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Dados Internacionais de Catalogação na Publicação

(CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Zezinho, Padre, 1941 –


Oi, Deus! Meu nome é Zé / J. Fernandes de Oliveira (Pe.
Zezinho) – São Paulo: Edições Paulinas, 1991.

ISBN 85-01245-3

1. Comunicação de massa na religião 2. Educação religiosa –


Linguagem e línguas – Aspectos religiosos
I. Título

CDD -253-7
-200.14
-305.62
91-0830

Índices para Catálogos Sistemáticos

1. Comunicação de massa: Cristãos: Sociologia 305.62


2. Jovens: Evangelização: Cristianismo 253.7
3. Linguagem e Religião 200.14
4. Religião: Linguagem 200.14
J. Fernandes de Oliveira
Pe. Zezinho, scj

Oi, Deus!
Meu nome é Zé!

Edições Paulinas
(na edição original impressa)
Ficha Técnica (Edição Original/Impressa)

Revisão: Paulo Bazaglia


Capa: Rigo Rosário Jr

EP – Edições Paulinas
Telex (11) 39464 (PSSP BR)
Fax (011) 575-7403
Rua Dr. Pinto Ferraz, 183
CEP 04117 SÃO PAULO – SP
END. TELEGRAFICO: PAULINOS

© EDIÇÕES PAULINAS – SÃO PAULO, 1991


ISBN 85-05.01245-3

Ficha Técnica (Edição Eletrônica)

Digitalização e Revisão: Mazinho Almeida

AVISOS LEGAIS: Em consonância com a Lei Federal nº 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais),
artigo 29, inciso I, esclarecemos que:

 os direitos patrimoniais, que na edição original pertenciam exclusivamente às Edições


Paulinas (Paulinas Comep/Paulus Editora), conforme consulta efetuada junto às
editoras, retornaram ao autor Pe. Zezinho (José Fernandes de Oliveira), por extinção do
contrato de edição em em 29 de Julho de 1998;

 a digitalização desta obra foi expressamente autorizada pelo autor José Fernandes de
Oliveira, através de correio eletrônico datado de 13 de fevereiro de 2009, para livre
distribuição entre os membros da comunidade “Eu sou fã de Padre Zezinho” no
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 é vedada a reprodução integral ou parcial para quaisquer fins que não sejam
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1. Oi Deus...___________________________

Eu tinha 27 anos e já era padre, quando, pela primeira vez, chamei Deus
de você. Foi uma hecatombe interior... Formado na escola rígida de
espiritualidade que só admitia orações no plural majestático e que falava de
um Deus lá em cima; que apontava para o firmamento, cada vez que a Deus
se referia, não pude escapar à sensação de que conspurcara o santo nome de
Deus. Pior ainda, ridicularizara o bom Deus e o arrancara do seu trono
excelso...

A coisa ficou ainda mais grave e anti-religiosa, quando, numa celebração


de jovens, na missa das onze, que eu, recém inaugurara na igreja de S. Judas
Tadeu no Jabaquara, permiti a um grupo de rapazes e moças, do Colégio
Vilalva, que lessem suas mensagens ao fim da missa. Um deles chamou Deus
de você e de paizão do céu. Foi o quanto bastou para que eu enfrentasse a
minha primeira prova de fogo sacerdotal. Era padre há dois anos e nunca
recebera tantas manifestações contrárias. Até então, estava de lua-de-mel
com a Igreja e tudo era bonito e fácil de resolver. Agora, não. Estava sendo
acusado de enxovalhar a Igreja com linguagem grotesca e profana. A
bem da verdade, diga-se de passagem, não foram meus colegas padres os
meus acusadores. Nem mesmo os mais idosos de quem se deveria esperar
isto. Foram leigos zelosos que não admitiam aquela quebra de teologia, aquela
missa, aquele showde minissaias – Mary Quant estava em evidência –, aquele
barulho infernal de guitarras, aqueles moços desrespeitosos a falar de Deus,
como se Deus fosse uma pessoa qualquer. Você era desrespeitoso, acintoso,
anti-religioso, e, se aquilo não mudasse, ele iriam ao cardeal...

Ensaiei uma pequena crise interior. E agora? O que faria eu? Alguns pais
proibiram seus filhos de ir àquela missa que ensinava uma religião perniciosa.
Fui julgado, condenado e sentenciado in absentia por três gravíssimos
pecados: linguagem chula para com Deus, música irreverente e
antilitúrgica, licenciosidade no altar por permitir que subissem ao enorme
átrio da matriz, promiscuamente, moças e rapazes, com roupas provocantes.
Hoje, aquelas roupas seriam ridiculamente conservadoras, aquela música
talvez ainda chocasse, aquele tipo de orações talvez ainda choque. Mas choca
bem menos. Passar do órgão à guitarra e à bateria foi mais traumatizante do
que passar da carroça para o automóvel. Foi velocidade demais na Igreja
daqueles dias. Eu achava que a guitarra, tão em voga entre os jovens por
causa dos Beatles e de Roberto Carlos, pudesse ajudá-los na busca de uma
linguagem religiosa mais do gosto deles. Fiz concessão pedagógica e não
doutrinal. Hoje, até faria algumas concessões doutrinais que não ferissem o
essencial. Não o faria sem falar ao bispo, mas faria. Naqueles dias, contudo, eu
tão-somente quis que eles falassem com Deus do jeito deles e não do meu.
Afinal, quem estava rezando eram eles. Eu rezaria do meu jeito. Aliás, até
então faltava-me a coragem de tratar Deus de qualquer maneira que não fosse
Vós, Vossa Majestade, Vossa Majestade, num tipo de oração cheia de ó
Vós e de outros exclamativos que herdei da minha formação. Nunca
ridicularizei aquela linguagem, nem a ridicularizo hoje. Apenas questiono se,
num país que há mais de um século não usa o Tu e o Vós para os pais ou para
quem quer que seja, faz sentido reservá-lo para Deus.

O respeito está no modo de rezar e na ternura filial com que se reza,


mais do que na terminologia. Era o que pensava e é o que penso. Mas passar
do conceito para o ato custou caro e continua custando. Observo as orações do
povo, dos padres, dos grupos juvenis e familiares e vejo que o problema
continua. As pessoas catam palavras para falar a Sua Majestade o Rei Deus,
misturam pronomes, trocam Jesus pelo Pai, o Espírito Santo pelo Pai, e não
sabem exatamente se estão rezando a esta ou àquela pessoa da Santíssima
Trindade. Nossa oração, de tão respeitosa que é, não consegue ser filial nem
trinitária. Rezamos a um Tu-Vós-lá-no-alto... A linguagem trai um conceito.
Para a maioria dos que rezam em público, Deus continua longe, bem longe...

Admiro quem consegue tutear Deus. Eu não consigo, até hoje, imaginar
Deus aqui, imanente, quando lhe atiro um Vós que não faz parte do meu
cotidiano. Chamava minha mãe de Senhora e a via na terceira pessoa, sem
majestade alguma. Só não dizia você, porque não era costume. Mas vários
companheiros meus de escola, já naquele tempo, chamavam suas mães de
você. E para mim aquele costume não atrapalhava um jeito íntimo de falar
com ela. Já o Vós formalizaria tudo. Era assim que me sentia com Deus:
formal demais.

Quando naquele domingo permiti que os jovens rezassem como queriam,


muita gente ficou encantada e muita gente se chocou. Não tive tempo de
pensar em números. Tive porém a nítida impressão de que a maioria achou
bonito e bom. Os jovens estavam rezando e gostando de rezar. O pequeno
grupo esclarecido que decidiu salvar a honra do nome de Deus ameaçou tornar
o problema uma questão diocesana. Por sorte o bispo sabia do meu trabalho,
era o cardeal Agnelo Rossi. Se a queixa chegou a ele, não repercutiu, por que,
quando veio celebrar conosco, pediu que os jovens tocassem suas guitarras e
deixou que eles rezassem no fim da missa do jeito deles. Brincou com eles e
gostou de ver a alegria e a liberdade com que louvavam a Deus. Provocou-os
até, após a missa, para que lhe contassem piadas. E ele ouviu algumas que eu
não lhe contaria nunca... Foi bom. Ajudou-me a dizer aos jovens que não era
desrespeito tratar Deus de você. Nem era desrespeito contar piada de
minhoca-minhoco ao Exmº. Sr. Cardeal. Foi tão bom que ele mesmo
incentivou os jovens a chamar outros para jogar aquela alegria em cima da
Igreja. Conservador ou não, aquele foi um gesto de abertura enorme, numa
Igreja então medrosa de buscar novas liturgias.

Os tempos agora são outros. Depois de vinte e cinco anos de padre


tenho algumas coisas a dizer sobre estas experiências, tolas para quem ouve
ou lê, importantes para mim que as releio, num país em profunda crise moral,
econômica, social, espiritual e política. Alguns fatos que escaparam ao meu
controle fizeram de mim um profeta menor da Igreja. As canções que fiz e
cantei com os jovens e as famílias, livros e artigos que escrevi, os programas
de rádio que assumi, os discos que gravei, me jogaram na linha de frente da
Igreja e fui para lá, atordoado e meio inconsciente pregar a Palavra do jeito
que sabia. Apareci mais do que merecia e mereço, fui citado mais do que meus
trabalhos merecem, e fui também crucificado mais vezes do que poderia
agüentar. Mas calar eu não me calei.

Agora, chego aos 25 anos de padre com uma visão bem clara de meu
papel na Igreja. Isto é, do que desejo ser na Igreja, posto que nunca terei
controle sobre o que as pessoas pensam de mim. Tenho consciência de que
meu trabalho não serve para nenhuma tese de doutorado em matéria alguma.
Já serviu para crítica feroz e duríssima de alguém que usou apenas uma
canção e por ela se rotulou de modernista e em cima do muro. Não quis ver as
outras e o caminho percorrido por elas e por mim. Mas se com isso ganhou o
grau de mestre, que seja feliz... Também não acho que mudou absolutamente
nada de importante na Igreja do Brasil. Não causei grande impacto na
imprensa leiga nem na religiosa. Só os profetas maiores provocam tais
impactos. Eu fui chamado a profetizar num tempo muito interessante, e
profetizei em alguns momentos interessantes, mas nunca desejei passar de
um simples professor de primário. É ali o meu lugar e é ali que desejo ficar:
introduzindo pessoas, principalmente os jovens, ao conhecimento de si
mesmas, de Jesus Cristo e da Igreja.

Minha linguagem é simples porque quero que seja simples; minha


canção é simples porque quero e que seja simples; e meu discurso é popular
porque quero que assim o seja. Conheço a linguagem rebuscada, gosto de lê-
la; leio cinco ou seis línguas, gosto de autores profundos, admiro quem gosta
deles, mas aos jovens e ao povo eu falo a linguagem mais simples que posso.
Com o tempo, descobri que é preciso uma razoável cultura para falar o tempo
todo de maneira simples. Traduzir a sabedoria dos grandes pensadores para
milhões de pessoas que não lêem nem conseguem ler um livro sequer por ano
acaba se tornando um trabalho cansativo e de pesquisa.

É o que tenho feito, exaustivamente, nestes vinte e cinco anos. Varei


madrugadas imaginando de que maneira diria determinadas coisas aos jovens
e a seus pais. Faz doze anos que pesquiso um catecismo para jovens em
linguagem que eles gostem e entendam e até agora não consegui concluí-lo
exatamente porque é muito difícil falar de maneira fácil sem trair o sentido das
coisas.

E aqui estou eu, de novo, escrevendo um livro que fala de mim, de


canções, de Igreja, de comunicação humana, de religiões, de família e
de juventude.

Por mim, eu não o escreveria. Nem sei se devo chamá-lo de livro ou de


folheto. Sou padre e, como tal, pelo conceito de humildade que se enraizou em
mim, sou avesso a dar testemunho de vida. Os padres são muito críticos de si
mesmos e dos outros. Por isso, muitos não escrevem nem falam diante de
seus colegas. Somos excelentes para criticar a comunicação dos outros e não
gostamos que os outros critiquem ou censurem a nossa. Por isso, nos
autocensuramos antecipadamente. É a razão por que padres competentíssimos
jamais escreveram um livro. Medo da crítica. Têm tudo para pregar os
evangelhos de cima do telhado (Mt 10,27), mas preferem pregar para o último
fiel do último banco da igreja, porque os microfones e a multidão, de certo
modo, os assustam. Este medo eu nunca tive. Já que os luminares não
escreviam para jovens, joguei minha lanterninha na direção deles e escrevi
livrinhos que eles entendessem, não sem recriminar os colegas que punham
reparos à minha literatura. Eu dizia: "Escrevo livrinhos inconse-qüentes por
causa da sua inconseqüência. Se você acha que tem mais teologia a ensinar,
por que não ensina?" Descobririam em pouco tempo que escrever ou falar a
milhões de pessoas é uma forma de martírio. Sobre isso ainda falarei.

Ah! Quase me esquecia de falar sobre o porquê deste livro.

Com o nome que tenho, o apelido que tenho e a pobreza de onde vim,
eu tinha tudo para não estar aqui falando. Devo isto aos meus companheiros
de congregação religiosa e aos meus editores. Sugeriram que eu contasse aos
jovens e a outros padres e pastoralistas um pouco dos meus caminhos. Seria
interessante para muitos, posto que muita gente se identifica com o que faço.
Aceitei. Vou dizer o porquê no decorrer deste livro.
Agora gostaria, outra vez, de falar de OI, DEUS... Acompanhe-me.
Tenho a impressão de que algum interesse eu despertei. Caso contrário, você
já teria fechado meu livro... É o que faço quando leio biografias chatas de
gente que pensa que tem algo a dizer... E eu tenho e penso que tenho, mas
não por causa de mim e sim das pessoas e fatos que marcaram minha vida.
Vai ser a biografia mais antibiográfica que alguém já escreveu. Falo de mim
para ter a chance de falar dos outros que nunca aparecerão, porque seu nome
é Zé ou Maria.

Estou escrevendo um livro vocacional sobre o anonimato. Falarei de Zé


Raimundo, Zé Fernando, Zé João, Zé Paulo e Zé Francisco. Também falarei de
Maria das Dores, de Fátima, de Lurdes, de Aparecida ou de Maria Raimunda,
Maria Tereza, Maria José, Maria Antônia e de seu marido Zé da Silva.

Meu livro lembrará todos os “Silva, Pereira, Oliveira”, e outra gente que
tem um nome que praticamente não é nome.

No Brasil de 160 milhões de pessoas e, em breve, de 200 milhões, a


quase absoluta maioria vive como se não tivesse um nome. Já não têm casa,
salário, comida e direitos básicos de pessoa. Além disso, não têm nem o direito
a um nome próprio. O deles é igualzinho ao de outros milhares que não
tiveram nem mesmo a graça de um nome próprio. São tão pobres que
precisaram repartir até seu distintivo de pessoa. Nunca sabem se é com eles
que estão falando. Afinal, poderia ser outro com o mesmíssimo nome...

Como comecei a conversar desse jeito com Deus pode ser interessante.
Foram um jovem chamado Zé Raimundo e uma senhora chamada Myrtes
Myrtes Myrtes que me alertaram para a importância de um nome. Aprende-se
muita teologia com o povo. Demorei muitos anos de estudo e algumas queixas
abertas de gente simples e anônima pra descobrir que Deus também não
tem nome... Foi uma das grandes descobertas da minha vida. Eu já sabia,
mas não havia compreendido.
2. Meu nome é Zé_______________________

“Meu nome é Myrtes, Myrtes com y, viu? Myrtes... Guarda bem e


olha bem no meu rosto porque eu quero que o senhor se lembre desta
velha preta feia que adora suas canções. Myrtes, viu? Não vá me
esquecer. Eu sou uma entre milhões, mas que não quero que me
esqueça, viu?”

Eu terminara o show de Belo Horizonte, cansado e macilento como


estava de muitas viagens. Mas não esqueço a Myrtes. Gorda, sem dentes,
negra, feliz, ela saltou do seu anonimato de um jeito que milhões de pessoas
gostariam de saltar. A maioria das pessoas sonha em ser lembrada e amada
por alguém importante para elas. Saber que alguém conhecido as conhece e
quer bem, ser amigas de alguém famoso é uma lembrança mágica que as
arranca, ainda que por alguns dias, do seu anonimato. Fulano me conhece...
Sou amigo do Roberto Carlos. Dom Helder tomou café aqui nesta
cozinha ... já ouvi pessoas dizerem que sua vida mudou e que agora se
sentiam a pessoa mais feliz do mundo, porque eu havia assinado meu nome no
seu livro.

No começo via nisso uma perigosa idolatria. Perigosa para mim e


perigosa para elas. A meditação sobre o anonimato e pessoas como a Myrtes e
o Zé Raimundo, de quem ainda falaremos, mudaram meu ponto de vista. O
anonimato é uma prisão da qual a grande maioria das pessoas sonha
fugir um dia. Ser anônimo é interessante até certo ponto. Mas machuca,
massacra e dói a idéia de ser anônimo a vida inteira. As pessoas do povo
sentem que estão condenadas a ser...

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