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R E P E S C A ISSN 1980-587X
R E P E S C A
ISSN
1980-587X
Rev. Bras. Enga. Pesca 2[Esp.]
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Volume 2, Número Especial - setembro de 2007

Pesca, Aqüicultura, Tecnologia do Pescado e Ecologia Aquática

Manaus: sede do XV Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca

sede do XV Congresso Brasileiro de Engenharia de Pesca Foto: Leocy Cutrim Engenheiro de Pesca: perfil

Foto: Leocy Cutrim

Engenheiro de Pesca:

perfil profissional no Brasil

Tambaqui: larvicultura em diferentes densidades

Tainhas: Pesca em Porto das Pedras, Alagoas

Mercúrio: ocorrência em ambientes naturais

Tucunaré: condicionamento alimentar

Tilápia: prolificidade em diferentes tamanhos

Comunidades ribeirinhas: perfil sócio-

econômico, rio Coreau, CE

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REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA

VOLUME 2, NÚMERO ESPECIAL, 2007

Eds.: José Milton Barbosa e Haroldo Gomes Barroso

DIRETOR

Haroldo Gomes Barroso - UEMA

EDITORES

José Milton Barbosa - UFRPE

Haroldo Gomes Barroso - UEMA

EDITORES ADJUNTOS

Adierson Erasmo de Azevedo - UFRPE

Emerson Soares - UFAL

DIRETOR DE MARKETING

Rogério Bellini - Netuno

ASSISTENTES DE EDIÇÃO

Manlio Ponzi Junior - UFRPE

Dimonique Bezerra de França - UFRPE

Regina Coeli de Oliveira C. e Silva -

UFRPE

Webmaster

Junior Baldez - UEMA

Revisão do texto

Adierson Erasmo de Avezedo - UFRPE

José Milton Barbosa - UFRPE

Apoio

Erasmo de Avezedo - UFRPE José Milton Barbosa - UFRPE Apoio Curso de Engenharia de Pesca

Curso de Engenharia de Pesca Universidade Estadual do Maranhão

COMISSÃO EDITORIAL

Athiê Jorge Guerra dos Santos - UFRPE

Fernando Porto - UFRPE

Emerson Soares - UFAL

Fábio Hazin - UFRPE

Heiko Brunken - Hochschule Bremen, Alemanha

Joachim Carolsfeld - World Fisheries Trust, Canadá

Leonardo Teixeira de Sales - FAEP-BR

Maria do Carmo Figueredo Soares - UFRPE

Maria do Carmo Gominho Rosa - Unioeste

Maria Nasaré Bona - UFPI

Neiva Maria de Almeida - UFPB

Paula Maria Gênova de Castro - Instituto de Pesca/SP

Paulo de Paula Mendes - UFRPE

Raimundo Nonato de Lima Conceição - UFC

Rosângela Lessa - UFRPE

Sérgio Macedo Gomes de Mattos - SEAP/PE

Sérgio Makrakis - Unioeste

Sigrid Neumann Leitão - UFPE

Vanildo Souza de Oliveira - UFRPE

Walter Moreira Maia Junior - UFPB

Souza de Oliveira - UFRPE Walter Moreira Maia Junior - UFPB 2 Departamento de Pesca e

2

Departamento de Pesca e Aqüicultura Universidade Federal Rural de Pernambuco

Rev. Bras. Enga. Pesca 2[Esp.]

A Repesca esta indexada a base de dados: SUMARIOS.ORG (www.sumarios.org)

© Publicada em setembro de 2007

Todos os direitos reservados aos Editores. Proibida a reprodução, por qualquer meio, sem autorização dos Editores.

Impresso no Brasil Printed in Brazil

Ficha catalográfica Setor de Processos Técnicos da Biblioteca Central – UFRPE

R454

Revista Brasileira de Engenharia de Pesca Nacional / editores José Milton Barbosa, Haroldo Gomes Barroso -- São Luís, Ed. UEMA, 2007. V.2. N. Especial : 81p : il.

Semestral

1. Pesca 2. Aqüicultura 3. Ecossistemas Aquáticos, 4. Pescados – Tecnologia I. Barbosa, José Milton II. Barroso Haroldo Gomes III. Universidade Estadual do Maranhão

CDD 639

A REPESCA É FILIADA A ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE EDITORES CIENTÍFICOS

dade Estadual do Maranhão CDD 639 A R EPESCA É FILIADA A A SSOCIAÇÃO B RASILEIRA

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ISSN-1980-587X

REVISTA BRASILEIRA DE ENGENHARIA DE PESCA

Volume 2

Setembro, 2007

Número Especial

EDITORIAL

E ste número da Revista Brasileira de Engenharia de Pesca trás de lambuja

algumas boas notícias, uma delas é a indexação da nossa REPesca a base de

dados: sumarios.org (www.sumarios.org), o que foi possível a partir dos

contatos realizados no XI Encontro Nacional Editores Científicos, realizado em

Ouro Preto, MG (outubro de 2007), a outra é a participação efetiva do Prof.

Adierson Erasmo de Azevedo - idealizador da Engenharia de Pesca no Brasil -

como revisor de nossa revista.

No âmbito profissional, estamos vivendo em Manaus o XV Congresso

Brasileiro de Engenharia de Pesca (outubro de 2007), o maior evento de nossa

classe. Ademais, dois fatos certamente marcarão este evento: a criação do

Sindicato Nacional de Engenharia de Pesca e da Associação Brasileira de

Engenharia de Pesca.

A caminhada é difícil, mas vamos seguindo passo a passo nas pegadas do trabalho e da persistência.

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José Milton Barbosa

Editor Chefe

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Sumário

I - ARTIGOS CIENTÍFICOS

Caracterização da pesca de tainhas no município de Porto de Pedras, Estado de Alagoas, Brasil Carolina Martins TORRES; Paulo TRAVASSOS; Marina B. FIGUEIREDO; Fábio HAZIN; Daniele F. CAMPOS & Francisco ANDRADE

Larvicultura de tambaqui em diferentes densidades de estocagem Sandra Soares dos SANTOS; José Patrocínio LOPES*; Miguel Arcanjo dos SANTOS- NETO & Luciana Silva dos SANTOS Prolificidade da tilápia-do-nilo, variedade chitralada, de diferentes padrões de desenvolvimento Luciana Silva dos SANTOS; Daniel Ribeiro de OLIVEIRA FILHO; Sandra Soares dos SANTOS; Miguel Arcanjo dos SANTOS NETO & José Patrocínio LOPES Condicionamento alimentar no desempenho zootécnico do tucunaré

Emerson Carlos SOARES; Manoel PEREIRA- FILHO; Rodrigo ROUBACH & Renato Carlos Soares e SILVA

ocorrência de mercúrio em camarões em diferentes ambientes aquáticos Geovana Lea Fernandes PAIVA; Maria Lúcia NUNES; Antonio Diogo LUSTOSA-NETO & José Milton BARBOSA

II - ARTIGOS TÉCNICOS

Perfil do Engenheiro de Pesca do Brasil Neiva Maria de ALMEIDA 1 * ; Leonardo Teixeira de SALES 2 & Maria do Carmo Figueiredo SOARES 3 Diagnóstico socioeconômico de duas comunidade ribeirinhas do rio Coreau, Estado do Ceará, Brasil

Sandra Carla Oliveira do NASCIMENTO & Rogério César Pereira de ARAÚJO

NORMAS PARA PUBLICAÇÃO

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I – ARTIGOS CIENTÍFICOS

CARACTERIZAÇÃO DA PESCA DE TAINHAS NO MUNICÍPIO DE PORTO DE PEDRAS, ESTADO DE ALAGOAS, BRASIL Carolina Martins TORRES, Paulo TRAVASSOS, Marina B. FIGUEIREDO, Fábio HAZIN, Daniele F. CAMPOS & Francisco ANDRADE

Departamento de Pesca e Aqüicultura, Universidade Federal Rural de Pernambuco

E-mail: camatosi@yahoo.com.br

Resumo - A atividade pesqueira no município de Porto de Pedras, município litorâneo do Estado de Alagoas, é de pequena escala e totalmente artesanal. Entretanto, a pesca desempenha um papel importante na economia local, sendo a segunda atividade produtiva do município e tendo as tainhas (Mugil spp.) como a principal espécie capturada. O presente trabalho teve como objetivo principal caracterizar a atividade pesqueira praticada pela comunidade de pescadores artesanais, tendo como espécies-alvo as tainhas. As pescarias são realizadas através de três aparelhos de pesca (rede de espera, rede de cerco e tarrafa), cujas operações, de uma maneira geral, resultam nas capturas de diferentes espécies de tainhas existentes na região, em associação com outras espécies da fauna acompanhante desta atividade. As embarcações utilizadas nesta pescaria são exclusivamente canoas de madeira, movidas a remo e a vela, de aproximadamente 8 m de comprimento e 0,85 m de boca, sendo operadas por dois pescadores, em áreas próximas à costa, nas imediações da desembocadura do rio Manguaba. A pesca com rede de cerco incide mais sobre Mugil incilis, enquanto Mugil liza,é mais capturada pela rede de espera e Mugil curema e Mugil curvidens,pela tarrafa. Não há conservação do pescado até o desembarque, sendo a comercialização feita na forma de peixe fresco inteiro. As principais espécies representantes da fauna acompanhante dessa pescaria são: Caranx hippos, Centropomus parallelus e Oligoplites saurus.

PALAVRAS-CHAVE: Mugil spp., pesca, tecnologia de captura, Alagoas.

MULLET FISHERY CHARACTERIZATION IN PORTO DE PEDRAS, ALAGOAS, BRAZIL

Abstract - Fishing activity at Porto de Pedras, in the nothem coast of Alagoas State, is a small-scale and artisanal activity. However, it performs an important role within the local economy, being the second source of income for this municipality and having the mullet as the main species captured. The present work aimed to characterize the mullet fishing activity. The fisheries are done using three

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different nets: gill net, purse seine and cast net, each of them targeting a different species. All the vessels for the mullets fishery capture are canoe of mood, utilizing paddle and sail, with approximately 8 m length and 0.85 widths, being operated by two fishermen, in close areas to the coast and close to the outlet of Manguaba River. The purse seine fishing has the Mugil incilis species as the main target, while Mugil liza is more caught for gill net and Mugil curema and Mugil curvidens by the cast net. There is no conservation on board, and the fish is sold fresh. The main by catch species are Caranx hippos, Centropomus parallelus and Oligoplites saurus.

KEY WORDS: Mugil spp., fishing technology, Alagoas.

INTRODUÇÃO

O Estado de Alagoas possui um litoral de cerca de 230 km, que se estende da foz do rio Persinunga, ao norte, divisa com Pernambuco, até a foz do rio São Francisco, ao sul, divisa com o Estado de Sergipe. Ao longo desse litoral estão localizados 17 municípios costeiros e 57 comunidades pesqueiras (IBAMA, 2007), dentre os quais, o município de Porto de Pedras, no litoral norte do estado, possui 12 km de costa e distando aproximadamente 130 km de Maceió. A atividade pesqueira praticada no município é de pequena escala e totalmente artesanal, contribuindo com uma produção média anual da ordem de 100 t/ano de pescado de origem marinha e estuarina para a economia do Estado de Alagoas (IBAMA, 2003, 2006). Apesar da pequena quantidade de pescado produzido, a pesca em Porto de Pedras desempenha um importante papel sócio-econômico, sendo uma das principais fontes de emprego e renda para os seus habitantes. Dentre as espécies capturadas, as tainhas (Mugil spp.) é a mais importante, com cerca de 20% na produção anual do município (IBAMA, 2006). A importância das tainhas para a pesca costeira pode ser observada ao longo de todo o litoral alagoano. Em 2005, por exemplo, a produção de tainhas para todo o Estado foi de 1.766,4 t, sendo a espécie mais capturada do total de pescado marinho e estuarino produzido, com 18,1% da produção (IBAMA, 2006). Em Porto de Pedras, as tainhas são as espécies- alvo de três métodos de pesca utilizados pelos pescadores locais: a rede de cerco, a rede de espera e a tarrafa, cuja utilização se dá em áreas próximas à costa, nas imediações da foz do rio Manguaba. As espécies da família Mugilidae têm ampla distribuição geográfica, ocorrendo em águas tropicais e subtropicais, principalmente em águas costeiras e estuarinas (Figueiredo e Menezes, 1985). No Brasil, ocorrem em todo o litoral, do Maranhão ao Rio Grande do Sul. São espécies pelágicas costeiras, de águas rasas, que nadam sempre em cardumes, perto da superfície (Fischer, 1978). Neste contexto, à luz da importância das tainhas para a pesca artesanal do Município de Porto

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de Pedras, o presente trabalho tem como objetivo principal caracterizar os aparelhos de pesca utilizados na sua captura, descrevendo as respectivas operações de pesca, as embarcações utilizadas, os locais para este fim e identificação das principais espécies capturadas.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi realizado no município de Porto de Pedras (Figura 1), o qual possui 12 km de

costa e localiza-se a cerca de 130 km de Maceió. Para a caracterização e descrição dos aparelhos e operações de pesca e das embarcações utilizadas, foram realizadas visitas periódicas ao município no primeiro trimestre de 2003, nas quais

foram efetuadas entrevistas com os pescadores locais, assim como alguns embarques e amostragens dos materiais utilizados na confecção dos aparelhos de pesca. Registros fotográficos das embarcações, dos aparelhos de pesca e dos exemplares capturados de cada espécie foram também realizados. Nos desembarques foram amostrados exemplares das principais espécies de tainhas capturadas, visando avaliar o tamanho dos peixes capturados. Informações relativas às capturas foram obtidas do Boletim Estatístico da Pesca Marítima e Estuarina do Nordeste do Brasil (IBAMA, 2006).

A identificação das espécies da família Mugilidae e da fauna acompanhante capturada foi

realizada in loco, baseada em manuais de identificação de espécies marinhas e estuarinas (Menezes, 1983; Figueiredo e Menezes, 1985). Em caso se dúvidas, a identificação final dos espécimes coletados foi concluída no Laboratório de Ecologia Marinha, da Universidade Federal Rural de Pernambuco, através das chaves de identificação da FAO (Fischer, 1978).

das chaves de identificação da FAO (Fischer, 1978). Figura 1 - Localização do Município de Porto

Figura 1 - Localização do Município de Porto de Pedras, no litoral de Alagoas (09º10,5’S e 35º17,5’W) Fonte: Carta Náutica Nº 900. DHN – Marinha do Brasil.

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RESULTADOS E DISCUSSÃO

A ATIVIDADE PESQUEIRA EM PORTO DE PEDRAS: AS TAINHAS COMO ESPÉCIES-ALVO

A pesca desenvolvida para a captura das tainhas no município de Porto de Pedras é tipicamente artesanal, sendo realizada a partir do emprego de canoas, movidas a remo ou a vela, que operam na zona estuarina e no “mar de dentro”, como é denominada a parte interna da barreira de recifes naturais que ocorrem ao longo deste litoral. Esse fato foi também observado em estudos realizados em estados vizinhos, como Pernambuco e Sergipe (IBAMA, 2003), ocorrendo também em boa parte do Nordeste do Brasil (IBAMA, 2006). Dias-Neto e Marrul Filho (2003) afirmam que os tipos de embarcações para este tipo de pesca são predominantemente de pequeno porte, as quais, em muitos casos, não são necessariamente usadas de forma exclusiva como meio de produção, mas também de deslocamento. Normalmente, o proprietário é um pescador ativo como os demais, participando de forma efetiva da pescaria. Outra característica típica dessa atividade é a interferência de intermediários no processo produtivo, principalmente na comercialização do pescado, obtendo lucros mais altos e diminuindo a renda dos pescadores. Ainda de acordo com Dias-Neto e Marrul Filho (2003), a pesca artesanal pode estar voltada essencialmente para a comercialização do pescado capturado, como também para a obtenção de alimento para as famílias dos participantes, ou ainda um misto desses dois objetivos. Dias-Neto e Dornelles (1996) afirmam que esta atividade pode ser uma alternativa sazonal, a qual o praticante se dedica apenas um período do ano desempenhando outra atividade produtiva em seguida, geralmente vinculada à agricultura ou ao comércio. A presente pesquisa constatou que a pesca no município de Porto de Pedras é a segunda atividade econômica do local, ficando atrás apenas da agricultura, sendo ambas praticadas para o sustento familiar, havendo pescadores em tempo integral e também aqueles que se dedicam a esta atividade apenas em alguns meses do ano. As pescarias dirigidas às tainhas são realizadas através do uso de três métodos de pesca: a rede de cerco, a rede de espera e a tarrafa, cujas malhas, de diferentes tamanhos, associadas às áreas de atuação, capturam espécies diferentes de tainhas, em associação com uma fauna acompanhante local bem diversificada (Tabela 1). De acordo com o IBAMA (2006), as principais artes de pesca utilizadas região no norte do Estado de Alagoas, além das mencionadas acima são o arrasto duplo, a rede de caceia, a rede de cerco, as linhas e o arrastão de praia. Estes aparelhos de pesca capturam diversos tipos de pescado, como camarão, peixe-agulha, xaréu, vermelho, tainha, lagosta vermelha e lagosta verde, entre outros.

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Outro fato observado na pesca local foi a divisão das tarefas entre os pescadores no decorrer das pescarias, configurando, assim, uma estratégia de pesca que reflete o grau de organização no desenvolvimento da atividade, fato também observado no estado do Ceará (Castro e Silva et al., 2005).

EMBARCAÇÕES E APARELHOS DE PESCA

As embarcações utilizadas na captura das tainhas são canoas de madeiras, movidas a remo e a vela (Figura 2), de aproximadamente 8 m de comprimento e 0,85 m de boca. Estas canoas são operadas normalmente por dois pescadores, em pescarias desenvolvidas no “mar de dentro”, principalmente nas imediações da desembocadura do rio Manguaba.

nas imediações da desembocadura do rio Manguaba. Figura 2 - Canoas utilizadas na operação de pesca

Figura 2 - Canoas utilizadas na operação de pesca no município de Porto de Pedras, estado de Alagoas.

No que se refere aos aparelhos de pesca, são três os utilizados em Porto de Pedras na pesca das tainhas, cujas principais características encontram-se discriminadas abaixo:

REDE DE CERCO: varia de 80 a 140 m de comprimento e 1,5 a 2,5 m de altura, com malha de 25 mm ou 35 mm, confeccionadas com nylon de 0,30 mm de diâmetro. Foi a responsável por 55,0% das capturas realizadas no município. REDE DE ESPERA: varia de 40 a 120 m de comprimento e 2 a 3 m de altura, com malha variando de 30 mm a 35 mm, confeccionada com nylon de 0,30 mm de diâmetro. Utilizam-se mourões (madeira de beriba ou canela), adquiridos na flora local, com tamanhos variando de 3 a 6 m, os quais são fixados ao substrato para amarração da rede. TARRAFA: é confeccionada pelo próprio pescador, com malha de 25 mm e nylon de 0,25, 0,30 e 0,35 mm de diâmetro. Os cabos usados para entralhar a rede possuem normalmente uma espessura de 2,5 mm, sendo de nylon ou seda. As redes são de comprimentos variáveis, podendo chegar a até 8 m, com a boca e a quantidade de chumbos usados variando de acordo com o seu tamanho. A maioria dos pescadores utiliza um tenso de aproximadamente 15 cm para formar o saco da rede.

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OPERAÇÕES DE PESCA

REDE DE CERCO

Semicerco Nessa operação utilizam-se duas canoas tripuladas por dois pescadores cada. Após a saída para

o mar, o pescador que fica na proa da embarcação (proeiro) é o responsável pela avistagem do cardume

na superfície do mar. Em seguida, as canoas aproximam-se para unirem as extremidades de suas redes, dando início à operação de pesca com o lançamento da rede no mar. Neste momento, os proeiros, com um porrete de madeira ou o próprio remo, começam a bater na água com o intuito de direcionar o cardume de tainhas para a rede. As canoas vão fechando o cerco, o qual ganha um formato helicoidal

(Figura 3), dificultando a fuga dos peixes. Após alguns minutos, inicia-se o recolhimento da rede e as tainhas emalhadas são retiradas cuidadosamente e colocadas no fundo das canoas. A rede recolhida é mantida sobre pranchas de madeira colocadas sobre os bordos da canoa, sob a qual está o pescado, com

o objetivo de protegê-lo do sol. Nos casos de elevada captura, as canoas voltam imediatamente à praia

para desembarcar o pescado e comercializá-lo. Caso contrário, a pescaria continua, com os pescadores buscando novos cardumes e preparando novamente as redes para serem lançadas ao mar. Cerco completo O cerco ocorre com as mesmas redes e embarcações do semicerco, embora com a utilização de quatro canoas, com dois pescadores cada. A operação de pesca também é semelhante e desenvolve-se da seguinte forma: (i) após a localização do cardume, as canoas posicionam-se de forma oposta (duas de cada lado), mantendo o cardume entre elas; (ii) em seguida, cada parelha de canoas une suas redes, dando início à operação de pesca; (iii) o cerco começa a ser fechado em torno do cardume, com cada canoa lançando ao mar as suas redes; (iv) da mesma forma que no semicerco, duas das canoas procedem à formação dos dois ganhos helicoidais, fechando o cerco; (v) todas as canoas ficam no seu interior, com todos os pescadores batendo na água com os remos (Figura 4). Caso o cardume seja muito grande, as outras duas canoas procedem também à formação dos ganchos, visando minimizar a tentativa de fuga das tainhas, assim como provocar o emalhe de forma mais rápida. Esta operação é realizada a uma profundidade média de 2 a 3 m, durando geralmente de três a

seis horas, dependendo da área de captura e, principalmente, da quantidade de peixes capturados. Geralmente esta pescaria é realizada na baixa-mar, com os pescadores partindo no início da maré baixa

e retornando no inicio da preamar. A espécie de tainha mais capturada nessas duas operações de pesca

com cerco é a M. incilis, vulgarmente conhecida na região como tainha-do-olho-amarelo. Toda a fauna

acompanhante desta pescaria é recolhida e também comercializada.

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A B
A
B

Figura 3 - Desenho esquemático da operação de pesca de tainhas com rede de cerco, na modalidade semicerco, utilizando duas canoas (A: início do cerco; B: fim do cerco).

REDE DE ESPERA

(A: início do cerco; B: fim do cerco). R EDE DE ESPERA Figura 4 - Desenho

Figura 4 - Desenho esquemático da operação de pesca de tainhas com rede de cerco, na modalidade de cerco completo, utilizando quatro canoas (A: início do cerco; B: fim do cerco).

Essa pescaria é realizada geralmente nas luas de quarto crescente e minguante, utilizando-se

apenas uma canoa, dois pescadores, duas redes e dois mourões (Figura 5).

dois pescadores, dua s redes e dois mourões (Figura 5). Figura 5 - Esquema da pescaria

Figura 5 - Esquema da pescaria com rede de espera de superfície usada na pesca de tainhas em Porto de

Pedras, Alagoas.

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A pescaria se inicia sempre na baixa-mar e, de acordo com os ventos e as correntes existentes, os

pescadores definem o local ideal para cravar os mourões no substrato, em uma faixa de profundidade que varia normalmente de 4 a 5 m. A parte inferior da rede é amarrada próxima à extremidade inferior do mourão, com um nó de porco, e a parte superior é amarrada próxima a sua metade, com dois nós: o primeiro é um nó de porco e o segundo um nó de laçada, distando cerca de 20 cm de um do outro. Isto é feito por segurança, garantindo que a rede se mantenha presa ao mourão caso o primeiro nó seja desfeito. Após a colocação do mourão e fixação da rede ao mesmo, inicia-se o lançamento da rede ao

mar. Ao final desta operação, uma bóia de isopor é fixada à extremidade da rede, a qual fica à deriva, ao sabor das correntes. Este mesmo procedimento é efetuado com a segunda rede, após o qual os pescadores retornam à praia.

A operação de recolhimento inicia-se 12 horas após, durante a baixa-mar, localizando–se a bóia

fixada na extremidade das redes. Dois pescadores procedem ao recolhimento, operação que dura em torno de 2 horas, dependendo do estado do mar. Os peixes são mantidos emalhados, sendo retirados apenas após o desembarque. No retorno à terra, a canoa navega com as velas içadas para chegar com rapidez ao ponto de desembarque e iniciar a comercialização do pescado. Na chegada, toda rede é lavada diretamente na praia, momento em que todos os peixes capturados são retirados. A espécie de tainha mais capturada nessa operação é a M. liza, conhecida na região como “cambiro”.

TARRAFA

A pesca de tarrafa é realizada com o auxílio de uma pequena bóia (ou outro objeto flutuante qualquer, como um coco seco ou um pedaço de madeira), a qual é lançada na água para atrair as tainhas. Quando o cardume se concentra em torno da bóia, a tarrafa é lançada sobre o mesmo. Em outras ocasiões, o pescador, através da visualização direta do cardume na superfície da água, efetua o lançamento da tarrafa, sem recorrer ao uso da bóia. Este procedimento é executado com dois pescadores a bordo da canoa, sendo um o responsável pelo lançamento da tarrafa e o outro pela condução da embarcação e pelo da mesma na hora do lançamento da tarrafa. Esta pescaria é feita no início da baixa-mar ou preamar e, ao contrário das duas acima descritas, ocorre tanto no interior do estuário, como nas proximidades da desembocadura do rio Manguaba ou no mar de dentro. A pescaria dura em torno de 3 a 4 horas, numa profundidade de até 10 m. As espécies de tainhas mais capturadas nessa operação são a M. curema e M. curvidens, vulgarmente conhecidas na região como sauna do olho preto e negrão, respectivamente.

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COMPOSIÇÃO DAS CAPTURAS

Embora os métodos de pesca acima descritos direcionem suas capturas para as tainhas, uma grande diversidade de outras espécies é também capturada nestas pescarias. Uma lista com as espécies da fauna acompanhante desta pescaria, por cada método de pesca, é apresentada na tabela abaixo (Tabela 1). No presente estudo foi registrada a ocorrência de quatro espécies de tainhas na região: Mugil curema, M. curvidens, M. incilis e M. liza. As espécies M. incilis e M. liza atingem maior tamanho e são capturadas em áreas mais distantes da praia, enquanto que as de menor tamanho, M. curema e M. curvidens, são capturadas próximas ao estuário e dentro do rio Manguaba. Foram amostrados 559 indivíduos durante todos os meses de coleta, dos quais 326 foram da espécie M. curvidens, com 170 fêmeas e 156 machos, e 233 da espécie M. incilis, sendo 106 fêmeas e 127 machos. As distribuições de freqüência de comprimento dessas espécies mostraram que o comprimento zoológico (CZ) de M. incilis variou de 24 cm a 35 cm para os machos (moda na classe de 31 a 33 cm) e de 23 cm a 42 cm para as fêmeas, (moda nas classes de 31 a 33 cm e de 33 a 35 cm) (Figura 6). Para M. curvidens, os machos variaram de 22,5 cm a 31,5 cm (moda na classe de 23 a 25 cm), enquanto as fêmeas apresentaram CZ de 21 cm a 37,5 cm (moda na classe de 25 cm a 27 cm) (Figura

7).

CONSERVAÇÃO E COMERCIALIZAÇÃO DO PESCADO Em Porto de Pedras, a comercialização é feita logo na chegada das canoas nos pontos de desembarque, atendendo apenas à comunidade local. Desta forma, quando os pescadores retornam de suas pescarias, os consumidores locais ou atravessadores já estão aguardando na praia para comprarem o pescado capturado. Em muitas ocasiões, os pescadores saem para o mar com a produção totalmente vendida. É importante mencionar que a divisão da produção é feita geralmente em três partes iguais:

uma para o dono da canoa e do material de pesca e as outras duas para os respectivos pescadores (mão- de-obra). Quando o proprietário da embarcação e dos aparelhos de pesca participa efetivamente da pescaria, ele recebe 2/3 do valor obtido com a comercialização do pescado. Todo o pescado é comercializado fresco logo após o desembarque, não havendo nestas pescarias nenhum método de conservação a bordo. A parcela não comercializada pós-desembarque é congelada em freezers domésticos, sem qualquer evisceração e/ou beneficiamento, sendo o pescado apenas lavado com água doce. Apenas uma pequena parte do pescado capturado é salgada para consumo familiar.

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Tabela 1 - Principais espécies capturadas como fauna acompanhante da pescaria de tainhas, em Porto

de Pedras, Estado de Alagoas.

APARELHO DE PESCA

ESPÉCIE

NOME VULGAR

Rede de cerco

Abudefduf saxatilis Acanthurus bahianus Acanthurus coeruleus Caranx hippos Caranx lugubris Centropomus parallelus Centropomus undecimalis Larimus breviceps Lutjanos synagris Oligoplistes saurus Sardinella brasiliensis Selene vômer Sparisoma rubripinne Stegastes fuscus

Saberé Caraúna Caraúna azul Xaréu branco* Xaréu preto Camorim peba** Camorim flecha Pescada boca mole Ariocó Tibiro Sardinha Galo de penacho Budião Castanheta

Rede de espera

Bagre marinus Caranx hippos Caranx lugubris Centropomus parallelus Centropomus undecimalis Dasyatis americana Gymnura altavela Larimus breviceps Oligoplites saurus Sardinella brasiliensis Selene vômer Sparisoma rubripinne

Bagre bandeira Xaréu branco Xaréu preto Camorim peba Camorim flecha Raia prego Raia manteiga Pescada boca mole** Tibiro* Sardinha Galo de penacho Budião

Tarrafa

Caranx hippos Caranx lugubris Centropomus parallelus Centropomus undecimalis Diapterus rhombeus Eugerres brasilianus Hexanematichthys herzbergii

Xaréu branco

Xaréu preto

Camorim peba

Camorim flecha

Carapeba**

Carapitinga

Bagre*

* Espécies mais abundantes na fauna acompanhante. **Espécies comercialmente mais importantes.

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45 40 35 Machos (N=127) 30 Fêmeas (N=106) 25 20 15 10 5 0 23|-25
45
40
35
Machos (N=127)
30
Fêmeas (N=106)
25
20
15
10
5
0
23|-25
25|-27
27|-29
29|-31
31|-33
33|-35
35|-37
37|-39
39| - 41 41| - 43
Frequência absoluta

Comprimento zoologico (cm)

41 41| - 43 Frequência absoluta Comprimento zoologico (cm) Machos Fêmeas Figura 6 - Distribuição de

Machos

- 43 Frequência absoluta Comprimento zoologico (cm) Machos Fêmeas Figura 6 - Distribuição de freqüência de

Fêmeas

Figura 6 - Distribuição de freqüência de comprimento zoológico de M. incilis, por sexo, amostrados em Porto de Pedras, AL.

60 Machos (Nº = 156) 50 Fêmeas (Nº = 170) 40 30 20 10 0
60
Machos (Nº = 156)
50
Fêmeas (Nº = 170)
40
30
20
10
0
21|-23
23|-25
25|-27
27|-29
29|-31
31|-33
33|-35
35|-37
37|-39
Frequência absoluta

Comprimento zoologico (cm)

Figura 7 - Distribuição da freqüência de comprimento zoológico de M. curvidens, por sexo, amostrados em Porto de Pedras, AL.

Ao longo do presente trabalho foi possível observar que a pesca de tainhas em Porto de Pedras emprega conhecimentos e práticas aprendidas pelos pescadores locais, os quais, associados à limitada capturabilidade dos aparelhos de pesca usados, têm permitido a realização de uma pesca mais responsável e seletiva. Conforme observado em outras localidades litorâneas da costa brasileira (Cardoso & Nordi, 2006), este fato tem contribuído sobremaneira para a conservação deste importante recurso pesqueiro, com relevante papel sócio-econômico para os moradores deste município.

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REFERÊNCIAS

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LARVICULTURA DE TAMBAQUI EM DIFERENTES DENSIDADES DE ESTOCAGEM

Sandra Soares dos SANTOS; José Patrocínio LOPES*; Miguel Arcanjo dos SANTOS-NETO & Luciana Silva dos SANTOS Departamento de Educação, Universidade do Estado da Bahia, Campus VIII

*E-mail: jpatrobr@gmail.com

Resumo - O domínio da tecnologia de produção de alevinos de tambaqui Colossoma macropomum (Cuvier, 1816) e sua conseqüente prática como procedimento de rotina das estações de piscicultura, é um evento que se reveste de maior importância para o desenvolvimento da aqüicultura continental. O objetivo deste trabalho foi testar o efeito de duas densidades de estocagem de tambaqui na fase de larvas, em tanques de alvenaria e analisar a sobrevivência e o crescimento médio visando verificar a densidade que apresenta o melhor desempenho e disponibilizar juvenis desta espécie para piscicultores. O experimento foi realizado em 10 tanques de alvenaria. Foram utilizados dois tratamentos: T1 (50 pós-larvas/m 2 ) e T2 (100 pós-larvas/m 2 ), com cinco repetições cada. Durante os 40 dias as pós-larvas foram alimentadas com plâncton e ração até a saciedade. A sobrevivência não apresentou diferença entre os tratamentos. O crescimento médio foi maior na densidade de 50 pós-larvas/m 2 . O tratamento T1 é propício para o cultivo intensivo e o tratamento T2 para cultivos extensivos e semi-intensivos.

PALAVRAS-CHAVE: alevinos, densidades, sobrevivência e crescimento.

Abstract - The mostership of the technology of production of “tambaqui” Colossoma macropomum (Cuvier, 1816) fingerlings and her consequent practice as procedure of routine of the fish farming stations, is an event that is greatty importance for the development of the continental aquaculture. The objective of this work was to test the effect of two densities of tambaqui’s stockpile in the phase of larvae in tanks, to analyze the survival and the medium growth seeking to verify the density that presents the best acting and to make available juvenile of this species for fish farmers of the deprived initiative. The experiment was accomplished in 10 tanks. Two treatments were used: T1 (50 larvae/m 2 ) e T2 (100 larvae/m 2 ), with five repetitions each. During the 40 days of cultivation the larvae were fed with plankton and ration until the satiation. The survival didn't present significant difference among the treatments. The medium growth was larger in the density of 50 larvae/m². The results indicated that the treatment T1 is favorable for the system of intensive cultivation and the treatment T2 for extensive and semi-intensive cultivations. KEY WORDS: fingerlings, densities, survival and growth.

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INTRODUÇÃO

A piscicultura é uma atividade produtiva que permite o equilíbrio entre o interesse econômico e

a exploração racional da natureza, porque apresenta elevada produtividade utilizando menos superfície de terra em comparação com outras atividades (SÁ, 2003). Segundo Borghetti et al. (2003), na década de 30 a piscicultura brasileira ganhou projeção internacional quando um pesquisador nacional, chamado Rodolfo von Ihering desenvolveu uma técnica para induzir os peixes reofílicos a desovar em cativeiro. Na região Nordeste, também a partir da década de 30, a piscicultura começou a ganhar forças a partir do povoamento dos açudes públicos, construídos primariamente para armazenar água, mas que também se prestavam bem à pesca pelas populações ribeirinhas (Borghetti, et al. 3003).

O tambaqui foi introduzido no Nordeste brasileiro pelo Departamento Nacional de Obras Contra

as Secas (DNOCS), visando utilizá-lo para povoamento de açudes e estocagem em viveiros de engorda (SILVA et al., 1981). O domínio da tecnologia de produção de alevinos de tambaqui e sua conseqüente prática como procedimento de rotina das estações de piscicultura é um evento que se reveste de maior

importância para o desenvolvimento da aqüicultura continental (Lopes; Fontenele, 1982). Reprodutores

e matrizes de tambaqui e de pirapitinga, Piaractus brachypomus (Cuvier, 1816), componentes dos

plantéis em atividades nas estações de piscicultura do Nordeste, tiveram origem comum, sendo

descendentes dos 74 alevinos da primeira espécie e 94 da segunda que o DNOCS trouxe de Iquitos, Peru (Silva; Gurgel, 1989).

O tambaqui é um peixe da região amazônica com grande potencial para aqüicultura. A região de

Paulo Afonso tem se caracterizado pelo monocultivo de tilápia, O. niloticus, ignorando a alternativa do cultivo deste peixe, que pode ser produzido na região nordeste praticamente o ano inteiro. Associado a este fato, a densidade de estocagem é outro fator importante a ser considerado, por interferir no crescimento, na eficiência alimentar e, sobretudo na sobrevivência (Iwamoto, 1986). A densidade elevada pode também ser considerada como um potencial estressor dos peixes e, conseqüentemente, reduzir a capacidade produtiva dos mesmos (Jobling, 1994). Segundo Lefrançois (2001), o estresse é prejudicial ao crescimento provocando alterações na agressividade e perseguição social, gerando maior exigência metabólica e alteração no comportamento alimentar dos peixes. Com base no exposto acima, o estudo de densidades de estocagem no cultivo de alevinos de tambaqui proposto neste trabalho faz-se necessário para se avaliarem estratégias de manejo para esta espécie.

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MATERIAL E MÉTODOS

O experimento foi realizado na Estação de Piscicultura de Paulo Afonso (EPPA), pertencente à Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), localizada no Acampamento CHESF em Paulo Afonso, Bahia.

MATERIAL BIOLÓGICO

O tambaqui, Colossoma macropomum (Cuvier, 1816), é um caracídeo nativo da bacia Amazônica e do rio Orenoco. Segundo Taphorn (1992), em termos de geografia política, a espécie habita o Brasil, Venezuela, Colômbia, Peru e Bolívia. O cachama, como é chamada na Venezuela, é um peixe comestível comum na maior parte da região do Orenoco, e na parte superior da sua drenagem é a espécie mais importante. Na natureza há registros de que esse peixe atinge peso ao redor de 30 kg, sendo considerado o maior peixe de escamas da bacia Amazônica, perdendo em porte somente para Arapaima gigas (pirarucu) (Kubitza, 2004).

PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS

A captura dos peixes reprodutores foi realizada no período da manhã, com o auxílio de uma rede de arrasto. Para isto, na noite anterior, foi reduzido o volume d’água do viveiro. Para seleção dos exemplares, foi seguida a metodologia descrita por Woynarovick (1985). Foram selecionados 4 espécimes, sendo 2 fêmeas e 2 machos. Os peixes foram pesados e em seguida colocados no tanque, permanecendo dentro de sacos de contenção, tendo assim um tempo em repouso para que se recuperassem dos estresses de captura e transporte.

HIPOFISAÇÃO

Utilizou-se hipófise de carpa importadas a seco, que pesavam aproximadamente 3 mg cada uma. Na EPPA, foram mantidas em álcool absoluto como medida preventiva de preservação contra fungos.

Para as fêmeas foi utilizada 5 mg de hipófise/kg vivo e para os machos 2,5 mg de hipófise/kg vivo. Nas fêmeas foram aplicadas duas doses espaçadas em 20 horas e nos machos a primeira dose foi aplicada 6 horas após a primeira dose das fêmeas e a segunda dose ao mesmo tempo da segunda das fêmeas. Sendo que para ambos, a primeira dose foi preparatória equivalendo apenas a 10% da dose total, e a segunda 90% (Woynarovich, 1985). Após a desova, quando os ovos já se encontravam hidratados, foi então obtida a taxa de fecundidade, sendo extraído 100 mL em um béquer de cada incubadora. As amostras foram contadas

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em placas de Petri distintas, onde foram contados os ovos viáveis e não viáveis. Através da média

aritmética obteve-se o número de ovos viáveis (fecundados). Para se obter o resultado de fecundidade

média (FM) adotou-se a seguinte fórmula:

Nº de ovos viáveis x 100 FM =

Total da amostra

Durante o período de incubação foi monitorada a temperatura da água nas incubadoras.

Antes de iniciar o experimento, os tanques foram preparados e expostos ao sol, por um período

de oito dias, visando a eliminação de organismos indesejáveis ao cultivo (insetos predadores ou

competidores e peixes invasores). A areia existente no piso foi revolvida e peneirada, retirando alguns

bivalves como Corbicula fluminea e outros moluscos. As paredes foram escovadas e lavadas para

retirada do material em decomposição.

O abastecimento dos tanques ocorreu três dias antes da estocagem das pós-larvas, evitando-se

dessa forma o prévio estabelecimento de insetos predadores. Quando o fundo dos mesmos já estava

coberto por uma lâmina d’água com cerca de 40 a 50 cm de profundidade foram adubados com esterco

bovino curtido, na proporção de 0,5 kg/m 2 , favorecendo a produção primária e aportando nutrientes

para o crescimento do plâncton e outros organismos utilizados como alimento natural.

O experimento foi realizado em 10 tanques de alvenaria, com 50 m 2 cada. Constou de dois

tratamentos, (T1 e T2) com cinco repetições cada. No tratamento T1, a densidade de estocagem

adotada foi de 50 pós-larvas/m 3 , sendo necessárias 2.500 pós-larvas por unidade experimental,

totalizando 12.500 pós-larvas para o tratamento. Para o tratamento T2 foi adotada a densidade de 100

pós-larvas/m 3 totalizando assim 5.000 pós-larvas por unidade experimental, sendo necessárias 25.000

pós-larvas.

Estando os tanques devidamente preparados, antes da liberação das pós-larvas foi aferida a

temperatura da água nos mesmos. Em seguida, foi suspenso o funcionamento das incubadoras e

transferida a água juntamente com as pós-larvas, com o auxílio de uma mangueira, para baldes

providos de tela para evitar a fuga das mesmas. As pós-larvas foram transferidas para os tanques

através destes baldes. No próprio tanque as mesmas foram contadas.

Para contagem das pós-larvas, foi utilizado um copo descartável e, neste, colocadas 100 pós-

larvas. A partir deste ponto, por amostragem, baseada na visualização das pós-larvas no copo foi

calculado o total de pós-larvas para os tanques. O período de cultivo das pós-larvas foi de 40 dias.

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ACOMPANHAMENTO DIÁRIO

Durante 15 dias, as pós-larvas foram alimentadas com plâncton. A partir do 16º dia de cultivo foi ofertada ração para alevinagem com 35% de proteína bruta (PB). A mesma era distribuída contornando-se todo o tanque com o auxílio de uma peneira. Suspensa a oferta do plâncton, os peixes foram arraçoados duas vezes ao dia, pela manhã e pela tarde, sendo que o segundo arraçoamento só era oferecido se não houvesse sobras. A ração passou a ser colocada em comedouros. No 26º dia começou a ser usada ração para alevinos com 32% de PB. Os tanques tiveram renovação d’água após 30 dias de cultivo. Diariamente era monitorada a temperatura da água dos tanques e feita uma inspeção, retirando com a ajuda de puçás larvas de insetos, algas filamentosas e girinos. Ao final de 40 dias de cultivo, procedeu-se a despesca. Para uma melhor exatidão, os alevinos foram contados um a um e transferidos para o viveiro de crescimento com auxílio de baldes plásticos com água. Algumas amostras foram retiradas para biometria. Os resultados obtidos foram analisados através da média aritmética, variância e desvio padrão. Foram aplicados o teste “t” de Student e a Análise de Variância (ANOVA) com base na distribuição “F” de Snedecor seguindo a metodologia descrita por Mendes (1999), através do delineamento inteiramente casualisado (α = 0,05). Os parâmetros de produtividade final avaliados foram a sobrevivência e o comprimento total.

RESULTADOS

A ovulação ocorreu com 279 horas graus, com temperatura entre 24 e 26 ºC. Apenas a fêmea 2

desovou, obtendo 1,6 kg de ovos. A taxa de fecundação foi de 78,8%.

O percentual médio de sobrevivência para os dois tratamentos (T1 e T2) foi de 46,86 ±16,05% e

37,06±17,19%, respectivamente. Ao se aplicar o teste “t” de Student a um nível de significância de

0,05 entre os tratamentos, foi verificado que não houve diferença significativa no que se refere à sobrevivência média. Em se tratando do comprimento médio foi confirmada uma relevante diferença significativa entre os mesmos. Os alevinos do tratamento T1 alcançaram 5,2 ± 0,22 cm e os do tratamento T2 3,6 ± 0,20 cm (Figura 01).

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50 45 40 35 30 25 20 T1 15 10 T2 5 0 Sobrevivência (%)
50
45
40
35
30
25
20
T1
15
10
T2
5
0
Sobrevivência (%)
Crescimento (cm)

Figura 01. Sobrevivência e Comprimento Médio nos Tratamentos

A temperatura média da água dos tanques, durante os 40 dias de cultivo, permaneceu em torno de 26,4 ºC. Entre a segunda e a terceira semana foi elevada para 26,8 ºC estabilizando-se nesta faixa até o final do cultivo.

DISCUSSÃO

Os resultados obtidos podem ser considerados satisfatórios, pois segundo Silva & Figueiredo (1991), a taxa de fecundação em diversos trabalhos realizados em instituições de pesquisa do Nordeste brasileiro (CODEVASF, IBAMA e DNOCS) varia de 70 a 80%. Pinheiro & Silva (1988) conseguiram 63,9% de fecundidade, resultados estes condizentes aos encontrados neste experimento. Ainda, segundo Silva & Figueiredo (1991), a primeira alevinagem dura 30 a 40 dias, sendo a taxa de sobrevivência de pós-larvas/alevinos entre 30 a 50%, a uma densidade de estocagem que varia de 75 a 200 pós-larvas/m 3 em diversas pisciculturas do Nordeste. Tal resultado está de acordo com os obtidos neste trabalho que foi de 46,86 ±16,05% e 37,06±17,19%, para os tratamentos T1 e T2, respectivamente. Os resultados do presente trabalho estão de acordo quanto às densidades de estocagem utilizadas por Brandão et al. (2004), que foram de 100, 200, 300, 400 e 500 pós-larvas/m 3 em tanques- rede, não sendo observado diferença significativa entre as sobrevivências. No entanto, Jobling (1994) relata que altas densidades de estocagem geram problemas de espaço e afetam a taxa de crescimento. Normalmente, peixes criados em baixas densidades de estocagem apresentam boa taxa de crescimento e alta porcentagem de sobrevivência, porém a produção por área é baixa e segundo Gomes

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et al. (2000), caracterizando baixo aproveitamento da área disponível. O que ficou evidente entre os tratamentos deste trabalho, nos quais as pós-larvas estocadas em menor densidade (50 m 3 ) apresentam maior comprimento médio, apesar da sobrevivência não apresentar diferença significativa entre os tratamentos. Nesta região do submédio rio São Francisco, o tamanho dos alevinos para a comercialização tem variado entre 2,5 a 5 cm; logo os comprimentos alcançados nos tratamentos estão dentro do padrão de comercialização.

A temperatura média da água dos tanques manteve-se dentro da faixa de conforto para os

alevinos, e está na faixa considerada ótima para criação de peixes (Boyd, 1982). O arraçoamento até a saciedade foi eficiente, pois os resultados obtidos estão condizentes com a realidade de produção de alevinos e permitiu um melhor acompanhamento do experimento.

CONCLUSÃO

O tratamento T2 é o mais indicado quando se trabalha com cultivos extensivos e semi-

intensivos, enquanto para cultivos intensivos, o tratamento T1 é o mais recomendado.

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PROLIFICIDADE DA TILÁPIA-DO-NILO, VARIEDADE CHITRALADA, DE DIFERENTES PADRÕES DE DESENVOLVIMENTO

Luciana Silva dos SANTOS 1 ; Daniel Ribeiro de OLIVEIRA FILHO 1 ; Sandra Soares dos SANTOS Miguel Arcanjo dos SANTOS NETO 2 * & José Patrocínio LOPES 2 1 Departamernto. de Educação, Universidade do Estado da Bahia, Campus VIII. 2 Estação de Piscicultura de Paulo Afonso – EPPA / CHESF *Email: migasneto@yahoo.com.br

Resumo - A piscicultura é uma das atividades que mais se expandem no Brasil. O Estado da Bahia, localizado na região Nordeste, é um dos grandes produtores de pescado do país, com destaque para o município de Paulo Afonso. Este município, apesar de ser um dos maiores produtores de tilápia da região, necessita importar alevinos de outros estados, pois a produção local não atende à demanda. O presente trabalho teve como objetivo comparar a prolificidade de Oreochromis niloticus (tilápia do Nilo), variedade chitralada, de diferentes padrões de crescimento, bem como indicar a melhor relação biomassa/produção de alevinos, contribuindo na seleção e dimensionamento do plantel de reprodutores. Foram utilizados dois diferentes padrões de crescimento: TA (tratamento A) com fêmeas de grande porte e TB (tratamento B) com fêmeas de pequeno porte, todas com a mesma idade. Em 45 dias de acasalamento, foi realizada a coleta de 93.060 alevinos no tratamento TA e 59.705 alevinos no tratamento TB. O teste de Análise de Variância (ANOVA) apresentou diferença significativa ao nível de α = 0,05 para os tratamentos, sendo TA mais prolífico. Ao se analisar o crescimento das proles padrões A e B após 100 dias de cultivo, o Teste “t”, α = 0,05, não apresentou diferença significativa entre os padrões de crescimento das duas populações, embora a prole A tenha apresentado comprimento médio maior e mais uniforme. Portanto, o padrão de crescimento deve ser considerado como uma característica relevante na seleção de reprodutores para a produção de alevinos.

PALAVRAS-CHAVE: Larvicultura, Cichlidae, biomassa, produtividade.

Abstract - Fishing farm is one of the activities that more improviment in Brazil. The State of the Bahia, located in the Northeastern region, is one of the great producers of fish canght of the country, with prominence for the city of Paulo Afonso. This city, although to be one of the greaters productions of tilapia of the region, needs to import fingerling of other states, because local producers does not takes care of the demand to it. The present work had as objective to compare the prolificopy of Oreochromis niloticus (tilapia of the Nile), thai strain, in different pattern of growth, as well as indicating the better relation of biomass/production of fingerling, contributing in the selection and

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sizing of the broodstock of reproducers. Two different patterns of growth were used: TA (treatment A) with bigger females and TB (treatment B) with smalller females, all with the same age. In 45 days of mating, the collection of 93,060 fingerling in the treatment was carried through TA and the 59,705 fingerling in treatment TB. The test of Analyze of Variance (ANOVA) presented significant diference (α = 0,05) among the treatments, being more prolific TA. It was analyzed the growth of the offsprings pattern A and the B after 100 days of culture( the Test ”t“, α = 0,05), it did not presented significant diference among the pattern of growth of the two populations, even so the offspring has presented bigger average length and more uniform. Therefore, pattern of growth must be considered an indispensable trait in the selection of reproducers for production of fingerling.

KEY-WORDS: Breeding, Cichlidae, biomass, productivity.

INTRODUÇÃO

A aqüicultura é uma das atividades do setor produtivo primário que mais se desenvolve, principalmente devido à grande procura por pescado, uma vez que a captura máxima sustentável de espécies aquáticas tradicionais, a nível mundial, já atingiu os limites suportáveis de 100 milhões de toneladas por ano (FADURPE, 2001). No contexto mundial, o Brasil é um país com imenso potencial para o desenvolvimento da aqüicultura, possuindo 8.400 km de costa marítima, 5.500.000 hectares de reservatórios, aproximadamente 12% da água doce disponível no planeta, clima extremamente favorável para o crescimento dos organismos cultivados, terras disponíveis e ainda relativamente baratas na maior parte do país, mão-de-obra abundante e crescente procura por pescado no mercado interno (Portal do Agronegócio, 2006). Dentre as inúmeras atividades que vêm sendo desenvolvidas pela aqüicultura, a piscicultura é um dos segmentos do setor que cresce de forma acelerada, consolidando-se como uma atividade econômica em plena expansão, gerando alimentos, empregos e divisas. A espécie de destaque da piscicultura no Brasil é a tilápia com uma produção de mais de 69.000 toneladas/ano, sendo os maiores produtores os Estados do Ceará (18.000,0 t), Paraná (11.921,5 t), São Paulo (9.758,0 t), Mato Grosso (16.627,0 t) e Bahia (10.649,0 t) (IBAMA 2005). De acordo com a Bahiainvest (2006), o Estado da Bahia é o terceiro maior produtor de pescado em cativeiro do país. A capacidade instalada é da ordem de dez mil ton/ano de pescado, com destaque para o cultivo da tilápia na região de Paulo Afonso.

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Situado às margens do rio São Francisco, o município de Paulo Afonso-BA é um dos maiores produtores de tilápia da região, podendo vir a ser um dos maiores produtores da América Latina. Localizado estrategicamente entre os estados de Alagoas, Sergipe e Pernambuco, Paulo Afonso reúne excelentes condições ambientais para prática da piscicultura. O clima e a luminosidade durante o ano inteiro propiciam condições ideais de temperatura para a criação de espécies tropicais. Somado a isto, há a abundância de água de excelente qualidade e a boa infra-estrutura de energia, comunicação e escoamento da produção, fazendo da cidade uma área de grande vocação para o cultivo da tilápia (Panorama da Aquicultura, 2002). Os recursos hídricos disponíveis na região, representados pelos reservatórios de Itaparica, Moxotó, PA. IV e Xingó possuem uma área inundada de aproximadamente 100 mil hectares e acumulam um volume de cerca de 16 bilhões de metros cúbicos (COOMAPA, 2006). Atualmente, encontram-se em operação, nos reservatórios de Xingó e Moxotó, 1.300 tanques- redes, distribuídos por oito associações de produtores rurais e seis produtores particulares (Teixeira, 2006). Somente nos projetos acompanhados pela empresa Bahia Pesca, nos reservatórios acima citados, na área correspondente ao Estado da Bahia, registrou-se em 2005 uma produção de 2.057.198 kg de tilápia, três vezes maior que a produção no ano 2000 (670.500 kg). Deste total produzido, 477.001 kg foram produzidos pelas associações rurais e 1.580.197 kg pelos produtores particulares, destacando-se entre os produtores particulares, o Grupo MPE, que produziu 720.000 kg através do cultivo em raceways (Bahia Pesca, 2006). Com relação à produção de alevinos, a região conta apenas com dois fornecedores: Criação de Peixe Lima, que, segundo proprietário, produz em média 500 mil alevinos/mês, fornecidos a produtores de outros estados e, eventualmente, a associações e produtores da região, que aos poucos estão ganhando, espaço no mercado local, e a AAT Internacional, que produz em média 550 mil alevinos/mês. Destes, 200 mil alevinos são fornecidos mensalmente para a Valença Maricultura, empresa do mesmo grupo, os outros 350 mil restantes são fornecidos em sua maior parte às associações de Jatobá – PE, não atendendo à demanda da região, agravado com o surgimento de novos empreendimentos nos lagos de Itaparica, Moxotó e Xingó, ao quais adquirem os alevinos de outros fornecedores, localizados nos Estados de Sergipe, Pernambuco e Paraíba. Portanto, a disponibilidade de alevinos representa uma das condições para o desenvolvimento e a intensificação da piscicultura. Segundo Radünz Neto et al. (1999), um dos grandes desafios da piscicultura nacional é a produção de alevinos viáveis, com alta taxa de sobrevivência, bem formados,

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de tamanho uniforme e com potencial genético que possibilite uma boa velocidade de crescimento visando satisfazer a procura, cada vez mais exigente. Este elo da cadeia produtiva da tilápia precisa ser desenvolvido na região, de preferência por produtores locais, como forma de promover nela um desenvolvimento sustentável, um dos pilares do novo paradigma do desenvolvimento mundial. A produção de boas sementes requer bons plantéis de reprodutores de maneira a propiciar um ótimo desempenho em todo o ciclo de cultivo. Deve-se, ainda, adquirir linhagens, ou raças de produtores, que propiciem grande produção, sem perder qualidades, como crescimento rápido, rusticidade etc. Surge, então, a questão de saber qual idade, ou tamanho, a tilápia é mais produtiva, ou quanto se pode produzir com uma determinada biomassa de reprodutores estocada. O presente trabalho teve como objetivo comparar a prolificidade de Oreochromis niloticus (variedade chitralada) de diferentes padrões de crescimento, bem como indicar a melhor relação biomassa/produção de alevinos, contribuindo na seleção e dimensionamento do plantel de reprodutores.

MATERIAL E MÉTODOS

Este trabalho foi desenvolvido na Estação de Piscicultura de Paulo Afonso (EPPA), pertencente à Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (CHESF), localizada no Município de Paulo Afonso, Bahia. Para realização deste experimento foram utilizados 10 tanques de alvenaria, com 50 m 3 ,, apresentando fundo de concreto, com uma camada de 20 cm de areia de rio e caixa de coleta. A espécie em estudo foi a tilápia-do-nilo Oreochromis niloticus (Linnaeus, 1758), variedade chitralada. Antes do inicio do experimento, os tanques foram expostos ao sol, lavados e submetidos à limpeza das paredes, com revolvimento da areia depositada no piso, visando à eliminação de organismos indesejáveis ao cultivo. Após o enchimento dos tanques, foi realizada a estocagem dos reprodutores. Os tanques não foram adubados, contribuindo para a coleta das nuvens de alevinos. Os reprodutores utilizados foram selecionados de um plantel com a mesma idade, diferenciando-se pelo padrão de crescimento das fêmeas ao que se chamou de padrões de crescimento A e B. Antes do acasalamento, foi realizada a sexagem dos reprodutores e transferidos para três tanques de alvenaria: fêmea padrão A; fêmea padrão B e machos mesmo padrão, visando descanso e preparação sexual.

Os peixes foram acasalados numa proporção de duas fêmeas para um macho (2:1). Cada tanque recebeu 20 fêmeas e 10 machos, por tratamento, com cinco repetições cada. A média de comprimento e peso das fêmeas utilizadas nos dois tratamentos foi respectivamente de 263±11,91 mm e 420±101,71 g

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para o tratamento TA e 233±8,97 mm e 251±39,00 g para o tratamento TB. Em ambos os tratamentos, os machos apresentavam comprimento médio de 292±13,91 mm e peso médio de 586±93,80 g. Decorridos 15 dias após o acasalamento, teve início a coleta de larvas e alevinos, prosseguindo

por mais 30 dias quando terminou o experimento. Foram realizadas em média três coletas semanais, com uso de uma rede de malha fina, sempre pela manhã, a fim de minimizar o risco de mortalidade por estresse com o aumento da temperatura da água. A contagem das larvas e alevinos foi feita por tanque, utilizando copos descartáveis com padrão amostral de cinqüenta unidades.

A última coleta ocorreu quando da separação dos reprodutores, ocasião em que se baixou o

nível da água dos tanques e efetuou-se a despesca total. Foram coletados todas as larvas e alevinos remanescentes; destes, 2.000 de cada tratamento foram estocados em dois tanques de alvenaria de

50m 3 , por um período de 100 dias. Findo este período, procedeu-se à biometria para avaliar o crescimento das proles procedentes das fêmeas A e B, chamados de F1A e F1B. Durante o experimento, os peixes foram alimentados três vezes por semana, sempre pela manhã, com ração contendo 17% de proteína bruta. A taxa de arraçoamento foi de 3% da biomassa. A

temperatura foi monitorada todos os dias antes de serem iniciadas as coletas, com termômetro de mercúrio de uso convencional.

O delineamento foi inteiramente casualizado. Foi aplicada a Análise de Variância (ANOVA), ao

nível de significância de α = 0,05, com base na distribuição “F” de Snedecor, para as médias dos dois

tratamentos TA e TB. O teste “t” Student para a média de crescimento em comprimento das proles F1A e F1B, ao nível de significância α = 0,05.

RESULTADOS

As temperaturas máximas e mínimas da água do cultivo variaram de 24 a 26°C, dentro dos limites

adequados ao cultivo (Philippart & Ruwet Apud Kubitza, 2000).

Em relação ao crescimento das proles A e B após 100 dias de cultivo, a média de comprimento dos alevinos foi de 99,4 ± 4,86 mm e 87,2 ± 6,66 mm respectivamente.

O uso da ANOVA demostrou a existência de diferença significativa (α = 0,05) entre os

tratamentos TA e TB, com maior prolificidade para o TA. Para o crescimento das proles A e B, o Teste

“t” de Student não apresentou diferença significativa, α = 0,05, entre os dois tratamentos.

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Tabela 1: Total de alevinos coletadas nos tratamentos TA e TB e suas respectivas biomassas estocadas.

Tratamentos

TA

TB

Repetição

Biomassa (kg)

Produção (und.)

Biomassa (kg)

Produção (und.)

1 8.400

21.710

4.615

12.710

2 8.400

20.905

4.665

11.765

3 9.915

15.730

5.175

12.930

4 7.135

13.625

4.880

11.520

5 8.160

21.090

5.610

10.780

TOTAL

42.010

93.060

24.945

59.705

DISCUSSÃO

O experimento foi realizado num período propício à reprodução das tilápias, à média de

temperatura da água foi de 24,8ºC. Segundo Kubitza (2000), dentre os inúmeros fatores que interferem com a eficiência de produção de ovos e pós-larvas (desempenho reprodutivo) das tilápias, a temperatura

é um dos mais importantes. Acima de 24ºC, as desovas ficam mais freqüentes e a produção de pós-

larvas aumenta.

O intervalo de tempo programado entre as coletas foi satisfatório, realizadas três vezes por

semana. Verdegem e McGinty (1987) apud Kubitza (2000), observaram que, quanto menor for o

intervalo de tempo entre duas coletas consecutivas, maior será o número de desova por fêmea de tilápia-

do-Nilo. Quando as coletas são muito distanciadas, as fêmeas podem dispensar o cuidado parental às suas crias por períodos mais prolongados. Portanto, coletas mais freqüentes interrompem o cuidado

parental e antecipa o retorno das fêmeas ao processo reprodutivo, além de evitar que um maior número

de larvas se desenvolvam em alevinos e canibalizem as pós-larvas das próximas desovas (Kubitza,

2000).

De acordo com os resultados obtidos neste experimento, o tratamento TA, com fêmeas de maior padrão de crescimento, mostrou-se mais prolíficuo, com uma produção total de 93.060 alevinos,

correspondendo a 930,6 alevinos/fêmea/período. No tratamento TB, com produção total de 59.705 alevinos, ou 597,05 alevinos/fêmea/período, apresentou, ainda assim, valores compatíveis ao de outros autores

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Segundo Silva. et. al., (1997), o número de ovos em incubação oral pela tilápia do Nilo aumenta com o comprimento e peso da fêmea, atingindo 483 ovos para uma reprodutriz de 204 mm. alterações dos plantéis de reprodutrizes, passando a utilizar fêmeas com maiores peso e comprimento. Proença e Bittencourt (1994) relatam que a fêmea de tilápia pode produzir a cada desova, de 100 a 500 alevinos, dependendo do tamanho da fêmea. (Nogueira et al., 2002), constataram que fêmeas de tilápia nilótica, linhagem chitralada, em primeira maturação, apresentam uma fecundidade que varia entre 581 a 754 ovos/desova/fêmea. Relacionando-se a produção de alevinos à biomassa estocada, tem-se que em TA 2.215,71 alevino/kg. Por este critério, TB mostra-se mais produtivo, com 2.388,2 alevinos/kg. Não se pode atribuir esta diferença à perda natural da fecundidade com a idade, por se tratar de peixes com a mesma idade. Talvez ao fato de nem todas as fêmeas terem desovado, o que é reforçado pelos números apresentados na tabela 1, onde se percebe alguma discrepância entre a biomassa estocada e a produção de alevinos. Kubitza (2000) faz referência à interação social apresentada pela tilápia, com a dominância de alguns indivíduos sobre os outros, prejudicando o desempenho reprodutivo. Em geral, o aumento na densidade de estocagem reduz a produção de pós-larvas por quilo de fêmeas estocadas. Os melhores índices de produção de pós-larvas por quilo de fêmea parecem ser obtidos quando 1 a 3 fêmeas são estocadas para cada macho. Popma & Green (1990) recomendam 1,5 a 2 fêmeas para cada macho, sendo necessário para se produzir 50.000 alevinos para a reversão um estoque de 35 a 55 kg de fêmeas maduras, o que corresponde a uma produção por kilograma de 909,09 a 1428,57 alevinos, respectivamente. Quando se comparam o desempenho destes alevinos produzidos em ambos os tratamentos, após 100 dias de cultivo em condições semelhantes, é percebido que mesmo não havendo diferença significativa entre os padrões de crescimento das duas populações (TA e TB), segundo o teste aplicado (teste “t”, α = 5,00%), observou-se uma ligeira desvantagem no crescimento da prole F1B, acompanhado de desuniformidade no comprimento. Como os reprodutores machos usados neste experimento apresentavam o mesmo padrão de crescimento, conforme delineamento do trabalho, este vigor do crescimento poderia ser mais fortemente influenciado pelo patrimônio genético dos machos, como costuma ocorrer na zootecnia. O que confirma a transferência do vigor – crescimento do macho reprodutor tipo A para a prole B, restaurando-lhe um crescimento compensatório (Nogueira, 2003).

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CONCLUSÕES

O vigor do crescimento pode ser mais fortemente influenciado pelo patrimônio genético oriundo dos machos, como costuma acontecer na zootecnia. Dentro da linhagem chitralada, podem-se encontrar padrões de crescimento diferenciados, o que justifica um esquema de seleção para manter no plantel a performance de crescimento desejado. A produção de boas sementes requer bons plantéis de reprodutores de maneira a propiciar uma ótima performance em toda a cadeia produtiva.

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CONDICIONAMENTO ALIMENTAR NO DESEMPENHO ZOOTÉCNICO DO TUCUNARÉ

Emerson Carlos SOARES 1 *; Manoel PEREIRA-FILHO 2 ; Rodrigo ROUBACH 2 & Renato Carlos Soares

e SILVA 2 1 Universidade Federal de Alagoas/UFAL, Polo Penedo; 2 Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia; *E-mail: soaemerson@gmail.com Resumo - O presente trabalho teve o objetivo de realizar o treinamento alimentar de alevinos de tucunaré, Cichla monoculus, condicionando-os a alimentar-se de ração seca e, posteriormente, testar a melhor freqüência alimentar para a espécie. Durante o treinamento alimentar, foi realizada a substituição gradual de peixe moído por ingredientes secos na dieta fornecida aos peixes. Após o treinamento alimentar, foram testados três níveis de freqüência alimentar (5, 6 e 7 dias de alimentação por semana) com um delineamento experimental inteiramente casualizado, em um fatorial 4x4, avaliados a seguir pela ANOVA, complementado pelo teste de Tukey (5%) para discriminar as médias quando o teste de “F” foi significativo. Ao final do treinamento alimentar, obteve-se uma sobrevivência de 75% dos animais experimentais, treinados para aceitar uma ração artificial seca. Os indivíduos submetidos à freqüência alimentar de seis dias na semana com um dia de privação alimentar, apresentaram desempenho semelhante aos alimentados durante sete dias na semana.

PALAVRAS-CHAVE: Cichla monoculus, treinamento alimentar, freqüência alimentar, Amazônia.

ALIMENTARY TRAINING IN THE GROWTH PEFORMANCE OF THE CICHLID FISH “TUCUNARÉ” Abstract - The present work had the objective of accomplishing alimentary training of the “tucunaré”, Cichla monoculus. Fingerlings, conditioned to be fed from dry ration, and later to check the best alimentary frequency for the species. During the alimentary training, a gradual substitution of grinde fish for dried ingredients in the supplied diet was performed. After the alimentary training, three levels of alimentary frequency (5, 6 and 7 days of feeding per week) were tested in a delineated experiment, in a factorial 4x4, followed by an evaluation by the ANOVA (5%), using of the test of Tukey (5%) for average discrimination when the test of “F” was significant. At the end of the alimentary training it was obtained a 75% of survival of the animals used in the experiment, which were trained to accept a dry artificial ration. Individuals submitted to a alimentary frequency of six days in a week with a day of alimentary privation, weight gain to the ones fed seven days in a week. KEYWORDS: Cichla monoculus, alimentary training, alimentary frequency, Amazônia.

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INTRODUÇÃO

O tucunaré, Cichla monoculus (Spix & Agassiz, 1831), é uma das espécies originárias da bacia

Amazônica, no entanto já foi introduzido em quase todas as demais bacias hidrográficas do Brasil, com

a finalidade de controle de espécies com alta prolificidade como a tilápia (Silva et al., 1980; Santos et al., 2006). Com grande importância para a pesca artesanal figurando entre as 10 espécies mais desembarcadas nos mercados do Amazonas e Pará (Ruffino et al., 2005; 2006). Devido à pesca esportiva e por possuir características organolépticas excelentes em sua carne, apresenta grande chance de inclusão no plantel de peixes cultiváveis, sendo que muitos criadores dedicam-se também à sua criação para a prática esportiva do tipo pesque-pague (Santos et al., 2006).

Por ser estritamente de hábito alimentar carnívoro (piscívoro consumindo basicamente peixes e camarão), a sua criação em cativeiro é dificultada por não aceitar dietas secas voluntariamente, exigir um alimento com elevado teor protéico, manejo e monitoramento inadequado dos tanques, dificuldades na aquisição de matrizes, baixa disponibilidade de rações balanceadas e acentuado canibalismo (Sampaio et al., 2000). Com o desenvolvimento de estratégias de treinamento alimentar para viabilizar

a criação em regime intensivo e o aprimoramento do conhecimento sobre as exigências nutricionais poderá tornar esta espécie promissora para a aquicultura nacional (Moura et al., 2000).

CONDICIONAMENTO ALIMENTAR

O treinamento alimentar é usado em peixes carnívoros para facilitar a aceitação de dietas secas. O

condicionamento alimentar têm se mostrado eficiente e com resultados bastante promissores para muitas espécies carnívoras tais como a truta arco-íris (Oncorhyncus maximus) (Walbaum, 1792) ou ainda com espécies nativas como o surubim (Pseudoplatystoma coruscans) (Agassiz, 1829), o trairão (Hoplias cf. lacerdae) (Ribeiro, 1908) e o pirarucu (Arapaima gigas) (Schinz, 1822), (Campos, 1998; Crescêncio, 2001; Luz et al., 2002). Segundo Luz et al. (2002), quando houve transição gradual dos ingredientes da ração com atrativos alimentares, a sobrevivência foi de 96% para alevinos de trairão (Hoplias lacerdae) (Miranda-Ribeiro, 1908).

FREQÜÊNCIA ALIMENTAR

A voracidade ou necessidade de um predador como o tucunaré, de ingerir o alimento é refletida

pela sua capacidade de digerir e evacuar o alimento, estando intimamente correlacionada às suas necessidades energéticas (Sainbury, 1986; Rabelo, 1999; Soares & Araújo-Lima, 2003). A freqüência alimentar é altamente correlacionada com o tempo de evacuação gástrica, no entanto os principais

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parâmetros que a influenciam são: peso do alimento, temperatura da água, tipo e energia da dieta, fisiologia e tamanho do predador (Rabelo, 1999; Lee et al., 2000; Webster et al., 2001). Em trabalhos com Pygocentrus nattereri (Kner, 1858), foi observado que o peso do alimento e o peso do predador não foram significativos para a determinação do consumo diário do alimento. No entanto, neste estudo não foi testado qual a melhor freqüência alimentar para esta espécie, apenas no período experimental os animais sofreram períodos de inanição, sendo este fator positivo para evacuação gástrica (Soares & Araújo-Lima, 2003). Wang et al. (1998) observaram em Lepomis cyanellus (Rafinesque, 1819), um melhor desempenho zootécnico quando utilizaram uma freqüência alimentar de três vezes ao dia. Webster et al. (2001), sugeriram uma freqüência alimentar de apenas uma vez por dia para Ictalurus puntactus (Rafinesque, 1820). Existe uma flutuação da freqüência alimentar, variável de espécie para espécie, e que depende de fatores intrínsecos e extrínsecos. Trabalhos com períodos de privação alimentar para espécies carnívoras são poucos. Este trabalho tem o objetivo de realizar o treinamento alimentar com os juvenis de tucunaré e, posteriormente, testar a melhor freqüência alimentar para a espécie.

MATERIAL E MÉTODOS

O trabalho foi desenvolvido na Coordenação de Pesquisas em Aqüicultura - CPAQ, do Instituto

Nacional de Pesquisas da Amazônia - INPA, nos períodos de 15 de abril a 17 para maio de 2004

(treinamento alimentar) e 25 de setembro a 25 de outubro de 2004 (freqüência alimentar). Foram transportados 528 juvenis de tucunarés em sacos plásticos oxigenados contendo 2,0g de sal/l de água e 0,2g de gesso/l de água. Os animais foram adquiridos de produtor, com aproximadamente 3,5 ± 0,3cm de comprimento e 2,5 ± 0,4g de peso inicial. Dez exemplares do lote foram sacrificados para verificar a sanidade dos peixes antes do início dos experimentos.

A quarentena dos peixes foi de aproximadamente de 15 dias incluindo o período de aclimatação

em uma gaiola com dimensões de 100 x 50 x 50 cm, disposta em um tanque com 120m 2 com parede de alvenaria e fundo de argila. A qualidade da água foi monitorada diariamente em dois horários: 07:00h e 17:00h para ambos os experimentos, foram medidos: oxigênio dissolvido; temperatura; amônia; nitrito; condutividade e pH.

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TREINAMENTO ALIMENTAR

A dieta da primeira semana consistiu de zooplâncton coletado no próprio tanque de 120m 2 , com uma rede de plâncton de 60 µm de malha. O alimento foi oferecido nos horários: 06:00h, 08:00, 10:00, 12:00, 14:00, 16:00, 18:00 e 20:00h. Na segunda semana de aclimatação, a alimentação consistiu de uma mistura homogênea de zooplâncton, picadinho de tambaqui (moído com diâmetro de 0,3mm) e suplemento vitamínico e mineral, correspondendo a 10% biomassa total. Ao observar que os juvenis estavam alimentando-se normalmente, procedeu-se à biometria inicial onde os mesmos apresentaram 5,1 ± 0,2cm de comprimento e 4,4 ± 0,3g de peso médio. Na fase inicial do treinamento alimentar, a dieta inicial foi processada diariamente, tornando a mistura de zooplâncton, picadinho de peixe, suplemento vitamínico e mineral e ração comercial extrusada (TC-45 proteína bruta) na proporção de 4,0%, 1,0% e 95,0%, formando uma massa homogênea, correspondendo a 10% da biomassa do cultivo. A análise bromatológica da ração TC-45 encontra-se na Tabela 1.

Tabela 1 - Análise bromatológica realizada no Laboratório de Nutrição de Peixes da Coordenação de Pesquisas em Aquicultura/CPAQ-INPA.

 

Dados a 100% matéria seca

 

Umidade (%)

PB

EE

CH 2 O

Cinzas

FB

8,9*

46,5*

10,5*

30,6*

10,0*

2,4*

13,0**

45,0**

14,5**

20,5**

14,0**

6,0**

* Análise realizada no laboratório de nutrição da coordenação em pesquisas em aqüicultura/INPA ** Valores fornecidos pelo fabricante PB = Proteína bruta; EE= Extrato étereo; CH 2 O = Carboidrato; FB= Fibra bruta.

A alimentação foi oferecida em seis horários: 08:00h, 10:00, 12:00, 14:00, 16:00 e 18:00h, quando os juvenis foram submetidos ao condicionamento alimentar constituído da substituição gradual e progressiva da dieta úmida por ração seca. A homogeneidade da amostra foi observada através do teste de Cochran (p<0,05). No período pré-alimentar os juvenis mortos foram coletados, quantificados e analisados com o intuito de verificar o conteúdo estomacal e a presença ou ausência de parasitas.

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Tabela 2 - Etapas da transição dos ingredientes da dieta oferecida para alevinos de tucunaré (30 dias)

MORTALIDADE EM

 

NÚMERO DE

NÚMERO DE

DIAS

COMPOSIÇÃO

INDIVÍDUOS

EXEMPLARES

OBSERVAÇÃO

1% premix + 95% peixe + 4% zooplancton

510

6

1% premix + 90% peixe + 4% zooplancton + 5% ração

9

1% premix + 85% peixe + 2% zooplâncton + 12% ração

10

1% premix + 78% peixe + 1% zooplâncton + 20% ração

17

Canibalismo

12º

1% premix + 59% peixe + 40% ração seca

25

Canibalismo

17º

1% premix + 49% peixe + 50% ração seca

18

Divisão em dois lotes

19º

1% premix + 39% peixe + 60% ração seca

5

22º

1% premix + 29% peixe + 70% ração seca

0

25º

1% premix + 19% peixe + 80% ração seca

0

27º

1% premix + 9% peixe + 90% ração seca

2

29º

1% premix + 99% ração seca

0

30º

100% ração seca

0

Final do treinamento

Total

418

92

FREQÜÊNCIA ALIMENTAR

Neste experimento foram utilizadas 15 gaiolas de dimensões 0,80 x 0,80 x 1,0m com uma densidade de 13 indivíduos por gaiola, totalizando 196 indivíduos durante 30 dias. Foi realizada uma biometria no início e outra no final do experimento para verificar o desempenho zootécnico dos juvenis de tucunaré. O experimento foi desenvolvido por um delineamento experimental inteiramente casualizado com três tratamentos (freqüência alimentar de 5, 6 e 7 dias na semana) cada um com cinco repetições. A dieta e seus respectivos ingredientes com 40% proteína bruta oferecida para o experimento de freqüência alimentar constam na tabela 3.

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Tabela 3 - Ingredientes com os respectivos percentuais utilizados na dieta oferecida, no experimento de freqüência alimentar ao tucunaré.

INGREDIENTES

PERCENTUAL (%)

Farinha de peixe

27,00

Protenose

21,20

Farelo de soja

21,00

Farelo de milho

17,85

Farinha de trigo

5,00

Óleo de soja

7,00

Premix

0,80

Vitamina C

0,05

Protease exógena

0,10

Total

100,00

Os dados da composição centesimal dos ingredientes da dieta encontram-se na tabela 4.

Tabela 4 - Análise bromatológica dos ingredientes da ração utilizada no experimento, Umidade (%), PB (proteína bruta), EE (Extrato etéreo), Cinzas (%) e FB (fibra bruta).

Ingredientes

Umidade (%)

PB (%)

EE(%)

Cinzas (%)

FB (%)

Farinha de peixe Farelo de soja Fubá de milho Farinha de trigo

5,5

61,6

18,6

14,4

0,0

12,2

50,4

2,5

6,6

4,3

12,0

12,6

3,6

2,6

2,0

11,2

15,9

3,1

2,6

1,1

Os parâmetros de desempenho observados no experimento de freqüência alimentar foram os seguintes: ganho de peso (GP): GP = Peso médio final – Peso médio inicial; consumo médio de ração individual; (CMDi): CMDi = Quantidade de ração fornecida por dia (g) / Nº de peixes; consumo individual médio de ração no final do experimento (CIMFi): CIMFi = Σ CMDi; conversão alimentar aparente (CAA): CAA = CIMFi / (peso médio final – peso médio inicial); crescimento específico em peso dos peixes (CEP): CEP = 100 x (Ln peso médio final – Ln peso médio inicial) / tempo; taxa de sobrevivência dos peixes (TS): TS = 100 x (número final de peixes / número inicial de peixes).

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ANÁLISE ESTATÍSTICA

Para garantir a homogeneidade dos peixes ao início do experimento, estes foram pesados (g) e seguidamente os resultados das pesagens foram analisados através do teste de Cochran, nível de 5% de significância (Mendes, 1999). Os resultados das biometrias do experimento foram analisados por intermédio de uma análise de variância para o delineamento inteiramente casualizado, nível de 5% de significância com a finalidade de aferir o efeito dos tratamentos sobre o desempenho dos peixes, utilizando-se o teste de Tukey (p<0,05) discriminar as médias e determinar o melhor tratamento quando houve diferenças significativas.

RESULTADOS

CONDICIONAMENTO ALIMENTAR

No final de 30 dias de treinamento alimentar os juvenis de tucunaré estavam 100% alimentando- se de ração seca. Neste período os parâmetros físico-químicos da água não apresentaram modificações bruscas que comprometessem o andamento do condicionamento: oxigênio (6,5 ± 2,2 mg/L) , temperatura (28,0 ± 2,0 ˚C), pH (6,0 ± 1,1), amônia (3 x 10 - 2 ± 10 -3 ) e condutividade (29,0 ± 2,0µS/cm -

1 ).

Após o período de aclimatação notou-se que todos os juvenis estavam alimentando-se regularmente e com certa voracidade atacando a mistura na superfície da coluna da água.

O uso de zooplâncton, peixe picado e suplemento vitamínico e mineral favoreceu a transição do

alimento ofertado ao tucunaré, sendo que, após o décimo segundo dia da etapa de transição da dieta foi

possível substituir totalmente o zooplâncton por uma mistura de ração seca, peixe e suplemento alimentar.

A taxa de sobrevivência após o final do treinamento alimentar foi de 75%, sendo que dos 25% de

mortalidade existente, o percentual de 10% pode ser atribuído ao canibalismo. Em observações realizadas na segunda semana do treinamento alimentar com tucunaré foi constatado heterogeneidade na amostra, assim, o reflexo deste episódio repercutiu no aumento de 2 a 4 dias do tempo de condicionamento alimentar ao qual os alevinos foram submetidos.

FREQÜÊNCIA ALIMENTAR

Após trinta dias de experimento sobre a freqüência alimentar os parâmetros físico-químicos da água apresentaram os seguintes resultados: oxigênio com média de 5,5 ± 1,0 mg/l, condutividade 32,0 ± 1,8µS/cm, temperatura média de 29,0 ± 1,1˚ C, o valor de pH de 6,0 ± 0,4, amônia total (NH 3 + NH 4 )

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2,6 x 10 -3 ± 10 -3 e valores de nitrito 4,4 x 10 -2 ± 1,6 x 10 -2 . Apesar de ocorrerem mudanças nos níveis

de oxigênio e temperatura ao longo do ciclo de 24 horas, estas não prejudicaram o experimento.

A freqüência alimentar de 6 dias com 1 de privação teve rendimento semelhante ao da freqüência

alimentar de 7 dias por semana quando alimentados em dois horários ao dia (ANOVA 5%, teste de

Tukey p<0,05). A conversão alimentar aparente e o ganho de peso obtiveram valores de 2,4 ± 0,18 e

28,4 ± 3,05g, respectivamente. A taxa de crescimento específico foi em média de 0,89% ao dia, para a

freqüência alimentar de 6 dias por semana, enquanto para a freqüência alimentar de 7 dias a conversão

alimentar foi de 2,28 ± 0,18 e o ganho de peso foi de 29,39 ± 3,12g, com taxa de crescimento

específico de 0,93% ao dia (Tabela 5). A taxa de sobrevivência foi de 100% ao final do estudo.

Tabela 5 - Médias do peso inicial e final, ganho de peso, conversão alimentar aparente e crescimento específico em peso dos juvenis de tucunaré, alimentados com ração 40% proteína bruta, durante 30 dias.

VARIÁVEIS OBSERVADAS

5 DIAS

6 DIAS

7 DIAS

Peso inicial

Peso final

Ganho de peso

Conversão alimentar aparente Taxa de crescimento específico

98,56 ± 7,97ª

102,28 ± 10,5ª

94,50 ± 7,80ª

115,84 ± 7,90 b

130,65 ± 12,90ª

123,79 ± 8,60ª

17,29 ± 1,99 b

28,37 ± 3,05ª

29,39 ± 3,12ª

3,70 ± 0,27ª

2,40 ± 0,18 b

2,28 ± 0,18 b

0,60 ± 0,10 b

0,89 ± 0,08 a

0,93 ± 0,10 a

* Médias seguidas da mesma letra, na linha não diferem entre si, pelo teste de Tukey com 95% de confiabilidade.

CONDICIONAMENTO ALIMENTAR

DISCUSSÃO

Em observações durante a fase experimental foi notado que os juvenis de tucunaré alimentavam-

se preferencialmente a meia-água, isto se deve ao comportamento agressivo ou instinto de

sobrevivência de animais predadores. A voracidade de tucunaré (Cichla monoculus) em busca do

alimento parece ser um padrão comum de espécies de peixes carnívoras e pode estar relacionado com a

sobrevivência, dominância ou postura territorialista. Outros autores já haviam notado este padrão em

tucunaré (Cichla sp.) e piranha-caju (Pygocentrus nattereri), (Sampaio et al., 2000; Soares & Araújo-

Lima, 2003). Luz et al. (2002), trabalhando com alevinos de trairão, observaram este mesmo tipo de

comportamento quando os animais haviam sido submetidos ao condicionamento alimentar.

No presente experimento, a mistura formada por zooplâncton, picadinho de peixe e suplemento

vitamínico e mineral foi essencial para o sucesso do condicionamento alimentar, permitindo que

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juvenis de tucunaré alimentassem de ração seca. Este fato comprova que o uso de atrativos alimentares

é uma importante ferramenta para obtenção de sucesso em condicionamentos alimentar de peixes carnívoros.

O resultado encontrado por Crescêncio (2001) e Cavero (2002; 2004), utilizando como atrativo

alimentar o zooplâncton, camarão e artemia no condicionamento alimentar de pirarucu (Arapaima gigas), concorda bem com o exposto acima, o que é reforçado por Higgs et al. (1985) e Luz et al. (2002), utilizando-se de peixes moídos, crustáceos ou coração de boi como estimulantes para trairão (Hoplias lacedae). Aparentemente os argumentos supracitados anteriormente, não se aplicam em todos os casos; no caso de Carneiro et al. (2004), trabalhando com tucunaré (Cichla ocellaris) (Schneider, 1801) observaram que a inclusão do atrativo branchoneta (microcrustáceo) não favoreceu o condicionamento alimentar para a espécie. Entretanto, outros fatores podem ter contribuído para o não sucesso do condicionamento alimentar, o que pode ser atribuído ao aspecto da palatabilidade e o atrativo alimentar: dependendo do tipo de alimento utilizado no condicionamento (zooplâncton, artemia, peixe picado, crustáceo, óleo de fígado, tipo de ração) ou ainda, ao tipo de substituição dos componentes da

dieta (brusca ou gradativa), a assimilação ou aceitação das dietas artificiais poderá ser de forma mais acessível, melhorando a conversão alimentar e aumentando a sobrevivência de espécies piscívoras (Kubtiza & Lovshin, 1997; Carneiro et al., 2004).

A taxa de sobrevivência de 75% encontrada no final do treinamento alimentar com tucunaré é

considerada bastante satisfatória. Em estudos realizados por Moura (1998) com tucunaré (Cichla sp.)

encontrou-se sobrevivência média de 12%. Em estudo posterior, Moura et al. (2000), trabalhando com

a mesma espécie, com indivíduos que apresentavam pesos de aproximadamente 1,7g, utilizando a

transição gradual dos ingredientes da dieta, observou uma sobrevivência de 40%. Kubtiza & Cyrino (1997) trabalharam com tucunaré utilizando 10% de pescado fresco na formulação da dieta, os mesmos autores encontraram uma sobrevivência de 60%. Crescêncio (2001), estudando o pirarucu com o método de transição gradual dos componentes da ração, com uso de atrativos alimentares observou uma sobrevivência próxima de 70% dos juvenis. Machado et al. (1998) obtiveram taxa de sobrevivência de 78%, após 84 dias de alimentação de alevinos de pintado (Pseudoplaystoma coruscans). Um dos entraves do cultivo de tucunaré é o canibalismo; entre 10% e 15% da mortalidade derivada do treinamento alimentar do presente experimento foi atribuído a este tipo de comportamento da espécie, o mesmo foi observado por Sampaio et al. (2000), que cita gênero com acentuado

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canibalismo, provavelmente atribuído à dominância hierárquica ou dispersão de tamanhos. Existem alguns relatos sobre esta forma de comportamento com salmão, Salmo salar (Linnaeus, 1758) (Maclean & Metcalfe, 2001), e truta arco-íris, Oncorhynchus mykiss, (Alanärä & Brännäs, 1996).

Kubtiza & Lovshin (1997) sugerem que este tipo de comportamento pode ocorrer para diversas espécies de peixes carnívoros. O bagre Africano (Clarias gariepinus) (Burchell, 1822) apresentou o mesmo padrão de canibalismo do tucunaré (Hecht & Appelbaum, 1988). A diferença no status social pode ter como motivos diferenças de tamanho (Lahti & Lower, 2000), diferenças de taxa metabólica (Metcalfe et al., 1995) e de densidade de estocagem (Alanärä & Brännäs, 1996) sendo que os dominantes tendem a maiores taxas de crescimento e de sobrevivência (Huntingford & Turner, 1987).

A forma na qual a dominância se expressa pode levar a uma desuniformidade na alimentação, e

conseqüentemente influência os resultados do treinamento alimentar (Crescêncio, 2001).

A dispersão de tamanho ocasionada pela heterogeneidade da amostra na segunda semana de

cultivo pode ter sido ocasionada pelo comportamento territorialista da espécie. Alguns exemplares (dominantes) consomem preferencialmente o alimento oferecido, diminuindo as chances sobre o

concorrente (peixe subordinado) tomando seu alimento; após sua saciação os dominantes afastam o

resto do cardume para longe do alimento, diminuindo a possibilidade de saciação dos peixes subordinados, devido à ração (em forma de pelets ou úmida) afundar mais rápido, não dando tempo destes se alimentarem. Este fato foi comprovado também nos estudos de Crescêncio (2001) com juvenis de pirarucu (Arapaima gigas). Entretanto, isto pode ser resolvido com a diminuição da taxa de transição alimentar e consequentemente, aumento do número de dias de treinamento, monitoramento da água (temperatura

da água) com observação constante dos ambientes de alimentação, ou ainda aumento da densidade de

estocagem e separação das amostras (dominantes/subordinados) que podem ajudar na diminuição da dominância, discrepância de tamanho e predação entre indivíduos (Snow, 1960; Crescêncio, 2001; Soares & Araújo-Lima, 2003).

FREQÜÊNCIA ALIMENTAR

O desempenho zootécnico dos tucunarés alimentados durante 6 dias com 1 dia de privação

alimentar, obteve rendimento semelhante aos indivíduos alimentados durante todos os dias da semana, além de obter uma taxa de sobrevivência de 100% dos indivíduos. Isto significa diminuição de um dia nos gastos com alimentação e mão de obra utilizada no cultivo da espécie.

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Embora na literatura seja comum protocolos alimentares específicos para peixes exóticos como; bagre de canal (Ictalurus punctatus), truta-arco-íris (Oncorhynchus mykiss) e tilápia (Oreochromis niloticus) (Linnaeus, 1758) (Kubtiza & Cyrino, 1997), com tucunaré (Cichla monoculus), informações sobre o manejo alimentar tratando-se de períodos de jejum ou freqüência alimentar são incipientes. Souza et al. (2003) estudaram períodos alternados de restrição alimentar para o pacu (Piaractus mesopotamicus) (Holmberg, 1887), e concluíram que o ciclo alimentar de 6 semanas de restrição alternadas com 7 semanas de realimentação não prejudicou o crescimento compensatório destes indivíduos. Dwyer et al. (2002) concluíram que juvenis de yellowtail flounder (Limanda ferruginea) (Storer, 1839), alimentados duas vezes por dia obtiveram melhores índices zootécnico do que aqueles alimentados durante 4 vezes ao dia. Rabelo (1999) estimou um consumo baixo de alimento pelo tucunaré (Cichla monoculus), afirmando que a espécie é menos voraz do que se esperava, este argumento induz a idéia que a espécie tem um ritmo e consumo diário de alimento inferior aos demais carnívoros da região Amazônica, o que é importante para o cultivo da espécie e para determinação da freqüência de alimentação. Neste mesmo estudo a conversão alimentar estimada para o tucunaré foi de 11:1, sendo bastante alta quando comparada com o estudo presente (em média de 2,3:1). No entanto a hipótese acima não se aplica ao presente estudo, pois o autor não utilizou parâmetros totalmente controlados de ambientes em confinamento tais como; densidade de estocagem e freqüência alimentar, nem tão pouco utilizou ração para alimentação da espécie.

CONCLUSÃO

O treinamento alimentar foi eficiente e condicionou os exemplares a consumir uma ração seca ao final do trigésimo dia. A julgar por outros estudos realizados com o tucunaré e com outras espécies de peixes carnívoras é possível concluir que o condicionamento alimentar foi bastante satisfatório, além de proporcionar melhores condições de adaptação para que esta espécie seja cultivada intensivamente, abrindo novas perspectivas para o mercado de espécies carnívoras. Os exemplares alimentados com a freqüência alimentar de 6 dias na semana com 1 dia de privação de alimento obtiveram ganho de peso, conversão alimentar e taxa de crescimento específico em peso, semelhantes aos exemplares submetidos a freqüência alimentar de 7 dias. Recomenda-se então a freqüência alimentar de 6 dias com 1 dia de jejum, por dispensar menor quantidade de ração e mão de obra na alimentação dos tucunarés.

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AGRADECIMENTOS

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Amazonas/FAPEAM e a Coordenação de Pesquisas em Aqüicultura do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia/INPA/CPAq.

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OCORRÊNCIA DE MERCÚRIO EM CAMARÕES EM DIFERENTES AMBIENTES AQUÁTICOS

Geovana Lea FERNANDES 1 ; Paiva Maria Lúcia NUNES 2 ; Antonio Diogo LUSTOSA-NETO 3 & José Milton BARBOSA 4

1 Centro de Tecnologia, Universidade Federal da Paraíba 2 Universidade Federal de Sergipe 3 Consultor autônomo 4 Universidade Federal Rural de Pernambuco

Resumo - O presente trabalho teve como objetivo comparar níveis de mercúrio em diferentes espécies de camarões de interesse comercial, em seus habitats, nas estações seca (janeiro-março/1999) e chuvosa (abril-junho/1999), no Estado da Paraiba. Foram testados: o camarão-cinza e seu habitat (fazenda marinha de cultivo); o camarõ-branco Litopanaeus schimitti e seu habitat (Estuário do Rio Paraíba do Norte) e o camarão de água-doce Macrobrachium amazonicus e seu habitat (Açude Mãe D’Água). O teor de mercúrio foi avaliado através da técnica de espectrofotometria de absorção atômica. Os teores de mercúrio dos diversos ecossistemas mostraram-se significativamente diferentes (p<0,05), porém não foram observadas diferenças quanto à interação ecossistema/mês. Os níveis de mercúrio encontrados nos diversos habitats ou ecossistemas foram levemente superiores aos observados nos camarões, porém todos situaram-se abaixo do limite máximo fixado pelos órgãos governamentais. Estatisticamente, a espécie L. vannamei foi a única que apresentou teores de mercúrio significativamente diferentes, quanto às estações chuvosa e de estiagem.

PALAVRAS CHAVES: Poluição ambiental, Saúde pública, Toxidez

PRESENCE OF MERCURY IN SHRIMPS IN ACQUATIC INVIRONMENTS

Abstract - The present work had as its objective to compare levels of mercury in different species of shrimps of commercial preoccupation, in their habitats during the dry season (January-March/1999) and the rainy season (April-June/1999), in the State of Paraíba, Brazil, being tested: the white-shrimp and its habitat (Paraíba do Norte State River’s estuary), and the fresh water shrimp (Macrobrachium amazonicus) and your habitat (Mãe d´Água dam). The amount of mercury was estimated by means of a spectrofotometric technique of atomic absorption. The amounts of mercury of the several ecosystems shown significant differences (p<0.05), but were not observed differences as to the interation ecosystem/mounth. The levels of mercury found in several habitats or ecosystems were very few higher than to those observed in the shrimps, but all of them were below the maximum limit established

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by the governamental organizations. Statistically specking, the species of L. vannamei L. was the sole that presented levels of mercury significantly different, as to the dry and the rainy seasons. Keywords - Enviromental poluition, Public health, Toxity

INTRODUÇÃO

A presença de metais em efluentes industriais é de grande relevância em todo o mundo, por serem tóxicos e interferirem na ecologia do ambiente. Um dos metais mais estudados é o mercúrio e seus derivados. Sua grande importância deve-se ao fato de ser um agente tóxico que ocasiona danos a saúde devido ao efeito cumulativo, progressivo e irreversível, em conseqüência da ingestão repetitiva de pequenas quantidades (Connell, 1988). Segundo Mariño e Martin (1976), metade da produção mundial anual de mercúrio (10 mil toneladas) vai para o mar, água e solo e por isso torna-se o mesmo um dos principais contaminantes do ambiente marinho. O estuário do rio Paraíba do Norte, município de Cabedelo, PB, vem sofrendo uma constante degradação causada pelo aporte de esgotos domésticos, resíduos agrícolas e de usinas sucroalcooleiras, além da devastação da vegetação local, prejudicando os recursos naturais e provocando sua escassez, como vem sendo constatado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis do Ministério do Meio Ambiente (IBAMA) órgão responsável pela sua conservação e fiscalização (Oliveira, 1990). Em grandes açudes o aporte de resíduos agrícolas também é preocupante. Na literatura são inúmeros os trabalhos realizados sobre contaminação do meio ambiente por mercúrio. No Brasil, a maioria dos trabalhos envolvendo a contaminação do pescado pelo mercúrio, também atende a propósitos ambientais (Chicourel, 1993). Na região Nordeste este estudos são ainda insipientes, especialmente com respeito a contaminação em camarões, embora a produção e consumo de camarões marinhos (Litopenaeus spp.) no Brasil, e em especial no Nordeste, crescem de forma significativa. Considerando que estes animais são úteis na indicação de poluição originada por atividades antropogênicas, necessário se faz a avaliação do teor de mercúrio nos mesmos. Neste trabalho, foi avaliado o teor de mercúrio nos camarões capturados, cultivados e na água dos seus respectivos habitats, considerando as estações de chuva e estiagem no Estado da Paraíba.

MATERIAL E MÉTODOS

AMOSTRAS E LOCAIS DE COLETA

As amostras de água e dos camarões Litopenaeus schimitti, Litopenaeus vannamei e Macrobrachium amazonicus foram coletadas no Estuário do rio Paraíba do Norte (Cabedelo, PB); em uma fazenda de cultivo de camarão marinho (João Pessoa, PB) e no açude Mãe D’Água (Coremas,

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PB), respectivamente, durante as estações de estiagem (janeiro-março de 1999) e a estação chuvosa (abril-junho de 1999). As amostras de camarão após coleta foram acondicionadas em sacos plásticos de polietileno, transportadas em recipiente isotérmico (±10,0 0 C), contendo gelo e armazenados em freezer (-10,0 0 C). As amostras de água foram coletadas em frascos estilizados, nos mesmos locais das amostras de camarão a 10cm de profundidade, transportadas em recipiente isotérmico (±10,0 0 C), contendo gelo e

armazenadas em geladeira (± 5,0 0 C) até serem analisadas.

PREPARAÇÃO DAS AMOSTRAS

Inicialmente, as amostras de camarão foram descongeladas e trituradas, pesadas e analisadas. As amostras de água não sofreram nenhum tratamento prévio. Os teores de mercúrio foram quantificados pelo método analítico (A.O.A.C., 1990), através de espectrofotometria de absorção atômica. O branco analítico, utilizado no set-up do equipamento, serviu para eliminar possíveis contaminações provenientes dos reagentes utilizados. Toda a vidraria utilizada nas análises foi preparada e limpa por imersão em solução de ácido nítrico a 10% por 24h, para descontaminação.

ANÁLISES ESTATÍSTICAS

Os resultados foram analisados através de estatística descritiva, utilizando programa ‘Statistica®6.0, através de análises de variância (ANOVA) (= 0,05), com um fator (estação de coleta) nas amostras dos camarões Litopenaeus vannamei, L. schimitti e Macrobrachium amazonicus e com dois fatores (local e mês de coleta) nas amostras de água dos habitats.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Os níveis de mercúrio encontrados nos camarões nos respectivos pontos de coleta e época de captura variaram de 0,031ppm no mês de janeiro em Litopenaeus schimitti a 0,067ppm no camarão Macrobrachium amazonicus no mês de abril (Tabela 1). Estes níveis, independente da estação de captura, encontram-se muito abaixo do limite de 0,5ppm estabelecido pela legislação em vigor no Brasil (Resolução CNNPA, n o 18/75), bem como com os da legislação alemã: uma das mais exigentes. De forma que todas estavam em condições adequadas para consumo, não representando perigo de contaminação por mercúrio (Figura 1). Cada espécie pertence a um habitat diferente, o que pode sugerir a ocorrência de diferenças entre os resultados, pois a presença de mercúrio pode estar associada aos níveis de poluição. No

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