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NICIDADE DO
D CONHEC CIMENTO
Edu
ucação e Pssicologia

O CONHHECIIMEN
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CON
NSTR ÕES SOC
RUÇÕ CIAIS
S DO
O
“SER HUMMANNO”
Acácio Pagan1 
A
Nelio Bizzoo 
Chaarbel El‐Haani 2 

REPRESE
ENTAÇÕ
ÕES E IDE
ENTIDA
ADES SOC
CIAIS

A  construçãão  de  uma  identidadee  social  prrevê,  em  síntese,  a  d demarcação o  das 
qualidades  com muns  a  um
m  determinaado  conjun nto  de  atorres  sociais..  Estabelecer  os 
limittes de um ggrupo prop porciona, aoo mesmo teempo, a deefinição do  que ele “nãão é”, 
ou  do 
d “outro”.  É  possív vel,  nesta  ação,  iden ntificar  doiis  tipos  dee  alteridadde.  A 
alterridade  de  dentro,  qu
ue  se  organ
niza  em  to orno  de  um m  “nós”,  e  estabelecee  um 
“próximo”;  e  a 
a alteridadde  de  fora,,  que  distaancia  o  esttranho  parra  o  camp po  do 
desvvalor. Nas p
palavras de Jodelet, 

O mesmo ‘ego’ e o outro ‘a alter’ só podem se opo or no quadrro de um ‘nós’. O 


outrro  como  ‘nã
ão  eu’,  ‘não
o  nós’,  devee  ser  afasta
ado  ou  torrnar­se  estrranho 
pela
as  caracteríísticas  oposstas  àquela as  que  exprrimem  o  qu ue  é  próprrio  da 
iden
ntidade.  O  trabalho  de 
d elaboraçção  da  difeerença  é  orrientado  pa ara  o 
interior do gru upo em term mos de pro oteção; para a o exterior, em termos de 

1
 Univ
versidade de Sãão Paulo, Brasiil (USP) – Programa de Pós‐GGraduação em E Educação, Facu
uldade de Educação. 
apagaan@usp.br 
2
 Univ
versidade Federal da Bahia, B Brasil (UFBA) –– Programa de Pós‐Graduaçãão em História Filosofia e Enssino de 
Ciênciias, Instituto de Biologia; *Bo
olsa de doutoraamento: FAPEMMAT 
PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 
 
 
tipificação desvalorizante e estereotipada do diferente (JODELET, 1998, p. 
50 – 51). 

Tal  discussão  sobre  o  duplo  processo  de  definição  dos  espaços  da 
alteridade/ipseidade,  pouco  interessou  à  psicologia  social,  que  tratava 
principalmente  das  formas  concretas  de  sua  exposição,  como  as  relações  raciais. 
Esta  postura  foi  insuficiente  para  compreender  a  alteridade  como  produto  e 
processo  psicossocial.  Contudo,  a  abordagem  empregada  pela  Teoria  das 
Representações Sociais permitiu um melhor entendimento da influência simbólica 
sobre a construção/exclusão social que é subjacente à esta noção (JODELET, 1998). 

A  Teoria  das  Representações  Sociais,  inaugurada  por  Moscovici,  mostra  que  a 


construção  simbólica  coletiva  propicia  a  manutenção  de  uma  identidade  social, 
consequentemente, de critérios para definição de um outro.  

Moscovici  (1978,  p.  41),  percebeu  que  as  pessoas  organizam  suas  ações 
cotidianas partindo de opiniões elaboradas segundo experiências empíricas suas e 
dos que estão diretamente relacionados consigo. Estas experiências são difundidas 
pela  comunicação  intersubjetiva  ou  por  mecanismos  de  comunicação  em  massa, 
tais  como,  a  tv,  o  rádio,  os  livros,  as  revistas,  e  atuam  na  formação  de  “entidades 
quase  tangíveis  que  [...]  cruzam‐se  e  se  cristalizam  incessantemente  através  de 
uma fala, um gesto, um encontro em nosso universo cotidiano” – As representações 
sociais. 

Segundo  ele,  o  conhecimento  é  constituído  pelo  pensamento  simbólico,  que 


significa a possibilidade de representar um objeto através de outro, bem como um 
objeto significar vários outros. 

Este  pensamento  teria  sua  gênese  na  comunicação  social.  Os  símbolos  recém 
introduzidos,  ou  edificados  no  grupo,  são  agrupados  a  outros,  que  os 
contextualizam,  que  explicitam  seus  sentidos.  Uns,  mais  arraigados  a  valores  do 
grupo, servem de base para ancoragem dos novos. Este esquema de concatenação 
de símbolos define um grupo de conceitos. 

A fixação de um conceito é reflexo de um conflito de interesses que se estabelece 
no  interior  do  grupo.  Promove  o  debate  e  a  demarcação  das  prioridades  do 
conjunto, do que há em comum aos seus membros. No processo de comunicação e 
construção simbólica, os grupos afirmam ou re‐elaboram os próprios contornos. E 
o processo de pensamento reflete, portanto, uma organização social. 

Moscovici  (1978,  p.  41)  afirma  que  “as  representações  sociais  correspondem, 
por um lado, à substância simbólica que entra na elaboração e, por outro, à prática 
que produz a dita substância, tal como a ciência ou os mitos correspondem a uma 
prática científica ou mítica”. 
 

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 

Deste modo, 

uma  representação  fala  tanto  quanto  mostra,  comunica  tanto  quanto 


exprime. No final das contas, ela produz e determina os comportamentos, 
pois define  simultaneamente a natureza dos estímulos que nos cercam e 
nos  provocam,  e  o  significado  das  respostas  a  dar­lhes.  Em  poucas 
palavras,  a  representação  social  é  uma  modalidade  de  conhecimento 
particular  que  tem  por  função  a  elaboração  de  comportamentos  e  a 
comunicação entre indivíduos (MOSCOVICI, 1978, p. 26). 

Este saber prático explicita, nos sentidos e significados que carrega, o processo 
coletivo  que  o  estabelece,  pois  resulta  de  um  conflito  de  interesses;  opiniões, 
atitudes  e  ações  de  um  grupo.  Assim,  atualiza  e  defende  uma  identidade  social, 
promove  a  dupla  construção  da  ipseidade/alteridade  deste  conjunto  frente  a 
outros.  Neste  sentido,  constituição  do  conceito  “ser  humano”,  para  a  sociedade 
contemporânea  ocidental,  seguiria  padrões  análogos  frente  a  fenômenos  e 
organismos não‐humanos? 

Acredita‐se  que  o  conhecimento  científico  e  os  produtos  tecnológicos  tenham 


participado de boa parte da constante (re)formulação do que se representa como 
identidade  humana,  seja  pela  naturalização  do  artificial,  por  exemplo  à 
manipulação  da  vida,  ou  pelo  confronto  entre  o  que  se  sabe  sobre  o  homem  e os 
demais  organismos  vivos.  Esta  discussão  pode  ser  frutífera  no  sentido  de 
evidenciar  relações  dinâmicas  entre  os  pensamentos  biológico  e  cotidiano,  bem 
como  pensar  o  ensino  de  ciências  sob  um  enfoque  multicultural  que  valorize  e 
promova o diálogo entre ambos. 

O CONHECIMENTO BIOLÓGICO E O “SER – HUMANO”


Ainda  na  pré‐história,  o  homem  conhecia  inúmeros  organismos  vivos, 
imortalizados na arte rupestre, usados na obtenção de instrumentos de exploração, 
ou  alimento.  Desde  as  primeiras  incursões  no  entendimento  do  meio  ambiente, 
com  a  tomada  de  consciência  da  própria  identidade,  ele  começa  a  traçar  os  seus 
primeiros passos como naturalista. Principia‐se uma cisão. Ao tornar‐se naturalista 
o humano, passo a passo, distancia‐se da sua condição natural. 

Paulatinamente,  a  sociedade,  sob  o  argumento,  dentre  outros,  dos  “bons 


modos”, parte de uma ruptura entre o animal e o humano. Este, que se distancia da 
desordem,  do  invariável,  torna‐se  imperfeito,  ao  contrário  dos  animais,  tão  bem 
adaptados  ao  seu  meio.  Por  outro  lado,  o  homem  se  aperfeiçoa,  se  desenvolve 
usando de próteses sociais, em busca da sua perfeição. “Aperfeiçoar o homem, eis a 
missão da sociedade e do conhecimento” (MOSCOVICI, 1974). 

Há  uma  luta  da  sociedade  contra  a  natureza.  Um  inimigo,  ligado  ao  ambiente 
externo  e  outro  ao  interno  ao  humano,  que  deve  ser  analisado,  compreendido  e 

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 
 
 
controlado.  Conhecer  e  dominar  o  selvagem  é  questão  de  sobrevivência 
(MOSCOVICI, 1974; 1975). 

A relação proposta entre os homens, os animais, e os demais organismos vivos, 
apresentada  pelas  teorias  evolucionistas,  ou  mesmo  pelos  primeiros  estudos 
anatômicos,  que  datam  de  muito  antes,  implicaram  na  produção  de  argumentos 
para pensar esta dupla oposição selvagem/doméstico. 

Hoje em dia, coloca‐se como possibilidade, por exemplo, pensar a vida humana 
intra‐uterina  ainda  no  zigoto.  Também,  a  própria  manipulação  da  vida  que  tem 
levantado  controvérsias,  começa  a  naturalizar‐se.  Fertilização  in­vitro  é  um 
conceito  bastante  popular,  em  breve,  provavelmente  também,  o  serão  os 
transgênicos e a clonagem. 

O artificial é incorporado à construção do que se diz condição humana. Parece 
possível  pensar,  nesta  perspectiva,  a  construção  de  um  humano  artificializado,  a 
exemplo  do  produto  cibernético  apresentado  na  ficção  em  analogia  à  imagem 
ecográfica de um feto. 

Estes  instrumentos  e  conceitos  artificiais  que  têm  sido  ajuntados  à  noção 


contemporânea de humano, sejam fornecidos pelos conhecimentos biológicos, ou 
pela  tecnologia  que  os  suporta,  parecem  há  muitos  anos,  fazerem  parte  do 
processo  de  construção  do  conceito  de  organismo  domesticado,  que  incorpora 
objetos artificiais. 

As teorias evolutivas colocam este processo em questão quando apresentam o 
homem no mesmo patamar biológico que os demais organismos vivos, entretanto, 
tal representação parece esquecida ou desestimulada por um processo social mais 
amplo,  sobre  a  própria  essência  do  humano  frente  à  sociedade  que  se  coloca  em 
luta contra a natureza selvagem do ser. 

O  que  faz  com  que  o  humano  seja  humano?  Perguntou  Moscovici  (1974).  Esta 
questão está na base dos questionamentos de diversas culturas. O homem ‐ cultura 
e/ou  natureza,  é  uma  questão  universal,  um  temata  que  embasa  boa  parte  das 
construções simbólicas emergentes. 

Segundo Moscovici, os novos símbolos são alicerçados em outros pré‐existentes, 
formando  conceitos.  Alguns  destes,  de  proporção  maior,  presentes  em  diferentes 
grupos  culturais,  tendem  a  permanecer,  são  pouco  mutáveis,  e  estão  na  base  da 
própria  idéia  de  vida  coletiva,  estes  conceitos  são  definidos  como  tematas.  Um 
deles, refere‐se à relação entre natureza e cultura na base da construção social do 
“ser humano”. 

Além  da  cisão,  que  se  fundamenta  neste  temata,  foi  construída  uma  gradação 
entre o homem selvagem e o domesticado. Cada época cria aquele que melhor se 
enquadra no papel do selvagem. 

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 

A  causa  que  desencadeou  a  erupção  do  gênero  humano  separando­o  do 


mundo animal e material e a diferença que permite ao homem erguer­se 
acima  das  outras  espécies  –  ou  de  outras  frações  da  humanidade, 
primitivos,  mulheres,  crianças,  etc.,  consideradas  mais  próximas  da 
animalidade – são as facetas deste problema. A emergência da natureza, 
a  formação  de  uma  ordem  à  parte,  artificial,  representa  agora  a 
substância  de  sua  solução,  que  se  procura  demonstrar  de  mil  formas 
(MOSCOVICI, 1975). 

Uma grande oposição se coloca, atualmente, na relação entre o saber científico, 
“domesticado”, e o saber popular, cotidianamente construído (MOSCOVICI, 1974). 
Esta  dissensão,  que  aposta  em  um  conhecimento  científico  neutro  e  analítico, 
permeia ainda hoje a produção científica e tecnológica, principalmente dos países 
ocidentais,  e  se  mostra  como  construtora  e  definidora  do  que  se  entende  por 
conhecimento. 

O  ser  humano,  neste  movimento,  experimenta  algo  que  Moscovici  chama  de 
pensar  por  procuração.  O  especialista  é  quem  atesta  sobre  coisas  e  questões 
intrínsecas  da  pessoa  comum.  Por  exemplo,  o  médico  é  quem  está  habilitado  a 
dizer  se  alguém  sente‐se  bem  ou  mal.  Independente,  do  estado  manifestado  pelo 
próprio ator social. 

As  ciências  inventam  e  propõe  a  maior  parte  dos  objetos,  conceitos, 


analogias  e  formas  lógicas  a  que  recorremos  para  fazer  face  às  nossas 
tarefas  econômicas,  políticas  ou  intelectuais.  O  que  se  impõe,  a  longo 
prazo, como dado imediato de nossos sentidos, de nosso entendimento, é, 
na  verdade,  um  produto  secundário,  reelaborado,  das  pesquisas 
científicas.  Esse  estado  de  coisas  é  irreversível.  Corresponde  a  um 
imperativo  prático.  Por  que?  Porque,  deixamos  de  esperar  exercer 
domínio sobre a maioria dos conhecimentos que nos afetam. Pressupõe­se 
que grupos ou indivíduos competentes devam obtê­los e fornecê­los para 
nós.  [...]  Nessas  condições,  pensamos  e  vemos  por  procuração, 
interpretamos  fenômenos  sociais  e  naturais  que  não  observamos  e 
observamos  fenômenos  que  nos  dizem  poder  ser  interpretados  [...]  por 
outros, entenda­se. (MOSCOVICI, 1978, p. 21) 

As  especialidades,  entretanto,  aparecem  de  modo  geral  vinculadas  à  idéia 


mecanicista  de  mundo  e  de  ciência  que  fundamenta‐se  na  posição  analítica,  de 
modo que o conhecimento é produzido quando se decompõe determinados objetos 
em pormenores profundamente estudados e explicitados. Infelizmente, por vezes 
perde‐se a noção do todo decomposto. Essa postura tem sido questionada e novos 
paradigmas emergem neste contexto. 

A realidade é dinâmica, o pensar é intrínseco ao homem comum, que apresenta 
suas lógicas próprias, diferentes do pensamento científico positivista, mas que são 
tidos em mesmo grau de importância. Não são melhores ou piores, mas diferentes. 

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 
 
 
A  Teoria  das  Representações  Sociais,  de  Moscovici,  aparece  em  sintonia  com 
este  movimento.  Propõe  a  valorização  do  conhecimento  cotidiano,  e  preocupa‐se 
por entender como o conhecimento é transferido de um contexto social para outro, 
bem como sua difusão dentro de determinado grupo. 

Neste  caso,  um  primeiro  passo  rumo  ao  entendimento  das  construções  sociais 
do  “ser  humano”  e  as  influências  dos  conhecimentos  biológicos  nesta  questão, 
busca‐se descrever uma proposta de pesquisa empírica que tem sido desenvolvida 
no contexto brasileiro. 

FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE BIOLOGIA E A


CONSTRUÇÃO SOCIAL DO SER HUMANO: UMA PROPOSTA
DE PESQUISA EMPÍRICA

A  origem  do  universo,  da  vida,  do  homem;  a  relação  ser  humano  cultural  e 
natural;  as  concepções  de  vivo,  não‐vivo  e  morto;  e  assuntos  pertinentes  à 
evolução dos seres vivos, são enfaticamente debatidos nos cursos de formação de 
biólogos  e  professores  de  biologia.  Parece  comum  que  tais  discussões  tragam 
implícitas algumas questões existenciais. O que, muitas vezes, contribui para que o 
aluno  sinta‐se  aflito  e  busque  conciliar  a  nova  informação  ao  seu  mundo 
conceitual.  Identidades  culturais  são  frequentemente  revistas  e  comportamentos 
alterados. 

Os conteúdos sobre origem da vida e do universo, apresentam constantemente a 
questão  de  onde  viemos.  Na  temática  ambiental,  ecológica,  da  relação  homem  e 
natureza; homem e cultura, quem somos. Por fim, na discussão sobre a vida (vivo, 
não  vivo  e  morto),  fluxo  de  energia  e  ciclagem  de  nutrientes,  parecem  emergir 
reflexões sobre para onde vamos. 

Conflitos  de  ordem  cognitiva  e  afetiva  apresentavam‐se  com  maior  vigor  ao 
serem  confrontados  conteúdos  sobre  os  antepassados  humanos,  a  valores 
culturais.  As  questões,  de  onde  viemos,  quem  somos  e  para  onde  vamos,  por  fim, 
emergem de um sistema complexo de interação entre as diferentes disciplinas de 
cunho evolucionista, cuja confluência incitaria um possível entendimento sobre o 
humano e o desumano. 

Esta  relação,  entre  o  processo  evolutivo  e  a  história  da  humanidade,  volta‐se, 


portanto  a  conceitos  tangentes  à  teoria  da  descendência  comum  (Meyer;  El‐Hani, 
2001). É estabelecida uma relação de alteridade na construção do “eu” humano e o 
alter,  vivo  e  não‐humano.  Trata‐se  de  um  contexto  educacional,  no  qual  os 
discentes refletem sobre suas incompletudes. As características dos demais seres 
vivos  são  discutidas  e  comparadas  com  as  próprias  condições  biopsicossociais 
humanas.  

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 

Portanto,  busca‐se  neste  trabalho  compreender  como  as  questões  existenciais 


“quem  somos,  de  onde  viemos  e  para  onde  vamos”  se  colocam  no  senso  comum, 
sob  o  ponto  de  vista  de  um  grupo  de  discentes  universitários  do  Programa  de 
Ciências  Agro‐ambientais  (Biologia)  da  Universidade  do  Estado  de  Mato  Grosso 
(UNEMAT),  campus  de  Tangará  da  Serra.  Especificamente,  os  possíveis  enlaces 
entre  saberes  religiosos  e  científicos,  manifestados  por  tais  discentes  ao 
constituírem  uma  representação  social  emergente  à  estas  questões,  a  noção  de 
humano. 

A  contribuição  da  educação  científica  e  religiosa  na  formação  do  conceito  de 
humano  relaciona‐se  à  construção  dos  limites  do  que  se  entende  por  cultura  e 
natureza.  A  estrutura  desta  noção  possivelmente  produz  implicações  para  as 
discussões, dentre outras, sobre ética, quando são colocados em pauta argumentos 
sobre pesquisas com seres vivos; meio ambiente, na adoção de atitudes de respeito 
ou desrespeito ao meio natural e, cidadania, na construção de normas e regimentos 
de proteção da vida e da promoção da qualidade de vida. A opção por imprimir um 
enfoque educacional a este trabalho vincula‐se ao fato de que nestes três campos a 
educação tem sido fecunda na formação da consciência crítica dos cidadãos. 

O ensino de evolução tem sido reconhecido, tanto como parte relevante para a 
compreensão da biologia moderna, quanto da própria ciência. Nos últimos 2 anos 
diferentes  publicações  de  alguns  periódicos  especializados  retratam  pesquisas 
sobre concepções de estudantes, imprecisões conceituais e influências ideológicas 
em  livros  didáticos.  Muitos  artigos  partem  da  preocupação  com  relações  entre 
evolucionismo e criacionismo, dentre eles Tidon e Lewontin (2004); Brem; Ben‐Ari 
(2004); Hofman; Weber (2003); Ranney e Schindel (2003). 

Nesta  pesquisa,  propõe‐se  a  descrição  de  determinado  objeto  sob  o  ponto  de 
vista de um grupo social dinâmico envolvido pelas questões globais da sociedade, 
levando‐se em conta suas histórias pessoais e grupais. Sá (1998), considerando tal 
perspectiva,  destacou  que  a  delimitação  do  objeto  de  estudos  em  representações 
sociais leva em conta o elemento representado e os sujeitos que o representam. 

A  abordagem  da  noção  “humano”,  neste  caso,  enquadra‐se  na  análise  de 
conexões  psicossociais  estabelecidas  entre  os  saberes  científicos  e  religiosos 
dentro de um curso da área biológica. 

A teoria das representações sociais proposta por Serge Moscovici em 1961, que 
tem proporcionado uma visão holística da vinculação entre os processos cognitivos 
e  as  interações  sociais,  manifesta‐se  como  um  referencial  adequado  para  nortear 
esta  pesquisa.  Segundo  seus  princípios,  ao  analisar  o  conteúdo  do  objeto 
representado  é  possível  verificar  nele,  as  características  identitárias  dos  sujeitos 
que  representam.  E  permite  uma  abordagem  do  conhecimento  do  senso  comum, 
levando‐se  em  conta  as  suas  informações,  crenças,  atitudes,  ideologias, 
sentimentos e imagens. 

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 
 
 
As tradições religiosas preponderantes neste grupo reúnem elementos de cunho 
cristão,  basicamente,  católicos  e  protestantes. Ao  tratar  deste  tema,  destaca‐se  o 
trabalho  de  Sepúlveda  (2003),  que  identificou,  em  um  estudo  desenvolvido  com 
alunos  protestantes  do  curso  de  Ciências  Biológicas  da  Universidade  Estadual  de 
Feira  de  Santana,  na  Bahia,  possíveis  conflitos  entre  valores  religiosos, 
apresentados  por  tais  estudantes,  e  conceitos  fundamentais  à  noção  de 
evolucionismo. 

Ao  definir  que  um  saber  prático  elaborado  no  contexto  cotidiano  de  grupos 
humanos se constitui em uma representação social, Denise Jodelet apresentou três 
perguntas e  respectivas  problemáticas  que  “são  interdependentes  e  abrangem  os 
temas dos trabalhos teóricos e empíricos”, no campo da teoria de Moscovici: Quem 
sabe  e  de  onde  sabe,  referindo‐se  às  condições  de  produção  e  de  circulação  das 
representações sociais; o que sabe e como sabe, a propósito dos processos e estados 
destas  noções;  e  sobre  o  que  sabe  e  com  que  efeitos,  referente  ao  estatuto 
epistemológico das representações sociais (JODELET, 2001, p. 28). 

Ao indagar quem sabe e de onde sabe, referindo‐se às condições de produção e 
circulação das representações sociais 

[...]  identificam­se  três  conjuntos,  designados  pelos  rótulos  genéricos  de 


‘cultura’,  ‘linguagem  e  comunicação’  e  ‘sociedade’.  Pesquisam­se  as 
relações  que  a  emergência  e  a  difusão  das  representações  sociais 
guardam com fatores tais como: valores, modelos e invariantes culturais; 
comunicação  interindividual,  institucional  e  de  massa;  contexto 
ideológico  e  histórico;  inserção  social  dos  sujeitos,  em  termos  de  sua 
posição  e  filiação  grupal;  dinâmica  das  instituições  e  dos  grupos 
pertinentes (SÁ, 1998, p. 32). 

Neste  caso,  alunos  universitários,  vinculados  ao  curso  de  Ciências  Agro‐
ambientais, que serão formados em Biologia ou em Agronomia, pela Universidade 
do Estado de Mato Grosso (UNEMAT) do campus de Tangará da Serra, Mato Grosso 
(MT).  Esses  discentes  desenvolvem  suas  atividades  acadêmicas  em  um  Estado 
Federativo  que,  em  regra,  é  potencialmente  agrário.  Especificamente,  interatuam 
em  uma  região  latifundiária,  de  monoculturas  como  a  soja  e  a  cana‐de‐açúcar, 
entremeadas  por  algumas  pequenas  propriedades  rurais  de  economia  familiar, 
resultantes do processo de reforma agrária. 

Espera‐se com a aplicação do questionário a todos os alunos do referido curso, 
estabelecer  um  senso,  dos  subgrupos  de  estudantes  entendidos  dentro  de  um 
gradiente  que  vai  de  crenças  totalmente  religiosas  com  pouca  influência 
evolucionista,  até  o  pólo  oposto/complementar  de  concepções  evolucionistas  e 
ateísmo.  Buscando‐se  analisar  variáveis  vinculadas  à  atividades  acadêmicas,  bem 
como culturais que contribuem para tais posicionamentos. 

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 

Ao  referir‐se  aos  processos  e  estados  das  representações  sociais,  Sá  (1998,  p. 
32), explicou que devemos nos ocupar 

[...]  dos  suportes  da  representação  (o  discurso  ou  o  comportamento  dos 
sujeitos,  documentos,  práticas,  etc.),  para  daí  inferir  seu  conteúdo  e  sua 
estrutura,  assim  como da análise  dos  processos de sua formação,  de  sua 
lógica própria e de sua eventual transformação. 

Deste  modo  as  representações  sociais  destes  sujeitos,  enquanto  produto  e 


processo,  acerca  do  conceito  de  humano,  colocadas  nos  tempos  ou  questões 
existenciais de onde viemos, quem somos e para onde vamos, serão os elementos de 
representação  abordados  na  tentativa  de  responder  ao  que  sabem  e  como  sabem. 
Para  isto,  não  apenas  o  questionário,  como  também  e  principalmente,  as 
entrevistas em grupo parecem fecundas. 

As  questões  referentes  ao  estatuto  epistemológico  das  representações  sociais, 


sobre o que sabe e com que efeito, referem‐se às 

[...]  relações  que  a  representação  guarda  com  a  ciência  e  com  o  real, 


remetendo para a pesquisa das relações entre o pensamento natural e o 
pensamento científico, da difusão dos conhecimentos e da transformação 
de  um  tipo  de  saber  em  outro,  bem  como  das  decalagens  entre  a 
representação  e  o  objeto  representado,  em  termos  de  distorções, 
supressões e suplementações (SÁ, 1998, p. 32). 

As decalagens, traduzidas do francês como defasagens, referem‐se às influências 
da comunicação na emergência de representações sociais. Segundo Jodelet (2001), 
o  fato  das  representações  sociais  serem  reconstruções  do  objeto,  expressões  dos 
sujeitos podem ocasionar defasagens no conteúdo expresso, devido à influência de 
valores  e  códigos  coletivos,  das  implicações  pessoais  e  dos  engajamentos  sociais 
dos  indivíduos.  Isto  produz  três  tipos  de  efeitos  ao  nível  de  conteúdos 
representativos: distorções, suplementações e subtrações. 

No  caso  das  distorções,  o  objeto  é  apresentado  em  todos  os  seus  aspectos, 
entretanto alguns são acentuados e outros atenuados. A suplementação define‐se 
pelo  acréscimo  de  atributos,  que  não  lhe  são  próprios,  ao  objeto  representado 
(JODELET,  2001).  A  subtração  corresponderia  à  supressão  dos  atributos 
apresentados pelo objeto. 

Portanto, as questões sobre o que sabe e com que efeitos, tratarão das possíveis 
defasagens sofridas pela passagem do conhecimento sobre o conceito de humano, 
do  contexto  científico,  para  o  universo  consensual  das  representações  sociais, 
analisando‐se, neste caso, também o papel da mediação didática. 

Nesta análise todos os dados coletados serão imprescindíveis para a elaboração 
da  relação  entre  ciência  e  religião  nas  concepções  dos  universitários.  E 
principalmente,  as  informações  levantadas  em  suas  histórias  pessoais,  que 

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PAGAN, A.; Bizzo, N. & El‐hani, C. (2007) O conhecimento biológico e as construções 
sociais do “ser humano”. In, V. Trindade, N. Trindade & A.A. Candeias (Orgs.). A 
Unicidade do Conhecimento. Évora: Universidade de Évora. 
 
 
contribuirão para elucidação de hipóteses relacionadas à variáveis externas à vida 
universitária. 

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES
Uma  abordagem  empírica  para  o  entendimento  do  conceito  de  ser  humano, 
construído por possíveis professores de biologia, apresenta‐se como fecunda para 
o  (re)pensar  sobre  o  papel  do  biólogo  na  construção  e  no  debate  deste  conceito 
junto aos ao corpo social. Esta possibilidade pode levar à edificação de um ensino 
de  ciências  que  respeite  as  idéias  cotidianas  apresentadas  pelos  discentes.  Além 
disso, busca‐se compreender este processo em uma perspectiva multicultural, que 
coloca  a  ciência  como uma  cultura,  e  o  ensino/aprendizagem  de  ciência,  torna‐se 
um  processo  de  enculturação  que  prevê  a  aproximação  e  o  diálogo  com  uma 
cultura  cotidiana,  previamente  construída  pelo  ator  social,  participante  do 
processo de ensino/aprendizagem. 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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creation/evolution controversy. Jones and Bartlett Publishers, MA. 

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College  Students  Perceive  Negative  Personal  and  Social  Impact  in 
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2.ª ed. Rio de Janeiro: Relume Dumará. 

HOFFMANN, J. & Weber, B. (2003) The Fact of Evolution: Implications for Science 
Education. Science & Education 12: 729 – 760. 

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Janeiro: EdUERJ. 

JODELET,  D.  (1998)  A  alteridade  como  um  produto  e  processo  psicossocial.  In: 
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JODELET,  D.  (1985)  La  representación  social:  fenómenos,  concepto  y  teoría.  In: 
MOSCOVICI, S. (Org.). Psicología Social. Barcelona: Paidós, (p. 469 ‐ 494.). 

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MOSCOVICI,  S.  (2001).  Social  representations:  explorations  in  Social  Psychology. 


Tradução de Gerard Duveen. New York University Press. 

MOSCOVICI, S. (1978). A representação social da Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar 
Editores. 

MOSCOVICI,  S.  (1974).  Homens  domésticos,  homens  selvagens.  Trad.  Elisabeth 


Neves Cabral. Amadora: Bertrand. 

MOSCOVICI,  S.  (1975).  Sociedade  contra  natureza.  Trad.  Ephraim  Ferreira  Alves. 
Petrópolis: Vozes. 

SÁ, C. P. (1998). A construção do objeto pesquisa em representações sociais. Rio de 
Janeiro: EdUERJ. 

SEPÚLVEDA,  C.  de  A.  S.    (2003)  A  relação  entre  religião  e  ciência  na  trajetória 
profissional  de  alunos  protestantes  da  Licenciatura  em  Ciências  Biológicas. 
Dissertação  (Mestrado  em  Ensino,  Filosofia  e  História  das  Ciências). 
Universidade Federal da Bahia e Universidade Estadual de Feira de Santana. 

TIDON, R. e Lewontin, R. C. (2004). Teaching evolutionary biology. In: Genetics and 
Molecular Biology, v 27, n 1 (p. 124‐131). 

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