento para contrapor a uma idéia fascistizante de camisas caqui e preta. com especial enfoque ao fortalecimento da UDN e à articulação entre o PTB e o PSD. Salgado faz uma retrospectiva das coligações políticas realizadas pelo PRP em finais da década de 50. p. Folha da Manhã. 381 fica. que fora inclusive sugerido.4. os integralistas apresentavam-se à nação como os únicos e verdadeiros “bastiões da vergonha e da honradez políticas: 379 virtudes. vieram a acentuar o caráter combativo da sigla. Utilizando-se de uma manobra político-discursiva bastante incomum. O verde morreu só no uniforme. respondeu: Não. no início da década de 1970. Era essa a diferença. na comemoração do 40º aniversário da AIB. Quiseram queimar o verde do uniforme assim como fizeram com as matas do relampejo febril. Hoje não. Mais importante é que hoje a chama não morreu.6 . Perfis Parlamentares da Câmara dos Deputados. Sei da anacronia deste símbolo. a Folha da Manhã priorizou estratos da entrevista e discurso de Salgado.. O exemplo das réplicas publicadas nos mais diversos jornais da época. mas veste roupagens diferentes As respostas integralistas aos ataques da grande imprensa compuseram mais um capítulo no projeto de supervalorização do movimento. 27 de fevereiro de 1971. parcialmente sugerido pelo antigo general. seguidas da contundente resposta ao artigo da revista Manchete.

p. Nessas intervenções encontramos o divisor de águas entre a tímida postura do Partido de Representação Popular pré-1957 e o caráter mais ofensivo adquirido pela sigla a partir de então. forneceram o tema para uma campanha de valorização do integralismo. Entretanto. por sua vez. o semanário era mantido com a colaboração dos assinantes e dos pouco mais de 50 anunciantes fixos. destinou um significativo espaço para a propaganda de sua doutrinação e vendagem de seus produtos. dentre os quais se destacavam empresas de projeção internacional. empresas farmacêuticas dentre outras. Se a imprensa posicionou-se contrariamente ao reaparecimento da mística e simbologia integralistas. portanto a otimização da imprensa-empresa. como empresas aéreas. mas promissora. bem como as respostas às acusações dos grandes jornais. sob a direção de Plínio Salgado e a redação de Gumercindo R. A propaganda. e a gama de produção que derivava do novo ingrediente: 382 o marketing. Dórea. Foi.190 escolha. São Paulo: Ática. No entanto. a mídia impressa integralista.145. 1990. Depois dos anos 50 os fatores do progresso brasileiros incorporaram-se a receita jornalística de grande escala o produto de nova forma de veiculação. Com uma circulação nacional. por sua vez. . redimensionando as perspectivas do setor jornalístico brasileiro. Jornal História e Técnica. órgão oficial de imprensa do Partido de Representação Popular foi o mais significativo periódico do integralismo de pós-guerra. oi fundamental o papel desempenhado pelo jornal A Marcha . mas também da materialidade expressa na vendagem de seus produtos. Nesse sentido. a mensagem institucional. passou a desempenhar papel fundamental no panorama político e ideológico. A compra de suvenires despertava no simpatizante a manutenção de sua lembrança e o sentimento de pertencimento ao integralismo. dentre as muitas alternativas do cenário político. fomentando o consumo de bens produzidos pela denominada indústria cultural incipiente. a celebração não se alimentou apenas das questões públicas (os festejos populares). que favoreceu o fortalecimento do consumo no setor editorial. Os festejos das bodas de prata. o maior montante do dinheiro utilizado para a manutenção dos quadros do jornal.que permaneceu como órgão oficial do partido até 1965. o que estimulava a permanência cotidiana dessa cultura material. Juarez. bem como para 382 BAHIA. de laticínios. A Marcha. como o anúncio a varejo.

os correligionários do PRP e simpatizantes do integralismo. noticiando o que o brasileiro precisa saber. ao mesmo tempo em que havia as seções políticas e econômicas. flâmulas do Sigma e de Salgado. Entretanto. Dentre os produtos oferecidos com vistas à comemoração das bodas de prata integralista estavam distintivos do PRP. havia também o suplemento feminino. hoje e sempre o PRP e A Marcha estão do lado do verdadeiro patriota. 384 A Marcha. p. Você não tem o que temer. Entretanto. 383 A Marcha.191 manutenção do maquinário provinha das assinaturas. . do Amazonas ao Rio Grande do Sul. réguas.384 a marca de quase 50 mil brasileiros Anúncios como estes foram veiculados a parir de abril de 1957 e perduraram até o final de 1958. enquanto a pena e a tinta do patriotismo estiverem trabalhando por um Brasil melhor. nesses 6 anos de prestação de serviço. A Marcha. orgulha-se de poder ser chamado de órgão oficial do Partido de Representação Popular e de ter em seus leitores . a rede de distribuição d’A Marcha abrangia a maioria das grandes cidades do país. Mas para isso é preciso que divulgue nosso ideal. Uma vez que o jornal era semanal. que em março de 1958 foram contabilizadas em mais de 25 mil em todo o território nacional. com a clara intenção de reapresentar as “logomarcas” integralistas: o Sigma e a galinha verde. diversas vezes foram publicados balanços da empresa que apontam para números aproximados. Entre 1957 e 1959. foi a partir de setembro de 1957 que o jornal passou a anunciar uma gama significativa de produtos e suvenires.9. Divulgue nosso jornal. cinzeiros. Enquanto a voz da verdade. Divulgue nosso partido. calendários. formas de bolo. A tiragem oficial do semanário é desconhecida. lapiseiras. Ontem. o caderno adolescente e o infantil. carteiras de fósforos. O público dA Marcha era. a meta inicial pretendida pelo jornal era a casa dos 50 mil. geralmente voltadas ao público masculino adulto. 17/5/1958. termômetros com a figura do líder integralista imersa no interior do tubo medidor. Havia no jornal seções diferenciadas para abarcar todas as faixas etárias. Assim. diplomas artísticos. jogos de chá com o Sigma impresso. que se diferenciavam pelo gênero (homens e mulheres usavam distintivos diferenciados). a tiragem d’A 383 Marcha oscilou entre 25 e 30 mil exemplares semanais. Entretanto. principalmente. utensílios de cozinha. p.9. 26/9/1958.

broches. Perceba a preocupação dos integralistas com relação de seu ideário simbólico junto às gerações futuras. Procurando abarcar as mais diversas clientelas. tais anúncios objetivavam “falar a língua dos que tomavam contato com eles [produtos]”. . O jornal foi o fórum das discussões partidárias e o armazém mais bem sortido dos integralistas. adquira os objetos que recordam esse fato histórico e guarde-os para que passem. E se você não pode vir. Outros materiais foram elaborados. Um exemplo dessa prática foi o serviço de Caixa Postal mantido pelo movimento. p. Nesse sentido. foram os responsáveis pela fabricação e distribuição desses produtos.192 canetas esferográficas. as propagandas desses produtos ganharam vida. 385 A Marcha. Empresários. pratos de louça e discos promocionais 385 com jingles integralistas. é emblemático o texto constituinte da Tabela de preços dos suvenires da campanha dos 25 anos. O interessado enviava seu pedido e os integralistas remetiam os produtos. as mercadorias integralistas chegavam à residência do consumidor em prazo bastante curto. Nas páginas dos jornais perrepistas. Assim. Em consonância com a indústria cultural que se formalizara. Sua vendagem foi organizada pelos integralistas. no período máximo de uma semana.3. netos e bisnetos. especialmente os números de setembro de 1957 a abril de 1958. principalmente no período de setembro a novembro de 1957. que dizia o seguinte: Integralista. 386 Propaganda veiculada no jornal A Marcha de 27/9/1957. industriais e comerciantes simpatizantes do movimento e ligados aos mais diferentes ramos. de mão em mão. que se valeram de malas diretas e reembolso postal. o que gerou um fluxo contínuo de remessas. a seus filhos. o Sigma apresentou seus produtos visando atingir os mais variados setores sociais. um dos pilares da conceituação propagandística do movimento. Todos esses produtos movimentaram um considerável aparato industrial e comercial que dava suporte à marca integralista. Grifo meu. em especial n’A Marcha. como carimbos e fotografias de Plínio Salgado em vários tamanhos e autografadas. encarregue seu companheiro que vier de comprar e levar 386 para você uma dessas lembranças. se você vem ao Rio assistir às comemorações de 7 de outubro.

uma vez que ela era vista pelo integralismo como a responsável pela administração do lar.Além desses objetivos procuramos despertar para os problemas sociais... comunicar-se diretamente com a figura da mulher dona de casa. tem-se a dimensão de como o direcionamento se deu: A Marcha em sua nova fase não quer levar apenas as notícias semanais aos seus leitores e a orientação doutrinária.193 Por meio dos anúncios. p.5. Vale notar que a realidade feminina da época contradizia o discurso passadista apresentado pelo Integralismo. o das donas de casa. o que aprofundou as contradições entre as posturas do 387 A Marcha. seguiam sendo caracterizadas pelas funções domésticas. para uma cruzada de redenção nacional pela sua 387 acção decidida. dentre outras. deseja como um jornal de base cultural penetrar mais profundamente nos lares. No estrato abaixo. aos militantes saudosistas. portanto é oferecer tudo que seja importante para a mulher para o desempenho de sua elevada missão. ao colecionador. 5/4/1958.. assim sendo uma reparação rigorosa e completa lhe deve ser ministrada tendo por base a educação integral (. conhecimentos que vão da moda aos cuidados pessoais e domésticos. ao provedor do lar. Os anúncios integralistas buscavam. de maneira mais específica. Falava-se à dona de casa... apresentando um significativo número de produtos. ao trabalhador. O primeiro segmento social a ser atingido pelo assédio propagandístico dos produtos que levavam a marca Sigma foi o das mulheres. . ao invés de companheiras. Tal postura indica os limites da modernização do discurso integralista: as mulheres. ao adolescente. Esta rotulação limitava a sua ação social. patriótica e cristã. do pequeno conselho ao trabalho de arregimentação da mulher..) Eis porque daqui desta página feminina procuraremos abordar todos esses aspectos. e para isso instituiu. de acordo com os integralistas. comunicavam-se com os mais diferenciados receptores. esta dedicada exclusivamente às mulheres(.. ou..) Nosso objetivo.

A Nação depende de vc. os integralistas defendiam o casamento. muitas vezes. visando abarcar um amplo espectro de pessoas. o que trata das eventuais dores e rega as alegrias do lar.5. uma campanha conjugada. No trecho abaixo é clara a preocupação do partido em trazer para seus quadros o provedor do lar: Poesia para o Bom Homem Se tu és o provedor do Lar. a maternidade. Venha participar das sessões de doutrinação. Não podes. resquícios bastante marcantes de tal postura.possuía papel de destaque nos projetos integralistas. no entanto desapontar a tríade de sua vida.mãe. A casa continuava sendo vista como o espaço social feminino. Evidenciou-se.Deixe que o PRP 388 venha até vc. dona de casa . por exemplo. Vc que provê seu lar provenha de inteligência sua família. 15/9/1956. então. condenavam a luta pela emancipação feminina e também incorporaram uma série de valores modernos em relação à mulher e à família. os integralistas afinaram sua busca de prática doutrinal. O integralismo depende de vc.194 partido e a prática social. Lá vc poderá levar seus filhos. A despeito da questão sobre a subserviência feminina no integralismo. Simultaneamente aos estratagemas utilizados para aproximar a dona de casa da doutrinação. os anúncios voltados aos militantes propriamente ditos eram divididos em algumas 388 A Marcha. no qual a mulher interagia tão somente no sentido de proporcionar à família bemestar e comodidade. com a própria doutrinação. p. mais preparada. atestando o descompasso integralista. nos anos 50. que se confundiam. . a família depende de vc. ter sido mais complexa nos anos 30 percebe-se. No discurso médico. Nos anos 30. a mulher . para ter condições de formar seus filhos sob novos critérios higiênicos etc. A figura masculina foi privilegiada. seguindo uma das preocupações mais diretas do partido: arregimentar novos simpatizantes para a sigla. sua esposa e todos juntos serão trazidos à verdade. A educação feminina era defendida com o objetivo de preparar a mulher para ser uma mãe melhor. Obedecendo a estratégias bastante variadas. e atentos aos demais segmentos da sociedade.

simulações históricas. explorando pontos de aproximação particulares. Somos o partido da Nação. constituição de novos órgãos ligados ao partido. Independente de tais estratégias e do grau de sucesso conseguido por elas. você está ajudando a nos promover. e aquelas cujo texto dirigiu-se a um público indiferenciado: Todos podem se filiar ao PRP: se não vejamos: podem ao menos ajudar aos companheiros consumindo seus produtos: Um caixa de fósforos. bem como a produção de uma série variada de produtos que ostentavam a marca integralista. o descompassado discurso integralista havia caducado devido à contradição que sua permanência causava ao estabelecimento da democracia. as que traziam embutidos nos textos um “chamamento imperativo”: “seja um correligionário do PRP!”. mas sem dúvida foi este um dos mais interessantes e contraditórios momentos vividos pelo integralismo. passando a fumar Cigarros do Sigma. um selo. 389 Todos esses anúncios foram publicados no jornal A Marcha durante os meses de março a setembro de 1957. As propagandas comparativas: “Somos nós o diferencial entre o passado carcomido e o futuro representável”. não foram suficientes para revigorar o movimento. uma marca de cigarro que vc mude. as de interpretação subjacente: “O Brasil anda bem? Porque você não o Recupera e o melhora Praticando?”. As celebrações não se limitaram às festividades públicas e às mordazes críticas trocadas com a imprensa. A despeito das comemorações dos 25 anos do integralismo servirem para colocá-lo novamente na ordem do dia.195 sessões específicas. percebe-se que os agentes de celebração conseguiram congregar a propaganda e a doutrinação com vistas à efetiva partilha de seu ideal: um futuro partilhado por todos aqueles ligados ao movimento. Entretanto. para a imprensa não integralista. 389 A sofisticação das estratégias arquitetadas pelos integralistas criou. (a exemplo dos Águias Brancas). Segundo os jornais de grande circulação. um calendário rememorativo que contemplou festas populares. mostrando ao Brasil que somos bem mais que meros arregimentados de pessoas e idéias. a aceitação. no espaço de seis meses de celebrações. . a força e a possibilidade desse ideal mostraram-se profundamente arcaicos frente à realidade dos anos 50 e 60.

na sua forma mais acabada. Acusados de não possuírem propostas adequadas nem para o presente nem para o futuro os integralistas fixaram suas investidas nos poucos jornais que o movimento dispunha. Neste sentido. os demais elementos fundadores da doutrina integralista passaram por radicais transformações. a imprensa de grande circulação dos anos 50 foi unânime em afirmar que os “jacarés falantes do integralismo”. O dístico Proh Pudor simultânea e paradoxalmente estigmatizou o movimento integralista ajudando o integralismo a permanecer em evidência. As intenções corporativistas do partido. nada disso ajudava a caracterizá-lo como um movimento político afastado do que fora nos anos 30. a partir de finais da década de 1950. ideologia política inadequada à nova conjuntura político-democrática. tipo de aparição que serviu. nunca como protagonista de uma efetiva reestruturação simbólico-política. . o integralismo passou a requerer status de “atento 390 paladino da nova democracia”. Assis Chateaubriant foi profético: o cachorro morto. assim como sua postura antiliberal arrefeceram-se. apresentando-se como parceiro do novo regime. Adequando-se à nova diretiva pluripartidária. o antagonismo criado entre o movimento integralista do pós-guerra e a imprensa de grande circulação favoreceu a permanência do integralismo nas discussões e páginas dos jornais. que permaneceu como um elemento arraigado da doutrina do novo partido. Nesse sentido. mas atraindo para si a luminosidade de holofotes coadjuvantes. que não estava tão morto assim havia conseguido permanecer no cotidiano das páginas dos jornais. No entanto. agora instituído como presidente do partido. O PRP passou seus primeiros quinze anos de atuação parlamentar (1945-1960) se defendendo das acusações de envolvimento com o fascismo italiano. Em contrapartida. Em decorrência disto. a oposição da grande imprensa frente ao integralismo mostrou-se. As credenciais integralistas foram cassadas no 390 Boletim PRP/RS. Com exceção do anticomunismo. aos olhos da grande imprensa de circulação nacional. sobretudo para lembrar os esquecidos e incautos que a democracia exigia credenciais bastante claras. mesmo congregando os matizes mais variados. significaram um enorme retrocesso político. nov/1946. tal como enfatizou Mario de Andrade.196 Resumo da ópera O contexto político dos anos 50 diferiu profundamente daquele que viu nascer o integralismo. e da presença sempre marcante da figura do “chefe”.

Maurice. 1988. A Nova face do verde: o Integralismo no pós guerra e a criação do PRP. Brasiliense. Dissertação de Mestrado na PUC-RS. mesmo em nome de uma nova roupagem pseudo-democrática. BAHIA. CALIL. 1957-1961. SP. 12 vol. HALLEWELL. Três fases do jornalismo Brasileiro. 1981. Rio de Janeiro. Vértice. SP. J. Nacional/Edusp.197 momento em que resolveram retomar sua simbologia. Santos. RJ: Livraria Clássica Brasileira. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. Referências A Enciclopédia do Integralismo. A Memória Coletiva. DICIONÁRIO HISTÓRICO BIOGRÁFICO (1930-1983). São Paulo. Gabriel. 1998. SP. Cia da Ed. HALBWACHS. . 1976. O livro no Brasil . 4 volumes. ORTIZ. Imperialismo e Cultura. IANNI. 1971. 1984. Renato. FGV/Cepedoc. COHN. 1990. Presença. Petrópolis: Vozes. Otávio.(org) Comunicação e Indústria cultural.uma história. Laurence. 1960. Edusp. Gilberto.

8%) era de cidadãos alemães. Ele deixava de fora um grande contingente da comunidade alemã. Tropicalização é aqui entendido como o processo de amoldamentos e modificações do nazismo enquanto ideologia e nas estruturas organizacionais do partido nazista instalado no Brasil. 392 “Die integralistische Bewegung in Brasilien“. p. os chamados 391 Ana Maria Dietrich é doutoranda em História Social pelo NEHO/ Departamento de História/ USP em parceria com o Centro de Estudos de AntiSemitismo da Universidade Técnica de Berlim. Herausgegeben vom Deutschen Ausland-Institut Stuttgart. o integralismo pode ser identificado como uma importante característica do nazismo tropical por ser visto como algo extraordinário que não estava nos planos originais da organização do partido nazista no exterior. Mestre em História Social. dos quais a grande maioria (92. Harmonia e Rio do Sul em Santa Catarina é aqui considerado uma reação “tropical” ao nazismo exportado e segregado que não admitia nas suas fileiras os miscigenados. ENTRE SIGMAS E SUÁSTICAS Nazistas e integralistas no Sul do Brasil 391 Ana Maria Dietrich Um dos principais efeitos da tropicalização do nazismo foi a adesão de teuto-brasileiros às fileiras do integralismo principalmente nos estados do Sul do país. o integralismo representou uma onda 392 de nativismo local que ameaçava o Deutschtum (germanismo) . Neste sentido. havia um explícito repúdio ao integralismo justificado pelas regras da Organização do Partido Nazista no Exterior que deixavam claro que os alemães não deveriam participar da política local do país de hospedagem (Gastland).198 10. onde estavam concentradas as colônias alemãs fundadas desde a metade do século XIX. Na perspectiva do III Reich. 125. März 1935. para os representantes do Reich. In: Der Auslanddeutsche.900 membros. historiadora e jornalista. O Partido Nazista no Brasil estava ligado à Organização do Partido Nazista no Exterior e era o maior grupo das 83 filiais do partido nazista espalhadas no mundo. Por outro lado. . Jahrgang 18. Zeitschrift für die Runde vom Auslandsdeutschtum. Tinha cerca de 2. O anauê que muitos teutos-brasileiros declamavam nas ruas de Blumenau.

marchas. Integralismo. uniformes e hinos. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. 394 GERTZ.199 teuto-brasileiros. 21. Nazismo. o governo nazista pensou em formas para a inclusão política e social desta “categoria”. que não precisariam. Porto Alegre: Mercado Aberto. que serviria. Inferior. Alemanha. 1987. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Alemanha . René Ernaini. Este é um dos motivos indicado pelos alemães nazistas para a grande adesão de brasileiros descendentes de alemães às fileiras integralistas. Ministério das Relações Exteriores. Em alemão. Mas. A solução encontrada foi a formação de uma associação de amigos de Hitler. Ainda que formalmente não lhe eras permitido a participação efetiva dentro do partido. então recorrer 396 ao integralismo . A Federação 25 de Julho desempenhou em grande parte este papel. chamados de Deutschbrasilianer (alemãesbrasileiros). cuja forma se assemelhava às demonstrações nazistas foi mais sedutor. Segundo Natália Cruz. Inconformados e estimulados a se engajar politicamente – os descendentes de alemães viram no integralismo uma alternativa viável. Nazismo. pois representavam uma força que não pode ser deixada de ser considerada – tanto em termos numéricos. mas ainda interessante. 396 Revista Deutschtum im Ausland. Integralismo. mas ainda faltava um grande caminho para se tornar uma organização dinâmica e disciplinada. Berlim. o integralismo com seus desfiles. formaram uma nova categoria dentro de uma maior Auslandsdeutsch (alemães estrangeiros). 80% desta comunidade era 394 simpatizante do regime hitlerista . Além da “roupagem”. quanto ideológicos – afinal. p. quanto os integralistas queriam o engajamento desta população. considerando que a comunidade de teutos somava 900 mil 393 integrantes . o integralismo teria atraído também pelo seu conteúdo ideológico. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. René Ernaini. 395 Ata R79005. em 395 tese. ou seja. Tal organização representaria os interesses e as exigências dos teuto-brasileiros. que não podiam entrar no partido por não serem portadores da cidadania alemã. Alguns traços de caráter atrairiam a população de descendentes de alemães para o partido integralista: “a valorização da 393 SEITENFUS apud GERTZ. o apoio do integralismo aconteceu em via dupla. Os Deutschbrasilianer se encontravam em um nível inferior aos alemães puros. 1987. Porto Alegre: Mercado Aberto. criando-se uma hierarquia racial dentro da própria comunidade alemã. 1937. para defender os interesses desta categoria . tanto os colonos alemães apoiavam o integralismo.

. Para conseguir o engajamento desta fatia da população. Caracterizando-o tal movimento 397 CRUZ. Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos. O Estado de Hitler. p. observou o crescimento e desenvolvimento do integralismo como força política no Brasil.. Segundo Cruz. possuiriam um forte “idealismo pátrio”. em vez de se ligarem aos partidos tradicionais. por exemplo. a Ação Integralista Brasileira também se valeu de propaganda em alemão.). Imprensa Oficial do Estado. Mímeo.200 ordem e do trabalho.Si tu fosses allemão. certamente serias Nacional Socialista. então ingresse para as camisas verdes lideradas por Plínio Salgado. (.. “.. faziam questão de mostrar semelhanças entre os dois movimentos políticos. havia diversas semelhanças nos princípios do integralismo e do nazismo e ambos tinham como alvo a democracia liberal. 398 RIBAS. além de utilizar em sua propaganda efeitos e símbolos similares à da propaganda nazista como. sempre citando o regime nacional-socialista de Adolf Hitler como paralelo ao que acontecia no Brasil: Se você é um alemão nacional-socialista e é agradecido à sua Pátria de origem. 399 Ibid. Os integralistas.. desde 1935. nas Legiões Integralistas e vem vestir a camisa verde dos que se batem pelo bem do Brasil” – constava em um panfleto que circulou na década 398 de 1930 . O integralismo é um apelo do Brasil para todos que são aqui nascidos! É um chamado da terra que te 399 acolheu de forma hospitaleira (. seu braço se levanta para Hitler que fez a Alemanha livre do caos marxista e comunista (. Florianópolis.. Antonio de Lara. virtudes cultivadas pela AIB..) Anauê! .) És brasileiro. portanto.. 137. inscreve-te. fazendo-os se identificarem com um partido realmente nacional. 397 que representavam apenas interesses regionais” . através de suas associações no exterior. N. 2005. os comunistas e o judaísmo internacional. Punhal Nazista no Coração do Brasil. o sigma sob o mapa do Brasil. A mesma autora cita o envolvimento de alemães supostamente espiões nazistas com o integralismo.

A visão do III Reich do movimento integralista destacava principalmente a questão racial que visava melhorar a raça com a diminuição da porcentagem de negros e índios e o aumento dos europeus. A Revista Deutschtum im Ausland (Espírito de ser Alemão no Exterior) também se ocupou desta temática. Observar a maneira irônica que se referem aos brasileiros colocando em dúvida a capacidade de se formar um estado nacional semelhante aos europeus: O integralismo. denominada até 1938 como Der Auslanddeutsche . engloba o conceito de brasilidade de tal maneira. 1935. 401 A partir de 1938. como se os brasileiros pudessem formar um estado nacional que tem como os europeus do oeste como modelo. que em parte também aderiu ao 400 integralismo . Apesar de observar as tendências anti-semitas e o combate ao comunismo. cidade que na época recebeu o título “Cidade dos alemães no Exterior”. linguisticamente e 400 Revista Deutschtum im Ausland. Tal periódico contém diversos artigos sobre nao só alemães no Brasil. Atenção especial se dava a juventude alemã. é denominada Deutschtum im Ausland. A preocupação era que este movimento iria afetar o Deutschtum (germanismo). A citação abaixo mostra uma tentativa dos alemães de compreender o integralismo.201 pejorativamente como nativismo. Eles caracterizavam tal conceito de raça como Lusotum (lusitanidade) em contraposição ao Deutschtum (germanismo). Alemanha. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. A suposta “ameaça” do integralismo foi registrada em relatórios realizados pelo corpo diplomático alemão no Brasil e por membros do partido nazista. o que eram vistos como aspectos positivos pelo III Reich. também como um Estado que historicamente. o que era enfatizado nos relatórios e artigos é a ameaça ao Deutschtum. visto como nativismo lusitano que tinha como “grande pretensão” fazer do Brasil um Estado semelhante aos países do oeste europeu. 401 Tal revista. . era completamente contrário a que os alemães e seus descendentes se filiassem a este movimento. mas da América do Sul e do mundo inteiro. com o “Heil Hitler” tropicalizado para o “anauê”. era o periódico do Institut Deutsches Ausland (Instituto dos Alemães no Exterior). que se apresenta no mundo como um nativismo lusitano. localizado em Stuttgart.

404 GERTZ. Nazismo. fez uma retrospectiva da história do integralismo e mandou publicar um “manifesto diretiva” em 9 de setembro de 1945. 405 Ibid. que mostram sedes dos dois movimentos que funcionavam sob o mesmo endereço. 1987. Porto Alegre: Mercado Aberto. No mesmo ano de 1936. p. Da parte das lideranças integralistas. apud. „Die Tätigkeit des Nazismus in Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506. p. Florianópolis. O jornal Blumenauer Zeitung. Antonio de Lara. Plínio Salgado teria feito um acordo diplomático em que não mais ofenderia os nazistas no seu discurso. de Santa Catarina. Ministério das Relações Exteriores. quando estava no exílio. a realidade dos círculos das colônias alemãs do Sul do Brasil era diferente. p. em outros momentos. não-colaboração e até menosprezo. chegou a ser o porta voz dos dois grupos ao mesmo tempo. por exemplo. Integralismo. ao mesmo tempo. Plínio. através de um enviado. Imprensa Oficial do Estado. teria feito em 1935 um contato para pedir apoio financeiro e moral para a luta contra o comunismo. 116. René. ao nosso entender tropicalizada. toda a associação de nazistas deveria ser repudiada pelos integralistas. fizeram questão de 405 relembrar suas raízes germânicas de seus descendentes . O Fascismo no Sul do Brasil. No cotidiano destes alemães e teutos brasileiros. 184. Germanismo. 403 RIBAS. ele afirmou que o Brasil estava ameaçado pelas doutrinas estrangeiras. enfatizando o perigo dos camisas cáquis nazis do qual os camisas 404 verdes iriam proteger o Brasil . As ordens vindas da Organização do Partido Nazista no Exterior sediada na Alemanha eram obedecidas de maneira diversa. a fim de conquistar a numerosa colônia teuto-brasileira.129. as atitudes variavam entre aproximações e distanciamentos. os discursos se misturavam e a colaboração se dava em diferentes níveis. Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. Alemanha. Salgado. formado uma Mesmo com toda esta visão do III Reich de não-aceitação. November 1941. o secretário de estudos da AIB de Pindamonhangaba teria 402 Hünsche. supostamente. Berlim. Verificamos alguns registros de fotos. os dois partidos nazista e integralista e tinha o símbolo da suástica e do sigma 403 na fachada . Punhal Nazista no Coração do Brasil. No livro O Punhal Nazista no Coração do Brasil vemos publicada uma foto de uma sede localizada na cidade de Rio do Sul (SC) que abrigava. Cumpre-se notar que esta fala data do pós-guerra. Ainda. tanto Salgado quanto Gustavo Barroso. .202 sociologicamente tivesse 402 unidade aproximada. . quando. Mas.

a figura do número 2 do partido integralista. 407 CARNEIRO. O mesmo líder integralista tentou em diversos momentos a aproximação com o Instituto Iberoamericano de Berlim. o integralismo foi lembrado pelo jornal no período de seu início (1934-1935) e “esquecido” no momento 408 de sua maior expansão (1935-1938) .203 pedido dinheiro a Embaixada Alemã para uma viagem cujo propósito 406 seria levar o integralismo para uma linha alemã . Costumava citar sua descendência alemã. http://www. Barroso teria tido. René. .htm 409 Ibid. Anti-Semitismo na Era Vargas.ac. p. Mesmo com alguns artigos que elogiavam Barroso e outros que demostravam uma simpatia pelo “fascismo à brasileira”. E não há dúvida de que Barroso em diversas oportunidades tentou aproximar-se do 409 Nazismo e do Instituto Ibero-Americano. Gustavo Barroso. sendo que parte de sua família tinha o sobrenome Dodt. O. 335. receptividade para seus artigos no jornal alemão Der Stürmer. fato que nunca aconteceu. 1995. chegando a enviar livros anti-semitas de sua autoria para serem resenhados pela revista do instituto. como algo extraordinário. também. Mas a tentativa foi frustrada.il/eial/VII_1/gertz. sobretudo em função de seu ferrenho anti-semitismo. Segundo René Gertz. 408 GERTZ. Barroso permaneceu na Alemanha durante 5 semanas em 1940. as opções simpáticas de Gustavo Barroso ao nazismo são evidentes: Entre as lideranças integralistas Gustavo Barroso sempre foi considerado o mais germanófilo e pró-nazista. . Sao Paulo: Editora Brasiliense.tau. Em ofício da A. p. Estudos Interdisciplinários da América Latina y el Caribe. 135. A influência política alema no Brasil da década de 30. Maria Luiza Tucci. para o DAI (Deutsches AuslandInstitut – Instituto alemão do exterior) é colocado o seguinte problema: 406 Ibid. um dos principais veículos da 407 propaganda nazista publicado por Julius Streicher . Todo este movimento não mudou a idéia do III Reich sobre o integralismo que era visto como perigo e ainda mais. era considerado um grande simpatizante do nazismo. Ele também foi convidado junto a outras autoridades brasileiras para visitar a Alemanha e melhorar as relações entre o Brasil e a Alemanha.

Isto poderia acabar se tornando um ruído diplomático entre os dois países. esta mistura ideológica que. O discurso ideológico semelhante fez com que os descendentes de alemães se beneficiassem da estrutura integralista 411 para desenvolver o programa do nazismo . “Nós não conhecemos a expressão “alemães de Blumenau”.” Pelos "mandamentos" dos divulgadores do nazismo no exterior. Segundo a revista. aconteceu no Brasil. p. p. A nosso ver. os alemães deveriam ter o cuidado de não se "misturar" com os estrangeiros. Alemanha 412 Revista Deutschtum im Ausland. é tida como o principal ponto da tropicalização do nazismo e da resistência à tropicalização proferida pelas lideranças nazistas. existem apenas brasileiros e estrangeiros. O. causaram sérias preocupações aos alemães nazistas. Alemanha 413 Ibid. Segundo a revista Deutschtum im Ausland. como eram chamados os países onde estavam localizadas comunidades de alemães. 136. 21. como solidariedade a Gastland (terra de hospedagem). pejorativamente como uma mera imitação do nazismo. dois teuto412 brasileiros haviam morrido pelo integralismo . . que neste momento. era proibido aos partidários a participação 410 Ibid. contra toda a vontade e orientação do III Reich. 411 Revista Deutschtum im Ausland. não devendo nem mesmo usar a língua local. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. os integralistas utilizavam em sua propaganda que só com o integralismo seria preservado o Deutschtum (germanismo). 1937. 413 Em Blumenau.204 “A questão do integralismo coloca nosso trabalho alemão no Brasil 410 diante de problemas extraordinários” . aos grupos dos partidos nazistas no exterior. Os tais “problemas extraordinários” não estavam previstos nas diversas regras e diretrizes propostas pela A. sempre haveria uma diferença entre os brasileiros integralistas e os “outros”. um grande grupo de estrangeiros. 20. Por outro lado. 1935. se viam em um namoro comercial muito intenso. nos quais os alemães e seu Deutschtum não seriam valorizados. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. O problema se intensificou com o golpe integralista e a suspeita de que alguns alemães nazistas teriam participado. Em contrapartida. idéia que não tinha crédito na Alemanha. p. Os camisas verdes e seu grito de anauê vistos.

região que se concentrava o maior número de teutos e de alemães. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. cerca de 850 mil eram a favor do integralismo. p. a revista relata a vitória maciça nas eleições de 1936 dos integralistas nas prefeituras das cidades do Sul. Rio do Sul. 2. 1937. A política da terra de hospedagem deve ser deixada para seus moradores. o Brasil contaria com 3. Participar do movimento integralista infringia diretamente tal mandamento. Berlin. Não se intrometa nesta política. Nos estados do Sul.3 milhões de votos. Você não deve entrar na política de uma terra estrangeira. Segundo Emil Ehrlich. 1937. se concentraria a maior parte de votantes. Nos anos 1930. A força do movimento no Sul do País. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Junker Dünnhaupt Verlag. a preocupação maior se dava com os alemães. Seguir as leis do país. Temia-se que se os alemães aderissem aos ensinamentos integralistas aconteceria a miscigenação e a raça ariana desapareceria em duas ou três 415 gerações . Alemanha . Entre eles. estariam localizados 125 mil adeptos do integralismo. II. Schifften der Deutschen Hochschule für Politik. Destes.205 na política local em eleições ou movimentos revolucionários. Alemanha 416 Revista Deutschtum im Ausland. com 560 mil e em Santa Catarina. nem mesmo por meio de conversas”. os dois primeiros referem-se a este princípio de “não intervenção”: “1. Os nazistas deveriam se manter neutros com relação à política interna e 414 não poderiam divulgar suas idéias a estrangeiros . 415 Revista Deutschtum im Ausland. principalmente em Santa Catarina (Blumenau. 1937. O. Isto aponta para a adesão dos teutos que votaram e apoiaram os integralistas e também pode ser visto como um dos fatores da 416 dificuldade de se opor politicamente a tal movimento . Der Organisatorische Aufbau des Dritten Reiches. também é enfatizada. havia 10 deveres da A. Apesar da discussão sobre a adesão de teuto-brasileiros. 19. Jaraguá. no qual você é hóspede. Heft 13. Emil. Efetivamente uma grande porcentagem do Deutschtum (germanismo) de Santa Catarina marcha nas fileiras integralistas. Do Rio 414 Ehrlich. Joinville. Harmonia e São Bento) e Rio Grande do Sul. (Auslandsorganisation der NSDAP – Organização do Partido Nazista no Exterior) instituídos a partir do decreto do Führer de 1937. Herausgegeben von Paul MeierBenneckenstein. Para provar tal força eleitoral. Die Auslandsorganisation der NSDAP.

chamando-o de “terra de macacos” . . Em 1932. 3.. procurarei mulher que ajude um pouco o marido e não uma que saiba apenas vestir-se bem para agradar outro homem. em 1931. Alguns teutos brasileiros chegaram a morrer como mártires da Ação Integralista Brasileira. se alguma vez o fiser. ele volta a fazer comentários 420 pejorativos sobre o Brasil. 661. Vários relatos reportam a esta espécie de “racismo tropical” difundido entre a comunidade alemã no Brasil. Florianópolis. José Luiz Schroeder. morto em conflito de rua em São Sebastião do Caí (RS) com a polícia em 24 de fevereiro de 1935 e Ricardo Grünwaldt. o brasileiro certamente não é superado por nenhum povo no mundo”. 420 Ibid. morto em Jaraguá (SC). Imprensa Oficial do Estado. sobre as influências nazistas no Brasil. Alguns destes alemães que mantinham este pensamento racista proclamavam-se integralistas. em que se nota uma forte apresentação do 417 integralismo. . . citado como integralista destacado e Comandante da Milícia Integralista. de 3 de setembro de 1937. 7/10/1937. Germano Sacht 418 morreu no mesmo dia e local que Ricardo . São Paulo. Uma reportagem no jornal inglês Times. 112 e 113. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Antonio de Lara. 113. 419 RIBAS. É o caso do alemão Hans Walter Taggesell. que escreveu em carta para o seu pai na Alemanha. p. p. fez com que jornais brasileiros passassem a prestar mais atenção ao partido nazista no 417 Revista Deutschtum im Ausland. p. Nova Hamburgo e Santa Cruz como também das mais novas regiões de colonização no nordeste e leste do estado. Em outro momento. datada de 1929: Quando me casar. Punhal Nazista no Coração do Brasil. Alemanha 418Jornal "Acção". Junho de 1937.. p. em 7/10/1936 eram os mais lembrados pelos próprios integralistas. ele escreve: “No que se refere à preguiça e comodismo.206 Grande do Sul vem também das antigas regiões de colonização alemã próximas a São Leopoldo. Meus filhos deverão ter sangue limpo e não virem ao 419 mundo sifilíticos. Em caso algum. porém com brasileira.

Ata 104939. no Brasil. Ministério das Relações Exteriores. do Rio de Janeiro. Alemanha. Ata 104939. em outubro de 1937. quando se refere à construção de uma Alemanha em solo brasileiro: Os núcleos germânicos.207 Brasil. isolados. de intenção nazista?” O jornal chega a descrever a situação das colônias alemãs no Sul do Brasil como um simulacro das ditaduras alemãs e italiana. predilecções. Berlim. entregues a si mesmos. mentalidade pura da raça germânica? b) Ou será particularista. que atento a matéria do Times. Berlim. 422 O Globo. a) será puramente racial: manutenção de costumes. Alemanha. O jornal colocou em cheque a germanização da colônia alemã no Sul do Brasil. e cuja arma principal é o “boycott”. de ordem política. o principal questionamento era com relação a nacionalização do povo alemão no Brasil. livres. não é possível a existência de campos de 422 concentração. arremedo de regimens totalitários. desde que. foi um destes jornais brasileiros. de controles 421 “O Times e as influências nazistas no Brasil” in Correio da Manhã. verifica-se afinal a existência de verdadeiro simulacros de dictaduras. afirma-se que havia infiltração 421 nazista . por descaso em eral dos poderes públicos. através de perguntas como “o elemento allemão se deixa de boa vontade absorver pelo brasileiro. publicou diversas reportagens sobre o movimento nazista no Sul do Brasil e fez várias referências ao integralismo e à “mistura ideológica” entre as duas correntes. O jornal o Globo. Segundo o Times. 3/09/1937. outubro de 1937. Perguntava-se se havia intenção de uma invasão de Hitler no Brasil por uma política de expansão territorial. principalmente em Santa Catarina. Ministério das Relações Exteriores. O medo da invasão militar fica implícito neste trecho. Paralelamente. que fazia até o uso de boicote contra empresas que não eram aliadas à causa alemã: Em algumas colônias mais recuadas do centro principal que é Blumenau. . integra-se sem relutância na nacionalidade brasileira ou resiste?” ou “Qual o sentido desta resistência.

o jornal abre com a manchete: “Nao prometemos nada”. o partido nazista foi proibido e alguns dos líderes partidários foram presos. tanto do Times quanto do O Globo. sem especificar quem a tinha falado. Os primeiros são considerados nacionalistas e lutam pelo bem estar do Brasil. Desse modo formou-se o que alguns commentadores atrícios tem apontado como “um pedaço da Allemanha” tratando de se consolidar sob os céos do 423 Brasil” . o jornal publicou também uma série de artigos sobre o governo integralista nas prefeituras. os segundos transgridem estas normas. enfatizando principalmente a mágestão. Em reportagem de outubro de 1937. anti-comunista e anti-liberal. costumes e idioma próprios. Segundo o jornal. De fato. poucos meses depois. Os artigos. era anti-semita. que segundo o jornal. a opinião é explícita: “Blumenau nao teve o prazer de receber nenhum resultado 423 Ibid. Ao citar as semelhanças entre as duas correntes. No corpo da matéria.208 conacionalizadores. o jornal faz uma distinção entre dois “tipos” de integralista. Sem deixar de expressar a sua opinião contra o movimento integralista. identificado com Friss. A explicação para tal mistura é que a população teuta condenava o “nazismo de exportação” dos nazistas tradicionais e se identificavam mais com o integralismo. pelo seu discurso. com sua mentalidade. . A frase foi atribuída para a “gente integralista”. uma vez que alguns líderes. da parte dos nazistas também havia certa confusão. acentuando-se mais o lado germanizado. como o caso do chefe da cidade de Taió (SC). As reportagens foram arquivadas em atas no Ministério das Relaçoes Exteriores e exaustivamente analisadas pelos diplomatas. em abril de 1938. Eles são acusados de maus-administradores. que compareceu a um ato público em Rio Sul (SC) ostentando o sigma ao lado da suástica. adensaram-se a sua moda. tiveram grande repercussão no III Reich. que caracterizou-as como uma campanha difamatória contra a Alemanha.

acredita que 424 „Não prometemos nada. 428 Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. Alemanha. Neste momento. O que eles chamavam antes de um “Brasil integralista” dada a força com que o movimento se expandiu nos anos 1930. Tal acontecimento gera uma série de ruídos diplomáticos e o integralismo e sua ameaça ao Deutschtum é colocado em segundo plano. outubro de 1937. November 1941. 427 Ata R127506. Cossel se isenta da culpa com relação ao golpe de 11 de maio 428 de 1938 . por exemplo. às obras da Estrada de Ferro Santa Catarina. O jornal refere-se. Como havia muitos trabalhadores nesta obra que não-integralistas. outubro de 1937. 426 Revista Deutschtum im Ausland.Berlim. Alemanha. Uma primeira corrente acredita no separatismo entre os dois movimentos e a segunda. Algumas prisões foram efetuadas. Em obras públicas. Ata 104939. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. 385. Em entrevista ao jornal O Radical. entre eles seu líder máximo Hans Henning von 427 Cossel. os integralistas passam a 426 serem vistos pelo III Reich como incapazes de se chegar ao poder . Ministério das Relações ExterioresBerlim. Alemanha.. 1938. com o fracasso do golpe. os integralistas. Ata 104939. „Die Tätigkeit des Nazismus n Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506. Ministério das Relações Exteriores. teriam participado do golpe integralista .209 verdadeiramente apreciável da propalada açção renovadora e 424 progressista do sigma” . 384.as sinecuras. Ministério das Relações Exteriores. 425 „A preferência aos trabalhadores integralistas em obras públicas e os casos que a respeito surgiram em Blumenau. Observações de um blumenauense. 425 representados pelo jornal “Alvorada” teriam reclamado .o secretário Schubert Jr. os trabalhadores que não eram adeptos do integralismo teriam encontrado problemas. Ministério das Relações Exteriores. a visão do III Reich sobre o integralismo muda de perspectiva. Berlim. Os estudos que exploram as relações entre o nazismo e integralismo divergem entre si. Alemanha. p. In O Globo. Berlim. a atenção do III Reich se volta para um outro acontecimento importante na história das relações entre a Alemanha e o Brasil: a proibição do partido nazista local pelo governo brasileiro. „ A decepção causada pela estréia dos integralistas no governo de Blumenau.” O Globo. Com o golpe integralista de 1938. mas nada ficou provado. A preocupação passa a ser outra: a suspeita de que partidários do nazismo no Brasil. .

Recomendamos a leitura da obra de René Gertz supra-citada para o aprofundamento destas questõ es. Porto Alegre: Mercado Aberto. como foi o caso de Walter Honig. O Fascismo no Sul do Brasil. o que incluiria a assimilação cultural 431 dos alemães residentes no país. Cruz enfatiza que apesar das séries de evidências apontarem para uma colaboração entre as duas correntes. palestras no Sul do Brasil para esclarecer o racismo alemão e financiamento do movimento 429 integralista pelo Banco Alemao Transatlântico . de uma maneira simplista. . já que o integralismo.210 houve uma grande colaboração.. que mantinha relações com os integralistas. Germanismo. Natália Cruz e Bailey Diffie. Entre aqueles que defendem o colaboracionismo. 1987. N. Não se pode desconsiderar que a relação entre o nazismo e o integralismo também era marcada por desconfianças mútuas. René. temia a influência imperialista do Reich Alemão. Ele acrescenta que os nazistas queriam 430 “dominar” o Sul do Brasil . Balley apud GERTZ.2. podemos citar Edgar Carone. indentificam uma corrente com a outra. 430 DIFFIE. como movimento extremamente nacionalista. Nazismo. chefe do partido nazista no Rio Grande do Sul. . Há ainda. e o nazismo não simpatizava com a idéia integralista de nacionalização das minorias étnicas no Brasil. Nazismo. Edgar apud GERTZ. Germanismo. p. 2005. René. Porto Alegre: Mercado Aberto.2 Integralismo e nacional-socialismo. Integralismo. Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos. principalmente o capítulo 4. deve-se levar em conta as diferenças marcadas principalmente pelo caráter nacionalista de ambas. Integralismo. O nosso levantamento bibliográfico neste artigo se dará de maneira resumida. 119. Edgar Carone cita possíveis variáveis deste colaboracionismo como a publicacao em Santa Catarina do já citado jornal integralista Der Blumenauer Zeitung em língua alemã. Mímeo. Bailey Diffie corroborou tais afirmações acrescentando que ações isoladas dos nazistas agiam em prol do integralistas. 1987. p. outros estudos que. sem prestar atenção às devidas peculariedades. 429 CARONE. p. 431 CRUZ. 119-120. O Fascismo no Sul do Brasil.

a história é outra. vemos diversos exemplos que mostram um trabalho em conjunto entre os dois partidos. Stanley e MAGNUS apud GERTZ. O Fascismo no Sul do Brasil. influenciar alemães e descendentes para trabalharem como 5ª. apenas aconteceu em níveis individuais. 116-121. O Fascismo no Sul do Brasil. Nazismo. Segundo Manfred Kossok. Germanismo. 1987. O Fascismo no Sul do Brasil. Porto Alegre: Mercado Aberto. 434 KOSSOK. . umas das diretrizes do governo nazista na época seria conseguir a hegemonia comercial e para isto teria se organizado em diferentes frentes: dominar os mercados de matéria-prima. 432 HILTON. foi pontuado a todo momento que a realidade que analisamos foi da região sul do brasil. Neste artigo. Tal pensamento a respeito do golpe integralista é 433 compartilhado por Käte Harms-Baltzer . p. Integralismo. defende que entre nazistas e integralistas houve mais 432 conflitos que aproximações . Colunas e colaborar com o movimento “fascista local”. Porto Alegre: Mercado Aberto. A nossa posição. em nenhum momento. onde se concentrava o maior número de teutos-brasileiros. o integralismo era um movimento local de caráter nativista que deveria ser ignorado pelos alemães e teutos residentes no Brasil. 1987. o movimento integralista e os descendentes de alemães faziam uma oposição ao partido nazista no Brasil. Com relação às tentativas individuais de aproximação. Integralismo. 121. Ao ver do III Reich. Nazismo. Outra variável levada em consideração é a diferença regional. René. Nesta última frente. tendo em vista os documentos analisados. p. uma política oficial de colaboracionismo entre os dois partidos. p. Integralismo. 1987. René. Para Magnus. René. 433 HARMS-BALTZER apud GERTZ. é que não houve. Porto Alegre: Mercado Aberto.211 Stanley Hilton. foi citado pela imprensa alema na época que a subida do movimento integralista ajudou o o 434 Brasil a ser retirado da “órbita americana” . que se houve colaboração. Ele considera improvável a participação nazista no golpe integralista e acredita. na posição contrária. Na práxis. Manfred apud GERTZ. Germanismo. ainda deverá ser analisado pela historiografia. integralista e nazista. assim como Arthur von Magnus. Germanismo. A tal “mistura ideológica” deveria ser evitada. 122. Nazismo. Como se deu a relacao entre integralismo e nazismo em estados de outras regioes do Brasil.

). honesta. Deante do qual nunca tenhas de corar de vergonha de ti mesma. abnegada (. sinceramente. e serve conscientemente. e acima de tudo. FOTOGRAFIAS.) VI Na paz ou nas horas de lucta. em Deus. respeitosa. e como tal.) Crê. MULHER. a tua Pátria. caritativa..... 436 Mestranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (TEMPO/IFCS/UFRJ). militantes mulheres que participaram do movimento. Pelas imagens que o movimento produziu das mesmas. útil. sê sempre.212 11. assim como no discurso textual. (. ardentemente. sendo está passível de inserções documentais e revisões até a defesa do Mestrado. 435 A análise apresentada neste artigo reflete o estágio atual da minha pesquisa documental. . têm suas condutas delimitadas. de 5/1/37) A Ação Integralista Brasileira. (. escrito por Iveta Ribeiro e publicado em A Ofensiva. fundada em 1932 e posta na ilegalidade em 1937 pelo Estado Novo. neste discurso. GÊNERO E AUTORITARISMO: representações do feminino pela Ação Integralista Brasileira 435 Tatiana da Silva Bulhões 436 (. a tua Família. ama.. inteligente. simples.. produziu e divulgou um amplo discurso imagético sobre o cotidiano de seus militantes e sua ideologia através da fotografia... (Três regras de conduta do “Breviário da mulher integralista”. As “blusas-verdes”. temos uma forma de visualizar as representações do feminino na sociedade brasileira.) XI Faze de tua consciência um espelho límpido. necessária.

História e Memória. A fotografia integralista apresenta uma memória da militância integralista e sua identidade em relação a um Brasil em franca redefinição política e social. que as fotografias fazem parte de um processo. idéias. no qual uma determinada imagem do movimento e de seus militantes é escolhida e enquadrada como a verdadeira a ser perpetuada e que procura construir no presente a coesão do grupo a que pertenceu projetando essa imagem também para o futuro.213 Considerando-se que tanto a escolha do objeto fotografado quanto a posição de produção de sua imagem são o resultado das condições históricas das relações sociais e expressam os significados culturais de uma época. Jacques. esquecimento. 439 POLLAK. ainda.I. a história”. p. monumentalizando seu dia-a-dia.7 440 LE GOFF. p.525. interessa-nos rastrear os usos e produção de significados dessas imagens e suas utilizações no amplo leque de instrumentos de 438 propaganda utilizados pela A. o cinema. denominado por Pollak.2. Estudos Históricos.125.B. o objetivo central de nossa pesquisa tem sido investigar as formas de produzir e divulgar as fotografias do 437 movimento no Rio de Janeiro e o lugar da mulher nas mesmas. na qual objetos. 2003. O conjunto fotográfico e os periódicos integralistas analisados retratam militantes e uma autoimagem do movimento. revistas ilustradas. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. tanto regionais quanto nacionais. As referências teóricas e metodológicas que orientam a pesquisa e análise imagética deste trabalho estão intimamente ligadas ao campo de uma história social onde a fotografia é pensada como 437 Muitas destas imagens fotográficas se encontram arquivadas e publicadas pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro à disposição dos interessados.1999. tradições e comportamentos contribuintes da formação de uma identidade coletiva e de uma memória que se quis perenizada para o futuro. permiti-nos considerar a fotografia como documento para a história – marca de uma materialidade passada. Além disso. “Documento/Monumento”. tal como sugere Jacques Le Goff quando trata dos “materiais 440 da memória coletiva e sua forma científica. “Memória. Ver: CAVALARI. v. lugares nos informam sobre o passado – e também como monumento – algo que traduz valores. Michael. n. 1989. os livros produzidos pelos seus ideólogos. Rio de Janeiro. panfletos e jornais. de 439 “enquadramento de memória” . silêncio”. pessoas. As novas condições de escrita da história. . Rosa Maria Feitero. São Paulo: UNICAMP. São Paulo: EDUSC. Consideramos.3. 438 Outros exemplos de instrumentos de propaganda utilizados pelo Integralismo são o rádio. na década de 1930. p.

2004 442 O conceito de representação também é compreendido nesta análise à luz da psicologia social e da semiótica. separada das questões sociais (quem fotografa? Por que fotografa? Quais as intenções/objetivos?) e do tempo histórico em que foi produzida. pretende-se nesta pesquisa ir além desta esfera. 2000. Introdução à analise da Imagem. construiu em seu discurso textual e imagético padrões de feminino e masculino em consonância com sua filosofia e visão de mundo. et al. 1996.. indagando os usos e escolhas dos produtores das fotos. Além disso. “A história como ‘representação do passado’: a nova historiografia francesa”. Representações: Contribuição a um debate transdisciplinar. Grenoble: Presses Universitaires de Grenoble. mas também hierarquias entre eles. A Ação Integralista Brasileira. (orgs.16. opiniões. In. entre outros). da subjetividade de quem o vincula e do sistema social no qual se inscreve a relação sujeito-objeto”. exposições. como aponta Bourdieu em seu estudo sobre 441 Tais preocupações com análise da fotografia são similares às de Marta E. BARBOSA. Sendo assim foram delimitadas pela 442 intelectualidade. Laura A. os sentidos dados à fotografia no Brasil da década de 1930. p. “Os famintos do Ceará”. Pascal. apesar de ter como meta a analise do conteúdo do corpus fotográfico (objetos. Ciro Flamarion e MALERBA.33 e MOLINER. Contudo. São Paulo: Papirus. comportamentos referentes a esse objeto. entre 1933 e 1937. dirigente ou não. Martine. . gestos. por exemplo) e o modo que 441 elas apareciam no material de divulgação. In: MACIEL. bem como as técnicas fotográficas usadas na produção fotográfica. Campinas.86. Tais representações se tornam instrumentos de poder integralista. consolidando não somente as diferenças. 1996. A imagem não existe apenas em função do desenvolvimento técnico ou da possibilidade colocada pelo equipamento. São Paulo: Papirus. Ela é constitutiva da realidade desse objeto. cabe comparar as representações de feminino nas fotografias integralistas com outras fotos da sua época. em linhas gerais. como sendo. Barbosa em seu trabalho sobre as fotos da seca no Ceará. no final do século XIX. do movimento representações dos gêneros. folhetos. Marta E. as formas como foram divulgadas (periódicos integralistas ou não. “a percepção de um objeto como signo do mesmo. J. Images et représentations sociales – De la théorie des représentations à la étude des images sociales. outras histórias. como algo que existe para significar ou designar o objeto” e conforme afirma o psicólogo Pascal Moliner “correspondem a um conjunto de crenças. Ver: JOLY. pág. São Paulo: Olho d’Água. p. locais. intimamente ligadas aos argumentos dos discursos médicos eugênicos e de inspiração cristã desta época. Apud SILVA.214 prática social e expressão de relações sociais e significados culturais. Jacinto. Campinas.) Muitas memórias. Helenice Rodrigues da. pessoas. Jurandir. CARDOSO.

1991 . p. Pierre. 11 (5). de fundo biológico. Joan. intimamente ligadas à sociedade da sua época – por este motivo não são dados “naturais”-. nas décadas 1920 e 1930. 2001. pp. 446 SCOTT. Dabat e Maria Betânia Ávila). marcou e 445 mesmo transformou o discurso conservador destas décadas . pois elas são muito mais o resultado das relações sociais em determinado momento histórico. Modernizando o casamento: a leitura do casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). e que estas estão imersas em relações de poder e de hierarquia. a propaganda política. 444 Ver: CHARTIER. O poder simbólico.117 e 118. 1989. contra o casamento e a desigualdade de direitos entre os gêneros. por exemplo. SOS Corpo. dão a conhecer e fazem reconhecer. Recife. Roger. feministas ou não. 445 SILVA. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. assim como impõem as definições legítimas das 443 divisões de mundo. Campinas: Unicamp. como fenômeno da sociedade e da cultura de massas. A fotografia à serviço da propaganda e da memória do Integralismo: o caso da revista Anauê! Na década de 30.1-3. já que não se pode entender as representações como imposições simplesmente. Ressalto que estas representações não são “criações” separadas da sociedade e do tempo histórico em que foram elaboradas visto que é preciso mais que uma certa sintonia entre aquilo que está sendo mostrado e o público que receberá a mensagem. Dissertação de mestrado. In: Estudos Avançados. neste caso aos integralistas . Cleusa Gomes. mas onde também são possíveis negociações e 444 improvisações .137. cristão e antifeminista. A crítica elaborada por mulheres intelectuais. 1991. pois estas fazem ver e fazem crer. onde existem muitas hierarquias. ao pensá-lo como categoria útil de análise histórica e uma forma de indicar as 446 construções sociais dos papéis femininos e masculinos . . “O mundo como representação”. 447 Entendo Cultura política neste trabalho como “um conjunto de atitudes. A consciência de que o discurso integralista construiu representações do gênero feminino. pp. evidencia minha opção pelo conceito de gênero tal como proposto por Joan Scott. Gênero: uma categoria de análise histórica (tradução de Christine R. p. era fator integrante da cultura 447 política brasileira e internacional da época e adquiriu enorme 443 BOURDIEU. crenças e sentimentos que dão ordem e significado a um processo político.215 representações.182. São Paulo.

na década de 1940. para manter seus militantes e conquistar mais adeptos . dá algumas indicações do entendimento do sentido da propaganda naquela época. O Estado Novo também vai utilizar a fotografia. Fotografia e Sociedade. A leitura do periódico Revista do Serviço Público . Fotografia e discurso político no Estado Novo: uma análise do projeto editorial “Obra Getuliana”. Maria Helena Rolim. Benedito Silva. 448 CAPELLATO. afirma que. Segundo o regulamento da Secretaria Nacional de Propaganda 450 pondo em evidência as regras e pressupostos nos quais se baseia o comportamento de seus atores”. KUSCHNIR. n.2. mar. em seu artigo nesta revista. Lacerda ao analisar este artigo. por exemplo.. n.1. 452 Ver: BERTONHA. Lisboa. o que tornaria sua leitura de fácil apreensão. Campinas. O nazismo e o fascismo se utilizaram desse recurso e sua influência se fez perceber aqui no Brasil. João Fábio. afirma que a propaganda possuía natureza emocional e para chamar a atenção do receptor deveria estar baseada em “argumentos dramaticamente convincentes e símbolos poderosamente emocionantes”.5-12. In: Estudos Históricos. 1999. a técnica de propaganda se beneficiaria da “falta de pensamento crítico por parte do receptor. Heinrich Hoffman. Uberlândia. São Paulo: Papirus. vol. Leandro Piquet. “Como se caça a versátil atenção humana”. que tirava suas fotos e escolhia as que parecessem mais 449 adequadas aos fins da propaganda alemã. Hitler. atingindo diretamente suas emoções e 451 paixões”. Multidões em cena. Dissertação de Mestrado. . In: História e Perspectivas. 450 SILVA. Propaganda política no varguismo e no peronismo. Rio de Janeiro. 1998. Rio de Janeiro. em âmbito mundial. Karina e CARNEIRO. Gisèle. p. v.3. “A máquina simbólica do Integralismo: Propaganda e controle político no Brasil dos anos 30”. 449 FREUND. quando ocorreu.125. (7): 87-110. p. 451 LACERDA. um avanço 448 considerável dos meios de comunicação . O Integralismo também se insere na cultura política da sua época e utilizou largamente artifícios propagandistas. Editora Vega. E mais. como veículos de propaganda governamental . incluindo a 452 fotografia. Benedito. tinha um fotógrafo de confiança.24. s/d. a massa. As dimensões subjetivas da Política: Cultura Política e Antropologia da Política. Revista do Serviço Público. ela se faz muito mais a poder de símbolos do que através de argumentos. Rio de Janeiro.216 importância. Escola de Comunicação da UFRJ. Aline Lopes de.1. p. jul/dez 1992. assim como a imprensa e o cinema. p.1940.34. 1998.

Não só a fotografia. p.P. relata o julgamento do concurso de cartazes. 1959. 1936. de 30 de maio 456 de 1936 . ela era 453 “um dos setores fundamentais da Ação Integralista Brasileira”. Série Integralismo. Fundo DESPS. irá crescendo o número de assinantes. ano II. os jornais não integralistas do seu município. aponta como uma das informações que deve conter o relatório do Departamento Provincial de Imprensa “publicações feitas da imprensa sobre o 453 Enciclopédia do Integralismo. indica a importância dada pelo movimento à fotografia como fator de propaganda de si. também parece indicar esta intenção do movimento de utilizar a foto para propaganda de si: “ (. Um relatório da Secretaria Municipal de Propaganda do 454 Núcleo Integralista de Ipanema . Fundo DESPS. RJ. Série Integralismo. As fotografias circulavam em periódicos integralistas e possivelmente em periódicos não integralistas que fossem simpáticos à causa da AIB. investigando inclusive se existiam integralistas infiltrados no corpo de 457 funcionários e qual a posição do jornal em relação ao movimento . À medida que se for compreendendo que a revista está intimamente ligada ao trabalho de propaganda de nosso movimento. v.117. feitos por militantes.. mas as imagens em geral. n. A 458 Diretiva n° 1. onde ocorreu “uma cuidadosa consideração de desenho e cor” e se avaliou “a significação. de 1936 . por meio de um questionário. Um Boletim da Província da Guanabara. Uma das perguntas do questionário procura descobrir se o Núcleo tem utilizado a fotografia em seus eventos ou textos de propaganda. de circulação nacional. seu poder de sugestão e transmissibilidade da idéia”. 457 Folha 107 da pasta 17.217 (S. Livraria Clássica Brasileira.N. . Um trecho do editorial da revista ilustrada 455 integralista.7. 454 Folhas 97 e 98 da pasta 12. apresentados no 3° aniversário da Província da Guanabara. Série Integralismo.9. Fundo DESPS. Uma das orientações da Secretaria Nacional de Imprensa às Secretarias Municipais era identificar.) A revista Anauê! reflete o carinho dos “camisas-verdes” pela causa do Sigma. da Secretaria Nacional de Imprensa. Série Integralismo..). 456 Folhas 9 a 12 da pasta 2. 458 Folhas 85-92 da pasta 17. Fundo DESPS. Anauê!. a intenção e a simbólica do cartaz e procurou-se examinar sua capacidade didática. 455 Anauê!. e ela aparecerá então mais bonita. por exemplo. eram utilizadas com fins propagandísticos e mereciam cuidados e investimentos por parte da AIB. datado de 27 de fevereiro de 1937. que tinha ramificações em nível estadual e municipal. mais elegante”. isto é. mais caprichada.

textos e imagens do movimento foram enviados pelos departamentos provinciais de imprensa da AIB.Rio de Janeiro: Relume Dumará. narrar ou comentar visualmente uma história. em todas as suas manifestações. cit. Tal concordância entre a realidade e sua representação seria reforçada pelo que Vilén Flusser explica ser a capacidade da imagem fotográfica de. por exemplo. no Rio de Janeiro. p.83. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. onde se afirma que “é dever de cada núcleo 459 Fon. que ela reservava algumas páginas para mostrar “o Integralismo nos 459 Estados”. Florianópolis: Letras Contemporâneas. p. ser o comentário múltiplo. A Revista ilustrada Cruzeiro. 2002.1. Segundo ele “o observador confia nas imagens técnicas tanto quanto confia em seus 462 próprios olhos” A confiabilidade naquilo que as imagens fotográficas representam promoveu sua proliferação nas revistas ilustradas da época. chegar de forma mais direta e objetiva a nossa compreensão. p. 462 FLUSSER. com menos espaço para dúvidas. não enfatizando necessariamente um acontecimento 463 privilegiado”. chamado o “número das multidões”. 2000. nº 5. provavelmente. assim como pelos produtores de seus periódicos. Filosofia da Caixa Preta. em seu editorial advogava ser “o espelho em que se refletirá. Chapecó: Grifos. Outra característica do fotojornalismo desta época era o objetivo básico de suas reportagens: “mostrar o desenrolar das atividades cotidianas. lançada em novembro de 1928. que se propunha à descrição da realidade como 460 ela era . Estas orientações internas indicam a existência de esforços para aproximar a AIB da imprensa diária não integralista e que. Os sentidos de veracidade e confiabilidade ligados à imagem fotográfica também são partilhados pela intelectualidade da A. nos anos de 1935 e 1936. 1928.218 Integralismo. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. 1935-36. Observa-se isto em um panfleto sobre a revista ilustrada “Anauê!”. 461 Cruzeiro.B. diferentemente do texto escrito. por exemplo. 460 SOUZA. em períodos semanais. de 1935. n. Vilém. . Observei na pesquisa à revista ilustrada “Fon. op. Esta postura tem como premissa que o que está ilustrado é a própria verdade. fon”. no Brasil e no mundo. A propaganda integralista através da fotografia era reforçada pelo caráter de “foto-descrição” do fotojornalismo. instantâneo e fiel dessa viagem de uma nação 461 para o seu grandioso porvir”. ano 1.. fon!. uma idéia.14. um tema. 463 LACERDA. Jorge Pedro. a civilização ascensional do Brasil. enviadas pelo Departamento Provincial de Imprensa”. dessa época.I.25.

através do seu grande número de fotografias e desenhos o cotidiano do movimento. que pela evidência esmagadora dos seus argumentos fotográficos. seja com sua fotografia sempre presente nas paredes dos núcleos integralistas.64. tendo o caráter de “mostrar”. a Idéia. e principalmente. A divulgação recorrente da figura do Chefe Nacional. de 1935 . o nascimento e morte de militantes. congressos integralistas. p. Afinal. Na leitura de um trecho do editorial do primeiro número da Revista Anauê!. nas suas páginas. ano I. de 1935. como concentrações de militantes. o lar. difundir idéias e convencer o receptor da veracidade do seu conteúdo. não é justo que só os núcleos possuam a fotografia do Chefe. 466 Anauê!. . como verdadeiros subnúcleos.) o Integralismo é a Revolução da Família. A fórmula utilizada pela revista de conferir ao meio fotográfico a função de mostrar. na casa de militantes. Está feito de modo a ser facilmente destacado e colocado num quadro que deverá honrar a sala de visita de todo integralista. uma focalizando o muro de uma casinha em Pernambuco. Série Integralismo.. o Chefe não é uma pessoa e sim. é um recurso amplamente explorado na difusão da imagem do chefe e produz um efeito de onipresença do líder integralista na vida cotidiana dos militantes. Uma análise desta revista indica vários usos e funções que a fotografia tinha na imprensa ilustrada como fator de propaganda e construção de memória do Integralismo. 1935. está gritando do Acre ao Chuí: nenhuma força humana deterá mais a marcha gloriosa dos 464 soldados do Sigma!”. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. e mais que isso comprovar. Aí o tem os leitores. O exemplo da revista integralista Anauê! é interessante aqui por ser uma representante do fotojornalismo da época.. Fundo DESPS. Plínio Salgado.1.219 e de cada ‘camisa-verde’ assinar a revista. n. n º 4. 465 às famílias. encontra-se o incentivo aos militantes para que mantenham a imagem do chefe até no seu espaço privado. Duas fotografias. o que alarga ainda mais o sentido de onipresença da figura do líder em sua vida diária: “ (. seja com sua presença aos eventos integralistas. Além disso. 465 Anauê!. ano 1. jan./1935. de “testemunhar”. o que o texto escrito afirma é algo flagrante. Por isso não pode faltar nos lares brasileiros o retrato do Chefe Nacional. out. Um exemplo do que afirmo está na revista de 466 nº 4. onde estava escrito “Viva o Entegralismo de Plínio Salgado”e a outra focalizando a frente de um “mocambo” em 464 Panfleto 152. assiste igual direito” .

vemos que a interligação entre foto e texto difunde idéias e procura convencer os leitores. o Sigma pintado no topo da parede e dois militantes uniformizados do seu lado. cria afinidades e produz sentimentos de identificação com as 467 pessoas e eventos retratados. Em cima das fotos um texto afirma: “Não é só nos quartéis. vivo. nas academias. nas fazendas e nas metrópoles que o Integralismo vai penetrando vitoriosamente. Ao lado da história. inteligente e duma chispa de audácia e altivez no olhar”.29. Aí vê o leitor mais duas provas de atração irresistível que a Doutrina do Sigma exerce sobre os brasileiros de todas as categorias. de todas as classes sociais”.8. . Concluindo o relato. ano II. Nestas duas historinhas acima. uma fotografia mostrava Nezinho. A fotografia em conjunto com o texto também estabelece relações.220 Recife. Quando o trem para numa pequena localidade chamada Monjolos. Na pequena história o integralista Olympio Mourão relata que estava no trem voltando de sua viagem a várias localidades brasileiras.No momento em que presto juramento de fidelidade ao Chefe. mar/1936. onde se vê uma senhora. entra um “legítimo tipo do caboclo brasileiro. n. ele diz que seis meses depois ele passou de trem em Mojolos e vários integralistas entraram no veículo. que se apresentou como Nezinho. Enquanto conversavam. em um exercício de propaganda do integralismo. encontrei um exemplo interessante disto. com poucas letras. muitas virtudes e inteligência fizera o milagre”. são. ele também está prestando juramento de fidelidade a mim”. Quando Mourão “se preparava para ir ao auxílio daquele integralista de poucas letras e muitas virtudes”. observa-se também a valorização das pessoas humildes e sem ou com pouca instrução. Na revista n º 8 . segundo ele: “Nezinho. Além da intenção de comprovar. Em outros números da revista também se encontram pequenos contos 467 Anauê!. entra um engenheiro no trem e após escutar a conversa por algum tempo pergunta ao “caboclo” se ele não se sentia “vexado” em prestar juramento de fidelidade a um homem de carne e osso. sua esposa e seu filhinho fazendo a saudação integralista. descalça com o filho nú no colo. p. o mesmo com “o olhar vivo e sagaz de quem sabe que domina facilmente o antagonista” responde: “. Sobre a frase no muro da casinha o texto ressalta: “E Almeida Salles (um dos militantes da foto) já encontrou a Idéia precedendo o pregador”. onde “tivera oportunidade de avaliar a força de uma doutrina salvadora e ao mesmo tempo as dimensões das (suas) responsabilidades”. O rapaz diz a Mourão que é o único integralista da localidade e que se achava “senhor de muito poucas letras” para fundar um núcleo local.

ago/1935. sendo a conduta da mulher novamente delimitada. no Natal. voltados para as leitoras.22. na maioria das vezes ligados à fotografias. pensam muitos outros: não julgam capazes de serem boas esposas e mães de família as moças que freqüentam os bailes de 468 hoje”. homens e mulheres. Ele diz a mãe que a moça não deve gostar de ir a bailes.11. algo presente a todo o momento na revista.221 onde o caboclo é citado como uma pessoa simples. como um. ano I. ano II. com crianças e homens a sua volta. n. Renneberg. jul/1936. a fotografia do casamento de Nayr Ferreira e Theodoro G. que aparece no n º 11 da revista. na Escola integralista junto aos seus alunos. a partir de 1936. mas detentora de grande sabedoria. posando com suas companheiras do Departamento Feminino em frente ao seu núcleo. onde um “militar graduado” pede a sua mãe que o ajude a encontrar uma noiva. em uma cerimônia cheia de símbolos integralistas. com suas companheiras. Nos textos desta militante universitária. são direcionados a um público específico. Nair Nilza. ou casando com algum militante. e não se esquecendo nunca de sua condição de 468 Anauê!. “O integralismo e a mulher”. da integralista Nair Nilza Perez. Pode-se supor que estes textos. como também. p. distribuindo mantimentos e roupas. Na Anauê! 469 de n º 3 . 470 PEREZ. lutando na vida prática ao lado dos homens com estímulo e alegria. 469 Anauê!. “Decálogo da boa esposa”. cursando as Faculdades. A militante integralista também era alvo fundamental da propaganda integralista nas páginas desta revista. jul/1936. Sua conduta é delineada através destas imagens e também de pequenos textos. Os textos e artigos escritos sobre as mulheres eram de autoria de dirigentes. está próxima ao texto.8.11. ilustrando o espírito. ano II. 3. por exemplo. sem autoria. . n. a militante integralista também é evidenciada. O texto termina com a afirmação “Como este oficial. Neste pode ser percebido o intuito de construir a imagem da esposa submissa e propriedade do marido. p. n. do núcleo de Joinville. Ela aparecia em concentrações. No diálogo entre foto e texto. Em seus argumentos o Integralismo quer “a mulher superior (em relação à mulher comunista e liberal norte-americana). p. ela tenta convencer que o Integralismo não irá privar a mulher “de todos os seus direitos públicos e políticos” e ela 470 não ficará “tolhida no seu anseio de liberdade” . Anauê!. sem autoria.4. uniformizada. que vai se identificar com eles e se interessar em participar do movimento.

A 471 PEREZ. ano II. anti-comunistas e cristãos. Tese de Doutorado defendida na UFF. e até fazer os cursos para fotógrafos iniciantes oferecidos 474 pelo Fotoclube Brasileiro. 472 Sobre o discurso conservador sobre a mulher nesta época ver: SILVA. 473Anauê!. n. 34. n° 12. mas também de fotógrafos amadores entre os militantes. p. A produção fotográfica e o controle dos códigos de representação social da Classe Dominante. 471 escritora. nota-se que eles são convidados “a enviar a esta redação a sua colaboração fotográfica.I. tanto textual 472 quanto imagética. da mesma forma que o restante da intelectualidade brasileira conservadora da época. “o desenvolvimento da civilização (cristã) libertou a mulher dos preconceitos. no Rio de Janeiro . esposa. era tarefa. fundado em 1923. de outubro de 1935. Unicamp. set /1936. 1990. Em seu texto.B. que virá de encontro aos desejos do Chefe Nacional. Rio de Janeiro. como a obtenção de empregos antes restritos aos homens e o direito ao voto. Cleusa Gomes. que insiste em que “Anauê!” seja um museu portátil do 473 Integralismo”. Percebe-se também na revista ilustrada “Anauê!” o uso da fotografia para construção da memória e da identidade integralistas. as fotografias. no Rio de Janeiro. A condição da mulher evoluiu graças à “revolução espiritual” realizada pelo cristianismo e não pelas “lutas femininas por igualdade de direitos”. 2001. A partir de então. p. Nair tenta atrair não só as donas de casa. Aqueles que tivessem recursos financeiros suficientes podiam comprar sua máquina. na primeira metade do século XX. jul/1936.11. médica”. Dissertação de Mestrado em História. É interessante notar que a produção fotográfica neste momento. e se identificavam com seu discurso imbuído de argumentos anti-feministas. quando na leitura de um trecho do apelo da revista. Nair N. mas também as mulheres que queriam ou precisavam trabalhar. fotógrafos e Secretários de Propaganda. A produção destes suportes materiais de memória. fez a A. ao contrário dos escritos dos integralistas mais conservadores. Modernizando o casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). aos seus militantes.13. 474 Sobre o Fotoclube Brasileiro ver: MAUAD. filha”.. colocando-a no mesmo plano intelectual dos homens e fazendo dela deputada. jurista. Creio que a aquisição de algumas liberdades pelas mulheres neste momento. Sob o signo da imagem. pp. . não só de fotógrafos contratados pela revista. que atraísse a mulher brasileira . lutavam por seus direitos políticos.222 mãe.31-32. ano II. não é mais monopólio de alguns fotógrafos profissionais. Ana Maria. adaptar seu discurso repressor e formular uma argumentação. in: Anauê!.“A civilização e a Mulher”.

fundo DESPS.B. O eixo da análise é a codificação da noção de espaço. que compreende as pessoas retratadas.P. .S. a sua forma de expressão fotográfica. já digitalizado. o espaço da figuração.B. op. Estes planos serão analisados separadamente. vivências e eventos femininos que se tornaram objeto do ato fotográfico.S.E. além de uma reflexão sobre o ofício do fotógrafo na década de 30 no Brasil.I. o espaço do objeto. direita e centro) da foto e objeto central. que compreende o espaço físico representado na foto e sua relação com as “camisas verdes”.I. após a implantação do Estado Novo e colocação do partido na ilegalidade em dezembro de 1937. categoria que compreende um estudo das escolhas do fotógrafo. analiso o espaço fotográfico. através da atribuição de “tarefas fotográficas” aos seus militantes procurou transmitir a impressão de que estava aberta a todos a construção da memória e identidade do movimento. A análise de alguns aspectos do conteúdo fotográfico desta série permite também problematizar a representação de feminino produzida pelo Integralismo e sua conduta sendo delineada através da fotografia O método de análise do conteúdo e das técnicas fotográficas neste trabalho se baseia no método histórico-semiótico. que abrange as atividades. A fotografia.223 A. foi produzida pela A. cit. APERJ. da Série Integralismo. por volta de 82 fotografias . a relação entre os gêneros e as hierarquias presentes. que abrange a lógica existente na representação dos objetos e sua relação com a experiência vivida pelas integralistas. No plano de expressão. analiso os seguintes espaços: espaço geográfico. No plano de conteúdo. abriga em si uma forma de expressão e uma forma de conteúdo. Visualizando a militante integralista: análise da técnica e conteúdo fotográficos A série fotográfica. pp. Estão incluídos aí os itens: sentido (horizontal e vertical). na década de 1930 e apreendida dos seus Núcleos e Jornais no Rio de Janeiro pela Delegacia Especial de Segurança Política e Social (D. direção (esquerda. da mesma forma que outros sistemas de signos. mas são entendidos como inter476 relacionados 475 475 Estas fotografias fazem parte de um conjunto. 93-96. e finalmente. criado pela professora Ana Maria Mauad da Universidade Federal Fluminense. 476 Ver: MAUAD. o espaço da vivência.). analisada aqui.

suponho que ocorreu um deslocamento do espaço privado de controle do feminino. objetos e lugares de seu controle e escolha.B . a extensa legislação chamada de Protocolos e Rituais. de retratar pessoas. e o equipamento fotográfico utilizado. devido à presença de fotografias com a movimentação dos seus atores e em alguns momentos fora do espaço privado. verifiquei que o espaço geográfico predominante é o urbano. de coletividade. estando esta análise sujeita a revisões ao longo do processo de pesquisa. tendo como valor básico a participação obrigatória e generalizada de todos e buscando a eliminação total de todas as diferenças. p. Em uma das leituras obrigatórias de todo integralista.224 A seguir. de união e confluência de interesses entre homens e mulheres. As mulheres estavam presentes nestes momentos. O Núcleo integralista era o espaço por excelência da normatização e do controle do militante. 1988. sem divisões. . ARAÚJO. Embora elas não estivessem no espaço privado. pugnas de futebol. na medida em que persegue um ideal de sociedade uniforme. o integralista era informado que neste espaço “não se discute política. como na relação entre os grupos sociais e o Estado. Totalitarismo e Revolução. A mensagem transmitida por essas escolhas espaciais enfatiza significados de aglutinação. participando ativamente como colaboradoras do movimento. ou dos fotógrafos. comunicativa. pois todos ali são companheiros. O Integralismo de Plínio Salgado. Ricardo Benzaquén de. Deve haver uma alegria sã.I. onde se tomavam as grandes decisões do movimento. Zahar. o aplicarei. direção central e o objeto central é a figuração coletiva. Identifiquei alguns aspectos do plano de expressão das fotos: o tipo de foto que predomina é a fotografia posada. que estão 477 estreitamente relacionados com o caráter totalitário da A. religião. a fim de expor algumas impressões sobre o conteúdo das fotos. mostrando a intencionalidade do fotógrafo. o Rio de Janeiro. contrariando o discurso de alguns integralistas mais conservadores. suponho que se usou uma máquina leve e com alto nível de definição da imagem em variadas condições luminosas. ricos e 477 Como aponta Ricardo Benzaquen477. No plano de conteúdo do conjunto das fotos. nem se fala mal de ninguém. tanto no interior da sociedade. RJ. de forma simplificada. 21. e de quem encomendou a foto. a visão de mundo integralista tem o caráter totalitário. o enquadramento predominante da mulher no corpus fotográfico é: sentido horizontal. do lar para o núcleo integralista (na maioria do conjunto fotográfico elas aparecem em núcleos ou espaços integralistas fechados e observada pelos integralistas homens). Embora não identificados a identidade do fotógrafo.

em 1937. posam para o fotógrafo. p. indica também a representação homogênea e única das militantes. 478 Protocolos e Rituais.B. que estão imbuídos de uma gama de simbologia e ritualística: uniformes. poderosos e humildes. Rio de Janeiro. em uma data não identificada da década de 1930. A raça e a nação: a família como alvo dos projetos integralistas de nação brasileira nas décadas de 20 e 30. Unicamp. 2001. vemos meninas levando bicicletas no último desfile do movimento. símbolos integralistas como o Sigma e a bandeira integralista.. Ao fundo. não há indícios de individualismo. Um exemplo do que está sendo afirmado aqui é a fotografia I0137. tirada no Núcleo da Gamboa.98. De pé. e a presença da Educação Física na A. e ali estão unidos pelo bem do 478 Brasil”. Em outra foto (I0139) abaixo. capítulo VIII. somente existe a militante integralista. de acordo com seu gênero. com a mesma postura e posição. assim como uma padronização da postura. pintadas na parede ou em cartazes. a bandeira nacional. A sua presença. promovendo disciplina e hierarquia . Edição do Núcleo Municipal de Niterói. exposta abaixo.I. que segundo Geraldo era utilizada pelo movimento como instrumento de 479 militarização. As militantes uniformizadas. Tais objetos garantem a manutenção da identidade da integralista. artigo 89. Na parede da direita está pintado o texto: “Nós despertaremos a Pátria. Endrika. Rio de Janeiro. as bandeiras nacional e integralista e no centro delas a foto do Chefe Nacional. 479 GERALDO. Nós a ergueremos.225 pobres. . frases. a foto de Plínio Salgado. a fronte erguida. miniaturas do cristo crucificado. Dissertação (Mestrado em História). 1937. No espaço do objeto estão à sua volta objetos do cotidiano integralista. ela dará o primeiro passo e marchará”. recomendadas pelo Protocolos e Rituais que estivessem nos Núcleos integralistas. além de divulgar os ideais de nacionalismo e de respeito e obediência ao Chefe Nacional.

notei que a mulher. ser .226 Foto I0137 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Foto I0139 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Analisando o espaço da figuração. na maioria das fotos vem acompanhada da presença masculina e infantil. Estas representações indicam as associações feitas pelo integralismo com a figura feminina: exercer seu papel “natural” de maternidade.

P. . 1986. Municipal e Distrital. A postura ereta e rígida . Na fotografia onde mulheres integralistas são retratadas. p. de ambos os sexos.a mulher está com o semblante sério e de braços cruzados em praticamente todas as fotos coletivas. Nas fotografias onde estão presentes crianças e adolescentes. o que mostra a intenção em retratar que as mulheres desde muito cedo se tornam “soldados do integralismo”. tendo cada um deles uma chefia. apontam para a intenção de militarizar corporal e psicologicamente seus integrantes. 9.P era composta pelos Departamentos Feminino e de Plinianos. em toda a série fotográfica selecionada. Alcir. todos os brasileiros. é flagrante. esse aprimoramento físico.. vol. defendido pelos intelectuais integralistas.168. Sendo assim. Provincial. e educar.N. além de uma linguagem bélica no seu discurso. orientar e controlar as atividades femininas no Movimento” e o Departamento dos Plinianos “reunir.F. finalmente. Idéias eugênicas e fascistas de melhoria da raça pela sua disciplinarização e “docilização” através do esporte e de defesa de uma militarização corporal e psicológica dos brasileiros – tornando-os “soldados da pátria” -. também é vista a mesma postura e gesto. Regulamento da S. cívico.A. com algumas exceções. no espaço da vivência observei que as atividades e vivências femininas retratadas pelo fotógrafo. o olhar fotográfico contemplou atos oficiais . comício pró-candidatura de Plínio 480 480 Como afirmamos anteriormente. SP: Papirus. até 15 anos de idade. disciplinar. a mesma representação feminina disciplinada e obediente.227 “colaboradora” e dependente do homem . E. O Departamento Feminino tinha por objetivos “arregimentar. de uniformes no cotidiano de militantes e dirigentes. Os integralistas se inserem nessa discussão e a presença de milícias organizadas no movimento. perpassam o discurso da intelectualidade brasileira na década de 481 1930 . estão relacionadas à A. 482 A S.A. In: Enciclopédia do Integralismo. de modo a realizar o seu aperfeiçoamento moral. Campinas. onde elas esboçam um sorriso . solenidades nos Núcleos Municipais.N. 2 ed. congressos femininos.I. 481 Sobre este discurso de militarização corporal dos brasileiros ver: LENHARO.aponta para a representação da mulhersoldado integralista. sendo que cada um destes subdividia-se nos Departamentos Nacional. através da escola ativa. desfiles públicos. Sacralização da política. essa militarização do corpo.B. Não há fotos de vivências femininas que não sejam aquelas no âmbito da convivência com seus companheiros integralistas.F. a conduta feminina no discurso integralista é delimitada utilizando argumentos dos discursos médicos eugênicos. cit. op.reuniões da Secretaria de 482 Arregimentação Feminina e Plinianos .. onde o público feminino e as dirigentes são o principal foco. intelectual e físico”.

. neste trabalho.B. mesmo sendo óbvio que as militantes iriam votar em Plínio conscientes e orgulhosas de seu ato. em São Paulo. Técnica. e no comício da candidatura de Plínio Salgado. retratada em votações. como se fossem cerimônias católicas. provavelmente para escolha de dirigentes.. Um aspecto nos atos oficiais me chamou atenção. o outro masculino. a A. festas dos plinianos. Cavalari aponta que o Integralismo distribuiu milhares de panfletos no Brasil inteiro incentivando o voto feminino e que ele queria conquistar 484 este voto para chegar à presidência. concentrações. Contudo.228 Salgado. mas sim analisar e problematizar o discurso imagético produzido pela Ação 483 Solenidade criada para homenagear o primeiro desfile integralista. Lisboa: Relógio D’água Ed. 1992. “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. A participação política feminina. cit.I. p. o exercício da política pela mulher é visualizado na fotografia de forma estritamente ligada aos interesses do movimento. entrega de mantimentos às famílias carentes e momentos de descontração com os militantes. 485 BENJAMIN. Walter. op. Sobre Arte. Batizado de plinianos. Isto fica claro ao notar que não há fotos de mulheres em comício de outros candidatos ou votando em outros candidatos. p.B.I.62. onde os militantes no dia 23 de abril. Considerações finais Para Concluir esta exposição. visita aos militantes nas suas Universidades. Sobre esse modo de se fazer e exercer a política concordo com Walter Benjamin ao afirmar que “o fascismo tende naturalmente a uma estetização da vida 485 política”. é incentivada pelo movimento (a ponto de uma integralista discursar em apoio a Plínio Salgado no comício de sua candidatura). entendia o exercício da política pelos seus militantes muito mais pela sua participação em desfiles. 484 CAVALARI. Não há uma só atividade entre estas citadas acima que não esteja imersa em rituais ou simbologias ligadas à A. sessões de entrega de diplomas às militantes que fizeram cursos oferecidos pelo Integralismo e o evento integralista denominado 483 “Matinas de Abril” – e atos cotidianos do movimento – Casamento de militantes.. em 1933. e não através da discussão ou da liberdade de expressão. gostaria de esclarecer que não é meu objetivo vitimizar a mulher integralista ou localizar a fonte da dominação num ponto fixo. juravam fidelidade ao Chefe Nacional e ao Integralismo. virados em direção ao nascer do sol. Linguagem e Política.. Além disso. em rituais.113 a 115.

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Integralista Brasileira e as formas que este era divulgado e imbuído de um caráter verídico. Por meio de um exercício de intertextualidade, meu propósito é mostrar que a fotografia, pensada como expressão de relações sociais e significados culturais, foi utilizada pelo movimento como forma de poder, ao usá-la para propaganda política e construção de sua memória. Deixando claro, o desejo de abandonar um viés explicativo do uso desta imagem para “manipular” mentes inocentes ou vítimas do processo. Identificando aspectos da forma integralista de ver o feminino e o mundo, tais como a militarização, a determinação biológica, o catolicismo, além dos usos e funções que a fotografia teve para o movimento, adquire sentido a representação da mulher-soldado integralista, com seu corpo militarizado, obediente e disciplinada, se comportando, politicamente e socialmente, da forma que ele quer. Embora a pesquisa aos periódicos integralistas e não integralistas favoráveis ao movimento, além da busca às informações sobre os fotógrafos que produziam as fotos integralistas, ainda estejam inconclusas, vislumbrei com as fontes que possuo a delimitação da conduta feminina, alvo da propaganda do movimento através da fotografia, e a naturalização das relações e diferenças entre os gêneros. Este Discurso imagético determina a conduta ideal pela presença de representações pautadas na ideologia integralista e censura a conduta, chamada pelos militantes de “vergonhosa”, pela ausência de representações pautadas na liberdade feminina.

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12. 1955: A CAMPANHA DE PLÍNIO SALGADO À PRESIDÊNCIA

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Gilberto Grassi Calil

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O movimento integralista é quase sempre lembrado por sua trajetória nos anos 30, quando constituiu uma organização de massas com projeto fascista e forte mobilização de setores médios. Um dos poucos eventos lembrados da trajetória integralista posterior ao Estado Novo é a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República, em 1955, quando obteve expressiva votação. A apresentação da candidatura do “Chefe Integralista”, no entanto, não foi um fato isolado e eventual mas, ao contrário, pode ser melhor compreendido se analisado no contexto da trajetória do integralismo durante o chamado
486 Este artigo é parte do sexto capítulo da tese de doutorado O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965), defendido em fevereiro de 2005 na Universidade Federal Fluminense, sob orientação da Profa. Dra. Virgínia Fontes. 487 Professor adjunto do Colegiado de História e do Programa de PósGraduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná; Doutor em História Social (UFF).

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período democrático (1945-1964), particularmente através do Partido de Representação Popular. Este artigo tem como objetivo discutir a importância desta candidatura neste contexto, situando-a em uma fase específica da trajetória do integralista no pós-guerra, iniciada em 1952, a qual denominamos de “independência partidária”, em oposição ao período anterior (1945-1951), cuja ênfase principal da estratégia integralista era a realização sistemática de alianças com os mais diversos partidos políticos, visando a obtenção do reconhecimento do alegado “caráter democrático” do integralismo, a consolidação de seu registro partidário e o acesso a postos governamentais e 488 parlamentares, no âmbito dos estados e municípios.

A política de independência partidária No início da década de 1950, o processo de institucionalização do integralismo estava bastante avançado, com a consolidação do PRP como instrumento fundamental de sua intervenção política. Naquele momento, no entanto, uma expressiva parcela da militância integralista mostrava-se descontente ou desanimada com aquilo que percebia como uma “acomodação” do movimento, manifestando seu desejo de uma retomada da ofensiva política por parte do integralismo. As reações de descontentamento frente à nova estratégia assumida pelo integralismo no pós-guerra ocorreram desde os primeiros movimentos de articulação partidária, em 1945, mas intensificaram-se em conseqüência dos resultados modestos obtidos pelo PRP nas eleições de 1950. Em resposta a este descontentamento e à tendência à estagnação do PRP, entre 1952 e 1957 a direção integralista tomou um conjunto de iniciativas visando dinamizar o movimento, dotá-lo de novas estruturas e colocá-lo politicamente na ofensiva. A primeira destas iniciativas foi a “independência partidária”, que tinha como objetivo o lançamento de candidaturas próprias pelo PRP e o reforço de sua identidade integralista. O principal desdobramento desta política foi a candidatura presidencial de Plínio Salgado, em 1955, que teve grande impacto no interior do integralismo e colocou-o no centro do embate político nacional.

488 Ver a respeito 1945-1952: Afirmação Institucional e aliança com o pólo conservador. In: CALIL, Gilberto. O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965). Tese de Doutorado. Niterói: UFF, 2005, p. 379-437.

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A proposta de adoção de uma “política de independência partidária” surgiu de um grupo de integralistas do Rio Grande do Sul, descontentes com o acordo que o PRP estabeleceu com o PTB nas eleições municipais em 1951 e com a fracassada tentativa de obter cargos no governo estadual petebista. Como afirma a historiadora Claudira Cardoso, “como resultado de todo esse processo, percebemos que a direção do PRP sofreu um certo desgaste, na medida em que os acordos firmados com outras agremiações não 489 trouxeram concretamente os resultados esperados”. Em depoimento oral, Alberto Hoffmann, dirigente do PRP na época, também explica a “independência partidária” como decorrência dos insucessos do partido nas coligações até então, relatando que: “o pessoal estava desiludido 490 de coligações”. Em setembro daquele ano, Salgado recebeu “uma moção da concentração regional de Novo Hamburgo, aprovada também pelas de Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Ijuí, Caxias do Sul, Passo Fundo e Bagé, pela qual os populistas gaúchos desejam fazer uma política independente, sem quaisquer acordos com outros partidos políticos, nem mesmo quando houver nestes acordos relação com os interesses 491 nacionais do PRP”. Em 1953, o descontentamento com a política de alianças do PRP no Rio Grande do Sul levou à construção de uma candidatura própria ao governo estadual nas eleições do ano seguinte. A defesa da “independência partidária” foi levada à Convenção Nacional do PRP pela bancada do Rio Grande do Sul, propondo que o PRP deveria “disputar sempre que possível com candidato próprio a governança estadual” e, “em caso de não ser absolutamente possível a candidatura própria ao cargo acima e aconselhável o apoio a outro candidato, fazê-lo com a mais completa independência, não solicitando e nem acordando a cessão de cargo algum”. Além disso, solicitava “que determine o Diretório Nacional estudar a viabilidade do candidato próprio à presidência da República, como expressão de independência
489 CARDOSO, Claudira. Partido de Representação Popular: política de alianças e participação nos governos estaduais do Rio Grande do Sul de 1958 e 1962. Dissertação (Mestrado em História). Porto Alegre: PUCRS, 1999, p. 26-27. 490 CALIL, Gilberto Grassi & SILVA, Carla Luciana. Depoimento de Alberto Hoffmann. Porto Alegre: CDAIBPRP, 2003, p. 34. 491 Correspondência do Presidente Nacional do PRP Plínio Salgado ao Vice Presidente em Exercício do PRP-RS, Guido Mondin, 1.9.1952 (CDAIBPRP). Os acervos consultados serão referidos pelas siglas: CDAIBPR (Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Representação Popular, em Porto Alegre) e APHRC (Arquivo Público e Histórico de Rio Claro).

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partidária”. Embora aquela Convenção não tenha aprovado uma política nacional de “independência partidária”, definiu “que o Rio Grande do Sul iria com chapa própria, tanto para deputados estaduais, como federais, senador e governador de Estado, devendo nas demais unidades da Federação o partido tomar as deliberações que fossem 493 mais convenientes”. Em março de 1954, a VIII Convenção Regional do PRP gaúcho aprovou, por 23 votos a 16, proposição que estabelecia que “O PRP não fará coligações, alianças ou acordos 494 bilaterais com nenhum partido”. Ainda naquele ano, a IX Convenção Regional do partido aprovou uma proposição que reivindicava o aprofundamento da linha de “independência partidária”, solicitando “que a convenção se dirija ao Diretório Nacional, propondo a independência partidária em todo o território nacional, e que em 1955 o PRP concorra com candidato 495 próprio à Presidência da República”. O manifesto de lançamento da candidatura própria, de Wolfram Metzler, afirmava que “depois de termos, sinceramente, tentado colaborar com outras entidades partidárias”, o PRP decidira “total desligamento de todo este passado político caracterizado pelo despistamento, pelo não cumprimento da palavra empenhada, pela pasmaceira administrativa, pela falta de planejamento e de realizações 496 concretas e definitivas”. O relativo êxito da campanha de Metzler, obtendo 8,4% dos votos e aumentando as bancadas estadual e federal de deputados, estimulou a militância dos outros estados a mobilizar-se pela candidatura própria à presidência. Ainda no início de 1954, o jornal Diário de Notícias relatou esta mobilização, apresentando-na como reação ao esvaziamento do partido: A maioria dos elementos do PRP com assento nos diversos legislativos foram eleitos em coligação de legenda, principalmente com a UDN. Depois de eleitos, por força de atração, foram sendo assimilados pelos partidos. É o caso nítido do deputado Raymundo
492 Ata da XI Convenção Nacional, 11.12.1953 – Livro de Atas da Fundação e das Convenções Nacionais do PRP (APHRC - Fundo Plínio Salgado 023.004.004). 493 Convenção Nacional do PRP. A Marcha, Rio de Janeiro, 18.12.1953, p. 9. 494 Ata da VIII Convenção Regional do PRP-RS, 21.3.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 495 Ata da IX Convenção Regional do PRP-RS, 25.7.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 496 Ao povo do Rio Grande do Sul: Lançamos Wolfram Metzler porque não queremos que o Rio Grande continue se empobrecendo, espoliado por falsa política (Panfleto) (CDAIBPRP).
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de Santa Catarina. Porto Alegre.. o que levou os integralistas a ironizar a proposta de “união nacional”: Os que se arrogam defensores da Democracia em nosso país (.. a morte da Democracia. após o suicídio de Getúlio Vargas e no contexto conservador do governo Café Filho. Rio de Janeiro. Plínio Salgado a tomar uma atitude heróica. o dispositivo da Constituição que proíbe até mesmo a inscrição nos programas de partido. o que pode determinar a morte dos partidos e. O mesmo aconteceu com o deputado Jorge Lacerda. sejam eles quem.1954. É muito hipócrita. 21.2. 2. querem burlar essa 498 mesma Constituição. 1. na prática. de modo a salvar o partido. pois outra coisa não seria o conglomerado dos partidos em torno de um único nome. Diário de Notícias. especialmente. fascista ou soviético). 498 Adhemar de Barros acredita na democracia. O movimento pela “candidatura única”. Naquele momento. sob alegação de que fariam o país retornar à instabilidade política e social do governo Vargas. logicamente. É de pasmar que esses homens que sustentam. O PRP contra a União Nacional No final de 1954. a Direção Nacional do partido já discutia o lançamento da candidatura de Plínio Salgado. que não pode subsistir sem 497 Vai voltar à atividade política a Ação Integralista Brasileira. Naquele momento. cujo objetivo era a imposição de uma “união nacional” visando o lançamento de uma “candidatura única” nas eleições presidenciais. nem mais nem menos do que um “partido único” (tipo nazista. também considerado hoje em dia mais udenista do que do PRP.. capitaneado pela UDN. No entanto. de acordo com Salgado. de Juscelino Kubitschek.) são os primeiros a pretender em nosso país. constituiu-se um forte movimento. agora às vésperas 497 das eleições.1954 (CDAIBPRP). propagada por setores conservadores. de unhas e dentes. A Marcha. a opção pelo lançamento da candidatura de Salgado já havia sido tomada.234 Padilha.12. Este movimento opunha-se às prováveis candidaturas de Adhemar de Barros e. para isto. e diante de tais evidências. p.. os ortodoxos do partido resolveram forçar o sr. das proposições contrárias ao pluripartidarismo. É muito farisaísmo. seria responsável pelo “enfraquecimento da consciência da diferenciação partidária. Nessas condições. era necessário combater a proposta de uma “candidatura única”. .

500 Entrevista de Plínio Salgado. Plínio.235 partidos”. Rio de Janeiro. A Marcha.. que não corresponderá aos anseios dos brasileiros. começam a falar em “salvação nacional”. Em meados de junho de 1955. 501 SALGADO. Nesse sentido. p. 1 e 4. a imiscuir-se na vida íntima de um partido que não é o seu.010). Palavras a uma democracia suicida. . A Marcha. impor ao povo mais essa farsa. lança o seu candidato. Rio de Janeiro. em vez de se apresentarem candidatos ou candidato em contraposição ao do PSD. 14. homens de outros partidos. p. Rio de Janeiro. pretende-se.004. pois “é justamente este artifício. sondagens e consultas vem sendo feitas. 10.(abril 1955)– Original datilografado (APHRC .) Pretendem. um partido único. assim.. a conclamar céus e terras para que se retire essa candidatura a fim de que surja outra que possa congregar todos os partidos em torno dela.1955. o motivo do 500 desencanto do eleitorado brasileiro pelos partidos”.1955. Palavras a uma democracia suicida. em última análise. Mas isso não é democracia e muito 501 menos democracia do tipo liberal. como no caso do PSD. ainda permanecia a articulação dos setores mais conservadores em defesa da “candidatura única”. nomeando um Presidente da República. Se concretizado esse desejo dos golpistas teremos em breve tempo as botas de um militar a governar esse país discricionariamente.1. naquele momento duramente criticada por A Marcha e considerada como uma farsa e uma ameaça à democracia: O ponto básico das “demarches” fixa-se na retirada de todos os nomes atualmente em foco como candidatos./d. (.1955.Fundo Plínio Salgado 011.1. Plínio. cujo termo expressivo é o ‘cambalacho’ e cuja concretização se chama ‘barganha’. A Marcha. 502 Pretendem os golpistas a retirada de todas as candidaturas para surgir um ditador: envolvidos na trama os srs. o lançamento da candidatura Kubitschek pelo PSD era legítimo e deveria ser respeitado pelos demais partidos: Quando um partido. O povo brasileiro não suportará este esbulho e saberá reagir a essa nova forma de 502 subversão. 14. p. 3. 499 499 SALGADO. os dutristas e os dorminhocos da “eterna vigilância”. 3. Quer dizer. s.6. Etelvino Lins. Para Salgado.

Rio de Janeiro: Paz e Terra. p. 1976.236 A veemente crítica dos integralistas à proposta de uma “candidatura única”. era condicionada também por outro elemento. . Maria Vitória. De fato. hora e local para um breve entendimento”. Kubitschek admitiu explicitamente as conversações: Como meus opositores martelavam muito na tecla do candidato único. de que não conhecia pessoalmente Kubitschek. convencendo-o de que sua candidatura fortaleceria a posição democrática no Brasil. os defensores da candidatura Juarez Távora sustentaram que a candidatura de Salgado visava apenas tirar dividir os votos conservadores de forma a facilitar a eleição de Kubitschek. no final de março de 1955. Ainda em dezembro de 1954. a eleição de Kubitschek por uma margem de votos muito inferior à votação recebida por Salgado confere plausibilidade a esta tese. 1956-1961. a existência de um acordo secreto por meio do qual Kubitschek financiaria a candidatura de Salgado. In: BENEVIDES. Em entrevista concedida quase duas décadas depois. Presidente [Salgado] a 503 Entrevista Particular com o Ex-Presidente Juscelino Kubitschek. menos evidente: os entendimentos secretos entre Salgado e Juscelino Kubitschek. ainda. Não se poderia mais impor a tese da candidatura única – agora já 503 seriam dois candidatos. o Diretório Nacional do PRP “autorizou o sr. esta declaração também desmente a afirmação de Salgado. fiz um apelo a Plínio Salgado para apresentar e manter sua candidatura. Mas além disso. destacando-se a posterior participação do PRP no governo Kubitschek. Na argumentação udenista sugeriase. cabe observar que alguns indícios reforçam a hipótese. era lógica se considerarmos a perspectiva de lançamento da candidatura presidencial de Plínio Salgado. solicitando também da Presidência dia. quando o PSD comunicou oficialmente da escolha do nome de Kubitschek como candidato a presidência e dirigiu ao PRP “um convite para um pronunciamento a respeito. O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. Grifo meu. Embora não tenhamos encontrado nenhuma prova deste acordo na documentação integralista. Além de contrariar a versão sustentada pelo PRP. 293. O acordo entre Plínio Salgado e Juscelino Kubitschek Durante toda a campanha eleitoral.

por exemplo.12.05. em março de 1955. que disse: “Plínio é um homem que traz escrito na testa Aluga-se”. 12.10. veementemente repelidas pelos integralistas. Uma carta recebida por Salgado depois da eleição mencionava um suborno que teria sido pago por Kubitschek para que ele mantivesse sua candidatura: Quem tem razão é o Joel Silveira. durante uma concentração 504 Ata do Diretório Nacional. Eis o seu 505 retrato fiel: ALUGA-SE.004)..1950 (APHRC-Pprp 12.1955 (APHRCPprp 14.001. Em 1932 alugou-se ao Fascismo.50/1). Estranhamente. 505 Correspondência de Florival Rosa a Plínio Salgado. mas é possível que a opção tivesse sido feita ainda bem antes. que possivelmente ocorreu secretamente. Não existem elementos que permitam confirmar a veracidade destas denúncias. que viu em sua candidatura o único meio de derrotar Juarez Távora. Já à vésperas da eleição de 1950. Telegrama de José Sales a Plínio Salgado. embora naquele momento tenha descartado esta possibilidade. em 1937 alugou-se a Getúlio Vargas e agora em 1955 (.237 entrar em entendimento e responder à consulta logo que julgar 504 conveniente”.1954 – Livro de Atas do Diretório Nacional e do Conselho Nacional do PRP (APHRC-Pprp 021. retirando de Távora um contingente de votos que lhe daria a vitória. 506 Em maio de 1950.. O lançamento da candidatura de Salgado A definição de Salgado pelo lançamento de sua candidatura ocorreu bem antes da Convenção que a aprovou. A primeira manifestação pública indicando seu lançamento teria ocorrido em julho de 1953.5.) você se alugou por 10 milhões de cruzeiros ao Juscelino. Objetivamente pode-se afirmar que a candidatura de Salgado beneficiou Kubitschek. meados de 1954. em pelo menos dois aspectos: a desmoralização da tese da “candidatura única” e a divisão do eleitorado conservador. 14.55/16). 3. não há nenhum registro posterior nas atas do Diretório Nacional acerca deste encontro. recebeu do Diretório Municipal de Garanhuns a seguinte mensagem: “Populistas Garanhuns apóiam entusiasticamente sugestão convencionais Varginha apresentação candidatura nosso presidente Plínio Salgado sucessão presidencial pelo bem do Brasil”.10. . Sua decisão estava tomada desde. Salgado recebera telegramas propondo 506 sua candidatura. no mínimo.

8. Rio de Janeiro. como partido. que seria lançada possivelmente pelo estado de 510 Minas Gerais. Salgado comunicava oficialmente que pretendia lançar sua candidatura: Em 25 de dezembro deste ano. pois. até ao dia em que um grande motivo chame todos a se unirem. 1956.238 de Diretórios Municipais do PRP do Vale do Paraíba Visando aumentar suas possibilidades eleitorais.1954. o dever de dar essa oportunidade a todos os brasileiros e tal oportunidade é a 507 507 Cf. daqui a 5 meses precisamente. associações femininas. “elevando-se a milhares em princípios de 1954”. faculdades de direito. grupos religiosos. Essa resolução é inabalável. atingindo 146 mil em 1947 e 252 mil em 1950. desmentindo os 509 números apresentados. mas todas apontavam possibilidades de que o contingente de votos ficasse abaixo do que seria aceitável para o “Chefe Nacional”. tem crescido muito lentamente.000 votos em 1945. sociedades de agricultores.1954 (APHRC .12. De acordo com A Marcha. SALGADO. academias de letras.008). 510 Foram feitas diversas estimativas e projeções sobre as possibilidades eleitorais do partido em 1954. em que o PRP irá com chapa própria.001). 17. Temos um compromisso de honra com os que morreram por nossa idéia e com milhares de brasileiros que acreditam em nós e esperam algo de nós no atual momento. encontramos alguns poucos telegramas e algumas dezenas de abaixo assinados.Fundo Plínio Salgado 028. Em julho de 1954. Comportamento Eleitoral. Plínio. e 028. A Marcha. recebendo um número crescente de telegramas de 508 apoio. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira. operarem em qualquer partido. 509 Abaixo-assinados (APHRC . Livro Verde de minha campanha. centros operários. porque chegamos a um ponto tal que temos de dar uma satisfação definitiva à Nação. sindicatos. 9. podendo portanto todos os que vêem no integralismo a salvação nacional. ao retirar sua candidatura a deputado federal. deverei lançar a campanha presidencial. 7. 028.6. p. Salgado teria feito conferências em “mais de duas centenas de cidades do Brasil. “entre 1953 e fins de 1954. de ensino técnico e normal. O PRP. entre 1952 e 1955”. No entanto. . 1. concentrações marianas. com Plínio Salgado como candidato a deputado federal. p. A popularidade de Plínio Salgado.007. em palestras em diversos tipos de entidades. Plínio Salgado falou em 185 cidades brasileiras”. em chapa própria e em coligações no estado de Minas Gerais.Fundo Plínio Salgado 017. na documentação pessoal de Salgado.006. Temos. p. universidades. prefeituras e câmaras municipais. como paraninfo de turmas universitárias. 508 Ibid. As desculpas dadas por muitos antigos integralistas e por muitos brasileiros que simpatizam com as idéias integralistas é a de que o PRP é um partido igual aos outros.001. principiando com 90.

Bahia. . 19. em nossa atividade prática. e assim por diante. toma em cada Estado as mais diferentes colorações políticas. 29. Em outubro. Entretanto. a decisão foi comunicada aos presidentes dos diretórios regionais e logo./d. a qual decidiu que também “nas próximas eleições municipais. De modo geral.10. um pensamento doutrinário. (. 513 Indicado Plínio Salgado pela convenção paulista do PRP. Pernambuco. substancial.239 apresentação da nossa candidatura à Presidência da República. límpido. a toda a militância integralista: Nos dias 21 e 22 do corrente. diversas convenções regionais ratificaram seu apoio à candidatura. exato. levados pelos interesses eleitorais de caráter regional e particular. Rio de Janeiro. antes que surjam outras candidaturas.. 1. no Estado do Rio. A Marcha. após as eleições de 3 de outubro. é udenista em Minas.. A Marcha.11. E isso 511 deve ser feito já. a fim de: 1º) exporem ao Presidente Nacional a situação da agremiação em cada Estado. Para o dirigente integralista Loureiro Júnior: A verdade é que possuímos uma ideologia. é pessedista em São Paulo. chegamos quase a contradizer nossa doutrina. 3.004. 2º) sugerirem ao Diretório Nacional as medidas mais urgentes no sentido da reestruturação do Partido e. os Presidentes Regionais revelaram o desejo da coletividade partidária no sentido de que o PRP tenha candidato próprio.Fundo Plínio Salgado 019. isso é um absurdo. O PRP só pode e deverá ser PRP e para tal vamos pleitear que a Convenção 511 Comunicado de Plínio Salgado ao Diretório Nacional. A ênfase na “independência partidária” levava a uma espécie de autocrítica em relação à política de alianças até então adotada.001). Ora. a começar pelas do Rio Grande do Sul. realizou-se nesta Capital uma reunião de presidentes de Diretórios Regionais do Partido de Representação Popular. p. s. p. A partir de então. Nosso partido despersonaliza-se.1954. disputando sozinhos os cargos de prefeito e vereador”.1954. e que atende perfeitamente às aspirações do povo brasileiro. 512 O PRP e a sucessão presidencial. abster-se de quaisquer coligações locais com outros 513 partidos. através de A Marcha. Minas Gerais e São Paulo. lançará a sua proclamação ao povo brasileiro. O PRP no momento. 3º) manifestarem a sua opinião sobre o problema da sucessão presidencial da República. ameaçando dessa forma a unidade em sua ação em plano nacional. em Santa Catarina. que deverá reunir-se em 512 fevereiro.) A Convenção Nacional do PRP. Rio de Janeiro. (junho 1954) (APHRC .

com o rompimento de Raymundo Padilha com o PRP. Origem da candidatura Plínio Salgado. a divergência tornou-se pública. Porto Alegre. SALGADO. com uma “Mensagem ao Povo Brasileiro”. iniciando campanha aberta e declarando. 514 Desfraldar bandeira e marchar: imperativo nacional a candidatura Plínio Salgado..12. p. A luta interna ameaça solapar a frágil unidade interna do PRP.240 Nacional trace uma linha de autonomia partidária.. 518 Contra a farsa de alianças e coligações pró-candidato único. 18. dando início à campanha eleitoral propriamente dita. na Convenção do PRP do Distrito Federal. Plínio. o seu desacordo”. . A divergência explicitou-se em uma reunião do Diretório Nacional. 1 e 11. Rio de Janeiro. (. Plínio. 1 e 9. determinando que o 514 nosso partido tenha candidatos próprios aos cargos eletivos. a candidatura própria sofreu acirrada oposição dos diretórios 519 regionais de Pernambuco e Rio de Janeiro. a opção pela candidatura própria à presidência não era consensual no interior do partido. Ainda assim. 26. até há pouco sem nenhum 515 contato com o PRP”. 519 Cf. afirmando retoricamente que “nunca houve maior 518 coesão e disciplina dentro do Partido do que agora” . 1. 516 Cf. 16. discurso pronunciado por Salgado no encerramento da Convenção e irradiado para todo o país. cit. p. A Marcha. Rio de Janeiro. já que o grêmio dirige-se em duas alas. “em 516 entrevistas à imprensa. a Convenção oficializou a candidatura. Salgado negava a existência de uma crise no PRP.1955. colocando em seu lugar Raymundo Padilha. Origem da candidatura Plínio Salgado. Um dos objetivos pronunciados do lançamento da candidatura própria era atrair os integralistas afastados do PRP. “assistimos o retorno de centenas de adeptos do Sigma. A Marcha. A hora. cit. no entanto.Recortes). 18.2.2. uma 517 pró-Plínio e outra pró-Padilha”. 517 A crise nas hostes integralistas. Conforme o jornal A Hora. 515 Recenseamento moral a candidatura Plínio Salgado. Naquele momento.. p. p.1954. In: Livro verde de minha campanha. op. De acordo Salgado.. SALGADO. 3. Assim. A dissidência se confirmou.1954.11. em 22 de novembro. Na Convenção Nacional. p. op. na qual o deputado federal Raymundo Padilha manifestou-se veementemente contrário à candidatura própria. A Marcha.). “alguns meios perrepistas pretendem alijar Plínio Salgado da direção nacional. In: Livro verde de minha campanha. realizada entre 19 e 21 de março de 1955. Rio de Janeiro. e a firme decisão de Salgado de levá-la adiante precipitaria a formação de uma dissidência. 15.1955 (CDAIBPRP .

30 em valores atualizados de acordo com tabela de conversão disponível em http://www.1.500.1955 (CDAIBPRP – Correspondência do Diretório Nacional). e sua abrangência além dos limites partidários. 522 Cf. 521 Como se organizam os “Comitê Popular Pró-Candidatura de Plínio Salgado à Presidência da República”.Fundo Plínio Salgado 018.009. Todos os comitês deveriam se formar a partir de uma lista de contribuição financeira. cidadãos que nunca militaram no 523 PRP ou na extinta Ação Integralista Brasileira”. que “toda propaganda deverá ser 525 orientada sobre o tema ‘Plínio Salgado – Candidato do Povo’”. A caracterização “popular” da candidatura era buscada através de diversos instrumentos. chamados sucessivamente. Assim. funcionários públicos. 524 Diretiva nº 1 do Comitê Nacional de Propaganda (APHRC . encaminhassem-na ao Comitê Nacional e informassem Plínio 521 Salgado. os comitês eram “formados.br/sitefee/pt/content/servicos/pg_atualizacao_valores. .00. Os comitês-populares: um espetáculo comovente. operários. Luis. 22. ainda antes do lançamento oficial da candidatura de Salgado. 523 Ibid. foram formados comitês estaduais.009).fee. Na cerimônia. realizou-se uma primeira “cerimônia de entrega das contribuições dos Comitês Populares” da Guanabara. bancários.4. Segundo o dirigente integralista Luis Compagnoni.1955. por elementos proletários. Estabelecia. A estrutura da campanha era claramente hierárquica: o Comitê Nacional de Propaganda determinava que “qualquer nova idéia de propaganda. comerciários. (O valor corresponde a aproximadamente R$ 12. Já naquele momento buscava-se caracterizar a campanha de Salgado como “popular”. em sua quase totalidade. indicando os dois elementos que marcariam toda a campanha de Salgado: seu pretenso caráter popular.00). de acordo com um planejamento nacional hierarquicamente estruturado. transformando-se em comitê de ação eleitoral e propaganda quando 520 obtivessem um mínimo de dez contribuições de CR$ 10.241 A campanha eleitoral Em janeiro de 1955. municipais e de base. ainda. Plínio Salgado mais de trinta e 522 nove mil cruzeiros”. p. os integralistas buscavam formar uma rede de “comitês populares” para impulsioná-la. 525 Ibid. “representantes de cerca de oitenta comitês.php. A Marcha. antes de ser lançada. seja submetida e aprovada pelo CNP” para que houvesse total uniformidade na propaganda da 524 candidatura. Rio de Janeiro. Um panfleto trazia um 520 Aproximadamente R$ 3. A 15 de abril. 3. entregaram ao sr.tche. COMPAGNONI. 15.

001). operários sofredores. que depois de eleito olhe para baixo. Esse homem. 529 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha. Mesmo alegando ser o candidato “pobre”.00 por dia e que em muitos lares existem muitas boquinhas a pedir comida”. como existem ricos honestos que juntaram o que tem pelo trabalho aliado ao bom 527 senso”. . De acordo com relatório do Comitê paranaense. as visitas às 528 fábricas. Exagero à parte. afirmando que “precisamos eleger um presidente que saiba que ganhamos a irrisória quantia de CR$ 30. olhe pela pobreza.1955. 527 Plínio abre o livro de sua vida. Salgado tomava cuidado para não se afastar do discurso da conciliação de classes: “Não faço alarde da pobreza. A pobreza em si não é virtude. Para Compagnoni. teriam sido formados “dezenas de milhares de comitês populares. “a penetração nos bairros da capital. Panfleto (APHRC .9. porque existem homens pobres nos quais não se pode confiar.1955.005). Cristão. junto às massas operárias se operou por várias formas simultâneas: desde os comícios.1955 (APHRC . 530 Comitês Plínio Salgado em São Paulo (APHRC . p. olhe para o operário. 27. 528 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. um homem que já foi operário [sic]. p. um homem que já sofreu na sua própria carne fome. frio.Fundo Plínio Salgado 018. Na documentação de Plínio Salgado consta 530 uma lista de 125 comitês apenas na cidade de São Paulo. com centenas de milhares de brasileiros empunhando listas de contribuições para a 529 nossa candidatura”. Rio de Janeiro. 1 e 4. Honesto.00 a CR$ 50. 23.001).001.11. Culto.001.Fundo Plínio Salgado 067. 526 Apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e interior brasileiro. até o trabalho individual”.6. Rio de Janeiro. A Marcha. 24. O panfleto propunha aos operários que elegessem um brasileiro Patriota. um homem que nasceu pobre e pobre cresceu. dor e humilhação!.242 “apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e do interior brasileiro”. é certo que um grande número de comitês foi formado. 1 e 4. esse homem existe e 526 chama-se Plínio Salgado. A principal estratégia foi a formação de comitês populares.Fundo Plínio Salgado 089.013. A Marcha.

. p. recolheram 35. o orador principal deveria seguir um roteiro pré-definido. 4.001). em abril uma reunião teria reunido “os 531 dirigentes dos 298 comitês populares” da capital paulista. em Recife.Fundo Plínio Salgado 089.) Acredito que até o presente momento.010. Plínio pede dinheiro e o povo dá. 16.1955. 15. o de Belo Horizonte setenta mil. Nos comícios.1955. Comitê Nacional de Propaganda: Instruções para oradores (APHRC . p.11. p. 19.000 cruzeiros para Plínio. além de dever tratar Salgado sempre como “Candidato do Povo”. 12. 535 Foi o maior comício que o povo de Curitiba já presenciou até agora. de vales postais. Rio de Janeiro. 534 90 mil pessoas em Belo Horizonte. Rio de Janeiro.000 pessoas 534 535 em Belo Horizonte e 80. A Marcha. 1 e 2. e que portanto “compete aos oradores que precedem Plínio Salgado falar da pessoa do candidato. e mais de 5.Fundo Plínio Salgado 018. com indicações específicas sobre como criticar os demais candidatos e como abordar temas como o comunismo. 536 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. O comício de Curitiba rendeu sessenta mil cruzeiros. A Marcha.4.005). (.1955. estabelecendo inclusive que “a parte doutrinária e programática deve ser exposta pelo próprio candidato”.5. 533 Também para a realização dos comícios havia grande preocupação em manter a homogeneidade na linha de campanha. onde Salgado teria sido recepcionado no aeroporto por “cerca de 500 automóveis.1955. .1955.1955 (APHRC . Rio de Janeiro.. Uma diretriz indicava minuciosamente como deveriam se portar os oradores.013. sob o apelo de que 531 Reunião de Presidentes de Comitês Populares na capital paulista. 27. 6. o de Campinas oitenta mil. A Marcha. reunindo 90. os comícios de encerramento da campanha se 533 constituíram em grandes atos populares. 23. mais de 1. da sua vida e da sua obra”. São milhares de cheques. O caráter popular da campanha se traduziria também na campanha popular de arrecadação financeira: De todo o Brasil chegam recursos para Plínio. p. Os simpatizantes da candidatura eram chamados ainda a financiar o programa radiofônico da campanha. Em 15 minutos.9. No norte e 532 nordeste teriam sido fundados “mais de trezentos” comitês: De acordo com A Marcha.000 em Curitiba. A Marcha. 4. 537 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha. Rio de Janeiro. Caso Salgado não estivesse presente. de ordens bancárias.9.8.000. p. Mais de trezentos comitês populares fundados no Norte e Nordeste.000 pessoas”. 1 e 5.243 Segundo A Marcha. Rio de Janeiro. caminhões e 536 ônibus.000 de brasileiros já tenha contribuído com dinheiro para a campanha de 537 Plínio. 532 Cf. A Marcha.

541 Plínio. Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. 540 retransmitido por 20 emissoras. p. 12. p. As contribuições teriam permitido que o programa passasse a ser veiculado duas vezes por 539 semana a partir de junho. 27. Apresentando-se como “candidato do povo”. Rio de Janeiro. Salgado pretendia ser reconhecido como “verdadeiro candidato da União Nacional”.244 “Plínio Salgado é o candidato pobre”. imprimiu um milhão de prospectos e fez intensa campanha pessoal junto as pessoas de sua reputação”. Rio de Janeiro. A Marcha.5. uma vez indicado pelo PRP.013. do PR e de outros partidos comparecerem à presença de Plínio Salgado para dizer-lhe que o acompanharão na disputa da suprema magistratura da Nação. por ser esta atitude um imperativo da própria consciência – então sim verificamos o mais surpreendente fenômeno desta quadra da vida política nacional: Plínio Salgado transformado naturalmente. os quais eram divulgados como evidência da amplitude de sua candidatura. Rio de Janeiro. por ser ele o melhor candidato.1955.11. 538 538 É preciso que os brasileiros ouçam a palavra de Plínio Salgado. por força de lógicas deduções cívicas.8. mas que votarão nele para Presidente da República. no legítimo candidato de União 541 Nacional. proprietário dos Laboratórios Antisardina. Tal perspectiva fica evidente no editorial do jornal integralista A Marcha: Quando vemos centenas e centenas de chefes políticos do PSD.8. 540 Batalha final pela Rádio Globo. Mesmo tendo argumentado que cada partido político deveria apresentar seu candidato.1955 (APHRC . 19. que além dos anúncios feitos em A Marcha. custeou programas de Rádio. .001). como é “o caso do industrial Sr. Evidentemente não eram divulgadas as contribuições mais volumosas recebidas.Fundo Plínio Salgado 089.1955. em evidente contradição com o discurso anteriormente assumido em oposição à uma candidatura de União Nacional e de defesa da necessidade de candidaturas com projetos distintos. A Marcha.1955. que permanecerão fiéis aos respectivos partidos no tocante à sucessão estadual. Rio de Janeiro. 6. 26. 7. 539 Plínio Salgado duas vezes por semana na Rádio Globo. Arlindo Araújo. do PTB. p. 3. 3. p. 1º. Salgado buscou ainda o apoio de membros de outros partidos e das “classes produtoras”. Salgado não se assumia como expressão daquele partido e apresentava sua candidatura como suprapartidária. A Marcha. e três vezes a partir de agosto. A Marcha.1955. o verdadeiro candidato da união Nacional. da UDN.6.

no entanto. 1-2 (APHRC . pois suas idéias satisfizeram plenamente as suas 542 pretensões.1955.004. satisfeitas com a defesa de medidas antipopulares. examinando-a em seu conjunto e apontando soluções reais e objetivas dentro dos princípios doutrinários”.Fundo Plínio Salgado 112. e. estabelecer e reforçar vínculos com setores da classe dominante. que os demais candidatos não proclamavam publicamente. buscando qualificar-se como interlocutor confiável. As classes produtoras são favoráveis à participação dos empregados no lucro das empresas. Segundo O Dia. Desta forma. que 542 Quem mais satisfez os conservadores foi Plínio Salgado. o que ficou especialmente claro em sua participação na Mesa Redonda das Associações Comerciais do Brasil. como o fim do monopólio estatal do petróleo. O Dia.7. Diário Carioca.1955. 7. em contraposição às demais candidaturas. de Recife. Juscelino e Juarez. nesse aspecto. são favoráveis à participação direta dos empregados nos lucros das empresas. Além de apresentar-se como candidato “popular” e “suprapartidário”.REC 55). Recife. De acordo com o jornal. Fica evidente. Salgado tentava ainda caracterizar sua candidatura como “doutrinária”. Salgado buscou reconhecimento e apoio junto a classe dominante. p. com ampla repercussão na imprensa. Rio de Janeiro. mas como prêmio à atividade e capacidade de cada um. De acordo com o Diário Carioca: Juscelino e Juarez discordam das classes produtoras em dois pontos capitais: a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas e a exploração do petróleo. Apenas Plínio Salgado mereceu toda a receptividade (embora inicialmente fosse antipatizado) das classes conservadoras. . que Salgado assumia abertamente posições reacionárias. “ao contrário da sabatina de Juscelino.7. 544 Ibid. a propostas do “candidato popular” seduziam as “classes conservadoras”. o plenário ouviu atentamente e sob os maiores aplausos o pronunciamento de Plínio Salgado.245 Embora se apresentando como “candidato do povo”. 11. “as classes produtoras ficaram empolgadas com o desenvolvimento do 544 plano do sr.REC 55). 2 (APHRC . com a 543 mais prolongada salva de palmas”.004. p. Para o Correio do Povo. 543 Apud Em São Paulo Plínio Salgado fala às Associações Comerciais do Brasil. de Porto Alegre.Fundo Plínio Salgado 112. que apreciou a realidade brasileira à margem dos interesses políticos. o apoio de Salgado à revisão da lei da Petrobrás “foi saudado pelo plenário. de pé. sistematicamente. Plínio Salgado”. ao mesmo tempo buscava.

social e moral da Nação. contra a desunião 548 dos brasileiros. afirmando-se que “a desilusão é geral com os 547 demagogos. Não tendo compromissos com governadores de Estado. pois “O Partido Socialista Brasileiro apóia Juarez Távora”. debaixo da bandeira do Partido Social Progressista. . e que “os políticos profissionais não cuidam dos interesses da Pátria. os homens culturalmente mais competentes. a não ser quanto aos princípios doutrinários. mas dos seus próprios interesses” e “são escolhidos e indicados pelos próprios sócios políticos e também interessados em devorar os dinheiros públicos”. Em contrapartida.010. 546 moralmente mais perfeitos.5. p.Fundo Plínio Salgado 018. empreendendo uma obra de fortalecimento econômico. político. os promesseiros.1955. Panfleto (APHRC .Fundo Plínio Salgado 018. em “íntima conexão uns 545 com os outros”. Panfleto (APHRC . A Marcha.246 seriam resultado de “conchavos políticos”. penso que estarei em condições de ir buscar. orientador da ação e executor de um plano geral de realizações. os mentirosos”. Adhemar de 545 Esta minha candidatura não é propriamente a candidatura de uma pessoa.010. Tal “doutrina” conduzia à proposta de despolitização do governo. sua candidatura seria “contra a politicagem profissional. 547 Proclamação ao Povo Brasileiro. financeiro.011). contra a anarquia”. como fica expresso em sua proposta de formação de um ministério “técnico”: Sem um Ministério homogêneo quanto à compreensão e interpretação das realidades e das necessidades brasileiras e quanto ao critério ordenador dos problemas. nem com partidos políticos. Rio de Janeiro. Além de se apresentar como o único com conteúdo doutrinário. Sua “doutrina” se resumiria “num critério governamental que considera os problemas brasileiros no seu conjunto e não isoladamente cada um”. não será possível arrancar o Brasil das suas atuais dificuldades. Tal posição ensejava uma crítica genérica aos “políticos profissionais”.011). Salgado também seria o único dos candidatos sem compromisso com o comunismo. 1 e 2. dentro de qualquer partido ou fora dessas agremiações políticas. 548 Porque. 546 Ibid. contra o roubo organizado. mas de uma doutrina e de um programa. 12. “o Partido Comunista do Brasil apóia Juscelino e João Goulart”. para compor um Ministério. do sr. e “os comunistas e socialistas. nem mesmo com o meu. tecnicamente mais fortes.

Fundo Plínio Salgado 016.011). O Comitê Nacional de Propaganda enviou aos comitês 550 populares 17 “sugestões de legenda para muros” e 37 slogans a serem utilizados. “É ele o candidato de milhares de operários e digno portanto do voto de todos aqueles que desejam ver entre nós a queda do burguesismo oficializado”). que é hoje o Prefeito daquela 549 Capital”. Destacam-se as frases com sentido dúbio “Com seu voto ajude a endireitar o país” e “Está na hora de endireitar o Brasil”.247 Barros. 29.009). p. enfatizando o cristianismo (“Deus dirige o destino dos Povos! Graças a Deus já temos em quem votar”./d.009. seu alegado caráter popular (“Só quem trabalha tem direito de governar”. Com Plínio Salgado queremos torná-la realidade”.Fundo Plínio Salgado 014.007). 550 Sugestão de legenda para muros (APGRC . O objetivo de atrair os antigos integralistas afastados do movimento foi perseguido através de diversas iniciativas. . A Marcha. 553 Carta aos integralistas de primeira hora. A Marcha publicou uma “Carta aos integralistas da primeira hora”.010. Rio de Janeiro. (APHRC .Fundo Plínio Salgado 018. deram a vitória ao seu candidato. “Os tubarões da política 551 sempre ganharam eleições gastando rios de dinheiro”). 552 Correspondência do Comitê Feminino do Distrito Federal aos exintegrantes da Ação Integralista Brasileira. apelando para que voltassem “a 553 lutar ao lado de Plínio Salgado”. s. Slogans da candidatura de Plínio Salgado (APHRC . para mudar só Plínio Salgado”).002. a idéia de mudança (“Para continuar como está qualquer candidato serve.010. lembrando-lhes do “dever de quem prestou um juramento e do qual foi desobrigado por ato espontâneo e liberal do depositário deste” e do “dever diante de Deus e da Pátria e da própria consciência”.Fundo Plínio Salgado 018. Uma correspondência enviada aos integrantes dos “memoráveis dias da Ação Integralista Brasileira” convocava-lhes: “É pelo vosso passado de luta que hoje vos conclamamos a participar da campanha pró552 candidatura de Plínio Salgado”.4. Panfleto. (APHRC . 5. Salgado incumbiu ainda um oficial da Marinha integralista a fazer um levantamento entre seus pares do 549 Brasil versus Rússia Soviética.001). “Um governo sem os sagrados princípios da fé cristã será como uma criatura sem alma ou um corpo sem vida”). e a oposição aos “políticos tradicionais” (“Trancai as portas do Brasil contra a orgia organizada dos políticos profissionais”. 551 Comitê Nacional de Propaganda.1955. “Em Deus pomos o princípio e o fim de nossa doutrina política. chamando todo aquele que “por uma razão ou outra não está ao lado de Plínio Salgado neste terrível momento em que passa nossa Pátria”.

Salgado assegurava que não renunciaria. a imprensa e especialmente os defensores da candidatura Juarez Távora especulavam sobre sua possível retirada.1955. 28. mais temerosos de atitudes francas. 554 Relatório Confidencial do Almirante Jatyr de Carvalho Serejo.08.1955 (APHRC-Pprp 18. além de enviar um 555 manifesto a todos os oficiais da Marinha. 4. ainda que vigore o princípio da maioria 559 absoluta. 557 Sou homem de doutrina. dirigiu uma circular aos oficiais que foram integralistas. que essa vitória está assegurada. A Marcha. outros. Panfleto (APHRC . . É falso! É mentira! Serão capazes de dizer inclusive que Plínio morreu”.Fundo Plínio Salgado 089. Rio de Janeiro. o fizeram não 554 por convicção mas por interesse próprio”. p.013. tendo pertencido à AIB.005). e afirmava que se o fizesse “estaria traindo a confiança de milhares de 556 brasileiros”. pelo que se está passando em todos os Estados do 558 Brasil. o que foi respondido através de reiterados desmentidos pelos integralistas.9. 556 Plínio: minha candidatura é definitiva. pois “estes boatos irão recrudescer e quero acreditar que nas vésperas da eleição eles virão com absoluta intensidade para perturbar a ação 557 eleitoral daqueles que querem transformar o Brasil”. Nos anos 30. convidando-os para “sua cooperação na cruzada de salvação nacional”. poucos adversários (de um modo geral os não muito considerados na classe) e ainda um grupo que. Não acredite: Plínio Salgado não desistirá.55/6).8. Vencerei o pleito.004).248 apoio com que ainda contava naquele setor militar. 10. Rio de Janeiro. jamais desistirei! A Marcha. 555 Ibid. Na medida em que se aproximava a data da eleição. 558 Entrevista concedida por Plínio Salgado à United Press em agosto de 1955 (APHRC . assegurando sua inviabilidade eleitoral. Afirmando que sua candidatura pertencia ao povo.1955. 3. o qual concluiu que “na esfera superior há muito elemento que continua firme. p.Fundo Plínio Salgado 001. Para tanto.004. Ao mesmo tempo repetia continuamente que acreditava em sua eleição: Vou às eleições de outubro com a finalidade de alcançar vitória e posso dizer. Desde o lançamento da candidatura Salgado. os integralistas contavam com grande contingente de adeptos dentre os oficiais da Marinha. 18. embora fiéis ao pensamento. Salgado avisava para que os integralistas ficassem de sobre-aviso. Já o Comitê paranaense alertava “que os inimigos do Brasil estão e irão continuar propalando – com o propósito de desorientar o povo – a cínica e pérfida mentira de que Plínio Salgado desistiu ou desistirá de sua candidatura.6.

1955. Panfleto (APHRC . p. Perto de 5 mil cupons já apurados na prévia. São Paulo. 3 (CDAIBPRP.850 563 votos (quatro vezes a votação efetivamente recebida).1955. Gazeta de Santa Cruz. A Marcha. 562 As dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado.003. sua formação moral e cristã.850 votos. III – A imprensa do interior que publica sempre os seus artigos. IX – O fracasso dos governos e dos políticos que todos vêem. 16. p. da prévia realizada pelo Correio Católico de Uberaba. segundo a qual Salgado venceria a eleição com 2.930. As alegações que remetiam ao caráter “popular”. .7. Ganharei em Minas.011). 5 (CDAIBPRPRecortes). junto a várias outras. lhe garantiriam a vitória: I – Seu valor pessoal. 560 De Fortaleza. Para segundo lugar indico dois candidatos: Juscelino e Adhemar. agrupamentos de homens do trabalho. V – Os Comitês Populares. p. A publicação desta improvável projeção visava neutralizar a campanha promovida pelos defensores da candidatura de Juarez Távora. Rio de Janeiro. IV – Centros de Juventude espalhados em todo o Brasil. Rio Grande do Norte e Bahia. 561 É o caso.8. 9. o jornal A Marcha publicou uma projeção da votação que cada candidato obteria por estado. “doutrinário” e “suprapartidário”. VII – O Partido de Representação Popular.9. sua cultura. A Gazeta. 559 Plínio Salgado otimista. VI – Os antigos integralistas que reconhecem o valor do candidato. eram reunidas em um panfleto sobre as “Dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado” e que. portanto.Fundo Plínio Salgado 018.9.930.010. Em algumas prévias promovidas por rádios e jornais Salgado 561 aparecia em primeiro lugar.249 Acredito na minha vitória e até mesmo por maioria absoluta. 563 Plínio vencerá com 2. Embora seja pouco provável que a direção integralista realmente acreditasse em suas possibilidades de vitória.1955 (APHRC . X – O esfacelamento dos partidos que não 562 tem mais autoridade. Ganharei ainda no Paraná. Correio Católico. utilizados como argumentos eleitorais. VIII – O elemento religioso que toma conhecimento do seu trabalho. o que parece indicar uma participação organizada dos integralistas para a produção daqueles resultados. Santa Cruz do Sul. 2. Espírito Santo. que pregava o “voto útil” visando derrotar Kubitschek. 27. Rio Grande do Sul.Recortes).Fundo Plínio Salgado 112.1955.REC 55). II – Um milhão de livros espalhados pelo Brasil. Juarez Távora será o 560 último. por exemplo. Uberaba. 14.

p. ex-integralista e principal líder da “Intentona de 1938”. 10. no caso. p. 13. como o Partido Democrata Cristão. O PRP buscava crescer disputando a base social pequeno burguesa da UDN e seus aliados. cujos principais pontos provêm diretamente do cérebro de Marx. 565 Juarez e o socialismo. Eis o que se deduz desse casamento imprevisto da linha auxiliar comunista (os socialistas do sr. A Marcha. 1 e 12.3.6. A candidatura de Távora era repetidamente criticada pelos integralistas por ter recebido o apoio do Partido Socialista Brasileiro: O PSB homologou a candidatura Juarez Távora à Presidência da República. Para A Marcha Juarez seria “um candidato de tendências totalitárias que procura atrair. Para merecer o apoio das hostes de Trotski e Marx. A Marcha. ou os partidos que o apóiam estão agindo de má-fé. contra-atacava divulgando declaração de Belmiro Valverde. foi classificado pelo PRP como “o partido dos comunistas de sacristia. Em 1953. sustentando que “a grande maioria dos ex-integralistas votará contra o 564 Máscaras ao chão. A disputa de votos entre Salgado e Juarez Távora ensejou ataques mútuos os mais diversos. Este conflito tinha como objeto principal a disputa pelo eleitorado conservador. 1 e 4.1953. p. 567 Juarez é o Perón brasileiro. p. as classes trabalhadoras bem como a pequena burguesia desorientada e confusa. trazendo no coração a 564 estrela vermelha de Moscou”.1955. 24. 566 As contradições de Juarez Távora.250 PRP X UDN – o conflito aberto pelo eleitorado conservador A eleição presidencial de 1955 acirrou ao extremo o conflito entre os integralistas e o udenismo. quando o PDC apoiou Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. Rio de Janeiro. A Marcha.6. de sinceridade.6.1955. enfurecida e desesperada pela crise econômica e financeira 567 que o país atravessa”. Rio de Janeiro. . Rio de Janeiro. João Mangabeira) com os católicos do Monsenhor Arruda 566 Câmara. 1 e 4. Juarez teve que se comprometer com um programa socialista. A UDN. cujos chefes se enfeitam com a fita de congregados marianos. Rio de Janeiro. Ou o general se mostra confuso nesta quadra conturbada de sua vida.1955. 3. na qual manifestava seu apoio a Juarez. por sua vez. 1 e 5. com promessas demagógicas. Alguém não está usando. A Marcha. Sorel e 565 outras belezas deste quilate.

p. difama e calunia. constitui um caso de psiquiatria. (. 568 568 Plínio sem o apoio dos camisas-verdes.. condenado fatalmente ao último lugar na votação e com uma soma de sufrágios irrisória em relação aos demais. . em apelar para que eu desista de minha candidatura.) Mas um exame mais atento e minucioso do comportamento do ‘profeta’ do integralismo conduzirá à certeza de que 569 nele predomina o espertalhão”. Os brasileiros que sufragarão o meu nome a 3 de outubro próximo. envolvendo em suas mentiras... de inspiração materialista. que Juarez Távora se retirasse do pleito e o apoiasse: Insistem os dirigentes da campanha eleitoral do General Juarez Távora. infâmias e calúnias o general Juarez Távora.1955. 10.) Enfrenta o ridículo de anunciar que vai ser eleito e por maioria absoluta. 20. quando sabe. passou a afirmar o caráter democrático desse partido quando a guerra destroçou o nazi-fascismo. em favor da vitória daquele ilustre e respeitável militar patrício. que não comporta transigências com partidos de esquerda.) É grave o engano dos orientadores da campanha do General.9.251 sr. Plínio Salgado.. o ‘Enviado de Deus’ (.1955. Misto e paranóico e embusteiro o sr. melhor do que ninguém. É o paranóico ‘iluminador’. (. até no uniforme e no ritual macaqueados dos modelos italiano e alemão. Também a Tribuna da Imprensa. o chefe fascista brasileiro. ao suporem que a minha desistência iria carrear votos para o seu candidato. certo de que.) Recuso o apelo que me foi dirigido...) A conduta do sr.. Tribuna da Imprensa. p. 3 (CDAIBPRPRecortes). fascista no programa.. Plínio Salgado. que é um autêntico “candidato suicida”. 570 Ibid. Salgado revidava os apelos para que retirasse sua candidatura.. assim procedendo. que está fazendo apenas uma agitação para ampliar futuramente seu partidinho. contra-atacava: “Plínio mente. de bases nitidamente espiritualistas.9. dizendose crente na vitória (e por maioria absoluta!) assume aos olhos de 570 todas as pessoas sensatas o papel de um imbecil. (. Rio de Janeiro. Rafael. nos métodos. (. As críticas centravam-se na qualificação de Salgado como fascista e a inviabilidade de sua candidatura: Fundador e chefe de um partido fascista. 569 MAGALHÃES Júnior. pedindo. Sabe que. dirigida por Carlos Lacerda. dando-me a mais surpreendente e estarrecedora vitória eleitoral de nossa História. não seguem um homem. 1 e 5 (CDAIBPRP – Recortes). ao contrário. Tribuna da Imprensa. Plínio Salgado”. Rio de Janeiro. mas sim uma doutrina..

15. de Adauto. A Marcha. Rio de Janeiro. por sua vez. desde a sua fundação. Esse prazer nós temos. para concluir que “dentro da cabeça desses caluniadores não existem. respondendo às críticas que recebeu durante sua campanha. fosse eleito. de Osório Borba. 574 SALGADO.4. 573 "A Tribuna da Imprensa como sempre".1956. formulo de volta. A Marcha. O jornal sustentava que Loureiro seria “o homem que manda hoje em Plínio e o domina totalmente”. reconhecidamente derrotada até pelos seus 571 próprios seguidores. de Joel Silveira. 27. 16. por vezes. comemorava a derrota da UDN: O prazer dos integralistas foi este. Salgado publicou o Livro verde de minha campanha. em quem reconhecemos um grande patriota. sem referência (CDAIBPRP-Recortes). as “calúnias e injúrias” seriam decorrência do “ínfimo nível moral a que chegou a sociedade brasileira do nosso tempo” e da “influência e. dirigido por Roxo 572 Loureiro. p. conhecedoras do material que conduzem as 574 descargas das sentinelas”. metidos a moralistas. Tribuna da Imprensa. tanto com o Partido Comunista como com o Partido Socialista”. Derrotamos os caluniadores de Plínio Salgado. dando seqüência à troca de acusações. Ao fazêlo. e alegando que jamais poderia fazê-lo. miolos. ação direta do 571 Juarez: considera-te fora da sucessão! A Marcha. 573 que agora estorcem de raiva.9. p. Ah! Isso impediram mesmo. de Corção. de Chico Mangabeira. e confirmadas as previsões de que a votação recebida por Salgado determinaria a derrota de Távora. exatamente: impediram que o candidato de Lacerda. 12. op. Para ele.252 sirvo melhor à Pátria a quem dediquei toda a minha vida e que dispensa novas demonstrações do meu espírito de renúncia. qualquer aliança de seus partidários. 1955. . O que há lá dentro é da competência da City ou das Águas e Esgotos. Passada a eleição. 21. p. de Juraci. 81 e 87. irmão de seu genro Loureiro Júnior. 1 e 15. dos Tibérios do nosso tempo. Rio de Janeiro. E a história não foi escrita à moda da UDN dos salafrários. na verdade. cit. Em 1956. nem pelos próceres da UDN. uma exortação para que desista ele de sua candidatura. para felicidade e pelo bem do Brasil. os udenistas denunciavam suposto envolvimento de Salgado na falência fraudulenta do Banco Nacional Interamericano. para solicitar a retirada da minha candidatura”. de Jânio. sustentando que nunca ter sido “oficialmente procurado por Juarez Távora. 572 De negócio em negócio Plínio enche o papo.. ao General Juarez Távora. pois “o PRP proíbe. Livro verde de minha campanha.

12.253 comunismo”. 578 Levantamento realizado a partir dos dados publicados em TRIBUNAL Superior Eleitoral. A maior parte dos votos foi obtida em pequenos municípios. 9 volumes. pois a diferença entre Kubitschek e Távora foi de apenas 466. principalmente em virtude do apoio dos integralistas à posse e ao governo de Kubitschek. 714. A Marcha.6%). afinal. e 45. O conflito persistiria nos anos seguintes. 575 Os resultados alcançados e sua repercussão no PRP Salgado atingiu.7% nas cidades com mais de 20. em face das reiteradas proclamações de Plínio de que seria vencedor. o resultado surpreendeu os grupos dominantes “que controlam as máquinas de coação para extorquir votos. em toda história do movimento. 95. 576 isto é. s. Ainda assim. levou essa quantidade de votos” e garantindo que “está plenamente provado que.006. ou 8. A distribuição da votação foi bastante desigual: Salgado foi o segundo mais votado no Paraná. 3. 19. “batalhando contra três poderosas máquinas”.379 votos. Volume 3. Brasília: Imprensa Oficial. Santa Catarina (17.000 eleitores (91. . (APHRC . embora os melhores percentuais tenham 578 sido alcançados em estados populosos: Salgado obteve 21. 576 Plínio Salgado surpreendeu os grupos dominantes.1. p. de trabalho 577 sistemático. p.Fundo Plínio Salgado 014.6% de seus votos nas capitais (154. as cúpulas dos chamados grandes partidos”.018 votos). conquistaremos o triunfo”. o resultado obtido deve ter frustrado os militantes mais entusiasmados. Assim. a maior votação obtida nacionalmente pelo movimento integralista em um processo eleitoral.000 eleitores.949 votos.8% nas cidades com menos de 575 Ibid.3%.5%) e Bahia (13.016). afirmando que “nenhum partido.000 e 20.486 votos). Salgado enviou uma carta aos militantes agradecendo os serviços prestados à candidatura e garantindo que ela foi vitoriosa. montadas em todo o território nacional. os dirigentes integralistas tentaram apresentar o resultado obtido como uma grande vitória.1956. 577 Circular de Plínio Salgado. Para A Marcha./d. com mais quatro anos de doutrinação.8%). 20. e recebeu expressivas votações também no Espírito Santo (18. 1964. A votação recebida por Salgado reforçou a tese dos udenistas de que a candidatura de Salgado mudaria o resultado das eleições.9% nas cidades que detinham entre 10. Dados Estatísticos. Rio de Janeiro. isoladamente. atingindo 24% dos votos.

. política que seria mantida ainda nos dois anos seguintes. A despeito das diferenças. atingindo maioria absoluta em alguns deles. uma atitude de maior clarividência. Salgado captou 46. O pleito de outubro deu consciência de autonomia. Ergueu-se uma força nova! A Marcha. O desfraldar de uma bandeira própria deu ao partido herdeiro da doutrina espiritualista e cristã da democracia orgânica uma energia nova que se revelou numa verdadeira ressurreição. Rio de Janeiro. embora o apoio à posse e posterior participação no governo de Juscelino Kubitschek introduzisse uma contradição que terminaria por minar esta política. 3 e 8. como nos estados do Sul e Espírito Santo. Embora dignos dos sufrágios dos brasileiros. cujos méritos pessoais não negamos. o marechal Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes. O pleito de outubro passado incutiu-nos 579 também. Esta avaliação deu novo fôlego à “independência partidária”. não polarizavam os anseios mais profundos dos integralistas. a certeza de nossa força. Plínio.. sejam pequenos proprietários rurais.1956. a de 1945 e a de 1950. Neste último estado. reintroduzindo os integralistas na dinâmica de alianças e 579 SALGADO.939 votos). Salgado avaliava que a candidatura própria tinha dado ao PRP consciência de sua autonomia e de sua força eleitoral: Nunca o PRP poderia ter adotado uma orientação mais certa.4.254 10. p.000 habitantes (326. de autodeterminação a um partido que vinha perdendo a substância pela adesão a candidatos estranhos à sua doutrina em duas eleições sucessivas. nem daqueles que aspiram a reformas largas e decisivas dos costumes políticos e das normas administrativas em nosso País. Salgado foi o candidato mais votado em 18 municípios do Paraná e em 11 municípios de Santa Catarina. Alguns meses depois.7% do total de seus votos em apenas 10 municípios (todos eles de colonização germânica). sejam em sua maioria urbanos. como em São Paulo e Minas Gerais. 27. em todos os estados predominaram os votos provenientes da pequena burguesia.

Guido Mondin. o que se concretizaria no final de 1957 quando o PRP assumiu a presidência do Instituto Nacional de Imigração e Colonização no governo Kubitschek e se aprofundaria com as inúmeras alianças realizadas em 1958. berço da política de “independência partidária”. apoiado pelo PTB. o resultado obtido não foi suficiente para garantir a manutenção da “independência partidária” e impedir a retomada das alianças e coligações e da participação em gestões conduzidas por outros partidos. Certamente a candidatura própria cumpriu uma função importante na unificação do movimento e motivação de seus militantes.255 coligações. abalada em virtude das oscilações da política de alianças até então seguida. A médio prazo. no entanto. onde os integralistas coligaram-se com o PTB. reforçando sua identidade. apoiando a eleição de Leonel Brizola ao governo estadual e elegendo o primeiro senador integralista. inclusive no Rio Grande do Sul. .