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Novos Poemas - Jorge de Lima

Novos Poemas - Jorge de Lima

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12/09/2013

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Sections

  • ISBN 85-7384-003-X
  • NOTA EDITORIAL
  • ESSA NEGRA FULÔ
  • SERRA DA BARRIGA
  • COMIDAS
  • MALEITA
  • INVERNO
  • MADORNA DE IAIÁ
  • Com quem?
  • DIABO BRASILEIRO
  • SANTA RITA DURÃO
  • JOAQUINA MALUCA
  • OS CAVALINHO
  • Eles levam os mais belos guerreiros!
  • MINHA SOMBRA
  • DOMINGO
  • POEMA DE DUAS MÃOZINHAS
  • MÊS DE MAIO
  • MEUS OLHOS
  • CREDO
  • CANTIGAS
  • SALMO
  • MEU PAÍS
  • NORDESTE
  • ENCHENTE
  • ARRANHA-CÉU
  • CRISTO REDENTOR DO CORCOVADO
  • POEMA DE NATAL
  • AVE MARIA
  • BALADA
  • FIM
  • O FILHO PRÓDIGO
  • Eu sou um corpo distraído
  • POEMA RELATIVO
  • MULHER PROLETÁRIA
  • FELICIDADE
  • POEMA DO NADADOR
  • POEMA À IRMÃ
  • POEMA À BEM-AMADA
  • POEMA A MARCEL PROUST
  • VOLTA À CASA PATERNA
  • POEMA À PÁTRIA
  • BICHO ENCANTADO
  • BANGÜÊ
  • HISTÓRIA
  • DEMOCRACIA
  • RETRETA DO VINTE
  • D. Pedro II espia do alto (As barbas tão alvas tão alvas nem sei!)
  • QUICHIMBI SEREIRA NEGRA
  • ZEFA LAVADEIRA
  • BENEDITO CALUNGA
  • LADEIRA DA GAMBOA
  • PASSARINHO CANTANDO
  • EXU COMEU TARUBÁ
  • ANCILA NEGRA
  • O BANHO DAS NEGRAS (Início de A mulher obscura,)
  • CACHIMBO DO SERTÃO
  • OBAMBÁ É BATIZADO
  • POEMA DE ENCANTAÇÃO
  • REI É OXALÁ, RAINHA É IEMANJÁ
  • FOI MUDANDO, MUDANDO
  • JANAÍNA
  • QUANDO ELE VEM
  • PRA DONDE QUE VOCÊ ME LEVA
  • MARIA DIAMBA
  • OLÁ! NEGRO

JORGE DE LIMA

NOVOS POEMAS POEMAS ESCOLHIDOS POEMAS NEGROS

© by Editora Nova Aguilar S.A. Rua Dona Mariana, 250, casa I — Botafogo CEP: 22280-020 - Rio de Janeiro, RJ Tel/Fax: 537-7189 - 537-8275 Capa: Victor Burton

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE. SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ. L698n Lima, Jorge de, 1893-1953 Novos poemas ; Poemas escolhidos ; Poemas negros / Jorge de Lima. — Rio de Janeiro : Lacerda Ed., 1997. ISBN 85-7384-003-X 1. Poesia brasileira. I. Título : Novos poemas. II. Título : Poemas escolhidos. III. Título : Poemas negros. 97- 0481 CDD 869.91 CDU 869.0(81)-1

NOTA

EDITORIAL

A trajetória da poesia de Jorge de Lima pode ser dividida em quatro fases, com mais clara ou mais sutil diferenciação. Nascido em 1893, a primeira feição do poeta alagoano — nos poemas dispersos ou nos do livro de estréia, XIV alexandrinos — é a de um ortodoxo neoparnasiano. A influência de Bilac é evidente, sobretudo nas chaves de ouro, com a antítese característica: “Mudo que quer ter voz e ao ter voz quer ser mudo!”; “A Ciência que sonha e o verso que investiga.”; “O rir bom de Jesus e o riso mau de Judas.”, etc. Curiosamente, em um soneto de 1913, “Meu decassílabo”, descobrimos, na mesma época, a mais direta influência de Augusto dos Anjos: “Como às vezes no Bom surge uma inata / E atávica tendência de ser fera...”; — “Herdeiro dos pavores do Selvagem / E dos vícios, das dores, das desgraças / Originárias de milhões de raças...” Em 1925, subitamente, acontece a adesão ao Modernismo, com o poema “O mundo do menino impossível”, republicado em Poemas, em 1927. Neste livro, assim como em Novos poemas, de 1929, Poemas escolhidos, de 1932, e Poemas negros, só reunidos em 1947, encontramos a segunda fase, ortodoxamente modernista, de Jorge de Lima. A temática regional, o coloquialismo da língua, o folclorismo, a enumeração de um léxico típico, do topomínico ao onomástico e ao culinário, caracterizam o estilo dessa segunda fase, marcada também por um constante interesse temático pelo elemento negro, que a singulariza em relação a diversas individualidades poéticas então preocupadas com uma redescoberta do Brasil, por mais distante que tudo isso esteja, paradoxalmente, do que pelo resto do mundo significou a expressão “modernismo”.

escrito em parceria com Murilo Mendes. dá início ao que poderíamos caracterizar como quarta e última fase. que conquistou todo o Brasil com a sua irresistível “Negra Fulô”. e o enorme conjunto lírico de A invenção de Orfeu. A túnica inconsútil.Em Tempo e eternidade. uma caudal claudeliana. Os Editores . Há um sopro bíblico claramente identificado. Em Anunciação e encontro de Mira-Celi. aparece o católico militante. de 1935. que dominaria a terceira fase. o Livro de sonetos. de 1938. Estas características — o uso cada vez maior do inconsciente. de 1949. Poemas escolhidos e Poemas negros. encontrará o leitor a feição mais típica do Jorge de Lima da segunda fase. assim como no que lhe sucede. o universalismo e a aproximação da poesia pura — se radicalizariam nas duas últimas obras. reunindo os Novos poemas. esse elemento surrealista. neste livro. de 1952. Na presente edição. ao lado de uma sensível aproximação ao Surrealismo. o regionalista e folclorista. mais universal e — ainda que totalmente católico — menos explicitamente militante.

NOVOS POEMAS A Isolina e Heráclito Belfort Gomes de Sousa .

para vigiar a Sinhá pra engomar pro Sinhô! Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) . Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô! Ó Fulô! (Era a fala da Sinhá) — Vai forrar a minha cama. Fulô! Essa negra Fulô! Essa negrinha Fulô ficou logo pra mucama.ESSA NEGRA FULÔ Ora. pentear os meus cabelos. vem ajudar a tirar a minha roupa. se deu que chegou (isso já faz muito tempo) no bangüê dum meu avô uma negra bonitinha chamada negra Fulô.

vem abanar o meu corpo que eu estou suada.” . que eu estou com sono. Fulô! vem coçar minha coceira. Entrou na perna dum pato saiu na perna dum pinto o Rei-Sinhô me mandou que vos contasse mais cinco.” Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô? Ó Fulô? Vai botar para dormir esses meninos. Fulô! “Minha mãe me penteou minha madrasta me enterrou pelos figos da figueira que o Sabiá beliscou. vem me contar uma história. vem me catar cafuné. Fulô! Essa negra Fulô! “Era um dia uma princesa que vivia num castelo que possuía um vestido com os peixinhos do mar. vem balançar minha rede.vem me ajudar. ó Fulô.

) Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô? Ó Fulô? Cadê meu lenço de rendas cadê meu cinto. cadê meu terço de ouro que teu Sinhô me mandou? Ah! foi você que roubou.) Cadê meu frasco de cheiro que teu Sinhô me mandou? — Ah! foi você que roubou! Ah! foi você que roubou! O Sinhô foi ver a negra levar couro do feitor.Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Fulô? Ó Fulô? (Era a fala da Sinhá chamando a Negra Fulô. A negra tirou a roupa. Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! . O Sinhô disse: Fulô! (A vista se escureceu que nem a negra Fulô. Ah! foi você que roubou. meu broche.

cadê teu Sinhô que nosso Senhor me mandou? Ah! foi você que roubou.O Sinhô foi açoitar sozinho a negra Fulô. negra Fulô? Essa negra Fulô! . de dentro dele pulou nuinha a negra Fulô Essa negra Fulô! Essa negra Fulô! Ó Fulô? Ó Fulô? Cadê. foi você. A negra tirou a saia e tirou o cabeção.

do jeito de mama. de ventre de negra! Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu! Cadê teus bumbuns. batuques e baques! E bumbas! . de anca. teus jongos? Serra da Barriga. de verde! E tu. de noiva. redonda. as tuas noite de mandinga. Serra da Barriga. curros-curros e bumbas. cobrindo sovacos de sucupira. de contas. de panos-da-costa. de quilombos! Serra da Barriga! Te vejo da casa em que nasci. buchuda. de nuvem. barrigas de baraúna! Mundaú te lambeu! Mundaú te lambeu! De noite: tantas. Que medo danado de negro fujão! Serra da Barriga. cheirando a maconha.SERRA DA BARRIGA Serra da Barriga! Barriga de negra-mina! As outras montanhas se cobrem de neve. teus sambas. de argolas. de Loanda. cheirando a liamba? Os teus meios-dias: tibum nos peraus! Tibum nas lagoas! Pixains que saem secos.

nem troncos. levando nos braços Zumbi! .E cucas: ô ô! E bantos: ê ê! Aqui não há cangas. tu desabando. gozando Zumbi! Depois. caindo. mexendo. nem banzos! Aqui é Zumbi! Barriga da África! Serra da minha terra! Te vejo bulindo. minha serra.

jiló! Iaiá me coma. sou quimbombô! Cobrei sustância com mocotó! Iaiá me diga. pimenta. você botou nome santo? Papos-de-anjo. nessa comida você botou mulata em pó? Iaiá me coma sou quimbombô! Ai Bahia de Todos os Santos.COMIDAS Comer efó. Quindins-de-convento. . até nos pecados das comidas. Peitinhos-de-freira. o poema das suas comidas foi São Benedito quem lhe ensinou? Baba-de-moça. Fatias-da-sé! Ai! Bahia de Todos os Santos.

Toicinho-do-céu! Bênção. Levanta-marido. Arroz com efó. Pimenta. esse tempeiro tem mocó! Lá vem tabuleiro! Cocadas. pipocas! Lá vem verdureiro: Pimenta. Suspiros. Frei Tomé! Moqueca. estas comidas têm mandinga! Bahia. dendê. jiló! Lá vem Frei Tomé: Barriga-de-freira.Olho-de-sogra. Trouxinhas. Fatias-paridas. jiló! Me coma Iaiá que eu sou quimbombô! que eu sou quimbombô! Lá vem tabuleiro de amendoim! Comidas gostosas mexidas por mim! Me compre Iaiá . e Mimos-do-céu! Bahia.

por São Bom Jesus Senhor do Bonfim! .

o caboclo está tremendo.MALEITA Lá vem maroim. Minha madrasta Maleita foi você que me enterrou. pra esquentar esta maleita. A terra está suando poças d’água. lá vem muriçoca sambando com pium. lá vem carapanã. a lagoa está dormindo. está sambando com pium! . está sambando com pium. meu São Sol. pra secar estas lagoas. O caboclo está tremendo. Quem sabe se por um figo que o destino beliscou? Manda um rabinho da seca de 77. Mas vem correndo um vento frio e até a água se arrepia.

Zefa! Vai nascer tudo. feijão. carás. e chuva e mais chuva! Vai nascer tudo: milho. .INVERNO Zefa. Zefa! Águas nas locas. até de novo teu coração. chegou o inverno! Formigas-de-asas e tanajuras! Chegou o inverno! Lama e mais lama. chuva e mais chuva. Zefa! Vai haver verde. verde em ti. verde na terra. que eu quero bem! Formigas-de-asas e tanajuras! O rio cheio. Zefa. verde nos galhos. barrigas cheias. Zefa! Formigas-de-asas e tanajuras! Chegou o inverno! Chuva e mais chuva! Vai casar tudo. verde do bom. pitus gostosos. cabojes. mulheres cheias.

terras-caídas. trovão.moça e viúva! Chegou o inverno! Covas bem fundas pra enterrar cana. os caborés piando. E mais gostoso que isso tudo: noites de frio. lá fora a chuva. Zefa! Dentro da nossa casa de palha: carne-de-sol .. os caborés gemendo. corisco.. milho e canjica pra São João! E tudo isto. cana caiana e flor de Cuba! Terra tão mole que as enxadas nela se afundam com olho e tudo! Leite e mais leite pra requeijões! Cargas de imbu! Em junho o milho. lá fora o escuro. Zefa. Zefa! Os cururus cantando. corgos gemendo.

. cigarro. cachaça. Zefa..chia nas brasas. Zefa. . terras-caídas e vento e chuva. chuva e mais chuva! Mas tudo isso.. corisco. só com os poderes de Jesus Cristo! . trovão. chuva e mais chuva. farinha-d’água.. rede gemendo.. vamos dizer.. café. Tempo gostoso! Vai nascer tudo! Lá fora chuva.

Mas que cheiro gostoso tem Iaiá! Que vontade doida de dormir. Com quem? Ram-rem. pende a cabeça.. que calor! Iaiá tira a camisa. tão molengo. . toma aluá. Com quem? Cheiro de mel da casa das caldeiras! O sagüim de Iaiá dorme num coco. A mucama de Iaiá tange os piuns.MADORNA DE IAIÁ Iaiá está na rede de tucum. Iaiá ferra no sono. pula pra rede.. limpa o suor. que Iaiá tem vontade de dormir. Que preguiça. balança a rede. prende o cocó. tão dengoso. canta um lundum tão bambo.

. tão molengo... canta um lundum tão bambo. na rede de tucum. Sonha com quem? .. a moleca de Iaiá balança a rede. tange os piuns.. olha o curral: — um bruto sossego no curral! Muito longe uma peitica faz si-dó. si-dó.abre-se a rede.. que Iaiá sem se acordar.. cala o ram-rem. tão dengoso. se estira e se abre toda. como uma ingá. Pára a mucama de cantar. Antes que Iaiá corte a madorna. tange os piuns. abre a janela.. si-dó. si-dó. se coça.

terno de casimira pra quando a Zefa me ver! Capeta. capeta. botina de bico fino. quero comprar gravata. onde está? Credo. dente-de-ouro. cheiro de enxofre. quero que Sêo Vigário me case logo com a Zefa! Capeta tome galinha preta! Capeta. pé-de-pato. diabo brasileiro. tome galinha preta. quero acertar com o bicho. quero dormir com a Zefa! Capeta. quando dá a centena do macaco? Quero quebrar banqueiro. galinha preta! Credo em cruz. pé-de-pato! Diabo brasileiro. botija. dente-de-ouro. botija. capeta. quero dormir com a Zefa! Capeta. pé-de-pato. quero casar com a Zefa. botijas. tome galinha preta! . tome galinha preta! Capeta. pé-de-pato! Diabo brasileiro quero saber quando dá a dezena do carneiro? Enxofre. capeta. só lhe dou galinha preta! Capeta. capeta danado. diabo brasileiro. bode preto. pé-de-pato! Capeta.DIABO BRASILEIRO Enxofre. pé-de-pato. dente-de-ouro. galinha preta! Credo em cruz.

que eu quero saber embolada. camisa. capeta. quero ser um cantador. que eu quero. pé-de-pato! Tome galinha preta! . que eu quero quebrar banqueiro. capeta. capeta. pé-de-pato tome galinha-preta! Quero saber suas partes. que eu quero casar com a Zefa. pé-de-pato. tome galinha preta. bengala castão de ouro. tome galinha preta. quero dizer à Zefa essa quentura de amor! Capeta. dente-de-ouro. pé-de-pato.Capeta. que eu também sou brasileiro! Capeta. quero capa de borracha. suas sabedorias. quero saber martelo. que eu não quero trabalhar. quero saber mandingas. que eu quero tirar botija. quero dente de ouro. capeta. Por Deus. tome galinha preta. punho engomado.

. que nem cabocla. caboclo de bagaceira ou cangaceiro do sertão. não têm beijos de maracujás-de-estalo. essa florzinha espia-caminho que moça não pode ver! As tuas semanas-santas não têm flores-de-quaresma para alegrar Nossa Senhora que perdeu Nosso Senhor! As tuas frutas são como essas frutas de cera (enfeites de certas mesas). As tuas caatingas não têm burras-leiteiras que dão leite. não têm pau-sangue que verte sangue. Sêo Durão! Nos teus caminhos não há malmequeres. não há. não tem feijão mulatinho. nem norte. nem sul. todas as luas.SANTA RITA DURÃO Durão! que apelido bom para um caboclo pachola. não tem sertão. flor-de-relógio. não têm peitinhos de jaracatiás. capaz de bancar Caramuru no bando de Lampião! Mas teu Brasil. não tem nada. vassoura-de-botão. oiticoró. não tem mandioca-gomo-roxo. Caramuru. nem no teu mato há catolé. cabaço de marimba. barbatimão! Nas tuas roças não tem banana-samburá. Sêo Durão.

plantado num caco de panela. um pé de saudade roxa.não têm imbés chupando troncos de baraúnas tão grossas. tão pretas como pretas-minas! E os teus quintais não têm. E agora. poderiam ser cangaceiros do grupo de Lampião. pra o enterro dos manezinhos que se não morressem (quem sabe. Sêo Durão?). agora vão ser anjinhos pra glória de Deus! Amém! .

você foi bonita. nos peitos. Tão suja de vício. Joaquina Maluca.JOAQUINA MALUCA Joaquina Maluca.. não é? Talvez pra não ver o que o mundo lhe faz. Você ficou lesa.. nem sabe o que é! . você ficou lesa não sei por que foi! Você tem um resto de graça menina... tão pura. Tão lesa. não foi? Você tem um resto de graça menina não sei onde é. não sei onde é. você ficou lesa. não foi? Talvez pra não ver o que o mundo lhe fez. nem sabe o que o foi. Joaquina Maluca. tão limpa de culpa. na boca.

O realejo toca. Os cavaleiros riem. o mundo é que vem rodar em torno dos cavalinhos. rodam. para onde te levaram os teus corcéis? . Eles levam os mais belos guerreiros! Que felizes guerreiros! As suas damas vão com eles à peleja! E em vez dos cavalinhos irem pelo mundo. Poeta. rodam. Eles rodam. As damas estão alegres. marcam na terra o limite do mundo.OS CAVALINHO Os cavalinhos ficam nas noites de festa dentro das mil e uma noites.

eu só queria ter o humor que você tem. vai cobrindo o rascunho dos meus poemas sem saber ler e escrever. E a minha sombra tão comprida brinca de pernas de pau. E a minha sombra fica do tamaninho de quando eu era menino. ter a sua meninice. fazer como você faz.MINHA SOMBRA De manhã a minha sombra com meu papagaio e o meu macaco começam a me arremedar. Depois é tardinha. E de noite quando escrevo. ser igualzinho a você. Depois é meio-dia. como eu fazia em criança: Minha sombra você põe a sua mão por baixo da minha mão. Minha sombra. E quando eu saio a minha sombra vai comigo fazendo o que eu faço seguindo os meus passos. .

e a mata escutava o canto de prata.” Ah! que saudades que eu tenho da aurora de minha vida! Ah! Casimiro.DOMINGO “Amanhã é domingo pede cachimbo. O menino é carolho furou teu olho. A areia é fina deu no sino. Somente o tenente ficava danado. A mata é valente deu no tenente. O tenente é mofino deu no menino. botões areados. tenente da guarda. E a gente trepava na torre da igreja e o sino da igreja cantava tão alto que o galo monteiro olhava de baixo ciscando na areia com inveja do sino. O galo monteiro pisou na areia. A areia era fina nos pés sem sapatos. subia na torre atrás do menino! . a aurora de minha vida foi um domingo bonito: Logo cedo o galo monteiro cantava no pátio e a aurora saía do canto do galo e o Zuza da Lica. rondava fumando a casa da Aurora! (Aurora Carvalho — cunhada do padre!) O sino da igreja chamava pra missa. de quepe nos olhos. O sino é de prata deu na mata.

” .Os olhos carolhos olhavam de cima: Tenente mofino! Tenente mofino! “Amanhã é domingo pede cachimbo. O galo montês pisou na areia. A areia é fina deu no sino. O menino é carolho furou teu olho. O sino é de prata deu na mata. O tenente é mofino deu no menino. A mata é valente deu no tenente.

passei tanta correnteza. conheci tanto perau fundo! E você. nunca me disse seu nome. pra eu fazer um poeminha pra você! . São Jorge que me cedeu o seu nome pra meu pai me batizar.FLOS SANCTORUM Santa Bárbara que nos livra do corisco. meu anjo-da-guarda. São Gonçalo casador. que escolheu o seu dia pra eu chegar nesse mundo. que só não me deu seu cavalo porque o pobre do bichinho não podia descer da lua! Pulei tanta tacha de engenho. São Bento que cura mordida de cobra.

sermões. Louvado seja o meu país cristão pelo tempo da Páscoa descoberto todo enfeitado como um céu aberto.S. Jesus Cristo e a Mãe d’Ele — Nossa Senhora. amen. vita cetema. Aleluia.LOUVADO Louvado seja N. Louvado seja o que é d’Ele e d’Ele vem: ritos. benditos. Louvadas sejam as coisas religiosas: santas missões e procissões. . são beneditos! Louvadas sejam suas palavras tão bonitas: Glória Patri. minha madrinha. amitos. Louvados sejam os santos nacionais martirizados pelos caetés. salve-rainha e também suas palavras misteriosas: per omnia scecula. minha madrinha. Louvadas sejam as virtudes teologais e entre elas três seja louvada a Fé. Louvado seja este “louvado” em nome d’Ele e mais louvado que esse louvado — Jesus Cristo mas a Mãe d’Ele — Nossa Senhora.

a quem todo brasileiro ofende tanto contando sempre com o seu perdão. Cristo bonzão. . Jesus camarada.Louvado seja esse Jesus daqui.

E aquelas mãozinhas dormiam unidinhas qual João mais Maria. Sêo vizinho. viviam as duas qual João mais Maria. Cata-piolhos. o Pai-de-todos. . Sêo Fura-bolos. armavam castelos de areia na praia. tão brancas. riscavam as paredes. quebravam os bonecos.POEMA DE DUAS MÃOZINHAS E aquelas mãozinhas. tão leves. “Dedo-mindinho. A boca da noite o Cata-piolhos rezava baixinho: “Pelo sinal da Santa Cruz livre-nos Deus Nosso Senhor”.

Quem compra um boneco da loja de Deus? . ligados. e João mais Maria.” Mas noites de lua cheinhas de estrelas... E aquelas mãozinhas viviam sujinhas qual João mais Maria.. juntinhos.. Um dia (que dia!) o Dedo-mindinho feriu se num espinho...quede o toicinho? — o gato comeu.. quebrados.. E à boca da noite o Cata-piolhos deixou de rezar. O Pai-de-todos cuidava dos outros: nasciam berrugas no Cata-piolhos. pararam em cruz cobertos de fitas que nem dois bonecos sem molas. Sêo Fura-bolos contava as estrelas.

fora os domingos. mesinho brasileiro! O Brasil quis fazer anos escolheu seu dia três.MÊS DE MAIO Mês de maio! Ai! mês bem feito que tem o dia primeiro pra ser Dia do Trabalho. tem dia santo de guarda que é o dia nove de maio. ai. meu bem. fora os dias emprensados que a gente deve guardar. Comemorando esses dias o brasileiro só deve pensar mesmo em descansar! Quem trabalhou mais que Pai João cavando a terra com a enxada? . tem o maior dia santo dia do Corpo de Deus. descansar! Mês de maio. mês de maio. — Comemorando este dia vamos. Comemorando este dia vamos todos descansar! Mês de maio.

mês santinho! Nossa Senhora escolheu este mês pra ser mês dela. ... vamos nos deitar? Mês de maio. Nossa Senhora não deixe este mesinho acabar.Dia 13 de Pai João! Meu bem...

não é? Meus olhos pretos. minha madrinha.MEUS OLHOS Nossa Senhora. minha madrinha. felizes deles! Meus olhos pretos. tu vês as coisas verdes. Coitados deles. que eu quero ver verdes os dias que inda virão. minha madrinha. Nossa Senhora. não é? Teus olhos verdes. minha madrinha. tu vês meus olhos como eles são? . cor de carvão! Nossa Senhora. felizes deles. tu vês as coisas verdes. Nossa Senhora da Conceição! Nossa Senhora. só vêem as coisas como elas são. Nossa Senhora. dá-me teus olhos para eu ver com eles meus pobres olhos. minha madrinha. coitados deles! Teus olhos verdes. minha madrinha pinta meus olhos.

seja feita — a tua vontade.. procura pra mim. Que força me dava a tua oração! Santa Maria.. Santa Maria.” santificado seja teu nome. Que força me dava a tua oração! Santa Maria.. mãe de Jesus! . perdi as armas que Deus me deu! “Padre Nosso que estás no céu. mãe de Jesus.. meu Creio em Deus Padre. Eu era menino: Creio em Deus Padre.” perdi meu Credo que tu me deste.CREDO “Padre nosso que estás no Céu. mãe de Jesus. e faze que eu ache meu credo de novo! Eu era menino: Creio em Deus Padre.

são tão sujas como a roupa. E as cantigas levam os bois.. tão pesadas como os bois. Lavam as almas dos pecadores! Levam as almas dos pecadores! . a carga é tão grande! O caminho é tão comprido que não tem fim. As cantigas são tão bonitas. As almas negras pesam tanto. As cantigas são tão boas. As cantigas são leves..CANTIGAS As cantigas lavam a roupa das lavadeiras. tão pensativas! As cantigas tangem os bois dos boiadeiros! — Os bois são morosos. que as lavadeiras ficam tão tristes... batem a roupa das lavadeiras...

está no Livro: 1º Louvai ao Senhor no seu santuário. 3º Louvai-o ao som da trombeta. louvai-o com címbalos de júbilo. 4º Louvai-o com adufe e frauta. Senhor! Aceite. louvai-o no firmamento de sua virtude. vou fazer uma novena! Ladainhas pra sua Mamãe. 5º Louvai-o com címbalos sonoros. Senhor. quem está lhe dando! . Címbalos e cítaras não tenho não! Mas vou fazer uma procissão pra você. louvai-o segundo a multidão de sua grandeza. Aleluia! Senhor.SALMO Ó Deus. 2º Louvai-o nas virtudes dele. meu Deusinho! É Abel. 6º Todo espírito louve o Senhor. louvai-o com cordas e órgão. louvai-o com saltério e citara. Pra seu Menino.

meu País! Entretanto.MEU PAÍS O País mais novo deste mundo eras tu. as histórias encantadas desse vosso País! Deus amado. Sei que estou olhando pra cima. o meu velho País! . pelo vosso País! Os meus olhos-marujos dizem: — É ali! É ali! Contai aos marujos. eu um dia. Deus amado. lá de cima. meu País! Deus amado. para o vosso País! E o País mais novo deste mundo eras tu. E enfim eu não sei se sou feliz ou se sou infeliz. meus pés correram descalços. irei ver esse vosso País! Quero olhar. Deus amado. eu tenho a curiosidade dos navegadores. prometo. pelo meu País.

POEMAS ESCOLHIDOS (1925 a 1930) .

Cabeleira aí vem! Sertão! Pedra Bonita! Tragam uma virgem para D. sim senhor. que a minha madrasta Seca torrou seus anjinhos para os comer. São Tomé passou por aqui? Tranca a porta. terra de São Sol! Irmã enchente. gente. Terra de Deus! Terra de minha bisavó que dançou uma valsa com D. vamos dar graças a Nosso Senhor. Lampião! . sim senhor! Pajeú! Pajeú! Vamos lavar Pedra Bonita.NORDESTE Nordeste. com o sangue de mil meninos. Pedro II. São Tomás passou por aqui? Passou. meus irmãos. Sebastião ressuscitou! S. amém! D. Tomé passou por aqui? Passou.

seu canoeiro que eu emborco a sua canoa!” E rodou com o canoeiro e virou a canoa mesmo. E entrou nos fundos das casas e saiu nas portas da rua. ainda outro dia. Pulou das pedras embaixo. que correram pra os barreiros. você. tirou ingá e comeu. Fez até medo às piabas. minha velha!” E o rio cresceu. meu filho. lavava até os pratos de minha cozinha!” — “Não duvide. espumando como um doido. Entrou na camarinha e lá se foi com a almofada da velha! — “Deus te favoreça. Subiu no olho da ingazeira. na hora de vadiar? — É uma cabeça de enchente que veio ontem de tardei E o rio deu pra falar grosso e bancar Zé-pabulagem: — “Não duvide que eu levo a sua almofada de fazer renda.ENCHENTE — Por que as jandaias e os periquitos estão gritando como os [meninos do Grupo. Só os meninos estão satisfeitos: . era tão manso.

e a professora fechará a escola! — “Deus permita que o rio encha mais!” — “Deus permita que o rio encha mais!” .— “Deus permita que o rio encha mais!” — “Deus permita que o rio encha mais!” Quando o rio entrar na rua. as salas de visita serão banheiros. Eles deitarão barquinhos de cima das janelas.

Então desceu.. quis. O campeão foi pelos andares parando.ARRANHA-CÉU O campeão mundial de misticismo. Viu. naquela época avançada. desceu e atravessou o asfalto com um medo danado de morrer sem confissão debaixo dos autos.. desceu. outros heróis extraordinários. No derradeiro parou: Nem um anjo. viu outros ases. sempre em linha vertical. . que tinha batido o record de comunhões do corpo do Senhor. o campeão da ondulação permanente. parando. subir no elevador para ver o céu... no centésimo.

CRISTO REDENTOR O avô de minha avó DO CORCOVADO morreu também corcovado carregando um Cristo de maçaranduba que protegia os passos vagarosos da família. porque Ele é imutável. através de todas as perspectivas. . Ele acompanha o homem de cimento armado através de todas as substâncias. Virei homem de cimento armado. Arranjei velocidade. porque Ele é ubíquo. porque Ele é ligeiro. através de todas as distâncias. Adoro esse Cristo turista de braços abertos que procura equilíbrio na montanha brasileira. Os homens de Fé têm esperança n’Ele.

POEMA DE NATAL O meu Jesus. então. por exemplo. E quem passar vendo o menino há de dizer: ali vai o filho de Nossa Senhora da Conceição! — Aquele menino que vai ali (diversos homens logo dirão) sabe mais coisas que todos nós! — Bom dia. E em qualquer dia feriado iremos. Jesus! — dirá uma voz. Iremos ver as feras mansas que há no jardim zoológico.) . E outras vozes cochicharão: — É o belo menino que está no livro da minha primeira comunhão! — Como está forte! — Nada mudou! — Que boa saúde! Que boas cores! (Dirão adiante outros senhores. quando você ficar assim maiorzinho venha para darmos um passeio que eu também gosto das crianças. ver Cristo Rei do Corcovado.

Eu hei de inventar pretextos sutis pra você me deixar sozinho ir. E quando voltarmos pra casa. segure com força a minha mão. à noite. Menino Jesus. e forem pra o vício dos pecadores. eles sem dúvida me convidarão. . nos convidarão para irmos juntos os camaradas visitar. miserere nobis.Mas outra gente de aspecto vário há de dizer ao ver você: — É o menino do carpinteiro! E vendo esses modos de operário que sai aos domingos pra passear.

. avozinhas. adeus. rogai por nós. mãe de Deus. avozinha. onde é que eu me acoito da minha própria inquietação? Boa tarde. avozinhas. mais frias. avozinhas. avozinhas. mais tristes que as outras noites! Boa tarde. me dai uma história do vosso surrão! Me dai a Princesa Morgana-Vilão. Boa tarde. que eu sem história não durmo não! Ai que há noites mais temporãs. caminho estreito! Santa Maria. Blão! .. avozinhas. onde é que estão? Adeus. as últimas andorinhas lá vão! As vossas mãos.AVE MARIA Boa tarde ó meu caminho estreito por onde os últimos da vila vão! Boa tarde. boa tarde.

— Oferta Perdão Vladimir.) A irmã de Oulianov costura ao lado do irmão que lê todas as vírgulas de Marx. Experimenta se as minhas mãos são leves para fazer um penso. a tua irmã se feriu no dedo. que lê todas as vírgulas de Marx. para ver a irmã de Oulianov costurando ao lado do irmão que lê.BALADA Os camponeses tinham ceifado a floresta das chaminés para ver seus irmãos operários. para ver religiosamente Simbirsk. para ver Kazan. . Para mim todas as dores têm tamanho. (Plekanov é uma sombra amorosa. para ver no meio deles o de 7 anos: — Vladimir Ilitch — o irmão do enforcado. para ver o Volga. — Os camponeses tinham fome de paisagens humanas.

choros. Foi a máquina que matou o burguês e a [família dele não há.FIM Pararam as máquinas! Eita! Gritos. . que uma roda matou. — Não. pragas! Eita! — Foi o filho do operário. não foi.

Bóiam os meus olhos pelas superfícies. Há máquinas que cegam os adolescentes ansiosos de ver o progresso do mundo. Ah! que existe uma tristeza na terra que nem lágrimas produz de sua esterilidade tão seca. Cadê a luz trêmula de vela pra alumiar o meu poema antigo? O lirismo perdeu a sua liturgia. Mas os meus olhos correm mais perigo . As lâmpadas Osram velam funebremente a poesia. Um homem teve medo de enlouquecer perseguido pela força e pelo orgulho das máquinas assassinas.O FILHO PRÓDIGO Nas engrenagens das fábricas bolem como vermes — dedos decepados de operários. A cor e a alegria das moças empregadas dissolvem-se na algazarra monótona dos teares. O avião comeu a saudade das mães que a distância separou dos filhos vagabundos. Eu sou um corpo distraído. Há intestinos rotos de crianças nos vaivéns do correame das oficinas.

venho de longe.do que se andassem em acrobacias contemplativas pulando no céu alto. que já é tarde e eu quero me deitar. ando há muitos séculos a pé. Ensina-me de novo a ficar de joelhos. Vovozinha. perto das estrelas. .

ó bem-amada: — os que pregam o amor ao próximo e os que pregam a morte dele. . um barulho que às vezes parece bate-bate de asas. podem vir borboletas à procura das minhas jarras onde há flores debruçadas. quando o vento passa. ó bem-amada. que pena! Mas os coqueiros fazem.POEMA RELATIVO Vem. Todos os homens têm seus crentes. Supõe. ó amada. ó bem-amada. Não tem pássaros. ó bem-amada. Mas tudo é pequeno e ligeiro no mundo. Só o clamor dos desgraçados é cada vez mais imenso! Vem. se o vento não sopra. tão debruçadas que parecem escutar. Junto à minha casa tem um regato (até quieto o regato).

se o vento não soprar forte. que venham borboletas. Tudo é relativo e incerto no mundo. ó bem-amada. Vem. . como te disse. Também tuas sobrancelhas parecem asas abertas. porque. pode ser.Junto à minha casa tem um regato até manso. se não há pássaros no meu parque. E os teus passos podem ir devagar pelos caminhos: aqui não há a inquietação de se atravessar o asfalto.

MULHER

PROLETÁRIA

Mulher proletária — única fábrica que o operário tem, (fábrica de filhos) tu na tua superprodução de máquina humana forneces anjos para o Senhor Jesus, forneces braços para o senhor burguês. Mulher proletária, o operário, teu proprietário há de ver, há de ver: a tua produção, a tua superprodução, ao contrário das máquinas burguesas salvar teu proprietário.

FELICIDADE
Tão bonita a Lagoa Mundaú! Eu vi os meninos pobres que iam tirar sururu. Um bando deles. Uns tinham doze ou treze anos e pareciam [ter oito. Amarelos. Perto da Satuba tem um massapê ótimo. Eles amassam, amassam, fazem balas. Cozidas são mais gostosas que sururu. E quem não sabe comer [barro não sabe tirar sururu, com gosto. Comer terra! Quando a bala vermelhinha cor de telha toca na [língua a boca se enche d’água para a bala se embeber. Os meninos amarelos têm água por demais na boca. Gosto de terra não é gosto de comida, de sal, de açúcar, de [carne. É gosto diferente. De terra! É um gosto doente [como gosto de maleita. Também quem não tem maleita não sabe tirar sururu com [gosto. O frio da maleita não se importa com sol nem com chuva nem [com o frio que está por fora da gente, no ar. É um frio que vem de dentro. Dá-se a mão e a mão está com 40. Mas o frio é bom porque é [diferente dos outros frios. Os meninos que vão tirar sururu têm os olhos sumidos. Mãe-maleita dorme com eles no jirau de pau-cundu. Mãe[maleita dá-lhes sonhos de febre. Os meninos sonham coisas doidas. Que uma inglesinha que [passou uma vez numa lancha-automóvel veio urinar [no massapê. Eles sentem o gosto da inglesinha, sonhando com o gosto do

[massapê mijado. Têm outros sonhos, todos gostosos. Os meninos tiram sururu com gosto. Ao meio dia o sol tine. A [água está morna e suja. Ali pertinho já é a lama do sururu. Que gosto pisar na lama! É diferente de pisar nas praias, na neve, na grama. Os pés dos meninos têm sensibilidades inéditas. A lama abarca [o pé, entra entre os dedos, mais grossa do que baba de [boi, gruda-se na pele, dá uma coceira boa nas frieiras. Os meninos entram mais. A lama sobe. É uma carícia peganhenta [pelo corpo. As mãos descem na lama. As canoas afundam de sururu. O sol [está tinindo, mas ninguém sente calor. Tudo é bom. A miséria é boa. A lama é amorosa. Parece que a [vida é uma feitiçaria de sonho de maleita.

. a água é mansa. que restará de ti. ali é morna. Nada. nadador! A água é mansa.POEMA DO NADADOR A água é falsa. a água é doida. a água te mata. nadador! Senão. a água é doida. Nada. nadador? Nada. nadador. a água desce. Nada. a água te abraça a água te leva. nadador! A água sobe. a água é fêmea. nadador! A água te lambe. aqui é fria. a água é boa. Nada.

Ehrenstein. vem. irmã. Stramm. suicidas. operários. vem me relembrar que crescemos juntos quando os dias eram compridos e diferentes. crianças. Vem que eu quero fugir para outras paragens onde as gaivotas sejam menos inúteis e haja um coração em cada porto. que as noites vêm cedo e paira por tudo uma tristeza enorme e o silêncio é tão longo que os cães enlouquecem nas ruas.POEMA Ó irmã À IRMÃ agora. Irmã. . se tu sabes signos para mudar o tempo. leprosos e prostitutas que se lembram ainda de suas orações familiares. e os pássaros do mar tão lavados e tão alvos e tão lentos e tão sabedores de viagens venham esvoaçar sobre o meu cachimbo em que os cometas do céu se apagaram. Irmã. vagabundos. nos meus ritmos há colegas que gritam: Daubler.

adeus irmã.Há não sei onde outros ares e outras serras. Ó que noite tão longa! Que é que chora lá fora? — A humanidade ou qualquer fonte? . outros limites. Ó que noite longa.

POEMA

À BEM-AMADA

Amada, não penses, escutemos a chuva que o inverno chegou. Sejamos as árvores que Deus semeou sem nunca O ouvir, sem nunca O olhar serenos, morramos sem nos separar. Renunciemos, amada, os vãos pensamentos, cumpramos apenas a lei do Senhor sem nunca O ouvir, sem nunca O tocar, sem nunca duvidar, duvidar, duvidar. Soframos, amada, sem nos lamentar. Sejamos as árvores que Deus esqueceu, que o vento abalou e o raio abateu. Amada! Amada! Bem-aventurado quem já morreu. Escutemos a chuva, que a chuva é de Deus!

POEMA

A

MARCEL PROUST

Ó mon petit Proust, hoje o teu rosto de lua desse quadro bonito de Jacques Émile Blanche; o teu rosto de flor noturna se apagou, mon petit, e dentro de mim voltou, o sertão, o sertão, o sertão, pois, mon petit, no meu país as polícias passaram e Lampião ficou; os governadores passaram, os congressos, os chefes políticos, os exércitos, as repúblicas, as revoluções, os grandes generais passaram e Lampião ficou. A nova poesia brasileira passou e Lampião ficou iluminando tudo mais que teu rosto de lua que Jacques Émile Blanche compôs. É preciso ver: Lampião é eterno e é preciso crer na

opinião da Europa: Lampião tira dos ricos para dar aos pobres. É preciso crer nas orações fortes, é preciso crer em Lampião. Mon petit Proust, — sai do teu salão, vem ver o meu luar: não há no mundo luar como este do sertão.

Os poemas são outros. o dia foi cálido. . Os ritmos são errados. Há na parede da sala uma estampa sagrada que por mim chorou. Os caminhos são errados. fantasmas que vão. vem a nós. que a noite vem aí. que choram. assim na terra. o ritmo das horas é monótono e irreal.. as paisagens de fora. A noite aí vem cheia dos seus espantos. Há um livro aberto na minha mesa: Padre Nosso que estás no céu.VOLTA À CASA PATERNA É tarde e eu quero entrar em casa. doce casa sem elevador.. que vêm.. santificado. que riem. cheia dos seus espantos... os caminhantes são falsos. As danças do pátio. Há um raio de lua no corredor. que me beijam.. Há uma rede aqui dentro que me embalou. A luz foi intensa. Será a alma de meu pai que Deus mandou? Casa. cadê o Ford que me levou? Há sombras que passam.

importunados pelo pessoal do Limbo. irremediavelmente gêmeo. tu aderiste também. Nos teus céus os anjos já não podem solfejar. sufocados de fumaça. .POEMA À PÁTRIA Ó grande país. Teus urubus são inquietados nos teus ares altíssimos pelos aviões. Tu vais ficar irremediavelmente toda América. irremediavelmente comum.

POEMAS NEGROS .

não é sariema. Só quer te comer. Só tem olhos. não é caranguejeira.BICHO ENCANTADO Este bicho é encantado: não tem barriga. Esse bicho é encantado: não quer de-comer. . não tem tripas. não é mangangá. Babau! Não é jimbo. Que é que é Janjão? É a Estrela-do-mar que quer me esconder. só tem sombra. não é maribondo. não quer munguzá. não quer quigombô. não quer caruru. Que é que é Janjão? É a Estrela-do-mar que quer me levar. Que é que é Janjão? É a Estrela-do-mar que quer me afogar. não tem bofes. não é muçum.

Babau! .

S. é triste como uma igreja sem sino.S. purgadores. Usina Leão. negros queimados na fornalha? O seu cozinhador. é esse tal Mister Cox que tira [da cana o que a cana não pode dar e que não deixa nem bagaço . Usina Leão! Você é forte.A. é única! Mas eu estou dizendo que V.A.A é grande! Você está dizendo que U.S. que você é mesmo como um templo evangélico! Onde é que está a alegria das bagaceiras? O cheiro bom do mel borbulhando nas tachas? A tropa dos pães de açúcar atraindo arapuás? Onde é que mugem os meus bois trabalhadores? Onde é que cantam meus caboclos lambanceiros? Onde é que dormem de papos para o ar os bebedores de resto [de alambique? E os senhores de espora? E as sinhás-donas de cocó? E os cambiteiros. é forte! Você está dizendo que U.BANGÜÊ Cadê você meu país do Nordeste que eu não vi nessa Usina Central Leão de minha terra? Ah! Usina. Usina Leão! As suas turbinas têm o diabo no corpo! Você uiva! Você geme! Você grita! Você está dizendo que U. você engoliu os bangüezinhos do país das Alagoas! Você é grande.

e os cabras de faca de ponta na cintura. vestidinho de branco.. com as suas Tetês.. Nos domingos tinha missa na capela e depois da missa uma feira danada: a zabumba tirando esmola para as almas. . a camisa por fora das calças: “Mão de milho a pataca!” “Carretel marca Alexandre a doistões!” Cadê você meu país de bangüês com as cantigas da boca da moenda: “Tomba-cana João que eu já tombei!” E o eixo de maçaranduba chorando talvez os estragos que a cachaça ia fazer! E a casa dos cobres com o seu mestre de açúcar potoqueiro. o chapeuzinho do telhado sobre os olhos.com um tiquinho de caldo para as abelhas chupar! O meu bangüezinho era tão diferente. com seu banqueiro avinhado e as tachas de mel escumando. cantava em cima das tachas: “Tempera o caldo mulher que a escuma assobe. com as suas Dondons. escumando como cachorro danado. bangüê.” Cadê a sua casa-grande. E o bangüê que só sabia trabalhar cantando. com as suas Donanas alcoviteiras? Com seus Totôs e seus Pipius corredores de cavalhada? E as suas molecas catadoras de piolho. fumando o cigarro do boeiro pra namorar a mata virgem. com as suas Benbens.

bangüê? Maravalha. Burrego-dágua. cuscuz. Pau há de levá!” Você vai morrer. Corredor. você engoliu os bangüezinhos do país das Alagoas! Cadê seus quilombos com seus índios armados de flecha. De noite se tomou uma caninha pra se ter força de chorar. E você. bangüê! Ainda ontem sêo Major Totonho do Sanharó esticou a canela. bangüezinho que faz tudo cantando foi cantar nos ouvidos do defunto: “Totonho! Totonho! Ouve a voz de quem te chama .e as suas negras Calus. manuês. Cipó branco. Fazendinha. com seus negros mucufas que sempre acabavam vendidos. Menino Deus! Ah! Usina Leão. que sabiam fazer munguzás. e suas sinhás dengosas amantes dos banhos de rio e de redes de franja larga! Cadê os nomes de você. tirando esmola para enterrar o rei do Congo? “Folga negro Branco não vem cá! Si vinhé. E se fez sentinela.

vem buscar aquela alma que há treis dias te reclama!” Bangüê! E eu pensei que estavam cantando nos ouvidos de você: Bangüê! Bangüê! Ouve a voz de quem te chama!” .

Peça muito boa: não faltava um dente e era mais bonita que qualquer inglesa. depois saiu do Valongo. avança na branca e me vinga. Um libata a adquiriu por um caco de espelho. depois foi possuída pelos marinheiros. apanhou. enciumou a Sinhá. Cafute. Pegou-se com os orixás: fez bobó de inhame para Sinhô comer. fez aluá para ele beber. fez mandinga para o Sinhô a amar. apanhou. Pé-de-pato. arrastada pelos comboieiros. Pôs-se a coçar-se porque ele não ouviu. apanhou. . Não-sei-que-diga. entrou no amor do feitor. Fugiu para o mato.HISTÓRIA Era princesa. Capitão do campo a levou. Depois foi ferrada com uma âncora nas ancas. navio tumbeiro. apaixonou o Sinhô. No tombadilho o capitão deflorou-a. depois passou pela alfândega. A Sinhá mandou arrebentar-lhe os dentes: Fute. Navio guerreiro? não. Em nagô elevou a voz para Oxalá. Veio encangada para o litoral.

Para sempre seja louvado. Louvado seja Oxalá. . Neste mundão. sou só uma mulher perdida neste mundão. amuxila ela que eu não tenho defesa de homem.Exu escangalha ela. amofina ela.

de mãos-ligadas. tocando maracá. poesia. Jenipapo coloriu o meu corpo contra os maus-olhados. para salvar a minha alma benzida e meu corpo pintado de urucu. . dizendo coisas. de corações. pipoca. conversando sozinho. tive maleita.DEMOCRACIA Punhos de redes embalaram o meu canto para adoçar o meu país. conversando com os malucos. emprenhando tudo que encontrava. saudade. Mãe-negra me contou histórias de bicho. vendo espíritos. moleque me ensinou safadezas. me acabando. me misturando. de nomes de amor em todas as línguas de branco. mal-assombrado. abraçando as cobras pelos matos. tapioca. abusões. bebi cachaça com caju para limpar-me. tatuado de cruzes. carumã me alimentou quando eu era criança. catapora e ínguas. me sumindo. brincando com as crioulas. mães-d’água. tudo comi. fiquei aluado. massoca. ó Whitman. catecismo me ensinou a abraçar os hóspedes. bicho-de-pé. de mouro ou [de pagão.

talvezes. Pedro escuta. mulatos. (No centro da Praça o busto de D. (As barbas tão alvas tão alvas nem sei!) E os pares passeiam. rodando em torno da luz. as caixas. meneia a cabeça. cafuzas. Batuta à direita: de novo os trombones e as trompas soluçam. Nos bancos da Praça conversas acesas. beijocas. . parece que dançam. E os bombos e as caixas: ban-ban! Vêm logo operários. que dançam ciranda. portugas.RETRETA DO VINTE O cabo mulato balança a batuta. tintins e as vozes meninas da banda do 20. D. Pedro II espia do alto. requintas. vem tudo pra ali.) — Batuta pra esquerda: relincham clarins. parecem formigas de asas rodando. meninas. apertos. acorda com a vista os bombos. os baixos e as trompas. em torno do Rei. Vem tudo.

não sabe de nada. não. dormindo com o boto azul. Quichimbi vive nas ondas coberta de espuma branca.QUICHIMBI SEREIRA NEGRA Quichimbi sereia negra bonita como os amores que tem partes de chigonga não tem cabelos no corpo. Quichimbi sereia negra bonita como os amores dormindo com o boto azul. é lisa que nem muçum. dez mil anos assistindo as terras mudar de dono. o mar servindo de escravo ao homem branco das terras. . ao mesmo tempo pariu jurará sem urucaia. é ligeira que nem buru não tem matungo e é donzela. Quichimbi segue nas ondas dez mil anos caminhando. conservando a virgindade tão difícil de sofrer.

todas aquelas forças mencionadas. em resumo: dos homens e suas preocupações. Mas Zefa deu um muxoxo. Por eles. arrastando os pés. faz vibrar em nós o poema dos plasmas que neles se geraram. de fronhas. na toada das águas despenhadas. No remanso em que bate a roupa. mostra-me peça por peça. surgiu cantarolando uma cafuza nova. — na algazarra dos ramos. vai despindo as belezas selvagens de ninfa cafuza. de corpinhos. voltamos às Formas primeiras. amam e se perpetuam correndo a vida. lodos genésicos. compondo e recompondo um caos. E senti-a em tudo. Zefa não tinha antenas para a torrente declamatória interior de minha juventude em dias de convalescença. nos vegetais variegados como arraiais. no tumulto dos seres que sofrem. Zefa. o braço direito erguido. de lençóis e toalhas servis. — olha os lençóis — torna-nos semelhantes aos deuses. porque se julga a sós. com o pote à cabeça. Josefa — lavadeira.ZEFA LAVADEIRA (Trecho de A mulher obscura) Uma trouxa de roupa é um mundo animado de anáguas. retrocedendo pelo caminho de certas memórias obscuras. às Energias inteligentes. E desfazendo aquela trouxa de roupa com o desembaraço de Jeová. Pela vereda que vinha do rio. segurando a rodilha. E qual é a maior força desse mundo? Onde o segredo das suas atividades? — Olha o amor. ou salivas do Espírito que adejou sobre as águas. arrepanhando as fraldas. há bambus e ingazeiros .

levada nas cuias. toda lavadeira de roupa é boa cantaderia. alimentado de sofreguidões. com as mãos em concha. o cabeção de crochê impelido pelos seios duros. Depois de lavar a roupa dos outros. Depois. vestido do manto de pele negra com que nasceu. Eu estou ouvindo tudo. Eu estou relembrando a minha infância. para os sovacos. piscando a tentação de arrochos e rendições cheias de saciedades. e some-se entre as nádegas rijas. . a camisa arregaçada. começa o ensaboamento. Zefa lava a roupa que a cobre no momento. Josefa entra o caudal até as coxas morenas. para conduzi-la aos sexos em que a África parece dormir o sono temeroso de Cam. e de lamentações incorrespondidas. as mãos côncavas esperam a fugidia espuma nas pernas. Aqui. As negras aparam a espuma grossa. A água. Então Zefa lavadeira ensaboa o seu próprio corpo. transportam-na com agilidade de símios. para os flancos. eu estou enxergando tudo.pelas margens. de desejos incontidos. Outras Zefas. A cantiga é uma corruptela de velhas toadas num tom languoroso. e a axila cobre-se e descobre-se. desce em regatos de espuma pelo dorso. O braço valente arroja o pano contra a pedra de bater. quando a pasta branca de sabão se despenha pelas coxas. tostados de soalheiras. outras negras vêm lavar-se no rio. deixa-se corando sobre o capim. esmagam-na contra os seios pontudos.

nem ao pé de garrafa. pertence ao banzo que o amuxilou. Benedito Calunga calunga-ê não pertence a nenhuma ocaia nem a nenhum tati. nem mesmo a Iemanjá. . que o alforriou para sempre em Xangô.BENEDITO CALUNGA Benedito Calunga calunga-ê não pertence ao papa-fumo. Benedito Calunga pertence ao banzo que o libertou. nem ao quibungo. nem mesmo a Iemanjá. nem ao minhocão. Benedito Calunga calunga-ê não pertence ao Senhor que o lanhou de surra e o marcou com ferro de gado e o prendeu com lubambo nos pés.

Hum-Hum. .

LADEIRA DA GAMBOA Há uma rua que eu conheço Rua Barão da Gamboa tem uma ladeira de lado com o mesmo nome da rua nenhum barão mora lá mas porém gente que sua gente que sobe gente que desce gente que vai para a vida gente que dela vem não há meio de dizer-se na ladeira ninguém vem você mesmo não se agüenta pois a ladeira é um vaivém parece mesmo com a vida tem subida tem descida Barão não Poesia mesmo à toa tem lama poeira buracos tudo o que a vida possui mas polícia não tem não polícia lá não influi que a vida não tem polícia a vida é mesmo um vaivém igualmente esta ladeira dá na gente uma canseira tem subida tem descida tem mais que tudo canseira igualmente esta ladeira .

da Rua Barão da Gamboa. . Canseira. Gamboa. Que boa. Ladeira. Vida.

óleo de coco. na segunda geração: nem culatronas. uma brasileira. Serra Leoa. Maranhão. nem pés apalhetados. Ano Bom. angolas. Serra Leoa. duas estrelas-d'alva. um pai-de-terreiro. nem panos-da-costa. rainha suicidou-se com fogo. a Lua. checheré. fechada com mandinga. também de Cacheo e de Bissao. Pará. um maquinista. nem aluá. Senhor Manuel Teixeira dos Santos vem de redingote. branca.PASSARINHO CANTANDO Congos. dois estourados. Moçambique. Serra Leoa! Cabo Verde. . casada. suíças e procuração. cabindas. a Fome de abraços. Nasceu uma índia. filha-de-santo. Pernambuco. Há na sua pele três estrelas marinhas. com chácara. duas cozinheiras. dois cangaceiros. dois malandros. nem figas. Fernando Pó. a Água-viva. (o boto também gosta de teu sangue Sudão). Há no seu sangue: trê moças fugidas. Deixou uma filha sagrada com água benta. Na terceira nasceu Maricota. três belas mucamas. São Tomé. Ana Maria doceira de meu pai amancebou-se com o alferes. uma de olhos azuis.

. uma que deu seus cachos ao Senhor da Paixão.uma primeira comunhão. uma que foi ser freira. catando penas só. O passarinho ficou órfão cantando. uma que tinha ataques. uma que nasceu em Londres e é parenta do Rei.

Exu começou a lamber a mixira de peixe-boi: Isabel Lopo de Sampaio desvirginou o moleque. .EXU COMEU TARUBÁ O ar estava duro. e dentro da madorna — bruxas desenterradas. oleoso. Eis aí três cirurgiões cosendo retrós. sem barregãs. sem escravos. o professor tirou o pincenê. Exu começou a babar a mixira de peixe-boi. pariu três macacos. oleoso. gordo. o ar [duro. No chão uma urupema com os cabelos da moça. gordo. viajando de rede D. sem ginetes. oleoso. o ar duro. gordo [do. o ar duro. era alva ficou negra. Viajando de rede vieram três macacos parar na madorna. e sóror Adelaide veio viajando de rede. Aí na distância sem-fim. virou ingazeira. Diogo de Holanda veio parar na madorna. a bela adormecida no século vindouro que esquecerá por certo a magia contra tudo que não for loucura ou poesia. jogou-se no rio. Aí na distância sem fim. era santa ficou lesa: caiu na madorna. Foi então que Exu comeu tarubá e meteu a figa na mixira de peixe-boi. estava traído pelo donatário. moças foram roubadas. oleoso: a negra dentro da madorna. gordo.

Há muita coisa ainda a recalcar ó linda mucama negra. muito pequeno mesmo.ANCILA NEGRA Há ainda muita coisa a recalcar. maga primeira. Celidônia. Há muita coisa a recalcar e esquecer: o dia em que te afogaste. me acompanhou para a escola. Celidônia! . noite estancada. anjo negro degradado para sempre Celidônia. muito pequeno mesmo. Celidônia. rosa trigueira. os teus lábios roxos me bubuiando. negra fugida na morte. me contou histórias de bichos quando eu era pequeno. contadeira de histórias do teu reino. ó linda moleca ioruba que embalou minha rede. sem me avisar que ias morrer. quando eu era pequeno. carne perdida. Há mais coisa ainda a recalcar: As tuas mãos negras me alisando.

. muito dormindo mesmo. Para sempre: tudo ficou como um sino ressoando.Depois: nunca mais os signos do regresso. mandingando e dormindo. E eu parado em pequeno.

Reparava que aquele banho era diferente do banho de umas . a sua grande chácara onde devia existir a Arvore do Bem e do Mal. Eu estava. selos. Talvez não fosse o companheiro em si. Um dia pergunto. de todos os meus amigos. já por aquele tempo. Talvez o que me atraía para Laécio fosse a sua chácara. As molecas eram bonitas. o que mais me atraía. ajudavam-se na tualete. em quem. negras novas do Caípe que se lavavam debaixo dos ramos das ingazeiras arriadas sobre as águas. Abriam bandós com os cacos de pente de chifre. O espetáculo que se me oferecia não me deixou nenhuma impressão menos pura. mas papai deve saber. que era. perguntando-lhe como se chamava seu avô. ágeis e puras.) Em casa de Laécio não havia álbuns. apenas. Recordo. ele me disse: — Morreu há muito tempo. chácara tão tentadora para mim. Os fundos davam para o rio. Um dia. antes de entrar nágua. encantado de ver corpos negros. percebia uma capacidade de mentir maior que a de todos os meus outros camaradas. e como não dispunham de espelhos. tão diferentes dos brancos. porém. As negras estavam ali tomando banho. Laécio me chamou para assistir o banho de umas negras. Lembro-me que um dia. Não me lembro como era. embelezando-se ligeiros. estampas e brinquedos. e uma grande habilidade de surripiar nossos objetos escolares. A família de meu companheiro de infância parecia não ter tradição nem história.O BANHO DAS NEGRAS (Início de A mulher obscura.

com a toalha sobre os ombros.parentas. e se elas soubessem que nós as espreitávamos no banho. As brancarronas se penteavam depois do banho. Nunca tinha visto espuma sobressair tanto. debaixo dos cabelos soltos. . espenujar. se coçar. a água não lhes alterava a beleza. Achei-as ágeis. A espuma grossa voltava outra vez para debaixo das axilas ou dos ombros. eram os seus braços harmoniosos. contariam a nossos pais e estes ralhariam conosco e seríamos castigados. O contraste daqueles corpos pretos e luzidios sobre a areia das margens ou sob a espuma do sabão me impressionou bastante. Mas Laécio me advertira que era proibido vê-las assim nuas. diferentes. cuidadosas. separar com os cacos de pente o cabelo lanzudo. correndo ligeira nas costas escuras ou descendo entre os seios espigados pelo ventre abaixo. Outras se ajudavam no ensaboamento esfregando as costas das companheiras ou os lugares que os braços não atingiam. com uma ligeireza espantosa. na beira do rio. Algumas com a cara ensaboada. que me deixaram uma vez esperando por elas. sem abrir os olhos para evitar a espuma. Achei lindas as negras. mergulhar na água transparente e sair outra vez sem que o cabelo se desmanchasse. Mais ligeiros que a espuma. esmagada de novo pelas esguias mãos. aparavam-na antes que ela se perdesse no chão. Mas as molecas podiam.

tem lua. desgraça nem há! Que coisa gostosa só é cachimbar. ciranda debaixo do luar. De dia e de noite. cachimbe sêo moço. corre outra vez. não se empresta quartau mas se empresta cachimbo para se maginar. O rio da gente vai. canudo comprido. Se ouvem de novo histórias bonitas. tem viola. E a vida da gente menina outra vez ciranda. a seca é fartura. As coisas de longe vêm logo pra perto. Cachimbo de barro massado com as mãos. Se quer cachimbar. Não se empresta mulher. que bom! — Me dá uma fumaçada! — Que coisa gostosa só é maginar! Sertão vira brejo. .CACHIMBO DO SERTÃO Aqui é assim mesmo. mas tenha cuidado! — O cachimbo de barro se pode quebrar.

Licença têm cacuriqués. Licença têm. cruzado e coroado. babalaô. Obambá é batizado. Licença tem. Dá pra o pai-de-sala. . Oxóssi está reinando: dá pra ele.OBAMBÁ É BATIZADO Pela fé de Zambi te digo: Obambá é batizado. Dá licença meu pai? Licença venha para outros bacuros. Licença tem o Babé de Olubá. Na fé de Zambi te digo: Obambá é batizado. Licença tem. confirmado e coroado. Dá licença meu pai? Licença venha para os alufás de babalau. Licença tem babalaô. Ó ocaia dá pra ele. cacuricás. confirmado e coroado. confirmado. Na fé de Zambi te digo: Te vira em meu sangue. Ó ocaia dá pra ele. dá pra ele.

dá pra ele que Obambá é batizado. me deixa só com meu santo.Dá licença meu pai? Ó ocaia. confirmado. Oxóssi está reinando: dá pra ele. cruzado e coroado. me deixa só. me deixa só. .

vos ofereço quibebê. esse urufá. quelembe. Arroio do Exu do Bodocô. quitanda. . esse gôgo. abará. quitumba. vos ofereço maconha de pito. Tomai acaçá. quiabo. quitunde. Arraial de Mossâmedes de Goiás. Arraial de Santo Antônio do Bambe. quingombô. farreando. quitute. sim! Tirai-me essa murrinha. esse gôgo. esse urufá! Vos ofereço quitunde. quingombô. quingombô. quinanga. Arraial do Exu do Aussá. quibembe. Tirai-me essa murrinha.POEMA DE ENCANTAÇÃO Arraial d’Angola de Paracatu. sim! Arraial d’Angola de Paracatu. abaú! Assim. tocando meus ganzás! Arroio dos Quilombos de Palmares. vos ofereço quisama. quingombô. quilengue. Arraial do Campo de Goiás. aberém. Arroio do Desemboque do Quizongo. Assim. que eu quero viver molecando.

a nós operários africanos. RAINHA É IEMANJÁ Rei é Oxalá que nasceu sem se criar. Grande santo é Ogum em seu cavalo encantado. Porque a vós respeito. Eu cumba vos dou curau. Oxalá! Iemanjá! Ogum! Há mais de dois mil anos o meu grito nasceu! . que nos exploram. Rainha é Iemanjá que pariu Oxalá sem se manchar. e a vós peço vingança contra os demais aleguás e capiangos brancos. Dai-me licença angana. servos dos outros servos. Agô! que nos escravizam. servos do mundo.REI É OXALÁ.

teu fogo.. coração. tua espuma. teus ódios. quem foi que formou de novo teu ventre. gozo. tuas comidas. teus abraços. tua alma? Te vendo. teu sangue. cabelo escorrido.FOI MUDANDO.. teus santos. orgulho de branco. algemas. o jeito de andar. índio ou cristão? Quem foi que te deu esta sabedoria. tristeza do mundo. MUDANDO Tempos e tempos passaram por sobre teu ser. Negro. teus suspiros. resgates. teu modo de amar. teus olhos. pele. tua saliva. mais dengo e alvura. medito: foi negro. foi índio ou foi cristão? Os modos de rir. alforrias? Foi negro. . desgosto da vida. foi índio ou foi cristão? Quem foi que mudou teu leite. teu suor. teus pés. Da era cristã de 1500 até estes tempos severos de hoje.

tua língua? Te vendo. medito: foi negro. foi índio ou foi cristão? .

ouvindo a fala dos búzios. As ôndias se acomodaram. Se Janaína está triste. Nos olhos de Janaína. No cavalo se amontou galopando descuidada. o mar começa a espumar. a pegar gente na praia pra Janaína afundar. — Janaína dá licença . dando adeus à maré grande. na cauda de Janaína tem cem doninhas pulando.JANAÍNA Janaína vive no rio. Se Janaína sorri as ôndias ficam banzeiras. acordando os afogados. Cavalo-marinho veio para ela se amontar. vive no mar. vive no açude. Botando nome nos peixes. Lembrou-se de vir passear: nas ôndias passou dendê. Nos peitos de Janaína tem dois langanhos babando. No ventre de Janaína as escamas estão brilhando.

que eu me afogue no seu mar? .

vem de Oxalá. vem do assopro de Oxalá. quer é pimenta malagueta. xodozar todo o santo dia. tudo fica banzando à toa. enquizilado. virar pé-de-vento. quer é oguedé de banana. Quando ele entra. de esparramar-se no chão. vem do oco do mundo. Quando ele chega. enfezado. Quer é comer. Donde que é que ele vem? Vem de Oxalá. Quer é caruru de peixe. como capeta. enguiçado. vem do oco do mundo. quer é olubó de macaxeira. como mangangá. de encalombar o rosto com as mãos. E dentro do assopro de Oxalá virar cochicho nos ouvidos dela. vem zunindo como o vento. de esbanguelar os dentes nas pedras. . esbodegado. quer é efó de inhame.QUANDO ELE VEM Quando ele vem. de amunhecar no cansanção. dá vontade na gente de embrenhar-se no mato. como marimbondo. sumir no assopro de Oxalá. como bango-balango.

tatambeado. . bambeando o corpo dela. babatando sem rumo. engambelado. fumado. acuado diante das suas mungangas. rolar dentro das suas anáguas. amuxilado.catar cafunés invisíveis.

Oxum! Oxalá. contas. Senhor do Bonfim! Senhor do Bonfim! Oxum! Oxalá. Ô! Ê! Dois feios calungas — Taió e Oxalá rodeados de contas. cantando. cabindas mazombos mandingam xangô. contas. na noite sem fim. rodando. gemendo. quibundos. na noite sem fim cabindas. contas. contas. cafuzos. aos tombos. cafuzos. Ô! Ê! Sinhô e Sinhá num mêis ou dois mês se há de casá! Mano e Mana! Credo manco! No centro o Oxum Que dois bonequinhos na rede tão bamba Ioiô e Iaiá! Minhas almas santas benditas aquelas são do mesmo Senhor. Na noite.XANGÔ* * Segunda versão. aziaga. Ô! Ê! Na noite aziaga. quibundos. No centro o Oxum! Oxum! Oxalá. todas duas todas três . mulatos.

Amém. Senhor do Bonfim! Senhor do Bonfim! Oxum! Ô! Ê! Redobram o tantã. Monserrate. Oxum! Na noite aziaga. incensam maconha! Sorri Oxalá! E a preta mais nova com as pernas tremendo. Ê! Ê! Meu São Mangangá Caculo Pitomba Gambá-marundu Gurdim Santo Onofre Custódio Ogum. São Pagão...todas seis e todas nove! Santo Onofre. na noite sem fim recende o fartum. no crânio um zunzum. no ventre um chamego de cabra no cio. Recende o fartum. Minhas almas . Anjo Custódio. São Gurdim.

santas benditas aquelas são do mesmo Senhor todas duas todas três todas nove o mal seja nela casado com ele. São Marcos. . Manços com o signo-de-salomão com Ogum-Chila na mão com três cruzes no surrão S. Damião! Credo Oxum-Nila Amém. Cosme! S. S.

porém o poder da música é tão lavado e tão branco. Ciscar no murundu! Chupar caxundé! Farrambambear por esse mundo! Mulatear pelas senzalas brancas! Mocar com a ocaia dos outros! . os dois corações de Julião. Pulam de dentro do escuro do saxofone mucamas lindíssimas para cada um dos fulanos. os olhos esbugalhados. nas outras partes sonoras há outros deuses aquentando uns aos outros. amolengando entre uma nota e outra o feitiço pendurado no pescoço. cada vez mais requebrado. o funil do aparelho está espraiado como sua boca branca. a alma inocente subindo a Escada de Jacó para dentro de Deus. os braços. Julião treme recebendo intuições. Julião dobra o saxofone na pança confundindo-o com o esôfago. o canto se espraiando unânime. mais impoluto e transparente. O tema é só pretexto porque o mágico Julião — transformou o saxofone e está transformando a gente. é tão estrela-d’alva que as ditas nem se atrevem a se amulherar com eles. No cume da voz está Gêge — filha de Ogum deitada se balançando.PRA DONDE QUE VOCÊ ME LEVA Julião se apoderou da melodia às 10 horas da noite em pleno jazz. os olhos. Então o ritmo e a melodia principiaram deveras organizando um chulear de batuque e canto rotundo de cortar coração. as teclas fechando as válvulas de seu corpo banzeiro. Tudo é ritmo binário como as pernas. parece que tem carajuru na face. um estenderete só. Julião está reluzente que nem esfregado com óleo de andiroba. Nisso o canto esguincha do saxofone como um repuxo vermelho.

Pedra-Pemba de um só altar? . porque tudo estava peneirado. Janaína de um só mar. mas sem maldade. sessado pela água amandigada da música.Tudo isso eram gritos sinceros. poesia-uma-só? Pra donde que você me leva. Pra donde que você me leva. mãe-d’água de uma só cacimba.

até molecas para a Casa-Grande. Não falou mais: Viram que sabia fazer tudo. . falou que queria fugir dos senhores e das judiarias deste mundo para o sumidouro.MARIA DIAMBA Para não apanhar mais falou que sabia fazer bolos: virou cozinha. só diante da ventania que ainda vem do Sudão. Depois falou só. Foi outras coisas para que tinha jeito.

A. negro! Olá. negro que foste para o algodão de U. Negro! Olá. negro-fujão. negro cativo. para o colar de ferro. com os teus lundus! Os poetas. enforca-se de tédio. Mãe-negra. Negro! A raça que te enforca. os libertadores. eu melhor compreendo agora os teus blues nesta hora triste da raça branca. Negro! . negro! Pai-João. negro ioruba. para a canga de todos os senhores do mundo. com os teus songs. negro! E és tu que a alegras ainda com os teus jazzes. e a tua virgindade e os teus medos e a tua bondade mudariam a alma branca cansada de todas as ferocidades! Olá. a tua alma. para os canaviais do Brasil. negro congo. para o tronco.OLÁ! NEGRO Os netos de teus mulatos e de teus cafuzos e a quarta e quinta gerações de teu sangue sofredor tentarão apagar a tua cor! E as gerações dessas gerações quando apagarem a tua tatuagem execranda. os que derramaram babosas torrentes de falsa piedade não compreendiam que tu ias rir! E o teu riso. Fulô. negro rebelde negro cabinda. Zumbi. não apagarão de suas almas.S.

com tuas gargalhadas! . sobre tuas [alegrias! Olá. quantas vezes as carapinhas hão de embranquecer para que os canaviais possam dar mais doçura à alma humana? Olá. quantos séculos há passado e quantos passarão sobre a tua noite. lundus. choravas com vontade de sorrir. proletário bom. ou que foste para os canaviais do Brasil.. Apanhavas com vontade de cantar.S. sobre as tuas mandingas. Negro! Negro.Pai-João. que te revoltaste também contra o Sinhô.. ó antigo proletário sem perdão. com tuas danças. Fulô. sobre os teus medos. Negro! Negro que foste para o algodão de U. que cantaste para o Sinhô dormir. com vontade de fazer mandinga para o branco ficar bom. Mãe-Negra. Zumbi que traíste as Sinhás nas Casas-Grandes.A. proletário bom! Blues Jazzes. para o dia acabar e negro dormir! Não basta iluminares hoje as noites dos brancos com teus jazzes. songs. para o chicote doer menos.

Negro! Olá. Negro! .Olá. Negro! O dia está nascendo! O dia está nascendo ou será a tua gargalhada que vem vindo? Olá.

ÍNDICE NOTA EDITORIAL POEMAS NOVOS Essa negra Fulô Serra da barriga Comidas Maleita Inverno Madorna de Iaiá Diabo brasileiro Santa Rita Durão Joaquina maluca Os cavalinhos Minha sombra Domingo Flos sanctorum Louvado Poema de duas mãozinhas Mês de maio Meus olhos Credo Cantigas Salmo Meu país POEMAS ESCOLHIDOS Nordeste Enchente Arranha-céu Cristo Redentor do Corcovado Poema de Natal Ave Maria Balada Fim O filho pródigo Poema relativo Mulher proletária Felicidade Poema do nadador Poema à irmã Poema à bem-amada Poema a Marcel Proust .

mudando Janaína Quando ele vem Xangô Pra donde que você me leva Maria Diamba Olá! Negro .Volta à casa paterna Poema à pátria POEMAS NEGROS Bicho encantado Bangüê História Democracia Retreta do vinte Quichimbi sereia negra Zefa lavadeira Benedito Calunga Ladeira da Gamboa Passarinho cantando Exu comeu tarubá Ancila negra O banho das negras Cachimbo do sertão Obambá é batizado Poema de encantação Rei é Oxalá. rainha é Iemanjá Foi mudando.

com/group/digitalsource Este livro foi impresso na cidade de São Paulo em abril de 1997. de maneira totalmente gratuita. o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. O tipo usado no texto foi Perpétua no corpo 11/1 2.2. http://groups.Esta obra foi digitalizada e revisada pelo grupo Digital Source para proporcionar. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição. Os fotolitos de miolo e capa foram feitos pela Degraus. Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original. portanto distribua este livro livremente. será um prazer recebêlo em nosso grupo. pela OESP Gráfica para a Editora Nova Aguilar.google. pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras. .google.google. Se quiser outros títulos nos procure: http://groups. Dessa forma.com/group/Viciados_em_Livros http://groups. a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância.com/group/Viciados_em_Livros. o papel de miolo é off-set 75g g e o da capa é Cartão supremo 250 g.

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