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ALBERTO MANGUEL papa Gregério, no século VI, argu- rmentava que os afescos ¢ as estétuas nas igrejas representavam, para os analfabe- 0s, 0 mesmo que um texto para os letra- os, Seguindo pistas como essa, Alberto Manguel considera que o piiblico nao es- pecializado em arte tem o diteto de ler imagens como quem Ié palavras. Assim, pinturas,esculuras, forografias ¢ proje- {0s arquiterénicos so examinados aqui como narrativas embriondras, como his- tOrias & espera de um narrador. Manguel trabalha informagdes enci- clopédicas com rigor ¢ clegincia. Sua lei tura abrange desde obras da Roma antiga atéasarojadas experiéncias da arte do sé- alo XX, passando por Caravaggio e pelo brasileiro Aleijadinho. Entre os onze artis- tas enfocados, quatro so mulheres. Uma elas, uma pincora do século XVI, é au- tora de estranhos retratos de uma jovem peluda como um lobo. Hi também ‘Tina Modotti, a fordgrafa que se empolgou ‘com a reolugio mexicana ¢ com o movi- ‘mento comunista, para mais tarde desi- Judi-seelangar sua méquina nas dguas de um rio, Outro destaque & um arquitero francés do século XVIII que, movido pe- las idéias urépicas do Tluminismo, proje tou obras as mais extravagantes. Um ca- pltulo ¢ dedicado & polémica acerca do recente Monument do Holocausto, em Berlim, que pée em causa os limites dos atitrios puramenteestéticos Muitas histérias que as imagens tém ‘para contar ligam-se as circunstincias da atiagio de cada obra e & vida pessoal dos arta; & luz das questBes da arte © da Tinguagem, entretanto, casos cutiosos, dramas particulars ¢ auténticas anedo- tas iogréficas tomnam-se muito mais fér- ‘eis, como o autor nos faz ver. NDO IMAGENS Biblioteca Helizete Freitas Obras do autor publicadas pela Companhia das Letras Uma histéria da leitura (1987 No bosque do espetho (2000) ‘Stevenson sob as palmeiras (2000) Lendo imagens (2001) Diciondrio de lugares imaginerios (2008, com Os livros e os dias (2005) Contos de horror do século XIX (2005, organizagao e introdugio) O amante detalhista (2005) A biblioteca a noite (2006) A cidade das palaoras (2008) A mesa com 0 chapeleiro matuco (2009) anni Guadalupi) ALBERTO MANGUEL LENDO IMAGENS Uma histéria de amor e 6dio ‘Tradugio, RUBENS FIGUEIREDO ROSAURA EICHEMBERG CLAUDIA STRAUCH Biblioteca Helizete Freitas Gininsitia Ds Temes ‘Copyright © 3000 by Alberto Manguel “Titulo original eaing Mesures: A History of Love and Hate Apo Boom Canadian Deportient of For Affairs and International Trade Capa Jodo Boptista da Costa Agular Indice remiss: Maria Claudia Carvatho Matos Preparer CCésio de Arantes Lette Revie: Batre de Freitas Morcia ‘na Maria Bers 3009 Tados os direitos desta edigio reservados & Rua Bandleira Paulista, 702, 32 (04532-002 — Sa Paulo — sP “Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501 vwww.companhiadasletras.com br PARA CRAIG STEPHENSON Ah, para onde haveremos de ir quando o grande dia chegar, Com o ressoar das trombetas ¢ 0 ribombar dos tambores? Joel Chandler Harris, Uncle Remus A pintura deve desaftar 0 espectador [..]¢0espectador, surpreen- dio, deve ir ao encontro dela como se entrasse em uma conversa Roger de Piles, Cours de peinture par prineipes, 1676 Mas, sobre obras de arte, pouco se pode dizer. Robert Louis Stevenson, Books Which Have Influenced Me, 1882 Afinal, oda imagem é uma histéria de amor e édio quando lida do Angulo correto. Teopalda Salas-Nicanor, Espejo de las artes, 1731 SUMARIO Agradecimentos cespectador comum: A imagem como narrativa IIA imagem como auscneta Robert Campin: A imagem como enigma ‘Tina Modott: A imagem como testemunho Lavinia Fontana: A imagem como compreensio Marianna Gartner: A imagem como pesadelo Filéxenos: A imagem como reflexo Pablo Picasso: A imagem como violencia Aleijadinho: A imagem como subversio . Claude-Nicolas Ledo imagem como filosofia Peter Eisenman: A imagem como meméria Caravaggio: A imagem como teatro Conclusio . Notas Créditos das ilustragises Indice remissivo sil . 317 . 343 349 AGRADECIMENTOS Ha wma travessia pelo norveste rumo ‘40 mundo intelectal. Laurence Sterne, A vida e as opinides do cavalheiro Tristram Shandy Sou um viajante inquisitivo e cadtico. Gosto de descobrir lugares ao. acaso, por meio de qualquer imagem que esses locais tenham a ofere- cer: paisagens e prédios, cartdes-postais e monum: rias que abrigamn a memoria iconogrifiea de um lugar. Assim como adlo- ro ler palavras, adoro le: cxplicita ou secretamente entrelagadas em todos os tipos de obras de arte — sem, contudo, ter de recorrer a vocabulérios areanos ou esotéri- os. Este livro desenvolveu-se a partir da necessidade de reivindi tos, museus e gale~ gens, € me agrada descobrir as hist6rias idade e 0 para os espectadores eon dirvito de ler essas imagens Minha ignorncia de culturas mais vastas limitou meus exemplos & arte ocidental, da qual selecionei certo niimero de imagens pintadas,fo- ‘ografudas, esculpidas ¢ edificadas — que aches especialmente assomn- brosas ou sugestivas. Eu poderia ter escolhido um punhiado de outras imagens; 0 aeaso, atrativos particulares e a suspeita de uma histéria in- teressante me impeliram a escolher aquekas que agora compdem este H- vyro, Nao busquei inventar ou descobrir um método sistemitico de ler imagens (como aqueles propostos por grandes historiadores da arte, co- ino Michael Baxandall' ou E, H. Gombrich’). Minha tiniea desculpa & que nfo fui guiado por qualquer teoria da arte, mas simplesmente pela curiosidade, Minha propria ¢ frigil habilidade para ler imagens, foru de académicos e de teorias eriticas, foi posta A prova em um niimero de instituigdes que gentilmente abriram suas portas para tm amador. En- tre elas, devo agradecer a Lynne Kurylo, na Galeria de Arte de Ontiri Sherry-Anne Chapman, no Museu Glenbow em Calgary, Alberta; Ca ns, como eu mesmo, a respon essas historias culos n rol Phillips, no Centro Banff de Artes em Alberta; Kay Rader, na Biblio- teca Americana, em Paris; Simone Suchet, no Centro Cultural Cana- . Anthea Pepin, Rebecca McKie, Kathy Adler e Lome Campbell, na Galeria Nacional, em Londres; ¢ a professora Moira Roth, no Mills College, em Oakland, Califémia, Peter Timms aceitou uma primeira versio de meu capitulo sobre Caravaggio para publicar na Art Monthly, Melbourne; Karen Mulhallen publicou versbes inictals de meus capittlos sobre Picasso e Marianna Gartner em Descant, To- ronto; muitos anos atrés, Barbara Moon publicou um relato sobre a nha primeira visita ao Are-ct-Senans em Saturday Night, Toronto: a to- dos os tres, mou agrades diferente sobre o monumento do Holocausto, em Ber donse, em P: mento por s confianga Um texto um pouco m, veio a publi revista Sinn und Form, Berlim, gragas aos bons offcios de Joachim Meinert, bem como em Svenska Dagbladet, Estocolmo, gragas An- ders Bjornsson, e na revista Nexus, da Universidade Tilburg, na Holan- da, a pedido de Rob Riemen e Kirsten Walgreen. O Programa Mark- Flanagan da Universidade de Calgary me ofereceu um ano de apoio financeiro, tempo durante o qual eserevi parte deste livro: por sua ajuda generosa, som sinceran ‘Varios amigos e colegas leram 0 manuscrito © me deram conselhos sensatos, infelizmente nem sempre acatados. Minha eara amiga ¢ edito- ra muito softida, Louise Denys, formulou todas as perguntas eertas ¢ ime fer, voltar atrs sempre que eu me havia afastado demais do leitor; iinhas editoras, Liz Calder, Marie-Catherine Vacher ¢ Lise Bergevin ine ofereceram comentérios estimulantes e inteligentes; Alison Reid cortigiu o mannserito com o olho de um mniniaturista meticuloso; 0 indi- ce € 6 trabalho manual de Barney Gilmore — a esses, o mew obrigado; John Sweet leu as provas com sagacidade e cuidado; Simos Vauthier, cuja andlise esclarecedora da minha Histéria da leitura rev. ou-se fundamental, foi persuadida a prestar a este novo livro 0 mesmo impecivel servigo inquisitorial; Lilia Moritz Schwarez guiou-me com destreza através dos dédalos do barroco brasileiro; a professora Stefania Biancani fez. a gentileza de ler meu capitulo sobre Lavinia Fontana; rato, ito Dieter Icin providenciou para mim informagdes copiosas sobre o de- pate acerca do monumento do Holocausto; Gottwalt ¢ Lucie Pankow sme proporcionaram, além de hospitalidade amistosa, bibliograia reedn- dita; Deirdre Molina, da Knopf, Canad, mostrou-se inestimiivel ao ras- trear as detentores de direitos de reprodugao: a todos cles, men sineero