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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
■\<
numerosas correntes filosóficas e
' religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
„ controvertidas, elucidando-as do ponto de
II. vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosldade e
zelo pastoral assim demonstrados.
ANO VI

* ¿
63
- M A R C <

19 6
ÍNDICE

I. CBBNCIA E RELIGIAO
Pfig.

1) "Há máquinas que traduzem textos, até mesmo livros


inteiros, de urna lingua para outra, e com milito maior rapidez
do que a de um tradutor humano.
Nao seria isto mais um indicio de que nao existe distincño
entre máquina e inteligencia Immana ou entre materia e espirito?" SI

II. ESPIRITUALIDADE

2) "Seria possivel fazer urna lista dos principáis- meios ne-


cessários para se conseguir progresso na virtude e na santidade?" 97

3) "Muitas pessoas desejariam tomar conheeimento dos


principáis métodos de meditaeáo. Todavía nao sabem a que Hvro
recorrer. Seria possivel satisfazé-las ?" X05

in. MORAL

4) "Quando nao se tem certeza da existencia de determi


nada leí ou obrigagáo, como se há de proceder, a fim de nao
cair em falta ?
Costuma-se dizer que 'a lei duvidosa nao obriga' (lex dubla
non obligatj. Pode-se aceitar isto sem restrigao ?" lis

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

5) "Hoje em, dia, quando tanto sa /oía de renovagáo entre .


os cristños, pergunta-se: em que consistiu a renovacáo ou a Re
forma empreendida pelo Concilio de Trento (15i5-15és)?" 122

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


«PER6U N T^vP R E-SLP ON/D..E REMOS»
Ano VI — N'ÍS3 — Marco de 1963

I. CIENCIA E RELIGIAO

ESTDDANTE (Sao Paulo) :

1) «Ha máquinas.que traduzem textos, até mesmo livros


inteiros, de urna lingua para outra, e com muito maior rapidez
do que a de um tradutor humano.
Nao seria isto mais um indicio de que nao existe distíncao
entre máquina e inteligencia humana ou entre materia e
espirito?»

Em «P. R.» já mais de urna vez foram abordadas questóes


concernentes aos «cerebros eletrónicos» (robos) e á distingáo
entre materia e espirito; cf. n« 5/1958, qu. 1; 15/1959, qu. 1;
60/1962, qu. 1.
Nao obstante, tais assuntos últimamente tém voltado á
baila, porque em nossos días se apresentam dentro de modalida
des novas, que muito impressionam o público. Com efeito, en-
quanto as máquinas eletrónicas se destinavam apenas a calcular,
nao constituiam algo de totalmente inédito, pois já anterior
mente existiam máquinas mais simples para somar. Tratando-
-se, porém, de traduzir linguas, tem-se a impressáo de entrar
num setor própriamente humano; a máquina faz — e faz mais
velozmente — aquilo que só o homem parecía poder realizar.
Daí a questáo filosófico-religiosa : onde fica a distingáo entre o
homem e á máquina, entre «espirito» e materia?
Na resposta á pergunta, referiremos primeiramente o modo
como funcionam as máquinas de traduzir; a seguir, compará-lo-
-emos com o da inteligencia humana. A fim de nao incorrer em
demasiadas repetigóes, suporemos em grandes linhas o que já
fox explanado sobre o assunto nos citados números de «P. R.».

1. O «segrédo» das máquinas de traduzir

1. Na verdade, as máquinas de traduzir nao dependem de


novos principios de eletrónica ou de técnica, mas obedecem as
mesmas normas que regem o funcionamento das máquinas de
cálculo. De fato, elas supóem sempre um operador humano,...
operador que reflete sobre determinado problema e finalmente o
equaciona... Os dados da equagáo sao, a seguir, colocados den
tro da máquina sob a forma de furos feitos numa fita de papel.

— 91 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 63/1963, qu. 1

É entáo que a máquina comeca a trabalhar...; a sua fungáo


consiste únicamente em desencadear os efeitos ou as conclusóes
encerradas dentro da equagáo concebida pelo homem; tais con
clusóes nao constituem algo de novo, urna vez que esteja formu
lada a equacáo. A máquina eletrónica apenas aumenta a velo-
cidade da operagáo que o homem faria lentamente, e preserva
essa operagáo dos erros que a mente humana, por vézes cansada,
nao coñsegue evitar.

A diferenga entré a máquina de traduzir e a de calcular


consiste táo sonriente no seguinte: na maquina de traduzir, os
dados do problema nao sao números nem quantidades, mas pala-
vras,... palavras para as quais se quer encontrar o equivalente
em outra lingua. A fim de realizar isto, a máquina recebeu do
fabricante um «didonário cifrado», ou seja, um catálogo de
vocábulos pertencentes a duas línguas diversas, mas equivalen
tes uns aos outros. O proceder da máquina consiste apenas em
fazer a transposigáo de um equivalente para outro equivalente,
de acordó com os dispositivos concebidos pelo fabricante e o
operador humanos (o trabalho da máquina é como o de quem,
num dicionário portugués-inglés, corre os olhos da palavra
«mesa» para a palavra equivalente «table», que lhe foi posta ao
lado pelo inteligente autor do dicionário).

Algumas comparacSes clássicas ilustraráo melhór tal funcfona-


mento:

Imagine-se, de um lado, urna chave e, de outro lado, urna serie de


portas dotadas das respectivas iechaduras. Sabe-se que a chave íoi
fabricada para urna dessas portas; todavía nao se sabe para qual délas.
Em conseqüéncia, alguém póe-se a experimentar tedas as íechaduras
até encontrar a adequada; inserida dentro desta, a chave gira, a_porta
abre-se e descortina-se ao observador urna cena talvez nova e impre
vista para ele (um quarto, um escritorio, urna loja...), mas cena
cuidadosamente concebida e planejada por um arquiteto, um decorador
ou, em urna palavra, urna inteligencia humana. A chave nao inventou
a cena, nem é consciente dessa cena; ela apenas a manifesta mecáni
camente, pelo íato de que os contornos da chave encontraram os con
tornos de urna fechadura que lhe correspondían! exatamente.

Pois bem; a chave é tal ou tal vocábulo de determinada lingua,


representado por um ou mais íuros ieitos em urna lita magnética.
A serie de portas é a serie de íuros correspondentes ás palavras de
outra llngua, para a qual se quer íazer a traducao. A procura de ajuste
da chave na respectiva fechadura é o processo da máquina eletrónica,
que percorre os turos do seu «dicionário» até que os furos feitos na
fita pelo operador humano encontrem os seus equivalentes nesse di
cionário.

— 92 —
MAQUINAS DE TRADUZIR E INTELIGENCIA

A chave gira na fechadura, e a porta se abre, dando a ver, do lado


de íá, um panorama novo correspondente ao do lado de cá... Isto quer
dizer: a máquina, em conseqüencia do ajuste, anuncia ao operador o
vocábulo da outra lingua que traduz o vocábulo do texto original...

Pode-se também recordar o que se dá quando procuramos a tradu-


cao de urna palavra num dicionário. Seja, por exemplo, o vocábulo
BÚA, que desejássemos traduzir para o Inglés : folhearíamos entáo o
dicionário, procurando primeiramente a classe (ou o «íuro>) B: a
seguir, procuraríamos a classe ou o furo U; finalmente,... a classe ou
o furo A. Encontrando a coníiguracáo RÚA, estaríamos imediatamente
diante do vocábulo STEEET. Porque? — Porque a inteligencia do autor
do dicionário teria confeccionado essa relacáo e porque a nossa inteli
gencia estarla a par désse dispositivo; quanto ao dedo da máo que
desliza sobre as paginas do dicionário, percorrendo as palavras respec
tivas até encontrar o vocábulo que procure., tal dedo nao tem mérito
algum; ele executa apenas o trabalho que a inteligencia humana lhe
assinala. Pois bem; o dedo, no caso da tradujo eletrdnica, corresponde
á máquina; esta nao é a inteligencia nem tem inteligencia, mas sup5e
a inteligencia do homem, da qual é mero agente mecánico.

Imagine-se aínda outra figura ilustrativa: existem «manuais de


conversa» ou dicionários de bolso destinados a viajantes e excursionis
tas. Trazem um repertorio de frases de primeira necessidade («Que
horas sao? Onde fica a estacáo? A que horas parte o trem? Quanto
custa?...») acompanhadas da respectiva traducSo para lingua estran-
geira. Folheando ésses dicionários, o viajante encontra automática
mente as frases de que precisa no estrangeiro, sem aprender algum
idioma, sem mesmo poder justificar por que assim e assim se fala em
tal idioma.

Assim o viajante brasileiro, querendo despedir-se com um «até a


vista, até mais, até logo», fica sabendo que deve proferir «au revoir».
em francés, «Auf Wiedersehen» em alemáo, «do svidanjá» em russo,'
«nademáan asti» em finlandés, sem que todavía possa dar contas destas
expressSes.

O papel désse viajante, ao pronunciar tais expressSes, é meramente


mecánico; nao é o trabalho inteligente de um tradutor. O viajante
supóe o inteligente tradutor que, no caso, é o autor do «Manual de
conversa». Ora tal viajante que inconscientemente profere sons (sons
que um tradutor inteligente lhe indica) ilustra bem o que seja a má
quina de traduzir; o .seu proceder nao é o de urna inteligencia humana.

2. Acontece, porém, que, ao se tratar de tradugao, entráitt


em jógo questóes de sintaxe (ordem e colocacáo das palavras)
que variam de urna lingua para outra... Em conseqüencia, nao
se podem transpor simplesmente os vocábulos do idioma A para
o idioma B sem cometer possíveis absurdos ou cónstrugóes ina-
dequadas.

Também acontece que determinada palavra, mima lingua,


tem varios matizes, que em outra lingua se exprimem por vocá
bulos diversos. Há sutilezas de expressáo que muitas vézes nao
dependem de lógica, mas sao puramente arbitrarias.

— 93 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 1

Como poderia entáo a máquina perceber as conseqüéncias


daí decorrentes para urna boa tradugáo?

É claro que a máquina nao as percebe. Daí se pode concluir


que as suas probabilidades de éxito ou de eficacia sofrem detri
mento. — Contudo há, de certo modo, remedio : o operador, ao
tragar o programa ou o roteiro da máquina, terá que levar em
conta as circunstancias e as situagóes variadas do roteiro. Terá
que preparar e ajustar a máquina para proceder como se ele
lhe dissesse : «Traduzirás a palavra A pela palavra A', caso ela
se encontré em tal posigáo da frase. Mas, se no contexto ocorrer
o vocábulo B, darás ao vocábulo A o sentido C. Haverá.uma
excegáo, porém: se na frase precedente nao se encontrar isto
ou aquilo...».
Tais previsóes e cautelas, comunicadas á máquina mediante
dispositivos automáticos, sao úteis, sem dúvida, para evitar
muitos dos possíveis defeitos de tradugáo. Nao conseguem,
porém, prover a todos os casos de modo a ocasionar urna tra
dugáo sempre correta e adequada.

3. Perguntar-se-á entáo: se os tradutores automáticos


estáo sujeitos a tais vicissitudes, para que servem? Poderse ter
confianga no texto que transmitem? .
Em resposta, observaremos que as máquinas eletrónicas
nao sao utilizadas para traduzir pegas de literatura (romances
de Tolstoi, autos de Shakespeare, poesías de Vítor Hugo...); o
seu uso se restringe geralmente a escritos ou obras de ciencia,
visando dar aos dentistas de diferentes partes do mundo urna
nogáo daquilo que se vai escrevendo em determinado país. Me
diante tradugóes eletrónicas, o estudioso interessado ganha, sem
dúvida, acesso á bibliografía e á documentagáo publicadas em
linguas estrangeiras. Nao lhe é necessário ter ante os olhos um
texto de linguagem castigada e puritana; basta-lhe que as frases
sejam .inteligíveis. ou ao menos déem suficientemente .a .ver
«aquilo de que. se trata». Caso o dentista se interesse a fundo
por tal ou tal obra conhecida' mediante tradugáo eletronica, pe
derá mandar fazer urna tradugáo humana da mesma, a qual
levará em conta os matizes de expressáo do texto original.

É preciso, por exemplo, que os médicos ingleses estejam a par dos


trabalhos dos médicos japoneses,... que os atomistas americanos pos-
sam acompanhar as publlcacGes dos atomistas russos...
Conscientes disto, os norte-americanos dedicam-se intensamente as
traduedes de obras estrangeiras por meio de lingüistas humanos. Con
tudo só conseguem traduzir a centésima parte das obras técnicas que
se v3o publicando no mundo Inteiro. Quanto aos textos russos, sómente
a milésima parte é traduzlda nos Estados Unidos — o que representa
MAQUINAS DE TRADUZIR E INTELIGENCIA

certa lacuna, pois a bibliografía técnica soviética se aumenta, todos os


anos, de varias centenas de milhSes de linhas.

Na Rússia, contam-se 2.600 tradutores que dedicam tempo integral


a diversos institutos de traducáo; 26.000 outros tradutores consagram
ao menos parte do seu tempo a semelhante tareía. Produzem por ano
cérea de 500.000 resumos de artigos ou livros.

Dal ver-se a grande necessidade de tradutores e traducSes na vida


moderna. Ora, sem dúvida, a máquina eletrónica pode contribuir efi
cazmente para prover a tal indigencia.

Ademáis, a fim de diminuir ainda as imprecisóes das tra-


ducóes eletrónicas, tém-se fabricado máquinas especializadas
para cada urna das principáis ciencias modernas, isto é, máqui
nas cujos dicionários ou cujos «furos» sao adatados ao vocabu
lario próprio ou da Física ou da Química ou da Biología ou da
Farmacia... — É claro que dentro de cada um désses determi
nados setores o vocabulario é mais rígido, admitindo menos pos-
sibilidades de oscilagáo e ambigüidade.

4. A máquina eletrdnlca mais complexa que atualmente se


conheca, é a de Mohansic (Estado de Nova Iorque, U.S.A.). Foi lan-
Cada em junho de 1959 e destina-se a traduzir textos russos para o
inglés. Trabalha com 55.000 ralzes russas, abrangendo um setor de
500.000 palavras. Prevé-se que o número de ralzes (que se tem progres-
sivamente acrescido) poderá chegar a 400.000.

A rapidez da traducáo é de 1.800 vocábulos por minuto, resultado


éste que em breve ainda se tornará mais vantajoso, podendo atingir
o índice de 2.400 palavras por minuto.

Tendo assim considerado os portentos da máquina de tra


duzir, passemos a um confronto entre

2. Tradutor eletrdnico e tradntor humano

1. Após urna primeira comparacáo, nao se pode deixar de


reconhecer a velocidade impressionante com que a máquina tra
balha, suplantando as melhores perspectivas de um tradutor hu
mano. .. Nao há dúvida, o homem, nesta linha, nao pode com
petir com a máquina. — Verifica-se, porém, que o fator «velo
cidade» nao é característico da inteligencia como tal; a veloci
dade pode ser qualidade de muitos trabalhos específicamente
diversos.
O que marca inconfundivelmente a inteligencia, é a capaci-
dade de perceber proporcóes e relacóes, ou seja, a razáo de ser
(o «porque») e a concatenagáo dos fenómenos; apreendendo
isso, a inteligencia pode corrigir suas fainas e progredir ou me-
lhorar em sua atividade. •

— 95 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 1

Ora tal se dá com o homem e nao se dá com o tradutor


eletrónico. Éste nao concebe o roteiro a percorrer para chegar
ao texto traduzido, mas depende sempre do operador humano.
Caso éste se engañe ao fazer o programa da máquina, o tradu-
.tor eletrónico se engañará «certeiramente»; nao corrigirá nem
melhorará o trabalho humano. Aqui conviria lembrar o que já
foi dito em «P. R.» 60/1962, qu. 1; a fim de nao repetir, mas
antes corroborar de maneira nova tais considerares, segue-se
um exemplo que bem ilustra como a máquina de traduzir é cega
ou destituida de inteligencia.
O dentista francés Émile Delavenay escreveu um livro a
respeito de tradutores eletrónicos intitulado «La machine á
traduire».
A obra foi traduzida para o inglés por um cerebro huma
no... Para a edigáo inglesa, porém, o autor escreveu em fran
cés um prefacio próprio, que ele quis fósse traduzido para o
inglés mediante um cerebro eletrónico. O texto inglés désse pre
facio foi publicado tal como saiu da máquina de traduzir. — Ora
nota-se que no original francés do prefacio ocorre o adjetivo fe-
minino «future»; o aparelho eletrónico o traduziu por «futide»,
palavra que nao existe em inglés. Como explicar tal falha?
Nao se deve própriamente a um erro da máquina. Esta obe-
deceu fielmente ao programa que lhe foi incutido. Aconteceu,
porém, o seguinte:a única máquina disponível no mundo para
traduzir do francés para o inglés é a da Universidade de George-
town. Tal máquina foi especializada para o vocabulario da Quí
mica, Ora os compostos de metáis e metaloides em francés
tomam o sufixo «ure» (assim, «carbure, iodure, bromure, chlo-
rure»...); a esta desinencia na linguagem química inglesa equi
vale o sufixo «ide» (assim, «carbide, iodide, bromide, chlori-
de»...). Por conseguinte, a máquina foi fabricada e preparada
de modo a suprimir o sufixo «ure» ñas palavras que o apresen-
tassem e substitui-lo pela terminagáo «ide». Nao sabendo o
«porque» dessa operagáo, a máquina a efetuou também com o
adjetivo «future»; sem propósito, porém. Como se vé, o erro se
deve nao 'á máquina, mas á imprevisto do operador humano ou
do programador.
Se a máquina fósse inteligente, nao teria sido táo fiel ou
táo certeira nesse caso...

2. A fim de favorecer a clareza de conceitos em tal setor,'


lembraremos que o cerebro e a inteligencia sao duas realidades
bem distintas entre si. Nao será necessário insistir neste ponto,
já que foi recentemente explanado em «P. R.» 60/1962, qu. 1

— 96 —
OS MEIOS PARA PROGREDIR NA VIRTUDE

pág. 492s. — Aqui limitamo-nos a reproduzir a doutrina em es


quema :

Parte corpórea . Parte espiritual

CEREBRO ALMA INTELECTO


INTELECTIVA -» ou
Comum aos homens INTELIGENCIA
e aos animáis sensi ou
tivos. Especie de RAZAO
central telefónica da
vida sensitiva, na (tronco) — -» (antena)
qual váo terminar
as impressdes colhi- Principio vital do Faculdade caracte-
das pelos sentidos homem, o qual de- ristica da alma hu
externos. sempenha também mana ; abstrai dos
as íungóes da vida dados concretos ou
vegetativa e sensi materiais; é ¡mate
tiva. rial ou espiritual.

As distingóes ácima contribuiráo para se evitarem lamentáveis


mal-entendidos, entre os quais a expressáo «animal irracional inteli
gente (cao inteligente, macaco inteligente...)». O irracional nao pos-
sui inteligencia (pois nao percebe proporcSes e relacSes), mas, sim,
instinto (que é sempre limitado a casos concretos e incapaz de estabe-
lecer comparacSes a fim de progredir); cf. «P.R.» 44/1961, qu. 1 (dis-
tincáo entre inteligencia e instinto).
O termo «razao> tem sentido um pouco mais restrito que «inteli
gencia». A razao é, sim, a inteligencia tal como ela se encontra no ho
mem, isto é, sujeita a progredir lentamente, de etapa a etapa, sem poder
abarcar de urna só vez todas as conclusóes de determinado principio.
O anjo tem urna inteligencia que nao precisa de raciocinar, mas
compreende num só relance intuitivo tudo que está incluido em deter
minada proposicáo.

O. ESPIRITUALIDADE

AJLMA CONSAGRADA (Belo Horizonte) :

2) «Seria possível fazer urna lista dos principáis meios


necesarios para se conseguir progresso na virtude e na san-
tidade ?»

A questáo é, sem dúvida, de importancia capital, pois todo


cristáo (qualquer que seja a sua ocupagáo quotidiana, o seu
grau de cultura, o.seu estado de saúde...) deve ter consciéncia
de que é chamado á santídade : «Sede perfeitos como o Pai Ce
leste é perfeito» (Mt 5,48). É preciso, portante, que considere
atentamente e empregue com zélo os meios oportunos para nao
frustrar ésse objetivo.

— 97 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, gu. 2

Como se compreende, nao há «receita» para se conseguir


a santídade; esta depende muito da agáo do Espirito Santo em
cada alma de per si; conseqüentemente a única norma sempre
válida vem a ser a fidelidade incondicional as mogóes da graga,
para onde quer que esta dirija a alma. — Nao obstante, podem-
-se apontar alguns recursos que os mestres da vida espiritual
julgam necessários (em condigóes normáis) para fazer progrédir
a alma no caminho da perfeigáo.

Note-se, de resto, que o conceito de santidade admite múltiplos


graus. De fato, santidade é conformidade da criatura com o Criador.
Embora a criatura nunca chegue a reproduzir a bondade do próprio
Deus, ela pode mais e mais aproximar-se do Exemplar, amando Deus
e o próximo com amor cada vez mais puro ou cada vez mais destituido
de egoísmo. Mesmo se a duracáo desta vida terrestre se estendesse por
varios sáculos, cada alma poderia e deveria sempre crescer na uniáo
com Deus.

Após estas observacóes, passamos a enumerar os grandes


instrumentos da santificagáo humana.
Distinguiremos entre os sacramentos — dons com os quais
Deus inicia a tarefa — e as pláticas de fidelidade da alma aos
sacramentos — práticas indispensáveis para a continuidade
da obra.

1. Os sacramentos : dom inicial de Deas

1. O santo cristáo nao é um «atleta espiritual» semelhante


aos do paganismo. Diferencia-se déstes por ter consciéncia de
que nao é ele mesmo, por suas próprias fórgas, quem se purifica
e santifica; sabe que é a graga de Deus que néle age, incitando-o
á luta contra si mesmo e sustentando-o nessa tarefa. Sabe
outrossim que a graga — condigáo «sine qua non» — é comuni
cada pelos sacramentos.

Os sacramentos sao ritos sensíveis que realizara na alma invislvel-


mente o efeito que éles simbolizan! vislvelmente (assim a agua
do Batismo eíetua a purificacáo espiritual que ela exprime de maneira
bem sensivel; o pao e o vinho da Eucaristía realizam a alimentagáo
espiritual que éles designam vislvelmente; o óleo da Crisma comunica
á alma a fórga espiritual que a uncáo conferida aos antigos atletas
comunicava aos corpos, etc.).

2. Dentre os sacramentos, o mais rico é a Eucaristía,


dada sob a forma de alimento, que as almas justas procuram
receber diariamente. A Eucaristía vem a ser, pois, a base e a
fonte de toda santificagáo; é o principal fator desta. Recebida
quotídianamente ou, ao menos, amiúde, ela tende a lewar as

— 98 —
OS MEIOS PARA PROGREDIR NA VIRTUDE

almas aos cumes da oragáo perfeita e da vida dita «mística»


(esta nao implica em éxtases, visees, estigmas, mas em expe
riencia da presenca de Deus). O fato de que nem todos os cris-
táos (ou mésmo poucos) chegam a éste termo, se deve á negli
gencia com que recebem e tratam o dom de Deus; todos podem
ter certeza de que, da parte do Senhor, nada lhes falta para qué
mais e mais se santifiquem; quanto mais se abrirem aos do'ns do
Céu (em particular, quanto melhores forem as disposicóes com
que se aproximaren! da Eucaristía), estejam ceitos de que tanto
mais seráo enriquecidos de frutos espirituais.

«'Aquéle que come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece


em Mim, e Eu nele' (Jo 6, 57)... Éste efeito maravilhoso da comunháo
se realiza em grau maior ou menor ñas almas, de acordó com as dispo
sicóes que elas trazem. Dado que tais disposicoes se podem sempre tor
nar melhores, o efeito correspondente pode vir a ser sempre mais rico.
Quem nos explicará o que sao a permanencia de Jesús" Cristo em
nos e a nossa permanencia em Jesús Cristo? Sao coisas que ultrapas-
sam toda inteligencia criada. Nao fagamos questáo de as entender,
mas demos tudo que depende de nos para as merecer.
Essa mutua imanéncia é algo de muito intimo; é uniáo de Jesús
Cristo conosco... tal que nada, na ordem natural, se lhe pode compa
rar. O corpo de Cristo se une ao nosso corpo; a alma de Cristo se une
á nossa alma; as facuidades e atividades de Cristo se unem as nossas,
de modo sobrenatural e transcendente, de sorte que Jesús Cristo vive
em nos e nos n'Éle.
... Por conseguinte, todo o segrédo para que tiremos da comunhio
o proveito intencionado por Jesús Cristo, consiste em que, de urna
comunháo a outra, nos esforcemos por permanecer em Cristo de ma-
neira mais intima, deixando-nos animar e guiar por seu espirito. Pega
mos-Lite entrementes que nao nos deixe pensar, dizer ou fazer alguma
coisa que file nao possa abonar como pensamento, palavra ou obra
sua. Isto requer, da nossa parte, grande atenea o e vigilancia» (Grou,
Manuel des ames intérieures. Paris 1925, 303-5).

3. Estas breves observacóes sobre o sacramento da Euca


ristía sao de importancia capital. Faz-se mister acrescentar algo
sobre o sacramento da Confissao e o pecado.
A alma justa e sinceramente sequiosa de Deus nao se deixa
fícar surprésa nem abatida por verificar suas falhas. Humilha-se
por elas, mas reergue-se sem demora, procurando a reconcilia-
Cáo com Deus mediante um ato de contrigáo ou, se fór o caso,
mediante a Confissao sacramental. Nunca perde coragem. Sabe
que ela por si nada pode, mas que o Senhor Deus, sim, é todo-
-poderoso. Nao funda sua esperanga sobre os seus bons propó
sitos, mas sobre a misericordia de Deus. Mesmo que chegasse
a cair em infidelidades mais de urna vez por dia, nao desanima
ría; ao contrario, com mais ardor estenderia as máos ao Senhor,
suplicando-Lhe que a reerguesse e déla se compadecesse.

— 99 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 2

A alma reta deve conceber verdadeiro horror ao mal, mas


ainda maior amor ao bera. Isto guer dizer: combata seus peca
dos e falhas, visando diretamente urna meta positva (=praticar
a virtudé), e nao simplesmente um fim negativo (= evitar ou
combater...). As perspectivas da vida crista sao positivas e
grandiosas; trata-se de construir e conquistar um ideal, nao
apenas de destruir e sufocar (está claro que ninguém poderá
formar em si o «novo homem» se nao destruir e mortificar o
«velho Adáo»; contudo ninguém sedeixe nortear apenas pela
tarefa de extinguir; procure antes considerar a destruicáo e as
etapas negativas da vida crista como etapas para atingir um
grandioso termo positivo).
É com estas disposigóes que o cristáo ávido de santidade se
deve aproximar do sacramento da Confissáo.

Em outras palavras: a alma verdadeiramente devota nao é triste,


nem em seu íntimo, nem em suas relacdes com o próximo. Como, alias,
poderia ser triste o cristáo que goza continuamente do verdadeiro bem
ou de Deus? A única fonte de justificada tristeza sao os pecados, as
paixoes, os vicios. A experiencia ensina que «servir a Deus é sempre
reinar», ainda que tal servigo seja prestado em meio á pobreza, á infa
mia e á enfermidade.
Passemos agora ao outro aspecto da vida espiritual, que é

2. A correspondencia da criatura

Sem entrar na questáo das relacdes entre a graca de Deus e a livre


vontade do homem (cf. «P.R.» 5/1958, qu. 3), focalizaremos aqui os
meios dos quais na prática as almas se devem servir para progredir
na vida interior.

1) O primeiro meio (aparentemente, o máis fácil; na ver-


dade, porém, o mais arduo) é o propósito firme de chegar á
santidade ou á vida de uniáo perfeita com Deus. Muitos conce-
bem, sim, a «veleidades de ser santos, isto é, o desejo vago e
fraco de progredir; desejam enquanto nao custa; cedem, porém,
com facilidade diante dos primeiros obstáculos. O «querer per
severante» é tesouro raro entre os homens. Ora justamente o
segrédo da Vitoria é, muitas vézes, a perseveranga.

Alias, já o livre pensador André Gide afirmava que urna das coisas
que mais o impressionavam, era a verificacáo de que a maioria dos
homens nao realiza o seu ideal, mas f ica a meio-térmo do caminho en-
cetado. A observacáo parece fiel: dir-se-ia que, na verdade, grande é o
número daqueles que morrem ser ter alcancado a meta que podiam e
deviam atingir nesta vida.

Urna das causas pelas quais muitas almas, consciente ou


inconscientemente, nao aspiram á santidade, é o fato de que nao

— 100 —
OS MEIOS PARA PROGREDIR NA VIRTUDE

créem seriamente na possibilidade de chegar a tal termo; de


antemáo julgam que a perfeigáo espiritual é privilegio de poucos
e que corresponde a urna vocagáo especial ou a um tempera
mento próprio e raro. Há quem pense assim de maneira sincera;
mas há também os que assim julgam por covardia, ou seja, para
justificar a mediocridade da sua vida e para se eximir de qual-
quer esfórgo religioso. As pessoas sinceras cbnvém incutir o
seguinte : ninguém se deve julgar excluido do ideal da saníddade
(ou seja, da vida de oragáo perfeita ou... da mais intima uniáo
com Deus). Em outras palavras : cada cristáo pode e deve crer
que é chamado a ser santo ou a viver a vida mística (a vida em
que a alma conhece a Deus nao tanto por raciocinio, mas, sim,
por experiencia sobrenatural). Os teólogos inculcam esta ver-
dade lembrando que a vida mística nao pressupóe senáo as fa-
culdades que o Batismo confere á todo e qualquer cristáo (isto
é, a graga santificante, as virtudes infusas e os dons do Espirito.
Santo). Toda alma que possua os sete dons do Espirito Santo
(sabedoria, inteligencia, ciencia, conselho, piedade, fortaleza,
temor de Deus), pode ser movida por Deus á plenitude da vida
espiritual ou á vida mística; por conseguinte, pode —■ ou mesmo
deve — aspirar a tal termo.

Eis o que a propósito escreve S. Teresa :

<Considerai que o Senhor chama a todos. Ora de. é a Verdade


mesma; nao poderiamos duvidar da sua palavra. Se o seu banquete
nao ídsse franqueado a todos, Ele nao nos chamaría a. todos ou, ainda
que nos chamasse,. file nao diría: 'Eu vos darei de beber1. Ele podia ter
dito: 'Vinde todos, pols nada perderéis, e darei de beber aqueles a quem
eu bem quiser'; mas — repito-o — Ele nao íéz restribo alguma; sim,
Ele nos chama a todos nos. Tenho, portante, como certo que todos
aqueles que nao íicarem a meio-caminho, beberáo dessa agua viva»
(Caminho da perfeigáo XXI).

A mesma santa acrescenta :

«A misericordia de Deus é tao grande que Ele a ninguém impede


de ir beber na fonte da vida... Por certo, Ele a ninguém afastará. Pu
blicamente e com grandes clamores é que file chama as almas. Contudo
a sua Bondade é tal que file nao nos quer constranger...
Já que é assim, segui meu conselho : nao fiqueis a meio-caminho;
ao contrario, combatei corajosamente. Morrei, se fór necessário, á pro
cura désse bem. De resto, é sómente para combater que aqui estáis.
Caminhai sempre decididos a morrer antes que deixar de tender ao
termo da viagem» (Caminho da perfeigáo XXII).

SSo Joáo da Cruz, por sua vez, ensina :

«Eis aqui o lugar oportuno para indicar por que táo poucas almas
chegam a estado táo elevado (de perfeigáo). Estai bem conscientes: a

— 101 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 63/1963. qu. 2

causa disso nao é que Deus reserve tal grandeza a poucas almas ape
nas; Ele quer, ao contrario, que todos a alcancen» (Viva chama, es-
troíe II).

Estas aíirmacoes dos dois principáis mestres da vida mística nao


podem deixar dúvida sobre a vocagao de tfidas as almas batizadas á
períeita uniáo com Deus, ou seja, á santidade.

Nenhum fiel católico, portante, se contentará com aspira-


Cóes «mais modestas»; pedirá, antes, ao Pai do Céu a grac.a de
perseverar no firme propósito de tudo fazer para conseguir a
perfeigáo sobrenatural. É, pois, pela oragáo que se há de come-
car a tarefa de procurar a perfeigáo (a prece será, de resto, o
indispensável estelo de toda a luta).

2) Mortificagao dos afetos.

Para que a vontade seja pura e forte no seu propósito, re-


quer dominio do homem sobre a sua natureza, principalmente
sobre a parte afetiva. Ésse dominio significa muitas vézes re
nuncia e mortificagáo. Donde se vé que o cristáo realmente de-
sejoso de chegar á santidade nao pode dispensar certo programa
de penitencia — penitencia que será ora mais, ora menos in
tensa, de acordó com as necessidades de cada natureza e com o
tipo de santificacjio que Deus assinala a cada qual (alguns san
tos primaram pela austeridade, outros por outra virtude).

De resto, sobre a necessidade e a Índole da ascese crista, já se en-


contram dois artigos em «P.R.» 30/1960, qu. 2.3 e 6, de modo que seria
desnecessário aqui dissertar ulteriormente sobre o assunto.

Intimamente relacionada com a mortificagáo dos afetos


está a

3) Disciplina de horario.

Requer-se que a pessoa saiba distribuir dia e noite entre


oracáo, trabalho e repouso, de modo a nao esbanjar tempo, mas
antes estar conscientemente presente <a grasa de cada instante.
Faga o cristáo um programa de vida consentáneo com a sua
saúde e os seus deverés de estado. Mal entendida seria a devogáo
que prejudicasse as obrigagóes de estado. Nao queira, pois, nos
inicios sobrecarregar-se com muitos propósitos; vá, antes, gra
duando os exercícios de mortificacáo e piedade; assimpoderá
de maneira sólida e orgánica, quase sem o sentir, passar da
frouxidáo a desejável disciplina de costumes.
Além disto, o cristáo deverá viver o seu dia impregna
do pela

— 102 —
OS MEIOS PARA PROGREDIR NA VIRTUDE

4) Consciéncia da presenta de Deus.

Para o justo, há de tornar-se cada vez mais evidente esta


verdade: é diante de Deus que, antes do mais, se desenrola a
nossa vida quotidiana; Deus é a primeira realidade á luz da qual
nos devemos orientar e para a qual háo de ser dirigidos os nos-
sos pensamentos, palavras e obras.

A tomada de consciéncia desta verdade será facilitada mediante os


dois seguintes recursos:
evite a alma, tanto em seu intimo como em seu comportamento
externo, toda disparsao, toda divagagáo inútil; procure fugir, enquanto
possível, dos ambientes bulicosos (isto se aplica mesmo as pessoas que
vivem no mundo, nao sdmente as enclausuradas). Mais ainda: esteja
o cristáo convicto de que Deus habita a alma do justo; é pelo recolhl-
mento que ele descobre a Deus em seu intimo, ouve as inspiragoes di
vinas e entra em coloquio com o Senhor. A íidelidade á voz da cons
ciéncia — que é a voz de Deus, sempre delicada, nunca tumultuosa —
é um dos segredos do progresso na vida espiritual.

Muito útil será também a evocacáo da imagem apresentada por


S. Teresa de Avila no texto abaixo :

«Pareceu-me que, semelhante a urna esponja toda penetrada e em


bebida de agua, a minha alma estava impregnada da Divindade, e que,
de certo modo, ela gozava realmente da prcsenca das tres Pessoas e a&-
possuia em seu intimo» (XI Relagáo, junho de 1571).

Está claro que estes dizeres nao deveráo ser entendidos em sentido
panteísta; a alma que tem Deus presente em seu intimo, está longe de
se identificar com Deus.

5) Prática explícita da oragáo.

É necessário, sim, que o cristáo reserve em seu horario cer-


tos intervalos de tempo exclusivamente dedicados á oragáo, seja
vocal, seja mental (ou meditacáo). A oragáo mental é de impor
tancia capital; consiste em

consideracao das verdades da fé (ato da inteligencia),


excitacao dos aíetos (amor, gratidáo, alegría, arrependimento...)
e dos propósitos correspondentes («evitarei tal vicio, praticarei tal
virtude»).

Em linhas gerais, toda meditacáo compreende

preludio : colocacao na presenca de Deus;


corpo de meditadlo : reflexSes aptas a despertar convicgSes e a ex
citar os afetos da alma;
condusao : exprimem-se os afetos, os agradecimehtos, formulam-se
resolugOes prátlcas.

Múltiplos sao os roteiros de oragao mental que esmiucam essas tres


principáis partes da meditacáo, levando em conta os diversos tempera-

■ - _ 103 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 2

mentos dos orantes. A resposta n' 3 déste fascículo apresentará um


quadro dos métodos de uso mais freqüente.
Qualquer désses roteiros, minucioso como é, pode espantar a alma,
dando-lhe a impressáo de cercear a sua liberdade de- coloquio com Deus
ou fazendo-Ihe crer que a oragáo é algo de complicado. Por isto reco-
menda-se que, se o orante nao é atraído ou beneficiado por algum mé
todo, nem por isto deixe de praticar a oracáo mental: para tanto, ser-
vir-se-á de algum livro (de preferencia, a S. Escritura; se nao, oútra
obra de piedade), e lé-loá pausadamente, fazendo o possível para apro-
fundar e saborear o sentido das respectivas frases. A quem procura a
Deus désse modo, o Espirito Santo nao deixará de corresponder; cedo
ou tarde, suscitará luzes e afetos frutuosos no intimo do orante.

Tal exercício deverá estender-se ao menos por quinze mi


nutos ao día no inicio da vida espiritual; após os primeiros pas-
sos, porém, é de desejar que meia-hora por dia lhe seja consa
grada.
Referindo-se á oragáo, S. Teresa lembra que certas pessoas
(seja por temperamento, seja por cansago, seja por provagáo
divina) nao a conseguem realizar no sentido rigoroso da medi-
tagáo. Recomenda entáo a leitura meditada :

«A leitura, por breve que seja, constituí grande auxilio para que
nos consigamos recolher. É mesmo necessária a fim de substituir a
oracáo mental, que as almas nem sempre podem realizar» (Vida c. 4).

A mesma santa dá o seguinte testemunho pessoal, que pode


ser animador para nao poucas pessoas : .

«Durante dezoito anos, jamáis ousei colocar-me em oracáo sem um


livro, a nao ser depois da Comunháo... O livro... servia-me, por assim
dizer, de companheiro. Era um escudo que me protegía contra os dar
dos das numerosas distracóes. Era rheu consoló. A aridez (espiritual)
nao se prolongava continuamente. Mas, caso o livro me faltasse, eu re
caía nela... O livro era, para mim, como a isca que sustentava a mi-
nha alma. Muitas vézes mesmo era-me suficiente abrir o livro; em cer-
tos casos, eu lia um pouco; em outros casos, lia multo, de acordó com
a graca que o Senhor se dignava de conceder-me» (Vida c. 4).

Nao há dúvida, por «leitura» • Santa Teresa entende um


exercício nao meramente intelectual, mas urna atividade tanto
do intelecto como da vontade (amor) e das facilidades afetivas
postas a procura de Deus.
Em suma, nota S. Teresa que os progressos na vida de ora- '
gao dependem milito mais do amor que a alma nutre em relagáo
a Deus e ao próximo, do que da inteligencia e do estudo :

«Se alguém quer realizar serios progressos nesse caminho (da ora-
cSo)... o importante nao é pensar muito, mas amar muito» (O castelo
interior, 4* morada, c. 1).

— 104 —
OS MÉTODOS PE MEDITACAO

Por fim, entre os meios de santificagáo das almas, será pre


ciso mencionar também

6) A devopao & Virgem SS.

Sendo María a Máe do Salvador e a Máe dos homens, com-


preende-se desempenhe papel importante na santificagáo dos
filhos que procuram á Deus aqui na térra; por suas preces, é
Advogada e Amparo da humanidade. Daí a importancia do re
curso a essa Máe SS.; dirijam-se a Ela os cristáos, principal
mente ñas tentagóes,... nos momentos em que o tedio e o desá
nimo sugerem a idéia de desistir da ardua tarefa empreendida.

«Lembrai-vos, ó piedosa Virgem María, nunca se ter ou-


vido, fósse abandonado alguém que a vos recorresse...» (Sao
Bernardo).

Aos elementas até aqui enunciados dever-se-á acrescentar a orien-


tacáo dada por um bom diretor espiritual, o qual se encarregará de
orientar o uso dos meios apontados, evitando exageros e desvíos por
parte das almas sequiosas de Deus. — Nao seria necessário insistir
aqui sobre o assunto, visto ter sido amplamente considerado em
«P. R.» 62/1963, qu. 2 e 3.

Tais sao os principáis instrumentos a ser utilizados pelas


almas que desejem sinceramente chegar ao termo de sua voca-?
gao crista, qué é vocagáo á perfeigáp. Convengam-se de que esta
tarefa se torna cada vez mais fácil á. medida que váo sendo ven
cidas as respectivas etapas; cada qual, portante, dé com ener-
gia os primeiros passos, e sem demora verificará quáo sabia terá
sido essa «loucura» !

NOVICO (Petrópolis) :

3) «Muitas pessoas descjariam tomar conhecímento dos


principáis métodos de medita$áo. Todavía nao sabem a que livro
recorrer. Seria possível satisfaze-Ias ?»

A resposta deverá tomar caráter esquemático. Segue-se um quadro


dos métodos de meditacáo mais utilizados na espiritualidade contem
poránea. Tais roteiros poderao tornar-se frutuosos para muitas almas;
contudo nunca deixaráo de ser meros meios. Desde que sufoquem a
espontaneidade do orante ou entravem a acao do Espirito Santo, per-
dem sua razáo de ser, devendo ceder a táticas mais condizentes com as
necessidades pessoais do cristáo interessado.

Recensearemos os métodos de S. Inácio, S. Sulpício, S.


Francisco de Sales, S. Afonso de Lágório, S. Joáo Batista de la
Salle e o carmelitano.

— 105 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu.v 3

1. Método de S. Inácio

A. Preparacáo

1. Colocagáo do orante na preserva de Deus e ato de


adoragáo.

2. Purificagáo da intengáo : o orante dispoe-se a meditar


a fim de melhor servir a Deus.

3. Preludios:

a) histórico: breve recordagáo do episodio (geral-


mente, do S. Evangelho) a ser meditado;

b) imaginativo : composicáo do lugar (reconstituicáo


do quadro local) do episodio;

c) suplicante : pedir de antemáo a. graga que se quer


alcangar como fruto da meditagáo.

B. Corpo da meditacao

1. Aplicacáo da memoria: recordar-se do tema previa


mente escolhido para a meditagáo, assim como das cir
cunstancias que o possam ilustrar.

2. Aplicado da inteligencia : mediante reñexáo, aprofun-


dar o tema escolhido;
prever as conclusóes práticas a deduzir e os meios de
remover os obstáculos respectivos.

3. Aplicacáo da vontade : exprimir a Deus as disposigóes


que a reflexáo tenha suscitado no orante;
deduzir propósitos práticos referentes a um aspecto
particular da vida espiritual.

C. Conclusáo

1. Coloquio : diálogo íntimo com o Senhór Deus.


2. - Pedido de graga divina para o orante e para o próximo.
3. Exame do valor da meditagáo efetuada.

Fai Nosso, Ave María, Alma de Cristo...

— 106 —
OS MfiTODOS DE MEDITACAO

Éste método, á primeira vista muito complexo, pode ser apresen-


tado de maneira bem simples : reduz-se á idéia de coloquio... Coloquio
que seria o diálogo afetivo e confiante da alma com Deus, após a con-
templacáo de um episodio do S. Evangelho ou a reflexáo sobre urna
passagem da S. Escritura.

2. Método de S. Sulpício 0)

A. Preparacáo próxima

-1. Colocar-se na presenga de Deus.

2. Unir-se a Jesús Cristo.

3. Invocar o Espirito Santo.

B. Corpo da medita$ao

1. Adoragao (Jesús diante do olhar da mente) :

a) considerar Nosso Senhor no episodio escolhido


para a meditagáo; contemplar seus atos, escutar
suas palavras, compreender seus sentimentos de
alma;

b) o orante exprime ao Senhor os seus próprios sen


timentos : admiragáo, adoracáo, louvor, agradecí-
mentó, amor, alegría, compaixáo.

2. Comunháo (Jesús no coragáo) :

a) persuasao: o orante considera a importancia da


virtude contemplada em Jesús Cristo;

b) reflexáo: o orante procura tomar consciéncia de


quanto está afastado do Modelo Divino; exprime
sua contrigáo pelas falhas passadás, sua confusáo
pelo que diz respeito ao presente, seu desejo de
melhorar para o futuro ;

c) súplica: o orante pede ao Espirito Santo aqueles


mesmos sentimentos que ele contemplou no Cristo
Jesús. A fim de corroborar a sua prece, apela para

(1) Em geral, tsta método supGe como tema os episodios do S, Evangelho.

— 107 —
<PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 3

a gloria de Deus, a santidade da Igreja, a bondade


do Pai, as promessas do Filho...— Pede as mes-
mas gragas para o próximo.

3. Cooperacáo (Jesús ñas máos) :

a) tomar urna resolucáo concreta;

b) o orante se oferece ao Espirito Santo para que


Éste o ajude a cumprir o propósito formulado.

C. Conclusa»

1. Agradecer luzes e gragas recebidas.

2. Pedir perdáo pelas distragóes e infidelidades.

3. Ramalhete espiritual (idéia dominante ou jaculatoria a


ser mentalmente revolvidas pelo orante, no decorrer
do dia).

Para terminar, colocar-se sob a prote^áo da Virgem SS. re


citando a invocagáo «Sub tuum praesidium».

Mesmo éste método minucioso se pode reduzir a tres pontos


simples:

Jesús diante dos olhos


Jesús no coracáo
Jesús ñas máos

Ou ainda:

Jesús contemplado
Jesús amado
Jesús atuando em nos e através de nos. . —

3. Método de S. Francisco de Sales

A. Introducáo

1. Colocacáo do orante na presenca de Deus:

a) ... Deus presente em todas as criaturas (pela sua


agáo conservadora);

b) ... Deus presente ñas almas justas (pela graga


santificante);

— 108 —
OS MÉTODOS DE MEDITACAO

c) ... Deus presente no céu (pela visto face a face


concedida aos bem-aventurados);

d) ... Deus presente no SS. Sacramento.

2. Invocacoes para obter a graca de boa oragáo, dirigidas

a) a Deus,

b) ao anjo da guarda do orante,

c) aos santos.

3. Consideragáo rápida do tema previamente escolhido


para a meditagáo, e composicáo do lugar (reconstitui-
gáo das circunstancias do episodio), se o tema o exige
ou sugere.

B. Corpo da meditacao

1. Reflexao: a alma procura compreender adequadá-


mente o sentido do episodio do Evangelho ou da Pala-
vra de Deus.

2. Afetos: a alma esforoa-se por exprimir algumas das


disposigóes que lhe tenham sido sugeridas pelas consi-
deragóes precedentes : amor a Deus e ao próximo, zélo,
compaixáo, admiragáo, temor a Deus, odio ao pe
cado, etc. .

3. Resolugoes : o orante procura tirar urna ou mais con-


clusóes práticas que sirvam ao seu progresso espiritual.

C. ConcIusSo . .

1. Agradecimento.

2. Pedido de béngáo divina para o orante e para o pró


ximo em geral.

• 3. Ramalhete espiritual.

— 109 —
<PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 63/1963, qu. 3

4. Método de S. Afonso de Ligório

A. Preparagao

1. Ato de fé e de adoragao.
2. Ato de humildade e de contrigáo.
3. Pedido de luzes.
4. Ave María.

B. Corpo da medita$ao

1. Breves reflexoes : pensamentos acompanhados de atos


de fé (se necessário, com o auxilio de um livro).

2. Afetos: exprimir, de acordó com a oportunidade, dis-


posigóes de amor, confianga, humildade, contrigáo, re-
signagáo...

3. Súplica: implorar luzes, a perseverarla final e princi


palmente o dom do santo amor.

C. Conclusao

1. Agradecer a Deus.
2. Tomar as resolugóes oportunas.
3. Pedir a graga de as cumprir devidamente.

5. Método de S. Joáo Batista de la Salle

A. Disposifiáo da alma (procura de recolhimento)

1. Exercício da presera de Deus :

a) Deus presente no lugar em que nos encontramos


— porque está présente em toda parte — porque
está onde dois ou tres discípulos se reunam em seu
nóme;

b) Deus presente em nos — porque n'Éle temos a


vida, o movimento e o ser (cf. At 17,28) —■- porque
habita na alma pela grasa santificante;

c) Deus presente na igreja — porque a igreja é a


casa do Senhor e nela se acha o SS. Sacramento.

— 110 —
OS MÉTODOS DE MEDITAQAO

2. Atos de piedade :

a) tres atos referentes a Deus : fé, adoragáo, agra-


decimento;

b) tres atos referentes a nos mesmos : humildade, re-


conhecimento da culpa, contricao;

.c) tres atos referentes mais particularmente a


Cristo: apelo aos méritos de Jesús Cristo, ato de
uniáo a Cristo, invocacáo do Espirito de Cristo.

B. Aplicagáo da alma ao tema da meditagáo

1. Ato de fé em Nosso Senhor- que nos ensina a virtude


pelo seu exemplo e a sua palavra.

2. Atos de adoracáo a Nosso Senhor, cuja transcendente


santidade se revela através de seus exemplos e ensina-
mentos.

3. Atos de agradecimento a Nosso Senhor pelo amor do


qual nos dá o exemplo e a ligáo.

4. Ato de reconhecimento da culpa, visto que muito longe


nos achamos daquilo que Nosso Senhor espera de nos.

5. Ató de contrieao.

6. Ato pelo qual aplicamos a nos mesmos a doutrina de


Nosso Senhor e procuramos formular urna resolugao.

7. Ato de uniáo ao Espirito de Nosso Senhor.

8. Ato de súplica pelo qual pedimos ao Senhor a grasa


de realizarmos o que Ele espera de nos. .

9. Ato de invocafiáo dos santos, para que nos venham em


auxilio.

— 111 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 3-

C. Agradecimento da alma

1. Análise da meditagáo.

2. Agáo de gragas pelas luzes recebidas.

3. Oferta das resolugóes tomadas.

Entrega do orante a tutela da Virgem SS. mediante o «Sub


tuum praesidium».

6. Método carmelita

A. Introducáo

1. Preparacao : pensar em Deus, excitando atos de amor,


com humildade e confianga.

2. Recordar-se da finalidade da oragáo: fazer que o


orante se torne um pouco mais amigo do Senhor, O
Qual se serve dessa amizade para derramar suas gra-
gas sobre o mundo.

3. Se necessário, fazer breve leitura da Biblia Sagrada


ou das máximas dos santos.

B. Corpo da meditativo

1. Mediante um ato de fé, colocacjio na presenta da hu-


manidade de Nosso Senhor Jesús Cristo.

2. Reflexao sobre um episodio do S. Evangelho ou sobre


urna palavra de Jesús.

3. Coloquio afetivo ou contemplagáo em silencio.

C. Conclusa»

1. Agradecimento pelos múltiplos beneficios divinos.

2. Oferecimento de todas as facuidades do orante ao ser-


yigo de Deus.

3. Escolha de urna resolucao firme e pedido da graga ne-


cessária para lhe ser fíel.

— 112 —.
leí duvidosa nao obriga ?

Os melhores comentarios a esta tabela seráo sugeridos a.


cada leitor pela experiencia que ele mesmo quiser fazer de de
terminado método.

MORAL

JANGADA (Aparecida):

4) «Quando nao se tem certeza da existencia de determi


nada lei ou obrigagao, como sé ha de proceder, a fim de nao
cair em falta ?
Costuma-se dizer que 'a lei duvidosa nao obriga' (lex dubia
non obligat). Pode-se aceitar isto sem restricao?»

A resposta a estas questSes supSe e desenvolverá o que, a respeito


de consciéncia, já foi dito em «P. R.» 40/1961, qu. 6. Dentre as conside-
ragoes ai propostas, interessa realzar a seguinte: «A ninguém é licito
agir com a consciéncia em dúvida ou com a consciéncia a hesitar -sobre
a liceidade do ato que esteja para praticar». Quom assim age, sujeita-se
voluntariamente ao risco de infringir as leis da Moral; ora a aceitacáo
voluntaria desse risco já significa descaso para com os preceitos mo
ráis; já é algo de culposo ou pecaminoso.
Disto se segué ¡mediatamente que quem está na dúvida sobre a
liceidade de tal ou tal ato, deve, antes do mal:?, e dentro da medida
do seu possivel, procurar dfesipar essa dúvida, a fim de agir com a
consciéncia segura ou certa (com certeza nao metafísica, mas humana
ou moral).
Para auxiliar a consciéncia hesitante a conseguir a certeza neces-
sária, os moralistas indicam principios reflexos, teto é, normas gerais
que projetam luz sobre as diversas situacSes concretas, contribuindo
para solucioná-las. Tais principios já foram enunciados em «P. R.»
40/1961, pág. 177s.
Continuemos agora a explanacao do assunto, supondo que, mesmo
auxiliada pelos principios reflexos, a consciéncia nao consiga dissipar
suas dúvidas e ainda nutra incerteza a respeito do que deve fazer.
— Como procederá, suposto (como é freqüen teniente o caso) que de va
decidir ?

Para tais situaeoes, os moralistas, a partir do séc. XVI,


propóem «sistemas moráis», isto é, métodos que gerem a certeza
suficiente para que a pessoa, ao agir, nao possa ser tida como
temeraria ou culpada.

Pergunta-se entáo quais seriam

1. Os principáis sistemas moráis

Sete sao os sistemas moráis, dos quais alguns, ou por exa


gerado rigor ou por demasiado laxismo, foram condenados pela

— 113 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 4

Igreja, ao passo que os outros sao lícitos, ficando o seu uso en


tregue ao arbitrio de cada consciéncia.

Ei-los na íntegra':

1) Tuciorismo rígido ou Rigorismo absoluto.

Conforme éste sistema, a consciéncia deve seguir sempre a


sentenca mais severa (que costuma ser a menos arriscada ou a
mais segura para se evitar o pecado), embora a sentenca que
favoreca a liberdade da consciéncia goze de mui grande probabi-
lidade. Por conseguinte, a probabilidade nao basta para que uma
acáo seja tida como lícita. Os principáis fautores desta tese sao
Joáo Siníquio (t~1666), professor da Universidade de Lovánia,
e os jansenistas em geral (séc. XVÜ/XVIII).

O sistema foi indiretamente condenado pelo Papa Álexandre VIII,


que, aos 7 de dezembro de 1690, proscreveu a seguinte proposicáo dos
jansenistas : «Nao é licito seguir a opiniáo mais provável dentre as
prováveis» (cf. Denzinger, Enchiridion 1293). A proscrigáo significa
em última análise que, para agir licitamente, n&o é necessário que a
consciéncia tenha sempre certeza estrita da liceidade de seus atos;
basta que se apoie em sentenca bem provável.

O tuciorismo rígido tornaría a vida humana impossível ou


intolerável, já que, mesmo após empregar toda a diligencia, nao
nos é sempre possivel granjear absoluta certeza da liceidade de
nossos atos. Ora Deus nao pede o impossível: quem faz sincera
mente o que está ao seu alcance para esclarecer a consciéncia,
já nao cometerá pecado formal se agir de acordó com as conclu-
sóes (certas ou prováveis) a que tiver chegado.

'<)) Tiii'iinlimw inlliuutln un ltln»riMiin mwktnMlo.

Éste sistema reconhece ao agente a liberdade de n&o seguir


a lei, contanto que se possa apoiar em sentenca de grande pro
babilidade. Foi o que ensinaram alguns mestres de Lovania,
como Steyart (t 1719), Opstraet (tl720), e outros autores
(Henrique de S. Inádo t 1719, o Cardeal Gerdil t 1802).
O sistema nao foi própriamente condenado pela Igreja,
mas, visto que pouco difere do anterior, nao tem adeptos em
nossos dias. Também torna intolerável óu impossível a vida hu
mana; quem só quer agir na base de certeza ou quase-certeza,
arrisca-se a cair em angustias moráis e psíquicas.

— 114 —
leí duvidosa nao obriga ?

3) Probabiliorismo.

Já nao exige certeza ou quase-certeza. Reconhece o valor


da probabilidade como tal nos seguintes termos : a consciéncia
está livre perante a lei, desde que, para se eximir, se possa apoiar
em razóes mais prováveis do que as que favorecem a lei.

Os probabilioristas ilustram sua tese mediante figuras da matemá


tica. Comparam as probabilidades de liceidade e iliceidade de urna agáo
com pesos colocados nos pratos de urna balan ga; se os pesos ou as
probabilidades sao iguais, anulam-se reciprocamente; em tal caso, a
consciéncia nao tem motivo para se eximir da lei; deve entáo proceder
como se a lei existisse e obrigasse, porque tal alvitre vem a ser mais
seguro para evitar o pecado.
Suponha-se, porém, que as probabilidades, de um lado da balanga,
equivalem a um peso de 10 gr, e as do outro lado ao peso de 10 gr mais
2 gr. — Cancele-se o peso 10 de ambos os lados; restará aínda o peso
2 em um dos pratos ;entáo será licito á consciéncia seguir o alvitre in
dicado pelo peso 2 (poderá assim eximir-se da lei, se Í6r o caso); tal
será o alvitre mais provável.
Que dizer dessa argumentacáo ?
O confronto nao é. plenamente adequado e íeliz. Conf efeito; nao
se pode dizer que, á semelhanga dos pesos de urna balanca, duas pro
babilidades contrarias comparadas entre si tendam a se eliminar reci
procamente. Nao; em geral essas probabilidades contrarias nao se ex-
cluem mutuamente porque nao provém da mesma fonte, mas de fontes
diversas; conservam seu valor e seu peso próprios, independentemente
urna da outra.
Tenha-se em vista, por exemplo, o caso em que o bem comum pa
rece exigir que se denuncie em público determinada pessoa (pois tal
individuo constituí um perigo para a sociedade). Ha, porém, urna razáo
contra a denuncia, a saber : a obrigagao de se respeitar a fama do pró
ximo. Como se vé, as razdes em favor e em contrario da denuncia pro
vém de fontes diferentes (o bem comum e o bem de um individuo).
.Neste caso, o confronto entre as probabilidades é delicado e complexo,
de modo que nao se pode pretender chegar á clareza que se obtém em
matemática. É por isto que o probabiliorismo ou a sentenga que manda
seguir a maior probabilidade se torna íalha; podo rccalr f&cílmenlo no
tuciorismo ou no rigorismo.

O probabiliorismo foi muito usual antes de Bartolomeu


Medina (1528-1581); durante algum tempo era também fre-
qüente entre os dominicanos. Hoje em dia, porém, já quase nao
tem seguidores. No confessionário, nao é ppssível a um sacerdote
aplicar éste sistema até as últimas conseqüéncias; com efeito, se
o penitente deseja seguir sentenca mais branda do que a do pro-
babiliorismo (abracando com sinceridade o probabilismo, por
exemplo), o confessor nao tem o direito de lhe negar.á"absolvi-
gáo ou de insistir no probabiliorismo, pois a S. Igreja reconhece
o probabilismo como sistema legítimo; o sacerdote nao pode
exigir de todo e qualquer cristáo o heroísmo que nao seja estri-

— 115 —
<tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 4

tamente obrigatório. Contanto que o penitente esteja sincera


mente contrito e munido do firme propósito de nao mais pecar,
ao confessor nao compete tentar impor-lhe determinada sen-
tenga licita em vez de outra sentenga lícita.

4) Equiprobabilismo.

Distingue entre
dúvida a respeito da existencia de determinada lei e
dúvida a respeito da cessagáo de urna lei já existente.

No primeiro caso, o equiprobabilismo ensina ser licito á


consciéncia isentar-se da lei, desde que a náo-existéncia da lei
seja táo provável ou quase táo provável quanto a sua existencia.

No segundo caso, ensina ser obrigatório seguir a lei, desde


que a náo-cessagáo da lei seja táo provável ou quase táo pro
vável quanto a cessagáo.
O sistema está baseado no principio dito «de posse», que
reza : «Merece preferencia a posi?áo de quem possui». Por con-
seguinte, caso nao sé saiba se existe determinada léi, presumir-
-se-á que nao existe (a náo-existéncia possui a primazia), até se
tornar certo ou mais provável que a lei de fato existe (neste
ponto, o probabiliorismo divergiría do equiprobabilismo). Ao
contrario, caso'se saiba que a lei foi promulgada, mas se ignore
se aínda continua em vigor, presuma-se que de fato está vigo
rando (a existencia da lei possui a primazia), até se tomar certo
ou mais provável que ela deixou de existir (neste ponto, coinci-
dem entre si o equiprobabilismo e o probabiliorismo).
Alguns exemplos ilustraráo bem o sistema: numa noite de sexta-
-feira (em que esteja prescrita a abstinencia de carne) para sábado,
alguém em viagem ignora se já passou a meia-noite e, por conseguirte,
se ainda está em vigor a lei da abstinencia. Há tanta probabilidade para
crer que tenha passado como para o contrario. Em tal caso, o equipro
babilismo manda observar a abstinencia, porque a lei é que está «de
posse». Admita-se, porém, que a mesma situacáo se desse na noite an
terior (de quinta-feira para sexta-felra, dia de abstinencia); entáo o
equiprobabilismo permitiría o consumo dé carne, porque a liberdade é
que estaría «de posse».
Alguém fez um voto... Nao tem certeza, mas apenas certa recor-
dacao provável, de o haver cumprido. Segundo o equiprobabilismo,
ainda está obrigado a cumpri-lo, pois a um voto certamente emitido
nao se satisfaz mediante cumprimento meramente provável; o voto
está na qualidade de «possuidor». — Admita-se, porém, que essa mesma
pessoa nem sequer saiba dizer se emitiu ou nao o voto (dúvida na base
de probabilidades equivalentes); em tal caso, nao está obrigada a cum-
prir coisa alguma, pois a dúvida versa sobre a existencia mesma do
dever ou da lei.
O equiprobabilismo obriga a incluir na confissao sacramental os
pecados graves que alguém nao tem certeza, mas apenas recordacüo

— 116 —
LEÍ DUVroOSA NAO OBRIGA ?

provável, de já haver confessado; nesse caso, a obrigacao de confessar


faz as vézes de «possuidor» (nao consta que tenha cessado).

O sistema equiprobabilista tem como principal arauto


S. Afonso María de Ligório, que o propugnou a partir de 1762.
Seguem-no os Redentoristas em geral e alguns representantes da
Ordem Dominicana.
Nenhuma objegáo de peso se pode opor aos principios do
equiprobabilismo. Difere do probabiliorismo por reconhecer a li-
berdade da consciéncia, quando esta duvida da existencia de
determinada lei, tendo razóes igualmente prováveis tanto para
a afirmar como para a negar. O equiprobabilismo pode dar bons
frutos na vida prática; ainda hoje conta com abalizados adeptos.

5) Probabilismo puro.

Eis o enunciado déste sistema :


1. Todas as vézes que urna opiniáo realmente provável
declare ser lícito determinado ato, pode-se tranquilamente se
guir tal opiniáo, embora ao mesmo tempo outra ssntensa, igual
mente ou mais provável, negué a liceidade do ato.
2. E que vem a ser «opiniáo realmente provável»?
— É aquela que, em virtude dos motivos sobre os quais se
apoia, pode merecer o consentimento de qualquer pessoa pru
dente, embora fique sempre o receio de que o alvitre contrario
seja o alvitre certo.
Note-se que a probabilidade pode ser Interna ou externa.
Probabilidade interna é a que resulta do exame do caso em si
mesmo, levando-se em conta a natureza do assunto, as causas que
entram em jógo, os eíeitos que elas acarretam, etc., assim como os
Inconvenientes que resultam de outros casos ou de outras sentencas.
Probabilidade externa é a que se deriva da autoridade de doutdres,
mestres ou escritores conceituados; desde que defendam determinada
opiniáo, é de crer que esta merece atencáo, pois nao a apregoariam sem
razáo suficiente. Há mesmo situares em que os simples fiéis e os pro-
prios sacerdotes, seja por prudencia, seja pela impossibilidade de estu-.
dar dlretamente o assunto, estáo obrigados a confiar ñas luzes dos mes-
tres mais do que no seu modo de ver pessoal. Ninguém, de resto, tem o
dever de. reexaminar os motivos pelos quais homens serios e competen
tes deferidem tal ou tal sentenga.
Basta o testemunho convergente de cinco ou seis bons autores para
dar probabilidade extrínseca a urna sentenca; julga-se mesmo que é
suficiente a palavra de um só teólogo grandemente abalizado (como
S. Tomaz, S. Afonso de Ligório, S. Antonino), para que, sem témeri-
dade, se possa seguir determinado alvitre. Em particular, no tocante a
S. Afonso de Ligório, a Santa Sé permite que todos adotem, sem ulte
rior investigacao, as sentengas déste mestre ern Teología Moral (haja
vista a respectiwa declaracáo da S. Penitenciaria aprovada pelo Papa
Gregorio XVI aos 22 de julho de 1831).

— 117 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 4

S. Tomaz muito sabiamente lembra que, posta diante de certo


problema, urna pessoa de pouca ciencia chega a conclusoes mais segu
ras buvindo a doutrina de um homem de muita ciencia do que aten-
dendo aos pareceres de sua própria razáo (cf. S. Teol. II/n qu. 4, a.
8 ad 2).
É claro, porém, que, para dar probabilidade a urna sentenca, nao
basta o testemunho de um só autor, desde que éste nao seja notoria
mente abalizado. É o que se depreende da condenacáo da sentenca se-
guinte por parte do Papa Alexandre VII (em 1665) : «Deve-se ter por
provável urna opiniao encontrada em livro de autor jovem e moderno,
desde que nao conste ter sido tal opiniao reprovada pela S. Sé» (Den-
zinger, Enchiridion 1127).

Como se vé, o probabilismo é, de todos os sistemas moráis,


o mais simples : consoante as suas normas, sempre que constar
que determinada sentenga goza de real probabilidade (seja in
terna, seja externa), será lícito segui-la, sem se indagar se exis-
tem outras sentencas mais prováveis ou seguras.

3. E quais os argumentos que o probabilismo apresenta


em seu favor?
O principal argumento sobre o qual se apoia, é assim for
mulado pelos seus arautos :

A lei duvidosa nao obriga .ou


Em caso de dúvida, haja Hberdade (isencSo do dever).
Ora a leí contra a qual existe urna oplniSo realmente provável, é
lei duvidosa.

O cerne de toda a argumentagáo é o principio : «A lei du


vidosa nao obriga». Nem todos os autores aceitam esta máxima;
os que a defendem, apelam para os direitos da liberdade hu
mana, asseverando qué devem merecer preferencia sobre os di
reitos da lei.
Além disto, os adeptos do probabilismo lembram que nu
merosos moralistas de renome professaram tal sistema; assim
Joáo de S. Tomaz O.P. (t 1644), Domingos Bañez O.P.
(t 1604), os teólogos carmelitas de Salamanca (séc. XVII), vem
geral os autores da Companhia de Jesús (Toledo, Suarez, Lugo,
Gury, Ballerini, Lehmkuhl, Noldin, Génicot...), Bouquillon,
Tanquerey, etc.

4. Como quer que seja, todos os teólogos admitem que nao é licito
seguir o probabilismo ou urna sentenca meramente provável, com des
caso da sentenca contraria mais provável, ñas quatro seguintes sl-
tuacdes:

— na admlnistracSo dos sacramentos. A validade dos sacramentos


é de importancia capital para o culto divino e o bem das almas. Da!
nao ser licito utilizar materia ou forma que de algum modo possam

— 118 —.
LEI DUVTDOSA NAO OBRIGA ?

tornar duvidosos os seus efeitos; por conseguinte, todas as cautelas


razoáveis nao de ser observadas nesse setor, evitando-se urna casuística
demasiado sutil a respeito do que seria e nao seria estritamente de
obrigacáo;

— na procura'dos melos necessários & salvocáo eterna. É preciso


que todos facam o que fór humanamente possivel para viver e morrer
na graca de Deus. Portante a ninguém é lícito expor-se, sem motivo
imperioso, a perigo próximo de pecar gravemente, apoiando-se apenas
na presungao de que «talvez nao cala» (certas opinióes, por exemplo,
concernentes á castidade sao aceitáveis em teoria, mas na prática vém
a ser, para muitos, gravemente perigosas; nao será licito, pois,. segui-las
sem discernimento ponderado). Alguém que nao possua clareza em
questóes de íé, nSo tem o direito de se basear em probabilidades, dis-
pensando-se de procurar zelosamente a verdade e a via da salvagáo;

— em perigo de grave daño (espiritual ou temporal) para o pró


ximo ou para a sociedade. Principalmente o escándalo há de ser evi
tado; em vista disto, pode acontecer que alguém deva observar urna
lei da qual provavelmente estaría dispensado (cf. 1 Cor 3,13; Rom 14).
Os direitos certos do próximo exigem respeito; em conseqüéncia, nao é
lícito a um juiz proferir sentenca de acardo com alguma opiniáo me
ramente provável, sem levar em conta opinióes contrarias mais prová-
veis (cf. Denzinger, Enchiridion 1152); quando duas partes litigantes
parecem ter cada qual em seu favor razóes igualmente prováveis, o
arbitro Ihes deve sugerir a reparticao dos direitos ou a aceitagáo de
acdrdo amlgável;

— em perigo de vida do próximo. O médico, portanto, tem a obriga


cáo de empregar os tratamentos e remedios mais seguros; incorre em
falta se, sem imperiosa necessidade, lancar máo de ingredientes duvi
dosos. Ninguém tem o direito de beber urna pocáo da qual suspeite
seja gravemente venenosa. O cacador nao pode atirar, caso n§o saiba
exatamente se o objetivo visado é homem ou animal de caga.

5. Fora dos quatro casos ácima enunciados, é que os auto


res discutem a liceidade ou iliceidade do probabilismo. Os que
impugnam o sistema, assim argumentam:
a) O principio «A lei duvidosa nao obriga» é assaz vago,
pois na prática será difícil avaliar quando a lei se torna duvidosa
e quais os criterios a ser ponderados para se dizer se é duvidosa
ou nao.
b) Além disto, o adagio «Em caso de dúvida, haja liber-
dade» só era, pelos antigos moralistas, reconhecido válido para
os casos de dúvida estrita, isto é, de dúvida em que nao hou-
vesse argumento algum nem pro nem contra determinado al-
vitre. Desde que se pudessem confrontar razóes pro e contra,
os autores antigos sempre asseveraram a necessidade de seguir
as razóes mais prováveis.

Sámente do séc. XVI em diante, ou seja, a partir de Bartolomeu


Medina O.P., é que se afirma a liceidade do puro probabilismo. Ora

— 119 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 4

seria difícil admitir que sómente em época táo recente tenham os teó
logos encontrado o sistema moral adequado; haveriam procedido me
nos corretamente os autores e moralistas dos quinze primeiros sécu-
los cristáos ?
c) Apelam também para a autoridade do Código de Direito Canó
nico, que no canon 15 reza : «...Nos casos práticos ém que haja düvi-
das sobre a existencia de determinada lei, o Ordinario (bispo ou pre
lado) local pode dar a respectiva dispensa, desde que se trate de leis
das quais o Pontífice Romano costuma dispensar». Ora — pergunta-se
■— para que cm tais casos se requer a dispensa dada pelo prelado, sé a
lei duvidosa por si mesma nao obriga ?
d) A historia e a experiencia parecem desabonar o probabilismo.
De fato, os propugnadores déste sistema tém por vézes caído em sen-
tengas laxistas, que a Santa Sé reprovou explícitamente; o Papa Cle
mente XIII, por exemplo, aos 26 de levereiro de 1761 condenou urna
lista de varias teses inspiradas pelo probabilismo, declarando mesmo
errónea e próxima á heresia a sentenca: «o probabilismo fol suma
mente familiar ao Cristo Senhor. — Probabilismus iuit Christo Domino
summe familiaris» (cf. S. Afonso, Theol. Mor. I 84).

Por fím, levando e mconta a serie de razóes contrarias ao


probabilismo, o próprio Pe. Noldin, um dos mais famosos arau-
tos do sistema, reconhecia : «Se no servigo de Deus alguém só
fizesse o que a lei, interpretada pelas normas do probabilismo,
manda estritamente, sem dúvida tal pessoa levaría vida pouco
digna de um cristáo» (Summa Theologiae Moralis, De princi-
piis242).
Donde se v§ que o probabilismo nao deixa de sofrer ponde
rosas restrigóes por parte da sadia Moral católica.
Vem ainda em consideragáo o

6) Probabilismo laxo ou laxismo.

• O laxismo permite seguir a sentanga provável, ainda que


só goze de fraquíssima probabilidade. Teve sua voga no
séc. XVII, com Joáo Caramuel (t 1682), Joáo Sánchez (f 1624),
Mateus Moya (f 1684), Escobar y Mendoza (+ 1669)... Hoje
em día, já nao encontra adepto, de mais a mais que foi explíci
tamente condenado pela Igreja; com efeito, o Papa Inocencio XI
reprovou a proposigáo : «Em geral, ao seguirmos urna sentenga
dotada de probabilidade interna ou externa (embora tenue),
desde que ainda fiquemos dentro dos termos da probabilidade,
... procedemos prudentemente» (Denzinger, Enchiridion 1153).
Com razáo, pois, asseverava S. Agostinho: «Melius est cum seve-
rltate diligere quam cum lenitate decipere. — É melhor amar com
severidade do que decepcionar com brandura». O que quer dizer : mais
vale sermos severos com o próximo, a fim de garantir o seu bem, do
que sermos indulgentes para com ele, permltindo o seu mal.

Por íim, deve-se recensear o

— 120 —
LEI DUVIDOSA NAO OBRIGA ?*

7) Sistema da compensacao ou da razao suficiente.

É, de todos os sistemas, o mais recente; visa suprir as falhas


apresentadas pelos anteriores.
Ensina ser lícito á consciéncia eximir-se da lei apoiando-se
em sentenga sólidamente provável, embora outra sentenga, aínda
mais provável, favoreca a lei. Contudo, já que em tal caso há
perigo de faltar a um dever, o sistema da compensagáo requer
que alguém só se exima da lei se tiver motivo suficiente ou grave.
que justifique (ou compense) o risco assim acarretado. QuantoV
maior fór o perigo de incorrer em alguma falta contra a lei,
tanto mais imperioso deverá ser o motivo que justifique ou com
pense o perigo.
Tal sistema, em última análise, vem a coincidir com o pro-
babilismo puro. Pois é de crer que alguém só faca uso do proba-
bilismo (seguindo urna sentenca sólidamente provável, contra
outra sentenga, igualmente ou mais sólidamente aínda prová
vel) caso tenha motivo grave ou serio para tanto. Os próprios
probabilistas condenam o descaso de alguma lei realmente pro-
váveJ, desde que nao naja razáo para isso. O descaso nao moti
vado já é laxismo, e nao «probabilismo».
Resta-nos agora tentar

2. Um juízo sobre a questao

Dos diversos sistemas moráis enunciados, dois estáo formalmente


condenados pela S. Igreja: o rigorismo absoluto e o laxismo. Os de-
mais sao conciliáveis com a Moral crista e, por isto, aceitávels na vida
prática de um católico.

Costumam os mais conceituados moralistas adotar nos seus


manuais ou o probabilismo puro ou o equiprobabilismo. Ora o
probabilismo puro, no dizer mesmo de seus melhores adeptos,
leva a. frouxidáo moral; nao pode, por conseguinte, ser fonte
absoluta ou única de regras para quem deseja chegar ao termo
normal da vida crista, que é a perfeifjáo moral. Donde se ve
que, em tese, é preciso adotar outro sistema moral um pouco
mais severo, como o equiprobabilismo.

Éste se acha baseado, como dissemos, num principio de direito


muito sólido, a saber: «Merece preferencia a posicáo de quem possui>.
Em outros termos, éste mesmo principio assim se pode formular:
«Standum est pro eo pro quo stat praesumptio. — Deve-se seguir o
alvitre em favor do qual se presuma estar o direito».

E como se pode presumir estar o direito em favor déste ou daquele


alvitre ?

— 121 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 5

Pode-se presumir isto, levando em conta as circunstancias concre


tas de cada caso : a conclusáo ou a sentenca sugerida por tais circuns
tancias, há de ser tida como válida até que se prove ou que se eviden
cie com mais probabilidade a sentenca contraria. Assim — ensina o
equiprobabilismo — se as circunstancias sugerem a existencia da lei,
siga-se a lei; se sugerem a liberdade da consciéncia ou a náo-existéncia
da lei, siga-se a liberdade, até haver certeza ou maior probabilidade do
contrario.

Acontece, porém, que na vida pastoral ou na orientagio


das almas nao se pode impor a alguém um determinado dever
que decorra, sim, dos principios «déste» sistema moral, mas
nao decorra dos principios de outro sistema lícito. O penitente
tem o direito de seguir o probabilismo, sem que o sacerdote
o inquiete. Por isto há casos em que o diretor espiritual ou o
confessor terá que abrir máo do equiprobabilismo e ceder ao
probabilismo puro, principalmente quando tratar com pessoas
de temperamento fraco, as quais poderiam ser prejudicadas,
antes que beneficiadas, por tratamento um pouco mais rigoroso
do que o estritamente necessário.

Descendo a pormenores, devem-se outrossim notar as seguintes re-


gras a ser aplicadas na prática:
1) Nao queira o confessor proibir alguma oplniao, se nio ídr cer-
tamente contraria á íé e aos bons costumes.

2) O único caso no qual o confessor deve impor a opiniao mais


rigorosa, é aquéle em que a opiniao oposta acarretaria risco de pecado
formal ou de escándalo.
3) Nao deve o confessor declarar falsa urna opiniao admitida por
doutos e aprovados autores na materia.

Levando em consideragáo todas essas regras, assim como


as circunstancias concretas e contingentes de cada caso, cada
pessoa formará a sua consciéncia e decidirá a sua atitude prá
tica. Nesté terreno ninguém pode pretender, de antemáo, tragar
solugóes uniformes ou padronizadas.

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

PENNA (Belo Horizonte) :

5) «Hoje em dia, qnando tanto se fala de renovacáo


entre os cristaos, pergunta-se: em que consdstiu a renova$áo ou
a Reforma empreendida pelo Concilio de Trento (1545-1563)?»

Antes do mais, proporemos urna observado referente á expressáo


«Contra-Reforma», com que se costuma designar a obra do Concilio de

— 122 —
A RENOVACAO CATÓLICA NO SSC. XVI

Trente Urna vez esclarecido éste ponto, procuraremos tracar urna sín-
tese das principáis determinacoes do Concilio, a íim de poder avaliar
o significado do mesmo na historia do Cristianismo, dando particular
atencáo ás suas conseqüéncias para a uniao de católicos e protestantes.

1. «Reforma e Contra-Reforma»?

1. Costuma-se chamar «Contra-Reforma» o movimento


desencadeado pelo 'Concilio de Trente, em oposicáo á «Refor
ma» de Lutero e do Protestantismo.
Tais expressóes, porém, sao inadequadas: dáo a crer,
sim, que
1) a obra de Lutéro tenha sido verdadeira e auténtica
reforma da Igreja... Reforma exigida pela péssima situacáo
moral da Cristandade no séc. XV: depravagáo de costumes
tanto entre os simples fiéis como no alto clero, espirito mun
dano e político na hierarquia eclesiástica, decadencia doutri-
nária, sutilezas escolásticas ñas Universidades haveriam final
mente provocado a ruptura de Lutero com a Igreja Católica
em 1517;
2) a Igreja teria entáo despertado, tomando consciéncia
do perigo que a ameacava. As Ordens Religiosas, dizem, cóme-
garam a reflorescer. O Papado cedeu á pressáo geral e con-
vocou o Concilio de Trento. Éste terá empreendido urna «Con*-
tra-Reforma», que, no parecer de alguns comentadores, veio
a ser deturpagáo ou desvio do Cristianismo primitivo.

Por mais que se dé atengáo ao que esta interpretagáo possa


ter de verídico, observa-se que a realidade histórica é bem
diferente de tal quadro. Os historiadores, nao sdmente cató
licos, mas também protestantes, mais e. mais reconhecem que
a renovagáo católica no séc. XVI nao esperou o surto do Pro
testantismo para se delinear; seus primordios sao anteriores
a 1517; resultam lógicamente das peripecias da historia da
Igreja na Idade Media, de modo que, em vez de Contra-Re
forma, se deve apregoar um Ressurgimento ou um Renasci-
mento da fé e dos costumes do povo cristáo no séc. XVI.

A titulo de ilustracáo, poder-se-ia citar o testemunho do historiador


protestante W. Maurenbrecher, que, em 1880, publicou a obra «Geschi-
chte der Ttatholischen Beformation (Eeck, Nordlingen) — Historia da
Reforma Católica» (e nao «da Contra-Reforma»).
Nao se poderia, porém, negar que urna parte da restauragáo cató
lica, principalmente a que se prende diretamente ao Concilio de Trento,
tenha visado o Protestantismo, procurando refutá-lo. Diremos adiante
que certas fórmulas dogmáticas e disciplinares adotadas pelo -¡nodo
tridentino foram concebidas em termos apologéticos por causa das afir-
maedes contrarias protestantes. Essas sentencas sao tardias na obra
de restauracáo católica, e nao constituem o que de melhor nela se en-

— 123 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 5

contra; representam posicóes sujeitas a ser reformuladas, desde que


esteja superada a fase de apologética, como veremos mais adiante.
Quanto á obra de Lutero e dos protestantes em geral, nao pode
ser tida como «Reforma» no sentido de «retorno ao mais autentico e
puro Cristianismo» ou de «purificacáo»; é, antes, urna inovagáo (para
nao dizer : ... revolugao) dentro do Cristianismo.
Com razáo, pois, o historiador protestante Preserved Smith, em
sua obra «The Age of the Reformation» (New. York 1920) pág. 20s,
designa os protestantes como «innovators» (inovadores).

2. É preciso também frisar que, ao falar de «Renovagáo,


Renascimento, Ressurgimento, Reforma no séc. XVI», ó fiel
católico nao quer dizer que a Igreja como tal tenha previa
mente cedido á corrupgáo, tornando-se conseqüentemente su-
jeito de corregóes ou retoques. Nao; a Igreja é a Esposa de
Cristo sem mancha nem ruga ; por isto permanece incorruptí-
vel e irreformável. Acontece, porém, que os filhos da Igreja,
(dos quais nenhum se identifica integralmente com Ha) sao
pecadores ; há períodos em que as fainas désses filhos se acumu-
lam de tal modo que dáo configuragáo muito humana ta S,
Igreja, encobrindo quase por completo a realidade divina que
nela vive. É nessas fases que a própria Igreja (por meio de
um concilio ou de um pronunciamento extraordinario da hie-
rarquia) langa o brado de renovagáo, tirando do seu tesouro
de vida o espirito e os elementos oportunos para a restauragáo.

Em suma, o dogma, a moral e a estrutura da Igreja sao de insti-


tuicáo divina; por isto, intangíveis aos homens. É o que com muito
acertó proclamava o monge e teólogo Gil de Viterbo no V Concilio do
Latráo em 1512 : «Os homens é que devem ser transformados pela Re-
liglao; nao é a Religlao que precisa de ser transformada pelos ho-
mens». Quando há fainas no povo de Deus, saiba-se que nao é a Igreja
quem faina ou se omite, mas tenha-se consciéncia de que sao os filhos.
da Igreja que nao estüo seguindo os ensinamentos da Espdsa de Cristo.
É preciso entáo reformar os costumes dos homens, nao, porém, refor
mar a Igreja ou a Religiáo.
Precisamente neste ponto diíerem Catolicismo e Protestantismo:
para o Protestantismo, a própria Igreja visivel, institucional, é sujeita
a reforma, pois ela tanto vale quanto a soma de seus membros huma
nos; sua santidade é limitada pelas deficiencias de seus membros. Em
conseqüéncia, um crente que se julga «iluminado» pelo Espirito Santo,
pode apresentar-se como Reformador da Cristandade e fundador de
nova Igreja crista. Dai a multiplicidade sempre crescente de denomi
nares protestantes.
Para o católico, nao há Reforma da Igreja, mas há reformas na
Igreja, empreendidas pelas legitimas autoridades, ás quais o Espirito
Santo assiste.

3. Dizíamos que a Restauragáo Católica do séc. XVI é


anterior ao Concilio de Trento (1545-1563) e ao próprio Lute-
ranismo (1517)....

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A RENOVACAO CATÓLICA NO SÉC. XVI

Como anterior ?
No séc. XVI, deu-se algo desemelhante ao que se havia
registrado em sáculos precedentes. As reformas ou renovagpes
na Igreja muitas vézes comegaram entre os simples fiéis, mon-
ges e monjas nos mosteiros e conventos, atingindo paulatina
mente os mais altos degraus da hierarquia da Igreja ; sao
movimentos de piedade e purificagáo fervorosos, vividos pri-
meiramente no silencio e na humildade, depois transferidos
para as assembléias e os debates públicos e, por finí, inseridos
nos códigos de leis. — Foi o que se verificou
no séc. XI, quando os monges de Cluny, restaurando a vida monás
tica, se tornaram o foco e o esteio da luta da Igreja contra as investi
duras e a simonía;
no séc. XII, quando S. Norberto e S. Bernardo, por suas comuni
dades religiosas (premonstratenses e cistercienses), provocaram seme-
Ihante renovacao da vida .eclesiástica;
no séc. XIII, quando S. Francisco e S. Domingos renovaram o es
pirito de pobreza e das bem-aventurancas evangélicas na Cristandade.

Nos séc. XV e XVI mais urna vez ocorreu o processo de


ressurgimento : atingiu, porém, proporgóes mais vultuosas do
que nos casos anteriores, porque mais se fizera esperar e maio-
res males se haviam acumulado sobre os cristáos.
Dé fato, o «Exilio de Avinháo» (transferencia da sede
papal de Roma para Avinháo na Franga, e conseqüente intru-
sáo do rei de Franga no regime temporal da Igreja, de 1305 a
1378) e o Grande Cisma do Ocidente (de 1378 a 1417) des-
pertaram no povo cristáo urna intensa sede de renoyagáo. Esta
se iniciou em almas místicas... Tenham-se em vista

os Oratorios do Amor Divino, que, a partir de 1517, agrupavam


clérigos e leigos, entregues á aracjto e a mortificacáo, cuidando mais de
reformar a si do que ás instituicSes da Igreja. Um dos principáis orato
rios foi o que fioresceu em Roma na igreja dos SS. Silvestre e Doro-
téia; devem-se mencionar também os de Veneza, Brescia, Verona. Dai
sairam fundadores de Ordens Religiosas como S. Caetano de Tiene
(t 1547), iniciador dos Teatinos, que só queriam viver de esmolas;...
reformadores, como Joáo Pedro Carafa, mais tarde Papa Paulo IV;
Lippomano, depois Cardeal que chegou a presidir ao Concilio de
Trento; Tiago Savoleto, nomeado Cardeal em 1536; Joao Matéus Gi-
berti, bispo de Verona a partir de 1524;

a Congregado dos Barnabitas, fundada por S. Antonio Maria Za


carías em 153(V1, tendo anexo o ramo feminino das Religiosas Angé
licas, fundado em 1535 pela viúva Condessa Luisa Torelli de Guastalla;

a CongregacSo dos Somascos (1532) e seu fundador S. Jerónimo


Emiliano, dedicados á educacáo dos óríáos. A estes ensinava o santo a
seguinte prece: «Bom Pai, Nosso Senhor Jesús Cristo, nos Vos roga
mos por vossa infinita misericordia que de novo coloquéis toda a Cris
tandade no melhor estado de santidade que possa agradar k Vossa Di
vina Majestade!»;

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«PERGUNTK E RESPONDEREMOS> 63/1963, qu. 5

a Congregado dos Hospitalarios, fundada em 1540 por S. Joáo de


Deus (t 1550) e devotada aos doentes;

a Ordem dos Capuchinhos, derivada da Ordem dos Franciscanos em


1525 por obra dos frades Mateus de Bascio e Luis de Fossombrone, os
quais aspiravam a mais rígida observancia da pobreza e dos ensina-
mentos de S. Francisco de Assis; a principio, os Capuchinhos levavara
vida eremítica;

o novo ramo dos Eremitas Camaldulenses, devido ao bem-aventu-


rado Paulo Giustiniani (t 1528);

a Ordem das Ursulinas, fundada em 1535 por S. Angela Merici para


prover á formacáo da juventude feminina.

Um dos» mais importantes focos de renovacáo religiosa foi, sem dú-


vida, a Companhia de Jesús, concebida o organizada em 1537 por
S. Inácio de Loiola, o qual baseou toda a sua obra e a de seus discí
pulos nao num tratado de combate aos herejes, mas num livro de vida
interior e prece, que sao os «Exerclcios Espirituais>.

Pouco mais tarde, tinha inicio a reforma dos Carmelitas, que se


deve a S. Joao da Cruz (t 1591) e S. Teresa de Avila (t 1582).

Poder-se-iam citar ainda muitos nomes de pessoas e entidades reli


giosas que, desde o inicio do séc. XVI, se dedicaram marcadamente &
piedade e á mistica na Italia, na Espanha, na Franca, na Inglaterra, na
Alemanha. Nao é necessário, porém, um catálogo completo; basta frisar
o seguinte : foram essas almas e familias religiosas, as quais procura-
vam únicamente a Deus no silencio e na humildade, que se tornaram
o fermento poderoso para levantar o nivel do Catolicismo. A Igreja,
portento, tirou do seu intimo as fdrgas para reagir contra a frouxidáo
de costumes e o pecado. Isto bem mostra que a Esposa de Cristo, ape-
sar das vicissitudes de seus filhos, nao perde (nem perderá) a genuina
vitalidade; por conseguinte, qualquer renovacao dentro do Catolicismo
íaz-se nao mediante reforma de estrutura da S. Igreja ou da Religiáo,
mas mediante volta dos cristáos a maior fidelidade á S. Igreja e as
suas instituicdes essenciais.

O Concilio de Trento apresenta-se assim como a etapa


definitiva do processo de renovagáo que desde 6 fim do séc. XV
se foi esbogando no seio da Igreja. Foram os santos, mais ainda
do que os polemistas e os legisladores, que prepararan» e sus-
tentaram as grandes afirmacóes do Concilio e da Esposa^ de
Cristo no séc. XVI.
Consideremos agora as principáis declaragóes do sínodo
tridentino concebidas a fim de assegurar a renovagáo da fé
e da vida crista nos tempos modernos.

2. O Concilio de Trento e sua mensagem

Nunca algum Concilio promulgou tantos e táo relevantes pronun-


ciamentos como o de Trento. Na catalogacáo désse material, faz-se
mister distinguir entre sentengas dogmáticas e dispositivos discipli
nares.

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* UUK.IUH-IPH «>•■

A RENOVACAO CATÓLICA NO SÉC. XVJ;.:^ \,. . "g


A. Prontinciamentos dogmáticos ^''
As proposicOes doutrinárias sofreram de certo modo a influencia
da controversia protestante, pois visaram principalmente remover os
erros dos inovadores. Nessa tarefa, os Padres de Trento procederam
com sabedoria: se, de um lado, trataram de tomar franca posicáo pe-
rante o Protestantismo, de outro lado abstiveram-se de intervir em
quastSes que poderiam ser discutidas entre escolas teológicas (tomista,
escotista, agostiniana...) sem que a verdade revelada sofresse detri
mento : destarte as proposicSes doutrinárias, sem delxar de ser preci
sas, apresentanvse assaz ampias de modo a satisfazer até hoje as
diversas orientacdes teológicas compatíveis com o dogma católico.
Podem-se compreendef as declaracñes dogmáticas de Trento sob
tres títulos correspondentes aos tres principáis pontos discutidos pelo
Protestantismo:

as fontes da Revelaijáo;
o valor da íé, das obras e da graga;
os sacramentos, em particular a S. Eucaristía.

a) As fontes da Revelagao: os Protestantes apelavam


para a Biblia como única fonte de fé... O Concilio afirmou
a existencia de verdades diretamente transmitidas por Cristo
aos Apostólos e jamáis consignadas por escrito (os Apostólos
e Evangelistas nunca tiveram a intengáo de encerrar em seus
documentos todo o depósito da Revelagao que Cristo comuni-
cou oralmente ; escreveram atendendo a necessidades contin
gentes dos fiéis, nao segundo plano pré-meditado). — Tais ver
dades realmente emanadas de Cristo, mas nao redigidas em
livros, constituem a Tradicao meramente oral. Esta, como se
compreende, goza de tanta autoridade quanto a escrita.

E quais seriam os porta-vozes da Tradicáo oral ?


Embora os conciliares nao os tenham enumerado explícitamente,
deram a ver que consideravam tais as afirmagOes dos Padres e dou-
tóres da Igreja, os decretos de Concilios aprovados, as declarares
pontificias, o consentimento da Igreja universal...

Sem que deseamos a mais pormenores, interessa-nos aquí


realgar o espirito que anima tais declaragóes: em última aná-
lise, tráta-se de rejeitar todo individualismo e subjetivismo na
fé; existem, sim, arautos concretos, visíveis, que nos comu-
nicam a.Revelagáo crista ; por conseguinte, a ninguém é lícito
forjar o Credo apenas de acordó com os seus sentimentos pes-
soais concebidos através da leitura da Biblia (os dizeres táo
comuns «eu sinto..., eu acho que é assim» estáo longe de
ser criterios de fé). A própria leitura da Biblia, para o cristáo,
há de ser orientada pela comunidade ou pelo testemunho vivo
da Igreja guiada pelo Espirito Santo. — Por conseguinte, con-
cepeáo comunitaria da vida e da santificagáo do cristáo, em vez

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 5

de individualismo: eis urna das posigóes católicas fortemente


inculcadas pelo Concilio de Trento.

b) Fé e obras do homem; grasa de Seos.

Lutero, tendo feito a cruciante experiencia da miseria humana,


havia desistido de procurar vencer a concupiscencia para poder ser
justo ou reto diante de Deus. Em sua reforma teológica, para justificar
a sua nova posicao, afirmava que a conscupicéncia é realmente inven-
civel; o homem nao possui livre arbítrip, mas um servo arbitrio, escra-
vizado pela cobica ilícita... Nao obstante, acrescentava ele, a criatura
pode salvar-se desde que tenha a fé no Salvador Jesús Cristo; trata-se
de urna fé «fiducial» ou fé-confianca, em consideracáo da qual Deus
Pai imputa ao pecador os méritos de Cristo (como se o revestisse com
a capa de Jesús), sem levar em conta os deméritos do érente. A justi-
ficacao nao retocarla o íntimo do cristáo; seria declaracáo meramente
jurídica. Nesse quadro nao tem cabimento falar de «obras meritorias
da vida eterna». — Tais doutrinas eram corroboradas na mente
de Lutero por outra proposicáo do Reformador: admitir méritos da
criatura humana seria derrogar aos méritos de Cristo, depreciando a
funcao salviíica do Senhor Jesús.

Diante de tais teses, o Concilio de Trento inculcou em


termos claros a posigáo tradicional: a natureza humana foi,
sim, viciada pelo pecado de Adao. O Salvador, porém, lhe
trouxe o remedio adequado: a graga santificante faz que o
homem, no batismo, renasga, isto é, receba urna nova entidade
na alma, tornando-se novo ser ou nova criatura no plano onto-
lógico, e nao apenas na linha jurídica : «Somos filhos de Deus,
nao apenas de nome, mas na realidade» (1 Jo 3,1). O livre
arbitrio nao foi extinto pelo pecado de Adáo, mas táo somente
debilitado ; em conseqüéncia, a graga de Deus confere á liber-
dade humana um novo vigor; possibilita-lhe viver á altura
de sua nova natureza, fazendo que a nova criatura dé frutos
de obras boas.

Os méritos que o homem, praticando o bem, adquire, em nada dl-


minuem os méritos do Salvador, pois nao sao granjeados independen-
temente déstes; ao contrario, sao dons de Deus, efeitos da obra de
Cristo nos membros de seu Corpo Místico, de sorte que o Concilio de
Trento quis repetir com S. Agostinho : «Quando Tu, Deus, coroas os
méritos dos santos, é aos teus próprios dons que coroas. — Eorum co
ronando merita, coronas dona tua».

Em conclusáo: através dessas diversas proposigóes, inte-


ressa de novo sublinhar a mentalidade que as inspira. Elas
sao ditadas, sim, por genuino otimismo, que contrasta com
o pessimismo de Lutero e do Protestantismo em geral. Distan-

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A RENOVACAO CATÓLICA NO SÉC. XVI

ciando-se do entusiasmo paganizante dos humanistas da época,


o Concilio de Trento afirmou, de um lado, a queda da natureza
humana e a sua incapacidade de se salvar por si própria (até
aqui, também Lutero...); de outro lado, porém, reconheceu
as possibilidadesque essa mesma natureza humana possui de
se reerguer por aplicagáo dos méritos de Cristo. Ora é precisa
mente essa visáo de bom agouro que dá o cunho decisivo a
mensagem crista...
Vé-se assim que a idéia dominante do Catolicismo nao é a do pe
cado e do castigo devido ao pecado, mas a noeáo grandiosa da Eeden-
cilo, do triunfo do bem, do amor de Deus, que, derramando Bondade,
diz a última palavra da historia humana,

c) Os Sacramentos: os beneficios da Redengáo nao fo-


ram concedidos ao género humano em urna só época dá his
toria, mas, urna vez conquistados pela Cruz de Cristo no limiar.
da era crista, sao aplicados a todas as geracóes mediante
os sacramentos.
Lutero e os reformadores admitiam os sacramentos (ge-
ralmente dois: o batismo e a ceia) como esteios da fé ou
como testemunhos de fé que o cristáo dá á comunidade ou
á Igreja.
A doutrina católica, reafirmada pelo Concilio de Trento,
inculca o ponto de vista recíproco: pelos sacramentos, o cristáo
recebe da Igreja... antes que dá. Recebe, sim, a graga de
Deus, condigáo indispensável para que possa devidamente pro-
fessar a fé; os sacramentos sao cañáis de santificagáo que
jorram da Cruz de Cristo e atingem cada alma em particular,
para renová-la em seu íntimo, e nao apenas para excita-la na
fé. — Nesta proposigáo transparece mais urna vez o valor
que Catolicismo atribui la Igreja ou ao Corpo Místico de Cristo;
a visáo católica de santificagáo é comunitaria, nao indivi
dualista.

Os conciliares insistiram de maneira especial sobre a Eucaristía,


asseverando a real presenta de Cristo no sacramento e o valor de sa
crificio que toca & S. Mlssa; esta nao constitui nova imolagáo de Cristo,
mas é o próprio e único sacrificio do Calvario que, por efeito da Onipo-
téncia Divina, se torna presente sobre os altares, para que déle parti-
cipem os cristaos na qualidade de ofertantes (sacerdotes) com Cristo e
vítimas com Cristo (cf. «P.R.» 6/1958, qu. 2 e 3). Igualmente nesta
assercao se percebe como o Catolicismo tende a dar valor objetivo á
Religiao e as instituicóes religiosas : estas contém urna realidade in-
dependente das experiencias que o crente possa fazer. Religiao nao é
apenas questao de «sentir» subjetivamente; quem a pratica com since-
ridade, realiza o que há de mais importante na vida do homem (pote
entra em contato íntimo com Deus), ainda que isto nao lhe acarrete
consolacáo ou compensacao sensivel alguma.

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Eis, em súrtese, as linhas mestras das afirmac.5es doutri-


nárias do Concilio de Trento. Assim realgadas, tornaram-se
grandemente benfazejas para a Cristandade nos sáculos sub-
seqüentes.

Todavía as declaracoes dogmáticas teriam ficado no plano da letra


abstrata se nao houvessem sido acompanhadas por determinagoes de Ín
dole prática, aptas a íazer o povo cristao viver mais decididamente a
sua fé. Por isto compete-nos agora considerar os

B. Pronunciamientos disciplinares do Concilio

Os Padres conciliares promulgaram urna serie de dispositivos que


atingiam sucessivamente todos os filhos da Igreja, desde o Sumo Pon
tífice até o mais simples dos fiéis; a reforma moral devia exercer-se «in
capite et in membris», tanto na cabeca visível como nos membros da
hierarquia, afirmava-se entao freqüentemente.

No tocante ao Sumo Pontífice, as declaragóes se manti-


veram assaz sobrias. Lembraram, de um lado, a autoridade
do Papa, asseverando que «nada de novo na Igreja pode ser
decidido sem que tenha sido previamente consultado» (sess.
XXV) e proclamando-o «Pastor universal, que tém plenos
poderes para reger a Igreja universal». Doutro lado, incutiram
a responsabilidade désse Supremo Pastor: «Jesús Cristo lhe
pedirá contas do sangue das ovelhas que os maus.... pastores
(bispos subalternos) tiverem derramado».
Aos bispos o Concilio dedicou doze sessóés. Acentuou re
petidamente o seu-dever de residirem ñas próprias dioceses
em meio as ovelhas, em vez de se entregarem alhures a fun-
cóes estranhas; doravante os bispos nao se poderiam ausen
tar do respectivo bispado por mais de tres meses, e nunca
durante o Advento e a Quaresma. É claro que ficaria vedado
a um pastor acumular duas ou mais dioceses. s\
Residindo nos seus bispados, deveriam os bispos entregar-se com
zélo as tarefas ministeriais, visitando asslduamente as paróqulas, pre
gando a palavra de Deus nos domingos e días festivos, eximlndo-se dos
vínculos da familia e de interésses temporais, só conferindo as ordens
sacras a candidatos idóneos...

Quanto aos sacerdotes, o Concilio também Ihes tracou


nobre programa: os párocos haveriam de viver em suas pa-
róquias, junto á grei, e com toda a modestia e dedicacáo.
Abster-se-iam do matrimonio (conforme o costume ja múlti
plas vézes sancionado por sínodos anteriores) ; explicarían*
aos fiéis a Escritura Sagrada, os sacramentos, a Liturgia. — A
fim de possibilitar ao clero o frutuoso desempenho de tais in-
A RENÚVACAO CATÓLICA NO SÉC. XVI

cumbéncias, o Concilio instituía os Seminarios' (=sementeiras


de vida nova) ou Institutos especializados para a formacáo
sacerdotal; em tais casas, candidatos pobres.e ricos haveriam
de ser admitidos, merecendo especial aprego as vocacóes de
pobres. Cada diocese deveria ter, se possível, o seu Seminario.

Os mongcs e Religiosos também foram considerados: a legislacáo


tridentina baixou normas precisas sobre a idade e as condicóes de
admissáo na vida regular, a organizacáo material das casas religiosas,
a clausura, a eleicáo dos superiores, os coníessorcs, etc. Sabias medi
das para prover ao florescimento da vida claustral!

Foi igualmente levado em conta o culto divino. Os padres


conciliares houveram por bem conservar o latim como língua
da Liturgia, já que os herejes se queriam servir dos textos
sagrados em vernáculo para disseminar erros doutrinários;
também determinaram que se continuasse a dizer o Canon oü
a parte central da S. Missa em voz baixa, prescreveram de
novo que os fiéis comparecessem a ésse ato todos os domingos
e dias de guarda.

O laicato católico nao foi menos contemplado : sobressaem


neste setor as leis sobre o matrimonio e os principios para a
redacáo de um Catecismo destinado a formagáo dos fiéis mais
simples. "
O Concilio quis tratar, em termos explícitos, da «reforma dos prin
cipes», pois estes, em virtude da sua elevada posigáo, exerciam noto
ria influencia sobre o povo cristáo. Quarenta e dois capítulos foram
elaborados neste sentido, provocando naturalmente demonstragóes por
parte de embaixadores e monarcas; a situacao chegou a ficar tesa;
finalmente foram promulgados decretos que proibiam aos principes
intervir em questóes estritamente eclesiásticas, obrigavam os sobera
nos a cumprir nos seus territorios a legislacáo conciliar e lhes lembra-
vam o respeito devido aos bens e aos direitos da S.' Igreja.

Por fim, os Padres trataram de assegurar a execugáo fiel


das medidas adotadas, institukido para isto a chamada «Con-
gregacáo do Concilio», até hoje existente, com a missáo de
prover á aplicagáo e interpretagáo das leis tridentinas.

As determinagóes disciplinares emanadas de Trento re-


presentavam certamente as melhores inteñgóes que os homens
poderiam coiiceber em meio as incertezas e falhas do séc. XVI.
Contudo a legislado por si só nao bastava para garantir a
necessária renovagáo crista; também teria ficado «letra morta»
se a Providencia nao tivesse, nos tempos subseqüentes, susci
tado venerável serie de santos em todos os graus da hierarquia
(desde o Papado até o mais desconhecido dos enclaustrados
ou dos seculares leigos). Ésses homens de Deus, pelos recursos

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«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 63/1963, qu. 5

sobrenaturais da oragáo e da virtude, vieram a ser os baluartes


da restauragáo católica que, iniciada na primeira metade do
séc. XVI, foi dando os seus frutos no decorrer da Idade Mo
derna da Igreja.

Dentre ésses grandes vultos, seja aquí citado apenas o do primelro


Papa eleito após o Concilio de Trento: Sao Pió V (1566-1572), homem
de grande cultura e santidade. Logo no consistorio que se seguiu a sua
eleicáo, comunicou aos Cardeais as linhas inspiradoras do seü progra
ma : «Só conseguiremos deter os avancos da heresia, se agirmbs sdbre
o coracáo de Deus. É a nos, luz do mundo e sal da térra, que toca escla
recer os espíritos e fortalecer os ánimos pelo exemplo de nossa santi
dade e de nossas virtudes».
Estas palavras nao hao de ser interpretadas no sentido dé fari
saísmo auto-suficiente, mas, sim, como expressáo da conscigncia que
o cristáo possui — e que ele jamáis pode deixar de possuir — de ser
portador de Cristo para o mundo; por conseguinte,... de ser cumpri-
dor de uma missáo que nao é sua, mas do Senhor, e .que, por isto
mesmo, nao pode conhecer pessimismo nem derrota. .:.'

É nos termos ácima descritos que se fala de um ressurgi-


mento ou de uma auténtica Reforma da vida crista no séc. XVI.

D. Esteváo Bettencourt O. S. B.

«PEKGUNTE E RESPONDEREMOS»
Assinatura anual (porte comum) Cr$ 500,00
(porte aéreo) Cr$ 780,00
Número avulso de qualquer mes e ano Cr$ 50,00
Colegáo encadernada de 1957 Cr$ 650,00
Colegáo encadernada de qualquer dos anos segnintes ... Cr$ 750,00

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