Família Brasileira no contexto histórico e cultural
Elizabeth carvalho dias cayres

Para se refletir sobre a formação da família brasileira hoje, faz-se necessário entender os aspectos históricos e culturais que têm marcado a sua formação social. O aspecto mais importante a destacar é sua formação multiétnica e pluricultural. A imensa extensão territorial brasileira, colonizada por povos de diferentes etnias, determinou o aparecimento de uma grande diversidade de culturas, e conseqüentemente de famílias, em nosso território. Contudo, a cada período da história, ocorre um modelo hegemônico de família sobre as outras como veremos a seguir. Segundo Bruschini (2000), nos primeiros séculos de colonização temos como modelo dominante de organização a família tradicional, patriarcal, extensa, rural que resultou da adaptação do modelo de família trazido pelos portugueses ao modelo sócio-econômico em vigor no país. Este estilo de família impôs seu domínio na Colônia, subjugando os indígenas e, mais tarde, com a importação dos escravos negros, os portugueses foram destruindo formas familiares próprias desses grupos que aqui chegavam. O “pater famílias”, chefe da família, concentrava as funções militantes, empresariais e afetivas. Com uma distribuição extremamente rígida e hierárquica de papéis, a família patriarcal caracteriza-se também pelo controle da sexualidade feminina e regulamentação da procriação, para fins de herança e sucessão. A sexualidade masculina se exercia, no entanto, livremente. Os casamentos eram realizados por conveniência, entre parentes ou entre membros de grupos econômicos que desejavam estabelecer alianças. Como a atração sexual ou outras razões de ordem afetiva estivessem alheias a esse contrato, considerava-se legítimo que os homens buscassem satisfação sexual e emocional fora da órbita legal do matrimônio, mantendo concubinas, com as quais tinham filhos ilegítimos.

A família patriarcal era um extenso grupo composto pelo núcleo conjugal e sua prole legítima, ao qual se incorporavam parentes, afilhados, agregados, escravos e até mesmo concubinas e bastardos, todos abrigados sob o mesmo teto, na casa grande ou na senzala. Essa característica senhorial foi observada também pelas famílias não proprietárias, das camadas intermediárias – comerciantes, funcionários públicos, militares e profissionais liberais (Ibidem, 2000). A família patriarcal era uma forma dominante de constituição social e política e tinha no seu poder, o controle dos recursos da sociedade. A partir da segunda metade do século XIX, com o início do processo de industrialização, opera-se uma mudança na família e o modelo patriarcal, vigente até então, passa a ser questionado. Começa a se desenvolver a família conjugal moderna, na qual o casamento se dá por escolha dos parceiros, com base no amor romântico, tendo como perspectiva a superação da dicotomia entre amor e sexo e novas atribuições para os papéis do homem e da mulher no casamento. Modernizaram-se as concepções sobre o lugar da mulher nos alicerces da moral familiar e social. A nova mulher, “moderna”, deveria ser educada para desempenhar o papel de mãe, educadora – dos filhos, e de suporte do homem para que este pudesse enfrentar a labuta do trabalho fora de casa. A “boa esposa” e “boa mãe” deveria ser prendada e deveria ir à escola, aprender a ler e escrever para bem desempenhar sua missão como educadora. Essa família apresentava-se como uma família nuclear, reduzida ao pai, mãe e filhos, organizada hierarquicamente em torno de uma rígida divisão sexual de papéis, onde o homem era responsável pelo sustento da família e a esposa pela educação dos filhos e cuidados do lar. Esse novo modelo de família institui novos padrões de educação dos filhos, e atribui alto valor à privacidade e intimidade nas relações entre pais e filhos. A domesticidade, o amor romântico e o amor materno tornaram-se suas pedras angulares. A existência de traços da família patriarcal na família conjugal moderna persistem até o século XX, fundamentada inclusive na legislação, pois, no Brasil, somente na Constituição de 1988 a mulher e o homem são assumidos com igualdade no que diz respeito aos direitos e deveres na sociedade conjugal. Esse processo de modernização se realiza de forma não-linear, não existindo propriamente a superação de um “modelo” pelo outro. Alguns pesquisadores do campo da família, entre eles

as mudanças ocorridas na família relacionam-se com a perda do sentido da tradição. a ser concebidos como parte de um projeto em que a individualidade conta decisivamente e adquire cada vez mais importância social.5 filhos. paralelamente ao aumento das uniões consensuais. mãe. antes vividos a partir de papéis preestabelecidos. 4) Aumento da co-habitação e da união consensual. a família. a sexualidade e o trabalho. o amor. entendem que os “modelos” patriarcal e conjugal permanecem existindo como tais até os dias atuais. havendo a predominância de um ou de outro. E. Isto significa que as mulheres passam menos tempo de sua vida em função da reprodução e têm mais tempo para se dedicar a outras atividades (trabalho. com base na análise da Pesquisa Nacional por Amostras de DomicílioIBGE (PNAD). Este aspecto tem como conseqüência o fato de a co-habitação não ser mais considerado como sinal de pobreza. 3) Aumento da concepção em idade precoce. Embora se registre uma . Assim. Este dado indica queda acentuada da taxa de fecundidade das mulheres brasileiras. filhos). É a partir dos anos 90 que a família brasileira apresenta mudanças significativas em todos os seguimentos da população. 2) Concentração da vida reprodutiva das mulheres nas idades mais jovens (até trinta anos). Vivemos numa sociedade onde a tradição vem sendo abandonada como em nenhuma outra época da história. a família dos anos 90 tem uma configuração marcada pelas seguintes características populacionais: 1) Número reduzido de filhos. dependendo da camada social a que pertence a família.3 filhos. passam. Na contemporaneidade. relação conjugal). A família brasileira entra nos anos 90 com uma média de 2. Isto implica o aumento da gravidez entre adolescentes. o casamento. cuja média era de 6. 5) Predomínio das famílias nucleares (pai. Segundo Mioto (1997).podem ser citados Sarti (2003) e Mioto (1997). houve um avanço da união legal (aumento do número de casamentos civis) em contraposição à união religiosa (queda do número de casamentos religiosos). em contraposição aos anos 60.

Em termos de dados.5%). e a população acima de sessenta anos passou a ser de 7.8 anos e apenas 4. referencia a pílula anticoncepcional. aliado a essa expansão. Isto significa um aumento de encargos da família relacionado ao cuidado com idosos.8%. 81% das famílias eram nucleares. também abalou os alicerces familiares. que fundamenta a idéia de família e parentesco do mundo ocidental judaicocristão. 1955 apud Sarti. Esse fato criou condições para que a mulher deixasse de ter sua vida e sua sexualidade atadas à maternidade como um “destino” e com isso. a partir dos anos 80. Sarti (2007). Mais tarde. seja fertilizações in vitro – dissociaram a gravidez da relação sexual entre homem e mulher. 9) Aumento de pessoas que vivem sós (1977: 118-119). 6) Aumento significado das famílias monoparentais. recriou o mundo subjetivo feminino e. 8) População proporcionalmente mais velha. pois até pouco tempo atrás o homem era o provedor e à mulher cabia quase que exclusivamente o cuidado dos filhos e da casa. (Strathern. as quais novamente afetaram a identificação da família com o mundo natural. com predominância das mulheres como chefes da casa. ampliou as possibilidades de atuação da mulher no mundo social.queda desse tipo de organização familiar (em 1981. Essas mudanças têm sido compreendidas como decorrentes de uma multiplicidade de aspectos. A média de identidade da população brasileira em 1950 era de 18. em 1989 essa porcentagem caiu para 79. 2007). Outro fator importante foi o modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo Estado . como aquela que separou a sexualidade da reprodução e interferiu decisivamente na sexualidade feminina.8 anos.8%.2% tinham mais de sessenta anos. Este fato é conseqüência do aumento das separações e dos divórcios nos últimos anos. que foi difundida a partir da década de 1960. as famílias nucleares ainda são predominantes ao contexto brasileiro. em 1981 registrou-se 16. Isso provoca “mudanças substantivas”. 7) Aumento das famílias recompostas. A saída da mulher do mundo privado para o público através do trabalho remunerado. as novas tecnologias reprodutivas – seja inseminações artificiais. Em 1991 a idade média ficou em 24. O crescimento da população idosa está condicionada ao aumento da expectativa de vida média da população.

brasileiro. como se pode observar. a migração agravada do campo para a cidade e a entrada de um contingente muito grande de mulheres e crianças no mercado de trabalho. incluindo duas gerações. 6) famílias monoparentais. destaca Kaslow (2001) por citar nove tipos de composição familiar que podem ser consideradas “família”: 1) família nuclear. na breve contextualização histórica e cultural da família brasileira. Essas mudanças. mas com forte compromisso mútuo (2002: 10). Como vimos. nos seus vários arranjos familiares. Portanto. 7) casais homossexuais com ou sem crianças. Precisamos pensar as famílias hoje de forma plural. não existe a família regular. 3) famílias adotivas temporárias (Foster). sem laços legais. chefiadas por pai ou mãe. que teve como conseqüência o empobrecimento acelerado das famílias na década de 80. ocorridas com a família na contemporaneidade tiveram profundas implicações na configuração familiar originando vários modelos de família. 2) famílias extensas. Por isso. 9) várias pessoas vivendo juntas. 4) famílias adotivas. 8) famílias reconstituídas depois do divórcio. não existe historicamente e culturalmente. religiosos e ideológicos. torna-se impossível formular uma conceituação única sobre família por ser esta uma instituição cultural e historicamente condicionada. a fim de . incluindo três ou quadro gerações. que podem ser bi-raciais ou multiculturais. A vida familiar faz parte do mundo real ou simbólico de todas as pessoas e esta é marcada fortemente por valores morais. 5) casais. um modelo padrão de organização familiar e por isso. função e estrutura para que a nossa intervenção com a família não seja analisada a partir do nosso conceito próprio de família e de enfatizar as relações parentais a partir da consangüinidade como veremos a seguir. Por esta razão é que se faz necessário entender a família através do seu conceito. Szymanski (2002). precisamos do auxílio de outras ciências. dentre vários autores que estudaram sobre os grupos familiares. com filhos biológicos.

A partir desse estudo. No direito romano clássico a “família natural” é baseada no casamento e no vínculo de sangue e o seu agrupamento constituído apenas dos cônjuges e de seus filhos. e a relação de afinidade que se dá através do casamento. Pois para ele. foi através de Lévi-Strauss “com as estruturas elementares do parentesco. as famílias se constituem . Segundo Sarti (2003:41). Esse conceito teve bastante influência da Igreja Católica através do direito canônico. A proibição do incesto está diretamente ligada a origem das regras do casamento que está calcado num sistema geral de trocas ao qual se denomina exogamia. excluindo a possibilidade de ser a família biológica um sistema fechado de relações. Sua conseqüência é garantir a vitalidade dos grupos humanos. O parentesco é uma estrutura formal que resulta da combinação de três tipos de relações básicas: a relação de consangüinidade entre irmãos. entre si. que se deu o passo decisivo para a desnaturalização da família ao retirar da família biológica o foco principal e voltar sua atenção para o sistema de parentesco como um todo”.obtermos uma leitura mais enriquecedora. Essa tese permitiu afirmar a supremacia da regra cultural da afinidade sobre a regra natural da consangüinidade. O termo “família” é derivado do latim “famulus”. mas na sua natureza social. Esse novo organismo caracterizava-se pela presença de um chefe que mantinha sob seu poder a mulher. Este termo foi criado na Roma Antiga para designar um novo organismo social que surgiu entre as tribos latinas. do ponto de vista de suas funções e estrutura. a relação de descendência entre pai e filho e mãe e filho. com a invenção do tabu do incesto. os filhos e um certo número de escravos. pois não existem conceituações certas ou erradas se considerarmos que a família é o “lócus” da subjetividade. 1997) chegou à tese de que a família surgiu no imbricamento entre a natureza e a cultura. Essa família tem como base o casamento e as relações jurídicas dele resultantes. o fundamento da família não está na natureza biológica do homem. entre os cônjuges. que significa “escravo doméstico”. Desde então. até bem pouco tempo. o termo família tem designado instituições e agrupamentos sociais bastantes diferentes. ao serem introduzidas à agricultura e também escravidão legalizada. no direito brasileiro. o laço de parentesco foi instituído como um fato social e não natural e com isso a família entra definitivamente no terreno da cultura. com poder de vida e morte sobre todos eles. e pais e filhos. Foi por meio do estudo das estruturas elementares do parentesco que Lévy-Strauss (1976 apud Mioto.

a família é uma instituição social que. mesmo porque as necessidades e aspirações devem ser consideradas com rendimentos precários. e se encontra dialeticamente articulada com a estrutura social na qual está inserida. Mas a família é também o núcleo dentro do qual as pessoas obtêm seu prazer. bem como em uma unidade de renda e consumo. As famílias como agregações sociais. via alimentação. vai nos mostrar que. vivendo juntas. a diversidade de arranjos familiares existentes hoje na sociedade brasileira nos leva a definir a família como um núcleo de pessoas que convivem em determinado lugar. Segundo Ariès (1981). como resposta às necessidades da sociedade pertencente. pela socialização de suas crianças e pela satisfação de necessidades básicas. As tensões e os conflitos são enormes dentro do grupo.como aliança entre grupos. Segundo Mioto (1997). independente das variantes de desenhos e formatações da atualidade. a família é um grupo aparentado. sexualidade e lazer. de uma forma ou de outra. principalmente. O interesse pela família pelas correntes marxistas. na aristocracia dos séculos XVI e XVII não havia separação rigorosa entre . Esses estudos surgem com base nas estratégias de sobrevivência das camadas populares e na reprodução do trabalhador. casamento. Nesta perspectiva. Ela consiste em um aglomerado de pessoas relacionadas entre si pelo sangue. aliança ou adoção. assumem ou renunciam funções de proteção e socialização dos seus membros. se constitui num canal de iniciação e aprendizado dos fatos e das relações sociais. responsável. em uma mesma casa por um período de tempo indefinido. como a acomodação a uma cultura e sua transmissão. Ela é percebida por esta corrente como um centro de vida coletivo e de liberdade. 2005). Para Draibe (2005 apud Carvalho. surgiu na segunda metade da década de 70 quando começaram a se preocupar com a inexistência de uma teoria da população. A família passa a ser definida como a unidade social na qual se realiza a reprodução do trabalhador. em geral. as funções da família regem-se por dois objetivos. Ela tem como tarefa primordial o cuidado e a proteção de seus membros. para a sociologia. como a proteção psicossocial dos membros. sendo um de nível interno. Ela é considerada uma unidade social básica e universal por ser encontrada em todas as sociedades humanas. e o outro de nível externo. Bruschini (2000). ao longo dos tempos. ainda que dentro de poucos recursos. durante um lapso de tempo mais ou menos longo e que se acham unidas (ou não) por laços consangüíneos.

essa função. através do trabalho doméstico. atendem os doentes e fornecem todo tipo de assistência. os netos etc. Os membros das famílias tinham deveres claramente definidos. à conservação dos bens. os avós. já que a produção de bens propriamente dita passa a ser feita no mercado. Nas sociedades urbanas. No período pré-industrial. estabelecem novos laços sociais e constituem uma nova família que terá menos influência do grupo consangüíneo. quer sejam financeiro. . alguns membros da família. de saúde ou de amparo psicológico. pois as famílias viviam nas ruas. nas festas. os filhos. a ajuda mútua e a proteção da honra e da vida em caso de crise. sua localização dependerá em grande medida de onde estudará e onde trabalhará. pelo qual passou a receber uma remuneração. nas empresas. a prática de um ofício. ocorre uma mudança na função econômica da família que provocou o surgimento de duas esferas distintas: de um lado a unidade doméstica. não podem permanecer durante toda a vida morando próximo a seus parentes. mas era constituída visando apenas à transmissão da vida. essa ruptura entre local de produção e local de reprodução trazida pelo capitalismo reduz a função econômica da família à produção de valores de uso ou prestação de serviços domésticos. Segundo Bruschini (2000). Com a urbanização. mulheres e crianças trabalhavam juntos tanto na casa quanto no campo e a unidade familiar era antes de tudo uma unidade com uma função econômica que consistia na produção de bens e serviços necessários para o seu sustento. A família não tinha a função afetiva e socializadora. foi substituída pelas organizações formais que realizam empréstimos. À mulher coube a reprodução da força de trabalho na esfera privada do lar e sem remuneração. enquanto ao homem coube o trabalho produtivo extralar. exercida pelos grupos de parentes.o público e o privado. de outro a unidade de produção. É necessário um grande número de filhos e outros parentes disponíveis para trabalhar na produção de bens e consumos. Nesses locais. as mulheres. Com a revolução industrial do século XIX e a industrialização. não se isolavam. determinados em função de sua idade e posição no grupo familiar e de seu sexo. homens. nas fábricas. Esses parentes habitam o mesmo teto ou ficam bastante próximos uns dos outros de um modo geral. Uma das funções importantes dessa família extensa é o auxílio aos seus membros para a solução de seus problemas.

Uma outra função da família que vem sendo contextualizada é a que diz respeito a assistência aos seus membros. na sociedade capitalista. é de uma unidade de renda e de consumo. A família passa então a ser um grupo que compartilha um orçamento. Ela não produz mais o que o grupo precisa para sobreviver. valores. costumes. a classe social de pertencimento. A função socializadora (educativa) dentro da família é a mais importante porque prepara a criança para o seu ingresso na sociedade com a transmissão da herança social e cultural por intermédio da educação dos filhos. econômica e psicológica de seus membros. também. aos cuidados que a família dispensa aos seus membros tanto nas situações do dia-a-dia quanto nas situações que exigem um maior cuidado (doenças. são suas histórias. com entradas em dinheiro e saídas em gastos. Ao exercer ação socializadora. da afetividade e de um lugar de igualdade onde todos buscam o bem comum. a cultura familiar e sua organização significativa do mundo (Ibidem: 17). Em todas as sociedades. Diz respeito.). da busca coletiva de meios para sobrevivência. podemos entender a família como espaço privilegiado de socialização através da tolerância. mas compra no mercado o necessário para cada um dos seus membros. padrões de comportamento dependendo do status social da família. Independentemente do arranjo familiar ou da forma como vem sendo estruturada é na família que ocorre a proteção integral dos filhos e demais membros garantindo-lhes a . O que conta. Duas famílias com a mesma composição podem apresentar modos de relacionamento completamente diferentes. por ex. ou do modo das pessoas cuidarem de sua relação numa família. nesse caso. idéias. da divisão de responsabilidades entre seus membros. Nesse sentido. ressalta: A estrutura familiar não é um determinante da forma como se dá a solicitude. Szymanski (2000). a família é basicamente responsável pela proteção física. do respeito mútuo. E este cuidado se processa num continum que vai da infância até a velhice. a família é também uma soma de rendimentos.A função da família hoje. Portanto. a família atua também como agência de transmissão da ideologia através de hábitos.

ao negro só cabia o trabalho escravo e na condição de proprietário da terra este não saberia lidar com ela. nos anos 50 e 60 quando o processo de urbanização do desenvolvimento . descuidadas. na virada do século. foram reconstruir suas vidas nos Quilombos. No primeiro momento. a essa massa de ex-escravos foi vedada à propriedade da terra. Com o fim da escravidão. Valladares (1995 apud Germano. de forte conotação moral. 1998). como alguém que se recusava a vender a sua força de trabalho no mercado capitalista. Essa preparação deveria vir do senhor do ex-escravo. pois não estava preparado para tal. para o de excluído. o país passava pela transição de uma sociedade escravista para uma ordem capitalista em decorrência da constituição do mercado de trabalho industrial e urbano. Esse discurso da classe dominante estava imbuído de um racismo que apostava no branqueamento da sociedade brasileira com a entrada dos imigrantes no Brasil para trabalhar nas plantações no lugar dos escravos. precisamos contextualizar a trajetória da terminologia da pobreza que vem se modificando ao longo dos tempos. associada à idéia de ociosidade. início do século XX. muitos ex-escravos. Nessa época. ou até mesmo roubando. vagabundagem atribuindo-o a condição de “classes perigosas” e se localizava no cortiço. que vai da condição de vadio. estudou três momentos dessa trajetória. o pobre era identificado em finais do século XIX. as mulheres eram rotuladas de relaxadas. se dava um enfoque de famílias irregulares porque não conseguiam dar conta das suas crianças que ficavam perambulando pelas ruas pedindo esmolas. Isto é. Á essas famílias pobres de origem africana. Segundo Neder (2005). recém libertos. como vadio. pois se acreditava que este não teria condições humanas tais como inteligência. aptidão etc para cultivar sozinho a terra. que pariam muitos filhos e os largavam no mundo sem o devido cuidado. pois se argumentava sobre a impossibilidade de se fazer reforma agrária sem que a “massa” estivesse preparada. no Brasil. Havia uma clara divisão entre vadios (pobres) e trabalhadores. mas outros ficaram nos centros urbanos perambulando pelas ruas sem nenhuma ocupação. No século XX. Antes de conhecermos como se organizam e se estruturam as famílias pobres no seu cotidiano. Segundo Neder (2005). A pobreza era de responsabilidade individual. nos anos 90.sobrevivência e o desenvolvimento.

mas sim de determinantes externos do indivíduo que apesar do crescimento urbano. o discurso sobre a pobreza passa a ser qualificado de “exclusão social”. trabalhador assalariado. sobretudo em face da intensa imigração. dos fins dos anos 70. A partir dos anos 70. A “exclusão” é. Ninguém mais deixava de trabalhar por vontade própria. considera-se pobre todos os que não apresentam condições de suprir necessidades básicas de cunho biológico e social. pois o sistema produtivo é que era incapaz de absorver a população formando assim. que se abateu no muno inteiro reduzindo o poder aquisitivo do trabalhador. entre outros. um novo termo é introduzido para caracterizar os pobres. pobre passa a ser sinônimo de “morador de periferia”. creches. uma “população marginal” ou subempregado cuja localização na cidade era a favela. Nesse contexto. isto é. uma vez que o trabalhador e o pobre já não se encontravam mais tão distantes e opostos. Com a crise do regime militar. Nesse contexto. Nos anos 80. saneamento. a partir dos anos 60. a “periferia”. ocorre a ascensão de movimentos sociais das “periferias urbanas” que demandavam ao Estado: saúde. por tanto. a condição social da pobreza em tempos de globalização mundial e do . legalização de terrenos. favelado era sinônimo de pobre. Sob a influência de organismos internacionais. O terceiro momento da periodização de Valladares diz respeito às décadas de 70. Todos os tipos de inserção no trabalho passam a ser considerados como uma forma de trabalho tais como: trabalhador do setor informal. uma massa de marginalizados. conforme a ideologia dominante atribuía no princípio do século. qual seja: população de baixa renda. observa-se uma outra mudança. Já na década de 90. 80 e 90 com a crise do modelo de desenvolvimento adotado. a pobreza não mais resultaria da recusa do trabalhador ao mercado de trabalho. Eles passam a figurar na cena urbana como novos atores sociais que se incorporam às lutas pela redemocratização do país e pela conquista da cidadania e dos direitos sociais. como sinônimo de “carência”. até mesmo trabalhador pobre. trabalhador por conta própria.capitalista ampliou o mercado de trabalho marginalizando amplos segmentos da população. A pobreza é identificada com insuficiência de renda. Muitos trabalhadores regularmente empregados acabaram se tornando e se identificando como pobres devido à crise econômica. uma nova territorialidade da pobreza. a expansão do emprego se mostrava insuficiente para absorver essa mão-de-obra. o discurso econômico sobre a pobreza ganha novas configurações. habitação.

Outro referencial que Germano (1998) destaca é o de Takeuti (1993). a grosseria. A partir dos “excluídos”. vai caracterizar a situação de nãocidadania em que se encontram milhares de brasileiros desde a República e o Estado Novo. pobre e bandido produzindo um novo excluído passível de eliminação física pelo perigo social que representa. comenta que a discussão sobre a exclusão faz surgir algo de novo no que tange à reflexão sobre a cidadania. Kallas (1997) através de sua pesquisa. Esse imaginário tem uma relação de causa e efeito entre pobreza e violência.Vemos constantemente esse fato na mídia com as chacinas e execuções. (negrito nossos). como a pobreza vem sendo concebida pela classe dominante sem levar em consideração o mundo de significação do sujeito.sistema neoliberal que influencia a oferta de políticas sociais de caráter universais pelo Estado. complementar e segregada. com um grupo de famílias de baixa renda na favela de Vigário Geral. (. a feiúra. julgamos oportuno apresentar as contribuições de Kallas (1997) e Sarti (2007) que nos ajudam a melhor compreender a organização e a estrutura das famílias pobres. mas também é associada à sujeira. o qual passa a ser mínimo distanciando-se das questões sociais. as ONGS e OSCIPS têm acesso às agências de financiamento de projetos sociais. sejam elas internacionais ou governamentais. A sua relação familiar é predominantemente hierárquica. a responsabilidade que lhe é de dever à sociedade civil através das Organizações NãoGovernamentais (ONGs) e da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) que passam a interceder em favor dos pobres.. a violência. que descreve a pobreza como aquela que suscita compaixão e complacência. a fedor. sua realidade. isto é. a incultura. Neste sentido. 1998). sua potencialidade. Valladares (1995 apud Germano. Percebemos assim.. Nesse contexto. A segregação se dá pela separação de tarefas. observou que a família pobre se concebe como uma unidade de sobrevivência. a negligência. Essa exclusão social teria duas faces: a do fundamento sócio-econômico e a da representação que se faz sobre o excluído nas camadas socais mais favorecidas. um espaço de solidariedade e de luta em comum. pela .) e a morte (Ibidem: 52). com o tratamento que a sociedade dá aos pobres das comunidades bem como a população de rua. os “excluídos” aparecem como não-atores devido ao enfraquecimento dos movimentos sociais e do Estado ser mínimo para as questões sociais delegando assim.

rígida divisão de atividades onde ao homem cabe o papel de provedor. a crença na possibilidade de uma ação conjunta. espaços. • A força das representações associadas aos papéis de pai e mãe. distante de suas habilidades. a indiferença e raiva pelos maridos contra as mulheres. o espaço da rua e a mulher as tarefas domésticas. opressão. A dinâmica hierárquica se dá principalmente entre marido e mulher e tende a se desfazer na relação com os filhos quando estes crescem e participam da renda familiar. Outra característica importante dessas famílias. vivem de catar latas. muitos chefes de família não têm carteira assinada. O homem tem pouca participação na educação dos filhos. Com certa freqüência ocorre a violência. extensas (prole com 3. é a rede de solidariedade entre a vizinhança e os parentes. Eles têm um acesso bastante restrito ao lazer e à cultura. pois à figura do pai é investida de autoridade e respeito por terem um modelo tradicional de família. famílias nucleares (pai. . são biscateiros. linguagem e interesses. em becos. • O sentimento de solidariedade e de união. Para Kallas (1997). administração da casa e o cuidado com os filhos. que ali residem. admitem punição física e castigo como forma de educá-los. A escola pública por sua vez é pouco sensível a realidade dessas crianças e adolescentes. autoritarismo ou. papelão etc para poderem sobreviver. É muito comum nestas famílias. o forte senso de ajuda mútua. os valores estruturantes da família são: • Presença de afetividade. O perfil das famílias é de pouca escolaridade que oscila entre o analfabetismo e uma alfabetização precária. às vezes. às vezes. segundo a referida autora. diversidade da pobreza referindo-se aquele que tem ou não comida em casa. o adolescente e até mesmo crianças abandonarem a escola para entrarem no mercado de trabalho como complementação do orçamento doméstico. insuficiente para o número de pessoas dentro da casa. monoparentais (mulheres chefes de família). 5 e até mais filhos). ampliadas (que incluem netos e avós). mãe e filhos). casa sobre palafitas. Em relação aos filhos. de tábua ou de alvenaria.

Sarti (2007). e da mulher. de um outro ponto de vista. Foi nesse contexto que as ciências sociais refletiram sobre a família entre os pobres. Dentro de uma perspectiva sociológica de inspiração marxista. dentro da análise da força de trabalho feminina. Elas passaram a identificar qualquer atividade econômica como trabalho. dá ênfase a discussão do pobre através de dois paradigmas: o da produção e o da cultura. a esperança de ganhar na loto e no jogo do bicho (1997: 92). mostrando as diferentes formas de inserção de todos os seus membros no mercado de trabalho. isto é. conformistas. como se suas ações fossem ou devessem ser motivadas pelo interesse em satisfazer suas necessidades materiais.• O valor do trabalho como fonte de superioridade moral – a ética de provedor. Segundo a autora. contribuíram ao mesmo tempo para ampliar a noção de trabalhador. Segundo Sarti. Os pobres que antes eram vistos pela classe dominante como “classe perigosa” passam a ser definidos e identificados como os “trabalhadores”. Conforme abordamos em outro momento. desta monografia. vendedores da força de trabalho. foram olhados apenas em sua condição de dominados. a fé religiosa. as ciências sociais brasileira focalizaram os pobres a partir de seu lugar na produção. ambos considerados como parte da divisão social do trabalho. como unidade de reprodução da força de trabalho. a família tornou-se objeto de estudo a partir da análise de sua funcionalidade para o capital. • A prevalência de valores mais coletivos do que individuais. os pobres foram identificados como aqueles destituídos de meios materiais. Sarti comentar que: os pobres foram pensados como se sua identidade social fosse ou devesse ser constituída exclusivamente a partir de sua determinação de classe. sem distinção entre mercado formal e informal. . uma vez que eles foram definidos por essa carência básica (2007: 39). ou. os estudos sobre família. • Valores altruístas (expressos pelos jovens).

em seu desempenho como boa dona-de-casa. é considerado o chefe da família. mas a privação da satisfação de dar de comer a alguém. Para eles. Os que trabalham devem comer mais do que os outros adultos. lugar este que ele não ocuparia no mundo da rua ante suas condições de vida e trabalho. como veremos a seguir dentro do paradigma da cultura. a fome significa não apenas a brutal privação material. Ela é quem cuida de todos e zela para que tudo esteja em seu lugar. É a patroa da casa. porque ela possui também uma dimensão social e simbólica. As crianças. suas formas de organização social e seus valores. desde muito cedo têm atribuições dentro de casa. espera-se que controle o pouco dinheiro recebido pelos que trabalham na família. priorizando os gastos com a alimentação e driblando as despesas. À mulher é identificada a casa. através dos estudos de comunidade. Sarti observou em sua pesquisa.A ótica da produção também se faz presente nas pesquisas sobre a família trabalhadora não apenas como reprodução da força de trabalho. . mas também a partir de suas estratégias de sobrevivência concebendo a família como uma unidade de consumo. Oferecer comida é um valor fundamental para os pobres na medida em que a alimentação é a prioridade dos gastos familiares. num bairro da periferia de São Paulo. o da lógica da economia. Para o homem. a mulher. responsável pela respeitabilidade familiar. Ele é a autoridade moral. Não podemos classificar a pobreza a partir de um único eixo. conferindo ao homem um lugar de autoridade. entre os adultos e as crianças. a idéia de autoridade se dá como mediador da família com o mundo externo. comem mais que as mulheres. não ter o que comer. que a família pobre possui uma estrutura patriarcal dentro de uma hierarquia entre o homem e a mulher. e os homens. Foi nos anos 50 e 60 que se acumulou bastante informação etnográfica sobre os pobres. dentro das famílias pobres. É sobre o homem que recai mais fortemente o peso do fracasso de provedor por este se sentir responsável pelos rendimentos familiares. Cabe à mulher manter a unidade do grupo. A divisão complementar de autoridade corresponde à diferenciação entre casa e família. trabalhadores/provedores. é a chefe da casa e o homem a família. tomados como totalidades isoladas. que analisavam pequenos núcleos de população. Em contrapartida.

que não teriam condições de possuir e utilizar-se destes recursos. nas ruas. o trabalho dos filhos – crianças e jovens – faz parte do próprio processo de sua socialização como pobres urbanos. envolvendo um sistema de obrigações morais que por vezes dificulta a individualização e por outra viabiliza condições básicas para sua existência. . Segundo Carvalho (2005). ou a pequena comunidade rural cria vínculos e sistemas próprios que garantem os padrões de reprodução social (2005: 97). Um ou mais membros da família do trabalhador mantém laços mais próximos com as classes média e alta.. cuidando de crianças menores que elas e fora. diferente da classe média que se organiza em núcleo.. agregados de parentes e conterrâneos. estabelecida em torno de famílias em situações de discriminação e pobreza. É expressa cotidianamente através dos empréstimos para pagar conta de luz ou água (. seja como empregados domésticos. a sobrevivência cotidiana das famílias empobrecidas apresenta três tipos de solidariedade: A Rede de Solidariedade Conterrânea e Parental é. receber e retribuir constituem as regras básicas de suas relações (Sarti. Uma outra característica dessas famílias seria sua configuração como rede.ajudando nas tarefas domésticas. A Rede de Solidariedade Apadrinhada é uma forma de estabelecer o consumo e usufruto de determinados utensílios e materiais para as famílias pobres. O valor do trabalho referido à família para os pobres.) o grupo extenso. 2007: 106). O trabalho do jovem é diferenciado em relação ao da criança porque as suas obrigações estão mais próximas as dos adultos e faz parte fundamental das obrigações familiares. A rua apesar de ser um espaço da desordem. em famílias nas quais dar. geralmente. porteiros de prédios. se torna um espaço de trabalho para as crianças vendendo doces.

educação e formação profissional. Estas solidariedades e processos são vividos. coleta de lixo. normalmente. buscando a cooperação de diversos serviços. O direito à privacidade não é sequer sonhado pelos grupos familiares empobrecidos. Se pensarmos que a conceituação de negligência traz implícita a noção de fracasso no provimento de necessidades básicas. transporte. torna-se necessário refletir sobre os padrões de assistência e proteção que o Estado tem proporcionado às suas famílias. protestantes. habitação.). que cria serviços assistenciais e de defesa para a imensa demanda de justiça que esta população expressa (Ibidem: 98).jardineiros. espíritas ou pelas seitas afro-brasileiras. trabalho. Hoje encontramos famílias. remédios. Vimos através da história que o atendimento às famílias pobres por parte do governo. A Igreja se faz presente no cotidiano da vida das famílias e comunidades. A Rede de Solidariedade Missionária é estabelecida. sempre foi marcado pela repressão e violência através da retirada de seus filhos do convívio familiar. dentro das comunidades. É a instituição com maior credibilidade para esta população. etc. em especial às empobrecidas. com condições mínimas de sobrevivência numa situação de maior vulnerabilidade e que precisam ser protegidas pelo Estado através de políticas públicas. Este vínculo assegura um canal de doações de roupas. . É no mínimo hipócrita atribuir a essas famílias uma função de proteção às crianças e adolescentes sem lhes oferecer meios para isso... É preciso ter programas que atendam a família e que combinem políticas de emprego. A forma de envolvimento dessas famílias nesses programas não deve ser passiva. com contradições e conflitos próprios ao confinamento a que estão submetidos. no entanto. eletrodomésticos (2005: 97). É através dela que flui a sociedade-providência organizada. pelas igrejas católicas. no mero recebimento dos benefícios. mas sim na forma participante da responsabilidade partilhada. que exercem atividades das mais variadas de proteção social. Esse quadro se completa pela ausência de usufruto de bens e serviços mínimos à sobrevivência material (saneamento básico.

Nessa mesma década. com o fim de proporcionar-lhes o devido amparo. A filantropia surge para dar continuidade à obra da caridade. além de salvaguardar a moral pública.Durante muito tempo. levando aos seus membros além da pregação religiosa. Não seria mais com esmola. de ordem e de asseio”. era justamente o de investigar as condições em que vivem as crianças pobres. mas sob uma nova concepção de assistência. “Uma das finalidades do Instituto de Proteção e Assistência à Infância. Rizzini (1993) comenta que a família e o menor tornaram-se objeto de investigação e intervenção da assistência filantrópica muito antes do que da assistência estatal. roupas. fundada em 1901 pelo médico Moncorvo Filho. de 30. essas famílias foram vistas como desestruturadas e incapazes de criar seus filhos. procurando concentrar neste sentido os esforços de outras associações de caridade religiosas” (Estatutos do I. “indigência” e “má conduta” dos pais. p.P. A assistência caritativa. Os defensores dessa assistência acreditavam ser mais econômico socorrer às crianças nos asilos do que fazê-lo nas famílias.A... conforme já sinalizamos. como modelo a ser seguido não só pela caridade. Essas famílias pobres não tinham acesso ao agente que transmitia os novos valores morais que . instrução etc. 1903-1913. Segundo Rizzini (1993). o que nas famílias não seria possível devido à “devassidão”. era realizada através das Casas de Expostos criadas e mantidas pela Santa Casa de Misericórdia que pretendia proteger a mãe da desonra. os modelos assistenciais predominantes no Brasil até o final da década de 1930 foram o da caridade e o da filantropia. e até hoje. mas também pelo Estado. promovida pela igreja. habitação. educação. Suas finalidades são de cunho político. As crianças atendidas nas casas eram submetidas à educação moral. hábitos de “economia.I.1 apud Rizzini). especialmente a alimentação. a caridade pretendia “reconciliar o pobre com o rico” através das Senhoras da Caridade que iam visitar as famílias. mas sim a reintegração social daqueles que seriam os eternos clientes da caridade: os desajustados. econômico e moral e se aproxima com as ciências médicas e jurídicas.

A Política Nacional de Bem-Estar do Menor (PNBEM) teve suas diretrizes fixadas pelo governo . A assistência social por parte do Estado surge com a mudança do regime político do país. Por isso. tais como: nutrição da criança. fundações estaduais e órgãos nacionais. Essa assistência. fundada em 1923. alegando que estas são as mais necessitadas dos conselhos médicos. A Liga Brasileira de Higiene Mental. treinando-as no cuidado à criança em relação à boa saúde física e moral. a educação. a assistência médica. espiritual e material. Esses estudos foram realizados pelos órgãos estaduais e municipais. essencialmente preventiva. tinha como objetivo restringir as investigações da situação médica e social das famílias. doenças infantis. secretarias de promoção do menor. 1993). alcoolismo. o vestir. como o Serviço de Assistência a Menores (SAM) e a Fundação Nacional de Bem-estar do Menor (FUNABEM).era o médico de família. o dormir. Foram criadas clínicas e hospitais destinados às crianças e mulheres pobres. destaca O Instituto de Proteção e Assistência à Infância que associava os objetivos da caridade aos da ciência ao levar na visita às casas dos doentes. mas também às famílias que levavam para casa receitas médicas através dos conselhos e ensinamentos sobre puericultura. Rizzini (1993). numa realização da filantropia médica. e a distribuição de alimentos. atingia não só às crianças pobres. Havia também serviços que serviam como instrumentos de propaganda sobre a higiene infantil. Eram palestras sobre a higiene infantil com grande variedade de temas. através de “inquéritos”. educação infantil e medicina popular e doméstica. alimentação. higiene domiciliária. O período republicano passou a concentrar-se na identificação e no estudo das categorias necessitadas de proteção e reforma. A medicina justifica o seu interesse pelas famílias pobres. roupas e brinquedos e o atendimento em creches. A mulher sempre foi alvo importante da filantropia pelo seu papel de mulher-mãe como sustentáculo moral da família. como juizados de menores. Para Moncorvo Filho (1907 apud Rizzini. a estratégia que se utilizou foi através de palestras médicas para mães pobres. a higiene estabelecia regras do modo de viver com cuidados imprescindíveis sobre a habitação. A família é percebida como foco de doenças e como origem de um grande contingente de improdutivos do país.

Castelo Branco cuja tônica era a da valorização da vida familiar e da integração do menor na comunidade. principalmente nas experiências de insegurança. Da assistência às famílias dos convocados. gestantes etc e não de atendimento de proteção da família. idosos. Desde a crise econômica mundial. A primeira tende a olhar a família numa perspectiva de perda de funções. progressiva e rapidamente a LBA começa a atuar em praticamente todas as áreas de assistência social com todas as famílias. ao lado da vizinhança e dos grupos de amigos próximos. Mioto (2004) argumenta. Em contrapartida vê um Estado cada vez mais intrusivo. apesar da sua pouca visibilidade como tal. que existem duas linhas de intervenção da relação entre Estado e família no debate da contemporaneidade. eram programas voltados para as crianças. a Legião Brasileira de Assistência (LBA). A primeira grande instituição nacional de assistência social. de pertencimento na sociedade e de construção de identidade. a família vem sendo redescoberta como um importante agente privado de proteção social. 2004: 148). Identificada como um dos mais antigos e autônomos provedores informais de bem-estar. A idéia de proteção à infância era antes de tudo proteção que não privilegiava a família. Wanderley (1997 apud Mioto. A culpabilização da família pelo estado de abandono do menor não foi uma criação dessa política e sim da construção da assistência à infância no Brasil. . A segunda tem indicado que a invasão do Estado na família tem se realizado através não de uma redução de funções. a família vem sendo pensada pelos gestores das políticas públicas contemporâneas como um dos recursos privilegiados. fins dos anos 70. por isso. de uma sobrecarga de funções (2004: 48). mas. cada vez mais regulador da vida privada. atendia às famílias dos soldados que foram convocados para a Segunda Guerra Mundial. ao contrário. Esses programas de atendimento a família sempre foram focados nos seus membros. de perda de lugar na sociedade e de ameaça de pauperização trazidas pelo desemprego” (Mioto. de perda de autonomia e da própria capacidade de ação. 2004) destaca a “importância da família como lugar de busca de condições materiais de vida.

prostituição). 1993) tem como objetivo a proteção à família e esta é determinada como um dos focos de atenção da política de assistência social. A família. inserida na articulação com outras políticas sociais como: de saúde. no artigo 16 da Declaração dos Direitos Humanos. A Política Nacional de Assistência Social (PNAS) deve estar. violência doméstica. “Família. na última década. A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS. é mediadora das relações entre os sujeitos e a coletividade. isto é. Por isso. educação. emprego. a política de Assistência Social é pautada nas necessidades das famílias. proteger. base da sociedade. tem especial proteção do Estado”. cultura. promover e incluir seus membros é necessário garantir condições de sustentabilidade para tal. entre outras para que as ações não sejam fragmentadas e o acesso e à qualidade dos serviços sejam para todos os membros da família e indivíduos. continuamente os deslocamentos entre o público e o privado. A Política Nacional de Assistência Social (2004) descreve que “a família. independente dos formatos ou modelos que assume. delimitando. seus membros e dos indivíduos. fundamentalmente. habitação. atenção à família a partir da ótica da incapacidade e da falência. com cunho universalista através de redes socioassistenciais que suportem as tarefas cotidianas de cuidado e que valorizem a convivência familiar e comunitária. Os programas de apoio sociofamiliar visam atender às faces mais cruéis dos problemas relacionados à infância e à juventude (trabalho infantil. tornou-se o elemento central da intervenção das políticas de assistência social.A atuação na família está voltada para a centralização de ações em situações limite ao invés das situações cotidianas. bem como geradora de modalidades comunitárias de vida”. que traduz a família como sendo o núcleo natural e fundamental da sociedade e com direito à proteção da sociedade e do Estado e nas legislações específicas – Estatuto da Criança e do Adolescente. A importância da família no contexto da vida social está explícito no artigo 226 da Constituição Federal do Brasil (1988). Essa centralidade da família pressupõe que para a família prevenir. . esporte. Estatuto do Idoso e na Lei Orgânica da Assistência Social. Aos poucos esses programas têm se voltado para as dificuldades cotidianas das famílias na perspectiva de dar-lhes sustentabilidade.

cumprimento de medidas sócio-educativas. precária ou nulo acesso aos serviços públicos. e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. de gênero ou por deficiências. uso de substância psicoativas. Programa de inclusão produtiva e projetos de enfrentamento da pobreza. Esses serviços têm estreita interface com o sistema de garantia de direito exigindo uma gestão . Centros de Convivência para Idosos. Programas de incentivo ao protagonismo juvenil e de fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. Destina-se à população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente da pobreza. Proteção Social Especial é a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social. ou. psíquicos. Os serviços dessa proteção são executados de forma direta nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) cujos serviços são de fortalecimento dos vínculos internos e externos de solidariedade. Nesse equipamento são executados os seguintes programas: • • • • • Programa de Atenção Integral às Famílias. maus tratos físicos e. étnicas. ou. dentre outras) (PNAS. situação de trabalho infantil. situação de rua.Essa política possui três níveis de proteção à família: Proteção Social Básica tem como objetivo prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições. voltado para jovens e adultos. 2004:27). entre outras (Ibidem: 31). abuso sexual. dentre outros) e. Serviços socioeducativos para crianças. por ocorrência de abandono. • Centros de informação e de educação para o trabalho. adolescentes e jovens. fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias. privação (ausência de renda.

República. higienização e trabalho protegido para famílias e indivíduos que se encontram sem referência e. Proteção Social Especial de Média Complexidade oferece atendimento às famílias e indivíduos com seus direitos violados. mas cujos vínculos família e comunitário não foram rompidos e é também dividida em Alta Complexidade. A Proteção Social Especial pode ser de Média e Alta Complexidade. Casa de Passagem. Seus serviços são: Serviço de orientação e apoio sociofamiliar. Programa de Combate à exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. • • • • • • Tais como: Atendimento Integral Institucional. Ministério Público e outros órgãos e ações do Executivo. Serviço de habilitação e Reabilitação na comunidade das pessoas com deficiência. Plantão Social. em situação de ameaça.mais complexa e compartilhada com o Poder Judiciário. • • • • . Casa Lar. comunitário (Ibidem: 32). São executados os seguintes programas: • • Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PET). Medidas socioeducativas em meio-aberto (Prestação de Serviços à Comunidade – PSC e Liberdade Assistida – LA). Cuidado no Domicílio. ou. Abordagem de Rua. ou. necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e. alimentação. Proteção Social Especial de Alta Complexidade os serviços de proteção social são aqueles que garantem proteção integral – moradia.

Os CRAS são conhecidos como as Casas das Famílias que oferecem apoio pedagógico e psicológico para superação dos problemas familiares. Trabalho protegido. criando espaços de qualificação profissional e humana e também desenvolvem projetos de criação de trabalho e renda articulados com o Bolsa Família. um grande avanço nas políticas públicas de enfrentamento da violação dos direitos tanto da criança e do adolescente quanto da família. temos o Programa de Atenção Integral à Família (PAIF) que é um serviço dirigido para toda família: crianças. adultos.• • • • Albergue. • O atendimento desses programas e serviços de média complexidade e alta são efetivados no Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) que visam a orientação e o convívio sociofamiliar e comunitário. para que as famílias não cheguem até outro nível de proteção.. Dentro da proteção básica de prevenção. do Plano de Convivência Familiar e Comunitária que prevê um conjunto de ações a serem desenvolvidas na esfera dos três governos. Família Acolhedora. Família Substituta. Viver em família e na comunidade é um direito assegurado pela Constituição brasileira e pelo E. Mas . jovens.C. tanto na família de origem como na sua comunidade ou em família substituta em caso de violação dos direitos das crianças e do adolescente quando já se esgotou todos os recursos para o não abrigamento. idoso e deficientes vulneráveis em função de pobreza e de outros fatores de risco e/ou exclusão social. adolescentes. Há que se ressaltar a aprovação em dezembro de 2006. Esse plano de convivência familiar e comunitária possibilita criança em permanecer no meio a que pertence. internação provisória e sentenciada). Ele apresenta recomendações de ampliação de política de apoio à família e o aprimoramento de medidas de proteção e de adoção. Medidas socioeducativas restritivas e privativas de liberdade (semiliberdade. Podemos perceber dentro do contexto histórico da criança e do adolescente em relação à proteção a família ao longo dos tempos.A.

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