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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENÍTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. EstevSo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
CENT KJMU ANÜ Vil

P H
4.4 kl 74
F E V E R E 1 R C

1 9 6
ÍNDICE
Fio.

I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

1) "De vez em quando encontramos famosos adagios da lite


ratura mundial. Seria útil propor um catálogo dos mesmos acom-
panhados de breve comentario." 61

O. DOGMÁTICA

Z) "Diz~se que nem sempre, na piedade dos fiéis, Cristo é con


siderado como deveria ser considerado.
Que há de. certo nessa afirmagáo ?" 68

3) "Notase que o modo de pensar e as atitudes do homem


moderno sdo, por vézes, muito indiferentes ao EvangelhJo, tornando
certos setores hostis ou, ao menos, impermeáveis a Palavra de Deus.
Nao haveria diretivas próprias para despertar o interésse por
Deus e pelo Evangelko na hora atual ?" 78

in. SAGRADA ESCRITURA

U) "Como se explica a passagem de Me 1S¿2, na qual Jesús


afirma que nem os anjos nem o Filho conhecem a data do juizo
final, mas sbmente o Pai f Jesús tero, ignorado alguma coisa f" .. .82

IV. MORAL .

5) "Tém-se denunciado os graves inconvenientes que a ur-


banizagáo (o crescimento das cidades) acarreta para as popu-
lagóes.
Além dos males já indicados em "P. R." 69/196S, qu. 1, have
ria ainda outros a apontar ?" -. • **

' V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

6) "Dvs-se que o Imperador Napole&o Bonaparte (1769-1821)


da Franga, apesar de suas atitudes liberáis ou, agnósticas, era, na
verdade, extremamente crédulo ou mesmo supersticioso.
Que há de verídico nessa afirmacáo ?" 90

7) "Que é o Santo Graal ?


■Tratase de lenda ou de realidade histórica ? 94

8) E os Cavaleiros 'da Mesa Redonda' constituiam urna Or-


dem Religiosa ? • 9i

COM APROVAgAO ECLESIÁSTICA


« PER G'UNTE E RESPONDEREMOS»

Ano Vil — N' 74 — Fevereiro de 1964

' I. FILOSOFÍA E RELIGIAO

LETRAS CLASSICAS (Rio de Janeiro) :

1) «De vez em guando encontramos famosos adagios da


literatura mundial Seria útil propor um catálogo dos mesmos
acompanhados de breve comentario». -

Os adagios (ou proverbios) sao normas breves que expri-


mem a sabedoria de vida do género humano em termos claros
de modo a se gravarem na memoria e difundirem com facilidade.
Formulados em épocas antigás, até hoje conservam seu valor;
mostram assim que o ser humano é sempre o mesmo através
dos séculos, portador de idénticos problemas e de iguais aspira-
góes, levado a reconhecer que as solucóes mais antigás sao sem
pre as mais novas e atuais. Constituem auténtico e perene
tesouro da humanidade. O Cristianismo confirma essas senten-
cas e as coloca em um plano novo, sobrenatural, o que certa-
mente lhes dá aínda mais densidade.

Táo vasto é o setor dos adagios que nao pederíamos preten


der reconstitui-lo de maneira exaustíva. Ñas páginas que se se-
guem, proporemos apenas alguns dos principáis disticos da sabe
doria mundial, de preferencia como se encontram ñas fontes
antigás. Seráo agrupados segundo os assuntos que abordam, as-
suntos que distribuiremos de acordó com á relevancia que pare-
cem merecer.

A guisa de introducao na lista seguinte, apraz citar alguns adagios


que exaltam, classicamente o valor dos próprios adagios ou do ensina-
mento transmitido por meio de breves senteneas.

«Como o bosque de Sirá, que nunca deixa de diíundir seus aromas,


Como o mar, que jamáis esgota as suas aguas, embora se expanda
[em muitas ondas,
Como o céu, que nao deixa de derramar a sua luz de ouro,
Assim 6 o sabio : nunca está saciado de betas sentencias».

(proverbio do Tibe)

Confirmando esta observacao, poder-se-ia citar o caso do sabio reí


Salomáo, de Israel, que, conforme Vg 3 Rs 4,32 (ou hebr: 3 Rs 5,12),
formulou tres mil parábolas ou sentencas.

— 51 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 1

Interessam-nos ainda dois dísticos alemáes:

«Sabia sentenca na memoria é qual moeda no cofre».

«Urna sentenca proveniente dos labios do povo,


IEis o que freqüentemente nos comunica a verdades.

Passamos agora ao temario dos adagios mais famosos.

1. AMOR

O amor constituí a quase-definigáo de Deus, conforme Sao


Joáo (cf. 1 Jo 4,16). É o que de mais nobre possa conceber o
homem («como o mel é a gloria das abelhas, assim o amor é o
ornato da alma», diz um proverbio finlandés). É também o prh>
cípio inspirador de t6da a atividade humana. Por isto numerosas
sao as breves sentencas (adagios, proverbios, máximas) me
diante as quais os homens de todosos tempos tentaram incutir
aos seus semelhantes os predicados do genuino amor.

Váo aqui reproduzidas algumas das mais incisivas dessas


normas.

1) «Pondus meum, amor meus.


Eo feror quocumque feror.

O meu amor, eis a minha fórga de gravitacáo.'


É por ele que sou levado para onde quer que seja
-levado».
(S. Agostinho)

S. Agostinho (t 430) tem em vista urna pena de ave, e observa como


a sua leveza lhe permite deixar-se mover pelo vento para tadas as dire-
cóes Ao contrario, os corpos pesados sao como que invariávelmente
impelidos para baixo em virtude da sua própria densidade. Por conse-
guinte, o peso de cada ente vem a ser decisivo para a sua respectiva
mocáo ou gravitagáo. Assim, concluía S. Agostinho, é o amor em cada
criatura humana : é das modalidades do amor de cada um que de
pende a sua «gravitacáo» ou o seu, comportamento aqui na térra. Nao
ha atividade humana que nao seja inspirada pelo amor — amor que,
se é puro leva para Deus ou para o alto (como a pena); se, porém,
é impuro,' leva para baixo ou para as criaturas inferiores (como no
caso dos corpos densos, «brutos»).

Se o amor impele sempre a criatura, pode-se crer que por


vézes a leve a proceder com tanta impetuosidade que parece
violar as normas da limitada prudencia humana; está «entusias
mada», isto é, «cheia de Deus» (segundo a etimologia grega).

— 52 —
ADAGIOS FAMOSOS

É o que observa o adagio seguinte :

2) «Amantes, amentes.
Quem ama, torna-se amenté (parece perder o bom
senso)».
(proverbio popular latino)

Ou, no dizer de Ovidio (t 17 d.C), poeta romano :

«Possessa ferus pectora versat Amor.


O Deus Amor inquieto agita os corajes de que ele se apodera».

(Am. I 2. 8)

Nao há dúvida, o amor desregrado pode colocar a pessoa


«fora de si» ou amenté no mau sentido; constituí' algo de satá
nico. — Nao é éste aspecto desregrado do amor que aqui inte-
ressa sublinhar, mas o fato de que o genuino amor nao costuma
poupar esforgos; antes, empreende sacrificios que podem tocar
as raias da loucura, em prol do objeto amado.

Os pagaos chegavam a considerar o Amor como um Deus impetuoso


que penetra os coragSes humanos e os «entusiasma», isto é, os move
enérgicamente segundo o ritmo divino.

Se o homem pré-cristáo já verificava e afirmava a veemén-


cia do amor, muito mais a pode observar e asseverar o cristáo.
De fato, o cristáo sabe que realmente Deus é Amor (cf. 1 Jo
4,16) e que, por causa dos homens, ésse amor empreendeu a «lou
cura» da cruz, a qual desconcerta a sabedoria dos gregos e
escandaliza a piedade dos judeus (cf. 1 Cor 1, 23). Sim ; o
Senhor féz-se servo, lavou os pés aos discípulos e aniquilou-se
até a morte de cruz (cf. Jo 13,5; Flp 2,8). E apontou o seu
comportamento como exemplo para todos os homens (cf. Jó
13, 13-15). Por conseguinte, o amor cristáo, corroborado pelo
modelo do Mestre, pode realmente levar a atitudes loucas em
aparáncia ou até á própria morte.

«Forte (inquebrantável, irresistivel) como a morte é o amor», eis


o que o autor judeu observava no Antigo Testamento (cí. Cántico dos
Cánticos 8,6). O cristáo diria mesmo: «Mais forte do que a própria
morte é o amor», pois por Cristo o amor venceu a morte. O cristáo,
por conseguinte, sabe que, se morrer por amor a Deus, nada perderá,
mas, ao contrario, entrará na posse da verdadeira vida.

O entusiasmo ou o «estar cheio de Deus» aínda acarreta


outra conseqüéncia para quem ama :

— 53 —
K RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 1

3) «Nihil difficile amanti puto.


Julgo que nada é penoso para quem ama».

(Cicero t 43 a. C., orat. 10. 33)

A sabedaria popular dlria em portugués :


«O que é de gOsto regala o peito».

Nao será necessário multiplicar as sentencas paralelas


abundantemente disseminadas através da literatura crista: o
que se faz com amor, faz-se com prazer.
Lembraremos, porém, urna observacáo freqüente entre os
sabios : se .nao é orientado para os verdadeiros bens e, em
última análise, para Deus, o amor (que nunca pode deixar de
existir na alma) vai-se aplicar a falsos bens e a «ídolos» (aos
ídolos que o capricho e a concupiscencia desregrada criam para
cada homem);*o amor assim se desfigura, caricaturando-se: a
capacidade de heroísmo e os grandiosos predicados que a pes-
soa possui para servir a Deus, passam a servir ao «anti-Deus»
ou a bens inferiores ao próprio homem.
Eis como os árabes exprimiam esta verdade :

4) «Ao cao que tem dmheiro, diz-so : 'Senhor cao!'».


Ou ainda : «Quem nao tem párente, trata seu cao por tio».

Destarte vé-se que, como o amor pode dignificar extraor


dinariamente a personalidade humana, assim também a pode
miseramente aviltar. Trate, portante, cada individuo de nao
fazer do dinheiro o ídolo de sua vida (cf. Ef 5,5); antes, procure
os verdadeiros parentes, aos quais possa dedicar o seu afeto
(em caso contrario, o individuo se equipara, talvez inconscien
temente, a um cao, diz com muito acertó a sabedoria árabe).
Outro elemento que constituí, por assim dizer, o pao cotidiano da
vida humana, é o

2. SOFEEMENTO

O sofrimento, longe de ser considerado como algo de me


ramente negativo, sempre toi tido como valor,... valor que
purifica e educa o homem.
A sabedoria grega exprimia tal conceito no trocadilho :

1) «Pathémata mathémata.
Padecimento é aprendizagem»

(Heródoto t 425 a.C, I 207)

— 54 —
ADAGIOS FAMOSOS

Esquilo (t 456 a.C), por sua vez, escrevia:


«Júpiter abriu aos homens as vías da prudencia, dando-lhes esta
lei: sofrer para comprender (páthei máthos)!»
(Agam. 177) .

É evidente que o sofrimento liberta o homem de muitas ilusSes a


respeito dos bens déste mundo; quebra também a crosta do egoísmo e
do amor proprio, permitindo ao individuo compreender melhor o seu
próximo e dedicar-se-lhe com mais zélo.

O trocadilho «pathémata mathémata» ou «páthos máthos»


está mesmo na base de urna frase da epístola aos Hebreus, em
que o escritor sagrado assim se refere a Cristo :

«Embora fósse o Filho, aprendeu a obediencia por meio dos seus


sofrimentos (émathen aph'hon épathen)> (Hebr 5,8).

Está daro que o hagiógrafo nao quer atribuir a Cristo


«aprendizagem» no sentido de «progresso da imperfeigáo para
a perfeicáo». Desde a sua entrada no mundo, Jesús, como ho
mem mesmo, tinha clara nocáo do que é obediencia; contudo
esta nosáo teórica devia tornar-se prática, experimental, pela
execucáo do plano do Pai, ou seja, pela submissáo heroica de
Jesús a ponto de entregar a própria vida.

Vista a riqueza espiritual que o sofrimento acarreta, dizia Séneca


(t66d.C):

2) «Nihil mihi videtur infelicius eo, cui nihil umquam


evenii adversi.
Nada me parece mais infeliz do que o homem a quem jamáis
tenha acontecido algo de contrario».
(De prov. m 3)

Tal homem, em verdade, arrisca-se a permanecer íechado no seu


egoísmo.

Por isto eiisinavam os mestres que o sofrimento é a pedra


de toque para se comprovar a grandeza dé"uma personalidade:

3) «Sómente quando ^ncurvado é o que o arco manifesta


a sua tenacidade». . . .

(Franz Grillparzer, poeta austríaco, 1791-1872,


na obra «Sappho» V 6)
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 1

Éste adagio apenas repetía, em estilo metafórico, o que o pensa-


mento antigo havia formulado sem imagens.

Asslm Horado (t 8 a.C):

«Ingenlum res
Adversae nudare solent, celare secundae.

O grande homem, sao as circunstancias dificeis que o manifestám,


Ao passo que a'prosperidade o deixa encoberto».
(Satir. II 8. 73)

Ovidio observava:

«Hectora quis nosset, si íelix Troia fuisset?


Publica virtuti per mala facta via est.

Quem haveria de reconhecer Heitor, se Troia tivesse sido feliz?


Foi a desgraca que abriu o caminho evidente para a virtude».
(Trist. IV 3. 75)

Séneca resumía a doutrina nos seguintes termos :

«Magnus vir es; sed unde scio, si tibi fortuna non dat facultatem
exhibendae virtutis? Calamitas virtutis occasio est.

És um grande varSo; mas como o reconhecerei, se a sorte nao te


der a oportunldade de manifestar a tuá grandeza de alma? A desgraca
é ocasiáo de virtude».
(De prov. IV 2. 6).

Em conseqüéncia, os mestres sempre recomendaran!, pro-


curem os homens viver conscientemente o seu sofrimento, vi
sando colhér déle todos os possíveis frutos; sejam, porém, reser
vados frente aos afagos desta vida, pois podem fazer perder" a
clara visáo da hierarquia dos valores. — É o que exprime breve
sentenca em trocadilho gravada no antigo Parlamento de
Berlim:

«Halt'aus im Leid;
Halt'ein im Genuss!

Dilata-te (desdobra tdda a tua energía) no sofrimento;


Encolhe-te (sé comedido) no gozo!».

Tais idéias esclarecem bem a ohservac&o do escritor Alexandre


Vinet:

«Peut-étre que souffrir n'est autre chose que vlvre plus profon-
dément.

— 56 —
ADAGIOS FAMOSOS

Talvez se possa dizer que soírer nao é senáo viver mais profun
damente». >íié¡
(«Schweizer Revue* Lausanne 1838-1847).

Estas reflexóes, realmente sabias como sao, dispensam ul


teriores comentarios. Apenas acrescentaremos que os filósofos,
entre outros beneficios proporcionados pelo sofrimento, sempre
mencionaram o de despertar o senso religioso ou de fazer que o
homem procure a Deus. Ássim o diz o alemáo moderno :

4) «Not lehrt beten.


A necessidade ensina a orar».

Mais prolixamente Horacio confessava :

«Parcus deorum cultor et infrequens


Insanientis dum sapientiae
Consultas erro, nunc retrorsum
Vela daré atque Iterare cursus
Cogor relictos.

Tibio e raro cultor dos deuses,


Enquanto eu errava seguindo urna tola sabedoria,
Agora vejo-me obrigado a voltar as velas
Em direcao oposta, e a retomar os caminhos
Que outrora deixei».
(Od. I 34 1)

Tito Livio (t 19 -d. C.) reíeria :

«Advérate res admonuerunt religionem. Confugimus in Capitolium


ad déos ad sedem Jovis optimi maximi.
A adversldade exortou & BeliglSo. Refugiamo-nos no Capitolio junto
aos deuses, junto ao trono de Júpiter ótimo e Máximo».
(V 51. 9)

O recurso a Deus e á oragáo nos momentos difíceis nada


tem de indigno do homem ou de própriamente infantil. Significa,
antes, urna tomada de posigáo auténticamente humana (varo
nil) e inteligente, pois grande é o homem que reconhece que
Deus é maior, ao passo que mesquinho ou tolo se torna aquéle
que presume ser auto-suficiente ou presume ser o seu próprio
Deus. Justamente para tirar o homem desta presuncáo é que a
Providencia Divina dispóe as tribulacóes oportunas na vida de
cada um; as yézes é sómente através de ligóes fortes que a cria
tura toma consciéncia de que é zero e de que a sua grandeza
consiste precisamente em ser o «zero de Deus», o zero que Deus
se dignou cumular.

— 57 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 1

Outro fator que sempre impressionou profundamente os homens,


inspirando-lhes normas de sabedoria, é o fator

3. EEMPO. SENTIDO E VALOR DA VIDA NA TÉRRA

1) Urna inscrigáo gravada em antigo relógio de sol traz


os seguintes dizeres atribuidos ao respectivo ponteiro :

«Eu sou urna sombra,


E sombra também és tu.
Eu tomo conta do tempo,
E tu?»

Tais palavras, profundamente ricas, lembram :

a) a precariedade da vida humana, frágil e transitoria


como a sombra : o homem que hoje se acha em tal ou tal situa-
gáo sobre a térra, em breve já terá mudado de posigáo ou mesmo
desaparecido;

b) o ponteiro de relógio, que diría a mesma coisa de si


próprio, poderia contudo acrescentar que, embora passe ou jus
tamente porque passa, ele mede o tempo, e assim de certo modo
domina o tempo («toma conta...»). Ora (continua o dístico)
será que todo homem pode dizer isto de si próprio? Será que
todos vivem como auténticos peregrinos, como criaturas que nao
estáo por completo imersas ñas coisas temporais, mas medem o
tempo á luz da eternidade? Em outras palavras : será que os
homens vivem todos de modo a encaminhar o tempo para a eter
nidade, em vez de se deixar encaminhar pelo tempo para a morte
e a sepultura (como se estas fóssem o fim real) ?

SSo estas as questoes (implícitamente, exortacSes á sabedoria) que,


com muita seriedade, se acham associadas áquele relógio de sol; o
distico ácima constitui expressáo popular de auténtica filosofia do gé
nero humano.

2) Ao falar do tempo, os sabios Jiáo raro procuram des


pertar no homem a consciéncia de que ele pode «fazer os seus
tempos», isto é, pode dar o colorido ou o significado aos seus
tempos; assim como cada um pode depender dos seus témpos,
assim também saiba que os tempos é que podem depender déle
(caso viva conscientemente, procurando comunicar o que ele
tem de bom ao seu respectivo ambiente) :

— 58 —
ADAGIOS FAMOSOS

«Statt dass nach bessrer Zeit ihr schreit,


Macht selber doch die bessre Zeit.

Em vez de irdes ao encalco de melhores tempos,


Fazei vos mesmos que os tempos sejam melhores».

(antigo proverbio alemáo)

S. Agostinho explicitava a verdade contida nesta sentenca, tendo


em viste um queixume assaz íreqüente em todas as épocas :
«Os tempos sao maus, os tempos sao penosos, eis o que dizem os
homens. Ora vivamos bem, e os tempos se tornaráo bons. Nos somos
os tempos; quais fórmos nos, tais seráo os tempos». .
(serm. 80, 8)

É grandiosa a perspectiva que estas palavras abrem aos olhos de


todo e qualquer homem: dentro, e nao íora de si, é que cada um en-
contra o meio de transformar os seus tempos, ou seja, de viver tempos
felizes ou inlelizes. E ésse meio é simplesmente «ser bom»... Ser bom,
isto é, ser fiel a Deus, ser Intimamente unido a Deus.

Realmente nao se poderia conceber mensagem mais anima


dora : que cada um pense em realizar 100% a missáo que Deus
lhe assinalou no lar, na oficina, no escritorio, na escola, e vera
que as pessoas e as coisas em torno déle se iráo transformando!

Seja lícito acrescentar aquí um dístico que traz sua réplica


forte ao queixume geral referido por S. Agostinho :
«Die Leute sagen immer,
Die Zeiten werden schlimmer!
Die Zeiten bleiben immer,
Die Menschen werden schlimmer.1

Os homens dizem sempre :


'Os tempos se tornam cada vez piores'.
Na verdade, os tempos íicam sendo sempre os mesmos,
Os homens é que se tornam cada vez piores».
(proverbio gravado em urna casa da Francónia)

3) No fator «tempo» há uin elemento cuja importancia


os sabios sempre muito realgaram : é o coméco de urna agáo ou
de um empreendimento.

Já na antiga Grecia escrevia Luciano :

«Como ensina Hesíodo, o comégo equivale a metade do


todo».
(Hermotim. 3)

— 59 —
«PERPUNTE E RESPONPEREMOS> 74/1964, qu. 1

Em Roma Horacio era porta-voz da mesma advertencia :

«Dimidium facti qul coepit, habet Sapere aude.


Quem comeca bem, já possul a metade da obra. Ousa sen sabio!»
(epist. I 2. 40)

Bem se entende a observacüo : o éxito de nossos empreendimentos


depende humanamente falando, das disposicoes de ánimo com que os
executamos. Se desde o inicio essas disposicñes sao generosas, coloca
mos devidamente «a máquina nos trilhos», a ela desliza com resultados
que de outro modo nao obteriamos.

4) Também é muito realgada, na literatura filosófica, a


necessidade de se aproveitar o momento presente, em vez de se
aguardar um futuro incerto.

Tornou-se famosa a admoestagáo de Horacio :

«Carpe diem, quam mínimum crédula postero.


Aproveita o dia presente, e nao queiras confiar no de

amanhá»- (Od. I 11.8)


O mesmo poeta usava de urna imagem :

«Sapere aude.
Incipe. Vivendi qui recte prorogat horam
Rusticus exspectat dum defluat amnis;
At iUe labitur...

Ousa ser sabio. Comeca. Quem adia os inicios de urna vida honesta,
assemelha-se ao camponés que espera, deixe o rio de correr. Na ver-
dade, antes ele (camponés) deixará de correr...» ^ ^ ^

Eurípides (t 405 a.O, em nome da sabedoria grega, podia es-


crever:

«Considera que sdmente o dia de hoje é teu; o de amanha pertence

a SOrte>- (Ale. 795)


Ao que Sófocles (t 405 a.C.) íazia eco :

«Quem conta com dois ou mais dias, é tolo».


" (Traen. 943)

Por isto também Pitaco de Mitilene (t 570 a.C.) adotara


o seguinte lema:

«Kairon gnothi.
Reconhece a oportunidade do momento».

_ 60 —
ADAGIOS FAMOSOS

Nem se poderia invocar, como pretextó para adiar, a espe


ranza de que o dia de amanhá trará oportunidades ainda mais
vantaíosas do que as de hoje, pois na verdade, reza o adagio
italiano:

5) «II meglio é il nemico del bene.


O ótimo é inimigo do bom».

Inegávelmente, quem quer fazer as coisas do melhor modo


imaginável, acaba por nao as fazer de modo algum. Procure cada
qual fazer do melhor modo possível no momento presente o que
deve fazer; com isto certamente conseguirá resultados qué- nao
alcanzaría se diferisse...

Chegam mesmo os'sabios a dizer :

6) «Wer lange bedenkt, der wahlet nicht immer das Beste.


Quem muito reflete, nem sempre escolhe o melhor
alvitre».
(Goethe, Hermann und Dorothee IV)

Ou também: ^

•«Wer gar zu viel bedenkt, wird wenig Ieisten.


Quem reflete demais, pouca coisa realizará».
(Schiller, Wilh. Tell III 11)

A estes adagios alemáes é correlativo um dístico latino, que


inculca em termos positivos :

«Ubi consulueris, mature facto opus est.


Logo que tenhas refletido, trata de executar sem demora».

(Salústio t 34 a. C., Catil. I 6)

Em urna palavra, dir-se-ia que as grandes obras na historia


sempre dependerame dependeráo de um gesto bem ponderado,
mas, ao mesmo tempo, ousado. Ponderagáo e ousadia se comple-
tam mutuamente na pessoa do sabio e na do herói.

Ainda convém mencionar o papel medicinal que o tempo


exerce pelo seu próprio decurso :

7) «Temporis ars medicina fero est.


O tempo possui a sua arte, que é de certo modo urna
medicina».
(Ovidio, Rem. Am. 131)

— 61 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu..l

Ou na sabedoria popular holandesa :

«De tijd is de beste medecijn.


O tempo é o melhor remedio».

De fato, o tempo nos permite reconsiderar os acontecimen-


tos, usando da serenidade e da isencáo de ánimo dé que a princi
pio talvez nao gozássemos. O tempo também suaviza e extingue
os traumatismos. Esta verificagáo é importante, pois ajuda a
dominar as fortes impressóes que por vézes nos acabrunham ou
exaltam indevidamente; nos momentos em que «tudo parece
perdido», lembremo-nos de que «talvez nao seja assim»; talvez
em breve já estaremos vendo urna solugáo ou já se terá desa-
nuviado o horizonte; a natureza humana é elástica, isto é, pode
assimilar em seus moldes muitos elementos novos que á primeira
vista parecem destruidores.

«Ao tempo confiamos a nossa tribulacáo; com o tempo havemos


de nos sentir bem».
(Eurípides, Jon. 575)

A equanimidade, portanto, é a licáo que o tempo nos quer trans


mitir constantemente.

«Chrónos enmares theós.


O tempo é urna divindade benigna».
(Sófocles, Electr. 179)

Dado o imenso valor que toca ao tempo de vida do homem


sobre a térra, entende-se a inscrigáo gravada em um relógio
solar da Alemanha :

«O Zeit, o Zeit
Niemand erkennt dich,
Ais wer dich verloren heit (hátte).

ó tempo, ó tempo,
Ninguém te reconhece
Senáo aquéle que te perdeu».

Com efeito, o homem é por vézes forgado a reconhecer que


nao aproveitou devidamente o tempo com as suas oportunidades; -
é, porém, tarde demais para remediar. O autor do dístico lembra
ao leitor que as experiencias do passado se podem tornar ligáo
para o futuro.

— 62 —
AUTÉNTICA PIEDADE PARA COM CRISTO

Por último, observaremos — coisa surpreendente — que os pró-


prios pagaos dissuadiam o sabio de sondar curiosamente o futuro, recor-
rendo aos artificios da adivinhagáo :

8) «Permitte divis caetera...


Quid sit futurum eras, fuge quaerere.

O restante (o futuro), entrega-o aos deuses...


O que há de acontecer amanha, evita sondá-lo».

(Horáci

«Prudens futuri temporis exitum


Caliginosa nocte premit deus.

Deus prudentemente envolveu em noite


Os resultados dos acontecimentos futuros».
(Od. ni 29.

Cicero dava a justificativa déste designio divino :

«Certe ignorantia futurorum malorum utilior est quam


scientia.
Por certo, ignorar os futuros males é mais vantajoso do que
os conhecer de antemáo».
(De divinat. H 9. 23)

A lista de adagios célebres se poderia prolongar. A déste


fascículo aqui se encerra, podendo ser reencetada em um dos
prójdmos números de «P. R.».

n. DOGMÁTICA

ARAUTO (Vitoria):

2).- «Diz-se que nem sempre, na piedade dos fiéis, Cristo é


considerado como deveria ser considerado.
Que há de certo nessa afirmacáo ?»

Para poder avaliar quanto se diz e pratica na piedade cató


lica em torno de Jesús Cristo, lembraremos em primeiro lugar

— 63 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 2

como a reta teología considera o Redentor. A seguir, aponta-


remos algumas maneiras populares de focalizar Jesús Cristo que,
em grau maior ou menor, destoam do devido modo e, por isto,
poderiam ser sujeitas a oportuna revisáo. ' .

1. O que Jesús Cristo significa...

Nao nos deteremos aqui em questaes de apologética concernentes


k existencia e á Divindade de Jesús ou a fidelidade das narracóes evan
gélicas. Já foram abordadas respectivamente em tP.R.» 8/1957, qu. 1
e 7/1958, qu. 4.

1. Entrando logo no tema proposto, diremos que, segundo


a doutrina católica, Jesús Cristo é o Filho de Deus (a segunda
Pessoa da SS. Trindade) feito homem, verdadeiro Deus e ver-
dadeiro homem, para exercer as funcóes de Mediador ou Pon
tífice entre os homens e Deus Pai. Cristo é, portante, essencial-
mente Sacerdote.

Nesta perspectiva, deve-se salientar que Jesús vem a ser o nome


humano ou civil désse personagem, ao passo que Cristo designa a sua
funcáo ou o seu encargo na térra («Christós» é a traducáo grega do '
termo hebraico Messhiah, que significa Ungido; ora a uncáo com óleo
era o rito que consagrava os sacerdotes e os reís no Antigo Testa
mento).
Jesús Cristo, portanto, é nome que convém & segunda Pessoa da
SS. Trindade sómente após a EncarnacSo, pois designa diretamente
a natureza humana que o Filho de Deus uniu a Si.

Do fato de ser Jesús essencialmente Sacerdote, decorre que


a piedade crista espontáneamente se dirige a Deus Pai por Jesús
Cristo seu Filho e Nosso Senhor. É assim que a Igreja costuma
orar (tenha-se em vista, por exemplo, a oragáo inicial do Canon
ou da parte imutável da Missá : «A Vos, portanto, Clementíssimo
Pai, por Jesús Cristo Vosso Filho Nosso Senhor, suplicantes ro
gamos e pedimos...»).

Em suma, dir-se-ia que o itinerario do pensamento católico


percorre as seguintes etapas :

Por Jesús Cristo homem ao Fillio de Deus,


E pelo Filho de Deus até Deus Pai.

O que quer dizer: contemplando a humanidade de Jesús,


somos introduzidos no misterio da filiacáo divina (qué" Jesús
Cristo quis estender até nos), e, feitos filhos com o Filho mais
velho (por pertencermos ao mesmo Corpo Místico), somos leva
dos até o Pai.
AUTENTICA PIEDÁDE PARA COM CRISTO

2. Como se compreende, no decorrer da historia, os homens (por


muito bem intencionados que estivessem) nSo souberam sempre con
servar o equilibrio entre o Divino e o Humano em Jesús Cristo, mas
ora acentuaram demais o seu aspecto divino, deixando empalide
cida a funcjío da sua santíssima humanidade. É o que se chama o
«perigo de monofisismos (heresia do século V, que afinnava haver sido
absorvida a humanidade pela Divindade em Jesús);
ora focalizaram excessivamente a sua face humana, sem levar
tanto em considerado a Divindade que está unida a esta. É o que se
chama o «perlgo de nestorianismo» (outra heresia do século V, que
valorizava insuficientemente o Divino em Jesús Cristo).

Pois bem; estas duas orientacfies ainda hoje se insinuam, de ma-


neira mais ou menos latente, no povo católico. Nao constituem here-
sias, pois ambas reconhecem Jesús Cristo como verdadeiro Deus e ver-
dadeiro homem, mas, pelo fato de nao apreciarem com toda a exatidao
as funcSes peculiares da humanidade e da Divindade na obra da nossa
salvacáo, acarretam certo depauperamento da vida espiritual, depaupe-
rarnento que se pode corrigir com facilidade, desde que se restaure a
consciéncia exata do misterio da Encarnacáo.

É a esta restauracao que as linhas abaixo pretendem dar ligeira


contribuicáo.

Verifiquemos entáo como se manifesta

2. O «perigo de nestorianismo»

Salientaremos tres expressóes déste perigo na oragáo e na


•atividade dos cristáos contemporáneos.

a) Encontra-se por vézes umá piedade sentimental que


chega a ser chamada «dolorista»; toma caráter melancólico e
abatido, porque se deixa impresskxnar excessivamente pelo as
pecto humano e frágil de Jesús, mormente ñas fases de sua
Paixao e Morte.

Quando os mestres de espiritualidade comegaram a se deter


mais atentamente sobre a santíssima humanidade de Cristo,
fízeram-no em termos profundamente teológicos; sua intencáo
era realcar o valor salvífico de cada urna das fases da vida hu
mana do Salvador; coñsideravam o Cristo Homem na sua missáo
de Sacerdote e Redentor desde a sua entrada no mundo, con-
sideragáo esta que merece todo o apoio, porque evita o risco de
cair no puro sentimentalismo.
Eis um espécimen déste tipo de meditacáo, devido a um
rrionge do séc. XI, Joáo de Fécamp :

— 65 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 2

«file (Jesús) foi circuncidado para nos extrair dos vicios da carne
e do espirito. Foi apresentado no templo, para nos apresentar ao Pai
puros e santificados. Foi batizado para nos lavar dos nossos crimes.
Féz-se pobre, para nos tornar ricos;... fraco, para nos tornar fortes. ■
Foi tentado, para nos defender contra os assaltos do demonio. Foi preso,
para nos libertar do poder do inimigo. Vendido, para nos resgatar com
o seu sangue. Desnudado, para nos revestir com o manto da imortali-
dade. Escarnecido, para nos subtrair ao sarcasmo do demonio. Coroado
de espinhos, para nos arrebatar dos espinhos da maldicáo original.
Humilhado, para nos exaltar. Elevado s&bre a cruz, para nos atralr a
file. Dessendentado com fel e vinagre, para nos introduzir ñas regiSes
da alegría sem fim. Imolado como Cordeiro sem mancha no altar da
cruz, para carregar os pecados do mundo» (Confessio theologica II13).

Esta considerado da vida humana de Jesús a luz do grande .


plano salvífico de Deus é altamente valiosa e fecunda. Só se pe-
deria desejar, continuasse a ser cultivada em nossos dias.

Contudo verifica-se que no séc. XII se foram tomando mais


pobres as meditagoes sobre a santíssima humanidade de Jesús.
É o que se depreende, por exemplo, da seguinte passagem do
monge Elredo de Rievaulx (t 1167), o qual no seu «Tratado de
Jesús aos doze anos» indagava : «Durante os tres dias que Jesús
passou longe dos seus em Jerusalém, quem lhe serviu comida e
bebida? Quem lhe tirou as sandalias? Quem lhe arrumou o leito?
Quem lhe preparou a agua para se layar?».

Foi principalmente a partir da Alta Idade Media (séc. XK)


que a piedade crista ocidental se inclinou para o aspecto humano
de Jesús em reflexóes que tendiam a despertar a dor e o com-
padecimento. Isto se deve, em boa parte, á influencia das Cru
zadas, que puseram os cristáos em contato assíduo com os cená-
rios da vida terrestre, pobre e dolorosa, de Jesús.
Tenha-se em vista de modo especial o que se dá ainda hoje na me-
ditacao da Paixáo do Senhor. Esta é freqQentemente tida como a paixao
dolorosa, multas vézes considerada de maneira sentimental, sem se
levar em conta que foi também a' pabdSo-bem-aventurada (como diz o
Canon da Missa logo após a Consagracáo), bem-aventurada porque
constituí a vitória de Cristo sobre o pecado. O Evangelho de S. Joáo
compraz-se em apresentar a crucifixáo do Senhor como a exaltacSo me
diante a qual Ele tudo atrai a Si (cf. 12. 32; 3, 14s); é a «hora da glo-
ríficacáo do Filho e do País (cf. 12, 27-31; 17,1). O aspecto transcen
dente e teológico dos acontecimentos da vida de Jesús nao excluí a con-
sideracüo do humano e do histórico; ensinam mesmo os mestres que
o orante jamáis poderla esquecer a humanidade de Jesús. É, porém, de
suma importancia nunca a considerar independentemente do seu papel
salvifico, papel de instrumento da Divindade.

Apenas a guisa de ilustracáo, lembramos que, Justamente na festa


da Exaltacáo da S. Cruz, a Igreja canta a antífona: «Mors mortua
tune est, in ligno quando mortua Vita fuit. — A morte morreu justa
mente quando no lenho a Vida passou pela morte», ... e o responsório:

. . — 66 —
AUTENTICA PIEDADE PARA COM CRISTO

«Mortem nostram-moriendo destruxistfét vitam resurgendo reparasti.


— A nossa raorte, Vos a destruistes ao morrer; e, a nossa vida, V6s a
restaurastes, ao ressusdtar».
• Diariamente, antes da Comunhao, diz a S. Liturgia : «Domine Tesu
Christe, ... per'mortem tuam mundum viviíicasti. — Serihor Jesús
Cristo,... pela vossa morte destes vida ao mundo».
. Também nao" se "poderla esquecer que urna cruz costuma ser colo
cada em cada túmulo precisamente a íim de simbolizar a ressurreicSo
do deíuñto.

b) A mesma tendencia «dolorista» se manifesta ha piedade


eucarística moderna. Nao raro os devotos tendem a considerar
Jesús como o~ «Divino Prisioneiro do tabernáculo», expressáo,
alias, ocorrente em urna serie de manuais e devocionarios, em
grau maior ou menor, sentimentais.

Eis o que se lé, por exemplo, no livro «Le Sacrifico, de J.-M.


Buathier (París 1885, 6a. ed.) :
«Toda e qualquer vítima goza de existencia pessoal: antes de ex
pirar, ela se move, geme, chora; ao morrer, profere grande clamor;
morta, fica-lhe ao menos a forma de um ser humano, e o soldado ainda
a pode percutir. Mas a hostia! Ah, quem dirá com precisáo o grau de
aniquitamento em que ela aura Jesús? Nao Ihe íica mais aparéncia,
nem de vida, nem de atividade, nem de vontade; nao Ihe tica mais
forma nem humana, nem divina; quase diría :... mais nada! Pois, na
verdade, que é essa partícula que pousa sobre o altar? Quem reco-
nhecerá o Deus do céu sob ésses Ínfimos fragmentos? Ésse é o grau
extremo do aniquilamiento» (pág. 118).
«... sepultado como um morto na mortalha das especies (ou dos
sinais)» (pág. 123).
«... o divino Prisioneiro do ciborio» (pág. 147).
«Dos esplendores do Céu, o Verbo baixou ao aniquilamento da En-
carnacáo; da Encarnacáo, desceu aos abismos da marte: e da morte,
file se sepultou na branca mortalha da Eucaristía. Tais sao os fatos...»
(pág. 161).

Na sua pregacáo quaresmal de 1884, o Pe. Monsabré desenvolvía


semelhantes idéias:
«Na Eucaristía, nenhum vislumbre de luz e grandeza; apenas som
bras, apenas aniquilamento... Procurai-O nesse bocado; nada encon
traréis, nada, absolutamente nada. Ele está aniquilado.
E, nesse aniquilamento, quanta fraqueza!... Ele se acorrentou em
seu sacramento, e ai se entrega sem defesa aos mais ridiculos acidentes
e aos mais horrlveis atentados...
Vossos membros invisíveis estáo acorrentados; vossa boca muda
já nao pode pedir socorro, vossa atitude amorosa e resignada furta-se
a todos os olhares. E sou eu, sois vos, meus irmáos no sacerdocio, que
fizemos isso!...» (conf. 69a.). '

Estes textos, aos quais muitos outros se poderiam acrescen-


tar, se inspiram, sem dúvida, de grande piedade, mas piedade
sentimental, dolorida, que éles váo por sua vez incutir aos lei-
tores.

— 67 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 2

Sómente a fantasía, e a fantasía demasiado dependente das


realidades terrestres, pode sugerir que Cristo esteja prisioneiro
na Eucaristía. Numa perspectiva teológica bem orientada, nao
se sustentaría a afirmagáo. Como está prisioneiro Cristo, se ao
mesmo tempo se acha presente em milhares de prisóes, e reina,
livre e glorioso, no céu?! Mesmo durante o triduo da sua morte,
quando o seu corpo estéve encerrado no sepulcro, era «livre
entre os mortos» (cf. SI 87, 6 e a antífona do 3» Noturno do Sá
bado Santo), livre porque seria o vencedor do cativeiro da morte
mediante a sua ressurreicáo e a sua ascensáo. Jesús, antes de
morrer, declarou que entregava livremente a sua vida (cf. Jo
10, 17s). Também se deve lembrar que o Senhor, na S. Eucaris
tía, está presente como se acha no céu, isto é, glorioso.

«Os sacerdotes..., íazendo que Jesús ressuscitado esteja sobre os


altares,... ai O poem no mesmo estado de triunfo e gloria em que se
encontra no seio do Pai» (cf. J. -J. Olier, Traite des saints Ordres.
Pouvoirs et fonctions du prétre § 1).

Quem se compraz em considerar Jesús como Prisioneiro na


Eucaristía, poderia estar insinuando aos sacerdotes a idéia de
nao celebrar a S. Missa, e nos fiéis provocaría sentimentos de
tristeza e compaixáo, ao passo que a S. Eucaristía deve consti
tuir, para todos, fonte de fórga e alegría.

Outro inadequado modo de falar da S. Eucaristía consiste


em dizér as criangas que elas recebem o «Menino Jesús» ou.o
«Pequeño Jesús» na S. Comunháo. Véem-se mesmo estampas
em que o Menino Jesús aparece saindo do tabernáculo para ir
ao encontró de urna crianga; o estilo destas imagens é, em geral,
assaz infantil.

Na verdade, Jesús está presente na S. Eucaristía como Ele


se encontra com o seu corpo glorioso no céu. As criangas rece
bem Cristo na S. Comunháo para crescer espiritualmente, nao
para ser confirmadas numa piedade superficial. É o que S. Agos-
tinho lembra ao atribuir a Jesús as seguintes palavras : «Sou o
alimento dos grandes; cresce, e me comerás. Pois nao tu me
transformarás em ti, como fazes com o alimento carnal, mas, ao
contrario, tu serás transformado em Mim» (ConTissóes VII10).

O jovem que só conhecer o aspecto infantil e periférico da S. Euca


ristía, fácilmente abandonará éste sacramento quando tiver ultrapás-
sado a idade de crianca; difícilmente lhe dará o respectivo lugar em sua
vida de adolescente.

— 68 —
AUTENTICA PIEDADE PARA COM CRISTO

c) O perigo de nestorianismo ou da excessiva consideragáo


da humanidade de Jesús Cristo se manifesta outrossim em urna
tendencia a reduzir o Cristianismo a um sistema humanitario ou
«servico de assistencia social», servigo no qual Jesús seria a
cúpula de um edificio social em que o sobrenatural estaría muito
desvirtuado ou quase totalmente sufocado pelo humano.

Há, sem dúvida, quem queira avaliar os predicados do Cris


tianismo pela sua projecáo, ora mais feliz, ora menos feliz, no
campo social, ou seja, pelos beneficios temporais que ele pode
trazer aos homens; assim nao se leva devidamente em conta que
a missáo primaria do Evangelho e da Igreja consiste em formar
cidadáos da vida eterna. Ésses cidadáos tém, sim, relacóes so-
ciáis, as quais éles se devem mostrar fiéis, colaborando religiosa
mente para o bem comum; nunca perderáo de vista, porém, o
seu destino ulterior, conscientes de que o homem só encontra
a realizagáo cabal de suas aspiragóes nurn outro plano, ou seja,
no plano sobrenatural, que é o da vida eterna.

Voltemos agora nossa atengáo para o risco inverso, ou seja,


para

3, p «perigo do monofisismo»

«Monofisismo» é a heresia do séc. V que só via em Jesús urna natu-


reza : a divina, a qual teria absorvido a natureza humana de Cristo.
Embora já nao seja professado como tal, éSse erro inspira certas ati-
tudes de piedade e vida que vamos abaixo enumerar:

a) Para muitos fiéis, a nogáo de Deus coincide simples-


mente com a de Jesús. Nao negam o misterio da SS. Trindade
(Pai, Filho e Espirito Santo); contudo éste misterio fica sendo,
para éles, urna fórmula vaga mais do que urna realidade viva.
Na prática, a sua vida de piedade gira quase exclusivamente em
torno de «Nosso Senhor» (Jesús Cristo). A fungáo sacerdotal ou
mediadora de Cristo entre Deus Pai e o género humano cai assim
no esquecimento; já nao motiva a oragáo nem a aséese. Ora.isto
nao pode deixar de implicar depauperamento para a piedade e a
vida do cristáo.
A luz de tal fato, entende-se o que se dá com o culto dos
santos entre os fiéis : observa-se que é exagerado em ambientes
de formacáo crista superficial (os devotos, nao conhecendo sufi
cientemente a fungáo mediadora de Jesús, apreciam ¡mensa
mente os mediadores e intercessores colocados junto a Cristo).
Ao contrario, as pessoas cuja piedade é mais nutrida por boa
formagáo doutrinária, reduzem o culto dos santos a limites

— 69 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 2

sobrios; tendem a rezar a Deus Pai por Jesús Cristo, de acordó


com a fórmula de S. Paulo (cf. Ef 2,18) e a piedade da Liturgia.
Isto nao quer dizer que se deva extinguir o culto dos santos;
cf. «P.R.» 3/1958, qu. 5; 13/1950, qu. 5.

Tem-se verificado mesmo o seguinte : tal é, por vézes, a tendencia


a exaltar a transcendencia ou a Divindade de Jesús Cristo que nao
poucos cristáos admitem, sem grande dificuldade, tenha o Fiiho de
Deus unido a Si urna natureza humana nao integral, mas carecente de
alguma de suas partes essenciais: assim julgam que Cristo nao teve
alms* humana e, que o Verbo de Deus fazia as vézes desta aqui na
térra. Nao compreendem mais o axioma da dássica teología patrística:
«O que nao íoi assumido pelo Verbo, nao foi remido»; proposigao esta
que quer dizer ¿ o Filho de Deus se uniu a natureza humana com tudo
que esta tem de constitutivo, pois, em caso contrario, nao teria remido
o homem como tal, mas apenas urna parte do composto humano.

Eis, pois, como Jesús Cristo se apresenta :

natureza f intelecto divino


divina 1 vontade divina
Urna só pes-
soa (um só
«Eu») = a
/ potencias inteligencia 2» Pessoa

JESÚS ! intelectivas da SS. Trin-


vontade dade íalava
CRISTO potencias
alma e agia em
sensitivas nome das
potencias duas natu-
natureza
vegetativas rezas
humana

corpo

Já o contato da natureza divina com cada urna das partes Integran


tes da natureza humana significava redencao e santificagao para essas
partes. A Redengao nao loi apenas um ato jurídico (de expiacáo ou
satisfacSo), mas foi também urna obra de restauracao e consagragSo
do genero humano (consagragao que se devia fazer pelo contato de
Deus com a natureza humana). Assim se entende a inconfundivel fun-
cao de Jesús Cristo Sacerdote ou Mediador; a Encarnacao O tornou
essencialmente Pontífice ou vinculo entre Deus Pai e a humanidade.
Outra manifestacSo do perigo monofisita de nossos tempos é

b) a recusa do aspecto humano da Igreja. Muitos deseja-


riam urna Igreja «desencarnada» ou invisível, existente apenas
onde houvesse santos ou onde a perfeigáo divina nao fósse enco-
berta pela imperfeicáo dos homens. Esquecem-se talvez de que
Jesús Cristo quis assumir urna natureza humana (nao pecadora,
mas sujeita as conseqüéncias do pecado) e, nessas condicóes,
chegou a causar perplexidade em quem o observava na térra

— 70 —
AUTENTICA PIEDADE PARA COM CRISTO

(cf. Mt 11, 4-6). Ora á Igreja cabe a missáo de prolongar a hu-


manidade de Jesús; portante Ela deve possuir tuna face humana
— face humana diante da qual os fiéis nao se surpreendem, pois
sabem que por detrás está realmente presente e ativa á Divin-
dade.
OS. Padre Fio XII é muito explícito ao afirmar tal dou-
trina na sua encíclica sobre o Corpo Místico de Cristo :

«A Igreja vem a ser como que o complemento e a plenitude do


Redentor; Cristo como que se completa na Igreja. Nestas palavras ace-
namos á razáo por que, segundo & doutrina de S. Agostinho,... a
Cabeca mística, que é Cristo, e a Igreja, que é na térra como outro
Cristo e íaz as suas vézes, constituem um só Homem n6vo, em quem
se juntam o céu e a térra para perpetuar a obra salvlíica da Cruz.
"Esse Homem ndvó é Cristo Cabeca e Corpo, o Cristo total.
... Nao basta amar o Corpo Místico no esplendor da Cabeca di
vina e dos dons celestes que o exornam; devemos com amor afetivo
amá-lo tal como se nos apresenta na nossa carne mortal, composto de
elementos humanos e enfermicos, embora por vézes desdigam um
pouco do lugar que ocupam em táo venerando Corpo:
Para que éste amor sólido e perfeito more ñas nossas almas e
cresca de dia para dia, é preciso que noa acostumemos a ver na Igreja
o próprio Cristo. Pois é Cristo que vive na Igreja, por ela ensina, go-
verna e santifica: é Cristo que de varios modos se manifesta nos
varios membros da sua sociedade. Se todos os fiéis se esforcarem por
viver realmente com éste vivo espirito de fé, nao só prestaráo a devida
honra e reverencia aos membros mals altos déste Corpo Místico,...
mas amaráo de modo particular aqueles que o Salvador, amou com
singularissima ternura, quais sao os enfermos, chagados, fracos, todos
os que precisam de remedio natural ou sobrenatural...» (ed. «Lumen
Christb 135-137. 163). .

Seja lícito enunciar ainda, como expressáo de certo moho-


fisismo,

c) a pouca estima dos sacramentos ou dos ritos que santi-


ficam o homem.
Nao faltam pessoas que fazem um programa de piedade
subjetiva, isolada, menosprezando o culto comunitario e, em par
ticular, os sacramentos. Afastam-se simplesmente das fontes da
vida crista, por mais reta que lhes parega ser a sua intencáo. Na
verdade, Jesús Cristo, Deus e Homem, nos santifica normal
mente por vias humanas, sensíveis; entre estas, ocupam o lugar
primacial os sete sacramentos, cujo centro é a S. Eucaristía.
A came (a carne de Cristo, o corpo visível da Igreja) fica sendo
o inicio e o cerne da salvacáo, como já insinuava Tertuliano no
séc. m. Cf. «P.R.» 72/1963, qu. 2. .

Ulterior resquicio de mentalidade monofisita seria .

— 71 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1S64, qu. 2

d) orna concepcáo demasiado «espiritualista» dos últimos


fins do homem e do universo.
Há cristáos que se surpreendem quando consideram a pers
pectiva da ressurreicáo da carne no fim dos tempos. A carne
lhes parece constituir um empecilho á uniáo com Deus, e nao
um valor positivo; desejariam libertar-se, por completo e para
sempre, da materia. — Tal concepgáo é platónica ou também
hinduista, mas nao é crista. Para o cristáo, o corpo é criatura
do mesmo Deus que fez a alma do homem; e é criatura boa em
si; está destinado a refletir, do seu modo, a sabedoria e a perfei-
gáo de Deus.

Verdade é que o primeiro homem, Adáo, fazendo mau uso de suas


facilidades introduziu a desordem em sua natureza, ou seja, o conílito
entre a carne e o espirito. Jesús Cristo, poréra, o segundo Adáo, ser-
viu-se da mesma carne humana para exprimir amor e obediencia a
Deus Pal, assim como repudio ao pecado; desta forma, resgatou a
carne dando-lhe a possibilidade de participar da gloria da alma na res-
surreícáo final dos corpos. O cristáo, portante, é otimista em relacáo
ao seu corpo.

O mesmo se diga no tocante a toda a natureza irracional que nos


cerca Embora sofra hoje-as conseqüéncias da desordem acarretada
pelo pecado de Adáo, participará da Redencao adquirida por Cristo,
quando, no fim dos tempos, houver o que a S. Escritura chama «céus
novos e terxa nova> (cí. 2 Pdr 3,13; Apc 21,1; Is 65,17; 66,22). Nao
poderiamos definir exatamente em que consistirá a transfiguracáo final
do cosmos, pois a Revelacáo nao fornece pormenores a propósito; inte-
ressa apenas frisar que o cristáo incluí também o mundo material todo
ñas suas perspectivas de glorificacáo final. E isto,... em última aná-
lise porque Jesús Cristo é verdadeiro Deus e verdadeiro Homem; Deus
se fez «microcosmos» (= pequeño mundo, homem) dentro do «ma
crocosmos» 0= universo).

Pode-se, por fim, assinalar neste catálogo

e) urna tendencia á arte religiosa extremamente simbo


lista e abstraía.
Tal tipo de arte implica, sem dúvida, urna réplica a arte
excessivamente realista e adocicada de certas correntes, mas cai
no exagero oposto, distanciando-se de tal modo da realidade que
já nao se percebe mais o seu significado ou a sua mensagem.
Lembre-se o artista de que Cristo nao foi um personagem
exótico, mas, sini, homem cheio de bóm senso, o qual falou abs
homens por palavras e gestos acessíveis a todos. Ora a missáo da
arte religiosa é continuar, do seu modo, o misterio da Encar
nado.

— 72 —
NOVAS DIRETIVAS PARA EVANGELIZAR

Conclusáo

O fato de ter sido Cristo verdadeiro Deus e, simultánea


mente, verdadeiro Homem reveste-se de conseqüéncias que ul-
trapassam os-limites das escolas e dos estudos; justamente^a
uniáo das duas naturezas em Cristo se fez em vista da Eedengáo
do género humano. É o que exprime S. Leáo Magno (f 461), por
ocasiáo da controversia monofisita :

«Cristo (Homem)i era ao mesmo tempo o Filho de Deus; na ver-


dade, um sam o outro nao teria realizado a nossa salvacáo; havia igual
perigo em que o Senhor Jesús Cristo fdsse simplesmente Deus sém ser
homem ou íósse simplesmente homem sem ser Deus» (epist. 28). v

Com efeito, se Cristo fósse homem apenas ou Deus apenas,


nao teria consagrado a natureza humana e o mundo inteiro pelo
contato da Divindade. Agora, porém, que éste contato se deu,
saiba o cristáo (o qual é membro de Cristo Místico, participante
da vida de Cristo) que lhe compete a tarefa de viver divina
mente a sua vida humana e viver humanamente a sua vida
divina.
Vida humana... Sim; vida simples e humilde...
Divinamente vivida, isto é, com firmeza e energía inque-
brantáveis na procura do bem; «esperando contra toda a espe-
ranca» (cf. Rom 4,18);
Vida divina... Sim; vida de filho de Deus, portador de va
lores eternos contidos embrionariamente na grasa santificante;
Humanamente vivida, isto é, com equilibrio e bom senso, se
gundo o ritmo de um peregrino déste mundo.

MISSIONÁRIO (Sao Paulo) :

3) «Nota-se que o modo de pensar e as atitudes do homem


moderno sao, por vézes, muito indiferentes ao Evangelho, tor
nando certos setores hostis ou, ao menos, impermeáveis a Pala-
vra de Deus.
Nao haveria diretivas próprias para despertar o interésse
por Deus e pelo Evangelho na hora atual?»

Lembraremos, em primeiro lugar, alguns dos tragos que


caracterizan! o pensamento do homem contemporáneo. A seguir,
proporemos as conclusóes que certas experiencias recentes de
evangelizacáo vém sugerindo.

— 73 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 3 -

1. Traeos característicos

A) Elementos negativos

1. Sem dúvida, no mundo de hoje pode-se notar genuino


surto religioso... Contudo éste nao parece predominar no cons
junto dos povos : verifica-se em numerosos setores, tanto de pes
soas simples como de cidadáos cultos ou de media posigáo, a ten
dencia á indiferensa religiosa, ao relativismo ou mesmo ao ceti-
cismo em materia de Religiáo. Diz-se, com razáo, que o mundo
de hoje perdeu o «senso de Deus» ou a afinidade com Deus. Se
ésse senso existe, encontra-se latente debaixo de urna carnada
de preconceitos mal fundamentados, repetidos rotineiramente,
sem que os homens procurem sequer saber porque falam déste
ou daquele modo contra a Religiáo. Há tantos que dizem viver
bem e honestamente sem Religiáo; para que entáo procurariam
ter crengas religiosas? Religiáo parece nao ser problema na
existencia dessas pessoas.

2. Quais seriam as causas dessa indiferenca?

a) Muitos asslm se comportara, seduzidos pelas conquistas da


ciencia e da técnica modernas. Estas parecem emancipar o hotnem
nao sdmente da cultura, mas também das categorías de pensamento
de épocas passadas, categorías entre as quais figurava a da Religiáo:
a Religiáo promete a plena bem-aventuranca para urna vida postuma.
Ora o homem moderno julga que Já está habilitado a realizar tal Ideal
no decorrer desta vida mesmo; nao poderla ele ser o artífice da sua
própria grandeza, em vez de a mendigar de Deus?!
b) Outros sao indiferentes, porque nao lhes fol dado tomar direto
conhecimento dos ensinamentos da verdadeira fé; jamáis receberam ins-
trucao religiosa adequada, mas apenas rudimentos de catecismo. Desen-
volveram muito sua cultura científica, enquanto seus conceitos religio
sos ficaram elementares.

c) Outros enfim nunca puderam apreciar em seu ambiente de


vida o testemunho de genuino comportamento" religioso. Só perceberam
fraqueza e contradicáo ñas pessoas que professavam a fé em Deus e
em Jesús Cristo.

3. Ora, qualquer que seja a causa do problema, verifica-se


que com tais pessoas se torna difícil argumentar ou pretender
demonstrar, mediante raciocinio, a grandeza da Religiáo.
De fato. No setor dos intelectuais muitos possuem urna for-
macáo técnica, empírica, inspirada pela matemática, a física, a
química, de modo que os valores abstratos (mas nao irreais)
do plano da Filosofía e da Religiáo lhes parecem um tanto vagos,
próximos do sonho e da fantasía. Religiáo se lhes apresenta como
questáo de gósto e de temperamento pessoal, questáo que nao

— 74 —
NOVAS DIRETIVAS PARA EVANGELIZAR

pode ter o mesmo significado para todos nem se pode discutir...


Fora das classes intelectuais, o cidadáo contemporáneo nao
tem o hábito de raciocinar; mediante o jornal popular, o radio,
o cinema e a televisáo, adquire os conhecimentos necessários
para orientar a sua vida; está assoberbado por problemas do
mésticos e profissionais. As vézes nem tem vocabulario comum
com o seu concidadáo religioso : nao entende, ou entende diver
samente, os termos «graga, Redencjio, alma, consciéncia, fé..".»,
de modo que falta a indispensável base para qualquer argumen-
tagáo religiosa junto a tais pessoas.
Contudo nao se poderia ignorar, dentro da mentalidadé mo
derna, o que ela encerra como

B) Elementos positivos

O homem contemporáneo, mesmo quando diz ignorar ou


menosprezar o problema de Deus, traz em seu íntimo o senso
(ou a afinidade) do Absoluto. Com efeito,
a) no piano da vida cotidiana, quantos nao dizem que
«nao toleram a mínima injustiga» ou «a mínima derrogacáo á
liberdade do cidadáo», ou «a mínima inverdade, hipocrisia ou
mentira» ou.«a mínima deturpagáo dos fatos ñas reportágens e
no noticiario dos jomáis» ou añida «a mínima fraude no jógo,
no esporte»! Quando descobrem alguma falha dessas, empol-
gam-se, ficam fora de si, «entusiasmam-se» («entusiasmar-se»
vem do vocábulo grego «entheousia» e significa «estar cheio de
Deus, possuído pela Divindade»).
Diz-se que tais pessoas, emboia professem nao crer em Deus,
cultuam o seu ídolo, isto é, um valor que lhes faz as vézes do
Absoluto e da Divindade : a carreira, a fama, o esporte, o jógo,
a moda, a pesca, o vinho...
Éste fenómeno é, sem dúvida, assaz freqüente em nossos
tempos.

b) Note-se outrossim quáo numerosas hoje em día sao as


produgóes de arte (romances, filmes de cinema, pecas de teatro)
referentes a temas religiosos; o público costuma acompanhá-las
com interésse.

Basta recordar: «O Diálogo das Carmelitas», «O Jornal de um


Cura de aldeia», de Bernanos; «Madre Joana dos Anjos», de Kawale-
rowicz; «Entre dois mundos» de Kathryn Hulm; «Poder e Gloria», de
Graham Greene; «José e seus irmáos», «Doutor Fausto», de Thomas
Mann; «O Advogado do Diabo», de Morrls West; «Le Diable et le Bon
Dieu», de Sartre, além de «Monsieur Vincent», «Le Défroqué», «Os san
tos váo para o inferno», «Réquiem para urna freirá», «Deus precisa dos
homens», «Port-Royal», «Ordet», «A sinfonía pastoral», «Judas».;.

. — 75 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 3

Há quem compare éste panorama com o do inicio do sáculo


presente. Em 1900 aproximadamente, certo autor que oferecia a
um diretor de teatro urna peca religiosa, recebeu a seguinte res-
posta : «Caro amigo, Deus já nao tem atualidade !»

Estranho fenómeno! Um mundo que táo freqüentemente aíirma


já nao precisar de Deus, nao deixa de se voltar com grande interésse-
para os temas religiosos. — Também éste fato é síntoma que deverá
ser adequadahiente levado em conta na parte final desta resposta.
Nao se poderla deixar de observar, na vida contemporánea, mais o-
seguinte traco característico (embora aparentemente destoante do-
anterior) : \

c) o poder de atraoáo que o marxismo exerce sobre o ho-


mem de nossos dias.
As exigencias de «engajamento» absoluto que o comunismo»
impóe a todos os seus adeptos, tém algo de religioso; constituem
mesmo a «Religiáo sem Deus» ou a «Religiáo do anti-Deus»-
Tem-se asseverado que o marxista coerente é um santo as aves-
sas ou também... que o marxismo vem a ser urna «heresia do-
Cristianismo».

Eis como apresentava essa ideología o pastor protestante R. Cha-


teau em um sínodo regional evangélico reunido na Franca em 1959 :
«Em última análise, o marxismo tende a se constituir em Igreja-
O partido marxista é o depositario da Verdade. Tem seus membros
responsáveis, os militantes, e seus simpatizantes ou prosélitos da Porta-
O marxismo ataca a Religiáo, mas sofreu a influencia profunda,
da Religiáo ... Mais ainda : ele se apresenta como urna Religiáo e urna
Igreja. Tem sua cidade santa, suas peregrinacSes, seus mausuléus onde-
dormem grandes homens divinizados e diante dos quais desfilam multi-
d5es Tem seus livros sagrados, seus sumos sacerdotes, seus exegetas,
seus autores dogmáticos. Tem também sua Congregacáo do índice-
diante da qual o livre pensador se deve submeter ou dimitir-se. Tenr
suas proscricSes suas excomunh6es, seus confessionários públicos e
particulares. Exige dos herejes e cismáticos, fagam publicamente digna,
satisfacao pelos seus erros. Tem seus mártires e também. infelizmente,
suas vítimas» (transcrito da obra de Georges Marchal: Obstacles á la-,
foi. Paris 1960, pág. 144 n. 1).
Estas observacSes podem ser tidas como exageradas pela sua ten
dencia a caricaturar. Contudo elas contribuem, do seu modo, para por
em realce um fato : o marxismo nao vem a ser senáo urna expressáo.
do anelo que todo homem tem para o Absoluto ou para Deus. Tal
anelo ou se consuma adequadamente na Religiáo (entrega total que
professa explícitamente adesáo a Deus, ou se desfigura numa religiáo.
(exigencia de entrega total) que nega a Deus.

Eis algumas notas da mentalidade contemporánea que nos.


interessava realgar a fim de darmos resposta á questáo do cabe-
déste artigo.

— 76 —
NOVAS DIRETIVAS PARA EVANGELIZAR

Procuremos agora averiguar como se poderia despertar o


senso de Deus na sociedade cujo modo de pensar e agir se acha
assim marcado.

2. As experiencias da pastoral moderna

1. Visto que o homem de hoje muitas vézes é fechado ou


indiferente a argumentos de índole filosófica ou religiosa, per-
gunta-se: qual seria a melhor via para levá-lo a Deus ?
— É, sem dúvida, a via do comportamento prático; o ho
mem que nao se impressiona pelos raciocinios especulativos,
deixa-se fácilmente abalar pelo testemunho do exemplo.

Em outros termos : já se tem observado que o cidadáo de nossos


dias nao se preocupa muito com a verdnde (julga freqüentemente que
esta ó algo de inatingível ou de relativo); dá, porém, muita atengáo á
slncerldade, isto é, á concordia do comportamento com as idéias («certas
ou erradas,... isso é outra questáo», diría o cidadáo moderno) que o
próximo professa. Quando ouve apregoar urna mensagem (principal
mente urna mensagem filosófica ou religiosa), o ouvinte contemporáneo
nao examina de muito perto o conteúdo desta mensagem, mas espontá
neamente tende a observar a conduta de quem apregoa tais idéias, a fim
de saber se ele realmente vive o que ensina; sómente no caso de encon
trar coeréncia é que, via de regra, se decidirá em favor da respectiva
mensagem; cf. «P.R.» 31/1960, qu. 2.
Isto quer dizer que o valor de Deus, para o incrédulo de nossos
tempos, vem a coincidir com o valor do arauto de Deus. Se éste procura
ser íiel e digno, a' Religiáo fácilmente é tida como algo de digno; Deus
é entyo considerado como urna realidade, e urna realidade valiosa. Ao
contrario, a Religiáo e Deus sao vilipendiados quando os que professam
a fé nao se comportam conseqüentemente. Mais precisamente ainda : é
através da conduta dos cristáos com os quais convivem em casa, no
escritorio, na escola, na oficina, na rúa, que o incrédulo é posto diante
do problema de Deus e de Cristo. O cidadao de hoje espera que o cris-
táo seja todo transparente ao Senhor Jesús e a Deus Pai.

Isto abre novo horizonte para os cristáos: se desejam atrair


o próximo para o Senhor, devem tratar de dar um testemunho
fcem concreto e coerente.

Éste testemunho terá dois aspectos :


A) o teor de vida;
. B) a comunicagáo da palavra ñas ocasióes oportunas.
Detenhamo-nos sucessivamente sobre cada um déstes dois
aspectos.

A) O teor de vida

a) Requer-se, antes do mais, urna conduta de vida profun


damente impregnada de fé ou de espirito sobrenatural.

— 77 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 3 -

Recordemo-nos de que o mundo de hoje, antes de se inte-


ressar por aquilo que eremos, quer ver (o fato de) que eremos,
de que somos pessoas de fé. Donde se depreende que toda ten
dencia a agradar ao mundo dissimulando o que a fé e o espirito
sobrenatural tém de característico, nao sonriente é traicáo ao
Senhor Deus, mas também é falsa apología, é pregagáo que
pouco convence. O apostólo nao julgue que converterá os incré
dulos adaptando-se arbitrariamente ao racionalismo ou desvir
tuando o que a mensagem crista tem de sobrenatural e trans
cendente.

Por Isto, o cristáo nao hesitará em dizer «Nao», ás modas e nego-


ciatas, todas as vézes que a consciéncia lho indicar. Saberá também
que os seus companheiros o observam mais do que ele imagina : com
61ho muito perspicaz espreitam se ele possui o senso do Invisível, a fé
na Providencia, a paz interior, a superioridade com relagao ao dinheiro,
a abnegacáo e a paciencia... Tentarlo averiguar se estas qualidades
estáo arraigadas no intimo da alma ou se sao mera-fachada, hipócrita
mais do que edificante; ñas conversas com cristáos e na leitura de
livros cristáos sao mais críticos do que nos, cristáos, costumamos ser
conosco mesmos.

Viver a fé pura, com tudo que ela tem de paradoxal aos


olhos dos homens, num mundo que nao tem fé ou que tende á
esvaziar a fé, eis o milagre que todo apostólo cristáo deve pro
curar realizar .no século XX (curas, profecías, exorcismos...
nao sao meios ordinarios de persuasáo; o Senhor nao os promete
nem mesmo aos santos...). Portante, o sinal próprio de Deus
neste nosso século é a conservagáo do espirito sobrenatural em
ambientes nos quais a onda do naturalismo e da adaptagáo
cómoda tende a seduzir com todos os requintes e as sedugóes
possíveis.

b) O testemunho de vida mais próprio para impressionar


é o de urna comunidade, reunida pela fé, a oracáo coral e o tra-
balho coeso em cooperagáo ou equipe. A vida em comunidade
atesta amor, e amor sobrenatural, amor de Deus derramado
sobre os homens, independentemente de simpatías ou antipatías
naturais.
Por isto é que se vém criando, dentro da Igrejá de nossos
tempos, grupos de cristáos que cultivam o espirito de fraterni-
dade, habitando e trabalhando ora sob o mesmo teto, ora em
casas diversas, abnegados ñas suas relagóes entre si e com o
mundo.

— 78 —
NOVAS DIRETIVAS PARA EVANGELIZAR

~Els o depoimento de A. Brlen, estudioso que multo se dedicou a psi


cología da conversáo em nossos dias : .

«O testemunho de vida que mais pode transmitir aos incrédulos o


senso de Deus, é o testemunho de urna comunidade.
Em varios casos de conversáo, fiquei impressionado pelo abalo que
ceitos üitelectuais incrédulos experimentaram ao verem um grupo de
cristáos que levavam vida fraterna na oracáo e na caridade. Quando
urna comunidade se reúne em um plano auténticamente evangélico,
embora s6 exerca atividades corriqueiras, o testemunho que ela dá é
pravamente lrresistivel. De fato, tudo nela^íala de Deus; torna-se evi
dente que a uniád com o'Senhor é o vínculo da coletividade e o princi
pio da atitude verídica de cada membro.
Por conseguinte, para proporcionar aos incrédulos o encontró com
Deus, é preciso, antes do mais, formar em todos os setores comunida
des que tenham seu centro na oracáo e no sacrificio litúrgico e que
sejam acolhedoras e fraternas para com todos aqueles que as procuram»
(Trois formes du témoignage chrétien, em «Lumen Vitae» VII [1952]
pág. 458).

Há aínda urna faceta de vida de apostolado a notar aqui, faceta


que tem aplicacáo especial nos casos em que o incrédulo voluntaria
mente se furta a qualquer mensagem, ficando cegamente obstinado
no seu modo de pensar e viver :

c) Também se deve estimar muito a possibilidade de sofrer


em uniáo com o sacrificio de Cristo, pela salvacáo dos que erram.
Há realmente casos em que tanto a palavra como o exem-
plo parécem destituidos de resultado. Pois bem; nem ésses casos
sao desesperados. Que o discípulo de Cristo, entáo mais do que
nunca, se lembre de que o Senhor salvou o mundo quando foi
pregado á cruz, e aceite generosamente as tribulagóes que a
vida presente constantemente suscita.

Urna convertida norte-americana recente, Clara Boothe Luce, es-


creveu:
«Em nosso mundo há tantos Tomes incrédulos. Por isto é preciso
que haja sempre chagas frescas».

O sangue dos mártires sempre foi tido, na Igreja, como se


menté de novos cristáos. Verdade é que nem todo apostólo é
chamado ao martirio cruento, mas todos sao intimados a seguir
o Cristo pelo caminho da cruz.

Além do testemunho da vida assim esbocado, é preciso saber


dar também aos homens do sáculo XX

B) O testemunho da Palavra de Deas

Já observamos que a palavra de fé ou de Religiáo como tal


nao encontra audiencia em muitos ambientes dos nossos dias.

— 79 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 3

Faz-se mister entáo comegar o diálogo com o incrédulo num


plano aparentemente leigo, mais compreensível para ele.
Reconienda-se, por conseguinte,

a) Excitar e desenvolver nos homens de hoje o senso de


Justina, veracidade, autenticidade, doagáo de si, sinceridade...,
que tantos espontáneamente estimam e apregoam.
Tais predicados já sao «cabegas de ponte» para o Cristo;
sao, em última análise, apelos do homem incrédulo a Cristo, ape
los que o próprio Cristo suscitou ñas almas.

Muitos dizem que nao precisam de Deus nem de Religiáo para


serem honestos, magnánimos e generosos; nada teriam a ganhar se
professassem a fé em Deus. — Ora o cristáo deverá mostrar-lhes que
essa honestidade é assaz «oca», fácilmente desmorona, desde que os
interésses do próprio sujeito venham a sofrer abalo, pois o amor aos
homens que nao esteja fundamentado no amor a Deus é ilusorio.
Ó homem que se quer engrandecer únicamente na base de suas próprias
qualidades vai definhandp e morrendo (sem o saber), na sua mesqui-
nhez. Por isto, o cristáo deverá, com tino e bom senso, fazer ver ao
irmao incrédulo que as suas aspiracñes «leigas» sao realmente valiosas,
mas só se realizam genulnamente em Deus ou no plano do amor sobre
natural.

Em afinidade com esta diretiva está a seguinte :

b) Por ocasiáo de alguma queda moral do homem incré


dulo que se julga auto-suficiente, mostrar-lhe quáo vá é, de fato,
essa auto-suficiéncia. Aproveite-se entáo o ensejo para despertar
néle o senso de Deus já latente em sua alma.
Alias, o homem incrédulo que seja sincero, reconhecerá cedo
ou tarde que é muito difícil permanecer á altura do séu ideal
durante a vida toda...

O Pe. Pierre Thivollier narra o episodio seguinte :


Um jovem de vinte anos de idade declarou certa vez a um sacer-

«Sou um homem honesto, todo entregue ao meu ideal... Que pode


rla eu ganhar com a féem Deus?» ,
Nao havia motivo para duvidar da smcendade dessa afirmacao
nem da lealdade do jovem. O sacerdote exprimiu-lhe entao a sua admi-
racáo e recomendou-lhe apenas que se conservasse sempre franco e
verídico para consigo mesmo. Ora seis meses mais tarde o incrédulo
voltou a procurar o sacerdote e lhe asseverou: «Pela primeira vez
violei o meu ideal. Sinto a necessidade de Deus».
Cf P. Thivollier, Aborder l'incroyant du miheu populaire, em
«Lumen Vitae» VII (1952) pág. 440.

A Providencia Divina sabe justamente tirar dos males moráis ainda


maiores bens. Sem impedir o exercicio da liberdade humana, Elaé
capaz deencaminhar tudo para a salvacáo dos homens. Que o cristáo
tenha consciénda disto, e desperte-a no próximo que ele vir sucunv

— 80 —
. NOVAS DffiETIVAS PARA EVANGELIZAR

bindo sob o pecado! — Com isto, é claro, nao está dito que se deve
desejar o pecado ou a ruina moral de quem quer que seja. Tal desejo
seria hediondo.

Por íim,. exercendo o apostolado da palavra, o cristáo, desde que


isto se mostré conveniente, tratará também de

c) Desfazer equívocos e preconceitos doutrináriós que,


para murtas pessoas, vém a ser decisivos obstáculos á fé.
Se tais pessoas nao créem, quem sabe se isto nao se deve
ao fato de nunca lhes ter sido apresentada genuinamente a men*
sagem da fé?

Sao assaz freqüentes, como- sabemos, as dúvidas e os mal-entendi


dos no tocante a criacáo e evolucáo, origem dó género humano, pecado
original, existencia do mal no mundo, inferno, justicie bondade de
Deus, problemas matrimoniáis, questáo social e posicáo da Igreja, etc.
Quantas vézes também nao se nota um íalso conceito de Religiao
entre as pessoas que a rejeitam! Concebem Religiao como um código
de moral, e moral negativa, pessimista, que impede a expansSo da
personalidade. A Religiao sufocaría, e só mediante heroicos sacrificios
poderia ser sustentada! Deus aparece entao como o Todo-Poderoso
arbitrario que só inspira temor ou horror.

Esforce-se o apostólo por dissipar tais devaneios! Toca-


-lhe disseminar nao orna idéia qualquer de Religiao e de Deus,
mas a idéia genuína... Diga aos homens que Religiao é o con
junto de relagóes do Sumo Bem e do Primeiro Amor com a sua
criatura : essas relagóes só podem tender a desenvolver no ho
mem o que há de mais nobre, nunca sé devenr tornar motivo de
sufocagáo ou depauperamento da personalidade. Deus nao é ape
nas Legislador, mas é primariamente Pai; o homem é, antes do
mais, filho adotivo de Deus, chamado a participar da felicidade
do próprio Deus nao sómente na vida postuma, mas já na vida
presente (na medida em que é fiel ao Pai); a lei existe em Reli
giao sómente para fomentar o amor, preservando-o de se des
viar. Numa palavra : a Religiao consiste simplesmente em dei-
xar-se apreender pelo amor de Deus. — Nao haja, portante, sus-
peitas nem reservas ñas relagóes do homem com o Criador. Um
conceito de Deus que inspire desconfianga é contraditório; equi
vale á negagáo mesma de Deus.

Também será oportuno- recordar ao homem de hoje que


Deus nao é fórmula filosófica, mas Personalidade viva. Ora, para
conhecer urna pessoa, nao nos basta o raciocinio; requér-se ou-
trossim a convivencia. Assim também só conhecemos adequada-
- mente a Deus fazendo a experiencia direta da prática da Reli
giao. Tentem os homens conhecer a autentica Religiao «por den-

— 81 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964. qu. 4

tro», e cortamente corrigiráo nogoes erróneas que possam ter


a tal propósito.

Eis algumas proposicóes que o cristáo deverá transmitir a


seus companheiros incrédulos, a fim de os ajudar a adquirir ó
senso de Deus.

Aplicando tais normas, o apostólo moderno procurará, do


melhor modo possível, satisfazer ás suas grandes responsabilida
des em nosso mundo descristianizado.

III. SAGRADA ESCRITURA


*

VANDERLI (Gravataí) :

4) «Gomo se explica a passagem de Me 13,32, na qual


Jesús afirma que nem os aojos netn o Filho conhecem a data do
juízo final, mas sómente o Pai? Jesús terá ignorado algnma
coisa?»

1. Eis, antes do mais, o texto de que trata a questáo :

«Quanto áquele dia e hora, ninguém sabe quando ocorrerSo, nem os


anjos no céu, nem o Filho, mas táo sómente o Pai» (Me 13,32).

1. No tocante a autenticídade destas palavras de Jesús, nao há


serias dúvidas entre os exegetas. Com efeito; nao se entende bem que
tenham sido introduzidas tardíamente no texto do S. Evangelho, pois
causam dificuldades aos exegetas; ora quem inflige retoques posterio
res ao texto sagrado, tende geralmente a facilitar e aclarar, nao a difi
cultar, a explicacao do mesmo.
A mencáo do Filho na frase ácima suscitou tal embarago aos comen
tadores antigos que, na passagem paralela de S. Mateus (24,36), alguns
copistas e tradutores resolveram eliminá-la simplesmente. Em conse-
qüéncia, a traducáo latina da Vg em Mt 24,36 apresenta a seguinte
forma : «... nem os anjos no céu, mas táo sómente o Pai». A omissüo,
porém, se denuncia como evidente retoque, pois ela se op6e ao testemu-
nho dos melhores códices gregos do Evangelho de S. Mateus.

2. Resta-nos, pois, procurar o sentido genuino que a men-


gáo do Filho possa ter no texto de Me 13,22. É o que faremos
abaixo, procedendo por etapas.

1) Em primeiro lugar, será preciso lembrar que «dia e


hora» em tal frase indicam ,p «dia por excelencia», isto é, o
Juízo final ou a plena manifestacáo do Messias. Tal é o sentido
clássico desta expressáo, desde os escritos do Antigo Testamento
até os de S. Paulo (cf. Am 5,18; 2 Tes 1,10; 2 Tim 1,12.18; 4,8).
Jesús entáo terá ignorado a data do juízo final?

— 82 —
JESÚS IGNORAVA O DÍA DO JUÍZO ?

2) Os arianos no séc. IV, negando a Divindade de Cristo,


muito se valiam do texto de Me 13,32 para comprovar ignoran
cia em Jesús, ignorancia que significaría ser Cristo mero homem,
e nao Deus.
Esta interpretacáo do versículo era rejeitada pelos Padres
da Igreja.:. distinguiam entre a natureza humana e a divina em
Jesús Cristo; o Senhor tena falado como mero homem, e nao
como Deus — o que nao excluía que na realidade fósse verda-
deiro homem e verdadeiro Deus.
De resto, as provas de que Jesús Cristo nao era mero homem
(provas que a crítica moderna mais e mais tem reconhecido;
cf. «P. R.» 8/1957, qu. 1; 7/1958, qu. 4) removem a interpreta-
cao ariana dos dizeres de Me 13,32.
Jesús, por conseguinte, terá abstraído da sua natureza e da
sua ciencia divinas, infinitamente perfeitas, para proferir as pa-
lavras de Me 13,32.
Mas como terá abstraído?
Algumas seritencas pouco satisfatórias podem aqui ser rá
pidamente referidas.

3) Orígenes (t 253/54) julgava que o Senhor, em Me 13,32, se ex


primirá nSo em seu próprio nome, mas em nome dos membros do seu
Corpo Místico; estes (os cristáos), de fato, ignoram a data do juízo
final. — Como se compreende, tal sentenca é demasiado arbitraria para
merecer mais detida atencáo.

4) Outros comentadores antigos admitiram que Jesús se referia


ao conhecimento prático do dia do juízo: Cristo ainda nSo exercera o
juízo final, mas estava para exercé-lo na consumacáo dos tempos; por
conseguinte, so podía possuir conhecimento teórico, nao experimental,
déste grande episodio. — Sem dúvida, tal distincáo é real; contudo pa
rece demasiado sutil para se poder dizer que Jesús a tinha em vista ao
proferir a frase de Me 13,32.

5) S. Basilio (ep. 236), no séc. IV, e outros escritores seus contem


poráneos traduziam o texto do seguinte modo : «A data do juízo final...
nem o Filho a saberia se o Pai nao a soubesse». Com estas palavras
Jesús nao teria negado o seu conhecimento da data; apenas teria posto
em relevo o fato de que a ciencia do Filho de Deus na SS. Trindade tem
a sua fonte na ciencia do Pai Eterno; o Filho é, sim, gerado pelo Pai
desde t6da a eternidade; tudo que Ele tem, Ele o recebe do Pai, sem
que isto implique subordinacáo ou inferioridade da segunda Pessoa em
relacáo a primelra Pessoa da SS. Trindade.
Jesús, portanto, em Me 13,32 teria dito que Ele nao possuirla a sua
ciencia referente ao dia do juízo (ciencia que file de fato possuia de
modo perfeito) se nao a tivesse recebido por geracáo do Pai Eterno.
Também esta explicagáo é demais artificial para gozar de proba-
bilidade. _ . .
Postas de lado tais tentativas exegéticas, resta a sentenca adotada
pelos melhores comentadores:

— 83 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 74/1964, qu. 5

6) Jesús dizia ignorar a data do juizo final, porque nao


recebera a missáo de a revelar aos homens. Sim, como homem
enviado ao Pai e Mestre dos homens, Cristo nao tinha, entre as
suas atribuigóes, a de nos manifestar quando terminará a his
toria; por isto podía dizer que nao conheda a data respectiva.

Já S. Agostinho (t 430) propunha tal expli cacao: «Jesús disse igno


rar aquéle dia porque, como mestre, file nao fdra incumbido de no-Io
manifestar... Qual mestre, file sabia, sim, ensinar o que nos fósse
útil e silenciar o que nos prejudicasse» (en. in Ps 36, serm.-1,1).
«... O que nos prejudicasse»? Com efeito; se soubéssemos exata-
mente quando seremos chamados a juizo pelo SenHor Deus, talvez per-
déssemos o espirito de vigilancia continua que atualmente é estimulo
a darmos o máximo de valor a cada um dos nossos atos, estimando-o
como se fósse o último (no regime vigente, sabemos que cada instante
pode ser o derradeiro; e isto nos ajuda a aproveitá-lo zelosamente).
Observe-se bem o seguinte: nao se pode dizer que Jesús
conhecia a data do juizo como Deus, mas a ighorava como ho
mem simplesmente. Como homem mesmo, Jesús possuia a cien
cia perfeita de tudo o que concernía a sua missáo de Redentor e
Juiz da humanidade; ora entre ésses elementos certamente es
tava a data do juizo final (em Jo 13,3 Ié-se : «Jesús, sabendo que
o Pai entregara tudo em suas máos,...»; nesse «tudo» se achava
incluido o conhecimento preciso do dia do juízo). Em verdade,
Jesús só podía ignorar «o dia» como homem na medida em que
estava destinado a ser mestre dos homens ou encarregado pelo
Pai do céu de lhes revelar a mensagem da Nova Alianga.

Por conseguinte, tendo em vista o seu magisterio é que Jesús pro-


feriu as palavras de Me 13.32, como, alias, foi na mesma perspectiva que
Cristo pronunciou os dizerés de Mt 20,22s; nesta passagem, o Senhor
afirma que nao compete a Ele, mas ao Pai, dar aos homens tal ou tal
grau de gloria no céu. De fato, como homem «Salvador e Mestre dos
homens», isto nao Lhe cabe, embora Lhe caiba perfeitamente como
Deus, em tudo igual ao Pai.

Eis o que se podía ponderar com sobriedade em torno do


controvertido "texto de Me 13,32.

IV. MORAL

PEREGRINO (Recife) t

5) «Tém-se denunciado os graves inconvenientes que a ur-


banizacáo (o crescimento das cidades) acarreta para as popu-
lacces.
Além dos males já indicados em «P. R.» 69/1963, qu. 1,
haveria ainda ontros a apontar?»

— 84 —
URBANIZACAO E INCONVENIENTES MORÁIS

A transferencia de pessoas que vivem nos campos e em pequeñas


cidades, para os grandes centros urbanos é fenómeno típico de nossos
tempos, nao s&mente no Brasil, mas no mundo inteiro: muitos ho-
mens se deslocam para as cidades importantes, seduzidos pelas pro-
messas de salarios avantajados, colocacdes e carreiras promissoras, di-
vertimentos e comodidades abundantes, etc.. Chegando, porém, as ci
dades, sofrém dolorosas decepg6es decorrenjes, em boa parte, da vida
«engarrafada» e sufocante dos centros, populosos. Como se compreen-
de, tal fenómeno contribuí para originar urna serie de males físicos e
moráis: os moradores urbanos freqüentemente contraem doencas ner
vosas, das quais algumas eram até nossos dias raras, outras eram
mesmo ignoradas. Mais lamentáveis ainda sao os males moráis: que
das e vicios generalizados ñas cidades. Em suma, a vida nos grandes
centros urbanos tende cada vez mais a «desumanizar», ou seja, a de-
turpar a dignidade humana, reduzindo a pessoa á categoría de jc~
guéte ou piSo,... de vítima que se acha subjugada pelos elementos
materiais em vez de os subjugar devidamente.
Já que a consciéncia crista está empenhada em sanear tal situa-
cáo váo abaixo indicados mais dois males da urbanizacáo moderna, os
quais completarao a lista apresentada em «P.R.» 69/1963, qu. 1: tra
taremos do que diz respeito & mecanizacáo do trabalho e ao automo-
bilismo, para concluir com urna palavra de visáo crista sdbre ésses
assuntos.

1. Mecanizado do trabalho

A técnica moderna, utilizada principalmente ñas cidades,


trouxe inegável conforto e lucro para as populagóes...
Mas nao se poderiam ignorar certos inconvenientes dar re
sultantes : a técnica, principalmente o automatismo, tornam o
trabalho humano muito impessoal; este vem a ser mera contri-
buicáo para o funcionamiento da máquina. A máquina é que
marca de maneira imediata e decisiva o tipo de produto. Em con-
seqüencia, o trabalho se torna pouco interessante para o opera
rio : é trabalho em serie, monótonamente repetido. Verifica-se
um contraste impressionante entre a monotonía ou simplicidade
de gestos que o operario deve realizar em certas tarefas e a aten-
cao rigorosa e continua que, nao obstante, ele deve prestar aos
seus gestos, em meio ao ruido atordoante de urna fábrica ou
usina. Daí se originam com facilidade perturbasóes psicológicas.
Entre as telefonistas de París, o número de licengas prolongadas
para tratamento dos ñervos subiu, em oito antís, de 75 para 630.
Note-se outrossim que há tarefas assaz cobijadas na vida moderna
as quais, por mais fascinantes que sejam, se podem tornar nocivas para
quem as executa. Tenham-se em vista, por exemplo, as fungñes de
piloto de aviáo ou de aeromoco ou aeromoca... De maneira talvez
pouco perceptivel, mas muito real, influem nos ñervos e no comporta-
mentó psicológico das respectivas pessoas. Nao sómente mergulham.o
ser humano em um ambiente de trepidacao e barulhos continuos, mas
de certo modo também dissipam as nog5es de tempo e espaco, desfa-

— 85 —
zendo certas categorías dentro das quais se desenvolve normalmente a
vida humana: a marcacSo de horas, o ritmo de sucessáo entre dia e
noite sao contraditados pelas constantes mudancas de fusos horarios
no decorrer de viagens aéreas; os avi6es de veloddade ultra-sónica
excitam o senso da vertigem, provocam a fantasía — o que pode ter
efeitos benéficos, mas freqüentemente acarreta certo desmantelamento
da personalidade. Éste desmantelamento se traduz nao raro em liber-
tinismo de costumes e futilidade d& pensamento.

Semelhantes conseqüéncias se podem verificar em pessoas que tra-


balham em hoteis, cinemas, teatros, estacóes de radio, televisao; em-
bora sejam idóneos funcionarios da administracáo (e queiram perma
necer tais ésses cidadáos se véem envolvidos por urna atmosfera em
que a ficcáo de vida e a deturpacáo da moralidade sao quase partes in
tegrantes do programa de cada dia e cada noite. Até que ponto conse-
guem imunizar-se do artificialismo e da superficialidade deleténa do
ambiente ?

De resto, parece evidente que a era de desintegrasáo do


átomo tende progresivamente á desintegragao dos costumes*
Tém-se definido nossos tempos como sendo a época de «conver
gencia de todas as decadencias moráis».
Eis o parecer do famoso escritor francés Jean Guitton :
«Os acontecimentos dáo a impressáo de que urna outra forma de
religiáo vai aparecer : a religiáo da ciencia e da técnica, urna adoragao
sem culto, que abandona o Deus conheddo a fim de se voltar para o
Deus desconhecido da materia, da vida terrestre, do cosmos, da huma-
nidade da organizacáo técnica ou política... Urna religiáo do Aquem
e nao do Além» (trecho do artigo «L/Église rajeunie», em «Revue de
Paris», fev. de 1962).

A desintegragao dos costumes contribuí, por sua vez, para


aumentar o desequilibrio nervoso. Urna prova bem palpável
désse desequilibrio de que vai sofrendo a sociedade contemporá
nea, é o uso crescente (até o abuso) de calmantes.
Com efeito; os remedios sedativos sao hoje em dia tidos como abso
lutamente necessários e consumidos em altas doses; assim a clorpro-
mazina, ^substancia que diminuí a agitacao nervosa, passou a ser
ineerida^ias clínicas psiquiátricas na proporcao de 500 gramas em 195¿
para tres toneladas em 1962. Os especialistas conceberam mesmo «anti
bióticos de doencas mentáis», dos quaís um dos mais propagados e o
heptaminol. . _
Tais drogas nao podem deixar de prejudicar o organismo; nos ts-
tados Unidos da América refere-se que o redator-chefe de um periódico
tomou táo grande quantidade das mesmas que se viu inutilizado para
o trabalho (precisava de vinte minutos para descobrir e corrigir um
erro de pontuacáo na revisáo de texto impresso); diz-se que, nesse mes
mo país, desde 1945 dois tercos da populacho vivem alternativamente
de remedios calmantes e tonificantes. Em Oxford (Inglaterra), dentre-
145 estudantes que nao compareceram ás aulas durante um trimestre
de 1962, a metade estava em tratamento dos ñervos.
A observacao dos fatas até aqui apontados justifica bem o título

— 86 —
r* £•

de um artigo de Hervé Lauwick publicado em «La Revue des deux


mondes» (15/111/1963) : «Os habitantes das cidades estaráo para perder
o juizo? (Le» citadins vont-ils perdre la rais.on?)».

Pode-se chamar a atencao igualmente para tal setor da técnica


que é o .

2. Automobilismo
i

1. O veículo motorizado e o automóvel tornam-se instru


mentos cada vez mais necessários, principalmente ñas grandes
cidades, onde a vida é agitada e o horario dos cidadáos se distri
buí por urna variedade de afazeres que exigem rápida locomo-
cáo. Sem o auxilio do automóvel, o trabalho perde muito do seü
rendimento; em conseqüéncia, os cidadáos que chegam a certa
estabilidade económica, tendem naturalmente a adquirir o veí
culo próprio que Ihes fará ganhar tempo.

Nos Estados Unidos, a industria do automóvel ocupa urna sétima


parte da dasse operarla. Fabricacáo, venda e conservaoso de automó-
veis constituem a quinta parte do comercio varejista da nacSo, movi-
mentandó cérea de 25 bilhSes de dólares por ano. A vista disto, obser-
vava o economista americano Bérgen Evans: «A falencia ou mesmo
apenas o declinio da industria automobilistica reduzir-hos-ia todas a
mendicidade».

2. Acontece, porém, que, ñas cidades, de tal modo cresceu


o número de automóveis que estes veículos mesmos já se tor-
nam transtómo para os seus antigos beneficiarios...

a) ... transtorno quanto á velocidade. Em certos lugares


e horarios o tráfego é táo congestionado que mais tempo se
ganha fazendo o percurso a pé; a velocidade automobilistica
chega a ser reduzida a 4 km por hora. Muitos moradores de su
burbios, nao podendo voltar fácilmente do centro da cidade para
casa entre 18 e 19 h, resignam-se a esperar até as 20 h, por
vézes em bar ou ambiente moralmente pouco sadio; isto acar-
reta naturalmente o perigo de ruinas moráis; além disto, des-
troga a vida de familia, pois o esposo e pai chega muito tarde em
casa para gozar do consorcio dos familiares.

A iim de diminuir o número de acidentes de tráíego, tém-se em-


preendido campanhas de alerta aos motoristas, tém-se alargado e multi
plicado as estradas, tém-se aperfeicoado os sistemas de cruzamento das
rodovias e lerrovias. Os Estados Unidos empregam 60 bilhSes de dóla
res por ano na sua rede de estradas de rodagem. Contudo veriíica-se
que certas estradas, desde que franqueadas ao público, sao congestio
nadas; o número de desastres diminuí em relacáo ao crescente número

— 87 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 5

de veículos, mas cresce em cifras absolutas, pois o tráfego se intensifica


sempre, vitimando numerosos homens.
Nao menos grave é o

b) transtorno psicológico provocado pelo automobilismo.


Compreende-se que em tais circunstancias os ñervos se gastem.
Verifica-se com razáo que o mal do século é a psicose : os mé
dicos véem desfilar em seus consultorios milhares de pessoas
que éles tém de encaminhar para centros de higiene mental ou
«Postos de Pronto Socorro dos náufragos mentáis». A psicose
pode ser, em parte ao menos, fomentada pelas esperas e demo
ras de tráfego. For isto já se disse que «o automobilismo nos leva
ao imobilismo».

Há pessoas que, a fim de dirigir seu veiculo, ingerem doses de cal


mantes,., .as quais, talvez sem que o percebam, contribuiráo para lhes
intoxicar o organismo. Há também os que dirigem após haver tomado
um excitante (remedio ou bebida alcoólica); procuram assim escapar
de um risco, mas incorrem em outro, pois as estatísticas demonstram
que na Franca 30% dos desastres automobilisticos ocorrem com moto
ristas embriagados...

O rumor das rúas devido ao tráfego é tal que nem mesmo nos
conjuntos residenciáis há silencio: referem certos levantamentos da
situacao européia que em grandes cidades bom número de habitantes
dorme com máscara negra e com globos de cera nos ouvidos a fim de
evitar o ruido; há também os que mandam forrar as paredes de casa
com materia isolante. Contudo estas maneiras de resolver o problema
nño se podem tornar norma geral...

Destas consideragSes procuramos agora deduzir urna

Conclusa*

Nao poderiamos encerrar esta análise de conseqüéncias da


urbanizacáo agigantada de nossos dias, sem lembrar que a Igreja
se interessa pelo problema por causa da sua repercussáo no plano
da moral ou da consciéncia.
Já citamos em «P. R.» 69/1963, qu. 1 as passagens da en
cíclica «Mater et Magistra» em que o Santo Padre Joáo XXm
lamenta a situacáo e, para lhe dar remedio, preconiza que se
retenham no campo os moradores do setor rural, fornecendo-se-
-Ihes melhores condicóes de vida e desenvolyimento. Os fatos
recenseados no presente artigo tém o papel primordial de mais
aínda evidenciar quáo oportunas sao as diretrizes do Sumo Pon
tífice consignadas naquele documento.

Quanto á técnica em particular, a Igreja está longe de lhe

— 88 —
URBANIZACAO E INCONVENIENTES MORÁIS

ser contraria. Eis como a apresenta o Papa Joáo XXm na mes-


ma encíclica «Mater et Magistra» :

«A Igreja sempre ensinou, e continua a eñsinar, que os progressos


científicos e técnicos, assim como a prosperidade déles resultante, devem
ser considerados cómo bens reais e apreciados como indicios de adían-
tada civilizacáo. Ao mesmo tempo, porém, a Igreja ensina que se hSo
de considerar-tais bens segundo a natureza déles: devem ser tidos
apenas como instrumentos de que o homem se serve para, em melhores
condicSes, alcancar o fim supremo, isto é, para mais fácilmente poder
aperfeigoar-se, seja na ordem natural, seja na ordem sobrenatural»
(ene, n» 246).

A Igreja apenas deseja a salvaguarda da hierarquia dos va


lores, ficando.a técnica a servico do engrandecimento do homem
e da exaltagáo de Deus, e nao vice-versa :

«Em vista do grande desenvolvimento da ciencia e da técnica, nao


falta hoje quem afirme.poder o homem, prescindindo de Deus e única
mente com suas próprias fdrgas, construir para si a mais excelente
civilizacáo. A verdade, porém, é que ésses mesmos progressos científi
cos e técnicos, muitas vézes, eoloeam a humanidade em dificuldades de
dimensoes universais, que só poderiam ser devidamente solucionadas
se os homens reconhecessem plenamente a autoridade de Deus, autor e
governador do género humano e de toda a natureza» (ene, n« 209).
«Nosso predecessor Pió XII afirma com razáo que a nossa época
se distingue das demais pelo contraste entre um imenso progresso
técnico-científico e um profundo retrocesso quanto ao sentido da digni-
dade humana. Com efeito, é próprio de nossos tempos 'a sua mons
truosa obía-prima de transformar o homem em um gigante do mundo
físico, mas á custa do seu espirito, reduzido a pigmeu na Iinha das
realidades sobrenaturais e eternas'» (ene. n« 243).

É tal situagáo que inspira a solicitude pastoral da S. Igreja:

«Por esta razáo, causa-nos muita pena ver nos países económica
mente desenvolvidos tantos homens que náó tém a menor preocupado
pela ordenada hierarquia de valores. Esquecem, deturpam ou categóri
camente negam os valores espirituais. Ao mesmo tempo, com todo o
entusiasmo propugnam o progresso científico, técnico e económico,
sobrestimando de tal maneirá os bens materiais que chegam a consi-
derá-los como o supremo bem da vida. Dai resulta vir contaminada de
perniciosas influencias a própria cooperacSo que as nacOes adiantadas
prestam ao desenvolvimento das desprovidas de recursos. Nestas, por
antiga tradicao, geralmente a consciénda dos principáis valores huma
nos aindá" é viva e operante nos cidadáos.
Portante, aqueles que, de qualquer modo, procuram abalar a Inte-
gridade de sentimentos désses povos realizam algo de essencialmente
desonesto. Ésse sentido dos valores, pelo contrario, além de ser digno
de toda consideracao, deve ser cultivado e aperfeicoado, visto ser ele
o fundamento da verdadeira civilizacao humana» (ene, n» 176s).

Táo claros e incisivos dizeres dispensam comentarios.

— 89 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964. qu. 6

V. HISTORIA DO CRISTIANISMO

JUCISTA (Rio de Janeiro) :

6) «Diz-se que o Imperador Napoleáo Bonaparte (1769-


-1821) da Franca, anesar de suas atitudes liberáis ou agnósticas,
era, na verdade, extremamente crédulo ou mesmo supersticioso.
Que ha de verídico nessa afirmacao?»

Como sabemos, «superstigáo» é «crenga» em elementos


(objetos, atos ou situaeóes) que por si mesmos pouco ou nada
valem, mas que sao tidos como absolutos, capazes de desencadear
efeitos extraordinarios, efeitos que nao tém proporcáo com as
respectivas causas.
A superstic&o é, portento, urna especie de fé religiosa, mas fé des
virtuada e decadente. Em última análise. vem a ser a expressáo do
senso religioso espontáneo de todo individuo humano. Éste senso reli
gioso, se nao se aplica ao devido objeto, que é Deus, vai entregar-se a
pseudo-deuses ou a bagatelas as quais o homem presta a reverencia e
a submissáo que prestaría ao Criador. Cf. a proposito «P.R.» 27/1960,
qu. 1.
Dal se compreende o interésse que há em analisar as superstic5es,
principalmente quando elas marcam o comportamento de personagens
que muito fizeram questao de passar por incrédulos ou céticos.
Recentemente, o autor francés Jules Bertaut se dedicou a
um estudo sobre a psicología do Imperador Napoleáo Bonaparte,
publicando em conseqüéncia o artigo «Napoleón et l'occulte» na
revista «Historia» n« 193, de dezembro de 1962.
É notorio o agnosticismo ou o indiferentismo que Napoleáo adotou
ñas suas relacoes com o Cristianismo.
Declarava, por exemplo, ao Conselho de Estado, aos 16 de agosto
de 1800:
«A minha política consiste em govemar os homens como a maioria
quer ser governada. É assim, creio, que se reconhece a soberanía do
povo. Fazendo-me católico é que ganhei a guerra da Véndela; fazendo-me
mugulmano é que me estabeleci no Egito; fazendo-me ultramontano é
que conquistei os espiritos na Italia. Se eu governasse um povo judaico,
restaurarla o templo de Salomáo».

Apesar de falar déste modo, «Napoleáo foi supersticioso du


rante toda a vida», assevera o autor do artigo, fazendo, alias,
notar que semelhantes atitudes se poderiam apontar (apenas
com matizes diferentes) também em Alexandre Magno da Ma-
cedónia, César de Roma, Luís XIV da Franca, Frederico U da
Prússia e Adolfo Hitler.

Vejamos entáo como se exprimía a mentalidade supersti


ciosa de Napoleáo:

— 90 —
NAPOLEAO SUPERSTICIOSO

1) Em primeiro lugar, pode-se observar que o Imperador,


desde os seus primeiros anos na Córsega, sua patria de origem,
foi sendo familiarizado com crendices. '

«Sua ama Ilari íazia sobre fríe encantamentos contra o mau-olhado,


derramava gotas de óleo em um prato cheio de agua colocado sobre a
sua cabeca; contava-lhe historias terríveis, como, por exemplo,. histo
rias de bruxás (streghe), a historia de vampiro que suga o sangue das
criangas recém-nascidas, a de uspirdo, mensageiro da morte que apa
rece na neblina, a dos foletti, diabinhos travessos que seguem os vian
dantes quando estes perdem o seu roteiro, a de Mal 'vagello, ave de
mau agouro que se coloca sobre a casa onde a morte está para entrar»
(art. cit.).
De resto, nao só entre a gente simples e humilde da época reinava
supersticáo, mas também na aristocracia. Seja citado, a título de ilus-
tragáo, o caso de Catarina de Wurttemberg, esposa de Jerónimo Ñapo-
leáo: um dia estava em Florenga na casa de dama Elisa Bacciochi,
quando percebeu que treze seriam em breve os convivas á mesa. Per-
turbou-se grandemente, mas sem demora a amiga Elisa a tranqüilizou,
dizendo-lhe: «Na verdade, seremos quatorze, pois estou grávida !»
Até ñas cortes européias, junto aos monarcas a crendice era
um fato.

Filho da sua época, Napoleáo desde cedo foi dando provas


de mentalidade supersticiosa: gostava de apagar as velas de
casa e, em ambiente escuro, contar narrativas de almas do outro
mundo que voltavam á térra, gozando entáo por observar o
pavor ñas mulheres que o ouviam. Todas as vézes que lhe comu-
nicavam urna noticia surpreendante, tragava rápidamente sobre
a sua testa duas cruzes exclamando «Giesu!» (= Jesús, na forma
de dialeto da Córsega).
Trazia sempre consigo um talismá, ou seja, um coracáozi-
nho de setim negro pendente a um cordáo que ele usava entre o
colete de flanela e a camisa.
Durante multo tempo parece que dedicou á sua espfisa Jorefina
de Beauharnais a estima de «porte-bonheur»; alias, dizia-se popular
mente que Josefina era o «anjo bom» do Imperador. Em conseqüencia,
o monarca muito hesitou em se separar de sua primeira consorte.
Também dava grande importancia aos chamados «pressentimen-
tos»; assim declarava verbalmenteí «Muito acredito nos pressentimen-
tos e ñas profecías; os pressentimentos sao os olhos da alma».
E citava casos de pressentimentos comprovados, referentes a Jo
sefina ou aos generáis Desaix, morto em Marengo; Lassalle, morto
em Wagram; Cervoni, morto emJSckmühl; Bernadotte, que havia de
o atraicoar cruelmente. Muito se impressionou pelo íato de que, quando
se dirigía a cerimónia de sua coroacáo em 2 de dezembro de 1804, o
veículo de gala que o levava á catedral «Nbtre Dame» de Páris, deixou
cair a águia que o ornamentava; foi preciso mandar parar o coche
durante alguns instantes, a fim de o recolocar no lugar !...

2) Contudo o principal dos aspectos supersticiosos de Na


poleáo é a fé que §le dépositava na sua «estréla».

— 91 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964. qu. 6

Desde a adolescencia, falava constantemente da sua «es-


tréla», que lhe fascinava a imaginacao, dando-lhe inabalável con-
fianca no seu destino. Principalmente após o éxito da campanha
militar na Italia, Napoleáo se mostrou convicto de estar sob
invencível tutela:
«A minha estréla me manda empreender as maióres facanhas»,
declarava ele entao.

De outra feita, aíirmava :


«É preciso que cada um seja o homem do seu destino; quem se
senté chamado pelo destino, nao lhe pode resistir!»
Mais ainda:
«Eu via o mundo íugir debaixo de mim, como se eu fdsse arreba
tado nos ares».
Certo dia, o cardeal Fesch, seu tio, féz-lhe observacfies a respeito de
suas campanhas na Espanha. A guisa de resposta, Napoleáo levou-o a
urna janela, e perguntou-lhe (era meio-dta) :
«Vé aquela estréla?»
— Nao!
Pois, enquanto eu fór o único a ver tal estréla, prosseguirei
minha rota e nao tolerarei observagfies !»
Já corajoso por natureza, Napoleáo, estimulado por essa
crendice, ia até os extremos do destemor, chegando a expór a
vida nos combates militares.
Em Arcóle (Italia), um oficial teve que o arrancar á luta corpó a
eorpo, protestando: «Nao é éste o lugar de V. Majestade!»
No céreo de Jafa, o tenente Maignan teve que fazer o mesmo. Em
Essling e Wagram íoi também preciso arrebatá-lo ao fogo do combate.
Diante das frustradas tentativas de seus adversarios para
lhe truncar a carreira, tinha explicacáo pronta. Assim, por
exemplo:
«O miserável Saliceti quis prejudicar-me gravemente, mas a minha
estréla nao o permitiu!»
Quando em 1802 teve conhecimento da malograda conspiracáo de
Pichegru e Le Moreau, exclamou :
«Moreau metido em semelhante trama! Poder-se-ia imaginar ruina
mais desaceitada?! Nao sabia ele, o desgrasado, que tenho a minha
estréla?».
3) Por fim, a fé de Napoleáo nessa sua estréla parece
té-Io dotado de extraordinario poder de fascinagao, fascinagáo
exercida sobre todas as pessoas que ele desejava conquistar para
a sua causa. Pelo olhar, o sorriso, as palavras e os gestos, Napo
leáo atraía quase como um ímá, máxime quando quería alguma
coisa. O general russo Dragomiroff chegava a dizer que se tra-
tava de urna «faculdade diabólica».
Eis alguns dos tópicos mais salientes a tal propósito :
Quando Napoleáo íoi posto & frente da tropa expedicionaria da
Italia, reuniu os seus quatro principáis assessóres, entre os quais fi-

— 92 —
NAPOLEAO SUPERSTICIOSO

gurava Augereau, homem rude, que nao estava disposto a se deixar


dominar. A conversa se iniciou com assuntos levianos; Napoleáo'se
casara recentemente, e mostrou triunfante urna irnagem de sua esposa.
A seguir, comecou a lalar serio; mudou repentinamente o tom de voz,
tomou estatura aparentemente maior e deu ordens em tom seguro,
categórico que parecia nao admitir réplica. Ao sair jia sessSo, Au
gereau, que decidirá eventúalmente resistir, exclamou : «Nao posso
compreender o que me aconteceu; ésse jovem vulgar me amedrontou!»
Posteriormente, outro General, Vandamne, também de tempera
dura, exclamou: «Ele me faria passar pelo buraco de urna agulha
para me atirar no logo!»
Guando aos domingos dava audiencia no Palacio das Tulherias em
presenca de marechais e generáis, bastava que se anunciasse: «Eis o
Imperador (L'Empereur!)», para que muitos dos presentes empalide-
cessem e estremecessem. Principalmente as mulheres se atemorizavam;
ao regressarem á casa, prorrompiam em prantos!
Junto ás tropas, as alocugóes e exortacóes de Napoleáo fica-
ram sendo famosas, principalmente em vista dos efeitos prodi
giosos que elas nao raro desencadeavam; as suas mínimas su-
gestóes eram recebidas como ordens.
O soldado simples que fósse por ele interpelado, guardaya disto a
reminiscencia para o resto da vida; repetía entao prazenteiramente:
«file falou comigo!» A um d§sses homens, que se dava por profunda
mente feliz, perguntaram um dia :
«E que te disse ele?
— Disse-me: Marca o passo, 6 imbécil! >
Poder-se-ia imaginar mais precaria fonte de euforia?
Até o fim da vida, Napoleáo, tanto pelo contato" pessoal
como simplesmente pelo seu nome e a sua fama, exerceu ex
traordinario poder de atracáo. Mas — observa o historiador con
temporáneo — nao sonriente até o fim da vida. .; postenor-
mente, até a época atual, a figura de Napoleáo contmuou e con
tinua a empolgar muitos admiradores. Os grandes escritores do
secuto passado celebraram de algum modo a sua memoria; assim
Vítor Hugo Balzac, Byron, Chateaubriand, Thiers, Berenger...
Julga-se que um dos fatóres que mais contribuiram para a as-
censáo de Napoleáo m ao trono da Franga, foram as ressonan-
cias que seu nome provocava.

Concluí Jules Bertaut:


«O prestigioso nome de Napoleao I Bonaparte nao deixou de fas
cinar á distancia. É um ImS que guardou tdda a sua pujanca de atra-
cáo, urna lórca única ainda ativa apesar dos anos; o mago nada perdeu
do seu poder oculto».
Estranho fenómeno! Levando em conta a documentagáo
apresentada por Bertaut, deveremos dizer que a figura de Na
poleáo constituí eloqüente testemunho de um dos valores de base
ou essenciais da personalidade humana : o senso religioso. Ape-

— 93 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 7 e 8

ñas observaremos que a alma religiosa em Napoleáo nao tevé a


felicidade de ser levada ao seu termo normal ou a Deus cul-
tuado de maneira pura. Ela se diluiu, e de certo modo desfigu-
rou, na superstigáo,... na supersticáo que fazia o Imperador
crer em sua «estréla» ou, em última análise, crer no pró-
prio «Eu».
E parece que o apregoado poder fascinante ou mágico exer-
cido pelo nome de Napoleáo até nossos dias nao é, por sua vez,
senáo mais um testemunho da alma religiosa do homem de todos
os tempos, mesmo dos filhos de urna civilizágáo que julga poder
dispensar a Deus porque se tem na conta de auto-suficiente.
O próprio ateísmo é assim depoimento grandioso em favor
de Deus. O ateu, na medida mesma em que ele se expande espon
táneamente como ser humano, é fervoroso cultor de Deus sob a
forma de urna bagatela ou de um «anti-Deus»!

AGALIEME (Salvador) :

7) «Que é o Santo Graal?


Trata-se de lenda ou de realidade histórica ?
8) E os Cavaleiros 'da Mesa Redonda' constituiam urna
Ordem Religiosa ?»
1. É assaz incerta a arigem do nome «Graal».
Há quem o derive do hebraico goral = sorte ou pedra que serve
para tirar a sorte. Outros o deduzem do persa ghr-al = pedra de brilho
multicolor. ,
Mais provávelmente, o termo tem arigem ocidental: segundo bons
lingüistas, proviria do vocábulo latino gradalis = prato, ao passo que
outra opiniáo o deriva de gradatim = gradualmente.
Há também quem diga que «Santo Graal> vem de «sanguls rea-
lis» = sangue regio. Numa palavra, a controversia parece insolúvel e
de pouco alcance.
2. Em verdade, «Graal» designa um cálice lendário (ine
xistente, portanto, e apenas imaginario) do qual Jesús se terá
servido na última ceia e no qual José de Arimatéia haverá reco-
lhido o sangue do Salvador, quando Éste se achava pendente á
Cruz. O mesmo José de Arimatéia (ou o seu cunhado Bron)
terá levado essa taga para a Inglaterra, quando lá foi pregar
o Evangelho!
Tal lenda deve ter tido origem no inicio do séc. XII na
Espanha ou na Franga meridional. Inspirava-se em idéias cris
tas clássicas e idéias orientáis nao cristas (estas se explicam
por influencia dos cruzados e dos conhecimentos que os cru
zados traziam do Oriente para o Ocidente). Sem demora, a
lenda foi muito explorada pela literatura medieval; constituiu
a trama dos romances dos «Cavaleiros da Mesa Redonda» e

— 94 —
SANTO GRAAL E «MESA REDONDA»

do «Rei Ártur», e foi associada á figura de um herói chamado


Parsifal (oü Perceval).
No fim da Idade Media, os poetas alemáes decantavam a
eficacia maravilhosa do cálice do Santo Graal, apresentando-o
como portador, por excelencia, de purificacáo e redencáo a
quem déle participasse; comunicaría perpetua juventude e fe-
licidade, serviría de alimento e bebida ; só poderia ser avistado
pelos homens puros; seria a meta á qual deveriam tender as
pesquisas ansiosas e arduas dos cavaleiros medievais.
Eis duas das modalidades sob as quais a lenda do Santo Graal ioi
transmitida na Idade Media:
Quando o anjo mau Lucííero apostatou, perdeu a coroa de gloria,
assim como um brilhante de maravilhoso esplendor que cintilaya s6-
bre a sua testa. Ora táo preciosa pedra ficou em poder de S. Miguel
Arcanio ; mais tarde, os anjos no céu a utilizaram para fabricar o
Santo Graal, cálice do qual se serviram Jesús na última ceia e José
de Arimatéia ao pé da Cruz. Chelo do sangue do Senhor, o cálice foi
recolhido no céu pelos anjos até que estes o transmitissem aos homens
nos inicios da Idade Media.
Outra variante da lenda refere que o Santo Graal era simples-
mente urna pedra de esmeralda valiosíssima, a qual se achava guar-
dada em suntuoso templo no cume de montanha imacessível: o Mon-
salvato na Pérsia. Os anjos a, mais tarde, urna Ordem de Cavaleiros
Ihe montavam guarda constantemente. Todos os anos, na sexta-feira
santa os anjos suspendiam nos ares o Santo Graal e sdbre ele deposi-
tavam urna hostia consagrada pelo próprio Deus...
Estas narrativas, fantasistas como sao, nao merecem grande aten-
cao ; tém apenas o valor de foldore. E oportuno evitar que os fiéis,
principalmente os mais simples, alimentem sua curiosidade com tais
lendas. Nao há, pois. vamtagem alguma em envolver na catequese a
«historia do Santo Graal>.
Conforme alguns historiadores, a lenda do Graal, quando
comegou a ser propagada, devia servir para «demonstrar» que a
fé crista havia sido levada diretamente do Oriente para a Ingla
terra e as regióes da Europa Setentrional. — É bem possiyel
que a evarigelizagáo tenhá realmente seguido éste roteiro, pois,
como sabemos, no dia de Pentecostés havia em Jerusalém pe
regrinos das mais diversas regióes do mundo civilizado (cf.
At 1). Estes, ao regressar para suas térras, teráo levado con
sigo os primeiros gérmens da pregacáo evangélica. Assim, de
Jerusalém para a Inglaterra haverá passado a Boa Nova, pelo
ministerio de pregadores que nos sao hoje desconhecidos. — Esta
hipótese; plausível como é, nao acarreta conseqüéncias para a
constituigáo hierárquica da Igreja nem derroga ao primado de
Pedro e de Roma. Na verdade, o primado ¡nao se baseia na
hipótese de que o Ocidente haja sido evangelizado por missio-
nários romanos ; seu fundamento é mais profundo e remoto,
pois consiste ñas palavras que Cristo dirigiu a Sao Pedro em
Mt 16,16-18 (cf. «P.R.» 13/1959, qu. 2).

— 95 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 74/1964, qu. 7 e 8

3. Note-se que, independentemente da lenda do Santo


GraaJ, existe o «Movimento do Graal», que é urna organizagáo
de jovens e senhoras católicas, dotada de finalidades religiosas,
culturáis e assistenciais. Teve origem em 1928, quando o bispo
D. Aegenent de Haarlem (Holanda) confiou as Senhoras de
Nazaré o cuidado das jovens.católicas da sua diocese que nao
freqüentavam a escola. O novo objetivo de trabalho justificou
nova organizagáo das fórcas sob o nome de «Movimento do
Graal», o qual, a principio, se dedicou especialmente as mogas
que trabalhavam ñas fábricas, levando geralmente vida muito
alheia á Igreja. O Movimento do Graal se acha hoje espalhado
pela Holanda, a Bélgica, a Alemanha e outras partes do mundo,
tendo sua casa matriz em Haia na Holanda («Nationaal
Graalhuis»).
A denominacáo de tal entidade nao pretende dar foros de
verossimilhanga ou de historicidade á lenda do Graal.
No Brasil, o Movimento do Graal tem seu Secretariado
Nacional na cidade de Diadema, Est. de Sao Paulo, a 20 km
da capital de Sao Paulo na diregáo de S. Bernardo do Campo
(caixa postal n' 19). — Dados os beneficios que realiza o Graal
entre nos, muito se recomenda as pessoas interessadas pro- .
curem tomar cojihecimento de tal organizagáo.
4. Quanto aos «Cavaleiros da Mesa Redonda», sao heróis
de novelas que se originaran! na Franca em fins do séc. XII.
Essas narrativas nada tém de histórico; estáo associadas á
figura lendária do «Rei Artur». A designagáo de tais cavaleiros
se deve ao privilegio que tinham, de se sentar á mesa mesma
(célebre mesa redonda) do Rei Artur, em sinal de paridade ou
de carencia de distLngóes hierárquicas; em torno da mesa, Sua
Majestade com prazer os ouvia contar suas faganhas maravi-
lhosas Refere o romance «Demanda do Santo Graal» que, certa
vez enquanto os cavaleiros da Mesa Redonda estavam a se
entreter com o Rei, lhes apareceu o cálice do Graal em clarao
misterioso, distribuindo aos convivas preciosos manjares.
Éste e semelhantes relatos merecem aten^áo únicamente
na medida em que sao pegas literarias, cheias de encanto
medieval. D. Estévao Bettencourt O.S.B.

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