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UNIVERSIDADE FEDERAL DO CEARÁ CENTRO DE HUMANIDADES DEPARTAMENTO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL CURSO DE COMUNICAÇÃO SOCIAL HABILITAÇÃO EM JORNALISMO

O Espiritismo por Bezerra de Menezes: a construção do espiritismo brasileiro

JOÃO ROMÁRIO FERNANDES FILHO

Fortaleza 2007
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JOÃO ROMÁRIO FERNANDES FILHO

O Espiritismo por Bezerra de Menezes: a construção do espiritismo brasileiro

Monografia apresentada ao Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará como requisito para a obtenção do grau de Bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo, sob a orientação da Profª. Drª. Júlia Miranda.

Fortaleza 2007
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JOÃO ROMÁRIO FERNANDES FILHO

O Espiritismo por Bezerra de Menezes: A construção do espiritismo brasileiro

Esta monografia foi submetida ao Curso de Comunicação Social da Universidade Federal do Ceará como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel. A citação de qualquer trecho desta monografia é permitida desde que feita de acordo com as normas da ética científica.

Monografia apresentada à Banca Examinadora: _________________________________________ Profª. Drª. Júlia Miranda (Orientadora) Universidade Federal do Ceará _________________________________________ Prof. Dr. Gilmar de Carvalho (Membro) Universidade Federal do Ceará _________________________________________ Prof. Ms. Marcos José Diniz Silva (Membro) Universidade Estadual do Ceará

Fortaleza 2007

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Agradecimentos A Deus. pelo estímulo e carinho imprescindíveis à consecução deste trabalho. pelo apoio e pela dedicação. A Bruna. À Profª. Júlia Miranda. que foram fundamentais para a elaboração da presente monografia. pela orientação segura e pelo rigor analítico. pela oportunidade de exercitar nossas faculdades intelectuais na investigação de uma temática tão instigante. 4 . Aos meus pais.

“O Espiritismo será o que dele fizerem os homens” Léon Denis in No invisível Paris. 1903 5 .

trying to show how its circulation. foram bastante significativas na consolidação desse processo. the politician from Ceará. o político cearense Adolfo Bezerra de Menezes. Abstract This monograph investigates the role of the column O Espiritismo – Estudos Filosóficos. somada à apropriação de determinados elementos do habitus católico vigente em seu estilo discursivo. KEYWORDS: Spiritism.Resumo Esta monografia investiga o papel desempenhado pela coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos. within the process of Spiritism’s adaptation to Brazilian culture. Adolfo Bezerra de Menezes. O Paiz. O Paiz. Bezerra de Menezes. dentro do processo de adaptação do espiritismo à cultura brasileira. contributed significantly to the consolidation of this process. 6 . particularly to its characteristic Catholic matrix in the XIX century. publicada no jornal O Paiz. Discute a importância do jornal O Paiz naquele contexto e procura mostrar como a tiragem e a circulação do jornal somavam-se à localização da coluna no periódico para conferir-lhe uma condição favorável de visibilidade e leitura. Trabalha com a idéia de que a palavra autorizada de que se via imbuído seu autor. The work discusses yet the importance of the newspaper O Paiz in that context. Imprensa brasileira. XIX Century. particularmente à matriz católica que lhe caracteriza no final do século XIX. published in the newspaper O Paiz. added to the space occupied by the column. Develops the idea that the authorized speech owned by his author. added to the appropriation of certain elements of the Catholic habitus in his discursive style. PALAVRAS-CHAVE: Espiritismo. Brazilian Press. Bezerra de Menezes. Século XIX. were favorable to the reading of Bezerra’s articles.

......7 Introdução... o processo de adaptação por que passou o espiritismo – aqui compreendido como a doutrina sistematizada no século XIX pelo 7 ...................................... em linhas gerais.................................................................58 O Espiritismo por Bezerra de Menezes......................................................................................................................................2 João Romário Fernandes Filho...............................................................................................................................................................................................................................................................................................1 Fortaleza.................................................................................88 Introdução Este trabalho avalia.................................................................44 2) De médico dos pobres a político liberal ...........................................................1 João Romário Fernandes Filho.................................................................21 3) O Espiritismo no Brasil................................................................47 3) O líder e mediador espírita........7 O espiritismo: da França para o Brasil...............................................................................12 2) O Espiritismo..65 1) A imprensa brasileira e o jornal O País no século XIX....................................3 Sumário...............................................................................................................................................................................................................................................................44 1) Chico Xavier.....................................................................................................53 4) Bezerra e o habitus católico..............33 Bezerra de Menezes: mediação e influência......86 Referências.................................................................................... Bezerra de Menezes e o catolicismo...............................12 1) Antecedentes históricos......................65 2) O Espiritismo: seu espaço e sua relevância..........................................................................................................................................Sumário João Romário Fernandes Filho...........................................73 Considerações Finais..............70 3) O Espiritismo segundo Bezerra de Menezes...............................................................................................................

pedagogo francês Denizard Rivail, sob o pseudônimo de Allan Kardec – quando de sua chegada e difusão no Brasil. Nosso foco, contudo, se dirige para um componente que consideramos central nesse fenômeno social, mas que ainda não tinha sido objeto de uma investigação mais detida: a coluna dominical O Espiritismo – Estudos Filosóficos, publicada de 1887 a 1894 no jornal carioca O Paiz1, sob a responsabilidade do médico e político cearense Adolfo Bezerra de Menezes. Se é amplamente reconhecida entre os pesquisadores, tanto acadêmicos quanto espíritas, a importância do autor à frente de todo esse processo, muito pouco se discutiu até hoje, em ambos os meios, acerca desse espaço privilegiado para a divulgação do espiritismo que foi a coluna semanal assinada por ele, e veiculada em um dos principais jornais brasileiros do século XIX. Esta investigação, portanto, consiste num recorte específico que fizemos dentro de uma temática ampla e já discutida na Academia sob enfoques bastante variados, como abordamos no final do primeiro capítulo. Nossa pretensão, com ela, é a um só tempo satisfazer uma curiosidade pessoal, de melhor compreender como e por quais processos deu-se a transposição do espiritismo da Europa para o Brasil, e oferecer a pesquisadores e interessados em geral nossa contribuição particular para o enriquecimento das instigantes discussões que se travam a esse respeito, já há muitas décadas nos círculos espíritas e, mais recentemente, no âmbito acadêmico. Os debates acerca dessa temática, que desde há muito fervilham no movimento espírita brasileiro, ganham sentido, a nosso ver, quando se leva em conta o peculiar entroncamento epistemológico, nas palavras da educadora brasileira Dora Incontri, em que o espiritismo se propõe a estar2. Surgido num contexto de “crise de representação do objeto ‘religião’”, como analisa o antropólogo brasileiro Bernardo Lewgoy3, que era o século XIX europeu, o espiritismo se propunha a oferecer uma proposta original de compreensão da realidade mediante a integração entre elementos das três formas clássicas de conhecimento: ciência, filosofia e religião. Apesar de vivenciado religiosamente por muitos de seus adeptos ainda na Europa, havia no espiritismo um forte apelo científico, caracterizado, entre outras coisas, pela necessidade de se
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Recorremos à grafia original do nome do jornal apenas nesta primeira referência. Daqui para frente, ela só será utilizada em citações. De nossa parte, faremos uso da grafia atualizada, O País. 2 Cf. INCONTRI, Dora. Pedagogia Espírita, um Projeto Brasileiro e suas Raízes. Bragança Paulista, Comenius, 2004, p. 21. 3 LEWGOY, Bernardo. Chico Xavier e a cultura popular brasileira. Centro Virtual de Antropologia, ed. 31, 2006. Disponível em: http://www.antropologia.com.br/entr/entr31.htm. Acessado em: 07/11/2006.

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investigarem metodicamente os fenômenos considerados mediúnicos e pela importância dada ao rigor metodológico no controle das informações oferecidas pelos espíritos através dos médiuns. Assim, graças a esse caráter progressivo, aberto à formulação de novos conceitos com base nos diálogos com os espíritos e nos avanços científicos, o espiritismo apresentavase como uma alternativa bastante atraente para aqueles que, no auge do cientificismo e do positivismo, procuravam manter algum tipo de vínculo com a espiritualidade sem precisarem se submeter ao dogmatismo religioso. Era uma espécie de “religião da saída da religião”, como avalia Lewgoy4 numa referência à fórmula utilizada pelo filósofo francês Marcel Gauchet para explicar a condição singular do cristianismo de “religião possível num mundo irreligioso5”. Essa posição epistemológica peculiar, contudo, não parece ter encontrado uma boa ressonância na cultura brasileira. Como dirá a antropóloga Maria Laura Viveiros de Castro Cavalcanti, “a própria pressão do ambiente sócio-cultural brasileiro soma-se (...) a essa característica doutrinária intrínseca, que foi e é fonte de transformações, tensões e dissidências na dinâmica do movimento espírita6”. Tão logo chegaram ao país, as idéias espíritas começaram a ser gradativamente ressignificadas dentro de uma matriz católica que privilegiava fortemente sua dimensão religiosa – imbuindo-a, inclusive, de novos significados – em detrimento dos aspectos científico e filosófico que marcavam a originalidade do espiritismo europeu. Só que, como nem todos os espíritas viam com bons olhos essa tendência, naturalizada, que era, tanto quanto possível, no discurso de seus defensores, como uma evolução necessária do espiritismo, as disputas em torno do verdadeiro caráter da doutrina marcaram as primeiras décadas de sua difusão no Brasil. E, mesmo após o trabalho unificador empreendido por Bezerra de Menezes, que resultou na hegemonia dos religiosos, mais conhecidos como místicos, sobre os espíritas

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LEWGOY, Bernardo. Op. Cit. GEIGER, Amir . “A conversão contramoderna de Alceu Amoroso Lima”, in Religião & Sociedade, Rio de Janeiro, v. 25, n. 1, 2005, p. 55. 6 CAVALCANTI, Maria Laura Viveiros de Castro. “Vida e Morte no Espiritismo Kardecista” in Religião & Sociedade, Rio de Janeiro, v. 24, n. 2, p. 15, 2005. Disponível em: http://www.iser.org.br/publique/media/RS24-2_artigo_maria_viveiros.pdf. Acessado em: 17/10/2006.

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ditos científicos, estes, apesar de não possuírem a mesma legitimidade dos vencedores, prosseguiram suscitando debates e questionando os rumos tomados pelo espiritismo brasileiro. Tal conflito pode ser notado até hoje entre os espíritas, expressando-se numa infinidade de matizes que vão da apologia irredutível a um espiritismo totalmente laico à defesa ferrenha de um espiritismo religioso, cristão e fundamentado na Bíblia. No que tange aos círculos acadêmicos, o espiritismo, que começa a ser investigado dentro das Ciências Sociais na década de 60, passou cerca de 20 anos praticamente à margem da produção científica. Segundo levantamento realizado pelo historiador brasileiro Marcos Alexandre Capellari, de 1961 a 1981, apenas uma dissertação e um livro científico sobre o espiritismo foram publicados no país7. Já nos 20 anos seguintes, mais de 23 obras, entre teses, dissertações e livros, foram publicadas a respeito do tema. A “explosão” inicial, nos anos 80, quando saíram seis trabalhos, pode ser atribuída, segundo Capellari, a um “crescimento geral das pesquisas sobre religiões8”. Já o incremento significativo do número de pesquisas na década de 90 pode ser compreendido como reflexo, na Academia, do início de um amplo movimento de inserção do espiritismo na mídia e na literatura brasileiras. Segundo a antropóloga brasileira Sandra Jaqueline Stoll, “num momento em que a inserção na mídia, em especial a televisão, se destaca como fator de divulgação doutrinária, constituindo um novo campo de disputa no espaço público, o Espiritismo vem alargando sua inserção social, especialmente entre os segmentos da classe média, por meio do investimento no campo literário9”. Essa ampliação das áreas de influência do espiritismo no Brasil, bem como de sua aceitação crescente como alternativa espiritual complementar e não necessariamente excludente de uma identidade religiosa principal10, suscitou novas questões, impôs releituras e revisitações aos pesquisadores que se debruçaram sobre o espiritismo nos últimos anos.
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CAPELLARI, Marcos Alexandre. Sob o olhar da razão: as religiões não católicas e as ciências humanas no Brasil (1900 -2000), São Paulo, USP:2002 (Dissertação de Mestrado em História Social), pp. 161 e 206 em diante. 8 Idem, ibidem. p. 171. 9 STOLL, Sandra Jacqueline. “Narrativas biográficas: a construção da identidade espírita no Brasil e sua fragmentação”, in Estudos Avançados, São Paulo, v. 52, p. 181-199, 2004. 10 Lewgoy destaca entre os fatores que favorecem a difusão do espiritismo o oferecimento, por parte das casas espíritas, de diversos serviços sem qualquer vinculação com a obrigatoriedade de assumir o beneficiado a identidade espírita, tampouco de abandonar aquela que já possui. (Cf. LEWGOY, Bernardo. Op. Cit.)

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dedicamo-nos no primeiro capítulo a uma discussão sobre o espiritismo. circulação e orientação editorial. como tiragem. por fim. procuramos reconstruir o cenário particular que. se evidenciam concretamente certas marcas de elementos do habitus católico no estilo discursivo de Bezerra. explicitando elementos distintivos do jornal. Legitimidade essa que fez dele tanto um importante mediador dentro das disputas intestinas características do movimento espírita brasileiro em fins do século XIX. 1 . Reservamos ainda. Já o segundo capítulo é voltado para a análise da figura de Bezerra de Menezes. quando já se podem entrever marcas importantes do processo de adaptação cultural aqui discutido. enfocando a legitimidade social que conquistou gradativamente e em diversos campos ao longo de sua trajetória como médico e político. como procuramos demonstrar. com o objetivo de evidenciar a forma pela qual o espiritismo é ao mesmo tempo profundamente influenciado por certos elementos daquele contexto e se propõe a superar as limitações epistemológicas e os condicionamentos ideológicos do pensamento então dominante. É nesse capítulo também que discutimos o conceito de habitus utilizado por Lewgoy. quanto um eficiente propagador da doutrina em todo o país. Pautados principalmente pela análise feita por Incontri em sua tese. vigorava na Europa do século XIX. procura contextualizar o jornal O País no âmbito da imprensa brasileira e das discussões republicano-abolicionistas que tomavam conta dos periódicos nos últimos anos antes da transição entre Império e República. no qual.Assim. O terceiro capítulo. além de mostrar o modo favorável por meio do qual a coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos se inseria nas páginas do periódico. para o fim do capítulo. Concluímos o capítulo com uma análise textual do discurso empregado nos dois primeiros anos de veiculação da coluna. uma análise a respeito da chegada e dos primeiros passos do espiritismo no Brasil. delimitando-o claramente para explicitar que tipo de influência exerceu Menezes sobre o espiritismo que lhe sucedeu. Procuramos enfatizar a importância d’O País naquele cenário. no campo das práticas e das idéias.

O espiritismo: da França para o Brasil 1) Antecedentes históricos O espiritismo. aqui compreendido como a corrente de pensamento sistematizada na segunda metade do século XIX pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail. 1 .

Florival. por tabela. a Europa se vê em meio ao advento de “três revoluções que contribuíram decisivamente para o surgimento (. ao dogmatismo religioso e ao imobilismo social. e ampl. reitera Cáceres (1996:251). O Iluminismo começa a tomar forma. consolidação no campo social dos ideais burgueses. 12 CÁCERES. forte propulsora do desenvolvimento técnico-científico e. Na transição do século XVIII para o XIX. a influência crescente que exerciam nos campos cultural e econômico não estava em consonância com seus direitos.. Perante a justiça..surge num momento conturbado da história das sociedades européias. do modo de produção capitalista. característico dos países calvinistas. que questionava a intolerância religiosa.” 14 CÁCERES. “a maior parte dos iluminista era deísta. 250. Renata. São Paulo: Moderna.. os privilégios da nobreza. p. p. já à época.. ou um Deus. 4ª ed.. avesso ao absolutismo político. Florival. Bragança Paulista: Lachâtre. 164. Os burgueses. História Geral. negava toda revelação divina (. 1996. visando a evidenciar de que forma algumas idéias e eventos marcantes desse período fomentaram as condições propícias ao aparecimento do espiritismo naquele contexto. rev. sem atributos intelectuais ou pessoais. humanistas e anti-clericais.) acreditavam na existência de um ser supremo. 13 Apesar disso. e o absolutismo de direito divino dos reis e incentivava o conhecimento científico e filosófico12” notadamente na Holanda. que deveria ser o móvel do progresso dos povos. ainda no século XVII. isto é. imbuindo de um poder quase ilimitado a razão humana.) [de uma] nova forma de organização social11”: o Iluminismo. formavam “a classe rica e culta que chegou a essa posição por seus méritos e trabalho14”. nem com a legitimidade social que possuíam.. Juntas elas alteraram decisivamente o panorama político. “A ‘questão social’ e suas alternativas”. 2004. que esboçamos apenas em linhas gerais neste sub-capítulo. 250. e a Revolução Industrial.. Pedro & FEITAL. da liberdade individual e do domínio sobre a natureza. Op.. 1 . Apesar disso. eram a própria teorização dos anseios da ascendente burguesia. ela [a burguesia] não tinha o prestígio social correspondente. 1ª ed.) entretanto (. graças ao ambiente de liberdade e estímulo ao comércio. a Revolução Francesa. sendo 11 SIMÕES. econômico e cultural em vigor até o século XVIII. como “espírito novo. Cit. que deslocavam o centro das atenções humanas de Deus para si mesmo 13. os burgueses não gozavam de nenhum privilégio. Cáceres afirma que: Na maioria dos países europeus. Seus ideais. in Em torno de Rivail.

com a ultrapassagem do Antigo regime. derrubou o absolutismo. os anseios anti-absolutistas. Cit.. na medida em que todos são cidadãos e. Foi dessa forma que os ideais burgueses. mantiveram a monarquia e levaram ao poder uma parcela da burguesia e da nobreza ligada aos interesses comerciais. Florival. Graças à apologia que faziam de uma visão de mundo bastante peculiar à burguesia.menosprezados pelos clérigos e nobres e tratados como qualquer camponês pobre e ignorante. ficaram limitadas à Inglaterra. acabou com os privilégios sociais do clero e da nobreza. os iluministas foram responsáveis por emprestar-lhe um caráter de universalidade e primazia sobre outras perspectivas de compreensão do real. por exemplo.. pois liberdade e igualdade jurídica também eram reivindicações populares naquela época de governos absolutistas”. Op. pondo fim aos privilégios de nascimento (. Idem. liderando as massas populares. Florival. “o modelo clássico da revolução burguesa por seu alcance no mundo ocidental e por sua radicalidade16” costuma ser apontado como a Revolução Francesa. têm direitos de cidadania. Renata.) foi mais radical porque a burguesia. liberais e igualitários da burguesia saíram do mundo das idéias para o plano concreto das ações e práticas nos terreno social. p. 1 . Cit. Assim resumem Simões e Feital as transformações: A nova sociedade que se formava. a mobilidade social. político e econômico.. p. por sua vez. 282. 15 16 CÁCERES. Pedro & FEITAL.. Cáceres acrescenta: As revoluções inglesas do século XVII. por isso. possibilita o rompimento com a estrutura hierarquizada e funda sociedade de classes. ao monopólio estatal e a toda forma de cerceamento da atividade intelectual. 17 Numa análise comparativa do processo revolucionário desencadeado na França. 250. 165.. Nesse sentido. ganharam espaço e força suficientes para pouco a pouco derrubarem a mentalidade que dava suporte às aristocracias européias. 18 CÁCERES.) A burguesia apossou-se do poder político e criou as condições para o desenvolvimento do capitalismo18. Segundo Cáceres.. “por meio dessas idéias. segundo o pensamento liberal. 15 Os pensadores iluministas. Op. acabavam contribuindo para legitimar socialmente as aspirações burguesas. avessos que eram ao absolutismo. p. os burgueses transformaram seus interesses particulares em interesses universais. sistematizados no pensamento iluminista. 282 17 SIMÕES. (.) O movimento francês (. Ibidem. p. tomou o poder político e implantou a igualdade de todos perante a lei. Através dela. Op. foram menos violentas. possibilitando. Cit..

mas sim. Ibidem. Para Entender Allan Kardec. 42 21 INCONTRI. p.Todo esse abalo causado na estrutura social que vigorara por séculos na Europa não só foi profundamente influenciado pelos ideais burgueses/iluministas como também fomentou novas idéias inspiradas nos valores da burguesia. afirma que “a evolução é um progresso e. pelo menos era o que preconizava a ideologia burguesa. 51. como explica Cáceres. Dora. como se pode depreender das obras de Hegel e Spencer22.. 19 20 Idem. que tem por conseqüência uma confiança extremada em um futuro melhor para a humanidade. em função dos méritos individuais. Ibidem. um forte elemento propagador de seus princípios por todas as camadas sociais das sociedades européias: Esse pensamento ajudou a burguesia revolucionária a conquistar apoio dos oprimidos em sua luta contra o poder sem limites do rei e os privilégios da nobreza na Europa (. 251 INCONTRI. p. O laicismo e o humanismo iluministas. a exemplo dos pensamentos marxista e comtiano 21. pela linhagem ou por casamentos arranjados. 19 A supervalorização do potencial transformador humano. acenar-se com a possibilidade de que todos os indivíduos dispusessem de seus próprios destinos. 2004. em função de sua classe. rompe-se com o estatismo que perpassava todos os campos das relações sociais durante o Antigo Regime. de igualdade de todos perante a lei e outras ajudaram a construir o mundo burguês. resulta num conceito presente de forma mais ou menos explícita em praticamente todas as correntes de pensamento surgidas durante o século XIX: o evolucionismo.. Op. esteja ele assentado numa perspectiva materialista. ao comentar o evolucionismo. Noutras palavras. ao menos em tese. Abbagnano. transformando-o para melhor e contribuindo para o “progresso” em todas as dimensões. do direito inalienável de propriedade. Essa capacidade autoemancipadora que a ideologia burguesa atribuía a todos os homens foi. 1 . p. Bragança Paulista: Lachâtre. que colocavam em xeque a visão de mundo teocêntrica e baseada na fé. Incontri afirma que “o evolucionismo é a idéia que explica e permeia todo o século XIX20”. para. das decisões políticas e das inovações culturais não seriam mais escolhidos pelo berço. Dora.) As idéias de liberdade. p. Os atores das transformações sociais. 51. 2004. atribuindo lugar certo para cada pessoa na sociedade. suscitavam no homem um sentimento de profunda confiança em sua capacidade de agir sobre o mundo. 22 Idem. Cit. ou num viés espiritualista. dos esforços que os indivíduos se mostrassem dispostos a empreender com vistas à própria ascensão social.

45-46 27 Idem. É em meio a esse “elã evolucionista [que] se delineia no século XVIII27”. São Paulo. 1986. uma dinâmica que rompe com o universo estático. portanto. Cit. dando-lhe novo sentido. achava-se bem distante das condições reais oferecidas pela 23 ABBAGNANO. Nicola.htm#4) 26 INCONTRI. Assim. Auguste. O problema é que. Dora. o fim último do movimento dialético a que se acha submetida a realidade. a revolução popular prometida pelo levante francês. individualmente. Qualquer idéia de evolução — mesmo a esvaziada de progresso. já em princípios dos anos de 1800.. e da sociedade como um todo. com a substituição do modo de produção capitalista pelo comunista. p. de inteligibilidade. mas que pretende encontrar apoio na realidade26. 25 COMTE. esp. Discurso Preliminar sobre o Espírito Positivo. um conceito racional que a teoria propõe. Karl. ibidem. Mestre Jou. Madrid: Comunicación. historicidade. 227. abalado pela tragédia de uma queda inicial. Incontri sintetiza da seguinte forma a inserção do evolucionismo e seu significado no panorama do pensamento europeu pós-Iluminista: O que devemos reter aqui é que esta concepção introduz definitivamente na cosmovisão humana um devir permanente.culturabrasil. proposta anteriormente pelas religiões cristãs. Op. 376 apud Idem. Dicionário de Filosofia. um progresso necessário que. o homem empenhava-se em ampliar cada vez mais sua habilidade para fazê-lo. ele está num processo. é a encarnação do Espírito Absoluto numa sociedade plenamente desenvolvida. progresso e encadeamento impregnam-se na cultura.. no que se refere ao homem. Los fundamentos de la critica de la economia politica (Grundrisse. Renato Barboza Rodrigues Pereira [on-line] (http://www. Ibidem. pronto e. identificada com o Espírito. 24 MARX.além do mais. p. como se pretende o evolucionismo biológico do nosso século — é sempre uma idéia de significado.org/espiritopositivo. p.). que tem lugar a terceira e decisiva revolução reordenadora do panorama sócio-econômico e cultural da Europa no século XIX: a Revolução Industrial. o estado positivo seria o cume do progresso do homem. 2 Trad. mas se consolida definitivamente apenas na próxima centúria. 42 1 . já para Hegel. sobrepondo-se às fases teológica e metafísica. enquanto para Comte25. As noções de movimento. 1972. até certo ponto. Vol.23”. terminará só com ‘a maior perfeição e a mais completa felicidade’. p. O mundo não é mais redimível. para Marx24 o fim a que a humanidade deveria aspirar seria a emersão do homem social. 2004a. Trad. Profundamente confiante que se via em sua capacidade de intervenção construtiva sobre o real. para citar apenas alguns exemplos de como o evolucionismo se fazia presente de forma concreta nos sistemas desenvolvidos pelos principais pensadores da época.. teoricamente fomentadora de condições universalmente igualitárias para que todas as classes pudessem trabalhar e contribuir para o progresso.

é por meio dela que essa classe se vê capaz de ampliar seus lucros. Cit. 30 Idem. representando assim. 47 Idem. à automação e à orientação da produção para a venda. O interesse profundo devotado pela classe dominante ao desenvolvimento do conhecimento científico teve como reflexo. promovendo rapidamente o advento do modo de produção capitalista vigente até os dias de hoje. Segundo Incontri. que substituiu o artesanato e a manufatura pela fábrica e pela produção em série. Ibidem. que já vinha gradativamente sobrepujando o escambo feudal desde o século XVI. que. à condição de detentores também dos meios de produção (terras. permeou o pensamento europeu durante o século XIX: o cientificismo. O mercantilismo. a burguesia passa a concentrar suas atenções com particular interesse no conhecimento científico e em seu “resultado prático”. Para Entender Allan Kardec. do poderio econômico. somado à crescente divisão do trabalho. com a Revolução. Dora. que implicava no mais das vezes uma noção de previsibilidade da história. p. desde antes da queda do Antigo Regime. Por diversos nexos ligam-se as duas concepções — a evolucionista e cientificista — tornando-as interdependentes29”. e. 51 1 . representante maior de uma postura dogmática e anticientífica – atribuía ao conhecimento científico uma capacidade quase 28 29 INCONTRI. “estreitamente relacionada à idéia evolucionista está a crença irrestrita no poder da ciência de explicar a realidade. segundo leis consideradas científicas30. que termina por se estender também para a esfera social. Op.sociedade burguesa. no campo das idéias vigentes. para transformá-la. estava o cientificismo propriamente dito. maquinário). matéria-prima. organicamente vinculado ao evolucionismo. 2004a. Afinal. Com a Revolução Industrial. p. só com investimento pesado em ciência e tecnologia. um outro conceito que. E para atingi-lo. domina a economia européia a partir de fins do século XVIII. assumiu os contornos do capitalismo propriamente dito. Máquinas mais eficientes implicam menos gastos com operários e mais celeridade na produção. complementando a crença no progresso da humanidade. Dotados que eram. Assim. os burgueses passaram. alimentado tanto pelos interesses burgueses diretos – o incremento dos lucros – quanto pelos indiretos – a forte indisposição com a Igreja Católica Romana. nas palavras de Incontri28: a tecnologia. de alargar seu domínio econômico. um incontestável foco dos interesses burgueses.

remontando ao atomismo e epicurismo gregos. Em todo caso. 2004. que propicia sobremodo o desenvolvimento das diversas posturas materialistas. Essa perspectiva é sistematizada de formas bastante diversificadas ao longo daquele século. que tem no espírito a substância de toda a realidade. recusa-se a considerar a especificidade do psíquico. Op. 1 . Materialismo e espiritualismo são doutrinas ontológicas sobre a natureza do ser ou da realidade. concordai comigo que somente a ciência pode dar ao homem verdades vitais. e passa. atribuindo a existência e produção de uma idéia a uma reação físico-química do cérebro. ora assumindo características essencialmente conservadoras. política e ideológica. e se vincula diretamente ao ideal “antiprogressista” que representava o catolicismo romano. influenciado também pelos pressupostos iluministas: o materialismo. É uma doutrina segundo a qual não existe outra substância no universo além da matéria. 48 32 VALLE. in Em torno de Rivail. O materialismo rejeita a existência da alma e de Deus. de Igreja Católica. p. representante convicto da crença cientificista: “em nome do céu. Como explica Nadja do Couto Valle: O materialismo é um fenômeno recorrente na história do pensamento. opondo-se ao espiritualismo. sem as quais a vida não seria suportável e a sociedade não seria possível31”. apud INCONTRI. Como dirá o positivista Ernest Renan. 208. p. 32 Confiança exacerbada no homem e na ciência. ao absolutismo político e às limitações impostas à liberdade de pensamento pela Igreja Católica durante séculos. Nadja do Couto. em meados do século XIX. 1890. como em Comte. aversão ao imobilismo nas dimensões cultural e social. é um movimento que remonta a causas variadas de natureza social. naquele contexto. 2004a. ao averroísmo medieval e ao mecanicismo moderno. 31 RENAN. mas atinge uma culminância no século XIX como movimento filosófico. como se pode depreender de Marx e Engels. As tentativas de reaproximação entre a Igreja e o mundo moderno.absoluta de solucionar todos os problemas da humanidade. 38. 1ª ed. “Materialismo e espiritualismo na filosofia: sínteses e culminâncias”. O afastar-se da Igreja. Dora. repúdio ao dogmatismo religioso. no século XX. os esforços para dissipar o mal-entendido ou para reconciliar os adversários resultam quase sempre em fracassos. Cit. L’avenir de la science – pensées de 1848. há um elemento que parece comum à maior parte das doutrinas que à época bebiam da concepção evolucionista-cientificista. como explica Réné Rémond. Bragança Paulista: Lachâtre. Calmann-Lévy. p. sinônimo que era. Ernest. a movimento cultural de amplas proporções. Todos esses fatores somados redundam numa aversão quase generalizada entre os pensadores da época à religião. Paris. ora concorrendo para a elaboração de propostas declaradamente subversoras da ordem estabelecida. cultural.

Pode-se dizer então que o idealismo foi ‘convertido’ em materialismo por alguns dos discípulos do próprio Hegel. o progresso. 33 RÉMOND. 34 Essa é uma das grandes críticas que Marx dirige a Feuerbach. e de uma postura que. perdem lugar para um materialismo teleológico que ora preconiza a existência de uma ordem natural. Lachelier. A despeito da existência também de “vários espiritualismos” à época no campo filosófico. assumindo uma concepção materialista da história. a ao resolver toda a realidade na história. 2004a. 1ª ed. Mais do que isso. Renouvier. forçam o rompimento das amarras tradicionalistas com que a Igreja procurava manter o status quo medieval durante a Idade Moderna. como explica Valle. como o “de Ravaisson. duas sociedades. o futuro. e suas conseqüências. in Em torno de Rivail. teorias científicas. A vitória deste deve ser a derrota das forças conservadoras e reacionárias indissoluvelmente ligadas à religião33. A Igreja condena inapelavelmente os erros do mundo moderno e o que se concebe ou se realiza de novo em quase todos os domínios é levado a se fazer fora de toda influência religiosa. em detrimento de um movimento irrefreável de luta entre classes sociais que condiciona a consciência dos homens (Marx). ou ainda. O domínio sócio-econômico burguês. regimes políticos. decreta o fim da religião e de todo fundamento transcendente da realidade. Bragança Paulista: Lachâtre. alheia a qualquer divindade (Comte). ora desconstrói a própria noção de “natureza humana”34. na sua intransigência. Blondel. Seuil. Boutrox. duas mentalidades. a justiça estão no campo oposto. alçados à categoria de critério de verdade. A razão. Conceitos como Deus. e nasceu a nova religião como amor do homem35. universal e irresistivelmente progressiva. Dora. no campo das idéias. Maritain. irrevogável entre dois universos. já na segunda metade do século XIX. alma e transcendência humana. a de que faltou-lhe coragem para chegar à desconstrução da “natureza humana” ao fazer a crítica das religiões. A Igreja católica representa o passado. de toda a realidade. a autoridade. Nadja do Couto. p. Réné. pois considerados ultrapassados representantes de um passado a ser superado.que terminam por reforçar parte a parte os extremos. aqui já discutidas. fundamentaram uma interpretação materialista do real. Cit. e com ela. 35 VALLE.200 apud INCONTRI. 1 . “Materialismo e espiritualismo na filosofia: sínteses e culminâncias”. pretensamente livre de toda e qualquer influência metafísica. em suas Teses contra Feuerbach (1845). da esquerda. 52/53. instituições de toda sorte. Paris. a coação. Morreu a religião – a cristã ou qualquer outra – como adoração a Deus. que proclamaram uma ‘reformulação’. p. 1974. Op. esses fatores estimulam a retomada do sentimento anti-clerical. esta tomada como realidade absoluta. p. mas foi Hegel quem lhe deu o impulso decisivo ao eliminar a dicotomia entre espírito e matéria. forças sociais. Le XIXe siècle. quando não deliberadamente em sua oposição: sistemas filosóficos. O divórcio parece. pode trabalhar com um conceito de Espírito que termina por fundamentar visões de mundo materialistas (Hegel): A experiência sensitiva e o método científico. a tradição. a liberdade. 208. 2004. o dogma. já conhecido em sua forma organizada desde a Reforma Protestante. a ciência.

por exemplo. teve a paciência de percorrer essas formas na longa extensão do tempo e de empreender o gigantesco trabalho da história mundial.htm Acessado em: 08/12/2006.. plasmando nela. Grupo Acrópolis [on-line] http://www. ao lado de Hegel e Fichte. nº. Faculdade de Letras da Universidade do Porto. p. Cidade assim o avalia em contraposição a Kant.ig. Wundt. p. na medida de sua capacidade. colocando sua realização na “multiplicidade das consciências existentes” 37: A substância do indivíduo. HEGEL.org/enc/vtc/espiritu. Prefácio da Fenomenologia do Espírito. para Fichte. 51 [on-line] http://ler. a uma dissolução do homem. Trad.br/filosofia/livros/prefenom. consciências coletivas e conceitos correlatos. Georg W. e nem poderia o espírito do mundo com menor trabalho obter a consciência sobre si mesmo.). Particularmente.doc Acessado em: 08/12/2006 40 LALANDE. o Eu é um divino princípio universal. 38 Ou o idealista alemão Fichte. 38 HEGEL. 39 Poderíamos citar ainda o espiritualismo absoluto de Ravaisson40 ou o peculiar Eu lachelierano. desenvolve o conceito do Eu absoluto. 1920.htm Acessado em: 07/12/2006 39 CIDADE. que. Dora. a totalidade de seu conteúdo. Dilthey (. Buenos Aires 1953 Tomo 1 [on-line] http://www. exalta-se e deprime-se. 329 apud INCONTRI. “O homem cartesiano e o homem kantiano”. o próprio espírito do mundo. ou seja o nómeno concebido por seu Mestre Kant como diferente do Espírito. em perspectivas panteístas. ou melhor. 52/53. mas tendendo a conscientificar-se. 1/2. identifica em seu devir. por ele revestido da aparência eno-ménica. para uma dissolução do homem como ser individual e autônomo em Todos Universais. em cada forma. do Absoluto. ainda que via de regra evolucionistas. Librería El Ateneo. fazendo uma releitura de Kant. um pouco antes.. 1966. A meditação de Schelling não vai até esta identificação: para ele Eu e não-Eu procedem.pt/uploads/ficheiros/artigo491. pag.letras. Georg W. que integra. que por detrás deles fica imóvel. 325. eles. Suhrkamp. panteístico. in Revista da Faculdade de Letras do Porto. com nuanças mais ou menos sutis36”. invariavelmente convergentes. Hernani. tendem ao conservadorismo sociopolítico e. Leonardo. Cit. Tais leituras da realidade. que “se pinta e distinge-se. “O problema da Indução”. in Revista da Faculdade de Letras da Universidade do Porto. apenas para citar dois dos principais expoentes do 36 Idem. É Hegel. pag. como sua parte inconsciente.odialetico.Lotze. no mesmo tipo de conseqüências que se podem depreender das leituras materialistas do real propostas por Marx e Freud. que associa o “Espírito” à “vida moral de um povo”. a ele inacessível. 1985. 324. Op. descambam. o não-Eu.up. por intermédio deles se ocultando e revelando.. a ao também idealista Schelling: Na verdade. 207. André. possuidoras que eram de um fundamento espiritualista. 1 37 2 .filosofia. 2004a. Vocabulario técnico y crítico de la filosofía. Porto. Ibidem.com. Frankfurt am Main. Die Phänomenologie des Geistes. de contornos flexíveis conquista e perde fronteiras dos seus domínios41”. ps. o que os assemelha aos vieses materialistas.hpg. segundo Incontri. 41 COIMBRA.

Giumbelli destaca as seguintes peculiaridades: Rivail formou-se como educador e está longe da imagem que. Assim. que descentram o homem dotado de racionalidade e consciência autônomas. como discutiremos rapidamente a seguir. 1986. que surge. Além disso. A prática da psicanálise lacaniana em Centros de Saúde: psicanálise e saúde pública . restando-lhe uma dimensão meramente social e. 2004a. a determinação de todos os fatores humanos — religião. A interação dos discursos científico e religioso. 162. 60. data do lançamento de O livro dos Espíritos. 47 “O Espiritismo é uma doutrina que. A Ideologia Alemã .comciencia. portanto. Trata-se da obra fundamental do espiritismo. respectivamente. 2004a. 51. Dora. julgamos oportuno reforçar exatamente o a que nos referimos quando nos propomos a falar sobre o tema. Cit. FERNANDÉZ. 2001. cultura.materialismo no século XIX. São Paulo: Hucitec. temos dos fundadores religiosos. compreendido como a corrente de pensamento sistematizada pelo pedagogo francês Hippolyte Léon Denizard Rivail. forjada na luta de classes e por ela condicionada42. (INCONTRI. e de um inconsciente de desejos e pulsões inacessível ao controle da razão43: Vê-se pois que seja pelo inchaço irracional do espírito ou pela abolição pura e simples dessa categoria. a primeira das 42 43 MARX. 44 2) O Espiritismo É nesse panorama que surge o espiritismo.shtml. todo o contexto histórico esboçado até agora fornecerá o pano de fundo adequado para que se evidenciem as características essenciais dessa doutrina. arte. porém não inventada — por Allan Kardec”. segundo seus adeptos. organizada. Karl. em detrimento. filosofia — pela simples infra-estrutura econômica enlaçam o ser individual num determinismo histórico e num esvair-se de todas as suas outras possíveis dimensões. sistematizada. Disponível em http://www. Mas o encadeamento das relações produtivas. Nenhum grande acontecimento místico marca sua vida. Com Ciência – Revista Eletrônica de Jornalismo Científico. Marta. aqui reitero 45. podem-se notar fortes discrepâncias a esse respeito. foi codificada — o que vale dizer. Assim. Ainda a dialética marxista guarda um lugar de emancipação humana e uma possibilidade de transcendência social. Acessado em 20/11/2006. sob o pseudônimo de Allan Kardec. Myriam Rodrigues. p. 46 KANASHIRO. de uma consciência coletiva. começa a se esvaziar de uma essência individual. [Mestrado] Fundação Oswaldo Cruz.br/200407/reportagens/06. p. p. 45 A insistência em delimitar dessa forma o objeto espiritismo deve-se à polissemia que esse termo assumiu desde que as idéias espíritas se disseminaram no Brasil. a 18 de abril de 1857. o homem no século XIX. pelo menos em sua forma codificada47. Op. ele aproximou-se dos fenômenos associados ao espiritismo com uma curiosidade cética e insistiu em sustentar as credenciais científicas da doutrina a que chamou espiritismo46. A respeito do autor. Mesmo dentro do meio acadêmico brasileiro. 44 INCONTRI. 17) 2 . Atualizado em 10/07/2004. geralmente. coletiva. p. Escola Nacional de Saúde Pública.

médium. raras são as pessoas que dela não possuam alguns rudimentos. mais ou menos. dizer-se que todos são. (INCONTRI. com grupos espíritas de dezenas 48 O jornal francês L’Illustration. 203). 62 52 KARDEC. p. periódico mensal que ele publicou de 1º de janeiro de 1858 até sua morte. Segundo Incontri. O livro dos médiuns. Op. de 18 anos52. a que se juntam ainda O livro dos médiuns ou Guia dos médiuns e dos evocadores (1861). 2004a. Rio de Janeiro. a Europa? Nesse momento. num grau qualquer. chega a declarar a esse respeito que “a Europa inteira. “um dado interessante é que a maioria das respostas de O livro dos Espíritos foram obtidas por intermédio das meninas Boudin. Pode. o mundo inteiro tem o espírito perturbado por uma experiência que consiste em fazer girar as mesas. de 14 e 16 anos51”. segundo se pode depreender da Revista Espírita. 330. pois. e para cuja realização todos os homens seriam capacitados em maior ou menor grau50. p. 1995. da escrita ou de efeitos físicos. Todavia. não constitui. 2 . às quais se somou. assim só se qualificam aqueles em quem a faculdade mediúnica se mostra bem caracterizada e se traduz por efeitos patentes. Rio de Janeiro. fosse através da fala. Cit. a também médium francesa Celine Japhet. Allan. p. Sem ser o resultado puro e simples das observações empreendidas por Kardec em relação aos chamados fenômenos espíritas ou mediúnicos. Cit. 51 INCONTRI. O céu e o inferno ou A justiça divina segundo o Espiritismo (1865) e A Gênese. p. 2004a. o livro é o resultado de diálogos – e é nesse formato que ele se constitui. Galileu fez menos barulho quando provou que era a terra que girava em torno do sol”. Por isso mesmo. de Guillon Ribeiro. 2005. A mediunidade é compreendida nesse âmbito como mecanismo natural de comunicação entre homens e Espíritos. p. Uma particularidade do espiritismo apontada por Incontri. FEB. FEB. os milagres e as predições segundo o Espiritismo (1867). (KARDEC. Cit. Op. amplamente disseminados nos Estados Unidos e na Europa a partir de meados do século XIX48. Obras póstumas. Trad. o de 1018 perguntas e respostas – estabelecidos entre ele e o que considerava tratarem-se de espíritos – almas de pessoas falecidas – expressando-se através de “mais de dez médiuns [que] prestaram concurso para esse trabalho49”. Allan. Op. a influência dos Espíritos é. médiuns. portanto. evidencia-se na própria metodologia de elaboração de O livro dos Espíritos. em março de 1869. que digo. O Evangelho segundo o Espiritismo (1863). 330 50 Kardec sintetiza da seguinte forma o ser médium: “Todo aquele que sente. Essa faculdade é inerente ao homem. um privilégio exclusivo. Kardec mantinha contato. Dora.chamadas obras básicas da doutrina. 28) 49 KARDEC. por esse fato. no processo de revisão final da primeira edição da obra. em 14 de maio de 1853. de acordo com Kardec. Allan. e que está diretamente ligada à proposta epistemológica singular que ele sugere. de certa intensidade. usualmente. o que então depende de uma organização mais ou menos sensitiva. que ocorreria de forma espontânea desde as mais remotas épocas da humanidade.

Allan. e submetendo novos questionamentos de ordem filosófica. Tal fenômeno se deve. a que ele denomina de “alavanca da inteligência humana” que “revela as leis do mundo material58”. morrer. Rio de Janeiro. o espiritismo incorpora fortemente esses três referenciais em seu corpo de idéias. Allan. Dísticos como “Fé inabalável é só aquela que pode encarar a razão face a face em todas as épocas da humanidade54”. na 10a edição. em quatro continentes. O evangelho segundo o Espiritismo. 57 INCONTRI. de 1863. p. 1996. bem como deixam transparecer a otimismo confiante do educador francês na evolução humana e social. que está capacitada a julgar por si mesma fatos e teorias57” e à ciência. 57. evidenciam o valor atribuído por Kardec à racionalidade. Disponível em: http://www. 1995. FEB. científica. p. 2 . de autoria desconhecida. houve ainda “alguns acréscimos. de 1860. importante referencial para a maioria daqueles que se afirmam espíritas. de 1864” (Notícia publicada em 28/11/2006 e acessada em 14/12/2006. porque. Cit. renascer ainda e progredir sempre. Bebendo da herança burguesa-iluminista. com seus pressupostos racionalistas. à síntese que tal máxima representa da influência evolucionista no pensamento kardequiano. e na 12a edição. evolucionistas e cientificistas. Op. Ressalto inicialmente a particularidade da metodologia de elaboração de O livro dos Espíritos por julgá-la emblemática para a compreensão da visão de mundo proposta nas obras de Kardec. O evangelho segundo o Espiritismo. apesar de freqüentemente atribuída ao codificador do espiritismo. 63 58 KARDEC. compreendida como variável “imanente em todos seres humanos.febnet. de 1861. p. que constituem até hoje. se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer. Ed. muito provavelmente. apesar do aspecto multifacetado e por vezes contraditório que assumiu o espiritismo ao longo do século XX. supressões e modificações feitos pelo próprio Allan Kardec: na 4a edição. ele se modificaria nesse ponto 56”. Kardec reelaborou O livro dos Espíritos. tal é a Lei55” e “Caminhando de par com o progresso. Só que essas máximas permitem entrever também um outro aspecto da proposta espírita. Rio de Janeiro. FEB. o Espiritismo jamais será ultrapassado. na 5a edição.br/file/2621. quando do lançamento da segunda e quase definitiva edição em 30 de março de 186053.org. expandindo os 550 itens da primeira edição para os atuais 1018. Allan. Por meio desses contatos. Cit. 44/45. de 1862. na 6a edição.doc) 54 KARDEC. moral. 55 Frase esculpida em 1870 no túmulo de Allan Kardec. que se distancia sensivelmente do pensamento dominante nos círculos 53 Segundo notícia veiculada no site da Federação Espírita Brasileira. 56 KARDEC. religiosa aos grupos mediúnicos com que se comunicava. Dora. A gênese.de países. 2004a. “Nascer. Frontispício. os milagres e as predições segundo o espiritismo.

educador por vocação. Ibidem. sem se furtar de fazer uma crítica da ciência. dos efeitos procurava remontar às causas. o método experimental. 22/23 Idem. Cit. 2004a. lançou-se com afinco a sua investigação. observava cuidadosamente. o espiritismo é decisivamente influenciado pelas idéias em voga à época e. nunca elaborei teorias preconcebidas. passa por uma leitura libertária do papel exercido por Jesus de Nazaré nos campos social e espiritual. é enriquecida com os conceitos rousseaunianos de religiosidade natural e homem essencialmente bom. ao longo de 30 anos de intensa atividade didática e pedagógica na França. deduzia conseqüências. nomeadamente o materialismo e o dogmatismo científico. E foi justamente pela importância desse conceito para a tradição a que se filiara Kardec. durante os anos de 1855 e 1856. senão quando resolvia todas as 59 60 INCONTRI. 110 2 . Op. espiritualista. por dedução e pelo encadeamento lógico dos fatos. Anti-clerical. É assim que Kardec se propõe a oferecer uma fundamentação consistente a conceitos essenciais à tradição classificada por Incontri como a “mais representativa. e traz consigo o potencial para realizar-se e para transformar o meio à sua volta60. Dora. como o fizera até então. e desemboca em Denizard Rivail. ganha contornos pedagógicos com Jan Amos Comenius. Assim descreve Kardec seu interesse pelo tema e sua atitude diante das possibilidades que a novidade lhe suscitava na mente: Apliquei a essa nova ciência. Toda essa tradição assenta-se sobre uma ontologia particular. Trata-se de uma linha de pensamento que remonta ao espiritualismo moral de Sócrates/Platão.burgueses de então. e cientificista. sem incidir no panteísmo. com a declarada pretensão de superá-los. comparava. então Rivail. sem descurar de outras possibilidades de se compreender o real que não a mediada pela razão pura. individualidade inteligente que transcende a morte do corpo. algumas das reuniões familiares em que comumente produziam-se tais fenômenos. sem ser laico. critica-as em aspectos que julga apriorísticos e/ou inconsistentes. discípulo de Pestalozzi e sistematizador do espiritismo. racionalista. freqüentando regularmente. o pai da pedagogia moderna. pp. p. tão logo se deparou com os fenômenos das mesas girantes e da escrita coletiva por meio de lápis fincados em cestos de vime. levando-se em conta os últimos dois milênios59” entre as tradições ocidentais. recebe aplicação prática mediante a pedagogia do amor de Johann Heinrich Pestalozzi. independente que é dele. ao mesmo tempo. que. não admitindo por válida uma explicação. que entende o homem antes de tudo como alma imortal.

Cit. Gustave Geley.. os milagres e as predições segundo o espiritismo. até então. desde a idade de 15 a 16 anos.. Ernesto Bozzano e Cesare Lombroso. Compreendi. qual defendia Kardec. ou seja. O livro dos médiuns. Obras póstumas. antes de tudo.. Kardec concluiu que certas ocorrências ligadas a tais fenômenos. Isso o que se deu com a mesa. p. Paul Gibier. fazia-se mister. e secundado pela opinião de pesquisadores renomados à época62. porém. Allan. Por essa pretensão. para não me deixar iludir. em suma. a gravidade da exploração que ia empreender.. que se dedicaram a estudar os chamados ‘fenômenos espíritas ou psíquicos’. Aleksander Aksakof. 22. Alfred Russel Wallace. Allan. não se tratava simplesmente de submeter o conhecimento religioso à racionalidade filosófica. 62 2 . acreditou-se que esse método também só era aplicável à matéria.. Essa possibilidade que abraçou fez com que Kardec entrevisse na chamada fenomenologia mediúnica a chave para dar suporte à espiritualidade humana numa época de laicismo. mais do que isso. Incontri afirma ser o espiritismo um “infrator do postulado kantiano de que a razão não tem acesso aos problemas transcendentes”. que obedecia a uma inteligência. de espíritos de pessoas que. pretendendo não só o acesso da razão à dimensão transcendental. toda uma revolução nas idéias e nas crenças.) estão (. 327/328.) basta que prove ser um ato livre e voluntário. se se reconhecessem nos seus movimentos sinais de serem eles intencionais. como da própria investigação empírica. 1995. a chave do problema tão obscuro e tão controvertido do passado e do futuro da humanidade. Cit.dificuldades da questão. Nesse sentido. quando uma ventoinha se move. não poderiam explicar-se de outra forma que não pela intervenção de “inteligências que (. principalmente aquelas denominadas “manifestações inteligentes63”. como o de espírito e o de transcendência humana. Incontri esboça a seguinte relação dos “homens de ciência. ao passo que o é também às coisas metafísicas65”.) conforme se lhe ordenasse. 65 Idem. p.) fora da Humanidade64”. dizia Kardec que “as ciências só fizeram progressos importantes depois que seus estudos se basearam sobre o método experimental. Ed.. Friedrich Zöllner. forçoso seria admitir-se. Conceitos-chave da referida tradição espiritualista. O livro dos Espíritos. mas. poderiam e. Ed. p. de forma a que pudessem gozar da legitimidade que só os fenômenos empiricamente verificáveis possuíam naquele contexto particular. 19/20). ser positivista e não idealista. 61 Por meio da investigação que pessoalmente conduziu. ou respondendo a um pensamento. p.. FEB. aplicando metodologia experimental: William Crookes. Decerto. exprimindo uma intenção.” (KARDEC. Oliver Lodge. andar com a maior circunspeção e não levianamente. A gênese. toda gente sabe que apenas obedece a uma impulsão mecânica: à do vento. se ela girasse (. já não mais se achavam entre os homens. de forma 61 KARDEC. naqueles fenômenos.. cientificismo e materialismo dominantes. deveriam ser submetidos à investigação experimental. Assim. portanto.. p. Era. a solução que eu procurara em toda a minha vida. percebi. 87) . em contraposição ao de manifestação física: “Para uma manifestação ser inteligente (. 20. 63 Kardec assim resume o conceito de manifestação inteligente. apenas para citar alguns” (INCONTRI. tendo passado pela condição humana. 64 KARDEC. não que a ventoinha era inteligente. Ed. 2004a. Rio de Janeiro. Foi assim que procedi sempre em meus trabalhos anteriores. Cit.

Rio de Janeiro. Assentar exclusivamente as verdades do Cristianismo sobre a base do maravilhoso é dar-lhe fraco alicerce. destruindo-se assim “o que ainda restava do domínio do maravilhoso68” nas religiões. Essa base desafia o tempo e a Ciência. a ontologia naturalista. Acessado em: 07/11/2006 67 PESOLI. o espiritismo atraiu tanto os cientistas e literatos num primeiro momento66. dá-lhe base mais sólida do que a dos milagres: as imutáveis leis de Deus. pois que o tempo e a Ciência virão sancioná-la69. a exposição didática das respostas.. Kardec foi um homem das Luzes. 23. Chico Xavier e a cultura popular brasileira. Nesse primeiro sentido. Rio de Janeiro. ela deveria evidenciar-se pelo exame experimental. 2006. Já Pesoli faz a seguinte avaliação acerca da situação em que se colocava o espiritismo no relacionamento entre ciência e religião: In questo contesto. FEB. 31. Bernardo. 1999. p. e quanto a isso Kardec não possuía dúvidas. p. p. A gênese: Pretender-se que o sobrenatural é o fundamento de toda religião (. 1995. più moderno delle religione rivelate e al contempo più comprensibile e popolare delle dottrine scientifiche: un giusto compromesso tra bisogno di spiritualità e di trascendente da una parte. Ainda a esse respeito.antropologia. Tratava-se de uma busca declarada por salvaguardar aquilo que o pedagogo considerava o fundo de verdade que repousaria nas bases de todos os sistemas religiosos. lo spiritismo poteva apparire. (.) O Espiritismo considera de um ponto mais elevado a religião cristã. Aspetti della ricerca scientifica sullo spiritismo in Italia (1870–1915).com. e adeguazione alla nuova immagine della natura e del mondo dall’altra67.. Milão:Università degli studi di Milano.. ed. 2 . busca essa que facultaria “a explicação de certa ordem de fenômenos incompreendidos” até então. O evangelho segundo o espiritismo.br/. a unicidade da verdade garantida através da concordância intersubjetiva dos experimentos. FEB. os milagres e as predições segundo o espiritismo. 68 KARDEC. 69 Idem.) é sustentar perigosa tese. 320. de sua última obra publicada em vida. mas de colocá-lo também em diálogo com o próprio conhecimento científico e sua característica preocupação com o exame experimental da realidade. 66 LEWGOY. Por isso.a despir-lhe das “crendices e superstições”.. É o que explica Kardec no tópico O sobrenatural e as religiões. 270. a que obedecem assim o princípio espiritual. Fabrizio. o progresso e o espírito científico. Centro Virtual de Antropologia. cujas pedras facilmente se soltam. 1995. A gênese. Tesi di Laurea in Filosofia. como o princípio material. que criou uma religião altamente relacionada com os ideais de sua época: a laicidade. Allan. Disponível em: http://www. per chi pencolava tra fede e adesione alla scienza. Lewgoy acrescenta: O seu ideal de ciência aplicado à religião é profundamente marcado pelo positivismo: a importância transcendental do método. Se a religião possuía uma porção da Verdade consigo. como todas as “verdades” demonstradas pela ciência.

contudo. que emprestava um valor bastante especial à “Ciência” na averiguação da “Verdade”. p. por seu caráter progressivo e sempre aberto a novas descobertas. divino e inacessível por vias ordinárias. p.. Op. “Kardec faz o caminho inverso da escolástica medieval. Cit. deverão ser referendadas. Dora. quanto no tocante ao pensamento positivista. que pretendia justificar a fé pela razão e submetia a razão à fé71”. para a compreensão do real. ponderar. O livro dos Espíritos.Apesar da preocupação notoriamente cientificista. por reconhecer a preponderância de um princípio espiritual como fundamento da realidade. sugerir. o simples fato de sugerir uma perspectiva dialógica de relação com o elemento espiritual. Por meio da mediunidade. Kardec atribuía papéis também importantes e pouco habituais para os padrões da época à racionalidade filosófica. Definido o espiritismo como uma “filosofia racional sem os prejuízos do espírito de sistema70”. e racionalista. ainda que não único. 49. os espíritos têm voz para propor. transcendente. 72. pelos outros dois critérios. que nem considera a existência dessa dimensão transcendente. de uma filosofia espiritualista. 72 Idem. Ibidem. nem atribui valor ao diálogo como metodologia válida para se chegar à Verdade. enfim. p. de forma a evitarem-se excessos de parte a parte e de contornarem-se as limitações inerentes a cada uma delas. 2 . discutir. como elementos auxiliares no processo de compreensão da realidade. na medida em que “faz a crítica da fé. suscitar novas idéias. Cit. o racional e o empírico. Essa crítica. Allan. tanto em relação ao pensamento teológico da época. e particularmente. que vê esse elemento como algo sagrado. a partir da razão72”. e é aqui que entra um elemento de originalidade do trato espírita sobre a questão. 72. Ambas deveriam entrar. é bem verdade. Como explica Incontri: 70 71 KARDEC. Ed. Só que. Segundo Incontri. consiste numa postura bastante singular de Kardec. 2004b. por atribuir à razão a condição de parâmetro válido e essencial. não se faz. INCONTRI. ao lado da investigação experimental. à revelação espiritual nesse processo. portanto. de forma a destituir a fé de legitimidade como método de apreensão da realidade. sua dimensão filosófica baseava-se na livre reflexão realizada a partir das conclusões a que conduzia a investigação experimental dos fenômenos. na medida do possível. que. Trata-se.

de forma que nem seja necessário desabilitar a primeira como forma válida de acesso à Verdade. ligados a uma organização biológica. em virtude da sua posição pessoal e de seus conhecimentos. A respeito dessa proposta metodológica. e por meio do diálogo entre os conhecimentos científico. A doutrina espírita não se pretende portanto uma filosofia fechada. que se constroem as verdades espíritas. num sistema de pensamento que faz de homens e espíritos seres essencialmente idênticos. que haviam alcançado. Ao ter voz ativa no processo de construção de conhecimento. o que quer dizer desvinculados de um corpo físico.) Trata-se de um conhecimento em constante construção. informar-nos de tudo. Reconhecida desde o princípio. enganos ou mentiras por meio do diálogo com a racionalidade humana. nem seja preciso limitar-se o homem às possibilidades da segunda de atribuir sentido ao Real. Dessa forma. complementam-se para a obtenção de um conhecimento integrado. e os segundos desencarnados.. não podendo um só. do mesmo modo que se chega a conhecer o estado de um país.. filosófico e religioso. o pedagogo faz a seguinte ponderação: Um dos primeiros resultados que colhi das minhas observações foi que os Espíritos. de adiantamento. porque a revelação é contínua e democrática — qualquer um pode ter acesso a um médium — e a ciência pode obter novas facetas dos fenômenos observados.. 35. separados apenas pela condição momentânea de estarem os primeiros encarnados. sejam consideradas sólidas pelos adeptos e tomadas como fundamentos para outros desenvolvimentos doutrinários73. filosofia e religião. por meio dos documentos colhidos de diferentes lados. encaradas numa perspectiva original. nem a ciência integral. Revelação e Razão. p. embora as pedras angulares postas por Kardec dentro da metodologia descrita. Kardec pretende contornar a possibilidade sempre presente de a revelação espiritual conter erros. 2 . em que cada um desses métodos de acesso à realidade exerce um controle recíproco sobre os resultados obtidos. nada mais sendo do que as almas dos homens.Vê-se que ciência. esta verdade me preservou do grave escolho de crer na infalibilidade dos Espíritos e me impediu de formular teorias prematuras. Op. através da mediunidade. não possuíam nem a plena sabedoria. levar à pauta matérias para discussão. Sempre com o objetivo de superarem-se as limitações de cada um desses elementos. Compete ao observador formar o conjunto. e que a opinião deles só tinha o valor de uma opinião pessoal. me desvendava uma face daquele mundo. lançar teorias e formular hipóteses. uma que suscita e a outra que avalia. complementam-se dialogicamente. interrogando habitantes seus de todas as classes. E é numa perspectiva relacional.. uma que propõe e a outra que controla.. (. tendo por base o que fora dito por um ou alguns deles. Cit. ou seja. dialógica. Dora. 2004a.) Vi logo que cada Espírito. a revelação passa a ter legitimidade também para filosofar. É no diálogo entre o elemento humano e o elemento espiritual. Não há a sacralidade do religioso dogmático. que se constrói toda a proposta espírita de compreensão da realidade. individualmente. que o saber de que dispunham se circunscrevia ao grau. 73 INCONTRI. Outros desdobramentos filosóficos podem surgir a partir das bases lançadas por Kardec. (.

quanto na condição de forma de acesso ao real que “não pode ser deixada apenas por sua própria conta. p. Incontri avalia da seguinte forma essa pretensão de Kardec: O controle de uma área de conhecimento sobre as outras garante um grau de confiabilidade (. Conduzi-me. 2004b. Busca-se eliminar o conflito. a religião. Op. ma as religião não permite que a ciência se resseque. 328/329. tinha a articulação filosófica necessária à formulação de uma doutrina. entre ciência e religião. Allan. o controle experimental da ciência. perca a ética. tinha o espírito científico de observação empírica (. a corrente de pensamento que fundamentou em toda a Europa. 2004b. sem os excessos sistemáticos de muitas escolas” e sem perder “a conexão prática com a realidade”. p. pela defesa comum a todas as vertentes do conceito de espírito como individualidade moral e inteligente que sobrevive à morte do corpo. 30/31). Cit. 109. para não virar especulação desconectada dos fatos e das pessoas76”. 110. distancie-se da verdade espiritual77. Cit.74 (grifos nossos) De modo análogo.. eles foram. e como em toda essa valorização do método dialógico. do menor ao maior. A filosofia entra nessa metodologia tanto como elemento mediador entra as outras duas formas de conhecimento.) O espírito de observação científica não permite que a filosofia se perca e sistemas sem sentido e impede a fabulação religiosa. Ed.) Como educador. 2 . ascende por seus próprios esforços a uma condição de perfeição intelecto-moral. mas especialmente nos países latinos. a abertura a uma dimensão intuitiva e mais sensível. então já secular.. como houvera feito com homens. pode-se ler o olhar de um pedagogo75 na formulação da proposta de se pensar a realidade a partir do diálogo entre ciência. um braço de importância fundamental dentro do amplo e heterogêneo movimento espiritualista. Ibidem. Obras póstumas. Trata-se de corrente que assumia feições mais religiosas em certas regiões e mais científico-filosóficas em outras. tinha essa reverência religiosa diante do ser humano e da natureza das coisas” (INCONTRI. Op. conhecido também como neo-espiritualista ou moderno-espiritualista. Foi essa. e é capaz de comunicar-se ordinariamente 74 75 KARDEC. Acrescenta ainda que “Como educador. de forma a permitir. Cit.. característica daquela. com os Espíritos. 77 Idem. coordenados e comparados uns com outros. Dora.. propondo a cada uma que se abra à crítica da outra. ao longo de sucessivas existências físicas. meios de me informar e não reveladores predestinados. e esta. propiciando a articulação necessária à efetivação de diálogo tão pouco explorado naquele contexto. durante a segunda metade do século XIX.. em linhas bem gerais. mas que recebe o nome genérico de espírita. pois. 76 INCONTRI. pp. p. para distinguir-se da tradição filosófica homônima.colecionados. Incontri afirma que Kardec “como educador. Para mim. filosofia e religião.

81 Incontri identifica em Rousseau e Pestalozzi a origem dessa concepção bastante presente no espiritismo: “Já Rousseau e Pestalozzi. 71/72). 79 A doutrina da metempsicose remonta aos textos sagrados do hinduísmo. Rio de Janeiro. Acessado em 11/12/2006. Uma ciência que virou religião e uma religião que virou ciência78 O espiritismo destaca-se nesse cenário espiritualista por preconizar a existência da reencarnação. também. criados indistintamente “simples e ignorantes80”. pp. 80 KARDEC. a doutrina espírita assenta sua dimensão religiosa em uma releitura do cristianismo tradicional. Começou como ciência do mundo espiritual. num século que aboliu os preconceitos e perseguições religiosas e teve na ciência um avanço intelectual.%20XIX%20e %20XX. Disponível em http://www. procurando dele resgatar características de uma religiosidade natural81. p.doc. dentro do qual se acha inserido o espiritismo. vegetais e mesmo inanimados. sem negação ou aceitação sistemática para. não nos moldes da metempsicose oriental79.br/~elmoura/O%20Espiritualismo%20nos%20S%E9c. sob princípios éticos e de veracidade comprovada. transformar-se em um movimento religioso e filosófico específico. que certamente influenciaram Kardec neste sentido. hierarquias e dogmas. visto antes como oportunidade incessante de aprendizado intelecto-moral do que como processo de pagamento de dívidas morais. “destituída de poderes temporais. um aliado valioso. Sobre o panorama geral do movimento espiritualista europeu e norte-americano. Unicamp:1997. conquanto defensora de uma proposta espiritualista de cunho universalista. Este movimento aplicou a ciência nas comunicações com os mortos. como a crença em Deus. ao longo de sucessivas ligações com a matéria. Campinas. Reflexões teóricas e históricas sobre o Espiritualismo entre 1850-1930. na prática do bem constituiriam o fundamento de uma religião sem nome. na imortalidade da alma. da sobrevivência da alma. 1995. O livro dos Espíritos. Além disso. emancipada de rituais. combateu o materialismo simplista e lançou bases para pensar as verdades religiosas. em que é apresentada como o mecanismo natural de aperfeiçoamento dos espíritos. contudo. 2004a. e muito mais orientada para a ética do que para o culto” (INCONTRI. FEB. Diversamente da concepção cármica característica do hinduísmo. antes dominadas pelo dogmatismo da religião tradicional. p.com os homens através da mediunidade. alguns anos mais tarde. imanentes à natureza humana. de organização institucional. animais. e admite a transmigração das almas entre corpos humanos. individual. investigou os fenômenos na sua lógica e veracidade mas. e destinados à auto-realização por meio de seus próprios esforços. 11. mas segundo uma concepção progressiva e sempre ascendente. 3 . uma fé racional encarando os fatos sobrenaturais à luz da razão. o espiritismo atribui um papel eminentemente pedagógico ao processo reencarnatório.unicamp. haviam proclamado uma religião natural. 95. de cultos externos (a adoração em espírito e verdade a que se referia o Cristo). Allan. Eliane. Princípios universais. de sacerdócio e intermediações entre Deus e o 78 MOURA SILVA. Moura Silva faz a seguinte análise: O movimento espiritualista colocou-se como uma revolução do pensamento de sua época.

278. p. como “o sentimento que nivela os homens. 23. Cit. Rousseau e Pestalozzi. eventualmente acrescidos de algumas contribuições dos evangelhos apócrifos. Op.. Dora. O evangelho segundo o espiritismo. Se no Cristianismo esta era uma questão de fé. dizendo-lhes que todos são irmãos. Cit. p. 84 MOURA SILVA. Jesus é descrito por Kardec como “o tipo da perfeição moral a que a Humanidade pode aspirar na Terra83”. 82 83 INCONTRI.. 87 Idem. Op. um “educador de almas”. p. àquela altura. Ibidem. da consciência. Cit. (. que. Por sua conduta. p. na prática moral dos ensinamentos evangélicos. Ed.. ainda que se processe segundo uma leitura não-ortodoxa de cristianismo. ibidem. 2004a.. 88 PESOLI. de sua exemplificação moral. disseminar-se com relativa facilidade pela tradicionalmente católica porção latina da Europa e da América88. demonstrada pelos fatos das comunicações espíritas84. Jesus é percebido como um mestre. na qual os ensinamentos de Cristo seriam completados. acima de tudo. vista como a própria presença do Criador na criatura. Fabrizio. O livro dos Espíritos. influenciada tanto pelo racionalismo iluminista quanto pelo espiritualismo humanista de Comenius. e da humildade. empirista. que se devem auxiliar mutuamente. Essa aproximação com a moral cristã. 22 3 . Allan. segundo os relatos contidos nos evangelhos canônicos. sobretudo em relação à vida futura. em linhas gerais. com o Espiritismo transformou-se numa realidade material. e os induz ao bem87”. 85 KARDEC. p. compreendida pelos espíritas. p. 86 Idem. fundamentando a lei evangélica na relação permanente entre os vivos e os habitantes do mundo invisível. 139. fundada numa rigorosa justiça divina que permitia aos homens alcançar a felicidade futura. Ed. A respeito dessa dimensão moral do espiritismo no século XIX. entendido como “sol interior que condensa e reúne em seu ardente foco todas as aspirações e todas as revelações sobre-humanas 85” e como elemento mediador fundamental nas relações humanas. Allan. . fenomênico. Cit. 75. contudo. as duas alavancas da inteligência humana. cuja importância decorre de seus ensinamentos de amor e abnegação e. mais do que ao espiritualismo. percebida como a divina antítese do orgulho. a inauguração de uma Nova Era. p. O Espiritismo reviu a moral cristã à luz dos ensinamentos dos Espíritos. Cit. Eliane. a exemplo do amor.homem82”. 186.. Moura Silva chega a afirmar que: O Espiritismo era o Cristianismo no seu aspecto de ensino moral. Pode-se perceber no espiritismo uma ênfase em aspectos essenciais da moral cristã. vieram falar de uma aliança entre a Ciência e a Religião. Op. torna possível ao espiritismo. verdadeira “sentinela da probidade interior 86”. já estava também decisivamente influenciada pelos pressupostos da ideologia burguesa.) As instruções dos Espíritos. 308. KARDEC.

o número 89 KARDEC. D. Santiago de Chile. fundado pelo então ministro da Guerra. La voz de los muertos intrepaba a la ciencia dura y lo hacía con cierta periodicidad91”. José Mariano. Fabrizio. Instituto de Difusão Espírita. de Alicante. “em 1887. General D. publicada pela Sociedad Barcelonesa de Estudios Psicológicos. Acessado em: 12/08/2006. pela Sociedad Espiritista. que causou forte repercussão na imprensa espanhola e evidencia o incômodo já causado pelo espiritismo à Igreja naquela época. na Ciuddad Real. a exemplo do El Espiritismo. do El Progreso Espiritista. Leyva afirma que. o principal periódico do gênero no país. Araras:1994.com/anteriores/2006/noviembre/anteaula126. Oviedo: 2000. Argentina. La Habana. e do El Espiritualismo. “La ciencia de los muertos: Espiritismo en México en el siglo XIX”. apenas quatro anos após o lançamento de O Livro dos Espíritos.F. sendo contrários à fé católica. De acordo com Bejarano 90. Lo Spiritismo.org/aut/mmb/hfe1714. 91 LEYVA. entre 1867 e 1876 “surgem inumeráveis centros espíritas” na Espanha. Uribe y Ferrari Ediciones. México. novembro de 2006. p. 93 Idem. p. Cit. um carregamento de 300 obras espíritas encomendadas pelo livreiro francês Maurice Lâchatre. também. e os livros. Ibidem. durante as décadas de 50 e 60 daquele século. só na França. 90 BEJARANO. Joaquín Bassols. e La Voce di Dio. “folha inteiramente constituída de ditados mediúnicos93” sob a responsabilidade da Società di Scordia. Biblioteca Filosofia em español. jornal homônimo do grupo que o editava.htm. Segundo Giumbelli. Op. 63. espalham-se por todo o país instituições e publicações espíritas. Disponível em: http://www. Società Spirtista di Palermo. 3 . Historia de la filosofía en España hasta el siglo XX.filosofia. Mario Méndez. “eran varias las ciudades latinoamericanas con revistas espíritas: Montevideo. A reação católica à difusão das idéias espíritas. sob a justificativa de que “a Igreja católica é universal. veiculado pela Società Spirituale di Napoli. foi apreendido e queimado em praça pública pelo bispo de Barcelona. ficou conhecida como Auto de fé de Barcelona e acabou servindo como forte propulsor à disseminação do espiritismo no país. México. 97.Ainda em 1861. por supuesto. Allan. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos 1861.correodelmaestro. Acessado em: 10/12/2006. Na Itália. da Revista Espiritista. 92 PESOLI.htm. da revista La Revelación. in Correo del Maestro nº 126. dentre as quais se podem destacar 92: Annali dello Spiritismo in Italia. à época. editado em Sevilha. Disponível em: http://www. existiam 13 periódicos em circulação. bem como dezenas de periódicos. na Espanha. refugiado na Espanha da perseguição do governo de Napoleão III. Bogotá y. o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião de outros países 89”.

Destacamos. em função do golpe de estado comandado pelo General Manuel Pavía em 3 de janeiro de 1874. Ibidem. Emerson. através de breves referências pinçadas da Espanha. que é assunto de destaque no capítulo que Bejarano dedica ao Século das Luzes em sua obra sobre a Filosofia na Espanha. da Itália e da América Latina. conociendo que la causa primera del desconcierto que por desventura reina en la nación española en la esfera de la inteligencia. en la región del sentimiento y en el campo de las obras. se redactará del siguiente modo: Tercero. Cit. antes de tudo. 95 BEJARANO. centramo-nos. Op. que se trata de tema controverso e já submetido a análises bastante distintas entre si no meio acadêmico. foi impedido de levar a cabo o intento. (grifo nosso) O espiritismo. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. chegou a ter sua inclusão proposta como disciplina integrante do currículo regular nos Ensinos Médio e Superior espanhóis. Espiritismo95. 3) O Espiritismo no Brasil Evidenciada a difusão do espiritismo nos países latinos. p.atingia a 36. procurando contextualizar o espiritismo. Cândido Procópio Camargo e Roger Bastide parecem ter sido os primeiros a se debruçarem sobre ele dentro de uma perspectiva sócio-antropológica. que pôs fim à Primeira República Espanhola96. entre os cinco proponentes. Título II. É preciso salientar. D. relaciones hondamente perturbadas por la fatal influencia de las religiones positivas. a título de amostra da relevância adquirida pelo espiritismo nos países latinos. 3 . É a ele que dedicamos este último tópico do presente capítulo. em face do objetivo de investigar a coluna de Bezerra de Menezes. contudo. Mario Méndez. tienen el honor de someter a la aprobación de las Cortes Constituyentes la siguiente enmienda al proyecto de ley sobre reforma de la 2ª Enseñanza y de las facultades de Filosofía y Letras y de Ciencias. deputado encarregado. 59. es la carencia en el ser humano de un criterio científico a que ajustar sus relaciones con el mundo invisible. 1997. O cuidado dos mortos: uma história da condenação e da legitimação do espiritismo. 96 Idem. es la falta de fe racional. sobre uma reforma nacional na área da educação: Los diputados que suscriben. por fim. ao lado do 94 GIUMBELLI. de fazer a defesa da proposta. El párrafo 3º del artículo 30. José Navarrete. Em 1890. no processo de adaptação do espiritismo à cultura brasileira. a seguinte proposta apresentada em 26 de agosto de 1873 às Cortes Constitucionais da Espanha. são registrados 88 periódicos circulando por toda a Europa94”.

Cit. 2002. tanto mais que a tradição do curador. Vozes. Cândido Procópio Ferreira. Petrópolis. Os segmentos mais abastados. Bastide. 162 apud STOLL. no âmbito da difusão da religiosidade popular no Brasil em fins do século XIX e início do século XX. Disponível em: http://www. v. que acabou disseminado por outros trabalhos brasileiros e estrangeiros. n. Pioneira. é o conceito de distorção. 97 STOLL. São Paulo. talvez. Cit. Pioneira. 3 .. Nesses primeiros estudos. ciência ou auto-ajuda? Trajetos do Espiritismo no Brasil” in Rev. 100 Idem. 433 apud STOLL. eram mais voltados para o espiritismo experimental. enquanto a classe média tendia a vivenciar a doutrina espírita religiosamente. 102 STOLL. 367.. argumentando que “toda versão. científico.) o traço distintivo do Espiritismo brasileiro e. período caracterizado pela aceleração do crescimento urbano brasileiro. segundo o qual o espiritismo teria sido adulterado mediante a releitura que dele se fez no Brasil.] o caráter médico do espiritismo continua. Católicos. Op. da magia curativa. já se postulava uma idéia que viria a se tornar quase consensual em todos os estudos acadêmicos acerca do espiritismo. Kardecismo e umbanda. As religiões africanas no Brasil.br/pdf/ra/v45n2/a03v45n2. 99 CAMARGO. 365. 2. ele acrescenta que “no Brasil o aspecto religioso torna-se preponderante.Pentecostalismo e das tradições afro-brasileiras97. que influenciaram decisivamente boa parte da produção acadêmica sobre o tema nas décadas de 60 e 7098. segundo ele. associando-a a práticas curandeirísticas. p. 1961. Sandra Jacqueline. Op.scielo. permanece a base da mentalidade primitiva101”. Afirma Bastide que “aqui [.. Roger. p. 98 Idem. “Religião. Cit. seja a causa de seu sucesso entre nós99”. de definição da doença pela ação mística de feiticeiros ou da vingança dos mortos. p. Acessado em: 21/07/2006. Op. Cit. 4. por sua vez. 1973. enfatiza a segmentação social presente nessa reinterpretação do espiritismo. 1985. apud STOLL. Ibidem. toda reinterpretação é sempre um ato criativo103”. p. Stoll discorda desse conceito. Op.. Ibidem. São Paulo. Apontando a tradição cultural brasileira como fator condicionante dessa ênfase no religioso que caracteriza o espiritismo no Brasil. p.. Um traço comum a ambas as linhas de pesquisa. Camargo sintetiza-a destacando que “a ênfase no aspecto religioso da obra de Kardec constitui (. de acordo com Stoll 102. São Paulo.pdf . 103 Idem. em contraposição ao filosófico e científico100”. 45. espíritas e protestantes. 101 BASTIDE. Antropol.

évolution et actualité du mouvement social spirite entre France et Brésil. Paris. Lattès.) O Espiritismo brasileiro assume um “matiz perceptivelmente católico” na medida em que incorpora à sua prática um dos valores centrais da cultura religiosa ocidental: a noção cristã de santidade106. Essa originalidade. Religião. “cuja marca consiste na síntese com o Catolicismo108”. 369. o Espiritismo à brasileira seria uma versão original e não um produto menor.Estudos Filosóficos em fins do século XIX.Naissance. defendendo que o médium Chico Xavier teve um papel fundamental nesse processo de construção de uma tradição espírita brasileira. adulterado ou desviante104. François e AUBRÉE. de uma particularização cultural e histórica de idéias e práticas concebidas com pretensão de universalidade. Marion. Sua difusão. o Espiritismo é uma religião importada. 48.85 apud STOLL. apenas Aubrée e Laplantine parecem ocupar-se dessa questão. que nos serve também de base à investigação sobre o panorama que oferece condições para o surgimento da coluna O Espiritismo . 3 . não só foi o primeiro a fazer da interação espiritismo-catolicismo um argumento central de sua pesquisa. Apesar de reconhecer a relevância dessa interlocução para o processo de estruturação do espiritismo brasileiro. Ed. Ibidem. fora Stoll. portanto. 104 105 Idem. 1990. em contraposição a estas o Espiritismo define sua identidade. Como o Islamismo na Indonésia. publicado em 1999. sem. (tese de doutorado) 107 LAPLANTINE. sobressaem-se nesta primeira década do século XX. p. trabalhando dentro dessa perspectiva. destacamos Lewgoy (2000). 108 STOLL. seja formando com elas um continuum (Camargo). p. Op. Entre os autores que estudaram o espiritismo até a década de 90 do século passado. Ibidem. no âmbito das religiões de tradição afro.. p. seja constituindo-se por oposição a elas (Ortiz). São Paulo. No entanto. elegendo sinais diacríticos elementos do universo católico (. p. 368. o que enquadraria o espiritismo no âmbito das religiões mediúnicas ou dos cultos de possessão. aprofundá-la107. Entre Dois Mundos: o Espiritismo entre a França e o Brasil. Cit. ciência ou auto-ajuda? Trajetos do Espiritismo no Brasil. Nesse sentido. hegemônica e. como abriu caminho para outras pesquisas que. para a maior parte dos pesquisadores 105.. Nesse sentido. conformadora do ethos nacional. de longa data. contudo. Idem. teria se constituído no diálogo com as tradições afro-brasileiras.Trata-se de reinterpretação. 106 Idem. USP. como postulam certos autores. O trabalho de Stoll. foi em parte favorecida pelo fato das práticas mediúnicas já estarem socialmente disseminadas. le livre et lês esprits . que se difunde no país confrontando-se com uma cultura religiosa já consolidada. La Table. isto é. 1999. Stoll critica a falta de atenção dada ao diálogo espiritismocatolicismo.

Em 1862. 3. São Paulo. já em 1860. do educador francês radicado no país Casimir Lieutaud110. p. no qual se evidencia desde logo sua aproximação com o catolicismo. onde ela conta com numerosos representantes. porém. A próxima oportunidade em que o espiritismo ocupa as páginas de jornal brasileiras. Silvino Canuto. é um país cuja “irradiação cultural alcança quase sempre os países latinos. Op. imprimindo-a em Paris sob o título O espiritismo em sua mais simples expressão e colocando-a a venda em Lisboa e no Rio de Janeiro111. poucos meses após o lançamento da brochura Le Spiritisme à sa plus simple expression. para ali espalhar os verdadeiros princípios da Doutrina113. Rio de Janeiro: 1980. com satisfação que a idéia espírita faz progressos sensíveis no Rio de Janeiro. não pouco. tracemos um breve percurso histórico da chegada e difusão da doutrina espírita no país. 113 KARDEC. 3 . Após breves considerações acerca do artigo. na seção Crônicas de Paris. na construção da identidade espírita brasileira. se não demonstra conhecimentos aprofundados sobre o tema. A pequena brochura "Le Spiritisme à sa plus simple expression". publicada em língua portuguesa. 1969. contribuiu. Zeus e THIESEN. Considerando-se que a França. Allan. não consiste em reflexões nada elogiosas a seu respeito. Ibidem. p. Allan Kardec vol. p.Esclarecidos os principais referencias teóricos norteadores dessa linha argumentativa que privilegia o diálogo entre o espiritismo e a religião dominante no Brasil. 18/176/353/354. entre eles e. 2004a. o pedagogo faz a primeira referência ao desenvolvimento da doutrina no país: Verificamos. “pelo menos não julga pelo que não sabe”. Francisco. Veiculados nos dias 26 109 110 INCONTRI. 210. particularmente no que se refere aos séculos XIX e primeira metade do XX. pp. segundo Kardec. 333/334.. traduz a obra para o português. Cit. por Kardec. ABREU. Alexandre Canu. Edicel. o Brasil109” mal começara Allan Kardec seu trabalho de codificação do espiritismo e. Cit. FEB. 111 WANTUIL. d’O Jornal do Commercio112. Revista Espírita. Tal celeridade na chegada e na difusão das idéias espíritas em solo brasileiro. 31. sobretudo. fervorosos e devotados. 1864. 28. sai do prelo a primeira obra em português sobre o tema: Os tempos são chegados. que faz do assunto tema de artigo publicado em 23 de setembro de 1863. p. 112 Idem. cujo autor. Dora. rendeu comentários de Kardec na Revista Espírita de julho de 1864. Op. colaborador da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.

que nada escreve acerca da tal resposta. em fevereiro de 1866”. impossibilitados de recorrer presentemente às fontes primárias. mas também de um grupo de espíritas brasileiros liderado pelo baiano Luís Olímpio Teles de Menezes. Francisco. fala numa réplica que teria sido lançada “em Salvador. veio não só do codificador. a longa refutação deixa entrever traços importantes da aproximação com o catolicismo que já nesses momentos iniciais da difusão do espiritismo no Brasil ganhava corpo. Vozes do Céu – Os Primeiros Momentos do Impresso Kardecista no Brasil. tratam o espiritismo como “desvario”. no periódico francês Gazette hebdomadaire de médecine. II e III. A reação. Londrina/PR. 118 FERNANDES. encontramos uma discrepância significativa. Wantuil e Thiesen. respectivamente. a adesão a outras crenças. Flamarion Laba da. fazem descrições extremamente assemelhadas do teor das publicações a que se referem. desta feita. enfatizando o lapso de tempo de “quase seis meses depois do artigo de Déchambre”. entre outros epítetos semelhantes114.. “seita”. bastante extenso. Trabalho apresentado no NP04 – Núcleo de Pesquisa Produção Editorial. Cit. os artigos intitulados. 115 WANTUIL. por isso mesmo – não deixava de afirmar em seus pronunciamentos ser um “católico apostólico romano”. que lamentou as “limitações da erudição do médico115”. que são na verdade traduções de textos publicados pelo autor do Dictionaire des sciences médicales. Pelo espiritismo. a 17 de setembro. Op. Cit. quando não é loucura”. Cit.). dias antes. pp. “extremo do supernaturalismo religioso”. Cit. ainda em 1859. Magali Oliveira. Op. ele dizia estar defendendo a necessidade de renovação dos preceitos cristãos. Doutrina Espirítica I. 2005. Fernandes faz as seguintes ponderações: No período em que Luiz Olympio iniciou a edição dos textos espíritas. caracterizado pela tradução de um “extrato. Zeus e THIESEN. Já Fernandes (Op. 116 COSTA. considerado unanimemente pelos pesquisadores como o primeiro grupo espírita a funcionar regularmente no Brasil116. por lei. Wantuil e Thiesen (Op. promovidos pela Igreja Católica. afirmam que ela se deu ainda no dia 28 de setembro.). da introdução de O Livro dos Espíritos” (WANTUIL e THIESEN. O divulgador da doutrina de Allan Kardec – talvez. O espiritismo em Guarapuva: um levantamento de fontes. 117 A respeito da data exata em que se publicou a resposta dos espíritas baianos ao artigo. 114 FERNANDES. Cit. Cit. a religião do Estado era o catolicismo. 3/4. pp. que. agora em consonância com Fernandes. XXV Congresso Anual em Ciência da Comunicação. e 6 de outubro de 1865. Salvador/BA. nas próprias páginas do Diário da Bahia. portanto não se permitia no país. Pela riqueza de detalhes oferecida na análise de Fernandes. 334/335. Amedée Déchambre.e 27 de setembro. Publicada algum tempo depois117. sendo importante lembrar que nenhum deles faz qualquer referência ao artigo do dia 6 de outubro. mas dando a entender que se tratava de um livro. 336). p.). tendemos a considerar mais exata sua datação mas.4/5. 3 . deixamos em aberto a questão. 04 e 05 de setembro de 2002. Ao analisar a figura de Teles de Menezes. no Diário da Bahia. Esse argumento ocorreu quando a discussão sobre espiritismo e catolicismo estava em efervescência118. Magali Oliveira. fundara em Salvador o Grupo Familiar do Espiritismo. em acordo com Abreu (Op. “incurável fraqueza da razão. Op. Trabalho apresentado no XXIII Simpósio Nacional de História.. pp.

Magali Oliveira. fundado por Olympio Teles de Menezes. 119 120 COLOMBO. 121 FERNANDES. e sob forte pressão da Igreja. Comenius. porém. ainda bastante arraigado às tradições católicas. que. 8. O primeiro jornal espírita. 54. pela ausência de uma tradição científica e filosófica em nosso país.) teria servido como um primeiro passo. já levava o subtítulo “mensário religioso do Espiritismo cristão”. certo. o debate já havia assumido contornos de “discussão pública sobre espiritismo121”. e abrangendo sua circulação várias províncias brasileiras. na Bahia. envolvendo o arcebispo da Bahia. chegou a criticar polidamente a forma como se dava a interlocução dos espíritas brasileiros com a religião dominante. incentivando outros projetos desse teor122”. O espiritismo em sua mais simples expressão já circulava na cidade de São Paulo123. que circulou bimestralmente de 1869 a 1871 sob a direção de Teles de Menezes. Zêus. De fato. Op.. Dora. Em princípios daquela década de 70. onde a religião católica era a oficial e servira de raiz a toda a nossa cultura. 1ª edição. 122 Idem.. Cit. Cit. 157. Sem recursos que não aqueles angariados do próprio bolso.. 1998. enquanto Lieutaud “trabalhava ativamente na divulgação dos ideais espíritas na Corte do Rio de Janeiro124”. Op. em 1869. Grandes Espíritas do Brasil. Incontri faz as seguintes considerações: Uma vez que começou a entranhar-se em nossa cultura. p. setores da imprensa. que aconselhou permanecesse “como uma filosofia tolerante e progressiva” (. mesmo esse aspecto religioso. INCONTRI. pp. especialmente após o lançamento d’ O Eco de Além-Túmulo – Monitor do Espiritismo no Brasil. 124 Idem. conforme já exposto nos comentários de Kardec.. bem diferente do subtítulo da Revista Espírita de Kardec: “Jornal de Estudos Psicológicos120”. primeiro periódico espírita do Brasil. Olympio demonstra ainda forte apego ao Catolicismo. p. p. 203/204. O Reformador. o espiritismo ganhou razoável impulso no Brasil com a iniciativa do jornalista baiano. Naquele contexto. 13.. 123 WANTUIL. (. mereceu até uma crítica da Revista Espírita de Paris. 2004a. traduzidos ao longo das edições do jornal diversos trechos das obras de Kardec para o português. Numa análise geral sobre o tema. Cleusa Beraldi. É evidente que num Brasil. Ibidem. 3 . até hoje em funcionamento. A própria Revista Espírita. Idéias sociais espíritas. Colombo acrescenta: “Apesar de sua filiação ao pensamento de Kardec. e os espíritas. Ibidem. RJ.) O mais antigo órgão espírita [brasileiro]. FEB. p. logo ressaltou-se o aspecto religioso [do espiritismo]. E.A isso. não era fácil se subtrair a essa influência119”.. de que “seu projeto editorial. via com bons olhos a disseminação do espiritismo no país. não tardou Menezes a extinguir o periódico que fundara. São Paulo.

professor Lieutaud. p. 125 Segundo Wantuil. Cit. que. em 1882. Se este teve o mérito de escrever a primeira obra declaradamente espírita em língua portuguesa. diante de uma demanda receptiva que se demonstrava favorável”. composto de contos morais. por serem particularmente importantes para a análise de nosso objeto. (Idem. (FERNANDES.. ele não traduziu A gênese. traduzidas por Travassos127. Silvino Canuto. Pois bem! o «'Prefácio» dessa obra era uma bela página extraída e traduzida da 1ª edição francesa de «O Evangelho segundo o Espiritismo». O interesse profundo que a leitura da obra despertou no político foi fundamental para sua conversão à doutrina. sobretudo. Op. na capital imperial. interessada no filão que se insinuava por trás das fortes contendas suscitadas publicamente em torno do tema126. Travassos ofereceu um exemplar ao deputado cearense. primeira instituição espírita juridicamente constituída no país. Cit. Travassos destaca-se como o primeiro tradutor de uma versão integral de Le livre des esprits para o português. anunciada oficialmente apenas 11 anos mais tarde. Araia. Rousseau sobre os deveres das moças. independente de sua crença ou não na doutrina dos espíritos. Da primeira diretoria. discutida mais à frente. em análise sintética. sob o pseudônimo Fortúnio. reunindo figuras da Corte e homens que tiveram papel fundamental nesses primeiros anos do espiritismo no Brasil. Ibidem). que já há alguns anos morava no Rio. o vice-presidente Joaquim Carlos Travassos. como o Eco de Além-Túmulo. Magali Oliveira. 16). para discuti-la melhor no segundo capítulo. e o 3º secretário. o tesoureiro Bittencourt Sampaio. p. e isso se deveu. os milagres e as predições segundo o espiritismo. J. 127 Ao que parecem indicar as referências biográficas a Travassos. 39. saía a lume um livrinho de sua autoria: ‘Legado de um mestre aos seus discípulos’. em 1873. já citado neste trabalho. última das obras básicas escritas por Kardec. Há um empenho profissional evidente – bem distinto daquele do espírita baiano [Teles de Menezes] – visando resultados positivos no mercado do livro. incumbência que ficou a cargo da Sociedade Acadêmica. teve duração efêmera. destacamos. 126 Fernandes observa que “é importante perceber o significado de um livreiro e editor como o francês Garnier assumir as traduções dos livros de Allan Kardec. como também das três obras básicas do espiritismo subseqüentes. 128 ABREU. A empreitada deu-se em 1875. de apenas três anos. “em 1866. e contou com o apoio da Livraria Garnier. tão logo saiu a primeira edição de O livro dos espíritos. O Grupo Confúcio. Op. responsabilizou-se não só pela publicação de O livro dos espíritos. às divergências internas entre seus integrantes. 3 . Uma particularidade a que fazemos referência apenas superficial neste momento. propagando o espiritismo em seu círculo de influências e colocando trechos da obra de Kardec no prefácio das obras que publicava125. que refletiam o amplo e divergente espectro de leituras que os espíritas brasileiros faziam já à época da doutrina sistematizada por Allan Kardec128. é que. o Grupo Confúcio. Adolfo Bezerra de Menezes. de algumas poesias em francês e de um excerto de J.É nessa onda impulsionada pelo Eco de Além Túmulo que surge.

htm. com o objetivo de garantir que. Demonstravam. durante as duas últimas décadas do século XIX.2000). Marcos Alexandre.universoespirita. pp. ou. de fato. no auge da militância espírita de Bezerra de Menezes. o que era bastante coerente com o pensamento positivista da época. Os “místicos” por sua vez. Eduardo. Baseavam sua concepção de espiritismo nas duas obras de cunho marcadamente filosófico-científico de Kardec (O livro dos espíritos e O livro dos médiuns). Em contraposição a esta linha de pensamento. de modo geral. e sim dos espíritos. São Paulo. cabendo. Espiritismo: doutrina de fé e ciência. mas recusavam sua faceta religiosa. mas faziam questão de frisar que a doutrina não era dele. foram bastante representativos. Enfatizavam a necessidade do rigor na análise dos fenômenos. Cit. propunham como item básico a leitura de “O evangelho segundo o espiritismo”. 4 . respeito pelas obras de Kardec.org. 130 ABREU. a exemplo de Abreu130 e Quintella131. concebendo-o. parece que o tipo puramente científico não chegou a representar uma força expressiva dentro das disputas hegemônicas que marcaram as primeiras décadas do movimento espírita brasileiro. 131 QUINTELLA. p. cuja conflituosa relação com Bezerra é discutida no segundo capítulo. se novas idéias viessem a ser incorporadas ao espiritismo. 65. Breve história sobre a unificação. embora considerassem toda a obra de Kardec. Mauro. que rompia declaradamente com a proposta 129 ARAIA. a estes “ditar” ou “revelar” as “novas verdades espíritas”. Essa vertente encontrou. USP:2002 (Dissertação de Mestrado em História Social). os científicos que. estritamente como uma ciência filosófica. 103/104 apud CAPELLARI. assim. os místicos defendiam a preponderância de um viés religioso em sua concepção do espiritismo. contudo. que se interessavam fundamentalmente pela fenomenologia. elas o fossem por vias metodologicamente adequadas e coerentes com a proposta de Kardec. Sob o olhar da razão: as religiões não católicas e as ciências humanas no Brasil (1900. Acessado em 10/12/2006. e. portanto.br/NOVA_ERA/BREVE_HISTORIA. Silvino Canuto. A segunda corrente englobava os chamados “Espíritas puros” – pessoas que aceitavam as partes científica e filosófica do espiritismo. Seus partidários possivelmente debandavam para o estudo da metapsíquica. Essa postura. São Paulo:Ática.esboça a seguinte classificação a respeito das diferentes linhas interpretativas que se reuniam sob a identidade espírita naquele contexto: Uma linha era constituída pelos “científicos”. enfatizavam exatamente o lado evangélico da doutrina. Op. que posteriormente daria origem à parapsicologia.. Disponível em http://www.129 Pelas análises a que tivemos acesso. como uma filosofia científica. seu representante mais emblemático na figura de Afonso Angeli Torteroli. ou acabavam mesclando-se àqueles que Araia denomina Espíritas puros. 1996.

metodológica elaborada por Kardec já discutida neste trabalho, facilitava aos místicos não só a legitimação, como a difusão de suas crenças dentro do movimento espírita. Estas eram marcadamente influenciadas pelo catolicismo, incluindo, apenas para citar alguns pontos centrais, uma deferência quase divina à figura de Jesus, ainda que ele jamais fosse declarado ontologicamente igual a Deus, a atribuição de certa “autoridade espiritual” a Maria, e a insistência em buscar legitimação bíblica para as idéias espíritas. Entre estes, especificamente, fazia grande número de adeptos uma obra intitulada Les quatre évangiles – révélation de la révélation, organizada pelo advogado francês JeanBaptiste Roustaing em 1866 e atribuída aos espíritos dos “Evangelistas, assistidos pelos Apóstolos e Moisés”, por meio da psicografia da médium Émilie Collignon. Tratava-se de uma obra que pretendia fornecer uma releitura “em Espírito e Verdade” dos evangelhos canônicos, orientada pelos próprios autores originais. Sua idéia mais controvertida, particularmente naquele contexto, mas que causa algumas divergências entre os espíritas até os dias atuais, era a de que Jesus, “a maior essência espiritual depois de Deus132”, “espírito de pureza perfeita e imaculada 133”, “que nunca faliu e infalível por se achar em relação direta com a divindade134”, justamente em face dessa superioridade absoluta em relação aos seres humanos, não teria podido encarnar num “corpo de lama135” como o dos homens normais, tendo se utilizado, portanto, de um “corpo fluídico136”, especialmente composto por ele mesmo para que pudesse dar a impressão de ser um homem quando de sua passagem pela Terra. Tal idéia decorre ao mesmo tempo de uma conceituação punitiva a respeito do processo de encarnação dos espíritos e de uma visão divinizada da figura de Jesus, elementos que caracterizam fortemente a obra de Roustaing. Como já abordado no primeiro capítulo137, a reencarnação apresenta-se no espiritismo francês como mecanismo de aperfeiçoamento necessário a todos os seres da Criação, que, por meio dela, têm oportunidade de se aprimorarem nas dimensões intelectual, moral, estética etc. Já para a
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ROUSTAING, Jean-Baptiste. Os quatro evangelhos – Revelação da revelação. Tomo I, 5ª edição, Rio de Janeiro, FEB:1971, p. 302. 133 Idem, Ibidem, p. 282. 134 Idem, Ibidem, p. 302. 135 Idem, Ibidem, p. 274. 136 Segundo assinalam os textos atribuídos aos evangelistas, “Jesus houvera podido, unicamente por ato exclusivo da sua vontade, atraindo a si os fluidos ambientes necessários, constituir o perispírito ou corpo fluídico tangível que vestiu para surgir no vosso mundo sob o aspecto de uma criancinha”. (ROUSTAING, Jean-Baptiste. Op. Cit. p. 161) 137 Ver p. 31.

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doutrina de Roustaing, seu caráter é o de “uma punição, um castigo que [os espíritos] teriam podido evitar138”, caso tivessem permanecido “dóceis aos incumbidos de os guiar e desenvolver139”. Além disso, enquanto Kardec atribui a Jesus a condição de Mestre, Espírito Puro encarnado na Terra para ensinar pelo exemplo até onde pode ir o ser humano, Roustaing, segundo se pode depreender das explicações transcritas no parágrafo anterior, chega tão próximo quanto possível de considerá-lo o próprio Deus sem que haja o estabelecimento de uma identidade ontológica entre ambos. Por fim, como decorrência natural da idéia de que Jesus não era um ser humano encarnado, ressalta-se a crença na concepção virginal de Maria, que teria tido uma gravidez “simplesmente aparente e fluídica (...) sob a influência magneto-espírita (...) dos Espíritos elevados140”. Destacamos esses pontos-chave da doutrina de Roustaing por julgá-la bastante significativa para a compreensão de qual espiritismo estava em jogo nas disputas aqui analisadas, e qual leitura da doutrina espírita, mais adaptável ao catolicismo do que a ortodoxa, fundamenta os discursos de Bezerra de Menezes e dos místicos declarados, em suas obras e nos embates que se travavam entre os diferentes tipos de espíritas da época. Apesar de a obra em questão só ter ganhado uma tradução completa para o português nos primeiros anos do século XX, já a partir de 1870, por meio de Teles de Menezes, Casimir Lieutaud, Joaquim Travassos, e outros, ela era estudada de forma mais ou menos sistemática em alguns círculos espíritas brasileiros, fosse diretamente no original francês, fosse por meio de traduções pontuais de páginas ou capítulos141. Tamanhas divergências doutrinárias, como as que se evidenciam do quadro aqui esboçado, terminaram por levar os freqüentadores do Grupo Confúcio a deixarem a instituição, que fechou suas portas em 1876, dando origem, no mesmo ano, à Sociedade Espírita Deus, Cristo e Caridade, onde os místicos, liderados pelo roustanguista Bittencourt Sampaio, pretendiam dedicar-se com mais liberdade ao estudo prioritário de O evangelho segundo o espiritismo e da Bíblia. A despeito dessa pretensão, porém, os científicos foram se integrando gradualmente ao grupo, de forma que, em 1879,
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ROUSTAING, Jean-Baptiste. Op. Cit. p. 323. Idem, Ibidem. 140 Idem, Ibidem, p. 199. 141 MARTINS, Jorge Damas. Jean Baptiste Roustaing - Apóstolo do Espiritismo. Casa de Recuperação e Benefícios Bezerra de Menezes, Rio de Janeiro:2005, pp. 470 e seguintes.

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liderados por Siqueira Dias, Lima e Cirne e Pinheiro Guedes, conseguiram mudar o nome da instituição para Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade, procurando emprestar-lhe um ar mais coerente com suas idéias. A mudança, que sinalizava o predomínio dos científicos na instituição, levou os místicos a nova debanda, desta vez para a criação do Grupo Espírita Fraternidade, em 1880, novamente sob a liderança de Sampaio, agora ladeado por Antônio Sayão. A essa altura, começam a organizar-se de parte a parte instituições com a pretensão de congregar todos os grupos espíritas do Brasil. Os científicos, após a realização do 1º Congresso Espírita do país, fundam em 1881 o Centro da União Espírita do Brasil, sob a direção de Torteroli que, sem conseguir atingir seus propósitos, daria lugar, anos mais tarde, em 1894, ao Centro da União Espírita de Propaganda do Brasil. Em uma posição menos clara diante dos embates doutrinários, o editor do periódico O Reformador, Augusto Elias da Silva, reunindo-se, em 1883, com doze de seus parceiros de trabalho editorial espírita, resolve criar um outro centro congregador, que, a 1º de janeiro de 1884, é fundado sob o nome de Federação Espírita Brasileira. Numa busca por apaziguar os embates, sem assumir-se por nenhum dos lados envolvidos, a Federação, formada majoritariamente por místicos, chega inclusive a convidar científicos, como Torteroli e Joaquim Távora, a se cadastrarem como sóciosfundadores. É pouco após a fundação da FEB que começa a participação efetiva de Adolfo Bezerra de Menezes na história do espiritismo brasileiro, assumindo a singular posição de mediador das disputas entre místicos e científicos, ao mesmo tempo em que, a pouco e pouco, foi desenvolvendo forte inclinação para os posicionamentos doutrinários defendidos pelo primeiro grupo.

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depositário e modelo biográfico de uma proposta religiosa de alta ressonância na sociedade brasileira. p. Chico Xavier e a cultura brasileira. 45: 4-11 apud Idem.. declaradamente ou não. vol. 2001. principalmente no que tange ao sincretismo de sua proposta com a "cultura católica brasileira" e com um certo modelo de Estado-Nação144. Comunicações do ISER. Rev. 143 LEWGOY. Desenvolvendo melhor os conceitos que pincela nessa análise. p. a esse respeito afirma que: Em qualquer leitura. no. Lewgoy. Rio de Janeiro. 1999 (tese de doutorado). Bezerra de Menezes e o catolicismo Dentro do processo que investigamos neste trabalho. Dois dos principais trabalhos recentes voltados para o tema. Antropol. especialmente quando ele propõe a dessubstantivação deste conceito. ISSN 0034-7701. de construção da identidade espírita brasileira.44. além de ter cumprido um papel central na criação de um espiritismo "à brasileira". 4 . USP. Ibidem. “Pra não dizer que não falei de sincretismo”. o de Stoll 142 e o de Lewgoy143. 105. São Paulo. já em meados do século XX. vol. sua trajetória ilustra os dilemas enfrentados por esta alternativa religiosa ao longo do século XX. Ibidem. 55. Pierre. 144 Idem. Sandra Jacqueline.Bezerra de Menezes: mediação e influência 1) Chico Xavier. avultam várias personalidades importantes que. 145 SANCHIS. apontam o médium mineiro Francisco Cândido Xavier como figura emblemática e ratificadora desse processo.53116. inspirada na discussão de Lévi-Strauss sobre o 142 STOLL.1. trata-se de um personagem cercado de uma aura paradigmática. Bernardo. Entre Dois Mundos: o Espiritismo entre a França e o Brasil. Lewgoy contextualiza o processo de reapropriação dos conceitos espíritas dentro de uma matriz católicobrasileira a partir de discussão proposta por Pierre Sanchis acerca do conceito de sincretismo: A idéia de uma cultura "católico-brasileira" foi desenvolvida por Pierre Sanchis145 (1994). marcada pela influência do catolicismo. p. Maior protagonista da história do kardecismo no Brasil moderno. contribuíram para essa adaptação do espiritismo ao terreno religioso brasileiro. É também neste autor que vou me basear ao falar de sincretismo.

4 . muitas vezes conflituoso. Ao contrário. Apesar da importância do papel desempenhado por Chico Xavier nesse processo durante o século XX. Op. Bernardo. afirma que: A liderança de Chico Xavier no meio espírita se consolidou em torno dos anos de 1940 e 1950. a dominante cultura católica brasileira impregnou os diferentes espaços sociais. Cit. mas não há um reconhecimento explícito da influência católica. 1994). Ao contrário. Por suas atitudes. Apreenderemos as bases dessa construção a partir da narrativa de sua história de vida e carreira religiosa. que ganha uma definitiva referência nacional na vida e na obra do médium mineiro146.totemismo (Sanchis. Até então raros eram os nomes de destaque nesse universo religioso oriundos das classes populares. a imagem de "homem-santo" não traduz uma apropriação indébita. Chico Xavier constitui uma exceção. branca e de classe média ou uma mera matriz de religiosidades vividas em nosso país. com a religião dominante no país: o Catolicismo. operando-se de uma síntese original de catolicismo e de kardecismo. resultante da influência que costumes. por conseguinte. o sincretismo é uma tendência conceitual abstrata do pensamento humano. o fenômeno Chico Xavier mostra-nos que o espiritismo kardecista está longe de ser apenas uma tendência européia.. a não ser da parte de críticos e dissidentes do movimento espírita. p. propiciando a Chico Xavier.. pouco mais de meio século depois da constituição dos primeiros grupos responsáveis pela difusão da doutrina no país. Stoll. e. sistemas simbólicos e estruturas do pensamento alheias exercem sobre os seus vizinhos. reflete o processo cultural de inserção do Espiritismo no campo religioso brasileiro por meio de um diálogo intenso. ainda que não possuísse qualquer intenção declarada nesse sentido. Chico Xavier foi capaz de consolidar um modelo próprio de espiritismo. Como pretendo demonstrar a seguir. ambos os pesquisadores reconhecem em Adolfo Bezerra de Menezes uma figura de destaque análogo no panorama espírita brasileiro do século XIX. Mas sua importância (. O caráter mediador de ambas as personagens sobressai de seus respectivos contextos de disputas em torno do espiritismo. Para Sanchis. tradições e atores que vivenciam o espiritismo no cotidiano das grandes cidades brasileiras. A implantação social do espiritismo no Brasil não é alheia a esse fenômeno. sendo que Xavier trabalhou mais especificamente na legitimação do espiritismo como religião cristã em meio aos embates entre catolicismo e pentecostalismo que vigoravam em meados do século XX. 105. espírita. tidas pelos espíritas como modelo exemplar de conduta cristã. que é encarada pela maior parte dos espíritas de hoje como complementação natural da obra de Allan Kardec.) extravasa esse detalhe. Ora. somada a sua vasta produção mediúnica. enquanto Bezerra dedicou-se com mais afinco à tarefa de mediação das divergências internas entre espíritas místicos e científicos. décadas mais 146 LEWGOY. em concordância com Lewgoy.

149 Idem. a disciplina militar.) tanto com o catolicismo popular quanto com tendências corporativas do catolicismo institucional148”. ed. LEWGOY. a retórica dos bacharéis. salientando.com. 150 É à discussão de determinados elementos dessa síntese representada por Bezerra de Menezes. um dos principais responsáveis pela institucionalização da feição religiosa de que se revestiu o Espiritismo no Brasil147”. a idéia de que os médicos e militares são missionários do progresso. Lewgoy resume: Bezerra sintetiza em si os elementos que não cessarão de se articular no espiritismo posterior: a influência do habitus católico na formulação do estilo discursivo e reflexivo. 2006. Op.. p. fundador e primeiro presidente da Federação Espírita Brasileira. Bernardo.. define a concepção espírita por ele difundida como uma “elaboração sincrética (. Já Lewgoy. Cit. capaz de influenciar decisivamente nos rumos tomados pela doutrina no Brasil. um espiritismo influenciado pelo catolicismo na Federação Espírita Brasileira149”.Op. um meio espírita menos heterogêneo e já influenciado pelo catolicismo para harmonizar com o panorama religioso do século passado. como médico e político até chegar à condição de espírita dotado de prestígio. p. Stoll afirma que “a literatura espírita e acadêmica sustenta ter sido Bezerra de Meneses. a especialização do trabalho religioso na formação de médiuns. Numa avaliação mais detida sobre o político cearense. particularmente da “influência do habitus católico na formulação do estilo discursivo e reflexivo” que dedicamos este capítulo. desde Bezerra de Menezes e a ascensão do ‘rustanguismo’. Para melhor compreendê-la. 2002. Sobre Bezerra de Menezes.antropologia. 31. façamos uma breve reconstrução biográfica de sua trajetória. contudo.br/.tarde. 150 LEWGOY. 147 148 STOLL. Bernardo. Disponível em: http://www. em que fica patente o papel central que desempenhou no processo aqui discutido. Centro Virtual de Antropologia. a intensificação do assistencialismo e da prática da caridade. p. Cit. Sandra Jacqueline. a piedade católica. mas já estava presente com os chamados ‘místicos’. Chico Xavier e a cultura popular brasileira. Ibidem. 394.. ao analisar o trabalho de popularização do espiritismo desenvolvido por Chico Xavier. Acessado em: 07/11/2006 4 . 71. 107. que “esta atitude não surge com Chico.

Segundo Abreu. 153 Idem. rumou para o Rio de Janeiro. ao chegar o fim de ano. O que não acode por estar com visitas. passa a integrar o Corpo de Saúde do Exército. mau o caminho ou o tempo. ou por ser alta noite. De lá. que permitiu assumisse. mas o cofre estava tísico’154”. Cit. Cit. o posto de segundo cirurgião-tenente.. 152 KLEIN FILHO. 43. Bezerra assim descreve sua visão missionária acerca da profissão médica: O médico verdadeiro é isto: não tem o direito de acabar a refeição. que manda para outro o anjo da caridade.2) De médico dos pobres a político liberal151 Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti nasceu em 1831. ou diz a quem lhe chora à porta que procure outro – esse não é médico. para morar em Fortaleza e estudar no Liceu do Ceará. tornando-se também membro da Academia Imperial de Medicina. na freguesia do Riacho do Sangue. Paralelamente. o balanço acusava grande lucro. apesar de ter permanecido “sempre informado dos problemas e dificuldades enfrentados pelos seus conterrâneos152”. por ter trabalhado muito a achar-se fatigado. abre consultório com um colega. não lhe suprimiam o tempo dedicado aos clientes pobres. no Exército. é negociante de medicina.). Niterói:2001 e ABREU. com o objetivo de doutorar-se na Escola de Medicina. hoje pertencente ao município cearense de Jaguaretama. com Maria Cândida de Lacerda. Luciano (Org. ficar longe. onde iniciou os estudos no latim. Esse é um desgraçado. em sua própria residência. nunca mais voltou ao Ceará. p. o médico “ganhava aqui [nos trabalhos remunerados] para despender lá [na ocupação voluntária] ‘tão exatamente que. Todas essas ocupações. p. 146.. Silvino Canuto. dava início. voltou em 1846. Bezerra de Menezes – Fatos e Documentos. O ano seguinte reservava-lhe a “vaga de lente substituto da seção de cirurgia da faculdade de medicina153”. Após quatro anos morando na província do Rio Grande do Norte. contudo. Ainda em 1858. todos aqueles que não possuíam condições para pagar. p. de inquirir-se se é longe ou perto. 154 ABREU. Em texto que o mesmo Abreu lhe atribui. 22. Silvino Canuto. Op. Aos vinte anos. Op. que lhe veio fazer uma visita e lhe trazia a única 151 Os traços biográficos apresentados neste tópico do 2º capítulo foram extraídos de duas fontes: KLEIN FILHO. empreitada que não lhe ofereceu o desejado retorno financeiro. em boa parte de seu tempo livre. ou no morro. 4 . à atividade que lhe renderia a alcunha sempre rememorada entre os espíritas. escolher a hora. Op. Ibidem. após a defesa da tese Diagnóstico do Cancro. Cit. Em 1857. que trabalha para recolher capital e juros dos gastos da formatura. 2ª ed. o que sobretudo pede um carro a quem não tem como pagar a receita. Lachâtre. de médico dos pobres: atendia. Em 1856.. Luciano. casou-se pela primeira vez.

. 157 KLEIN FILHO. p. clássicos redutos da burguesia e da aristocracia brasileiras no século XIX. p. Silvino Canuto. A Reforma. candidata-se em 1860 a vereador do Rio de Janeiro pelo partido. e no periódico semanal Sentinela da Liberdade. combatendo o Governo através de artigos publicados no órgão do Partido Liberal.. Se o trabalho junto às camadas pobres auferia-lhe reconhecimento entre os menos favorecidos. Haddock Lobo. conferindo-lhe prestígio em meio à população carioca de diversos segmentos sociais. casa-se com sua segunda e última esposa. permanece na oposição. e. trouxe consigo os convites para entrar na política.)”. em face da ameaça de impugnação por parte do chefe do Partido Conservador. quando os conservadores assumem o poder e dissolvem a Câmara dos Deputados. É durante esse primeiro mandato que morre sua primeira esposa. 23. deixando-lhe dois filhos pequenos para criar. 19. a atividade como colaborador da Revista da Sociedade Físico-Química e como redator oficial dos Anais Brasilienses de Medicina tornava-o conhecido e bem conceituado nos círculos científicos e literários.. p. Op. 26) 4 . O reconhecimento público ao trabalho que desempenhava em diversas frentes. um estudo intitulado A Escravidão no Brasil e as medidas que convém tomar para 155 156 Idem. No ano seguinte. Cit. No ano seguinte. Apesar do abatimento pela perda da companheira e da forte oposição da ala conservadora. é obrigado a pedir baixa de suas ocupações militares para assumir o cargo. Silvino Canuto. Op. em 1867. (ABREU. Silvino Canuto.. é eleito deputado geral pelo Rio de Janeiro. p.) o elemento municipal é a célula geradora da verdadeira liberdade e da sábia direção dos povos (.. “Pela insistência dos moradores da freguesia de São Cristóvão157” e também por estímulo de “um dos chefes cariocas158” da ala liberal. Durante os quatro anos em que passa fora do poder. 23. Luciano. Op. 158 ABREU. em 1869. ABREU. eleito. Cit. Cit. Op. 159 A esse respeito. potencializado por uma personalidade carismática e comunicativa156. p. Cit. Publica também.espórula que podia saciar a sede de riqueza do seu espírito. defendendo a bandeira da valorização da municipalidade na estrutura sociopolítica brasileira159. a única que jamais se perderá nos vaivéns da vida155. dizia Bezerra: “(. A dedicação a essa tarefa que se impunha somava-se a uma outra atividade paralela que desenvolvia... Bezerra reelege-se vereador em 1864. cargo que ocupa até 1868. Ibidem. 147.

160 A profunda impressão deixada pela leitura da obra levou Bezerra a buscar experiências concretas no campo mediúnico. em 1882. disse comigo: ora.. e. e entretanto tudo aquilo era novo para mim! (. a primeira tradução para o português de O livro dos espíritos. 4 a 6 de abril de 2002. depois. me era impossível descobrir onde e quando me fora dado o conhecimento de semelhantes idéias! Preocupei-me seriamente com este fato que me era maravilhoso e a mim mesmo dizia: parece que eu era espírita inconsciente. feita. e. em 1875. que só recebia sobre o paciente um papel com o primeiro nome e a idade. é ridículo confessar-me ignorante de uma filosofia. Munindo-se da presença de um amigo.. p. quando tenho estudado todas as escolas filosóficas. não tendo distração para a longa e fastidiosa viagem. Bezerra afirma ter ficado abalado com o resultado da consulta. e exercendo também a presidência da Companhia Carris Urbanos de São Cristóvão.. Embarquei com o livro. pelo próprio Travassos. evidenciando sua postura favorável ao abolicionismo. volta a ser vereador. EUA.. Entre os diversos casos que relata. pela expressão escrita de um espírito. Reeleito em 1873. WEBER. Bezerra faz as seguintes considerações: Deu-mo [O livro dos espíritos] na cidade. ou.. mas não encontrava nada que fosse novo para o meu espírito. O espírito que assinava a mensagem falava sobre a “elevada posição social” 160 KLEIN FILHO. também médico. grosso modo. após ter sido diretor da Companhia Arquitetônica. com o fito de ver confirmados os preceitos teóricos expostos em O livro dos espíritos. Cf. através da mão do médium. e a qual nenhum médico da capital conseguia curar.. como se diz vulgarmente. destacamos aquele em que.) Lia. aproveitando o ensejo de uma dispepsia que por longos anos o acometera. do amigo Joaquim Travassos.Relações Sociais entre Práticas de Cura em Porto Alegre. p 5. Beatriz Teixeira.. abri o livro e prendi-me a ele (. Tratava-se de figura pouco comum na Europa. mas extremamente difundida nos primórdios do espiritismo no Brasil. 82. Homeopatia e Medicina . e que se achava em indissociável ligação com a homeopatia. Luciano. mas eu tinha a certeza de nunca haver lido obra alguma espírita. portanto. foi pedir ajuda a um médium receitista. que já desde a década de 40 daquele século se fazia presente no país161. Trabalho apresentado na 6ª Conferência da Associação de Estudos Brasileiros de Atlanta. É durante esse mandato que recebe. 162 Tipo de mediunidade caracterizado. Op. Pensando assim. e eu morava na Tijuca.) Eu já tinha lido e ouvido tudo o que se acha em O Livro dos Espíritos. A respeito do episódio. adeus! Não hei de ir para o inferno por ler isto. Início do Século XX. incumbido de acompanhar o trabalho de psicografia162 do médium. como já discutido no segundo capítulo. e.extingui-la sem dano para a nação. a uma hora de viagem de bonde. Cit. de nascença. 161 4 . que já se insinuava à época como movimento organizado.

em função do capital simbólico de que dispõe. ocupavam uma posição periférica em relação ao centro que era a capital imperial. seja ele individual ou coletivo. segundo Menezes. Em menos de um ano estava curado da doença. 11. cargos políticos. parece-nos adequado – no que diz respeito a sua conversão ao espiritismo. dentro dessa perspectiva. Bertrand Brasil. 2006. ainda ocupando as funções de vereador e deputado. O conceito de capital simbólico. 5 . de se expressar com legitimidade para ser ouvida e/ou seguido. dentro de determinado contexto. Contudo. em 1885. Essa definição baseia-se na concepção de Bourdieu segundo a qual as “relações de comunicação são de modo inseparável. detentor de legitimidade para ter aceito seu discurso por determinados grupos dentro de uma sociedade. em outras províncias do Império. ao que se somava ainda.. de forma menos intensa. que aqui reconstruímos apenas em seus pontos-chave. imóveis. ocorrida no ano seguinte. Pierre. fora presidente interino e efetivo da Câmara Municipal da Corte (1877/78). para dedicar-se definitivamente ao espiritismo. enfocando o problema crítico de sua terra natal. reelegera-se deputado pelo estado do Rio de Janeiro (1878). relações de poder que dependem. 85. metais preciosos – como o capital cultural e social – títulos acadêmicos. Expliquemo-nos melhor. e tivera o nome incluído nas listas senatoriais do Ceará (1878) e do Rio (1885). retira-se da vida política. Op. do poder material ou do capital simbólico acumulado pelos agentes (ou pelas instituições) envolvidos164”. Diante de todo o quadro referente a sua vida como homem público. BOURDIEU. Rio de Janeiro. p. engloba tanto o capital econômico propriamente dito – dinheiro. as quais.do consulente e de “sua proficiência médica”. Como explica Bourdieu: 163 164 KLEIN FILHO. Especialmente na sociedade carioca e. liderança de movimentos e/ou instituições – que fazem de um agente social. escrevera o ensaio Breves considerações sobre as secas do Norte (1877). no campo cultural. na forma e no conteúdo. Nesse meio tempo. e à repercussão dentro e fora do meio espírita desse fato – atribuir a Bezerra de Menezes a condição de indivíduo detentor da palavra autorizada. p. terras. O poder simbólico. entendemos a capacidade de que é dotada uma pessoa ou instituição. Luciano. sempre. antes de prosseguir: por palavra autorizada. “uma descrição minuciosa de meus sofrimentos e suas causas determinantes163”. Cit.

como poder de constituir o dado pela enunciação. não é conseqüência imediata da posse do capital simbólico por um agente social. no ALAIC 2000. diz respeito às gramáticas de reconhecimento. a depender do contexto de que se trata. Mediações e poder. possa servir como orientação para o desenvolvimento do conceito enunciado por Lewgoy de estrutura discursiva. nos processos de recepção) 168.usp. Disponível em http://www. ao acatar as imagens que o emissor lhe propõe. Santiago do Chile. contudo. o conceito de dispositivos de enunciação. 169 Idem. o histórico do relacionamento interno e externo de uma instituição. tanto em relação à língua e ao dizer como em relação ao seu interlocutor169” e que. ARAÚJO. ibidem. assim como as formas de mediação discursiva estabelecidas ao longo do tempo entre ela e seus interlocutores (contexto situacional167). Ibidem.. 3. Acessado em: 12/12/2006. assim. ignorado como arbitrário (. determinadas pela forma como os dispositivos de enunciação são reconhecidos e consumidos. Ibidem. é a crença na legitimidade das palavras e daquele que as pronuncia. em abril de 2000. Ao reconhecer-se no enunciado de um texto. 168 Idem. a que a comunicóloga brasileira Inesita Araújo denomina contexto existencial166. de confirmar ou de transformar a visão de mundo e. 167 Idem. destacamos da análise de Araújo. 14/15. portanto o mundo.O poder simbólico.eca. acreditamos. Inesita. o receptor aceita as regras do jogo e fica sob o poder do texto. dizer que o poder concerne aos “efeitos discursivos”.br/alaic/chile2000/5%20GT%202000Recepción/InesitaAraujo. citado no 165 166 Idem. Podemos. ao “consumo discursivo”. que ela define como “a forma particular pela qual um locutor marca sua posição discursiva. A esse respeito. além de outros fatores de maior ou menor importância. p. Texto apresentado ao GT Estudos da Recepção. deste modo. crença cuja produção não é de competência das palavras165 (grifos nossos). Sem pretender adentrar o complexo campo dos estudos de recepção.doc. Ibidem. só se exerce se for reconhecido. a acção sobre o mundo. Pode ser apreendido na análise dos processos de circulação. negociação e consumo dos discursos (em outros termos.) O que faz o poder das palavras e das palavras de ordem. coletivo e de classe. graças ao efeito específico de mobilização. pp. Não basta ocupar posições de destaque ou possuir poder aquisitivo para ter sua fala legitimada pelos interlocutores. poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é obtido pela força (física ou económica). Estão em jogo também interesses de cunho individual. quer dizer. A palavra autorizada. de fazer ver e crer. então. 5 .. ao sentir-se identificado com a cultura ali expressa. poder de manter a ordem ou de a subverter. Araújo afirma: As relações de poder entre interlocutores são. para discuti-lo mais detidamente no terceiro capítulo.

trabalhando em múltiplas frentes. quando do pronunciamento oficial de sua conversão ao espiritismo. a 16 de agosto de 1886. majoritariamente pertencentes à burguesia e à aristocracia. Tais atributos ficam. Na medida em que o homem constrói sua visão de mundo a partir dos discursos que lê e elabora acerca do real. “a imprensa registrara o acontecimento como um sinal de tempos novos. 170 171 Ver p. que teve lugar no salão da Guarda Velha. Assim. Segundo Abreu. ao lado do capital simbólico de que dispõe o emissor. O poder do texto. 47. Esse momento marca o início de uma intensa militância pela causa espírita por Bezerra de Menezes. a importância da idéia a que nos referimos para a presente investigação liga-se ao fato de Bezerra de Menezes. Ao simples anúncio de um ato público para declarar sua adesão à doutrina espírita. 47. parece-nos bastante adequada à investigação que empreendemos neste trabalho a idéia de a identificação do receptor com a cultura e as imagens expressas em um enunciado ser. A Federação [Espírita Brasileira. detentor de significativo capital social e cultural dentro daquele contexto específico. passa a canalizar toda a sua experiência política. sob certas condições. Silvino Canuto. na capital. O telégrafo transmitiu a notícia aos Estados. um processo mediado. impor determinadas formas de perceber a realidade como válidas ou verdadeiras. por discursos. faz parte da luta pelo poder. Cit. Além disso. que. acorreram ao auditório para ouvir suas palavras. ABREU.500 pessoas. que é também uma disputa por fazer valerem certas formas de percepção do real sobre as outras. As livrarias venderam maior número de livros espíritas. uma condição essencial para sua submissão ao poder do texto. dono de uma personalidade forte e carismática. jornalística. patentes. médica e literária para a resolução das disputas internas do movimento espírita brasileiro e para a divulgação das idéias espiritistas em todo o país. mais de 1. já com dois anos à época] cresceu em adesões171”. Op. via de regra. p. e dotado de ampla experiência na prática da elaboração de discursos escritos e falados para receptores dos mais diversos segmentos sociais. 5 . que consiste na capacidade inerente ao texto de. a nosso ver. ganha sentido o conceito de poder do texto.final do tópico anterior170. segundo Araújo. reunir em si alguns dos principais atributos necessários para ter seu discurso legitimado por agentes de diferentes classes e posições sociais.

como dirá Abreu. Tanto Abreu quanto Quintella reconhecem na escolha do médico dos pobres para ocupar o cargo uma estratégia adotada pela instituição para amenizar as divergências entre as facções que disputavam a hegemonia do espiritismo no Brasil. Bezerra escreve uma longa dissertação acerca do espiritismo. Manoel Soares da Silva Bezerra. evidencia certa aproximação inicial de Bezerra com essa linha de pensamento espírita. 99. em 1889 torna-se Bezerra de Menezes o segundo presidente da Federação Espírita Brasileira. 5 . Cit. Interessa-nos. Cada vez mais envolvido com o cindido movimento espírita. nesse momento inicial. a nosso ver. representado pelo irmão mais velho de Menezes. 174 Idem. capaz de fazer em volta de si 172 173 KLEIN FILHO. Op. diretor do periódico.3) O líder e mediador espírita Nesse primeiro ano de atividade dentro do movimento espírita. foi uma incumbência dada a Bezerra pela Comissão de Propaganda do Centro da União Espírita do Brasil. Silvino Canuto. será devidamente aprofundada no terceiro capítulo. que já conseguira o espaço algumas semanas antes por meio de acordo com Quintino Bocaiúva. em 1886. nas páginas d’O Reformador. uma cara de repúdio por sua adesão ao espiritismo. pelo principal reduto dos científicos à época. Em mais de cem folhas de papel almaço enviadas no formato de carta ao irmão. tampouco descobrimos referências a publicações de qualquer natureza assinadas pelo político. publicada de outubro daquele ano até dezembro de 1894 no jornal O País. combatendo os científicos e “usando para isso de uma violência inusitada nos arraiais espíritas174”. endereçou-lhe ainda. Já em fins de 1887. não encontramos registro de filiação de Bezerra de Menezes a nenhuma instituição específica. os fortes desentendimentos a ala levou-o a cerrar ombros declaradamente com os místicos. Cit. o fato de se tratar a publicação de um convite feito ao político. por ora. parece ter sido o de responder em particular ao “círculo católico” que. Luciano. Seu grande foco. “uma verdadeira profissão de fé espiritista em cerrada argumentação de confronto com a dogmática do catolicismo fervorosamente partilhado por seu irmão172”. Ibidem. p. Op. 49. ABREU. O primeiro afirma que “urgia que aparecesse alguém com prestígio maior do que o de todos. Essa questão. que viria a ser publicada na íntegra só em 1920. Contudo. 40. p. e por ele prontamente aceito. p. aponta Abreu173 que a coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos. o que. contudo. ao longo dos anos.

) argumentos dos espíritas”. que tiveram 175 176 Idem. inculcar curas de moléstias (..). Enquanto a Federação envia uma Carta Aberta ao Ministro da Justiça. Mauro.um partido dominante175”. que não fosse a própria FEB.) e subjugar a credulidade pública. que. pelo menos como instituição espírita regular. que o autor do Novo Código Penal (. para estes.) 178 A palavra Spiritisme surge como um neologismo criado por Allan Kardec para nomear o conjunto de princípios de ordem filosófica. a fim de fortalecer o processo de unificação176”.. para dedicar-se à coluna d’O País e ao Centro Fraternidade.) Dr. Pena: prisão celular de 1 a 6 meses e multa de 100 a 500 $” (QUINTELLA.. no fim de 1889. Em 1890. teve que vir.. Contudo. QUINTELLA. e. Cit. a magia e seus sortilégios. a União Espírita envia uma representação ao Chefe do Governo Provisório. Bezerra de Menezes não conseguiu lograr sucesso nessa primeira empreitada. Tanto que. 50. Por ser pouco atraente para os místicos a idéia de dividir o mesmo espaço com os científicos. Uma vez à frente da instituição. enquanto o segundo defende que “a intenção dos febianos era colocar um elemento de grande prestígio e força moral na presidência. ele procura utilizar-se de seus atributos para promover a união dos espíritas em torno de um centro congregador. 177 Segundo Quintella. no que é apoiada pelo Centro de Bezerra. mas sim ao “baixo Espiritismo”.. Op. Ibidem. Afirmava o jurista que a referência presente no Código não se ligava ao “Espiritismo filosófico”. pouco motivadora a possibilidade de ter que fazer qualquer tipo de concessão aos místicos. com a promulgação do Novo Código Penal e a inclusão da palavra Espiritismo no artigo 157. ocorre certa mobilização de espíritas e instituições dos mais diversos matizes contra o texto. mostraram-se dispostas a aderir à idéia movimentaram concretamente suas ações no sentido de fortalecer o projeto. “a grita coletiva foi tão grande. foi a de criar um outro Centro federativo. rebater os (. fundara. A falta de apoio foi um golpe duro. postura que já mostrava indícios das intermináveis disputas em torno da definição do termo cunhado por Allan Kardec 178. p. Antonio Batista Pereira. Op. ao reunir num congresso representantes de 34 casas espíritas cariocas. Curiosamente. ao mesmo 5 . em folhetim do Jornal do Comércio. moral e religiosa expressos em O livro dos espíritos. que versava sobre abuso da credulidade pública177. Segundo Abreu. Cit... uma parcela mínima das instituições que. Procurando adotar uma postura “neutra”. a redação do artigo possuía os seguintes trechos: “É crime praticar o Espiritismo.. entrega a presidência da FEB. de janeiro de 1891. sua proposta. Mauro. a despeito da falta de suporte das outras casas. usar de talismãs e cartomancia (. que acabou por arrefecer o ânimo de Bezerra. num primeiro momento.

o mais antigo ainda em tempo. 179 GIUMBELLI. Op. com a médium Eusapia Palladino183. Op. tornaram-se maioria não só na Federação como também no Centro Espírita Fraternidade. Essa é uma aparente tensão no pensamento de Kardec que pretendemos explorar num trabalho futuro. ele fosse convidado novamente para assumir o posto maior da Federação. deixando. assenta também Kardec os princípios do espiritismo na crença na existência dos espíritos e na possibilidade de se comunicar com eles. Emerson. oferecendo uma definição tão ampla que poderia se coadunar com diversos tipos de crenças e tradições.1909) foi um criminologista italiano. os científicos. 65/66. Essa aproximação com a outra vertente majoritária das disputas espíritas fez com que. somada ao seu prestígio pessoal. fundador da Escola Italiana de Criminologia Positivista. em 1895. 5 . 182 Cesare Lombroso (1835 . nesse meio tempo. que deram parecer favorável à autenticidade dos fenômenos por ela produzidos. Submeteu-se à investigação de pesquisadores e intelectuais como Henri Bérgson e Giovanni Schiaparelli. posteriormente transformada na parapsicologia. à criação da metapsíquica. que o levou. passara a freqüentar com assiduidade alguns redutos dos místicos. Tornou-se espiritualista após investigar os fenômenos produzidos pela médium Eusapia Palladino. apoiados pelo sucesso “nas rodas cultas brasileiras” das experiências realizadas por Charles Richet181 e Cesare Lombroso182 na Itália. por ter descoberto a anafilaxia. limitamo-nos a apontar o trabalho de Giumbelli179 como referência para a investigação do tema. em 1905. além dos já citados Richet e Lombroso. quando já havia deixado O País para publicar sua coluna no Jornal do Brasil.1918) foi uma famosa médium de efeitos físicos napolitana. vinha a preocupação dos dirigentes da entidade com o crescente poder dos científicos. após ter deixado a presidência da FEB. Dessa vez. a coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos como a única publicação espírita regular de ampla tiragem180.lugar tanto na Europa quanto no Brasil. Cit. Bezerra de Menezes. 180 ABREU. onde teve oportunidade de conhecer e se aprofundar na obra de Roustaing. 183 Eusapia Palladino (1854 . Cit. Apesar da garantia de Pereira de que o movimento espírita nada sofreria com a nova redação do Código Penal. pp. 181 Charles Robert Richet (1850 . Até o Reformador teve sua publicação interrompida no fim daquele ano. para voltar só em 1894. Dedicou-se por longos anos ao estudo de fenômenos extra-sensoriais. Silvino Canuto. assevera Abreu que a repressão policial atingiu também as instituições espíritas a partir de 1891. Como não cabe em nossa análise aprofundar essa discussão. ganhador do Nobel de 1913.1935) foi um fisiologista francês. como foram os primeiros anos daquela década de 90. Sua teoria caracteriza-se pelo determinismo biológico na avaliação sobre a tendência à criminalidade no ser humano. É que num momento de desagregação temporária do movimento espírita.

tendentes aos místicos. uma dissidência da Federação. era Dias da Cruz. fê-lo romper com a instituição. mas também da legalidade para fazer o que julgasse necessário com vistas à desejada unificação do movimento espírita. Segundo Quintella. posição que ocuparia até sua morte. evidentemente inspirado nela. em 1895 a presidência da Federação. Angeli Torteroli. naquela experiência inicial era sobre uma leitura kardequiana de espiritismo que Bezerra fundamentava seu discurso. Assim. Bezerra de Menezes terminou por envolver-se em diversas discussões com o grande líder dos científicos. sem vinculação direta à FEB. que procurava manter a neutralidade daqueles que. E isso se soma a amplos poderes estatutariamente conferidos. numa assembléia em que os estatutos da instituição foram reformados para concederem amplos poderes ao novo presidente e tornarem obrigatório o estudo de J. Com esse objetivo. liderado por Angeli Torteroli. mas uma série de divergências com o perfil majoritário dos espíritas do Centro. o Centro da União Espírita de Propaganda do Brasil. preferiam deixar de lado as diferenças para dialogar com todos. Acreditamos ser bastante emblemática da nova postura que Bezerra assumiria nesse segundo mandato a implantação do estudo da obra de Roustaing como item obrigatório do roteiro semanal de atividades da FEB. em 1900. como nova tentativa de formar um órgão centralizador do espiritismo declaradamente científico. em caráter extraordinário. que foi transformado em Sociedade Psicológica Fraternidade. no dia 3 de agosto de 1895. num momento em que Bezerra já se via fortemente inclinado aos místicos. E foi o que fez. para assumir. Se. que Quintella chega a chamar de discricionários. “é assim que. Roustaing (artigo 4º. 1º parágrafo)”. principalmente se levarmos em conta que a mesma medida havia sido tomada pelo médico dos pobres em relação a O livro dos espíritos em seu primeiro mandato. O presidente da FEB. Em 1894 criara-se. seu argumento nessa segunda e derradeira oportunidade à frente da Federação será. via-se Bezerra imbuído não só da legitimidade que seu capital simbólico e sua habilidade para se fazer compreendido dotavam-no.atividade. dentre as quais Quintella destaca uma de especial interesse para a análise que empreendemos no terceiro capítulo: trata-se de uma ocasião em que o científico afirmou publicamente que 5 . assume a direção da nova entidade. quando não declaradamente pautado pela leitura roustanguista de espiritismo. à época.B. ao presidente da instituição. Bezerra de Menezes. Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcanti assume novamente a direção da FEB.

“afirmando que quem não segue Jesus. outra que se concentra numa busca mais secular e paracientífica. tendo o espiritismo que se deparar com novos desafios no campo das disputas religiosas brasileiras durante o século XX. ele não se empenha tão somente em mediar as divergências existentes. (D'ANDREA. Bezerra publica dura crítica a Torteroli no Reformador e convoca os espíritas a escolherem entre a Federação e o Centro da União. Idem. Como dirá Abreu.“Jesus não era seu senhor . Ibidem. ainda. destacamos da postura assumida por Bezerra o forte viés religioso que passa a caracterizar suas ações e seus discursos nesse segundo mandato à frente da Federação. entre 1895 e 1897. diversos artigos assinados pelo presidente da instituição tinham como foco a crítica ferrenha aos científicos. Em todo caso. 184 185 QUINTELA. 104. São Paulo. suas instituições e suas práticas. Deus e Liberdade da União. O self perfeito e a nova era. a nosso ver. contestou o lema Amor. na última frase de sua obra. e outra que se propõe a diálogos diversos no campo religioso. Para além de tantas e reiteradas críticas que faz o médico cearense ao longo das páginas do Reformador aos científicos. Loyola. Op. Op Cit. na medida em que. o Centro da União Espírita de Propaganda do Brasil fecha as portas. D’Andréa fala em três tendências no espiritismo brasileiro contemporâneo: uma voltada para uma síntese com as tradições afro-brasileiras. mantém um predomínio inabalável até hoje entre os espíritas do país. publicou aviso oficial de que a FEB não guardava nenhuma relação com o Centro da União. Diante de tal assertiva. escreveu os artigos Falsos profetas e Pelo fruto se conhece a árvore. Criticou. Cit. Individualismo e reflexividade em religiosidades póstradicionais. de Eça de Queirós. após uma saída em massa de membros de sua diretoria. mas sim em impor a hegemonia de uma vertente pela força de seus discursos falados e escritos. é consensual entre os pesquisadores que a dimensão religiosa. 187 ABREU.e sim seu irmão e seu igual 184”. tão cara aos místicos das primeiras décadas do espiritismo no Brasil. 186 Trata-se. Antony. de frase que merece uma análise mais detida. “era a fase dos místicos186. não pode invocar o nome de Deus185”. em reunião do Centro da União. sobre os científicos. Silvino Canuto. que dura até hoje187”. Mauro. Definitivamente decidido por um dos lados da disputa. e. notadamente com os representantes da Nova Era. a montagem da peça O crime do padre Amaro. ao Centro e a Torteroli. A esse respeito. p. Nas páginas do periódico oficial da FEB. 5 . E logra significativo êxito nesse embate quando. com a ascensão dos místicos à época. as tipificações de espíritas que talvez fossem válidas para aquele contexto tendem a tornar-se obsoletas ou impróprias para os dias atuais. como já discutido no início do tópico Espiritismo no Brasil. em 1897. 2000).

segundo o sociólogo francês Loïc Wacquant. como Émile Dürkheim. no século XIII. p. in Sociologia.35/36. ibidem. 14. p. e Thorstein Veblen190. mas particularmente no espaço que estamos discutindo. a nossa conduta188”. 36. Idem. Loïc. e adquiriu “o sentido acrescentado de capacidade para crescer através da actividade. graças à ação deste em diversos campos. como avaliamos neste trabalho. 5 . O conceito de habitus remonta. que então as guiam nas suas respostas criativas aos constrangimentos e solicitações do seu meio social existente191”. explicitando o modo pelo qual esta se faz presente nas pessoas através do estabelecimento de disposições duráveis ou condicionamentos comportamentais “para pensar. pp. 191 Idem. à noção aristotélica de hexis. influenciou o estilo discursivo do espiritismo posterior a Bezerra. ibidem. que remetia a “um estado adquirido e firmemente estabelecido do carácter moral que orienta os nossos sentimentos e desejos numa situação e. Foi ainda discutido superficialmente por outros intelectuais durante a primeira metade do século passado. Traduzido por Tomás de Aquino. Max Weber. como tal. Idem. ibidem. 2004. sentir e agir de modos determinados. que. o hexis tornou-se habitus. “Esclarecer o habitus”.4) Bezerra e o habitus católico Antes de empreendermos a análise da coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos. A enunciação clássica do conceito propõe a superação da dicotomia indivíduo/sociedade e das análises sociológicas que privilegiam ora a dimensão micro. ou disposição durável suspensa a meio caminho entre potência e acção propositada189”. fazse necessário realizemos uma breve discussão sobre um conceito-chave da nossa investigação: o de habitus católico. A educadora e socióloga Ana Maria Fonseca de Almeida explica que as primeiras tendem a “considerar as 188 189 WACQUANT. da transição entre os séculos XIX e XX. O habitus permaneceu sem maiores acréscimos de significação por muito tempo. tendo sido utilizado discretamente por sociólogos da geração clássica. 35. Marcel Mauss. 190 Cf. mas ganhou um papel central apenas no pensamento do sociólogo francês Pierre Bourdieu. É por meio de Bourdieu que o habitus assume uma função de conceito mediador nas relações entre indivíduo e sociedade. ora a macro das relações sociais.

p. apud Idem. The Logic of Practice. University College Dublin. Pierre. sem que se dêem conta. Bragança Paulista. Karen. 2002. enquanto a tendência das segundas é a menosprezar “a parcela de autonomia de que dispõem os agentes sociais e. 1990 apud ANDERSEN. Bourdieu defende que a prática.. Dessa forma. v.ie/sociology/research/ccs001andersonapril2006. apreciações e acções e torna possível cumprir tarefas infinitamente diferenciadas. 195 WACQUANT. 196 BOURDIEU. graças à transferência analógica de esquemas adquiridos numa prática anterior./dez.saofrancisco. eles recorrem para reagir às contingências cotidianas. A elaboração de tal arcabouço predisposicional e comportamental. jan. Cambridge: Polity Press. 20. integrando todas as experiências passadas. 5 . ibidem. 37. 193 Idem. Precedido de três estudos de etnologia Kabila. 194 Noutras palavras. 194 BOURDIEU. Disponível em: http://www.interações entre os agentes sociais pelo seu valor de face e. “Notas sobre a sociologia do poder: a linguagem e o sistema de ensino”.. p. funciona em cada momento como uma matriz de percepções. Religious Socialisation and Habitus Change in Irish Society.br/edusf/revistas/horizontes/Horizontes2002/horizontes-6. São elementos que se elaboram “sob o nível da consciência 195” preferencialmente na infância. p 19. Acessado em: 01/01/2007. Op. Esboço de uma teoria da prática. por outro lado. Ana Maria Fonseca de. e que se constituem na forma de a sociedade fazer-se presente na estrutura cognitiva dos indivíduos.ucd. segundo Bourdieu196. in Horizontes.edu. p. abril de 2006. Irish Research Council for the Humanities and Social Sciences. 261. é: (. ibidem. o habitus se expressa em disposições e comportamentos preferenciais adotados pelos indivíduos. assim fazendo. o sociólogo irlandês Karen Andersen afirma que “é crucial 192 ALMEIDA. a desconsiderar as relações de classe que definem a posição social dos interlocutores e estruturam as interações como relações de poder (opressão e submissão) 192”. que se forjam no contato estabelecido entre estes e a sociedade. baseia-se fortemente nas experiências da infância. 2. Disponível em: http://www. não permitem o estudo sistemático das maneiras como as estruturas realizam-se na prática cotidiana dos agentes193”.pdf. A esse respeito. 2002. e aos quais. nem a conseqüência pura da busca intencional das pessoas por atingirem seus objetivos particulares. Oeiras: Celta.pdf. entendido como um sistema de disposições duráveis e transponíveis que. sem ser um resultado mecânico dos impositivos da estrutura social. Cit. propiciando-lhes o instrumental adequado para lidar com as diversas situações e vivenciar as várias dimensões presentes no dia-a-dia do homem.) o produto de uma relação dialética entre a situação e o habitus. Pierrre. Loïc.

integrado num processo dinâmico. p. Disponível em: http://www. ou mais bem-intencionado. que faz muitos pesquisadores inventarem neologismos ou tentarem associar seu nome a “novos” conceitos. Karen.br/rbe20/anped-20-04. um capital (de um sujeito transcendental na tradição idealista) o habitus.. Bourdieu afirma que: (. Freqüentemente. embora chamando a atenção para a ideia de que este poder gerador não é o de um espírito universal. Maria da Graça Jacintho. creio que a teoria do habitus me habilita a pensar o processo de constituição das identidades sociais no mundo contemporâneo200.entender que é através da socialização da criança dentro das crenças e das disposições da sociedade que o comportamento individual. 61. do “conjunto dos conhecimentos adquiridos. e as situações do dia-a-dia imprevisíveis. as idéias expressas pelo conceito em seus formuladores clássicos198.. pp. “A teoria do habitus em Pierre Bourdieu: uma leitura contemporânea”. a hexis. não passam de reelaborações de noções já bem antigas. Cit. de uma natureza ou de uma razão humana. processo em que procurou manter. Acessado em: 17/12/2006. ao mesmo tempo. 199 Idem. em linhas gerais. 200 SETTON. do habitus e do agente (que a palavra hábito não diz). dispersos e pouco formalizados. in Revista Brasileira de Educação. ele oferece ao ser humano uma percepção ampla de “como o jogo pode ser melhor jogado”. mas ainda assim. e. Embora controvertida. de uma experiência biográfica. em constante transformação: Trata-se de um conceito que. Pierre. 6 . 61. embora seja visto como um sistema engendrado no passado e orientando para uma ação no presente.) eu desejava pôr em evidência as capacidades “criadoras”. ainda é um sistema em constante reformulação.) 199 A educadora brasileira Maria da Graça Jacintho Setton destaca no habitus seu potencial de explicar o presente por meio da análise de um sistema formulado no passado. na verdade.org.. BOURDIEU.. mas sim o de um agente em acção (. Op. superar. Habitus como uma matriz cultural que predispõe os indivíduos a fazerem suas escolhas. Explicitando melhor suas intenções ao reelaborar o conceito de habitus. cuja existência se teria afigurado clara ao investigador caso tivesse se dedicado a um estudo mais rigoroso. p. contudo. o habitus. indica a disposição incorporada. Op. Habitus não é destino. como em Chomsky – o habitus. quais opções encontram-se a sua disposição e o que ele deve fazer para atingir da forma mais eficaz os resultados a que se propõe. ibidem. Cf. 62-64.anped. da disciplina”. como indica a palavra.pdf. p. que. um sistema de orientação ora consciente ora inconsciente. os pensamentos e as atitudes recebem forma e direcionamento197”. é um conhecimento adquirido e também um haver. Cit. segundo ele. Bourdieu faz uma dura crítica à “procura da originalidade a todo custo”. Habitus é uma noção que me auxilia a pensar as características de uma identidade social. Maio/Jun/Jul/Ago 2002 Nº 20. 197 198 ANDERSEN. por ser o comportamento humano estratégico. proporciona ao indivíduo uma “predisposição para o jogo”: não sendo capaz de estabelecer regras rígidas e precisas para guiar as ações individuais ante cada contingência diária. Destaca. inventivas. activas. 2. quase postural –.

como dirá Wacquant. 2002. in Linguagem em Discurso. Como princípio de sociação. n. Para a nossa investigação. É.O habitus. 203 Idem. um elemento estruturado e estruturante. p. Idem.htm. 225-272. Acessado em 12/12/2006.unisul. ibidem. Cit. é ao mesmo tempo um princípio de sociação e de individuação. 205 Idem. 201 202 WACQUANT. p. dentro dessa perspectiva. Op. 6 . Loïc. particularmente no contexto social em que se insere nossa análise. na medida em que procura desvelar condicionamentos sociais a que se acha submetido o indivíduo em sua ação criativa sobre o meio. 3. ibidem. homens de uma mesma classe social – compartilhem “categorias de juízo e de acção201”. ibidem. Disponível em: http://www3. “a noção de ‘habitus’ de Pierre Bourdieu tem importância central para a compreensão da questão das crenças e das ações humanas204” (grifo nosso). 38. caracterizada por um conjunto por excelência particular de experiências. permite que os indivíduos em geral submetidos a condições semelhantes de socialização – religiosos de uma mesma tradição. 1. armazena e prolonga a influência dos diversos ambientes sucessivamente encontrados na vida de uma pessoa203”. acrescentando ainda que nela repousa “o fundamento das crenças que sustentam o sentido da realidade social ou o senso comum205” (grifo nosso). Dessa forma. pinçamos um elemento específico que. dentre aqueles possíveis dentro da estrutura social. Por sua vez. realizando ao longo de sua existência uma trajetória absolutamente única. possa “internalizar uma combinação incomparável de esquemas202”. que é o habitus. nomeadamente aquelas ligadas ao universo católico. do amplo universo abrangido por esse “conjunto dinâmico de disposições sobrepostas em camadas que grava. permite que cada sujeito. 204 LITAIFF. ganha um relevo excepcional: as crenças e disposições religiosas.br/paginas/ensino/pos/linguagem/0301/09. Tubarão. estudantes de uma mesma época. v. Aldo. “Antropologia e Linguagem: uma abordagem Neo-pragmatista”. Como afirma o antropólogo brasileiro Aldo Litaiff. o habitus é também elemento estruturante das ações e relações estabelecidas pelo homem com o meio. um elemento estruturado pelo meio social em que acha inserido o indivíduo. como princípio de individuação.

contudo. 1987.scielo. nº 17. pp. Dowling. falar de um senso comum religioso e. e havia uma tentativa por hegemonizar-se o discurso católico a partir das orientações papais. T. A. 219/219. v. a estratégia esboçada tinha como meio principal a desqualificação do catolicismo laico. na década de 70 daquele século. e colocá-la sob as ordens diretas do epicentro da ortodoxia da fé católica: Roma.) de disciplinar o povo cristão. 37. Teresa. L. v. Falamos de um catolicismo que vive na transição do Império para a República.br/scielo. 55 apud ANDERSEN. como faz o sociólogo Antônio Flávio Pierucci206. na transição do século XIX para o século XX (esse estranho Felismino)”. que integra a visão de mundo católica aos juízos de ação e de valor da maior parte da população. Márcio de Souza.) objetivo (. (. MIRANDA. conflitos e resistências. São Paulo. que possibilitava ao imperador intervir nas nomeações e ordenações eclesiásticas. Soc.Cremos ser possível. faz com que a cosmovisão católica seja um elemento extremamente presente no cotidiano das pessoas. 6 . Op.. “Catolicismo laico e catolicismo romanizado no Ceará: tensões. Fortaleza. É imprescindível. 28 e seguintes.) Quanto ao (. O poder e a fé: discurso e prática católicos. “é quase natural ser católico209”. bras. “Young Catholic Adults in Ireland” in J Fulton. 4. Júlia. 208 Trata-se de uma sociedade em que. esclarecer inicialmente de que catolicismo estamos falando. minorando tanto quanto possível os desvios do catolicismo popular e suas aproximações com o coronelismo do sertão207. Acessado em: 05/01/2007 207 Cf.. p. P. Karen. Marler and Luigi Tomasi (eds) Young Catholics at the New Millennium: The Religion and Morality of Young Adults in Western Countries.. característica da 206 PIERUCCI. M.. Disponível em: http://www. 13. Dublin: University College Dublin Press.. Os principais discursos e práticas dos bispos reformadores voltavam-se para dois objetivos principais: o disciplinamento do clero e dos fiéis. Borowik. de um senso comum católico. Cit. somada ao ímpeto romanizador que se evidencia desde o advento da Questão Religiosa. 209 DOWLING. pp. in Rev. como dirá a socióloga irlandesa Teresa Dowling. 7. mais especificamente. Abela. no contexto que analisamos. A romanização e a clericalização estavam em alta. entrara em embate direto com a Coroa por tentar pôr em prática a recomendação do Vaticano de empreender uma luta anti-maçônica dentro de um império cheio de maçons ilustres e influentes. 2000. “Secularização em Max Weber: Da contemporânea serventia de voltarmos a acessar aquele velho sentido”. 1998.. I. Ci. apesar de ainda viver sob o regime do Padroado. p. exteriorizado nas festas. Ediões UFC. 208 PORTO. Antônio Flávio. nas devoções e muito pouco sacramental. livre há apenas algumas décadas para receber as bulas e documentos da Santa Sé sem necessitar do placet do imperador.php?script=sci_arttext&pid=S010269091998000200003&lng=en&nrm=iso. n. Como explica o historiador Márcio de Souza Porto: Mais notadamente a partir da segunda metade do século XIX. Um catolicismo que. A busca pela homogeneização do discurso. luso-brasileiro. o episcopado brasileiro passou a adotar uma posição clara no sentido de desvincular a Igreja da intervenção do Estado. e que a disposição reverente para com as coisas sagradas.. in Mneme – Revista de Humanidades.

6 . no discurso da coluna. pendores e disposições para se relacionar com a sociedade. a idéia de salvação por meio da fé na Igreja e do recebimento dos sacramentos. 12 apud Idem. London: Routledge and Kegan Paul. que. 92.piedade católica. que se aproxima em muitos aspectos. a marcante devoção aos santos do catolicismo popular. conquanto certas analogias e metáforas muito provavelmente o sejam. ao espiritual. Em suas páginas. são “culturais mais do que pessoais210” e possibilitam ao indivíduo integrar-se ao meio com mais facilidade. na utilização não-intencional de elementos desse habitus em sua construção discursiva. de arcabouço inconsciente de crenças. mesmo porque Bezerra acreditava ser a “igreja romana” o mais “formidável inimigo” do cristianismo e também o mais “prestimoso aliado” do materialismo211. 1951. Destacamos. Luciano. decerto não se poderão encontrar apologias declaradas a dogmas da Igreja ou à visão de mundo por ela preconizada. seja um fator marcante em sua relação com tudo quanto se ligue a questões espirituais. do Cristo de Deus. mas. e de Maria. o compartilhamento de crenças apresenta-se também como um elemento essencial. a disposição reverente e submissa diante do sagrado. The Social System. Op. segundo a interpretação que dela fazia a Igreja. praticamente ignorada no espiritismo francês. ou seja. p. grosso modo. contudo. ao lado das normas. de Roustaing. Cit. num Deus único que se manifesta em Três Pessoas. A questão repousa não propriamente na recorrência consciente do médico a elementos do habitus católico para a elaboração de seu discurso sobre o espiritismo. de tudo o que se relacionasse ao divino. Talcott. justamente pela natureza já discutida do habitus. a confiança absoluta e irrestrita na Bíblia. p. ganha 210 PARSONS. alguns aspectos importantes dessa dimensão religiosa do habitus que se podem entrever de modo mais marcante no texto assinado por Bezerra de Menezes. na medida em que elas. a crença monoteísta trinitária. Nesse quadro específico. É assim que Bezerra 1) demonstra uma reverência particular pelas figuras de Jesus. ibidem. 211 KLEIN. Ora. que elementos compunham o quadro relativamente homogêneo de crenças e disposições característicos do habitus católico brasileiro naquele contexto? Poderíamos citar. dentre uma ampla gama de caracteres.

3) recorre a dispositivos de enunciação212 inspirados naqueles utilizados pelo linguajar católico. e 4) incorpora a postura de submissão e deferência que caracteriza a relação católica com o espiritual. 212 Ver p. já se pode notar em Kardec. incluindo-se terminologias. em certa medida. dedicando dezenas de colunas à proposta de evidenciar a fundamentação bíblica para algumas idéias centrais da doutrina espírita. partamos para a análise da coluna propriamente dita. 6 . a partir de uma releitura das Escrituras. basicamente no que tange a questões morais e à exemplificação de conceitos importantes do espiritismo. Essa é uma tendência que. mas que nos parece ganhar um destaque muito maior com Bezerra. 52. 2) procura referências bíblicas para legitimar seu discurso.significativo relevo na versão brasileira. como a reencarnação e a mediunidade. para o que contou bastante o discurso do médico dos pobres. Esclarecido esse ponto de nossa investigação. analogias e imagens próprios daquele universo religioso.

2001 apud FERREIRA. 2004. desempenhando um papel importante na organização da memória histórica. In: I Simpósio internacional de Análise de Discurso Crítica. ele é falado pelo europeu213”. Os primórdios da imprensa no Brasil ou: de como o discurso jornalístico constrói memória. “o discurso jornalístico do Correio Braziliense e da Gazeta do Rio de Janeiro se insere no imaginário europeu. As vozes veiculadas são procedentes do Velho Mundo. É no século XIX que surge a imprensa no Brasil. Os primeiros jornais. a imprensa começa a ocupar a função de espaço consolidado para a discussão pública em substituição aos pregões. administrativas ou internacionais.O Espiritismo por Bezerra de Menezes 1) A imprensa brasileira e o jornal O País no século XIX A fim de tornar mais claras e compreensíveis as características da coluna Espiritismo – Estudos Filosóficos. A. SP: Pontes. Campinas. 6 . Discurso Fundador – a formação do país e a construção da identidade nacional. Mantinham-se voltados para questões burocráticas. P. Lucia M. In: Orlandi. v. em 1822. 1. a exemplo dos pioneiros Gazeta do Rio de Janeiro e Correio Braziliense. 1. eram ainda muito distantes do cotidiano brasileiro. p. VII Encontro Nacional de Interação em Linguagem Verbal e Não-Verbal.). (org. O brasileiro não fala nestes jornais. 2005. I Simpósio internacional de Análise de Discurso Crítica. cartazes e às leituras 213 MARIANI. Segundo Mariani. façamos uma breve incursão nas particularidades da imprensa brasileira naquele contexto. E. “Construindo identidades femininas no início do século XIX: o papel da imprensa”. Brasília. VII Encontro Nacional de Interação em Linguagem Verbal e Não-Verbal. Bethânia. Se com a Independência.

de que o jornal poderia servir não só à propaganda e à discussão políticas. a militância da imprensa foi “um elemento decisivo para a difusão e vitória das idéias republicanas218”. em que afirma a importância da colaboração dos redatores do Diário de Notícias e de O Paiz para o resultado de novembro de 1889219”.em roda214. Nelson Werneck. UFF (dissertação de mestrado). Assim.usp.rtf. p.br/alaic/Congreso1999/14gt/Carla%20Vieira%20de%20Siqueira. dedicava-se a combater a aura de sacralidade que revestia instituições como a monarquia.1890/1922. Essa postura objetivava. a uma só tempo. p. 6 . PENA. 218 AZÊDO. apud SIQUEIRA. p. A imprensa comemora a República: O 15 de Novembro nos jornais cariocas . ed. contudo. e aqui nosso interesse começa a se voltar particularmente para O País. Maria de Nazareth. é só nos idos de 1840 que ela passa a servir de palco para a busca pela elaboração de uma identidade nacional. 3. 1975. 115. Siqueira acrescenta ainda que. se dá num momento de crescente percepção. já em 1890. assumindo uma postura declaradamente liberal. Felipe. em contraposição às ideologias que procuravam legitimar o status quo. 6. A imprensa republicana antes do 15 de novembro. 1999. A. 217 SODRÉ. 220 Cf. Carla Vieira de. tais periódicos procuravam assumir uma postura oficialmente neutra. p. por parte dos empresários. “o historiador francês Ernest Lavisse publica La Vie Politique à L’ Étranger. como uma leitura apressada poderia sugerir. p. Op. Carla Vieira de. estimulados pela ascensão dos ideais abolicionistas. nesse período. não eram panfletariamente republicanos. Aí ganha lugar a aproximação entre jornalismo e literatura. São Paulo. Lucia M. 3. 2005. em abril de 2000. Idem. 2005. Rio de Janeiro: Mauad.eca. 4a. desvinculada da metropolitana. História da Imprensa no Brasil. Op. Santiago do Chile. p. Niterói. fortemente caracterizada pela ausência de fronteiras claras entre textos opinativos e noticiosos215 e pela publicação gradual de livros em formato folhetinesco216. pelo lançamento do Manifesto Republicano e do Clube homônimo – ambos em 1870 – surgem diversos jornais em todo o país.45 216 CRUZ FERREIRA. A imprensa. Contexto. ainda que fossem escritos por jornalistas republicanos e tivessem donos que partilhassem da mesma posição política.4. Seu aparecimento. Ibidem. Cit. Disponível em: http://www. NP IV-Produção Editorial no XXVIII Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação. que por quase um século marcaria ainda a prática jornalística brasileira. Cit. Segundo Azêdo. no ALAIC 2000. o latifúndio e a escravidão217. Texto apresentado ao GT Estudos da Recepção. Na década de 70. Teoria do Jornalismo. 219 SIQUEIRA. contornar as dificuldades crescentes enfrentadas pelo jornalismo puramente político e garantir a sobrevivência dos jornais 214 215 FERREIRA. Tania Maria Tavares Bessone da. “O Que liam os cariocas no século XIX?”. Esses grandes jornais. conforme avalia Siqueira. mas também era capaz de funcionar como empreendimento rentável do ponto de vista econômico220.

acaba por se tornar. A respeito dessa situação dúbia e de suas implicações Sobrinho faz a seguinte análise: Não havia. ora como sua formadora e guia. Rio de Janeiro. em que os mesmos jornalistas e intelectuais dedicam-se a escrever em periódicos das mais diversas tendências políticas. como a Gazeta de Notícias e O Paiz. abrigam textos dos mais variados matizes ideológicos. MEC/Fundação Casa de Rui Barbosa / Conselho Federal de Cultura. partidários ou entusiastas da causa republicana. 224 SIQUEIRA. 5/6. desse modo. na sua quase totalidade. Por isso. Carla Vieira de. conservando o seu direito de discordar ou de se opôr aos pronunciamentos desse partido. Cit. conforme analisa Siqueira: A imprensa ora se apresenta como expressão da opinião pública. A imprensa. Propaganda republicana (18881889).. a direção achava mais fácil não abrir mão de sua posição de neutralidade. portanto. Antonio da Silva. afirma-se como mediadora entre os cidadãos e o governo. começa a elaborar-se a imagem do jornal como expressão e meio de formação da opinião pública. Em ambos os casos. Idem. nas últimas décadas do século XIX. pelo menos aparente. 221 222 Cf. p. pp. jornais que se declarassem publicamente republicanos ou era reduzida a influência dos que assim se proclamassem. 223 SOBRINHO. Prefácio de JARDIM.num contexto marcado pelo fervilhar de efêmeras publicações que levantavam a bandeira republicana e rapidamente saíam de circulação. Com isso. Embora se soubesse que a redação dos jornais era composta de jornalistas. Constrói um reconhecimento social do jornal enquanto espaço de criação de verdades e de conceitos universais. monarquistas e republicanos inimigos da escravidão lutaram juntos” (Idem. A imprensa teria a patriótica missão de guiar a opinião pública. pp. que abriam espaço para colunas republicanas. Siqueira afirma que “a presença de monarquistas em O Paiz (. é verdade. Mas também não era grande o número dos que fizessem questão de demonstrar o seu entusiasmo pela Monarquia. O que se ia tornando frequente era tomar atitudes cômodas em face da controvérsia essencial. Barbosa Lima. tiveram espaço garantido para a veiculação de seus artigos nas páginas de O País.) demonstra que. Ibidem. um espaço privilegiado de discussão pública ou. independente de sua linha editorial. e os jornais. mesmo sem que haja uma intenção clara dos jornais nesse sentido. 1978. uma comunidade argumentativa. 1920 apud SIQUEIRA. Era o que mostravam os jornais de circulação mais extensa ou de popularidade mais definida.. Cit. O momento comemorativo potencializa esta ação pedagógica224. e. como quer Siqueira. Op. 6 . Ibidem). mesmo quando à sua frente estivessem republicanos notórios como Quintino Bocaiúva ou Ferreira de Araújo223. Op. Carla Vieira de. como peça fundamental do funcionamento do regime. diante da repressão governamental e da falta de anunciantes221. 4/5. quando da campanha abolicionista222. durante a campanha abolicionista. até conhecidos monarquistas. Sua função pedagógica vem respaldada pela afirmação do caráter científico da atividade intelectual que marca o século XIX. como Joaquim Nabuco.

o que pode ser tomado como evidência de estar o jornal em franco crescimento. dos anos de 1887 e 1888. maiores e com títulos próprios. A luta. Martins Fontes. Além disso. ou seis páginas. O Imperador. p. e textos avulsos. consta uma tiragem de 25 mil exemplares. Nas outras colunas da primeira página. Curiosamente. ambas apresentando a referida inscrição. Nelson Werneck. social e cultural da Corte. M. Carmem. destaca-se O País nesse cenário por ser o jornal carioca mais importante do período. p. (DOLORES. nem uma nem a outra fosse especificada na primeira folha227. que na época encontrava-se em tratamento de saúde na 225 SODRÉ. a publicação circulava com a epígrafe “O PAIZ é a folha de maior tiragem e de maior circulação da América do Sul”. 6 . no caso do primeiro ano. Mulheres. A primeira e/ou a segunda coluna da capa. 1983. depois Conde de São Salvador de Matosinhos. São Paulo. sem que. 227 Encontramos duas capas d’O País de 1900 microfilmadas na obra que utilizamos de Klein Filho (pp. contudo. pelo português João José dos Reis Júnior. contendo pequenos textos sobre o cotidiano político. 226 Essa informação pode ser encontrada em SIQUEIRA. a nosso ver. 2001). o periódico possuía circulação nacional e tiragem superior a 32 mil exemplares diários em 1890226. Nos exemplares microfilmados a que tivemos acesso. distribuem-se a seção fixa Noticiario. só passando a ocupar a seguinte quando findado o espaço disponível naquela em que se iniciou. 246 apud SIQUEIRA. A apresentação está disponível em http://www. Os textos quase sempre se dispõem verticalmente. o que. Em 1900. de Carmem Dolores. lançada pela Ed. a primeira agência de notícias do mundo. Cit.Trazendo a discussão para o campo que nos interessa especificamente no presente trabalho. Lançado em 1º de outubro de 1884. Idem. abrigava(m) a seção Telegrammas. vem reforçar a idéia de se tratar de uma questão de privilégio. que são todos de domingo. ao lado da Gazeta de Notícias225. a fonte utilizada no texto dessa seção é um pouco maior e mais nítida do que aquela utilizada no resto do jornal. História da Imprensa no Brasil. Maria Angélica Lopes faz referência semelhante na apresentação que escreveu para a obra A Luta. Já nos exemplares de 1887 e 1888 a que tivemos acesso. 207 e 210). das informações sobre o exterior. talvez como resquício ainda da sobrevalorização dada nos primeiros tempos da imprensa brasileira aos acontecimentos internacionais. Florianópolis: Mulheres.br/apresenta23. ainda em voga no fim do Império. dentro das colunas. com material enviado pela agência francesa Havas. ou conseguido por meio de correspondentes em várias partes do país. Op. o jornal possui oito. divididas em oito colunas. que versam sobre os mais diversificados temas.editoramulheres.com. 4. abordando assuntos específicos que vão desde notícias sobre S.htm. no caso do segundo.

p. 8) 237 CARVALHO.. cívica” (SIQUEIRA. 229 O País. incrementando o debate e a potencialidade da imprensa como formadora de um ‘espaço público comunicativo’”. p. Siqueira. o sexto e o sétimo capítulos do folhetim O Remorso de um Anjo. Cit. geralmente assinadas por seus respectivos autores e escritas em formato de artigo. o espaço por excelência para a veiculação de textos opinativos é a Secção Livre. a imprensa teria a patriótica missão de guiar a opinião pública. Já em 30 de outubro. sua presença já se fazia sentir. p. sob encomenda. Rio de Janeiro. pp. Assim.. vaccina animal233 e exames de preparatórios234. 1. lêem-se as palavras iniciais “CANNES. Op. assinado por A. d’Ennery. e muitas propagandas. No entendimento do jornalista. Maria Alice de. eventos culturais. Apesar de os textos noticiosos que se distribuem de forma irregular pelas páginas do jornal não possuírem propriamente uma preocupação com os ideais de neutralidade e objetividade que imperam desde meados do século XX no jornalismo brasileiro236. disposto da mesma forma. mas justamente a uma tomada de partido. 6/7.Europa228. o 17º capítulo do folhetim O Charlatão.. “as seções livres dos jornais muitas vezes reproduzem editoriais de linha discordante. Nela expõem-se com certa liberdade idéias por vezes até mesmo divergentes daquelas defendidas pelo próprio periódico. Pedro II no Velho Mundo. passando pelo aniversário do Marquez de Pombal230 e por notícias sobre roubos231. Cit. Na edição de 13 de maio de 1888. 1. apesar de ilegível o texto propriamente dito. 235 A edição de 23 de outubro traz. 234 Idem. a capacidade de apontar a almejada verdade dos fatos estaria relacionada não a um posicionamento neutro. faz o comentário que se segue “A questão da objetividade. Sette Letras. 228 Nas edições de que dispomos. receitas. 232 Idem. folhetins – às vezes mais de um na mesma edição235 – transcrição de documentos oficiais ou atas recém-assinadas. assinado pelo também francês Élie Berthet. 1994. p. ao final da página seguinte. Consta que o Imperador Dom Pedro tenciona fazer uma viagem a Palestina.”. p. pode-se acompanhar um pouco do dia-a-dia de D. 231 Idem. O interior do jornal abriga ainda poemas. 22 de outubro (à tarde). que se achava à época na cidade de Milão. no sentido de uma atitude considerada patriótica.) Sua Majestade (. pseudônimo do escritos francês Adolphe d’Ennery. Ibidem. com relatos dos falecimentos ocorridos recentemente229. Agência Havas”. há vários telegrammas que relatam o estado de saúde do imperador. 30 de outubro de 1887 230 Idem. ibidem 233 Idem.41 apud SIQUEIRA Op. Contudo.. tomando de empréstimo expressão empregada por Maria Alice de Carvalho237. e incomodava muitos jornalistas. 25 de dezembro de 1887. Quatro vezes cidade. ao final da página 2.. 1. De acordo com Siqueira.) sua comitiva chegaram hontem a tarde a esta cidade. que veio a tornar-se um dos pilares sobre os quais a legitimidade da atividade jornalística foi afirmada. 6 . ao analisar uma crítica a esse modelo feita no Diário de Notícias de 19/11/1890 pelo jornalista Emanuel Carneiro. suicídios232. 23 de outubro de 1887. perpassando as oito colunas. que discordavam frontalmente do ideal de neutralidade aplicado ao jornalismo.. 236 O modelo que se caracteriza pelo uso da pirâmide invertida na hierarquização das informações e preconiza a objetividade como a marca maior da legitimidade de que se deve imbuir o texto jornalístico ainda não havia se disseminado de forma intensa no Brasil em fins do século XIX. 13 de maio de 1888. à Necrologia. é tangenciada pela crítica que Emanuel Carneiro faz à imprensa que se pretende neutra. que eventualmente ocupam páginas inteiras do periódico. O País de 23 de outubro 1887 relata o seguinte: “Paris. É provável que Sua Majestade parta só depois de ter descansado alguns dias na cidade de Cannes. 29 (.

como lugar privilegiado para divulgação do espiritismo durante o século XIX. 5). e abordando assuntos tão variados quanto críticas à campanha de vacinação animal em vigor na época238. e despertava. na própria 238 239 O País. Nenhum outro espaço onde o espiritismo foi discutido naquele período. de perfis bastante diferenciados.De fato. numa ampla fatia de público. justamente por tal pluralidade. como já discutido no tópico O Espiritismo no Brasil. em crônicas ou no tema que. a coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos apresenta-se. atraía uma vasta gama de leitores. exortações à necessidade de crescimento da indústria brasileira241. circulação nacional e ampla diversidade de assuntos abordados. 241 Idem. E especificamente no que diz respeito à localização da coluna. uma nota sobre um concurso de tiro ao alvo239.. em ofertas de produtos. Dos onze exemplares da coluna a que tivemos acesso para a elaboração deste trabalho. seis apresentam-na localizada em páginas ímpares. 7 . que teriam visto aí uma prova da suposta isenção do periódico” (Op. reunia em si tantos atributos importantes quanto alta tiragem. Cit. 4. fazia-se presente em muitas rodas intelectuais brasileiras naquele período: o espiritismo. 242 Siqueira afirma que “Barbosa Lima Sobrinho (. 18 de novembro de 1887. suscitando a atenção de diversos públicos. p. p. pelo menos que tenhamos conseguido encontrar em nossa pesquisa. a nosso ver. 23 de outubro de 1887. portanto. 2) O Espiritismo: seu espaço e sua relevância Inserida nesse espaço caracterizado pela multiplicidade de interesses que concentrava. há ainda alguns outros fatores que nos parecem contribuir para o fortalecimento dessa idéia. podem-se encontrar na Secção Livre d’O País textos fundamentados nas mais diversas ideologias vigentes. críticas à campanha republicana242. sendo um deles. Trata-se. em função de seu conteúdo. é claro. fossem eles interessados em artigos de opinião sobre as discussões mais recentes. nasceu de seu desejo de responder à campanha republicana e foi possibilitada por sua amizade com os proprietários da folha. de um espaço plural. ibidem 240 Idem. p. acreditamos. que. Idem.. e. os artigos de Bezerra em defesa do espiritismo.) comenta que a coluna Campo Neutro. 4. análises das relações econômicas entre o Brasil e as Repúblicas Platinas240. de Joaquim Nabuco em O Paiz. inclusive.

eventualmente.pt/pag/lopez-debora-ivo-ironia-refutacao. perfazendo quase rigorosamente dois anos. Ressaltamos esses aspectos todos por julgá-los não só pertinentes. sempre que possível. incluída aí a oportunidade em que ela esteve na capa do periódico. recai também com mais facilidade a atenção do leitor sobre o título do primeiro artigo. a notícia da conversão de Bezerra à doutrina causara tão grande repercussão que julgamos pouco provável que sua militância e suas atividades voltadas para a propagação do espiritismo fossem desconhecidas do público em geral. recorremos a uma compilação feita pela Editora Fraternidade Assistencial Esperança. Disponível em http://www. como é o caso. Para a análise textual da coluna de Bezerra. como prática de cunho artístico ou militante comum.pdf. Acrescemos ainda. Contudo. quando nos parecer pertinente para reforçar as nossas hipóteses de trabalho. para que fosse do conhecimento de todos os seus integrantes a atividade de Menezes nesse espaço privilegiado da imprensa carioca para se falar de espiritismo. Acessado em 20/12/2006. ainda. em 2001. Por ser o nome da seção escrito em fonte maior e mais chamativa. Além disso. que vão de 23 de outubro de 1887 a 27 de outubro de 1889. no caso. Espiritismo.bocc. em conjunto com os originais de que dispomos em microfilme. 7 . mas se caracterizava. a fim de aferir a correção das transcrições textuais contidas no livro. mas também concorrentes para evidenciar-se a importância de que se via imbuído o espaço que era a coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos. não invalida a palavra autorizada do autor. Ivo José. o texto assinado por Max244 se acha nas três primeiras colunas ocupadas pela Secção Livre. ao que pudemos avaliar. o que faz dele um texto mais facilmente visualizável. a coluna abre a Secção. 3. nos círculos não-espíritas da Corte. Segundo Lopez e Dittrich. a nosso ver. O exemplar de que dispomos traz os 106 primeiros textos publicados na coluna. Por fim. em sete exemplares. O fato de recorrer a um pseudônimo. Biblioteca On-Line de Ciências da Comunicação. limitamo-nos fundamentalmente a esse período por julgá-lo suficiente para evidenciar o que quer que seja em termos da 243 LOPEZ. 2004. potencializada pela palavra autorizada de seu autor. Além disso. 244 Max é o pseudônimo utilizado por Bezerra de Menezes nos textos veiculados na coluna. na medida em que o movimento espírita à época era restrito o suficiente. “as páginas ímpares.capa da publicação. Ironia e refutação como estratégias argumentativas no jornalismo interpretativo. reúne em si várias características que nos permitem qualificá-la como uma peça relevante dentro do processo já discutido de adaptação do espiritismo à cultura brasileira. em termos quantitativos. estabelecida entre literatos e articulistas em geral. em comemoração aos 170 anos do nascimento de Adolfo Bezerra de Menezes. o uso de pseudônimos. De tal forma que. são mais valorizadas porque mais destacadas pelo olho humano na leitura de um jornal impresso243”. p. citações feitas por terceiros de trechos posteriores da coluna. como já discutido. não se prestava propriamente naquele contexto a garantir o anonimato do autor de um texto. E por três vezes. Debora e DITTRICH.ubi. antes.

ele já dedica uma porção majoritária de seu espaço n’O País a discussões teológicas com representantes do catolicismo. contornos cada vez mais evidentes. Tanto pela proximidade discursiva. e conseqüente afastamento da linha de frente do movimento espírita para recolher-se aos estudos centrados em Roustaing realizados em grupos místicos. não é difícil compreender-se por que ele ficou conhecido como o Kardec brasileiro entre os espíritas do país. nos anos seguintes. a comparações entre a cosmogonia católica e a espírita. quanto pela dedicação pessoal em prol da difusão e da consolidação do espiritismo no Brasil. como analisamos a seguir. a partir de agora. com o fim de seu primeiro mandato à frente da FEB. que chega mesmo a incomodar muitos místicos e. como se poderá depreender de um trecho pinçado já do ano de 1894. para além desses traços óbvios da influência exercida pela retórica kardequiana no discurso de Menezes. Feitas as necessárias delimitações. argumentos e raciocínios empregados fartamente por Allan Kardec nas obras básicas do espiritismo e ao longo das edições da Revista Espírita. Max se apropria de idéias. em boa parte de seus textos. ganhando. ao mesmo tempo. Mas. Portanto. o que nos interessa aqui. trata-se aqui do período inicial de militância do médico cearense nas lides espíritas. detidamente. é a influência dos elementos do habitus católico que já apontamos na elaboração desse discurso. a que se refere Lewgoy. e à análise de trechos bíblicos. Se nesse período. Isso porque. Para que fique claro. algumas peculiaridades desse espiritismo que vaza das páginas escritas pelo médico cearense e em que pontos ele permite entrever a “influência do habitus católico na formulação do estilo discursivo e reflexivo” do espiritismo posterior. momento em que sua postura é de tal neutralidade diante das disputas entre espíritas místicos e científicos. 7 .influência do habitus católico no discurso de Bezerra. analisemos. como já discutido no tópico O líder e mediador espírita. atrair a simpatia da vertente científica. e não pretende fazer uma vasta análise do discurso de Bezerra. nossa investigação limita-se basicamente aos dois primeiros anos da coluna. por pouco explorado. tanto entre pesquisadores espíritas quanto acadêmicos. os elementos marcantes do habitus católicos que aqui analisamos só tendem somente a se fortalecer.

em que o foco se mantém na descrição de experiências próprias ou realizadas por pesquisadores europeus. em menor escala. quanto por trazerem em sua estrutura marcas mais evidentes da influência que analisamos aqui. Espiritismo. o que encontramos são fiéis adaptações de certos argumentos e raciocínios desenvolvidos por Allan Kardec. ao Jesus da ortodoxia. e 4) as respostas. tanto por serem maioria. São Paulo: Edições FAE. deslocando-se apenas a base da cosmogonia. não fosse a presença entre eles. como se refere constantemente Bezerra à opinião da Igreja sobre todas as coisas. em que o autor promove discussões acerca das cosmogonias católica e espírita. majoritariamente voltados para discussões sobre a lógica da reencarnação e sobre a existência de espíritos. Nas outras duas categorias. 29. 7 . que consistem em diálogos que Max estabelece não com idéias. nosso olhar se detém com mais atenção daqui para frente nos tipos de texto 1 e 4 indicados. mas com interlocutores vivos. que se expressaram publicamente acerca do espiritismo. 2) os científicos. Adolfo Bezerra de. Interessam-nos particularmente a primeira e. que basicamente atualizam os dados acerca de pesquisas científicas mais recentes e são acrescidas de relatos de experiências próprias. trazendo aquela simples Verdade. por estreitíssimos laços. o autor começa a reelaborar sutilmente a imagem do Jesus espírita em detrimento de um Jesus característico da tradição religiosa dominante. O processo aqui é ainda discreto. a última categorias. ainda que aparentemente só nominais. Estudos Filosóficos – Vol. e estabelece. que. afirma Max. dividimos os textos publicados na coluna em quatro categorias: 1) os teológicos. quando somadas. vêm a oferecer evidências experimentais para a fundamentação de diversos conceitos espíritas. publicado no quarto domingo de veiculação do espaço. p. 1. segundo o autor. Max dá início a sua coluna elaborando textos dos tipos 2 e 3 durante os meses de outubro e novembro que pouco nos interessariam. preponderantes numericamente. mas é emblemática a utilização de epítetos que fazem concessões. geralmente da sociedade carioca. Nele. 2001. Portanto. de um texto do tipo 1.3) O Espiritismo segundo Bezerra de Menezes Com o objetivo de sistematizar nossa investigação. 3) os filosóficos. e/ou procura evidenciar biblicamente certas idéias centrais do pensamento espírita. torna inexpugnável a sublime Doutrina do Redentor. Segundo pudemos averiguar em 245 MENEZES. “O Espiritismo. a união da Religião e da Ciência245” (os grifos em negrito serão sempre nossos).

7 . nem a Consciência podem aceitar a missão do Cristo nos termos que lhe assinala a Igreja246”. prometido por Jesus. e não quer ouvir a que Ele veio das aos ilustrados247. Ibidem. não pôde ensinar (. Max não está incorporando a seu discurso a noção de Redenção pelo Sangue de Cristo. tal identificação não se dá propriamente em nível conceitual. vão se naturalizando em seu próprio discurso. p. mas também a capitalização das iniciais de todos os pronomes utilizados em referência a ele. como já afirmamos. uma missão educativa e não salvífica.) ensinar o que Ele próprio declarou que não era oportuno (. 133. Acreditamos ser essa uma marca importante do processo de catolicização do discurso espírita. a pouco e pouco. sendo o primeiro ligado ao significado fortemente pedagógico de que imbui Kardec as ações e as palavras de Jesus. Ao chamar Jesus de Redentor. que tradicionalmente é referido por palavras e partículas capitalizadas.. Se. e o segundo. ibidem.pesquisa on-line à quase totalidade dos textos escritos por Kardec acerca do espiritismo. quer um. 59/60/61. vinculado ao caráter missionário que o espiritismo atribui a sua vida. reduzem-se basicamente a dois os epítetos que ele utiliza em referência a Jesus: Mestre e Cristo. o que se configura em uma constante na maior parte dos textos que chamo aqui de teológicos. o autor é enfático em afirmar que um e outro possuem 246 247 Idem. em seu tempo.. Vemos aqui não só a apropriação de nova metáfora bíblica por parte de Bezerra para identificar Jesus. já que. pelo menos nos textos analisados. distancia-se gradualmente daquele empregado por Kardec para aproximar-se do estilo discursivo católico. está fazendo concessões de natureza poética ou estilística que. Contudo. para acrescentar.) É que a Igreja recebeu a lição do Mestre dada aos ignorantes. E assim que na segunda coluna de janeiro de 88. ao comparar o que chama de “plano atribuído a Deus” pela Igreja e pelo espiritismo. nesse aspecto. pp. para os tempos em que a humanidade pudesse compreender aquilo que Ele. por fomentar uma identificação semântica não-declarada entre as figuras de Jesus e do próprio Deus.. como se pode depreender de suas próprias palavras: “nem a Razão. Idem. quer outro se modelam pela palavra do Verbo encarnado”. o qual. em seguida: O Espiritismo diz: eu sou o Espírito de Verdade.. ele assim se refere a Jesus: “entretanto.

“Deu saúde aos doentes. ibidem. como impunha o habitus católico. ligada. Mensageiro de Sua Luz. Cristo é o sublime reformador da Humanidade. a paixão do Redentor da Humanidade249”. p. o Espiritismo limpa o trigo do joio. ibidem. se Jesus não é Deus. 107.. “O Espiritismo. para arrematar. como dizia Kardec. o seu eterno modelo. ibidem. “Em ambos os casos. Idem. vingaram e esmagaram as víboras que se lhe opuseram253”. nenhum deles é referido da mesma forma que Ele. publicamente. no espiritismo francês. tende-se a deslocar sua autoridade de uma dimensão pragmática. 252 Idem. tanto quanto lhe permitiu o estado da humanidade. que o Divino Redentor não pôde joeirar248”. E. ensina: que são chegados os tempos de cada um adorar a Deus por si. à grandeza moral de sua mensagem e de sua conduta. 123. p.. assim. 253 Idem. 250 Idem. “A Igreja comemora.) seja-nos permitido curvar. pinçamos do texto da coluna publicada em 21 de abril de 1889 uma série de expressões utilizadas para fazer referência a Jesus que.. as novas idéias trazidas do Céu à Terra pelo Filho do Altíssimo.. 7 . ibidem. “A despeito do emperramento daquele sacerdócio. 251 Idem. além de Deus. p. 214. morrendo na cruz. também não é equiparável aos homens. evidenciando de forma mais contundente essa tendência.. ibidem.. 94. na semana que hoje termina. como foi prometido pelo Mártir do Gólgota252”. p. o triunfo do Mestre e Redentor (. como Jesus modificou a lei. ela concorre para alçar Jesus a um patamar diferenciado em relação aos homens. Dentre os diversos epítetos a que recorre Max. eivado das paixões humanas. faz-se merecedor de tal deferência.. Noutras palavras. jamais poderia arrancar de sua fraqueza tão superior ditame.identidades próprias que não devem ser confundidas. deu vida aos mortos e. 110.. 203. somente Ele. Ele é superior. pediu perdão para seus algozes! Se tudo isto não se revelasse no filho do pobre e obscuro carpinteiro o filho dileto do Eterno. impugnado em nome do Cristo tão estólida pretensão. p.. ibidem.251”. p.) No dia em que a cristandade festeja a ressurreição.. Afinal.250”. Com isso. destacamos ainda: “Assim. o joelho diante de Sua Divina Majestade. somadas às citações já 248 249 Idem. à natureza humana (. E Ele. para assentá-la antes sobre uma supremacia espiritual que lhe seria imanente. se não contrário.) Um simples mortal. bastaria para reconhecê-Lo sua santa Doutrina (.

) Ora. ao que emenda ainda um pronome Ele capitalizado. Apenas a título de exemplificação. tal e qual se podia encontrar no discurso oficial do Catolicismo à época255. com os livros canônicos em mão. encontramos o seguinte texto na Pastoral Coletiva do Episcopado Brasileiro de 1890.br/revista/quemsomos/nossahistoria. 331/333. atribuído.permanencia.htm. em detrimento do Jesus Deus encarnado da doutrina católica. Salvador. o Deus que se revelou ao mundo e que habita no meio de nós no Sacramento do altar.. Permanência:2001. reconhecendo no filho de Maria a condição de Enviado do Senhor. que em tempo viria o Espírito de Verdade ensinar Verdades que Ele não podia ensinar. pelo mesmo modo não terá perdão o clero. que vaza das páginas kardequianas. graças à recorrência desse uso nos textos e aos fatores extremamente favoráveis à leitura da coluna que discutimos há pouco. estando previstos os tempos messiânicos.destacadas. de Nosso Senhor. Educador de Almas. Acessado em 21/12/2006) 7 . mas. 254 255 Idem. semelhante à significação atribuída pelo espiritismo francês à passagem de Jesus pela Terra.. na adorável pessoa do Nosso Senhor Jesus Cristo. a “um pio escritor contemporâneo” : “ não é o Deus vago e frio das filosofias. se a Igreja tem mais Razão para abraçar o dogma espírita. Disponível em: http://www. Ed. in Revista Permanência. de uma apropriação em certa medida estilística. nem interesses puramente humanos. poética. por não poder a Humanidade de seu tempo suportá-las254. porque. é o Deus vivo e pessoal. maior Razão tem para aceitá-lo. mas vem a acrescer-lhe novas possibilidades. ibidem. desde que lhe foi dito pelo Salvador. Tais particularidades do discurso empregado na coluna parecem coexistir pacificamente com a defesa firme do Jesus Mestre. Por isso afirmamos tratar-se o emprego de tais epítetos. Aqui a identificação de Jesus com Deus não se limita à capitalização de pronomes a ele relacionados no discurso. que elas se comprazem em deixar lá bem longe nas regiões hiperbóreas de uma eternidade deserta. outro epíteto característico do Cristianismo tradicional. reiterando essa nova carga de significação à figura de Jesus. pp. o Deus bom. no Velho Testamento. Acrescenta ainda. o Deus que fez a Igreja” (Pastoral Coletiva do Episcopado Brasileiro de 1890. prometido por Nosso Senhor Jesus Cristo. que não dá pistas de pretender substituir aquela já consagrada nos textos de Kardec. no documento. praticamente inexistentes no espiritismo francês.org. “Separação entre Igreja e Estado e Liberdade de Cultos”. mas que termina por incorporar novos significados à figura de Jesus no espiritismo brasileiro. apesar de ser o seu ensinamento corroborado por todos os sagrados autores que temos aqui citado (. Bezerra chama-o a seguir. não foi perdoado aos hebreus desconhecerem o Enviado do Senhor. que desconhece o Consolador. estudando-os sem preconceitos. na mesma frase. dificilmente poderiam evidenciar melhor a influência aqui estudada no discurso de Max: E.

vem explicar que não existe diabo pessoal. 353 apud MARTINS. ou antes. principalmente. quando tinha a Doutrina da Igreja. como ainda explica. FEB:1979. entende-se um contato mediúnico. por um corpo comum. a Santíssima Virgem. 42. a seus fins”. entre os espíritas. de um Jesus tão incomparavelmente superior aos homens que só poderia ser dotado de um corpo fluídico. A coluna do domingo seguinte. que serve maravilhosamente. como ainda se apropria sem receio da perspectiva roustanguista. aos olhos dos homens. deturpação do Evangelho da Redenção. e que a concepção espírita de ser fluídico o corpo de Jesus. torna-se ainda possível. mas significativas referências a ela. Espiritismo – Estudos Filosóficos. condizente com sua supremacia espiritual. de acordo com as leis naturais. Jorge Damas.”. e aqui a 256 Por comunicação. Devoção essa que se soma a diversos outros sinais de influência do habitus católico neste trecho que pinçamos especialmente já de meados de 1894. Foram escritas por Bezerra já em meados de 1889. a qual nos parece explicar por que quem maldiz o diabo maldiz a alma. 7 . “etéreo”. 1ª ed. vol. p. Adolfo Bezerra de. recebida em Lérida. e ainda capaz de se fazer passar. mas sim sentimentos diabólicos. Nesses trechos apenas insinua-se a profunda devoção que os biógrafos assinalam na personalidade do médico dos pobres a Maria. especificamente. nesse caso. durante a última seqüência de estudos voltados para demonstrar a fundamentação bíblica do espiritismo. FEB. chamada por Lewgoy de “espiritismo influenciado pelo catolicismo258”. encontramos dentro do período escolhido poucas. mais “depurado”. por meio da psicografia. sem que a Mãe deixasse de ser Virgem257. por julgá-lo sobremaneira emblemático de tudo o que aqui analisamos: O que é fora de questão é que repugna à razão o fato de um Espírito divino tomar a carne dos pecadores. não somente fala à razão e remove aquela repugnância invencível. 15 de setembro. Ponte Evangélica. Bezerra não só elabora em seu discurso um Jesus quase divino. todos os fenômenos da vida do Redentor e. 258 Ver p. e nem chegam a se deter numa análise voltada especificamente para a mãe de Jesus. 257 MENEZES. Limitam-se a citá-la: “Permita o leitor que transcrevamos aqui alguns trechos de uma comunicação 256 de Maria. Dentro dessa visão. começa com nova citação: “A comunicação de Maria Santíssima. sua concepção no ventre puríssimo de Maria Santíssima e seu nascimento. lembra que o demônio não precisava inventar o Espiritismo para laçar almas.Voltando nosso olhar rapidamente para a figura de Maria. 5. Aqui não se tratam simplesmente de citações reverentes ou figuras de linguagem.. III. p..

majoritariamente dedicados a réplicas a discursos de representantes do clero sobre o espiritismo. Adolfo Bezerra de. como ele mesmo descreve suas intenções ao publicar uma seqüência quase ininterrupta de 33 colunas focadas na análise de dezenas de trechos do Velho e do Novo Testamento que. que pode ser apontado como fator condicionante da aproximação com o estilo discursivo católico: o insistente diálogo com o catolicismo e seus representantes ao longo das páginas publicadas n’O País. Contudo. do que as assimilações doutrinárias. a nosso ver. Mais de 70% dos textos por nós analisados consistem no tipo 1. segundo nossa avaliação. 311. se mostra pouco afeito à idéia de fundamentar biblicamente o espiritismo. Apesar disso. que Max dedica mais de seis meses da coluna. Assim.piedade católica. em 1888. segundo ele. em 1889. sempre voltados para críticas à doutrina católica e/ou à análise comparativa de ambas as doutrinas. 7 . Cit. se faz sentir de forma mais patente no discurso de Max. para se configurar em uma forma de apropriação de elemento doutrinário do catolicismo. Op. deparamo-nos neste ponto antes com uma exceção do que com regra. na maior parte dos casos. destacamos um elemento importante que se evidencia a cada texto publicado na coluna. ligados às crenças e disposições do habitus católico. Max. evidenciam-se já algumas concessões notáveis. por ultrapassar a dimensão cultural impressa no habitus. na medida em que se evidencia de forma mais clara nos textos que analisamos a aproximação ou apropriação de elementos marcadamente discursivos. Os versículos citados no discurso de Bezerra servem. Trata-se de concessão que é notável. ou no tipo 4. particularmente no que tange à devoção pela Virgem. p. a um estudo comparativo entre as cosmogonias católica e espírita e. pelo que pudemos avaliar. por exemplo. Destacamos duas delas. para mostrar uma incompatibilidade entre a cosmogonia bíblica e o conhecimento científico. justificar “espiritamente” a virgindade de Maria postulada pela doutrina católica. legitimariam o espiritismo como doutrina cristã. a fim de exemplificar uma das 259 MENEZES. É assim. cerca de oito meses à “missão de evangelizador do clero259”. Na primeira série de artigos.

que sempre estiveram abertas. não limpando a Humanidade do pecado original. ensinando. Como já discutido no capítulo anterior261 os dispositivos de enunciação nada mais são do que o modo específico por meio do qual o locutor marca uma posição discursiva diante da língua e de seus interlocutores. pela utilização de dispositivos de enunciação apropriados a um leitor católico ou pelo menos condicionado pelo habitus católico. os possessos desses danados.conseqüências mais relevantes das apropriações estilísticas empreendidas pelo autor. eminentemente metafóricas. 52. ibidem. como também já discutido262. Tratam-se. que dizem que foram viventes como nós. Ver p. Blasfêmia e blasfemar. 125. que só evidenciam a busca. com a palavra e com o exemplo. seja por um processo inconsciente de apropriação discursiva. É seu modo particular de se expressar e construir o discurso em relação a esses outros elementos do processo comunicativo. que é um mito. novas verdades. 262 Idem. A primeira ocorre ainda no preâmbulo da série de estudos sobre as cosmogonias: Assim como o Espiritismo cura pelo amor de Jesus Cristo. não abrindo as portas do Céu. e lhe deram mais força e virtude para ascender a seu destino260. mas que se aproximam sobremaneira do linguajar católico daquele contexto. dispositivos de enunciação capazes de causar uma identificação do público com o discurso. seja pela intencionalidade do autor de falar a língua do seu público. p. 7 . com as imagens que evoca e com a “cultura” que manifesta. Menezes parece incorporar a seu discurso dispositivos de enunciação que encontram pouca ou nenhuma ressonância na elaboração discursiva de Kardec. E. de aproximações conceituais vagas. ambos os casos. porém. a título de exemplo. tendem a envolver e convencer os interlocutores de forma mais eficiente. É dessa forma que. que são a linguagem utilizada e aquele(s) com quem se interage. quando o autor se dedica à análise da cosmogonia católica: Jesus veio remir os pecados do homem. são 260 261 Idem. A segunda tem lugar bem no meio da série de artigos. que não eram perseguidos por espíritos de natureza diversa. ensina o Espiritismo. assim também curou o próprio Cristo os possessos de seu tempo. que esclareceram os horizontes da Humanidade. por parte do autor. mas veio fazê-lo.

outubro de 1861. p. pois “arredias” das “Verdades Eternas” próprias do cristianismo.unitau. o autor recorre a estruturas mais próximas do discurso exclusivista do catolicismo. por terem sido criados no meio das religiões anticristãs. IDE:1993. do que da proposta de cunho universalista sistematizada por Allan Kardec.termos fortemente relacionados à piedade católica263 a que recorre o autor dos textos em cerca de dez oportunidades diferentes. segundo Bezerra. via de regra para se referir a dogmas e princípios preconizados pela Igreja que ele defende estarem em frontal discordância com a Razão e com os perfeitos atributos da Divindade. e não de uma religião. proferida pelo educador em uma conferência aos espíritas de Lyon. como entre os protestantes. Cit. religiosa. Nesse discurso. p. o de uma ciência. Op. uma seita que se forma às expensas de suas irmãs mais velhas: é uma doutrina puramente moral que não se ocupa. defensora inclusive da possibilidade de adeptos de todas as crenças reunirem-se sob sua bandeira sem a necessidade de abdicarem de suas identidades religiosas265. particularmente de um que já começava a perder sua hegemonia na sociedade brasileira. 263) A segunda. e a prova disso é que tem adeptos em todas. uma vez que não se impõe a ninguém. Adolfo Bezerra de. é o fac-símile. mas o faz por intermédio do cristianismo.br/prppg/publica/humanas/download/religiosidadepopular-N12003. com o cafre. Acessado em: 23/12/2006) 264 MENEZES. parecem exemplificar bem essa idéia. não só sugere ser a doutrina cristã a única detentora de uma certa “Verdade Eterna”. No caso da piedade católica brasileira. nota-se ainda uma particular tendência à devoção mariana. entre os mais fervorosos católicos. Acontecerá isto com o selvagem americano. Aqui. assim como alguns o pretendem. Disponível em: http://www. sempre porque não o conhecem. religiões não-cristãs transformam-se em religiões anticristãs. que denota uma apropriação que parece ir além da dimensão propriamente terminológica: E assim como se dá com o selvagem. in Revistas Ciências Humanas UNITAU – Vol. A primeira. pois. mais uma vez. que estende ainda mais esse caráter multiconfessional do espiritismo. como coloca as outras doutrinas religiosas em posição de opositoras suas. “Religiosidade Popular e Catolicismo Oficial: o Eterno Contraponto”. assim como maometano. como o espiritismo. 130. ocorre também com todos os que vivem arredios das Verdades Eternas. uma religião nova. de nenhum modo. CÂMARA NETO. com o masdeísta. entre os judeus e os muçulmanos”. em face do avanço do republicanismo. A prova disso é que conta entre seus adeptos homens de todas as crenças e que não renunciaram às suas convicções: católicos fervorosos. Chamamos a atenção também para a seguinte passagem. 263 A piedade. com o brâmane264. A leitura particularista que associa não diretamente o espiritismo à Verdade. do positivismo e de doutrinas heréticas. dos dogmas e deixa a cada um inteira liberdade de suas crenças. 8 . engloba um conjunto de valores e disposições que estimulam o crente ao amor e à reverência diante de tudo quanto se ligue à dimensão espiritual. 9. nº 1. com o hotentote. 265 Duas afirmações de Kardec. que é envolto em um ar de sacralidade. do qual o espiritismo. (Cf. Isnard de Albuquerque. consiste no seguinte: “Não é. grosso modo.pdf. com o samideano. (“Discurso do Sr. I Semestre 2003. Allan Kardec no banquete de Lyon” in Revista Espírita Quarto Ano. baseadas em seus contatos com grupos espíritas de mais de 30 países. encontra-se numa de suas obras introdutórias ao espiritismo: “Seu verdadeiro caráter é. pois [o espiritismo].

seriam os dois tipos mais elementares de moradas dos espíritos encarnados. unicamente. 266 MENEZES. Selecionamos. que podemos chamar purgatório. Adolfo Bezerra de. à dureza das condições de vida. a postura do autor em relação à autoridade bíblica ganha nova orientação. 169. a ênfase no sofrimento e na dor como formas de depuração da alma e a reverência submissa às coisas espirituais.Fenômeno semelhante pode ainda ser identificado em dispositivos de enunciação como “angélicas virtudes266”. Op. A Terra. ainda a esse respeito. 1998. e “miraculosa transformação267”. 98/99). os espíritos despedem de si novas faculdades. tratase de uma questão de ênfase especial dada a certas questões que aqui ganham maior que deixam de cumprir com os deveres de seu culto (quando não são expulsos pela Igreja). muçulmanos. No primeiro caso. ambos marcados pelo uso de empréstimo de expressões do campo semântico católico. a utilidade da dor como um dos mecanismos que servem à gradual autoelaboração do Ser é parte integrante da doutrina sistematizada pelo pedagogo francês. seria um mundo de provas e expiações. dentro dessa perspectiva. vale frisar. pp. p. Destacamos. e até mesmo budistas e brâmanes (O que é o espiritismo. Cit. segundo o espiritismo. a seguinte seqüência de comparações utilizadas pelo autor – onde é explícito e declarado o uso metafórico de imagens do imaginário católico – para falar sobre os mundos primitivos e os mundos de provas e expiações. que lhes dão para desenvolverem sua responsabilidade e sua perfectibilidade em um meio muito mais vasto e complicado”. israelitas. para esse fim. 8 . tanto por tais disposições estarem fortemente presentes nesse discurso. Já na segunda seqüência de estudos teológicos a que nos referimos. São Paulo:LAKE. que segundo o espiritismo. ibidem. protestantes de todas as seitas. Resta-nos ainda analisar a adequação do discurso de Bezerra a certas disposições do habitus católico em questão. para referir-se ao estado moral dos Espíritos Puros. todos os seres estariam submetidos. para designar a ascensão dos estados mais primitivos às condições de perfeição intelecto-moral a que. quanto por marcarem contrapontos interessantes com o pensamento de Kardec. “onde domina o mal” sobre o bem: “No segundo círculo. como na maior parte das diferenças entre os espiritismos brasileiro e francês. como o da iniciação pode ser chamado inferno. atendendo-se. Mas. 267 Idem.

no discurso de Bezerra. Dessa forma. de forma mais patente. por exemplo: Foste guloso. e de apropriação de elementos do habitus católico que dialogam com as idéias espíritas e acabam dando novos contornos a estas últimas. 447. p. ou se convencem da falsidade do ensinamento da Igreja. as enfermidades e muitas vezes a morte são a conseqüência dos excessos. o autor fala da inflexibilidade do Pai para punir o endurecido. ou reconhecem sua impotência para lutarem com Deus. na formulação espírita européia. dizendo-lhe. Já no segundo. Brasília: Ed. a inflexibilidade não faria parte dos atributos divinos: 268 269 KARDEC. dobram o joelho. porém. com uma possibilidade sempre presente de ocorrer a intervenção divina em favor do indivíduo arrependido e sinceramente disposto a rever sua conduta. essa perspectiva impessoal das recompensas morais convive. UnB. e esses endurecidos. Frisamos a seguinte passagem: Ninguém. Ele traçou um limite. Desde aquele momento. quando um homem comete um excesso qualquer. é a ênfase na punição pessoal e inflexível imposta pela própria Divindade. Contudo. com sua reverência às coisas sagradas. Max. Deus não profere contra ele um julgamento. por outro qualquer motivo. Ed. Allan. WEBER. é o resultado da infração da lei. pode fugir a seu destino. O que nos parece se sobressair aqui. e pedem graças. Essa perspectiva objetivadora das retribuições morais termina por aproximar o espiritismo francês. vou punir-te. ou. Além de mais uma vez recorrer a imagens do ideário católico para explicar conceitos espíritas. é num conceito de punição natural como conseqüência da transgressão de Leis Universais. p. como foram livres em seu endurecimento. 323. Economia e sociedade. 8 . que pode ser resumida na seguinte explicação contida em O livro dos espíritos: “Indubitavelmente. há uma influência que nos parece bastante clara da piedade católica. e o Pai é tão pronto em acolher o arrependido. Fazem tão livremente este ato de contrição. a ênfase dada.relevo e intensidade do que possuíam lá. até pela própria proposta espírita de racionalizar e cientificizar a religião e a moral. Eis aí a punição. Cit. é na coluna de 22 de julho de 1888 que Max começa a debruçar-se sobre a primeira questão. sai a alma do inferno e vai para o purgatório. O livro dos Espíritos. Como se pode depreender da seguinte comparação feita por Kardec. como é inflexível em punir o endurecido. distanciando-se de certa forma do pensamento kardequiano. daquilo que Weber denominou “cosmos ininterrupto de retribuição ética269”. que se distancia em mais esse ponto do kardequiano. Assim em tudo268”. Apesar de ser possível depreender também dos textos de Kardec essa noção. ao estudar o budismo. 1994.

Op. de inflexível rigor e que pune com o castigo extremo as três quartas partes dos seus súditos. impondo um preceito à sua criatura. MENEZES. Exemplificam ainda essas disposições textos como: “Deus é misericordioso. o processo de encarnação e reencarnação dos espíritos. não tivesse estabelecido a repressão a toda e qualquer forma de desobediência272. de meio por excelência para o auto-aperfeiçoamento de todas as criaturas. chega inclusive a extrapolar o postulado kardequiano de que “a severidade do castigo é proporcionada à gravidade da falta277”. a que Kardec atribui um significado eminentemente pedagógico. evidentemente não a justiça de Deus271”. 194 275 Idem. ibidem. Allan.. vingativo. é visto por Bezerra – numa espécie de reapropriação da leitura pecaminosa que faz o catolicismo da condição dos homens. ou uma infração de suas leis. por oposição à pureza imaculada do divino – como o processo punitivo por excelência para todos aqueles que. senão a quem tiver pago toda a sua dívida.) não permite que fique impune a mínima falta. “Deus (. Bezerra entende a própria condição humana. querem a alta misericórdia. 277 KARDEC. Ed. ibidem. 274 Idem. “desobedientes”. p. e aqui mais uma vez nota-se o habitus católico perpassando o discurso do autor. os que pugnam pela expiação no espaço. ibidem. mas também uma aplicação pelo menos nominalmente pessoal do próprio Deus de tais punições. “Deus não seria Deus. Por impurezas. mas que ao mesmo tempo é cioso. Cit. p. mas é também justo.. ibidem. ibidem. muito magnânimo. na escala do progresso. 31. O discurso de Max. contudo. 194. 8 . Adolfo Bezerra de.Seria lógico dizer-se. mesmo quando praticada pelos que não as conheciam? Não haveria aí contradição? Ora. que é muito bom. senão a quem se tiver lavado de todas as impurezas273”. muito indulgente. Como já discutido no segundo capítulo276. 276 Ver p. 380. pode Deus ser menos bom do que o seria um homem?270 No discurso de Max o que vemos é não só uma ênfase na irrevogabilidade das punições impostas àqueles que erram. p. p. se. de um soberano. 272 Idem. 469. por uma ofensa. 187. quando afirma que: 270 271 Idem. p. que leva à felicidade. p. 180. se desviaram da “linha reta” traçada por Deus. na medida em que considera que só “passa pelas vicissitudes a que chamamos natureza humana274” aquele Ser que “peca” e “cria o Mal em seu espírito275”. 273 Idem. a esse respeito. que só quer a felicidade dos que o cercam. Cit. e não dá acesso. O evangelho segundo o Espiritismo.

em que seu espírito se embebe mais ou menos. 278 279 MENEZES. atribuindo a tudo quanto se vincule ao primeiro caracteres de inferioridade e degeneração. relacional. Cit. a fim de que o conhecimento espírita elabore-se de forma dialógica. 28/29. Os “gozos materiais”. É. 281 Idem. 195. dentro dessa disposição dicotômica. para livra-se da lepra que lhe entorpece a macha ascendente para o Bem. que supõe. “há de pagar em lágrimas o gozo que tem. desabonadora do humano e das contingências que lhe são características em detrimento de um espiritual puro e idealizado. enquanto ao segundo ligam-se atributos de supremacia e pureza perfeitas e insondáveis 279. Pastoral Coletiva do Episcopado Brasileiro de 1890. sem deferências particulares daqueles para com estes. Adolfo Bezerra de. 282 Ver pp. Op. um dos aspectos mais peculiares da proposta de compreensão da realidade sistematizada por Allan Kardec reside na idéia de que o relacionamento a ser estabelecido entre homens e espíritos deve dar-se de igual para igual. de acordo com o texto da coluna de 29 de julho de 1888. ou pelo menos o têm minimizado em Kardec. que julgamos melhor se pode compreender o último aspecto que nos propomos a analisar no presente trabalho. p. ibidem. Cit. de multiplicados esforços. “as delícias de Sodoma”. e com o qual tem de gastar forças. que se seguem a uma “chuva de fogo” que “calcinará” o homem que a eles se entrega280. 278 Essa perspectiva teocêntrica que suprime o homem diante de Deus. criou o Mal. porque é um infeliz que falhou à missão que trouxe281”. 179. p. deve ser antes grave e sacrificial. 8 . A atitude do homem enquanto transita por esse estado punitivo e reparador que é a encarnação. são. na vida. de um tratamento. Como já referido no primeiro capítulo 282. logo. para assumirem a função de interlocutores dentro do singular processo de comunicação preconizado pelo pedagogo. 280 MENEZES. Adolfo Bezerra de. com vistas ao “pagamento” das próprias “dívidas morais”. precisa de longo tempo. que são destinadas à sua evolução. É assim que os espíritos deixam de lado. se expressa também no discurso de Max por meio de um profundo desprezo pelos gozos da vida. Op. e não simplesmente revelada. segundo depreendemos do material analisado. o papel de reveladores.Aquele que desfaleceu. se “delicia com venturas”. Op. Já o mau que. aliás. que dá a felicidade. forçosamente. Cit. o de inocência. Esse. por exemplo. ao sair do estado de ignorância. Cf. que lhe faz sofrer tanto ou mais que o próprio Mal.

essa dimensão mais metodológica do espiritismo é pouquíssimo discutida por Menezes. abordando prioritariamente questões de cunho teológico e religioso. Idem.. na medida em que se desloca a autoridade do espiritismo de uma proposta metodológica própria. aqueles. que denotam. evidencia-se aqui de forma clara. p. como foi demonstrado no princípio desta exposição. Reforçando o caráter notoriamente revelador que assumem os espíritos nessa nova formulação sobre sua autoridade. porque eles falam o que vêem. Acreditamos que a supremacia dos espíritos. a adaptação do relacionamento humano/espiritual existente no espiritismo francês à disposição reverente do homem para com o divino característica da piedade e do habitus católicos. Cit. ibidem. Daí. Bezerra acrescenta: Nessa Doutrina [o espiritismo]. firmada no ensino dos espíritos reveladores. Adolfo Bezerra de. recebedores das verdades reveladas. talvez pela ênfase que devota o autor ao diálogo com o catolicismo. sobre os homens.. uníssono e autorizado pela superioridade dos espíritos que o deram284. Op. pois. Enquanto estes nada podem fazer além de conjecturas. Afirma Max: As lições dos espíritos têm.Na coluna Espiritismo – Estudos Filosóficos. está o princípio da pluralidade das existências.) A palavra dos espíritos tem. Nesse discurso. vem-nos um valioso testemunho. estão habilitados a prestar depoimento legítimo sobre as Verdades do Espírito. sem se ferirem os divinos atributos. 48. como tem a do sábio sobre as coisas da Ciência que professa283. Encontramo-la basicamente reduzida a algumas referências no artigo de 18 de dezembro de 1887. tanta ou maior autoridade sobre as coisas da outra vida. sécundus. um alcance que não pode ser comparado ao das lições dos nossos sábios terrenos: primus. 8 . portanto. a nosso ver. reveladores. porque vêem. 283 284 MENEZES. passam os espíritos a serem dotados de uma palavra autorizada para dar seu parecer e revelarem suas verdades para os homens. nada se pode explicar da vida humana. sem a qual. para assentá-la na superioridade imanente que o catolicismo atribui ao elemento espiritual. elaborada por Kardec com o fito de atribuir-lhe a necessária legitimidade no contexto racionalista e cientificista europeu do século XIX. porque os sábios da Terra falam do que conjecturam (.

oferecer aos pesquisadores e interessados em geral subsídios ainda inexplorados para a investigação dessa fascinante temática que é o espiritismo e. se não é de todo própria. Isso porque a obra do contemporâneo de Kardec só viria a ganhar uma tradução completa para o português 8 . Bezerra de Menezes. é extremamente importante para a reconfiguração particular assumida pelo espiritismo no país. por meio desse recorte. pois recorre a diversos elementos de outra realizada anteriormente por Jean-Baptiste Roustaing. da controversa questão que é seu processo de transposição da Europa para o Brasil. particularmente. Acreditamos ter podido.Considerações Finais Partindo de um ponto consensual entre a maior parte dos pesquisadores acadêmicos e/ou espíritas que se debruçaram sobre a transposição do espiritismo da França para o Brasil – que é o importante papel exercido por Adolfo Bezerra de Menezes durante as últimas décadas do século XIX para a conformação da doutrina sistematizada por Allan Kardec à cultura brasileira – detivemo-nos naquele que julgamos tratar-se do meio mais eficaz por que o político cearense pôde exercer em âmbito nacional esse papel: a coluna O Espiritismo – Estudos Filosóficos. elabora em seu discurso uma síntese que. segundo depreendemos da análise realizada.

e sua leitura. Além disso. Acessado em: 12/10/2006. Bernardo. n. Porto Alegre. 2004. e. com ou sem intencionalidade. v. propiciando-lhe uma maior identificação com as idéias e com os dispositivos de enunciação utilizados por Menezes do que com aqueles que se podem encontrar na obra de Roustaing. 10. para conformar um ponto central da doutrina católica ao espiritismo. ajudando a desconstruir o viés naturalizador que impera entre os espíritas a respeito do tema.br/scielo. e propiciando a futuras pesquisas acadêmicas alguns subsídios úteis para se pensar de forma concreta esse processo que marca a originalidade do espiritismo brasileiro. 22. como no caso do dogma da concepção virginal de Maria.no início do século XX. é porque tratamos de uma “religião de letrados”. mesmo após a conclusão da versão vernácula. O trabalho desenvolvido pelo médico dos pobres em diversas frentes de ação concorreu de forma marcante para imprimir certa homogeneidade ao espiritismo brasileiro nas últimas décadas daquele século. 285 LEWGOY. seu discurso. seja pela incorporação de elementos do habitus católico. na qual o texto escrito possui significativa preponderância sobre a oralidade.scielo. com este trabalho. restringia-se basicamente aos espíritas.. Bezerra recorre a certos elementos do habitus católico em sua elaboração discursiva – particularmente a crenças e disposições que lhe são características – que conferem a ela um caráter peculiar em relação ao discurso empregado por Kardec. Disponível em: http://www.php? script=sci_arttext&pid=S0104-71832004000200011#top2. Tanto se aproxima do discurso católico. 8 . Se destacamos dentre as várias vertentes de ação de Menezes seu discurso escrito publicado sistematicamente na imprensa. afinava-se sobremaneira com o público leitor brasileiro. antropol. Já os quase 400 textos escritos por Max e veiculados ao longo de mais de sete anos n’O País fizeram-se presentes semanal e pioneiramente nas casas de dezenas de milhares de brasileiros ainda no século XIX. “Etnografia da leitura num grupo de estudos espírita” in Horiz. oferecer uma contribuição consistente à questão do papel exercido por Bezerra de Menezes no amplo processo de ressignificação por que passou o espiritismo no Brasil. seja pela habilidade retórica do autor. como conceitua Lewgoy o espiritismo285. Esperamos ter conseguido. ou ainda pela palavra autorizada de que ele dispunha. que chega mesmo a transpor a dimensão cultural. entre estes ainda. Desse modo. preferencialmente aos místicos.

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