Rev. Bras. Reprod. Animal, v.27, n.2, p.

166-172, Abr/Jun, 2003
O MANEJO DA REPRODUÇÃO NATURAL E ARTIFICIAL E SUA IMPORTÂNCIA NA PRODUÇÃO DE PEIXES NO BRASIL
(NATURAL AND ARTIFICIAL BREEDING MANAGEMENT AND ITS IMPORTANCE IN FISH PRODUCTION IN BRAZIL) ANDRADE, Dalcio Ricardo; YASUI, George Shigueki Universidade Estadual do Norte Fluminense - Centro de Ciências e Tecnologias Agropecuárias Laboratório de Zootecnia e Nutrição Animal dalcio@uenf.br Resumo. Impulsionada pelo constante incremento da população mundial, associado à crescente demanda por alimentos mais saudáveis, a piscicultura vêm apresentando um vertiginoso avanço na produção aquícola em todo o mundo. Um dos principais aspectos para a intensificação da produção piscícola, acompanhada da sustentabilidade tanto econômica quanto ambiental, é a utilização de técnicas de propagação artificial. Este trabalho aborda a reprodução de peixes no Brasil, descrevendo as principais técnicas utilizadas para a obtenção de alevinos por meio de reprodução induzida ou natural, e discute o papel da reprodução na produção comercial de peixes para alimentação. Palavras-chave: piscicultura; indução hormonal; alevinos. afetou o equilíbrio de populações e desse modo os estoques naturais de águas continentais e dos mares que se constituíam na principal fonte de pescado tiveram sua capacidade de produção drasticamente limitada. Atualmente, a tendência é que a captura extrativa, que não tem mais como crescer, continue diminuindo, conforme pode ser observado em dados da FAO (2002), que revela que a produção de pescado com base extrativista vêm alcançando os mesmos índices de produção encontrados no início da década de 90. Seguindo as mesmas estatísticas, no ano de 1996, a produção global de pescado capturado era de 93,5 milhões de toneladas, passando para 91,3 milhões de toneladas no ano de 2001. Paralelamente, o pescado cultivado passou de 26,7 para 37,5 milhões de toneladas, no mesmo período, sendo a atividade agropecuária mais crescente em todo o globo. Este crescimento será fundamental para atender as previsões de demanda mundial por pescado pois segundo estimativas da FAO em 2025 haverá uma demanda de 162 milhões de toneladas e como a pesca extrativa está estacionada em torno de 85 milhões de toneladas a diferença terá que ser suprida pela aquicultura. Outro aspecto a ser considerado como estimulador do crescimento da demanda de pescado é o provável aumento no consumo por pessoa pois ele ainda é muito baixo em vários países entre eles o Brasil onde se consome de 5 a 10 quilos de peixe por pessoa enquanto que no Japão o consumo é de mais de 60 quilos por pessoa ao ano. Devido à crescente demanda por alimento se fez necessário e mesmo imperativo que se encontrasse alternativas para formas de cultivo de peixes que complementassem a produção natural e que tivessem capacidade de saciar a demanda mundial de pescado, buscando também a sustentabilidade econômica e ambiental. Neste caso, foi necessário desenvolver tecnologia para produção em grande escala de peixes cultivados em águas interiores e no mar. Assim, hoje no mundo todo, um grande número de espécies de água doce e salgada são cultivadas em diferentes sistemas de produção e níveis tecnológicos. No Brasil desde poucas décadas a piscicultura se intensificou e hoje já partimos para uma escala industrial de produção de pescado cultivado. Para que o cultivo de peixes se desenvolvesse no Brasil, como também em todo lugar, foi fundamental que houvesse disponibilidade de “sementes”, ou seja, alevinos para serem engordados e comercializados. A piscicultura, no nosso país,

Summary. Stimulated by the constant increment of world population, associated with the crescent demand for healthy food, natural fish supply started to decrease, and cultured fish is becoming a great solution to compensate this realness. One of the main aspects to intensify the fishery production allied with economical and environmental sustainability are fish artificial propagation techniques. This article approaches brazillian fish reproduction, describing with this article make a overview about brazillian fish breeding, decribing the main techniques used to obtain fingerlings, such as induced and natural reproduction and its importance on fish production. Key words: Fish culture; hormonal induction; fingerlings.

INTRODUÇÃO A demanda pelo pescado vêm aumentando nos últimos anos, impulsionada principalmente pelo crescimento da população e pela tendência mundial em busca de alimentos saudáveis e indicados para a saúde humana, como o pescado. Na contínua busca pela captura de um numero maior de peixes, a pesca extrativa aliada a degradação ambiental, aos poucos,

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gonadotropina coriônica humana (hCG) hipófises desidratadas e gonadotropina coriônica humana. gonadotropinas de peixes. com mais de 22. As induções químicas. Tabela 1. grupo onde se enquadram os peixes que realizam migração reprodutiva (piracema). como é o caso de gonadotropinas de peixes.27. antecipar o período reprodutivo. Entretanto. esses animais deixam de receber certos estímulos externos. A partir do domínio do processo reprodutivo em peixes cultivados ficou patente a importância da escolha de espécies condizentes com as características físicas do ambiente. onde o cultivo fundamenta-se em um número reduzido de espécies. Abr/Jun. póslarvas e alevinos) é a característica principal para que haja produção de pescado. diferindo de outras atividades mais tradicionais. se destaca. de formas jovens de peixes (larvas. Fica evidente. podem ainda ser utilizadas para aumentar a produção seminal. para os piscicultores permanente incerteza com relação ao repovoamento anual dos tanques de cultivo (SHEPHERD e BROMAGE. no Brasil. o qual está sujeito a diferentes adversidades trazendo assim. pimozida. p. a reprodução pode ser obtida fazendo-se uma simulação da resposta endócrina natural. Estas técnicas já vinham se desenvolvendo desde a década de 30 com a criação. em cativeiro. Obviamente foi também relevante o domínio do manejo da larvicultura das diferentes espécies cultivadas bem como o conhecimento dos aspectos nutricionais e sanitários das espécies cultivadas. 2003 somente teve possibilidade de se expandir no momento em que as técnicas de reprodução natural e artificial de peixes em cativeiro se consolidaram.166-172. entre peixes de água doce e salgada. o que no caso de várias espécies ainda existem deficiências que necessitam ser contornadas.). de modo geral. Isto nos leva a necessidade de cada vez mais produzir alevinos e aprimorar nossa tecnologia de reprodução natural e artificial de peixes. pimozida e metoclopramida. Isto confere à piscicultura uma imensa gama de espécies com potencial zootécnico. se faz necessário o conhecimento das características da espécie de peixe a ser propagado (época e local de desova. Outro aspecto importante é a capacidade de domesticação. a indução reprodutiva de peixes que habitam águas correntes. salinidade. PRINCÍPIOS DA REPRODUÇÃO DE PEIXES CULTIVADOS Os peixes pertencem à classe de vertebrados que possuem o maior número de representantes. características físico-químicas do ambiente. PILLAY. Este momento ressalta a importância da organização da produção em função do volume necessário para comercialização e exportação em grande escala. Para estes peixes não há tecnologia desenvolvida de reprodução artificial e os criadores portanto dependem totalmente de juvenis procedentes do meio ambiente. através da adaptação da espécie ao cativeiro e ao manejo reprodutivo. Local de atuação e os principais indutores de reprodução utilizados LOCAL DE ATUAÇÃO Hipotálamo Hipófise Gônadas PRINCIPAIS FORMAS DE INDUÇÃO Manipulação do ambiente (fotoperíodo. análogos de GnRH Hipófises desidratadas. ou que As formas de indução hormonal podem atuar através da aplicação de substâncias que irão desencadear estímulos na hipófise desses animais. como é o caso de análogos de GnRH. do processo de desova artificial de peixes com o uso de hipofisação. A indução pode ainda atuar em nível gonadal. Por outro lado. e dessa forma os ovários se desenvolvem apenas parcialmente (estágio de vitelogênese completa). o que pode fazer com que uma técnica de propagação bem sucedida em determinada espécie possa ter rendimento diferenciado em outra. metoclopramida). para que se possa manipular adequadamente a reprodução desses animais. presença de machos e fêmeas conjuntamente Antagonistas de dopamina (domperidona.Rev. como é o caso da suinocultura e a avicultura. temperatura. Reprod. restringi-lo ou mesmo sincronizar a reprodução de um lote de matrizes. stress. domperidona. Muitas das técnicas reprodutivas ainda estão sendo descobertas para diversas espécies em cultivo no país.000 espécies catalogadas. 1988. fazendo com que não haja uma resposta endócrina apropriada para a indução da maturação gonadal final. que a produção. fazendo com que os principais pacotes tecnológicos voltados para a reprodução de peixes ainda sejam aqueles encontrados em espécies exóticas. n. macerado de 167 . Bras. (reofílicos).2. inibidores de dopamina. Dessa maneira. Entre as principais técnicas de reprodução artificial. através da manipulação ambiental ou aplicação de substâncias análogas aos estímulos hormonais intrínsecos. O Brasil despertou para o seu potencial em termos de produção aqüícola e atravessa um período de profissionalização desta atividade voltada agora para a industrialização. bem como a adoção do manejo adequado para cada espécie. o elevado número de espécies no cultivo piscícola implica em uma grande plasticidade de características reprodutivas. Animal. etc. portanto. fisiologia reprodutiva). v. o que permite ao produtor obter alevinos em períodos onde a lucratividade seja maior. Pelo fato dos sistemas aquaculturais apresentarem ambientes lênticos. Um exemplo desta importância são as criações intensivas de enguias no continente asiático e europeu (Anguilla japonica e Anguilla anguilla). 1995). anti-estrógenos.

como por exemplo durante a Semana Santa. geralmente carnívoros. em algumas espécies. 2003 o cultivo seja finalizado em período onde a comercialização seja otimizada (VENTURIERI e BERNARDINO. os quais não realizam migração reprodutiva (piracema) e neste caso pode-se dispensar a indução hormonal para obtenção da reprodução em cativeiro. O processo do manejo da reprodução de peixes em cativeiro é bastante antigo. Assim. Animal. etc). A manipulação ambiental em sistemas “indoor”. essa técnica foi aprimorada. com a reprodução natural o produtor tem pouco controle do processo reprodutivo dos animais. devido à dificuldade em implantar um programa de acompanhamento do desenvolvimento dos gametas. buscando reproduzir as condições naturais para a desova destes peixes. foram modificadas e/ou aprimoradas no Brasil. Na década de 80. com a vinda de tecnologias trazidas por pesquisadores estrangeiros. como por exemplo no caso do trairão e do catfish. a reprodução pode ser estimulada pela presença de abrigos e ninhos. este baixo valor é devido ao total domínio da técnica de reprodução e alevinagem destas espécies. Reprod. bem como processos de controle e manipulação ambiental. apesar do seu custo ser elevado. Pertencentes à primeira geração. oriundo de hipófises frescas. é comum se adotar propositadamente estratégias de manejo estressantes que induzem a desova. reproduzem as condições exógenas propícias para o desenvolvimento gonadal e processo de desova e dessa forma estimulam nos reprodutores a produção hormonal necessária para propiciar a reprodução em cativeiro. para a reprodução induzida de peixes em cativeiro. pela facilidade de obtenção do produto. Bras. se faz principalmente por alterações no manejo. inclusive serviram de base para as técnicas de reprodução artificial utilizadas para as espécies brasileiras. a manipulação da reprodução em cativeiro. domperidona. um milheiro de alevinos de pacu.Rev. Na década de 90. sendo apenas feita a extrusão dos gametas e a fecundação externa e posterior incubação. Assim. Isto provocou grande avanço na piscicultura. a explosão de pesquepagues. Entretanto em alguns peixes. tambaqui ou tilápia custa em média 50 reais (ou cinco centavos a unidade). homóloga ou não. as técnicas de reprodução. Por outro lado. pois dispensa o uso de hormônios. peixe reofílico que não necessita de indução hormonal. instalações e mão-de-obra especializada que oneram a reprodução em cativeiro dos peixes reofílicos.27. Nesses peixes. O valor de mercado dos alevinos de peixes reproduzidos em cativeiro é muito varia em função da dificuldade de obtenção dos mesmos. Em outra vertente. criou uma grande demanda por alevinos para serem engordados para futura comercialização neste setor. pimozida. disseminou pelo Brasil. principalmente as nativas. extraídas de peixes com gônadas em estádio 168 . e estruturas de fixação de ovos que são utilizadas na desova da carpa comum. os êxitos iniciais na reprodução artificial datam da década de 30.166-172. metoclopramida e antiestrógenos. por exemplo. o custo final por unidade produzida é baixo devido a alta fecundidade das espécies utilizadas (uma fêmea de 1 Kg pode produzir mais de cem mil ovócitos) e o controle do processo produtivo que permite um maior aproveitamento dos ovos. induzida ou não. p. desidratada em acetona e conservadas em ambiente isento de umidade. Na segunda geração. devido aos diferentes estágios em que se encontram o domínio da técnica reprodutiva. Apesar dos custos fixos na produção de alevinos por indução serem elevados. pois o Brasil tinha um programa de cooperação com a Hungria. mediante a utilização de hipófise. e da qualidade dos reprodutores de maturação avançada. cuja resposta fisiológica aos estímulos ambientais reprodutivos não está baseada na piracema. bem como pela simplicidade desta metodologia.2. conhecidos como peixes lênticos. Abr/Jun. pois já em 1795 se conhecia a técnica de reprodução artificial da truta. estão os peixes que se reproduzem em ambientes de água não correntosa ou lêntica (lagos. Para as espécies exóticas já haviam protocolos operacionais os quais. estimulou o surgimento de piscicultores especializados na produção de alevinos. aproximadamente 400 dólares o grama. Podemos chamar este processo de reprodução assistida. Atualmente. apesar da reprodução ser obtida com facilidade o processo de alevinagem é ainda problemático principalmente por causa do alto canibalismo intraespecífico que impede uma produção em massa de alevinos. principalmente os húngaros. Além disto passou-se também a utilizar gonadotropina humana (hCG) e de peixes para a desova em cativeiro. Para esta última espécie. as técnicas reprodutivas mediante indução hormonal podem ser divididas em três gerações. assim como para os lambarís. 1999). como o dourado e o surubim. tornando esta atividade uma das mais rentáveis na aqüicultura. a maioria dos piscicultores utiliza a hipófise desidratada de carpa. v. e desse modo. lagoas. n. quando peixes foram induzidos a desovar mediante aplicação de extrato hipofisário bruto homólogo. A terceira geração engloba as técnicas de indução mediante o uso de substâncias mais processadas como análogos de gonadotropinas associados ou não com antagonistas de dopamina. Segundo DONALDSON (1996). a técnica e prática da reprodução induzida bem como o seu aperfeiçoamento para diversas espécies de peixes. Esta dificuldade restringe o processo a poucos produtores especializados e gera uma produção muito menor que a demanda o que faz com que cada alevino seja comercializado na faixa de um real e cinquenta centavos até dois reais (de mil e quinhentos a até BREVE HISTÓRICO DA REPRODUÇÃO DE PEIXES A obtenção de alevinos de peixes cultivados que pudessem ser utilizados para a engorda foi um dos primeiros passos para que a piscicultura passasse do extrativismo para as atuais formas de cultivo. A reprodução dos peixes não reofílicos apresenta baixo custo para a obtenção de alevinos. tanques.

alevinos Nome comum Nos últimos anos.2. pintados. 2003 dois mil reais o milheiro).166-172. v. a inexistência de um pacote tecnológico de produção de alevinos destas espécies restringe a expansão do seu cultivo. n. Apesar de alguns destes peixes apresentarem características como carne branca e saborosa. dentre espécies nativas e exóticas. a piscicultura nacional têm demonstrado interesse por espécies nativas de silurídeos e algumas outras espécies carnívoras. sem espinhos intramusculares (espinhas) aliadas a um porte avantajado. Entretanto muitas dessas espécies são freqüentemente selecionadas de forma errônea quando o piscicultor.27. surubins. Animal. canibalismo Tambaqui e pacu Colossoma e Piaractus Indução hormonal Canibalismo nas fases Desova natural com incubação Traíra e trairão Hoplias sp. Indução hormonal Indução hormonal sucedida de Curimatã Prochilodus sp. Principais espécies cultivadas no Brasil. Manejo da desova incubação artificial e inversão sexual Canibalismo (baixo) nas Reprodução natural e coleta dos Lambaris Astyanax sp. Uma atividade piscícola que ultimamente vêm sendo amplamente difundida é a tilapicultura. Bras.Rev. Muitas vezes as características climáticas regionais levam o produtor a buscar espécies mais adaptadas ao local de cultivo. A demanda do mercado também pode ter forte influência na escolha de uma determinada espécie. Abr/Jun. É importante ressaltar que nos dois casos a produção de alevinos é lucrativa. Reprod. como se tem observado ultimamente com as tilápias. iniciais. Indução hormonal larvas. Agressividade dos machos extrusão ou desova natural Reprodução natural e coleta dos Ausência de protocolo de Pirarucú Arapaima gigas alevinos/induzida em fase de testes reprodução. alevinos e insumos tem provocado a escolha do peixe a ser trabalhado. suas linhagens e híbridos. extrusão ou desova natural Canibalismo nas fases Dourado Salmo maxillosus Indução hormonal iniciais Desova natural seguida ou não de Tilápia Oreochromis sp. jundiás. fases iniciais/baixo volume alevinos /Indução hormonal seminal Canibalismo (baixo) nas Reprodução natural e coleta dos Lambari bocarra Oligosarcus argenteus fases iniciais/baixo volume alevinos/Indução hormonal seminal Indução hormonal sucedida de Piaus Leporinus sp. deixa de considerar a adequação de uma espécie às características ambientais de sua região ou à forma de comercialização que ele dispõe. Indução hormonal Coleta de sêmen Desova em ninhos artificiais e Bagre de canal Ictalurus punctatus incubação artificial/indução Temperatura hormonal Canibalismo nas fases Matrinchã Brycon sp. principalmente com a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus). agressividade Carpa cabeça Aristichtys nobilis Indução hormonal Sincronia de reprodutores grande Carpa capim Ctenopharyngodon idella Indução hormonal Mortalidade de matrizes Desova natural em Adesividade dos ovos Carpa comum Cyprinus carpio substrato/Indução hormonal quando incubados Carpa prateada Hypophthalmichtys sp. Agressividade dos artificial reprodutores Indução hormonal / desova artificial Alta mortalidade nas fases Truta arco-íris Oncorhynchus mykiss induzida pelo fotoperíodo iniciais Reprodução natural e coleta dos Tucunaré Cichla sp. Alimentação das pósSurubim Pseudoplatystoma sp. motivado principalmente pela propaganda. Várias são as razões desta diversidade. No quadro abaixo são citadas os principais peixes reproduzidos em cativeiro em nosso país. técnicas de propagação artificial e principais entraves Técnica reprodutiva mais utilizada Espécie Principal entrave comercialmente Bagre africano Clarias sp. dourados e pirarucus. Indução hormonal iniciais. PRINCIPAIS ESPÉCIES REPRODUZIDAS E CULTIVADAS NO BRASIL No Brasil. são reproduzidas e cultivadas mais de 50 espécies de peixes. características estas que provavelmente farão deles os principais peixes comerciais cultivados no Brasil. outras vezes a disponibilidade de Tabela 2. Essa atividade conta com um bom pacote biotecnológico trazido do 169 . como é o caso dos piraíbas (filhotes). p.

1994). p. Isto se justifica pois os machos de tilápia apresentam maior rendimento de carcaça e a criação monosexo evita a reprodução que é completamente indesejada no processo de engorda. O manejo da reprodução destas espécies inclui a coleta da desova e seu transporte. não é suprida pelos produtores de alevinos. que pretende fazer dela um substituto da merluza importada. Os alevinos de carpa e tilápia cuja tecnica de reprodução é totalmente dominada e o número de produtores é elevado. 1990). os peixes são coletados e passam para tanques de engorda (ANDRADE e VIDAL JR. para o laboratório. Hoje o mercado se abre e força à especialização. já no caso dos lambaris e trairões. Em alguns locais do Brasil a dificuldade tem sido a aceitação da carne deste peixe que pode apresentar sabor indesejado (sabor de terra) oriundo geralmente de criação com manejo alimentar inadequado. Com relação aos peixes marinhos nossa piscicultura ainda é incipiente havendo entretanto grande demanda por algumas espécies mais nobres dentre as quais já se pode contar com algumas experiências de produção de alevinos em cativeiro como é o caso dos robalos. ou em substratos (kakabans). Apesar desse grupo de peixes lênticos dispensarem a indução hormonal para que ocorra a desova. onde os ovos aderem-se a estas estruturas. isto é possível pois em peixes a diferenciação gonadal ocorre após a fase de pós-larva. geralmente ao redor de 50 reais o milheiro. ao abrigo da luz solar. e ficam oxigenando e protegendo os ovos contra eventuais predadores. Também merece destaque a crescente demanda por peixes do gênero Brycon (matrinchã. os ovos podem eclodir no tanque de reprodução. equipamentos. quando a taxa inversão é baixa o objetivo deste procedimento não é atingido e a consequente ocorrência de desovas durante a engorda inviabiliza o cultivo comercial deste peixe. Este desenvolvimento da atividade aqüícola trouxe consigo todo o acompanhamento representado pelos insumos. além de características desejáveis para a industrialização e sua criação vem sendo estimulada inclusive pelo governo do Brasil. Abr/Jun. (POPMA e GREEN. Reprod. Figuras que surgiram em consequência deste desenvolvimento foram o transportador de alevinos e peixes. as técnicas de reprodução artificial podem ser utilizadas para sincronizar a reprodução.) entretanto. A larvicultura destes peixes costuma ser controlada. A criação da carpa-comum é bastante difundida. ter maior controle sobre os reprodutores e a desova. em que a demanda. peixe-rei. picanjuba. bem como manipular o período reprodutivo. Entretanto para a PRINCIPAIS TÉCNICAS REPRODUTIVAS Desova natural (espécies de águas lênticas) Neste aspecto. e que foi aperfeiçoado principalmente na região Sul do país.Rev. apesar de ainda pequena. pela simplicidade de seu cultivo e tradição de seu consumo entre populações de origem asiática e nos estados do sul de nosso país. Diversas substâncias indutoras tem apresentado bons resultados para algumas espécies. o profissionalismo e a organização da atividade aqüícola em sistemas de produção e comercialização compatíveis com as exigências do mercado interno e externo. As tilápias se reproduzem em temperatura acima o dos 22 C e sua desova ocorre naturalmente nos tanques. e vias de comercialização gerando renda e produzindo empregos. Bras. As espécies traíra (Hoplias malabaricus) e trairão (Hoplias lacerdae) desovam em ninhos escavados nas partes mais rasas dos tanques. evitando a predação dos ovos por parte das matrizes.27. Desova artificial ou induzida (espécies reofílicas) Existem diversas alternativas para a indução reprodutiva em peixes. e Oligosarcus sp. Animal. piabanha etc). As tilápias possuem um grande potencial zootécnico. chegando a atacar animais de maior porte. onde são incubados em o caixas com temperatura constante (26 a 28 C) e aeração. sendo que a maioria das técnicas se baseia em aplicações intramusculares/intrabdominal. Após ocorrer a desova. e tainhas entre outros. n. fazendo-se a masculinização das póslarvas através da veiculação de hormônios esteróides masculinizantes (testosterona) na alimentação 170 . A demanda por alevinos estimulou o desenvolvimento da aquicultura que por sua vez ao produzir uma maior oferta de peixes estimulou o consumo e aumentou a demanda. os valores de comercialização são mais elevados. principalmente a tilápia do Nilo (Oreochromis niloticus).166-172.2.. e também algumas espécies do gênero Leporinus (piaus e piauçu). Além disto dessa espécie se obtém a hipófise utilizada na maioria das reproduções induzidas. A produção de alevinos de carpa não costuma apresentar dificuldades e o processo de engorda não tem sido afetado pela disponibilidade de alevinos. estas estruturas com os ovos são encaminhadas para um tanque isolado para que ocorra a eclosão. o intermediário e o vendedor de alevinos e insumos bem como o pessoal especializado no apoio técnico em suas diferentes áreas. como é o caso das carpas-comuns (Cyprinus carpio) e das tilápias. piraputanga. duas espécies exóticas encontradas na piscicultura nacional merecem destaque. são comercializados por valores mais baixos. atingindo aproximadamente 250 reais o milheiro. e a desova ocorre em plantas submersas ou nas raízes de macrófitas aquáticas flutuantes. Hoje no Brasil existe uma demanda crescente por alevinos produzidos mediante este processo de inversão sexual. A reprodução das carpas-comuns é influenciada pela temperatura. e quando atingem o estágio de alevinos. Os lotes produzidos sob rigorosa observância do protocolo apresentam índices de inversão próximos à 100%. principalmente na base das nadadeiras peitorais e pélvicas. Reprodução semelhante ocorre com lambaris (Astyanax sp. onde se intensificaram as técnicas de incubação artificial e inversão sexual. v. 2003 exterior. A larvicultura geralmente é realizada em tanques escavados.

menor resposta imune. ou ainda com potencial zootécnico aquém do seu potencial genético (GUNASEKERA et al. que é aplicada na forma de extrato bruto. 171 . na hipófise Bloqueia o mecanismo Antagonist de inibição efetuado as de pela dopamina. Os óvulos dos peixes possuem uma abertura denominada micrópila. ª Hipófise Facilidade de dosagem e aplicação. definida em muitas custo reduzido espécies. entretanto não é aconselhado o uso de ovócitos que foram ovulados a mais de uma hora pois a viabilidade dos mesmos já se encontra bastante reduzida. muitas desses procedimentos apresentam custos elevados. O extrato hipofisário é aplicado em fêmeas cujas gônadas apresentem ovócitos em vitelogênese completa. facilidade de aquisição.2. cada ovócito incorpora vitelo.166-172.5 mg/kg na 1 dose e 5. metodologia não padronização qualitativa. pode ser maturação através de produzida pelo piscicultor. Padronização qualitativa. espasmos musculares etc.0 mg/Kg em dose única para os machos. Atua diretamente nas metodologia estabelecida em gônadas. Técnicas inovadoras e ainda em fase de pesquisa tem apresentado bons resultados. Entretanto. matrizes mal nutridas podem gerar ovos e larvas com quantidades de vitelo insuficiente. definida em muitas espécies Reação imune. diluída em solução fisiológica. Reprod. LHRH e LHRHa Dificuldade na dosagem. Menor resposta imune. As dosagens apresentadas são valores de referência e podem variar dependendo da metodologia utilizada. como é o caso dos implantes subcutâneos.27. induzindo a diversas espécies. O momento de aplicação é um dos principais aspectos na reprodução induzida.5 a 1. fácil estocagem. Animal. podendo comprometer o processo reprodutivo. originando animais com menores chances de sobrevivência. p. e para estimar esse momento ideal de aplicação cabe ao produtor fazer observações como a época de reprodução verificada na região.Rev. que fornecerá nutrientes e energia para o desenvolvimento larval (NIKOLSKII. são apresentadas e comentadas as principais substâncias indutoras utilizadas comercialmente para a desova artificial de peixes. Tabela 3. reação imune das matrizes. Dopamina aumentando a produção intrínseca de GnRH. Desse modo. Na tabela 3. 1996. pelas facilidade em se obter informações pertinentes na literatura e pela facilidade de execução. n. Gonadotropina humana. visto que na maturação das gônadas. Outro aspecto que deve ser observado para evitar a perda da viabilidade dos gametas e o contato com a água. GtHs: que atua diretamente HCG. 1969). 1995). 1000 UI/Kg metodologia não definida em muitas espécies. Caracterização dos principais indutores de reprodução utilizados comercialmente INDUTOR MODO DE ATUAÇÃO VANTAGENS DESVANTAGENS DOSAGEM 0. custo relativamente elevado Formas de GnRHs que atuam indiretamente nas gônadas. LH nas gônadas. v. estocagem sob refrigeração Pode ser ministrado com gonadotropinas com atuação sinérgica. estocagem por longos períodos. que liberam as substâncias indutoras gradativamente. visto que tanto uma aplicação precipitada quanto tardia tendem a comprometer o processo de maturação das gônadas. gonadotropinas possuem outras substâncias de efeito sinérgico às gonadotropinas Falta de padronização qualitativa. abaulamento e consistência da região abdominal e aspectos da papila genital (entumecimento. tornando-se uma prática bastante difundida. Deve-se ressaltar também a importância de uma alimentação adequada das matrizes. 2003 maioria das espécies comercias poucos indutores de desova foram testados. Para determinar o momento da ovulação o produtor observa sinais comportamentais como a natação em carrossel. comportamento. WOOTON. custo elevado Na maioria das criações comerciais. Em contato com a água o óvulo hidrata e sua micrópila fecha gradativamente. hiperimiação). induzindo a maturação GnRHs: sGnRH. Bras. Abr/Jun. induzindo a produção intrínseca de gonadotropinas. propagação de doenças. 5 mg/Kg Dificuldade na dosagem. a indução reprodutiva é feita mediante o uso de hipófise desidratada de carpa. Esta técnica pode ser considerada padrão na indução reprodutiva..0 ª mg/Kg na 2 dose para fêmeas e 0. A ovulação em peixes ocorre em média 10 a 14 horas (dependendo da temperatura) após completado o processo de indução hormonal. associado ao metodologia não GnRH utilizado. mas poderão ser viabilizados economicamente em futuro próximo com o avanço nas pesquisas e difusão destas tecnologias. 10 a 15 mg/Kg para as fêmea s e 3 a 5 mg/Kg para os machos. local por onde o espermatozóide deverá fecunda-lo pois na grande maioria das espécies de peixes os espermatozóides não apresentam acrossoma. ruídos. Algumas espécies desovam imediatamente após a ovulação e outras retem os ovócitos por mais tempo. da espécie e do estado fisiológico de maturação gonadal.

PILLAY. 4. 172 . Aquaculture: principles and practices. Manipulation of reproduction in farmed fish. Ecology of teleost fishes.Osney Mead.). SHEPHERD.V.. n. Sex reversal of tilapia in earthen ponds. Tradução de Vera Lúcia Mixtro Chama. R. M. p.J. 1994. 1988. Criação de trairão Hoplias lacerdae. Influence of protein content of broodstock diets on larval quality and performance in Nile tilapia. B. 320p. 148p. Devido as características climáticas.V. hídricas e sociais nosso país reúne condições que o capacitam a ser um grande produtor de pescado. Imprensa Universitária. ed. em um cenário de demanda crescente no Brasil e no exterior. N. Informe Técnico. WOOTON.55.. A fecundação é externa e após um período de hidratação dos ovos. J. Campos dos Goytacases.R. DONALDSON.. o que implicará em aumento significativo na produção de alevinos para atender a engorda.Oxford: Fishing New Books. Wales. VIDAL JR. Chapman & Hall Co. International Center for Aquaculture and Aquatic Enviornments.1996.M. The State of World Fisheries and Aquaculture. Hormônios na reprodução artificial de peixes.. LAM.245-259 NIKOLSKII. Oxford. 1989). Alabama. no entanto deverá estar capacitado tecnicamente para atender a demanda por alevinos de boa qualidade genética e sanitária a um preço adequado para que o produto final seja competitivo. W. Abr/Jun.1996. 575p. 1990. D. E. v.09... Viçosa. L. FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION OF THE UNITED NATIONS . Biologia da reprodução de peixes teleósteos: teoria e prática. devido a formação de mão-de-obra especializada.. impõe à piscicultura a tarefa de suprir o abastecimento de pescado.M. R.381-392.2. Oreochromis niloticus (L.R. G.27.166-172.. M. 1999. D. Bras.. 15(71):115. 225p. p. n. GUNASEKERA. A. Panorama da Aqüicultura. tanto em ambiente marinho quanto em ambiente dulcícola.V. E..E. p.J. A propagação artificial de peixes de águas tropicais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE.. R. Aquaculture. 146. Auburn University. 396p. em função das características intrínsecas dos animais. Na última década do século XX ocorreu a profissionalização do setor aqüicola brasileiro. n. Intensive fish farming BSP. Professional Books Blackwell Scientific Publications Ltda. POPMA.. podendo permanecer até a eclosão ou mesmo até a fase de pós-larva (WOYNAROVICH e HORVATH. Boletim técnico. Apesar da metodologia de indução reprodutiva ser bastante similar para a maioria das espécies. SHIMODA. T.1989. R. Maringá-PR: EDUEM. v. Theory of fish population dynamics as the biological background for rational exploitation and management of fishery resources. WOYNAROVICH. 169p. M. v. J. CONCLUSÕES A procura por alimentos saudáveis como a carne de peixe aliada a estagnação da pesca extrativa. Reprod. UENF. Edinburgh: Oliver & Boyd.Rev. 23p. O produtor de alevinos poderá vir a ser um dos elos mais rentáveis da cadeia produtiva de pescado. 1996. C. HORVATH.R. F. GREEN. 1969.A. SHIM. VENTURIERI.1995. v. Department of Fisheries and Allied Aquacultures. K. estes são levados para incubadoras onde se desenvolvem. E.1995.39-48. A obtenção dos ovócitos e espermatozóides é feita por extrusão mediante compressão abdominal. 2003 em aproximadamente um minuto já é inviável a fecundação também porque os espermatozóides ativados inicialmente pelo contato com a água tem tempo de vida e motilidade aproximadamente igual. BROMAGE. VAZZOLER. disponibilidade de insumos e equipamentos compatíveis com as mais modernas tecnologias de produção de peixes. V. 404 p. 1998. T.FAO. Brasília: FAO/CODEVASF/CNPq. os efeitos podem ser diferenciados. Animal.. v. 2002. ANDRADE. Animal Reproduction Science... p. G.42.. & VIDAL JR.Criação de peixe: lambari-bocarra (Oligosarcus argenteus). 15p. T.. 3. BERNARDINO.

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