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editora subta

Tesouras para Todas
textos sobre violência machista nos movimentos sociais

edição espanhola - 2009 edição brasileira - 2013

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............................................................17 Por que falamos de sexismo em espaços libertários...............................1 Por que temos sempre a sensação de que partimos do zero...41 Sobre gênero e caras “do rolê” (ou de como estamos com a merda até o pescoço)......................................................................................................5 O Feminismo não é “um assunto de mulheres”.........Índice Prólogo à segunda edição...........................51 ..............37 Geometria.....................................................................7 Rompendo imaginários: maltratadores politicamente corretos............................................ ideologia e geografia das relações de confiança.......................

.............................. espaços com cuidado.....................................................93 Os espaços “libertários” não estão isentos de agressões............................................69 Carta por um debate sobre agressões sexistas........................................................................117 Breve história dos objetos cotidianos.......87 Agressão é quando me sinto agredida/o..................................................................99 A autodefesa de e para mulheres é uma resposta à violência de gênero........111 Este escrito não faz parte de uma campanha pedagógica........................................................................................Quem teme aos processos coletivos? Notas Críticas sobre a gestão da violência de gênero nos movimentos sociais....107 Sobre a ação direta feminista.......................................95 No meio libertário.....57 Espaços okupados......................................................................................123 ........................103 Comunicado das Anacondas Subversivas...................79 A opressão “ao contrário”.........................

Queremos reconhecer o valor desse grande trabalho e dar todo nosso apoio às mulheres que denunciaram agressões. mulheres denunciaram agressões e enfrentaram duros processos. dentro de coletivos. Surgiram novos grupos feministas. em março de 2009.E. 1 1 . tornou visíveis questões anteriormente esquecidas ou guardadas na gaveta. de forma que já não é tão fácil evitar um envolvimento ou desviar o olhar para outro lado. houve solidariedade. reflexões pessoais. o debate sobre a violência machista que vivemos em espaços próximos foi colocado na mesa. Esta reativação do debate em torno do feminismo. da violência machista e das estratégias de atuação. foram editados materiais. protocolos de ação. da auto-organização de mulheres. foram levantados debates em centros sociais. em associações de bairro. N. que foi base para essa edição brasileira. Durante esse tempo. Algum@s tocaram nesse tema pela 1 A primeira edição original foi lançada em novembro de 2007 e a segunda.Prólogo à segunda edição Já se passaram quase dois anos desde que saiu a recompilação de textos "Tesouras para todas" que você tem em suas mãos . e foram dadas diferentes respostas a agressões concretas.

debate ao qual pretende contribuir o “Tesouras Para Todas”. e que nos atravessa. numerosos coletivos e pessoas a utilizaram e continuam pedindo-a. nunca é demais ter uma caixa de ferramentas ao alcance da mão. estrutural. Assim. momentos e lugares diversos. ressurgiram olhares e diferenças. e umas pobres mulheres vítimas que necessitam 2 . Mantivemos todos os textos. e a reduz a uma questão de alguns homens doentes e machistas. outr@s se entrincheiraram em velhos privilégios e posturas rígidas para que nada mude. outr@s continuaram crescendo em diferentes direções. Ademais. já não partimos do zero. Essa visão compartilhada se opõe à imagem comum que assinala as consequências mais brutais da violência. para dessa maneira melhorar a discreta difusão que fizemos da anterior. para afrontar agressões na política. multicausal. dois anos depois. Os conflitos gerados possibilitaram que o debate avançasse. Decidimos reeditar este material porque. vozes variadas segundo perspectivas diferentes.primeira vez. momentos difíceis. mas que compartilham um fio condutor comum: o olhar sobre a violência contra as mulheres como um problema cotidiano. abriram-se caminhos. houve rupturas. de forma que consideramos que “Tesouras Para Todas” continua sendo raivosamente atual. mas também afinidade e respeito. E assim. essa tiragem pretende ser maior. para lutar contra a violência machista e fazer do antissexismo uma realidade.

3 . por um lado. a fronteira dentro-fora é fictícia e as dinâmicas não se diferenciam do exterior. e ao fato de que não aponta a direção da violência. quando falamos de violência machista. devido à despolitização e o uso institucional que se faz do primeiro. Afinal de contas. e sobretudo porque partem de uma vontade transformadora que é à que nós apelamos. 'violência de gênero' por 'violência machista'. de onde vem e quem a recebe. Contudo. apesar de que. Esta é uma chamada à auto-organização de mulheres. para que continuemos criando iniciativas e lutando contra a violência machista. Por outro lado. aos grupos mistos que desejam crescer nesse sentido.ser protegidas. mantivemos o termo 'movimentos sociais'. nem da sociedade em geral. Substituímos. a violência é a mesma. à solidariedade. Com respeito ao título. continuamos nos referindo aos movimentos sociais. Por último. introduzimos uma mudança no subtítulo "Textos sobre violência de gênero nos movimentos sociais". onde nos situamos. a maioria dos textos coincide também em apontar o feminismo e a ação direta feminista como resposta-chave. porque englobam diferentes realidades com certos códigos compartilhados que permitem nos entendermos. à ação.

dor de cabeça.O “Tesouras Para Todas” volta a sair para ser de novo convite. argumento. 4 . arma lançada. objeto cotidiano e. chave inglesa. para acabar de vez com a indiferença. sobretudo. reflexão.

. avançou-se muito pouco na hora de levá-lo à prática. coletivos mistos e indivídu@s elaboraram nos últimos anos a partir de textos que falam de agressões concretas. fora da agenda ou de prioridade política. Esta recompilação de textos surge porque estamos fartas da sensação de que sempre partimos do zero. Que no momento em que emerge a denúncia por parte de mulheres 5 . como se nunca tivesse sido feito um trabalho nesse sentido.. politizar as agressões. Em contrapartida. muitas de nós mulheres não só continuamos caminhando como também estamos cansadas de repetir sempre o mesmo. propostas de debate e que se referem diretamente a nossos espaços políticos próximos.Por que temos sempre a sensação de que partimos do zero “Tesouras para Todas” quer recolher a memória coletiva que diferentes grupos feministas. Não somos as primeiras.. E na verdade é que apesar de sim.. ter posicionamentos coletivos e ações de resposta. nem seremos as últimas. Queremos denunciar que o trabalho sobre agressões sexistas leva muito tempo aos movimentos sociais. deste trabalho ter sido feito por muitas e por alguns.

fazem com que se perca a possibilidade e a vontade de um trabalho político sobre as agressões machistas. sem que precisemos estar sempre presentes para visibilizá-la. os mecanismos de resistência. propor. uma arma lançada para a reflexão.. e que ninguém espere ser iluminado porque não queremos assumir o papel de educadoras. assinalar. nos alfineta e nos atravessa.que foram parte dos coletivos. o debate e a ação contra as agressões. É preciso encorajar as mulheres a denunciar. ações e reações. os primeiros textos nos dão o contexto ao qual nos referimos – violência nos movimentos sociais – o segundo grupo são textos que foram escritos como resposta a agressões concretas e o último grupo são propostas de ação direta feminista. justificar.. minimização ou o 'olhar o dedo ao invés de onde ele aponta'. “Tesouras para Todas” é uma ferramenta coletiva. atuar. a violência machista nos tira a vontade de explicações minuciosas ao mesmo tempo em que aumenta o desejo de que exista solidariedade. responder e os grupos a autogestionarem a desconstrução do imaginário sexista que nos toca. escrever. Já chega de explicar. Este dossiê é um convite para a ação e para isso o estruturamos em três momentos diferentes. Saudações e tesouras para todas! 6 .

O Feminismo não é “um assunto de mulheres”2 Nenhuma opção é neutra. a determinação de suas estratégias políticas. sejam decididas pelas pessoas que estão sujeitas a essas relações de opressão-dominação-exploração. etnia. publicado em Alasbarricadas. mas tratando-se princi2 Texto escrito por Susana (mantisafu@yahoo. as mulheres. Uma das premissas básicas da luta feminista. Se trata da fixação dos papéis na relação clássica de dominação que se estabelece entre “amo-escravo”.org 7 . o silêncio é cúmplice dos privilégios de poucas pessoas.. inócua. no caso do feminismo. Não basta uma certa “aceitação” crescente a respeito de outras práticas não heterossexuais. classe social. a liberdade física. opção sexual.) é a defesa de que a concretização dos seus interesses. da mesma forma que outras lutas que se organizam a partir das necessidades de um grupo oprimido por conta de alguma de suas características (cor da pele.. situação legal no que diz respeito à regulamentação de imigração.es). onde a masculinidade (encarnada por homens de carne e osso ao longo de toda a história. sexo. devemos desmontar toda essa cultura e simbologia reinante patriarcal (e heterossexista). o trabalho. idade.

formalizando assim a “objetificação” das mulheres no nascimento da cultura ocidental. 1949. em 3 Lévi-Strauss define o momento inaugural da cultura com a aparição e gestação da linguagem simbólica embasada no intercâmbio de mulheres como objetos entre os homens de distintas tribosfamílias (parentesco). Em vez de criar redes onde a comunicação flua de maneira transparente e sem obstáculos e se produzam transferências de conhecimento horizontalmente. Quem não respeitaria o fato de que as pessoas negras quiseram se autoorganizar para combater o racismo perante o ocorrido em Nova Orleans? Isso já não é somente assombroso. pior ainda. As estruturas elementares de parentesco. de um arquétipo viril de dominação que pode adotar qualquer pessoa elegendo algum traço desse modelo) é a construção dominante e a mulher é “o outro”. hoje essa explicação básica da necessidade de auto-organização por parte das pessoas oprimidas nessa relação dialética de poder é difícil de ser compreendida e respeitada por parte de muitos homens e mulheres companheiras em outras lutas. mas também (e mais profundamente) significante.palmente de um modelo. N.A. esta total falta de respeito é o que vemos acontecer a muitas de nós mulheres que apostamos em espaços-grupos-momentos não mistos. Esta incompreensão e. nos dedicamos a fazer política de “mercado”. 8 3 . Lévi-Strauss. o negado e excluído de toda uma economia não só material. cultural e simbólica . Entretanto. mas um grande incômodo.

sem darmos a mínima para a criação de debates produtivos e enriquecedores para todas. Por outro lado. perpetuam a dominação patriarcal. por sua vez. abordando tanto as diferenças quanto as divergências. é um problema que atinge a todas (todas nos socializamos como homens ou como mulheres) e que. Portanto. seremos capazes de transformar (ou destruir) esse sistema se cada uma for tomando consciência dos mecanismos que tem operado para conformar nossa feminilidade-masculidade que. outra obviedade a que facilmente se pode chegar uma pessoa esclarecida e esperta (isso é diretamente proporcional ao interesse que cada uma dá). os homens – e deixar de trivializar a magnitude dessa tarefa com o gesto fácil de “eu já refleti o bastante sobre o assunto”. As possíveis alianças 9 . em que criticamos as pessoas pelas costas.que a pessoa que mais grita vence. é que o sistema encarregado principalmente de produzir e manter a hierarquia desigual entre os gêneros (relação de dominação que está extensamente explicada e documentada em múltiplos documentos e inteiramente disponível a qualquer pessoa que demonstre algum interesse). portanto. isto é. é preciso fazer uma análise da especificidade do papel masculino para que seja desmontado por seus protagonistas que “inconscientemente” o reproduzem dia após dia – ou seja. o PATRIARCADO. ou através do diálogo de bar.

ampliando-se agora essa estrutura a uniões de pessoas do mesmo sexo. e é o que nos permite ir criando redes de comunicação e de apoio para lutar contra o patriarcado sujo.. E não estamos falando de práticas sexuais concretas. tanto individualmente como em revoltas. de acesso sexual (econômico. No caso das mulheres.virão desse empenho e trabalho coletivo. fato que responde mais à flexibilidade do sistema para assimilar as novas necessidades – ou possíveis subversões – que mudanças profundas). e que não está em absoluto a favor de nossos interesses (como sujeitos autônomos). é o adestramento para erotizar esse jogo perverso de dominação masculina. mas da heterossexualidade como instituição política e social que estrutura a sociedade (em uniões de casal monogâmico.. família. Desmascarar os mecanismos que operam tanto individual como socialmente é 10 . A feminilidade e a masculinidade se constroem para ser papéis complementários e necessários. e o mito do amor romântico e verdadeiro se apropria e regula os únicos códigos eróticos e sexuais aceitos. A heterossexualidade normativa é o produto ótimo da obrigação de ser “verdadeiramente” um homem ou uma mulher. representa a forma em que chegamos a desejar a dominação masculina. social) dos homens às mulheres. tal e como hoje a conhecemos. propriedade privada. a feminilidade.

e neste assunto o trabalho continua infinito. à margem de nossas opções sexuais temporais concretas. continuará existindo o “fora” para as deserdadas dos privilégios lesbo-homo-transfobos e estaremos condenadas a ser o “anormal”. só se modificarão para ser mais eficazes. as estruturas profundas do patriarcado não mudarão. o silêncio sempre é cúmplice dos privilégios.uma tarefa de todas. de umas poucas. pois enquanto a (hetero)sexualidade continue sendo assumida acriticamente como “ normalidade”. nos jogamos a uma ati11 . mas do exercício de explodir os lugares “seguros” e “normais”. dinamitar essas construções sociais que nos estruturam em normais-anormais. É claro.. repito. o outro. mas o que devemos é desmontar toda a cultura e simbologia reinante patriarcal (e heterossexista). Nenhuma opção foi neutra. pois não se trata de desenvolver tolerância perante o diferente. mulher-homem.. feminino-masculino. inócua. heterossexuais-lésbicas..homossexuais. o estranho.. Não basta certa “aceitação” crescente a respeito de outras práticas não heterossexuais. esse sistema de opressão específico para as mulheres como grupo oprimido não define nossa posição de sujeitos em luta a partir de um vitimismo passivo e chorão (mesmo que não nos sobrem razões para chorar) mas a partir do exercício de consciência de nossa realidade psicossocial como “mulheres”.

os povos a que pertencemos. através da escuta e do apoio mútuo. onde além da divisão entre feminilidade-masculinidade. a cor da pele. podendo chamar a esse sistema “hetero-patriarcado-capitalismo”. Mas o que realmente me preocupa (e a razão principal desse texto) é a ausência “misteriosa” de responsabilidade individual (e também coletiva) na hora de enfrentarmos o exercício de tornar conscientes esses processos de socialização que desde criança fazemos segundo o individualismo egoísta.. onde articulamos as estratégias de luta a partir de nossas subjetividades. do respeito à outra e aos processos das demais. também operam outros eixos de poder como são a classe social. o erotismo. a sexualidade. o consumismo compulsivo. a opção sexual. também nos educamos segundo a feminilidade e a masculinidade. Além disso é preciso dizer que esse processo de autocrítica consciente se realiza através da alegria de nos sentirmos mais donas de nós mesmas. não se trata de negar o desejo. mas essas construções. e não através do sacrifício e. como dirão.vidade criadora. Não era a não separação entre vida e política o que caracterizava os movimentos autônomos? Não são as 12 . deixamos passar como “naturais” ou “normais” e não as questionamos em absoluto (da mesma maneira que acontece com a “naturalidade” da heterossexualidade). a competitividade e luta por poder. carregadas de interesses ideológicos..

O caráter subversivo deste prazer em politizar o cotidiano em nossas vidas.? Não criticamos sem parar a política do “tempo livre” depois do trabalho e atenções familiares. o trabalho assalariado e escravizante. com a conformação dos corpos. sobretudo na luta feminista e no trabalho de alguns grupos de mulheres. em falar e em revelar o universo do “pessoal”. que não leva em conta os processos concretos e materiais que operam em nossas existências? É a partir do prazer em revolucionar os microelementos que ordenam a vida existente que as feministas (já pelos anos 70) apostam em cheio naquilo de “o pessoal é político”: recobrar a materialidade da política para pensála como um contínuo de elementos que têm um papel importante na própria vida. tanto o sistema sexo/gênero/desejo como o imaginário social. novas maneiras de afrontar o consumo.. O que há de mal nisso? O trabalho é e tem sido. Daí o empenho por pensar questões que geralmente passavam batidas e que têm a ver com a educação.. a indústria da cultura totalizadora e homogenizante. com a sexualidade. 13 . a geração de pensamento crítico e de novos modos de vida. de novas estratégias de luta e denúncia. o fazer consciente. de novas formas de socializarmos.okupas e outros espaços coletivos uma aposta pela experimentação. muitas vezes é depreciado por certas leituras que o relegavam à mística da feminilidade. com o cuidado. entre outras coisas. a sustentabilidade da vida. em nossas vidas. com o próprio ócio.

os comportamentos cotidianos. a linguagem ou as relações afetivas e deslocando em muitas ocasiões as propostas feministas para o terrível formato tipo “a questão da mulher” ou “o tema da mulher”. a educação. Quem disse que o feminismo já não tem vigência. o empenho em transformar toda política que não levasse em conta a condição transversal de questões como a sexualidade. que sua luta está passada? Nesses tempos de crise das antigas estratégias dos movimentos sociais frente às incessantes transformações de nossas sociedades pós-industriais e globalizantes.de maneira coletiva. revelar os desejos e temores que surgiram dela. das estruturas sociais e psicológicas que nos conformaram na feminilidade. os papéis sociais. Com o gesto altivo do “tô me lixando”. e ante a dificuldade que nos apresenta uma ruptura com certa “moralidade antagonista” que parece situar-nos 14 . Sintoma claro que se deixou de levar a sério o trabalho feminista (se é que alguma vez chegou a ser considerado realmente). incomunicações ou “sombras” tem levado a uma desvalorização do que o feminismo estava produzindo no que diz respeito à forma de entender a política em outros espaços. por tabela se deprecia o potencial subversivo de questionar quais são os mecanismos de produção do desejo e quais são as possíveis transformações coletivas do mesmo. Essas incompreensões.

se não queremos nos envolver em projetos coletivos que questionem esse sistema em qualquer de suas produções. A LUTA CONTINUA!!! 15 . do prazer e do desejo coletivo.sempre fora e contra tudo (o famoso gueto alternativo e autorreferencial e autocomplacente. com suas normas do que é bom e do que é ruim) e a criação de projetos e modos de vida em luta que estejam mais próximos das dinâmicas de ação-reação ou ataque-resposta. em qualquer de suas manifestações. O FEMINISMO VIVE.. Sendo sinceras.. Nenhuma luta é mais importante que outra. porque certas atitudes de desprezo (já não só de incompreensão) são totalmente reacionárias porque tentam boicotar qualquer tentativa de resposta ou atitude transformadora que questione esse sistema. pelo menos deixemos de atirar pedras umas às outras e aprendamos a nos respeitar de verdade e de uma vez. acabemos com o mito da hierarquia de lutas que continua a reproduzir a divisão entre o público e o privado. não devem acabar com o empenho subversivo por transformar nossas vidas através da alegria. e aí é onde penso que o trabalho feminista continua sendo uma ferramenta valiosíssima e nada depreciável para nos entendermos um pouco mais e entendermos este mundo-prisão altamente tecnificado e dinâmico em que (sobre)vivemos. dando muitas vezes prioridade ao urgente em lugar do importante.

16 .

poderiam se considerar parcialmente responsáveis de seus próprios maus-tratos (San Martín. toscos. manter esta caracterização do maltratador nas análises teóricas ou políticas é mal visto e pode ser lido como sinônimo de ignorância e atraso cultural. 17 . em geral. Sendo assim. fracassados e/ou que receberam maus-tratos quando crianças: sujeitos mais além da bempensante normalidade. esta imagem segue 4 Texto escrito por Barbara Biglia e Conchi San Martín e publicado originalmente em "Estado de Wonderber". neste volume). transtornados.Entretecendo narrações feministas sobre as violências de gênero. Vírus ed. portanto. neste volume) conseguiram. ignorantes. hoje em dia. com problemas de drogas ou álcool. de baixo nível educativo. Graças a isso. O trabalho de associações de ajuda mútua e de grupos feministas de diferentes partes do planeta (Soriano. violentos. Tamaia. as mulheres que iniciam uma relação com eles deveriam saber ou pelo menos intuir o que vão ter que aguentar e. sem habilidades sociais. desmascarar esta visão. No entanto.Rompendo imaginários: maltratadores politicamente corretos4 O imaginário criado em torno dos maltratadores se constitui como um mito que os mostra como seres irascíveis.

neste volume) quase sempre é acompanhada de declarações de vizinhos que oferecem uma mesma visão: nada podia suspeitar do agressor. A incredulidade e surpresa destas declarações mostra como. quando descobrimos que alguém conhecido e respeitado maltratou sua companheira. respeitável. mesmo que as investigações tenham demonstrado com clareza que não existem padrões que unificam os maltratadores. desdes os âmbitos politizados. sejam partidos ou grupos de esquerda ou movimentos sociais (MS). ficou doente.. inexplicavelmente. trabalhadora. desencadeou a ira ou não soube prever a reação.. A apresentação das notícias de maus-tratos pelos meios de comunicação (Nadale e Gordo López. educada. por exemplo.persistindo. quase instantaneamente nos surge a necessidade de justificar. no dia a dia resistimos em acreditar na realidade e mantemos o imaginário do monstro e da mulher desamparada. de nos tranquilizarmos pensando que foi talvez um lapso de loucura o que pode tê-lo levado a perder o controle.. explicar. simpática.. aparece outro imaginário muito pouco 18 . de alguma forma. e toda uma grande série de epítetos para definir um sujeito "perfeitamente normal" que. que a agredida.. Contemporaneamente. constituindo-se numa realidade que circula no cotidiano. Isto faz com que. pois se tratava de uma pessoa agradável.

em âmbitos ativistas e/ou de extrema esquerda. no tempo da ditadura aqui no Chi19 . além disso. 2005).analisado: acreditar que no fundo os maltratadores são uns reacionários e suas companheiras mulheres fracas e sem apoio social. nos sintamos de algum modo imunes ou protegidas. 2005). Alfama. nos quais a igualdade de gênero é teoricamente desejada e levada à prática (sobre a persistência das discriminações nestes âmbitos: Biglia. Infelizmente. Isso quer dizer que. Miró.9% de ativistas de movimentos sociais que responderam um questionário em rede afirmavam que nos espaços do movimento se verificam episódios de abuso (de forma não isolada ou em situações de bebedeira) e outro 26.4% afirmava que situações deste tipo se produzem em casos isolados ou por parte de gente de um entorno maior (Biglia. Outra confirmação encontramos na declaração de ativistas chilenas que denunciam como alguns companheiros da guerrilha antipinochetista descarregam hoje sua agressividade martirizando suas companheiras: “Creio que o homem no tempo da ditadura foi sumamente combativo e que durante a ditadura o problema era Pinochet e todo seu aparato repressivo. de anos de debates em coletivos de feministas autônomas de diferentes partes do mundo. 2003. assim como de conversas e encontros informais com amigas/ativistas. Também apontam nesse sentido as informações recolhidas na tese de Barbara: 17. a raiz de nossa experiência pessoal. nos deparamos com a falsidade completa deste mito.

Acreditamos que os motivos que levam alguns ativistas a ser violentos com suas companheiras são os mesmos que se dão em outros âmbitos. sabe. N.A. como que o único problema era Pinochet e o produto de Pinochet era a pobreza. e com frequência impunemente. abusa sexualmente dos filhos.” 5 Os exemplos poderiam ser muitos e todos tristemente idênticos entre si. as demissões (ainda que não se falasse) e este tipo de coisas. Como sublinha num comunicado a Assemblea delle Compane Femministe di Roma (2000) em resposta a um abuso sexual e que. 20 . é responsabilidade de todas nós. O que sim podemos começar a investigar são as características peculiares de implementação e justificação destas situações. 5 Este depoimento foi recolhido na fase empírica da tese de doutorado de Biglia (2005). como não havia outros problemas. E chega a democracia e tu te dás conta de que um excelente dirigente é uma merda em sua casa. poderia facilmente ser ampliado a qualquer situação de violência de gênero e/ou abuso -: “Não apenas é cúmplice quem defende explicitamente o violador como também quem. a nosso ver.le. assim que não nos interessa de modo particular o que passa na cabeça destes "supermilitantes" maltratadores nem tampouco como podem viver em contradição com uma atitude pública perfeitamente politicamente correta e uma realidade de violência privada impressionante. bate na sua mulher. pois acreditamos que a possibilidade de que estas ações continuem.

cria um clima no qual os violadores seguem mantendo a liberdade de transitarem tranquilos pela cidade.. contra as discriminações e violências de gênero se considere na agenda dos movimentos sociais como elemento político importante. todavia. como diz Micaela (Espanha) : “quando tem um coletivo de mulheres [. Neste contexto.homem ou mulher. 21 6 . adquirem um valor subsidiário frente à política dos espaços públicos. a segunda afirmação resulta particularmente relevante enquanto mostra como.] tudo o que tem a ver com o sexismo se deixa nas mãos do coletivo [.. deslegitimando a palavra das mulheres. particularmente sensível. as dinâmicas nas quais a violação ocorreu.] e o resto do mundo não tem que se preocupar com nada porque elas já o fa6 Idem.. Ao se situar ou serem situadas no supostamente privado das relações. Cúmplice é também quem transforma a violação ocorrida atrás dos muros domésticos em uma simples "falta de tato" de um homem sobre uma mulher. fomentando dúvidas. a ser tratado pelas "feministas". os lugares. na teoria e na prática. espalhando vozes.” Cúmplice é também quem. custa enormemente que a luta. na regra de um âmbito privado onde qualquer limite está suspenso. deixa intactas e inalteradas as condições. como muitos. em nome da "razão do Estado" e da prioridade da política. Um elemento..

quais são as dinâmicas e processos que permitem impunemente manter uma dupla faceta de encantadores e maltratadores?. claro. nos interessa começar a pensar. e o resto das coisas. então.” Portanto. mas com a esperança de que estas simples reflexões sirvam de estímulo para o debate e como primeiro ponto de apoio para companheiras que estejam passando por esta experiência.rão. por que se elas começam a falar são poucas as que estão dispostas a escutá-las e acreditá-las? Escrevemos este texto sabendo das críticas e polêmicas que virão consigo. estas questões: por que é tão complicado darmo-nos conta dos maus-tratos que ocorrem ao nosso redor?. sem ânimo de respondê-las de maneira definitiva. ficam como antes. 22 . 'porque meu movimento também é feminista porque tem umas aqui para mostrá-la quando for preciso'. assim. Então para as pessoas que se importam pouco com isso de sexismo e feminismo [. Dedicamos. àquelas que ainda não conseguiram encontrar forças suficientes e apoio para fazê-lo. estas linhas a todas aquelas que conseguiram sair de situações de violência de gênero. a todas as que as ajudaram e. por que as mulheres feministas não são capazes de deixar estes caras e mostrar às demais a realidade de sua vida privada?..] lhes convêm muito bem porque seu movimento tem uma imagem..

como diz Silvia (Itália) . a capacidade de esconder todas as suas possíveis contradições. uma forte capacidade de convicção. 2001). dotes organizativos e de mando. Mesmo que "este modelo" tenha atitudes mais sofisticadas. sobretudo. 23 7 . 2004 Em primeiro lugar. Suas características seriam a força. Brah. Por outro lado. queremos remarcar como.O mito do macho e a coerção de grupo [Como poderia um movimento?] "Mobilizar-se como uma força política transformadora se não começa interrogando-se sobre os valores e as normas internamente assumidas que podem legitimar a dominação e a desigualdade neutralizando "diferenças" particulares?" A. encontramos o tipo intelectual. desafortunadamente. a ousadia e. ainda em muitos ambientes de ativismo o imaginário do "bom militante" toma um caráter quase caricaturesco em algumas figuras prototípicas (Subbuswamy y Patel. a intrepidez. De uma parte. ele continua mantendo dotes de masculinidade clássica (Jorquera. 2000). que se mostra como alguém com uma boa bagagem de conhecimentos teóricos (ou pelo menos com facilidade para aparentá-los). uma tendência à liderança. temos uma representação extremamente parecida com a que dão os meios de comunicação: "homem jovem branco com capuz negro com propensão à violência" (Alldred. a decisão. 7 Idem.

org). poderíamos dizer que enquanto os primeiros se aproximam mais da ideia normativizada de masculinidade de classe social baixa. Por outra parte. mais refinados porém não menos perigosos em suas atitudes machistas. 2005). Ao nosso entender.avf. os grupos ativistas estão e/ou se sentem frequentemente ameaçados pelo que vem de fora e como estratégia de defesa tendem a buscar uma coesão interna 24 . contra um professor universitário pró-feminista que segue exercendo sem problemas. Mas tem mais. com a criação de relações de dependência. a assunção de ambos os papéis marcados nos canais da masculinidade normativizada pode desembocar em situações de maus-tratos. por exemplo. As situações de maus-tratos podem ser de difícil reconhecimento quando seu "protagonista" não corresponde ao imaginário do maltratador. com surras ou tentativas de violações (ou adulações) ocasionais ou contínuas.neste volume). inferiorizando as companheiras e "fazendo-as crer" que sem eles elas não são absolutamente ninguém (para um depoimento neste sentido: Nopper. em sua vertente física ou mais intelectualizada. De maneira "invisível". nos mostra a campanha por parte da Association contre les Violences faites aux Femmes au Travail (www. apesar de várias denúncias de abuso a suas alunas e colaboradoras. estes últimos seriam mais parecidos aos machos aristocratas. assim. De maneira física.

por uma identificação identitária e uma redução das possibilidades de colocar em dúvida qualquer dinâmica interna de discriminação (Apfelbaum. neste volume). para acusar (expressamente ou de maneira latente) de conivência com o sistema repressor àquelas mulheres que não queiram lhes prestar estes serviços. o vergonhoso desenlace em torno do homicídio de Hélène Legotien por parte de Althusser (Rendueles. se queixem dos maus tratos ou tentem denunciar a situação. Provavelmente a este tipo de lógica responde. para reivindicar/exigir um cuidado onicompreensivo (já que põe tanto de si na luta necessitam o "descanso do guerreiro") ou. 25 . ou do estresse de sua posição de superherói. Elementos utilizados para justificar seus ataques. finalmente.que passa. etc. que recebeu (como no caso dos ativistas chilenos citados anteriormente) ou poderia receber. 1989. Biglia. 2003). Nessas circunstâncias pode ser que haja resistências a reconhecer a existência de maus-tratos por parte de um ativista enquanto ele poderia converter o grupo minorizado em alvo de críticas de outros espaços externos. pelo menos em parte. o maltratador pode se amparar e se justificar em nome do perigo (real ou imaginário) que acarreta seu ativismo. com demasiada frequência. da repressão que está recebendo. Finalmente.

. “Conseguia que qualquer crítica interna se convertesse em um ataque à causa. Esta pessoa se dedicava a atacar. menos heroico. sempre menos valente. sempre mais frágil. então. Quem acreditaria (entre elas. mas como questionar aquele que constantemente nos demonstrava que se deixava a pele no intento. com essa técnica de atacar sem que o pareça às mulheres. com carisma. sedutor. 26 . a "graça" estava em que chegava a se sentir assim. deixa clara a dificuldade de reconhecer estas dinâmicas a partir de sua experiência como mulher maltratada e como ativista no mesmo grupo no qual estava o casal: teve uma longa relação de maus-tratos com um militante heroico. e as mulheres que se atreveram a isto são silenciadas..Digamos que o maltratador encontra razões para suas justificações. coletado pelas autoras em uma conversa privada com uma companheira e amiga (2005). Devolvia. mais egoísta. criticar um "bom companheiro" tem com frequência a contrapartida de receber a acusação de estar fazendo o jogo do sistema e de não entender que existem problemáticas mais importantes a enfrentar. na luta? como questionar aquele que parecia ter a experiência e a lucidez como para guiar o resto? Assim se dava a mudança mortal: aquele que criticava era culpado. eu mesma) que essa pessoa fosse um maltratador?” Assim. escarnecidas. mas o que ocorre com o entorno? Como se percebem estas dinâmicas? Este testemunho. menos comprometido. o questionamento ao outro.

a resposta generalizada foi de forte ceticismo. por exemplo. um reconhecido ativista. Mas parece-nos que talvez as precauções para o "suposto maltratador" são desmesuradas em comparação com outras situações. especialmente quando conhecemos as pessoas implicadas em uma situação deste tipo. Há poucos anos presenciamos um caso deste tipo na Catalunha. mantenhamos uma certa precaução antes de formarmos uma ideia precisa sobre os fatos. de solidão e de raiva ao ver como as pessoas com as quais haviam compartilhado anos de militância antifascista. podiam se mostrar tão fechadas e inflexíveis quando os discriminadores eram seus próprios amigos. Dentro do movimento criaram-se dois blocos de enfrentamento (aqueles que acreditavam nela e apoiavam-na. anticapitalista. e talvez pior: algumas das pessoas se posicionaram somente por aquilo que tinham ouvido dizer ou por proximidade política com o/a ativista em questão. É óbvio que. comentavam a sensação de tristeza. Quando uma ativista explicou sua situação de maus-tratos por parte de seu companheiro. e aqueles que acreditava nele e apoiavam-no). etc. quando não ameaçadas . De fato.e acusadas de serem cúmplices dos adversários políticos.ignoradas. nada colocará em dúvida que isto ocorreu e a pessoa 27 . Falando com algumas das mulheres que apoiaram a ativista "denunciante". excluídas.. autogestionada. no caso de que alguém torne público ter recebido uma surra por parte de outros por divergências políticas.

as palavras das companheiras têm menos credibilidade que as dos companheiros. nem justifica porque o golpe recebido deve ser considerado violento. mas que a proteção do "nós" ainda é muito forte. em obrigar um companheiro que foi torturado e/ou violado por algum organismo repressor a contar com todos os detalhes do ocorrido na frente de todos os grupos que pedem uma participação numa campanha de denúncia-solidariedade. por exemplo. melhor. viria aqui ao coletivo para explicar exatamente o que passou. Ao contrário. a segunda. Com frequência. e a terceira. ouvimos comentários do tipo "se fosse verdade e ela não tivesse nada para esconder. todavia. que. que é fácil reconhecer os erros dos "inimigos". Esta dupla moral faz supor três coisas: a primeira. Ninguém pensaria.não precisará explicar milhares de vezes todas as particularidades do evento numa sequência correta e precisa. por exemplo. nos detalha Rendueles neste mesmo volume). assim com a confrontação saberíamos quem tem razão". que os maus-tratos ainda 28 . que mostram uma clara insensibilidade pelas dolorosas dinâmicas dos maus-tratos e as dificuldades de superá-las. poderiam vir os dois. no caso em que uma ativista seja maltratada por um ativista se desenvolve um fenômeno curioso: a mulher que se atreve a "denunciar publicamente" antes de poder "demonstrar a culpabilidade" da outra pessoa deve primeiro defender-se da acusação mentirosa. rancorosa e histérica (e ainda assim nem sempre funciona como.

. a situação se complica ainda mais. são as recomendações por parte da rede de ativistas People Global Action Europe (PGA. uma tentativa de encarar esta problemática.. Quando. contra a violência do momento e contra a dos momentos posteriores.são percebidos como uma experiência pessoal nos espaços privados e não como parte de um processo político.] Primeiro. Assim.] e não ter medo do intercâmbio e do fantasma da chacota (no original. como define a violência e atua contra ela. reconhecendo que ainda temos muito que aprender (o que é um bom começo). pela impossibilidade de "provar" o que aconteceu: não existem marcas físicas e se trata de situações de abuso sutil cujo resumo as esvazia de suas matizes mais cruéis e devastadoras.” Nada de invisibilizar sem saber. 2005) perante situações de maus-tratos dentro dos coletivos. os maus-tratos são do tipo psicológico. para entender e aprender como se experimenta a agressão [. Se envolver com o ritmo e as exigências de quem a vive. de intermediação e acompanhamento porque uma vez ocorrida a agressão. quem a sofre continua circulando por aí e tem muito o que digerir. Quando se produzem agressões tem-se que criar grupos de apoio. 29 . ademais. sem conhecer como se sente a agredida. Neste sentido. como sugere uma companheira da Eskalera Karakola (sem data): “outro salto que tem que ser feito é a atenção à mulher que sofreu agressão [.. morbo)..

” (Nopper. segura de si e. aumenta pelas respostas que recebe das pessoas. para ser feminista ou para ser nãosexista. sem contar o medo 30 . nos mostra o testemunho desta ativista norte-americana: “o incômodo associado a dizer às pessoas que sofreu um abuso. Este imaginário leva ativistas maltratadas a ter extremas dificuldades em reconhecer sua dependência de um homem e sua pouca força para sair de uma situação abusiva. no caso das militantes. 2005) De alguma maneira continuamos a nos sentir culpáveis ou inferiores por estar suportando uma situação deste tipo e nos dá muita vergonha admiti-lo. além disso. forte. deve ter superado todas as limitações de uma cultura heteropatriarcal. Mais que simpatizar. por exemplo. Assim. que uma mulher libertária tem que se parecer ao estereótipo do homem branco moderno: independente. muita gente esteve meio decepcionada comigo. que estiveste em uma relação abusiva. ou como no meu caso. 2004).Eu. isenta de contradições (para um testemunho: Anônima. Muitas vezes me disseram que estavam 'surpreendidos' de que tinha 'me enfiado nesta merda' porque longe de ser uma 'mulher fraca' era uma mulher 'forte' e 'política'. mulher forte: sozinha entre muitas Outra imagem que deve ser derrubada para uma superação dos maus-tratos dentro dos grupos ativistas é a de que uma mulher. ativa.

compartilhar nossos maus-tratos no diálogo com umas e outros. performando-nos de maneira diferente segundo as ocasiões e os momentos. aconteça o que acontecer.de fazê-lo. todas reproduzimos formas de dependência heteropatriarcal e algumas vezes nos comportamos de modo sexista. esta característica se deve a uma má compreensão. senão que deveria ser um trabalho político e coletivo que nos implique a todas e todos para deixar de ser. Mais ainda. está claro. afortunadamente. Ao nosso entender. nem ser completamente autônoma nem ter que resolver qualquer problema pessoal só individualmente. desafortunadamente. Obviamente. pedir ajuda. 31 . vivermos nossas múltiplas facetas. suporte. são práticas feministas que podem nos ajudar a crescer tanto em nível individual como de maneira coletiva. conselhos. são práticas de subversão e desarticulação do heteropatriarcado que quer nos construir como subjetividades individualizadas. abater as barreiras da solidão (que podem existir mesmo que tenhamos muitas amigas) e do privado não é uma tarefa fácil e. Romper a imagem de mulher forte e dura. como diziam as companheiras de Roma (citação mais acima). cúmplices de nosso silêncio ou cegueira. não incumbe exclusivamente aquelas que estão em situação de abuso. do que é o feminismo. não precisar de apoio de nossas amigas e amigos. Reconhecer limitações e contradições. Ser feminista ou ser uma mulher ativista não implica. que queremos denunciar aqui.

.] e disse "mas de onde inventaste de pedir esta porcaria" e não comeu e nos fez perder toda a tarde porque queria outra pizza e tratou-a como um déspota.] não eram as que ele queria [..] pediu a pizza e [.. geralmente levadas a cabo ou pelo menos iniciadas por coleti8 Idem. parecia super resignada. B..: [.. 32 8 .. Assim. quer dizer..: Ninguém disse nada? P..: Não. insistimos. alguns de nós meio que dissemos 'tá' [. como mostra este extrato de entrevista com Paloma (Chile) : P. chega de palhaçada'.] Eu fiquei chocada com a atitude de um companheiro que enche a boca com essa história de igualdade social e respeito mútuo. tomam especial força ao continuar considerando os maus-tratos como expressão de relações privadas.. De noite fomos comer pizza e sua esposa [..As barreiras – como viemos mostrando – são múltiplas e.] mas não foi algo como 'escuta. mas ficou calada e esteve a ponto de chorar.. nos encontramos frequentemente com uma extrema indecisão e incerteza sobre as possíveis ações a realizar e tendemos a colocar a responsabilidade última de resposta a esta situação à mulher. É que também ela deveria ter feito algo. diante de suas manifestações. Apesar de algumas interessantes campanhas..

em diferentes ocasiões em que coletivos de feministas autônomas iniciaram campanhas de respostas perante agressões de gênero por parte de algum ativista. uma quantidade de críticas que foram tremendamente dolorosas. os maus-tratos. Como temos constatado através de conversas privadas. e em concreto aqueles que acontecem dentro dos espaços do movimento. converte às vezes as campanhas em pouco efetivas. A falta de debate sobre o tema. sendo então acusada de "traidora". Por exemplo. as poucas campanhas realizadas. obviamente. não foram. além de requerer muitas energias. a forte obstrução a que em geral foram submetidas. uma mulher explicou a situação abusiva que estava vivendo e não teve capacidade de "vesti-la" suficientemente nem de se proteger da situação. se não somos capazes 33 . objeto explícito de debate político profundo nos movimentos sociais. acabaram enfrentando também muitas contradições. e o fato de ter que tentar maneiras de atuar que sejam incisivas mas que não despertem rupturas no movimento não permitiram desenvolver linhas de intervenção. Isso. todavia.vos feministas em resposta a situações concretas. Isto nos leva a situações de enorme fragilidade e incerteza que se constituem em dificuldades para reconhecer e atuar. dúvidas e. Nos perguntamos: como se podem julgar as atitudes das pessoas por pedir ajuda externa. Finalmente esta ativista não teve mais remédio além de denunciar o maltratador ao sistema judicial. na Catalunha. há poucos anos.

de juízo e ataque. que se considere os maus-tratos como uma questão política sobre a qual devemos nos posicionar e atuar. esperamos que. mas que descubram que é algo que ocorre mais do que se diz e que a solução deve ser coletiva. a partir disso. nem pouco feministas devido ao que estão passando. Gostaríamos que as ativistas que passam por essa experiência não se sintam só. para que se acabe com as dinâmicas de maustratos e que juntas possamos encurralar aqueles que se creem no direito de realizá-los.de assumir coletivamente a responsabilidade na solução dos problemas? Algumas reflexões de conclusão Qual é a finalidade deste escrito? Serve simplesmente para olhar para nós mesmas e para nossas companheiras. possam oferecer o apoio necessário. sem que haja resposta de rechaço. as pessoas que estejam ao seu lado tentem percebê-los e. esse é um primeiro passo para sair deles. quando uma mulher lançar sinais do que está acontecendo. Por isso. compartilhar a experiência de maus-tratos com uma amiga. temos que encontrar forças para falar. Mesmo que nos pareça exagerada a expressão "cada homem é um maltratador em potencial". O que esperamos é que gere polêmica. Por outro lado. mas sim escuta e acolhimento. é importan34 .

pp. 4.html. ASSEMBLEA DELLE COMPAGNE FEMMINISTE DI ROMA (2000): La cultura dello stupro é viva e lotta insieme a noi. (1989): «Relaciones de dominación y movimientos de liberación.org/-sessismo/assfemmroma. N. (coords. Referências bibliográficas: ALFAMA. Madrid: UNED. E. Un análisis del poder entre los grupos».te reivindicar que o imaginário do maltratador com que iniciamos este escrito nos desvia da possibilidade de reconhecer o abuso em todas as suas formas e expressões. APFELBAUM. Feminist review. (2002): «Thinking globally. físicos ou psíquicos. assim como os que circulam ao redor das "identidades militantes".) (2005): Dones en moviment. na realidade quem maltrata não é e nem pode ser companheiro. P. 46-48.tmcrew. Valls: Cossetània. pp. 149-163. Mujeres Preokupando. do aparente e desarticular os imaginários de gênero. ALLDRED. 35 . y MIRÓ.): Lecturas de Psicología Social. pp. En http://www. ANÓNIMA (2004): «Amor y Respeto. acting locally: women activists' accounts». 261-297. Un anàlisis de gènere de la lluita en defensa de l'Ebre. F. Morales y C. Esperamos ainda que se entenda que mesmo que "reconhecidos ativistas" possam ser maltratadores. Huici (eds. é – a nosso entender – uma prática necessária contra as violências de gênero. 70. E. En J. Ser capaz de ver mais além da imagem. ¿si no qué?».

y PATEL.es/athenea/num4/biglia.net/karakola/agresion_labo. hooks. Despertad!.net/karakola/agresion_labo. 36 .indymedia. En http://www. Estrategias propuestas por activistas de Movimientos Sociales mixtos». SUBBUSWAMY. Brah y otras (2004): Otras inapropiables. publicacióndel autor.tmcrew..melbourne. Tesis doctoral.org/languages/espanol/library/g/2001/11/8/article_02. (2005): Narrativas de mujeres sobre las relaciones de género en los movimientos sociales. A. http://antalya. A. diferenciación».sindominio. 4. T. Diverse voices of struggle in Western Europe. Feminismos desde las fronteras.sindominio. COMPAGNI DEL CENTRO SOCIALE «MACCHIA ROSSA» MAGLIANA (2001): Sulla violenza sessuale. R.org/2004/12/1362.html.org/sessismo/macchiarossa. NOPPER.uab.BRAH. (2004-1992): «Diferencia.htm"http://www. 8 de noviembre de 2001.http://www. En b. K. espacios con cuidado.watchtower.shtml. K. ESKALERA KARAKOLA (Desde la) (sin fecha): Espacios Okupados. (2005): Activist Scenes are no Safe space for Women: on abuser of activist women by activist men. PGA (2005): In case of physical or psychological violence. Documento del CSOA Macchia Rossa di Roma.) Res tructuring and Resistences. pp. Ayuda para la mujer maltratada». (2001): «Cultures of domination: Race and gender in radical movements».htm. Em K. En http://www.php. Abramsky (ed. HYPERLINK "http://www. pp.htm.org/news/2005/02/87132_comment. Athenea Digital. WATCH TOWER BIBLE AND TRACT SOCIETY OF PENNSYLVANIA (2001): «Indicadores de riesgo. También em http://www. Madrid: Traficantes de sueños.BIGLIA.all4all.pdf. B. 107-136. (2003): «Modificando dinámicas generizadas. diversidad. 541-3.

jornadas… se escuta e se dá mais credibilidade à voz destes. E porque.Por que falamos de sexismo em espaços libertários9 . e fomos educadxs com base nesses valores. a sexualidade… A dificuldade não está em teorizar sobre a mudança. 1998. publicado no Infousurpa. para construir uma alternativa a esse sistema. . baseada no império do macho sobre a mulher. as relações.Porque não apenas queremos libertar espaços. Em nossa concepção da vida. ainda há alguns que contam mais que outros. costume ou simples tom de voz.Porque vivemos em uma sociedade capitalista e patriarcal. em determinados espaços. 37 . senão levá-la à prática. coletivo feminista do centro social ocupado La Hamsa. Talvez por veteranice.Porque apesar todos e todas combatermos o Capital. E nas festas dos centros sociais ainda há pessoas que se permitem passar cantadas naquelas (e nunca naqueles) que estão no balcão por 9 Texto escrito por Las Tensas (As Tensas). E isso é precisamente o que mais nos custa. o fascismo e o sexismo. . reuniões. o primeiro passo é mudar a nós mesmxs. mas também mentes e atitudes.

puro desfrute, ou pior ainda, porque acham que é assim que se flerta. - Porque não somos as namoradas nem as companheiras de alguém, temos suficiente entidade e personalidade por nós mesmas. Mas, para nosso ambiente alternativo, embora se fale de fulano como “aquele que é muito corajoso e que está em tal coletivo” se esquecem que fulana, que além de ser sua companheira, é tão insubmissa como ele, mas talvez faça menos ruído. - Porque ainda há gente que acredita que ser forte significa ser durão ou durona. E se avergonharia de mostrar debilidade em público, ou então despreza aqueles que o fazem. E já temos muita repressão sobre nós para reprimirmos as lágrimas ou a tristeza porque há quem não as considere revolucionárias. - Porque nós mesmxs, que em teoria tratamos de romper com os tópicos e papéis estabelecidos de família, casal, relações… continuamos reproduzindo em muitas ocasiões a mesma repartição de papéis, a incomunicação e a incompreensão entre homens e mulheres. - Porque todos enchem a boca falando de sexo seguro, mas ainda é lamentavelmente certo que, em muitos casos (relações estáveis, abertas, esporádicas, trios, noites loucas e demais), esta responsabilidade básica esteja longe de ser compartilhada por todas e todos, e a iniciati38

va nesse sentido, continuam assumindo aquelas que podem ficar grávidas. - Porque embora a sociedade avance para uma maior repressão da sexualidade das crianças, nos vendem que as mulheres se libertaram porque já podem ser militares e agressoras em vez de agredidas, enquanto continua a desigualdade dos sexos, a homofobia e, definitivamente, a perpetuação dos papéis sexistas, enquanto continuamos sofrendo o sexismo inclusive nos espaços libertários, ainda há quem não veja o anti-sexismo como uma luta coletiva, necessária e urgente. Ou não entenda por que algumas mulheres escolhem romper com esses grupos, abrindo espaços de debate, de ação, de festas… somente para nós mesmas. Não seria porque temos mais urgência? Esse texto deseja recolher as impressões, debates e discussões que muitas de nós mantemos diariamente sobre o sexismo na nossa comunidade, e acreditamos que ele reflete muito bem nossa realidade. Não se trata de fazer críticas destrutivas, mas de romper com o que nos impõem com um pouco de autocrítica sincera e rindo de nós mesmas. Saúde e Anti-sexismo!
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10 Ressignificação de ‘Saúde e Anarquia!’, que é uma saudação anarquista. N. A.
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e. mas também se deve aprender como sentir. se destrói ou se transforma nas relações de confiança: familiares e pessoas da comunidade (vizinhas. representa uma verdade. as paredes veem e as paredes sabem. as paredes calam muito do que poderiam dizer. colegas de trabalho. se constrói. 41 . mas. um homem que nunca força11 Texto escrito por Antón Corpas e publicado no blog mambo.org.Geometria.pimienta. geralmente. uma educação política e uma educação sentimental. As paredes tem voz. Assim. porque não só se deve aprender qual é seu lugar e sua função. em 2006. a denominada sabedoria popular. mas normalmente preferem fechar os olhos. amigas. morder a língua ou sair de perto. são sensíveis ao tato. Existe um espaço de direito que se define. vista e ouvido. ideologia e geografia das relações de confiança – Apontamentos sobre violências de gênero 11 Geometria da Confiança e do Direito Se pensarmos que o ditado “as paredes falam”.). inclusive. Daí surge uma educação social e de gênero. As paredes ouvem. nos enganamos. o que lhe cabe decidir e do que se coloca aparte... para ser e sobreviver.

Para isso é preciso aprender a sentir uma mesma ação de maneiras diferentes. Não é uma questão de status ou ignorância. a raiva ou o temor suscetível. o faz sem problemas de consciência com a “mulher própria”. ativa ou passivamente. serão relativos ou “diferentes” atrás da porta ou do outro lado da parede. quando se passa entre a própria família. são injustificáveis e indignantes.ria a “mulher do outro”. ela acabe sendo acusada ou estigmatizada. se transforma em uma geometria variável.“desejo edipal e polimorfismo da conduta sexual”. o mesmo menino que ameaça a outro por molestar “minha irmã” dará a si mesmo o poder de encurralar “esse corpo”. Então a verdade pode ser paranoia. Essa é a geometria da Confiança e do Direito que. uma mulher que se defenderá com unhas e dentes de um “estranho” suportará fortemente à violação de seu “próprio marido”. distancia. Não é incomum que quando uma mulher denuncia o abuso ou a agressão de um bom vizinho ou um bom amigo. não necessariamente. Da mesma forma. os acontecimentos que lidos no papel ou vistos através da tela da televisão. O primeiro patriarca da psicanálise emitia assim 42 . quando a jovem sofria um transtorno pelo abuso sexual incessante de um amigo da família. e a proximidade em vez de aproximar. como um problema. Basta lembrar como Sigmund Freud diagnosticava a Dora – filha de um mecenas editorial de psicanálise . ou uma mãe pode abafar o grito no caso de uma agressão em que o responsável seja “o irmão”.

Por outro lado. O protótipo do violador que ainda se desenha no imaginário coletivo. organização espanhola. um irmão ou um amigo. N. dos 271 casos atendidos em 2005.5%) correspondem a “conhecidos da vítima ou que têm algum tipo de relação com ela” e que o centro divide entre “conhecido recente” e “pessoa próxima”. e portanto clandestino. uma vez visíveis e inegáveis. a agressão – de qualquer tipo que seja – de um marido. mas com um respaldo de parentesco ou familiaridade. e para isso são necessárias convicção pessoal e certa proteção social. acontece em segredo e amparada na privacidade. da mesma forma que para se defender de uma agressão.um juízo conveniente para a paz familiar de seu amigo e colaborador financeiro. é preciso sentir-se com direito de fazê-lo. o sociopata do beco escuro. é impossível falar de violência sexual sem referir-se às relações de confiança. mais de um terço (36. a mediação ou o silêncio da comunidade. mas sim a facilidade para omiti-las ou para. que trata uma quantidade pequena do total de agressões. de estar cometendo um delito. Isso não significa que haja aprovação coletiva de determinadas ações. é consciente. Para agredir.E. priorizar a proteção e a reprodu12 Centro de Apoyo a Víctimas de Agresiones Sexuales (CAVAS) . com a confiança e a coesão. Como indicam os dados do Centro de Apoio a Vítimas de Agressões Sexuais 12 (CAVAS). Segundo esse centro. 43 . com a certeza da compreensão.

não o faz por debilidade mental ou física. o namorado.ção da normalidade: que o pai continue sendo o pai. “sem intenção”. um primo ou um vizinho impõem um ato sexual. Um contexto que permite fazer algo danoso sem pensar na vontade do outro. não atuam nunca. Da mesma maneira que quando uma mulher não se defende. mediante disfarces teatrais como o jogo. o irmão. inclusive quando quebra preceitos e tabus como o incesto ou a pederastia – que um marido e não raramente um irmão. É dentro dessa consciência do normal e do subnormal – o que pode acontecer sob a proteção da normalidade. “sem saber”. e o namorado. nem ontem nem hoje. por impulso de nenhuma disfunção ética ou psicológica. um avô. e ainda ter o privilégio de fazer dano “sem querer”. ou por alguma espécie de choque psicológico. o irmão. Ideologia e violência nas relações de confiança 44 . não o fazem por uma falha educativa ou pedagógica. nem sequer por má intenção. “por direito”. Os homens que encontram amparo moral e jurídico no matrimônio ou amparo social e moral na família ou na comunidade para impôr uma vontade sexual sistemática ou circunstancialmente. o carinho. senão como assinalamos acima. com uma absoluta tranquilidade moral e emocional. mas por uma ausência de direito. a paixão ou a sedução.

Esses 36. do sangue ou dos hematomas. O Poder em seu pleno sentido está onde a força não é necessária.5% que falamos – e que eu não diria que é pouco – não são uma acumulação de “erros” ou de “anomalias” individuais. a violência de gênero nas classe altas sempre teve um componente psicológico e respeitoso com os estritos “modos” da alta socie45 . Forçar a um corpo que resiste. afirmar-se com um golpe contra uma negativa.Precisamente quando dizemos “relações de poder” falamos de relações de direito. O poder é muito mais e é habitualmente diferente da imagem do empurrão. da bofetada. é onde se comete mais equívocos na sofisticação da linguagem e nas interpretações. Aí onde se produz a violência sexual de maneira normalizada. gritar a um rosto que responde. Ao falar de relações de violência. onde as coisas podem precisamente “passar” sem nenhum conflito visível nem previsível. mas uma prova do bom funcionamento das relações de confiança como surdina e colchão das relações de violência. não é uma porcentagem de amoralidade nem anormalidade. nos referimos também e sobretudo à não-violência das formas de abuso e agressão sexual que não tem porque serem produzidas sob golpes ou força física. isso não é exatamente o poder. Será interessante pensar que sim. “privada” e invisível. Mesmo que seja a força o que habitualmente permite impôr e normalizar uma situação.

requer a existência de uma pessoa forte e uma pessoa fraca. o jornalista Raúl del Pozo. é antológica a postura do juiz ao colocar em dúvida o relato da denunciante porque. Nesta mesma polêmica. que aprendem que na não-violência das boas formas está o segredo da decência e da distinção. que era patrimônio das classes altas. muito moderado. muito progressista. Hoje. Por outro lado. Ou seja. sutileza e bons modos. e eu diria que inclusive nas controvérsias privadas em torno da violação marital.dade. Se lembramos o caso de Nevenka Fernandez. De alguma maneira. rapidamente acrescentou: “Me parece que nessa história obscura pode 46 . a relação entre violência. e cito de memória. ex-vereadora que denunciou em 2001 o prefeito de Ponferrada por abuso sexual. e que exige que para definir uma violação não só haja um conflito de direitos mas também uma derrota física. continuam existindo divergências – que lembram a incansável e estéril discussão relativa à humanidade do feto e à legitimidade do aborto – sobre a necessidade ou não de forçamento e penetração para se definir agressão. no debate acadêmico. “a segurança com que a senhora fala me indica que é uma mulher forte e me custa imaginá-la como uma vítima”. tem se democratizado. a importância dos modos e das aparências se aplicam também às classes médias. essa postura que trata de analisar o acontecimento de maneira isolada.

borram facilmente a realidade social das relações de poder. 47 . por conhecimento direto. como homens frágeis psicológica ou fisicamente mantém uma sólida posição patriarcal e de dominação e. em determinados momentos. Ela tem esse poder do apogeu da beleza que é mais poderoso que o de um prefeito. nem tampouco o abuso de poder. me consta. Mesmo que seja óbvio. e com base em um discurso que quer relacionar competitividade com igualdade de gênero. com uma firme raiz no imaginário e nas convenções morais. Essa noção de pessoa forte e pessoa fraca. toleraram ou se calaram diante de agressões e relações sexuais não desejadas. da mesma maneira. 13 Nova geografia para velhas relações de confiança Sem romper totalmente com o que temos e com as velhas estruturas familiares e comunitárias. muito ideológica.A.” .ter acontecido de tudo. El Mundo 3/04/2001. sei que mulheres fortes e inteligentes. e a própria visão frente a acontecimentos próximos e cotidianos. São conceitos que. casa muito bem com o mito da violência explícita e visível como a representação fundamental do domínio. mas o abuso sexual não é um diagnóstico eficaz. o que viemos explicando se desloca e adota novas formas quanto mais 13 “Acoso”. muito ao modelo de sabedoria neoliberal. N.

Damos lugar. uma zona onde convivem a cotidianidade. que podemos definir como relações de confiança e superficialidade. no ócio.a vida se afasta do privado. e o acesso a outros trabalhos ou a outras opções de algumas mulheres. continuamos perante relações de poder sociais. institucional ou judicial). a uma nova dimensão. a proximidade e o desconhecimento mútuo. as técnicas e as tecnologias. os tempos. então. Demos um salto de uma vida essencialmente ao redor do “lar” em um sentido amplo. apesar da individualização generalizada do plano de vida e a destruição de numerosos aspectos dos laços comunitários. nenhuma revolução. tem-se imposto um determinado sentido do politicamente 48 . mesmo que tenham mudado os espaços. no espaço público ou no ciberespaço. privada. no trabalho. Isso acontece em meio a um turbilhão competitivo e sem ter ocorrido uma transformação substancial das relações sociais de gênero. Apesar de que em todos os discursos e em qualquer das retóricas (pública. nenhuma transformação. Podemos dizer que demos um salto mas não fizemos nenhuma ruptura. Assim. a uma promiscuidade mercantil em que se multiplicam as formas e os lugares de familiaridade na mesma medida que se reduzem a profundidade e o compromisso. tenham modificado as linhas de continuidade da dominação masculina. sem que as modificações do status jurídico das mulheres em geral.

49 . mas mediados pelas mesmas relações de poder.correto. e em matéria de gênero está longe de indicar uma diminuição da violência e das agressões sexuais. Isso. na verdade. se enganam. faz mais que previsível seu crescimento. que em linhas gerais é a vida social convertida em guerra civil. como os “últimos e violentos” golpes do velho machismo. E aqueles que consideram o aumento do número de assassinatos de mulheres por seus companheiros ou ex-companheiros e outros dados desse tipo. Demos um salto rápido e caímos ainda mais desprotegidos no âmbito do mercado. não existe um dado resolutivo ou suficiente ao qual se agarrar para falar de diminuição da violência de gênero. A história e as relações de poder não são tão “progressistas” como nós.

50 .

segundo o discurso. Pra ir direto ao ponto. 51 . no melhor dos casos.) e que nós. como queira chamar. okupa.. chateação ou inquietude. escrevo essas palavras sem a intenção de encher a paciência de ninguém.. hetero. deveríamos já ter superado ou no mínimo trabalha14 Esse texto foi difundido em 2004 em meios de contrainformação como Indymedia e o fanzine “Bailamos?”. o que vou dizer já não é uma questão de como o patriarcado afeta caras como nós. surge quando me deparo com várias situações ao meu redor em que se supõe que. em um ambiente tão difuso como é o do “ativismo” contrassistêmico em Barcelona. Sabemos que funcionamos por esteriótipos que nos associam e nos identificam a grupos concretos dentro da sociedade (homem. se te interessam. se continua lendo.Sobre gênero e caras “do rolê” (ou de como estamos com a merda até o pescoço) 14 Oi. reproduzimos milhares desses esteriótipos cheios da merda que engolimos desde pequenos. pode consultar. branco. com a única finalidade de desabafar e.. não quero começar a analisar ou a difundir ideias que existem em milhares de materiais escritos e que. compartilhar contigo certa inquietude ou curiosidade. Minha frustração.

homos e héteros (cantadas. vejo que colegas (principalmente caras) escondem sua homossexualidade. abuso.do sobre elas e que. física e psicologicamente.. Vejo que colegas (gurias) são agredidas por seus companheiros. onde possamos falar sobre e procurar saídas. cantadas.). recorremos à força ou à chantagem emocional para conseguir o que queremos? Por que somos capazes de identificar. vejo milhares de dinâmicas que reproduzem as desigualdades entre caras e gurias. em muitos casos. e que nem sequer temos um espaço. muitas vezes....). Para mim ficam várias dúvidas: Que mecanismos desenvolvemos que nos fazem pensar que temos direito a dizer a outra pessoa (nesse caso me refiro a nossx companheirx) o que tem que fazer? Por que. reproduzimos os comportamentos mais ordinários do oportunismo clássico. agressões. certos tipos de agressões e outras não? Por que não intervimos com a mesma contundência frente a uma agressão de gênero ou de casal quando acontece em nosso entorno mais próxi52 . sem que haja qualquer dúvida. vejo que não temos mecanismos para afrontar tudo isso. vejo que quando acontece algum debate sobre sexismo ou patriarcado é sempre uma iniciativa das gurias e as posturas dos caras são bastante patéticas. restrição à escrita.. papeis em reuniões.. vejo hierarquias informais que fazem com que tenhamos uma dupla moral frente a diversas situações (credibilidade de acordo com a pessoa. ou interesse para criá-lo.

fragilidade)? Está tudo bem em ter necessidades que consideramos convencionais? Você acredita que exista um “elxs” (fora do rolê) e um “nós”? Sem aprofundar muito o tema. Nos limitamos a fingir uma simples contraposição a esses esquemas.. se você vê um colega se agarrando com outro em uma festa não voltarão a ser amigos? Sabe. não queremos reproduzir o esquema que nossos pais e vizinhos usam em suas relações. deixa de ser pessoa? Consideramos as relações de casal algo privado ou uma realidade política? À parte que cada um deve viver sua sexualidade como queira. quando você considera que uma relação sexual é satisfatória? Quando você 53 . negando a existência de sentimentos que classificamos como ruins (ciúmes.mo? Quando uma pessoa forma um casal. ou os identificamos.. dependência. por que milhares de caras do “rolê” não saem do armário? Criamos as condições necessárias em nosso meio para que se desenvolva nossa sexualidade com total naturalidade? Ou. cuidar dos demais..). questionamos e tentamos superá-los? Até que ponto os “antiesteriótipos” que construímos não nos condicionam? Por que subvalorizamos qualidades que classicamente são atribuídas ao feminino (doçura. somos legais e não acreditamos no casal fechado ou no padrão de família nuclear. compromisso.

te pergunta: “ O que você está sentindo?” você é capaz de responder ou te dá um arrepio. que criássemos e fomentássemos espaços onde se possa debater e experimentar. e certamente todxs temos milhares mais.? Me importa o que a outra pessoa sente ou só quero gozar? Você faz fantasias na cama (ou onde quer que seja). Que explorássemos ao máximo nossa capacidade emotiva e sexual. o objetivo ideal seria que fôssemos capazes de semeá-las juntxs. e sei que estou sonhando alto. Que aprendêssemos a dar respostas às agressões de gênero de forma clara e contundente.goza? Quando a outra pessoa goza? Transar é penetrar? Não é não.. Elisabeth Badinter 54 . sem distinção de gênero. ou insisto um pouquinho.? Se sxx pareceirx. um suor frio na espinha e sua mente se bloqueia? Nos falta vocabulário para expressar o que sentimos ou simplesmente nem pensamos sobre isso? Bom. Se você se interessa pelo tema tem uma série de livros que podem te agradar: “?Que hace el poder en tu cama?”. Que fizéssemos um trabalho pessoal e coletivo. Vari@s autoras/es “XY: On Masculine Identity”. experimenta. Só isso. Para mim...Josep Vicent Marqués “Nuevas masculinidades”. mas também não acho que o mais importante seja encontrar as respostas.. joga. esporádicx ou fixx. eu podia continuar semeando perguntas.

“Garotos não choram”. Anamarie Jagoda “Tengamos el sexo en paz”. pergunta. Judith Butler “Queer theories”. Luis Bonino.. Pierre Bourdieu “Gender trouble”. crítica ou insulto que queira me transmitir sobre o texto. E tem gente que leva tempo recolhendo informação e fazendo coletâneas sobre o tema.. se procurar um pouco com certeza encontra. Sam Keen. Beatriz Preciado. Sue Askew y Carol Ross “A dominação masculina”. Franca. “La pareja abierta”. Se tem algum apontamento.es 55 . sugestão. Jacopo y Dario Fo Também tem uma série de autorxs que tem publicado livros e artigos muito interessantes: Robert Sly. escreve um email para de_genere@yahoo.

56 .

Nos preocupa o nível de tolerância que há nos espaços políticos ante as agressões e a naturalização/normalização de certas formas de violência. 57 . A violência machista é rejeitada pelo conjunto da sociedade e todo mundo parece reconhecer que é um problema político de primeira ordem. Vocês perguntarão por que estamos escrevendo este texto… nós nos perguntamos por que há tantas agressões dentro dos movimentos sociais e por que tanta incapacidade para gestioná-las coletivamente. Nos enfurece que dentro dos movimentos sociais atuemos como se tivesse15 Texto escrito por Las Afines. se é que chega a considerar-se como tema. Evidentemente também os movimentos sociais recolhem esses conceitos e mostram abertamente seu próprio discurso anti-sexista.Quem teme aos processos coletivos? Notas Críticas sobre a gestão da violência de gênero nos movimentos sociais 15 O discurso contra a violência sobre as mulheres forma parte implícita e também explícita do discurso político geral. o que demonstra que é um tema de quarta. Nos inquieta a incongruência entre discurso e prática e a falta absoluta de sensibilidade a respeito. Até aqui perfeito.

uma vez mais. esse é um mecanismo magnífico para empurrar a sujeira embaixo do tapete. assim como para detectar os casos que podem ser incluídos sob esse nome. já estão superadas e são repetitivas e desnecessárias. em qualificar como tal as múltiplas caras da violência contra as mulheres. a liberdade sexual e o movimento. pensamento. A violência estrutural contra as mulheres não é um conceito abstrato próprio dos livros. do tipo “a violência é algo muito ruim.mos acreditado que as questões que o feminismo levanta já foram assumidas por tod*s e por tanto. mas justamente isso não é violência”. eram apenas as mulheres as que se ocupavam da violência. Esse retrocesso nas práticas coletivas não é um problema de uns poucos casos de sempre. Não somente isso. no contexto de Barcelona há um retrocesso nas práticas coletivas e no discurso a respeito de um passado não tão distante. No entanto. mulheres de todo o mundo. E ele continua. estamos falando de um problema estrutural e de uma questão de responsabilidade coletiva. fato sintomático de que restam poucos grupos feministas. abusos e controle de diversos caras que impedem a liberdade de expressão. sofremos discriminação. o que demonstra que. e de que nós. nem uma coisa da 58 . existe uma grande resistência em identificar o óbvio. apesar das reivindicações básicas que têm mais de um quarto de século e ainda continuam no tinteiro.

a percepção dos próprios direitos ou a ausência deles. No último ano houve. A violência estrutural é um mecanismo de controle sobre as mulheres.vida de outros. dentro dos movimentos sociais. alheio a nosso micro-mundo nos movimentos sociais. e em nenhum caso o agressor recebeu resposta alguma. A violência estrutural não são os quatro abusos concretos na boca do povo. o trabalho. a relação com o próprio corpo e a sexualidade. violência psicológica na convivência e agressões físicas e sexuais dentro de um espaço político…. e mais um longo etcétera. O iceberg não é apenas a ponta. ameaça de castigo onipresente que necessita ser provocada ou desencadeada. a percepção e o uso do espaço público. senão uma forma de relação normalizada e naturalizada e que portanto pode ser exercida sem a necessidade de justificação. numerosas agressões contra mulheres: agressões no seio da relação a dois. Em outro caso recente 59 . a autoridade reconhecida. Mas não estamos fazendo uma dissertação teórica. Estamos falando de pautas generalizadas de dominação que atravessam a experiência de ser mulher e todas as esferas da cotidianidade: as relações pessoais. nem a soma infinita de agressões que cada uma pode constatar ter sofrido. Tampouco são aquelas ações perpetradas por monstros que vêm e apunhalam. falemos de casos concretos. mas não apenas como forma extrema.

o que a princípio foi considerado político terminou relegado ao terreno dos conflitos pessoais. Não apenas porque o ocorrido é uma agressão contra ela. nem um coletivo. tendo em conta as dificultades e os obstáculos que habitual e sistematicamente encontramos para gestionar grupalmente essas situações. Contudo. alheio a qualquer movimento que pudesse estar se organizando em apoio a ela. O dito sujeito passeia tranquilamente durante a semana. e é que faz muito. mudanças de discurso. nos sentimos muito satisfeitas de que essa agressão não tivesse sido silenciada como tantas outras e tivera uma resposta. mas porque é uma questão política e coletiva de primeira ordem. a partir daí sucederam-se muitas coisas. E este coletivo toma a decisão de que dito sujeito deve sair da casa por uma questão coletiva e política. uma mulher de nosso coletivo sofreu uma violação em sua própria casa por um habitante da mesma. propondo sua saída imediata.dentro do contexto político de Barcelona. com ele presente. de posições e decisões. Neste sentido. se tomou a decisão de que o sujeito regressasse aos 60 . Sete meses depois. pois – anjinho – nem sequer está consciente de ter feito qualquer coisa má… Mas ele tinha se equivocado. No começo. Com o passar do tempo. que é um dentre tantos. Ela quis fazê-lo público e propô-lo em um grande coletivo. este caso é uma exceção. Nós valoramos positivamente uma coisa. muito tempo que não víamos uma mulher reagir assim.

na gestão coletiva e na erradicação da violência. Que os grupos (mesmo que seja uma minoria) tratem de buscar uma resposta ante os casos de violência que se produzem em seu seio supõe um passo adiante na reflexão. Mas notamos que em linhas gerais. e muitas vezes sofrem de alguns problemas de base que desvirtuam o processo. que funcionam como centro social. definitivamente semelhante a tantos outros. as respostas que os coletivos costumam dar. e por conta da falta de profundidade e sensibilidade a que nos referíamos. o que nos parece grave é o processo pelo qual se chega a este resultado. nem se aproximam aos mínimos exigíveis. Mas além desta decisão questionável. Quando o que é denunciado como agressão é afrontado como uma questão pessoal onde intervém emoções. é dar aos casos de violência contra as mulheres um trato de problema privado e pessoal.espaços públicos da casa.. 61 . perdemos a possibilidade de intervir politicamente. Falaremos aqui de três deles que nos parecem particularmente graves: • O primeiro. que é do que afinal se trata quando falamos de violência machista. o que se entende como um assunto turvo onde não há uma verdade. em nosso entender. etc. mais recorrente e mais influenciado pelo trato mainstream da matéria. a ser resolvido entre dois. senão duas experiências muito distintas de uma mesma situação confusa. então.

quando se propõe qualquer trabalho do coletivo como feito por e para a “vítima”. Mas acontece que diante das situações de gestão coletiva de violência contra mulheres. ou quando se define o problema como um assunto particular do coletivo a ser resolvido de portas fechadas. críticas e propostas externas. O que é que acontece? Por que tanto medo do debate? Não será fobia doentia às feministas? Ou é que nem sequer lhe estamos dando a categoria de assunto político? • O segundo problema da gestão dos colectivos não feministas dos casos de violência contra as mulheres consiste em trabalhar a partir do enganoso esquema vítimaagressor. sempre há a possibilidade de recebermos críticas e entrar em discussões. Quando tomamos decisões ou posicionamentos políticos.Há inclusive formas de transladar o assunto a um plano pessoal dentro de uma gestão coletiva. se tenta manter a todo custo fora do debate coletivo. que é o mesmo. ao invés de uma tarefa que o colectivo necessita para si. De acordo com esse es62 . se levantam muralhas contra as opiniões. próprio de best-sellers. a versão grupal do roupa suja se lava casa. De fato são muitos os debates que continuam abertos dentro dos movimentos sociais em Barcelona. Ou seja. Por exemplo. quando a intervenção do grupo se propõe como uma forma de mediação entre as “partes afetadas”. coletivizar não é condição suficiente para fazer política.

e também a questionar o grau de responsabilidade do agressor sobre seus atos. e medo de “demonizá-lo”. temos muitos problemas para lhe “pôr a etiqueta”. Como consequência da inoperância do esquema. agressor é o que a comete. que necessita auxílio. do tipo “estava bêbado/drogado”. Quando o que tem que ocupar o primeiro papel é um colega ou companheiro. pretendemos encontrar “outras explicações” ou inclusive justificações. a exceção. e uma vítima. há um agressor. Mas. Fazer isso não deveria ser um obstáculo invencível nem tampouco uma opção reducionista que negue outras facetas que possa ter uma pessoa. costumamos nos perder em juízos pormenorizados dos sucessos. que é o homem mal. “ela estava se insinuando. ou o estava buscando”. o monstro. Pelo medo de chamar as coisas pelo seu nome. Os eufemismos e relativismos são um atalho linguístico para que o entorno do agressor e ele mesmo se sintam mais cômodos com o relato dos fatos. chamemos as coisas pelo seu nome: agressão é o que descreve o fato. porque além de tudo esse esquema se apresenta como um juízo integral sobre a pessoa. Se transporta a discussão a fatores externos ou a detalhes minúsculos dos fatos ao invés de abordá-lo a partir da compreensão do estrutural da violência contra as 63 . e mais um longo etcétera. como se aí residisse a solução. mas por isso mesmo não ajuda a mudar nem a realidade da convivência nem a consciência a respeito dos acontecimentos.quema.

os princípios que em outras circunstâncias seriam inquestionáveis se desvanecem? O segundo papel dentro desse esquema se atribui a mulher agredida. nervosismo. o que dá pé a lamentáveis estratégias de corporativismo masculino. nos quais os companheiros guardam silêncio por medo que suas cabeças rolem junto à dos que estão sendo assinalados abertamente no momento. impulsividade e defensividade. Se não. quando o caso concreto nos toca de perto.mulheres e a necessidade de conservar uma tensão e atenção constantes para não reproduzí-la. por que. e em consequência uma subestimação de tudo que se refere a nós. e em último lugar responsabilizar-nos quando acontece em nosso entorno. Então. Mas geralmente isso não se dá porque assumir essa responsabilidade é abrir a porta à possibilidade de nos reconhecermos nos sapatos do agressor. Quando o que se prio64 . situando-na em uma posição de incapacidade: tudo que diga ou faça a “vítima” será lido como reação emocional. • Por último. reconhecer a estruturalidade da violência machista é começar a criar as condições necessárias para evitá-las. na prática da gestão coletiva de agressões contra mulheres encontramos uma hierarquização tácida de interesses. As atitudes paternalistas e protecionistas com a que ocupa o papel de vítima obstaculizam sua participação em plano de igualdade no processo coletivo.

nos deixamos arrastar pela tirania do medíocre. que conseguirá desvirtuar os argumentos e rebaixar o discurso a um nível de mínimos. não haverá lugar para distintas posturas que são irreconciliáveis e excludentes entre si ao redor dessa decisão. e é que o agressor desapareça de todos os espaços comuns. em um grupo onde mais da metade não tem sequer uma reflexão própria prévia e cujo discurso passa por simplificações pré-cozidas próprias de qualquer telejornal. Enfileirar palavras grandiloquentes não significa articular um pensamento elaborado. Mas a priorização do consenso por medo ao conflito também implica que. por muito bem ou mal argumentadas que estejam. O consenso aqui exposto cumpre duas funções: manter certa coesão no grupo e dar uma ilusão de legitimidade às decisões. ante o desafio de tomar uma posição política como coletivo. Tentar consensuá-las nos leva irremediavelmente a pontos mortos de estancamento sem poder chegar sequer a esses mínimos. Acontece que. só há uma decisão política possível. sem meios termos.riza acima de tudo é o consenso. então. para começar. Diante do risco de conflito se agudizam os papéis de gênero pré-estabelecidos. que para as 65 . acrescido o fato dessas opiniões serem colocadas na mesma altura que discursos fundamentados e sensibilidades desenvolvidas a partir de um trabalho prévio.

coloquemos ditas questões no centro dando a elas a importância que têm. denuncia o enraizamento das formas heteronormativas em nosso fazer: a definição do que é público e político se faz de acordo com os cânones do universal masculino. mas não estamos assumindo as responsabilidades coletivas para fazer uma gestão adequada da violência de gênero. Como vêm dizendo as feministas há décadas. a necessidade de espaços não mistos e coletivos feministas. Se apostamos pelos coletivos mistos. assim como de recolher o trabalho e as contribuições que esses grupos vêm fazendo. é necessário fazer políticas as questões que afetam a nós. pacificar. Isso. como se a agressão a uma de nós não fosse em realidade problema de todas. 66 . mulheres. Paradoxalmente nos deparamos com o fato de que outras mulheres atuam priorizando a unidade do coletivo e o consenso medíocre. pois. Definitivamente. mulheres. E é evidente.mulheres significa cumprir o papel de mediar. compreender. Outra vez nos venderam o peixe e nos dedicamos a cooperar para que nada mude. que vamos fazer a respeito de todo o exposto? O pior do sexismo se reproduz nos movimentos sociais. e assim nós. por outro lado. perpetuando a necessidade de aprovação do olhar masculino e as formas de relação entre sexos. e não só palavreado ou observação. assumimos discursos construídos neste marco e postos no centro sob essa lógica e deixamos de politizar questões que nos afetam para não incomodar ou chamar atenção.

com 67 . estamos privatizando e praticando pseudo-política de auto-consumo.Para finalizar. Contribuições e comentários a: lasafines@hotmail. Do contrário. os coletivos que assumem gestionar uma situação de violência de gênero deverão fazer públicos seus posicionamentos e permitir o debate para que sirva de precedente e que assim se produza uma acumulação de experiências (não termos que partir sempre de zero).

68 .

a liberdade sexual e a autonomia em cada circulação e no pensamento. seja na própria pele ou por haver intervido em uma agressão dirigida a uma outra mulher. a violência consolida o mando e localiza-o nos núcleos mais sensíveis da experiência: a integridade do próprio corpo. como experiência dos limites e da proteção do 16 Acerca de uma agressão sexual no Centro Social Okupado “El Laboratorio” (Madrid). humilhação ou autodefesa. As agressões contra as mulheres. Rara é a mulher que não tenha sofrido. estupro ou assédio. uma excompanheira do CSO El Laboratorio 69 . recurso primeiro e último. O sentido da vulnerabilidade e do domínio é uma experiência do cotidiano feminino que se compõe. Texto escrito por Escalera Karakola.Espaços okupados. quer se produza na forma de espancamentos. antes de mais nada. quer acabe em assassinato. Quer se trate de agressões corporais ou psicológicas. espaços com cuidado16 Todas vivemos com a raiva e a dor da violência que os homens impõem sobre as mulheres por meio dessa divisão que faz e hierarquiza o mundo dos sexos. atravessa pra além do particular o domínio das relações e das restrições que cada sociedade ou cada grupo coloca à ordem do macho.

no entanto. o espaço.próprio corpo e sua capacidade expressiva. para lutar contra ela temos que recortá-la na medida do concreto e falar de suas ocorrências nos espaços e tempos nos quais participamos. Não podemos deixar de considerá-la como imposição generalizada e. um espaço de cuidado do próprio corpo que anule a violência e a interiorização do perigo sexual. a criação de um espaço seguro. a suportar da maneira menos traumática possível suas leis. como atitude de todas as pessoas que o habitam. Nenhuma mulher deixou de assumir essa condição de periculosidade e bem ou mal aprendemos a nos mover com ela. como sensibilidade. na realidade a possibilidade de ser submetida à violência machista excede as circunstâncias concretas e se estende à existência-mulher em geral. e a desfrutar das miseráveis vitórias pessoais e coletivas que podemos nos permitir sem nos colocar em situações de alto risco. restrições ou dispositivos de vigilância mas o busca como sentido. a identidade. Por isso. entre outras coisas. a situação e inclusive com o sentimento de segurança que uma expressa ou deixa de expressar. E o busca não por via de regras. seguiríamos alimentando-nos desses secretos temores que nos habitam. Está tão enraizada em nosso ser que embora pudéssemos instalar-nos em outras coordenadas. feminista ou não. Embora tenha relação com a idade. o que é mais terrível de que ocor70 . A intervenção de uma mulher. em um Centro Social Okupado busca.

bla. além da vivência daquela que as sofre. espaço utópico inexistente para todas pessoas que estejam 71 . cheguem a sentir. para chocar-se com a triste e já bem conhecida realidade: exercer a denúncia quando o momento da autodefesa já passou e voltar ao começo. que aí sim vão poder. não é o sentimento de todas de constatar que essas coisas podem acontecer – isso já sabemos – mas de que não foram possibilitadas atitudes. Ao despotencializar a diferença do espaço e igualá-lo a qualquer outro perdemos a oportunidade de construir essa diferença de um modo mais dinâmico saindo da oposição ‘libertários’. e que podem se sair muito mal dessa situação e que as mulheres. Continuar falando nesses termos estimula um paradoxo bem estéril que se alimenta da ilusão do libertário. que os agressores percebam de imediato que aí não vão poder. que não é seguro. pensamentos e ações que as fizessem difíceis. por um lado. Que não fomos capazes de levar adiante essa disposição.ram agressões sexuais. que vão se sentir seguras e respaldadas em todo momento. Além de confirmar a lição de moral de que nada é o que parece e consolidar na secundariedade dos nossos problemas dentro do coletivo. por outro lado. esse deslocamento na linguagem não vale merda nenhuma. a tensão coletiva e cotidiana que faz. De nada serve repetir uma e outra vez que os espaços libertários não são seguros ou de que nas okupas se reproduzem os mesmos modelos e bla. bla. pelo contrário.

para se fazer presente é necessária certa cumplicidade. O termo foi modificado por 'lesbica-gay-trans' porque o termo 'gay' parece invisibilizar os demais coletivos. não vamos estar todo o dia com as luvas postas ou frequentando os lugares-quenão-o-são. e o resto do mundo. A criação desse sentido passa necessariamente pelo cuidado das situações que produzimos. A visibilidade feminina e lésbica-gay-trans 17 é um começo mas ainda é preciso mais. cidades e países onde se atualiza mais do mesmo. N. E não queremos ser compatíveis com certos sujeitos que infelizmente às vezes estão próximos demais. já que gay não representa nem visibiliza a totalidade dos coletivos divergentes da heterossexualidade obrigatória. ruas. É que. Vai ser preciso então reforçar o existente e interrogar o hábito.nas nuvens.T. além disso. Para que uma okupa seja diferente da rua (seu papel seria de que transformasse a rua) é preciso ir pensando que nela não cabe todo mundo. Tudo isso surge ao calor do tremendo estuproespancamento que sofreu uma garota não faz muito tempo em uma festa em El Laboratório que por pouco passa sem pena nem glória para a história dos incontroláveis horrores aos quais já nos acostumamos. uma totalidade uniformizada feita de casas. Para começar é preciso idealizar formas concretas de comunicar esse sentido de cooperação para a liberdade sexual sem aconselhar as mulheres a manterem-se unidas ou evitarem lugares escuros. 72 . 17 O original menciona somente' gay'.

Na festa em questão. E não é que todas as festas. sobretudo às mulheres. por exceção do negócio e da decoração alucinante nada mereceu especial preparação ou continuidade. Como a festa era grátis não havia ninguém na porta responsável não digo para controlar quem entra. E já que essa agressão ocorreu numa festa vou referir-me a ela e outras com particular fúria porque sendo um ato coletivo para desfrute pessoal as vejo como o exemplo mais claro de um monte de coisas que me incomodam e que de nenhum modo tem relação com o tipo de lugarmomento nos quais me agrada estar. definitivamente.Claro que os bons modos. a cargo do felizmente extinto Projeto Ruído. podem ser aprendidos e praticados de maneira supérflua sem levantar muitas suspeitas mas inclusive nestes casos quem atua assim há de se sentir incômodo. que o evento conta com uma presença real de pessoas interessadas no que acon73 . Comunicar. mas para deixar claro essa atenção de que se estamos falando: de que existem pessoas concretas por trás e à frente da bagunça e que irão responder ou organizar uma resposta ante possíveis agressões ou outras coisas menos terríveis. por fora ou terrivelmente inclinado à mudança. shows e outras coisas sejam iguais (seria bom perguntar. o que acontece nas festas nais quais nos sentimos bem para que isso seja possível) mas ocorre que se estabilizamos certos hábitos das festas nas quais impera a falta de atenção pela ocasião. no que se refere a okupas e anti-sexismo.

a festa se converte na ativi74 . por que raios não organizamos nada? E é muito difícil estar o tempo todo de olho nas milhares de formas que alguém pode faltar o respeito e não vamos ficar em cima de toda pessoa suscetível de ser víctima de abuso… não quando o abuso já está consolidado como uma questão individual (cada um que as tome como possa e com quem seja). As consequências de deixar que as coisas aconteçam já a conhecemos.tece e que não se limita a inventar algo pra depois ver no que dá. Ninguém gosta de ficar atento o tempo todo ou de ser o responsável por terminar o que soube começar. Perfeitamente em sintonia com a agonia que nos empurra a esgotar todos os momentos sem reconhecer começos nem fins. Assim sendo. Antes que acabar com a história é melhor ver o grupo ir desaparecendo pouco a pouco por esgotamento ou se adequando a algum nicho. Nos acostumamos às festas sem fim. por que nos surpreendemos? Ou se pensamos que não é possível. pelo menos em “El Laboratório”. pra não dizer normal. Se não houver responsabilidade sobre o que organizamos ou o que deixamos organizar os coletivos de fora. Há pessoas que se cansaram ou que se sentiram sozinhas ao se depararem com situações de todos os tipos mas isso tampouco foi suficiente para dar um passo e colocar essa questão no centro e recuperar assim um espaço que está se perdendo no burlesco.

mas bem pelo contrário. a verdade é que não é por isso que deixamos de ter visto.. nem que abram a cabeça de alguém. Resisto em acreditar que quando alguém vai para fazer pose não percebe o que está acontecendo. Para isso. Às vezes preferimos não olhar em certa direção. Neste sentido. Poucas são as coisas que podem chegar a interrompê-la. Outra questão é o modo em que se afronta a questão de se colocar. atitudes que demonstram formas de se relacionar com o mundo: o medo. nem que uma mulher saia dançando ao hospital. a pessoa fica muito perceptiva. alguém sangrando na metade do pátio e com um ataque de nervos. por exemplo. que vai idiotizada. tanto que é capaz de ler os movimentos imperceptíveis. a pessoa projeta e experimenta as agressões sexuais do micro. a impotência. chegamos no ponto em que a festa se torna imcompatível com a possibilidade de comunicar. Agora está generalizado o argumento de que tem gente que vai para fazer pose e mais que pose.dade mais sagrada do centro social. decidir coletivamente e atuar. seria preciso cortar a música e interromper o evento. Nem que lancem pedras. Para muitas mulheres isso se torna bem claro e é por isso que às vezes. ocorrência que produziria um alarme desnecessário e tudo mais. gestos. Bastante paradóxico já que muitas das pessoas que assistem às festas não se enterem do que nelas se passa por mais chamativo que seja. E já que de qualquer 75 .. quando acontece algo.

que aí já não há nada mais o que dizer. Para tanto. porque a denúncia a posteriori é insuficiente. Já se sabe o quanto doem as armadilhas nas quais caímos… Quando não se pode ou não se quer ou alguém não se vê capaz de discernir o que acontece ao seu redor.forma vemos. conhecer como se sente a agredida. e não ter medo do intercâmbio e do fantasma da doença. 76 . pode nos deixar um sabor melhor na boca mas não vale para o que vem depois. é preciso estabelecer que uma agressão é uma agressão e ponto. Outro passo que é preciso ser dado é a atenção à mulher que sofreu a agressão. contra a violência do momento e contra a dos momentos posteriores. Também com isso estamos sendo bem frouxas. porque uma vez ocorrida a agressão. de intermediação e de continuidade. mas sim saber. A mediação com a coletividade. que é a okupa. Enganchar com o ritmo e as exigências de quem as vive. para entender e aprender sobre como se exprimenta a agressão. terá que apostar no contato. é importante como exercício contra o esquecimento e pela atuação positiva. Se isso é um hábito será necessário bater de frente. a não ser que prefira apostar na estupidez. como define a violência e atua contra ela. pela recuperação de um espaço maldito que já não se deseja pisar. seria melhor olhar de frente. quem a sofre continua circulando por aí e tem muito a digerir. Quando se produzem agressões é preciso criar grupos de apoio. Não tem nada a ver com invisibilizar. Primeiro.

o que acontece quando para a agredida. 77 . Nós vamos lá falar com essa mulher com nossa linguagem ou vamos traçar uma ponte real com a vivência e os termos de quem tem muito mais a dizer? Seria bom ter conhecimento das subjetividades que são tocadas com isso tudo.Repensar as definições a partir dessa atitude de desculpa e intercâmbio pode revelar alguns esteriótipos interessantes sobre as agressões sexuais. Gritamos que o sentimento de humilhação mais terrível nem sempre é a penetração ou continuamos dando continuidade aos mitos? Para avançar nessa direção faz falta envolver e envolver-se com a mulher agredida. o que aconteceu é o pior que podia ter acontecido? Provavelmente porque com a força das palavras se assumiu uma escala nos níveis de agressão que encontra na penetração seu máximo exponente e que deveria ser redefinido. se insiste por parte das mulheres que sim. e. também para nós mesmas. o que se coloca em primeiro plano não é a violação mas o perigo de morte ou quando atuar significa passar por estratégias de autodefesa tão inteligentes e espontâneas como fingir submissão e complacência perante uma violência desmesurada. E mais: Por que se pergunta se realmente se trata de violação. Por exemplo. E assim prevenimos a diminuição inevitável do acontecido sem nos darmos conta de que pressupomos também as classificações e definições usuais.

A melhor autodefesa.E ainda. de separação e acumulação de iniciativas nesse terreno tem muitos acertos mas também tem seus desacertos. Nossa decisão. a das mulheres. além daquela que permite transformar a autoestima em golpes certeiros. A que faz com que as agressões sexuais se convertam em um assunto da okupa em seu conjunto. como romper de uma vez por todas com a história de que somos só nós. que devemos nos importar com essa questão. algo que merece muitíssima reflexão e atuação em comum. deixando. a outra te situa. Ao menos se não se antecipa e tem em conta a parcialidade na qual acabamos reduzindo a violência contra as mulheres. sobretudo na hora de criar uma prática geral contra o sexismo e as agressões sexuais. MULHERES VIOLENTAS! 78 . situa tuas companheiras e a comunidade em um espaço diferente. A do golpe te defende. por alto. é a que gera uma disposição coletiva contra as agressões sexuais. assim como também nos importa a coletivização de uma atitude diferente. bem claro qual é nossa área de intervenção em uma okupa mista? É claro que nos importa. ATENÇÃO AGRESSOR. mulheres.

Desta vez. Não só reconheceu a agressão. com uma bandeira contra agressões machistas e folhetos informativos. uma mulher de Cornella foi agredida por seu ex-companheiro. como a justificou através 79 . porém encontrou com o agressor no caminho do tribunal e teve que esperar um hora em sua companhia – sob a tensão que essa situação impõe – além de ter que falar e compartilhar a refeição com ele. a agrediu. ele apareceu no bar onde a mulher estava com uma amiga. havia sido convocada uma concentração e a moça foi acompanhada por um grupo de pessoas. Ela tomou a decisão de denunciar o agressor. A atitude do homem foi. depois de discutir. a todo momento.Carta por um debate sobre agressões sexistas A anedota Nos meses de fevereiro-março. intimidações e monitoramentos por parte do homem. Fidel Salvador Sanchez. Foi a última agressão. Por sorte. umas 20 pessoas. pediu para conversar com ela e. de desafio a ela e às pessoas que a apoiavam. O julgamento foi realizado no dia 24 de maio e ela estava tão triste e patética como todas as outras mulheres maltratadas do Estado. depois de ir ao hospital. depois de várias ameaças.

qualquer coisa que justifique o injustificável e despolitize o debate.. questionada e impossibilitada de entrar no jogo de comentários exacerbados. o homem aparece na assembleia do Ateneu de Cornella completamente drogado e. depois de xingar e insultar todo mundo.da raiva e lhe deu pouca importância. Na segunda-feira seguinte. ameaçou com um martelo uma das moças que estava no julgamento. ele repreendeu às mulheres dali que conhecia e ameaçou a pessoa que entregava os panfletos. críticas por ter escolhido a via judicial. ameaçada pelo agressor.. de outro. já que ele havia começado a participar de um espaço libertário. questionando a decisão da mulher e a resposta de solidariedade. A nossa postura Esse fato e o resto dos detalhes patéticos da história vieram à tona através das pessoas que apoiaram a mulher agredida – maioria mulheres – e fez com que nos sentíssemos duplamente indignadas: de um lado. camaradagens. Durante as semanas seguintes nos surpreendemos muito ao descobrir que havia pessoas conhecidas tendo contato com ele. especulações sobre a relação entre o agressor e a mulher. Além disso. 80 .

Se ela denunciou é porque se sentia solitária. Queríamos gravar os nomes e os comentários terríveis. É sua decisão e ponto. porque acreditamos que É REALMENTE IMPORTANTE GERAR O DEBATE.As mulheres de Sants e Cornella e muitas outras que se juntaram mais tarde. Em alguns casos. muita gente sabia que havia sido cometida a agressão e bem pouca fez algo até o final do julgamento. perseguida e em perigo. para fazer alguma coisa e entrar a fundo na reflexão que pensávamos que tínhamos – homens e mulheres – a partir de histórias como esta. De fato. Esta é a versão mais “descritiva” e despida de picuinhas que fomos capazes de escrever. Achamos lamentável que tenham questionado a decisão da mulher de fazer a denúncia. isso tem ajudado porque pessoas que têm dúvidas refletem e enxergam que estavam equivocadas. Mas nós não queremos que a história seja reduzida à versão que é contada no bar ou que fique exclusivamente dentro do coletivo diretamente implicado (onde tem havido um esforço em falar e analisar profundamente a questão). 81 . se viram forçadas a exigir um posicionamento e a demandar explicações sobre a atitude de algumas pessoas do espaço onde aconteceu essa merda.

teria ganho publicidade e transcendido a esfera do privado. quando ninguém ali acredita nem reconhece a justiça penal e burguesa. acompanhá-la. Para começar. consideramos que essa foi uma desculpa política na qual se agarraram aqueles que questionaram a mulher e quem se solidarizou com ela.Uma das coisas que provocou mais polêmica foi ter utilizado a via judicial para solucionar o problema. etc. a policiais. se ele não parar. Temos muita certeza de que é preciso lutar porque as respostas a essas agressões são sociais. Porque essa não é nem a primeira nem a única vez que usamos o sistema judicial: denúncia a nazis. Não deve existir um duplo padrão para quem vai a julgamento. não encontrará nenhum apoio. do casal. Queremos esclarecer que essa é uma contradição que nós também temos. mas é uma das formas disponíveis para enfrentar às agressões machistas e muitas outras. Muitas mulheres morreram na mão de seus (ex)companheiros porque as pessoas não reagiram a tempo e de alguma maneira. fazer com que o agressor sinta que fez algo horrível e que. O isolamento é uma estratégia que busca. do grupo de amigos e do rumor e da fofoca. pelo menos. Se o assunto tivesse sido minimamente debatido. transmitir se82 . A resposta social implica também fornecer à mulher um suporte real. por desalojamentos ilegais.

inclusive. por outro lado. Nós não queremos escrachar esse homem em especial. mas sua posição tem sido muito clara nesses acontecimentos. de assumir que tem um problema e de querer resolvê-lo. “de homem pra homem”. as mulheres não tem credibilidade e. Parece significativo que para limpar sua imagem e questionar a mulher e o grupo de apoio. Sentimos pelos homens que escolheram se aproximar dele e adotaram uma atitude negativa em relação à moça. além de cobertura física e emocional. são ameaçadas porque ele se considera mais forte. O isolamento não é a única via. vê como iguais.gurança e confiança a ela. pedindo. Muitas vezes somente as mulheres se sentem afetadas e se mobilizam: elas se colocam mais rápido na pele de uma mulher agre83 . explicações. ele tem procurado o envolvimento de outros homens. Aos homens. Pensamos que se pode levantar dúvidas ou contradições acerca de um boicote coletivo sem ter que passar por cima daquilo que as pessoas pensam e sentem. mas depende sobretudo da atitude do agressor. as que enfrentam. Na mente daquele machinho. Pensamos que algumas pessoas se agarram às contradições sem afrontar a questão essencial: que o sexismo e as agressões machistas não são vividas da mesma forma se você é um homem ou uma mulher. com quem pode desenvolver uma camaradagem e solucionar os problemas com uma cerveja.

dida. nazipunks. expressar que não queremos que dependa exclusivamente de nós o isolamento social do Fidel. coletiva e organizada. se reunem e movem montanhas para dar uma resposta imediata. Nem mais nem menos. Por outro lado. violada ou intimidada e ofendida porque ou já passaram por isso ou têm consciência de viver em um corpo agredível. Embora isso não tenha acontecido no círculo interno. especialmente ao fato das mulheres serem sempre reduzidas. Por fim. da ação coletiva em termos de luta feminista. temos críticas à maneira como se tem contado a história. sobretudo. Não queremos ser guardiãs a vida toda nem que as pessoas participem do boicote porque nós dissemos. a informação circula rapidamente e as pessoas se sentem implicadas. Em qualquer outro tipo de agressão (dos fascistas. Queremos uma consciência coletiva e real. apreciamos que o alarde que tem suscitado tanto a denúncia de uma agressão machista com mostras de solidariedade tenha evidenciado a imaturidade do discurso e. antissexista ou como queira chamar. Por um lado. polícia) as pessoas rapidamente se organizam. É melhor dar uma resposta com contradições que não fazer nada. Emitimos um comunicado a Cornella com a conclusão de que feitos 84 . Queremos também expressar a nossa queixa a respeito da responsabilidade coletiva desse tipo de agressão.

o HAMSA (les tenses) ou com o Ateneu de Cornellà (dones de corneyà) 85 . se torna a água. Você pode fazê-lo entrando em contato com o c. Mais clara. Nós pedimos que esta avaliação feita por alguns coletivos de mulheres continue aberta ao debate interno dos coletivos.s. porém. que aqueles que emitem algum tipo de resposta: já continuam avaliando e portanto posicionando-se a respeito ou sugerindo algum tipo de alternativa.enchem as pessoas somente de palavras na boca.

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a ideia era criticar o gênero e todas as categorias involuntárias. além do boato de que feministas odeiam os homens e a única coisa que querem é o poder (tenho que assinalar que esses últimos argumentos não vieram exclusivamente daí e que não entendi tudo 18 Escrito por Amigo Vespa.A opressão “ao contrário”18 Quero falar sobre o tema da opressão “ao contrário”. aquela em que alguns anarquistas acreditam. apesar de não existir. portanto. Outro era que. Um dos argumentos consistia em que essa falta de mistura constituiria uma discriminação contra os homens. como anarquistas. de maneira que as formas de organização exclusiva desse tipo reforçariam o gênero. No caso. 87 . esses ditos anarquistas tinham recebido uma proposta de um grupo anarcofeminista para desenvolver treinamentos de autodefesa no centro social ocupado e gestionado por eles. Fiquei muito surpreendido ao escutar o comentário de que um grupo de autodefesa só para mulheres seria sexista. Um dia eu estava falando com alguns anarquistas de Barcelona sobre grupos de mulheres não mistos. sexismo.

algo como se opor ao capitalismo somente porque as classes populares sofrem discriminação. mas aqui saem da boca de um companheiro.E. o autor agradece aos amigos que o ajudaram a escrever em castelhano. 88 19 . que nunca admitem a opressão em que está assentado seu sistema. me acostumei a escutar tais argumentos vindos de personagens de direita (e isso que meu país não se caracteriza por ser nenhum paraíso de liberdade nem de radicalismo precisamente). É possível que existam feministas que odeiem os homens (mesmo que eu jamais tenha encontrado alguma). Que surpresa tive em escutar isso. Funcionários do governo. em meu país.o que foi dito . falam sobre discriminação e como corrigi-la. As coisas são muito piores que isso. N. que não podem inverter nenhuma hierarquia poderosa. O problema é mais profundo do que aponta essa palavra. entre outras coisas porque certas discriminações diminuem a eficiência da economia. os cito porque esta crítica está dirigida a argumentos. mas esses seriam sentimentos gerados por individualidades. Sobre o argumento da discriminação contra os homens direi que é uma análise fraca. Não existe sexismo “ao contrário”. É uma hierarquia. uma vez que. que não podem submeter os homens à violência 19 No início do texto da edição original. sem mencionar as causas estruturais e a história dessa discriminação. o que dá a entender que ele não domina o idioma perfeitamente. não a pessoas). A preocupação pela discriminação é própria do racionalismo.

é que as mulheres não se sentem motivadas para aprender autodefesa ou a usar violência física. Mas como homens nós também temos muito a ganhar na luta contra o patriarcado. dos homens contra o feminismo. Um resultado disso é que na maioria das vezes nós. Se decidimos que o gênero é 89 . não aprendemos como expressar bem nossos sentimentos e nossa sexualidade é comprometida. A reação. o que nos mostra que. mesmo que sofram tanta violência e ameaças por parte de nossa sociedade. inclusive o patriarcado. Mas como fazer isso? Não é uma luta fácil nem curta. Outro resultado do patriarcado. é possível excluir as mulheres. E frequentemente nos grupos de autodefesa mistos existe o sentimento invisível de que isso forma parte do território dos homens. nos ensinam a machucar e a objetificar. Estamos todxs condicionadxs. Sobre o segundo argumento. assim de imediato. sem nenhuma exclusão nem menção de gênero explícita. concordo com a necessidade de abolir o gênero binário. Existe uma herança de desigualdade e de dor que cria todos os sistemas de opressão. creio que provém de um medo de ser censurado. homens. de perder alguns privilégio e comodidades. entre outros milhares. desde nosso nascimento.cotidiana dirigida contra as mulheres durante milhares de anos de patriarcado e que não são sexismo.

A revolução era tão forte. mulheres como Lucia Sanches Saornil não os escutaram e iniciaram o grupo “Mulheres Livres”. Esse grupo publicou um periódico. dentro de uma sociedade tão patriarcal. o patriarcado é muito mais velho que esses outros sistemas. Não desaparecerá com a abolição do Estado ou do capitalismo.uma categoria opressiva e por isso não falamos sobre gênero. como um sistema de opressão incompatível com a liberdade. 20 Refere-se à Guerra Civil Espanhola. os homens da CNT disseram que o sexismo desapareceria através da revolução (Marx argumentou a mesma mentira em relação ao Estado). estaremos protegendo a herança do patriarcado. que algumas anarquistas enfrentaram o sexismo existente dentro do movimento e criaram espaços seguros e cômodos. N. Na Gerra Civil . 90 20 . montou escolas e ensinou as mulheres como usar as armas para combater o sexismo do movimento e o fascismo. que “já não vemos”. Precisamos abordar a abolição do patriarcado de forma direta. tornar-se guerrilheiras. milhares de mulheres ganharam autoconfiança suficiente para lutar com os homens. Constituiriam um exército e. Não é um argumento novo e nem precisamente liberal (algumas pessoas acusam o feminismo de “liberal”). matar os fascistas. Felizmente. Aliás.T. nem dirigimos ações contra seus resultados.

91 . deixando-nos guiar pelo sentimento de solidariedade e confiando que a pessoa que sofre uma opressão sabe melhor que ninguém o que necessita para combatê-la. Mas se algumas mulheres expressam que precisam de seu próprio grupo para autodefesa ou qualquer outra coisa.Não digo que todas as mulheres necessitam seus próprios espaços (tampouco que seja uma necessidade ou que constitua uma característica de todas as mulheres ou de todos os homens) e também não digo que as mulheres que querem ter seu próprio grupo de autodefesa o queiram porque não sejam capazes de brigar com os homens (por uma suposta fragilidade ou desvantagem física). deveríamos respeitá-lo. As mulheres têm uma história de luta forte e violenta.

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Agressão é quando me sinto agredida/o21

Se me sinto agredido/a reajo como tenho vontade. Em uma situação de agressão o que quero reprimir é a agressão e não a reação a ela. Se me sinto agredida/o não quero me sentir sozinha por ser a primeira vez que estou aqui ou porque não conheço ninguém ou poucas pessoas ou por medo de que não me apoiem ou pelo que for... E o que que tem o coletivo? Não queremos ser o/a “macho” protetor/a mas também não queremos usar isso como desculpa para não fazer nada. Não queremos olhar para o outro lado quando nos deparamos com uma agressão. Uma agressão não é somente entre quem agride e quem é agredida/o. Nós também estamos aqui!
21 Esse cartaz saiu da Assembleia de Gênero e foi distribuído, juntamente com o flyer que se encontra na página seguinte à tradução, aos centros sociais e demais espaços politicamente próximos com o objetivo de que fossem pendurados em algum lugar visível. Barcelona, 2004.
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Queremos viver bem mas não queremos viver de tudo! Os espaços “libertários” não estão isentos de agressões.

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Os espaços “libertários” não estão isentos de agressões22

É muito difícil deixar de viver valores, atitudes e comportamentos que são assumidos como normais. Para isso faz falta pensar, debater, questionar-se, a nível pessoal e coletivo. Criar um discurso, que é difícil de ter, que às vezes dói, que seja sincero, crítico mas construtivo... Existe agressões dentro do meio libertário? Sempre nos sentimos cômodas e seguras? O que é uma agressão? Diante de machistas, como reagimos? Reagimos? E como têm reagido as pessoas ao nosso redor? Estamos atentos ao que passa a nosso redor? DIANTE DE UMA AGRESSÃO HOUVE ALGUMA VEZ UM DEBATE COLETIVO SOBRE A MANEIRA DE AFRONTÁ-LA? Como podemos reagir de uma maneira adequada se não construímos nenhum discurso até que aconteça alguma violação?
22 Assembleia de Gênero, 2004. Barcelona
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ser forte e convencido. bêbados. tendemos a tomar papéis tipicamente masculinos para que sejamos levadas em consideração? 96 . mulheres. etc. não deixar espaço para dúvidas.)? Somos capazes de questionar nossas reações sem que isso signifique não fazer nada? Que fazemos se é uma amiga que está molestando outra pessoa? Nossa realidade é homem-centrada? Temos que assumir atitudes hetero-machistas para sermos aceitas ou escutados? Dominação. são atitudes típicas em nossas reuniões? Nós. falar por falar..Acreditamos na pessoa que nos diz ter sido agredida? Pedimos explicações/provas? Existe maneira de tratar o assunto em um discurso de culpabilidade e vitimização? Será que nunca vivenciamos uma agressão quando estávamos em uma festa? PODEMOS ATUAR ANTE UM AGRESSOR TAMBÉM EM UMA FESTA ONDE NÃO CONHECEMOS AS ORGANIZADORAS? Podemos atuar/reagir quando estamos festejando (drogadas..

como em qualquer outro lugar. homens.Nos sentimos cômodos expressando nossos sentimentos. temos em conta a posição de poder que representamos por nossa socialização? Teríamos que ter mais cuidado com nossos comportamentos por isso? Como podemos mudar o ambiente ao nosso redor para um ambiente onde nos sintamos mais cômodas e seguros sem simplesmente introduzir uma série de regras de como se deve comportar-se? Até onde queremos que chegue nossa “libertação”? 97 . achamos melhor escondê-los? Reagimos de maneira diferente a coisas que fazem ou dizem pessoas dependendo se são homens ou mulheres? Nós. frustrações ou. medos.

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N. nos une a ideia de destruição de todas as hierarquias e. em nossa vida cotidiana. termo que designa um esteriótipo de homem machista que importuna as mulheres na rua (e em outros lugares). como forma de imposição de poder. Na tradução. em nossas relações. É URGENTE A NECESSIDADE DE REAGIR E DE QUESTIONAR nós mesmxs. 23 Apesar de tudo que nos diferencia. O personagem do machinho se entende como algo que está longe e fora de nosso meio mais próximo e não como alguém que pode ser nossx amigx ou nós mesmxs. escolhi 'machinho'. o sexismo. por isso. porque essa palavra parece dar conta da ideia de um esteriótipo negativo. o racismo.No meio libertário. nossas casas e coletivos. T. de forma que simplesmente 'machista' seria um termo muito amplo e que poderia ter sido usado em castelhano se fosse a intenção dx autorx. 99 . De maneira geral. Também porque é muito fácil que associemos sexismo somente aos abusos sexuais 24 23 Cartaz publicado em 2002 e difundido através do Contra-Infos. Nós acreditamos que isso não tem a ver só com reagir em relação a fascistas e machinhos . mas também contra as atitudes de todxs e de nós mesmxs. o trabalho contra o fascismo. 24 No original utiliza-se 'babosos'. Não há termo equivalente em português...

Mas tentamos mudar a nós mesmxs e mudar nossos espaços e relações. com quem decidimos conviver e com quem nos identificamos em muito do que pensamos e como queremos atuar. critiquemos e reajamos diante de atitudes sexistas das pessoas que escolhemos como nossxs amigxs. amizade. reuniões. mas muito mais as pessoas que vivem em sua casa. quando se sente agredida. Daí a importância de nos autoquestionarmos e de falar entre nós mesmxs. A crítica que propomos não se aplica somente à sociedade em geral. é muito mais difícil de reconhecer nas pessoas conhecidas e com quem nos relacionamos. Na verdade. Ninguém. É muito difícil que reconheçamos. nenhum espaço – nem nenhum coletivo – está livre disso. não duvide se foi uma agressão ou não e que confie em seus sentimentos.e violações e não a qualquer jogo de poder e agressões de todo tipo (psicológicas. experiências. quase todas as violações acontecem em relações de casal. como violência. físicas). Porque o que uma pessoa sente como agressão.. Não são só as pessoas escondidas por trás de um arbusto no caminho de casa que te atacam. de nossas dúvidas. família.. verbais. manifestações. que você encontra em festas. mas também aos grupos e espaços em que militamos. como abuso. que possa falar sobre o que 100 . atitudes. oficinas. É muito importante que uma pessoa.

aconteceu e que possa se sentir confortável, ouvida e apoiada no que decida fazer. Na maioria das situações não temos certeza de como reagir, mas pensemos que o que se deve ter claro é que é preciso falar sobre o assunto, discuti-lo, não silenciá-lo. Porque o silêncio significa aceitar a situação, ou seja, não dar visibilidade ao problema e não permitir que respostas coletivas, e também individuais, sejam encontradas. Entre nós, não tentemos evitar o escândalo. Escandalizemo-nos sempre! NÃO NORMALIZEMOS as músicas sexistas em shows, as posições de dominação em reuniões e relacionamentos, a superioridade do racional sobre o emocional, os papeis que se supõem masculino e feminino, o poder da força física para impôr algo a alguém, as desculpas de ambientes de festa de que “está bêbadx” ou “está drogadx” ou “está fazendo piada”, etc, etc. Acabemos com a dicotomia entre pessoas boas e más que aprendemos nos contos infantis, os heróis não existem. Questionemos a nós mesmxs em todos os momentos. Não aceitemos a situação fácil de fingir tranquilidade quando existem coisas que nos incomodam. Não há soluções perfeitas, somente a possibilidade de tentar mudar para ter uma convivência melhor entre nós.

Não somos melhores, mas queremos viver melhor.
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A autodefesa de e para mulheres é uma resposta à violência de gênero
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Só de e para mulheres pela socialização que recebemos. Desde o momento em que nascemos somos educadas de uma maneira distinta dependendo se somos consideradas menina ou menino. E a cultura em que crescemos e nos relacionamos também nos percebe e nos determina de uma maneira distinta. Isso se reproduz em todos âmbitos sociais como a família, a escola, o grupo de colegas, o trabalho, os relacionamentos pessoais, festas… Não queremos dizer que todas as mulheres sejam iguais e sim frisar que há uma identidade feminina criada e imposta a um nível social que afirma que somos sensíveis, emotivas, passivas, dóceis, cuidadoras, conciliadoras, frágeis, hospitaleiras, sedutoras, heterossexuais, ciumentas, etc, etc. Só de e para mulheres porque existe uma bipolaridade de gênero (mulheres/homens). Esta é a realidade em que vivemos. A partir do momento em que todos os espaços (ou quase) te veem como mulher, você está mais sujeita a agressões pelo fato de que o gênero masculino
25 Este texto foi publicado em 2005 no fanzine “de pernas abertas”.
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Relações distintas às impostas pelo modelo heterossexual. mas com o desejo de criar relações distintas entre nós mesmas. Que não sejam de comparação entre mulheres e de busca por agradar aos homens. da simpatia… Questionar tudo isso a partir do cotidiano. o papel feminino do silêncio. transformando as relações entre mulheres. ou o que seja. e não de uma base ideológica ou teórica. Isso não tem apenas a ver com o que podemos ter em comum pela educação.domina e o gênero feminino se associa a ser dominado – em um sentido de força. o papel masculino de dominar pela voz e pela força física. gostemos ou não. por exemplo. Mudála. Que não sejam de atração pelos homens e de competitividade entre mulheres. Encontrar espaços para falar de coisas sobre as quais costumamos nos calar. Nós entendemos a autodefesa como uma maneira prática e direta de transformar a construção de gênero. Essa bipolaridade existe. Nós partimos desta base para questioná-la e mudá-la. de necessidades. bares…). de dominar os espaços públicos (ruas. de desejo. que estão muito fragmentadas e dominadas por sua relação com o outro gênero. a socialização. de nossas experiências. a identidade feminina. como situações que nos dei104 . da aceitação. entre outras coisas mais. Buscar a cumplicidade entre mulheres. cultura.

dúvidas com relação a nossas relações – “não sei se exagerei…”. frustrações – “queria ter dito/feito…”. tenta não dar importância a isso… a dificuldade que muitas vezes temos de reconhecer nossas potencialidades. dificuldades em não sorrir. medo da rejeição. Você decide como reagir. atitudes que nos molestam e que não sabemos como afrontar. confiando em você mesma. aprendemos juntas estratégias e táticas físicas. situações em que priorizamos as emoções das outras sobre as nossas. a dificuldade de reconhecer agressões cotidianas. somos todas distintas em como reagimos e queremos reagir. 105 . estados de ânimo. Uma agressão é quando você se sente agredida Não há uma maneira de afrontar uma agressão.xam inseguras. em sua cabeça. além disso. Na autodefesa. Tantas quantas são as situações. momentos. E. medo do conflito. facilidade com que separamos nossas emoções de nosso corpo – desejar surrar alguém mas sentir que não temos a capacidade física para tanto. a dificuldade em aceitar o que sentimos. Essas são ferramentas que cada uma decide como e quando usar. que alguém te toque de uma maneira que você não goste e você. psicológicas para nos defendermos. situações em que muitas vezes não temos claro o que nos agrada. verbais. Há muitas maneiras.

nem aos advogados. Percamos o medo e abandonemos a raiva! 106 . Visibilizar agressões que não costumamos reconhecer como tais: chantagens emocionais. Queremos combater a frustração e a sensação de impotência que podemos sentir ante uma agressão. porque você sabe. um grupo de autodefesa de e para mulheres permite criar respostas individuais e/ou coletivas para as agressões. com a possibilidade de organizar-se e atuar diante das agressões. nem aos juízes. papéis de poder… Reconhecê-las. Queremos reconhecer e afrontar atitudes violentas que existem nas outras companheiras e em nós mesmas. melhor que ninguém. Entendemos um grupo de autodefesa como um grupo de afinidade.Nenhuma defesa é exagerada. Para nós. rejeitá-las e defender-se. Não queremos recorrer nem à polícia. o que está sentindo e como quer expressá-lo. O que é preciso questionar são as agressões e não as respostas a estas. É uma alternativa real às instituições e autoridades que querem ter a resposta ou a solução. seja de uma maneira tranquila ou agressiva.

107 . da fofoca insana que se tornou habitual nos bares.Comunicado das Anacondas Subversivas26 Dizem por aí que o inimigo mais difícil de combater é o que vive em casa. se sentem sistematicamente abusadas por rastafaris. e queremos de uma vez por todas chamar as coisas por seus nomes e denunciar: • Que muitas companheiras. rolê alternativo. microcosmo. o pior do sexismo não se manifestava. de acreditar que em nosso mundinho. é bem verdade que às vezes dizemos “buceta!” ou chamamos a um policial de “filho da puta”. Como isso é verdadeiro e próximo quando falamos de sexismo! Mas claro. cabeludos. ou então não existia. Algumas de nós já se cansaram de ouvir isso. Sim. gente politicamente mais ou menos correta e o assunto do antipatriarcado é bastante aceito. Nos cansamos do rumor. 26 Texto escrito pelo grupo Anacondas Subversivas. gente-boa ou simplesmente galanteadores que ainda têm a ousadia de. mas são só minúcias que algum dia abandonaremos. “nós” somos a galerinha do rolê alternativo. de suportar essa hipocrisia. festas e outros eventos libertários. como nós.

ou é um quase sim ou um meio não que quer se deixar convencer. etc. chato. tocar em grupos de inegável conteúdo antagonista. alguns “companheiros” tenham a pouca vergonha de dizer a quem denuncia: “Vai fazer escândalo toda vez que tivermos uma ereção?”. O que sim nos pode assustar. mas essa noite não rola”. cooperativas.. participar de reuniões. incomoda e inclusive agride em vez de continuar sua ereção sozinho ou com quem se anime de compartilhá-la. causar nojo e/ou vontade de vomitar é o “membro” que apesar da negativa insiste. ainda sabendo de tudo isso. persiste. A esse respeito queremos dizer que não nos assusta nenhum levantamento de “membro”. espaços supostamente libertários. shows. • Que várias companheiras têm sido objeto de abusos mais ou menos frustrados por um golpe há tempo em okupas. festas. empunhar a bandeira do antipatriarcado.. • Que além disso. Quando uma mulher diz “NÃO”. Quando dizemos “NÃO”. é que “sentimos muito. encobriu uma ou outra vez semelhantes por- 108 .em certo momento. • Que muita gente.

Incentivamos a todas as moças que se organizem dessa ou de outra forma para lutar contra o patriarcado. tratando-nos como presa “fácil” em cujo pescoço se deve lançar-se. Queremos deixar claro que não somos um coletivo. Limpemos a casa antes de varrer o pátio. para aquele que abusa. não fazemos um trabalho contínuo. Se fazemos coro frente ao fascismo. A forma de organização que praticamos é o que se conhece como grupo de afinidade. O problema é coletivo. então não há lugar para o que tem acontecido por anos entre nós. mas nosso objetivo é combater o patriarcado mediante respostas a problemas concretos. ação direta. para aquele que sai à caça da moça e não nos respeita. Diferente deles. um grupo fechado de pessoas e com um alto nível de confiança que garante nossa operatividade e eficácia. NENHUMA AGRESSÃO SEXISTA FICARÁ SEM RESPOSTA! 109 . autodefesa.cos ou simplesmente comentaram o assunto em forma de fofoca. se fazemos tudo isso. Não há lugar para as cantadas. se pintamos as paredes contra o patriarcado. se gritamos do fundo do peito que nenhuma agressão ficará sem resposta. A resposta deve ser também coletiva. ou seja.

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principalmente. nos deparamos com reações de surpresa. na expulsão (ou tentativa de expulsão) de agressores (concretamente de um agressor. alarme e. 111 . como foi o caso. assim como algumas interpretações errôneas da ação e de seus objetivos.Sobre a ação direta feminista 27 Ao longo dos últimos meses. algumas de nós mulheres tivemos que adequar nosso ócio noturno à realização de ações diretas feministas que consistiram. Ainda assim. Consideramos legítima esta ação especialmente quando se leva a cabo em um ambiente político. Por isso gostaríamos de convidar os di- 27 Texto escrito por “Unas / LasOtras”. Isto nos faz pensar que talvez nos últimos tempos. questionamento. em algumas ocasiões. nos movimentos sociais de Barcelona se está perdendo (possivelmente por falta de costume) a sensibilidade feminista que permite compreender em seu contexto e em sua justa medida ações como esta. durante os dias seguintes. conhecido pelo apelido de Fer) de espaços públicos.

as drogas e a ideia de que o que ocorre nesses contextos faz parte de um âmbito privado e não político. esses tipos de ações não são casos isolados. em que tudo vale. Como? 112 . Denunciá-las e combatê-las é uma forma de fazer política. o contexto festivo. portanto. Este conjunto de elementos funciona como legitimador das condutas dos agressores e. os assédios. exercê-las é exercer uma forma de violência amparada em um privilégio social. deslegitimador dos possíveis sentimentos de mal-estar. Aceitá-las e justificá-las também é então um posicionamento político no sentido oposto. mas sim parte de uma forma de violência estrutural e. Por quê? As agressões sexistas. minimizadas e continuem produzindo-se cada vez com mais impunidade. A partir de uma perspectiva antipatriarcal.ferentes grupos a nos acompanhar em uma reflexão sobre o porquê e o como da ação direta feminista. os estupros são formas de opressão patriarcal que ocorrem constantemente em nosso cotidiano e em nossos espaços políticos e se amparam em múltiplas bases de inércia social como um bom ambiente. protesto ou resposta da agredida e permite que estas formas de violência continuem silenciadas. portanto.

Se este não responde. Uma vez criado um espaço de segurança para a mulher. um grupo de mulheres está em contexto festivo dentro de um espaço político e se encontra nele com o agressor de uma companheira. insiste para que ele abandone seu comportamento ou diretamente o expulsa do espaço. se atua de maneiras diversas. (isto é irrelevante porque “se mexeu com uma. Se. indicando-as. a mulher comunica o que está acontecendo a seu grupo de afinidade e este. como é o caso que motiva este texto. a partir daí. sempre em função de seus desejos. primeiro comunica seu mal-estar ao agressor incitando-o a desistir de sua atitude. primeiro se protege a mulher agredida da violência que se está exercendo sobre ela. presente ou não. Alguns exemplos? Se em um contexto de festa uma mulher está sendo assediada. em função do grau de hostilidade do sujeito.Identificando-as. ela decide como prefere gerir a situação e. tornando-as visíveis já no momento em que acontecem e não quando suas consequências se manifestam. mexeu com todas”). Se neste mesmo contexto se produz uma agressão sexista. uma delas se dirige ao agressor e lhe comunica que: 113 .

assim como para que essas dinâmicas se inte29 28 28 Núñez e Navarro são os donos da “Núñez i Navarro”.E. 114 .. N. sua presença no espaço de luta política que inclui a luta feminista é non grata (é como se Núñez e Navarro estivessem em uma festa em um centro social okupado dançando “Eu sou assim.” Trecho da música “A quien le importa” da cantora mexicana Thalía. b) Dado que é um violador.a) Sabe que ele é um violador. com o menor prejuízo possível para o resto das presentes e explicando sempre às pessoas que organizam a festa e a quem pergunte o que é que está acontecendo e porquê. Se o agressor expressa sua absoluta recusa em abandonar por seus próprios pés o espaço. y así seguiré. nunca mudarei…” ) c) Ante o anteriormente exposto e a consequente falta de respeito que sua presença supõe para a consciência política das presentes. 29 No original “Yo soy así.. ele deve abandonar o espaço. e assim continuarei. o grupo de mulheres passa a fazê-lo abandonar o espaço rapidamente. Esses são só alguns exemplos que esperamos que sirvam para ilustrar o porquê e como da ação direta feminista. N.E. nunca cambiaré. para eliminar as desconfianças e receios que essas ações podem produzir em quem não dispõe de dados suficientes. uma mega empresa de construção civil em Barcelona.

grem no funcionamento de nossos espaços cotidianos e centros sociais. Mexeu com uma. mude o conceito de “sexista” por “racista” e verá como tudo fica mais simples. mexeu com todas! Se ao longo da leitura deste excerto você visualiza a situação e te parece estranha ou difícil de compreender. 115 .

116 .

Acontece que 90% das poucas que se assume como tais logo se tornam invisíveis. 117 . que continuam com a conversinha chata de sempre” … “isso é assunto entre as pessoas. Porque parece que não é uma prioridade para os movimentos ou porque nos incomoda colocar em cima da mesa responsabilidades individuais e coletivas. um assunto privado e não político nem coletivo. as feministas estragaprazeres. não tem tanta importância” 30 Panfleto tirado durante a campanha de 25 de novembro de 2007.. … “lá vem de novo as corta-pintos..Este escrito não faz parte de uma campanha pedagógica30 é uma ADVERTÊNCIA Acontece que em nossos espaços há agressões. Acontece também que algumas de nós estamos fartas do bom convívio Se você está pensando.

te faz pensar... não vamos complicar nossa vida” … “é que de noite todas as gatas são pardas” … “tá bom. … “pois já é hora. questionamentos e você participa em julgamento popular a uma mulher que se sentiu agredida.… “não nos metamos onde não nos chamam. estou farta de que isso fique na rumorologia” … “o sexismo. a lesbofobia e a transfobia não desaparecem ao nos afiliarmos a um espaço libertário” … “o feminismo não chegou a sua realização com as sufragistas e o direito ao voto” … “a luta contra o poder patriarcal é uma responsabilidade coletiva” 118 . então temos muita vontade de te cortar os pés! Se isso. como o anticapitalismo que resolve tudo” … “é que estava muito drogado” … “somo tão pós-modernos que a questão de gênero se torna antiquada” … Se te vem mil justificativas. ao contrário. tá bom” … “tem coisas mais importantes.

..... .este panfleto é principalmente para você. Se te embrulha o estômago e você sente raiva.... agridem todxs!!!” Se você reage com a mesma contundência ante uma agressão fascista e/ou racista que frente à violência machista. Se você pensa que a ação direta é necessária e legítima. 119 .… “quando agridem uma. Se não quer ficar caladx e tem vontade de responder e se defender...

em um grito em sua orelha.. . bêbada ou desacordada. insistência asfixiante. mas que não percebemos ter a ver conosco nem com nada em nosso mundo. que inclui olhadas. isto é. que pode chegar inclusive a encostadas na pista de dança. dar em cima. em um pisão..Este sim é um escrito pedagógico: 31 Baboseo : se diz do ato de invadir o espaço de uma mulher com a intenção de exibir sua plumagem de pavão real. sorrisinhos. nem aproveitando que ela esteja drogada.e que pode terminar em bebida derramada em sua cabeça. mas seria algo como o ato de passar cantadas. conversa vomitada. Consentimento: quando duas ou mais pessoas decidem livre e conscientemente relacionar-se.. ou lemos no jornal. movimentos de sombrancelha. pose de machinho.. etc. Violência de gênero: essa é a expressão que utilizamos quando vemos uma brutalidade na tevê. em um empurrão ou na saída imediata do recinto empurrado pelos braços dela e de suas amigas. 120 . 31 Não há um equivalente bom para esse termo em português. etc. por desejo e sem coações de nenhum tipo. agressões verbais em tom de cantada. Violação: não é um encontro casual entre dois corpos.

Agressão: é quando uma mulher se sente agredida. quando na verdade podemos cortar qualquer outra parte de seu corpo . Antipatriarcal: palavrinha que utilizamos em textos e discursos mas que não transportamos para nossa vida cotidiana. diferente do resto e nos livrar de responsabilidade. apologia ao livre arbítrio e ao tudo-vale. justificação da miséria que nos rodeia. Corta-pintos: simplificação falocêntrica. agressor violador: serve para marcar o outro como louco. Bom convívio: soltismo.) 121 .Vítima: permite compadecer e negar a força e a luta de uma mulher que enfrenta uma agressão. Homem mal. Histérica: desqualificação da raiva das mulheres. doente.

122 .

Breve história dos objetos cotidianos32 Tão cotidianos como a violência contra as mulheres são os objetos que podem nos servir para nos defendermos dela. até a caixinha de khol para pintar-se os olhos das marroquis dotada habilidosamente de uma lâmina de metal. sofremos. mulheres. Mas lembre-se que a confiança em nós mesmas e a solidariedade entre mulheres são nossas melhores armas. isto é. Barcelona 25 de Novembro de 2008 123 . sempre utilizamos nossa inventiva para responder à violência machista. Em tuas mãos tens uma pequena mostra só para que deixes voar tua imaginação. os indispensáveis para evitar abusos indesejáveis no metrô de Tóquio. Recuperemos as ruas! Recuperemos a noite! Recuperemos nossos corpos! Porque você se valoriza! 32 Acciones descentralizadas (“Ações descentralizadas”). mulheres. quer dizer que vem de muito antes… desde os preparados de água com pimenta como spray das mulheres mexicanas. Defender-se com o que se encontra mais próximo é tão antigo como as agressões que nós. nós.

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