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Entre ressocializar e Punir LUCIANO BENETTI TIMM* O atual momento que vivemos no Rio Grande do Sul sobre discusso

acerca de superlotao de presdios, decises judiciais que no decretam a priso preventiva de acusados, contrasta com a reao da populao contrria posio dos juzes. Parece estarem divididos os mundos: de um lado, o dos juristas preocupados com o devido processo legal e o Estado de direito; de outro lado, o da opinio pblica. Nesse mundo construdo sobre a fico da lei penal e da Constituio, a partir de um Poder Legislativo paternalista e loteado por interesses, as prises somente seriam cabveis depois de esgotados os recursos ao acusado. E as penas deveriam servir para socializar o preso. como se somente polticas de "incluso social" evitassem o delito. E isso ingnuo, pois a distribuio de renda tem aumentado no Brasil em paralelo ao aumento da criminalidade (pelo menos de crimes violentos). Mas o sentimento da populao encontra eco na cincia. Vale aqui lembrar as lies de Gary Becker, prmio Nobel de Economia. Segundo Becker, o infrator uma pessoa comum e no um doente social, nem uma vtima da sociedade em que vive. Nesse sentido, o crime uma atividade econmica como outra qualquer. A prtica de uma infrao resultado de uma ponderao entre o benefcio auferido pelo ato, o risco de ser pego, a pena a ser aplicada e as opes alternativas de alocao do tempo, que escasso para todos. H, portanto, uma margem de escolha no delito econmico-patrimonial (maior para uns, menor para outros), ainda que a racionalidade do agente no seja perfeita. Conforme este entendimento, verdade que o combate aos ilcitos passa ento, no longo prazo, por formulao de polticas pblicas que deem s pessoas opes alternativas razoavelmente lucrativas de alocao do seu tempo com atividades lcitas. Mas certamente depende de uma maior fiscalizao (aumento da probabilidade de ser e permanecer preso); e, eventualmente, de aumento de cumprimento de pena para aqueles que por profisso optaram pelo delito. Rezo para que a prxima vtima de uma bala no seja um familiar de nossos juzes. *Professor do PPGD da Unisinos, doutor em Direito pela UFRGS