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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(¡n memoriam)
APRESENTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristao a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabal no assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confisca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO

ABRÍ

1 9 6
ÍNDICE
Pá8.
I. CIENCIA E REL.IGIAO

1) "O Professor A. Buzzati-Traverso, no periódico 'Espresso'


de 2S-IV-61, atribuid o sucesso de Yuri Gagarin ao fato de estar
emancipado do médo que as crengas religiosas incutem.
Na verdade, nao seria o bom éxito dos dentistas russos urna
prova de que o ateísmo engrandece o homem ?" 131
2) "Que pensar das heneaos (benzimentos) e oracóes que,
aplicadas por um benzedor, tém curado maravilhosamente varias
doencas, inclusive 'cobreiros' e 'bucko virado' ?
Nao seráo fenómenos maravühosos que ou Deus ou os espiritos
produzem ? Haverá motivo para nao usar déles ?" 1S6

n. DOGMÁTICA

S) "Como imaginar os corpos ressuscitados í Conservardo


ainda os seus tragos característicos ou aparecerao destituidos de
notas pessoais, todos reduzidos ao mesmo tipo ?" 14S
i) "Que contemplam os justos no céu ?
Teráo noticia dos acontecimentos que. nos dizem respeito nesta
vida ?
Conhecem as preces que os fiéis Ihes dirigem na térra ?" ... 149

m. SAGRADA ESCRITURA

5) "Poderío, fazer um confronto entre a recente descoberta do


'Zinj&ntropo', homem que terá vivido há 1.750.000 anos atrás, com
a historia bíblica de Adáo e Eva f
Nao haverá incompatibilidade entre urna e- outra ?" 154

IV. MORAL

6) "Alguém cometeu grave crime, e se oculta. As circuns


tancias parecem fazer recair a culpa sobre um inocente, que é
detido pela policía e está para ser condenado em lugar do réu.
O criminoso terá entño a obrigacáo de se denunciar ?
E, caso seja apreendido, o réu terá o dever de confessar a
sua falta ?" 161

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

EEDACAO ADMINT3TRACAO
Calxa Postal 2666 R. Real Grandeza, 108 — Botafogo
Rio de Janeiro Tel.:. 26-1822 — Rio de Janeiro
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano V — N« 52 — Abril de 1962

I. CIENCIA E RELIGIAO

VITIORIO (Sao Paulo) :

1) «O Professor A. Buzzati-Traverso, no periódico 'Es-


presso' de 25-IV-61, atribuía o sucesso de Yuri Gagarin ao
fato de estar emancipado do médo que as crencas religiosas
incutem.
Na verdade, nao seria o bom éxito dos dentistas russos
urna prova de que o ateísmo engrandece o homem ?»

A fim de possibilitar aos nossos leitores um juizo adequado


sobre a questáo, vamos, antes do mais, transcrever as princi
páis afirmagóes do Prof. Buzzati-Trayerso.

Segundo éste autor, Gagarin personifica «o homem de ciencia, o


homem que tem coníianga em si mesmo e que nao imp8e limites pre
concebidos á esfera das suas pesquisas». Continua o citado Professor:

«Ao passo que outrora o homem, por falta de outra solucáo, sé via
constrangido a professar que o seu destino pessoal e os acontecimentos
mais importantes dependiam do capricho dos deuses ou dos designios
insondáveis de entidades transcendentes, hoje ele está consciente de que
muitos désses acontecimentos podem ser relacionados com fatos dos
quais ele possui conhecimento. Destarte as suas possibilidades se am-
pliaram imensamente; em nossos dias, nao há mais motivo para nao
crer que o homem se possa tornar cada vez mais livre, caso assim pros-
siga a sua caminhada... A miragem de urna vida futura professada
por efeito de revelacáo fol substituida por um sistema no qual se diz
ao homem: 'Podes criar para ti o mundo que quiseres, desde que
ponhas máos á obra'; esta substituido pode desencadear na sociedade
intenso dinamismo em demanda de um mundo novo».

As palavras do Prof. Buzzati-Traverso equivalem a um


brado de emancipacáo do homem frente á Religiáo ; esta
seria um motivo de «alienagáo», ou seja, de escravizacáo da
criatura humana.
Vejamos como conceituar tal atitude, estabelecendo um
confronto entre aquilo que a verdadeira Religiáo e aquilo que
a verdadeira Ciencia significam para o homem.

1. O que a Religiáo oferece e o que ela nao oferece

O Prof. Buzzati-Traverso, colocando em lugar da Religiáo a Ciencia


como motivo de engrandecimento do homem, baseava-se em estranhos
(para nao dizer erróneos) conceitos de Religiao e Ciencia.

— 131 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 1

Importa, portante, verificar como se comporta a Religi&o frente a


sede de liberdade e bem-estar que o homem traz espontáneamente em si.

1) A Beligiáo nao promete nem garante ao homem feli-


cidade temporal.

Religiáo significa, sim, entrega total do homem a Deus,


Principio e Fim de todos os seres; praticando essa entrega,
o homem nao pode deixar de se engrandecer e nobilitar, pois
assim toma ele o lugar que o Criador lhe assinalou no con
junto dos seres; e ésse lugar é o de representante de Deus
em relagáo as criaturas inferiores. Aderir a Deus, portanto,
ou servir a Deus vem a ser, para o homem, o mesmo que
reinar.

Visto que a Religiáo ténciona erguer o homem até Deus ou até o


Eterno, entende-se que ela o leve a ultrapassar os bens temporais
que o cercam e a atribuir a estes valor meramente relativo. A criatura
humana nao poderia neste mundo, precario e exiguo como é, encontrar
a saciedade de suas aspiracdes. A vida presente assim é tida como pere
grinarlo, que cada qual realiza em sobriedade e disciplina, com o olhar
fixo na meta postuma.

O individuo religioso nao se deixa acariciar ilusoriamente


pelos prazeres que éste mundo lhe possa oferecer. Mais aínda:
as crengas religiosas em geral sempre inculcaram que nesta
vida é necessário á criatura humana renunciar a si e padecer,
a fim de se purificar de suas paixóes desregradas e nutrir amor
mais puro, menos egoísta, a Deus e ao próximo.
O homem deve perder a si mesmo para encontrar devi-
damente a Deus; encontrando, porém, a Deus, ele nao pode
deixar de se encontrar realizado (consumado) em Deus (isto
é, por amor a Deus).
Essas proposigóes sao bem compreensíveis : na verdade,
o homem é menor e Deus é maior ; ora a grandeza do menor
só pode consistir em se entregar humildemente ao Maior e
deixar-se encher por Ele; é pela humildade — nao humil-
dade simplona, mas humildade consentánea com a reta ordem
das coisas — que o ser humano cresce.
Eis a mensagem que a verdadeira Religiáo propóe ao
homem.

Ao lado desta concepcáo, encontra-se em varios matizes um tipo


de religiosidade deformada: a magia ou a supersticáo (cf. «P.R.»
27/1960,qu. 1). Esta visa colocar a Divindade a servico do homem e da
felicidade temporal; mediante suas artes e receltas, o mago tende a
captar e dominar os poderes divinos; em vista disto, recorre a meios
que por si sao inadequados ou mesmo ridiculos, mas que ele julga por
tadores de eficacia misteriosa revelada a ele e a poucos «iniciados».
Naturalmente tais concepgfles constítuem urna caricatura de Religiáo e

— 132 —
SUCESSOS DA CIENCIA RUSSA E RELIGIAO

nao podem ser confundidas com esta. O que os racionalistas atacam, é


geralmente ésse tipo de rellgiáo, que se reduz a um interesseiro comer
cio com os «poderes dlvinos>, a fim de garantir aos devotos eaúde, em-
prego, casamento, éxito nos negocios, etc.

2) A Religiao, que nao promete necesariamente ao


homem bem-«star temporal, também nao Ihe proibe procurar
tal felicidade.

O Criador, que deu ao homem inteligencia e poder de


dominio sobre a natureza (cf. Gen 1, 28), de modo nenhum
Ihe proibe que faga uso désses seus talentos para conquistar
o mundo visível. Pode-se mesmo dizer que, no decorrer da
historia, a Religiao foi geralmente o grande motivo para que
os povos dominassem a natureza e realizassem obras de cul
tura (cf. «P.R.» 19/1959, qu. 1) ; a própria penetracáo da
materia (dos átomos), dos océanos e dos ares, táo heroica
mente empreendida em nossos dias, nao contradiz aos preceitos
da Religiao.
Apenas urna diferenca separa o dentista religioso do
náo-religioso: aquéle nao considera os resultados de seus es-
tudos como valores absolutos, valores com os quais tendería
a saciar-se ; ao contrario, nao perdendo de vista a plenitude
de felicidade que só Deus Ihe pode dar, procura fazer de
todas as criaturas um veiculo para melhor chegar ao Criador.

O sabio francés Ampére exprimía com muito acertó a sua atitude


no estudo, consignando as seguintes normas :

«Trabalha em espirito de oracao. Estuda as coisas déste mundo,


porque é éste o dever de teu estado. Mas obsérva-as com um ólho apenas,
e faze que o teu outro ólho esteja constantemente flxo na luz eterna.
Escuta os sabios, mas nao os escutes senáo com um ouvido, e conserva
o outro pronto para acolher os suaves aoenos da voz do teu Amigo
Celeste.
Escreve com urna mío só, e com a outra conserva-te preso ao manto
de Deus, como urna crianca se conserva agarrada ao manto de seu pai.
Hei de me recordar sempre do que diz Sao Paulo : 'Usa éste mundo
como se nao o usasses'. E, a partir déste instante, fique a minha alma
unida a Deus e a Jesús Cristo!».

Pelo fato de assim pensar e viver, Ampére de modo nenhum se viu


inabilitado ou menos capacitado para os estudos; ao contrario, merece
ser contado entre os grandes expoentes da ciencia humana.

Ao invés do homem de fé, o materialista é inconscientemente le


vado a se iludir, procurando encontrar ñas coisas visiveis a resposta a
demanda de felicidade. Sua atitude quase desesperada fornece a única
explicarlo possivel para as invectivas sarcásticas dos cientistas bol
chevistas, qué querem comprovar, por exemplo, a náo-existéncia de
Deus pelo fato de nao haverem adiado um paraíso suspenso no es-
paco... Tais argumentos já nao parecem provir de seres inteligentes;

— 133 —
<PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 1

sao, antes, inspirados por preconceitos que obcecam e depauperam a


inteligencia.

Também acontece, como dizíamos atrás, que o .dentista


muitas vézes ataca nao a Religiáo, mas a pseudo-religiáo ou
a religiáo contaminada de magia. Na magia, o homem em-
prega ritos por ele inventados, com o fim de dobrar segundo
os seus desejos os «poderes desconhecidos» que dominam o
mundo ; em varios casos a magia nao passa de urna técnica
primitiva, recoberta de urna auréola de mística obscurantista
(na verdade, o mago geralmente é um técnico, ou seja, alguém
que, por sua sensibilidade ou constituigáo física, aproveita as
foreas da natureza, sem saber como nem por qué). Pois bem;
a essa técnica primitiva e ilógica se opóe naturalmente a
técnica iluminada e segura do homem moderno ; em tais cir
cunstancias, entende-se que a Ciencia destrua a religiáo (isto
é, a pséudo-religiáo, a magia), como a luz destrói as trevas.
Contudo tenha-se por certo que sómente as caricaturas
de Religiáo sao assim dissipadas.' — Vejamos agora

2. O que a Ciencia oferece e o que ela nao oferece

1) A Ciencia fornece ao homem as explicacScs imediatas


de certos fenómenos.

O homem antigo julgava so poder explicar determinados


fenómenos admitindo a intervengáo direta da Onipotencia
Divina ou de fórcas invisíveis. O homem moderno dispensa
muitas dessas explicagóes; vé melhor a concatenagáo de cau
sas é efeitos neste mundo; verifica assim que Deus se serve
da colaboragáo das suas múltiplas criaturas, fazendo-as agir
urnas sobre as outras a fim de realizarem um só plano ou a
ordem do universo. O reconhecimento de que Deus nao age
sempre ¡mediatamente por si, nao deve desconcertar, mas, ao
contrario, deleitar o estudioso ; a unidade na multiplicidade é
muito mais bela do que simplesmente a unidade. — A Religiáo,
portante, só pode estimar os progressos da Ciencia.

A titulo de ilustr.ac.ao, fique aquí consignado o íato de que em


agosto de 1961 o Santo Padre Joáo XXIII recebeu como membros da
Pontificia Academia das Ciencias dez sabios de fama mundial. Dentre
éles, dois possuem o premio Nobel de Física : Chnndrasekhara Raman,
Diretor do Instituto de Pesquisas Raman em Bengalore (India), e
Paul-Adrien-Maurice Dirac, Frofessor de Matemáticas em Cambridge
(Inglaterra). A Pontificia Academia das Ciencias conta atualmente
vinte detentares de Premio Nobel, sendo seus membros originarios de
27 nagóes diferentes.

Contudo ninguém negará que

— 134 —
SUCESSOS DA ClfiNCIA RUSSÁ E RELIGIAO

2) A Ciencia deixa abettas certas questoes as quais a


mente humana jamáis se pode subtratr.

O estudioso, averiguando causa por causa dos fenómenos


que o cercam, chega espontáneamente á questáo: qual seria
a suprema razáo de ser déste mundo ? E para que existe ? O
próprio homem donde vem ? Para onde vai ?
A tais questoes a Ciencia nao dá, nem pretende dar, res-
posta, pois ela professa só se aplicar ao estudo do material e
ponderável, ou seja, daquilo que o microscopio e o telescopio
podem, direta ou indiretamente, atingir. É a Religiáo que
atende a tais quesitos, rematando assim a fungáo da inte
ligencia.

Eis o testemunho valioso de Max Planck (1857-1947), autor da fa


mosa teoría dos «quanta», condecorado com o Premio Nobel de Física
em 1918:
«A Ciencia leva a um ponto além do qual ela nao nos pode guiar...
Ciencia e Religiáo nao se opSem, mas precisam urna da outra para se
completar no espirito de todo homem que rellita seriamente. Nao é
por acaso que os malores pensadores de todos os tempos foram perso
nalidades profundamente religiosas» (La connaissance du monde phy-
sique, trad. italiana. Turim 1943, 137s).

Desenvolvendo tais idéias, observaremos que éste mundo,


que o dentista estuda, nao seria compreensível se nao houvesse
urna Primeira Causa ou Primeira Inteligencia, capaz de abar
car numa só intuigáo toda a ordem do universo, ordem que
o homem só aos poucos, e com muita surprésa, vai penetran
do ; o simples acaso nao explicaría a existencia do cosmos.
Mais ainda: a própria ciencia, formulando suas verda
des parciais, carecería de firmeza se nao houvesse urna Ver-
dade Absoluta ou um Ser Absoluto, que comumehte chamamos
«Deus». Com razáo, o filósofo e matemático francés Descartes
(f 1650) asseverava que o ateu coerente consigo mesmo nao
teria o direito de ser geómetra, porque, embora a geometría
nao estude a nogáo de Deus, ela é abalada em sua raiz, caso
se queira suprimir o Absoluto, garantía suprema de toda
verdade.
Por isto a posigáo do ateu que, de um lado, nega Deus é,
de outro lado, quer cultivar a ciencia, é, em última análise,
contraditória; supóe, sim, a existencia da Verdade Absoluta
(se nao, o ateu seria cético, e nao estudaria), Verdade Abso
luta, que é Deus.

Chesterton (t 1936) caracterizava essa cóntradigáo do ateu, asse-


verando em seu estilo paradoxal que «o louco é aquéle que perdeu
tudo, exceto a razao». Sim; há a loucura dos ateus que pretendem só

— 135 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962. qu. 2

seguir a razáo e que nao estimam valor algum fora do seu racionalismo;
ésses chegam a perder até mesmo a razao (pois a existencia de Deus é
atingivel e demonstrável pela própria razáo humana).
Expressáo eloqüente dessa loucura sao os seguintes dizeres (desen
contrados e perplexos) do filósofo alemáo F. Nietzsche (t 1900), que
proclamou ao mundo a «morte de Deus» :

«Onde está Deus, como está Ele, eu vd-lo direi: nos o matamos,
vos e eu; somos todos seus carrascos! mas como foi que conseguimos
esgotar a agua do mar? Quem deu a esponja para apagarmos todo o
horizonte? Que fizemos nos, quando separamos esta térra do seu sol?
Para onde se dirige ela atualmente? Para onde caminhamos nos?
Longe de todo e qualquer sol, nao estamos incessantemente a cair?...
Nao percebemos algo do alarido que fazem os coveiros de Deus? Nada
sentimos da putrefacto de Deus? Pois os deuses também apodrecem.
Deus morreu e nos o matamos. Como nos havemos de consolar nos, os
assassinos dos assassinos?» (La Gaie Science pág. 125).

Em conclusáo, lembraria Pascal (t 1662) que «há dois


excessos: o de excluir a razáo (atitude do mago) e o de
so admitir a razao (atitude do racionalista incrédulo)». Evi
tando essas duas aberragSes, o auténtico homem religioso
serve-se de sua razáo e, por via de raciocinio, vai além do
mundo sensível, verificando que os seres relativos e contin
gentes que nos cercam, nao se explicariam se nao houvesse o
Absoluto e Imutável que a Religiáo professa.

«Longe de temer as descobertas dos homens (de ciencia), por mala


audaciosas que sejam, a Igreja julga, ao contrario, que todo progresso
na posse da verdade acarreta um desabrochar da personalidade hu
mana, constituí um passo a mais em demanda da Primeira Verdade
assim como urna gloriíicacáo da obra criadora de Deus... Sem duvida,
acontece por vézes, Senhores, que deixeis cantar em vosso íntimo, no
entusiasmo da pesquisa e da descoberta, o magnifico cántico: Louval
ao Senhor, todas as obras do Senhor' (Dan 3, 57)> (palavras do
Sto. Padre Joáo XXIII aos membros da Pontificia Academia das Cien
cias, proferidas em 28 de outubro de 1961).

A. F. (Sao Paulo);

2) «Que pensar das béncáos (benzimentos) e oracÓes


que, aplicadas por um benzedor, tem curado maravilhosamente
varias doencas, inclusivo 'cobreiros' e 'bucho virado' ?
Nao seráo fenómenos maravilhosos que ou Deus ou os
espíritos produzem? Haverá motivo para nao usar déles?»

Em resposta, recordaremos sumariamente em que consis-


tem os principáis artificios mencionados ; a seguir, proferire
mos um juizo sobre éles e procuraremos explicar a sua mará-
vilhosa eficacia.

— 136 —
BÉNCAOS DE CURANDEIROS E EFEITOS MARAVimOSOS

1. Em qne consisten!, as prodigiosas receitas

1. A doenca é certamente um dos males que mais afligem o ho-


mem. Quando se íala de doencas, encontra-se com facilidade um audi
torio de pessoas desejosas de aprender ou descobrir um meio novo de
debelar tal flagelo. É o que explica a grande abundancia de conselhos,
receitas e remedios divulgados ñas altas e babeas carnadas da sociedade
no intuito de curar as doencas; désses conselhos e remedios, muitos
tém caráter estritamente científico, podendo seu valor ser controlado
por um exame racional das receitas. Muitos, porém, nao sao do plano
da ciencia; apresentam-se em nome da religiáo e de «poderes invisi-
veis» superiores ao comum dos homens, sendo geralmente aplicados
por pessoas ditas «iniciadas, curandeiros, benzedores». Sao justamente
estes remedios que agora nos interessam de maneira especial, dada a
voga crescente que vém tomando no Brasil e no mundo inteiro.

2. Quais seriam as principáis receitas dos curandeiros e


benzedores ?
Eis, sumariamente, alguns exemplos:
a) banhos de cheiro: sao loe.oes praticadas em agua
misturada com alguma erva que, por seu odor característico,
parece dotada de «poder forte»: hortelá, alecrim, amida,
capim santo, vassourinha, manjericáo, malva... O modo de
se fazer a mistura, os ingredientes auxiliares, o horario dos
banhos e as obrigagóes do respectivo ritual variam segundo a
doengas que se quer debelar, os maleficios que os interessados
desejam remover ou os beneficios a que aspiram. Tais logóes
devem lavar o corpo de fluidos, pesos, atrasos, enguigos, uru-
cubacas...; por isto há banhos de «descarga, tira-teima, abre-
-caminho, vence-demanda, comigo-ninguém-pode, abre-porta,
desmancha-demanda, etc.»;
b) o defumador: produz a fumaga das mesmas ervas,
como também a do cravo seco, a do eucalipto, a do incensó,
a do cupim e a das penas de galinha preta; tal fumaga com
bate fórgas ocultas, como larvas astrais (almas errantes)
miasmas (efluxos) psíquicos, vampirísmo (acáo dos defuntos)
consciente ou inconsciente, fluidos pesados, feitigo, mau-olhado
(julgam algumas pessoas que o olhar de quem deseja o mal,
pode de fato provocar o mal), etc.;
c) rezas raras, heneaos fortes, cujo texto se acha murtas
vézes contido num saquinho, que deve ser trazido ao pescogo ;
defendem contra os maus ataques e dáo saúde, «fechando o
corpo» as influencias estranhas.
Eis um dos espécimes mais significativos dessas rezas — a «oracSo
da Pedra Cristalina»;
«Minha Pedra Cristalina, que no mar fóste achada entre o Cálice
bento e a Hostia consagrada. Treme a térra, mas nao treme Nosso
Senhor Jesús Cristo no altar. Assim tremam os coracSes dos meus

— 137 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 2

inimigos, quando olharem para mim, Eu te benzo em cruz e nao tu a


mim, entre o sol, a lúa e as estrélas e as tres pessoas distintas da San-
tissima Trindade. Meu Deus! Na travessa avistei méus inimigos. Meu
Deus! Éles nao me ofenderao, pois eis o que faco com éies: com o
manto da Virgem estou coberto e com o sangue do meu Senhor
Jesús Cristo sou válido. Tem vontade de me atirar, mas nao atoarás
e se atirar, agua pelo cano da espingarda correrá. Se tiver vontade de
furar, a faca da máo caira. Se me amarrar, os nos se desatarao. Se me
acorrentar, as correntes se quebraráo. Se me trancar, as portas da
prisao se abriráo para me deixar passar livre, sem ser visto por méüs
inimigos, como passou Nosso Senhor Jesús Cristo no dia da Ressurrei-
cáo por entre os guardas do sepulcro. Oíerecimento: Salvo iui, salvo
serei. Com a chave do sacrário eu me lecharei: Tres pai-nossos, tres
ave-marias e tres glória-ao-pab.

A titulo de ilustracáo, citamos aínda

d) os processos para curar as bicheiras nos animáis,


processos que sao variadissimos :

— retira-se com urna faca a térra do rasto que o animal deixou e


vira-se, amassando outra vez a térra; quando a grama enterrada estiver
seca, a bicheira estará curada;
— leva-se o animal para um gramado, pega-se de um facáo e corta-se
o capim em forma de X, seguido o corte esta direcáo: da parte dian-
teira direita á parte esquerda, e da parte dianteira esquerda a direita.
Em seguida, eníia-se urna mecha de capim na ferida e dentro de dez
dias a bicheira desaparece;
— esta vai á distancia : tomar urna haste de capim, armar um no
e mirar a bicheira pelo orificio do nó; fechar o nó e atirar para tras.
Dois dias depois a bicheira cura;
— fazem-se tambera benzeduras com raminhos de arroda, manje-
ricáo ou alecrim e outras plantas de «poder divino»;
— dar tres nos numa palha, jogá-la pelas costas sem olhar para
tras, recitando o Credo;
— benzer tres vézes com um raminho de alecrim dizendo : «Assim
como servico de domingo, de dia santo, num leva ninguém adiante, as
lingua má e desacreditadera fala do que vé e do que num vé, assim o
bicho desta bichéra hai de cair tudo, ou vivo ou morto, de 1 em 1. de 2
em 2, de 3 em 3. de 4 em 4, de 5 cm 5, de 6 em 6, de 7 em 7. de 8 em 8,
de 9 em 9». Jogar o ramo de alecrim no fogo.

e) a cura do cobreiro é assim recomendada : tragam-se


em torno da parte do corpo doente quatro cruzes de tinta azul
durante tres dias consecutivos;
f) a cura da dor de dente : colocar numa encruzilhada
tres sabugos de milho; quem os chutar, ficará com a dor ;
g) a cura da dor de ouvido : passar tres vézes sobre o
ouvido o rabo de um gato préto, em jejum ;
h) a cura da dor de lado que sobrevenha durante urna
caminhada: levantar urna pedra, cuspir no lugar e recolocar
a pedra ; a dor desaparecerá ;

— 138 —
BfiNCAOS PE CURANDEIROS E EFEITOS MARAVILHOSOS

i) a cura do engasgo : correr ao fogáo e virar um tigáo;


em posigáo contraria na fornalha; ou bater ñas costas do
engasgado, dizendo : «Sao Brás ! Sao-Brás ! Sao Brás !»;
j) para a enanca aprender a falar: coloca-se na boca
da crianga um pintinho recém-nascido, a piar, por tres vézes
seguidas; ou leva-se a enanca a urna igreja e bate-se com
sua cabeca tres vézes no sino ; ou coloca-se agua numa cam-
paínha da igreja e dá-se á crianca para beber ;
k) a cura do solago : contar os dedos das máos ;
1) a cura do tercol: ao amanhecer, olhar o sol nascente
por um vidro de óleo vazio e dizer tres vézes : «Sol, solzinho,
leva meu irmáozinho, tira meu tergol»; ou, pela manhá, antes
de conversar com qualquer pessoa, colocar sobre o ólho do
doente umá alianga e olhar para o sol;
m) a cura de quemaduras: benzer, jogando respingos
de agua na vítima e rezando: «Santa Aurora tinha tres fi-
lhas: urna lavava, outra cosia e outra o fogo ardia»; ou
rezar : «A agua é fria, mas nao tem frieza ; o fogo é quente,
nao tem calor. Jesús Cristo nao sofre dor», mais um P. Nv e
A. *M. oferecido a paixáo e morte de Jesús.
Estes espécimes de medicina curandeira ou benzedeira já
bastam para que se possa formular um juízo sobre tais práticas.

2. Superstigáo...

Analisando, sem preconceito, as táticas aplicadas por ben-


zedores e semelhantes «milagreiros», verifica-se que sao total
mente inadequadas para produzir os maravilhosos efeitos que
se lhes atribuem. Na verdade, nem a Ciencia nem a Religiáo
fornecem base para se poder asseverar que «tais práticas»
estáo necessáriamente associadas com «tais curas» de enfer-
midade...
a) Nem a Ciencia: nao será necessário insistir no fato
de que tais receitas só estáo em voga em ambientes ditos
ocultistas, místicos, iniciáticos. Éste fato é eloqüente indicio
de que nao se pode justificar com raciocinio e argumentos o
pretenso nexo entre os meios empregados pelos curandeiros e
as curas que apregoam; a ciencia nao vé, nem pode ver,
proporgáo intrínseca (baseada na própria estrutura dos seres)
entre tais artificios e a saúde do doente... As curas seriam
efeitos muito superiores as causas, o que vem a ser absurdo e
impossível.

Verifica-se mesmo que a utilizacáo de certos recursos curandeiros


é sugerida meramente por fantasía ou por associacáo de imagens ou
por arbitraria assonáncia de vocábulos; assim a cura do tercol e o

— 139 —
«PERGUNTE E RESrONPEREMOS> 52/1962. qu. 2

olhar para o sol, a cura do vómito e o «segurar firme urna chavo, a


obtencáo de pele bonita e o «lavar-se em agua que serviu para o pri-
meixo banho de um recém-nascido»!

Mas a Religiáo nao vería auténticos milagres nos prodigios


atribuidos aos curandeiros ?
b) Nem a Religiáo... Nao consta de modo algum, tenha
o Senhor Deus prometido atender aos devotos que O invo-
cassem mediante os rituais ou os artificios do curandeirismo;
portante nao há revelacáo divina que supra a falta de nexo
lógico entre os meios utilizados e os fins visados pelos ben-
zedores.
Também nao merecem crédito as promessas que, conforme
certas noticias ocultistas, tal ou tal santo teria feito em
favor de tal ou tal rito curandeiro.

«Algumas oracdes supersticiosas se dizem, por exempio, copias de


urna letra achada no Santo Sepulcro. Outras teriam sido tiradas de um
precioso pergaminho encontrado nos alicerces de um castelo mourisco.
Grande porcáo alega ter sido importada diretamente de Jerusalém ou
também do Porto, nao sei por qué. Urnas se dizem de acordó com os
manuscritos existentes no museu do Cairo. Há também as que teriam
sido achadas em Monserrate, escritas em pergaminho, dentro dum
cofre de bronze. Ou sao copias conservadas pelo imperador Carlos, em
seu oratorio, em caixa de prata. Por vézes também se diz que os ori
gináis foram enviados pelo Papa Leáo ao Rei de Franca. Algumas sao
apresentadas simplesmente como oracOes antigás, ou de antiqülssimos
manuscritos, etc> (Fr. Boaventura Kloppenburg, Nossas Superstic5es.
Petrópolis 1959, pág. 9).
As noticias désse género nao estáo baseadas em documentos his
tóricos, de modo a poder provocar a fé de quem as 1§.

É verdade que Deus e os santos (Deus, por seu próprio


poder; os santos, por sua intercessáo) respondem a quem
devotamente pega alguma graga. O próprio Jesús o prometeu
no Evangelho, ao exortar: «Pedi e recebereis; procurai, e
encontrareis ; batei, e abrir-se-vos-á» (Mt 7,7). Contudo o
Senhor Deus apenas exige que oremos e promete eficacia á
oragáo só ; de modo nenhum menciona nem abona alguma das
béngáos ou táticas curandeiras ; estas constituem acréscimos
inspirados pela fantasía e a falsa religiáo.
E o demonio com os espíritos maus, freqüentemente evo
cados pelos curandeiros, nao seriam os autores tanto das mo
lestias como das curas ?
Na verdade, existem, sim, demonios ou anjos pecadores,
a quem Deus concede a licenga de tentar os homens nesta
térra a fim de acrisolar as suas virtudes. Contudo o poder do
demonio é limitado pela Providencia Divina (cf. «P. R.»
51/1962, qu. 2). Nada nos diz que ele possa ser provocado,

— 140 —
BfiNCAOS DE CURANDEIROS E EFEITOS MARAVILHOSOS

conjurado ou detido simplesmente por arbitrio dos homens,


de acordó com receitas ou fórmulas comunicadas a pessoas
«iniciadas» ; em outros termos: nada garante que o demonio
faga algum prodigio por influencia de ritos determinados. Ver-
dade é que o Maligno, «como leáo a rugir, anda em redor dos
homens, procurando a quem devore» (cf. 1 Pdr 5, 8s); se
ele ataca e prejudica mesmo a quem lhe resiste, é de crer
que, com muito maior eficacia, responda a quem espontánea
mente o interpela ; disto, porém, nao se pode concluir que taJ
ou tal fórmula, tal ou tal arte desencadearáo certamente a
agáo do demonio...

Pode acontecer que Satanás satisfaga urna ou outra vez as con-


juracóes dos magos, benzedores, feiticelros; ele o faz entáo justamente
para manter os homens na ilusao de que as fórmulas empregadas sao
válidas, ou para os manter na ilusao de que Satanás é o grande Senhor
da felicidade ou da desgrasa dos homens, e de que os curandeiros sao
os privilegiados capazés de mover os poderes invisiveis em favor ou em
prejuízo dos seus clientes.
De resto, o demonio nao espera ser invocado para intervir na vida
dos mortais; através das contingencias mais ordinarias de todos os dias
ele os tenta e consegue suplantar hoje em dia mais ainda do que em
tempos passados. Disto se depreende que nao há motivo para admitir
com facilidade a intervencáo prodigiosa do Maligno no curso dos acon-
tecimentos terrestres.

Em resumo, homem nenhum tem poderes para forjar ou


obrigar os espirites a comparecer e executar as suas ordens;
em conseqüéncia, feitigos, fórmulas, encantamentos, béncáos,
despachos e passes sao, como tais, totalmente ineficazes. Se
em um ou outro caso parece que, de fato, produziram o efeito
desejado, faz-se mister procurar explicagáo para o apregoado
portento em outra fonte que nao a aplicagáo mesma do rito
ou da fórmula.
E que outra fonte poderia ser essa ?
Eis o que abaixo consideraremos.

3. Gomo explicar os «milagres» das béngáos ?

Cada caso de cura há de ser estudado de per si, levando-se


em conta as suas circunstancias próprias. Aqui propomos alguns
principios que contribuem para explicar tais fenómenos.
1) Há, por vezes, inexatidáo e exagero ao se proclamar
o aspecto maravilhoso das curas.
2) Existem também doengas ilusorias, devidas á suges-
táo, a histeria e á mania dos pacientes, que de boa fé sr
eoloeam no rol dos doentes. Nestes casos, é claro que só pode
haver aparente cura milagrosa.

— 141 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 2

3) Ocorrem também doengas simuladas, apresentadas de


má fé, em vista de vaidade, lucro e mistificagáo. O Secreta
riado Médico de Lourdes conhece elevado número de tais
casos ; guando ocorrem, evidentemente nao há cura milagrosa.
4) Conhecem-se outrossim doengas intermitentes, que
em certas fases parecem curadas, mas na realidade continuam
e mais tarde reaparecem: tais podem ser a tuberculose, o im
paludismo, a disenteria amebiana, certas molestias mentáis.
5) Registram-se igualmente doengas funcionáis, ou seja,
doengas que nao afetam própriamente tecidos do orga
nismo, mas, sim, o seu funcionamento ou metabolismo ; die-
pendem essencialmente do sistema nervoso e das influencias
(de sugestóes e reflexo condicionado) exercidas sobre éste.

Entre tais molestias sujeitas a fatdres emotivos ou psíquicos, a Me


dicina moderna enumera : colite, insuficiencia hepática, angina do peito,
eczemas, urticaria, furunculose, nevralgias, asmas, úlceras no estómago...
Segundo estatística recente, 83% dos casos de consulta a curandeiro
tém por objeto molestias desta categoría. A cura entáo (aparente ou
definitiva) se obtém por sugestáo, como já expusemos em «P. R.»
32/1960, qu. 2. Em tais casos nao se pode falar de milagres nem de
intervencao preternatural ou sobrenatural.

6) Quanto as bicheiras em particular, é claro que as


receitas indicadas á pág. 138 sao por si ineficazes. De outro
lado, se realmente sao curadas, nao se pode falar de sugestáo,
pois os animáis afetados sao irracionais e, por conseguinte,
inconscientes de quanto se faz por aliviá-los. Parecem, porém,
vir a propósito as seguintes consideragóes:

«Devemos lembrar que a própria natureza dos animáis terá algum


meio para se defender. Asslm é que o bol tem a capacidade de atingir
com a língua áspera e rude quase todas as partes do corpo, podendo
distribuir também amplamente a sua saliva. Nao haverá nisso mais
fdrca curativa que no rasto virado? Notaram alguns que os benzedei-
ros curam tddas as bicheiras, menos aquetas que estáo na cabeca das
res : é porque ai nao alcanca a lingua... Joao Dornas Filho, em 'Capí
tulos da Sociología Brasileira', Rio 1955, p. 10, nota, cita a seguinte
observacáo : 'Como se sabe, as larvas da 'Dermatobia hominis' costu-
mam abandonar o hospedador ao cabo de seis semanas aproximada
mente, e quase sempre de manha. O vaqueiro experimentado conhece
empíricamente o ciclo do destrideo. Aguarda a evolucao da larva e, com
o romper do dia, encena o seu 'dom sobrenatural', que o torna respei-
tado de todos. E esta operacao poderá ser realizada mesmo a distancia
de leguas...> (Kloppenburg, ob. cit. 33s).

Além disto, será oportuno observar o seguinte : já em


«P. R.» 42/1961, qu. 2 notamos a existencia da percepcáo
extra-sensorial ou percepgáo (conhecimento) de objetos a dis
tancia ; segundo os resultados das pesquisas modernas, existe
no homem urna faculdade de conhecer independentemente do

— 142 —
COMO RESSUSCITARAO OS CORFOS HUMANOS?

tempo e do espago, faculdade meramente natural (dita «psi-°


gama»), cujo funcionamento nao depende de forgas preterna-
turais, e cuja perspicacia ou acume varia de individuo para
individuo.
Pois bem. Há estudiosos que, abstraindo de qualquer pre-
conceito filosófico ou religioso, julgam haver no homem tam-
bém urna faculdade de mover corpos á distancia ou sem en
trar em contato com éles: o simples pensamento agiría sobre
a materia sem precisar de intermediarios físicos (fenómeno
dito «psicoquinesia» ou PK).

O famoso professor J. B. Rhine, da Universidade de Duke (U. S. A.),


aplicou-se á observagáo do fenómeno, utilizando um par de dados:
pedia repetidas vézes a determinadas pessoas que se esforcassem, ape
nas com o pensamento e o desejo, por atuar sobre dados que iam
ser lanzados, a íim de conseguir certo número de pontos (sete pontos,
por exemplo, mediante dois dados); efetuou assim freqüentissimas ex
periencias; os resultados, porém, nao convenceram totalmente os crí
ticos. — Provas de outro tipo íoram tentadas : na Franca, Chevalier e
Hardy utilizaram gotas de um liquido; o mesmo foi feito por Nigel
Richmond na Inglaterra. O Dr. Paúl Vasse procurou investigar o efeito
do pensamento sobre a germinacáo das plantas; também o Rev. Loeb,
nos Estados Unidos, julgou poder influir sobre as plantas mediante
oragdes. O Dr. Richard da Silva tentou atuar do mesmo modo sobre
microbios.

As pesquisas em torno do fenómeno PK aínda estáo em


fase muito inicial, nao permitindo conclusóes seguras. Bastam,
porém, os resultados até agora obtidos para que se possa
admitir em alguns casos urna agáo da mente sobre a materia,
sobre as plantas e sobre os organismos. Tal agáo da mente
seria mais um fator explicativo das curas obtidas por beríze-
dores ; estes teriam eficacia nao por suas fórmulas, nem por
intervencáo de algum poder invisível, superior, mas pela apli-
cagáo de seu pensamento á pessoa ou ao animal doente.
Em todo e qualquer caso, ficamos sempre dentro do
setor das fórgas naturais. Embora tais fenómenos sejam asso-
ciados a determinadas formas de religiosidade, éles nada tém
que ver com Religiáo própriamente dita.

II. DOGMÁTICA

RENATO (Curitiba) :

3) «Gomo imaginar os corpos ressuscitados ? Conserva-


rao ainda os seus tragos característicos ou aparecerá» des
tituidos de notas pessoais, todos reduzidos ao mesmo tipo ?»

— 143 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS». 52/1962, qu. 3

• Já em «P. R.» 26/1960, qu. 3 tratamos da ressurreicao. da carne,


expondo os fundamentos desta verdade da fé oristá e sua diferenca em
relacáo á reencarnacáo. Em «P. R.» 26/1960, qu. 2 explanamos o modo
como se há de entender a identidade entre o corpo ressuscitado e o
corpo mortal.
Passemos agora a rápida análise das qualidades que caracterizarlo
os corpos após a ressurreicáo. Faz-se mister distinguir entre qualida
des comuns a todos os corpos ressuscitados e qualidades próprias dos
justos ou bem-aventurados.

1. Assim seráo todos os corpos ressuscitados...

Duas sao as qualidades que se assinalam indistintamente


a todos os corpos ressuscitados: imortalidade e integridade.
Examinemos cada qual de per si.

1) Imortalidade.
Após a ressurreicáo, a vida nao terá mais fim, seja a
vida bem-aventurada dos justos no céu, seja a triste existencia
dos reprobos no inferno. É o que se depreende nao sómente
dos textos bíblicos que falam da vida postuma como sendo
«vida eterna» (Rom 6,22s; Mt 25,46; 19,16; 1 Jo 5,13; Jo 17,3),
mas também da explícita passagem da epístola aos Hebreus:
«Foi estabelecido, para os homens, morrer nm só vez; depois
do que há o julgamento» (9,27).
Da prerrogativa da imortalidade deduz-se que nada que
possa ameagar a vida, afetará os ressuscitados ; nao experi-
mentaráo tendencia á decrepitude ou ao declínio. Em conse-
qüéncia, tornar-se-áo desnecessárias as fungóes de nutrigáo e
geragáo, mediante as quais o individuo e a sociedade procuram
de certo modo perpetuar-se, suprindo as deficiencias do corpo
mortal; por nao exercerem mais tais fungóes, os ressuscita
dos sao pelo Senhor comparados aos anjos do céu (cf. Le 20,35).

Para os justos, a imortalidade gloriosa será um sinal do triunfo


que teráo obtido com Cristo sobre o pecado. Para os reprobos, ao con
trario, a imortalidade nao será motivo de regozijo, mas sancáo muito
aflitiva, pois há de os confirmar sem fim num estado extremamente
doloroso.

2) Integridade.
Éste predicado significa que todos os ressuscitados, tanto
justos como reprobos, possuiráo todos os órgáos e membros,
todas as facuidades que o corpo humano por sua natureza
normalmente possui, embora hajam sido mutilados ou disformes
neste mundo. Conservaráo outrossim a distingáo de sexos.
Estas afirmagpes decorrem do fato de que o homem res-
suscitará, conforme o plano de Deus, a fim de atingir a sua

— 144 —
COMO RESSUSCITARAO OS CORPOS HUMANOS?

consumacáo. Por conseguinte, deverá gozar de tudo aquilo


que pertence á natureza humana como tal; Deus, portante,
restaurará nos corpos ressuscitados os órgáos amputados ou'
mutilados nesta vida; dará até mesmo os que o individuo
nunca tenha possuído (olhos, por exemplo, ao cegó de nasci-
mento; o desdentado recuperará todos os dentes). Sto. Agos-
tinho e S. Tomaz ensinam que também as unhas e os cábelos
integraráo o novo corpo, estes, porém, em quantidade normal,
nem deficiente (o que seria a calvicie) nem excessiva.

Sto. Agostinho compraz-se em pormenores :


«Nada de deíeituoso haverá nos corpos ressuscitados. Os que tive
rem sido obesos e gordos, nao retomarlo toda a quantidade de seus
corpos, mas o que exceder o normal será tratado como supérfluo. Ao
contrario» tudo que a doenca ou a velhice tiverem consumido nos-corpos,
será restaurado por Cristo com poder divino; o mesmo se verificará
nos que, por magreza, tiverem sido demasiado esguios; com efeito,
Cristo nao sómente nos restituirá o corpo, mas ainda restaurará tudo
que nos houver sido subtraido pelas miserias desta vida» (De civi-
tate Dei 22,19).

É verdade que muitos órgáos só tém fungáo ñas circuns


tancias da vida terrestre e nao seráo utilizados após a ressur-
reigáo; todavia, já que pertencem á integridade da natureza,
nao poderáo faltar; de resto, nao deixará de haver objetos a
que se apliquem alguns dos sentidos, principalmente o da
vista (que contemplará os corpos transfigurados).

Na antigüidade, houve quem quisesse negar a ressurreicáo de todos


os membros, asseverando que os corpos futuros seráo arredondados.
Esta sentenca dos chamados «origenistas» foi condenada pelo sínodo re
gional de Constantinopla reunido em 543 (cf. Denzinger, Enchiridion
207). Os mesmos discípulos de Orígenes nao queriam admitir distingáo
de sexos na vida eterna; parecia-lhes que todos os individuos ressusci-
taráo com as características masculinas, já que Sao Paulo escreve:
«... em vista da edificacáo do corpo de Cristo, até que cheguemos todos
á idade de homens feitos» (Eí 4,12s). Enganavam-se, porém, na inter-
pretacáo do texto paulino, que se quer referir n&o ao sexo masculino
como tal, mas á virilidade de animo que possuiráo todos os justos res-
suscitados, homens e mulheres. Os Padres e os teólogos admitem. a
diversidade de sexos na vida futura, já que ela nao é conseqüéncia do
pecado, mas, ao contrario, pertence á natureza humana tal como Deus
a criou.
Quanto as características de idade dos corpos ressuscitados, de
novo um texto de Süo Paulo p'restou-se a conjeturas : «... até que che
guemos todos á idade de homens íeitos, á medida da estatura perfeita
de Cristo, a fim de que nao sejamos mais criancas flutuantes» (Ef
4,13). Ora, como se julga que Cristo tenha atingido a idade de trinta
anos ou pouco mais, afirmavam nao poucos antigos e medievais que os
corpos .ressuscitados teráo todos indiferentemente o aspecto que em
condicoes normáis corresponde a esta idade; por conseguinte, os indi
viduos falecidos em idade infantil ou senil ressuscitariam em idade
viril. Procuravam corroborar essa tese fazendo notar que é aos trinta

— 145 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 3

anos que o carpo atinge a perfeicSo das suas formas, comecando, logo
a seguir, um lento declínio. Esta sentenca nao é aceita por todos os teó
logos recentes; certamente nao se pode fundar no texto paulino, que
trata de crescimento sobrenatural. Há quem julgue mais conveniente
que na aparéhcia externa dos corpos ressuscitados haja algo que lem-
bre a sua vida na térra; assim, S. Estanislau Kostka terá para sempre
o seu aspecto sobrenatural gracioso de jov'em, ao passo que o velho
Simeao conservará sua aparéncia majestosa e veneranda, confirmada
por. novo fulgor da graca.
No tocante á estatura, S. Tomaz admite que nao será a mesma
para todos os individuos; nem mesmo os homens normáis sao todos do
mesmo tamanho. Cada qual, portante ressurgirá com a estatura que
tenha tido ou teria tido na sua idade madura, na plenitude do seu de-
senvolvimento (ninguém. pois, ressurgirá na estatura de crianca ou
de anciáo); caso, porém, a natureza, num ou noutro individuo, haja
produzido, ou tendesse a produzir, algum excesso desarmonioso, quer
para mais, quer para menos, Deus reduzirá ésse excesso ao grau nor
mal. É, pois, de orer que ninguém ressuscitará num corpo ridiculamente
alto ou ridiculamente baixo.

Dada a sobriedade da Revelagád no que se refere aos


pormenores, nao se atribua demasiado peso as conjeturas
ácima. Contudo nao se pora em dúvida que os corpos ressus-
citados careceráo de qualquer vestigio de mutilagáo ou defei-
tuosidade.
Faz-se mister ainda enumerar as qualidades especiáis dos
corpos dos justos.

2. Tais sera» os corpos dos bem-aventurados...

Quatro predicados devem ser aqui referidos : impassibilidade, ful


gor, agilidade, sutilidade.

1) Impassibilidade.

A carne dos justos nada poderá padecer"de molesto; ne-


nhum agente lhe poderá incutir alguma dor. É o que se de-
preende claramente das descrigóes da Sagrada Escritura; já
Isaías profetizava:

«O Senhor enxugará as lágrimas de todos os olhos... Nao terao


mais fome nem sede; nem a árela ardénte nem o sol os atingiráo>
(25,8; 49.10).
O Apocalipse retoma e desenvolve ésses dizeres :
«Nao terao mais fome, nSo terao mais sede; o ardor do sol nao os
abaterá, nem algum calor abrasador; pois o Cordeiro que está em meio
ao trono, será o seu Pastor e os conduzirá ás fontes das aguas da vida,
e Deus enxugará toda lágrima de seus olhos> (7,16s).

Compreende-se bem essa impassibilidade. O espirito do


homem, no paraíso, se rebelou contra Deus ; em conseqüéncia,
o corpo passou a se insubordinar á alma, e as criaturas infe-

— 146 —
COMO RESSUSCITARAO OS CORPOS HUMANOS ? ±é¿

ñores, por sua vez, deixaram de servir devidamente ao homem,


ocasionando as désordens e a afligáo que caracterizam o atual
estado de coisas. Ora na restauracáq final as almas estaráo
confirmadas na total adesáo a Deus : unidas ao Senhor, pos-
suiráo pleno dominio sobre o seu corpo; haverá ordem per-
feita entre carne e espirito; a seu turno, as demais criaturas
materiais reconheceráo o lugar eminente do homem no plano
de Deus e com ele se harmonizaráo num único concertó de
louvor á Bondade Divina.

2) Fulgor.

Os corpos dos justos refletiráo a gloria da alma; esta


redundará sobre a carne tornada translúcida á semelhanca de
um vidro. Em outros termos : a beleza sobrenatural do espirito,
recebida no corpo, tomará aspecto visível, coisa que de certo
modo, na medida em que os cristáos possuem a graca santifi
cante, já se deveria dar aqui na térra, caso o corpo nao esti-
vesse ainda sujeito as conseqüéncias do pecado; cpisa tam-
bém que se devia verificar na carne de Cristo desde o seu nas-
cimento em Belém, dado que o Senhor nao o tivesse volunta
riamente impedido (apenas na transfiguragáo sobre o Tabor
Jesús permitiu transparecesse pelo corpo a gloria que Ele
trazia na alma).

Como se entende, o fulgor1 do corpo ressuscitado será proporcional.


á santidade da alma, o que quer dizer: diferirá de justo para justo:
«Outro é o esplendor do sol, outro o da lúa, outro o das estrélas;
mesmo entre as estrélas, urna, dlfere da outra pelo seu esplendor»

De resto,"urna antecipacao do futuro fulgor é por vézes concedida


aos justos já nesta vida. Acontece que o rosto ou o olhar de pessoas
muito unidas a Deus, ricas de graca, reflete um encanto que dobra von-
tades rebeldes ou atrai multidSes; a graca é, sim, a sementé da gloria.

3) Agilidade.
É o dom em virtude do qual os corpos gloriosos se pode-
ráo locomover com toda a presteza, sem conhecer cansago
nem obstáculo. No Cristo ressuscitado tem-se claro exemplar
de tal prerrogativa: com admirável facilidade o Senhor se
transpuhha de urna regiáo a outra da Palestina. A agilidade
será conseqüéncia do pleno dominio que a alma bem-aventu-
rada exercerá sobre o corpo.

4) Sutílidade.

Outro dote que dimanará imediatamente déste total do


minio, será a absoluta prontidáo com que o corpo servirá e se

— 147 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 3

adaptará á alma. Nesta prerrogativa está incluido também o


poder de penetragáo da materia, de que certámente gozava
a carne de Cristo ressuscitada; o Senhor entrou repentina
mente no Cenáculo, onde estavam os discípulos reunidos, sem
que, para isto, tivesse que abrir as portas da sala (cf. Jo
20,19. 26) ; o corpo glorioso, portante, poderá ocupar um só
e mesmo espago dimensional juntamente com outro corpo.
Todavía S. Tomaz julga que isto nao se dará de maneira
habitual, mas únicamente a título de milagre esporádico.

É bem de notar que a sutilidade, de modo nenhum, Implica que o


corpo ressuscitado deixe de ser materia para se converter em espirito;
é materia auténtica, contudo materia mais intensamente penetrada pelo ■
espirito; o que quer dizer: enriquecida de qualidades mais nobres do
que as que possui atualmente. A expressáo paulina «corpo espiritual»
(1 Cor 15,44) nao significa senáo um corpo de materia em que o Espi
rito Santo expande plenamente a vida e a gloria de Deus.

Em conclusáo, verifica-se que os quatro predicados distin


tivos dos corpos gloriosos se derivam da perfeita harmonía
que reinará entre carne e espirito no estado de consumagáo.
A alma do justo, tendo entrado definitivamente no seu lugar
de criatura sujeita ao Criador, aderindo a Deus com toda a
inteligencia e o afeto, será grandemente dignificada: adqui
rirá sobre os seres inferiores, a comegar pelo próprio corpo,
o dominio que ela em váo procuraría obter rompendo os seus
vínculos de sujeigáo ao Senhor ; doutra parte, por ésse dominio
que sobre o corpo exercerá a alma, o próprio corpo será nobi-
litado. Destarte se verificará em plenitude o axioma : «Ser
vir a Deus é reinar». O primeiro homem, cobigando
dignidade e poder independentemente de Deus, perdeu todos
os dotes, preternaturais e sobrenaturais, de que gozava no
paraíso; ora eis que na restauragáo final de todas as coisas
Deus se dignará nao própriamente restituir os dons perdidos,
mas ultrapassá-los, concedendo á criatura humana prerrogati
vas muito superiores as do primeiro paraíso.

Ao contrario, os corpos daqueles que tiverem recusado a restaura


gáo trazida por Cristo, isto é, os corpos dos reprobos, possuiráo, sim,
as duas primeiras qualidades ácima enunciadas; contudo recebé-las-áo
como fundamento do seu castigo. fisses corpos seráo :
passtvels, ou sujeitos & dor,
obscuros ou tenebrosos, como imagens hediondas do mais obscuro
e deplorável estado de alma,
pesados, ou difícilmente sujeitos á locomocáo.
crassos, ou resistentes aos impulsos da alma.

Em urna palavra, seráo a expressáo fiel da horrenda situacáo pro-


duzida na alma pelo odio a Deus.

— 148 —
QUE CONTEMPLAM OS JUSTOS NO CEU?

SEQÜIOSO (Salvador) :

4) «Que oontemplam os justos no céu ?


Teráo noticia dos acontecimentos que nos dizem respeito
nesta vida ?
Conhccem as preces que os fiéis Ihes dirigcm na térra ?»

Os justos no céu sao felizes, antes do mais, por contem


plar a Deus face a face. Além disto, gozam de bens addentais,
relativos á inteligencia, á vontade e ao corpo. Explanemos
sucessivamente o sentido désses diversos motivos de bem-
-aventuranca.

1. A visao de Deus face a face

1. A Sagrada Escritura dá a saber que o cristáo é des


tinado a ver a Deus face a face como um amigo vé o amigo
num coloquio muito cordial.
Um dos textos mais significativos a éste propósito é a
seguinte passagem de Sao Paulo:

«Quando chegar o que é perfeito, terá íim o que é parcial... Atual-


mente vemos como que num espélho, de modo confuso; havemos de
ver, porém, íace a face. Agora conheco em parte; hei de conhecer,
porém, do mesmo modo como sou conhecido» (1 Cor 13> 10. 12).

Neste trecho o Apostólo compara o conhecimento que


temos de Deus nesta vida (conhecimento imperfeito) com o
que teremos após a morte : entáo gozaremos da intuigáo direta,
facial (face a face) de Deus. O homem conhecerá o seu Autor
como atualmente é por Ele conhecido, o que quer dizer: sem
intermediario ou símbolo que empalidega a visao. A diferenga
entre o conhecimento nesta vida e a intuigáo na eternidade
é indicada pela oposigáo entre «ver em espélho» (isto é, indi-
retamente) e «ver face a face» (expressáo muito cara aos
semitas, que designa intercambio direto).

Note-se ainda a seguinte passagem do Apostólo, em que fé (conhe


cimento através dos véus) e visSo (intuicáo direta) sao contrapostas
urna á outra:

«Chelos de seguranca e sabendo que, enquanto permanecemos


neste corpo, estamos longe do Senhor — pois caminhamos na fé, e nao
na visáo —, cheios de seguranga (digo), preferimos deixar éste corpo
e habitar junto ao Senhor» (2 Cor 5,6-8).

— 149 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 4

Sao Joáo, por sua vez, faz consistir a felicidade eterna


na visáo de Deus :

«Vede de que amor o Pai nos deu provas: trazemos o titulo de


¿unos de Deus e, na realidade, o somos!... Carissimos, já agora somos
íilhos de Deus. mas ainda nao fol manifestado o que um dia seremos.
Sabemos que, quando Ele se manifestar, ser-Lhe-emos semelhantes,
porque O veremos tal como Ele é» (1 Jo 3,1. 3).
Somos filhos de Deus, afirma o Apostólo. Contudo as condícóes em
que presentemente nos achamos, ainda sujeitos ao pecado, nao con-
dizem com a dignidade que trazemos oculta na alma; aguardamos, pois,
a revelacjU) da nossa qualidade de filhos de Deus. Isto se dará, continua
S. Joáo, quando o Filho Primogénito, Jesús Cristo, se dignar reaparecer
neste mundo; entao o Senhor nos tornará configurados á sua naturezá
humana gloriosa, e veremos a Jesús Cristo em sua realidade intima,
divina, «tal como Ele é», e, vendo o Filho, contemplaremos simultanea-
mente o Pai (cf. Jo 14,6-9; 17,3).

Explicitando estas idéias, o Papa Bento XII escrevia na


Constituigáo «Benedictus Deus», de 1336 :

«(Os bem-aventurados) viram e véem a esséncia divina em visáo


intuitiva ou face e face, sem que a visáo de alguma criatura se inter-
ponha; a esséncia divina se lhes mostra imediatamente sem véu, clara
e abertamente; vendo-a, nela se deleitam; por tal visáo e fruicáo, as
suas almas sao realmente felizes, possuem a vida e o repouso eterno>
(Denzinger, Enchiridion 530).

2. Pergunta-se, porém: como entender que o homem,


criatura de capacidades táo restritas, possa diretamente ver
a Deus, a Perfeieáo irrestrita ?
Para que isto se torne possível, os teólogos ensinam que
Deus se digna robustecer a inteligencia humana, infundindo-
-lhe a chamada «luz da gloria» ; esta consiste numa qualidade
permanente, inerente á alma, que eleva, dilata é corrobora a
inteligencia, tornando a alma «proporcionada» a ver a Deus
como Deus vé a Si mesmo :

Assim escreve Léssio, famoso teólogo do séc. XVI:

«Como a luz corporal faz que o ólho do corpo se estenda á vas-


tidáo déste mundo e de modo admirável como que a apreenda dentro
da sua capacidade, assim aquela luz espiritual e divina faz que a
mente... se possa dilatar e como que receber dentro de si toda a imen-
sidáo de Deus> (De summo bono 1.2, c. 8, n. 44).
Deve-se todavía observar : nenhuma inteligencia criada, nem mesmo
a angélica, ainda que robustecida pela luz da gloria, está á altura de
conhecer a Perfeieáo divina de maneira exaustiva; sómente a Inteli
gencia divina, infinitamente perfeita, é apta a conhecer exaustivamente
o Infinito das perfeicOes divinas. Em conseqüéncla, devenios afirmar:
os bem-aventurados véem a Deus todo, tnteiro, nao, porém, totalmente;
nada há em Deus que nao seja contemplado pelos justos no céu, mas

— 150 —
QUE CONTEMPLAM OS JUSTOS NO CEU ? ;

nada há em Deus que seja contemplado táo perfectamente quanto é


contempláyel. em toda a Sua riqueza de ser. Os bem-aventurados véem
o Infinito,' sabem que Ele é o Infinito, mas nao O conhecem de ma-
neira infinita.

3. Ulterior precisáo impóe-se agora: a maneira finita


segundo a qual os bém-aventurados véem a Deus, admite graus
de perfeicáo diversos; enquanto uns contemplam com grande
penetragáo e nitidez, outros carecem de igual perspicátía;
«na casa de meu Pai há muitas mansóes», diz o Senhor
(Jo 14,2).
E que é que distingue os graus de visáo ou os graus de
comunicagáo da luz da gloria ?
É o grau de caridade sobrenatural com que cada alma
deixa esta vida: onde há mais amor a Deus, há mais desejo
de ver e possuir a Deus, e é a éste desejo que o Senhor Se
digna corresponder, manifestando-se e dando-se á criatura no
céu. Éste principio expíica que homens de capacidades naturais
muito limitadas possam chegar a eminente grau de gloria
sobrenatural, de intuigáo do Divino ueste mundo e na vida
celeste, ao passo que criaturas talentosas, do ponto de vista
humano, pouco entendem das coisas de Deus: a grande cari
dade existente naqueles, e nao nestas, dá a afinidade com Deus
que abre o ólho da mente para os misterios da vida divina. ■
É portante pelo amor a Deus, pela fidelidade a Deus, que
o homem aquí na térra vai adquirindo a capacidade cada vez
mais esmerada de conhecer o seu Senhor, capacidade que
encontrará sua saciedade na vida postuma.
Será, porém, que no céu os bem-aventurados só véem
a Deus ?
É a éste quesito que vamos agora voltar a nossa atencao.

2. Os-bens acidentais

A visáo de Deus intuitiva ou face a face é, como diziamos, um hem


cuja riqueza infinita a criatura jamáis apreenderá totalmente; cons
tituí por si só motivo sobejo de felicidade sem fim. Contudo é impos-
sivel ver a Deus sem ver simultáneamente ao menos algumas de suas
criaturas, como quem vé urna causa nao pode deixar de ver também
ao menos alguns dos efeitos contidos na potencialidade dessa causa.
Por isto é que na bem-aventuranca celeste, além da visáo de Deus (que
é o bem essencial), há bens acidentais, que dizem respeito a inteligen
cia, á vontade e ao corpo do homem justo. Consideremo-los de mais
perto.

1) Bens da inteligencia.

Quem vé a Deus intuitivamente no céu, nao vé sómente


a Perfeifiáo Infinita como tal, mas também os modos finitos

— 151 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962. qu. 4

pelos quais Ela pode ser participada ; em outros termos :...


vé também criaturas, pois estas nao sao senáo modos pelos
quais a Perfeigáo Divina se reflete ou se espelha.
Mais precisamente: os bem-aventurados contemplam em
Deus o grande plano de salvagáo dos homens concebido desde
toda a eternidade, plano que compreende a permissáo do
pecado, a Encarnagáo, a morte e a ressurreigáo de Cristo, o
dom da Eucaristía, das Escrituras Sagradas, a vida miste
riosa da Igreja, a maneira aparentemente desconcertante como
Deus prové á Redengáo dos homens.
Além disto, leve-se em conta que toda alma justa está
envolvida dentro de um enredo de vida pessoal aqui na térra:
empreende suas obras, que ela deixa inacabadas ou em curso
neste mundo ; está vinculada a urna familia, a um circulo de
amigos e á sociedade, que ela abandona na hora da morte. É
natural que a alma do justo no céu deseje conhecer o que diz
respeito a tais obras e pessoas no decorrer da historia déste
mundo, pois o amor que o justo dedica a essas criaturas é
amor puro, amor derivado do amor ao próprio Criador. Em
conseqüéncia, Deus corresponde a essas legitimas aspiragóes
dos bem-aventurados, dando-lhes a conhecer criaturas e acon-
tecimentos que de perto os concernem no decurso da historia
terrestre.

Alguns de tais acontecimentos e criaturas sao contemplados na


esséncia divina mesma, pela intuicáo ¡mediata de Deus. Acontece, porém,
que a visao da esséncia divina tem sua intensidade e sua extensáo
limitadas pelo grau de caridade de cada individuo; para que essa limi-
tacáo nao se torne obstáculo a que cada justo veja o que lhe diz res
peito aqui na térra, julga-se que, em casos oportunos, Deus supre a
llmitagao, concedendo revelagfies especiáis aqueles a quem isto com
pete. Parece mesmo de toda conveniencia que certos objetos, como sao
atos contingentes de somenos importancia realizados na térra. nSo
sejam contemplados na intuicáo do objeto transcendente que é a essén-
qia divina, mas revelados por comunicagao particular.
Difícil seria determinar com precisao quais sao tais atos contin
gentes. Os autores enumeram homenagens e honras tributadas a me
moria dos justos. Certo é que os bem-aventurados tém conhecimento
das preces que neste mundo e no purgatorio lhes sao dirigidas; apenas
resta margem para indagar se as conhecem pela intuicáo direta de
Deus ou por revelagáo especial (o que é questáo de importancia se-

Além das nogoes assim contempladas contribuiráo para a felici-


dade dos justos os conhecimentos adquiridos na térra por via de estudo
ou de experiencia; qualquer verdade, seja de índole científica, seja de
Índole histórica, conhecida na vida presente, mas obliterada na memo
ria, há de reviver no céu e tornar-se fonte de alegría para quem a pos-
suir. Donde se vé que nenhuma das nogoes adquiridas na térra, e tao
fácilmente esquecidas, é perdida; tornar-se-á fonte de gozo imperecivel
no céu; o estudo da verdade nesta vida, em qualquer setor que seja,
tem rendimento muito maior do que comumente se poderia crer (qual-

— 152 —
QUE CONTEMPLAM OS JUSTOS NO CEU ?

quer proposicáo da verdade é participado da Verdade Subsistente,


que é Deus).
Julga-se que também ás criancinhas e aos adultos batizados, mas
falecidos sem o uso da razao, Deus dará os conhecimentos que deve-
riam ter chegado a possuir na térra em condicóes normáis.

2) Bens da vontade.

Da contemplagáo se deriva, na térra e no céu, o deleite


da vontade nos objetos contemplados. Tal deleite, na patria
eterna, nao será perturbado por contrariedade alguma. Nao
o diminuirá o fato de nao estar a alma unida ao corpo antes
da ressurreigáo final.
As almas conscientes de nao ter alcangado a gloria a que
outros bem-aventurados chegaram por sua luta na térra, nao
conceberáo por isto inveja nem pesar.
Também a sorte menos feliz ou desgragada de outras al
mas, quer vivam neste mundo, quer no purgatorio ou no in
ferno, quer sejam parentes, quer sejam estranhos, nao afetará
a felicidade dos justos no céu; nao haverá saudades dos caros
familiares ou amigos que estejam ausentes (na térra ou no
inferno). A razáo disto tudo é que a vontade e as tendencias
dos justos no céu estaráo plenamente identificadas com a
santíssima vontade de Deus ; tudo que os bem-aventurados
■conhecem na patria celeste, conhecem-no como Deus o conhece,
ou seja, através do prisma da Justiga perfeita, da Sabedoria
infinita, da Misericordia absoluta ; veráo, pois, em todos os
erros das criaturas algo de abominável, sem dúvida, mas algo
que nao causa detrimento a perfeigáo do universo, á harmonía
final da historia ; veráo mesmo nessas falhas da liberdade
criada algo de que o Deus Santo toma ocasiáo para manifestar
seus atributos sumamente louváveis e adoráveis.

Tenha-se igualmente por certo que nenhum desejo dos habitantes


do céu deixa de ser saciado: cada qual é táo feliz quanto é capaz de
o ser.

Nao se pode dizer que um cálice pequeño, contendo licor até o alto,
está menos cheio do que um cálice grande ñas mesmas condicóes;
ambos estáo simplesmente cheios. Assim no céu todos sao simples"
mente íelizes, cada qual, porém, no seu grau.

3) Bens do corpo.

Após a ressurreigáo, o corpo permanecerá unido á alma, e


esta o fará participar da sua gloria. A reconstituigáo do homem
em sua estrutura completa nao deixará de acarretar particular
alegría para os bem-aventurados. Os sentidos da vista e da au-
digáo reconstituidos se deleitaráo respectivamente pela contem-

— 153 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 5

plagáo dos corpos gloriosos e pela recepgáo das melodías celestes,


que nao seráo mentáis apenas, mas também vocais.

Tal é ao menos a sentenca de S. Tomaz, assim formulada:

«Na patria haverá um louvor vocal (embora alguns pensem de


outro modo)...; isto nao se verificará por motivo de erudigao, como
se os bem-aventurados precisassem de adquirir ciencia (pelo ouvido).
mas para que o sentido da audicáo tenha a sua perfeicáo e o seu
deleite» (Suma Teológica, Supl. 82, 4 ad 4).

4) Bens da convivencia celestial.

Os justos se regozijaráo outrossim por se encontrarem com


Cristo (ou seja, com a santissima humanidade do Redentor),
com a Virgem Santissima, Máe celeste, e com os santos; ale-
grar-se-áo por verem de novo seus familiares e amigos, unidos
já na intimidade de Deus e na mesma casa paterna; reconhecer-
-se-áo mutuamente e se comunicaráo uns com os outros. O amor
que nutriam entre si na térra, será totalmente puro, destituido
de qualquer vestigio de egoísmo e corroborado pela visáo exata
das perfeigóes naturais e sobrenaturais que ornam o próximo.

Eis, em poucas palavras. *o que constituí a bem-aventuranca dos


justos no céu. Em particular, com referencia as oracoes a éles dirigi
das, vé-se com que fundamento lógico sao elas formuladas : a Sabedo-
ria Divina nao extingue, pela morte, as relacoes e o intercambio de ca-
ridade que Ela mesma instituiu aqui na térra, destinando cada homem
a se aperfeicoar e a se salvar em comunháo com os demais homens.

III. SAGRADA ESCRITURA

QUINTANISTA (Sao Paulo) :

5) «Poderia fazer um confronto entre a recente deseo-


berta do «Zinjántropo», homem que terá vivido há 1.750.000
anos atrás, com a historia bíblica de Adáo e Eva ?
Nao haverá incompatibilidado entre urna e outra?»

Antes do mais, importa referir brevemente os dados concernentes


ao Zinjántropo; feito jsto, estabeleceremos o confronto com as afirma-
cSes bíblicas.

1. O Zinjántropo

Urna certa revoluto ñas concepcoes dos estudiosos se deu quando,


aos 22 de julho de 1961. foram publicadas as conclusSes de pesquisas
empreendldas em torno de um fóssil recém-descoberto e denominado
«o Zinjántropo> (Zinjanthropus Boisei) ou «o homem que quebra
nozes».
O «ZINJANTROfrO E ADAO •

Eis o trámite da descoberta :

1. Era julho de 1959, o sabio inglés L.B.S. Leakey, do


Museu Coryndon, trabalhando no vale de Olduvái (territorio de
Tanganika, África), defrontou-se com urna ossada craniana que
parecía pertencer a um homem pequenino, nao muito gracioso,
mas em aparéncia muito mais antigo do que os fósseis até entáo
conhecidos.
Transferidos para a California, ésses achados foram entre
gues aos professóres Jack F. Evernden e Garniss H. Curtiss,
que lhes procuraram determinar a idade. Já que nao há meios
para identificar ossos que tenham mais de 50.000 anos, os pes-
quisadores resolveram analisar as rochas encontradas imediata»
mente ácima e abaixo dos fósseis de Olduvai. Essas rochas eram
provenientes de larvas vulcanicas e continham potássio. A fün
de conseguir conclusóes seguras, os estudiosos investigaram nao
menos de dez amostras de tais pedras, submetendo-as ao método
recentíssimo «do potássio-argon» (o potássio 40 se decompóe re- .'
gularmente, dando argón 40). Averiguaram assim que os ossos
de Olduvai contam a idade media de 1.750.000 anos, podendo esta
cifra variar entre 1.600.000 e 1.900.000 anos (há probabilidades ;
maiores para as datas mais antigás)'. Perto do cránio do «Zin-
jántropo», mas em carnada inferior, o mesmo Prof. Leakey des-
cobriu em 1960 outras ossadas, as quais os exames químicos
atribuíram cerca de 50.000 anos mais que ao Zinjántropo; tais
outros fósseis tomaram o nome de «Pré-Zinjántropo»; parecem
ter pertencido a urna crianga de 11 a 12 anos.
2. Urna vez determinada a idade dos detritos ósseos, res-
tava adquirir a certeza de que haviam realmente pertencido a
seres humanos; nao seriam talvez ossadas de antropoides, ou
seja, de animáis semelhantes ao homem quanto ao corpo, mas
destituidos de alma humana (inteligente, racional) ?
A dúvida se resolveu com suficiente clareza. Com efeito;
junto ao Zinjántfopo foram encontrados ossos de pequeños ani
máis (os únicos, alias, que o Zinjántropo poderia atacar) assim
como instrumentos de pedra lascada, intencionalmente adapta
dos a cortar á guisa de facóes; eram indicios da «pebble culture»
ou da civilizagáo do seixo, civilizacáo típicamente humana, pois,
embora seja extremamente rudimentar, atesta urna inteligencia,
ou seja, a apreensáo das proporgóes existentes entre «tal meio»
e «tal fim».

Como se sabe, em muitos casos da pré-história é difícil definir se


determinado osso pertenceu a um homem primitivo ou a um macaco
aperfeicoado. A questáo se resolve geralmente pela observacjio dos
objetos que se possam encontrar junto aos fósseis; os antropológicas

— 155 — •
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 5

julgam que os fósseis representam verdadeiros homens todas as vézes


que junto a éles se encontram :
a) instrumentos intencionalmente burilados em vista de determi
nada atividade ou determinado objetivo a atingir. Éste «burilar» é in
dicio seguro de inteligencia, pois implica em reconhecimento das rela-
cóes que associam tal meio a tal íim (perceber as relacóes entre meio
e fim é prerrogativa da inteligencia; por sua vez. a inteligencia é ca
racterística incorifundível do homem; no animal irracional só há ins
tinto; cf. «P. R.» 33/1960, qu. 2);
b) indicios de producSo do íogo e detritos de cozinha (sera
dúvida, sómente o homem sabe produzir o fogo e fazer cozinha);
c) sepultura e culto dos mortos (o animal infra-humano ou irra
cional nao cuida dos mortos).

O Zinjántropo é, por conseguinte, o mais antigo tipo de ho


mem pré-histórico que se conhega. A sua descoberta nos obriga
a recuar por mais de um milháo de anos o aparecimento do ho
mem sobre a térra : ao passo que até julho de 1961 se atribuía
ao género humano a idade de 500 ou 600 mil anos, de julho para
cá já se lhe assinalam cérea de 1.750.000 anos de existencia. Daí
á extraordinaria importancia da descoberta do Zinjántropo. Mas
daí também as dúvidas que tém surgido na menfe daqueles que
querem estabelecer um confronto entre

2. O Zinjántropo e a Biblia

Procuraremos resolver essas dúvidas recordando algumas propo-


sicóee. das quais a maioria ja foi estudada em anteriores artigos
de «P. R.».

1) Nao há incompatibilidade entre a Biblia e o evolucio


nismo do corpo humano.

Resumindo quanto já foi dito em «P. R.» 4/1957, qu. 1,


lembramos: a Sagrada Escritura nao apresenta tese alguma
sobre a formacáo do corpo humano. Quando diz que éste foi
tomado do barro (cf. Gen 2, 7), serve-se de urna figura de lin-
guagem assaz comum na literatura dos antigos povos: os an-
tigos costumavam apresentar a Divindade sob os tragos de um
Oleiro, querendo com isto dizer que, assim como o oleiro é sabio,
poderoso e carinhoso senhor dos seus artefatos, assim também
Deus é sabio, poderoso e carinhoso Senhor do homem; é a Deus
que o homem deve a sua existencia. Disto nao se segué que
tenha formado o corpo humano a partir do barro nem tampouco
■que o tenha plasmado diretamente, prescindindo da evolucáo da
materia. Deus pode ter incutido á materia primitiva leis de evo-
lugáo que a tenham feito chegar aos poucos, por etapas sucessi-
vas, até o grau de complexidade e organicidade de um corpo hu
mano. A essa materia assim evoluída terá entáo infundido urna

— 156 —
O «ZINJANTROPO» E AMO

alma espiritual, racional, típicamente humana; a partir désse


momento entáo comegou o género humano a» existir sobre a
térra.
Portante, apenas com relagáo á origem da alma humana,
tem a fé crista (apoiada, alias, na Biblia e na própria razáo na
tural) urna tese bem definida: a alma foi (e é) criada direta-
mente por Deus, pois ela nao é material, mas pertence a um
nivel de ser superior. Ora, como ninguém dá o que nao tem, a
materia nao pode (nem pode) por suas virtualidades próprias
produzir o espirito. Deus teve que criar a alma do primeiro ho-
mem, como cria a de qualquer crianca que nasca no decorrer
dos sáculos. Nao se procurem ñas rochas e nos fósseis vestigios
diretos da infusáo da alma humana» Esta, sendo espiritual, nao
deixa marca material de sua passagem ou de si mesma. Por isto
os cientistas jamáis poderáo contradizer as ressalvas que f&ze-
mos no tocante a evolugáo da alma humana, alegando éles que
nao se encontram vestigios da sua entrada no corpo animal.

O darwinismo é rejeitado pela Igreja nao por ser evolucionismo,


mas por constituir urna forma de evolucionismo mecanlcista, sem fina-
lidade, regido apenas pela lei do mais forte, sem dar lugar á acáo da
Providencia Divina, que tudo prevé e tudo governa.
A aceitacao do evolucionismo para o corpo humano n&o quer dizer
que se deva considerar a existencia de Adáo como algo de lendário ou
figurado: tal conclusáo nao está contida naquela premissa; Adáo e
Eva foram personagens reais, constituindo o primeiro e único casal
do qual depende o género humano atual (explicag5es mais ampias do
assunto encontram-se em «P. R.» 20/1959, qu. 4).

.2) Ou plenamente homem on plenamente macaco.

Cf. «P. R.» 29/1960, qu. 1.


Admitindo a evolugáo, a fé crista (em nome também da
própria razáo) lembra que nao há meio-térmo entre o macaco
e o homem; o antropoide é ou 100% macaco ou 100% homem,
quanto a sua esséncia. A razáo desta afirmagáo é o principio se-
guinte : a esséncia de cada ser é algo de imutável ou (como diz
a linguagem filosófica) «indivisível»; ora o homem e o macaco
constítuem seres essencialmente diferentes um do outro; por-
tanto a esséncia de um nao se podé misturar com a do outro.
Dir-se-á: mas há ossadas que denuncian! transicSo lenta entre o
macaco e o homem; os fósseis se váo aperfeicoando gradativamente.
— Sim. Leve-se em conta, porém. que o que caracteriza o homem e o ma
caco, nao sao os ossos, mas o principio vital; ora o principio vital (a
«forma», conforme os filósofos) é imutável ou indivisível: ou é de
macaco simplesmente dito (macaco talvez dotado de corpo mais evo-
luido) ou é de homem (alma humana, espiritual, racional, colocada den
tro de um corpo ainda rude e primitivo; contudo 100% alma humana i.

— 157 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 5

As ossadas e o corpo podem evoluir, mas o principio vital que os anima


nao evolui, isto ó, nao muda a sua esséncia (se era de macaco, íica
sendo de macaco, ora mais aperíeicoado, ora menos aperfeigoado, de
geracáo em geracáo).
A esséncia do homem (que. repitamo-lo, é caracterizada pela alma, e
nao pelo corpo) nao se confunde nem mistura com a do macaco.

Vé-se, pois, que o Zinjántropo era ou verdadeiro macaco ou


verdadeiro homem. Se os dentistas estáo de acordó em agregá-lo
ao género humano, deve-se-lhe atribuir íntegra natureza hu
mana, igual á nossa quanto á esséncia, diferente da nossa apenas
por seus tragos somáticos ou sua configuragáo externa, material
(é claro que o Zinjántropo pode ter tido inteligencia menos
aguda do que a do homem moderno, mas, em qualquer caso, teve
inteligencia ou capacidade de apreender relagóes, proporgóes,
valores abstratos, coisa que o macaco, em hipótese alguma¡
possui).

3) A Biblia nao aprésente, cronología dos primeiros tem-


pos da pré-história.

Cf. «P. R.» 17/1959, qu. 5.


A cronología bíblica só comega a partir do Patriarca
Abraáo, que viveu por cerca de 1800 a. C. (cf. Génesis c. 12). Os
onze primeiros capítulos da Sagrada Escritura apresentam ape
nas «pinceladas» ou quadros avulsos e esquemáticos, que tém
por fim explicar a vocagáo de Abraáo, chamado de Ur da Cal-
déia para a térra de Canaá. Dizem-nos, pois, ésses capítulos que
há um só Deus, ... Deus bom e sabio, ao qual o mundo e o ho
mem (por via e modos que o livro sagrado nao quer descrever)
devem a sua existencia; Deus nao fez o mal; foi o homem quem,
abusando da sua liberdade, introduziu a desordem e, por con-
seguinte, o sofrimento e a morte, no mundo. Ora, para remir da
desordem e da morte o género humano, Deus seqüestrou Abraáo
e o povo de Abraáo, donde haveria de sair o Salvador para a hu-
manidade. Estes poucos tragos nao estáo acompanhados de in-
dicagáo de datas (excetuada apenas a narrativa da vocagáo de
Abraáo).
Replicar-se-á : mas a Biblia assinala quantos anos viveram
Adáo e cada um dos antigos Patriarcas, de modo que a soma
dessas cifras sugere a duragáo aproximada de 5.000 anos para
o género humano desde Adáo até Cristo... — Na verdade, os
números que parecem indicar a idade dos referidos Patriarcas
sao números meramente simbólicos, que nao significam quanti-
dades (duragáo de vida), mas qualidades (isto é, venerabilidade
e autoridade). Com efeito; estudos modernos de lingüística e
literatura antigás deram-nos a saber que muito freqüente era

— 158 —
O «ZINJANTROPO» E ADAO

outrora o uso simbolista dos números : para indicar, por exem-


plo, o respeito e a reverencia que alguém merecía da posteridade,
atribuia-se-lhe imaginariamente uñía longa vida; esta signifícava
experiencia, maturidade e, por conseguinte, venerabilidade e au-
toridade; ninguém, ao ler tais cifras, as tomava ao pé da letra
como se indicassem real duragáo de vida. Erróneo, portante,
seria atribuir hoje em dia valor matemático ou cronológico a
essas cifras; deixemo-las no seu sentido simbólico, como expres-
sáo da venerabilidade que toca aos Patriarcas bíblicos, sem que
rer daí deduzir alguma conclusáo referente á idade do género
humano. A Biblia, neste particular, aceita táo bem a suposicáo
de 600000 anos como a de 1.750.000 anos; a sua mensagem
(que é religiosa, e nao arqueológica ou biológica) nao sofre alte-
racáo após a descoberta do Zinjántropo e do seu recuo nos sé-
culos da pré-história.

4) As Escrituras nada afirmam a respeito do aspecto ou


do semblante de Adáo.

Há quem se desconcerté ao imaginar que Adáo tenha tido uma


coníiguracáo rude ou primitiva, semelhante a do Zinjántropo ou a de
outros fósseis. Nao há razáo de ser, porém, para essa perplexidade.

1. Nao há dúvida, é costume crer que Adáo tenha tido um


aspecto físico belo e gracioso, reflexo da grara sobrenatural que
estava em sua alma. Esta tese é antiga e tradicional; nada im
pede que seja sustentada ainda hoje: Adáo constituiu um caso
único em toda a historia do género humano; tendo perdido a
gra°a santificante pelo pecado, terá perdido também o esplen
dor físico que manifestava essa graca interior; seus descenden
tes entáo teráo caído no estado de primitivismo que a paleonto
logía revela, ficando sujeitos ás leis do aperfeigoamento paula
tino e difícil que regem todos os seres vivos.
Note-se bem que a ciencia de modo nenhum pretende ter
encontrado o cránio de Adáo; ela nao diz estar de posse das
ossadas do primeiro entre os primeiros homens; em outros ter
mos : ela nao assegura ter atingido a estaca zero da historia do
género humano; nao se vé mesmo como se poderia distinguir o
primeiro dos primeiros seres humanos. Isto torna vá qualqueu
tendencia a confrontar com muito rigor os dados da Biblia
concernentes a Adáo com as características de determinado fós-
sil, mesmo com as do Zinjántropo.
2. Pode-se também admitir que Adáo nao tenha feito ex-
. cecáo em relacáo ao aspecto dos demais homens primitivos.
Terá tido entáo um corpo e uma aparéncia semelhantes aos que
os fósseis atestam. Apenas em sua alma haverá possuído uma

— 159 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 5

riqueza espiritual e invisível (a graca santificante e os dons


preternaturais), riqueza que, por disposicáo do Criador, só se
deveria manifestar através do corpo, caso Adáo se compro»
vasse fiel aos designios de Deus ou obedecesse ao preceito dado
no paraíso. Já que de fato nao obedeceu, nunca se teráo refle-
tido no corpo humano os dotes extraordinarios da alma de Adáo.
Tanto a sentenca mais tradicional como esta outra, mais
recente, sao compativeis com os dados da Revelagáo bíblica.
Inútil seria insistir ñas probabilidades de urna e de outra.
Também nao nos deve surpreender a possibilidade de que
Adáo tenha sido, humanamente falando, pouco civilizado e
tenha vivido em condicóes de cultura rudimentar, tais quais as
apresentam os documentos da pré-história. Adáo podía ter em
sua alma o dom da ciencia infusa concernente á sua missáo reli
giosa ou á sua responsabilidade de pai do género humano, sem
ter necessáriamente urna ciencia profana referente á industria
ou á técnica das coisas déste mundo. A grandeza de Adáo se
situava exclusivamente no plano religioso, e nao dependía do
grau de cultura ou civilizacáo em que ele se encontrava.

5) A Sagrada Escritura nao excluí a existencia de pré-


-adamitas.

Os pré-adamitas seriam verdadeiros homens, dotados de


corpo e de alma racional, semelhantes a nos (como dissemos,
nao há criatura que seja apenas 50, 70 ou 90% homem). Ha-
veriam constituido urna estirpe humana que se teria extinguido
com o aparecimento de Adáo e Eva, de tal modo que toda a hu-
manidade hoje existente deva ser tida como «adamitica» ou
descendente de Adáo.
Dizemos que a Sagrada Escritura nao excluí a existencia
de tais pré-adamitas porque ela nao indica a data em que viveu
Adáo; ela nao nos afirma que Adáo é o genitor de todos os ho
mens cujas ossadas váo sendo encontradas nos estrados da
crosta terrestre. Pode ser que algumas ou muitas dessas ossadas
tenham pertencido a homens anteriores a Adáo, homens cuja
linhagem desapareceu, com os quais portante nao poderiam ser
confrontados Adáo e o género humano atualmente existente.
Aplicando tais observagóes ao estudo do Zinjántropo,
dever-se-á dizer : éste fóssil pode ser da linhagem de Adáo, como
também, a rigor, poderia ser anterior a Adáo; neste caso, váo
seria comparar os característicos do Zimjántropo com os dados
da Biblia concernentes a Adáo.
Claro está que a existencia dos pré-adamitas fica no plano das
meras hipóteses. Por Isto, ocioso seria desenvolver os seus pormenores,

— 160 —
O CRIMINOSO TEM OBRIGACAO DE SE DENUNCIAR ?

cedendo a vas conjeturas. Trata-se de hipótese destituida de funda


mento positivo na S. Escritura (a ciencia lhe fica de todo indiferente);
apenas se pode dizer que nao entra em confuto com a Biblia. Poderá
ser adotada por quem a julgar oportuna (pergunta-se, porém : haverá
argumentos suficientes para que alguém julgue oportuna tal hipó
tese?).

Eis o que convinha recordar a propósito do Zinjantropo e


das dúvidas que ele veio despertar na mente de muitos estu
diosos que desejam viver urna religiáo esclarecida, digna da sa-
bedoria de Deus e da inteligencia do homem.

IV. MORAL

ESTUDANTES (Sao Paulo) :

6) «Alguém cometeu grave crime, e se oculta. As circuns


tancias parecem fazer recair a culpa sobre um inocente, que é
detido pela policía e está para ser condenado em lugar do réu.
O criminoso terá entao a obrigacáo de se denunciar?
E, caso seja apreendido, o réu terá o dever de confessar a
sua falta?»

Os assuntos aqui abordados sao assaz delicados, prestándole fácil


mente a mal-entendidos. Procure, pois, o estudioso acautelar-se de ma-
neira especial contra qualquer equivoco na interpretado das sentencas
abaixo propostas.
Exporemos em prlmeiro lugar urna distlncáo que servirá de base
á resposta.

1. Dever de justica e dever de caridade

1. A justica é a virtude que nos «ajusta» ou adapta a Deus


e ao próximo, fazendo que demos a cada um aquilo a que tem
direitoj o objeto sobre o qual versa a justiga, costuma ser claro
e definido, pois é geralmente estipulado pela lei. Sendo assim,
a justica pode por vézes obrigar alguém a reparar o daño cau
sado ao próximo, desde que éste tenha sido lesado em um de
seus genuínos direitos. Assim, em caso de furto, a justiga pode
exigir que o ladráo devolva a quantia roubada; em caso de calú-
nia, pode requerer que o caluniador restabelega a boa fama do
próximo...
Contudo, para que alguém seja, por justiga, obrigado a re
parar o daño incutido ao próximo, requer-se que a agáo do delin-
qüente seja realmente causa, e nao apenas ocasiáo, do prejuízo
alheio; em outros termos :... requer-se que a agáo do delin-
qüente acarrete por si mesma o daño do próximo, de sorte que
tal daño decorra diretamente de tal acáo.

— 161 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 6

Exemplifiquemos: desferi um golpe que feriu levemente o meu


adversario. A impericia do médico, porém, íéz que éste ferimento, em
si destituido de gravidade, degenerasse em gangrena, da qual se seguiu
a morte da vi tima... Em tal caso, nao se pode dizer que o golpe por .
mina desferido tenha sido a causa dessa morte e que eu seja o culpado
de tal daño, pois na verdade nao houve nexo direto nem proporcáo
entre a minha acáo (pancada leve) e o prejuízo posteriormente veri
ficado (morte da pessoa espancada); a impericia do médico que Ínter*
veio, é que se tornou diretamente responsável pela perda da yítima,
ao passo que a minha acáo deve ser tida como mera ocasiáo (circuns
tancia remota), e nao como causa (agente produtor por si mesmo) do
desenlace.

Os deveres decorrentes da justiga podem ser graves;


tanto mais graves quanto mais importantes fórem os direitos do
próximo lesados. Verdade é que há por vézes motivos atenuan
tes, os quais dispensam, parcial ou totalmente, da reparagáo do
daño causado: é o que se dá, por exemplo, com o ladráo que
tenha gastado o dinheiro roubado e, por ser reconhecidamente
indigente, nao possui os meios de devolver a quantia furtada;
éste réu deverá arrepender-se sinceramente do mal cometido,
mas, em virtude de suas condigóes pessoais, estará, de todo ou
em parte, dispensado de restituir a importancia retirada.

2. Além da justiga, também a caridade ou o amor ao pró


ximo impóe obrigagóes para com éste. A diferenga, porém, do
que se dá no caso da justiga, essas obrigacóes nao corresponden!
a algum direito do próximo, nao vém objetivamente estipuladas
pela lei. Isto quer dizer que sao muito mais flutuantes, variando
de acordó com as circunstancias subjetivas de saúde, riqueza,
posigáo social... das pessoas interessadas.

Disto nao seria licito deduzir que nao há prdpriamente dever de


caridade. Éste nao sómente existe, mas é por vézes mesmo muito grave.
Com outras palavras: quando se diz que alguém está obrigado a tal
obra «por caridade apenas» e nao «por justica», nao se quer significar
que a obrigacao é menos premente, mas apenas que o titulo da obn-
eacao é diferente. A caridade é envolvida no exercicio de qualquer
futta virtude; mas pode haver exercicio de caridade que nao enyolva
o de alguma outra virtude (da! falar-se de «obngagao de caridade
apenas»).

Apliquemos a distingáo á solugáo dos casos propostos.

Z. Obrigacáo de justica ?

Formularemos por etapas a nossa resposta.

1) O réu nao tem obrigasao (de justica.) de se denunciar


ou de se aprcsentar por si mesmo aos juízes.

— 162 —
O CRIMINOSO TEM OBRIGACAO DE SE DENUNCIAR?

Os moralistas justificam esta proposigáo do seguinte modo :


existem na sodedade tívil autoridades e instancias encarrega-
das de ir ao encalgo dos delinqüentes e de os deter; a socie-
dade está aparelhada para lutar contra os malfeitores e os re
primir. É, portante, aos órgáos de defesa da sociedade (ou
seja, geralmente á policía) que compete, em justica, o dever
de procurar e julgar o réu. Enquanto éste nao é apreendido e
comprovado como réu, pode usufruir do direito á boa fama que
toca a todo cidadáo.

Com efeito; se nao há indicios do contrario, deve-se presumir que


todo individuo é honesto e digno; a desonestidade e a indignidade nao
podem ser pressupostas de antemáo, mas hño de ser comprovadas;
enquanto tais provas nao vém apresentadas ao público, todo individuo
tem direito a boa reputacáo na sociedade.

Baseando-se nesse principio, acrescentam os moralistas que,


antes do processo judiciário, o réu tem o direito de ocultar o
seu delito e de afastar de si os indicios que provoquem suspeita;
tem mesmo o direito de fugir e de se ocultar para nao ser en-
carcerado. Só nao lhe é lícito usar de mentira ou fraude para
dissimular o seu delito; muito menos lhe é permitido proceder
de modo a fazer recair as suspeitas de crime sobre outra pessoa
(cf. Pallazzini-Jorio, Casus conscientiae. Turim 1958, 671-75).

O Papa Inocencio XI em 1679 condenou a seguinte proposicáo:


«É provável que nao peque mortalmente quem atribuí falso crime
a outrem, a fim de defender a sua justica e a sua honra. E, se isto nao
fór provável, difícilmente haverá alguma opiniáo provável em teología»
(Denzinger, Enchiridion 1194).

Estas afirmagóes seráo corroboradas e ulteriormente eluci


dadas pelas proposigóes que se seguem.

2) Dorante o processo judiciário, o acusado tem o direito


de se defender por meios lícitos e justos; nao está obligado a
confessar o seu delito.

Tanto na legislagáo da Igreja como na das principáis nagóes


modernas, as normas de defesa reconhecem ao acusado o direito
de querer passar por inocente, enquanto o contrario nao fór de-
vidamente comprovado. Em outros termos : nenhuma legislagáo
exige estritamente que o réu confesse o seu crime.
Eis os cánones eclesiásticos concernentes ao assunto :

Can. 1743 § 1. «Ao juiz que as interrogue legítimamente, as partes


interrogadas estao obrigadas a responder e dizar a verdade, a menos
que se trate de delito cometido por elas mesmas.

— 163 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1982, qu. 6

$ 2. Se a parte interrogada se recusa a responder, toca ao lula


avaliar o significado dessa recusa e decidir se é justa ou se equivale a
urna confissáo.

Can. 1744. Ñas causas crimináis, o juiz nao exigirá do acusado que
jure dizer a verdade; ñas causas contenciosas, tedas as vézes que o bem
comum estiver em jógo, o juiz o exigirá das partes postas em causa;
nos outros casos, ele o poderá exigir, de acordó com a sua prudencia:».
Como se vé, o can. 1743 dispensa da obrigacáo de responder as pes-
soas acusadas de delito por elas mesmas cometido (é claro, porém,
que mentir nunca lhes será lícito; fica-lhes apenas a liberdade de
guardar o silencio, em vez de responder).
Certos autores antigos (entre os quais, Sao Tomaz de Aquino)]
afirmavam estar o réu obrigado a confessar o delito, desde que fósse
interrogado por legitimo juiz, principalmente se já houvesse indicios
assaz claros da culpa («semiplena probatk»; cf. S. Tomaz, S. Teol.
H/n 69, 1). Hoje em dia os moralistas nao costumam sustentar essa
sentenga, invocando o direito á boa fama que toca a cada individuo.

Quanto ao juramento de dizer a verdade, o can; 1744 proibe


ao juiz que o imponha ao acusado de causas crimináis. O motivo
disto é o desejo de se evitar qualquer extorsáo ou violencia da
personalidade humana.
O acusado que jurasse, poderia cair em grave conflito in
terno, pois seria premido, de um lado, pela palavra dada em
juramento e, de outro lado, pela previsáo das penosas conse-
qüéncias de sua confissáo; o constrangimento assim causado é
tido como algo de desumano e, por conseguinte, algo que se deva
evitar. Percebe-se muito claramente hoje em dia que o papel do
juiz consiste em solicitar a confissáo e confundir o réu com as
suas provas de delito, mas nao em extorquir declaracóes por
qualquer meio. Respeita-se assim melhor a liberdade humana,
que é urna das mais nobres prerrogativas outorgadas pelo Cria
dor ao homem.
A sociedade tem, sim, o direito de se defender contra os que
transgridem as suas leis, mas nao lhe compete devassar a cons-
ciéncia dos seus membros.

Tal tratamento, de resto, nao impede que penas mais severas sejam
Impostas aos culpados que tenham recusado confessar um delito do
qual venham a ser evidentemente reconhecidos como réus. — Observe-se
outrossim que o direito de «nao jurar» (ou silenciar) de modo nenhum
significa direito de «mentir» (ou dizer o contrario da verdade).

3) Ainda que um inocente esteja para ser condenado, o


réu nao tem obrigacáo, em Justina, de se acusar.

Note-se antes do mais : trata-se aqui de obrigagáo de jus-


tica, nao de caridade.

— 164 —
O CRIMINOSO TEM OBRIGACAO DE SE DENUNCIAR?

A afirmagáo ácima baseia-se no fato de que o réu nao é,


por si, causa da condenagáo do inocente; a causa verdadeira é a
impericia da policía — impericia que se exerce por ocasiáo do
delito cometido pelo réu. Sup5e-se naturalmente que éste delito
nao estava necessáriamente associado á condenagáo de tal ino
cente; em tal caso, nao fóra a inepcia das autoridades, o ino
cente nada sofrena, pois o criminoso como tal nada teria feito
contra ésse inocente.
Dado, porém, que o criminoso haja feito alguma coisa que
levasse os juízes a suspeitar do- inocente, o réu teria parte e
culpa na condenagáo désse inocente; caber-lhe-ia entáo o grave
dever de se denunciar para libertar o justo nao culpado. É o que
se dá, quando, por exemplo, o delinqüente usa das vestes de
outrem para cometer o crime ou langa em casa do vizinho o re
vólver ou a espada de que se serviu para matar...
É licito ao réu que nao tenha contribuido para a condena
gáo do próximo, recorrer ao seguinte expediente : desejando
evitar o detrimento do justo inculpado, encarregue um sacer
dote, ou outra pessoa de sua confianga, de pleitear do tribunal a
revisáo do processo; assim talvez se apure a inocencia do pre
tenso réu. O desempenho dessa missáo será sempre difícil e de
licado para quem a aceitar.

Prop&e-se por vézes o caso: certas pessoas (médicos, enfermeiros.


serventes...), om segrédo proflsHlonal, adquirem conheclmento da
culpa do verdadeiro réu; tém o direito de violar tal segrédo para liber
tar o Inocente e entregar o criminoso ou ao menos pedir revisáo do
processo no tribunal? — Respondem os moralistas negativamente: a
revelagao de segrédo profissional acarreta sempre grave detrimento
nao s&mente para o individuo que confiou o segrédo, mas também para
a sociedade. Sim; o bem comum exige que todos os cidadáos possam
tranquilamente ir pedir conselho as pessoas idóneas e autorizadas, sem
temer divulgacáo do respectivo caso. Ora, se a situacáo assim manifes
tada nao ficasse firmemente envolvida em silencio, muita gente nao
ousaria mais consultar nem médico, nem advogado, nem educador...
— o que seria prejudicial tanto para os individuos como para a socie
dade- é preciso, portante que todos estejam seguros da inviolabllidade
do segrédo profissional. Mesmo que o beneficiario do segrédo desligue
o profissional da obrigacáo de silencio, o profissional pode julgar nSo
ser oportuno revelar o caso, pois a guarda do segrédo pode ser de ínte-
résse n&o só de tal individuo, mas também da sociedade; ademáis
pode-se alegar que o individuo que desliga do segrédo. nao está cons
ciente de todo o alcance do seu gesto.
Claro está que o segrédo decorrente da confissáo sacramental (lena
a um sacerdote) em caso algum pode ser violado; nao se admite ex-
cecáo, nem mesmo esporádica, neste setor.

4) Mesmo que nao tenha o dever de se acusar, o réu aínda


fica obligado a devolver os bens alheios que haja furtado ou le-
sado ao cometer o seu delito.

— 165 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 52/1962, qu. 6 :'

É clara esta sentenga, pois o direito á boa fama ou o prés-


suposto de inocencia ainda nao dá direito a alguém de conservar
consigo bens alheios injustamente adquiridos. Caso nao os ppssa ,
restituir ao proprietário, o criminoso estará obrigado a desfa-
zer-se déles de algum modo, procurando aplicá-los, se possível,
em obras de piedade ou caridade...; ser-lhe-á lícito, para tanto,
recorrer a um intermediario, ou seja, a.pessoa honesta e dis
creta que se desincumba da sua missáo sem denunciar o de-
linqüente.
3. Obrigagáo de caridade ?

Veriflcávamos no parágrafo 1 desta resposta que, mesmo


onde nao há obrigagfio de justíga, pode haver obrigaeáo de cari
dade. É o que se pode dar quando um inocente é acusado em
lugar do verdadeiro réu; embora éste nada tenha feito que por
si contribuisse para isso, pode tocar-lhe em certos casos o dever
de evitar a condenagáo da pessoa inculpada mediante a dentón*-
cía de si mesmo. .
A existencia e a gravidade désse dever de caridade depen-
' deráo muito das circunstancias subjetivas do réu, pois nao estáo
estritamente baseadas num direito do próximo nem objetiva
mente formuladas pela lei. O delinqüente pode ter obrigagóes
(mesmo de justica) para com outras pessoas, principalmente se
é esposo e pai de familia; o daño acarretado a essas pessoas po
derla ser maior do que o- beneficio feito ao inocente pela denun
cia do criminoso.
A um observador {conselheiro, diretor espiritual...) torna-se mais
difícil ponderar a obrigacjío do que no caso de um dever de estrita jus
tica: tenha-se por certo que a obrigacao de caridade vem a ser tanto
mais imperiosa quanto mais pesada é a pena á qual o inocente está
• para ser condenado. Quem decide, porém. qual a atitude a tomar, e o
próprio delinqüente em sua consciéncia parante Deus.
Na prática, siga o diretor espiritual ou conselheiro a seguinte
norma: sendo lníormado de que um inocente foldetido pela policía em
lugar do criminoso, veja se há meló de evitar o erro judiciárlo, sem de.
núnda do delinqüente; caso nao o haja, exorte o criminoso a avallar
tanas suas responsabilidades e a se entregar a justica. desde que veja
ser 6ste o seu dever; lembre-lhe que, com um so gesto seu. pode datar
urna acao errónea e gravemente prejudicial para o próximo. Havendo.
Sn. obrigacao nao de justica, mas de caridade, n5o compete ao dire
tor espiritual definir perémptóriamente, em lugar do réu, qual a con-
duta que éste deva adotar.

As normas ácima (comuns entre os bons moralistas é juris


tas) talvez causem surprésa a um ou outro leitor. Para se evi-
tarem conclusóes funestas, alheias á moral sadia, ésses princi
pios nao de ser lidos com vagar e interpretados em sentido es-
trito, levando-se em conta o eventual rigor do dever de caridade.

— 166 —
O SIGILO SACRAMENTAL-

Apéndice •; ■ ■ ...
£sV*
Um documento recente sobre o segrédo da confíssao";¿;J^
Para ilustrar o que acaba' de ser dito, noticiamos aqui o seguinté ~¿?M
caso, assaz significativo. : . „: /.x£'¡f||
~ 1. Francesco Arando íoi condenado na Franca a trabalhos Íot-^'¿¡$.
gados perpetuos, a titulo de haver sido um dos assassinos do joalheiro '•}.:*0.
M. vanMalle. ' ,, ':#
Acontece, porém, que o capeláo da Penitenciaria de Baumettes em'*¡ffl
Marselha (Franca) foi informado de que Francesco Arancio era too- i'Afe
cente do crime. Esta noticia, o sacerdote a recebeu em segrédo (segrédo/ '^
confiado, nSo, porém em confiss3o sacramental, como o próprio padre * \":
declarou). O capeláo resolveu entáo escrever ao Ministro da Justica ;. P,
da Franca urna carta em que, com as licencas e reservas formuladas v.á
pelo autor da noticia, atestava a inocencia do pretenso réu. A familia -v. V
déste obteve do padre urna copia de tal carta e sem demora a publicou ■■ ^
na imprensa. Eis os principáis trechos da missiva: J
■ «As minhas íuncSes levam-me por vézes a tomar conhecimento de >
tremendos segredos. Últimamente isto se deu; tal é a razáo de ser da * -
minha carta... Tomo Deus como testemunha e' empenho minha honra ■.'. ;\
de ser humano para afirmar que o que estou para dizer a V. Excla. é' '.=• :■
a pura verdade... Sei, de fonte segura, absolutamente incontestável, v
que Francesco Arancio é de todo Inocente. Arando nao é umdos tres --:
agressores do joalheiro. De modo nenhum teve ele parte, nesse caso. . "'t¿
A pessoa que me revelou tudo Jsto e que bem sabe o que diz, só mo -;C'i.
revelou sob o sigilo do mais absoluto segrédo. Apesar da minha insis- ■í r<ü
téncia, até agora só pude obter a licenca de escrever a V. Excia. a pre-, . .;¡
senté carta, depois de a ter mostrado a essa pessoa. Nada mais posso ;,y
dizer a V. Excia. Creia, porém, que minha palavra de sacerdote pede e : > «s
deve ser levada em consideracSo, a fim de obter justica para um ino- yj.
cente. • . "^
Queira V. Excia. aceitar minhas religiosas saudacSes. ' . ■''■:.%
(a) Jean Limozin * ..
(Transcrito de «La Croix>,
de 20/21 de agosto de 1961) . - -

Como se compreende; a carta do padre provocou numerosos comen- ■'■ ¿'


tários de jornais e revistas, os quais envolvlam indevidamente questees :•
de segrédo da confissáo e de comportamento dos capeláes1 de prisoes. u^
2 Para deter a onde de mal-entendidos assim desencadeada, ,o-' ;p
Capeláo-Chefe das PrisBes da Franca, Mons. Joáo Rodhain. publicou ■
a seguinte nota:
«Desejoso de salvar um condenado que se afirmava inocente, o"
capeláo de urna Penitenciaria escreveu, no mes passado. ao Exmo. Sr.
Mmistro da Justica. A familia do condenado, tendo recentemente obtido ,
do capeláo urna copia dessa carta, logo a publicou na imprensa.
nS famosa carta nao se faz mencao de confissáo, mas táo so-
mente de segrédo confiado. Nao obstante, varios jornais aproveitaram
a óporttmidade para tecer comentarios sdbre os capeláes de Penitencia-
rias e o segrédo da confissáo. Nesses escritos nota-se mais boa vontade
do que conhecimento de teología e direlto. Os principáis pontos esque-
cidos sao os seguintes:

— 167 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 52/1962, qu. 6

1. Para qualquer sacerdote católico, seja ou nao capelao de Pe


nitenciarla, a lei é a mesma : na administrac&o do sacramento da con- .
íissao, a obrigac&o de sigilo é absoluta. O padre nao pode, de forma ¿
alguma, fazer uso do que ele venha a saber na confissáo. O Direito Ca- ?
nónico é formal. E nao ha escapatoria possivel.
2 Na confissáo, muitas pessoas parecem ignorar que ao sacerdote
compete um papel de médico. Nao é mero ouvinte passivo. Indica os
meios de curar o pecado. Prop8e os remedios contra as tentacñes. Nos
casos graves, deve impor as medidas a tomar, sob pena de ter que re
cusar a absolvicáo (caso nSo sejam aceitas pelo penitente).
Por conseguinte, se Pedro, testemunha de um desastre de automó-
vel, tem provas de que o motorista é inocente, mas hesita em dedará-lo
inocente, nao me limitarei apenas a registrar a sua confissáo; p cortfes-
sor nSo é caixa registradora de pecados. Lembrarei, sim, a Pedro que
ele está obrigado a d_ar tal testemunho perante a justica. Mas nao darel
o testemunho em lugar déle. O confessor nao é nem um advogado nem
um para-brisa.
3. O pecado nao constituí sómente urna ofensa a Deus. Já que na
Igreja estamos- ligados com nossos irmaos pela caridade, ele constitui
sempre urna ofensa a comunidade. Exige que seja prestado desagravo á
comunidade. Em nove casos dentre dez, o público esquece éste carater
«social» do pecado e da penitencia...
4. Nao vale aquí a analogia do confessor que se encarregue da
restituicáo de um objeto roubado.
Com efeito. Se Paulo, tendo furtado um quadro precioso, se con-
fessa disto, obrigo-o a restituir o quadro ao proprietário. A pedido déle,
formulado fora da confissSo, poderei encarregar-me de assegurar a
restituicáo em seu lugar. Tal gesto alcancará o desejado efeito, o furto
material será reparado e o segrédo guardado.
Mas, se Paulo tem um testemunho a dar, nao o posso dar em
lugar déle. De fato, um quadro restituido é palpável, avallável, contro-
lável: qualquer tribunal poderá submeté-lo a peritos e reconhecer
assim que o roubo fol realmente reparado.
- Ao contrario, nenhum tribunal pode aceitar o depoimento nao con-
trolável de urna testemunha que se abriga atrás de pretensa lei de
sigilo para nao provar o que ela afirma. Que seria feito da justica, se
' esta woferisse as suas sentencas baseando-se.em afirmacoes anónimas,
afirmac6es que se recusem a enfrentar a clareza de testemunhos pú
blicos e contrarios ?
Eis porque a Diregao Geral dos Capelaes proibe a todos os capeláes
de Penitenciaria que déem testemunho perante a justica, sob qualquer
pretexto que seja.
O Capeiab-Chefe das Penitenciarlas
. (a) Mons. Jean Eódhaln».

O documento, sendo assaz claro, ^dispensa comentarlos. t


D. Estóvao Bettencourt O.S.B. .

168 —