Família Brasileira no contexto histórico e cultural
Elizabeth carvalho dias cayres

Para se refletir sobre a formação da família brasileira hoje, faz-se necessário entender os aspectos históricos e culturais que têm marcado a sua formação social. O aspecto mais importante a destacar é sua formação multiétnica e pluricultural. A imensa extensão territorial brasileira, colonizada por povos de diferentes etnias, determinou o aparecimento de uma grande diversidade de culturas, e conseqüentemente de famílias, em nosso território. Contudo, a cada período da história, ocorre um modelo hegemônico de família sobre as outras como veremos a seguir. Segundo Bruschini (2000), nos primeiros séculos de colonização temos como modelo dominante de organização a família tradicional, patriarcal, extensa, rural que resultou da adaptação do modelo de família trazido pelos portugueses ao modelo sócio-econômico em vigor no país. Este estilo de família impôs seu domínio na Colônia, subjugando os indígenas e, mais tarde, com a importação dos escravos negros, os portugueses foram destruindo formas familiares próprias desses grupos que aqui chegavam. O “pater famílias”, chefe da família, concentrava as funções militantes, empresariais e afetivas. Com uma distribuição extremamente rígida e hierárquica de papéis, a família patriarcal caracteriza-se também pelo controle da sexualidade feminina e regulamentação da procriação, para fins de herança e sucessão. A sexualidade masculina se exercia, no entanto, livremente. Os casamentos eram realizados por conveniência, entre parentes ou entre membros de grupos econômicos que desejavam estabelecer alianças. Como a atração sexual ou outras razões de ordem afetiva estivessem alheias a esse contrato, considerava-se legítimo que os homens buscassem satisfação sexual e emocional fora da órbita legal do matrimônio, mantendo concubinas, com as quais tinham filhos ilegítimos.

A família patriarcal era um extenso grupo composto pelo núcleo conjugal e sua prole legítima, ao qual se incorporavam parentes, afilhados, agregados, escravos e até mesmo concubinas e bastardos, todos abrigados sob o mesmo teto, na casa grande ou na senzala. Essa característica senhorial foi observada também pelas famílias não proprietárias, das camadas intermediárias – comerciantes, funcionários públicos, militares e profissionais liberais (Ibidem, 2000). A família patriarcal era uma forma dominante de constituição social e política e tinha no seu poder, o controle dos recursos da sociedade. A partir da segunda metade do século XIX, com o início do processo de industrialização, opera-se uma mudança na família e o modelo patriarcal, vigente até então, passa a ser questionado. Começa a se desenvolver a família conjugal moderna, na qual o casamento se dá por escolha dos parceiros, com base no amor romântico, tendo como perspectiva a superação da dicotomia entre amor e sexo e novas atribuições para os papéis do homem e da mulher no casamento. Modernizaram-se as concepções sobre o lugar da mulher nos alicerces da moral familiar e social. A nova mulher, “moderna”, deveria ser educada para desempenhar o papel de mãe, educadora – dos filhos, e de suporte do homem para que este pudesse enfrentar a labuta do trabalho fora de casa. A “boa esposa” e “boa mãe” deveria ser prendada e deveria ir à escola, aprender a ler e escrever para bem desempenhar sua missão como educadora. Essa família apresentava-se como uma família nuclear, reduzida ao pai, mãe e filhos, organizada hierarquicamente em torno de uma rígida divisão sexual de papéis, onde o homem era responsável pelo sustento da família e a esposa pela educação dos filhos e cuidados do lar. Esse novo modelo de família institui novos padrões de educação dos filhos, e atribui alto valor à privacidade e intimidade nas relações entre pais e filhos. A domesticidade, o amor romântico e o amor materno tornaram-se suas pedras angulares. A existência de traços da família patriarcal na família conjugal moderna persistem até o século XX, fundamentada inclusive na legislação, pois, no Brasil, somente na Constituição de 1988 a mulher e o homem são assumidos com igualdade no que diz respeito aos direitos e deveres na sociedade conjugal. Esse processo de modernização se realiza de forma não-linear, não existindo propriamente a superação de um “modelo” pelo outro. Alguns pesquisadores do campo da família, entre eles

mãe. em contraposição aos anos 60. Isto significa que as mulheres passam menos tempo de sua vida em função da reprodução e têm mais tempo para se dedicar a outras atividades (trabalho. filhos). Este aspecto tem como conseqüência o fato de a co-habitação não ser mais considerado como sinal de pobreza. com base na análise da Pesquisa Nacional por Amostras de DomicílioIBGE (PNAD). Este dado indica queda acentuada da taxa de fecundidade das mulheres brasileiras. dependendo da camada social a que pertence a família. entendem que os “modelos” patriarcal e conjugal permanecem existindo como tais até os dias atuais. Na contemporaneidade. 3) Aumento da concepção em idade precoce. a ser concebidos como parte de um projeto em que a individualidade conta decisivamente e adquire cada vez mais importância social. a família dos anos 90 tem uma configuração marcada pelas seguintes características populacionais: 1) Número reduzido de filhos.3 filhos. o amor. 5) Predomínio das famílias nucleares (pai. relação conjugal). antes vividos a partir de papéis preestabelecidos. passam. Assim. E. Embora se registre uma . É a partir dos anos 90 que a família brasileira apresenta mudanças significativas em todos os seguimentos da população. Segundo Mioto (1997). havendo a predominância de um ou de outro. o casamento. Isto implica o aumento da gravidez entre adolescentes. A família brasileira entra nos anos 90 com uma média de 2. cuja média era de 6. as mudanças ocorridas na família relacionam-se com a perda do sentido da tradição.podem ser citados Sarti (2003) e Mioto (1997). 4) Aumento da co-habitação e da união consensual. a família. houve um avanço da união legal (aumento do número de casamentos civis) em contraposição à união religiosa (queda do número de casamentos religiosos). a sexualidade e o trabalho. Vivemos numa sociedade onde a tradição vem sendo abandonada como em nenhuma outra época da história.5 filhos. 2) Concentração da vida reprodutiva das mulheres nas idades mais jovens (até trinta anos). paralelamente ao aumento das uniões consensuais.

e a população acima de sessenta anos passou a ser de 7. a partir dos anos 80. 8) População proporcionalmente mais velha.queda desse tipo de organização familiar (em 1981. com predominância das mulheres como chefes da casa. também abalou os alicerces familiares. seja fertilizações in vitro – dissociaram a gravidez da relação sexual entre homem e mulher. em 1981 registrou-se 16. 6) Aumento significado das famílias monoparentais. Este fato é conseqüência do aumento das separações e dos divórcios nos últimos anos. Mais tarde. Em termos de dados. (Strathern. Essas mudanças têm sido compreendidas como decorrentes de uma multiplicidade de aspectos. como aquela que separou a sexualidade da reprodução e interferiu decisivamente na sexualidade feminina. 2007). Sarti (2007). Outro fator importante foi o modelo de desenvolvimento econômico adotado pelo Estado . que foi difundida a partir da década de 1960. aliado a essa expansão. 81% das famílias eram nucleares. as famílias nucleares ainda são predominantes ao contexto brasileiro.8 anos. Esse fato criou condições para que a mulher deixasse de ter sua vida e sua sexualidade atadas à maternidade como um “destino” e com isso. recriou o mundo subjetivo feminino e. as novas tecnologias reprodutivas – seja inseminações artificiais. Isto significa um aumento de encargos da família relacionado ao cuidado com idosos. as quais novamente afetaram a identificação da família com o mundo natural. O crescimento da população idosa está condicionada ao aumento da expectativa de vida média da população.2% tinham mais de sessenta anos. 1955 apud Sarti. 7) Aumento das famílias recompostas. Isso provoca “mudanças substantivas”. A média de identidade da população brasileira em 1950 era de 18. referencia a pílula anticoncepcional.8%. ampliou as possibilidades de atuação da mulher no mundo social.5%).8 anos e apenas 4. 9) Aumento de pessoas que vivem sós (1977: 118-119).8%. em 1989 essa porcentagem caiu para 79. Em 1991 a idade média ficou em 24. pois até pouco tempo atrás o homem era o provedor e à mulher cabia quase que exclusivamente o cuidado dos filhos e da casa. A saída da mulher do mundo privado para o público através do trabalho remunerado. que fundamenta a idéia de família e parentesco do mundo ocidental judaicocristão.

torna-se impossível formular uma conceituação única sobre família por ser esta uma instituição cultural e historicamente condicionada. precisamos do auxílio de outras ciências. 6) famílias monoparentais. 4) famílias adotivas.brasileiro. não existe a família regular. 5) casais. função e estrutura para que a nossa intervenção com a família não seja analisada a partir do nosso conceito próprio de família e de enfatizar as relações parentais a partir da consangüinidade como veremos a seguir. 7) casais homossexuais com ou sem crianças. um modelo padrão de organização familiar e por isso. nos seus vários arranjos familiares. 3) famílias adotivas temporárias (Foster). Por esta razão é que se faz necessário entender a família através do seu conceito. a migração agravada do campo para a cidade e a entrada de um contingente muito grande de mulheres e crianças no mercado de trabalho. não existe historicamente e culturalmente. na breve contextualização histórica e cultural da família brasileira. 9) várias pessoas vivendo juntas. chefiadas por pai ou mãe. que teve como conseqüência o empobrecimento acelerado das famílias na década de 80. mas com forte compromisso mútuo (2002: 10). Portanto. Por isso. a fim de . Precisamos pensar as famílias hoje de forma plural. incluindo duas gerações. incluindo três ou quadro gerações. destaca Kaslow (2001) por citar nove tipos de composição familiar que podem ser consideradas “família”: 1) família nuclear. religiosos e ideológicos. 8) famílias reconstituídas depois do divórcio. A vida familiar faz parte do mundo real ou simbólico de todas as pessoas e esta é marcada fortemente por valores morais. dentre vários autores que estudaram sobre os grupos familiares. Szymanski (2002). como se pode observar. Como vimos. que podem ser bi-raciais ou multiculturais. ocorridas com a família na contemporaneidade tiveram profundas implicações na configuração familiar originando vários modelos de família. 2) famílias extensas. Essas mudanças. com filhos biológicos. sem laços legais.

o fundamento da família não está na natureza biológica do homem. mas na sua natureza social. 1997) chegou à tese de que a família surgiu no imbricamento entre a natureza e a cultura. e a relação de afinidade que se dá através do casamento. que se deu o passo decisivo para a desnaturalização da família ao retirar da família biológica o foco principal e voltar sua atenção para o sistema de parentesco como um todo”. Sua conseqüência é garantir a vitalidade dos grupos humanos. no direito brasileiro. as famílias se constituem . foi através de Lévi-Strauss “com as estruturas elementares do parentesco. O termo “família” é derivado do latim “famulus”. e pais e filhos. Este termo foi criado na Roma Antiga para designar um novo organismo social que surgiu entre as tribos latinas. No direito romano clássico a “família natural” é baseada no casamento e no vínculo de sangue e o seu agrupamento constituído apenas dos cônjuges e de seus filhos. o termo família tem designado instituições e agrupamentos sociais bastantes diferentes. entre os cônjuges. do ponto de vista de suas funções e estrutura. entre si. A partir desse estudo. o laço de parentesco foi instituído como um fato social e não natural e com isso a família entra definitivamente no terreno da cultura. pois não existem conceituações certas ou erradas se considerarmos que a família é o “lócus” da subjetividade. ao serem introduzidas à agricultura e também escravidão legalizada. Essa tese permitiu afirmar a supremacia da regra cultural da afinidade sobre a regra natural da consangüinidade. O parentesco é uma estrutura formal que resulta da combinação de três tipos de relações básicas: a relação de consangüinidade entre irmãos. excluindo a possibilidade de ser a família biológica um sistema fechado de relações. a relação de descendência entre pai e filho e mãe e filho. com poder de vida e morte sobre todos eles. Esse novo organismo caracterizava-se pela presença de um chefe que mantinha sob seu poder a mulher. com a invenção do tabu do incesto. Desde então. A proibição do incesto está diretamente ligada a origem das regras do casamento que está calcado num sistema geral de trocas ao qual se denomina exogamia.obtermos uma leitura mais enriquecedora. Foi por meio do estudo das estruturas elementares do parentesco que Lévy-Strauss (1976 apud Mioto. Esse conceito teve bastante influência da Igreja Católica através do direito canônico. até bem pouco tempo. Essa família tem como base o casamento e as relações jurídicas dele resultantes. os filhos e um certo número de escravos. que significa “escravo doméstico”. Segundo Sarti (2003:41). Pois para ele.

responsável. Bruschini (2000). Para Draibe (2005 apud Carvalho. principalmente. ao longo dos tempos. Nesta perspectiva. na aristocracia dos séculos XVI e XVII não havia separação rigorosa entre . Ela é percebida por esta corrente como um centro de vida coletivo e de liberdade. a diversidade de arranjos familiares existentes hoje na sociedade brasileira nos leva a definir a família como um núcleo de pessoas que convivem em determinado lugar. vai nos mostrar que. as funções da família regem-se por dois objetivos. independente das variantes de desenhos e formatações da atualidade. como a acomodação a uma cultura e sua transmissão. Ela tem como tarefa primordial o cuidado e a proteção de seus membros. As tensões e os conflitos são enormes dentro do grupo. sendo um de nível interno. durante um lapso de tempo mais ou menos longo e que se acham unidas (ou não) por laços consangüíneos. A família passa a ser definida como a unidade social na qual se realiza a reprodução do trabalhador. Ela consiste em um aglomerado de pessoas relacionadas entre si pelo sangue. e se encontra dialeticamente articulada com a estrutura social na qual está inserida. vivendo juntas. a família é um grupo aparentado. a família é uma instituição social que. O interesse pela família pelas correntes marxistas. em uma mesma casa por um período de tempo indefinido. e o outro de nível externo. Mas a família é também o núcleo dentro do qual as pessoas obtêm seu prazer.como aliança entre grupos. se constitui num canal de iniciação e aprendizado dos fatos e das relações sociais. As famílias como agregações sociais. Ela é considerada uma unidade social básica e universal por ser encontrada em todas as sociedades humanas. para a sociologia. surgiu na segunda metade da década de 70 quando começaram a se preocupar com a inexistência de uma teoria da população. Segundo Ariès (1981). Segundo Mioto (1997). mesmo porque as necessidades e aspirações devem ser consideradas com rendimentos precários. via alimentação. como resposta às necessidades da sociedade pertencente. em geral. ainda que dentro de poucos recursos. Esses estudos surgem com base nas estratégias de sobrevivência das camadas populares e na reprodução do trabalhador. sexualidade e lazer. bem como em uma unidade de renda e consumo. pela socialização de suas crianças e pela satisfação de necessidades básicas. aliança ou adoção. de uma forma ou de outra. assumem ou renunciam funções de proteção e socialização dos seus membros. casamento. como a proteção psicossocial dos membros. 2005).

os filhos. É necessário um grande número de filhos e outros parentes disponíveis para trabalhar na produção de bens e consumos. as mulheres. pois as famílias viviam nas ruas. mulheres e crianças trabalhavam juntos tanto na casa quanto no campo e a unidade familiar era antes de tudo uma unidade com uma função econômica que consistia na produção de bens e serviços necessários para o seu sustento. quer sejam financeiro. estabelecem novos laços sociais e constituem uma nova família que terá menos influência do grupo consangüíneo. à conservação dos bens. a ajuda mútua e a proteção da honra e da vida em caso de crise. nas empresas. alguns membros da família. Nesses locais. de outro a unidade de produção. Segundo Bruschini (2000). No período pré-industrial. Uma das funções importantes dessa família extensa é o auxílio aos seus membros para a solução de seus problemas. . À mulher coube a reprodução da força de trabalho na esfera privada do lar e sem remuneração. sua localização dependerá em grande medida de onde estudará e onde trabalhará. foi substituída pelas organizações formais que realizam empréstimos. exercida pelos grupos de parentes. homens. os avós. enquanto ao homem coube o trabalho produtivo extralar. não podem permanecer durante toda a vida morando próximo a seus parentes. atendem os doentes e fornecem todo tipo de assistência. Com a revolução industrial do século XIX e a industrialização. a prática de um ofício. Nas sociedades urbanas. essa ruptura entre local de produção e local de reprodução trazida pelo capitalismo reduz a função econômica da família à produção de valores de uso ou prestação de serviços domésticos. através do trabalho doméstico. os netos etc. A família não tinha a função afetiva e socializadora.o público e o privado. ocorre uma mudança na função econômica da família que provocou o surgimento de duas esferas distintas: de um lado a unidade doméstica. Com a urbanização. Os membros das famílias tinham deveres claramente definidos. nas fábricas. pelo qual passou a receber uma remuneração. de saúde ou de amparo psicológico. nas festas. não se isolavam. Esses parentes habitam o mesmo teto ou ficam bastante próximos uns dos outros de um modo geral. determinados em função de sua idade e posição no grupo familiar e de seu sexo. essa função. já que a produção de bens propriamente dita passa a ser feita no mercado. mas era constituída visando apenas à transmissão da vida.

aos cuidados que a família dispensa aos seus membros tanto nas situações do dia-a-dia quanto nas situações que exigem um maior cuidado (doenças. Independentemente do arranjo familiar ou da forma como vem sendo estruturada é na família que ocorre a proteção integral dos filhos e demais membros garantindo-lhes a .A função da família hoje.). ressalta: A estrutura familiar não é um determinante da forma como se dá a solicitude. Portanto. O que conta. nesse caso. podemos entender a família como espaço privilegiado de socialização através da tolerância. ou do modo das pessoas cuidarem de sua relação numa família. da afetividade e de um lugar de igualdade onde todos buscam o bem comum. é de uma unidade de renda e de consumo. idéias. a família é também uma soma de rendimentos. econômica e psicológica de seus membros. Uma outra função da família que vem sendo contextualizada é a que diz respeito a assistência aos seus membros. Ela não produz mais o que o grupo precisa para sobreviver. do respeito mútuo. da busca coletiva de meios para sobrevivência. a classe social de pertencimento. também. com entradas em dinheiro e saídas em gastos. valores. padrões de comportamento dependendo do status social da família. na sociedade capitalista. Szymanski (2000). a cultura familiar e sua organização significativa do mundo (Ibidem: 17). a família é basicamente responsável pela proteção física. a família atua também como agência de transmissão da ideologia através de hábitos. Em todas as sociedades. A família passa então a ser um grupo que compartilha um orçamento. A função socializadora (educativa) dentro da família é a mais importante porque prepara a criança para o seu ingresso na sociedade com a transmissão da herança social e cultural por intermédio da educação dos filhos. mas compra no mercado o necessário para cada um dos seus membros. Duas famílias com a mesma composição podem apresentar modos de relacionamento completamente diferentes. da divisão de responsabilidades entre seus membros. costumes. E este cuidado se processa num continum que vai da infância até a velhice. Diz respeito. por ex. Nesse sentido. são suas histórias. Ao exercer ação socializadora.

no Brasil. ou até mesmo roubando. o país passava pela transição de uma sociedade escravista para uma ordem capitalista em decorrência da constituição do mercado de trabalho industrial e urbano. Essa preparação deveria vir do senhor do ex-escravo. pois se argumentava sobre a impossibilidade de se fazer reforma agrária sem que a “massa” estivesse preparada.sobrevivência e o desenvolvimento. pois não estava preparado para tal. muitos ex-escravos. A pobreza era de responsabilidade individual. a essa massa de ex-escravos foi vedada à propriedade da terra. nos anos 50 e 60 quando o processo de urbanização do desenvolvimento . Á essas famílias pobres de origem africana. Com o fim da escravidão. que vai da condição de vadio. o pobre era identificado em finais do século XIX. se dava um enfoque de famílias irregulares porque não conseguiam dar conta das suas crianças que ficavam perambulando pelas ruas pedindo esmolas. Havia uma clara divisão entre vadios (pobres) e trabalhadores. Segundo Neder (2005). precisamos contextualizar a trajetória da terminologia da pobreza que vem se modificando ao longo dos tempos. Isto é. foram reconstruir suas vidas nos Quilombos. na virada do século. Segundo Neder (2005). nos anos 90. aptidão etc para cultivar sozinho a terra. as mulheres eram rotuladas de relaxadas. de forte conotação moral. 1998). descuidadas. Antes de conhecermos como se organizam e se estruturam as famílias pobres no seu cotidiano. estudou três momentos dessa trajetória. para o de excluído. ao negro só cabia o trabalho escravo e na condição de proprietário da terra este não saberia lidar com ela. início do século XX. Valladares (1995 apud Germano. mas outros ficaram nos centros urbanos perambulando pelas ruas sem nenhuma ocupação. Esse discurso da classe dominante estava imbuído de um racismo que apostava no branqueamento da sociedade brasileira com a entrada dos imigrantes no Brasil para trabalhar nas plantações no lugar dos escravos. associada à idéia de ociosidade. recém libertos. pois se acreditava que este não teria condições humanas tais como inteligência. que pariam muitos filhos e os largavam no mundo sem o devido cuidado. No primeiro momento. como alguém que se recusava a vender a sua força de trabalho no mercado capitalista. No século XX. vagabundagem atribuindo-o a condição de “classes perigosas” e se localizava no cortiço. Nessa época. como vadio.

A pobreza é identificada com insuficiência de renda. legalização de terrenos. a condição social da pobreza em tempos de globalização mundial e do . Com a crise do regime militar. Nesse contexto. conforme a ideologia dominante atribuía no princípio do século. Nesse contexto. uma massa de marginalizados. a partir dos anos 60. Todos os tipos de inserção no trabalho passam a ser considerados como uma forma de trabalho tais como: trabalhador do setor informal. o discurso sobre a pobreza passa a ser qualificado de “exclusão social”. a expansão do emprego se mostrava insuficiente para absorver essa mão-de-obra. favelado era sinônimo de pobre. observa-se uma outra mudança. 80 e 90 com a crise do modelo de desenvolvimento adotado. uma vez que o trabalhador e o pobre já não se encontravam mais tão distantes e opostos. um novo termo é introduzido para caracterizar os pobres. Nos anos 80. considera-se pobre todos os que não apresentam condições de suprir necessidades básicas de cunho biológico e social. entre outros. saneamento. o discurso econômico sobre a pobreza ganha novas configurações. creches.capitalista ampliou o mercado de trabalho marginalizando amplos segmentos da população. a pobreza não mais resultaria da recusa do trabalhador ao mercado de trabalho. pobre passa a ser sinônimo de “morador de periferia”. como sinônimo de “carência”. sobretudo em face da intensa imigração. Ninguém mais deixava de trabalhar por vontade própria. mas sim de determinantes externos do indivíduo que apesar do crescimento urbano. por tanto. Já na década de 90. habitação. que se abateu no muno inteiro reduzindo o poder aquisitivo do trabalhador. trabalhador assalariado. a “periferia”. trabalhador por conta própria. A partir dos anos 70. ocorre a ascensão de movimentos sociais das “periferias urbanas” que demandavam ao Estado: saúde. uma “população marginal” ou subempregado cuja localização na cidade era a favela. Muitos trabalhadores regularmente empregados acabaram se tornando e se identificando como pobres devido à crise econômica. A “exclusão” é. uma nova territorialidade da pobreza. Eles passam a figurar na cena urbana como novos atores sociais que se incorporam às lutas pela redemocratização do país e pela conquista da cidadania e dos direitos sociais. O terceiro momento da periodização de Valladares diz respeito às décadas de 70. pois o sistema produtivo é que era incapaz de absorver a população formando assim. qual seja: população de baixa renda. Sob a influência de organismos internacionais. dos fins dos anos 70. isto é. até mesmo trabalhador pobre.

comenta que a discussão sobre a exclusão faz surgir algo de novo no que tange à reflexão sobre a cidadania. Essa exclusão social teria duas faces: a do fundamento sócio-econômico e a da representação que se faz sobre o excluído nas camadas socais mais favorecidas. pobre e bandido produzindo um novo excluído passível de eliminação física pelo perigo social que representa. 1998). a fedor. Valladares (1995 apud Germano.. complementar e segregada. Percebemos assim. Neste sentido. sejam elas internacionais ou governamentais. a grosseria. Esse imaginário tem uma relação de causa e efeito entre pobreza e violência. os “excluídos” aparecem como não-atores devido ao enfraquecimento dos movimentos sociais e do Estado ser mínimo para as questões sociais delegando assim. julgamos oportuno apresentar as contribuições de Kallas (1997) e Sarti (2007) que nos ajudam a melhor compreender a organização e a estrutura das famílias pobres. a violência. as ONGS e OSCIPS têm acesso às agências de financiamento de projetos sociais. (. mas também é associada à sujeira. A partir dos “excluídos”. A sua relação familiar é predominantemente hierárquica. a responsabilidade que lhe é de dever à sociedade civil através das Organizações NãoGovernamentais (ONGs) e da Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) que passam a interceder em favor dos pobres. Nesse contexto. sua realidade. como a pobreza vem sendo concebida pela classe dominante sem levar em consideração o mundo de significação do sujeito. Kallas (1997) através de sua pesquisa. Outro referencial que Germano (1998) destaca é o de Takeuti (1993). vai caracterizar a situação de nãocidadania em que se encontram milhares de brasileiros desde a República e o Estado Novo. com o tratamento que a sociedade dá aos pobres das comunidades bem como a população de rua. observou que a família pobre se concebe como uma unidade de sobrevivência.) e a morte (Ibidem: 52).Vemos constantemente esse fato na mídia com as chacinas e execuções. o qual passa a ser mínimo distanciando-se das questões sociais. a feiúra. A segregação se dá pela separação de tarefas. (negrito nossos).sistema neoliberal que influencia a oferta de políticas sociais de caráter universais pelo Estado.. a negligência. sua potencialidade. isto é. que descreve a pobreza como aquela que suscita compaixão e complacência. a incultura. com um grupo de famílias de baixa renda na favela de Vigário Geral. um espaço de solidariedade e de luta em comum. pela .

em becos. administração da casa e o cuidado com os filhos. são biscateiros. o espaço da rua e a mulher as tarefas domésticas. espaços. vivem de catar latas. às vezes. A dinâmica hierárquica se dá principalmente entre marido e mulher e tende a se desfazer na relação com os filhos quando estes crescem e participam da renda familiar. O homem tem pouca participação na educação dos filhos. diversidade da pobreza referindo-se aquele que tem ou não comida em casa. casa sobre palafitas. Eles têm um acesso bastante restrito ao lazer e à cultura. Em relação aos filhos. de tábua ou de alvenaria. • O sentimento de solidariedade e de união. papelão etc para poderem sobreviver. famílias nucleares (pai. que ali residem. pois à figura do pai é investida de autoridade e respeito por terem um modelo tradicional de família. a crença na possibilidade de uma ação conjunta. é a rede de solidariedade entre a vizinhança e os parentes. Para Kallas (1997). ampliadas (que incluem netos e avós). a indiferença e raiva pelos maridos contra as mulheres. às vezes. insuficiente para o número de pessoas dentro da casa. segundo a referida autora. extensas (prole com 3. opressão. .rígida divisão de atividades onde ao homem cabe o papel de provedor. admitem punição física e castigo como forma de educá-los. • A força das representações associadas aos papéis de pai e mãe. Outra característica importante dessas famílias. muitos chefes de família não têm carteira assinada. É muito comum nestas famílias. os valores estruturantes da família são: • Presença de afetividade. A escola pública por sua vez é pouco sensível a realidade dessas crianças e adolescentes. Com certa freqüência ocorre a violência. o forte senso de ajuda mútua. distante de suas habilidades. O perfil das famílias é de pouca escolaridade que oscila entre o analfabetismo e uma alfabetização precária. o adolescente e até mesmo crianças abandonarem a escola para entrarem no mercado de trabalho como complementação do orçamento doméstico. 5 e até mais filhos). monoparentais (mulheres chefes de família). autoritarismo ou. linguagem e interesses. mãe e filhos).

Sarti comentar que: os pobres foram pensados como se sua identidade social fosse ou devesse ser constituída exclusivamente a partir de sua determinação de classe. mostrando as diferentes formas de inserção de todos os seus membros no mercado de trabalho. conformistas. a fé religiosa. a família tornou-se objeto de estudo a partir da análise de sua funcionalidade para o capital. Sarti (2007). Conforme abordamos em outro momento. Segundo a autora. Dentro de uma perspectiva sociológica de inspiração marxista. dá ênfase a discussão do pobre através de dois paradigmas: o da produção e o da cultura. como unidade de reprodução da força de trabalho. contribuíram ao mesmo tempo para ampliar a noção de trabalhador. ou. • A prevalência de valores mais coletivos do que individuais. . de um outro ponto de vista. os estudos sobre família. desta monografia. foram olhados apenas em sua condição de dominados.• O valor do trabalho como fonte de superioridade moral – a ética de provedor. as ciências sociais brasileira focalizaram os pobres a partir de seu lugar na produção. Segundo Sarti. a esperança de ganhar na loto e no jogo do bicho (1997: 92). sem distinção entre mercado formal e informal. • Valores altruístas (expressos pelos jovens). Foi nesse contexto que as ciências sociais refletiram sobre a família entre os pobres. como se suas ações fossem ou devessem ser motivadas pelo interesse em satisfazer suas necessidades materiais. os pobres foram identificados como aqueles destituídos de meios materiais. Elas passaram a identificar qualquer atividade econômica como trabalho. uma vez que eles foram definidos por essa carência básica (2007: 39). ambos considerados como parte da divisão social do trabalho. vendedores da força de trabalho. e da mulher. Os pobres que antes eram vistos pela classe dominante como “classe perigosa” passam a ser definidos e identificados como os “trabalhadores”. isto é. dentro da análise da força de trabalho feminina.

a mulher. É sobre o homem que recai mais fortemente o peso do fracasso de provedor por este se sentir responsável pelos rendimentos familiares. comem mais que as mulheres. é a chefe da casa e o homem a família. que analisavam pequenos núcleos de população. que a família pobre possui uma estrutura patriarcal dentro de uma hierarquia entre o homem e a mulher. Sarti observou em sua pesquisa. não ter o que comer. trabalhadores/provedores. através dos estudos de comunidade. espera-se que controle o pouco dinheiro recebido pelos que trabalham na família. priorizando os gastos com a alimentação e driblando as despesas. Ela é quem cuida de todos e zela para que tudo esteja em seu lugar. desde muito cedo têm atribuições dentro de casa. Ele é a autoridade moral. Cabe à mulher manter a unidade do grupo. tomados como totalidades isoladas. Para o homem. A divisão complementar de autoridade corresponde à diferenciação entre casa e família. À mulher é identificada a casa. . conferindo ao homem um lugar de autoridade. responsável pela respeitabilidade familiar. a idéia de autoridade se dá como mediador da família com o mundo externo. As crianças. Oferecer comida é um valor fundamental para os pobres na medida em que a alimentação é a prioridade dos gastos familiares. Para eles. É a patroa da casa. lugar este que ele não ocuparia no mundo da rua ante suas condições de vida e trabalho. num bairro da periferia de São Paulo. o da lógica da economia.A ótica da produção também se faz presente nas pesquisas sobre a família trabalhadora não apenas como reprodução da força de trabalho. Foi nos anos 50 e 60 que se acumulou bastante informação etnográfica sobre os pobres. mas a privação da satisfação de dar de comer a alguém. Em contrapartida. entre os adultos e as crianças. a fome significa não apenas a brutal privação material. dentro das famílias pobres. mas também a partir de suas estratégias de sobrevivência concebendo a família como uma unidade de consumo. em seu desempenho como boa dona-de-casa. porque ela possui também uma dimensão social e simbólica. suas formas de organização social e seus valores. é considerado o chefe da família. como veremos a seguir dentro do paradigma da cultura. e os homens. Os que trabalham devem comer mais do que os outros adultos. Não podemos classificar a pobreza a partir de um único eixo.

. A rua apesar de ser um espaço da desordem. o trabalho dos filhos – crianças e jovens – faz parte do próprio processo de sua socialização como pobres urbanos. receber e retribuir constituem as regras básicas de suas relações (Sarti. É expressa cotidianamente através dos empréstimos para pagar conta de luz ou água (. O trabalho do jovem é diferenciado em relação ao da criança porque as suas obrigações estão mais próximas as dos adultos e faz parte fundamental das obrigações familiares. O valor do trabalho referido à família para os pobres. se torna um espaço de trabalho para as crianças vendendo doces. geralmente.) o grupo extenso. cuidando de crianças menores que elas e fora. seja como empregados domésticos.. envolvendo um sistema de obrigações morais que por vezes dificulta a individualização e por outra viabiliza condições básicas para sua existência. nas ruas. em famílias nas quais dar.ajudando nas tarefas domésticas. Segundo Carvalho (2005). 2007: 106). agregados de parentes e conterrâneos. que não teriam condições de possuir e utilizar-se destes recursos.. ou a pequena comunidade rural cria vínculos e sistemas próprios que garantem os padrões de reprodução social (2005: 97). estabelecida em torno de famílias em situações de discriminação e pobreza. A Rede de Solidariedade Apadrinhada é uma forma de estabelecer o consumo e usufruto de determinados utensílios e materiais para as famílias pobres. diferente da classe média que se organiza em núcleo. Um ou mais membros da família do trabalhador mantém laços mais próximos com as classes média e alta. porteiros de prédios. a sobrevivência cotidiana das famílias empobrecidas apresenta três tipos de solidariedade: A Rede de Solidariedade Conterrânea e Parental é. Uma outra característica dessas famílias seria sua configuração como rede.

remédios. eletrodomésticos (2005: 97). educação e formação profissional.). coleta de lixo. que cria serviços assistenciais e de defesa para a imensa demanda de justiça que esta população expressa (Ibidem: 98). em especial às empobrecidas. Se pensarmos que a conceituação de negligência traz implícita a noção de fracasso no provimento de necessidades básicas. torna-se necessário refletir sobre os padrões de assistência e proteção que o Estado tem proporcionado às suas famílias. no mero recebimento dos benefícios. com condições mínimas de sobrevivência numa situação de maior vulnerabilidade e que precisam ser protegidas pelo Estado através de políticas públicas. dentro das comunidades. com contradições e conflitos próprios ao confinamento a que estão submetidos. É a instituição com maior credibilidade para esta população. É preciso ter programas que atendam a família e que combinem políticas de emprego. A Igreja se faz presente no cotidiano da vida das famílias e comunidades. que exercem atividades das mais variadas de proteção social. no entanto. sempre foi marcado pela repressão e violência através da retirada de seus filhos do convívio familiar. Esse quadro se completa pela ausência de usufruto de bens e serviços mínimos à sobrevivência material (saneamento básico. Este vínculo assegura um canal de doações de roupas. Hoje encontramos famílias. A forma de envolvimento dessas famílias nesses programas não deve ser passiva. É no mínimo hipócrita atribuir a essas famílias uma função de proteção às crianças e adolescentes sem lhes oferecer meios para isso.. A Rede de Solidariedade Missionária é estabelecida. pelas igrejas católicas. Estas solidariedades e processos são vividos.jardineiros.. habitação. espíritas ou pelas seitas afro-brasileiras. . transporte. trabalho. buscando a cooperação de diversos serviços. O direito à privacidade não é sequer sonhado pelos grupos familiares empobrecidos. Vimos através da história que o atendimento às famílias pobres por parte do governo. É através dela que flui a sociedade-providência organizada. etc. protestantes. mas sim na forma participante da responsabilidade partilhada. normalmente.

hábitos de “economia. conforme já sinalizamos. a caridade pretendia “reconciliar o pobre com o rico” através das Senhoras da Caridade que iam visitar as famílias.. educação.1 apud Rizzini). levando aos seus membros além da pregação religiosa. econômico e moral e se aproxima com as ciências médicas e jurídicas. com o fim de proporcionar-lhes o devido amparo. era realizada através das Casas de Expostos criadas e mantidas pela Santa Casa de Misericórdia que pretendia proteger a mãe da desonra. “Uma das finalidades do Instituto de Proteção e Assistência à Infância. A assistência caritativa. essas famílias foram vistas como desestruturadas e incapazes de criar seus filhos. mas sim a reintegração social daqueles que seriam os eternos clientes da caridade: os desajustados. os modelos assistenciais predominantes no Brasil até o final da década de 1930 foram o da caridade e o da filantropia. como modelo a ser seguido não só pela caridade. Segundo Rizzini (1993). habitação. Rizzini (1993) comenta que a família e o menor tornaram-se objeto de investigação e intervenção da assistência filantrópica muito antes do que da assistência estatal. instrução etc. além de salvaguardar a moral pública. As crianças atendidas nas casas eram submetidas à educação moral. promovida pela igreja. Suas finalidades são de cunho político.I. 1903-1913. fundada em 1901 pelo médico Moncorvo Filho. de 30. procurando concentrar neste sentido os esforços de outras associações de caridade religiosas” (Estatutos do I. mas sob uma nova concepção de assistência. Os defensores dessa assistência acreditavam ser mais econômico socorrer às crianças nos asilos do que fazê-lo nas famílias. mas também pelo Estado. o que nas famílias não seria possível devido à “devassidão”. era justamente o de investigar as condições em que vivem as crianças pobres. Nessa mesma década. “indigência” e “má conduta” dos pais..P. Essas famílias pobres não tinham acesso ao agente que transmitia os novos valores morais que . p. roupas. Não seria mais com esmola. de ordem e de asseio”. A filantropia surge para dar continuidade à obra da caridade.A. e até hoje. especialmente a alimentação.Durante muito tempo.

o vestir. alcoolismo. O período republicano passou a concentrar-se na identificação e no estudo das categorias necessitadas de proteção e reforma. Eram palestras sobre a higiene infantil com grande variedade de temas. treinando-as no cuidado à criança em relação à boa saúde física e moral. como o Serviço de Assistência a Menores (SAM) e a Fundação Nacional de Bem-estar do Menor (FUNABEM). Essa assistência. fundações estaduais e órgãos nacionais. alimentação. A assistência social por parte do Estado surge com a mudança do regime político do país. através de “inquéritos”. fundada em 1923. espiritual e material. A medicina justifica o seu interesse pelas famílias pobres. alegando que estas são as mais necessitadas dos conselhos médicos. Por isso. Esses estudos foram realizados pelos órgãos estaduais e municipais. a estratégia que se utilizou foi através de palestras médicas para mães pobres. roupas e brinquedos e o atendimento em creches. a educação. destaca O Instituto de Proteção e Assistência à Infância que associava os objetivos da caridade aos da ciência ao levar na visita às casas dos doentes. doenças infantis. a assistência médica. A mulher sempre foi alvo importante da filantropia pelo seu papel de mulher-mãe como sustentáculo moral da família. tais como: nutrição da criança. a higiene estabelecia regras do modo de viver com cuidados imprescindíveis sobre a habitação. 1993).era o médico de família. A família é percebida como foco de doenças e como origem de um grande contingente de improdutivos do país. o dormir. numa realização da filantropia médica. mas também às famílias que levavam para casa receitas médicas através dos conselhos e ensinamentos sobre puericultura. secretarias de promoção do menor. tinha como objetivo restringir as investigações da situação médica e social das famílias. Havia também serviços que serviam como instrumentos de propaganda sobre a higiene infantil. Foram criadas clínicas e hospitais destinados às crianças e mulheres pobres. como juizados de menores. Para Moncorvo Filho (1907 apud Rizzini. educação infantil e medicina popular e doméstica. e a distribuição de alimentos. A Liga Brasileira de Higiene Mental. higiene domiciliária. Rizzini (1993). atingia não só às crianças pobres. A Política Nacional de Bem-Estar do Menor (PNBEM) teve suas diretrizes fixadas pelo governo . essencialmente preventiva.

idosos. fins dos anos 70. A segunda tem indicado que a invasão do Estado na família tem se realizado através não de uma redução de funções. que existem duas linhas de intervenção da relação entre Estado e família no debate da contemporaneidade. Mioto (2004) argumenta. Wanderley (1997 apud Mioto. de pertencimento na sociedade e de construção de identidade. 2004) destaca a “importância da família como lugar de busca de condições materiais de vida. de perda de autonomia e da própria capacidade de ação. ao lado da vizinhança e dos grupos de amigos próximos.Castelo Branco cuja tônica era a da valorização da vida familiar e da integração do menor na comunidade. a família vem sendo redescoberta como um importante agente privado de proteção social. progressiva e rapidamente a LBA começa a atuar em praticamente todas as áreas de assistência social com todas as famílias. gestantes etc e não de atendimento de proteção da família. a Legião Brasileira de Assistência (LBA). Identificada como um dos mais antigos e autônomos provedores informais de bem-estar. A culpabilização da família pelo estado de abandono do menor não foi uma criação dessa política e sim da construção da assistência à infância no Brasil. principalmente nas experiências de insegurança. atendia às famílias dos soldados que foram convocados para a Segunda Guerra Mundial. por isso. . Em contrapartida vê um Estado cada vez mais intrusivo. a família vem sendo pensada pelos gestores das políticas públicas contemporâneas como um dos recursos privilegiados. A primeira grande instituição nacional de assistência social. apesar da sua pouca visibilidade como tal. Esses programas de atendimento a família sempre foram focados nos seus membros. cada vez mais regulador da vida privada. A idéia de proteção à infância era antes de tudo proteção que não privilegiava a família. de perda de lugar na sociedade e de ameaça de pauperização trazidas pelo desemprego” (Mioto. mas. de uma sobrecarga de funções (2004: 48). ao contrário. A primeira tende a olhar a família numa perspectiva de perda de funções. 2004: 148). Desde a crise econômica mundial. eram programas voltados para as crianças. Da assistência às famílias dos convocados.

cultura. prostituição). independente dos formatos ou modelos que assume. A Política Nacional de Assistência Social (2004) descreve que “a família. atenção à família a partir da ótica da incapacidade e da falência. A Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS. “Família. isto é. seus membros e dos indivíduos. Por isso. A importância da família no contexto da vida social está explícito no artigo 226 da Constituição Federal do Brasil (1988). esporte. na última década. que traduz a família como sendo o núcleo natural e fundamental da sociedade e com direito à proteção da sociedade e do Estado e nas legislações específicas – Estatuto da Criança e do Adolescente. 1993) tem como objetivo a proteção à família e esta é determinada como um dos focos de atenção da política de assistência social. inserida na articulação com outras políticas sociais como: de saúde. tornou-se o elemento central da intervenção das políticas de assistência social. proteger. continuamente os deslocamentos entre o público e o privado.A atuação na família está voltada para a centralização de ações em situações limite ao invés das situações cotidianas. emprego. a política de Assistência Social é pautada nas necessidades das famílias. promover e incluir seus membros é necessário garantir condições de sustentabilidade para tal. . é mediadora das relações entre os sujeitos e a coletividade. Estatuto do Idoso e na Lei Orgânica da Assistência Social. violência doméstica. educação. bem como geradora de modalidades comunitárias de vida”. no artigo 16 da Declaração dos Direitos Humanos. delimitando. Os programas de apoio sociofamiliar visam atender às faces mais cruéis dos problemas relacionados à infância e à juventude (trabalho infantil. fundamentalmente. base da sociedade. entre outras para que as ações não sejam fragmentadas e o acesso e à qualidade dos serviços sejam para todos os membros da família e indivíduos. A Política Nacional de Assistência Social (PNAS) deve estar. A família. tem especial proteção do Estado”. Aos poucos esses programas têm se voltado para as dificuldades cotidianas das famílias na perspectiva de dar-lhes sustentabilidade. habitação. com cunho universalista através de redes socioassistenciais que suportem as tarefas cotidianas de cuidado e que valorizem a convivência familiar e comunitária. Essa centralidade da família pressupõe que para a família prevenir.

uso de substância psicoativas. voltado para jovens e adultos. por ocorrência de abandono. étnicas. Centros de Convivência para Idosos. situação de trabalho infantil. Destina-se à população que vive em situação de vulnerabilidade social decorrente da pobreza. psíquicos. Programas de incentivo ao protagonismo juvenil e de fortalecimento dos vínculos familiares e comunitários. dentre outras) (PNAS. privação (ausência de renda. de gênero ou por deficiências. situação de rua. cumprimento de medidas sócio-educativas. Serviços socioeducativos para crianças.Essa política possui três níveis de proteção à família: Proteção Social Básica tem como objetivo prevenir situações de risco por meio do desenvolvimento de potencialidades e aquisições. • Centros de informação e de educação para o trabalho. dentre outros) e. Programa de inclusão produtiva e projetos de enfrentamento da pobreza. entre outras (Ibidem: 31). maus tratos físicos e. e o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários. ou. precária ou nulo acesso aos serviços públicos. fragilização de vínculos afetivos – relacionais e de pertencimento social (discriminações etárias. ou. Os serviços dessa proteção são executados de forma direta nos Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) cujos serviços são de fortalecimento dos vínculos internos e externos de solidariedade. Nesse equipamento são executados os seguintes programas: • • • • • Programa de Atenção Integral às Famílias. 2004:27). Esses serviços têm estreita interface com o sistema de garantia de direito exigindo uma gestão . abuso sexual. adolescentes e jovens. Proteção Social Especial é a modalidade de atendimento assistencial destinada a famílias e indivíduos que se encontram em situação de risco pessoal e social.

mas cujos vínculos família e comunitário não foram rompidos e é também dividida em Alta Complexidade. Casa Lar. República. Casa de Passagem. Proteção Social Especial de Alta Complexidade os serviços de proteção social são aqueles que garantem proteção integral – moradia. Serviço de habilitação e Reabilitação na comunidade das pessoas com deficiência. Medidas socioeducativas em meio-aberto (Prestação de Serviços à Comunidade – PSC e Liberdade Assistida – LA). Cuidado no Domicílio. • • • • . comunitário (Ibidem: 32). Ministério Público e outros órgãos e ações do Executivo. • • • • • • Tais como: Atendimento Integral Institucional. alimentação. Plantão Social. necessitando ser retirados de seu núcleo familiar e. São executados os seguintes programas: • • Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PET). higienização e trabalho protegido para famílias e indivíduos que se encontram sem referência e. A Proteção Social Especial pode ser de Média e Alta Complexidade. em situação de ameaça. ou. ou. Proteção Social Especial de Média Complexidade oferece atendimento às famílias e indivíduos com seus direitos violados.mais complexa e compartilhada com o Poder Judiciário. Programa de Combate à exploração Sexual de Crianças e Adolescentes. Abordagem de Rua. Seus serviços são: Serviço de orientação e apoio sociofamiliar.

Família Substituta. um grande avanço nas políticas públicas de enfrentamento da violação dos direitos tanto da criança e do adolescente quanto da família.. para que as famílias não cheguem até outro nível de proteção. do Plano de Convivência Familiar e Comunitária que prevê um conjunto de ações a serem desenvolvidas na esfera dos três governos. temos o Programa de Atenção Integral à Família (PAIF) que é um serviço dirigido para toda família: crianças. internação provisória e sentenciada).• • • • Albergue. Há que se ressaltar a aprovação em dezembro de 2006. adolescentes. jovens. Ele apresenta recomendações de ampliação de política de apoio à família e o aprimoramento de medidas de proteção e de adoção. adultos. Trabalho protegido. Podemos perceber dentro do contexto histórico da criança e do adolescente em relação à proteção a família ao longo dos tempos. criando espaços de qualificação profissional e humana e também desenvolvem projetos de criação de trabalho e renda articulados com o Bolsa Família.A. Dentro da proteção básica de prevenção. tanto na família de origem como na sua comunidade ou em família substituta em caso de violação dos direitos das crianças e do adolescente quando já se esgotou todos os recursos para o não abrigamento. • O atendimento desses programas e serviços de média complexidade e alta são efetivados no Centro de Referência Especializado da Assistência Social (CREAS) que visam a orientação e o convívio sociofamiliar e comunitário. Esse plano de convivência familiar e comunitária possibilita criança em permanecer no meio a que pertence. Mas .C. Família Acolhedora. Medidas socioeducativas restritivas e privativas de liberdade (semiliberdade. idoso e deficientes vulneráveis em função de pobreza e de outros fatores de risco e/ou exclusão social. Os CRAS são conhecidos como as Casas das Famílias que oferecem apoio pedagógico e psicológico para superação dos problemas familiares. Viver em família e na comunidade é um direito assegurado pela Constituição brasileira e pelo E.

Violência intrafamiliar contra criança e adolescente: trajetória histórica. Faz-se necessário. LEAL.29-38.precisamos cada vez mais garantir esses direitos. (orgs. Maria do C. de. a retirada dos filhos dessa convivência colocando-os em abrigos só por serem pobres. Tese de doutorado. 1981. muitas também não o são. ARIÈS. – São Paulo: EDUC /Cortez. – 3. pois ainda é comum nos dia de hoje. P. Referências ALENCAR. Transformações econômicas e sociais no Brasil dos anos 1990 e seu impacto no âmbito da família. Maria A. Elisabete D. políticas sociais.). Famílias: algumas inquietações. 61–78. a inexistência de recursos. Política social. Maria C. a falta de informação. de . B. dificultando uma real apreciação quanto a estas famílias serem realmente negligentes com suas crianças ou serem negligenciadas pelos órgãos públicos. In: CARVALHO. Rio de Janeiro: PUC – Rio. 2004. Mione A. Maurílio C. Nívia V. contribuem para que situações consideradas como negligente rondem estas famílias. família e juventude: uma questão de direitos. 2000.). – 7. principalmente no que diz respeito à convivência familiar. Viviane N. Infância e violência: fronteiras do conhecimento. 2003. Mônica M. ed. Philippe. 2005. São Paulo: Cortez. Departamento de Psicologia. BARROS. História social da criança e da família. (orgs. . ed. uma análise mais aprofundada por parte dos profissionais para que estas não sejem punidas duas vezes. Embora muitas famílias sejam atendidas por essas políticas e programas. – São Paulo: Cortez. AZEVEDO. de A. O desconhecimento. Rio de Janeiro: LTC. In: SALES. T. p. BILAC. de (org. . etc.). MATOS. práticas e proteção social. GUERRA. A Família contemporânea em debate.

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