UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO NORTE – UERN FACULDADE DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS – FAFIC DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E POLÍTICA

– DCSP CURSOS DE CIÊNCIAS SOCIAIS – BACHARELADO – 7º PERÍODO DISCIPLINA SOCIOLOGIA DA COMUNICAÇÃO PROFESSORA KARLLA SOUZA

José Evaristo de Oliveira Filho1

RESUMO

TOMAZI, Nelson Dazio. Iniciação à Sociologia. São Paulo: Atual, 1993, cap. 12-14.

O autor inicia o capítulo 12 de seu livro apontando ao fato de que os conceitos de cultura e de ideologia têm diferentes significados e interpretações, e por isso é necessário analisar essas diferenças nas várias linhas das ciências sociais; porém, entendendo-se que não é possível prover um conceito que seja igual e plenamente aceito por todas elas. O uso mais “popular” do termo cultura se refere às pessoas “cultas”, ou seja, aquelas pessoas que desenvolvem ou cultivam a inteligência por meio das artes e do conhecimento, mas tal conceito limitaria a cultura àqueles que leem muito ou que são artistas, excluindo os demais. Para se pensar a cultura, no entanto, também é preciso considerar outros dois conceitos: civilização e história. Esses conceitos, relacionados à cultura, foram explorados por filósofos como Rousseau, Voltaire, Kant e Hegel. Porém, foi a Antropologia que primeiro e mais adequadamente conceituou a cultura. Tylor conceituou a cultura como sendo um conjunto de crenças, conhecimentos, artes, hábitos, capacidades etc., adquiridos pelo homem a partir de seu convívio em sociedade. Foi estabelecida, então, uma diferenciação entre o que era dado pela natureza e o que era construído socialmente. Assim, a cultura define o modo de ação de como os homens vivem em sociedade a partir de um sistema simbólico definido; e, a partir disso, se compreende que a ação humana é criadora e transformadora, de modo que a Antropologia estuda essa relação entre a ação criadora humana e os ritos, regras e discursos criados pelos homens em sociedade. A Antropologia, contudo, não difere entre a realidade social e o
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Bacharelando do curso de Ciências Sociais da UERN. Bolsista do PET.

mas com a pretensão de fazer com que aquilo que é representado seja igualado à sua realidade. então. A ideologia vinculada ao Estado proporciona uma imagem distorcida da realidade que anula a luta e as divisões. Deste modo. enquanto a ideologia estabelece uma submissão do simbólico ao econômico como se o primeiro fosse apenas uma reprodução dos preceitos do último em uma dada sociedade. Em seu conceito. então. Assim. Na teoria marxista.2 universo simbólico. c) como o processo geral de produção de significados e ideias. é o responsável pelo discurso ideológico que dará à sociedade a unidade. ou seja. falar e agir. o que interessa à classe dominante para manter a sua dominação é fazer com que seus valores sejam aceitos e seguidos por toda a sociedade. E a ciência seria o instrumento capaz de separar a ideologia da verdade. Vê-se. de modo que toda a sociedade seria unificada a partir da imagem construída pela classe dominante. então. por todas as classes sociais. portanto. enquanto Gramsci vê a ideologia mais como uma “visão de mundo”. Portanto. que resulta da divisão entre a infraestrutura (produção material) e a superestrutura (produção das ideias). b) como sistema de crenças ilusórias. a ideologia torna-se um discurso a respeito daquilo que é social e político. O autor fala do conceito criado por Destrutt de Tracey que define a ideologia como sendo a “ciência das ideias”. das representações de nossa própria sociedade. no marxismo há esse entendimento de ideologia a partir da oposição entre dois tipos de ideias: falsas (ou distorcidas) e verdadeiras. Para Chauí. identidade e homogeneidade que ela não possui. que é o elemento principal do conceito de ideologia para Marx e Engels. ela pode ajudar-nos. o conceito de cultura visto anteriormente corre o risco de perder a dimensão da dominação político-econômica que nas sociedades capitalistas têm um grande papel em determinar os modos de pensar. O . tais conceitos são criticados em alguns pontos. haveria uma cultura da classe dominante que em certos momentos e aspectos se confunde com a cultura nacional. o autor começa a discorrer sobre a ideologia. c) inversão. seria usado para ocultar a diferença entre pensar. Com base nisso. O Estado. a perceber que no Brasil. b) determinação. falar e agir. uma separação entre representação e realidade. Ela pressupõe a existência de unidade entre a ação humana e a sua significação. Pelo fato de a Antropologia ter estudado outras sociedades. por exemplo. que também apresenta três elementos: a) separação. nessas concepções de ideologia. ou seja. que diz respeito à relação decorrente da separação entre infraestrutura e superestrutura (a primeira organizaria a esfera da segunda. Destrutt de Tracey explicou a ideologia em três pontos principais: a) como sistema de crenças de uma classe ou grupo social. O discurso ideológico. falso e verdadeiro. é a distorção da realidade. conceitos explicativos da realidade. apesar da existência de grupos variados. O marxismo vai se apropriar dos dois primeiros elementos desse conceito de ideologia e criará o seu próprio. Cultura e ideologia são. O conceito de cultura é criticado por não dar espaço à questão da política e do poder. Porém. a esfera econômica organizaria as ideias da sociedade). ela é capaz de perceber melhor os significados dos símbolos.

Não é possível afirmar que existe uma só ideologia dominante que submeta toda a sociedade ao seu discurso homogeneizador. A cultura erudita está associada à elite política. o autor mostra que há duas formas específicas de cultura em nossa sociedade: a cultura popular e a cultura erudita. literatura. porém. A descoberta da cultura popular pelos intelectuais europeus se deve. muitas vezes. do povo. diferentes modos de pensar. Para Gramsci ela é conservadora. sem interferências estrangeiras. A cultura popular muitas vezes é entendida como folclore e. Outro fator foi a redescoberta da importância da tradição para a coesão de certos grupos sociais diante das constantes transformações sociais. mas não é possível negar que existe uma ideologia nas sociedades capitalistas e que ela é veiculada o tempo todo pelos meios de comunicação em massa. também é inovadora. agir e se associar aos detentores de uma ou de outra dessas formas. à cultura erudita à elite. Os pesquisadores europeus da cultura popular se encarregaram de registrar as canções. Alguns autores afirmam que não é possível pensar atualmente em uma forma pura de cultura erudita ou cultura popular. No Brasil. selecionar e compreender tais elementos no Brasil . músicas e comidas “típicas”. A cultura popular é a cultura não oficial. porém. aos livros e ao estudo. O interesse assim como o esforço para colecionar. A cultura popular relaciona-se ao povo. no entanto. No capítulo 13. algo que deve ser protegido e conservado da forma como sempre foi. bem como à ascensão do nacionalismo. o que gera. religiões. Tendo sido um equívoco que com o passar do tempo o conceito de ideologia ficou associado a uma valorização pejorativa por associá-la exclusivamente à classe dominante é igualmente equivocado afirmar que todos os valores e ideias são ideologia. contudo. erudita e indústria cultural) subsistem e se inter-relacionam. tradições etc. discordam e afirmam que as três formas (popular. como determinantes do funcionamento e transformação da sociedade como um todo. especialmente por não considerar as relações que esses elementos estabelecem com a sociedade a qual pertencem.. uma visão caricatural e simplista a seu respeito. pelo menos em parte. Outros autores. pois nas sociedades integradas o que prevalece é a cultura de massa ou a indústria cultural. Há. eles interferiram na seleção e transcrição do material quer acabou sendo filtrado para ser “consumido” pelo público erudito. nesse sentido. ela é compreendida como uma manifestação tradicional e imutável. a uma forma de oposição à dominação estrangeira. pois. Ela é transmitida pelas escolas e instituições. Os estudiosos desse campo. quando se fala de cultura popular imediatamente associa-se o termo aos personagens. econômica e cultural que tem acesso à escrita. também.3 conceito de ideologia visto até aqui. por sua vez. pode impedir que os elementos culturais de uma sociedade fossem considerados apenas como representações de valores e crenças da classe dominante e não. não consideram a cultura popular ou folclore como algo parado no tempo.

defendendo que ela aproxima os homens e diminui as diferenças sociais entre eles. e faz propaganda desse mundo como ele é e como deve permanecer. Ele mostra que se pode falar sobre a existência da indústria cultural a partir do século XVIII com a ascensão da sociedade industrial e capitalista na qual a burguesia comercial e industrial se estabeleceu como classe hegemônica. há aqueles que criticam a indústria cultural (os apocalípticos) e aqueles que a elogiam (os integrados). que após analisarem os meios de comunicação de massa chegaram à conclusão que eles existiam e funcionavam como uma verdadeira indústria de produtos culturais. a indústria cultural vende mercadorias. o autor escreve sobre a indústria cultural. No capítulo 15. de comercialização e lucro. ou seja. elas se inter-relacionam e são importantes para o estabelecimento e manutenção da sociedade. porém. homogêneas ou compartimentalizadas em setores e com características semelhantes. e ele critica a ambos por suas posições. de multidões padronizadas. Nessa sociedade. Isso produziu uma banalização e descaracterização das mesmas. o lazer e as artes praticadas cotidianamente pelos camponeses passam a ser oferecida por profissionais e ocupam seu lugar na divisão social do trabalho. Adorno e Horkheimer foram os primeiros a utilizar o termo “indústria cultural”. e fez com que a sociedade se tornasse um consumidor passivo das mercadorias anunciadas pelos meios de comunicação em massa. que são características do sistema capitalista. Para eles. os filmes etc. o Romantismo e a Tropicália. os autores que discutem sobre o tema estão divididos. visto que os intelectuais brasileiros sempre se preocuparam com a questão da nacionalidade e com a definição de uma cultura popular e brasileira. mas também imagens do mundo. portanto. a música. enquanto os segundos estariam errados por esquecerem que a cultura de massa é produzida por grupos que visam o lucro e a satisfação de seus interesses por meio dos próprios meios de . por exemplo. o estabelecimento de uma indústria cultural se refere à produção e distribuição de “mercadorias” culturais como a literatura. Os meios tecnológicos possibilitaram que certas artes fossem produzidas em série.4 conecta-se aos movimentos estéticos como. tendo em vista o consumo. Para Humberto Eco. àqueles elementos que fazem com que uma população se identifique como nação. veem aspectos positivos na indústria cultural. Assim. O termo “indústria cultural” se refere às ideias de produtos feitos em série. Por sua vez. Geralmente há uma tendência de se associar o que é antigo e ultrapassado à cultura popular. o que é antigo está associado à ideia de identidade nacional e. Outros pensadores. O termo “cultura de massa” se refere à sociedade moderna como uma sociedade de massas. que precisa deixar de existir para dar vida ao novo (à cultura erudita). A cultura popular e a erudita possuem uma relação de conflito e incorporação. pois os primeiros estariam errados em condenar a cultura de massa simplesmente por ela visar o lucro. Sobre o uso dos termos e de sua significação.

5 comunicação de massa. O país é considerado um “país de imagens” porque. a televisão é o principal veículo da cultura e da informação. distanciando-se de Adorno. por outro lado. a um público que não tem meios de alcançá-los. um mundo de sonhos e de produtos que conduzem ao sucesso individualizado. Dessa forma. devido ao alto índice de analfabetismo. pois eles vendem a ideia de uma vida ideal com prazer. não seria apenas negativo. a indústria cultural cumpriria seu papel de imobilizar e alienar o público. os meios de comunicação de massa crescem por meio dos investimentos do próprio governo e. segundo a perspectiva de Adorno e Horkheimer. portanto. mas deveriam ser buscadas aquelas ações que proporcionariam a veiculação de valores culturais. mas alterou o papel da arte e da cultura. os programas e anúncios se misturam entre ficção e realidade na imaginação de seu público consumidor. se no Brasil a TV e o Rádio são ou não instrumentos alienantes e conservadores. Walter Benjamim. tomando como base as teorias sobre a cultura de massa. defende que indústria cultural não acabou com a cultura erudita. enquanto que. A propaganda tem um papel fundamental na indústria cultural e na sociedade de consumo atual. Os programas de TV geralmente são considerados ruins enquanto os anúncios são bons. felicidade etc. Para ele. No Brasil. O impacto dos meios de comunicação de massa sobre o consumidor. os meios de comunicação de massa teriam proporcionado mudanças na percepção e contestação da parte dele. ou seja. pois. Para ele. através da novela. Mas alguns estudiosos não defendem que a indústria cultural tenha tamanho poder de conformação sobre os consumidores. Portanto. e por isso existem programas específicos para cada público específico. então. A propaganda venderia. e as próprias emissoras transmitem a ideia de que tudo que é importante aparece ali na TV. assim. deve-se questionar. pois a novela venderia “sonhos” e aqueles que as assistem seriam. e se estimulam o conformismo. uma conformação com as imagens. dinheiro. os anúncios têm um efeito de conformação sobre esse mesmo público. consumidores de sonhos. . cultura erudita e cultura popular. para transmitir o que um determinado público considera interessante e importante. cresce conjuntamente a sua importância no quadro geral cultural brasileiro. O autor toma as “novelas” transmitidas na TV brasileira como exemplo para uma análise.

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