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Relatório Brundtland - Nosso Futuro Comum - Em Português

Relatório Brundtland - Nosso Futuro Comum - Em Português

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Publicado porMárcio Estevam
Relatório da ONU chamado de Nosso Futuro Comum, sobre a sustentabilidade ambiental do planeta Terra.

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Márcio Estevam

UN report called Our Common Future, on the environmental sustainability of the planet Earth.

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A big hug!

Márcio Estevam
Relatório da ONU chamado de Nosso Futuro Comum, sobre a sustentabilidade ambiental do planeta Terra.

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Márcio Estevam

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Márcio Estevam

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12/16/2015

pdf

-.

mfRo COMUM
pela Oxlord UnI­
"l1'li11 Importante documen­
Q1Inem deade o Relatório
....ndf'. Nosso fulllro comum.
15do da Comleaio Mundial sobre
liiio Ambiente e Desenvolvimento,
...... um dOS temas mais preme""
... do memento ­ 8 relaçilo entre o
'11 nvolvlmen1o e o melo ambiente.
M coIlgldaa pela Co­
1IIIIeIo, 10 longo da l!ê8 8noa da
PIICIU'" e análl_, apólaJn..ae em
"poIrnet1lo8 de centenas de eepe­
....IIIM de quase todoa oa pelles,
lDImsnCIo um cenádo mundial do de­
l8llVOIv'.n1entO a seu Impacto nos re­
__pllnetérI08.
..... das Idéias centreis da
"'/10 "'111m comum alltma e com­
PIO'I1t que um desenvOlvimento eco­
lânIoo ... toma Impenoss a con-
1IMI;1o dOII meIoS nalllrals. Sem
lMdIdu que aesegurem a conquista
.... obJetIvo, a humanidade pom
l1li rI4Ico 8 própria aobnIvlYêncla.
A otn p6e em evldêncls meti­
dilnl, lIdma de qualaquer dúvidas,
.... ,.11dsde: um progresso econô­
mIcO a aoclal cada vez maior nAo po­
dirá bII_se na axploraçilo Indis­
criminada a devastadora ds natureu.
Ao conlnlllo: trem o uao sablamente
dirigido doa recuraoe naturais. nio
hawr6 desenvOlvlmamo sustentável.
A fim da ssllanlar as propor­
90M e a marcha das causas que es­
110 concomlndo pera tomar a Terra
lnabltaval, Nosso fulllro comum
...-nta advartánclss como as se­
e cada ano, 6 milhões da
de tarraa produtivas se
em de8ertos Inúteis. Em
IMO corresponde 8 urns
....... sornsdes da Ale­
Espanha, Inglatarra,
Noruega - 2.170.000
.....111"".. 110 deatruldoa

NOSSO
-FUTURO
COMUM
001-431H110.6
COMISSÃO
Presidente: Gro Horlem Brundlland (Noruega)
Vice-presidente: Ma.-.r Kllalid (Sudão)
Susanna Agnelli (Itália)
Salell A. AI·Athel (Arábia Saudita)
Bernard CII"".ro (Zimbábue)
Lamlne Mohammed Fadlka (Costa do Matflm)
Volker Hauft (Rep6blica Federal d. Alemanha)
Ist_an Lang (Hungria)
Ma Shljun (Repablica Popular da China)
Margarita Marino de Batera (Colômbia)
Nagendra 81ngh (índia)
Paulo Nogueira Neto (Brasil)
Saburo Okita (Japão)
SlIridath S. ltamphal (Guiana)
Wllliam D. ltuekelshaus (EUA)
Mobamed Sabnoun (Argélia)
Emil Salim (Indonésia)
Bukar Shaib (Nigéria)
Vladimir Sokolov (URSS)
Ja_Stanovnlk (Iugoslávia)
Mauri"" Strong (Canadá)
EX-OFFICIO
Jlm Ma.Neill (Canadá)
-
COMISSAO MUNDIAL
SOBRE MEIO AMBIENTE
E DESENVOLVIMENTO
NOSSO
FUTURO
COMUM
2'edíção
')
I \.): ....

J!fl/)
b li:=­
I
""----"'".

Editora da Fundação Getulio Vargas
Rio de Janeiro, RJ ­ 1991
Titulo da obra em lngJês:
Our cOIlU7IOn future
Oxford I New York, Oxlbrd Ulllversily Press, 1987
Direitos rese....ados desta ediçAo ~ Fimdação Getulio Vatgas
Praia de Bolafogo, 190 - 22253
Rio de Jalleiro, RJ - Brasil
11 vedada. reprodução tutal ou parcial desta obra
Copyrighl C Comisslo Mundial sobre Meio Ambiente e
DeseJlV01vimento
l' edição -1988
2' ediçAo-I991
Editora da Fundaçio Getulio Vargas
Cbef..: Francisco de Castro Azevedo
Coordenaçlío editorial: DamilIo Nascimento
Supervisão de editoração: En:llía Lopes de Souza
Supervisão gráfica: Hélio Lourenço Netto
Capa: Marcos Tupper
Nosso [uturo comum I Comisslio M••diol_Mo., ABlbiea,••
De&alvotvimeolO. - 2. ed.. - Rio ... J8IlClro! Edilora da Fudaçio Getulio Varps,
1991.
xvüi, 430p.
Tradução do:: Qllr commOa. mtlH'e.
lael.i 1>ibllogra!iA.
1. M.., Ambi..... 2. P.llIica ...bi....I. 3. Proteção ...bi....I.
4. Deacnvolvim..", ecoallmleo.l. Comias!<> M...,iaI ..lnMeõo ABlbi.....
D_...lvim_. n. Fuad:açáo GcIlIl., V"'1l'"
illD-3013
SUMÁllIo
Siglas e nota sobre a terminologia
Ptefácio da presidente
Da Terra ao mundo: vi.slIo panorâmica da
Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento 1
Pàrtel: PRElQCUPAÇÓES COMUNS 27
I Um futuro.ameaç.odo 29
2Em busca do desenvolvimento sustentável 46
3 O papel da economia internacional 72
Parte D: DESAFIOS COMUNS 101
4 População e recursos hllDllUlos 103
5 Segnmnça alimentar: mantendo o potencial 129
6 Espécies e ecossisletnllll: recursos para o desenvolvimen­
to 162
7 Energia: opç6es para o meio ambiente e o desenvolvimen­
to 186
8 Indt1stria: com menos, produzir mais 230
9 O desafio w:bano 262
Parte lli: ESFORÇOS COMUNS 291
•lI) A adminIs1nlÇ1io das áreas comuns 293
gpaz, segnmnça, desenvolvimento e o meio ambiente 325
12 Pels ação comum: propostas de mudança institucional
e legal 345
Anexo 1 Sdmula dos princípios legais propostos para a proteção
ambiental e o desenvolvimento sustentável 388
Anexo 2 A Comissão e seu trabalho 493
Neste relatório foram incluídas citaçõeS de algumas das muitas
pessou que prestaram depoimento nas audiências públicas da
CMMAD, a fim de ilustrar a ampla garnà de opiniões com que a
ComissIio travou contato em seus três anos de atividades. Elas
nlio refletem necessariamente o ponto de vista da Comissão.
V
USTA DE TABELAS
1.1 Tamanho da população e PNB per capita por grupos
de países 32
1.2 Distribuição do COIlllUlOO mtmdial, médias para 1980-82 36
1.3 Taxa anual de crescimento do PIB em países em
desenvolvimento, 1976-85 39
3.1 T r a n s f ~ líquida de recumos para países em
desenvolvimento imponadores de capital 74
3.2 A importância crescente do comércio exterior 86
4.1 População mundial 1950-85: fatos-chave 109
4.2 Tamanho da população - atual e projetado - e taxas
de aumento 110
4.3 Indicadores de saúde 112
4.4 Taxas de matrículas dos sexos masculino e feminino,
por Região. 1960 e 1982 113
5.1 Duas décadas de desenvolvimento agrícola 130
7.1 Consumo global de energia primária per capita. 1984 188
8.1 Participação do valor adicionado manufatoreiro
no PlB. por grupo de economias e grupo de renda 231
8.2 Composição do comércio de mercadorias dos países
em desenvolvimento 233
9.1 População residente em áreas urbanas, 1950-2000 263
9.2 Exemplos de rápido aumento popolacional em
cidade. do Terceiro Mundo 264
10.1 Pesca mondial nas principais zonas pesqueiras,
1979-84 300
LISTA DE BOXES
2.1 Crescimento, redistribuição e pobreza 54-55
3.1 Algodão produzido para exportação no Sabel 73
3.2 Açúcar e desenvolvimento sustentável 90
3.3 O papel das empresas transnacionais 93
4.1 O equiUbrio entre alimento e população 106-107
5.1 Perpectivas regionais de desenvolvimento
agríeola 132-/33
5.2 Sistemas naturais de nutrientes e controle de
prdgas 150
6.1 Alguns exemplos de extinção de espécies 164
7. 1 Uuidades de energia 187
7.2 Dois cenários energéticos 190-191
7.3 Quanto custam os danos e o controle da poluição
do ar 201
9.1 Como dominar as cidades 265
9.2 Problemas ambientais nas cidades do Terceiro
Mundo 268
9.3 Três maneiras de usar US$20 milhões para melhorar
as condições de uma cidade de 1 milhão de
habitantes 282
9.4 A falta de compreensão das necessidades das mulheres
nos projetos habitacionais 287
10.1 Os acordos sem precedentes do Tratado Antártico 315
11.1 Gastos militares versus segurança ambiental 339
VU
VI
SIGLAS
AlD Associação Internacional de Desenvolvimento
AlEA Ag&cia Intemacional de Energia Atómica
AOO assistência oficiaI ao desenvolvimento
CAEM Conselho de Assistência Econômica Mlltua
CCPA Comitê Cientffi<:o de Pesquisa Antártica
CCRMVA Comissão para a Conservação dos Recursos Marinhos
Vivos da Antártida
CE Comunidade Econ&nica Européia
CEE Comissão Econômica Européia
ClIDMA
Comitê das Instituições Intemacionnis de Desenvol­
vimento para o Meio Ambiente
CIPB
ComissIiD Internacional sobre a Pesca da Baleia
CIPR Comissão Internacional de Proteção Radiológica
CIUC
Conselho Internacional de Uniões Científicas
CLA Centto de Ugação Ambiental
CNUAH
Centto das Nações Unidas para Assentamentos Hu­
manos (Habitat)
OAESI Departamento das Nações Unidas de Assuntos Eco­
nômicos e Sociais Internacionnis
EM empresas muItinacionais
ENC Estratégia Nacional de Conservação
FAO
Organização das Nações Unidas para a Alimentação e

FMI Fundo Monetário Internacional
FMVS Fundo Mundial para a Vida Selvagem
GA'IT Acordo GeraI sobre Tarifas e Comércio
GEACPM
Grupo de Especialistas em Aspectos CientífICOS da
Poluição Marinha
lIMA0 Institoto Intemaciónal para o Meio Ambiente e o De­
senvolvimento
IRM Instituto de ReCursos Mundiais
ICMA
Junta das Nações Unidas para a Coordenação do
Meio Ambiente
OCOE
Organização para a CooperaçliD e o Desenvolvimento
Econômico
OIT
Organização Internacional do Trabalho
OMM
Organização Meteorol6gica Mundial
OMS Organização Mundial da Saúde
ONG organizações nIIo-goVemamentais
ONUDI O!::ganização das Nações Unidas para o Desenvolvi·
mento Industrial
Pffi produto interno bruto
PIGB Projeto Internacional para a Geoslera e a Biosfera (do
CIUC)
PNB produto nacional bruto
PNUMA Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente
PPP Princípio de Pagamento do Poluidor
PRI países recém-industriaJizados
PSN Padrões de Segurança Nuclear
SGMMA Sislema Global de Monitoração do Meio Ambiente
STA Sistema do Tratado Antártico
UICN Upião Internacional para a ConservaçliD da Natureza
e dos Recursos Naturais
UJT União Internacional de Telecomunicações
UNCTAD Conferência da Nações Unidas sobre Comércio e De­
senvolvimento
UNESCO Organização das Nações Unidas para a Educação, a
Ciência e a Cultora
VAM valor adicionado manufatureiro
ZEE Zona Econômica Exclusiva
VIII IX
NOTA SOBRE A TERMINOLOGIA
o agrupamento de países na apresentação dos dados está indicado
nos lugares apropriados, As expressões "países industrializados"
e "países desenvolvidos 11 em geral compreendem as categorias
adotadas pela ONU de eeonomias de mercado desenvolvidas e
países socialistas do Leste europeu e a URSS, Salvo indicação em
a expressão ··pais em desenvolvimento" ao
grupo de países em desenvolvimento com economias de mercado
c aos países socialistas da Ásia. tal como classüicado pela ONU.
A menos que o contexto indique o contrário. a expressão ''Tercei­
ro MundoH refere-se aos países em desenvolvimento com
mias de mercado. tal como definido pela ONU.
Salvo indicação em contrário. toneladas são toneladas métricas
(l.oookg ou 2,204.6 libras-peso), Dólares são d6lares none-ame­
ricanos correntes ou para o ano especificado.
PREFÁCIO DA PRESIDENTE
"Uma agenda global para mudança" - foi o que se pediu à Co­
missão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvímento que
preparasse. Tratava-se de um apelo urgente da Assembléia Geral
das Nações Unidas para:
• propor estratégias ambientais de longo prazo para obter um de­
senvolvímento sustentável por volta do ano 2000 e da( em diante;
• recomendar maneiras para que a preocupação com o meio am­
biente se traduza em maior cooperação entre os países em desen­
volvimento e entre pa(ses em estágios diferentes de desenvolvi­
mento econômico e social e leve à consecução de objetivos co­
muns e interligados que considerem as inter-relações de pessoas,
recursos. meio ambiente e desenvolvimento;
• considerar meios e maneiras pejos quais a comunidade
cional possa lidar mais eficientemente com as preocupações de
cunho ambiental;
• ajudar a definir noções comuns relativas a questões ambientais
de longo prazo e os esforços necessários para tratar com êxito os
problemas da proteção e da melhoria do meio ambiente, uma
agenda de longo prazo a ser posta em prática nos próximos decê­
nios, e os objetivos a que aspira a comunidade mundial.
Em dezembro de 1983, quando o secretário-geral das Nações
Unidas me encarregou de criar e presidir urna comissão especial e
independente para tratar deste grande desafio que se impõe à co­
munidade muodial. eu tinha plena consciência das dimensões da
tarefa e de que minhas responsabilidades cotidianas de líder de
panido a tomavam quase impossível. Além disso. o que a Assem­
bléia Geral solicitava parecia írrealista e ambicioso demais. embo·
ra fosse também uma evidente demonstração do sentimento gene­
ralizado na comunidade internacional de frustração e inadequação
no tocante à nossa capacidade de enfrentar as questões vitais do
mundo e lidar bem com elas.
Bste fato é uma realidade incontestável e difícil de negar. Co­
mo não se dispõe de respostas para questões fundamentals e sé­
rias, a única alternativa é continuar tentando enconlrá-Ias.
Eu ponderava sobre isto tudo quando o secretário-geral apre­
sentou-me um argumento irrefutável: nenhum outro líder político
se tomara primeiro-ministro com uma experiência de vários anos,
no plano nacional e internacional. como ministro do Meio Am­
x
XI
blen .... Isto me deu esperanças de que o meio ambiente não estava
fadado a pennanecer uma questão secundária no processo polftico
central de tomada de decisões.
Em Illtima análise, resolvi aceitar o desafio. O desafio de enca­
rar o fulUro e de proteger os interesses das gerações vindouras.
Pois uma coisa era perfeitamente clara: precisávamos de um man­
dato para a mudança.
Vivemos uma era da história das nações em que é mais neces­
sária do que nunca a coordenação entre ação política e responsa­
bilidade. A tarefa e o encargo com que se defrontam as NaÇões
Unidas e seu secretário-geral são enormes. Satisfazer com respon­
sabilidade os objetivos e as aspirações da humanidade requer o
apoio ativo de todos nós.
Minbas reflexões e perspectivas também se baseavam em ou­
tros aspectos importantes de rninba experiência política pessoal:
OS trabalhos anteriores da Comissão Brandt sobre questões Norte­
Sul e da Comissão Palme sobre questões de desannamento e se­
gurança, de que participei.
Pediam-me que ajudasse a lançar um terceiro e premente apelo
11 ação polftica: após Programa para a sobrevivlncia e Crise c0­
mum, da Comissão Brandt, e após Segurança comum, da Comis­
são PaIme, viria FuturO comum. Era isso o que eu tinha em mente
quando, junto com o Vice-Presidente Mansour Khalid, comerei a
trabalhar na ambiciosa tarefa que as Nações Unidas nos confiam.
Este relatório, apresentado à Assembléia Geral da ONU em 1987,
é o resultado desse processo.
Talvez nos .. tarefa mais urgente hoje seja persuadir as nações
da necessidade de um retorno ao multilateralismo. O desafio da
reconstrução após a 11 Guerra Mundial foi a verdadeira motivação
que levou ao estabelecimento de nosso sistema econômico inter­
nacional do pós-guerra. O desafio de encontrar rumos' para um
desenvolvimento sustentável tinha de fornecer o impeto - ou
mesmo o imperativo - para uma busca renovada de soluçées mul­
tilaterais e para um sislema econ/lmico internacional de coopera­
çãe reestruturado. Esses desaUos se sobrepunbam às distinções de
soberania nacional, de estratégias limitadas de ganho econllmico e
de várias diseiplioas cientificas.
Após 15 anos de paralisaçãe ou mesmo deterioração na coope­
ração global, acredito ter chegado o momento de expectativas
mais elevadas de busca conjunta de objetivos comuns, de um
maior empenbo político em relação a nosso futuro comum.
A década de 60 foi um tempo de otimismo e progresso; havia
mais esperança de um mundo novo melhor e de idéias cada vez
Xli
mais internacionais. A. colônias dotadaJI de recursos naturais to...
navam-se nações. Os ideais de cooperação e partilha pareciam
estar sendo seriamente buscados. Paradoxalmente, os a o o ~ 70 en­
traram pouco a pouco num clima de reação e isolamento, en­
quanto uma série de conferências da ONU trazia espemnças de
maior cooperação quanto às questões mais importantes. A Confe­
rência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Hwnano, em
1972, levou os países em desenvolvimento e os industrializados a
traçarem, juntos, os ud.ireitos
U
da :fanúlia. humana a wn meio am­
biente saudável e produtivo. Várias reuniões desse tipo se sucede­
ram: sobre os direitos das pessoas a uma alimentação adequada, a
boas moradias, a água de boa qualidade, ao acesso aos meios de
escolher o tamanho das famfiias.
Na década amai, verificou-se um retrocesso quanto às preocu­
paçées sociais. Os cientistas chamaram atenção para problemas
urgentes e complexos ligados à própria sobrevivência do homem:
um planeta em processo de aquecimento, ameaças à camada de
ozônio da Terra, desertos que devoram terras de cultivo. Nossa
resposta foi exigir maiores esclarecimentos e transferir os proble­
mas a iostitoições mal equipadas para lidar cmn eles. A deteriora­
ção ambiental, vista a princípio como um problema sobretudo dos
países ricos e como um efeito colaleral da riqueza induslrÍal, tor­
nou-se uma questão de sobrevivência para os países em desenvol­
vimento. Ela faz parte da espiral descendente do declfnio econll­
mico e ecológico em que muitas das nações mais pobres se vêem
enredadas. Apesar de esperanças oÍlciais expressadas por todos,
nenbuma das tendências hoje idenrifieadas, nenhum programa ou
polftica oferece qualquer esperança real de estreitar a lacuna cada
vez maior entre nações ricas e pobres. E, como parte de nosSO
"desenvolvimento'\ armazenamos arsenais capazes de alterar 08
rumo. que a evolução vem segnindo há milhões de anos e de criar
um planeta que nossos ancestrais não reconbeceriam.
Em 1982, quando se discutiam pela primeira vez as atribuições
de nossa Comissão, houve quem desejasse que suas considerações
se limitassem apenas a "questões ambientais". Isto teria sido um
grave erro. O meio ambiente não existe como uma esfera desvin­
culada das açées, ambições e necessidades humanas, e tentar de­
fendê-lo sem levar em conta os problemas hwnanos deu li própria
expressão "meio ambiente" uma conotação de ingenuidade em
certos círculos polftieos. Também a palavra "desenvolvimento"
fni empregada por alguns num sentido muito limitado, como "o
que as nações pobres deviam fazer para se tornarem mais ricas",
e por isso passou a ser posta automaticamente de lado por muitos,
no plano internacional, como algo atinente a especialistas, àque­
les ligados a questées de "assistência ao desenvolvimento".
XIII
Mas é no urneio ambiente" que todos vivemos; o "'desenvolvi­
monto" é o que todos fazemos ao tentar melhorar o que nos cabe
neste lugar que ocupamos. Os dois são inseparáveis. Além disso,
as questões de desenvolvimento devem ser consideradas cruciais
pelo. líderes políticos que acham que seus países já atingiram um
nível que outras nações ainda lutam para alcançar. Muitas das es­
tratégias de desenvolvimento adotadas pelas nações industrializa­
das são evidentemente insustentáveis. E devido ao grande poder
econômico e político desses países, suas decisões quanto ao de­
senvolvimento terão profundo impacto sobre as possibilidades de
todos os povos manterem o progresso humano para as gemçõcs
folurns.
Muitas questões cóticas de sobrevi vência estão relacionadas
com desenvolvimento desigual, pobreza e aumento populacional.
Tndas elas impõem pressões sem precedentes sobre as telTllS,
águas, florestas e outros recursos naturais do planeta, e não ape­
nas nos países em desenvolvimento. A espiral descendente da p0­
breza e da deteriornção ambiental é um desperdício de oportuui­
dades e recursos. De modo especial, é um desperdício de recursos
humanos. Esses vinculos 'entre pobreza, desigualdade e deteriora­
ção ambiental foram um dos principais temas em nossa análise e
recomendações. O necessário a80m é wna nova era de cresci­
mento econômico - um crescimento convincente e ao mesmo
tempo duradouro do ponto de vista social e ambiental.
Devido à abrangéncia de nosso trabalho e à necessidade de
wna visão ampla, eu tinha consciência de que era preciso reunir
wna equipe de cientistas e políticos influentes e altamente qualifi­
cados, a fim de formar wna Coraissão verdadeiramente indepen­
dente. Isto era essencial ao êxito do processo. Juntos, deveríamos
esquadrinhar o mundo e formular um método interdisciplinar e
integrado para abordar as preocupaçõcs mundiais e nosso futuro
comum. Necessitávamos de ampla participação e de uma clara
maioria de membros de países em desenvolvimento, a Íuo de re­
tratar as realidades do mundo. Necessitávamos de pessoas de
grande experiência. oriundas de todos os campos políticos, não só
com fonnação em meio ambiente e desenvolvimento enquanto
disciplinas políticas, mas de todas as áreas onde são tomadas de­
ci.sões vitais que influenciam o progresso econômico e social nos
níveis nacional e internacional.
viemos de experiência,; extremamente diversas: minis-­
tros de relações exteriores, funcionários de finanças e planeja­
mento, administradores na. áreas de agricultura, ciência e tocno­
logia. Vários membros da Comissão são rainistros de gabinete e
economistas de alto nível em suas próprias nações, e muito en­
volvidos nos assuntos desses países. Mas como membros da Co­
missão não exercíamos as funções que tínhamos em nossos paí­
ses, agfamos como individuos: e à medida que nosso trabalho
avançava, iam diminuindo o nacionalismo e as distinções artifi­
ciais entre '"industrializado" e Hem desenvolvimento
u
• entre
Leste e Oeste. Nascia, em vez disso. uma preocupação comum
com o planeta e com as ameaças ao n:lesmo tempo ecológicas e
econômicas contra as quais todos OS povos, instituições e gover­
nos agora lutavam,
Dumnte o tempo em que,a Coraissão esteve reuuida, tragédias
como as crises de fome na Africa, o vazamento na fábrica de pes­
ticidas de Bhopal, na (ndia, e o desastre de Tchernobil, na URSS,
aparentemente justificaram as graves previsões quanto ao futuro
humano que se tomaram lugar-comum em meados dos anos 80.
Mas nas audiências públicas que realizamos nos cinco continen­
tes, também tomamos conhecimento de vítimas de catástrofes
mais crónicas e generalizadas: a crise da dívida, a cessação da as­
sistência aos países em desenvolvimento e do investimento neles.
a queda dos preços dos produtos básicos e das rendas pessoais.
FIcamos convencidos de que eram necessárias grandes
tanto de atitude quanto na fonna em que nossas sociedades são
organizadas.
As questões referentes a população pressão populacional,
população e direitos humanos - e os vínculos entre estas e a p0­
breza, o meio ambiente e o desenvolvimento revelaram-se das
mais difíceis dentre as que tínhamos de enfrentar. As diferenças
de ponto de vista pareceram a princípio intran<poníveis, e foi pre­
ciso muita reflexão e muito empenho para supel'31' distinçõcs cul­
turais, religiosas e regionais.
Outra quesrão de vulto foi a área das relações económicas in­
ternacionais. Neste e em vários outros asJ>eCtos importantes de
nossa análise e de nossas recomendações, conseguimos chegar a
um amplo consenso.
Foi essencial o fato de todos nos tennos tornado mais expe­
rientes, aprendido a suplantar as barTeiras culturais e históricas.
Houve momentos de grande preocupação e crise potencial, mo­
mentos de gratidão e momentos de sucesso na elabo­
ração de uma análise e uma pempectiva Comuns. O resultado ob­
tido foi certamente mais completo, mais realista e mais voltedo
para o futuro do que qualquer de nós, sozinho, poderia conseguir.
Chegamos à Comissão com opiniões e perspectivas diferentes,
valores e crenças diferentes, experiências e noções muito dife­
rentes. Após três anos de tmbalho em comum, viagens, troca de
experiências e debates, apresentamos um relatório que é de todos.
Sou profundamente grata a todos os membros da Coraissão por
sua dedicação. sua antevisão e seu engajamento pessoal em nossa
xv
XIV
lido comum. Foi sem dúvida uma excelente equipe. O clima de
emize"" e comunicação fIanca. a convergência de idéias e o pr0­
cesso de aprendizagem e participação nos propiciaram uma expe­
riência de otimismo. muito valiosa !anto para nós quanto. creio,
para este relatório e sua mensagem. Esperamos partilhar com ou­
tras pessoas tndo aquilo que aprendemos e todas as experiências
que vivemos juntos. Muitas outras pessoas têm de partiIha.r essa
experiência a fim de que se possa alcançar um desenvolvimento
sustentável.
A Comissão foi orientada por pessoas de todas as categorias
sociais. É a essas pe$soas - a todas as pessoas do mundo - que a
Comissão agora se dirige. Assim, falamos diretamente às pessoas
e também às instilUições que eias criaram.
A Comissão se dirige a governos, seja diretamente. seja por
meio de suas várias agencias e ministérios. Este relatório destina­
se. principalmente. à congregação de governos. reunida na As­
sembléia Geral das Nações Uuidas.
A Comissão se dirige também à empresa privada. desde a for­
mada por uma SÓ pessoa até a grande companhia multinacional,
com um movimento total superior ao de muitos países. e com pos­
sibilidades de promover mudanças e melhorias de grande alcance.
Antes de 1Udo. 'potém, nossa mensagem se dirige às pessoas,
cujo bem-estat é o objetivo tlItimo de todas as políticas referentes
a meio ambiente e desenvolvimento. De modo especial, a Comis­
são se dirige aos jovens. Aos professores de todo o mundo cabe a
tarefa CtuCial de levar a eles este relatório.
Se não conseguirmos transmitir nossa mensagem de urgência
aos pais e administradores de hoje. arriscamo-nos a comprometer
o direito fundamental de nossas crianças a um meio ambiente
saudável. que promova a vida. Se não conseguirmos traduzir nos­
sas palavras numa linguagem capaz de tocar os corações e as
mentes de jovens e idooos. não seremos capazes de empreender as
amplas mndanças sociais necessárias à correção do curso do de­
senvolvimento.
A Comissão tenninou seus trabalhos. Pedimos um empenho
conjunto e novas normas de conduta em todos os nfveis, no iote·
resse de todos. As mudanças de atilUde, de valores sociais e de
aspirações que o relat6rio encarece dependeria de amplas campa­
nhas educacionais, de debates e da panicípação pública.
Com este objetivo, apelamos a grupos de cidadãos, a orgo..Jza­
ções não-govemamentais, a instilUições de ensino e à comunidade
cientffica. Todos no passado desempenharam funções indispensá­
veis para a conscientização do público e a mudança política. Sua
participação será vital para orientar o mundo no rumo do desen­
volvimento sustentável, para estabelecer os alicerces de Nosso
Futuro Comum.
[
O processo de elaboração desterelat6rio prova que é possfvel
unir esforços, identificar objetivos comuns e estabelecer uma ação
comum. Cada membro da Comissão, se tivesse escrito o telatório
sozinho, teria escolhldo palavras diferen",". ConlUdo, consegui­
mos cbegar a acordo sobre a lUlálise, os remédios em geral e as
recomendações para que o curso do desenvolvimento não sofra .
intenupções.
Em última análise, o que importa é estimular a compreensão
comum e O espírito de responsabilidade comum, tão evidente­
mente necessários num mundo dividido.
Mil.lumos de pessoas em todo o mundo contribuírmn para os
trabalhos da Comissão, cOm idéias, com ajuda financeira, ou
compartilh'!Ddo conosco suas experiencias ao nos transmitirem
suas necessidades e caténcias. Fico sinceramente grata a IUdos os
que nos deram sua contribuição. Os nomes de muitas dessas pes­
soas constam do anexo 2 do relatório. Agradeço especialmente
ao Vice-Presidente Mansour Khalíd, a todos os demais membros
I
• da Comissão, ao Secretário-Geral Sim MacNeill e a sua equipe em
nossa secretaria, que foram muito além do dever para nos ajuda­
tem. Seu entusiasmo e dedicação não tiveram limites, Quero
agradecer aos presidentes e aos membros do Comitê Preparat6rio
~
Intergovemamental Inter-Sessional. que colaboraram estreita­
mente com a Comissão, dando-nos incentivo e apoio. Também
agradeço ao diretor executivo do Programa das Nações Unidas
para o Meio Ambienre, Dr. Mostafa Tolba, por seu apoio e inte­
resse valiosos e constantes.
Gro Harlem Brundtland
Oslo, 20 de março de 1987
[
XVI
XVII
"
;L
','

.\})
DA TERRA AO MUNDO
VIsão panorâmica da ComIIisão Mundial
sobre Melo Ambiente e Desenvolvimento
Em meados do século XX, vimos nosso planeta do espaço pela
primeira vez. Talvez os historiadores venham a considerar que
este fato teve maior impacto sobre o pensamento do que a revolu­
ção copérnica na do século XVI, que abalou a auto-imagem do
homem ao revelar que a Terra não era o centro do univel'llo. Vista
do espaço, a Terra é uma hola frágil e pequena, dominada não
pela ação e pela obra do homem, mas ppr um conjunto ordenado
de nuvens,oceanos, .. fato de a humanidade
ser incapaz de agit confonne essa ordenação natoraI está alteran­
do fundamentaImente os sistemas planetários. Muitas dessas alte­
rações acarretam ameaças à vida. Esta realidade nova, da qual
não há como fugir, tem de ser reconhecida - e enfrentada.
Felizmente, essa realidade nova coincide com fatos mais posi­
tivos e também novos neste século. É possível fazer infOnnaç6es
e bens circularem por todo o planeta com uma rapidez sem prece­
dentes; é possível produzir mais alimentos e mais bens investindo
menos recursos; a tecnologia e a ciência de que dispomos nos
penuitem, ao menos potencialmente, examinar mais a fundo e
compreender melhor os sistemas naturais. Do e.'!paÇo, podemos
ver e estodar a Terra como um organismo cuja sallde depende da
saúde de todas as suas partes. Temos o poder de reconciliar as
atividades humanas com as leis naturais, e de nos enriquecermos
com isso. E nesse sentido nossa herança eultoraI e espiritual pode
fortalecer nossos interesses econômicos e imperativos de sobrevi­
vência.
Esta Comissão acredita que os homens podem construir um fu­
turo mais próspero. mais justo e mais seguro. Este relat6rio. Nos­
so Futuro Comum, não é uma previsão de decadência. pobreza e
dificuldades ambientais cada vez maiores num mundo cada vez
mais poluído e com recl1l'llOS cada. vez menores. Vemos, ao con­
ttário. a possibilidade de uma nova era de creseimento econômi­
co, que tem de se apoiar em práticas que conservem e expandam a
base de recursos ambientais. E acreditamos, que tal crescimento é
I absolutamente essencial para mitigar a grande pobreza que se vem
intensificando na maior parte do mundo em desenvolvimento.
Mas a esperança da Comissão em relação ao futuro está condi­
cionada a uma ação política decisiva que deve ser empreendida
jIi, para que se comece a administrar os recursos do meio am­
I
blente no intuito de 118Segur8r o progresso hUll'llUlo continuado e a
IObrevivência da humanidade. Não prevemos o futuro; apenas
transmitimos a infonnação - wna informação urgente, baseada
nas evidências científicas mais recenleS e mais abalizadas - de
que é chegado o momento de tomar as decisões necessllrlU afim
de garantir os recursos para o sustento desta geração e das próxi­
mas. Não ternos a oferecer um plano detalhado de ação, e sim um
caminho para que os povos do mundo possam ampliar suas esfe­
ras de cooperação.
I, O DESAFlO GLOBAL
1.1 )l:x1tos e ~
Os que buscam êxitOs e sinaia de esperança podem encontrar
muitos: a mortalidade infantil está em queda; a expectativa de vi­
da humana vem aumentendo; o pen:entual de adultos, no mundo,
que sabem ler e escrever está em ascensão; o pen::entnaI de crian­
ças que ingressam na escola está subindo; e a produção global de
alimentos aUflleOta mais depnlSSa que a população.
Mas os mesmos processos que trouxeram essas vantagens gera­
ram tendências que o planeta e seus hablmntes não podem supor­
tar por muito tempo. Estas têm sido tradicionalmente divididas em
fracassos do "desenvolvimento" e fracassos na gestão do nosso
meio ambiente. No tocante ao desenvolvimento, há, em termos
absolutos, mais famintos no mundo do que nunca, e seu nWnero
vem aumentando. O mesmo ocorre com o nWnero de analfabetos,
com o n1lmero dos que não dispõem de água e moradia de boa
qualidade, e nem de lenha e carvão para cozinhar e se aquecer.
Amplia-se - em vez de dinúnuir - o fosso entre nações ricas e
pobres, e, dadas as circunstâncias atuais e as disposições institu­
cional., há poucas perspectivas de que essa tendência se inverta.
Há também tendências ambientais que ameaçam mndificar ra­
dicalmente o planeta e ameaçam a vida de muitas espécies, In­
cluindo a espécie humana. A cada ano,6 milhões de hectares de
terras produtivas se transformam em desertos Inúteis. Em 30 anos,
Isto repnlSCntará uma área quase igual à da Arábia Saudita.
AnuaImente, são destruídos mais de 11 milhões de hectares de
florestas, o que, dentro de 30 anos, representará wna área do ta­
manho aproximado da lodia. Grande parte dessas florestas é
transformada em terra agrícola de baixa qualidade, incapaz de
prover o sustento dos que nela se estabelecem. Na Europa, as
chuvas ácidas matam florestas e lagos e danificam o patrimômio
artístico e arquitetônico das nações; grandes extensões de terra


I
"
~
A Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvi­
mento reuniu-se pela primeira vez em outubro de 1984 e
publicou este relatório 900 dias depois, em abril de 1987.
Durante esse tempo:
• na África, a cnse ligada ao meio ambiente e ao desenvol­
vimento. desencadeada pela seca, atingiu o auge, pondo em
risco 35 milhões de pessoas e matando aproximadamente 1
milhão;
• em Bhopal, na lndIa, um vazamento numa fábrica de pes­
ticidas matou mais de 2 mil pessoas, deixando outras 200
mil oegas ou feridas;
• na Cidade do México, tanques de gás liquefeito explodi­
ram, matando mil pessoas e deixando milhares desabrigadas;
• em Tchemobil, a explosão de um reator duelear espalhou
radiação por toda a Europa, aumentando o risco de incidên­
cia de câncer humano;
• na Suíça, durante o incêndio de um depósito, foram des­
pejados no rio Reno produtos químicos agrícolas, wlventes
e mercdrio, matando milhões de peixes e ameaçando o
abastecimento de água potável na República Federal da
Alemanha e na Holanda;
• cerca de 60 milhões de pessoas morreram de doenças in­
testinals decorrentes de desnutrição e da ingestão de água
imprópria para o consumo; as vitimas, na maioria, eram
crianças.
podem ter:se acidificado a ponto de quase não haver esperanças
de recupernção. A queima de combustfveis fósseis espalha na at­
mosfera dióxido de carbono, o que e . ~ provocando um gntdual
aquecimento do planelÁ. Devido a esse "efeito estufa", ! possível
que, já no início do pnlximo século, as temperataras médias glo­
bais se tenham elevadu a pontu de acarretar o abandono de áreas
de produção agrícola e a elevação do nível do mar, de modo a
inundar cidades costeiras e desequilibrar economias nacionais.
Certos gases industriais ameaçam comprometer seriamente a ca­
mada protetora de ozÔnio que envolve o planeta, com o que au­
mentaria acentuadamente a incidência de vários tipos de eâncer
em seres humanos e animais e seria rompida a cadeia alimentar
dos oceanos. A indústria e a agricultura despejam substâncias t6­
xicas que poluem irremediavelmente a cadeia alimentar hwnana e
os lençóis subterrineos.
Os governos e as instituições multilaterais tomam-se cada vez
mais conscientes da impossibilidade de separar as questões relati­
vas ao desenvolvimento econÔmico das questões relativas ao meio
l
3
IIIIbIenle; muilaS fonnas de desenvolvimento desgastam os recur­
80S ambienlais nos quais se deviam fundamentar, e a deterioração

do meio ambiente pode prejudicar o desenvolvimenlD econômico.
uma das principais "!msWLC..Jml
,Iêniá. =âinl;i"imíli fiO - T
esSêS' 'pé;,
Até recentemente, o planeta era um grande mundo no qual as ati­
vidades humanas e seus efeitos estavam nitidamente conf"mados
em nações, setores (energia, agricultura, comércio) e amplas áreas
de interesse (ambienlai, econômico, social). Esses compartimen­
IDs começaram a se diluir, IsID se aplica em particular às várias
"crises" globais que preocuparam a lodos. sobretudo nos I1ltimos
10 anos. NáD sãD crises isoladas: uma crise ambiental, lima crise
do desenvolvimento, uma crise energética. SáD uma s6.
O planeta eslá atravessando um período de crescimento drásti­
CO e mudanças fundamenlais. Nosso mundo de 5 bilhões de seres
.,
humanos tem de encontrar espaço, num contexto ímito, para outro
mundo de seres humanos. Segundo projeções da ONU, em algum
momento do próximo século a população poderá estabilizar-se
entre 8 e 14 bilhões de pessoas. Em sua maior parte, esse au­
mento ocorrerá nos pafses mais pobres (mais de 90%) e em cida­
des já superpovoadas (90%).
A atividade econômica multiplicou-se para gerar uma econo­
mia mundial de USS13 trilhões, que pode qU,intuplicar ou decu­
plicar nos próximos 50 anos, A produção industrial cresceu mais
de 50 vezes no illtimo século, sendo que quatro quintos desse
crescimento se deram a partir de 1950, Esses nllmeros refletem e
p ... figuram profundos impactos sobre a biosfera, à medida que o
mundo investe em habitação, transporte, agricultura e inddstria.
Grande parte do crescimento econ6mico se faz à custa de maté­
,
rias-primas de flo...slaS, solos, mares e vias navegáveis.
A nova tecnologia, uma das molas mestras do crescimenlo
econômico, possibilita a desaceleração do consumo perigosa­
mente rápido dos recursos finitos, mas também engendra sérios
riscos, como novos tipos de poluição e o surgimento, no planeta,
de novas variedades de fonnas de vida que podem alterar os ru­
mos da evolução. Enquanto isso, as indl1s1rias que mais dependem
de recursos do meio ambiente, e que mais poluem, Se multiplicam
com grande rapidez no mundo em desenvolvimento, onde o cres­
cimento é mais urgente e há menos possibilidades de minilaizar
efeitos colaterais nocivos.
Essas alterações correlatas criaram novos vínculos entre a eco­
nomia global e a ecologia global. No passado, nos preocupamos
com os impactos do crescimento econômico sob... o meio am­
biente. Agora temos de nos preocupar com os impactos do des­
li,
gaste ecol6gico - degradaçáD de solos, regimes hídricos, atmosfe­
ra e floreslaS - sobre nossas perspectivas econômicas. Mais re­
centemente tivemos de assistir ao aumento acentuado da interde­
pendência econ6mica das nações. Agora temos de nos acostumar
.,
à sua crescente interdependência ecológica. A ecologia e a ec0­
nomia estáD cada vez mais entrelaçadas - em âmbito local, regio­
ual, nacioual e mundial - numa rede inteiriça de causas e efeitos.
Se a base de recursos local se depaupera, áreas mais amplas
podem ficar depauperadas: o desflorestamento das tetTaS alIaS
acarreta inundações nas tetTaS baixas; a poluição industrial preju­
dica a pesca local. Esses implacáveis ciclos localizados passam
4
5
qora ao pIano nacional e regional. A deterioração das terras ári­
cIu leva milhões de refugiados ambientais a transpor as fronteiras
de seus paises. O desflorestamento na América Latina e na Ásia
wm provocando ntais inundações. com danos sempre maiores.
1108 paises situados em áreas mais baixas e no curso inferior dos
rios. A chuva ácida e a radiação nuclear ultrapassaram"as frontei­ ,<
ras da Europa. No mundo todo, estio ocorrendo fenômenos simi­
la.res. como o aquecimento global e a perda de ozônio. Produtos
qufmicos perigosos, presentes em alimentos comercializsdos in­
ternacionaImente, são eles próprios comercializsdos internacio­
'11
nalmente. No próximo século. poderão aumentar multo as pres­
sões ambientais que geram migrações populacionais. ao passo que
os obstáculos a essa migração poderão ser ainda maiores do que
hoje.
Nos últimos decênios, surgiram no mundo em desenvolvimento
problemas ambientais que põem em risco a vida. O nllmero cres­
cente de agricultores e de sem-terras vem gerando pressões nas
áreas rurais. As cidades se enchem de gente. carros e fábricas. E
no entanto esses pafses em desenvolvimento têm de atuar num
contexto em que se amplia o fosso entre a maioria das nações in­
dustrializsdas e em desenvolvimento em matéria de recursos, em •
que o mundo industrializado impõe as normas que regem as prin­
cipais organizações internacionais, e em que esse mundo indus­
trializado já usou grande parte do capital ecológico do planeta.
Essa desigualdade é o maior problema "ambiental" da Terra; é
também seu maior problema de "desenvolvimento".
Em muitos paises em desenvolvimento, as relações econômicas
internacionais constituem um problema a ntais para a admiaistra­
ção <;lo meio ambiente. A agricultura, a silvicultura, a produção
energética e a mineração geram pelo menos a metade do produto
nacional bruto de multos desses países, proporcionando empregos
e meios de subsistência em escala ainda maior. A exportação de
recursos naturais continua sendo um fator importante em suas
economias. sobretudo no caso dos menos desenvolvidos. Devido
a enonnes pressões econômicas, tanto .externas corno internas. a
,f
maioria desses países explora excessivamente sua base de recur­
sos ambientais.
A recente crise africana ilustra bem e de modo bastante tnígico
como a economia e a ecologia podem interagir de f0rml!- destruti­
'I
va e precipitar o desastre. Essa crise, desencadeada pela seca, tem
causas reais ntais profundas. que devem ser buscadas. em parte.
nas polfticas nacionais que dispensaram pouquíssima atenção. e
mesmo assim demasiado tarde. às necessidades da agricullllra de
pequena escala e aos riscos inerentes a rápidos aumentos popuJe­
donais. As rafzes da crise estendem-se também a um sistema eco­
6
nômico mundial que retira de um contineote pobre mais do que
lhe dá. Não podendo pagar suas dívidas, as nações africanas que
dependem da venda de produtos primários vêem-se obrigadas a
superexplorar seus solos frágeis, transformando assim terras boas
em desertos. Por causa das barreiras comerciais impostas pelos
países ricos - e por muitos países em desenvolvimento - os afri.
canas têm dificuldade em vender seus produtos a preços razoá­
veis. o que pressiona ainda mais os sistemas ecológicos. A ajuda
concedida pelas nações doadoras não só tem ficado aquém do de­
sejável. como freqüentemente reflete mais as prioridades destas
nações do que as necessidades dos países recebedores. A base de
prodoção de outras áreas do mundo em desenvolvimento é tam­
bém afetada tanto por falhas locais quanto pela atuação dos sis­
temas econômicos internacionais. Devido à "crise da divida" da
América Latina, os recursos naturais dessa região estáo sendo
usados não para o desenvolvimento. mas para cumprir as obriga­
ções rmanceiras contraIdas com os credores estrangeiros. Esse en­
foque do problema da dívida é insensato sob vários aspectos:
cconômico, poUtico e ambiental. Exige que países relativamente
pobres aceitem o aumento da pobreza ao mesmo tempo que ex­
portam quantidades cada vez maiores de recursos escassos.
Hoje, a renda per capita da maioria dos paises em desenvolvi­
mento é mais baixa do que no início da década. O aumento da
pobreza e o desemprego vêm pressionando ainda ntais os recursos
ambientais, à medida que um nllmero maior de pessoas se vê ror­
çado a depender mais diretamente deles. Multos governos sus­
penderam seus esforços para proteger o meio ambiente e para in­
serir considerações ecológicas no planejamento do desenvolvi­
mento.
A crise ambiental, que se aprofunda e amplia. representa, para
a segurança nacional - e até para a sobrevivência - uma ameaça
talvez ntais séria do que vizinhos hem annados e mal-intenciona­
dos, ou alianças hostis. Em certas áreas da América Latioa. Ásia.
Oriente Médio e África. a deterioração do meio ambiente está se
tomando fonte de inquietação polCtica e tensão internacional. A
recente destruição, na África. de grande parte da produção agrf­
cola de terras áridas foi mais grave do que se um exército invasor
tivesse devastado essas terras. No entanto, a maioria dos gover­
nos dos pafses afetados ainda gasta hem mais para proteger seus
povos de exércitos invasores do que de desertos em expansão.
Em termos globais, os gastos militares totalízam cerca de US$l
trilhão por ana e não cessam de subir. Em muitos países, os gas­
tos militares consomem uma proporção táo grande do produto na­
cional bruto que chegam a prejudicar bastante os esforços desen­
volvimentistas dessas sociedades. Os governos costumam tratar a
7
A Comissão buscou meios pano que no século XXI o desen­
\'Olvimenlo global possa vir a ser sustentável. Cerca de 5
mil dias separam a publicação de nosso relat6rio elo primeiro
dia elo século XXI. Que crises ambientais nos estãO reserva­
das nesses S mil dias?
Na década de 70, o número de pessoas atingidas por cu­
lJi.,trofes "naturais" a cada ano dobrou em relação à década
de 60. As catástrofes mais diretamente ligadas à má admi­
nistração do meio ambiente e do desenvolvimento - secas e
inundaç<les - foram as que afetaram o maior número de pes­
soas e as que se intensificaram mais drasticamente em ter..
mos de vítimas. Cerca de ISS milhões de pessoas sofreram
anualmente os efeitus da seca nos anos 60; 24,4 milhões,
questão "segurança" à base de defmições tradicionais. Istu fica
patente nas tentativas de obter segurança por meio de sistemas de
armas nucleares capazes de destruir o planeta. Os estudos indicam
que o inverno nuclear, frio e que se seguiria a uma guerra
nuclear mesmo limitada poderia destruir ecossistemas vegetais e
animais e deixar aos sobreviventes humanos um planeta devasta­
do, muito diferente daquele que herdaram.
A corrida annamentista - em todos os quadrantes elo munelo ­
drena recursos que poderiam ser usados de modo mais produtivo
pano diminuir as ameaças à segurança gerada por conflitos am­
bientais e ressentimentos alimentados pela pobreza generalizada.
Muitos dos atuais esforços para manter o progresso humano,
pano atender às necessidades humanas e para realizar as ambições
humanas são simplesmente insustentáveis - tanto nas nações ricas
quanto nas pobres. Elas retimm demais, e a um ritmo acelerado
demais, de uma conta de recursos ambientais já a descoberto, e no
futuro não poderão esperar outra coisa que não a insolvência des­
sa conta. Podem apresentar lucros nos balancetes da geração
atual, mas nossos mhos herdarão os prejuízos. Tomamos wn ca­
pital ambiental emprestado às gerações futuras, sem qualquer in­
tenção ou perspectiva de devolvê-lo. Elas podem até nos maldizer
por nossos atos perdulários, mas jamais poderão cobrar a dIvida
que temos para COm elas. Agimos desta forma porque podemos
escapar impones: as gerações futuras não votam, não possuem
poder poIltico ou financeiro, não têm como opor-sea nossas deci­
sões. .

'.

.j'
nos anos 70. Houve 5,2 milhIIes de vítimas de inundações
por ano na década de 60; 15,4 milhões nos anos 70. O nú­
mero de vítimas de ciclones e terremotos também disparou,
já que cada veZ fuais pessoas pobres constroem casas precá­
rias em terreno perigoso.
Ainda não há dados definitivos para o. anos 80. Mas. 56
na África, 35 milhões de pessoas foram atingidas pela seca,
e na lndia dezenas de milhões sofremm os efeitos de uma
seca mal. bem administrada e portanto menos divulgada.
Inundações assolaram os Andes e.o Himalaia desflorestados
com wn vigor sempre crescente. Ao que parece, essa ten­
dência sinistra dos anos 80 se transformará numa crise que
deverá durar toda a década de 90.
Mas os efeitos da dissipação atual estão rapidamente acabando
com as opções das gerações futuras. Muitos dos responsáveis pe­
las decisões tomadas hoje estarão mortos antes que o planeta ve­
nha a sentir os efeitos mais sérios da chuva ácida, do aquecimentu
da Tetta, da redução da camada de ozônio, da desertiflCação ge­
neralizada ou da extinção de espécies. A maioria dos jovens
eleitores de hoje ainda eStará viva. Nas audiências da Comissão,
partiram dos jovens, dos que têm mais a perder, as críticas mal.
deras à atual administração do planeta.
1.3 De!lenvolvlmento _tentável
A humanidade é capaz de tomar o desenvolvimento sustentável ­
de garantir que ele atenda as necessidades do presente sem com­
prometer a capacidade de as gerações futuras atenderem também
às suas. O conceito de desenvolvimento sustentável tem, é claro,
limites - não limites absolutos, mas limitações impostas pelo es­
tágio atual da tecnologia e da organização social, no tocante aoS
recursos ambientais, e pela capacidade da biosfera de absorver os
efeitos da atividade humana. Mas tanto a tecnologia quanto a or­
ganização social podem ser geridas e aprimoradas a fun de pro­
porcionar uma nova era de crescimento econômico. Para a Comis­
são, a pobreza generalizada já não é inevitável. A pobreza não é
apenas um mal em si mesma, mas pano haver wn desen .. olvimento
sustentável é preciso atender às necessidades blisicas de todo. e
dar a todos a oportunidade de realizar suas aspirações de uma vi­
8 9
da melhor. Um mundo onde a pobreza é endêmica estará sempre
IllljelIO a cattlslmfes, ecológicas ou de outra datuteza.
O atendimenlO das necessidades básicas requer não só uma
nova. era de crescimento econômico para as nações cuja maioria
da população é pobre, como a garantia de que esses pobres rece­
berão uma pareela justa dos recursos necessários Patll manter esse
crescimento. Tal eqüidade seria facilitada por políticos
que assegurassem a participação efetiva dos cidadãos na tomada
de decisões é por processos mais democráticos na tomada de de­
cisões em âmbito internacional.
Para que haja um desenvolvimento global sustentável é neces­
sário que os mais ricos adntem estilos de vida compatíveis com os
recursos ecológicos do planeia - quanto ao conswno de energia.
por exemplo. Além disso, o rápido aumento populacional pode
intensificar a pressão sobre os recursos e retardar qualquer eleva­
ção dos padrões de vida; portanto, só se pode buscar o desenvol­
vimento sustentável se o lamanho e o aumento da população esti­
verem em harmonia com o potencial produtivo cambiante do
ecossistema. .
Afinal, o. desenvolvimento sustentável não é um estado perma­
nente de harmonia, mas um processo de mudança no qual a explo­
ração dos recursos, a orientação dos investimentos. os rumos do
desenvolvimento tecnológico e a mudança institucional estão de
acordo com as necessidades atuais e futuras. Sabemos que este
não é um processo fácil, sem Impeços. Escolhas difíceis terão de
ser feitas. Assim, em última análise, o desenvolvimento sustentá­
vel depende do empenho político.
1.4 As 'acnnas institucionais
A meia do desenvolvimentO' sustentável e a natureza indissociável
dO'S desafiO'S impostos pelo meio ambiente e o desenvolvimento
glohais constituem um problema para as instituições nacionais
e internacionais criadas a partir de preocupações restritas e Com­
partimenladas. De modo geral, a reação dos governos à rapidez e
à amplitude das mudanças globais tepl sido a relutância em reco­
nhecer devidamente a necessidade de eles mesmos mudarem. Os
desafios são interdependentes e complemenlares, exigindo por_
tanto abordagens abrangentes e participação popular.
Mas a maioria das instituições que enfrentam esses desafios
tende a ser independente, fragmentada, com atribuições relativa­
mente limitadas e processos de decisão rechados. As responsáveis
pela administração dO'S recursos naturais e a proteção do meio
ambiente estio desvinculadas das que se dedicam à administração
da economia. O mundo real de sistemas econômicos e ecológicos
interligados não mudará; mas é preciso que mudem as políticas e
as instituições envolvidas.
T0'm8-se cada vez mais necessária uma cooperação internacio­
nal efetiva para lidar com a interdependência ecológica e econô­
mica. Contudo, verifica-se ao mesmo tempo um decréscimo de
:,'
confiança nas organizações internacionais e uma redução do
apoio que lhes é dado.
Outra grande falha institucional, no que tange a enfrentar os
desafioo do meio ambiente e do desenvolvimento é a incapacidade
dos governos de fazer com que os organismos cujas práticas dete­
rioram o meio ambiente se comprometam a adotar medidas que
evitem essa deterioração. A preocupação com o meio .&mbiente
adveio dos danO's causados pelo rápido crescimento econômico
que se segoiu 11 II Guerra Mundial. Os goveinDs, pressionados
por seus cidadãos, perceberam a necessidade de reparar esses da­
nos e, para tanto, criaram ministérios e órgãos ambientais. De fa­
to, muitos deles conseguiram - dentro dos limites de suas atribui­
ções - melhorar a qualidade do ar e da água e aumentar outros re­
cursos. Mas em gerai sua atuação concentra-se necessariamente
na reparação de estragos já causados: ",florestarnento, "'genera­
·,t
ção de terras desérticas, r<!Construção de ambientes urbanos,
restauração de habitats naturais e recuperação de regiões agres­
tes.
A existência desses órgãos deu a muitos governos e cidadãO'S a
falsa impressão de que os mesmos eram capazes de, sozinhos.
proteger e aumentar a base de recursos ambientais. Contudo,
muitos países industrializados e a maioria dos em desenvolvi­
mento arcam com pesados ônus decorrentes de problemas herda­
dos, como poluição do ar e da água, esgolamento dos lençóis
subterdlneos, proliferação de produtos quúnícos tóxicos e de re­
jeitos perigosos. A esses problemas vieram juntar-se outros mais
recentes - erosão, desertificaçlio, acidificação, novos produtos
qul'micos e novos tipos de rejeitos - direlamente relacionadO'S com
, políticas e práticas agncolas,.industríais, energéticas,-florestais e
viárias.
As atribuições dos ministérios econômicos, centrais e setoriais,
são também, com freqüência, muito limitadas, muito volladas para
aspectoo quantitativos da produçllo ou do crescimento. Entre as
atribuições dO'S ministérios da indOstria estão as metas de produ­
ção, enquanto a poluição daí decorren"" fica a cargo dos ministé­
rios do meio ambiente. Os órgãos responsãveis pela eletricidade
produzem energia, mas a limpeza da poluição !lcida que também
produzem é deixada para outros organismos. O desafio atual con­
siste em atribuir aos ministérios centrais e setoriais.
a responsabilidade pela qualidade das áreas do meio ambiente

11
10
a
humano afetadas por suas decisões, e em dar mais poder aos ór­
gãos ambientais para enfrentarem os efeítos do desenvolvimento
não-sustentável.
Também os órgãos internacionals que tratam de empréstimos
para o desenvolvimento, regulamentação do comércio, desenvol­
vimento agrícola etc. necessitam de mudanças. Esses órgãos cus­
taram a dar importância aos efeitos de suas atividades sobre o
meio ambiente, embora alguns estejam tentandô fazer isso.
Para que os danos ao meio ambiente possam ser previstos e
evitados é preciso levar em conta não s6 os aspectos ecológicos
das políticas. mas também os aspectos econômicos, comerciais,
energéticos, agrícolas e outros. Todos eles devem ser levados em
consideração nas mesmas agendas e uas mesmas instituições
denais e internacionais.
Essa reorientação é um dos principais desaÍlOs institucionais
para os anos 90 e os seguintes. Realizá-Ia exigirá g1'andes refor­
mas institucionais. Muitos países. por serem pobres ou pequenos
demais ou por disporem de pouca capacidade administrativa, te­
rão dificuldade em empreender essa tarefa sem ajuda. Precisarão
de assistência financeira e técnica, além de fonnação profissional.
Mas há necessidade de mudanÇas em todos os países, grandes e
pequenos, ricos e pobres.
Z. AS DIRETRIZES DE POLÍTICA
A Comissão concentrou sua atenção nas áreas de população, se­
gurança alimentar, extinção de espécies e esgotamento de recUr­
sos energia. indústria e assentamentos humanos - por
entender que todas se interligam e não podem ser tratadas isola­
damente. Este item contém apenas algumas das muitas recomen­
dações da Comissão.
1.1 População e recu.-- hum'anos
Em muitas partes do mundo, a população vem aumentando a taxas
incompatíveis com os recursos ambientais disponíveis, e que
frustram qualquer expectativa razoável de obter progressos em
áreas como habitação, serviços sanitários, segurança alimentar ou
fornecimento de energia.
O problema não está apenas no número de pessoas, mas na re­
lação entre esse número e os recursos disponíveis. Assim, o
"problema populacional" tem de ser soluciollado por meio de es­
forços para eliminar a pobreza generalizada, a fim de garantir um
acesso mais justo aos recursos por meio da educação, a fim de
.
aprimorar o potencial humano para administrar esses recursos.
São necessárias medidas urgentes para conter as elevadas taxas
de awnento populacional. As opções feitas agora influenciarão o
nível em que a população se estabilizará no próximo século - por
volta de 6 bilhões de pessoas. Mas esta não é apenas uma questão
demográfica; dar às pessoas os meios e a educação necessários
para que decidam sobre o tamanho de suas famflias é um modo de
assegurar - especialmente às mulheres - o direito humano básico
da livre escolha.
Os governos que precisam agir dessa forma devem adotar pc>­
líticas populacionais multifacetadas e de longo prazo, e empreen­
der wna campanha visando a amplos objetivos demográficos:
fortaIecer as motivações sociais, culturais e econômicas para o
planejamento familiar e fornecer a todos os interessados a educa­
ção, 0$ contraceptivos e os serviços necessários.
O desenvolvimento dos recursos humanos é requisito básico
não sÓ para a aquisição de aptidões e conhecimentos técnicos,
mas também para o estabelecimento de novos valores que ajudem
os indivíduos e as nações a enfrentarem as :realidades sociais, am­
bientais e de desenvolvimento que se encontram em rápida trans­
formação. Se o mundo partilhar o conhecimento, haverá maior
entendimento mútuo e maior empenho em partilhar eqüitativa­
mente os recursos globais.
Os povos tribais e indígenas vão requerer especial atenção, já
que as forças do desenvolvimento econômico conturbam seus es­
tilos tradicionais de vida - estilos que muitao lições têm a dar às
sociedades modernas no tocante à administração de recursos em
ecossistemas complexos de florestas, montanhas e terras áridas.
Alguns desses povos estão ameaçados de extinção devido a um
desenvolvimento insensível, sobre o qual não têm qualquer con­
trole. Seus direitos tradicionais deveriam ser reconhecidos e eles
deveriam ter voz ativa na fonnulação de políticaS relativas a de­
senvolvimento de recursos nas áreas onde vivem. (Ver capítulo 4
para uma análise mais ampla dessas questões e recomeodações,)
1.1 Seaunmça alimentar, manter fi potencial
O crescimento da produção mundial de cereais vem invariavel­
mente suplantando o da população do mundo. Mesmo assim, a
cada ano é maior o n1lmero de pessoas que não obtêm alimentos
em quantidade suficiente. A agrícultura mundial tem condições de
produzir alimentos para todos, mas com freqüência não há ali­
mento disponível onde é necessário.
Nos países industrializados, a produção tem sido em gerai
muito subsidiada e protegida da concorrência internacíooai. Esses
13
12
subsídios estimularam o USO abusivo do solo e de produtos quúni­
cos, a contaminação dos recursos hídricos e dos alimentos com
esses produtos, e a delerioração das áreas rurais. Muitos desses
esforços geraram excedenle., mas também ônus financeiros. E
parte desses excedentes foi "enviada. em condiçl5es subvencionais.
a países em desenvolvimento, prejudicando suas polnicas agríco­
las. Contudo, alguns países estão tomando maior consciência das
conseqüências ambientais e econômicas dessas práticas, e agora
suas polfticas agrícolas dão ênfase à conservação.
Por outro lado, muitos países em desenvolvimento têm passado
pelo problema oposto: não há apoio suficiente aos agricultores.
Em alguns desses países, a combinação de tecnologia mais avan­
çada, incentivos através dos preços e serviços pl'iblicos produziu
um aumento repentino e marcaole na produção de alimentos. Mas
em outros, os pequenos produtores de alimentos foram negligen­
ciados. Contando cOm tecnologias quase sempre inadequadas e
poucos incentivos econômicos, muitos são forçados a trabalhar
terras marginais: muito secas, muito encharcadas, ou pobres em
nutrientes. Florestas são derrubadas e terras áridas produtivas tor­
nam-se estéreis.
A maioria dos países em desenvolvimento necessita de siste­
mas de incentivos mais eficazes para estimular a produção, s0­
bretudo de culturas alimentares. Em suma, é preciso que as "rela­
ções de troca" passem a favorecer o pequeno agricultor. Já a
maioria dos países industrializados deve alterar os sistemas atuais,
a fim de cortar excedentes, reduzir a concorrência desleal com os
países que possam ter vantagens comparativas reais, e promover
práticas agrfcolas sensatas do ponto de vista ecológico.
A segurança alimentar exige que se atenle para questões de
distribuição, pois a fome quase sempre advém da falta de poder
aquisitivo e não da falta de alimentos. Pode ser propiciada por ...,..
formas agrárias e por políticas de proteção aos agricultores de
subsistência, aos pequenos pecuaristas e aos sem-terra - grupos
vulneráveis que por volta do ano 2000 compreenderão 220 mi­
lhões de faruflias. Sua maior pro'speridade dependerá de um de­
senvolvimento rural integrado que aumenle as oportunidades de
trabalho tanto na agricultura como em outros setores. (Ver capí­
tulo 5 para uma análise mais ampla dessas questões e recomenda­
ções.)
1.3 EspécIes e eeossisteroas: l'eaIrsos para o desenvolvimento
As espécies do planeta estão em risco. Há um consenso científico
cada vez mais generalizado de que certas espécies desaparecem
do planeta a wn ritmo sem precedenle, embora tarubém haja con­
14

trovérsias quanto a esse ritmo e os riscos que acarreta. Mas ainda
está em tempo de deter esse processo.
A diversidade de espécies é necessãria ao funcionamento nor­
mai dos ecossistemas e da biosfera. O material genético das espé­
cies selvagens contribui anualmenle com bilhões de dÓlares para a
economia mundial sob a fonna de cultivos melhorados. novas
drogas e medicamentos, e matérias-primas para a indústria. Mas,
além da utilidade, há também razões morais, éticas, culturais, es­
téticas e puramente científicas para a conservação da vida selva­
gem.
Uma prioridade básica é fazer com que o problema das espé­
cies em extinção e dos ecossistemas ameaçados conste nas agen­
das políticas como item da maior importância no tocante à eco­
nomia e aos recursos.
Os governos podem sustar a destraição de florestas tropicais
e outras reservas de diversidade biolÓgica, e ao mesmo tempo de­
senvolvê-Ias economicamente. A refonnulação dos termos de
concessão e dos sistemas de receitas florestais poderia gerar bi­
lhões de dÓlares de receitas adicionais, promover um uso mais
eficiente e de longo prazo dos recursos florestais e conter o des­
matamento.
O conjunto de áreas protegidas de que o mundo precisará no
futuro deve abranger áreas muito mais amplas que contem com
algwn tipo de proJeção. Assim, o custo da conservação se elevará
diretamenle e em tennos de oportunidades de desenvolvimento.
Mas a longo prazo as oportunidades de desenvolvimento serão
favorecidas. Portanto, as agêndas internacionais de desenvolvi­
mento deveriam dar atenção detida e sistemática aos problemas e
oportunidades da conservação de espécies.
Os governos deveriam considerar a possibilidade de estabele­
cerem uma "Convenção das semelhante em espírito e
objetivos a outras convenções internacionais atinentes a princípios
relativos a Hrecursos universais
H
• Também deveriam pensar em
acordos financeiros internacionais para custear a implementação
dessa convenção. (Ver capítuio 6 para uma análise mais ampla
dessas questões e recomendações.)
1.4 Energia: opçiies para o meio ambiente
e o desenvolvimento
Uma via energética segura e duradoura é indispensável ao desen­
volvimento sustentável; ainda não a encontramos. As taxas de
aumento de consumo de energia estão declinando. Mas a indus­
trialização, o desenvolvimento agrícola e as populações que au­
mentam em ritmo acelerado nos países em desenvolvimento preci­
lS -- - - --- ---
sarão de muito mais energia, o indivíduo médio numa eco­
nomia industrial de mercado consome mais de 80 vezes mais
energia que um habitante da África subsaariana. Portanto, qual­
quer cenário energético global realista deve contar com um au­
mento substancial no consumo de energia primária nos países em
desenvolvimento.
Para que, por volta do ano 2025, os países em desenvolvi­
mento consumam tanta energia quanto os industrializados. seria
preciso aumentar cinco vezes o atual consumo global. O
tema planetário não suportaria isso. sobretudo se esses aumentos
se concenmu,sem em combustíveis fósseis não-renováveis, Os ris­
cos de aquecimento do planeta e acidificação do meio ambiente
muito provarelmente descartam até mesmo uma duplicação do
consumo de energia mediante as atuais combinações de fontes
primárias.
Uma nova era de crescimento econômico deve, portanto. con­
sumir menos energia que o crescimento passado. As políticas de
rendimento energético devem ser a pedra-de-toque das estratégias
energéticas nacionais para um desenvolvimento sustentável, e há
muitas possibilidades de melhoria nesse sentido. As aparelhagens
modernas podem ser reformulada. de modo a fornecer o mesmo
rendimento usando apenas dois terços ou mesmo a metade dos in­
sumOs energéticos primários necessários ao funcionamento dos
equipamentos tradicionais. E as medidas que visam a ampliar o
rendimento energético em geral são eficientes em função dos
custos.
Após quase 40 anos de intensQ esforço tecnológico, o uso da
energia nuclear ampliou-se bastante. Mas nesse período, a nature­
za de seus custos. riscos e beneficios tomou-se mais evidente,
servindo de tema a ardentes controvérsias. Vários pafses, em todo
o mundo, adotam posições diferentes quanto ao uso da energia
nuclear. Os debates no âmbito da Comissão também refletiram es­
sas opiniões e atitudes diferentes. No entanto, todos foram unâ­
nimes em que a geração de energia nuclear só se justifica se hou­
ver soluções seguras para os problemas que acarreta. Há que dar
prioridade máxima à busca de alternativas sensatas do ponto de
vista ambiental e ecológico, bem como de meios para tomar a
energia nuclear maís segura.
No que se refere ao rendimento energético, cabe apenas espe­
rar que o mundo formule vias alternativas de baixo consumo
energétíco com base em fontes que deverão ser o ali­
cerce da estrutura energética global do século XXI. A maioria
dessas fontes apresenta hoje problemas, mas, com inovações, p0­
derão fornecer a mesma quantidade de energia primária que o
planeta consome atualmente. Contudo. para atingir esses níveis de
16
..
consumo será preciso um programa coordenado de pesquisa.. e
projetos de demonstração .que disponha dos recursos financeiros
necessários para garantir o lápido desenvolvimento da energia re­
nováveL Os países em desenvolvimento terão de ser assistidos pa.
ra alterar seus padrões de consumo de energia nesse sentido.
No mundo em desenvolvimenlo, milhOes de pessoas carecem
de combustível vegetal, a principal fonte de energia doméstica de
metade da humanidade, e esse número vem aumentando. As na­
ções com pouca madeira devem organizar seus setores agrícolas
de rondo a produzir grandes quantidades de lenha e outros com­
bustíveis vegetais.
A atual silllação energética do mundo exige grandes mudanças,
mas, dado o papel preponderante dos governos como produlores
de energia e sua importância como consumidores, estas não serão
obtidas apenas mediante pressões do mercado. Para manter e am­
pliar a tendência recente de ganhos anuais de rendimento energé­
tico, os governos têm de transformá-Ia num objetivo explícito de
suas políticas de fIXação de preços de energia para os consumido­
res. Há vários meios de chegar a preços que estimulem a adoção
de medidas poupadoras de energia. Embora a Comissão não ex­
presse preferências, a "fixação de preços de conservação" requer
uma análise a longo prazo dos custos e beneficios das várias me­
didas. Dada a importância dos preços do peb'Óleo para a política
energética deveriam ser tentados novos mecanismos
para encorajar o diálogo entre consomidores e produtores.
Uma estratégia energética segura, viável do ponto de vista am­
biental e econômico, capaz de manter o progresso humano até um
futuro distante, é evidentemente unperativa. E também possfvel.
Mas para chegar a ela serão necessários um empenho político e
uma cooperação institucional renovados. (Ver capítulo 7 para
uma análise mais ampla dessas questões e recomendações.)
l.S Indústria: com menos, produzir mais
Hoje o mundo fabrica sete vezes mais produtos do que o fazia há
'relativamente pouco tempo, nos anos 50. Considerando as taxas
de aumento populacional, será necessário elevar de cinco a 10 ve­
zes a produção de manufaturados apenas para fazer com que o
consumo desses bens no mundo em desenvolvimento atinja os ní­
veis do mundo industrializado quando as taxas de aumento popu­
lacional se nivelarem no próximo século.
A experiência dos países industrializados demonstrou que, no
tocante aos danos evitados para a saúde, a propriedade e o meio
ambiente, a tecnologia pntipoluição foi eficiente em função dos
custos. Além disso, fez com que muitall inddstrias se tomassem
17
mais lucrativas por usarem os recursos com mais eficiência. Em­
bora o crescimento econômico tenha prosseguido. o conswno de
matérias-primsB se manteve estável ou mesmo declinou. e novas
tecnologias prometem ser ainda mais eficientes.
As nações têm de arcar com os custos da industrialização ina·
dequada, e muitos pafses em desenvolvimento estáo percebendo
que não dispõem nem de recmsos nem de tempo - dada a rapidez
das mudanças tecnol<Sgicas - para danificar agora seu meio amo
biente e mais tarde recuperá-Io. Mas também precisam de assis­
tência e de infOI1llaÇÕeS das nações industrializadas, a fim de. usar
a tecnologia da melhor forma possível. Cabe em especial às em­
presas transnacionais a respollB8bilidade de facilitar a industriali­
zação das nações em que operam.
As tecnologias emergentes prometem maior produtividade.
mais eficiência e menos poluição, mas muitas apresentam o riaco
de novos produtos qufmioos e rejeito. t6xicos e de graves aci·
dentes que superam em natureza e proporções os atuais mecaniS"
mos para enfrentá·los. Urge Controlar mais rigomsamente a ex­
portação de produtos químicos agrícolas e industriais perigosos.
O. atuais controles sobre o despejo de rejeito. perigosos deve­
riam ser mais rígidos.
Muitas das necessidades humanu básicas só podem ser atendi­
das por bens e serviços industriais, e a transição para o cresci·
mento sustentável deve ser estimulada por um fluJ<O contínuo de
riqueza proveniente da indllstria. (Ver capítulo 8 para uma análise
mais ampla dessas questões e recomendações.)
2.6 O desafio urbano
Na viradà do século, quase metade da humanidade viverá em cio
dades; o mundo do século XXI será predominantemente urbano.
Em apenas 65 anos. a população urbana do mundo em desenvol­
vimento decuplicou. passando de aproximadamente 100 milhões
em 1920 a I bilhão hoje. Em 1940. de cada 100 pessoas, uma vivia
em cidades com I milhão ou mais de habitantes; em 1980. isto
ocoma com uma em cada 1Q. De 1985 até o ano 2000, as cidades
do Terceiro Mundo poderão abrigar mais de 750 milhões de pes­
soas. Isto indica que. nos pr6ximos anos. o mundo em desenvol­
vimento precisa aumentar em 65% sua capacidade de proporcio­
nar infra-estrutura. serviços e moradias urilanos apenas para
manter as condições atuais. quase sempre bastante precárias.
Poucos governos municipais do mundo em desenvolvimento
dispõem de poder, recursos e pessoal qualificado para fornecer a
suas populações em rápido crescimento as terras, os serviços e as
instalações que a qualidade da vida humana reqUer: água potável,
18
saneamento, escolas e transportes. O resultado é a pmlifemção de
assentamentos ilegais. com instalações primitivas, populações em
crescimento desenfreado e índices aiarmantes de doenças conju­
gados a um ambiente insalubre. Muitas cidades do mundo .indos­
trializado também enfrentam problemas: infra-estrotura em deca­
dência, degeneração do tneio ambiente. deterioração dos centros
urbanos e descaracterização de bairros. Mas como dispõem dos
tneios e recursos para combater essa sitoação, o problema da
maioria dos-países industrializados restringe-se a uma opção poJ(­
tica e social. Este não é o caso dos países em desenvolvimento,
que se vêem a braços com uma grave crise urilana.
Os governos terão de formular estratégias de assentamento
bem definidas para orientar o processo de urbanização. desafogar
os grandes centros urbanos e erguer cidades menores, integrando­
as mais estreitamente às áreas interioranas. Isto sigoifica rever e
alterar outras polftjcas - tributação, fixação de preços de alimen­
tos, transporte. saúde, industrialização -. que se opõem aos obje­
tivos das estratégias de assentamento.
Uma boa administração municipal requer a descentralização ­
de recursos, de poder polftjco e de pessoal- em favor das autori­
dades locais.' que estão em melhor sitoação para avaliar e prover
as necessidades de sua área. Mas o desenvolvimento sustentável
das cidades depende de uma cooperação mais estreita com as
maiorias pobres UIbanas, que são os verdadeiros construtores das
cidades. somando suas aptidões e recursos àqueles do "setor in­
fonnal". Muito pode ser feito por tneio de projetos "comunitá­
rios" que proporeionem às famílias serviços básicos em tomo dos
quais se possam construir habitações mais sólidas. (Ver capftolo 9
para uma anlllise mais ampla dessas questões e recomendações.)
3, COOPERAÇÃO INTERNACIONAL
E REFORMA DAS INSTITUIÇÕES
3.10 papel da economia Internadonal
Para que os intercâmbios econômicos internacionais beneficiem a
todas as partes envolvidas, é preciso que antes sejam atendidas
duas condições: a manutenção dos ecossistemas dos quais depen­
de a economia global deve ser garantida; e os parceims econômi­
cos têm de estar convencidos de que o intereâmbio se processa
numa base justa. No caso de muitos países em desenvolvimento.
nenhuma dessas condições é atendida.
Em muitos desses países, o crescimento vem sendo contido
pela queda dos preços dos produtos básicos, pelo p .... tecíonismo.
19
pelo intolerável ônus da díVida e pela redução dos fluxos de fi­
nanciamento do desenvolvimento, Para que os padrões de vida sé
elevem e aliviem a pobreza. é preciso inverter essas tendências.
Nesse sentido, cabe ao Banco Mundial e à Associação mtema­
cianal de Desenvolvimento a maior parcela de responsabiIi<iaQ;:"
já que constituem o principal canal .de financiamento multilateral
para países em desenvolvimento. No que respeita a fluxos fman­
ceiros constantemente ampliados, o Banco Mundial pode custear
projetos e polfticas que sejam benéficos ao meio ambiente. No to­
cante ao financiamento para ajustes estruturais, o Fundo Monetá­
rio mternacional deveria apoiar objetivos 'de desenvolvimento
mais amplos e de mais longo prazo que os atuais: crescímento,
metas sociais e efeitos sobre o meio ambiente.
O nível atual do serviço'da dívida de muitos países, sobretudo
na África e na América Latina, não se coaduna com o desenvol­
vimento sustentável. Os devedores estão sendo instados a recorrer
a excedentes comerciais para pagar o serviço de suas dívidas e,
para tanto, exploram em excesso seus recursos não-renováveis.
São necessárias medidas urgentes para aliviar o ônus da dívida,
de mudo a que baja uma divisão mais justa de responsabilidades e
obrigações entre devedores e credores.
Os atuais acordos sobre produtos básicos poderiam ser bas­
tante aperfioiçoados: mais fmanciamento compensatório para con­
trabalançar os choques econômicos encorajaria os produtpres a
adotarem uma perspecti va de mais longo prazo e a não produzir
mercadorias em excesso; e os programas de diversificação p0de­
riam prestar maior assistência. Os acordos exclusivamente ati­
nentes a produtos básicos podem seguir o modelo do Acordo m­
ternacional sobre Madeiras Tropicais, um dos poucos a incluir es­
pecificamente deteI;!IÚnaç6es ecol6gicas.
As empresas multinacionais têm importante papel a desempe­
nhar no desenvolvimento sustentável, sobretudo à medida que os
países em desenvolvimento passam a depender mafs de capital so­
cial estraogeiro. Mas para que essas empresas influam de modo
positivo no desenvolvimento, a capacidade de negociação dos
países em desenvolvimento em relação às multinacionais deve ser
fortalecida, a flnl de que obtenham condições que respeitem seus
interesses ambientais.
Mas essas medidas específicas devem estar inseridas num
contexto mais amplo de cooperação efetiva para gerar um sistema
econômico internacional comprometido com o crescimento e a
eliminação da pobreza no mundo . (Ver capítulo 3 para uma análi­
se mais ampla das questões e recomendações sobre economia in­
ternacionaL)
3.2 Administrando OS bens <OmWJS
As formas tradicionais de soberania nacional geram problemas
específicos quanto à administração dos "bens comuns do globo"
e de seus ecossistemas - os oceanos,. o espaço c6smico e a Antár­
tida. Já se obteve algum progresso nas três áreas, mas ainda há
muito que fazer,
A Conferência das Nações Unidas sobre Direito Marítimo foi
a tentativa mais ambiciosa jamais feita para se chegar a um regi­
me internacionalmente aceito de administração dos oceanos. To­
das as nações deveriam ratificar o mais rápido possível o Tratado
sobre Direito Marítimo. Seria preciso fortalecer os acordos de
, pesca para impedir a superexploração que hoje se verifica. e tam­
bém as convenções para controlar e regulamentar o despejo de
rejeitos perigosos no mar.
Há uma preocupação cada vez maior com a administração do
espaço orbital, centrada no uso da tecnologia dos satélites para
controlar os sistemas planetários, no uso mais eficiente possível
das capacidades restritas da órbita geossinCfÔnica para satélites de
comunicações, e na contenção do entulho espacial. A colocação
de armas em órbita e os testes espaciais aumentariam bastante es­
se entulho. A comunidade internacional deveria tentar elaborar e
pôr em prática um regime espacial que assegurasse a manutenção
do espaço corno ambiente pacífico, para o benefício de todos.
A Antártida está submetida ao Tratado Antártico de 1959.
Contudo. muitas nações que não participam desse pacto conside­
ram o sistema do Tratado limitado demais. tanto no tocante à par­
ticipação quanto na abrangência de suas medidas conservacionis­
tas, As recomendações da CODÚssão referem-se à salvaguarda do
que já. se conseguiu, à incorporação de todas as jazidas minerais
num regime administrativo, e a várias opções para o futuro. (Ver
capítulo 10 para uma análise mafs ampla das questões e recomen­
dações relativas à administração dos bens comuns.)
3.3 Paz, segurança, desenvolvimenlo e o melo ambiente
Dentre os perigos a que o meio ambiente está exposto. a possibi­
lidade de uma guerra nuclear é sem dúvida o mais sério. Certos
aspectos das questões de paz e segurança relacionam-se direta­
mente com o conceito de desenvolvimento sustentáveL A noção
de segurança, tal como tradicionalmente entendida - em tennos
de ameaças políticas e militares à soberania nacional -, tem de ser
ampliada para abranger os efeitos cada vez mais graves do des­
gaste ambiental - em nível local, nacional, regional e mundial.
Não há soluções DÚlitares para a "insegurança ambiental".
20
21
No tocante à segurança, os governos e as agências internacio­
nais deveriam avaliar a efICiência, em função dos custos, do di­
nheiro gasto em annamentos em comparação com o dinheiro gasto
na redução da pobreza ou na recuperação de um meio ambiente
devastado.
Porém o mais importante é conseguir um melhor relaciona­
mento entre as grandes potências capazes de desenvolver aIn)8S
de destruição em massa. Isto é necessário para que se chegue a
um consenso quanto ao controle mais rigoroso da proliferação e
da testagem de vários tipos de aml8S de destruição em massa ­
nucleares ou não - inclusive as que afetam o meio ambíente. (Ver
capítulo 11 para uma análise mais ampla das questões e recomen­
dações sobre os vínculos entre paz, segurança, desenvolvimento e
meio ambiente.)
3.4 Mudança InstltucioPal e legal
Ao longo deste relatório (e especialmente no capítulo 12) há
muitas recomendações específicas para mudanças institucionais e
legais que não podem ser resumidas aqui de fonna adequada. Mas
as principais propostas da Comissão estão contidas em seis áreas
prioritárias.
3.4.1 Ch4gando às jorues
Este é o momento de os governos começarem a responsabilizar
diretamente as principais agências nacionais, econômicas e seto­
riais pela fonnulação de poHticas, programas e orçamentos que
apóiem um desenvolvimento econômico e ecologicamente sus­
tentável.
Por sinal, as várias organizações regionais precisam se empe­
nhar mais para incorporar plenamente o meio ambiente em suas
metas e atividades. Há necessidade sobretudo de novos acordos
regionais entre países em desenvolvimento para lidar com ques­
tões ambientais que ultrapassem fronteiras.
Todos os principais organismos e agências internacionais de­
veriam certificar-se de que seus programas estimulam e apóiam o
desenvolvimento sustentável,. e também aperfeiçoar muito mals
sua coordenação e cooperação. Dentro do sistema da Organização
das Nações Unidas, o Secretariado Geral deveria constitui ....se em
um mlcleo de liderança de alto nível, capaz de avaliar, aconse­
lhar, dar assistência e divulgar os progressos oesse sentido.
3.4.2 Lidantk> com os efeitos
Os governos deveriam também reforçar o papel e a capacidade
dos órgãos de proteção ao meio ambiente e de administração de
recursos. Isto é necessário em muitos países industrializados, po..
rém da maior urgência nos países em desenvolvimento, que preci­
sarão de assistência para fortalecer suas instituições. O Programa
das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) deveria ser
prestigiado, já que é a principal fonte de coleta. avaliação e di­
vulgação de dados sobre o meio ambiente, e o principal defensor
e instrumento de mudanças e de cooperação internacional em
questões criticas relativas à proteção dos recursos naturais e do
meío ambiente.
3.4.3 Avaliando os riscos globais
Deve-se aprimorar e ampliar sem demora a capacidade de identi­
ficar. avaliar e dívulgar os riscos de danos irreversíveis aos
mas naturais e as ameaças à sobrevivência. à segurança e ao bem­
estar da comunidade mundial. Os governos, isoladamente ou em
grupo, são os principais responsáveis por isso. O Programa de
Vigilãncia Mundial, do PNUMA, deveria encabeçar o sistema de
avaliação de riscos da ONU.
Contudo, dada a delicada natureza política de muitos dos ris­
cos mais graves, toma-se também necessário que os riscos globais
mais sérios sejam avaliados e divulgados de modo independente,
se bem que complementar. Para tanto, deveria ser criado um novo
programa internacional de cooperação entre organizações não-go­
vemamentais, organismos científicos e grupos de indllstrias.
3.4.4 Fazentk> opções conscientes
As difíceis opções necessárias à obtenção de um desenvolvimento
sustentável dependerão do apoio e do envolvimento de um públi­
co bem informado, de organizações não-governamentais, da co­
munidade científica e da indtlstria. Todos eles deveriam ter am­
pliados seus direitos, suas funções e sua participação no planeja­
mento, na tomada de decisões e na implantação de de­
senvolvimentistas.
3.4.5 ProvÍ<Ú!nciando os meios legais
O direito nacional e internacional ",.Iá cada vez mais defasado
devido ao ritmo acelerado e à dimensão crescente dos impactos
sobre a base ecológica do desenvolvimento. Por isso, cabe aos
22
2.3
governos: preencher as grandes lacunas que o direito nacional
e internacional apresenwn no tocante ao meio ambiente; buscar
meios de reconhecer e proteger os direitos das gerações presentes
e futoras a um meio ambiente adequado a sua saúde e bem-estar;
elaborar, sob oS auspfcios da ONU, uma Declaração universal s0­
bre a proteção do meio ambiente e o desenvolvimento sustentável,
e posteriormente uma Convenção; e aperfuiçoaros mecanismos
para evitar ou solucionar disputas sobre queslÓes relativas ao
meio ambiente e à administração de recursos.
3.4.6 Investindo em nossojururo
Na dltíma década, ficou demonstrada a eficiência glob..1, em fun­
ção dos custos, dos investimentos destinados a deter a poluição.
O prejuízo crescente, tanto em tennos econômicos quanto ecoló­
gicos, de não investir na proteção e melhoria do meio ambiente
wnbém já foi muitas vezes demonstrado - freqüentemente sob a
fonna cruel de inundações e fome. Mas há graves implicações fi­
para desenvolver a energia renovável, controlar a
poluição ou descobrir formas de agricultura que utilizem menos
recursos.
Neste sentido, o papel das instituições ftnanceiras multilaterais
é de capital importãocia. Atualmente, o Banco Mundial está in­
cluindo em seus programas uma preocupação maior com o meio
ambiente. A isto se deveria somar um comprometimento básico do
Banco com o desenvolvimento sustentável. Também é essencial
que os bancos de desenvolvimento regionais e o Fundo Monetário
Internacional incluam objetivos similares em suas polítk:as e pr0­
gramas. E as agências bilaterais de assistência wnbém devem
adotar novas prioridades.
Dada a dificuldade de aumentar os atuais fluxos de ajuda in­
ternacional. os governos agora deveriam considerar seriamente as
propostas de obter receita adicionai com o uso dos bens CQmuns e
dos recursos naturais internacionais.
4. APELO Á AÇÁO
Ao longo deste século, o relacionamento entre o homem e o pla­
neta que o sustenta passou por profunda mudança.
No início do século, nem o número de seres humanos nem a
tecnologia eram capazes de alterar radicalmente os sistemas pla­
netários. No fmdar do século, não só o imenso nÚ1pero de seres
humanos e suas atividades são capazes distP, como estão ocor­
rendo mudanças inesperadas na atmosfera, nos solos, nas águas.
na flora e na fauna, assim como nas relações entre todos eles. O
ritmo das mudanças vem suplantando os conhecimentos cient{fi­
cos e nossa capacidade atual de avaliação e aconselhamento. Vem
frustrando as tentativas das instituições polfticas e econômicas de
se adaptarem a um mundo diferente, mais fragmentado. E causa
enorme preocupação às várias pessoas que buscam maneiras de
inserir essas questões nas agendas polfticas.
O ônus não recai sobre um grupo determinado de nações. Os
palses em desenvolvimento enfrentam as evidentes ameaças à vi­
da representadas pela desertíficação, pelo desmatamento e pela
poluição, e suporwn grande parte da pobreza decorrente da dete­
rioração ambiental. Toda a farnflia humana de nações sofreria ca­
so desaparecessem as florestas tropicais. se extinguissem espécies
vegetais e animais e se alterassem os regimes pluviais. Os países
industrializados enfrenwn as ameaças à vida representadas por
produtos químicos tóxicos, rejeitos tóxicos e acidificação. Todas
as nações podem vir a sofrer com o lançamento na atmosfera ­
pelos países industrializados - de di6xido de carbono e gases que
reagem em contato com a camada de ozônio, ou então com uma
guerra futura que empregasse os arsenais nucleares controlados
por esses países. Compete a todas as nações f"".cr algo para alte­
rar essas tendências e corrigir um sistema econômico internacio­
nal que aumenta em vez de reduzir a desigualdade, que aumenta
em vez de reduzir o ndmero de pobres e famintos.
As próximas décadas serão vitais. É tempo de romper com os
modelos do passado. Se tentannos manter a estabilidade social e
ecológica por meio das velhas estratégias de desenvolvimento e
proteção ambiental, a instabilidade aumentará. A segurança deve
ser buscada na mudança. A Comissão relacionou uma série de
ações a serem empreendidas a fim de reduzir as ameaças à sobre­
vivência e dar um rumo viável ao desenvolvimento futuro. Mas
estamos conscientes de que essa constante reorientação ultrapassa
a capacidade dos processos decisórios e dos acordos institucio­
nais da atualidade, tanto nacionais Corno internacionais.
Esta Comissão cuidou em basear suas recomendações na reali­
dade das instituições atuais, no que pode e deve ser feito no m0­
mento. Mas para que as gerações futuras possam ter opções, a ge­
ração atual deve começar a agir agora, e a agir unida.
Para que se realizem as mudanças necessárias, acreditamos ser
imperativo seguir as diretrizes contidas neste relatório. É com isto
em mente que apelamos à Assembléia Geral das Nações Unidas
para que, após as devidas considerações, transforme este relatório
num Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sus­
tentável. As conferencias especiais poderiam ter infcio em âmbito
regional. Decorrido o tempo oportuno após a apresentação deste
24
25
-;
relatório à Assembléia Geral, uma conferência inbmlacional po­
deria ser convocada para analisar os progressos obtidos e promo­
ver os acordos complementares necessários ao estabelecimento de
pontos de referência e à manutenção do progresso humano.
Antes de tudo, esta Comissão preocupou-se com as pessoas­
de IOdos os países e de todas as condições sociais. A elas é que
dirigimos nosso relatório. As mudanças que desejamos nas atitu­
des bumanas dependelI\ de uma ampla campanha de educação,
debates e participação pliblica. Tal campanha deve iniciar-se ago­
m, se quisennos chegar a um progresso humano sustentável.
Os membros da Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e De­
senvolvimento são oriundos de 21 países muito diferentes. Em
nossas discussões, discordamos com f!eqüência quanto a detalhes
e prioridades: Mas apesar da disparidade de nossas experiências e
da di""nidade de nossas responsabilidades nacionais e int.em.a­
"ionais, fomos capazes de chegar a um consenso quanto ao rwoo
que se deve dar às mudanças.
É. unAnime a nossa convicção: a segurança, o bem-estar e a
própria sobrevivência do planeta dependem dessas mudanças, já..
Parte I
PREOCUPAÇÕES COMUNS
26
J. UM FUI'URO AMEAÇADO
Há só uma Terra, mas não um só mundo. Todos nós dependemos
de uma biosfera para conservannos nossas vidas. Mesmo at;sim,
cada comunidade, cada país luta pela sobrevivência e pela pros­
peridade quase sem levar em consideração o impactb que causa
sobre os demais. Alguns consomem os recursos da Terra a um tal
ritmo que provavelmente pouco sobrará. para as gerações futuras.
Outros, em número muito maior. consomem pouco demais e vi·
Vem na perspectiva da fome, da tniséria, da doença e da morte
prematura.
Contudo, houve progressos. Em grande parte do mundo. as
crianças nascidas hoje podem esperar ter vida mais longá e edu­
cação melhor que seus pais. Em muitos lugares, os recém-nasci­
dos também podem esperar conseguir um padrão de vida mais
elevado, de modo geral. Esses progressos dão esperança quando
pensamos no que ainda é preciso fazer e quando avaliamos nossas
tentativas fracassadas de tornar esta Terra um lar melhor para DÓS
e para os que virão depois.
As falhas que precisamos conigir derivam da pobreza e do
modo equivocado com que temos freqüentemente buscado a pros­
peridade. Muitas partes do mundo entraram numa espiral descen­
dente viciosa: os povos pobres são obrigados a usar excessiva­
mente seus recursos ambientais a fim de sobreviverem. e o fato de
empobrecerem seu meio ambiente os empobrece mais, tomando
sua sobrevivência ainda mais difícíl e incerta. A prosperidade
conseguida em algumas partes do mundo é com freqüência precá­
ria, pois foi obtida mediante práticas agrícolas, florestais e indus··
mais que só trazem lucro e progresso a curto prazo.
As sociedades já sofreram tais pressões no passado e, como
nos recordam várias ruínas, às vezes sucumbiram a elas. Mas tais
pressões, de modo geral, eram localizadas. Hoje, a dimensão de
nossa intervenção na natureza é cada vez maior_e os efeitos fisÍ­
cos de nossas decisões ultrapassam fronteiras nacionais. A cres­
cente interação econômica das nações amplia as conseqüências
das decisõcs nacionais. A economia e a ecologia nos envolvem
em malhas cada vez mais apertadas. Muitas regiões correm o risco
de danos irreversíveis ao meio ambiente humano que ameaçam a
blllle do progresso humano.
Essas interconexões cada vez mais profundas são a justificati­
va básica para o estabelecimento desta Cotnissáo, Viajamos pelo
29
mundo durante quase três anos, ouvindo as pessoas. Em audiên­
cias póblicas especiais organizadas pela Comissão. ouvimos líde­
res governamentais, cientistas e especialistas, ouvimos grupos de
cidadãos envolvidos em várias questões ligadas ao meio ambiente
e ao desenvolvimento. e ouvimos milhares de pessoas - agriculto­
res. favelados. jovens.;ndustriaís e povos indígenas e tribais.
Encontral!JOS em toda parte uma grande preocupação com o
meio ambiente, que não sÓ levou a protestos como também, com
freqüência, gerou mudanças. O desafio que se nos apresenta é ga­
rantir que esses novos valores se reflitam melhor nos princípios e
no funcionamento das estruturas políticas e econômicas.
Também encontramos motivos de e&pemnça; as pessoas que­
rem cooperar na construção de um futuro mais próspero. mais
justo e mais seguro; é possível chegar a uma nova era de cresci­
mento econômico, fundamentada em políticas que mantenham e
ampliem a base de recursos da Terra; O progresso que alguns des­
frutaram no século passado pode ser vivido por todos nos próxi­
mos anos. Mas para que isso aconteça, tamos de compreender
melhor os sintomas de desgaste que estão diante de DÓS. identifi­
car suas causas e conceber novos métodos de administrar oS re­
cursos ambientais e manter o desenvolvimento humano.
1.1 SINTOMAS li: CAUSAS
O desgaste do nieio ambiente foi com freqüência cunsiderado o
resultado da crescente demanda de recursos escassos e da polui­
ção causada pela melhoria do padrão de vida dos relativamente
ricos. Mas a própria pobreza polui o meio ambiente. criando outro
tipo de desgaste ambiental. Para sobreviver, os pobres e os fa­
mintos muitas vezes destroem seu próprio meio ambiente: derru­
bam floresta", pennitem o pastoreio excessivo, exaurem as terras
marginais e acorrem em número cada vez maior para as cidades já
congestionadas. O efeito cumulativo dessas mudanças chega a
ponto de fazer da própria pobreza um dos maiores flagelos do
mundo.
Já nos casos em que o crescimento ecODÓmiCO permitiu a me­
lhoria dos padrões de vida, isso foi por vezes conseguido à custa
de danos globais a longo prazo. As melhorias conseguidas no
passado basearam-se, em grande parte, no uso de quantidades ca­
da vez maiores de matérias-primas, energia, produtos químicos e
sintéticos. e produziram urna poluição que não é adequadamente
levada em conta quando se estimam os custos dos processos de
produção. Tudo isso teve efeitos não-previstos sóbre o meio am­
biente. Por isso, os problemas ambientais que enfrentamos hoje
derivam tanto da falta de desenvolvimento quanto de conseqüên­
cias inesperadas de certas formas de crescimento económico.
1.1.1 Pobreza
Há hoje no mundo um número maior de pessoas famintas do que
jamais houve na história da humanidade, e este número está au­
mentando. Em 1980, havia 340 milhões de pessoas, em 87 países
em desenvolvimento, que não ingeriam o número de calorias sufi­

i
cientes e por isso apresentavam deficiência de crescimento e grá­
ves problemas de saóde. Esse total situava-se Iigeinamente abaixo
dos m.lmemo de 1970. em termos proporcionais à população mun­
<;lial. mas em números absolutos representava um aumento de
14%. Segundo previsões do Banco Mundial, esses números de­
vem continuar crescendo. I
Também cresce o número de pessoas que vivem em cortiços e
habitações miseráveis. Cada vez mais pessoas carecem de água
potável e de saneamento, ficando assim sujeitas às doenças que
tal carência pode provocar. Houve algum progresso, até impres­
sionante em determinados lugares, mas de modo geral a pobreza

continua e suas vftimas se multiplicam.
A pressão da pobreza deve ser considerada num contexto mais
amplo. Em nível internacional, há grandes disparidades na renda
\
per cupittl- que em 1984 variava de US$I90 nos países de baixa
renda (exceto China e tndia) até US$11.430 nas economias in­

dustriais de mercado. (Ver tabela 1.1).
Tais desigualdades representam grandes diferença., não apenas
quanto à atual qualidade de vida. mas também quanto à capacida­
de das sociedades para melhorarem sua qualidade de vida no futu­
m. A maioria dos países mais pobres do mundo depende, para
aumentar sua receita de exportação. de produtos agrfcolas tropi­
cais vulneráveis a relações comerciai. instáveis ou em declínio.
Muitas vezes, a expansão só é possível à custa do desgaste ecoló­
gico. Contudo, condições desvantajosas de transferência de tec­
nologia, protecionismo e menores fluxos f"manceiros para os paí­
ses que mais precisam de ímanciarnento internacioual impedem
uma diversificação que atenuaria ao mesmo tempo a pobreza e o
desgaste ecológico.
2
Dentru dos paises, a pobreza foi exacerbada pela distribuição
desigual da terra e de outros bens. O rápido crescimento popula­
cional prejudicou a capacidade de melhorar o padrão de vida. Es­
ses fatores, aliados a uma necessidade cada vez maior de explorar
comereiaImente terras boas (muitas vezes para cultivar produtos
de exportação), levaram muitos agricultores de subsistência a se
transferirem para terras ruins, tirando-Ihes assim qualquer espe­
31 30
Tabela 1.1
Tamanho da população e PNB per capita por grupos de países
Grupo de países População PNB Taxa média anual
(milhões) percapita de crescimento do
(dólares de PNB per capita,
1984) 1965-84
(%)
Economias de baixa renda
(exceto China e Índia)
China e índia
Economias de
renda média baixa
Economias de
renda média alta
Exportadores de
petróleo de renda alta
Econonúas
industriais de mercado
611 190 0,9
1.778 290 3,3
691 740 3,0
497 1.950 3,3
19 lUSO 3,2
733 11.430 2,4
Fome: baseada em dados de: Banco Mundial. Relat6rio sobre o desenvol­
vímento mundial 1986. Rio de Janeiro, Fundação Getutio Vargas, 1986.
rança de participarem da vida econômica de seus países. Pelos
mesmos motivos, muitos lavradores nômades tradicionais, que
antes denubavam florestas, cultivavam suas lavouras e depois
deixavam que as florestas se refizessem, não têm agora nem terra
suficiente nem tempo para que as florestas se recuperem. Assim,
muitas vezes as florestas estão sendo destruídas apenas para obter
terras de cultivo de baIxa qualidade, incapazes de sustentar os
que as trabalham. O cultivo extensivo em encostas íngremes está
aumentando a erosão do solo em Inuitat; regiões montanhosas de
países desenvolvidos e em de..envolvimento. Em muitos vales
fluviais, cultÍvam*8e agora áreas onde as inundações sempre fo­
ramcomuDS.
Essas pressões se refletem numa incidência cada vez mais alta
de catástrofes. Nos anos 70, o número de pessoas mortas anual­
mente por "catástrofes naturais" fui seis vezes superior' ao dos
anos 60, sendo que dobrou o número das pessoas atingidas por
essas catástrofes. As secas e ínundações - flagelos para os quais
contribuem o desmatamento e o cultivo excessivo - foram respon­
sáveis pelos malores estragos, em termos de número de pessoas
afetadas. Nos anos 60, 18,5 milhões de pessoas por ano foram ví­
timas de secas, e nos anos 70, 24,4 milhões; 5,2 milhões de pes­
32
uCreio que essa Comissão deveria prestar atenção ao modo co­
mo considera a questão de uma partícipação maior dos povos
que são objeto do desenvolvimento. ElUTe suas necessidades bá­
sicas estão o direito de preservar sua idenlidade cultural e o di­
reito de não ser apartndo de sua própria sociedade e de sua pró­
pria comuni<kuJe. O que desejo ressaltar é que não podemos dis­
cutir (') meio ambiente e o desenvolvimento sem discutir (')
vo/vimenlO politico. Não é possfvel erradicar a pobreza simples­
""'nte redisrribuindo a riqueza ou a rrmda, pois tem de haver
J
uma redistribuição melhor do poder.' ,
Aristides Katoppo
Editor
Audiência pública da ComiBsão Mundial sobre Meio
Ambiente e Desenvolvimento, Jacarta, 26 de março de 1985.

soas, por ano, foram vítimas de inundações nos anos 60; nos anos
70, foram 15,4 milhões.3 Ainda não dispomos dos números para
os anos 80, mas nesta década tão. propensa a desastres naturais os
números provavelmente terão aumentado; houve secas na África,
A na Índia e na América Latina, e inundações na Ásia, em partes da
África e na região andina da América do Sul.
A maloria das vítimas dessas catástrofes é constituída pelos
pobres das nações pobres - onde os agricultores de subsistência
tornam suás terras mais sujeitas a secas e inundações porque des­
matam as áreas e onde os pobres se tomam mais vulne­
ráveís a todas as catástrofes porque vivem em encostas íngremes
ou em regiõe.. ribeirinhas sem proteção - as únicas áreas que lhes
restam para collSlrufrem seus barracos. Não dispondo de alimen­
tos nem de divisasJ os governos economicamente vulneráveis des­
ses países têm poucas condições de enfrentar tais catástrofes.
Os vínculos entre desgaste ambiental ecatástJ;ofes que impedem
o desenvolvimento melhor na Africa subsaariana.
A produção de alimentos per capita, que vem declinando desde
os anos 60, entrou em colapso durante a seca dos anos 80 e, no
momento em que os alimentos eram mais necessários, cerca de 35
milhões de pessoas ficaram em risco. O uso excessivo da terra e a
seca prolongada ameaçam transformar em deserto os prados do
Sabel africano.
4
Nenhuma região sofre de modo mals trágico com
o cÚ'culo vicioso da pobreza que leva à deterioração do meio am­
biente, que por sua vez leva a uma pobreza maior.
33
"Se as pessoas destroem a vegetação para ter terra, alimemo,
forragem, combustfvel ou madeira, o solo perde sua proteção. A
chuva produz escoamemo superf'tcial e se dA a erosão do solo.
Quando jd não há solo, a dgua não ftca retida e a terra jd não
pede produzir alimento, forragem, combust(velou madeira sufi­
CÚ!ntes; então as pessoas busc.am novas terras e recomeçam todo
o processo.
Os problemas mais catastrófICos do Terceiro Mundc são, em
essência, problemas não-resolvidos de desenvolvimento. Por­
tanto, a pN!Venção de catástrofes.! basicamenle _ aspecto do
desenvolvimemo, de um desenvolvimento que se verifique dentro
dos limites sustentdveis."
OddGrann
Secretdrio-8'ral da Cru:: Vermelha Nol'Ut!g"".a
Audiencia pública da CMMAD, Oslo, 24-25 de junho de 1985
1.1.2 Crescimento
Em algumas partes do mundo, sobretudo a partir de meados dos
anos 50, o padrão de vida e a qualidade de vida se elevaram
muito. graças ao crescimento e ao desenvolvimento. Muitos dos
produtos e das tecnologias que contribuíram para essa melhoria
consomem muita matéria-prima e muita energia, e são altamente
poluentes. Por isso, seu impaclo sobre o meio ambiente é o maior
já regislrndo na história.
No século passado, o uso de combustíveis f6sseis cresceu qua­
se 30 vezes, e a produção industrial aumenlou mais de 50 vezes.
A maior parte desse aumento - cerca de três quanos no C8lIO dos
combuslíveis fósseis, e pouco mais de quatro quinlos no caso da
produção industrial - ocorreu a partir de 1950. Hoje, o aumento
anual da produção industrial é talvez " mesmo da produção total
da Europa. em fins dos anos 30.
5
Atualmente. obtemos em um
ano as décadas de crescimento industrial - e de deterioração do
meio ambiente - que foram a base da economia européia antes da
guerra.
Formas mais tradicionais de produção também provocam des­
gaste ambiental. Nos últimos 100 anos, houve mais desmatamen­
tos para criar áreas de cultivo do que em todos os séculos prece­
dentes. Aumentaram muito as intervenções nos ciclos hldricos.
Enormes represas, quase todas construídas após 1950, retêm
grande parte das águas dos rios. Na Europa e na Ásia. chega-se a
utilizar 10% do fluxo anual das águas, e a previsão é de que este
fudíce suba para 20 a 25% por volta do fim do século.
6
O impacto do crescinÍento e das rendas mais elevadas pode ser
avaliado pela distribuição do consumo mundial de vários produtos
que demandam muitos m:ursos naturais. O. pa1ses industrializa­
dos mais ricos usam a ÚJaior parte dos metais e dos combustíveis
fósseis do' mundo. Mesmo no tocante a produtos alimentícios, há
diferenças acentoadas, sobretodo quanto a produtos mais recurso­
iatensivos. (Ver tabela 1.Z).
Nos últimos anos, os países industrializados conseguiram cres­
t'
cer economicamente usando menos matéria-prima e energia por
unídade de produção - o que, aliado aos esforços para reduzir a
descarga de poluentes • .yudará a conter à pressão sobre a biosfe­
ra. Mas. com o crescimento populacioual e a elevação das rendas,
o consumo per capila de energia e matérias-primas aumentará nos
países em desenvolvimento, caso se queira atender às necessida­
des essenciais. O aumento pode ser moderado se se der mais
atenção 11 eficiência dos recunos, mas por outro lado irão au­
mentar, em termos globais, os problemas do meio ambiente liga­
dos ao uso de m:urso8.

1.1..3 Sobrevivênda
O aumento da população e da produção acarretou Un'la Jiecessida­
,
de maior e mais complexa de recursos naturais. A natureza é pró­
diga, mas também é frágil. e seu equilfbiio é delicado. I::lá limites
que não podem ser trauspostos sem que a integridade básica do
sistema fique prejudicada. Hojt!. estamos perto de vários desses
limites; temos de ter sempre em mente o risco de ver ameaçada
nossa sobrevivência na Terra. Além disso, o uso dos m:ursos está
mudando tão depressa que dispomos de pouco tempo para prever
e evitar efeitos não-<Iesejados.
O "efeito estufa", uma das ameaças aos sistemas que susten­
tam a vida. deriva diretamente do maior uso dos recursos. A
queima de combusliveis fósseis e também a derrubada e a queima
de florestas libenun diÓxido- .de caroono (COi). O acúmulo de
C02 e de outros gases na atmosfera retém a rudíação solar nas
proximidades da supetficie terrestre. provocando o aquecimento
do pianeta. Isto pode fazer com que o rdvel do mar, nos próximos
45 anos, se eleve a ponto de inundar muitas cidades sitoadas em
litorais e deltas de rios. Também pode causar enormes traustornos
11 produção agrícola nacional e internacional e aos sistemas co­
. , 7
meICllUS.
Outra ameaça é a destruição da camada de ozônio da atmOSfe­
ra, devido a gases liberudos durante a produção de espuma e de­
34
35
i
jlAJ
Tabela 1.2
Distribuição do consumo mundial, médias para 1980-82
"Os grandes feitos da tão celebroda RevoluçtJo Industrial estdo
começando a ser seriamente questionados, sobretudD porque na
lpoca não se levou em conJD o meio ambiente. Achava-se que o
Países Paf_
clu era tão vasto e claro que naJa jamais mudarÚl sua cor; que
desenvolvidos em desenvôlvimcnro
os rios eram tdo grandes e suas águas tdo abundantes que as ati­
(26% da população) (74% d. populaçlio)
vidades Iumranas jamnis lhes alterariam a qualidade; e que as
árvores e florestas eram tantas que jatnais acabarlamos com
Produto Unidades Participaçlio Per Participação Per
elas. Afinal, tornam a crescer.
de consumo no consumo capíta. no consumo capita
Hoje sabemos. O ritmo alarmante ao qual a superficie terres­
percapila mundial mundial
I'
tre está sendo despojnda de sua capa vegetal natural parece in­
(%) (%)
dicar que O mundo pode em breve estar sem árvores, devido ao
de_amemo para fins de desenvolvimento Iuunano.'·
AJimento:
Calorias Kcalldia 34 3.395 66 2.389
Victoria Chitepo
Proteína gr/dia 38 99 62 58
Ministra de Recursos NatW'ais e TfJ.nsmo do Zimbábue
Gordura gr/dia 53 127 47
4()
Cerimônia inaugural d. CMMAD, Harare, 18 de serembro de 1986
Papel Kg/ano 85 123 15 8
Aço Kglano 79 455 21 43
Outros
metais Kg/ano 86 26 14 12
Energis As práticas atualmente adotadas para a eliminação de rejeitos
Comercial mtcelano 80 5,8 20 0,5 tóxicos (como os de indústrias químicas, por exemplo) envolvem
riscos inaceitáveis. Rejeitos radiativos da indústria nuclear se
Fonte: estimativas da CMMAD baseadas em dados por país d. FAO, do
mantêm !)erigasos durante séculos. Muitas das pessoas que se ex­
Escritório de Estatística da ONU, da UNCT AD e da Amerlcan Metal
põem a esses riscos em nada se beneficiam com as atividades que
Association. ,
produzem os rejeitos.
A desertificação - o processo pelo qual as terras áridas e semi­
áridas se tomam improdutivas do ponto de vista econômico - e o
vido ao uso de refrigerantes e aerossóis. Uma perda substancial
desflorestamento em grande escala são também ameaças à inregri­
desse ozônio poderia ter efeitos catastróficos sobre a saúde das
dade de ecossistemas regionais. A desertificação envolve intera­
pessoas e de animais domésticos, e sobre certas formas de vida
ções complexas de seres humanos, terra e clima. Também contri­
que constituem a base da cadeia alimentar marinha, A descoberta,
buem para o processo as pressões de produção de alimentos de
em 1986, de que havia um orifício na camada de ozônio sobre a
subsistência, cultivos comerciais e produção de carne em áreas
Antártida sugere que sua destruição pode ocorrer com mais rapi­
áridas ou
dez do que se supunha.
8
.
A cada ano, mais de 6 milhões de hectares se desgastam pela
Vários poluentes do ar estão matando áIvores e lagos e cau­
erosão e passam à condição de deserto. 10 Em 30 anos, isto repre­
sando danos a prédios e tesouros culturais, que tanto podem si­
sentará uma área quase igual à da Arábia Saudita. São destruídos
tuar-se nas proximidades dos locais onde se dá a descarga, quanto
anualmente mais de I I milhões de hectares de florestas tropicais,
estar a milhares de quilômetros de distãocia. A acidificação do
o que representará, em 30 anos, uma área quase igual à da Ín­
meio ambiente ameaça vastas ãreas da Europa e da América do
dia.
11
À parte os impactos diretos e freqiientemente drásticos que
Norte. Arualrneote, cada metro quadrado do solo da Europa Cen­
isso causa na própria região, as regiões vizinhas também são afe­
tral está recebendo mais de um grama de enxofre por ano.
9
A
tadas pela areia que se espalha, pelas altemçóes nos regimes hí­
destruição das florestas pode acarretar erosão, fonnação de depó­
dricos e por um risco maio. de erosão do solo e de formação de
sitos sedimentares, inundações e alterações climáticas localizadas.
depósitos sedimentares.
Os danos causados pela poluição do ar estão se tomando eviden­
A destruição de florestas e de outras áreas agrestes causa a ex·
tes em alguns países recém-industrializados.
tinção de espécies vegetais e animais e reduz drasticamente a di­
36
37
versidade genética dos ecossistemas do mundo. Esse processo
priva as gerações atuais e futuras de material genético para aper­
feiçoar variedades de cultivos, tornando-as menos vulneráveis ao
desgaste provocado pelo clima, às pragas e às doenças. O desapa­
recimento de espécies e subespécies, muitas delas ainda não estu­
dadas pela ciência, 'priva-nos de importantes fontes potenciais de
remédios e produtos químicos industriais. Destroi para sempre se­
"
res de grande beleza e partes de nosso patrimônio cultural; e em­
pobrece a biosfera.
Muitos dos riscos que derivam de nossas atividades produtivas ,c
e de nossas tecnologias ultrapassam as fronteiras nacionais; mui­
tos deles' são globais. As atividades que causam tais perigos ten­
dem a concentrar-se em poucos países, mas há riscos para todos,
ricos e pobres, tanto para os que se beneficiam dessas atividades
como para os que não se beneficiam. A maioria dos países que
compartilham esses riscos influi pouco nos processos decisórios
que regulamentam essas atividades.
Resta pouco tempo para ações corretivas. Em alguns casos, já
podemos estar prestes a transpor limites críticos. O. cientistas
continuam buscando e discutindo causas e efeitos. mas em muitos
casos já temos conhecimento suficiente para justificar a ação. Isso
vale em nível local e regional no caso de ameaças como desertifi·
cação, desflorestamento, rejeitos t6xicos e acidificação; em nível
global, vale para ameaças como alteração do clima, destruição do
ozônio e extinção de espécies. Os riscos aumentam mais rapida­
mente que nossa capacidade de lidar com eles.
A maior ameaça ao meio ambiente da Terra, ao progresso sus­
tentável da humanidade e mesmo à sobrevivência é talvez a pos­
sibilidade da guerra nuclear, que aumenta a cada dia pela corrida
armamentista que nlIo cessa e já está chegando ao espaço. A bus­
ca de um futuro mais viável s6 tem sentido se houver esforços
mais vigorosos para deter o desenvolvimento dos meios de ani­
quilação.
1.1.4 A crise ec:ooômiea
Os problemas ambientais com que nos defrontamos não são no­
vos. mas s6 recentemente sua complexidade cOmeçou a ser enten­
dida. Antes, nossas maiores pteo<:upações voltavam-se para os
eleitos do desenvolvimento sobre o meio ambiente. Hoje, temos
de nos preocupar também com o modo como a deterioração am­
biental pode impedir ou reverter o desenvolvimento econômico.
Área após área, a deterioração do meio ambiente .,.tá minando o
potencial de desenvolvimento. Essa ligação básica passou a ser
38
Tabela 1.3
Taxa anual de cleSCÍmento do PIB em palses em desenvolvimento,
1976-85 (%)
Indicador 1976-80 1981 1982 1983 1984 1985
Produto mlemo bruto:
Todos o. palses em
desenvolvimento 4,9 1,3
Pa1Be8 em desenvolvimento
excluídos os paf­
graade. 4,5 1,1
PIB per capíta:
. Todo. os palses em
desenvolvimento 2,4 -1,0
i:
'.
Países em desenvolvimento
excluídos o. palses graades 1,9 -1,5
0,2 0,8 2,1 2,5
-0,6 0,1 1,5 1,4
-2,1
-3,1
-1,5
-2,4
-0,2
-1,0
-0,2
-1,1
j
FontJ?:: Dopa.r1ment of lnternalionaI Economic and Social Affai... Dou­
bling development ftru:urçe; meeting a global challelJ8e, view. and recom­
mendatloIIB of lhe Commítee on Dovelopment Planning. New York, Uni­
ted Natlons, 1986.
agudamente sentida com as crises do meio ambiente e do desen­
volvimento sobrevindas nos anos 80.
O ímpeto menos acelerado de expansão econômica e a estag­
nação do comércio mundial na década de 80 desafIou a capacida­
de de todas as nações para reagirem e ajustarem-se. Os países em
desenvolvimento que dependem da exportação de produtos primá­
rios foram especialmente atiogidos pela queda dos preços desses
produtos. Entre 1980 e 1984, esses países perderam cerca de
US$55 bilhões em suas exportações devido à queda dos preços de
produtos primários, e o golpe foi sentido mais profundamente na
América Latina e na Átrica.l
2
Em conseqüência desse período de menor crescimento da eco·
noruia mundial - ligado a obrigações cada vez maiores com o ser­
viço da dívida e a um declfnio dos influxos de financiamento ­
muitos países em désenvolvimento enfrentaram graves crises eco­
nômicas. De mto. mais da metade desses países leve seu produto
interno bruto (Pffi) per capita reduzido no período 1982-85, sen­
do que, para o conjunto dos .países em desenvolvimento, o PIB
percapi.ta caiu cerca de 10% nos anos 80. (Ver tabela 1.3.)
O ônus mais pesado do ajuste econômico intero.acional recaiu
sobre os povos mais pobres do mundo. Em conseqüência, o s0­
frimento humano aumentou muito, e houve moa exploração ex­
39
cessiva da terra e dos recursos naturais para gruantír a sobrevi­
vência a curto prazo.
Muitos problemas econômicos internacionais ainda não fomm
resolvidos; o endividamento dos países em desenvolvimento con­
tinua sendo uma questão grave; os mercados de produtos primá­
rios e de energia estão muito instáveis; os fluxos financeiros para
países em desenvolvimento são bastante deficientes; o protecio­
nismo e aS guetTaS comerciais representam uma séria ameaça.
Além disso, há um esvaziamento das instituições multilaterais e
das regulamentações, num momento em que são mais necessárias
do que nultca. Há uma tendência para o declínio do multílatera­
lismo e para a afirmação da predominãncia nacional.
1.2 NOVAS MANEIRAS DE CONSIDERAR O MEIO
AMBIENTE E O DESENVOLVIMENTO
O progresso humano sempre dependeu de nosso engenho técrnco
e de nossa capacidade para agir em cooperação. Essas qualidades
fomm freqüentemente usadas de modo construtivo, com vistas ao
progresso do desenvolvimento e do meio ambiente: por exemplo,
no tocante ao controle da poluição do ar e da água, ou a uma efi­
ciência maior no uso de materiais e energia. Muitos países aU­
mentamm a produção de alimentos e reduzírarn os índices de
crescimento populacional. Alguns progressos tecnológicos, sO­
bretudo no campo da medicina, foram amplamente disseminados.
IIJlIS-Í&SO nin.b.llSlaJ A administração do meio ambiente e a ma­
.. nútenção do desenvolvimento impõem sérios problemas a todos
'os países. Meio ambiente e desenvolvimento não constituem desa­
fios separados; estão inevitavelmente interligados. O desenvolvi­
mento não se mantém se a base de rectJrSos ambientais se deterio­
ra; o meio ambiente não pode ser protegído se o crescimento não
leva em conta as conseqüência.. da destruição ambiental. Esses
problemas não podem ser tratados separadamente por instituições
e políticas fragmentadas. Eles fazem parte de um sistema comple­
xo de causa e efeito. ­
Primeiro, os desgastes do meio ambiente estão interligados. O
desflorestamento. por exemplo, por aumentar o escoamento, ace­
lera a erosão do solo e a formação de depósitos sedimentares em
rios e lagos. A poluição do ar e a acidificação contribuem para
matar florestas e lagos. Tais vínculos significam que é preciso
tentar resolver ao mesmo tempo vários problemas diferentes. E se
houver'sucesso em uma área, como, por exemplo, a proteção das
florestas t podem aumentar as chances de sucesso em outra área,
como, por exemplo, a conservação do solo.
I
'I

.,
/ , ~
f
,
"Por quanto tempo poderemos continuar fingindo com seguran­
ça que meio ambiente não é economia, não é saúde, não é requi­
sito para o desenvolvimento, não é lazer? Sem realista conside­
ra17'1lO-nos administradores de uma entidode chamada meio am­
biente. alheia a nós, uma alternativa à economia. um valor caro
demais para ser protegido em épocas de dificuldodes ecOllômi­
cas? Quando nos organizamos a panir desta premissa. estamos
trazendo conseqüencias perigosas para nossa economia, nossa
saútk e nosso crescimento industrial.
Só agora começamos a perceber que é preciso encontrar uma
alternativa para nossa tendlncio a onerar as gerações futuras
devido a nossa crença errônea de que é poss(vel escolher entre a
economia e o meio ambiente. A longo prazo. essa escolha revela­
se uma ilusilo e tem conseqülncias terrlveis para a humanidtl­
de."
Charles Cacei.
Membrudo Parlamento. Cllmara dos Comuns
Audiência pública da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
Segundo, os desgastes ambientais e os padrões de desenvolvi­
mento econômico se interligam. Por isso, é possível que políticas
agrícolas sejam a origem da deterioração de telTas, águas e flo­
restas. Em muitos países em desenvolvimento, as política.. ener­
géticas estão ligadas ao efeito estufa global, li acidiflcação e ao
. desfloreslamento com vistas li obtenção de lenha. Esses desgastes
ameaçam o desenvolvimento econômico. Portanto* a economia e a
ecologia devem integrar-se perfeitamente nos processos decisó­
rios e legislativos. não só para proteger o meio ambiente, mas
também para proteger e promover o desenvolvimento. A econo­
mia não é apenas a produção de riqueza, e a ecologia não é ape­
nas a proteção da natureza; ambas são também muito importantes
para que a humanidade viva melhor.
Terceiro, os problemas ambientais e econômicos ligam-se a vá­
rios fatores sociais e políticos. Por exemplo, o rápido crescimento
populacional. cujo impacto sobre o meio ambiente e O desenvol­
vimento foi tão profundo em muitas regiões, derivou em parte de
fatores como O status das mulheres na sociedade e outros valores
culturais. Além disso, o desgaste do meio ambiente e o desenvol­
vimento desigual podem aumentar as tensões sociais. Pode·se ar­
gumentar que a distribuição de poder e influência na sociedede
está no âmago da maioria dos desafios do meio ambiente e do de­
senvolvimento. Por isso as novas abordagens têm de incluir pro­
41 40
"Para conseguir resolver problemas globais. temos de criar no·
vas maN!JiNS de pensar. desenvolver.novos critlhiDs morais e de
valores. e sem davida nOvo.s padr6es de comportornento.
A. humanidade se encontra ds portas de um novo ·est4giO em
seu desenvolvimento. Deverfomcs /Ido s6 promovt!r a expans40
de sua base materiOJ. cientf/ica e Iknica. mas 1anrb4m. ·0 que
mais importante, incutir novos valOres e aspirações humanistas
na psicologút humana. pois a sabedoriO e o humanismo sao as
'verdades eternas' que constituem a base do humanidade. Preci­
samos de novos conceitos sociais. morais, cieN/ficos e ecol6gi­
COSo que devem ser determinados por """,,-,", condiç6es de vida da
humanidade;"1'Qje e nofuturo." ,
I.T. Frolov
Redator-Chefe da Communist Magazine
Audiência pública da CMMAD, Moscou, 8 de derembro de 19S6
gramas de desenvolvimento social, principalmente para melhol'lU"
a posição das mulheres na sociedade, proteger os grupos vulnerá­
veis e promover a participação local no processo decisório.
Por fim, as caracteristicas sistemicas nlIo atuam somente no
interior das nações, mas também entre elas. As fronteiras nacio­
nais se tomaram tio penncáveis que apagaram as. ttadicionais
distinções entre assuntos de significação local, nacional e interna­
cional. Os ecossistemas nlIo respeitam- fronteiras nacionais. A
poluição das águas vui tomando rios, lagos e mares que banham
mais de um país. Através da almOsfera, a poluição do ar se espa­
lha até bem longe. Os efeitos de acidentes mais - princi­
palmente em reatores nucleues on em fábricas e depósitos que
contém materiais tóxicos - podem espaJ.lrar..se por toda uma
, região.
Muitos dos VÚlCulos entre o meio ambiente e a economia tam­
bém atuam em nível global. Por exemplo, a agricultura das ec0­
nomias industriais de mercado, que recebe muitos subsídios e in­
centivos, gera excedentes que buixam os preços e tomam menos
viáveis as agriculturas dos pafses em desenvolvimento, com ire­
qliI!ncia negligenciadas. Em ambas os sistemas, os solos e outros
recw:sos ambientais sofrem. Cada país deve criar polllicas agrf­
colas nacionais para assegul'lU" os ganhos econ&nícos e polllicos a
curto prazo, mas nenhuma nação pode, sozinha, criar polfticas
que lidem eficientemente com os custos financeiros, econ&nícos e
ecológicos das polfticas agrícolas e comerciais adotadas pelas
demais nações.
"VOCI!'s !atam muito poueo de vida e falam "..ito em sobrevivên­
cia. É muito importonre lembrar que quando acabam as possibi­
lidades de vida. começam as possibilidades de E
h4 povos. aqui no Brasil. especialmente na regiCúJ amazônica.
que ainda vivem, e esses povos que ainda vivem não querem de­
cair ao nfvel da
DepoimentQ d. um participante
Audiancia I'lIblica da CMMAD. São Paulo. 28-29 de outubro de 1985
No passado, quem cuidava das questões ambientais eram os
t ministérios e instituições do meio ambiente, que às vezes tinham
pouco ou nenhum controle sobre a destroição causada por políti­
4
cas e práticas agrícolas, industriais, de desenvolvimento urbano e
(
florestais. Foi um er;ro, por parte das sociedades, atribuir a res­
4
ponsabilidade de evitar danos ao meio ambiente a ministérios e
I
l'

órgãos "setrn:ials" que os causam com suas polfticas. Assim, nos­
sas práticas de administração ambiental ficaram muito concentra­
das em reparar os danos já feitos: reflorestamenlO, recuperação de
regiões desérticas, reconstrução de ambientes urbanos, restaum­
r ção de habitais naturais e reabilitação de terras selvagens. Para
prever e impedir danos ao meio ambiente será preciso considel'lU"
ao mesmo tempo os aspectos ecológicos da polllica e seus aspec­
tos econ&nícos, comerciais, energéticos, agrfcolas ele.
Na maioria dos pafses, as políticas ambientais visam aos sin­
tomas do crescimento prejudicial; tais polfticas trouxeram pto­
gressos e vantagens e devem continuar e ser fortalecidas. Mas não
basta isso. É necessária uma nova abordagem, pela qual todas as
nações visem a um tipo de desenvolvimento que integre a produ­
ção com a conservação e ampliação dos recursos, e que as vincule
ao objetivo de dar a todos uma base adequada de subsistência e
um acesso eqüitativo aos recursos.
O conceito de desenvolvimento sustentável fornece uma es­
trutura para a integração de políticas ambientais e estratégias de
desenvolvimento - sendo o termo "desenvolvimento" aqui em­
pregado em seu sentido mais amplo. Muitas vezes o termo é em­
pregado com referência aos processos de mudança econômica e
social no Terceiro Mundo. Mas todos OS países, ricos e pobres,
precisam da integração do meio ambiente e do desenvolvimento.
A busca do desenvolvimento sustentável exige mudanças nas po­
lfticas internas e internacionais de todas as nações.
43
41
o desenvolvimento &llstentáyel procura atender às necessida­
des e aspirações do presente sem comprometer a possibilidade de
atendê-Ias no futuro. Longe de querer que cesse o crescimento
econômico, reconhece que os problemas ligados à pobreza e ao
subdesenvolvimento só podem ser resolvid06 se houver uma nova
era de crescimento no qual os países em desenvolvimento desem­
penhem um papel importante e colham grandes beneficios.
Há sempre o risco de que o crescimento econômico prejudique
o meio ambiente. uma vez que ele aumenta a pressão sobre os re­
cursos ambientais. Mas os planej.dores que se orientam pelo con­
ceito de desenvolvimento sustentável terão de lrabalhar para ga­
rantir que as economias em crescimento permanéçam rmnemente
ligadas a suas raízes ecol6gicas e que essas raízes sejam protegi­
das e nutridas para que possam dar apoio ao crescimento a longo
prazo. a proteção ao meio ambiente é, inerente ao con­
ceito de desenvolvimento na medida em que visa
mais às causas que aos sintomas dos problemas do meio ambiente.
Não pode haver um único esquema para o dese!,volvimento
já que os sistemas econômicos e sociais diferem
muito de país para país. Cada nação terá de avaliar as implicações
concretas de suas polfticas. Mas apesar dessas diferenças, o de­
senvolvimento sustentável deve ser encarado como um objetivo
de todo o mundo.
Nen/"1Um pais pode desenvolver-se isoladamente. Por isso a
busca do desenvolvimento sustentável requer um novo ",uno para
as relações internacionais. O crescimento sustentável a longo pra­
zo exigirá mudanças abrangentes para criar fluxos de comércio,
capital e tecnologia mais eqüitativos e mais adequados aos impe­
rativos do meio ambiente.
Os mecanismos de uma coopemção internacional maior. neces­
sária para garantir o desenvolvimento sustentável, variarão de
setor para setor e em rélação a cada instituição. Mas é fundamen­
taI que todas as nações se unam para conseguir o desenvolvi­
mento sustentável. A unificaçáo das necessidades humanasrequer
um sistema multilateral que respeite o principio do consenso de­
mocrático e reconheça que há não apenas uma Terra, mas também
ums6mundo.
Nos capítulos seguintes examinaremos mais detslhadamente
essas questôes e apresentaremos propostas específicas para reagir
às crises de um futuro ameaçado. De modo geral, nosso relatório
traz uma mensagem de esperança. Mas tal esperança está coodi­
danada à inauguração de uma nova era de cooperação interna­
cional baseada na premissa de que todo ser humano - os que já
existem e 0$ que virão - têm direito à vida. e a uma vida razoá­
vel. Cremos, com que a comunidade internacional tem
coodiçõe. de enfrentar, como deve, o desafio de garantir um pro­
gresso humano sustentável.
Notas
I World Bank. Poveny and lumger; issues and options for food secwity in
developing countries. Washington, D.C., 1986.
2 Department of Internadonal Econr-lOúc and Social Affairs. Doubüng de­
velopment jinmu:e; meeting a global cha\lenge, views and recommendatiollli
of the comnúttee on Development Planning. New York, United Nations,
1986.
3 Hagrnan, G. et ali. PreveMO" better than cure. Report on human and
environmental disasters in the l1úrd World. Stockholm, Swedish Re<I
Cross, 1984.
4 United Nations, General Assembly. The criticai economic situatíon in
Africa: report of lhe Secretary GeneraL AlS-I3!z. New York, 20 May
1986.
5 Baseado em dado. de: Rostow, W.W. riu! world economy; hístory and
prospect. Austín, University of Texas Press, 1978; Unite<l N.tions. World
energy supplies in selected years 1929·1950. New Yorl<, 1952; Unite<l
Nations. Statistical Yearbook 1982. New Yorl<, 1985: UNCTAD. Handbo­
ok of international trade and development s/alistics 1985 supplement. New
York, 1985; Woytínsky, W.S. & Woytinsky, E.s. World popukltion and
production trénds and outlook. New York, Twentieth Cenlury Fund, 1953.
6 USSR Commíttee for lhe lntem.tional Hydrological Decade. World
...mr balance and a<Uer resources oftlu! Eanh. Paris, Une"",, 1978.
7 World Meteorological Organízation. A ,""port oftlu! lntemational Confe­
rence on lhe Assessment 01Carbon Dioxide anil Otlurr Greenhôuse Gases
in cUmate Variatíons and Associated Impacts. Villach, Austria, 9-15 Oct.
1985. WMO n. 661. Gcoeva, WMO/lCSU/Unep, 1986.
8 National Seience Foundation. Scientists closer to identifying cause of
Anlarctíc ozooo layer depletion. Washington, D.C., 20 Oct. 1986. (infor­
me à imprensa)
9 Lehmhaus, J. et ali. Calculated and observe<l data for 1980 compare<! at
Emep measurement stations. Norwegian Meteorological Institute,
EmeplMSC-W Report 1-86, 1986.
10 United Nations Environment Progranime. General assessment of pro­
gregs in lhe implementation of lhe Plan óf Action to Combat Desertifi­
c.tion 1978-1984. Nairobi, 1984; WCED Advlsory Panel on Food Secu­
rity, Agriculture, Forestry and Envirorunent. Food security. London, Zed
Books, 1987.
11 World Resources Institutellnternationallnstitute for Environment and
Development. World resources 1986. New York, Basic Books, 1986.
12 UNCT AO. rrade and Developmenl Report 1986. New Yorl<, 1986,
45
44
2. EM BUSCA DO DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
o desenvolvimento sustenlllvel é aquele que atende às necessida­
des do presente sem cómprometer a possibilidade de as gerações
futuras atenderem a suas próprias necessidades. Ele contém dois
conceitos-ehave:
• o conceito de "necessidades", sobretudo as necessidades
cials dos pobres do mundo, que devem receber a máxima priori­
dade;
• a noção das limitações que o estágio da tecnologia e da organi­
zação social impõe ao meio ambiente, impedindo-o de atender às
necessidades presentes e futuras.
Portanto, ao se definirem os objetivos do desenvolvimento
econômico e social, é preciso levar em conta sua sustentabilidade
em todos os países - desenvolvidos ou em desenvolvimento, com
economia de men:ado ou de planejamento central. Haverá muitas
interpretações, mas todas elas terão característica.. comuns e de­
vem derivar de um consenso quanto ao conceito básico de desen­
volvimento sustentável e quanto a uma série de estratégias neces­
sárillS para sua consecução.
O desenvolvimento supõe uma transformação progressiva da
economia e. da sociedade. Caso uma via de desenvolvimento se
sustente em sentido tlsico, teoricamente ela pode ser tentada
mesmo num contexto social e político rígido. Mas só se pode ter
certeza da sustentabilidade ffsica se as polfticas de deSenvolvi­
mento considemrem a possibilidade de mudanças quanto ao aces­
so aos recursos e quanto à distribuição de custos e beneffcios.
Mesmo na noção mais estreita de sustentabilidade ffsica está im­
plfcila uma preocupação com a eqüidade social entre gerações,
que deve, evidentemente, ser extensiva à eqüidade em cada gera­
ção.
:U O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL
oecessi<la4e&e 8!H."pirações humanas é o principal
objetivo do desenvolvimento. Nos países em desenvolvimento, as
necessidades básicas de grande n11mero de pessoas - alimento,
roupas, habitação. emprego - não estáo sendo atendidas. Além
dcsSllS necessidades básicas. as pessoas também 'aspiram legiti­
46
mamente a uma melhor qualidade de vida. Num mundo onde a
pobreza e a injustiça são endémicas, sêmpre poderão ocorrer cri­
ses ecológicas e de outros tipos. Para. qUe .haja um desenvolvi­
mento sustentável, é preciso que todos tenham atendidas as suas
necessidades básiCas e lhes seJam proporcionadas oportunidades
de concretizar suas aspirações a uma vi.dlÍmelhor. .
Padrões de vida que estejam além do mínimo básico só são
sustentáveis se os padrões gerais de consumo tiverem por objetivo
alcançar o desenvolvimento sustentável a longo prazo. Mesmo as­
sim,. muitos de n6s vivemos acima dos meios ecológicos do
como demonstra, por exemplo. 'o uso da energia. As necessi­
dades são detenninadas social e cultura:lmente, e o desenv<llvi­
mento sustentável requer a. promoção de valores que mantenham
os padrões de consumo dentro do limite das possibilidades ecoló­
gicas a que todos podem, de modo razoável, aspirar.
A satisfação das necessidades essenciais depende em parte de
que se consiga o crescimento potencial pleno, e o desenvolvi­
mento sustentável exige claramente que haja crescimento econ6­
mico em regiões onde tais necessidades não estáo sendo atendi­
das. Onde já são atendidas, ele é compatível com o crescimenlo
econômico, desde que esse crescimento reflita os princípios am­
plos da sustentabilídade e da não-exploração dos outros. Mas o
simples crescimento não basta. Uma grande atividade produtiva
pode coexistir com a pobreza disseminada, e isto constitui um ris­
co para o meio ambiente. Por isso o desenvolvimento sustentável
exige que IIS sociedades atendam às necessidades humanas, tanto
aumentando o potencial de produção quanto assegura.Ílàóa todo.
as mesmas oportunidades.
se os"1I1meros aumentarem, pode aumentar a pressllo sobre os
recursos, e o padrão de vida se elevará mais devagar nas áreas
onde existe privação. A questão não é apenas o tamanbo da po­

pulação, mas também a distribuição dos recursos; portanto, o de­
senvolvimento sustentável só pode ser buscado se a evolução de­
mográfica se harmonizar com O potencial produtivo cambiante do
ecossistema.
( Há muitas maneiras de uma sociedade se tornar menos capaz
I de atender no futuro às necessidades básicas de seus membros a
i exploração excessiva dos recursos é uma delas. Dependendo da
! orientação do progresso tecnológico, alguns problemas imedialos
'\ podem ser resolvidos, mas podem surgir outros ainda maiores.
\ Uma tecnologia mal empregada pode marginalizar amplos seg­
: ment ..s da população. < •
A monocultura, o desvio de cursos d'água, a extração mineral,
a emissão de calor e de gases nocivos na atmosfera, as florestas
comen:ials e a manipulação genética todos estes são exemplos
41
•'Devido à falta de comunicaçdo, os grupos de assistência ao
melo ambieme, à população e ao desenvolvimerao ficaram sepa­
rados dU1"alUe muito tempo. o que impediu que tomássemos cons­
ciência de nosso inleresse comum e de TlQssaforça conjunla. Fe­
Iízmeme. essa falha está sendo sanmJo:. Sabemos agora que o
que nos une muito mais importante que o que nos divide.
RecOlfhecemos que a pobreza, a deterioraçdo do meio am­
bienle e o cnscimerao popuiacional estdo indissoluvelmeme li­
gados, e que nenhum desses problemas fundomenlais pode ser
resolvido Isoladamente. Venceremos oufracassaremos jumos.
Chegar a Uma definição de deserrvolvlmemo sustentável aceita
por todos continua sendo um desafio para todos os que estão
empenhados no processo de desenvolvimento."
Making common cause
USo 8ased developmem, el1vironment, popu/ati.OI1 NGOs
Audiência pública d. CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
da intervenção hwnana nos sistemas naturais durante o desenvol­
vimento. Até pouco tempo, tais intervenções eram em pequena
escala e tinham impacto limitado. Hoje, seu impacto é mais dnIs­
.tico, sua escala maior, e por isso elas ameaçam mais os sistemas
que sustentam a vida, tanto em nfvellocal como global. Isso não
precisaria ocorrer. No mínimo, O desenvolvimento sustentável não
deve pôr em risco os sistemas naturais que sustentam a vida na
Terra: a atmosfera, as águas, os solos e os seres vivos.
O crescimento não estabelece um limite preciso a partir do
qual o tamanho da população ou o uso dos recursos podem levar
a uma catástrofe· ecológica. Os limites diferem para o uso de
energia. de matérias-primas, de água e de terra. Muitos deles se
imporão por si mesmos media,nle a elevação de custos. e diminui­
ção de retornos, e não mediante uma perdá s!lbita de alguma base
de recursos. O conhecimento acumulado e o desenvolvimento
tecnológico podem aumentar a capacidade de produção da base
de recursos. Mas há limites extremos, e para havet sustentabilida­
de é preciso que. bem antes de esses limites serem atingidos. o
mundo garanta acesso eqüitativo ao recurso ameaçado e reoriente
os esforços tecnológicos no sentido de aliviar a pressão.
Obviamente, o crescimento e o desenvolvimento econômicos
produzem mudanças no ecossistema físico. Nenhum ecossistema,
seja onde for, pode ficar intacto. Uma floresta pode ser desmatada
em wna pane de wna bacia fluvial e ampliada em outro lugar ­
e isto pode não ser mau, se a exploração tiver sido planejada e se
se levarem em conta os nfveis de erosão do solo. os regimes hí­
drlcos e as perdas genéticas. Em geral. não é preciso esgntar os
recursos ",nováveis, como florestas e peixes, desde que sejam
usados dentro dos limites de regenereção e crescimento naturai.
Mas a maioria dos recursos renováveis é pane de um ecossistema.
complexo e interligado, e, uma vez levados em conta os efeitos da
exploração sobre todo o sistema, é preciso definir a produtividade
máxima sustentável.
No tocante a recursos não-renováveis:, como minerais e com..
bustfveis fósseis. o uso reduz a quantidade de que disporão as
futuras gerações. Isto não quer dizer que esses recursos não de­
vam ser usados. Mas os nfveis de uso devem levar em conta a
disponibilidade do recurso, de tecnologias que minimizem seu es­
gotamento, e a probabilidade de se obte",m substitutos para ele.
Portanto, a terra não deve ser deteriorada além de wn limite ra­
zoável de recuperação. No c....o dos minerais e dos combustíveis
f6sseis, é preciso dosar o índice de esgotamento e a ênfase na re­
ciclagem e no uso econômico. para garantir que o recurso não se
esgote antes de haver bons substitutos para ele. O desenvolvi­
mento sustentável exige que o índice de destruição dos recursos
náo-renováveis mantenha o máximo de opções futuras possíveis.
O desenvolvimento tende a simplificar os ecossistemas e a re­
duzir a diversidade das espécies que neles vivem. E as espécies,
wna vez extintas. não se renovam. A extinção de espécies vege­
tais e animais pode limitar muito as opções das gerações futuras;
por isso o desenvol vimento sustentável requer a conservação das
espécies vegetais e animais.
Os chamados bens livres, como o ar e a água, são também -re­
cursos. As matérias-primas e a energia usadas nos processos de
produção SÓ em pane se convertem em produtos !lteis. O resto se
, em rejeitos. fara haverJlIlu1esenvolvÍll!!'nto sustentá­
vel é preciso minimizar os impactos adversos
ao át;-aãági:i3e-dê outros elementos natíiiiiS. a f'un <Ie_lIllUlter
a}!!tgi'ldãdê g!obãI do ecossiiíteiiiã. - .' .
-, Em 'esSl!iiéTa;OêJesenvolViinenlo' sustentável é wn processo de
transformação no qual a exploração dos recursos, a direção dos
investimentos, a orientação do desenvolvimento tecnológico e a
mudança institucional se hannoDÍzam e refotçam o potencial pre­
sente e futuro, a fun de atender às necessidades e aspirações hu­

2.2 EQÚIDADE E INTERESSE COMUM
Descrevemos o desenvolvimento sustentável em termos gerais.
Como persuadir as pessoas ou fazêr!as agir no interesse comum?
48
49
~ t é certo p o n ~ pela educação. pelo desenvolvimento das institui­
ções e pelo fortalecimento legal. Porém muitos dos problemas de
. destruição de recursos e do desgaste do" meio ambiente resultam
de disparidades no poder econômico e político. Uma indústria
pode trabalhar com níveis inaéeitáveis de poluição do ar e da
água porque as pessoas prójudicadas são pobres e não têm condi­
ções de reclamar. Pode-se destruir uma floresta pela derrubada
excessiva porque as pessoas que nela vivem ou não têm alternati­
vas ou são em geraI menos influentes que os negociantes de ma­
deira.
As interações ecológicas não respeitam as fronteiras da pr0­
priedade individual e da jurisdição política. Logo:
• Numa bacia fluvial. um agricultor cujas terras se situem na en­
costa pode. dependendo do modo como as use. afetar o escoa­
mento nas fazendas mais abaixo.
• As prátic... de irrigação, os pmguicidas e os fertilizantes utili­
zados numa fazenda afétam a produtividade das que lhe são vizi­
nh.... sobretudo se forem pequenas propriedades.
• A água quente que uma usina térmica despeja num rio ou num
trecho de mar afeta a pesca na região. .
• A eficiência de urna caldeira de fiibrica detenulna o Indice de
emissão de fuligem e produtos químicos nocivos. afetando assim
todos os que vivem e trabalham nas imediações.
o. sistemas soeisi. tradicionais reconheceram alguns aspectos
déssa interdependência e aumentaram o controle da comunidade
sobre as práticas agrícolas e sobre os direitOS tradicionais relati­
'\fOS. a água. florestas e terras. Tal esforço do "interesse comum",
contudo, não impediu necessariamente o crescimento e a expan­
são. embora possa ter limitado a aceitação e difusão de inovações
técnicas.
A interdependência local aumentou. quando muito. devido à
tecnologia empregada na agricultura e na manufatura modernas.
Mas, por causa do progresso técnico, do "cerco" das temls e<>­
muns, do desgaste dos direitos comuns sobre florestas e outros
recursos. e da intensificação do comércio e da produção para o
melXlldo, as responsabilidades quanto b decisões estlío sendo re­
tiradas dos grupos e dos indivíduos. Essa mudança ainda está em
processo em muitos países em desenvolvimento.
Não é que de um lado existam vilões e de outro vítimas. Todos
estariam em melhor condição se cada um considerasse os efeitos
de seus atos sobre os demais. Mas ninguém está disposto a crer
que os outros agirão desse modo, e assim todos continuam a bus­
car seus próprios interesses. As comunidades ou os governos po­
dem compensar essa situação mediante leis, educação, impostos,
subsídios e outro. métodos. O cumprimento das leis e uma legis­
"Se os desertos estão se expandindo, asflorestas desaparecendo
e a desnutrição aumelUando, .. e as condiçõe.. de vida do.. habl­
ta/Ues de áreas urbanas estão piorando, não é devido à falta de
recursos, mas ao tipo de pollJicas adotadas por nossos dirigen­
te.. , pelos grupos de eliJe. A negação tios direitos e dos inleresse ..
das pe....oas est4 nos fevrurdo a uma situação na qual só a pobre­
za tero um futuro próspero na A{rica. No..sa esperança é que
esta Comis.stlo, a Comissão Mundial, não negligenciará os pro­
blemas tios direitos humanos na A{rica e buscará erlfatizd-los,
pois tro:ta-se de pessoas livres, pessoas que t2m direitos, que são
ciJadiios moduros e responsáveis, capw;es de participar do de­
serrvt>lvimento e da proteção ao meio ambiente."
DepoimenlO de um participante
Audiência p6blica da CMMAD, Nairóbi, 23 de setembro de 1986
!ação rigorosa em matéria de responsabilidades podem controlar
efeitos colaterais danosos. E, o que é mais importante, se as e<>­
munidades locais participarem dos processos de decisão, poderão
articular e impor seu ioteresse COmum.
A interdependência é mais que um fenômeno local. O rápido
crescimento da produção estendeu-a ao plano internacional, com
manifestações tanto físicas quanto econômicas. Aumentamos.
efeitos globais e regionais da poluição, como os que se verificam
em mais de 200 bacias fluviais internacionais e em grande número
de"","".
A imposição do interesse comum é multas vezes prejudicada
porque as áreas de jurisdição política não coincidem com ... áreas
de impacto. As poUticas energéticas de uma jurisdição causam
precipitação ácida em outra. As poUticas pesqueiras de um Estado
podem afetar a pesca em outro. Não existe uma autoridade supra­
nacional que resolva tais questões, e só é possíVel fazer valer o
ioteresse colIll.lm por meio da cooperação internacional.
Da mesma forma, a capacidade de um governo controlar sua
economia nacional fica reduzida pelas crescentes interações CC<>­
nômicas internacionais. Por exemplo, no comércio exterior de
produtos primários, as questões ligadas ã capacidade produtiva e
à esc...sez de recursos são consideradas uma preocupação inter­
nacional. (Ver capftulo 3.) Se o poder econômico e o. benefícios
do comércio fossem mais bem distribuídos, os interesses comuns
seriam amplamente reconhecidos. Mas os ganhos com o comércio
exterior estão mal distribuídos; O modo como O açúcar, por exem­
plo, é comercializado afeta não apenas um setor nacional de pro­
50
51
dução açucareira. mas IIImbém a ecC5norrua e a ecologia de vários
países em desenvolvímento que dependem muito desse produto.
Seria menos difícil buscar o interesse comum se houvesse, para
todos os problemas ligados ao desenvolvímento e ao meio am­
biente. soluções que deixassem a todos em melhor situação. Isto
raramente ocorre. e em geral há quem ganhe e quem perca. Mui­
tos problemas derivam de desigualdades no acesso aos recursos.
Uma estrutura de propriedade da terra pode levar à
exploração excessiva dos reclmlOS das propriedades menores, com
efeitos danoso. tanto para o meio ambiente quanto para o desen­
volvimento. No plano internacional. o controle monopolístico dos
recursos pode levar os que deles não partilham a explotar eXCes­
sivamente os reclmlOS marginais. Outra manifestação do acesso
desigual aos recursos é o fato de os explotadores terem uma pos­
sibilidade maior ou menor para dispor dos bens "Iivtes", seja no
plano regional. nacionai ou internacional. Entre os que saem per­
dendo nos conflitos desenvolvimentofmeio ambiente estão os que
sofrem mais com os prejuCzos que a poluição causa à saúde, à
propriedade e ao ecossistema.
Quando um sistema se aproxima de seus limites ecológicos, as
desigualdades se acentuam. Assim, quando uma bacia fluvial se
deteriora, os a,gricultores pobres sofrem mais porque náo podem
adotar as mesmas medidas antierosão que os agricultores ricos
adOIllm. QUando se deteriora a qualidade do ar nas cidades. OS
pobres, que vivem em áreas mais vulneráveis, têm a saúde mais
prejudicada que os ricos. que geralmente vívem em lugares mais
protegidos. Quando os =1mI08 minerais escasseiam, os retardatá­
rios do processo de industrialização é que perdem os benefícios
dos suprimentos baratos. Globalmente, as nações mais ricas estão
em situação melhor, do ponto de vísta fmanceiro e tecnológico,
para lidar com os efeitos de. uma possCvel mudança clintãtica ..
Portanto, nossa dificuldade para' promover o interesse comum
no desenvolvímento sustentável provém com freqüência do fato
de não se ter buscado adequadamente a justiça econ6mica e social
dentro das nações e entre elas.
2.3 IMPERATIVOS ESTRATÉGICOS
É preciso que O mundo crie logo estratégias que permilllm às na­
ções substituir seus atuais processos de crescimento, freqüente­
mente destrutivos, pelo desenvolvimento sustentável. Para tanto é
necessário que todos os países modifiquem suas política., tanto
em relação a seu próprio desenvolvímemo quanto em relação aos
impactos que poderão exercer sobre as possibilidades de desen­
32
volvimento de outras nações. (Este capítulo trata das estratégias
nacionais. A reorientação nas relações econômicas internacionais
é abordada no cap{tulo 3.)
Os principais objetivo. das políticas ambientais e desenvolvi­
mentista.. que derivam do conceito de desenvolvímento sustentá­
vel são
t
entre OUtros, os seguintes:
• retomar o crescimento;
• alterar a qualidade do desenvolvímento;
• atender às necessidades essenciais de emprego, alimentação,
energia, água e saneamento;
• manter um nível populacional sustentável;
• conservar e melhorar a base de recursos;
• reorientar a tecnologia e administrar o risco;
• incluir o meio ambiente e a eConomia no processo de tomada de
decisões.
2.3.1 Retonumdo O cresclmenlo
Como já assinalamos, o desenvolvímento sustentável tem de lidar
com o problema do grande número de pessoas que vivem na p0­
breza absoluta. ou seja. que náo conseguem satisfazer sequer suas
necessidades mais básica... A pobreza reduz a capacidade das
pessoas para usar os reclitsos de modo sustentável, levando-as a
exercer maior pressão sobre o meio ambiente. A maioria dos p0­
bres absolutos vive nos países em desenvolvimento; em muitos
deles, essa pobreza foi agravada pela estagnação econ6mica dos
anos 80. Uma condição necessária, mas não suficiente, para a
eliminação da pobreza absoluta oS o aumento relativamente rápido
das rendas per capim no Terceiro Mundo. Portanto, é essencial
inverter as atuais tendências de estagnação ou declÚlio do cresci­
mento.
Ali taxas de crescimento poderão vsriar, mas é necessário um
nível mínimo para causar algum impacto sobre a pobreza absolu­
ta. Considerando todos esses pafses. parece improvável atingir es­
ses objetivos se o crescimento da renda per capim for inferior a
3%. (Ver box 2.1.) Dados os atuais (ndices de crescimento popu­
lacional. seria necessário um crescimento global da renda nacio­
nal de cerca de 5% ao ano nas economias em desenvolvimento da
Ásia, de 5,5% na América Latina e de 6% na África e na Ásia
ocidental.
Será possível chegar a essas cifras? O desempenho da Ásia
meridional e oriental nos últimos 25 anos, principalmente no úl­
timo qüinqllênio, sugere que a maioria dos países pode chegar a
um crescimento anuaJ,de 5%, inclusive os dois maiores, fndia e
China. Na América Latina, foram obtidas taxas médias de cresci­
'3
DOll: 2.1 Crescimento, redistribuição e pobreza
A pobreza é o nível de renda abaixo do qual uma pessoa ou
uma famllia não é capaz de atender regularmente às necessi­
dades da vida. A percentagem da população que se situa
abaixo desse nfvel depende da renda nacionai per capita e
do modo como ela é distribuída. Com que rapidez um país
em desenvolvimento espera eliminar a po1m:za absoluta? A
resposta díferirá de pais para país, mas é possível aprender
muito examinando-se um caso típico.
Consideremos uma nação na qual metade da população
viva na pobreza e a dístribuição da renda familiar seja a se­
guinte: um quinto das famílias detém 50% da renda total;
outro quinto detém 20%, outro 14%, outro 9%, e o último
quinto apenas 7%. É exatamente isso o que acontece em
muitos pafses em desenvolvimento de baixa renda.
Nesse caso, se a dístribuição de renda não se alterar, será
preciso que a renda nacional per capita dobre para que o
. índice de pobreza caia de 50 para 10%. Se houver uma dis­
tribuição de renda que favoreça os pobres, essa redução po­
de se dar mais depressa. Consideremos a possibilidade de
que 25% da renda incrementai daquele um quinto da popu­
lação que é o mais rico sejam igualmente dístribufdos aos
demais.
Estas hipóteses de redistribuição refletem tres critérios.
Primeiro, na maioria das situações as políticas de redístri­
mento de 5% nos anos 60 e 70, mas. tais mdices caíram na pt'ÍlI,ICí­
ra metade dos anos 80, devido sobretudo à crise da dívida. I A
retomada do crescimento na América Latina depende da solução
dessa crise. Na África, nos anos 60 e 70, os mdices de cresci­
mento situaram-se em tomo de 4-4,5%, o que, aos atuais índices
de crescimento populacional, siguificaria um crescimento da ren­
da per capita ligeiramente superior a 1%.2 Nos anos 80, o cres­
cimento quase parou, e a renda per capita declinou em dois terços
dos países.
3
Para se chegar a um nível mínimo de crescimento na
África. é preciso corrigir os desequilíbrios de curto prazo e aca­
bar com velhos entraves ao processo de crescimento.
'? O crescimento precisa ser retomado nos países em desenvolvi­
mento porque é neles que estão mais diretamente inmrligados o
crescimento econômico, o alívio da pobreza e as condíçóe8 am­
bientais. Mas esses países fazem parte de uma economia mundial
interdependente, e sua.< perspectivas dependem também dos níveis
e dos padrões de crescimento das nações industrializadas. A pers­
buição só podem ter efeito havendo aumento de renda. Se­
gundo, em países em desenvolvimento de baixa renda, só os
grupos mais ricos dispõem dos excedentes que podem ser
usados 'para a redistribuição. Terceiro, as políticas de redis­
tribuição não podem ser traçadas de modo tão preciso que
só beneficiem os que estão abaixo do nível de pobreza. As­
sim, OS que estão um pouco acima também receberão alguns
beneficios.
• Para que o índice de pobreza caia de 50 para 10%, o tem­
po necessãrio será: .
• de 18 a 24 anos se a renda per capíta crescer 3% ao ano;
• de 26 a 36 anos se crescer 2% ao ano;
• de SI a 70 anos se crescer apenas 1%.
Em todos os casos, o prazo mais curto supõe a redístri­
buição de 25% da renda incrementai da quinta parte mais ri­
ca da população, e o mais longo supõe que não haja redis­
tribuição.
Assim, se a renda nacional per capita crescer apenas 1%
ao ano, só quando o próximo século estiver bem adiantado é
que será possfvel eliminar a pobreza absoluta. Mas se qui­
sermos ter certeza de que já no início do próximo século o
mundo estarã a caminho do desenvolvimento sustentável,
então é preciso lutar por um crescimento mínimo de 3% da
renda nacional per capita e adotar políticas fIrmes de redis­
tribuição.
pectiva de crescimento a médio prazo dos países industrializados
é de 3-4%, o mínimo considerado necessário pelas instituições fi­
nanceiras .internacionais para que esses países participem da ex­
pansão da economia mundial. Tais índices de crescimento podem
ser sustentáveis do ponto de vista ambiental se as nações indus­
trializadas continuarem a orientar seu crescimento para atividades
que conswnam menos energia e matérias-primas, e a usar de Ifl()-­
do cada vez mais eficiente estas últimas.
Mas à medída que as nações industrializadas usam menos ma­
térias-primas e menos energia, se tomam men:ados menores para
os produtos primários e os minerais dos países em desenvolvi­
mento. Se estes concentrarem seus esforços em eliminar a pobreza
e satisfazer às necessidades humanas básicas, haverá um aumento
da demanda interna de produtos agrfcolas e de manufaturados,
e também de alguns serviços. Portanto, na própria lógica do de­
senvolvimento sustentável está implícito um estímulo interno ao
crescimento do Terceiro Mundo.
54 55
Em inúmeros países em desenvolvimento. porém. os mercados
são muito pequenos; e todos estes países precisarão de um grande
crescimento das exportaçôes
J
sobretudo de itens
para financiar as importações. cuja demanda virá com o cresci­
mento rápido. como veremos no capítulo 3.
2.3.2 Mudando a quaUdade do crescimento
o desenvolvimento sustentável é mais que crescimento. Ele exige
uma mudança no teor do crescimento, a fIDl de tomá-lo menos
intensivo de matérias-primas e energia, e mais eqüitativo em seu
impacto. Tais mudanças precisam ocorrer em todos os países, co­
mo parte de um pacote de medidas para manter a reserva de capi­
tal ecológico, melhorar a distribuição de renda e reduzir o grau de
vulnerabilidade às crises econômicas.
O processo de desenvolvimento econômico deve basear-se
mais finnemente na realidade da reserva de capital que o mantém,
coisa que raramente ocorre.:, seja nos países desenvolvidos, seja
naqueles em desenvolvimento. A renda derivada de operaçôes
florestais, por exemplo, é convencionalmente medida em termos
do valor da madeira e de outros produtos extraídos, deduzidos os
custos da extração. Não se levam em conta os custos de regenerar
a floresta, a não ser que realmente se gaste dinheiro com isso. As­
sim, os lucros advindos das operações com madeira quase nunca
levam plenamente em conta as futuras perdas de renda decorren­
tes da deterioração da floresta. Também no caso da exploração de
outros recursos naturais - sobretudo os que não são capitaiizados
em contas nacionais ou de empresas, como art água e solo - veri·
fica-se O mesmo tipo de contabilidade incompleta. Em todos os
países, ricos ou pobres, o desenvolvimento econômico tem de le­
var também em conta a melhoria ou a deterioração da reserva de
recursos naturais em sua mensumção do crescimento.
A distribuição de renda é um dos aspectos da qualidade do
crescimento, como foi dito anteriormente, e o crescimento rápido
aliado à má distribuição de renda pode ser pior do que um cres-'
cimento mais lento aliado a uma redistribuição que favoreça os
pobres. Em muitos países em desenvolvimento, por exemplo, a
introdução da agricultura comeI'Cial em grande escala pode gerar
receita com rapidez, mas também pode desalojar muitos pequenos
agricultores e tomar mais injusta a distribuição de renda. A longo
prazo, pode não ser uma estratégia viável, pois empobrece muita
gente e aumenta a pressão sobre a base de recursos naturais me­
diante a supercomen:ialização da agricultura e a marginalização
dos agricultores de subsistência. Dar preferência ao .cultivo em
•Talvez pela pt'imeira vez na história, as pessOas thn l'IOÇão de
sua pobreza relativa e (CIJ'1fMm vontade de sair dela e melhorar
sua qualúkuie de vida. A medida que progridem maeerialmellle, e
comem e vivem melhor, o que aIIleS era um luxo passa a ser visto
como uma necessúkuie. O resultado é que a demanda de ali­
mento, malérú:ls-prÚJlClS e energla aumenta em grau ainda maior
que a população. A medida que a demanda aumR!nta, exige-se
cada vez mais da área finita do mundo, a fim de que produza
aquila de que se necessita. "
Or. LP. Garbuchev
Academia Búlgaro de Ciencias
Audiência pública d. CMMAO, Moscou, 11 de dezembro de
pequenas propriedades pode propoI'Cionar resultados mais lentos
no princípio, mas a longo prazo pode ser mais viâvel.
Se o desenvolvimento econômico aumenta a vulnerabilidade às
crises, ele é insustentável. Uma seca pode obrigaras agricultores
a sacrific81em animais que seriam necessários para manter a pr0­
dução nos anos seguintes. Uma queda nos preços pode levar os
agricultores e outros produtores a explorarem excessivamente os
recursos naturais, a fim de manter as rendas. Mas pode-se reduzir
a vulnerabilidade usando tecnologias que diminuam os riscos de
produção. dando preferência. opções institucionais que reduzam
as flutuaçôes do mercado e acumulando reservas, sobretudo de
alimentos e divisas. O desenvolvimento que aliar crescimento
e menor vulnerabilidade será mais sustentável que o que não o
fizer.
Mas não basta ampliar a gama das variáveis econômicas a se­
rem consideradas. Para haver sustentabilidade, é preciso uma vi­
são das necessidades e do bem-estar humano que incorpora variá­
veis não-econômicas como educação e s.lide, água e ar puros, e a
proteção de belezas naturais. Também é preciso eliminar as limi­
tações de grupos menos favorecidos, muitos dos quais vivem em
áreas ecologicamente vulneráveis, como é o caso de muitos gru­
pos tribais que habitam florestas, dos nômades do deserto, de
grupos que vivem em montallbas isoladas, e das populações indí­
genas das Américas e da Austra1ásia.
Para mudar a qualidade do crescimento é necessário mudar
nosso enfoque do esforço desenvolvimentista, de modo a levar em
conta todos os seus efeitos. Por exemplo, um projeto hidrelétrico
não pode ser encarado simplesmente como um modo de produzir
mais eletricidade; seus efeitos sobre o meio ambiente e sobre o
56
57
· meÍó de vida da comunidade local devem constar de todos os ba­
lanços. Assim, abandonar o projeto de uma hidrelétrica porque
prejudicaria um sistema ecológico raro pode ser uma medida a fa­
vor do progresso e não um retrocesso no desenvolvimento.
4
Pode
ar6 ser que, em alguns casos, as considerações de sustentabilidade
levem ao abandono de atividades economicamente ·atraentes a
curto prazo,
O desenvolvimento econômico e o desenvolvimento social po­
dem e devem apoiar-se mutuamente. O dinheiro empregado em
educação e satlde pode aumentar a produtividade dos indivíduos.
O desenvolvimento econômico pode acelerar o desenvolvimento
social fornecendo oportunidades a grupos menos favorecidos ou
disseminando a educação com mais rapidez.
'). 2.3.3 Atendendo às necessidades humanas essenciais
A
A satisfação das necessidades e aspirações humanas é um objeti­
vo tão óbvio da atividade produtiva que pode parecer redundante
falar de seu papel central no conceito de desenvolvimento sus­
tentável. Muitas vezes a pobreza é tanta que as pessoas não con­
seguem satisfazer suas n"""ssidades de sobrevivência e bem-es­
tar, mesmo quando há bens e serviços disponíveis. Ao mesmo
tempo, as demandas dos que não são pobres podem ter conse­
qüências de vulto para o meio ambiente.
O principal desafio do desenvolvimento é ateoder às necessi­
dades e aspirações de uma população cada vez maior do mundo
em desenvolvimento. Destas, a principal é o sustento, ou seja, o
emprego. Entre 1985 e 2000, a força de trabalho nos pafses em
desenvolvimento aumentará em cerca de 900 milhões de pessoas,
com o que terão de ser criadas novas oportunidades de sustento
para 60 milhões de pessoas por ano.
5
E preciso que O ritmo e o
padrão do desenvolvimento econômico criem oportunídades de
trabalho sustentáveis nessa escala e num nível de produtividade
que permita às familias pobres viverem dentro dos padrões míni­
mos de consumo.
É preciso haver mais alimento não só para alimentar um ntlme­
ro maior de pessoas, mas também para combater a subnutrição.
Para que cada pessoa, no mundo em desenvolvimento, coma tanto
quanto cada pessoa no mundo industrializado, por volta do ano
2000, é preciso que haja um aumento de 5% em calorias e 5,8%
em proteínas na Africa; de 3,4 e 4%, respectivamente, na Améri­
ca Latina; e de 3,5 e 4,5% na Ásia.
6
Cereais e amidos são as
fontes básicas de calorias; as proteínas são obtidas principalmente
de produtos como leite, carne, peixe, legumes e sementes oleagi­
nosas.
S8
"No mundo .... desenvolvin..",ro, e prirrcipalmen/le 110 Terceiro
MuntIo, vemos que nosso maior problema é a fall<1. de oportuni­
dades de emprego; a mniorln dos desempregados deixo; as dreas
1'/.ITQis e migra para as cidot/es e os que ficam continuam incor­
rendo em práticas - como a queima de ccuvtio vegel<1.i - que Ie­
""'" ao desjlcrestamento. Talvez as organizações que tratam do
meio ambiente devessem·intervir e procurar meios de evitur essa
destruiçdo/' ,
Kennedy Njiro
Aluno da Escola Polilknica do Qulnia
Audiência pdblica da CMMAD, N a i r ó b ~ 23 de setembro de 1986
Atualmente precisamos nos ,concentrar nos alimentos básicos,
mas as projeçôcs mencionadas mostram também a necessidade de
se aumentar em muito o índice de disponibilidade de proteína.
Isto é especiàImente difícil na África, devido ao recente decLínio
da produção per capil<1. de alimentos e às atuais dificuldades de
crescimento. Na Ásia e na América Latina, parece mais fácil che­
gar aos índices mais altos de consumo· de calorias e proteínas.
Mas o aumento da prodnção de alimentos não deve basear-se em
políticas de produção ecologicamente inviáveis, nem comprome­
ter as perspectivas de segurança alimentar a longu prazo.
A energia é outra necessidape humana essencial que não pode
ser universalmente atendida a menos que se alterem os padrões de
consumo. O problema mais urgente diz respeito às necessidades
das fam1lias pobres do Terceiro Mundo, que dependem basica­
mente de lenha. Na virada do século, 3 milhões de pessoas pode­
rão estar vivendo em áreas onde a madeira é cortada mais depres­
sa do que pode crescer. ou onde há escassez de leLlL ..
7
As medi­
das corretivas visariam a reduzir o trabalho de conseguir madeira
mnito longe e também a preservar a base ecológica. Na maioria
dos países em desenvolvimento, as nece..ídades mínimas de
combustível vegetal para cozinhar parecem ser di "n:\em de
250kg do equivalente em carvão per capil<1. por ano Isto repre­
senta apenas uma fração do consumo familiar de eneigia nos paí­
ses industrializados.
As n"""ssidades interligadas de habitação, abastecimento de
água, saneamento e serviços médicos também são importantes no
que se refere ao meio ambiente. As deficiências nessas áreas são
muitas vezes manifestações evidentes de desgaste ambiental. No
Terceiro Mundo, o fato de não se ter conseguido atender a essas
necessidades básicas é uma das principais causas de várias doen­
.59
ça.. transmissíveis como malária, infe<:ções gastrointestinais, cóle­
ra e tifo. O crescimento populacional e a migração para as cida­
des ameaçam agravar esses probíemas. Os planejadores precisam
valorizar mais o espírito de iniciativa das comunidades e o uso de
tecnologias baratas.
2.3.4 Mantendo um ní.... 1 populadnnal sUstentável
A sustentabilidade do desenvolvimento está diretamente ligada à
dinâmica do crescimel)to populacional. Mas a questão não é sim­
plesmente o tamanho da população do mundo. Uma criança nas­
cida norn país onde os níveis de uso de matérias-primas e energia
..-;)
são elevados representa um ônus maior para o,. recursos da Terra
do que uma criança num país m;ús pobre. O mesmo argumento
~ .
vale intema.tne'pte paraca<,la 1 ! ! ! . ~ É mais fácil buscar o desenvol­
" Vimento sustenilií-el quando o tamanho da população se estabiliza
I num nível coerente com a capacidade produtiva do ecossistema.
Nos países industrializados, o Úldice global de crescimento
populacional é inferior a 1 %; vários países já chegaram ou estão
chegando a um crescimento populacional zero. A população total
do mundo industrializado pode aumentar dos atuais 1,2 bilhão pa­
ra cerca de 1,4 bilhão em 2025.
8
A maior parte do aumento da população global ocorrerá nos
palses em desenvolvimento; neles, a população que era de 3,7
bilhóes em 1985 pode chegar á 6,8 bilhões em 2025.
9
O Terceiro
Mundo não tem a opção de migrar para terras "novas", e o tempo
de que dispõe paTa se ajmtar é muito menor que (;, que tiveram os .
países industrializados. Assim, é preciso baixar rapidamente os
índices de crescimento popolacional, sobretudo em <egiões como
a África, onde esses índices estão se elevando.
O declínio das taxas de natalidade nos países industrializados
deveu-se em grande parte ao desenvolvimento ecollÔmico e s0­
cial. Os nlveis cada vez mais altos de renda e urbanização, assim
como o novo papel das mulheres, tiveram grande importância.
Processos semelhantes estão ocorrendo agora nos países em de­
senvolvimento. Eles devem ser reconhecidos e estimulados. As
políticas populacionais devem integrar-se a outros programas de
desenvolvimento ecollÔmico e social - educação das mulheres,
atendimento médico e expansão dos meios de sustento dos p0­
bres. Mas o tempo é escasso, e os palses em desenvolvimento
também tetão de adotar medidas diretas para reduzir a fecundida­
de, a fim de não ultrapassarem de modo radical seu potencial pro­
dutivo capaz de sustentar suas populações. Na verdade, o acesso
maior aos serviços de planejamento familiar é em -si mesmo uma
forma de desenvolvimento social que dá aos casais, e principal­
mente às mulheres, o direito de autodeterminação.
O crescimento populacional nos países em desenvolvimento
continuará distribuído de rorma desigual entre as áreas urbanas e
rurais. Segundo projeções da ONU, na primeira década do próxi­
mo século, o tamanho absoluto das populações rurais na maioria
dos países em desenvolvimento começará a diminuir. Cerca de
90% do aumento, no mundo em desenvolvimento, ocorrerá nas
áreas urbanas, cuja rw,ulação deverá passar de 1,15 bilhão para
3,85 bilhões em 2025. O aumento será especialmente aóentuado
na África, e em menor grau na Ásia.
As cidades dos países em desenvolvimento estão crescendo tão
depressa que as autoridades não têm como lidar com o problema.
Faltam habiiações, água, saneamento e transporte de massa. Uma
proporção cada vez maior de habitantes das cidades vive em ha­
bitações miseráveis e cortiços, exposta muitas vezes à poluiçãO do
ar e da água, bem como a riscos naturais e industriais. A deterio­
,
ração deve piorar, pois o maior crescimento urbano se dará nas
cidades maiores. Assim, se o rilmO do crescimento populacional
diminuir, quem mais lucrará serio as cidades., que se tomarão
mais fáceis de administrar.
A própria urbanização é parte do processo de desenvolvimen­
to. A questão é controlar o processo de modo a evitar uma séria
deterioração da qualidade de vida. Por isso é preciso estimular a
criação de centros urbanos menores, a fim de reduzir as pressões
sobre as grandes cidades. Para solucionar a iminente crise urbana,
há que estimular os pobres a criarem seus próprios serviços urba­
nos e construírem suas próprias casas, e também encarar de modo
mais positivo o papel do setor informal, concedendo-lhe fundos
suficientes para o abastecimento de água, o saneamento e outros
serviços.
2.3.5 Conservando e melhorando a base de recursos
I
f
Se quisermos atender às necessidades numa base sustentável, a
base de recursos naturais da Terra tem de ser conservada e melho­
rada. Serão necessárias amplas reformas de políticas para fazer
face aos altos niveis de consumo que hoje se veri1'lCam no mundo
industrializado, aos aumentos de consorno indispensáveis ao
atendimento de padrões mínimos nos países em desenvolvimento.
e à expectativa de crescimento populacional. Mas a conservação
da natureza não deve ser vista apenas como um dos objetivos do
desenvolvimento. Ela é parte de nossa obrigação moral para com
os demais seres vivos e as futuras gerações.
61
60
A pressão sobre os recursos aumenta quando as pessoas ficam
sem alternativas. As polfticas de desenvolvimento devem dar mais
opções para que as pessoas disponham de um meio de vida sus­
rentável sobretudo no caso de famílias com poucos recursos e de
áreas onde existe desgaste ecológico. Numa região montanhosa,
por exemplo, pode-se aliar o interesse econÔmico e a ecologia
ajudando os agricultores a trocarem as safras de grãos pelas cultu­
ras arbóreas; para isso é preciso dar-lhes conselhos, equipamento
e assistência mercadológica.
o. programas para proteger as rendas de agricultores, pescado­
res e silvicultores contra as quedas de preço a curto prazo podem
diminuir sua necessidade de explorar excessivamente os recur­
sos.
A conservação dos recursos agrl'Colas é tarefa urgente porque
em muitas partes do mundo os cultivos já se estenderam às terras
marginais, e a pesca e a silvicultora foram exploradas excessiva­
mente. Tais recursos devem ser conservados e melhorados para
atender às necessidades de populações cada vez maiores. O uso
da terra oa agricultura e na silvicultura deve basear-se nwna ava­
liação científica da capacidade da terra, e o esgotamento anual do
solo arável e dos recursos pesqueiros e florestais não deve ultra­
passar o (ndice de regeneração.
As pressões que a lavoura e a pecuária exercem sobre a terra
agricultável podem ser em parte aliviadas se a produtividade au­
,mentar. Mas melhorar a produtividade de modo imprevideote e a
curto prazo pode provocar diversas formas de desgaste ecológico,
como a perda de diversidade genética dos cultivos permanentes, a
salinização e a aIcalização das terras irrigadas, a poluição por ni­
trato das águas subterrâneas e os resíduos de praguicidas nos ali­
mentos. Existem opções mais benignas do ponto de vista ecológi­
co. Os futuros aumentos de produtividade, tanto nos países em
desenvolvimento como nos desenvolvidos, deveriam basear-se
num uso mais bem controlado de água e agroqufinicos, e também
no uso mais extensivo de adubos orgânicos e praguicidas não­
qufinicos. Essas alternativas só podem ser estimuladas por wna
poUtica agrícola que se baseie nas realidades ecológicas. (Ver ca­
pftulo 5.)
No tocante à pesca e a silvicultora tropical, dependemos muito
da exploração das reservas naturais dispon!veis. É bem possível
que a produtividade sustentável dessas reservas seja insuficiente
para atender à demanda, Nesse caso, será preciso adotar métodos
que produzam mais peixe, lenha e produtos florestais sob condi­
ções controladas. Podem ser estimulados os substitutos de lenha.
Os limites extremos do desenvolvimento global talvez sejam
determinados pela disponibilidade de recursos energéticos e pela
•Traba/Jro qJm serÍllgue(ros na AmaztJnia e estou aqui para fa­
lar dafú>resta tropical.
Vi"""""" dessa floresta que querem destruir. E queremos
aproveitar esta oportunidade. quando tantas pessoas estãc aqui
reunidas com o mesmo objetivo de defender nosso habitat. de
conservar a floresta, a floresta tropical.
"
I
Na minha drea, extrafmos da floresta cerca de 14 ou 15 pro­
dutos nativos, oJém das outros atividades que exercemos. Acho
que isso deveria ser preservado. Pois não é s6 com gado. pasta­
;.
ge... e estradas que conseguiremos o desenvolvimento da Ama­
ztJnia.
Quando eles pensam em derrobar árvores. sempre pensam em
construir estradas, e as estrados. trazem a desrruiçãc sob a más- .
cara do progresso. Vamos colocar esse progresso onde as terras
já forum desmatadas, onde folta mão-de-obra. onde é preciso
achar rraba/Jro para as pessoas. e onde é preciso fazer a cidade
crescer. Mas deixemos os que querem viver nafloresta. que que­
,
,
rem manJl-ia tal como é.
Nãc trouxe nada escrito. Não trouxe nada que tenha sido pre­
parodo em algum escrit6rio. Isto não éfilosofia. É apelWSa ver­
dade. porque isso é o que nossa vida é."
I
Jaime da Silva Araújo
Assoâaçáo Nacionoi dos Seringueiros

Audiência públlcada CMMAD, Silo Paulo, 28-29 de outubro de 1985
capacidade da biosfera de absorver os subprodutos do uso de
energia) 1 Esses limites energéticos podem ser atingidos muito
mais depressa do que os limites impostos por outros recursos ma­
teriais. Primeiro, há problemas de abastecimento: o esgotamento
das reservas de petróleo, o alto custo e o impacto ambiental da
mineração de carvão, e os riscos da tecnologia nuclear. Segundo,
há problemas de emissão, especialmente a poluição ácida e o
acúmulo de dióxido de carbono, que causam o aquecimento da
Terra.
É possível resolver alguns desses problemas usando-$e mais os
recursos energéticos renováveis. Mas a exploração de fontes re­

nováveis, como lenha e energia hidrelétrica, também pode trazer
"
ecológicos. Por isso, a sustentabilidade requer urná ên­
fase maior na conservação e no uso eficiente de energia.
Os países industrializados precisam reconhecer que seu con­
sumo de energia está poluindo a biosfera e diminuindo as reservas
já escassas de combustível fóssil. Foi possível limitar um pouco o
consumo devido a melhorias recentes na eficiência energética e
63 62
ao estímulo a setores menos energ.a-mtensivos. Mas é preciso
acelerar o processo, a fim de reduzir o consumo per capita e es­
timular a busca de fontes e tecnologias não-poluentes. Não é viá­
vel, nem desejável, que o mundo em desenvolvimento simples­
mente adote os mesmos padrões de consumo de energia dos paí­
ses industrializados. Uma mudança desses padrões para melhor
requer novas políticas de desenvolvimento urbano, 10COilização de
ind11strias, planejamento habitacional e sistemas de transporte,
bem como a seleção de tecnologias agrícolas e industriais.
Os problemas de suprimento de recursos minerais não-com­
bustíveis aparentemente são menores. Segundo estudos anteriores
a 1980, que supunham uma demanda exponencialmente crescente,
o problema s6 surgiria no decorrer do próximo século.
12
Desde
então. o consumo mundial da maioria dos metais permaneceu
quase o mesmo, o que leva a crer que os minerais
veis s6 se esgotarão num prazo ainda mais longo. A história do
desenvolvimento tecnológico também sugere que a ind11stria pode
se aju.<;far à escassez se houver maior eficiência no uso, na reci..
c1agem e na substituição. Entre as necessidades mais imediatas
contam-se a modificação da estrutura do comércio mundial de mi­
nérios, para dar aos exportadores uma participação maior no valor
adicionado do uso de minerais, e a melhoria do acesso dos países
em desenvolvimento às reservas de minerais à medida que sua
demanda aumente.
A prevenção e a redução da poluição do ar e da água continu ...
rão sendo um ponto critico da conservação de recursos. A quali­
dade do ar e da água é ameaçada pelo uso de fertilizantes e pra­
guicidas, despejos urbanos, queima de combustlveis fósseis, usa
de alguns prndutos químicos e várias outras atividades industriais.
Tudo isso é capaz de aumentar substancialmente a poluição da
biosfera, sobretudo nos países em desenvolvimento. Limpar o que
já foi poluído é uma solução cara. Assim, todos os países preci­
sam prever e evitar problemas de poluição, e para tanto podem,
por exemplo, buscar padrões de emissão que levem em conta os
efeitos a longo prazo, estimular as tecnologias que deixem poucos
rejeitos e prever o impacto de novos produtos, tecnologias e re­
jeitos.
2.3.6 Reorientando a tecnolOllia e adminlslrando o risco
Para alcançar esses objetivos, será preciso reorientar a tecnologia
- o vínculo-chave entre os seres humanos e a natureza.
a capacidade de inovação tecnológica precisa ser muito ampliada
nos países em desenvolvimento, a fim de que eles possam reagir
de modo mais eficaz aos desafios do desenvolvimento sustentá­
vel. Segundo, é preciso alterar a orientação do desenvolvimento
tecnológico, de modo a conceder maior atenção aos fatores am­
bientais.
As tecnologias dos países industrializados nem sempre são
adequadas ou fáceis de adaptar às condições sócio-econômicas e
ambientais dos países em desenvolvimento. Para aumentar o pro­
blema, a maior parte da pesquisa e do desenvolvimento no mundo
dá pouca atenção às questões prementes que esses países enfren­
tam, COmo a agricultura em terras áridas e O controle de doenças
tropicais. Não se está fazendo tudo o que é necessário para adap­
tar às necessidades dos países em desenvolvimento as recentes
inovações nos campos de tecnologia de materiais, conservação de
energia, informação tecnológica e biotecnologia. Tais lacunas
precisam ser preenchidas por maior incentivo à pesquisa, ao pla­
nejamento, ao desenvolvimento e à especialização no Terceiro
Mundo.
Em todos os países, as preocupações com os recursos ambien­
tais deveriam nortear os processos de invenção de tecnologias al­
ternativas, de aperfeiçoamento das tradicionais, e de escolha e
adaptação de tecnologias importadas. A maior parte da pesquisa

tecnológica feita por organizações comerciais dedica-se a criar e
processar inovações que tenham valor de mercado. O que é ne­
cessário são tecnologias que produzam "bens sociais", COmo
melhor qualidade do ar ou produtos mais durãveis, ou então que
solucionem problemas que geralmente não entram nos cálculos
das empresas, como os custos externos da poluição ou da destina­
ção dos resíduos.
Cabe às políticas públicas garantir, mediante incentivos e de­
sincentivos, que as organizações comerciais se empenhem em
considerar mais plenamente os fatores ambientais presentes nas
tecnologias por elas desenvolvidas. (Ver capítulo 8.) As institui­
ções de pesquisa mantidas com verbas públicas também precisam
receber tal orientação, e os objetivos do desenvolvimento susten­
tável e da proteção ambiental deveriam constar das atribuições

das institoições que atuam em áreas ecologicamente sensíveis.
A criação de tecnologias mais adequadas ao meio ambiente
está diretamente ligada a questões de administração de riscos.
Sistemas como reatores nucleares, redes de distribuição de eletri­
cidade e outros serviços, sistemas de comunicação e de transporte
de massa tomam-se vulneráveis caso se desgastem além de deter­
minada medida. Por estarem ligados em redes, ficam imunes a pe­
quenos probleinas, porém mais vulneráveis a distúrbios inespera­
dos que ultrapassem determinado limite. Se se analisarem cuida­
dosamente as vulnerabilidades da implementação de tecnologias e
as deficiências que já apresentaram, e se se adotarem padrões de
64 65
"Os povos indfgellM sdo a base do que. em minha opinião. pode
ser chamatio de o sistema de seguronça do meio ambiente. So­
.mos Ntsponsáveis pelo SUCltSSO ou fracasso em poupar nossos re­
cursos. Para muitos de nós. contudo. houve nos tHtimDs sécules
uma substancial perda de controle sobre nossas terras e 4guas.
Ainda somos os primeiros a tomar conhecimento das niuáanças
do mele ambiente, mas agora somos os tHtimos a seNtm ouvidos
ou consultadoS.
Somos os primeiros a perceber quanda as florestas esttib sen­
do ameaçadas, já que a economia deste pa(s faz delas o que bem
entende. E somos os últimos a opinar sobre o jUluro de nossas
florestas. Somos os primeiros a sentir a pahdçtib de nossas
águas, Como podem atestar os povos Ojibway das terras em que
lUlSCi, no norte de Ontárle. E. evidentemente. somos os tHlinros a
serem consultados sobre como. quando e onde deveriam ser t0­
madas medidas para assegurar a harmonk> para a sétima gera­
çtib.
O máximo que apNtndemos a esperur I ser compensados.
SI!mpTl'! multo tarde e com muito pouco. Raramente somos cha­
mados a contribuir com nossa éXperilncle e nosso consentimento
para o desenvolvimento no .rentIdo de evitar a necessidtJde de
sermos compensados. ~ . -
Louis Bruyere
Presidel1le do Conselho Nativo do Canadá
Audiência pública da CMMAD. Ottawa, 26-27 de maio de 1986
atividade manufatureira e planos de contingi!ncia para as opera­
ções. as conseqüências de uma falha ou de um acidente podem ser
menos catastróficas.
Não tem sido aplicada coerentemente às tecnologias oU siste­
mas a melhor análise de vulnerabilidade ou de risco. Um dos
principais objetivos da ampla concepção de sistemas seria tomar
menos graves as conseqüências de falhas ou sabotagem. Portanto.
são necessárias novas técnicas e tecnologias - e também novos
mecanismos legais e institucionais - para planejar a segurança.
prevenir acidentes, traçar planos de contingi!ncia, diminuir os da­
nos e dar o auxílio necessário.
Os riscos ambientais resultantes de decisões tecnológicas e de­
senvolvimentistas recaem sobre os indivíduos e as áreas que têm.
pouca ou nenhuma influência sobre estas decisões. Há pois que
levar em conta seus interesses. São necessários mecanismos ins­
titucionais de âmbito nacional e internacional para avaliar os im­
pactos potenciais de novas tecnologia. •• antes que elas se tomem
"A meu ver. as questtJes aqui apTl'!senkldas stib muito amplas e
voeis podem ter ou _ ter Ntspostdr para elas. Mas o ftzJo de
ouvirem tudo O quefoi aqui expostopode ao menos dor-lhes uma
noçdotiasprobkmas.
Voeis podem _ ter as N!SJ'OSklS nem as soluçiJes. mas po­
dem sugerir meiDs de resolver esses problemas fazendo sugesttJes
aos lJUIIernDS. li ONU ou aos dT'[lÕOlf internacional4 quonro d
meDror maneira de Ntsolvl-Ics. ou seja. ouvindo as pessoas que
estão diretamente envolvidas. Deveriam ser ouvidos todos os que
se beneficiam e tombIm· todos os que stib vl'limos de qualquer
questão ligada ao desenvolvimento.
Acha que a lÓriCa coisa que aqui estamos ouvindo ou e.rpe:I'Qn­
do é talvez a seguinte: que em tudo O que diga respeito ao desen­
volvimenk> sejam ouvidas e consuJtodas as pessoas envolvidas.
Se isso for feito. estará dodo ao menos o primeiro passo para a
sal:uçfto do problema."
. Ismid Hadad
Redator-chejit tIe Prisma
AudieDcia ptiblica da CMMAD,lacarta. 26 de lIlI1I'ÇO de 1985
amplamente difundidas, de modo a garantir que sua produção, seu
uso e seus resíduos não desgastem excessivamente osrecursos do
meio ambiente. Tais disposiç&s são !leC!'ssárias sempre que luYa
intervenções de monta nos sistemas nalUtaÍ$, como desvio de cur­
sos'de rios ou demlbada de florestas. Além disso, é preciso refor­
çar as compensações pelos danós involuntários.
1.3.7 Indulndo O melo ambiente e a ec:onomIa
no processo de dN-Idn
f
·
o tema comum a essa estratégia do desenvolvimento sustentável é
a necessidade de incluir eonsiderações econômicas e ecológicas
"
no proCesso de tomada de decisões. Afinal, econoDÚa e ecologia
eSIi!;Untegradas n"!1d!ti
vi
dade
s
dlL1l1lU!º"~ l \ l I I ! J Para tanto será
preciso mudar antndes e objetivos e chegar a novas disposições
institucionais em todos os níveis.
As preocupações econômicas e as ecológicas não se opõem
't<\ necessariamente. As políticas que conservam a qualidade das ter­
1'1\ ras agricultáveis e protegem as florestas melhoram as perspectivas
\j a longo prazo de desenvolvimento agrícola. Maior eflciência no
):I uso de matéria&-primas e energia pode servir a objetivos ecológi-
I I ous, mas também pode reduzir os custos. Muitas vezes, porém, a
66 67
compatibilidade entre os objetivos ambientais e econômicos fica
perdida quando se busca o ganho individual ou de algum grupo,
sem dar grande importância ao impacto que isto pode causar aos
outros, acreditando-se cegamente que a ciência encontrará solu­
ções e ignorando-se as conseqüências que poderão h'lr num futuro
"NãO foi muito difícil jUlltar o lobby ambienlal do Norte e
o lobby desenvolvimenJista do Sul. E agora, de fato. a distinçãO
entre ambos já não é tão clam, e eles estão chegando a um con­
senso sobre o tema do desenvolvfmenlo SIISl<!ratfvel.
distante as decisões tomadas hoje. A inflexibilidade das institui­
'i
ções agrava essa situação.
Uma séria inflexibilidade é a tendência a lidar isoladamenh'l
com cada selar ou indíistria, sem reconhecer'a importância dos
vínculos inh'lrsetoriais. A agricuitura modema utiliza grandes
quantidades de energia produzida comercialmente e também de
produtos industriais. Ao mesmo tempo, O vinculo mais tradicional
- o fato de a agricultura ser fonte de matérias-primas para a in­
díistria - está se desfazendo devido ao uso cada vez mais disSe­
minado de produtos sintéticos. A ligação entre energia e indústria
também está se alterando, pois há uma forte tendência a um uso'
menos intensivo de energia na produção industrial dos países in­
dustrializados. No Terceiro Mundo, contudo, a transferência
gradual da base industrial para os setores produtores de materiais
básicos está levando a um uso mais intensivo de energia na pr0­
dução industrial.
EsSas ligações inh'lrsetoriais criam contextos de interdependên­
cia econômica e ecológica que raramenh'l se refletem no modo
como as políticas silo elaboradas. As organizações setoriais ten­
dem a buscar objetivos setoriais e a considerar seus efeitos sobre
outros setores corno efeitos colah'lrais. só os levando em conta se
a isso forem obrigadas. Por isso os impactos sobre as florestas ra­
ramente preocupam os responsáveis pelos rumos das polfticas pó­
blicas ou das atividades comerciais nas áreas de energia, desen­
volvimento industrial, agronomia e comércio exterior. Muitos dos
problemas de meio ambiente e de desenvolvimento COm que nos
defrontamos originam-se dessa fragmentação setorial de 'respon­
sabilidades. Para haver desenvolvimento sush'lntável, é preciso
que tal fragmentação seja superada.
A sustentabilidade requer responsabilidades mais amplas para
\41
os impactos das decisões. Para tanto silo necessárias mudanças
nas estruturas legais e institucionais que reforeem o interesse c0­
mum. Algumas dessas mudanças partem da idéia de que um meio
ambiente adequado à sadde e ao bem-estar é essencial para todos
os seres humanos - inclusive as futuras gerações. Essa perspec­
tiva coloca o direito de usar os recursos públicos e privados em
seu contexto social apropriado e dá margem a medidas mais espe­
cíficas.
A lei, por si só, não pode impor o interesse comum. Esh'l re­
quer principalmente a conscientízação e o apoio da comunidade,
Já temos os tijolos para a cOllStrUÇãO. A preocupaçãO com O
meio ambierae é comum a ambas as partes. A preocupaçãO hu­
manitdrio é comum a ambas as panes. A diferença está 7IOS mé­
todos empregados e no- maior ou menor empenho com que cada
uma delas busca satisfazer seu iraeresse econtJmico medionte o
proc.esso de assist(Jncio ao deselWolvimerao.
É tempo de preencher essa locuna. por motivos pollticos bar­
tanle pragmáticos. Em primeiro lugar, as pessoas do Norte não
querem ver seus impostos d e s p e ~ s . Segundo. não querem
ver aumentar a pobnna e obviamente se preocupam com o meio
ambierae. seja o ,do Norte, onde vivem, ou o do Sul. E a maiori4
dos pessoas do Sul não quer soluções de curto prazo, que logo
ficam superadas.
Na verdade, existe 710 conceito de desenvolvimerao susteratfvel
uma C01I'IUIlhão poltlica de iraeresses entre o Norte e o Sul que
pede servir como porao de partido."
Richard Sandbrook
Instituto Intemacional para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento
Audiéncia pública da CMMAD, Oslo, 24-25 de junho de 1985
o que implica maior participação pública nas decisões que afetam •
o meio ambiente. O melhor modo de se conseguir isso é descen­
tralizar a administração dos recursos de que dependem as comu­
nidades locais, dando-lbes voz ativa no tocante ao uso desses re- '
cursos. Também é preciso estimular as iniciativas dos cidadãos,
dar mais poderes às organizações populares e fortalecer a demo­
cracia local.
I3
Alguns projetos de grande escala, contudo, demandam partici­
pação numa base diferente. Pesquisas e audiências póblicas sobre
os impactos do desenvolvimento e do meio ambiente podem con­
tribuir em muito para chamar a ah'lnção para pontos de vista di­
versos. O livre acessO a informações importantes e a disponibili­
dade de fontes alternativas de know-how técnico podem constituir
uma boa base para a discussão póblica. Quando um projeto pro­
posto tem grande impacto sobre o meio ambiente, o caso deve ser
obrigatoriamenh'l submetido ao escrutínio pl1blico e, sempre que
possível, a decisáo deveria ser submetida li aprovação póblica,
talvez por meio de refenlIldo.
69
Também é preciso haver mudanças nas atitudes e nos procedi­
mentos das empresas tanto púbücas quanto privadas. Além disso,
a regulamentação referente ao meio ambiente tem de ir além, das
costumeiras regulamentações de segurança, leis de zoneamen1D e
de controle da poluição; os objetivos ligados ao meio ambiente
devem estar embutidos na tributação, na aprovação prévia de in­
vestimentos e escolha de tecnologias, nos incentivos ao comércio
exterior, enfun, em rodos os componentes das poIIticas de desen­
volvimento.
tl necessário bannonizar em nível intemllCÍonal a integração de
fa"'res econ6micos e ecol6gicos nos sis!erria$ legal e decisório
dos países. O aumen'" do consumo de combustível e matérias­
primas toma mais estreitos os vínculos físicos entre os ecossiste­
mas de diferentes países. Também aumentam as interações econô­
micas mediante o comércio, o fioanciamen"', o investimen'" e o
intercâmbio, intensificando assim a interdependência econômica e
ecológica. No futuro, talvez mais que agora, o desenvolvimenro
sustentável vai eldgir a unifICação da economia e da ecologia nas
relações internacionais, como veremos no próximo capítulo.
~ 2.4 CONCLUSÃO
Em seu sentido mais amplo. a estratégia do desenvolvirnen", sus­
tentável visa a promover a harmonia entre os seres hwnanos e
entre a humanidade e a natureza. No contexto específICO das cri­
ses do desenvolvimen'" e do meio ambiente surgidas nos anos 80
- que áS amais institoições poIfticas e econômicas nacionais e in­
temacionais ainda não conseguiram e talvez não consigam supe­
rar - a busca do desenvolvimen'" sustentável requer:
• um sistema político que assegure a efetiva participação dos ci­
dadãos no processo decisório;
• um sistema econÔmico capaz de gerar excedentes e know­
how técnico em bases confiáveis e constantes; •
• um sistema social que possa resolver as tensões causadas por
um desenvolvimento nlío-equilibrado;
• um sistema de produção que respeite a obrigação de preservar a
base ecol6gica do desenvolvimen"';
• um sistema tecnol6gico que busque constantemente novas solu­
ções;
• um sistema internacional que estimule psdrões sustentáveis de
comércio e financiamento;
• um sistema administrativo flexível e capaz de auK>corrigir-se.
Estes requisitos têm antes o caráter de objetivos que devem
iospirar a ação nacional e internacional para o desenvolvimen"'.
O importante é que esses objetivos sejam buscados com sinceri­
dade e que os eventuais desvios sejam corrigidos com eficiência.
Notas
I UNCTAD. Handbook 01 inlernational trade and developme1l1 _sties
1985 supplement. New Yorl<, 1985.
2Ibíd.
3 Department of Inlernational Economic and Social Afíairs (Diesa).Dou­
b1ing development jinance; meetiog a globsl chaUenge, views and r_­
mendations of the Committee for Development PIsnning. New Yorl<,
UIÚte<! Nations, 1986.
4 Um exemplo de urna decisão como essa de absndonar um projeto de de­
senvolvimento no interesse da conservação ambientai é a ÍIIterrupção do
Projeto Hídrico do Vale do Silêncio, na lndía.
5 B......:Io em dados de: Banco Mundial Re/aulrÚi sobre o desenvolvi­
mento mourdial 1984. Rio de Janeiro, Fundação Gelulio Vargas, 1984.
6 B......:Io em dados do CQnswno per capita extra/dos da FAO (Production
Yearbook 1984. Rome, 1985) e em projeções demográficas do Di.s.
(World popula.tion prospects estimates and projections as assessed in /984.
,l
New York, UIÚte<! Nations, 1986.)
7 FAO. Fuelwood supplles in tIuI developing countries. Rome, 1983. (1'0­
restry Paper n. 42.)
8 Diesa. Wor/d popu/aliQn prospects••• cit.
9Ibid.
10Ibid.
11 lUCele, W. &; Sassin, W. Resour.es and endowmenls, ao outline of fu­
ture energy systems. In: Hemily, P.W. & Ozdas, M.N., ed. Sc/ence and
future clwlce. Oxford, Clarendon Press, 1979.
12 Ver, por exemplo: 0IlCD.1merfulUres; f!ICing the future. Paris, 1979;
CoWlcil on Ilnruoomental Quality and US Department of State. ihe Glo­
/)aI 2()()() report to lhe presidenr, entering lhe twenty-fust century, tIle te­
clmk:al report. Washington, D.C" US Government Printing Office, 1980.
v.2.
13 Ver: Por mUllÍl;;ipal initiotive and citizen power. In: Inderena. La cam­
palia verde y los con.cejos verdes. BogotA, Colombls, 1985.
,
70
3. O PAPEL DA ECONOMIA INTERNACIONAL
Ao longo dos tempos. os povos foram além de suas pnSprias
fronteiras para conseguir matérias-primas essenciais. exóticas ou
valiosas. Hoje. devido à maior segurança das comunlc8ÇÕes e à
expansão do comércio e dos movimentos de capital, esse processo
se amplion muito, acelerou seu ritmo e passou a ter vastas impli­
cações ecológicas. Por isso a busca da sustentabilidade requer
grandes mudanças nas relações econômicas internacionais.
3.1 ECONOMIA INTERNACIONAL, MEIO AMBIENTE
E DESENVOLVIMENTO
Para que os intercimbios econômicos internacionais beneficiem a
todas as partes envolvidas, é preciso que antes sejam atendidas
duas condições: a manutenção dos ecossistemas dos quais depen­
de a economia global deve ser garantida e os parceiros econÔmi­
cos têm de estar convencidos de que o intercâmbio se processa
numa base justa. RelaÇões desiguais e baseadas em qualquer tipo
de dominação não constituem uma base sólida e duradoura para a
interdependência. No caso de muitos países em desenvolvimento
nenhuma dessas condições é atendida.
Os vínculos econômicos e ecológicos entre as nações aumenta­
ram depressa, o que torna maior o impacto das crescentes desi­
gua1dades verificadas no desenvolvimento e no poder econÔmico
das nações. A assimetria das relações econômicas internacionais
agrava o desequilíbrio. pois as nações em desenvolvimento .ge­
ralmente sofrem a influência das condições econômicas interna­
cionais, mas não têm influência sobre elas.
As relações econômicas internacionais representam wn pr0.­
blema particular para os países pobres que tentam adminlstrar seu
meio ambiente, porque a exportação de recursos naturais continua
sendo fator de peso em suas economias, sobretudo no caso dos
menos desenvolvidos. A instabilidade e as tendências de preços
adversos enfrentadas pela maioria dessas nações impossibilitam­
lhes administrar suas bases de recursos naturnls com vistas a uma
produção constante. O ônus cada vez maior do serviço da dívida
e a diminuição de novos fluxos de capital intensificam as forças
Box 3.1 Algodão produzidó para exportação no Sabel
Em 1983184, quando grsssavam a seca e a fome na região
africana do Sabel, cinco nações sabelianas - Burkina Fasso,
Chade, MaU, Níger e Senegal - produziram quantidade re­
corde de algodão, Colheram 154 milhões de toneladas de fi­
bra de algodão, ou seja, 22,7 milhões de toneladas 11 mais
que em 1961/62. O Sabel como um todo conseguiu wn ou­
tro recorde em 1984: importou I,n milhão de toneladas de
cereais, 200 mil toneladas a mais que as importadas anual·
mente no início dos anos 60. Duranle o período em que as
colheitas de algodão no Sabel cresciam constantemente, os
preços mundiais do algodão também caíam constantemente
em termos reais. Estas cifras não sugerem que as nações sa­
helianas devessem arrancar tndo o algodão para plantar sor­
go e painço. Mas como os agricultores que podem cultivar
algodão não podem cultivar alimento suficiente para seu
próprio .uslento, é de crer que se esteja dando demasiada
atenção aos cultivos comerciais, e muito pouca aos cultivos
alimentares.
Fonte: Oiri, J. Relr<>spective de fécorwmie .ahelienne. Paris. Club du
Sabe!, 1984,
que levam à deteriomção do meio ambiente e ao esgotamento dos
recursos, em prejulzo do desenvolvimento a longo prazo,
O comércio internacional de madeiras tropicais, por exemplo, é
uni dos· fatores do desflorestamento dos trópicos. A necessidade
de obter dIvisas faz com que muitos países em desenvolvimento
cortem madeira a wn ritmo mais acelerado que o da regeneração
das florestas. A derrubada excessiva, além de esgotar os recursos
que sustentam o comércio mWldial de madeira, toma inviável a
vida dos que dependem das florestas, aumenta a erosiio do solo e
as inundações no curso inferior dos rios, e acelera a extinção de
espécies e de recursos genéticos. O modo como se processa o
oomércio internacional pode também estimular políticas e práticas
desenvolvimentistas inviáveis, como as que vêm deteriorando ca­
da vez mais as !"IraS de cultivo e as pastagens naturais nas Te­
gi6es áridas da Asia e da África. É o que 'ocorre, por exemplo, na
região do Sabel, devido ao crescimento da produção algodoeira
para exportação. (Ver box 3.1.)
. Muitos países em desenvolvimento precisam, para crescer, de
influxos externos de capital. Se os fluxos não forem razoáveis,
nIo há qlI8Iquer perspectiva de melhoria do padrão de vida. Em
72
73
Tabela 3.1
Transferência líquida de recursos para países em desenvolvimento
importadores de capital (US$ bilhões).
Fluxo de capital 1979 1980 1981 1982 1983 1984 1985
Transferência
I.!quida por
empréstimos
(todos os PIC)! 30,7 30,6 27,7 0,8 -8,6 -22,0 -41,0
Transferência
lfquida por
todos os fluxos
de recursos
(IOdos OS PIC)2 41,4 39,3 41,5 10,4 -0,3 -12,5 -31,0
Transfer&lcia
I.!quida por
todos os fluxos
de recursos par.!
a América Latina 15,6 11,9 11,4 -16,7 -25,9 -23,2 -30,0
Fonte: Uniled Nations. Worldeconomic survey 1986. New Yori<, 1986
1 As transferências lfquidas por empréstimos são os fluxos de capital I.!qui­
do menos os juros llquidos pagos. Todos os empréstimos, oficiais e priva­
dos, a curto e longo prazos, estão inciuldos junto com o crédito do PML
2 O total de fluxos de recursos IIquidos está ligado às traDsfer&lcias por
empréstimos I.!quidos, doat;<les e in,,",stimento dineto llquido (menos a ren­
da do investimento direto llquido).
conseqüência, os pobres serão forçados a danificar seu meio am­
biente para poderem sobreviver. Assim, fica muito diffcil, e às
vezes alé impossível, o desenvolvimento a longo prazo. Mas as
tendências do movimento de capital são de molde a causar preo­
cupações. Os fluxos líquidos de recursos para os países em de­
senvolvimento diminuíram em tenuos reais: globalmente, há ago­
m, de fato, uma evasão. (Ver tabela 3.1.) Nos próximos anos
desta década, o aUlllénto espemdo dos influxos de capital interna­
cional para oS países em desenvolvimento será apenas metade da­
quele necessário para recupemr o crescimento em níveis que per­
mitam reduzir a pobreza. 1
Mas o lIléto fato de aumentar os fluxos de capital para os paí­
ses em desenvolvimento não contribuirá necessariamente para o
desenvolvimento. Os esforços internos são de suma importáncia.

:.
",
é preciso haver mais ímanciamento externo, mas sem
deixar de levar em conta osimpacros 90bre o meio ambiente. é
preciso ressaltar que a JÍrÓpria redução da pobreza é requisito pa­
m um desenvolvimento ecologicamente viável. E fluxos de recur­
sos de ricos para pobres - fluxos melhores IlInto em qualidade
quanto em quantidade - são um requisito para a erradicação da
pobreza.
3.2 O DECLOOO NOS ANOS 80
As pressões da pobreza e do aumento populacional dificultam
imensamente a ad"",lio de políticas ecologicamente viáveis nos
países em desenvolvimento, mesmo na. circunstâncias mais favu­
ráveis. E quando as condições econômicas internacionais são
ruins, pode tomar-se impossível lidar com os problemas. Nos
anos 80, as taxas de crescimento econômico declinaram acentua­
damente ou mesmo fomm negativas em grande parte do Terceiro
Mundo, sobretudo na África e na América Latina. Entre 1981 e
1985, o crescimento populacional foi maior que o crescimento
econômico na maioria dos países em desenvolvimento.
2
A deterioração das relações de troca, as obrigações cada vez
maiores do serviço da dívida e o prol!l!Cionismo crescente nas
eco"omias de me",ado desenvolvidas causaram sérios problemas
de pagamentos ao exterior. O custo mais alto dos empréstimos
numa época em que as exportações estavam em baixa,
, também contribuiu para a crise da dívida em muitos países em de­
senvolvimento. Após esta crise, tornaram-se especialmente onero­
.90S os programas de austeridade traçados pelo Fuodo Monetário
Internacional (PMI) como requisito para aumentar o crédito desti­
nado a atender às necessidades a curto prazo do balanço de pa­
gamentos. O crescimento foi interrompido e muitos objetivos s0­
ciais foram abandonados. inclusive os que diziam respeito a em­
prego, sadde, educação, lIléio ambiente e assentamentos humanos.
Isso foi uma mndança mdical em relação aos anos 60 e 70.
Bntáo, o rápido crescimento econômico era visto como ameaça
ecolÓgica; agora. essa ameaça reside na recessão, na austeridade e
na queda do padrão de vida. O decUnio ocorrido nos anos 80
agmvou as pressões sobre o meio ambiente de vários modos:
• As medidas de austeridade e as condições recessivas gerais
acarretaram um acentuado decUuio das rendas per caplta e au­
mentaram o desemprego. Isto leva um ndmeto maior de pessoas a
retomar à agricultura de subsistência, a qual exige muito da base
de recursos narurais, provocando seu desgaste.
• O. progratnal! de austeridade incluem necessariamente cortes
7S
.,.'
governamentais tanto de pessoal como de gastos em agências de
meio ambiente ainda incipientes e vulneráveis, prejudicando as­
sim os esforços ainda mínimos no sentido de incluir considera­
ções de ordem ecológica no planejamento do desenvolvimento,
• A conservação do meio sempre é relegada a segundo plano em
épocas de ten$ã,o econômica. Como as condições econômicas piO'­
raram nos países em desenvolvimento e as pressões da dívida au­
mentaram, os planejadores passaram a ignorar o planejamento e a
conservação ambientais em projetos de desenvolvimento tanto in­
dustrial quanto rural.
A situação crítica da África subsaariana e o endividamento dos
países latino-americanos refletem de modo agudo os impactos
prejudiciais que uma situação econômica internacional inalterada
exerce sobre o desenvolvimento e o meio ambiente.
3.%.10 continente aAicano
A África como. um todo enttou numa série de espirais deScen­
dentes:
• a pobreza e fome levam ao desgaste do meio ambiente, à dete­
rioração da agricultura e, conseqlientemente, a mais pobreza e
mais fome;
• queda da poupança e falta de novos investimentos, devido à
crescente pobreza;
• altas taxas de mortalidade infantil e pobreza, e baixo índice de
escolarização;
• altas taxas de crescimento populacional;
• migração para as cidades das que passam fome nas áreas rurais,
acanetando níveis explosivos de crescimento urbano e m i ~ a e
agravando os problemas de abastecimento de vÍveres.
Mas nem sempre a situação é tão desalentadora. Algumas na­
ções lidaram bem com os problemas e nos últimos anos tiveram
início algumas refonnas corajosas e abrangentes que já começam
a dar ftutos. Também é alentador o que ocorreu na Ásia meridio­
nal, onde, após uma crise verificada há 20 anos, a produção de
alimentos entrou numa espiral ascendente, a poupança e os inves­
timentos aumentaram, a pobreza (embora ainda séria) diminuiu, as
taxas de crescimento populacional baixaram e se passou a dar
mais atenção às questões de longo prazo referentes à administra­
ção do meio ambiente e a tecnologias adequadas.
Entre as várias causas da crise africana, sobressaem as que de­
rivam da economia internacional. O bem-estar econômico da
África subsa.ariana depende ainda mais do comportamento da
economia mundial do que o bem-<:star econômico da Ásia de bai­
lta renda. Na última década, muitos países subsa.arianos foram
USabemos que o mundo atravessa uma crise financeira interna­
cional. que aumenta a miséria e a pobreza no Terceiro Murtdo,' e
sacrificamos ainda mais nru-.ro "",io ambiente, embora saibamos
que a situação pode ser mudado. se empregarmos corretamente
as novas tecnologias e con1tecfmentos. Mas para isso temos de
enconlrar uma nova ética que incluo. antes de tudo a relação en·
tre o hcmem e a natureza. n
j
I Sérgio Dialelllchi
Depoimento de um parlicíponte
~
Audiência púbtica da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985
!
afetados por tendências negativas nas relações de troca dos pro­
dutos primários e por choques externos como a alta dos preços de
petróleo, a flutuação das taxas cambiais e o aumento das taxas de
juros. Nos últimos 10 anos, os preços dos principais produtos
primários, como cobre, minério de ferro, açúcar, amendoim, bor­
racha, madeira e algodão, caíram bastante. Em 1985, as relações
de comércio dos países subsa.arianos (com exceção dos exporta­
dores de petróleo) estava 10% abaixo dos níveis de I91Ó. Nos
países habilitados a receber fundos da Associação Internacional
de Desenvolvimento (AID), a queda média foi bem superior a
20%. tendo sido ainda mais acentuada em alguns deles, como
Etiópia, Libéria, Serra Leoa, Zaire e Zâmbia.3
O problema foi agravado pela dificuldade cada vez maior de
atrair capítal dos pâíses industrializados para o desenvolvimento.
Ao mesmo tempo, as amortizações da divida e as despesas com
juros awnentaram. Na África subsaariana em geral, o.serViço da
divida, que representava 15% das receitas de exportação em
1980, passou para 31% em 1986.
4
Tudo isso fez com que as
transfesências de recursos liquidas para a região caíssem de uma
estimativa de US$1O bilhões por ano em 1982 para US$I bilhão
em 1985.
5
Em conseqílêncía, as nações puderam imponar muito
menos. Nos países candidatos a empréstimos da AID, o volume
per capita de importações em 1984 foi apenas 62% do que tinha
sido em 1910.
6
Foram cortadas as importações para a agricultura
- maquinaria, fertilizantes e praguicidas - e de suprimentos es­
senciais ao atendimento das necessidades básicas. A conjugação
de fatores internos e ,internacionais adversos fez as rendasrr eG­
pita cafrem 16% na Africa subsa.ariaoa entre 1980 e 1985.
As dificuldades econômicas dos países subsa.arianos tiveram
impa<:tos sociais devastadores. O declínio da produção de ali­
76
77
"A crise.- África t! tão st!ria que não pode ser exagerada e de­
veria realmente motivar o mundo inleiro. A vida dos 400 milhiJes
de pessoás que hoje habitam a África esM em perigo. E muitos
que ainda não nasceram terão pelafrente umfuturo basttmte de­
salentador, a menos que se encontrem, e logo, soluções ejicazes.
Certamente não é preciso multa imaginação para perceber
que não apenas a África esM em perigo. A langd prazo. a e'Cb­
nomia mundial pode estar ameaçada. não só pçrque o bem-estar
humano é indi:visfllel. mas tamMm porque a África desempenha
papel importonlfssimo na economia global como fonltf de um
grande tulmero de matérias-primas vitais."
Maxime Ferrari
Diretor do Escrit6rio Regional do PNUMA para a África
Audiência pób1i<:. da CMMAD. Harare. 18 de setembro de 1986
mentos per capita contribuiu para awnentar a subnutrição. A seca
pôs em risco cerca de 35 milhões de viaas em 1984185. e depois
que ela melhorou. '19 milhões de pessoas contin\l&ram passando
fome.
8
A subnutrição e a fome enfraqueceram muito a população.
reduzindo sua produtividade e tomando muita gente (em especial
as crianças e os velhos) mais sujeita a doenças e à mone prematu­
ra. A crise prejudicou o progresso já obtido na área de abasteci­
mento de água potável e saneamento.
Agora já se admite que é necessário atacar as causas a longo
prazo e não OS sintomas. A grande miséria causada pela seca na
África já é notória, e a comunidade mundial reagiu com um int­
portante programa de emergência. Mas a ajuda alimentar de
emergência á apenas uma reação a curto prazo e, na melhor das
hipóteses. parcial. As raízes do problema estão nas políticas na­
cionais e internacionais. que têm impedido as economias africanas
de realizarem todo o seu potencial de expansão econômica e as­
sim diminuir a pobreza e as pressões ambientais que ela cria.
A solução cabe sobretudo aos admiuistradores africanos. mas a
comunidade internacional deve igualmente apoiar os esforços da
África para se ajustar. não só fornecendo a ajuda adequada e fa­
zendo acordos de comércio, mas também cuidando para que mais
capital flua para as nações mais pobres, em vez de sair delas. Es­
ses dois aspectos complementares da solução dos problemas fo­
ram reconhecidos pelos próprios palses africanos
9
e pela comuni­
dade intemacional.
lO
Segundo estimativas do BaIÍco Mundial,
mesmo que haja condições econômicas externas favoráveis nos
próxintos cinco anos e os governos africanos reformulem ampla­
mente suas polltica. •• ainda assim o financiamento ou o a1fvio da
dívida disponíveis mediante as atuais políticas dos doadores fica­
riam muito aquém do necessário para evitar uma queda ainda
maior dos padrões de vida da África de baixa renda. H E essa
sombria equação não inclui dinheiro para recuperar o meio am­
biente deteriorado.
A comunidade internacional precisa entender que a África não
conseguirá superar a crise econômica e ecológica mais séria do
planeta sem uma ajuda a longo prazo muito maior que a que foi
programada. Além disso. o financiamento muito maior para o de­
senvolvimento deve ser acompanhado por mudanças de poUticas
qué levam em conta a preservação do meio ambiente.
3.2.2 A dfvida Jatlno-amerieana
Para muitos pafses da África, a dívida é um problema gravíssimo.
Mas em face dos montantes envolvidos. o intpacto da dívida foi
mais visfvel em alguns palses de renda média - principalmente da
América Latina. A crise da dfvida continua sendo uma ameaça à
estabilidade financeira internacional. mas seu maior impacto. até
agora. foi sobre o processo de desenvolvimento. tanto em seu as­
pecto econômico qnanto ecológico. Em 1985, a dívida mundial
total era de USS9S0 bilhões. dos quais cerca de 30% eram devi­
dos por quatro países: Argentina, Brasil. México e Venezuela. As
dívidas destes países representam mais OU menos dois terços dos
empréstimos pendentes dos bancos para OS palses em desenvolvi­
mento.l
2
Nos anos 70. o crescimento econOmico da América Latina foi
facilitado por empréstimos tomados ao exterior. Os bancos co­
merciais gostavam de fazer empréstintos a países em crescimento
e ricos em recursos naturais. Depois. a situação internacional mu­
dou muito, e a dívida se tomou insustentável. Devido à recessão
mundial. os mercados de exportação se retrafram e polfticas mo­
netárias restritivas fizeram as taxas de juros globais I\Iingirem nf·
veis nunca vistos. Os banqueiros. assustados COm a deterioração
da capacidade cre<litfcia, suspenderam os empréstimos. E a eva­
são de capital nacional dos palses em desenvolvimento agravou o
problema.
Seguiu-se uma crise que forçou os governos a adotarem polfli­
cas de austeridade para cortar as importações. Em conseqüência,
as intPortações latino-americanas caíram 40%. em teII110S reais,
em trés anos.1
3
A retração dai decorrente reduziu em média 8% o
o produto interno bruto dos oito principais países Iatino-america­
nos.l
4
Grande parte desse Ônus recaiu sobre os pobres, uma vez
que os salários reais diminuíram e o desemprego awnentou. Em
78
79
"O impacto dq atual crise. na A",,!rica Latina foi comparado,
por sua profundidade e extensão, à Grande Depressão de
1929-32. A crise deixou claro que, embora a necessidade de
proteger o meio ambiente contra os problemas tradicionais de
deterioração e esgotamenlo continue sendo l(m objetivo válido,
OS planejadores responsáveis pelo. gestão do meio ambiente deve­
riam evitar atitudes negativas em face da necessida<k de recupe­
ração e crescimento econiJmico$.
A expansão, conservação, manutenção e proteção do meio
ambiente podem representar uma contribuição essencial para
melhorar o padrão de vido, o emprego e a produtivida<k.' ,
Osvaldo Sunkel
Coordenador da Unidade Conjunta Ec/aJPNUMA
de DesenvolvirMnto e Meio Ambiente
Audiência pdblica da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985
todos os principais países latino-americanos J são claramente
veis a pobreza crescente e a deterioração do meio ambiente.
Além disso, a falta de novos créditos e o ônus constante do
serviço da dívida forçaram esses países a servir suas dívidas re­
correndo a seus excedentes comerciais. As transferêncías líqui­
das de sete dos principais países da América Latina pata seus
credores somaram quase US$39 bilhões em 1984, e, nesse mesmo
ano, 35% das receitas de exportação furam destinados ao paga­
mento dos juros da dívida externa.l
5
Essa drenagem maciça re­
presenta de 5 a 6% do produto interno bruto da região, cerca de
um terço da poupança interna e quase 40% das receitas de ex­
pottação. Ela adveio de políticas de ajustamento que impõem
cortes drásticos e desiguais nos saJários, nos serviços sociais, no
investimento, no consumo e no emprego, tanto no setor pllblico
como no privado, agravando ainda mais os problemas de desi­
gualdade social e pobreza genernlizada. A tentativa de expÍlndir
as expottações e encontrar substitutos de produtos importados
aumentou acentuadamente as pressões sobre o meio ambiente e os
recursos; além disso, intensificaram-se também a deterioração e a
exploração excessiva do meio ambiente, resultantes do aumento
do número de pobres urbanos e rurais em luta desesperada pela
sobrevivência. Grande parte do rápido crescimento das exporta­
ções íatino-americanas verificou-se na área de matérias-primas,
alimentos e produtos manufaturados baseados em recursos.
Assim, os recursos naturais da América Latina não estão sendo
usados pata o desenvolvimento ou a melhoria dos padrões de vi­
da, e sim pata atender às exigências financeiras dos países indus­
triaíizados, os credores. Essa fonna de lidar com o problema da
dívida suscita problemas de sustentabilidade econômica, política e
ambiental. Pretender que países relativamente pobres ao mesmo
tempo baixem seus padrões de vida, aceitem o aumento da pobre­
za e exportem quantidades, cada vez maiores de recursos escassos
a fim de manter a capacidade creditícia reflete prioridades que
poucos governos eleitos democraticamente conseguiriam tolerar
por muito tempo. A situação atual nâo é compatCvel com o desen­
volvimento sustentável. O conflito é ainda agravado pelas polfti­
cas econômicas de alguns dos principais países industrializados,
que deprimiram e desestabilizaram a economia internacionaí. Para
promover um desenvolvimento sustentável em tennos sociais e
ecol6gicos, é indispensável, entre outras coisas, que o países
dustrializados retomem as polfticas internacionais visando a ex­
pandir o crescimento, o comércio e o investimento. A Cop'lissão
ressaltou que, em tais circunstâncias, alguns países devedores se
viram forçados a suspender ou limitar a saída líquida de fundos.
Cada vez mais bancos credores e 6rgâos oficiais estão perce­
bendo que muitos devedores simplesmente não terão condições de
manter o serviço de suas dívidas, a menos que o ônus seja dinú­
nuído. Entre as medidas discutidas contam-se novos empréstimos
adicionais, perdão de parte da dívida, reescalonamento a prazo
mais longo e adoção de termos mais brandos. Mas está faltando o
necessário sentido de urgência. Todas e..sas medidas devem levar
em conta os legítimos interesses de credores e devedores, e repre­
sentar uma divisão mais justa do ônus de resolver a crise da divi­
da.
3.3 PARA POSSIBILITAR O DESENVOLVIMENTO
SUSTENTÁVEL
Durante muites anos, os países em desenvolvimento propugnaram
por mudanças fundamentais nos acordos econômicos internacio­
nais, de modo a tomá-los mais eqüitativos, sobretudo no tocante a
fluxos comércio exterior, investimentos transnacio­
nais e transferência de tecnologia.l6 Hoje, seus argumentos têm
de ser refonnulados para levar em conta as dimensões ecol6gicas.
freqüentemente negligenciadas no passado.
A curto prazo, para quase todos os países em desenvolvimento,
exceto os maiores, uma nova era de crescimento econômico de­
pende de uma administração econômica eficiente e coordenada
80
81
"É quase impossfvel negar a importdncia univer$(ll dos proble­
mas ecol6gicos. Para que eles tenJuun uma soluçl1o satisfat6ria,
sem necessdria uma coordenDÇl1o cada vez maior dos atividades,
nda 36 na economia de cada paEs, mas também no Ombito do. co­
operaçl1o imernacional. Os problemas eco16gicos.nda têm pre­
cedemes na hist6ria do. humanidade."
Dr. TodorI. BoUúnov
ComM de Proteção tÜJ Meio Ambiente, BulgJria
Audiência pública da CMMAD, Moscou, 8 de dezembro de 1986
entre os principais parses industrializados. Tal administração visa­
ria a facilitar a expansão, reduzir as taxas reais de juros e deter o
avanço do protecionismo. A longo prazo, são também necessárias
mudanças substanciais parn tomar sustentáveis os padrões de
consumo e produção num contexto de crescimento global mais
elevado.
No tocante à administração mencionada, a cooperação interna­
cional é embrionária, e no tocante ~ mudanças, é insignificante.
Na prática, e na falta de uma administração global da economia e
do meio ambiente, deve-se concentrar a atenção no aperfeiçoa­
mento das polfticas em áreas onde o alcance da cooperação já esrá
definido: assistência, comércio exterior,. empresas multinacionrus e
transferência de tecnologia.
3.3.1 Estimulando o num de recursos para os paises
em desenvolvimento
No cerne de nossas recomendações subre fluxos financeiros há
duas preocupações interligadas: uma diz respeito à quantidade e
outra à "qualidade" dos fluxos de recursos parn os palses em de­
senvolvimento. Não há como negar que são necessários mais te­
Ctmlos. A idéia de que seria melhor os países em desenvolvimento
viverem de acordo com seus meios limitados não passa de uma
cruel ilusão. A ação isolada dos governos dos patses pobres não é
suficiente para reduzir a pobreza global. Ao mesmo tempo, mais
assistência e outras formas de financiamento, embora necessárias,
não bastam. Os projetos e os programas devem ser concebidos
com vistas ao desenvolvimento sustentável.
"A demortda de matlrias-primas, maior produttvidalk e bef!S
materiais, por pai'te do mundo inJustrializada. teve smos im­
pactos sobre o meio aprhienre e custos econlJmicas muito eleva­
dos rido s6 em nossos paEses. mas também nÓ mundo em desen­
volvimemo. As atuais palfticas internacionais financeiras. eco­
nIJmicas, comerciaiS" e de investlmemos agravam ainda mais OS
problemas. .
Todos precisamos estar dispostos a exominar nossas reloções
no lImbito do comércio internacional. dos investlmemos, do. as­
sistlncia ao desenvolvimemo, do. indústria e do. agriculflD"a d luz
dos conseqiUncias que elas podem. ter para O subdesenvotvi­
memo e a destruiçl10 do meio ambieme no Terceiro Mundo. Te­
mos de estOr ál$pOSfOS a ir ainda mais longe e adotar OS meios
necessários para atenuar esses sintomas."
Rakel Sudien
Ex-ministra tÜJ Meio Ambiente. governo da Noruega
Cerimônia de abertura daCMMAD, Oslo, 24 de junho de 1985
3.3.1.1 A.umemantib o fi""" de financlamemo
No que tange à quantidade de recursos, 11 escassez de financia­
mento extemo já contribuiu parn uma queda inaceitável dos pa­
drões de vida nos países em desenvolvimento. lá falamos da si­
tuação e das necessidades não SÓ dos países altamente endivida­
dos que dependem principalmente de fllWlciamento comercial,
mas também dos países de baixa renda que dependem de assistên­
cia. Contudo, alguns países pobres ubtiveram grandes progressos
nos ó11imos anos. embora seus problemaJI ainda sejam enormes,
i.nclusive os que se r e f ~ à deterioração do meio ambiente. A
Ásia de baixa renda ainda precisa de muita assistência; de modo
geral, oS maiores beneficiários dessa região administraram bem a
ajuda recebida, sem a qual seria muito mais dificil manter o cres­
cimento que, aliado a programas voltados parn a pobreza, pode
melhorar a situação das centenas de milhões de pessoas que vi­
vem em estado de "pobreza absoluta".
Para satisfazer a essas necessidades é preciso que os principais
doadores e as instituições que concedem empréstimos reexaminem
suas polfticas. Os níveis de assislêncÍlI ollCiaI ao desenvolvimento
estagnaram em termos absolutos, e a maioria dos países doadores
fica muito aquém das metas combinadas internacionalmente. Os
82 83
empréstimos comen:iais e os concedidos por agências de crédito
para exportações caíram acentuadamente. É de vital importância
para o desenvolvimento, como parte de um esforço conjunto para
inverter essas tendências, que aumentem substancialmente os re­
cursos de que dispõem o Banco Mundial e a AID" No caso dos
maiores devedores, também são necessários empréstimos mais
elevados por parte dos bancos comen:iais. . •
3.3.1.2 Empréstimos para o de.senvolvimento sustentdvel
No passado, a assistência ao desenvolvimento nem sempre contri­
buiu para o desenvolvimento sustentável e às v e ~ até o prejudi­
cou. Os empréstimos para agricultura, silvicultura, pesca e ener­
gia costumam basear-se em critérios econômicos estreitos que
pouco levavam em conta os efeitos sobre o meio ambiente. Por
exemplo, as agências de desenvolvimento por vezes estimularam
mais a agricultura à base de produtos químicos do que a agricul­
tura sustentável e regenerativa. Por isso é necessário que haja
uma melhoria não SÓ quantitativa, como qualitativa.
Uma porção maior da assistência total ao desenvolvimento de­
veria ser destinada aos investimentos necessários para fortalecer o
meio ambiente e a produtividade dos setores de recursos. Tais es­
forços incluem reflorestamento, estúuulo aos combustíveis vege­
tais, proteção das bacias fluviais, conservação do solo, agrossilvi­
cultura, projetos de recuperação e irrigação, agricultura de pe­
quena escala, medidas sanitárias de baixo custo e conversão de
cultivos em combustível. A experiência mostrou que os esforços
mais eficazes nesse sentido são projetos pequenos que contam
com a máxima participação das comunidades rurais. Os progra­
mas que têm relação mais direta com o objetivo do desenvolvi­
mento sustentável podem ter custos locais mais elevados, um Cn­
dice mais alto de custos de capital e um uso maior da tecnologia e
do faww.how locais.
Para que esses programas passem a ser adotados, seria preciso
que os doadores reexarninassem ""us programas de assistência,
sobretudo aqueles referentes a prodütos básicos, que às vezes di­
minuíram as possibilidades do desénvolvimento sustentável, em
vez de aumentá-Ias. (Ver capitulo 5.)
O fundamental é que as considerações referentes a sustentabi­
lidade se reflitam no trabalho das instituições financeiras interna­
cionais. O papel do Banco Mundiai e do FMI é especialmente
crucial porque as condições em que essas instituições concedem
empréstimos servem de ponto de referência para empréstimos pa­
ralelos por parte de outras instituições, como bancos comen:iais e
agências de crédito para exportações. Nesse contexto, é impor­
tante que o Banco leve em conta a sustentabilidade quando avalia
os empréstimos para '\iuste estrutural e outros empréstimos de
apoio a políticas para setores baseadOs em recursos - em especial
agricultora, pesca, silvicultura e energia - e também a projetos
específicos. .
Outra mudança necessária diz respeito aos programas de ajuste
adotados pelos paCses em desenvolvimento. Até agora, na maioria
dos casos, o "ajuste" - especialmente sob os auspícios do FMI _
favoreceu a estabilização financeira em detrimento dos padrões de
vida. Em muitos planos sugeridos para lidar COm a crise da dívida
está implícito um reconhecimento cada vez maior de que no futu­
ro o ajuste deve se voltar para o crescimento. Ma.. nem 'por isso
pode deixar de ser sensível ao meio ambiente.
O FMI também concede empréstimos para ajuste estrutural,
através de seu novo Programa de Ajuste Estrutural. Os países em
desenVOlvimento tomadores de empréstimos rem instado com o
Fundo para que vise mais aos objetivos do desenvolvimento mais
amplo e de longo prazo - crescimento, metas sociais e impactos
sobre o meio ambiente do que à estabilização financeira.
As agências de desenvolvimento, e particulannente o Banco
Mundial, deveriam criar metodologia. de fllciJ aplicação a ínn de
enriquecer suas próprias técnicas de avaliação e ajudar os países
em desenvolvimento a melhorarem seus conhecimentos sohre o
meio ambiente.
3.3.2 Os vfnctdos entre comércio exterior, melo ambiente
e desenvolvimento
No pds-guerra, ó comércio exterior passou a ser muito mais ~
portante para o desenvolvimento nacional da maioria <1os países.
(Ver tabela 3.2.) Isto pode mostrar até que ponto o comén:io exte­
rior tornou as nações mais interdependentes econômica e ecologi­
camente. Também houve acentuada mudança nas tendências do
comércio mundial. Primeiro, o valor comen:ial dos bens manufa­
turados aumentou a um ritmo mais acelerado que o de produtos
primários não-combustíveis. e um nllmero crescente de pafses em
desenvolvimento tomou-se grande exportador daqueles bens.
Hoje. o valor dos bens manufaturados é duas vezes superior ao
das e x ~ õ e s excluiodo petról-:o dos pafses em desenvolvi­
mento. 7 (Ver capitulo 8.) Segundo, as economias induslriais de
men:ado passaram a depender mais das importações de combustí­
veis de países em desenvolvimento, que representaram 43% do
consumo em 198018I. contra apenas 16% em 1959160 e ainda
menos nos anos anteriores à guerra.
18
8S 84
Tabela 3.2
A importância crescente do comércio exterior (exportações como
percentual do PIB ou PML)
. Grupo ecooômico 1950 1982
Economias de mercado desenvolvidas 7,7 15,3
Economias de mercsdo em desenvolvimento
PaIsa socialistas do ~ t e europeo
PaIsa socialistas d. Ásia
15,5
34
1
2:9
1
23,8
16,6
1
9,7
1
F01lle: baseado em: UNCTAD, Handbook of internationaI trade an.d de­
veÚJpment stiltistics, 1985 supplement.NeN York, United Nations, 1985.
I Pcmelltwm do produto·materi.alllquido (PML).
As economias de mercado desenvolvidas também se turnaram
mais dependentes de outras importações de minerais de palses em
desenvolvimento, sendo que a participação ~ s a s importações no
consumo aumentou de 19% em 1959/60 para 30% em 1980181.
19
Hoje" os recursos não-renováveís, como combustíveis e minerais,
e também oS produtos manufaturados são muito mais importantes
que os produtos tropicais e outros produtos agrícolas no fluxo de
produtos primários dos palses em desenvolvimento para os países
industrializados. Na verdade, o fluxo de grãos se dá no sentido
inverso.
O principal vfnculo entre comércio exterior e desenvolvimento
sustentável é o uso de matérias-printas não-renováveis para obter
divisas. Os países em desenvolvimento se vêem ante o dilema de
ter de exportar produtos primários a ftm de obter divisas para o
crescimento, e ao mesmo tempo minimizar os danos à base de re­
cursos naturais que sustenta esse crescimento. Há outros vfnculos
entre comércio exterior e desenvolvimento sustentável; se, por
exempln, o protecionismo cria barreiras às exportações de manu­
falUl'ados, as nações em desenvolvimento ÍlCarn com menoS espa­
ço para diversificar sua produção e sair do âmbito limitado dos
prodotos primários tradicionais. E o desenvolvimento insustentá­
vel pode advir não só do uso excessivo de certos produtos primá­
rios, mas também de produtos manufaturados potencialmente p0­
luentes.
3.3.2.1 Comércio Internacional dII produtos primdrl.os
Um número crescente de países em desenvolvimento passou tam­
bém a exportar manufalUl'ados, mas os produtos primários que
"Acho que tambim ti impo_ a ComisséIo atentar para o pr0­
blema da negociação dII contratos referentes ao dII.senvolvtmemo
dII recursos. Durame 10 OTUM, tentamos Utclutr neles cúiusulas
relativas ao meio ambiente. Tudo o que conseguimos foi obter
das investidores uma descrição geral do que deveria serfeito pa­
ro proteger o meio ambiente. Entrar em dlltalhes criaria proble­
mas com os advogadas e assim por di.aJVe. Isto prejudica o in­
vestimemo.
Para nós, claro, há uma opção: ou ceder mais um pouco ou
se manter firme, e então, ti claro. não hoverd investimento I'W
pats. Se pudéssemos fazer um apelo às muJtinacionais. seria s0­
bretudo para que compreendessem que o que foi feito I'W caso da
madeiro tambim poderia aplicar-se a outros acordas. como os
do cqfé, estanho e outros. Acho que isto ajudaria muito.»
Depoimento de um participante, agência governamental
Audiência pdblica da CMMAD, Jacarta, 26 de março de 1985
não o petróleo continuam a representar mals de um terço das re­
ceitas de exportação do grupo. A dependência desse tipo de ex­
p<n:UIÇOOs é esoecia1mente elevada na América Latina (52%) e na
Africa (62%)::W Nos países considerados " ~ s desenvolvi­
dos", de acordo com o Programa especial da ONU, os prodotos
primários representam 73% das receitas de exportação.
21
Os preços de produtos primários que não o petróleo caíram no
início dos anos 80, em termos não só reais, mas também nomi­
nais. No início de 1985, o índice de preços de produtos primários
da Confenlncia das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvol­
vimento (UNCTAD) estava 30% abaixo da média de 1980.
22
Os
baixos preços desses prodotos podem ser mais que um fen6meno
temporário. Tais preços ainda não se recuperaram da recessão
mundial, apesar do maior crescimento econômico nos paises con­
sumidores. A. razões para isto podem ser em parte tecnológicas
(urna substituição mais acelerada das malérias-prirnas), em parte
monetárias, devido aos altos custos de manter estoques de pro­
dutos primários, e em parte resultantes do aumento da oferta de
países que buscam desesperadamente conseguir divisas.
Tais páíses estão voltando contra si mesmos os termos de c0­
mércio, sanbando menos por exportarem mais. O aumento do
volume das exportações de produtos primários já levou por vezes
ao uso excessivo e insustentável da base de recursos naturais. Os
86
87
.casos particulares até podem não se ajustar inteiramente a essa
generalização, mas já se afumou que isso aconteceu no tocante à
pecuária de corta, à pesca tanto em zonas costeiras COmo em
águas profunda.._ à indústria florestal e a detenrunados cultivos
comerciais. Além disso, os preços das exportações de produtos
primários não refletem plenamente o custo ecológico que repre­
sentam para a base de recursos. Assim, de certa funna, os países
pobres em desenvolvimento estão subsidiaado os mais ricos que
importam seus produtos.
O que ocorreu éom o petróleo foi decerto diferente do que
ocorreu com a maioria dos demais produtos primários. (Ver capí­
tulo 7.) O caso do petróleo é um exemplo de corno os produtores
entraram em acordo para reduzir a produção e elevar os preços,
conseguindo ...sim aumentar bastante ... receitas de exportação e
ao mesmo tempo conservar a base de recursos, além de estimular
a economia e a substituição de energia em grande escala. Fatos
receuIes indicam que a regulamentação do mercado por iniciativa
dos produtores é muito difícil a longo prazo, quer atenda ou não
a interesses mais amplos e globais; de qualquer fonna, não há
condições para que os exportadores de outros produtos primários
ajam da mesma maneira. Qualquer acordo que inclua medidas pa­
ra aumentar ... receitas de exportação dos produtores, bem corno
para manter a base de recursos, necessitaria do apoio tanto de
consumidores quanto de produtores.
Nos I1ltimos anos, os exportadores de produtos primários do
Terceiro Muado tentaram aumentar su... receitas encarregando-se
do primeiro estágio de beneficiamento das matéri ....primas. Esse
primeiro estágio costuma envolver subsídios à energia, outras
concessões e altos custos em tennos de poluição. Mas freqüente­
mente esses países percebem que esse primeiro estágio de benefi­
ciamento, com uso intensivo de capital e de energia, não produz
ganhos muito elevados, já que a diferença de preços tende a favo­
recer os produtos em fase mais adiantada de benefkiamento, os
quais, em sua maioria, continuam a ser manufaturados principal­
mente nos países industrializados. Tal tendência é reforfada pela
escalada das tarifas nas economias industriais de mercado.
A principal reação internacional aos problemas com os produ­
tos primários foi a criação de acordos intemacionais sobre esses
produtos, a fun de estabilizar e aumentar as receitas que os países
em desenvolvimento obtêm cOm a exportação desses produtos.
Mas o progresso foi muito limitado, e houve mesmo alguns reve­
ses. Além do mais, a preocupação COm os recursos do meio amo
biente não foi incluída nos acordos sobre produtos primários, sal­
vo no caso do Acordo Internacional sobre Madeiras Tropicais,
que constitui uma exceção notável.
23
As negociações dos acordos de produtos primários não foram
fáceis, e a regulamentação do comércio desses produtos tem dado
margem a notórias controvérsias. Os acordos que hoje existem
poderiam ser melhorados sob dois aspectos cruciais:
• Somas mais altas para financiamento compensatório, a fim de
atenuar os choques econômicos como faz o Serviço de Finan·
ciamento Compensatório do FMI -, estimulariam os produtores a
adotarem uma perspectiva de longo prazo, em vez de partirem pa­
ra uma supetprodução de bens primários que beire os limites da
sustentabilidade ambiental em períodos de saturação do mercado.
• Maior assistência a programas de diversificação, caso os pro­
dutores precisem mudar seus métodos tradicionais de monocultura
e buscar a diversificação. Uma parte do Fuado Comum ~ e r i a
ser usada para a regeneração e a conservação dos recursos.
Todos os govemos poderiam usar melhor os recursos renová·
veis, como a floresta e a pesca, a Íun de ...segurar que os índices
de exploração uIin ultrapassem os limites da produtividade sus­
... ntável e que haja dinheiro disponível para regenerar os recursos
e lidar com os efeitos sobre o meio ambiente. No caso de recursos
não-renováveís, como minerais, os governos deveriam garantir
que:
• os arrendatários empreendam a exploração visaado a acrescen­
tar às reservas já existentes uma quantidade pelo menos igual à
extraída;
• o coeficiente produção/reserva existente pennaneça abaixo de
um limite previamente fIxado;
• os fundos provenientes de royaIties sejam usados de modo a
compensar o declínio das renda.. quando fur esgotada a fonte de
recursos;
• os arrendatários se responsabilizem pela recuperação d ... terras
e por outras medidas de controle ambiental na área aíetada pela
mineração.
As organizações internacionais importantes, corno as várias
agências da ONU, o Banco Mundial e grupos regionais, devem
continuar buscaado novas fonna.. de incluir esses princípios nos
contratos e diretrizes a serem adotados.
3.3.2.2 Protecionismo e comécio inte1TlOCional
:[
O aumento do protecionismo nos países industrializados cons­
trange O crescimento das exportações e impede sua diversificação. I
Alguns países em desenvolvimento do Extremo Oriente consegui­
ram aumentar suas exportações de produtos manufaturados com
elevado coeficiente de mão-de-obra, o que atesta o potencial des­
se tipo de com6rcio. Contudo, outros palses - sobretudo as na­
89 88
80l< 3.:11 Açúcar e desen""'vimento sustentável
A sobrevivência de 30 milhóes de pobres do Terceiro Mun­
do depende da cana-de-açúcar, Muilns países em desenvol­
vimento têm vantagem comparativa real na produção e p0­
dem obter valiosas divisas se expandirem a produção. Al­
guns Estados pequenos - Fiji, Maurício e várias ilhas do
Caribe - dependem da, exportações de açúcar para sua s0­
brevivência econômica.
O. países industrializados estimularam e protegeram
muito a produção do açúcar de beterraba, que compete com
o de cana e teve efeitos bastante danosos para os países em
desenvolvimenln. A produção de açúcar de beterraba, de
cusln elevado e sob protecionismo. estimula o uso de ado­
çantes artificiais; as cotas excluíram as importações do Ter­
ceiro Mundo (salvo no caso de algumas importações garan­
tidas pelo Protocolo do Açúcar da Comunidade Econômica
Européia); e os excedentes são despejados nos mercados
mundiais, o que faz os preços cal'rem,
No Relat6rio sobre o desenvolvimento l1I/.t1Idial 1986, o
Banco Mundial estimava que as políticas açucareiras causa­
ram aos países em desenvolvimenln uma perda de receitas
da ordem de US$7,4 bilhões em 1983, reduziram sua renda
real em cerca de US$2,1 bilhões e aumentaram em cerca de
25% a instabilidade dos preços,
Mas além do empobrecimenln que essas práticas acarre­
tam nos países em desenvolvimento, o estimulo à produção
de ,açúcar de beterraba nos países industrializados teve
efeiros colaterais adversos para a ecologia. O cultivo mo­
derno de beterraba é altamente capital-intensivo, depende
muJro de herbicidas químicos e as plantações têm pouca ca­
pacidade de regeneração. O mesmo produro poderia ser cul­
tivado em países em desenvolvimento a custo mais baixo,
como é o caso da cana, usando-se mais mão-de-obra e me­
nos aditivos qulínicos.
ÇÕ<:s asiáticas e latino-americanas de baixa renda - ao tentarem
seguir o mesmo caminho, viram-se muiro prejudicadas por barrei­
ras alfandegárias cada vez maíores, sobrerodo na área de têxteis e
vestuário, Se os países em desenvolvimenln quiserem conciliar a
necessidade de um crescimenln rápido das exportações com a ne­
cessidade de conservar a base de recursos, é imperativo que suas
exportações nlo-tradicionais tenham acesso aOS mercados dos
países industrializados, onde desfrutam de vantagem comparativa.
Em muilns casos, os problemas do protecionismo estão ligados a
produtos manufaturados; mas também há casos - como o do açú­
car - em que os países industrializados adotam restrições ao co­
mércio de produlns agrícolas, causando danos tanto ecológicos
como econômicos. (Ver box 3,2,)
3.3.2,3 Produtos "poluição-i1ll4'mivos"
O processamento de algumas matérias-ptimas - como polpa e pa­
peI, petróleo e alumina - pode ter sérios efeil<JS colaterais sobre o
meio ambiente. De modo geral, os países industrializados tiveram
maís êxiln que os em desenvolvimenln em conseguir que os pre­
ços dos produlns de exportação reflitam os cuslos dos danos ao
meio ambiente e do controle desses danos. Assim, no caso das
exportações de países industrializados, iais custos são pagos pelos
consumidores das nações importadoras, inclusive as do Terceiro
Mundo, Mas no caso das exportações dos países em desenvolvi­
mento, esses custos continuam recaindo inteíramente sobre eles
mesmos, quase sempre sob a forma da danos 11 saúde humana, 11
propriedade e aos ecossistemas.
Em 1980, as indústrias de países em desenvolvimenl<! que ex­
portavam para membros da Otganização para a Cooperação e o
Desenvolvimento EconÔmico (OCDE) teriam incorrido em gastos
de US$S,5 bilhões com o controle direln da poluição, caso tives­
sem que obedecer aos padrões ambientais então adotados pelos
EUA, segundo estudo realizado para esta Comissão,25 Se fossem
também computados os gastos com controle da poluição ligados
às matérias-primas que entram na composição do produto final, os
cusros teriam chegado a US$14,2 bilhões. Os faros também indi­
cam que as importações feitas pela OCDE a países em desenvol­
vimenln incluem produtos que causam em média maís danos ao
meio ambiente e aos recursos do que o total das importações da
OCDE.26 Estes custos hipotéticos de controle da poluição prova­
velmente subestimam os cuslns reais de danos causados ao meio
ambiente e aos recursos nos países exportadores, Além disso, tais
CUSIns só se referem à poluição do meio ambiente, e não aos da­
nos econômicos decorrentes do esgotamento de recursos,
O fato de esses custos permanecerem ocolln. significa que os
países em desenvolvimenro podem atrair maís investimenlns para
a exportação de produlns manufaturados do que no caso de haver
wn sistema maís rigoroso de controle do meio ambiente mundiai.
Muilns planejadores do Terceiro Mundo consideram O fato bené­
Hoo, pois dá aos países em desenvolvimento uma vantagem com­
parativa em produl<JS "poluição-intensivos" que deve ser explo­
rada. Consideram também que, se cobrassem mais pelos cusro.
luis. a posição competitiva de seus países ficaria prejudicada
90
91
em alguns mercados; por isso, encaram qualquer pressão nesse
sentido como uma fonna de prorecionismo disfarçado dos produ­
tores já estabelecidos. Mas é do interesse a longo prazo dos pro..
prios países em desenvolvimento qne uma psrte maior dos custos
de produção relativos" meio ambiente e recursos se reflita nos
preços. Essas mudanças devem partir dos próprios países em de­
senvolvimento.
3.3.2.4 Osfdruns de comircio multilateral
Alguns projetos de pesquisa da UNCTAO levaram em conta os
vfnctllos entre comén.:::io exterior e meio ambiente, mas tais ques­
tões não foram consideradas de modo sistemático pelas organiza­
ções intergovernamentais. Os mandatos dessas organizações ­
principalmente o Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (Gal!) e
a UNCTAO deveriam incluir o desenvolvimento sustentável.
Suas atividedes deveriam mostrar preocupação com os impactos
do comércio sobre o meio amtiiente e com a necessidade de ins­
trumentos mais eficazes para inco1JlOrar aos acordos comerciais
internacionais as questões ligadas ao meio ambiente e ao desen­
volvimento.
As organizações internacionais que lidam com comércio terão
mais facilidede para reformular suas atividades se cada nação
criar um órgão incumbido de avaliar os efeitos do comércio inter­
nacioual sobre a conservação da base de recursos do crescimento
econÔmico. Esse órgão poderia encarregar-se de levantar questões
relativas à sustentabilidade no âmbito de ação do UNCTAD, do
Galt, da OCDE, do Conselho de Assistência EconÔmica Mtltua e
de outras organizações importantes.
3.3.3 Garantindo a responsabilidade no investlme.nto
transnaclonal
As atividades de investimento externo das companhias de ecooo­
lIÚas de mercado aumentaram muito nos tlltimos 40 aDOS. (Ver
box 3.3.) Atualmente, as filiais no estrangeiro são responsáveis
por 40% das vendas, 33% dos ativos líquidos e 56% dos ganhos
líquidos de 380 das maiores empresas industriais das econolIÚas
de mercado, segundo dados levantados pelo Centro das Nações
Unidas para as Empresas Transnacionais.
27
Uma proporção ele­
vada do investimento traosnacional é realizada em economias in­
dustriais de mercado, o que é mais um aspecto da crescente inte­
gração dessas economias.
As empresas traosnaciouals (Err) desempenham importante pa­
pel como proprietárias, paroeinas em joint ventures e fornecedoras
,
Dax.3.3 O papel das emp"""", transuaciooals
-I
• Em 1983, os produtos químicos .representaram aproxima­
damente um quarto do investimentb externo direto feito na
atividade manufatureira dos países em desenvolvimento por ,
companhias de quatro principais pa1ses - Japão (23%), EUA
(23%). Reino Unido (27%) e República Federal da Alema­
nha (14%).
• A agricultura, a ~ r a ç ã o e outras indtlstrias extrativas
representaram 38% do investimento dos EUA nos pa1ses em
desenvolvimento em 1983. 23% do investimento do Japão
em 1983, 21% do investimento total da República Federal
da Alemanha em 1981-83 e 9% do investimento do Reino
Unido em 1978.
• De 80 a 90% do comércio ,de chá, café, cacau, algodão,
produtos florestais, tabaco, juta, cobre, minério de ferro e
bauxita sâo controlados, no caso de cada produto, por DO
mínimo três e no máximo seis das maiores multioacionais.
Fonre: UN Centre on Transnational Corporalions. EnVÍTonmental
aspects Df the activiU'es Df tranmational corporaticns; a survey. New
Yort, Uníred Nations, 1985.
de recnologia nos setores de mineração e manufaturados de mui­
tos países em desenvolvi)nento, sobretudo em áreas ecologica­
mente sensfveis. como petróleo, produtos químicos, metais, papel
e automóveis. Também dorrúoam o comércio mundial de vllrios
produtos primários.
Nos dltimos anos, muitos países em desenvolvimento começa­
ram a encarar de modo mais positivo o papel que os investimentos
das traosnacionais podem ter em seu processo de desenvolvi­
mento. Para tanto intlufram a necessidade de divisas por parte
desses pafses e a consciência de que o investimento estrangeiro
pode ajudar a obtê-las. 11 possível haver uma cooperação efetiva
com as Err, contanto que todas as partes estejam em igualdede de
condições, o que pode ser conseguido pela rigorosa observância
do princípio de soberania do país hospedeiro. Por sua vez, muitas
empresas reconheceram a necessidede de partilhar seu knuw-how
administrativo e recnológico com os habitantes do país hospedeiro
e de visar a objetivos lucrarivos num contexto de desenvolvi­
mento sustentável a longo prazo.
. Mas ainda existem suspeitas mtltuas, quase sempre devidas à
desigualdade entre o poder de barganha das grandes empresas e o
93
92
dos países em desenvolvimento, pequenos e pobres. MuitaS vezes
as negociações se tomam unilaterrus devido à falta de informação,
ao despreparo técnico e à fragilidade. polltica e institucional do
país em desenvolvimento. Continua haV6ndo suspeitas e diver­
gências, sobretudo no tocante à introdução de novas tecnologias,
ao desenvolvimento dos recursos naturais e ao uso do meio am­
biente. Para que as multinacíonaís tenham um papel mais impor­
tante no desenvolvimento é preciso que tais conflitos e suspeitas
diminuam.
Portanto, é fundamental fortalecer o poder de barganha e a p0­
sição dos países em desenvolvimento em face das empresas mui­
tinacíonais. Se as nações não tiverem capacidade própria ·para li­
dar com as grandes empresas multinocionais, dewm ser assistidas
por agências regionais e outras instituições internacionais. Como
já dissemos, a ajuda atoal pode ser intensificada mediante· acor­
dos-modelo com essas empresas, os quais se apliquem às diV6rsas
situações, como os acordos de conCessão para a e'lploração de re­
cursos miuerais. Também poderiam ser criadas equipes de assis­
tência lécnica e de aconselhamento quando um país está em nego­
ciações com uma empresa transnacional.
As transnacionais podem ter grande impacto sobre o meio am-·
biente e os recursos de outros pafses, e também sobre as áreas
comuns a lodos. O país-sede e os países hospedeiros das ET divi­
dem responsabilidades e devem trabalhar juntos para fortalecer as
polfticas nesse âmbito. Por exemplo, os países hospedeiros deve­
riam ser informados sobre as políticas e os padrões adotados pelas
multinacionais quando inV6stem em seu país-sede, sobretudo no
que se refere a tecnologias de risco. Seria de todo conveniente
aplicar as polfticas já vigentes em alguns países industrializados ­
de submeter previ3j1Jente os principais inV6stimentos a uma ava­
liação ambiental - aos investimentos feitos em outros países.
Além disso, tais políticas deveriam incluir critérios relativos à.
sustentabilidade. As informações e as recomendações daí resul­
tantes deveriam ser partilhadas com os países hospedeiros, aoS
quais, evidentemente, caberia a responsabilidade fmal.
Apesar de as medidas internacionais em relação às empresas
transnacionais serem tão importantes, elas geralmente não existem
e sua negociação tem sido extremamente difícil. As normas de
conduta das empresas tranSnacionais formuladas pela OCOE e ora
em discussão na ONU deveriam lidar explicitamente com ques­
tões relativas ao meio ambiente e à meta do desenvolvimento
sustentáveL Já outros problemas requerem instrumentos mais de­
talhados e específICOS. Quando se introduz uma tecnologia, uma
fábrica, um produto ou um processo novos, ou quando se parte
para uma joinl veraure num país em desenvolvimento, as partes
94
envolvidas têm de reconhecer e aceitar certas responsabilidades
especiais . ..(Ver capítulo 8.)
3.3.4 AmPliando a base tecnológica

Tomar os recursos mais produtivos é tarefa que compete em
grande parte à política econômica interoa. Mas a economia inter­
nacional afeta de vária.. formas as possibilidades de aumentar a
produtividade, sobretudo no que tange à transferência de tecnolo­
1 gia de um país para outro.
3,3.4.1 A difusão de tecnologias ecologicamente viáveis
Para promover o desenvolvimento sustentável é preciso um esfor­
ço organizado no sentido de criar e difundir tecnologias novas,
como as que são empregadas na produção agrícola, nos sistemas
renováveis de energia e no controle da poluiç.ão. Grande parte
desse esforço deverá basear-se no intercâmbio internacional de
tecnologia: mediante o comércio de equipamento mais moderno,
acordos de transferência de tecnologia, fornecimento de especia­
listas, colaboração em pesquisas etc. Portanto, os procedimentos e
as políticas que influenciam esse intercâmbio devem estimular
a inovação e garantir o acesso imediato e irrestrito a tecnologias
ecologicamente víáveis.
O verdadeiro desafio consiste em assegurar que essas novas
tecnologias cheguem a todos os que precisam dela.., superando
problemas como a falta de informação e, em certos casos, a im­
possibilidade de pagar por tecnologias desenvolvidas comercial­
mente. Na Parte II deste relatório examinamos as medidas neces­
sárias. no plano nacional, para lidar com esses problemas. Mas
essas duas questões também surgem na difusão internacional da
tecnologia.
Em 1980, os países em desenvolvimento pagaram cerca de
US$2 bilhões, sob forma de roya1tú!s e comissões, principalmente
aos países industrializados,28 A insuficiência de conhecimentos
científicos e tecnol6gicos é especialmente acentuada em áreas que
interessam diretamente aos objetivos do desenvolvimento susten­
tável, inclusive biotecnologia e engenharia genética, novas fontes
de energia. novas matérias-primas e substitutos, e tecnologias pa­
ra diminuir os rejeitos e a poluição.
No que tange ao impacto dos pagamentos, a principal questão
das políticas é O impacto de patentes e direitos de propriedade.
Em 1980, as economias industriais de mercado foram responsá­
veis por 65% do total mundial de patentes concedidas, e os países
sociaIistSs do Leste europeu por 29%.29 Os países em desenvol­
93
"A de tecrwiagia também deve ser considerada um
processo social. Na veráork, o ideal seria as pr6prias pessoas
fazerem a sekçdo, e não nós. Em _. acho que aofalar sobre
tecnologia, tnlvez seja multo importante compreender que esta­
rnes lidando com um processo de mudança. As qwno/Qgias só
podem ser diretainente transferitlas se estiverem ligadas a um
processo social. EntõcJ. na veráork a tecno/Qgia não t! uma va­
riável independente nesse caso, pois depende multo da rnudan!;'a
,_-!_t .,
S"""".
.
M. Nashihin Huan
Depoimento de um participante
Audiência ptlblica d. CMMAD, )a"art., 26 de llllIIÇo de 1985
vimento foram responsáveis por apenas 6% dessas patentes; e a
maioria delas foi coneedida a não-residentes. Os direitos de pr0­
priedade são um elemento-chave para o desenvolvimento comer­
cial de tecnologia. Mas sua aplicação em certas áreas pode difi­
cullar a difusão· de tecnologias ecologicamente viáveis e aumenlar
as desigualdades.
Antigamente, a pesquisa custeada com recursos pdblicos for­
necia tecnologia nova a pequenos produtores, sobretudo agricul­
tores. de modo gratuito ou subsidiado. Hoje, a situação não é
muito diferente, e em certas áreas, como por exemplo a de novas
variedades de sementes, há motivos para crer que os direitos de
propriedade venham a dificullar em muito a aquisição de novas
tecnologias por parte dos países em desenvolvimento. A coopera­
ção internacional é indispensável para manter O fluxo de material
genético e assegurar uma partilha eqíiitativa dos ganhos.
3.3.4.2 Criandc capacióLzde tecnol6glca em pafses em
desenvolvimento
No momento, a maioria das pesquisas e dos esforços desenvolvi­
mentistas do mundo está voltada para objetivos militares ou para
os objetivos comerciais das grandes empresas, sendo que uma
parte muito pequena tem importância direta para as condições dos
países em desenvolvimento. Em muitas áreas, está diminuindo
a insuficiência de cap<ocidade tecnológica, mas esses esforços
precisam contar com assistência internacional, sobretudo em
áreas-chave como biotecnologia. A menos que se faça algo para
acumular conhecimento biológico, ficadio perdidas para sempre
infonnac;:ões valiosas e variedades genéticas vitais, e os países em
desenvolvimento estarão sempre em desvantagem no que tange à
adaptação de novas biotecnologias às suas próprias necessidades.
Por isso 05 países em desenvolvimento precisam agir, isolada­
mente e em conjunto, para criar sua capacidade tecnológica. A
criação e ampliação de uma infra-estrutura para pesquisa e tec­
nologia é requisito indispensável para essa cooperação. O. países
envolvidos poderão repartir o ônus fonnulando projetos de pes­
quisa em colaboração, as diretrizes dos Centros Interna­
cionais de Pesquisa Agrícola.
30
Poderiam ser empreendidas ativi­
dades de pesquisa em colaboração em áreas como agricultura em
terras áridas, silvicultura tropical, controle de poluição em peque­
nas empresas e habitação de baixo custo. As instituições e empre­
sas dos países participantes teriam responsabilidades específicas,
e estariam previstas no acordo a partilha eqüitativa e a ampla di­
fusão das tecnologias desenvolvidas.
3.4 UMA ECONOMIA MUNDIAL SUSTENTÁVEL
Para evilar catástrofes econômicas, sociais e ambientais em gran_
de parte do mundo em desenvolvimento, é essencial revitaJizar o
crescimento econômico globai. Em tennos práticos, isto significa
um crescimento econômico mais rápido tanto nos países em de­
senvolvimento como nos industrializados. maior liberdade de
acesso ao mercado para os produtos dos países em desenvolvi­
mento, taxas de juros mais baixas, mais transferência de tecnolo­
gia. e fluxos de capital muito maiores, tanto em termos conces­
sionários COmo comerciais.
Muitos temem, porém, que uma economia mundial em rápido
crescimento venha a causar pressões ambientais lão insustentáveis
quanto as criadas pela pobreza crescente. A demanda cada vez
maior de energia e outras matérias-primas não-renováveis pode
determinar um considerável aumenlo no preço desses itens em
relação a outros bens.
A avaliação global desta Comissão é que a economis interna­
cional deve acelerar o crescimento mundial, respeitando porém as
limitações ecológicas. Já se notam algumas tendências favoráveis
no consumo" na produção dos paises industrializados, que cole­
tivamente ainda· consOmem a maior parte dos recursos não-reno­
váveis do mundo.
A continuar assim, será mais fácil para os países em desenvol­
vimemo crescerem mediante a diversificação de suas próprias
economias. Mas para que deixem de ser dependente., não basta
uma aceleração do crescimenlo econômico global. Isso significa­
96
97
ria apenas a perpetuação dos' padrões econÔmicos j ~ existentes,
ainda que talvez com níveis de renda mais elevados. E preciso ga­
rantir que as ecoDOl1Úas dos países em desenvolvimento cresçam a
um ritmo que lhes pennita superar seus crescentes problemas in­
temos e dar a primeira arrancada para adquirir impUlso. O cres­
cimento econômico continuado e a diversificaçã/;>, juntamente
com o desenvolvimento da capacidade tecnológica e administrati­
va, ajudarão os países em desenvolvimento a aliviarem as pres­
sões sobre o meio ambiente rural. aumentarem os nrveis de pr0­
dutividade e consumo, e deixarem de depender de um ou dois
produtos primários para obter receitas de exportação.
É preciso que os futuros padrões de desenvolvimento agrfcola
e florestal, de consumo energético, de industrialização e de as­
sentamentos humanos sejam menos material-intensivos (ver capí­
tulos 5, 7, 8 e 9) e portanto mais eficientes tanto do ponto de
vista econÔmico quanto ecológico. Atendidas essas condições,
uma nova era de crescimento na economia mundial poderá am­
pliar as opções de que dispõem os países em desenvolvimento.
São agora necessárias reformas de âmbito internacional para se
lidar ao mesmo tempo com os aspectos econômicos e ecológicos,
de tal sorte que a economia mundial possa estimular o cresci­
mento dos países em desenvolvimento e dar maior peso às ques­
tões ambientais. Isto requer um sério compromisso por parte de
todos os países no sentido de viabilizar o trabalho de instituições
multilaterais, como os bancos de desenvolvimento multilateral;
criar e fazer cumprir regulamentações internacionais em áreas
como comércio exterior e investimento; estabelecer um diálogo
construtivo sobre muitas questões nas quais não há cuincidência
de interesses nacionais, mas que podem ser resolvidas por meio
de negociação.
Assim, a comissão lamenta, mas não pode deixar de assinalar o
recente declfnio da cooperação multilateral em geral e a atitude
negativa em relação ao diálogo, sobretudo no tocante ao desen­
volvimento. À primeira vista, o fato de serem introduzidas ques­
tões relativas ao meio ambiente complica ainda mais a busca des­
sa cooperação e desse diálogo. Mas também acrescenta um novo
elemento de interesse mútuo, pois a incapacidade para lidar. com a
interação do esgotamento de recursos e o aumento da pobreza
acabará por acelerar a deterioração ecológica global.
Novas dimensões de multilateralismo são essenciais ao pr0­
gresso humano. A Comissão confia que os mútuos interesses en­
volvidos nas questões relativas a meio ambiente e desenvolvi­
mento possam contribuir para criar e manter o i.mpulso necessário
às mudanças econômicas internacionais.
Notas
1 Department of Intemational Economic and Social Affairs (Diesa). Dou­
h/ing túvelopmelll fino.na: meeling a global challenge, views and """'m­
mendalions of the C o m m i t ~ on Developmenl Planning. New Y o!k.
United NatioDS, 1986.
2 Ibid.
3 worid Bank. FlnD1ICing adjustmelll wilh growth in Sub-Salraran Africa.
Washington, D.C., 1986.
4 Intemational Monetary Fund. World Economi<: Outlook. 001. 1986.
5 United NatioDS. World eco1WmÍc SUlVey 1986. New Yo!k, 1986.
6 World Hank, op. cito
71bid.
8 United Nations, General Assembly. The critical economic situation in
Africa: reporl of the Secretary General. AlS-13/z. New York, 20 May
1986.
9 Organizatinn of African Unity Assembly of HeM. of State of Gover­
nment. Africd$ priorlty programme oi actkm 1986-1991. Addis Abeba,
1985.
10 United Nations, General Assembly. United NalWns programme 01 ac­
Ii<mfor Africon economi<: recovery anil dew!lopmelll. New York. 1986.
11 World Bank, op. oil.
12 Bank for lnternational Settlementa.lntematÚillal banking andfino.ru:ia/
1II4Tket dew!lopments. Hasel, 1986.
13 Inler-American Development Bank. Economic and social progr ... in
Latin America. Washington, D.C .• 1986.
14 Dados nlio-publicados da Comissão Econômica das Nações Unidas para
a América Latina.
151bid.
16 Ver, por exemplo: United Nations, General Assemb1y. Programme of
action on a new international economic arder. Resolution 3202 (S- VI).
I May 1974.
17 Ver: Gatt.lnternationo./ trade 1985-86. Geneva, 1986.
18 UNCTAD. Hanálx>ok oil1IIernationa/ trade anil túv.lopment MittistiC$
1977 anil 1985 supplernents. New York. United NatioDS, 1977 e 1985.
19Ibid.
20 UNCTAD.SuJlisticalpocketbook. NewYorlc, United Nations, 1984.
211bid.
22 UNCTAD. Trade and túvelopmelll r.port. New York. United Nation.,
1986.
23 Alister Maclntyre. UNCTAD, depoimento na audiência pública da
CMMAD. em Oslo, em 1985.
24 O Fundo Comum é um acordo internacional para a estabilização dos
preços de um grupo de mercadorias que interessam parliculannente aos
países em desenvolvimento. A "Segunda Janela" do Fundo provê recursos
para atividades promocionais e de pesquisa.
25 Walre.:, I & Loudon, I.H. Environmental co.ta and lhe patterns of
North-South trnde. 1986. (Elaborado para a CMMAD.)
261bid..
99
98
27 UN Centre on Transnational Corporations. TransnarioMl corporations
in world tkvelopment third _)I. New York. United Nations. 1983.
281bid.
29 CommonWcaJIh Worldng Group. Tecltn%g/cal clrange. London.
Comroonwc.allh Secrelariat. 1985.
30 Referimo-nos as atividades dos institutos internacionais que atuam sob
a proteçto do Grupo Consultivo sobre P""'lUÍ8a AgrfroIa Internacional, do
Banco Mundial.
Parten
DESAFIOS COMUNS
I
- _ .......-J>,
J ~ ~ '
100
li
4. POP.ULAÇÃO E RECURSOS HUMANOS
Em 1985. cerca de 80 milhões de pessoas vieram somar-se a uma
população mundial de 4,8 bilhões. A cada ano, aumenta o mhnero
de seres humanos, mas permanece finita a quantidade de recursos
naturaís destinados ao SUSlento dessa população, à melhoria da
qualidade da vida humana e à eliminação da pobreza generaliza­
da. Por outro lado, a expansão dos conhecimelltos faz aumentar a
produtividade dos recursos.
As atuais taxas de aumento populacional não podem continuar.
lá estilo comprometendo a capacidade de muitos governos de for­
necer educação, serviços médicos e segurança alimentar às pes.­
soas, e. até sua capacidade de elevar os padrões de vida. Esta de­
fasagem entre número de pessoas e recursos é ainda miús pre­
mente porque grande parte do aumento populacional se concel)ira
em países de baixa renda, em regiões desfavorecidas do ponto de
vista ecológico e em áreas de pobreza.
Mas a questão populaçlo não se limita aO número de pessoas.
Pode haver pobreza e degradação de recursos em áreas muito
pouco povoadas, como as terras áridas e as florestas tropicais. As
pessoas silo o recurso fundamental. Mediante melhorias'na educa­
ção. no saneamento e na nutrição, elas poderiam usar m e l h o ~ os
recursos de que dispõem e fazê-los durar mais. Ah!m disso. as
ameaças ao uso sustentável dos recursos advêm tanto das desi­
gualdades de acesso aos recursos e dos modos pelos quais são
usados, quanto do número de pessoas. Assim, a preocupação com
O "problema populacional" desperta também a preocupação com
o progresso humano e a igualdade humana.
As taxas de aumento populacional não são um desafio apenas
para as nações que apresentam altas taxas de aumento. Uma pes­
soa a mais num pafs industrializado consome muito mais e exerce
pressão muito maior sobre os recursos naturais do que uma pessoa
a mais no Terceiro Mundo. Para a conservação dos recursos, os
padrõel; e as preferências de consumo são tão importantes quanto
o número de consumidores.
Assim, muitos govemos têm de lutar em VlIrias frentes - conter
o aumento populacional; controlar os efeitos desse aumento sobre
os recursos e, dispondo de miús conhecimentos, ampliar os limites
desses recursos e aumentar sua produtividade; possibilitar a reali'
zação do potencial humano, para que as pessoas possam ceono­
103
'núzar e usar melhor os recursos; e propon;ionar às pessoas outras
.fonnas de segurança social que nlio um grande nlimero de fllhos.
O. meios de atingir esses objetivos variarão de país para país,
mas todos devem ter em mente que o crescimenlo econônúco
sustentável e o aceSSO eqüitativo aos recursos são duas das formas
mais seguras de se chegar a taxas de fecundidade mais bail\llS.
Dar às pessoas os meios para que escolham o tamanho de suas
famflias nlo é apenas um método para manter o 'equilíbrio entre
populaçlo e recursos; é um modo de garantir - sobrelodo às mu­
lheres - o direito humano básico da aulodetenninação. A quanti­
dade de meioS disponíveis para o exercício dessa escolha mede o
desenvolvimento de lima naçio. Da mesma forma, o incremenlo
do potencial humano não só promove o desen'lOlvimenlo COmo
também ajuda a assegurar o díreilo de todos a uma vida plena e
digna.
4.1. OS vfNCULOS COM O MEIO AMBIENTE E
O DESENVOLVIMENTO
O aumenlo populacional e o desen'lOlvimenlo têm vinculos com­
pleltOs. O desenvolvimenlo econ6mico gera recursos que podem
ser usados na melhoria da educação e da salide. Tais melhorias,
juntamente com as mudanças sociais a elas ligadas, reduzem tanlo
as tal\llS de fecundidade como as de mortalidade. Já as altas taxas
de aunlento populacional que corroem os excedentes disponíveis
para o desen'lOlvímenlo econômico e social podem impedir me­
lhorias na educação e na sallde.
No passado, por meio da inlli?nsificação da agricultura e do
áumenlo da produtividade, as naçôes puderam enfrentar as cres­
centes pressões populacionais sobm a terra disponível. A migra­
ção e o comércio internacional de alimentos e combustíveis ali­
viavam a pressão sobre os recursos locais, pennitindo manter as
altas densidades populacionais de alguns países industriaIizndos.
A situaçlo é di.femnte na maioria do mundo em desen'lOlvi­
mento, onde as melhorias obtidas na medicina e na salide pdhlica
fizeram as tal\llS de mortalidade cai:n::m acentuadamente e as tal\llS
de aumenlo populacional atingirem níveis sem precedentes. Mas
as taxas de fecundidade permanecem elevadas, grande parte do
potencial humano nlio chega a se realizar e o desenvolvimenlo
econÔmico está estagnado. A intensificação da agricultura pode,
até cerlo ponlo, restaurar o equilíbrio entre produçlo de alimentos
e população,.mas nlio pode ultrapassar cerIoS limites. (Ver box
4.1.)
f
"A partir <k 1970 tm'7fOU-.!Ie moda tllSIlIbefectttr distinç4D _
popu/açt!Jo e meio ambienle como ..., se tmIosstll <k dlIas dreas em
crise, mtJ$ .,.,..,freqiibrcia _ es:quecemo.r <k que apopuk.tçlJo ti
na verdade parte inUgranU do meio QIIfbie_ e, porfalUQ. quan­
do _ referimos a popuiaç{Io, e _ _ referindo nilD s6 <lOS
meias ambitmles júfco, bloldgico tllqu6nico, mtJ$ tamblnl aos
meio ambiente sdcio-culturDlou s6ci0-econlJnJico _ quais uses
progromas <k <ksenvolvimenJD estiJo $tiIndo impianIados. E faz
nwitomais .!Iendtlojaiar <k popuI.aç4o <kntro <k um COfWXI<>."
Dr.l.0. Oucbo
lnmilulo ik &tudDali! Pesqutsas PopIIlacÍOllaÚ
Audiência pdbIlca da CMMAD, Nairóbi, 23 de seII:Imbro de 1986
, A própria possibilidade de desenvolvimenlo pode ser c0mpro­
metida por altas taxas de aumenlo populacional. A l ~ disso. a
maioria dos países em desenvolvimenlo nllo dispõe de recursos
para esperar algumas gerações até que a popuIaçlo se estabilize.
A opçIo de migrar para novas terras praticamente já RIo eltÍSle. E
os baíltos níveis de desen'lOlvimenlo econômico e social conjuga­
dos a uma relação mutável entre colIllércio e produção limitam as
possibilidades de usar o comércin interD!1CÍonal para aumentar o
acesso aos recursos. Desta forma, se RIo houver medidas delibe­
radas, o desequillbrio entre aumenlo populacional e desen'lOlvi­
mento de recursos se agravará.
A presslo popuIac:ional jiS está forçando os agricullores tradi­
cionais a trabalharem mais, quase sempm em fazendas cada vez
menores situadas em terras rna:rginaís. apenas para manter a renda
familiar. Na África e na Ásia, a popuIaçlo rural praticamente d0­
brou entre 1950 e 1985, com um correspondente declínio na di&­
pouibiJidade de terra. 1 O dpido aumenlo populacional também
cria problemas urbanos de cunho econ6mico e social. q .... amea­
çam Iomar as cidades impossíveis de administrar. (Ver capftuIo
9.)
Serão oecessllrios maiores investimentos apenas para manter os
aIoais níveis, já insatisfatórios. de acesso a educação, assist!ncia
m6dica e outros serviços. Em muitos casos, os recursos exigidos
simplesmeate nlo existem. Deterioram-se as condiç6es sanitárias.
de habitação. a qualidade da educaçio e dos serviços pdblicos;
aumentam o desemprego. a migração para as cidades e a agitação
social.
Os países industrializados seriamente preocupados coni as altas
tal\llS de aumento populacional verificadas em oul:l:U partes do
lOS
104
Do" 4.1 O equ.WbrIo entre allmeuto e popuIaçllo
A FAO e o Instituto Internacional para a Análise de Slste­
rnas Aplicados realizaram um estudo conjunto para avaliar a
capacidade potencial da terra para sustentar a população nos
países em desenvolvimento. Dados sobre as caracterfsticas
do solo e da term foram combinados com dados relativos ao
clima a Íun de calcular a produtividade potencial das princi­
pais cultoras, selecionar as cultw1lS ótimas e deduzir o p0­
tencial total de produção de calorias. Foram calculados três
níveis de produção agrícola: o primeiro, com pouca tecnolo­
gia, nenhum fertilizante ou produto químico. variedades de
cultura tradicionais e nenhuma conservaçll.o do solo; o se­
gundo. com um nível médio de tecnologia usando metade
das terms para a cultura mista mais produtiva e fertilizantes,
variedades melhoradas e alsuma conservação do solo; e o
terceiro, com alto nível de tecnologia, uma mistura ideal de
culll.lrU e tecnologia em toda a termo A capacidade de sus­
tento da população foi detenninada dividindo-se a produção
total de calorias por um nível JDlnimo de ingestão per capi­
ta. Esse nl1mero foi então comparado com a variante média
das projeções populacionais da ONU.
Os 117 paises em desenvolvimento estudados, em con­
junto. podem produzir comida suficiente para alimentar uma
vez e meia sua populaçlio projetada para o ano 2000, mesmo
com um nfvel baixo de tecnologia. Mas o quadro é menos
alentador no que se rerere a cada pais isoladamente. Com o
nfvel baixo de tecnologia, 64 paises (com uma população de
cerca de 1,1 bilblIo) nIio terão recursos para se alimentar.
Com os métodos agrícolas mais avançados, o número de
países cuja produção potencial de alimentos ficaria abaixo
do necessário cai para 19, com uma população total de 100
, milhões. Destes. quase todos são países de alta renda do
Oeste asiático e alguns são pequenos EStados insullU'Os.
Muitos desses pafses estio capacitados a obter divisas sufi­
cientes para importar o alimento de que precisam. No caso
dos demais, é preciso modernizar a agricultura numa base
sustentável.
mundo têm obrigações que vão além do simples fornecimento de
pacotes de ajuda sob a fonna de material para o planejamento fa­
miliar. O desenvolvimento econômico, por meio de seus efeitos
indiretos sobre os fatores sociais e culturais. reduz as taxas de fe­
cundidade. Portanto, as políticas internacionais que interferem no
desenvolvimento econômico interferem também na <:apacidade de
U)6
Alguns pesquisadores estabeleceram o potencial "teóri-.
co" da produção global de alimentos. Segundo um dos estu­
dos. a área destinada ao cultivo de alimentos pode ser de
cerca de 1,5 bilhão de bectares (nível próximo do atual) e a .
produtividade média podelia chegar a cinco toneladas de
equivalentes em grãos por hectare (em comparação com a
média atual de duas toneladas de equivalentes em grãos).
Considerando-se a produção das áreas de pastagem e dos
mananciais o upotencial'* total situa-se em oito
toneladas de equivalentes em grãos.
Quantas pessoas podem ser sustentadas com isso? A mé­
dia global atual de consumo de energia vegetal em alimen­
tos, sementes e ração animal é de cerca de 6 mil calorias ao
dia - variando de 3 mil a 15 mil entre os paises, dependendo
dos níveis de consumo de carne. Tomando isso por base, a
produção potencial poderia sustentar pouco mais de 11 bi­
lhões de pessoas. Mas se o consumo médio aumentar muito
- digamos, para 9 mil calorias - a capacidade produtiva da
população da Terra cai para 7,5 bilhões. Esses nl1meros p0­
deriam ser muito mais altos se a área destinada à produção
de alimentos e a produtividade de 3 bilhões de hectares de
pastagens permanentes pudessem ser aumentados numa base
sustentável. Contudo, os dados levam realmente a crer que,
para atend,er às necessidades alimentares de uma população
mundial de cerca de 10 bilhões de pessoas. seria preciso
mudar um pouco os hábitos alimentares e também melhorar
bastante a eÍlciência da agricultura tradicional.
Fontes: GiDand. B. Considerations on world population and food
supply. Population anti Developmenl Review, 9(2):203-11; Higgins.
O.M. et aIii. POlenlú:Jl popu/aJion suppor1Íng capocities of lallds In
lhe tieveloplng world. &ome, "AO, 1982; Mabar, D.l., 00. Rapid
popu/olion growth anti hwnan carrying capacity. Washington. D.C.,
World Bani<:, 1985. (Stttff Woiking Papers n. 690.)
uma nação em desenvolvimento de administrar seu aumento p0­
pulacional. É por isso que a preoc!lpação com o aumento popula­
cional deve fazer parte de uma preocupação mais ampla com um
ritmo mais acelerado de desenvolvimento econÔmico e social nos
pafses em desenvolvimento.
Em última análise, a questão populacional. tanto nos países em
107
desenvolvimento quanto nos desenvolvidos, refere-se a seres hu­
manos e não a mlmeros. É falso e injusto para com a condição
humana considerar as pessoas meros consumidores. Seu bem-estar
e segur-dIlÇa - segurança na velhice, declínio da mortalidade in­
fantil, serviços médicos etc. - são a meta do desenvolvimento.
Quase tndas as atividades que aumentam o bem-estar e a seguran­
ça diminuem rias pessoas o desejo de ter mais milOs do que elas e
os ecossistemas do paCs podem suportar.
4.2. A PERSPECOVA POPULACIONAL
4.2.1 O aumento em números
o aumento populacional acelerou-se em meados do século XVIII
com o advento da Revolução Industrial e das correspondentes
melhorias na agricultura, não só nas regiões mais desenvolvidas
como também em outras. A fase recente de aceleração começou
por volta de 1950, quando as taxas de mortalidade se reduziram
acentuadamente nos paCses em desenvolvimento.
Entre 1950 e 1985, a população mundial awnentou a uma taxa
anual de 1SI %, em comparação com os 0,8% dos primeiros 50
anos do século.
2
Hoje, o aumento populacional concentra-se nas
regiões em desenvolvimento da Ásia, África e América Latina,
responsáveis por 85% do aumento da população mundial a partir
de 1950. (Ver tabela 4.1.)
Os processos de aumento populacional vão se alterando na
maioria dos países em desenvolvimento, à medida que as taxas de
natalidade e mortalidade caem. No inCcio dos anos 50, quase lo­
dos os pulses em desenvolvimento apresentavam taxas de natali­
dade superiores a 40 e taxas de mortalidade superiores a lO, sen­
do a grande exceção as baixas taxas de mortalidade da América
Latina. (Essas taxas referem-se ao mImem anual de nascímentos e
mones por mil habitantes.) Hoje, a situação é bem dife.rente:
• 32% da população do Terceiro Mundo vivem em pulses - como
China e Repllblica da Coréia - com taxas de natalidade infieriores
a 25 e taxas de mortalidade inferiores a 10;
• 41 % vivem em países onde as taxas de natalidade caíram, mas
não tanto quanto as de mortalidade, e cujas populações crescem
cerca de 2% - em outras palavras, dobram a cada 34 anos. Entre
esses países estão o Brasil, índia, Indonésia e México;
• os 27% restantes vivem em países como Argélia, Bangladesh,
Irã e Nigéria, onde as taxas de mortalidade caíram ligeiramente,
mas as taxas de natalidade pennanecem elevadas. O aWDento glo­
bal da população situa-se na faixa dos 2,5 a 3% (dobrando a cade
Tabela 4.1
População mundial 1950-85: fatos-cbave
Tamanho e !altas 1950 1960 1970 1980 1985
População total (bilhões):
Mundo 2,5 3,0 3,7 4,4 4,8
Regiões mais desenvolvidas
Regiões menos desenvolvidas
0,83
1,68
0,94
2m
1.05
2,65
1,14
3,31
1,17
3,66
Aumento anual
l
(%):
Mundo 1,8 2,0 1,9 1,7
Regiões mais desenvolvida..
Regiões menos desenvolvidas
1,3
2,1
1,0
2,5
0,8
2,3
0,6
2,0
População urbana (%):
Mundo 29 34 37 40 41
Regiões mais desenvolvidas
Regiões ""'!lOS desenvolvidas
54
17
67
22
67
.25
70
29
72
31
Fo1Ue: Department of Intemational Economic and Social Atfaiu. World
population prospects; estimates and projectiOllll .. assessed in 1984. Ne",
Yorl<, United Nations, 1986.
1 Dados referentes ao _to na década anterior ou, no caso da 61tima
coluna. nos cinco anos anteriores.
28-23 anós), com taxas de aumento ainda mais elevadas em certos
países, como O Qnénia.3
No mundo industrializado, as taxas de fecundidade declinaram
e a população não está aumentando rapidamente. Na verdade, es­
tabilizou-se em muitos países. Ainda assim, espera-se que por
volta de 2025 a população da América do None, Europa, URSS e
Oceania tenha aumentado em 230 nillhões, nllmero atual de habi­
tantes dos EUA.
A aceleração do aumento populacional no Tenoeiro Mundo e o
declínio dos níveis de fecundidade nos paCses industrializados
estão alterando radicalmente os padrões de distribuição etária.
Nos pulses em desenvolvimento, predominam os jovens. Em
1980, 39% das populações dos países em desenvolvimento tinham
menos de 15 anos; nos países industrializados, esse percentual em
de apenas 23.
4
Porém, nestes (íltimos países, a proporção de ido­
sos vem crescendo. Em 1980, as pessoas de 65 anos ou mais re­
presentavam 11% da população; nos países em desenvolvimento,
108 109
. Tabela 4.2
Tamanho da populaçllo - atual e projetado - e taxas de aumenlo
1
População (bilhões) Taxa de aumenlo anual
(%)
1950 1985 2000
Região 1985 2000 2025
a
1985
a
2000
a
2025
Mundo 4,8 6,1 8,2 1,9 1,6 1,2
África 0,56 0,87 1,62 2,6 3,1 2,5
América Latina 0,41 0,55 0,78 2,6 2,0 1.4
Ásia 2,82 3,55 4,54 2,1 1,6 1,0
América do Norte 0,26 0,30 0,35 1,3 0,8 0,6
Europa 0,49 0,51 0,52 0,7 0,3 0,1
URSS
<keania
0,28
0,02
0,31
0,03
0,37
0,04
1,3
1,9
0,8
1,4
0,6
·0,9
Fonte: Department of Internalional Economic and Social Affaírs. World
populatio1l prOS[HlCIs: estimate. and projeclions as •• sessed in 1984. New
York, United Nalions, 1986.
I Projeções de variante média.
apenas 4%.5 Assim, no 'mundo industrializado, um nl1mero relati­
vamente menor de pessoas em idade de trabalhar terá de suportar
o ônus de manter um número relativamente maior de idosos.
A altemção da estrutura etária ajuda a estabelecer as estruturas
do futuro aumento populaeiooul. O falo de haver muilos jovens
nos países em desenvolvimento significa que no futuro muitos
deles serão pais, e assim, mesmo que cada pessoa tenha menOS fi­
lhos, o número lotai de nascimenloa continuará a aumentar. O au­
menlo populacional pode persistir, por algumas décadas após o
declínio das taxas de fecundidade para o "nível de reposição" de
pouco mais de doi. filhos, em média, por casal. Desta forma,
muitas nações terão seguramente altas taxas de aumenlo popula­
ciooul nas pnSximas gerações. .
As projeções demográficas indicam que a população global
a_tará de 4,8 bilhões em 1985 para 6,1 bilhões no ano 2000 e
para 8,2 bilhões em 2025. (Ver tabela 4.2.) Mais de 90% desse
aumenlO deverão ocol1'Cr nas regiões em desenvolvimento. Há
grandes diferenças entre os países dessas regiões, e o impulso do
awnenlO populaciooul é maior na África do que na América Latí­
na ou na Ásia. Em alguns países em desenvolvimenlO, como a
China, as taxas de aumeDlo p.,pulaciooul já estão bem abaixo de
2% e a expectativa é 'Il'e caiam a menos de I% por volta do inr­
cio do próximo século.
Refletindo o "Úllpelo" do aumenlO populacional, as projeçócs
de longo prazo da ONU mostram que no nível global:
• se a fecundidade atingir o nível de reposição em 2010, a popu­
lação global se estabilizará em 7,7 bilhões por volta de 2060;
• se essa taxa for atingida em 2035, a população se estabilizará
em 10,2 bilhões por volta de 2095;
• se, no entanto, a taxa só for atingida em 2065, a população glo­
bal em 2100 poderá ser de 14,2 bilhões.
7
Essas projeções mostram que o mundo tem opções. A adoção
de pollticas para baixar as taxas de fecundidade poderia'Significar
uma diferença de bilhões na população global do próximo século.
A Ásia meridional, a África e a América Latina são responsáveis
pela maior parte das diferenças entre as três variantes. Por isso,
muito depende da eficácia das políticas populacionais nessas re­
giões.
4.2.2 Mudanças na mobilidade
o mlmero de pessoas na Europa, Japli9, América do Norte e
URSS quintuplicou entre 1750 e 1950, e apan.icipação dessas re­
giões na população mundial aumenttlu acentuadamente nesse pe_
ríodo.
8
Por volta de fins do século XIX, a preocupação com as
pressões populacionals se,intensificou na Europa. As migrações
para a América do Norte, Austrálià e Nova Zelândia ajudaram até
certo ponto. Quando atingiu o auge, entre 1881 e 1910, a emigra­
ção pennanente absorveu quase 20% do aumento populacional
verificado na Europa.
9
Hoje, porém, a migração já não é um falor determinante na
distribuição da população entre os países. De 1970 a 1980, a
emigração permanente, como percentual do amrienlo populacio­
ouI, calu para 4% na Europa e foi de apenas 2,5% na América
Latina. As percentagens correspondentes na Ásia e na África fo­
ram bastante inferiores.1
0
Assim, a opção de emigrar para novas
terras não teve e não terá grande significação para aliviar as pres­
sócs demográficas nos países em desenvolvimenlo. Na verdade,
reduz o tempo disponível para equilibrar a população com os re­
cursos.
Dentro de cnda país, há mais mobilidade populaciooul. O aper­
feiçoamento das comunicações possibililou grandes deslocamen­
los de pe"ssoas, às vezes como uma reação natural ao aumenlo das
oportunidades econômicas em detenninadas áreas. Alguns gover­
110
111
Tabela 4.3
Indicadores de saáde
Expecíativa de Taxas de morllllidade
vida ao rllISCeI'
infantil (mortes por
(anos)
mill!.llllCidos vivos)
Região
1950-55 1980-8S 1960-65 1980-85
81
Mundo 49,9 64,6 117
49,7 _ 157 114
África
37,5
ÁsiIt.
41,2 57,9 133 87
101 64
América do Sul
52,3 64,0
Américá do Norte 64,4
71,1 - 43 27
iluropa 65,3 73,2 37 16
URSS
61,7 70,9 32 2S
67,6 55 3 ~
Oceania
61,0
Fon.te: CMMAD, com base em dados de: World Resources Inslitute/lnter­
oational Iostilute for Environmenl and Development. World resources
1986. New Yorl<, Basic B00I<6, 1986.
nos estimularam bastante a migração de áreas densamente povoa·
das para outras de população escassa. Fenômeno mais recente são
os "refugiados ecológicos", que abandonam as áreas onde o meio
ambiente se deteriorou.
Grande parte dos deslocamentos dá-se do campo para a cidade.
(Ver capitulo 9.) Em 1985, cerca de 40% da população mundial
viviam em cidades; a magnitúde da migração para as cidades é
_stada pelo fato de que, a partir de 1950, o aumento da popula­
ção wbana foi maior que o aumento da população rural, tanto em
termos percentuais como absolutos. Esse deslocamento é mais
impressionante nos países em desenvolvimento, onde o námero de
citadinos quadruplicou nesse período.11
4.1.3 Melhores coadlç6es de saúde e edueaç.io
Melhorias nas condições gerais de salide e educação - mas em
especial das mulheres. e associadas a outras mudanças sociais que
elevam o _ feminino - podem ser muito importantes para a
redução das taxas de aumento -populacional. Contudo, num perío­
do inicial, melhores serviços médicos significam que mais recém­
nascidos vivem para reproduzir, e que as mulheres terão FIlhos
por um período de tempo mais longo.
Tabela 4.4
Taxas de matrículas dos sexos ma.sculino e feminino, por região.
1960 e 1982
S.xo l11811CulIao
Sexo feminioo
Região 1960 1982 1960 1982
Mundo
Nível primbio 92,2 101,3 71,1 87,3
Nível seeundllrlo 31.3 53,3 23,1 42,S
África
Nível primbio
Nível secundllrio
56,2
7,3
89,2
29,6
32,0
2,9
72,1
19,5
América Latina
e caribe
Nível primário
Nível secundário
7S,O
14,9
106,2
46,6
71,2
13.6
103,3
48,5
América do Norte
Nlvelprimbio 117,4 119,7 116,4 119,9
Nívelseeundár'io 69,4 8.5,4 71,4 86,6
Áaia
Nível primário - 94,9 100,1 63,1 79,9
Nível secundllrio 29,3 49,3 16,6 32,9
Europa e URSS
Nlvelprimbio 103,4 105,4 102,7 104,5
Nível """""dário 46,5 76,2 44,6 81,3
Oceania
Nrvel primário 102,2 102,9 100,7 98,9
Nrvel secundário 53,8 71,1 58,8 72,0
FonIe: CMMAD, ""'" base em dados de: Unesco. A summary statistical
review of ed"C8!ÍOn in Iile world, 1960-1982. Paris, July 1984.
Ohs.: Os ollmcros silo perce!ltusiIt. dos grupos cujas idadea correspondem
ao ofvel de edocaçlo que nocebem. Como há muitas crianças mais velhas
Da eocola primária. os percentuais podem ser maiores que 100.
o "estado de sallde" de uma sociedade é um conceito comple.
xo e de ditlcil mensuraçllo. Mas encontram-se bem à mio dois in.
dicadores que refletem pelo menos alguns aspecl'Ds da salide de
uma sociedade: a expeclativa de vida e as taxas de mortalidade
Infantil. (Ver labela 4.3.) Essas estatísticas indicam que as condi­
112
113
ç/les de saúde melhoraram praticamente em toda parte; e, pelo
menos no que tange a esses dois indicadores, diminuiu a lacuna
entre os países industrializados e os em desenvolvimenlD.
Dos muitos fatores que podem aumenta! a expectativa de vida
e redum as taxas de mortalidade, vale a pena ressalta! dois. Pri­
meiro, embora em tennos gerais a riqueza de um país se reflita na
saolde desse país, algumas nações e áreas relatiVlÍmente pobres,
como China, Sri Lanka e o estado indiano de Kerala, foram muito
bem-sucedidas em suaS tentativas de baixar a mortalidade infantil
e melhorar as condiçlles de saolde, por meio da melhoria da edu­
cação - sobretudo das mulheres -, da instituição de serviços blIsi­
cos de saolde e de outros programas de assistência médica.l
2
Se­
gundo, as reduções mais significativas nas taxas de mortalidade
do mundo industrializado ocorreram antes do advento dos medi­
camentos modernos; deveram-se a melhores condiçóes de nutri­
ção, habitação e higiene. Os progressos recentes ocorridos nos
paises em desenvolvimento deveram-se também em grande parte a
programas de saolde pl1blica, sobretudo ao controle de doenças
transmissíveis.
A educação é outro aspecto-chave da "qualidade da popula­
ção". Nas ültimas décadas as oportanidades educacionais amplia­
ram-se bastante em quase tudos os países. Houve grandes pro­
gressos em termos de matriculas escolares, índices de alfabetiza­
ção, ampliação do ensino técnico e desenvolvimento de técnicas
científicas.
4.3 UMA ESTRurURA DE POLmCA
Um aumento populacional excessivo faz com que os frutos do de­
senvolvimentu sejam repartidos por um n1!mero cada veZ maior de
pessoas, não pennitindo que, em muitos países em desenvolvi­
mento, OS padrões de vida se elevem; é imperativo recjuzir as
atuais taxas de aumento populacíonal a fIm de se atingir o desen­
volvimento sustentável. Os pontos criticas são o equilíbrio entre
tamanho da população e recursos disponíveis, e a taxa de au­
mento populacional em relação à capacidade da economia de
atender às necessidades blIsicas da população, não s6 hoje, mas
por gerações. Uma perspectiva de tão longo prazo é necessária
porque as atitudes em relação à fecundidade raramente mudam
com rapidez e porque, mesmo depois que a fecundidade começa a
declinar, os aumentos populacionais anteriores indicam um impul­
SO de crescimento quando as pessoas atingem a idade de procriar.
Não importa o modo como urna nação busque o desenvolvimento
sustentável e níveis mais baixos de fecundidade, ambos têm vín­
culos estreitos e reforçam-se mutuamente.
As medidas destinadas a alterar o tamanho da população s6 são
et"tca:zes em combinação com outras questlles relativas a desen­
volvimento e meio ambiente. O tamanho, a densidade, a mobili­
dade· e a taxa de aumento de wna população não podem ser alte­
rados a curto prazo se esses esforços se chocam com padrões
opostos. de desenvolvimento em outras áreas. As polfticas popula­
cionais devem visar a aspectos mais abrangentes que o simples
controle de nolmeros: são também importantes medidas para me­
lhorar a qualidade dos recursos humanos no tocante a sao!de, edu­
cação e desenvolvimento social.
Um primeiro passo seria os governos abandonarem a falsa di­
visão entre gastos ·'produtivos
u
ou "econÔntÍcos
n
e gastos "so­
ciais". Os planejadores precisam entender que os gastos com ati­
vidades populacionais e com outros esforços para que o potencial
humano se realize sio cruciais para as atividades económicas e
produtivas de urna nação e para a obtenção de um progresso hu­
mano sustentável - a finalidade dos governos.
4.3.1 AdminlstnuJdo o aumento populacional
As polfticas populacionais apresentam níveis desiguais de pr0­
gresso. Alguns países com sérios problemas demográficos adotam
polfticas abrangentes. Outros limitam-se a promover o planeja­
.mento familiar. Outros ainda nem isso fazem.
Oma Pol.ftica populacional deveria definir e adotar amplas me­
tas demográficas nacionais, relacionando--as com outros objetivos
sócio-econômicos. Dentre os fatores que afetam a fecundidade,
sobressaem os sociais e os culturais. Destes. os mais importantes
são os papéis que a mulher desempenha na fam/lia, na economia e
na sociedade em geral. As taxas de fecundidade caem à medida
que aumentam suas opurtanidades de empregn fora de casa - na
cidade.ou no campo - e elas passam a ter mais acesso à educação
e a casar-se mais tatde. Por isso, as polllicas destinadas a baixar
as taxas de fecundidade devem não só abranger incentivos e de­
sincentivos econômicos, como procurar dar à mulher urna posição
melhor na sociedade. Essas polfticas deveriam, em essência, pro­
mover os direitos da mulher.
A pobreza gera altas taXas de aumento populacional: as famí­
lias mal providas de renda, emprego ou previdência social preci­
sam de filhos, primeiro para trabalhar e mais tatde para sustentar
os pais idosos. As taxas de fecundidade baixarão caso se tomem
medidas para propiciar às famílias pobres wn meio de vida ade­
quado, para estahelecer e reforçar na legislação wna idade mini­
115 114
ma para a mão-de-obra infantil, e pam assegurar uma previdência
social fmanciada com recursos páblicos. Programas melhores de
saáde páblka e de nutrição infantil, que façam cair as taxas de
mortalidade infantil - para que os pais não precisem de filhos
"exlnls" como precaução contra a morte de outros filhos -. p0­
dem também ajudar a reduzir os níveis de fecundidade.
Todos esses programas só conseguem reduzir as taxas de nata­
lidade quando seus benefícios são partilhados pela maioria da p0­
pulação. As sociedades que tentam estender os beneficios do
crescimento econômico a um segmento mais amplo da população
podem ser mais bem-sucedidas no tocante a baixar suas taxas de
natalidade do que as sociedades que apresentam um cresclmento
econômico maior e mais acelerado, porém uma distribuição mais
desigual dos benefícios desse crescimento.
Assim, as estratégias demográficas dos países em desenvolvi­
mento I&n de lidar não só com a variável população propriamente
dita, mas também com as condiçôes econômicas e sociais subja­
centes ao subdesenvolvimento. Devem abranger mllltiplos aspec­
tos: dar mais motivações sociais, cultorais e econômicas aos ca­
sais para que tenham menos filhos e, mediante programas de pla­
nejamento familiar. propiciar a todos os interesssóos a educação,
os meios tecnológicos e os serviços necessãrios ao controle do
tamanho das famllias.
Os serviços de planejamento familiar de muitos países em de­
senvolvimento ressentem-se da falta de integração com outros
programas que reduzem a fecundidade e até mesmo com aqueles
que aumentam a motivação para recorrer a esses serviços. Tanto
..., serem planejados quanto ..., serem implementados, esses servi­
Ços permanecem desvinculados dos programas relativos à fecun­
didade - como nutrição, ...lide páblica, assisténcia matemo-in­
fantil e educação pr6-escolar - que se desenvolvem na mesma
área e freqüentemente são custeados pela mesma agência.
É preciso. portanto, que esses serviços sejam integradoS a ou­
tros esforços que visam a facilitar o acesso à assistência médica e
à educação. O apoio clínico requerido pela maioria dos métodos
de contracepção modernos torna os serviços de planejamento fa­
miliar bastante dependentes' do sistema de salide. Alguns gover­
nos conseguiram, com sucesso, aliar programas populacionais a
projetos de saúde, educação e desenvolvimento ruml, e os im­
plantaram como parte de programas sócio-econômicos mais am­
plos em aldeias ou regiôes. Essa integração aumenta a motivação,
facilita o acesso e torna mais eficazes os investimentos em plane­
jamento fiuniliar.
Atualmente, apenas cerca de 1,5% da ajuda oficial ao desen­
volvimento destina-se à assistência populacional.I
3
Infelizmente,
"O meio ambieNe diz reJl[Jt!iIo a todos, o desenvolvimento dJ-z:
respeitQ. a todos, a vida e o viver dizem 1Y!!speilo a todos. C1't!!io
que a solução .rerá estimulaJ"· a instrução ambienral em """""",
para que possam ser tomados decisões democráJicas e esclareci­
das. pois .re as decisiies d4 uns pollCOS, sem incluir a
opinião das massas, especial:meNe as organizaçlJe.r nIio-sover- .
nan.."'Mis, Omais provável é q .... não se chegue a soluções ade­
quadas. Elas serifo impostas d4 cima, o povo não reagird positi­
vamente a elas e () projeto fracassard _sd4 CtJl1llltÇtU".'·
loseplt Ouma
ReitI)T da EscolD de Estudos i\mbIentois. Universidade Moi
Awiü!ncia póblica da CMMAD, 23 de setembro de 1986
alguns países doadores reduziram sua assistência a programas p0­
pulacionais multilaterais e os enfraqueceram; isto tem de ser cor­
rigido. \
O Zimbábue foi bem-sucedido na integração de seus esforços
de planejamento familiar tanto com serviços de saáde rurais como
1
com outros esforços para tomar as mais capazes de or­
ganizar atividades em grapo e ganhar dinheiro com seu próprio
trabalho. No infclo, a ação do governo não se destinava tanto a
limitar o· aumento populacional. mas a ajudar as mulheres a espa­
çar os partos, no interesse da saúde da mãe e da criança. e a
prestar assistencia às mulheres estéreis para que gerassem filhos .
M'U aos poucos as famllias· começaram a usar os contraceptivos
de que dispunham para espaçar 011 partos a fim de limitar a fecun­
didade. Hoje, o Zimbábue ê o país da África subsaariana que
mais se uti1iza dos mérodos de contracepção modernos .14
4.3.2 Administrando. a dJsI:ribuJÇão e a mobWdade
A distribuição da população pelas diferentes ""giõe. de mil país
influenciada pela disseminação geográfica das atividades e opor­
tunidades econômicas. A maioria dos países está teoricamente en­
gajada em equilibrar o desenvolvimento regional, mas na.prátíca
_teo consegue. Os governos capazes de difundir oportuni­
dades de emprego por todo o território de seus países e sobretudo
pelo interior restringem o crescimento rápido e quase sempre des­
j:OJltrolado de uma ou duas cidades. Talvez o programa nacional
aIIIis arabicioso desse tipo seja o esforço feito na China para
_ter indás!rias de porte urbano 110 campo.
116
117
"Os fenômenos demográficos constituem a da probú!.
mática do desenvoMmenJo aj'rlcano; são os dodas que leVam a
maioria das analisrns a para a Áfrico. /mia crise conti·
nua e cada vez mais grave. É sem dútlida imperativo e urgellle
que os govemos qfricanos adOtem e imp/emelllem c:om rigor /mia
polflica popuiacional d4 longo alcance.
Uma questiío relevante que precisa ser examinada mais afun·
do I o lUO do sistema tribulário como meio d4 conlroiar o au·
mento da popu.1oçdo e d4sestimular a migração rural·urbana.
Para d4sacelerar o aumenJo populocional, del'er·se·ia dar às
famIliaa sem filhos um inamJivo fiscaJ. ou isenç40 d4 impostos?
Dever-se·ia impor .."". sanç40 fiscal para cada filho que uitm·
passasse um NJmero d4terminado, considerondo que o sistema
tribulário néIo resolveu o probkma da migroç40 popuioclonal?"
Adebayo Adedejí
Diretor execlllivl'I da Comissão Econbmica para a Africa
Audiência pública da CMMAD, Harare, 18 de oe1embro de 1986
A migraçlo do campo para a cidade nãoconstitui um mal em si
mesma; faz pane do processo de desenvolvimento e diversifica·
ção da economia. O problema nlo é tanto a migraçlo ruraI·urbana
global, mas a dislribuiçlo do crescimento urbano entre grandes
metrópoles e cidades de pequeno. porte. (Ver cllpftulo 9.)
Comprometer.se com o desenvolvimento ruraI implica dar mais
atenção 11 realização do potencial de desenvolvimento de todas as
regiões, sobretudo as menos favorecidas do ponto de vista ecoló­
gico. (Ver capftulo 5.) Isso ajudaria a reduzir a migraçlo nessas
áreas em funçIo da falta de oportunidades. Mas os govemos de·
veriam evitar excessos no sentido oposto, e não estimular as pe...
soas a se mudarem para áreas escassamente povoadas, como as
florestas tropicals dmidas, onde as terras podem ser incapazes de
prover o sustento das famlllas.
4.3,3 Do passivo ao ativo
Quando uma população excede a caPacidade de produção dos re­
cursos disponíveis, pode se tomar um passivo nos esforços para
dàr mais bem-estar às pessoas. Mas falar de popolaç4o apenas em
termos numéricos pode deixar encoberto um ponto importante: as
pessoas também são um recurso criativo, e essa criatividade é um
ativo que as sociedades devem aproveitar. Para alimentar e au·
mentar esse ativo, é preciso melhorar o bem-estar físico das pes·
soas. através de uma melhor nutrição, assist6ncia médica etc. É
preciso também propiciar· lhes educação para ajudá·las a se tomar
mais capazes e criativas, mais preparadas, mais produtivas e mais
capacitadas a lidar com os problemas do dia-a-dia. Tudo isso tem
de ser conseguido mediante o acesso e a participação nos pr0ces­
sos do desenvolvimento sustentável.
4.3.3.1 MelJwrando ascondiçóesd4 sa.útk
Uma boa sa1jde é a base do bem-estar e da produtividade huma·
nos. Por isso, uma política sanitária em bases amplas é essencial
ao desenvolvimento sustentável. No mundo em desenvolvimento,
os graves problemas do mau estado de sallde estão íntimamente
ligados às condlçóes ambientai. e aos problemas do desenvolvi·
mento.
A rnaIárla é a principal doença parasftica dos trópicos, e sua
incidência está estreitamente ligada 11 eliminação e' à drenagem
das águas servidas. As grande. represas e sistemas de irrigação
fizeram aumentar acentuadamente a incidência de esquistossomo..
se em muitas áreas. Deficiências de abastecimento de água e de
\
saneamento slo diretamente respoll8áveis por outras doenças
I
,
muito jlifundidas, como a diarréia e várias verminoses. I
Embora se tenham feito muitos progressos nos llltimos anos,
j
1,7 bilhão de pessoas ainda não dispõem de água potável e .1,2
bilhão, de saneamento ndequado.
1S
Muitas doenças podem ser
1
controladas por meio não .6 de intervenções terapêuticas, mas
também de melhorias no abastecimento de água das regiões ru· I
rals, saneamento e educação sanitária. Para tanto, é realmente ne·
cessãria uma solução calcada no desenvolvimento. No mundo em
desenvolvimento, o námero bicas de uma região é.um indfcio
melhor da saúde de uma comunidade do que o ndmero de leitos
hospitalares.
Outros exemplos do vínculo entre desenvolvimento, condições
ambientais e saúde são a poluição do ar e as doenças respiratórias
decorrentes, o imPacto das condições habitaCionais na transmis­
são da tuberculose, os efeitos das substãoclas cancerígenas e t6­
xicas, e a possibilidade de acidentes no trabalho e em outros lo·
cals.
Muitos problemas de saúde advêm de deficiências de nutriçAo,
que existem em praticamente todos os pafses em desenvolvimen­
to, e de modo mais acentuado em dreas de baixa renda. A subnu·
trição está em grande parte relacionada com uma deficiência caló­
rica ou protéica ou com ambas, mas alguns regimes alimentares
também deixam Il desejar em elementos e CQmPOnentes especlfi·
cos, como ferro e iodo. As condições de sadde melhorarão muito
119
118
nas áreas de baixa renda com políticas que propiciem uma produ­
ção maior dos alimentos baratos que os pobres costumam comer ­
cereais nilo-refmados e tubérculos.
Esses vlnculos entre sallde, nutrição, meio ambiente e desen­
volvimento mostram que as polCticas sanitárias não podem ser
concebidas puramente em tennos de ou pre­
ventiva, ou mesmo em tennos de maior atenção à sadde pllblica.
SAo necessárias abordagens integradas que reflitam objetivos­
chave de natureza sanitária em áreas como produção de alimen­
tos; abastecimento de água e saneamento; polltica industrial, s0­
bretudo no que se refere a segurança' e poluição; e planejamento
de assentamentos humanos. Além disso, é preciso identificar os
grupos vulneráveis e os riscos que corre a saóde desses grupos, e
garantir que os fatore. s6cio-econômicos subjacentes a esses ris­
cos sejam levados em conta em outras áreas da política desenvol­
vimentista.
Por isso, a estratégia "Satlde para Todos", da Organizaçlio .
Mundial da Sallde, deveria ir muito além do fornecimento de pes­
soal médico e ambulat6rios e abranger os fatos ligados à satlde de
todas as atividades de desenvolvimento.
16
Além disso, esSa abor­
dagem mais ampla deve refletir-se em acordos institucionais para
uma coordenação eficiente de todas essas atividades.
No campo mais restrito do atendimento médico, um bom ponto
de partida é propiciar serviços básicos de sallde e assegurar que
todos tenham a oportunidade de usA-los. A assistência médica
matemo-infantil é também de particular importância. Neste caso,
a infra-estrutura é relativamente barata e pode ser muito benéfICa
para a satlde e o bem-estar. A mortaIidade. materna pode ser dras­
ticamente reduzida, caSO se disponha de um sistema organizado
de parteiras treinadas e de proteção contra o tétano e outras infec­
ções do parto, e também de alimentação suplementar. Da mesma
fonna. as taxas de sobrevivência infantil podem ser muito mais
altas, caso se criem programas de baixo custo para vacinar, ensi­
nar e fornecer terapia de reidratação oraI contra a diarréia, e esti­
muIat a amamentaçlio (que por sua vez pode reduzir a fecundida­
de).
O atendimento médico tem de ser complementado por uma
educação sanitária eficiente. Em breve, certas regiões do Terceiro
Mundo poderão apresentar um nt!mero cada vez mais alto de ca­
sos de doenças ligadas aos estilos de vida das nações industriali­
zadas - sobretudo cliocer e cardiopatias. Puucos países em desen­
volvimento podem a:roar com os altos custos do tratamento destas
doenças, e deveriam começar agora a educar seus cidadãos
quanto aos perigos do fumo e das dietas muito ricas em gorduras.
"Acho que n6s, IM Ásia, busci:unDs o equiJlbrio ent1'le a vida e8­
pirilUDi e a material. Percebi que vods tentamm separar a relI.­
gl/kJ do fodo tecnol6gico da vida. O erro do Ocülerúe lido foi
exaIi1mente desenvolver a teCnologia .sem ética, sem religl/kJ? Se
foi. " se temos a possibiliilDde de seguir ouJro camínho. ndo de­
verfomos arrmselhar OI!! que trabalhom C<Jm _logia a busca­
rem "'" tipo diferente de tecnologia, que tenha por: base não sd a
rac:ionaliilDde. mas o aspecto espiritual? Serd isso "'"
sonIzo, ou algo que não podemos evikrr?"
Depoimento de um participante
Audillncia p6bIica da CMMAD, Jacsrta, 26 de _ de 1985
A rápida disseminaçáo da sindrome da imunodeficiência adqui­
rida (Aids), tanto nos países em desenvolvimento como DOS de­
senvolvidos, pode alterar drasticamente as prioridades sanitárias
de todes as nações. A Aids ameaça matar milhões de pessoas e
conturbar a economia de muitos países. Os governos deveriam
deixar de lado a timidez e alertar imediatamente seus cidadãos a
respeito dessa sfndrome e dos modos como se difunde. É essen­
cial a cooperação internacional na pesquisa e no combate dessa
doença.
Ontro grande problema para a saóde, com ramificações inter­
nacionais. é o aUllle/1to da toxicomania. Esse problema v:incula-se
estreitamente ao crime organizado no tocante li produção de dr0­
gas, ao tráfico internacional em grande escala e às redes de distri­
buição. Distorce a economia de muitas áreas pouco produtivas e
destrói pessoas em todo o mundo. Para enfrentar esse flagelo, a
cooperaçáo internacional é indispensável. Alguns países têm de
despender somas bastante elevadas para pôr fim li produção e ao
tráfico de narcóticos, diversificar o. culti_s e aplicar esquemas
de reabilitação nas áreas produtoras, que geralrnente ficam esgo­
tadas. Tudo isto requer maior assistência internacional.
Grande parte da pesquisa médica concentra-se em prodntos
farmacêuticos, vacinas e outros tipos de intervenção tecnológica
que visam o controle das doenças. Muitas dessas pesquisas refe­
mm-se a doenças dos países industriaIizados, já que seu trata­
mento representa parte substancial das vendas das indllstrias fur­
maeêuticas. É urgente que se intensiflquem as pesquisas sobre
doenças tropicais ligadas ao meio ambiente, que constituem o
maior problema sanitário do Terceiro Mundo. Essas pesquisas não
deveriam concentrar-se apenas em novos medicamentos, mas
também em medidas de sallde póblica para o controle dessas
12/
120
"A educoçát> e a comunicaçtlo silo de importdncill vital para que
cada indivftúw se conscientize de sua re$pOnsabüldade para com
o futuro sadio do mundo. O mellwr meÚJ de os estudantes reco­
nhecertml que suas açóes têm conseqiibrcills ~ a esc04z ou a co­
munidade organt_ projetos dos quais eles participem. Uma
vez convencidos de que podem colaborar, as pessoas fendem a
mudar de aIirude e de ~ n l o . As novas alirudes para
com o meÚJ ambie_ se refletirão nas decisóes tomDtkIs em casa
e nas salos de reunião "'" todo o mundo. "
VanessaAWson
E.1JIdante do North TOn»IfiJ CoUegiale High School
Audiência pública da CMMAD. Ottawa. 26-27 de maio de 1986
doenças. Conviria fortalecer muito maís os acordos já existente_
de colaboração internacional para a pesquisa de doenças tropi­
cais.
4.3.3.2Am,pliando a educaçdo
o desenvolvimento dos recursos humanos requer conhecimentoS e
técnicas que ajudem as pessoas a ter melhor desempenho econ6­
mico. O desenvolvimento sustentável exige mudanças de valores
e atitudes para com o meio ambiente e o desenvolvimento - na
verdade. para com a sociedade e o trahalho doméstico, em pr0­
priedades rurais ou em fábricas. Todas as religiõcs poderiam c0­
laborar, orientando e motivando a formação de novos valores que
salientassem a responsabilidade individual e coletiva para com o
meio ambiente e para com a hannonia deste com a humanidade.
A educaç!o deveria lambém estar equipada para tornar as pes­
soas maís capazes de lidar com os problemas de superpopulação e
de densidades populacionais muito elevadas. e estar mais <;apaci­
tada a melhorar o que se poderia chamar de "capacidades sociais
de produção". Isso é indispensável para evitar rupturas na tecitu­
ra social; e a escola deveria tentar aumentar os níveis de tolerão­
eia e empatia necessários à vida num mundo superpovoado. Para
que haja melhores condições de sadde, fecundidade mais baixa e
melhor nutrição são necessárias maís instrução e maior responsa­
bilidade cívica e social. A educação. além de propiciar tudo isso,
pode tomar a sociedade mais apta para superar a pobreza. elevar
as rendas, melhorar a sadde e a nutrição. e reduzir o lamanho das
famílias.
122
r;
I',
I ~

O investimento em educação e o aumento das matrículas eSCO­
lares verificados nas Illtimas décadas são indícios de progresso. O
acesso à educação vem crescendo. e deverá continuar a crescer.
Hoje. quase todos os meninos do mundo recebem algum tipo de
instrução primária. Na Ásia e na África, no entanto, as taxas de
matrículas escolar de meninas são muito inferiores às de meninos.
em tudos os níveis. Ainda existe lambém grande defasagem entre
países desenvolvidos e em desenvolvimento no que tange às taxas
de matrícula após o nível primário. como mostra a tabela 4.4.
As projeções da ONU referentes a taxas de matrícula escOlar
para o ano 2000 indicam que essas tendências devem se manter.
Por isso. apesar do incremento no ensino primário, o analfabetis­
mo continuará a aumentar em números absolutoS: no run do sé­
culo, mais de 900 milhões de pessoas não saberão ler nem escre­
ver. Por essa época. prevê-se que, na Ásia, as taxas de matrícula
escolar de meninas ainda estarão abaixo das taxas atuais· para me­
njnos. No tocante ao ensino secundário, prevê-se que por volta do
ano 2000, os países em desenvolvimento ainda não tenham atin­
gido sequer os níveis apresentados pelos países indnstrializados
em 1960.
17
Para haver um desenvolvimento sustentável, é preciso retificar
essas tendências. A tarefa principal das políticas educacionais é
promover a alfabetização universal e acabar com as defasagens
entre taxas de matricula escolar de meninos e meninas. Se esses
objetivos fossem atingidos, a produtividade e as rendas pessoais
auínentariam e mudaria a atitude individual para com a sallde, a
·nutrição e a procriação. Isto também pode tomar as pessoas mais
conscientes dos fatores ambientais do dia-a-dia. As oportunidades
de ensino posterior ao primário devem ser ampliadas para propi­
ciar os conhecimentos necessários à obtenção do desenvolvimento
sustentável.
Um sério problema com que se defrontam muitos países é o
desemprego generalizado e a inquietação daí decorrente. Muitas
vezes a educação não consegue capacitar as pessoas a obterem
empregos adequados. Isso se evidencia no grande número de de­
sempregados que foram preparados para exercer funções burocrá­
ticas em popul8ÇÕCS urbanas cada vez maiores. A educação e a
formação prorlSsional deveriam também visar à aquisição de co­
nhecimentos práticos e de técnicas profissioualizantes. e. princi­
paImente, a aumentar a autoconfiança pessoal. Tudo isso deveria
ser apoiado por esforços no sentido de fol1alecer o setor infonnal
e incrementar a participação de oQlllnizaçõcs comunitárias.
Dar oportunidades é apenas um começo. Deve-se melhorar a
123
I;
qualidade da educação e adequá-Ia mais às condições locais. Em
muitas áreas, O ensiao deveria estar integrado à participação das
crianças no trabalho agrfcola, processo que requer flexibilidade
por parte do sistema escolar; deveria transmilir conbecimentos
aplicáveis à administração correia dos recursos locais. Do currí­
culo das escolas rurais deveriam constar matérias versando sobre
os solos locais, a água e sua conservação, o desfloreslamento e
como a comunidade e as pessoas podem repará-lo. A formação de
professores e a elaboração do currículo escolar deveriam ser de
molde a fazer OS alunos aprenderem mais sobre os dados agrícolas
de uma área.
A maioria das pessoas baseia sua compreensão dos processos
ambientais e de desenvolvimento em crenças tradicionais ou nas
infurmações transmitidas por uma educação convencional. Mui­
tas, portanto, continuam ignorando como aperfeiçoar as práticas
tradicionais de produção e proteger melhor a base de recursos
naturais. Por isso, a educação deveria ser mais abrnngente e en­
globar as ciências sociais e natorais e também as humanidades,
para que se pudesse perceber a interação dos recursos natorais e
humanos, do desenvolvimento e meio ambiente.
A educação ambiental deveria constar do currículo formal em
todos os níveis - tanto COmo matéria isolada, quanto como parte
de oulras matérias. Isso awnentaria o senso de responsabilidade
dos a1W1OS para com o estado do meio ambiente e lhes ensinaria a
control.s-lo, protegê-Io e melhor'-lo. B impossível atingir esses
objetivos selo que os alunos se engajem no movimenlD em prol
de um meio ambienle melhor, seja através de clubes devotados à
natureza, seja através de grupos de inleresse. A educação de
adultos, o ensiao profissionalizante, a televisão e outros métodos
menos fonnai. devem ser usado. para atingir o maior mlmero
possível de pessoas, porque as questões ambientais e os sistemas
de conhecimento agora mudam radicalmente no espaço de uma
geração.
A formação de professores é um ponto vital. As atitud",. dos
professores serão fundamentais para que se lenha uma compre­
ensão mais ampla do meio ambiente e de seus vínculos com O de­
senvolvimenlD. Para que eles se tomem mais conscientes e mais
bem preparados COlo relação a esse assunto, as agências multila­
terais e bilaterais devem prestar apoio à elaboração de um currí­
culo adequado nas instituições de formação de professores, à pre­
paração de materiais didáticos e a outras atividades ligadas à área.
Essa conscientização geral poderia ser facilitada, estiroulando-se
os professores de diferentes países a entrarem em contam, por
exemplo, em centros especializados criados para este fim.
4.3.3.3 Fortalecendo os grupos vulnerdveis
Os processos do desenvolvimenlD geralmente fazem com que as
comunidades locais se integrem gradualmente numa estrotura s0­
cial e econômica mais ampla. Mas algumas comunidades - os
chamados povos ind[genas ou tribais - permanecem isoladas de­
vido a fatores tais como barteiras físicas à corounicaçio ou dife­
renças marcaoles de práticas sociais e cultw:ais. Tais grupos são
encontrados na América do Norte, na Austrália, na bacia amazô­
nica, na América Central, nas florestas e montanhas da Ásia, nos
desertos do norte da África e em outros lugares.
Seu isolamento resultou na preservação de um modo de vida
tradicional em íntima harmonia com o ambiente natural. A própria
sobrevivência desses povos dependeu de sua consciência e adap­
laçio ecológicas. Mas o isolamento fez tamMm com que poucos
partilhassem do desenvolvimenlD econômico e social de seus paí­
ses; e a isso pode se dever seu estado precário de saóde, nutriçio
e educaçio.
À medida que o desenvo!vimenlD organizado vai chegando às
regiões remotas, esses grupos ficam menos isolados. Muitos vi­
vem em áreas ricas em recursos natorais valiosos que os planeja­
dores e "desenvolvlmentistas" desejam explorar; e essa explora­
ção conturba o meio ambienle local a ponto de pôr em risco os
modos de vida tradicionais. As mudanças legais e institucionais
que acompanbam o desenvolvimento organizado contribuem para
aumentar a pressão.
A interação cada vez maior com o mundo está tornando esses
grupos mais vuJnerãveis, já que muitas vezes são deixados à mar­
gem dos processos de desenvolvimento econômico. A discrimina­
çlo social, as barreiras cultw:ais e a excluslo desses povos dos
processos polfticos nacionais deixam-nos vulneráveis e sujeitos à
exploraçfio. Muitos grupos perdem suas terras e ficam marginali­
zados, e suas práticas tradicionais desaparecem. Tomam-se víti­
mas do que poderia ser chamado de extinção cultural.
Tais comunidades são depositárias de um vasto acervo de co­
nbecimentos e experiências tradicionais, que liga a humanidade a
suas origens ancestrais. Seu desaparecimento constitui uma perda
para a sociedade. que teria muilD a aprender com SWIJI técnicas
tradicionais de lidar coro sistemas ecológicos muito complexos. B
de uma terrfvel ironia que, à medida que o desenvolvimento for­
mai vá. atiogiodo mais inlensamente as florestas tropicais, os de­
sertos e outros ambientes isolados, tenda a destruir as únicas cul­
turas que se mostraram capazes de lidar bem com esses ambien­
les.
12,5
124
"Estou aqui como filho de wna pequena naçdo, a naçilo indfge­
na Krenak. Vivemos no vale do rio Doce, na divisa dos estados
do Espfrito Samo e Minas Gerais. Somes um micropais - wna
micronaçilo.
Quandc o govemo tomou nossa terra no vaÚl do ria Doce,
queria nos dar outra, em oUlrO lugar. Mas o Bstodb, o gawtmO,
jamais entenderá que niúJ temos outro lugar para ir.
Para o povo Krenak, o único lugar onde I pasmei viver, e
est<lbelecer nossa existlncÍLl, falar com nossos deuses, falar com
nossa natureza, órganizar nossas vidas. I o lugar onde nosso
Deus: nos criou. É i1fÚli1 o govemo nos colocar nwn lugar muito
bonito, nwn lugar muito bom. com muita caça e multa pesca.
Nds, o pOvo Krenak, continuoremos morrendo e morreremos in­
sistindo em que 3d há um lugar onde podemos viwr.
Meu amzção niúJ fiça feliz em ver a incapacidade dos ho­
me..... Nilo tenho prozer nenlwnt em vir aqui e fazer essas decio­
mç(ies. Jd niúJ podemos encarar o planeta em que vivemos como
um tabuJ.eiro de xadrez onde as pessoas simplesmt!Jnte movem as
peças. Nilo podemos considerar o planeta aigo iso/aáo do c6smi­
co.
Nilo somes idiotas para acreditar que I pasmei viver longe
do lugar onde nossa vida teve origem. Respeitem o lugar onde
vivemos, niúJ deteriorem 1IOSSas condiçlJes de·vida. respeitem es­
sa vida. Nilo temos Qn1jQ$ para presslunar, tudo o que temos I o
direito de reclomor nossa dignidode e a necessidade de vivermos
em nossa terra. J ~
AillOnKrenak
COQrdenador do União de NOfõeslNilgenas
AudiIlnciA pt1blica da CMMAD, Slio Paulo, 28-29 de outubro de 1985
. O ponto de partida para uma política justa e humana em rela­
ção a esses grupos é o reconhecimento e a proteção de seus di­
reitos tradicionais 11 terra e a outros recursos nos quais se apóia
seu modo de vida - direito. que eles podem definir em termos que
não se enquadram nos sistemas legais regulmes. As próprias ins­
tituições desses grupos para regulamentar direitos e obrigações
são fundamentais para a manutenção da hannonia com a natureza
e da consciência ambiental característica do modo de vida tradi­
cional. Por isso, o reconhecimento dos direitos tradicionais deve
se associar a medidas de proteção das instituições locais que en­
fatizam a responsabilidade no uso dos recursos. Faz parte também
desse reconhecimento dar voz ativa ás comunidades locais nas
decisões relerentes ao uso dos recursos das áreas onde vivem.
A proteção dos direitos tradicionals deveria ser acompanhada
de medidas positivas para melhorar o bem-estar da comunidade de
forma adequada ao estilo de vida do grupo. Por exemplo, os ga­
nhos auferidos com as atividades tradicionais podem ser aumen­
tados mediante a introdução de acordos de comercialização qúe
assegurem um preço justo para a produção, e também por medidas
para conservar e fortalecer a base de recursos e aumentar a pro­
dutividade desses recursos.
As políticas de promoção que interferem nas vidas de povos
isolados e tradicionais devem ser executadas de fonna a não
mantê-los num isolamento artificial e talvez indesejado, e de for­
ma a não destruir arbitrariamente seus estilos de vida. Portanto, é
essencial tomar medidas abrangentes no tocante ao desenvolvi­
mento dos recursos humanos. Devem-se providenciar serviços de
sadde para complementar e aperfeiçoar as práticas tradicionais;
corrigir as deficiências nutricionais e criar instituições de ensino.
Tudo isso precisa ser feito antes da implantação de novos projetos
que abram campo para o desenvolvimento econômico. Também
são necessários esforços especiais para assegurar que a comuni­
dade local se beneficie plenamente desses projetos, principal­
mente no que se relere a emprego.
Em ndmeros absolutos, esses grupos isolados e vulneráveis são
pequeno.. Mas sua marginalização é sintoma de um estilo de de­
senvolvimento que tende a negligenciar considerações tanto de
ordem humana como ambientaI. Por isso, mn exame mais cons­
ciente e cuidadoso desses interesses é a pedra de toque para uma
política de desenvolvimento sustentável.
Notas
I Departmenl or International Economic and Social Affair. (Diesa) .
World popula/ion prospects; estimates and projections as assessed in 1984.
New Yorl<, Unired Nations, 1986.
2Ibid.
3 B.......ao em dados de: UNCTAD. Handbook ofinterna.·onal trade and
develepnu"'J ,tatistícs 1985 ,upp/em.enl. New Yorl<, 1985.
4 Banco Mundial. Relatório ,obre o desenvo/vinu!nJo mundia/1984. Rio de
laneiro, Fundação Getulio Varp, 1984.
51bid.
6 Diesa, op. cito
7 Unired N.tions. Popularion Bulleún of lhe United Nations, n. 14.1982.
New Yark, 1983.
8 CIarIi. C. Popula/loR growth and land use. New Yorl<, St. Martin'.
Preso, 1957.
9 BIIIICO Mundial. op. clt.
126
127
101bid.
11 Diesa, op. ci!.
12 World HeaJtb Organization.lntersectoral ünkages anti lrealÚ! devewp­
menJ, case studíes in lndia (KeraJa state), Jamaica, Norway, Srj Lanka anti
Thaikmd.Geneva, 1984.
13 Banco Mundial. cp. cit,
14 Timberlake, L. Only o". EarÚ!; living for lhe futuro. 1.oOOon,
BBC/Eartbscan, 1987
15 United Nation. Environment Programme. Tire stale ofthe environment;
environment and beallh. Nairóbi, 1986.
16 World Health Organization. Global srrolegy for lrealth for ali by tire
year 21XX1. Geneva, 1981.
17 Unesco. A srurunary sttJtistical rev;ew Df edllcation in lhe 'WOTld,
]96()..82. Paris, 1984.
128
S. SEGURANÇA ALIMENTAR:
MANTENDO O POTENCIAL
Hoje,. a produção mundial de aIímentos por habila:nte é a maior
verificada em toda a história da humanidade. Em 1985 fonun prq­
duzidos quase 500kg por habitante de cereais e tubérculos, as
fontes básicas da alimentação. I Mas em meio a essa abundância,
mais de 730 milhões de pessoas não comem o suficiente para le­
var uma vida plenamente produtiva.
2
Há lugares onde quase nada
é cultivado; e há lugares onde grande número de pessoas não ga­
nha o suFICiente para comprar alimentos. E em amplas áreas da
Terra, tanto nos paises em desenvolvimento como nos desenvol­
vidos, o aum<>nto da produção de alimentos está prejudicando a
ba.", da produção futura.
Dispomos dos recursos agrícolas e da tecnologia necessária pa­
ra alimentar populações cada vez maiores. Nas últimas, décadas
houve muitos progressos; Não faltam recursos para a agricultura;
o que falta são políticas que assegurem que o alimento seja pro­
duzido não só onde é necessário, mas de modo a garantir a sub­
sist!ncia.das populações pobres rurais. Para enfrentar esse desa­
fio, ten,los de consolidar nossas conquistas e traçar novas estraté­
gias para garantir alimento e meios de subsist!ncia.
5.1 CONQUISTAS
Entre 1950 e 1985, a produção de cereais supiantou o aumento da
população, passando de cerca de 700 milhôes de toneladas para
mais, de 1,8 bilhio de toneladas, uma taxa de crescimento anual
de aproximadamente 2,7%.3 Esse incremento 8judou a atender às
crescentes demandas de cereais acarretadas pelo aumento popula­
cional e pela elevação das rendas nos países em desenvolvimento
e também peias necessidades crescentes de ração animai nos par­
ses desenvolvidos. Mas houve grandes diferenças no desempenho
.egional. (Ver tabela 5.1.)
Como a produção aumentou ·acentuadamente em alguntas re­
giões e a demanda em outras, a estrutura do comércio mundial de
alimentos, em particular de cereais, alterou-se radicalmente. A
América do Norte. que exportou apenas 5 milhões de toneladas
de grilos alimentícios ao ano antes da fi Guerra Mundial, chegou
a quase 120 milhões nos anos 80. Hoje, o déficit de grãos na Eu­
129
Tabela 5.1
Duas décadas de desenvolvimento agrícola
Produçio de a1i- Área de plantio Uso de
mentos per capita bruta per capita fertilizantes per
(1961-64= 100) (hectares) . caplta (quilos)
Região 1961-64 1981-84 1964 1984 1964 1984
Mundo 100 112 0,44 0,31 29,3 85,3
Améri.::a do Norte 100
Europa Ocidental 100 .
Leste europeu
121
131
1,05
0,31
0,90
0,25
47,3
124,4
93,2
224,3
• URSS 100
África 100
Oriente Próximo
l
100
Extremo Oriente
2
100
América Latina 100
Paf... asíálicos
128
88
107
116
108
0,84
0,74
0,53
0,30
0.49
0,71
0,35
0,35
0,20
0,45
30,4
1,8
6,9
6,4
li,6
122,1
9,7
53,6
45,8
32,4
com economia de
plsnejamento
centrnlizado
3
100 135 0,17 0,10 15,8 170,3
FOI/Ie; baseado em dados da FAO.
1 Agrupsmento da FAO que compreende o Oeste da Ásía, Egito,. Ubía e
Sudilo.
2 Agrupamento de F AO que abrange o Sul e o Sudesie asiático, excluindo
as economias asiálicas de planejamento centrnlizado.
3 Agrupemento da FAO de economias de plsnejamenlo centrnlizado da
Ásia que compreende China, Coréia do Norte, Kwnpucheía, Mongólia e
Vietnã.
ropa é muito menor, e o grosso das eltportaç(!es nOJ1l>.amcricana..
destina-se à URSS, Ásia e África. No infcio dos anos 80, três
países - China, 1apão e URSS - recebiam metade das exportaç(!es
mundílÚs; grande parte do restante destinava-se a países em de­
senvolvi.mento relativamente ricos, como os exportadores de pe­
tróleo do Oriente Médio. Vários países pobres essencialmente
agrícolas, sobretodo na África subsaariana, tornaram-se importa_
dores líquidos de grãos alimentícios. Mesmo assim, embora em
1984 um quarto da população da África subsaariana dependesse
de grãos importados, as importações dessa região representaram
menos de 10% do comércio mundial de grãos nos anos 80.
4
Além dos grãos, outros alimentos estão alterando as eslIUturas
da demanda e da produção de alimentos no mundo. A demanda de
leite e carne creSCe à medida que aumentam as rendas nas socie­
dades que preferem' protelna animal, e grande parte do desenvol­
vimento agrfcola dos países industrializados destinou ... a atender
a essa demanda. Na Europa, a produção de carne mals que tripli­
cou entre 1950 e 1984, e a produção de leite quase dobrou.
S
A
produção de carne para exportação aumentou abruptamente, s0­
bretudo nas ãreas de pastagem da América Latina e da África. As
exportações mundiais de carne passaram de aproximadamente 2
milhões de toneladas em 1950-52 para mals de li milhões em
1984.
6
.
Para essa produção de Íeite e carne foram necessários, em
1984, cerca de 1,4 bilhão de bovinos e bufalinos, 1,6 bilhão de
ovinos e caprinos, 800 milhões de suínos e grande quantidade de
aves - todo isso representando um peso superior ao dos habitan­
tes do planeta.
7
A maloria desses animais pasta ou se alimenta da
vegetação local. Contodo, o crescimento da demanda de grãos
forrageiros acarretou acentuados aumentos na produção de cereais
como o milbo, que respondeu por quase dois terços do aumento
totaI da produção de grãos na América ·do Norte e na Europa en­
tre 1950e 1985.
Esse crescimento aem precedentes lia produção de alimentos
deveu-se, em parte, à expansão da base de produção: .malor área
de plantio, maior rebanho, mais barcos pesqueiros etc. Mas em
grande parte decorreu de um incrível aumento na produtividade.
O aumento popuiacional provocou a redução da área destinada ao
cultivo em quase todo o mundo, em termos per capíla. E com o
declfnio da disponibilidade de terras agricultáveis, os planejado­
res e agricultores se concentraram no aumento da produtividade.
Nos últimos 35 anos, isso foi conseguido mediante:
• o uso de novas variedades de sementes desenvolvidas para ma­
ximizar o rendimento, facilitar o cultivo múltiplo e resistir às pra­
gas;
• a aplicação de mais fertilizantes qulnricos, cujo consumo au­
mentou mais de nove vezes;8
• o uso de mais ~ e s l i e i d a s e produtos qulnrieos similares, que au­
mentou 32 vezes; ,
• o aumento das áreas irrigadas, que mais do que duplicaram. 10
As estatísticas globals mascaram as grandes diferenças regio­
nais. (Ver box 5.1.) Os efeitos das novas tecnologias têm sido de­
siguais, e sob certos aspectos a defasagem em tecnologia agrícola
ampliou-se. Por exemplo, a produtividade média dos grãos ali­
mentícios na África declinou em relação à produtividade européia
de aproximadamente dois quartos para cerca de um quinto nos úl­
timos 35 anos. Até na Ásiã, onde a nova tecnologia difundiu-se
rapidamente, a produtividade calu em relação aos níveis euto­
131 130
Dos 5.1 Perspectivas regionais de desenvolvimenlo
agríc:ola
África
• queda de cerca de I % ao ano na produção de alimentos
per capita a partir do início dos anos 70;
• concentração em culturas comerciais e maior dependência
de alimentos importados, estimulada por políticas de preços
e por necessidade de divisas;
• grande defasagem de infra-estrutura para pesquisa, exten­
silo, fornecimento de insumos e comercialização;
• degradação da base de recursos agrícolas devido a deserti­
ficação, secas e outros fenômenos;
• grande potencial não-explorado de temos cultiváveis, irri­
gação e uso de fertilizantes.
. Oeste da Ásia e Nol'U! da África
• incremento de produtividade, devido à melhor irrigação,
ao cultivo de variedades de alto rendimento e a maior uso de
fertilizantes;
• terras cultiváveis limitadas e grandes extensões de deser­
tos, tomando um desafio a aUIO-sufici&lcia alimentar;
• necessidade de irrigação controlada para enfrentar as con­
dições de aridez.
Sul e Leste asi4ticos
• maior produçllo e produtividade, com alguns parses regis­
trando excedentes de grãos;
• rápido crescimento no uso de fertilizantes em alguns par­
ses e desenvolvimento extensivo da irrigação;
• comprometimento por parte dos governos com a
ci&lcia em grãos. levando à criação de centros nacionais de
pesquisa, ao de,!""volvimento de sementes de alto rendi­
mento e à promoção de tecnologias locais espccfficas;
• pouca terra não-aproveitada e desfloreslan1ento extensi vo
e constante;
• nWnero crescente de sem-temos.
Amlrica l..alIna
• declínio das importações de alimentos a partir de 1980, já
que a produção acompanbpu o aumento populacional na 111­
tima década;
peus.ll "Defasagens tecnológicas" similares ocorreram entre re­
giões de um mesmo país.
Nas últimas décadas surgiram três grandes tipos de sistemas de
produção de alimentos. A "agricultura industrializada", com uso
• apoio governarnental sob a forma de centros de pesquisa
para o desenvolvimento de semenles de alto rendimento e
oulras tecnologias;
• distribuição desigual da terra;
• desfloreSlan1ento e degradação da base de recursos agrí­
colas, decorrentes em parte do commio com o exterior e da
crise da dívida;
• enonne potencial de recursos agrários e de alta produtivi­
dade. embora a maior parte da terra potencialmente cultivá­
vel se situe na bacia área remota e escassamente
povoada, onde talvez só 20% da terra sejam adequados à
agricultura sustentável.
Amlrica do Norre e Europa ocidental
• a América do Norte é a principal fonle mundial de exce­
dentes de grãos alimentícios, embora o ritmo de aumento da
produção por hectare e da produtividade total se tenha desa­
celerado nos anos 70;
• subsrdios à produção dispendiosos dos pontos de vista
ecológico e econômico;
• o efeito dos excedentes comprime os mercados mundiais e
conseqilentemente afeta os países em desenvolvimento;
• base de recursos em degradação constante por meio de
erosão, acidificação e poluição da água;
• na América do Norte, há possibilidade de uma futura ex­
pansão agrícola em áreas pouco exploradas, que só podem
ser cultivadas intensivamente a um custo muito alto.
Leste europeu e URSS
• déficits de alimentos compensados com importações, sen­
do a URSS o maior importador mundial de grãos;
• maior investimento governamental em agricultura, acom­
panhado de maiores facilidades na distribuição e organiza­
ção da produção agrícola a fim de alcançar as metas de au­
to-sufici&lcia alimentar, o que leva a um aumento na produ­
çllo de carne e de tubérculos;
• pressões sobre os recursos agrícolas por meio de erosão
do solo, acidificação, salinização, alcalinização e poluição
da água.
intensivo de capital e insumos e geralmente em grande escala,
predomina na América do Norte, Europa Ocidental e Oriental,
Austrália e Nova Zelândia e em pequenas áreas do. países em de­
senvolvimento. A "agricultura da Revolução Verde" é encontra­
132 133
da em áreas unifurtne$, ricas em recursos, geralmente planas e ir­
rigadas doS celeiros agrícolas de alguns países em desenvolvi­
mento. mais COmwn na Ásia, roas laJIJb&n é praticada em certas
regiões da América Latina e de norte da África. No infcio, as no­
vas tecnologias podem ter favorecido os grandes agricultores, mas
hoje estão acessíveis a um nllmero cada vez lll\lÍor de pequenos
produtores. A "agricultura pobre em recursos" depende mais das
chuvas ocasionais que da irrigação e costuma ser eooontrada nas
regiões em desenvolvimento de dificil cultivo - lemIs áridas,
molllanhosas e florestas - e que apresentam solos frágeis. EstiiO
neste caso a maior parte da A.trica subsaariana e as áreas mais
remotas da Ásia e da América Latina. Nessas regiões. a produção
per caplta vem declinandc e a fome é 'um.sério problema. Mas
hoje os três sistemas de produção de alimentos mosl$n sinais de
crise que ameaçam seu crescimento.
5.2 SINAIS DE CRISE
As políticas agrícolas de quase !Odes os países conceDtraram-se
no aumento da produção. Mesmo assim, ve:rificou-se ser muito
mais diffcü elevar a produção agrícola mundiAl em consistentes
3% ao ano em meados dos anos 80 do que o fora em meados dos
anos 50. Além. disso, os recorde. de produção foram contrabalan­
çadcs pelo surgimelito de crises os países
industrializados estio encontrande cada vez mais dificuldade para
admjnisttar seUs excedente. de produção alimentar; a base de
subsisl.êocia de milhões.de prodctores pobres nos países em
senvolvimento está se deteriorandc e a base de recursos para a
agricultura sofre pressões em quase todo o munde.
5.2.1 O el'eito dos subsfellos
Os excedentes de alimentos na América do Norte e na Europa
comm principalmente de subsídios e 0Ulr0S incentivos, que esti­
mulam a produção mesmo não havendo demanda. Os subsídios
diretos ou indiretos, que hoje abrángem praticamente todo o ciclo
a1imenlar, tornaram-se extremamente dispendiosos. Nos EUA, o
custo dos subsídios agricolas passou de US$2,7 bilhões em 1980
para US$25,8 bilhões em 1986. Na CE, esses custos subiram de
US.$6,2 bilhões em 1976 para US$21,S bilhões em 1986.12
Tomou-se mais atraente do ponto de vista político. e comu­
mente mais barato, exporia!" os excedente. - muitas vezes como
lliuda alimenlar - de que estocá-Ios. Esses excedentes fortemente
subsidiados derrubam as cotaçÕiOS de produtos primários COIDO o
açlica.r no mercado internacional, e isso tem criade graves pro­
blemas para vário. países em desenvolvimento cujas economias
baseiam-se na agricultura. A ajuda lIlimenlar nllo-ernergencial eas
importações a preços baixos também reprimem os preços recebi­
dos pelos agricultores do Terceiro Mundo e desestimulam O au­
mento da produção interna de alimentos. .
Nos países industrializados, estio se tomando evidente. as
conseqüências' que um sistema de produção fortemente subsidiadc
pode ter para o meio ambiente; 13
• queda da produtividade à medida que a qualidade do solo deçli­
na devido ao cultivo intensivo e ao abuso de fertilizaoles e pesti­
cidas químicos;14
• destruição do campo, através da remução de cercas vivas, cintu­
rões verdes e outras camadas protetoras e também do nivelàmen­
to, da ocupação e do cultivo de terras marginais e áreas de prote­
ção de bacias;
• poluição do lençol freático por nitrato, devido ao uso abusivo e
freqlienlemente subsidiado de fertilizantes que contêm esta sub ...
tlIncia.
Os efeitos' financeiros, econômicos e ambientais dos atuais
sistemas de incentivo estão começando a ser questionades por
muitos governos e grupos, inclusive por organizações agrícolas.
Um aspecto que causa especial preocupação é o impacto dessas
políticas sobre os países em desenvolvimento. Elas fazem cair as
colações internacionais de produtos, como o arroz e o DÇlicar, que
1!m grande patlicipação nas exportações de muitos países em
senvolvimento, reduzindo com isso os ganhos em divisas desses
países. Tomam mais instáveis as cotações mundiais e desestimu­
lam o beneficiamento de produtos primários agrícolas nos países
produtores. 15
É no 'interesse de todos, inclusive des agricultores, que as p0­
líticas têm de ser alteradas. Nos Iillimos anos, de fato, ocorreram
algumas mudauças no sentido de uma conservação maior e alguns
sistemas de subsidio passaram a ressallar cada vez mais a neces­
sidade de não incluir a terra no processo de produção. O ônus'fi­
nanceiro e econômico dos subsídios precisa ser reduzido. Tem de
'se acabar com o mal que essas políticas causam à agricultura dos
países em desenvolvimento ao desequilibran'Jm os mercados mun­
diais.
j
5.2.2 A slluaç60 de abandono do pequeno produtor
A nova tecnologia que propiciou o aumento da produtividade
I'
agrícola exige qualificações científicas e tecnol6gicas, um sistema
l!
de especialização em tecnologia e outros serviços para os agri­
l3S 134
li
"Acho que num f6rum como esse costuma sempre haver alguhn
se levantando e dizendo que seu; problema/oi esquecido. Creio
que o meu;. como orgtVlizaçClo niio-govemtl1tl4ntal. I muito im­
portante: trota-se da queSlÕO da mulher. E estou; certa de que a
maiorúz das pessoas aqui presentes eStd bastante interessada no
papel da mulher em reloção ao meto ambienle. '.'
Creio que }d foi dito multas e muitas vezes que. sobretudo "'"
África. as mulheres s40 respon.r4Yeis por 60 a SQlI, da p.rodJIçãc,
do beneficlamenlo e da comercializaçãc de qlímenlaS. Ningrdm
pode exominar de fato a CTÍSIe allmenJar "'" Afi'ica ()U muitas das
outras CTÍSles que parecem existir aqui Sf!m exomint1r a queSlÕO
da mulher e sem constalar que as mulheres participam das pro­
cessos de tomada de decisiJes desde .sua base aM seus n(veis mais
elevados."
Sra. King
The Gree()beú Mo_nt
Audiência pdbIica da CMMAD, Nairóbi, 23 de setembro de 1986
cultoljOS. al6m de orientação comercial para a administração agrí­
cola. Em muitos pontos da Ásia, em especial. os pequenos agri­
cultores têm-se mostrado excepcionalmente capacitados a empre­
gar novas tecnologias quando recebem incentivos e apoio finan­
ceiro e de infra-estrutura adequado. Na África, os pequenos agri­
cultores que lidam com cultivos comerciais provaram o potencial
. do minifundiário do continente, e nos últimos anos registtanun-se
êxitos também nas culturas alimentícias. Mas as áreas ecologi­
camente desfavorecidas e as massas rurais que dispõem de pouca
teml não se beneficiaram dos 'avanços tecnológicos e continuarão
não se beneficiando at6 que os governos se mostrem diapostos e
capazes de redistribuir terras e recursos e conceder-lhes o apoio e
os incentivos de que necessitam.
Os sistemas de apoio 11 agricultura raramente levam em cqnta
as condições especiais dos agricultores de subsistência e pecua­
ristas. Os agricultores de subsistência não podem arcar com o alto
custo dos insumos modernos. Muitos praticam o cultivo rotativo e
não possuem sequer o título da terra que útilizam. Podem plantar
muitas VlUiedades de culturas num mesmo lote de terreno para
atender às próprias necessidades, e (!<>rtanto não conseguir fazer
uso dos m6todos desenvolvidos para grandes plantações de uma
única cultura. .
Muitos criadores de gado são IlÔmades, sendo diffcil chegar até
eles para proporcionar-lhes educação. orientação e equipamentos.
Como OS agricultores de subsistência, se apóiam em certos direi­
tos tradicionais. que são ameaçados pelas atividades comerciais.
Criam raças tradicionais, resistentes mas dificilmente muito pr0­
dutivas.
As agricultoras. embora desempenhem papel fundamental na
produção de alimentos, são freqüentemente ignoradas pelos pr0­
gramas destinados a melhorar a produção. Na Am6rica Latina, no
Caribe e na Ásia. constituem importante contingente de mão-de­
obra agrícola. e na África subsaarlana a maioria dos cultivos ali­
!ÍICIl!areS fica por conta das mulheres. Mesmo assim., quase todos
os programas agrícolas tendem a desconsiderar as necessldades
peculiares das mulheres que trabalham na agricultura.
5.2.3 A dep-adação da base de recursos
A adoção de políticas insensatas está levando 11 degradação da
base de recursos agrícolas em q_ todos os continentes: erosão
do solo na Am6rica do Norte; acidificação do. solo na Europa;
desflorestarnellto e desertificação na Ásia. África e América lati­
na; e desperdício e poluição da água em quase toda parte. Dentro
de 40-70 anos, o aquecimento global pode causar a inundação de
importantes áreas costeiras de produção. Alguns desses efeitos
provêm de medidas tomadas com relaçikJ ao consumo de energia e
11 produção industrial. Outros decorrem da pressão exercida pela
população sobre recunos limitados. Mas as políticas agrícolas
que visam o allIll"nto da produção sem se deterem em considera­
ções ambienIais também vêm contribuindo bastante para essa de­
terioração.
5.2.3.1 A perda dos re<:UTSOS do solo
Nas últimas d6cadas, o allIll"nto das áreas de plantio fez muitas
vezes com que fossem cultivadas terraS marginais propensas 11
,erosão. Em fins dos anoS 70. a erosão do solo suplantou a fonna­
ção de solos em cerca de um terçO da área agricultãvel norte-ame­
ricana, a maioria nO celeiro agrícola do Meio-Oeste.
16
No Cana­
dá. a degradação do solo vem custando aos agricultores US$1
bilhão por ano. 17 Na URSS. a extensão do cultivo at6 as chama­
das Tenu Virgens foi um dos principais esteios da política agr:{­
cola, mas boje se acredita que em grande parte essas terraS são
marginais.18 Na índia, a erosão do solo afeta de 2S a 30% das
_ cultivadas.l9 Segundo um estudo da Organização das Na­
ções Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), se não
forem tomadas medidas de conservação. a área total agricultável
nlio-inigada dos pa(ses em desenvolvimento da Ásia. África e
136
137
América Latina perderá cerca de S44 milhões de hectares a longo
pnlZo, devido à erosão e 11 degradação do so10.20
A erosão faz com que o solo retenha menos água, retira-lhe os
uuttieules e reduz a profundidade indispensável para que as raízes
se fixem. A produtividade da letra declina. A camada superficial
erodida é levada para os rios, lagos e resen'lI1órios, obstruindo
portos e vias navegáveis, reduzindo a capacida(le dos reservató­
rios e aumentando a incidência e a gravidade das ÍIltIIldaÇÓes.
Sistemas de mal planejados e implementados já cau­
saram o alagamenln, a salinização e a alcalinizaçlio de solos. Se­
gundo estimativas da FAO e da Unesco, cerca de metade dos sis­
temas de il:rigaçlio exislentes no mundo apresentam em algum
grau esses problemas.
21
Ess"" estimativas indicam que cerca de
10 milhões de hectares de terra irrigada são abandonados anual­
mente.
A degradaçlio do solo destrói pouco a pouco toda a base de re­
cursos para a agricultura. A perda das terras cultiváveis impele os
agricultores ao uso abusivo da terra remanescenle e 11 invado de
florestas e áreas de pastagem. A agricultura suslentável não pode
se basear em métodos que solapam e esgotam o solo.
5.2.3.2 O efeito dos prod1.4tos qufmicos
Desde a II Guerra Mundial, os fertilizantes e pesticidas químicos
têm sido muito importantes para o aumento da produção, mas fo­
ram feitas advertências bem claras contra o fato de se dependert
deles em demasia. A perda de nilrogênio e de fosfatos devido ao
uso excessivo de fertilizantes causa danos aos recursos hídricos, e
esses danos estão se alastrando.
O emprego de produtos químicos para conIrolar insetos, pra_
gas, ervas daninhas e fungos aumenta a produtividade, porém o
emprego abUSivo a sadde dos seres humanos e a vida de
outras espécies. A exposição contínua e prolongada a pesticidas e
resíduos químicos presentes na água, nos alimentos e até no ar é
perigosa, especiaImenle para as crianças. Segundo estimativas de
um estudo de 1983, aproxi:madanJente 10 mil pessoas morrem por
ano no. países em desenvolvimento devido a envenenamento pQr
pesticidas e cerca de 400 mil são gravemente afetadas por eles.22
E os efeitos não se restringem às áreas onde oS pesticidas são
usados, mas atingem toda a cadeia alimentar.
Zonas de pesca comereial foram esgotadas, espécies de pássa­
ros ficaram ameaçadas e insetos que atacam pragas foram eXler­
minados. O mlmero de espécies nO<:ivas de insetos resislentes a
pesticidas aumentou em todo o mundo e muitas resiatem até mes­
mo aos produtos químicos mais modernos. Multiplicam-se a Va­
"Os pequenos agric:ukores s40 responsabilizados pelo. devasra­
çCIo do meio ambieNe come se pudessem escolher os recursos
dos qusis depettder para a sua subsistincia, quando de fato não
podem. Quando se trata de sobrevivhlcia bdsbt:a, as necessido­
des de _ tendem a suplantar qualquer conside1't1Ç4o
quanto ao futuro ambiental. A responsável pelo. devastm;i1o dos
recursos natw'als I apobrua, e não os pobres."
Geoffrey Brute
AgIIICÚI Canadense de Desenvolvimento llllernacwnal
ptlbli",! da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
riedade e a gravidade das pragas, ameaçando a produtividade da
agricultura nas áreas onde se manifestam.
O uso de produtos químicos na agricultura não é prejudicial
em si mesmo. Na verdade. em muitas regiões esse uso ainda é
muito pequeno. Nessas áreas, os índices de reação aos produtos
são altos e os efeitos dos resíduos para o meio ambiente alnda não
consfiluem problema. Por iSso, essas regiões se beneficiariam com
um maior emprego de agroquímicos. Contudo, tende-se a usar
msis produtos químicos exatamente nas áreas em que eles podem
causar mais malefícios do que benefícios.
5.2.3.3 A açdo cotUro asj'/Qrestas
As tlorestas slio fundamentais para a manulenção e o aumento da
produtividade das terras cultiváveis. No entanto, a expansão agrí­
cola, o crescimento do comércio mundial de madeira e a demanda
de combustível vegetal destrulram grande par1e da cobertura fl0­
restal. Embora tal destrulção tenha ocorrido em todo o mundo,
hoje o maior desafio concentra-se nos países em desenvolvimen­
to, sobretudo nas florestas tropicais. (Ver capftulo 6.)
O aumento populacional e a disponibilidade cada vez menor de
lena cultivável leva os agricultores pobres dos países em desen­
volvimento a buscarem novas lerras nas florestas para plantar
mais alimento. Algumas políticas governamentais incentivam a
transfor:mação de tlorestas em pastagens, e outras incenti varo
grandes esquemas de reassentamento em áreas florestais. Não há
nada de intrinsecamente. errado em derrubar tlorestas para dar lu­
gar à atividade agrícola, contanto que a 1emt seja a melhor possí­
vel .para tal atividade, possa sustentar as pessoas incentivadas a
nela se fixar, e já não esteja servindo a uma função mais útil, co,
138
139
mo a proteção das bacias fluviaís, Mas quase sempre se derrubam
florestas sem reflexão prévia ou planejamenro.
O desflorestamenro abala seriamenle as áreas montanhosas e as
bacias das lerrns altas e os ecossistemas que delas dependem, As
lerrns altas têm influência sobre as chuvas, e o estado de seus
sislemaS de solo e vegetação delennina a maneira como as chuvas
se precipitam sobre riachos e rios e sobre as áreas agriculláveis
das planícies situadas abaixo, Tanro as inundaçôes como as secas
que aumentaram e se rornaram mais graves em muitas partes do
mundo - foram associadas ao de.floreslamento nas bacias fluviais
das leIJBS altas.
23
5,2.3.4 O avanço dos desertos
Cerca de 29% da superfície lerrestre do planeta sofrem desel1ifi­
cação branda, moderada ou grave; outros 6% enquadram-se na
calegoria de desertificação extremamen(eo grave.
24
Em 1984, as
terras áridas do mundo sustentavam cerca de 850 milMes de pes­
soas, das quais 230 milhões viviam em !erms afetadas por grave
desel1ificação.
25
O processo de desertificação atinge quase todas as regiões do
globo, ma_ é mais destrutivo nas lerras áridas da América do Sul,
Ásia e África; nessas três áreas, em col1Íunro, 18.5% das lerras
produtivas (870 milhões de hectares) estão em processo grave de
desertificação. Das lerras áridas dos pallles em desenvolvimento,
as que mais sofrem são as zonas do Sudão e do Sabel, na África,
e. em grau mais reduzido, alguns países situados ao sul dessas
zonas. Nas leIJBS áridas e semi-áridas dessa região encontram-se
80% das pessoas moderadamente atingidas pelo problema e 85%
das pessoas gravemente atingidas,26
A degradação progressiva da lerra até atingir a condição de
deserto vem' aumentando a uma taxa anual de 6 milhões de hecta­
res.
27
A cada ano. mais 21 milhões de hectares não dão qualquer
reromo econômico devido ao avanço da desel1ificação.28 E essas
tendências devem-se manler, apesar de algumas melhorias locali­
zadas.
A desel1ificação é causada por uma mistura complexa de efei­
tos climáticos e hllllllll!os. Entre os efeitos humanos - sobre os
quais lemos mais controle - estão o rápido aumento das popula­
ções humanas e animais, práticas nocivas de uso da lerra (prlnci­
paimenle o desflorestamento), relações de troca adversas e con­
flitos civis. O cultivo de culturas comerciais em áreas de pasta­
gem inadequadas obrigou os pecuaristas e seus rebanhos a ocupa­
rem letras marginais. As relações de troca internacionais desfavo­
ráveis aos produtos primários e as políticas dos países presradores
de ajudá reforçaram as pressões para que a produção de culturas
comerciais aumentasse a qualquer custo.
Um plano de ação concebido pelo Programa das Nações Uni­
II
das para o Meio Ambienle e elaborado duranle a Conferência das
Nações Unidas sobre Desertificação. em 1977, trouxe alguns pr0­
gressos, principaImenle em nívellocal.
29
Ma.< o plano não pôde ir I
aãtanle devido 11 falta de apoio financeiro por parte da comunida­
de inlemaCional. pela inadequação das organizações regionais
criadas para lidar com os problemas de natureza regional e ao
nAo-envolvimento das comunidades de base.
5.•3 O DESAFIO
A demanda de aIímentos crescerá à medida que as populações
aumentarem e seus padrões de consumo se al_m. Até o ÍlOl
do século, a famffia humana será acrescida de cerca de 1,3 bilhão
de pessoas (ver capítolo 4); mas a elevação das rendas pode ser
responsável por 30 a 4Q% do aumento da demanda de alimenros
nos países em desenvolvimento, e por cerca de 10% nas nações
industrializadas.lO Assim, nas próximas décadas. o sistema global
de alimentos deve ser gerido de fonna a aumentar a produção de
alimedtos em 3 a 4% anuaimenle.
A segurança aIímentar do mundo depende não só do aumenro
da produção global. mas da redução das distorções na estrutura
do mercado mundial de alimentos e também de um deslocamento
da produção de alimentos para pallles. regiões e famllias que
apresentam déficit em alimentos. Muitos dos pallles cuja produção
6 insuficienle para a própria alimentação possuem as maiores re­
servas ainda exislenles de recursos agrícolas não-explorados. A
América Latina e a África subsaariana dispõem de mnita terra nio
aproveitada. embora sua qualidade e quantidade variem baslanle
de pais paI'!! país e esta lerra seja em grande parte ecologicamenle
vulperável.31 A URSS e parte da América do NorIe dispõem de
exlensões siguificativas de terras pouco exploradas adequadas à
agricultura; só a Ásia e a Europa carecem verdadeiramenle de let­
ras para o cultivo.
A segurança alimentar do mundo também depende de se ga­
rantir a rodas as pessoas. mesmo às mais pobres. o acesso ao ali­
mento. Embora em escala mundial esse desafio exija toda uma
reavaliação da distribuição global de alimentos, a tarefa é mals
urgenle e difícil para oS governos nacionals. A distribuição desi­
gual dos bens de produção, o desemprego e o subemprego cons­
tituem o cerne do problema da fome em muitos paises.
141
140
"O desenvolvimento agr(cola qprt!S<!nkl /IfIIÜas conIraI.Iiçtles. É
preciso parar de imitar cegamente os modelas cricuJbs em. cir"
cunst4nclas di[erenJes e considerar as" real!dades e as"
existenJ:es na Africa. Vastas dreas de terra virgem forom alienas
a cu.ltivos de cujos preços continuam declinando.
isto não é do interesse dos palses' em desenvolvime1flo.
São tantos os probfemos a :ruperar que aM nos esquecemm de
que cado problema é uma oportunidade de fazer algo positivo.
Temos agora a oportunidade de perr.mr na COII3e1V<1Ção e 110
meio ambienJ:e num amplo conlato educocional. Fazendo isso,
poderemos chegar à nova geração ti! demonstrar..fhe a beleza e as"
vantagens do mundo que a cerca."
Adolfo Mascarenhas
Escritório de Harore da Uni4<1inl<1macionaJ
para a Con:rervaçdo da Natureza e dos Recursos NaJIlmis
AU<fu!ncia ptlbtica da CMMAD, Harare, 18 de setembro de 1986
Um desenvolvimento agrícola rápido e sólido representa nlIo
só mais alimento, como também mais oportunidades de ganhar di­
nheiro para comprar comida. Assim, quando os países com recur­
sos agrfcolas ainda inexplorados se abastecem importando mais
alimentos, estão na verdade importando. desemprego. Da mesma
forma, os países que subsidiam as exportações de alimentos estão
contribuindo para que o desemprego aumente nos países importa­
dores. ISso marginaliza as pessoas, e os marginalizados se vêem
forçados a destruir a base de recursos para sobreviverem. Um
meio de assegurar a subsistência em bases sustentáveis dirigir a
produção para os países com em alimentos e para os agri­
cultores destes países que dispõem de poucos recursos.
A conservação da base de recursós agrfcolas e a manureução
da segurança dos meios de subsistência dos pobres podem refur­
çar-se mutuamenre de IIés maneiras. Primeiro, a segurança no t0­
cante a recursos e meios de subsislêncla adequados leva a uma
boa administração doméstica e a uma administração sUBrentável.
Segundo, atenuam a migração do campo para a cidade, estimulam
a produção agrícola a partir de reclH!!às que de outra forma p0de­
riam ser subutilizados, e reduzem a necessidade de produzir ali·
mentos em outros lugares. Teroeiro, combatendo a pobreza, aju­
dam a desacelerar o ritmo do aumento populacional.
O deslocamento da produção para os países com déficit em
alimentos também reduzirá a pxessão sobre os recursos agrícolas
das economias industriais de mercado, permitindo que adorem
práticas agrícolas mais sustentáveis. As estruturas de incentivos
podem ser allllradas a 11111 de que estimulem as práticas agrícolas
que melhoram a qualidade do solo e da ágoa, e não a superprodu­
ção. Os orçamentos governamentais ficariam aliviados dos ônus
de estocar e exportar excedenres de produção.
Essa mudança na: produção agrícola s6 será suslllntável se a
base de recursos estiver bem protegida. Como já se viu, hoje es­
tamos bem longe disso. Portanto, para se atingir a segurauça ali­
mentar no mundo, a base de recursos para a produção de alimen­
tos deve _ mantida, aumentada e - caso tenha sido reduzida ou
destruída - recuperada.
5.4 ESTRATÉGIAS PARA A SEGURANÇA
ALIMENTAR SUSTENTÁVEL
A segurança alimentar exige mais do que bons programas de con­
servação, que podem ser - e geralmente são - comprometidos e
prejudicados por poll'ticas agrícolas, econômicas e comerciais
inadequadas. Tambmn não se trata apenas de acrescentar aos pr0­
gramas um elemento ambiental. As estratégias referentes à ali­
mentação devem levar em conta todas as políticas relacionadas
com o triplo desafio de deslocar a produção para onde ela mais
necessária, de assegurar os meios de subsistência dos pobres ru­
rais e de conservar os recursos.
5,4.1 A Iolen'enção do 1IIO'm'DO
A imervenção governamental na agricultura uma constanlll tanto
nos par.ses em desenvolvimento como nos industrializados, e está
aí para ficar. Para os sucessos obtidos nos 11ltimos 50 anos contri­
buíram o investimento público em serviços de exlllnsão e pesquisa
agrícola, a assistência ao crédito agrícola e serviços de comercia­
lização, e uma série de outros sistemas de apoio, Na verdade, o
problema para muitos países em desenvolvimento a fragilidade
desses sistemas.
Mas há também outros tipos de inlllrvençllo. Muitos governos
controlam praticamente todo o ciclo alimentar - insumos e pro­
dutos, vendas inlemaS, expol'taÇóes, abasrecimento, estocllgem e
distribuição, controles de preços e subsídios - e impõem várias
oonnas para o uso da Illrra: área da terra, variedade de culturas
etc.
De modo geral, há IIés falhas básicas no. padrões de inlllrven­
ção governamental. Primeiro, os empregados no plane­
jamento dessas inlllrvençõe. não têm qualquer orientação ecol6gi­
143
142
sobre a base de recursos. Em certos casos, OS controles de preços
144
cUsta.'! dos competidores.
14'
ca e muita.'! vezes são regidos por considerações de curto prazo.
Esses critérios deveriam desencorajar práticas agrfcolas incorreta.'!
do ponto de visla ambienlal e encorajar os agricultores a conser­
var e melhorar seus solos. floresta.'! e recursos hídricos.
A segunda falha é que a política agrícóla tende a atuar num
contexto nacional de preços e subsídios uniformes. critérios pa­
dronizados para o provimento de serviços de apoio. financia­
mento indiscriminado de investimentos em infra-estrutura etc. É
preciso adolllr políticas que variem de região para resiiio e que Te­
flillltn as diferentes necessidades regionais, para estimular os
agricultores a adolarem práticas que sejam ecologicamente sus­
tentáveis em suas próprias lreas.
É fácil demonstrar a importância da diferenciaçãO regional de
políticas:
• Nas iireas de encosla, lalvez seja necessário fixar preços de in­
centivo para as frutas e subsidiar a oferta de grãos a1irnontícios,
para induzir os agricultores a se dedicarem à horticultura, que po­
de ser mais sustentável do ponto de viSIa ecol6gico.
• Em lreas propensas à erosão pela ação dos ventos e da água,
a intervenção governamental por meio de subsídios e outras medi­
das estimularia os agricultores a conservar o solo e a água.
• Os agricultores cujas terras ficam em áreas de realimentação de
lençóis freáticos sujeitos à poluição por nitrato devem receber in­
centivos para manter a fertilidade do solo e aumentar a produtivi­
dade por outros meios que não o uso de fertilizantes à base de ni­
trato.
A terceira falha da intervenção governamental está nos siste­
mas de incentivos, Nos países industrializados, a superproteção
aos agricultores e a superprodução represenllltn o resultado. acu­
mulado de reduções fiscais; subsídios diretos e controles de pre­
ços. Hoje, estas políticas estão cheias de contradições que esti­
mulam a degradação da base de recursos agríColas e. a longo pra­
zo. causam mais prejuízos que beneficios à agroindllstria. Alguns
governos já reconbecem isso e estão se esforçando para alterar o
enfoque dos subsldios, passando do crescimento da produção para
a conservação.
Por outro iado, os sistemas de incentivos são deficientes na
maioria dos países em desenvolvimento. As intervenções no mer­
cado são quase sempre ineficazes por falta de wna estrutora orga­
nizacional ,de abastecimento e distribuição. Os agricultores ficam
expostos a um alto grau de incerteza. e os sistemas de subsídios
com freqüência favorecem os habitantes das cidades ou se res­
tringem a alguns poucos cultivos comerciais, acarretando. nos pa­
drões de cultivo, distorções que awnenllltn as pressões destrutivas
"O problema da agriculrura não é impessoal. Eu, como agri­
cultor, sou ....... vftima potencial do sistema 110 qual trabalha­
mos. Por que cerca de um quarto dos agricultores canadenses
esiá dianle da penpectiva imediaIa de falbtcia? Essa situação
tem refoção direta com o conceito geral de uma po/ftica de ali­
mentos baratos que constinli a pedra angukzr da polftica agrf­
COÚlfederal desde o princfpia da colonização.
Consideramos a atual polftica de alimentos baratos uma for.
ma de viol4ncia econlJmica que estd contribuindo pora a cuplo­
ração do solo e pora uma refoção cada vez mais impessoal entre
os agricultores e o solo, em funçilo da sobreVivencia econlJmica.
Trata-se de uma poIftica de industrialização que SÓ pode levar ao
desastre econ&nico - pora nós como agricultores e, do pomo de
vista ambUtntal. para nós todos como canadenses e cidadãos do
11'IIiII1tILJ. ".
W.yne Easter
Presidente da União Naciono.! dos Agricultores
Audiência p6blica da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
reduzem o incentivo a produzir. O que é preciso, em muitos ca­
sos, é nada mais nada menos que uma tentativa radical de tornar
as "rdaçõe. de troca" favoráveis ao. agricultores. mediante polí­
ticas de fixação de preços e realocação dos gastos governamen­
tais.
Pam promover a segurança alimentar de wna perspectiva glo­
bal, é necessário reduzir os incenti voS que forçam a superprodu­
ção e a produção não-competitiva nas economias desenvolvidas
de mercado, e awnenlllr os incentivos à produção de alimentos
DOS países em desenvolvimento. Ao mesmo tempo. é preciso re­
formular eSses sistemas de incentivos a fun de promover práticas
agrícolas que conservem e fonaleçam a base de recursos agríco­
las.
5.4.2 Uma penpeetlva lIloba!
O comércio internacional de produtos agrícolas triplicou de 1950
a 1970, e desde então duplicou. No entanto. quando se trata de
agricultura, os países são extremamente conservadores; continuam
pensando principalmente em temJo$ locais ou nacionais e preocu­
pando-se sobretudo em proteger seus próprios agricultores às
Deslocar a produção para os países deficitários em alimentos
exigirá uma grande mudança nas estrut\JraS de comércio exterior.
Os países precisam ~ n d e r que todas as partes perdem com
as barreiras protecionistas, que :reduzem o comércio de produtos
alimentícios em relação aos quais algulIlllll nações têm genuína
vantagem. Esses países têm de começar pela refonnulação de seus
SÍStelIlllll comerciais, tributários e de iucentÍvos, empregando cri­
térkls que abranjam a sustentabilidade ecológica e ecooc1mica e a
vantagem comparativa internaciooal.
Nas economias desenvolvidas de mexcado, os eXcedentes de­
correntes de iucentivos aumentam as pressões para a exportação
desses excedentes a preços subsidiados 00 como ajuda alimentar
lIlio-emeI:geocial. Os países doadores e os recebedores deveriam
responsabilizar-se pelos efeitos da ajuda e usá-Ia com objetivos
de longo prazo. Tal ajuda pode ser usada de forma proveitosa em
projetos de recuperação de terras degradadas, criaçiio de iofra-es­
trutura rural e melhoria do ofvel de nutrição de grupos vulnerá­
veis.
5.4.3 A baBe de recursos
A produçiio agrícola só pode ser mantida a longo prazo se a terra,
a água e as florestas que coostil.oem sua base niio sofrerem degra­
daçiio. Como sugerimos, uma reorientação da intervenção póblica
criará condições para isso. Mas silo necessárias medidas mais es­
pecíficas de proteção da base de recursos para manter ou mesmo
awnentar a produtividade agrícola e os meios de subsistência de
todos os que viwom DaS áreas rurais.
5.4.3.1 O uso da terra
O primeiro passo para incrementar a base de recursos é definir
três categorias amplas de terras:
• áreas de reforço, capazes de suportar cultivos intensivos e ní­
veis mais altos de população e conswno;
• áreas de prevenção, que por comum arordo não devem ser ex­
ploradas para agricultura intensiva ou, caso já o sejam, devem ser
aproveitadas para outros usos;
• áreas de recuperação, onde as terras desprovidas de cobertura
vegetal já apresentam uma produtividade ex_nte reduzida.
ou a perdersm por completo.
Identificar a terra de acordo com os critérios de "melhor uso"
requer informações que nem sempre estão disponíveis. A maioria
das nações industrializadas possui levantamentos e mapeamentos
de suas terras, florestas e recursos bídricos suficientemente deta­
lhados para servir de base à deÍmição das categorias de terras.
Poucos países em desenvolvimento possuem tais levantamen­
tos, mas podem e deveriam 'realizá-los o mais depressa possível,
recorrendo ao rastreamento por satélite e a oulms técnicas aVaD­
çadas.3
2
A seleção das terras que pertencem a cada categoria poderia
ser da responsabilidade de uma junta ou comissão que represen­
tasse os interesses envolvidos, sobretudo os dos segmentos mais
pobres e marginalizados da população. O processo deve ser de
caráter pÓblico baseado em critérios aceitos por todos e que aliem
o melbar método de uso ao nível de desenvolvimento necessário
para manter os meios dC sUbsistência. A classificaçiio da terra se­
gundo o melhor uso acarretará mudanças no provimento de infra­
estrutura, nos serviços de apoin, medidas promocionais, restriçóes
nonnativas, subsídios fiscais e onttos incentivos e desincentivos.
As terras classificadas como áreas de prevenção não deveriam
receber garantias e subsídios que estimuiassem seu aproveita­
mento para agricultura intensiva. Mas essas áreas poderiam muito
bem suportar determinados usos ecológicos e economicamente
sustentáveis, como pastagens, plantaçóes de madeiras combustí­
veis, fruticultura e silvicultura. Esses sistemas de apoio e incenti­
vos refannulados deveriam cenlIar-se numa variedade maior de
cultivos, inclusive os que favorecem pastagens, conservaçiio do
solo e da água el<:.
Hoje, fatores naturais e certas práticas de uso da terra reduzi­
ram a produtividade de vastas áreas a nfveis muito baixos para
manter até mesmo a agricultura de subsistência. O Imtamento des­
sas áreas deve variar de um lugar para outro. Os governos deve­
riam dar prioridade ao estabelecimento de uma polftica nacional e
de programas multidisciplinares, bem como à criaçiio ou ao for­
talecimento de instituições destinada. à recuperação dessa..
áreas. Tais instituições já existem, mas poderiam ser mais bem
coordenadas e planejadas. O Plano de Açiio das Nações Unidas
para o Combate da DesertiÍICação, já em execnçiio, necessita de
mais apoio, sobretudo financeiro.
A recuperaçiio pode exigir a imposição de limites às atividades
humanas para pemútir que a vegetação se regenere. lstp talvez
seja diffcil onde já existem grandes rebanhos ou grande número
de pessoas, pois a concordãDcia e a participação dos habitantes
locais silo da maiOr importància. O Estado, com a cooperação dos
que vivem nessas áreas, poderia protegll-Ias declarando-as reser­
vas !J.8Cionais. Quando essas áreas silo de propriedade privada, O
Estado deveria tentar comprar as terras ou então dar incentivos
pára a sua recuperaçiio.
146
147
"A agricultura inJensiva pod4 em pouco tempo esgotar a cober­
tura do solo, degradotuJo-a, a menos que se tomem medidas es­
peciais de proteção que visem a uma recuperação constante e a
uma fertilidm:le maior. A tarefa da agricultura não se limita,
portanto, d obtenção do produto biológico, mas inclul a mànu­
tenção permanente e o aumento da fertilidm:le do 'solo. Do can­
tnJrio. logo consumiremos o que par dil'l!ito pertence a nossos
filhos. netos e bisnetos, para não mencionar descendentes ainda
mais distantes. Esse equivoco - que nossa geração viva até certo
ponto ds custas das júJuras gerações, utilizando impensadamente
as reservas bdsicas de fertilidm:le do solo. acumuladas durante
os m i l ~ n i o s do desenvolvimento da biosfera. em vez de viver do
incremenro anual de agora - pI'l!OCIIpQ cada vez mais os cientis­
tas que lidom com O estado da cobertura do solo plonetdrio."
B.G. Rozanov
Un/versidatú Estatal de Moscou
Audiéncia pÓblica da CMMAD, Moscou. 11 de dezembro de 1986
5.4.3.2 A administração das águas
É essencial administrar melhor os recursos hídricos para aumentar
a produtividade agrícola e reduzir a degradação da terra e a p0­
luição da água. Neste caso, as questões-chave são a concepção
dos projetos de ínigação e a eficiência no uso da água.
Quando a «gua é escassa, o projeto de ínigação deve maxinú­
zar a produtividade por unidade de água; quando a água é abun­
dante, deve maximizar a produtividade por unidade de terra. Mas
ti condições locais é que irão determinar o volume de água a ser
utilizado sem .prejuízo para o solo. Pode-se evitar a salinização, a
alcalinização e os alagamentos tomando-se maiores precauções
com reiação a drenagem. manutenção, sistemas de cultivos, con­
trole do volume de água e cargas d'água mais racionais. Muitos
desses objetivos são mais fáceis de atingir com projetos de irriga­
ção em pequena escala. Mas, grandes ou pequenos, os projetos
têm de ser planejados levando-se em conta as capacidades e os
objetivos dos agricultores que deles participam e que devem ser
chamados a colaborar em sua adminislração.
Em certas áreas, o uso abusivo das águas subtetrineas está fa­
zendo baixar rapidamente o nível dos leuçóis freáticos - comu­
mente um caso de proveito próprio às custas da sociedade. Quan­
do O uso das águas subterrâneas excede a capacidade de renova­
ção dos lençóis subterrâneos locais, tomam-se essenciais contro­
les normativos OU fiscais. O uso combinado de águas subterrâneas
e superficiais pode ampliar a disponibilidade de água e fazer com
que um abastecimento Iinútado dure mais.
5.4.3.3 Alternativas para os produtos qulínicos
Muitos países podem e devem aumentar a produtividade utilizan­
do mal. fertilizantes e pesticidas químicos, sobretudo no mundo
em desenvolvimento. Mas os países também podem obter maior
produtividade ajudando os agricultores a usar nutrientes orgâni­
cos com mais eficiência. Por isso. os governos devem incentivar o
uso de mais nutrientes vegetais orgânicos para complementar os
produtos químicos. O controle de pragas também deve se apoiar
cada vez mais no emprego de métodos naturais. (Ver bo" 5.2.)
Estas eslratégias requerem mudanças nas políticas públicas, que
atualmente estimulam um emprego maior de pesticidas e fertili­
zantes químicos. Para adotar métodos que não usem produtos
químicos, ou os usem em menor escala, é preciso criar e manter
condições jurídicas, políticas e de pesquisa.
O. fertilimntes e pesticidas químicos são fortemente subsidia­
dos em muitos palses. Tais subsídios promovem o uso de produ­
tos químicos exatamente nas áreas agrícolas mais orientadas para
o comércio. onde os danos que causam ao meio ambiente já p0­
dem ser maiores que qualquer aumento verificado na produtivida­
de. Por isso, regiões diferentes requerem políticas diferentes para
regulamentar e promover o uso de produtos químicos.
As estroturas legislativas e institucionais de controle dos
agrotóxicos precisam ser bastante fortaiecidas em tudo o mundo.
Os países industrializados devem impor controles mais rígidos à
exportação de pesticidas. (Ver capítulo 8.) O. países em desen­
vulvimento precisam dispor dos instromentos legislativos e insti­
tucionais básicos para admialstrar o uso de produtos químicos
agrícolas em seus territórios. E para tanto necessitarão de assis­
tência técuica e financeira.
5.4.3.4 Silvicultura e agricultura
As florestas virgens protegem as bacias fluviais, reduzem a ero­
são, servem de habitat para espécies selvagens e desempenham
papel-chave nos sistemas climáticos. São também um recurso
económico, pois fornecem madeira, lenha e outros produtos. É
vital equilibrar a necessidade de explorar florestas com a necessi­
dade de preservá-Ias.
Para serem corretas, as políticas florestais só podem se basear
na análise da capacidade das florestas e das terras onde se encon­
Iram para desempenhar v4rias funções. Tal análise pode levar li
149 148
Box 5.2 Sistemas naturais de nutrientes
e _Irole de pragas
• Os resíduos agrícolas e o adubo orgânico são fontes p0­
tenciais de nutrientes do solo.
• Os resíduos orgânicos reduzem a perda e, aumentam o
aproveitamento de outros nutrientes, além de melhorar a ca­
pacidade do solo de reter água e resistir à erosão.
• O usO de adubo orgS.nico, particularmente em conjunção
com culturas intervaladas e rotativas, pode reduzir bastante
os custos de produção.
• Os sistemaS podem ficar muito mais eficientes se o adubo
ou a biomassa vegetal forem digeridos anaerobicamente em
usinas de biogás, gerando energia para cozinhar e para pôr
em fimcionamenlD bombas, motores e geradores elétricos.
• São de grande potencial os sistemas naturais de fixação
biológica do nitrogênio através do uso de cettos cultivos
anuais, árvores e microorganismos,
• O controle integrado de pragas reduZ a necessidade de
agroquúnicos, melhora o balanço de pagamentos de um país,
libera divisas para outros projetos de desenvolvimento e ge­
ra empregos onde eles são mais necessários.
• O controle integllldo de ptagas exige informações deta-·
Ihadas sobre as pragas e seus inimigos naturais, variedades
de sementes criadas para resistir às .pragas, padrões integra­
dos de cultivos e agricultores que apóiem esse método e es­
tejam dispostos a modificar suas práticas agrícolas para
adotá-lo.
conClusão de que cenas florestas devem _ denubadas para dar
lugar ao cuJlivo intensivo, e outras, à criação de gado; algumas
áreas florestais poderiam _ destinadas ao aumento da produção
de madeira ou à silvicullura e outras deixadas intatas para a pro­
teção das bacias, o lazer ou a conservação das esp6cies. O apro­
veitamenlD das áreas florestais para Íms agrfcolas deve - feito
com base na classificação cienU'fica da capacidade da terra.
Os programas de preservação dos recursos floreslnis devem vi­
sar, em ptimeiro lugar, às pessoas que ·vivem no local; elas são ao
mesmo tempo vl'I:imas e agentes da destroição, e teIão de suponar
o ônus de qualquer novo esquema de administração}3 Nelas se
deveria central a administração florestal integrada, que é a base
da agricultum sustentável.
Tal método acarretaria mudanças no modo de os governos es­
tabelecerem prioridades de desenvolvimenlD, e também a atribui-
ISO
ção de maior responsabilidade aos governos e comunidades lo­
cais. Será preciso negociar, ou renegociar, os contratos relativos
ao uso das florestas, a fim de assegurar a sustentabilidade da ex­
ploração florestal e da conservação do ecossistema e do meio am­
biente globais. Os preços dos produtos f10reslnis devem refletir o
vetdadeiro valor desses bens, enquanto recursos.
Porções de floréstas podem ser classificadas como áreas de
prevenção. Trata-se, basicamente, dos parques nacionais, que p0­
deriam Íu:ar ao \aJ:go da exploração agrícola a fllD de conservar o
solo, a água e a vida selvagem. Podem-se também incluir as terras
marginnis, cuja exploração acelera a degradação da terra por meio
da erosão ou da desertificação. Quanto a isso, o reflorestamento
das áreas florestais degradadas é de vital importância. As áreas de
conservação ou os parques nacionais também conservam os recur­
sos genéticos em seus habitais naturals. (Ver capítulo 6.)
Pode-se também mesclar silvicultum e agricultum. Os agricul­
tores podem utilizar s i s ~ agroflorestais para produzir ali­
mentos e combustível. Em sistemas assim, uma ou mais calturas
rubóreas combinam-se a uma ou mais cultums alimentícias ou à
criação de anintais na mesma área, embora nem sempre ao mesmo
tempo. Se as culturas são bem selecionadas, reforçam-se mutua­
mente e produzem mais alimentos e combustível do que produzi­
riam em separado. A tecnologia adapta-se de modo especial a pe­
quenos agricaltores e a terras de qualidade inferior. A agrossilvi­
cultum foi praticada em toda parte pelos agricultores tradicionais.
O desaflo atual é retomar OS métodos anr' aperfeiçoá-los,
adaptá-los às novas condições e criar outros.
As organizaçôcs internacionais de pesquisa florestal deveriam
atuar em vários países tropicnis e em vários ecossistemas, seguin­
do a orientação do Grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola
Intemacioual. Há um campo enonne para operações institucionais
e novas pesquisas sobre O papel da silvicultum na produção agrí­
coU;, como por exemplo o desenvolvimento de modelos para pre­
ver melhor os efeitos da remoção de porções específicas da co­
bettura florestal sobre a perda de água e de solos.
5.4.3.5 AqüicuJ.tuTa
A pesca e a aqüicultum são vitais para a segurança alimentar,
pois fornecem proteínas e geram emptegos. A maior parte da pro­
dução pesqueira mundial provém da pesca marítima, que produziu
76,8 milhôes de toneladas em 1983. Nos Illlirnos anos, a oferta
aUIl1eJ1tou em 1 milhão de toneladas anuais; no fim do s6cu1u, tal­
vez se chegue a uma produção pesqueira de aproximadamente
100 milhôcs de toneladas.
3S
Isso fICa bem aquém da demanda
1St
projetada. Há indícios de quc grande parte das reservas naturais
de peixes de água doce já foram totalmente exploradas ou atingi­
das pela poluição.
A aqüicultura, ou "piscicultura", que difere da pesca COnven­
cional porque os peixes são deliberadamente criados em reservas
aquáticas controladas, pode ajudar a satisfazer as necessidades
futuras. A produção aqwcola duplicou na última década e hoje
representa cerca de 10% da produção pesqueira diundial.36 Se
houver o necessário apoio científico, financeiro e organizacional,
espera-se que essa ~ Ç ã O aumente de cinco a 10 VllZeS por
volta do ano 2000. A aqúicultura pode ser feita em arrozais,
minas abandonadas, pequenos reservatórios e em muitas outras
áreas providas de água, e também em várias escalas comerciais:
individual, familiar, cooperativa ou empresarial. Deve-se dar
prioridade máxima à expansão da aqüicultura nos países desen­
volvidos e em desenvolvimento.
5,4.4 Produtividade e produção
A conservação e o incremento da base de """ursos agrícolas fará
aumentar a' produção e a produtividade. Mas para tornar os insu­
mos mais efetivos são necessárias algumas medidas específicas. O
melhor modo de obter isso é reforçando a base de recursos tec­
nológicos e humanos da agricultura nos pafses em desenvolvi­
mento.
5.4.4.1 A base tecnológíca
A combinação de tecnologias tradicionals e modernas cria condi­
ções para a melhoria da nutrição e o aumento do emprego rural
em bases sustentáveis. A biotecnologia - inclusive técnicas de
cultura de tecidos e tecnologias para o preparo de produtos de
valor adicionado a partir da biomassa -, a microelelrÔnica, a in­
formática, a transmissão de imagens por satélite e a tecnologia da
comunicação, todas são aspectos de tecnologias de ponta que p0­
dem aumentar a produtividade a ~ [ a e contribuir para uma
melhor administração dos """ursos. 11
Dar aos agricultorea que dispõem de poucos recursos meios de
subsistência sustentáveis representa um grande desafio para a
pesquisa agrícola. Os grandes avanços ocorridos na tecnologia
agrícola nos últimos decênios adaptam-se melhor a condições es­
táveis. uniformes e ricas em recursos, com bons solos e bom
abastecimento de água. As regiões que mais urgentemente neces­
sitam de novas tecnologias são a África subsaariana e as áreas
mais remUlas da Ásia e da América Latina, onde as precipitações
"Na raiz da questtio ambiental esld um problema agrário que só
será resolvido se for adatadn uma polftica ecológÍCrl sb'ia - e se
a polftica agrlcola receber nova orientação. Creio que quolquer
polftica conservacionista tem de ser acompon/uuúl de uma polfti­
ca agrlcola coerente que ate11da não só às necessidodes de pre­
servação. mas tmrrbhn às necessidodes da populai;ão brasilei­
ro."
. Jillio M.O. O!'iger
Presidente d. Associação Nacional de Apoio ao (ndio
Audi&cia Páblica da CMMAD, S60 Paulo, 28-29 de outubro de 1985
são incertas, a topografia irregular e os solos pobres, sendo por­
tanto impróprias às tecnologias da Revolução Verde.
Para ser de valia à agricultura dessas áreas, a pesquisa tem de
ser menos centralizada e mais sensível às condições e prioridades
dos agricultores. Como primeiro passo, os cientistas precisam en­
trar em contato com os agricultores pobres e basear suas priorida­
des de pesquisa nas prioridades dos que cultivam a terra. Os pes­
quisadores devem aprender com os agricultores e desenvolver as
inovações introduzidas por eles, e não apenas o contrário. Deve­
riam ser feitas mais pesquisas nas próprias fazendas, utilizando-se
as estações de pesquisa como ponto de referência e pedindo-se a
colaboração dos agricultores na avaliação dos resultados.
As empresas comerciais podem ajudar a desenvolver e difundir
a tecnologia. mas cabe às instituições públicas fornecer a estrutu­
ra necessária à pesquisa e à extensão agrícolas. Nas regiões em
desenvolvimento, são poucas as instituições acadêmicas e de pes­
quisa bem-dotadas de recursos financeiros. O problema é mais
grave nos países de baixa renda, onde os gastos COm pesquisa e
extensão agrícolas representam 0,9% da receita agrícola total,
contra 1,5% nos países de renda média,39 As atividades de pes­
quisa e extensão precisam ser bastante ampliadas, sobretudo nas
áreas em que clima, solos e terrenos apresentam mais problemas.
Essas áreas, em particular, necessitam de novas variedades de
sementes, mas o mesmo se dá com grande parte da agricultura dos
países em desenvolvimento. Atualmente, 55% dos recursos vege­
tais genéticos cientificamente estocados do mundo são controla­
dos por instituições dos países industrializados, 31% por institui­
ções de países em desenvolvimento e 14% por Centros Internacio­
nais de Pesquisa Agrícola.
40
Grande parte desse material genético
provém de pafses em desenvolvimento. Esses bancos de genes
153 152
precisam aumentar seus estoques de material, aperfeiçoar suas
técnicas de estocagem e assegurar que os centros de pesqnisa dos
países em desenvolvimento tenham pronto acesso a esses recur­
sos.
Cada vez mais, as empnosas privadas adquirem direitos de pr0­
priedade sobre variedades melhoradas de sementes, quase- sempre
sem n:çonhecer os direitos dos países de onde proVém a matéria
vegetal. Isso pode desencorajar os países ricos em re(:IU"SOS gené­
ticos a facilitar o acesso dos outros países a esses recursos e, as­
sim, reduzir as opções de desenvolvimento de sementes de todos
os países. As possibilidades de pesqlÚsa genética dos palses em
desenvolvimento são tIIo limitadas que sua ~ l t u r a pode se
tomar excessivamente dependente de bancos de genes privados e
de companhias de sementes de outro. países. Por isso, a coopera­
ção internacional e uma boa compreensão no tocante à participa­
ção nos ganhos são vitais em aspectos crfticos da tecnologia agrí­
cola, como o desenvolvimento de novas variedades de sementes.
5.4.4.2 Recursos humanos
A transformação tecnológica da agricultura tradicional será diffcil
se não houver um esforço semelhante para desenvolver os recur­
sos humanos. (Ver capttulo 4.) Isso significa reformas educacio­
nals a fim de que se fonuem pesqlÚsadores mais afinados àsne­
cessidades das populações rurais e da agricultura. O analfabetis­
mo ainda impera entre os pobres rurais. Mas as iniciativas no
campo da alfabetização deveriam concentrar-se na alfabetização
funcional, que compreende o uso eficiente da terra, da água e das
florestas.
Apesar do papel fundamental da mulher na agricultura, seu
acesso à educação e sua participação em serviços de pesquisa,
extensão e de outros tipos estão ainda mlÚto longe do ideal. As
mulheres deveriam ter as mesmas oportunidades de educação que
os homens. Entre os que se ocupam com serviços de extensão de­
veria haver mais mulheres, e elas ~ m deveriam particiPar de
levantamentos de campo. As mulheres deveriam dispor de mais
poder para tomar decisóes em nolaçfio a programas agrícolas e flo­
restais.
5.4.4.3 ProduJIvidode dos iIt.sronos
Na agricultura lradicional, o material orgânico local provê o agri­
cultor de fontes de energia, nutrientes e meios de controlar pra­
gns. Hoje, essas necessidades são cada dia mais atendidas pela
eletricidade, por derivados do petróleo, fertilizantes qutinicos e
pesticidas. O custo desses insumos representa uma proporção ca­
da vez maior dos custos agrfcolas, e o desperdício causa danos
econômicos e ecológicos.
Uma das necessidades mais importantes relacionadas com a
energia é a energia meciinica para irrigação. A eficiência das
bombas poderia ser muito maior se se concedessem incentivos
adequados aos fabricantes de equipamentos e aos agricultores, e
se propiciasse um serviço efe6'11O de extensão. A energia para as
bombas de irrigação também poderia ser fornecida por geradores
a vento ou por máquinas convencionais de combustllo interna que
funcionassem a biogás, produzido a partir de rejeitos da biomassa
local. Secadores e refrigeradores solares podem poupar produtos
agrícolas. Seria conveniente promover o uso dessas fontes nfio­
convencionais, sobretudo em áreas carentes de recursos energéti­
cos.
Há perda de nutrientes quando se faz mau uso de fertilizsntes.
Eles freqlientemente se diluem na água que flui pelo campo e de­
terioram o abastecimento local de água. Problemas semelhantes
de desperdício e de efeitos colaterais nocivos ocorrem com o uso
de pesticidas. Por isso, os sistemas de extensão e os fabricantes
de produtos químicos precisarão dar prioridade a programas que
promOVàlJl o uso jndicioso e contido desses materiais caros e tó­
xicos.
5.4.5 Eqüidade
O desafio da agricultura sustentável é elevar não só a produtivi­
dade e a renda médias, mas também a produtividade e a renda dos
que dispõem de poucos recursos. E a segurança alimentar não se
linúta apenas à questllo de aumentar a produção de alimentos; é
~ m garantir que os pobres urbanos e rurais não passem fome
a curto prazo ou em meio a uma onda de escassez local de ali­
mentos. Tudo isso exige a promoção sistemática da eqüidade na
produção e na distribuição de alimentos.
5.4.5.1 Reforma agrdria
,
Em muitos países com distribuição de terras muito designai, a re­
forma agrári" é fundamental. Sem ela, as mudanças institucionais
e políticas que visam a proteger a base de recur!lOS podem de fato
promover desigualdades, porque impedem o acesso dos pobres
aos recursos e favorecem os latifundiários, que estilo mais capa­
citados a conseguir os parcos créditos e serviços disponíveis. Ao
deixar centenas de milhões de pessoas sem opções, essas muda0­
154 155
<;as podem produzir o efeito contrário do I1retendido, e permitir
que se continue violando imperativos ecológicos.
Dadas as diferenças institucionais e ecológicas existentes, é
impossível uma abordagem universal à refonna agrária. Cada país
deve conceber seu próprio programa de refOlma agrária para as­
sistir aos minifundiários e fornecer uma base para a conservação
coordenada dos recursos. A redistribuição da !eira é particular­
mente importante onde coexistem latifúndios e grande número
de minifundiários. Entre os componentes essenciais da refonna
estão a reformulação dos acordos de ocupação da terra, a garantia
da posse e o registro dos direitos de propriedade da terra. Nas re­
fonoas agrárias, deve-se dar grande importllncia à produtividade
da terra, e, em áreas florestais, à proteção das florestas.
Nas áreas onde as propriedades se fragmentam em vários lotes
não-contíguos, a reunião das terras pode facílítar a implementação
de medidas de conservação dos recursos. Promover a cooperação
entre os pequenos agricultores - em relação ao controle de pragas
ou à administração da água, por exemplo - também contribuiria
para a conservação dos recursos.
Em muitos países, a mulber não tem direitos diretos à terra; só
o homem recebe títulos de propriedade. No interesse da segurança
alimentar, as refOlmas agrárias deveriam reoonbecer o papel da
mulher na produção de alimentos. As mulheres, sobretudo as che­
fes de família, deveriam ter direitos diretos à terra.
5.4.5.2 Agricultores de subsisti1ncia e pec:uoristas
Os agricultores de subsislência, criadores de gado e nôtuades
ameaçam a base de recursos ambientais quando processos que es­
capam a seu controle comprimem-no. em terras ou em áreas inca­
pazes de sustentã-Ios.
Os direitos tradicionais dos agricultores de subsislência - s0­
bretudo dos lavradores rotativos -, pecuaristas e n&nades preci­
sam, portanto, ser protegidos. Os direiros à posse da terra e os di­
reitos comunais, em particular, precisam ser respeitados. Quando
suas práticas tradicionais ameaçam a base de recursos, esses di­
reitos podem ter de ser restringidos, mas somente quando se lhes
oferecem alternativas. A maioria desses grupos necessitará de
l\Juda para diversificar seus meios de subsislêocia e entrar na ec0­
nomia de mereado, por meio de programas de emprego e a adoção
de alguns cultivos comerciais.
Desde o infcio, a pesquisa deve dar ateoção às várias necessi­
dades da agricultura mista, típica na agricultura de subsis!!ncia.
Os sistemas de extensão e de fornecimento de insumos rem de se
tomar mais flexíveis para atingir os lavradores rotativos e os nó­
"À medióo. que a produção agrlcoln se desenvolve. um 1UÓ1Iero
maior de agricultores tem condições de comprar traJores. Mas
acabam descobrindo, após usarem OS tratores JX>r um ano. que
são muito mais dispendiosos do que esperavam. devido aos pre­
ços exorbitantes das peças de reposição. Talvez fosse o caso de
recomendtu que a Indonésia construa uma fdbríca de peças de
reposição, antes de continuar estimulando o u.w de tratores na
agricultura .
Por isso, ainda não foram pagos vdrios dos emprtsrimos que
o governo concedeu aos agricultores afim de que modernizassem
suas Mcnícas agricolas. especialmeflle comprando traJores. Se
estes ainda estivessem funcionando, os agricultores poderiam
prollrlvelmente quitar seus empréstimos. Na verdade, esses trato­
res estão se tcrlUllldo um problema, JX>rque flC<lm lá enferrujan­
do e transfonnando-se em poluição."
Andi Mappasala
Presitknte. Yayasan Tellung Poccoe
Audiêncía pública da CMMAD. Jacarta, 26 de março de 1985
mades, e deve-se dar prioridade ao investimento público para
melborar suas terras agricultáveis, áreas de pastagem e recursos
hídricos.
5.4,5.3 Desenvolvimenk> rural integrado
As populações rurais continuarão a aumentar em muitos países.
Dentro dos atuais padrões de distribuição da terra, o número de
mínifundiários e de famílias de sem-terra passará de aproximada­
mente 50 milhões para quase 220 milhões por volta do ano
2000.
41
Em conjunto, esses grupos representam três quartos das
fanúlias agrícolas dos países em desenvolvimento.
4
2 Sem meios
adequados de subsis!!ncia, essas fanúlias carentes de recursos
continuarão carentes e se verão forçadas a usar abusivamente a
base de recursos a fim de sobreviverem.
Já se despeoderam muitos esforços para traçar estratégias de
desenvolvimento rural integrado, e conhecem-se muito bem seus
re<fuisitos e suas annadilhas. A experiência já demonstrou que a
refonna agrária é necessária, mas que sozinha não basta, precisa
do apoio da distribuição de insumos e dos serviços rurais. Os mi­
nifundiários, inclusive - e de modo especial- as mulheres, devem
ter preferênCia quando da alocação de recursos, pessoal e crédito
156 157
escassos. Os pequenos agricultores devem também participar mais
da elaboração das políticas agrícolas.
O desenvolvimento roral ínlegrado exige também """ursos para
absorver o grande aumento das populações que trabalbam nas
áreas rurais. Tal aumento é esperado na maioria dos pafses em de­
senvolvimento devido às oportunidades de trabalho nfío-agrícola
que devem ser promovidas nessas 1II:eas. O sucesso do desenvol­
vimento agrícola e O crescimento das rendas devem criar oportu­
nidades de trabalho no setor de serviços e na manufat.unt de pe­
quena escaJa, se apoiados por políticas pdblicas.
5.4.5.4 F1utuaçéIes na disponibilidade de alimentos
A degnldação ambiental pode amiudar e agravar as crises de es­
cassez de alimentos. Por isso, o desenvolvimento agrícola SUS­
tentável reduzirá a variação sazonal da oferta de alimentos. Mas
não será capaz de eliminá-la. Haverá flutuações provocadas por
fatores climáticos, e a dependl!ncia cada vez maior de apenas
urnas poucas variedades de culturai em lII:eas muito vastas pode
aumentar OS efeitos danosos do clima e de pragas. As familias
mais pobres e as regiões ecologicamente mais desfavo"""idas são
com freqiI6ncia as que mais sofrem com essas crises de escassez.
A estocagem de alimentos é indispenSável pllnl se enfrentar os
períodos de escassez. No momento, o estoque mundial de cereais
é da ordem de :20% do consumo IInnal: o mundo em desenvolvi­
mento controla cerca de um terço do estoque, e o mundo indus­
trializado, dois terços. Mais da metade do estoque dos países em
desenvolvimento está em dois países - Oúna e fndia. Os estoques
da maioria dos demais países 8Ó atendem a necessidades opera­
cionais imediatas: as reservas são muito pequenas.
43
Os estoques de alimentos dos pafses industrializados são cons­
tituídos sobretudo de excedentes e . ....-...m de base para a assis­
tência emergencial, que p"""Í$l ser mllIltida. Mas a ajuda alimen­
tar de emergência é uma base p=ária para a segurança alimentar;
os pafses em desenvolvimento deveriam formar estoques nacio­
nais nos IInOS em que houvesse excedentes a f!Dl de disporem de
reservas e também de estimularem o estabelecimento da segurança
alimentar em nível familiar. Para IllIlto, p"""isarão de um sistema
eficaz de apoio pdblico a medidas que facilitem a aquisição, o
transporte e a distribuição de alimentos. O estabelecimento de
serviços de estocagem estrategicamente localizados 6 essencial
IllIlto pam redU7ir as perdas posteriores à colheita quanto para
possibilitar intervenções nipidas em casos de emer:gência.
Durante a maioria dos períodos de escassez, as famf\ias pobres
f1CMl incapacitadas de produzir a\ímentos e perdem suas fontes
costumeiras de renda, não tendo como comprar o alimento dispo­
nfvel. Por isso, a segurança alimentar também requer o pronto
acesso li maquinaria, pam dar poder aquisitivo às farofiias atingi­
das pela catástrofe, através de programas de obras p)tblicas de
emergência e de medidas de proteção a pequenos agricultores
contra quebras de safras.
5.5 ALIMENTO PARA () FUTURO
O desafio de aumentar a produção de a.\imentos pam equipará-la à
demIIIIda, ao mesmo tempo mantendo a integridade ecológica es­
sencial dos sistemas de produção, é um desaÍlO formidável em
magnitude e complexidade. Mas dispomos do conhecimento ne­
cessário pam conservar nossos =ursos agnirios e hídricos. As
novas tecnologias possibilitam o aumento da produtividade e, ao
mesmo tempo, reduzem as pressões sobre os """ursos. Uma nova
geração de agricultores combina experiência com educação. De
posse desses recursos, podemos satisfazer as necessidades da fa­
mília humana. Como obstáculo temos o enfoque limitado do pla.
nejamento e das políticas agrícolas.
A aplicação do conceito de desenvolvimento sustentável ao es­
forço para garantir a segurança alimentar exige uma atenção sis­
temática 11 renovação dos recursos naturais. Exige também uma
abordagem bolística centrada nos ecossistemas em nfvel nacional.
regional e global, o uso coordenado da terra e o plllnejamento
cuidadoso da exploração da água e das floresta'. A meta da segu­
mnça ecológica deveria estar firmemente enraizada nas atribui­
ções da FAO, de outras organizações da ONU que tratam da agri­
cultura, bem como de todas as outras agências internacionais cor­
relatas. Também 6 necessário que a assistência internacional se
amplie e receba nova orientação. (Ver capítulo 3.)
Os sistemas agrícolas estabelecidos nos á\timos decênios con­
tribufram enonnemente pam aliviar a fome e elevar os padrões de
vida. Atingiram seus objetivos ali! certo ponto. mas fonun criados
pam um mundo menor e mais fragmentado. As novas realidades
revela!n suas contradições inerentes. Tais realidades necessitam
de sistemas agrícolas que dêem ateação tanto às pessoas quanto à
tecnologia, IllIlto aos recursos qUllnto à produçiio, IllIlto a prazos
mais dislllIltes quanto a mais imedialos. Só sistemas assim podem
enfrentar o desafio do futuro.
1'9
158
No....
I B ......do em dados de PAO. Production Yearbook 1985. Rome, 1986.
2 Baseado em estimativas do B"""" Mundial para 1980, segundo as quais
340 míIhlies de habitantes de pafses em desenvolvimento (exceto China)
n!o possuíam rends suficiente para atingir wn padrlio calórico mfnimo que
impedisse sérios danos à saiIde e o raquitismo infantil; e 730 míIhlies ..la­
vam abaixo do padrlio exigido para uma vida economicamente ativa. Ver
World Oank. Poveny and hwlger; isso.. and options for food security in
developing countries. WashinglOn, D.C., 1986.
3 PAO. Yearbook of Food anã AgricultlU'e Stat4tics, 1951. Rome, 19S2;
PAO. Production Yearbook 1985, ci!.
4 PAO. Yearbook 01 Food and Agricu/Jural Stalistics Trade Volume, Part
2, 1951. Rome, 1952; PAO. TI'tUÜI Yearbook 1982. Rome, 19&3; PAO.
TI'tUÜI Yearbook 19&4. R.",.., 1985. .
5 PAO. 'fr<lú Yearbook 1968. Rome, 1969; PAO. Commodities review
anã OfIJ1ook 19&4-85. Rome, 1986.
6 PAO. Yearbook 01 Food anã AgricuJturtlJ Stati.Jtics TI'tUÜI Volume, Part
2,1954. Rome, 1955; PAO. CommodIries review ... cito
7 PAO. Production Yearbook 19&4. Rome, 19&5.
8 Brown, L. R. Suslllining world agriculrure. In: BroWll, L.R. el aw. Srate
oflhe world 1987. London, W.W. NOrlOn, 19&7.
9 Gear, A., ed. The orgtmicfood guide. Essex, 19&3.
10 USSR Commlltee for lhe Intematiunal Hydrological Docade. WorId
""*' ba/JJ1ICt! anã _rresources 01lhe &uth. Paris, Uoeoco, 197&.
11 PAO. Yearbook of Food anã Agricultru'al StatUtics lM/. clt.; PAO.
Production Yearbook 1984. cil.
12 Dairy, pmírie. The Eco_, 15 nov. 19&6.
13 WCED Advisory Panel on Pood Security, Agriculture, Poreotry and
Environment. Food .fecrully. London, Zed 000"', 1987.
14 Neste relatório o termo pesticidas é WlIIdo em sentido genérico, com·
preendendo inseticidas, herbicidas, fungicidas e outros inswnos agricolas
do gênero.
15 O...,., Muodlal. Relatório $Obre o desénvolv/me1llQ mundial 1986. Rio
de Janeiro, Pundaçlio Gerulio Vargas, 1986.
16 Brown, L.R., op. ciro
17 Standing Committee on Agriculwre, Pisheries and Foreotry. SoII ai
risk; Canada's eroding fulUre. Ottawa, 1984. (Relal6rio sobre a conoerva­
çlio do solo para O Senado do CanadiL)
18 Orown, L.R. cit.
19 Centre for Science and Environment. The _ oflnd1a's envil'Onmelll
/984-85. New DeJhi, 19&5.
20 PAO, Land,food anã people. Rome, 1984.
21 Szabolcs, I. Agrnrian cbange. Elaborado para a CMMAD, 1985.
22 Gear, A. cito
23 Oandyopadhysy, J. Rehabllítalioo of uplsnd watersheds. Elaborado
paraaCMMAD.19&S.
24 Unep. General _01 of progress in lhe implcmenlation of lhe
plan of Action lo Cornhat Deoertification 197&-1984. 1984;
WCED Advisory Panel ... cito
2S Unep. op:-ci!.
26lbid.
27lbid.
28Ibid.
29lbid.
30 PAO. AgricJúJure lOWaI't:Ú 21XJO. Rome, 1981.
31 PAO. POIentiDJ popÍúIJIioII supporting capacities 01 Itmds In the deveIo­
ping wor/d. Rome, 1982­
32 A claasif"1C<IÇIo da terra elaborada pelo US Oureau of Laad Manage.
meDI é apenas wn exemplo de como o problema pode ser abordado. Um
tipo mailI amplo de PAO. PoteIIIi4JpopuIa·
tio" suppoTt/ng capacities.., ciro
33 Inderéoa. Caguon·Caquera report. Bogota, Colombia, 1985.
34 Os progranlas agrnflorestais postos em prática na índia slio exemplos
dessa abordastm. Foram adolf\dos enrusiasticamente por mullos agricul.
!ores.
35 FAO. WorIdfood "port. Rome. 1985; WCED Advisory Panel. .. cit.
36 WCED Advisory Panel. .. cit.
37Ibid.
381bid.
39 FAO. Worldfood report. cit.
40 Dados da Pu.ndaçáo Dag HlIIIIIIUU1IItjold. Suécia. In: Cenlnl (or Scie"""
and Environment. op. ciro
41 Estimativas da FAO citadas in: WCED Advisory PaneL .. clt.
42 Ibid.
43 FAO. Food oudooI:. Rome. 1986.
160
161
6. F3PÉCIF.S E ECOSSISTEMAS: RECURSOS
PARA O DESENVOLVIMENTO
A conservaçlio dos recursos naturais vivos - ""gelais, animais e
mícroorganismos, e dos elementos não-vivos presentes no meio
ambiente do qual dependem é fundamental psra o desenvolvi­
mento. Atualmente, a conservação dos recursos vivos selvagens
consta dos planos de govemos: quase 4% da supertTcie IelTeslre
do planeta é gerida explicitamente para conservar espécies e
ecossistemas, e só nmíto poucos países não possuem parques na­
cionais. O desafio que se impõe hoje às nações jã não é mais de­
cidir se a conservaçlio é uma boa idéia, mas sim como implemen­
tâ-Ia no interesse nacionai e com os meios disponíveis em cada
país.
6.1 O PROBLEMA: CARACTERíSTICAS
E
As espécies e seus elementos genéticos prometem desempenhar
um papel cada vez mais importante no desenvolvimento, e jã se
faz presente uma vigorosa argumentação econômíca em defesa
dos motivos éticos, estéticos e científicos psra preservá-in •. As
contribuições da variabilidade genética e do elemento plasma
getmínati vo das espécies à agricultura, à medicina e à indústria já
montam a muitos bilhões de dólares anuais.
No entanto, os cientistas só pesquisaram exaustivamente uma
em cada 100 espécies vegetais da Terra, e uma proporção muito
menor de espécies animais. Se as nações assegorarem a sobrevi­
vência das espécies, o mundo poderá contar com alimentos novos,
e melhores, novas drogas e medicamentos, e novas matérias-pri­
mas psra a indústria. Esta - a possibilidade de as espécies contri­
buírem sempre mais e de uma infiuidade de formas para o OOm­
estar da humanidade é a principal justificativa psra os esforços
cada vez maiores no sentido de salvagoardar os milhões de espé­
cies da Terra.
19oalmente importantes são os processos vitais efetuados pela
natureza, entre eles a estabilização do clima, a proteção das ba­
cias fluviais e do solo, a preservação de viveiros e áreas de re­
produção etc. A conservação desses processos não pode se des­
vincular da COIIIIerYaçlio de cada espécie dentro dos ecossisremas
naturais. Administrar ao mesmo tempo espécies e ecossistemas é
evidentemente o modo mais racional de lidar com o problema. Há
Wllmer08 exemplos de soluções aplicáveis a problemas locais. I
As espécies e os e<:oSsi5remas naturais contribuem bastante pa­
ra o 00_humano. Mas esses rectmlOS tlio importantes rara­
mente são vtilizados de modo a poder en.fren1ar as crescentes
pressões da futura demanda de benlI e de serviços que dependem
desses recursos naturais.
Cresce o consenso no meio científlco de que as espécies esü\o
desaparecendo a um ritmo nunca anies preseociado no planeta.
Mas também há controvérsias quanta a esse ritmo e aos riscos que
acarreta. O mundo está penlendo precisamente aquelas espécies
sobre as quais tem ROUCO ou nenhum conhecímelllO; elas estão
desaparecendo nos habitats mais remotos. Esse crescente interes­
se científico é relativamente recente e os dados em que se baseia
não são muito.s6lidos. Mas se consolida a cada ano. à medida que
surgem novas pesquisas de campo e novos estadosJXI1' satélite.
Muitos ecossistemas biologicamente ricos, e promíssores em
beneficios materiais encontram-se seriamente ameaçados. Imlme­
ras variedades biológicas com:m o risco de desaparecer justa­
mente quando a cl!ncia com<IÇIl a aprender a explorar a variabili­
dade gené!tica devido aos avanços da engenharia genética. Vários
estudos documentam essa crise com exemplos tirados de florestas
tropicais, florestas Jemperadas, IJlIlDllUCzais. recifes de coral. sa­
vanas. prados e zonas áridas.
2
Embora a maioria desses estados
apresente documentaçlio de caráter geral e poucos listem as espé­
cies em risco ou recentemente extintas.algons expõem pormeno­
rlzadamente espécie por espécie. (Ver box 6.1.)
A alteraç.lio dos habitats e a extinção das espécies nIio são as
ónicas ameaças_ O planeta tambi!m ""m sendo empobrecido pela
perda de raças e variedades dentro de espécies. A variedade das
riquems genéticas existentes em uma l1nica espécie é atestada
pela variabilidade evidente nas nmítas raças caninas. ou nos
multos tipos de mílho obtidos pelos cultivadores.
3
Muitas espécies estão perdendo popolaç6es inteiras a um ritmo
que reduz rapidamente sua variabilidade genética e, portanto, sua
capacidade de adaptaçio M mudanças cli.máticas e a outrns for­
mas de ad""rsidade ambiental. Os fundos de gelleS remanescentes
das principais espécies ""gelais cultivadas como o mílho e o ar­
roz, por exemplo, representam apenas uma fraçlio da di""rsidade
gené!tíca que abrigavam há apenas a1gons efednios, mesmo que as
próprias espécies não estejam ameaçada •. Assim, pode haver uma
grande dífem1Ç8 entre perda de espécies e perda de reservas de
, genes.
162
163
Dol< 6.1 Alguns exemplos de extlnçAo de espédes
• Em Madagascar, até meados do século, havia 12 IIliI espé­
cies vegetais e provavelmente cerca de 190 IIliI espécies
animais; pelo menos 60% desse total emm enllêIllicas na
faixa florestal existente na parte oriental da ilha (ou seja,
não existiam em nenhum outro lugar do mundo). Pelo menos
93% da floresta priIllitiva desapareceram. Com base nestes
nt1meros, 06 cientistas calculam que pelo menos metade das
espécies originais já desapareceu ou está em vias de desapa­
recer.
• O lago Malavi, na África Central, possui mais de SOO es­
pécies de peixes, das quais 99% endêmicas. O tamanho do
lago é apenas um oitavo do dos Grandes Lagos da América .
do Norte - que possuem apenas 173 espécies, das quais me­
nos de 10% são nativas - e se encontra ameaçado pela p0­
luição causada por instalações industriais e pela possível
introdução de espécies alienígenas.
• Supõe-se que o Equador ocidental já tenha possuído entre
8 mil e 10 mil espécies vegetais, sendo de 40 a 60% endê­
IIlicas. Considerand.,..se que em áreas semelhanles existem
de 10 a 30 espécies animais para cada espécie vegetal, o
Equador ocidental deve te;r possuído cerca de 200 IIliI espé­
cies. Desde 1960, quase todas as florestas da região foram
destruídas para ceder lugar a plantações de banana. poços
de petróleo e assentamentos hlllDMOs. t dificil avaliar o
nl!mero de espécies que desapareceram por causa disso. mas
poderiam ter sido 50 mil ou mais - e em apenas 25 anos.
• Na região do Pantanal, no Brasil, há cerca de 110.000
Km
2
de terras Wnidas, talvez as mais extensas e ricas do
mundo, que são o habitat das mais nwnerosas e variadas es­
pécies de aves aquáticas da América do Sul. A Unesco con­
siderou a região "de importãncia internacional", mas ela
vem sofrendo cada vez mais devido à expansão da agricultu­
ra, li construção de represas e outras fanoas de desenvol vi­
mento que rompem o equillbrio ecológico.
Fontes: Rauh, W. Problems of biologic:al ennservatioo in Madsgas­
caro In: Bramwell, D .• ed. Planls anti /slands. London, Academk:
Press, 1979; Barel. D.C.N. et alii. Destruction of fisheries in Afri­
ca'. lakes. Noture. 315:19-20, 1985; Gentry, A.H. Pattem. oí ueo­
tropical pIant species diversity. Evo/ulionary Bi%gy, 15:1-34, 1982:
Senti, D.A. & Carbonell, M. A directory of neotropical wetlands.
GIand, SwitzerIand,lUCN, 1985.
"No.r;ra mata atI4nlica, essa massa de floresta tropical. que se
estende """"" faixa estreikl de norte a sul. foi drastlcamellt4 re­
duzida.
A floresta por grande número de espécies en­
tNmkas. espécies que s6 e:dstem nessa drea e apenas no Brasil.
Por u,w. rompete a IIÓS. brasileiros, a responsabilidade de
manter vivas es..w:u esplcies..
Ibsen de Gusmão Clmara
Presidelllli da Fundação BrasiÚl/ra para o Conservação da NOture20
Audiência p6blica da CMMAD. São Paulo, 28-29 de outubro de 1985
t inevitável que se perca parte da variabilidade genética, mas
todas as espécies deveriam ser protegidas na medida em que isso
fosse I6cnica, econômica e politicamente possível. O panorama
genético está em conslante mudança através de processos evoluti­
vos, e há mais variedades do que o esperado para serem protegi_
das por prognunas governamentais bem definidos. Por isso, no
que diz respeito à conservação genética, é preciso que oS gover­
nos sejam seletivos e investiguem que reservas de genes merecem
ser objeto de medidas de proteção. Contudo. como proposta mais
ampla, oS governoS deveriam sancionar leis e implementar poUti­
cas pdblicas que estimulassem a responsabilidade dos indivíduos,
das comtIl1idades e das empresas para com a proteção das reservas
de genes.
Mas anUla .que a ciência possa se concentrar em novas manei­
ras de conservar as espécies, os planejadores e o ptlblico em geral
- para o qual as políticas sáo feitas - devem compreender o
quanto é grave e premente a ameaça. As espécies importantes pa_
ra o bem-estar humano não são apenas os vegetais silvestres apa­
rentados às culturas agrkolas. oU oS animais criados para consu­
mo. As IIlinhocas, as abelhas e os cupins podem ser muito mais
importantes devido ao papel que desempenham num ecossistema
sandável e produtivo. Seria bastante irônico que, justo no m0­
mento em que as novas I6cnicas da engenharia genética começam
a perIllitir que conheçam06 melhor a diversidade da vida e usemos
os genes com mais eficácia para melhorar a condição humana.
achemos esse tesouro lamentavelmente desgastado.
6.1 EXTINÇÃO: FORMAS E
A extinção é um fato tão antigo quanto a vida. Os poUC06 milhões
de espécies que sobrevivem até hoje silo os que restaram do meio
164
165
bilhão que se calcula já haver existido. No passado, quase todas
as extinções ocon:eram por proceSIlOS naturais, mas hoje se devem
predominantemente 11 ação humana.
A duração média de uma espécie é de cerca de 5 milhões de
anos. As estimativas atuais mais odmístas são de que, nos últimos
200 milhões de anos, 900 mil espécies, em média, ... tenham ex­
tinguido a cada I núlhão de anos, o que daria uma taxa média de
quase uma extinção a cada 13 meses e meio, aproxín:la<lamente.4
A taxa atual, provocada pela ação humana, é centenas de vezes
mais alta e podo Iilcilmente chegar a ser milhares de vezes mais
alta. S Nilo sabemos. Nilo dispomos de dados numéricos precisos
sobre as taxas atuais de extinção, pois as espécies que estlio de_
parecendo são, em sua maioria, aquelas menos estudadas, como
os insetos das florestas tropicais.
Embora as florestas tropicais dmidas sejam sem dávida as uni­
dades biológicas mais ricas em tennos de diversidade genética e
as mais ameaçadas pela ação humana, outras importantes mnas
ecológicas também sofrem pressões. As terras áridas e senú-áridas
abrigam apenas um n!lmero muito pequeno de espécies, em c0m­
paração com as florestas tropicais. Contudo, devido ao fato de es­
sas espécies se adaptarem a condições de vida muito duras. en­
tram na composição de muitos produtos bioquímicos de grande
potencial, como a cera líquida da jojoba e a borracha natural do
guaiúle. Muitas dessas espécies estão ameaçad.., entre outras
causas, pela do. rebanhos.
Os recifes de coral, com oerca de meio núlhão de espécies em
400.000 Km", estio ...ndo devastados a tal ponto que provavel­
mente, no início do próximo século, só exlstirilo alguns remanes­
centes deteriorados. Isto representaria uma grande perda, pois o.
organismos dos recifes de coral, graças 11 "guerra biológica" em
que se empenham para garantirem seu espaço vital em habitats
superpovoados, geram um nWnero e uma variedade excepcionais
de toxinas inestimáveis para a medicina moderna.
6
As florestas tropicais ánúdas cobrem apenas 6% da supedi'cie
terrestre do planeta, mas abrigam pelo menos metade das espécies
da terra (que totalizam no míninlo 5 milhões, mas podem chegar a
30 milhões). Nelas vivem 90% ou mais de todas as espécies. As
florestas tropicais maduras ainda existentes cobrem apenas 900
milhões de hectares, dos 1,s-I ,6 bilhão de hectares que já chega­
ram a cobrir. De 7,6 milhões a 10 milhões de hectares são com­
pletamente devastados a cada ano e pelo menos OUtroS 10 milhões
sofrem sérios danos anualmente.
7
Mas esses mlmero. provêm dI'
levantamentos feitos em fins dos anos 70: desde então, é provável
que o ritmo do desflorestamento tenha se acelerado.
"Há 20 anos, quando tIec:Idimo8 explorar maiB intenslvr:unente
nossas florestas, pe1ISl11fIOS apenas na disponibilidade de recur­
sos e simplesmenlie os lI&:III'fOS. Na tpoca. achávanu:I8 ramMm
que o fato • as árvores serem den'ubadas não impediria a rege­
neraç(io da: florestn. porque ""'" todas as árvores estavam sendo
cortadas. Mas de que ainda não sabIilmos como re­
cuperar florestas tmpicais.
Uma espécie nativa czqo nome $l6 Ift!i .... minha IÚlgua, me­
ranti, t /lOS"" madeira maiB nobre, e t uma árvore que ndo dd
sombn:z dMronte seu perfodo de C1'escÍ1f'/elllO. E não pode sobrevi­
ver sem sombra. E Mo nem levamos isso em conla. simplesmenlie
aceitamos a tecnologia ocIdentaJ que diz que é preciso derndx.v
e explorar nonasflorestas."
Bmmy H. Obarsono
Rede de Nlk>-g<>venamenta" parti.
Q COI&SD'WJÇIIo de FIorutlts
Audi8ncla pllblics da CMMAD.lscarta, 26 de março de 1985
Por volta do fim dq sécu1o, ou pouco depois, talvez restem
muito poucas florestas tropicais ánúdas virgens, a nào ser na ba­
eia do Zaire na porção ocidental da AtDazônia brasileira, e em
algumas outras áreas, como a faIxa florestal da Guiaoa. na nane
da América do Sul, e partes da ilha de Nova Guiné. improvável
que as florestas dessas moas sobrevivam por muitos docêalos
mais, já que. a demanda mundial de seus produtos continua a .0­
q1CIItat, assim como o mlmero de agricultores que exploram essas
terras.
Se o desflorestamento na A.tnazbnia prosseguisse ao ritmo
. atual até o ano 2000 e entlio cessasse por completo (o que é im­
provável), ter-se-iam perdido cerca de 15% das espécies vegetais.
Se a floresta amazóníca acabasse se restringindo às áreas hoje
consideradas parques e reservaS florestais, 66% das espécies ve­
getais desapareceriam, além de quase 69'lL das espécies de pás­
ros e proporções semelhantes de todas as outras principais
rias de espécies. Quase 20% das espécies da Terra enCODtram-5e
em florestas da Aml!rica Latina, excInída a A.tnazbnia; outroS
20% estlio em florestas da Ásia e da Áfiica. excluída a bacia do
Zaire.8 Todas essas florestas estlio ameaçadas e, se desaparece­
rem, as espécies perdidas podem chegar a centenas de milhares.
A menos que se tomem medidas administrativas adequadas de
longo praro, pode-se perder pelo menos um quarto, talvez um ter­
ço e possivelmente até uma ptoporção ainda maior daa espécies
167 166
hoje existentes. Muitos especialistas sugerem que se protejam
pelo menos 20% das florestas tropicais, mas até agora bem menos
de 5% recebem algum tipo de proteção - e muitos dos puques de
florestas tropicais existem apenas no papel.
É improvável que mesmo os puques e áreas protegidas mais
bem administrados constituam uma solução adequada para o pr0­
blema. Na Amazônia, se metade da floresta fosse de alguma for­
ma preservada, mas a outra metade desaparecesse ou sofresse !Ié­
rios dano;;, talvez não houvesse umidade suficiente no ecossiste­
ma amazônico para manter úmido o restante da floresta.
9
Ela p0­
deria ir secando até se tomar praticamente uma floresta aberta - o
que provocaria a perda da maioria das espécies adaptadas às con­
dições de uma floresta tropicalllmida.
É provável que num futuro não muito distante venham a <>COr­
_ variações climáticas mais generallzadas. uma vez que o acú­
mulo de "gases de estufa" na atmosfera acarretará o aquecimento
do planeta já no início do próximo século. (Ver capftulo 7.) Tal
variação afetará bastante todos os ecossistemas, tornando parti­
culannente importante manter a diversidade nalUra/ como meio de
adaptação.
6.3 ALGUMAS CAUSAS DA EXTINÇÃO
Os trópicos, que abrigam o maior número e di""rsidade de espé_
cies. também abrigam a maioria dos pa{ses em
onde o aumento populacional é mais acelcrado e a pobreza é mais
difundida. Se os agricultores desses pa{ses se virem forçados a
persistir na agricultura extensiva que é intrinsecamente instá""l
e obriga a deslocamentos constantes -, então a agricultura teadará
a se esteadar por todo o meio ambiente selvagem ainda existente.
Mas se forem lliudados e incentivados a praticar uma agricultura
mais intensiva, poderáo fazer uSO produtivo de áreas relativa­
mente limitadas e afetar muito menos as ten:all selvapns.
Os agricultores necessitaráo de l\iuda: treinamento, apoio à
comercialização, fertiIizantes, pesticidas e implemento. a preços
acessíVeis. Isso exigirá o apoio integral dos governos, inclusive a
garantia de que as polfticas de conservação serão elaboradas de
modo a beneficiar sobretudo a agricultura. Tal""z seja con""­
1:Iiente ressaltar que esses programas são mais importantes para os
agricultores do que para a vida selvagem, embora os destinos de
ambos estejam interligados. A conservaçio das espécies vincula­
Se ao desenvolvimento, e os problemas de ambos são mais polCti­
co. que técnicos.
Em muitos pa{ses em desenvolvimento, o aumento populacio­
nal é uma das maiores ameaças aos esforços de conservação. O
Qu&nia destinou 6% de seu território a parques e reservas, a fim
de proteger sua vida selvagem e ganhar divisas com o torismo.
Mas os atusis 20 milhões de hahitantes do país já estão pressio­
nando tsnto os puques que as terras sob proteção vêm sendo gra­
dativamente perdidas devido à invasão de (l8ricuItore•. E segundo
as prqie<;i5es. a populaçio queniana quadruplicará nos próximos
40 ...ms.
10
Pressões populacionais semelhantes ameaçam os parques da
Eli6pia. Uganda, Zimbábue e de outros países, onde um mbnero
cada vez maior, porém mais pobre, de C8lllponeses se vê forçado
a depender de uma base de recursos naturais cada vez mais redu­
zida. São sombrias as perspectivas para os puque. que nõQ con­
tribuem de modo marcante e comprovado para os objetivos do de­
nacional.
Brasil, Colômbia, Costa do Marfun, Filjpinas, Indonésia, Ma­
dagascar, Peru. Quênia, Tailãodia e outras naçi5es com grande
abundAncia de espécies já estão enfrentando fluxos maciços de
agricultores das terras tradicionais para territórios virgens. Esses
tenit6rios qll8llC sempre contêm florestas tropicais, que os mi- .
grantes estimulados para a atividade agrícola consideram terras
"livres", onde podem se estabelecer sem empeçilhos. A. W
ssoas
que já vivem nessas terras - em baixas densidades populacionais
e possuindo apenas os direitos tradicionais à terra - são muitas
_s banidas desses locais, no afã de cultivar terras que bem p0­
deriam continuar como florestas de uso extensivo.
Muitos países tropicais ricos em recursos florestais provocaram
"b«mIs de madeira" devastadores ao concederem direitos de ex­
ploraçio em troca de pagamentos de royalti8s, alugUéis e impos­
tos que. representam apenas uma pequena ft8ç4o do valor comer­
cial líquido da exteaçilo da madeira. O dano causado por esses in­
centivos foi alnda agravado pelo fato de SÓ serem oferecidas con­
cessões a cw10 prazo - o que leva os concessionários a iniciarem
imedial:s:mente O corte da madeira -, e de serem ado1ados sistemas
de royalti8s que induzem os madeireiros a só extrafrem as melho­
re. árvores, danificando demais as restanteS. Em Conseqüência, 08
empresários madeireiros de YlIrios pafses arrendaram praticamente
toda a área florestal produtiva em poucos anos e exploraram abu­
sivamente os recursos. sem se preocuparem muito com a produti­
vidade tutora (enquanto, imprudentemente, permitiam na área la­
vradores que a limpavam por meio de queimadas).! I
Nas Américas Central e do Sul, umitos governos incentivaram
• cooversilo em larga escala de florestas tropicais em fazendas de
criaçio de gado. Multas dessas fazendas se revelaram inviáveis
168
169
"Todos n6s. na Áfrka. ellf;aTnos knJomente dl/!:spertal'lt:lo J1QTa
o .falo di/!: que a crise qfricana I em essbrt:itJ um problema di/!:
meio ambien18 qt.te ,trowre conseqíMncias negalivas como seca.
fome. dl/!:serlificaçiio. supe1'pOJ1Ulat;iio. refug/Dtlos, instabüidode
polftica, pobreza gelflllr'aflmdq etc.
Estamos dl/!:spertal'lt:lo J1QTa o falo di/!: que a África e&!? mor­
rendo porque seu melo ambien18 foi pilhodo. superexplOrado e
negligenciado .
Muitos di/!: n6s. na África. ellf;aTnos taJnbbn começando a per­
ceber qw nenhum bom samaritano Im CTJI!Z4T' os mares pan;z vir
salvar o melO ambiente qfricano. 56 mesmo n6s, q/ricruros, p0­
demo.. e deveremos ser nificie-sen.sfveis ao bem-estllF di/!:
nosso meio ambiente. U
s.... Rabab W. Nwatba
Th4 GreetúMlt Move_",
Audi!ncía pIIbIica da CMMAD. Nairóbi. 23 de setembro de 1986
do ponto de vista ecológico e econOmico. pois o solo logo perde
seus nutrientes; as esp6cies daninhas tomam o lugar da gramfnea
plantada e a produtividade das pastagens declina abruptamente.
No entanto. dezenas de milhões de hectares de f101eStas tropicais
se perderam para dar lugar a essas fazendas. principalmente par­
que os govemos garanlinun as conversões por meio de COIICe&­
sOes de terras • .nditos to isenç&s fiscais. empI1!8t1mos subsidia­
dos e outros incentivos.1
2
A promoçlio das iInportaç6es de madeiras trapU:ais em certos
países industrializados - que fixam tarifas baixas e concedem in­
,centivos comerciais bastante favoráveis -. somada às fn1geis po­
Ifticas florestais dos países tropicais e aos altos custos e desin­
centivos à exploração madeireira vigentes nos países iodustriali­
zados. leva ao desflarestamento. Alguns paIses industria­
lizados ar6 importam toros nIo-beneficiados sem PIl8ar impostos
OU a taxas tarifárias mínimas. Isso estimula as ioddatrias dos paí­
ses desenvolvidos a US8lCm a madeira das florestas tropicais e nio
a prdpria. fato que é reforçado' por restrições internas li quantida­
de de árvores que podem ser cortadas nas fIOIeStas desses países.
6.4 VALOIlJl'S ECONÔMICOS EM JOGO
A c01I.IIef'WÇ1io das espécies nio se justifica apenas em tennos
econômicos. Também é motivada. e muito. por conaideraç(ies es­
téticas, éticas, culturais e cientfficas. Mas para aqueles que exi­
gem prestações de conta, os valores econômicos inerentes às
substâncias genéticas das espécies já bastam para jlIatificar a sua
preservaçlio.
Hoje, as nações industrializadas regislnml beneficios financei­
ros rmúto maiores decoI::rentes das espécies selvagens jXt que os
paIses em desenvolvimento, embora os beneficios não registrados
para os habitantes interiOllUlOS das regi6e.s tropicais possam ser
considetáwis. Os paIses industrializados dispõem da capacidade
cientffica e industrial para &prowitar substâncias selvagens na in­
d11stria e na medicina. E comem:ializam uma proporção
muito maior de sua produção agrícola do que as nações em de­
senvolvimento. Os cultivadores do Norte dependem cada wz
mais das substâncias genéticas provenientes de variedades selva­
gens de milho e trigo. duas culturas que desempenham papel de
destaque no comércio internaCional de grilos. O Departamento de
Agricultura dos EUA estima que as contribuições do material ge­
nético wgetal geram _ntos de prodntividade que, em média,
se sitoam em tomo de 1% ao ano, com um valor para o produtor
bem superior a US$1 bilbAo (dólares de 1980).1
3
A safra II01'bHIn1ericana de milho sofreu um graw rev6s em
1970, quando um fungo de folha atacou as terras de cultivo. fa­
zendo os agricultores perderem mais de US$2 bilh6es. Descobriu­
se, então. uma substância genética resistente a fungos em reservas
genéticas prowruemes do México.
14
Mais recentemente, uma es­
pécie primitiva de milho foi descoberta numa floresta alpeSIre do
CeoI;ro-Sul mexicano. lS Esta planta sUvestre é a esp6cie mais an­
tiga que se conbece aparentada 80 milho moderno e em
apenas ttês _ilaS faixas de terreno que se esteodiam por uns
parcos quatro hecta:I:es de uma área ameaçada de destruiçlio por
agricultores e madeireiros. A espécie selvagem é perene; todas as
demais formas de milho são anuais. Sua hibridaçlio com varieda­
des comerciais de milho abre 80S agricultores a perspectiva de
poderem vir a poupar os gastos anoais com a arada e a semeadu­
ra, pois a planta cresce por si mesma todos OS anoS. Os benefícios
genéticos dessa esp6c1e silveslre, descobertos quando só restavam
alguns milhares de talos, podem totalizar vários bilh6es de dóla­
16
res ao ano.
As espécies selvagens contribuem para a medicina.
Metade de todas as receitas aviadas originam-se de organismos
selvagens.17 O valor comen::iaidesses medicamentos e drogaS nos
EUA chega hoje a cerca de US$14 bilh6es anoais.
18
Bm termos
mundiais, incluindo substâncias que nlio entram na composlçlo de
receitas e produtos o valor comercial estimado
excede a US$40 bilhões ao ano.l
9
170
171
A lnddslria l:IIInbém se beneficia da vida selvagem. 20 Com as
subsfAncias dela' extraídas produzem-se gomas, óleos, resinas,
tinturas, 1mÚDO, son:t- e çeraa vegeJais, inaeticidas e muitos
outros COInpostos. Muitas espécies vegetais silvestres t!m semen­
tes ricas em óleo que podem ser utilizadas na fabricaçlio de fibras,
detergentes, colas e comestíveis em geral. Por exemplo, as videi­
ras de f10resla pluvial do gênero FevUf«l:, encontradas na Ama­
zônia ocidental, contl:m semenres tão ricas em óleo que um hecta­
re dessas videiras na floresta original poderia produzir mais óleo
do que um hectan:I de uma planlllçio comercial de paImeilu olea­
.
glJI088S.
21
Poucas ellpécies vegetais contl:m Iúdrocarbonetos em vez de
carboidrat0s22 e algumas podem germinar em dIeas que se toma­
ram indteis devido a atividades como a lDineraçlIo de corre aberto.
Assim, as _ deterioradas pela exlmção de IúdroclU'bonetos
como o C8t'Ylio poderiam ser recuperadas IDI:diante O cultivo de
IúdrocIU'boneIDs na superfície. AI6m disso, ao conlrllrio de um
poço petrolífero, uma "plantaçlio de petnSleo" nunca cbcga ne­
celll8l'Í8D:leDlII a secar.
O novo campo da enge:oharia gen6tica, atraVlls do qual a cian­
ela projeta novas varIaç6es de formas de vida, niio inutiliza genes
selvagens. Na verdade, esta nova ciancia deve se basear no mate­
rial gen6tico existente, lDrnando-o, assim, ainda mais dtil e vaIlo­
so. A extinçIo, segwldo o Prof. Tom Eisner, da Comeu Uuiver­
sity, "já DIa si,gnifica mais a simples perda de um volume na bi­
bliolDCa da _.Siguifica a perda de um livro de folhaa sol­
tas, em cada pIlgina - para que as espécies sobrevivam - penna­
neceria perpetuaIDImIe dillponiveJ • transfer&lcia seletiva e ao
aperfeiçoamento de outras esp6cies".23 O Prof. WinslDn Brill, da
Universidade de WI_in, assinalou: "Estamos entrando numa
era em que a riqueza gen6tica, sobretudo a de dIeas tropicais ca­
mo as florestas pluviais, até agora um fundo fiduciário relativa­
mente inacessível, está se tomsndo uma moeda de alto valor ime­
diato.
u24
Graças • engenharia gen6tica, pode ser que a Revoluçlio Verde
da agricultura seja sup1antada por uma "Revolul;lio Genética".
Essa tecnologia cria a esperança de que algum dia se venha a
plantar nos desertos, no mar e em outros ambientes que antes niio
podiam ser cultivados. No campo da medicina, os pesquisadores
antevêem que sua prdpria Revolução Gen6tica obterá mais pr0­
gressos DOS dltimos 20 anos dcsIII século do que nos 2(X) anos
anteriores.
Muitas das naçlíell meDOS capacitadas a administrar seus recur­
sos vivos são as mais ricas em espécies; os tnSpicos, onde estio
pelo menos dois terços de todas as espécies e uma proporção aio-
da maior de esp.!cies ameaçadas, coincide aproximadamente com
a área que se convencionou chamar de Terceiro Mundo. Muitas
nações em desenvolvimento reconhecem a necessidade de prote­
ger as espécies ameaçadas, mu nlio dispõem do insl:t'llmental
cientifICO, da capacidade lnstitocional nem dos recursos financei­
ros nece8Sérios a essa conservação. As nações industrializadas
que procuram colber alguns dos beneficios econômicos dos recur­
sos gen6ticos deveriam ajndar as naçlíell do Terceiro Mundo em
!!Cus esforços conservacionistas; l:IIInbém deveriam procurar meios
de ajndar os países tropicais - sobretudo a popuJaçlio rural, que
está mais diretamente ligada a essas espécies - a oblllr alguns dos
beneficios econômicos propiciados por esses "",ursos.
6.S UMA NOVA ABORDAGEM: PREVER E EVITAR
O m<!todo histórico de criar parques nacionais até certo ponto
isolados da sociedade foi superado por uma nova abordagem de
conservação das espécies e ecossistelll8$ que se pode definir ca­
mo "prever e evitar" . Isso implica acrescentar uma nova dimen­
são 80 método já tradicional, se bem que viável e ncoc:<eSS6rlo, das
áreas protegidas. Os modelos de desenvolvimento precisam ser
alterados para se tomarem mais compalÍveis com a preservação da
valiosfllsima diversidade biológicâ do planeta. Altel1U' as estnIlu­
ras econômieas e de USO da terra pm::ce ser a melhor a ~ e m
de longo prazo para gamnfu:í\ sobrevivência das espécielÍ'!lelva­
gens e de seus ecossisteniâS. . •
Essa abordagem ."estratágica traia dos problemas 4 a ~ ­
IDIIÇlio das espécies eóhíÚlforigem nas políticas de desenwlvi­
mento, preva os resultiillós óbvios das políticas mais deslnltivas e
evita danos desde agó'ra, llma boa llI8DCira de prom<ii.iei- essa
abordagem <! a elaboraçll3 ~ Bstratágias Nacionais de Conserva­
çlio (ENC), que retinem os"Pro<:easos de cóÓserV8Ção e desenvol­
vimento. Na elaboraçio de uma ENC participam aganclas gove:r­
n_is, organizações nio-gove:mamentais, int.eresses privados
e a comunidade em geral, a f'lI1I de aiuúisar questões relativas a
recursos naturais e estabelecer prioridades. Espera-se que, desta
fonna, os interesses setoriais tenham uma melhor compn!eD!Iâo de
suas inter-relações com outros setores e que se possa chegar a
novas possibilidades de conservação e desenvolvimento.
O vínculo enúe c:onservaçlio e desenvolvimento e a necessida­
de de atacar o JIIOblema na origem sio visíveis no caso das flores.
tas tropicais. As vezes, não é a necessidade econômica que leva.
exploraçlio abusiva e • destruição dos recursos, mas a política
governamental. Os custos econômicos e fiscais diretos dessa ex­
173
172
''Não posmel fa:zer com que as oomurasaki - nossa borboleta
imperl4l púrpura - voltem a existir em quantidade. ct:JmO 110 pas­
sado. A floresta ideal para as oomurasaki exige a extirpação de
ervas tIaninIrDs, o plantio de árvores, cuidados e _nçõo. A
floresta será passada às ;fu.turas geraçlJes. Não I tnaraVillroso
pensar que se e.stá ligado às geraçlJes;fu.turas pelo /dto de lhes
deixar uma floresta onde voam tantas oomurasaki e as pessoas
des.fhdam de momentos de alegria?
Seria muito bani se pudlssemos instalar 110 ClOração das
crlanfas o amor pela natureza. Esperamos dar de presente a fo>­
resta que eSk1mos plantando às crianças que viveriío 110 skulo
XXI."
Mika Sakakt"bara
Aluna da Universidade de Agrfcultura e de Táquio
Audi<!ncia páblica da CMMAD, Tóquio, 27 de fevereiro de 1987
plomçllo abusiva - somados aos da extinção de espécies - são
enormes. O resultado tem sido a exploraçID ruinosa das florestas
tropicais, o sacriffcio da maioria de suas riquezas em madeira e de
outros tipos. perdas enormes de """,ita potencial para o governo e
a destruiçAo de recursos biológicos de gmnde vulor.
Os governos do Terceiro Mundo podem conter a destro içA0
das florestas tropicais e de outras reservas de diversidade biológi­
ca sem comprometer suas metas econômicas. Podem conservar
esp6cies e habitats valiosos enquanto reduzem seus &lus econO­
micos e fISCais. A refonna dos sistemas de receita florestal e dos
IeItOOS de concesslio poderia gerar bilhões de d61ares de receita
adicional, promover o uso mais eficienle e mais prolongado dos
recursos florestais e reduzir o desflorestamento. Os governos p0­
deriam evitar enormes despesas e perdas de receita, promover
usos mais sustentáveis da Iemt e refrear a destruiçlio das florestas
tropicais, se eliminassem o. incentivos à atividade pecu4rla.
O vínculo entre conservaçAo e desenvolvimenlD também exige
certas alterações nas estruturas do comércio. Isso foi reconhecido
quando se criou, em 1986, a Organizaçlio Inlemacional de Madei­
ras Tropicais, sediada em Iocoama. Japão, com o objetivo de ra­
cionalizar os fluxos comerciais. Sua criaçlio visava à implementa­
çlio do prime;ro acordo sobte produtos b4isioos a incorporar um
componente espeeffico relativo à conservaçlio.
Podem-se encontrar inthneras outras oportunidades de encora­
jar tanlD a conservação das espécies quanto a produtividade eco­
nômica. Muitos governos mantêm impostos irrealisticamente bai­
xos sobte terras rurais, enquanto permitem que colonos se apro­
priem de terras "virgens" pelo fato de cultivá-las. Assim, os ricos
donos de terras podem ficar com propriedades imensas e pouco
exploradas a wncusto baixo ou nulo, eoquanto os ca:rnponeses
carenleS de terra são incentivados a derrubar florestas e se instaiar
em asse_nlDs marginais. A reforma dos sistemas tributário e
de ocupação da terra poderia aumentar a produtividade nas pro­
priedades existentes e reduzir as pressões para expandir o cultivo
em florestas e bacias de planaltns.
Uma conservação bem planejada dos ecossistemas contribui de
muitas formas para a consecuçlio das metas principais do desen­
volvimento sustentável. A proteção de faixas vitais de terras sei.
vagens ajuda também, por exemplo, a proteger terras agricultá­
veis. Isso se aplica de modo especial às florestas de planallDs dos
trópicos, que protegem os vales das inundações e da eroslio e os
cursos d'água e os sistemas de irrigação do assoreamenlD.
Um bum exemplo é a Reserva de Dumoga-Bone, em Sulawesi,
norte da Indonésia, que abrange cerca de 3.000 Km' de florestas
de planalto. Ela protege grandes popolaçiies da maioria dos ma­
míferos endêmicos de Sulawesi e muitas das 80 espécies endêmi­
cas de pássaros da ilha. Também protege o Sístema de Irrigação
do Vale de Dumoga, fmandado pelo Banco Mundial e instalado
nas planícies próximas a fun de triplicar a produçlio de arroz em
mais de 13 mil hectares de terras agrícolas de primeira qual ida­
de.
25
Outro exemplo é o Parque Nacional de Canalrna, na Vene­
zuela. que protege o abastecimenlD de água residencial e indus­
trial para uma grande hidrelétrica que, por sua vez, gera eletrici­
dade para o principal centro industrial do país e sua capital.
Daí se conclui que os governos poderiam considerar a criação
de "parques para o desenvolvimento", já que servem ao duplo
propósilD de proteger, simultaneamente, os habitats das espécies e
os processos de desenvo1vimenlD. Os esfoxços nacionais no senti­
do de prever e evitar as conseqüências negativas das políticas de
desenvolvimento em qualquer_dessas áreas seriam certamente
muito mais áteis li conservaçlio das espécies do que todas as me­
didas IDmadas nos últimOs 10 anos a fim de promover a criação
de parques, a guarda de áreas florestais, o combate à caça e à
pesca ilícitas e outras formas convencionais de preservaçlio da vi­
da selvagem. O DI Congresso Mundial sobre Parques Nacionais,
realizado em Bali, Indonésia, em outubro de 1982, levou esta
mensagem dos administradores de áreas protegidas a tudos os
planejadores do mundo, demonsttando as muitas contribuições
que as áreas protegidas à maneira moderna estlio trazendo para a
sociedade humana.
175
174
6.6 A AÇÃO INTERNACIONAL EM RELAÇÁO
ÀS ESPÉCIES NACIONAIS
As espécies e seus recursos genéticos - quaisquer que sejam suas
'origens - e1lidentemente beneficiam todos os seres hwnanos, Os
recursos genéticos selvagens do México e da Alriérica CentraI
atendem tota1mente às necessidades dos produtores e eonsunüdo­
res de milho. As principais naçlies produtoras de cacau encon·
tram-se na África ocidental. enquanto os recursos genéticos de
que as modernas cacauiculturas dependem para manter sua. pro­
dutividade situam-se nas florestas da Amazóni.a ocidental.
Os produtores e consumidores de café, a fun de obterem boas
safras, dependem do fornecimento constante de novas matmas
genéticas de espécies selvagens da família do café, localizadas
sobretudo na Etiópia. O Brasil, que fornece plasma geiminativo
de boll'llCha selvagem para os seringais do Sudeste asiático, de­
pende também do plasma germinativo proveniente de diversas
partes do mundo· para manter suas lavouras de cana-de-açúcar,
soja e outras de igual importância. Se os países da Europa e da
América do Norte não tivessem acesso a fontes estrangeiras de
plasma genninativo ano após ano, sua produção agrfeola logo de­
clinaria.
As espécies e os ecossistemas naturais da Terra dentro em bre­
ve serão considerados ativos a serem preservados e administrados
para obenefrcio de toda a humanidade. Por isso, será absoluta­
mente necessário incluir a conservação das espécies nas agendas
polítieas intenw:ionais.
No âmago da questiío está o fato de quase sempre haver um
conflito entre os _interesses econômicos de CUI1n prazo de cada
nação em separado e os interesses de longo prazo do desenvolvi­
mento sustentável e dos ganhos econômicos potenciais da comu­
nidade mundial como um todo. As açIies que visam a conservar a
diversidade genética devem, portanto, procurar tornar a proteção
das espécies selvagens e de seus ecossistemas mais atraentes do
ponto de vista econÔmico tanto a cW10 quanto a longo prazos.
Deve-se asseglll'ltt aos países em desenvol1limento uma parcela
eqüitativa do lucro econôtnico proveniente do uso de genes para
fins comerciais.
6.6.1 Algumas Iniciativas em curso
Uma série de medidas em nível internacional já estão sendo ten­
tadas, mas em âmbito limitado, com êxito apenas relativo e de
natureza reativa. A Organização das Nações Unidas para a Edu­
cação, Ciência e Cultura (Unesco) mantém um centro de informa­
çlies sobre áreas naturais-e recursos genéticos. Seu Fundo para o
Patrimônio Mundial financia a administração de alguns ecossis­
temas de características excepcionais em todo o mundo, mas essas
atividades dispõem de orçamentos limitados. A Unesco procurou
estabelecer um sistema global de Reservas da Biosfera. onde esti·
vessem representadas as 200 "províncias bióticas" da Terra e que
abrigasse amostras de comunidades de espéeies. Mas só um terço
das reservas necessárias foi criado, apesar de o estabelecimento e
a manutenção dos dnis terços restantes viessem a custar apenas
cerca de US$lSO milhões ailUais.
26
Ontros órgãos da ONU, como a OrgaIJização para a Alimenta­
ção e a Agricultura (FAO) e o Programa das Nações Unidas para
o Meio Ambiente (PNUMA), mantêm programas relacionadOS
com espécies ameaçadas, recursos genéticos e ecossistemas im­
portantes. Mas suas atividades coqjugadas pouco representam
diante do muito que é necessário fazer. Dentre os orgãos nacio­
nais, a Agência Norte-Americana para o Desenvol1limenta Inter­
nacional é a mais importante nO que tange ao reconhecimento da
necessidade de conservar as espécies. Por leÍ"aprovada no Con­
gresso dos EUA em 1986. seráo destinados anualmente US$2,5
milhões a esse objetivo.27 Mais uma vez, esta deveria ser consi­
derada uma atitude importante se comparada com o que tem sido
feito até agora pelas agências -bilaterais, mas insignificante em
tennos de necessidades e opoltUnidades.
A Uaião Internacionsl para a Conservação da Natureza e dos
Recursos Naturais (UICN), trabalhando em estreita Cólabor:ação
com o PNUMA, o FundoMundial para a Vida Selvagem, o Ban­
co Mundial e várias agências internacionsis de assistência Il!cni­
ca, criou um "Centro de Monitoração da Conservação", para for­
necer informaç<les sobre espécies e ecossistemas a qualquer parte
do mundo, com rapidez e facilidade. Este serviço, aberto a todos,
ajuda a garantii' que os 'projetos de desenvolvimento sejam elabo­
rados contando COm todas as infonnações disponíveis sobre as
espécies eos ecossistemas que possam 1Iir a afetar. Présta tamb6m
assistência técnica a naçlies, setores e organizações interessados
em criar bancos de dados locais para uso próprio.
O. problemas atinentes às espécies tendem, de modo geral. a
ser considerados mais em termos cient((icos e conservacionistas
do que uma importante questão econômiea e de recursos. Sendo
assim, a questão carece de suporte político. O Plano de Ação s0­
bre Silvicultura Tropical é uma importante inieiativa no sentido
de dar maior ênfase à conservação no debate das qu.estlies relati­
vas ao desenvo11limento internacional. Esse esforço conjuntO, c0­
ordenado pela FAO, envolve o Banco Mundial, a UICN, o Insti­
tuto de Recursos Mundiais e o Programa da. Nações Unidas para
177 176
':4 medida que o desjtorestamento progride, cai a qualidade de
vida de milhões de pessoas /lOS paúes em desenvolvimento; sua
sobrevivincia estd ctmeDÇ<lÓa pela perdo. de vegetaçdo da qual
dependem como fonte de energia dombtica " de muitos outros
beneffcios. Se as fkJrestos tropicais cont:inuarem a ser derruba­
das /lO ritmo de agora, pela me/lOs 225 milhões de l/ectares terilo
sida destrufàos par volta do ano 2()()(); se a destiUição das fio·
restos pluviais tropicais continuar. estimo-se que de 10 a 20% da
vida vegetal e animol da Terra lerdo desaparecida /lO ano 2()()().
. Conter O desflorestamento depende de lidemnça palftica e de
mudanças adequadas de polftica par parte dos gtrW!11'IOS das paI­
ses em desenvolvtmenta, em apoio a iniciativas /lO ntvel da co­
mu:nidade. O prlncipollngredlente é a participaçdo ativa tk mi­
lhões de pequencs agricultares e sem-terras, que, lados os dias,
usam florestos e drvorei para atenderem ds $IID$ necessidades."
1. Gustave Spelb
Preáidetlle do lnstituJo de Recursos Mundiais
Audiência pdblica da CMMAD, Silo Paulo, 28-29 de outubro de 1985
o Desenvolvimento, além de várias outras instituiÇ;ÕeS. Essa ini­
ciativa, muito ampla, propõe que se proceda à revisão da silvi­
cultura nacional. que se fonnulem planos nacionais de silvicultu­
ra. que se adolem novos projetos, que se _nle a cooperação
enlre as agências de assistência ao desenvolvimento que atuam no
setor florestal e que haja um maior fluxo de recursos técnicos e
financeiros para a silvicultum e campos correlatos, como o da
agricultura em pequena escala.
Estabelecer normas e procedimentos para questões relativas a
recursos é pelo menos tio impona:nle quanto aumentar recursos
financeiros. Exemplos de tais nonnas silo, enlre outros, a Con­
vençllo sobre Terras Úruidas de Importllncia Internacional, a
Convençllo sobre a Conservaçllo de Ilhas para a Ciência (ambas
visando à salvaguarda de habitats originais e suas espécies) e a
Convenção sobre o Comércio Inlemacional de Espécies Ameaça­
das. As três Convenções são cheio, embora as duas primeiras se­
jam basicamente tentativas de criar "refúgios de espécies".
6.6.2 Estabeleeendo prioridades
Uma prioridade básica é fazer com que o problema das espécies
em extinção e dos ecossistemas ameaçados cons1e das agendas de
políticas como uma importante questllo relativa a recursos. O Ma­
pa Mundial da Natureza, adotado pela ONU em outubro de 1982,
foi um passo importanle nesse sentido.
Os govemos deveriam estudar a possib1lidade de fumar uma
"Convenção sobre as Espécies", semelhante em espírito e em al­
Cance à Lei do Tratado. do Mar e a outras convenções imemacio­
nais que exprimem princípios de 'Hrecursos universais"'. Uma
Convenção sobre as Espécies, nos moldes de um documento ela­
borado pela UICN, deveria enunciar o conceito de espécies e de
variabilidade genética como um patrimônio comum.
Responsabilidade coletiva pelo patrimÔnio comum não signifi­
caria direitos inlemacionais coletivos aos recursos de uma naçlIo.
Não haveria in1erferência nos conceitos de soberania nacional.
Signif-'caria apenas que as nações já não leriam de contar somenle
com seus esforços isolados para proleger espécies ameaçadas em
seu lenit6rio.
Tal Convenção precisaria apoiar-se num acordo financeiro que
contasse com o ativo patrocÚlio da comuuidade de nações. Qual_
quer ajusle desle tipo - e são imlmeras as possibilidades _ não
deve apenas lentar assegurar a conservação dos recursos genéti­
cos para todos, mas também garantir que as nações detentoras de
grande parte desses recursos tenham uma participação eqliitativa
nos beneficioS e ganhos advindos de seu aproveitamento. Isso se­
ria um grande estfmulo à conservação das espécies. Tal acordo
poderia ser um FIIl1do Fiduciário para o qual todas as nações
contribuíssem, cabendo uma participação maior às que mais se
beneficiassem com o uso dos recursos. Os governos dos países
que possuem florestas tropicais poderiam ser pagos para conser­
var detenninadas Ifreas florestais, e tais pagamentos aumentariam
ou diminuiriam dependendo do nível de manulenção e proteçllo
das f1orestas.
28
Para uma consenraçllo eficienle são necessárias somas eleva­
das. Só a conservação de florestas tropicais por meios tradicionais
exige um dispêndio de US$170 milhões por ano dura.nle pelo me­
nos cinco anos.
29
Contudo. na rede de heas protegidas de que o
mundo necessitará por volta de 2050, têm de estar incluídas áreas
muito mais vastas, que precisam de diferentes níveis de proteçllo
e de técnica.. de adruinisttaçAo bastante flexíveis.3O
Também silo necessários mais recursos financeiros para as aIi­
vidades de conservação fora das áreas prolegidas: ~
da vida selvagem. áreas de ecodesenvolvimento, campanhas edu­
cativas etc. Enlre outras medidas menos dispendiosas está a can­
servaçllo de bancos de genes selvagens de importllocia especial,
por meio da criação de "áreas de conservação genética" nos paI_
ses de grande riqueza biológica. A maioria desse lI:abalho pode
179
ser levada a efeito por grupos de cidadãos e por outros meios
não-governamentais.
As agências internacionais de desenvolvimento - o Banco
Mundial e outros grandes bancos de crédito. as agências da ONU
e as agências bilaterais - deveriam atentar. de mndo detido e sis­
temático. para os problemas e as oportunidades!!e conservação
das espécies. Embora já exista um grande comércio internacional
de espêcies e prndutos da vida selvagem. até boje não se deu a
devida imporlancia ao valor econômico inerente à variabilidade
genética e aos processos ecol6gicos. Entre as possíveis medidas a
serem tomadas estão a análise dos efeitos de projetos de desen­
volvimento sobre o meio ambiente. dando-se especial atenção a
habitais de espécies e sistemas de manutenção da vida; a identifi­
cação dos locais onde existem concentraçôes excepcionais de es­
pécie. com níveis muito elevados de endemisrno e de perigo de
extinção; e as oportunidades de vincular a conservação das espé­
cies à assistência ao desenvolvimento.
6,7 A AÇÃO NAQONAL
Corno já se disse. os governos têm de partir para uma nova abor­
dagem nesse campo - prever o impacto de suas políticas sobre vá­
rios setores e agi:r no sentido de evitar conseqílências indesejá­
veis. Deveriam rever seus programas em setores como agricultura.
silvicultura e assentamentos. que degradam e destroem habitais de
espécies. Os governos deveriam também determinar quantas áreas
protegidas ainda são necessárias. tendo em mente sobretudo de
que forma tais áreas podem contribuir para os objetivos do desen­
volvimento nacional. e redobrar as providências para li proteção
de bancos de genes (como. por exemplo. variedades originais
cultivadas) que talvez não possam ser preservados por meio das
áreas protegidas convencionais.
Além disso, é preciso que os governos reforcem e ampliem as
estratégias já existentes. Entre as necessidades mals urgemes es­
tão uma administração melhor da vida selvagem e das j!reas pr0­
tegidas. um malor mhnero de áreas protegidas do tipo não-con­
vencional (como as estações ecol6gicas que estão tendo relativo
sucesso no Brasil). mal. projetos ligados à pecuária e a reservas
de caça (como os esquemas referentes a crocodilos na índia. Pa­
pua Nova Guiné. Tailândia e Zimbábue). uma promoção mais in­
tensa do turismo em regiões de vida selvagem. e medidas mals
severas para impedir a caça ilícita (embora as espécies ameaçadas
peta caça ilícita sejam relativamente poucas em comparação com
o elevado mlmero de espécies ameaçadas pela perda de seus M­
"brfelizmente o mundo ndQ é o que gOl!tarlamos que fosse. Os
problemas são muitos e graves. Na verdm:le. só podem ser ""sol­
vúJos com cooperoção e talento.
Represento uma organização chamada Naliu'eza e Juventude.
Sei que conto com o toIal apoio de noSsos membros quando digo
que estamos preocupados com o fUturo caso ndQ ocorram mu­
danças drásticas em relação ao modo Como o mundo vem traton­
do de nossa condição essencial. a IfCIJureza.
Nós que trabalhamos com a juventude, e que somos jovens na
Noruega de hoje. sabemos muito bem que a destruição da na./u­
reza- provoca nos jovens wn medo apático com relação a seu fu­
turo e com afeição que ele tomorá.
É muito importanle que as pessoas comuns lenham a chance
de participar nas decisões quanto ao modo de trator a nature­
za.'·
Frederic Hauge
Natureza e Jv:vo"rude
Audiência pl1l>lk:a da CMMAD. Oslo. 24-25 de junho de 1985
bitats). As Estratégias Nacionais de Conservação. como as já
existentes em mals de 25 países. podem ser muito úteis para a c0­
ordenação dos programas de conservação e desenvolvimento.
Recoobecendo que o desaparecimento de espécies representa
um sério desafio aos recursos e ao desenvolvimento. os governos
poderiam tomar ainda outras medidas para enfrentar esta crise ­
entre as quais considerar as necessidades e as oportunidades da
conservação das espécies no planejamento do uso da terra e in­
corporar -explicitamente suas reservas de recursos genéticos aos
sistemas de contas nacionais. Daí poderia advir a criação de um
sistema de contas de recursos naturais que dedicasse especial
atenção às espécies. considerando-as recurso de grande valor em­
bora ainda pouco recoobecido. Por fun, os governos deveriam
apoiar e expandir programas de educação pública para assegurar
que as questões atinentes às espécies merecessem a atenção devi­
da por parte da população.
Toda nação dispõe apenas de recursos limitados para lidar com
as prioridades de conservação. O dilema consiste em como usar
esse recursos com o máximo de eficiência. A cooperação com
países limítrofes que partilham dos mesmos ecossistemas e espé­
cies pode ajudar no tocante à elaboração de programas e também
11 divisão das despesas com iniciativas reginnais. S6 será possível
tomar medidas precisas para salvar um mlmero relativamente pe­
180
181
queno das espécies mais importantes. Como essa escolha é dificí­
lima, os planejadores precisam tornar as estratégias de conserva­
ção o mais seletivas possível. Ninguém se alegra com a perspecti­
va de relegar espécies ameaçadas ao esquecimento. Mas na medi·
da em que as escolhas já estão inconscientemente sendo feitas,
elas deveriam ter por base um critério seletivo que levasse em
conta o impacto da extinção de uma espécie sobre a biosfera ou
para a integridade de detenninado ecossistema.
Mas mesmo que os esfolÇOS públicos se concentrem em umas
poucas espécies, todas são importantes e merecem algum tipo de
atenção, que poderia se traduzir em créditos fiscais para os agri­
cultores que desejassem manter cultivares primitivos, no fim dos
incentivos 11 derrubada de florestas virgens, no incentivo das uni­
versidades locais 11 pesquisa, e na elaboração de inventários da
flora e da fauna nativas pelas instituições nacionais.
6.8 A NECESSIDADE DE AÇÃO
Há inúmeros indícios de que a perda de espécies e de seus ecos­
sistemas está sendo encarada seriamente como um fenômeno com
conseqüências práticas para todos os povos do mundo, tanto hoje
quanto para as gerações vindouras.
O aumento recente dessa preocupação popular manifesta-se em
fatos como os Clubes de Vida Selvagem do Quênia, que hoje já
chegam a mais de 1.500 clubes escolares com cerca de 100 mil
membros)1 Algo semelhante no tocante 11 educação para a con­
servação ocorreu em Zâmbia. Na Indonésia, cen::a de 400 grupos
conservacionistas se reuni.nml sob a égide do Forum Indonésio
para o Meio Ambiente e já exercem forte influência poHtica.3
2
Nos BUA, o número de membro. da Audubon Society chegou a
385 mil em 1985.
33
Na URSS, os clubes da natureza contam com
mais de 35 milhões de .6oio • .3
4
Tudo isso indica que o público
atribui 11 natureza um valor que ultrapassa os imperativos econô­
micos normais.
Bm resposta a essa preocupação popular. os governos estão
tomando providências para assistir às espécies ameaçadas em seus
territórios, principaImente por meio da instituição de mais áreas
protegidas. Hoje, a rede mundial de áreas protegidas totaliza mais
de 4.000.000 Kni', o que equivale aproximadamente ao tamanho
da maioria dos países da Europa ocidental combinados, ou a duas
vezes o tamanho da Indonésia. No que tange a cada continente, as
áreas protegidas na Europa (exclu(da a URSS) conespondiam em
1985 a 3,9% do lenitório; na URSS, a 2.5%; na América do
Norte, a 8,1%; na América do Sul, a 6,1%; na Áftica, a 6,5%; e
na Ásia (eltcluída a URSS) e na Austrália, a 4,3% cada.
35
A partir de 1970, essas redes cresceram em exlensão em mais
de 80%, cerca de .dois terços desse total no Terceiro Mundo. Mas
ainda há muito a ser reito. Há entre os profissionais um consenso
de que a exlensão total das áreas protegidas precisa ser no mJoi­
mo triplicada para constituir uma amostra represenIativa dos ecos­
sistemas da Terra.
36
AiruIa está em tempo de salvar as espécies e seus ecossisIemas.
Esle é um pré-requisito indispensável ao desenvolvimento sus­
lentável. Se falharmos, não seremos perdoados pelas gerações
futuras.
Notas
I McNeely, J. & Miller, K .• ed. NatiaMI parlcs conservation anti tkvelop­
me"'; lhe role of protected are•• in .u.taining .ociety. Proceeding. of lhe
World Congregs on National Parks. Washington. D.C., Smilhsonian Inm­
tution Preso, 1984.
2 BIIIIllgtl. W.B. Policies for lhe maintenance of biological diversity 1986.
(Preparado para a CMMAD.); Ehrlich. P.R. & Ehrlich, A.H. Exlinction.
New York. Random HOUlle. 1981; Westem, D., ed. Conservation 2JOO.
Proceedings of Wildlife Conservation IntemationaI and N.>w York: Zoolo­
gjcal Society Conference, 21-24 Cc!. 1986. New York. ZooJogical So­
ciety (no prelo); Myres. N. Tropical deforestation and species extinction,
lhe latest news. FuiUres, Cct. 1985; Lewin, R. A mas, elttinction without
ssteroíds. Science, 30ct. 1986; Raven, P.H. Statement from Meetiog of
IUCN/WWF Plant Ad'llisory Group. Las Palmas. Canary Islands. 24-25
Nov. 1985; SouIe, M.E., ed. ConservatWn blology; science of scarcity and
diversity. Sunderland, Ma. ..., Sinauer Associates, 1986; Wilson, ao., ed.
Biodiversity. Proceedings of National Forum held by National A<:ademy of
Sciences and Smithsonían Institution. 21-24 Sept. 1986.
O.C., National Academy Preso (no prelo).
3 Prantel, O.H. & Soule. M.I!. Conservation and ,volation. Cambridge,
Cambridge University Pres'. 1981; Schonewald-Cox, eM. et aJii, org.
aenelics and conservation. Menlo Patk, Calif.. BenjaminlCummings.
1983.
4 Raup, D.O. Biologjcal extlnction in Eatlh hislory. Sclence. 28 Mat.
19!1i .
5 Wilson, E. O. op clt.; I!hr1ich, P.R. & I!hr1ich, A.H. op. clt.; Myers, N.
op. cit.: Soule, M.E. op. clt.
6 Ruggieri. G.O & Rosenherg. N.O. The h«lling sea. New Yodc, Dold
Mead,1978.
7 I'AO UNEP. Tropical forest resources. Rome. 1982. (I'orestry Paper
n.30.); MeIillo, 1.M. et aIii. A comparison of teceot estimates of disturban­
ce in tropical forests. Environmental Cons.rvation. Spr1ng 1985; Myers,
N. The primary source. New yor". W.W. Norton, 1984; Myers, N. Tropi­
183
.al deforestation ... cit.; Molofsky, 1. et alii. A comparlson of tropical fo­
resl survey •• Washington, D.C., Cartlon DiolÚde Program, US Depart­
menl of Energy, 1986.
8 Simherloff, D. Are we on lhe verge of. mass extinc1ÍOn in tropical rain
forests? In: Enio!, D.K., ed. Dynamics of extinction. Chicesrer, UK, 1000
WUléy, 1986; Raven, P.H. op. cito
9 Salati, E. & Vose, P.B. Amazon basin: a system in equllibrium. Sdence,
13 lu1y 1984.
10 Depanment af Inremational Eoonomic and Social Affain. World po­
pulation prospect; estimares and projeclions. as assessed in 1984. New
YOrl<, Unired Nations, 1986.
II Repetlo, R. Creating.ineentives for sustainable foreslry development.
Washingron, D.C., World Re50urces Institure, Aug. 1985
12 Ibid.
13 Agricultural Researcb Service. lntroduction, classification, maimenan­
ce, evaluation, and doe_ntation of pia'" germplasm. Washingron, D.C.,
US Depanment of Agrieu1ture, 1985.
14 Tatum, L.A. The Soutbern com leaf blígbl epidemíc. Science,
171:1.113-16,197!.
15 Iltis, H.H. el alü. Zea diploperennis (gramíneae), a new reosinre fram
MelÚco.Science,121an.1979.
16 Fiaber, A.C. Eoonomíc analysís and lhe extinc1ÍOn of species. Berkeley,
Departrnenl of Energy and Resources, University of Califomia, 1982.
17 Fa.rnsworth, N.R. & Socjarro, 0.0. PofUltial consequence of plant ex­
tinction in lhe Unired States on lhe cUITenl and future availability of pres­
cription drogo. Econcmic Botany, 39:231-40, 1985.
18 Mye .., N. A wea/th of wild spedes. BouIder, Colo., Westview Press,
1983.
191bid.
20 Oldfield, M.L. The value of conserving genetic resources. Washington,
D.C., National Park Serviee, US Department of the Interior, 1984; Prin­
cen. L.H. New crop deveiopment for industrial oUso JOUTnal OflM Ameri­
can OÜ C/remists' Society. 56:845-8, 1979.
21 Gentry, A.H. & Wettacb, R. FevUléa - a new oUseed from AmazoDÍao
Peru. Ecoru:mUc Botany, 40: 177- 85, 1986.
22 Calvin, M. Hydrocarbons fram plants: analylical rnethods and observa­
lion •. Naturwissensclulften, 67:525-33, 1980; Hinman, C.W. et alii. Five
porential new crops far arid lands. Environmental. Conservation, Winter
1985.
23 Eisner, T. Cbemicals, genes, aI)d lhe Ioss af species. Nature Cqnserw:zn..
cy New., 33(6):23-4, 1983.
24 Brill, W.l. Nitrogen lixatian: basic 10 applied. American Sdentist,
67:458-65, 1979.
25 McNeely, 1. & Miner, K. op. cito
26 Unesco.lmernational Coord/nating Councü ofMan and IM Biosplrere.
Paris, 1985. (MAB Report Series n. 58.)
27 Carta envinda a N. Myers, consultor em meio ambiente. desenvolvi­
mento, pelo Senador W. Ralh (R-Del.), Congresso dos EUA, Washinglon,
D.C.
184
28 R.A. Sedjo, Depoimento aore a Subcomissão sobre Direitos Hll!l1lIoos e
Organizações Internacionais, Comíssão de Relações Exteriores, Câmara
dos Deputados dos EUA, 12 set. 1984.
29 Intemalional Task Force. Tropieal fores<; a calJ for action. Wash.ington,
D.C., Warld Resources Institure, 1985.
30 Pore", R.L. & Darling 1.[1 S. The greenbouse effeel af nalure reser­
VeS. Bioscience, 35:707-17, 1984.
31 Wilson. Ed Kenys's Wildlife Clubs. WWF Regional Omee for East
aod Central Africa, 3 Feb. 1987. (Comunicação pessoal.)
32 Centre for Enviranrnental Stndies. E1Ivironme1lll:Ú NGO's in developlng
coulÚTies. Copenbagen, 1985.
33 N6mero de membros da Audubon retirado de Ulrich'$ PeriodicaIs.
New York, R.W. Bowker, 1985.
34 Prof. Yazan, vice-presidente e conselheiro regional da UICN.IUCN
BuUetin.I7(7'9).
35 ListofIlOtional parksand equivalem reserves.IUCN, 1985.
36 McNeely, J. & MiJler, K. op. cito
185
7. ENERGIA: OPÇÕES PARA O MEIO AMBIENTE
E O DESENVOLVIMENTO
A energia é indispensável à sobrevivência diária. O desenvolvi­
mento futuro depende indubitavelmente de que se disponha de
energia por muito tempo, em quantidades cada vez maiores e de
fontes seguras, confiáveis e adequadas ao meio ambiente. Hoje.
não dispomos de nenhuma fonte isolada ou combinada a oUlmS
- que possa atender a essa necessidade futura.
É natural que nos preocupemos com um futuro seguro no to­
cante à energia. pois ela proporciona "serviços essenciais" à vida
humana - calor para aquecimento, para cozinhar e para atividades
manufatureiras, ou força para o transporte e para o trabalho me­
cânico. Atualmente, a energia necessária a esses serviços provém
de combustíveis - petróleo, gás, carvão, fontes nucleares, madeira
e outras fontes primárias (solar, eólica ou hidráulica) - que não
têm utilidade até serem convertidos nos serviços de energia de
que precisamos, por meio de máquinas ou de outros tipos de
equipamentos, como fogões, turbinas e motores. Em muitos pafses
de todo o mundo, desperdiça-se gn>nde quantidade de energia
primária devido ao planejamento ou ao funcionamento ineficien­
tes do equipamento usado para converter a energia nos serviços
necessários, embora felizmente já se tenha mais consciência da
necessidade de conservar a energia e usá-Ia com eficiência.
As atuais fontes primárias de energia são quase todas nik>-re­
nováveis: gás natural, petróleo, carvão. turfa e energia nuclear
convencional. Há também fontes renováveis, como madeira, ve­
getais, estercó, quedas d'água, fontes geotermais. energia sblar,
eólica, das marés e das ondas, além da força muscular animal e
humana. Os reatores nucleares que produzem combustível pró­
prio, e às vezes os reatores a fusão. incluem-se também nessa ca­
tegoria. Teoricamente, todas as diversas fontes de energia podem
contribuir para a futura combinação energética a ser utilizada em
todo o mundo. Mas cada uma tem seus custos, beneffcios e riscos
econômicos, sanitários e ambientais - fatores que interagem ati­
vamente com outras prioridades governamentais e globais. É pre­
ciso fazer opções, mas sabendo que a escolha de uma estratégia
energética determinará inevitavelmente a escolha de uma estraté­
gia ambiental.
Os atuais padrões de uso de energia, e suas alterações, já estão
ditando os padrões para o próximo século. Abordaremos a ques-
Box 7.1 Unidades de energia
Várias unidades são utilizadas para medir a produção e o
consumo de energia em lermos fisicos. As unidades usadas
neste capftulo são o kilowatt (kW); o gígawatt (GW), que
equivale a I milhão de kilowatts; e o terawatt (TW), que
equivale a I bilhão de kilowatts. Um kilowatt - mil watlS de
potência - emitido continuamente durante um ano é lkW­
ano. O consumo de lkW-ano por ano equivale à energia li­
berada peja combustão de 1.050 quilos - aproximadamente
uma tonelada - de carvão ao ano. Portanto. lTW-ano é igual
a cerca de I bilhão de toneladas de carvão. No texto, TW­
anos/ano aparece como TW.
tão do ponto de vista da sustentabilidade, cujos elementos-chave
a serem conciliados são:
• aumento dos suprimentos de energia em quantidades suficientes
para atender às necessidades humanas (o que significa ajustar-se a
um mínimo de 3% de crescimento de renda per capita nos países
em desenVOlvimento);
• medidas que visem à conservação e ao rendimento energético,
de modo a minimizar o desperdício de recursos primários;
• sallde pliblica. reconhecendo os riscos à segurança inerentes às
fontes energéticas;
• proteção de biosfera fi prevenção de furmas mais localizadas de
poluição.
O período que se inicia deve _ considerado de transição de
uma era em que a energia foi usada de modo não-sustentável.
Ainda não se encontrou uma fonna aceita por todos para se che­
gar a um futuro energético seguro e sustentãveL Não acreditamos
que a comunidade internacional já tenha encarado esses dilemas
de uma perspectiva global e consciente da urgência com que de­
vem ser tratados.
7.1 ENERGIA, ECONOMIA E MEIO AMBIENTE
O aumento da demanda de energia decorrente da industrialização,
da urbanização e da melhoria das condições sociais levou a uma
distribuição global extremamente desigual do consumo de energia
primária. I Nas economias industriais de mercado, por exemplo, o
consumo de energia per capita supera em mais de 80 VC7.eS o da
187
186
Tabela 7.1
Consumo global de energia primária per capiM, 1984
ClassiflCaç40 do PNBper Consumo Populaç40 Consumo
Banco Mundial capita de energia em meados total
segun<looPNB (dólllres (kW per de 1984 (fW)
de 1984) capital' (milhões)
Renda Baixa 260 0,41 2.390 0,99
África subsaariana 210 0,08 258 0,02
Renda média 1.250 1,07 1.188 1,27
Média baixa 740 0,57 691 0,39
Média alia 1.950 1,76 497 0,87
África subsaariana 680 0,25 148 0,04
Exportadores de petr61eo
de renda alta 11.250 5,17 19 0,10
EconomIas industriais
de mercado 11.430 7,01 733 5,14
EconomIas de
planejamento
centralizado do
Leste europeu 6,27 389 2,44
Mundo 2,11
2
4.718 9,94
Fon..: baseado em: Banco Mundial Relat6río sobre o de""nvotv __
mundial 1986. Rio de Janeiro, Fundação Getulio Vargas, 1986.
I kW percapita é kW-anos/anoper capita.
2 O consumo médio de energia ponderado pela populaç40 (kW/capita)
para as três primeiras categorias principais é 0,654 e para as categorias
economIas industriais de mercado e Leste europeu é 6,76.
África subsaariana. (Ver tabela 7.1.) E cerca de um quarto da p0­
pulação mundial consome três quartos da energia primária do
mundo.
Em 1980, o consumo global de energia ficou em tomo dos
10'IW.2 (Ver box 7.1.) Se o consumo per capita permanecesse
nos níveis atuais, por volta de 2025 uma população global de 8,2
bilhões de habitantes
3
necessitaria de aproximadamente 14TW
(mais de 4TW nos pafses em desenvolvimento e mais de 9 TW
nos' países industrializados), um aumento de 40% em relação a
1980. Mas se o consumo de energia per capita se unifoIlIlÍZasse
em todo o mundo nos nfveis atuais dos países industriâlizadOs,
por volta de 2025 a mesma população !\lobal necessitaria de
aproximadamente S5TW.
É improvável que qualquer dns dnis casos se mostre realista,
mas dão uma idéia aproximada da faixa em que pode se situar o
consumo de energia futuro, pelo menos hipoteticamente. Podem­
se conceber muitos outros cenários intennediários, entre eles al­
guns que admitem uma base energética melhor parn o mundo em
desenvolvimento. Se, por exemplo, o consUmO médio de energia
nas economias de renda baixa e média triplicasse e dobrasse, res­
pectivamente, e se o COnSUmo nos países de renda alta exportado­
res de petróleo e industrializados - com e sem economia de mer­
cado - pennanecesse o mesmo de hnje, os dois grupos estariam
consumindo aproximadamente as mesmas quantidades de. energia.
A. categorias de renda baixa e média necessitariam de 1O,5TW e
as três categorias "altas" consumiriam 9,3TW o que totalizaria
2OTW, admítindo-se que a energia primária esti vesse sendo usada
nos mesmos nfveis. de rendimento de hoje.
Qual a praticidade desses cenários? Os analistas de questões
referentes a energia realizaram muitos estudos acerca das peno
pectivas da energia global nos anos 2020 e 2030.
4
Tais estudos
não fazem prognósticos quanto às necessidades futuras de ener­
gia, mas examinam como vários fatores técnicos, econÔmicos e
ambientais podem interagir com a oferta e a procura. Dois desses
estudos são examinados no box 7.2, embora se disponha de uma
série muito maior de cenários - variando de 5TW a 63TW.
De modo geral, os cenários mais baixos (I4,4TW por volta de
2030,5 11,2TW por volta de 20206 e 5,2TW por volta de 2030
7
)
exígem uma revolução no rendimento energético. Os cenários
mais altos (lS.8TW por volta de 2025,8 24,7TW por volta de
2020
9
e 3S,2TW por volta de 2030
10
) agravam os problemas de
poluição ambiental que o mundo vem enfrentando desde a rI
Guerra Mundial.
As implicações de um consumo elevado de energia no futuro
são inquietantes. Um estudo recente do Banco Mundial indica
que, no período 1980-95, um crescimento anual de 4,1 % no con­
sumo de energia - mais ou menos comparável ao -caso A no box
7.2 - exigiria um investimento médio anual de cerca de US$130
bilhões (em d61ares em 1982) apenas nos parses em desenvolvi­
mento. Isso implicaria a duplicação da parcela de investimentos
em energia em termos de produto interno bruto agregado, 11 Cerca
de metade desse montante teria de provir de divisas e a outra me­
tade. de gastos internos com energia nos países em desenvolvi­
mento.
188
189
Box 7.2 Dois cenários eneraéCicos
Caso A - cenário alto
Por volta do anO 2030, um· consumo de 351W significaria
produzir 1,6 vez mais petróleo, 3,4 vezes mais gás natural e
quase 5 vezes mais carvão que em 1980. Esse aumento no
consumo de combustíveis fósseis implica colocar em opera­
ção o equivalente a um novo oleoduto do Alasca a cada um
ou dois anos. A capacidade nuclear teria de ser aumentada
30 vezes em relação aos níveis de 1980 - o que equivale
à instalação de uma nova usina nuclear que gerasse I GW de
eletricidade a cada dois ou quatro dias. Este cenário de
351W ainda está bem abaixo da perspectiva de 551W, que
pressupõe que todos os países tenham chegado aos níveis de
consumo de energia per capita apresentados boje pelos paí­
ses industrializados.
Caso B - cenário baixe
Tomando o cenário de 11.21W como um exemplo bastante
otimista de uma estratégia vigorosa de conservação, a de­
manda de energia, em 2020. nos países industrializados e
em desenvolvimento é fixada, respectivamente, em 3,9TW e
7,3TW, em comparação com os 71W e 3,31W de 1980. Isto
significaria uma economia de 3,11W nos países industriali­
zados por volta de 2020 e uma necessidade adicional de
41W noS países em desenvolvimento. Mesmo que os países
Os riscos e incertezas ambientais deconentes de um consumo
elevado de energia no futuro também são inquietantes e dão mar­
gem a reserva•. Quatro se destacam:
• a séria probabilidade de alteração climática devido ao "efeito
estufa" de gases emitidos na atmosfera, sendo o mais importante
deles °dióxido de carbono (CG2) produzido pela queima de
combustíveis fósseis; 12
• a poluição do ar urbano pelas indústrias, devido a poluentes at­
mosféricos gerados pela queima de combustíveis fósseis; 13
• acidificação do meio ambiente devido às mesmaS causas;14 e
• °risco de acidentes em reatoreS nucleares, os problemas de de­
posição dos rejeitos e da desativação dos reatores após seu tempo
de vida útil, e os perigos da contaminação associados ao uso da
energia nuclear.
Além desses, outro sério problema é a escassez cada vez maior
de lenha nos países em desenvolvimento. A se manter essa ten­
dência, por volta do ano 2000 cerca de 2,4 bilhões de pessoas
poderiin estar vivendo em áreas quase desprovidas de madeira.I
5
em desenvolvimento conseguissem adquirir o recurso p r i m á ~
rio liberado, ainda apresentariam um déficit de O,91W no
I
,
suprimento de energia primária. Tal déficit provavelmente
será muito maior (talvez duas ou três vezes maior), devido
ao alto nível de rendimento que este cenário requer, e que a
maioria dos governos provavelmente não conseguirá alcan­
çar. Em 1980, foi assinalado o seguinte colapso de forneci­
t mento primário: petróleo, 4,21W; carvão, 2,4; gás, 1,7;
fontes renováveis. 1,7; e energia nuclear, 0,2. A questão é
saber qual li origem do déficit de fornecimento de energia
primária. Esse cálculo aproximado serve para ilustrar que o
almejado crescimento médio de ceJXa de 30% per capita no
conswno primário nos países em desenvolvimento ainda
exigirá quantidades consideráveis de suprimento de energia
primária mesmo que se adotem sistemas de uso de energia
de extremo rendimento.
Fomes: o cenário de 35TW foi tirado de; Energy Systems Oroup of
lhe lnternational In.titule for Applied Sy.tems Analysis. Enu8Y in
a fim.. _rld; a global systems analy.is. Cambridge, Mass., Ballin­
ger, 1981; todos os outros cálculos são de Ooldemberg J. ot aIii. An
eoo-use oriented global energy strategy. Annual Review of Energy,
lO, 1985.
Essas reservas são válidas até mesmo quando Ouso de energia
é menor. Um estudo que propôs apenas a metade do consumo de
energia do caso A (hox 7.2) chamou especial atenção para os ris­
cos . de· um aquecimento global por CO
Z
.16 °estudo indica que
uma mistura realista de combustíveis - em essência, um consumo
quatro vezes maior de carvão, duas vezes maior de gás e 1,4 vez
maior de petróleo - poderia causar um aquecimentu global signi­
ficativo na década de 2020. Atualmente, não existe tecnologia
capaz de impedir as emissões de C02 decorrentes da queima de
combustíveis fósseis. °consumo elevado de carvão também au­
mentaria as eoússões de óxidos de enxofre e de nitrogênio, que
em grande parte se transformam em ácidos na atmosfera. Alguns
países estão hoje exigindo a adoção de tecnologias para eliminar
estas emissões em todas a.s instalações fabris novas e at6 mesmo
em algumas mais velhas. mas essas tecnologias podem aumentar o
custo dos investimentos em 15.25%.17 Se os países não estão
preparados para incorrer nesses gastos, esse procedimentu toma­
se ainda mais impraticável, uma lioútação que se aplica muito
190
191
. "Em termos bem simples, a energia i a unidade fund.am,elUal do
mundo físico. Assim sendo, não se pode pensar em desenvolvi­
melUo sem alterações na extensilo e. na natureza dos fluxos de
energia. E por ela ser tão fund.am,enlfll, todos essas alterações de
fluxos tlJm implicações ambiefllais. E essas implicações silo pro­
fundas. Isto quer dizer que as opções em questõell de energia não
são simples. Silo sempre cvmpkros. E todos envolvem compen­
sações. COIUndo, algumas opções e algumas compensações pa­
recem sem sombra de dúvida melhores que ouJras, lU) selUido de
que q{erecem mms desenvolvimento e menps danos ao meio am­
'.
biente.
't
David Brook.
. Amigos da Terra
Audiência pOblica da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986.
mais aos elevados consumos futuros de energia que dependem
mais de combustíveis fósseis. Dificilmente se chegará a uma qua­
se duplicação do consumo global de energia primária sem ter de
enfrentar vários embaraços econÔmicos, sociais e ambientais.
, Isso toma ainda mais desejável um futuro com menor consumo
de energia, em que o crescimento do produto interno bruto (PIB)
não sofra contenções e em que o investimento se dirija para o de­
senvolvimento e a ofena de equipamentos de uso final de elevado
rendimento e poupadores de combustível, e não, como agora, para
a obtenção de mais fontes supridoras de energia primária. Assim,
os serviços energéticos de que a sociedade precisa poderiam ser
fornecidos COm uma produção muito menor de energia primária.
O caso B do box.7.2 leVl\ em conta uma queda de 50% no con­
sumo de energia primária per capita nos países industrializados e
um aumento de 30% nos países em desenvolvimento.l
8
· Empre­
gando as tecnologias e oS processos de maior rendiménto energé­
tico hoje disponíveis em todos os setores da economia, pode-se
chegar a taxas de crescimento anual do PIB per capita global de
aproximadamente 3%. Esse crescimento equipara-se pelo menos
ao que este relatório considera o mínimo para um desenvolvi­
mento razoável. Mas tal procedimento exigiria enormes mudanças
estruturais para permitir a entrada no mercado de tecnologias efi­
cientes, e é pouco provável que a maioria dos governos consiga
atingir plenamente este objetivo nOs próximos 40 anos.
O ponto imponante com relação a esses futuros com consumo
menOr e maior rendimento energético não é se serão totahnente
atingidos dentro dos cronogramas propostos. São necessárias mu­
(.
danças políticas e institucionais básicas para que o investimento
potencial seja reestruturado no sentido dessa meta.
A Comissão acredita que o mundo do século XXI não dispõe
de nenhuma outra opção realista. As idéias que serviram de base
a esses cenários de consumo mais baixo não são fantasiosas. O
rendimento energético mostrou-se eficaz em função dos custos.
Em muitos países industrializados, a energia primária necessária
para produzir uma unidade de pm caiu em um quarto ou até em
um terço nos último< 13 anos, devido em grande pane à imple­
de medidas visando a Um uso mais eficiente da ener­
gia.
19
Se bem administradas, essas medidas pennitirão que as na­
ções industrializadas estabilizem seu consumO de energia primária
já na virada do século e também que os países em desenvolvi­
mento atinjam níveis mais altos de crescimento com níveis de in­
vestimento, endividamento externo e danos ambientais muito !l'le­
nores. Nas primeiras décadas do século XXI, porém, essas medi­
das não terão feito diminuir a necessidade global de novos e
maiores suprimentos de energia.
7.2 COMBUSTÍVEIS FÓSSEIS: O DILEMA CONSTANTE
Muitos prognósticos acerca da recuperação de recursos e reservas
petrolíferos levam a crer que, nas primeiras décadas do próximo
século, a produção de petróleo se estabilizam e a partir de então
declinará gradualmente durante um período de oferias reduzidas e
preços mais altos. As reservas de gás deverão durar mais de 200
anos e as de carvão cerca de 3 mil anos, às taxas atoais de con­
sumo. Baseados nessas estimativas, muitos analistas estão con­
vencidos de que o mundo deveria implementar imediatamente
uma vigorosa política de conservação do petróleo.
Em tennos de risco de poluição, o gás é o combustível mais
limpo, com grande vantagem sobre o segundo - o petróleo - e
sobre o terreiro - o carvão -, que já polui bem mais. Mas todos
apresentam três problemas interligados de poluição almosfiSrica: o
aquecimento global ,lO a urbano-industrial do ar2
1
e a
acidificação do meio ambiente. 2 Alguns dos países industrializa­
dos mais ricos podem ter capacidade econômica para enfrentar es­
sas ameaças, o que não ocorre com a maioria dos países em de­
senvolvimento.
Esses problemas estão se tomando cada vez mais comuns, so­
bretudo nas regiões tropicais e subtropicais, mas a sociedade ain­
da nlio apreendeu plenamente suas repercussões econÔmicas, s0­
ciais e políticas. A exceção do C0
2
' os poluentes do ar podem ser
eliminados dos processos de queima de combustíveis fósseis a um
custo geralmente inferior ao dos danos causados pela poluição.
23
192 193
•'É diflcil imaginar algo 'fIJ4 produza mais impactos g'/obais so­
bre as sociedades humanas e sobre o ambiente natural do que o
qeito estufa. Os indfcios não são muitÓ claros, mas talvez jd es­
tejamos presenciando alguns exempios, senão efeitos de falO des­
se feniJmeno naÁfrica.
Os impactos potD1Ciais extremos do Q'fIJ4Ciníento devido ao
efeito estlifa podem Sl!r catastróficos. Temos motivos parajulgar
que jd t muito tarde para começar a tecer con.sideroçt'Jes polfti­
caso Despertar a con.sciência do público, conseguir apoio para
as polfticas nacionais e finalmente desenvolver e:;forços multila­
terais para desacelerar o ritmo de crescimento das emiss(Jes são
processos de implanlação demorada.
A 'fIJ4stão do efeito estufa t uma oportunidode e um desaJio; e
não t de surpreender 'fIJ4 Cón.stitua mais uma impartante rw:ão
para que se adotem estrattgios de desenvolvimento mstentdvel."
Irving Mintzer
Instituto de Recur.sos Mundiais
Audiência pública da CMMAD, 0.).0, 24-25 de junho de 1985.
Entretanto, o risco de aquecimento global toma problemática uma
dependência maciça de combustíveis fósseis no futuro.
7.2.1 Lidando com a mudança dimáCiea
A queima de combustíveis fósseis e, em menor grau, a perda de
cobertura vegetal, sobretudo de florestas, devido ao crescimento
uroano-industrial, aumenta o acdmulo de C02 "" atmosfera. A
concentração pré-industrial era de cerca de 280 partes de dióxido
de carbono por I milhão de partes de ar por volume. Essa con­
centração chegou a 340 em 1980 e prevê-se que dobre para 560
de meados para o 1un do próximo século.
24
Outros gases também
contribuem bastante para esse "efeito estufa", por meio do qual a
radiação solar fica presa ""s proximidades do solo. esquentando o
globn terrestre e alterando o clima.
Após analisarem os indicios mais recentes do efeito estufa, em
outubro de 1985, numa reunião realizada em VilIach, Áustria, e
promovida pela Organização Meteorológica Mundial (OMM),
pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNU­
MA) e pelo Conselho Intemacional de Uniões Cientfikas
(CIUC), cientistas de 29 países industrializados e em desenvolvi­
mento concluíram que a mudança climática deve ser considerada
uma "probabilidade plausível e grave". Concluíram também que:
HHoje, vêm sendo tomadas muitas decisões econômicas e sociais
importantes sobre ( ... ) as principais atividades relativas à gestão
dos recursos hídricos, como irrigação e energia hidrelétrica - me­
didas para atenuar as secas - uso de terras agricultáveis - planos
estruturais e projetos de engenharia costeira - e planejamento
energético todas baseadas na premissa de que os dados climáti­
cos do passado, sem niodificaç6es, constituem uma orientação se­
gura para o futuro. Essa já não é uma premissa válida."25
Os cientistas calêUlam, que. mantidas as tendências atuais, a
concentração de C02 e de outms gases causadores do efeito estU­
fa na allnOllfera equivaleria. possivelmente já na década de 2030,
ao dobro dos níveis de COz da era pré-industrial, o que poderia
ocasionar um aumento das temperaturas médias globais "maior do
que qualquer outm já verificado na história da humanidade". 26
Os,atuais estudos de modelos e "experiêncins" indicam para uma
duplicação de CO
2
, urna elevação das temperaturas médias da su­
perlfcíe terrestre em torno de 1,5"C e 4.5"C, sendo o aquecimento
mais pronunciado durante o inverno nas, latitudes mais altas do
que no equado{.
Uma séria preocupação é que uma elevação da temperatura
global de 1,5-4,5"C, associada a um aquecimento talvez duas ou
três vezes maior nos pólos, faça o nlvel do mar subir entre 25 a
140 cenlÚnetms.
27
Um aumento maior inundaria as cidades cos­
teiras e 8JI áreas agrícolas sitnadas em nível mais ba.ixq, e muitos
países poderiam sofrer graves desequilibrios em suas estrutlmi.ll
econômicas. sociais e políticas. Isso também desaceleraria a "mil.­
quina térmica atmosférica", que é regulada pelas diferenças de
temperatura entre os pólos e o equador, influenciando assim os
regimes pluviais.
28
Segundo os especialistas. as fronteiras agrí-,
colas e florestais se deslocarão para latitudes mais altas, sendo
praticamente desconhecidos os efeitos de oceanos mais quentes
sobre ecossistemas marinhos. zonas pesqueiras e cadeias alimen­
tares.
Não há como provar que isso virá a ocorrer até que realmente
ocorra. A questão importante é saber que grau de certeza oS g0­
vernos exigem para concordar em tomar providências. Se espera­
rem até que significativas alterações climáticas fiquem patentes,
pode ser tarde demais para que sejam tornadas medidas efetivas
contra a inércia que já estará instalada no sistema global. A de­
mora inf"rndável inerente à negociaçã<> de qualquer acordo inter­
nacional sobre questões complexas concernentes a todas as na­
çiJes levou alguns especialistas a concluir que já é demasiado Iar­
de.
29
Dadas as complexidades e as incertezas que a questão en­
volve, é indispensável que o processo comece agora. Necessita-se
de urna estralégla que combine:
194
19.5
• um melhor acompanhamento e avaliação dos fenômenos que
estão ocorrendo;
• mais pesquisas, para se conhecer melhor as origens, os meca­
nismos e os efeitos dos fenômenos;
• o estabelecimento de políticas que derivem de um acordo inter­
nacional, para a redução dos gases que causam poluição;
• a adoção das estrall!gias necessáriu para mil'limizar os dados
e lidar com as alterações climáticas e com a elevação do nível do
mar.
Nenhuma nação dispõe do poder político ou econômico para
combater sozinha a alteração climática. Por isso, a declaração de
Villach recomendou que a estratégia em quatro pontos aqui citada
fosse promovida pelos govenlOs e pela comunidade cientffica
através da OMM, do PNUMA e do cruc apoiada, se necessá­
rio, por uma convenção global.
30
Enquanto se preparam essas estrall!gías, podem e devem ser
adotadas medidas de polftíca mais imediatas. As mais urgentes
são as necessárias para o aumento e a ampliação do que já se con­
seguiu no tocante ao rendimento energético e para orientar a
combinação energétiea no sentido de componentes renováveis. A
produção de dióxido de carbono em todo o mundo poderia ser
bastante reduzida por meio de medidas que visassem ao rendi­
mento energético sem que houvesse qualquer redução no ritmo do
crescimento do pm.
31
Tais medidas serviriam também para dimi­
nuir outras' emissões de gases. reduzindo assim a acidificação e a
poluição urbano-industrial do ar. Os combustíveis gasosos produ­
zem menos dióxido de carbono por unidade de produção energé­
tica do que o petróleo ou o carvão; por isso, seria conveniente
estimular seu uso, sobretudo na cozinha e em outras atividades
domésticas.
Acredita-se que outros gases, que não o dióxido de cl!Ibono.
sejam responsáveis por cerca de um terço do atual aquecimento
global, e calcula-se que por volta de 2030 a eles se deverá metade
desse problema.3
2
Alguns deles. especialmente os clorofluorcar­
booos - usados como aerossóis, como produtos químicos de refri­
geração e na fubricação de plá.'lticos - são mais fáceis de contro­
lar que o C02' Embora não se relacionem diretamente com a pro­
dução de energía, esses gases terão influência decisiva sobre as
políticas que visam ao controle das emissões de dióxido de car­
bono.
Além de seus efeitos sobre o clima, os c1orofluorcarhonos são
em grande parte responsáveis pelos danos causados ao oz6nio es­
tratosférico da Terra.3
3
A ind11stria química deveria esforçar-se
ao máximo para encontrar substitutos para eSses gases, e os go­
vernos deveriam exigir o uso de tais substitutos tão logo fossem
encontrados (assim como certas nações já proibiram o uso desses
produtos químicos em forma de aerossol). Os governos deveriam
ratificar a convenção já existente sobre o ozônio e estabelecer
protocolos para a limitação das emissões de clorofluorcl!Ibonos,
além de sistematicamente controlar e relatar sua implementação.
Ainda é necessário trabalhar muito no campo da formulação de
políticas. E isso deve ser feito ao mesmo tempo que se intensifi­
cam as pesquisas para minorar as incerteza.. científicas que ainda
subsistem. As nações precisam urgentemente formular medidas
" conjuntas de controle para todos os produtos químicos que agri­
dem o meio ambiente e são liberados na atmosfera pela ação hu­
mana, em especial os que podem influenciar o equilíbrio da radia­
ção na terra. Os governos deveriam iniciar conversações visandO
a uma convenção sobre esse assunto.
Caso não seja possfvel implementar logo uma convenção sobre
polfticas de contenção de produtos químicos, os governos deve­
riam traçar estrall!gias e planos de contingência visando à adapta­
ção às alterações climáticas. Em ambos os casos, a OMM, o
PNUMA, o cruc e a Organização Mundial da S8llde, além de
outros importantes organismos nacionais e internacionais, deve­
riam ser encorajados a coordenar e acelerar seus programas que
visam à formulação de uma estratégia bem integrada de pesquisa,
acompanhamento e avaliação dos prováveis efeitos sobre o clima,
a saWfe e o meio ambiente causados por todos os produtos quími­
cos que agridem o meio ambiente e são liberados na atmosfera em
grandes quantidades.
7.2.2 Reduzindo 8 poluição urbano-industriaJ do ar
Nos últimos 30 anos, devido ao crescimento generalizado e acele­
rado ocorrido no mundo, houve grandes aumentos no consumo de
combustíveis para aquecimento e refrigeração. trallsporte motori­
zado. atividades industriais e geração de enérgia elétrica. No fim
dos anos 60. a preocupação com os efeitos da crescente poluição
do ar levou à adnção de medidas corretivas, entre as qUalS crité­
rios e padrões de qualidade do ar. e tecnologias de controle de
poluentes eficazes em função dos custos. Essas medidas reduzi­
ram bastante as emissões de alguns dos principais poluentes e
limparam o ar de muitas cidades. Apesar disso, a poluição do ar
já atingíu nfveis alarmanleS nas cidades de vários países indus­
trializados e recém-industrializados. e também nas da maioria dos
parses em desenvolvimento, sendo hoje algumas delas as áreas
urbanas mais poluídas do mundo.
Dentre as emissões de combustível fóssil que mais preocupam
em tennos de poluição urbana - liberadas por fontes móveis ou
196 197
fixas - estão o dióxido de enxofre, os óxidos de nitrogênio, o
monóxido de caroono, vários compostos orgânicos volá41is, cin­
zas e outras partículas suspensas no ar. Tudo isso pode prejudicar
a saúde humana e o meio ambiente, causando problemas respira­
tórios cada vez mais graves, alguns potencialmente fatais. Mas
esses poluentes podem ser mantidos dentro de certos limites de
modo a se proteger a saúde humana e o meio ambiente, e todos os
governos deveriam tomar medidas para chegar a nfveis aceitáveis
de qualidade do ar.
Os governos podem estabelecer e fazer cumprir metas e objeti­
vos de qualidade do ar. níveis aceitáveis de desca.tga de poluentes
na atmosfera e critérios e padn'les de emissão, como alguns já fa­
zem com sucesso. As organizações regionais devem apoiar essas
iniciativas. As agências multilaterais e bilaterais de assistência ao
desenvolvimento e os bancos de desenvolvimento deveriam in­
centivar os governos a exigir o uso das tecnologias de maior ren­
dimento energético sempre que indllstrias e serviços de energia
planejassem erguer novas instalações ou ampliar as já existentes.
7.2.3 Danos decorrentes da ampla dl5'Iem
i
nação
da poluição do ar
Nos anos 70, as medidas tomadas por muitos paises industrializa­
dos para controlar a poluição urbana e industrial do ar (por exem­
plo, chaminés mais altas) melhoraram bastante a qualidade do ar
nas cidades onde foram adotadas. No entanto, involuntariamente,
lançaram quantidades cada vez maiores de poluentes para aJém
das fronteiras nacionais, atingindo outros países da Europa e da
América do Norte, o que contribuiu para a acidificação de am­
bientes distantes e gerou novos problemas de poluição. Isso evi­
denciou-se em danos maiores a lagos, solos e comunidades vege­
tais e auimais.3
4
O. fato de algumas regiões não terem conseguido
controlar a poluição causada por automóveis agravou ainda mais
o problema.
Assim, a poluição atmosférica - antes con.iderada apenas wn
problema urbano-industrial localizado relativo à saúde das pes­
soas - agora é vista como uma questão muito mais complexa, que
engloba constroções, ecossistemas e talvez até mesmo a saúde
pública em vasta.. regiões. Enquanto se deslocam na atmosfera, as
emissões de óxidos de enxofre e nitrogéuio e de bidrocaroonos
voláteis convertem-se em ácidos sulfúrico e nítrico, em sais amo­
nfacos e em ozÔnio. Essas substâncias caem no solo, às vezes a
muitas ceotenas ou milhares de quilÔmetros de seus locais de ori­
gem, sob a forma de partículas ou então de chuva, neve, geada,
nevoeiro e orvalho. Há poucos estudos sobre os custoS sócio-eco­
"Uma floresta é um ecossiStema que existe sob determinadas
condições ambienmis, e se essas condições são alteradas. o sis­
tema acaba se allerando. É uma torefa muito diftcil para os
ecologiStas prever quo.is ser4D essas aJÚ!rações, pois os sistemas
são exJremlllnA!nÚ! complexos.
As causas diretas para a 1'IW11e de uma árvore podem estor
muito distantes da pressão inicial que mantinha o equilibrio de
todo o sistema. Uma vez esta causa pode ser o oztJnio: outra, o
rol. ou ainda. o envenenamento por alumlnio.
Posso exemplificar com uma analogia: num perfDdo de fome,
'.
lido são muitas as pessoas que morrem diretamente de inoniçdo;
elas morrem de disenteria ou de várias doenças infecciosas. E
numa sinmç4D assim, lido adianra muito dar remédios em vez de
comida. Ista quer dizer que. em tal sinmção, é necessário retne­
ter"se ds pressões primárias, sobre o ecossistema. "
AlfJohnels
Museu Sueco de História NalUFal
Audiênciap6blica da CMMAD, Oslo, 24-2.5 de junho de 1985.
ntimicos desses fenômenos, mas os existentes demonstram que
são bastante altos e vêm aumentando rapidamente.3
5
Essas subs­
tâncias danificam a vegetação, contribuem para a poluição da ter­
ra e da água e corroem edifícios, estruturas metálicas e veículos,
causando prejuízos de bilhões de d6lares anuais.
A ocotrência de danos foi comprovada primeiramenle na Es­
,
t
candinávia _ anos 60. Milhares de lagos da Europa, sobretudo
no sul da Escandinávia, 36 e várias centenas na América do Nor­
te
37
registraram um awnento constante dos níveis de acidez, a
~
ponto de suas populações natnrais de peixes diminuírem ou desa­
parecerem. Esses mesmos ácidos penetraram no solo e nos lençóis
d'água subterrãoeos, awnentando a corrosão dos encanamentos de
água potável na Escandinávia.3
8
l,
As provas circunstanciais que indicam ser necessário agir nas
fontes de precipitação ácida acwnulam-se tão rapidamente que
cientistas e governos diSPõem de pouco tempo para avaliá-Ias
cientificamente. Alguns dos maiores danos de que se tem notícia
verificaram-se na Europa Central, que vem recebendu atualmente
mais de wn grama de enxofre em cada metro quadrado de solo
por ano - pelo mene. cioco vezes mais que o teor natural.
39
,Em
1970 havia poucos indícios de danos a árvores na Europa. Em
1982, a República Federal da Alemanha informou que as folhas
de determinadas áreas florestais em todo o pais apresentavam da­
nos visíveis, chegando em 1983 a 34% e elevando-se em 1985
para 50%.40 A Sukia constatou danai entre pequenos e modera­
198
199
dos em 30% de suas florestas, e vários infonnes de outros países
do leste e do oeste europeus silo também bastan'" inquietantes.
Estima-se que 14% de toda a área florestal européia já estejam
afetados.
41
As provas não são cabais, mas muitos inronnes mostram que
os solos de certas regiões européias estão se tomando ácidos nas
camadas que abrigam as raízes das árvores,42 especialmente os
solos pobres em nutrientes, como os do sul da Suécía.
43
Não se
conhece quais os verdadeiros mecanismos causadores dos danos,
.,
mas todas as teorias apresentam um elemento de poluição do ar.
Os danos às ra.fzes44 e os danos às folhas parecem interagir, afe­
tando a capacidade das árvores tanto para eXllair água do solo
quanto para retê-Ia em sua folhagem, tomando-as especialmente
vulneráveis a períodos de seca e a outros tipos de pressão. A Eu­
ropa pode estar experimentando uma séria mudança no sentido de
moa acidificação irreversíVel, que para ser reparada exigiria cus­
tos acima do alcance da economia.
45
(Ver box 7.3.) Embora haja
muitas maneiras de reduzir as emissões de enxofre. nitrogênio e
I
hidrocarbono, é improvável que uma única estratégia de controle
de poluentes seja eficaz para lidar com a redução das florestas.
J
Será preciso adotar um conjunto de esllatégias e tecnologias inte­
gradas a ruo de melhorar a qualidade do ar, e cada um concebido
para cada região.
Estão começando a surgir indfcios de poluição do ar e acidifi­
cação no Japão e também em países recém"industrializados da
Ásia, África e América Latina. China e Reptlblica da Coréia pa­
recem especialmente vulneráveis, assim como Brasil, Colômbia,
Equador e Venezuela. Sabe-se tão pouco acerca dos prováveis
níveis de enxofre e nitrogênio nos meios ambientes dessas regiões
e acerca da capacidade de neutralização de ácidos dos solos de
lagos e florestas tropicals, que se deveria conceber sem demora
um amplo programa de pesquisa.
46
Nos lugares· onde a acidificação constitui ameaça real ou p0­
tencial, os governos deveriam fazer o levantamento das áreas
propensas a esse risco, avaliar os danos sofridos pelas florestas
anualmente e o empobrecimento do solo a cada cinco anos, se­
gondo protocolos rumados regionalmente, e divulgar os resulta­
dos obtidos. Deveriam também dar apoio ao monitoramento da
poluição além-fronteiras, que está sendo executado por agências
regionàis e ~ onde essas agências não existissem, criar uma ou en·
carregar da tarefa qualquer órgão regional adequado. Os govemos
de muitas regiões poderiam tirar grande proveito de acordos para
evitar a poluição do ar além-fronteiras e os enormes danos a suas
bases econômicas que a Europa e a América do Norte estão so­
freodo. Mesmo que seja difícil provar as causas exatas desses da-
Box 7.3 Qullllto custam os danos e o rontrole
da poluição do ar
• É muito difícil quantificar os custos do controle de danos,
sobretudo porque esses. custos dependem muito da eslrntégia
de controle adotada. No entanto, no leste dos EUA, çalcu­
lou-se que para fazer cair pela metade as emissões de dióxi­
do de enxofre das fontes existentes seria necessário gastar
USS5 bilhões por ano, awnentando em 2-3% as atuais tari·
fas de energia elétrica. Se incluirmos nesse cálculo os óxi­
dos de nitrogênio, os custos adicionais podem chegar a
US$6 bilhões ao ano. Só os danos causados por corrosão de
materiais têm um custo estimado de US$7 bilhões por ano
em 17 estados do leste dos EUA.
• As estimativas dos custos anuais de garantir wna redução
de 55 a 65% nas emissões remanescentes de enxofre nos
países da Comunidade Econômica Européia entre 1980 e
2000 variam de US$4,6 bilhões a US$6,7 bilhões (dólares
de 1982) por ano. O controle de caldeiras estacionárias para
reduzir os níveis de nitrOgênio em apenas 10% ao ano por
volta de 2000 custaria entre USSIOO mil e US$400 mil (dó­
lares de 1982). Estas cifras representam um awnento de cer­
ca de 6% no preço da energia elétrica ao consumidor. Se­
guodo estudos, os custos dos danos causados por perdas de
materiais e de peixes são de US$3 bilhões anuais, e o dos
danos causados a lavouras, florestas e à saúde pode ser su­
perior a US$IO bilhões ao ano. As tecnologias para reduzir
sensivelmente os óxidos de nitrogênio e os hidrocarbonos
dos gases de escapamento de automóveis já estão disponí­
veis e são rotineiramente usadas nos EUA e no Japão, mas
não na Europa.
• No Japão, estudos de laboratório indicam que a poluição
do ar e a chuva ácida podem causar uma redução de até
30% nas safras de trigo e arroz.
FonleS: US Congress, Office of Technology Assessment. Acid rai,,·
anti transported air paU_nts: implications for public pollcy. Wa­
shington, D.C., US Government Printlng Office, 1985; US Envi­
ronmental protection Ageocy. Acid deposition assess"",,,'. WlIllhin­
gton, D.C., 1985; Torrens, I.M. Acid.tain and ai! poDution: a pro­
b1em of industrialization 1985. Elaborado pata a CMMAD; MandeI­
baum, P. Acid rain • ecoMmic as$f!$smenl. New Yorlc, Plenum
Pross, 1985; Hashirnoto, M. National ai! qua1ity management policy
of Japan 1985. (Elaborado Jl"'8 a CMMAD.); OECD. TIu! s"te oi
tlu! .""irO"""'"'. Paris, 19I!S.
200
201
11 IJ
DOS, as estratégias para por certo. economicamente
viáveis. Essas estratégias poderiam ser consideradas uma medida
de segurança barata em comparação com os enormes danos p0­
tenciais que evitam.
7.3 ENERGIA NUCLEAR: PROBLEMAS
NÃO-RESOLVIDOS
7.3.1 O átomo pacifico
Nos anos que se seguiram à II Guerra Mundial, a tecnologia nU­
clear, que sob o domínio militar havia levado à pÍOOução das ar­
mas atÔmicas, foi reformulada pelos técnicos civis parn. servir a
fins "energéticos" pacíficos, Vários beneficios eram evidentes na
época,
Também era evidente que nenhuma fonte de energia seria
completamente desprovida de riscos. Havia o perigo de uma guer­
ra nuclear da disseminação das annas atômicas e do teITQrismo
nuclear. Mas uma intensa cooperação internacional e ã negocia­
ção de vários acordos levaram a crer que tais perigos poderiam
ser evitados. Por exemplo, no Tratado sobre a Não-proliferação
de Armas Nucleares, cujo texto final ficou pronto em 1969, os
governos signatários que dispunham de armas e tecnologia nU­
cleares cbmprometiam-se a promover e empreender o desarma­
mento nuclear e também ajudar os países signatários nâo-detento­
reg dessa tecnologia a desenvolverem a energia nuclear, mas ex"
clusivamente parn. fins pacíficos. Outros problemas - como riscos
de radiação, segurança dos reatores e eliminação dos rejeitos nU­
cleares - foram considerados muito importantes, porém passíveis
de controle, caso se empreendessem os esforços necessários.
E hoje, após quase quatro décadas de grande esforço tecnol6­
gico para promover o desenvolvimento nuclear, a energia- nuclear
tomou-se amplamente utilizada. Cerca de 30 governos usam rea­
tores nucleares para gerar aproximadamente 15% de toda a e,letri­
cidade consumida no mundo. Mas as expectativas de que esta se­
ria uma funte-chave para assegurar uma oferta ilimitada de ener­
gia de baixo custo não se concretizaram. Contudo, durante esse
período de experiência prática de construção e colocação em fun­
cionamento de reatores nucleares, a natureza dos custos, riscos e
beneficios tomou-se muito mais evidente e também objeto de

7.3.1 A compreensão cada vez maior das queálell Dudeares
A possibilidade de disseminação das armas nuclea:tes é uma das
ameaças mais sérias à paz mundial. Evitar sua proliferação é do
interesse de todas as naçóes. Portanto, todas deveriam contribuir
para a criação de um sistema viável de não-proliferação. Os Esta­
dos detentores de armas nucleares devem cumprir o compromisso
assumido de reduzir seu ntímero e por Ílm eliminá-las de seus ar­
senais, tomando:as sem importância em suas estratégias. E os
Estados que não possuem armas nucleares devem colaborar, pr0­
porcionando garantias seguras de que não estão procurando capa­
citação nessa tecnologia.
')
A maioria dos esquemas de não-proliferação determina uma
separação institucional entre usos militares e civis da energia nu­
Clear. Mas para os países com pleno acesso a todo o ciclo dQ
combustível nuclear. na verdade não há separação técnica. Nem
todos os Estados praticam a neccsaária' separação administrativa
bem definida entre acesso civíl e militar. Também é necessária a
cooperação entre os furnecedores e compradores de instalações e
materiais nucleares civis e a Agência Internacional de Energia
Atômica (AIEA), a fun de oferecer garantias confiáveis de que os
programas com fmaIidades civis não serão desvíados para fins
militares, sobretudo nos países que não abrem todos os seus pro­
gramas nucleares à inspeção da AlEA. Por isso, sempre permane­
ce o perigo da proliferação de armas nucleares.
7.3.2.1 Custos

Os custos de construção e a economia relativa das estações gera­
doras de eletricidade - movidas a energia nuclear, carvão, petró­
leo ou gás - são condicionados, ao longo da vida I1til de uma usi­
na, pelos seguintes fatores:
• o custo dos empréstimos para financiar a construção da osina;
• o impacto da inflação;
• a duração do período de planejamento, licenciamento e constru­
ção;
• o custo do combustível e da manutenção;

• os custos de medidas preventivas para assegurar um funciona­
mento seguro;
• os custos da eliminação de rejeitos (contenção da poluição da
)
terra, do ar e da água) e os custos da desativação no fim da vida
Iltil.
Todos esses fatores variam enormemente dependendo dos dife­
rentes contextos institucionais, legais e financeiros dos diferentes
países. Por isso, generalizaçóes e comparações no tocante a cus­
tos são inllteis e enganadoras. De qualquer fonna, em termoII de
usinas nucleares, os custos associados a vários desses f_ au­
mentaram mais rapidamente nos I1Itimos 5-10 anos, de modo que
203
"Os riscos que os usos pac(ficos da energia nuclear. inclusive a
energia elétrica nuclear, representam para a satiIk são muito
pequenos se comparados aos beneftcios proporcionmIos pelo uso
da radiação nuclear para diagnóstíco e tratamento médico.
A aplkxlçiio segura da tecnologia da radiação nuclear pode
trazer muitos beneffcios no tocante à limpeza do meio ambiente e
ao aumento da oferta de alimentos em toda o mundo. pois elimi­
na q desperdlcio.
A exceção de um fato recent4 e t-I conhecido. a cooperação
intemocional que assinalou o desenvolvimento da tecnologia da
energia nuclear t! wn e:u:elente exemplo de como lidar com pro­
blemas ambientais e éticos comuns causadas pelo desenvolvi­
mento de outras tecnologias."
IanWÜSOD
Vice-Presidente da Associação Nuclear CanadelUle
Audíência pílblicad. CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
'"
. ~
a clara vantagem anterior em relação aos custos da energia nu­
clear sobre a vida oltil da usina foi muito reduzida ou mesmo de­
sapareceu.
47
As nações deveriam, portanto, examinar muito
atentamente as C"'1lparações de custos a fim de tirarem o máximo
proveito da estratégia energética adotada.
7.3.2.2 Riscos para a satiIk e o meio ambient4
As usinas nucleares são "'gidas por cddigos de segurança muito
rlgidos, de modo que, sob condições operacionais oficialmente
aprovadas, o perigo de radiação para o pessoal que trabalha no
reator e para o póblico em geral seja mínimo. Mas um acidente
num reator nuclear pode em certos casos - extremamente ratOs ­
ser sério o bastante patacausar a liberação de substâncias radiati­
vas. Dependendo do nfvel de exposição, as pessoas flcam sujeitas
ao risco de contrair várias formas de câncer ou de apresentar alte­
rações de material genético que podem acarretar defeitos hereditá­
rios.
Desde 1928 a Comissão Internacionai de Proteção Radiológica
(CIPR) vem fazendo ...comendações acerca dos nfveis de dosa­
gem de radiação acima dos quais a exposição é inaceitável. Tais
níveis foram estabelecidos para funcionários que se expõem por
força do próprio trabalho e para o pllblíeo em geral. Os cddigos
denominados Padrões de Segurança Nuclear (PSN) da AlBA fo­
ram estabelecidos em 1975 a ftm de reduzir as diferenças de segu­
rança entre os Estados-membros. Nenhum governo está sujeito a
qualquer dos sistemas. Se ocorrer um acidente, cabe a cada g0­
verno a responsabilidade de decidir que nfvel de contaminação
radioativa tomará pastagens, 'ágoa potável, leite, carne, ovos. le­
gumes e peixes proibidos ao consumo animal ou humano.
Diferentes países - e até autoridades locais de um mesmo país
- adotam diferentes critérios. Alguns não adotam nenhum, apesar
da CIPR e dos PSN. Os Estados com padrões mais rigorosos che­
gam a destruir grandes quantidades de alimentos ou a deixar de
importar alimentos de um pafs vizinho cujos erilérios são mais li­
~
bernis. Isto provoca sérios contratempos para os agricuIto",s. que
podem não receber comp'cnsação alguma por suas perdas - além
de causar problemas comerciais e tensões políticas entre Estados.
Todo isso se verifICOU após o desastre de Tchernobil, quando fi­
cou claramente demonstrada a necessidade de estabelecer critérios
de contaminação mais unifurmes, pelo menos em nfvel "'gional, e
acordos de compensação.
(.
7.3.2.3 Riscos de acidentes nucleares
.I
A segurança nuclear voltou às manchetes dos jornais após os aci­
dentes de Tbree Mile rsland (Hatrisburg, EUA e de Tchemobil,
URSS). Em 1975, a Comissão de Regulamentação Nuclear dos
EUA flzera estimativas de probabilidade do risco de uma falha
num componente ocasionar uma liberação radiativa nos reatores a
água leve usados no Ocidente.
48
A categoria de liberação mais
grave por falha de retenção foi situada em tomo de I para I lIÚ­
lhão de anos de funcionamento de um reator. As análises poste­
riores aos acidentes de Hatrisburg e de Tchemobil - um tipo de
reator totalmente diferente - mostraram que, em ambos os casos,
a causa principal havia sido erro humano. Os acidentes ocorre-'
ram, "'spectivamente, após cerca de 2 mil e 4 mil anos-reator.
49
É praticamente impossível estimar probabilisticamente a freqüên­
cia da ocorrência de tais acidentes. Contudo. as análises disponí­
veis indicam que, embora o risco de um acidente por liberação
~ v a seja pequeno, não pode de furma algUma deixar de ser
levado em conta no atoaI estágio operacional dos reato."..
Os estudos acerca de precipitação radiativa realizados apÓs os
primeiros testes de armas atôlIÚcas na atmosfera tomam perfeita­
mente previsfveis os efeitos "'gionais de um acidente para a sallde
e o meio ambiente; e estes efeitos foram confmnados na prática.
após o acidente de Tchemobil. O que não se poderia prever com
segurança antes de Tchemobileram os efeitos locais de um aci­
dente desse tipo. Agora já se tem uma visão muito mais clara, de­
vido às experi!nci8& lá realizadas depois que um reator explodiu,
em 26 de abril de 1986. após as notmall oficiais de segurança te­
205
204
rem sido várias vezes infringidas, causando o pior acidente n u ~
c1ear jamais oconído. Devido a esse acidente, todo um distrito te­
ve de passar por uma verdadeim **operação de guerra" , sendo n e ~
cessário estabelecer uma ampla operação militar para conter os
danos.
7.3.2.4 Deposição de rejeitos radiarivos
Os programas civis de energia nuclear de todo o mundo já gera­
ram muitos milhares de toneladas de combustível já utilizado e de
rejeitos altamente radiativos. Muitos governos adotaram progra­
mas de larga escala para estabelecer meios de isolar esses rejeitas
da biosfera durante as várias centenas de milhares de anos em que
permanecerão perigosamente radiativos.
Mas o problema de deposição dos rejeito. nucleares continua
sem solução. A tecnologia relativa a esse problema atingiu urn
alto nível de sofisticação,50 porém ainda não foi plenamente
testada ou utilizada. e continua havendo problemas quanto ao que
fazer com os rejeitas. Há uma preocupação especial quanto a um
futuro despejo no OCeano ou à deposição de rejeitos contaminados
no tenítório de países pequenos ou pobres incapazes de impor
salvaguardas rigorosas. Deveria ficar estabelecido com clareza
que todos os países que geram rejeitos nucleares OS depositariam
em seus pIÚpriOS territórios ou segundo acordos rigidamente m<:>­
nitorados entre Estados.
7.3.3 A situação inlernaclonal na atualidade
Nos últimos. 25 anos, uma conscientização cada vez maior dos
problemas aqui. esboçados provocou uma vasta gama de reações
por parte de especialistas, do público e dos governos. Muitos es­
pecialistas acham que aínda há muito que se aprender Com os
problemas vividos até agora. Sustentam que se a opinião pública
lhes pemútir resolver os problemas de desativação e deposição de
rejeitos nucleares. e se o custo dos financiamentos permanecer ra­
zoavelmente abaixo do pico de 1980-82. na falta de novas fontes
energéticas alternativas viáveis. não há por que a energia nuclear
não déspontar como Uma fonte promissora nos anos 90. No ex­
tremo oposto, muitos especialistas opinam que há problemas de­
mais sem solução e que são muitos OS riscos para que a sociedade
pense num futuro nuclear. As reações do público também variam.
Em alguns pafses, há pouca reação popular; em outros, parece
haver um alto grau de ansiedade, que se manifesta nos resultados
anlinucleares das pesquisas de opinião ou em grandes campanhas
antinucleares.
Dessa forma, enquanto alguns países ainda não dispõem de
energia nuclear, os reatores já fornecem cerca de 15% de toda a
eletricidade gerada. A produção totaI de eletricidade do mundo,
por sua vez, equivale a cerca de 15% da oferta global de energia
primária. Aproximadamente um quarto dos países do mundo p0s­
suem reatores. Em 1986. havia 366 funcionando e outros 140 em
planejamento,51 sendo que 10 governos detinham cerca de 90%
de toda a capacidade instalada (mais de 5GW (e». Destes, oito
possuem uma capacidade rotal superior a 9GW (e)52, e geraram
em 1985 as seguintes percentagens de energia elétrica: França,
65; Suécia, 42; República Federal da Alemanha, 31; Japão, 23;
Reino Unido, 19; EUA, 16; Canadá, 13; URSS, 10. Segundo a
AlEA, em 1985 havia 55 reatores de pesquisa no mundo, 33 deles
em países em desenvolvimento. 53
Contudo, resta pouca dúvida de que as dificuldades já mencio­
nadas contribuíram de um modo ou de outro para o atraso dos
planos nucleares futums - e. em alguns países, para a interrupção
das atividades nucleares. Na Europa ocidental e na América do
Norte, que detêm hoje quase 75% da atual capacidade mundial, as
fontes nucleares respondem por cerca de um terço da energia que
as previsões feitas há 10 anos indicavam. À exceção da França,
do Japão, da URSS e de vários outros países do Leste europeu
que decidiram levar avante seus programas nucleares, em muitos
outros países .... perspectivas de encomenda, constroção e licen­
ciamento de novos reatores não parecem nada boas. Na verdade,
entre 1972 e 1986. as antigas projeções globais da capacidade es­
timada para o ano 2000 foram revistas e reduzidas por um fator
de quase sete. Mesmo assim. o =scimento anual de cerca de
15% que a energia nuclear apresentou nos últimos 20 anos ainda
é impressionante. 54
Depois de Tchernobil, houve significativas mudanças na polí­
tica nuclear de alguns governos. Vários deles - especialmente
China, República Federal da Alemanha, França, Japão, Polônia,
Reino Unido, EUA e URSS - mantiveram ou reaf'mnaram suas
políticas pIÚ-nucleares. Outros, que adotavam políticas "não-nu­
cleares" ou haviam interrompido seu processo nuclear (Austrália,
Áustria, Dinamarca, Luxemburgo, Nova Zelândia, Noruega, Sué­
cia - e a Irlanda, com uma posição extra-oficial antinuclear), re­
ceberam a adesão das Filipinas e da Grécia. Enquanto isso, Fin­
lândia, Holanda, Itália, Iugoslávia e Suíça estão reexam:inando a
segnrança nuclear e os argumentos antinucleares, ou adotaram
leis que vinculam todo e qualquer crescimento futuro do emprego
de energia nuclear e exportações e importações de tecnologia de
reatores a urna solução satisfatória para o problema da deposição
dos rejeitos radiativos. Vários países demonstraram-se preocupa"
206
207
"A avaliação das conseqüências práticas pode basear-se hoje If(l
experil!ncia prática. As COT/Seqüências de levaram os
especialistas sovU!ticos a questionarem mais UI11il vez se não se­
ria prematuro o desenvolvimento da energia nuclear em escaia
industrial. Acaso ele não seria fatal paro nossa civílização, para
o ecossistema de nosso PÚUleta? Num pÚUleta como o nosso, tão
rico em todo tipo de fontes energéticas, esta qu..srão pode ser
discutióo com bastante calma. Temos uma opção real nesse
campo, tanto no nlvel estatal e governamental, cvmo no ntvel
dos indívlduos e ãos profissionais.
Devemos nos empenhar a fundo pora aperfeiçoar a própria
tecnologia, paro criar e elaborar rigorosos padrões e normas de
qualidade e de segurança tecnológica. Devemos nos esforçar po­
ro criar centros antiacidentes e centros destinados a compensar
as perdas sofridas pelo meio ambiente. Seria bem mais natural
atentar paro a melhoria do nEvei de segurança industrial e a s0­
lução do problema das do. homem com a máquina do
que concentrar os esforços num único elemento da estrutura
energética do nutndo. Isso benefiCiaria todo a humanidade."
V.A. Legasov
Membro da Academia de Clb.eias da URSS
Audiéncia pdblica d. CMMAD, Moscou, 8 de dezembro de 1986
dos o bastante para realizar referendos a fim de conhecer a opi­
nião pública com relação à energia nuclear.
7.3.4 Conclusões e recomendações
As reaç6es desses países indicam que, enquanto continuam a re­
ver e a atoalizar todos os dados disponíveis, os governos tendem
a assumir três posições possíveis:
• pennanecer fora do círculo nuclear e desenvolver outras fontes
de energia;
• considerar sua atual capacidade de energia nuclear necessru;a
durante um determinado período de transição para fontes alterna­
tivas de energia mais seguras;
• adotar e desenvolver a energia nuclear+ na convicção de que os
problemas e riscos deles decorrentes podem e devem ser resolvi­
dos num nível de segurança aceitável nacional e internacional­
mente.
Os debates da Comissão também refletiram esses mesmos
pontos de vista, tendências e po..ições.
Mas seja qual for a política adotada, o importante é que se dê a
máxima prioridade à promoção de práticas que conduzam ao ren­
dimento energético em todos os setores ligados à energia e de
programas de pesquisa, desenvolvimento e demonstração para um
uso seguro e não-atentalÓrio ao meio ambiente de todas as fontes
supridoras de energia, especialmente as renováveis.
Devido à possibilidade de ereitos além-fronteiras, é essencial
que os governos cooperem no sentido de estabelecer códigos in­
ternacionalmente aceitos de funcionamento que incluam os com­
ponentes técnicos, econômicos, sociais (inCluindo aspectos liga­
dos à saúde e ao meio ambiente) e políticos da energia nuclear.
De modo especial, deve-se chegar a um consenso internacional no
tocante aos seguintes itens especfficos:
• total ratificação, por parte dos governos, das convenções acerca
de "Notificação Imediata de Acidentes Nucleares" (inclusive a
criação de Um sistema de supervisão e monitotação adequado) e
acerca da "Assistência em Caso de Acidentes Nucleares ou
Emergência Radiológica", da forma recentemente estabelecida
pela AIEA;
• treinamento· para enfrentar emergências para contenção de
acidentes e descontaminação e limpeza a longo prazo das áreas,
pessoas e ecossistemas afetados;
• a remoção para além-fronteiras de todos os materiais radiativos,
inclusive combustíveis, combustíveis já utilizados e outros rejei­
tos, atravt!s do mar, da terra ou do ar;
• um código de práticas relativas a obrigações e compensações;
• padrões de treinamento de operadores e licenciamento interna­
cional.
• código de práticas para o funcionamento de reatores, inclusive
padrões mínimos de segurança;
• a comunicação de Iíbetações rotineiras e acidentais em instala­
ções nucleares;
• padrões mínimos de proteção radiológica, eficazes e acordados
internacionalmente; ,
• critérios assentidos de seleção de locais para a instalação ge
usinas, e consultas e notificações anteriores à montagem de .todas
as grandes instalações civis ligadas à energia nuclear;
• padrões para depósitos de rejeitos;
• padrões para descontaminação e desativação de reatores nuclea­
res cuja vida ótil se esgotou;
• problemas decorrentes do desenvol vimento de embarcações
movidas à energia nuclear.
Por muitas razões - entre elas, em especial, o fato de os paí_
detentores de armas nucleaJ:es nAo çhegarem a IeOttlo quanln ao
desarmamento -, o Tratado de Nlo-proliferaçAo ",velou-Ie um
208
209
instrumento ioadequado para evitar a proliferação de armas nu­
cleares, que aioda constitui séria ameaça à paz nrundial. Reco­
mendamos, portanto, veementemente a iostauração de um regime
internacional eficaz que abarque todas as dimensões do problema.
Tanto os Estados que dispõem de annas nucleares quanto os que
não dispõem deveriam comprometer-se a acatar salvaguarda!;, em
confonnidade com oS estatutos da AIEA.
Além disso, "é necessllria uma ação normatiVa ioternacional,
que inclua a inspeção dos reatores em âmbito mundial. Essa ação
nada teria a ver com o papel da AIEA de promoção de energia
nuclear.
A geração de energia nuclear só se justifica com soluções con­
fiáveis para os problemas· até agora não resolvidos que acarreta.
Deve-se dar a máxima prioridade à pesquisa e ao desenvolvi­
mento de alternativas viáveis do ponto de vista ambiental e eco­
nômico, além de meios de aumentar a segurança da energia mi­
clear.
7.4 COMBUSTÍVEIS VEGETAIS: UM RECURSO
QUE SE ESGOTA
Setenta por cento dos habitantes dos países em desenvolvimento
consomem lenha e, dependendo da disponibilidade, queimam alge
em tomo de mo mínimo absoluto de cerca de 350kg a 2.9OOkg de
lenha seca por ano - em média, aproxirnsdamente 700kg por pes­
soa.55 As reservas rurais de combustível vegetsl pareçem estar
pouco a pouco chegando ao fim em muitos países em desenvol­
vimento, sobretudo na África subsaariana.
56
Ao mesmo tempo, O
rápido crescimento da agricultura. o ritmo da migração para as ci­
dades e o número crescente de pessoas que iogressam no setor
monetário da economia pressionam mais do que nunca a base de
biomassa57 e fazem aumentar a demanda de combustíveis comer­
ciais: desde lenha e carvão vegetal, até querosene, propano líqui­
do, gás e eletricidade. Para enfrentar essa situação, os gevernos
de muitos países em desenvolvimento s6 têm COIIlO opção organi­
zar imediatamente sua agricultura a fun de produzir grandes
quantidades de lenha e de outros combustíveis vegetais.
A coleta de lenha vem sendo mais rápida do que sua capacida­
de de renovação em muitos países em desenvolvimento que aioda
dependem predominantemente da biomassa - madeira, carvão ve­
getal, esterco e resíduos agrfcolas para cozinhar, aquecer suas
casas e até para iluminação. As estimativas da Organização para a
Alimentação e a Agricultura iodicam que, em 1980, cerca de 1,3
bilhão de pessoas vivia em áreas deficitllrias em lenha.
58
Se essa
coleta excessiva - ioduzida pelo tamanho da população - prosse­
guir no ritmo atual, por volta do ano 2000 talvez cerca de 2,4 bi­
lhões de pessoas estejam vivendo em áreas onde "há extrema es­
cassez de madeira, ou é preciso oblê-Ia em outros lugares". Esses
nlÚlleros revelam uma situação muito difícil para os seres huma­
nos. Não se dispõe de dados preciso. sobre a oferta de lenha por­
que grande parte do produto não é COlllI!l[CÍalizada e sim coletada
pelos consumidores, principalmente mulheres e crianças. Mas não
há d11vida de que milhões empenham-se arduamente em encontrar

combustíveis substitutos, e este nlÚllero vem aumentando.
A crise da lenha e o desflorestamento embora ligados - não
constitoem o mesmo problema. Os rombustfveis vegetais que se
destinatn ao conswno urbano e iodustrial geraimente provêm das
florestas, mas apenas uros pequena proporção do consumido pelos
pobres rurais provém de florestas. E mesmo neste caso, os habi­
tantes dos povoados rurais raramente derrubatn árvores; a maioria
apanha galhos mortos cafdos ou os cortam das §rvores.
59
Quando a lenha é escassa, as pessoas costumam economizá-Ia;
quaado já não há lenha disponível, os habitantes do campo se vê­
em forçados e queimar outros combustíveis, como esterco de va­
ca, talos e cascas de vegetais e ervas daninhas. Em geral isso não
causa nenhum prejuízo, desde que sejam usados refugos tais c0­
mo talos de algodão. Mas a queime de esterco e de certos resí­
duos agrícolas pode em alguns casos tirar do solo os nutrientes de
que este necessita. Por vezes, períodos agudos de escassez podem
provocar a redução do nl1mero de refeições quentes ou encurtar o
tempo de cozimento, o que aumenta a subnutrição.
Muitos habitantes urbanos depeadem de lenha, que em sua
maioria é COIIlprada. Recentemente, devido ao aumento dos pre­
ços dos cOIIlbustíveis vegetais, as famllias pobres viram-se obri­
gadas a gastar proporções cada vez maiores de sua renda com le­
nha. Em Adis Abeba e Maputo, as famíJ.ias destinam a isso de um
teIÇO à metade de suas rendas.
60
Muito se tem feito nos tUtimos
10 anos para fabricar fogões eficientes em tennos de combustível,
e' alguns dos novos modelos consomem 30-50% menos combustí.
vel. As áreas urbanas deveriam ter mais acesso a esses fugôes, as­
sim como a panelas de alumínio e panelas de pressão. que tam­
bém cOnsomem muito menos combustível.
O carvão vegetal é um cOIIlbustível mais adequado e mais lim­
po que a lenha, e sua fi.unaça causa menos irritação aos olhos e
distlbbios respirat6rios que a fumaça da lenha.
61
Porém, os méto­
dos usuais de obIê-Io desperdiçam enormes quantidades de madei­
ra. Os íadices de desOorestamento na periferia de cidades p0de­
riam ser bastante reduzidos se fossem empregadas técnicas de
obtenção de carvão mais eficientes, como fomos de tijolo ou de
metal.
210 211
"A lenha e o carvão vegetal são, e continuarão sendo, as princi­
pais fontes de energia para a g1'<Ullie maioria dos que vivem nas
zonas rurais dos Pa(ses em desenvolvimento. A derrubado. de dr­
vores nas terra.< semi-árldas e l1mJda.s dos pa(ses africanos re­
sulta em grande parte das necessiJades de energia cada """
maiores de populações cada vez maiores, tanto rumis como ur­
banas. As conseqü1!ncias mais visfveis são a desertificação, a
erosão do solo e a deterioração do meio ambiente de modo ge­
ral.
São muitas as razóes paro tais desacertos, mas uma das cau­
sas fundamentais é sem dúvida O fato de se dar atenção apenas
às árvpres, e não às pessoas. A silvicultura deve ampliar seus
lwrlzontes: para além das árvores - para €L< pessoas que devem
explorá-w.. ...
Rutger Engelhard
Centro para Energia e Desenvolvimenzo na África dJ:J Instituto Beijer
AudiêllCia póblica da CMMAD, Nairóbi., 23 de setembro de 1986
A exploração comercial da silvicultura raramente é eficaz no
tocante ao fomeciJnento de lenha às áreas rurals, mas contribui
para o atendimento das necessidades urbanas e industriais. A sil­
vicultura comercial, OU_ em maior escala, os cultivos destinados à
geração de energia, pndem ser empreendimentos viáveis. Os cin­
ruróes verdes em torno de grandes áreas urbanas também pndem
fornecer combustíveis vegetais para o consumo urbano; além dis­
so, zonas verdes urbanas desse tipn trazem outros benefícios ao
meio ambiente. Algumas siderúrgicas de países em desenvolvi­
mento têm como base o carvão vegetal produzido da madeira
oriunda dessas plantações destinadas à geração de energia. Infe­
a maioria ainda recorre à madeira das florestas nativas,
sem reflorestá-Ias. Freqüentemente, sobretudo nos estágios ini­
ciais, são necessários incentivos ÍISCais e tributários para dar im..
pulso a projetos de plantio de árvores. Mais 11U'de, tais incentivos
podem ser vinculados ao sucesso do empreendiJnento e eventual­
mente retirados. As áreas urbanas também oferecem boas pen­
pectivas para o aumento da ofena de fontes alternativas de ener­
gia, como eletricidade, gás propano líquido, querosene e carvão.
Mas estas estratégias são ineficazes para a maioria das pessoas
do campo, especialmente as pnbres, que coletam a lenha que
usam. Para elas a madeira é um "bem livre" até que a ú1túna ár­
vore dispnnfvel seja delT\lbada. As áreas rurais exigem estratégias
compll>tarnente diferentes. Dada a necessidade básica de combus­
tível doméstico, e o número reduzido de substitutos dispnníveis,
parece que a lÍDica saída a curto e a médio prazos para o proble­
ma é tratar a lenha como alimento, e planlllr árvores como uma
cultura de subsistência. A melhor forma de fazer isso é empregar
várias técnicas agroflorestais, algllmas das quais são usadas, de
fato, bá muitas gerações. (Ver o capírulo 5.)
Na maioria das áreas rurais, pnrém, o simples plantio de mais
árvores não resolve necessariamente o problema. Em aíguns dis­
tritos com árvores em abundância, não há lenha disponível para
os que dela necessitam. As árvores pndem pertencer a apenas
umas poucas pessoas. Ou a tradição talvez vede às mulheres o de­
sempenho de qualquer papel na economia financeira, impedindo­
as de comprar ou vender madeira.
62
As comunidades envolvidas
têm de criar soluções locais para esses problemas. Mas esses pro_
blema. localizados indicam que os governos e as organizações de
assistência e de desenvolvimento que desejam melhorar a situação
da lenha nos países em desenvolvimento terão de se empenhar
muito para compreender o papel que ela desempenha nas áreas ru­
rais e as relações sociais que detenninam sua produção e consu­
mo.
7.S ENERGIA RENOVÁVEL: O POTENCIAL
INEXPLORADO
Em .teoria, as fontes de energia renovável pnderiam fornecer de
10 a 13TW pnr ano - o equivalente ao atoal consumo global de
energia.
63
Hoje fornecem cerca de 2TW pnr ano, mais ou menos
21% da energia conswnida em todo o mundo, dos quais 15% são
biomassa e 6% energia hidrelétrica. Contudo, em SUa maioria, a
biomassa apresenta-se sob a forma de lenha e resíduos agrícolas e
animais. Como já se salientou, a lenha já não pode ser considera­
da um recurso Hrenováver' em muitas áreas, porque os índices de
consumo superam a produção sustentável.
. Embora a dependência mundial de todas estas fontes venha
aumentando em mais de 10% ao ano desde fins da década de 70,
ainda levará algum tempo até que elas constituam uma pnrção
substancial da ofena energética do mundo. Os sistemas de energia
renovável ainda se encontram num estágio de desenvolvimento
relativamente primitivo. Mas oferecem ao mundo fontes de ener­
gia primária potencialmente enonnes, sempre sustentáveis e, de
alguma forma, à disposição de todas as nações da Terra. Porém,
para que esse pntencial se torne realidade, será necessário um
compromisso fume e constante a fim de promover a pesquisa e o
desenvolvimento.
Quando se pensa em madeira Como fonte de energia renovável,
costuma-se pensar em árvores e arbustos que crescem natural­
212
213
mente e são aproveitados para o consumo doméstico local. Mas a
madeira está se tomando uma importante matéria-prima, plantada
especíaímente para processos avançados de conversão energética
tanto em países industrializados como em desenvolvimento - vi­
sando à produção de calor, eletricidade e à produção potencial de
outros combuslfveis, gasosos e líquidos.
A energia hidrelétrica - que, entre as fontes renováveis, vem
logo após a madeira - expande-se quase 4% ao ano. Embora
centenas de milhares de megawatts de energia hidrelétrica tenham
64
sido utilizados no mundo. o potencial remanescente é enonne.
Em países em desenvolvimento fronteiriços, a cooperação entre
nações no tocante ao desenvolvimento da energia hidrelétrica p0­
deria revolucionar o potencial da oferta. sobretudo na África.
O uso de energia solar é pequeno no mundo, mas já começa
a ter lugar importante nos padrões de consumo de energia de al­
guns países. O aquecimento doméstico e da água por meio da
energia solar é comum em muitas partes da Austrália, Grécia e
Oriente Médio. Vários países do Leste europeu e em desenvolvi­
mento possuem ativos programas de energia solar; nos EUA e no
Japão. as vendas de equipamentos de energia solar atingem cen­
tenas de milhões de dólares anuais. Com o avanço constante das
tecnologias de energia solar térmica e elétrica nesses países. é
provável que sua contribuição aumente substancíaímente. O custo
do equipamento fotovoltalco caiu de cerca de US$500-600 por
picowatt para US$5 e está se aproximando de US$I-2. nível em
que Jg'de competir com a produção de energia elétrica convencio­
nai. 5 Mas mesmo a US$5 por pícowatt, fornece energia elétrica
para lugares remotos a um custo muito mais baixo de que se fosse
preciso instalar novas linhas de ttansmissão.
A energia eólica vem sendo usada luI séculos - principalmente
para bombear água. Nos liltímos tempos seu uso vem apresentan­
do rápido crescimento em regiões corno a Califórnia e a Escandi­
návia. Nesses dois casos são usadas turbinas movidas a vento pa­
ra gerar energia elétrica para as redes locais. Os custos da energia
elétrica gerada pelo vento - a princípio beneficiada com grandes
incentivos fISCais - caíram drasticamente na Califórnia nos últi­
mos cinco anos e talvez. num prazo de 10 anos, esta fonte de
e n e ~ a se tome competitiva em relação a outras fontes suprido­
ras. Muitos países têm programas bem-sucedidos, porém pe­
quenos. de energia cólica, mas o potencial inexplorado ainda é
muito grande.
O programa de álcool combuslfvel do Brasil produziu cerca de
10 bilhões de litros de etanol a partir da cana-de-açúcar em 1984
e substituiu cerca de 60% da gasolina de que o país necessita­
ria.67 O custo foi estimado em cerca de US$SO-60 por barril de
gasolina substituída. Quando se retiram os subsídio. e se emprega
uma taxa cambial real, esse custo mostra-se competitivo em rela­
ção aos preços do petróleo de 1981. ConsideirandO-se as atuais
cotações mais baixas do petróleo, o programa toma-se antieca­
nÔllÚco; porém, ajuda o país a poupar moeda forte, além de pro­
porcinnar outros beneffcios, como o desenvolvimento rural. a ge­
ração de empregos. o aumento da auto-suficiência e uma vulnera­
bilidade menor às crises nos mercados mundiais de petróleo.
O uso de energia geotérmica. gerada por fontes termais subter­
râneas naturais; vem aumentando em mais de 15% ao ano tanto
nos palSes em desenvolvimento como nos industrializados. A ex­
periência adquirida nos últimos decênios poderia servir de base
para urna grande expansão da capacidade geolérmica.
68
Por outro
lado. as tecnologias de geração de calor de baixa intensidade
através de bombas de calor ou por meio de reservatórios solares e
gradientes termais oceânicos são promissoras. 'mas ainda se en­
contram. em sua maioria. no estágio de pesquisa e desenvolvi­
mento.
Todas essas fontes de energia não deixam de apresentar riscos
à saúde e ao meio ambiente. Embora causem problemas - desde
os mais triviais até Os mais sérios -. as reações do ptlblico a elas
não são neceSsariamente proporcionais ao dano causado. Por
exemplo. algumas das dificuldades mais comuns com relação à
energia solar são. um tanto surpreendentemente. os ferimentos
decorrentes de quedas de telhados durante a manutenção térmica
solar e o inconveniente do brilbo do sol nas superffcies de vidro.
Uma moderna tuIbina movida a vento. por sua vez. pode ser bas­
tante incômoda em termos sonoros para as pessoas que vivem em
suas proximidades. No entanto. esses problemas aparentemente
banais em geral provocam fortes reações populares.
Mas essas são questões secundárias se comparadas à destruição
do ecossistema em instalações' hidrelétricas ou à transferência de
fanúlías das áreas a serem inundadas. e ta.mbém aoS riscos para a
saúde decorrentes dos gases tóxicos emanados da vegetação e dos
solos submersos apodrecidos. ou decorrentes de doenças transmi­
tidas pela água. como a esquistossomose. As represas também
atuam como uma barreira à migração dos peixes e muitas vezes' ao
deslocamento dos animais terrestres. Mas talvez o problema mais
grave seja o risco de suas paredes se romperem e arrastarem ou
inundarem os assentamentos humanos situados a jusante - apro­
ximadamente urna vez por ano em algum ponto do mundo. O ris­
co é pequeno. mas nada tem de insignificante.
Um dos problemas cIÔnicos mais comuns é a irritação dos
olhos e dos pulmões causada pela fumaça proveniente da queima
da madeira nos países em desenvolvimento. Quando os rejeitos
21S 214
"Ao optarmos pelos recursos a serem utilizados. não devemos
encarar cegamente os recursos energéticos renováveis. não d e ~
vemos perder o senso das medidas, não devemos optar visando
apenos ao meio ambiel'l1e de pel si. Em vez disso, deverlDmos
desenvolver e utilizar rodos os recursos dispon(veís, inclusive as
fol'l1es de energia renovdveis, num e1!jbrço de longo prazo que
requer um empenho continuo e constante que não pode ficar su­
jeito a flutuações econômicas de curto prazo, a fun de que n6s.
na Indonésia. consigamos uma transição bem-sucedida e bem
organizado para uma estruturo mois diversifICado e equilibrado
de suprimento de energia e para um sistema de oferta de energio
ecologicamel'l1e viável, que ti o objetivo /inal de nossas politi­
cas.'·
Depoimento de wn participante
Audiência póbtica da CMMAD, Jacarta, 26 de l1IIJlÇO de 1985
agrlcolas são queimados, os resíduos de pesticidas inalados junto
com a poeira oU a fumaça da matéria agrlcola podem constituir
um problema para a saúde. Os biocombustíveis líquidos modernos
também apresentam seus próprios riscos. Além de ocuparem boas
terras agrfcolas, competindo com as cultutas alimentícias, geram
grandes quantidadeS de efluentes residuais orgllnicos"que quando
não são usados como fertilizantes podem contaminar seriamente a
água. Tais combustíveis, em especial o meImlol, podem dar ori­
gem a outros produtoS combustíveis causadores de irritações ou
tóxicos. Todos esses e muitos outros problemas. graves ou não,
aumentarão à medida que os sistemas de energia renovável se de­
senvolverem.
A maioria dos sistemas de energia renovável funciona melhor
em pequena ou média escala, sendo ideais para aplicações rurais e
suburbanas. Costumam ser também mão-de-obra intensivos, o que
constituiria mais um benefício onde há excedente de mão-de-obra.
São menos suscetíveis do que os combustíveis f6sseis a flutua­
ções violentas de preços e a custos em divisas. A maioria dos paí­
ses possui alguns recursos renováveis e seu uso pode ajudá-los na
busca da auto-suficiência.
A necessidade de uma rmne transição para uma combinação de
fontes energéticas mais ampla e mais sustentável já começa a ser
aceita. As fontes de energia renováveis poderiam contribuir bas­
tante para isso, sobretudo mediante tecnologias novas e mais
avançadas. mas seu desenvolvimento dependerá, a curto prazo, da
redução ou da eliminação de certas restrições econômicas e insti­
tucionais a seu uso, que, em muitos pafses. são colossais. Os ele­
vados subsídios disfarçados para combustíveis convencionais,
embutidos na legislação e nos programas energéticos da maioria
dos países. constituem um entrave às fontes renováveis no tocante
a pesquisa e desenvolvimento, licenças para deposição, isenções
fiscais e subsldi.:m diretos aos preços ao consumidor. Os países
deveriam proceder ao exame geral de todos os subsídios e outras
fonoas de incentivo a várias fonte. de energia e eliminar os que
não tivessem uma c1arajustíficativa.
Embora a situação esteja mudando rapidamente em algumas ju­
risdições, na maioria delas os serviços públicos de eletricidade
detêm um monopólio das fontes supridoras que lhes permite im­
por políticas de preços ~ u e discriminam outros fornecedores, ge­
ralmente os pequenos.
6
Em certos países, o relaxamento desse
controle, que levou esses serviços a aceilal;em a energia gerada
por iodllstrias, sistemas menores e particulares, criou oportunida­
des para o desenvolvimento das fontes renováveis. Além disso. o
fatu de esses serviços serem levados a adotar uma abordagem de
uso final no planejamento. financiamento
t
desenvolvimento e co­
mereialização da energia pode dar ensejo a uma ampla gama de
medidas poupadoras de energia e a fontes renováveis.
É preciso dar maior prioridade às fontes de energia renovável
nos programas energéticos nacionais. Os projetos de pesquisa,
desenvolvimento e demonstração deveriam dispor dos recursos fi­
nanceiros necessários para garantir sua rápida execução.' Se, de
um potencial de aproximadamente IOTW, fossem aproveitados
pelo menos 3 a 41W, isso faria uma diferença fundamental para a
oferta de energia primária futura. sobretudo nos países em desen­
volvimento, onde há condiçôes para que as fontes de energia re­
nováveis sejam bem-sucedidas. Os desafios tecnol6gicos apre­
sentados pelas fontes energéticas renováveis são mínimos em
comparação com o desafio de criar estnlturas sociais e institucio­
nais que insiram essas fontes nos sistemas supridores de energia.
A Comissão acredita que devcria ser feito todo o esforço pos­
sível para desenvolver o potencial de energia renovável, que de­
verá constituir a base da estrutura energética do mundo no século
XXI. E se se quiser que esse potencial seja plenamente aproveita­
do, é preciso um esforço conjunto muito maior. Porém. um grande
programa de desenvolvimentu de energia renovável envolve cus­
tos elevados e alto risco, principalmente indústrias de biomassa e
energia solar de grande porte. Os países em desenvolvimento só
dispõem de recursos para financiar uma pequena parcela desses
custos, embora venham a ser grandes consumidores e talvez até
exportadores. Será necessária, portanto. assistência financeira e
técnica em larga escala.
216 217
7.6 RENDIMENTO ENERGÉTICO: MANTENDO
o ÍMPETO
Com base na análise exposta, a Comissão acredita que o rendi­
mento energético deveria constituir o ponto central das polfticas
energéticas nacionais que visam ao desenvolvimento sustentável.
Desde o primeiro choque dos preços do petróleo, nos anos 70, já
houve ganhos impressionantes de rendimento energético. Nos dl­
timos 13 anos, muitos países industrializados apresentaram. em
seu crescimento, uma quede significativa no item energia devido
a awnentos de rendimento energético de em média 1,7% ao ano
entre 1973 e 1983.7
0
E esta solução - o rendimento energético­
custa menos. por poupar os suprimentos adicionais de energia
Wntárla necessários para pór em funcionamento o equipamento
tradicional.
A eficiência em função dos custos do "rendimento" como a
"fonte" de energia mais benéfica em tennos ambientais é mais do
que sabida. O consumo de energia por unidade de produção a
partir dos processos e tecnologias de maior rendimento situa_
entre um terço e menos da metade do dos equipamentos tradicio­
nais disponíveis. 71 .
Isto se aplica a equipamentos para cozinhar, iluminar, refrige­
rar, aquecer e refrescar ambientes - necessidades que se tornam
cada vez mais prementes na maioria dos países e pressionam bas­
tante os sistemas de suprimento existentes. Também se aplica aos
sistemas de cuitivo e irrigação agrícolas, a automóveis e a muitos
processos e equipamentos industriais.
Dada a grande disparidade de consumo de energia per capita
entre países em desenvolvimento e desenvolvidos em geral, é evi­
dente que a necessidade de poupar energia é potencialmente
muito maior nos países industrializados do que nos em desenvol­
vimento. Contudo, o rendimento energético é importante seja On­
de for. Uma fábrica de cimento, um automóvel ou uma bomba de
irrigação de um país pobre em nada diferem de seus equivalentes
do mundo rico. Em ambos, há aproximadamente as mesmas pos­
sibilidades de reduzir o consumo de energia ou a demanda máxi·
ma de energia desses dispositivos, sem perda de produção ou de
bem-estar. Mas os países pobres ganharão muito mais com essa
redução.
A mulber que cozinha numa panela de barro ao ar livre COn­
some talvez oito vezes mais energia do que uma vizinha mais rica
que cozinha num fogão a gás e em panelas de alumínio. O pobre
que ilumina sua casa com lamparinas a querosene obtém um quin­
ze avos da luz gerada por uma lâmpada elétrica de lOOW, mas
consome a mesma energia. Estes exemplos ilustram o trágico pa­
•Temos de m:u<Ú1T rIOSsa atitude em relação aos bens de COILftmlO
rIOS pa{ses desenvolvidos e temos defazer progressos tecnológi­
COS que nos permitam levar avante o desenvolvimento econIJmico
consumindo menos energia. Temos de nos questionar se podemos
solMcionar os problemas do sUbdesenvolvimento sem consumir a
enorme quantidade de energia consumido. par esses pafses.
A idt!ia de que OS países em desenvolvimemo consomem muito
pouca energia t! incorreta. Achamos que os pafses niais pabres
tbn um problema diferente: seu problema t! O uso ineficiente de
energia. Os pafses médios, como o Brasil, usam fontes de com­
bustfvel mais modeT7UlS e de maior rendimento. A grande espe­
rança para esses pa{ses t! que o fUturo não seja construido tendo
por base as tecnologias do passado. mas tecnologias adiantados.
Isso lhes permitird. um grande avanço em relação aos pa{ses já
desenvolvidos.
José Goldemberg
Preside_ da Companhia Energética de São Paulo
Audiência pública da CMMAD, Brasllia, 30 de outubro de 1985
nu!oxo da pobreza. Para o pobre, a escassez de dinheiro constitui
uma limitação maior do que a eSCassez de energia. Eles são for­
çados a usar combustíveis "livres" e equipamentos ineficientes
porque não possuem dinheiro nem economias para comprar com­
bustíveis com rendimento energético e dispositivos de uso final.
Portanto, em termos coletivos, pagam muito mais por unidade de
serviço de energia suprida.
Na maioria dos casos, os investimentos em tecnologias mais
aperfeiçoadas de uso final são econômicos, a longo prazo, porque
diminuem a necessidade de suprimento de energia. O custo de
aperfeiçoar os equipamentos de uso Ímal é com freqüência muito
menor que o custo de aumentar a capacidade de suprimento de
energia printária. No Brasil, por exemplo, ficou demonstrado que,
com um investimento total atualizado de US$4 bilhões em tecno­
logias de uso f'mal de maior rendimento (como geladeiras, ilumi­
nação de rua ou motores de maior rendimento), seria possível
adiar a instalação de outros 21GW de capacidade de suprirnynto
de energia elétrica, o que corresponde a uma poupança atualizada
de capital para novas fontes supridoras de USSI9 bilhões no pe­
ríodo 1986-2000.
72
Nos países industrializados há muitos exemplos de programas
bem-sucedidos que visam ao rendimento energ<!tico. Entre os ",­
rios métodos empregados com sucesso para tomar as pessoas mais
218
219
conscientes quanto a isso estão: campanhas de esclarecimento
através de meios de comunicação de massa, publicações técnicas
e escolas; demonstrações de práticas e tecnologias bem-sucedidas;
vistorias gratuitas de conSumo de .energia; especificação do con­
sumo energético dos aparelhos; fonnação profissional em técnicas
poupadoras de energia. Tudo isso deveria ser ampla e rapida­
mente difundido. Os países industrializados são responsáveis por
uma parcela tão grande do consumo global de energia que mesmo
pequenos ganhos de rendimento podem ter impacto substancial
sobre a conservação das reservas e a redução da poluição na bios­
fera. É de especial importância que os consumidores, sobretudo
os grandes empreendimentos comerciais e industriais, passem por
vistorias profissionais de seu consumo de energia. Este tipo de
"contabilidade" energética levará a uma rápida identificação das
áreas da estrutura de consumo onde podem ser feitas grandes
de energia.
As políticas de fixação de preços para a energia desempenham
papel essencial no tocante a estimular o rendimento energético.
Atualmente, às vezes adotam subsldios e quase nunca refletem os
custos reais de produzir ou importar energia, sobretudo quando as
taxas cambiais estão abaixo do valor real. Na verdade, raríssimas
vezes essas políticas refletem os custos externos dos danos causa­
dos à saúde, à propriedade e ao meio ambiente. Os países deve­
riam avaliar todos os subsídios, evidentes e disfarçados, para ve­
rificar até que ponto os custos reais podem ser repassados ao con­
sumidor. A fixação de preços reais para a energia - com salva­
guardas para os muito pobres - precisa ser ampliada em todos os
países. E muitos deles, tanto industrializados como em desenvol­
vimento, já estão adotando polfticas desse tipo.
Os países em desenvolvimento enfrentam dificuldades especifi­
cas para poupar energia. Problemas cambiais podem dificultar a
coinpra de aparelhos de uso final e de convel'llão de energia de
maior rendimento, mas caros. Muitas vezes é possível poupar
energia de modo eficaz em !Unjão dos custos aperfeiçoando os
sistemas já em funcionament0
7
Mas os governos e as agéncia.<
assistenciais talvez julguem menos interessante custear essas me­
didas do que investir em no'i'OS equipamentos de geração de ener­
gia em larga escala, considerados um símbolo mais tangível de
progresso.
Um dos instrumentos mais eficazes par-d promover o rendi­
mento energético e produzir economias previsíveis é a fabricação,
a importação ou a venda de equipamentos compatíveis com um
consumo mínimo obrigat6rio de energia ou com padrões de ren­
dimento energético. Talvez seja necessário recorrer à cooperação
internacional quando se comercializa esse tipo de equipamento
entre nações. Os países e as organizações regionais envolvidas
deveriam estipular, e ampliar sempre mais, padrões rigorosos de
rendimento energético para equipamentos e a rotulagem obrigató­
ria dos aparelhos com especificações do consumo de energia.
Muitas medidas que visam ao rendimento energético nada
custam para serem implementadas. Mas no caso de serem necessá­
rios investimentos, estes freqüentemente constituem um empeci­
lho para famaias pobres e pequenos consunúdores, mesmo quan­
do oS prazos de reembolso são curtos. Nestes casos, são conve­
nientes pequenos empréstimos especiais ou vendas a prazo.
Quando os custos do investimento não são exorbitantes, há mui­
tos mecanismos possíveis para reduzir ou prolongar o investi­
mento inicial, como empréstimos com condições favoráveis de
pagamento ou medidas uinvisíveis
u
, como empréstimos quitados
mediante a elevação das novas contas reduzidas de energia para
os níveis anteriores à conservação.
O transporte ocupa lugar de destaque no planejamento energé­
tico e de desenvolvimento de um país. É Um grande consumidor
de petróleo, cabendo-lhe de 50 a 60% de todo o p::tr6leo consu­
mido na maioria dos países em desenvolvimento.
74
É também,
COm freqüência, uma grande fonte de poluição localizada do ar e
de acidificação regional do meio ambiente nos países industriali­
zados e em desenvolvimento. Os mercados de veículos crescem
com muito mais rapidez nos países em desenvolvimento, contri­
buindo bastante para a poluição do ar urbano, que em muitas ci­
dades já supera o recomeodado pelas normas internacionais. A
menos que se adotem medidas rigorosas, a poluição do ar pode se
tomar um dos fatores que mais contribuirão para limitar o desen­
volvimento industrial de muitas cidades do Terceiro Mundo.
Não se podendo contar com preços mais altos para os combus­
tíveis, talvez sejam necessários padrões obrigat6rios que propi­
ciem Um aumento constante na economia de combustível. De uma
forma ou de outra, há um enorme potencial para grandes ganhos
futuros no tocante à economia de combustível. Se o ímpeto puder
ser mantido, o atual consumo médio de combustível de aproxima­
damente /O litros por 100 quilômetros da frota de veículos em
operação nos países industrializados poderia ser cortado pela
metade na virada do século.1
5
Uma questão-chave é como os países em desenvolvimento po_
dem aumentar rapidamente a economia de combustível em seus
veículos, quando estes têm em média o dobro da vida útil dos
veículos dos países industrializados, o que faz cair pela metade os
Indices de renovação e aperfeiçoamento. Dever-se-ia proceder a
uma revisão dos acordos de licenciamento e importação para ga_
rantir o acesso aos melhores projetos e processos de produçlo
220
221
disponíveis em tennos de econoDÚa de combustível. Outra estra­
tégia importante para potrpar combustível, sobretudo nas cidades
cada vez maiores dos países em desenvolvimento, é organizar
sistemas de transporte pllblico cuidadosamente planejados.
A indústria é responsável por 40-60% do consumo total de
energia dos países industrializados, e por l ~ do consumo
dos países em desenvolvimento-. (Ver capítulo 8.) No tocante 11
produção, já houve uma sensível melboria no rendimento energé­
tico de equipamentos, processos e produtos. Nos países em de­
senvolvimento, poder-se-ia chegar a poupar até 20-30% de ener­
gia com uma boa adnúnistração do desenvolvimento industrial.
Em todo o mundo, a agricultura consome pouca energia, sendo
responsável por cerca de 3,5% do consumo de energia comercial
no. países industrializados e por 4,5% nos países em desenvolvi­
mento como um todo.
76
Se fosse adotada uma estratégia para du­
plicar a produção de alimentos no Terceiro Mundo, com O empre­
go de mais fertilizantes, irrigação e mecanização, seriam adi­
cionados 140 milhões de toneladas de equivalentes de petróleo ao
seu consumo de energia para fins agrícolas. Isto representa ape­
nas cerca de 5% do atual consumo mundial de energia e quase
com certeza uma pequena parcela da energia que poderia ser pou­
pada em outros setores do mundo em desenvolvimento caso fos­
sem tomadas medidas adequadas no tocante ao rendimento.
77
As edificações oferecem um enoIlIl" campo para a economia de
energia, e talvez os modos mais conbecidos de aumentar o rendi­
mento energético se encontrom nos prédios residenciais e nos lo­
cais de trabafbo. Atualmente, as construções nos trópicos já estão
sendo projetadas de modo a evitar tanto quanto o possível o calor
decorrente da mdiação solar direta - as paredes voltadas para o
leste e o oeste são muito estroitas, mas as fachadas norte e sul são
extensas e ficam protegidas da luz solar que vem de cima por ja­
nelas recuadas ou amplos parapeitos.
Um bom método para aquecer prédios é empeegar a água
quente produzida durante a geração de energia e levada a baitros
inteiros através de encanamentos, que proporcionam ao mesmo
tempo aquecimento e água quente. Esse uso extromamente efi­
ciente dos combustíveis fósseis exige a coordenação do supri­
mento de energia com o planejamento físico local, o que poucos
países têm condições institucionais de fazer.
78
Nos lugares onde
tal coordenação foi bem-sucedida, houve em gezal a intervenção
das autoridades locais ou o controle das institoíçõe. regionais que
prestam serviços de energia, como na Escandinávia e na URSS.
Dado o desenvolvimento destes e de outros acordos institucionais
semelhantes, a geração simultãoea de energia térnúca e elétrica
pode revolucionar o rendimento energético dos prédios de todo o
mundo.
7.7 MEDIDAS PARA A CONSERVAÇÃO DE ENERGIA

É do consenso geral que os ganhos de rendimento obtidos por al­
guns países industrializados nos tlltimos J3 anos advieram em
grande parte da elevação dos preços da energia, desencadeada
pela elevação dos preços do petróleo. Antes da recente queda dos
preços do petróleo, o rendimento energético vinba crescendo a
uma taxa de 2% ao ano em alguns países, tendo aumentado gra­
dativamente a cada 300.19
Se os preços da energia forem mantidos abaixo do nível neces­
sário para estimular o planejamento e a implantação de residênc
eias, processos industriais e veículos de transporte de maior ren­
dimento energético, é duvidoso que essa melhoria constante possa
ser mantida e ampliada. O nível necessário variará bastante de
país para país e dentro de cada país, dependendo de inll:meros fa­
tores. Mas, seja qual for, deve ser mantido. Em mercados de
energia inconstantes, a questão é saber como.
As nações intervêm de várias maneiras no "preço de mercado"
da energia. Impostos internos (ou subsídios) sobre tarifas de
energia elétrica, petróleo, gás e outros combustíveis são muito
COmuns. Esses impostos variam bastante de país para país e até
mesmo dentro de cada país, onde estados, províncias e às vezes
até municípios têm o direito de adicionar seus próprios impostos.
Embora seja rara a cobrança de tarifas de energia para encorajar o
planejamento e a adoção de medidas que visam ao rendimento,
elas podem levar a esse resultado se fizerem os preços da energia
se elevarem acima de um certo níVel wn nível que varia muito
de uma jurisdição para outra.
Algumas nações também mantêm os preços da energia acima
das cotações de mercado, impondo gravames à energia elétrica,
aos combustíveis e aos derivados importados. Outras negociaram
acordos bilaterais de preços com produtores de petróleo e de gás
para manter os preços estáveis por deternrlnado período de tempo.
Na maioria dos países, o preço do petróleo acaba detenninando
o preço dos combustíveis alternativos. Grandes flutuações nos
preços de petr6leo, como ois verificadas recentemente, põem em
risco os programa.0 de estímulo 11 conservação. Em todo o mundo,
muitas iniciativas positivas no campo da energia, que faziam sen­
tido quando o petróleo estava cotado acima de US$25 o barril, di­
ficilmente se justificam com preços mais baixos. Os investimentos
em fontes renováveis, processos industriais, ve'=:u1os de trans­
222 223
porte e serviços de energia de maior rendimento podem ser redu­
zidos. A maioria é necessária para facilitar a transição para um
futoro mais seguro c mais sustentável, em termos CI1ergétícos, no
próximo século. Mas para que esse objetivo seja aicançado é pre­
ciso um esforço duradouro e irúnterrupto.
Dada a importáncia dos preços do petróleo para as polfticas ener­
géticas internacionais, a Comissão reco_nda que sejam explam­
dos novos mecanismos para encorajar o diálogo entre consumido­
res e produtores.
Para que o recente únpeto que levou a ganhos anuais em ren­
dimento energético se mantenba e amplie, os governos precisam
tomá-lo um objetivo explícito de suas políticas de preços de
energia para o consumidor. O. preços adequados para estimular a
adoção de medidas poupadoras de energia podem ser estabeleci­
dos por quaísquer dos meios citados ou por outros. Embora a
Comissão não expresse preferências, a "determinação do preço de
conservação" exige que os governos adotem uma perspectiva de
longo prazo para pesar os custos e os beneficios das várias medi­
das. Elas devem vigorar por períodos mais Itmgos, desestimulan­
do flutuações violentas nos preços da energia primãria, o que p0­
de prejudicar os avanços no campo da conservação da energia.
7.8 CONCLUSÃO
É evidente que a melhor maneira de se chegar a um futuro sus­
tentável é o consumo de menos energia. Mas, dada a utilização
produtiva e voltada para o rendimento da energia primária, isso
não precisa necessariamente sigoificar uma escassez de serviços
energéticos essenciais. Nos pÍ-óximos 50 anos, as nações terão a
oportunidade de gerar os mesmos nfveis de energia utilizando
apenas a metade das fORtes de energia primária de hoje. Isso re­
quer profundas mudanças estruturaís nos contextos s6ciCHOCOnÔ­
micos e institocionais e é um sério desafio 11 sociedade global.
E, o que é mais importante, isso criará condições para que se
ganhe o tempo necessário para o estabelecimento de grandes pro­
gramas sobre formas sustentáveis de energia renovável, e se dê
início 11 transição para uma era energética mais segura e sustentá­
vel. O desenvolvimento das fontes renováveis dependerá em parte
de um tratamento racional dos preços da energia a fim de assegu­
rar uma base estável para esse progresso. Tanto a prática rotineira
de um uso eficiente de energia quanto o desenvolvimento de fon­
tes energéticas renováveis contribuirão para aliviar a pressão s0­
bre os combustíveis tradicionais, muito necessários para que os
224
..

pafses em desenvolvimento concretizem seu potencial de cresci­
mento em todo o mundo.
A energia não é um produto único, mas uma combinação de
produtos e serviços da qnal dependem o bem-estar dos indiví­
duos, o desenvolvimento sustentável das nações e as possibilida­
des de manutenção da vida do ecossistema global. No passado,
permitiu-se que essa combinação fosse usada ao acaso, em pro­
porções ditadas por pressões de curto prazo e pelos objetivos
imediatistas rle governos, institulções e empresas. A energia é im­
portante demais para que oontinue a ser tratada desta fonna alea­
tória. Uma diretriz energética segura, sensata do ponto de vista
ambiental e economicamente viável que garanta o progresso hu­
mano até um futuro diStanle é evidentemente indispensável. E
também possfvel. Mas para que isso seja conseguido serão neces­
sárias novas dimensões de empenho político e cooperação institu­
cional.
Notas
I Banco Mundial. Relatório .sobre o desenvolvime1llO mundial 1986. Rio de
laneiro, Fundação Getulio Vargas, 1986.
2 British Petroleum Company. BP stnti.stical revíew of world energy. Lon­
don,1986.
3 Variante média em: Deparlmenl of International Economlc anel Social
Affai1l!. World populalihn prospedlf a.s assessed in 1980. (Population Stu­
die. n. 78, annex); Long range populatWII projeclions of t/oe world anti
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5 Colombo, U. 8. Bernardini, O. A low energy growth """nario anel the
perspective. for WeSlem Europe. Relatório apresentado ao Painel sobre
Bmo Crescimento Energético, da Comissão da Comurúdade Européia,
1979.
6 Goldemberg, I. el a1ü. An ead-use... clt.
7 Lovins, A.B. el a1ü. Ener!lY strategy for low c1imatic risIc. Relatório
apresentado à Agencia Alemã para o Meio Ambiente 198L
8 Edmonds, I.A. et a1ü. Ao analysis of possible future atmospheric reten­
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16 Edmonds, JA. et alli op. clt.
17 Torrens, I.M. Acld raind and air pollutioo, a prob1em of industria1iza­
tion. 1985. (E1aborado pam a CMMAD.)
18 Goldemberg, J, ot alii. Ao end-use •. clt.
19 Britisb Petroleum Company. op. clt.
20 WMO, Report of International Confereoce ... cit.: Mintzer, I. Societal
responses to global warntieg. Apresentado nas audiências p6b1icas da
CMMAD. Oslo, 1985; Hare, F.K. Tbe relevance of climate. Apresentado
nas audiências póblicas da CMMAD. Ottawa, 1986.
21 Lobani, B.N., op. cil.: Weidner, H., op. clt.; Hasbimoto, M. op. clt.;
Cetesb. op, cito
22 Torrellll, I.M., op. cit.; Lixun, F. & Zbao, D. Acid rain in Cbine. 1985.
(Elaborado pam a CMMAD.); Rodbe, H. Acidlfication in tropical coun­
tríe•. 1985. (Elaborado para a CMMAD.); Goodman, G.T. AcidiflCation of
lhe environment, a po1icy ideas paper.1986. (Elaborado para a CMMAD,)
23 Torrens, I.M. op. cit.
24 Bo1in, B. et alii, op. clt.
25 WMO. Repor< ofllIler1Iational Conferenoe .. cit.
26 Ibld.
27 lbid.
28 Goldemberg, J, et alii. An end-use_. clt.
29 Mintzer, I. op. clt.
30 WMO. Repor< oi Internal/onal Conference ... dI.
226
· "
;i
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2
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32 Bo1in, B.ot aHi. op. cito
33 Brasseur, G. Tbe endnngered ozone layer: new tbeories ou oU>IIe de.
pletion. Envirc/lml!III, 29(1), 1987.
34 National Research Council. op. cit.: Muniz, L.P. & Leiverstad, H. op.
clt.
35 OECD. The._ oftlre e"../ronmelll. Paris, 1985.
36 Muniz, L.P. & Leiverstad, H. op. cll;
37 National Research Council. op. cito
38 National Swedish Environmencal Protection Board. A/r poIlution anti
acldificatio ... Solos, Swedeo, 1986.
39 Lebmbaus, J. et alii. Calculated and observed data for 1980 compared
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40 Neuartige Waldacbaden in der Bundell\repubük DeutacbJand. Das Bun­
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42 Paces, T. Wealheriog rates of eneiss and depletion of exciumgeable ca­
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1985.
43 HaIlbãcken, L, & Tamm, C.O. op. cit.
44 Tyler, G. et alii. Metaller I Skogamarlc - Deposition och omsãttning,
SNV PM 1692. SoJna. Sweden, 1983.
45 Neuartige Waldschiiden ... clt.; Paces, T, Weatbering rates ... cit.
46 Rodbe, H. op. clt.
47 Eden, R. el aIii. Energy econol>ÚCs. New Yorlr, Cambridge University
Press, 1981; Nuclear Energy Ageocy. Projected costs <ifgenerating'electri­
ciJ;y from nuclear and coal-fired power stations for commissioning in 1995.
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227
50 Parlmr, F.L. et aIií. The disposol cfhigh l4wIl radk>active _sre - 1984,
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54 F1avin, C. Reassessing nuclear power. In: Brown, L.R. CI aIií. op. clt.;
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56 FAO. F U I ! ~ suppli..... cit.; FAO/Unep. TropIcal/oreSl resources.
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57 The Beijer Institute. EMrgy, .nvirt>nnwml anti deve/opmelll in Afric(l.
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tions. Proceedings. Ljudljana, Yugoslavia, 1986.
58 FAO. Fuelwood supp/ies... cit.
59 The Beijer Institute. op. ci!.; Bandyopadhyay, 1. Rchabllitation of
upland watersheds. 1986. (EIaborndo para a CMMAO.)
60 The Beijer Instilute. op. cil.
61 Overend, R. Bioenergy """vemon process: a briof Slate of 111. ar! and
diacussion of environmental implications. Intemational Union of Forestry
Reaearch Organization. Proceeding•. Ljubljana, Yugoslavia, 1986.
62 Fernandes, W. & KuIkami, S.,ed. Towardsa _fareslpollcy;people's
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1983; Brndley, P.N. el aIií. Developmenl research and energy planning in
Kenya. AmbIo, 14(4), 1985; Hosler, R. Household cnergy consumption in
rural Kenya. Ambio, 14(4), 1985; EngeJhard, R. cl aIií. The paradox of
abundaot on"farm woody biomass, yel crilical fuelwood shortage: a case
. slUdy of I<akamCga Dístricl (Kcnya). International Union of Foresl Re­
'""arch Organizatíon. Proceedings. Ljubljana, Yugoslavia, 1986.
63 Deudney, O. & Plavio, C. Re1ll!Wable energy: lhe power to choose.
London, W.W. Norton, 1983.
64 World Resources InstitutelIntemational Instilu!e for Environmentand
DevelopmenL Wor/d resources 1987. New York, Basic Books (no prelo).
65 Ibid.
66lbid.
67 QoIdemberg, I. el aIii. An end-lJlle ... cit.; Goldemberg, 1. el alii. Etha·
nol fuel: a use of biomass energy in Brazil. Amhio, 14:293-S, 1985; Gol·
demberg, I. el alü. Basle needs and mucb more, wilh ODe kilcwatl per ca·
pita. Ambio, 14:190-201. 1985.
68 WRI/IIEO. op. cil.
(9 Lucas, N.I D. The influence of existins inslítunons on lhe European
lransition from 00. The European, p. 173-89, 1981.
70 OECO, op. cil.
71 Hiral, E. el aIií. Rocenl changes in US energy consumption, what hap­
penOO ond why? In: Rose, 0.1., 00. Learlling (lOOUI e""rgy. New York,
Plenum Press, 1986. ,
n GeDer. H.S. The potential for eIectricity conservation in Brazil. São
Paulo, Brazil. Companhia Energ;!tica de São Paulo, 1985.

73 World Bani<. Energy trtm.sition in deve/op/ng CDunI7ies. op. clt.
74 Leach, G. el a1ii. E1U!7gy anti growth; a comparlson of thirteen indos­
trialized and developing countries. London, Butterworth, 1986.
7S MIT lntemational Automohile Program. The foture D/lhe automobile.
London, George ADen &: Unwin, 1984.
76 FAO. AgriclÚlJUe lOWm'ds 2000. R<lfDe,19SI.
771bid.
78 Lucas, N.J .0. op. cit.
79 QECO. op. cito
228
229
8. INDÚSTRIA: COM MENOS, PRODUZIR MAIS
A inddstria é fundamental nas economias das sociedade. moder­
nas e fator indispensável ao crescimento. J3 essencial nos países
em desenvolvimento. a fim de ampliar a base de seu desenvolvi­
mento e alender às suas crescentes necessidades. B embora se di­
ga que os países i.ndustrializados já es!lio entrando numa era
pós-industrial, baseada na informação, essa transíção precisa
contar com um fluxo continuo de riqueza proveniente da indds­
·
tria.
1
Muitas das necessidades humanllJl essenciais só podem ser
atendidas por meio de bens e serviços que a inddstria fornece. A
produção de alimentos requer quantidades cada vez maiores de
agroqufmicos e maquinaria. Além disso, os produtos industriali­
zados constituem a base material dos padrões de vida contempo­
râneos. Por isso todas as nações precisam de bases industriais efi­
cientes para atender às novas necessidades, e conseguir tais bases
é uma de suas justas aspirações.
A indl1stria extrai matérias-primas da base de recursos naturais
e introduz no meio ambiente humano não .ó produtos como taJn..
b6m poluição..Bla pode melhorar o meio ambiente ou deteriorá­
lo, e sempre faz uma coisa e outra. (Ver o capítulo 2, onde se dis­
cute o conc:eitn de desenvolvi:mentn sustentável no cOntexto da
inddstria e do uso de recursos.)
8.10 CRESCIMENTO INDUSTRIAL E SEU IMPACTO
13m 1950, os produtos manufaturados em todo o mundo represen­
tavam um sétimo do que representam hoje, e a produção de mine­
rais era apenas um terço da atual. O períodl:l de maior crescimento
da produção industrial se deu entre 1950 e 1973, quando se re­
gistrou um crescimento anual de 7% na atividade manufaturem e
um crescimento anual de 5% nas atividades de mineração. A par­
tir dai IIJI taxas de crescimento diminuíram, ficando em ceroa de
3% ao ano entre 1973 e 1985 na atividade manufaturem e prati­
camente em zero na mineração.2
Aquele rápido crescimento inicial da produção refletiu-se na
i.mportlincia cada vez maior que a atividade manufatareira passou
a ter nas economíns de quase todos os países. Por volta de 1982,
Tabela 8.1
Participação do valor adicionádo manufatureiro no PIB, por
grupo de economias e grupo de renda
(%)
Grupo de pafses 1960 1970 1980 1982
Países em desenvolvimento 14,2 16,6 19,0 19,0
De baixa renda ll,2 13,8 15,0 15,0
De renda média baixa 11,0 13,5 16,4 16,6
De renda intennediária 10,6 14,4 17,1 17,6
De renda média alta 19,4 21,6 24,1 23,3
De alta renda 17,2 16,2 17,2 17,9

Economiaa de metCaIIo 25,6 28,3 27,9 27,1
desenvolvidas
Economiaa de planejamento 32,0 42,4 50,5 50,8
centralizado I
Fónse: Unido. Wórld indu,Jtry; astatistical review 1985. Vienna, 1986.
lOs nÓlDeros se referem à participação do valor adicionado manuf.tareiro
(..timado) no novo produto materiaL Os dados sIío em preços constantes
(de 1975).
a participação relativa do valor adicionado ao produto interno
bruto (PIB) pela atividade manufatareira (o valor adicionado ma­
nufatureiro - VAM) variou entre 19% nos paJses em desenvolvi­
mento em gemi, 2T% nas economias industriais de mercado e
51% do produto material liquido naS economíns de planejamento
centralizado. (Ver a tabela 8.1.) Se forem aí incluidas as indl1s­
trillJl extrativas, a participação é ainda maior.
8.1.1 A estrutura mutável da iDdústria mundial
Nos llltirnns anos, a tendência dos anos 50 e 60 se inverteu: a im­
portlincia da atividade manufatureira diminuiu em relação a outros
setores da econotuia. 13m muitos países, tal declÚlio se vem acen­
tuando desde 1973. Ele é mais evidente no caso das economias
industriais de mercado, mas a participação do VAM no PID tam­
bém diminuiu em quase metade dos 95 países em desenvolvi­
mento estudados pela Ot'ganizaçio das Nações Unidas para o De­
senvolvimento Industrial (Onudi).3 O falo pode refletir a intera­
ção cada vez maior da indústria e de todos os campos da ciência e
da tecnologia ea crescente integração da indllstrln e dos serviços,
231
230
bem como a capacidade da indústria de produzir mais a partir de
menos.
A importância relativa da indústria como geradora de empre­
gos vem declinando há algum tempo nos países desenvolvidos.
Mas a lransferência dos empregos para o setor de serviços se
acelerou muito nos últimos 15 anos, com a adoção de novos pro­
cessos e tecnologias. Os economistas ainda não sabem ao certo se
o advento de uma economia baseada na infonnação acarrerará
uma diminuição dos empregos na indústria, ou um aumento das
oporlunidades de emprego em geral.4
A maioria dos países em desenvolvimento, ao se tornar inde­
pendente, praticamente não possuía uma indústria moderna. Por
isso, nos anos 60 e 70, a produção, o emprego e o comércio liga­
dos à indústria cresceram mais nesses países do que nas econo­
mias de mercado desenvolvidas. Por volta de 1984, os países em
desenvolvimento eram responsáveis por 11,6% do VAM mundial
(percenlUaI ainda bem inferior à "meta de Lima", de 25%, esti­
pulada pela Unido em 1975). As economias de planejamento
cen!ralizado do Leste europeu aumentaram sua no
VAM mundial de 15,2% em 1963 para 24,9% em 1984.
O comércio internacional de produtos manufalUrados, que
cresceu mais depressa que a produção manufarureira mundial, é
um dos flllores responsáveis pela alteração geográfica da indus­
trialização. Muilas naç!les em desenvolvimento, sobrelUdo os paí­
ses recém-industrializados (PRI), tiveram participação nesse cres­
cimento e fizeram progressos espe!aculares no !ocante à indus­
trialização. Considerando o Terceiro Mundo em geral, as exporta­
ç!les de produtos manufalUrados apresentaram um crescimento
fume em relação exportações de produtos primários, passando
de 13,3% do total de suas expor!aç!les excluindo o petróleo em
1960, para 54,7% em 1982. (Ver tabela 8.2.)
De modo geral, a produção industrial dos países em desenvol­
vimento eslá se diversificando e passando a áreas mais capilal­
intensivas, como as de produtos de melai, químicos, lnaquinaria e
equipamentos. E as indústrias pesadas, lradicionalmente as que
mais poluem, têm crescido em relação indústrias leves. Ao
mesmo tempo, tem havido um declfnio subslancial na participação
das lnddstrias ligadas a produtos alimen!fcios, e em menor grau
nas de têxteis e veslUário.
8.1.2 A reação à deterioração do melo ambiente
A indústria e seus produtos exercem um impacto sobre a base de
recursos nalUrais da civilização ao longo de lodo o ciclo de ex­
ploração e extração de malérias-primas, sua transformação em
Tabela 8.2
Composição do comércio de mercadorias dos países
em desenvolvimento
Exportaç!les . Impor!açÕes
Item 1960 1970 1980 1982 1960 1970 1980 1982
(Em US$ bilhões)
Produtos primários 25
"5
452 369 11 17 166 166
Excluindo o petróleo 17 27 107 93 .8 12 79 73
Petróleo 8 18 345 277 3 5 87 92
Bens manufaturados . 3 9 101 112 17 39 288 296
Total 27 55 553 481 28 56 454 462
Total sem o petróleo 20 36 208 204 25 51 367 370
(%)
Podulos primários
(melusive o petróleo) 90,4 82,6 81,8 76,8 38,8 30,1 36,6 35,9
Excluindo o petróleo 62,3 49,2 19,4 19,2 28,4 21,7 17,5 15,9
Petróleo 28,1 33,4 62,4 57,5 10,4 8,4 19,1 20,0
Bens manufatursdos 9,6 17,4 18,1 23,2 61,2 69,9 63,4 64,1
Participação nas expor- Participação nas impor­
!açócs (exceto petróleo) !açócs (exceto petr6leo)
Podutos primários
(excluindo o petróleo) 86,7 73,9 51,6 45,3 32,7 23,7 21,6 19,8
Bens manufaturados 13,3 26,1 48,4 54,7 68,3 76,3 78,4 80,2
FOIlle: Unido.lnd...try in a clralJgi"g world. New York, 1983. Para 1982,
cstimstivas da CMMAD baseadas em: Uniled Nations. 1983 ll1lenrational
Trade Statistics Yoarl>ook. New York, 1985. v. 1.
produtos, consumo de energia, formação de resíduos, uso e elimi­
nação dos produtos pelos consumidores. Tais impactos podem ser
positivos, melhorando B qualidade de um recurso ou ampliando
seus usos; ou podem ser negativos, devido à poluiçAo causada
peló processo e pelo produto, ou ainda ao esgotamento ou dete­
rioração dos recursos.
Os primeiros indícios de impactos negativos da atividade in­
dustrial sobre o meio ambiente foram problemas loca1izados de
poluição do ar, da água e da teITB. A expansão industrial que se
seguiu à fi Guerra Mundial não levou muito em conta o meio am­
233
232
"Sou uma das vftinias do poluição do ar. EntjIJItIIIU) a economia
japonesa crescia muito rapidamente, minha asma piorava. Tenho
39 anos. Fiquei hospitafirodo dos 18 tWS 23 por ruusa do gravi­
doJe de minha a.mJa. Nilo ti:ve nenhuma alegria de vivrr, ne­
nhuma joie de vivre naqueles cinco anos. Arranjei um emprego,
mas _ pcdia trabaJItar _ante o mesmo perl'odo de tempo que
as pessoas C(JmIDI$. Nos últimos 10 anos, mal consigo tmbalhar.
E quando a lei foi sancionmJa. a lei sobre a reduçilo do poluí­
çIIo, recebi uma compensaçilo. Minha única renda. provhn do
ini1enízaçilo proporr:ionndo: por essa lei. E se eu vier a ter outra
doença aJbn do a.mJa. realmente _ saberei o que jazer."
Yoshi Suzuki
AMociaçOO dflS VIlimas da poluiçtlo e S_Faml1ias
Audi&cia pllblica da CMMAD, Tóquio, 27 de fev.".,;,o de 1987.
biente e acarretou um rápido aumento da poluição, simboLizado
pelo smog de Los Angeles; pela "morte" do lago Erie; pela pc>­
luiçilo progressiva de grandes rios como o Mosa, o' Elba e o R....
no; e pelo envenenamento qufmico por meredrio em Min_.
Tais problemas tamb<!m se verificanun em muitas patles do Tet-­
celro Mundo, à medida que se' disseminavam o crescimento in­
dustrial, a ud>aniT!!ç'o e o uso do automóvel.6
Logo aumentanIm as preocupaç6es do pliblico, e promoveu-ae
um amplo debate sobre a conservaçilo do meio ambiente e o cres­
cimento econ&nico. Nesse debate, um tema inlportante fOi a pos­
sibilidade de o processo de crescimento induslrial vir a causar es­
cassez de I1!ICU1'SOs maIcriais. Embora os recursos nilo-renováveis
seja, por definiçilo, exauríveis, avaliações recentes levam a crer
que num futuro próximo poucos minerais têm possibilidade de se
esgotar.
No final dos anos 60, uma consci&1cla e uma pn>OCt1pIIÇAo
maioml por patIe da opiniio pCIbIica leva:ram os governos e as in­
dWIuias a tomarem certas providências, lanto no. países indus­
uiallzado. como em alguns paiBes em desenvolvimento. BIabora­
ram-se programas e políticas para a proteção do meio ambiente e
a cODllel'VllÇilo dos recursos, e crilU3ID-se agencias para adminis­
Irá-los. Inicinlmente, as políticas se concentraram em disposiç6es
para reduzir as emissões. Mais 1lIrde, recorreu-se a uma série de
ÍnStrl.tmento. econômicos - uibnlação, moItas por poluição e sub­
sfdios para equipamentos de cootroIe de poluiçlio -, mas apenas
2:W
alguns países os adotaram. Os gastos aumentaram, a princípio
gradualmente, chegando, em ÍItIS dos anos 70. a I % e alé a 2%
do PNB em alguns países indusuializados.
A inddslrià taJ:nbém reagiu a esses problemas criando novas
tecnologias e nOVOS processos industriais com vistas a reduzir a
poluição e outros impactos adversos sobre o meio ambiente. Em
algumas inddsuias altamente poluentes, os gastos com medidas
para controlar a poluição se elevaram rapidamente; e as empresas
começaram a estabelecer suas próprias políticas ambientais e suas
próprias unidades de controle. Divulgaram-se direuizes e códigos
de conduta relativos à segurança dos prndutos e ao funciona­
mento das fábricas, às práticas comerciais. à transferência de tec­
nologia e à cooperação internacionaL7 Associações nacionais e
internacionais de indlistrias taJ:nbém estabeleceram direuizes e
códigos práticos voluntários.
8
Houve diferentes resultados, mas ao longo da década alguns
países induslrializados sentiram significativas melhoras na quali­
dade de seu meio ambiente, Em muitas cidades, diminuiu conside­
ravelmente a poluição do ar, e diminuiu também a polnição das
águas de muitos lagos e rios. Alguns prndutos químicos foram
controlados.
Mas eSses avanços só ocorreram em alguns países indusuiali­
Z!!dos. No mundo, de modo geral, aumentaram os despejos de
fertilizantes e dejetos em rios, lagos e 4guas costeiras, causando
impactos sobre a pesca. o abastecimento de água potável, a nave­
gaçilo e as belezas naturais. Ao longo dos anos, a quantidade da
'gua da maioria dos principais rios não melhorou muito, tendo
mesmo piorado em muitos deles, bem como em vários rios meno­
res. Os países indusuialízados ainda apresentam formas "tradi­
cionais" de poluição do ar e da águn. Os níveis de óxido de enxo­
fre e de nitrogênio, de partículas em suspensilo e de hidrocarbo­
netos ainda pennanecem elevados e em certos casos aumentaram.
No Terceiro Mundo, a poluição do ar em certas patles das cidades
cbegou a índices jamais registrados nos países industrializados
dumnte os anos 60.
9
É cada vez mais evidente que as origens e causas da poluição
são muito mais difusas. complexas e inter-relacionadas - e seus
efeitos muito mais disseminados, cumulativos e crônicos - do que
se julgara alé então. Os problemas de poluição. antes localizados,
agom se apresentam em escala regional ou mesmo global. Está se
tornando mais comum a contaminação de solos. de lençóis freáti­
C08 e de pessoas por agrotóxicos, e a poluição por prndutos quí­
micos se estende a todos os pontos do planeta. Aumentou a inci­
dência de graves acidentes provocados por prndutos químicos tó­
xicos. A descoberta de locais de deposição de rejeitos perigosos ­
235
"Hoje, sem qualquer sombra de dúvida, a escala e a taxa atuais
do desenvolvimento das forças produtivas exigem uma aborda­
gem diferente das questões relativas à proteção ambienlaJ e ao
uso racional dos recursos nacionbis. E uma tarefa de imensa
significação econ/Jmica e social. Pois azuaJmente se trota de uma
preocupação com a saúde das pessoas e com a.riqueza nacional
de cada pafs. Além disso. é tDmbém uma queSlião refoliva aofu­
turo. E de sua solução dependem as condiçtJes de vida das pró­
xiJnas gerQÇ6es.
A.P. Semyonov
Conselho Central de Associaç/les Comerciais
Audiéncia pública da CMMAD, Moscou, 8 de dezembro de 1986.
o canal Love. nos EUA, por exemplo. e Lekket:kek. na Holanda.
Vac, na Hungria. e Georgswerder, na Repdblíca Federal da Ale­
manha - chamou a atenção para outro O<!rio problema.
Tendo em vista isso tudo e taJnb6m as tendências de cl"NCi.
menta até O próximo O<!culo. é evidente que são necessárias medi­
das muito mais enérgicas para reduzir. controlar e evitar a polui­
ção industrial. Sem essá. medidas. os danos causados peJa polui­
ção 11 saúde humana podem chegar a níveis intoleráveis em algu­
mas cidades e continuarão aumentando as ameaças 11 propriedade
e aos ecossistemas. Felizmente, o esforço envidado nos tlItimos
20 anos para proteger o meio ambiente deu aos governos e 11 in­
dústril\ maiur experiência em relação a poJ(!icas e novos meios
tecnológicos para obter padrões mais sustentáveis de desenvolvi­
mento industrial.
No início dos anos 70, governos e indústria estavam muito
preocupados com o custo das medidas propostas para a proteção
do meio ambiente. Para alguns, tais medidas fariam diminuir o in­
o crescimento, os empregos, a competitividade e o
comércio, e aO mesmo tempo estimulariam a inflação. Tais receios
se revelaram infundados. De acordo com um levantamento feito
em 1984 pela Organização para Cooperação e o Desenvolvimento
Econômico (OCDE) das avaliações realizadas em vários países
industrializados, os gastos com medidas de proteção ao meio am­
biente nos dltimos 20 anos tiveram um efeito positivo a curto pra_
zo sobre o crescimento e o emprego, porquanto aumentavam a
demanda e conseqüentemente fizeram aumentar a produção de
economias que não operavam com plena capacidade. Houve sig­
nificativos benefícios em termos de se evitar danos 11 saúde, 11
propriedade e aos ecossistemas. E, o que é mais importante, esses
benefícios, de modo geral. superaram os custos. 10
Evidentemente, custos e beneficios variaram de uma indtlstria
para outra. Um dos métodos para se avaliar o custo de reduzir a
poluição na indl1stria consiste em comparar o que foi gasto em
novas fábricas e novos equipamentos que dispõem de meios para
controlar a poluição com o que seria gasto em novas fábricas que
não dispusessem deles. Em estudos feito. nos EUA e que utiliza­
ram essa comparação. ficou demonstrado que o que foi gasto para
diminuir a poluição em novos equipamentos e fábricas no setor
manufatureiro do país em 1984 montou a US$4,53 bilhões, ou
seja, 3,3% do total dos novos gastos. A indtlstria química gastou
US$5SO milhões (3.8%) em equipamentos desse tipo. 11 Estudos
similares em relação à indtlstria siderúrgica japonesa revelaram
que os novos investimentos em equipamentos de controle de po­
luição montaram a 21,3% do investimento total em 1976 e até
hoje continuam sendo de aproximadamente 5%.12
Uma elevada proporção do investimento feito pela indústria
para controlar a poluição coube a fumas ligadas a produtos ali­
mentícios, ferro e aço. metais não-ferrosos, automóveis. polpa e
papel, produtos químicos e geração. de energia elétrica - todas
elas muito poluentes. Esses custos foram um grande incentivo pa­
ra que muitas dessas indtlstrias desenvolvessem uma ampla gama
de novos processos e de produtos e tecnologias mais limpos e
mais eficientes. Na verdade, algumas das finnas que há 10 anos
formamm equipes para pesquisar e desenvolver tecnologias ino­
vadoras, a fim de se ajustarem aos novos padrões relativos ao
meio ambiente, contam-se hoje entre as mais competitivas em
seus campos, tanto no nível nacional como no internacional.
A reciclagem de resíduos e sua reutilização tomaram-se práti­
cas bem-aceitas em muitos setores industriuis. Em alguns países
industrializados, as tecnologias para filtrar composto. de enxom.
e nitrogênio dos gases emitido. peias chaminés das fábricas apre­
sentaram notáveis progressos num período relativamente curto.
Existem novas técnicas de combustão que ao mesmo tempo au­
mentam a eficiência da combustão e reduzem as emissões de po­
luentes.!3 Estão sendo desenvolvidos novo. produtos e novos
processos tecnol6gicos que poderão resultar em modos de produ­
ção mais eficientes em termos de energia e de recursos, reduzindo
a poluição e minimizando os riscos à saMe e os riscos de aci­
dentes.
O controle da poluição tomou-se. e com toda a razão, um
próspero ramo da indústria em vários países industrializados. In­
ddstri.as muito poluentes, como ferro e aço. outros metais, produ­
236 237
tos quúnicos e geração de energia, muitas Vezes levaram a pro­
gressos em áreas como equipamentos aotipoluição, desintoxica­
ção, tratamento de resíduos, instrumentos de mensuração e siste­
mas de acompanhamento. Essas indúslrias não apenas se tomaram
mais eficientes e competitivas, como também muitas delas desco­
briram novas pOssibilidades para investimento, vendas e eltporta­
ç6es. No futuro, espera-se que em praticamente todos os países
induslrializados, inclusive os recém-induslrializados, haja um
mercado cada vez maior para os sistemas, equipamentos e servi­
ços de controle de poluição.
8.2 DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL SUSTENTÁVEL
NUM CONTEXTO GLOBAL
Para ser sustentável a longo prazo, o desenvolvimento industrial
terá de mudar radicalmente em tennos de qualidade, em particular
nos países induslrializados. Mas isso não quer dizer que a indus­
lrialização tenha alcançado um limite quantitativo, especialmente
nos países em desenvolvimento. Mesmo hoje, segundo o Onudi. a
produção induslrial mundial teria de aumentar à ordem de 2,6 pa­
ra que o consumo de manufaturados nos países em desenvolvi­
mento chegue aos níveis atnais, dos países induslriaIizados.1
4
Diante do aumento populacional previsto, é de esperar que a pr0­
dução industrial mundial aumente de cinco a 10 vezes, quandO a
população se estabilizar, em alturna época do próximo século.
Tal crescimento tem sériaa conseqüências para o futuro dos ecos­
sistemas do mundo e sua base de recursos naturais.
Em geral, deve-se encorajar as indúslrias e atividades indus­
Iriais que são mais eficientes em teImo. de uso dos recursos, que
geram menos poluição e resíduos, que se baseiam no uso de re­
cursos renováveis, mais do que no de não-renovãveis, e que mi­
nimizam os impactos negativos irreversíveis sobre a saúde do ho­
mem e o tneio ambiente.
8.2.1 [adustriaIIzaç4o,DO Terceiro Mundo
As populações cada vez maiOres e as altas percenlagens de jovens
no Terceiro Mundo estão provocando aumentos consideráveis da
força de trabalbo. A agricultura não pode absorvê-los. A indúslria
deve propolXionar a essas sociedades em expansão não s6 empre­
go como também produtos e serviços. Elas conhecerão um au­
mento significativo de bens de consumo básicos e um desenvol­
vimento concomitante de infra-estrutura induslrial - ferro e aço,
produtos químicos, materiais de construção e transportes. Tudo
isso implica maior consumo de energia e matérias-primas, ri3COs e
resíduos induslriais, acidentes e esgotamento dos recursos.
Os problemas e as perspectivas do desenvolvimento industrial
variam entre os países do TelXeiro Mundo, que diferem muito em
lamanho e recursos. Há alguns países grandes nos quais a abun­
dância de recursos naturais e a pujança do mercado interno forne­
cem a base para um desenvolvimento induslrial bastante vatiado.
Países menores, ricos em recursos, estão tentando desenvolver
uma indúslria voitada para a exportação. Gmnde parte da expanc
são induslrial de vários paI:""" em desenvolvimento tem como ba­
se as indl1strias exportadoras de vestuário, bens de consumo ele­
trônicos e engenharia leve. Mas em muitos países o desenvolvi­
mento induslrial está Iimilado a uns poucos bens de consumo que
atendem a melXados internos relativamente pequenos.
A participação dos países em desenvolvimento na produção
mundial de ferro e aço subiu de 3,6% em 1955 para 17,3% em
1984. quando quatro países - Brasil, China, Índia e República da
Coréia - produziram mais de 10 milhões de toneladas de aço cada
um, o que equivale à produção de muitos países industrializados
de porte médl'o,IS Enquanto em muitos países em desenvolvi­
mento essa indústria se contrai. espera-se que no mundo em de­
senvolvimento ela se expanda para 38 milhões de toneladas entre
1982 e 1990. Prevê-se que a América Latina seja responsável por
41% desse aumento, o Sudeste asiático por 36%, o Oriente Médio
por 20% e a África por 1,3%.1
6
Muitos países em desenvolvimento ainda dependem bastante
de suas exportações de minerais e outros produtos básicos. a
maioria não-beneficiados ou semibeneficiados. No caso de vários
minerais importantes, como alumínio e níquel, umas poucas em­
presas transnacionais controlam toda a indúslria, desde a minera­
ção até o processamento final.l
7
Certos países conseguiram au­
mentar a pa.xela de produtos refinados de suas exportações. No
entanto, a maior parte desses produtos "manufaturados" é repro­
cessada no país industrializado que os importa. Em 1980, apenas
39% de todas as exportações do TelXeiro Mundo eslavam prontos
para consumo, ao passo que 43% do tolal de suas exportações
eram de produtos não-beneficiados)8 Esse índice deve melhorar
• medida que as nações em desenvolvimento ingressem nos está­
gios mais avançados de processamento. Tais melhorias devem ser
aceleradas .
O crescimento esperado das indl1strias básicas prenuncia um
t6pido aumento da poluição e da deterioração dos recursos, a me­
nos que os países em desenvolvimento se empenhem em controlar
-. poluição e os resíduos, aumentando a reciclagem e reutilização.
e' minimizando os riscos provenientes dos resíduos. Esses países
238 239
"Nosso movimento ecológico não.é cOI'Itra a indústria, mas de·
vemos pensar na ftmção social das indústrias e ver que poluição
e progresso não são a mesma coisa. Poluição não é sitúJnimo de
progresso; chegou a hora de se criarem novos conceitos de de­
senvolvimento. A poluição não devia ser sinl!ninuJ de progresso,
pois sabemos que a poluição é controlável, e ~ voe;! não
cOl'ltrOia a poluição, você está transferindo essa poiatção para a
comunidade global."
Fábio Feldman
Advogado das vitimas de Cubatão
Audil!ncia pdbüca da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985.
não têm recursos para se industrializar agora e reparar os danos
mais tanle; sequer terão tempo para isso, dado o rirmo acelerado
do progresso tecnol6gico. Mas podem tirar proveito dGS novos
métodos de gestão ambiental e de recursos que estão sendo de­
senvolvidos nos países industrializados, evitando assim a necessi ..
dade de reparos dispendíosos. Tais tecnologias também pndem
ajodá-los a reduzir os custos fInals e a aproveitar melhor recursos
escassos. J;: eles podem aprender com os erros dos países desen­
volvidos.
Hoje, as economias de escala já não constituem a preocupação
básica. As novas tecnologias no campo das comunicações, da in­
formação e do controle do processo industrial permitem o estabe­
lecimento de indústrias de pequena escala, descentralizadas e
bastante dispersas, o que reduz os níveis de poluição e outros im­
pactos sobre o meio ambiente local. Pode haver, contudo, certas
mudanças em vista: o processamento de matéria-prima em peque­
na escala, por exemplo, côstoma ter alta intensidade de mão-de­
obra e Ser amplamente dísperso, mas faz uso intensivo de energia.,
Essas indústrias dispersas poderiam poupar as grandes cidades de
certas pressões ligadas à população e à poluição. Poderiam ofere­
cer empregos n!lo-agrfcolas nas zonas rurais, produzir bens de
consumo que atendam aos mercados locais e ajudar a difundir
tecnologias viáveis do ponto de vista ecol6gico.
8.2.2 Uso de ene.... e de maU!rias-primas
Muitos consideram que o crescimento industrial inevitavelmente
se faz acompanhar de aumentos correspondentes no consumo de
energia e de matéria-prima. Mas nos dois últimos decênios, esse
padrão parece ter mudado radicalmente, À medida que cresciam
as economias desenvolvidas de mercado, a demanda de materiais
básicos.. inclusive '4gua e energia. se estâbilizava; em certos 'ca­
sos, chegava mesmo a declinar em termos absolutos.
O COIISumo de energia por unidade do PIB nos países da
OECD tem caído à taxa de 1 a 3% ao ano desde fins da década de
60. Entre 1973 e 1983, esses países melhoraram em cerca de
J,7% ao ano o rendimento energético.l
9
Também declinou o con­
SUmo industrial de água por unidade de produção. As fábricas de
papel e de polpa mais antigas consomem cerca de 180 metros cú­
bicos de água por tonelada de polpa; mas as que foram construí­
das nos anos 70 consomem apenas 70. Com técnicas avançadas
que mantêm a água em circulação num sistema fechado, e com
pessoal capacitado, esses Úldices podem ser reduzidos para 20-30
metros cúbicos por tonelada de polpa.
20
Uma usina siderúrgica integrada consome cerca de 80-200 to­
neladas de água para cada tonelada de aço bruto. Mas como s6 se
perdem cerca de três toneladas de água por tonelada de aço bruto,
a maior parte por evaporação, a reciclagem pode reduzir em muito
o consumo.
21
Os sistemas fechados de ciICulação de água não silo
exclusivos da siderurgia ou das economias desenvolvidas de mer­
cado. Entre 1975 e 1980, a produção da indústria química na
URSS aumentou 76%, mas o consumo total de água potável per­
maneceu no meSmo nível de 1975.
22
E entre 1981 e 1986, a pr0­
dução industrial soviética aumentou 25%, mas o consumo indus­
trial de água permaneceu constante,23
As quedas no consumo de outras matérias-primas começaram
muito mais cedo. De fato, a quantidade de matérias-primas neces­
sária para uma deCerminada unidade de produção econÔmica tem
caído durante todo este século, exceto nos tempos de guerra, para
praticamente todos os produtos primários não-agrfcolas.
24
Um
estudo recente sobre as tendências do consumo de sete materiais
básicos nos EUA confirma ioso,2S assim como estudos realizados
no Japão. Em 1984, o Japllo consumiu por cada unidade de pro­
dução industrial apenas 60% das matérias-primas utilizadas em
1973.
26
Essas tendências de efICiência n!Io resultam de uma
queda da atividade manufatureira em favor da indústria de servi­
ços, pois durante esses períodos a produção do setor manufatorei­
lO continuou a crescer, A produtividade e a eficiência no tocante
ao uso de recursos estão em constante aperfeiçoamento e a produ­
ç!Io industrial está se afastando nitidamente dos produtos e pro­
cessos que consomem muita matéria-prima.
As duas altas dos preços do petróleo dos anos 70 obrigaram
muitos países a pouparem dinheiro através de medidas de conser­
240
241
vação, da busca de outros combustíveis e do aumento do rendi­
mento energético global. Tais fatos demonstraram a importância
das polfticas de fixação de preços da energia que levam em conta
os estoques atuais, os índices de esgotamento, a disponibilidade
de substitutivos e qualquer dano ambiental inevitável associado à
extração ou ao processamentu. (Ver capítulo 7.) Eles também re­
velaram o potencial de políticas de preços para ou­
tras matérias-primas.
Alguns vêem nesses processos uma crescente "desmaterializa­
ção" da sociedade e da economia mundial. Porém, mesmo as eco­
nomias industrialmente mais aVlll1çadas ainda dependem de uma
oferta contínua de produtos básicos manufaturados. Sua produ­
ção, sejam eles nacionais ou importados, continuará a exigir
grandes quantidades de matérias-primas e de energia, ainda que
os países em desenvolvimento progridam rapidamente na adoção
de tecnologias eficientes em termos de recursos. Para manter o
ímpeto produtivo em um nível global, portanto, é necessário que
as polfticas econômicas, comerciais e de outras áreas afins passem
" levar em conta aspectos ligados à eficiência no uso dos recur­
sos, sobretudo nos países iodustria1izados, e que sejam rigorosa­
mente observados oS padrões, normas e regulamentos ambientais.
8,2.3 Promes_ e riscos das novas tecnologias
A tecnologia continuará a mudar a tessitura social, econômica e
cultural das nações e da comunidade mundial. Administradas com
cautela, as tecnologias novas e emergentes oferecem imensas
oportunidades pata elevar a produtividade e os padrões de vida,
melhorar a saúde e conservar a base de recursos naturais. Muitas
também trarão novos riscos, exigindo maior capacidade para ava­
liá-los e administrá-los. (Vercapítu1o 12.)
É de particular importância a tecnologia da informação, basea­
da sobretudo nos avanços da microeletrônica e da ciência do
colIlputador. Aliada IIOS rápidos progressos dos meios de comuni­
cação, ela poderá ajudar a melhorar a produtividade, o rendi­
mento energético' e a eficiência no uso de recursos, bem como a
estrutura organizacional da indústria.
Novos materiais como a cerâmica de alta qualidade, os metais
raros e as ligas de metal, os plásticos de alto desempenho e os
novos compostos permitem sistemas de produção mais flexíveis.
Contribuem ainda para a conservação da energia e dos recursos,
pois em geral cOnsomem menos energia em sua manufatura e, por
serem mais leves. contêm menos massa que os materiais conven­
cionais.
qtU! deve haver uma iniciativa persistellle, um tV'orço
determinado a fim de estabelecer uma esptcie de cddigo ÍnJema­
cional para as .áreas de tecnologias que implicam altos riscos
para o meio ambiente. No _1110, poucas indtístrias na Indo­
nésia seriam consideradas muito inteligentes. T ambim precisa­
mos desse tipo de coisa a fim de garanJir de alguma forma que
poIses como o nosso tenham um mfnimo de segurança pora se
deserrvolverem 110 conJexto das relações econômicas internacio­
nais."
Depoimento de um participante.
Audiência pábUca da CMMAD, Jacarta, 26 de março de 1985.
A biotecnologia terá forte influência sobre o meio ambiente.
Os produtos de engenharia genética podem melhorar muito a saú­
de humana e animal. Os pesquisadores estão descobrindo novas
drogas, novas terapias e novos meios de controlar os vetores das
doenças. A energia derivada das plantas pode substituir cada vez
mals os combustíveis fósseis não-renováveis. Novas variedades
de sementes de alta produtividade ou resistentes a pragas e a con­
dições climáticas desfavoráveis podem revolucionar a agricultura.
O controle integrado das pragas se difundirá cada vez mais. A
biotecnología pode também fornecer opções mais saudáveis e
mais eficientes para muitus processos e produtos poluentes. As
novas técnicas de tratamento de rejeitos líquidos e sólidos podem
ajudar a resolver o problema premente da deposição dos rejeitos
perigosos.27
Os avanços da tecnologia espacial, por ora um campo quase
exclusivo dos países iodustria1izados, também são promissores
para o Terceiro Mundo, mesmo para as economias de base agrí­
cola. Os serviços de previsão do tempo por satélite e redes de
comunicações podem ajudar os agricultores a decidir quando
plantar, irrigar, fertilizar e colher. Os sensores e as imagens por
satélite podem facilitar o uso ótimo dos recurSOS da Terra, permi­
lindo O controle e a avaliação das tendências a longo p,!"zo das
lIlUdanças climáticas, da poluição marinha, da erosão do solo e da
capa vegetal. (Ver capftulo 10.)
Essas novas tecnologias e a Revolução Verde toldam as distin­
ções tradicionais entre agricultura, indústria e serviços. Além dis­
so, permitem que o comportamento de um setor afete mais radi­
calmente O de outros setores. A agricultura tornou-se pralioa­
242 243
mente uma "indlistria" nos países desenvolvidos. Os serviços re­
lacionados com a agricultura - especiaJmente armazenamento,
transporte e previsão do tempo regionais - são cada vez mais im­
portantes. As novas técnicas de cultura de tecidos e de engenharia
genética podem gerar em breve variedades vegetais capazes de fi­
xar o nitrogênio do ar. o que afetaria drasticamente a indll\ltria de
fertilizantes. mas por outro lado reduztria a _ça de poluição
por agroquúnicos.
As indústrias químicas e geradoras de energia estão entrando
cada vez mais no ramo das sementes. para lançar novos tipos que
satisfaçam as condições e exigências locais específicas - mas que
podem também necessitar de fertilizantes e praguicidas específi­
cos. Aqui a pesquisa e o desenvolvimento. a produção e a comer­
cialização têm de ser orientados com cuidado. para que o mundo
não fique ainda mais dependente de umas poucas variedades de
cultivos - ou de produtos de algumas grandes transnacionais.
Apesar disso, nem todas as novas tecnologias são intrinseca­
mente benéficas e não terão sempre impactos positivos sobre o
meio ambiente. A produção em grande escala e o uso generaliza­
do de novos materiais. por exemplo. podem criar riscos para a
saúde até agora desconhecidos (como o uso de arsenialO de gálio
na indústria de microchip).28 As pesquisas mais arriscadas e a fa­
bricação dos produtos podem ocorrer justamente nos locais em
que haja poucas salvaguatdas e em que as pessoas desconheçam
os perigos. A necessidade de cautela na adoção de novas tecnolo­
gias é reforçada peIa experiência da Revolução Verde que, apesar
de suas nntâveis realizações, gera preocupações quanto à depen­
dência de um nlimero relativamente pequeno de variedades de
cultivo e de grandes doses de agroquúnicos. Antes de serem in­
troduzidas no mercado. e portanto no meio ambiente, as novas
formas de 'vida, produzidas pela engenharia genética deveriam ser
cuidadosame\'lte testadas e avaliada.- em relação a seu impacto
potencial sobre a saúde e a manutenção da diversidade genética e
do equilíbrio ecol6gico.
29
8.3 ESTRATÉGIAS PARA O DESENVOLVIMI!:NTO

o planejamento industrial e os processos decisórios do governo e
da indústria têm de levar em conta as questões relativas a recursos
e meio ambiente. Isso pemútirá reduzir a quantidade de energia e
de recursos requerida pelo crescimento futuro, mediante o uso
mais eficiente dos recursos. o estúnulo à sua recuperação e reci­
clagem. e a dinúnuição dos rejeitos.
8.3.1 Esmbeledmento de metas, regulamentações,
IncenüVllS e padrões ambientais
Ao lidar com poluição industrial e deterioração de recursos, é es­
sencial que a indlistria, o governo e o público em geral tenham
pontos de referência bem definidos. Sempre que a força de tra­
balho e os recursos rmanceiros o pemútirem. os governos devem
definir claramente as metas ambientais e estabelecer leis, regula­
mentações, incentivos e padrões ambientais para as empresas in­
dustriais. Ao formularem tais poIfticas, devem dar prioridade aos
problemas de saúde pública ligedos à poluição industrial e aos
rejeitos perigosos, bem como aperfeiçoar suas estatfsticas am­
bientais e sua base de dados referentes às atividades industriais.
As regulamentações e os padrões devem reger assuntos tais
como poluição do ar e das águas, controle dos rejeitos, sadde e
segurança dos trabalhadores, eficiência de produtos e processos
no tocante ao uso de energia c recursos, bem como manufatura,
comercialização, utilização, transporte e deposição de substâncias
tóxicas. Isso deve ser feito normalmente em âmbito nacional, po­
dendo oS governos locais ir além. mas não ficar aquém, das nor­
mas nacionais. Ao elaborar as regulamentações ambientais, é im­
portante que se adotem sistemas flexíveis, sem especificar deter,
minado processo ou tecnologia, considerando que os governos di­
ferem muito em sua capacidade de fonnular e impor padrões le­
gais.
Também são necessárias regulamentaçôes para controlar os
imPactos da atividade industrial além da. fronteiras nacionals e
nas áreas comuns internacionais. As convenções internacionais
atuais ou futuras que tratam da poluição ou da administração
além-fronteiras dos recursos naturais comuns devem encerrar
certos princfpios básicos:
• responsabilidade de cada nação de não prejudicar a saúde e o
meio ambiente de outros países;
• responsabilidade e compensação por qualquer dano causado por
poluição além-fronteiras;
• direitos iguais a medidas de reparo para todas as partes interes­
sadas.
8.3.2 Uso mais eficaz dos Instrumentos econômicos
A poluição é uma forma de desperdício e um sintoma de inefi­
ciência da produção industrial. Quando as indlistrias reconhecem
os custos da poluição, às vezes são motivadas a investir em me­
lhores produtos e processos para aumentar a eficiência e, portan­
to, reduzir a poluição e os rejeitos, sobretudo quando há incenti­
245
244
vos econÔmioos para isso. Depende muito da possibilidade de tais
investimentos melhorarem seu desempenho eoonômico.
Mas há limíte. para o que a sociedade pode esperar que uma
indústria faça volunlariamente, quando opera em concorrência
com outras indústrias. As regulamentações que impõem padrões
de desempenho uniforme são essenciais para garantir que as in­
dústrias façam os investimentos necessários para reduzir a polui­
ção e os rejeitos, de modo a poderem concorrer em pé de iguaída­
de.
O ar e as águas têm sidO encarados tradicionalmente como
"bens üvres" J o que não é exato, se considerarmos os altos custos
que a poluição passada e presente acarretam para a sociedade. Os
custos ambientais da atividade econômica só aparecem quando a
capacidade assimilativa do meio ambiente é ultrapassada. A partir
dai, não podem ser evitados e terão de ser pagos. A questão não é
saber se serão pagos, e sim como e por quem o serão. Basica­
mente. há duas possibilidades. Os custos podem ser "ex:tema.liza­
dOs" - ou seja. transferidos para vários segmentos da sociedade
sob forma de custos por dano'!! li saúde hwnana. li propriedade e
aos ecossix:temas - ou "intemalizados" - pagos pela empresa.
Esta pode investir em medidas para prevenir danos e, se o merca­
dO para seu produto o permitir, repassar os custos para o consu­
midor. Ou então investir em medidas para reparar OS danos ine­
vitáveis - reflorestamento, repovoação das zonas pesqueiras, re­
cuperaÇão da terra apds mineração. Pode ainda compensar as vi­
timas de <!anos à Slllide ou à propriedade. Também nesses casos,
os custos podem ser repassados ao consumidOr. '
As empresas podem ser estimuladas a investir em medidas pre­
ventivas, restauradoras ou compensadoras com vários tipos de
subsídios. De fato, na maioria dos países industrializadOs e em
muitos países em desenvolvimento, os subsldips são um meio co­
mum de encorajar as oompanhias a investirem nas medidas neces­
sárias para prevenir danos externos. Mas neste caso, natoralmen­
te, quem paga é o contribuinte, e não o consumidOr do produto.
Além disso. se os subsídios forem altos e pagos a indú.,trias que
atuam no mercado internacional. podem levar a distolÇÕes comer­
ciais, devendo pois ser.evitadOs.
Em 1972. os países-membros da OCDE concordaram em ba­
sear suas polfticas ambientais em um Princípio de Pagamento do
Poluídor (PPF).30 Com o PPP. em esséncia uma medida de efi­
ciência eoonômica, pretende-se encorajar as indústrias a internali­
zar os custos ambientais e refleti-los nos preços dOs produtos. Ao
mesmo tempo. as regolall)entações estatais dos países do Conse­
lho de Assistência Econômica Mútua são da competência de or­
"Nossa açdo t1 no sentido de atacar as ClZUStlS, não os efeitos.
Mas também depa:romos com questões ecol6gicas em nossos
mercados. e_e nossos próprios empregatk)s e em nosso meio
ambiente. Definirtyamente. isso possibilita que su­
blinham a necessidade de """" refkxiio mais complexa e abran­
gente sobre os sistemas de que o meio ambiente se toma pane
integranre. Por selTllOS uma ináiistria; depa:romos também com
problemas de reloções internacionais e de ordem ecológica,
muitas ..,.,..,s, irlfelizmente, sob formo. de barreiras comerciais
disfarçadas ou de dificuldades na cooperação entre autorida­
áes.
H
Rolf Marstnmder
Diretor de AssuntOS Ambientais da Norsk Hydro
Audiência pdblica da CMMAD, Oslo, 24-25 de junho de 1?85.
ganismos governamentais que aceitam que as preocupações am­
bientais sejam levadas em conta.
No caso da OCDE, as diretrizes dO PPP pretendiam desesti­
mular os subsídios que pudessem levar a distorções no comércio
exterior. Os países ooncordaram em eliminar os subsídios aos
poucos, por períodos variáveis de tempo. (Ver no capítulo 3 a
aplicação do PPP ao comércio e investimento internacionais.)
Os incentivo. para reduzir a poluição podem ser ampliados por
outras medidas. As polfticas de apreçamento de energia e água,
por exemplo, podem levar.as ,indústrias a consumirem menos. A
reformulação de produtos e as inoVações tecnológicas que pro­
p<>reionem produtos mms seguros, proCessos mais eficientes e re­
ciclagem de matérias-primas também podem ser promovidos por
meio do uso integrado e mais eficaz dos incentivos e desincenti­
vos eoonômicos, como descontos de impostos sobre investimen­
tos, empréstimos a juros baixos, reservas para depreciação, multas
por poluição ou rejeitos. e multas pelo não-cumprimento das re­
gulamentações.
Às vezes. O modo pelo qual se pmmovem outros objetivos de
políticas acaba reduzindO, indiretamente. a eficácia dos progra­
mas ecológicos. Por exemplo, os subsídios às malérias-prilllll$ ou
ao fornecimento de água ou energia para promover o desenvolvi­
mento da indústria em áreas remotas podem atenuar a pressão no
aentido da conservação dos recursos. Os governos devem verifi­
car se as políticas, os inslrumentos ou subsídios eoonômioos de...
247 246
tinados a vários programas e projetos ligados à indústria contri­
buem de fato para a promoção de práticas saudáveis e eficientes
em termoS ambientais.
8.3.3 Ampliação das avaliações ambientais
Um número cada vez maior de países exige que-. certos investi­
mentos importantes sejam submetidos a uma avaliação do seu im­
pacID sobre o meio ambiente. Essa avaliação ambiental mais am­
pla deve ser aplicada não só a produtos e projetos, mas também a
políticas e programas, em especial as políticas macroeconômicas,
financeiras e setoriais que causam impactos significativos sobre o
meio ambiente.
Muitos p a í ~ s em desenvolvimento, parliculannente na Ásia e
na América Latina. adotaram sistemas de avaliação do impacto
ambiental. Mas a falta de capacidade institucional e de pessoal
qualificado significa que muitos desses sistemas são conduzidos
por consultores de fora. sem que haja controle da qualidade desse
serviço. Em certos casos. as autoridades governamentais só teriam
a lucrar com um outro parecer sobre a documentação ambiental
que recebem. Os governos interessados deveriam criar um órgão
de avaliação internacional independente para ajudar os países em
desenvolvimento a estimarem o impacto ambiental e a sustentabi­
lidade dos projetos de desenvolvimento em elaboração.
8.3.4 Estimulo à ação da Indúslrla
A resposta da indústria à poluição e à deterioração dos recursos
não tem sído nem deve ser limitada ao cumprimento das regula­
mentações. Ela deve comportar um amplo senso de responsabili­
dade social e garantir a conscientização das questões ambientais
em todos os níveis. Para tanto, todas as empresas industriais, as­
sociações comerciais e sindicatos trabalbistas devem estabelecer
políticas. no âmbito da empresa ou da indústria, que digam res­
peito à administração ambiental e de recursos. e que incluam a
observância das leis e exigências do país em que atuam.
As associações comerciais internacionais desempenham papel
importante na fixação de padrões e disseminação da informação ­
papel que deve ser ampliado significativamente. ElIas devem esta­
belecer e tomar disponíveis. tanto quanto possível. diretrizes se­
toriais para avaliar a sustentabilidade e os riscos potenciais dos
novos sistemas, para desenvolver planos de contingência em ca­
sos de acidentes, e para selecionar as tecnologias de controle da
poluiçãO e tratamento dos rejeitos. Associações industriais de
vulto, como a Câmara Internacional de Comércio e o Conselho
Europeu da Federação dos Fabricantes de Produtos Químicos,
que assumiram papéis de liderança ao abordar as questões am­
bientais. devem agora fazer o mesmo em relação às preocupações
mais amplas inerentes ao desenvolvimento sustentável.
Com poucos recursos à sua disposição, as indóstrias de peque­
no e médio porte muitas vezes se vêem incapazes de custear as
mudanças necessárias para satisfazer as regulamentações am­
bientais e os controles de produtos. Os negócios de pequena es­
cala, como metalurgias. máquinas operatrizes, impressão, curtição
de couros e tinturaria, estão freqüentemente entre os malores
transgressores das reguiamentações ambientais em qualquer país.
As novas tecnologias. em especial a microeletrônica, já propor­
cionam às pequenas indústrias meios baratos de controlar todo um
processo de produção. Sistemas biológicos poupadores de energia
podem ser perfeitamente adaptados às necessidades das indústrias
de pequeno e médio porte pàra o controle da poluição ou deposi­
ção dos rejeitos.
As empresas de pequena e média escala, que constituem o
maior segmento da indústria em muitas nações, necessitam de in­
formações e, em certos casos, de assismncia técnica e financeira
do setor público. A administração e o treinamento de trabalhado­
res podem contribuir para a incorporação, nos padrões de traba­
Ibo. do planejamento ambiental e de tecnologias menos poluído­
ras. Os governos devem encorajar os esforços cooperativos entre
as pequenas empresas - por exemplo, em pesquisas conjuntas so­
bre questões ambientais, 00 no uso comum dos sistemas de rono.
trole de poluição e de tratamento dos rejeitos.
8.3.5 Maior capacidadle para lidar com riscos industriais
Os produtos químicos melhoraram muíto a saúde e a expectativa
de vida; incrementaram a produção agrícola; aumentaram o con­
forto, as facilidades e a qualidade de vida em geral; e ampliaram
as oportonidades econômicas. A indtlstria quúnica é também um
dos setores mais dinAmicos em vários países. incluindo muitos
dos em desenvolvimento. Mas essa indústria e seus produtos po­
dem exercer um impacto particuiarmente grave sobre o meio am­
biente. Ela deu origem a wna infiuidade de novos problemas de
poluição ligados não s6 aos produtos como aos processos. Conti­
nua a gerar wna quantidade cada vez maior de produtos e rejeitos
I, OIIlos efeitos. sobrerudo a longo prazo. sobre a saúde do homem e
O meio ambiente ainda são praticamente desconhecidos. Ocorre­
acidentes graves, e nos últimos anos os índices de segurança
inddstria ficaram abalados.
248
249
Em um mundo cada vez mais dependenle de produtos químicos
e de 1eCnologias de grande escala altamenle complexas, os aci­
denles de conseqüências catastróficas lendem a aumentar. Alguns
dos metais pesados e minerais não-metálicos, como o asbesto,
também impõem sérios riscos à sadde e ao meio ambienle. Vários
produtos e processos perigosos já estão incorporados aos atuais
sis1emas de produção e à estrutura tecnológica da Sociedade con­
lempotllnea, e levam muito 1empo para que possam ser substituí­
dos por sislemas e 1eCnologias menos arriscados e maio seguros.
Alguns produtos qulmicos altamenle tdxicos que sabidamente
causam cânoer e defeitos congêuitos, além de lerem efeitos gené­
ticos a longo prazo. já fOIalll lançados no meio ambieille em for­
leS e podem levar décadas para se diluírem.
8.3.5.1 Subst4nc1as quImicas
AJi; substâncias qulmicas representam cerca de 10% do comércio
mundial total em tenno.s de valor.
31
Hoje, cerca de 70 mil a 80
mil agenle. químicos circulam no mercado e. portanto, no meio
ambienle.
32
Tal cifra é apenas uma estimativa, pois não há um le­
vantamento completo. Cerca de I mil a 2 mil novos produtos
qulmicos entram anualmenle no mercado comercial. sem que seus
efeitos tenham sido previa.t:nenle 1eStados ou avaliados.
Segundo amostra do Conselho de Pesquiaa Nacional dos EUA
referenle a 65.725 substâncias químicas de uso comum, só 10%
dos praguicidas e 18% das drogas tinham os dados necessários
para avaliações completas sobre riscos para a sadde. Não havia
dados sobre toxicidade para cerca de 80% dos agentes quúnícos
usados em produtos e processos comerciais inventariados pela Lei
de Controle das Substâncias Tóxicas.
33
Esta situação agora está
começando a mudar. à medida que OS governos passam gradual­
menle de um sistema de testagem pós-mercado para o de leSlagem
pré-mercado de todos os novoS agenleS qulmicos.
Em 1986, mais de 500 substâncias e produtos qulmicos foram
totalmenle proscritos ou tiveram seu uso restringido com severi­
dade no país de origem.
34
Além disso. um nd.mero desconhecido
de agentes qulmicos são retira40s dos processos de liberação lo­
dos os anos, em vista das preocupações que suscitam nas agências
le controle. ou então nunca cbegam a ser submetidos às agências
nacionais de controle para liberação. Alguns deles acabam no
mercado exportador.
Os países indostrializados adotam um sistema cada vez mais
in1erdependen1e e eficaz. no qual as agências de controle de pr0­
dutos qulmicos compartilham os resultados dos tes1es e comuni­
cam umas às outras as novas restrições sobre produtos qulmicos.
"O crescimenLO mais explosivo da indústria qufmica e poluidora
se deu nos países em desenvolvimeTao. Isto oferece grandes peri­
gos. Os últimos acidentes são uma parcela minima da que pode
acontecer. Contudo, reconhecemos a enorme responsabilidnde
da movimeTao das associaçães comerciais no sentído de pressio­
nar as autoridndes e os órgãos dirigentes para que evitem tais
acidentes e os investimenLOs de empresas que não seguem pa­
drões aceitáveis.
O desenvolvimenLO da tecnologia melhorou o meío ambiente
nas áreas industriais da mundo. Entiio, os novos sistemas de
produção e de in/ormaçiio tomam mais díflcil poro os países em
desenvolvimento o uso de miIo-de-obra barata como meia de
atrair para: lá a indústria. Niio se vislumbra um futuro muito
promissor para esses pa(ses, a menos que a sociedade interna­
cional se disponha a partillrar os recursos e a tecnologia de pro­
dMçiio.lsto, de fato, é politicamente dlflcil."
JuolBjerke
COIifederaçl!.o lntemaciono./ das AsJ'ociaçõ.. de Livre Comércio
Audiência pIIbllca da CMMAD, Oslo, 24-25 deJunho de 1985.
Assim, a uma proibição ou restrição em um país segue-se geral_
menle uma medida semelhanle nos outros países.
Os países em desenvolvimento importadores em geral não
adotam esse sistema. Recentemente, alguns países industria1iza­
dos decidiram exigir que suas indústrias forneçam aos países im­
portadores uma notificação l1nica sobre os produtos qulmicos por
eles fonnalmente proibidos ou severamente restringidos. Eles
concordaram em enviar uma notificação prévia das exporta­
ções/importações desses produtos. e em passar aos países impor­
tadores as informações que os levaram a coibir OU restringir O uso
dos produtos, caso solicitados a fazê-lo. Embora seja louvável
a inlenção desse sistema, é diffcil imaginar que possa funcionar
nos países importadores que não dispóem de instituições de con­
trole para receberem a notificação nem de pessoal qualificado pa_
ra avaliar as informações.
Os importadores do Terceiro Mundo não têm meios de contro­
lar efetivame01e o comércio de produtos qulmicos proibidos ou de
UIlO muito restrito nos pafses exportadores. Daí a grande necessi­
dade que eles têm de uma infra-estrutura para avaliar OS riscos as­
lOciados ao uso de produtos quúnícos. Diante da gravidade da
250 251
a Comissão recomenda a todos os governos, partk:ular­
mente os dos principais países produtores de substâncias quími­
cas:
• que cuidem para que nenhum novo produto químico seja colo­
cado nos mercados internacionais até que seus efeitos sobre a
saúde e o meio ambiente tenham sido testados e
• que continuem se esforçando para obter um acordo internacio­
nal sobre a seleção dos produtos químicos existentes que mere­
cem testagem prioritária, sobre os critérios e procedimentos para a
avaliação desses produtos, e sobre um sistema de distribuição in­
ternacional das tarefas e recursos necessários;
• que regulamentem rigorosamente as exportaçoos, para os países
em desenvolvimento, dos produtos químicos para os quais não se
tentou ou não se obteve autorização para a venda interna, esten­
dendo aos mesmos as exigências de informações e notificaçoos
prévias;
• que apóiem a criação, nas organizaçoos regionais existentes, de
departamentos qualificados para receber tais informações e'notifi­
cações prévias, avaliá-las e advertir os governos regionais sobre
os riscos associados ao uso desses produtos químicos, a fim de
que cada governo pondere sobre os riscos e benefícios que pos­
sam advir de sua importação.
Deve-se aumentar a conscientização do consumidor. Os gover­
nos devem estimular a criação de centros de infonnações sobre
produtos químicos usados pelos consumidores e reforçar o inter­
câmbio de informações, de avaliações e de bancos de dados que
se observa atualmente nas Nações Unidas e fora de sua esfera.3
5
Outra providência essencial é adotar e fazer cumprir as regula­
mentações sobre embalagem e rotulagem de substâncias químicas
cuja utilização pode ser nociva, de modo a garantir instruções
precisas nos idiomas locais. As associações de consumidores e
outras organizações não-governamentais devem liderar a coleta e
distribuição da informação comparada sobre os riscos dos compo­
nentes de certos produtos como artigos de limpeza e praguicidas.
As indústrias que produzem e usam agentes químicos, por se­
rem as fontes dos riscos associados a essas substâncias e também
as maiores beneficiárias de seu uso, devem garantir (e serem res­
ponsabilizadas por não garantir) que seus produtos atendam aos
mais altos padrões de segurança, que tenbam o mÚlimo de efeitos
colaterais sobre a saúde e o meio ambiente, e que sejam manipu­
lados com a devida cautela pelos trabalhadores e usuários. Para
tanto, há que tomar acessíveis, da forma mais ampla possível, as
informações acerca das propriedades e dos processos de produção
das substâncias químicas e de seus riscos comparados. não só às
autoridades competentes, mas também aos trabalhadores, consu­
midores e membros da comunidade onde funciona uma indústria
química.
8.3.5.2 Rejeitos perigosos
Os países industrializados geram cerca de 90% dos rejeitos peri­
gosos do mundo inteiro. Embora toda estimativa contenba ampla
margem de erro, dadas as diferentes definições de "rejeitos peri­
gosos", em 1984 foram geradas cerca de 325 a 375 milhões de
toneladas no mundo todo,36 das quais cerca de 5 milhões nas
áreas recém-industrializadas e em desenvolvimento.
37
Só nos países-membros da CX::DE, há milhares de locais para
deposição de rejeitas. muitos dos quais parecem necessitar de al­
gum tipo de ação reparadora. Saneá-los custa caro: as estimativas
falam de US$IO bilhões para a República Federal da Alemanha,
mais de US$I,5 bilhão para a Holanda, US$20-100 bilhões para
os EUA, e pelo menos US$60 milhões para a Dinamarca (em dó­
lares de 1986).3
8
Também pode haver diversos lugares poten­
cialmente perigosos em certas áreas urbanas e industriais concen­
tradas das economias de planejamento central e dos países em de­
senvolvimento. É necessário algum tipo de intervenção governa­
mental mediante ação regulat6ria ou apoio financeiro.
O controle dos rejeitas nos países em desenvolvimento en­
frenta vários problemas. As chuvas fortes e freqüentes nos trópi­
cos, por exemplo. fazem com que os rejeitas se infiltrem nos so­
los sob os depósitos de lixo subterrâneos ou mesmo com que eles
transbordem. Se houver pouco ou nenhum tratamento prévio dos
rejeitos, isso pode contaminar as águas ou fazer com que as pes­
soas fiquem diretamente expostas aos rejeitos. Os depósitos de li­
xo subterrâneos geralmente ficam próximos de áreas industriais
cercadas de bairros pobres ou de favelas
39
Esses perigos salien­
tam a necessidade de planejar o uso da terra nos países em desen­
'volvimento, bem como a necessidade mais urgente de implemen­
tar e fazer cumprir de fato tais planos.
O principal objetivo das políticas deve ser reduzir a quantidade
de rejeite.. gerados e reaproveitá-Ios em proporção cada vez
maior. Isso reduzirá o volume que de outro modo precisaria ser
tratado, incinerado ou deposto em terra ou no mar. Este é primor­
dialmente um problema dos países industrializad03. Mas trata-se
também de uma questão emergente nos PRI e nos países em de­
senvolvimento, onde a rápida industrialização está acarretando os
mesmos problemas graves de administração dos rejeitos perigo­
sos.
Está aumentando a quantidade de rejeitos que cruzam as fron­
teiras nacionais, e tal situação tende a continuar. Entre 1982 e
252
253
"Nós, do. iru:úJstria, achamos que tado empresa capaz de poluir a
natureza mediante a emissilo de gós liquefeito ou portfcukls tkve
ser obrigado. a inscrever seu pessoal'em cursos breves, mas ins­
trutivos, de educação ambiental. Muitas vezes as empresas po­
luem não SÓ por acidente oufalha técnica, mas twnbém por total
igrwn!lncio. das efeitos destrutivos sobre o meio ambiell1e."
DonaId Allbrey

AudiIlncia pública da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986.
1983, os rejeitos transponados da Europa Ocidental para set)em
depostos em outros países praticamente dobraram de vólume,
cbegando a 250 mil a 425 mil toneladas (1 a 2% do total de re­
jeitos perigosos gerados).40 Esse aumento pode ser" atribuído em
parte li disponibilidade, em certos países, de sistemas legais e re­
lalÍvamente baratos de deposição de rejeito. em termo Por exem­
plo, cerca de 4 mil embarques de rejeitos perigosos pártiram da
Holanda para a República Democrática Alemã em 1984. E a Re­
pública Federal da Alemanha enviou cerca de 20 mil cargas para
a República Democrática Alemã no ano anterior. O transporte
internacional de rejeitos para serem despejados no mar, quer inci­
nerando antes ou não, toralizava cerca de 1,8 milhão de toneladas
em 1983.
41
Os países pequenos e pobres são especialmente vul­
neráveis a essas descargas em alto mar, como ooorreu nas ágoas
do Pacífico e do Caribe.
Alguns países propuseram recentemente o que viria a ser uma
espécie de comércio de rejeitos perigosos (inclusive É
de vital impol1ância um reforço da cooperação internacional nesSa
ár'ea* e muitos organismos internacionais se ocuparam do
to.
42
A OCDE está elaborando arualmente um acordo in!emacio­
nal que deverá basear-se em três princípios relevantes: controles
igualmente regidos dos embarques para os países não-membros;
notificação prévia aos países de destinação e consentimento des­
tes, sejam membros oU não-membros; e uma garantia da existên­
cia de meios adequados de deposição no país recebedor. O Pro­
grama das Nações Unidas para o Meio Ambiente traçou amplas
diretrizes, mas até agora não há qnaJquer mecanismo eficaz nem
para monitorar nem para controlar o comércio e a deposição dos
rejeitos perigosos43 Os governos e as organizações internacio­
nais devem apoiar de fonna mals atuante os esforços para criar
um regime inlemacional eficaz de controle do movimento além­
fronteiras dos rejeitos perigosos.
8.3.5.3 Acidemes industriais
Os acidentes que envolvem produtos químicos tóxicos e materiais
radiativos podem ocorrer nas fábricas de qualquer parte do mun­
do. Segundo um levantamento realizado pela Agência de Proteção
do Meio Ambiente dos EUA, entre 1980 e 1985 ocorreram 6.928
acidentes de gravidade variável em fábricas do país uma média
de cinco por dia.
44
Em 1984, tanques" de gás liquefeito explodiram na Cidade do
México, matando mil pessoas e deixando núlhares desabrigadas.
Poucos meses depois da tragédia de Bhopal, na índia, em que
morreram mais de 2 mil pessoas e outra. 200 mil ficaram feridas,
um acidente numa fábrica em West Virgínia, nos EUA, perten­
cente à mesma companhia instalada em Bhopal, resultou na eva­
cuação de emergência dos habitantes do local e em alguns pr0­
blemas de saúde. Em 1976. o vazamento acidental de dioxina,
agente químico mutagênico e altamente tóxico, em Seveso, Itália.
e a saga que se seguiu. dos tambores carregados de material con­
taminado contornando a Europa, demonstram também que nos
países industrializados podem-se burlar as regulamentações e
violar os padrões mínimos de segurança.
No início de novembro de 1986, um incêndio no depósito de
uma fãbrica de produtos químicos em Basiléia, Suíça, levou fu­
maça tóxica até a França e a República Federal da Alemanha, e
lançou agentes químicos tóxicos no Reno, causando mortandade
de peixes e afetando o abastecimento vital de água nos países rio
abaixo, até a Holanda. Os cientistas que investigaram o Reno
concordaram em que poderia levar anos para os ecossistemas ri­
beirinhos danificados recuperarem suas antigas condiç6es.45
Assim, os acidentes da Cidade do México, Bhopal, Tchernobil
e Basiléia - que ocorreram todos dentro do curto período de du­
ração desta Comissão - acabaram por despertar O interesse públi­
co pelos desMtres industrials. Demonstraram também a probabili­
dade de aumentos significativos na freqüência e magnitode dos
acidentes industrials de conseqüências catastróficas.
Tals acidentes indicam a necessidade de fortalecer os conhe­
cimentos nacionais e a estrutura para uma cooperação regional e
bilateral. Os governos locais e nacionais devem:
• supervisionar as operações industriais arriscadas, adotar e fazer
cumprir regulamentações ou diretrizeS relativas ao funcionamento
IIOguro das fábricas e o transporte, manipulação e descarga de
a.leriais perigosos;
254 255
• adotar polfticas relativas ao uso da terra ou planos de desenvol"
vimento regional que requeiram ou forneçam incentivos para que
as indústrias com alto potencial de poluição e de acidentes se
instalem longe dos centros populacionais, e que desestimulem as
pessoas a se mudarem para peI1D das fábricas e dos locais onde
são despejados rejeitos;
• garantir não só que os Il'abalhadores sejam plenamente informa­
dos sobre as tecnologias e os produtos com que lidam, mas tam­
bém que estejam familíarizados com métodos operacionais segu­
ros e preparados para situações de emergência;
• engajar os governos locais e os membros da comunidade nas
principais decisões sobre escolha de locais e planos de emergên­
cia.
Cada vez mais, as conseqüências dos acidentes podem afetar
seriamente os países vizinhos. As nações devem estabelecer acor­
dos com as outras que podem ser seriamente afetadas por um aci­
dente em instalações perigosas localizadas em seu território; me­
diante tais acordos, elas concordariam em:
• informar umas às oull'as sobre a localização e as principais ca­
racterfsticas das instalações perigosas existentes, nas quais um
acidente poderia afetar as vidas, a propriedade e os ecossistemas
de outro país;
• preparar planos de contingência que cubram OS possíveis aci­
dentes em tais instalações;
• dar a1axme imedialo, informações completas e assistência ml1tua
em caso de acidentes;
• estabelecer critérios para a seleção dos locais para novas insta­
lações perigosas, que elttar1am então sujeitas ao estabelecido aci­
tna;
• fixar padrões para as responsabilidades e compensações por
quaisquet danos causados pela poluição além-fronteiras.
Os acidentes industriais e suas conseqüências são em grande
parte imprevisíveis. A ÍlOl de identificarem melhor os riscos, os
governos, as organizações internacionais e a própria indlistria de­
vem bus<:ar aperfeiçoar as metodologias de avaliação das tecnolo­
gias e seus riscos, criar bancos de dados sobre essas avaliações e
tomá-las mais acessíveis a todos os países.
8.3.6. Fortalecimento das àções internacionais
para os pafses em desenvolvimento
As indústrias muito poluidoms e baseadas nos recursos estão
crescendo mais depressa nos países em desenvolvimento. Seus
governos terão, portanto, de melhorar substancialmente seus co­
nbecimenk>s de adminislmção ambiental e de recursos. Mesmo
quando há políticas, leis e regulamentações sobre o meio am­
biente, elas podem não cstar sendo cumpridas dc forma sistemáti­
ca. Muitas nações em desenvolvimenk> começaram a reforçar sua
infra-eslrUtum educacional e científica, mas sua capacidade técni­
ca e institucional para aproveitar ao máximo as tecnologias novas
ou importadas permanece limitada. Assim. alguns países conti­
nuam a depender de conhecimentos técnicos e adminiSll'ativos de
fora para a manutenção das atividades industriais. Por falta de ca­
pital, muitas vezes eles acham que uma nova indúslria não pode
ser criada sem a ajuda, os empréstimos comerciais e o investi­
mento direto externos ou sem uma joint venture com uma empresa
transnacional.
Tem-se assinalado a importAncia do Investlmenk> privado e o
papel-chave das empresas Il'ansnacionais. (Ver capítulo 3.) É in­
concebível realizar uma transição bem-sucadida para o desenvol­
vimento sustentável sem que se ajustem as políticas e as práticas
aos objetivos desse desenvolvimento. As agências externas que
apóiam e facilitam o investimento privado, sobretudo as organiza­
çõcs de crédito para exportação e de seguro de investimenk>s, de­
veriam ·também incorporar critérios de desenvolvimento sustentá­
vel em suas políticas e práticas.
Os problemas dos governos dos países em desenvolvimento
são agravados pelas eXll'avagãncias do sistema econ6mico inter­
nacional, como altas dívidas. altas taxas de juros e relações de
troca deterioradas no comércio de mercadorias. Diante disso, es­
ses muito pressionados, não encontram estímulo para
dispender grandes somas de seus parcos recursos na proteção am­
bientai e na administração dos recursos naturais. (Ver capítulo 3.)
Os próprios países em desenvolvimento acabarão tendo de su­
portar as conseqüências da industrialização inadequada; e cabe a
cada governo a responsabilidade Ímal de assegurar a sustentabili­
dade do seu desenvolvimento. Eles devem definir suas próprias
metas ambientais e objetivos de desenvolvimento. e estabelecer
prioridades entre as diferentes demandas de seus escassos recur­
sos. Precisarão também buscar meios mais independen"'" de de­
senvolvimenk> industrial e tecnológico. As opções são suas, mas
precisarão de toda a assistência - técnica, financeira e instituei",
nal - que a comunidade internacional puder reunir para ajudá-los
a fixar um rumo ecologicamente viável para o desenvolvimento,
além de sustentável.
As grandes empresas industriais, em particular as Il'ansnacio­
nais, têm uma responsabilidade especial. Como possnidoms de
alta capacidade técnica, devem adotar os mais altos padrões pos.­
síveis de segurança e de proteção à salide, e se responsabilizar
tanto pelo projeto industrial e segurança da fábrica quanto pelo
2" 256
treinamento de J>!'ssoal. As transnacionais deveriam também vis­
toria:r as çondiçÕCll ambientais e de segurança de suas fábricas e
. compará-las com os padrões das subsidiárias, e nlio somente com
os de OUtrnll companhias locais, que podem ter exigências menos
rigorosas. Os resultados de tais vistorias devem ficar à disposiçlio
dos.8OvenlOS e OUtrnll partes interessadas. .
E necessário especial cuidado ao lidar com agentes químicos'
tóxicos e rejeitos perigosos, e ao fazer planos de contingência pa­
ra casos de acideote. Ao planejar novas instalações industriaL!;,
deve-se tentar conhecer os pontos de vista das organizações não­
governamentais e da 'comunidade local. No tocante à tecnologia,
processo ou produto que está sendo introd\l2;ido, as autoridades
comJ>!'tentes, locais e nacionais, devem estar inteiramente li par de
suas propriedades, efeitos potencialmente danosos e quaisquer
riscos possíveis para a comunidade. As informações necessárias
devem ser.reveladas aos habitantes das redondezas, em linguagem
dará e acessfvel. As empresas devem cooJ>!'raT com o governo lo­
eaI e a comunidade nos· planos de contingência e na criaçlio de
mecanismos claramente definidos de assistência e CO!DJ>!'osaçlio
para as vítimas qe poluição ou de. acidentes.
Muitos países em desenvolvimento necessitam de infOrmaçÕCll
sobre a natureza dos problemas ambientais e de recursos ligados à
inddstria. sobre os riscos associados a certos processos e produ­
tos, e sobre os pad:n5es e outras medidas para proteger a sadde e
assegurar a sustentabilidade do meio ambiente. Necessitam ·tam­
bém de J>!'ssoas capacitadas para aplicar tais infonnaç<les às cir­
cUDstAncias locais. Os sindicatos de trabalbadore. e as associa­
ções de comércio internacionais devem desenvolver programas
esJ>!'ciais de treinamento sobre meio ambiente para os paí.... em
desenvolvimento e também divulgar, por meio de assembléias lo­
cais, as informações sobre controle da poluição, reduçlio dos re­
jeitos e planos preparados em caso de emergência.
Notas
1 Como se verá mais adiante neste capItulo, a classificaçáo convencional
das atividades econômicas em três setores - primmo (agricultura e núne­
ração), secundário (manufatura) e .terciário (comércio e outros serviços)
- tem se tornado cada vez mais ambígua. Algumas atividades econômicas
passam por lodos os três setores. Além disso, o setor de serviços começou
a ocupar sozinho um importante lugar nas economias industrializadas.
Neste capítulo, contudo, o termo uindt1stria
n
será usado no sentido tradi­
cional, que incluí núneração e exploração de pedreiras, atividade manuf.­
tureira, constrUção civil, eletricidade, gás e água.
2 Gall.Intemau"",al trade 1985-86. Genev., 1986.
3 Unido. lndustry in rilé 1980s; stroclural change and interdepeadence.
New York, 1985.
4 Ver, por exemplo: Leontief, W. W. TiIé impact of automation. Oxford,
Oxford Universily Press, 1986; Ouchin, F. Autom.tion and its effcets 00
employment. In: Collings, E. &. Tanner, L.,.ed. EmpIoyment implicarians Df
th.e changíng industrial base. New York, Ballinget, 1984; Rada, J. TiIé im­
pact ofmicroelectronic.s. Geneva, ILO, 1980; Wernei<e, O. Microelectro­
nics and office jobs. Gcneva, ILO, 1983.
5 Unido.lndustryand deve/Qpment; global repor! 1985. New Yor!<, 1985.
6 WHO. Urban air pol1ution /973-/980. Gcneva, 1984: World Resources
Institute/lntemational lnstilute for Environment and Development. World
r<solUCes /986. New York, Basic, 1986.
7 A ComiMáo das Nações Unidas para Empresas Transnacionaís tem tra­
balhado Dum código abrangente desde 1977, mas as seções sobre proteção
ambiental e ao consumidor foram praticamente acordadas. Para outros
exemplos, ver; FAO. Code of conduct in the distribution and use of pesti­
cides. Rome, 1985; Unep. Guidelínes on risk management and accídent
prevention in lhe chemical industry. Adotadas em 1982; OECO. Declara­
tinn of OOCO member countries on intemational investrnenl and multína­
tinnal enterprise. 1976; OECO. Clarificatinn of lhe environmenlal concer­
os expressed in paragraph 2 of lhe general policies chapter of lhe OECO
auidetines for multinational enterprises. Paris, 1985.
li Ver, por exemplo: lotem.tional Chamber of COItlll1efCe. Environmental
pidelines for world industry. Paris, 1976 (atualizado em 1981 e 1986);
HcDenic Marine Environment Protection Association. To save lhe soas,
~ t i o n of a voluntary commítrnent. Alhens, 1982. Guidelines for lhe
~ of Hebnepa member vessels. Atbcos, 1982; US National Agri­
~ a l Chernicals Association. Guidelines in labeUing practices. for pesti­
cide products in developing areas of lhe world. Washington, O.c., 1985.
"Unep; State oftilé environmenr 1982. Nairobi, 1982.
f() OECD. The impact of environmentaJ measures on lhe rale of econornic
arowlh, rale of inll.tion. productivity and international lrade. Background
f/fIpers prepared for rhe InJematiollal Cotiference on Environment and
Bconomics vol./. Paris, 1984.
11 US Oepartrnent of Commerxe. Piant and equipment expenditures by
business for pollution abatement. Survey ofCurrent Business. Feb. 1986.
1I Ministério Japonês de Indtlstria e Comércio Internacional. Dados com­
anualmente para o Industrial Struetural Councll. Tóquio, 1970-86.
Econômica para a Europa, da ONU, compila e publica um
tecnologias de pouco ou nenbum rejeito". Um departa­
Ministério do Meio Ambiente da França coleta e divulga
sobre as tecnologias e processos "limpos" (les rechniques
in lhe /980•... cito
DlumlIi:i, N. Intemational radeployment of poUution-intensive industrics
of multínatinnal corporations.1986. (Elaborado pata •
"MAO.)
II()BCD. DevelopmenlS jn sreel malcíng capacity in non-OECD marker
MCHIIY countTies. Paris, 1985.
258
17 Namiki, N. op. cíl.
18 Unido. lndustry in a changing _rM. New York, 1983.
19 OECD. The ./ate ollhe environmem 1985. Paris, 1985.
20 Indu,try experience with environmental preblem solving. Documento
básico preparadn para a Conferência da Indústria Mundial sobre Admi­
nistração Ambiental, organizada pela Câmara Internacional de Comércio e
o Programa Ambiental da ONU. Versailles, 14-16 novo 1984.
21 Ibid.
22 Unep. The wor/d environntem 1972-1982. Nairobi, 1982.
23 Anikeev, V., diretor dn Depanamento sobre Meio Ambiente e Uso Ra­
cional dos RecurSQs Naturais, Go'plan, durante uma visita em 12 de de­
zembro de 1986, da CMMAD à sede do Gosplan, em Moscou.
24 Drucker, P.F. 'Ih. changed world economy. Forelgn AfJaiTJ, Spring
1986.
25 Larson, E.D. et alii. Beyond lhe era of materials. Scienrific Am<!rican,
JUDe 1986.
26 Drucker, P.F. op. cito
27 Para uma discussão das diversas possibilidades de aplicação industrial
da biotecnologia, ver; Elkington, J. Double dividend.? US biorechrwlogy
and Third Wor/d developmenr. Washington, D.C., World Resouroes Insti­
tute, 1986. (WRI Papers n. 2.)
28 O reilltório anual de 1986 da Agência Japonesa do Meio Ambiente ao
Parlamento trata amplamente do tema dos riscos e impactos potenciais so­
bre o meio ambiente provocados pelas novas tecnologias. Quality 01 rhe
environmem in fapan 1986. Tokyo, 1987.
29 O governo dos EUA anunciou recentemente uma ampla po1itica regu­
Iat6ria com vistas a garantir a pesquisa e os produtos biotecnológicos. Ver:
Coordinated framework for regulation of biotechnology. Federal Regigter,
26 June 1986.
30 Ver: OECD. Guiding principies conccrning intem.tional cconomic as­
pects of environmental policies. Paris, 26 May 1972. (Council Recommen­
dations C(72)128.)
31 OECD. Economic aspects of international chemicals controlo Paris.
1983.
32 Thc Conscrvation Foundation. Chemica1s policy in lhe global environ­
ment. 1986. (E1aborado para a CMMAD.)
33 National Research CouDeU. Toxicity testing. Washington, D.C., Natio­
nal Academy Press, 1984.
34 Ver: United Nations, comp. Consolidated list of pr<><lucts whose con­
sumplion and/or sale have been banned, withdrawn, severely rcstricted or
not approv<d by govemments. I. <d. rev. Diesa/WP/I, 1986.
35 Os exemplos mais notáveis incluem o Programa Internacional sobre
Segurança Qulmica (PNUMA/OMSIOIT). Registro Internacional dos
Agentes Qufrnicos Potencialmente Tóxicos (PNUMA), Agência Interna­
cional para a Pesquisa do Câncer (OMS) e ONU. (Consoüdated lisL .. cit.)
36 Yakowilz, H. Global aspects of hazaroous waste management. 1985,
(E1aborado para a CMMAD.); US Congress, Office of Technology As­
scssment. Superfund strategy. Washington, D.C .. US Govemment Printin.
omc., 1985. As estimativas dos EUA incluem os rejeitos em estado líqul­
260
do altamente diluídos, e isso resultou numa estimativa muito maior do total
de rejeitos perigesos para OS EUA dn que para os outros palses.
37 Outras fontes mencionam cif"", que vão até 34 milhões de toneladas só
para o Brasil, e 22 milhócs. 13,6 milhões para México e fodia, respecti­
vamente. Ver: Leonard. H.J. Hazardous wastes: the crisis spreads. N a t i o ~
nal Development, Apr. 1986.
38 Estimativas citadas em um documento do Secsetariado da OCDE. Pa­
ris, 1986.
39 Unep. Transfronder movemenls of hazardous wastes with regard to
developing countrics. Munich, 1984. (Elaborado para o Grupo de Trabalho
de Especialistas sobre a Administração Ecologicamente Viável de Rejeitos
Perigosos.)
40 Yakowitz, H. op. cito
41 OCDE. Documentos básicos para a Conferência sobre Cooperação In­
ternacional quanto à Circulação Além-fronteiras de Rejeitos Perigosos.
Basiléia, Sulç., 26-27 mar. 19&5.
42 Ver: EEC. Supervision and control of transfrontier shipments of ha­
zardous waste. Brusscls, Council Directive. Dec. 1984; OECD. Resolution
ofthe Council C(85)lOO. Paris, June 1985.
43 Unep. Transfronder movemenls ... cito Ver também: Sucss, M.I. &
Huismans, J.W., ed. Managementolhazardous waMe; po1icy guidelines and
oode of practice. Copenhagon, WIiO, Regional Office for Eutope, 1983.
_ Conclusões preliminares de um estudo realizado para a Agência de
eroteção Ambiental dos EUA. Acute hazardous data base. Washington,
iI>.c., 1985. Apnd: Yakowilz, H. op. cit;
.4.5 Ver, por exemplo: La Suis.., 3-9 Nov. 1986: Di. Welr, 10 Nov. 1986;
Die uir, 14 Nov. 1986: Der Spiegel, 17 Nov. 1986: Internarional Hera/d
·Tribune. 14-16 Nov. 1986.
9. O DESAFIO URBANO
Na virada do século, quase metade do mundo estará vi",ndo em
áreas umanas - desde cidadezinhas até imensas megalópoles.
1
O
sistema econômico mundial torna-se cada vez mais wbano, com
redes justapostas de comunicações, de produção e de comércio.
2
Tal sistema, com seus fluxos de infonnações. energia, capital,
comércio e pessoas, fornece a coluna dorsal do desenvolvimento
nacional. As perspectivas de uma cidade - grande ou pequena ­
dependem essencialmente do lugar que ela ocupa no sistema ur­
bano, nacional e internacional. O mesmo se pode dizer do destino
do interior, com suas atividades agrfcolas, florestais e de minera­
ção, de que o sistema umano depende.
Em muitas nações, certos tipos de indtlstrias e de empresas de
serviços estão se desenvolvendo atualmente em áreas rurais. Mas
essas áreas estão recebendo serviços e infra-estnltura de alta qua­
lidade, com sistemas avançados de telecomunicações, que fazem
com que suas atividades sejam parte integrante do sistema uma­
no-industrial nacional (e global). De fato. o interior estil sendo
.
9.1 O CRFSCIMENTO DAS CIDADES
Nosso século é o da "revolução wbana". Nos 35 anos após 1950,
o número de pessoas que vi",m nas cidades quase triplicou. tendo
aumentado em 1,25 bilhão. Nas regiões mais desenvolvidas, a
população wbana quase dobrou. passando de 447 milhões para
838 milhões. No mundo menos desenvolvido, quadruplicou, au­
mentando de 286 milhões para 1,14 bilhão. (Ver tabela 9.1.)
No penudo de apenas 60 anos, a população umana do mundo
em desenvolvimento aumentou 10 ",zes, passando de uns 100
milhões para cerca de I bilhão em 1980. Ao mesmo tempo, sua
população rural mais do que dobrou.
• Em 1940, apenas uma entre oito pessoas vivia em um centro ur­
bano, ao passo que cerca de uma entre 100 vivia numa cidade
com I milhão de habitantes ou mais ("cidade-milhão").
• Em 1960, de cinco pessoas, mais de uma vivia em um centro
urbano, e uma entre 16, numa ucidade-millião"
• Em 1980. quase urna em três pessoas era um habitante wbano.
uma em 10 era um habitante de "cidade-milhão".3
Tabela 9.1
População resident;;- em áreas uroanas, 1950-2000
Região
1950 1985 2000
(%)
Total mundial
29,2 41,0 46,6
Regiões mais desenvolVÍdas
Regiões menos desenvolvidas
África
53,8
17,0
15.7
71,5
31,2
29.7
74,4
39,3
39,0
América Latina
41,0 69,0 7611>
(América do Sul temperada)
(América do Sul tropical)
Ásia
(64,8)
(35,9)
16,4
(84,3)
(70,4)
28,1
(88,6)
(79,4)
35,0
(China)
(Índia)
(11,0)
(17,3)
(20,6)
(25,5)
(25,1)
(34,2)
Milhões
Total mundial
734,2 1.982,8 2.853,6
mais desenvolvidas 447,3 838,8 949,9
menos desenvolvidas 286,8 1.144,0 1.903,7
35,2 164,5 340,0
Latina 67,6 279;3 419,7
225,8 791,1 1.242.4
__ _ Urban and rural population projections, 1984. New Yoik., Unlted
, KIuíons, Populatinn Divi.ion. (Avaliação não oflCial.)
h
.;'A população de muitas das maiores cidades da África subsaa­
riIuIa aumentou mais de sele vezes entre 1950 e 1980 - entre elas,
f(airóbi, Dar-es-Salaam, Nuakcholt, Lusaca, Lagos e Kinshasa.
4
tabela 9.2.) Durante esses mesmos 30 anos, as populações
muitas cidades da Ásia e da América Latina (como Seul, Bag­
Daca, Amã, Bombaim. Jacarta, Cidade do México, Manilha,
hulo, Bogotá e Manágua) triplicaram ou quadruplicaram.
cidades. a imigração liquida em geral tem contribuído
para esse quadru que o aumento natural da população dos
decênios.
muitos países em desenvolvimento, as cidades têm cresci-
portanto, muito além do que jamais se poderia imaginar há
algumas décadas - e a um ritmo sem precedentes na histó­
box 9.1.) Mas alguns especialistas duvidam que as na­
desenvolvimento ",nham a urbanizar-se tão rapidamente
tifBturo quanto nos I11timos 30-40 anos, ou que as megalópoles
262 263
Tabela 9.2
Exemplos de rápido aumento populacional em cidades do
Terceiro Mundo
(em milhões)
Cidade 1950 Cifra mais Projeção da
recente ONU para 2000
Cidade do Méxiçc 3,05 16,0 (1982) 26,3
SáoPaulo 2,7 12,6 (1980) 24,0
Bombaim 3,0 (1951) 8,2 (1981) 16,0
Jacarta 1,45 6,2 (1977) 12,8
Cairo 2,5 8,5 (1979) 13,2
NovaDéIbi 1,4 (1951) 5,8 (1981) 13,3
Manilha 1,78 5,5 (1980) 11,1
Lagos 0,27 (1952) 4,0 (1980) 8,3
Bogotá 0,61 3,9 (1985) 9,6
Nairóbi 0,14 0,83 (1970) 5,3
Dar-eo-SaIaam 0,15 (1960) 0,9 (1981) 4,6
Grande Cartum 0,18 1,05 (1978) 4,1
Amã 0,Q3 0,78(978) 1,5
Nuakchott 0,0058 0,25 (1982) 1,1
Manaus 0,11 0,51 (1980) 1,1
Santa Cruz 0,059 0,26(1976) 1,0
FOIlle: os dados de recenseamentos recentes foram usados sempre que
passlvel; caso contrário, usou-se wna estimativa feita pelo governo local
ou por um grupo de pesquisa local. A. pl'<ljeções da ONU para o ano 2000
são de: Department of lnternational Economic and Social Affairs. Esti­
maleS anti projectioru l!f urban, rural tmd city populntions 1950-2025.
ST/ESAlSER.Rl58. New York, 1985. (Avaliação de 1982.); e de: Uníted
Nations. Urban. rural tmd c1ty populntioIl1950-2()()(). New York, 1980.
(Populations studies D. 68; Avaliação de 1978.) Outros dados, com algu­
mas cifras atualizadas por dados de recenseamentos mais recentes, provem
'de; Hardoy, J.E. & Satlertbwaite, D. Shelter: need and response, Chiehe.­
ter, UK, lobo Wiley, 1981.
venham a crescer tanto quanto sugeregl as previsões das Nações
Unidas. Argumentam que muitos dos estúnuIos mais fortes à rápi­
da urbani.zaçJIo do passado não têm tanta influência hoje, e que se
as políticas do governo mudassem poderia reduzir-se a atração
comparativa das cidades, em especial as grandes cidades, e assim
desacelerar as taxas de urbanização.
A taxa de aumento populacional urbano nos paCses em desen­
volvirD<:nto tem diminuído - de 5,2% ao ano em fins da década de
50 para 3,4% nos anos 80.
5
Espera-se que ela decline ainda mIÚI
na.' próxi.mas décadas. Apesar disso, se se mantiverem as tend6n,
Box !l.I Como dominar as cidades
Nairóbi.. Qrdnin: em 1975, Nairóbi detinha 57% de todos os
empregos na atividade manufatureim do Quênia, e dois ter­
ços de suas indústrias. Em 1979, Nairóbi continha cerca de
5% da população nacional.
Manilha, Filipinas: a Manilha metropolitana produz um ter­
ço do PNB do paCs, manipula 70% de todas as importações
e contém 60% das instalações de manufaturaS. Em 1981, a
cidade continha cerca de 13% da população nacional.
Uma. Peru: a área metropolitana de Uma é responsável por
43% do PIB, por quatro quintos do crédito bancário e da
produção de bens de consumo, e por mais de nove décimos
da produção de bens de capital do Peru. Em 1981, abrigava
cerca de 27% dos peruanos.
Lagos, Nigérin:' em 1978, a área metropolitana de Lagos
negociava mais de 40% do comércio exterior do país, con­
tava com' 57% do valor adicionado total da atividade manu­
fatureim e continha mais de 40% dos trabalhadores alta­
mente qualificados da Nigéria. Contém apenas cerca de 5%
da população do paCs.
Cidade do México, Mé:xtco: em 1970, com cerca de 24%
dos mexicanos vivendo na capital, esta cidade continha 30%
dos empregos na atividade manufatureim. 28% dos empre­
gos no comér1::io. 38% dos empregos em serviços, 69% dos
empregos públicos, 62% do investimento nacional em edu­
cação superior e 80% das atividade. de pesquisa. Em 1965,
continha 44% dos depósitos bancários do pIlis e 61% dos
créditos nacionais.
Séio Paulo. Brasil: a Grande São Paulo, com cerca de um
décimo da população do Brasil em 1980, contribufa com um
quarto do produto nacional líquido e com mais de 40% do
valor adicionado industrial do paCs.
FOII"': Hardoy, I.E. & Sattertbwaite, D. Shelter, infrastructure and
services in Third World clties. HabitatlnternaMnal, 10(4),1986.
atoais, as cidades do Terceiro Mundo poderiam fazer au­
em três quartos de I bilhão sua população por volta do
Durante o mesmo período, a população das cidades do
industrializado terá crescido em mais I I I milhões.
6
previsões representam um grande desafio para os países
"desenvolvimento. No espaçO de apenas 15 anos (ou cerca de
dias), o mundo em desenvolvimento terá de aumentar em
a capacidade de produzir e administrar sua infra-estrotura,
264
265
"DiaNe da distribuiçtio da renda, da disponibilidade previs(vel
de recursos - nacionais, locais e do rnu.n<kJ inJelro - da tecnolo­
gio atual, da atual debllidode das governos locais e da falta de
inJeresse dos governos nacionais pelos problemas de assenta·
mentos humanos, ndo vejo qua/qul!r soluçtio para as cidodes do
Terceiro Mundo.
Ar cidades do Terceiro Mundo sertió cada vez mais cenlros de
competiçtio acirrada por um pedaço de terra onde se possa
COl'IIttrUir um abrigo. por um quarto para olugar. por um leito de
hospital. por um lugar numa escoÚl ou num 6nihus. e sobretudo
por uma vaga I'IIOS poucos empregos estdvels adequadameirte nt'.
munerodas. e mesmo pelo e$pOÇo numa praça ou calçada onde
se possa expor e vender mercadorias. atividade de que dependem
tantas fomllias.
Os próprios pobres organizam e ajwdam a construir lIUlitos
cios novos cOlliunJos hobitaclonals das cidades do Terceiro Mun·
cio. e o fazem sem a asslstêncÚl de arquitetas. plonejadores e en·
genheiros, OU dos governos locais ou nacionais. AUm disso, em
muitos casos OS governos locais e nacionais importunom bastante
esf"s grupos. Os pr6prios cidodiíos esttio se tornanda, cada vez
mais. os verdadeiros projetistas e construtores das cidades do
Terceiro Mundo, e muitas vezes os adminlstradares de seus pró­
prios bairros."
Jorge Hardoy
InslÍlUIIJ Internacional para () Melo Ambienze e () Desenvolvimento
Audiência pciblica da CMMAD, Silo Paulo, 28-29 de outubro de 1985
seus serviços e habilaç6es urbanos - só para manter as condições
atuais. E em muitos países isso terá de se realizar num quadro de
grandes provações e incertezas econômicas, com recursos abaixo
das crescentes necessidades e expectativas.
9.1.1 A crise nas ddades do Terceiro Mundo
Poucos governos das cidades do mundo em desenvolvimento,
cujas populações crescem a um ritmo acelerado, dispõem de p0­
deres, recursos e pessoal treinado para fornecer-lhes as terras, OI
serviços e os sistemas adequados a condições humanas de vida:
água potável, saneamento, escolas e transportes. O resultado dil·
so é a proliferação de assentamentos ilegais de habitações tosc••,
aglomerações excessivas e mortalidade desenfreada decorrente di
um meio ambiente insalubre.
Na maioria das cidades do Terceiro Mundo as pressões contí­
nuas por moradia e serviços desgastaram as edificações urbanas.
Muitas casas onde habitam pobres estáo em condições precárias.
É comum haver edifícios ptlblicos em franca decadência, neces­
sitando reformas. O mesmo acontece com a infra-estrutura essen­
cial da cidade; veículos coletivos superlotados e em mau estado
de conservação, assim como estradas, ônibus e trens, estações de
transportes, e banheiros e lavatórios ptlblicos. Com os vazamen­
tos nos sistemas de abastecimento de água, a baixa pressão d'água
resultante faz com que os esgotos se infiltrem na água potável.
Uma grande parcela da popuIação das cidades muitas vezes não
dispõe de água encanada, nem de sistemas de escoamento da água
das.chuvas, nem tampouco de estradas.7
Um mimem crescente de pobres nas áreas urbanas pndece de')
alta incidência de doenças, que provêm, em sua maioria, de mll.1
condições ambientais e que poderiam ser evitadas ou drastica-
I
mente reduzidas mediante investimentos relativamente baixos. \
(Ver box 9.2,) Moléstias respiratórias agudas, tuberculose, para­
sitas intestinais e doenças vinculadas a um saneamento precário e
à ingestllo de água contaminada (como diarréia, disenteria, hepa- \
tite e irro) são em geIill endêmicas e uma das causas principais de
DW1bidade e morte, especia.l.tnente entre as crianças. Em certos
pontos de muitas cidades, uma em cada quatro crianças pobres
certamente morrerá por subnutrição acentuada antes de completar
cinco anos, ou um entre dois adultos sofrerá de verminose ou de
pve infecção respiratória.
8
'
Pode-se supor que a poluição do ar e das águas seja menos
piGmente nas cidades do Terceiro Mundo devido aos baixos ní­
veis de desenvolvimento industrial. Mas na verdade centenas des·
sas cidades têm altas conceotrações de indllstrias. Os problemas
de poluição sonora, do ar, das águas e por dejetos sólidos au­
mentam rapidamente, c podem ter impactos dramáticos sobre a
'rida e a saúde dos habitantes das cidades, sua economia e seus
empregos. Mesmo numa cidade relativamente pequena, basta que
Uma ou doas fábricas despejem resíduos no duico rio das redon­
dezas, para que se contaminem as águas que os habitantes da re­
gião usam para beber, lavar c 'cozinhar. Aglomerados miseráveis e
cortiços proliferam perto de inddstrias poluidorns, uma vcz que
:-.. torras silo desprezadas pelos demais. Tal proximidade au­
r-..rou os riscos para os pobres, fato demonstrado pelos grandes
,.frimentos e perdas de vidas hwnanas em diversos acidentes in·
~ r e c e n t e •.
A expansão ffsiea descontrolada das cidades também teve sé· (
implicações para a economia e o meio ambiente urbano. O (
deseníreado toma moradias, estradas, abasteci­
266
267
Box 9.2 Problemas ambientais nas cidades
do Terceiro Mundo
Das 3.119 vilas e cidades da índia, somente 209 tinham es­
gotos parciais e somente oito tinham uma rede completa de
esgotos e serviços de tratamento de esgotos. No rio Ganges
são despejados diariamente os esgotos sem trntamento das
114 cidades que ele banha, cada uma com SO mil habitantes
ou mais. As fábricas de DDT, curtume" fábricas de papel e
polpa, complexos petroqufmicos e de fertilizantes, fábricas
de borracha e inúmeras outras indústrias lançam seus resí­
duos no rio. O estuário de Hoogly (perto de Calcutá) está
entulhado dos resíduos industriais não-tratados de mais de
150 das grnndes indústrias dos arredores dessa cidade. Ses­
senta por eent<'l da população de Calcutá sofre de pneumo­
nia, bmnquile c outras doenças respiratórias associadas à
poluição do ar.
As indústrias chinesas, a maioria das quais utiliza carvão
em fomos e caldeiras se concentram em êerca
de 20 cidades e fazem com que o ar apresente um índice
elevado de poluição. A mortalidade por câncer de pulmão
nas cidades chinesas é quatro a sete vezes mais alta do que
no país como um todo, e a diferença é atribuída em grande
parte à forte poluição do ar.
Na Malafsia, o Vale de Klang (onde fica a capital. Cuala
Lumput), altamente urbanizado, tem índices de poluição
duas a três vezes mais altos que oS das principais cidades
dos EUA, e o sistema fluvial do rio KJang está altamente
contaminado por esgotos e emanações industriais e agríco­
las.
FQft/es: Centre for Seienee 000 Environment. SitUe oflndids eovi­
wnmenJ; a citizens' reporto New Delhi, 1983; SmiI, V. TIte bati ear­
Ih; environmental degradation in China. London, Zed PIe .., 1986;
Sahabat AIan MlIlaySÍll. TIte SfOIe ofMalaysian envÍTonment /983·84
-lO'WO.Ttis grea/l!r environmenJal Qlvareness. Penang, MaJaysia. 1983.
mento de água, esgotos e serviços pdblicos proibitivamen\e caros.
As cidades muitas vezes são construídas sobre as terras agrícolas
mais produtivas, e o crescímento não-orientado resulta na perda
desnecessária dessas terras. Tais perdas são mais graves nas na­
ções com áreas cultiváveis limitadas, como o Egito. O desenvol­
vimento a esmo também consome as terras e paisagens natural.
necessárias para parques urbanos e áreas de lazer. Quando se OI'­
I
guem construções em uma área, toma-se difícil e dispendioso re­
criar espaços abertos.
. Em geraI, o crescimento urbano muitas vezes precede o esta­
belecimento de uma base econômica sólida e diversificada para
apoiar o incremento da infra-estrutura, habitação e emprego. Em
muitos lugares, os pmblemas estão ligados a padrões inadequados
de desenvolvimento industrial e à falta de coereneia entre ... es­
tratégias de desenvolvimento agrícola e urbano. O vínculo entre
as economias nacionais e os fatores econômicos internacionais foi
trnlado na Parte I deste relatório. A crise econômica mundial dos
anos 80 não redundou somente em menores rendas" maior
prego e na eliminação de muitos programas sociais. Ela também
exacerbou a já baixa prioridade dada aos problemas urbanos, au­
mentando a deficiência crônica dos recursos necessários para
construir, manter e administrar áreas urbanas.
9
9.1.2 A situação nas ddades do mundo industrializado.
O fato de a Comissão enfatizar a crise urbana nos países em de­
senvolvimento não significa que O que ocorre nas cidades do
mundo industrializado não seja de importância crucial para o de­
senvolvimento sustentável em âmbito global. Pelo contrário. Tais
cidades são responsáveis por uma grande pareela do uso de recur­
sos, consumo de energia e poluição ambiental do mundo. Muitas
delas são de alcance global e obtêm seus recursos e sua energia
de terras distantes, com fortes impactoS coletivos sobre os ecos­
sistemas dessas telT8S,
Tampouco a ênfase sobre as cidades do Terceiro Mundo impli­
ca: a hipótese de que os problemas das cidades dos países indus­
·trializados nãa são sérios. Eles o são. Muitas delas enfrentam
problemas de infra-estrutura deteriorada, degradação ambiental,
decadência do centro urbano, descaracterização dos bairros. Os
desempregados, os idosos e as minorias étnicas e raciais podem
mergulhar numa espiral descendente de degradação e pohreza, à
medida que as oportunidades de emprego diminuem e os indiví­
duos mais jovens e mais instruídos vão abandonando os bairros
decadentes. Os governos municipais ou das cidades muitas vezes
enfrentam um legado de imóveis públicos mal-acabados e mal
conservados, custos cada vez mais elevados e hases tributárias
declinantes.
Mas a maioria dos países industrializados tem os meios e os
IIICUtSOS para combater a decadência dos centros urbanos e seu
correspondente declínio econômico. De fato, muitos conseguiram
_rter essas tendências por meio de políticas lúcidas, da coope­
entre os setores público e privado, e de investimentos im­
268
269
portantes em pessoal, instituições e inovações tecnológicas. 10 As
autoridades locais geralmente detêm o poder político e a credibi­
lidade para tomar iniciativas, fazer avaliações e empregar recur­
sos de modos criativos que reflitam as- condições locais específi­
cas. Isso lhes dá capacidade para administrar, controlar, fazer ex­
periências e promover o desenvolvimento urbano. As economias
de planejamento centraliZado têm demonstrado uma significativa
capacidade de projetar e implementar programas. de desenvolvi­
mento urbano. A prioridade aos bens coletivos e não ao COnsumo
individual também pode ter aumentado a disponibilidade de _
cursos para o desenvolvimento urbano.
Com o passar do tempo, o meio ffsico em várias cidades do
mundo industrialiZado melhorou substancialmente. Segundo os
registros históricos de muitos dos principais centros urbanos
como Londres, Paris, Chicago, Moscou e Melbourne - há poUCO
tempo, grande parte de sua população sofria desesperadamente os
efeitos de uma vioJio'lta poluição. As condiçôes melhoraram bas­
tante durante o século passado, e essa tendência continua, embora
variaodo de ritmo de cidade para cidade e dentro de cada uma.
A maioria das áreas urbanas dispõe de serviços de coleta de li­
xo para quase toda a população. A qualidade do ar em geral me­
lhorou, com o declínio da emissão de partículas e de óxidos de
enxofre. as esforços para recuperar a qualidade da água das ci­
dades·tiveram êxito apenas relativo, devido à poluição que vem
-de fora, sobretudo por nitratos e outros fertilizantes e pragoicidas.
Muitas áreas costeiras, porem, próximas dos grandes emissários
de esgotos, apresentam deterioração considerável. Há uma pre0­
cupação crescente em relação aos poluentes químicos na água
potável e aos impactos dos rejeitos tóxicos sobre a qualidade das
águas subterrãoeas. E a poluição sonora tende a aumentar.
as veículos automotores influenciam muito as condições am­
bientais das cidades no mundo industrializado. Vários fatores
contribuíram para reduzir os impactos do trânsito urbano: a re­
cente queda do ndmero de veículos em circulação, os padrões
mais restritos de escapamento para os novos veículos, a distribui­
ção de gasolina que não contém chumbo, as melhorias no rendi­
mento dos combustíveis, o aperfeiçoamento das políticas de ad­
ministração do trânsito e o trabalho de paisagistas.
A opinião pública tem desempenhado um papel fundamental
nas campanhas para melhorar as condições urbanas. Em algumas
cidades, a pressão popular fez com que se abandonassem projetos
maciços de desenvolvimento urbano; promoveu sistemas habita­
cionais em bases mais humanas, conteve a demolição de certos
ediffcios e bairros históricos, modiÍlCou a proposta de construções
"As grandes cidades são par definição ambie[ltes centralizados,
feitos pelo homem. e dependem basicamente de ali.mentos, água.
energia e outros bens que vhn de fora. Já as cidades me".,res
podem ser o cerne do desenvolvimento de base comunitária. e
oferecem serviços à zona rural que as circunda.
Diante da importância das cidades. são necessdrios esforços e
lt'Ieio$ de preservação especiais para garanrir que os recJf.. "sos de
que necessitam. sejam produz/dqo' de forma sustentável, e que oS
habitantes urbanos participem das decisões que afetam as suas
vidas. As áreas residenciai,.. tendem a ser mais habitáveis se fo­
rem governadas por bairro. com a participação local direta. Na
medida em que se puder obter energia e outros bens necessdrios
"., próprio local, tanto a cidade quanto seus arredores ficarão
em melhor situação."
o desenvolvimento sustentável e como alcançá-lo
Global Tomorrow CoaIílion
Audiéncia p6blicada CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
de mdovias nas cidades e conseguiu que terrenos baldios fussem
convertidos em áreas de lazer.
Os problemas que aioda existem são graves, mas afetam áreas
.relativamente linútadas, o que toma muito mais fácil lidar com
eles do que com os do Cairo ou da Cidade do México, por exem­
plo. Certos aspectos da decadência urbana cbegam mesmo a pos­
sibilitar melhorias no meio ambiente. O êxodo das populações e
das atividades econÔmicas, embora crie graves dificuldades eco­
nômicas e sociais, reduz a congestão urbana, propicia novos usos
aes prédios abandonados, protege os bairros urbanos históricos da
ameaça de demolições e .reconstruções espcculatívas, e contribui
para a renovação urbana. A desindustrialização dessas cidades é
muitas Ve7.es contrabalançada pelo crescimento do setor de servi­
que traz consigo seus próprios problemas. Mas essa tendên­
ria oportunidades de remover as fontes de alta poluição in­
16strial das áreas residenciais e comerciais.
. combinação de teCnologia avançada, economias nacionais
fortes e uma infra-estrutura institucional desenvolvida confe­
lI'elastícídade e fornece o potencial para uma renovação contínua
. cidades no mundo industrializado. Havendo flexibilidade, es­
agir e espírito inovador por parte das lideranças locais,
para os países industrializados se resume, em última
a uma questão de opção política e social. Para os países
270
271
em desenvolvimento, a situação é bem outra: eles estão a braços
com uma crise urbana de grandes proporções.
9.2 O DESAFIO URBANO NOS PAÍSES
EM DESENVOLVIMENTO
Os assentamentos - a rede urbana das cidades, vilas e aldeias ­
abrangem todos os aspectos do meio ambiente em que ocorrem as
alterações sociais e econômicas das sociedades. Do ponto de vista
as principais cidades do mundo constituem uma re­
de para a alocação de investimentos e para a produção e venda de
,I muitos bens e serviços. Esses grandes centros são os primeiros a
I
se conectarem nessa rede, através de seus portos e aeroportos e
seus serviços de telecomunicações. As novas tecnologias em geral
aparecem e são postas em prática primeiro nas grandes cidades,
depois nas pequenas. Somente se os grandes centros estiverem
I'
finnemente conectados com essa rede é que poderão atrair inves­
I
11
timentos em tecnologias e bens manufaturados para os mercados
mundiais. Do ponto de vista nacional, as cidades são verdadeiras
1I
incubadoras das atividades econômicas. Algumas empresas são de
grande escala, mas a grande maioria é de pequena escala, e faz de
I!
tudo, desde vender refeições rápidas até consertar sapatos ou
construir casas. O crescimento dessas atividades é a base da eco­
)1
"
nomia interna.
1I
9.2.1 Estratégias urbanas nacionais
11
II
A evolução natural desse emaranhado de no en­
tanto, causou preocupações na maioria dos países em desenvol­
vimento. Um motivo especial para isso tem sido o crescimento
descomunal de uma ou mais cídades. Em certos o desejo
de limitar esse crescimento levou à adoção de políticas relativas
ao espaço urbano para acelel'a! o desenvolvimento de .centros se­
cundários. Por trás disso há uma preocupação particular com o
fato de o crescimento desequilibrado estar acentuando as dispari­
dades inter-regionais e criando desequiHbrios econômicos e 00·
dais que podem ter sérias conseqüências em tennos de unidade
nacional e estabilidade polftica.
Embora longe de serem conclusivos, os dados disponíveis su­
gerem que a maioria das tentativas dos governos centrais para
equilibrar o desenvolvimento do espaço urbano tem sido tão dis­
pendiosa quanto inefIcaz. As principais políticas macroeconômi­
cas. sociais e setoriais muitas vezes têm sido diametralmente
opostas à política de descentralização. Os investimentos apoiadol
272
"Observamos que o bcodo para as zonas urbanas é inevÍldVf!!I:
M uma série de fatores 'de repulsdo' que atuam nas zonas ru­
rais. A pluralizaçdo rural deriva da ausência de rtiforma agrd­
ria, da aumento da absentel'smo, da deslocaml!nJo da Revolução
Verde.
Além dos faJores 'de repulsdo' dos zonas rurais, M natural­
mente OS falares 'de atraçdo' das cidades. o charme da Cidade
Grande, os maiores saldrios das empregos urbanos em compara­
çdo com as passibilidades de renda rural. Foi assim q"" cresceu
o setor iriformal de Jacarta: dos 7 milhões de habitantes de Ja­
carta. talvez 3 ou 4 milhões dais terços pelo menos - .rejam o
resultado do êxodopara as zonas urbanas. "
George Adicondro
Diretor da Fundação [rum Jaya para o Desenvolvimento
da Comunidade Rural
Audiência pública da CMMAD, Jacarta. 26 de março de 1985 .
pelos governos e agências oficiais de ajuda seguiram a mesma ló­
aica centralizadora dos investimentos privados, e construíram
sistemas de transporte, instituições educacionais, postos de saúde,
-.viços e infra-estrutura urbana onde isto se fazia necessário _
AlI cidade principal. A migração rural-urbana seguiu o mesmo pa­
4riIo. O motivo principal de tantas pessoas terem migrado nos úl­
limos decênios para cidades COmo Nairóbi, Manilha, Lagos, Ci­
dade do México, São Paulo, Rangum ou Porto Príncipe foi o pa_
pol preponderante que cada um desses centros passou a desempe­
... na economia de seu país,
. As políticas macroeconômicas e de fixação de preços adotadas
governos reforçaram ainda mais essa concentração. As
cidades, e muitas vezes a capital. em geral recebem uma
lesproporcionalmente grande do total de gastos nacionais
lIí ensino e em subsídios para reduzir os preços de ágoa, eletrici­
. óleo diesel e transporte público. As taxas de frete ro­
vezes favorecem as estradas que passam pela capital.
fmpostoa de propriedade no centro e arredores da cidade po_
alar defasados. As indústrias novas ou em expansão que fo­
i Impulsionadas pelas políticas de substituição das importaçõcs
!Itimuladas a se estabelecer na capital ou em seus arredo-
políticas agrícolas e alimentares também tenderam a pro­
·0 rápido crescimento das gr.mdes cidades. O pequeno ou
apoio econômico aos produtos agrícolas afastou os
273
pequenos proprietários de suas terrao- e aumentou o número de
pobres nas zonas rurais. Muitos foram atraídos para as cidades
devido aos p,reços dos alimentos mais baixos por causa
dos subsídios. Mas nos últimos anos alguns países em desenvol­
vimento viram que era possível começar a desviar mais receitas
das grandes cidades para as zonas rurais e cidades menores. Em
certos casos, as polfticas de promoção das pequénas propriedades
rurais e da agricultura intensiva tiveram esse efeito. O aumento da
produção, o crescimento do emprego agrícola e as rendas médias
mais altas estimularam o desenvolvimento de centros pequenos
e intennediários nas regides agrícolas que eles atendem. f2
Podem-se extrair algumas lições importantes das estratégias
sobre espaço físico ligadas ao desenvolvimento urbano:
• nada senão a coerção evitará o crescimento da cidade grande
nos primeiros estágios do desenvolvimento;
• a chave de uma intervenção bem-sucedida é o fato de ser opor­
tuna, de modo a só estimular a desconcentração quando começa­
rem a rarear as vantagens da concentração;
• deve-se evitar a adoção de políticas que aumentem a atração da
eidade grandey em especial os subsídios à energia e aos alimentos,
a provisão por demais generosa de infra-estrutura urbana e outros
serviços. e a excessiva concentração de poder adminislJ"ativo na
capital;
• a melhor maneira de estimular o crescimento de centros secun­
dários é aproveitar as vantagens econômicas naturais de suas re­
giões, especialmente em tennos de processamento e mercadologia
de recursos, com o fornecimento descentralizado de serviços pú­
blicos;
• os métodos e estratégias de desenvolvimento rural e urbano de­
vem ser complementares, e não contraditórios: o desenvolvimento
dos centros secundários visa ao benefício econômico direto das
áreas por eles servidas.
As oportunidades de emprego e facilidades de moradia propor­
cionadas pelas cidades são essenciais para absorver o aumento
populacional com o qual o campo não pode conviver; desde que
não haja interferêncía dos controles de preços e dos subsídios, o
rnerçado urbano deve oferecer vantagens aos produtores rurais.
Mas é claro que há conflitos entre os habitantes das cidades e os
agricultores dos países em desenvolvimento. A mola mestra da
discussão sobre segoraoça alimentar (ver capítulo 5) foi asseverar
a importância de voltar decididamente as "relações de troca" a
favor dos agricultores, em especial os pequenos, mediante políti­
cas cambiais e de fixação de preços. Muitos países em desenvol­
vimento não estão implementando tais políticas, em parte por me­
do de perderem o apoio de facções urbanas politicamente podero­
sas. Assim, não consegoem deter a migração para as cidades nem
promover a segurança alimentar.
Tais considerações podem fornecer a base para a elaboração de
urna estratégia nacional explícita sobre assentamentos urbanos e
de políticas que tragam soluções locais criativas e eficazes para
os problemas das cidades. Cada governo tem efetivamente essa
estratégia, mas na maioria das vezes de forma implícita, em urna
série de políticas macroeconômicas, fiscais, orçamentárias, ener­
géticas e agrícolas. Tais polfticas em geral foram Se incrementan­
do em resposta às pressões diárias, e quase sempre eram contra­
ditórias, não só entre si como em relação às metas de assenta­
mentos urbanos estabelecidas pelo governo. Urna estratégia urba­
na nacional poderia propiciar Um conjunto explícito de metas e
priOridades para o desenvolvimento do sistema urbano de uma
nação e de seus centros pequenos, médios e grandes. Tal estraté­
gia deve ir além do planejamento físico ou espacial. Requer que
os governos encarem a política urbana de forma bem mais ampla
do que a têm tradicionalmente adotado.
Havendo urna estratégia explícita, as nações podem começar a
reorientar as principais políticas econômicas e setoriais que
atualmente contribuem para acentuar o crescimento das megaló­
poles, a decadência urbana e a pobreza. Do mesmo modo, podem
erornover melhor o desenvolvimento dos centros urbanos peque­
nos e médios, o fortalecimento de seus governos locais, e o
dos serviços e instalações necessários para atrair in­
vestimentos e iniciativas com vistas ao desenvolvimento. Os Mi­
!Ústérios do Planejamento, da Fazenda, da Indústria e da Agri­
C1iltura devem ter metas e critérios precisos para poderem avaliar
011 efeitos de suas políticas e de seus gastos COm o desenvolvi­
llJento· urbano. Políticas e programas contraditórios podem ser
No mínimo, podem-se estudar os desvios, em tenuos
de espaço físico9 inerentes às políticas fiscais e macroeconônúcas,
lI9S orçamentos anuais, às estruturas de preços e aos planos de in­
YOStimento setorial. Com essa estratégia, os instrumentos tradi­
da política urbana, inclusive o planejamento e o controle
da terra, teriam maior chance de ser eficazes.
I 'A responsabilidade de formular tal estratégia sem dúvida cabe
.,""mo central. Acima de tudo, no entanto, o papel dos go­
centrais deve ser essencíabnente O de dar aos governos 10­
mais possibilidades para encontrar e pôr em prática soluções
jIIcazes para os problemas urbanos locais, bem corno de estimular
toportunidades locais.
274
9.2.2 FortaJedmento du autoridades locais
As estruturas legais e institucionais do governo local na maioria
dos países em desenvolvimento são inadequadas a esses propósi­
tos. Na maioria das nações asiáticas e africanas, a estrutura do
governo urbano remonta aO penodo colonial: destinava-se a lidar
com sociedades predominantemente rurais e agrícolas. Nunca es­
teve voltada para o problema da rápida urbanização nem para a
administração de cidades com muitos milhões de habitantes. Os
governos das nilçóes que se tomaram independentes recen'temente
herdaram uma estrutura de leis e de procedimentos totalmente
inadequados para ttatar dos processos urbanos que teriam de en­
frentar mais cedo ou mais tarde. Apesar disso, em muitas nações
essa estrutura herdada permanece ainda, em grande parte.
Nos lugares onde 'Ü passado colonial imediato é menos evi­
dente, como na maioria dos países latino-americanos, as estrutu­
ras legal, institucional e política do governo local são muitas ve­
zes igtlaimente inadequadas. Em sua maioria, assim como na Ásia
e na África, baseiam-se em modelos importados da Europa ou da
América do Norte. Isso faz com que essas nações tenham dificul­
dades para influenciar o rumo da urbanização e administrar os
problemas dos grandes centros urbanos em rápida expansão. As­
sim. criararn-se cidades que consomem. muita energia e matéria­
prima. e que dependem da,s importações, o que aumentou o ônuS
sobre a economia nacional, inclusive devido às pressões sobre o
comércio exterior e o balanço de pagamentos.
O desenvolvimento urbano não pode se basear em esquetnlls
padronizados, importados ou não. As possibilidades de desenvol­
vimento são particulares a cada cidade e devem ser avaliadas no
limbito de sua própria região. O que funciona numa cidade pode
ser totalmente inadequado em outra. Embora possa baver necessi­
dade de ajuda técnica por parte de agências centnús, somente um
governo local forte pode garantir que as necessidades, os hábitos.
as formas urbanas, as prioridades sociais e as condições ambien­
tais da área se reflitam nos plaI\os locais de desenvolvimento ur­
bano. Mas as autoridades locais não têm recebido o poder políti­
co, a capacidade de tomar decisões e o acesso à receita necessá­
rios para executarem suas funções. Isso leva à frustração, à crítica
constante aos governos locais pela deficiência ou ineficiência dos
serviços, e a uma espiral descendente de fracasso sobre fracasso.
A falta de acesso político a uma base fmanceira adequada é
wna das principais fraquezas dos governos locais em muitos paC­
seS em desenvolvimento. A maioria desses governos tem dificul­
dades de obter receita suficiente para cobrir suas despesas opera­
cionais. sem falar nas dificuldades para fazer novos investimentol
"Uma alta percemagem de jovens. e mesmo de adulto.... nos pàl­
se... do Terceiro Mundo, e...t4 de...empregada. Queremos tecnolo­
gia. simples em que uma SÓ pessoa possa exercer um tipo de em­
prego capoz de oferecer oportunidades de emprego para cenJ:e­
nas de outras. Que estamos fazendo com o potencial excedente
de energia? Por isso torno a dizer que o desenvolvimenJ:O são as
pessoas, e não a alta tecnologia. nem a I7'1CJdernização, nem a
ocide1Jlalização. Mas deveria ser adequndo do ponto de vista
cultural. "
lan Selcgo
Warld Vision Intemali(JooI
Audiência pública da CMMAD, Nairóbi, 23 de setembro de 1986
a fun de ampliar serviçós e recursos. Mesmo os governos de cida­
des mais ricas têm acesso apenas ao equivalente a US$10-50 por
babitante ao ano. para investimento. Apesar dessas deficiências, a
tendência nos óltirnos decênios tem sido no sentido de os gover­
ll<IS nacionais reduzirem a capacidade Ímanceira dos governos 10­
eais em tennos reais.
Disso resulta uma crescente centralização e deficiências cons­
tantes tanto em nível central quanto local. Em vez de fazerem
bem algumas coisas, as autoridades centnús acabam fazendo mal
coisas demais. Os recursos humanos e financeíros têm de ser esti­
cados ao máximo. Os governos locais não recebem a autoridade,
apecialização e credibilidade necessárias para lidarem com os
problemas locais. '
Paru se tomarem agentes-chave do desenvolvimento, os gover­
_ das cidades precisam de maior capacidade política. financeira
• institucional, e sobretudo de acesso a uma parcela maior da ri­
queza gerada na cidade. Somente desse modo as cidades poderão
ldaptar e desenvolver uma parte da vasta gama dos instrumentos
disponíveis para ttatar dos problemas urbanos - instrumentos co­
o registro de propriedade de terras, o controle do uso da terra
, distribuição de impostos.
Autonomia e envolvimento das cidadãos
,.maioria dos países em desenvolvimento, de 25 a 50% da pc­
urbana economicamente ativa não conseguem encontrar
vida estáveis e adequados. Como há poucos empregados
lOIIÍvels nas fJ.rmas privadas ou no serviço público. as pessoas
buscar ou criar suas próprias fontes de renda. Esses esfor­
276
277
ços resUltaram no rápido crescimento do que se convencionou
chamar "setor informal", que fornece grande parte dos bens e
serviços baratos essenciais para as economi8$, os negócios e os
consumidores das cidades.
Assim, embora muitas pessoas pobres possam não estar ofi­
cialmente empregadas, a maioria está trabalhando - em fábricas
ou Ímnas de construção não-registradas, vendendo mercadorias
pelas ruas, confeccionando roupas em suas casas, ou ainda como
serventes ou guardas nos bairros ricos. A maioria dos chamados
desempregados está trabalhando de fato lO a 15 horas por dia,
seis a sete dias por semana. Seu problema não é tanto de subem­
prego, mas de baixa remuneração.
Grande parte da construção, reforma e ampliação de casas nas
cidades dos países em desenvolvimento é feita fora dos planos
oficiais e geralmente em assentamentos ilegais. Este processo mo­
biliza recursos inexplorados, contribui para a formação de capital
e estimula o emprego. Esses criadores do setor informal repre­
sentam uma fonte importante de emprego urbano, sobretudo para
a mão-de-obra barata e não-qualificada. Eles não são capital-in­
tensivos, não exigem muita tecnologia nem dispendem muita
energia. e em geral não drenam divisas. A seu modo, dão sua par­
cela de contribuição para atingir alguns dos principais objetivos
de desenvolvimento do pais. Além disso, são flexíveis ao supri­
rem as necessidades de demandas locais, satisfazendo em parti­
cular às famílias mais pobres, que em geral não têm a quem recor­
rer. Muitos governos já começaram a perceber que é mais sábio
tolerar seu trabalho que o reprimir. A intimidação em grande es­
cala das comunidade.. de posseiros agora é mais rara, embora ain­
da aconteça.
Os governos devem apoiar mais o setor informal, reconhecen­
do suas funções vitais no desenvolvimento urbano. Alguns fize·
ram isso, facilitando empréstimos e crédito para pequenos empre­
sários, criando cooperativas e valorizando as associações de bair­
ros. Dar titulo de posse aos que ocupam terrenos ilegalmente é
básico nesse processo, assim comO facilitar algumas regulamenta­
ções sobre construção e moradia.
As agênCias bilaterais e multilaterais de assistência ao desen­
volvimento devem seguir esse exemplo. e algumas já o fazem.
Organizações voluntárias não-governamentais e privadas estão
surgindo em muitos países para o fornecimento de canais de as­
sistência eficazes em tennOS de custos, com a garantia de que essa
assistência chegue aos que podem aproveitá-Ia. Uma parcela
muito maior poderia ser canalizada diretamente por meio dessas
organizações.
Tais medidas também reforçariam a auto-suficiência e a in­
fluência local dos pobres em suas próprias associações de bairro.
Por iniciativa e com recursos próprios, os pobres de muitas cida­
des do Terceiro Mundo se organizaram e preencberam lacunas
nos serviços. deixadas pelo governo local. Entre outros pontos, os
grupos comunitários se mobilizam e organizam O levantamento de
ftmdos ou meios de ajnda mlltua para lidar com os problemas de
saúde, meio ambiente e segurança específicos da área.
Os governos devem abandonar uma posição de neutralidade ou
antagonismo e passar a dar apoio ativo a tais esforços. Alguns já
institucionalizaram de fato esses programas, de modo a fazer com
. que agências e ministérios públicos trabalhem continuamente com
as organizações comunitárias. Na cidade indiana de Hiderabade,
por exemplo, o Departamento Comunitário de Desenvolvimenlo
Utbano, instituído pelas autoridades municipais, trabalha direta­
mente com grupos comunitários e organizações não-governamen­
tais nos bairros mais pobres. Em 1983, os residentes em áreas de
baixa renda criaram 223 organizações, mais 135 associações de
jovens e 99 grupos de mulheres. \3 Assim. os governos podem se
tornar parceiros e patrocinadores das pessoas que são a estrutura
humana principal de suas cidades.
9.2.4 Habitação e serviços para os pobres
Em várias cidades do mundo em desenvolvimento, existem pou­
aos habitações de baixo custo. Em gerai as pessoas de baixa renda
.ou alugam quartos - seja em casas de cômodos Ou pensões, seja
.. casa ou no barraco de outra pessoa - ou então constroem ou
çampram uma casa ou barraco em terreno de ocupação ilegal. Há
diversos tipos de gradações de ilegalidade, e isso influencia o
grau: de toleráncia dos governos para com a existência de tais
ocupações, ou mesmo o suprimento de recufllOS e de serviços pú­
-ltlicos.
Seja de que tipo for, as acomodações de baixa renda em geral
,apresentam três caracteristicas. Primeiro, seus serviços e infra-es­
,Inltum são inadequados ou inexistentes - inclusive em matéria de
_SOIm;, água encanada e outros meios higiênicos de eliminar de­
,jetos humanos. Segundo, as pessoas vivem amontoadas e com­
'JIri!nidas. o que pode provocar a propagação de doenças conta­
..posas. sobretudo quando há baixa de resistência devido à subnu­
triçlio. Terceiro, as pessoas pobres geralmente constroem em ter­
lMIDOlI inapropriados para moradia humana: terrenos pantanosos,
jIIIIertos arenosos, morros sujeitos a desmoronamentos, ou áreas
jtr6ximas a indolstrias poluidoras. Escolhem esses locais por serem
278
279
"As favelas descobriram sua própria técnica, seus próprios re­
cursos, sem qualquer assistl!ncía de quem quer que seja, e resol­
veram seus problemas habitacionais. O verdadeiro problema não
é esse. É a pobreza, a falta de púJnejamento, a falta de assistên­
cia técnica, a falta de financiamento pora ctJm{?rar mmeriais de
construÇão, afalta de equipamento urbano. .
Para mudar a polftica hábitacional de assenramentos huma­
nos, estinwlar a construção por inicfativa própria,
em vez de financiar esses enormes conjuntos habitacionais. Seria
muito melhor e custaria muito menos ajudar as pessoas a
rru{rem sua própria moradia.
De modo geral, porece evidente que, se não forem satisfeitas
as necessidades básicas do ser humano, a preocupação com o
meio ambiente tem de ficar em segundo plano. O hamem precisa
primeiro sobreviver. atender e corresponder a suas necessidades
básicas de sobrevivência - alimentação. moradia, saneamento ­
e depois cuido.r do meia ambiente."
Walter Pinto Costa
Presidente da Associação de Saneamemo Ambiental
Audlência pública da CMMAD, São Paulo, 28-29 de outubro de 1985
terras de baixo valor comercial, e, portanto. ser menor o risco de
expulsão.
As estruturas de propriedade de terras e a incapacidade ou a
má vontade dos governos para nelas intervir são talvez os fatores
que mais contribuem para os assentamentos '4ilegais" e o
menta urbano caótico. Quando a metade ou mais da força de tra­
balho de urna cidade não tem qualquer chance de obter legal­
mente um pedaço de terra onde construir uma casa. ou sequer de
comprar ou alugar uma casa legalmente. o equiUbrio entre os di­
reitos de propriedade privada e o bem público deve ser rapida­
mente repensado.
Diante das tendências de urbanização na maioria dos pafses em
desenvolvimento, não há tempo para esperar por programas lentos
e incertos. A intervenção do governo deve ser reorientada de mo­
do a que os recursos limitados sejam aproveitados ao máximo em
prol da melhoria das condições habitacionais dos pobres. São
muitas as opções de intervenção (ver box 9.3), mas os governos
devem se orientar por estas sete propriedades:
• dar posse legal de imóveis aos que vivem em assentamentos
"ilegaiS", com tftolos garantidos e serviços básicos fornecidos
pelas autoridades públicas;
• garantir a disponibilidade da terra e de outros recursos de que
as pessoas necessitam para construir ou melhorar sua moradia;
• suprir de infra-estrutura e serviços as novas zonas habitacionais
e as já existentes;
• instalar escritórios nos bairros para aconselhamento e assistên­
cia técnica sobre a maneira melhor e mais econômica de construir
Uma casa, e sobre como melhorar as condições de saúde e higie­
ne;
• planejar e orientar a expansão fisica da cidade, de modo a ante­
cipar e poder suprir a necessidade de terreno para novos conjun­
tos habitacionais, para cultivo, ou para a construção de parques e
áreas de lazer para crianças;
• considerar de que modo a ação governamental poderia melhorar
as condições dos proprietários e dos que se alojam em quartos ba­
tatos ou casas de cômodos;
• modificar os sistemas financeiros habitacionais, a fun de abrir
possibilidade de empréstimos de baixo custo para grupos comu­
nitários c de renda mais baixa.
A maioria das cidades necessita com urgência que se aumente
ampla e continuamente a disponibílidade de locais para habita­
ções baratas perto dos principais centros de emprego. Somente o
governo pode consegoir isso, mas para tanto não há prescrições
gerais. As sociedades diferem sobremaneira no modo de encarar
os direitos de propriedade privada e de uso da terra, de usar dife­
rentes instrumentos tais como doações diretas, eliminação de dí­
vidas tributárias ou dedução de juros sobre hipotecas, e de tratar a
especulação fundiária, a corrupção e outras atividades indesejá­
veis que em geral acompanham processos desse tipo. Embora os
meios sejam peculiares a cada nação, o fim deve ser o mesmo: a
garantia, por parte dos governos, de que há opções legais, mais
bem situadas·e com melbores serviços, para os lotes de terreno
ilegais. Se esSa necessidade não for satisfeita, o crescimento caó­
tico das cidades - e os altos custos daí decorrentes - não terá fim,
Além da terra, os materiais de construção são outro fator de
alto custo para a edificação de moradias. O apoio do governo pa_
ra a produção de todo tipo de material, inclusive certos compo­
nentes de estrutura. como ferragens e encaixes, poderia reduzir os
custos habitacionais e criar muitos empregos. As pequenas lojas
de materiais dos hairros em geral trazem vantagens em termos de
economia, devido ao baixo custo do transporte da loja ao local
das obras.
Os códigos e padrões de construção. em sua maioria, são igno­
rados, porque segar-los significa edificar prédios excessivamente
'OIU'OS para a maioria das pessoas. Um método mais eficaz seria
lialltalar nos bairros cscritórios para dar aconselhamento t6cnico
280
Box 9.3 Três maneiras de usar US$20 milhões
para melhorar as c:ondjçóes de uma ddade de
1 milhão de habitaote.
Opçliol:
Construir 2 mil unidades habitacionais pdblic8s para famí­
lias pobres (com uma média de seis pessoas), cada uma ao
preço de US$IO mil. Há melhoria de condições para 12 mil
pessoas, mas a recuperação do custo possível para as famí­
lias pobres é pequena. Se· a população da cidade awnentM
5% ao ano, em mais de 10 anos haverá 630 mil novos habi­
tantes, de modo que apena .. uma fração mínima da popula­
ção total será beneficiada.
Opçlio2:
Criar um "sístema de assentamentos..com-serviços". pelo
qual as famílias pobres ficam responsáveis pela construção
de suas casas em um local estipulado abastecido de água en­
canada, ligado a um sistema de esgotos, e com serviços de
eletricidade, estradas e drenagem. Ao preço de US$2 mil
por lote, isso significa moradia para umas 60 mil pessoas ­
cerca de 10% do awnento populacional da cidade em 10
anos.
Opçlio3:
Alocar US$IOO mil para uma organização de bairro que re­
presente I mil famílias pobres (6mil pessoas) num assenta­
mento de baixa renda já existeote. O objetivo é melhorar as
estradas e os serviços de drenagem, construir uma clínica
médica, criar uma cooperativa para produzir materiais e
componentes de construção a baixo custo, e reestruturar o
conjunto, para melhorar o acesso às estradas e obter 50 n0­
vos lotes. São suficientes US$IO milhões para custear 100
dessas iniciativas comunitárias, que beneÍtciam 600 mil pes­
soas e proporcionam 5 mil novos lotes residenciais. Isso es­
timula muitos novos empregus. Os restantes US$1O milhões
são utilizados nas instalações de água encanada; a US$lOO
por fanúlia, são beneficiadas todas as 600 mil pessoas.
Muitas pessoas pobres alugam moram.; e metade ou mais de
toda a população de uma cidade pode ser constituída de inquili­
nos. Para quem precisa morar de aluguel, faz pouca diferença que
haja mais disponibilidade de áreas para construir, de materiais. e
crédito. Uma possibilidade seria dar apoio financeiro a organiza­
ções não-govemarnentais e não-lucrativas para a compra e melho­
ria de imóveis especificamente com fins de aluguel. Outra seria
dar apoio financeiro para os locatários se associarem aos pr0­
prietários e converterem a posse do imóvel em uma propriédade
cooperativa.
Os governos, sobretudo quando carentes de recursos, podem
argumentar que o abastecimento de água encanada e os sistemas
de esgotos são por demais dispendiosos. Em conseqüência, os
pobres podem ter de pagar muito mais por litro d'água de canú­
nhões-pipa do que o preço pago pelos grupos de renda média ou
mais alta pelo serviço pl1blico de água encanada em suas casas.
Os sistemas ocidentais de esgotos carregados pelas águas e usinas
de tratamento podem sair a um preço proibitivo. Mas outras técni­
cas e sistemas custam entre um décimo a um vigésimo desse preço
por famfiia, e a maioria deles utiliza muito menos água. Além dis­
so, a tecnologia de baixo custo pode ser melhorada com O tempo.
à medida que os recursos se tomem disponfveis.l
4
As principais melhorias podem se tomar relativamente mais
baratas em todas essas áreas. Mas os custos só pernlanecerão hai­
xos se for estimulada a participação plena dos grupos de baixa
renda no sentido de definir suas necessidades, decidir como po­
dem contribuir para os novos serviços c fazer o trabalho com suas
próprias mãos. Essa cooperação depende de que se estabeleça um
povo relacionamento entre os cidadãos e o guverno, como já dis­
semos.
9.Z.5 O maior aproveitamenlo dos recursos
Os recursos disponíveis nas cidades e arredores são muitas vezes
subutilizados. Muitos proprietários de terras não cultivam certos
locais bem situados a fim de se beneficiarem mais tarde com sua
valoriZação à medida que a cidade cresce. Muitas agências pl1bli­
cas dispõem de terrenos que poderiam ser mais bem aproveitados,
no sentido de melhorar as condições de saúde e segurança com o
minimo de custos. Um bom aconselhamento profissional pode
baixar os custos e melhorar a qualidade, e seria mais eficaz do
que prescrever o que se pode e não se pode construir.
como as áreas próximas a estações de trens e portos, controladas
pelas autoridades portuárias e ferroviárias . Vários países criaram
programas especiais para estimular a cooperação pl1blica e priva­
da no aproveitamento desses terrenos, uma iniciativa que deve ser
encorajada. Há uma necessidade geral de encontrar meios inova­
IIores e eficazes para utilizar a8 terras disponíveis com vistas ao
bem comum. Muitas cidades têm mecanismos para a aquisição de
282 283
"Sou especialista em cortiços. Estamos criando uma associoçoo
pequena. diminuta. para. tentar organizar os moradores de corti­
ços. já que existem tantos. Vemos cortiços nas cidm:les, nas al­
deias. nasflorestas.
Trabalhei durante quatro anos para motivar meus companhei­
ros moradores de cortiços a se tornarem trQllSmigrantes. e fi­
naimente eles migraram para uma dúzia de lugares por toda a
Indonésia. Eles aindo se comunicam bastarJ.te comigo. Ainda me
mandam cartas, afirmando que a vida ndo mellwrou nas áreas
de tmnsmigroçoo. Viver na obscuridm:le dos cortiços urlxuws ou
viver na obscuridm:le dos áreas de transmigraçêlo é exatamente a
me.mta coisa.
Quando eu voltar para. minha gente, os moradores de corti­
ços. à noite eles me perguntarãn o que consegui dessa reunioo
no hotel de luxo. Eles ndo pedirãn informações, pergunrarãn
apenas 'você trouxe algum dinheiro para construimibs novas ca­
sas?'"
Syamsuddin Nainggolan
Fundador do Yayasan Panca Bakti
Audiência da CMMAD, Jacarta, 26 de março de 1985
!erras e taxas de mercado (o que significa que os sistemas nunca
são implementados) ou então a taxas confiscatórias arbitraria­
mente baixa.. (e também nesse caso a aliança entre as forças polí­
ticas e os proprietários bloqueia a aquisição).
Os govemos também deveriam considerar o apoio à agricultura
urbana. Isso pode ser menos relevante nas cidades, onde os mer­
cados de terras são altamente comercializados e há pouca oferta
de lotes para fins residenciais. Mas há um grande potencial em
muitas cidades, em especial aquelas cujos mercados de terras são
menos comercializados. Muitas cidades africanas já se deram
conta dissn. A agricultura urbana, espacialmente na periferia das
cidades, é praticada como um meio de auto-sustento, Em outros
casos, O processo é mais comercializado, e há empresas
zadas na produção de legumes para venda na cidade.
Uma agricultura urbana sancionada e promovida oficialmente
poderia tomar-se um componente importante do desenvolvimento
urbano e tomar os alimentos mais acessíveis aos pobres das zonas
urbanas. Os propósitos principais de tal promoção seriam melho­
rar os padrões de saúde e alimentação dos pobres. ajudar seus or­
çamentos familiares (dos quais 50-70% são em geral gastos com
comida), capacitá-los a ganhar alguma renda adicional, e criar
empregos. A agricultura urbana também pode fornecer produtos
mais frescos e mais baratos, propiciar mais áreas verdes, a elimi­
nação dos depósitos de lixo e a reciclagem dos resíduos domésti­
cos.l
5
Outros recursos pouco utilizados são os resíduos sólidos, cuja
eIíminação tem sido bastante problemática em muitas cidades;
grande parte desse Iíxo ou não é coletada ou é despejada em de­
p6sitos. A recuperação, reutilização ou reciclagem dos materiais
podem reduzir o problema dos resíduos sólidos, estimular o em­
prego e resultar em poupança de matéria-prima. O adubo com­
posto pode ser útil à agricultura urbana, Se um governo municipal
não dispõe de recursos para coletar regulannente o lixo domésti­
co, ele pode dar apoio aos sistemas comunitários existentes, Bm
muitas cidades, literalmente milhares de pessoas ganham a vida
com gratificações municipais para coletarem o fixo manualmente.
Investir numa usina de reciclagem automática e mais capital-in­
. tensiva seria duplamente contraprodutivo,. caso ela consumisse
desnecessariamente um capital já escasso ou destruísse o meio de
vida de muita gente. Mas a necessidade imediata, no caso, é dar
noções de higiene e saúde e fornecer serviços de atendimento
médico às pessoas que se sustentam com gratificações munici­
pais.
16
9.3 COOPERAÇÃO INTERNACIONAL
A vida no futuro será predominantemente urbana e as preocupa­
ções ambientais mais imediatas da maioria das pessoas estarão
re/acionadas com o meio urbano. A eficácia dos esforços para
melhorar a vida urbana depende muito da higídez das economias
nacionais. Para muitos países em desenvolvimento, isso está es­
treitamente ligado ao estado da economia mundial. A melhoria
das relações econômicas internacionais (ver capítulo 3) seria tal­
""z o mais proveitoso para aumentar a capacidade de os países
em desenvolvimento lidarem com seus problemas ambientais e ao
mesmo tempo urbanos. Mas além disso é necessário fortalecer a
cooperação entre os países em desenvolvimento e ampliar os di­
VIm!OS tipos de ajuda direta por parte da comunidade internacio­
nal.
'.3.1 Cooperaçlio entre os paf_ em desenvolvimento
Os países em desenvolvimento, unidos, podem fazer muito pela
Clriação dos conceitos, programas e instituições necessários para
oombater a crise urbana que todos eles enfrentam. Embora oS
284
285
problemas de Caracas, Dacar ou Nova Délhi sejam diferentes dos
de Londres ou Paris, as cidades da América Latina, da África
Ocidental ou da Ásia Meridional têm muito em comum. Na medi­
da em que formulam estratégias urbanas nacionais amplas, é im­
pottante que compartilhem experiências sobre a administração de
suas crescentes megal6poles, o desenvolvimento de centros pe­
quenos ou médios, o fortalecimento do governo.· local, a melhoria
dos assentamentos ilegais. as medidas de reação à crise, e uma sé­
rie de outros problemas peculiares ao Terceiro Mundo.
O aprofundamento das pesquisas nessa área proporcionaria a
base para reconsiderar as cidades do Terceiro Mundo. Proporcio­
naria também uma base para programas de fonnação profissional
no interior do pais (ou, no caso de nações menores. programas
regionais de formação profISsional) para as equipes do governo
municipal e das cidades. As boas propostas de políticas e os bons
cursos de treinamento dependem de boas informações e análise
locais - tudo isso praticamente inexiste nas cidades dos paÍSes em
desenvolvimento.
9.3.2 Ajuda Internadooal
É neçessárlo um maior Ouxo de recursos intemacionais para aju­
dar os países em desenvolvimento em seus esforços para superar a
crescente crise urbana. Não há uma definição consensual de "as­
sistência ao desenvolvimento urbano", mas o Comitê de Assis­
tência ao Desenvolvimento estimou recentemente que a ajuda bi­
lateral e a multilateral para programas urbanos montaram em
US$900 milhões ao ano, em média, durante o período de
1980-84.1
7
Também se estima que, até agora, menos de 5% da
população urbana do mundo em desenvolvimento foram benefi­
ciados por algum projeto babitacional ou de melhoria do bairro,
patrocinado por uma agência de assistência ao desenvolvimento.
Esse índice de ajoda precisa ser aumentado consideravelmente.
Além disso, o âmbito do apoio deveria ser ampliado, e suas con­
dições e qualidade deveriam ser melhoradas.
Ademais, as agências de assistência ao desenvolvimento deve­
riam ampliar a ajuda e assistência técnica em três áreas:
• na concessão de fundos de infra-estrutura para os governos lo­
cais;
• na assunção de tarefas como reorganização do lançamento e
colela de impostos, elaboração ou atualização de mapas de pro­
priedade privada, e fonnação de equipes técnicas para aconse­
lhamento às famílias e grupos comunitários sobre reformas de mo­
radia;
Box 9.4 A falia de compreensão das necessidades
das mulheres nos projetos habitacionais
Os projetos habitacionais muitas vezes são concebidos de tal
forma que não pennitem que as mulheres trabalhem em casa
e ao mesmo tempo cuidem de seus filhos e dos filhos dos
vizinhos. Esses projetos, assim COmo o tamanho dos lotes de
terreno, quase nunca levam em conta o fato de que muitas
mulheres gostariam de usar suas residências como oficinas
(para costurar, por exemplo) ou como casa de comércio, o
que muitas ver..,. é proibido nos projetos de habitações de
baixa renda. Os procedimentos para se habilitar a uma casa
de baixa renda exigem que a solicitação seja feita pelo.,
"maridos". o que exclui as mulheres cbefes de f"",,1ia ­
e.ntre 30 a 50% de todas as famílias. As necessidades espe­
ciais das mulheres são ignoradas nas diferentes culturas: nas
sociedades islâmicas, por exemplo, a necessidade de a mu­
lher dispor de um espaço aberto particular dentro de casa ra­
ramente é levada em conta. do mesmo modo que não se con­
sidera a necessidade de haver vias razoavelmente abrigadas
para que as mulheres tenham acesso à, lojas e aos hospitais.
Fome; baseado em: Moser, C.Q.N. Housing poficy: towards a gen­
der awareness approacb. London, Dcvelopmen! Planning Unit,
1985. (Worldng Pape.- n. 71.)
• nos cursos de formação profissional do interior do país e de
treinamento para funcionários no próprio local de trabalho.
Parte desse aumento de ajuda deve ir diretamente para os gru­
pos comunitários, através de intermediários, como entidades não­
governamentais, nacionais ou internacionais. Muitos programas
de ajuda bilateral já provaram que esse mélodo é eficaz em termos
de custos, vários desses grupos foram responsáveis por muitos
sistemas comunitários bem-sucedidos de melhorias habitacionais e
prestação de serviços básicos. Em geral, têm mais êxito quanto a
....nder aos pobres. Deveria haver também mais apoio a grupos
Independentes de pesquisa que se ocupam de questões de habita­
Ç60 e urbanismo, em particular os que dão aconselhamento aos
JIOvemos locais e grupos comunitários; muitos já o fazem, espe­
çialmente na América Latina.
A cooperação Intemacíonal também pode contribuir para de­
.nvolver tecnologias de baixo cuslo para fins urbanos e estudar
meios de atender às necessidades de conforto habitacional das
mulheres. (Ver box 9.4.)
286 287
Muitas agências técnicas do sistema das Nações Unidas di...
j>Qem das bases de conhecimento adequadas para 'desempenharem
um papel valioso de ajuda e aconselhamento aos governos, so­
bretodo o Centro de Assentamentos Humanos da ONU (UNCHS,
ou Habitat). Essas agências deveni identificar as infonnações e
diretrizes de que os governos precisam, e o modo de eles as pode­
rem receber e utilizar. Tal método poderia ter como modelo, por
exemplo, as atoais tentativas no sentido de preparar manuais para
agentes comunitários sobre a identificação dos transmissores de
doenças e a mobilização das comunidades para lidar com esses
problemas, e sobre o que deve ser feito para promover a sobrevi­
vência e saúde das crianças. De modo mais amplo, o Habitat pode
fortalecer a cooperação inlernacional em nfvel global, como no
Ano Internacional do Abrigo para os Sem-Teto, da ONU. É ne­
cessário tomar o sislema das ,Nações Unidas mais capaeitado a
exercer liderança em questões de assentamentos humanos, através
do Habitat.
'\
Notas
I Ilste capítulo se baseia em grande parte nos documentos básicos elabora­
dos para a CMMAD: Burton, r. Urbanization and development. 1985;
Hardoy, J.Il. & Satterlhwaitc, D. Shelter, infrastructure and servicos in
Third World citios. 1985. (Publicado em: Habirat InIi!rnononal, 10(4),
1986.); Hardoy, J.Il. & Satterthwaite, D. Rethinking the Tbird World city.
1986; Sachs. I. Human iett!ements: resource and environmentul manage­
ment.I985.
2 Ver: Jacobs, J. Citie. alUi the weallh of naiíons. New York, Random.
1984.
3 United Natioos. The growth in the lWrúf. urban alUi rural popu/alion
1920-1980. New York, 1969. (Popnlation Studies n. 4iI.); United Nations.
UrlxlIl, rural alUi city popu/ations 1950-2()()(). New York, 1980. (Popula­
tion Studies n. 68); Avaliação de 1978.
4 A expansão das fronteiras da "cidade" ou da "área metropolitana" é res­
ponsável pnr wna parte do aumento populacional mostrado na tabela 9.2.
As projeções da ONU baseiam-se na extrapnlação de tendências p8lisadas.
Este método muitas ve'"s orienta mal em relação às tendências futuras, em
especial as de longo prazo, mas não se dispõe de uma base de dados pera
fazer projeç6es melliores.
5 Documento do UNCHS (Habitat) pera a reunião do DAC de outubro de
1986 sobre desenvolvimento urbano. OCDE, OOcumento DAC(86)47, 27
de agosto de 1986.
6 Department of International Ilconomic and Social Affairs. Urban and
rural pnpulation projections, 1984. New York, United Nations, 1986. (A­
valiação não-oíleíal.)
7 Hardoy, l.E. & Satterlhwaite, D. Shelter; need and response; housing,
Iand and settlement policies in sevcnteen Third World NatiollS. Crucheate\',
UK, lohn Wiley. 1981. Para a situação de São Paulo, ver: Wilheim, J. São
Paulo: environmentul problems of lhe growing metropolis. Apresentado à
aadiência pública da CMMAD. São Paulo, 1985.
8 Hardoy, J.Il. & Satterthwaíte, D. Third World cilios and the environ­
menl of poverly. Geoforum, 15(3), 1984. Ver também: World Social Pros­
pects Association. The urban tragedy. Geneva, Unitar, 1986.
9 Ver: Sunkel, O. Debt, development and environment. Apre.'lCIltado à au­
diência pública da CMMAD. São Paulo, 1985; Jordan S .. R. Population
and lhe planning of large dties in Latin America. Documento apresentado
à Confer&lcia Internacional sobre População e o Futuro Urbano. Barcelo­
na, Espanha, 19-22 maio 1986.
10 Scimemi, G. Città e ambiente. Venezia. Daest, Instituto Universitario
di Architettura, 1987. Ver também: The .tale ofthe environmenr in O/:;CD
inember countries. Paris, OECD, 1979, 1985.
11 Soou, L Urban mui spatial development in Mexico, London, Johns
Hopldns University Press, 1982.
12 Ver o capítulo 8 e: Hardoy, J.E. & Satterlhwaitc. D., ed. Sl1Ulll and itl­
termediare uroon centres: their role in regional and national development in
lhe Third World. London. Hodder & Sloughton. 1986.
13 UNCHS. Habitai Hyderabad squaller seltlemenl upgrading project.
lndia. Monografia sobre projelo elaborado para o Ano Internacional do
Abrigo pera os Sem-Telo; Nairóbi. 1986.
14 Kalbermallen, J.M. et alli.Appropriate techtwlo/fY for waler supply alUi
sonitation; a summary of technicaJ and econom:ic options. Washington,
D.C., World Bank. 1980.
15 Silk. D. Urban agriculture. 1985. (Elaborado para a CMMAD.)
16 Khouri-Dagher, N. Waste recycling: towards greater urban self-rcli.n­
oe. 1985. (Illaborado pera a CMMAD.)
17 Ver esboço de nOIlls da agenda da Reunião do DAC sobre Desenvolvi­
mento Urbano, outubro de 1986, docwnento DAC da OeDE (86)15. Foi
utilizada a definição do Banco Mundial para assistência ao desenvolvi­
mento urbano, que inclui o alívio da pobreza e a promoção da eficiência:
urbana, da m o r a d i a ~ do transporte urbano, do desenvolvimento urbano in­
tegrado e do desenvolvimento regional nas cidades secundárias.
288
289
I
;
8
lO, A ADMINISTRAÇÃO DAS ÁREAS COMUNS
As formas tradicionais de soberania nacional são constantemente
desafiadas pelas realidades de interdependêllcia econômica e
ecológica. Isso. é especialmente verdadeiro nos ecossistemas com­
partilhados e nas "áreas comuns do globo" - as partes do planeta
que ficam fora das jurisdições nacionais. Nesse caso, só se pode
assegurar o desenvolvimento sustentável através da cooperação
internacional e de regimes de consenso para supervisão, desen­
volvimento e administração dos interesses comuns. Mas o que
está em jogo não é só o desenvolvimeoto sustentável dos ecos­
sistemas compartilhados e das áreas comuns, e sim o de todas as
nações que para se desenvolverem dependem em maior ou menor
grau de sua administração raciooal.
Aliás, se os direitos e os deveres dos Estados para com as
áreas globais comuns não forem regidos por regulamentos con­
sensuais, equânimes e exeqüíveis, a pressão da demanda sobre os·
recursos finitos destruirá, com O passar do tempo, sua integridade
ecológica. As gerações futuras ficarão empobrecidas, e os que so­
frerio mais serão aqueles que vivem nos paf.ses pobres que têm
menos possibilidade de fazer suas próprias reivindicações em li­
vre competição.
A administração dos diversos bens COmuns - os oceanos, o es­
paço cósmico e a Antártida - encontra-se em diferentes eslllgios
. de evolução, assim como a própria "comunalidade" dessas áreas.
No direito marítimo, a comunidade internaciooal elaborou uma
das convenções internacionais mais ambiciosas e avançadas sobre
os mares e seu fundo. Mas alguns países ainda vêm-se recusando
• aderir ao regime multilateral que tem sido objeto de negociações
globais sempre proteladas, e isso está bloqueando a implementa­
Çla de certos aspectos-chave. Foram fixadas fronteiras oceânicas
panI separar os mares comuns das Zonas Econômicas Exclusivas
(ZEE) nacionais, mas como as águas COmuns e reivindicadas for­
lIII8m sistemas econômicos e ecológicos interligados, e como a
lIMIde de um depende da saúde do OUIm, ambos são analisados
MIte capllulo. Quanto ao espaço cósmico a área comum menos
IlIpl0rada - a discussão sobre sua administração conjunta mal
lIImeçou. A Antártida está sujeita, há mais de um quarto de M­
a um tratado obrigatório. Muitos paí....,. não-signat4riOll des­
293
se tratado consideram seu direito participar da administração do
que encaram como uma parcela das áreas globais comuns.
10.1 OCEANOS: O EQUlLmRIO DA VIDA
Na roda da vida da Terra, o equillbrio provém dos oceanos) Co­
brindo mais de 7()1i1b da superfície do planeta. desempenham papel
fundamental na manutenção de seus sistemas de sustentação da
vida, no abrandamento do clima e na conse:vação da flora e da
fauna, inclusive do diminuto fitoplancto produtor. de oxigênio. Os
oceanos proporcionam proteína, transporte, energia, emprego, Ia­
rer e outras atividades sociais, econômicas e culturais.
. Os oceanos são também o derradeiro sorvedouro dos subpro­
dutos das atividades humanas. Qual imensas fossas sépticas fe­
chadas, acolhem rejeitos urbanos, agrícolas e industriais através
de emissários de esgotos; despejos de barcaças e navios, escoa­
mentos costeiros, ágoas de rios e atl! mesmo partiCuIas e molécu­
las altnoSféricas. Nos últimos decênios, o crescimento da econe>­
mia mundial, a demanda crescente de combustíveis e alimentos e
o acúmulo de rejeitos começaram a pressionar os vastos limites
dos oceanos.
Os oceanos se caracterizam por uma unidade fundamental da
qual não há como escapar. Ciclos interconectados de energia,
clima, recursos de vida marinha e atividades humanas se deslo­
cam através das águas costeiras, dos mares regionais e dos ocea­
nos fechados. Os efeitos do crescimento urbano, industrial e agrí­
cola não ficam contidos na Zona Econômica Exclusiva de ne­
nhum pa1is; passam através de correntes de água e de ar de nação
para nação. e através de complexas cadeias alimentares de espécie
para espécie, distribuindo os ônus do desenvolvimento. quando
não os benefícios, tantn a pobres quantn a ricos.
Somente o altn-mar fora de jurisdição nacional é de fato "área
comum"; mas as espécies marinhas, a poluição e outros efeitos do
desenvolvimento econômico não respeitam essas fronteiras legais.
A administração judiciosa' das águas oceânicas comuns requer
igualmente a administração das atividades praticadas em terra.
Cinco zonas estão incluídas nessa administração: as áreas interio­
ranas, que afetam os oceanos sobretudo através dos rios; as terras
costeiras - pântanos, charcos etc. - mais proximas do mar, onde
as atividades humanas podem afetar diretamente as águas adja­
centes; as ágoas costeiras - estuários, lagunas e ágil&! rasas em
gerai - onde são mais sentidos os efeitos das atividades praticada
em terra; as ágoas afastadas da costa, próximas 11 extremidade da
"Os problemas ambientais do mundo são maiores que a soma
dos existentes em cada pafs. Decerto, eles nitn podem mais ser
trotados como meramente nacionais. A Comissão Mundial sobre
o Meio Ambienze e Desel'fllOlvimelllO deve atacar esse problema
fundamental, recomendando meios espec(ficos de os palses coo­
perarem para que se supere a noção de soberania e para que se
atkJtem irutrume1llos internacionais a fim de lidar com as amea­
ças que pairam sobre o plaMta. A tendência crescente para o
isolacionismo demonstra que o rirmo amaI da história está em
desarmonia C01'1'l as aspiraçoos humanas, e atl. com suas chancés
de sobrevivincia.
O desafio que se nos apresenta é transcender os interesses
particulares de nossos respectivos EstatkJs-naçiJes de modo a
um interesse mais amplo - a sobrevivincia da espécie
humana em um mundo
Tom McMillan
Millistro do Meio Ambiente, gowmo do Canodá
Audrenei. póblica da CMMAD, Ottawa, 26-27 de Maio de 1986.
platafonna continental; e o alto-mar, muito além do mar de 200
milhas estabelecido pela ZBB e controlado pelos países costeiros.
As principais zonas pesqueiras encontram-se, em sua maioria,
nas águas afastadas da costa, ao passo que a poluição que as afeta
provém geralmente do interior e se concentra nas águas costeiras.
B essencial wna administraçân internacional formal nas áreas si­
tuadas para além da ZEB, embora todas as áreas necessitem de
maior cooperaçân internacional, inclusive eslruturas melhores de
CóOrdenação da ação nacional.
10.1.10 equDfbrlo ameaçado
Hoje, oS recursos vivos do mar estão sob a ameaça da superexplo­
ração. da poluição e das atividades praticadas em terra. A maioria
dás principais espécies de peixes mais conhecidas que vivem nas
das plataformas continentais responsáveis por 95% do
produto pesqueiro mundial - está agora ameaçada pela pesca abu­
Uva.
. Outras ameaças estão mais concentradas. Os efeitos da polui­
çIo e do desenvolvimento praticado em terra são bastante graves
águas costeiras e nos mares semifechados que se estendem
toda a faixa Iituránea do mundo. O uso das zonas litorâneas
assentamentos, indústrias, instalações energéticas e lazer

294
tende a se acelerar, assim como a manipulação, a m o n t a n t e ~ dos
sistema. fluviais estuarinos através de represas ou desvios para a
agricultura e o abastecimento municipal de água. Essas pressões
têm des!rUfdo os habitais estuarinos tão irremediavelmente' quanto
dragagens, atelTOs e pavimentações diretos. Os litorais e seus re­
cursos ficarão cada vez mais prejudicados se prosseguirem os
métodos atuais de tratar a política, a administração e as institui­
ções, sempre voltados para fins comerciais. '
Certas águas costeiras e mais afastadas da costa são em espe­
cial vulneráveis ao desenvolvimento ecologicamente inviável
praticado em' terra, aos excessos da pesca competitiva e à polui­
ção. Essas tendências são preocupantes sobretudo nas áreas cos­
teiras, onde a poluição causada pelo escoamento de esgotos do­
mésticos, rejeitas industriais, praguicidas e fertilizantes podem
ameaçar não só a saúde humana como também o desenvolvimento
de zonas pesqueiras.
Mesmo o alto-mar já começa a dar mostras de esgotamenlO por
causa dos bilhões de toneladas de poluentes quc recebe todos os
anos, Podem-se encontrar traços dos sedimenlOs despejados nos
oceanos por grandes rios Como o Amazona.. a uma distânCia de
2,OIXIkm da costa,
2
Metais pesados oriundos de fábricas que usam
carvão como comb'll'tivel e de outros processos industriais tam­
bém cbegam aos oceanos através da atmosfera. A quantidade de
óleo que vaza anualmente de petroleiros já se aproxima de 1,5
milhão de toneladas.3 O ambiente marinho, exposto à radiação
nuclear proveniente de antigos testes de armas nucleares, está re­
cebendo mais radiações devido à descarga continua de rejeitas
com baixo índice de radiatividade.
q. novos indícios da possibilidade de uma rápida diminuição
da camada de ozÔnio, e o conseqüente aumento da radiação ultra­
violeta, representam uma ameaça não só para a saúde humana,
mas também para a vida no oceano, Segundo alguns cientistas,
essa radiação poderia matar os sensíveis filOplanctos e larvas de
peixe que flutuam perto da superffcie dos oceanos, danificando as
cadeias aJímentares oceânicas e possivelmente os sistemas de
sustentação do planeta.
4
Altas concentrações de substâncias como melais pesados, or­
ganoclorados e petróleo têm sido encontradas na superfície dos
oceanOs. O acúmulo contínuo de tais substâncias pnde provocar
efcitos complexos e duradouros.
5
O fundo do mar é uma região
de atividades físicas, químicas e biológicas complexas, onde os
processos microbianos desempenham papel fundamental, ma. até
agora só se tem notícia de danos graves em regiões muito delimi­
tadas. Embora essas descobertas sejam encorajadoras, diante da
inadequação dos dados atuais e das pressões cada vez mais acele.
radas sobre o meio marinho, elas não dão margem a contempori­
zações.
10.1.2. A administração dos oceanos
Com o pensamento voltado para o próximo século, a Comissão
está convencida de que o desenvolvimento sustentável, se não a
própria sobrevivência, depende de avanços significativos no cam­
po da administração dos oceanos, Serão necessárias grandes mu­
danças em nossas políticas e instituições, e terão de ser investidos
mais recur!lOS na administração dos oceanos.
No âmago dessa questão residem três imperativos:
• a unidade básica dos oceanos exige .regimes de administração
global eficazes,
• o compartilhamento de recursos, característica de muitos mares
.regionais, toma imperioso encontrar formas de administração re­
gioual.
• as maiores ameaças aos oceanos provenientes de atividades
praticadas erp terra exigem ações nacionais eficazes baseada.. na
cooperação internacionaL
A dependência mútua aumentou nos ó1timos Imos. Com o esta­
belecimento das ZEE de 200 milhas, a Convenção sobre o Direito
Marítimo fez com que mais 35% da superfície oceânica ficassem
sob controle nacional no que diz respeilO à administração dos re­
cursos natutais. Proporcionou também uma es!rUtura institucional
que pode levar a uma administração melhor dessas áreas, pois é
de se supor que os governos nacionais administrem de modo mais
racional os recursos sobre os quais exercem controle absoluto.
Mas essa expectativa não leva em conta as realidades de metas
políticas e econÔmicas imprevidentes.
Para administrar esses recursos com vistas a seu uso constante,
é necessária uma abordagem internacional do ecossistema. Nos
ó1timos decênios houve progressos significativos, nacionais e in­
ternacionais, e muitos aspectos da questão foram sistematizados.
Mas isso não contribuiu para a criação de um sistema que .refletis­
se os imperativos já mencionados. Quando as ZEE de vários es­
tados se interligam em mares regionais ou semifechados, a admi­
nistração integrada exige graus variados de cooperação interna­
cional, como o monitoramento e a pesquisa conjunlOs sobre espé­
cies migratórias, e medidas para combater a poluição e regula­
mentar atividades cujos efeilOs ultrapassam fronteiras.
No tocante ao alIO-mar, fora de jurisdição nacional, a ação in­
ternacional é essencial. A soma das múltiplas convenções li pro­
pamas hoje em andamento não .rep.resenta, nem pode .represenW,
O regime ora proposto, Mesmo os programas isolados da ONU
296
297
não podem ser coordenados com facilidade. dada a eslrUlmII das
Nações Unidas.
6
Para a Comissão. há necessidade urgente de uma série de
ações para melhorar os regimes de admfuistração dos oceanos.
Assim. a Comisslio propõe medidas para:
• fortalecer a capacidade de ação nacional •. sobretudo nos países
em.desenvolvimento;
• melhorar a administração de zonas pesqueiras;
• reforçar a coopentção nos mares regionais e semifecbados;
• intensificar o controle sobre o despejo. nos oceanos. de rejeitos
nucleares e perigosos;
• aperfeiçoar o direito marítimo.
10.1.2.1 Açdo nacional
Os governos de países litorâneos deveriam rever urgentemenCe a..
exigências legais e institucionais para a administração integrada
de suas ZEB. e também' o papel que devem desempenhar nos
aconios de cooperação internacional. Esta revisão deveria ser
empreendida com base em uma clara determinação das metas e
prioridades nacionais. Uma dessas metas poderia ser a redução da
exploração excessiva das zonas pesqueiras situadas em águas
cosléiras e mais afasllidas da costa. Outra poderia ser a limpeza
imediata da poluição industrial e municipal que atinge habitais
marinbos essenciais. Outras ainda poderiam ser o reforço da ca­
pacidade nacional de administração e pesquisa. e a elaboração de
um levantamento dos recursos marinhos e costeiros.
Diante das crescentes pressões sobre os recursos marinhos e
cosCeiros previstas até o ano 2000. todas as nações litorâneas de­
veriam dispor de um levantamento completo desses bens. Recor­
rendo a especialistas de alto nível de agencias nacionais e inter­
nacionais, as nações poderiam desenvolver técnicas avançadas,
como o mapeamento por satélite e outras, para elaborar um in­
ventário desses recursos e entllo monitorar as mudanças necessá­
rias.
Muitos países em desanvolvimento precisarão de assi.taneia a
Í1fIl de fortalecerem as eslrUtonts legais e institucionais de que ne­
cessitam para a administração inCegrada dos recursos costeiros.
Muitos países em desenvolvimento pequenos, litorâneos e insula­
res, não dispõem de meios ecollÓmicos ou militares para impedir a
explDração de seus recursos costeiros ou a poluição de suas águas
por nações ou empresas poderosas. fsso tomou-se um grande pr0­
blema, particuIannente no Pacífico, e ameaça a estabilidade polí.
tica da região. Os bancos inlemacionais de desenvolvimento co ..
agências de assistência ao desenvolvimento deveriam criar pro..
gntmas para custear o desenvolvimento dessa capacidade institu­
cional.
10.1.2.2 Administração dos zonas pesqueiras
As zonas pesqueiras do mundo vêm-se expandindo desde a II
Guerra Mundial, com a captura global aumentando de f'Orma
constante 6-7% ao ano, passando de 20 milhões para 65 milhões
de toneladas entre 1950 e 1969. Porém, após 1970, à medida que
mals e mais espécies foram sendo extintas, o crescimento médio
anual de captonts caiu para apenas cerca de 1%. (Ver tabela
10.1.) Com as práticas convencionais de administração da pesca,
o era de crescimento acabou. Mesmo admitindo-se a recuperação
da produti vidade das reservas ora esgotadas e o aumento da cap­
tura nas zonas pesqueiras subutilizadas, a FAO prevê apenas um
crescimento gradual das capturas. com um provável aumento dos
níveis atuais de mais de 80 milhões de toneladas para cerca de
100 milhões. Isto não sugere boas perspectivas par.. a segurança
alimentar futura, em especial nos países de baixa renda cuja prin­
cipal fonte de proteína animal é o peixe e onde milhões de pes­
soas tintm seu sustento das atividades pesqueiras.?
A ellploração excessiva ameaça muitas espécies consideradas
recursos econÔmicos. Muitas das maiores zonas pesqueiras do
IllWldo - a de anchovetas no Peru, as várias espécies de arenque
no Atlãotico Norte, e a de sardinhas na Califórnia - entraram em
colapso após períndos de pesca intensiva. J;lm algumas das áreas
afetadas por esse problema, e em outras zonas de pesca abundan­
te, como o golfo da Tailãndia e as situadas ao largo da África
Ocidental, a pesca intensiva foi seguida de mudanças acentuadas
na composição das espécies.
8
Não se conhecem bem as razões de
tais mudanças, sendo preciso pesquisar mais as reações dos recur­
sos marinhos à exploração, para que os administntdorcs possam
contar com melhor base científica. Há urgente necessidade de um
apoio maior a esse trabalho, apoio que deve abranger uma assis­
II!ncia adicional aos paises em desenvolvimento para que possam
aumentar sua capacidade de pesquisa e seus conhecimentos acer­
ca dos próprios recursos.
Um dos fatores que levou ao estabelecimento de ZEE mais
extensas foi a preocupação dos Estados costeiros, industrializados
e em desenvolvimento, com o esgotamento das zonas pesqueiras
ao largo de seus litorais. Diversas convenções foram criadas
IIbrangendo a maioria das principais zonas pesqueiras, mas se
,mostraram inadequadas na maior parte dos ca.os. Os países parti­
cipantes em geral não conseguintm superar a dificuldade de ratear
299
298
Tabela 10.1
Pesca mundial nas principais zonas pesqueiras, 1979-84
(milhares de toneladas)
'.ona pesqueira 1979 1980 1981 1982 1983 1984
Atlântico Norte 14.667 14.676 14.489 13.597 13.891 13.940
Pacifico Norte 20.303 20.733 21.908 22.603 23.666 26.416
Atlântico Central 6.064 6.867 6.833 7.239 7.210 7.164
PacfflCO Central 7.536 7.910 8.478 8.175 7.848 8.531
Oceano indico 3.541 3.693 3.728 3.852 4.061 4.362
Atlântico Sul 4.420 3.895 4.037. 4,340 4.314 3,957
Pacffico Sul 7,242 6.619 7.240 8.328 6.724 8.684
Longe da costa 7,240 7.603 8.138 8.455 9.131 9.716
Total
l
7l.014 71.996 74.850 76.590 76,846 82.770
Desenvolvidos 37,143 38.234 38.890 39,265 39.991 42.412
Em desenvolvimento 33,871 33,758 35,961 37.326 36.855 40,358
Pesca dos palses
em desenvolvimento
como percentual do
total mundial 47,7 46,9 48,0 48,7 48,0 48,8
Fonte: baseado em dados de: FAO. Yearbooks qffl.Shery statistics. Rome,
1979-84,
t As colunas nâo coincidem com os totais devido a arredondamento.
cotas de recursos comuns limitados. Encaravam a melhoria da
administração como uma necessidade urgente, e o livre acesso
como seu principal obstáculo.
Esperava-se que o advento das ZEE ampliadas, de acordo com
a Convenção ~ b r e o Direito Marítimo resolvesse ou pelo menos
amenizasse o problema. As nações costeiras foram instadas a
adotar medidas eficazes de conservação e administração dos re­
cursos vivos em suas ZEE. Elas poderiam também controlar as
atividades de pescadores estrangeiros e desenvolver suas próprias
zonas pesqueiras.
Os países industrializados foram muito mais bem-sucedidos
nisso do que os países em desenvolvimento. No noroeste do
Atlântico, a captura anual por frotas com amplo raio de ação, que
era de mais de 2 milhões de toneladas antes de 1974, declinou pa_
ra cerca de 250 mil tonelada. em 1983, e a cota de capturas do
Canadá c dos EU'" aumentou de menos de 50% para mais do
90%,
"Opinião pública ~ isto que se v<1 nesta sala. Aqui estão reunidos
lfderes importantes de todo o Brasil. que acorreram dos quatro
cantos do pais, desde o seringueiro que ontem estava ao pé de
uma palmeira e aqui falau perante a Comissão da ONU até l{de­
res independentes. A população brasileira an.siava por ter al­
guém com quem falar. Alguém que a escute, que não mistifique
as coisas. alguém que não a engane. Há, pvrtanto, uma enorme
expectativa em relação à seriedade desta Comissão."
Randau Marques
Jornalista
Audiência pública da CMMAD, São Paulo. 28-29 de outubro de 1985
Apesar disso, as frotas pesqueiras industriais de amplo raio de
ação ainda capturam cerca de 5 milhões de toneladas por ano nas
regiões em desenvolvimento. Ao largo do litoral da África Oci­
dental, por exemplo, mais da metade da captura total ainda é rea­
lizada por essas frotas
9
Isso se deve em parte ao fato de muitas
das reservas mais ricas se encontrarem ao largo de áreas pouco
povoadas - na extremidade ocidental do Saara <:! na altura da Na­
mfuia. Mas também se deve à indisponibilidadé generalizada de
capital na região, e ao número reduzido de especialistas locais em
muitos aspectos técnicos relacionados com a pesca, sobretudo
conservação e comercialização,
Os países litorâneos em desenvolvimento em geral conseguem
obter uma pequena receita recorrendo a taxas de licenciamento,
mas isso representa apenas uma fração do que poderiam ganhar se
Iltiliza..sem plenamente os recursos. Outros 10 a 15 milhões de
tonelada.. de recursoS até agora pouco utilizados ou subexplora­
dos poderiam ser acrescidos às zonas pesqueiras existentes ao
largo de suas costas.
lO
É premente que tais recursos sejam admi­
nistrados de fonoa sustentável, em beneficio dos países em de­
aenvolvimento, e de modo que contribua para satisfazer as neces­
sidades alimentares do planeta,
Outro exemplo é a pesca da baleia, Reconhecendo que a hist6­
ria da pesca da baleia até os anos 60 caracterizava-se pela supe­
'Nxploração. a Comissão Internacional sobre a Pesca da Baleia
II(CIPB}, o principal organismo internacional regulador dessa ati­
iYldade. tomou, desde o início dos anos 70, uma série de medidas
"'rvação da espécie e hoje todas as espécies abaixo de
são c lassificadas como protegidas contra a pesca co­
301
Em seus primóIdios, a CIPB era composta sobretudo das na­
ções que praticam a pesca da baleia. Após 1979, outras nações
aderiram em nlÚDero cada vez maior, até se tomarem maioria.
sa mudança se refletiu nas decisões da CIPB, que, em casos de
dúvida científica, passou a optar cada vez'mais por uma atitude
cautelosa e pela redução dos índices de captura, ou então pela
interrupção total da pesca de certas espécies de baleia.
Essa tendência culminou com a decisão de 1982 de suspender
temporariamente essa atividade. Os países-membros têm o direito
de rejeitar a decisão e prosseguir na pesca comercial da baleia, ou
de capturar baleias para fmo científicos. Há uma opinião bastante
difundida nOs meios conservacionistas de que os países que pes­
cam baleias podem se aproveitar da pesca com fins cientifICos pa­
ra aumentar suas capturas. As permissões concedidas para esse ti­
po de captura devem ser criteriosamente aplicadas pelos países­
membros da CIPB, oU sua credibilidade ficará prejudicada.
Ultimamente, um fator poUtico importante tem sido o fato de o
governo dos EUA poder invocar a legislação que possibilita sus­
pender os contratos com países que pescam em águas norte-ame­
ricanas, caso eles violem os acoIdos de conservação marinha. Es­
sas COTtcessões de pesca são muito importantes, e a legislação
pertinente tem bastante poder polllico e econômico. Outro fator
importante é a fOIÇli demonstrada pelas organizações não-gover­
namentais (ONG) na estrnturação do apoio a ações contrárias à
pesca da baleia, nas pressões sobre os governos e na organização
de boicotes a peixes e outros produtos provenientes de nações
que pescam baleias.
No início'de 1987, a pesca da baleia foi limitada a capturas pa­
ra fins científicos pela Islândia e pela República da Coréia, e à
pesca em pequena escala pela Noruega, que continuou se opondo
à suspensão temporária da atividade, mas planeja interromper a
pesca para fins comereiais após a temporada de 1987. O Japão e a
URSS também realizaram capturas. A URSS havia infonnado que
observaria a suspensão temporária após a temporada antártica de
1987, e o Japão que retiraria sua objeção à suspensão temporária
a partir de 1988. Entretanto, o Japão pode continuar pescando
baleias para fins científicos. 11 Além disso, ainda estava sendo
praticada alguma pesca de baleia por povos nativos da URSS e do·
Alasca.
Se a suspensão temporária for observada e se não se abusar
pesca da baleia para fllls cientlficos, a pesca comercial não
sentará mais uma grande ameaça à conservação da espécie em
ralo No entanto, é improvável que o fndice anual de aumento
reservas desse animal vá além de um percentual pequeno.
302
tanto, provavelmente só na segunda metade do próximo século
haverá de novo grandes populações de baleias.
10.1.2.3 Cooperação 110 tocante a mares regionais
Foram finnados diversos acordos relativos a mares regionais. A
CMMAD não tentou avaliar tooos eles, mas. COmo a Comissão
nasceu por resolução da Assembléia Geral c do Conselho Diretor
do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, deu
atenção especial ao Programa sobre Mares Regionais do PNU,
MA. Esse Programa já congrega mais de 130 países que compar­
tilham 11 mares diferentes em todo o mundo, países que se inte,
ressam em cooperar para benefício próprio e mútuo.
O PNUMA dá o impulso inicial, reunindo os governos a fim
de que estabeleçam uma estrutura legal flexível que permita a ne­
gociação de futuros acordos sempre que a necessidade exigir e a
política o permitir, O PNUMA também fornece um capital inicial
para o desenvoJvimento do programa. mas 0$ próprios governos
da região devem assumir o financiamento e a administração, re­
correndo à assistência técnica d. ONU e de outras agências. O
resultado é um programa voltado para a ação. de evolução gra.
dual e fundamentado nas necessidades da região. segundo a ótica
, dOs governos participantes. Tomam parte no programa, em todo o
mundo, 14 agências da ONU e mais de 4{) organizações regionais
e internacionais.
,:' A estratégia política do programa e a exigência de que a admi­
e o financiamento fossem assumidos pelos parti-
foram sem dúvida fundamentais para seu sucesso. Mas
Iiina coisa é contribuir com uns poucos milhôes de dólares para a
!êalização de pesquisas. e outra bem diferente é aplicar seus te·
lldtados a planos de desenvolvimento e pôr em execução progra.
de controle rigoroso da poluição. A limpeza dos Grandes La.
.empreendida pelos EUA e Canadá nos últimos 15 anos, con­
US$8,85 bilhões somente no tratamento parcial dos rejeitos
Imícípais e industriais,l2 Também serão necessários maciços in­
kimentos para baixar os níveis de poluição causada por ativi­
. praticadas em terra - nos mares regionais cobertos peja
. Mas em parte alguma foram tomadas providências
no sentido de empenhar verbas para desenvolver os
necessários de controle da poluição urbana e industrial e
políticas de controle dos escoamentos agrícolas. O
agora tem de enfrentar o desafio imposto pelos mares
até o ano 2000 .. articulando. acima de qualquer acoIdo
metas e pesquisas. um esquema sólido de investimen.
'escala tão ampla que possa de fato modificar alguma coisa.
303
"Por que temos de brincar com as vidas de crianças inocentes a
fim de gerar plutônio para bombas? Até mesmo contemplar o
despejo de lixo radiativo em águas que pertencem a todos nós
como parte de nosso patrimônio global é um ultraje. Tomannos
decisões tão impnrtantes em nome das futuras gerações sem le­
vannos em conta a moralidade de usar as águas internacionais
como depósito de lixo exclusivo é um ato de arrogância. ••
Peter Wilkinson
Greenpeace
Audiência pública da CMMAD, Oslo, 24-25 de junho de 1985
10.1.2.4 Medidas para controlar a deposição de
rejeitns nos oceanos
A Convenção sohre a Prevenção da Poluição Marinha por Despejo
de Rejeitos e Outras Substâncias (London Dumping Convention ­
Convenção de Londres), de âmbito mundiat foi concluída em no­
vembro de 1972 e entrou em vigor em 30 de agosto de 1975.
13
Em tennos de evolução política assemelha-se à Comissão Interna­
cional sobre a Pesca da Baleia. No início, reunia basicamente os
Estados poluidores de oceanos, mas ·agora os não-poluidores
constituem a maioria. Atualmente, compõe-se de 61 partes con­
tratantes e os serviços de secretariado são prestados pela Organi­
zação Marítima Internacional. O despejo de rejeitos é regulamen­
tado pelos três anexos da Convenção: 14 substâncias extrema­
mente perigosas, inclusive rejeitos com alto nível de radiativida­
de. cujo despejo é proibido (anexo 1); substâncias menos nocivas.
eujo despejo só pode ser feito mediante "permissão prévia espe­
eial" (anexo 2); e todas as outras suhstâncias. que só podem ser
despejadas no mar após a obtenção de uma autorização geral das
autoridades nacionais (anexo 3). Embora a Convenção se aplique
a todos os rejeitos deliberadamente despejados no mar, o que
atraiu a maior atenção foi a deposição de rejeitos radiativos no
oeeano. Esta é a questão de que trataremos a seguir.
Antes de 1983. Bélgica, Holanda. Reino Unido e Suíça despe­
javam regulannente rejeitos de baixa radiatividade no "depósito
de lixo" situado no nordeste do Atlântico. em águas internacio..
nais, ao largo da costa da Espanha. Apesar de os representantes
dessas nações na reunião da Convenção de Londres terem decla­
rado que ignorariam uma resolução de suspensão temporária nu
tocante a despejos de rejeitos de baixa radiatividade e que contl.
nuariam realizando esses despejos em 1983. uma suspensão tem­
porária de facto - que todos os países honram, mas à qual alguns
ainda não aderiram fonnalmente - entrou e permanece em vigor.
Segundo esse dispositivo. nenhum despejo de rejeitos pode ser
feito sem que antes fique demonstrada sua segurança do ponto de
vista ecológico.
Em 1985, a Convenção de Londres votou pela extensão, por
prazo indefinido. da suspensão temporária dos despejos de rejei­
tos de baixa radiatividade no oceano.l
5
Conseqüentemente. toda
a responsabilidade de provar que tais atividades são seguras ficou
efetivamente a cargo dos países que as praticam. Esse novo enfo­
que. embora não-obrigatório, reflete uma mudança na composição
da Convenção de Londres.
Em 1986. essa Convenção instituiu um painel intergovema­
mental de especialistas para examinar a questão dos riscos compa­
rativos das opções de deposição de rejeitos radiativos na terra e
no mar. Sem pretender se antecipar a essa iniciativa. a Comissão
instaria todos os Estados a continuarem se abstendo de despejar
rejeitos de baixa ou alta radiatividade no mar ou no fundo do mar.
Além disso. seria prudente começar desde agora uma oposição
contínua a essa atividade e estudar com afinco a criação e o de­
senvolvimento de métodos para dispor desse material em terra. de
modo seguro do ponto de vista ecológico.
Muitas outras convenções regulam a deposição de rejeitos no
mar do Norte e no nordeste do Atlântico. no Mediterrâneo e no
Báltico. A maioria das Convenções sobre os Mares Regionais
também inclui um dispositivo geral instando as partes contratantes
a tomarem todas as providências necessárias para evitar e reduzir
a poluição causada por despejos.
As fontes terrestres de rejeitos nucleares passaram a ser preo­
cupantes no mar do Norte, onde foram detectados altos níveis de
radiatividade nos peixes. com possibilidades de risco para outros
ma.res.l
6
A Convenção para a Prevenção da Poluição Marinha por
Fontes Terrestres (Convenção de Paris) foi ratificada em 1978 por
oito Estados e pela Comunidade Econômica Européia. Embora
tenha obtido alguma cooperação internacional. o fato de não fazer
menção a usinas nucleares e de aceitar o princípio da "melhor
tecnologia disponível" para fixar os níveis pennitidos de despejos
radiativos evidentemente precisa ser revisto.
A Convenção sobre o Direito Marítimo exige que os Estados
abeleçam leis e regulamentações nacionais para "evitar. redu­
e controlar a poluição do meio ambiente marinho decorrente
despejos de rejeitos". Exige ainda a autorização prévia e ex­
do país litorâneo para o despejo em mar territorial, nas
e na platafonna continental. Os precedentes jurídicos desse
304
305
artigo indicam que os países litorâneo. têm não só o direito, mas
também O dever de agir. Pelo direito ma;ítimo, os Estados tam­
bém se obrigam a garantir que suas atividades não prejudiquem a
sallde e o meio ambiente dos Estados vizinhos e das áreas c0­
muns.
A Comissão encoraja a Convenção de Londres a reafirmar os
direitos e as responsabilídades dos Estados em relação ao controle
e à regulamentação dos despejos dentro das ZEE de 200 milhas.
É urgenle que façam isso, pois os oceanos e as cadeias alimenta­
res não respeitam fronleiras.
Além disso, todos os Estados deveriam comprometer-se a in­
formar ao Secretariado da Convenção competente os casos de
emissão de substãocias tóxicas e radiativas por fontes leITe'tres
em qualquer massa d'água, de modo a que se pudesse começar a
prestar esclarecimentos sobre as emissóes globais em diversos
mares. É necessário designar autoridades compelenles para man­
ler registros sobre a natureza e a quantidade dos rejeitos despeja­
dos. E as instituiçóes regionais deveriam passar essas informações
ao Secretariado da Convenção de Londres.
10. I .2.5 O direito marítinw
A Conferência das Nações Unidas sobre o Direito Marítimo foi a
tentativa mais ambiciosa que se conhece de estabelecer um regime
inlernacionalmenle aceito para a administração dos oceanos. A
Convenção resultanle representa um grande passo na direção de
um regime de administração integrada dos oceanos e já estimulou
uma ação nacional e internacional para tal administração.
17
A Convenção conciliou interesses nacionais bastante diver­
genles e estabeleceu as bases para urna nova eqüidade no uso dos
oceanos e de seus recursos. Reafirmou que os Estados litorâneos
têm poder de soberania sobre seu mar territorial, fundo marinho e
subsolo, bem como sobre o espaço aéreo que lbes corresponde,
até uma distância de 12 milhas náuticas. Redefiniu os direitos dos
Estados costeiros em relação à plataforma continental. Estabele­
ceu ZEE de até 200 milhas marítimas, nas quais o Estado costeiro
pode exercer direitos de soberania em relação a dos
recursos nacionais. vivos ou não, nas águast no tundo do mar e
no subsolo.
A Convenção fez com que 35% dos oceanos deixassem de ser
fonlJ> de crescente conflito entre as naçóes. Estipula que cabe aos
Estados litorâneos garantir que os recursos vivos das ZEE não
corram o risco de serem explorados em excesso. Assim, os gover·
nos não SÓ têm agora poder legal e interesse em aplicar s6lidos
princípios de administração de recursos dentro dessa área, como
também têm obrigação de fazê-lo. A Convenção apela para a co­
operação regional na formulação e implementação de estratégias
de conservação e administração dos recursos marinhos vivos. in­
clusive cooperação no interclirnbio de informaçóes científicas, na
preservação e desenvolvimento das espécies, e no uso 6timo das
espécies muito migrat6rias.
Da mesma forma, os Estados COSlJ>iros têm agora um evidente
interesse na administtação judiciosa da plataforma continental e
na prevenção da poluição resultante de atividades praticada. em
IJ>rra e no mar. Pela Convenção. os países litorâneos podem ado­
tar. para suas ZEE, leis e regulamentllçóes compatíveis com as
nonnas e padrões internacionais de combate à poluição oriunda
de embarcaçóes.
A Convenção também define as águas, o fundo do mar e o
subsolo que estão além dos limites da jurisdição nacional. reco­
nhecendo-os como internacionais. Correspondendo a mais de
45% da superfície do planeia, esse fundo marinho e seus recursos
do declarados upatrimônio comum da humanidadeH, conceito
que l'Cpresenta um marco na esfera da cooperação internacional.
A Convenção colocaria todas as atividades de mineração !lO fun­
do do mar sob o controle de uma Autoridade Internacional dos
Pundos Marinhos.
·'."No infcio de 1987, a Convenção havia sido firmada por 159
nações e ratificada por 32 países. No entanto, um pequeno nóme­
de países importantes havia dado mostras de que provavel­
não a ratificaria;18 e isso em grande parte devido ao regime
,fiIOpoSto para administrar o fundo do mar considerado área co-
Apesar disso, muitos outros dispositivos da Convenção foram
aceitos e já estão vigorando de várias maneiras como
internacionais. Este processo deveria ser encoraja­
no que diz respeito aos dispositivos
, COm o meio ambiente. Esta Comissão acredita que a Conven­
deveria ser ratificada pelas grandes potências tecnológicas e
em vigor. De fato, a mais importante iniciativa que as na­
podem empreender em prol do sistema de sustentação da vi­
oceanos, ora é ratificar a Convenção sobre o
Marítimo.
ESPAÇO: QUESTÃO-CIIAVE DA
ADMINISTRAÇÃO PLANETÁRIA
cósmico pode desempanhar papel vital para garantir
de habitabilidade permanente na Terra, sobretudo atra­
306
307
vés do uso da tecnologia espacial pard monitorar os sinais vitais
do planeta e ajudar o ser humano a proteger sua saúde. De acordo
com o Trdtado do Espaço Cósmico de 1967, esse espaço, incluin­
do a lua e outros corpos celestes. não está sujeito à apropriação
nacional por direito de soberania, seja por meio da ocupação, seja
por quaisquer outros meios. A Comissão das Nações Unidas so­
bre o Uso Pacífico do Espaço Cósmico vem se esforçando para
que esses ideais perrnaneçam vivos. Esta Comissão considera o
espaço área global comum e parte do patrimônio comum da hu­
manidade.
O futuro do espaço como recurso não dependerá tanlO da tec­
nologia, mas da lenta e difícil batalha para criar instituições inter­
nacionais competentes para adminístrar esse recurso.
sobretudo, da capacidade de o homem evitar uma conida anlla­
mentista no espaço.
10.2,1 Captando informações através do espaço
Para que a humanidade enfrente de fonna eficaz as conseqüências
das mudanças provocadas por sua atividade - o aumento do dió­
xido de carbono na atmosfera, a redução da camada de ozônio na
estratosfera, a chuva ácida e a destruição das florestas tropicais-,
será essencial obter dados mais precisos sobre os sistemas natu­
rais do planeta.
Hoje. dezenas de satélites contribuem par.. a obtenção de no­
vos conhecimentos sobre os sistemas da Terra - por exemplo, so­
bre a disseminação dos gases o que pennitiu aos
cientistas descreverem pela primeira vez os vínculos específicos
entre uma grdnde perturbação natural nas camadas superiores da
atmosfera e mudanças climáticas a muitas milhas de distância. 19
Os satélites também desempenharam p.1pel científico funda­
mental após a descoberta, em 1986, de um "buraco" na camada
de ozônio sobre a Antártida. Quando os observadores baseados
em terra perceberam esse fenÔmeno. resolveram ex.aminar os ar­
quivos de dados obtidos por satélite e verificaram uma flutuação
sazonal da camada de ozônio que remontava a quase 10 anOS .lO
Também os cientistas puderam acompanhar de perto a evolução
da seca na região do Sabel, na África. nos anos 80. Os mapas ge­
rados por satélite, que correlacionam precipitações
e biomassa. serviram de instrumento para compreender as secas e
ajudaram na elaboração dos planos de ajuda para amenizar o pro­
blema.
Recentemente, um grupo interdisciplinar e internacional <.Ie
cientistas propôs uma iniciativa da maior importância - o Progra ..
ma Internacional sobre Geosfera-Biosfera a ser coordenado pelo
•'Precisamos de wn novo sistema de monitoramento terralespaM
ço. Creio que deva ser mab; que um. mero sistema ambiental ter­
restre. Seria um sistema combinado de monitoramento terra/es­
paço. uma nova que dlsporia dos recursos necessários
para monitorar, registrar e recomendar de forma bastante siste­
mática os elementos da interação terra/espaço, tão fUndamental
para uma visão ecológica da biosfera. H
MaxweU Cohen
Universidade de Ottawa
Audiência pdblica da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
Conselho Internacional das Uniões Científicas. Seu objetivo seria
pesquisar a biosfera empregando várias tecnologias, inclusive
télites. Em 1987 esta proposta pareceu estar ganbando impulso; já
influenciava as decisões orçamentárias de diversas naçres no to­
cante à destinação de verbas para futuros lançamentos de satéli­
tes, e está aumentando a coordenação entre as iniciativas exis­
tentes nesse campo.
O mais frustrante em relação a essa riqueza de dados é a dis­
persão das infonnaçães entre governos e instituiçõcs, em vez de
sua reunião num fundo COmum. O Sistema de Monitoração do
Meio Ambiente Global, do PNUMA. é um esforço modesto para
reunir os dados espaciais pertinentes à habitabilidade da Terra.
Tal sistema merece ser encorajado. Mas a maioria dessas iníciati­
Wis não são bem coordenadas, carecem de verbas e são
das às tarefas a que se propõem.
. A responsabilidade maior por essas ações cabe inicialmente
!' aqs governos nacionais, que cooperam na coleta, no
njento e no intercâmbio de infonnações. Com o tempo, os esfor­
internacionais poderiam ser financiados por alguma fonte de
reçeita direta global ou através de contribuições de cada país.
capítulo 12.)
A geosslnerônlca
de vista econômico. a parte mais valiosa do espaço or­
, da Terra é a órbita geossincl'Ônica, uma faixa de espaço
acima do equador.
21
A maioria dos satélites de comu­
, õcs e muitos satélites meteorológicos - assim como muitos
légicos - estão em órbita geossincrônica. Para evitar intene­
entre os sinais emitidos e recebidos pelos satélites, estes
308
309
têm de ficar separados por uma certa distância, o que restringe
efetivamente a 180 o número dos que podem utilizar essa valiosa
faixa. Por isso, a órbita geossincrllnica é um recurso global não
s6 valioso, mas também escasso e limitado.
O aumento do tráfego de comunicações via satélite nos anos
70 deu ensejo a multas previs6es sobre o rápí<!o saturamento das
rotas orbitais. Surgiu assim um conflito acerca do uso e do direito
de propriedade da 6rbita geossincrllnica, sobretudo entre as naçõ­
es industrializadas com capacidade para colocar satélites nessa 6r­
bita e os países equatoriais em desenvolvimento, que não dispõem
dessa capacidade, mas estão situados sob essa faixa de espaço.
A primeira iniciativa no sentido de delinear um regime de pro­
priedade para a 6rbita geossincrllnica foi a Declaração de Bogotá,
.de 1976, fumada por sete países equatoriais.
22
Esses pafses de­
clararam que as 6rbitas situadas acin", deles eram extens6es de
seus espaços aéreos territoriais. A Decfaração de Bogotá foi con­
testada por algumas naç6es que a consideram em desacordo com
o prindpio de "não-apropriação" do Tratado do Espaço Cósmico.
Outro grupo de países em desenvolvimento propôs um sistema de
concessões para o uso das órbitas geossincrllnicas.
23
Seriam con­
cedidas aos países rotas orbitais que poderiam então ser vendidas,
alugadas ou reservadas para uso futuro.
Outra forma de adminislrar esse recurso e captar seu valor lo­
cativo em prol do interesse comum seria atribuir a um organismo
internacional o direito de propriedade e de concessão das rota.
orbitais a licitantes em leilão. Tal alternativa se assemelharia à
Autoridade dos Fundos Marinbos na Convenção sobre o Direito
Marítimo.
Os países industrializados se opõem à criação de um regime de
direitos de propriedade para a órbita geossincrllnica, especial­
mente um regime que conceda direitos sobre rotas orbitais a paí­
ses que ainda não estão capacitados a usá-Ias. Argumentam que
um regime de alocação prévia elevaria os custos e reduziria o in­
centivo do setor privado a desenvolver e utilizar essa órbita. Ou­
tros, que ante vêem um futuro cada vez mais promissor para as
comunicações via satélite, argumentam que devem ser estabeleci­
dos regimes reguladores antes que a concorréncia dificulte ainda
mais essa iniciativa.
lima vez que as comunicações via satélite envolvem o uso de
ondas de rádio, um regime de facto para a distribulção de rotas na
órbita geossincrllnica surgiu há muitos anos por intermédio das
atividades da União Internacional de Telecomunicações (urr). A
LJ IT distribui o uso das ondas de rádio (as p.u1:es do espectro ele­
tromagnético utilizadas nas comunicaçôes).24 A natureza suma..
mente técnica da tarefa de distribuir as ondas de rádio, aliada ao
.'10
fato de ser necessana uma rígida submissão para que qualquer
usuário possa ter acesso a esse recurso, produziu um
do regime fundamentado em três conferências re­
gionais, para a administração eficaz desse recurso.
25
Se esse mé­
todo vai persistir ou não depende em grande parte da justiça das
decisões tomadas por ocasião das conferências regionais.
10.2.3 A poluiçãO do espaço orbital
Os detritos em órbita são uma ameaça cada vez maior às ativida­
des humanas no espaço. Em 1981, um grupo de especialistas eon­
vocados pelo Instituto Norte-Americano de Aeronáutica c Astro­
náutica concluiu que o aumento do entulho espacial poderia
constituir "uma ameaça inaceitável" à vida no espaço dentro de
10 anos.
26
Esse entulho consiste em tanques vazios de combustí­
vel, carcaças de foguetes, satélites desativados e detritos de ex­
plos6es no espaço, concentrando-se entre 160 e I. 760km acima
da Terra.
Se houvesse um cuidado maior no planejamento e na elimina­
ção dos satélites artificiais, isso poderia ser em grande parte evi­
tado. Mas a fonnação de entulho é uma conseqilência inevitável e
intrínseca do uso e testagem de armas espaciais. A contribuição
das atividades militares para o "cinturão de entulho" da Terra
pode aumentar consideravelmente se se concretizarem os planos
de lançar no espaço annas instaladas em satélites e sensores para
fins bélicos.
Assim. a medida mais importante para reduzir o lixo espacial é
impedir a testagem e o desenvolvimento de armas ""diadas no es­
paço ou armas projetadas para serem usadas contra objetos no es­
paço.
Uma eliminação total seria diSpendiosa. Já se propôs que as
srandes potências liderem um esforço internacional para retirar de
órbita as peças maiores do entulho espacial. Tal iniciativa envol­
veria a criação, a construção e o lançamento de veículos que pu­
dessem ser manobrados no espaço e que contassem com enormes
dispositivos para recolher objetos. A proposta despertou pouco
entusiasmo. .
10.1.4 A energia nuclear em órbita
I'
Muitas espaçonaves são movidas a energia nuclear se
'podem contaminar a Terra
27
Há duas formas básicas de abordar
'c problema: proibir ou regulamentar. A opção de proibir o lança,
de materiais radiativos no espaço é a mais simples de con­
em lei. Solucionaria o problema e também tolheria enor­
311
"O emprego de espaçOfUlves para resolver problemas de fio­
restamento é um bom exemplo do uso pacfjlco do espaço. Levan·
em conta os interesses das gerações atuais e não
há outra área mais favorável à aplicação da tecnologia espacíal
que a proteção ambiental. paro estudar OS recursos naturais da
Terra e controlar seu uso racionnl e sua" reprodução. Acredita­
mos que nos ano,r vindouros a cooperação internacional neste
campo será nulior.··
L.E. Mikhailov
Comiti> Estatal sobre Florestomento da URSS
Audiência pGblica da CMMAD, Moscou. 11 de dezembro de 1986
metuente o desenvolvimento futuro de sistema..., béHcos instalados
no espaço. A proibição total poderia dar fim aos usos científicos
úo espaço mais longínquo, uma vez que pcquenas quantidades de
materiais desintegráveis têm sido indispensáveis para o lança­
mento de sondas espaciais. A proibição de reatores no espaço
ria fácil de controlar, pois estes produzem calor residual detectá­
vel a longa distáncia por sensores infravermelhos. A verificação
da inexistência de pequenos sistemas movidos a energia nuclear
seria mais mas não impossíveL
Há uma grande variedade de métodos para regulamentar o uso
de materiais radiativos no espaço. Entre os mais importantes estão
a Iínútação do tamanho dos reatores que podem entrar em órbita,
a ex'gência de que o material radiativo tenha uma blindagem ca­
paz de resistir à reentrada na atmosfera da Terra. e a exigência de
que as espaçonaves que contêm material radiativn sejam depostas
no espaço longfnquo. Todos esses métodos são tecnologicamente
exeqüíveis, mas tornariam as missões mais dispendiosas e com­
plexas. Apesar disso, deveriam ser postos em prática como um
requisito mínimo.
10.2.5 Para o estabelecimento de um regime espacial
Logo após a invenção do avião, tomou-se 6bvio que ocorreriam
colisões, a menos que se estabelecesse um regime geral de con­
trole do tráfego aéreo. Esse modelo é útil quando se pensa na ne·
cessidade e no conteúúo de um regime espacial. O estabelec"
mento de "normas de trânsito'" para o espaço orbital poderia "".
segurar que a ação de alguns não destruísse o recurso de todos.
O espaço orbital não pode ser administrado com eficiência por
um país 'solado. A natureza internacional do espaço orbital já foi
reconhecida pela maioria das nações no Tratado do Espaço Cós­
mico. A comunidade internacional deveria procurar planejar e
implementar um regime espacial que assegurasse a pennanência
do espaço como um meio ambiente pacífico para o benefício de
todos.
Um passo fundamental para a administração eficiente do recur­
so espacial é deixar de lado a noção de que. como o espaço cós­
mico é em geral ilínútado, o espaço orbital pode absorver qual­
quer atividade humana. Devido às velocidades envolvidas, o es­
paço orbital está. para fins práticos, muito mais Hpl'Óximo" que a
atmosfera. Um sistema de controle do tráfego espacíal que prolba
algumas atividades e coordene outras representa um meio-termo
entre uma única Autoridade Espacial e a atual situação de quase­
anarquia.
O espectro eletromagnético foi efetivamente regulamentado
por acordo internacional, e dessa regulamentação surgiu o em­
brião de um regime para o espaço orbital geossincTÔoico. Pela 16­
gica, o próximo passo é uma ampliação desse tipo de abordagem
para que se eontro]e o lixo espacial e o uso de materiais nuc]eares
em órbita.
Deve-se encontrai' o ponto de equillbrio entre regulamentar
atividades tarde demais e regulamentar atividades ainda não
existentes eedo demais. É evidentemente prematura, por exemplo,
a regulamentação das atividades na Lua, além do estipulado nos
princípios gerais do Tratado do Espaço Cósmico. Mas já se pro­
telou bastante a regulamentação do entulho espacial e do material
l1Idiativo em órbita terrestre.
18.3 ANTÁRTIDA: BUSCANDO A COOPERAÇÃO
GLOBAL
continente antártico - maior que os EUA e o México combina­
- está submetido, há mais de uma geração, a um regime de
,et:M>peração multilateral que garante sua proteção ambiental. Pir­
em 1
2
de dezembro de 1959, o Tratado Antártico deu eo­
a uma série de iniciativas importantes que visam a dois obje­
primordiais: preservar a Antártida apenas para usos pacífi­
ihindo qualquer atividade militar, testagem de armas, ex­
nucleares e deposição de rejeitas radiativos; e estimular a
_tsa cientílica na Antártida e a cooperação internacional para
fim.
28
312
313
o fato de a da Antártida" constar hoje da agenda das
Nações Unidas indica a existência de debates na comunidade
internacional acerca da futum administração do continente. Sob
as p"'ss6es conjuntas de tendências econllmicas, tecnológicas,
ambientais e oulraS, surgem iniciativas para o estabelecimento de
um regime de explomçio de minerais. Novas· questões sobre a
administração eqüitativa da Antártida ap"'sentaIn desafios que
podem refonnular seu contexto político na próxima década.
3O
Durante o período de mudanças que está por vir, o desafio é
a._gorar que a Antártida seja administrada no interesse de toda a
humanidade, de modo a que conserve seu meio ambiente wuco,
p"'serve seu valor para a pesquisa científica e mantenha seu ca­
dlter de zona de paz desmilitarizada e não-nuclear.
No momento, a responsabilidade pela orientação dada IIsmu­
danças cabe inicialmente aos países integrantes do Tratado An­
tártico)1 Sob sua égide, 18 nações gozam hoje de pleno poder
decisório; essas Partes Consultivas exercem seus direitos e cum­
f'I"m com suas obrigações em cooperação pacífica, apesar de di­
vergirem quanto a reivindicações territoriais de partes do conti­
ne_. 0u1raS 17 nações atoam como observadoms nas reuniões
bíanuais do Sistema do Tmtado Antártico (STA).
O Tmtado Antártico está aberto a todos oS Estados-membros
das Nações Unidas e a outros Estados que sejam convidados a
nele ingressar. Pare se tomar Parte Consultiva, um país deve de­
monstmr interesse concreto na Antártida, realizando pesquisas
científicas de peso no continente. As nações integrantes do Tmta­
do julgam que este sistema é flexível e permite o acesso a todas
as nações genuinamente interessadas. Muitos países em desenvol­
vimento que não dispõem de recursos para efetoar pesquisas no
continente considerem que essa condição exclui efetivamente a
maioria das nações do mundo.3
2
Mas a questão da participação não está polarizada entre países
industrializados e em desenvolvimento. Nem todos os países in·
dustrí.aI.izados silo membros do Tmtado, enquanto Argentina, Bm­
sil, Cbile, CIúna, Índia e Uruguai têm status de consultores, e
muitos outros países em desenvolvimento já providenciamm seu
ingresso. Entretanto, a esmagadora maioria dos países em desen­
volvimento, inclusive todos os da África. permanece fora dos
acordos.
Além disso. não é conselll!O geraI que a Antártida pertença àa
áreas comuns internaciouais. Sete Estados, por exemplo, reivindl.
cam partes do território. Ademais, muitos países em desenvolvi­
mento rejeitam a idéia de que esse continente, que consideram
patrimllnio comum da humanidade, seja administrado por algon.
países à exclusllo de outros. Muitos encaram o Sistema do Trata-
Box 10.1 Os acordos sem precedentes do
Tratado Antártico
Pelo Tratado Antártico. os sete Estados que reivindicam ter­
ritório no continente concordaram com os demais países­
membros do Tratado em pôr de parte as disputas em tomo
de status territorial da Antártida, a fim de executarem, de
comum acordo. atividades na área.
Enquanto o Tratado estiver em vigor. nenhum ato oU
vidade em curso na região poderá ":;;ervir de hase à declara­
ção. defesa ou rejeição de qualquer reivindicação de
rania territorial na Antártida
H
tampouco será feita qualquer ,
nova ou a ampliação de uma reivindicação
existente .
As decisões são tomadas por consenso, o que garante
tanto aos países reivindicantes quanto aos não-reivindican­
tes a lotaI desaprovação de qualquer atividade ou prátÍ<'a
administrativa prejudicial à sua posição dentro do status ter­
ritorial do continente antártico. O Tratado prevê a possibili­
dade de inspeção local em qualquer époea e em qualquer
área da Antártida, por partc de nacionais designados para
so pelas Partes Consuitivas.
Fonte: baseado em: Kimba1I, L. Testing the great experimento é'nvi­
ronmem, Sepr. 1985.
do Antártico corno prerrogativa exclusiva dos países ricos e tec­
nologicamente avançados. Outros se opõem ao que consideram o
exclusivismo do Sistema do Tratado, com países se autonomean­
do para dctenninar o futuro do continente. Embora as Partes Con­
sultivas asseverem que vêm administrando a Antártida no interes­
se de todos os povos. muitas nações afirnlam que tais interesses
não deveriam ser dctenninados apenas pelas Partes Consultivas: e
esse parecer tcm conquistado muitas adesões desde 1959. Apesar
das atuais controvérsias acerca do futuro do muitas
nações que não aderiram ao Tratado reconhecem o mandato das
nações quc o integram no tocante à proteção do meio ambiente da
Antártida.
33
A Comissão não pretende se pronunciar acerca do status da
Antártida. Mas julga essencial que scja administrada e protegida
de forma levando em conta os interes.c;es comuns que
elltlo em jogo. Também observa que os regimes legal e adminis­
trativo estão passando por um processo de mudanças que conduz
I'uma participação mais ampla.
314
As Panes Consultivas do Tratado Antártico têm procurado
demonstrar grande preocupação com a proteção do meio ambiente
do continente e com a conservação de seus recursos naturais.
(Ver box 10.1.) Em 1964, adotaram as Medidas de Consenso para
a Preservação da Pauna e da Rora Antárticas,34 que equivale a
um protocolo de conservação incorporado ao Tratado. Nas reu­
niões bianuais subseqüentes. continuaram a estabelecer princípios
e medidas ambientais para servir de orientação à·o planejamento e
execução de suas atividades. Outras medidas melhorariam a
cácia e ampliariam o raio de ação das iniciativas de proteção am­
seria igualmente interessante considerar meioSe de garantir
a ampla difusão do grau de observância dessas medidas.
As Partes Consultivas também desempenharam papel de desta­
que na promulgação de duas importantes convenções internacio­
nais relacionadas com a conservação dos recursos vivos: a Con­
venção sobre a Preservação da Poca Antártica, de 1972, e a sobre
a Preservação dos Recursos Marinhos Vivos, de 1980.
35
Esta úl­
lima surgiu da preocupação de que o esgotamento das espécies
písceas da Antártida, em particular do krill, crustáceo semelhante
ao camarão, acarretasse conseqüências graves e imprevisíveis
espécies afins e delas dependentes. Essa Convenção adota uma
Habordagem eçossistêmica" para a adminis.tração dos rccun;;os)6
Em conjunto. esses instrumentos legais, os protocolos e reco­
mendaçõcs que os acompanham, bem como o órgão não-gover­
namental Comitê Científico de Pesquisa Antártica (CCPA), cons­
tituem o que se conhece por Sistema do Tratado Antártico. Esse
sistema demonslra a evolução ocorrida desde que o Tratado An·
tártico entrou em vigor.
Diversas ONG internacionais começaram a monitorar a ade­
quação e observância das medidas de proteção e conservação
ecológica da Antártida, e freqüentemente as criticam. Têm tam­
bém procurado se posicionar como observadoras nas reuniões do
STA, além de um maior envolvimento na formulação e na análise
das políticas relativas à Antártida. Algumas agências da ONU que
se interessam pela oceanografia c pesca no hemis­
fério sul se engajaram em esnldos científicos e polítkos sobre a
Antártida. Um resultado concreto desse interesse foram os
te, formulados à Organização para a Alimentação e a Agricultura,
à Comissão Oceanográfica Inrergovemarnental, à União Interna­
donal para a Conservação da Natureza e dos Recursos
à Comissão Internacional 'Obre a Pesca da Baleia, ao Comitê
Científico de Pesquisa Oceânica e à Organização Meteorológica
Mundial para que participassem como observadores das reuniõcs
da Comissão para a Conservação dos Recuf80S Marinhos
da Antártida (CCRMVA). A Comunidade Econômica Européia
•'A ameaça ambiental mais cruel provém do próprio movimento
ecológico. pois assistimos às leis sobre direitos dos animais des·
truírem sistematicamente nosso estilo de vida e violarem o direito
que como nações aborígines. a nossas tradições e valo­
res. Apesar disso. nosso povo, inclusive a população antártica.
precisa se desenvolver. O desafio é encontrar estratégias de ele­
senvolvimento que satisfaçam as necessidades do povo e do meio
anrbiente .•
Rboda 1 nuksu
índio inuit
Audiência pública da CMMAD, Ottawa, 26-27 de maio de 1986
também pertence à CCRMVA, já que seus Estados-membros lhe
reconhecem a competência quanto às políticas de administração
das zonas pesqueiras.
Para que o STA se mantenha viável no próximo século, terá de
continuar evoluindo e se adaptando a novos problemas e novas
situaçôes. Embora o Tratado possa vigorar indefinidamente, em
1991 qualquer de suas Panes Consultivas pode convocar uma
conferencia geral das naçõcs signatárias a fim de rever sua atua­
ção.
10,3,1 Resguardar as realizações amais
Embora seja inevitável que ocorram mudanças na situação admi­
nistrativa da Antártida, é essencial que tais mudanças não preju­
diquem as realizações do Sistema do Tratado nos campos da paz,
eiência, conservação e meio ambiente. A Antártida vem sendo
uma mna consensual de paz há quase 30 anos, livre de quaisquer
atividades militares, testes nucleares e rejeitos radiativos. Isso é
um exemplo a ser seguido por toda a humanidade.
fi. cooperação na pesquisa científica vem se expandindo a um
ritmo constante; e deve ser reforçada ainda mais, sobretudo
quanto ao papel da Antártida na circulação oceâniea e atmosférica
globais e no clima do planeta. Ao mesmo tempo, devem-se envi­
dar mais esforços para garantir a plena participação em tais pes­
quisas. É preciso encontrar meios de expandir a a'3sistência técni­
ca e a participação, e de estender os benefícios da cooperação
internacional na ciência e tecnologia antárticas a toda a comuni­
dade internacional.
Já roram feitas muitas sugestões nesse sentido. Entre elas, criar
um fundo para facilitar a participação dos países em desenvolvi­
316
317
mento interessados em pesquisa cienlífica na Antártida, bem c0­
mo convidar mais cientistas de nações em desenvolvimento a par­
ticiparem de projetos e a visitarem estações cienlíficas. Em face
do alto custo das tecnologias envolvidas na investigação científi­
ca da Antártida, dever-se-ia estudar a possibilidade de partilhar
bases e capacidades logísticas com os países não-cqnsultivos inte­
ressados. O direito à condição de Estado consultivo poderia ser
estendido aos países que co-participam de atividades cientificas.
Como as atividades na Antártida se multiplicam, para uma boa
conservação será necessário ampliar a coleta de dados, o monito­
ramento e a avaliação ambiental. Os efeitos cumulativos e intera­
tivos desses projetos devem ser cuidadosamente analisados, e as
áreas de raro valor cienlífico e ambiental devem ser protegidas.
10.3.2 Antever as pressões para a exploração de mineraIs
Sabe-se que há vários tipos de minerais na Antártida, mas boatos
a esse respeito desencadearam suposições falsas acerca da imi­
nência de sua exploração. Mesmo segundo as tendências de cres­
cimento mais otimistas, parece evidente que serão exploradas
fontes mais acessíveis em outros pontos do planeta muito antes
que a Antártida venha a atrair grandes investimentos. Foram en­
contrados apenas dois minerais que podem ocorrer em concentra­
ções adequadas à exploração: o carvão, nas montanbas transan­
tárticas, e o ferro, nas montanbas Prlncipe Charles. Sua extração
seria uma insensatez}7 Além de os custos serem proibitivos, há
carvão e ferro suficientes em locais mais proximos dos principais
mercados.
Provas circunstanciais indicam a existência de gás e petróleo
em a1to-mar. mas ainda não foi descoberta nenhuma jazida. Fran­
ça, Japão, Reino Unido, República Federal da Alemanha e URSS
fizeram o levantamento das plataformas continentais da Antártida.
Esses levantamentos foram de natureza cientifica, mas, COmo
coincidiram com as primeiras discussões sêrias sobre um regime
para os minerais, foram vistos por alguns observadores como si­
nais de interesse comercial
As 18 Partes Consultivas estão negociando a fim de estabele­
cer, em comum acordo, uma estrutura legal para determinar como
o meio ambiente aceitaria a possível dos minerais na
Antártida, e a fim de gerir essas atividades. 8 Os membros do
Tratado achavam que seria mais difícil chegur a um acordo acerca
de tal regime depois da ocorrência de descobertas concretas. Em
muitos aspectos, as negociações expressam a idéia de que é me.
lhor prevenir do que remediar, de que é melhor pensar ante. do
que deixar para depois.
A Antártida é um enorme continente. se disputam direitos
de soberania c onde não há quaisquer bases legais assentidas para
a emissão de licenças, direitos de arrenda.mento ou venda de mi­
nerais, nem para o recebimento 'de royalties. Questões delicadas
como essas Já estão surgindo, e só arrefecerão quando forem re­
solvida., por meio de consenso internacional. Até que se dê
ção a essas questões e se assegure a proteção ambiental da
tida, parece improvável que qualquer nação ou h'TUPO de nações
esteja apto a investir com segurança na exploração de seus rccur­
. .
50S mmeralS"
39
Ante a inexistência de tecnologia.... testadas sob as condições
extremas da Antártida, a falta de consenso acerca dos procedi­
mentos para avariar os impactos de qualquer tipo de expioração e
a escassez da base de dados. poderia uecorrer uma geração ou
mais de muita dedicação à pesquisa e ao desenvolvimento tecno­
lógico para garantir que a exploração de minerais não destruiria o
frágH ecossistema antártico e o lugar que ocupa nos processos
ambientais do planeta. Assim, é importante que não se pratique
nenhuma atividade de mtneraçãü até que essas condiçôes tenham
mudado. e só então permiti-lo. em consonânda com um regime
que garanta a implementação dos padrões mais rigorosos ncccssá
w
rios à proteção do meio ambiente. sendo os processos comparti­
lhados de fonna eqüitati va.
10.3.3 Promover a evolução do sistema do Tratado Antártico
Nos próximos anos, as atividades na Antártida se expandirão em
variedade e escala. bem como no número de pessoas cnvol vidas.
Devem-se envidar mais esforços para assegurar uma boa admi­
nistração dessa'li atividades c uma expansão ordenada da partici­
pação nessa administração. Várias opções vêm sendo cogitadas
pela comunidade internacional. Essa administração mais efetiva.
incluindo uma participação mais poderia ser instaurada
sraduaimente através do atual Sistema do Tratado. Mas dadas as
dimensões da provável mudança e o atràtivo das riquezas mine­
rais, por mais remotas que sejam. uma tal abordagem poderia ser
lenta demais para manter o apoio político. Outra opção seria atin­
&ir os objetivos citados um sistema inteiramente
DOvo. No entanto. nenhuma dessas aJternativas estaria livre de di­
ficuldàdes. Ainda outra possibilidade seria intensificar os
ços para tomar o Sistema do Tratado mais universal. mais aberto
e sensível a manifestações de preocupação e interesse concretos li'!
legítimos 'para com a Antártida.
318
319
--
. 'Alguns locais únicos no mundo, como o lago Bai,",1 e a Sibé­
ria, os Grandes Lagos da África e da América do Norte, siio
panes de nosso património global. Representam alguns dos
res absolutos de no..uo planeta. e ,\"ua importância transcende
quaisquer fronteiras nacionais, Deverfanws como pre­
ver seu futuro e Como antever os efeitos colaterais dos projetos
de engenharia e.m e.'·;cata.
Como os interesses das peSS(XlS varit:lltl, não se pode admitir
como certo que elas aceitem as recomendaçôes dos especialistas
e cheguem a um acordo apefUJs por conta dessas recomendações.
E sua conrordáncia é de especial itnportância nas situações em
que estão envolvidos problemas' globaú e em que toda a espécie
humana pode estar ameaçada pe!o:r perigos decorrentes da
sência de tal concordlmcia.
Hoje O que .n?' faz necessário é moldar lun novo ethos e novo
acordo para promover (l compreensão entre povos, países e
giães. Corno wn primeiro passo. devemos produzir novos conhe­
cimentos. concentrar nossos esforços de pesqulsa na f1Ulnutenção
da vida sobre (l Terra e criar um sistema de disseminação e difu­
são de informações, assim como novos critérios morals. i.Ú' modo
a que estes cheguem aos bilhôes de pessoas que habitam () nosso
plarwta. "
Acadêmico N.N, Moíseev
Academia (le Ciências da URSS
AUiJiência pÚblica da CMMAD, Moscou. 8 (je de/J!mbro (je 1986
10.3.4 Criar uma fonna de melhorar a comunicação
À medida que se multiplicam as atividades sob os diferentes tra­
tados, ganha importância a coordenação entre autoridades res­
ponsáveis pelas diversas áreas. tanto no plano consultivo quanto
no decisório, A Antártida pode exigir a criação de instituições
mais fonnais do que as que regeram a primeira geração de ativi­
dades, a fim de promover uma coordenação e comunicação me­
lhores não s6 dentro como fora do Sistema do Tratado.
A Antártida está na agenda da Assembléia Geral da ONU e
provavelmente ali pcnnanecerá. Mas nada ocorrerá. a menos que
os participantes do debate encontrem meios de obter um amplo
apoio político, chegando a um consenso quanto a explorar e ad­
ministrar melhor o continente.
Para se concentrarem em estratégias de longo prazo que visem
a preservar e ampliar as realizações do atual Sistema do
as nações devem criar meios de promover o diálogo entre polftl.
coso cientistas. ecologistas e industriais de países que aderiram ou
não ao Tratado. Um bom começo seria o estabelecimento de reJa­
çc')es de trabalho mai.s estreitas entre os participantes dos regimes
antárticos e as organizaçõcs internacionais, pertencentes ou não
ao sistema das Nações Unjdas. responsáveis por ciência e tecno­
logia, conservação e administração ambiental.
Os procedimentos de política nacional também poderiam ser
estruturados de modo a permitir o diálogo entre as indústrias, as
organizaçóes de interesse público e os especialistas eúnsultores.
talvez através de um comitê consultivo sobre a Antártida. O go­
verno dos EUA foi o primeiro a nomear consultores industriais e
governamentais para suas delegações junto às reunióes das Partes
Consultivas. Dinamarca e Nova Zelândia seguiram esse
exemplo mais recentemente.
Chegar a um consenso internacional acerca da Antártida é uma
tarefa árdua que exige tempo e paciência. E a atratividade dos
minerais aumenta a cada novo boato sobre uma descoberta. Mas
tal consensO é o único meio de evitar que o tranqüilo continente
gelado seja tragicamente saqueado e de mantê-lo como símbolo
da cooperação internacional pacífica e da proteção du meio am­
biente.
Notas
1 Este item baseia-se em: Szekely. F. The manne and coastal environment.
1986. (Elabomdo par •• CMMAD.); Beddington. 1. Whaling. 1986. fEla­
borado para a CMMAD_); Sebek. V. Policy paper on dumping. 1986. (E­
laborado para a CMMA D_)
2 Holdgate. M.W. ef am. The marinc cnvironment. In: Tlle world environ­
ment 1972-1982. Dublin. Tycoo!y, 1982.
3 Ver: National Academy of Sciences. Oi! in lhe sea. Washington, D.C.,
National Academy Press, 1985; OECD. Maritime transporto /984. Paris,
1985.
4 Scientists closer to identifying causc of Antarctic Qzone depletion. Na­
tional Science Foundation News, 20 Oel. 1986; Ad Hoc Workiog Group
of Legal a.d Technical Exporl' for lhe Rlaboration of a Protoeol 00 the
Control of Chlorotluorocarbons to the Vicnna Convcntion for the
tion of the Ozone Laycr (Vienna Group). Report of the sccond part of the
Workshop 00 lhe Control of Chlorofluorocarbons. Leesburg. USA,
Uoep/WG_ 1511Backgrouod 2. Na.86-2184, Nairobi. Uoep, 15 Oel. 1986;
Miller, A..S. & Mintter. LM. Tll(, .\'/'::y is file limir. strutcgies for protecting
lhe ozone layer. Washington, D.C,. World Resources lnstitutc. 1986.
(WRl Research Report o. 3.)
S GEACPM, numa aV'1liação reçente do atual estado de saúde (jos ocea­
nos. The hcahh oI' lhe occaos_ Nairobi. Unep, 1982. (Regional Seas Re­
ports aou Studies o. 16.)
320
321
6 Bertrand, M. Some refiections on refonn of the Unlted NaUons. Gene­
va. Joint lnspection Unit, United Nations. 1985.
7 Eckholm, E.P. Dowl! 10 Bar/h. London, Pluto Press, 1982.
8 Gulland, J.A. & Garcia, S. Observed patterns in muWspecies fisheries.
In: May, ed. Exp{oitt.uion of mnrine communities. Berlin,
Verlag, 1984; PAO. Review of the ,tate of world fishery c<sources. Ro.
me, 1985. (Pi.herie. Circular 710 (rev.4).)
9 Gulland, J, Marine Resources Assessment Group. imperial CoUege af
Scienceand Technology. London, 20 Jan. 1987. (Comunicação pessoal,)
10 FAO. op.. cit.
11 IWC. Repor. of,he IWC 36th Session, 1986. Cambridge. (No prelo.)
12 Report OI! Greal Lakes water qualif)': Great Lakes water quality board
repnrt to the International Joinl Commission. Windsor, Ont.,IJC, 1985.
13 IMO. The provisions of the London Oumping Convention, 1972; Oe.
cisions made by the consultative meetings of contractíng parties.
J4 Despejo, na Convenção. significa qualquer descarga deliberada no mar
de materiais e substâncias de qualquer tipo. fonna ou descrição. por na­
aviões. plataformas ou outras estruturas artificiais, assim como os
despejos dos pr6prios navios, aviões. plataformas ou outras estruturas
tif1ciais.
15 Vinte e cinco nações, lideradas por Espanha, Austrália e Nova
dia, apoiaram a resolução, ao passo que África do Sul. Canadá, EUA,
França, Reino Unido e Sufça votaram contra.
16 Grimas, U. & Svansson. A. Swedish repon 011 the Skaf.{erak. Stockhohn,
National Environmental Protectíon Buard. J985.
17 Nações Unidas. Documento finaJ da 111 Conferência sobre o Direito
Marítimo. Montego Bay, Jamaica, Dez. 1982. Em sua forma final a ConM
venção é composla de 17 partes principal. (320 artigos), que Iratam do
mar territorial e zona contígua; estreitos usados para navegação interna­
cional; Estados-arquipélagos; zonas econômicas plataforma
continental; alto-mar; regime das ílhas: mares fechados ou semifechados:
direito de acesso ao mar em ambos os sentidos e liberdade de trânsito para
pafses sem litoral; área, proteção e preservação do meio ambiente marinho:
pesquisa cientffica marinha; desenvolvimento e transferênL'Ía de tecnologia
marínha; solução de disputas; providências gerais; e providências f Id
nove anexos à Convenção: espécies altamente rnlgratórias; Comissão sohre
os limites da Plataforma Continental: condições básicas par" prospecções:
exploração e explotação; eslatut0S da Corte lni\!rnacional para o Direito
Marítimo; Estatutos da Empresa; conciliações; arbJtlagem e arbitragem C'
participação especiais de organizaísões internacionais. Pel.::. Convenção. os
Estados t."Osteiros podem adotar leis e regulamentações nas ZEE comparE­
veis com as regras e padn3es internacionais de combate à poluição
niente de navios.
IH Entre outras coisas, declaração do presidenle dos EUA de 9 de julho de
1982, e LO.S. Bulletin, Office of the Special Representalive of lhe Se.
cretary General for the Law af the Sea Convcntion. July 1985.
19 Sullivan, W. Eruption in Mexico tied to climate shift off Peru. N('w
York1'imes, 12 Dec. 1982.
20 Kerr, R. TakÚlg sbols ai ozone hole Iheories. Science. 14 Nov. 19H6.
21 Quando a velocidade de um satélite coincide com a velocidade de rola­
ção do planeta, o satélite é e.""'ionário em relação a detenninados lugares
da Terra. Existe apenas uma faixa, ou aro, diretamente acima do equador.
em que é possível alcançar a órbita geossincrônica.
22 Um caso ilustrativo de regime regulallSrio e de vários regimes alterna,; .
vos está explicado em; Gibbons, K.G. Orbital ••turation: the nece.sity for
intemational regulation of geosynchronous orbíts. Califomia Western In­
ternalionall..aw JOIff1Iai, Winter 1979.
23 Um resumo dos pontos de vista do Terceiro Mundo encontra-se em:
Levín, H.J. Orbit and speetrum resouree strategíes: Third World demands.
Telecommunícatúms PoIícy, June 1981.
24 A aIoellÇão é feita a cada 10 anos, nas World Administrative Radio
Conferenees (WARC), a IlItírna das quais se realiwu em 1979. US Con­
gress, Office of Technology Assessment RaáiofrequefICy use and mana·
8eme1ll; impacM from lhe World Administrative Radio Conference of
1979, Washinglo.n, D.C., US Govemment Printing Oflice, 1980,
25 Estas confer&leias estão descritas em: Coding, G., Jr. The USA and lhe
1985 Space WARC; Rutkowsld, AM. Spoce WARC: lhe slake of lhe de·
..eloping countries, the GEO and lhe WARC·ORB 8S Conference. Spoee
PoUcy, Aug, 1985.
26 AIAA Technlcal Commiltee on Space Syslems. Spsce debris. July
1981.
27 O. EUA já lançaram 23 espaçonaves alimentadas, pelo menos em parte,
por fontes de energia nucl ..... ; uma das fontes era um reator e as restantes
eram materiaís radiativos cujo calor, decorrente de sua desinlegração es­
pont4nea, é con-ndo em eletricidade (geradores termelétricos}. Até fins
de 1986, a URSS havia lançado 31 naves espacíaís movidas a energia nu·
c1ear, quase todas com reatores por fissão, e opera atualmente todos os
satilites que funcionwn por reatores.
28 Antartic: a rontinent in transitíon. Fact Sheel Folio. London, Interna·
tionallnstitute for Environment and Development, 1986,
29 Em 1983 a VII Conferência de Cópula dos Países Não· Alinhados in­
cluiu um parágrefo sobre a Antártida em seu boletim oficial. Nesse mesmo
ano, .. q"""IJo da Anlártida foi incluída na agenda da Assembléia Geral
dasNações Unid"!,, O debate resultou numa resolução de conselll!() soHci·
lando ao secretário-geral a elaboração de um relatórin especial que foi dis·
cutido na XXXIX Sessão da Assembléia Geral da ONU, em novembro de
1984. O consenso não se manteve. Nas sessões seguintes da Assembléia
Geral, foram tomAdas resoluções sobre a Antártida, apesar das objeções
dos pafses partícípantes do Tratado, a maioria dos quais decidiu não. parti­
cipar da votação,
30 Kimball. L. TeslÍng lhe great experimento Errvironmen:, Sept. 1985.
31 Anlarctic Treaty, concluído em I. de dezembro de 1959 e posto em vi·
gorem 23 de junbo de 1961, resumido em: Bowman, M.J. & Horris, O.J.,
CId. Multilateral treaties index anti CUJ7'tInt status. London, Butterworths,
1984,
32 Eslas nações incluem OS sete pretendentes originais: Argentina, Austrá­
lia, Chile, França, Noruega, No.va 7.elãodia e Reino Unido; e mais cinco,
que foram signatárias originais: África do. Sul, Bélgica, EUA, Japão e
3%3
322
URSS; e ainda mais seis, que desde então aderiram ao Tratado e se torna­
ram Partes Consultivas; Polônia (1977), Repdblica Federal da Alemanha
(1981), Brasil e Índia (1983) e China e Uruguai (1985). Qualquer pafs po_
de aderir ao Tratado e se tornar "Parte Consultiva", desde que, durante
todo o tempo, demonstre interesse no continente mediante a presença de
intensa atividade científica. Outros 17 pat.es aderiram ao Tratado, mas não
detêm a posição de membros consultivos. Desde 1983,8ão convidados a
participar das reuniões do Tratado Anlártico na qualidade de observado­
res.
33 Tanto em sua declaração de princlpíos rdativa ao meio ambiente,
quanto no texto da Convenção sobre a Preservação dos Recursos Mari­
nhos Vivos da Antártida, as Partes Consultivas insistem em que lhes cabe a
responsabilidade principal por esses assuntos, em virtode de seu status de
Partes Consultivas, uma proposição que os participantes da Convenção
que não são também Partes do Tratado são obrigados a aceitar.
34 Agmed moasUtos for lhe conservation of Antartic fauna and flora,
acertadas em 2-13 de junho de 1984, repoblicado em: Bush, W.M., ed.
Antarctlc and inlernaJWnallaw. London, Oceano, 1982.
35 Convention for lhe Conservation of Antarctic Sea1s, concluída em II
de fevereiro de 1972 e posta em vigor em 11 de março de 1978, sumariada
em: Bowman, M.J. &. Harris, D.J. oI'. cit.; Conventinn on lhe Conserva­
tion of Antarctic Marioe Líving Resources, conclufda em 20 de maio de
1980 e posta em vigorem 7 de abril de 1981, sumariada em: Bowman,M.J.
&. Harris, D.J. oI'. cito Ver tambéim: Bamos, J.N. The emergiog Convon­
tion 00 lhe Conservation of Antarctic Marine Living Rosouroes: an _m­
pt to meet lhe new realities of resource exploitation in lhe Southern oceano
In: Cbarney, J.I., ed. New nalionalism and lhe use Df common spaceS. To­
IOwa, NJ, Allenheld, 1982.
36 Beddington, J .R. &. May, R.M. Tbe harvesting of interacting species in
a natural ecosystem. Scien.tiJic American, Nov. 1982.
37 Zumberge, J.H. Mineral resources and geopolitics in Antarctica. Ame­
rican Scí.ntist, Jan-Feb. 1979; Pontecorvo, G. Tbe economícs of Ih. TO­
sources of Antarctica. In: Charney, J.I. oI'. ci!.
38 Kimball, L. Unfreezing ioternational cooperation in Antarctica. Chris­
lilIn Science Morotor, I Aug. 1983.
39 Sbapley, D. Antarctic UI' for grab •. Serene. 82, Nov. 1982.
11. PAZ, SEGURANÇA, DESENVOLVIMENTO
E O MEIO AMBIENTE
Dentre os perigos que ameaçam o meio urnbiente, o mais grave é
sem dúvida a possibilidade de uma guerra nuclear, ou de um con­
flito militar de menor escala que envolva armas de destruição em
massa. Alguns aspoetos das questões relativas à paz e à segurança
têm ligação direta com o conceito de desenvolvimento sustentá­
vel, sendo mesmo fundamentais para ele.
A pressão sobre o meio ambiente é ao mesmo tempo causa e
efeito de tensões políticas e conflitos militares. I As naç('ies fre­
qüentemente lutaram para ter ou manter o conlrole de matérias­
primas. suprimento de energia, terras, bacias fluviais, passagens
marítima., e outros recursos ambientais básicos. Esses conflitoS
tendem a aumentar à medida que os recursos escasseiam e au­
menta a competição por eles.
As conseqllências de um conflito annado, para o meio am­
biente
J
seriam as mais devastadoras no caso de wna guerra termo­
nuclear. as armas convencionais, biológicas e químicas, as­
sim como os abalos verificados na produção econômica e na or­
ganização socia), em virtude de uma guerra e da migração maciça
de refugiados. também têm efeitos prejudicinis. Mas mesmo que
se evite a guerra e se contenha o um estado de HpazH
pode levar a que se invistam na produção de annamentos, amplos
recursos que poderiam, ao menos em parte, ser usados para pro­
mover fonnas sustentáveis de desenvolvimento.
O vínculo entre pressões urnbientais, pobreza e segumnça é
afetado por vários fatores, como políticas desenvolvimentistas
inadequadas, tendências negativas na economia internacional, de­
sigualdades nas sociedades multimlciais e multiémicllE. e pressões
decorrenres do crescimento demográfico. Os vfnculos entre meio
ambiente, desenvolvimento e conflito são complexos e muitas ve­
:rA:lS mal compreendidos. Mas um enfoque abrangente da seguran­
ça internacional e nacional deveria ir além da ênfase tradicional­
mente dada ao poderio militar e 11 competição armada. As verda­
deiras funtes de insegurança englobam também o desenvolvi­
mento não-sustentável, cujos efeitos podem vir a misturar-se com
formas tradicionais de conflito, tomando-os mais amplos e mais
araves.
32$
324
11.1 AS l"RESSóES AMBlENTAIS COMO
FONTE DE CONFLITO
Raramente a pressão ambiental é a tlnica causa dos principais
conflitos entre as nações ou dentro de suas fronteiras. Mas eles
podem advir da marginalização de segmentos da. população e da
violência daí decorrente. Isto ocone quando os processos políti­
cos não conseguem Hdar com pressões ambientais que resultam,
por exemplo. da erosão e da desertificação. Por isso a pressão
ambiental pode ser um elemento importante e. em certos casos,
catalisador no conjunto de causas ligadas a qualquer conflito.
Pobreza, injustiça, deterioração do meio ambiente e conítito
interagem de modos complexos e poderosos. Um dos motivos de
crescente preocupação para a comunidade internacional é o fenô­
meno dos "refugiados ambientais".2 A causa imediata e aparente
de qualquer movimento maciço de refugiados pode ser a subleva­
ção política e a violência militar. Mas entre as causas subjacentes
incluem-se com freqüência a deterioração da base natural de re­
cursos e sua capacidade de manter a população.
O que se passou no cbamado Chifre da África serve de exem­
plO. No início dos anos 70, a Etiópia foi, assolada pela seca e pela
fome. Descobriu-se, porém, que a fome e a miséria deviam-se,
mais que à seca, a anos de uso excessivo dos solos nos planaltos
etíopes e à grave erosão daí resultante. Um, relatório encOmenda­
do pela Comissão Etíope de Alívio e Reabilitação concluiu o se­
guinte: "A causa fundamental da fome não foi a seca de incle­
mência sem precedentes, mas o mau uso da terra por muito tempo
aliado ao crescimento constante das popuJações humanas e ani­
mais durante decênios."3
As guerras sempre obrigaram as pessoas a abandonar suas ca­
sas e suas terras, tomando-se refugiados. Além disso. as guerras
de nosso tempo forçaram grande ntlmero de pessoas a deixar suas
terras natais. E mais. vemos hoje o fen&neno dos refugiados am­
bientais. Em 1984185, deiaaram suas casas JO milhões de africa­
nos, número que representa dois terços dos refugiados de todo o
mundo. Essa migração não swpreende numa região onde 35 mi­
lhões de pessoas passam fome. Muitos deles se aglomeraram nas
cidades. Mas muitos outros cruzaram as fronteizas do pais, au­
mentando as tensões entre OS Estados. Costa do Mmun. Gana e
Nigéria acolheram grande ntlmero de refugiados provenientes da
área desertificada do Sabe!. Tanzânia. Zâmbia e Zimbltbue tam­
bém têm recebido grandes quantidades de refugiados. Mas a
Costa do Marfim, por exemplo, que depende muito de suas ex­
portações de madeira. está sofreado um rápido desmatamento. de­
vido em parte !t necessidade de terras, e um terço dos que n.Io u
possuem é constituído por imigrantes. Na Costa do Marfim. a
agricultura destrói 4,5 vezes mais áreas florestais que a derrubada
de ãrvores.
4
Quase I milhão de haitianos que vivem em barcos - a sexta
parte da população do pais - abandonou aquela nação insular.
êxodo em grande parte decorrente da deterioração ambiental. O
Haiti sofre um dos processos de erosão mais graves do mundo,
que desgasta totalmente vastas extensões de uma mesma região, a
ponl!> de mesmo os agricultores que possuem muitas ter:ra8 não
conseguirem se manter. Segundo um relalório da Agência Norte­
americana para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), "os
efeitos sociais e econômicos da deterioração ambiental slio gran­
des e 'contribuem para oS crescentes fluxos migratórios das áreas
rurais. Milhares de camponeses haitianos deixam anualmente suas
casas e vão para Porto Príncipe, para outras ilhas do Caribe ou
para os EUA em busca de emprego e de me!bores condições de
vida".5 EI Salvador, uma das nações mais conturbadas da Améri­
ca Central, é também uma das que apresentam maior empobreci­
mento ambientai e um dos índices de erosão mais elevados da re­
gião. "As Causas básicas do atual conflito silo 110 mesmo tempo
ambientais e políticas, e derivam de problemas de distribuição de
recursos em uma terra superpovoada", segundo uma análise das
condições do meio ambiente em Bl Salvador, feita pela Usaid.
6
A África do Sul apresenta problemas semelhantes. A política
desumana do apartIutid está no âmago do conflito político exis­
tente na África meridiorial. Um dos meios pelos quais o apartIutid
institucionaliza tanto o conflito quanto a deterioração ambiental é
a alocação. mediante o sistema de hom;!:fanti.s, de 14% das terra_
do pais a 72% da população.7 Jovens negros em idade de traba­
lhar saem das hom;!:fanti.s de cultivo e pastoreio excessivos para
buscar trabalho nas cidades. onde, além da miséria dos bairros
superpovoados. encontram extrema desigualdade s6cio-econ{;mJca
e segregação racial. Eles reagem. A repressão se intensifica, e as
vítimas refugiam-se além-fronteiras - e assim o regime sul-africa­
no estende o conflito aos países vizinhos. Toda a região está mer­
gulhando na violência dai decorrente, o que pode gerar um con­
flito envolvendo também as grandes potências.
Além dos problemas interligados de pobreza. injustiça e pres­
são ambiental. a competição por matérias-primas, terra e energia
não-renováveis também pode eriar tensões. A busca de matérias­
primas foi em grande parte responsável pela competição entre as
potências coloniais. Os conítitos do Oriente Médio contêm inevi­
_!mente as semenles da intervenção de uma grande potência e
de uma conflagração mundial, em parte devido 110 interesse inler­
nacional pelo petróleo.
326
32.7
"Como é possfvel o mundo da natureza com a c0­
munidade dos pqvos e suas economias nacionais? Fazendo a
pergunta assim, pode parecer que se trQkl de coisas separadas.
Mas 1Iiíó. A hu1ru:uúdode, a espécie humana, existe 110 mundo da
nDrUreza e deie vive. E lIiíó falo em sentido figurado, falo em
sentido lik!raJ. .
Somos seres que vivem num sistema ecol6gico. Certamente
traçamos fronteiros na t!Cosfera. por motivos nacionais e regia­
1ICl.i.s. Mas tudo é uma coisa $d.
quando decloramos. com otúnismo. que o desenvolvi­
menLo econLJmico e a preservação do meio ambiente podem ocor­
rer paralelamente, é preciso ressalvar logo: $d se for dada pri0­
ridade m6xima à preservação da ecosfera. O desenvolvimenlO
econlJmico tem de ser secundário e orienmr-se por rigidos po­
dr6es eco16gicos. Ainda falta muito para que essas idéiasfunda­
mentais sejam aceitas universalmente."
Stan1ey Rowe
Sociedade AmbientaJ de Saskatchewan
Audiência pt!blica da CMMAD. Ottawa, 26-27 de maio de 1986
Assim conto formas insustentáveis de desenvolvimento levam
os países a ir além dos limites de seu meio ambiente, também di­
ferenças nas condiç<les ambientais dos países ou em suas reservas
de terras cultiváveis e matérias-primas podem gerar e exacerbar
tensões e conflitos internacionais. E a competição pelo uso de
bens que pertencem a lodos, como as zonas pesqueiras oceAnicas
e a Antártida. oU pelo uso de recursos comuns mais localizados,
como rios e águas costeiras, pode tomar proporções de conflito
internacional e ameaçar a paz e a segurança internacionais.
O consumo de água. em tennos globais. duplicou entre 1940 e
1980, e a expectativa é de que volte a duplicar no ano 2000. sen­
do que dois terços do consumo projetado destinam-se à agricultu­
m. Mas 80 ,países. que possuem 40% da população mundial. já
sofrem de uma grnve escassez de água.8 Haverá uma competição
cada vez maior por água pata irrigação, indústrias e uso domésti­
co. lá houve disputas por águ.a$ fluviais na América do Norte (o
rio Grande). na América do Sul (os rios da Prata e Paraná). no sul
e no sudeste da Ásia (os rios Mekong e Ganges), na África (o
Nilo) e no Oriente Nn!dio (10rdã0. Litaul, Orontes e Eufrates).
A pesca. oceAnica ou costeira, é fundamental pata a alimenta­
ção de vários países. Para alguns, o setor pesqueiro é básico na
economía
7
e a pesca excessiva traz riscos imediatos para a eco­
"floje, lIiíó podemos garantir a segurança de tmI pais, às custas
de outro. A segurpnça ...ó pode ser universal. ma.r lIiíó pode ser
apenas poUtica ou militar. tem de ser também ecológica. ec0nô­
mica e social. É preciso assegurar a reãJi:zação d4s aspi1'C/ÇáeS
da humanidade como tmI todo."
A.S. 'fimosbenko
, Instituto de Es/lflde • Direito, Academia de Cíinclas de URSS
Audiência páblica da CMMAD. Moscou. 11 de dezembro de 1986
nomia de várias nações. Em 1974, a IslAndia, que depende muito
de sua indllstria pesqueira. viu-se envolvida numa "guerra do ba­
caIbau" com o Reino Unido. Há tensões similares nOS mares ja­
ponês e coreano e em ambos os ludos do AtlAntíco Sul. Em 1986.
o estabelecimento de uma zona pesqueira el<c\usiva em tomo das
ilhas Fa.IIdandlMalvinas piorou ainda mais as relações entre In­
glaterra e Argentina. As disputas quanto ao direito de pesca do
PacÍÍlCO Sul e a pesca do atum em alto-mar levaram. em 1986, as
grandes potências a competirem cada vez mais por vantagens di­
plomáticas e pesqueiras na reglão. É possível que as disputas lí­
gadas à pesca se tomem mais fi:eqUenIeS à medida que as nações
comecem a pescar acima dos 1imítes de manutenção dos cardu­
mes.
Em todo o mundo estão surgindo ameaças arobienlaÍs à segu­
rança. As que mais preocupam são as que derivam das possíveis
conseqüências do aquecimento global causado pela concentração,
9
na atmosfera, de dióxido de cart>ono e outros gases. (Ver capí­
tulo 7.) Qualquer mndanÇa climática desse tipo teria muito prova­
velmente efeitos desiguais. abalando os sistemas agrícolaS em
áreas que fomecem gmnde parte das safras de cereais do mundo,
e talvez desencadeando maciços de população em
ãreas onde a fome já é endêmica. Durante a primeira metBde do
próximo século, o nível dos mares pode subir o bastante pata mu­
dar radicalmente as fronteiras entre nações lítorAneas e alterar, o
curso e a importAncia estratégica das vias navegáveis internacio­
nais _ efeito. também capazes de aumentar as tensões internacio­
nais. As alterações clímáticas e do nível do mar podem alnda
prejudicar OS viveiros de espécies de peil<es economicamente im­
portantes. Desacelerar o aquecimento global ou adaptar-se a ele
está se tomando uma tarefa essencial à redução de riscos de con­
flito.
319
328
n.z o CONFLITO COMO UMA DAS CAU6AS DO
DESENVOLVlMENI'O NÃO-SUSTENTÃVEL
A conida armamentista e o conflito annado criam grandes obstá­
culos ao desenvolvimento sustentável. Exigem em demasia recur­
sos materiais escassos. Apropriam-se de recursos humanos e de
riquezas que poderiam ser utilizados para combater o colapso dos
sistemas ecol6gicos, a pobreza e o subdesenvolvimento que, jun­
tos, tanlO contrÍbuem para a insegurança política atual. Podem
criar um estado de espírito desfavorável à cooperação entre na­
ções que, por sua interdependência ecológica e e<:onômica, preci­
sam superar antipatias nacionais ou ideológicas.
A existência de annas nucleares e o potencial de destruição
inerente à velocidade e à dimensão dos modernos arsenais
vencionais criaram uma nova consciência do que é necessário pa­
ra a segurança entre as naçóes. Na era nuclear, uma nação já não
pode conseguir segurança à custa de outra. Todas devem buscar a
segurança mediante cOQperação, acordos e restrições mútuas; de­
vem buscar a segurança comum. 10 PortanlO, a intetdependência,
fundamental nO tocante ao meio ambiente e à economia. é também
um fato nO campo da conida annamentista e da segurança militar.
A interdependência IOrnou-se algo obrigatório, que força as na­
ções a harmonizarem seus conceitos de "segurança".
n.z.! Guerra nuclear - ameaça à clvilizaçJio
As conseqüências prováveis de uma guerra nuclear tomam pouco
relevantes as demais ameaças ao meio ambiente. As anuas nuclea­
res constituem o estágio mais adiantado da evolução bélica. Uma
única bomba tennonuclear tem um poder de explosão maior que o
de todos os explosivos já usados em guerras. desde a invenção da
pólvora. Além dos efeilOs destrutivos da carga explosiva e do
que tais annas aumentam enonnemente
t
elas apresentam um
outro elemento letal - a radiação iônica - que amplia os efeitos
mortíferos tanto no espaço como no tempo.
Recentemente, os cientistas chamaram atenção para um outro
efeito possível, que denominaram "inverno nuclear
H
Tal efeito •
foi pesquisado, com o máximo de competência, por cerca de 300
cientistas dos EUA, da URSS e de mais de 30 outros países, que
trabalharam em cooperaçãp. superando em certos casos as divi­
sões ideológicas. 11
Segundo as teorias, a fumaça e a poeira lançadas na almosfera
por uma guerra nuclear absorveriam radiação solar suficiente para
permanecer no espaço durante algum tempo, impedindo a luz do
"Todas as organizações de jovens acreditam que as questões
relativas ao meio ambiente se encontram em lugar de destaque
na lista de prioridades dos problemas mundiais. Sua solução.
entretanto. depende da manutenção da paz em nosso planeta. A
busca de soluções para os problemas ecológicos é impossfvel
sem que se ponha um freio â corrida armamentista. pols ela lTQ­
ga extraordinários recursos intelectuais e materiais da humani­
dade. A solução dos problemas ecológicos depende também do
modo de viver dos jovens e de seu sistema de valores."
Dr. 1.1. Russin
Universidade Estalai de Moscou
Audiência póblica da CMMAO, Moscou, 8 de dezembro de 1986
sol de chegar à superfície da terra e provocando um amplo e pro­
longado resfriamento dessa superfície, Haveria graves
qüências para a vida vegetal em geral e para a agricultura em
particular, prejudicando assim a produção de alimentos para os
sobreviventes da guerra. Ainda há grandes incertezas quanto à
dimensão e aos vínculos determinantes dos efeitos sobre o meio
ambiente, mas haveria provavelmente perturbações ambientais em
grande escala. Uma guerra nuclear não tem vencedores, e jamais
deveria ocorrer. A seu ténníno. não haveria diferença entre oS
pretensos vencedores e vencidos. As potências nucleares não de­
veriam poupar esforços para chegar a um acordo verdadeiro sobre
a cessação de todos os testes com armas nucleares.
As pesquisas sobre o inverno nudear também são de vital im­
portância para os países não-alinhados, sobretudo os do Sul, que
não participam do conflito Leste-Oeste. Não há como eles evita­
rem conseqüências potencialmente desastrosas sobre o meio
biente no caso de haver uma guerra nuclear no hemisfério norte.
Uma guerra desse tipo envolveria o mundo todo. Há o risco de as
armas nucleares se difundirem em um número cada vez maíor de
países e screm usadas num conflito que a princípio pareça limita­
do a uma determinada região. Além dos cinco países que sabida­
mente possuem anuas nucleares, pelo menOS seis outros têm con­
dições de vir a desenvolvê-las; uma dúzia de outros não está
ge disso. Os países detentores de armas nucleares não podem es­
perar que os não-detentores deixem de optar por essas
110 não haja progresso real no sentido do desarmamento nuclear. É
portanto imperativo que as conseqüências prováveis da guerra
nuclear seja universalmente reconhecidas e que todos os países se
330
331
empenhem em evitar a proliferação - e príncipalmente o uso - de
armas nucleares.
tI .2.2 Outros armos d. destruição em massa
Outra.,\; formas de guerra e outras armas de destruição em massa
têm efejtos de grande escala sobre sociedades e o meio-am­
biente humanos. A guerra biol6gica pode difundir novos agentes
I
patol6gicos difíceis de Recentes progressos biotecnol6­
I
gicos multiplicam o emprego potencialmente letal dessas armas.
I Da mesma forma. a manipulação deliberada do meio ambiente
(como no caso de terremotos e inundaç6es artificiais) pode ter
conseqüências que ultrapassam em muito as fronteiras dos países
envolvidos num conflito. Os agentes qufmicos podem causar da­
nos sérios ao meio ambiente, como ficou demonstrado pelo uso de
desfolhantes no Sudeste asiático. As conseqüências perigosas e
ambientalmente imprevisíveis das armas bíol6gicas e qufmicas le­
I
varam a acordos internacionais que proíbem sua utilização. 12 Ma.1i
!
é preciso um esforço maior no sentido de fortalecer os regimes
que se beneficiam de tais acordos. De modo especial. o protocolo
de Genebra, que proíbe o uso de armas atômicas, deve ser suple­
mentado por aconfos que proibam a produção e a acumulação
dessas annas.
Atualmenle, as aplicaçôes militares das novas tecnologias
ameaçam transformar o espaço c6smico num foco de competição
e conflito internacionais. (Ver capftulo lO.) A maioria dos países
da comunidade intemacionaJ considera o espaço um bem comum
a todos. que deveria beneficiar a humanidade inteira e ser preser..
vado da competição milítar - sentimento que se reflete no Tratado
do Espaço Cósmico. de 1967, pelo qual as nações concordam em
não desenvolver no espaço armas de destruição em massa. Agora.
os governos deveriam adotar medidas para evitar uma corrida ar­
mamentista espacial e para detê-Ia em term. Se tal acordo falhar,
a corrida armamentista se intensificará, com terríveis conseqü!n..
cias para a humanidade.
11.2.3 Os custos da "cultura annamentlsta"
O fato de não haver guerrn não significa que haja paz, nem cria
necessariamente condições para o desenvolvimento sustentável. /lo
corrida armamentista gera insegurança entre as nações, devido'
escalada de temores recíprocos. É preciso que as nações
trem recursos para combater a deterioração do meio ambiente o I
pobreza generalizada. Por desviar recursos escassos. a con1dI
armamentista contribui para aumentar a insegurança.
332
Há muito que a coexistência de mUitares substanciais e
necessidades humanas não-satisfeitas vem dando margem a
cupaçõcs, No fim de seu mandato. o Presidente Eisenhower ob­
servou que ucada anna fabricada. cada navio de guerra lançado à
água, cada foguete disparado representa. em última análise. um
roubo aos que têm fome e não são alimentados, aos que têm frio e
não são agasalhados". 13
Em os gastos militares do mundo foram bem superiores a
US$900 bílhóes. 14 ISIO é mais que a renda total da metade mais
pobre da humanidade. Representa o equivalente a quase US$I mil
para cada um dentre o 1 bilhão de pessoas maís pobres do mundo.
Em outras os gastos militares vão além da soma dos
produtos nacionais brotos da China+ da Índia e dos países africa­
noS ao sul do Saara. Além disso, os gastos militares aumentaram
não s6 em tennos absolutos mas também em termos proporcionais
de uma estimativa de 4,7% da produção mundíal em 1960 para
de 6% _ o que representa um aumento de cerca de 150% em
termos reais (a preços constantes). Três quartos dos gastos atuais
são feitos no mundo industriali?ado, 15
O verdadeíro custo da corrida annamentista é a perda do que
poderia ter sido produzido. caso ela não existisse, com a esca.t;sez
de capital. especializada c matérias-primas. As fá­
bricas de o transporte destes e a mineração para a
sua produção representam uma enorme demanda de energia e de
recUr$Os minerais e são um dos fatores que mais contribuem para
a poluição e a deterioração do meio ambiente.
Os efeitos distorsivos da "cultura annamentista" são mais im­
pressionantes no que se refere ao emprego de pessoal na área
científica. Em todo o mundo. há meio milhão de enga­
jados na pesquisa de armas, os quais representam aproximada­
mente metade de todos os gastos em pesquisa e
to.I
6
Isto vai além dos gastos totais com o desenvolvimento de
tecnologias para novas fontes de energia. melhores condições sa­
nitárias para os homens, maior produti vidade agrícola e controle
da poluição. A pesquisa e o desenvolvimento militares
US$7Q-80 bilhóes. em todo o mundo, em 1984 - estão crescendo
a um ritmo duas vezes mais acelerado que oS gastos militares em
geraL17 Ao mesmO são insuficíente
s
os recursos
veís para acompanhar as mudanças climátícas globais, para fazer
o levantamento de ecossistemas de florestas úmidas que estão de­
saparecendo e de desertos que estão aumentando, e para desen­
volver tecnologias adequadas à agricultura tropical. irrigada pela
chuva.
As nações buscam uma nova. era de crescimento econômico, O
mvel dos gastos com armas dimínui as probabi!ídades de se che­
333
gar a era - tanto mais que ela enfatiza o uso mais eficiente
de matérias-primas. energia e re<:ursos humanos especializados.
Há também uma certa dependência, ainda que indireta, da dispo­
sição dos países ricos em dar 'as!;;istência aos países em desenvol­
vimento. Evidentemente. não se trata de uma simples correlação
entre reduzir os gastos com defesa e aumentar a ajuda. Além da
limitação dos recursos há outras para que a ajuda
não seja ampliada, e 8" nações não podem esperar pelo desarma­
mento para só então dedicarem mais recursos ao desenvolvimento
sustentável. De qualquer forma, gast