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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarías á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
W_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
... dissipem e a vivencia católica se fortalega
1J- no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
IÉNCIA E RELIGIA'O
pUTRINA
IBUA
ORAL >
ISTÓR1A DO CRISTIANISMO

no
mm'm*
ÍNDICE
Pég.

L PSICOLOGÍA E RELIGIAO

1) "O ateísmo continua na ordem do día.


A psicología estaña em condigóes de explicar como pode o
komem moderno -negar a existencia de Deus ?
E qual o sentido dessa negativa para os cristáos de hoje ?" .. 46

II. BÍBLIA SAGRADA

2) "Os milagrea de Jesús narrados pelos Evangelistas mere-


cem crédito ?
Serdo mais do que leudas e estarías imaginadas pela píedads
dos antigos eristáos ?"

III. MORAL

5) "Éofe fala-se muito de pecado coletivo.


Que quer Uto dizer ?" GS
¿) "A masturbacáo deve sempre ser tida como pecado grave?
Ocorre táo. freqüentemente que muitas pessoas a consideram
algo de natural ou mesmo recomendável em certas fases da vida.
Que dizer a propósito ?"

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

5) '"O Livro das Profecias' de Mozwrt Monteiro tem chamado


a atencáo do público.
O mundo terminará no ano 2000 ?" 81

RESENHA DE LIVROS 8S

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


M
3e Duderes ver destruida a pbra;.da tua vida, ?. • •.•; r; <>•>'•.■
E, sem dizer urna só palavrá, récomecar a construir; ,
Se puderes perder com um só golpe o lucro de cem jogadas,
Sem um gesto e sem um suspiro ; -
Se puderes seor amoroso' sem te tornares louco de amor,
Se puderes ser forte sem deixar de ser temo,
Se te sentires odiado e nao odiares por tua vez,
Mas, nao obstante, hitares e te defenderes;

qe puderes suportar que tuas palavras sejam deturpadas


Por tratantes desejosos de excitar os tolos;
Se puderes ouvir os labios loucos mentir a teu respeito
Sem que tu mesmo mintas com urna só palavra; .
Se puderes guardar a. tua dignidade, sendo, ao. mesmo tempo,
• [popular;.
Se puderes permanecer povo dando conselh» aos Reís,
E se puderes amar todos os teus amigos como irmáos,
Sem que algum déles se tome tudo para ti; '-S'

he sotiberes meditar, observar e conhecer . .


Sem jamáis te tomares cético ou destruidor,
Se puderes sonhar sem que jamáis teu sonho se torne o teu
[senhpr,
Se puderes pensar sem ser apenas um pensador;
Se puderes ser duro sem jamáis cair em cólera,
Se puderes ser corajoso e jamáis imprudente,
Se puderes ser bom, se conseguires ser sabio,
Sem ser moralista ou pedante ;

Oe puderes encontrar triunfo após derrota


E receber ésses Sois mentirosos com o mesmo semblante;
Se puderes conservar tüa coragem e tua cabeoa,
Aínda que todos es outros as percam,
Entao os Reís, os Deuses, a Sorte e a Vitoria
Serao j/ara sempre teus escravos submissos,
E, o que vale muito mais do que os Reís e a Gloria,

TU SERAS UM HOMEM, MEU FILHO !

Kipling, poeta ingles, 1865-1936


«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Ano X — N? 110 — Fevéreiro de 1969

I. PSICOLOGÍA E RELIGIAO <4


' . *

1) «O ateísmo continua na brdem do dia. •/; *


A psicología estaría em condicóes de explicar como podé -&
o homem moderno negar a existencia de Deus ? * ' ■

E qual o sentido dessa negativa para os cristáos de hoje ?»

Resumo da resposta: Distingam-se dois tipos de ateísmo: o


que explícitamente se opóe a Deus, militando contra a Religiáo, e o
que simplesmente ignora a ReligiSo por julgá-la fenómeno ultra-
passado.
Pergunta-se agora: como pode o homem renegar Deus, se éste .
é o Supremo Ser ?

1) A própria atitude de quem hega a Deus nao seria possível se


o homem nao fósse capaz de ouvir um chamado de Deus. O animal
irracional nao tem problema religioso, porque é incapaz de apreender
valores invisiveis, dos quais o primeiro é Deus. Por isto se diz que
o ateísmo, explícitamente negando a Deus, dá téstemunho indlreto da
existencia'de Deus. \
2) Deus se revela discreta ou veladamente ao homem, porque
quer respeitar a liberdade da criatura. Deus, visto face' a face pelo
homem, suscitaría a adesáo incondicional da vontade humana; esta
nao ter'ia liberdade de opcáo.
3) Dado que Deus só se manifesté veladamente, em espéUio,
compreende-se que o homem possa ser mais atraído pelo fulgor do
ouro, da fama, da gloria terrestre do que pela nogáo de Deus que lhe
é comunicada nesta vida. Compreende-se enta_o, e também, que o *
ateísmo seja um fenómeno decorrente (embona nao necesariamente)
da própría estrutura da psicología humana.
4) Quanto aos homens que nao renegam explícitamente a Deus,
mas O ignoram «tranquilamente», note-se o seguinte : todo homem
se realiza mediante dois movimentos : um' de exteriorízacjio,- que o • -
faz encontrar as driaturas fora de si, e um de interiorizacáo. que faz
que o homem se encontré consigo mesmo e" com'Deus; Ora o homem
moderno é muito mais dado a exteriorizacao do que á interiorizacáo.
Isto lhe acarreta um depauperamento de si mesmo e explica que nao
se encontré com Deus ou mesmo tenha peFdidó o senso de Deus...

— 46 — ' ■
ATEÍSMO E PSICOLOGÍA

5) O ateísmo contemporáneo — pode-se dizer — tem um signifi


cado positivo na historia do género humano. Constitui, sim, um desafio
aos cristáos. Com efeito, estes sao, em parte (como lemhra o Vati-
1 cano II), responsáveis pela apostasia religiosa, já que nem sempre
- deram (ou dad) ao& seus semelhantes um lúcido testemunho de Deus
e de vida crista. ASeitem. pois, os cristáos éste desafio e procurem
renovar seus conhecimentos de fé assim como sua conduta moral, a
fim de tornarem mais e mais lúcida e atraente a imagem de Deus
que éles sao emcarregados de exprimir no mundo de hoje.

e * *

Kesposta: O ateísmo de nossos dias é fenómeno novo na


historia da humanidade. Ele nao sómente se afirma, mas em
• varios países tende a se impor: há regimes e planos de governo
-' destinados a constranger os homens, mediante métodos requin
tados, a abandonar a fé.
Ésse ateísmo apresenta duas principáis modalidades :
1) o ateísmo que nega explícitamente a existencia de
Deus; seus adeptos sao militantes e procuram propagá-lo medi
ante os mais diversos meios. É ■o que se verifica principalmente
nos países ditos «da Cortina de Ferro».
2) Há aínda outro tipo de ateísmo, que, embora mais
brando, ainda é mais significativo :... o ateísmo que é simples-
mente indiferentismo em relaeáo a Deus, como se Deus e Reli-
giáo fóssem temas já ultrapassados. Encontram-se muitos1 ho-
• mens que nao negam a existencia de Deus porque nem sequer
se ocupam com o problema; Deus nao lhes interessa. Parecem
tranquilos na sua insensibilidade. — Observe-se que Nietzsche,
negando Deus, foi atormentado durante toda a sua vida; tal,
porém, nao é o caso de muitos cidadáos contemporáneos, que
vivem'sem fé e nem por isto manifestam sentir falta de algo
„ de importante no plano espiritual.
Diante de tais fatos, procuraremos, ñas páginas que se
seguem, penetrar um pouco na psicología do ateu. A seguir,
analisaremos o significado do ateísmo para os cristáos nos
dias atuais.

1. Um pouco da psicología do ateu

«Como é possível que o homem negué a Deus, se Deus


é o Primeiro Ser e a Verdade Suprema ?» É esta a pergunta
que se impóe com preméncia, dada a importancia do fenómeno
ateu em nossos tempos.

•'? •—47 —
4 «PERGUNT&É RESPONDEREMOS» 110/1969 qu. 1

A respósta será formulada em etapas:

1) Antes do mais, observe-se que a possibilidade de negar


a existencia de Deus é propriedade do hamem, propriedads
que distingue o ser humano do animal irracional. Os horizontes
do irracional sao limitados ao mundo visível, corpóreo; ora,
já que Deus é incorpóreo, o animal nao o percebe; nao o afirma
nemnega, mas procede como se Deus nao existisse.
' Ao contrario, os homens em todos os séculos da sua his
toria: foram solicitados ou mesmo atormentados pelo problema
de Deus. Por qué ?
¿- Porque/o homem tem inteligencia, mediante a qual
ele é capaz de apreender valores invisíveis. Por sua inteligencia,
o ser humano é p6sto diante dé questóes. que, em última analise,.
sao religiosas: «Donde venho ? Para onde vou ? Qual o sentido ,
desta vida ? Que é a voz da consciéncia ? Tenho obrigagao
estrita de seguir essa voz? Haverá urna justa san-áo para o
bem'.e o mal que praticamos na térra ? Existe urna vida pos-
tumaj?»
Estas perguntas afloram espontáneamente ao espirito de
todo^homem. É a natureza racional do homem que as suscita.
Ou níelhor • é o próprio Deus quem incute á natureza humana
tais questóes e a sede de lhes dar resposta. Desta forma Deus
interpela e chama sempre todo homem. Para tanto, Ele utiliza
os sinais mais variados: ora sao as grandes duvidas concernen-
tes ap sentido da vida; ora sao o cosmos com seu curso har-
moniosa.os astros, os minerais, as plantas, os animáis, que
servem'de siriais mediante os quais Deus se insinúa aos homens.
Diz Sao Paulo:.

«As nerfeieSes invisíveis de Deus, tanto o seu eterno poder como


a sua divindade. tornam-se vísiveis. quando as suas obras sao consi
deradas pela Inteligencia» (Rom 1,20).

Em qutra passagem, observa o mesmo Apostólo :

«Deus'fixou os tempos determinados e os limites para a habitacáo


dos homens, a fim de que procurassem a Deus e ás apalpadelas O ten-
tasfem encontrar, pois na verdade Ele nao está longe de cada um
de nos Com efeito, néle vivemos, nos movemos e existimos» (At 17,
26-28).

Em suma, Deus, propondo ao homem as realidades do


próprio homem e dfste mundo, se insinúa á criatura e dirige-
-lhe um chamado. Por conseguinte, o fato de que o homem
indague a respeito de Deus, afirmando ou negando finalmente
' ' ATEÍSMO E PSICOLOGÍA ;> ' 5 ,
" ■ r ■ '.,-,,-* ■.• ■ ■•■■-■''' '*0'

a sua existencia, só é possível por efeito de um chamado préyioV',.;<


do próprio Criador. Em conseqüéncia, observa-se que ;quemr ;..;¿;.
nega a Deus explícitamente, só o faz porque Dáus se lhe maiü-:?;;',^;
festou de certo modo; nao haveria negagao, se nao houyesse .••.^
anterior insinuado de Deus. • . /,;.•"■"$$$■.jg
Eis, porém, que urna pergunta surge destas considerácoeá^ 7!||
2) Se o homem é chamado por Deus e tal convite jamaré';^;
deixa de se fazer ouvir, como pode o homem ser capaz-de f.]^
negar a Deus ? O chamado continuo parece excluir a nega§áo. 'ig

Eis a resposta: 1$%, v^


O chamado de Deus é delicado; faz-se atrayés|¿da&¿ ^
criaturas, em espélho e em imagem,
i nao face
f a facéiid&L^^,
facéi\<£m^£
Cor 13 12) ; neste mundo nao há ainda a plenitude;;!<Ja;;;>$
visáo. Assim Deus se manifesta e, ao mesmo tempo^seíescandé-?. .ir
ao homem. Por isto o homem nao O reconhece necessariamente^,; >
Dado que Deus se revela e vela, pode haver mal-entendidos;-a^p
respeito dele; o homem é capaz de deter-se ñas criaturas,Jem.,. /
vez de subir por elas até o Criador (muitas criaturas, como o v .•
ouro, a fama, a gloria, o prazer, tém mais fulgor e atratiro,^.
para a natureza sensível, do que Deus conhecido atrayes'.do^ .¿
espélho'das criaturas). .•'*%'. '/•"
■ 'Sem dúvida, a procura do Senhor é laboriosa>pára o
hpmem,- más apresenta-se cheia de esperanga, porque,Deus
mesmo sé empenha por lhe dar um resultado positivo.

Nova questáo entáo se levanta: . •

3) Por que Deus se manifesta e, ao mesmo tempo, se' •


oculta ao homem, se quer ser encontrado por éste? Seria muito >
mais fácil reconhecer a Deus se Ele se evidenciasse retumban
temente á mente humana. .
Em resposta, deve-se observar que a visáo de Deus face
.a face satisfaz de tal modo ao homem que lhe impoe urna
atragáo irresistível. Quem vé a Deus como_Éle e. ve o_Infimto
para o qual foi feito, e, por conseguinte, nao pode senao optar . ;,<
por Deus. - . .■'■ '
Ora o Senhor quer que o homem O aceite livremente. Em .:-;,
outras palavras : quer respeitar a liberdade do homem, prerro
gativa máxima desta criatura; a liberdade concorre para tor
nar o homem imagem e colaborador de Deus. É gratamente_ a
salvaguarda da liberdade do homem que exige, Deus só se ine
manifesté veladamente.

— 49 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 1

NSo há dúvida, as criaturas materiais, como as estrélas, as plantas,


os animáis, oferecem. do seu modo, um necessário louvor a Deus.
Esse louvor, porém, por ser necessário, é muito memos digno do que
o louvor que a liberdade humana deve apresentar a Deus.

Donde se vé que, se Deus'se manifesta veladamente ao


homem, Ele o faz para atender á constituicáo psicológica do
hbmem.

Duas observacóes agora se nos propóem (n* 4 e 5


seguintes) :
4) A liberdade de arbitrio, portanto, constituí nao só-
mente um excelso predicado, mas também urna seria ameaca
para ohomem. Certamente Deus espera déla um «Sim», mas
ela éhcerra em si a possibilidade de dizer «Nao» ao Criador.
Nao. obstante, Deus nao mutila essa liberdade, mas leva-a a
' serió, deixando-lhe a possibilidade de recusar quantas vézes o
queirá. O Criador nao trata o homem como crianga, mas como
ser responsável até as últimas conseqüéncias.
5) Vé-se também que na possibilidade de dizer «Nao»
a Deus está contida a possibilidade do ateísmo; esta é inerente
á constituicáo mesma do homem.
. Por conseguinte, é compreensível que tal possibilidade se
realize em certo grau no decorrer da historia. Com outras pa-
lavras: era de esperar que, através dos séculos, o género humano
exercesse todas as potencialidades latentes na sua natureza,
nao sómente as positivas e fecundas, mas também as negativas
e destrutivas. Eis por que o ateísmo marca a historia contem
poránea; para que isto nao se verificasse, Deus o deveria ter
impedido pórrintervencóes especiáis, que seriam quase milagres
no plano mo'íaí.
Até* o presente momento, consideramos o ateísmo que nega
explícitamente a Deus (é o que professam, por exemplo, os
regimes da «Cortina de Ferro»). Póe-se agora ulterior questáo:
6) Que dizer do ateísmo que simplesmente nao cuida de
Deus ?... dos ateus que, com aparente tranqüilidade de alma,
sao por completo insensíveis ao nome de Deus ? Como se
poderíi explicar tais atitudes após o que até aqtri foi dito ?
Eis a resposta:
: O homem, para se realizar, deve exercer dois movimentos:
■ um, de exteriorizasáo, movimento do homem para fora
de si, ou para as criaturas sensíveis, eom as quais lida no tra-
balho. e na vida social;

•■■■'■■ "''.'v''':ir'--v ■ . — so —
ATEÍSMO E PSICOLOGÍA

— outro, de interiorizagáo, movimento pelo qual o homem


entra em si mesmo ou se recolhe.
Ora é pelo movimento de interiorizagáo que o homem en-
contra a si e a Deus. Karl Jaspers, filósofo existencialista de
nossos tempos, proferiu urna verdade muito profunda nos se-
guintes termos : o homem deve encontrar a si para poder en
contrar a Deus e, na medida em que o homem perde a si, perde
também a Deus.
Existe, pois, um nexo íntimo e inviolável entre o encontró
do homem consigo e o encontró com Deus.
Ora verificam-se diversos graus de interiorizagáo e exte-
riorizagáo do homem. Há mesmo pessóas que nao se encontram
mais consigo ou que vivem na periferia de si mesmas ; nao
chegam ao fundo de si mesmas, fundo que é o ambiente onde
por excelencia ressoa a voz convidativa de Deus. Com efeito,-
um homem absorvido pela técnica moderna acaba por se sen
sibilizar quase exclusivamente por acontecimentos ou questóes
de técnica ; suas faculdades se abrem únicamente para a expe
riencia sensível, o cálculo matemático, as provas das ciencias
naturais... Tal homem exteriorizado, alheio a si mesmo, se
torna fechado á voz de Deus; tem ouvido para as coisas de
fora, e nao para as de dentro.
O fato de que Deus se cale nos homens assim insensibili
zados nao prova que Deus nao exista, mas apenas que o homem
perdeu a si mesmo e, antes do mais, perdeu o que néle há de
,mais profundo, mais íntimo e precioso. Ésse empobrecimento
'interior leva naturalmente a pessoa a evitar a solidáo e pro
curar urna compensagáo no ruido, no movimento febril e na
dispersáo — o que agrava a sua situagáo.
Tal estado de coisas só poderá ser saneado mediante_ a
restauragáo do equilibrio entre exteriorizagáo e interiorizagáo,
no homem moderno.

7) As idéias até aqui expostas ajudam a compreender a


historia da humanidade. Há observadores dos nossos tempos
que consideram o estado do homem moderno como estado nor
mal e normativo: o homem perfeitamente evoluído seria o
homem ateu do século XX. Ora tal modo de ver é deficiente,
porque considera isoladamente a fase atual da historia. Na
verdade, esta fase é apenas urna etapa do desenvolvimento total
da humanidade. Ésse desenvolvimento foi e será sempre mar
cado por notas contrastantes ; o homem oscilou e oscilará 'cons
tantemente entre exteriorizagáo e interiorizagao. Por conse-

— 51 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 1

guinte, o momento presente vem a ser um período de exterio-


rizacáo extrema, que nao exclui, mas antes supóe, a interiori-
zagáo. O ateísmo moderno, por conseguinte, nao é a expressáo
suma e culminante do homem ; ele supóe e inclui em seu ámago
o teísmo e, como é de esperar, prepara novo surto de crenga
em Deus (crenga mais consciente e profunda talvez do que em
épocas passadas).
Passamos agora a urna reflexáo final, que pode ser pro
posta sob o titulo :

2. Um desafio

1. O ateísmo, concebido nos termos ácima, representa


urna etapa importante na historia da humanidade. Alguns obser
vadores julgam que ele ameaca fortemente o futuro do género
humano ; nao estaría para conquistar paulatinamente todas as
nagóes mediante as suas múltiplas campanhas anti-religiosas?
Posta diante desta pergunta, a fé crista sugere outra inter-
pretagáo do gigantesco fenómeno. Com efeito, deve-se dizer
que o ateísmo contemporáneo tem seu sentido positivo, provi
dencial, pois na verdade Deus é, e será sempre, o grande Senhor
da historia ; Ele sabe tirar dos males bens ainda maiores
(alias, diz S. Agostinho, Deus nunca permitiría o desencadea-
mento do mal no mundo, se nao tivesse meios de fazer servir
omalaobem).
E como explicar o papel providencial do ateísmo em nos-
sos días ?
Para ilustrá-lo, comparemos o ateísmo a tremendo veneno
que corrói grande parte da humanidade de nossos tempos. Ora
o veneno-é, muitas vézes, remedio ; ajuda o organismo enfermo
a superar a sua molestia. Observa-se mesmo : quanto mais
forte é o veneno necessário á cura de urna doenga, tanto mais
grave é essa doenga.
Urna molestia perniciosa afeta atualmente (já terá afetado
mais, em tempos passados) o mundo religoso ou, mais con
cretamente, o mundo crista© (pois é éste que nos interessa no
Ocidente): essa molestia é a languidez espiritual ou a incoe-
réncia entre profissáo de fé e vida. Há, sim, nao poucas pessoas
que se dizem religiosas, mas que, por seu procedimiento prático,
contradizem á fé que professam ; desfiguram, por assim, dizer,
a imagem de Deus ou encobrem a verdadeira face do Senhor
aos olhos de seus semelhantes. Tornam-se assim um contrates-

— 52 —
ATEÍSMO E PSICOLOGÍA

temunho que depSe fortemente contra a Religiáo. Tal atitude


pseudo-religiosa é tremendamente nociva á verdadeira fé e ao
mundo, pois propaga uma desfigurada nogáo de Religiáo que
fácilmente se torna uma justificativa para a recusa dos incré
dulos. Estes podem alegar com certa razáo : «Se a fé em Deus
nao é capaz de abalar, converter ou modificar radicalmente os
que a professam, realmente ela nada é; nao vale a pena abra-
gá-la. Um Deus que nao vive na conduta de seus fiéis, que nao
a impregna e transforma, é um Deus morto». Dando pretexto -
a tais comentarios, as pessoas religiosas podem ser responsáveis
pela propagagáo do ateísmo contemporáneo.
A tomada de consciéncia déstes fatos ou a perspectiva da
apostasia religiosa de nossos dias deve tornar-se o grande re
medio para incitar os cristáos a uma auténtica vivencia de fé.
Estes, percebendo a que funestos resultados podem levar o in
diferentismo e a incoeréncia, empregaráo todos~Os esforcos ne-
cessários para superar a morbidez espiritual.
Na base destas idéias, pode-se dizer que o ateísmo desem-
penha um papel positivo na historia. Vem a ser um desafio aos
homens de fé, desafio que pede a estes realizem plenamente o
seu ideal, procurem encarnar em toda a medida do possivel a
mensagem crista. É certamente em vista de tal resultado po
sitivo que Deus permite o ateismo de nossos dias.

2. E como responderáo os cristáos a ésse desafio ?


Para tomar a atitude adequada, mobilizaráo todas as suas
faculdades e energías:
a) antes do mais, esforgar-se-áo por conhecer melhor a
Deus e a mensagem que, em nome do Pai, Jesús Cristo trans-
mitiu ao mundo. Procuraráo depurar a sua fé de falsos ou
insuficientes oonceitos, a fim de perceber mais lucidamente os
predicados e a grandeza de Deus ; esforgar-se-áo por conceber
a Religiáo nao como supletivo («tapa-buraco») na vida ou con-
solagáo ñas horas aflitas, mas como esteio de seus atos eem-
preendimentos mais generosos ou heroicos. Religiáo nao é co
mercio interesseiro do homem com Deus, nem.mero sistema
de preceitos moráis, mas é apelo e incentivo ao amor e a.
magnanimidade.
b) Um mais esclarecido conhecimento de Deus suscitará
naturalmente mais amor, coeréncia e integridade de vida. A
moral crista deve ser inspirada pela consciéncia do inefável
dom de Deus feito aos homens. Isto nao quer dizer que ela nao
exija esfórgo perseverante da vontade e luta denodada. O ri

— 53 —
10 «PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 2

táo deverá acautelar-se contra a rotina que tende a fazé-lo


recair na mediocridade ou indefinigáo de vida.
Quem aceitar o desafio do ateísmo contemporáneo, reno-
vando-se nos termos ácima, estará, por certo, correspondendo
ao designio providencial de Deus, que é o Senhor da historia,
e Concorrerá para que a presente noite da incredulidade e do
indiferentismo suceda o albor de um período mais iluminado
pela fé em Deus e o amor aos homens.

A propósito, pode-se consultar


De Flnance, Korinék, Lotz, Magnani. Prini, «Psioologia dell'ateis-
mo». Roma 1967.
Glrardi-Six, «Des chrétiens interrogent l'athéisme», 3 tomes.
Paris 1968.

II. BÍBLIA SAGRADA

8) «Os milagres de Jesús narrados pelos Evangelistas


merecem crédito?
Serlo mais do que lcndas e cstórias imaginadas pela pie-
dade dos antigos cristaos ?»

Resumo da resposta: Os milagres de Jesús tém merecido a aten-


cáo dos estudiosos, que pesquisam a sua autenticidade. Entre os prin
cipáis motivos para duvidar, estáo trechos das literaturas grega e ju
daica que atribuem a determinados heróis portentos evidentemente
imaginarios. Ora as narrativas milagrosas do Evangelho parecem ter
aílnidade com tais passagens literarias.
Em resposta, deve-se dizer que tal aíinidade se explica, em boa
parte, por intencoes catequéticas: os cristáos narraram os feitos de
Jesús servlndo-se dos esquemas das literaturas grega e judaica.
Além disto, notam-se importantes dessemelhancas entre os relatos
evangélicos e os nao-cristaos. Nestes veriiicam-se traeos teatrais e
fantasistas; os portentos vém a ser mera ostentac&o de poder; sao
realizados em troca de dinheiro, as vézes por espirito vúigativo ; sao
associados a sonhos e visees noturnas. — Ao contrario, nos Evangelhos
predomina sobriedade de pormenores. «Nao é assim que se inventa»
(Rousseau).
Ademáis, nenhuma das teorías racionalistas é suficiente para ex
plicar os milagres atribuidos a Jesús ¡nos Evangelhos:
a) Jesús nunca teria feito prodigio. Foi a imaginacáo dos discí
pulos que, após a morte do Mestre, inventou os milagres de Cristo.

— 54 —
OS MILAGRES PE JESÚS E A CRITICA _11

— Na verdade. a pregacáo de Jesús era austera e pouco apta a atrair


os homens; tendo terminado na cruz, Jesús haveria desaparecido da
memoria dos homens, se nao houvesse dado sinais que comprovassem
a sua autoridade quaaido pregava.
b) Jesús terá usado de meros artificios sugestionantes. — Toda
vía a sugestáo nao cura doencas orgánicas, nena cura pessoas ausentes,
inconscientes ou hostis. Ora os Evangelhos referem tais tipos de curas.
Falam de portentos eietuados na natureza irracional (multiplicacáo
dos paes, tempestade acalmada, por exemplo), o que nao se explica
por sugestáo.
c) O recurso a ídrcas ocultas é vao aos olhos da biología.
Conseqüentemente, pode-se crer na autenticidade dos milagrea de
Cristo; estao Intimamente relacionados com a figura histórica de Jesús.

Resposta: O maravilhoso hoje em dia é tido em certo


descrédito, pois a ciencia parece ou pretende explicar os fenó
menos portentosos que outrora eram atribuidos a Deus. A dú-
vida se estende mesmo aos milagres de Cristo relatados pelo
S. Evangelho. É por isto que abaixo comegaremos nossas con-
sideragóes propondo sumariamente a noca» teológica de mila-
gre ; a seguir, examinaremos a posicáo da crítica frente aos
portentos de Jesús.

1. Que é milagre?

Como ja foi dito em «P.R.» 59/1962, pág. 450-462;


87/1967, pág. 108s, milagre é um feito maravilhoso que Deus
realiza
ou para comprovar a sua acáo no mundo
ou para confirmar a mensagem ou o género de vida vir
tuosa de tal ou tal pessoa.
«Feito maravilhoso»... O milagre deve ser algo de total
mente inexplicável á luz da ciencia contemporánea. Isto, porém,
nao basta para que a teología fale de auténtico milagre. Éste
é sempré sinal, ou seja, resposta que Deus dá a determinada
situacáo religosa. O milagre, portanto, está sempre relacionado
com algum quadro religioso; Deus o produz para confirmar
algo que ai deva ser confirmado. Os feitos maravillosos que
nao tenham éste significado de sinal religioso, riáo interessam
diretamente á teología, mas háo de ser estudados primeira-
mente pelas ciencias psicológicas e parapsicológicas.
Conseqüentemente, deve-se dizer que os milagres de Jesús
referidos pelos Evangelios sao considerados pelos Evanglistas

— 55 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 2

e pelo teólogos em geral como algo de essencialmente relativo


á missáo do Senhor; destinam-se a comprovar a Divindade e
a mensagem de Cristo.
Os Evangelhos, em vinte casos ao menos, afirmam de raa-
neira geral que Jesús curou enfermos (cf., ps. ex., Mt 4, 23 ;
8,16). Em trinta e cinco outros casos, narram os milagres de
maneira mais ou menos pormenorizada. Déstes portentos, doze
sao descritos por tres Evangelistas; seis, por dois, ao passo
que os outros sao apresentados por um só escritor sagrado.
A maioria dos milagres de Jesús consiste em curas de enfermos
ou possessos ; tres déles sao a ressurreicáo de um morto; nove
se efetuam sobre a natureza inanimada. Déstes últimos, desta-
cam-se a conversáo da agua em vinho ñas bodas de Cana
(Jo 2, 1-12), duas pescas milagrosas (Le 5, 1-11; Jo 21,1-14),
duas multiplicacóes de páes (Me 6,35-44; 8,1-9), o caminhar
de Jesús e de Pedro sobre as aguas (Mt 14, 23-33), a tempes-
tade acalmada (Me 4,35-41). Entre as curas mais minuciosa
mente descritas, estáo a do cegó de nascenca (Jo 9,1-41) e a,
do paralitico de Betsaida (Jo 5,1-15); entre as ressurreicóes,
salienta-se a de Lázaro (Jo 11,1-44).
Diante dessas narrativas, pergunta-se: referem fatos reais?
Ou trata-se de episodios imaginarios ?
A tradicáo crista aceitava geralmente a realidade dos mi
lagres de Cristo sem objecóes, até o surto do racionalismo no
século XVm. Desta época para cá, tém-se feito ouyir vozes e
teorías que rejeitam ou a possibilidade ou a autenticidade dos
milagres de Jesús. Perguntemo-nos, pois:

2. Que diz a crítica racionalista ?

O primeiro autor que tenha feito a crítica sistemática dos


milagres de Jesús, é o estudioso alemáo David Friedrich
Strauss, na sua obra. «Das Leben Jesu kritisch bearbeitet»
(Tübingen 1835/36). Os principios racionalistas langados por
éste exegeta floram encontrando aceitacao crescente na escola
da «Leben-Jesu-Forschung» (...«das pesquisas sobre a vida
de Jesús»). Como espécimen da mentalidade assim propagada,
pode-se citar o texto de Cari Ciernen, historiador das religióes :
«O que de antemao se deve considerar como nao histórico nos
Evangelhos sinóticos, sao primeiramente as aíirmacoes que apresen-
tam as palavras do Antigo Testamento como profecías cumpriáas por
Jesús e, a seguir, os relatos de müagres» («Der geschtchtliche Jesús».
Giessen 1911, pág. 59).

— 56 —
OS MILAGRES DE JESÚS E A CRITICA 13

Segundo Rudolf Bultmann, o mais famoso arauto da «de-


mitizagáo» dos Evangelhos, os milagres de Jesús (como vém
apresentados pelos Evangelistas) sao simplesmente algo de in-
concebivel, porque nao há lugar para éles no pensamento mo
derno ou no modo científico contemporáneo de explicar a rea-
lidade que nos cerca.
Outra sentenga significativa é a de Ernesto Havet:

«O primeirb dever que os principios racionalistas nos impCem...


é o de afestar da vida de Jesús o sobrenatural. Asslm se elimfnam com
um s6 golpe todos os milagres do Evangelho... Quando a critica re
cusa crer ñas narrativas milagrosas, ela nao precisa de aduzlr proyas
para sufragar a sua recusa: o que se conta nessas narracoes é lalso,
pelo simples fato de que o que ai se conta nao pode acontecer» (citado
por G. Albanese, «Alia ricerca della íede». Assis 1968, pág. 211).
Entre parénteses, seja licito perguntar: tal método de trabalho
será verdaderamente racional? Nao parece, antes, um método dogmá
tico, dependente de preconceitos cegamente estipulados ?

Todavía os críticos mais recentes, mesmo Bultmann, admi-


tem que Jesús tenha realizado certos portentos (curas, exor
cismos) , comportando-se como outros pregadores de sua época
(cf. Mt 12,27; Me 9, 38). Haverá assim dado fundamento ás
«estórias» maravilhosas dos Evangelistas. Os portentos de Je--
sus, porém, nada teriam que ultrapasse os fenómenos mara-
vilhosos efetuados por curandeiros e taumaturgos em virtude
de faculdades parapsicológicas, agáo sugestionante, fdrgas ocul
tas, etc.; sómente a ignorancia e a fantasía exuberante leva-
ram os primeiros discípulos de Jesús a crer que tais fenómenos
significavam auténticas intervengóes de Deus na ordem natural
das coisas.
A fim de estabelecer tal tese, os críticos apelam para as
seguintes observagóes:
há sinais de que no decorrer dos decenios se foram
avolumando tradigóes espurias em torno de Jesús; tenha-se
em vista o grande número de Evangelhos apócrifos escritos
nos séc. n/m;
a mor parte das narrativas de portentos atribuidos a
Cristo teve origem entre cristáos helenistas (pagaos e judeus
de cultura helenista convertidos a Cristo). Isto se explicaría
pelo fato de que tais cristáos sentiram a necessidade de apre-
sentar Jesús com os tragos característicos do «theios anér»
(homem divino) grego;
o teor de certos milagres de Jesús é idéntico ao de mi
lagres atribuidos a mestres judeus e pagaos ;

— 57 —
14 <tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 2

— as narrativas evangélicas de milagres apresentam afi-


nidade oom a estilística e com certos tópicos de historias (ou
estórias) maravilhosas náo-cristis.

A titulo de ilustracSo, observe-se:


Na literatura grega, encontram-se numerosos episodios de curas
maravilhosas efetuadas em lugares de peregrinacáo famosos (como
Epidauro) * e atribuidas ao Deus-Médico do lugar, ou realizadas por
pregadores populares e mestres ambulantes, como Apoldnio de Tiana
(séc. III d. C). O esquema literario em que se enquadram tais re
latos, é geralmente o seguinte:
Para comecar, o narrador descreve a gravidade da molestia ou
do sofrimento, acentuando que muitos médicos já tentaram curar tal
doenca ou tal sofrimento. Assim o leitor é preparado para avaliar a
importancia do milagre que será narrado. — A seguir, o texto des
creve o encontró do enfermo com o taumaturgo e a .respectiva cura.
Esta é multas vézes obtida mediante gestos complicados (toques im-
posicáo da saliva do taumaturgo sobre o membro doente, pronuncia-
mentó de palavras incompreensiveis...). Urna vez terminado o mi
lagre, o narrador mostra suas comseqüéncias: o doente se levanta e
carrega seu leito, ou o paralitico poe-se a andar e langa para longe
as muletas. Por último, dá-se como que um solene estribiUio em coro:
as pessoas presentes exprimem admiracáo e cantam os louvores do
taumaturgo.
Na literatura judaica, também se contam milagres de rabinos.
Estes, alias se efetuam todos mediante preces que Deus se digna de
atender. Ha, pois, também um género literario característico de mfla-
gres rabínicos. Ésse género, de resto, nada tem de particularmente
notável; corresponde, antes, ao modo popular de contar.

Que dizer a tais observagóes da crítica ?

3. Milagres de Jesús e portentos nao-cristáos

Um confronto atento das narrativas evangélicas com as li


teraturas grega e rabínica sugere as seguintes oonclusóes :

1) Pode-se reconhecer que certos relatos de milagres dos


Evangelhos, principalmente os que se referem a curas de en
fermos, apresentam, em número maior ou menor, traeos este
reotípicos ou constantes, que ocorrem também nos relatos por
tentosos dos antigos gregos. Tal parentesco ou afinidade de

1 Epidauro era urna cidade situada na Argólia (golfo de Saron),


Grecia. Tinha famoso santuario de Asclépio, constantemente visitado
por doentes, que lá esperavam recuperar a saúde mediante oráculos
do Deus-Médico ou tratamento especial aplicado pelos oficiáis do
santuario.

— 58 —
OS MILAGRES DE JESÚS E A CRÍTICA 15

tragos literarios se explica, em boa parte, por motivos cate-


quéticos: os primeiros pregadores do Cristianismo devem ter
conhecido os esquemas literarios de que se serviam os helenistas
para realgar o poder e a gloria de seus heróis e teráo utilizado
um ou outro trago désses esquemas.

É o que reconhecem nao sómente críticos racionalistas mas tam-


bém ponderados estudiosos católicos, como W. Trilling. «Jésus devant
l'histoire». Paris 1968, pág. 133-135; A. V8gtle. «Wunder lm N.T.»,
em «Lexikon íür Theologie und Kirche» X1 1965, pág. 1257.

Nao se deve, porém, exagerar o grau de parentesco lite


rario existente entre as narrativas evangélicas e os relatos
pagaos ; um confronto entre as inscrigóes encontradas em Epi-
dauro e os dizeres dos Evangelios sugere cautela.
Em suma, a semelhanga literaria assim notada nao cons
tituí argumento contra a historiddade dos milagres descritos
pelo Evangelho.
2) A tradigáo judaica só conhece rabinos ou mestres que
realizem curas ou milagres a partir do ano de 70 d.C, quando
aparece o Rabino Hanina ben Dosa ; é principalmente nos
séculos II e seguintes que se registram taumaturgos entre os
judeus.
Note-se também que, no caso de Hanina ben Dosa, o mais
famoso taumaturgo de Israel, há um intervalo de cem anos ou
mais entre a reáagáo dos portentos atribuidos a éste mestre
e os pretensos portentos. Ao contrario, os Evangelhos fbram
escritos vinte ou trinta anos após a Ascensáo de Jesús (cf. o
Evangelho de S. Mateus aramaico e o de S. Marcos) e... escri
tos na base de tradig5es wais ou escritas que recobran todo o
periodo decorrido entre os feitos de Jesús e as narrativas evan
gélicas. Pode-se também provar que muitos dos relatos mila
grosos dos Evangelhos foram originariamente concebidos e for
mulados no quadro da Palestina mesma e nao em térras hele
nistas (cf. Me 1,10-45; 3,1-6; Le 13,10-17, curas que supoem a
casuística judaica em torno do sábado e das purificagóes ntuais,
casuística que nao teria sido imaginada fora da Palestina).
Embora apresentem um ou outro trago de verossimilhanca,
a maioria das narrativas rabínicas de milagres aparece, por
motivos diversos, como algo de imaginario :
— supóem quadros históricos de todo improváveis;
estáo carregados de tragos espetaculares e estranhos,
que as levam as raias do fantástico, do ridículo ou da magia

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16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 2

complicada (principalmente quando se trata de curar um doente


ou um possesso) ;
— sao, por vézes, abertamente tendenciosas, pois em um
ou outro caso deformam a historia para incutir determinada
tese: pretendem mostrar a absoluta transcendencia de Deus,
que nao hesita fazer milagres para punir os homens, ou incutir
como Deus maravillosamente recompensa as boas obras, ou
exaltar em tom de panegírico as virtudes (sabedoria, pieda-
de...) de tal rabino...

3) No ambiente helenista, verifica-se que a mor parte


dos milagres registrados nos santuarios pagaos de Epidauro e
Roma sao obtidos durante a noite, enquanto o paciente dorme
e sonha ; as inscrigóes encontradas em tais santuarios referem
que o Deus-Médico ou outro Ser do Além realizou tal ou tal
grotesca operagáo (como amputagáo e restauragáo da cabega
do paciente adormecido) para efetuar a cura da molestia.
Em outros casos, nao é a Divindade que intervém direta-
mente : dizem, porém, os devotos que o Deus-Médico os sanou
enviando seus cávalos ou seus gansos sagrados para os tocar,
ou mandando caes ou serpentes que lambessem a pele do pa
ciente.
Em outros casos ainda, observa-se que os milagres obtidos
custam determinada quantia de dinheiro. E, quando a honra
da Divindade é ofendida pelos fiéis, desencadeiam-se sobre éles
castigos portentosos.

4) Quem agora se volta para os milagres do Evangelho,


verifica que estes e os da literatura náo-cristá revelam dois
mundos bem diferentes entre si:
Com efeito,
— nos Evangelhos, nao se registram milagres efetuados
por mera ostentagáo de poder, em atitudes teatrais. Jesús nao
quer fazer as vézes de taumaturgo arbitrario, ainda que a isto
o incitem seus adversarios incrédulos.

Cí. Me 8,lls: Jesús recusou um sural aos fariseus que o queriam


provar.

Em Le 23,8s, Cristo nao quis fazer milagre diante de Herodes,


que estava curioso por assistlr a um prodigio do Mestre.
Nem perante o povo fiel Jesús quer passar simplesmente por
taumaturgo. Em Me 1,35-39, Jesús se retira para orar, embora todos
o procurem para lhe pedir beneficios corporais.

— 60 —
OS MILAGRES DE JESÚS E A CRÍTICA 17

— Nos Evangelios também riáo há milagres pagos, ou


realizados em vista de algum honorario ou retribuicáo mo
netaria.

Em Mt 17, 24-27, Jesús usa de seu poder milagroso para pagar


o imposto do Templo — o que é diferente de vender ou comercializar
milagres.

— Também nao se enoontram nos Evangelhos milagres


realizados para punir ou portentos vingativos.

Verdade é que em Me 11,12-14. 20s Jesús faz secar urna ílguelra


estéril; íá-lo, porém, nao para punir os homens, mas para ilustrar de
maneira concreta a esterilidade do povo de Israel (o episodio assim
se torna urna parábola vivida).

— Nao há na literatura evangélica narrativas tendencio


sas ou narrativas que, como os escritos rabínicos, exploram o
maravilhoso para impor doutrinas.
— Os Evangelhos nao mencionam especies de demonios
(o que redundaría fácilmente em divagacáo da fantasía) nem
lugares ou tempos possuídos pelo demonio.
— Jesús realiza seus milagres em estado de vigilia, nao
por visSes ou sonhos. Efetua-os pela eficacia de sua palavra
ou por sua própria autoridade, nao por prece dirigida a Deus.
Nao recorre a intervencóes cirúrgicas nem a práticas mágicas
ou rituais complicados.

Verdade é que Jesús por vézes toca os doentes com a máo para
os curar (em Me 1,31, por exemplo, levantou a sogra de Pedro, to
mando-a pela máo); éste íato, porém, é mero símbolo da vontade
todo-poderosa do Mestre. — Também se veriíica que as vézes Jesús
usa de saliva para ungir e curar órgSos afetados (assim os do surdo-
-mudo em Me 7,33-35; os olhos do cegó, em Me 8,23 e em Jo 9, 6s...).
Tal prática estava em uso na medicina antiga, de tal sorte que Jesús
a ela se acomodou; percebe-se, porém, pelo conjunto do EvangelKo
que Jesús a podia ter dispensado (Ele ressuscitou os mortos única'
mente pela eficacia de sua palavra).

Em conclusáo, observa-se que a pessoa de Jesús, ao realizar


portentos, demonstra singular sobriedade e superioridade em.
relacáo aos taumaturgos náo-cristáos de que fala a historia..
Essa singularidade de Cristo torna-se para o observador um
sinal do misterio do Homem-Deus.
Para facilitar o julgamento do leitor, váo abaixo apresen-
tados espécimes de

— 61 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969. qu. 2

4. Milagres de Maomé e Buda

1. Sabe-se que Maomé (570-632 d. C.), muitas vézes so


licitado por seus amigos para fazer um milagre, sempre se fur-
tou a isso com energía.
Eis urna passagem do Coráo em que Maomé, instruindo
os discípulos, repele o recurso a portentos:

«Diráo alguns: 'Deus estabeleceu que nao daríamos crédito a


mensagetro que nao trouxesse urna vltima em sacrificio a ser consu
mida por um íogo do céu'. Responderás entáa: 'Foram ter oonvosco,
antes de mim, mensageiros portadores de provas clarissimas e até
com a prova que acabáis de mencionar; por que entáo os matastes?
Dizei-mo, se sois sinceros!1 Se, a seguir, éles te contraditarem. lem-
brar-te-ás de que, antes de ti, foram comtraditados outros mensageiros
de Deus portadores de provas clarissimas» (Sura III 183s ; veja-se
também Sura VI 7; XVII 90s).

Déstes dados pode-se concluir que os milagres posterior


mente atribuidos a Maomé sao ficticios ou imaginarios. De tais
milagres segue-se aqui um exemplar, que concorre para por em
relevo a diferenga existente entre verdade histórica e lenda :"

«Habib, filho de Malek, um dia provocou o profeta nestes termos:


'Maomé, é agora meio-dia. Se queres que acreditemos em ti, faze que
caia imediatamente a noite. A seguir, colocar-te-as sobre' o monte
Abou-Robais e ordenarás á lúa que se torne logo lúa cheia. Do alto
mandar-lhe-ás que se coloque por cima da Caaba e dé sete voltas
em tftrno da Casa Santa. Depois tu Ihe dirás: Projeta-te por térra
diante da Caaba. A seguir, tu Ihe preceituarás que faca urna reveren
cia profunda. Logo depois ela deverá clamar, em árabe excelente, de
modo a poder ser compreendida por cidadaos e camponeses: Que a
paz esteja contigo, verdadeiro apostólo de Deus! Quando ela tiver
felto essa reverencia, mandar-lhe-ás que entre na tua veste pela manga
dlreita e saia' pela esquerda. Feíto isso, ela deverá dividir-se em duas
partes, urna das quais se colocará a leste e a outra a oeste. Com um
salto rápido como o do gafanhoto, as duas metades deveráo aproxi-
mar-se urna da outra e juntar-se de novo'. Maomé respondeu: 'NSo
sou daqueles que se recusam'. E terá realizado o prodigio» (citado
por D. Grasso, «n problema di Cristo» Assis 1968, pág. 103).

Observa-se que a imaginagáo e o espirito de ostentagáo,


ausentes no Evangelho, marcam nitidamente esta narrativa
maometana, que se assemelha as maravilhas de «Mil e urna
noites». Os milagres de Maomé originaram-se na mente de
seus discípulos desejosos de nao ficar aquém dos cristáos e dos
judeus, que podiam citar os prodigios do Antigo e do Novo
Testamento.

— 62 —
OS MILAGRES DE JESÚS E A CRÍTICA 1?

2. Quanto a Buda, sabe-se que viveu no séc. V antes de


Cristo. Seus tragos biográficos, porém, foram sendo ampia-
mente ornamentados com narrativas maravilhosas, que o fazem
aparecer como monarca universal, redentor do mundo, predi-
leto dos deuses...
Eis como o milagroso se apresenta ñas tradicóes referentes
a Buda:

«De Bodjiisattva (Buda) que se adlantáva em direcáo de Bodi-


manda desprendia-se um esplendor de tal poder que por ele todos
os males eram acalmados, todas as inquietudes destruidas, todas as
sensacSes das existencias indignas eram aniquiladas. Em todos os
seres que tlnham sentidos imperfeitos- estes repentinamente se tor-
naram íntegros. As pessoas que eram afetadas por doencas, íoram
libertadas de suas molestias. Os que eram atormentados pelo temor,
foram tranquilizados. Os que estavam presos com cadeias, foram sol-
tos de suas cadeias. Os pobres receberam riquezas. Os seres atribu
lados pela corrupcao natural, nao foram mals atribulados. Os que
tinham fome, foram saciados. Os que sofriam sede, foram desaltera
dos. As mulheres grávidas deram k luz com alegría. Os que eram lán
guidos e fracos foram dotados de vigor, e em nenhum ser, naquele
momento se manlfestou a paixao, o odio, a inquietude de espirito, •
a cólera' a concupiscencia, a perversidade, a inveja, o clume. Ne
nhum ser, naquele momento, morreu ou transmigrou para um ser
inferior, nem nasceu. Todos os seres naquele momento íoram cumu
lados de sentimentos de benevolencia, de auxilio mutuo, como os sen-
timentos de um pal ou de urna mae» («Lalita Vistara» c. XDO.

Segue-se mais um trecho que fala dos prodigios atribuidos


a Buda:
«Ele toca a térra, e esta estremece. Levanta-se nos ares,
e de seu cdrpo procedem ratos azuis, brancos, vermelhos e
amarelos. De seus membros inferiores emanam chamas, en-
quanto da cabeca e dos ombros se levantam nuvens e jorra
agua fría. Um incrédulo descobre no Iluminado trinta prodigios
apenas, ao passo que se dizia que ele tinha realizado trinta e
dois portentos. Buda nao se surpreende por táo pouco ; póe
para fora a língua, fá-la chegar as narinas; depois com ela
toca as orelhas, e finalmente leva-a a cobrir a testa. Assim
temos trinta é tres prodigios» (citado por G. Albanese, «Alia
ricerca della fede», pág. 215).
Merece atengáo também a narrativa da coletánea «Lalita
Vistara» referente ao nascimento de Buda:
*■■■

«Entáo Maya-Devi, acompanhada de 84.000 carros puxados por


cávalos, 84.000 carros arrastados por elefantes, embelezados por or
namentos de Dada especie? defendida por um exército de 84.000 sol
dados de coragem heroica, belos e bem adestrados, armados de escu-

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20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, gu. 2

dos e couragas; precedida por 60.000 mulheres dos Cákya, protegida


por 40 000 parentes do rei Cuddhodana nascidos mas familias do ramo
paterno, velhos, jovens e de idade madura; acompanhada por 60.000
pessoas do apartamento intimo do rei Cuddhodana, que cantavam e
fazlam ouvir um concertó de vozes e de instrumentos de tdda especie;
acompanhada por 80.000 filhas dos Naga, 80.000 filhas de Gandhavar,
e 80.000 filhas dos Kinnara, 80.000 filhas dos Asura, tendo realizado
toda especie de preparativos e ornamentacSes, cantando motivos e lou-
vores de toda especie; enfim, acompanhada por todo ésse cortejo, a
Rainha sai do palacio. Todo o jardim dos Loumbiini, irrigado com
agua perfumada, se encheu de flores divinas; e todas ,as árvores, no
mais belo dos jardins, produziram f&lhas e frutos, embora ainda nao
íósse a estacáo. E ésse jardim foi perfeitamente ornamentado pelos
deuses, como, por exemplo, o jardim de Micraka é perfeitamente orna
mentado pelos deuses.
Entao Maya-Dev¡. tendo entrado no jardim de Loumbini e des-
cido do seu magnífico carro, acompanhada pelas filhas dos homens
e dos deuses, caminhava de urna árvore para outra, de um bosque
para outro, contemplando urna árvore após outra sucesivamente até
éste Plakcha, a mais preciosa entre as grandes árvores preciosas, de
ramos bem proporcionados, rica de belas fólhas e belas parolas, toda
coberta de fiares dos deuses e dos homens, árvore que exalava os
mais suaves perfumes, árvore de cujos ramos pendem vestes das mais
belas cores, cintilante do brilho multiforme de diversas pedras pre
ciosas, árvore completamente ornada com toda especie de joias, desde
a raiz até o tronco, os ramos e as fólhas, árvore de ramos bem pro
porcionados e bem longos, coberta por um tapete de erva verde como
o pescoco dos pav5es e suave para se tocar como urna veste de
Katchilindl...
... Repentinamente essa árvore Plakcha, pelo poder de Bodhi-
sattva, se inclinou em sinal de saudacao; entao Maya-Devi, tendo es-
tendldo o braco direito á semelhanca de um raio que sulca o céu ;
depols, tendo tomado um ramo do Plakcha, em sinal de béncáo. e
olhando a extensao do céu..., permaneceu imóvel. Naquele momento,
da parte dos deuses Kamavatchara, 60.000 Aspsara, aproximando-se
para servir-lhe, fizeram-lhe urna escolta de honra. Acompanhado pela
manifestado de tal potencia sobrenatural, o Bodhisattva entrou no
selo de urna máe. Ao cabo de dez meses completos, aaiu da carne de
sua máe, tendo memoria e ciencia, sem ter sido tocado pelas manchas
do selo de sua mae — coisa esta que nao se atribuí a nenhum outro»
(«Lalita Vistara» c. VID.

Eis agora a narrativa do nascimento de Jesús como se


encontra no Evangelho segundo S. Lucas :

«Enquanto estavam lá (em Belém), oompletaram-se os dias da


gestacáo. (María) deu á luz o seu filho primogénito ; envolveu-o em
faixas e o reclinou em urna manjedoura, porque nao havla lugar para
éles na hospedarla» (Le 2, 6s).

A diferética entre as duas narrativas é patente; entre elas


há o hiato que medeia entre a historia e a lenda, a realidade
e a fantasía. No que toca á narracüo do Evangelho, valem as

._ R4
OS MILAGRES DE JESÚS E A CRÍTICA 21

palavras de Jean-Jacques Rousseau: «Nao é assim que se


inventa» («Emilio» IV). Quanto ao episodio de «Lalita Vis-
tara», pode-se dizer o contrario: «É assim que se inventa».

5. Aínda as explicagoes racionalistas

Pode-se ainda comprovar a historicidade e a genuinidade


dos milagres de Jesús, levando-se em conta as principáis hipó-
teses apresentadas pelos racionalistas para explicar as narra
tivas evangélicas :
1) a hipótese do endeusamento. Houve quem dissesse
que na verdade Jesús nunca fez milagre. Seus discípulos, porém,
após a morte do Mestre, foram engrandecendo a figura de
Cristo, a ponto de lhe atribuir predicados divinos e a realiza-
cáo de prodigios. Por conseguinte, a fé dos discípulos é que tar
díamente terá inventado os «milagres» de Jesús.
Ora deve-se dizer que, se Jesús tivesse sido mero pregador
religioso, destituido de sinais extraordinarios, nao se explicaría
o entusiasmo de seus discípulos e do povo, entusiasmo que so-
breviveu á derrota do Senhor na cruz. A pregacáo de Jesús
nao era apta a suscitar grandes arroubos: ao poyo oprimido
pelo jugo estrangeiro, ele ensinava amasse -os inimigos; proibia
o divorcio, usual em Israel; incutia a abnegacáo e a renun
cia... Difícilmente se entendería que tal pregador, após ter
minar seus dias na cruz, fósse endeusado, ele que táo pouco
bajulava a natureza e a fantasía de seus ouvintes.
Todavia, desde que se admitam os milagres de Jesús, a
historia se toma clara. Cristo, por seus portentos, se havia
comprovado Messias e Filho de Deus. Isto suscitou em muitos de
seus ouvintes o entusiasmo que a morte de cruz pode abalar, mas
nao erradicar. Em conseqüéncia, quando no dia de Pentecostés
os Apostólos anunciariam que Jesús ressuscitara e fóra visto
por éles, tres mil pessoas, sem hesitar, abragaram a fé e pedi-
ram o Batismo; a figura do Messias ainda estava viva na sua
mente.

A crítica, porém, hoje em dia já nao tende a negar que Jesús


tenha feito portentos. «O grande número de narrativas de milagres
nos Evangelhos nao se poderia explicar se nao Jiouvesse na vida de
Jesús acontecimentos que correspondessem a essas narrativas. Um
Jesús despojado de todo aspecto maravllhoso nao é histórico» (F. J.
Schierse, em «Warum gJauben ?», pág. 230). ,
Por conseguinte, o retrato do Jesús da historia incluí algo de
maravilhoso. A critica moderna, porém, procura explicá-lo por via
meramente natural, como passamos a ver.

— 65 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 2

2) A hipótese da sugestáo. É notorio que certas pessoas


tém a capacidade de incutir aos doentes a persuasáo de que
estáo ou seráo curados, conseguindo assim realmente libertá-los
da molestia. — Ora a critica liberal atribuí a Jesús o fascinio
de um hipnotizador, tentando assim explicar as curas descritas
pelo Evangelho. Esta suposicáo parece confirmar-se pelo fato
de que Jesús, antes de realizar urna cura, excitava a fé dos
doentes ; com isto o Mestre procuraría despertar nos enfermos
as disposicóes necessárias para que o sugestionamento fun-
cionasse.
A propósito, deve-se reconhecer a eficacia da sugestáo na
cura de molestias, dado, porém, que estas sejam de fundo ner
voso e nao impliquem lesóes de tecidos ou órgáos do paciente.
Ora verifica-se que as curas atribuidas a Jesús tinham freqüen-
temente por objeto doencas orgánicas, como a lepra, a cegueira,
a surdez...
Mais: admita-se que a sugestáo explique a cura até de
molestias orgánicas. Mesmo em tal caso ela nao bastaría para
elucidar os milagres do Evangelho, pois a sugestáo só age sobre
quem possa ou aceite ser sugestionado; ora certos milagres de
Jesús foram realizados á distancia (como a cura do servo do
centuriáo, em Mt 8,1-13, a da filha da mulher sirofenicia em
Me 8 25-30), ou em favor de pessoas inconscientes (como o
demoníaco epilétíco de Me 9,16); Maleo, a quem Jesús restituiu
a orelha amputada por Pedro, nao estava em disposigoes de ser
sugestionado (cf. Le 22, 52). — Ademáis a sugestáo nao tem
influencia sobre os mortos (dos quais Jesús ressuscitou tres,
segundo o Evangelho) e sobre a natureza inanimada (te-
nham-se em vista a multiplicagáo dos páes em Me 6,30-44 e a
tempestade acalmada em Me 5,35-41).
Considere-se também
3) A hipótese das forgas ocultas. No atual estado da
ciencia, nao conhecemos todos os poderes latentes na natureza.
Poder-se-ia entáo julgar que os milagres do Evangelho tenham
sido produzidos pela acáo de tais poderes ignorados, poderes
que, por ser desconhecidos aos homens, parecem sobrenaturais.
Em resposta, observe-se que a grande maioria dos mila
gres de Jesús ocorreu no setor da biología; consistiram em curas
de doen~as mediante reprodugáo de células. Ora «os fenómenos
biológicos sempre exigem tempo notável. Sao dependentes da
natureza coloidal do plasma. Os numerosos catalisadores que
neste se encontram, facilitam e aceleram os fenómenos da vida,
mas nunca os tornam excepcionalmente rápidos. Urna divisáo

_ 66 —
OS MLAGRES DE JESÚS E A CRITICA 23

de células, ñas melhores condigóes, requer cérea de meia-hora


para se realizar. Mais tempo aínda se exige para que urna célula
jovem atinja a sua diferenciacáo específica. Além disto, consi-
dere-se o grande número de células que se encontram em um
pedaco de came humana. As células sao da grandeza de poucos
milésimos de milímetros; existem aos bilhSes. Mais aínda: a
formacáo de células nao pode ser simultanea, pois cada célula
dá origem a outra mediante a cisáo de si mesma; sabe-se, por
exemplo, que a cicatrizagáo procede dos labios para'o centro
da ferida» (Marcozzi, «I miracoli di Gesü», em «II Símbolo»
Vn-VIIL Assis 1950, pág. 107).
As fórcas da natureza ainda nao descobertas pelos den
tistas «poderáo acelerar tais processos, nao, porém, torna-Ios
instantáneos. Para que se tornassem instantáneos, sena neces-
SriTa formag&o simultánea de todas as células, o que equivale
a nova criacáo. Ora é isto precisamente que se verificaj»
maioria das curas efetuadas por Jesús Sao caracterizadas, pela
ausencia ou quase ausencia do fator tempo» (ib., pag. 103).
Na base destas consideragóes, é difícil crerque o progresso
da ciencia possa dar explicagáo natural aos milagres do Evan-
gdho Estes ficam sendo auténticos s nais que J?sus qms rea-
Sar a fim de comprovar a sua autoridade de Messias e Filho
de Deus.

Breve bibliografía:
A Vogtle «Wunder im N.T.», em «Lexíkon lür Theologle und
Kirché» X», pág. 1255-61.
W. Trilling, «Jésus devant l'histoire». París 1968. pág. 131-142.
L. Ceríaux, «Jésus aux origines de la Traditiooi». Desdée de
Brouwer 1968.
D. Grasso, «II problema di Cristo». Assis 1965.
G. Albanese, «Alia ricerca della fede». Assis 1968.

67
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 3

III. MORAL

3) «Hoje em día fala-se muito de pecado coletivo.


Que quer isto dizer ?»

Resumo da resposta.: A nocáo de «pecado coletivo» é ambigua.


O pecado supóe sempre urna consciéncia moral, que delibere e
opte voluntariamente por um ato mau. Ora a consciéncia é algo de
pessoal; nao há urna consciéncia coletiva existente íora das conscién-
cias pessoais e Individuáis.
Por isto pecado coletivo vem a ser a soma de múltiplos pecados
pessoais. O simples fato de que alguém pertenca a determinada comu-
nidade ou sociedade, nao o torna necessáriamente réu das íaltas que
os outros membros (ou alguns membros) dessa comimidade cometam;
para ser réu, é preciso que lhes dé o seu consentimento (explícito ou
implícito).
Acontece, porém, que, se nem todo individuo é sempre culpado das
faltas que se cometem em torno déle, todo individuo tem o dever de
procurar remediarJhes, ou seja, de assumlr a sua responsabilidade
pessoal a lim de sanear os erros da sua coletividade. A ninguém é licito
permanecer indiferente ante as faltas cometidas por outrem, desde
que esteja ao seu alcance levar-lhes o devido remedio.

Resposta: Pecado é um ato de oposigáo do homem á von-


tade de Deus; vem a ser, em última análise, urna recusa de
amor ao Supremo Amor, Deus.
Na tradigáo crista, sempre se levou muito em conta o as
pecto pessoal do pecado, frisando-se que é um ato do qual o
individuo como individuo é responsável. — Nos últimos tempos,
introduziu-se no vocabulario católico a expressáo «pecado co
letivo», cujo significado é, por vézes, ambiguo. Abaixo pro
curaremos elucidá-la.

\\ $k.'? w ¿ J. Pecado coletivo


''-**■;■*■* "' '/*/;
;■'' 1. Por «pecado cwetivo» designam-se atualmente as de-
sordens'déste mundo, das'-quais venha a ser culpada urna cole
tividade, seja diretamente por querer realmente algo de mau;
seja indiretamente. .pdr'viver na indiferenga diante de malea
presentes. Ertti;é .tais" desordens, destacam-se as injustigas so-
dais; as opressoes exercidas por urna classe sobre outra, as
miserias moráis, a ausencia ou a recusa de Deus... Estas sao

— 68 —
PECADO COLETIVO? 25

situagóes que, sem dúvida, contrariam o designio de Deus,


Criador e Pai de todos <os homens; determinadas coletividades
sociais (dizem-nos) seriam culpadas das mesmas, cometendo
assim pecados coletivos.

2. Tal conceito de pecado coletivo sugere algumas obser-


vagóes :
O pecado supóe sempre urna consciéncia moral, conscién
cia que delibere e opíe voluntariamente por um ato mau. Ora
a consciéncia moral é sempre algo de pessoal; nao há urna
consciéncia moral coletiva, existente fora das consciéncias pes
soais ou individuáis.
Expliquemo-nos melhor. Pode-se dizer, sim, que existe
consciéncia coletiva entendida no sentido de «mentalidade co
letiva». Com efeito, verifica-se que as pessoas da mesma classe,
do mesmo ambiente ou da mesma época costumam pensar, agir
e reagir do mesmo modo, tomando atitudes comuns, seja.em
favor, seja em contrario de determinada causa. Todavía essa
«mentalidade coletiva» ou essa dita «consciéncia coletiva» nao
tem consistencia em um sujeito próprio ; a coletividade ná»
subsiste ao lado ou independentemente dos seus membros. A
coletividade como coletividade nao possui nem inteligencia nem
vontade, nem consciéncia moral nem responsabilidade. Só sub
siste, consciente e responsável, a pessoa — pessoa física e
individual. '
Por conseguinte, caso haja pecado coletivo, éste vem a
ser a soma de múltiplos pecados pessoais ou individuáis; é o
conjunto dos atos de soberba, covardia, inercia... de muitas
consciéncias particulares. Na verdade, a consciéncia de cada
homem é que diz «Sim» ou «Nao» á lei moral ou a Deus.
Em outros termos : caso haja pecado ooletivos, éles se
devem a atos ou omissóes de pessoas individuáis. Essas pessoas
deveráo, cada urna de per si, dar a Deus contas de tais pecados.
Desta verdade se segué algo de muito importante : o sim
ples fato de que alguém pertenga a determinada classe social,
nao torna a pessoa ré de pecados que sejam cometidos pelos
demais individuos da classe; o pecado coletivo nao é necessá-
riamente o pecado de todo e qualquer membro da coletividade.
Há individuos inocentes dentro de grupos injustos, pois pecado
e inocencia dependem estritamente de opcóes pessoais. Se certo
individuo pertence Dcitamente a determinada coletividade, tal
individuo só pode ser argüido a respeito dos atos dessa coleti
vidade aos quais ele dé o seu consentimento (explícito ou im
plícito) .

— 69 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 3

É preciso, porém, acrescentar ulterior observagáo :

2. Culpa coletiva e responsabilidade coletiva

Se, como foi dito, nem todo individuo é culpado dos atos
maus da comunidade a que pertence, todo individuo está, nao
obstante, obrigado a remediar (na medida do seu possivel) a
tais atos, desde que tome consciéncia déles.
Com outras palavras : todo pecado, em última análise, é
pessoal, pois «conhecer» e «querer» sao atos estritamente pes-
soais. Também toda santidade é pessoal, toda salvacáo é pes
soal, como também toda condenagáo é pessoal; todo Batismo
e toda confissáo de pecados sao pessoaisx. É no íntimo de cada
individuo que primeiramente se decidem pecado e santidade,
pois Deus interpela cada individuo no Intimo de sua consciéncia.
A conversao a Cristo é individual; ninguém pode crer em Jesús
Salvador e amá-Lo em meu lugar ou por mim.
Contudo nao é menos certo que a cada individuo tocam
deveres, mais ou menos graves, para com a comunidade ou as
comunidades a que pertenga (familia, paróquia, ambiente de
trabalho, classe profissional, bairro residencial...). Culpado ou
nao dos males da coletividade, cada qual é obrigado a se ín-
teressar pela profligagáo das miserias moráis e matenais da
mesma ■ incumbe-lhe o dever de trabalhar eom o próximo em
favor do próximo, tanto no plano espiritual (em obras de apos
tolado e de saneamento moral) como no plano material (no
combate á fome, á ignorancia, á guerra injusta...).
Quando, pois, se fala de males coletivos, é preciso distin
guir entre pecados coletivos e problemas coletivos.
Os pecados coletivos nem sempre afetam todo e qualquer
membro da coletívidade, pois o pecado própriamente dito e

1 Por isto é que ñas confiss6es ditas comunitarias nunca pode


faltar a acusacáo dos pecados pessoais feita por cada penitente a um
ministro legithno. Sem confissao pessoal, nao há sacramento, mas
apenas urna celebrac/do da palavra ou urna paralrturgia penitencial.
De resto quando bem celebradas, as confissñes comunitarias po-
dem ser altamente proficuas: ajudam cada cristao a tomar conscién
cia da dimensáo eclesial do pecado e da remissáo dos pecados; dao a
cada penitente ricos meios de fazer lúcido exame de consciéncia e
de se excitar á contricáo (mediante leituras adequadas e preces co
munitarias) sacudindo assim a rotina que fácilmente se introduz na
freqüentacao dos sacramentos.

— 70 —
MASTURBACAO E PECADO

sempre pessoal. Quanto aos problemas coletivos, é preciso dizer


que acarretam deveres para todos os membros (culpados ou
nao) da comunidade, interpelando v> senso de responsabilidade
de cada um. Ésses deveres nao sao apenas de ordem material
(promogáo do próximo subdesenvolvido), mas também, e prin
cipalmente, de ordem espiritual (comunicagáo da verdade e da
vida sobrenaturais que Cristo anunciou aos homens em vista
da eternidade).

4) «A masturbacáo deve sempre ser tida como pecado


grave ? '
Ocorre tao freqüentemente que muitas pessoas a conside-
ram algo de natural ou mesmo reoomendávél em certas fases
da vida.
Que dizer a propósito ?»

Resumo da resposta: A masturbacáo é cada vez mais comum,


principalmente entre os jovens e, de modo especial, entre os que estu-
dam ; está freqüentemente associada a estados de angustia. Daí pro-
curarem alguns moralistas isentá-la de culpa.
Na verdade, a masturbacáo, considerada em si mesma, é pecado
grave nao sómente porque contraria as leis biológicas do Jiomem. Le-
ve-se em canta também que a ejaculacáo é, por si, a expressSo do
amor do homem voltado para outrem; ora, na masturbacáo, essa
expressáo é destituida do seu caráter altruista e assume urna índole
egoísta solipsistica ou narclsica; o sujeito procura para si um prazer
que deveria estar estritamente a servico de urna causa ulterior ou
de urna doacáo de si mesmo.
Nao obstante, nem todo ato de masturbacáo é gravemente peca
minoso. Com efeito, ás vézes a masturbacáo é produzida sem parti-
cipacáo da vontade do sujeito (como, acontece freqüentemente ñas
polucóes noturnas). Em outros casos, ela é resultante do apetite
inferior otusensitivo do homem. que escapa em parte ao dominio da
vontade; torna-se entáo ato nao plenamente humano e, por conse-
guinte, nao plenamente culpável.
O pastor de almas e o educador, ao tratar com os jovens, deveráo
ter sempre presente que a masturbacáo está freqüentemente asso
ciada a estados psicológicos especiáis (as vézes, doentios e obsessivos).
Conseqüentemente. evitarlo aumentar a angustia do jovem que tenha
o hábito da masturbacáo; falar-lhe apenas de perigos seria nocivo.
Trataráo, antes, de mostrar ao adolescente que a masturbacáo, longe
de o beneficiar, só o prejudica; abram-lhe assim as perspectivas do
amor nobre e altruista. A visáo da virtude. que é bela e atraente,
ajudará poderosamente a superar a má inclinacao.

— 71 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 4

Resposta: Inegávelmente a masturbaeáo (também dita


«vicio ou pecado solitario» ou, menos exatamente, «onanismo»)
é fenómeno muito difuso, principalmente entre os adolescentes.
Nos últimos tempos, o Dr. Alfred C. Kinsey realizou um
inquérito entre 6.000 individuos masculinos, chegando á con-
clusáo de que 92 % haviam praticado a masturbagáo até o
orgasmo.

A porcentagem sobe, caso se considere apenas a classe


estudantil: entre os universitarios, Kinsey averigüou a cota
de 96% ; e, entre os secundaristas, 95%. Nos grupos de me
ninos de escola primaria, a porcentagem foi de 89%.
Kinsey notou também que os rapazes de zona rural caem
menos freqüentemente do que os de zona urbana. Averigüou
outrossim que, «a partir dos dezoito anos, a freqüéncia da mas
turbagáo declina regularmente á medida que a idade sobe.
Baixa mais rápidamente ñas classes menos cultas, em que as
relagóes heterossexuais costumam comegar precocemente. Ñas
classes sociais de nivel mais elevado, o declinio é menos acele
rado, pois ai há menos relagóes sexuais antes do casamento»
(cf. «Le comportement sexuel de l'toomme», 1948, pág. 629).
Ainda o mesmo autor observou que a masturbaeáo no sexo
feminino é menos comum do que no masculino, nao ultrapas-
sando a cota de 62%; apresenta características próprias.
A verificagáo do fenómeno tem levado os moralistas e mé
dicos a refletir sobre o assunto ; há quem pense em desculpar
por completo os consuetudinarios. Para elucidar a questáo,
percorrereiwos rápidamente a historia da Moral. A seguir, for
mularemos consideragóes sobre a qualificagáo ética da mas
turbagáo, as quais se seguiráo advertencias pastorais.

As páginas que se seguem, inspiram-se de valioso artigo do P.


Albert Pié O. P. : «La masturbation. — Réflexions théologiques et
pastorales», em «La Vie Spirituelle — Supplément» t. XIX, n' 77 (mai
1966) pág. 258-292. Veja-se também a otara do mesmo autor «Vie
aífective et chasteté». Paris 1964.
«P.R.» já publicou a respeito um artigo em seu número 35/1960
pág. 472-477.

1. Breve esbozo histórico

O exercicio da masturbagáo é atestado desde tempos anti-


gos. Já era conhecido e condenado pelos egipcios, gregos e ro
manos, como demonstram passagens de Platáo («Górgias»

— 72 —
MASTURBACAO E PECADO 29

494c), Aristófanes («Cavaleiros» 24 ; «Paz» 290), as sátiras de


Juvenal e os epigramas de Marcial.
Entre os judeus, a Biblia nao menciona diretamente a
masturbagáo. Conforme os bons exegetas, a condenagáo pro
ferida pelo Senhor sobre Oná nao versa própriamente sobre
ésse pecado, mas sobre o fato de nao ter Oná cumprido a lei
do levirato, que lhe mandava suscitar urna prole ao seu irmáo
defunto (cf. Gen 38,6-26). É possivel que o texto de Eclo 23,
21-23 (alias, um tanto obscuro) faga alusáo ao «vicio solitario»:

«Duas especies de pessoas multiplicam os pecados, e urna terceira


atrai sobre si a ira e a perdicSo: a que se abrasa no fogo de seus
apetites e nao se acalma antes de ter devorado alguma coisa. O homem
que abusa do seu próprlo oorpo, o qual nao terá sosségo enquanto nao
acender urna fogueira...»

A tradigáo dos rabinos de Israel foi muito severa a res-


peito da masturbagáo, comparando-a ao próprio homicidio. Eis
como se exprime o Talmud :

«Aquéle que ejacula a sementé em váo, assemelha-se a quem


derrama sangue» (Talmud da Babilonia, Niddah 13a).

Os escritos do Novo Testamento náü falam explícitamente


da masturbagáo. Os moralistas, porém, costumam citar passa-
gens de Sao Paulo para corroborar a condenaxjáo de tal defeito:

1 Cor 6,9s: «Nao sabéis que os injustos nao possuirao o Reino


de Deus ? Nao vos egameis: nem imorais, nem ilólatras, nem
adúlteros, nem efeminados, nem sodomitas, nem ladrSes, nem ava-
rentos, nem maldizentes... possuirao o Reino de Deus».
Ef 5,8: «A imoralidade e qualq'uer impureza ou ganancia, nem
sequer sejam mencionadas entre vos, como é próprio dos santos».
Gal 5, 19-21: «As obras da carne sao estas: prostituicáo. impu
reza, desonestidade, idolatría, maleficios... Os que as praticarem, nao
herdaráo o Reino de Deus».

Na historia da Igreja, os mestres de Moral rejeitam a


masturbagáo. Os testemuntoos se tornam mais numerosos a
partir do inicio da Idade Media, quando se redigiram os «Livros
Penitenciáis» ou catálogos de penitencias correspondentes aos
diversos pecados possiveis.
No século XVII foram condenadas respectivamente petos
Papas Alexandre VII (em 1655) e Inocencio XI (em 1679) duas
proposigóes do teólogo cisterciense Caramuel de Lobkowicz, as
quais professavam certa indulgencia para com o vicio solitario:

— 73 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, gu. 4

«A masturbacáo, a sodomía e a bestialidade sao pecados da mesma


especie leve. Portanto, é suficiente ao penitente dizer em confissáo
que praticou urna polucáo» (Denzinger-Schoenmetzer, «Enquirídio»
2044).
«A masturbacáo nao é proibida pela lei natural. Por conseguinte,
se Deus nao a tivesse proibido, seria freqüentemente algo de tome
por vézes mesmo algo de obrigatório sob pena de pecado mortal»
(ib. 2149).
Chama a .atencáo nestas intervencdes da Santa Sé a rejeicáo da
tese segundo a qual a masturbacáo nao seria contraria á natureza
humana.

A partir do séc. XVII foram-se multiplicando as obras que


em termos rigorosos se opunham á masturbagáo. Famoso se
tornou o tratado do autor inglés Bekkers, que condenou ve-
ementemente a masturbagáo também dita «onanismo»: «Onania
or the Heinous Sin of Self-pollution, and all its Frightful Conse-
quences in both Sexes, considered with Spiritual and Physical
Advice». — Essa obra conheceu mais de oitenta edigóes e foi
traduzida para o alemáo.
Em 1760, Tisso.t, médico de Lausanne (Suíga), publicou
em latim um «Tratado do onanismo. Dissertagáo sobre as
doengas produzidas pela masturbagáo». A obra conheceu mais
de doze edigóes até o fim do sáculo XVm, mais de vinte entre
1813 e 1842, e foi diversamente reproduzida <ou aproveitada na
redagáo de livros congéneres. Além do que, foi publicada tam
bém em francés no ano de 1764.
Muito digno de nota é o fato de que os filósofos Jean-
-Jacques Rousseau e Voltaire no século XVIII combateram — e
com grande veeméncia — a masturbagáo. Tenham-se em vista
a obra «L'Émile ou de l'Éducatron», 1. IV, de Rousseau (publi
cada em 1766) e o artigo «Onanisme» de Voltaire no «Diction-
naire Philosophique».
Eis urna das passagens mais significativas de Rousseau:

«Vigiai, poís. cuidadosamente o napaz. Ele poderá preservar-se de


tudo; mas é a vos que toca preservá-lo contra si mesmo. Nao o dei-
xeis a sos mem de dia nem de noite; deitai-vos no seu quarto. Só
vá ele para a cama quando abatido pelo sonó e levante-se ¡mediata
mente após ter acordado. Desconfía! do instinto...; é bom enquanto
age a sos; é suspeito desde que se misture ás instituicóes dos homens;
é preciso nao o destruir, mas regrá-lo; e isto pode ser mais difícil
do que asniquilá-lo» (ed. Garnier 1961, pág. 415s).

Os quatro autores que acabam de ser citados (Bekkers,


Tissot, Rousseau e Voltaire), contribuiram poderosamente para
formar a opiniáo pública a respeito de masturbagáo.

— 74 —
MASTURBACAO E PECADO 31

Deve-se notar ainda urna declaragáo do Santo Oficio de


Roma datada de 2 de agosto de 1929 : perguntaram a ésse
dicastério se era lícito provocar masturbagáo a fim de obter
esperma para fins de exame clínico em caso de blenorragia
contagiosa. O Santo Oficio respondeu negativamente, dando
a entender que nem para fins medicináis é lícito recorrer á
masturbagáo (cf. «Acta Apostolicae Sedis» 21 [1929] 490).
Pergunta-se agora : que dizer a propósito ?
Formularemos a resposta em duas proposigóes:

2. Falta contra a natureza

Antes do mais, deve-se observar:


A masturbagáo, considerada em si mesma (abstragáo feita
das circunstancias em que ocorra), é pecado grave, porque
contraria a natureza.
E por que contraria a natureza ?
Por dois motivos principáis: um de ordem biológica, e
outro de ordem antropológica. Com efeito,

1) A natureza produz a sementé humana em vista da


procriagáo ou. da fungáo genital. A biologia, a embriología e
outras ciencias modernas oorroboram esta afirmagáo dos an-
tigos e medievais.
Ora a masturbagáo prescinde desta finalidade ou impede-a.
Por conseguinte, a masturbagáo é contra a natureza.
Nao será preciso acrescentar que pecado contra as leis da
natureza vem a ser pecado contra a lei de Deus, pois Deus é
o autor da natureza. Ao homem compete observar fielmente
essas leis, das quais ele nao é senhor.
Esta argumentagáo é perfeitamente válida até nossos dias.
Há, porém, um segundo argumento no caso, argumento que
procede nao das leis da biología, mas da índole psíquica e afe-
tiva própria do ser humano. Éste ponto de partida, para muitos
de nossos contemporáneos, é mais interessante e valioso do
que o anterior. Eis como pode ser apresentado :

2) A ejaculagáo, no homem, é parte integrante de um


ato muito mais complexo e rico ou muito mais humano, ato
que exprime o amor. Com efeito, a ejaculagáo consuma e atua-
liza o dom total e recíproco que o homem e a mulher fazem

— 75 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 4

de si; ésse dom frutifica normalmente na procriacáo de um


filho. Por conseguinte, em se tratando de sexualidade humana,
deve-se dizer que a relagáo a outrem ou a relacáo consciente e
amorosa de pessoa a pessoa é elemento constitutivo.
Ora quem pratica a masturbagáo nao exerce o amor para
com outrem, mas antes o amor a si mesmo; volta-se para o
próprio «eu», fechando-se em si, em vez de se abrir para um
consorte de outro sexo. O prazer do sujeito torna-se entáo a
única finalidade de um ato que por si deveria dirigir-se a outrem
(a um cónjuge e á prole). Ésse prazer, em vez de ser (como
deveria ser) fator concomitante, torna-se fim. Nisto há dc-
sordem profunda.

Freud (cuja filosofía em outros pontos nao pode ser recomen


dada) julgava severamente o vicio solitario. Afirmava sim. que a
masturbacáo tem um caráter de narcisismo.
O narcisismo seria a satisfacáo do sujeito em si mesmo; carac
teriza os primeiros anos do ser humano.
A masturbagao, portanto, seria o síntoma de um narcisismo infan
til nao superado. Caso se torne habitual, ensina a psicanálise, a mas-
turbacáo significa estagnagáo do desenvolvimento da personalidade ou
mesmo regressáo infantil; denuncia urna sexualidade nao integrada
na ternura ou urna sexualidade imatura, que nao está em condicSes
de servir á procriagao e de ser altruista.
Por outro lado, Freud reconhecia — e com razáo — que a mas
turbagáo pode ser também o síntoma de urna neurose obsessiva; tem
entáo algo de patológico. Esta observagáo de grande importancia,
será desenvolvida um pouco adiante nestas páginas.

Tais consideragóes sao úteis ao moralista cristáo. Éste jul-


gará a masturbagáo nao apenas como um pecado contra as leis
da biología (que, sem dúvida, sao leis do Criador), mas tam
bém como um ato contrario ao desenvolvimento normal do
amor, que é o vínculo da perfeigáo (cf. Col 3, 14). Quem cede
voluntariamente á masturbacáo, pratica algo que tende a de
formar a personalidade, pois a grandeza do homem está em
abrir-se para outrem ou em tornar seu amor mais e mais al
truista. A masturbagáo é, ao contrario, amor narcísico, desor
denado amor do sujeito a si mesmo.
Eis, porém, que urna objecáo se impóe á nossa atengáo:
Há quem queira evidenciar que a perda de espermatozoides
voluntariamente provocada pelo homem nada tem de contrario
á natureza, lembrando que a própria natureza ocasiona imenso
desperdicio de gérmens vitads. Com efeito, a biología moderna
observa que cada ejaculagáo de esperma masculino langa mais
de 300 milhóes de espermatozoides (caso seja portadora de

— 76 —
MASTURBACAO E PECADO 33

menos de 60 milhóes, há pouca esperanga de que seja fecun


dante). O homem, no decorrer de sua vida, produz trilhóes de
espermatozoides, ao passo que a mulher faz amadurecer cerca
de 400 óvulos. A própria natureza, portante, produz sementes
destinadas á infecundidade em proporgáo surpreendente. — Nao
se segué daí que o desperdicio acarretado pelo homem já nao
pode ser dito antinatural ?
A resposta nao é difícil: o proceder da natureza nao é
razáo para que o homem derrame a sementé fora do lugar pre
visto pela natureza. Éste langamento voluntario continua a ser
contrario á natureza. Fazendo-o, o homem utiliza em vista de
um prazer egoísta e narcísico urna fungáo que por sua natureza
mesma é aberta para o próximo. Ora tal comportamento é
sempre contrario á natureza.
As consideragóes anteriores tinham por objeto a mastur-
bagáo em si ou como tal, abstragáo feita das circunstancias con
cretas em que seja praticada. Tém de ser completadas por ul
teriores ponderagóes.

3. Na realrdode concreta, atenuantes

Por muito severo que seja o juízo dos moralistas sobre a


masturbagáo, estes mesmos reconhecem que, na prática, nem
todo ato de masturbagáo é pecado grave.
Com efeito, o pecado grave supóe sempre, sejam preenchi-
das tres condigóes :
materia grave,
conhecimento da gravidade do ato a ser cometido,
vontade deliberada de o cometer.
Ora a segunda e principalmente a terceira das condigóes
ácima nao se verificam sempre devidamente, mesmo quando
há materia grave. Em particular, no tocante á terceira condi-
gáo deve-se dizer que há diversos graus de voluntariedade na
masturbagáo.

S. Tomás de Aqulno distingue no homem tres «apetites» ou tipos


de tendencia diferentes :
a) o apetite natural: é urna tendencia determinada, impressa
na natureza de cada ser, tendencia em vlrtude da qual ésse ser se
indina para tudo que lhe é conveniente. Ésse apetite é cegó; nao
depende de conhecimento previamente adquirido pelo respectivo su-
jeito. Assim a pedra é naturalmente sujeita ás leis da gravidade; ela
cai por sua própria natureza. O homem também é dotado de apetite

— 77 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, gu. 4

natural: por exemplo, ele tende naturalmente (antes de qualquer de-


liberacáo) á feücidade. — No homem distingue-se aínda
b) o apetite superior: é também chamado «vontade»; é a capa-
cidade de querer (apetecer) e amar os seres conhecidos pela inteli
gencia humana. A vontade se inclina para tal pessoa ou tal realidade,
após a ter escolhido com pleno conhecimento de causa. — Além disso,
existe no homem
c) o apetite Inferior ou sensitivo: é a inelinacao voltada para
tal ou tal realidade previamente conhecida pelos sentidos ; tal reali
dade é apresentada pelos sentidos como algo de agradável ao homem.
Assim o apetite sensitivo leva o homem a procurar agua, quando éste
tem sede pelo fato de ser entáo ¡a agua algo de agradável. O apetite
sensitivo'se volta necessáriamente para tudo que parece ser fonte
de prazer para o homem. Ele é por si mesmo Inclinado ao prazcr; é
o que se pode verificar claramente nos animáis irracionais.
No homem o apetite inferior ou sensitivo é, de certo modo, con
trolado ou dominado pelo apetite superior ou pela vontade. A von
tade deliberada faz com que o apetite sensitivo nem sempre ceda a
procura do prazer, mas, antes, se ponha a servigo de interésses supe
riores concebidos pela inteligencia e desejados pela vontade.
Todavía o apetite sensitivo (sequioso de prazer) permanece geral-
mente, em grau maior ou menor, refractario ao dominio da vontade;
fica sempre na natureza animal do homem algo que nao pode ser
plenamente «humanizado» ou que escapa ao controle da razao e da
vontade. É esta urna das conseqüéncias do pecado original, pecado
que violou a harmonía inicialmente existente na natureza do homem.
Em outros termos: o apetite sensitivo prorromperá sempre em mo-
vimentos espontáneos e impulsivos (feita talvez a excecáo de um ou
outro santo) que a vontade deliberada nao consegue impedir. A
vontade pode, sim, recusar seu consentimento a tais irrupc5es inde
liberadas ; pode combaté-las, depois de oriundas mas nto se lhes
pode antecipar de modo que nunca se facam sentir.
Ora os movimentos espontáneos do apetite sensitivo nao podem
constituir, por si mesmos, pecados mortais ; podem, sim, levar ao
pecado mortal, caso a razao humana lhes dé o seu consentimento.
Seráo pecados veníais, caso a vontade do sujeito possa ser. de algum
modo, respansável por éles.

É o que S. Tomás ensina em «De Veritate» qu. 25 e na ^urna


Teológica I/II qu. 74, a. 3.

É á luz de tais consideracóes que se deve analisar a mora-


lidade da masturbacáo. Distinguem-se conseqüentemente tres
graus de qualificaqáo moral désse ato. Com efeito, a mastur-
bagáo pode ser
pecado mortal, desde que haja livre consentimento da
vontade ;
pecado venial, caso a vontade, embora nao provoque o ato,
seja conivente com o mesmo ou responsável pela produgáo
désse ato ;

— 78 —
MASTURBACAO E PECADO 35

ato infm-moral, dado que seja mero reflexo fisiológico ou


psíquico, que se antecipa por completo á intervengáo da von-
tade humana.
Éste último caso se dá nao raro ñas polugóes noturnas.
Estas ocorrem geralmente em estado de inconsciencia do su-
jeito, sem previa deliberagáo da parte do mesmo. Desde, porém,
que a pessoa possa evitar tais atos e nada faga nesse sentido,
toma-se responsável pelos mesmos ; já se pode entáo falar
de pecado leve ou grave, segundo o grau de conivéncia da
vontade.
Conscientes déstes dados, os moralistas, educadores e país
procuraráo proferir um juízo adequado e devidamente mati
zado sobre a masturbacáo praticada pelos jovens. Ao lado de
casos gravemente maliciosos e culposos, podem-se admitir ou-
tros (e talvez muitos) cuja culpabilidade é atenuada;... ate
nuada, porque o individuo se acha em estado patológico (obses-
sáo nervosa ou excitagáo psicopática que néle provocam rea-
góes quase totalmente independentes do controle de sua von
tade). As pessoas que se encontrem em tal situagáo, precisam
naturalmente de tratamento pastoral adequado.
Tais consideracóes se completaráo em algumas

4. Reflexóes pastorais

Pode-se dizer que ao educador e ao pastor de almas com


pete evitar dois excessos, ao enfrentar problemas de castidade
da juventude :

1) a condescendencia cega, pronta a tudo desculpar como


se já nao houvesse pecados de impureza. Nao poucos sao le
vados a essa benignidade em nome de urna tnentalidade «escla
recida», que, em verdade, é traicoeira e prejudicial aos jovens.
Se, por certo, há casos patológicos, de moralidade atenuada ou
nula em materia de castidade, nao deixa de haver verdadeiros
casos de pecado na vida de nossos dias. A propósito vém as
advertencias do S. Padre Pío XII em discurso de 23/IÜ/52:
«Rejeitamos como errónea a afirmacáo daqueles que consideram
inevitáveis as quedas cometidas nos anos da puberdade. Estas, dizem,
nao merecem que délas se faca muito caso; nao seriam faltas graves,
porque (como acrescentam)' a paix&o suprime a liberdade necessária
para que um ato seja moralmente Imputável» («La Documentation
Gatiiolique» 2O/IV/1952, col. 454).

Doutro lado, é mister evitar

— 79 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, quM

2) a severidade oega. Nao basta denunciar o pecado. É


preciso que o pai espiritual e o educador ajudem o jovem a se
precaver contra o mal da masturbagáo e a se libertar déle
desde que o cometa. Para o conseguir, faz-se mister considerem
os fatóres que ocasionam ou favorecem éste desvio sexual.
Ora está averiguado que a masturbagáo ocorre freqüente-
mente associada a estados psicopatológicos. Com efeito, veri-
fica-se muitas vézes que o jovem se masturba quando sofre
algum revés ou golpe da parte dos mais velhos ou de seus com-
panheiros, quando padece solidáo, quando senté saudades... O
pecado solitario vem a ser entáo, para ele, um meio (alias,
muito pouco eficaz) de se consolar a sos. — Verifica-se tam-
bém que a concentragáo exigida pelo estudo e o trabalho inte
lectual parece favorecer tal reagáo da natureza. Segundo bons
autores, o fato de que o periodo de estudos dos jovens se pro-
longou na vida moderna explicaría, em parte, que a mastur
baeáo se tenha tornado táo freqüente.
Conseqüentemente, é preciso que o diretor espiritual e o
educador, por suas intervengóes na vida do jovem, tratem de
nao lhes aumentar o médo do pecado a ponto de lhes agravar
a angustia e o sentimento de culpa habitualmente associados a
masturbagáo.

Quem grita «Perigo!» a um homem sujeito á vertigem (princi


palmente quando de íato há perigo), está, de certo modo, empurrando
ésse homem para o perigo ou para o abismo que o íascina. Ora o
jovem tendente ao pecado solitario é como tal homem sujeito á verti
gem; traz em si a angustia sexual, angustia que pode recrudescer se
o educador lhe incute indiscriminadamente a consciéncia do perigo
moral que o ameaca.

Como se compreende, o bom pai espiritual deverá evitar


essa falta de tino. Compete-lhe procurar escutar o adolescente;
deixe o paciente falar de seus problemas. E depois procure, por
suas palavras oportunas, langar um pouco de luz ñas trevas e
na angustia do jovem ; isto será possível, se tratar de ajuda-lo
a descobrir o que a masturbaeáo tem de desarrazoado :
— é reaeáo infantil que, longe de resolver situagóes afli-
tivas, só concorre para agravá-las ;
— é obstáculo a» desabrochar de nobre amor conjugal;
é também ocasiáo de difícil relacionamento com os se-
melhantes, pois favorece o narcisismo e a volta do sujeito sobre
si mesmo. A masturbagáo cria um clima de solipsismo ego
céntrico, em que a caridade mal pode desabrochar.

— 80 —
FIM DO MUNDO EM 2000? 37

Cedendo, pois, á masturbagáo, o jovem prejudica sua ma-


turidade afetiva e seu progresso, tanto humano como cristáo.
O educador que mostré isto ao pupilo, longe de lhe au
mentar a angustia de alma, contribuí para acalmá-lo; ao mesmo
tempo, orienta-o para o amor da castidade. Esta é bela e nao
pode deixar de atrair a quem a queira considerar lealmente,
como insinúa S. Tomás :
«A estima da castidade pode ser motivo de alegría nao sómente
para quem pratica a castidade, mas também para aquéle que nao
possui tal virtude. Na verdade, o homem é naturalmente por sua
razáo levado a julgar que a virtude é um bem; ele ama ésse bem e
néle encentra alegría, ainda que nao pratique a virtude» («De Malo*
15, 2. ad 5).

Ao se tratar, pois, de masturbagáo, será de importancia


capital opor ao vicio o amor á virtude, o amor ao Verdadeiro
Amor, que é sempre belo e atraente.

IV. HISTORIA DO CRISTIANISMO

5) «'O Livro das Profecías' de Mozart Monteiro tem cha


mado' a atenga©, do público.
O mundo terminará no ano 2000 ?»

Resumo da resposta: «O Livro das Profecías» recolhe vaticinios


bíblicos, cristáos e nao-cristáos, na base dos quais tenta prever o futuro
da humanidade. Segundo ésses dados, a historia terminará no ano
2000 após Vitorias e final derrota do comunismo, invasáo dos maome-
tanos no Ocidente. calamidades tremendas, surto do 8* Anticristo, etc.
Num juízo sereno e objetivo, é preciso dizer que as conjeturas de
Mozart Monteiro carecem de sólido fundamento. Com efeito,
— na S. Escritura, o Senhor esquiva-se explícitamente a revelar
a data do fim do mundo (cf. Me 13,32; At 1, 7). Apenas indicou sinais
precursores de sua segunda vinda, sinais que nao se pode dizer com
seguranga já estejam ocorrendo atualmente. Os profetas do Antigo
Testamento íoram sobrios no tocante á cronología dos acontecimentos
e falaram freqüentemente em estilo velado, fundindo entre si aoon-
tecimentos paralelos, mas distintos uns dos outros.
— Nostradamus é fonte obscura, sujeita a interpretacSes diversas.
A «Profecía de S. Malaquias» é documento falsificado no século XVI
e atribuido a sao Malaquias. bispo irlandés do século XH. Por con-
seguinte, estes e outros documentos extra-biblicos aduzidos por M.M.
nao merecem crédito.

— 81 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 5

É possivel, sim, que, mediante a percepcáo extra-sensorial (facul-


dade natural, que nao significa revelacáo divina), um ou o"*1"0. ™-
dente teinha podido predizer algo do futuro da humanidade. Também
se pode admitir que Deus revele a um ou outro justo acontecunentos
vindouros. Tais casos, porém, devem ser tidos como raros; nao per-
mitem antever o fim do mundo e suas catástrofes precursoras.
Vé-se, pois, que nao se deve apelar para fontes religiosas a fim
de profetizar sobre os acontecimentos fináis do século XX e tía
historia.

Resposta: Abaixo proporemos sucintamente o conteúdo


do Hvto citado ; após o que, teceremos algumas consideracóes
a respeito.

1. «O Livro das Profecías»

Mozart Monteiro é erudito professor de Historia, que aos


valores da ciencia associa o tesouro da fé católica. Concate
nando seus conhecimentos, elaborou ültimamente urna «Filo
sofía da Historia», que foi publicada com o título «O Livro das
Profecías».
Recorrendo aos mate diversos vaticinios (profecías da Biblia,
oráculos de Nostradamus, S. Malaquias. S. OdUa. S. JoSo Bosco, Izgur,
Jeane DixOn, Edward Hyndoe, Sana-Khan...), o autor afirma que há
auténticas profecías em todos os séculos da historia, profecías que se
tém cumprido fielmente. Dai deduz que os acontecimentos da historia
estío de antemáo tragados, de sorte que devem necesariamente ocor-
rerfpor conseguinte, é possivel predizé-los. Esta posstbihdade tem sido
cultivada pelos grandes profetas ácima citados.
Baseados nos mais diversos pressupostos (judaismo, Cristianismo,
espiritismo, astrologia, quiromancia, percepgáo extra-sensorial...), tais
homens e mulheres parecem fornecer os dados para que se possa
ainda predizer o futuro da humanidade.
«O Livro das Profecías» recolhe tais vaticinios e, na base
dos mesmos anuncia o seguinte :
O mundo terminará no ano 2000. Entre os días presentes
e o fim do séc. XX, o comunismo provocará urna revolugáo
mundial, que terminará antes de 1973. O comunismo triunfará
na Franga e no resto da Europa Ocidental, mas nao durará
muitos anos ainda. A Franca, que será pioneira na luta contra
o comunismo, voltará ao regime de monarquía.
A seguir, abrir-se-á um período de paz e harmonía. A ésse
período sucederá urna grande invasáo maometana, de árabes

— 82 —
FIM DO MUNDO EM 2000? 39

e turcos (reforgados por tropas maometanas da India) contra


a Europa Meridional e o Cristianismo. Essa invasáo será che-
fiada pelo 7* Anticristo (o primeiro foi Ñero, Imperador de
Roma), filho de pai judeu e máe maometana. A Espanha e a
Italia seráo recobertas de ruinas. O Papa será aprisionado no
poráo de um navio e morrerá no mar. O seu sucessor instalar-
-se-á em Jerusalém.
Todavía os Estados Unidos da América entraráo na luta.
Os invasores mugulmanos seráo afinal vencidos, e o seu chefe
executado em Constantinopla (Istambul). Esta cidade sofrerá
destruigáo total, ficando íntegra apenas a Mesquita de Santa
Sofía, a qual se tornará, de novo, templo cristáo.
Tornar-se-á entáo manifestó o Anticristo — o 8» e pior
de todos —, que reinará de 1973 a 1999. A sua influencia será
oculta durante muito tempo, só se tornando clara, monstruosa
e diabólica nos últimos tres anos e meio daquele período; esta
fase final tomará características dantescas ou infernáis. O An
ticristo será um judeu sem religiáo. Provocará a terceira Guerra
Mundial, durante a qual Roma será arrasada. Haverá um di
luvio táo grande que a agua cobrirá os montes Apeninos; os
clérigos derramaráo copiosamente o seu sangue; a fom^ asso-
lará o mundo inteiro. O Patriarca Henoque e o Profeta Elias
voltaráo a térra e morreráo na luta contra o Anticristo. Final
mente, o poderío do mal desmoronará e o Anticristo morrerá
na batalha de Armageddon instantáneamente.
Entre a morte do Anticristo e a segunda vinda de Jesús
decorrerá'o apenas quarenta e cinco días. Quern entáo viver
no erro, terá a oportunidade de se salvar. Nos últimos anos do
mundo, os judeus se converteráo ao Cristianismo. A sua atual
volta á Palestina e a constituigáo do Estado de Israel sao um
passo dado nessa diregáo.
Pode-se acrescentar que, após um eclipse do sol, a térra
sairá da sua órbita em outubro de 1999; haverá perturbagáo nos
astros, a morte do Anticristo, a segunda vinda de Jesús e o
juizo final. Os homens morios ressuscitaráo. Haverá céu novo,
térra nova e humanidade nova.
As profecias nao se estendem além do século XX; nenhum
grande profeta vaticinou para o século XXL É, pois, impre-
visível o que acontecerá após o ju'zo final e o termo do pre
sente século.
Mozart Monteiro, católico como é, vé no sucessivo cumpri-
, mentó das profecias através dos séculos um eloqüente teste-
munho da existencia de Deus e da imortalidade da alma. To-

l — 83 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 5

davia admite um determinismo histórico dentro do qual nao


fica lugar para a liberdade de arbitrio dos homens.
Pergunta-se agora:

2. Que dizer a propósito ?

1. As profecías sempre atrairam o espirito humano, de-


sejoso de bem organizar a sua vida e evitar males descsnheci-
dos. Todavía a experiencia ensina que há profecías no sentido
auténtico e «profecías» ilusorias ou nao verídicas. Imp5e-se,
portante, discernir entre urnas e outras.
Ora Mozart Monteiro, no livro analisado, coloca no mesmo
plano e coordena entre si vaticinios de valor muito diverso,
como veremos abaixo :
a) as profecías bíblicas sao, por certo, auténticas aos
olhos da fé ; esta ensina que o Espirito Santo é autor do Livro
Sagrado.
Todavía os estudiosos ensinam que existe um estilo ou um
géneao literario profético: os profetas bíblicos supóem urna
«itua-áo histórica real do Oriente antigo e, a partir déla ou
aludindo a ela, predizem o futuro. Por conseguinte, para en
tender urna profecía bíblica, é geralmente necessário recons
tituir o quadro da historia de Israel em que se acha o profeta
respectivo.
" Tenha-fe em vista o vaticinio de Is 714, o qual prediz o nascí-
mento do Messias ou Emanuel a partir das circunstán«^angustiosas
em que se encontravam o reí Acaz e a Casa de Davi no sécuio
VIII a. C.
Ademáis os profetas bfblicos muitas vezes falam em ter
mos obscuros, futidindo num só todo acontecimento cronoló
gicamente distanciados uns dos outros.
Assim por exemplo, o éxodo do Egito no féc. XIII a C a l'ber-
tacáodo cative'ro babi'ónico no séc. VI a C a primera vinda do
Messias destinado a padecer, a segunda vínd.ci do Mesmo em sua
Blória final S?be^e também que o f!m do mundo é descr-to por
Je-us em Mt 24 de modo que parece coincidir com a ruina de Jeru-
-l'ém ¿corrida em 70 d. C; Cristo utilizou entáo o ornato lterário
díforoSdo Antigo Testamento (abalo da natureza, queda dos
astros...)•
É por estas razóos que nao se pode pretender deduzir da
Escritura Sagrada pred'góss muito exatas sobre a data do fim
do mundo e o modo como éste ocorrerá. Jesús mesmo íez

— 84 —
FIM DO MUNDO EM 2000? 41

questáo de nao revelar essa data aos Apostólos que o ititerro-


garam a respaito: «Nao toca a vos conhecer os tempos e
momentos que o Pai dispós em sua autoridades» (At 1,7).
Quanto ás circunstancias próprias do fim dos tempos, as
Escrituras fornecem, sim, alguns sinais que caracterizaráo a
consumagáo da historia: conversáo dos judeus (cf. Rom 9-11),
aparecimento do Anticristo (cf. 2 Tes 2,3-10), guerras é cala
midades (cf. Mt 24, 6-8), psrsaguigáo aos homens justos (cf.
2 Tes 2, 3-8)... Nao se pode, porém, afirmar que algum desses
sinais esteja, por certo, ocorrendo em nossos dias: a volta dos
judeus á Palestina nao significa que estejam para reconhecer
Jesús como Messias... As guerras e as calamidades dos tempos
atuais nao sao as únicas que se registram na historia do Cris
tianismo. O Anticristo é algo que os exegetas e teólogos nao
descrevem com unan'.midade e clareza: será um homem? ...
um conjunto de homens?... ou urna instituigáo anti-religiosa?
Note-se também que, quando os profetas do Antigo Testamento
predizem a volta de Israel á Palestina, tém em vista o ex lio
do povo na Babilonia e o subseqüente retomo á Térra Santa
(acontecimentos realizados no séc. VI a.O; nao se pode, pos,
dizer que a reconstituigáo do Estado de Israel em nossos días
seja cumprimento de urna profecia bíblica.
A respeto do fim do mundo, seus sinais e sua época, secundo a
Biblia e a Tradicáo crista, podem-F3 encontrar considerares mals
extensas no livro de E Bettencourt, «A vida que cometa com a morte»,
3a. ed., 1963, pág. 163-207.

b) Nostradamus é um «vidente» do século XVI. Basean-


do-se ñas Escrituras Sagradas e na astrologia, escreveu volu-
mosa colegáo de «profecías» («Centurias, Presagios, Sexti-
lhas»), que, segundo alguns intérpretes, recobran quatro se-
culos e sugerem o fim do mundo para o ano 2000.
Todavía os escritos de Nostradamus sao layrados em estilo
poético e no francés do séc. XVI. O seu oonteúdo é reconheci-
damente obscuro, de modo que precisam de ssr interpretados
ou «traduzidos». Por isto difkrlmente se pode dizer que Nos
tradamus tenha realmente profetizado; apenas se pode dizer
eme há autores que atribuem a Nostradamus a previsao de tais
ou tais acontecimentos. Os adeptos mesmos de Nostradamus,
interpretado por Izgur, reconhecem que o «profeta» em um
ou outro caso se enganou (cf. «O Livro das Profecías»,
pág. 97-100).
Bg Ademáis Nostradamus praticava a astrologia segundo os
§' métodos de sua época, julgando poder deduzir da posigáo dos

: — 85 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969, qu. 5

astros predigóes sobre o desenrolar da historia humana. Tal


pressuposto é evidentemente falso, pois na verdade a historia
da humanidade consta de atos livres ; o homem é realmente o
artífice dos acontecimentos que caracterizam os sáculos. Nao
há fato nem destino; nao há fórca neutra nem elementos ce
lestes que condicionen! os atos humanos; todo homem men
talmente sadio é responsável por suas opsóes.
A respeito de Nostradamus, veja-se «P.R.» 6/1958, pág. 260-263.
A propósito de astrologia e horóscopo, cf. «P.R.» 16/1959,
pág. 146-153.
c) Além da Biblia e de Nostradamus («o mais célebre
profeta depois dos profetas bíblicos», como diz Mozart Monteiro
á pág. 35 do seu livro), «O Livro das Profecías» cita numerosos
outros «iluminados», entre os quais santos ou escritores cris-
táos, médiuns espiritas, estudiosos de astrologia, etc.
Pode-se admitir que Deus tenha revelado de modo extra
ordinario a um ou outro désses «videntes» algo da historia
futura. Pode-se também admitir que um ou outro tenha usu-
fruído de faculdades perceptivas naturais que lhes, permitiram
conhecer com clareza realidades vindouras; hoje cm dia sabe-se
que existe urna percepgáo extra-sensorial, ou seja, um modo
de conhecer que nao depende dos cinco (ou seis) sentidos ex
ternos do homem e que atinge por vézes o futuro. Será éste o
caso de Jeane Dixon, a famosa vidente que, como dizem, previu
a morte de Roosevelt, a vitória de Truman, o assassínio de
Gandhi...?
Como quer que seja, é necessária grande prudencia em se
tratando de «profecías»... Há grande perigo de ilusáo (com-
patível com boa fé e candura) por parte dos profetas. Nao e
de crer que Deus tenha realmente intencionado revelar aos
homens os acontecimentos da historia a partir do séc. XVI até
o fim do mundo (como supóem os que aceitam Nostradamus
e a lista dos Papas dita «de S. Malaquias»): Jesús mais de
urna vez recusou-se a revelar a grande data final da historia
(cf. At 1,7; Mt 24,37-41; Me 13,32).
De modo particular, sabe-se que a Profecía de S. Malaquias pre
tende tecer a serie dos Papas (111 Pontífices) desde o sécu o XII ate
o íim dos tempos. Cada Pontífice é assinalado por um dístico latino
aue deve corresponder a urna nota característica de tal Pontífice. Se
gundo tal serie, após o Papa Paulo VI haveria apenas quatro Pontí
fices na historia da Igreja. Ora note-se que os dísticos, na sene dos
Papas posteriores ao século XVI, sao tao vagos e táo suscetiveis de
interpretaedes diversas que difícilmente se pode dizer que realmente
designam os Pontífices a que sao atribuidos. A crítica hoje em día

— 86 —
FIM DO MUNDO EM 2000? 43

assevera que tal «profecía» nao se deve a S. Malaquias, bispó irlandés


do século XII, mas a um autor do século XVI, que íorjou os disticos
a fim de Influir na eleicSo do futuro Papa, quando a sede pontificia
eslava vacante em 1590. A «Profecía de S. Malaquias*, portante, nao
é documento que goze de autoridade nos setores da religiSo ou da
ciencia.
A propósito veja-se «A vida que comeea com & morte». Apén
dice H, pág. 301-307.

2. A historia da humanidade, passada, presente e futura,


está toda presente a Deus, que a considera simultáneamente
em sua ciencia eterna. Deus sabe tudo o que acontecerá; Deus
pode também revelá-lo aos homens. Isto, porém, nao quer dizer
que o Senhor tenha tudo predeterminado, de modo a extinguir
a liberdade do homem. Prever ou conhecer de antemáo nao e
reduzir o homem a agente mecánico. Deus fez o homem res-
ponsável de seus atos e quer que ele se comporte sempre como
tal; nao lhe tira, pois, a Hberdade de arbitrio.
O «livro da vida» de que fala a Biblia Sagrada (cf. Flp 3,3). é
exoressáo metafórica. Deus nao usa nem precisa de livro. A metáfora
«estar inscrito no livro da vida» significa «ser chamado a possuir a
verdadelra vida» ou o consorcio efe felicldade do próprio Deus.

3 Em suma, nao há documento religioso que nos habi:


lite a predizer v futuro desenrolar da historia. O mundo bem
pode durar ainda muitos séculos; nao se deve crer que o \
ano 2000 séja fatídico para o género humano.
Aos homens de ciencia e aos técnicos compete procurar
de antemáo descrever o que possa ser a vida dos homens nos
decenios vindouros. Os cristáos aceitaráo tais profecías na me
dida em que tiverem fundamento plausivel. Para o homem de
fé a historia será sempre, através de suas variadas facetas,
o embate do Reino de Deus e do reino do pecado ou, segundo
os textos bíblicos, a luta da linhagem da mulher e da linhagem
da serpente ; esta tentará constantemente prejudicar aquela,
mas será finalmente prostrada ; o cristáo há de ser nos últi
mos decenios do século XX, como em toda e qualquer época,
portador da Vitoria de Cristo sobre o pecado e comunicador
do amor de Deus a todos os homens.

— 87 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 110/1969

' RESENHA DE LIVROS

O que Cristo quer de nos, por B. Háring. Tradugáo do italiano


por H Dalbosco. Cotecap «Revelagáo e Teología» n* 3. — Edigees
Paulinas, Sao Paulo 1968, 145x210 mm, 240 pp.
O P. Bernardo- Haring, perito teólogo do Concilio do Vaticano II,
é um dos pioneiros da renovacáo da teología moral em nossos días.
Outrora dava-se grande atengáo á Moral como código de preceitos
e Droibicóes código que por vézes tomava o aspecto de casuística
minuciosa..Era inevitável que tal modo de apresentar a ética crista
se tornassé por vézes fastidioso e mesmo pouco fecundó: muitos cris-
táos perguntavam a si mesmos o porqué das injunc&es que haviam
aprendido e que lhes pareciam um fardo mais do que um elemento
vital.
O P Háring consciente disto, tem procurado em suas varias
obras de teología moral apresentar os deveres da vida crista como
decorréncias lógicas da Boa-Nova apregoada pelo Senhor Jesús; e
toda urna visáo da vida, inspirada pela Biblia Sagrada, máxime pelo
Evangelho que o autor pretende assim comunicar. Cientes de que sao
chamados a ser filhos de Deus, conformes á imagem de Cristo, os
cristáos compreendem melhor que «nobreza exige»... A vida crista
deve ser considerada como resposta de amor generoso ao «Amor que
primetro nos amou» (1 Jo 4, 19). Os preceitos e as proibic6es nao
constituem senáo marcos que visam garantir o desabrochar progressivo
do amor de Deus derramado pelo Espirito Santo nos coracoes dos
homens (cf. Rom 5, 5).
O novo livro ácima assinalado trata de descrever a vida crista
como a prática do espirito generoso que se exprime no sermao da
montanha (Mt 5-7; Le 6, 20-49) e no discurso de despedida de Jesús
aos seus Apostólos (Jo 14-17). Sao estas as duas pegas do Evangelho
onde mais se manifesta que a vida crista nao é apenas frío cumpri-
mento de leis e obrigacSes, mas é crescimento (que de antemao nao
conhece limites) de urna nova criatura, que nasceu de Deus mediante
o santo Batismo. Diz o P. Haring:
«O decálogo nao é toda a lei para os cristáos. Quem quer cumprir
só aquilo que a lei do decálogo imp5e. nao é ainda um verdadeiro
cristáo; pelo contrario, em assim agindo, altera-lhe o sentido, porque,
ñas intenc5es de Deus o decálogo deveria preparar e levar ao Sermao
da Montanha e a lei da nova alianca. Só quem se propóe crescer no
amor, conforme o Sermao da Montanha, compreende também o signi
ficado verdadeiro e pleno do decálogo» (p. 104).
Tal modo de ver coincide bem com a mente expressa nos do
cumentos do Vaticano II.
É para deseiar que a obra de Hárimg se difunda largamente e
aue seus leitores por ela se imbuam do espirito do S. Evangelho
_ S Evangelho que, se de um lado, exige renuncia incessante ao
velho homem, doutro lado é apto a despertar indizível alegría em todos
aqueles que o praticam.

«. Eu porém, vos digo», por A. Pronzato. Tradugáo do italiano


por A." L Caravina. Colecáo «A videira e os ramos» n« 5. — EdicOes
Paulinas Sao Paulo 1968, 115 x 180 mm, 468 pp.
O livro traz como subtitulo «Temas de meditacao para religiosas
conforme as orientagoes do Vaticano II». Nao se trata de meditagoes
nropostas sistemáticamente em «pontos» concatenados, mas de con-
sidéragoes profundas que levam as almag a tomar consciénda da
grandeza e dos deveres do estado religioso. S&o passados em revista
os votos religiosos, as possiveis crises da vida consagrada, assim como
os componentes essenciais da vida espiritual (oragáo. soírimento, ca-
ridade uso dos sacramentos...). - O estilo é simples; recorre fre-
qüentemente a imagens, que tornam o livro interessante e compre-
ensivel.
A adaptada rcnovagSo da vida religiosa, pelo Cardeal A. C. Re
nard Traducáo do francés. Colegao «O Concilio e a vida» n« 1. —
EdigOes Paulinas, Caxias do Sul 1968, 125x200 mm, 6tt pp.
O livxo apresenta o texto portugués do Decreto do Vaticano n
referente aos Religiosos, texto acompanhado de introdugáo hjstórica
e de um comentario, que aalienta com precisao as Untes mestras do
documento. Além disto, o autor teve o cuidado de citar declaragSes
dos Papas ou da Santa Sé que elucidara o teor do Decreto Conciliar..
A obna do Cardeal Renard muito se recomenda oanto pela sua
visao sobrenatural como pela compreensáo dos problemas mcdernos.
Na hora presente, em que se notam hesitagóes sdbre o auténtico
sentido da renovagáo da vida religiosa, o livro pode ser altamente
benéfico.
O Concilio e a Educáoslo Crista por Mons. P. Gouyon, Arceblspo
de Rennes. Tradugáo do francés pelas monjas benedltinas da Abadía
de N Sra. das Gragas. Colegao «O Concilio e a Vida» tí> 5. — EdigOes
Paulinas, Caxias do Sul 1968, 125x200 mm. 101 pp.
O livro apresenta a tradugáo portuguesa da Declaragño conciliar
concernente a educagao crista, acompanhada de comentario lúcido, e
seguro Mons. Gouyon focaliza bem a complexidade do problema edu-
Snal: a evoíugáo da demografía, da psicología, da Pedagogía das
condigOes económicas exigem que se reveja o estatuto da escola em
geral e da educáéáo católica em particular. O autor, porém, frisa a
Ssidade de que naja educandários católicos, que formegam a seus
alunos urna formagao auténticamente crista: «Para o crtótao Cristo
é o comégo e o fim. É o centro. É aquéle donde tudo tem de partir
e, em particular, t6da sabedoria humana» (p. 36).
Nesta fase da historia, em que se controverte a razao de ser da
escola católica, sao de grande valor as reflexoes de Mons. Gouyon.
Errata: Pedindo desculpas, rogamos aos nossos a™1^08^^^?
corrígir em «P.R.» 103/1968, pág. 290. penúltima linha, o texto que
assim deve ser lido:
«Simplesmente porque bem me parecia que o Cristianismo tradi-
Em «P.R.» 103/1968. pág. 299, 1. 29, leia-se:" «...prelados de
outros tempos».

D. EstévSo Bettencourt O.S.B.


NO PRÓXIMO NUMERO :

v «As 40.000 horas»

Qué .significa •. «Deus morreu !» ?

.Os rnilagres.tie Jesús e sua mensagem

. Confissóes comunitarias

1 A historia depóe contra o Cristianismo?

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

r porte comum NCr$ 17,00


anual | ^^ aéreQ NCr$ w

Número avulso de qualquer mes e ano NCr$ 1,50


Número especial de abril de 1968 NCr$ 3,00
Volumes encadernados: 1957 a 1963 (preco unitario) .. NCr$ 10,00
Volumes encacternados: 1964 e 1967 (preco unitario) .. NCr$ 15,00
Índice Getai de 1957 a 1964 ••••■ NCr$ 7l°°
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Índice do 1967

Encíclica «Populorum Progressio» •• NCr$ °'50


Encíclica .Humanae Vitae, (Regulado da Natalidade) NCrS 0,70

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