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Origem Da lógica

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LIVRO III

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sem mudança, de compreender mal a natureza do homem do conhecimento, negar a força dos impulsos no conhecimento e, em geral, apreender a razão como atividade inteiramente livre, de si mesma originada; eles fecharam os olhos para o fato de que também eles haviam chegado a suas propo~ições contradizendo o que era tido por válido, ou ansiando por tranqüilidade, posse exclusiva ou dominação. O desenvolvimento mais sutil da retidão e do ceticismo acabou por impossibilitar também esses homens; também suas vidas e seus juízos revelaram-se dependentes dos antiquíssimos impulsos e erros fun-

conservador da vida, Ante a importância dessa luta, todo o resto é indiferente: a derradeira questão sobre as condições da vida é colocada, e faz-se a primeira tentativa de responder a essa questào com o experimento. Até que ponto a verdade suporta ser incorporada? - eis a questão, eis o experimento. 111.
~Qrtgem do lógico: De onde su!:&iu '!. lÓg!9!. !la ment~

damentaisde todaexistênciasensível. Estamaissutilretidão e atitude cética surgiu sempre que duas proposições opostas

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pareceram aplicáveisà vida, por serem ambas compatíveis

\ Lcom os erros fundamentais, isto é, sempre que se pôde discutir o maior ou menor grau de utilidade para a vida; e igualmente quando novas proposições não se mostraram úteis, mas tampouco prejudiciais à vida, enquanto manifestações de um lúdico impulso intelectual, inocentes e felizescomo tudo aquilo que é lúdico. Gradualmente o cérebro humano foi preenchido por tais juízos e convicções, e nesse novelo produziu-se fermentação, luta e ânsia de poder. Não somente utilidade e prazer, mas todo gênero de impulsos tomou partido na luta pelas "verdades"; a luta intelectual tornou-se ocupação, atrativ.o,dever, profissào, dignidade -: o conhecimento e ,a busca do verdadeiro finalmente se incluíram, como necessidadG, entre as necessid.ades.A partir daí, não apenas a fé e a convic.I ção, mas também o escrutínio, a negação, a desconfiança, a contradição tornaram-se um podel~ todos os instintos "maus" foram subordinados ao conhecimento e postos ao seu serviço, e ganharam o brilho do que é permitido, útil,honrado e, enfim, o olhar e a inocência do que é bom. O conhecimento se tornou então parte da vida mesma e, enquanto vida, um poder em contínuo crescimento: até que os conhecimentos e os antiquíssimos erros fundamentais acabaram por se chocar, os dois sendo vida, os dois sendo poder, os dois no mesmo homem. O pensador: eis agora o ser no qual o impulso para a verdade e os erros conservadores da vida travam sua primeira luta, depois que também o impulso à verdade provou ser um poder
[138]

humana? Certamente do i~ó~ic~ cttlo domínio deve ter sido \ \ enorme no princípio. Mas,inçontável$ outros seres, que inferiam de maneira diversa da que agora inferimos, f:lesaparece-{ ram: e é possível que ela fosse mais verdadeira! Quem, por exemplo, não soubesse distinguir com bastante freqüência o "igual';no tocante à alimentação ou aos animais que lhe eram hostis, isto é, quem subsumisse muito lentamente, fosse dema'I 'iiado cauteloso na subsunção, tinha menos probabilidades de , ~ 'iobrevivência do que aquele que logo descobrisse igualdad,e. (
L'm tudo o que era semelhante. Mas

ã tendência

predominan-

IL'de tratar o que é semelhante' como igual - uma tendência itr>gica, ois nada é realmente igual- foio ql1eçrjQUtQdofunp d:llnento para a lógica. Do mesmo modo, para que surgisse o I'Onceito de substância, que é indispensável para a lógica,
\ 'mbora,no

sentido mais rigoroso,nada lhe corresponda de

n'al - por muito tempo foi precisoque o ql!~h,áde mytáveJ nas coisas nã2 fQ§sevisto nel11~el}t!c1Q; seres que não viam os \ 'xatamente tinham vantagem sobre aqueles que viam tudo 1'111 tluxo':Todo ~Ievado g~u de c,autelaao infe):ir,toda pro11\ 'nsào cética, já constitui em si um grande Q~rigQpara a vida. Nl'nhum ser vivo teria se conservado, caso a tendência oposl.1de atlrmar antes que adiar o julgamento, de errar e inventar II1\L'S aguardar, de assentir antes que negar, de julgar antes que
quI' ser justo

-

não tivesse sido cultivada com extraordinária

Ic )rc,;a. O curso dos pensamentos e inferências lógicas, em "OSSO cérebro atual, corresponde a um processo e uma luta 1'11\ impulsos que, tomados separadamente, são todos muito rl' 11< Igicos e injustos; habitualmente experimentamos apenas o
[139]

LIVRO A GAlA ClaNCIA

111

('l'r _ rejeitaria a noção de causa e efeito e neg~ia qualqu~r resultado da luta: tão rápido e tão oculto opera hoje em nós esse antigo mecanismo.
l'( mdicionalidade.

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113.

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4!eoria..49s velW!2S-- Tantas coisas têm de se reunir,para que surja um pensamento científico; e cada uma destas forças necessárias tem de ser isoladamente inventada, treinada, cultivada!Mas no isolamento elas produziam efeito bem diverso do que passam a ter no interior do pensamento científico,no qual se restringem e disciplinam mutuamente: elas atuavam como venenos, por exemplo, o impulso de duvidar, o impulso de negar, o de aguardar, o de juntar, de dissolver.Muitas hecatombes humanas ocorreram, até esses impulsos chegarem a apreender sua coexistência e a sentir que eram todos funções de uma força organizadora dentro de um ser humano! E comõ\ ainda está longe o tempo em que as forças artísticas e a sabe- I daria prática da vida se juntarão ao pensamento científico, em que se formará um sistema orgânico mais elevado, em relação \

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Causa e efeitol- "Explicação';dizemos; mas é "descrição" o que nos distingue de estágios anteriores do conhecimento e da ciência. Nós descrevemos melhor - e explicamos tão pouco quanto aqueles que nos precedemm. Descobrimos mÚltiplas sucessões, ali onde o homem e pesquisador ingênuo de culturas anteriores via apenas duas coisas, "causa"e "efeito'; como se diz; aperfeiçoamos a imagem do devir,mas não fomos além dessa imagem, não vimos o que há por trás dela. Emcada caso, a série de "causas" se apresenta muito mais completa diante de nós, e podemos inferir: tal e tal coisa têm de suceder
antes, para que venha essa outm

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mas nada compreendemos

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com isso. Em todo devir químico, por exemplo, a qualidade aparece como um "milagre';agora como antes, e assim também todo deslocamento; ninguém "explicou"o empurrão. E como poderíamos explicar?Operamos somente com coisas que não existem, com linhas, superfícies, corpos, átomos, tempos divisíveis, espaços divisíveis - como pode ser possível a explicação, se primeiro tomamos tudo imagem, nossa imagem! Basta considerar a ciência a humanização mai§ fiel possível daSCõi.sã!), prendemos a nos descrever de modo cada vez mais prea ciso, ao descrever as coisas e sua sucessão. Causa e efeito: e~a dualidade não existe provavelmente jamais - na verdad~ temos diante de nó~ um conti nuum. do qual isolamos algum~ Rartes; assim como percebemos um movimento apenas coI'!}Q pontos isolados, isto é, não o v~m()$. propriamente, mas o inf~rimos. A forma súbita com que muitos efeitos se destacam nos confunde; mas é uma subitaneidade que existe apenas para nós. Neste segu!1dQde sul2itéID~i<1:!de_há número iofindáyel...de. um processos que nos esc~pw. Um intelecto que visse caus~~ êfeito como continuum, e não, à nossa maneira, como arbitrário esfdcelamento e divisão, que enxergasse o fluxo do acom..e[140]

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ao qual o erudito,o médico,o artistae o legislador, como \ \~ tal
agora os conhecemos, pareceriam pobres antiguidades! 114.
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Até onde vai a eiifgra moral. experiências

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Ao vermos uma nova ima-

gem~mediatamente a construímos com ajuda de todas as
que tivemos, conforme o grau de nossa retidão e

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eqüidade. Não existem vivências que não sejam morais, mesmo no âmbitoda percepçãosensível.
115.
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Os quatro ~s.~ O homem foi educado por seus erros: primeiro, ele sempre se viu apenas de modo incompleto; segundo, atribuiu-se características inventadas; terceiro, colo..
[141] " 11

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com o manuseio - e aindamais:todoo ouro dentrodelasterá se transformado em chumbo. Verdadeiramente, vocês entendem da arte contrária à alquimia, a desvalorização do que é valioso! Experimentem outra receita alguma vez,a fim de não alcançar o oposto do que procuram, como até hoje sucedeu: neguem essas boas coisas, retirem-lhes o aplauso do populacho e o curso fácil, façam com que sejam novamente vergonhas secretas de almas solitárias,digam que moral é algoproibido! Assim talvez ganhem, para essas coisas, a única espécie de homens que importa, quero dizer, os heróicos. Mas então deve haver nelas algo para se temer,e não, como até agora, para se enojar! Não seria tempo de falar,a respeito da moral, como mestre Eckhart: "Peço a Deus que me livre de Deus"? 293. o nosso ar.- Nós bem sabemos que, para quem lança um olhar à ciência como que de passagem, à maneira das mulheres e, infelizmente, de muitos artistas, o rigor que pede o seu serviço, a inflexibilidade nas pequenas como nas grandes coisas, a rapidez em ponderar, julgar,condenar, têm algo que infunde temor e dá vertigem.Assusta,particularmente, o fato de aí se requerer o mais difícil e se fazer o melhor possível, sem que louvor e distinções sejam ouvidos, mas apenas censuras e admoestações, como entre soldados - pois o bem-feito é tido como norma, o fracasso,como exceção; e a norma, como sempre, guarda silêncio.Com este "rigorda ciência"dá-se o mesmo que com a forma e a cortesia da melhor sociedade: - ele assusta os não-iniciados. Mas quem a ele se habitua talvez não consiga viversenão nesse ar claro,transparente, vigoroso e bastante elétrico, nesse ar viril. Nenhum outro lugar lhe será suficientemente puro e arejado: desconfia que neste a sua melhor arte não seria proveitosa para outros nem prazerosa para si mesmo, que, em meio a mal-entendidos, boa parte de sua vida lhe escorreria por entre os dedos, que sempre muita cautela, muita dissimulação e reserva se faria necessária - grandes e inúteis gastos de energia! Mas nesse elemento claro e severo
[198]

1.1\, tem toda

a sua energia:aí ele pode voar!Porque tornaria

c'It. a descer

àquelas águas turvas, onde temos que nadar e pati-

IIhare perdemosa cor das asas?

-

Não!Paranós é muitodifí-

111 viver ali: que fazer, se nascemos para o ar, o ar puro, nós, ri\.lis dos raios de luz, e se bem gostaríamos, como eles, de andar ~I)hre partículas do éter, e não fugindo, mas rumando para o ..,o\! Mas isso não podemos fazer: - então façamos o que ,")mente nós conseguimos: trazer luz à Terra, ser "a luz da li:rra"!E para isso temos nossas asas e nossa rapidez e rigor, por isso somos viris e mesmo terríveis, como o fogo. Que nos temam aqueles que não souberem aquecer-se e iluminar-se Junto a nós!

--

294.

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çontra os caluniadoresda naturez4 - São para mim desagradáveis as pessoas nas quais todo pendor natural se transIÓrmaem doença, em algo deformante e ignominioso - elas nos induziram a crer que os pendores e impulsos do ser humano são maus; elas são a causa de nossa grande injustiça para com nossa natureza, para com toda natureza! Hápessoasbas:lantes que podems~<:ntre~~ seusiJE2ulsoscõl1l graça e c!espreocupação: ma~ não Q fazem11?ormedo jess<ilma@ná,Eia "má essência" da natureza! Vem daí que se ache tão pouca no13'reiã entre ós homensiPois a marca desta sempre será não lemer a si próprio, nada esperar de vergonhoso de si próprio, nào hesitar em voar para onde somos impelidos - nós, pássaros nascidos livres! Aonde quer que cheguemos, tudo será livre e ensolarado à nossa volta.

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295. Hábitos breves.- Eu amo os hábitos breves e os considero o meio inestimável de vir a conhecer muitas coisas e estados, até ao fundo do que têm de doce e de amargo; minha natureza é inteiramente predisposta para hábitos breves, mes[199]

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mo quanto às necessidades de sua saúde física e de modQ geral, até onde posso ver: elo mais baixo ao mais elevado. Acredito sempre que tal coisa me satisfará permanentemente - também o hábito breve tem essa crença da paixão, a crença na eternidade -, e é de invejar que eu a tenha achado e reconhecido: - então ela me nutre pela manhã e à tarde e espalha um profundo contentamento/" ao seu redor e dentro de mim, de forma que eu nada mais desejo, sem que tenha de comparar, desprezar ou odiar.- E um dia o seu tempo acabou: a coisa boa separa-se de mim, não como algo que me repugna - mas pacificamente e de mim saciada, tal como eu dela, e como se nos devêssemos gratidão mútua, estendendo-nos a mão em despedida. E algo novo já espera na porta, e igualmente a minha crença - a indestrutível tola e sábia! - de que esse algo novo será o certo, o certo e derradeiro. Assim é com alimentos, pessoas, idéias, cidades, poemas, peças musicais,doutrinas, programa do dia, modo de vida.- Por outro lado,odeio os hábitos duradouros, penso que um tirano se me avizinha e que meu ar fica espesso,quando os eventos se configuram de maneira tal que hábitos duradouros parecem necessariamente resultar deles: por exemplo, devido a um emprego, ao trato constante com as mesmas pessoas, a uma morada fixa, uma saúde única. Sim,no mais fundo de minha alma sinto-me gfãtõ atoda a minha doença e desgraça e a tudo imperfeito em mim, pois tais coisas me deixam muitas portas para escapar aos hábitos duradouros. - O mais insuportável, sem dúvida, o verdadeiramente terrível, seria uma vida Sem b~\)ito algum.L uma' vida que solicitasse continuamente a improvis~ção:-= isto seria meu degredo e minha Sibéria. - -

sejam. 'i,N"elee pode c0nfiar, ele c~ua o meslÍl~'i: s - em todas as situações perigosas da soCtade,este é o LIlouvor de maior significado. A sociedade sen~om satisfação,.~., que tem na virtude desse, na ambição daqu~na reflexão e no fervor daquele outro um instrumento confliel sempre di~_spostoe ela presta o máximo de honras a eS~latureza de in .~strumento, ~~Q..~ _~si mesmo, essa1variabilidade~ nas opiniões, nas aspirações e até nos defe&t ma tal avalL .ação, que U em toda parte floresce e floresceu jU~mentecom a : moralidad~ costumes educa o "caráter:tdijama toda J!"." t.i!Ydança, toda reaprendizagem e transformaçaJdesi.Por maio:r-r que seja, de resto, a vantagem desse modo O:pensar, ara ()oO conhecip mentoele é a mais nociva espécie dplgamento gemal: pois aí é condenada e difamada precisamel'ft disposição.. que tem o a homem do conhecimento para, de 11Io.eira intrépidcs, declararse a qualquer momento contra a S1.tl~pinião prévia _ e ser descon.fiadoem relação a tudo o gI}~~lló~uer se toornar sólido. A atitude do h0!!lem do conh~ent<2A ao cOr=1tradizer a "reputação sólida'; é vista como ~nrosa, ao pa.a.sso que a petrificação das opiniões tem o m0llpóliodas hon..ras: - sob o sortilégio(,('detais valores temos q~viverainda ho oje! E é difícil viver,quando se sente o juízo del)ll1itos ilênicC>s contra si m e em volta de si! É provável que o Gnhecimento foosse tomado de má consciência por muitos I1\lênios, que t..enha havie do muito auto desprezo e oculta mÍYiria históriar=a dos granna des espíritos.

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~ 297.
Poder contradizer.- Todos sabem, hoje em dia",,-, que poder tolerar a contradição é um elevadJsinal de cultULira. Alguns sabem até que o homem superior ~eja e evoca psara si a contradição, a fim de ter uma indicação'$obrea sua pr.-ópria injustiça, que até então desconhecia. ser caDaz de contrad@, ter boa consciência ao hostilizar o !J6jtual o tr::Jciki:.ion::J1 ronP sagrado - isso é mais do que essalduas coisas e ~ é o que há

296. Jfsálida reputa.çã'i"- Uma reputação sólida costumava ser extremamente útil; e onde quer que a sociedade continue a ser dominada pelo instinto de rebanho, é ainda muito conveniente, para cada indivíduo, fazer com aue seu caráter e sua ocupação sejam tidos por imutáveis - mesmo que no fundo não o
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