Giselda Brito Silva (Org.

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ISBN 85-874-5937-6 Copyright © Giselda Brito Silva Direitos desta edição reservados à EDITORA DA UFRPE Rua Dom Manoel de Medeiros, s/n – Dois Irmãos. Recife/PE. CEP: 52.171-300 Fone: (081) 3320 6000 Email: editora@ufrpe.br Web site: www.ufrpe.br Impresso no Brasil / Printed in Brazil Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada desta publicação, no todo ou em parte, constitui violação do copyright (lei nº 9.610/98). Os conceitos, redação e correção textual neste livro são de inteira responsabilidade dos autores. 1ª. Edição – 2007 Revisão dos originais e formatação: Giselda Brito Silva Apoio na leitura dos textos e avaliação dos conteúdos: João Fábio Bertonha Capa: Giselda Brito Silva As imagens utilizadas na montagem da capa foram retiradas de Prontuários Funcionais da AIB do Arquivo Público do Estado de Pernambuco (APEJE) e do livro Imagens do Sigma, organizado por Luiz Henrique Sombra e Luiz Felipe Hirtz Guerra, editado pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 1998. Ficha catalográfica Setor de Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE
E82 Estudos do integralismo no Brasil / Giselda Brito Silva, organizadora. - Recife: Ed. da UFRPE, 2007. 260 p. : il. ISBN: 85-874-5937-6 Inclui bibliografia. 1. Brasil – História 2. Integralismo 3. Autoritarismo 4. Igreja 5. Tradição (Teologia) 6. Perseguição política 7. Ditadura e ditadores I. Silva, Giselda Brito CDD 981

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Apresentação Hélgio Trindade

Introdução João Fábio Bertonha

Textos de

Ana Maria Dietrich * Edgar Bruno Franke Serratto * Emília Carnevali da Silva * Gilberto Grassi Calil * Giselda Brito Silva * Leandro Pereira Gonçalves * Leonardo Ayres Padilha * Raimundo Barroso Cordeiro Jr * Renato Alencar Dotta * René E. Gertz * Rodrigo Christofoletti * Tatiana da Silva Bulhões

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SUMÁRIO Apresentação Hélgio Trindade Introdução João Fábio Bertonha 1. Pesquisas sobre o integralismo na década de 1970 René E. GERTZ 2. Origens do integralismo em debate: pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20 Leonardo Ayres PADILHA 3. Integralismo e Historiografia Edgar Bruno Franke SERRATTO 4. O Integralismo em Pernambuco: ascensão e queda da AIB-PE Giselda Brito SILVA 5. O Legionário Integralista: um novo homem para uma nova era Raimundo Barroso CORDEIRO JÚNIOR 6. O homem no espelho e a Legião Cearense do Trabalho: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da SILVA 7. Tradição e Cristianismo em Minas Gerais: O nascimento do Integralismo em Juiz de Fora Leandro Pereira GONÇALVES 8. A imprensa integralista de São Paulo e os trabalhadores urbanos (1932-1938) Renato Alencar DOTTA 9. Integralismo Proh Pudor! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo Rodrigo CHRISTOFOLETTI 10. Entre Sigmas e Suásticas: nazistas e integralistas no Sul do Brasil Ana Maria DIETRICH 11. Fotografias, gênero e autoritarismo: representações de feminino pela Ação Integralista Brasileira Tatiana da Silva BULHÕES 12. 1955: A campanha de Plínio Salgado à Presidência Gilberto Grassi CALIL

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APRESENTAÇÃO Hélgio Trindade

Os estudos e pesquisas sobre o Integralismo, que no passado foram relegados a um segundo plano pela historiografia brasileira, estão gerando um renovado interesse por jovens pesquisadores de várias regiões do país. Vale lembrar que, nas décadas de 1970 e 1980, um primeiro grupo de pesquisadores debruçou-se sobre o tema produzindo a primeira série de teses, pesquisas e ensaios. O resultado certamente foi o de trazê-lo para a produção acadêmica de algumas instituições universitárias nacionais. Os enfoques e as interpretações nem sempre foram convergentes, mas o Integralismo passou a ser valorizado como um tema relevante para vários historiadores consagrados. Além de Edgard Carone que o incorporou em seu livro sobre a Segunda Republica (1930-1937), o Integralismo entrou na História Geral da Civilização Brasileira (Período Republicano e em verbetes do Dicionário Histórico1 Biográfico do CPDOC. Após ter integrado a enciclopédia História do Século 2 20, dirigida por Francisco Weffort , os especialistas internacionais inserem o Integralismo na categoria dos fascismos extra-europeus. A Ação Integralista Brasileira (AIB) adquire então legitimidade acadêmica pela consagração da literatura internacional com os estudos comparativos de Juan Linz, Stanley 3 Payne, Pierre Milza, Stein Larsen e Alessandro Campi , entre outros.

 Professor titular de Ciência Política na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 1 CARONE, Edgard . A Republica Nova (1930-1937). São Paulo: Difel, 1974; FAUSTO, Boris (dir). Historia Geral da Civilização Brasileira (Brasil Republicano). Sociedade e Política. T.III. 3º Vol. São Paulo: Difel, 1981; Dicionário Histórico-biográfico Brasileiro:1930-1983. Israel Beloch e Alzira Alves de Abreu (coord). Rio de Janeiro: Editora Forense- Universitária, 1984. 2 História do Século XX. São Paulo: Editora Abril. n.52, 1974. 3 LINZ, Juan. Some notes toward a comparatives study of fascism in sociologica historical perspective. In: Laqueur, Water (edit). Fascism a reader´s guide. Berkeley: University California Press, 1976; MILZA, Pierre. Les fascismes. Paris: Imprimerie National, 1985; PAYNE, Stanley G. Historia del Fascismo. Barcelona: Edit.Planeta, 1995; LARSEN, Stein U. (edit). Fascism outside Europe. New York: Columbia

Ao desenvolverem pesquisas regionais e locais estão enriquecendo os estudos sobre a diversidade das manifestações da AIB e seu sucedâneo. o Integralismo precisa ser analisado à luz das diferentes situações cuja explicação não se esgota apenas pelas análises mais abrangentes. mas pela presença de novos centros de documentação e diversidade das fontes de dados disponíveis. Que cos´è il fascismo? Interpretazione e prospettive di ricerca.. . University Press. o Partido de Representação Popular (PRP). é uma iniciativa meritória e que já apoiou os esforços do Grupo de Estudiosos do 4 Integralismo (GEINT). 2001. Rosa (org). Integralismo: novos estudos e reinterpretações. o Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. Como toda ideologia e organização que arregimenta adeptos e fiéis de vários extratos sociais e em contextos regionais diversos. Alessandro. Certamente uma nova geração de pesquisadores está com a palavra para lançar um olhar critico e criativo sobre os estudos fundadores e trazer a sua contribuição. inclusive publicando os resultados de suas pesquisas . partido e ideologia que. R.6 Na última década os estudos sobre o Integralismo foram retomados de forma vigorosa por uma nova geração de jovens historiadores e cientistas sociais. 4 DOTTA. 2004. em São Paulo. Rio Claro: Arquivo Público e Histórico de Rio Claro. Este novo livro testemunha de forma eloqüente a atualidade do tema e a diversidade de abordagens e contribuições inéditas. POSSAS. 2003. Nesta perspectiva. CAMPI. Esses estudos têm contribuído para uma visão mais complexa sobre as metamorfoses do movimento. Os estudos monográficos ou temáticos são fundamentais para o avanço da problemática não só pela riqueza e variedade de enfoques. mas nas profundezas do Brasil. segundo diferentes olhares. Roma: Ideazione Edit. penetraram não somente em alguns centros maiores. Lidia e CAVALARI.

o integralismo foi. posteriormente. em que a produção relativa ao movimento era centralmente de integralistas (ou de seus herdeiros do Partido de Representação Popular) ou de seus opositores. refletiu. em boa medida. A partir da 5 Doutor em História pela Unicamp. o meu orientador. como se consolidaram enquanto campo analítico. resolvi iniciar alguns estudos a respeito do integralismo. Depois. houve uma primeira fase. Assim. os artigos e as teses se sucedem e podemos notar como esta é uma temática longe de atingir o esgotamento. o questionei sobre o que poderia ler a respeito. são essencialmente fontes primárias e não mais do que isso. Não me recordo de suas palavras exatas. claro. Ao procurar o que seria. Os livros. parte da bibliografia dos estudiosos do integralismo. praticamente. vi que havia alguma coisa a mais. como o clima político e social e a economia interna das Universidades. ainda um jovem estudante de graduação em História.7 INTRODUÇÃO 5 João Fábio Bertonha Em fins da década de 1980. como qualquer outra. mas que não era realmente muito. mas. era a obra do Hélgio Trindade e seus interlocutores diretos. pesquisando com mais vagar. como as alterações teórico-metodológicas dentro da disciplina histórica e a disponibilidade de fontes. Só levando em conta esses elementos é que podemos compreender a caminhada dos estudos relacionados ao tema. Passados menos de vinte anos. Na verdade. os 60. Numa segunda fase. a produção histórica sobre o integralismo. Esses livros e artigos são. mas ele ressaltou como tudo o que havia. essencialmente. tanto elementos práticos. . entre os anos 70 e 80. Alcir Lenharo. objeto de estudo das ciências sociais. a situação mudou radicalmente e os estudos do integralismo não apenas se expandiram de forma acentuada. dado o seu próprio caráter militante. professor do Departamento de História da Universidade Estadual de Maringá/PR e pesquisador do CNPq. grosso modo. dos anos 30 até.

são estas obras centralmente de cientistas sociais (cientistas políticos. o que também foi de importância para que as pesquisas deslanchassem. Nessa época. Marilena Chauí e outros. Abriu-se espaço para estudar o integralismo. além disso. novas fontes. o que permitiu uma renovação da história política. estavam envolvidos com a chamada história econômica e social e mais interessados em grandes estudos estruturais. Esse fato deixou aquilo que foi escrito sobre o integralismo naqueles anos marcado por alguns elementos. O mais importante deles foi que a História se libertou da já mencionada ênfase na história econômica e social. Mas muitas outras questões precisavam ser respondidas e apenas com a entrada dos historiadores no campo as coisas mudaram. uma seleção clássica de fontes (jornais. o que ocorreu. deixaram temáticas como o integralismo para seus colegas das ciências sociais. houve uma explosão de cursos de graduação e pós-graduação. o PCB. Num primeiro momento. grosso modo. etc. sociólogos) e não de historiadores. o que reflete as próprias prioridades da disciplina histórica naqueles anos. especialmente os italianos e os alemães. como as da polícia política. livros. como ênfase no estudo dos conceitos. o Estado Novo.8 primeira grande obra de pesquisa sobre o integralismo (o livro do Hélgio Trindade. o grosso dos trabalhos se concentrou em “fechar” algumas das questões deixadas pela camada anterior. nas mudanças sociais. publicado em 1975). etc. entre o final dos anos 80 e o início dos 90 Vários elementos ajudam a explicar porque foi nesse momento que os historiadores passaram a olhar com mais interesse o movimento dos camisas verdes. etc. um trabalho intenso de análise do discurso (então no auge do seu prestígio dentro das ciências humanas). Gilberto Vasconcelos. o que permitiu o surgimento de uma nova e mais numerosa geração de pesquisadores. Os contatos dos integralistas com os movimentos fascistas europeus e as suas relações com os imigrantes. nos estudos de classe. fortemente influenciados pelo marxismo e pela Escola de Annales. houve toda uma série de debates mais do que conhecidos. por este e outros motivos. Curiosamente. os historiadores. filósofos. os quais deram uma nova vida aos estudos do tema. História política era considerada perda de tempo e. Além disso. Essa produção nos ensinou muito e apoiou tudo o que veio depois. foram reexaminados e a história regional começou a ser . envolvendo José Chasin. revistas). foram postas a disposição dos historiadores. os historiadores. No campo da produção pratica da História. salvo exceções.

já comentada. Mas o momento é mais de vivacidade do que de crise na área. jovens pesquisadores que utilizam o prisma teórico do historiador para abordar temáticas novas ou. Pernambuco. como o de Gilberto Calil sobre a campanha presidencial de Plínio Salgado à Presidência em 1955 e o . inclusive com o uso de novas fontes. a participação dos negros e das mulheres no movimento. o interior de São Paulo e Minas Gerais. Giselda Silva e Leandro Gonçalves. reunindo trabalhos de. permite que ampliemos a discussão sobre as pontes entre o integralismo e as religiões cristãs. nos artigos de Ana Maria Dietrich. idéias e perspectivas atuando na história do país por muitas décadas ainda e mesmo hoje). problemas e/ou outras questões. Este último. etc – já tinha sido abordado na década anterior. podem transformar a história em uma coleção de discursos iguais. dos estudos a respeito do integralismo. Nos últimos anos. trazendo coisas novas e novos elementos para repensar o que foi o movimento.9 explorada. Na verdade. aliás. esse novo filão – que nos trouxe conhecimentos sobre cidades no Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo. temas clássicos como o relacionamento entre nazistas e integralistas no sul do Brasil ou aquele entre católicos e integralistas recebendo um novo tratamento. no mínimo. ao lado da explosão numérica. com suas personalidades. O anti-semitismo integralista. como não podia deixar de ser. e de forma extremamente positiva (pois é um erro imaginar que a AIB tenha desaparecido em 1938. na maioria. Também há temas que ainda aguardam os seus historiadores. assim. Vemos. o que é perigoso. Os estudos regionais continuam bem representados. rever aquelas já estudadas pela historiografia. até agora centrada no campo católico. Estudos sobre discursos e memórias sem uma analise crítica e uma síntese. em trabalhos como os de Renè Gertz e Josênio Parente. num processo que prossegue. houve um extraordinário desdobramento em termos de temas e problemáticas. há artigos que avançam para o período pós Segunda Guerra. como o relacionamento da AIB com os militares ou o cinema integralista. mas se consolidou efetivamente nos anos 90. Claro que essa nova historiografia também trouxe. enquanto outras sub-temáticas podem se esgotar na repetição. os discursos e as memórias de e sobre os integralistas e outros temas passaram a ser abordados. O presente livro indica claramente essa situação. ao analisar os contatos do integralismo com o metodismo. por exemplo. como nos artigos citados acima e no de Raimundo Cordeiro sobre o Ceará.

É uma tradição considerar o integralismo. mais do que tudo. além de memórias e livros auto-celebrativos dos próprios integralistas. análises historiográficas a respeito do integralismo. alguns trabalhos sobre Barroso. Estas estão se tornando mais comuns recentemente e. Os artigos de Tatiana Bulhões e Leonardo Padilha também indicam perfeitamente as novas preocupações dos estudiosos do movimento. no sentido da existência de uma bibliografia tão ampla que foge da capacidade de administração de um . Já o segundo tenta entender a produção literária e a formação ideológica de Plínio Salgado. por Renato Dotta no seu artigo sobre a relação entre o integralismo e os trabalhadores urbanos em São Paulo. mas o trabalho de Dotta indica como essa visão tem que ser. e o de Emília Carnevali da Silva sobre Severino Sombra.10 de Rodrigo Christofoletti a respeito da Enciclopédia integralista dos anos 50. como tendo a sua base social essencialmente nas classes médias. ou seja. como os demais movimentos fascistas. por sua vez. como também de outros secundários. mas numa visão mais histórica e menos determinista. são indicativos de um novo filão de pesquisa relativamente negligenciado nas décadas passadas e que vai lentamente se abrindo. as mudanças e continuidades dentro da trajetória da direita nacional no século XX. Seria fundamental também que tais ensaios biográficos extrapolassem o período do próprio integralismo. ainda não chegamos ao ponto de “perda de controle”. duas das áreas de maior interesse para a nova geração de historiadores. Os artigos de Renè Gertz e Edgar Serrato. Reale e Salgado e um ou outro texto sobre líderes regionais. fazem. na verdade. Já tínhamos. matizada. como ele demonstra. Afinal de contas. indicam como esse campo de estudos tem se desenvolvido. Seu texto. também foram seduzidos pelos ideais integralistas nos anos 30. utilizando estratégias de escrita diversas. Padilha também sugere caminhos para a produção da biografia de Plínio Salgado (o que também tenho tentado fazer) e a memória construída em torno dela. por sua vez. A primeira escreve um texto na fronteira entre a história de gênero e as representações fotográficas. demonstrando. Mas faltam ainda estudos biográficos mais densos não apenas dos três principais líderes. pois trabalhadores e operários. As bases sociais do movimento são investigadas. no mínimo. Parecemos distantes do momento em que teremos que abandonar essa idéia. dentro de histórias de vida. regionais e de simples militantes. o das biografias e o das relações entre os líderes integralistas.

Enfim. de forma a orientar os que se iniciam no tópico. o que é algo a se comemorar. . o que é um bom sinal. o presente livro é não apenas um indicativo da vitalidade do campo dos estudos a respeito do integralismo no momento atual como se configura numa excelente contribuição dentro dele. Já estamos muito longe do momento em que os estudiosos do integralismo não tinham interlocutores e deviam se resignar ou a debater com os militantes ou a ler e reler os poucos textos disponíveis.11 único pesquisador. Mas já estamos num momento em que a massa de livros e artigos demanda textos que os organizem e historicizem.

de cujo governo o ex-chefe-nacional da AIB. numa possível tentativa de justificação da oportunidade dessas * Professor nos Departamentos de História da PUCRS e da UFRGS. dera uma guinada nas suas posições políticas e se tornara um dos críticos mais categorizados do regime militar. fora defendida em 1971. Hélgio. Infelizmente. neste momento. Plínio Salgado. 6 TRINDADE. 1974. quando ingressei no curso de mestrado em Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). ocasião em que manifestara simpatia pelo movimento. Gertz Este pretende ser um depoimento pessoal muito breve sobre meus estudos a respeito do integralismo. e que eram afixadas no quadro de avisos do curso. Deve ter sido importante. Se minha memória não está falhando. e quais as eventuais “atualizações” ou vinculações que se estabeleceram com a realidade dos anos 1970. pois. não me lembro mais de nenhum detalhe do conteúdo desse comentário sobre a obra. Hoje. para ver os comentários que se fizeram naquela época. Em 1975. mas. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. Não tenho mais presente nem os textos nem o conteúdo das resenhas mais rápidas publicadas na imprensa sobre o livro de Trindade. Tese de doutorado na Universidade de Paris I. ele se tinha ocupado de forma bastante intensa com a AIB nos anos 1930. e tinha como título “A interpretação do integralismo vem do Sul”.12 1. especificamente à tese. afinal. penso que seria interessante recorrer a essas resenhas. havia dito que permitira que os “plinianos” da década de 1930 tivessem chegado ao poder. PESQUISAS SOBRE O INTEGRALISMO NA DÉCADA DE 1970 * René E. o livro hoje clássico de Hélgio Trindade sobre a Ação Integralista Brasileira (AIB) 6 tinha sido recém publicado. São Paulo: DIFEL. e o autor era professor desse curso. uma delas era de Alceu Amoroso Lima. . na década de 1970. dois anos após o início da presidência do general Emílio Garrastazu Médici.

um texto intitulado “Paradigma e História: a ordem burguesa na imaginação social brasileira”. depois. o que o teria levado a considerar como fascistas pessoas. na qual afirma não enxergar nenhuma utilidade no estudo do integralismo (VASCONCELOS. 2004 p. Não partilho dessa opinião” (p. Grosso modo. segundo Wanderley Guilherme. fascistas. Ordem burguesa e liberalismo político. Este apresentou. voltar ao status quo anterior à Revolução de 1930 escapariam da classificação de “fascistas”. pode-se dizer que Trindade foi acusado de não distinguir entre uma série de conceitos. pois – em partindo desse princípio – a própria Aliança Nacional Libertadora deveria ser classificada como tal. 9 Esse texto foi publicado. 11). o antiliberalismo seria outra dessas características que não pode ser apontada como privilégio do fascismo. de alguma forma. 1978. . constituiria tarefa de toda ciência classificar em conceitos cada vez mais distintivos e precisos a realidade material. Wanderley Guilherme dos. São Paulo: Brasiliense. 8 A palavra “onda” encontra-se num trabalho de Rodrigo Santos de OLIVEIRA. ipso facto. Dissertação (Mestrado em História). na apresentação ao trabalho de Gilberto Vasconcelos. 1979). 7 7 Essa idéia é sugerida pela observação feita por Florestan Fernandes.13 pesquisas . 15-63 (a crítica ao trabalho de Trindade está nas p. no qual dedicou cerca de duas páginas a 9 uma crítica do texto do primeiro. Assim. Fernandes escreveu: “O que me põe de quarentena [em escrever o prefácio] é o assunto. p. A ideologia curupira: análise do discurso integralista. também não constituiria característica exclusivamente fascista. a ser citado a seguir. o termo “fase” (“Perante o Tribunal da História”: o anticomunismo da Ação Integralista Brasileira [1932-1937]. a predisposição para um profundo engajamento político. governos fortes não seriam. para comparar tudo isso com a direção que tomaram as 8 várias “ondas” posteriores de pesquisa sobre a AIB. São Paulo: Duas Cidades. em SANTOS. Porto Alegre: PUCRS. seguindo a lógica de Trindade. apenas aqueles que defendiam de forma entusiástica uma reconstitucionalização imediata para. mais tarde. 28 e segs. Gilberto. A indistinção conceitual anticientífica – já que. grupos e movimentos que apresentavam características que não constituem exclusividade fascista. 30-31). o voluntarismo. social e política – levaria a que. Lembro-me com mais detalhes – e posso consultá-la até hoje – de uma polêmica em que Hélgio Trindade se envolveu com o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos. Hoje está na moda dizer-se que se deve estudar o integralismo. na realidade do início da década de 1930. mesmo que ele nos informa ter optado originalmente pela idéia de “geração” e passado a preferir. em 1975.

Hélio. 12 HUNSCHE. por exemplo. e. O regime de Vargas: os anos críticos. Nicolau de Flue. 1980. Texto e contexto: nota crítica a alguns aspectos do estudo “Paradigma e História” de Wanderley Guilherme dos Santos. Speyer a. e que possui um capítulo dedicado ao 13 integralismo. defendida na década de 1930. 194-231). defendida em 1972 nos Estados Unidos. 1976. 1971. Alguns anos depois. O trabalho não conteria uma classificação simplória do integralismo como fascismo. Trindade. por essa época. p. ao livro de Robert Levine sobre O regime de Vargas. 1940. Plínio Salgado and Brazilian integralism. Elmer R. 11 SILVA. 1972. atribuiu a ele.14 Hélgio Trindade respondeu a essa crítica. o creador do integralismo na literatura brasileira. entrementes. Essa mesma revista publica um artigo de Juan Lins sobre “O integralismo e o fascismo internacional”. naturalmente. cujo original. Stuttgart/Alemanha: Kohlhammer-Verlag. p. Não tive acesso. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1938. Também não conhecia a tese de doutorado de Elmer 14 Broxson. na Alemanha. Der brasilianische Integralismus. talvez como um dos primeiros pesquisadores brasileiros. 14 BROXSON. Revista do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (da UFRGS). mesmo que destacasse diversas características que o 10 aproximariam desse “tipo” de regime. praticamente. Plínio Salgado. viria a descobrir outra tese defendida na Alemanha naquela época e também publicada lá (em português): Gut. Edgard. destacando que fora interpretado de forma totalmente equivocada por Wanderley Guilherme. que.: Pilger-Druckerei. mas que só seria publicado no Brasil em 1980. eram qualificações que o próprio Plínio Salgado atribuíra ao fascismo. Tese (Doutorado em História) Washington: The Catholic University of América. em termos benevolentes. no qual a tese de Trindade é inserida. está traduzido para o português e pode ser obtido no Centro de Documentação sobre a AIB e o PRP. Eu era um simples aluno de mestrado e não tinha informações sobre outras pessoas que estivessem realizando estudos sobre o integralismo. 128-134. 10 TRINDADE. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Robert M. em textos que escrevera ainda antes da fundação da AIB. em Porto Alegre. Hélgio. a elaboração de qualificações sobre aquilo que seria o fascismo que. 1934-1938. Karl-Heinrich. Rh. era de 1970. no contexto dos estudos internacionais sobre os fascismos (p. 1932-1938. São Paulo: DIFEL. 135-143. Lera. 1974. o resumo de algumas partes do trabalho de Trindade (Carone. O livro de Hunsche. 13 LEVINE. tivera acesso à tese de doutorado de Carlos 12 Henrique Hunsche. Outros trabalhos de que só tomei conhecimento mais tarde – mesmo . na realidade. a que o historiador tivera acesso antes da publicação. 1938: Terrorismo em campo verde. A República Nova (1930-1937). o livro de Hélio Silva intitulado 1938: 11 Terrorismo em campo verde . Aquilo que se encontrava em Edgard Carone era. Porto Alegre. em inglês. ano IV.

que dei uma contribuição de algum valor. Madison.. História Geral da Civilização Brasileira [vol. Com tudo isso. vol. vol. não vinha decidido a transformar esse tema em interesse central de minha atividade de pesquisa. Sempre tive muita consciência de que me inseria numa discussão teórico-metodológica de menor abrangência e que mordia esse tema apenas pelas beiradas. penso. Ação Intergalista Brasileira: fascism in Brazil. 16 Um comentário de Hélgio Trindade sobre esses trabalhos pode ser encontrado em seu texto intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30”. Depois de ter lido a então escassa bibliografia geral sobre esse assunto e de ter reunido algumas poucas informações a respeito de sua atividade no estado. hoje em dia. presidente da ANL. em 1978 e 1979. 1974. 15 respectivamente. In: FAUSTO. Stanley E. 1978. 304-316. Washington. Tinha a intenção de dedicar-me ao estudo da Aliança Nacional Libertadora (ANL) no Rio Grande do Sul. Fui muito bem recebido. se refletem a discussão sobre o caráter “mimético” ou não do integralismo. 15 CHASIN. J. Nelas. por tabela. São Paulo: DIFEL. Chasin e de Gilberto Vasconcelos. nº 2. procurei o escritor Dyonélio Machado. e também sobre os interesses daquele momento 16 subjacentes ao estudo desse fenômeno do passado. 1932-1938. sobre a possibilidade de classificálo entre os fascismos. 1981. 10]. Mesmo que as matérias publicadas por alguns órgãos da então nascente “imprensa nanica” sobre o estudo de Hélgio Trindade. VASCONCELLOS. São Paulo: Livraria Editora Ciências Humanas Ltda. Mesmo assim. .15 Talvez tivesse entendido melhor a polêmica entre Wanderley Guilherme e Hélgio Trindade se soubesse das teses então em andamento de J. em 1935. op. tivessem despertado meu interesse e constituído uma das motivações para meu ingressado no mestrado em Ciência Política da UFRGS. p. Margaret TODARO. ainda antes de sua edição em livro. e das quais só tomei conhecimento depois da publicação.]. Williams. 54. "Integralism and Brazilian catholic church " The American Historical Review. eventualmente até sobre os destinos da humanidade. Boris [dir. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hiper-tardio. cit. nº 3. G. mas no final da longa conversa. IX. A modéstia de minhas pretensões pode ser inferida do próprio fato de que não ingressei no mestrado com a decisão tomada de que faria uma dissertação sobre o integralismo. quero dizer que meu ingresso no campo de estudos sobre o integralismo não se deu a partir de uma batalha nas barricadas teóricas e metodológicas em que se tentava decidir sobre o alfa e o ômega do movimento e. o escritor me deu o seguinte conselho: “Para o meu bem [de Dyonélio que já existissem naquele momento – foram: HILTON. Luso-Brazilian Review. 1972.

editado em um dos mais típicos municípios de colonização germânica do Rio Grande do Sul. no decorrer do semestre. não se confirmavam na leitura levou-me a sistematizar todos os conteúdos – mesmo aqueles que não se referiam a aspectos doutrinários. e sua expansão nas regiões de colonização alemã do sul do Brasil. de alguma forma. e por isso sugeriu que eu o fizesse. certo dia. no final do período. 143-174. nessa temática e ir apresentando. mas que. município que. p. 1976. São Leopoldo. 1994. que deveria desembocar. Como o título indica. portanto ao “pensamento” integralista. A conversa com Dyonélio aconteceu no início de 1976. num total de exatas 52 edições semanais. ao lado de Caxias do Sul – típico de colonização italiana –. e no primeiro semestre desse ano me matriculei numa disciplina sobre “Pensamento político brasileiro no século XX”. Acabei recorrendo também a algumas outras fontes. editado em Novo Hamburgo. os avanços feitos na sua pesquisa. Relatou que. por não dominar o alemão. na sala de aula com um volume encadernado do jornal integralista Der Kampf. tratava-se de um jornal em língua alemã. Dissertação (Mestrado em História). 19 O paper semestral está publicado sob o título “O integralismo e os teutobrasileiros no Rio Grande do Sul”. todos os participantes do seminário deveriam escolher um assunto que se enquadrasse. Porto Alegre: PUCRS. Comecei a fazer um levantamento sistemático do conteúdo do jornal. 17 Meu projeto só foi concretizado quase 20 anos depois por Diorge Alceno KONRAD (1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul. elegera um vereador integralista nas eleições 18 municipais gaúchas de 1935. tive de 17 abandonar esse projeto. conseguira o jornal com a família proprietária da gráfica em que fora impresso. Com a negativa do ex-presidente da ANL em colaborar com informações. 18 Caxias do Sul elegeu três vereadores integralistas. e todas elas me diziam que a história contada como líquida e certa – e na qual também eu acreditara até 19 então – não era tão líquida e certa assim. Hélgio apareceu.16 Machado] e para o teu bem. durante suas pesquisas para a tese. esquece essa história”. In: Anais do 2º Simpósio de História da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul. Paralelamente aos conteúdos desenvolvidos pelo professor. Para o seminário. Como eu demorasse um pouco para definir o tema e a fonte a que me dedicaria. num paper semestral. ministrada por Hélgio Trindade. não pudera analisar o conteúdo. de novembro de 1936 a novembro de 1937. interessava mais o conteúdo doutrinário. mas o fato de que notei desde os primeiros números que algumas opiniões preconcebidas que eu tinha sobre o integralismo. .

eu tinha um tema para minha dissertação. havia uma evidente correlação estatística entre a densidade da influência alemã (e italiana) na população e a densidade da presença integralista. muitas vezes sem saber que eram brasileiros. em grande parte. a adesão relativamente grande de alemães e descendentes era considerada algo absolutamente normal e óbvio. com as forças armadas. a saber: a relação do integralismo com a Igreja Católica. de que falarei a seguir –. não puderam ser comprovados. e a situação não demandaria qualquer explicação. ou seja. sobretudo no sul do Brasil. pois seu conteúdo não foi totalmente integrado na tese: O integralismo e os teuto-brasileiros no Rio Grande do Sul: contribuição para a interpretação de um fenômeno político controvertido. Ela ficou pronta em 1977. Assim. seu irmão de fé.17 E qual era essa história? Em resumo. mas outros aspectos pressupostos como líquidos e certos. e com as populações de origem imigrantista e os fascismos europeus. indicava que nem tudo era tão absolutamente claro. Como o integralismo era um partido nos mesmos moldes do nazismo alemão. completamente desinteressados e apáticos em relação à vida política brasileira. porém. Estaria tudo claro. num verdadeiro Estado dentro do Estado. alguns dados sobre a atividade 20 Considerando que ela não foi publicada – mesmo que seu conteúdo tenha sido aproveitado. e fundamentais no estabelecimento da lógica que supostamente explicaria essa correlação. principalmente no sul do país – por tudo isso. por exemplo. Os alemães e seus descendentes. Nessa perspectiva. teriam resistido de forma tenaz e sistemática a uma integração política e cultural na realidade brasileira desde que chegaram aqui. e com a atenção voltada exclusivamente para tudo aquilo que acontecia na Alemanha. 1977. Porto Alegre: UFRGS. mais ou menos a seguinte. a partir de 1824. e como eu estava à procura de um tema de dissertação – depois do abandono da idéia de me dedicar à história da ANL – e ainda. talvez valesse a pena citar seus créditos. sem se nacionalizar. tendo sido defendida em outubro 20 daquele ano. mantendo-se “enquistados” em território nacional. na tese de doutorado. a rigor nem haveria necessidade de explicar qualquer coisa. Hélgio Trindade havia escrito que não abordara três temas que considerava merecedores de uma investigação. . As pesquisas me levaram a não poder negar que o integralismo tivera um sucesso maior nas regiões de colonização alemã e italiana. e como se supunha como evidente que o próprio nazismo deveria estar promovendo a expansão da AIB no Brasil. sem aderir ao Brasil. Como minha pesquisa semestral no jornal e em algumas outras fontes a que recorri. como na apresentação do seu trabalho.

intelectuais. por sua vez. Essas exceções. Wolfram Metzler.). Martin N. teria conduzido. o maior líder integralista de Novo Hamburgo. enquanto sua polícia batia nos integralistas – fossem de origem alemã ou não. Imigração e imprensa. Porto Alegre/São Leopoldo: EST/Instituto Histórico de São Leopoldo. e os atores políticos contemporâneos faziam uma clara distinção entre nazistas e integralistas – coisa que nas interpretações correntes não acontecia. porém. culturais. apesar de católico. em função da total identidade de interesses e de ideologia entre ambos. Imgart. editado no interior de Santa Cruz do Sul. teria escancarado as portas ao nazismo. no Brasil e no Chile. Imgart Grützmann também mostrou que ao menos um almanaque germanista.18 nazista no Brasil indicavam que. . ao integralismo. el al. de que os descendentes de alemães constituíram um “quisto étnico”. por sua vez. pelo fato deste defender um nacionalismo que tinha na fusão racial e na constituição de um melting pot brasileiro um dos seus grandes objetivos. encontrável tanto na bibliografia quanto no senso comum. era muito mais favorável à AIB do que mostraram as análises dos demais almanaques de língua 21 alemã arrolados em meu trabalho. O almanaque (Kalender) na imigração alemã na Argentina. havia exceções. Nesse sentido. concretizado na força do movimento “germanista”. econômicos. 21 GRÜTZMANN. 2004. que. Pode-se citar um exemplo: sem dúvida. naturalmente. (orgs. o partido nazista não apoiou de forma irrestrita a difusão da AIB entre os teuto-gaúchos. podendo contrariar tendências gerais ou condicionamentos materiais. Der Heimatbote. O mesmo acontecia com as autoridades do interior do estado. sociais. vereador eleito nas eleições de novembro de 1935. Essa equação. Evidentemente. o governador Flores da Cunha mantinha um relacionamento muito estreito e cordial com a representação diplomática do governo nazista e era assíduo nas festas dos militantes da suástica. defendia a prática da segregação étnica dos descendentes de alemães como programa – tinha em relação ao integralismo. o objeto de estudo não é inerte e tem vontade própria. 54. podia ser caracterizado como um personagem bastante “germânico”. no mínimo. Também ficaram muito patentes as profundas reservas que o movimento germanista – o qual. de forma que o encaravam com muita suspeita. p. In: DREHER. havia muitas décadas. que eu não consultei na época. não conseguiram invalidar uma tendência geral que dificultava em muito a equação corriqueira. o qual. Nas Ciências Humanas. e esse aspecto ainda era reforçado pelo fato de que germanistas luteranos enxergavam no integralismo um movimento muito influenciado pelo catolicismo.

refletia uma lógica absoluta. Mas eu simplesmente defendia – e continuo defendendo – a tese de que ela é dispensável para explicar a presença integralista nas regiões de colonização alemã. socioeconômicos. meu orientador sugeriu que deveria procurar a explicação na “educação autoritária” que essa gente havia internalizado. Em resumo: não embarquei nessa proposta. O problema começava pela definição daquilo que é uma “educação autoritária”. Citei. Em primeiro lugar. o integralismo com seu descompromisso com as oligarquias tradicionais foi favorecido. era difícil testá-la com instrumentos minimamente intersubjetivos. por exemplo.19 que. Temos aqui uma explicação política universal. a oposição oligárquica não podia ou não queria ceder a essa reivindicação. às vezes nos distritos. cognominado “berço da imigração alemã” no Rio Grande do Sul. que independe totalmente da variável étnica. na época. em contradições. não deixei de ver alguns problemas na minha posição. o caso do distrito de Campo Bom. Muitas atitudes que para meu orientador poderiam parecer autoritárias. constatei que havia ali um movimento que vinha desde a virada da década de 1930 – e que se estendeu Estado Novo a dentro – lutando pela desanexação de São Leopoldo para ser anexado a Novo Hamburgo. para outros poderiam constituir imperativo de qualquer convivência democrática. integrando o município de São Leopoldo. Nesse distrito se registrou uma densidade eleitoral integralista muito maior do que no restante do município. perfeita. O problema da hipótese de que a variável “educação autoritária” poderia explicar a simpatia pelo integralismo consistia no fato de que. em que havia uma densidade maior de integralistas havia um problema político local não resolvido. uma certa rigidez na observação de algumas regras da convivência cotidiana. A recíproca também era verdadeira – eu não tinha como provar que a variável étnica não tinha absolutamente nada a ver. e até geracionais. metodologicamente. Como. nesse sentido. Além disso. Diante das evidências de que a variável étnica não podia servir de forma tão direta quanto sempre se imaginara para a explicação da difusão integralista entre os “alemães”. aparentemente. dei destaque a fatores políticos. o levantamento dos nomes dos integralistas mostrou que tinham características socioeconômicas e etárias muito específicas: eram jovens e sua trajetória de vida mostrava uma tendência para a ascensão social. Claro. a toda hora. Evidentemente. aparentemente. ficou muito claro que naquelas localidades. essa característica . criado em 1927. na realidade empírica tropeçava. E. e cuja sede se localizava muito mais próximo do que a sede do primeiro. Ao consultar a documentação da prefeitura. como.

acrescentei um número considerável de informações àquelas 22 Estudos posteriores ao meu têm introduzido algumas pequenas correções àquilo que escrevi. . resolvi continuar com o tema envolvendo nazismo. A outra frente nova era sugerida por uma informação encontrada no decorrer da pesquisa para a dissertação: nas eleições municipais de novembro de 1935. Tese (Doutorado em História). houvera uma presença maciça de prefeitos e funcionários vindos de fora dessas regiões. arquivos partidários e arquivos de organizações que se dedicavam aos assim chamados “alemães no exterior”. buscando espaço no mercado político. 1998. em contrapartida. portanto. Tendo obtido uma bolsa para fazer o doutorado na Alemanha. as descobertas feitas em todas essas fontes confirmaram as conclusões básicas da dissertação. bibliografia especializada sobre o nazismo etc. Luís Edmundo de Souza. as pesquisas em fontes alemãs – arquivos do ministério das relações exteriores. Na dissertação de mestrado. essas regiões apresentavam uma maior dinâmica econômica que as demais regiões. MORAES. nas eleições municipais de março de 1936 em Santa Catarina. e assim se juntavam restrições de mercado político com maior presença de setores em transição social. nesse sentido. no Rio Grande do Sul. portanto. germanismo e suas eventuais ligações com o integralismo tinham sido indiretas. Estava aí um problema: como explicar essa enorme diferença no sucesso alcançado nos dois estados? Esses dois 22 aspectos vieram a constituir o plus da tese em relação à dissertação. o mercado político para os cidadãos locais. Suttgart: Verlag Hans-Dieter Heinz. restringindo. 1931 bis 1939. Berlim: Technische Universität Berlin. Berlim: Freie Universität Berlin. as fontes alemãs sobre nazismo. isto é. Nationalsozialismus in Lateinamerika: die Auslandsorganisation der NSDAP in Argentinien. Brasilien. 2002. germanismo e integralismo. mas nenhum deles encontrou algo completamente diferente (BARTELT. Um passo adiante em relação à dissertação. 1991 [dissertação de mestrado]. Konflikt und Anerkennung: die Ortsgruppen der NSDAP in Blumenau und in Rio de Janeiro. Die Auslandsorganisation der NSDAP in Brasilien im Rahmen der deutsch-brasilianischen Beziehungen. seriam. tinham conseguido eleger oito prefeitos e 72 vereadores. Pessoas assim existiam também em outras regiões. Mas nas regiões de colonização durante toda a Primeira República houvera de parte do governo uma restrição política. Dawid D. os integralistas tinham conseguido eleger quatro vereadores. buscadas em escassa bibliografia secundária. De uma maneira geral. E. imprensa alemã e imprensa de língua alemã do Brasil (à qual eu não tivera acesso aqui). Certo. Chile und Mexico. Jürgen.20 não era privilégio das regiões de colonização. MÜLLER.

defendendo seus interesses diante das autoridades municipais. trouxeram as informações específicas sobre Santa Catarina. na época. mensuráveis. em Santa Catarina vários cidadãos de sobrenome alemão ocuparam esse cargo desde o início da República. mostrei. ao menos como titular –. aparentemente. não a confirmava. no mínimo. Como medir se os descendentes de alemães de Santa Catarina eram “mais alemães” que os do Rio Grande do Sul? Os indícios antes indicavam que as igrejas. no mínimo. que se a Liga de Sociedades Germânicas de Porto Alegre dizia no primeiro artigo de seus estatutos que sua função era a de congregar todos os “alemães” de Porto Alegre e também do interior. ou a tentativa de verificação dessa visão através de dados mais objetivos. em Santa Catarina apresentavam-se com o único objetivo de fornecer lazer. Outros indicadores de “integração” apontaram na mesma direção.21 que já apresentara ali. se no Rio Grande do Sul os sobrenomes dessa origem nos cargos de prefeito não eram totalmente ausentes. se não impunha um veto total à explicação corrente. eram. Uma análise da presença de “alemães” em cargos políticos na Primeira República mostrou que. convincente e inquestionável. Nesse sentido. sem uma presença dominante na sociedade. o primeiro artigo da Liga de Sociedades Germânicas de Joinville dizia que sua função básica era promover 20 festas anuais. porém. não-integradas. em Santa Catarina apareciam desestruturadas. que no Rio Grande do Sul tiveram um papel muito importante na manutenção da “germanidade”. Outra vez se estava diante de uma explicação muito plausível e. Lá se falaria um alemão ainda muito mais “puro” que aqui. Se no Rio Grande do Sul o primeiro candidato a governador com sobrenome alemão só veio a existir em 1950 – e se até 2005 nenhum cidadão de sobrenome alemão ocupou esse cargo. estaduais e federais. Um avanço mais significativo. o quadro era completamente diferente: os sobrenomes dos prefeitos dos principais municípios típicos de colonização alemã só excepcionalmente não eram alemães. e tudo seria muito mais “alemão”. Disso decorreria uma explicação relativamente lógica para a presença mais densa do integralismo. portanto. Mas mais uma vez a empiria. por exemplo. Uma série de referências sobre as regiões de colonização desse estado indicava que suas populações de origem alemã estavam muito mais segregadas e. incluindo sua defesa diante dos perigos representados por uma eventual interferência do Estado. escassos. mal administradas. No que tange especificamente ao . As associações recreativas e culturais que aqui tinham tido uma função importantíssima na manutenção dessa mesma “germanidade”. Em Santa Catarina. que as do Rio Grande do Sul.

A rigor. a assim chamada “Campanha”. os “alemães” apareciam com maior visibilidade do que no Rio Grande do Sul e a “colônia” era tida como mais alemã. portanto. Correio Popular (Campinas. metafísicas. não conseguem explicar a maior densidade integralista. SP). O Estado do Paraná. O que efetivamente era diferente era a “integração” econômica dos descendentes de alemães. portanto. ainda era economicamente a de maior peso. algo parecido não acontecia em Santa Catarina há muito tempo. como conspiração nazista. A tese só foi publicada em 1987. até os anos 1930. explicações transcendentais. Recebi recortes de jornais como Cidade de Rio Claro (SP).22 integralismo. mas foi completamente ignorada pela imprensa de ambos. O Estado do Maranhão. a parte sul. Brasília). mais de cinco anos depois de concluída. na verdade. não fora assimilado como “revisionista”. do que nas do estado gaúcho. por sua vez. também lá tudo pode ser explicado através de variáveis muito racionais e universais. Pelo contrário. Por isso. dentre aqueles de cujo texto tomei conhecimento – por isso peço desculpas se estou . de forma que meu texto. A maioria pareceu ter lido apenas o release da editora. Além disso. Mas a impressão que tive foi a de que os resenhistas não leram o texto ou o leram e não o entenderam. também se pode explicar a presença política mais intensa. Diário de Pernambuco. o fato de que em Santa Catarina a Revolução de 1930 representou uma troca dos detentores do poder estadual. correspondentemente à maior importância econômica relativa das regiões de colonização de lá. mas nos trechos que refletiam comentários mais pessoais dos comentaristas transpareciam suas concepções muito tradicionais. E. às vezes. um único resenhista. Isso gerou um conflito latente – e. tivemos um pós-1930 muito mais conflituoso que no Rio Grande do Sul. Pesquisas posteriores à minha confirmam cada vez mais essa assertiva. educação ou cultura política autoritária etc. a parte “tradicional” do estado. explica a existência de maiores clivagens internas a elas. aberto – de longa data entre as regiões de colonização alemã e as regiões tradicionais. inclusive constatei que grande parte das lideranças integralistas das regiões de colonização alemã estava casada com mulheres de origem não-alemã. Correio do Livro (UnB. Essa importância econômica e política. para as oligarquias tradicionais de origem não-alemã. que falava de uma interpretação nova. Em resumo. Se no Rio Grande do Sul. Teve uma repercussão relativamente boa na imprensa ao norte dos dois estados aos quais se dedicava. também naquele estado.

porém. 60-61. no 355. apesar de ter recebido certo reconhecimento entre especialistas. lhe responderia que. enormes arsenais clandestinos e coisas do gênero. Senhor. 24 BERTONHA. Eu. É claro que ambos não podiam ter gostado dessa minha conclusão. Mas. por um lado. a utilização e a importância dessa variável. chegou a ser colocado nos balaios de liquidação. que as grandes personalidades “alemãs” nem sempre eram benquistas entre a população etc. Penso que – além de eventuais problemas de distribuição – essa pouca repercussão entre um público mais amplo se deve a dois fatores básicos: em primeiro lugar. São Paulo. uma besta nazista. minhas pesquisas mostraram que é muito difícil controlar. de emocionante. Madison. João Fábio. foi Roney Cytrynowicz. 99. 2000. estatisticamente presente na evidente correlação positiva entre densidade de população com origem alemã (e italiana) e densidade de sucesso do integralismo. Se tivesse descoberto grandes conspirações contra a nacionalidade. O livro. ou seja lá o que fosse. no início de 1988. O autor tem razão: como sugere ao analisar o integralismo entre os “italianos”. Sua edição continua encalhada. necessariamente. Roney. Luso-Brazilian Review. Mas aos “germanófobos” mostrei que pelo simples fato de ter um sobrenome alemão um cidadão não era. João Fábio Bertonha insinuou uma pequena crítica – ao lado de rasgados elogios – por eu ter exagerado. de 12 de janeiro de 1988. certamente teriam sido comentados em muitos jornais e em muitas revistas. que escreveu um comentário de duas páginas muito 23 pertinentes para a revista Senhor. minha história não contém nada de especial. ou ignorando. p.23 desmerecendo. metodologicamente. Ela está matematicamente. em 2004. tão pouco excitante! Em segundo lugar. leu o livro com atenção e o entendeu perfeitamente. Um Reich de poucos súditos. a “preço de banana”. p. Aos “germanistas” mostrei que existiram nazistas agressivos. É tudo tão natural. nº 1. essa variável não pode ser ignorada de todo. menos uma história espetacular. meu texto não podia agradar nem a gregos nem a troianos. o livro narra tudo. no sentido de ter insistido demais que a variável étnica não tinha absolutamente qualquer importância na análise e interpretação do integralismo nas regiões de 24 colonização alemã do sul do Brasil. integralista. e na Feira do Livro de Porto Alegre. que existiram integralistas ferozes. 37. não atingiu um público maior. algum comentário com enfoque diverso –. Between Sigma and Fascio: an analysis of the relationship between Italian fascism and Brazilian integralism. vol. . mas todos os autores que tentaram uma explicação – sobretudo exclusiva – a partir dela 23 CYTRYNOWICZ.

essa linha de trabalho foi a que mais prosperou. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 26 “A dissertação de Gertz desencadeou uma onda de estudos regionais” (op. 35). Por outro lado. que. me classificou como pioneiro e inspirador daquilo que chama de estudos regionais sobre o 26 integralismo. Portanto. me fez sentir a necessidade de exagerar em sentido oposto. Rodrigo de Oliveira. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado. Ricardo Benzaquen de. 27 ARAÚJO. revelaram-se mais úteis do que as grandes sínteses. Eu tinha diante de mim uma bibliografia que apontava numa direção. mas também muitas coisas que se localizam nas suas adjacências. mas não como inspirador. justamente por tentar derrubar uma explicação profundamente internalizada. a partir deles. de fato. 1988.. fiz a crítica dessa bibliografia. tenham optado por essa linha. mesmo que alguns estudos “totalizantes” de bom nível tenham sido produzidos após a década de 1970 – penso em trabalhos como o de Ricardo 27 Benzaquen de Araújo. meu tratamento da questão foi ideal-típico. porque permitiram descobrir aspectos da realidade histórica não só no campo restrito do próprio movimento. a isso que ele chama de “estudos regionais” tenham tido conhecimento dos meus trabalhos e. Nesse sentido. desde os anos 1980. e penso ter mostrado de forma convincente as dificuldades em que ela se emaranha. e. me entendo como um dos precursores. por isso. muitas vezes. . eventualmente. em trabalho recente. Mas também penso que os “estudos regionais”. cit. O que admito é que. pois não imagino que todos aqueles que se dedicaram. Certamente se trata de um ato de benevolência de um orientando para com seu orientador. Talvez os “estudos regionais” sobre o integralismo tenham tido maior difusão em função do “balde de água fria” que Florestan Fernandes derramou sobre os pesquisadores. tentei uma explicação alternativa. sem exceção. p. justamente para deixar o claro possível onde estavam as divergências. ao declarar na citada introdução ao livro de Gilberto Vasconcellos que não via qualquer importância no estudo do integralismo em si.24 invariavelmente incorreram em contradições insolúveis. um livro mais recente de minha autoria sobre a política sul-riograndense mostrou que as descobertas sobre aquilo que aconteceu nas regiões de colonização alemã nos anos 25 25 Talvez tenha algum sentido lembrar aqui um exemplo fictício que costuma ser utilizado pelos estatísticos para dar um exemplo de falsa correlação ou correlação espúria: o fato de que a absoluta maioria das pessoas que adoecem de câncer do pulmão seja fumante não prova que o mal vem do fumo – o câncer pode derivar do fósforo com que o fumante acende o cigarro.

. O aviador e o carroceiro: política. as informações obtidas nesse livro sobre a vida política em Novo Hamburgo nos anos 1920. firmaram de forma definitiva minha convicção de que as explicações que dei para a votação integralista em 1935 naquele município 28 estavam absolutamente corretas.25 1930. abria perspectivas muito interessantes para olhar para os anos anteriores. etnia e religião nos Rio Grande do Sul dos anos 1920. 28 Gertz. Porto Alegre: EDIPUCRS. 2002. René E. Inversamente. por exemplo.

as soluções resultavam.). estabelecer os contornos das gerações e períodos de continuidade ou renovação. crítico ou sob a forma do ensaio. nomeando-o de movimento “pós-parnasiano”. por uma definição esquemática do ambiente intelectual em que se dava o processo. 29 Leonardo Ayres Padilha Grosso modo. por várias razões (estabelecimento de uma sensação de segurança. Enfim. a história do pensamento social brasileiro procura estudar.26 2. ou ainda. tentando compreendê-lo a partir de um horizonte particular. Não que isto seja irrelevante. quais foram as motivações dentro dos respectivos contextos? A procura de uma filiação para a década que se iniciou em 1920 foi questão premente. ímpeto por classificação. ORIGENS DO INTEGRALISMO EM DEBATE pensando a biografia de Plínio Salgado nos anos 20. . com a justificativa de que este período foi radicalmente distinto de tudo o que se passara até então na vida cultural brasileira. É neste sentido que surgem as indagações: o fenômeno que desestabilizou a vida cultural brasileira nos anos 20. ao contrário: situar o objeto de estudo. Houve tentativas de equacionar o problema. sejam elas de cunho historiográfico. e nos que seguiram. por exemplo. Elucidar a especificidade de um autor à luz do diálogo travado no interior de um grupo ajuda o entendimento das relações produzidas durante a construção do seu argumento. constituição de esquemas explicativos. estabelecendo estratégias de aproximação construídas a posteriori. indica um cuidado profícuo com a pesquisa. Daí a preocupação sistemática em formular os “ismos”. um contexto mental específico. Não é diferente o caso das avaliações do modernismo brasileiro. etc. ou ao menos passavam. 29 Mestre em História pela PUC-RJ. desvendar influências. teve razões internas ou externas? E. independente da resposta à questão anterior. os argumentos dos intelectuais com o intuito de organizá-los numa corrente de pensamento ou definí-los a partir de um conjunto de referências comuns – como. como a definição dos seus antecedentes como “pré-modernistas”.

a tendência das interpretações segue o mesmo caminho. cuja referência se encontra na bibliografia. os anos 30. mesmo no que se refere às origens dos sistemas de pensamento que. são oriundos de uma carência de pesquisas: (a) a questão da formação ideológica de Salgado. é a inserção deste autor no contexto a que ele efetivamente pertenceu: o do movimento modernista.e. os rumos tomados pelos que se debruçaram sobre a trajetória intelectual de Plínio Salgado antes da fundação da Ação Integralista Brasileira (1932) eram norteados por uma associação quase automática entre a produção do autor anterior ao surgimento dos camisas-verdes e os manifestos integralistas nos quais se transformaram. uma vez analisado o movimento do sigma. é. construir um outro leque de opção a serem explorada. porém já constituído dez anos antes. como ele próprio diz. Como as correntes políticas se definiam com mais clareza. tendo em vista sua “secundária” contribuição ao debate travado na década anterior. e (b) embora. na medida deste 30 trabalho. a análise é baseada numa analogia direta e artificialmente construída a partir de posições políticas e 30 Uma das opções para se entender a trajetória de Plínio Salgado antes da fundação da AIB. O trajeto é o oposto: “justifica-se” (novamente a posteriori) o caminho político-militante escolhido por Plínio Salgado. grande parte de suas obras a partir dos anos 30.. . ao serem concebidos. Com raras exceções. em 1932. provocava uma percepção ainda mais engessada.27 Não é por acaso então que a década posterior. se atribua ao integralismo um caráter direitista. fica fácil (mas forçoso) enxergar o seu casulo oculto. i. na verdade. i. equivocadamente. Essa identificação imediata aparentemente soluciona de uma única vez dois tipos de problemas que. É deste problema que este texto se propõe a tratar: ao se pensar esquematicamente a formação teórica do integralismo – buscando no passado de seu líder uma ideologia que já se apresentasse como semente do anauê – a interpretação fica comprometida até o fim com essa versão.e.. ambíguos e até mesmo constituem-se por meio de contradições próprias do processo de auto-formação. Esta interpretação foi objeto de minha dissertação de mestrado. Os argumentos que se seguem tentam elencar alguns problemas que surgiram para quem optou conscientemente ou não por essa via e. Assim. mesmo que durante a investigação as evidências porventura apontem para a necessidade de se tomar um outro caminho. em geral são fluidos. contudo. que os escritos do autor são classificados como produto de um pseudo-modernismo. não erroneamente. a polarização política corresponderia à ideológica.

quando o modernismo já entrara em nova fase. este raciocínio é ainda mais nítido. Chauí & FRANCO. assim. às vezes consultando quase que exclusivamente os escritos do próprio Plínio Salgado. embora bem construída. e. faz a ideologia integralista já estar claramente presente – como tal – no discurso modernista de Plínio Salgado. Guardadas as devidas proporções. no que diz respeito às interpretações históricas. desde o “início”. nas poucas vezes em que se refere à trajetória de Plínio Salgado na década anterior a 1932. por conta de uma combinação entre dependência econômica e cultural e sentimento telúrico. Plínio Salgado somente é pensado especificamente como integrante da renovação estética de 1922 de maneira específica pelos “manuais” de história literária. se colocam as obras aqui brevemente citadas: (a) o 31 livro de Gilberto Vasconcellos constrói uma esquema que. Marilena. 32 CHASIN..28 ideológicas que são transportadas imediatamente para o âmbito da pesquisa – o que certamente não é um bom ponto de partida. Ideologia e mobilização popular. entre os contextos das duas décadas no que diz respeito aos argumentos do autor em questão. São Paulo: Brasiliense. Ideologia curupira: análise do discurso integralista. Paz e Terra: Centro de Estudos de Cultura Contemporânea. (b) já no texto de José Chasin. a 32 associação é bem-vinda. o faz procurando verificar as relações causais entre seu trabalho como redator do Correio Paulistano – que era o órgão oficial de imprensa do Partido Republicano Paulista (PRP) –. 1979. a eclosão da Revolução de 1930 e a fundação da Ação Integralista Brasileira. Gilberto. ao contrário. 1999. Rio de Janeiro. O espaço reservado ao exame do Plínio pré-1930 é configurado como “véspera do movimento”. Ad Hominem / Una. é aquela associação com o seu futuro integralista que ocupa lugar principal. sem a pretensão de esgotar a totalidade das referências. . p. 2 ed. 33 CHAUÍ. o autor se atém a inúmeras repetições através de exemplos. in M. (c) 33 Marilena Chauí compreende o integralismo quase que unicamente sob a dinâmica da luta de classes. a tese de Vasconcellos não delimita uma diferença. para “confirmar” a presença.17-149. a maioria das análises sobre o pensamento modernista do autor de Discurso às estrelas se orienta pelo caminho que ele traçou nos anos 30.e. Na verdade. i. São Paulo / Belo Horizonte. bem como todo o contexto sociopolítico brasileiro. “Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira”. do argumento integralista. José. É neste sentido que. Maria Sylvia de Carvalho. 31 VASCONCELLOS. O integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo híper-tardio. a não ser de datas. 1985.

Janaína. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. destaco ainda o livro de 34 Ricardo Benzaquen de Araújo que. Marieta de Moraes (orgs. Hélgio.). Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. nunca foram sequer imaginados. mais importante do que a produção de um sentido-causa para uma determinada trajetória. 36 TRINDADE.29 Alheios a esse desenvolvimento. A brasilidade modernista: sua dimensão filosófica. como contraponto.167-82. Rio de Janeiro: FGV. O que se quer é retomar aquele ponto de onde se partirá. criação de vários outros sentidos (causas. “Usos da biografia”. 2 ed. 37 Giovanni Levi faz um comentário sobre esse raciocínio anacrônico numa perspectiva crítica aos próprios historiadores. As análises que se preocupam em estabelecer nexos diretos entre os momentos avaliados se caracterizam por um argumento em que. através de análise que interpreta seus escritos como integrantes de um diálogo peculiar entre os conceitos de “totalitarismo” e “revolução”. a partir daí. Ricardo Benzaquen de. apesar de não estudar especificamente a trajetória do autor de O esperado. No entanto. ajuda a compreender como se desmembrou o argumento de Plínio Salgado nos anos 30. Giovanni. o primeiro como referência e o segundo como uma possibilidade de interlocução. Estes dois trabalhos são particularmente importantes para a construção do argumento deste texto que se inicia. em sua reflexão. e até histórias inteiras) para a 37 elaboração de um fio que liga os mais diversos episódios . 1979. 1998. a questão é da construção de sentidotemporal para a “história de vida” e. incluíram a questão proposta aqui. embora não trate do período aqui estudado. In: AMADO. com o intuito de se introduzir a discussão. Totalitarismo e revolução: o integralismo de Plínio Salgado. A observação se concentrará na parte do texto dedicado ao período em questão. FERREIRA. 1978. o compreende na dinâmica do movimento modernista. 1988. São Paulo / Rio de Janeiro: DIFEL. Neste sentido. de alguma maneira. Ver: LEVI. teses e outros livros que. que o tornara mais famoso anos mais tarde. mesmo que para isso recorra à construção de caminhos que. evoca-se agora o livro que talvez seja o mais completo sobre o fenômeno integralista. Apesar da obra de 34 ARAÚJO. Usos e abusos da história oral. Seria possível ainda citar um sem número de artigos. no momento em que eram percorridos. o argumento desenvolvido neste trabalho: entende-se a produção modernista de Plínio Salgado como prólogo à sua atividade política e militante. o relato pretende ser versão acabada. (Corpo e Alma do Brasil). e ainda o texto de Eduardo Jardim de 35 Moraes onde. . 35 MORAES. Para tornar essa 36 questão mais clara. p. motivos. Eduardo Jardim de. Rio de Janeiro: Graal. este não é objetivo.

189-90. deve referirse a ele e só terá (ou construirá) significado nele: “Tentar compreender uma vida como uma série única e por si suficiente de acontecimentos sucessivos. Em ambos os casos há uma descaracterização do que se está a estudar. parece ser desprezada por debates que priorizam a discussão metodológica.189. e (b) a vida como história – representando o que “realmente” passou.30 Trindade. seja aceitação acrítica de um relato que. “A ilusão biográfica”. grifo acrescentado. ou pior (aí assumo minha posição – ratificando a centralidade de uma perspectiva que não existe sem a reflexão teórica). podem ser expostas duas interpretações que não se anulam: (a) a história como vida – pretendendo assim significar uma totalidade acabada. .. cit. conseguem separar totalmente como se fossem ingredientes de uma mistura que dependesse unicamente do seu sujeito: poderíamos entrar numa discussão. isto é. cujo caminhar só me aventuro quando tematiza o saber histórico. seja por estabelecimento de uma lógica temporal que não corresponde àquela em questão. não pode ser considerado mais idôneo do que qualquer outro. ou seja. op. 39 O autor está preocupado com a biografia enquanto construção de uma trajetória que só pode estar num mundo social e assim. por si.” . não se tratarem de biografias. p. nomeado “pensar 38 BOURDIEU. às vezes. meio e fim. onde há “privilégio concedido à sucessão longitudinal dos acontecimentos constitutivos da vida considerada como história em 38 relação ao espaço social no qual eles se realizam. é quase tão absurdo quanto tentar explicar a razão de um trajeto do metrô sem levar em conta a estrutura da rede. com princípio. A própria maneira de se encarar o relato biográfico define o 40 trabalho que será empreendido : para quê ela. sem outro vínculo que não a associação a um ‘sujeito’ cuja constância certamente não é senão aquela de um nome próprio. Pierre. op. Marieta de Moraes (orgs. uma suposta verdade histórica. In: BOURDIEU.. a biografia. Pierre Bourdieu define esse tipo de situação como “história de vida”. bem como com relação de causalidade entre as partes. Mesmo sabendo do desenvolvimento sociológico que o autor dará ao trecho 39 assinalado. sobre a pós-modernidade. FERREIRA. serve? Maria Helena Werneck procura assumir essa questão partindo de um aspecto negativo que ajudará a formular o positivo.). Janaína. in AMADO.cit. 40 Note-se que esta é uma questão teórica básica para as ciências sociais – e humanas – mas que. p. a matriz das relações objetivas entre as diferentes estações”. ainda assim as reflexões teóricas sobre esse gênero da escrita podem ajudar a desvendar o ponto aqui proposto sobre as interpretações acerca da trajetória de Plínio Salgado. portanto. ou mesmo as outras fontes em questão..

e. Para o filósofo. Maria Helena. mas o constitui. está se referindo às biografias de artistas. a curiosidade positiva e pragmática dos biógrafos está orientada menos para as virtudes da criação que para ‘uma multidão de pormenores da vida e da obra’. Hélgio Trindade defendia sua tese de doutoramento intitulada L’action intégraliste brésilienne: un 41 WERNECK. Dito isto. Assim. 1996. o conhecimento que deriva dessa curiosidade impediria a irradiação do espírito à distância.. 42 É importante frisar que Nietzsche. nesse caso. de outro. a arte não alcançaria o objetivo de ensinar a viver e 43 a esquecer os problemas. e/ou imputar um significado que a própria história não representou. assim. fins do ano de 1971. “Um pensar saudável sobre biografias”. num novo tempo). M. que é destruído pela informação crítica e biográfica. É desse modo que se está propondo aqui uma observação acerca da construção da visão de Hélgio Trindade sobre a relação entre a vida e obra literária de Plínio Salgado da década de 1920. H.. op.31 saudável sobre biografias” – nos apresentando a visão nietzscheana. o esforço que consiste em desvendar o que foi criado pelo relato para dar sentido às lacunas da memória. Ainda assim. Em Paris.17-30. De um lado a preocupação incansável de se remeter cada “passo interpretativo” a um contexto específico que não está antes ou depois dele. UERJ. 41 . O desafio está lançado. não se pode tomar como solução o mergulho na pergunta é possível dar sentido à vida passada de um indivíduo? Em primeiro lugar porque um dos limites (ou melhor. Desse modo. 43 WERNECK. é vital assinalar que. p.cit. Rio de Janeiro: Ed. os biógrafos – ao tentarem atingir uma verdade – 42 anulariam o que há de melhor na vida (então reescrita): a arte . p. In: O homem encadernado. fatalmente de maneira distinta. pode-se encarar com pessimismo a constatação da dupla dificuldade do trabalho que está por vir no exercício de se entender os escritos de tom biográfico. E ainda. seriam de pouco proveito quaisquer pretensões de se atingir a “verdade” – por concordar com a idéia de Nietzsche e por saber o lugar específico que as ciências humanas e sociais ocupam na produção do conhecimento. uma das propriedades) da representação é justamente a apresentação de algo de novo (i. Sem o véu do esquecimento.23. e.

o dito “objeto” de Trindade não é especificamente Plínio Salgado. o lugar de sujeito e objeto de uma análise histórica.32 mouvement de type fasciste des années 30. é possível interpretar os textos. pode parecer estranho – e mesmo artificial – que esses dois “personagens” tomam. e chega. ao status de fundador da doutrina integralista. . mas o movimento e organização política que fundou: a Ação Integralista Brasileira. 45 Digo “fantasiosa” dentro naquela perspectiva de se criar explicações a posteriori como justificativas dos atos que se seguiram. Trindade concede tom biográfico ao seu estudo. no desenvolvimento da literatura do autor: “a evolução ideológica de Salgado. Celso Furtado e Georges Lavau. dos princípios que se constituiriam como norte do primeiro movimento de massas do Brasil.42.. Trindade elabora uma história que se constitui sempre determinada pelo que viria a acontecer – a luz do fim do túnel. Na verdade. apesar das complicações já citadas. H. Neste ano. não é isso que acontece na narrativa de 44 TRINDADE. ainda que muitas vezes 45 “fantasiosa”. Reafirmo que. diante dos professores René Rémond. filiado à Aliança Renovadora Nacional (ARENA) e. p. Essa informação pode soar simples tendo em vista a já apresentação do título da tese. passa pelo homem – mais figurante do que astro – da Semana de 1922. pelo romancista social (quando sofre a “metamorfose ideológica”). Preocupado em desvendar a origem ideológica dos camisas-verdes.cit. finalmente. op. estes também são problemas da análise biográfica. se explica mais pela influência da revolução literária do que por sua experiência política em partidos 44 tradicionais”. o que não é o caso do livro de Trindade. De uma perspectiva de remontar a origem de uma experiência política. mesmo quando estes são profundamente descomprometidos com qualquer grau de objetividade. respectivamente. Plínio Salgado exercia seu último mandato como deputado federal pelo estado de São Paulo. Contudo. se espera uma descrição. era membro da Comissão de Educação e Cultura da Câmara. Descrevendo desta maneira esses episódios (ambos à luz do ano de 1971). de um passado onde o protagonista já demonstrava a vocação. o cientista político busca o início das formulações. particularmente nesta mesma data. No entanto. já iluminaria o percurso desde a entrada. Traçando um caminho que vai do aprendiz de jornalista. Voltando uma década antes do fenômeno integralista. entretanto é muito importante para o argumento que será construído a seguir. nesta fase [1920-5]. na verdade. buscando as respostas na trajetória político-intelectual de Salgado.

procurar o ambiente literário da década de 1920 na biografia de Salgado significa correr o sério risco de não chegar à conclusão alguma. Constatado o problema brasileiro e o destino da nação. cit. Tentar entender a trajetória do futuro chefe da AIB de uma maneira contextualista.43. p. 50 Plínio Salgado une algumas crônicas suas que saíram no Correio Paulistano e as publica num volume único intitulado Literatura e Política (ver bibliografia). os problemas. É então que Trindade. op. que era a do Brasil. a formação. numa passagem. seu objetivo principal é descrever a ‘vida rural. não concebia a 46 idéia da criação de um partido político novo como meio de se aplicar 47 suas idéias. ou ainda. é “a formação de São Paulo. mas como ratificação da “metaformose salgadiana”. o autor reconstrói o caminho do seu personagem através de etapas que constituem o que ele chama de “metamorfose ideológica”.35-69. a mudança se 50 impunha: militância. p. H.33 Trindade. nos primórdios do movimento modernista. de um lado porque elas ainda estavam em formação . mas. onde a política passa a predominar sobre a literatura (Trindade. . Hélgio Trindade também analisa este livro. simultaneamente. À luz de uma história em que são revelados. desvenda a situação política “por trás” do texto: “a problemática que está subjacente no romance [O estrangeiro]. umas querendo sobrepujar as outras”. Plínio Salgado. um estudo sociológico. 1971.. 47 Trindade. na verdade. não participara. Ao invés disso e de maneira muito inteligente. que não a de que seu caminhar foi muito peculiar. a mensagem do livro é o ‘nacionalismo’. e 48 de outro porque não protagonizava nenhum movimento – ele estava no meio das transformações. 48 Ibid. passa a não ser suficiente.57. delas. A revolução literária. p. No entanto. até então.49-55). situacionista. Conglomerado de raças de várias procedências. como autor. vida provincial e vida na grande cidade’. p. da literatura à política. Daí a importância da noção da “metamorfose ideológica” no raciocínio de Trindade: foi Plínio Salgado que viveu esta mudança particular. onde as correntes migratórias 49 de diversas origens estão por realizar uma grande fusão étnica”. para Salgado. e a “força” da sociedade brasileira. 49 Ibid. e foi desse modo que sua formação política se deu através da literatura: seu primeiro romance é. justamente por viver a mutação literária que “sofria” a cultura brasileira não poderia estar alienado. Salgado formula seu ideário. de culturas. um diagnóstico da vida brasileira. é claro 46 Digo “novo” porque Salgado trabalhava no Correio Paulistano – Jornal que era órgão oficial de propaganda do Partido Republicano Paulista (PRP).

Diz o autor: .176. mas na margem. op. mas por estar em uma de suas extremidades – não à margem. 52 Na verdade. escrita em pleno período modernista.esse caso [o da biografia através dos casos 52 extremos ].178. p. estabelece 54 a ponte entre sua atividade de escritor e de ideólogo político”. “biografia 51 LEVI. p. G. 53 Ibid.. o contexto não é percebido em sua integridade e exaustividade estáticas.... cit. O caso de Salgado foi desenvolvido na margem. cit. H. esta política) e se tornou predominantemente política. mas por meio de suas margens. Hélgio Trindade não contrasta enfaticamente as diferenças da trajetória de Salgado em relação ao seu tempo. cit. segundo tipologia de Levi. no que ela tem de significativo. Dentre as mais diversas posturas biográficas que se pode assumir..176-7. Sua obra romanesca. não é esse o seu caminho. mesmo que possa 53 parecer atípica’ . através análise dos “casos extremos”. penso que a mudança aqui sugerida não altera o sentido dado pelo autor. p. A nomeação dada ao estudo (consultada em Levi). contudo. lança-se luz precisamente sobre as margens do campo social dentro do qual são possíveis esses casos.34 que de acordo com a relação que estabeleceu com o seu meio. O início efetivo da mudança se dá em O estrangeiro: “a metamorfose ideológica de Plínio Salgado se processa sob a atmosfera intelectual da revolução estética. Descrevendo os casos extremos. Podemos citar aqui (. Trindade se aproximaria da que. busca representatividade de suas trajetórias – mesmo quando estas sugerem que o que se estuda possa ser um caso isolado. op.. Neste raciocínio. p. op. Giovanni Levi diz “biografia e os casos extremos” e não “através”.48. .. sua vida seria o que 51 Giovanni Levi chama de caso extremo: não como paradigma modernista ou máxima expressão do movimento. porque a revolução que pregava rapidamente se desvinculou da literatura (embora não a abandonasse – os livros do autor deixaram talvez de viver a mutação estética para virar divulgação da outra mutação.) o artigo de Michel Vovelle sobre a biografia: ‘o estudo de caso representa o retorno necessário à experiência individual. 54 TRINDADE. e ter vivido esta metamorfose significou uma diferença de trajeto em relação aos outros modernistas..

muito preocupado em ligar o “presente” integralista ao passado de Salgado. quando diz: não sei se fiz alguma coisa que preste. intelectual de talento. Plínio Salgado não escreveu nenhum livro de memórias – talvez exceto o que se refere especificamente as suas viagens à 55 Europa e Oriente. em obra mais completa sobre essa figura ímpar. Isto é. É conveniente ainda citar outro exemplo dessa escrita que pretende formar uma cadeia de causalidades em direção a um fim previamente traçado. Maria Amélia Salgado. etc. diz-se. ao máximo a redação primitiva. São Paulo: GRD. Mas a minha intenção primeira foi dar o passo inicial. talvez na intenção de escrever uma autobiografia. O desconforto que motivou a escrita de Loureiro (seu pai fora e é – no momento em que escreve – injustiçado) determina o conteúdo de seu texto: a pretensão de se contar a verdade nem sempre está em autobiografias de título fulano por ele mesmo. 56 LOUREIRO. está ligada muito mais ao direcionamento que Trindade vai dar ao seu argumento (gênese do integralismo) do que a defesa – do próprio autor – do caminho assim definido. das mais interessantes do seu tempo. Plínio Salgado. meu pai. Amparada por uma autoridade tida por muitos como incontestável (a da convivência familiar). a ver se animava autores mais capacitados a empenhar-se numa tarefa maior. mas procurei preservar. em primeiro lugar. realmente de sua autoria. apesar de ter amado com todas as forças de sua alma o Brasil.XI. sempre sonhando torná-lo 56 uma grande e respeitada Nação. o autor cria um caso extremo (na margem) do modernismo. trata-se de um texto eminentemente biográfico. sua perspicácia não 55 Ver referência na bibliografia. 57 O único trecho do livro que aborda a questão das referências é o seguinte: “Os capítulos referentes a sua infância foram redigidos segundo anotações por ele deixadas. portanto. despretensiosa. estadista e político de grande valor e um dos homens mais injustiçados no cenário da vida nacional. mas logo em seguida revelando as mais profundas intenções. Agora. a não ser genericamente numa nota 57 explicativa que precede o texto. Na verdade. sua filha Maria Amélia Salgado Loureiro publicou em 2002 o livro que lhe parecia ser a narrativa reveladora da “verdadeira” história dessa personalidade que foi o seu pai. Todavia. sendo. p. 2001. a parte . Entremeei-as de considerações que me pareceram pertinentes.35 através de caso extremo”. A filha do biografado não cita a origem de cada fonte. Grifo acrescentado.

um reconhecimento. pois retirei a maioria dos textos das cartas endereçadas a mim e meu marido. seu “verdadeiro” valor. onde comprava livros baratos. como e porque a autora afirma isto ou aquilo. É justamente aí que se segue a descrição do episódio que teria marcado de vez a sua entrada para a redação do Correio Paulistano: Salgado. constrói seu texto a partir da noção de gênio individual – tanto artístico quanto político (nota-se uma proposital confusão entre os termos na sua narrativa) – e caráter íntegro. daí a importância e legitimidade de exercitar a lembrança. p.. Fazia-se por si. onde... A verdade. o que não só lhe rendeu a ascensão ao novo cargo. não está na ciência.36 está no fato de reunir documentos. p. mas em revisitar a sua própria memória e torná-la pública. teve a oportunidade de escrevê-la. ainda como revisor. porque logo depois. além de almejar fazer justiça à memória do pai. talvez para que ele não seja cobrado. Maria Amélia Salgado.e.cit. É curioso ressaltar. uma prova “externa” de tanta aptidão. Ligar a inteligência do personagem às influências externas seria transformar sua originalidade. Devagar. Há de se construir. por isso Plínio estudava muito. do que “faz-se por si”: “depois do almoço. mas na intuição (ou sentimento). 59 Ibid. O norte singularizado que conduziu a escrita de Hélgio Trindade (formação das idéias integralistas). Essas qualidades aparecem como definidoras do caminho de Salgado e. se multiplicou em Plínio Salgado. portanto. por serem as únicas notícias detalhadas que possuo dessa época de sua vida”. lia muito. meu pai.116. que esta alusão à figura do chefe de governo serve a um objetivo específico (notoriedade do autor). op. como também cumprimentos do então presidente do estado de São Paulo e futuro presidente da 59 república. em uma segunda versão. Loureiro Júnior. LOUREIRO. Grifo acrescentado. Loureiro. . assim como o próprio Plínio pensava. Washington Luís. i. Freqüentava “sebos”.”. praticamente escrita por ele. Todavia. E o livro que mais leu nesse tempo foi o livro da 58 vida. Loureiro diz que seu pai apoiou Washington Luís com condição de este garantisse idoneidade nas eleições e respeito ao referente ao seu exílio em Portugal. do próprio país. também é.117. Um dos exemplos mais característicos da genialidade pode ser personificado na figura do autodidata. 58 Ibid. mas sim analisar seu conteúdo e tentar descobrir suas construções. Lia. entretanto. entretanto. numa ausência do então redator da coluna “Notas Políticas”. não vem ao caso criticar de antemão o texto de Loureiro. Plínio dirigia-se à Biblioteca Pública para estudar. mas sua maior escola foi a vida – sua inteligência era a sensibilidade.

consagra o filho escritor. M. Maria Helena Werneck num resumo que faz da história do desenvolvimento da biografia. op. p. cit. 62 Num dos acontecimentos narrados (o da morte do padrinho). p.76-81. das exposições e edições comemorativas. Plínio. É imprescindível fazer ressalvas a uma eventual associação direta: (a) para fugir do anacronismo é necessário datar as situações – séculos XIII. a admiração convertida em livro demonstra a dimensão do elogio ao homem.. desvenda as conclusões da autora como que vestígios. a literatura da paternidade.38. descreve o que seria um exemplo de um tipo de exercício desta. dão lugar a uma nova ‘morfologia do elogio’. (b) não parece que Loureiro quer consagrar-se como escritora e sim fazer justiça ao pai. a partir do século XVIII: ao lado das cerimônias nas academias. op. característicos da biografia clássica. Loureiro. e passagem do XX para o XXI. ou biografia do pai.. Cf. A atribuição de valor incontestável à figura de Salgado logo no início da narrativa que se refere à formação de sua personalidade – e que vai desembocar na publicação de O estrangeiro – não significa outra coisa que não admiração. . 61 Werneck. (c) a autora não se refere a uma postura de Salgado que revela satisfação com as infelicidades sofridas.cit. O panegírico e o elogio fúnebre. Todavia. p. Loureiro chama a atenção para a força de Salgado e.37 regime representativo para que pudesse “sentir-se à vontade para redigir seus artigos no Correio.118. ainda 60 Ibid. sem ter de violentar a sua 60 consciência”. posteriormente. mas as ressalta como que 62 uma prova de caráter e de superação . das peças de teatros em louvor de feitos gloriosos do grande homem. como que se servindo do dom a ele outorgado. O elogio é a moeda que salda uma dívida da humanidade 61 com o grande homem perseguido. para a sua inquietude e desenvolvimento espiritual que fez com que o caso vivido servisse de inspiração para seus escritos. que destaca o mérito em face do nascimento e explora a satisfação com a infelicidade como justificativa e lei do gênero. H. conseguir traçar caminhos firmes em meios em terras bem lamacentas.

descobria-se um forte desejo de ‘criar a Pátria’: ‘A arte. A segunda concepção. Plínio Salgado. Segue a legitimação do caminho do pai. E concluindo. 65 Ibid. inglesas e portuguesas. então. menos a tradição nacional”. o que era mais significativo. Nos domínios da arte e da literatura sentiam-se os efeitos de um estado de espírito comum a todos os brasileiros. suas idéias estavam prestes a consagrá-lo. Assim. M. LOUREIRO. apenas. foi uma das figuras importantes da 64 Semana de Arte Moderna e. . p.S. naquele momento. principalmente.. algo novo. A primeira exposta acima – e servindo como crítica ao modernismo europeu – a vê como dividida. agora Salgado começava a se distinguir dentre os outros autores de seu tempo. Plínio afirma que. cuida muito mais desse ideal do que a política oportunista. felizmente. pois a palavra ‘escola’ não está relacionada. A importância de Plínio para o Brasil correspondia desse modo ao valor que esta nação representava para ele e. vê a arte como fator de consciência nacional: “E continuando suas reflexões. da época em que era chamada de 63 Amelinha . cit. segundo a autora. apontam-se os valores 66 eternos da arte e do pensamento. mas pressupõe a idéia de nacionalidade. A passagem que se segue é de suma importância para inserção do autor na fundação de algo verdadeiramente novo.A.119-120.119-128. este movimento do qual participara ativamente “encarnava” o íntimo dos brasileiros: “os sentimentos nacionais se polarizavam na evocação do grande acontecimento para cuja comemoração se faziam os preparativos. e assim sagrá-lo no hall dos ilustres brasileiros: 63 O nome completo da escritora é Maria Amélia Salgado Loureiro. 66 Há em Plínio duas concepções de arte que se intercedem. no Brasil ainda não se pode falar em ‘escola’. Isso começou. ao contrário do que dissera Trindade.. cit. Plínio Salgado declarava que sendo a arte de um país resultante de sua consciência nacional. os cultores de todos os ramos de arte. Loureiro só dá verdadeira importância ao momento do modernismo em que as revoluções estéticas já tinham “evoluído” para uma produção de reflexão sobre a nacionalidade – justamente o período em que foi publicado o romance primeiro de Salgado. que 65 expressasse o Brasil cem anos depois de se tornar independente”.38 presentes. a grupos de tendências estéticas semelhantes. onde uma das partes é composta por um elemento eterno. Procuravam. Op. ambas trabalhadas com propósitos diferentes por Loureiro. É esse anseio que leva os artistas a representarem que nos lega tradições francesas. op. numa reflexão – com a qual ela parece concordar – sobre a arte: criticando os modernistas europeus que se posicionavam como revoltosos contra as fórmulas antigas. p. servindo à noção de que o autor é original. além disso. da fascinação pelo pai. 64 Cf.

mas a sua concretização só pôde ocorrer através de uma experiência externa. Quando o escreveria? (.. firmara-se no cenário jornalístico com seus artigos no Correio Paulistano..39 Esse momento revolucionário das letras e das artes inspirava-se. Sua trajetória lhe fora revelada. posteriormente. se tornou profundo e de conseqüências sociais e políticas da maior 67 importância.. e então. É interessante notar que esse pensamento original. serviu para a própria autora analisar a história do pai. uma vivência do mundo: Plínio Salgado. assumida. As palavras grifadas. dando-se ampla autonomia aos escritores e artistas para que se expressassem livremente.) Um dia viajou pela Araraquarense a convite (. que estava nascendo com 67 Ibid. não necessariamente em sua ordem.e. p. Salgado tivera vontade – foi um desejo. Entretanto. ou do neoclassicismo. no desejo de libertação das formas acadêmicas. Já o tinha no pensamento: seria um romance. segundo sua própria interpretação do mundo exterior e interior. centrada nele. nascia dali um sentido de brasilidade que. a esse tempo. essa concepção. Seus objetivos eram puramente estéticos e literários.. representam um argumento importante da autora sobre a originalidade de seu biografado.). pois. aqui resumido: superando (entretanto) um reducionismo (puramente) característico daquele primeiro momento da revolução modernista. a Monte Aprazível. . i. No terceiro dia fizeram a mais desejada das excursões. Um livro que exprimisse a realidade brasileira. Mas o seu grande sonho era publicar um livro. Plínio Salgado elaborara um pensar genuinamente novo (porque profundo) sobre a nacionalidade: esta deveria ser exercida a partir de referentes internos (interior).. motivação interna – de escrever um romance.120.

que é complexa (em si. p. entendendo o predicado eterno da arte e aplicando-o ao nosso meio. Plínio já formatava o caráter 72 nacional.. trataria essa questão. Essa centralidade subjetiva pode ser teoricamente contestada em Retorno à biografia. e porque envolve o próprio narrador).126-7. à luz de Jorge Luis Borges. onde Marília Rothier Cardoso. mas sem. não só participou do movimento modernista (lembrando que. 68 Ibid. ver o caso do seu posicionamento frente às eleições de 17 de fevereiro de 1924. já que esse sujeito não é necessariamente empírico) como uno. A história do Brasil. Aliada a essas condições estava sua 70 71 genialidade expressa no pioneirismo e qualidade de visionário.40 uma dúzia de casas. op. mas como se o que acontecesse à sua volta fosse algoritmo de sua vitalidade intelectual e política. p. não havia nenhuma prosa realmente representativa do movimento. A própria conjuntura parecia conspirar a seu favor. Borges. produzir algo “moço”.. 72 Ibid. ver o episódio do loteamento da cidade de São Paulo.129-130. com sua destreza discursiva.. Essa combinação – projeção “já o tinha no pensamento. Foi em Monte Aprazível que Plínio sentiu o primeiro toque de inspiração. p. contudo. Na verdade. segundo a autora.. 69 Ibid. . 70 Sobre o pioneirismo de Salgado.. chama a atenção para o comprometimento da visão que toma o sujeito biografado (entretanto pode-se pensar o mesmo para o biógrafo. é narrada a partir da trajetória de Salgado (o que não é incomum numa biografia). revelando-lhe o tema que desenvolveria no 68 romance.. 69 contudo. 71 Sobre sua qualidade de visionário. O que era escrito objetivava o ataque à situação até então presente. op.” – fazia do autor personagem ímpar. pronto a desvendar as características nacionais. O estrangeiro também era apreciação social.124. não apenas a partir da visão dele como sendo única (expressão incontestável da individualidade). A originalidade de Plínio confunde-se com a “verdadeira” contribuição da Semana.cit. p. como o superou no tempo: enquanto outros ainda se perdiam em experiências estéticas. em Loureiro. cit. em 1966.121-122. bem como a produzir reflexão que as contemplasse.” e afetação “. p. Antevisão do futuro nacional.sentiu o toque de inspiração.119. e à cachoeira do Avanhadava.. grifo acrescentado. foi de expressão íntima nacional).

Este trabalho não pretendeu biografar o personagem Plínio Salgado em época raramente estudada. o fazem melhor e. podemos olhar para o livro de Hélgio Trindade que. por isso. antes de denunciar a multiplicidade do sujeito. PUC-Rio / Loyola. apresenta o sujeito como duplo: o eu observa-se como outro. inclusive. neste caso. e se possível fugir desses mecanismos quase automáticos que caracterizaram as visões acima apresentadas. não são aqui convocados para que se possa. é fundamental.118-22. no mínimo. construir o argumento. também. 73 . de caráter) do personagem Plínio – como.e. p. tanto em relação ao próprio biografado (em relação ao seu primeiro romance). Ainda nesta reflexão.. podemos também aproveitar essa condição do texto para compreender a questão da autoria. Caberia ainda estender a observação à. p. distanciando-se dele”. 2002. Heidrun Krieger. Karl Eric. Dito isso. a alternativa se deu por causa da característica. 74 simultaneamente. quase que às escuras. embora possa parecer que foi escolhida. i. marcantemente teleológica do texto do referido cientista político. política e. o meio (1/2). portanto qualidade de se narrar sumariamente. uma parte do livro de Trindade para servir ao propósito deste trabalho. 75 Situação descrita em Retorno à biografia. identificando-se com o mesmo e. leitura exclusiva – que a autora faz – da obra (no caso em pauta.. apresentar 73 Por de maneira simples entenda-se como um talento pedagógico. 76 Reforço a idéia de que. simultaneamente. O que se tentou aqui foi encontrar um espaço nesta discussão. Contudo. que. certamente. fora de época. negando seu valor. interpretado como duas unidades. SCHOLLHAMMER.120. quanto no que diz respeito à condição de escritora em que se põe a sua filha. o reflexo e ápice das capacidades de Salgado. Cardoso. pode ser encarado como duplo.e. op. na verdade. justamente em relação a esta época da vida de Salgado. exemplificando-a na sua maior singeleza. Marília Rothier. Literatura e mídia.41 de uma maneira simples. Os escritos de Loureiro e Trindade. i. cit. “Retorno à biografia”. ao descrever os homens como espectadores de seus próprios atos. pertencente a uma tradição biográfica que remete ao texto de James 75 Boswell (1936) sobre Samuel Johnson. mesmo não pretendendo ser 76 uma biografia. já podemos interpretar o desenvolvimento do texto de Loureiro – centrado na unicidade (intelectual. neste final. O estrangeiro) como sendo. o autor argentino indica a primazia da divisão. 74 CARDOSO. Rio de Janeiro / São Paulo: Ed. In: OLINTO. Borges recorre “a máxima de uma filosofia hindu do século V que. ou tampouco quis reconstruir peculiarmente a ponte entre a vida do autor antes de depois do fatídico ano de 1932. Neste sentido. se revela (pelo menos na parte trabalhada) como um tipo particular de história de vida..

não é por acaso que o próprio conceito de determinação confunde-se frequentemente com o de definição. no entanto. deixar que eles “falem por si”.42 algumas questões que. Um rumo talvez menos específico. ele atinge uma caminho compreensivo. mas certamente mais denso e complexo. ou seja. é conduzido. embora não sejam conclusivas. ao mesmo tempo em que conduz. Plínio Salgado não tinha dúvidas de que aquela “comunhão” que mencionada por ele em Discurso às estrelas. . É claro que é possível estabelecer inúmeras relações consistentes entre a produção intelectual de Plínio Salgado antes e depois de 1932. Texto produzido em: Rio de Janeiro. mas que também torna-se mais precisa no seu desenvolvimento porque mais consciente de suas limitações. precisava ser pensada novamente (e possivelmente numa nova forma) num contexto de luta entre integralistas e comunistas. senão com a própria atuação política. pode perder-se no meio de disputas inócuas por definição: o contexto determina ou é determinado? Aliás. setembro de 2005. É apenas para isso que quero chamar a atenção: o contexto. é verdade. Termo tão corriqueiro no mundo da história que. O próprio processo histórico da continuidade (ou se quiser da conservação) é dinâmico. que a princípio é mais difusa. O fio condutor existe. combatido no início deste texto. denotam uma certa perspectiva por mim defendida: a medida que o historiador deixa a tentativa quase insana de almejar confundir-se com os documentos. às vezes. para se aprofundar numa outra. recria a todo o tempo os conteúdos a serem preservados.

78 BORGES. que não nos deteremos a longas críticas e análises sobre os referidos estudos. coletânea de artigos e outros que não nos chegam devido às limitações editoriais impostas aos autores e recém pesquisadores. . Entendemos que é somente após o conhecimento prévio dos trabalhos já realizados e os métodos de abordagem utilizados nestes. Este panorama ainda se apresenta restrito se considerarmos a quantidade de trabalhos. para com seu objeto. C. Anos 30: história e historiografia e CAPELATO. Este artigo tem a pretensão de apresentar aos leitores e pesquisadores do Integralismo um breve panorama da produção historiográfica nacional e internacional. porém. M. momento que envolve nossa temática com reflexões de estudos e conceitos recentemente utilizados. INTEGRALISMO E HISTORIOGRAFIA 77 Edgar Bruno Franke Serratto Em se tratando de estudos que contemplem a Ação Integralista Brasileira (AIB) como objeto principal. mais especificamente. apresenta-se mais consciente e consistente para dar os primeiros passos em sua pesquisa. minimamente. São Paulo: Contexto. a primeira dificuldade com que os pesquisadores se deparam é a da falta de um balanço geral sobre a historiografia já produzida. que se dedicam respectivamente à historiografia produzida acerca dos anos 30 e do Estado Novo. V. 1998.43 03. pois nosso intuito é o de. Estado Novo: novas histórias In: FREITAS. Como sabemos. ou seja. M. (org. o levantamento bibliográfico se apresenta como de suma importância para a orientação das leituras. ao dos artigos de Vavy Pacheco Borges e Maria 78 Helena Capelato. pelo menos até começo dos anos 2000.) Historiografia brasileira em perspectiva. que a visão do pesquisador. pretende-se a elaboração de um texto próximo aos dos artigos encontrados na coletânea Historiografia Brasileira em Perspectiva. Neste momento. P. das problemáticas e da metodologia que já foram aplicadas nos estudos e que podem vislumbrar as novas possibilidades de pesquisa. realizar um 77 Licenciado em História pela Universidade Tuiti do Paraná. H. Ressaltamos. comentar algumas produções. R.

J. Curitiba. F. apesar de incompletos. J. não se mostrou atraente para tornarse objeto de novos trabalhos da historiografia brasileira. Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937). op. B. Outro importante motivo. o Brasil restabeleceu e reconsolidou a democracia. R. Por isso. Mas. cit. Rio de Janeiro: Bertrand. João Cruz Costa (acerca do pensamento político nacional e uma de nossas bases de leitura e posterior análise) defendia que no Brasil não ocorreu a simples cópia ou apropriação fiel das idéias vindas da Europa. Além destes materiais. São Paulo: Annablume. ed. e BERTONHA. 1996. Estas posições. Nestas duas décadas. In: FAUSTO. dado que. gostaríamos de assinalar que a base inicial de leitura para esta discussão foi o artigo de Hélgio Trindade intitulado “Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30” e a introdução do trabalho “Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937)” de João Ricardo de Castro Caldeira. utilizamos as informações obtidas em uma palestra ministrada pelo João Fábio Bertonha. não fora somente a AIB que sofrera com a alegação de que não passava de uma mera imitação de um modelo europeu. foi a crença de que o Integralismo não passara de um mimetismo dos fascismos 80 europeus. que aqui ganharam uma nova interpretação e assimilação. Convém esclarecer que tais estudos. . (org. intitulada “Integralismo: fontes. p.O Brasil republicano: sociedade e política (1930-1964). 6. já na década de 1960. 302. H. um movimento autoritário de nosso passado até então recente. toda a história do pensamento político brasileiro. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas. as quais 79 TRINDADE.. de C. 1999.44 mapeamento mínimo da historiografia como pontos de leituras para futuros iniciantes. In: Ciclo de Palestras sobre política: idéias e práticas políticas que marcaram a história do Brasil no século XX. também. não eram unânimes. foi por muito tempo taxada por esta mesma acusação. como nos aponta Wanderley Santos. H.) História Geral da Civilização Brasileira . Todavia. 2004. mostram-se com alguma abrangência para nosso tópico. não tivemos estudos que elegeram a AIB como principal objeto de análise em função da conjuntura política. do ponto de vista de um panorama historiográfico geral de toda a produção já realizada. 80 Wanderley Santos foi citado em: TRINDADE. CALDEIRA. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30. 79 problemas de pesquisa e tendências historiográficas”. Em nossas leituras observamos que na segunda metade da década de 1940 e durante a década de 1950.. Antes de iniciarmos as considerações acerca da historiografia sobre o integralismo. contudo.

C. H. foi o discurso de seus opositores e não o 81 Esta é a tese central defendida em: COSTA. E. . C. 1978. nesta memória que a historiografia da década de 1950 e 1960 se apoiou. Segundo Edgar De Decca. 83 DE DECCA. sociais e culturais. e assim. por sua vez. referindo-se a historiografia que tratou da Revolução de 30. 1977. “salvando” a nação de uma inevitável decadência. C.. Porém. Contribuição a história das idéias no Brasil. Podemos constatar que algo parecido ocorreu com a AIB. 82 TRINDADE. M Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. do autoritarismo e do fascismo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. que colocou a ideologia de esquerda. Ver mais sobre a entrada das idéias européias no Brasil com um enfoque mais específico acerca do Integralismo em: CHAUÍ. Ideologia e mobilização popular. aquele discurso produzido por Vargas e sua base de apoio. políticas. foram anuladas. 302. cit. e que também estavam desejosas de mudanças. que é o dos vencedores e não dos 83 vencidos. Logo. A falta de considerações acerca das outras forças políticas e sociais que agiam dentro deste contexto histórico brasileiro. como as 81 condições econômicas. VESENTINI. exatamente. quando a historiografia sobre o assunto utilizou-se de um discurso oriundo de uma memória triunfante. 1967. como nos 82 indica Trindade. Devemos também levar em conta a participação da União Soviética no contexto mundial. Para a nova dinâmica mundial do pós-guerra. Rio de Janeiro: CEDEC/Paz e Terra. dentro deste novo panorama.45 eram determinadas por inúmeros fatores particulares. os movimentos autoritários e fascistas deveriam ficar somente na memória e é. a ascensão dos movimentos fascistas por todo o globo e o trauma das trincheiras e do holocausto deveriam ser esquecidos e não relembrados ou estudados. São Paulo: FAPESP. quando uma nova política e uma nova consciência se sobrepõem ao antigo jogo entre as oligarquias de São Paulo e Minas Gerais com seus “falsos líderes”. já que não faziam parte deste discurso. A. . J.. M e FRANCO. In: CHAUÍ. op. M. In: Revista ciência e cultura. Outro ponto a ser assinalado é a desvalorização. por preconceito ideológico. Ou seja. esta por muito tempo se mostrou impregnada pela memorização de um discurso produzido pelos “vencedores”. diferentemente do caso explorado por De Decca. p. como uma das vitoriosas após a Segunda Guerra Mundial. 2 ed. S. que colocavam o ano de 1930 como divisor de duas fases distintas da história republicana brasileira. "revolução dos vencedores: considerações sobre a constituição da memória histórica a propósito da “revolução de 30”.

uma vez que nunca chegou ao poder e. op. Um bom exemplo desta historiografia é o trabalho de João Cruz Costa. não se utilizou devidamente desta idéia quando se referiu ao Integralismo. que mesmo tendo defendido a tese de que a vida política e intelectual brasileira não se tratava de uma simples cópia das que iam pelo mundo. além de ser atrelado. Esta historiografia é baseada na memória comum. a participação da AIB é apresentada como de pouca importância. como os comunistas. C. nas décadas de 1950 e 1960. na maioria destes trabalhos a participação da AIB na conjuntura nacional apresenta-se quase que obsoleta. Entretanto. a um estereótipo comum a todas as formas de fascismos. deixada pelos opositores do Integralismo e. Porém.46 próprio discurso Integralista que permeou esta memorização. No primeiro. Foi exatamente este discurso estereotipado e discriminatório . pelo fato de a nossa república ser ainda muito jovem. como já citado anteriormente. nos textos doutrinários do movimento. se colocou em oposição ao regime vigente. os estudos que contemplam a história política brasileira nunca foram deixados de lado pelos estudiosos das mais variadas áreas das ciências humanas. em menor grau. Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas. Baseada nesta visão. 85 Farias de Brito (1862-1917) foi um intelectual brasileiro formado dentro do grupo germanista de Recife. ao se debruçar sobre 85 a produção do intelectual Farias Brito e a crítica que o mesmo produz para com as vertentes científicas e racionalistas presentes no 84 BERTONHA. como se fosse uma espécie de: “só para dizerem que eu não esqueci”. . principalmente. cit. Conseqüentemente. e que gozou de grande prestígio devido a sua pregação de que a metafísica iria ressurgir dentro do pensamento filosófico. Panorama da história da filosofia no Brasil. fato que é 84 denominado por Bertonha como a historiografia do parágrafo. seja da vertente italiana ou alemã. Para exemplificar tal situação. F. somente citada em breves passagens. os liberais e o próprio governo de Vargas . o que se justifica. Lembremos que este movimento não pode ser visto como o “vencedor”. por muitas vezes. Ver mais sobre Faria Brito In: COSTA. apresentamos dois trechos de trabalhos distintos do referido autor.criado pelos opositores do Integralismo. até a sua revisão na década de 1970. J.que a historiografia se apropria e transmite. que são utilizados sem nenhuma análise ou contestação. 1960. São Paulo : Cultrix. temos vários trabalhos que contemplam a história política republicana brasileira.

O pensamento de Brito realmente teve influência sobre a ideologia integralista e principalmente sobre as idéias de Plínio Salgado. . em virtude dêsse reformismo ou dêsse regeneracionismo que o partido fascista do Brasil. o sustentáculo da vaga (grifos 86 nossos) ideologia dos camisas-verdes do Brasil. 63. ao introduzir a AIB dentro do contexto político e histórico da década de 1930. é que a AIB é contemplada somente neste breve parágrafo.Cruz Costa cita a existência do Integralismo afirmando que: “Foi. Logo após o fim da revolução de 1932 surgia em São Paulo.”. Cruz Costa. Neste trecho. como afirma o autor. do filósofo morto. de Portugal. pois. o da esquerda e o da direita (o integralismo) – reflexos de uma luta que se processava na Europa -. .. misturava-se outras receitas de reacionários da Europa. o ideólogo de sua política. Foi seu nome o pretexto. unida a uma visão tanto pré-conceitual como preconceituosa. em uma obra que pretende entender o pensamento político brasileiro até o início do século XX e isto. Como os fascismos europeus.pois este pregava o ressurgimento da metafísica dentro do pensamento nacional . de início. o integralismo correspondia às aspiração das camadas conservadoras.) nunca se falou tanto e se explorou tanto essa realidade nacional. sem nos remeter a consideração de que Farias Brito teve tão grande influência na ideologia Integralista. síntese final. em nosso segundo exemplo. diziam. não foi este o “sustentáculo” da ideologia integralista. o faz em apenas um único parágrafo: A propaganda dos extremismos. que o Integralismo é tratado somente como um partido fascista de “vaga” ideologia. Já. de onde lhe vinha o nome. Contudo. Outro ponto a ser destacado. podemos perceber.. apoiando-se nas classes conservadoras. das realidades nacionais (. O que tal movimento pretendia era o estabelecimento do que eles chamavam de ‘estado integral’. o integralismo fêz. criava inquietação.. revelando a falta de um trabalho analítico por parte do autor. lançado pelo escritor Plínio Salgado. Nesse movimento que se afirmava nacionalista. o movimento integralista (o da Ação Integralista Brasileira). e 86 Ibid. aproveitável aos desígnios de Vargas. p.47 pensamento brasileiro do início do século XX.

e qual foi a sua participação na vida política brasileira é o primeiro e o mais visível deles. J. mesmo considerando que o Cruz Costa pertence a uma época de historiadores. 1919-1945. O Brasil e a crise internacional: 1930-1945. para os quais parte da colônia alemã não concordava com o nacionalismo pregado pela AIB. conservadora e apoiada nos fascismos internacionais que. e de Stanley Hilton intitulado O Brasil e a crise 88 internacional: 1930-1945. Cruz Costa afirma que existiu uma natural adesão das colônias e descendentes de alemães e italianos ao movimento. 1919-1945. p. São Paulo: Brasiliense. F. 1977. por sua vez. Naturalmente apoiavam-nos colônias italiana e alemã e grande número se descendentes de alemães 87 e italianos. São Paulo: Annablume. Quanto aos pontos de análise.48 contou também com o apoio de alguns altos dignitários do clero católico. Pequena história da república. ou seja. S. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. a consideração acerca de que o principal. dando pouca importância às particularidades que o diferem destas demais experiências. 1999. Por fim. Contudo. . nos chama atenção a generalização da AIB para com os outros partidos fascistas europeus. ou quase único. são vistos como irmãos gêmeos idênticos do Integralismo. 103. do Integralismo. C. a exemplo da grande luta das colônias italianas contra os fascismos. sendo suas condições de produção diferentes das atuais. 87 COSTA. conseqüentemente. uma ideologia nacionalista. encontramos uma enormidade de pontos que contribuíram para construir uma série de análise e clichês na historiografia sobre o integralismo no período. Primeiramente vamos aos clichês: o parágrafo único que tenta dar conta de todas informações necessárias para o entendimento do que foi o Integralismo. apoio da AIB dava-se dentro das classes conservadoras. o que novamente nos remete a uma visão preconceituosa do fascismo e. Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo. e HILTON. 3. 88 BERTONHA. sendo a sua ideologia reduzida a uma visão simplista. J. o que é sabido que não ocorreu. vale a pena ressaltar suas idéias em comparação aos trabalhos de Bertonha intitulado Sob a sombra de Mussolini: os italianos em São Paulo e a luta contra o Fascismo. Portanto. a priori. Em um segundo momento. ed. 1989. temos. Neste trecho.

90 TRINDADE. uma vez que estes pesquisadores privilegiavam a história dos partidos de esquerda. quem pretendesse consultar obras de referência sobre o 89 Ver mais sobre a fascistização dos militares na ditadura instaurada em 1964. uma das conseqüências mais positivas da retomada do estudo do pensamento político autoritário do período entre as duas guerras é a valorização da ideologia enquanto campo de pesquisa considerado crucial à compreensão do processo mais amplo de 90 transformação da sociedade brasileira. também originários do mesmo pensamento marxista. a produção desenvolveu-se qualitativamente na década de 1970.. . . Já ao final da década de 1960. Brasília: UnB. p. T. principalmente a marxista. que dentro dos estudos acerca das idéias políticas no Brasil. Ao contrário do modelo de análise marxista. ou até 89 mesmo. cit. para muitos estudiosos.301. em: BANBIRA. filósofos. tornando-se praticamente o único modelo de análise utilizado na década de 1970. Para Trindade. V. Este mesmo autor afirma que foi por este motivo. pois na década de 1960. 1988. as correntes de análise materialistas e estruturalistas. op. assumem o papel de carro chefe da produção intelectual dos principais centros acadêmicos e de pesquisa do Brasil. estes estudos elegeram a política como tema principal. coloca novamente as tendências conservadoras. cabe lembrar que importantes trabalhos foram produzidos após o golpe de 1964. "Brasil: nacionalismo. autoritárias. populismo e ditadura: cinqüenta anos de crise social ". Entretanto. já que o governo militar instalado em 1964. deixando os estudos destas décadas. ainda mais longe de adotarem o Integralismo como objeto de estudo. Sociólogos. fascistas dentro da política brasileira. o que se mostra como um resultado comum dentro dos interesses de pesquisa. SANTOS. para provar que “a história é filha do seu tempo” e que são os problemas de hoje que instigam os historiadores em seus estudos sobre o passado. cientistas políticos e historiadores acabaram por ser influenciados pelo modelo de análise marxista. H. In: América Latina: história de meio século. que enfatizava os aspectos materiais e econômicos.49 visualizamos uma certa inapropriação de Cruz Costa na palavra “naturalmente”.

por fim. pois tivemos um grande número de estudos e publicações unidos a diferentes métodos de análise e abordagens. ser citados. . transformando esta década na mais importante para a historiografia que trata deste movimento. que acabam por também contemplar a presença integralista neste contexto. cabe citar. p. tiveram relevância na formação do pensamento. intitulado O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio (1978). e mais especificamente. Desta forma é somente na década de 1970 que foram realizados os primeiros trabalhos que contemplam a AIB como objeto central de análise. em nossas terras. 299. da filósofa Marilena Chauí. apresenta um panorama e crítica da historiografia produzida sobre o assunto e a grande coletânea de documentos estudados por Edgar 92 Carone.50 assunto. de outro. intitulado Apontamentos para uma crítica da razão integralista (1978) e. da cultura e da vida política nacional. contudo. como: O ciclo Vargas de Hélio Silva. em função do panorama cronológico que oferece das diversas correntes do pensamento mundial que. podemos identificar duas vertentes de pesquisa: de um lado. intitulado A ideologia curupira: análise do discurso integralista (1977). o trabalho que mais se destaca 91 Ibid. iria 91 encontrar poucas publicações. temos como principais exemplos. no mínimo. Contribuição à história da idéias no Brasil (1967). o do. Também. estrangeiros que se dedicaram aos estudos referentes à história do Brasil. Do lado da produção nacional. José Chasin. Assim. como sugere seu título. que. os trabalhos do sociólogo Gilberto Vasconcellos. a exemplo do já citado estudo de Cruz Costa. intitulado. também sociólogo. a produção nacional. 92 Ibid. ou seja.300. a produção de brasilianistas. A revolução de 30: história e historiografia de Boris Fausto. p.. Os trabalhos produzidos na década de 1960 não prestigiaram como deveriam a participação da AIB na vida política brasileira. o qual consiste em uma reunião de documentos referentes ao período. sobre o período em questão. os primeiros trabalhos que deram destaque à participação política do Integralismo no contexto nacional. consideramos que devem.

Prefácio a segunda edição. traçando um retrato sociológico das lideranças e dos militantes do movimento. IX 95 Ibid. apontando que não foram somente os discursos antiliberal e anticomunista. como com o catolicismo e as classes médias urbanas. organização e rituais. CHASIN. apresenta uma perspectiva de abordagem que fornece elementos fundamentais para uma compreensão da organização burocrática do movimento. 2. e isso. com o intuito de se traçar um perfil do movimento como um todo. analisa sua ideologia e perfil do chefe.cit. Temas como a origem social e as motivações de adesão ao movimento por parte dos militantes. op.51 deste período produzido pelo historiador Hélgio Trindade. político e econômico nacional. M. Trindade situa a AIB dentro do contexto social. X. e TRINDADE. o trabalho de Trindade foi o mais utilizado pelos estudiosos do tema até os dias atuais. São Paulo: Brasiliense. H. apontando as particularidades do caso integralista. também são abordados. as características próprias da experiência brasileira. além disso. H. Neste estudo. . igualmente estão presentes. São Paulo: Ciências Humanas. intitulado 93 Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30 (1974). p. Op. algo que até então só se tinha verificado em trabalhos que tratam do fascismo alemão ou italiano. ed. São Paulo: DIFEL. O Integralismo de Plínio Salgado: forma de regressividade no capitalismo hipertardio. Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. E isso se deve a que seu trabalho não somente fornece elementos centrais para se pensar a relação integralismo com o fascismo. p. Trindade ressalta. que foram utilizados como agentes de mobilização do movimento. Sem dúvida. assim como o estudo sobre a formação intelectual e política de Plínio Salgado. J. mas também uma nova concepção de 95 autoritarismo. 1979. cit. As relações do Integralismo com as demais forças sociais da política brasileira. Por fim. G. pelo tanto que instigou de novas pesquisas sobre o assunto. segundo esse 94 autor. ele desbanca a necessidade da existência de um contexto social e político determinado para a ascensão das idéias fascistas dentro de uma nação. In: TRINDADE. 1978.. 1977. CHAUÍ. uma vez 93 VACONCELLOS.. Juan Lins ressalta a enormidade de fontes trabalhadas. A ideologia curupira: análise do discurso integralista. além de a compara com as demais experiências fascistas européias. Além disso. mas. bem como a sua dinâmica interna de organização. Já no prefácio do referido trabalho. cultural. Juan. (primeira edição 1974) 94 LINS.

o fato de o capitalismo brasileiro ser considerado como hipertardio. Primeiramente. Logo. semelhantes às condições encontradas na Itália e na Alemanha fascista. para ir contra as afirmações de Trindade. justifica a idéia de que a AIB não pode ser caracterizada como um movimento fascista. Ressaltamos que este estudo se debruça sobre a analise do discurso. de C. 98 TRINDADE. C. O autor se apropria de uma análise marxista. não demorou a contribuir para os estudos a esse respeito. que se apóia na não existência de condições dentro do modo de produção capitalista brasileiro do período.52 que para o autor. Tal crítica se apresenta como de senso comum no que se refere a estes estudos. p XV. pela qual passava o Brasil das décadas de 1920 e 1930. . sua pesquisa foi realizada com fontes de edição posterior a 1945.. op. Chauí. exatamente. as idéias não estão fora do lugar quando encontramos 98 os motivos pelos quais as estas aqui chegaram . quando muitos indícios do caráter 96 Ibid. 313. ressaltando. cit. H. elementos característicos de um pensamento autoritário que surge dentro das classes médias brasileiras e une este ao bojo das discussões nacionalistas que 97 estavam em pauta durante a década de 1920. 18. cit. Ele contesta a idéia de que as condições sócio-econômicas do Brasil nas décadas de 1920 e 1930 são. op. mas a uma crise política e cultural. Ela se opõe à Trindade quanto à identificação do Integralismo com os fascismos. assim como sua principal temática. p. p. R. de C. Outro autor que discorda da proximidade da ideologia Integralista à fascista é Chasin. neste ponto que encontramos outro problema de seu trabalho. para o surgimento de um movimento de cunho fascista. o surgimento da AIB não era uma resposta a uma 96 crise econômica. no mínimo. R.. 97 CALDEIRA. Entretanto. típica da historiografia deste período. p. cit. C. sua construção e seus destinatários. identificando dentro do discurso da AIB. englobando suas fontes. Outro modo pelo qual Chasin afirma ser o Integralismo um movimento não fascista é a sua análise para com os textos de Plínio Salgado e é. ou de qualquer outro movimento desta natureza. e CALDEIRA. que se refere a “imagem de crise” socioeconômica e também cultural. quando estas já tinham sido alteradas frente a readequação da doutrina integralista ao novo contexto democrático nacional. 18. é justamente este contexto sócio-econômico diferenciado que deve ser questionado e entendido dentro do percurso histórico do movimento fascista brasileiro. op. instigada por este primeiro trabalho. Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30..

. 305 e 307. um forte partido comunista e um grande proletariado urbano-industrial. 102 são desenvolvidas. de seus militantes. 100 Ibid.. p. A maioria das fontes escolhidas foram resgatadas do período pré-integralista. R. ele não leva em conta que a debilidade destas forças agiu justamente no fortalecimento da AIB em sua primeira fase se 101 expansão. Vasconcellos repete o mesmo erro de Chasin. em nossas terras. ao procurar entender a experiência brasileira usando como base os casos europeus. 18-19. principalmente. Mais uma vez. Quanto às fontes utilizadas pelo autor. que o autor fundamenta a tese central de seu trabalho. a crítica quanto a considerar o Integralismo como um movimento fascista. a qual só se apresenta claramente no pensamento pliniliano pré-integralista. p. destacamos que do ponto de vista de se analisar a obra política pliniana.53 fascista da ideologia já tinham sido escamoteados. que apóia a impossibilidade de fazermos esta afirmação. p. 99 TRINDADE. cit. durante e depois do período de existência da AIB. de C. que foram fatores básicos para o surgimento dos fascismos europeus. não adequadas para a sua proposta de estudo. E é justamente devido à utilização destas fontes. C.. op. cit. deixando de lado os outros ideólogos integralistas e parte das produções realizadas durante a existência da AIB. E isso. Deste modo. H. vinha de sua organização. não existiu uma forte tradição liberal. Entretanto. Contudo. A sua análise no nível ideológico. uma vez que o autor acompanha a evolução de seu pensamento antes. também não levou em conta que mais do que um conjunto de idéias. está presente no trabalho de Vasconsellos. 102 TRINDADE. 311-312. de sua base social de recrutamento. 101 CALDEIRA. op. . cit. mais uma vez temos um problema próximo ao apontado no trabalho de Chasin. que é a “utopia autonomística” integralista. e somente as produzidas por Salgado. este trabalho se apresenta como uma grande contribuição. Salgado era o menos fascista se compararmos a sua produção à de Gustavo Barroso e 99 Miguel Reale. p. sem levar em conta que dos teóricos do movimento. op. por Miguel Reale. a AIB foi um movimento político e. uma vez que as teorias que pretendem “salvar” o Brasil da luta de classes e do mundo capitalista.. no fato de que. grande parte do seu caráter fascista. H. 316. de sua solidariedade para com os fascismos internacionais e de suas 100 atitudes políticas.

1976. Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945. temos excelentes conclusões neste trabalho. É por este motivo que Vasconcellos nomeia tal idéia como a “ideologia curupira”. Neste caso. Também merecem ser citados.da caracterização da AIB como um movimento fascista. tanto no fascismo europeu. 1978. "A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939". no tipo de combinação entre o nacionalismo nascente em cada sociedade onde ele florescia e a percepção de um sentido da história marchando para o fascismo em escala internacional. solidariedade ideológica com o fascismo internacional. em todo fascismo coexistem. uma vez que para ele. uma vez que este personagem de nosso folclore habita o interior do território nacional. São Paulo: FFLCH/USP. até mesmo. e não 103 como uma característica original da experiência brasileira. e MEDEIROS. o que 103 Tanto a “utopia autonomística” quanto a “irracionalidade” do pensamento integralista correspondem a tese central deste trabalho. Rio de Janeiro: FGV. No entanto. para o autor. J. A principal temática destes trabalhos está baseada na suposta constatação . In: Revista de História. pois estas influências ideológicas são vistas como resultantes de um extremo “irracionalismo” integralista. . paradoxalmente. como na tradição intelectual autoritária nacional. os trabalhos: A igreja e o integralismo no Brasil: 1932-1939 de Oscar de Figueiredo Lustosa (1976). o que para Trindade já é um fato consumado. 104 LUSTOSA. como a consideração acerca da ideologia integralista ter suas principais bases apoiadas. ficando longe das influências européias que chegavam pelo Atlântico.ou sua negação .54 Esta utopia consiste em um projeto que visa o isolamento do Brasil das nações capitalistas hegemônicas. um nacionalismo exacerbado e uma influência ou. de F. a singularidade do discurso ideológico fascista se configura. O. Apesar disto. que ao analisar o autoritarismo brasileiro do período de 1930 a 1945 inclui entre os intelectuais estudados o 104 nome de Plínio Salgado. tornado-o auto-suficiente. precisamente. que analisa as relações da AIB com a Igreja Católica durante a década de 1930 e o estudo Ideologia autoritária no Brasil: 1930-1945 de Jarbas Medeiros (1978). esta constatação não se apresenta suficiente para identificar a especificidade da AIB frente aos movimentos europeus. não chegando próximo ao litoral.

op. 9 ed. que privilegiaram as análises da 106 dimensão superestrutural da sociedade. Os principais autores brasilianistas. vale a pena ainda enfatizamos a produção dos brasilianistas. convém esclarecer que estes 105 TRINDADE. Essa tendência decorreu em grande parte das influências do pensamento estruturalista sobre aquelas ciências. trazemos a colocação de Castro Caldeira que sintetiza adequadamente esta produção ao afirmar que: na década de 1970. J. com exceção do trabalho de Hélgio Trindade. e HILTON. Estes estudos. que ressalta a grande importância do Integralismo dentro do contexto político nacional e suas relações com o 108 governo de Vargas.. cit. 106 CALDEIRA. Concordando que foi exatamente isso que ocorreu com esta historiografia. Biografia política (s/d). Dulles com Getúlio Vargas. R. p. 306. que.. S. Entretanto. a qual privilegiou a análise ideológica. Stanley Hilton com o trabalho O Brasil e a crise internacional: 1930-1945 (1977) e Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem alemã no Brasil (1977). também se baseavam quase que exclusivamente nos textos doutrinários de Salgado. de C. 108 SKIDMORE. HILTON. p. 15..55 conduziria necessariamente com ecletismo 105 do discurso.. 107 Ibid. op. Robert Levine com a obra O regime Vargas: os anos críticos 1934-1938 (1980) e John W. com as demais forças sociais e 107 institucionais brasileiras e internacionais. Suástica sobre o Brasil: a história da espionagem . como já foi dito. F. Aqui. Rio de Janeiro: Paz e Terra. S. 1982. são um dos grandes responsáveis pelo caráter fascista do movimento. O Brasil e a crise internacional: 19301945. 19. já bastante conhecidos dos estudiosos da área e que por isso que se destacam dentro desta historiografia são: Thomas Skidmore com o estudo Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco (1975). os estudos das ciências humanas foram razoavelmente marcados pela análise do discurso. T. Brasil: de Getúlio Vargas a Castelo Branco. que se diferem da produção nacional devido ao enfoque utilizado pela maioria dos trabalhos. que nos aponta não ser possível entender o Integralismo somente pelo discurso de um único ideólogo e sem levar em conta seus militantes. Por fim. op. privilegiando mais as ações e relações da AIB e seus integrantes. cit. p. H. buscando explicações e articulações a nível nacional e internacional. cit.

de C. entendendo que as discussões acerca de se considerar ou não a AIB como um movimento fascista. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. por este se diferir dos demais. por meio 109 da implantação do Estado Integral. ressaltando-se que. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Biografia política.56 trabalhos não tratam exclusivamente da AIB. F. s/d. 2. 109 CALDEIRA. já que para Levine. provenientes da crise de 1929. longe de sê-lo. enfatizamos que. Quanto ao pensamento estadonovista. sendo de grande valia a sua contribuição para com esta historiografia. também são analisadas. uma vez que se aproxima fortemente da produção nacional. o primeiro que iremos tratar é O Brasil e a crise internacional. este pensamento se apresenta fortemente influenciado pelo fascismo. W. Já em seu trabalho Suástica sobre o Brasil. neste trabalho. a considera como um movimento de cunho fascista.1980. um breve panorama desta produção. O apoio das classes médias ao partido e a sua tentativa de superação das dificuldades econômicas. p. iniciamos com o trabalho de Skidmore. já que o autor compara a AIB as experiências européias e. e DULLES J. o fascismo seria a principal característica da ideologia dos camisas verdes. Quanto aos trabalhos de Hilton. . mas dedicam importantes análises a este movimento. ed. uma espécie de solidariedade ideológica. Para ele. O regime Vargas: os anos críticos (1934-1938). os governos estaduais e as colônias de imigrantes alemães do sul do país. Robert Levine nos traz um amplo panorama da experiência integralista dentro da vida política nacional. neste último caso. não se faziam mais pertinentes. posteriormente. Hilton afirma que esta participação se dava por meio do empréstimo de escritórios para as reuniões dos espiões. embora. Por fim. esta participação ocorria devido à simpatia dos integralistas para com a causa do Terceiro Reich. Com o intuito de apresentar. op. cit. alemã no Brasil. que para ele eram o operariado. pois para este autor. o autor aponta a participação de um pequeno círculo de militantes do sigma nas práticas de espionagem dos nazistas em nosso país. 19. R. Já na década de 1980. 110 Ibid. R. esta oposição ocorria pelo fato de que o forte nacionalismo 110 contido na ideologia do movimento não era compartilhado por estes .. este sim é analisado a fim de se entender a sua essência. LEVINE. o qual procura entender como funcionavam as relações entre os integralistas e seus opositores. 1977. Rio de Janeiro. na ajuda para com o disfarce destes e no recolhimento de informações. J. Renes. Getúlio Vargas.

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encontramos um capítulo inteiramente dedicado a AIB, e um segundo, dedicado às relações entre o Integralismo e o Estado Novo. No primeiro deles, o autor analisa a ideologia integralista considerando-a como autoritária, nacionalista, anticomunista, 111 antiliberalista, anti-semita e com pesada hierarquia , que era “copiada” do partido Nazista alemão, entretanto, afirma que a sua maior influência veio do fascismo italiano. As considerações que o autor apresenta acerca das proximidades políticas e ideológicas da AIB para com a Aliança Nacional Libertadora (ANL), que representava a outra extremidade do espectro político nacional, ou seja, a esquerda, merecem um destaque especial. Ele aponta que ambos os movimentos “se organizavam em células; ambos procuravam atrair as classes médias e trabalhadoras; ambos atacavam o statu quo do Estado e de seus opositores, o domínio econômico estrangeiro, e o fracasso 112 revolucionário da Aliança Liberal” , partido que colocou Vargas no poder, em 1930. Levine também compara a AIB com as outras forças políticas de oposição ao governo que surgiram após a revolução de 30, as quais só se diferenciavam do pensamento Integralista no encaminhamento de soluções aos problemas políticos, uma vez que estes se baseavam em uma concepção totalitarista e mecanicista de Estado, o Integral. Em um segundo momento, o autor analisa a relação da AIB com a Igreja Católica, com o meio militar, com políticos de influência no 113 governo, com os intelectuais e com o governo federal ; além de fazer uma breve biografia de Salgado e Barroso, incitando uma possível disputa entre ambos no que se refere à liderança do partido. Até mesmo os rituais e cerimônias integralistas são abordados por Levine. No segundo capítulo, o autor narra as relações políticas entre a AIB e o Estado Novo, desde o acontecido golpe de 1937 até o fim do governo de Vargas em 1945, ressaltando as manobras políticas ocorridas na cúpula estadonovista e integralista, sejam elas sendo suas ações em conjunto ou suas discórdias. Assinala-se, também, que as fontes utilizadas para a realização desta pesquisa, foram, além da bibliografia nacional e internacional que abordou o período, os livros doutrinários e jornais integralistas, assim como os relatórios, documentos e cartas, tanto do governo quanto do movimento. Dado esta análise inicial sobre os estudos acerca da AIB na década de 1980 pelos brazilianistas, como vemos no trabalho de
111 Ibid. 112 LEVINE, R. op. cit., p. 129. 113 CALDEIRA, J. R. de C. op. cit., p. 19.

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Levine e outros, as pesquisas e as publicações sobre o tema continuaram crescendo nesse sentido de estudos comparativos com os movimentos europeus. Retomando às analises sobre a produção no Brasil nesta década, vale a pena ainda destacar dois importantes trabalhos que não tratam especificamente do Integralismo, mas que se apresentam como leituras importantes para se compreender o período em que o movimento atuou. O primeiro deles é o trabalho de Alcir Lenharo, 114 intitulado Sacralização da política (1986), no qual o autor apresenta novas perspectivas de análise e interpretação para melhor entendermos as idéias do pensamento autoritário presente na política brasileira da década de 1930. Por isso, tal obra se mostra referência obrigatória para qualquer estudo que contemple esta área de estudos. O segundo, é o conjunto de quatro volumes da coleção História geral da civilização brasileira: o Brasil republicano (1986), sob direção de Boris Fausto, nos quais o volume terceiro, Sociedade e política (1930-1964), e o volume quarto, Economia e cultura (1930115 1964) , contemplam, como já referido em seus títulos, a década de 1930. Estes trabalhos reúnem vários artigos de diversos estudiosos das mais diferentes áreas das ciências humanas, como o artigo Integralismo: teoria e práxis política nos anos 30 (1981) de Hélgio Trindade. Neste último artigo, o autor discute os problemas e as perspectivas dos estudos sobre a AIB. Apresenta um breve panorama da historiografia que tratou o integralismo durante a década de 1970, realizando um bom balanço e análise, seguido da réplica a seus críticos. Até mesmo algumas considerações sobre os estudos da política nacional republicana são apontadas. O descrédito com que a historiografia tratou os fascismos também é resgatada, seguida de alguns apontamentos para a justificação desta atitude. Um breve panorama da evolução do pensamento de Salgado, o alerta para posterior alteração dos textos Integralistas, após 1945, e as considerações sobre os diferentes níveis de análise da doutrina integralista - que correspondem ao âmbito dos dirigentes doutrinadores, separando o pensamento de Salgado, Barroso e Reale, e dos militantes - também estão presentes neste artigo. Outro trabalho que também merece ser citado é o de Jorge Zaverucha, intitulado A questão do integralismo diante da herança

114 LENHARO, A. Sacralização da política. 2 ed. Campinas: Papirus, 1986. 115 FAUSTO, B. (org.) op. cit.

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fascista (1984), que une-se à tese de Trindade em considerar o 116 Integralismo como movimento fascista. Outros trabalhos deste período foram: Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio Salgado, de Ricardo Benzaquen de Araújo (1988), pesquisa esta que possui uma proposta de caráter ensaístico e não acadêmico, interpretando a ideologia de Salgado e ressaltando suas tendências espiritualistas e totalitárias; e o livro de René Gertz (1987) intitulado O fascismo no sul do Brasil: germanismo, nazismo e integralismo, que analisa a relação entre os imigrantes alemães e os integralistas no Rio Grande do Sul e em Santa 117 Catarina. É ainda no final desta década e, principalmente, durante a década de 1990 que os estudos sobre o Integralismo deixaram de contemplar somente os aspectos autoritários e/ou fascistas da AIB e passam a contemplar suas especificidades, tais como a relação do Integralismo com os imigrantes, com o meio militar, a participação feminina e dos negros dentro do movimento, as políticas regionais, a simbologia e as festividades. Da mesma forma, o anti-semitismo dentro do discurso e das práticas do partido. Temos durante este período, recortes mais específicos, mostrando um panorama difuso daquele que 118 vinha sendo produzido nas décadas anteriores . Alguns títulos que representam esta historiografia são os trabalhos de Roney Cytrynowicz (1992), intitulado Integralismo e antisemitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, o de Fábio Bertonha (1992), A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, o de Castro Caldeira (1999), Integralismo e política regional: a ação integralista no Maranhão (1933-1937) e o trabalho de Rosa Maria Feiteiro Cavalari

116 CHAUÍ, M. Notas sobre o pensamento conservador dos anos 30: Plínio Salgado, In: ANTUNES, R., FERRANTE, V. B. e MORAES, R (org.) Inteligência brasileira. São Paulo: Brasiliense, 1986. e ZAVERUCHA J. A questão do integralismo diante da herança fascista, In: Revista Ciência e Tópicos. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, 1984. 117 ARAÚJO, R. B, de Totalitarismo e Revolução: o integralismo de Plínio salgado, Rio de Janeiro: Zahar, 1988. e GERTZ, R. Os teuto-brasileiros e o integralismo: contribuições para a interpretação de um fenômeno político controverso. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1987. 118 BERTONHA, Integralismo: fontes problemas de pesquisa e tendências historiográficas, op. cit.

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(1999), Integralismo: ideologia e organização de um movimento de 119 massa no Brasil (1932-1937). No trabalho de Caldeira, temos um estudo a nível regional que nos abre a possibilidade não só de entender como a AIB se inseriu no panorama político maranhense, mas também nos leva a entender como funcionava sua organização a nível regional. Este trabalho contempla a passagem da caravana de Barroso, o discurso anticomunista integralista, as lutas conta a ANL e a relação do movimento com a política regional maranhense. Ressalta-se, que o autor considera como principal motivação para a ascensão do Integralismo no estado, uma resposta ao surgimento da ANL no Estado. No entanto, maior destaque deve ser dado ao trabalho de Feiteiro Cavalari o qual analisa a pedagogia fascista, os símbolos e rituais integralistas como responsáveis pela união, sociabilização ideológica, propaganda, agremiação, mobilização política, submissão à hierarquia e disciplina. A autora também analisa como se processou a criação de uma identidade para o movimento, onde se destaca a participação das mulheres integralistas, “as blusas verdes” que, dentro das escolas, ambulatórios e creches integralistas, pretendiam por meio de ações filantrópicas e educacionais atender às necessidades da população e agregar novos adeptos para o partido. A rede de jornais integralistas, nacionais e regionais, também é estudada, porém, como meios de divulgação e doutrinação, assim como os programas de rádio, uma vez que a retórica dos líderes integralistas era a grande responsável pelo crescimento numérico e manutenção de seus militantes. O rádio era a maneira mais direta de relacionamento da cúpula integralista com seus “soldados”. Nesse sentido, o trabalho de Feiteiro Cavalari corresponde exatamente a esta nova historiografia dos anos de 1990. A produção historiográfica presente, de início do século XXI, dá continuidade a historiografia da década passada e, dentre os trabalhos que até hoje foram publicados, citamos os seguintes: O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil de Fábio Bertonha (2001), Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social no
119 CYTRYNOWICZ R. Integralismo e anti-semitismo nos textos de Gustavo Barroso na década de 1930, Dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de História da FFLCH-USP, 1992; BERTONHA, F. A máquina simbólica do integralismo: controle e propaganda política no Brasil dos anos 30, In: História & Perspectiva (Uberlândia), Vol.7, 1992.; CALDEIRA C. op. cit. e CAVALARI R. M. F. Integralismo: ideologia e organização de uma movimento de massa no Brasil (1932-1937). Bauru: EDUSC, 1999.

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Brasil / 1930-1954 de R. S. Rose (2001) e o segundo volume da coleção O Brasil republicano que traz um artigo de Marcos Chor Maio e Roney Cytrynowicz (2003) intitulado Ação integralista brasileira: um 120 movimento fascista no Brasil . Por fim, também, cabe citar, neste momento, a coletânea de artigos produzidos após o I Encontro de Pesquisadores do Integralismo, realizado, em 2002, no Arquivo Público do Município de Rio Claro, que chegou ao grande público, em 2004, 121 com o titulo de “Integralismo: novos estudos e reinterpretações”. Nesta produção contemporânea, destacamos este trecho que nos traz as seguintes observações acerca dos artigos: Lembranças do esquecimento: datas e comemorações do Movimento Integralista Brasileiro, A ação feminina integralista no Maranhão, Notas sobre o anticomunismo integralista, A formação do Partido de representação Popular e a intervenção integralista na política brasileira, O trabalho através do discurso integralista, A educação no projeto integralista, O Integralismo e a mulher, Intelectuais brasileiros na ideologia integralista: autoritarismo, ensino e a busca de raízes nacionais, Integralismo e Eugenia e Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e 122 História.

120 BERTONHA, F. O fascismo e os imigrantes italianos no Brasil, Porto Alegre: EDIPUCRS, 2001; ROSE, R. S. Uma das coisas esquecidas: Getúlio Vargas e o controle social do Brasil (1930-1945), São Paulo: Companhia das Letras, 2001. e MAIO, M. C. e CYTRYNOWICZ R Ação integralista brasileira: um movimento fascista no Brasil, In: FERREIRA, J e DELGADO, L. de A. N. (org.) O Brasil republicano – o tempo do nacional-estatismo: do inicio da década de 1930 ao apogeu do Estado Novo, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003. 121 DOTTA, R. A., POSSAS, L. M. V. e CAVALARI, R. M. F. (org.) Integralismo: novos estudos e reinterpretações, Rio Claro: Arquivo do Município, 2004. 122 Os autores destes artigos são agora nomeados respectivamente na ordem de apresentação de seus trabalhos: Rodrigo Christofoletti, Castro Caldeira, Rodrigo santos de Oliveira, Gilberto Grassi Calil, Renato Alencar Dotta, Rosa Maria Faiteiro Cavalari, Lídia M. Vianna Possas, Alexandre Blankl Batista, Endrica Geraldo e João Fábio Bertonha.

V. F. esqueceram algumas coisas. citamos o trabalho de Rogério Lustosa Victor. memória e esquecimento (2005) . p. remontaram os acontecimentos. justamente. intitulado O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP 123 BERTONHA. Entendemos então. só nos resta apresentar o trabalho de Gilberto Calil (2001). ele discute questões como a herança fascista. mesmo que seja por um milímetro. 157. Outro importante ponto a ser enfatizado. e CAVALARI. Tudo o que saia deste roteiro pré-estabelecido. assim como nos indica o título desta última coletânea citada. os temas que a atual historiografia sobre o integralismo está abordando e que. O integralismo nas águas do Lete: história. F.62 A lista de títulos (citada em rodapé) se justifica pelo fato de apresentar. refere-se à necessidade de se estudar a memória produzida pelos militantes integralistas sobre a sua própria história. intitulado O integralismo nas águas do Lete: 124 história. convenientemente. nos apresenta uma enorme gama de novos estudos. Por fim. má fé.) op. L. que a atual historiografia que voltada a AIB. memória e esquecimento. Eles formularam uma visão própria do acontecido. In: DOTTA. no decorrer dos anos. POSSAS. 124 VICTOR. 123 deturpação. foi consolidada. (org. Neste percurso. . Para Bertonha. 2005.. Victor aborda a memória que os atuais livros didáticos constroem sobre a AIB e a sua participação na história brasileira. cit. além de também abordar a memória criada pelos próprios militantes sobre o seu passado. Integralistas e pesquisadores do Integralismo: o embate entre Memória e História. o autor analisa a memória criada pelo Estado Novo e pela imprensa do período acerca da AIB. Além disso. o golpe de Vargas em 1937 e o Putch Integralista de 1938. L. R. M. Goiânia: UCG. J. é imediatamente atacado como mentira. uma memória particular por parte dos militantes.. tem a pretensão de construir um panorama mais detalhado do movimento. e pretendem que o resultado seja a expressão da verdade pura. como também promove novas abordagens para temas que já foram estudados. R. etc. M. como já foi citado. A. Dentro desta perspectiva de análise. R. Neste estudo.

. Entendemos que as apresentações e comentários estabelecidos até aqui. o seu projeto político. transformando-se em um referencial obrigatório para qualquer estudo posterior que pretender abordar o Integralismo no pósguerra. este trabalho se apresenta como o mais completo estudo sobre o PRP até então realizado. o seu discurso anticomunista e logicamente a sua participação no processo político brasileiro. 125 125 CALIL. ou até mesmo. para que os pesquisadores já de longa data possam mais uma vez refletir sobre as produções existentes. Para finalizar. se mostram suficientes para a apresentação da historiografia que abordou a AIB. pela própria impossibilidade de tal empreitada. 2001.63 (1945-1950) . A estrutura interna do PRP. também são abordados. Assim. também. cabe esclarecer que somos conscientes de não contemplarmos toda a bibliografia que abordou a AIB. Porto Alegre: EDIPUCRS. no qual é analisado o fim da AIB e a sua rearticulação após 1945 com a criação do PRP. os elementos mobilizadores de sua militância.G. G. Esperamos. O Integralismo no pós-guerra: a formação do PRP (19451950). que o presente artigo sirva como uma espécie de guia de leitura para os pesquisadores que estão iniciando seus estudos sobre este tema.

Trata-se de um trabalho apresentado no IIº Prêmio de Pesquisa promovido pelo DCE da Universidade Federal de Juiz de Fora.com . À exceção de um trabalho que relata o integralismo de forma bem factual . Além da ausência de estudos do movimento na cidade de Juiz de Fora. nada mais se encontra sobre a atuação do movimento na cidade. área de concentração: Literatura Brasileira. e-mail: leandropgoncalves@gmail. que serviu de base para tratar do tema dentro das novas condições e possibilidades do trabalho historiográfico acerca do integralismo no Brasil. Licenciado em História pelo Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora. a escolha do tema. se deve.64 TRADIÇÃO E CRISTIANISMO: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora 126 Leandro Pereira Gonçalves 127 As primeiras leituras bibliográficas sobre o integralismo confirmaram a inexistência de um completo estudo sobre a atuação deste movimento na cidade de Juiz de Fora. Especialista em História do Brasil pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Aqui. realizado em 1973. Tradição e Cristianismo: o nascimento do integralismo em Juiz de Fora. realizado na época pelo acadêmico Maurício de Castro Corrêa. a Ação Integralista Brasileira (AIB) teve sua semente 126 Este artigo baseia-se em minha Monografia de conclusão de curso de Especialização em História do Brasil (PUC/MG) 127 Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Letras do Centro de Ensino Superior de Juiz de Fora.cujo título é Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. ainda. à percepção das particularidades do movimento nesta cidade em relação às demais localidades. quando muitos militantes ainda estavam vivos.

que através de um grande centro educacional secular denominado Instituto Granbery. Logo após o lançamento oficial da Ação Integralista Brasileira. sem discussão. O movimento integralista surgiu através do interesse de vários grupos de intelectuais no Brasil. diferente. Iniciando suas atividades no princípio da década de 1930. portanto. logrou intenso e rápido crescimento ascendente até a decretação do Estado Novo em novembro de 1937. quando foi proibido de atuar juntamente com outros partidos e movimentos. Plínio Salgado inicia suas . Esse movimento foi decisivo na formação política da década de 1930. A partir de então. investiu na construção ideológica de controle da população pela educação metodista. A Igreja Católica chegou a apoiar o movimento na cidade. a AIB passou a atuar formalmente através do Manifesto de outubro de 1932.65 plantada dentro de uma instituição religiosa metodista. mas a base inicial se encontra na Igreja Metodista. Sua organização. com a integração do discurso integralista conservador ao discurso metodista do contexto religioso da década de 1930. sob a liderança do escritor e jornalista Plínio Salgado. que veiculava um discurso previamente preparado de acordo com a situação. fortemente influenciada pelos movimentos fascistas europeus. priorizava a arregimentação de militantes e seu enquadramento em uma estrutura hierárquica e burocrática. Foi justamente através da força dos ideólogos metodistas que nasceu o integralismo juizforano. todos eles descontentes com a política existente até então. A hierarquia do movimento colocava Plínio Salgado como Chefe Nacional e todos os demais membros tinham que jurar obediência às suas ordens. tendo ampla repercussão no campo político e social no Brasil. divulgado para todo o país. de muitas localidades onde o catolicismo foi o grande pioneiro.

Descartando. o comunismo. e as famílias religiosas tradicionais. no Brasil. os integralistas contaram com um expressivo número de filiados. assim. As pretensões integralistas em atingir o poder pareciam. assim. as opções eram comunismo e fascismo. Pátria e Família. No país. mais forte combate ao comunismo. o socialismo. onde a AIB passou a se destacar logo após três conferências doutrinárias ocorridas nos dias . Com esse discurso ideológico de combate em defesa às tradições cujo lema é: Deus. defendia que sua milícia reunia cerca de cem mil indivíduos em condições de combate. Plínio Salgado. logo se depara com as ações da Ação Integralista Brasileira. com milhares de células espalhadas por todo o país e. Mostraremos um pouco de toda essa atuação na cidade de Juiz de Fora. vangloriava-se de que o número de seus militantes alcançava a cifra de um milhão de pessoas. o capitalismo internacional e as sociedades secretas vinculadas ao judaísmo e à maçonaria. Ao analisar a década de 1930. na Zona da Mata mineira. defendendo principalmente a tradição. essas famílias investem no integralismo que apresenta grande relação entre a religião e a política. a AIB no principal partido de extrema-direita em busca do poder nos anos 30.66 articulações políticas pelo país. aglutinando o apoio da mocidade e transformando. o Integralismo chegou ao auge de suas atividades. bastante realistas até que Getúlio Vargas resolveu por fim às pretensões do líder integralista em 1937. Na crise liberal. movimento político de extremo conservadorismo que se articula com os discursos religiosos. principalmente. o integralismo propõese a combater o liberalismo. Ao mesmo tempo. que possuíam tendências políticas. Em 1936. ficaram ao lado do fascismo.

1933. Tarboux. a divulgação e a propagação da ideologia integralista pelo Brasil. Já última conferência ocorreu no salão de festas do Pálace Hotel. 130 Sobre sua presença na escola pode ser comprovada pelas fotos de 20 e/ou 21 de outubro de 1933 no Arquivo fotográfico Dr. para divulgar as ideologias políticas integralistas entre os professores e alunos. divulga a seguinte manchete: “O Granbery orgulha-se de ter como hóspede de honra. O Chefe das Milícias Integralistas. utilizou seu prestígio de presidente da ABL. Juiz de Fora. Comunismo e Integralismo”. Gustavo Barroso. o pioneiro do movimento integralista em Juiz de Fora foi o professor de Sociologia Oscar Machado. 128 realizadas pelo Chefe das Milícias Integralistas.67 20. do Museu Granbery. A inserção do Integralismo em Juiz de Fora A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora ocorreu através do Instituto Granbery da Igreja Metodista. intitulada: “Liberalismo. 129 O Granberyense. 1. da Educação e da economia”. Gustavo Barroso. presidente da Academia Brasileira de Letras. Gustavo Barroso. o ilustre brasileiro Dr. 20 out. . então diretor dos cursos Ginasial e Comercial do Instituto Granbery da Igreja Metodista e membro da Igreja Metodista Central de Juiz de Fora que cedeu as 128 As duas primeiras conferências foram realizadas no salão do Instituto Granbery da Igreja Metodista. que em seu jornal de circulação interna do dia 20 de outubro de 1933. 130 Desse grupo. p. digno presidente da Academia Brasileira de Letras!” 129 A vinda de Gustavo Barroso a Juiz de Fora fez parte do que era chamado de Bandeira ou Caravana Integralista. 21 e 22 de outubro de 1933. com os títulos: “A Inquietação do século XIX e a Reconstrução do século XX” e “O sentido Novo da Política. movimento que tinha como objetivo a doutrinação.

apontada como responsável por uma transformação de toda 131 Rol n. . Maurício de Castro. proferiu uma série de conferências doutrinárias para divulgar a ideologia integralista. A partir daí. que fez parte do movimento Reforma Protestante. p. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. No dia 27 de novembro de 1933. pregando e organizando uma sociedade metodista por todo Reino Unido. sob as idéias de John Wesley. livro n. ministro da Igreja Anglicana que teve a oportunidade de viajar por cinqüenta anos. Sua visita foi fundamental para consolidar a fundação do núcleo municipal que ganhou muitos adeptos logo após a visita do Chefe em dezembro de 1933. 132 Em março de 1934. também Plínio Salgado teve atuação em Juiz de Fora. 1973. Após o lançamento da semente integralista. o chefe dos integralistas. 131 Segundo Maurício Corrêa. o professor iniciou o processo de divulgação e ampliação do movimento com a preparação de um forte veículo de propaganda através do jornal O Sigma. quando ocorreu a posse do professor Oscar Machado como primeiro chefe municipal do integralismo. Essas viagens tiveram como meta destacar os problemas sociais da época oriundos da Revolução Industrial. Transferido para Porto Alegre em 11/09/1934. um grupo de integralistas chegou à cidade ampliando a consolidação do movimento. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. Data de recepção na Igreja Metodista Central: 09/01/1930. nasceu na Inglaterra no século XVIII. instalou-se a organização da milícia integralista juizforana e da sede oficial do movimento.º 01. pág. 69. 132 CORRÊA. A Igreja Metodista no campo da educação O metodismo. além de Barroso. pelo Pastor César Darcorso Filho. 58.º 1719.68 dependências do colégio para Gustavo Barroso.

69 estrutura social inglesa. As idéias de John Wesley foram ainda a base da organização de uma educação destinada especificamente aos adultos. No decorrer do século XVIII. O metodismo chegou ao Brasil através das missões dos Estados Unidos. inclusive tornando-se muito poderosa na América do Norte. favorecida por uma burguesia em ascensão com características modernas e por instituições de ensino que começavam a ser criadas. civilização e progresso. têm o objetivo de transmitir os valores estadunidenses de liberdade. tendo uma primeira tentativa entre 1836 e 1841 e a segunda investida iniciada em 1876. Os metodistas além de quererem implantar a religião no Brasil. com vários princípios como o individualismo. sendo o maior movimento protestante dos Estados Unidos. os metodistas iniciaram um movimento de expansão religiosa com muito sucesso. o ensino ocupou um lugar privilegiado na ação social. na América Inglesa. com uma identidade liberal e progressista. Em pouco . presente no século XVIII. A Igreja Metodista em pouco tempo se expandiu por todo o Reino Unido. devido a uma política escravocrata e tradicional que era a do Brasil. Com isso a expansão do metodismo ocorreu no meio urbano. Com isso. Após o processo de Independência das Treze Colônias e a formação dos Estados Unidos da América. É nesse contexto que o metodismo chega a Juiz de Fora no ano de 1884. O metodismo chegou ao Brasil com os ideais do liberalismo já consolidados na América do Norte e foram justamente esses ideais que exerceram um especial atrativo naqueles que desejavam modificações. marca do Iluminismo liberal. tendo como participação a Igreja Metodista. a difusão do Iluminismo permitiu a abertura de novas formas de pensamentos religiosos. servindo para construir escolas destinadas a instrução de todos. no século XIX.

Olmstead apud MESQUIDA. no ano de 1890. . 133 as instituições metodistas de ensino privilegiavam os filhos dos membros da Igreja com o objetivo de criar homens de moral elevada capaz de influenciarem a comunidade em que viviam. Identificava-se como a nação 133 Clifton E. Em pouco tempo. 135 Letters of John Wesley apud MESQUIDA. cit. ponto estratégico usado na doutrina. teve uma característica básica em sua doutrina ideológica que era a de ser um movimento reformador e educativo. tendo como objetivo reformar o caráter e a vida dos homens. inclusive a cidade de Juiz de Fora. o metodismo se transformou numa das maiores forças educacionais da Inglaterra no século XIX e de forma rápida. 162. op. p. 1994. 134 MESQUIDA. 135 observa-se o pensamento do seu fundador sobre a educação. op. 146. p. desde os seus primórdios. Segundo Clifton E. Olmstead. avançou por toda a região mineira. Com esse objetivo. com a fundação de uma instituição de ensino. o Collegio Americano Granbery. Na segunda metade do século XIX.70 tempo. por isso a necessidade de se construir escolas. era a instituição religiosa de maior denominação e dominação nos Estados Unidos. 97. A educação passou a ser vista como um processo de formação contínua do indivíduo. Em Letters of John Wesley. 134 A educação metodista e o integralismo em Juiz de Fora A Igreja Metodista. Peri. o metodismo difunde na sociedade juizforana uma cultura protestante estadunidense. Peri. Peri. p. cit. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. de criar uma obra educacional com teor missionário. chegou aos Estados Unidos como uma grande força religiosa influenciando a vida e a cultura da população. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. pautada no liberalismo.

pois esse 136 Hooding Carter apud MESQUIDA. Segundo Mesquida. que está presente nos Estados Unidos.71 escolhida por Deus como dominante. mas também. O nacionalismo religioso metodista. devido à liberdade conquistada após a Guerra Civil. dando assim legitimidade ao expansionismo imperialista. Peri. o progresso e todas as forças racionais e morais que fazem o aperfeiçoamento da civilização americana.108-109. Segundo Hooding Carter. difundir. p. Peri. op. cit. É nessa linha de raciocínio. 137 o Journal of the General Conference of the Methodist Episcopal Church (1880) publicou que o metodismo dos Estados Unidos manifesta um profundo sentimento nacionalista e a aceitação à política liberal. O metodismo tem como objetivo onde quer que seja. 212. pela educação e liberdade. ou seja. os políticos os ouvem com a mesma atenção que suas próprias congregações. valores e ideais da América do Norte. A educação metodista passou a ser então um canal de convicção intelectual. por isso as instituições de ensino têm como propósito modelar e promover essas idéias. o ideólogo. obediente. . op. honesta. algumas missões procurando promover a ideologia estadunidense no continente. como diz Marilena Chauí. trabalhadora. 136 quando os pregadores metodistas falam. ao político. Essa dominação não só é restrita ao campo religioso. O liberalismo foi o principal referencial teórico dessa expansão. Por isso acreditava que as nações mais evoluídas tinham o dever de civilizar as nações mais atrasadas do mundo. p. formar uma população livre. que foi enviado ao Brasil. cit. propunha comunicar ao mundo. a cabeça pensante que tem como objetivo manipular a massa. 137 MESQUIDA.

154. formados pelo Instituto Granbery. Convite a Filosofia. 139 LÉONARD. a conversão das classes sociais importantes. entre eles a cidade de Juiz de Fora conhecida como o Vaticano do Metodismo Brasileiro. Emile-G. Os colégios metodistas mostram claramente o desejo de se dedicar particularmente à formação das elites. Marilena. pois não seria. sendo suas instituições educacionais. Esses. 55. São Paulo: Ática. Os missionários metodistas estavam conscientes de que era no interior que sua dominação ideológica iria ocorrer com maior sucesso. 140 é registrado que a doutrina tem como 138 CHAUÍ. nas grandes cidades. 140 Expositor Cristão apud MESQUIDA. p. 1981. Percebe-se mais uma vez que a instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação concedendo privilégios aos membros da elite religiosa. São Paulo: Aste-Juerp. desenvolver sua doutrina em municípios do interior. A Igreja Metodista. O protestantismo brasileiro. inicialmente. 138 A educação metodista passou a ser o produto das idéias e do pensamento e é assim que surgiu a ideologia como criação de domínio da realidade. 139 De acordo com esse pensamento. . p. No periódico metodista: Expositor Cristão. Peri. nada mais serão do que porta vozes dos ideólogos que é o próprio metodismo.72 grupo teve como finalidade transmitir o pensamento de todos de acordo com os seus interesses. p. pontos estratégicos para defender e propagar os princípios liberais. a educação metodista tem como objetivo estratégico. que era algo vangloriado pela elite intelectual e política.387. então. passa a exercer influência sobre a cultura da elite e da nação. op. 2004. pois as opiniões passaram com o tempo e com a força dos intelectuais a ser uma idéia vista como verdadeira e válida para toda a sociedade. cit.

políticas e religiosas do país. que irá conduzir perfeitamente a prática educativa pautada no iluminismo e no liberalismo. o liberalismo passa a ser a base de doutrinação dos estabelecimentos de ensino no Brasil. para que o colégio fosse um centro de influências poderosas e agressivas. Como já foi dito. A característica principal dessa educação era privilegiar o liberalismo. Partindo do princípio que foram os missionários estadunidenses que implantaram o metodismo no Brasil e. . E é justamente dessa exigência de criar uma mentalidade para se ter a hegemonia cultural que passamos a falar do Diretor dos Cursos Ginásio e Comércio do Instituto Granbery. existe a necessidade de formar uma concepção política nos educandos para que os ideólogos tenham a garantia de 141 MESQUIDA. Peri. Entre os documentos relacionados por Mesquida 141 . a educação. destaca-se o “Livro de atas da diretoria do Colégio Americano Granbery (18951912)” sobre o objetivo do corpo docente que era a de ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. marco da política e da economia dos Estados Unidos no início do século XX. a educação metodista tem como objetivo proporcionar uma doutrina de dominação ideológica elitizada desde o seu início com John Wesley. políticas e religiosas do país.73 objetivo resolver as questões sociais. por isso dedicaramse à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural.157. op. Já que a idéia inicial das instituições metodistas é a de formar pessoas que possam resolver as questões sociais. A ação da educação metodista pode ser vista como a conquistadora da hegemonia cultural. Os educadores queriam criar uma nova mentalidade no cidadão. p. conseqüentemente. cit. representante de uma sociedade considerada mais evoluída.

Marilena. mas certos grupos de domínio ideológico dentro da instituição. alcançando assim seu objetivo inicial. o chefe das milícias integralistas Gustavo Barroso. em 1933. É a partir daí que se observa uma força do integralismo dentro do Instituto Granbery. tendo inclusive. as palavras de Oscar Machado penetraram no corpo docente e discente do colégio.387. o Professor Oscar Machado era uma pessoa detentora de grande respeito dentro da Instituição. Cabe lembrar que não está sendo afirmado que o Granbery é integralista. no Instituto Granbery. que julgam as idéias verdadeiras e transformam-nas em idéias válidas para toda a sociedade. Em pouco tempo. O domínio ideológico de Oscar Machado começou no momento em que ele mesmo convidou para estar presente. p. um dos militantes mais destacados da Ação Integralista Brasileira. O professor Oscar Machado foi considerado um desses. Como já foi citado. que era formar um grupo anticomunista e posteriormente um integralista em Juiz de Fora. ele próprio. iniciou um movimento de persuasão de suas idéias como sendo de todos. que é alvo de análise. cit. o cargo de Chefe Municipal do Integralismo.74 seus interesses. muito menos a Igreja Metodista. moldando o pensamento de todos. . A responsabilidade da formação de uma ideologia é do ideólogo que segundo Marilena Chauí. 142 CHAUÍ. já que por ocupar um posto de destaque dentro da Instituição e por contar com todos os mecanismos a seu favor. op. 142 fica a cargo dos intelectuais. esse realizou uma série de conferências. membro da Igreja e com raízes metodistas. De acordo com periódicos de circulação interna. Ele foi o principal responsável pela divulgação e propagação do integralismo no Instituto e pioneiro na cidade.

Mas nas palestras realizadas por ele no Instituto Granbery nos dias 20 e 21 de outubro. Gustavo Barroso é um desses brasileiros preclaros. . Em uma de suas palestras. 1. desde já hipotecamos-lhe a nossa sincera gratidão. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. certos de que sua vinda ao Granbery marcará um ponto iluminoso nas nossas páginas e terá um dos mais raros acontecimentos na nossa vida colegial. que se impõe pela personalidade intangível e pelo idealismo sadio. deixa claro a sua defesa do regime fascista. Sua excelência não virá realizar um desejo seu. p. atender gentilmente a um convite nosso. bem como pelo caráter inflexível. colaborador de inúmeras revistas. Autor de cinqüenta e tantos livros. verifica-se que existe uma posição de doutrinação política nas conferências. conhecedor profundo de todo o movimento político do Brasil. porém uma filosofia que realiza um 143 O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. Gustavo Barroso. 1933. Certos de que tudo o que pleiteamos é pela honra da pátria. Como pode ser observado é muito claro no artigo que a vinda de Gustavo Barroso não tem ligação com a política integralista e com sua posição de intelectual. coloca-se ainda como líder invulnerável do Partido Integralista. Gustavo Barroso. pelo que. sim. o ilustre brasileiro Dr. saudamo-la na pessoa ilustre 143 do dr. 20 out. mas. Juiz de Fora.75 sendo duas delas dentro do Granbery. redator chefe do nosso popular ‘Fon-Fon’. que para ele não é uma simples ditadura. De acordo com um artigo do periódico O Granberyense: O Dr.

Gustavo. presidente da Academia Brasileira de Letras. em manipular as posições políticas dos dominados na instituição. com isso. 1. 144 De forma tendenciosa percebe-se a expansão do pensamento político de Gustavo Barroso. utilizando seu prestígio por ser 144 BARROSO. 19 out. 145 GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. realizar uma conferência literária. p. que é dado como verdade absoluta dentro da instituição. Diário Mercantil. que Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora com o objetivo de doutrinar. 1933. criando assim um novo sentido da vida. 120. Gustavo Barroso vem a Juiz de Fora a fim de. Observa-se. no jornal de maior acesso na cidade o Diário Mercantil: Deverá chegar amanhã à cidade. Essa conferência terá lugar amanhã. renovando e reconstituindo a doutrina política dos Estados cristãos. o ilustre escritor brasileiro Gustavo Barroso. . Vê-se isso como mais uma tentativa dos ideólogos. no salão nobre do importante estabelecimento de ensino. a convite do Centro Cívico do Granbery.76 projeto cultural na sociedade. O Integralismo de Norte a Sul. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1934. mesmo não sendo o divulgado pelo Instituto Granbery. A vinda de Gustavo Barroso foi algo noticiado em toda a imprensa local. Juiz de Fora. Essa passa a ter acesso a esse discurso. p. ou seja. nome de grande projeção na nossa 145 literatura. às 8 horas da noite. como se nota por exemplo. do grupo pensante. ao ensejo de ouvir a palavra encantadora de Gustavo Barroso. Vê se bem que o Granbery vai proporcionar ao mundo intelectual de Juiz de Fora uma grande noite de indizível prazer artístico.

O Granberyense. . em que Oscar Machado tem o objetivo de continuar. 1933. liderado pelo Professor Oscar Machado. 2. com esse projeto de expansão ideológica. 20 out. em que um grupo de intelectuais. inclusive da Igreja Católica.77 presidente da ABL. expandir por toda a cidade. inicialmente dentro do Granbery para. Mas esse não é o alvo desta investigação ficando restrita ao início do movimento dentro do Instituto Granbery da Igreja Metodista. observa-se na mesma edição sobre a vinda de Gustavo Barroso anunciado no periódico O Granberyense. onde contará com o apoio de diversos segmentos. Ainda nessa edição existe uma entrevista do Professor Oscar Machado com o título “Acerca de um movimento patriótico”. posteriormente. inicia um projeto de dominação ideológica da massa. Vasconcelos e nele mais uma vez notam-se passagens em que os pensantes se julgam superiores à massa: “A multidão não assimila idéias. Mas. Pode-se dizer que a presença dele foi o início da chamada dominação ideológica. comentando a visita de Gustavo Barroso e ali se pode perceber quais são as posições do Professor sobre o integralismo que começa a estar presente dentro do Granbery: 146 VASCONCELOS. apenas deixa-se fermentar por elas”. um artigo intitulado “Nacionalismo” de autoria de A. é visto que as idéias de Marilena Chauí são aplicadas em Juiz de Fora na década de 30. então. A. algo que irá ajudar muito os interesses integralistas. 146 A dominação intelectual é algo que está presente de forma explícita dentro do Instituto. p. Juiz de Fora. esse projeto não fica obviamente restrito à vinda de Gustavo Barroso. Continuando. Nacionalismo. De forma rápida.

que as palavras e as doutrinas integralistas entram na instituição com o apoio incondicional de um líder do próprio Granbery...) É isso que nós estávamos precisando ouvir o que ele disse. Juiz de Fora. 1933. então. Acerca de um movimento patriótico.. . De acordo com Oscar Machado. existe no Brasil uma inquietação que deve ser abolida. Pode-se. razão e espírito. mas completando.. Portanto. (. pois são as que mais se adequam ao espírito de vida dos que fazem parte desse meio. verificar facilmente...) O Integralismo une esses dois aspectos da vida pela influência do Espírito. exagera o aspecto econômico da vida (.) A principal dessas vantagens é a concepção filosófica que serve de base à doutrina integralista (. Essa é a 147 concepção totalitária da vida. Tudo resolve pela mentira do voto.) O Socialismo. 9. O Granberyense. Vê o homem total. por exemplo.. superpõe a ambas a Religião. integral – corpo. Oscar.. Quer vistamos a camisa verde ou não.78 Acho que Gustavo Barroso veio ao Granbery numa hora oportuníssima (.. considerado nesse meio 147 MACHADO. Logo tem lugar para a Economia e a Política. A grande maioria dos granberyenses reagiu favoravelmente diante do apelo feito ao espírito moço pelo eminente brasileiro que nos visitou (. Gustavo Barroso propõe a solução: ser integralista porque é mais vantajoso que as outras doutrinas existentes. todos nós devemos ser integralistas.. Crê o homem cívico..) A inquietação social contemporânea repercute enormemente em nosso meio (.) O liberalismo. 20 out. p.. do outro lado.. os granberyenses devem seguir as doutrinas do sigma...) Acho que o integralismo tem vantagens sobre as demais correntes políticas (.) As massas humanas precisam marchar para frente (. hipertrofia um aspecto do indivíduo..

(. (.. Não dão. (..) O movimento integralista é no sentido de integrar todas as forças sociais do país na expressão da nacionalidade. Para combater esses males. é a grande tendência do século XX.. (..) A Revolução integralista é um esforço para conseguir o equilíbrio. A sociedade é um conjunto de atividades profissionais em função harmônica. porém... (.) O sistema corporativo sobre o qual se baseia a organização social integralista visa precisamente a essa chaga social que é a luta classista.. (.(. 148 Ibid.. ..) E o Brasil precisa de um grande surto nacionalista..) O Integralismo... para tornar possível a disciplina.) O integralista tem certeza da 148 vitória. aliás. isto. Só existe unidade nacional quando existe unidade cultural.) O Integralismo.. As correntes políticas não dão unidade ao pensamento. ordem. Só assim pode o povo identificar-se com a Nação. que é o ponto de vista totalitário. decorre da concepção do Universo (. porque conservam o povo na ignorância. o Estado precisa ter autoridade para intervir e disciplinar a vida coletiva... crê na unidade de pensamento. Por isso é superior às demais correntes políticas. harmonia entre as forças que se processam dentro da órbita da sociedade humana. pela ausência do senso hierárquico e pelo desprestígio da autoridade.) O mundo contemporâneo caracteriza-se pela indisciplina.. como pode ser visto na seqüência da entrevista: Aceito a concepção integralista.79 um detentor da intelectualidade formadora de opiniões.

. publicado na íntegra no periódico O Granberyense: Desde o princípio dos tempos.. mas educação no sentido da criação de uma mentalidade nova que venha substituir a anarquia mental e moral deste nosso século XX. como já foi mencionada pela fundação do núcleo integralista na cidade e. pois as práticas do professor Oscar Machado. e. Um é o conceito da liberdade.) Senhores. serão de acordo com a doutrina integralista. Com esse discurso e com a idéia de ser o pensante da ideologia.) Queremos estabelecer um regime baseado em harmonia da autoridade com liberdade. que os ideais integralistas estão presentes no líder da instituição de ensino que ocupa o posto de diretor e professor de Sociologia. em pouco tempo essa fala será colocada em prática. dentro da instituição.. (. pela . algumas vezes se associado e raras vezes se integrado. de outro lado. como se observa na transcrição de um discurso feito por ele no momento de abertura das aulas em 1934..) Nós assumimos a direção do Ginásio e da E. o nosso maior problema no Brasil continua sendo o da educação. pelo qual se batem os indivíduos e as multidões. inclusive. as inclinações baixas dos desordeiros (. nessa entrevista. de Comércio numa hora em que graves acusações pesam sobre a coletividade granberyense no que diz respeito as suas diretrizes educativas (.80 Podem ser vistos. como diretor. que tem servido de um lado à audácia dos prepotentes.. O outro é o conceito da autoridade. tantas vezes mal interpretado. dois conceitos têm muitas vezes se chocado.. tantas vezes mal compreendido.

Diz ainda que quer estabelecer uma harmonia da autoridade com a liberdade. . Como se percebe. (. 150 Porque cria a consciência de necessidade.81 implantação da ordem. 150 SALGADO. o Granbery será dirigido com autoridade e educação e deve ter como objetivo a ordem. mas que a liberdade é o maior dom humano. integralistas. Só ela cria a disciplina. De acordo com Oscar Machado.) queremos um governo forte. O Granberyense. 63-64. São Paulo: Revista dos tribunais.. A doutrina do sigma.. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio. Pode-se ver uma transposição do ideário integralista dentro da instituição. 1935. ao analisar o discurso de Plínio Salgado: Nós. 15 abr. não falamos em ditaduras e sim ‘num regime’.. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. p.) quando nós. no Brasil (. Um regime é o que queremos (. Oscar... (. p.. Existe uma mistura das práticas integralistas com as ações existentes dentro do Colégio onde o propósito da educação metodista é a de criar uma nova mentalidade no cidadão e Oscar Machado propõe em seu discurso a formação de uma nova mentalidade educacional. 1934.. da disciplina e da 149 hierarquia. Oscar Machado diz que dentro do Instituto Granbery deve existir autoridade com liberdade e nos faz remeter a Plínio Salgado quando diz que o Brasil tem que ter um governo forte. O que se observa de oposto a esse propósito tão 149 MACHADO.. a disciplina e a hierarquia. Plínio.) não pode existir governo forte sem cultura forte.) a liberdade é o maior dom humano. 3. falamos em governos fortes. Juiz de Fora.

Por quê? Porque toda vez que ela toca a campanhia para a saída do refeitório. p. pelos pioneiros da educação metodista: o liberalismo. A partir de 1934. Eliza. No jornal integralista Acção de São Paulo é possível ver um relato do movimento em Juiz de Fora: Numa espetacular consagração: O Integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica: Juiz de Fora. horas de profundo entusiasmo cívico. 151 Podemos notar que realmente a doutrinação ocorreu e a massa teve acesso à ideologia proposta pelos pensantes. 1934. Juiz de Fora. A partir dessas doutrinações ideológicas. sob calorosos aplausos. 12. Mas o objetivo final é o mesmo: dedicar-se à formação das elites na esperança de conquistas à hegemonia cultural. a elite intelectual alcança seu objetivo..82 igualitário é a doutrina defendida. a comitiva que desta capital partiu no sábado.. sede da 17ª Região mineira. O Granberyense. . Miguel Reale. 27. era o integralismo. De fato o integralismo passou a fazer parte do Instituto Granbery. Já no tempo de Oscar Machado. Dois mil integralistas recepcionaram. Juiz de Fora já tem uma sede própria da AIB e o movimento na cidade passa a ter um destaque nacional durante todo o período em que esteve em funcionamento. Um exemplo claro do integralismo no cotidiano do Granbery pode ser observado no periódico da instituição na sessão “Um pouco de humorismo”. (. ela logo toma posição de sentido e estende a mão em correta saudação integralista. viveu no domingo passado. 15 abr.) A comitiva viajou de 151 UM POUCO de humorismo. em uma piada envolvendo uma funcionária do Granbery: “Até hoje a pessoa que continua como integralista irresistível é a D. sob a orientação do dr.

mas apenas elucidar alguns pontos no processo de sua consolidação na cidade com a forte presença do Instituto Granbery da Igreja Metodista. Miguel Reale (. mas sim. p. pois os privilégios serão dados aos filhos dos membros da Igreja com o propósito de influenciarem positivamente a comunidade.. políticas e 152 NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. muito menos do movimento de uma maneira completa. 1 dez. 1. . São Paulo. Não foi a intenção esgotar as informações sobre a fundação do integralismo em Juiz de Fora.) A minha impressão sobre o Integralismo em Juiz de Fora é magnífica.. O ponto principal dessa análise foi o conceito de ideologia que é sem dúvida a ligação entre as duas instituições..83 automóvel. a de promover uma discussão entre as doutrinas educacionais da Igreja Metodista com o propósito da Ação Integralista na cidade. com vibrantes manifestações dos camisasverdes locais (. Volto encantado com o alto sentido de disciplina dos camisas-verdes na 17ª Região 152 da Província de Minas Gerais. pois a educação metodista subsiste com o propósito de se dedicar à formação das elites. Após análise. sendo capazes de resolverem as questões sociais. O objetivo do estudo não é pesquisar totalmente o movimento em Juiz de Fora. Acção. 1937. o movimento integralista em Juiz de Fora merece um destaque especial na historiografia devido a sua força e as suas particularidades. quisemos ouvir o dr. sendo recebida em Juiz de Fora.. A instituição existe com o objetivo de formar a ideologia de dominação.) Impressionados com o entusiasmo invulgar dos elementos que constituíram a comitiva.

1934. Diário Mercantil. 2003. 1933. Os educadores. 1973. 19 out. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARROSO. também. São Paulo: Paz e terra. CHAUÍ.84 religiosas do país. Juiz de Fora: Letras e notas. a elite intelectual é o grupo pensante que influencia a consciência social e tem o poder de transmitir as idéias dominantes para toda a sociedade. Emile-G. Juiz de Fora: Trabalho apresentado ao IIº Prêmio de Pesquisa DCE. . Juiz de Fora. Mais uma vez. que como se nota tem uma forte influência dentro da instituição. Rio de Janeiro: Civilização brasileira. O protestantismo brasileiro. Gustavo. para que o Granbery seja um centro de influências poderosas e agressivas. grande defensor do movimento. São Paulo: Ática. Marilena. 2003. A inserção do metodismo em Juiz de Fora. In: Ideologia e mobilização popular. encontra-se o integralismo na década de 1930. CORRÊA. p. 1978. têm como objetivo ministrar a instrução sobre uma base moral e espiritual sólida. 1981. CORDEIRO. ___. Junto a esse processo de dominação. O Integralismo de norte a sul. São Paulo: AsteJuerp. 1. Ana Lúcia. São Paulo: Brasiliense. O que é ideologia. Convite a filosofia. Apontamentos para uma crítica da Ação Integralista Brasileira. LÉONARD. Ação Integralista Brasileira: seus reflexos em Juiz de Fora. GUSTAVO BARROSO chegará amanhã a cidade: a sua anunciada conferência no Granbery. principalmente através do Professor Oscar Machado. ___. Maurício de Castro. 2004.

p. 1949. As crises de um ideal: os primórdios do Instituo Granbery. 1933. RICOEUR. 5-176. SALGADO. digno presidente da Academia Brasileira de Letras! O Granberyense. São Paulo: Américas. Discurso proferido pelo diretor do Ginásio e Comércio. In: ___. 1. Karl. 15 abr. Plínio. MARX. 1982. 1935. Acção. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. ROCHA. pela ocasião em que se realizou a cerimônia da abertura das aulas. 1951. 1. São Paulo: Guanumby. Espírito da burguesia. O Granberyense. 1937. 1 dez. Gustavo Barroso. Arsênio Firmino D. A ideologia alemã. ___. ___. Juiz de Fora. 1997. A doutrina do sigma. São Paulo: Martins Fontes. Paul. Lisboa: Edições 70. 9. O conceito cristão da democracia. Rio de Janeiro: Clássica brasileira. 20 out. . 20 out. NOVAES NETTO. ___. 1933. ___. 3. Juiz de Fora. p. O GRANBERY orgulha-se de ter como hóspede de honra. ENGELS. Hegemonia norte-americana e educação protestante no Brasil. Obras completas. 1934. pp. Juiz de Fora. Ideologia e Utopia. Manifesto de outubro de 1932. p. 2002. ___. Histórias da História do metodismo no Brasil. São Paulo: Revista dos tribunais. p. NUMA ESPETACULAR consagração o integralismo realiza em Juiz de Fora a sua maior parada cívica. Juiz de Fora/São Bernardo do Campo: Edufjf/Editel. 1967. Direitos e deveres do homem. 1950. v. Friedrich. São Paulo: Voz do oeste. Piracicaba: UNIMEP. Oscar. 1994. Acerca de um movimento patriótico. 1956.85 MACHADO.15. Isnard. São Paulo. o ilustre brasileiro Dr. MESQUIDA. ___. São Paulo: Imprensa metodista. Peri. Mensagem às pedras do deserto. O Granberyense. 1986.

p. TRINDADE. VASCONCELOS. Porto Alegre: Difel/UFRGS. 20 out.86 ___. . 1979. 12. 1937. O que é integralismo. 2. SALVADOR. Juiz de Fora. São Paulo: Brasiliense. p. Hélgio. O Granberyense. Integralismo: o fascismo brasileiro da década de 30. São Paulo: Imprensa metodista. 1946. UM POUCO de humorismo. 1933. O Granberyense. 1979. Rio de Janeiro: Schmidt. História do metodismo no Brasil. 15 abr. VASCONCELLOS. O Integralismo brasileiro perante a nação. Lisboa: Oficina gráfica. 1934. ___. Juiz de Fora. Nacionalismo. Gilberto. A. José Gonçalves. 1979. Ideologia curupira: análise do discurso integralista.

em seguida.87 4. Imbuídos de uma mentalidade que mesclava uma contradição entre o moderno e o conservador. O INTEGRALISMO EM PERNAMBUCO: Uma história entre tantas da Ação Integralista Brasileira 153 Giselda Brito Silva (UFRPE) os estudos do integralismo no Brasil comportam uma série de fatores diversos que vão das questões externas às internas e viceversa. Aqui. que. consideramos que as questões relativas à chegada. situada na 153 Professora da Graduação e Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural de Pernambuco. mas também por se ter aqui uma sociedade cujo catolicismo era fortemente protegido por um grupo de famílias tradicionais e proprietárias que se amedrontaram com a chegada das idéias comunistas e com a crise da liberal-democracia. Aqui. discutir alguns dos fatores internos ligados ao surgimento e atuação da AIB (Ação Integralista Brasileira) no Estado de Pernambuco e suas especificidades locais e regionais. em sua maioria. característica comum entre outros intelectuais da época ligados ao pensamento político brasileiro. interessa-nos. Contudo. propaga a ideologia do movimento para seus familiares. . pertencentes às grandes famílias locais. particularmente. esses intelectuais locais tomaram para si a responsabilidade de propagar o movimento no Estado em clima de profunda euforia política e “revolução espiritualista”. atuação e expansão do integralismo em Pernambuco estiveram diretamente ligadas à ação de um grupo de intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. não se trata apenas de localizar discursos de um grupo de intelectuais católicos e tomá-los como a causa do relativo sucesso do Integralismo no Estado. Em nossas leituras acerca do movimento. É importante lembrar que os discursos e propostas integralistas encontraram neste Estado um campo de possibilidades de dizibilidade e circulação das idéias integralistas não apenas pelas condições sócio-políticas e culturais dos que lhes apresentaram. política e religiosa que contribuíram para a atuação e expansão do integralismo em Pernambuco. tivemos então como ponto de produção de sentido dos discursos integralistas uma base familiar.

Pátria e Família”. Segundo um dos meus entrevistados. o clima do pós—guerra. o sujeito ao ser apresentado lhe era imediatamente perguntado: quem é sua família? Você é parente de quem? Daí. constituindo-se num dos lugares de maior recepção dos discursos integralistas. Do outro lado. . dando-lhes uma identidade: pobres ou ricos eram marcados pela presença do catolicismo na estrutura familiar. Nesta sociedade. pedir benção aos mais velhos da rua. Assim. mais a concepção de recuperação dos valores morais e tradicionais centrados no lema “Deus. mais a crise econômica.88 desordem pós-1930 em meio aos conflitos mundias. e ex-integralista. político e ideológico. Parecendo mais. com grandes famílias tradicionais e políticos provenientes das mesmas. acreditava-se em céu e inferno e os comunistas tinham chegado para destruir essa fé. orar antes das refeições. é o fato de que Pernambuco dos anos trinta se caracterizava por uma sociedade profundamente católica. Entretanto. etc. algo unia os indivíduos desta sociedade. como diziam. Em nossas pesquisas percebemos que os pontos fundamentais da recepção do integralismo no Estado estavam diretamente ligados à ação e discursos anticomunistas propostos pelos integralistas. juntamente com a proposta de modernidade da sociedade. desclassificavam o liberalismo como um sistema político-econômico e social viável para uma sociedade organizada pela tensão da oposição ordem versus desordem. na sociedade. político. ainda relacionado às questões acima. As leituras das fontes escritas e orais são indicativas de um clima de grande tensão no campo social. geradores de uma profunda ameaça à ordem das estruturas tradicionais vigentes. ao deitar. Era comum às famílias irem à missa aos domingos em jejum. mas. Outro ponto fundamental. política e parentela serem os referenciais da sociedade rural que se estendia ao urbano. econômico e cultural ao qual se pertencia. o surgimento das idéias comunistas e a Liberal-democracia pareciam a esses indivíduos como incapazes de resolverem muitos dos problemas. A família era uma referência do lugar social. A proposta ateísta dos comunistas soava como uma grande ameaça às bases sócio-culturais de uma sociedade ainda muito presa aos valores das grandes famílias latifundiárias e conservadoras. que sustentavam um modelo patrimonialista e burocrático pelo qual se confundiam o espaço e as coisas do público com o privado.

Declarando-se insatisfeitos com os resultados políticos. que ganhava campo com as manifestações grevistas e um clima de agitação no Estado. Os principais responsáveis pela produção e reprodução dos discursos integralistas no Estado foram. como já destacamos.89 Dessa maneira. Adequando-se às necessidades locais. especialmente por Andrade Lima Filho e outros no plano estadual. fogem um pouco à regra geral da historiografia que parte das questões e influências externas como fatores motivadores do integralismo no Brasil. pesam. Não se tratava de discursos que foram silenciados. anticomunistas e antiliberais. e que garantiu à Ação Integralista Brasileira (AIB) forte atuação política e ideológica durante toda a década de 30. identificados como provas da desordem. promoveriam a segurança nacional e o fortalecimento do país. com pouco referencia ao fascismo ou ao nazismo. os discursos dos lideres integralistas no Estado. propondo uma “revolução espiritualista” com decisiva atuação na ordem social bastante próxima do conservadorismo aqui reinante entre as grandes famílias entre as quais circulou. o Estado reforçou os discursos de Estado forte com o Manifesto-Progama. Neste Estado. os intelectuais mais conservadores encontrariam na proposta integralista uma opção para a crise da “liberal-democracia” e para a ameaça comunista. O Manifesto de 32 fora lido em Praça pública e repetido nos bairros pelos quais se fundavam os núcleos. cujo conteúdo era o projeto político-doutrinário de um Estado Integral. A nação era apresentada como uma grande família formada por famílias menores que. um grupo de intelectuais e estudantes de Direito. mas que logo caiu em repetição e circulação. com remanescentes ainda nos anos 40. centralizado e hierarquicamente organizado em classes. o Integralismo foi apresentado à sociedade como um movimento espiritual de resgate das tradições e valores então ameaçados. Além da proposta política de um Estado forte e intervencionista. guiadas e orientadas por uma doutrina cristã católica. Surgiu como um movimento de idéias nacionalistas. O anticomunismo e o antiliberalismo formavam a unidade do discurso que em sua dispersão atingiam vários lugares de possibilidades de sentido. o catolicismo e o anticomunismo do movimento. mais uma proposta alternativa ao liberalismo e ao comunismo. . consideramos que o relativo sucesso da proposta integralista em Pernambuco. procuravam congregar o político ao religioso e aos aspectos familiares tão comuns na sociedade local. principalmente. Em 1936. sociais e econômicos da “Revolução” de 1930.

centro do Recife. Durante todo o ano de 1932. In: TRINDADE. os intelectuais foram um dos grupos que mais criaram expectativas com a campanha da Aliança Liberal em Pernambuco. quando então nasceu a Ação Integralista Brasileira. Inicialmente. o “Manifesto de Outubro de 32” recebeu este nome porque foi publicado nesta data.. entretanto o desencadeamento da Revolução Constitucionalista de São Paulo prorrogara a publicação para outubro de 32. seus depoimentos.123 . Integralismo: o fascismo brasileiro na década de 30. deveria ter sido publicado em junho de 32. Neste Jornal criaram uma coluna através da qual criticavam o Liberalismo. liberal.Segundo Hélgio Trindade. manifestaram-se publicamente em favor do integralismo através dos principais jornais da época. São Paulo: Difel. Através de artigos e enquêtes. rousseauneano. destacando o clima de desordem política e social. eles lançaram o “Manifesto do Recife” em apoio ao “Manifesto de Outubro de 32”. (. que só teria fim com a implantação de um governo forte que valorizasse os aspectos morais e espirituais”. por biografias. na hoje conhecida Praça 13 de Maio.90 Em Pernambuco. através do qual Plínio 154 Salgado havia lançado a Ação Integralista Brasileira. seus discursos se concentravam mais em criticas ao liberalismo apontado como o principal responsável pelo clima de instabilidade e gerador do comunismo: A origem dos erros e de todos os males de nossa vida republicana não foi a forma presidencialista. veiculados pelos principais jornais do Estado.. como um fomentador do espírito individualista “causador de todos os males sociais.) penso que só um regimen forte sera capaz de dominar a demagogia. p. Depois de 1930. alguns intelectuais passaram a declarar a falência da liberaldemocracia e a alertar a população para o avanço do comunismo. Declarando-se desorientados e desiludidos. Em novembro de 1932. o 154 . provocador de todas as revoluções burguesas e que talvez nos irá levar inconsciente e delirante até a revolução marxista (.. livros de memórias e outros evidenciavam a profunda frustração e desgosto com a política praticada pelo governo de Getúlio Vargas e seu projeto com a liberal democrático no período de 1930 a 1934. eles passam a ler em público o “Manifesto de Outubro de 32”. 1979. acrescentando à leitura outros discursos pronunciados por Plínio Salgado em São Paulo e no Rio de Janeiro.) foi o espirito individualista. Hélgio. especialmente através do Jornal Pequeno.. O “Manifesto”.

Todo o problema cultural.) Agora mesmo. 25. Todo o problema da reestruturação social do Estado. estudante da Faculdade de Direito do Recife. a indisciplina 155 latentes no nosso povo.11. . sob uma orientação nacionalista centralizadora: Nós precisamos é de um governo forte (. 26.11..Depoimento de Otto Guerra. Jornal Pequeno.. 05..1932. membro da “Ação Universitária Catholica e. Ha o econômico. Jornal Pequeno. No Brasil a grande geratriz das luctas armadas tem sido inegavelmente a política tortuosa dos partidos.Depoimento de Andrade Lima Filho. um “leaders da ‘Ação Universitária Integralista no Recife”. bem como chefe nuclear do Integralismo em Pernambuco. 157 .1932.91 revolucionarismo. posteriormente. diretor do “Quinzenário da Ação Integralista Brasileira. Temos vivido até hoje num clima revolucionario esse appello (sic) à revolução é no dizer de Hélio Vianna uma fatalidade dos povos sem educação social e política.. Jornal Pequeno.o facto político deixou de ser o unico a interessar o Estado.11.1932. O nosso problema é retomar as nossas tradições (.) precisamos de uma 156 orientação nacionalista.. 155 . 156 ... Ha o religioso.. Recife.. vejo a quase unanimidade dos collegas da Faculdade não dar grande importancia ao problema presidencialismo ou parlamentarismo.Depoimento de Alvaro Lins. posteriormente. membro da Ação Integralista Brasileira de Pernambuco. evidenciando a total descrença no Liberalismo e a crença na solução para o problema através da implantação de um governo forte: Morte ao Liberalismo .. a desordem.” Outros depoimentos eram mais diretos na defesa do projeto autoritário e antidemocrático. Hoje mais do que nunca precisamos de um 157 executivo forte.) o Brasil se verá livre das erupções subversivas." Outros apontavam a crise liberal como conseqüência do pluripartidarismo e das brigas entre os partidos políticos e defendiam o fim dos partidos. catedrático da Faculdade de Direito do Recife e membro da Ação Católica e. que recebe novas dimensões (. Recife.

bastando apenas. Por outro lado. nem de um discurso político construído sob uma base espiritualista contra uma materialista identificada como responsável pela desordem. Em alguns lugares é possível identificar discursos que se aproximam do nacionalismo forte.. (.) Para uns em determinado momento: um governo forte.. pautado na liderança de um chefe nacional que promete combater o comunismo e o liberalismo.) uma forma . apesar de no Estado prevalecer a questão do catolicismo e tradicionalismo. O mal que desequilibra o governo de muitos povos é o não saber obedecer.92 Estes são alguns dos fragmentos dos discursos produzidos no contexto que retomamos para mostrar o interdiscurso presente entre integralistas e intelectuais do Estado quanto a proposta de um governo forte. Ou seja. mas de discursos que circularam e não silenciaram porque encontraram uma sociedade na qual se visualiza uma produção de sentido. no respeito que todos sentissem pela idéia do util e do justo. sobretudo. não deixamos de identificar fragmentos de discursos simpáticos aos movimentos nacionalistas europeus.. resultando na defesa e credulidade do projeto autoritário e centralizador. que fosse obedecido em suas ordens.) Após a guerra a Alemanha não poderia por certo ter uma republica federal do tipo da Suissa. para outros (. As condições do momento naquelle tempo como ainda hoje não permitiam um governo cuja unica fortaleza estivesse apenas na fragilidade de sua estructura e. (. de uma proposta de Estado forte (a exemplo dos modelos que se observa na Europa). E quem não sabe obedecer também não sabe mandar. medo e ansiedade que circulava entre esse grupo que reproduz o discurso integralista. não se trata apenas de um discurso bem articulado entre o político e o religioso. mas das possibilidades de ser dito naquele momento e repetido por outros que passam a reproduzir os discursos integralistas. Lembramos aqui que a reprodução e circulação de um discurso não depende apenas de um enunciador(s). Pelos discursos acima se pode localizar as declarações de frustração... Entre alguns membros do “Comité Pró-Constituinte” circulava os nomes de Hitler e Mussolini: Mussolini tanto faria um bom governo com ‘fascio’ como com a republica..

especialmente a rural. O communismo (sic) não é uma solução (.. Folheto s. através de uma fórmula filosófica que defendia a harmonia social do político com o religioso: “.Depoimento de Gil Duarte. pela honestidade. na capacidade técnica. Em outro fragmento do discurso extraído do Manifesto de Outubro..d.) a grande coisa vem da habilidade 158 na aplicação. APEJE. p.. 5 . 2 160 . de suma importância para as famílias proprietárias que temiam a propaganda comunista: A questão social deve ser resolvida pela cooperação de todos (.) destróe a iniciativa de cada um (..) destróe a familia para melhor escravisar o operário.. ao campones. Vale pelo estudo. além de fazer uma reavaliação crítica da crise e dos males da liberal-democracia..) O capitalismo atenta hoje contra esse direito. tendo por fim o bem-estar da Nação e o 159 elevamento moral das pessoas”. que ameaçava a classe proprietária. Consideremos ainda que a proposta integralista.Prontuário 4938. pregava o fim da luta de classes e. ao marinheiro. 18..11. p. baseado como se acha no individualismo desenfreado. como já destacamos..1932 159 .Pró. homem vale pelo trabalho e pelo sacrifício em favor da Familia.. da Pátria e da Sociedade. "Membro do ‘Comité .. ao soldado. temos o investimento na questão da luta de classes e a proteção da propriedade privada.) O direito de propriedade é fundamental para nós. nas artes.... 158 . Jornal Pequeno.. conforme a sua 160 vocação (. (.) Temos que adotar novos processos reguladores da produção e do commercio. conseqüentemente.) até no governo da Nação. Os maiores fomentadores dessas idéias são. pela inteligência.. é a possibilidade de subir.Constituinte". DOPS . (. o fim da agitação social.Ibid.93 liberal (.SALGADO. alguns intelectuais que se declaram desiludidos com a crise liberal e ameaçados pela agitação social e o avanço comunista... destróe a religião (. pelo progresso nas ciências.. Plínio. Recife.) O que nós desejamos dar ao operariado. de modo que o governo possa evitar os desequilibrioss nocivos à estabilidade social. “Manifesto de Outubro de 32”.

conhecida como “Política do Café com leite” ou “Política dos Governadores” com suas fraudes eleitorais e voto cabresto. (. que a ameaça dia-a-dia. criadas pelo Interventor. precisa ter 162 uma perfeita consciencia do Principio de Autoridade”. Daí propunha investir no Partido Único como a solução para as brigas em torno do regionalismo e do separatismo: “Nosso ideal não nos permite entrar em combinação com qualquer partido político. que não estavam satisfeitos com as interferências do Governo no pós-30.94 A descrença nos partidos políticos era outro componente em destaque dos males da Primeira República. para vêr fructificar os seus esforços.. político e econômico e por ter aberto brecha para as soluções de esquerda.) Os municipios devem ser autonomos em tudo o que respeita a seus interesses peculiares. Dentro desta visão. como um cancro.7 . Alguns itens do “Manifesto de Outubro de 32” atraiam outros setores da sociedade.Ibid.4 162 . Acreditamos que estes insatisfeitos passaram a ver na proposta integralista de defesa da autonomia municipal. a crise da liberal-democracia devia-se não apenas à sua incapacidade de lidar com o problema social. e salvar-se do communismo (sic) internacionalista. As interferências nos Municípios causaram muita insatisfação nos proprietários locais que tinham acesso ao poder público local. porque não possuía um governo forte.” Para alguns desiludidos e insatisfeitos da época. a proposta de um governo forte e autoritário da Ação Integralista Brasileira era a solução ideal para a agitação social e o avanço do comunismo: “Uma Nação. capaz de se impor às classes.Ibid. Aqui também se destacava a questão do nacionalismo. mas. de modo a escapar ao dominio estrangeiro.. pois não reconhecemos partidos: “reconhecemos a Nação. para progredir em paz..Ibid.. principalmente.3 163 . (. Era o caso dos atingidos com as novas Leis Municipalistas..) Nossa Patria precisa de estar unidade e forte.. solidamente construida. No caso brasileiro. uma forma de reaver seu poder local: “O municipio é uma reunião de familias.p. a 161 . bastante discutida no período entre-guerras. que está 161 entrando no seu corpo.p. p. Declarando-se combatente dessa política. o integralismo vinha como um movimento de idéias dizendo-se contra os partidos políticos. quando este tentou moralizar as administrações municipais. para lograr prestigio no Interior e no Exterior. porque o municipio é uma reunião de moradores que aspiram o bem 163 estar e o progresso locaes”.

em virtude da instabilidade política do pós-30. o sertanejo das provincias nortistas e centraes. calús.) unir todos os brasileiros num só espírito. do outro a ação governo se encarregavam de confirmar tal perigo com “provas” resultantes da ação policialesca.) e 164 entusiasmo pelo Brasil.3-4 . pequenos artifices de São Paulo. os artistas.. o integralismo passava a ser visto como o único movimento de caráter nacional capaz de fazer frente ao avanço do comunismo em meio à agitação nacional. apontado 164 . os trabalhadores de todas as estradas. principalmente. para as questões de defesa ideológica. funccionarios (sic). que representa o capitalismo sovietico. o imperialismo russo. o integralismo alimentava essa imagem perigosa do comunismo. Levantamo-nos num grande movimento nacionalista.. engenheiros. De um lado. os professores. os marinheiros . o tapuio amazonico. p. calungas.. colonos sitiantes.) nós somos contra a influencia do communismo. aggregados.todos os que que ainda têm no coração amor (.SALGADO. operariado de todas as regiões. Como em Pernambuco as autoridades propagavam uma imagem bastante ameaçadora do comunismo. capichabas. que pretende reduzir-nos a uma capitania. o nordestino. gauchos dos pampas.. Aqui. os advogados. paroaras. os caiçaras e piraquaras. dentro do conturbado contexto que precedeu a Segunda Guerra Mundial. os medicos. a mocidade das escolas. a polícia se encarregava de divulgar a ação dos comunistas nas fábricas e comércio.) Eles se envergonham do cabloco e do negro da nossa terra (.. para afirmar o valor do Brasil (. os soldados.95 classe média nacional e local também enfrentava o dilema da crise liberal e do perigo comunista.(. Folheto citado.. Goyaz.. garimpeiros. os defensores do nacionalismo se sentem atraídos pela proposta nacionalista do Integralismo: Os nossos lares estão empregnados de extrangeirismos. Assim. influenciados pelas idéias nacionalistas do entre-guerras e enfrentando a crise local. O nacionalismo do integralismo expandia-se. Plínio. hervateiros do Paraná e Santa Catarina. vaqueiros.. (sic) Matto Grosso. os boiadeiros e tropeiros de Minas.

antagonismos demilitares e civis. fonte perpetua de espiritualidade (. eis o que é a familia. base da sociedade pernambucana: Tão grande é a importância que damos às Classes Productoras (sic) e Trabalhadoras. op. estadualismos em lucta pela hegemonia. Em oposição à ação dos comunistas. Pelo projeto integralista.) 165 Tirem a familia ao homem e fica o animal. Já no mundo do trabalho. facções locaes. Plínio. O problema familiar era associado. . à questão liberal que teria posto em xeque o matrimonio com a mulher sendo absorvida no mundo do trabalho.além dos valores morais. as próprias classes trabalhadoras masculinas. mas também porque apresentou um projeto que defendeu . evitando assim o perigo à propriedade privada. luctas de classes. a mulher nos empregos e na vida moderna colocava em risco a estrutura da sociedade e ameaçava a produção nacional porque desequilibrava as famílias e. caudilhismo.. cit. quanto a que damos à Familia... livre de todo e qualquer principio de divisão: partidos políticos. Neste caso. sob um “Estado forte e autoritário”. a solução para a crise estava centrada no sindicato corporativista. anttagonismo entre policiais estaduais e o Exercito. o integralismo se propunha a proteger a propriedade privada de tais idéias. principalmente. segundo eles. capaz de equilibrar todas as classes. entre o 165 . esperança de perpetuação no sangue e na lembrança affectuosa (sic). Segundos os integralistas. economia desorganizada.) estimulos de todos os dias.6-7. espirituais e nacionalistas . p. numa nova reorganização das classes.. a proposta integralista não se mostrou atraente para as classes conservadoras apenas porque defendeu soluções políticas e sociais para o contexto conturbado do pós-30.a estrutura familiar e proprietária.96 entre elas a causa das agitações e manifestações dos trabalhadores locais. entre o governo e o povo.. a luta de classes e a agitação social: Pretendemos realizar o Estado Integralista. Ella (sic) é a base da felicidade (. os males iam da inserção da mulher à penetração das idéias comunistas desorganizando o trabalhador.SALGADO. desenvolvendo o “espírito harmonioso”.

(. Recife.Ibid.8 168 . Ano II. p.) e influir mesmo no Mundo. Para estes. com uma nova proposta que não ameaçava as bases do sistema... todos os artistas.. bem como pelo que acenava o integralismo como solução aos problemas internos do país. 1974. Basta de tormento e de luta (. Tradução de Marilena Chaui. constatamos. investir na preservação do velho. anticomunista e antiliberal.“A Flama Verde da Esperança”.uma flama verde de esperança se estende no litoral hospitaleiro. entre estes e a massa popular. Dez. que o “Manifesto de Outubro de 32” deve ser melhor compreendido pela mentalidade da época entre os intelectuais e a sociedade. Pensava-se o integralismo como : . Pelo que destacamos até o momento.p..1. . nov.) na realização da grandeza 166 do Brasil (. Claude. Criticava-se o capitalismo.97 governo e intelectuais.8. à vista dos brasileiros naufragos condenados pelos desgovernos dos traidores... todos os scientistas(sic). que não resguardasse os valores espirituais.) levantemos mais uma vez o braço forte.LEFORT. mas.. p. e descansaremos à sombra do manto verde 168 as fadigas passadas. podemos dizer que o Integralismo ganhou o campo político de Pernambuco na década de 30 porque se adequou aos problemas locais. Alguns autores afirmam que o sucesso da proposta integralista ocorreu porque esta se ocupou em denunciar a decomposição da ideologia burguesa e de lançar medo na ideologia comunista. ao mesmo tempo.) Pretendemos mobilizar todas as capacidades technicas.. Out. Maio de 1935.. Estudos CEBRAP 10. prometendo. especialmente pelo seu discurso cristão. 167 . familiares e patrióticos sob um 167 governo forte. 166 . através da análise desses discursos. todos os profissionais (. propunham-se soluções dentro dele. Em Pernambuco. A Evolução. pelo que se buscava no campo das esperanças políticas e sociais. Esboço de uma gênese da ideologia nas sociedades modernas. E porque defendia uma proposta coerente com os anseios da sociedade. o integralismo tornou-se atraente também porque se ocupou de propagar a impotência de qualquer outra forma de governo..

1937.Editor. como consequencia natural. inimigos da Igreja desde a Idade Moderna.. também aprovavam o discurso espiritualista do Integralismo.37 . Fernando. e. Em 1933. pois. O apoio desses grupos ao integralismo. 1994. pois para esses “. Os 169 integralistas ofereciam um espetáculo de fé e esperança. 4 ed. Chatô: o rei do Brasil. em 1934. pelos católicos do estado. o 169 . da Ação Operária Católica (AOC).. o integralismo atendia.p. o Jornal O Escudo. levara setores protestantes da sociedade a reagir contra o integralismo. existe Alma. os integralistas projetaram uma imagem de unidade e fé. Segundo os protestantes. entre eles membros da Igreja Católica também viam algum significado no integralismo. o integralismo passa a ser assimilado entre os que defendem uma concepção de sociedade na qual o espírito divino se sobrepõe sobre as ações humanas guiadas pela mão divina. São Paulo: Companhia das Letras.MORAIS. além de simpatizarem com o discurso anticomunista do movimento que combatia o ateísmo. garantindo que “Deus dirige os destinos dos homens e do universo”. promove um retorno aos discursos de valorização do espírito sobre a razão e o materialismo capitalista.mesmo divergindo dos pontos cardeais da ideologia integralista.” Segundo os depoimentos. os membros da Ação Universitária Católica (AUC). da Juventude Católica (JC) e outros grupos laicos apoiados pelos reformadores da Igreja no Estado.357 170 . Pátria e Família”.98 Segundo Fernando Morais. Elas eram repetidas. como nos diz: “. tudo se relaciona com 170 estas duas idéas. Dessa forma. as grandes famílias tradicionais do Estado viam no lema do movimento as três palavras mais caras para a sociedade pernambucana: “Deus. declarando-o uma “Ação Intrigalista Brasileira” que teria vindo para fazer renascer a inquisição.” Os grupos católicos de maior representatividade no estado são os que fazem parte da Ação Católica Brasileira (ACB). encontro na arranda de sua mocidade um emocionante ponto de contato com o programa dos ‘Diários Associados’: ‘a unidade política e espiritual do Brasil’. O que é o Integralismo. Rio de Janeiro: Schmidt . com essa também se posicionam os intelectuais católicos ligados ao Centro Dom Vital. p. principalmente.. Plínio. por outro lado.SALGADO.. e muito. de orientação protestante.. e mais tarde.existe Deus. A concepção de homem e de universo defendida pelo “Manifesto de Outubro de 32”. aos fins pretendidos pela Igreja Católica. situado no Rio de Janeiro..

) O sonho dourado da Igreja Católica é tornar-se a religião do Estado para ‘salvar o Brasil’ o integralismo faz-lhe a risonha promessa de torna-la oficial (. é o heroísmo.. é o golpe cruel.10. é a religiosidade. é a blasfêmia. em face da questão religiosa. é o sangue organizado. é o sacrifício.99 Jornal Evangélico do Recife .) Não apoiamos este movimento porque a sua implantação entre nós importará na extinção de nossa liberdade.1934.) . Não. nem suas pretensões governamentais. A Defesa. é a virtude. problema que nos interessa sobremodo e que entra nas cogitações dos ‘senhores integrais’(. A esquerda é a violência. esse periódico circulava as seguintes idéias de Plínio Salgado: Todos os paises estão apprehensivos. é o incêndio.. E então adeus liberdade! A Idade Média ressurgirá com ‘todo o esplendor de suas 171 belezas’”. é o pudor individual e colletivo.º. é 171 .. A Revista Fronteiras é outro lugar de produção de sentindo dos discursos integralistas articulado na fronteira entre o político e o religioso. A direita é a união sagrada em torno da bandeira da Pátria. é o defloramento da massa. unica e exclusivamente. Ano I n. 11. momento de auge da atuação e expansão do integralismo no Estado.“O Integralismo e a Igreja Evangélica”. das tradições nacionais. sentem que estão se approximando os tempos em que cada qual deverá tomar o seu logar na esquerda ou na direita... . é o massacre. Em 1936. Analisa-lo-ei. (. é o assassinato frio. é a delicadeza do sentimento.A Defesa expressam suas leituras dos discursos e propostas integralistas: Não vou aqui analisar o integralismo sob o ponto de vista econômico. Também não encararei quanto à solução que pretende dar à debatida questões social.. 3. Recife. é a castidade. Todos aquelles que acreditam em Deus.

pelas quais se pode reforçar a verificação do investimento da AIB nestes campos: Si é verdade que a creatura humana se move. 173 SALGADO. agosto de 1936. sob a direção de Everardo A.. que sofre com o mundo.) por toda imensa carta geografia da Patria. vae afirmar os 174 direitos da família”. Em janeiro de 1936. Somos extremistas no culto 172 das virtudes. p. . Desta forma. anda hoje um balbucio de preces que elevam a Deus. que importa tenha a nossa Patria por castigo sobre os mãos. (Jornal integralista de divulgação da AIB na cidade de Pesqueira). Pesqueira. um pressuposto importante para o bem das famílias: “A gente desse Brazil. Recife: APEJE. de passar atravez de desgraças imprevisiveis? Agora. 22 de janeiro de 1936. Essa “Nação protegida por Deus” seria. o jornal A Marcha.. pelo seu livre-arbitrio.. alguns intelectuais católicos defendiam que. Recife. Pela revista A Ordem. sem possuirmos uma elite realmente adextrada que esteja em condições de por em 172 “Plínio Salgado”. “é inútil tentarmos influir no governo do paiz. Chamam-nos extremistas (. porém Deus conduz a sociedade. 174 Ibid. o ideal católico presente no discurso integralista foi particularmente influente na intelectualidade católica. Esse tipo de propaganda integralista alcançou grande sucesso nos meios católicos e entre as classes tradicionais da sociedade. Arquivos da Cúria Metropolitana do Recife. para que Ele vos guarde e 173 vos inspire. P. sofre com a revolução integralista. os povos. Fronteiras. “Perante Deus e Perante a Patria”. temos cumprido o nosso dever. então. como amanhã. christianizando a nação e o Estado. (. se dedicava a publicar notas do pensamento religioso e da família que compunham os discursos integralistas. 16.. Maciel. p.100 a honra de uma nação. In: A Marcha. na cidade de Pesqueira. nos seus livramentos geraes. na qual a proposta integralista foi bem aceita. somos a dignidade da Nação.) somos extremistas em nosso amor a Deus.3.

Cúria Metropolitana da Arquidiocese de Olinda e Recife. Expressando a união das idéias defendidas por ambos.. além de grande literário e nacionalista da década de 20 e 30. Recife.PORTO.Plínio Salgado na literatura brasileira”. que marcava o efeito de sentido dos discursos integralistas entre os católicos. é importante destacar a figura de Plínio Salgado que aqui em Pernambuco será reproduzida como um intelectual carismático cuja ação literária ultrapassa o campo das reflexões e vai passa a se dedicar ao campo das ações políticas.) era bem o retrato do Brasil. em 23 de maio de 1934.4 ..Quinzenário de Propaganda Integralista. jornal que posteriormente mudou seu nome para A Tribuna. 177 . em torno de nossas idéias 175 constructoras.APEJE.) seu nome é quase um simbolo e o observador criterioso dos nossos problemas não pode contemplalo. “Um Chefe . p.” Tanto entre os integralistas. Plínio Salgado.. . A questão da confiança na moral. com desdém que em nós provoca o espetáculo cotidiano dos nulos. criado sob rígidos valores moraes.. Recife: APEJE.” Além desse discurso imbricado entre o político e religioso. abril de 1932. Costa Porto colocou em palavras precisas a imagem que se tinha de Plínio Salgado no campo da literatura e sua projeção nacional: A figura de Plínio Salgado avulta com o brilho inconfundivel dos valores reais (. 176 A Tribuna Religiosa. publicou o seguinte: “Ação Integralista Brasileira inscreveu como princípios fundamentais da sua doutrina de conceitos eternos de Deus.) O literato 177 do Brasil (. na palavra dada era um costume da época que pesava na avaliação dos indivíduos. 30. A Ordem. (.. de Pátria. foi um homem de família altamente religiosa. 23 de maio de 1934. 26. nº.1934. realidade natural e imperecível que as teorias internacionalistas do judeu Marx e de seus 176 sucessores não conseguiram nem conseguirão destruir jamais. Segundo os depoimentos..101 movimento as grandes massas eleitoraes. Ação .09. quanto nos meios católicos temos a imbricação dos discursos anticomunista e antiliberal revelando a interdiscursividade. Plínio Salgado destacava-se diante de outros líderes políticos porque era 175 “Dever Cultural”. Recife. APEJE. Recife. José da Costa. Para os simpáticos do integralismo no Estado. que tinham definido sua personalidade. A Tribuna Religiosa. como governante supremo do destino dos povos.

. 178 . muitos acreditaram que o autoritarismo que permeava o discurso do movimento e do Chefe Nacional. tudo o que fizesse ou dissesse seriam sempre considerados como verdades. Com esta imagem e discursos. as classes pareciam agitadas e em conflito com os líderes revolucionários. ameaçando voltar ao poder nas próximas eleições e o comunismo ameaçava tomar conta da situação. Pátria e Família”.F. Naquele momento. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco.. C.01. Afinal. morais e religiosos. que a “Revolução” de 1930 não havia conseguido resolver. de dignidade. Plínio Salgado e a Ação Integralista Brasileira projetaram-se com grande impacto na sociedade pernambucana desde a cidade do Recife às cidades do interior do Estado onde passou a implantar núcleos que obedeciam as diretrizes da organização burocrática do movimento. especialmente dentro do contexto de descrença política do pós-30. J. as oligarquias continuavam atuando em seus domínios.. de Palavra e de Fibra (... Por isso. novembro de 1994.) foi uma filosofia para 179 o povo brasileiro .”. e era justamente o que o partido apresentava: Deus. J.SARAIVA.BRANCO. Plínio Salgado tinha respeito aos valores nacionais.o país naquele momento precisava de caráter. Pátria e Família.) 178 sentiamos que podíamos confiar nele. . de moral. Neste momento de descrédito nos partidos políticos.102 considerado: “. A disciplina e militarização do movimento eram apresentadas como os pontos fundamentais da seriedade do movimento e um modelo do que seria o Estado Integral.. com isso ingressou quase totalmente toda a classe alta.. a sociedade de modo geral aceitou (.. trabalhar pela Pátria e pela sua família. Resultado.um homem de Vergonha.. 179 .. que resguardava todos os valores ameaçados: . Para os integralistas.1994. Recife. e os defendia muito bem dentro da trilogia do movimento: “Deus. O indivíduo crê em Deus. Cabo. um novo dentro do velho. 07. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco.. era absolutamente necessário para organizar a vida política do país.. Significava uma esperança de mudança sem ameaçar o sistema. Plínio Salgado e o integralismo significavam uma esperança de moralização do campo político.

então. Este fato levou o integralismo a funcionar sob normas menos rígidas nos núcleos das cidades pequenas do que em outros núcleos instalados no Recife. implantar todas as normas rígidas do movimento sobre os membros de certas cidades significava arriscar-se a perder os poucos adeptos que havia conseguido. e estes para os distritais. os departamentos e secretarias responsáveis por determinada função enviavam ordens do Chefe Provincial para os chefes municipais. No interior do Estado. que se tratava de “ceder aqui para que o movimento cresça ali. No interior do Estado. nestas cidades as condições não eram tão favoráveis quanto no Recife. porque muitos temiam envolver-se num projeto político que não tivesse o apoio do poder local. Uma vez que. para que os núcleos fossem instalados e funcionassem com sucesso os integralistas precisavam do aval das grandes famílias locais. que tinham certa independência econômica e política. na “Província de Pernambuco”. a atuação e expansão do movimento ficavam.103 Por outro lado. onde o integralismo conseguiu instalar núcleos com o apoio dos estudantes da Faculdade de Direito do Recife. as dificuldades para se instalar um núcleo eram bem maiores. condicionadas ao apoio dos chefes locais. Sendo esse integralista todo o resto da família aderia. a quantidade de adeptos era pequena em relação aos núcleos da Capital. de onde saiam os intelectuais da Faculdade de Direito do Recife. Visto que. Devido a essa questão. O apoio do chefe de família era fundamental para o sucesso do integralismo no Estado. Em certos casos. Muitas vezes. se em Pernambuco o movimento foi recepcionado entre intelectuais católicos. onde o mandonismo local ainda era muito forte. isto não significava que o movimento tivesse perdido seu sentido doutrinário de formar a nação integral acima das forças particulares. Alguns chefes integralistas diziam nas reuniões. Para os lideres do integralismo. especialmente entre os economicamente dependentes. que não eram cumpridas. principalmente as mulheres e crianças que faziam parte da ala feminina e dos plinianos do movimento no Estado. Especialmente nas cidades do interior do Estado. onde foram instalados núcleos integralistas. para enfrentar as dificuldades locais. . comerciantes e outros profissionais liberais. Nesses núcleos houve casos de desobediência tolerada.” Tratava-se de adotar certas estratégias políticas. como era chamado o Estado de Pernambuco pelos integralistas. não podemos deixar de fazer referências às famílias católicas e tradicionais do Estado. a burocracia e autoritarismo do movimento atuaram sob condições locais bastante complexas. Em grande parte das cidades.

diante das dificuldades locais e para não perder os poucos elementos conseguidos. .104 não resultando. conforme dita o Estatuto da Ação Integralista Brasileira. Entendemos que. Entretanto.) venho agradecer a V.Excia o donativo de 500$000 (quinhentos mil reis) feito ao nosso movimento por intermédio do nosso companheiro Dr. (o grifo é nosso) A AIB em Pernambuco recebeu outros auxílios de proprietários locais que não eram inscritos na organização integralista. 180 . venha criar compromissos moraes e diminuição da autoridade do chefe nacional ou dos chefes provinciais. os chefes integralistas eram obrigados a adotar posturas “flexíveis”.º 4938 . quando os proprietários locais apoiavam. O apoio destes proprietários locais era muito importante para o sucesso e expansão do movimento em determinadas cidades do interior.. Chefe Provincial de 180 Pernambuco. Francisco Lopes Filho.1934 . 181 . ou municipais (. Belmiro Corrêa de Araujo. por excessivo. quer no ambito Municipal. essa também era uma postura contraria às normas do Estatuto da Ação Integralista Brasileira. principalmente no Nacional.” É importante destacar que.. Jornal Ação 14.. Alguns proprietários que simpatizavam com o movimento emprestavam caminhões para levar os integralistas do local para desfiles e comícios no Recife. recusavam-se a vestir a “camisa-verde” e a inscrever-se na AIB-PE para não se comprometer com outros acordos políticos locais.) A Ação Integralista Brasileira manter-se-á pela contribuição de todos os 181 integralistas. e.Sr. Contudo isto não impedia que o integralismo recebesse os donativos oferecidos.Secretaria Provincial de Finanças..10. que determina ser: expressamente vedada à Ação Integralista Brasileira.“Da vida economico-financeira da Ação Integralista Brasileira” Estatuto da Ação Integralista Brasileira.APEJE.Dr.. Donativo: Em nome da Ação Integralista Brasileira (.DOPS.. como era de se esperar pelos deveres dos integralistas.“Donativos”. na eliminação dos membros desobedientes. Prontuário Funcional n. como se pode ver pelos documentos da AIB-PE: “Exmo. receber donativos cujo volume. quer no Provincial.

10.) foi um grande sonho. Outras familias aderiram porque meu pai apoiou (. onde os indivíduos apresentavam-se com uma postura do tipo militar: fardados. eramos muito jovens e sonhadores. além de garantir novas adesões entre membros de sua família.) eramos agricultores da região e tinhamos parentes na prefeitura local (.”. Tinhamos muita esperança no movimento (. Vinculada a essas questões.. marchando e cantando o Hino Nacional. 14.. este fato não muda o temor que tinham de ingressar numa organização do tipo do integralismo. que enfrentava o regime e o governo instituído.. Bezerro. foram poucos os trabalhadores rurais que aderiram à AIB-PE: Além de simpatizar com as idéias do movimento o cabra tinha que ter coragem para enfrentar o chefe local. . Eu tive sorte. esse tipo de apoio significava ajuda financeira e material para o funcionamento do núcleo.. “movimento quanto maior.. líder integralista em Bezerro.MELLO. Devido à sua situação de dependência. Segundo depoimento do Sr.1995. Entrevista sobre o Integralismo em Pernambuco. Os investigadores do delegado ficavam olhando a gente de longe.. estava a adesão dos trabalhadores nas cidades do interior. O povo tinha vontade de 182 . Eu entrei somente porque queria uma nova organização política para o Brasil e pela religiosidade do movimento. o integralismo chamou a atenção com suas “caravanas” e desfiles. eles podiam até simpatizar com o integralismo. amigos. mais cautela havia. mas sua adesão estava ligada à simpatia ou adesão do seu patrão. José Antonio A. Mello. Muitas vezes. alguns empregados do campo também aderiram. porque minha familia era muito respeitada aqui e ninguém se atrevia a bulir com a gente.. participavam sem ninguém obrigar. cooperavam até vendendo galinhas para participar das conferencias do Recife. Entretanto.. Nestas cidades. José Antonio Mello.105 Como se pode daí aferir. Poucos se atreviam. trabalhadores e agregados. 182 Faltou apoio do povo e do exército. Como nos disse o Sr.) Tinhamos muita esperança no movimento.

o discurso comunista os mais repetidos e que produziam sentido nessas cidades e entre essas famílias. Também suas famílias dependiam de seus informes em épocas de férias e visitas desses intelectuais. 183 . A sociedade pernambucana se caracteriza. O que se percebe é que nas cidades do interior do Estado de Pernambuco os meios de comunicação eram muito precários e os jornais não circulavam entre a população. sendo a ameaça sobre a propriedade privada a segunda queixa. assim como nas cidades grandes. mas também tinham medo das conseqüências políticas. Pelos documentos da AIB que circulavam nas cidades do interior do Estado destaca-se com grande repetição o ateísmo do comunismo como um dos males que assolava a sociedade.106 participar. a conjuntura externa é muito pouco citada entre os documentos de Pernambuco. ficando essa mais alheia ao que se passava na Europa. desordem e ameaça das tradições do que em Hitler e Mussolini. a ameaça às raízes cristãs e ao avanço do comunismo como conseqüência da crise liberal do que idéias fascistas de um partido de massa aos moldes italiano e alemão. . Fala-se muito em anarquia. então. para depois se posicionarem. De qualquer maneira. sendo muito mais repetido o avanço comunista e a desordem da sociedade brasileira após a “revolução de 1930”. como um lugar de produção de sentido dos discursos integralistas por uma série de fatores internos. Pátria e Família”. Esses eram mais comentados pelos intelectuais que mantinham contato com o contexto externo. alguns dos quais não foram citados aqui. entendemos que o anticomunismo e o antiliberalismo em favor da preservação dos valores católicos e da estrutura famílias. principalmente. que o lema “Deus. 183 Esperavam a decisão dos grandes. constituem a base de atuação e expansão do integralismo no Estado de Pernambuco. Assim. foi o discurso católico e. De modo geral.Ibid. O governo e os lideres locais integralistas se dedicavam a propagar no Estado muito mais a desordem espiritual.

) Historia Geral da Civilização Brasileira III. criador. 185 LAMOUNIER. esteticista. mobilizante quer na deificação fichteana da Nação e do Estado. finalmente. Uma Interpretação ». Sociedade e Instituição a (1889-1930). Modernizar significava. Nas primeiras décadas do século XX. 2º volume. p.107 5. Boris (org. permitindo que se constitua um imaginário revolucionário nas gerações que vivenciaram aquele momento de voluntarismo e engajamento na questão nacional. no mito soreliano. possibilitando o surgimento de um número considerável de projetos políticos reformadores. carismático. Esse período é apresentado como o cenário da emergência de correntes de pensamento político. Brasil Repúblicano. 3 . Bolivar de. O LEGIONÁRIO INTEGRALISTA: um novo homem para uma nova era 184 Raimundo Barroso Cordeiro Júnior (UFPB) A historiografia brasileira. 362. . quer. 1977. social e estético. « Um pensamento Político Autoritário na Primeira República. Sua tradução no plano político é invariavelmente voluntarista. culminando com a “revolução de 1930”. em suas diversas abordagens. parte da juventude das grandes cidades brasileiras deixou transbordar suas expectativas político-reformistas. do Romantismo. redimensionar os critérios políticos de acesso. In : FAUSTO. Tomo III. identifica na década de 1920 a eclosão das condições históricas e intelectuais que dariam origem aos confrontos político-ideológicos das décadas seguintes. edição. A mentalidade revolucionária inspira-se no aspecto fáustico. econômico e político. Rio de Janeiro: Difel. conquista e permanência no poder. Os temas da identidade nacional e da realização histórica da Nação se apresentaram à juventude como chamamento à realização da tarefa de salvar o Brasil do arcaísmo social. A ação política vai estabelecer a tonalidade da colorida efervescência daqueles anos. pois. propondo formas novas de enfrentamento das temáticas da “velha ordem aristocrática”. quer em sua forma 185 anarquista. para além dos limites do circuito fechado das 184 Professor do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba.

“Cultura Política”. cuja profundidade foi atestada pela Revolução paulista de 1932.108 sociedades culturais. O nacionalismo é o principal mediador e o elo comum entre os projetos que se rivalizam nos anos 1930. Minas Gerais. pedra de toque de outros clubes pelo quais os tenentes desejavam conquistar a opinião pública e acertar suas próprias divergências. Foi a hora das legiões revolucionárias em São Paulo. 11 . Durante algum tempo. Daí surgirão os movimentos políticos que definirão a intensidade das mudanças. 306-308. foram arregimentados os pensadores militantes que se confraternizavam em torno da busca das raízes da nacionalidade. Dessa forma. o ativismo foi proporcional à incerteza sobre a verdadeira orientação do governo provisório. líderes políticos. PAQUINO. devemos entender por cultura política o conjunto de atitudes. In: BOBBIO. . 1998. Compõem a cultura política o conhecimento. Ele se apodera dos participantes da Revolução: tenentes.). atingindo uma amplitude significativa no seio da sociedade. os trabalhadores urbanos assalariados encontrarão no Partido Comunista uma opção a mais para mediar os conflitos com os patrões. a linguagem e os símbolos políticos que atuam sobre as instituições e definem as práticas e as forças políticas de uma sociedade. O nacionalismo virou regra geral para o ativismo das novas gerações preocupadas com a reconstrução do país. chefes locais. tendo como objeto fenômenos políticos. agremiações literárias ou simplesmente confrarias boêmias. ditadura do proletariado etc. mesmo que os objetivos fossem diversos e opostos (democracia liberal. Dicionário de Política. sob a direção de tenentes onde doutrinários como Francisco Campos. aproximavam-se em torno da noção de realidade nacional para dela tirar os ensinamentos emancipatórios da Nação. Antes dirigidos hegemonicamente pelo anarquismo. SANI. crenças partilhadas por membros de uma sociedade. a MATTTEUCCI. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Tradução de Carmen C. Esse novo universo social se constitui na mesma dinâmica em que seus membros se fazem como sujeitos de uma nova cultura 186 política . Ceará e outros locais. Conf. Giacomo. Norberto. do Clube 3 de Outubro. normas. O ativismo conquistou 186 Segundo Sani. Gianfranco. as tendências. Varriale et al. as normas. nas décadas iniciais do século XX. pp. Nicola. hora de conflitos entre os políticos tradicionais e os novatos. edição. a exemplo do Partido Comunista como novo elemento no interior das lutas pela organização e mobilização do operariado.

A Legião Cearense do Trabalho É na esteira das discussões e expectativas desse contexto de ebulição de idéias. 1974. 1986. após a “peregrinação” política de Severino Sombra. Edgard. João Alfredo de Souza. MONTENEGRO. Entre o Povo e a Nação. 189 Segundo MONTENEGRO. Cf. Ótica. O Integralismo no Ceará. Bardieff e Bergson. jovem tenente de orientação católica. A ação militante da intelectualidade. A Segunda República.. formado no interior da Reação Católica e 189 movimentos de recristianização. que aderiram às legiões. cuja militância se dirigia à organização e mobilização de trabalhadores. IOCE. de maior ou menor envergadura. 2. muito freqüentemente adversária do exercício puramente político. que surge a Legião Cearense do Trabalho (LCT). p. posto que o entendia como caudatário da inoperância proposital dos parasitas do poder. 75. Variações Ideológicas. . p.. São Paulo: Difel. a formação católica de Sombra baseou-se em Santo Tomás de Aquino. dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil. a enveredar pelos caminhos do engajamento partidário. 295296. Enquanto as outras agremiações pretendem o apoio da pequena burguesia. até as associações de profissionais 187 PÉCAUT. p. passou. criado pelo tenente Severino Sombra. sua direção e métodos assemelham-se aos dos movimentos fascistas fato que o aproxima 188 logo a Plínio Salgado. reacionários ou revolucionários. . movimento político filiado ao pensamento catolicismo integral. Daniel. do desvirtuamento moral em função do oportunismo e dissimulação dos políticos profissionais e da ignorância geral sobre o verdadeiro Brasil. fundaram centros. a Legião Cearense do Trabalho consegue a adesão do operariado. desencadearam movimentos e sonharam com a tomada do 187 poder. 115. ao fim dos anos vinte. antecessor da Ação Integralista Brasileira criada por Plínio Salgado.109 também os intelectuais. A entidade teve sua criação oficializada em 1931. A Legião Cearense do Trabalho. 188 CARONE. católicos. São Paulo: Ed. Os Intelectuais e a Política no Brasil. Fortaleza. 1990.

a partir de uma pauta de reivindicações que inclui bandeiras tais como co-gestão e divisão de lucros nas fábricas. incluindo dezenas de “Círculos Operários e Trabalhadores Católicos”. . engraxates. 191 PONTE. p. junho de 1933. considerado como elemento mediador das novas relações sociais que serão instauradas na nova era. entre outras. a sua prática sindical demarcou pontualmente bandeiras políticas aparentemente “avançadas” para a época. 1990. as seguintes: tecelões. Demonstrar às outras classes a exeqüibilidade deste projeto através da apresentação do operariado cearense “docilizado” e coeso. (mimeo.Universidade Federal da Ceará. Sebastião Rogério Barros da. automobilistas. Fortaleza: NUDOC . empregados em hotéis e cafés. Dessa primeira iniciativa foram conquistadas as adesões de 11 associações de diversas profissões. alfaiates. carpinteiros.) p. padeiros. 5. a LCT o define como elemento de propagação da possibilidade efetiva de construção de uma sociedade regida pela colaboração universal. As categorias profissionais que pertenciam ao elenco de sociedades inscritas na Legião eram. 190 Os fundadores da Legião Cearense do Trabalho aproveitaram os espólios políticos da Aliança das Classes Trabalhistas e da União Operária Cearense. trabalhadores portuários e gráficos. representando os interesses de elementos ligados ao trabalho assalariado e autônomo no Ceará. bombeiros. 2-3.110 existentes em Fortaleza. Através da valorização do trabalho é possível construir o mundo ético ideal. Ver : O Legionário. Da mesma forma. Ao incorporar o operariado à sua doutrina. Essas associações quase sempre possuíam uma estrutura ainda ligada à tradição do mutualismo e do assistencialismo. ambulantes. “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho. passa a ser então a estratégia política de reconhecimento social da direção legionária. ambas inativas no início dos anos 1930. sapateiros. enaltecendo a fraternidade acima das desigualdades acidentais. (1930-1937)”. Apesar do conservadorismo evidente do movimento legionário. empregados da Light. 191 190 A opção pelos trabalhadores revela a importância atribuída ao trabalho pela LCT. Muitas destas associações eram de natureza beneficente. O discurso legionário valoriza a necessidade de um instrumento de coerção social exterior ao indivíduo. lavadeiras e pedreiros. congregando cerca de 9 mil associados. a influência do pensamento tenentista sobre a doutrina legionária reproduzirá uma atitude de voluntarismo e bravura em face da causa da salvação do país e à construção da Nação.

e permanece hostil ao nosso movimento dizendo-se paradoxalmente. E elle a faz. p. Envolta num indifferentismo criminoso e de uma ingratidão lastimável. Este elemento concederia ao ideal legionário a autoridade e reconhecimento por parte daqueles que ansiavam por uma alternativa sociopolítica para a sociedade brasileira. O homem realizando-o deixa-lhe uma marca humana. os “injustiçados”. Assim. sua superior altivez ao ensinar aos “acidentalmente diferentes” o caminho para a harmonia universal. em sua causalidade como em sua finalidade.111 Entretanto. Mesmo em condições sociais adversas o homem pobre demonstra. elle trabalha para manter a sua vida e a de sua família com a dignidade que lhe exige sua condição de ser racional e livre. 02. A forma como a intelectualidade legionária pensa o trabalho e projeta o trabalhador procuram se diferençar substancialmente dos demais ideários políticos do período. os “humilhados”. por conseguinte. sem nenhum interesse individual (grifo d'O Legionário) tendo em vista. Executando uma obra o homem põe nella sua própria pessoa. nem sempre recebeu das classes proprietárias a compreensão e o apóio que esperavam pelo esforço de organização dos trabalhadores em torno da política de colaboração entre as classes. enfatizando os seus aspectos ideológicos orientados pelo humanismo cristão. quando ella é que seria a grande prejudicada na victoria do communismo. são pegos de empréstimo à causa da LCT como exemplo de boa vontade. 18 de maio de 1933. apenas o bem social. . o 192 O LEGIONÁRIO. O trabalho é «pessoal e necessário». anti192 communista. procurando reunir as classes trabalhadoras e orientá-las num sentido de ordem. a sinceridade e o desprendimento de como agimos. por intermédio de sua humildade e aquiescência à ordem natural das coisas. A centralidade do trabalho no discurso legionário tem seus vínculos com a origem católica do movimento. não reconhece a burguesia.

a LCT propõe que um elemento exterior .o Estado . Assim. quando transformado na ação que religa os homens e os liberta das ingerências imprevisíveis do mundo natural Ao mesmo tempo ressalta a infinita superioridade daqueles que se irmanam por ocasião do manifesto supremo de sua humanidade. cuja exeqüibilidade somente é possível pela aceitação inconteste do princípio regulador do Estado e do intelectual tecnocrata.controle a dinâmica das relações entre pessoas. portanto. tem o objetivo de despolitizar a Questão Social. . com consciência moral e dignidade fundamental idênticas e não simplesmente a 193 coisa fabricada. expressa sua essência autoritária. A relevância dada pelo legionarismo ao Estado. A positividade do trabalho humano destrói as desigualdades acidentais entre os homens. ser tratado como uma simples mercadoria. Sendo o homem originalmente inclinado para cometer ações maléficas à existência coletiva. Por intermédio do estabelecimento de um rigoroso quadro ético-comportamental. simplificada na sua suposta natureza ética. 1932. O Estado é a fonte e 193 SOMBRA. patrão e operário gozam do prazer de ver seus esforços serem consagrados no surgimento do produto. O projeto de valorização do trabalho e do trabalhador. o bruto. A obra realizada é uma obra coletiva do operario e do patrão que o dirigiu e forneceu-lhe o material necessário. E a associação entre os dois não pode ser regulada por um contrato tendo em vista apenas a produção. pois. 10. no sujeito instituinte de uma socialidade de tipo novo. p.112 trabalho está impregnado da pessoa humana. Esse contrato visa uma associação humana. enunciado fundante do ideário da LCT. do seu valor moral e não pode. ao passo que manifesta seu pessimismo em relação à natureza humana. o aspecto material da participação. estabelece o paradigma da colaboração e submissão política e técnica dos trabalhadores frente à intelectualidade vaticinada para comandá-los. o material. Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. uma união de homens livres. A militância responsável para novos comportamentos sociais. Severino. o Estado corporativista se transforma. considerado como o elo integrador do social. O Ideal Legionário.

com o intuito de dar prosseguimento ao projeto. mantiveram correspondência Salgado e Sombra. Para decepção do dirigente legionário.113 repassador de orientações éticas para o bom viver em sociedade e sua autoridade não pode. contra os “excessos e injustiças do capital”. nos moldes da pregação do “Manifesto ao Operariado Brasileiro” de 1º de maio de 1932: 194 PONTE. . A Legião Brasileira do Trabalho Passados os primeiros embates. em hipótese alguma. Entretanto. Nos planos traçados para a deflagração da LBT. Tristão de Athayde recusa o convite. aqueles que fariam da LCT e de seu chefe notícia política constante. indicando o nome de Plínio Salgado. tendo iniciada a revolução constitucionalista de São Paulo. Severino Sombra vai amadurecendo a idéia de transformá-la em um organismo classista de dimensões nacionais. 3. A “Legião Cearense do Trabalho” foi mais uma das várias entidades que surgiram inspiradas pela vontade de redefinir os rumos da vida política nacional. op. “Definindo-se como antiliberal e anticomunista. Encontrar em São Paulo um aliado que acolhesse a proposta de se tornar o representante do movimento legionário nascido no Ceará. Contudo. em julho de 1932. ser agredida por nenhum cidadão ou instituição da sociedade civil. Tristão de Athayde será o primeiro contatado para assumir esse compromisso. os principais aliados seriam Olbiano de Melo em Minas Gerais e Leão Sobrinho no Rio Grande do Sul. B. 1.cit. dirigentes de movimentos semelhantes a LCT. conseqüência da velocidade com que se arregimentavam suas forças. passa a ser o propósito quase exclusivo do chefe da Legião. p. Sua finalidade explícita era mobilizar e organizar os trabalhadores do Ceará. A Legião Brasileira do Trabalho (LBT) seria a vitoriosa expansão do ideal Legionário por todos os estados do país. a LCT pretendia organizar e educar o operariado cearense na defesa do trabalho contra os excessos do capital. principalmente. Sebastião R. mas 194 sem recorrer à luta de classes. Durante o primeiro semestre do ano de 1932. o apoio de São Paulo por sua importância no cenário político nacional. através da implantação de um Estado forte e centralizado. ficaram impedidos de realizar o encontro que certamente selaria a fundação da LBT. Da. e posteriormente do Brasil. conceito que abominavam”. Sombra buscava.

dentro da ordem. subindo ao poder o também tenente Jeovah Mota. que. Operários. ressaltando sua independência política. Ao chegar em São Paulo no momento da eclosão da revolução constitucionalista. Severino Sombra vai sofrer a primeira e definitiva derrota política. p. Esta nova fase representa o período da aproximação dos legionários com o recém-criado Movimento Integralista. a decisão de se aliar ao contingente político da AIB. . A partir dessa campanha de consolidação do Integralismo. passou a ser de natureza individual. pela sociedade. mesmo antes de chegar a Fortaleza. cujas propostas de política sindical atentavam explicitamente contra o modelo organizativo legionário. pelo Brasil.114 Ouvi sua palavra. vindo a presenciar em pouco tempo ampla repercussão dos ideais integralistas. Era certamente a oportunidade de manifestar sua oposição ao liberalismo da Revolução de 30 e especificamente a Vargas. in: O Legionário. Portanto. em breve. processou-se imediatamente sua substituição.isto é destituí-lo do cargo e de poder . e formae nos Estados. lugar de onde partiria por um tempo de exílio forçado em 196 Portugal. 01. 10 de maio de 1932. pelo 195 trabalho. Plínio Salgado divulgou seu manifesto no mesmo ano da revolução constitucionalista (1932). avante. 196 Severino Sombra permaneceu exilado em Portugal até o início do ano de 1934. Voltando ao Ceará com a finalidade de compor uma unidade político-militar de apoio aos constitucionalistas. marchando para o Futuro [sic]. foi confirmada ao desembarcar no porto. .o tenente Sombra passou a apóia-los incondicionalmente. sua prisão fora decretada pelo Presidente. reivindicando justiça e offerecendo à Pátria sua collaboração honesta e imprescindível. operários do Brasil. para que. Avaliando que os revoltosos paulistas pudessem sair vitoriosos do confronto com o governo Vargas . oficializado na sigla Ação Integralista Brasileira (AIB). S. Com a expulsão do líder fundador da LCT. Seu fundador fora aquele mesmo que se comprometera com Sombra na construção da LBT. realizará o pacto de adesão aos princípios de Salgado. Isto significa que cada 195 SOMBRA. a Legião Brasileira do Trabalho seja a grande organização victoriosas dos elementos trabalhadores. sob o novo comando. a LCT. doutrinária e institucional. outras Legiões.

ou a camiza verde oliva da mocidade pensante e laboriosa. Princípios como corporativismo. frustrou-se no Congresso Integralista de Vitória naquele mesmo ano. posteriormente. .. 197 O LEGIONÁRIO. ora cáqui ora verde-oliva. A aproximação entre as duas tendências reflete um grau de reciprocidade e parentesco de ideário. a maioria dos associados da LCT. permitindo-se. fato que merece relevância. 1. Estado forte. Severino Sombra o buscará a AIB. o Integralismo está organizado e representado pela Legião Cearense do Trabalho! Os operários desta província são soldados fiéis e disciplinados 197 da Legião Integralista. agrupada sob o estandarte do Integralismo. é o que se apresenta como perspectiva de autonomia da LCT. centralização política etc. (. alimentado pelo desejo de mudar aquela instituição pelas bases e a partir dela mesma. consolidou-se no cargo conquistando o apoio e a simpatia dos comandados. confirmou sua participação nas hostes do Integralismo. a conquistar a chefia geral. revezando na medida das circunstâncias e solenidades as camisas. a blusa mescla do Trabalho dignificante e dignificado. a tentativa de dividir com Plínio Salgado a liderança do movimento integralista e. Apesar da articulação realizada em alguns simpatizantes. 198 O rompimento foi motivado pela adesão de alguns legionários à Ação Integralista Brasileira. Chefe Jeovah Mota. O legionário pode vestir indifferentemente. patriótica e sadia.. pois. teria a ampla liberdade de unir-se aos membros da doutrina do sigma. 12 de agosto de 1933. No entanto. se assim desejasse. Apesar das evidências manifestas no acordo de “cooperação mútua”.. p. O seu substituto.) No Ceará.115 legionário. cujo sentido aponte para um mais profundo conservadorismo político de uma das partes acordantes. Mesmo porque o antigo líder rompera com a LCT e sua nova chefia antes mesmo de findar o seu período de 198 ostracismo . Assim. O retorno de Severino Sombra ao Brasil não significou a retomada dos trabalhos e a direção legionária. vislumbrar pontos de dissenso. o que representa uma demonstração notória de empatia com o credo político de Plínio Salgado. estiveram sempre em alta cotação no corolário doutrinário do legionarismo e do Integralismo.

a revolução que prometteu muito para fazer pouco. manifestaram sua oposição radical ao Governo de Vargas. pelo menos no que diz respeito à divulgação por intermédio da imprensa. p. .cit . 03. 11 de março de 1933. 4. O Pensamento Católico Reformista A LCT nasce das preocupações de jovens sobre o destino histórico do país. 200 O LEGIONÁRIO. as classes trabalhistas ficaram. 1990. frente única que articulou comunistas. inclusive. pela ascensão vertiginosa atingida pelo Integralismo.a conjuntiva nacional de 1934-1935 atraiu o operariado ora para o trabalhismo varguista. O declínio certamente atinge não somente as personalidades que garantiram a existência efetiva da instituição. orientando sua militância política pelo movimento de recristianização da modernidade realizado pela Igreja Católica através do apostolado leigo. da. por exemplo.chegam a acontecer brigas de ruas e invasões de sede . Sebastião R. p. sempre que lhes foi conveniente. Enquanto sombristas e legionários se hostilizavam . emergiram novas organizações operárias como a Liga Operária Independente que combatia a dominação 199 político-ideológica da LCT. Em outubro de 1930 “quando triumphava a revolução. No Ceará. no poder de dirigir as massas legionárias.116 O desempenho político da LCT em seguida será ofuscado. 199 PONTE. ora para um sindicalismo mais autônomo e combativo (face ao crescimento das forças democráticas em torno da Aliança Nacional Libertadora. liberais e antifascistas em 1935). envolvendo os chamados sombristas e os simpatizantes de Jeovah Mota. op. Efeitos previstos em função dos conflitos vividos no interior daquela agremiação. 8. socialistas.D. mas se verificou. Esses moços antiliberais não apoiaram a Revolução de 1930 e. janeiros que não fossem comparados aos quarenta da velha República que só miséria trouxe aos infortunados párias desse colosso 200 de Brasil”. mais uma vez na expectativa de melhores janeiros.

desde o apontar da auto-affirmação individualista da Renascença até o repugnante technicalismo capitalista americano. cit. onde se recalca em termos explícitos a impossibilidade da Igreja de se reconciliar com a sociedade moderna. (.) Lutar por esta humanidade jogada pelas tempestades que ella mesma semeou ao longo da história. Democracias individualistas. denotando o desapego moderno às coisas da espiritualidade.) Pio IX 201 SOMBRA. p. o repúdio do poder espiritual e a anarchia do poder econômico». O envolvimento da LCT com a Igreja católica é determinante. Seu projeto de sociedade integral. Os quadros legionários são representantes de uma formação política oriunda da experiência da juventude católica. elaborando um discurso que é a expressão organizada da Ação Católica. Nas democracias modernas vemos a «hipertrofia do poder político. S. inserindo-se nos planos de atuação da Igreja sobre a problemática do mundo moderno industrial. burguesas e materialistas que marcham para o suicídio.. . 12.. o pensamento legionário realiza a proposta para o apostolado leigo. inclusive para viabilizar sua fundação que se efetivou através do consentimento das autoridades eclesiásticas locais. ressaltando o processo de abandono da esfera religiosa invadida pelo laicismo materialista. (.. expondo as causas da desorganização social instaurada pelo capitalismo da Revolução Industrial e sua repercussão nos diversos aspectos da existência humana.. apresenta-se como a alternativa política para o liberalismo e o socialismo. A Igreja Católica apresentou suas críticas à modernidade. Lutar para salvá-la da conseqüência última de todos os seus erros 201 do comunismo catastróphico e aniquillador. porquanto tal sociedade quer excluir a Igreja e a religião da vida pública.117 A LCT representa um momento importante na história dos movimentos sociopolíticos nacionais. 1932. Dessa maneira. As premissas da concepção integral do catolicismo se encontram na Syllabus de Pio X (1864). op. montada sobre normas e preceitos católicos.

Brasília: Editora da Universidade de Brasília.) Ela [«Rerum Novarum»] se tornou também o texto básico do catolicismo integral. ed. dúvida sobre a viabilidade do liberalismo político no Brasil ou antipatia doutrinária em relação às próprias premissas do liberalismo. Os Intelectuais e a Política no Brasil. Desconfiança em relação ao funcionamento do capitalismo da época ou condenados por princípio de sua lógica. das categorias mais pobres e desafortunadas. In: BOBBIO. intransigente. É assim que se explicam as suas diversas intervenções. p. dando sobretudo a ordem social cristã um conteúdo consentâneo com os dados concretos do tempo. PAQUINO. temor inspirado pela multiplicação anárquica de interesses particulares ou pessimismo devido à desorganização do social: eis o que levou grande parte dos 203 intelectuais a aderir a uma ideologia de Estado. 1998. Leão XIII retoma a iniciativa. É reencaminhar os homens para os desígnios de seu destino glorioso. a Igreja se apresenta como defensora do povo cristão. Ótica. 636. Nicola. 44-45. Émile. . com acentuados aspectos sociais.118 mantivera-se na defensiva. São Paulo: Ed. 203 PÉCAUT. Gianfranco. de onde se originará necessariamente o movimento socialista.. a partir de mecanismos da planificação estatal. esquecidas pela nova ordem 202 burguesa. somente possível de ser reencontrado pela recuperação dos laços de fraternidade e harmonia universais. primeiro visando a restaurar nas escolas católicas uma rígida disciplina de pensamento com o retorno à tradição tomista. depois assentando as bases para novas relações entre a Igreja e o Estado e. 1990.. finalmente.(. p. Entre o Povo e a Nação. Contra a burguesia e a sua revolução. Norberto. que provocaram a desordem social. em conseqüência. Dicionário de Política. Daniel. 11. MATTTEUCCI. 202 POULAT. “Integralismo”. que se revela. Reorganizar a sociedade implica em redirecioná-la para o combate à degeneração moral e ética vivenciada na “Idade Moderna”.

Os equívocos. Quanto aos intelectuaisleitores de Joseph de Maistre. parece que há uma relevante colaboração daquela instituição religiosa na consolidação deste pensamento político. basicamente. e que seria dirigido sucessivamente por Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima. Charles Maurras. p. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. apesar da separação entre ambos estabelecida pela República. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. enraizados durante o Império e mantidos depois. Tom. bem como a capacidade dos agentes de escolher entre diferentes objetivos e projetos. William e BOTTOMORE. Francis P. cit. Os intelectuais devem se entender como “os bons e fortes” que se encarregam de reerguer os atingidos pela decadência civilizacional e corrigir “os maus e orientarem os transviados”. portanto. ao mesmo tempo em que propõe um engajamento ao apostolado emancipador dos males liberados pelos tempos corrompidos. . “Teoria social cristã”.sonhavam com a contra-revolução 205 católica. 27-28. In: OUTHWAITE. 205 PÉCAUT. Léon Bloy. mas significa que a teoria social cristã é. Daniel. Henri Massis. p.119 O clima de guerra contra os desvios da humanidade é ressaltado na pregação aos jovens intelectuais católicos. a miséria espiritual a 204 MCHUGH. uma teoria de 204 ação. op. Com a formação da sociedade católica se dará o cruzamento do destino político do pensamento legionário e os ensinamentos intercambiados pelos intelectuais do clero. simpatizavam com um racionalismo deliberadamente reacionário. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. o voluntarismo e o caráter intencional da conduta humana são enfatizados. certos bispos esforçaram-se para arrancar a Igreja de seus costumes de submissão diante do Estado. 1990. Na teoria social cristã. O movimento católico organizado nessa época em torno do Centro Dom Vital. reduzir os intelectuais que sem dúvida. as injustiças. inicia-se um amplo processo de divulgação da palavra da hierarquia católica sobre as contradições do mundo moderno. A partir de 1916. Isso não exclui a análise e discussão de estruturas. Se o encontro desses jovens com os incansáveis peregrinos da Igreja conduziu parte da juventude cearense ao seio doutrinário do Integralismo. 1996. A partir de então. 160. na medida em que devem encarar sua missão histórico-espiritual como uma cruzada em favor da recuperação da pessoa humana. Jacques Maritain e outros .

recairão as responsabilidades de se transformarem em reformadores sociais. modelada a partir do “Ideal Legionário”. Francis P. desempenhando um grau de importância significativa na prática política de seus militantes. É uma proposta que se lança acima da experiência democrático-liberal e do pensamento revolucionário e socialista. a saber. cit. É nesse clima de arregimentação reformista que Severino Sombra encontra resposta positiva ao seu projeto de sociedade. congregando leigos e clérigos. Esta militância em forma de apostolado. operários etc. Na discussão sobre as matrizes intelectuais. moços católicos. 206 De acordo com Mchugh “a teoria social cristã pode ser encarada como práxis. p. a Revolução Francesa. por em prática um projeto integral de homem e sociedade. no sentido aristotélico de um estudo da sociedade com um fim. op. Cf. Em uma palavra. defendendo a idéia de retorno a um universo existencial mantido e substantivado por fundamentos éticos. Portanto. MCHUGH. democracia. socialismo e comunismo são momentos indistintos de uma só origem causal promotora do dissenso social. agora transformada em quadros da Ação Católica. A influência dessas idéias na formação intelectual legionária é evidente. políticas e doutrinárias da LCT. recriando um organismo social de acordo com os princípios da Igreja. visava. a compreensão é que liberalismo. quando se iniciaram movimentos católicos de oposição ao Estado liberal em defesa do direito da Igreja de definir e decidir sobre os modos de vida na sociedade moderna.. na medida em que esses programas prático-doutrinários são entendidos como elementos originários de uma matriz histórica. a tarefa da juventude. 160. Segundo FERRARI (1998). constata-se a presença indiscutível do pensamento reformista da Igreja Católica. para além da simples recondução daqueles que se afastaram da fé. Sobre as novas gerações. . será a de libertar a humanidade dos males provocados pela indústria e pelo liberalismo. corrigindo os descaminhos históricos da modernidade e reconduzindo a sociedade à sua idade de ouro perdida e desprezada pelos excessos do materialismo. qual seja. o de facilitar o florescimento de uma vida boa e justa na polis”. leigos. a participação dos leigos nas atividades apostólicas da Igreja através do movimento católico. constituir-se-ão nos alvos da 206 práxis do catolicismo reformista. seja nomeada como Ação católica ou ação dos católicos. remonta à primeira metade do século XIX.120 materialização das relações humanas.

Reconstituir esse passado remoto . elle se torne um collaborador honesto e consciente das outras classes. quando se viveu uma época resplandecente de paz e estabilidade social. Severino.somente seria possível através de uma ação prático-política de convencimento das classes sobre a necessidade de uma nova ordem social eticamente sustentável.. . alimentando esperanças de retorno a um mundo ético abandonado. op. sua intervenção no mundo do trabalho dá-se com o intuito de “harmonizar” a realidade moderna industrial caracterizada pelos efeitos danosos do “machinismo”. Esta é dominada pelo individualismo e nós já não passamos sem o sindicalismo.. p. protegido. E quanto mais nos associamos. o corporativismo. com vistas a recristianização da sociedade. cit.) Nós precisamos sobretudo defender o trabalho. Defendê-lo do liberalismo econômico que. mas. O legionário – um novo homem para uma nova era Ao se apresentar como crítico do comunismo e do liberalismo por intermédio do ideário cristão reformista. A «Legião» organiza o operariado para que.121 5. (. 09. do “tecnicalismo capitalista” e da “auto-affirmação individualista”. Defendê-lo do communismo que. Nós estamos vivendo uma extra-limitação da chamada Idade Moderna. parecendo exaltá-lo. educado e coheso. Neste sentido. Vai longe o tempo em que Turgot podia dizer que a fonte de todo o mal era a faculdade de associar-se outorgada aos operários de uma mesma profissão. o movimento político da LCT se distingue de outras experiências conservadoras de inclinação fascista no país. reconhecido ou ignorado. Convém ressaltar que o seu desempenho político não é dado somente por seu discurso de oposição aos agentes da “desordem social mundial”. 1932. quanto mais fugimos ao signo 207 SOMBRA. regula actualmente suas relações com o capital. por suas características organizativas junto às massas trabalhadoras. sobretudo. rebaixa-o a uma 207 condição servil anti-humana.a idade de ouro perdida .

122 do individualismo. e arrasta 209 pelo mundo uma vida parasitária. menos artificial e em que predominam os valores moraes sobre os valores econômicos. vida. realiza um discurso apologético sobre a sociedade do trabalho. qual seja. vontade. Assim. ao mesmo tempo em que elabora uma crítica aos efeitos da sociedade moderna sobre o homem. Era mais simples. não se querem submeter à lei do trabalho. integral e não inhumano como o que criou a cultura moderna e conseqüentemente sua civilização. 03 de feveriero de 1934. 208 Ibid. 01. mais ultrapassamos as fronteiras na Idade Moderna e penetramos na Idade Nova que viverá sob o signo corporativista e orgânico. Era em que a humanidade esteja menos asphixiada pelos vapores da machina e possa retomar o ritmo humano que perdeu em contato com os machinismos. 12-13. a sua militância se desenvolve em meio a uma aparente contradição. 208 sangue. segundo tudo faz crer. A lei universal do trabalho imposta pelo próprio Creador à humanidade há de ser cumprida até o fim dos tempos. mas para o advento da qual empenharemos intelligencia. a LCT optou por eleger como parceiro-interlocutor os elementos das classes econômicas. p. Era que se estabeleça sobre um humanismo real. Todo homem tem a obrigação precípua de trabalhar para ganhar o necessário à sua subsistência e a daquelles por quem é responsável. A especificidade do movimento se manifesta quando a ação política legionária se volta para o trabalhador e a partir deste sujeito coletivo inicia o caminho de retorno ao “mundo bom”. p.Era que não alcançaremos mais. como uma necessidade invencível Maldição para os que. Enquanto o Integralismo de Plínio Salgado prezou por uma abordagem de raízes culturalistas e destinou sua mensagem para as chamadas classes médias urbanas. 209 O LEGIONÁRIO. . negligentemente.

para a formação das mentalidades futuras. A catequese legionária manifesta sua fé na sociedade nova. O projeto pedagógico da LCT será liderado pelo Padre Helder Câmara. Sem instrucção será quase impossível realizar as aspirações operárias a completa 210 reivindicação dos seus direitos. para disciplina e consciência das massas operárias que amanhã teem de continuar. visando normatizar suas ações fora e dentro do lugar da produção. ao se projetar sobre o mundo de vida da coletividade ligada ao universo do trabalho. diurnas. A ênfase dada à educação dos trabalhadores aproxima o pensamento legionário da noção iluminista de emancipação por meio do esclarecimento. da colaboração entre as classes e da re-espiritualização do homem. levar desde a escola primária o influxo dos ideaes.com a instalação de escolas inicialmente noturnas e.adultos e principalmente crianças . O discurso legionário se apresenta como regime disciplinar. a LCT promoverá insistente reflexão sob a necessidade de preparar um novo homem para a nova era. fundada sobre as bases da hierarquia (à semelhança da Igreja Católica). . Para nós. Helder Câmara conquistará 210 O LEGIONÁRIO. 02. o papel pedagógico da missão legionária excede as preocupações de natureza imediatista. ou realizar a obra patriótica de reorganização nacional por que nos batemos actualmente. Desta forma. p. dos princípios que devem servir de base à formação mental do Brasil novo! As escolas legionárias e jocistas estão nesse caso. 08 de abril de 1933. mentor e organizador de um programa de educação operária . entretanto. militantes legionários e integralistas. é fundamental para os seus projetos estabelecer os mecanismos possibilitadores de uma visão de mundo operária ancorada no ideário da positividade do trabalho.123 Para que se realize a promessa de um novo mundo. não há melhor caminho a seguir do que formar a alma da mocidade escolar. Portanto. solidária e produtiva. sem aderir aos princípios políticos da Revolução Francesa. abastecida pela vigília perseverante que observa os princípios de um novo humanismo. em nome da reabilitação da imagem original de sociedade orgânica e harmônica. As escolas legionárias funcionarão com professores voluntários. posteriormente.

A recristianização da sociedade impunha não somente um esforço de condução da sociedade a uma convivência coletiva mediada pela espiritualidade. 06 de novembro de 1933. depois o atributo do vosso trabalho . autorizado por S. em setembro de 1931 (. Dessa forma. transforma-se na finalidade precípua do legionarismo. detestaes o quanto possível o jogo. Inculcar no meio dos trabalhadores as noções de decência. Em 11 de fevereiro de 1932 o padre Helder Câmara. 06 de maio de 193. é estimulá-lo a acreditar no caráter sagrado da ordem social. Como os operários são os interlocutores imediatos da ação ressocializadora da LCT. seja qual for o vosso mister. o Sr.. p. entregae-vos a vosso trabalho. mudar o comportamento do homem pobre trabalhador.. Portanto. antes que sejam capturados inteiramente pelo superficialismo da sociedade industrial.. convinha iniciar essas tarefas para sua pronta conversão moral. legionários. retidão e altruísmo. do sensualismo do consumo. 212 O LEGIONÁRIO.o salário .) De setembro de 1931 a fevereiro de 1932. ressaltando os aspectos sacralizantes da família e do trabalho. só se efetivará quando todos reconhecerem a essência corrompida do mundo moderno. . 03. Arcebispo Metropolitano a 211 abrir as escolas da JOC. o jocismo realizou núcleos de divisões para a meninada pobre em todos os arrebaldes da cidade. 04. da perda da espiritualidade. p. prepondera no ideário da LCT corrigir os hábitos perversos próprios dos regimes liberais e do programa comunista. Para tanto. Assim. dever. Essa preocupação de natureza ética está definida no discurso legionário. a fim de effectuar as despezas da 212 subsistencia necessária à vossa família. A superação dos males que impregnam a humanidade de “materialismo”.levae para casa.JOC. é necessário indicar uma 211 O LEGIONÁRIO. mas estabelecer mecanismos de manutenção da harmonia e de defesa dos valores fundamentais da pessoa humana. Excia. O jocismo foi fundado em Fortaleza pelo tenente Severino Sombra..124 notoriedade e respeito a partir da organização da Juventude Operária Católica .

. E revelando.) O racionalismo católico tendia. cit. o catolicismo desvinculado dos condicionamentos sócio-culturais determinando a incidência natural do moralismo. o aviltamento inconseqüente das 213 ciências empíricas. quando a “intuição” assume um papel relevante na orientação do homem frente às evidências das realidades concretas. Dessa forma. op. agindo de maneira voluntarista e altruísta para a conquista da comunidade ideal. p. neste ponto de vista o desconhecimento das virtualidades espirituais e éticas do cotidiano da técnica. dos valores sociais. A terceira via se apresenta na proposta do corporativismo onde.. opondo-se às expectativas contemporâneas de se transferir para a ciência o papel de orientadora das ações humanas. exacerbando a soberba do racionalismo e do antropocentrismo antiespiritualista. Daí o sobrenaturalismo. 1986. Assim. a LCT defende um mundo e uma vida social livres 213 MONTENEGRO. 61. O que o tradicionalismo mais radical não aceitava era a subjugação das consciências. pelo imediatismo das práticas empíricas. O discurso legionário defende um modelo de sociedade orgânica baseada em princípios ético-religiosos. seriam transpostas todas as barreiras históricas à solidariedade humana. da racionalidade social. (. O pensamento legionário considera que o intelectualismo aprofunda as contradições da modernidade e aprofunda o distanciamento do homem em relação à unidade divina criadora. quais sejam o tradicionalismo radical e o racionalismo católico. por conseguinte. É para o movimento de recristianização que o legionário volta seu apostolado. João Alfredo de Souza. do afã utilitário.125 alternativa de organização social que substitua o capitalismo e o comunismo. . segundo o entendimento dos intelectuais da LCT. pelo utilitarismo que acabava anestesiando o sentido transcendental. da visão superior do homem e da sociedade. A rejeição ao intelectualismo e à razão pressupõe a tese da livre manifestação do Espírito. a delimitar em campos opostos o espírito e a matéria. o transcendente e o imanente. expressa duas características ideológicas fundantes do seu ideário.

o patrão e o operário. posto que dela surgirão as condições de possibilidade de instaurar a nova era. que pode sintetizar o sentimento de oposição às sociedades modernas. O indivíduo. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. . através de uma sociedade que seja realmente um fim para o indivíduo e um meio para a pessôa desenvolver-se e attingir seu 215 fim der ser racional e livre. 115-117. elaborou uma explicação sobre as diferenças entre sociedade e comunidade. Tom. Sonhamos com a volta a uma vida mais simples. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. cit. a atitude negativa quanto aos partidos políticos corrobora a finalidade social do programa legionário. do egoísmo desenfreado. p. 1996. 1932. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. 216 Ibid. Lutaremos contra a introdução das machinas. o combate ao individualismo e a revalorização da pessoa. o governante e 216 o governado”. a Idade Moderna e a Renascença promoveram o surgimento do indivíduo e provocaram o desaparecimento da pessoa como fundamento de todas coisas. 19. o sociólogo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936). “Comunidade”. da ambição desmedida. mais humana (grifo nosso). Neste sentido. 17. Embora não se furte de imaginar a construção de vias que possibilitem o acesso dos trabalhadores ao poder. contemporâneo dos movimentos conservadores do início do século XX.126 dos artificialismos produzidos pelo individualismo. SHORE. pp. qual seja. exemplo de solidariedade verdadeira. contraria os princípios da vida comunitária. Repellimos o technicalismo monstruoso da civilização yankee e que a Russia communista quer imitar. p. Cris. 115) 215 SOMBRA. 214 Embora o conceito de comunidade seja “vago” e “evasivo”. op. Cf. onde as diferenças casuais são esquecidas pelo princípio moral promotor da “igualdade essencial entre o rico e o pobre. p. Lutaremos contra a mecanização cada vez mais intensa da vida. William e BOTTOMORE. Para isso seria preciso recusar frontalmente a estrutura partidária atomizadora dos homens. S. De acordo com o pensamento legionário. In: OUTHWAITE. resultado deplorável do orgulho possessivo. a finalidade dessa conquista está associada a 214 um movimento de retorno do homem à vida comunitária. segundo Shore. A palavra de ordem é estimular a união operária.

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Em conseqüência disso, a proposta cooperativista da vida em comunidade visa estabelecer relações no interior do ambiente de trabalho que permita fluir a “pessoa”, sufocada pelo individualismo. “Em seu aspecto cooperativista a «Legião» pretende criar um ambiente material menos grosseiro para o operário, sem as cores da miséria que o revertem tão commumente por meio de uma assistência carinhosa 217 nas fábricas, nos lares e nas escolas”. A partir de então, os operários se reconheceriam como elementos indispensáveis na conquista e manutenção da ordem universal instituída pela paz social, harmonia nos interesses díspares e colaboração entre as classes. No ideal legionário, o cooperativismo não possui nenhuma conotação de classe, ou algo que permita a radicalização de antagonismos sociais, ao contrário, é o fundamento de uma solidariedade instaurada no interior das diferenças sociais. A nova era se libertaria da concorrência desleal propugnada pelo liberalismo econômico, subsidiado pelas leis da oferta e da procura, e recuperaria a economia no seu significado clássico de administração das necessidades da casa. Procedendo desta maneira, a LCT destitui a legitimidade e necessidades pressupostas nos fundamentos das práticas macro-econômicas ao sugerir uma economia de feições estritamente domésticas e familiares. A crítica legionária às injunções econômicas da modernidade instaura-se na constatação da ausência de qualquer ética nas relações no seio do mercado. Aqui, prevaleceria a ambição, a falcatrua, a dissimulação; enquanto que na organização comunitária, a camaradagem, a troca desinteressada e o senso de justo preço preponderariam por sobre quaisquer conveniências particulares ou interesses escusos. Se ao homem cabe se preocupar, especialmente, com as coisas do espírito, sua sustentação material é simplesmente um acidente enfadonho que marca sua condição biológica. Obstáculo que pode ser resolvido através da cooperação entre todos os envolvidos no trabalho produtivo, representando o trabalho necessário apenas para a sobrevivência orgânica, livre, pois, de concorrência ou ambição. Enquanto um mantem os mais estreitos laços de amisades com os seus operários, o outro lamentavelmente deixa-se possuir dos sentimentos de hostilidades as mais descabidas para com os pobres (...) um
217 Ibid. p. 17.

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transforma a sua fábrica num lugar saldável, onde trabalhar é um prazer, e collaborar com o patrão dando-lhe um rendimento máximo, é uma necessidade que todos sustam imperiosamente. E o outro (...) foz da fábrica um suplício, onde tudo é abafado e asphixiante, onde o trabalho tem o trono do fel (...) Na fábrica de um, a alegria, o prazer, a amisade desenvolvendo-se em mil formas 218 de colaboração. Trabalho, eficiência, vida. A prática política da LCT sugere um processo de conciliação entre a sociedade moderna e a construção de um universo social diferente, caracterizado pela fraternidade e cooperação universais. Para disso, o projeto político de terceira via é exposto como um programa doutrinário apolítico. Essa astúcia discursiva nega a validade moral do fazer político, ao mesmo tempo em que recorre a uma argumentação política como condição necessária à realização de seu 219 projeto social. Isto é, fazer política em nome do apolitismo . A apoliticidade justificada pela idéia de atomização do social provocada pelos partidos e a inescrupulosa conduta dos políticos profissionais. Felizmente o operário de 1933 já não é aquelle inconsciente e automato miserável de annos atraz. Já possue um espirito de classe esclarecido e alerta, e está em condições de resistir aos manejos da politicagem profissional a serviço da plutocracia. O operário de hoje é um libertado. É um consciente. É um forte. Livre, consciente, disciplinado, elle, no campo politico como nos demais campos, será a grande força que extirpará do Brasil, auxiliado e dirigido pela mocidade, o politiquismo coronelício, o plutocrata insaciavel, e desfraldará a
218 O LEGIONÁRIO, 27 de maio de 1933. p. 01. 219 De acordo com Ferrari, este falseamento da ação política no discurso católico é possível pois que “não há distinção, nessa perspectiva, entre ‘religioso’ e ‘político’: os dois planos convergem num modelo ideal de sociedade hierarquicamente estruturada ...”. Cf. FERRARI, Liliana. “Ação Católica”. In: BOBBIO, Norberto, MATTTEUCCI, Nicola, PAQUINO, a Gianfranco. Dicionário de Política. 11 . edição. Tradução de Carmen C. Varriale et al. Brasília: Editora da Universidade de Brasília, 1998, p. 9.

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Bandeira Legionária (sic!), símbolo (sic!) de 220 uma nova ordem e de uma nova vida. A nova ordem social defendida pela LCT é defendida através da exaltação do sentimento de nacionalidade e valorização da Nação, entendida como espaço de manifestação do espírito de harmonia e da valorização da esfera ético-moral-espiritual da existência humana. A Nação é o lugar onde os trabalhadores podem ser felizes. A sua construção nos modelos legionários reabilitaria a sociedade fragmentária criada pela modernidade industrial, conduzindo-a até a unidade nacional, garantida pela fraternidade universal entre o povo e as instituições políticas. Essa tarefa só poderia ser confiada àqueles que demonstram efetivamente compromisso, altruísmo e devoção, ou seja, aos jovens e aos trabalhadores. Os primeiros, incompreendidos pelos antigos, enquanto os outros se submetem à exploração, alimentando a ganância desmesurada do capitalista. Somente estes elementos possuem a experiência prática das desventuras do mundo contemporâneo, que os capacita a questioná-lo e, movidos pelo ardor da justiça, transformá-lo para melhor. Queremos uma nova Revolução. Revolução que destruindo, venha ordenar e construir. Que despedaçando mitos, venha refazer a unidade e trazer a estabilidade social. Que anniquilla o utópico e absurdo sistema em que vivemos e affirma uma nova ordem. Que venha reagir contra a falta de unidade, e força dos Estados modernos, acabando com 221 as guerras civis. O catolicismo, como filosofia de base do movimento legionário, sugere como fim da sociedade, a recomposição de uma infra-estrutura de relações sociais que remontam à vida comunitária, desprezada pela Idade Moderna desagregadora. Entretanto, o esforço de elucidação da problemática da sociedade moderna, longe de ser entendida ou divulgada como simplesmente uma verdade revelada, apresenta-se revestida de uma teoria da crise da modernidade a partir da qual todas as reflexões sobre a condição humana advirão. No discurso legionário é constante o uso de palavras como sadio e doentio, demonstrando uma preocupação civilizadora com a
220 O LEGIONÁRIO, 22 de abril de 1933. p. 01. 221 O LEGIONÁRIO, 01 de maio de 1933. p. 08.

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higienização moral da sociedade moderna. Essa abordagem organicista sobre os elementos do conflito social invoca um silogismo para a crise, na medida em que por sadio compreende-se tudo quanto se referir à alternativa de substituição do status quo. Isto é, sadio é tudo que reflete os bens morais e éticos identificados como principais “mercadorias” do mercado das relações humanas. De outra forma, o doentio se expressa na sua ligação estreita com tudo que ilude o homem, na lógica de legitimação da modernidade industrial capitalista. Portanto, o apelo ao consumo, o elogio às riquezas do materialismo, o desprezo pela espiritualidade, denotam a substância virulenta e deletéria da Idade Moderna. Nessa mesma linha de raciocínio, faz-se necessário aos que lutam por uma nova era, segundo a doutrina da LCT, atentar e reconhecer os fatores que possibilitam ao sistema decadente escamotear a profundidade de sua crise. Não paramos na simples contemplação ridícula das legislações sociaes que o liberalismo nos offerece a título de esmola, simples cafiaspirinas para cura de dores de cabeça, quando se trata de curar todo um organismo cheio de doenças já seculares e que exigem uma terapêutica enérgica e 222 eficiente. A higiene do social, por conseguinte, representa, na terapia para uma nova era marcada pela saúde moral da humanidade, índice de larga importância no projeto da redenção universal. Eliminar as sujeiras infecciosas lançadas pelo sistema degenerado das relações interpessoais, adquire o estatuto de imprescindibilidade histórica. Mesmo que para se atingir essa meta, a sociedade tenha que se submeter aos excessos da centralização do poder nas mãos daqueles eleitos, proprietários do saber remediador da crise. Até porque, para o pensamento legionário, o fortalecimento do poder, quer seja do Estado ou do indivíduo, é elogiável e defendido, pois representa uma das bases de sua orientação doutrinária, qual seja, o princípio de autoridade. O importante mesmo é que a fuga deste cativeiro que esmaga o homem integral, escravo inerme dos vícios e encantos do mundo da vida sensualista do capitalismo, seja empreendida vitoriosamente sob

222 O LEGIONÁRIO, 16 de setembro de 1933. p. 03.

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a liderança do messias autorizado por revelação, seguindo o caminho que vai dar nas terras onde prepondera a fraternidade e a harmonia. Trazemos, para todos os que são victimas dos erros sociaes presentes uma palavra de fé e combate. Por entre a confusão angustiosa, a rebeldia desordenada, a crescente anarquia que correm o mundo e abarcam-no tragicamente, fazemos soar a 223 voz salvadora do Ideal Legionário. Desta forma, a LCT executa sua atividade política com o intuito de formar uma nova mentalidade, para que a sociedade integral seja aceita verticalmente como única solução possível ao mundo desequilibrado do capitalismo industrial. A atuação da LCT foi toda atravessada pelo recurso constante da ritualização e cerimonialização de seus atos, apelando à sensibilização do indivíduo através do artifício da encenação coletiva. As grandes demonstrações coletivas tinham a intenção de manifestar a confiança na solidariedade e na indiferenciação entre as pessoas. O sentimento de camaradagem e colaboração perpétua é sua principal arma para propiciar o engajamento pessoal na causa. Ao propor uma sociedade unificada e sem conflitos, a Legião expõe essa proposta nas solenidades, ao arregimentar, com um máximo de organização, centenas de legionários uniformizados e orientados pela mesma bandeira e o mesmo slogan. As condições de possibilidades de realização da sociedade integral estão dadas em escala diminuta nas solenidades dos desfiles, onde se visualiza apenas a uniformidade verde da massa. O desejo legionário de construir um corpo social sem fraturas, implica na intenção de efetivar a supremacia do institucional sobre o privado. É, pois, a apologia da prevalência do espaço público sobre a esfera da privacidade. Processa-se, dessa forma, o apagamento das marcas da individualidade e se erige o totalitarismo da coletividade. A Legião Cearense do Trabalho representa, pois, um elemento significativo na produção de projetos sociais e na constituição da memória social dos trabalhadores, afora seus desdobramentos políticos posteriores, posto que simboliza uma experiência pioneira de política voltada para as massas.

223 O LEGIONÁRIO, 01 de março de 1933. p. 04

Francis P. Tom. In: SOUZA. Rio de Janeiro: Difel. pp. São Paulo: Difel. Ótica. LAMOUNIER. Tradução de Carmen C. O Brasil Republicano. pp. In: BOBBIO. POULAT. “Teoria social cristã”. Varriale et al. 3 . 11 . Sebastião Rogério Barros da. “Ação Católica”. Boris (org. A Segunda República. pp.) História Geral da Civilização Brasileira III. Norberto. Giacomo. “Integralismo”. edição. Norberto. O Ideal Legionário. MATTTEUCCI. Liliana. 1998. Fortaleza: NUDOC Universidade Federal da Ceará. 1998. a 11 . 306-308. Norberto. 1990. 2º volume. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora. a 11 . PONTE. PAQUINO. Gianfranco. MONTENEGRO. PAQUINO. In: FAUSTO. . In: BOBBIO. Tradução de Carmen C. pp. Entre o Povo e a Nação. In: BOBBIO. 359-375. São Paulo: Ed. Severino. MCHUGH. Variações Ideológicas. a Nicola. Dicionário de Política. Dicionário do Pensamento Social do Século XX. “Tenente e Operários: A Legião Cearense do Trabalho.132 Referências Bibliográficas CARONE. 1974. 1977. William e BOTTOMORE. 1932. FERRARI. Tradução de Carmen C. Nicola. PAQUINO. IOCE. edição. MATTTEUCCI. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Sebastião Rogério Barros da. Fortaleza. Bolivar de. Gianfranco. a Sociedade e Instituição (1889-1930). “Cultura Política”. Émile. 1998. Dicionário de Política. Uma Interpretação”. Dicionário de Política. Varriale et al. 1986. “A Legião Cearense do Trabalho”. 635-636. In: OUTHWAITE. MATTTEUCCI. Fortaleza: Edição da Legião Cearense do Trabalho. Os Intelectuais e a Política no Brasil. João Alfredo de Souza. 1990. 160-163.). O Integralismo no Ceará. Simone (coord. Varriale et al. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Tradução de Eduardo Francisco Alves e Álvaro Cabral. Gianfranco. PONTE. Fortaleza: UFC/Fundação Demócrito Rocha. 1989. Daniel. 345-374. edição. (mimeo. (1930-1937)”. pp. SOMBRA. PÉCAUT. História do Ceará. Brasília: Editora da Universidade de Brasília. Edgard.). pp. Tomo III. 9-10. 1996. Nicola. SANI. edição. “Um Pensamento Político Autoritário na Primeira República.

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7. Editora Moderna. bastaria a importação de idéias consagradas. República. por ser uma época de intensa preparação para os grandes confrontos político-ideológicos das décadas seguintes. com a manipulação dos fatos. . Raimundo Barroso. com os questionamentos provenientes de diversos segmentos urbanos em 224 defesa de uma nova ordem social ”. importadas tanto no tempo como no espaço. Fortaleza. Se realmente o Integralismo lançou as suas raízes a partir do Ceará. onde tem a identificá-lo uma série de discursos que retiram a possibilidade de rigorosa coerência 224 CORDEIRO. Império. se realmente nasceu ali. porquanto. utilizando-se da imagem santificada da fé. São Paulo. Jr. oferecendo os subsídios necessários para que se efetivasse o projeto. Para este vazio ser preenchido. já que se sentia à parte do poder.e as circunstâncias que os envolveram. em conformação com o pensamento autoritário que estabelecia a idéia de vazio.134 6.LCT . Objetivamos buscar um entendimento nas relações estabelecidas entre os trabalhadores .e num momento tido como divisor de águas na historiografia brasileira.meta dos discursos do idealizador da Legião . A Igreja colocou-se como um dos principais veículos do discurso legionário. Dissertação (Mestrado) Universidade Federal do Ceará – Departamento de Ciências Sociais e Filosofia.o Estado do Ceará . p.surgiu como alternativa à crise da sociedade industrial.8. desde a Questão 225 Religiosa . substituindo o capitalismo e o comunismo. É então que se “processa o enfrentamento do arcaico-rural como característica definidora da natureza estrutural da sociedade. Nasceu em uma região de fraca industrialização . 1992. 225 Ver mais em: SILVA. Foi através dela que se criou a idéia do uso de imagens consagradas. O HOMEM NO ESPELHO E A LEGIÃO CEARENSE DO TRABALHO: religião e política nas terras de Alencar Emília Carnevali da Silva (PUC/SP) A Legião Cearense do Trabalho . A Legião Cearense do Trabalho: Política e Imaginário no Integralismo Cearense(1931 – 1937). História do Brasil: Colônia. temos então que buscar os nexos que viabilizaram este fato. p 177 / 8. 1992. Francisco de Assis.

Fortaleza : Editora Imprensa Oficial do Estado do Ceará. assim. O anarco-sindicalismo desembarcou junto com a imigração. cit. MONTENEGRO. com expressiva participação dos europeus na composição da classe operária brasileira. São Paulo : Editora Bertrand Brasil. 1986. nesta região a partir da união com a LCT. como pela chegada de trabalhadores da zona rural.Brasil Republicano. em um curto período.. onde o “credo verde” surgia. A LCT foi um movimento trabalhista de cunho corporativo. e não apenas as três correntes clássicas: a de Plínio Salgado. op. p 125. nasceu um fenômeno que atingiu o Brasil – o operariado urbano. num primeiro momento. já que tinha como agravante o fato de ser sacudida por “invasões” de retirantes em cada seca que se apresentava. p 11. IN: História Geral da Civilização Brasileira . os movimentos sociais “irromperam no curso de uma História dramática de submissão. João Alfredo de Sousa.135 ideológica. atendendo ao chamado do projeto varguista. Com a expansão capitalista. Douglas Teixeira. porém a região norte-nordeste não ficou incólume às grandes transformações. A Ação Integralista Brasileira – AIB . por contar com o forte apelo religioso do homem íntegro que via em Deus. representando o interesse de 71 associações e de 20 mil trabalhadores assalariados e autônomos. O Integralismo no Ceará – Variações Ideológicas. ousando assumir a condição de sujeitos” . “por uma práxis edificante mobilizadora de seguimentos médios e de grupos operários: a Legião Cearense do 226 Trabalho” . Nos anos 30. compondo. apesar de esquecida nos centros do poder. vol 9. “Um Confronto Entre Juazeiro. “A noção legionária de trabalho constrói-se 226 Cf. Surgiu tanto pela imigração. para trilhar os caminhos da rebeldia sem projeto. ou seguir as vias místicas que lhes 228 eram dadas. Dentro da classe trabalhadora foram eles que difundiram a idéia de transformação radical da sociedade pela via revolucionária socialista ou anarquista. ser implantado. a de Gustavo Barroso e a de Miguel Reale. na Pátria e na Família a sua razão de ser. Existiu entre 1931 a 227 1937 . 228 MONTEIRO. Como a LCT anunciava um projeto pacificador foi aceita imediatamente pelos participantes da classe dominante assim como pelos próprios trabalhadores. por oferecer uma indústria mais desenvolvida. como fruto de uma imensa elaboração doutrinária.despontou na região. Canudos e contestado”. a classe trabalhadora industrial. .2004. p 43. Isso acontecia com maior freqüência no centro-oeste do país. 227 CORDEIRO. O Integralismo pôde então.

carente de estudos prévios de natureza econômica e social. era do Partido Conservador e foi durante 15 anos prefeito de Maranguape e amigo pessoal do Senador Alencar. cujo vazio político propiciou um solo fértil às idéias totalitárias. (org. uma organização católica que representasse a Igreja no âmbito dessas discussões. Severino Sombra. o que serviu de pretexto para o velho enfermo pedir aos seus pais para que o criasse. Só em 1922 229 CORDEIRO. a fim de cuidar dos velhos pais e de um irmão paralítico. Com a morte do avô passou a ser criado por uma tia: dona Marocas. 2004. . o fizeram perto do nascimento dele. “A Legião Cearense do Trabalho”. impondo-se de maneira punitiva ao homem que 229 tem que prover sua existência material ” Assim. dos hindus até a literatura contemporânea. os jovens intelectuais brasileiros agitavam-se em debates que conclamavam a sociedade para projetos reformistas. Raimundo. assumindo um caráter obrigatório. Outro modelo foi o militarismo visto pelo prisma da interpretação familiar. dos ramaianos. em 8 de Junho de 1907. p 338. Ms. Seu avô coronel Joaquim José de Souza Sombra. filho do Dr. composta de 24 volumes que trazia desde a cultura dos vedas. recebidas através de um outro tio. Vassouras-RJ. Após essas leituras. diariamente ao seu tio 230 enfermo.) Uma Nova Historia do Ceará. Como sempre prometiam ao avô materno visitá-lo. Jr. Muito jovem ainda seguiu para o Rio de Janeiro. Simone de. Vicente Liberalino de Albuquerque e de dona Francisca Sombra de Albuquerque. No inicio do século XX. 230 Recebeu do tio “Biblioteca Internacional de Obras Celebres”. que moravam no Rio de Janeiro e tinham oito filhos.136 a partir de uma explicação religiosa da sua natureza divina. formou-se uma classe sem noção de organização. o grande escritor José de Alencar. dispersa. as grandes obras universais . então Coronel do Exército Nacional: Luiz Sombra. 1-O Homem de ação e de reflexão: Severino Sombra Nasceu Severino Sombra na cidade de Maranguape-CE. Não existia.” Fortaleza: Edições Demócrito Rocha. colocando assim. Privando mesmo da amizade de seu filho. certamente havia a interpretação e explicação pelo tio. que se decidira pela vida celibatária. onde cursou a Escola Militar do Realengo. In: SOUZA. Uma das obrigações do menino era ler. no jovem o gosto pelo conhecimento. UFSS. naquele momento. Fundação Universitária “Severino Sombra”.

entrou em contato com o Centro D. Severino Sombra recebeu forte influência católica e seus primeiros estudos foram nesta direção. apregoada por Jackson de Figueiredo. cuja elaboração ideológica começava pela crítica à modernidade. Fortaleza : UFC. após sua morte precoce. O centro D. Então. como Euclides da Cunha. tinha como meta a Renovação Católica “que deveria atrair leigos e operários 232 para o seio da Igreja Católica ”. 1989. estando afastado de tudo. que viria a propiciar a ela. Simone. assim como a adoção de idéias antiliberais e anticomunistas. Oliveira Vianna. a possibilidade de se inserir na esteira das discussões e expectativas quanto ao contexto da época. Vital . Fundação Demócrito Rocha . quando retorna ao seu Estado de origem. Sebastião Rogério de Barros da. Quando ainda na escola Militar. tornou-se uma personalidade de projeção nas lutas sociais e políticas 231 O movimento espiritualista tem seu inicio a partir da fundação da revista “A Ordem” e do Centro D.) História do Ceará. 231 . o que lhe rendeu uma prisão e. p. largamente apresentada por grupos de intelectuais não só católicos. Vital e os estudos realizados lá lhe inculcaram as necessidades de obediência às normas hierárquicas da Igreja. Desde o inicio. O movimento criado por ele pretendia fixar no meio operário cearense. a Igreja. Uma agremiação que congregava a jovem intelectualidade católica em torno dos ideais nacionalistas e reformadores dentro de uma perspectiva da Igreja católica. Pois estava impregnado das idéias de São Tomás de Aquino. refletiu que “aquele era o momento” de se tomar uma medida reformuladora aos destinos dos trabalhadores que eram vistos por ele como desprotegidos e órfãos do poder. e tantos outros que refletiam sobre o Brasil legal versus o Brasil real. Outro elemento que compôs sua ideologia foi a "questão nacional". apontado por Alberto Torres. In: SOUZA. 365. 232 PONTE. Em 1929. que acarretou sua transferência para o Rio Grande do Sul. (org. Porém foi envolvido em uma questão pertinente ao comando militar. aproveitando o momento histórico em que a sociedade via com bons olhos a participação dos tenentes no cotidiano de suas vidas. “A Legião Cearense do trabalho”. Vital foi criado por Jackson de Figueiredo e que. a idéia de volta ao lirismo da Idade Média. lógico seria ser contra a Revolução liberal. Por se colocar contra o Liberalismo. organizou e implantou a Legião Cearense do Trabalho. passando a assumir a ideologia da “reação e ordem”. Logo após sua chegada foi questionado sobre a “fase pré-revolucionária”. passou a ser dirigido por Alceu do Amoroso Lima. Vital no Rio de Janeiro.137 é que foi fundado o Centro D. inspirado na encíclica “Rerun Novarum”. Esses questionamentos vieram a corroborar com a sua idéia de começar a transformação da sociedade brasileira. mas também teóricos que pensavam em "endireitar o Brasil".

A Igreja católica mantinha interesse na preservação do modelo tradicional de sociedade. panfletos. foi prontamente aceita pelos dois lados do sistema produtivo cearense. Elaborou as diretrizes do seu movimento em uma cartilha chamada “O Ideal Legionário”. quanto fazer causa comum com aqueles que exigiam. 236 de Leão XIII . de Pio XI. recebeu reforço da encíclica “Quadragésimo Anno”. etc. Severino Sombra publicou o jornal “O legionário”. Ildefonso. Por ser interpretada como a terceira via entre o capitalismo e o comunismo. Essa preocupação surgiu com a bula papal “Rerum Novarum”. . Condenava a alternativa socialista. p 115. ou pelo menos 235 vaticinavam.138 do Ceará.(.. cit . Para difundir suas idéias. p 45. Editora Loiola. 236. já que para ela “aceitar a teoria de progresso e da perfeição humana seria. apresentando uma crítica feroz ao modernismo. subscrevia com o pseudônimo de Agathon. A modernidade era vista por ela como fonte de todo o mal que afligia a humanidade. com a sua palavra de enthusiasmo. 2004. A LCT foi idealizada e organizada por Severino Sombra na época. p 33. ela reforça o direito à propriedade e à harmonia entre as classes sociais. Quarenta anos após seu lançamento. Doutrina Social da Igreja.)” 235 MANOEL. por ser antiliberal não reconhecia a 233 MONTENEGRO. tanto negar seus próprios fundamentos.. que instigava nos pobres o ódio aos que possuem riquezas. criando as bases à reformulação social e à renovação católica. A Legião Cearense do Trabalho vem até vós com o seu brado de alerta. É mister que no Brasil Novo as forças economicas e espirituaes collaborem na direção do Paiz. além de lançar também folhetos. precizam tomar o lugar que lhes compete na vida nacional. Paraná : Editora da Universidade de Maringá. Ivan. os homens de trabalho. As classes. 1954. Rio de Janeiro : Petrópolis. encíclica que tratava especificamente da questão operária. conclamando os trabalhadores 234 a compor esta Legião. servindo de veículo para suas críticas ao sistema político e conclamando as classes sociais a cooperar entre si pelo resgate dos ideais humanistas. Considerada uma dos grandes marcos da doutrina social da Igreja. 234 Panfleto entregue na porta dos estabelecimentos pelos legionários. as forças productoras. O PÊNDULO DA HISTÓRIA : Tempo e Eternidade no Pensamento Católico (1800-1900).com a sua ordem de congraçamento para reivindicações. um jovem tenente que.CAMACHO.. o seu fim ”. op. no período da implantação da LCT : "Apello aos homens de trabalho do Ceará. no jornal 233 católico“O Nordeste ”.

288. 238 CARONE. O Integralismo teve sua pré-fase em 1922. São Paulo: Difusão Européia do Livro. 290 241 Ibid. milhares de milicianos fascistas(os camisas negras)invadiram a capital. faremos valer nosso pensamento. A Ação Social Brasileira e o Partido Fascista Brasileiro. 1973. 240 CARONE. entre outros. Muitos fracassaram. Ver mais em: BERTONHA. trazia a seguinte conclamação: Prestigiando o governo que o povo impôs à Nação. Pouca ou nenhuma notícia se tem sobre ambos. realizando a primeira manifestação fascista 238 que se tem noticia no Brasil. Tudo leva a crer que essa manifestação 239 foi uma imitação do episódio da “Marcha sobre Roma ”. porém o Jornal do Comércio de 14 de novembro de 1930. p 125. como em “A Legião de Outubro”.Fascismo.. Edgard. Ela foi um movimento trabalhista e contou com o fato relevante de ter precedido o Integralismo e de ter sido uma das primeiras manifestações dos trabalhadores 237 cearenses. 14. Neste sentido aguardai o manifesto que faremos publicar no dia 18 do corrente. Em 1928. op. p. integralismo. . cit. São Paulo: Editora Ática. de combate ao comunismo. contamos com os contemporâneos da LCT. um grupo de italianos organizou o “Partido Fascista”. p. 2002. 239 Partindo de várias regiões da Itália. diferentemente dos contemporâneos de vida curta. cit. A nota vem com a assinatura de representantes insuspeitos. op. foram mais sofisticados e anunciam um esquema que viria a se repetir. p. A Segunda República. Organizou esse movimento contando com o apoio dos que comungavam com seus pensamentos: Helder Câmara. 290 e 291. de Amaro 237 CORDEIRO. mas deixaram a 241 oportunidade dos atores entrarem novamente em cena .Os movimentos que antecederam o Integralismo no Brasil. todos da mais alta relevância dentro do cenário nacional. 2. que estrangeiros inimigos do Brasil desejam implantar em 240 nossa Pátria. João Fábio. o então Tenente Jehovah Motta. capaz de amparar os trabalhadores brasileiros em suas reivindicações.139 Revolução de 30 que empossou Getúlio Vargas. nazismo. com a fundação da Legião do Cruzeiro do Sul. . Entre os ensaios para se chegar a AIB. para a criação do Partido Fascista Brasileiro. p.

de Olbiano de Melo. portanto. 187. que é originariamente inevitável. 295. 244 Ibid. em março de 1931. com o Partido Nacional Sindicalista. contraditória e delirante de certa camada de intelectuais e pequenos burgueses. firmado por homens da esquerda e tendo como chefe o General Miguel Costa. das "idéias" e 242 Ibid.140 Lanari e Francisco Campos (março de 1931). p. Astrojildo Pereira publicou “URSS. forcejando por atribuir-se a direção de 244 movimentos políticos . . livro que analisava o antagonismo nos regimes fascista e soviético. Aos que antecederam a AIB. que pretende haver traçado "uma diretriz definida e clara em face dos problemas fundamentais" do país. p. Ensaios Históricos e Políticos. Seus autores ou signatários estão convencidos de que lhes cabe a gloriosa predestinação de regenerar e salvar o Brasil . de São Paulo. p. 1979. 175. O Manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo. de 1931. redigida por Plínio Salgado e assinada por várias personalidades consideradas da "esquerda”.Itália – Brasil”. Neste livro. de Mario Antunes. Em 1935. e seria inofensiva se limitada a círculos privados. 243 PEREIRA. mostrando no meu artigo o caráter fundamentalmente fascista. Este último teve seu “programamanifesto” publicado em março de 1931. onde efetuou uma análise do “manifesto-programa” da Legião Revolucionária de São Paulo. com o Partido Nacionalista de São Paulo. apresenta grave perigo para a coletividade quando tenta enveredar pelo domínio publico. Astrojildo. mostrando já o germe do Integralismo. promulgando um sentimento esquerdista que recebeu de Astrojildo Pereira a seguinte crítica: Penso haver contribuído para desmascarar a mistificação. direitista da extrema direita. constitui. podemos juntar a Legião Cearense do Trabalho. um documento que se pode considerar característico de ideologia confusa. de Miguel Costa. encontra-se o ensaio denominado “Manifesto da Contra Revolução". por sua expressão e seu conteúdo. Esta presunção. com a pequena ala do Partido Socialista 242 Brasileiro. O manifesto da Legião Revolucionária de São Paulo foi publicado no jornal “O Tempo”. e redigido por Plínio 243 Salgado . feito a pedido do Comitê Central do PCB. São Paulo: Editora Alfa-Omega. na realidade. de Cristiano das Neves e com a Legião Revolucionária de São Paulo.

também uso de um uniforme (um blusão mescla com um emblema na manga). como é notório. cuja intenção era a de prepará-los para que vivessem em melhor situação econômica e social: "A LCT foi um dado fundamental e particular da expansão direitista no Brasil. Fez. Plínio é sempre o mesmo.) Não me venham dizer que o homenzinho é que mudou: anteontem perrepista. e que sua intenção é dirigir os sindicatos operários de Fortaleza. Severino Sombra. Qual nada. . E. O 1º de Maio foi incorporado ao calendário das festas solenes com desfiles que lembravam as “paradas 245 Ibid. p. ao contrário. Enquanto as outras agremiações pretendiam o apoio da pequena burguesia.. 247 Ibid. ontem como hoje. do Trabalho consegue a 246 adesão dos operários. mostra que a LCT foi exclusivamente voltada aos trabalhadores. Anteontem como ontem.. hoje como provavelmente amanhã ele sempre esteve. a semelhança do fascismo italiano..). ontem legionário. hoje integralista. está e estará ao 245 serviço da burguesia contra o operariado. (.187 e 188. diz mais: A verdade é que o movimento inicial cabe ao tenente Severino Sombra. logo depois. p. op. A interpretação fascista deve-se ao fato de que nos encontros dos legionados ser feita uma chamada oral que era respondida por todos com a palavra: “Pronto”. . O redator do Manifesto.. E. 298. 246 CARONE. mais tarde um dos fundadores e hoje dito "chefe nacional" do Integralismo. sua direção e métodos assemelhamse aos dos movimentos fascistas. isto é. unindo-os em torno de suas reivindicações. e . fora o antigo perrepista Plínio Salgado. 295-296. Severino Sombra perde a liderança e é reintegrado no 247 Exercito. Porém. de um partido fascista declarado..141 dos "princípios" contidos ali. onde reverenciavam a bandeira da Legião. a Legião em 1932 foi absorvida pelos integralistas . fato que o aproxima logo de Plínio Salgado (. e a sua ideologia também. Participavam dos desfiles cívicos. a Legião C. p. cit.

que o cerca. Forma de Regressividade no Capitalismo Hiper-tardio. Se em primeiro momento. Pátria e Família". onde sobressaem. op. o “1º de Maio é o dia do trabalho. e em especial o nordestino. a esperança messiânica do Reino de Deus em 250 uma terra renovada ”. falar em questões que envolvem os trabalhadores do período estudado. cit. e pelo 249 capitalismo hiper-tardio . 2. temos que questionar se por não terem ainda a capacidade de “se organizarem em classe”. O Ceará.. Assim como. cit. agentes que no caso brasileiro é a quem devemos realmente creditar o sucesso do discurso da direita daquela época. Consideravam seu chefe Severino Sombra.A religião. é na concepção religiosa. componente aproveitado por aqueles que usavam o lema "Deus.. foi um dos Estados nordestinos em que se constituiu um lugar privilegiado de reprodução ideológica. também não podemos deixar só para ela a responsabilidade histórica. Isso na verdade foi gestado pela fraca industrialização nordestina. Ao procurar nas raízes da alma do povo nordestino e na sua natureza geográfica. a religião teve sua cota de participação na decisão e adesão dos trabalhadores ao chamamento do Severino Sombra. 250 MONTEIRO. São Paulo: Editora Ciências Humanas. 1978.. Há uma “variante do catolicismo designada como rústico”. Não podemos ignorar o fato de que o retirante nordestino. Portanto. op. não o dia do trabalhador. as vezes. Isso revela que de um modo geral “em sua modalidade rústica [o catolicismo] tem suas raízes mais importantes plantadas no solo da Grande Tradição judaico-cristão. pelas mudanças nos modelos econômicos. José. p 45. O Integralismo de Plínio Salgado. o operariado cearense no meio das conjunturas. percebemos as razões de ter sido ali o nascedouro de movimentos que deram coloração ao cenário nacional.. 340 249 CHASIN. contraditoriamente. p 647. que criaram nele o sentido de ser a infância da classe no Brasil. vitimado pelas secas constantes.142 militares”. R. procurava subsídios ao seu viver sob os auspícios da fé.) uma espécie de sacerdote que soleniza o cotidiano da entidade 248 que representa . que vamos buscar o entendimento aos movimentos sociais que têm a sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja.. 248 CORDEIRO. . p. particularmente. como militante especial (.

Pe. também. O mundo passava pelo vendaval de grandes transformações. de maneira geral. deu ainda maior conotação aos campos sagrados da fé. a disciplinação do pensamento deste sertanejo que. que desenvolveu uma intensa militância religiosa. usadas na elaboração de um discurso que conclamava os trabalhadores brasileiros para a perspectiva de uma melhoria de vida. Já por volta de 1853. com os pés no chão e a roupa desbotada pelo sol escaldante. de açudes. Ibiapina foi visto como profeta e curador. Ao consagrar e dar em comunhão a uma das suas beatas. o Fascismo.143 vitimado por uma série de vicissitudes análogas à sua região. Essas ideologias criaram uma rede de persuasão que refletiu-se nos quatro cantos do mundo. etc. não se limitando às práticas piedosas e filantrópicas. Portanto. seguindo o mesmo caminho. Padre Cícero. na concepção religiosa que vamos buscar o entendimento dos movimentos sociais que tiveram sua origem dentro dos fundamentos apregoados pela Igreja. Sardinha. na Itália e o Nazismo. largamente difundido. Mussolini e Hitler tiveram suas imagens apregoadas no Brasil. Ao fundar algumas “casas de caridade”. Houve uma diminuição da importação de produtos manufaturados e as nações que investiam em nosso país. É.um missionário no sertão. surgiram os “movimentos sociais” como resposta. levou a alma do povo oprimido à buscar na Igreja Católica. na Alemanha. Com o prenúncio deste acontecimento. crises econômicas surgiram na Europa. surge no Nordeste um precursor de Cícero Romão Batista – o Padre Mestre Ibiapina . 4. na Península Ibérica. Foram eles: o Integralismo. em 1913. O Movimento Legionário criado por Sombra. Este fato. retraindo o fluxo de capital para o Brasil. a hóstia se transformou em sangue. havia enterrado junto com as . O período “entre guerras” foi rico em acontecimentos marcantes para o mundo. No meio de toda essa ‘reviravolta”.A sua pretensão: dar resposta ao mundo em crise. nos fornecerá talvez a compreensão do que se passou. mostrava o valor da doutrina católica aos trabalhadores. propondo a eles o papel de vanguarda de uma nova ordem. mas estendendo seu campo de atividade à construção de 251 estradas. a proteção que necessitavam. estavam comprometidas com a preparação da guerra.

educar. 253 FAUSTO. encabeçada pela reorientação dos modelos econômicos. o proletariado urbano não seria senão “uma pequena mancha” 253 em um imenso oceano agrário . os seus próprios sonhos e. 1976. p.144 suas últimas sementes. gestado na Revolução de 30 como resultado de uma política econômica de incentivo à industrialização e como política social trabalhista de cunho corporativista. valorizar os operários. de São Paulo e de Pernambuco. de calçados. passou a assumir o modelo industrial. Trabalho Urbano e Conflito Social (1890 – 1920 ). fruto da economia gerada por esse produto. B. que antes de 1930 tinham referência na agro-exportação. no contexto de trinta. consubstanciava-se numa produção basicamente composta do ramo têxtil. naquele momento. cit. o mundo também assistia à falência do liberalismo e a consolidação do nazi-fascismo. os vinculados aos ensinamentos apregoados pela Igreja. significando que traziam para as classes dominantes a chamada questão social. sua identidade. Esses movimentos tinham os mesmos objetivos em comum: proteger. Raimundo. 124. orientar. que se tornaria “caso 252 CORDEIRO Júnior. os mantinha afastados dos perigos que os comunistas acenavam. Derivada das condições inerentes à produção cafeeira. p. que dessem conta de reencaminhar a humanidade no trajeto perdido. O processo de industrialização era frágil. a acumulação ou a concentração de renda. por não ter mais 252 nada ou alguém para acreditar. Com isso. Essa mudança. 5. Segundo Boris Fausto. Essa indústria incipiente situava-se principalmente nas capitais dos Estados do Rio de Janeiro. seguiu “o canto da sereia legionária ”. advindas da conjuntura internacionais pré-guerra e das contradições inerentes ao próprio processo de modernização. o Estado tentou tutelar a classe operária e impedir a autonomia de suas organizações sindicais. A preocupação por parte do governo getulista em conter a politização e emancipação do operariado concorre. Se o Estado nacional brasileiro buscava. para explicar o surgimento e expansão de movimentos políticos. assim como atender algumas das suas reivindicações. constituindo-se no eixo da crise do estado oligárquico. A emergência e a consolidação da “nova ordem” não podem ser analisadas apenas em função das condições sócio-políticas. de materiais de construção e etc. Naquele momento. propiciou a questão social trazida na esteira da contradição entre a burguesia agrária e a classe operária. O modelo urbano industrial. . efetivou uma mudança comportamental no meio proletário urbano. revelando a necessidade de se pensar em uma redefinição das políticas nacionais.. de vestuário. op. São Paulo: DIFEL.

255 CHAUI. Kazumi. preparada por Jackson de Figueiredo. como dos militantes do Partido Comunista Brasileiro. na França”. fazendo-os acreditar que poderiam alcançar o que prometia. Em março de 1932. fundado em 1922. Marilena .As primeiras atividades: uma das tendências da frente integralista. pretendendo a renovação católica. possibilitou a Severino Sombra provocar em seus legionados a crença de seus conhecimentos sociais e políticos. Ideologia e mobilização CEDEC. Maria Silvia Carvalho. Mimeo. anunciou-se a breve fundação da Sociedade de Estudos Político -SEP-. p 10. 1982. de 23 de março de 1932. tinha em mente trazer para sua terra natal o embasamento político-social adquirido no Cento D. mas a possível mobilização de alguns já era temida pelas classes 254 conservadoras . Ele próprio estudara a fundo a “história da contra revolução. no Ceará. Sombra descreve o grupo: “Era um grupo de formação antiliberal. p 19. 1978. já que os trabalhadores eram continuadamente bombardeados por “novas idéias”. Quando deu início a sua atividade intelectual no jornal católico “O Nordeste”. tão influentes na deflagração da Revolução Francesa. Sentia- 254MUNAKATA. levando-os a questionar a situação nacional. assim como a recorrência ao uso das imagens. São Paulo.145 de polícia”.Algumas Cenas Brasileiras. a classe operária era incapaz de tomar decisões que influíssem na política nacional. O discurso ideológico da Legião. São Paulo: Editora Paz e Terra. FRANCO. por traduzir a necessidade de levar em consideração essa classe e o seu peso político. . A questão operária passou a ser motivo de preocupação. Outros setores da sociedade também se sentiam insatisfeitos com os caminhos indicados pela mudança na reorganização da política-econômica e começaram a articular movimentos que procuravam responder as ansiedades surgidas pela 255 falta de projeto político das elites. defendendo o catolicismo renovado sob a inspiração de filósofos franceses e caminhando para o Tradicionalismo Social. por De Maistre”. Vital. por De Bonald. cuja reflexão era trazer à juventude a efervescência glamurosa do Rio de Janeiro. 5. Por ser desorganizada. tanto dos anarquistas. Em um artigo nesse jornal. Dissertação (Mestrado de História) Departamento de História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas. Analisara o papel das sociedades secretas.

146 se revoltado com o contexto político brasileiro. este recusou o convite. definindo-a como uma organização com finalidade econômica. RS .Juarez Távora. Chegando em Passo Fundo. Apud.. Tinha como objetivo o reformismo para o Brasil. Sombra agitou a cidade pacata com a sua práxis causando tamanho reboliço. Não podia aceitar a doutrinação dos tenentes. 117. atuou como escritor em jornais. após muita reflexão. Nesse período. A LCT prometia educar os legionados. ao mesmo tempo em que tomassem conhecimento das questões econômicas e se preparassem para ascender a pequenas propriedades através de cooperativas. então dominante. O que transformou seu ideal foi o episódio ocorrido no 8º 257 Regimento de Passo Fundo. . op. convidando Alceu de Amoroso Lima para isto. do limite de trabalho para menores e mulheres. Aderira à pregação de Jackson de Figueiredo. Siqueira Campos . foi preso. Como esta era fruto de uma aliança liberal e ele combatia o liberalismo. entendeu que aquela era a hora de se fazer alguma coisa pelo país. RJ. publicou panfletos. que buscava “uma nova base para a renovação política brasileira”. com a participação dos operários nos lucros da empresa. Eduardo Gomes. 257 Quando chegou em Fortaleza imbuído do sentimento renovador católico. sem conflitos sociais e hierarquizado dentro da ordem e do progresso. Vassouras. pretendendo ampliar o corporativismo nas bases de uma legislação social que abolisse o partidarismo. desagradando o chefe da polícia local. Propunha um contrato coletivo. a Revolução de 30 foi deflagrada. cujos ícones . Por estar dirigindo o Centro D.Ms. ele promoveu palestras. Severino Sombra decidiu ampliá-lo para todo o Brasil. discussões. sem a qual não se 256 faria uma revolução. Diante da expansão do movimento legionário no Ceará. enfim. ele agiu como determinava a lei. surgiria um novo país. que telegrafou ao governador e pediu sua transferência para o RS. MONTENEGRO. a obediência às oito horas de trabalho diário. além de preconizar a cogestão. cartilha que trazia as bases da LCT. com a fixação e o cumprimento de um salário vital.apresentavam excelente conteúdo moral. política e social. mas faltava-lhes o realismo propiciado por uma ideologia bem urdida. Numa briga entre soldados do quartel em que servia com soldados da policia civil. Com o controle da economia e da política. boas intenções no agir e no aceno de reformas. a ponto de desagradar “alguns”. do repouso dominical. cit. motivando a criação de “O Ideal Legionário”. colocando em seu lugar a representação de classes em consonância com um Estado forte e centralizado. Severino Sombra. Vital. permitindo a estes a conscientização dos direitos e deveres materiais e morais. mas sugeriu o nome do jornalista paulista 256 SOMBRA.

articulava já a fundação de um movimento autoritário em nível nacional: a Ação Integralista Brasileira. Após entendimentos. e de que já havia entrado em contato com Olbiano de Melo. para haver uma absoluta unidade de idéias. venho ao Rio.) Entendemo-nos Ficou resolvida a creação de uma SOCIEDADE DE ESTUDOS POLITICOS (S. (. Alguns dias antes da data marcada para a realização da reunião.. sentindo a demora de noticias por parte de Plínio Salgado.) para realização do movimento cultural que eu projetara. para que fosse um dos participantes da grande missão de estender a Legião Brasileira do Trabalho ao Brasil inteiro. nos moldes da sua é urgente e depende de você. Vassouras-RJ. a 258 Quando a Legião estava para se expandir ao resto do país. Sombra muda seu nome para Legião Brasileira do Trabalho. em São Paulo. Mas.E. . porém. corremos o risco de vermos dispersar-se em movimentos desconexos o maior movimento da mocidade brasileira de todos os tempos”. recebeu uma carta de Salgado. Plínio Salgado aceitou levar ao Sul do país a Legião 258 Trabalhista Brasileira . em julho de 1932. de Minas Gerais. juntamente com outros intelectuais da direita – em sua maioria estudantes de Direito do Largo São Francisco . com o estouro da Revolução Constitucionalista. Fita nº 8. porém pediu um prazo para isto. Severino. alegando a 259 necessidade de criação de uma base ideológica . para que ele não fracassasse. Também a organização operária no sul. de São Paulo(. convocou uma reunião em São Paulo. Você sabe pelo que lhe disse dos responsáveis pelas conseqüências da desagregação que pode ressaltar.. “Se essa reunião não se efectuar logo.147 Plínio Salgado. ao criar a Sociedade de Estudos Políticos(SEP). Severino Sombra. que escrevia” Notas Políticas”no jornal “A Razão”.) Indicaram-me o escritor Plínio Salgado. Olbiano de Melo queria padronizar as informações. Memórias. o encontro não se efetivou.P." SOMBRA.Centro de Documentação e Informação Cientifica “Professor Casemiro Reis Filho” Cedik-PUC/SP 259 “Com essas idéias (expandir a LBT). se não fundirmos numa só.. que escrevia no jornal “A Razão”. mostrei o meu pensamento para muitos.. em fins de1931. Eu tive de assumir a chefia do movimento aqui. Entrevista. que falava da necessidade de se reunirem com urgência. Museu Severino Sombra.

deixando o local. Vassouras. Foi mandado para Portugal. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários.” SOMBRA. explorar na Bahia.. Ao perceber que a luta se arrastava e que no Rio de Janeiro era constante a ameaça de golpes. o seu grande golpe: ir ao Norte. contrariando sua idéia. não recebi nenhuma noticia do senhor Plínio Salgado. de ter apropriado e incorporado seu projeto. Lá. 1984. permanecendo no exílio por um ano. de onde saíra com seus companheiros debaixo de vaias e insultos. Impedido pela Revolução. realizado no Teatro Municipal. com seus companheiros debaixo de vaias e insultos.. A dolorosa guerra civil prolongou-se por mais de três meses impedindo a reunião de se efetivar. vejo em jornal chegado do Brasil. p 6 261 “Em Lisboa. Ms SS. Severino. retornou ao Ceará a fim de apelar aos companheiros de militância na tentativa de arregimentar forças por um movimento pacificador. aceitou participar do Integralismo. vejo em jornal chegado do Brasil. em João Pessoa. Severino Sombra não compareceu ao encontro. Um belo dia. acabou por envolver a classe média. onde estive durante todo o tempo de exílio. Após acusar Plínio Salgado de ter plagiado suas obras. Desacreditado em São Paulo (. em Recife. aproveitar o meu movimento. porém.) Plínio 260 Salgado. realizado no Teatro Municipal. Memórias. . Memórias. ao perceber que Plínio Salgado havia dado uma roupagem mais urbana ao movimento e que. Ao voltar para o Brasil. ao juntar as fardas caqui da LCT com as verdes do Integralismo.. Por coerência com seus pontos de vista integrou-se aos brasileiros que desejavam a paz. ele foi preso. porém.) planeja então. que era proletária e sindical. A Verdade Sobre a Ação Integralista Brasileira. se afastou do Integralismo. soube da fundação da Ação Integralista e da filiação do seu movimento 261 legionário ..148 mentalidade do Norte e do Sul” (. Museu SS – Vassouras-RJ. em Natal e em Fortaleza o idealismo da mocidade que 260 SOMBRA. com ameaças contra os jovens militares que exerciam atividades políticas. RJ. que o líder integralista de São Paulo comparecera ao Congresso dos Revolucionários. porém. No mesmo ano. acusado de articular forças nordestinas para auxiliar São Paulo contra o governo de Vargas. De Lisboa Severino Sombra escreveu: Um belo dia.

(Nota Oficial mandada 262 SOMBRA. Pharmacia. Sombra recebeu a seguinte carta de Plínio Salgado: Sombra. Severino. Organizei núcleos integralistas na faculdade de Direito. Rio. a cousa vae indo muito bem. Escrevi-lhe. No Distrito Federal. “Vou publicar uma revista Estudos Integralistas. sem cessar. Memórias. Em Minas Geraes. Já alistei mais de 3. em São Paulo”. Tenho doutrinado. podendo vestir-lhes a “camisa verde”. conto já com o apoio dos ferroviários da Mogyana.149 eu chamara a luta e junto a qual fizera 262 propaganda em seu nome. Venho hoje lhe contar que o movimento em que você me poz. o que ele estava desenvolvendo aqui. Medicina. Escola de Comercio e Gymnasio de S. Engenharia. da qual não tive resposta (Severino afirmou nunca ter recebido tal carta). que pedem. conto já com o apoio dos“camisas verdes”em São Paulo. Bahia e Recife. há tempos. Um delles foi meu candidato à Constituinte (cumpria justamente uma pena. cit. além dos do Estados que citei acima. o operariado. Quando lemos a introdução desta carta. Sorocabana e Nordeste. Ainda no exílio. como se fizesse uma prestação de contas. Já tenho núcleos no Amazonas. grande parte dos voluntários paulistas vieram comnosco. tem-se a impressão de que nunca foi interrompido o diálogo entre eles. RJ. No Rio Grande do Sul estou começando. Paraíba e Goyaz. uma longa carta. op. Vassouras. fato que é negado por Sombra. Plínio Salgado continua a relatar. Paulista. em São Paulo. quando afirma que nunca havia recebido dele nenhuma carta. o Olbiano de Mello caminha vitorioso. marcha victoriosamente. Pará. como participante e responsável por um dos movimentos mais liberais e plutocrata realizado no Brasil”. .000 “camisas verdes”em São Paulo. Paulo.

A Dissidência de Severino Sombra. Paulo!!!” 7. p 74. falta de sinceridade no relato dos dados. que existia tal desorganização dentro da hierarquia. 264 CÂMARA. no qual tomara parte como representante desta Província. Horacio Duarte. Severino SOMBRA. para demonstrar o christianismo do movimento. Pedro Weinmann. que o movimento que se dizia cristão passava agora a ser somente “deista”. Paulo sangrando de dor e viera ao Congresso Revolucionário do Rio.150 publicar em Recife (Jornal Pequeno” de 22 de Março de 1934) Em desabafo. Em carta aberta a população do Rio Grande do Sul. IV. outros membros da AIB também o fizeram. Rio de Janeiro: Editora Livraria Clássica Brasileira. até budhista 263 poderia ingressar. choramingando pedidos aos “amigos de S. como o exemplo citado dos participantes do Sul do país. já havia conhecido. Vassouras-RJ. aceitando até budistas: O Triunvirato Provincial procurando elucidar essa dúvida deu uma carta assinada pelo Dr. Sporleder. não foi somente Severino Sombra que se desligou da AIB. andava agora. Alcino Trindade. Carta dirigida aos principais jornais do Rio Grande do Sul colocam os motivos que os levaram a tomarem tal atitude. que causa ojeriza aos seus amigos de 264 ontem ”. “O Integralismo em face do Catolicismo”. 1958. Leães Sobrinho. Onde dizia: “a relação do Integralismo com falsos católicos. assinada por Humberto Della Méa. Enumeraram que dentro das hostes integralistas havia: maçons. Helio F. Helder Câmara escreveu no jornal “A Ação”. mais tarde Sombra diria numa entrevista gravada pertencente ao CEDIK: “Ah! O Sr Plínio que deixara S. dizia que nelle. Helder. . em que elle fazia referências ao Congresso de Victória. Ao tomar conhecimento de dissidência dele. Eduardo Martins Gonçalves. In: Enciclopédia do Integralismo V. Andrino Braga. crítica feroz ao antigo companheiro. porém sua dissidência foi vista por seus antigos companheiros como uma traição. de 11 de fevereiro de 1934. Helder Câmara afirmava que seu antes amigo feria agora os 263 Carta aberta à população do Rio Grande do Sul. e onde. desde os primeiros tempos um traidor em potencial: o Severino Sombra. Como se pode observar.

a LCT representou um momento importante na História dos movimentos de massa no 266 Brasil . sempre se repete. tomando sua posição providencial na caminhada humana... talvez possamos encontrar alguma idéia para as soluções que nos apresentam o momento político atual. cit. 374. a cidade de Deus e a cidade da terra. Se compreendermos suas motivações e sua interpretação. ao que parece. Por todas essas circunstâncias. O que pretendemos é mostrar até que ponto "certas contingências" moldam o modo de ser e de pensar de alguns indivíduos. p. bem intencionados uns mal intencionados outros.151 sentimentos cristãos daqueles que de boa vontade ansiavam pelas reformas no meio trabalhista brasileiro.. 265 esperando ser condenado por elas o movimento. estruturada nos moldes do período medieval. visto que. . deste momento da historiografia. A LCT sendo corporativa propunha a abolição das classes e imprimia a esse movimento a necessidade de um governo forte. Não aprende. 74. de logo se prestasse a focalizar todos os belos valores positivos que a nova idéia contém. quando da sua ordenação sacerdotal não reconhecia mais o antigo amigo e reclamava deste ter enviado uma carta as Autoridades Eclesiásticas.” Suas queixas reportavam o desentendimento entre os participantes do Sigma liderados por Severino Sombra. Quais os nexos que levaram Severino Sombra a estruturar um ideal capaz de organizar um movimento que trazia em seu bojo a filosofia social-cristã. Que todos os que se levantaram em pontos diversos do Brasil contra a doutrina do Sigma meditem no que lhes manda um sacerdote camisa-verde da província do Ceará. 266 PONTE. que fora afilhado de Severino Sombra. a História como o pêndulo de um relógio. têm tentado jogar uma contra a outra. Isto deveria bastar para a Igreja. que o nacionalismo orgânico das pátrias totalitárias é o sentido novo do século. p. op. O Padre. Não foi objetivo desse artigo falar da biografia de Severino Sombra.“Mais uma vez surgiram dúvidas sobre perigos de heresias na doutrina e prática integralista. que pregava o retorno à terra. . que abria uma brecha nas fileiras integralistas: Católicos. É com esse objetivo que nos lançamos 265 Ibid.

as causas do depauperamento de nossa economia e encontra essa causa a partir dos primeiros empréstimos externos tomados a banqueiros judeus logo aos a Independência e que se desdobraram e assumiram uma nova forma de 269 colonização Acreditando nas igualdades humanas traçou analogias entre os cantadores sertanejos e os menestréis medievais. 8.152 nesta pesquisa. que ele entrará em contato com as idéias plínianas. 2-10. Dissertação (Mestrado em História). jornalista. por um judeu que há um século subordina a economia brasileira ao interesses do 267 banqueirismo internacional e faz do governo uma marionete ”. A Crítica Romântica à Miséria Brasileira de Gustavo Barroso. mas também pelas inúmeras atividades que desempenhou ao longo da vida. após a tradução que fez do “O Protocolo de Sião”. Com esse trabalho ele denunciava aos brasileiros o que ele considerava que estava por trás do “mal do mundo”. já com 44 anos. Departamento de PósGraduação em Historia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo São Paulo. no Ceará . p. escritor. p. Ao teorizar sobre a nova posição política procurou na análise histórico-economica. . 268Ibid. Antonio. Gustavo Barroso. em 1914. Publicando a sua primeira obra integralista. a integrar as fileiras verdes. “O Integralismo”. Brasília: Editora Universidade de Brasília. 269 SOUZA. iniciou cedo sua vida intelectual. 267 RAGO FILHO. Assim passa em 1933.O Integralismo: conclusões finais. em Fortaleza. através da compreensão do passado buscarmos entender o nosso presente. Empenhou-se no projeto de renovar a sociedade “da restauração do culto de seu glorioso 268 passado ”. Foi advogado. Somente a partir de “O Integralismo em Marcha” que ele adotara suas ideologias anti-semitas. In : Curso de Introdução ao Pensamento Político Brasileiro. 1982. então presidente da Academia de Brasileira de Letras. 64. Gustavo Barroso não foi apenas conhecido pela ampla produção literária. político. Leu pela primeira vez o Manifesto de Outubro de 1932. Foi secretario do Estado do Interior e da Justiça. Quando lançou “Brasil – Colônia de Banqueiros” tenta demonstrar que a crise nacional é “produzida historicamente pelo capital inglês “mas precisamente por Rotschild. Das três vertentes sobre as quais se diz da formação do integralismo. p. nascido em 29 de dezembro de 1888. 1989. onde reúne uma série de conferencias datadas do mesmo ano. Francisco Martins. Cearense. 8.

Coube a ele dentro das fileiras do credo verde. Afastou-se do movimento após o golpe de 37. Essa seria a base sobre a qual alicerçaria o arcabouço da unidade planejada para a 272 integração e respectivos ordenamentos” . Estado de São Paulo. o integralismo era fruto de um amadurecimento analítico dos problemas que rondavam o nosso país. 271 SOUZA. não uma expressão mimética de fenômenos como o fascismo italiano e muito menos do nazismo. p. por discordar da aliança feita entre o integralismo com os liberais em 1938. portanto. Formou com Barroso e Salgado o tripé da 270 SIMÔES. à organização jurídico-política ordenamento de um Estado modernizador. Foi um dos responsáveis pelas “bandeiras” .Aderiu a AIB em 1933. Reale toma o socialismo como um valor que se vinculará a toda a problemática brasileira. cit.grupos de intelectuais que percorriam o país para divulgar e criar novos grupos.153 elegendo-se deputado Federal no ano seguinte. assumiu a tarefa de teorizar princípios desta filosofia política ligada ao processo revolucionário que se 271 desdobrava ”. aderiu ao integralismo em 1933. 56. político. da Ciência Jurídica e finalmente ao nível da reflexão da filosofia política. da Economia. Já para Miguel Reale. “Corporação e sindicato. 64. professor do Largo São Francisco. sem sombra de dúvidas. Jackson de Figueiredo e Alceu do Amoroso Lima no Período de 1921 a 1945. serão trabalhados ao nível da sociologia. p. São Paulo. Renata Duarte.Para ele haveria uma possibilidade de aglutinar os interesses dos sindicatos e respectivas corporações. 272 Ibid. conceitos que para ele. uma proposta mais tecnicista. escritor. após contato com as idéias integralistas vistas por ele naquele momento como capazes de dar uma resposta ao artificialismo em que estavam submetidas as intelectualidades brasileiras. p. dentro das nossas especificidades e. Jurista famoso. Programa de Estudos de Pós-Graduados em Educação: História. 2005. . Foi o comandante-geral das milícias integralistas e respondia pela secretaria Nacional de Educação Moral e Cívica. Política e Sociedade da Pontifícia Universidade de São Paulo. além de ser membro do 270 Conselho Supremo . Dissertação (Mestrado em Educação).Ele inicia assim uma corrente visando mais o desenvolvimento social vinculado ao problema da liberdade “Essa corrente foi iniciada com a reflexão jurídico-poíitica. que tomando a si a posição de vanguarda entre os jovens de sua época. o segundo homem no integralismo. op. em 1910. Ele nascido na mesma cidade de Plínio São Bento do Sapucaí. Foi. 64. Integralismo e Ação Católica: Sistematizando as Propostas Políticas e Educacionais de Plínio Salgado..

115. 274 SOMBRA. op. SP : EDUSC. Apud. negando sua identidade com o fascismo europeu. “temente a Deus" e. a fraca industrialização que ocorria nos Estados brasileiros que se situavam fora do eixo Rio. traz a afirmativa de que “a Legião Cearense do Trabalho teve uma grande repercussão política. “Grandeza de Batle” In : O Argumento Liberal. em sua obra citada. A LCT criou as bases do Integralismo e demonstrou que Plínio Salgado já tinha a pretensão de criar um Estado integral. 277 CAVALARI. Já. mas o projeto político que a AIB ofereceu em 1932. 1974. mas. as condições históricas que permitiram o seu 276 nascimento. na página 115. 276 CAVALARI. 1983. Integralismo : fascismo brasileiro na década de 30. J.. 1999. fica evidente (. a respeito ver: MELQUIOR. a compreensão da sua capacidade de influir nos vários segmentos da sociedade brasileira. O forte sentimento religioso e místico do nordestino. 114. p. quando foi fundada. TRINDADE.“uma forma de 277 regressão” no desenvolvimento do capitalismo nacional. liderada pela interpretação chasiniana.. p. o Integralismo seria uma ideologia reacionária e utópica. Nos dois casos. 275 Embora Hélgio Trindade tenha afirmado isso. determinante. pois muitos já o fizeram. a Legião é a precursora da legislação trabalhista 275 no Brasil” . H. a partir da Carta Del Lavorno. R. vê o Integralismo como resposta ao capitalismo hipertardio. Hélgio. R. além da natureza ideológica do movimento.M. a ponto de ter precedido e reforçado a 273 convergência ideológica de direita que se manifestou nessa época” . p. os trabalhadores deveriam ser isentos de culpa. Quando a historiografia nacional questiona o Integralismo. não permitindo por parte dos trabalhadores. sobre a biografia de Plínio Salgado desnecessário se faz discorrer sobre ela. G. pelo contrário.neste contexto. era emprestado da Legião criada por Sombra. Este foi um movimento de expressão.” Uma outra corrente intelectual.). 21. Partindo do pressuposto que a crítica do Integralismo tem sucumbido “a explicação mimética. Feiteiro.154 base integralista. M. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira. p. cit.São Paulo.. 26. como foi o caso em nosso país. que defendia o trabalho e que não aceitava 274 a possibilidade deste ser tratado como mercadoria . até porque esses “sucessos da direita no Brasil’ só se deram em função das 273 TRINDADE. forte. p. .Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil (1932-1937) Bauru. em nossa leitura é bastante problemática a afirmação sobre a criação das leis trabalhistas no país. Esta corrente “a analisar . 257-354. São Paulo: DIFEL. sujeito à lei de oferta e procura: “A influência da Carta Del Lavoro.F.

Embora tenha sido desqualificado pela 278 historiografia como mero fascismo caboclo . ajudado pelos militares. 279 CHAUÍ.Mestre em História Política. Pontifícia Universidade Católica.. pois foi uma resposta às transformações políticas. op. p. FRANCO. já que a classe média não dispunha de nenhum projeto social e político. Apud. Nascido desse vazio político. o 279 Estado é o sujeito histórico do Brasil. econômica.cit.155 contingências mostradas. CAVALARI. M. na verdade o Integralismo não pode ser repudiado pela História. que somente o Estado poderia "preencher".. São Paulo. Marilena. São Paulo. p 19.  EMÍLIA CARNEVALI DA SILVA . cultural e religiosa ocorridas entre as duas guerras mundiais. 9. . 278 TRINDADE. op. Silvia. à falta de uma burguesia nacional plenamente constituída. fizeram com que surgisse "um vazio de poder". 2006. 20 . cit.21. Os operários desorganizados. fornecendo o espaço para a penetração de idéias totalitaristas.

19. Na imprensa integralista não foi diferente. Miguel Reale. Neste texto. 1980. Já há muito está superado o conceito de que a imprensa. No que tange à imprensa partidária – ainda mais desprezada – esquece-se que ela pode ser uma fonte fundamental a respeito do partido ou ideologia dos quais determinado periódico é porta-voz. Maria Lígia. Nestes. – não seria útil para a investigação historiográfica. pretendo fazer uma análise da trajetória da imprensa integralista na capital paulista. Paulo. Tal tema – a relação entre integralistas e trabalhadores – também tem sido pouco estudado. uma temática sindical-corporativa. No que tange à questão operária.156 8. por ser tendenciosa – seja a “grande imprensa”. . documento riquíssimo para a pesquisa histórica. dentre outros). esse caráter tendencioso pode elucidar muito mais a respeito da própria fonte do que sobre seu objeto de descrição. um discurso específico voltado para . 280 CAPELATO. poderia ser encontrada. as quais ocupavam espaços consideráveis em vários de seus jornais. p. verifiquei que nos livros doutrinários de autores integralistas (Plínio Salgado. Olbiano de Mello. que foi um dos principais periódicos integralistas do país na década de 1930. centrando-me nas questões sindicais e trabalhistas. a de caráter partidário etc.ou sobre . Maria Helena & PRADO. no máximo. São Paulo: Alfa-Ômega. Gustavo Barroso. No dizer de Maria Helena Capelato e Maria Lígia Prado. O Bravo Matutino – Imprensa e ideologia: o jornal O Estado de S. A IMPRENSA INTEGRALISTA DE SÃO PAULO E OS TRABALHADORES URBANOS (1932-1938) Renato Alencar Dotta De uma forma geral.os trabalhadores foi pouco comum. Esse artigo pretende ser uma contribuição para o conhecimento da imprensa integralista e do espaço reservado às questões sindicias e trabalhistas nessa mesma imprensa. “a escolha de um jornal como objeto de estudo justifica-se por entender-se a imprensa fundamentalmente como instrumento de manipulação de interesses e de intervenção na 280 vida social”. a imprensa é um vasto e diversificado depositário de informações. Enfatizei a análise do jornal Acção. Como é sabido.

V. 100. do Rio de Janeiro.. simpatizando abertamente com a causa integralista. e era o porta-voz do Departamento Universitário da AIB da Província de São Paulo. o primeiro no Brasil) foi O Integralista. de Nelson Werneck Sodré. foi A Offensiva. p. P. os jornais publicados no interior do estado. Nos quatro exemplares encontrados. S. 1966. mas que. cit. p.78 %. e CALDEIRA. Anna Blume. As revistas eram Anauê (sediada no Rio de Janeiro) e Panorama (com redação em São Paulo e sob a responsabilidade de Miguel Reale). Mercado Aberto. op. que incluía ainda revistas de circulação nacional. Integralismo e Política Regional – A Ação Integralista no Maranhão (1933-1937). 282 Como exemplo. op. Estão excluídos. op. 384. mas há indicações valiosas sobre isso em GERTZ. um dos principais jornais integralistas do país. nem é citado seu caráter partidário. René. TRINDADE. v. O segundo contingente ficava no Distrito Federal. havia até uma folha integralista em língua alemã em Novo Hamburgo (RS). Rosa M. porém. O primeiro jornal da AIB publicado na cidade de São Paulo (aliás. de caráter abstrato.e cidades de interior dos estados possuíam.58). Paulo. . com 16. SODRÉ. p. pois. Não encontrei listas de jornais simpatizantes. ou 42. A “Sigma Jornaes Reunidos” chegou a ter 88 jornais (CAVALARI. cit. não há textos sobre operários ou trabalho. um jornal diário ou semanário diretamente vinculado ao movimento. além de alguns fatos políticos. 283 O único periódico integralista do qual encontramos referência na História da Imprensa Brasileira. no auge do movimento.. 361-3 e CAVALARI. Civilização Brasileira. Aliás. faremos uma pequena retrospectiva da imprensa 283 do movimento publicada na capital paulista . em 1939.84 % de todo o país. Alegre. Antes de analisarmos o Acção. estão textos de interesse cultural e livresco. Entre seus artigos. Rosa M. A imprensa do movimento integralista era bem abrangente. João R. CARONE. Rio de Janeiro. Havia ainda jornais que não pertenciam ao movimento. p. O foco sobre a imprensa integralista no estado de São Paulo – e não outro estado – se justifica porque o mesmo já possuía naquele 282 momento o maior contingente operário do Brasil. cit. anexo II. e que muito pouco poderia informar sobre a relação entre integralistas e trabalhadores. cit.. formando uma cadeia de jornais de nível nacional que foi batizada de “Sigma Jornaes Reunidos”.de Manaus a Porto Alegre . Quanto aos jornais. 1987... publicavam artigos 281 de chefes e militantes. lançado em dezembro de 1932.157 que era. Para uma ampla relação dos periódicos integralistas. Nelson Werneck. História da Imprensa Brasileira. op. o estado de São Paulo tinha 476 472 trabalhadores na indústria.. Os exemplares são de datas com 281 Detive-me nos jornais da capital paulista e que tinham alcance por todo o estado. Várias capitais . chamada Der Kampf. 1999. O Fascismo no Sul do Brasil.

por exemplo. que veiculava os artigos de Plínio Salgado antes da criação da AIB.158 espaços de tempo variáveis entre si. efeméride já celebrada pela elite paulista como um símbolo de 284 resistência ao governo Vargas. É a mocidade de uma Província humilhada por uma ditadura inepta que se ergue forte e luta! É Miragaia. juntamente com uma multidão a redação de um jornal favorável ao governo Vargas. com a intenção de atingir um maior público. Os jovens. Curiosamente. os outros exemplares são: dois de 1935 e um de 1936).. de caráter mais geral. contudo. A data escolhida para o surgimento do jornal não foi casual: 23 de maio. que despertou para glória da vida no lamaçal das trincheiras! (. sua irmã que veste uma camisa verde. 285 BASTOS. não sendo possível precisar uma periodicidade (o número 1 é de dezembro de 1932.. os estudantes Miragaia. foram considerados “mártires” pela elite paulista. Sob a direção de Adelmo Sampaio. . em resposta aos exploradores do sangue ainda quente de uma mocidade generosa! É o batismo de fogo de uma geração. Dirigido por Osvaldo Bastos.) O Aço Verde aparece neste dia histórico de Piratininga gloriosa – para ser a grande Tribuna donde falarão os moços paulistas a palavra moça da 285 Revolução Integralista. Dráusio e Camargo foram mortos num protesto depois de atacarem. p.2. Martins. “O nosso aparecimento”. Apesar do título vago. seu primeiro número possui oito páginas. do qual localizamos apenas o exemplar de número 4. Esse fato seria um dos estopins da chamada Revolução Constitucionalista. 23/5/1935 (nº 1). que cai sem vida! É mais tarde. O Aço Verde foi um periódico integralista publicado na cidade de São Paulo. isso já em 1935. nesse mesmo dia era empastelado por motivos semelhantes o jornal A Razão. Outro periódico integralista sediado em São Paulo chamava-se Variedades. nenhum artigo referente à questão trabalhista. tinha por subtítulo: “Gazeta Literária-Política-Noticiosa”. a maior parte dos textos desse exemplar foi escrita por militantes da AIB e referentes ao integralismo. de periodicidade semanal. mais conhecidos pela sigla MMDC. datado de outubro de 1933. O Aço Verde. Oswaldo. Não existe. 284 Em 23 de maio de 1932.

23/5/1935 (nº 1). TERRA e LIBERDADE. Sem Deus. logo não há terra. mostra-se que a “solução” seria o Estado forte corporativo representado pelo 286 integralismo. depois a “ilusão” do comunismo e. o antisemitismo também aparece nas páginas do jornal: O consórcio entre o comunismo disfarçado da Aliança Nacional Libertadora e o Judaísmo Internacional. que segue uma estrutura que será recorrente em outros artigos de jornal: critica-se o capitalismo e o liberalismo.. O Aço Verde. Logo no primeiro número. para os Sem Família. .. é patente. p. voltado para a Aliança Nacional Libertadora (ANL). não há direitos nacionais. 8. 30/5/1935 (nº 2). logo não há pão. logo não há liberdade. 287 “Pão.) 286 FUNARI. Só o Integralismo dará Pão. as notícias e textos doutrinários dirigidos aos trabalhadores eram freqüentes. 1. Vimos na organização do diretório de Belo Horizonte. Terra e Liberdade”. que vinha arrebanhando um número crescente de militantes. Clemente. Pátria e Família”): Operários! Vosso lugar é com os vossos companheiros que aos milhares já estão no Integralismo.159 Embora não houvesse uma seção voltada ao operariado no semanário. da 287 honra da Pátria e dos direitos da Família! Somado a esse anticomunismo. Só o Integralismo dará PÃO. O Aço Verde. (. Assim. o texto “Pão. p. Sem Pátria. em nome da justiça de Deus. Uma tônica do jornal será o anticomunismo. diversos nomes de judeus. Terra e Liberdade”. inclusive no meio operário. não há dignidade humana. Terra e Liberdade. à frente dos ‘aliancistas’ daquela Província. desqualifica o mote da ANL ao mesmo tempo que exalta o da AIB (“Deus. não há justiça. é publicado o artigo “O operariado em face do Integralismo”. “O operariado em face do Integralismo”. por fim.

César. como estás. . datado de 19 de outubro de 1935. nem crédito. nesse mesmo número. Através dessa rápida análise. Esse boletim era para ser reproduzido pelos núcleos integralistas do interior do estado e distribuídos “aos milhares. nem instrução para teus filhos. para ti e para teus filhos! Vem ajudar os teus companheiros! Entra. 290 RIVELLI. O Aço Verde. 288 “Aliança & Judaísmo S. em todas as cidades”: Lavrador humilde. Não sabemos quando O Aço Verde deixa de circular. que os convoca a entrarem na AIB.000 camisas-verdes! 289 O jornal também não deixou de defender a política trabalhista da Itália fascista. que trabalha o dia inteiro e não tens conforto em casa. um modelo de boletim para trabalhadores rurais. O Aço Verde. 20/6/1935 (nº 5). p. para as fileiras dos 450. realizado em local cedido pelo judeu Saul Cag. 6/7/1935 (nº 7). não é vida! Isso precisa acabar! Precisa raiar dias melhores.160 O último comício anti-integralista. 8. 8. E a estupidez burguesa ainda assim ficará pensando que o problema judaico é uma criação da fantasia dos Srs. nem livros. 8. O exemplar mais recente encontrado é o de nº 17. Henry Ford. é publicado. O Aço Verde. nem descanso na velhice (. do povo alemão e dos 288 integralistas? À caça de adeptos e eleitores.) Isso assim.. muito embora com um discurso calcado nos dogmas integralistas do anticomunismo e até no anti-semitismo. vemos que o jornal integralista que antecede o Acção já procurava manter um diálogo com os trabalhadores..”. Leunroth (sic) e Fúlvio Abramo. A. p. 20/6/1935 (nº 5). teve entre os seus oradores os conhecidos hebreus. em texto que diz que aquele país era “uma imensa 290 oficina em que o trabalho se desenvolve num ritmo fecundo e feliz”. Leon de Poncins. 289 “Aos trabalhadores rurais! Aos colonos! Aos sitiantes! Leiam com atenção!”. “Fascismo e trabalho”. proprietário do Rink São Paulo. já. p.

A seção sindical circulava diariamente.que vai marcar presença no jornal até praticamente a extinção da AIB como partido político em dezembro de 1937. 34. a coluna fica restrita àquele texto principal e o noticiário referente ao trabalhador invade outras páginas do jornal. com redação no Rio de Janeiro. muitos dos não-alfabetizados eram trabalhadores de baixa renda). existem notícias referentes às questões do trabalho.” 293 Apesar de o analfabetismo ser alto neste momento (sendo que provavelmente. vemos que era comum os jornais integralistas fazerem referências a operários e trabalhadores em geral. Ou seja. que devem ser examinados com cuidado. uma seção chamada “Syndicalismo” – depois “A Nota Syndical” . V. A Imprensa Operária no Brasil – 1880-1920. Assim. Cavalari colhe esses dados do jornal Monitor Integralista de 7/10/1936. 1935. p. houve desde o primeiro número do Acção. Esta – nem sempre assinada – variou de formato através do tempo. . à exceção da capa). por seus fins propagandísticos. p. em tese.3. 4. mas de circulação nacional. cit. Alguns meses depois. já que o jornal chegou a uma circulação de 78 mil exemplares em nível 292 estadual . Sobre essa tradição ver: FERREIRA. Em 8/5/1937. 1978. Além da seção sindical. anúncios publicitários. em 1936. temos em fins de 1933: cerca de 20 mil inscritos. o número teria saltado para 918 mil. 1. Maria Nazareth.. já que tal página tende a ficar mais exposta que as outras. entrevistas com pessoas do meio sindical. Rosa M. p. op. havia convocações sindicais profissionais. além do texto principal. em geral ligada a anarquistas ou socialistas. possuía uma “Página Syndical”. 6 (“Não há município de São Paulo que não receba este jornal. Quanto ao número de filiados da AIB. 180 mil. há indicação de que Acção circula em “mais de 400 municípios e distritos brasileiros.”) e 12/11/1937. e até julho de 1937. operários de diversos centros urbanos do estado de São Paulo poderiam tomar conhecimento dos pareceres 293 do jornal. p. quando a AIB sofre um grande impulso em termos de quantidade 291 de adeptos. sobretudo a última (posição estratégica. 292 Ver Acção. p. em 1934. 22/10/1936. Vozes.161 Assim. chegado a 1 milhão 352 mil militantes inscritos. sobretudo a partir de 1935. Entre os militantes. por exemplo. o Acção certamente era uma importante caixa de ressonância das idéias e ideais integralistas. 380 mil. não podemos esquecer que havia uma tradição de imprensa operária. Para se ter uma idéia da importância da questão do trabalhador no movimento integralista. temos apenas os computados pelos próprios integralistas. CAVALARI. Petrópolis. 291 A Offensiva. mas podemos crer que ressoava para além da esfera das fileiras verdes.. De início.

há um Congresso Operário Integralista.) op. um indicador mais confiável são os números referentes às eleições de 1936: “Nas eleições municipais realizadas em alguns estados nesse mesmo mês [março 1936]. Esse plano foi utilizado como pretexto para o golpe de novembro de 1937. Paulo. SILVA. a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República. 37-57. Entre os líderes da conspiração estavam Belmiro Valverde. cit. ordens expedidas pelo Tribunal de Segurança Nacional.” BELLOCH. Hélio.. Esta consistiu de uma revolta que exprimia a insatisfação . quando foram atacados o Palácio Guanabara. Euclides Figueiredo.162 Tal momento. a AIB conseguiu uma importante vitória. O diário continua circulando ditadura Vargas adentro. 3056 (verbete “Plínio Salgado”).. Israel e ABREU. depois (a partir do dia 294 Além das estatísticas referentes ao número de adeptos. e o Ten. o ponto culminante dessa aproximação/colaboração foi a confecção do chamado “Plano Cohen” –suposto plano de subversão comunista – por um integralista. teve seu primeiro número lançado em 7 de outubro de 1936. 296 Nesse período. Contudo. p. Suas ações restringiram-se basicamente ao dia 11 de maio de 1938. e. Além disso. entre os líderes). quarto aniversário de fundação da Ação Integralista. cobre ainda um período particularmente dinâmico do movimento: desde 1935 há 294 uma tendência crescente da militância . quando. o Gen. Ceará. Castro Jr. por fim. op. cit. Alzira Alves de (orgs. HILTON. 17. no 295 final do mesmo ano há a aproximação com o governo de Vargas e a cancelamento das eleições presidenciais de 1938. ambos no Rio de Janeiro. cit. órgão da AIB na capital paulista. 295 Entre os principais fatos que apontam uma crescente aproximação entre a AIB e o governo federal estão a suspensão da perseguição e a libertação dos integralistas presos na Bahia. vol. e o Ministério da Marinha. mas também de grupos liberais (dela participaram representantes da família Mesquita. antes do golpe do Estado Novo. Alagoas. analisado nas páginas do Acção. A primeira sede da redação do jornal localizava-se na Rua do Carmo. pp. Olímpio Mourão Filho. o Acção vai oficialmente apoiar o Estado Novo. Sobre esse episódio. v. e a AIB passa a se chamar 296 Associação Brasileira de Cultura (ABC). a AIB deixa de existir como partido político. não-integralistas). no Rio. totalizando cerca de 250 mil votos. capitalizando o clima de anticomunismo existente no país: elegeu 24 prefeitos e mais de quinhentos vereadores em Santa Catarina. 3. de nível nacional. .. Severo Fournier (estes últimos. porém com a prescrição do termo “integralismo”. em maio de 1937. residência oficial do presidente Vargas e sua família. O diário Acção. op. O jornal deixa de existir a menos de um mês antes da “Intentona Integralista” de 11 de maio de 1938. o cap.em dezembro de 1936. Stanley. já citadas. A grande maioria de soldados e marinheiros envolvidos (além de alguns civis) era formada por integralistas. 1º andar.não só de integralistas. a imprensa integralista mostra apoio a iniciativas governamentais. sem opções. S. Otávio Mangabeira e o Cel.

Com exceção das segundas-feiras. provavelmente a seção paulista da AIB possuía dinheiro em caixa para financiar um jornal diário mais ou menos nos moldes do vespertino integralista carioca. nos termos integralistas) e. Acção. os camisas-verdes tiveram importantes vitórias nas eleições de 1936 em diversos estados. Não é à toa que ele surge exatamente em 1936. 298 CAVALARI. por sinal. sendo. o periódico integralista de maior longevidade nos anos 30. 9/10/1936.163 3/8/1937). p. p. p. A Offensiva (do qual. criada em 1935 e subordinada à Secretaria Nacional de Propaganda. unificou-se todos os periódicos da AIB numa rede. 299 Os candidatos a prefeito do Sigma venceram em Presidente Prudente e Cravinhos. pois aproximavam-se as eleições presidenciais de 1938. Dirigido por seu fundador. é uma pequena rua no lado norte da Praça da Sé. Rosa M. A Rua Irmã Simpliciana. O vereador da capital era José Cyrillo Jr. se possível. sem dúvida. chamada Sigma Jornaes Reunidos. pois além da crescente militância. Bento Fontão Lippel. 297 “Jornal ‘Acção’ ” (anúncio). em termos de imprensa. A Offensiva foi fundado por Plínio Salgado a 17/5/1934 e extinto em março de 1938. 1. 3/8/1937. n º 17-A. Para um melhor controle. tendo se tornado um dos mais importantes veículos publicitários do partido. na Rua Irmã Simpliciana. já durante a vigência do Estado Novo. circulou ininterruptamente até 23 de abril de 1938. Vislumbravam a hipótese que parecia cada vez mais palpável de chegar ao poder. op. o maior investimento. tinha como chefe de redação Madeira de Freitas. Pretendia ser um jornal de circulação estadual (ou “provincial”. o Acção por vezes reproduzia 300 matérias) . 1. da AIB em São Paulo. hoje. a divulgação da doutrina partidária. 84. Acção foi. com redação no Rio de Janeiro. Este foi considerado o “Ano Verde”. tinha circulação nacional. cit. Os jornais integralistas tinham como razão mesma de sua existência. O prefeito de Cravinhos foi Pedro de Gasperi. 300 Principal jornal da AIB. Por tudo isso. Aquele. dois prefeitos e vários 299 vereadores incluindo um na capital. O diário Acção. com oficinas próprias. naturalmente. era ferroviário. ser lido em outros estados. depois diário e matutino. chegando a eleger no estado de São Paulo. era parte 298 deste “consórcio jornalístico”. ligando esta à Rua Venceslau Brás. Acção. . na qual Plínio Salgado sairia candidato.. no 297 centro de São Paulo . Inicialmente semanal. provavelmente. sobretudo após a tentativa fracassada de tomada do poder conhecida como Intentona Comunista (o sentimento anticomunista era muito explorado pelos integralistas).

302 Mário Mazzei Guimarães foi chefe municipal da AIB em Colina. passou a pertencer ao Movimento Democrático Brasileiro (MDB). “Acção foi um vespertino vibrátil e até mesmo agressivo. Ernani Silva Bruno. em suas Memórias. mas não teve papel de destaque na AIB. Miguel. João. Advogado. era “membro destacado da JOC (Juventude Operária Católica)”. 3518-9. Israel e ABREU. Já a gerência passou pelas mãos de Eduardo Graziano (médico) até 14/1/1938. BELLOCH. p. órgão consultivo da AIB. 175. Alzira Alves de (orgs. trabalharia como redatorchefe do grupo jornalístico Folhas da capital paulista. Em Defesa da Ordem – Aspectos da práxis conservadora católica no meio operário em São Paulo (1930-1945). v. BELLOCH. Mico. Reale lembra da criação do jornal praticamente como uma iniciativa pessoal. Adeus! – Desafios de uma vida (memórias). 305 Ibid. três 302 meses depois). 2425. pp. 101. Hélio Viana. 110-111.) op. Volume 1: Destinos Cruzados. depois do Estado Novo entrou no Partido Social Democrático (PSD) em 1949. A partir de 1965. Hélgio. cit. 187.. pp. 304 REALE. denunciava tanto a Thiers Martins Moreira na secretaria e Santos Maia na gerência. 301 A Câmara dos Quatrocentos.. Bacharelou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) em 1936. São Paulo: Hucitec. 4 (verbete “Benedito Vaz”). FARIAS. Luis da Câmara Cascudo. Mário Mazzei Guimarães (advogado) e 303 Benedito Vaz eram os redatores principais das notícias. p. Vitale foi militante na AIB. v. 110-117. p. Israel e ABREU. cit. Gustavo Barroso. Saraiva.. op. Integralismo – O fascismo. e no ano seguinte elegeu-se deputado federal pelo seu estado natal na mesma legenda. cit.164 Durante toda sua existência. op. Edições GRD.. formada em junho de 1937 era “composta de militantes de diversas províncias integralistas”. e Paulo Paulista de Ulhoa Cintra como “secretário” da folha. . São Paulo. Segundo Damião Duque de Farias. no núcleo de Barretos. V. 1996. Advogado e jornalista. É interessante acompanhar as lembranças de Miguel Reale. Memórias. 1986.. tornando-se 301 depois membro da Câmara dos Quatrocentos . Entre seus colaboradores estavam Miguel Reale. VITALE. 3 (verbete “A Ofensiva”).. Olbiano de Mello e Oliveira Viana. São Paulo. uma das poucas fontes de informação sobre o 304 Acção. 1998. 303 Benedito Vaz nasceu em Ipameri (GO) em 28/8/1913. Cintra era também chefe municipal da AIB em São Bernardo. Além destes. Nos anos 40. TRINDADE. aos quais 305 manifestou seu propósito de fundar um diário em São Paulo. que escrevia com freqüência no jornal. Adeus. e José Ribeiro de Barros (desta última data até a extinção do periódico. Tosco como um moirão mal lavrado e à pressa fincado na terra para servir de marco militar. Segundo o ex-teórico integralista. pp. Damião Duque de. juntamente com alguns amigos próximos.. p. o Acção teve como diretor e editor Miguel Reale. Alzira Alves. município localizado na região de Barretos (SP).

do então candidato às frustradas eleições presidenciais de 1938. p. 12/11/1937. com um censor como cérbero a 306 Ibid. M. 3. Ao mesmo tempo.. aqueles que chegavam até o militante mais distante. o jornal se pretendia de circulação estadual. 28/9/1937. sobretudo de líderes integralistas. Rosa M.. o Acção passa a ter um formato mais próximo do “tablóide”. o jornal 308 passa de vespertino para matutino . ou seja. 309 Cf.. as imagens da folha eram basicamente fotos personalistas. op. p.165 pobreza dos recursos como a inexperiência dos ‘focas’ que o 306 redigiam”. 115. o jornal foi alvo de censura. “os jornais do interior. 1. Rosa M. Miguel Reale afirma que. partido do governo estadual “se valia ilicitamente das leis de exceção (baixadas pelo Governo Federal para combater o comunismo) a fim de nos impor uma rígida censura. Assim como os demais jornais integralistas sediados em capitais. op. cit. O PC. CAVALARI. Segundo Cavalari. 308 “Nova fase”. Contudo. e às vezes até fora do estado. fotos de reuniões do movimento (em sua maioria com os militantes fazendo a saudação com o braço e 309 ostentando o sigma e bandeiras).. Seu formato. “era preocupação diuturna dos colaboradores a análise da conjuntura social e econômica do País. do número 1 até 27/9/1937). . 79. fins doutrinários. Armando de Salles Oliveira. p. id. Acção. o jornal não pretendia ser apenas um repetidor do que se lia nos livros e panfletos integralistas. p. p. de acordo com Reale. 60 centímetros de altura por 48 de largura. O jornal muitas vezes era impedido de fazer críticas ao Partido Constitucionalista (PC). Tal esforço visava. era próximo do formato que hoje chamamos de “standard”. mesmo antes do Estado Novo. editados nos grandes centros onde se concentrava a elite dirigente do Movimento”. pois tudo isso era veiculado de uma maneira a direcionar o pensamento do leitor e/ou militante. Mas. cit. Tendo atingido uma tiragem declarada de 78 mil 307 exemplares . e eventualmente. cartuns . desde o problema da dívida externa às causas determinantes da persistente crise agrícola e 310 industrial” . mais exatamente 49 centímetros de altura por 33 de largura. p. 310 REALE. 113. 307 Acção. contudo. A partir do dia 28 de setembro até sua dissolução. CAVALARI. 90. eram organizados de modo a reproduzir os jornais maiores. em seu primeiro ano de existência (isto é.

417. p. 2a. um delineado posicionamento anti-semita”. situando a imprensa como importante divulgadora do preconceito contra os judeus nesse momento histórico. op. 315 Ibid. 393.. Tucci Carneiro.166 domicílio. edição. 313 Segundo Tucci Carneiro. . frases e títulos de notícias referentes aos judeus (ou não necessariamente concernentes a eles) publicados no Acção. ramerrão comum naquele período em diversos setores na sociedade brasileira. 1995. pp.. p. a cujo critério palmar éramos obrigados a submeter não só 311 os artigos como todo o noticiário!” O financiamento do Acção era feito através da compra em bancas. É curioso que Reale enfatize a censura armandista. 314 Id. apesar de existentes desde o início da circulação do jornal. serão realmente significativas depois do golpe de Estado de 1937. mas vedava todas em relação ao candidato da oligarquia paulista Salles Oliveira. Qualificando-o de “mensageiro anti-semita”. Destacando reportagens. De acordo com a pesquisa de Tucci Carneiro. Brasiliense. através do noticiário nacional e internacional. as afirmações de anti-semitismo. São Paulo. os integralistas tiveram um papel importante nesta difusão do pensamento anti-semita no Brasil dos anos 30: “o maior número de obras anti-semitas publicadas durante a era Vargas é de autoria de integralistas”. 311 Ibid. além de assinaturas e publicidade em suas páginas. conforme veremos adiante. O anti-semitismo na Era Vargas (19301945) – Fantasmas de uma geração.. a censura do Partido Constitucionalista permitia toda e qualquer crítica ao candidato oficial às eleições presidenciais de 1938 José Américo de Almeida. tendência difundida 314 entre vários setores do movimento integralista. 312 CARNEIRO. 353. mas não dedique nem uma linha à censura do Estado Novo. nas linhas e entrelinhas de seu texto. privilegia a análise de dois diários: O Estado de S. Paulo e Acção. Tucci Carneiro analisa o linguajar antijudaico do diário. muito mais intensa. 403-417. a autora aponta que o periódico “expressou. Maria Luiza Tucci. p. Segundo Reale. tema central desta sua tese de 313 doutoramento. período que a autora identificou como sendo de “um revigoramento do anti-semitismo político e xenófobo nos bastidores do 315 governo Vargas”. ao preço de duzentos réis. cit. A única análise de caráter histórico realizada sobre este jornal é de autoria de Maria Luiza Tucci Carneiro em seu livro O 312 Anti-semitismo na Era Vargas (1930-1945) .

Alfredo Egídio foi editor.. op. ao contrário do apontado no verbete que afirma que teria sido Alfredo Egídio de 316 Souza Aranha. edição revista e ampliada. I. cit. Dentro do jornal.) op.) op. In: BELLOCH. o primeiro jornal do Brasil a dedicar toda uma secção especial ao movimento sindical. Podemos dividir o material sindical do Acção em três períodos diferentes: de 7 de outubro de 1936 a 12 de março de 1937 foi o momento de circulação da seção “Syndicalismo”. cit. A (São Paulo)”. bem como os principais momentos de sua trajetória. conforme já dito. 4. 2891-2. op. as atividades e as reivindicações das ações profissionais. além do noticiário referente ao trabalhador. não é tecnicamente uma coluna. Manual Geral de Redação. 318 FOLHA DE S. a AIB deixa de 316 COHN. portanto. de fundar a AIB. sempre precedidas de um tópico ilustrativo de um 317 papel do sindicato no mundo contemporâneo. in BELLOCH. privilegiei. A. 114. M. 319 REALE. Miguel Reale . São Paulo. p. 317 REALE. antes. Amélia. p.. v. assinado por Amélia Cohn. 1987. por um motivo muito simples: “Syndicalismo”. desta última data até 2 de dezembro de 1937. e ABREU. O Manual Geral de Redação da Folha de São Paulo. Como o caso de “Syndicalismo” não é nenhum desses (apesar de “A Nota Syndical”.. etapa correspondente ao momento que vai da proibição dos partidos políticos até a extinção do jornal. cit.” Optei por não chamar as partes sindicais do jornal de “coluna”. a saber “Syndicalismo” e “A Nota Syndical”. por exemplo. quando a seção sindical passa a se chamar “A Nota Syndical”. p. é provável que o Acção tenha sido. Apenas nos permitimos reafirmar que Miguel Reale foi sozinho o diretor do Acção. Sobre esse jornal ver verbete “Razão. A. I. ao lado de Reale . diz que coluna “tem dois sentidos: ou é o espaço usualmente reservado a um colunista ou cada uma das faixas verticais em que as 318 páginas são divididas” . “Ação”. PAULO. (orgs. sim. e muda sua configuração.. Segundo Miguel Reale recorda em suas Memórias. “talvez. (orgs. no qual Plínio Salgado escrevia em 1931-2. por ser formada por vários textos. Neste último período verifica-se que não há mais nenhuma seção sindical. ao contrário de “A Nota Syndical”. 319 conforme sugestão do editor do diário. analisar suas seções sindicais. há apenas um verbete no Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. pp. anunciando as reuniões. v. até 23 de abril de 1938. M. no qual ela relaciona brevemente as principais características do diário. cit. e ABREU. 2a. do diário A Razão.167 Além deste estudo. . sim) optamos classificar conjuntamente “Syndicalismo” e “A Nota Syndical” como seções. e dessa edição. 10. 114. 1.

porém. Esse formato. p. etc. em 28/1/1938: “Logo [depois do golpe de 10 de novembro de 1937] os jornais. por vários textos. Outra espécie de texto muito recorrente era o texto reivindicatório.As seções sindicais e o noticiário referente ao trabalho 1. que muitas vezes não eram respeitados pelos patrões.. as menções a termos integralistas vão diminuindo conforme passam os dias. grifo meu).1 – “Syndicalismo” Essa seção surgiu logo na primeira edição do jornal. mas. quais as vantagens que o operário integralista teria com a ascensão da AIB ao poder. se consolidou apenas a partir do número 4 (10/10/1936). ou seja. (. relatando um episódio ocorrido na Itália fascista referente à expulsão de um empresário da Confederação das Indústrias local por ter agredido fisicamente um 320 Trecho de carta de Plínio Salgado a Getúlio Vargas. a 7 de outubro de 1936. havia apenas um texto principal. cit. Exa. integral. Hélio.2.168 existir legalmente enquanto partido político e nem sequer o termo “integralismo” e derivados podem ser mencionados nas páginas do 320 jornal . havia anúncios de reuniões sindicais e dos Grupos Profissionais integralistas e balanços de reuniões já acontecidas. proibiu que se usassem as palavras integralismo. As profissões mais citadas no período estudado foram os bancários e os ferroviários. Além disso. na página 4. ela não era composta por apenas um texto. começaram a me atacar... No primeiro número do jornal. história do sindicalismo.) A censura de imprensa começou a dar ordens que mais parecem de inimigos de V. havendo censura oficial. como Itália e Portugal) e temas correlatos. op. os sindicatos em outros países (sobretudo onde havia regimes autoritários.. De fato. Proibiu a publicação de meu nome muitas vezes ou em tipo que ultrapassasse o tamanho indicado. Podemos confirmar esta reclamação de Salgado. . 375. Em geral. de reclamações do trabalhador em relação aos direitos adquiridos da legislação trabalhista então em voga. indicando o que era o sindicato para o integralismo. proibiu elogios até literários sobre livros de minha autoria. até desaparecerem.” (Apud SILVA. havia um texto doutrinário. chamado “Se aqui fosse assim. Alguns diretores de jornais me informavam que recebiam ordens diretas de autoridades de abrir fogo contra nós. durando até março de 1937. integralista. 1. assim como a morosidade da justiça em punir os violadores das leis. a ridicularizar o movimento integralista.2 . Diária. ao observarmos as páginas do Acção..”. na maioria das vezes.

Memórias. Tal fato. aliás.. Rio de Janeiro. in: Obras Políticas (1a. sendo obrigado a transcrever trechos de meus livros. M. havia uma notícia referente à lei dos dois terços.169 operário que trabalhava para ele. Acção. 8/10/1936. Na edição do dia 8 de outubro. 7/10/1936. 1983 (Cadernos da UnB). 99. Rosa. cit. “Associação dos Proprietários de Imóveis”. p. diversas edições. op. Editora Universidade de Brasília. número 2. 115. 1936). p. cit. não se repete posteriormente. M.. 322 Perspectivas Integralistas ). . 4. que eram usados “quando se queria fixar determinadas idéias” tidas como essência do pensamento 324 a ser transmitido . “Clube Zoológico do Brasil”. e apenas uma sobre um sindicato propriamente dito: “Sindicato dos Proprietários de Açougue”. o de divulgar notas sobre organizações não necessariamente sindicais. p. página 2. 324 CAVALARI. mas assemelha-se a um resumo de trecho de livro de Reale. “Nem sempre os atribulados empenhos partidários me deixavam lazer bastante para escrever o artigo de fundo do jornal.291 que estabeleceu o mínimo de 2/3 de empregados brasileiros nas empresas vai ser cumprido – O Departamento Nacional do Trabalho fixa o prazo para entrega das relações dos empregados”. Acção. Antunes. 2. pp. p. 15-67 (1a. 325 “Syndicalismo”. em detrimento de estrangeiros. Vejamos alguns: “Sociedade de Medicina Legal e Criminologia”. Há uma nota sobre associação não necessariamente operária. durante certo tempo a seção possuía inserções ou lembretes. 323 “O decreto N º 20. op. Aliás. que obrigava a todas as empresas a terem um mínimo de dois terços de empregados brasileiros em seus quadros. notas a respeito 321 de sindicatos e associações diversas. edição. ladeando o título da seção sindical estavam as frases: Trabalhadores do Brasil – Uni-vos contra o Capitalismo e o Comunismo O Integralismo dará aos trabalhadores 325 Trabalho.” REALE. Ao lado desse texto. não creditado. além do texto histórico e doutrinário (“Evolução do Sindicato”. Assim. Livraria H. fase – 1931/1937). escolhendo sempre tópicos que focalizavam a posição do Integralismo perante o Fascismo europeu ou tratavam da questão social ou problemas econômicos. “Perspectivas Integralistas”. 321 Algumas muito estranhas. 322 REALE. Acção. Algumas vezes havia fotografias e. pois várias delas não tem qualquer vínculo com o mundo sindical. Salário justo e Educação. o tom dessa notícia é claramente voltado para os 323 empresários. “Federação Paulista das Sociedades de Rádio”. Brasília.

170 Além disso. em substituição à seção “Syndicalismo”.I. 329 É possível que Ormelin seja o chefe do Grupo Profissional dos Farmacêuticos (integralista). 4.. 328 Isto é. mas também ao funcionamento da AIB de uma forma geral: A TAXA DO SIGMA é a única arma de que 326 dispõe a A. op. Quando o era. Esses lembretes não precisavam ser necessariamente referentes às atividades sindicais. p.2 . disposta em formato vertical. Orestes Medeiros Pullin.V. 327 A técnica dos lembretes é estudada por CAVALARI. Assim. Os avisos dos 326 Esses três últimos exemplos foram extraídos de “Syndicalismo”. depois de estar ausente em várias edições (a imediatamente anterior havia aparecido em 30/10). também. cit. na maioria das vezes. encontramos frases como: O Integralismo é uma Revolução Sindicalista O ‘CAMISA-VERDE’ que não estiver inscrito em seu sindicato não está cumprindo seu dever. não era assinada. doutrinários.“A Nota Syndical” Esta seção. Devemos reparar no caso acima que. O texto que compunha a seção era normalmente histórico e/ou 328 doutrinário ou comentava algum fato político que acontecia no momento. pp. 30/10/1936. Ela surgiu em 12/3/1937. referente à história das organizações sindicais e do corporativismo. e sua última aparição se deu em 6/11/1937.B. o uso das maiúsculas para enfatizar o objeto central da 327 mensagem. (Benedito Vaz. era composta por um texto. 1. em várias edições os lembretes permeavam os textos diversos da seção. subscrevia-a B. Acção. tais textos não deixam de ser. normalmente. Levantei esta hipótese . Secretário Provincial das Corporações e Serviços 329 Eleitorais). ou ainda Ormelin (não identificado). Obviamente.2. Rosa. e por algum anúncio de reunião sindical. 99101. voltado para o trabalho ou o sindicato. inserindo o integralismo como o mais novo capítulo desta trajetória. nos dois últimos exemplos. A seção.

não era assinada. 330 Por exemplo. passa a haver a seção “À Margem da Vida Brasileira”.O noticiário referente ao trabalho: do golpe do Estado Novo até a extinção do jornal. e também era diária. 19/1/1937. Acção. p. inclusive sobre o trabalho. A 2/12/1937. em primeira página. p. ex. estão postas lado a lado fotos oficiais de Plínio Salgado e Getúlio Vargas. com os preparativos para o plebiscito interno da AIB que vai escolher Plínio Salgado como candidato da agremiação para as eleições presidenciais de 1938. com textos diversos que comentam a situação política e social no país. in: “A Nota Synidcal”.3 . nota-se que a “Nota” vai se tornando um espaço em que se tenta convencer o trabalhador a não votar nos outros dois candidatos: Armando de Sales Oliveira e José Américo de Almeida. “Vésperas de Eleições – Recomeçaram as promessas”. Depois do golpe do Estado Novo (10/11/1937). muito embora a AIB e o próprio jornal tenham 332 declarado apoio à nova ordem política . na qual. 1. 2. a situação dos integralistas é complexa. p. por exemplo. 4. p. por exemplo) foram muito reduzidos. Em seu primeiro mês. e que normalmente relatava as atividades dos núcleos integralistas do estado. por sua visibilidade privilegiada) . que somente poderia subsistir desde que mudasse de identidade e renunciasse à ação política. 28/11/1936. passaram a ter manchete de última página (local 330 de destaque no corpo do jornal. . incluindo a AIB.171 sindicatos referentes às reuniões (convocações. assim. É importante. As convocações dos Grupos de Trabalho integralistas passaram a ser na seção “Movimento Integralista”. 1o/10/1937. Os integralistas criam. 331 V. sendo que alguns acontecimentos tidos como mais importantes como greves. As notícias relativas ao trabalhador se espalharam pelo jornal. O título estava em letras garrafais e na parte superior da página. 1/6/1937. porém. ocupava grande parte da página. todos os partidos políticos são extintos. 2. ao mesmo tempo em que dava loas ao advento do Estado 331 Integral. A seção. Acção. Na página 4. a Associação Brasileira de observando as letras iniciais e finais do nome de Pullin. BRANDÃO. Antonio de Azevedo. 332 Ver a edição de 11/11/1937. também diária. que se faça uma ressalva: a partir de maio. a partir da eleição de Salgado . 16: “1500 tecelões em greve” sobre reivindicações na Fábrica de Tecidos Jafet. p. o novo regime é apoiado pelas lideranças camisas-verdes.

ontem. seus agradecimentos pelas deferências recebidas e fazendo votos de felicidades para o corrente ano. O Diario do Nordeste. retribuindo as felicitações. . o sigma.. a perseguição que a polícia pratica contra esses rebeldes. 3. suas sedes invadidas e fechadas pela polícia. tem seu fechamento decretado pela polícia a 21 do mesmo mês (SILVA. contudo. que ora se inicia. pregados durante toda a existência da AIB. uma semana depois. entre outros motivos. 333 Além do Acção. op. nosso secretário. H. e nem mesmos os termos “integralismo” ou “integralista” podem ser veiculados em sua imprensa. e os rebeldes à nova ordem. e 335 segundo. já que. militantes integralistas são detidos e presos. após o 10 de novembro. a saudação “anauê”. é apenas aparente. cit. um grupo de integralistas é preso por ter saudado o delegado local com um “anauê”. de Recife. vários integralistas são acusados de distribuição de boletins contrários ao Estado Novo e indiciados ao Tribunal de Segurança Nacional. Vejamos esta nota. A ação da censura se faz sentir. a qual persiste 333 em alguns casos. É importante lembrar de duas coisas: primeiro. de circulação nacional. como a camisa-verde. 335 Hélio Silva faz um apanhado dos acontecimentos: desde o fechamento da AIB. Paulo Paulista. também integralista. Acção. também no Rio. em 23 de fevereiro. a Carta de 1937 defende postulados corporativistas e antiliberais. continua sendo publicado até meados de março de 1938. no estado do Rio. que agradeceu a 334 gentileza. 1/1/1938. as bandeiras. há um cerrado tiroteio entre a polícia e integralistas em Campo Grande. 27. p. armas e documentos são confiscados. A comunicação foi recebida pelo Dr. e a todo o pessoal redatorial e das oficinas.172 Cultura (ABC) e não podem mais ostentar sua simbologia característica. Esta harmonia que o jornal tenta passar. o diário carioca A Offensiva. provavelmente um recado sutil aos leitores: Departamento da Censura O Departamento da Censura teve a gentileza. os integralistas se dividem em dois grupos: aqueles que aceitam a nova situação política. p. 334 “Departamento de Censura”. no dia 10 de janeiro de 1938. sendo diversas armas apreendidas e presas 24 pessoas. Em Barra Mansa. como o Acção .). de transmitir à ‘Acção’.

A própria ABC não ocupa muito espaço nas páginas do jornal. que teriam sido distribuídos por militantes 336 integralistas.). a folha não está totalmente passiva. em geral na página 4. longanimidade. fim que me proponho.. 337 sabendo de quem as aprendeste. É interessante notar que o Acção parece querer se utilizar de discursos velados para manter firmes os ideais e as posturas dos militantes. cit.173 O jornal. 337 “Prediz o apóstolo das perigosas heresias”. porém.. Censura. respectivamente pp. EDUSC. pp. Bauru. 4. 336 “Obediência à lei”. padecerão perseguição (.. porque um dia venceriam. V. sem qualquer explicação aparente (por exemplo.. CARONE. 98-110. tb. parece pretender convencer os ex-camisas-verdes para permanecerem firmes em seus 338 ideais. se declara oficialmente favorável à nova situação. 10 – Tu porém tens seguido a minha doutrina. paciência (. porém. Edgard.. cit. 1999. obviamente. Por exemplo. Na edição do dia 5 de fevereiro de 1938. p. Imprensa e Estado Autoritário (1968-1978). op. ao passo que o anti-semitismo tem uma presença mais significativa do que anteriormente. . 16 e 22. 5/2/1938. O Estado Novo. de fato?) de apelar para discursos religiosos. eram transcritas longas passagens bíblicas. Maria Aparecida de. passavam os integralistas. como venceram os cristãos . naquele momento. 28/12/1937.). 15. ver AQUINO. vejamos a manchete do dia 4/1/1938: SILVA. A imprensa integralista. Contudo. 338 Sobre a criatividade da imprensa em burlar a censura institucional (num período posterior). Acção. 1. modo de viver. caridade. “Obediência à lei” foi a manchete do Acção a 28/12/1937. Pode-se pensar aqui em uma comparação das dificuldades dos primeiros tempos do cristianismo com os problemas políticos que. 14 – Tu. 12 – Também todos que querem viver piamente em Jesus Cristo. uma data religiosa). op. sobretudo pp. Essa estratégia (seria. Hélio. p. não faz a menor menção a esses fatos. há uma transcrição do capítulo 3 da 2 ª Epístola de Paulo a Timóteo. fé. O texto fazia referência a “boletins apreendidos pela polícia” no Rio de Janeiro. mantém-te firme naquelas coisas que aprendeste e que te foram confiadas. Acção. Em algumas ocasiões. 195-8.. As notícias internacionais agora predominam sobre as nacionais e mesmo as de caráter local diminuíram muito.

1. 1. na última página: “As operárias injustamente demitidas pela Tecelagem Jafet – Acção fornece a seus leitores dados pormenorizados da clamorosa injustiça cometida por um capitalista estrangeiro contra operários brasileiros – 40 contos de indenização que 344 não foram pagos”. As notícias concernentes aos trabalhadores ou aos sindicatos são menos freqüentes. as referências ao movimento “ex-integralista” diminuíram muito. a 16/12/1937. 340 Acção. p. na última página. a notícia em destaque: “A Fiação e Tecelagem Jafet despede 36 operárias. 8/1/1938. 343 Acção. 344 Acção. nas edições seguintes. são de apoio ao novo regime e à sua política sindical e 342 trabalhista. 1. 12. O “Natal das Crianças Pobres”. que elogia o corporativismo sindical existente na Carta Constitucional de 1937. tradicional atividade de fim de ano da AIB de distribuição de brinquedos às crianças carentes. . 4/1/1938. Em geral. 13/1/1938. a 8/1/1938. a ABC continua atraindo adeptos. no período anterior analisado (outubro de 1936 a fevereiro de 1937). 8/1/1938. amiga dos judeus. o jornal não ter nem citado eventos sobre o ocorrido. quando aparecem notícias ou notas sobre isso. 341 Acção.174 Realizam-se os planos dos Protocolos dos Sábios de Sião! Os judeus internacionais criam um fundo de 80 milhões de contos para combater os países nacionalistas! A Inglaterra. p. sendo que várias edições deixam de ter qualquer referência ao assunto. mas ainda aparecem. 342 Por exemplo. subsiste como mostra esse título de uma notícia de primeira página: “O Natal das crianças pobres em Jaú – A atividade das 340 senhoras e senhorinhas da filial da ABC nessa cidade” Segundo o Acção. 12. Acção publica a página 7 um texto intitulado “Mentalidade”. Comparado com o período anterior ao Estado Novo. p. p. volta a dar o mesmo destaque alguns dias depois. sem 343 pagar indenização fixada por lei” Apesar de. conforme a manchete do dia 341 8/1/1938. que diz: “Milhares de inscrições na ABC” Não há mais nenhuma seção ou coluna sindical. Porém. 14/1/1938. lucrará com a 339 ação da judiaria. não havíamos encontrado nenhuma manchete de caráter anti-semita. Para se ter uma idéia. p. 339 Acção.

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E, depois de mais uma semana de silêncio, o jornal exige atitude das autoridades estadonovistas, colocando mesmo em dúvida sua eficiência: Continuam as queixas dos operários contra a Tecelagem Jafet – Existe ou não justiça social no Brasil? Serão os capitalistas estrangeiros mais fortes que o Estado? As operárias demitidas injustamente da fiação e tecelagem Jafet esperam a indenização que lhes cabe por injusta demissão – Que faz e para que serve o Departamento Estadual do 345 Trabalho? Contudo, a partir de meados de fevereiro, o jornal vai tomando cada vez mais uma expressão conformista, opaca. Quase nada, nas páginas de Acção, lembra o “vespertino vibrátil e agressivo” a que se 346 refere Reale, do período anterior ao Estado Novo. Acção deixou de circular no dia 23 de abril de 1938, número 464. Em sua carta de despedida aos leitores, o jornal não explica o motivo de seu desaparecimento: Esta tribuna vai desaparecer; nós não conversaremos mais com o Brasil através das colunas de Acção; porém, isso não significa que hemos desaparecido: há no coração de todos nós uma chama sempre viva acalentando um Ideal e o Ideal não morre quando uma 347 tribuna desaparece!

345 Acção, 20/1/1938, p. 12. 346 Com exceção, talvez, dos artigos elogiosos ao corporativismo, doutrina coincidente com a da Constituição de 1937. Por exemplo, o artigo “O sistema corporativo e a democracia moderna”, o qual elogia uma suposta substituição de intermediários entre cidadãos e governo: partidos políticos por sindicatos. Acção, 10/3/1938, p. 4. 347 “Aos leitores de Acção”, Acção, 23/4/1938, p. 2.

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Observamos a importância de ressaltar aqui que um grupo político, não obstante sua linha autoritária e, nesta altura dos acontecimentos, oficialmente apoiando o governo, teve seus movimentos tolhidos pelo próprio governo, situação que acabou levando aos acontecimentos de maio de 1938, conhecido como a 348 “Intentona Integralista”. A imprensa integralista – não obstante seu caráter partidário e tendencioso - nos ajuda a conhecer melhor a visão de mundo da AIB, aqui particularmente a respeito dos trabalhadores assalariados. Tal observação evidencia a importância do estudo dessa fonte a partir de toda a gama de temas de que foi portadora (como política nacional, economia, política internacional, cultura etc.), o que faz dela um manancial para um maior conhecimento não somente da trajetória desse movimento político, mas também a respeito da política e sociedade brasileiras nesse período.

348 Sobre as diferentes reações dos integralistas ao Estado Novo (e viceversa), anteriormente à Intentona Integralista, v. CARONE, Edgard. O Estado Novo. São Paulo, Difel, 1977, p. 193-205.

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9. INTEGRALISMO PROH PUDOR! A crítica da grande imprensa frente às comemorações dos 25 anos do Integralismo
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Rodrigo Christofoletti

A partir da segunda metade da década de 1940, verificou-se a abertura de um novo horizonte nas articulações político-partidárias do país. Após a derrocada de Vargas, em 1945, siglas foram recriadas, partidos rearticularam-se e, no bojo desse novo cenário de redemocratização, surgiu um partido que, embora estigmatizado por sua atuação anterior, tentou transformar alguns de seus princípios políticos visando a aproximação com o eleitorado que reconquistava o direito de voto. Tratava-se da sigla liderada pelo líder integralista, Plínio Salgado, o PRP (Partido de Representação Popular), herdeiro da AIB (Ação Integralista Brasileira). O novo partido, que durante os seus dezenove anos de atuação parlamentar (1945-64) configurou-se como uma das agremiações políticas mais controversas do citado período, teve atuação de retaguarda, centrando foco nas articulações de bastidores da política nacional. O PRP constituiu-se no instrumento de intervenção política dos integralistas durante todo o chamado período democrático. É interessante notar que o integralismo do pós-guerra, mais especificamente da segunda metade da década de 1950, tenha ressurgido não como uma mudança política propriamente dita, mas essencialmente como uma transformação de linguagem. Essa transformação se deu, aliás, de maneira incompleta, pois seus quadros desvalorizaram inicialmente a essência ideológica da extinta AIB e depois a reafirmaram (em partes), estabelecendo uma contradição interna no movimento. O problema consistiu em não explicar, não repolitizar, não enquadrar o movimento à nova realidade do pós-guerra. Foi nesse contexto contraditório de redemocratização que ocorreu o retorno do integralismo.

349 Mestre em História e Educador da Universidade de São Paulo.

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Imprensa nacional versus Integralismo O clima de liberdade partidária que o país viveu no contexto constitucional e democrático de pouco mais de 18 anos entre a queda da uma ditadura e a emersão de outra, estimulou o exercício de independência e expansão dos meios de comunicação. A grande imprensa sempre fez do tema político sua tônica, selecionando, caricaturando e adaptando a realidade a partir de “instantâneos” do real. Os antagonismos políticos tornavam-se, então, agudos e se refletiam claramente na imprensa. Na maioria das vezes, a contraposição ideológica saltava das manchetes desses jornais para tomar parte na vida cotidiana da sociedade civil. Foi diante deste cenário de definidas posições ideológicas, que se deu o reavivamento da simbologia integralista. Se nos anos 40 a esfera político-partidária conheceu a reestruturação institucional da sigla integralista, agora o poder simbólico da instituição buscava reajustes. Desde 1945, a relação entre o integralismo e os jornais da imprensa brasileira foi marcada por atritos. Longe de se manter indiferente, tal relação primava, de um lado, pela hostil e virulenta manifestação antiintegralista e de outro, pela pequena, mas não menos contundente auto-afirmação verde. A grande imprensa, preocupada com a manutenção da ordem democrática passou a fazer o papel de porta voz de uma sociedade desgostosa da permanência do integralismo no cenário político nacional. As acusações acirraram os ânimos de ambos os lados. Este enfrentamento tornou-se mais evidente a partir de 1957, quando se intensificaram as campanhas contestatórias às comemorações dos 25 anos do movimento integralista. Segundo Plínio Salgado, “enquanto as penas do integralismo foram molhadas nas tintas da convicção, a alquimia da grande 350 imprensa fez-se sentir de maneira nociva”. Isto equivale a pensar que tanto o integralismo quanto a imprensa de grande circulação intensificaram suas acusações. Então, o dístico em desuso serviu como alerta para grande parte da imprensa da época: Integralismo 351 Proh Pudor.

350 SALGADO, P. A Marcha, 3/11/1957, p. 9. 351 “Integralismo: Oh! Vergonha!”: Mote das campanhas veiculadas na maioria dos jornais de grande circulação do país.

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A grande imprensa noticiou as comemorações integralistas de maneira bastante variada: de um absoluto descaso a mais fervorosa agressividade. Dias após ocorrer as festividades do Jubileu de Prata integralista (primeira semana de outubro de 1957), O Diário Popular (SP) publicou um artigo cujo título exprimia a posição do jornal com relação à volta integralista. O jornal questionava que tipo de mudança 353 teria ocorrido no integralismo . A suposta contradição entre o discurso de Salgado e a ação do movimento foi fomentada pelas 354 acusações de “uma fantasiosa demonstração de poder” – que chegava às páginas dos jornais pelo caminho inverso. Seu lugar, 355 segundo o próprio Diário Popular, “era as páginas de fundo” , um eufemismo para designar as páginas policiais que na época fechavam os jornais. Outro periódico que questionou a alegação de que o integralismo havia se transformado num movimento brando foi o Última Hora/RJ. O vespertino teve, num primeiro momento, uma postura meramente informativa que se modificou com o passar das primeiras semanas do mês de outubro. Sob o título “Bodas de Prata Verde. 356 Sigma e rituais renasce o integralismo no Brasil” , dispensou mais de meia página detalhando sua organização e festividade. Como o jornal de Samuel Wainer não era simpático nem ao integralismo nem ao seu chefe, Plínio Salgado, a ênfase dada à manifestação integralista no Teatro João Caetano - RJ (sede das comemorações do jubileu) teve um caráter peculiar. Os jornais Folha da Tarde e Folha da Noite deixaram implícita em sua linha editorial a contrariedade frente à reformulação do movimento. Ambos os jornais imprimiram, a rigor, as mesmas notícias:
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352 No presente trabalho foram analisados os seguintes periódicos: O Estado de S. Paulo; Correio Paulistano; Folha da Manhã, Folha da Tarde; Folha da Noite; Diário Popular; Diário de Notícias; O Jornal; Diário Carioca; Tribuna da Imprensa; A Notícia; Gazeta de Notícias; Jornal do Brasil; O Globo;. Última Hora; Diário da Noite; Diário de Notícias/RS; Diário de Notícias/RS e Gazeta de Vitória – ES. Também foram pesquisados alguns periódicos integralistas: Idade Nova; A Marcha; Boletim PRP –RS. 353 “Transformação do quê?”. Diário Popular, 7/10/1957, Caderno 1, p.2. Todas as citações deste trabalho seguem a grafia original, sem atualizações ortográficas. 354 Diário Popular. 9/10/1957. 355 Ibid. 356 Última Hora/RJ, 12/10/1957, p.7.

aos mais novos que podem ser 357 “Com Sigma camisa verde e anauê. à 357 atividade os integralistas!”. 359 Folha da Manhã. as Folhas juntaram-se dando origem à Folha de S. . p. vem de encontro com os propósitos dos Integralistas de reeducarem as novas gerações de acordo com os novos 358 preceitos da agremiação. o integralismo assusta. à atividade os integralistas”. Se não aos cobras criadas.as novas gerações obtiveram maior influência nas decisões do partido. Folha da Tarde. Com a criação dos Centros de Cultura da Juventude . e sem disfarces. De acordo com as Folhas: O movimento ressurge agora sob um novo dístico. Noticiou as festividades. Que jamais amadureça!” Em outro trecho retirado da extensa reportagem da Folha da Manhã.órgãos de reajuste político/ideológico implícitos do integralismo . O sentido da transposição do legado não era apenas cultural. 10/9/1957.3. 358 O jornal Folha da Noite foi inaugurado em 1921. Entretanto e infelizmente.. adjetivada como non sense. retorna ostensivamente. A troca de uma instituição política para uma de cunho político cultural. a idéia de transferência de ‘posse e poder’ surgiu carregada de simbolismos. o editorial de 8 de outubro dirigiu um veemente repúdio à permanência dos integralistas: Por estar de novo nas ruas. Finalizando sua apreciação quanto ao retorno integralista e sua celebração. Em 1960. Movimento Integralista Brasileiro. Tal questão se mostrou como novidade dentro do PRP.180 “Com Sigma camisa verde e anauê. 9/10/1957. mas MIB. empolga os meios integralistas a volta do Sigma e a oficialização da 359 galinha verde como símbolo . Paulo. p. o matutino Folha da Manhã tomou a celebração a partir de uma perspectiva mais desfavorável. que. Folha da Tarde. explicitando sua oposição diante do novo integralismo: “Sob os 5 lustros deste movimento. p. Quatro anos depois foi inaugurada a Folha da Manhã e em 1945 a Folha da Tarde.4. segundo assessores de Salgado – deverá substituir o PRP em breve. Diferentemente de seus congêneres do Grupo Folha. 8/10/1957. mas principalmente político.4 & Folha da Noite. retorna ostensivamente. 9/10/1957. e novo nome: agora não é mais AIB. p.3. pouco teríamos a noticiar.

Restam-nos saber. Os integralistas vão institucionalizados pela nova sigla.) o retorno do inatingível. 8/10/1957. Estão eles. Fênix. águias ou meras galinhas (. paralelamente às comemorações do jubileu de prata. 361 “Águias. A metáfora biológica da apoplexia. se procurou embaraçar num enredo ridículo a doutrina que perfilaram em 32. imitações baratas do fascismo mundial. como sendo o integralismo “um quisto sanguíneo que 360 “Editorial: O perigo Verde!”. acentuando alguns elementos: Aceitando o que identificam como provocação extremista. como a manutenção de um arcaísmo.) Temos que alertarmos a toda a nova geração sobre essa sereia. O periódico situou as celebrações num bojo maior de conflitos político/ideológicos. ou galinhas?”.. (..) Portanto.5 362 O Estado e S. com a qual declararam. p.181 ludibriados pelo canto da sereia maviosa transvertida de democrática verde. p. Paulo. Correio Paulistano. . oficializar a galinha verde como símbolo da vergonha e da sua ação política. prontos para explorar os pontos mais vulneráveis da democracia nacional.. o democrata consciente não pode deixar de bradar a todos. para sabermos qual é a resposta! Um repúdio ao 361 integralismo. ou a atenção do inevitável? Resta-nos apenas marcarmos o dia. p.8. Com um texto de abordagem tão ácida quanto os publicados por seus concorrentes.. Folha da Manhã. Paulo criticou o que chamou de apelo sensacionalista do PRP. a ver se nos livramos da ameaça sem o mesmo processo 360 sofrido em 1937. descrevendo as celebrações como o ápice de 362 um conflituoso e “apopléctico retorno”.9. 8/10/1957. O jornal O Estado de S.. 9/10/1957. Chegase à audácia de colocar-se de novo o problema do fardamento e da milícia. de que aves se tratam na realidade. (. o jornal Correio Paulistano noticiou as bodas de prata do movimento de maneira incisiva.... para que não haja ceticismo em torno do novo perigo integralista.

Nesse 363 Ibid. cuja sutileza amenizava o caráter ácido do pequeno. a celebração do culto aos milicos do além ocupava um lugar todo especial.182 estourara na sociedade brasileira. vazando intenções espúrias para 363 todos os lados”. uma espécie de tutela. então mais acirrada que nunca: a passagem do legado. 8/10/1957. porém contundente escrito. durante a comemoração. houve a volta dos rituais. . 7) – Centenas de adeptos de Plínio Salgado compareceram ontem no Theatro João Caetano. Seria a 364 volta dos estridentes centuriões? Outro ponto de discórdia entre O ESP e os integralistas foi a forma como o primeiro se referiu aos chamados “milicos do além”. 365 Ibid. 9. uma estranha homenagem aos mártires que nunca morrem. Na hierarquia festiva do movimento. todos os mortos continuariam hierarquicamente lutando a favor dos que se mantiveram na luta cotidiana. Além da ressurreição pré programada do Manifesto Integralista que propagava anteriormente a dissolução dos partidos. Em especial. uma nota de canto de página do O ESP. foi continuamente utilizada pela maioria dos jornais da época. A manutenção da doutrina consubstanciava-se por meio do oferecimento à família órfã de toda a sorte possível de provimento material e psicológico. 364 “Volta o Integralismo com seus antigos símbolos”. (Da sucursal . A idéia de imortalidade no integralismo contém uma simbologia própria. ajuda financeira e até profissional. bem como da disponibilidade de escolas para os filhos dos falecidos. O Estado de S. justamente por este ter servido o movimento em períodos conturbados e difíceis. tal homenagem visava a aproximação entre o auto-escalão integralista e as famílias dos falecidos. num momento em que se encontravam em condições de abandono e orfandade. tomada como espécie de bhrama ou nirvana penosamente conquistado pelo membro integralista. p. A contraposição ideológica deu lugar ao escárnio: “Houve. Paulo. Rio. O texto do jornal reacende uma questão central para os integralistas. Como pano de fundo. Isto porque – segundo o jornal – os integralistas nunca 365 morrem: vão para a milícia do além!”. Segundo a crença integralista. Entende-se que a exacerbação da proteção familiar visava antes de tudo apadrinhar a família do exmilitante objetivando que não se afastassem do ideário integralista.

Porém.183 sentido. que o chefe não pôde entrar pela porta da frente do Teatro J. que rendeu demoradas gargalhadas. o partido bem que não anda bem das pernas mesmo. que noticiou a celebração espelhada na “magnificência carismática do Chefe Integralista”. Os adversários do integralismo não perderam a oportunidade de ridicularizar a denominação ‘milícia do além’. O que para os integralistas significava “a manutenção da tradição.23. a maioria dos jornais da grande imprensa carioca focou a celebração integralista com menor animosidade que a mídia paulistana..episódio passível de chacotas – era coberto de um simbolismo bastante significativo para os integrantes do movimento. 1936. O Integralismo foi denominado de “Insepulto” e “envernizado de segunda mão”. o 366 primeiro passo para a efetivação integral”. Tanto. Fonte: Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. A festa foi só do Integralismo. Sintomático. A consulta desses jornais está temporariamente interditada devido à microfilmagem dos mesmos. Com exceção dos jornais Tribuna da Imprensa e Diário 367 Carioca . Estrato 4.. de propriedade dos jornalistas Carlos Lacerda e Assis Chateaubriand.. juntamente com os hurras surgiu também a mística integralista do Chefe. 367 Em ambos periódicos podem ser encontradas importantes informações sobre as comemorações. Caetano. destacando a contrariedade destes com relação ao integralismo. Reeditado n A Marcha em 12 de novembro de 1957. o retorno das homenagens aos “milicos do além” [militantes já falecidos] ... p. A despeito disso. Protocolos e Rituais. Necessitou entrar pela porta dos fundos para evitar os arrebatamentos de 366 “As cerimônias da Milícia do Além”. para a exterioridade não passava de um descompasso com relação ao presente. pelo jornal Diário de Notícia. supervalorizando o acontecimento: O Insepulto Integralismo e seu curioso ritual: Dispersou qualquer dúvida quanto a esse particular a onerosa celebração verde que encerrou-se ontem a noite. Os oradores em momento algum lembraram de mencionar o PRP.. . alguns periódicos não pouparam frases de efeito e ataques veementes ao projeto refundador de Salgado.

enquanto o planeta todo se ocupava em focar a bola que os russos atiraram no espaço a mais de 900 quilômetros de altura. o Diário de Notícias abriu suas páginas para um dos mais significativos adversários do Integralismo: o intelectual e líder católico. o impacto das acusações desferidas contra o movimento integralista soou como uma vingança pessoal: Tivemos nessa semana o satélite artificial e a noitada integralista. Tem toda razão o nosso confrade em assinalar a sombria idéia fixa daqueles que sonham em andar pra trás quando o mundo inteiro sonha andar pra frente. tecendo um paralelo entre o que julgava moderno e anacrônico para a época. Gustavo Corção. Grifos meus. 8/10/1957. Se de um lado. e assim vai o 368 “Com Anauês e Hurras ao Chefe Nacional encerrou-se ontem a Convenção Integralista”. de outro. . p. E ainda tem mais. mas longe mais ainda está da linha do Integralismo!!! Ou do Anauê!!! (. Corção atacou veementemente o Integralismo.. Devo antes dizer que não acredito muito que o futuro da humanidade esteja na linha do satélite. Diário de Notícias. Em linhas nada condescendentes. E é triste para ele e para mim ter que falar de Integralismo na hora em que todos falam em geofísica de rádio astronomia e de viagens interplanetárias.. pela Dias após a veiculação da primeira notícia publicada sobre as festividades integralistas. os adeptos sobreviventes de Salgado se reúnem numa fúnebre sou irrè.. Para comemorar o 25º aniversário da AIB.) Em termos políticos todos querem andar pra trás. há um simulacro entre o governo pessedista de JK e o Integralismo: O senhor presidente consulta o senhor Plínio e este consulta os mortos. significativos representantes do catolicismo apreendiam a reorganização integralista de modo contrário. os integralistas do pósguerra viam-se solidarizados com alguns setores da igreja católica.184 seus companheiros.. empolgados 368 rememoração integralista. Sob a tinta do intelectual católico.8. Sim senhores.

172. O seu ressurgimento foi considerado pela revista como “um grave erro. 370 “Comunismo. também repudiou a reedição da passeata integralista. Paulo. RJ.185 Brasil para trás com velocidade maior que a 369 do famoso satélite. Jornal do Brasil. desde 1945. . que na época era dirigida por Alceu Amoroso Lima.. Não bastassem as referências nada lisonjeiras publicadas por Gustavo Corção no Estado de S. e foi escrever seus livros em tranqüila vilegiatura em Portugal e agora.) Plínio guardou a camisa verde no fundo do Baú. 372 Ibid. braços levantados à Romana. um veemente repúdio à reorganização integralista. camisas verdes. daí concluir enfaticamente: “nos opomos 372 inequivocamente ao integralismo e sua antidemocracia”. 20 anos depois. 1945. Por isso precisamos noticiar que ressurge entre nós as coisas verdes.167-168. set. saudações indígenas. RJ: 10/10/1957. Da mesma maneira com que a imprensa contrapôs-se ao PRP e às comemorações dos 25 anos integralistas. Definitivamente não há espírito pro 373 Integralismo vingar. (.. p. o PRP protocolou seu registro no TSE.173. como partido regularmente adequado à nova ordem democrática. Ser popular hoje em dia não é arregimentar fardas a esmo. p. tratava-se de um “claro retardamento da evolução democrática. Tal reconstituição causou furor na imprensa de grande circulação. um incentivo à propagação 371 comunista” .B. O caráter antidemocrático do PRP foi o mote explorado pelo Jornal do Brasil. Ainda segundo a revista. que noticiou a “nova incursão plinista” carregando nos adjetivos: A tirania está em voga apenas na cabeça dos que não respeitam a vontade popular. a revista católica A Ordem. em franca contradição com as tendências contemporâneas ressuscita símbolos. Diário de Notícias. Integralismo”. Os 369 “Noitada Integralista. P. simulacro de um dos episódios mais cultuados pelo movimento. Grifos meus. No mesmo mês de setembro de 1945. 9/10/1957.5. 371 Ibid. p. que nem mesmo o surto comunista poderia 370 justificar” . p. reacionarismo. p.. que o destacou em suas primeiras páginas. Por: Gustavo Corção”.. 373 “Camisas verdes para Museu: Ressurgem entre nós as coisas verdes”.4. passou a publicar em seus editoriais. A Ordem.

às 5 horas da manhã da penúltima quarta-feira. Prosseguiram com a inauguração de uma “exposição histórica” do integralismo e uma passeata. na qual focaliza Plínio Salgado. com uma “cerimônia de saudação ao nascimento do sol”. no sábado. em diversos meios de comunicação das mais distantes localidades do país. Damiano Gullo (diretor regional do PRP/SP) e Leovegildo Pereira Ramos. no afã de superdimencionar a notícia editaram a fotografia de Salgado e próceres juntamente com o logotipo da Manchete. fachada pseudo374 A despeito da fotografia publicada no jornal A Marcha trazer o logotipo da Revista Manchete no canto superior direito (ver foto). sintetiza a postura da grande imprensa frente ao integralismo. sendo reproduzida. Descreveu a matéria: As galinhas travestidas de águia tentam galvanizar o falecido fascismo caboclo (. realizada naquela cidade em 1933. a notícia do frustrado episódio integralista espalhou-se por todo o território nacional.186 jornais noticiaram a realização da marcha segundo posturas que variaram entre a aguda contraposição e o mais profundo desprezo. Por outro lado.. mais uma das muitas matérias constituintes da revista. isto sugere que os integralistas. encerrando-se com a convenção do PRP. o 25º aniversário da primeira “marcha” dos camisas-verdes. por vários dias. . debaixo d’água. Das matérias publicadas pelos mais variados segmentos da grande imprensa. Sob uma atmosfera sensacionalista. e sim. Portanto. completamente ofuscado pela chuva. o que se comprovou foi que a matéria publicada por Manchete não foi uma matéria de capa. Em maio de 1958.) Remanescentes da antiga Ação Integralista Brasileira comemoraram. A citação. sugerindo que a reportagem tivesse sido destacada da capa da revista. denunciou o caráter ‘aproveitador da nova/velha sigla’. As manifestações se iniciaram. respectivamente representantes das gerações de 32 e 58. a Manchete publica uma matéria intitulada: 374 “Vergonha Verde vem ai!” . durante a semana. talvez. perfilados e mantendo o característico gesto de saudação Anauê.. numa justaposição que aumentava a relevância da matéria. o exemplo de contrariedade mais contundente tenha sido o da revista Manchete. com relação à frustrada comemoração dos integralistas paulistas. apesar de longa.

a revista O Cruzeiro. representante de uma ideologia anacrônica e um farsante da retórica.) O problema é que Marinho e seu jornalzinho não respeita sua vez (.. Nos anos 50 a contraposição ideológica continuou. mais uma vez.) e desde de lá.. Desde 45 nos encontramos (. nº 317 – 17 de maio de 1958. . se algum dia virar um jornalista de verdade.187 democrática dos plinistas de hoje. comprovando. Após 1955. teria uma postura menos inquisitiva com relação ao integralismo.. 376 O Globo.. sendo poucos os que ainda não se acanham de usar camisa verde em público. Necessitamos descobrir quem acoberta esses proto-integralistas e congêneres. À frente de todas as manifestações. No início do período de rearticulação partidária. as acusações entre Salgado e Roberto Marinho acabaram rompendo a esfera ideológica. a ambígua relação entre Chateaubriand e Salgado. havia se constituído num opositor sistemático do integralismo. Ideologia anacrônica? Copiador compulsivo? A resposta é dada nesta noite: um cérebro e um corpo forte: eis o resultado do melhor possível (. me faz ou 376 375 Revista Manchete.. chefe nacional daquele que em tempos foram conhecidos como galinhas-verdes e agora se rebatizaram como águias-brancas.. esta é mais uma prova que a força se faz em conjunto.. Mas a verdade é que a manifestação de há duas semanas atraiu muito pouca gente. para que não deixemos passar as mesmas vergonhas que outrora o Brasil 375 foi obrigado a conhecer . outra revista de envergadura nacional.) ele ainda terá chance.. o sr. Acusado pelo jornal O Globo de se equiparar a um copiador compulsivo. Salgado reagiu enfaticamente: Quem diria que voltaria no local onde fui condenado à forca pelos comunistas para comemorar o jubileu de prata e força integralista sob os olhares atentos e aplausos festivos da população brasileira. Grifos meus. Plínio Salgado. desde os anos 40. declarou que se enganaram os que supõem morto o integralismo.

a própria vergonha da Nação. e em especial.O Globo. Entre todas as homenagens rendidas ao Integralismo pela imprensa.. O Integralismo é considerado.a frase interpretativa 378 do atual momento histórico nacional. diversos outros jornais receberam prontas respostas do movimento integralista: “A contra ofensiva da imprensa integralista: ideologia e produtos”.10. Que venha a Vergonha Verde para dar vergonha a quem já a perdeu. (. aquela revista o marginou com um título que é um aviso profético: ‘Vergonha Verde Vem Aí!’.) Por isso tudo... 378 “Editorial: Vergonha da Nação: A devida interpretação!”. será o grande ‘slogan’ de nossas campanhas. 377 As luzes do archote! Estão de volta as gerações do Sigma. p.. pelo rádio e pela Tribuna Parlamentar. p. Publicando o mais belo dos clichês sobre a comemoração grandiosa ocorrida em São Paulo. O jornal A Marcha passou a publicar reiteradamente réplicas que buscavam inverter os argumentos dos periódicos. Grifos meus. pela televisão. da revista Manchete. demonstrando que o projeto de permanência integralista era.5. A frase é verdadeiramente formidável! E (. nenhuma foi mais expressiva e eloqüente que a da Revista Manchete da capital federal. numa época de desbriamentos e desbragamentos impudicos. que fora incisiva contra os militantes integralistas dias após a celebração do jubileu. A Marcha 5/1/1958. . 8/10/1957.188 manda fazer sempre a mesma pergunta: 377 fraquinho esse repertório não Marinho? Na esteira da agressividade e dissimulação da réplica pliniana endereçada ao proprietário de O Globo. bem assessorado. As respostas integralistas não tardaram. A Marcha exprime os sentimentos de todos os integralistas e agradece à Manchete – profética e iluminada . o magnífico cartaz com que nos apresentamos à Nação. na boca de nossos oradores e na penna de nossos jornalistas.) de agora em diante. antes de tudo.

não voltarão os camisas verdes. isto é.4. o PRP apresentou-se como uma alternativa aos “gêneros do mercado 380 disponíveis no momento” : o representante de uma política de moralização.. mas não conseguiram. Hoje o ideário . parcialmente sugerido pelo antigo general. Salgado faz uma retrospectiva das coligações políticas realizadas pelo PRP em finais da década de 50. sustentando sua contraposição à figura do líder integralista que. Folha da Manhã. 8/10/1957. seguidas da contundente resposta ao artigo da revista Manchete. a Folha da Manhã priorizou estratos da entrevista e discurso de Salgado.189 Assim. O exemplo das réplicas publicadas nos mais diversos jornais da época. p. 381 “Não voltarão os camisas verdes”. 27 de fevereiro de 1971. os integralistas apresentavam-se à nação como os únicos e verdadeiros “bastiões da vergonha e da honradez políticas: 379 virtudes. mas veste roupagens diferentes As respostas integralistas aos ataques da grande imprensa compuseram mais um capítulo no projeto de supervalorização do movimento. ao ser indagado sobre a comemoração e a rememoração do antigo movimento. O verde morreu só no uniforme. 381 fica. imperceptíveis no cenário político de então”. vieram a acentuar o caráter combativo da sigla. Utilizando-se de uma manobra político-discursiva bastante incomum. Sei da anacronia deste símbolo. Perfis Parlamentares da Câmara dos Deputados.. Ver: Plínio Salgado na Câmara dos Deputados. na comemoração do 40º aniversário da AIB. Em matéria de duas colunas cujo título era: “Não voltarão os camisas verdes?”. como se sentem politicamente as novas gerações. que era importante naquele momento para contrapor a uma idéia fascistizante de camisas caqui e preta. 380 Aqui fazemos referência à metáfora utilizada por Salgado num de seus discursos na bancada da Câmara dos Deputados.6 . com especial enfoque ao fortalecimento da UDN e à articulação entre o PTB e o PSD. 13/5/1958. p. que fora inclusive sugerido. respondeu: Não. Boletim PRP – RS. Quiseram queimar o verde do uniforme assim como fizeram com as matas do relampejo febril. mesmo que para muitos tal artifício tenha soado como uma artimanha estritamente demagógica. no início da década de 1970. Era essa a diferença. que tentava se restabelecer publicamente como uma real possibilidade de 379 Notas. Mais importante é que hoje a chama não morreu. Hoje não.

Dórea. o que estimulava a permanência cotidiana dessa cultura material. mas promissora. de laticínios. destinou um significativo espaço para a propaganda de sua doutrinação e vendagem de seus produtos. Jornal História e Técnica. Nesse sentido. forneceram o tema para uma campanha de valorização do integralismo. A propaganda.145. dentre os quais se destacavam empresas de projeção internacional. São Paulo: Ática. A compra de suvenires despertava no simpatizante a manutenção de sua lembrança e o sentimento de pertencimento ao integralismo. órgão oficial de imprensa do Partido de Representação Popular foi o mais significativo periódico do integralismo de pós-guerra. empresas farmacêuticas dentre outras. Se a imprensa posicionou-se contrariamente ao reaparecimento da mística e simbologia integralistas. Com uma circulação nacional. que favoreceu o fortalecimento do consumo no setor editorial. Nessas intervenções encontramos o divisor de águas entre a tímida postura do Partido de Representação Popular pré-1957 e o caráter mais ofensivo adquirido pela sigla a partir de então. p. mas também da materialidade expressa na vendagem de seus produtos. a mensagem institucional. dentre as muitas alternativas do cenário político. bem como para 382 BAHIA. Foi. Os festejos das bodas de prata. como empresas aéreas. por sua vez. A Marcha. a mídia impressa integralista. redimensionando as perspectivas do setor jornalístico brasileiro. fomentando o consumo de bens produzidos pela denominada indústria cultural incipiente. a celebração não se alimentou apenas das questões públicas (os festejos populares). bem como as respostas às acusações dos grandes jornais. o maior montante do dinheiro utilizado para a manutenção dos quadros do jornal. No entanto. o semanário era mantido com a colaboração dos assinantes e dos pouco mais de 50 anunciantes fixos. por sua vez. e a gama de produção que derivava do novo ingrediente: 382 o marketing. portanto a otimização da imprensa-empresa. como o anúncio a varejo. 1990. Juarez.que permaneceu como órgão oficial do partido até 1965. . Entretanto. passou a desempenhar papel fundamental no panorama político e ideológico. Depois dos anos 50 os fatores do progresso brasileiros incorporaram-se a receita jornalística de grande escala o produto de nova forma de veiculação. oi fundamental o papel desempenhado pelo jornal A Marcha .190 escolha. sob a direção de Plínio Salgado e a redação de Gumercindo R.

. Havia no jornal seções diferenciadas para abarcar todas as faixas etárias. havia também o suplemento feminino. Uma vez que o jornal era semanal. lapiseiras. Mas para isso é preciso que divulgue nosso ideal. orgulha-se de poder ser chamado de órgão oficial do Partido de Representação Popular e de ter em seus leitores . Divulgue nosso jornal. os correligionários do PRP e simpatizantes do integralismo. jogos de chá com o Sigma impresso. termômetros com a figura do líder integralista imersa no interior do tubo medidor. enquanto a pena e a tinta do patriotismo estiverem trabalhando por um Brasil melhor. carteiras de fósforos. Entretanto. cinzeiros. A tiragem oficial do semanário é desconhecida. Ontem. hoje e sempre o PRP e A Marcha estão do lado do verdadeiro patriota. Entre 1957 e 1959. utensílios de cozinha. do Amazonas ao Rio Grande do Sul. p. flâmulas do Sigma e de Salgado. 384 A Marcha. 383 A Marcha. diversas vezes foram publicados balanços da empresa que apontam para números aproximados. Você não tem o que temer. 17/5/1958. p. 26/9/1958. réguas.191 manutenção do maquinário provinha das assinaturas. Entretanto.9. foi a partir de setembro de 1957 que o jornal passou a anunciar uma gama significativa de produtos e suvenires. diplomas artísticos. principalmente. geralmente voltadas ao público masculino adulto. Assim. que em março de 1958 foram contabilizadas em mais de 25 mil em todo o território nacional.9. que se diferenciavam pelo gênero (homens e mulheres usavam distintivos diferenciados). Dentre os produtos oferecidos com vistas à comemoração das bodas de prata integralista estavam distintivos do PRP. a rede de distribuição d’A Marcha abrangia a maioria das grandes cidades do país. Enquanto a voz da verdade. nesses 6 anos de prestação de serviço. ao mesmo tempo em que havia as seções políticas e econômicas. com a clara intenção de reapresentar as “logomarcas” integralistas: o Sigma e a galinha verde.384 a marca de quase 50 mil brasileiros Anúncios como estes foram veiculados a parir de abril de 1957 e perduraram até o final de 1958. Entretanto. A Marcha. o caderno adolescente e o infantil. noticiando o que o brasileiro precisa saber. calendários. formas de bolo. O público dA Marcha era. a meta inicial pretendida pelo jornal era a casa dos 50 mil. Divulgue nosso partido. a tiragem d’A 383 Marcha oscilou entre 25 e 30 mil exemplares semanais.

tais anúncios objetivavam “falar a língua dos que tomavam contato com eles [produtos]”. adquira os objetos que recordam esse fato histórico e guarde-os para que passem. industriais e comerciantes simpatizantes do movimento e ligados aos mais diferentes ramos. como carimbos e fotografias de Plínio Salgado em vários tamanhos e autografadas. pratos de louça e discos promocionais 385 com jingles integralistas. E se você não pode vir. se você vem ao Rio assistir às comemorações de 7 de outubro. broches. o que gerou um fluxo contínuo de remessas. netos e bisnetos. Outros materiais foram elaborados. que se valeram de malas diretas e reembolso postal. Em consonância com a indústria cultural que se formalizara. principalmente no período de setembro a novembro de 1957. Empresários. foram os responsáveis pela fabricação e distribuição desses produtos. Nesse sentido.192 canetas esferográficas. encarregue seu companheiro que vier de comprar e levar 386 para você uma dessas lembranças. Assim. que dizia o seguinte: Integralista. um dos pilares da conceituação propagandística do movimento. em especial n’A Marcha. Um exemplo dessa prática foi o serviço de Caixa Postal mantido pelo movimento. 385 A Marcha. Grifo meu. Nas páginas dos jornais perrepistas.3. no período máximo de uma semana. O interessado enviava seu pedido e os integralistas remetiam os produtos. de mão em mão. as propagandas desses produtos ganharam vida. Procurando abarcar as mais diversas clientelas. o Sigma apresentou seus produtos visando atingir os mais variados setores sociais. Perceba a preocupação dos integralistas com relação de seu ideário simbólico junto às gerações futuras. especialmente os números de setembro de 1957 a abril de 1958. as mercadorias integralistas chegavam à residência do consumidor em prazo bastante curto. Todos esses produtos movimentaram um considerável aparato industrial e comercial que dava suporte à marca integralista. O jornal foi o fórum das discussões partidárias e o armazém mais bem sortido dos integralistas. Sua vendagem foi organizada pelos integralistas. 386 Propaganda veiculada no jornal A Marcha de 27/9/1957. a seus filhos. p. . é emblemático o texto constituinte da Tabela de preços dos suvenires da campanha dos 25 anos.

e para isso instituiu. aos militantes saudosistas.. ao invés de companheiras. comunicar-se diretamente com a figura da mulher dona de casa. deseja como um jornal de base cultural penetrar mais profundamente nos lares. de maneira mais específica. de acordo com os integralistas.. ou. o que aprofundou as contradições entre as posturas do 387 A Marcha.. comunicavam-se com os mais diferenciados receptores. para uma cruzada de redenção nacional pela sua 387 acção decidida. ao trabalhador.193 Por meio dos anúncios.. assim sendo uma reparação rigorosa e completa lhe deve ser ministrada tendo por base a educação integral (.) Eis porque daqui desta página feminina procuraremos abordar todos esses aspectos. Tal postura indica os limites da modernização do discurso integralista: as mulheres. . tem-se a dimensão de como o direcionamento se deu: A Marcha em sua nova fase não quer levar apenas as notícias semanais aos seus leitores e a orientação doutrinária. conhecimentos que vão da moda aos cuidados pessoais e domésticos.) Nosso objetivo. O primeiro segmento social a ser atingido pelo assédio propagandístico dos produtos que levavam a marca Sigma foi o das mulheres. p. apresentando um significativo número de produtos.5. Esta rotulação limitava a sua ação social. Os anúncios integralistas buscavam..Além desses objetivos procuramos despertar para os problemas sociais. ao provedor do lar. dentre outras. patriótica e cristã. uma vez que ela era vista pelo integralismo como a responsável pela administração do lar.. ao adolescente. Vale notar que a realidade feminina da época contradizia o discurso passadista apresentado pelo Integralismo.. seguiam sendo caracterizadas pelas funções domésticas. portanto é oferecer tudo que seja importante para a mulher para o desempenho de sua elevada missão. do pequeno conselho ao trabalho de arregimentação da mulher. esta dedicada exclusivamente às mulheres(. o das donas de casa. 5/4/1958. Falava-se à dona de casa. ao colecionador. No estrato abaixo..

ter sido mais complexa nos anos 30 percebe-se. a maternidade. Vc que provê seu lar provenha de inteligência sua família. mais preparada. resquícios bastante marcantes de tal postura.mãe. O integralismo depende de vc. por exemplo.5. atestando o descompasso integralista. os anúncios voltados aos militantes propriamente ditos eram divididos em algumas 388 A Marcha. . 15/9/1956.Deixe que o PRP 388 venha até vc. os integralistas defendiam o casamento.possuía papel de destaque nos projetos integralistas. dona de casa . No discurso médico.194 partido e a prática social. Simultaneamente aos estratagemas utilizados para aproximar a dona de casa da doutrinação. no qual a mulher interagia tão somente no sentido de proporcionar à família bemestar e comodidade. Não podes. com a própria doutrinação. no entanto desapontar a tríade de sua vida. Evidenciou-se. Venha participar das sessões de doutrinação. que se confundiam. Obedecendo a estratégias bastante variadas. muitas vezes. condenavam a luta pela emancipação feminina e também incorporaram uma série de valores modernos em relação à mulher e à família. A despeito da questão sobre a subserviência feminina no integralismo. No trecho abaixo é clara a preocupação do partido em trazer para seus quadros o provedor do lar: Poesia para o Bom Homem Se tu és o provedor do Lar. sua esposa e todos juntos serão trazidos à verdade. A casa continuava sendo vista como o espaço social feminino. p. a mulher . A figura masculina foi privilegiada. o que trata das eventuais dores e rega as alegrias do lar. os integralistas afinaram sua busca de prática doutrinal. visando abarcar um amplo espectro de pessoas. e atentos aos demais segmentos da sociedade. para ter condições de formar seus filhos sob novos critérios higiênicos etc. Lá vc poderá levar seus filhos. nos anos 50. então. Nos anos 30. A Nação depende de vc. A educação feminina era defendida com o objetivo de preparar a mulher para ser uma mãe melhor. seguindo uma das preocupações mais diretas do partido: arregimentar novos simpatizantes para a sigla. a família depende de vc. uma campanha conjugada.

. um calendário rememorativo que contemplou festas populares.195 sessões específicas. as que traziam embutidos nos textos um “chamamento imperativo”: “seja um correligionário do PRP!”. não foram suficientes para revigorar o movimento. Entretanto. bem como a produção de uma série variada de produtos que ostentavam a marca integralista. explorando pontos de aproximação particulares. a força e a possibilidade desse ideal mostraram-se profundamente arcaicos frente à realidade dos anos 50 e 60. 389 Todos esses anúncios foram publicados no jornal A Marcha durante os meses de março a setembro de 1957. Somos o partido da Nação. mostrando ao Brasil que somos bem mais que meros arregimentados de pessoas e idéias. um selo. Independente de tais estratégias e do grau de sucesso conseguido por elas. no espaço de seis meses de celebrações. 389 A sofisticação das estratégias arquitetadas pelos integralistas criou. o descompassado discurso integralista havia caducado devido à contradição que sua permanência causava ao estabelecimento da democracia. constituição de novos órgãos ligados ao partido. passando a fumar Cigarros do Sigma. para a imprensa não integralista. (a exemplo dos Águias Brancas). Segundo os jornais de grande circulação. uma marca de cigarro que vc mude. A despeito das comemorações dos 25 anos do integralismo servirem para colocá-lo novamente na ordem do dia. As celebrações não se limitaram às festividades públicas e às mordazes críticas trocadas com a imprensa. simulações históricas. você está ajudando a nos promover. percebe-se que os agentes de celebração conseguiram congregar a propaganda e a doutrinação com vistas à efetiva partilha de seu ideal: um futuro partilhado por todos aqueles ligados ao movimento. a aceitação. As propagandas comparativas: “Somos nós o diferencial entre o passado carcomido e o futuro representável”. mas sem dúvida foi este um dos mais interessantes e contraditórios momentos vividos pelo integralismo. e aquelas cujo texto dirigiu-se a um público indiferenciado: Todos podem se filiar ao PRP: se não vejamos: podem ao menos ajudar aos companheiros consumindo seus produtos: Um caixa de fósforos. as de interpretação subjacente: “O Brasil anda bem? Porque você não o Recupera e o melhora Praticando?”.

Em decorrência disto. os demais elementos fundadores da doutrina integralista passaram por radicais transformações. agora instituído como presidente do partido. o antagonismo criado entre o movimento integralista do pós-guerra e a imprensa de grande circulação favoreceu a permanência do integralismo nas discussões e páginas dos jornais. Com exceção do anticomunismo. As intenções corporativistas do partido. o integralismo passou a requerer status de “atento 390 paladino da nova democracia”. a oposição da grande imprensa frente ao integralismo mostrou-se. significaram um enorme retrocesso político. . Neste sentido. mas atraindo para si a luminosidade de holofotes coadjuvantes. nada disso ajudava a caracterizá-lo como um movimento político afastado do que fora nos anos 30. ideologia política inadequada à nova conjuntura político-democrática. nov/1946. a imprensa de grande circulação dos anos 50 foi unânime em afirmar que os “jacarés falantes do integralismo”.196 Resumo da ópera O contexto político dos anos 50 diferiu profundamente daquele que viu nascer o integralismo. aos olhos da grande imprensa de circulação nacional. O PRP passou seus primeiros quinze anos de atuação parlamentar (1945-1960) se defendendo das acusações de envolvimento com o fascismo italiano. tipo de aparição que serviu. Adequando-se à nova diretiva pluripartidária. Assis Chateaubriant foi profético: o cachorro morto. que permaneceu como um elemento arraigado da doutrina do novo partido. assim como sua postura antiliberal arrefeceram-se. que não estava tão morto assim havia conseguido permanecer no cotidiano das páginas dos jornais. No entanto. nunca como protagonista de uma efetiva reestruturação simbólico-política. apresentando-se como parceiro do novo regime. a partir de finais da década de 1950. tal como enfatizou Mario de Andrade. sobretudo para lembrar os esquecidos e incautos que a democracia exigia credenciais bastante claras. na sua forma mais acabada. mesmo congregando os matizes mais variados. O dístico Proh Pudor simultânea e paradoxalmente estigmatizou o movimento integralista ajudando o integralismo a permanecer em evidência. Acusados de não possuírem propostas adequadas nem para o presente nem para o futuro os integralistas fixaram suas investidas nos poucos jornais que o movimento dispunha. Nesse sentido. Em contrapartida. e da presença sempre marcante da figura do “chefe”. As credenciais integralistas foram cassadas no 390 Boletim PRP/RS.

Otávio. Maurice. ORTIZ. Edusp. HALLEWELL. J. Gilberto. A moderna tradição brasileira: cultura brasileira e indústria cultural. Imperialismo e Cultura. 1984. 1998. Três fases do jornalismo Brasileiro. 1971. Petrópolis: Vozes. 1960. FGV/Cepedoc. Nacional/Edusp. Referências A Enciclopédia do Integralismo. Rio de Janeiro. BAHIA. HALBWACHS. RJ: Livraria Clássica Brasileira. Santos. A Memória Coletiva. Renato.197 momento em que resolveram retomar sua simbologia. 1976. Laurence. mesmo em nome de uma nova roupagem pseudo-democrática. . COHN. SP. SP. 1990.(org) Comunicação e Indústria cultural.uma história. 1988. Cia da Ed. São Paulo. 1957-1961. Dissertação de Mestrado na PUC-RS. Presença. A Nova face do verde: o Integralismo no pós guerra e a criação do PRP. 1981. Brasiliense. Vértice. CALIL. 4 volumes. 12 vol. IANNI. O livro no Brasil . DICIONÁRIO HISTÓRICO BIOGRÁFICO (1930-1983). Gabriel. SP.

Neste sentido.198 10. Herausgegeben vom Deutschen Ausland-Institut Stuttgart. onde estavam concentradas as colônias alemãs fundadas desde a metade do século XIX. Jahrgang 18. In: Der Auslanddeutsche. März 1935. os chamados 391 Ana Maria Dietrich é doutoranda em História Social pelo NEHO/ Departamento de História/ USP em parceria com o Centro de Estudos de AntiSemitismo da Universidade Técnica de Berlim. ENTRE SIGMAS E SUÁSTICAS Nazistas e integralistas no Sul do Brasil 391 Ana Maria Dietrich Um dos principais efeitos da tropicalização do nazismo foi a adesão de teuto-brasileiros às fileiras do integralismo principalmente nos estados do Sul do país. Mestre em História Social. para os representantes do Reich. o integralismo representou uma onda 392 de nativismo local que ameaçava o Deutschtum (germanismo) . O anauê que muitos teutos-brasileiros declamavam nas ruas de Blumenau. historiadora e jornalista. o integralismo pode ser identificado como uma importante característica do nazismo tropical por ser visto como algo extraordinário que não estava nos planos originais da organização do partido nazista no exterior. 125.900 membros. Tropicalização é aqui entendido como o processo de amoldamentos e modificações do nazismo enquanto ideologia e nas estruturas organizacionais do partido nazista instalado no Brasil. Tinha cerca de 2. 392 “Die integralistische Bewegung in Brasilien“. dos quais a grande maioria (92. Zeitschrift für die Runde vom Auslandsdeutschtum. Ele deixava de fora um grande contingente da comunidade alemã.8%) era de cidadãos alemães. Por outro lado. . Na perspectiva do III Reich. O Partido Nazista no Brasil estava ligado à Organização do Partido Nazista no Exterior e era o maior grupo das 83 filiais do partido nazista espalhadas no mundo. Harmonia e Rio do Sul em Santa Catarina é aqui considerado uma reação “tropical” ao nazismo exportado e segregado que não admitia nas suas fileiras os miscigenados. havia um explícito repúdio ao integralismo justificado pelas regras da Organização do Partido Nazista no Exterior que deixavam claro que os alemães não deveriam participar da política local do país de hospedagem (Gastland). p.

o apoio do integralismo aconteceu em via dupla. Os Deutschbrasilianer se encontravam em um nível inferior aos alemães puros. considerando que a comunidade de teutos somava 900 mil 393 integrantes . Este é um dos motivos indicado pelos alemães nazistas para a grande adesão de brasileiros descendentes de alemães às fileiras integralistas. que não precisariam. para defender os interesses desta categoria . Porto Alegre: Mercado Aberto. 395 Ata R79005. Alguns traços de caráter atrairiam a população de descendentes de alemães para o partido integralista: “a valorização da 393 SEITENFUS apud GERTZ. Porto Alegre: Mercado Aberto. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. A Federação 25 de Julho desempenhou em grande parte este papel. Em alemão. Inferior. Nazismo. cuja forma se assemelhava às demonstrações nazistas foi mais sedutor. 1987. Além da “roupagem”. que serviria. quanto os integralistas queriam o engajamento desta população.199 teuto-brasileiros. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Nazismo. A solução encontrada foi a formação de uma associação de amigos de Hitler. pois representavam uma força que não pode ser deixada de ser considerada – tanto em termos numéricos. 396 Revista Deutschtum im Ausland. o integralismo com seus desfiles. Ministério das Relações Exteriores. Berlim. René Ernaini. Mas. Ainda que formalmente não lhe eras permitido a participação efetiva dentro do partido. 1987. ou seja. criando-se uma hierarquia racial dentro da própria comunidade alemã. Inconformados e estimulados a se engajar politicamente – os descendentes de alemães viram no integralismo uma alternativa viável. 1937. Tal organização representaria os interesses e as exigências dos teuto-brasileiros. 21. marchas. Segundo Natália Cruz. que não podiam entrar no partido por não serem portadores da cidadania alemã. Alemanha. 394 GERTZ. formaram uma nova categoria dentro de uma maior Auslandsdeutsch (alemães estrangeiros). chamados de Deutschbrasilianer (alemãesbrasileiros). 80% desta comunidade era 394 simpatizante do regime hitlerista . Alemanha . então recorrer 396 ao integralismo . o integralismo teria atraído também pelo seu conteúdo ideológico. p. mas ainda interessante. o governo nazista pensou em formas para a inclusão política e social desta “categoria”. Integralismo. em 395 tese. O Fascismo no Sul do Brasil: Germanismo. tanto os colonos alemães apoiavam o integralismo. quanto ideológicos – afinal. Integralismo. uniformes e hinos. René Ernaini. mas ainda faltava um grande caminho para se tornar uma organização dinâmica e disciplinada.

observou o crescimento e desenvolvimento do integralismo como força política no Brasil. . Punhal Nazista no Coração do Brasil.. (. através de suas associações no exterior.. portanto..).) És brasileiro. 398 RIBAS. O integralismo é um apelo do Brasil para todos que são aqui nascidos! É um chamado da terra que te 399 acolheu de forma hospitaleira (.. “.Si tu fosses allemão.. Segundo Cruz. 137. O Estado de Hitler. o sigma sob o mapa do Brasil. virtudes cultivadas pela AIB. Mímeo. A mesma autora cita o envolvimento de alemães supostamente espiões nazistas com o integralismo. então ingresse para as camisas verdes lideradas por Plínio Salgado. Caracterizando-o tal movimento 397 CRUZ. Para conseguir o engajamento desta fatia da população. seu braço se levanta para Hitler que fez a Alemanha livre do caos marxista e comunista (. 397 que representavam apenas interesses regionais” . Imprensa Oficial do Estado. Os integralistas. faziam questão de mostrar semelhanças entre os dois movimentos políticos. Florianópolis. sempre citando o regime nacional-socialista de Adolf Hitler como paralelo ao que acontecia no Brasil: Se você é um alemão nacional-socialista e é agradecido à sua Pátria de origem. p. nas Legiões Integralistas e vem vestir a camisa verde dos que se batem pelo bem do Brasil” – constava em um panfleto que circulou na década 398 de 1930 . desde 1935. inscreve-te. 2005. certamente serias Nacional Socialista. N. a Ação Integralista Brasileira também se valeu de propaganda em alemão. os comunistas e o judaísmo internacional. possuiriam um forte “idealismo pátrio”.200 ordem e do trabalho.) Anauê! . por exemplo. Antonio de Lara. Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos.. havia diversas semelhanças nos princípios do integralismo e do nazismo e ambos tinham como alvo a democracia liberal. 399 Ibid. em vez de se ligarem aos partidos tradicionais. além de utilizar em sua propaganda efeitos e símbolos similares à da propaganda nazista como.. fazendo-os se identificarem com um partido realmente nacional.

Alemanha. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. era o periódico do Institut Deutsches Ausland (Instituto dos Alemães no Exterior). também como um Estado que historicamente. Atenção especial se dava a juventude alemã. 401 A partir de 1938. A citação abaixo mostra uma tentativa dos alemães de compreender o integralismo. que em parte também aderiu ao 400 integralismo . Tal periódico contém diversos artigos sobre nao só alemães no Brasil. que se apresenta no mundo como um nativismo lusitano. com o “Heil Hitler” tropicalizado para o “anauê”. A preocupação era que este movimento iria afetar o Deutschtum (germanismo). mas da América do Sul e do mundo inteiro. localizado em Stuttgart. Eles caracterizavam tal conceito de raça como Lusotum (lusitanidade) em contraposição ao Deutschtum (germanismo). A Revista Deutschtum im Ausland (Espírito de ser Alemão no Exterior) também se ocupou desta temática. engloba o conceito de brasilidade de tal maneira. o que eram vistos como aspectos positivos pelo III Reich. o que era enfatizado nos relatórios e artigos é a ameaça ao Deutschtum. A visão do III Reich do movimento integralista destacava principalmente a questão racial que visava melhorar a raça com a diminuição da porcentagem de negros e índios e o aumento dos europeus.201 pejorativamente como nativismo. . 401 Tal revista. é denominada Deutschtum im Ausland. 1935. linguisticamente e 400 Revista Deutschtum im Ausland. denominada até 1938 como Der Auslanddeutsche . cidade que na época recebeu o título “Cidade dos alemães no Exterior”. era completamente contrário a que os alemães e seus descendentes se filiassem a este movimento. como se os brasileiros pudessem formar um estado nacional que tem como os europeus do oeste como modelo. A suposta “ameaça” do integralismo foi registrada em relatórios realizados pelo corpo diplomático alemão no Brasil e por membros do partido nazista. Observar a maneira irônica que se referem aos brasileiros colocando em dúvida a capacidade de se formar um estado nacional semelhante aos europeus: O integralismo. visto como nativismo lusitano que tinha como “grande pretensão” fazer do Brasil um Estado semelhante aos países do oeste europeu. Apesar de observar as tendências anti-semitas e o combate ao comunismo.

Florianópolis. o secretário de estudos da AIB de Pindamonhangaba teria 402 Hünsche. Ainda. Cumpre-se notar que esta fala data do pós-guerra. que mostram sedes dos dois movimentos que funcionavam sob o mesmo endereço. as atitudes variavam entre aproximações e distanciamentos. Verificamos alguns registros de fotos. Mas. formado uma Mesmo com toda esta visão do III Reich de não-aceitação. René. O Fascismo no Sul do Brasil. Salgado. Da parte das lideranças integralistas. enfatizando o perigo dos camisas cáquis nazis do qual os camisas 404 verdes iriam proteger o Brasil . fizeram questão de 405 relembrar suas raízes germânicas de seus descendentes . supostamente. ao nosso entender tropicalizada. por exemplo.129. No livro O Punhal Nazista no Coração do Brasil vemos publicada uma foto de uma sede localizada na cidade de Rio do Sul (SC) que abrigava. quando. 1987. 116. Berlim. a fim de conquistar a numerosa colônia teuto-brasileira. As ordens vindas da Organização do Partido Nazista no Exterior sediada na Alemanha eram obedecidas de maneira diversa. chegou a ser o porta voz dos dois grupos ao mesmo tempo. em outros momentos. . p. 404 GERTZ.202 sociologicamente tivesse 402 unidade aproximada. p. 405 Ibid. Punhal Nazista no Coração do Brasil. Germanismo. a realidade dos círculos das colônias alemãs do Sul do Brasil era diferente. Alemanha. ele afirmou que o Brasil estava ameaçado pelas doutrinas estrangeiras. No cotidiano destes alemães e teutos brasileiros. p. através de um enviado. Integralismo. Nazismo. toda a associação de nazistas deveria ser repudiada pelos integralistas. O jornal Blumenauer Zeitung. Plínio. fez uma retrospectiva da história do integralismo e mandou publicar um “manifesto diretiva” em 9 de setembro de 1945. de Santa Catarina. . 184. ao mesmo tempo. „Die Tätigkeit des Nazismus in Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506. Ministério das Relações Exteriores. Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. Plínio Salgado teria feito um acordo diplomático em que não mais ofenderia os nazistas no seu discurso. teria feito em 1935 um contato para pedir apoio financeiro e moral para a luta contra o comunismo. quando estava no exílio. os dois partidos nazista e integralista e tinha o símbolo da suástica e do sigma 403 na fachada . No mesmo ano de 1936. 403 RIBAS. apud. tanto Salgado quanto Gustavo Barroso. os discursos se misturavam e a colaboração se dava em diferentes níveis. não-colaboração e até menosprezo. Porto Alegre: Mercado Aberto. November 1941. Imprensa Oficial do Estado. Antonio de Lara.

René. como algo extraordinário. Todo este movimento não mudou a idéia do III Reich sobre o integralismo que era visto como perigo e ainda mais. o integralismo foi lembrado pelo jornal no período de seu início (1934-1935) e “esquecido” no momento 408 de sua maior expansão (1935-1938) . Costumava citar sua descendência alemã. era considerado um grande simpatizante do nazismo. 135.tau.il/eial/VII_1/gertz. A influência política alema no Brasil da década de 30. receptividade para seus artigos no jornal alemão Der Stürmer. . a figura do número 2 do partido integralista. sobretudo em função de seu ferrenho anti-semitismo. Anti-Semitismo na Era Vargas. Segundo René Gertz. Gustavo Barroso. fato que nunca aconteceu. O mesmo líder integralista tentou em diversos momentos a aproximação com o Instituto Iberoamericano de Berlim. também. O. sendo que parte de sua família tinha o sobrenome Dodt. 408 GERTZ. 407 CARNEIRO. chegando a enviar livros anti-semitas de sua autoria para serem resenhados pela revista do instituto.htm 409 Ibid. Mas a tentativa foi frustrada. . E não há dúvida de que Barroso em diversas oportunidades tentou aproximar-se do 409 Nazismo e do Instituto Ibero-Americano. http://www. para o DAI (Deutsches AuslandInstitut – Instituto alemão do exterior) é colocado o seguinte problema: 406 Ibid. Barroso permaneceu na Alemanha durante 5 semanas em 1940. 1995.ac. Mesmo com alguns artigos que elogiavam Barroso e outros que demostravam uma simpatia pelo “fascismo à brasileira”. Sao Paulo: Editora Brasiliense.203 pedido dinheiro a Embaixada Alemã para uma viagem cujo propósito 406 seria levar o integralismo para uma linha alemã . Em ofício da A. Barroso teria tido. as opções simpáticas de Gustavo Barroso ao nazismo são evidentes: Entre as lideranças integralistas Gustavo Barroso sempre foi considerado o mais germanófilo e pró-nazista. Ele também foi convidado junto a outras autoridades brasileiras para visitar a Alemanha e melhorar as relações entre o Brasil e a Alemanha. 335. um dos principais veículos da 407 propaganda nazista publicado por Julius Streicher . p. p. Estudos Interdisciplinários da América Latina y el Caribe. Maria Luiza Tucci.

como eram chamados os países onde estavam localizadas comunidades de alemães. os integralistas utilizavam em sua propaganda que só com o integralismo seria preservado o Deutschtum (germanismo). p. Segundo a revista Deutschtum im Ausland. O problema se intensificou com o golpe integralista e a suspeita de que alguns alemães nazistas teriam participado. A nosso ver. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. como solidariedade a Gastland (terra de hospedagem). era proibido aos partidários a participação 410 Ibid. Isto poderia acabar se tornando um ruído diplomático entre os dois países. pejorativamente como uma mera imitação do nazismo. um grande grupo de estrangeiros. 20. que neste momento. 21. Em contrapartida. contra toda a vontade e orientação do III Reich. Alemanha 412 Revista Deutschtum im Ausland. aos grupos dos partidos nazistas no exterior. dois teuto412 brasileiros haviam morrido pelo integralismo . O discurso ideológico semelhante fez com que os descendentes de alemães se beneficiassem da estrutura integralista 411 para desenvolver o programa do nazismo . 1937. 136. 413 Em Blumenau. causaram sérias preocupações aos alemães nazistas. idéia que não tinha crédito na Alemanha. p. . se viam em um namoro comercial muito intenso. nos quais os alemães e seu Deutschtum não seriam valorizados. é tida como o principal ponto da tropicalização do nazismo e da resistência à tropicalização proferida pelas lideranças nazistas. 411 Revista Deutschtum im Ausland. esta mistura ideológica que. 1935. sempre haveria uma diferença entre os brasileiros integralistas e os “outros”. Alemanha 413 Ibid. aconteceu no Brasil. Os camisas verdes e seu grito de anauê vistos. O. existem apenas brasileiros e estrangeiros. os alemães deveriam ter o cuidado de não se "misturar" com os estrangeiros.” Pelos "mandamentos" dos divulgadores do nazismo no exterior. Os tais “problemas extraordinários” não estavam previstos nas diversas regras e diretrizes propostas pela A.204 “A questão do integralismo coloca nosso trabalho alemão no Brasil 410 diante de problemas extraordinários” . Por outro lado. p. não devendo nem mesmo usar a língua local. “Nós não conhecemos a expressão “alemães de Blumenau”. Segundo a revista. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart.

Segundo Emil Ehrlich. 1937.205 na política local em eleições ou movimentos revolucionários. A política da terra de hospedagem deve ser deixada para seus moradores. principalmente em Santa Catarina (Blumenau. Jaraguá. Emil. cerca de 850 mil eram a favor do integralismo. Nos estados do Sul. 415 Revista Deutschtum im Ausland. o Brasil contaria com 3. Herausgegeben von Paul MeierBenneckenstein. nem mesmo por meio de conversas”. Apesar da discussão sobre a adesão de teuto-brasileiros. Alemanha . 1937. Berlin. havia 10 deveres da A. Heft 13. região que se concentrava o maior número de teutos e de alemães. Não se intrometa nesta política. Junker Dünnhaupt Verlag. (Auslandsorganisation der NSDAP – Organização do Partido Nazista no Exterior) instituídos a partir do decreto do Führer de 1937. Entre eles. A força do movimento no Sul do País. Seguir as leis do país. 2. Der Organisatorische Aufbau des Dritten Reiches. Participar do movimento integralista infringia diretamente tal mandamento. Alemanha 416 Revista Deutschtum im Ausland. Para provar tal força eleitoral. Temia-se que se os alemães aderissem aos ensinamentos integralistas aconteceria a miscigenação e a raça ariana desapareceria em duas ou três 415 gerações . Joinville. Die Auslandsorganisation der NSDAP. Schifften der Deutschen Hochschule für Politik. Isto aponta para a adesão dos teutos que votaram e apoiaram os integralistas e também pode ser visto como um dos fatores da 416 dificuldade de se opor politicamente a tal movimento . Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Os nazistas deveriam se manter neutros com relação à política interna e 414 não poderiam divulgar suas idéias a estrangeiros . II. com 560 mil e em Santa Catarina.3 milhões de votos. Efetivamente uma grande porcentagem do Deutschtum (germanismo) de Santa Catarina marcha nas fileiras integralistas. estariam localizados 125 mil adeptos do integralismo. se concentraria a maior parte de votantes. Rio do Sul. p. a preocupação maior se dava com os alemães. 19. Nos anos 1930. Do Rio 414 Ehrlich. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. 1937. no qual você é hóspede. Harmonia e São Bento) e Rio Grande do Sul. O. Destes. os dois primeiros referem-se a este princípio de “não intervenção”: “1. Você não deve entrar na política de uma terra estrangeira. também é enfatizada. a revista relata a vitória maciça nas eleições de 1936 dos integralistas nas prefeituras das cidades do Sul.

Junho de 1937. 661.. Em outro momento. que escreveu em carta para o seu pai na Alemanha. José Luiz Schroeder. 420 Ibid. . morto em Jaraguá (SC). p. p. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. porém com brasileira. É o caso do alemão Hans Walter Taggesell. em 1931. . o brasileiro certamente não é superado por nenhum povo no mundo”. Em caso algum. 7/10/1937. Em 1932. 112 e 113. 419 RIBAS. Alguns teutos brasileiros chegaram a morrer como mártires da Ação Integralista Brasileira. ele escreve: “No que se refere à preguiça e comodismo. Florianópolis. Imprensa Oficial do Estado. Vários relatos reportam a esta espécie de “racismo tropical” difundido entre a comunidade alemã no Brasil. Alemanha 418Jornal "Acção". em 7/10/1936 eram os mais lembrados pelos próprios integralistas. em que se nota uma forte apresentação do 417 integralismo. 3. datada de 1929: Quando me casar. se alguma vez o fiser. chamando-o de “terra de macacos” . Antonio de Lara. de 3 de setembro de 1937. p. Nova Hamburgo e Santa Cruz como também das mais novas regiões de colonização no nordeste e leste do estado. morto em conflito de rua em São Sebastião do Caí (RS) com a polícia em 24 de fevereiro de 1935 e Ricardo Grünwaldt. p.. . 113. Alguns destes alemães que mantinham este pensamento racista proclamavam-se integralistas. Germano Sacht 418 morreu no mesmo dia e local que Ricardo . sobre as influências nazistas no Brasil. procurarei mulher que ajude um pouco o marido e não uma que saiba apenas vestir-se bem para agradar outro homem. Uma reportagem no jornal inglês Times. Meus filhos deverão ter sangue limpo e não virem ao 419 mundo sifilíticos. fez com que jornais brasileiros passassem a prestar mais atenção ao partido nazista no 417 Revista Deutschtum im Ausland. ele volta a fazer comentários 420 pejorativos sobre o Brasil. Punhal Nazista no Coração do Brasil. citado como integralista destacado e Comandante da Milícia Integralista.206 Grande do Sul vem também das antigas regiões de colonização alemã próximas a São Leopoldo. São Paulo.

Ata 104939. de intenção nazista?” O jornal chega a descrever a situação das colônias alemãs no Sul do Brasil como um simulacro das ditaduras alemãs e italiana. e cuja arma principal é o “boycott”. a) será puramente racial: manutenção de costumes. foi um destes jornais brasileiros. O jornal o Globo. 3/09/1937. isolados. O jornal colocou em cheque a germanização da colônia alemã no Sul do Brasil. quando se refere à construção de uma Alemanha em solo brasileiro: Os núcleos germânicos. O medo da invasão militar fica implícito neste trecho. não é possível a existência de campos de 422 concentração.207 Brasil. arremedo de regimens totalitários. que fazia até o uso de boicote contra empresas que não eram aliadas à causa alemã: Em algumas colônias mais recuadas do centro principal que é Blumenau. entregues a si mesmos. Berlim. Ministério das Relações Exteriores. publicou diversas reportagens sobre o movimento nazista no Sul do Brasil e fez várias referências ao integralismo e à “mistura ideológica” entre as duas correntes. Alemanha. Segundo o Times. 422 O Globo. o principal questionamento era com relação a nacionalização do povo alemão no Brasil. Ata 104939. do Rio de Janeiro. integra-se sem relutância na nacionalidade brasileira ou resiste?” ou “Qual o sentido desta resistência. verifica-se afinal a existência de verdadeiro simulacros de dictaduras. de controles 421 “O Times e as influências nazistas no Brasil” in Correio da Manhã. através de perguntas como “o elemento allemão se deixa de boa vontade absorver pelo brasileiro. mentalidade pura da raça germânica? b) Ou será particularista. . desde que. Perguntava-se se havia intenção de uma invasão de Hitler no Brasil por uma política de expansão territorial. Alemanha. em outubro de 1937. afirma-se que havia infiltração 421 nazista . Ministério das Relações Exteriores. por descaso em eral dos poderes públicos. no Brasil. outubro de 1937. predilecções. Berlim. que atento a matéria do Times. principalmente em Santa Catarina. livres. de ordem política. Paralelamente.

. Segundo o jornal. pelo seu discurso. As reportagens foram arquivadas em atas no Ministério das Relaçoes Exteriores e exaustivamente analisadas pelos diplomatas. o partido nazista foi proibido e alguns dos líderes partidários foram presos. que segundo o jornal.208 conacionalizadores. poucos meses depois. Em reportagem de outubro de 1937. o jornal abre com a manchete: “Nao prometemos nada”. tanto do Times quanto do O Globo. anti-comunista e anti-liberal. Desse modo formou-se o que alguns commentadores atrícios tem apontado como “um pedaço da Allemanha” tratando de se consolidar sob os céos do 423 Brasil” . sem especificar quem a tinha falado. era anti-semita. A frase foi atribuída para a “gente integralista”. os segundos transgridem estas normas. que caracterizou-as como uma campanha difamatória contra a Alemanha. identificado com Friss. a opinião é explícita: “Blumenau nao teve o prazer de receber nenhum resultado 423 Ibid. o jornal faz uma distinção entre dois “tipos” de integralista. Sem deixar de expressar a sua opinião contra o movimento integralista. Eles são acusados de maus-administradores. adensaram-se a sua moda. tiveram grande repercussão no III Reich. acentuando-se mais o lado germanizado. enfatizando principalmente a mágestão. costumes e idioma próprios. que compareceu a um ato público em Rio Sul (SC) ostentando o sigma ao lado da suástica. uma vez que alguns líderes. No corpo da matéria. da parte dos nazistas também havia certa confusão. A explicação para tal mistura é que a população teuta condenava o “nazismo de exportação” dos nazistas tradicionais e se identificavam mais com o integralismo. Ao citar as semelhanças entre as duas correntes. como o caso do chefe da cidade de Taió (SC). De fato. Os primeiros são considerados nacionalistas e lutam pelo bem estar do Brasil. com sua mentalidade. o jornal publicou também uma série de artigos sobre o governo integralista nas prefeituras. em abril de 1938. Os artigos.

p. teriam participado do golpe integralista . Ministério das Relações Exteriores. Berlim. Algumas prisões foram efetuadas. às obras da Estrada de Ferro Santa Catarina. os trabalhadores que não eram adeptos do integralismo teriam encontrado problemas. Instituto de Relações Exteriores de Stuttgart. Alemanha. Em obras públicas. Tal acontecimento gera uma série de ruídos diplomáticos e o integralismo e sua ameaça ao Deutschtum é colocado em segundo plano. O jornal refere-se. Ata 104939. a atenção do III Reich se volta para um outro acontecimento importante na história das relações entre a Alemanha e o Brasil: a proibição do partido nazista local pelo governo brasileiro. . „Die Tätigkeit des Nazismus n Südbrasilien“ (40f) Ata R 12506. Como havia muitos trabalhadores nesta obra que não-integralistas. Ministério das Relações ExterioresBerlim. 425 „A preferência aos trabalhadores integralistas em obras públicas e os casos que a respeito surgiram em Blumenau. November 1941. os integralistas. 1938. 428 Übersetzung aus der Zeitung “O Radical” in Rio de Janeiro vom 12. 384. Ministério das Relações Exteriores. Em entrevista ao jornal O Radical. Uma primeira corrente acredita no separatismo entre os dois movimentos e a segunda. outubro de 1937. Berlim.. 427 Ata R127506.” O Globo. Neste momento. Ata 104939. entre eles seu líder máximo Hans Henning von 427 Cossel. Alemanha. mas nada ficou provado. Os estudos que exploram as relações entre o nazismo e integralismo divergem entre si. acredita que 424 „Não prometemos nada. com o fracasso do golpe.o secretário Schubert Jr. Alemanha.Berlim. outubro de 1937. In O Globo. Cossel se isenta da culpa com relação ao golpe de 11 de maio 428 de 1938 . Alemanha. 426 Revista Deutschtum im Ausland. os integralistas passam a 426 serem vistos pelo III Reich como incapazes de se chegar ao poder . O que eles chamavam antes de um “Brasil integralista” dada a força com que o movimento se expandiu nos anos 1930. Observações de um blumenauense.209 verdadeiramente apreciável da propalada açção renovadora e 424 progressista do sigma” . Ministério das Relações Exteriores. 425 representados pelo jornal “Alvorada” teriam reclamado . „ A decepção causada pela estréia dos integralistas no governo de Blumenau. Com o golpe integralista de 1938. 385. a visão do III Reich sobre o integralismo muda de perspectiva. por exemplo. A preocupação passa a ser outra: a suspeita de que partidários do nazismo no Brasil.as sinecuras.

O nosso levantamento bibliográfico neste artigo se dará de maneira resumida. 2005. Bailey Diffie corroborou tais afirmações acrescentando que ações isoladas dos nazistas agiam em prol do integralistas. que mantinha relações com os integralistas. p. Integralismo. palestras no Sul do Brasil para esclarecer o racismo alemão e financiamento do movimento 429 integralista pelo Banco Alemao Transatlântico . Edgar Carone cita possíveis variáveis deste colaboracionismo como a publicacao em Santa Catarina do já citado jornal integralista Der Blumenauer Zeitung em língua alemã. Nazismo e Integralismo: Proximidades e Conflitos. Edgar apud GERTZ. já que o integralismo. N. chefe do partido nazista no Rio Grande do Sul. Natália Cruz e Bailey Diffie. de uma maneira simplista.2.210 houve uma grande colaboração. 119-120. Integralismo. Há ainda. p.2 Integralismo e nacional-socialismo. como movimento extremamente nacionalista. . O Fascismo no Sul do Brasil. deve-se levar em conta as diferenças marcadas principalmente pelo caráter nacionalista de ambas. Não se pode desconsiderar que a relação entre o nazismo e o integralismo também era marcada por desconfianças mútuas. Balley apud GERTZ. 1987. o que incluiria a assimilação cultural 431 dos alemães residentes no país. Porto Alegre: Mercado Aberto. Germanismo. Ele acrescenta que os nazistas queriam 430 “dominar” o Sul do Brasil . René. Nazismo. 1987.. Recomendamos a leitura da obra de René Gertz supra-citada para o aprofundamento destas questõ es. como foi o caso de Walter Honig. Porto Alegre: Mercado Aberto. 119. indentificam uma corrente com a outra. temia a influência imperialista do Reich Alemão. principalmente o capítulo 4. sem prestar atenção às devidas peculariedades. Nazismo. . outros estudos que. Germanismo. p. e o nazismo não simpatizava com a idéia integralista de nacionalização das minorias étnicas no Brasil. O Fascismo no Sul do Brasil. Cruz enfatiza que apesar das séries de evidências apontarem para uma colaboração entre as duas correntes. Mímeo. 431 CRUZ. 429 CARONE. Entre aqueles que defendem o colaboracionismo. podemos citar Edgar Carone. René. 430 DIFFIE.

defende que entre nazistas e integralistas houve mais 432 conflitos que aproximações . Na práxis. em nenhum momento. 433 HARMS-BALTZER apud GERTZ. foi pontuado a todo momento que a realidade que analisamos foi da região sul do brasil. Integralismo. Segundo Manfred Kossok. Nazismo. Com relação às tentativas individuais de aproximação. uma política oficial de colaboracionismo entre os dois partidos. René. o movimento integralista e os descendentes de alemães faziam uma oposição ao partido nazista no Brasil. Como se deu a relacao entre integralismo e nazismo em estados de outras regioes do Brasil. onde se concentrava o maior número de teutos-brasileiros. influenciar alemães e descendentes para trabalharem como 5ª. Colunas e colaborar com o movimento “fascista local”. Integralismo. ainda deverá ser analisado pela historiografia. a história é outra. Ao ver do III Reich. vemos diversos exemplos que mostram um trabalho em conjunto entre os dois partidos. 1987. O Fascismo no Sul do Brasil. apenas aconteceu em níveis individuais. umas das diretrizes do governo nazista na época seria conseguir a hegemonia comercial e para isto teria se organizado em diferentes frentes: dominar os mercados de matéria-prima. Tal pensamento a respeito do golpe integralista é 433 compartilhado por Käte Harms-Baltzer . que se houve colaboração. 434 KOSSOK. Germanismo. é que não houve. O Fascismo no Sul do Brasil. assim como Arthur von Magnus. Nazismo. . Porto Alegre: Mercado Aberto. p. tendo em vista os documentos analisados. p. Outra variável levada em consideração é a diferença regional. Stanley e MAGNUS apud GERTZ. Neste artigo. 1987. foi citado pela imprensa alema na época que a subida do movimento integralista ajudou o o 434 Brasil a ser retirado da “órbita americana” . 116-121. René. René. integralista e nazista. 122. Para Magnus. 1987. Germanismo. Nazismo. Ele considera improvável a participação nazista no golpe integralista e acredita. Nesta última frente. A nossa posição. A tal “mistura ideológica” deveria ser evitada. Porto Alegre: Mercado Aberto. Porto Alegre: Mercado Aberto. Manfred apud GERTZ. 432 HILTON. o integralismo era um movimento local de caráter nativista que deveria ser ignorado pelos alemães e teutos residentes no Brasil. 121. p.211 Stanley Hilton. Germanismo. O Fascismo no Sul do Brasil. na posição contrária. Integralismo.

a tua Pátria. fundada em 1932 e posta na ilegalidade em 1937 pelo Estado Novo. GÊNERO E AUTORITARISMO: representações do feminino pela Ação Integralista Brasileira 435 Tatiana da Silva Bulhões 436 (. abnegada (. sinceramente. simples.. a tua Família. .. necessária. As “blusas-verdes”. e como tal. MULHER. e serve conscientemente. ardentemente.). (. neste discurso.. e acima de tudo.) XI Faze de tua consciência um espelho límpido. de 5/1/37) A Ação Integralista Brasileira. assim como no discurso textual. em Deus... produziu e divulgou um amplo discurso imagético sobre o cotidiano de seus militantes e sua ideologia através da fotografia.) VI Na paz ou nas horas de lucta. sendo está passível de inserções documentais e revisões até a defesa do Mestrado. honesta.212 11. Pelas imagens que o movimento produziu das mesmas.. escrito por Iveta Ribeiro e publicado em A Ofensiva.) Crê. inteligente. respeitosa. 436 Mestranda em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e pesquisadora do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (TEMPO/IFCS/UFRJ). (Três regras de conduta do “Breviário da mulher integralista”. militantes mulheres que participaram do movimento.. têm suas condutas delimitadas. 435 A análise apresentada neste artigo reflete o estágio atual da minha pesquisa documental. (. Deante do qual nunca tenhas de corar de vergonha de ti mesma. temos uma forma de visualizar as representações do feminino na sociedade brasileira. FOTOGRAFIAS. caritativa.. útil. sê sempre. ama.

tal como sugere Jacques Le Goff quando trata dos “materiais 440 da memória coletiva e sua forma científica.213 Considerando-se que tanto a escolha do objeto fotografado quanto a posição de produção de sua imagem são o resultado das condições históricas das relações sociais e expressam os significados culturais de uma época. interessa-nos rastrear os usos e produção de significados dessas imagens e suas utilizações no amplo leque de instrumentos de 438 propaganda utilizados pela A. Rosa Maria Feitero. p. Além disso. tradições e comportamentos contribuintes da formação de uma identidade coletiva e de uma memória que se quis perenizada para o futuro. As referências teóricas e metodológicas que orientam a pesquisa e análise imagética deste trabalho estão intimamente ligadas ao campo de uma história social onde a fotografia é pensada como 437 Muitas destas imagens fotográficas se encontram arquivadas e publicadas pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro à disposição dos interessados. As novas condições de escrita da história. v. Jacques. na qual objetos. São Paulo: UNICAMP. os livros produzidos pelos seus ideólogos. Rio de Janeiro. “Memória. panfletos e jornais.7 440 LE GOFF. Integralismo: ideologia e organização de um partido de massa no Brasil. Estudos Históricos. 439 POLLAK. São Paulo: EDUSC. que as fotografias fazem parte de um processo. esquecimento. Michael. a história”. tanto regionais quanto nacionais. Consideramos. de 439 “enquadramento de memória” . História e Memória. monumentalizando seu dia-a-dia. no qual uma determinada imagem do movimento e de seus militantes é escolhida e enquadrada como a verdadeira a ser perpetuada e que procura construir no presente a coesão do grupo a que pertenceu projetando essa imagem também para o futuro. . n. p.525. A fotografia integralista apresenta uma memória da militância integralista e sua identidade em relação a um Brasil em franca redefinição política e social. ainda. na década de 1930. 438 Outros exemplos de instrumentos de propaganda utilizados pelo Integralismo são o rádio. silêncio”.2.125.I. 1989.1999. O conjunto fotográfico e os periódicos integralistas analisados retratam militantes e uma autoimagem do movimento. o objetivo central de nossa pesquisa tem sido investigar as formas de produzir e divulgar as fotografias do 437 movimento no Rio de Janeiro e o lugar da mulher nas mesmas. Ver: CAVALARI. pessoas. p. idéias.3. 2003. “Documento/Monumento”. revistas ilustradas.B. permiti-nos considerar a fotografia como documento para a história – marca de uma materialidade passada. o cinema. lugares nos informam sobre o passado – e também como monumento – algo que traduz valores. denominado por Pollak.

como aponta Bourdieu em seu estudo sobre 441 Tais preocupações com análise da fotografia são similares às de Marta E. Jacinto. mas também hierarquias entre eles. separada das questões sociais (quem fotografa? Por que fotografa? Quais as intenções/objetivos?) e do tempo histórico em que foi produzida. pretende-se nesta pesquisa ir além desta esfera. BARBOSA. da subjetividade de quem o vincula e do sistema social no qual se inscreve a relação sujeito-objeto”. as formas como foram divulgadas (periódicos integralistas ou não. Martine. Laura A. Marta E. entre outros). cabe comparar as representações de feminino nas fotografias integralistas com outras fotos da sua época.86. entre 1933 e 1937. et al. p. apesar de ter como meta a analise do conteúdo do corpus fotográfico (objetos. pessoas. Contudo. (orgs. indagando os usos e escolhas dos produtores das fotos. J. Ela é constitutiva da realidade desse objeto. CARDOSO. São Paulo: Papirus. comportamentos referentes a esse objeto. os sentidos dados à fotografia no Brasil da década de 1930.33 e MOLINER. como algo que existe para significar ou designar o objeto” e conforme afirma o psicólogo Pascal Moliner “correspondem a um conjunto de crenças. outras histórias. São Paulo: Olho d’Água. exposições. Images et représentations sociales – De la théorie des représentations à la étude des images sociales. Apud SILVA. Sendo assim foram delimitadas pela 442 intelectualidade. folhetos. Campinas. Jurandir. intimamente ligadas aos argumentos dos discursos médicos eugênicos e de inspiração cristã desta época. 1996. 2004 442 O conceito de representação também é compreendido nesta análise à luz da psicologia social e da semiótica. 1996. construiu em seu discurso textual e imagético padrões de feminino e masculino em consonância com sua filosofia e visão de mundo. p. locais. Pascal. Representações: Contribuição a um debate transdisciplinar. Barbosa em seu trabalho sobre as fotos da seca no Ceará. 2000. por exemplo) e o modo que 441 elas apareciam no material de divulgação. no final do século XIX. In. dirigente ou não. In: MACIEL.) Muitas memórias. Helenice Rodrigues da. como sendo. pág. .. Além disso. opiniões. “Os famintos do Ceará”. consolidando não somente as diferenças. A imagem não existe apenas em função do desenvolvimento técnico ou da possibilidade colocada pelo equipamento. do movimento representações dos gêneros. gestos. A Ação Integralista Brasileira. Ver: JOLY. São Paulo: Papirus. bem como as técnicas fotográficas usadas na produção fotográfica.16. Ciro Flamarion e MALERBA. em linhas gerais. Campinas. Grenoble: Presses Universitaires de Grenoble. Introdução à analise da Imagem. “A história como ‘representação do passado’: a nova historiografia francesa”.214 prática social e expressão de relações sociais e significados culturais. Tais representações se tornam instrumentos de poder integralista. “a percepção de um objeto como signo do mesmo.

11 (5). como fenômeno da sociedade e da cultura de massas. de fundo biológico. cristão e antifeminista. onde existem muitas hierarquias. assim como impõem as definições legítimas das 443 divisões de mundo. e que estas estão imersas em relações de poder e de hierarquia. pp. 446 SCOTT. “O mundo como representação”. pp. feministas ou não.1-3.182. neste caso aos integralistas . p. A consciência de que o discurso integralista construiu representações do gênero feminino. pois elas são muito mais o resultado das relações sociais em determinado momento histórico. p. . contra o casamento e a desigualdade de direitos entre os gêneros. 1991. Dissertação de mestrado. era fator integrante da cultura 447 política brasileira e internacional da época e adquiriu enorme 443 BOURDIEU. a propaganda política. dão a conhecer e fazem reconhecer. Gênero: uma categoria de análise histórica (tradução de Christine R. Pierre. Campinas: Unicamp. Cleusa Gomes. Dabat e Maria Betânia Ávila). já que não se pode entender as representações como imposições simplesmente. crenças e sentimentos que dão ordem e significado a um processo político. 445 SILVA. 447 Entendo Cultura política neste trabalho como “um conjunto de atitudes. marcou e 445 mesmo transformou o discurso conservador destas décadas . nas décadas 1920 e 1930. por exemplo. evidencia minha opção pelo conceito de gênero tal como proposto por Joan Scott. SOS Corpo. ao pensá-lo como categoria útil de análise histórica e uma forma de indicar as 446 construções sociais dos papéis femininos e masculinos . A fotografia à serviço da propaganda e da memória do Integralismo: o caso da revista Anauê! Na década de 30. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. Joan. 1989.117 e 118. pois estas fazem ver e fazem crer. A crítica elaborada por mulheres intelectuais.137. São Paulo.215 representações. 1991 . intimamente ligadas à sociedade da sua época – por este motivo não são dados “naturais”-. 444 Ver: CHARTIER. Modernizando o casamento: a leitura do casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). 2001. O poder simbólico. Recife. mas onde também são possíveis negociações e 444 improvisações . Roger. In: Estudos Avançados. Ressalto que estas representações não são “criações” separadas da sociedade e do tempo histórico em que foram elaboradas visto que é preciso mais que uma certa sintonia entre aquilo que está sendo mostrado e o público que receberá a mensagem.

Dissertação de Mestrado. v. In: Estudos Históricos. 449 FREUND.1940.34. na década de 1940. Rio de Janeiro. Revista do Serviço Público. n. Gisèle. 451 LACERDA. mar. Hitler. E mais. dá algumas indicações do entendimento do sentido da propaganda naquela época. assim como a imprensa e o cinema. um avanço 448 considerável dos meios de comunicação . afirma que. . p. s/d. O Integralismo também se insere na cultura política da sua época e utilizou largamente artifícios propagandistas. a técnica de propaganda se beneficiaria da “falta de pensamento crítico por parte do receptor. Multidões em cena.. Leandro Piquet. ela se faz muito mais a poder de símbolos do que através de argumentos. “A máquina simbólica do Integralismo: Propaganda e controle político no Brasil dos anos 30”. O Estado Novo também vai utilizar a fotografia. (7): 87-110. 1998.1. p. Benedito. Uberlândia. KUSCHNIR. Heinrich Hoffman. Maria Helena Rolim. p. Propaganda política no varguismo e no peronismo. Rio de Janeiro. 1998.216 importância.1. Escola de Comunicação da UFRJ. Editora Vega. “Como se caça a versátil atenção humana”. a massa. quando ocorreu. 448 CAPELLATO. tinha um fotógrafo de confiança. Fotografia e discurso político no Estado Novo: uma análise do projeto editorial “Obra Getuliana”. 450 SILVA. Karina e CARNEIRO. In: História e Perspectivas.2. afirma que a propaganda possuía natureza emocional e para chamar a atenção do receptor deveria estar baseada em “argumentos dramaticamente convincentes e símbolos poderosamente emocionantes”.24. como veículos de propaganda governamental . jul/dez 1992. Lacerda ao analisar este artigo. o que tornaria sua leitura de fácil apreensão. por exemplo. Campinas. para manter seus militantes e conquistar mais adeptos . Lisboa. Benedito Silva. A leitura do periódico Revista do Serviço Público .5-12. p. Fotografia e Sociedade. em seu artigo nesta revista. atingindo diretamente suas emoções e 451 paixões”. 452 Ver: BERTONHA. n. 1999. Segundo o regulamento da Secretaria Nacional de Propaganda 450 pondo em evidência as regras e pressupostos nos quais se baseia o comportamento de seus atores”. em âmbito mundial. Aline Lopes de. São Paulo: Papirus. vol.125. incluindo a 452 fotografia. As dimensões subjetivas da Política: Cultura Política e Antropologia da Política. João Fábio.3. que tirava suas fotos e escolhia as que parecessem mais 449 adequadas aos fins da propaganda alemã. O nazismo e o fascismo se utilizaram desse recurso e sua influência se fez perceber aqui no Brasil. Rio de Janeiro.

. também parece indicar esta intenção do movimento de utilizar a foto para propaganda de si: “ (. À medida que se for compreendendo que a revista está intimamente ligada ao trabalho de propaganda de nosso movimento. A 458 Diretiva n° 1.) A revista Anauê! reflete o carinho dos “camisas-verdes” pela causa do Sigma. Anauê!. eram utilizadas com fins propagandísticos e mereciam cuidados e investimentos por parte da AIB. Fundo DESPS. Um Boletim da Província da Guanabara. e ela aparecerá então mais bonita. seu poder de sugestão e transmissibilidade da idéia”. apresentados no 3° aniversário da Província da Guanabara. Série Integralismo. irá crescendo o número de assinantes. indica a importância dada pelo movimento à fotografia como fator de propaganda de si. isto é. os jornais não integralistas do seu município. Fundo DESPS. n. ela era 453 “um dos setores fundamentais da Ação Integralista Brasileira”. v.7.. de 1936 . aponta como uma das informações que deve conter o relatório do Departamento Provincial de Imprensa “publicações feitas da imprensa sobre o 453 Enciclopédia do Integralismo.N. Fundo DESPS. que tinha ramificações em nível estadual e municipal. Fundo DESPS. 458 Folhas 85-92 da pasta 17.9. 455 Anauê!. Série Integralismo. Um relatório da Secretaria Municipal de Propaganda do 454 Núcleo Integralista de Ipanema . mas as imagens em geral. Um trecho do editorial da revista ilustrada 455 integralista.117. investigando inclusive se existiam integralistas infiltrados no corpo de 457 funcionários e qual a posição do jornal em relação ao movimento . da Secretaria Nacional de Imprensa. p. mais caprichada. por exemplo. feitos por militantes. 1959. Série Integralismo. Série Integralismo. As fotografias circulavam em periódicos integralistas e possivelmente em periódicos não integralistas que fossem simpáticos à causa da AIB.). . 1936. Uma das orientações da Secretaria Nacional de Imprensa às Secretarias Municipais era identificar. RJ. 457 Folha 107 da pasta 17.P. 456 Folhas 9 a 12 da pasta 2. 454 Folhas 97 e 98 da pasta 12. datado de 27 de fevereiro de 1937. Uma das perguntas do questionário procura descobrir se o Núcleo tem utilizado a fotografia em seus eventos ou textos de propaganda. por meio de um questionário. mais elegante”. relata o julgamento do concurso de cartazes. de 30 de maio 456 de 1936 . de circulação nacional. ano II.217 (S. Livraria Clássica Brasileira. onde ocorreu “uma cuidadosa consideração de desenho e cor” e se avaliou “a significação. Não só a fotografia. a intenção e a simbólica do cartaz e procurou-se examinar sua capacidade didática.

Vilém.25. op. lançada em novembro de 1928. Uma história crítica do fotojornalismo ocidental. Observei na pesquisa à revista ilustrada “Fon. Os sentidos de veracidade e confiabilidade ligados à imagem fotográfica também são partilhados pela intelectualidade da A. ano 1. Ensaios para uma futura filosofia da fotografia. um tema. ser o comentário múltiplo. cit. Chapecó: Grifos. chegar de forma mais direta e objetiva a nossa compreensão. por exemplo.83.B. assim como pelos produtores de seus periódicos. Jorge Pedro. Filosofia da Caixa Preta. 463 LACERDA. Observa-se isto em um panfleto sobre a revista ilustrada “Anauê!”. Segundo ele “o observador confia nas imagens técnicas tanto quanto confia em seus 462 próprios olhos” A confiabilidade naquilo que as imagens fotográficas representam promoveu sua proliferação nas revistas ilustradas da época. 460 SOUZA. 462 FLUSSER. diferentemente do texto escrito. 2002. . Tal concordância entre a realidade e sua representação seria reforçada pelo que Vilén Flusser explica ser a capacidade da imagem fotográfica de. 1928. fon”. A propaganda integralista através da fotografia era reforçada pelo caráter de “foto-descrição” do fotojornalismo. p. Outra característica do fotojornalismo desta época era o objetivo básico de suas reportagens: “mostrar o desenrolar das atividades cotidianas. a civilização ascensional do Brasil. não enfatizando necessariamente um acontecimento 463 privilegiado”. onde se afirma que “é dever de cada núcleo 459 Fon. em períodos semanais. textos e imagens do movimento foram enviados pelos departamentos provinciais de imprensa da AIB. com menos espaço para dúvidas.. que se propunha à descrição da realidade como 460 ela era . provavelmente. uma idéia. p. nº 5. Estas orientações internas indicam a existência de esforços para aproximar a AIB da imprensa diária não integralista e que. fon!. no Brasil e no mundo. chamado o “número das multidões”. que ela reservava algumas páginas para mostrar “o Integralismo nos 459 Estados”.1. p.I. 2000.Rio de Janeiro: Relume Dumará.218 Integralismo. dessa época. enviadas pelo Departamento Provincial de Imprensa”. Esta postura tem como premissa que o que está ilustrado é a própria verdade. por exemplo. em todas as suas manifestações. A Revista ilustrada Cruzeiro. em seu editorial advogava ser “o espelho em que se refletirá.14. 1935-36. 461 Cruzeiro. nos anos de 1935 e 1936. Florianópolis: Letras Contemporâneas. de 1935. no Rio de Janeiro. n. narrar ou comentar visualmente uma história. instantâneo e fiel dessa viagem de uma nação 461 para o seu grandioso porvir”.

Duas fotografias. A fórmula utilizada pela revista de conferir ao meio fotográfico a função de mostrar. difundir idéias e convencer o receptor da veracidade do seu conteúdo. como verdadeiros subnúcleos. congressos integralistas. Fundo DESPS. out. de “testemunhar”. na casa de militantes. é um recurso amplamente explorado na difusão da imagem do chefe e produz um efeito de onipresença do líder integralista na vida cotidiana dos militantes. 465 às famílias. Afinal. p. encontra-se o incentivo aos militantes para que mantenham a imagem do chefe até no seu espaço privado. através do seu grande número de fotografias e desenhos o cotidiano do movimento. não é justo que só os núcleos possuam a fotografia do Chefe. Aí o tem os leitores. onde estava escrito “Viva o Entegralismo de Plínio Salgado”e a outra focalizando a frente de um “mocambo” em 464 Panfleto 152. a Idéia.64. Plínio Salgado. assiste igual direito” . tendo o caráter de “mostrar”.. Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro. e principalmente. que pela evidência esmagadora dos seus argumentos fotográficos. Uma análise desta revista indica vários usos e funções que a fotografia tinha na imprensa ilustrada como fator de propaganda e construção de memória do Integralismo. Está feito de modo a ser facilmente destacado e colocado num quadro que deverá honrar a sala de visita de todo integralista.. Por isso não pode faltar nos lares brasileiros o retrato do Chefe Nacional. A divulgação recorrente da figura do Chefe Nacional. 466 Anauê!. está gritando do Acre ao Chuí: nenhuma força humana deterá mais a marcha gloriosa dos 464 soldados do Sigma!”.219 e de cada ‘camisa-verde’ assinar a revista. . o Chefe não é uma pessoa e sim. seja com sua presença aos eventos integralistas. uma focalizando o muro de uma casinha em Pernambuco. nas suas páginas. O exemplo da revista integralista Anauê! é interessante aqui por ser uma representante do fotojornalismo da época. jan. n º 4./1935.) o Integralismo é a Revolução da Família. e mais que isso comprovar. n. 1935. de 1935 . o nascimento e morte de militantes. o que o texto escrito afirma é algo flagrante. seja com sua fotografia sempre presente nas paredes dos núcleos integralistas. o lar. Na leitura de um trecho do editorial do primeiro número da Revista Anauê!. ano I. de 1935. como concentrações de militantes. Um exemplo do que afirmo está na revista de 466 nº 4. Série Integralismo. o que alarga ainda mais o sentido de onipresença da figura do líder em sua vida diária: “ (. Além disso. ano 1. 465 Anauê!.1.

Nestas duas historinhas acima. p. descalça com o filho nú no colo. vivo. Além da intenção de comprovar. ele também está prestando juramento de fidelidade a mim”. Enquanto conversavam. . A fotografia em conjunto com o texto também estabelece relações. Ao lado da história. em um exercício de propaganda do integralismo. Em cima das fotos um texto afirma: “Não é só nos quartéis. onde “tivera oportunidade de avaliar a força de uma doutrina salvadora e ao mesmo tempo as dimensões das (suas) responsabilidades”. muitas virtudes e inteligência fizera o milagre”. sua esposa e seu filhinho fazendo a saudação integralista. Na revista n º 8 . mar/1936. cria afinidades e produz sentimentos de identificação com as 467 pessoas e eventos retratados. são. Em outros números da revista também se encontram pequenos contos 467 Anauê!. Na pequena história o integralista Olympio Mourão relata que estava no trem voltando de sua viagem a várias localidades brasileiras.No momento em que presto juramento de fidelidade ao Chefe. n. ano II. que se apresentou como Nezinho. o mesmo com “o olhar vivo e sagaz de quem sabe que domina facilmente o antagonista” responde: “. entra um engenheiro no trem e após escutar a conversa por algum tempo pergunta ao “caboclo” se ele não se sentia “vexado” em prestar juramento de fidelidade a um homem de carne e osso.8. Quando o trem para numa pequena localidade chamada Monjolos. com poucas letras. encontrei um exemplo interessante disto. Concluindo o relato. Sobre a frase no muro da casinha o texto ressalta: “E Almeida Salles (um dos militantes da foto) já encontrou a Idéia precedendo o pregador”. Aí vê o leitor mais duas provas de atração irresistível que a Doutrina do Sigma exerce sobre os brasileiros de todas as categorias. O rapaz diz a Mourão que é o único integralista da localidade e que se achava “senhor de muito poucas letras” para fundar um núcleo local. nas fazendas e nas metrópoles que o Integralismo vai penetrando vitoriosamente. observa-se também a valorização das pessoas humildes e sem ou com pouca instrução. Quando Mourão “se preparava para ir ao auxílio daquele integralista de poucas letras e muitas virtudes”.29. uma fotografia mostrava Nezinho.220 Recife. segundo ele: “Nezinho. vemos que a interligação entre foto e texto difunde idéias e procura convencer os leitores. o Sigma pintado no topo da parede e dois militantes uniformizados do seu lado. entra um “legítimo tipo do caboclo brasileiro. de todas as classes sociais”. ele diz que seis meses depois ele passou de trem em Mojolos e vários integralistas entraram no veículo. inteligente e duma chispa de audácia e altivez no olhar”. onde se vê uma senhora. nas academias.

jul/1936. com crianças e homens a sua volta. Pode-se supor que estes textos. O texto termina com a afirmação “Como este oficial. p. ano II. onde um “militar graduado” pede a sua mãe que o ajude a encontrar uma noiva. são direcionados a um público específico. n. n. 3. Nos textos desta militante universitária. p. Sua conduta é delineada através destas imagens e também de pequenos textos. sem autoria. jul/1936. na Escola integralista junto aos seus alunos. que vai se identificar com eles e se interessar em participar do movimento.22. a fotografia do casamento de Nayr Ferreira e Theodoro G. . ilustrando o espírito. “O integralismo e a mulher”. no Natal. ou casando com algum militante. Os textos e artigos escritos sobre as mulheres eram de autoria de dirigentes.4. ago/1935.8. distribuindo mantimentos e roupas. da integralista Nair Nilza Perez.11. 469 Anauê!. “Decálogo da boa esposa”. Na Anauê! 469 de n º 3 . Nair Nilza. lutando na vida prática ao lado dos homens com estímulo e alegria. Em seus argumentos o Integralismo quer “a mulher superior (em relação à mulher comunista e liberal norte-americana). com suas companheiras. e não se esquecendo nunca de sua condição de 468 Anauê!. Ela aparecia em concentrações. Anauê!.11. sem autoria. a militante integralista também é evidenciada. n. a partir de 1936. na maioria das vezes ligados à fotografias. Ele diz a mãe que a moça não deve gostar de ir a bailes. uniformizada. por exemplo. está próxima ao texto. mas detentora de grande sabedoria. ela tenta convencer que o Integralismo não irá privar a mulher “de todos os seus direitos públicos e políticos” e ela 470 não ficará “tolhida no seu anseio de liberdade” . em uma cerimônia cheia de símbolos integralistas. ano I. ano II. p. cursando as Faculdades. sendo a conduta da mulher novamente delimitada. pensam muitos outros: não julgam capazes de serem boas esposas e mães de família as moças que freqüentam os bailes de 468 hoje”. algo presente a todo o momento na revista. que aparece no n º 11 da revista. Neste pode ser percebido o intuito de construir a imagem da esposa submissa e propriedade do marido. do núcleo de Joinville. 470 PEREZ.221 onde o caboclo é citado como uma pessoa simples. como também. Renneberg. homens e mulheres. voltados para as leitoras. A militante integralista também era alvo fundamental da propaganda integralista nas páginas desta revista. posando com suas companheiras do Departamento Feminino em frente ao seu núcleo. No diálogo entre foto e texto. como um.

A condição da mulher evoluiu graças à “revolução espiritual” realizada pelo cristianismo e não pelas “lutas femininas por igualdade de direitos”. as fotografias. Ana Maria. jurista. colocando-a no mesmo plano intelectual dos homens e fazendo dela deputada. A partir de então. mas também de fotógrafos amadores entre os militantes. esposa. Creio que a aquisição de algumas liberdades pelas mulheres neste momento. Modernizando o casamento no discurso médico e na escrita literária feminina no Brasil moderno (1900-1940). É interessante notar que a produção fotográfica neste momento. Tese de Doutorado defendida na UFF. Aqueles que tivessem recursos financeiros suficientes podiam comprar sua máquina.. “o desenvolvimento da civilização (cristã) libertou a mulher dos preconceitos. Nair tenta atrair não só as donas de casa. quando na leitura de um trecho do apelo da revista. 472 Sobre o discurso conservador sobre a mulher nesta época ver: SILVA. . 473Anauê!. p. Unicamp. adaptar seu discurso repressor e formular uma argumentação. ao contrário dos escritos dos integralistas mais conservadores. no Rio de Janeiro . nota-se que eles são convidados “a enviar a esta redação a sua colaboração fotográfica. da mesma forma que o restante da intelectualidade brasileira conservadora da época. fez a A. 1990.B. set /1936. A produção destes suportes materiais de memória. Sob o signo da imagem. 34. anti-comunistas e cristãos. A 471 PEREZ. tanto textual 472 quanto imagética. de outubro de 1935. lutavam por seus direitos políticos. n. Percebe-se também na revista ilustrada “Anauê!” o uso da fotografia para construção da memória e da identidade integralistas.13. Rio de Janeiro. aos seus militantes. ano II. Cleusa Gomes. Dissertação de Mestrado em História. fundado em 1923. mas também as mulheres que queriam ou precisavam trabalhar. 2001.31-32. e até fazer os cursos para fotógrafos iniciantes oferecidos 474 pelo Fotoclube Brasileiro. no Rio de Janeiro. pp.11. na primeira metade do século XX. e se identificavam com seu discurso imbuído de argumentos anti-feministas.I. n° 12.222 mãe.“A civilização e a Mulher”. Nair N. 474 Sobre o Fotoclube Brasileiro ver: MAUAD. in: Anauê!. p. como a obtenção de empregos antes restritos aos homens e o direito ao voto. jul/1936. A produção fotográfica e o controle dos códigos de representação social da Classe Dominante. ano II. que virá de encontro aos desejos do Chefe Nacional. 471 escritora. filha”. que insiste em que “Anauê!” seja um museu portátil do 473 Integralismo”. não é mais monopólio de alguns fotógrafos profissionais. fotógrafos e Secretários de Propaganda. era tarefa. que atraísse a mulher brasileira . Em seu texto. médica”. não só de fotógrafos contratados pela revista.

além de uma reflexão sobre o ofício do fotógrafo na década de 30 no Brasil. na década de 1930 e apreendida dos seus Núcleos e Jornais no Rio de Janeiro pela Delegacia Especial de Segurança Política e Social (D. 476 Ver: MAUAD. O eixo da análise é a codificação da noção de espaço. já digitalizado. que compreende as pessoas retratadas. fundo DESPS. criado pela professora Ana Maria Mauad da Universidade Federal Fluminense. que abrange as atividades.I. o espaço do objeto.I.E. vivências e eventos femininos que se tornaram objeto do ato fotográfico. Visualizando a militante integralista: análise da técnica e conteúdo fotográficos A série fotográfica. analisada aqui. através da atribuição de “tarefas fotográficas” aos seus militantes procurou transmitir a impressão de que estava aberta a todos a construção da memória e identidade do movimento. A fotografia. o espaço da figuração. categoria que compreende um estudo das escolhas do fotógrafo. Estão incluídos aí os itens: sentido (horizontal e vertical).223 A.).S. Estes planos serão analisados separadamente. direção (esquerda. analiso o espaço fotográfico. mas são entendidos como inter476 relacionados 475 475 Estas fotografias fazem parte de um conjunto. que compreende o espaço físico representado na foto e sua relação com as “camisas verdes”. 93-96. que abrange a lógica existente na representação dos objetos e sua relação com a experiência vivida pelas integralistas. da Série Integralismo. abriga em si uma forma de expressão e uma forma de conteúdo. por volta de 82 fotografias . e finalmente. APERJ. op. após a implantação do Estado Novo e colocação do partido na ilegalidade em dezembro de 1937. a sua forma de expressão fotográfica. No plano de expressão. direita e centro) da foto e objeto central. cit. pp.B.P. foi produzida pela A. a relação entre os gêneros e as hierarquias presentes. o espaço da vivência. . No plano de conteúdo. A análise de alguns aspectos do conteúdo fotográfico desta série permite também problematizar a representação de feminino produzida pelo Integralismo e sua conduta sendo delineada através da fotografia O método de análise do conteúdo e das técnicas fotográficas neste trabalho se baseia no método histórico-semiótico. analiso os seguintes espaços: espaço geográfico.S. da mesma forma que outros sistemas de signos.B.

o Rio de Janeiro. Deve haver uma alegria sã. No plano de conteúdo do conjunto das fotos. o enquadramento predominante da mulher no corpus fotográfico é: sentido horizontal. e o equipamento fotográfico utilizado. estando esta análise sujeita a revisões ao longo do processo de pesquisa. contrariando o discurso de alguns integralistas mais conservadores. . onde se tomavam as grandes decisões do movimento. Embora elas não estivessem no espaço privado. RJ. sem divisões. religião. mostrando a intencionalidade do fotógrafo. Identifiquei alguns aspectos do plano de expressão das fotos: o tipo de foto que predomina é a fotografia posada. a visão de mundo integralista tem o caráter totalitário.I. verifiquei que o espaço geográfico predominante é o urbano. ou dos fotógrafos. A mensagem transmitida por essas escolhas espaciais enfatiza significados de aglutinação. direção central e o objeto central é a figuração coletiva. de retratar pessoas. na medida em que persegue um ideal de sociedade uniforme. a fim de expor algumas impressões sobre o conteúdo das fotos. 1988. Totalitarismo e Revolução. de forma simplificada. Zahar. 21. participando ativamente como colaboradoras do movimento. objetos e lugares de seu controle e escolha. o aplicarei. suponho que ocorreu um deslocamento do espaço privado de controle do feminino. O Integralismo de Plínio Salgado. As mulheres estavam presentes nestes momentos. ricos e 477 Como aponta Ricardo Benzaquen477. o integralista era informado que neste espaço “não se discute política. O Núcleo integralista era o espaço por excelência da normatização e do controle do militante.B . pois todos ali são companheiros. nem se fala mal de ninguém. Embora não identificados a identidade do fotógrafo. Em uma das leituras obrigatórias de todo integralista. ARAÚJO.224 A seguir. como na relação entre os grupos sociais e o Estado. e de quem encomendou a foto. que estão 477 estreitamente relacionados com o caráter totalitário da A. p. tanto no interior da sociedade. pugnas de futebol. de união e confluência de interesses entre homens e mulheres. comunicativa. do lar para o núcleo integralista (na maioria do conjunto fotográfico elas aparecem em núcleos ou espaços integralistas fechados e observada pelos integralistas homens). suponho que se usou uma máquina leve e com alto nível de definição da imagem em variadas condições luminosas. devido à presença de fotografias com a movimentação dos seus atores e em alguns momentos fora do espaço privado. a extensa legislação chamada de Protocolos e Rituais. de coletividade. tendo como valor básico a participação obrigatória e generalizada de todos e buscando a eliminação total de todas as diferenças. Ricardo Benzaquén de.

225 pobres. 2001. as bandeiras nacional e integralista e no centro delas a foto do Chefe Nacional. Rio de Janeiro. de acordo com seu gênero. e ali estão unidos pelo bem do 478 Brasil”. pintadas na parede ou em cartazes. p. artigo 89. Rio de Janeiro. A raça e a nação: a família como alvo dos projetos integralistas de nação brasileira nas décadas de 20 e 30. Em outra foto (I0139) abaixo. promovendo disciplina e hierarquia . A sua presença. a bandeira nacional. em uma data não identificada da década de 1930. a fronte erguida.B. e a presença da Educação Física na A. No espaço do objeto estão à sua volta objetos do cotidiano integralista.. não há indícios de individualismo.98. capítulo VIII. a foto de Plínio Salgado. 478 Protocolos e Rituais. vemos meninas levando bicicletas no último desfile do movimento. somente existe a militante integralista. Unicamp. 1937. que segundo Geraldo era utilizada pelo movimento como instrumento de 479 militarização. exposta abaixo. frases. . De pé. Nós a ergueremos.I. símbolos integralistas como o Sigma e a bandeira integralista. além de divulgar os ideais de nacionalismo e de respeito e obediência ao Chefe Nacional. em 1937. Na parede da direita está pintado o texto: “Nós despertaremos a Pátria. tirada no Núcleo da Gamboa. com a mesma postura e posição. ela dará o primeiro passo e marchará”. Endrika. poderosos e humildes. Um exemplo do que está sendo afirmado aqui é a fotografia I0137. assim como uma padronização da postura. Edição do Núcleo Municipal de Niterói. recomendadas pelo Protocolos e Rituais que estivessem nos Núcleos integralistas. 479 GERALDO. Dissertação (Mestrado em História). que estão imbuídos de uma gama de simbologia e ritualística: uniformes. Tais objetos garantem a manutenção da identidade da integralista. miniaturas do cristo crucificado. As militantes uniformizadas. indica também a representação homogênea e única das militantes. posam para o fotógrafo. Ao fundo.

226 Foto I0137 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Foto I0139 – Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro Analisando o espaço da figuração. na maioria das fotos vem acompanhada da presença masculina e infantil. Estas representações indicam as associações feitas pelo integralismo com a figura feminina: exercer seu papel “natural” de maternidade. ser . notei que a mulher.

. de ambos os sexos. op.a mulher está com o semblante sério e de braços cruzados em praticamente todas as fotos coletivas. orientar e controlar as atividades femininas no Movimento” e o Departamento dos Plinianos “reunir. perpassam o discurso da intelectualidade brasileira na década de 481 1930 .A. p. Não há fotos de vivências femininas que não sejam aquelas no âmbito da convivência com seus companheiros integralistas. Municipal e Distrital. solenidades nos Núcleos Municipais. onde elas esboçam um sorriso . o olhar fotográfico contemplou atos oficiais . com algumas exceções. congressos femininos. Sacralização da política.P era composta pelos Departamentos Feminino e de Plinianos. desfiles públicos. o que mostra a intenção em retratar que as mulheres desde muito cedo se tornam “soldados do integralismo”. SP: Papirus. Os integralistas se inserem nessa discussão e a presença de milícias organizadas no movimento. de uniformes no cotidiano de militantes e dirigentes. sendo que cada um destes subdividia-se nos Departamentos Nacional. Idéias eugênicas e fascistas de melhoria da raça pela sua disciplinarização e “docilização” através do esporte e de defesa de uma militarização corporal e psicológica dos brasileiros – tornando-os “soldados da pátria” -. Sendo assim. a mesma representação feminina disciplinada e obediente. Na fotografia onde mulheres integralistas são retratadas. Provincial. E. 2 ed. 1986. essa militarização do corpo. 481 Sobre este discurso de militarização corporal dos brasileiros ver: LENHARO. Regulamento da S. Campinas. e educar.reuniões da Secretaria de 482 Arregimentação Feminina e Plinianos .. até 15 anos de idade. comício pró-candidatura de Plínio 480 480 Como afirmamos anteriormente. também é vista a mesma postura e gesto.B.A. O Departamento Feminino tinha por objetivos “arregimentar.N. todos os brasileiros. finalmente. Nas fotografias onde estão presentes crianças e adolescentes. 9.227 “colaboradora” e dependente do homem . apontam para a intenção de militarizar corporal e psicologicamente seus integrantes.P. . tendo cada um deles uma chefia. defendido pelos intelectuais integralistas. estão relacionadas à A. onde o público feminino e as dirigentes são o principal foco. cit. esse aprimoramento físico. através da escola ativa.F. A postura ereta e rígida . além de uma linguagem bélica no seu discurso.aponta para a representação da mulhersoldado integralista. no espaço da vivência observei que as atividades e vivências femininas retratadas pelo fotógrafo. Alcir. intelectual e físico”. 482 A S. é flagrante.F. cívico. em toda a série fotográfica selecionada. disciplinar. a conduta feminina no discurso integralista é delimitada utilizando argumentos dos discursos médicos eugênicos. vol. In: Enciclopédia do Integralismo.168. de modo a realizar o seu aperfeiçoamento moral.N.I.

em rituais. em 1933. mesmo sendo óbvio que as militantes iriam votar em Plínio conscientes e orgulhosas de seu ato. cit. sessões de entrega de diplomas às militantes que fizeram cursos oferecidos pelo Integralismo e o evento integralista denominado 483 “Matinas de Abril” – e atos cotidianos do movimento – Casamento de militantes. entendia o exercício da política pelos seus militantes muito mais pela sua participação em desfiles. p. visita aos militantes nas suas Universidades. op. Lisboa: Relógio D’água Ed. . Além disso. virados em direção ao nascer do sol. Batizado de plinianos. concentrações. festas dos plinianos. A participação política feminina.I. Isto fica claro ao notar que não há fotos de mulheres em comício de outros candidatos ou votando em outros candidatos. é incentivada pelo movimento (a ponto de uma integralista discursar em apoio a Plínio Salgado no comício de sua candidatura). Não há uma só atividade entre estas citadas acima que não esteja imersa em rituais ou simbologias ligadas à A. a A. Walter.62. Linguagem e Política. Cavalari aponta que o Integralismo distribuiu milhares de panfletos no Brasil inteiro incentivando o voto feminino e que ele queria conquistar 484 este voto para chegar à presidência.I. 485 BENJAMIN. como se fossem cerimônias católicas. mas sim analisar e problematizar o discurso imagético produzido pela Ação 483 Solenidade criada para homenagear o primeiro desfile integralista. em São Paulo.228 Salgado. Contudo. juravam fidelidade ao Chefe Nacional e ao Integralismo. neste trabalho. Sobre Arte. e não através da discussão ou da liberdade de expressão. gostaria de esclarecer que não é meu objetivo vitimizar a mulher integralista ou localizar a fonte da dominação num ponto fixo. o exercício da política pela mulher é visualizado na fotografia de forma estritamente ligada aos interesses do movimento. 484 CAVALARI. 1992. retratada em votações. Considerações finais Para Concluir esta exposição. provavelmente para escolha de dirigentes. e no comício da candidatura de Plínio Salgado. onde os militantes no dia 23 de abril..113 a 115..B. entrega de mantimentos às famílias carentes e momentos de descontração com os militantes. p. “A obra de arte na era da reprodutibilidade técnica”. Sobre esse modo de se fazer e exercer a política concordo com Walter Benjamin ao afirmar que “o fascismo tende naturalmente a uma estetização da vida 485 política”.. Um aspecto nos atos oficiais me chamou atenção.B. Técnica. o outro masculino.

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Integralista Brasileira e as formas que este era divulgado e imbuído de um caráter verídico. Por meio de um exercício de intertextualidade, meu propósito é mostrar que a fotografia, pensada como expressão de relações sociais e significados culturais, foi utilizada pelo movimento como forma de poder, ao usá-la para propaganda política e construção de sua memória. Deixando claro, o desejo de abandonar um viés explicativo do uso desta imagem para “manipular” mentes inocentes ou vítimas do processo. Identificando aspectos da forma integralista de ver o feminino e o mundo, tais como a militarização, a determinação biológica, o catolicismo, além dos usos e funções que a fotografia teve para o movimento, adquire sentido a representação da mulher-soldado integralista, com seu corpo militarizado, obediente e disciplinada, se comportando, politicamente e socialmente, da forma que ele quer. Embora a pesquisa aos periódicos integralistas e não integralistas favoráveis ao movimento, além da busca às informações sobre os fotógrafos que produziam as fotos integralistas, ainda estejam inconclusas, vislumbrei com as fontes que possuo a delimitação da conduta feminina, alvo da propaganda do movimento através da fotografia, e a naturalização das relações e diferenças entre os gêneros. Este Discurso imagético determina a conduta ideal pela presença de representações pautadas na ideologia integralista e censura a conduta, chamada pelos militantes de “vergonhosa”, pela ausência de representações pautadas na liberdade feminina.

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12. 1955: A CAMPANHA DE PLÍNIO SALGADO À PRESIDÊNCIA

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Gilberto Grassi Calil

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O movimento integralista é quase sempre lembrado por sua trajetória nos anos 30, quando constituiu uma organização de massas com projeto fascista e forte mobilização de setores médios. Um dos poucos eventos lembrados da trajetória integralista posterior ao Estado Novo é a candidatura de Plínio Salgado à presidência da República, em 1955, quando obteve expressiva votação. A apresentação da candidatura do “Chefe Integralista”, no entanto, não foi um fato isolado e eventual mas, ao contrário, pode ser melhor compreendido se analisado no contexto da trajetória do integralismo durante o chamado
486 Este artigo é parte do sexto capítulo da tese de doutorado O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965), defendido em fevereiro de 2005 na Universidade Federal Fluminense, sob orientação da Profa. Dra. Virgínia Fontes. 487 Professor adjunto do Colegiado de História e do Programa de PósGraduação em História da Universidade Estadual do Oeste do Paraná; Doutor em História Social (UFF).

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período democrático (1945-1964), particularmente através do Partido de Representação Popular. Este artigo tem como objetivo discutir a importância desta candidatura neste contexto, situando-a em uma fase específica da trajetória do integralista no pós-guerra, iniciada em 1952, a qual denominamos de “independência partidária”, em oposição ao período anterior (1945-1951), cuja ênfase principal da estratégia integralista era a realização sistemática de alianças com os mais diversos partidos políticos, visando a obtenção do reconhecimento do alegado “caráter democrático” do integralismo, a consolidação de seu registro partidário e o acesso a postos governamentais e 488 parlamentares, no âmbito dos estados e municípios.

A política de independência partidária No início da década de 1950, o processo de institucionalização do integralismo estava bastante avançado, com a consolidação do PRP como instrumento fundamental de sua intervenção política. Naquele momento, no entanto, uma expressiva parcela da militância integralista mostrava-se descontente ou desanimada com aquilo que percebia como uma “acomodação” do movimento, manifestando seu desejo de uma retomada da ofensiva política por parte do integralismo. As reações de descontentamento frente à nova estratégia assumida pelo integralismo no pós-guerra ocorreram desde os primeiros movimentos de articulação partidária, em 1945, mas intensificaram-se em conseqüência dos resultados modestos obtidos pelo PRP nas eleições de 1950. Em resposta a este descontentamento e à tendência à estagnação do PRP, entre 1952 e 1957 a direção integralista tomou um conjunto de iniciativas visando dinamizar o movimento, dotá-lo de novas estruturas e colocá-lo politicamente na ofensiva. A primeira destas iniciativas foi a “independência partidária”, que tinha como objetivo o lançamento de candidaturas próprias pelo PRP e o reforço de sua identidade integralista. O principal desdobramento desta política foi a candidatura presidencial de Plínio Salgado, em 1955, que teve grande impacto no interior do integralismo e colocou-o no centro do embate político nacional.

488 Ver a respeito 1945-1952: Afirmação Institucional e aliança com o pólo conservador. In: CALIL, Gilberto. O integralismo no processo político brasileiro: a trajetória do PRP – cães de guarda da ordem burguesa (1945-1965). Tese de Doutorado. Niterói: UFF, 2005, p. 379-437.

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A proposta de adoção de uma “política de independência partidária” surgiu de um grupo de integralistas do Rio Grande do Sul, descontentes com o acordo que o PRP estabeleceu com o PTB nas eleições municipais em 1951 e com a fracassada tentativa de obter cargos no governo estadual petebista. Como afirma a historiadora Claudira Cardoso, “como resultado de todo esse processo, percebemos que a direção do PRP sofreu um certo desgaste, na medida em que os acordos firmados com outras agremiações não 489 trouxeram concretamente os resultados esperados”. Em depoimento oral, Alberto Hoffmann, dirigente do PRP na época, também explica a “independência partidária” como decorrência dos insucessos do partido nas coligações até então, relatando que: “o pessoal estava desiludido 490 de coligações”. Em setembro daquele ano, Salgado recebeu “uma moção da concentração regional de Novo Hamburgo, aprovada também pelas de Santa Maria, Santa Cruz do Sul, Ijuí, Caxias do Sul, Passo Fundo e Bagé, pela qual os populistas gaúchos desejam fazer uma política independente, sem quaisquer acordos com outros partidos políticos, nem mesmo quando houver nestes acordos relação com os interesses 491 nacionais do PRP”. Em 1953, o descontentamento com a política de alianças do PRP no Rio Grande do Sul levou à construção de uma candidatura própria ao governo estadual nas eleições do ano seguinte. A defesa da “independência partidária” foi levada à Convenção Nacional do PRP pela bancada do Rio Grande do Sul, propondo que o PRP deveria “disputar sempre que possível com candidato próprio a governança estadual” e, “em caso de não ser absolutamente possível a candidatura própria ao cargo acima e aconselhável o apoio a outro candidato, fazê-lo com a mais completa independência, não solicitando e nem acordando a cessão de cargo algum”. Além disso, solicitava “que determine o Diretório Nacional estudar a viabilidade do candidato próprio à presidência da República, como expressão de independência
489 CARDOSO, Claudira. Partido de Representação Popular: política de alianças e participação nos governos estaduais do Rio Grande do Sul de 1958 e 1962. Dissertação (Mestrado em História). Porto Alegre: PUCRS, 1999, p. 26-27. 490 CALIL, Gilberto Grassi & SILVA, Carla Luciana. Depoimento de Alberto Hoffmann. Porto Alegre: CDAIBPRP, 2003, p. 34. 491 Correspondência do Presidente Nacional do PRP Plínio Salgado ao Vice Presidente em Exercício do PRP-RS, Guido Mondin, 1.9.1952 (CDAIBPRP). Os acervos consultados serão referidos pelas siglas: CDAIBPR (Centro de Documentação sobre a Ação Integralista Brasileira e o Partido de Representação Popular, em Porto Alegre) e APHRC (Arquivo Público e Histórico de Rio Claro).

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partidária”. Embora aquela Convenção não tenha aprovado uma política nacional de “independência partidária”, definiu “que o Rio Grande do Sul iria com chapa própria, tanto para deputados estaduais, como federais, senador e governador de Estado, devendo nas demais unidades da Federação o partido tomar as deliberações que fossem 493 mais convenientes”. Em março de 1954, a VIII Convenção Regional do PRP gaúcho aprovou, por 23 votos a 16, proposição que estabelecia que “O PRP não fará coligações, alianças ou acordos 494 bilaterais com nenhum partido”. Ainda naquele ano, a IX Convenção Regional do partido aprovou uma proposição que reivindicava o aprofundamento da linha de “independência partidária”, solicitando “que a convenção se dirija ao Diretório Nacional, propondo a independência partidária em todo o território nacional, e que em 1955 o PRP concorra com candidato 495 próprio à Presidência da República”. O manifesto de lançamento da candidatura própria, de Wolfram Metzler, afirmava que “depois de termos, sinceramente, tentado colaborar com outras entidades partidárias”, o PRP decidira “total desligamento de todo este passado político caracterizado pelo despistamento, pelo não cumprimento da palavra empenhada, pela pasmaceira administrativa, pela falta de planejamento e de realizações 496 concretas e definitivas”. O relativo êxito da campanha de Metzler, obtendo 8,4% dos votos e aumentando as bancadas estadual e federal de deputados, estimulou a militância dos outros estados a mobilizar-se pela candidatura própria à presidência. Ainda no início de 1954, o jornal Diário de Notícias relatou esta mobilização, apresentando-na como reação ao esvaziamento do partido: A maioria dos elementos do PRP com assento nos diversos legislativos foram eleitos em coligação de legenda, principalmente com a UDN. Depois de eleitos, por força de atração, foram sendo assimilados pelos partidos. É o caso nítido do deputado Raymundo
492 Ata da XI Convenção Nacional, 11.12.1953 – Livro de Atas da Fundação e das Convenções Nacionais do PRP (APHRC - Fundo Plínio Salgado 023.004.004). 493 Convenção Nacional do PRP. A Marcha, Rio de Janeiro, 18.12.1953, p. 9. 494 Ata da VIII Convenção Regional do PRP-RS, 21.3.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 495 Ata da IX Convenção Regional do PRP-RS, 25.7.1954 – Livro de Atas das Convenções Regionais do PRP-RS (CDAIBPRP). 496 Ao povo do Rio Grande do Sul: Lançamos Wolfram Metzler porque não queremos que o Rio Grande continue se empobrecendo, espoliado por falsa política (Panfleto) (CDAIBPRP).
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na prática..234 Padilha. após o suicídio de Getúlio Vargas e no contexto conservador do governo Café Filho. Naquele momento. sejam eles quem. capitaneado pela UDN. querem burlar essa 498 mesma Constituição.. a morte da Democracia. o que levou os integralistas a ironizar a proposta de “união nacional”: Os que se arrogam defensores da Democracia em nosso país (.12. logicamente..2. também considerado hoje em dia mais udenista do que do PRP. Rio de Janeiro. 1. das proposições contrárias ao pluripartidarismo. especialmente. o dispositivo da Constituição que proíbe até mesmo a inscrição nos programas de partido. No entanto. nem mais nem menos do que um “partido único” (tipo nazista. fascista ou soviético). sob alegação de que fariam o país retornar à instabilidade política e social do governo Vargas. O movimento pela “candidatura única”. Porto Alegre. para isto. a opção pelo lançamento da candidatura de Salgado já havia sido tomada. Naquele momento. agora às vésperas 497 das eleições.) são os primeiros a pretender em nosso país. de Juscelino Kubitschek. . cujo objetivo era a imposição de uma “união nacional” visando o lançamento de uma “candidatura única” nas eleições presidenciais. de modo a salvar o partido. que não pode subsistir sem 497 Vai voltar à atividade política a Ação Integralista Brasileira. 21. 2. de acordo com Salgado. A Marcha. Nessas condições. É muito hipócrita. seria responsável pelo “enfraquecimento da consciência da diferenciação partidária. de unhas e dentes.1954. era necessário combater a proposta de uma “candidatura única”.. de Santa Catarina. Este movimento opunha-se às prováveis candidaturas de Adhemar de Barros e. É de pasmar que esses homens que sustentam. a Direção Nacional do partido já discutia o lançamento da candidatura de Plínio Salgado. O PRP contra a União Nacional No final de 1954. constituiu-se um forte movimento. Plínio Salgado a tomar uma atitude heróica. É muito farisaísmo. p. O mesmo aconteceu com o deputado Jorge Lacerda. pois outra coisa não seria o conglomerado dos partidos em torno de um único nome. 498 Adhemar de Barros acredita na democracia. propagada por setores conservadores. o que pode determinar a morte dos partidos e.1954 (CDAIBPRP). e diante de tais evidências. os ortodoxos do partido resolveram forçar o sr. Diário de Notícias.

1 e 4. p. pretende-se. ainda permanecia a articulação dos setores mais conservadores em defesa da “candidatura única”. 499 499 SALGADO. sondagens e consultas vem sendo feitas. A Marcha. p. pois “é justamente este artifício. nomeando um Presidente da República. homens de outros partidos..1. Palavras a uma democracia suicida. impor ao povo mais essa farsa. em vez de se apresentarem candidatos ou candidato em contraposição ao do PSD. s. que não corresponderá aos anseios dos brasileiros. a conclamar céus e terras para que se retire essa candidatura a fim de que surja outra que possa congregar todos os partidos em torno dela. 10. . 14. Etelvino Lins. lança o seu candidato. Plínio. A Marcha. um partido único. A Marcha. o motivo do 500 desencanto do eleitorado brasileiro pelos partidos”.010). assim.6. Rio de Janeiro.235 partidos”. começam a falar em “salvação nacional”.1955. em última análise. a imiscuir-se na vida íntima de um partido que não é o seu. o lançamento da candidatura Kubitschek pelo PSD era legítimo e deveria ser respeitado pelos demais partidos: Quando um partido.1./d.Fundo Plínio Salgado 011. Em meados de junho de 1955. Palavras a uma democracia suicida. os dutristas e os dorminhocos da “eterna vigilância”. 502 Pretendem os golpistas a retirada de todas as candidaturas para surgir um ditador: envolvidos na trama os srs. 14.004. Quer dizer. Rio de Janeiro.. naquele momento duramente criticada por A Marcha e considerada como uma farsa e uma ameaça à democracia: O ponto básico das “demarches” fixa-se na retirada de todos os nomes atualmente em foco como candidatos. Mas isso não é democracia e muito 501 menos democracia do tipo liberal. 500 Entrevista de Plínio Salgado. 501 SALGADO. O povo brasileiro não suportará este esbulho e saberá reagir a essa nova forma de 502 subversão. Nesse sentido. p. cujo termo expressivo é o ‘cambalacho’ e cuja concretização se chama ‘barganha’. Plínio.(abril 1955)– Original datilografado (APHRC . Se concretizado esse desejo dos golpistas teremos em breve tempo as botas de um militar a governar esse país discricionariamente. Rio de Janeiro.1955. 3. 3. (.1955.) Pretendem. como no caso do PSD. Para Salgado.

Ainda em dezembro de 1954. Além de contrariar a versão sustentada pelo PRP. . Rio de Janeiro: Paz e Terra. O governo Kubitschek: desenvolvimento econômico e estabilidade política. era lógica se considerarmos a perspectiva de lançamento da candidatura presidencial de Plínio Salgado. de que não conhecia pessoalmente Kubitschek. In: BENEVIDES. Grifo meu. Na argumentação udenista sugeriase. 1976. Presidente [Salgado] a 503 Entrevista Particular com o Ex-Presidente Juscelino Kubitschek. convencendo-o de que sua candidatura fortaleceria a posição democrática no Brasil. cabe observar que alguns indícios reforçam a hipótese. Em entrevista concedida quase duas décadas depois.236 A veemente crítica dos integralistas à proposta de uma “candidatura única”. Embora não tenhamos encontrado nenhuma prova deste acordo na documentação integralista. o Diretório Nacional do PRP “autorizou o sr. Kubitschek admitiu explicitamente as conversações: Como meus opositores martelavam muito na tecla do candidato único. 293. hora e local para um breve entendimento”. Não se poderia mais impor a tese da candidatura única – agora já 503 seriam dois candidatos. ainda. fiz um apelo a Plínio Salgado para apresentar e manter sua candidatura. Mas além disso. era condicionada também por outro elemento. O acordo entre Plínio Salgado e Juscelino Kubitschek Durante toda a campanha eleitoral. menos evidente: os entendimentos secretos entre Salgado e Juscelino Kubitschek. p. solicitando também da Presidência dia. os defensores da candidatura Juarez Távora sustentaram que a candidatura de Salgado visava apenas tirar dividir os votos conservadores de forma a facilitar a eleição de Kubitschek. De fato. destacando-se a posterior participação do PRP no governo Kubitschek. no final de março de 1955. esta declaração também desmente a afirmação de Salgado. 1956-1961. a eleição de Kubitschek por uma margem de votos muito inferior à votação recebida por Salgado confere plausibilidade a esta tese. quando o PSD comunicou oficialmente da escolha do nome de Kubitschek como candidato a presidência e dirigiu ao PRP “um convite para um pronunciamento a respeito. a existência de um acordo secreto por meio do qual Kubitschek financiaria a candidatura de Salgado. Maria Vitória.

A primeira manifestação pública indicando seu lançamento teria ocorrido em julho de 1953. O lançamento da candidatura de Salgado A definição de Salgado pelo lançamento de sua candidatura ocorreu bem antes da Convenção que a aprovou.5. 506 Em maio de 1950. mas é possível que a opção tivesse sido feita ainda bem antes. Uma carta recebida por Salgado depois da eleição mencionava um suborno que teria sido pago por Kubitschek para que ele mantivesse sua candidatura: Quem tem razão é o Joel Silveira. Já à vésperas da eleição de 1950. Sua decisão estava tomada desde. em pelo menos dois aspectos: a desmoralização da tese da “candidatura única” e a divisão do eleitorado conservador. Em 1932 alugou-se ao Fascismo.001. que viu em sua candidatura o único meio de derrotar Juarez Távora.) você se alugou por 10 milhões de cruzeiros ao Juscelino.1950 (APHRC-Pprp 12. durante uma concentração 504 Ata do Diretório Nacional. em março de 1955.50/1). embora naquele momento tenha descartado esta possibilidade. Salgado recebera telegramas propondo 506 sua candidatura. retirando de Távora um contingente de votos que lhe daria a vitória. em 1937 alugou-se a Getúlio Vargas e agora em 1955 (.55/16). Telegrama de José Sales a Plínio Salgado.10. Estranhamente. por exemplo.12.10.. meados de 1954. recebeu do Diretório Municipal de Garanhuns a seguinte mensagem: “Populistas Garanhuns apóiam entusiasticamente sugestão convencionais Varginha apresentação candidatura nosso presidente Plínio Salgado sucessão presidencial pelo bem do Brasil”. Não existem elementos que permitam confirmar a veracidade destas denúncias. 14. Objetivamente pode-se afirmar que a candidatura de Salgado beneficiou Kubitschek. 505 Correspondência de Florival Rosa a Plínio Salgado. veementemente repelidas pelos integralistas. .237 entrar em entendimento e responder à consulta logo que julgar 504 conveniente”. 3. Eis o seu 505 retrato fiel: ALUGA-SE.. não há nenhum registro posterior nas atas do Diretório Nacional acerca deste encontro.1954 – Livro de Atas do Diretório Nacional e do Conselho Nacional do PRP (APHRC-Pprp 021. 12. que possivelmente ocorreu secretamente. que disse: “Plínio é um homem que traz escrito na testa Aluga-se”. no mínimo.004).1955 (APHRCPprp 14.05.

A popularidade de Plínio Salgado. na documentação pessoal de Salgado. recebendo um número crescente de telegramas de 508 apoio. Temos. em chapa própria e em coligações no estado de Minas Gerais. O PRP. . que seria lançada possivelmente pelo estado de 510 Minas Gerais. 8.006. Essa resolução é inabalável. faculdades de direito. em que o PRP irá com chapa própria. deverei lançar a campanha presidencial.12. sociedades de agricultores. associações femininas. p. como paraninfo de turmas universitárias. 9.Fundo Plínio Salgado 017. No entanto. Salgado comunicava oficialmente que pretendia lançar sua candidatura: Em 25 de dezembro deste ano. Rio de Janeiro. Plínio. mas todas apontavam possibilidades de que o contingente de votos ficasse abaixo do que seria aceitável para o “Chefe Nacional”. e 028.008). operarem em qualquer partido. desmentindo os 509 números apresentados. 509 Abaixo-assinados (APHRC . Comportamento Eleitoral.1954. encontramos alguns poucos telegramas e algumas dezenas de abaixo assinados. com Plínio Salgado como candidato a deputado federal. o dever de dar essa oportunidade a todos os brasileiros e tal oportunidade é a 507 507 Cf.6. tem crescido muito lentamente. sindicatos. 17. SALGADO. 508 Ibid. 028. Temos um compromisso de honra com os que morreram por nossa idéia e com milhares de brasileiros que acreditam em nós e esperam algo de nós no atual momento. prefeituras e câmaras municipais. academias de letras. daqui a 5 meses precisamente. De acordo com A Marcha. “elevando-se a milhares em princípios de 1954”. “entre 1953 e fins de 1954. podendo portanto todos os que vêem no integralismo a salvação nacional.001. universidades. de ensino técnico e normal. principiando com 90. até ao dia em que um grande motivo chame todos a se unirem. concentrações marianas. 510 Foram feitas diversas estimativas e projeções sobre as possibilidades eleitorais do partido em 1954. grupos religiosos.001). Salgado teria feito conferências em “mais de duas centenas de cidades do Brasil. como partido. 7. entre 1952 e 1955”. 1. p. ao retirar sua candidatura a deputado federal.Fundo Plínio Salgado 028. p. centros operários.007. As desculpas dadas por muitos antigos integralistas e por muitos brasileiros que simpatizam com as idéias integralistas é a de que o PRP é um partido igual aos outros.000 votos em 1945. atingindo 146 mil em 1947 e 252 mil em 1950. porque chegamos a um ponto tal que temos de dar uma satisfação definitiva à Nação. 1956. Plínio Salgado falou em 185 cidades brasileiras”. Em julho de 1954.238 de Diretórios Municipais do PRP do Vale do Paraíba Visando aumentar suas possibilidades eleitorais. Rio de Janeiro: Livraria Clássica Brasileira. A Marcha.1954 (APHRC . pois. Livro Verde de minha campanha. em palestras em diversos tipos de entidades.

é pessedista em São Paulo. 2º) sugerirem ao Diretório Nacional as medidas mais urgentes no sentido da reestruturação do Partido e.10. Bahia. Nosso partido despersonaliza-se.11. Rio de Janeiro.) A Convenção Nacional do PRP. 29. é udenista em Minas. (. O PRP só pode e deverá ser PRP e para tal vamos pleitear que a Convenção 511 Comunicado de Plínio Salgado ao Diretório Nacional.Fundo Plínio Salgado 019. substancial. p. a começar pelas do Rio Grande do Sul. chegamos quase a contradizer nossa doutrina. (junho 1954) (APHRC . ameaçando dessa forma a unidade em sua ação em plano nacional. 1. em nossa atividade prática. Pernambuco.001).. antes que surjam outras candidaturas. e assim por diante. Rio de Janeiro. diversas convenções regionais ratificaram seu apoio à candidatura. disputando sozinhos os cargos de prefeito e vereador”. A Marcha./d. a qual decidiu que também “nas próximas eleições municipais. Para o dirigente integralista Loureiro Júnior: A verdade é que possuímos uma ideologia. isso é um absurdo. O PRP no momento.1954. a fim de: 1º) exporem ao Presidente Nacional a situação da agremiação em cada Estado. E isso 511 deve ser feito já. 3. Minas Gerais e São Paulo. A Marcha. no Estado do Rio. Ora. toma em cada Estado as mais diferentes colorações políticas. 512 O PRP e a sucessão presidencial. A partir de então. através de A Marcha. e que atende perfeitamente às aspirações do povo brasileiro.004. . De modo geral. os Presidentes Regionais revelaram o desejo da coletividade partidária no sentido de que o PRP tenha candidato próprio. A ênfase na “independência partidária” levava a uma espécie de autocrítica em relação à política de alianças até então adotada.239 apresentação da nossa candidatura à Presidência da República.1954. 3º) manifestarem a sua opinião sobre o problema da sucessão presidencial da República. a decisão foi comunicada aos presidentes dos diretórios regionais e logo. um pensamento doutrinário. abster-se de quaisquer coligações locais com outros 513 partidos. 19. Em outubro. lançará a sua proclamação ao povo brasileiro. após as eleições de 3 de outubro. em Santa Catarina. s. que deverá reunir-se em 512 fevereiro. Entretanto. exato.. a toda a militância integralista: Nos dias 21 e 22 do corrente. levados pelos interesses eleitorais de caráter regional e particular. 513 Indicado Plínio Salgado pela convenção paulista do PRP. límpido. p. realizou-se nesta Capital uma reunião de presidentes de Diretórios Regionais do Partido de Representação Popular.

com o rompimento de Raymundo Padilha com o PRP. na Convenção do PRP do Distrito Federal. Conforme o jornal A Hora.. A hora. 517 A crise nas hostes integralistas.1955. Ainda assim. Porto Alegre. já que o grêmio dirige-se em duas alas. Rio de Janeiro. 515 Recenseamento moral a candidatura Plínio Salgado. Rio de Janeiro. na qual o deputado federal Raymundo Padilha manifestou-se veementemente contrário à candidatura própria. A Marcha. Rio de Janeiro. a opção pela candidatura própria à presidência não era consensual no interior do partido.. Plínio. op.1955 (CDAIBPRP . 18. 1 e 9. Um dos objetivos pronunciados do lançamento da candidatura própria era atrair os integralistas afastados do PRP. determinando que o 514 nosso partido tenha candidatos próprios aos cargos eletivos.). 518 Contra a farsa de alianças e coligações pró-candidato único. 516 Cf. p. dando início à campanha eleitoral propriamente dita. 3. p. .1954. De acordo Salgado. Salgado negava a existência de uma crise no PRP.Recortes). iniciando campanha aberta e declarando. até há pouco sem nenhum 515 contato com o PRP”. com uma “Mensagem ao Povo Brasileiro”. uma 517 pró-Plínio e outra pró-Padilha”. 26. In: Livro verde de minha campanha. Na Convenção Nacional. SALGADO. discurso pronunciado por Salgado no encerramento da Convenção e irradiado para todo o país.. a candidatura própria sofreu acirrada oposição dos diretórios 519 regionais de Pernambuco e Rio de Janeiro. “em 516 entrevistas à imprensa. “assistimos o retorno de centenas de adeptos do Sigma. p. A Marcha. “alguns meios perrepistas pretendem alijar Plínio Salgado da direção nacional. 16. SALGADO.240 Nacional trace uma linha de autonomia partidária. cit.. no entanto.11. A luta interna ameaça solapar a frágil unidade interna do PRP. Naquele momento. op. e a firme decisão de Salgado de levá-la adiante precipitaria a formação de uma dissidência. A dissidência se confirmou. afirmando retoricamente que “nunca houve maior 518 coesão e disciplina dentro do Partido do que agora” . o seu desacordo”. cit. em 22 de novembro. In: Livro verde de minha campanha. Origem da candidatura Plínio Salgado. colocando em seu lugar Raymundo Padilha. a Convenção oficializou a candidatura. realizada entre 19 e 21 de março de 1955. 1 e 11. p.1954. a divergência tornou-se pública. Origem da candidatura Plínio Salgado. 514 Desfraldar bandeira e marchar: imperativo nacional a candidatura Plínio Salgado. p. Plínio. 15. (. 519 Cf. Assim. 18. 1. A Marcha.2.12.2. A divergência explicitou-se em uma reunião do Diretório Nacional.

A estrutura da campanha era claramente hierárquica: o Comitê Nacional de Propaganda determinava que “qualquer nova idéia de propaganda. 522 Cf.tche. bancários.009. entregaram ao sr. Plínio Salgado mais de trinta e 522 nove mil cruzeiros”.1955. operários. Um panfleto trazia um 520 Aproximadamente R$ 3.00). foram formados comitês estaduais.30 em valores atualizados de acordo com tabela de conversão disponível em http://www. A 15 de abril. .php. de acordo com um planejamento nacional hierarquicamente estruturado.1. 521 Como se organizam os “Comitê Popular Pró-Candidatura de Plínio Salgado à Presidência da República”. realizou-se uma primeira “cerimônia de entrega das contribuições dos Comitês Populares” da Guanabara. A Marcha. 525 Ibid. comerciários. indicando os dois elementos que marcariam toda a campanha de Salgado: seu pretenso caráter popular. transformando-se em comitê de ação eleitoral e propaganda quando 520 obtivessem um mínimo de dez contribuições de CR$ 10. que “toda propaganda deverá ser 525 orientada sobre o tema ‘Plínio Salgado – Candidato do Povo’”.1955 (CDAIBPRP – Correspondência do Diretório Nacional).241 A campanha eleitoral Em janeiro de 1955. ainda antes do lançamento oficial da candidatura de Salgado. Rio de Janeiro. em sua quase totalidade. Os comitês-populares: um espetáculo comovente. antes de ser lançada. Assim.00. e sua abrangência além dos limites partidários.009). Na cerimônia. Já naquele momento buscava-se caracterizar a campanha de Salgado como “popular”. Estabelecia.4. 15. os comitês eram “formados. A caracterização “popular” da candidatura era buscada através de diversos instrumentos. encaminhassem-na ao Comitê Nacional e informassem Plínio 521 Salgado. chamados sucessivamente. 3.fee. municipais e de base. funcionários públicos. cidadãos que nunca militaram no 523 PRP ou na extinta Ação Integralista Brasileira”. COMPAGNONI. ainda. “representantes de cerca de oitenta comitês. por elementos proletários.br/sitefee/pt/content/servicos/pg_atualizacao_valores.500. Segundo o dirigente integralista Luis Compagnoni. Luis. Todos os comitês deveriam se formar a partir de uma lista de contribuição financeira. seja submetida e aprovada pelo CNP” para que houvesse total uniformidade na propaganda da 524 candidatura. p. 524 Diretiva nº 1 do Comitê Nacional de Propaganda (APHRC . 523 Ibid. os integralistas buscavam formar uma rede de “comitês populares” para impulsioná-la.Fundo Plínio Salgado 018. 22. (O valor corresponde a aproximadamente R$ 12.

p. Exagero à parte.00 a CR$ 50. com centenas de milhares de brasileiros empunhando listas de contribuições para a 529 nossa candidatura”.Fundo Plínio Salgado 018. p. Para Compagnoni. até o trabalho individual”.Fundo Plínio Salgado 089. frio. Esse homem. 527 Plínio abre o livro de sua vida. 23. um homem que nasceu pobre e pobre cresceu.005). Rio de Janeiro. 24. Honesto. Panfleto (APHRC . A Marcha. como existem ricos honestos que juntaram o que tem pelo trabalho aliado ao bom 527 senso”. De acordo com relatório do Comitê paranaense. 526 Apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e interior brasileiro.11.013. teriam sido formados “dezenas de milhares de comitês populares. A Marcha. Culto.001.Fundo Plínio Salgado 067. que depois de eleito olhe para baixo. 528 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado. um homem que já foi operário [sic]. Mesmo alegando ser o candidato “pobre”. “a penetração nos bairros da capital. afirmando que “precisamos eleger um presidente que saiba que ganhamos a irrisória quantia de CR$ 30. O panfleto propunha aos operários que elegessem um brasileiro Patriota.9. é certo que um grande número de comitês foi formado.6. dor e humilhação!. porque existem homens pobres nos quais não se pode confiar. . 1 e 4. esse homem existe e 526 chama-se Plínio Salgado. olhe pela pobreza. Rio de Janeiro. 1 e 4. A pobreza em si não é virtude. 529 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha. A principal estratégia foi a formação de comitês populares.1955. Cristão. Na documentação de Plínio Salgado consta 530 uma lista de 125 comitês apenas na cidade de São Paulo.242 “apelo dos que vivem da enxada aos irmãos operários das capitais e do interior brasileiro”.001). olhe para o operário.001). um homem que já sofreu na sua própria carne fome.001.00 por dia e que em muitos lares existem muitas boquinhas a pedir comida”.1955 (APHRC . 530 Comitês Plínio Salgado em São Paulo (APHRC . as visitas às 528 fábricas. 27. junto às massas operárias se operou por várias formas simultâneas: desde os comícios.1955. Salgado tomava cuidado para não se afastar do discurso da conciliação de classes: “Não faço alarde da pobreza. operários sofredores.

recolheram 35. Rio de Janeiro. de vales postais.11. p. 536 Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado.5. mais de 1. onde Salgado teria sido recepcionado no aeroporto por “cerca de 500 automóveis. com indicações específicas sobre como criticar os demais candidatos e como abordar temas como o comunismo. p.1955 (APHRC .000 cruzeiros para Plínio. os comícios de encerramento da campanha se 533 constituíram em grandes atos populares. . A Marcha. 6.1955. 15. O caráter popular da campanha se traduziria também na campanha popular de arrecadação financeira: De todo o Brasil chegam recursos para Plínio. da sua vida e da sua obra”.000 de brasileiros já tenha contribuído com dinheiro para a campanha de 537 Plínio.1955. o de Campinas oitenta mil.010.. 4. p.243 Segundo A Marcha. estabelecendo inclusive que “a parte doutrinária e programática deve ser exposta pelo próprio candidato”. A Marcha. Rio de Janeiro.001). além de dever tratar Salgado sempre como “Candidato do Povo”. (. 534 90 mil pessoas em Belo Horizonte.8. Rio de Janeiro. e que portanto “compete aos oradores que precedem Plínio Salgado falar da pessoa do candidato. 12. e mais de 5. A Marcha.) Acredito que até o presente momento. 535 Foi o maior comício que o povo de Curitiba já presenciou até agora. 16. Rio de Janeiro. o orador principal deveria seguir um roteiro pré-definido.9. Comitê Nacional de Propaganda: Instruções para oradores (APHRC . 1 e 2. o de Belo Horizonte setenta mil. Os simpatizantes da candidatura eram chamados ainda a financiar o programa radiofônico da campanha. sob o apelo de que 531 Reunião de Presidentes de Comitês Populares na capital paulista.Fundo Plínio Salgado 018.9.000 pessoas”. Nos comícios. 27. de ordens bancárias. Plínio pede dinheiro e o povo dá.1955. em abril uma reunião teria reunido “os 531 dirigentes dos 298 comitês populares” da capital paulista. A Marcha..005). 537 Mais de 1 milhão de brasileiros contribuíram para a campanha. No norte e 532 nordeste teriam sido fundados “mais de trezentos” comitês: De acordo com A Marcha. 19.000. p.000 em Curitiba.000 pessoas 534 535 em Belo Horizonte e 80. 1 e 5.1955.4. p. Caso Salgado não estivesse presente. A Marcha. reunindo 90.013. em Recife. Mais de trezentos comitês populares fundados no Norte e Nordeste. 533 Também para a realização dos comícios havia grande preocupação em manter a homogeneidade na linha de campanha. 532 Cf. Rio de Janeiro.1955. Uma diretriz indicava minuciosamente como deveriam se portar os oradores. 23. Em 15 minutos. O comício de Curitiba rendeu sessenta mil cruzeiros.Fundo Plínio Salgado 089. São milhares de cheques. caminhões e 536 ônibus. 4.

539 Plínio Salgado duas vezes por semana na Rádio Globo. A Marcha. do PTB.5. Apresentando-se como “candidato do povo”.8. Salgado pretendia ser reconhecido como “verdadeiro candidato da União Nacional”. A Marcha. no legítimo candidato de União 541 Nacional. Arlindo Araújo.1955. da UDN. Rio de Janeiro. por ser ele o melhor candidato. que além dos anúncios feitos em A Marcha. 540 Batalha final pela Rádio Globo. mas que votarão nele para Presidente da República. imprimiu um milhão de prospectos e fez intensa campanha pessoal junto as pessoas de sua reputação”.1955. 6. do PR e de outros partidos comparecerem à presença de Plínio Salgado para dizer-lhe que o acompanharão na disputa da suprema magistratura da Nação. Salgado buscou ainda o apoio de membros de outros partidos e das “classes produtoras”. 540 retransmitido por 20 emissoras. por ser esta atitude um imperativo da própria consciência – então sim verificamos o mais surpreendente fenômeno desta quadra da vida política nacional: Plínio Salgado transformado naturalmente. proprietário dos Laboratórios Antisardina. que permanecerão fiéis aos respectivos partidos no tocante à sucessão estadual. Mesmo tendo argumentado que cada partido político deveria apresentar seu candidato. . em evidente contradição com o discurso anteriormente assumido em oposição à uma candidatura de União Nacional e de defesa da necessidade de candidaturas com projetos distintos.001). uma vez indicado pelo PRP. por força de lógicas deduções cívicas. 7. 27. Rio de Janeiro. custeou programas de Rádio. 26. Rio de Janeiro. As contribuições teriam permitido que o programa passasse a ser veiculado duas vezes por 539 semana a partir de junho. os quais eram divulgados como evidência da amplitude de sua candidatura. 541 Plínio. p. 1º. Relatório das Atividades do Comitê Estadual do Paraná da candidatura de Plínio Salgado.Fundo Plínio Salgado 089. p. o verdadeiro candidato da união Nacional.1955. 3.244 “Plínio Salgado é o candidato pobre”. Evidentemente não eram divulgadas as contribuições mais volumosas recebidas. p.8. 3.1955. A Marcha. 19. Salgado não se assumia como expressão daquele partido e apresentava sua candidatura como suprapartidária. A Marcha. como é “o caso do industrial Sr. 538 538 É preciso que os brasileiros ouçam a palavra de Plínio Salgado.013. Tal perspectiva fica evidente no editorial do jornal integralista A Marcha: Quando vemos centenas e centenas de chefes políticos do PSD. e três vezes a partir de agosto.11.6. 12. Rio de Janeiro.1955 (APHRC . p.

004. Apenas Plínio Salgado mereceu toda a receptividade (embora inicialmente fosse antipatizado) das classes conservadoras. de Porto Alegre. Salgado tentava ainda caracterizar sua candidatura como “doutrinária”. Além de apresentar-se como candidato “popular” e “suprapartidário”. O Dia. Diário Carioca. que os demais candidatos não proclamavam publicamente. Fica evidente. Desta forma. com a 543 mais prolongada salva de palmas”. De acordo com o Diário Carioca: Juscelino e Juarez discordam das classes produtoras em dois pontos capitais: a participação dos trabalhadores nos lucros das empresas e a exploração do petróleo. em contraposição às demais candidaturas. o plenário ouviu atentamente e sob os maiores aplausos o pronunciamento de Plínio Salgado. 2 (APHRC . Plínio Salgado”. “ao contrário da sabatina de Juscelino. buscando qualificar-se como interlocutor confiável. que 542 Quem mais satisfez os conservadores foi Plínio Salgado. Recife. no entanto. pois suas idéias satisfizeram plenamente as suas 542 pretensões. o que ficou especialmente claro em sua participação na Mesa Redonda das Associações Comerciais do Brasil. 7. “as classes produtoras ficaram empolgadas com o desenvolvimento do 544 plano do sr. . ao mesmo tempo buscava. 543 Apud Em São Paulo Plínio Salgado fala às Associações Comerciais do Brasil. nesse aspecto. 1-2 (APHRC .REC 55). de pé.REC 55). a propostas do “candidato popular” seduziam as “classes conservadoras”.7. estabelecer e reforçar vínculos com setores da classe dominante.Fundo Plínio Salgado 112. satisfeitas com a defesa de medidas antipopulares. p. 11. o apoio de Salgado à revisão da lei da Petrobrás “foi saudado pelo plenário. são favoráveis à participação direta dos empregados nos lucros das empresas. que Salgado assumia abertamente posições reacionárias. de Recife. As classes produtoras são favoráveis à participação dos empregados no lucro das empresas.245 Embora se apresentando como “candidato do povo”. Rio de Janeiro. examinando-a em seu conjunto e apontando soluções reais e objetivas dentro dos princípios doutrinários”.004. 544 Ibid. com ampla repercussão na imprensa.Fundo Plínio Salgado 112. que apreciou a realidade brasileira à margem dos interesses políticos. Juscelino e Juarez.7. e. Segundo O Dia. sistematicamente. Salgado buscou reconhecimento e apoio junto a classe dominante.1955.1955. mas como prêmio à atividade e capacidade de cada um. De acordo com o jornal. Para o Correio do Povo. p. como o fim do monopólio estatal do petróleo.

sua candidatura seria “contra a politicagem profissional.010.Fundo Plínio Salgado 018. nem com partidos políticos. orientador da ação e executor de um plano geral de realizações. Além de se apresentar como o único com conteúdo doutrinário. 546 moralmente mais perfeitos. . Em contrapartida. tecnicamente mais fortes. pois “O Partido Socialista Brasileiro apóia Juarez Távora”. 1 e 2. não será possível arrancar o Brasil das suas atuais dificuldades. em “íntima conexão uns 545 com os outros”. 548 Porque. dentro de qualquer partido ou fora dessas agremiações políticas.010. debaixo da bandeira do Partido Social Progressista. contra o roubo organizado. 546 Ibid. Salgado também seria o único dos candidatos sem compromisso com o comunismo. a não ser quanto aos princípios doutrinários. Rio de Janeiro. A Marcha. financeiro.5.011). os promesseiros.246 seriam resultado de “conchavos políticos”. Panfleto (APHRC .011). como fica expresso em sua proposta de formação de um ministério “técnico”: Sem um Ministério homogêneo quanto à compreensão e interpretação das realidades e das necessidades brasileiras e quanto ao critério ordenador dos problemas. penso que estarei em condições de ir buscar. empreendendo uma obra de fortalecimento econômico. 547 Proclamação ao Povo Brasileiro. os homens culturalmente mais competentes. contra a desunião 548 dos brasileiros. Panfleto (APHRC . Sua “doutrina” se resumiria “num critério governamental que considera os problemas brasileiros no seu conjunto e não isoladamente cada um”. mas de uma doutrina e de um programa.Fundo Plínio Salgado 018. afirmando-se que “a desilusão é geral com os 547 demagogos. os mentirosos”. nem mesmo com o meu. social e moral da Nação. Adhemar de 545 Esta minha candidatura não é propriamente a candidatura de uma pessoa. p. 12. e “os comunistas e socialistas. e que “os políticos profissionais não cuidam dos interesses da Pátria. mas dos seus próprios interesses” e “são escolhidos e indicados pelos próprios sócios políticos e também interessados em devorar os dinheiros públicos”. Tal posição ensejava uma crítica genérica aos “políticos profissionais”. do sr. para compor um Ministério. “o Partido Comunista do Brasil apóia Juscelino e João Goulart”.1955. contra a anarquia”. político. Tal “doutrina” conduzia à proposta de despolitização do governo. Não tendo compromissos com governadores de Estado.

“Em Deus pomos o princípio e o fim de nossa doutrina política.011). 5. 551 Comitê Nacional de Propaganda. enfatizando o cristianismo (“Deus dirige o destino dos Povos! Graças a Deus já temos em quem votar”.010. p. Panfleto. apelando para que voltassem “a 553 lutar ao lado de Plínio Salgado”. e a oposição aos “políticos tradicionais” (“Trancai as portas do Brasil contra a orgia organizada dos políticos profissionais”. “Os tubarões da política 551 sempre ganharam eleições gastando rios de dinheiro”). (APHRC . Slogans da candidatura de Plínio Salgado (APHRC . Uma correspondência enviada aos integrantes dos “memoráveis dias da Ação Integralista Brasileira” convocava-lhes: “É pelo vosso passado de luta que hoje vos conclamamos a participar da campanha pró552 candidatura de Plínio Salgado”. que é hoje o Prefeito daquela 549 Capital”. Salgado incumbiu ainda um oficial da Marinha integralista a fazer um levantamento entre seus pares do 549 Brasil versus Rússia Soviética.009). lembrando-lhes do “dever de quem prestou um juramento e do qual foi desobrigado por ato espontâneo e liberal do depositário deste” e do “dever diante de Deus e da Pátria e da própria consciência”.247 Barros.Fundo Plínio Salgado 018.010.Fundo Plínio Salgado 018. 29.001).4.1955. “Um governo sem os sagrados princípios da fé cristã será como uma criatura sem alma ou um corpo sem vida”). Rio de Janeiro. Com Plínio Salgado queremos torná-la realidade”. O objetivo de atrair os antigos integralistas afastados do movimento foi perseguido através de diversas iniciativas. 552 Correspondência do Comitê Feminino do Distrito Federal aos exintegrantes da Ação Integralista Brasileira. 553 Carta aos integralistas de primeira hora./d. para mudar só Plínio Salgado”). a idéia de mudança (“Para continuar como está qualquer candidato serve. Destacam-se as frases com sentido dúbio “Com seu voto ajude a endireitar o país” e “Está na hora de endireitar o Brasil”. 550 Sugestão de legenda para muros (APGRC . A Marcha. “É ele o candidato de milhares de operários e digno portanto do voto de todos aqueles que desejam ver entre nós a queda do burguesismo oficializado”). O Comitê Nacional de Propaganda enviou aos comitês 550 populares 17 “sugestões de legenda para muros” e 37 slogans a serem utilizados. chamando todo aquele que “por uma razão ou outra não está ao lado de Plínio Salgado neste terrível momento em que passa nossa Pátria”. (APHRC . deram a vitória ao seu candidato.002. A Marcha publicou uma “Carta aos integralistas da primeira hora”.Fundo Plínio Salgado 014. seu alegado caráter popular (“Só quem trabalha tem direito de governar”. .Fundo Plínio Salgado 016.009. s.007).

Rio de Janeiro. 18. Afirmando que sua candidatura pertencia ao povo. a imprensa e especialmente os defensores da candidatura Juarez Távora especulavam sobre sua possível retirada. Para tanto. jamais desistirei! A Marcha.1955.005). Panfleto (APHRC . embora fiéis ao pensamento. 3. convidando-os para “sua cooperação na cruzada de salvação nacional”.9.1955. p.8. Salgado assegurava que não renunciaria. pelo que se está passando em todos os Estados do 558 Brasil.Fundo Plínio Salgado 089.004. Já o Comitê paranaense alertava “que os inimigos do Brasil estão e irão continuar propalando – com o propósito de desorientar o povo – a cínica e pérfida mentira de que Plínio Salgado desistiu ou desistirá de sua candidatura. 554 Relatório Confidencial do Almirante Jatyr de Carvalho Serejo.Fundo Plínio Salgado 001. o qual concluiu que “na esfera superior há muito elemento que continua firme. os integralistas contavam com grande contingente de adeptos dentre os oficiais da Marinha.55/6). Ao mesmo tempo repetia continuamente que acreditava em sua eleição: Vou às eleições de outubro com a finalidade de alcançar vitória e posso dizer. o que foi respondido através de reiterados desmentidos pelos integralistas. 558 Entrevista concedida por Plínio Salgado à United Press em agosto de 1955 (APHRC . . mais temerosos de atitudes francas. Não acredite: Plínio Salgado não desistirá. 555 Ibid.004). que essa vitória está assegurada. 10. Desde o lançamento da candidatura Salgado. tendo pertencido à AIB. e afirmava que se o fizesse “estaria traindo a confiança de milhares de 556 brasileiros”. Rio de Janeiro.013. 4.08. ainda que vigore o princípio da maioria 559 absoluta. pois “estes boatos irão recrudescer e quero acreditar que nas vésperas da eleição eles virão com absoluta intensidade para perturbar a ação 557 eleitoral daqueles que querem transformar o Brasil”. Na medida em que se aproximava a data da eleição. 556 Plínio: minha candidatura é definitiva. Salgado avisava para que os integralistas ficassem de sobre-aviso. dirigiu uma circular aos oficiais que foram integralistas.1955 (APHRC-Pprp 18. 28. 557 Sou homem de doutrina.248 apoio com que ainda contava naquele setor militar. É falso! É mentira! Serão capazes de dizer inclusive que Plínio morreu”. assegurando sua inviabilidade eleitoral. outros.6. além de enviar um 555 manifesto a todos os oficiais da Marinha. Vencerei o pleito. p. o fizeram não 554 por convicção mas por interesse próprio”. poucos adversários (de um modo geral os não muito considerados na classe) e ainda um grupo que. Nos anos 30. A Marcha.

que pregava o “voto útil” visando derrotar Kubitschek. 560 De Fortaleza. 562 As dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado.850 votos. Rio Grande do Sul. Para segundo lugar indico dois candidatos: Juscelino e Adhemar. 14. VIII – O elemento religioso que toma conhecimento do seu trabalho. Uberaba. portanto.010. lhe garantiriam a vitória: I – Seu valor pessoal. São Paulo. Espírito Santo. Juarez Távora será o 560 último. A Marcha.249 Acredito na minha vitória e até mesmo por maioria absoluta.850 563 votos (quatro vezes a votação efetivamente recebida). o que parece indicar uma participação organizada dos integralistas para a produção daqueles resultados. sua formação moral e cristã. Gazeta de Santa Cruz. 561 É o caso.1955 (APHRC . “doutrinário” e “suprapartidário”.003.Fundo Plínio Salgado 112.930. .011). segundo a qual Salgado venceria a eleição com 2. 559 Plínio Salgado otimista. A Gazeta. Em algumas prévias promovidas por rádios e jornais Salgado 561 aparecia em primeiro lugar. V – Os Comitês Populares. 563 Plínio vencerá com 2.Recortes). Rio Grande do Norte e Bahia. 5 (CDAIBPRPRecortes). Santa Cruz do Sul. 3 (CDAIBPRP. Embora seja pouco provável que a direção integralista realmente acreditasse em suas possibilidades de vitória. Perto de 5 mil cupons já apurados na prévia. A publicação desta improvável projeção visava neutralizar a campanha promovida pelos defensores da candidatura de Juarez Távora. 27. por exemplo. III – A imprensa do interior que publica sempre os seus artigos. da prévia realizada pelo Correio Católico de Uberaba. IV – Centros de Juventude espalhados em todo o Brasil. Rio de Janeiro. sua cultura. VII – O Partido de Representação Popular.1955. o jornal A Marcha publicou uma projeção da votação que cada candidato obteria por estado. II – Um milhão de livros espalhados pelo Brasil.9.7. Ganharei ainda no Paraná. VI – Os antigos integralistas que reconhecem o valor do candidato. IX – O fracasso dos governos e dos políticos que todos vêem.REC 55). agrupamentos de homens do trabalho. p.Fundo Plínio Salgado 018. junto a várias outras.1955. p. utilizados como argumentos eleitorais. 16. X – O esfacelamento dos partidos que não 562 tem mais autoridade. 9. As alegações que remetiam ao caráter “popular”. Ganharei em Minas. Correio Católico.9.1955.930. p. eram reunidas em um panfleto sobre as “Dez forças que sustentam a candidatura de Plínio Salgado” e que. 2. Panfleto (APHRC .8.

A candidatura de Távora era repetidamente criticada pelos integralistas por ter recebido o apoio do Partido Socialista Brasileiro: O PSB homologou a candidatura Juarez Távora à Presidência da República.1955. enfurecida e desesperada pela crise econômica e financeira 567 que o país atravessa”. A Marcha. A Marcha. 565 Juarez e o socialismo. Rio de Janeiro. Alguém não está usando. por sua vez. . Rio de Janeiro. 13. João Mangabeira) com os católicos do Monsenhor Arruda 566 Câmara.6. Eis o que se deduz desse casamento imprevisto da linha auxiliar comunista (os socialistas do sr.1955. 1 e 12. p. Em 1953. p. Este conflito tinha como objeto principal a disputa pelo eleitorado conservador. 24.1953. O PRP buscava crescer disputando a base social pequeno burguesa da UDN e seus aliados. as classes trabalhadoras bem como a pequena burguesia desorientada e confusa. como o Partido Democrata Cristão.6. 1 e 4. Para merecer o apoio das hostes de Trotski e Marx. 566 As contradições de Juarez Távora. 10. de sinceridade. no caso. Rio de Janeiro. sustentando que “a grande maioria dos ex-integralistas votará contra o 564 Máscaras ao chão. cujos principais pontos provêm diretamente do cérebro de Marx. 567 Juarez é o Perón brasileiro.250 PRP X UDN – o conflito aberto pelo eleitorado conservador A eleição presidencial de 1955 acirrou ao extremo o conflito entre os integralistas e o udenismo. A Marcha.3. 3. quando o PDC apoiou Jânio Quadros à prefeitura de São Paulo. Para A Marcha Juarez seria “um candidato de tendências totalitárias que procura atrair. Sorel e 565 outras belezas deste quilate. com promessas demagógicas. Ou o general se mostra confuso nesta quadra conturbada de sua vida.6. contra-atacava divulgando declaração de Belmiro Valverde.1955. A disputa de votos entre Salgado e Juarez Távora ensejou ataques mútuos os mais diversos. p. p. 1 e 4. cujos chefes se enfeitam com a fita de congregados marianos. trazendo no coração a 564 estrela vermelha de Moscou”. A UDN. A Marcha. foi classificado pelo PRP como “o partido dos comunistas de sacristia. ou os partidos que o apóiam estão agindo de má-fé. 1 e 5. ex-integralista e principal líder da “Intentona de 1938”. Rio de Janeiro. Juarez teve que se comprometer com um programa socialista. na qual manifestava seu apoio a Juarez.

envolvendo em suas mentiras. 1 e 5 (CDAIBPRP – Recortes). (.. . de inspiração materialista. até no uniforme e no ritual macaqueados dos modelos italiano e alemão. 10. de bases nitidamente espiritualistas.1955. em apelar para que eu desista de minha candidatura. dirigida por Carlos Lacerda...) É grave o engano dos orientadores da campanha do General. Tribuna da Imprensa. ao suporem que a minha desistência iria carrear votos para o seu candidato. infâmias e calúnias o general Juarez Távora. (. o ‘Enviado de Deus’ (. Rio de Janeiro..251 sr. que Juarez Távora se retirasse do pleito e o apoiasse: Insistem os dirigentes da campanha eleitoral do General Juarez Távora. Tribuna da Imprensa... 20.) A conduta do sr. pedindo. melhor do que ninguém. p. 568 568 Plínio sem o apoio dos camisas-verdes. condenado fatalmente ao último lugar na votação e com uma soma de sufrágios irrisória em relação aos demais. mas sim uma doutrina. p. Plínio Salgado”. Também a Tribuna da Imprensa. difama e calunia.. passou a afirmar o caráter democrático desse partido quando a guerra destroçou o nazi-fascismo. que não comporta transigências com partidos de esquerda. Plínio Salgado. É o paranóico ‘iluminador’. 3 (CDAIBPRPRecortes). As críticas centravam-se na qualificação de Salgado como fascista e a inviabilidade de sua candidatura: Fundador e chefe de um partido fascista. Plínio Salgado.9. contra-atacava: “Plínio mente.9.) Mas um exame mais atento e minucioso do comportamento do ‘profeta’ do integralismo conduzirá à certeza de que 569 nele predomina o espertalhão”.1955.. 569 MAGALHÃES Júnior. 570 Ibid. que está fazendo apenas uma agitação para ampliar futuramente seu partidinho. dizendose crente na vitória (e por maioria absoluta!) assume aos olhos de 570 todas as pessoas sensatas o papel de um imbecil. que é um autêntico “candidato suicida”. certo de que. fascista no programa. Os brasileiros que sufragarão o meu nome a 3 de outubro próximo. (. (. quando sabe.) Recuso o apelo que me foi dirigido.) Enfrenta o ridículo de anunciar que vai ser eleito e por maioria absoluta. Rio de Janeiro. Sabe que. constitui um caso de psiquiatria. o chefe fascista brasileiro. em favor da vitória daquele ilustre e respeitável militar patrício.. não seguem um homem. dando-me a mais surpreendente e estarrecedora vitória eleitoral de nossa História. Salgado revidava os apelos para que retirasse sua candidatura. ao contrário.. assim procedendo. nos métodos. Misto e paranóico e embusteiro o sr. Rafael.

comemorava a derrota da UDN: O prazer dos integralistas foi este. 1955. p. 573 "A Tribuna da Imprensa como sempre". dando seqüência à troca de acusações. sustentando que nunca ter sido “oficialmente procurado por Juarez Távora. miolos. O que há lá dentro é da competência da City ou das Águas e Esgotos. por vezes. em quem reconhecemos um grande patriota. uma exortação para que desista ele de sua candidatura. 1 e 15. Ah! Isso impediram mesmo. E a história não foi escrita à moda da UDN dos salafrários. as “calúnias e injúrias” seriam decorrência do “ínfimo nível moral a que chegou a sociedade brasileira do nosso tempo” e da “influência e.252 sirvo melhor à Pátria a quem dediquei toda a minha vida e que dispensa novas demonstrações do meu espírito de renúncia. de Jânio. Tribuna da Imprensa. na verdade.9. e confirmadas as previsões de que a votação recebida por Salgado determinaria a derrota de Távora. ação direta do 571 Juarez: considera-te fora da sucessão! A Marcha. 27. desde a sua fundação. para solicitar a retirada da minha candidatura”. dos Tibérios do nosso tempo. 81 e 87. p. Esse prazer nós temos. Salgado publicou o Livro verde de minha campanha. pois “o PRP proíbe. para concluir que “dentro da cabeça desses caluniadores não existem. para felicidade e pelo bem do Brasil. Para ele. Derrotamos os caluniadores de Plínio Salgado. Rio de Janeiro.. de Adauto. Rio de Janeiro. irmão de seu genro Loureiro Júnior. 15. p. tanto com o Partido Comunista como com o Partido Socialista”.4. os udenistas denunciavam suposto envolvimento de Salgado na falência fraudulenta do Banco Nacional Interamericano. de Juraci. A Marcha. sem referência (CDAIBPRP-Recortes). 574 SALGADO. exatamente: impediram que o candidato de Lacerda. 21. de Chico Mangabeira. e alegando que jamais poderia fazê-lo. de Corção. dirigido por Roxo 572 Loureiro. conhecedoras do material que conduzem as 574 descargas das sentinelas”. fosse eleito. ao General Juarez Távora. de Osório Borba. 16. qualquer aliança de seus partidários. formulo de volta. nem pelos próceres da UDN. de Joel Silveira. 12. por sua vez. Passada a eleição. reconhecidamente derrotada até pelos seus 571 próprios seguidores. 572 De negócio em negócio Plínio enche o papo. Livro verde de minha campanha. metidos a moralistas. O jornal sustentava que Loureiro seria “o homem que manda hoje em Plínio e o domina totalmente”. . cit. A Marcha. 573 que agora estorcem de raiva. Ao fazêlo. op.1956. Em 1956. respondendo às críticas que recebeu durante sua campanha.

embora os melhores percentuais tenham 578 sido alcançados em estados populosos: Salgado obteve 21. em face das reiteradas proclamações de Plínio de que seria vencedor.6%). Ainda assim.379 votos. atingindo 24% dos votos.6% de seus votos nas capitais (154. e recebeu expressivas votações também no Espírito Santo (18./d.253 comunismo”. p. 576 Plínio Salgado surpreendeu os grupos dominantes. isoladamente. 714. afirmando que “nenhum partido.949 votos. 12. a maior votação obtida nacionalmente pelo movimento integralista em um processo eleitoral. O conflito persistiria nos anos seguintes. p.000 eleitores (91. A maior parte dos votos foi obtida em pequenos municípios.486 votos). 9 volumes. Rio de Janeiro. as cúpulas dos chamados grandes partidos”.006.9% nas cidades que detinham entre 10. A Marcha.000 e 20. afinal. 3. A distribuição da votação foi bastante desigual: Salgado foi o segundo mais votado no Paraná. Para A Marcha. montadas em todo o território nacional. 1964.8% nas cidades com menos de 575 Ibid. “batalhando contra três poderosas máquinas”. Brasília: Imprensa Oficial.000 eleitores. 95. 19. ou 8. de trabalho 577 sistemático. s. .5%) e Bahia (13.7% nas cidades com mais de 20.Fundo Plínio Salgado 014.1956.8%). Assim. com mais quatro anos de doutrinação. levou essa quantidade de votos” e garantindo que “está plenamente provado que. 20.016). o resultado surpreendeu os grupos dominantes “que controlam as máquinas de coação para extorquir votos. Santa Catarina (17. 576 isto é.1. 577 Circular de Plínio Salgado. conquistaremos o triunfo”. 578 Levantamento realizado a partir dos dados publicados em TRIBUNAL Superior Eleitoral. Salgado enviou uma carta aos militantes agradecendo os serviços prestados à candidatura e garantindo que ela foi vitoriosa. principalmente em virtude do apoio dos integralistas à posse e ao governo de Kubitschek.3%.018 votos). em toda história do movimento. pois a diferença entre Kubitschek e Távora foi de apenas 466. (APHRC . o resultado obtido deve ter frustrado os militantes mais entusiasmados. A votação recebida por Salgado reforçou a tese dos udenistas de que a candidatura de Salgado mudaria o resultado das eleições. os dirigentes integralistas tentaram apresentar o resultado obtido como uma grande vitória. e 45. 575 Os resultados alcançados e sua repercussão no PRP Salgado atingiu. Volume 3. Dados Estatísticos.

uma atitude de maior clarividência. Embora dignos dos sufrágios dos brasileiros. embora o apoio à posse e posterior participação no governo de Juscelino Kubitschek introduzisse uma contradição que terminaria por minar esta política. cujos méritos pessoais não negamos. reintroduzindo os integralistas na dinâmica de alianças e 579 SALGADO. Esta avaliação deu novo fôlego à “independência partidária”. política que seria mantida ainda nos dois anos seguintes. Salgado avaliava que a candidatura própria tinha dado ao PRP consciência de sua autonomia e de sua força eleitoral: Nunca o PRP poderia ter adotado uma orientação mais certa. em todos os estados predominaram os votos provenientes da pequena burguesia. . atingindo maioria absoluta em alguns deles.939 votos). A despeito das diferenças.000 habitantes (326. Salgado captou 46. Plínio. a de 1945 e a de 1950.7% do total de seus votos em apenas 10 municípios (todos eles de colonização germânica). nem daqueles que aspiram a reformas largas e decisivas dos costumes políticos e das normas administrativas em nosso País. Rio de Janeiro. sejam em sua maioria urbanos.1956. Neste último estado. 3 e 8. O pleito de outubro passado incutiu-nos 579 também. Ergueu-se uma força nova! A Marcha. p..254 10. Salgado foi o candidato mais votado em 18 municípios do Paraná e em 11 municípios de Santa Catarina. O desfraldar de uma bandeira própria deu ao partido herdeiro da doutrina espiritualista e cristã da democracia orgânica uma energia nova que se revelou numa verdadeira ressurreição. o marechal Dutra e o brigadeiro Eduardo Gomes. a certeza de nossa força.4. como em São Paulo e Minas Gerais. de autodeterminação a um partido que vinha perdendo a substância pela adesão a candidatos estranhos à sua doutrina em duas eleições sucessivas. O pleito de outubro deu consciência de autonomia. não polarizavam os anseios mais profundos dos integralistas. como nos estados do Sul e Espírito Santo. Alguns meses depois. 27. sejam pequenos proprietários rurais.

Guido Mondin. apoiado pelo PTB. A médio prazo. no entanto. o resultado obtido não foi suficiente para garantir a manutenção da “independência partidária” e impedir a retomada das alianças e coligações e da participação em gestões conduzidas por outros partidos.255 coligações. onde os integralistas coligaram-se com o PTB. . apoiando a eleição de Leonel Brizola ao governo estadual e elegendo o primeiro senador integralista. o que se concretizaria no final de 1957 quando o PRP assumiu a presidência do Instituto Nacional de Imigração e Colonização no governo Kubitschek e se aprofundaria com as inúmeras alianças realizadas em 1958. inclusive no Rio Grande do Sul. Certamente a candidatura própria cumpriu uma função importante na unificação do movimento e motivação de seus militantes. abalada em virtude das oscilações da política de alianças até então seguida. reforçando sua identidade. berço da política de “independência partidária”.

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