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O CONCEITO DE TEXTO

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O CONCEITO DE TEXTO

José Fernandes da Silva

Etimologicamente, o conceito de texto é o de um tecido (segundo o Dicionário Aurélio). Na verdade, a sua essência é a de
uma espécie de tecido. Porém, nessa espécie de tecido, o que realmente se tece (entrecruza), para constituí-lo como tal, não
são exatamente fios, como nos tecidos propriamente ditos, mas seqüências informativas e representativas. Nesse caso, a sua
analogia é antes como tecido da pele (inclusive em termos intraorgânicos) que com o tecido no sentido comum do termo,
porque é o tecido da pele que é capaz de, como o texto, registrar o que vem de fora, conservá-lo por determinado tempo e,
em seguida, transmiti-lo ao cérebro (ou, no caso de um organismo como o da célula, ao mecanismo que, em seu interior,
funciona como uma espécie de processador de dados).
Uma definição extremamente radical do conceito de texto é a sugerida por Kalevi KuIl (1998), ao caracterizar o
organismo vivo (inclusive em nível celular) como um texto de auto-leitura (self-reading text). Quer dizer, capaz de interpretar a
si mesmo em seu próprio funcionamento e, desse modo, se transformar. Essa concepção, como ele mesmo diz, tem os seus
fundamentos básicos sobretudo em estudos realizados por biólogos como Jakob von UexküIl, criador do famoso conceito de
Umwelt (o universo exterior do ponto de vista dos animais), e Martin Kramp, um dos principais responsáveis pela extensão
dos estudos semióticos a esferas como a das plantas, por meio da chamada fito-semiótica, que é um ramo particular da bio-
semiótica.
Tendo em vista os objetivos dessa investigação, dentre eles o referente ao entendimento do texto narrativo literário em
seus aspectos tanto verbais quanto não-verbais, e tendo como ponto de partida os princípios indicados pela semiótica de
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Charles Sanders Peirce (1993) em relação ao conceito de signo e, por dedução, também de texto (já que todo texto é
constituído de signos), podemos dizer o seguinte, a respeito de tal conceito: um texto é qualquer conjunto de elementos que,
capazes de serem captados por nossos sentidos (visão, audição, tato, olfato e gustação), possam funcionar, assim conjuntamente, como meio
de registro, conservação e transmissão de informação.
Essa definição está em perfeito acordo com o que, na chamada Semiótica da Cultura, da escola de Tartu e Moscou,
autores como Lotman e Uspênski consideram como um texto cultural. Segundo Lotman (1979, p.32),

mesmo quando tratamos com os assim chamados monumentos da cultura material, por exemplo, como os meios de
produção, é preciso ter em mente que todos estes objetos desempenham, na sociedade que os cria e utiliza, uma dupla
função. Por um lado eles servem a objetivos práticos e, por outro lado, concentrando em si a experiência da atividade
de trabalho precedente, eles se constituem como um meio de conservação e transmissão de informações.

Quer dizer, se os objetos e fenômenos da cultura são vistos, nesse caso, não como tais, mas como elementos portadores de
informação, o papel que desempenham é, individualmente, o de signos e, conjuntamente, o de textos. E é precisamente nesse
sentido que, deixando de ser vistos apenas como objetos relacionados com as atividades práticas, passam a ser vistos como
objetos vinculados a ciências como a antropologia, a arqueologia e a semiótica.
Se a primeira condição para que um dado conjunto de elementos venha a se constituir como texto é, como dissemos
naquela definição, poder ser captados por nossos sentidos, chega-se de imediato à conclusão de que, em vista disso, só
podem existir cinco espécies particulares de texto, que são as dos textos visual, auditivo, tátil, olfativo e gustativo.
Não é comum falar de textos olfativo e gustativo; mas, mesmo assim, eles existem e, existindo, podem ser não apenas
identificados, como também analisados. Dias atrás, assistimos, pela televisão, a uma brincadeira na qual isso é muito bem
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ilustrado. Uma moça, de olhos vendados, foi levada a identificar, pelo sabor, diferentes tipos de sucos de frutos, deixando
evidente que, nesse caso, se os fatores que compunham os diferentes sabores funcionaram como signos, o conjunto em que
esses fatores se achavam correlacionados funcionou como texto. Mas se, em todas as vezes em que ela levava o copo à boca,
além de saborear os referidos líquidos, ela os cheirava, é evidente que, nesse caso, em correlação com um texto gustativo,
entrou em ação também um texto olfativo. E se um cachorro, valendo-se apenas dos odores deixados por uma caça nos
rastros e nas coisas do contexto por onde ela passou, é capaz de, em dado momento, agarrá-la, então, mais uma vez,
comprova-se a possibilidade de fatores como esses funcionarem conjuntamente como textos.
O fragmento de texto que analisaremos em seguida, com a finalidade de pôr em destaque o que foi dito acima
acerca do caráter textual do texto narrativo literário, é uma ótima ilustração de tudo isso. O fragmento vem de uma
narrativa de Jorge Amado, o romance Agonia da Noite, da trilogia Os Subterrâneos da Liberdade (1973).

Ia o negro Doroteu, com sua negra Inácia, pela beira do cais. Era o cais de Santos, os armazéns das docas a se
perderem de vista. Trilhos, automóveis, geladeiras, rádios, máquinas estranhas, conservas e frutas desciam nos
guindastes, trazidos do bojo profundo dos porões escuros dos negros cargueiros ancorados no porto. Um cheiro doce
de maçãs maduras se misturava ao salgado odor do mar, na lânguida noite tropical, envolvente e morna, cortado por
um vento fino chegado de distantes paragens. Também a melodia melancólica de uma canção marítima se mesclava ao
barulho ensurdecedor dos guindastes, dos gritos de marinheiros e estivadores, dos apitos saudosos dos navios
abandonando a orla do cais em busca do mar-oceano mais além do porto (AMADO, 1973, p. 9).

Constituindo o texto que aí aparece, temos:
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• em primeiro lugar, um texto verbal grafovisual, compondo o plano da escritura (nível imediato), decifrável
apenas por quem domina a língua portuguesa como idioma escrito e, além disso, não é analfabeto;
• em segundo lugar, um texto verbal fonoauditivo, compondo o plano da narração (nível mediato), decifrável por
quem, não dominando a língua portuguesa escrita, domina a língua portuguesa oral, caso a leitura (decifração da
escrita) seja feita em voz alta por quem, dominando a língua portuguesa escrita, domina também a língua
portuguesa oral e, além disso, não é analfabeto;
• em terceiro lugar, um texto figurativo ou imagético, compondo o plano do enredo (nível transmediato), que é o
da estória contada pelo narrador e do contexto em que ele se desenvolve, decifrável por quem quer se seja, que
consiga ultrapassar esses dois primeiros níveis e alcançar este último;

e, no nível do enredo:

• em primeiro lugar, um texto figurativo ou imagético em termos gerais, configurando os vários objetos que aí
aparecem compondo o contexto geral das representações, enquanto fenômenos descritos pela narração;
• em segundo lugar, um texto figurativo ou imagético em termos olfativos, gustativos e táteis, configurando as
sensações representadas na expressão: “Um cheiro doce de maçãs maduras se misturava ao salgado odor do
mar, na lânguida noite tropical, envolvente e morna, cortado por um vento fino chegado de distantes
paragens”;
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• em terceiro lugar, um texto figurativo ou imagético em termos auditivos, configurando as sensações
representadas na expressão: “Também a melodia melancólica de uma canção marítima se mesclava ao
barulho ensurdecedor dos guindastes, dos gritos de marinheiros e estivadores, dos apitos saudosos dos
navios abandonando a orla do cais”.

Com a análise que acabamos de realizar, fica demonstrado o que é – numa perspectiva semiótica – o conceito de texto,
quer em termos gerais, referente a textos não importa de que espécie, quer em termos particulares, referente a textos como os
das obras literárias e extraliterárias, artísticas e não-artísticas.

REFERÊNCIAS:
AMADO, Jorge. Agonia da Noite, II vol. de Os Subterrâneos da Liberdade. São Paulo, Martins, 1973.

KULL, Kalevi. Organism as a self-reading text: anticipation and semiosis. [online]. Published in: international Journal of
Computing Anticipatory Systems, vol. 1, 1998, pp. 93-104. Disponível em http://www.zbi.ee/~kalevi/textorg.htm. Acessado
em 20 de novembro de 2002.
________. Semiotic paradigm in theoretical biology. [online]. Published in: Kull K., Tiivel T. (eds.) 1993. Lectures in
Theoretical Biology: The Second Stage. Tallinn: Estonian Academy of Sciences, 52-62.
http://www.zbi.ee/~kalevi/artikkel.htm. Acessado em 20 de novembro de 2002.

________. Baerian biology. Evolution by means of organisms' interpretation. [online]. Published in: Kull K. 1998. Baerian
biology: evolution by means of organisms' interpretation. - In: Farré George L., Oksala Tarkko (eds.). Emergence,
Complexity, Hierarchy, Organization. Espoo, 197-200. http://www.zbi.ee/~kalevi/baer.htm. Acessado em 20 de novembro
de 2002.
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LOTMAN, Iuri; Shnaiderman, Bóris e outros. Semiótica Russa. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini, Boris Shnaiderman
e Lucy Seki. São Paulo, Perspectiva, 1979.

________. O Problema de Uma Tipologia da Cultura, in A Linguagem e Os Signos. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro nº 29,
pp 30 a 44, 1972.

________. A Estrutura do Texto Artístico. Trad. de Maria do Carmo Vieira Raposo e Alberto Raposo. Lisboa, Estampa,
1978.

________. Estética e Semiótica do Cinema. Tradução da versão francesa de Alberto Carneiro. Lisboa, Estampa, l978.

PEIRCE, Sharles Sanders. Semiótica e Filosofia. Introdução, seleção e tradução de Octanny Silveira da Mota e Leonidas
Hegenberg. São Paulo, Cultix, 1993.

podem ser não apenas identificados. a respeito de tal conceito: um texto é qualquer conjunto de elementos que. E é precisamente nesse sentido que. individualmente. a arqueologia e a semiótica. assim conjuntamente. possam funcionar. se os objetos e fenômenos da cultura são vistos. Segundo Lotman (1979. por outro lado. conjuntamente. na sociedade que os cria e utiliza. chega-se de imediato à conclusão de que. mas como elementos portadores de informação. audição. conservação e transmissão de informação. só podem existir cinco espécies particulares de texto. existindo. eles se constituem como um meio de conservação e transmissão de informações. por exemplo. tato. uma dupla função. mesmo assim. por dedução. nesse caso. como meio de registro. assistimos. Quer dizer. podemos dizer o seguinte. o de signos e. olfato e gustação). a uma brincadeira na qual isso é muito bem . o de textos. da escola de Tartu e Moscou. como os meios de produção. Por um lado eles servem a objetivos práticos e. pela televisão. Se a primeira condição para que um dado conjunto de elementos venha a se constituir como texto é. concentrando em si a experiência da atividade de trabalho precedente.2 Charles Sanders Peirce (1993) em relação ao conceito de signo e. tátil. auditivo. autores como Lotman e Uspênski consideram como um texto cultural. também de texto (já que todo texto é constituído de signos). passam a ser vistos como objetos vinculados a ciências como a antropologia. como também analisados. em vista disso. olfativo e gustativo. Essa definição está em perfeito acordo com o que. não como tais. como dissemos naquela definição. mas.32). deixando de ser vistos apenas como objetos relacionados com as atividades práticas. que são as dos textos visual. o papel que desempenham é. Não é comum falar de textos olfativo e gustativo. é preciso ter em mente que todos estes objetos desempenham. p. Dias atrás. mesmo quando tratamos com os assim chamados monumentos da cultura material. na chamada Semiótica da Cultura. poder ser captados por nossos sentidos. capazes de serem captados por nossos sentidos (visão. eles existem e.

pelo sabor. o romance Agonia da Noite. de olhos vendados. O fragmento vem de uma narrativa de Jorge Amado. temos: . conservas e frutas desciam nos guindastes. se os fatores que compunham os diferentes sabores funcionaram como signos. Também a melodia melancólica de uma canção marítima se mesclava ao barulho ensurdecedor dos guindastes. máquinas estranhas. p. 9). trazidos do bojo profundo dos porões escuros dos negros cargueiros ancorados no porto. O fragmento de texto que analisaremos em seguida. é uma ótima ilustração de tudo isso. com a finalidade de pôr em destaque o que foi dito acima acerca do caráter textual do texto narrativo literário. da trilogia Os Subterrâneos da Liberdade (1973). nesse caso. em dado momento. Trilhos. nesse caso. diferentes tipos de sucos de frutos. então. deixando evidente que. Um cheiro doce de maçãs maduras se misturava ao salgado odor do mar. ela os cheirava. é evidente que. os armazéns das docas a se perderem de vista. entrou em ação também um texto olfativo. na lânguida noite tropical. 1973. geladeiras. agarrá-la. em todas as vezes em que ela levava o copo à boca. valendo-se apenas dos odores deixados por uma caça nos rastros e nas coisas do contexto por onde ela passou. com sua negra Inácia. foi levada a identificar. Uma moça. mais uma vez. Ia o negro Doroteu. Era o cais de Santos. o conjunto em que esses fatores se achavam correlacionados funcionou como texto. Constituindo o texto que aí aparece. rádios. comprova-se a possibilidade de fatores como esses funcionarem conjuntamente como textos. é capaz de. cortado por um vento fino chegado de distantes paragens. envolvente e morna. automóveis. em correlação com um texto gustativo. além de saborear os referidos líquidos. Mas se. E se um cachorro. dos apitos saudosos dos navios abandonando a orla do cais em busca do mar-oceano mais além do porto (AMADO. pela beira do cais. dos gritos de marinheiros e estivadores.3 ilustrado.

que consiga ultrapassar esses dois primeiros níveis e alcançar este último. na lânguida noite tropical. domina também a língua portuguesa oral e. no nível do enredo: • em primeiro lugar. gustativos e táteis. envolvente e morna. além disso. decifrável por quem quer se seja. caso a leitura (decifração da escrita) seja feita em voz alta por quem. . um texto figurativo ou imagético em termos gerais. não é analfabeto. configurando os vários objetos que aí aparecem compondo o contexto geral das representações. compondo o plano da narração (nível mediato). cortado por um vento fino chegado de distantes paragens”. configurando as sensações representadas na expressão: “Um cheiro doce de maçãs maduras se misturava ao salgado odor do mar. um texto figurativo ou imagético. decifrável apenas por quem domina a língua portuguesa como idioma escrito e. um texto verbal grafovisual. que é o da estória contada pelo narrador e do contexto em que ele se desenvolve. • em segundo lugar. compondo o plano do enredo (nível transmediato). um texto figurativo ou imagético em termos olfativos. decifrável por quem. não é analfabeto. e. dominando a língua portuguesa escrita. um texto verbal fonoauditivo. domina a língua portuguesa oral.4 • em primeiro lugar. não dominando a língua portuguesa escrita. • em terceiro lugar. enquanto fenômenos descritos pela narração. • em segundo lugar. compondo o plano da escritura (nível imediato). além disso.

Acessado em 20 de novembro de 2002.. Oksala Tarkko (eds. [online]. Published in: Kull K. REFERÊNCIAS: AMADO. Baerian biology: evolution by means of organisms' interpretation. Organization.htm.) 1993. Baerian biology. Organism as a self-reading text: anticipation and semiosis. Evolution by means of organisms' interpretation. . Published in: Kull K. [online]. 93-104. 1. http://www. Tiivel T.5 • em terceiro lugar. artísticas e não-artísticas. Semiotic paradigm in theoretical biology. . 1998. dos apitos saudosos dos navios abandonando a orla do cais”. quer em termos gerais. referente a textos não importa de que espécie. [online]. Disponível em http://www. 52-62. (eds. 1998. Tallinn: Estonian Academy of Sciences. dos gritos de marinheiros e estivadores.ee/~kalevi/textorg.zbi. Kalevi. de Os Subterrâneos da Liberdade. Hierarchy. referente a textos como os das obras literárias e extraliterárias. KULL. configurando as sensações representadas na expressão: “Também a melodia melancólica de uma canção marítima se mesclava ao barulho ensurdecedor dos guindastes. http://www. Lectures in Theoretical Biology: The Second Stage. fica demonstrado o que é – numa perspectiva semiótica – o conceito de texto.ee/~kalevi/baer. 1973. Martins. Published in: international Journal of Computing Anticipatory Systems. 197-200.htm.). Acessado em 20 de novembro de 2002.ee/~kalevi/artikkel.. Complexity. Emergence. quer em termos particulares. II vol.zbi.htm. Acessado em 20 de novembro de 2002. Jorge.In: Farré George L. vol. São Paulo. pp. ________. Agonia da Noite. ________. Espoo. Com a análise que acabamos de realizar. um texto figurativo ou imagético em termos auditivos.zbi.

pp 30 a 44. Tradução da versão francesa de Alberto Carneiro. . Semiótica e Filosofia. Trad. Semiótica Russa. de Maria do Carmo Vieira Raposo e Alberto Raposo. Cultix. 1979. Tempo Brasileiro nº 29. 1993. in A Linguagem e Os Signos. Perspectiva. 1972. O Problema de Uma Tipologia da Cultura. Estampa.6 LOTMAN. 1978. ________. Tradução de Aurora Fornoni Bernardini. Boris Shnaiderman e Lucy Seki. Shnaiderman. A Estrutura do Texto Artístico. Iuri. Rio de Janeiro. Introdução. Bóris e outros. Lisboa. Sharles Sanders. ________. l978. Estampa. PEIRCE. São Paulo. São Paulo. Lisboa. Estética e Semiótica do Cinema. seleção e tradução de Octanny Silveira da Mota e Leonidas Hegenberg. ________.

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