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Globalização e Fluxos de Capitais

Globalização e Fluxos de Capitais

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Artigo publicado no jornal Valor Econômico pela economista Solange Srour 2007.

A globalização financeira vem contribuindo para a diminuição dos prêmios de risco ao redor do mundo e tem propiciado fluxo de capital abundante para os países emergentes, no entanto, surgem algumas preocupações:

a) a crescente complexidade inibe a eficiência da política monetária quando no melhor dos casos, não passa a trabalhar diretamente contra esta;
b) possibilidade de iniciativas protecionistas por parte dos governos e;
c) maior presença de elementos que favorecem a gestação de bolhas de ativos
Artigo publicado no jornal Valor Econômico pela economista Solange Srour 2007.

A globalização financeira vem contribuindo para a diminuição dos prêmios de risco ao redor do mundo e tem propiciado fluxo de capital abundante para os países emergentes, no entanto, surgem algumas preocupações:

a) a crescente complexidade inibe a eficiência da política monetária quando no melhor dos casos, não passa a trabalhar diretamente contra esta;
b) possibilidade de iniciativas protecionistas por parte dos governos e;
c) maior presença de elementos que favorecem a gestação de bolhas de ativos

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Published by: Caio on Mar 02, 2009
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Globalização e fluxos de capitais: riscos potenciais Por Solange Srour 20/06/2007

Apesar do fenômeno da globalização já ser um assunto bastante difundido, principalmente quando se trata do fluxo de comércio, a globalização financeira continua a receber menos atenção do que deveria. Enquanto que a primeira viabilizou uma maior competição e a manutenção de uma inflação baixa na maioria dos países, a segunda permitiu uma interligação entre os mercados financeiros mundiais jamais imaginada anteriormente. Seus benefícios são evidentes, haja vista a melhora das políticas econômicas adotadas nas mais diversas regiões e a diminuição das taxas de juros globais. A maior integração financeira, juntamente com um ambiente de crescimento econômico elevado, originou um fluxo de capitais nunca antes visto para várias economias, principalmente as emergentes, onde os retornos são mais elevados, resultando em uma diminuição considerável nos prêmios de riscos dos ativos financeiros. Entretanto há pelo menos três meios pelos quais a globalização financeira pode ter conseqüências negativas, constituindo um risco significativo para os próximos anos. Em primeiro lugar, os bancos centrais estão se tornando menos eficazes. Enquanto a globalização comercial permite uma abertura maior das economias e suaviza os impactos dos choques externos, a globalização financeira, em um ambiente movido por busca por maiores retornos, como as estratégias de carry trade, atua em muitos casos na direção contrária aos objetivos da política monetária. A Nova Zelândia é um bom exemplo: quanto mais os juros sobem, mais os capitais especulativos são atraídos e maior é a liquidez doméstica, que neste caso é direcionada para um setor imobiliário já bastante aquecido, forçando as autoridades monetárias a aumentarem novamente os juros. O Japão também é outro exemplo: quanto mais a política monetária é acomodatícia, maior é a saída de capitais, privando o país da liquidez que tanto necessita. No Brasil, a política monetária também foi de certo modo impactada pelos

efeitos da globalização. Uma entrada significativa de novos participantes no mercado de juros, principalmente os estrangeiros, resultou em uma queda forte das taxas longas. Neste caso, o movimento dos mercados financeiros não atuou na direção oposta à política monetária, mas adicionou um forte estímulo à política de flexibilização gradual e parcimoniosa dos juros. Em segundo lugar, a globalização financeira traz também um risco grande de protecionismo, assim como ocorre com a globalização comercial. Em recente discurso, o secretário do Tesouro americano enfatizou a importância da permanência dos investimentos internacionais nos EUA e os esforços em aumentar a competitividade do mercado de capitais doméstico. Há algum tempo, imaginou-se que a globalização financeira iria aumentar tanto as correlações entre os ativos no mundo que a diversificação por parte dos investidores internacionais diminuiria. Chegou-se a falar que a globalização aumentaria o "home bias" (tendência dos investidores de terem um viés para aplicar em ativos domésticos, em oposição aos ativos externos, em proporções maiores do que as previstas com base em modelos de otimização e princípios de média e variância). Entretanto, a experiência recente mostrou justamente o contrário: a globalização financeira, ao diminuir a variância e o risco dos ativos internacionais, acabou por intensificar o apetite pela diversificação (Lewis, Karen and U. Penn, "Is the international diversification potential diminishing? Foreign equity inside and outside the US", November 2006, NBER 12697). Países como os EUA e Suíça, que sempre foram vistos como portos seguros, perderam parte de sua atratividade tanto para os investidores privados como para os bancos centrais, passando a constituir fontes potenciais de focos protecionistas. Por último, a diminuição dos prêmios de risco embutidos em grande parte dos ativos financeiros pode ter sido exagerada, aumentando a probabilidade do surgimento de "bolhas especulativas". Em alguns países emergentes, as bolsas de valores e os preços dos imóveis tiveram crescimento aparentemente superior à melhora de seus fundamentos. O forte fluxo de recursos para alguns países também tornou necessário que os bancos centrais interviessem mais ativamente no mercado de câmbio, acumulando um expressivo volume de reservas internacionais. Este processo acabou gerando uma nova fonte de recursos para as economias mais atrativas, na medida que intensificou a política de diversificação de reservas dos bancos centrais. Assim, não só os investidores privados, mas também as próprias autoridades monetárias, movidas por um maior apetite ao risco, aumentaram a probabilidade dos ativos financeiros terem seus preços desviados de seus fundamentos. Como a globalização é hoje um fenômeno irreversível, as correções dos problemas a ele inerentes virão com as próprias crises de mercado

O caso da China é típico da perda de eficácia da política monetária e do risco de bolhas especulativas. Sem conseguir esterilizar completamente um fluxo mensal de cerca de US$ 50 bilhões desde o início deste ano e mantendo os juros baixos a fim de não pressionar ainda mais a valorização do câmbio, o banco central chinês tem se deparado com um enorme aumento de liquidez no mercado doméstico, que está sendo canalizado para outros ativos, principalmente para o mercado acionário. A bolsa chinesa valorizou mais de 240% desde o início do ano passado. Além de criar uma agência responsável pela aplicação de parte significativa das reservas, o governo vem adotando medidas para liberalizar a conta capital e estimular o investimento dos chineses no exterior, mas ainda de forma muito gradual. Índia e Argentina também têm tomado medidas para liberalizar a saída de capitais, mas este movimento acaba na maioria dos casos estimulando ainda mais a entrada de capitais por parte dos investidores que não estavam dispostos a ficar sujeitos aos controles até então existentes. Outros países, como Tailândia, Colômbia e Vietnã, foram na direção oposta, adotando ou contemplando a adotar algum tipo de controle para a entrada de capitais, a fim de reduzir a atratividade de suas economias. Assim, vivemos hoje um momento onde os investidores parecem descontar todos os benefícios da globalização, seja financeira, seja comercial, diminuindo de forma impressionante os prêmios de riscos embutidos nos principais ativos financeiros. As conseqüências vão desde a criação de bolhas especulativas até a perda de eficácia da política monetária e ao surgimento de focos de protecionismo nos países mais afetados. Como a globalização é hoje um fenômeno irreversível, as correções destes e dos outros problemas virão com as próprias crises de mercado, que até o presente momento foram pequenas e pouco duradouras. Entretanto, são nos momentos de euforia, como o atual, que estes e outros riscos devem ser ressaltados e priorizados pelos governos no desenho de políticas que, ao menos, minimizem os impactos negativos acima descritos. Solange Srour Chachamovitz é economista-chefe da Mellon Global Investments.

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