P. 1
Retorno a Gramsci para uma crítica das teorias contemporâneas da sociedade civil

Retorno a Gramsci para uma crítica das teorias contemporâneas da sociedade civil

|Views: 15|Likes:
Publicado porRicardo Kaminski

More info:

Published by: Ricardo Kaminski on Feb 10, 2013
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

06/27/2014

pdf

text

original

XII CONGRESSO NACIONAL DOS SOCIÓLOGOS GT POLÍTICA E PODER: TEORIA POLÍTICA

Alvaro Bianchi Professor da Universidade Metodista de São Paulo

Retorno a Gramsci: para uma crítica das teorias contemporâneas da sociedade civil

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARANÁ Curitiba – 1º a 4 de abril 2002

2

Resumo: As últimas décadas do século XX presenciaram a emergência de novos movimentos sociais e de um renovado associativismo. A análise desse processo tem motivado interpretações que, em grande medida tem convergido para a idéia de uma revitalização da sociedade civil, o que provocou uma revalorização da capacidade explicativa de tal conceito. Tornou-se, assim, cada vez mais comum a referência a uma “sociedade civil organizada”, capaz de opor-se tanto ao Estado como ao mercado. A partir de uma recuperação do conceito de sociedade civil, tal qual aparece na obra de Antonio Gramsci, procuraremos demonstrar a artificialidade dessa separação entre as três esferas e a necessidade de construir um conceito de Estado, que unificando sociedade política e sociedade civil, seja capaz de ir além da dicotomia Estado/mercado.

As últimas décadas do século XX presenciaram a emergência de novos movimentos sociais e de um renovado associativismo. Vinculado ao vigoroso ascenso dos movimentos sociais no final da década de 1960, à luta pela expansão dos direitos fundamentais e à afirmação da identidade de atores sociais até então marginalizados, esse processo renovou as formas tradicionais de participação política introduzindo novas táticas de mobilização popular e novas formas organizativas. Os contextos nacionais do surgimento desses novos movimentos e organizações certamente são por demais variados. Nos Estados Unidos ele esteve associado principalmente à mobilização contra a guerra do Vietnã, à afirmação da identidade de negros e mulheres e à expansão de seus direitos. Na Europa Ocidental as energias liberadas pelas manifestações estudantis de 1968 e pelas mobilizações operárias alimentaram processo semelhante. No Leste europeu e na América Latina, a luta contra regimes políticos autoritários forneceu o contexto no qual esses movimentos surgiram. De maneira genérica, podemos apontar três processos que se desenvolveram a partir do final dos anos 1960 e formataram o contexto no qual esses novos movimentos e organizações tiveram lugar: 1. Crise/Crítica das formas tradicionais de organização política consubstanciadas nos partidos comunistas e social-democratas e nos sindicatos tradicionais. 2. Crise/Crítica do Estado de bem-estar social e do seu potencial de controle e passivização das classes subalternas. 3. Crise/Crítica dos regimes antidemocráticos da América Latina e do Leste europeu. Tais processos, combinados de maneira desigual, deram origem a formas de associação e participação política que, rompendo com antigas instituições inauguraram um novo ciclo de organização popular, introduzindo práticas sociais inovadoras, criando novos espaços de participação social, reinventando a solidariedade e produzindo formas originais de organização social e política.1 A análise desse processo tem motivado um grande número de interpretações que, em grande medida tem convergido para a idéia de uma revitalização da sociedade civil, o que provocou uma revalorização da capacidade explicativa de tal conceito. Tomando como ponto de partida Hegel, Marx e Gramsci, e distanciando-se desse referencial, tornou-se cada vez mais comum a referência a uma “sociedade civil organizada”, capaz de opor-se tanto à ação do Estado como à do mercado.
Diferentes versões para a revalorização do conceito de sociedade civil podem ser encontradas em Cohen e Arato (2000, p. 53-112) e Keane (1988, 1-30).
1

3 Se o ponto de partida é a negação das teorias de Hegel-Marx-Gramsci, o referencial conceitual que deu base a grande número de teorias da sociedade civil é a teoria do agir comunicativo de Jürgen Habermas (1987). Identificando uma oposição entre o mundo da vida, por um lado, e a política e o mercado, por outro, Habermas teria identificado nesse mundo da vida o lugar no qual se realizariam a relação intersubjetiva dos cidadãos, a participação, a solidariedade e os potenciais emancipatórios da sociedade. Lembremos que para Habermas a racionalidade é dimensão intrínseca à modernidade. Mas, alerta ele, é possível identificar, duas possibilidades da racionalidade. A primeira delas diz respeito à orientação das relações dos homens com o mundo dos objetos e tem um caráter instrumental ordenando a lógica do poder, própria do subsistema administrativo, e a lógica do lucro, própria do subsistema econômico. A segunda possibilidade remete ao mudo da vida, às relações interpessoais e à interação, aqui a racionalidade tem um caráter comunicativo, próprio da participação, da opinião pública e da família. Analisando as experiências dos novos movimentos sociais e inspirando-se no Habermas de Teoria do agir comunicativo, Jean Cohen e Andrew Arato (2000) avançam uma formulação na qual a sociedade civil encontra-se no nível institucional do mundo da vida.2 A sociedade civil é, assim, entendida “como uma esfera de interação social entre a economia e o Estado, composta em primeiro lugar pela esfera íntima (particularmente a família), a esfera das associações (particularmente as associações voluntárias), os movimentos sociais e as formas de comunicação pública.” (Cohen e Arato, 2000, p. 8.) Temos então um conceito de sociedade civil que “incluiria todas as instituições e formas associativas que requerem a interação comunicativa para sua reprodução e que dependem principalmente dos processos de integração social para coordenar a ação dentro de suas fronteiras.” (Cohen e Arato, 2000, p. 483). Criada através de formas de automobilização e auto-organização, a sociedade civil moderna encontraria sua estabilidade institucionalizando-se e generalizado-se através de leis e direitos que permitiriam a reprodução cultural (liberdades de pensamento, imprensa, comunicação e expressão); a integração social (liberdade de associação e reunião); e socialização (proteção à vida privada, à intimidade e à inviolabilidade da pessoa). Muito embora o Estado seja agência de legalização desses direitos, eles nasceram externamente a ele sob a forma de demandas das esferas pública e privada do mundo da vida. Os direitos fundamentais seriam, assim, “o principio organizador de uma sociedade civil moderna”. (Cohen e Arato, 2000, p. 495) Neste desenho societal, tanto a sociedade política como a econômica surgiriam, em grande medida da sociedade civil e funcionariam como canais mediadores de controle e influência sobre os subsistemas. Tais canais de mediação, é preciso destacar, não se encontrariam completamente submetidos à razão comunicativa própria da sociedade civil. Os atores da sociedade política e da sociedade econômica permaneceriam orientados por uma racionalidade instrumental própria dos negócios públicos e privados, do estado e do mercado. Mas a sua própria existência retiraria dos subsistemas a autonomia plena e permitiria uma atuação da sociedade civil mais eficaz, assumindo um caráter ofensivo. Assim como em Habermas, a sociedade civil aparece aqui como independente do Estado e do mercado. Cohen e Arato identificam nela um terceiro setor, um domínio autônomo capaz de constituir-se em locus da expansão autolimitada da democracia. Autolimitada porque, tendo por objetivo não a ruptura com o mercado e o Estado e sim
2

Para a relação das formulações de Cohen e Arato com a teoria habermasiana do agir comunicativo, ver Avritzer (1993).

4 a compatibilização entre a razão instrumental e a razão comunicativa, tal percepção da sociedade civil afasta a idéia de transformação revolucionária, tal qual Habermas o fez ao advogar a autolimitação da práxis democrático radical (Habermas, 1997). É descartada, assim, a possibilidade de transformação radical e total da sociedade, considerada como improvável e indesejável. A utopia comunicativa da sociedade civil, partilhada por Habermas, Cohen e Arato é “ameaçada pela revolução, apesar de suas próprias origens revolucionárias” (Cohen e Arato, 2000, p. 507). A ruptura revolucionária constituiria um perigo para a democracia na medida em que conspiraria contra a institucionalização duradoura de um poder autolimitado por direitos necessários para equilibrar as forças políticas em presença. É tomando como ponto de partida as definições de Habermas, Cohen e Arato que um grande número de pesquisadores tem pensado a sociedade civil em oposição ao Estado e ao mercado (Vieira, 2000, p. 63). A idéia de um domínio paralelo e contraposto às estruturas alimentadas pelos meios do poder e do dinheiro tem sustentado as modernas noções de “terceiro setor” e “organizações não-governamentais”. Tais teorias identificam as organizações da sociedade civil como instituições autolimitadas de controle do Estado e do mercado. Mas acrescentam uma nova dimensão, presente com maior intensidade a partir da década de 1980: as associações da sociedade civil como produtoras de bens e serviços sociais. Essa dimensão tornou-se mais marcante com a reforma neoliberal do Estado e sua crescente incapacidade ou indisposição deste para prover comunidades carentes de bens e serviços considerados indispensáveis. A emergência de uma dimensão produtiva na sociedade civil tem sustentado as teorias do setor não lucrativo (Salamon et alli, 1999; Salamon e Anheier, 1997); do terceiro setor (Laville, 2000; Nyssens, 2000) ou setor público não-estatal (Bresser Pereira e Cunill Grau, 1991; Bresser Pereira, 1996). Nessas teorias, é identificada a possibilidade de uma esfera que, definindo-se como pública porque voltada ao interesse geral, coloca-se à margem do Estado, retirando sua força da sociedade civil. É esta a esfera dos novos movimentos sociais e das Organizações Não-Governamentais (ONGs) que, ocupando espaços que o Estado não pode ou não quer preencher, produzem bens e serviços de interesse coletivo. A incorporação por alguns movimentos sociais e organizações nãogovernamentais de atividades produtivas orientadas, muitas vezes, pela lógica do mercado e amparadas na ação estatal, explicita três grandes dificuldades teóricas do modelo até então apresentado. 1. O estabelecimentos de nítidas fronteiras entre Estado, mercado e sociedade civil e a afirmação de uma contraposição entre esta última e os “subsistemas administrativo e econômico”, impede a compreensão da interpenetração dessas três esferas no mundo contemporâneo. 2. A afirmação de uma sociedade civil homogênea e portadora dos impulsos positivos para a renovação democrática da sociedade deixa escapar os conflitos e antagonismo existentes no interior dessa sociedade civil. 3. Definida a sociedade civil como mola democrática da sociedade e não como lugar do conflito político e ideológico, seu “projeto utópico” aparece como a utopia que a atual relação de forças na sociedade civil permitira realizar, daí seu caráter autolimitado ser, precisamente, a limitação da ordem atual. Um retorno á teoria gramsciana do Estado pode servir como ponto de partida para uma crítica radical das teorias apresentadas e a formulação de um conceito de sociedade civil capaz de dar conta dos conflitos sociais realmente existentes.

5 Sigamos então Gramsci e passemos à análise do Estado, superestrutura complexa. Nosso ponto de partida será uma definição de Estado que permita estabelecer a relação existente entre essa superestrutura complexa e a estrutura social. Para Gramsci, “o Estado não é concebível mais que como forma concreta de um determinado mundo econômico, de um determinado sistema de produção” (Gramsci, 1977, p. 13591360). O Estado é, assim, a expressão, no terreno das superestrutura, de uma determinada forma de organização social da produção. As relações entre Estado capitalista e o mundo econômico (relações entre superestrutura e estrutura) não podem ser determinadas de maneira fácil sob a forma de um simples esquema. Para entendê-las é preciso ter em mente que esses dois conjuntos formam uma totalidade que possui, em seu interior, diversas temporalidades.3 O desenvolvimento destes conjuntos encontra-se intimamente vinculado e marcado por influências, ações e reações recíprocas, pelas lutas que protagonizam as classes em presença e as formas superestruturais destas no terreno nacional e internacional. Reconhecer esses vínculos não implica em admitir que transformações no mundo econômico provoquem uma reação imediata a modificar as forma superestruturais, ou vice-versa. Um certo descompasso entre as mudanças ocorridas nesses conjuntos é, até mesmo, previsível, muito embora exista uma tendência à adequação de um a outro. Esta tendência não é, senão, a busca de uma otimização das condições de produção e reprodução das relações sociais capitalistas através da unidade econômica e política da classe dominante, unidade que se processa no Estado. Desta forma o Estado é concebido “como organismo próprio de um grupo, destinado a criar as condições favoráveis à máxima expansão do próprio grupo” (Gramsci, 1977, p. 1584). Mas atenção, essa expansão para ser eficazmente levada a cabo, não pode aparecer como a realização dos interesses exclusivos dos grupos diretamente beneficiados. Ela deve apresentar-se como uma expansão universal — expressão de toda a sociedade —, através da incorporação à vida estatal das reivindicações e interesses dos grupos subalternos, subtraindo-os de sua lógica própria e enquadrando-os na ordem vigente. Incorporação essa que é o resultado contraditório de lutas permanentes e da formação de equilíbrios instáveis e de arranjos de força entre as classes. Processo limitado pelas necessidades de reprodução da própria ordem e que se restringe, portanto, ao nível das reivindicações econômico-corporativas. Fica claro que a definição de Estado até aqui esboçada procura evitar uma concepção que o reduz ao aparelho coercitivo. A construção do consenso também encontra lugar nesse Estado. O Estado tem, dessa maneira, um caráter dual, meio homem, meio animal, como o Centauro maquiaveliano.4 Chegamos ao ponto da exposição no qual se faz necessário precisar os contornos do Estado. O Estado é, aqui, entendido em seu sentido orgânico e mais amplo como o conjunto formado pela sociedade política e sociedade civil, ou para retomar uma fórmula já clássica, “Estado = sociedade política + sociedade civil, ou seja, hegemonia encouraçada de coerção”. (Gramsci, 1977, p. 763-764.) Tomemos estes dois termos chaves: sociedade política e sociedade civil. O conceito de sociedade política está claro no texto gramsciano. Trata-se do Estado no sentido restrito, ou seja, o aparelho governamental encarregado da administração direta
Este desencontro dos tempos das superestruturas e das estruturas constitui a maior dificuldade enfrentada pelas teorias instrumentalistas do Estado que, definindo-o como mero reflexo do mundo econômico, não conseguem explicar as transições ao capitalismo nas quais a transformação do Estado se antecipa à plena transformação do mundo econômico. Ver a esse respeito os comentários de Saes, 1994, p. 20. 4 Ver, por exemplo, Gramsci, 1977, p. 1576.
3

6 e do exercício legal da coerção sobre aqueles que não consentem nem ativa nem passivamente. Gramsci não perde, em momento nenhum, esta dimensão do Estado, ou seja, não perde de vista sua dimensão coercitiva, muito embora não reduza o Estado a ela. Mais complicado é o conceito de sociedade civil. Seja porque no texto gramsciano ele tem contornos bastante imprecisos; seja, porque não existe apenas uma definição para o termo; seja porque na linguagem política contemporânea a expressão “sociedade civil” foi incorporada fazendo, muitas vezes, referências ao próprio Gramsci, embora com um sentido diferente; seja por tudo isso, a confusão é grande.5 Responsável por parte considerável dessa confusão é a interpretação canônica de Norberto Bobbio (1999) do conceito de sociedade civil em Gramsci.6 Identificando uma dicotomia entre sociedade civil e Estado no pensamento gramsciano, Bobbio afirmou que Gramsci afastou-se da acepção marxiana do primeiro termo. Enquanto para Marx o momento da sociedade civil coincidiria com a base material da sociedade, a infraestrutura, para o marxista italiano a sociedade civil “não pertence ao momento da estrutura, mas ao da superestrutura”, afirma Bobbio. (Idem, p. 54).7 Para sustentar sua tese, Bobbio recorre às notas de Gramsci sobre os intelectuais, particularmente à passagem onde se lê: “É possível, por enquanto, estabelecer dois grandes ‘planos’ superestruturais, o que se pode chamar de ‘sociedade civil’, ou seja, do conjunto de organismos vulgarmente chamados ‘privados’ e o da ‘sociedade política ou Estado’ e que correspondem à função de ‘hegemonia’ que o grupo dominante exerce em toda a sociedade e a de ‘domínio direto’ ou de mando que se expressa no Estado e no governo ‘jurídico’.” (Gramsci, 1977, p. 1518 e Bobbio, 1999, p. 55) Tal é, sem dúvida, a acepção mais freqüente que o termo sociedade civil encontra nos Cadernos do cárcere. Nessa acepção, a sociedade civil, é entendida como o “conjunto de organismos vulgarmente chamados ‘privados’” (Idem). A lista de tais organismos é grande, mas conhecida: igrejas, escolas, associações privadas, sindicatos, partidos e imprensa, são alguns deles. A função desses organismos é articular o consenso das grandes massas e a adesão destas à orientação social impressa pelos grupos dominantes. São eles os que definem o conteúdo ético do Estado, nas palavras de Grasmci. (Gramsci, 1977, p. 703.) Não é demais alertar, entretanto, que este conjunto de organismos não é socialmente indiferenciado. Os cortes classistas e as lutas entre os diferentes grupos sociais atravessam esse conjunto de organismos. Este alerta se justifica na medida em que, no vocabulário político hodierno, um conceito tocquevilliano de “sociedade civil” tornou-se preponderante. Neste conceito, sociedade civil passou a significar um conjunto de associações situadas fora da esfera estatal, indiferenciadas e potencialmente progressistas, agentes da transformação social e portadoras de interesses universais não contraditórios. Nunca é demais lembrar que além do Movimento dos Sem Terra (MST), a União Democrática Ruralista (UDR) e a Sociedaed Rural Brasileira (SRB) fazem parte, também, dessa sociedade civil. Percebida não como um todo indiferenciado, mas
Vários são os autores que identificaram o uso variado e muitas vezes indiscriminado do conceito de sociedade civil. Destacamos dois artigos a respeito: Costa, 1997 e Foley e Edwards, 1996. 6 É constrangedoramente elevado, no Brasil, o número de autores que faz referência a teoria da sociedade civil de Gramsci sem cita-lo diretamente. 7 A acepção de sociedade civil em Karl Marx pode ser localizada no conhecido “Prefácio à Contribuição à crítica da economia política” (Marx,, s.d). Para a evolução do conceito de sociedade civil em Marx ver Hunt (1987).
5

7 como um conjunto marcado pelos profundos antagonismos classistas, a sociedade civil perde seu véu ilusório. Não se trata apenas da distribuição desigual de recursos comunicativos que impediriam o livre acesso a uma esfera pública, trata-se, também, da defesa de desenhos societários antagônicos. Ao invés do local da universalização de interesses particularistas ela passa a ser vista como um espaço da luta de classes, da afirmação de projetos antagônicos e, portanto, da construção de uma utopia nãolimitada. 8 Este, entretanto, parece não ser o único significado que Gramsci atribui ao termo sociedade civil. Vejamos, por exemplo, uma passagem do texto “Alguns aspectos teóricos e práticos sobre o ‘economicismo’” presente no Caderno 13: “A formulação do movimento da livre troca baseia-se num erro teórico do qual não é difícil identificar a origem prática: a distinção entre sociedade política e sociedade civil, que de distinção metódica se transforma e é apresentada como distinção orgânica. Assim, afirma-se que a atividade econômica é própria da sociedade civil e que o Estado não deve intervir em sua regulamentação. Mas, como na realidade factual sociedade civil e Estado se identificam, deve-se considerar que também o liberalismo é uma ‘regulamentação’ de caráter estatal, introduzida e mantida por caminhos legislativos e coercitivos: é um fato de vontade consciente dos próprios fins, e não a expressão espontânea, automática, do fato econômico.” (Gramsci, 1977, p. 1589.) Gramsci parece aqui retomar o conceito de sociedade civil em Marx e Engels, o que não é percebido por Bobbio, mais preocupado em afirmar a supremacia das superestruturas.9 A sociedade civil seria o locus da atividade econômica propriamente dita; o terreno dos interesses materiais imediatos, da propriedade privada; a sociedade econômica burguesa; ou aquilo que hoje se chamaria, o mundo dos negócios. A apropriação de uma definição marxiana do conceito é admitida pelo próprio Gramsci: “É preciso distinguir a sociedade civil tal como é entendida por Hegel e no sentido em que freqüentemente (spesso) emprega-se nestas notas (ou seja, no sentido de hegemonia política e cultural de um grupo social sobre a sociedade inteira, como conteúdo ético do Estado) do sentido que lhe dão os católicos, para os quais a sociedade civil é, pelo contrario, a sociedade política ou o Estado em confronto com a sociedade familiar e a Igreja.” (Gramsci, 1977, 703) Estes dois sentidos são utilizados de modos diferentes por Gramsci. No primeiro, a sociedade civil está associada às formas de exercício e afirmação da supremacia de uma classe sobre o conjunto da sociedade. Faz parte de um programa de pesquisa que visa esclarecer não só os processos de revolução burguesa e de fundação de um novo Estado, como a longevidade e fortaleza das instituições políticas do Ocidente capitalista e a possibilidade de instauração de uma nova ordem social e política. No segundo sentido, freqüentemente apresentado entre aspas, destaca-se a capacidade de iniciativa econômica que o Estado possui no capitalismo contemporâneo. Entretanto, o que aqui cabe ressaltar é que a sociedade civil num sentido — conjunto de organismos privados responsáveis pela articulação do consenso — como no outro — locus da atividade econômica — forma um todo indissolúvel com a sociedade política. Ou seja, sociedade política e sociedade civil formam dois planos superpostos
8 9

Ver a esse respeito Dias, 1997, pp. 66-68. Sobre os dois sentidos do termo sociedade civil em Gramsci, ver Texier (1988).

8 que só podem ser separados com fins meramente analíticos. A unidade orgânica entre sociedade política e sociedade civil vale para os dois sentidos do termo. Bibliografia AVRITZER, Leonardo. Além da dicotomia Estado/mercado. Habermas, Cohen e Arato. Novos Estudos Cebrap, São Paulo, n. 36, p. 213-222, jul, 1993. BOBBIO, Norberto. Ensaios sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos e CUNILL GRAU, Nuria. O público não-estatal na reforma do Estado. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999. BRESSER PEREIRA, Luiz Carlos. Crise econômica e reforma do Estado no Brasil. Para uma nova interpretação da América Latina. São Paulo: 34, 1996. COHEN, Jean e ARATO, Andrew. Sociedad civil y teoría política. México D.F.: Fondo de Cultura Económica, 2000. COSTA, Sérgio. Categoria analítica ou passe-partout político-normativo: notas bibliográficas sobre o conceito de sociedade civil. BIB — Revista Brasileira de Informação Bibliográfica em Ciências Sociais, São Paulo, n. 43, p. 3-25, 1997. DIAS, Edmundo Fernandes. A liberdade (im)possível na ordem do capital. Reestruturação produtiva e passivização. Campinas, IFCH/Unicamp, 1997. Textos didáticos, n. 29. EHRENBERG, John. Civil society: the critical history of an idea. Nova York: New York Unievrsity Press, 1999. FOLEY, Michael W. e EDWARDS, Bob. The paradox of civil society. Journal of Democracy, v. 7, n. 3, p. 38-52, 1996. HABERMAS, Jürgen. Direito e democracia. Entre facticidade e validade. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1997, v.2. HABERMAS, Jürgen. Théorie de l’agir communicationnel. Paris: Fayard, 1987. HUNT, Geoffrey. The development of the concept of civil society in Marx. History of Political Thought, v. VIII, n. 2, 1987. KEANE, John. Democracy and civil society. Londres: Verso, 1988. LAVILLE, Jean-Louis. Le tier secteur. Un object pour la sociologie économique. Sociologia du Travail, v. 42, n. 4, p. 531-550, oct.-dec. 2000. MARX, Karl. “Prefácio à Contribuição à crítica da economia política”. In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. Obras escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, s.d., v.1. SAES, Décio. Estado e democracia: ensaios teóricos. Campinas, IFCH/Unicamp, 1994, Coleção Trajetória, 1, SALAMON, Lester M. and ANHEIER, Helmut K.. Defining the nonprofit sector: a cross-national analysis. Manchester: Manchester University Press, 1997. SALAMON, Lester M. et alli. Global civil society: dimensions of nonproft sectors. Baltimore: The John Hopkins Comparative Nonprofit Sectors Project, 1999. TEXIER, Jacques. Significati di società civile in Gramsci. Critica Marxista, Roma, a. 26, n. 5, p. 5-35, set. ott. 1988. VIEIRA, Liszt. Cidadania e globalização. Record: Rio de Janeiro, 2000.

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->