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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
JO XI — N? 127
JULHO DE 1970
ÍNDICE

A copa do mundo 277

I. A VERDADE NA CABIDADE

1) "Quaii as novas disposigóex da Igreja concernentes ao.i


racamentos mirtos ?

Liberáis ou rigoristas ?" 279

II. UM POUCO DE TELEVISAO

2) "Será irreverente a cancáo 'Superstar1, que provocou


releuma e interrupcño de programa na teLevisáo brasileira ?

Jesús terú sido mitin do que Buda e Maomé ?" 288

III. POLÍTICA E SACERDOCIO

3) "Deve o padre ser politico ou entrar na ■militáncia po


lítica ?" SU

IV. .IUVENTUDE EM FOCO

i) Por que boa parte da juventud* de nossos dios está em


rtinteütagao e angustia ?

As estatínticas denunciam conñderáuel número de suicldion


entre os jovens na Europa ! 305

V. OS BOATOS E A VERDADE

5) A 'riqueza' do Vaticano volta de vez em quando a baila.


Causa dificulúades a fé de umitas nessoa* retas.

Que *e pollería diser a propósito ?" SIS

VI. ALGO DE AMBIGUO

fí) "A Edueaqáo Moral e Cívica tornou-se materia obrigató-


r'uí em todos os túveis do ensino.

Há hesitando a respeito da iniciativa. Vate ou nao ?" 318

CORRESPONDENCIA MIÜDA S24

RESENHA DE LIVROS SU

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA


A COPA DO MUNDO
A recente disputa da Copa do Mundo prendeu fortemente
a atengáo de brasileiros de todas as formagóes, desde os mais
modestos até o Presidente da República.
A Copa-70 foi acontedmento, antes do mais, no plano
esportivo... Ela foi acontecimento também no plano patrió
tico: contribuindo para levantar o nome do Brasil frente a
grandes nagóes, ela despertou o ánimo de nossa gente, dando-
-lhe a ver que o Brasil possui os recursos de urna nagáo jovem;
dispóe de entusiasmo e ardor capazes de notáveis faganhas,
desde que devidamente tremados e disciplinados.
Mas, além de interessar ao senso esportista e a. veia pa
triótica, a Copa do Mundo falou também — e muito — a quem
se dedica aos valores da filosofía e da fé neste nosso Brasil.
Com efeito. O esporte (gymnasía, ¿skesis) merecía parti
cular atencáo dos ñlósofos gregos, pois lhes parecía ser um
fenómeno humano central, intimamente ligado á religiáo, a
arte, la poesia, á vida nacional, á cultura e á civüizagáo.
Aos quatorze anos, o íovem grego era por seus pais levado
ao ginásio (estadio), onde se lhe proporcronava nao sómente a
educagáo física, mas também a formacáo moral e política: no
ginásio nao apenas se cultivavam as fórcas físicas, mas tam
bém se desenvolviam a camaradagem e as belas amizades; no
ginásio os filósofos iam entreter-se com os jovens a respeito
de coisas serias: incutiam-lhes a coragem (andréia) e o ideal
da beleza que devia marcar tanto o físico como o animo do
cidadáo grego. Eis urna observagáo do escritor Luciano de
Samosata (t 190 d. C), que se referia a Grecia antiga:
«Nao me é'possível, por palavras, dar-te urna idéia do prazer que
experimentarías ao contemplar a coragem dos atletas, o esplendor do
seu corpo, as suas atitudes admiráveis, a sua habilidade singular, a
fórca inesgotável, a virilidade, o ardor, o corac&o invencivel e os gi
gantescos esforcos de que éles dáo provas para conseguir a vitória>
(«Anacharsis» 12).
Nenhum povo teve, como o povo grego, a ambigáo da exce
lencia, o culto do sucesso, o désejo de ser o melhor (áristos).
Dai as inúmeras competigóes (agones) dos gregos em poesia,
em música, em esporte...; cada concorrente mostrava o desejo
extremo de ultrapassar os anteriores} Cf. Hornero, «Diada» VI
208; XXm.

— 277 —
Por isto a literatura filosófica grega estava cheia de ima-
gens derivadas da vida do ginásio e das lutas do estadio.
Ora Sao Paulo, em sua visáo crista, quis igualmente re
correr as figuras do atletismo, ... desta vez para ilustrar a
disciplina e a harmonía da vida em Cristo. Em 1 Cor 9,24s,
ele menciona os atletas que correm no estadio, abstendo-se
de tudo para conquistar urna coroa corruptível, enquanto a nos
está prometida urna coroa incorruptivel... Entre outras muitas
alusóes, pode-se destacar aínda a de 1 Tim 4, 7s:
«Rejeita as fábulas profanas, verdadeiros contos de velhas. Exer-
cita-te na piedade (gymnaze dé seauton pros eusébeian). Os exercidos
corporais trazem pouco proveíto; a piedade, pelo contrario, é útil para
tudo, porquanto tem a promessa da vida, tanto presente como futura...
Se nos afadigamos e lutamos, é porque pusemos nossa esperanca no
Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens».

Neste texto, as fábulas profanas sao produtos da imagi-


nagáo indisciplinada, que falsos doutóres disseminavam entre
os cristáos. A elas o Apostólo opóe a gymnasía, o exercício
atlético. E Iembra que o cultivo do físico, embora valioso, aínda
é pouco para um cristáo (como, alias, também para os sabios
gregos)J; o que ao cristáo importa ácima de tudo, é a piedade,
ou seja, o cultivo do homem interior, da vida que é capaz de
vencer a própria morte (porque é participacáo da vida do pró-
prio Deus). Com outras palavras: Sao Paulo quer dizer-nos que
a vida crista é dinámica; ela tende a crescer e fermentar. E,
para que o novo homem, configurado á estatura perfeita de
Cristo, se forme no cristáo, como também em torno do cristáo
(na sociedade), requer-se denódo heroico. O heroísmo é, sem
dúvida, arduo e custoso, mas também é belo, é o que o homem
pode apresentar de mais belo. Ésse heroísmo se torna mais
fácil, desde que o herói creía profundamente nos valores pelos
quais ele se empenha.
Renovamos, pois, a nossa fé nos valores eternos e na ne-
cessidade de os viver e os dar mais e mais a conhecer aos
nossos semelhantes. As faganhas de nossos atletas no México
nos fornecem mais um ensejo de pensarmos no dinamismo
heroico da vida crista, que já o Apostólo táo ardentemente
incutia.
«Das real'dad°s oue vemos, passamos ao amor daquelas
que nao vemos!» (Liturgia de Natal).
E.B.

i Isócrates escreyta a seus discípulos: «Os premios que os jogos


oferecem, nada sao eni confronto com aqueles pelos quais lutais todos
os dias» (A Nicocles II 11).

— 278 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XI — N« 127 — Julho de 1970

I. A VERDADE NA CARIDADE

1) «Quais as novas disposi$Ses da Igreja concernentes aos


casamentes mistos?

Liberáis ou rigoristas?»

Em sintese: Casamento misto é aquéle em que urna comparte


católica contrai enlace matrimonial com urna nao-católica. O número
désses matrimonios tem-se multiplicado em virtude das circunstancias
da vida moderna, criando graves casos de consciéncia.
Em vista desta situacáo, o «Motu proprio» de Paulo VI datado de
31 de marco de 1970 reforma a legislac&o até agora vigente.
O documento comeca por recordar que os casamentes mistos nao
sao desejáveis, pois fácilmente dito ocaslao a divisao no casal; longe
de favorecer o ecumenismo, suscitam relativismo religioso e indiferen
tismo. Nem os cristaos náo-católlcos nem os judeus estimam os casa
mentes mistos. Todavía, nao querendo negar o direlto natural ao casa
mento e á prole, a S. Igreja procura dar assisténcia e normas aos fiéis
católicos que contraiam matrimonios mistos, a fim de que a fé n&o
sofra detrimento no lar. Ficam, pois, estipuladas, entre outras, as se-
guintes determinacCes:

1) O fiel católico que deseje contrair matrimonio misto, pedirá


a necessária dispensa ao respectivo Bispo.

2) Éste só a concederá se o solicitante prometer sinceramente


empenhar-se, tanto quanto possivel, pela educacao católica de todos os
filhos. Prometerá também evitar as ocasides de por em perigo sua fé.

3) A comparte nao-católica será cientificada das promessas feitas


pelo cónjuge católico. Também será convidada a nao impedir a exe-
cucao de tais compromissos.

4) Os futuros nubentes seráo instruidos a respelto das finalida


des do matrimonio (prole e auxilio mutuo) e de suas propriedades
(monogamia e indissolubilidade).

5) Só se realizará o rito religioso católico de casamento.


A nova legislacSo atenúa as anteriores, visando a conservar a
integridade da fé dentro da caridade.

Besposta: Matrimonio misto é agüele que se celebra en


tre urna comparte católica e outra náo-católica, podendo esta

— 279 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 1

ser crista (protestante, anglicana...) ou nao crista (judia,


muculmana, budista...).

A Igreja sempre considerou com serias reservas tais ca


samentes, pois, faltando-lhes urna base religiosa comum (ou
mesmo estando os cónjuges divididos entre si por motivos re
ligiosos), os matrimonios mistos acarretam dificuldades para
a vida conjugal e podem suscitar riscos para a fé da parte
católica, assim como para a formacáo religiosa da respectiva
prole. Eis por que, até os últimos anos, a Igreja exigía de
seus filhos que nao contraíssem tais unióes conjugáis sem obter
previa dispensa da autoridade eclesiástica; além do que, tanto
a comparte católica como a náo-católica eram intimadas a
prestar caugóes referentes á formagáo católica dos futuros
filhos do casal.

Dadas, porém, as novas circunstancias da vida contem


poránea, a Igreja comegou a rever a sua legislagáo em tal
setor. Aos 18/3/1966 a Instrucáo «Matrimonii Sacramentum»
abrandava as exigencias até entáo vigentes para os casamen-
tos mistos (veja-se o comentario respectivo em «P.R.» 88 de
1967, 170-184). Tal Instrugáo deyeria ser definitivamente con
firmada e inserida no novo Direito Canónico, caso a experien
cia a comprovasse.

O Sínodo Geral dos Bispos, reunido em outubro de 1967,


propos suas observagóes a respeito do novo documento. Além
disto, a praxe pastoral da Igreja após marco de 1966 eviden-
dou a conveniencia de se reformular de novo a legislagáo sobre
os matrimonios mistos. Em conseqüéncia, o S. Padre Paulo VI,
devidamente assessorado por pesquisas e estudos de peritos,
houve por bem publicar aos 31 de margo de 1970 a Carta
Apostólica «Motu proprio» que, comegando pelas palavras
«Matrimonia mixta», regulamenta em novos termos a difícil
questáo. As normas ai promulgadas entraráo em vigor no día
1» de outubro de 1970. Elas nao tém valor para os matrimo
nios contraídos entre católicos e cristáos orientáis ortodoxos
(cismáticos), matrimonios para os quais a Santa Sé já baixou
normas que continuaráo vigentes \
A nova legislagáo foi precedida de serios estudos dentro
da Igreja e em ambientes mistos. A elaboragáo do texto foi
confiada a urna Comissáo de Cardeais, que submeteu seu tra-

1 A nova legislacáo, portanto, tem em mira os casos em que um


católico se queira casar com um protestante, um velho-católico, um
judeu, um mugulmano, um budista ou outra pessoa nao batizada.

— 280 —
CASAMENTOS MISTOS

balho ao julgamento e as sugestóes do episcopado mundial.


As conclusóes que no decorrer déste procedimento receberani
maior número de votos, entraram finalmente no teor da nova
legislagáa Multiplicidade de situagóes diversas e unidade na
fé e na caridade, eis as linhas que foram levadas em conta
pelos redatores do documento.

A seguir, exporemos o conteúdo déste documento, expla


nando as suas motivagóes, os valores ai realcados, assim como
as inovacóes que introduz na legislacáo e na vida pastoral da
Igreja. — No citado artigo de «P.R.» 88/1967, pp. 170-173,
o leitor encontrará ampias consideracóes sobre o fundo de cena
doutrinário e histórico do problema aqui abordado.

1. O fato dos matrimonios mistos

1. Até o inicio do século presente, os casamentas de um


fiel católico com pessoa nao católica podiam ser tidos como
excecóes relativamente raras. Todavía nos últimos decenios
tais casos vém-se multiplicando, de modo a suscitar por vézes
graves problemas de consciéncia para os cónjuges; estes nao
se julgam sempre devidamente considerados pela tradicional
legislagáo eclesiástica, que tratava os casamentes mistos como
fatos mais ou menos esporádicos.

2. Nao é fácil saber-se ao certo em que proporcóes vai


crescendo o número de matrimonios contraídos por católicos
com náo-católicos. A Igreja só registra os que sao válidamente
contraidos (boa parte é contraída independentemente dos cá
nones eclesiásticos, ou seja, de maneira inválida no foro cató
lico) ; além do que, a maioria das nagóes hoje em dia carece
de estatísticas relativas aos diversos tipos de casamento ocor-
rentes.

Como quer que seja, podem-se assinalar os seguintes


dados:

> No Canadá, os casamentéis mistos aumentaran! do teor de 14.934


em 1961 para o de 25.414 em 1967. Isto equivale á passagem de 12,4%
para 16,3%.
Na Alemanha Federal (sem Berlim-Oriental), os casamentes mis
tos elevaram-se de 98.294 (24,7%) em 1955 para 114.957 (25,3%) em
1960, e 117.954 (27,8%) em 1965.
Na Holanda, o aumento foi de 7.044 (9,6%) em 1955 para 8.016
(10,3%) em 1960 e 11.483 (11,6%) em 1965.

— 281 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 1

A partir de 1965, a Alemanha Federal e a Holanda registraram


aumentos anuais. Na Suica, veriíicou-se certa estabilidade após 1964,
ano em que os casamentos mistos lá atingiram a cota de 21% (verdade
é que nao há estatísticas suicas para os últimos quatro anos).

O aumento numérico dos casamentos mistos suscita, sem


dúvida, grave problema pastoral, pois a maioria déles é invá
lida á luz da legislagáo canónica vigente até agora.
No Estado de lona (U.S.A.), por exemplo, o Govérno
registrou 11.593 matrimonios mistos de católicos entre 1953
e 1957. Déstes, apenas 5.325 (46%) foram tidos como váli
dos segundo as leis da Igreja Católica. Na Holanda, em 1966
apenas 31% dos casamentos mistos foram válidos, embora os
Bispos holandeses se tenham mostrado muito benignos na con-
cessáo de dispensas aos fiéis católicos. Na Alemanha Federal
julga-se que sámente um térgo das unióes mistas pode ser tido
como válido. Na Suíca, entre 1940 e 1948 as dispensas foram
concedidas apenas para 45% dos casamentos mistos entáo reali
zados. Em geral, nos países em que há estatísticas disponíveis,
verifica-se que menos da metade dos casamentos mistos é válida
segundo os criterios da legislagáo eclesiástica; o Canadá, porém,
constituí neste setor urna notável excegáo.

3. As causas do incremento numérico de matrimonios mis


tos devem ser procuradas nos tragos típicos da vida contem
poránea.

Notem-se, em primeiro lugar, os fenómenos de emigracáo,


imigragáo e urbanizagáo, que estreitaram o intercambio
entre os homens, criando muitas vézes urna sociedade hetero
génea ou pluralista quanto á sua oríentagáo filosófico-religiosa.
Os novos meios de transporte e comunicagáo proporcionam aos
jovens novas ocasióes de encontros e contatos. O trabalho fora
de casa ou a freqüentagao de escolas e Universidades, hoje em
dia muito mais comuns do que outrora, propiciam igualmente
novos tipos de relacionamento entre os homens.
Leve-se em conta também o senso de liberdade e respon-
sabilidade pessoal que os jovens constumam reivindicar para
si, afastando-se multas vézes das tradicóes de suas familias ou
comunidades religiosas. Na sociedade moderna, imbuida de
espiritó de reforma social, muitos cidadáos tendem a julgar os
matrimonios mistos como algo de indiferente ou como um fato
cada vez mais normal. t
Por último, deve-se registrar a aoroximagáo crescente entre
cristáos católicos e náo-católicos. Os jovens cristáos, mesmo

— 282 —
CASAMENTOS MISTOS

quando pouco ou mal informados sobre o ecumenismo, sabem


que a legislagáo da Igreja concernente aos matrimonios mistos,
está em fase de reelaboragáo. Em certos países, as diferengas
entre as diversas confissóes cristas parecem ter perdido todo o
seu significado aos olhos dos jovens. ■

Consciente destas características da sociedade de nossos


dias e, de modo especial, consciente de que os matrimonios
mistos já nao sao urna excecáo, mas um fenómeno de vulto
crescente, a autoridade da Igreja reformulou a sua legislagáo
concernente a ésses casamentas. As leis da Igreja estao a ser-
vigo da saritificagáo dos homens; por isto elas devem, antes do
mais, considerar as condigóes gerais em que os homens e, em
particular, os cristáos vivem, a fim de que dentro dos moldes
temporais sejam colocadas a grasa e a santidade de Deus.

O documento «Matrimonia mixta» de 31/3/1970 consta de


duas partes: a primeira, doutrinária; a segunda, jurídica e prá-
tica. Examinaremos urna e outra sucessivamente.

2. Considerares doutrinárras

1. Os matrimonios mistos sempre foram, e continuam a


ser, considerados pela Igreja como algo de nao desejável em
virtude das conseqüéncias que acarretam. Sem dúvida, pode
haver entre cdnjuges de diferentes confissóes religiosas paz e
felicidade. Deve-se notar, porém, que a dualidade religiosa
dentro de um casal pode fácilmente tornar-se ocasiáo de diver
gencia: o conceito de matrimonio pode nao ser o mesmo para
o esposo e a esposa; a educacáo cívica e religiosa da prole
pode ser diversamente entendida pelos cónjuges; a prática dos
deveres para com Deus será diferente entre marido e mulher,
podendo as vézes tornar-se difícil para um ou para outro.
Assim a célula viva da Igreja que é a familia, sofre o perigo
de lamentável divisáo.
Observa-se também, ao contrario do que se poderia prever,
que os matrimonios mistos sao geralmente nocivos a causa
do ecumenismo ou da restauragao da unidade entre os cris-
ttáos, pois nao raro suscitam o relativismo no lar; em conse-
qüéncia, a prole freqüentemente é fría ou indiferente no to
cante á Religiáo.
Tais s5o as razóes em virtude das quais a Igreja, consci
ente de seus deveres sagrados, firmemente desaconselha casa
mentes mistos. Deve-se, alias, notar aqui que também as ou-

— 283 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 1

tras confissóes religiosas (protestantes, judia...) tarnbém con-


sideram nocivos ao verdadeiro bem de seus fiéis os matrimo
nios mistos; tal atitude nao é necesariamente a conseqüéncia
de mentalidade mesquinha ou fanática, como bem se pode com-
preender.

2. Apesar de nao desejar tais nupcias, a Igreja Católica


reconhece a todos os homens o direito natural de se unir em
matrimonio e procriar. Por isto, mediante urna legislaeáo es
pecial, Ela procura conciliar o respeito a tal direito com a
fidelidade aos preceitos positivos da lei de Deus. Na verdade,
as dificuldades nao sao insuperáveis, desde que os pastores da
Igreja lhes déern a devida atencáo e acompanhem os seus fiéis,
fornecendo a uns o necessário curso de preparagáo para o
casamento misto e a outros, já casados, a assisténcia devida,
para que, como católicos, vivam o seu casamento misto.

3. A Igreja nao encara do mesmo modo os casamentes


de católicos com cristáos náo-católicos e os de católicos com
pessoas náo-batizadas (ao estabelecer esta distingáo, o do
cumento «Matrimonia mixta» se beneficia de observacóes feitas
a Instrucáo de 18/3/1966, em que a distingáo nao era formu
lada). Bem se pode crer que no caso de matrimonio entre
cristáos (católicos e protestantes, por exemplo), naja mais
compreensáo mutua do que na hipótese de nao ser batizado
um dos cónjuges (embora, por vézes, se dé justamente o con
trario!). Entre cristáos, o fundamento religioso comum é mals
rico; a Igreja Católica faz questáo de reconhecer os bens espi-
rituais que os irmáos separados possuem, embora nao estejam
em plena comunháo com a S. Igreja.
Todavía nao se deve esquecer que mesmo os casamentes
entre católicos e cristáos náo-católicos oferecem pontos espi-
nhosos para a consciéncia dos cónjuges. Na verdade,
os católicos professam a indissolubilidade do matri
monio, ao passo que os protestantes aceitam o divorcio;
os católicos tém a celebragáo religiosa do matrimonio
na conta de sacramento — e sacramento necessário —, ao
passo que os protestantes consideram o rito religioso como
béncáo dada a urna uniáo que pode ser contraída simplesmente
no pretorio;
católicos e.protestantes podem diferir entre si ao con-
ceber certos principios moráis que regem a vida do casal e da
familia (vejam-se os setores da limitagáo da prole, do uso de
antíconcepcionais, da educac.áo religiosa dos filhos);

— 284 —
CASAMENTOS MISTOS

católicos e protestantes podem também conceber di


versamente o alcance da jurisdicáo da Igreja em assuntos da
familia.

Tais divergencias só estaráo superadas quando estiver


plenamente restaurada a unidade dos cristáos.

4. Por isto, a Igreja prescreve que os fiéis católicos


desejosos de contrair matrimonio misto sejam cuidadosamente
instruidos no tocante a concepgáo católica do casamento e aos
deveres daí decorrentes. Saibam que, se a Igreja lhes concede
autorizagáo para realizar uniáo conjugal com um náo-católico,
Ela nao os pode dispensar dos deveres derivados do próprio
Evangelho.

Será preciso, portante, que a comparte católica saiba que


deve conservar a sua fé e nao a expor a perigo, pactuando
arbitrariamente em materia religiosa. Saiba também que lhe
compete exercer seu zélo apostólico ou missionário, fazendo
todo o possível para que os filtros sejam batizados e educados
na Igreja Católica. No tocante á educacáo da prole, porém, o
documento de 31/3/1970 reconhece que é tarefa de ambos os
genitores; por isto a comparte náo-católica deverá ser respei-
tada, caso nao permita a formacáo católica dos filhos (como
se verá adianto, a Igreja já nao lhe pede, como outrora, que
garanta a educacáo católica dos filhos) 1.

Estabelecidas estas grandes linhas doutrinárias, a Carta


Apostólica passa a estipular as novas normas que regulamen-
taráo os matrimonios mistos.

3. Normas jurídicas

As quatro primeiras disposigóes nao fazem senáo reafir


mar certos principios do Direito clássico, a saber:

1 A nova" posicáo da Igreja se justifica nos seguintes termos: é


certo que o erro, principalmente o erro religioso, nao tem direito
algum; mas a pessoa que erra, pelo fato de ser pessoa humana, tem
o direito de optar llvremente e de nao ser constrangida a proceder
contra a sua consciéncia.
Outrora a Igreja exigia que o cónjuge náo-católico se empenhasse
pela educacáo católica dos filhos, caso um náo-católico livre e espon
táneamente se quisesse casar com um membro da Igreja Católica.

— 285 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 1

1) A Igreja continua desejando que os fiéis católicos se


casem corn católicos, pois esta praxe propicia melhores condi-
góes para que se guardem a unidade e a harmonía dentro
do lar.

2) Mantém-se o impedimento dito «de mista religiáo»: o


casamento entre um católico e um cristáo náo-católico é ilícito, *
embcra possa ser válido.

3) Também fica em vigor o impedimento dito «de dis-


paridade de culto»: o casamento entre um católico e urna pes-
soa nao batizada é nao sómente ilícito, mas também inválido
ou nulo, aos olhos do Direito Canónico.

4) Todavía tanto num como noutro caso a Igreja con


cede a dispensa necessária, desde que para tanto haja motivo
justo.

5) Ao pedir tal dispensa do respectivo Bispo, a parte


católica deverá prometer3 sinceramente que tudo fará a fim
de que a prole inteira (sem distingáo entre meninos e meni
nas) seja batizada e educada na Igreja Católica. Deverá tam
bém declarar que nao se exporá ao perigo de perder a fé (ne-
gligenciando sua formagáo religiosa ou a freqüentagáo dos
sacramentos ou comparecendo desnecessariamente a reunióes
e celebracóes religiosas náo-católicas).

. É grave a obrigagáo de prestar a promessa e a declaragáo


ácima.

6) A parte náo-católica nao se pedirá juramento nem


promessa. Todavía o Bispo ou o pároco do lugar respectivo
deverá dar-lhe a conhecer as obrigagóes contraídas pela parte
católica nos atos ácima. Além disto, o Bispo ou o pároco terá
a grave incumbencia de convidar o cónjuge náo-católico a nao
impedir que o consorte católico cumpra essas obrigagóes.
A parte náo-católica poderá nao responder ou mesmo res
ponder negativamente a ésse convite. Tal atitude será dolorosa
para o Bispo, o' sacerdote e o cónjuge católico; todavía nao

1 «Ilícito» é, no caso, o que contraria as disposicOes da lei. Nao


obstante, pode preencher os requisitos para que seja tido como verda-
deiro matrimonio ou como válido.

2 A nova legislado já nao fala de juramento, como as anteriores.

— 286 —
, CASAMENTOS MISTOS . 11

será, por si so, motivo para que o Bispo deva necessariamente


recusar a dispensa e o pároco se veja obligado a recusar o
casamento solicitado. Toca, antes do mais, á parte católica
ponderar diante de Deus se em tais circunstancias aindaé
aceitável o casamento misto (poderá éste desenvolver-se em
ambiente de paz e colaboragáo?).

7) Os dois futuros cónjuges seráo claramente instruidos


a respeito das finalidades do casamento (procria.gáo da prole,
que é a expressáo mais clara do amor conjugal, e auxilio
mutuo), como também no tocante as propriedades essenciais
do mesmo (monogamia e indissolubilidade). Se um dos dois
cónjuges excluir algum dos elementos ácima, o matrimonio
será inválido (como, alias, é inválido todo casamento contraído
com exclusáo explícita de alguma fínalidade ou propriedade do
matrimonio).

8) Compete á Conferencia dos Bispos de cada nagáo


estabelecer <o modo preciso como se faráo as promessas e de-
claragóes atrás mencionadas: por via oral simplesmente?...
por escrito?... diante de testemunhas? Deverá também a Con
ferencia estipular a maneira como as mesmas declaragóes se
tornaráo de foro público, ... como a parte náo-católica. há de
ser cientificada das mesmas... Álém do que, poderá babear
outras normas nesse setor, se as julgar oportunas.

9) A nova legislacáo, em seu § 15, prescreve que o casa


mento misto seja contraído apenas na Igreja Católica, ficando,
excluida a celebragáo previa ou posterior do matrimonio
segundo algum rito náo-católico (protestante, judeu, teosó-
fico...). Nao se chame ao templo católico algum ministro náo-
-católico para realizar o rito respectivo de casamento.

Parece, porém, nao ficar excluido que os cónjuges, após


a celebrarlo católica do matrimonio, participen! de um culto
de leituras e preces num rito náo-católico (contanto que ésse
culto nao seja tido como renovagáo do consentimento matri
monial).

Com isto, a Igreja quer evitar o relativismo e manter viva


á consciéncia de que o matrimonio é um sacramento instituido
pelo Criador e elevado a nova dignidade por Jesús Cristo, sa
cramento que as outras confissóes religiosas nao aceitam em
sentido táo estrito e, por isto, nao adrninistram.

— 287 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 2

10) Ao Bispos e párocos toca a incumbencia de assistir


pastoralmente aos cónjuges católicos unidos a náo-católicos,
assim como a seus filhos. Contribuam do seu modo para a
harmonía do lar — o que se poderá mais fácilmente obter, se
entraran em relacionamento sinceramente fraterno com os
ministros de outras denominagóes religiosas.

11) Ficará abolida a excomunháo que, segundo o canon


2319, recaía sobre o fiel católico que contraísse matrimonio pe-
rante ministro náo-católico. Quem já tenha sido atingido por
essa censura, estará isento de seus efeitos; deverá, porém, re
correr ao Bispo de sua regiáo, a fim de legalizar o seu casa
mento perante a Igreja Católica, caso isto seja necessário.

Eis as grandes linhas da nova legislagáo da Igreja relativa


aos casamentes mistos. Como se vé, é mais benigna do que
as anteriores. Enquanto, de um lado, demonstra compreensáo
para com a realidade contemporánea, ela, por outro lado, nao
trai as exigencias de Cristo e da instituigáo sacramental do
matrimonio; verdade e caridade sao as suas notas marcantes.

Breve e interessante sfntese do problema dos casamentos mistos


se encontra em «Informations Catholiques Internationalcs» n* 352,
15/1/70, pp. 23-31.

II. UM POUCO DE TELEVISAO

2) «Será irreverente a cancáo 'SupeTstar', que provocou


celeunm © interrnp$áo de programa na televisa» brasileira?
Jesús tara sido mais do que Buda e Maiomé?»

Em sintese: A cancáo «Superstar» exprime as dúvidas de muitos


dos nossos contemporáneos ante a pessoa e a obra de Jesús Cristo:
grande, mas também aniquilado, terá sido verdadeiro Deus?
A peca pede urna resposta. Jesús, possuidor de plena saúde física
e mental, afirmou ser Deus e mostrou ter consciéncia de que morreria
para salvar os homens. Como prova decisiva da veracidade de suas
afirmacoes, indicou o slnal de Joñas ou a sua ressurreigao. Ora a res-
surrelcáo de Jesús é um íato. Sdmente a evidencia do acontecimento
teria tirado os Apostólos do estado de capitulacao a que se entregaram
quando viram o Mestre condenado. A alucinagáo nao se explicarla na

— 288 —
«JESÚS CRISTO, QUEM ÉS TU?> 13

mente dos discípulos, nem teria ultrapassado tres séculos de perse-


guicáo por parte de judeus e romanos. — Nem a alucinacáo teria sido
pedestal suficiente para sustentar vinte séculos de civilizagáo crista.

Donde se pode responder, numa critica sadia, que Jesús era real
mente Deus e Homem, como Ele anunciou. Buda e Maomé foram gran
des mestres de certos povos; estáo longe, porém, de ter em seu favor
as credenciais (das quais a principal é a ressurreicao) que recomen-
dam Jesús Cristo.

Resposta: A televisáo carioca apresentou ao público a can-


cáo «Superstar» (Superestréla), da autoría de Andrew Webber
e Tim Rice. É peca popular, que em Londres mesmo provocou
discussáo: miütos comentaristas a julgaram anticristá, ao passo
que üutros (cristáos anglicanos) a tiveram como inocua.

Abaixo proporemos o texto da cangáo, seguido de breve


comentario.

1. «Superstar» (Superestréla)

Eis o texto original inglés:

Every time I look Tcll me what you thlnk


at you I don't about your friends
understand at the top.
Why you let the things Who d'you think
you did get besides yourself's
so out of hand. the pick of the crop?
You'd have Buddah was he where
managed better if it's at, was he wherc
you'd had it planned. you are?
Why'd you choose Could Mahomet move
such a backward time a mountain
and such a strange land? or was that just PR?
If you'd come today, Did you mean to die
you would have reached like that? Was that
a whole nation; a mistake or
Israel 4 BC had no Did you know
mass communicaüon. your messy death
Don't you get me wrong, would be a record-breaker?
I only want to know: Dont'you get me wrong,
Jesús Chrlst I only want to know:
Jesús Christ who are you? Jesús Christ
What have you Jesús Christ, who are you?
sacriíiced? What have you sacriíiced?
Jesús Christ, Superstar, Jesús Christ, Superstar,
do you think you're what do you think you're what
they say you are? they say you are?

289 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 2

Em traducáo portuguesa:

«Todas as vézes que olho para tí, fico sem ccmpreender


por que deixas as coisas que fizeste, andar táo desgovernadas.
Tena sido melhor que as tivesses planejado.
Por que terás escolhido urna época táo recuada e urna
térra táo estranha?
Se viesses hoje, atingirías urna nagáo inteira. Israel em
4. a. C. nao tmha meios de comunicacáo de massa.
Nao me leves a mal. Apenas desejo saber: Jesús Cristo,
Jesús Cristo, quem és tu?
Que sacrificio foi o teu?
Jesús Cristo, Superestréla, julgas que és aquilo que éles
dizem que tu és?
Dize-me o que pensas a respeito de teus amigos que estáo
no alto.
Quem julgas, além de ti, seja a nata da colheita?
Buda estava nessa nata? Estava onde tu estás?
Poderia Maomé mover urna montanha ou...1
Pensavas que haverias de morrer como morreste? Foi a
tua morte um erro ou sabias que tua morte tumultuada supe
raría todos os récordes?
Nao me leves a mal. Apenas desejo saber: Jesús Cristo,
Jesús Cristo, quem és tu?
Que sacrificio foi o teu?
Jesús Cristo, Superestréla, julgas que és aquilo que éles
dizem que tu és?»

A éste texto segue-se

2. Breve comentario

A peca, por seu próprio estilo, recorrendo a imagens e


iníerrogacóes, é suscetível de mais de urna interpretaeáo. Será
irreverente e sarcástica, como podem insinuar certas expres-
sóes do texto (entre as quais «Superstar», védete) ?
Após reflpxáo serena, pode-se admitir que o autor da can-
cáo nada tenha pretendido enunciar de definitivo a respeito
de Jesús Cristo. O poeta, no caso, reproduziria a ansiedade de
muitos dos nossos contemporáneos, que, de um lado, eonside-

1 Poderla o leltor ajudar a traduzir o restante da frase?

_ 290 —
«JESÚS CRISTO, QUEM ÉS TU?» 15

ram a grandeza da personalidade e da obra de Jesús Cristo,


mas, de outro lado, topam com pontos misteriosos que lhes
dificultam a crenga em Cristo Deus e Homem.
Sendo assim, a cangáo pede urna explicagáo ou sugere
algumas reflexóes a respeito de Jesús Cristo, reflexóes que se-
ráo desenvolvidas por etapas.

1. Vierdadeiro Homem. Certamente Jesús Cristo fpi ho


mem, assemelhado aos demais homens em tudo, exceto no
pecado (cf. Hebr 4,15).
Quando o quiseram condenar á morte, os seus adversarios
nada encontraram que lhe pudessem objetar: «Muitos aduzi-
ram testemunhos falsos contra Ele, mas seus depoimentos eram
contraditórlos» (Me 14,56; cf. Jo 18,20-22). Jesús mesmo
dizia: «Quem de vos me pode acusar de pecado?» (Jo 8,46), o
que é realmente inédito na historia da filosofía. Epicteto, por
exemplo, filósofo estoico, escreveu:

«Qué, pois? Será posslvel nSo ter pecado? É Impossível. É possí-


vel apenas esforcar-se continuamente por nao pecar. E já é talvez' um
bem, se nessa continua luta conseguimos ao menos evitar algum pe
cado» (DissertacOes IV 12).

Outro famoso estoico, Séneca, observava:

«Todos pecamos, uns mais gravemente, outros menos gravemente.


Nao sdmente já pecamos, mas pecaremos até o íim. Mesmo quando
alguém purificou a sua alma, de modo que nada o possa mais per
turbar ou engañar, chegou a esta inocencia após o pecado» («De
clementia» 16).

Por isto dizia o gramático grego Libanio: «Nao pecar é


próprio de Deus só».
Assim como nasceu na Palestina há quase dois mil anos,
podia Jesús ter nascido em ríossos dias, sem que por isto esca-
passe a contradicáo. A mensagem de Jesús Cristo, hoje difun
dida pelos meios de comunicagáo de massa, assim como en
contraría mais ressonáncia do que outrora, nao de'xaria de
encontrar também maior contestacáo e deturpacáo. Jesús
Cristo apareceu entre os homens na época que a Providencia
do Pai teve por oportuna («na plenitude dos tempos», diz
S. Paulo em Gal 4,4). Só a Deus compete dispor os tempos
segundo sabios designios.

2. Consciente de sua missao. Jesús Cristo deu provas


de ter conciencia de sua missáo sublime de Salvador, dos ho-

— 291 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 2

mens. Sabia, sim, que sua morte seria redengá» da humani-


dade. Eis alguns de seus dizeres característicos:
«O Filho do homem nao veio para ser servido, mas para
servir e dar sua vida como resgate por muitos» (Mt 20,25-28).
«Quando fór exaltado ácima da térra, atrairei a mim
todos os homens». Palavras que o Evangelista assim comenta:
«Dizia isto para indicar de que morte havia de morrer» (Jo
12,32s).

3. Plena saúde... Leve-se em conta que Jesús Cristo,


autor de tais dizeres, gozava de saúde robusta.

Sua constituida© física permitía-lhe percorrer a Palestina


de Norte a Sul, caminhando pelas estradas, passando noites
ao relente («O Filho do homem nao tem onde reclinar a ca-
beca», Mt 8,20) ou em oracáo (cf. Le 6,12).

Gozava .também de saúde mental perfeita. Soube dominar


os ñervos por ocasiáo de sua paixáo. Tenham-se em vista as
seguintes passagens:
«Se falei mal, mostra-mo* se falei bem, por que me bates?»
(Jo 18,23).
«Judas, com um ósculo entregas o Filho do homem?» (Le
22,48).
«Jesús se calava» (Me 4, 60s).
Manifestou vontade heroica: tentagóes, jejuns, cantradigóes
nao o puderam abaten.

Mostrou também clareza de inteligencia:


«Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus»
(Mt 22,21).
«Que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se vier
a perder a sua alma?» (Mt 16,26).

Jesús soube repreender os fariseus que em día de sábado


davam de beber a seu asno, mas nao permitiam a cura de
urna mulher enferma (cf. Le 13,15).

Nos momentos de gloria, Jesús foge; cf. Jo 6,15; Me 1,38.


Na gloria da transfiguracáo corpórea, file falou de sua paixáo
e morte (cf. Le 9,31).
Foi também compreensivo e benigno para com todos:
«Nao julgueis, e nao seréis julgados» (Mt 7,1)..

— 292 —
«JESÚS CRISTO, QUEM ÉS TU?» 17

Tenham-se em vista o episodio da mulher adúltera: «Quem


é isento de pecado, lance a primeira pedra sobre ela!» (Jo
8,1-11); o episodio da pecadora (Madalena?) em casa de Simáo
o faris3U (cf. Le 7,37-50); as tres parábolas da misericordia
divina, em Le 15 (a ovelha perdida, a moeda perdida, o filho
pródigo).

4. Dcus verdadeiro. Jesús, sadio em seu físico e em seu


psíquico, deu a saber que era Deus:
«Ninguém conhece perfeitamente o Filho a nao ser o Pai,
e ninguém conhece perfeitamente o Pai a nao ser o Filho e
aquéle a quem o Filho O quiser revelar» (Mt 11, 27).
«Eu e o Pai somos um só» (Jo 10, 20).
O comportamento dos homens em relacáo a Jesús é cri
terio decisivo da vida e da morte de cada um; Ele julgará a
todos (cf. Mt 25, 31-46).
«Ouvistes o que foi dito (pelo Senhor Deus) aos antigos...
Eu, porém, vos digo...» (Mt 6, 21...).
5. A prova definitiva.. A prova máxima da Divindade de
Jesús haveria de ser, como Ele mesmo disse, o sinal de Joñas,
ou seja, a ressurreic.áo do Crucificado; cf. Mt 16,4. Em Jo
2,19-21, Jesús propde o sinal do templo (seu corpo) destruido
e em tres días reerguido.
Ora, se os Apostólos, abatidos como estavam, se puseram
a pregar a ressurreicüo num mundo hostil, testemunhando-a
com a própria morte, deve-se admitir que foram vencidos pela
evidencia do fato.
Mais: a pretensa alucinagáo dos Apostólos nao se teña
transmitido a geragóes e geragóes de cristáos que, durante os
tres primeiros sáculos, morreram mártires de sua fé em Cristo
ressuscitado. Ser cristáo implica necesariamente a aceitacáo
da Ressurreicáo do Senhor: «Se Cristo nao ressuscitou, vá é
a vossa fé», dizia S. Paulo (cf. 1 Cor 15,14). É preciso nao
esquecer que toda alucinagáo se dissipa pouco depois de con
cebida, cedendo á realidade dos fatos.
Por último, considere-se: a historia nos coloca diante dos
'seguintes dados:
O Cristianismo se propagou, apregoando em primeira linha
a ressurreicáo do Senhor.
Duas conjeturas sao entáo pessiveis:
— ou a ressurreicáo de Cristo é um fato. Tem-se entáo

— 293 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 127/1970. qu. 3

um portento, um sinal, que comprova a Divindade de Cristo,


de acordó oom as palavras de Jesús mesmo;
— ou a ressurreicáo de Jesús nao é fato histórico, mas
um mito ou urna lenda. Entáo tem-se outro portento- a aluci-
nagáo, a fraude, a mentira teráo sido a base de vinte sáculos
de civilizagáo crista. Ora esta hipótese também exige fé Pa
rece, porém, que, dentre os dois tipos de fé (a fé em Cristo
Deus e Homem, que, como homem, ressuscitou, e a fé na
mentira e na alucinagáo, base de vinte séculos de Cristianismo)
menos exigente e mais lógica ainda é a fé na Divindade de
Cristo. Deus se terá manifestado em Jesús Cristo. Isto está
longe de ser absurdo ou impossível para quem eré em Deus Fé
por fé, mais vale a dássica fé crista do que a «nova fé» do
racionalismo!

Quanto a Buda e Maomé, foram grandes homéns, mas


jamáis tiveram em seu favor os sinais que falam em prol de
Jesús, atestando-o como verdadeiro Homem e verdadeiro Deus.
A propósito, veja-se o llvro «Quem é éste homem ?> de Fr. Mateus
Rocha, Sao Paulo 1970.

III. POLÍTICA E SACERDOCIO

3) «Deve o padre ser político ou entrar na militáncla


política?»

Em sfntese: Apontam-se tres principáis razSes para que o padre


milite na política: solidariedade, promocáo pessoal e social, maior efi
cacia do apostolado.
A estas razGes podem-se fazer as seguintes observacSes:
Nao há incompatibilidade radical entre sacerdocio ministerial e
mültancia política. A política nao é suja ou desonesta por si, embora
fácilmente excite as paixñes; quem a pratlca, tem que conhecer as
regras e a arte respecüyas, a fim dé evitar os escolhos moráis da
política.

Registram-se, porém, incompatibilidades relativas, visto que o pa


dre deve estar a servico da unidade da comunidade crista (um presbí
tero comprometido- com algum partido político pode provocar descon-
fianca e divisCes entre os fiéis). Deve também gozar de liberdade'
psicológica para exercer o seu ministerio (a pregacao de um padre
político pode suscitar suspeitas e constrangimento entre os seus ou-
vintes). Além do que, o presbítero, como presbítero, carece da neces-
sária formagao previa para poder engajar-se na política.
Por último, assinalam-se motivos positivos que sugerem incompa
tibilidade relativa entre presbiterato e acáo política:

— 294 —
O PADRE NA POLÍTICA? 19

1) O padre há de ser sinal de paz e nao-violéncia em meio á


luta pela justica; 2) ... há de ser sinal de que toda a atividade hu
mana tem suas raizes e sua consumacao em Deus; 3) ... há de ser
sinal da distincáo fundamental existente entre cidade terrestre e Reino
de Deus.

A renuncia do padre á militáncia política pode ser comparada á


sua renuncia ao matrimonio; nem urna nem outra é absolutamente
necessária para que o presbítero seja presbítero; todavía, assim como
a sabedoria dos séculos ensina a profunda conveniencia do celibato
sacerdotal, ela parece ensinar a grande conveniencia de que o padre
nao pratique a militáncia política (o que nao quer dizer que nao exerca
o direito de voto e outros afins a éste).

Besposta: As transformacóes da sociedade e os movimen-


tos políticos que elas suscitam, tém provocado a questáo da
conveniencia da participagáo dos sacerdotes na militáncia po
lítica.

É claro que o padre, como bom cidadáo da sua patria,


tem o incontestável direito, se nao mesmo o dever, de parti
cipar na vida da nagáo, acompanhando os respectivos proble
mas políticos, exercendo o voto, informando-se de tudo que
possa interessar ao ministerio sacerdotal... O que vem ao caso
na presente questáo, é o seguirte: seria desejável, mi mesmo
necessário, que o presbítero milite filiado a determinada cor-
rente (partido) de acáo política?

Examinaremos abaixo as principáis razóes evocadas em


favor tanto da resposta positiva como da negativa.

1. Em favor...

Tres sao os mais ponderosos argumentos aduzidos em prol


da militáncia política do padre.

1) Solídariedade

Compreende-se que o padre se abstenha de acáo política


quando a vida do país transcorre normalmente. Desde, porém,
que a nacáo passe por urna fase de agitacio e crise, pergunta-
-se se © sacerdote tem o direito de se ¡sentar dos movimentos
políticos, máxime quando se prevé que marcaráo decisivamente
o futuro do país. Pode o padre deixar que outros assumam o
risco de campanhas novas (o que nao quer dizer: marxistas)
e, depois, usufrua dos beneficios que tiverem conquistado?

— 295 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 3

2) Promojño pessoal

O padre (dizem) está deslocado ou isofado na sociedade;


muitos nao aceitam nem reconhecem a sua missáo. — Ora, se
o padre se insere na acáo política, ele conquista imediatamente
o seu estatuto social, incorporandtf-se de novo na sociedade.

3) Eficacia apostólica

A participacáo do sacerdote em movimentos politicos pode


contribuir para manifestar o valor do Evangelho frente aos
problemas do homem de hoje. A ausencia do padre nao poderla
ser censurada como demonstragáo de que o Evangelho alheia
ou é incapaz de acompanhar as aspiragóes do cidadáo contem
poráneo? Em momentos de grave crise política, a formagáo
espiritual e doutrinária dos leigos será realmente possivel sem
que o padre partícipe da própria militáncia dos leigos?
As razóes assim expostas merecem atengáo. Elas nao sao
unánimemente aceitas; pelo que, convém considerar os argu
mentos em contrario.

2. Opost£ck> radical?

Rejeitando os argumentos atrás, há quem queira pro


pugnar radical oposigao entre o sacerdocio e a política. Na
verdade, porém, oposigáo radical e absoluta nao existe, como
se poderá depreender da exposigáo seguinte.

1) Incompatibilidade absoluta por parte do ministerio sacer


dotal ?
O presbitero é constituido tal para prosseguir a missáo
dos Bispos e Apostólos, a saber: anunciar o Evangelho, santi
ficar o povo de Deus e governar a comunidade crista. O Con
cilio do Vaticano n lembrou-o claramente:

«A funcáo dos presbíteros, enquanto unida á ordem dos Bispos,


participa da autoridade pela qual Cristo mesmo edifica, santifica e
governa seu Corpo... Participando, do seu modo, da fune.3o dos Apos
tólos, os presbíteros recebem de Deus a graca que os torna ministros
do Cristo Jesús» (Decreto «Presbyterorum Ordinis» n' 2).

A ésse ministerio os sacerdotes consagram toda a sua vida,


toda a sua razáo de ser. As fungóes presbiterais exigem, por
isto, que o sacerdote assuma um estilo de vida correspondente,
capaz de manifestar é tornar eñcaz o seu sacerdocio.

— 296 —
O PADRE NA POLÍTICA? 21

Ora, já que ninguém pode desenvolver todas as atividades


ao mesmo tempo, o sacerdote, consagrado ao ministerio do
Sentoor, vé-se obligado a aceitar certas renuncias: ele deverá
abster-se de determinados compromissos que nao sao vedados
a outras vocagóes; deverá... a fim de poder preencher ade-
quadamente as suas tarefas sacerdotais. Conscientes disto, nao
poucos presbíteros, desde os primordios da Igreja, abragaram
espontáneamente o celibato; éste proporciona maior liberdade
de agáo apostólica. Compreende-se que outras renuncias pos-
sam ser recomendadas ao padre; entre essas outras está, sem
dúvida, a renuncia á militáncia política.
Todavía, assim como o celibato nao é intrínsecamente exi
gido pelo sacerdocio (pode-se conceber um clero casado, como,
por exemplo, o oriental), assim também, a rigor, nao se pode
dizer que a abstencáo de atividades políticas seja exigida pela
índole mesma do presbiterato; o sacerdocio ministerial nao
perde algum de seus constitutivos essenciais, quando vem a ser
unido á agáo política.

Pode-se mesmo admitir o caso — certamente raro, e cada


vez mais raro — de que um sacerdote venha a ser prática-
mente indispensável em determinada tarefa política que inte-
resse ao bem comum (o caso do Mons. Amida Cámara,
deputado que defendeu valiosamente a indissolubilidade do ma
trimonio, nao terá sido um désses?). Nessa hipótese, o sacer
dote nao desdiz a sua vocagáo presbiteral entrando na mili
táncia política.

É o Espirito Santo que, agindo na Igreja inteira e no


intimo de cada presbítero em particular, indica ao sacerdote
quais as renuncias precisas que ele deve abracar para ser
auténtico sacerdote na sua época e no seu pais. A legislagáo
da Igreja, levando sabiamente em conta os interésses do Reino
de Deus, pode explicitar urna ou outra dessas renuncias e
impó-la a todos os sacerdotes, como se dá no caso do celibato.

2) Incompatibilidade absoluta por parte da própría aeáo


política ?

Poderia alguém ser tentado a dizer que o presbítero nao


deve, em absoluto, engajar-se na política, por ser esta algo de
sujo e intrínsecamente corrupto.

Tal alegagáo nao se sustenta. O Papa Pío XI dizia, certa


vez, que a política é a mais elevada das formas de caridade
praticadas na vida civil, pois a política visa nao apenas aos

— 297 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 3

interésses de um grupo, mas ao bem comum de todos. Assim


como o celibato, para se justificar, nao precisa de depreciar o
casamento, assim também a abstencáo de militáncia política
nao precisa de se estribar em urna desestima dos valores de
urna sadia acáo política.
Nao há dúvida, a política acarreta certos perigos moráis:
fácilmente desencadeia paixóes, odio, violencia injustificada,
pactos e compromissos pouco nobres. Todavia nao sómente
para o padre, mas também para os leigos ela suscita tais ris
cos — o que nao quer dizer que os leigos católicos se devam
ausentar da política, deixando éste campo aberto exclusiva
mente á acáo de náo-católicos. Furtar-se á política, sob a ale-
gacáo de que é preciso manter-se puro, nao pode ser atitude
preconcebida ou tomada urna vez por todas. O que, em tal
caso, importa é que o militante político forme retamente a sua
consciéncia e adquira a competencia devida, de modo a cum-
prir suas obrigacóes sem incorrer nos perigos anexos.
Na base, pois, de tais consideragóes, deve-se dizer que nao
há incompatibilidade absoluta ou intrínseca entre o presbite
rato e a acáo política.

Esta afirmacáo, porém, há de ser completada pela se-


guinte: se nao há incompatibilidade radical, pode-se dizer que
há incompatibilidade relativa entre o sacerdocio e a militán
cia política- 3 o que procuraremos aprofundar no parágrafo
abaixo.

3. Incompatibilidade relativa

Voltemos, antes do mais, a nossa atencáo para urna

1} Obsérvaselo geral

Abstracáo feita do sacerdocio ministerial, podem-se con-


ceber certos estados de vida em que o ddadáo, embora con
serve a sua solidariedade com todos os compatriotas, se veja
obligado a renunciar, ao menos em termos provisorios, á acáo
política, Em outros termos: certos servidos sociais nao políticos
só podem ser exercidos devidamente, caso os seus titulares se
abstenham de pol'tica. Eis alguns exemplos:
— a vida militar — auténtico servico prestado a sode-
dáde — é geralmente considerada como relativamente incom-
pativel com a vida política. Sómente se fórem aporticos é que
os chefes militares póderáo ser plenamente livres para se en-

— 298 —
O PADRE NA POLÍTICA? 23

tregar ao bem da nagáo, ... manter o exército coeso, ...


conservar as tropas em disciplina por ocasiáo das mudancas
de govérno, ... afastar a tentagáo ou a suspeita de utilizar as
fórcas armadas para fins políticos.

Isto, porém, nao excluí que os militares, como bons cida-


dáos, exergam o direito de voto, tenham as suas opinióes polí
ticas pessaais e adquiram conveniente cultura política.
— os dirigentes de sindicatos, em geral, devem ser apolí
ticos, a fim de nao arrastar os membros do respectivo sindicato
em atitudes contrarias á sua consciéncia pessoal;
— outros profiss-'onais assumem tarefas de tanta respon-
sabilidade que, se se envolverem em política, nao lhes poderlo
satisfazer adequadamente e comprometeráo o bem público ou,
ao menos, arruinaráo a sua carreira profissional. É o que se
pode dar com médicos, dentistas, professóres... Embora todos
os cidadáos tenham obrigacóes para com todos, cada um tem
o dever prioritario de se ocupar com aqueles dos quais é ime-
diatamente responsável (clientes, enfermos, alunos...).

Certas máes de familia podem ser equiparadas a tais pro-


fissionais. Nao poucas dentre elas comprometeriam gravemente
a educacáo e o futuro de seus filhos se se fóssem entregar a
militáncia política.

Passemos agora á consideracáo direta do que concerne aos


sacerdotes.

2) O presbítero

Também aos presbíteros algumas razóes fortes sugerem


isen?áo de política a fim de poderem cumprir devidamente a
sua missáo. Tais razóes sao:

a) O servigo da unldade da comunldade crista

Dentro de urna comunidade crista (paróquia, comunidade


de base, equipe de casáis, grupo de jovens...), há, sem dúvida,
urna so fé, mas pode haver diferentes opgóes porticas. A li-
berdade de opiniSo política é reoonhecida a todo cristáo dentro
do leque das posigóes conciliáveis com o Evangelho. E's as
palavras da Constituigáo «Gaudium et Spes» do Concilio do
Vaticano II:

«Multas vézes a visao crista das coisas inclinará tais ou tais fiéis
a adotar determinada solucao (política), de acordó com as circuns
tancias. Outros fiéis, porém, com igual sinceridade poderSo Julgar de

— 299 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 3

outra maneira, como acontece muitas vézes e legítimamente... Em


tais casos, a ninguém é licito reivindicar exclusivamente para a sua
sentenca a autoridade da Igreja. Mas procurem em dialogo sincero
esclarecer-se reciprocamente, conservando a caridade mutua, e preo-
cupando-se, ácima de tudo, com o bem comum» (n« 43 I 3).

Ora os sacerdotes, chamados a exercer a sua missáo em


nome de Cristo, tém especial tarefa a desempenhar a servigo
da unidade da comunidade crista.
Éste servigo lhes será dificultado, caso procedam dentro
da linha de determinada opgáo política; a sua agáo em favor
de tal ou tal partido poderá (com ou sem razáo plena) torná-
-los suspeitos ou alheios a muitos membros da comunidade; o
padre poderá (talvez injustificadamente) parecer-Jhes agente
de faccüo mais do que ministro de Deus.

É digna de nota, por exemplo, a maneira como o Apostólo Sao


Paulo se comportou em Corinto diante da comunidade dividida em
partidos («Eu sou de Paulo», «Eu sou de Apolo», «Eu sou de Pedro»...
1 Cor 1,12). A atitude do Apostólo consistiu entño em mostrar que os
pregadores do Evangelho sao meros servidores, e servidores que de-
vem levar os fiéis a urna so meta: Deus.
«Eu plantel, Apolo regou, mas foi Deus quem deu o crescimento.
Assim nem o que planta, nem o que rega, é alguma coisa, mas so
monte Deus, que dá o crescimento» (1 Cor 3, 6s).

Donde se ye que o padre náv> se deve arriscar, por sua


militáncia política, a ser tido como líder pelos fiéis que com-
partilhem a mesma opeáo, enquanto outros o rejeitaráo como
adversario político.
Evidentemente, pode haver casos em que toda a comuni
dade comungue com os mesmos sentimentos de justa alegría
ou tristeza diante de um acontecimento da vida nacional. Nes-
tas circunstancias, nao há dificuldade em que o sacerdote se
manifesté em uníssono com seus fiéis ou mesmo em nome de
seus fiéis.

b) A liberdade para o ministerio

«Liberdade» aqui nao significa «disponibilidade em mate


ria de tempo ou horario», mas, sim, «desentrave ou desemba-
raco psicológico»;
Ao sacerdote cabe a missáo de ensinar e orientar todos
os fiéis. Ora esta missáo requer um clima de confianea tal que
ninguém se sinta constreñido em presencu do padre. Tcdavia
um compromissamento político déste poderia criar um ambi
ente de suspeita, dando a crer (talvez sem fundamento) que

— 300 —
O PADRE NA POLÍTICA? 25

o padre tenciona abusar de sua autoridade mural para suscitar


adesóes partidarias. O magisterio do padre já é por si bastante
arduo; nao convém, seja ainda tornado mais espinhoso por
motivo de ©posicóes políticas. O padre deve colocar-se em con-
dicóes tais que possa ser o educador leal e exigente que todos
esperam, sem condescendencia injustificada para com amigos
políticos nem agressividade para com os que pensem de outro
modo.
De maneira especial, na pregagáo da Palavra de Deus é
preciso que o padre se abstenha de partidarismo. Antes, colo
que os valores políticos no seu genuino lugar: de um lado,
mostrará que a acáo política, longe de ser estranha ao Evan-
gelho, recebe Iuzes da parte déste (o cristáo é cristáo em todas
as suas ' atividades, nao excluida a política); de outro lado, o
sacerdote evitará reduzir a mensagem do Evangelio a urna
especie de mística ou de messianismo meramente terrestres.
O padre mostrará todas as conseqüéncias do Evangelho na vida
sócio-económica dos individuos e dos povos, mas nao silenciará
o que há de transcendental no Livro Sagrado.

c) Falla de competencia política


Deve-se reconhecer que a grande maioria dos sacerdotes
nao recebeu a formacáo necessária para a militáncia política
(como, alias, bem se compreende e justifica). Ora, sem pre
paro previo, o padre que se engaje na política, corre dois
perigos:
— ou é utilizado por chefes perspicazes como instrumento
de agio; entáo a autoridade moral dos sacerdotes é objeto de
abusos e desvios;
— ou, inversamente, o padre utiliza a agáo política para
fins religiosos, assumindo no setor político o papel de chefe
de comunidade religiosa. Entáo o apostolado degenera em
política.

Está claro que o presbítero pode adquirir formacáo e


competencia políticas. Estas Ihe seráo úteis, ainda que, por
motivos de outra índole, nao müite; ... úteis, porque possibi-
litaráo ao padre compreender melhor os acontecimentos e or»
homens. A agáo política cabe própriamente (o que nao quer
dizer: exclusivamente) aos leigos competentes, como nota o
Concilio do Vaticano II:

«As proíissSes e atividades seculares competan própriamente aos


leigos, ainda que nao de modo exclusivo. Portante, estes... procuraráo
adquirir competencia verdadeira naqueles setores. Reconhecendo as

— 301 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 3

exigencias da íé e alimentados pela fórca desta, nSo hesltem, se fór


necessário, em tomar novas iniciativas e pd-las em prática. A consci-
éncia dos leigos, previamente formada, toca Inscrever a leí divina na
vida da cidade terrestre. Os leigos esperam dos sacerdotes luz e íórga
espiritual. Contudo nao julgem ser os seus pastores sempre táo com
petentes que possam ter urna solucao concreta e imediata para toda
questáo que surja, mesmo grave; nem creiam que tal é a missao dos
sacerdotes. Antes, esclarecidos pela sabedoria crista, prestando cuida
dosa atengáo á doutrina do magisterio, assumam os leigos a sua res-
ponsabilidade» (Const. «Gaudium et Spes> n' 43 12).

As razóes até aqui alegadas sugerem realmente urna in-


compatibilidade relativa entre ministerio sacerdotal e militáncia
política.

Elas podem ser completadas, Com efeito, urna sadia re-


flexáo teológica a respeito do sacerdocio ministerial leva a ver
que há urna conveniencia positiva e multo profunda em que o
padre se abstenha de engajamentos políticos. É o que o título
abaixo tentará expor.

4. Feriando em termos positivos...

Voltemos a nossa atencáo para tres aspectos muito ca


racterísticos da figura do padre.

1) O padre, sitial de paz e nao-violencia em meio á luto


pela fustiga.

A sociedade de hoje está sujeita a ser sacudida por movi-


mentos de violencia. Tais movimentos podem ser injustificados
e meramente passionais, como também podem ser suficiente
mente motivados e justos: de um lado, todo Govérno legal tem
o direito de exercer a sua autoridade e de se opor aqueles que
injustamente perturbem a ordem pública; de outro lado, pode
haver regimes de todo ineficazes ou mesmo tiránicos que só
possam ser superados mediante rebeliáo armada (cf. ene. «Po-
pulorum Progressio» n» 31).

Nessas condicóes, cabe ao padre, em virtude mesmo do


seu ministerio sacerdotal, ser sinal vivo do termo ao qual ten-
dem todas as lutas políticas: a paz dentro da justfca. A figura
e a agio do padre devem contribuir para que aqueles que mili-
tam nao se deixem obcecar pela paixáo, nem recorram a meios
injustos. O padre deve prolongar de maneira especial a pre-
senca de Jesús Cristo entre os homens. Ora Cristo foi, por

— 302 —
O PADRE NA POLÍTICA? 27

excelencia, o Reconciliador, ... o Reconciliador dos homens


entre si e com Deus. Ele é o arauto da paz, como nota oportu
namente o Concilio do Vaticano II:

«A paz terrestre, que jorra do amor ao próximo, é imagem e efeito


da paz de Cristo, que promana de Deus Pai. Pois o próprio Füho
encarnado, Principe da paz, por sua cruz reconciliou todos os homens
com Deus. Restabelecendo a unláo de todos em um só povo eura só
corpo, em sua própria carne aniquilou o odio e, depois do triunfo da
ressurreicto, derramou o Espirito da caridade nos corac6es dos ho
mens» (Const. «Gaudium et Spes» n» 78).

A atitude do padre, sinal e arauto da paz, jamáis deverá


implicar desinterésse em relacáo aos homens que estejam lu-
tando; também nao importa em comodismo confortável. O pa
dre deverá ser sempre um servidor, ... um servidor da Boa
Causa, pronto a oferecer a todos os que militam na vida civil
amizade sacerdotal, energías e luzes..

2) O padre, sinal do enraizamento e da consuma$So da aft-


vidade humana em Deus.

Como insistentemente incutiu o Concilio do Vaticano H, o


homem é responsável pela construgáo de um mundo harmo-
nioso e desenvolvida. Todavía no desempenho dessa tarefa
— máxime em nossos días — a criatura humana é fácilmente
tentada a esquecer sua dependencia frente a Deus. A tentasáo
é particularmente forte no setor político, onde, diante da gran
deza das tarefas, as paixóes sao fácilmente excitadas.
Em tais condicóes, compete a» padre significar, por seu
modo de vida, que toda a atividade humana é prevenida pela
atividade de Deus e só se consuma, ultrapassando-se a si
mesma para se integrar no plano de Deus. Assumindo volun
tariamente certas renuncias características, como a renuncia
á agáo política, o padre deve lembrar que nenhuma atividade
humana basta a si mesma e que, por isto, os homens h&o de
procurar dirigir-se para Deus, mesmo quando realizam ordem
neste mundo. Compete ao padre proclamar, pelo testemunho
de sua vida, que só Deus é o Absoluto, o absolutamente Ne-
cessário, de modo que, mesmo abstendo-se de certos tramites
lícitos, o homem consagrado a Deus vive urna vida plena e
fecunda.
Em observacáo complementar, pode-se reconhecer que todo
cristáo deve manifestar o enraizamento e a consumagáo da sua
vida em Deus; todo cristáo deve também praticar certas renun
cias (os esposos, por exemplo, sao chamados a viver a casti-

— 303 —
28 «FERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 3

dade conjugal). Todavía o que caracteriza o padre, é que o seu


próprio ministerio, colocado a servico de todos, o chama a
pratícar formas mais radicáis de renuncia.

3) O padre, sinal da dístinsáo fundamental entre a «¡dade


terrestre e o Reino de Deus.

O Reino de Deus nao é simplesmente a prolongacáo da


cidade terrestre. Verdade é que ele deve estimular os homens
a exercer fielmente as suas atividades sociais e civis, mas a
eficacia do Reino nao se limita a isto; ela é aferida por outros
criterios, como também é promovida por outros meios. Tenham-
-se em vista as palavras da Const. «Gaulium et Spes» n* 76:

«Quando os Apostólos, seus sucessores e cooperadores, sao en


viados para anunciar aos homens Cristo, Salvador do mundo, baseiam-
-se, ao exercer seu apostolado, no poder de Deus, que com freqüéncia
dá a conhecer o poder do Evangelho na fraqueza das testemunhas.
Todos aqueles que se dedicam ao ministerio da Palavra de Deus, é
preciso que lancem máo de caminhos e auxilios próprios do Evangelho,
que diferem em muitos pontos dos da cidade terrestre».

Em outra passagem, o Concilio lembra que o Reino de


Deus nao se identifica com regime político algum:

«A Igreja que, em virtude da sua finalidade e competencia, de


modo nenhum se confunde com a comunidade política, nem está ligada
a algum sistema político, é, ao mesmo tempo, sinal e salvaguarda
do caráter transcendental da pessoa humana» (Const. «Gaudlum et
Spess n' 76).

O Senhor Jesús mesmo, recusando a terceira tentagáo de


Satanás tro deserto («Eu te darei todos os reinos do mun
do...»), mostrou que o Reino de Deus nao se control sobre
o poderio político (cf. Mt 4,8-10). O padre, ministro de Cristo,
terá sempre esta cena do Evangelho ante os olhos. Se, de um
lado, a acáo política pode proporcionar maior integragáo do
padre na sociedade civil, de outro lado é preciso que a acáo
do padre jamáis possa insinuar que a fé é um messianismo
temporal ou que a tarefa da Igreja se limita á construcáo da
cidade terrestre. Quando urna tarefa da hierarquia civil e outra
da hierarquia religiosa se concentram numa só pessoa (na do
padre), urna e outra correm grave perigo de se tornar defi
cientes.

Eis as razóes pelas quais, em conclusáo, se deve dizer que


a renuncia á militáncia política deve ser a característica nor-

— 304 —
JUVENTUDE, ANGUSTIA E SUICIDIO 29

mal da vida do sacerdote ministerial, admitindo-se raras ex-


cecóes para casos realmente imperiosos.

O presente trabalho foi elaborado na base dos artigos de Roger


Heckel S. J. intitulados «Le prétre et la politiquea e publicados em
«Cahiers d'action religieuse et sociales» n' 484 (15/11/68), pp. 649-654;
485 (1/12/68), pp. 705-710; 486 (15/12/68), pp. 735-739; 488 (15/1/69),
pp. 57-64; 489 (1/2/69), pp. 87-96.

IV. JUVENTUDE EM FOCO

4) «Por que boa parte da juventude de nossos días está


em contestacáo e angustia?
As estadísticas denunciam considerável número de suicidios
entre os jovens na Europa!»

Em sintese: As páginas que se seguem, apresentam um artigo


da pena de um jovem que comenta a angustia da mocidade contem
poránea. Na Franca os suicidios sao surpreendentemente numerosos
na faixa dos 15 aos 24 anos. Por qué? — Porque muitos jovens nao
véem a razao de ser de sua vida; a luta em favor da produc&o e do
consumo de bens materiais nao lhes parece suficiente justificativa da
existencia humana. Há os que aderem ao marxismo e militam enérgi
camente pela causa comunista, conservando, porém, em seu coracáo
insatisfacáo e angustia.
Ao verificar isto, o articulista julga que aos mestres cristáos
compete o estrito dever de apresentar aos jovens o Evangelho, ... eo
Evangelho em tudo que ele tem de humano e de sóbre-humano, com
a loucura e o escándalo que lhe sao inerentes. A juventude entusiasma-
-se pelas facanhas grandes e heroicas devidamente motivadas; é so-
mente o Eterno, o Absoluto ou o Infinito que pode realmente res
ponder as suas aspiragoes mais profundas e genuinas; sem file a vida
é fardo de que os jovens franceses nao tém hesitado desembaracar-se
nos últimos tempos.

Resposta: A juventude de hoje se ressente, de modo es


pecial, da crise de insatisfacáo que abala a sociedade contem
poránea. Os jovens merecem, pois, atengáo particularmente
compreensiva e solícita de país, educadores e pastores de almas.

— 305 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 4

Na Franga, revelam certas estatísticas (como se lera


abaixo) que o suicidio é a mais freqüente causa de morte na
faixa dos 20 aos 24 anos, ao passo que entre os 15 e 19 anos
de idade é a segunda causa nessa linha.
Para compreender a inquietagáo da juventude e avaliar
os remedios que se lhe possam dar, parece que nao se devem
deixar de ouvir os próprios jovens, os quais vivem diretamente
a sua problemática. Da parte dos jovens, encontrar-se-áo, sem
dúvida, diversos e contraditórios testemunhos a respeito da
crise que os afeta. Todavía, dentre ésses muitos depoimentos,
destaca-se o que escreveu o jovem Guy Baret, com o título:
«Notre jeunesse. Au service de l'Eglise». Trata-se de um estu-
dante cristáo que encara a situacáo da juventude. O artigo foi
publicado primeiramente em urna revista francesa datada de
20 de janero de 1970; a seguir, transcrito pelo periódico in
ternacional «Le Christ au monde» n* 2 de 1970 (voL XV),
pp. 139-143.
Dado o valor de tal depoimento, apresentamo-lo aos nossos
leitores, omitindo apenas urna ou outra seccáo que parece nao
ter pleno interésse para o público brasileiro. — Os títulos sao
do próprio artigo.

1. O festemunho de um genitor

«Há algumas semanas, ñas colunas do 'Nouvel Observa-


teur*, Maurice Clavel, que é católico, entregou-se a delirante
apología da pornografía. Merece especial destaque o tópico
seguinte:
'Sou extremamente favorável a ésse ímenso desencadea-
mento de pomo..., pois assim comegará a ascese1. Em certos
ambientes de jovens, esta ja teve inicio*.
Um pai de familia dirigiu-lhe esta resposta:
'Sim, talvez a ascese tenha comecado ou venha a comegar
entre os jovens mais fortes, mais preparados para o choque.
Mas, quanto aos outros, caro Maurice Clavel, os mansos, os
de coragáo puro, os jovens sensíveis ao extremo, éles nao espe-
ram, éles acabam com sua vida.
Meu filho cagula (18 anos) suicidou-se há dois anos. Ele
nao quería mais viver neste mundo, que lhe era táo estranho.

i A ascese, ou seja, a náusea frente ao erotismo e a volta á


disciplina de vida (Nota do tradutor).

— 306 —
JUVENTUDE, ANGUSTIA E SUICIDIO 31

Depois disto, tive noticia de outros suicidios. Nao conhego


jovens de 18 a 27 anos que tenham morrido acamados, vítimas
de doenga cruel. Mas conheco cinco jovens muito chegados a
mim que se foram voluntariamente. Ao menos, pensavam
assim....

Essas mortes trágicas nao deveriam ser encobertas pelo


silencio; todavía é isto que se dá em geral. A familia perplexa,
desolada, horrorizada, difunde um anuncio mortuário lacónico;
os amigos indagam sobre o fato durante algum tempo; depois
esquecem, e o problema fica intato. Se as coisas continuaren!
assim, nunca sairemos dessa triste situagáo. Ora devemos inda
gar. Éu desejo saber por que um jovem de 18 anos, um belo
dia, dispara urna bala em seu coragáo'.

2. Os suicidios de adolescentes

Na presente crise de civilizagáo, há jovens que resistem


& torrente de lama que sobre éles é langada; há os que se dei-
xam arrastar, e também há outros — todos os demais — 'os
mansos, os dé coragáo puro, os jovens sensíveis ao extremo',
que saem de cena, na ponta dos pés, cansados de urna comedia
que já dura anos; vém a ser defuntos anónimos dentro da
massa anónima.
Sim; há poucos jovens de 18 a 27 anos de idade que te
nham falecido no leito de enfermidade \ Nesta afirmagáo nao
há exagero de pai vencido pela dor. Estatísticas recentes e ofi
ciáis o confirmam. Segundo o Instituto Nacional de Estatística
e Estudos Económicos, o suicidio é a segunda causa de morte,
após os acidentes, na faixa dos 15 aos 19 anos, ao passo que
é a primeira entre os 20 e 24 anos (a primeira, ... passando,
pois, á frente da tuberculose, do diabete, da leucemia..;).

3. Silencio e falso otimismo da imprensa

Que o leitor dé a máxima aten?áo a étes números, pois


ele nao os encontrará ñas colunas da grande imprensa. Estes
números difícilmente se conciliam com o otimismo reinante

i O autor se refere ás circunstancias da Europa, e, mais próprta-


mente, da Franca. Numa regiao em via de desenvolvimento, a mortan-
dade da juventude por motivo de doencas atinge cotas relativamente
elevadas (Nota do tradutor).

— 307 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970. qu. 4

guando se fala de juventude. Muitos dos que abordam éste


assunto, preferem recorrer a clichés baratos, popularizados, ...
gue proclamam a inefável alegría de ter vinte anos. Muitos
comprazem-se em colhér as mínimas palavras que saem dos
labios de algum jovem contestatario; publicam pesguisas reali
zadas em torno do fenómeno 'juventude'; a éste consagram
numerosas reportagens; mas registra-se estranho silencio a
respeito dos jovens defuntos de vinte anos. Alias, tal silencio
é bem compreensível: os jovens falecidos sao irrecuperáveis
para o nossa sociedade; nao consomem nem produzem; nao
compram mais, nao dáo ocasiáo a comercio; nem seguer le-
vantam mais barricadas; por conseguinte, nao merecem o mí
nimo interésse.

Mesmo nossos líderes gue nao se cansam de se sentir


'interpelados', 'provocados', 'desafiados1 todos os dias de ma-
nhá... por tudo gue possa parecer 'jovem'... sao de um mu
tismo surpreendente. A criatura humana morre sempre só,
principalmente guando tem vinte anos.

4. DimensSes e sentido da crise

Ésses jovens falecidos sao testemunhas incómodas, sao os


acusadores mudos da nossa sociedade posta em via de decom-
posigáo. Pois, guando urna sociedade leva táo elevada proporgáo
de jovens a se extinguir, tem-se o sinal certo de gue ela chegou
a alto grau de putrefagáo.

Sim; também nos desejamos saber 'por que um jovem de


18 anos, um belo dia, dispara urna bala em seu coragáo', por
gue um jovem da nossa geragáo, nosso semelhante, prefere a
fascinagáo da morte á da vida. As explicagoes sociológicas para
a crise da juventude nao podem dar conta adeguada de um
fenómeno de tais dimensóes. Ninguém acaba com a própria
vida nessa idade para 'participar mais' ou ser mais plenamente
integrado no mundo dos adultos. O jovem se suicida porgue
nao tem razSes para viver — o gue pode ser excelente razáo
para morrer.

Em conseqüéncia, percebe-se logo o verdadeiro sentido da


crise: é urna crise cuja explicagáo depende da metafísica, e nao
da sociedade. Vemo-nos diante de urna reagáo contra certa
filosofía do absurdo. Trata-se de urna crise de finalidade, gue
se manifesta pelo désejo de urna justificativa para a existencia;

— 308 —
JUVENTUDE, ANGUSTIA E SUICIDIO 33

nota-se urna sede de absoluto e urna nostalgia do sagrado, de


que as grandes aglomeracóes 'hippies' sao um sinal1.
Tais síntomas nao constituem *o problema do sáculo pre
sente', mas, sim, o problema de todos os sáculos; sómente hoje
em día ele é experimentado com mais agudez neste mundo
secularizado, burocratizado afc extremo, mundo em que a pes-
soa humana só é considerada na medida em que contribuí para
a produgáo, ... mundo em que o Evangelho já nao é anun
ciado com tudo que ele tem de escándalo e loucura.

5. A crlse de fé

É doloroso dizé-lo: justamente um dos elementos da crise,


e nao o menos importante, é a crise de fé.

A fé crista sempre foi o porto dos 'peregrinos do absoluto',


a agua viva que dessendentava o viajante cansado dessas
'cisternas furadas que nao retém a agua' e que já o profeta
Jeremías denunciava (cf. Jer 2,13). É o encontró com o Deus
vivo que salva o homem do desespero. Poi ésse Deus vivo que
um dia encontraram homens como Bloy, Psichari, Claudel,
para só falar dos contemporáneos; tornaram-se entáo cristáos
de fibra que marcaram com o seu cunho urna geracáo gan-
grenada pelo veneno do racionalismo, do positivismo e do mo
dernismo; 'embora defuntos, éles aínda falam1 (Hebr 11,4).
Éles nao percorreram urna via fácil, mas, sim, o doloroso ca-
minho da procura do absoluto...

6. Um Cristianismo humanitario

Apresentam-nos hoje muitas vézes um Cristianismo hori-


zontalizado, despojado da sua transcendencia, reduzido a vaga
filantropía, ... um Cristianismo adocicado, inocuo, 'pasteuri-
zado', sem obrigacóes nem sangóes, sem cruz nem ressurreicáo.
'Prepara-se a volta ao Cristianismo puro e duro, que os
homens manifestamente esperam com paciencia', dizia recente-
mente Mons. Fézeril2. É verdade: os homens, principalmente

1 O autor considera os «hippies» como portadores de urna mensa-


gem ou de um protesto contra os males da sociedade de consumo.
A respeito veja-se «P.R.» 120/1969, pp. 507-518 (Nota do tradutor).
2 Bispo auxiliar de París (Nota do tradutor).

_ 309 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 4

tos jovens, o esperam; mas a expectativa está sendo decepcio


nada. Como a sede de absoluto dos jovens poderia ser extinta
por ésse pseudo-humanismo vagamente pintado de Cristianis
mo? Foi o atrativo do escándalo e da loucura da cruz que fez
do jovem burgués de Assis o humilde esposo de Dama Po
breza, ... que fez da pequeña Teresa aquela que nao tinha
outro desejo senáo o de ser consumida pelo Amor Divino, ...
que fez do libertino Charles de Foucauld o Irmáo Universal,
dissimulado aos olhos do mundo no coragáo do Salvador.
Estes homens nao identificaram a construgáo do 'mundo
novo' com o Alfa e ómega de sua existencia crista, de seus
pensamentos e de suas oragóes; mas quem mais do que éles
estéve intimamente presente ao mundo? Quem, como éles,
marcou seu tempo e os tempos futuros com a sua agáo sobre
natural, sua santidade, a sua caridade irradiante?...

7. Crise de vocagoes

Os Seminarios se esvaziam: 475 recrutas em 1969, ao


passo que em 1968 eram 860. Vendo tais números, o Cardeal
Daniélou exclamou: 'Dada a sede de absoluto que existe nos
jovens, era de esperar que se atravancassem as portas dos
Seminarios!' Pois nao é assim; os jovens nao se atravancam
as portas dos Seminarios..., principalmente pelo motivo de
que urna vocacáo sacerdotal, para se expandir, precisa de um
ambiente favorável, doutrináriamente seguro, em que seja
afirmado o primado... da oragáo sobre o ativismo político-
-religioso. Mttítos jovens preferem esperar que nossos Semina
rios preencham de novo essas condigóes para néles entrar...
Nao há problema de recrutamento na Trapa ou na Car-
tuxa e ñas Congregagóes Religiosas que pautaram seu 'aggior-
namento' (atualizacáo) pelas normas emanadas do Concilio.
Nao há crise de vocagóes na admirável Igreja da Polonia;
nesta os jovens se atravancam ás portas dos Seminarios. AJ
está a prova de que, por pouco que se lhes aprésente a fé
crista com o absoluto das suas exigencias, os jovens estáo
prontos a responder 'Presente!'

8. A messe á grande

A messe é grande, e já nao há operarios. Os jovens tém


sede de verdade, de absoluto. Éles tém sede de conhecer o

— 310 —
JUVENTUDE, ANGUSTIA E SUICIDIO 35

sentido da vida, que alguns carregam como um fardo muito


pesado, táo pesado que muitos, num belo seráo, déle se desem-
baragam. Os outros continuam a caminhar sem saber nem de
onde vém, nem para onde váo, atingidos por golpes cujo sen
tido éles ignoram, sangrando por ferimentos cuja causa Inés
escapa; tudo que os recoloca diante do fato da existencia, excita
no fundo déles urna angustia infinita.
Nao estamos exagerando. Nao estamos dramatizando, mas
apenas avaliando as dimensóes do drama; os números ai estáo;
falam por si mesmos, e nos os repetimos; o suicidio é a causa
mais freqüente de morte na faixa dos 20 aos 24 anos de idade.
Somos estudantes; a nos também aconteceu mais de urna
vez ouvir tal colega, revolucionario, contestatario, adepto do
marxismo, a dizer-nos no fim de um dia, na hora do cansago
e das confidencias, como no fundo o seu ativismo político nao
era talvez senáo um meio para fugirMas interrogagóes de
índole metafísica, para as quais em váo ele procurava a res-
posta. O número désses colegas é Legiáo. Quando a festa con
testataria está acabada, quando o último folheto está distri
buido e o derradeiro panfleto revolucionario está vendido, resta
apenas a figura de um rapaz, de urna moga, só, terrivelmente
só, com a sua dificuldade de ser, com o seu mido de viver,
encerrada entre as quatro paredes de um quarto de estu-
dante, ... rapaz ou moca que de novo se volta para as ques-
tóes fundamentáis do sentido da vida e da morte, do ser e do
náo-ser.
Imaginem, pois, a decepgáo de um estudante désses, quan
do um cristáo, cioso de nao perder o trem da historia, nao tem,
para Ihe propor em tais momentos, senáo um convite para cons-
truirem juntos a cidade socialista!

9. É a hora dos santos

Quem, pois, lhes dirá a palavra que liberta, o amor que


salva, a verdade que emancipa e santifica? Quem, pois, lhes
dirá aue a Santa Igreja Católica tem as promessas da vida
eterna e que, Máe e Mestra, Ela os espera com os bragos aber-
tos, a fim de os levar para a vida que nao tem fim?
A Igreja, dizem, 'perdeu a classe operaría' no século XIX.
Foi urna grande desgraca; depois disto, cabe aos membros da
Igreja bater no peito, revestir-se de saco e prostrar-se sobre
cinzas, para receber a absolvigáo dos Estados Maiores mar-
xistas.

— 311 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 4

Hoje é a juventude que se afasta da Igreja humanitaria


que alguns pseudo-teólogos, apesar das advertencias do Papa,
estáo procurando fabricar. E ninguém protesta dentre aqueles
que com toda a veeméncia denundam a perda do proletariado
por parte da Igreja. Será preciso esperar um sáculo ou dois
para tomar consciéntía disto? Seria entáo tarde demais. 'Eis
agora o tempo favorável; eis os dias da salvacáo' (2 Cor 6,2).

A hora das crises é também a hora dos heróis e dos santos.


Foi num sáculo dilacerado que apareccu Frandsco de Assis;
foi no sáculo XIX que nasceu Teresa de Lisieux. Na verdade,
a santidade é a única contestagáo eficaz frente as geragóes
perversas e incrédulas. A santidade é para a juventude, e a
juventude é para a santidade.
'Ouvi a voz do Senhor que dizia: Quem mandarei e quem
irá em nosso nome?' (Is 6,8). Possa nossa oracáo fervorosa
obter-nos a graca de ouvir numerosos jovens a responder: 'Eis-
-me, Senbor, manda-me1».

— x

Após a leitura do artigo ácima, podem-se conceber dife


rentes reagóes da parte dos leitores... Sabe-se também que
outros jovens proporiam a aplicacáo de outros remedios para
a solucáo de sua angustia. Como quer que seja, as reflexoes
de Guy Baret contém tragos plenamente válidos; o que os jo
vens pedem, é urna razáo de ser para a sua existencia, urna
resposta para as questóes fundamentáis latentes no intimo de
todo ser humano: «Donde venho? Para ende vou?» Se muitos
jovens sao marxistas, arriscando-se a ser presos como desor-
deiros, isto se dá nao porque o marxismo lhes satisfaga cabal
mente, mas porque nunca lhes foi apresentado algo de melhor
do que a «fé» na Materia e na Ciencia.

O depoimento de Baret interpela seriamente todo cristáo


auténtico. Aos cristáós, principalmente aos mestres cristáos,
compete imperiosamente apontar á juventude a mensagem do
Evangelho, nao sonriente no que éste tem em paralelo com
filosofías humanas, mas também, e principalmente, no que o
Evangelho tem de singular, de desafiador e provocador para
a sabedoria meramente humana. A juventude auténtica se en
tusiasma nao pelas coisas amorfas e inocuas, mas pelo esfórco
e a luta bem motivados; ela entrevé que o ser humano nao se
realiza fechando-se em si mesmo, mas, sim, abrindo-se para o
Absoluto, para o Eterno e Infinito, que é Deus.

— 312 —
«RIQUEZA DO VATICANO» 37

A vida consagrada a Deus no sacerdocio ou na profissáo


religiosa pode, sem dúvida, atrair o ardor dos jovens de hoje,
caso seja apresentada genuinamente, ou seja, como entrega
decidida e coerente 'á mais bela das causas, que é a do Reino
de Deus. Enganar-se-ia quem quisesse conceber paliativos ou
suavizantes para despertar as vocacóes sacerdotais e religiosas.
Pureza e autenticidade austeras mais entusiasmam do que
ideáis adocicados ou indefinidos.
Em última análise, sem Deus plenamente reconhecido e
afirmado, a vida humana realmente vem a ser náusea ou
mesmo fardo intolerável. Continua sempre viva a frase de
Svetlana Stalin: «Ninguém pode viver sem Deus no seu co-
racáo!»

V. OS BOATOS E A VERDADE

5) «A 'riqueza' do Vaticano volt» de vez em guando h


baila. Causa difículdaides á fé de muitas pessoas retas.
Que se poderia dizer a propósito?»

Em slnteae: Era sua recente visita á Sardenha (24/4/1970)', o


Santo Padre Paulo VI quis deter-se no bairro pobre de S. Elias na
periferia de Cagliarl, onde em tom sincero encarou a atltude da Igreja
em relagáo aos subdesenvolvidos e indigentes. Maniíestou entáo sua
solidariedade para com todos os que sofrem; disse que sua visita era
testemunho de seu interésse por promover junto as autoridades pú
blicas o bem dos necessitados. Levando, além de sua palavra, urna
quantia de dinheiro para os habitantes de S. Ellas, afirmou S. Santi-
dade que o Papa nao é rico. Na verdade, a Santa Sé tem vastos com-
promissos no mundo inteiro; encarregada por Cristo de pregar a fé
a todos os homens, compete-lhe sustentar missionários e obras ne
cessitados nos diversos continentes. O dinheiro que o Vaticano possul,
é exiguo para satlsfazer a tais tarefas. Quanto ao territorio da Cidade
do Vaticano e aos haveres anexos, sao vestiglos da benevolencia dos
filhos da Igreja; tornaram-se indispensávels para que a S. Igreja possa
exercer a sua missáo em prol do bem espiritual e material da huma-
nidade.

Resposta: Há dois anos estéve em foco a questáo do


pagamento de impostes que a República Italiana parecía ter o
direito de exigir do Estado da Cidade do Vaticano. Apesar dos
rumores entáo disseminados, foi comprovado que a Santa Sé,

— 313 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 127/1970, qu. 5

em verdade, estava isenta (por acordó travado em 1963 entre


o Governo italiano e o Vaticano) de pagar as referidas taxas;
a respeito publicaram-se noticias tendenciosas, ou mesmo fal
sas, na imprensa esquerdista. A propósito veja-se «P.R.» 94
de 1967, pp. 438-447.

Alias, já em «P.R.» 2/1958, pp. 64-70 e 125/1970,


pp. 213-223, encontram-se artigos concernentes as pretensas
riquezas do Vaticano e á origem do poder temporal do Papa.
Estes e outros estudos transmiten! a impressáo de que os
apregoados tesouros do Vaticano, na verdade, nada tém de
fabuloso. Além do mais, éles tém sua razáo de ser; devem-se
á benevolencia dos filhos da Igreja para com o Pontífice Ro
mano, e devem servir á obra apostólica da Igreja. Esta, sem
posses materiais, sem autonomía temporal, nao poderla cum-
prir a missáo que Jesús Cristo lhe confiou e que redunda em
beneficio de toda a humanidade.

Estas observagóes sao confirmadas por recente discurso


de S. Santidade o Papa Paulo VI. Aos 24 de abril de 1970,
visitando a Sardenha, regiáo notoriamente pobre, o Papa quis
deter-se no bairro de S. Elias, nos suburbios de Cagliari, a fim
de se entreter com a populagáo indigente do lugar. Aos seus
ouvintes abriu entáo o coracáo de Pai e Pastor, considerando
uma por uma as objegóes que o mundo pobre poderia fazer á
Igreja de hoje. Nesse discurso chama-nos a atenga» a since-
ridade do tom; Paulo VI tem clara consciéncia do que se diz
sobre a potencia temporal da Igreja e procura dar a respectiva
explicacáo, evitando subterfugios e palavras vazias. Também o
leitor na» italiano poderá encontrar nessas palavras do Sumo
Pontífice urna resposta honesta las queixas (repetidas, as vézes,
sem grande conhecimento de causa) que no Brasil se ouvem
contra a face humana e aparatosa da S. Igreja.

Abaixo transcreveremos o discurso, cuja parte final parece


particularmente interessante. Os títulos inseridos no decorrer
do texto sao da nossa iniciativa.

1. Por que em Santo Elias?

«Eis-nos no bairro de S. Elias.


Desejamos Nos mesmo vir até aquí, entre vos, habitantes
déste bairro, do qual Nos referiram que é destinado á gente
que tem necessidade de tudo.

— 314 —
«RIQUEZA DO VATICANO» 39

Foderá alguém perguntar: por que é que num dia táo


breve e táo cheio de encontros belos, solenes e agradáveis, o
Papa quer ir ao bairro de S. Elias, onde nada há de interes-
sante para ver?

Respondemos: vos sabéis que Nos temos a grandiosa e tre


menda missáo de representar — indignamente, mas verdadei-
ramente — o Senbor, Nosso Senhor Jesús Cristo, aquéle
mesmo Jesús do Evangelho, que atribuiu a Si próprio as pala-
vras do profeta Isaías: T>eus me enviou a levar a Boa-Nova a
gente humilde' (Le 4,18). Se assim disse e fez Jesús, Senhor
e Mestre (cf. Jo 13, 13), devemos também Nos fazer a mesma
coisa: devemos ir procurar a gente humilde e pobre, em Ca-
gliari, de modo semelhante ao que fizemos durante as outras
Nossas viagens.

Eis-Nos, por isso, aqui no meio de vos, habitantes do bairro


de S. Elias, filhos e irmáos caríssimos. Muito obrigado pelo vosso
acolhimento.

2. Que veio fazer o Papa ?

Mas parece-Nos ler nos vossos olhos urna outra pergunta.


E agora, que é que o Papa vem aqui fazer, entre nos? Urna
simples visita de curiosidade? Urna visita de publicidade? Que
importancia pode ter para nos urna visita,de poúcos minutos
e de poucas palavras?

Respondemos aínda e repara! bem naquilo que estamos


para vos dizer: Viemos aqui para vos demonstrar, e para de
monstrar a todos, que reesonhecemos a vossa igualdade em
relacáo a todos os outros homens, embora éles sejam talvez
mais instruidos e desfrutem de maior bem-estar. Vos sois cida-
dáos, com direitos iguais aos de todos os outros cidadáos: a
sociedade nao vos deve transcurar, nem desprezar. Dizemos
aínda mais: vos sois cristáos, sois filhos de Deus e sois irmáos
na Igreja Católica; tendes urna dignidade igual. Melhor, vos,
precisamente porque sois pobres, tendes urna 'dignidade emi
nente* (Bossuet); sois, mais do que todos os outros, merece
dores de respeito e de interésse. Vos, no Evangelho, sois os
preferidos, estáis á frente dos outros e mais próximos do amor
de Cristo e do grande dom do seu reino. Assim viemos aqui
para vos saudar, para vos prestar honra, para reivindicar para
vos, na Igreja e na sociedade civil, aquéle lugar digno que vos
compete; e, ainda, para elevar ao grau de direitos as vossas
necessidades (e quantas seráo!), dede a habitacáo suficiente

— 315 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 5

e decente até o pao e o trabalho, a escola c a assisténcia sani


taria, a participagáo do bem-estar comum... para vos e, espe
cialmente, para estes vossos filhinhos.

3. «Meras palavras nao adianfam !»

Palavras! dirá alguém. E os fatos?

Respondemos de novo: sim, sao palavras; mas sao pala


vras boas e verdadeiras; e Nos ousamos esperar que elas sir-
vam para vos dar ao menos algum reconforto. Nao é porven-
tura um fato também o reconforto? Nao é acaso 'das palavras
que saem da boca de Deus' que vive o homem, mais aínda do
que do pao material? (cf. Mt 4,4), Foi o Senhor quem o disse.
E é mesmo assim, porque vos, Nos o sabemos, tendes necessi-
dade, antes de mais nada, de ser consolados; tendes necessidade
de ser elevados moralmente, na alma. Nao tendes vos urna
alma? Urna alma que vale mais do que o corpo? Urna alma
atribulada? Urna alma capaz de viver dos tesouros mais pre
ciosos, que sao os do espirito? Ou seja: os tesouros da fé, da
oragáo e da bondade?

4. As paltívras desencadeiam os fatos

Depois, Vos bem o sabéis, os fatos comecam pelas pala


vras. Mesmo os fatos nos quais as vossas condigóes penosas
vos fazem pensar: os fatos económicos e os. fatos sociais. Estes
fatos, na verdade, ou seja, o benvestar digno do homem, deri-
vam das palavras, isto é, das idéias, dos principios e dos bons
raciocinios. E pronunciar aqui as palavras que devem preparar
os fatos, nao é já alguma coisa de positivo? Encontramo-Nos
aqui, como em toda parte aonde vamos, qual advogado dos
pobres; desagrada-vos que Nos sejamos o vosso advogado?
Desagrada-vos que invoquemos aqui, nesta hora, de quem vos
pode e vos deve ajudar, que faga qualquer ooisa por vos, faga
mais, faca bem e faga depressa? Vede: Nos, precisamente por
que somos enviado por Cristo, possuímos urna riqueza parti
cular, possuimos o amor. O amor é urna fórga. Queremos
transmitir-vos éste amor cristáo, para vosso reconforto, para
a vossa uniáo e para a vossa esperanga. Mas queremos infundí-
-lo e inculcá-lo também nos outros, isto é, nos ricos, nos res-
ponsáveis pelo bem público, nos irmáos e nos ministros da
Igreja; se todos estes se deixassem penetrar pelo amor cristáo,

— 316 —
: «RIQUEZA DO VATICANO» 41

nao seriam mais fácilmente e mais rápidamente melhorados


os vossos destinos? E isto, sem odio, sem egoísmo, sem revo-
lucáo e sem demora.

5. Mas o Papa nao age?

O diálogo, segundo quanto Nos é dado perceber, deve


aínda ser continuado: por que é que, pergunta-se-Nos, o Papa
nao dá o exemplo?

Meus caros, aceitamos também esta pergunta. O Papa,


sim, deve dar o exemplo. Mas o Papa nao é rico, como tantos
dizem. Nos temos mesmo dificuldades para suportar as despe
sas da Santa Sé, isto é, dos servigos necessários para o bom
andamento central de toda a Igreja; depois, temos tantas ne-
cessidades, as quais devenios dar remedio, no mundo inteiro,
como sao, por exemplo, as das missóes. Mas procuramos fazer
aquilo que podemos, com o coragáo desapegado dos bens
económicos e bem ligado ás necessidades dos pobres e dos que
sofrem. Nao podemos fazer senáo muito pouco, infelizmente;
mas procuramos sempre dar um indicio da Nossa boa vontade,
por toda a parte. Também aqui queremos dar ésse sinal, um
pequeño sinal, de tal boa vontade.

Mas ao mesmo tempo queremos deixar também outro sinal,


espiritual, um grande sinal de fé, de esperanga e de amor, em
nome de Cristo: a Nossa béncáo».

Estas palavras, simples e francas como sao, dispensam


longos comentarios.

«O Papa nao é rico, como tantos dizem». Se ele administra


bens temporais, ele os administra (mediante órgáos adequados,
sem dúvida) em vista de obras ingentes esparsas pelo mundo
inteiro, que exigiriam muito mais auxilio material do que o que
lhes pode dar a Santa Sé.

Tal é a verdade. Seria para desejar que ela se difundisse


mais e mais, a fim de nao se proferirem objec5es infundadas,
se nSo injustas, contra a Santa Igreja de Cristo e nao vacilasse
a fé de tantos irmáos no Senhor!

— 317 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 6

VI. ALGO DE AMBÍGUO

6) «A Educacao Moral e Cívica tornou-se materia obli


gatoria em todos os níveis do ensillo.
Ha hesitacáo a respeito da iniciativa. Vale ou nao?»

Em sfntese: No programa oficial de Educacáo Moral e Cívica


merece sincero aplauso o reconhecimento da Religiáo como funda
mento necessário de qualquer formacáo moral. «Moral leiga» é incon
sistente, redundando em relativismo ético, como sugere o próprio
Jean-Paul Sartre.
Todavía a expressáo «Religiáo... nao com o sentido confessional»
ou «Religiáo aconfessional» que o mesmo programa (I 3.2) propOe, é
algo de ambiguo. Pode sugerir que a Religiáo se limite a crer em
Deus, íicando as grandes confissdes religiosas no plano de camlnhos
facultativos e arbitrarios. Religiáo aconfessional é a religiáo dos filó
sofos racionalistas dos séculos XVIII/XIX. Por isto sugere-se ao Go-
vérno troque a expressáo «Religiáo... nao com o sentido confessional»
por «Religiáo pluriconfessional». Esta nova fórmula reconhece o valor
de confissdes religiosas existentes sem oficializar algutna; ficaria in-
tata a liberdade de culto dos cidadáos brasileiros, sem, porém, se insi
nuar que a Religiáo se limita a crer em Deus e a servir de subsidio
á formacáo moral dos cidadáos. — Também é para desejar que o
Govérno estimule, ao máximo, o ensino religioso confessional, que
corre o perigo de ser menosprezado, urna vez introduzido o curso obri-
gatórlo de Moral e Cívica. Na verdade, nao se pode dar melhor funda
mento á Moral do que os grandes códigos éticos professados pelo ju
daismo (o Decálogo de Moisés) e o Cristianismo (o Sermáo da Mon-
tanha de Jesús Cristo).

Resposta: Os primeiros debates em torno do programa


de Educaráo Moral e Cívica já nos permitem avaliar o clima
que em tomo do mesmo se criou. Concebido com as melhores
das intengóes por parte de seus autores, o programa tem
provocado reservas que merecem consideracáo e que abaixo
proporemos.

1. A mente do programa

A Comissáo Nacional de Moral e Civismo elaborou um


opúsculo com o título «Educacáo Moral e Cívica como disci
plina cbrigatória nos tres niveis de ensino. Prescricóes sobre
curriculos. Programas básicos» (fevereiro de 1970). A p. 10,
ítem 3.2, sob o título «Orientacáo Geral», é apresentada a
mente do programa nos seguintes termos:

— 318 —
EDUCACAO MORAL E CÍVICA 43

«Idealizar a ReligiSo (considerada* no aspecto etimológico-seman-


tico de religacSo da criatura ao seu Criador e nao com o sentido con-
íessional), a Moral e o Civismo como formando tres circuios concén
tricos, sendo exterior o da ReligiSo, medio o da Moral e interior o do
Civismo. Désse modo, os deveres, dlreitos e atos cívicos íazem parte
de grupos maiores de deveres, direitos e atos moráis, e a Moral vin-
cula-se a principios permanentes originarios de Deus».

Estes dizeres pretendem constituir o ponto ótiroo ou a


sintese de um processo histórico assim concebido:

1) O Govérno Imperial no Brasil (1822-1889) professava


a religiáo, ... e a religiáo oonfessional (católica), seguindo
nisto as tradigSes de Portugal. O Govérno Imperial usufruia
do padroado, ou seja, de direitos de tutela em relagáo 'á Igreja,
direitos que muitas vézes prejudicavam ou sufocavam a Igreja.

2) O Govérno Republicano, a partir de 1889, inspirando-


-se nos principios do Positivismo, rejeltou qualquer ofidalizacáo
da Religiáo, e professou-se arneügioso, isto é, sem Religiáo (o
que nao quer dizer «irreligioso» ou «contrario á Religiáo»).
Estabeleceu-se a separagáo entre o Estado e a Igreja (o que,
em relacáo á ordem de coisas anterior, representou melhora
para a situagáo da Igreja no Brasil).

3) O Govérno da Revolugáo de 1964 procura fazer a sin


tese entre as duas posigóes extremadas anteriores. Professa,
sim, o valor da Religiáo, mas nao oficializa alguma crenga
religiosa, a fim de nao ofender a liberdade de consciéncia dos
cidadáos. Por isto o programa de Educacáo Moral e Cívica
incute a Religiáo «nao com o sentido confessional», isto é, a
Religiáo «aconfessional».
Esquemáticamente, assim se poderia reproduzir a evolugáo
histórica:
TESE: Govérno Imperial — RELIGIÁO CONFESSIONAL;
ANTÍTESE: Govérno da República de 1889 — ESTATUTO
ARRELIGIOSO;
SINTESE: Govérno da Revolugáo de 1964 — RELIGIÁO
ACONFESSIONAL.
Que dizer dessa posigáo final, de sintese?

2. A Religiáo como base

O reconhecimento do valor da Religiáo por parte das auto


ridades civis do Brasil é certamente louvável; merece o pleno

— 319 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 6

aplauso dos cristáos e, pode-se dizer, da imensa maioria da


populagáo brasileira. A Religiáo, que póe o ser humano em
contato com Deus, é um elemento imprescindível á realizagáo
da pessoa humana; esta tem urna dimensáo religiosa indelével,
que o Govérno faz muito bem em reconhecer e professar.

Mais ainda: um programa de Moral e Civismo só pode


estar devidamente estruturado, se baseia o ensinamento da
Moral sobre a crenga em Deus; «Moral leiga» é algo de mal
arquitetado. Se nao há um Ser Absoluto nem valores absolutos
ou eternos, os ensinamentos da Moral ficam sujeitos a ser re-
formulados por cada pessoa interessada; 'de acordó com a sua
situagáo, cada individuo «fará a sua Moral»; poderá entáo
haver, para diversos individuos, diversos comportamentos mo
ráis válidos, mas contraditórios entre si; o bem e o mal tornam-
-se assim nogóes totalmente relativas, mesmo dentro de urna
única sociedade. — É, alias, o que Sartre afirma: criticando
Augusto Comte e o Positivismo que, prescindindo de Deus,
pretendiam impor rígido comportamento ético aos seus adeptos,
Sartre mostra que tal posigáo é inconsistente; se Deus nao
existe para fundamentar de modo objetivo e sólido os preceitos
da ética, estes se fundamentam exclusivamente nos homens
(nos sujeitos) e tornam-se relativos, como os individuos sao
relativos; cai-se entáo no relativismo ético ou na ética da si
tuagáo.

O pensamento de Sartre se exprime muito bem no texto


abaixo:

«O existencialismo é muito contrario a um certo tipo de moral


leiga que deseja suprimir Deus com o mínimo de inconvenientes pos-
sSvel. Quando em 1880 alguns proíessóres franceses tentaram consti
tuir urna moral leiga, disseram mais ou menos o seguinte:

'Deus é urna hipótese inútil e pesada; suprimamo-la. Mas é neces-


sário, para que haja urna moral, urna sociedade, um mundo poli-
ciado, ... é necessario que certos valores sejam levados a serio e
considerados como existentes de maneira absoluta; faz-se mister seja
obligatorio em absoluto que sejamos honestos, nao mintamos, nao
espanquemos nossas esposas, tenhamos filhos, etc. Por conseguinte,
vamos fazer urna operagaozinha que permitirá mostrar que ésses va
lores existem apesar de tudo, inscritos num céu inteligível, embora
Deus nao exista'.

Com outras palavras — e esta é, creio, a tendencia de tudo que


em Franca se chama radicalismo — nada será mudado, se Deus nao
existir; encontraremos as mesmas normas de honestidade, de pro-
gresso, de humanismo, e teremos íelto de Deus urna hipótese ultra-
passada, que morrerá tranquilamente e por si.

— 320 —
EDUCACAO MORAL E CÍVICA 45

Ao contrario, o existencialismo julga que é muito incómodo que


Deus nao exista, pois com Ele desaparece toda possibüidade de en
contrar valores num céu inteligivel. Nao pode haver nenhum bem
absoluto, já que nao ha consciéncia infinita e perfeita para o conhecer.
Em parte alguma está escrito que o bem existe, que é preciso ser
honesto, que é necessário nao mentir, pois entáo precisamente nos
colocamos num plano em que há sómente homens.

Dostoievsky escreveu: 'Se Deus nao existisse, tudo serla permitido'.


Ora é éste o ponto de vista do existencialismo» («L'existencialisme est-il
un humanisme?» 1946, p. 34).

Sendo assim, merece apoio a trilogía estabelecida pelo pro


grama governamental: o Civismo (fidelidade do cidadáo as leis
do pais) esteja fundamentado na Moral (discernímentó da cate
gorías do bem e do mal por parte de urna consciéncia reta-
mente formada), e a Moral tenha seu esteio decisivo em Deus.

3. Religiao aconfessional

Compreende-se bem que o Govérno do Brasil, intencio


nando valorizar a Religiao, tenha todavía evitado a oficializa-
gáo de alguma confissáo religiosa em particular; isto poderia
violentar as consciéncias dos cidadáos, aos quais compete plena
liberdade de culto. É o que explica que o ítem 3.2 da Orien-
tagáo Geral do Programa de Educacáo Moral e Cívica, atrás
transcrito, fale de «Religiao nao com o sentido confessional»,
o que equivale a «Religiao aconfessional».

Esta expressáo, porém, sugere tres observagSes:

1) Sabe-se que no sáculo XVm houve pensadores que


propugnaram a «Religiao aconfessional» ou o «deísmo», em
oposicáo ao «teísmo»; seria urna Religiao natural, religiao da
pura razáo ou da filosofía, alheia ou mesmo avéssa ao Cristi
anismo, ao judaismo ou a algum Credo. Tais eram os filósofos
da «Enciclopedia Francesa» (Voltaire, Diderot, d'Alembert...),
cuja posigáo anticrista era nítida,
Sabe-se também que no sáculo passado a teosofía e outras
escolas propugrraram urna forma de «Super-religiáo» alheia a
qualquer confissáo religiosa existente.
Nao parece, porém, que o Govérno Brasileiro, mediante o
seu programa de Educagáo Moral e Cívica, tenha intencionado
propor ou insinuar ao povo do Brasil urna atitude religiosa de
pensadores dos séculos XVín e XIX, imbuidos de oposigáo as
rrtais genuínas tradigóes cristas da nossa gente.

— 321 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970, qu. 6

2) Ñas escolas onde já se vai aplicando o Programa de


Moral e Civismo, vem-se registrando certa perplexidade entre
professóres e alunos. A expressáo «nao com o sentido confes-
sional» ou «aconfessional» pode sugerir ser suficiente crer em
Deus, sem ulterior procura de um Credo religioso. A Religiáo
se reduziria á crenga em Deus; as diversas religióes confessio-
nais seriam caminhos para Deus equivalentes entre si, dispen-
sáveis ou nao segundo o alvitre de cada cidadáo, como os par
tidos políticos sao caminhos que pretendem levar ax> bem co-
mum, mas a ninguém se impóem, por serem criacóes humanas.

Dentro déste relativismo, a Religiáo viria a ser estimada


principalmente como sistema de morigeracáo, e subsidio da
ordem pública, pois toda Religiáo (qualquer que seja o seu
Credo) ensina que é preciso nao matar, nao roubar, ser bom
esposo, dedicado pai, idóneo profissional, ñel cidadáo...
Ora tais concepcóes, que se podem deduzir da expressáo
«Religiáo aconfessional» sao profundamente erróneas. A Reli
giáo nao é simplesmente uma atitude subjetiva do homem
diante de Deus nem é primeiramente um sistema de morige
racáo. Também em materia religiosa existem verdade e erro
objetivos. Deus é o Primeiro Ser, o Ser definido por excelencia,
que os homens tém a obrigagáo de procurar como Ele é, e nao
de qualquer modo. Colocada diante dos diversos Credos reli
giosos da humanidade, á razáo humana cabe o dever de os
oonsiderar, a fim de os rejeitar todos ou de aceitar algum de
maneira consciente e deliberada. Nao se deve julgar nem
insinuar' que todos os Credos religiosos sejam meros produtos
do bom senso humano, mais ou menos equivalentes entre si, de
modo que se possa tranquilamente adotar uma atitude de indi-
ferenga diante déles.
Mais aínda. Deve-se dizer que a Religiáo só é própriamente
sistema de Moral na medida em que ela propóe um Credo e
uma meta a alcangar.

3) A própria Educacáo Moral e Cívica nao pedería en


contrar melhor. fundamento do que os principios recomendados
pelos grandes Credos religiosos da humanidade professados no
Brasil; levem-se em conta o Decálogo de Moisés (Éx 20, 1-17)
e o Sermáo da Montanha de Jesús Cristo (Mt 5-7).
É por isso que a expressáo «Religiáo aconfessional» tem
provocado serias reservas.

Que fazer entáo?

— 322 —
EDUCACAO MORAL E CÍVICA

4. ReligiSo pluriconfessional

Em vista de quanto acaba de ser proposto, seriam para


desejar duas atitudes das autoridades civis do Brasil neste mo
mento da historia nacional.

1) Seja o texto de I, 3.2, atrás referido, reformulado, de


modo que, em lugar de
«Idealizar a Religiáo... nao com o sentido confessional»,
se diga
«Idealizar a Religiáo (concebida no sentido pluriconfessio
nal com que ela aparece no povo brasileiro)...»
A palavra «pluriconfessional»
— de um lado, daría a entender que a Religiáo nao se
limita á arenca em Deus, Deus concebido como Morigerador
do homem, mas professa também urna conflssáo ou um Credo;
— de outro lado, ésse Credo nao seria imposto a nin-
guém; o Qovérno reconheceria a legitimldade das diversas con-
fissóes religiosas e a livre opgáo dos cidadáos.

A p. 33 IV do referido Programa, íala-se de «bases filosófico-


•teístas, aconfesslonais, da ConstituicSo». A palavra «aconfessionais»
al poderla ficar, porque se refere á ConstituicSo Nacional, e nSo ao
enslno religioso a ser ministrado no país.

2) Fomente-se a Instrucáo Religiosa confessional das es


colas. Que o Govérno prestigie, com medidas concretas e efi-
cazes, o ensino religioso, de modo que seja administrado em
todas as escolas públicas e oficiáis dentro de um horario aces-
sível a alimos e professores. Ñas aulas de Religiáo, cabe ao
professor ensinar Moral, e a Moral mais bem fundamentada
possível (pois decorrente de um Credo religioso). Como se
compreende, apesar desta enfatizagáo, as aulas de Religiáo
continuariam a ser facultativas, a fim de se respeitar a liber-
dade religiosa dos alunos e de seus responsáveis.
Estimulando o ensino religioso confessional, o Govérno
evitará seja éste sufocado pela Educacáo Moral e Cívica. Na
verdade, há perigo de que certos ambientes escolares, tendo a
obriga"áo de ministrar cursos de Moral e Cívica, já nao vejam
necessidade de oferecer ensino religioso confessional em curri-
culos e horarios específicos — o que seria grandemente preju
dicial á formacáo religiosa e aos interésses do nosso povo.
Estéváo Bettencourt O.S.B.

. — 323 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 127/1970

CORRESPONDENCIA MIÚDA

(M. G. Santos, Blo de Janeiro): Recebemos sua estimada carta.


Sem dúvida, praticam-se leviandades e abusos na Liturgia, como o
S. Padre mesmo nos tem dito. Mas nem tudo que se tem feito nesse
setor, é mau. Vejamos...

1) O rito penitencial (confissáo pessoal e auricular dos pecados,


com absolvicao para aqueles que se confessaram) no inicio da Missa
foge ao costume. Mas é licito e válido como administracao do sacra
mento da Penitencia. Para muitos fiéis (talvez para os jovens, em
particular), esta praxe será mais atraente e frutuosa; para outros,
nao. Compete ao sacerdote avaliar com prudencia, contanto que se
guardem sempre os elementos necessários do sacramento, inclusive a
confissáo auricular (sem esta, nSo há sacramento, mas apenas urna
paraliturgia penitencial).

2) O fato de se cantarem na Missa músicas de radio e televisio é


reprovável, se a letra é letra profana. Alguns adotam a música profana
e a aplicam a letra religiosa; entao as coisas mudam um pouco; ...
um pouco, porque a música profana, mesmo na igreja, excita recorda-
g6es de ambientes, dancas e modas profanas.

3) Pedir «a constancia das lavadeiras e a dedicacáo dos namora-


dos» pode ser entendido em bom sentido. Constancia e dedicacáo sao
virtudes, que aquetas e estes exercem quando sao 100% o que devem
ser. Isto nao quer dizer que as lavadeiras nao devam mais pedir cons
tancia, nem significa que devamos reproduzir em nos a mentalidade
dos namorados.

4) Quanto ao «vento malvado que desmancha o barracáo do po


bre», a palavra «malvado» nao deve ser tomada como blasfemia; a
cancáo assume o modo de falar popular. Tenhamos a plasticidade ne-
cessária para entender a poesia.

Continué a zelar pela auténtica formacao religiosa de seus íilhos;


comunique-lhes sempre profunda visáo de fé e o exemplo da fidelidade
a Cristo e á Igreja. Sejamos, porém, compreensivos, sempre que Isto
nao significar traicao.
E.B.

RESENTÍA DE LIVROS

O Sinal da Fé, por Pierre Talec; traducáo de Maria Lucia Ribeiro


de Oliveira. — Editora Agir, Rio de Janeiro 1970, 120 x 190 mm, 173 pp.

O autor é um jovem vigário de urna paróquia do centro de París,


que estuda a controvertida questSo do batismo das crianzas em nossos

— 324 —
días: vale a pena administrar o sacramento a pequeninos inconscien
tes, numa sociedade que muitas yézes vé no batismo um ato meramente
social mais do que um compromisso de fé?

Ponderando com realismo e lealdade as dificuldades, o autor opta


finalmente pela afirmativa: «O dom de Deus precede a acolhida que
o homem possa a ele fazer... A medida de Deus nao é a medida do
homem. O batismo das criancinhas nos faz lembrar o fato de que é
Deus quem nos ama em primeiro lugar. Como Pai, Ele precede o
homem, seu filho, no próprio movimento em que éste se aproxima
d'Éle» (p. 51).

E os pais que mandam batizar suas criancinhas, nao lhes estaráo


impondo algo que os filhos talvez nao queiram aceitar posteriormen
te? — O autor observa que inevitavelmente em todos os setores os
pais exercem um poder de decisao sobre a crianca (tenham-se em vista
o estilo de vida do lar, o regime escolar, os hábitos que formam, o
circulo de amigos que proporcionan!...); por isto também no setor
religioso os pais oferecem necessáriamente algo á crianca: ou a graca
do batismo- ou o estado arreligioso; «seja o que fór que fizermos ncssa
etapa, sempre estaremos optando pela crianca. Resta saber o que dése-
jamos escolher para ela: a fé ou a incredulidade?» (p. 55).

Nos últimos capítulos de seu estudo, o autor trata de normas pas-


torais a ser adotadas a fim de preparar os pais e padrinhos para o
batismo das criangas. Em suma, o livro é rico de perspectivas teoló
gicas, psicológicas e pastorais, revelando fé e bom senso.

O dinamismo de nossa fé, por Cl. Dillenschneider; traducao de


Francisco José Sobreira. Colegáo «Temas de espiritualidades. — Edi-
c6es Paulinas, Sao Paulo 1970, 125 x 180 mm, 152 pp.

O autor comega por enumerar tres maneiras de compreender o


Cristianismo em nossos dias: a que esvazia as proposicOes da fé num
eeticismo mais ou menos acentuado: a que prende o Cristianismo a
fórmulas e expressOes esteréis; a que vé no Cristianismo um apelo
constante á conversao, apelo que espera sua resposta hoje, num en
contró do homem com Cristo e a Igreja: «A Igreja é neste mundo o
sacramento de Jesús Cristo, da mesma forma que file próprio é para
nos, em sua humanidade, o sacramento de Deus» (p. 8). É esta tercelra
maneira de entender o Cristianismo que Dillenschneider intenciona
desenvolver; recorre freqüentemente a textos biblicos, a fim de ilustrar
quanto a fé crista é dinámica, ou seja, tendente a penetrar e polarizar
a vida do homem; principalmente a figura de Cristo, tal como ela
aparece nos Evangelhos, merece a atencáo do autor: a pecadora de Le
7, Zaqueu o publicano, o bom ladrao, a samaritana e o cegó de ñas-
cenca sao apresentados como casos tipicos de «encontró com Cristo».
— Além disto, a crise de fé em nossos dias e a mensagem do Concilio
do Vaticano II sao analisadas pelos capítulos fináis do livro. O con
junto é bem orientado, prestando-se & meditagáo e á formagáo do leitor.

E.B.
NO PRÓXIMO NÚMERO :

Ressurreicóo dos morios

Jesús Cristo e Sócrates

Vida religiosa em foco

Vocacao provisoria

As fichas catequéticas de «Sono-viso»

«O Lobo da Estepe»

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

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