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Não Sou Esse Tipo de Garota.pdf

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  • Capítulo 1
  • Capítulo 2
  • Capítulo 3
  • Capítulo 4
  • Capítulo 5
  • Capítulo 6
  • Capítulo 7
  • Capítulo 8
  • Capítulo 9
  • Capítulo 10
  • Capítulo 11
  • Capítulo 12
  • Capítulo 13
  • Capítulo 14
  • Capítulo 15
  • Capítulo 16
  • Capítulo 17
  • Capítulo 18
  • Capítulo 19
  • Capítulo 20
  • Capítulo 21
  • Capítulo 22
  • Capítulo 23
  • Capítulo 24
  • Capítulo 25
  • Capítulo 26
  • Capítulo 27
  • Capítulo 28
  • Capítulo 29
  • Capítulo 30
  • Capítulo 31
  • Capítulo 32
  • Capítulo 33
  • Capítulo 34
  • Capítulo 35
  • Capítulo 36
  • Capítulo 37
  • Capítulo 38
  • Capítulo 39
  • Capítulo 40
  • Capítulo 41

1

ABA E
ste era seu último ano do colégio. Entrar na universidade, ser presidente do conselho estudantil e passar todos os dias com sua melhor amiga era tudo o que Natalie havia planejado. Ela sempre foi estudiosa, a melhor da classe. Não era o tipo de garota comum na Academia Ross, pois se preocupava muito com sua reputação. Talvez até demais. Então, para sua surpresa, no início das aulas, uma caloura a reconhece por tê-la tido como babá anos atrás. Desse reencontro surgirão muitos acontecimentos em que Natalie será obrigada a fazer difíceis escolhas para os dilemas de sua vida no ensino médio, como qualquer adolescente. Seu último ano será repleto de decisões, indecisões, julgamentos e paixões, tornando-se inesquecível. Seus planos sofrem uma reviravolta e sua vida fica de pernas para o ar, tudo o que ela não desejava inicialmente.

2

Siobhan Vivian

Não sou este tipo de

Garota
Tradução Marsely de Marco Martins Dantas

3

Rachel Cohn e Brian Carr. Tara Altebrando. 4 . Obrigada também a Andrea Mondadoro. Morgan Matson. Rosemary Stimola. Lisa Greenwald. Nick Caruso. Brenna Vivian e a todos do incrível clã da Vivian. Emmy Widener. Brenna Heaps. Caroline Hickey. convidando-me ao lugar certo (sua sala de aula). na hora certa (almoço).Agradecimentos O brigada a David Levithan e a todos da Scholastic. Lynn Weingarten.

a orientação aos calouros é uma perda de tempo colossal. e o vazio dava ao lugar um ruído oco que com certeza fazia com que os calouros se sentissem ainda menores e mais impressionados. enquanto o restante se concentrava em sutilmente. desde "não usar telefone celular durante o horário escolar" até "não correr em ritmo inadequado pelos corredores". 5 . Em primeiro lugar. Na verdade. sob a orientação do conselheiro mais próximo da morte. Ou. passei por acaso em frente ao auditório durante a reunião de orientação aos calouros. ou não tanto. Mais da metade dos alunos lutava para ficar acordada. seria bem provável que a reunião de apresentação fosse cancelada e eu apenas entregasse um comunicado. apenas uma apresentação simples. as coisas seriam bem diferentes. a maneira como a escola a faz é. Dava para ver o brasão da Academia Ross gravado nos vitrais das duas enormes portas de madeira e uma delas estava aberta. Lá dentro. pois o suor dos pés junto com as meias de poliéster têm um efeito inacreditável no nível de popularidade. feita no máximo em dez minutos. Se fosse por mim. Na minha visão de veterana. Pois havia somente três coisas a fazer para que um garoto vivesse uma experiência de sucesso no ensino médio: fazer a lição de casa. usar camisinha (para o caso de se dar bem) e passar desodorante nos sapatos de couro da escola todas as noites. todos ao mesmo tempo. pelo menos. forçando os alunos novos a repetir palavra por palavra o Manual de orientação da Academia Ross. Era praticamente uma repetição de nãos. havia apenas o número de alunos necessário para ocupar somente as primeiras fileiras dos assentos duros e desconfortáveis. examinar um ao outro.Prólogo N o primeiro dia do meu último ano do ensino médio. Para os garotos. separaria a orientação dos calouros por gênero. Foram necessários apenas três minutos para me dar vontade de gritar. Não havia muitos sins no Manual de orientação da Academia Ross.

de qualquer ano. já estavam se beijando. Chad a cumprimentou com um sorriso. Todinha. Faria uma orientação no estilo daquelas palestras sobre dirigir embriagado que assustam logo de cara. e bonita de um jeito que facilmente passaria despercebida. Exceto que. É claro que tinham intimidade. depois de tomar suas primeiras três cervejas em uma festa. já eram um casal. em vez de comentar sobre os perigos de dirigir embriagado. ela sentia isso toda vez que Chad entrelaçava seus dedos aos dela. ela não se preocupou com o local que as 6 . mas parecia uma ousadia divertida e excitante. Mas ela ia com calma. ele alardeando um enorme corte de papel na esperança de fugir da aula de espanhol II. Em outras palavras. E pela primeira vez no relacionamento deles. pagou o preço da popularidade. bons dentes e ocupava uma posição no time de basquete da escola. Eles se conheceram na enfermaria — ela com enxaqueca. eram o casal. A garota jamais havia feito algo do tipo. a garota entrou de fininho no vestiário masculino e foi na ponta dos pés até a última fileira de armários. as coisas seriam mais complicadas para as garotas. era um tesouro para qualquer garota.Obviamente. antes mesmo de dizerem "oi". ela quase deixou escapar. Popular. Poucas semanas após começar o ensino médio. preferindo trocar beijinhos doces durante caminhadas sobre as pilhas de folhas secas de outono em vez de partidas de luta livre quase sem roupa no apertado banco de trás do carro de Chad. Ela estava na minha classe no primeiro ano. Mas decidiu guardar para uma ocasião especial: o aniversário de dois meses. As mãos dele deslizavam por ela toda. caindo aos pedaços que ele amava mesmo assim. No fim do mês. Depois de olhar por trás dos ombros. No fim da semana. Uma semana antes. Embora nenhum dos dois ainda tivesse dito "Eu te amo". Parecia que o uniforme escolar dela tinha sido feito sob medida para um encontro apressado como aquele. Arrumou um namorado. Ele era um veterano com notas decentes. Um pouco depois. Era legal. Amigável até mesmo com os alunos esquisitos. arrumaria um palestrante que falasse francamente sobre o perigo dos garotos do ensino médio. No aniversário de dois meses de namoro. especialmente para uma caloura. em que os policiais estacionam um carro destruído no gramado da escola e um palestrante conta como matou acidentalmente seu melhor amigo ao voltar para casa depois de uma festa. Chad pediu que ela cabulasse a aula de álgebra para encontrá-lo no vestiário masculino para uma comemoração secreta. Conheço uma garota que seria perfeita para isso. mas não a ponto de deixar os demais enciumados. Chad Rivington tinha quase o dobro da sua altura — um tamanho intimidador até ser visto se enfiando em um fusca azul-bebê enferrujado.

Ela sentiu três palavras querendo sair de sua boca. Ele foi para o carro sem nem mesmo acenar para ela com a cabeça. — Não aqui. assobio ou até mesmo um ruído animado que penetrava no ambiente. Era romântico e sexy. inclinou-se para beijá-lo. e ela finalmente permitiu-se curtir o momento. Mas agora ela não estava mais se derretendo por dentro. Mas estavam no vestiário fedorento e o fim da aula de ginástica estava se aproximando. os sussurros a atingiam como flechas envenenadas em suas costas. Uma responsabilidade social. Para Chad. Então. todo mundo na escola estaria com os olhos grudados no relógio durante a quinta aula.mãos percorriam. com beijos. disse o cara. quando viu alguns rapazes tirando sarro de Chad perto da árvore dos fumantes. e tudo dentro dela estava derretendo. Afinal de contas. ela mal havia tocado nele e ele estava muito excitado. ou imitava estar transando com a porta do armário. Desculpando-se. E quando apareceu decepcionado. para deixar tudo bem. o perigo de ser descoberta invadia a névoa de insensatez da garota. Foi um dos amigos de Chad que sugeriu a pegação no vestiário. Coisas assim. Até mesmo o próprio Chad brincou sobre isso durante semanas. zombando da própria frustração depois que a garota o abraçava de manhã ou enquanto estavam no pátio. A garota não sabia que a inabilidade de Chad transar com uma caloura tinha se tornado a piada do momento. Suavemente. Todos esperavam que ele conseguisse. ou até mesmo em seu carro. Garotos que tinham sido gentis com ela em festas e veteranas que tinham acabado de aceitá-la no grupo agora pareciam distantes e reticentes. E a cada passo ouvido. certo? Ela insistiu que tinha de voltar à aula de álgebra. Não agora. A garota se sentiu mal ao voltar apressada para a aula. Um beijinho na ponta do nariz. Mas Chad virou o rosto. Ele implorou que ela ficasse. Quando a garota chegou na escola no dia seguinte. "Use o aniversário". "Não tem como dar errado". Chad era mais experiente nessas coisas. Chad tentou convencê-la com palavras. inventou uma desculpa que o isentava totalmente de culpa. 0 rapaz ficou muito desapontado — uma postura familiar em seus últimos encontros. E quando percebeu como Chad continuava chateado. ele reclamava por "ficar na mão" após levá-la de carro para casa. Nada mais justo do que terminar o que haviam começado. Até mesmo alguns 7 . prontas para serem ditas. só que um pouco mais enfática dessa vez. Sentiu-se ainda pior depois dela. pensando que seus amigos iam dar um tempo se ele participasse da brincadeira. Mas a participação de Chad apenas incentivava os comentários dos demais. Eles teriam ido até o fim se estivessem no quarto de Chad. pelo contrário. — Não posso — disse subitamente. Afastou-se da boca de Chad e disse que era melhor voltar para a aula. A provocação ficava cada vez menos engraçada e cada vez mais pessoal.

Chad nunca se desculpou. no que ousava colocar em seu prato no almoço. Era o tipo de informação que poderia salvar a vida de uma garota. Mas a ação ficava se repetindo.de seus próprios colegas. 0 fato de se tomar uma ou duas cervejas nunca parece perigoso no começo. Mas para a garota aquilo provocou mudanças. como qualquer outra frase de slogan de efeito. Pelo menos não até ver Chad. Mas. Em forma de andar. Ela não conseguia entender. ou se você é alérgico a picadas de insetos. mas ele não disse nada à garota. que olhou na outra direção. Não mesmo. 1 Relação sexual feita com três pessoas. Tínhamos de informar coisas úteis em vez das regras de manutenção de armário. "Ela me deu nojo". para que não tivesse de falar com ela. "Quase morri de rir. ela fedia tanto. Ela só percebeu o que estava acontecendo na hora do almoço. por onde ela passava. para mim. Em seguida. Funga. Mas foi a gota d'água. A onda inicial de provocação foi diminuindo depois de alguns meses. Chega. quando um dos amigos de Chad foi até o quadro branco e escreveu o nome dela ao lado da entrada de iscas de peixe." Tão idiota. de súbito passaram a ignorá-la. Não parou para pensar no assunto. Ouvir uma história como essa era tão importante quanto saber seu tipo sanguíneo. Era a isca de peixe. 8 . Funga. Ela nunca mais foi a mesma novamente. 0 tempo frio estava no ápice. Tão impensado. Sempre que ela is para qualquer lugar. todos começaram a fungar. É por isso que confiar em garotos era igual a beber e dirigir. Talvez tivesse limpado a consciência admitindo para alguém que tinha apenas feito uma piada ridícula. enfatizando sua culpa. alguém fungava. Claro. Tão mentiroso. Era o fim. aqueles que ela havia ajudado a adentrar no exclusivo mundo escolar superior. Onde quer que ela estivesse. E outra pessoa passou a ser alvo das fofocas quando uma novata supostamente participou de um ménage à trois1 no chuveiro da casa de seus pais com dois colegas de classe de Chad. imaginava Chad dizendo. Funga. alguns correm o risco. A orientação tinha de ser algo desse tipo. na freqüência com que levantava a mão na classe. Para ela era o fim. era isso. era óbvio: por que alguém iria querer correr o risco? Então.

água da piscina derretendo sobre o meu casaco azulmarinho – conseguia deixá-la melancólica. Autumn tinha muita sorte por ter machucado o ombro há alguns anos e possuir um atestado médico que a mantinha fora da piscina. recostando a cabeça em meu ombro. — Hei – disse. Dizia ser intervenção divina o fato de que. — Você tá com cheiro de verão – disse. O cabelo de Autumn era na altura do ombro e dividido em duas metades loiras perfeitamente simétricas. Virei-me e cheirei meu casaco. Ela tirava fotos enquanto pegávamos nossos horários no escritório de orientação pela última vez. tirando minha faixa de cabelo de casco de tartaruga antes de ficar bem atrás de mim – vou fazer agora. Apesar de ter mandado lavá-lo a seco um pouco antes do início das aulas. — Vem cá – disse ela. 9 . – Queria que ainda fosse verão. Dava para fazer a risca sem nem mesmo olhar no espelho. O técnico Fallon nunca dava tempo suficiente para o banho após a aula. formando vários nós idiotas. – Você pode me fazer uma trança quando chegarmos na sala? – Odiava o jeito que meu cabelo secava depois da aula de natação. já estava com cheiro de cloro. as demais eram perto o suficiente para que sempre pudéssemos andar juntas. embora tivéssemos duas aulas comuns. Até mesmo a minha aparência depois da aula de natação – cabelos molhados como se fossem compridos blocos de gelo marrom. e minha amiga Autumn estava se sentindo nostálgica.Capítulo 1 E ra o começo do terceiro ano do ensino médio. Ficava falando do primeiro ano como se este tivesse ocorrido há décadas. Preferia nos fazer sofrer em mais uma volta de nado borboleta do que nos dar 30 segundos a mais para lavar a cabeça. então eu o tirei e o amarrei na cintura.

Qualquer um sabia disso. Autumn e eu iríamos viver em lados opostos do país em onze meses. e no outro você será conhecida como ―bunda de fora‖ pelos próximos quatro anos. Ela estava completamente enfeitiçada pela imbecilidade deles. Ela suspirou e perguntou: . então era mais uma revisão. teria preferido que me contassem a ter feito papel de boba. shorts.. ainda parecia que toda garota da escola sabia que era necessário usar algo não tão revelador por baixo da saia do uniforme. E eu tinha fé que também faria. Olhei feio para eles e fiquei bem na frente para bloquear a visão. Dei meu caderno para Autumn segurar. A saia de preguinhas do uniforme caía para trás como se fosse o sino da igreja tocando. Apesar de não estar escrito em nenhum lugar do manual de orientação da Academia Ross. Momentos constrangedores tinham uma vida útil surpreendente na escola. – Natalie. Bermudas. Intervir era a coisa certa. tentando pegar os livros no meio da bagunça de seu armário. Um pequeno triângulo lilás mal protegia seu traseiro de todo o corredor. — Nossa! – ela sussurrou. Por fim. eu guiando Autumn pelo meu cabelo. fazendo-lhe perguntas sobre as minhas anotações de filosofia oriental enquanto ela continuava o trabalho. A moça estava ajoelhada no chão. como se fôssemos elefantes. Mantive a cabeça baixa. Eu já volto. — Segui pelo corredor. Se as universidades dos nossos sonhos nos aceitassem. Nosso primeiro teste seria em 15 minutos. Ou pelo menos não seriam nem de longe tão boas quanto eram agora. minha trança se desfazendo a cada passo. Só que não estava relembrando o passado de tal forma que precisava me apegar a cada minuto do terceiro ano. Mas só por um segundo. Tínhamos estudado pelo telefone na noite anterior. mas Autumn ainda estava errando algumas. — Não consigo acreditar – disse Autumn parando de andar. Autumn faria novos amigos. – Posso falar com você um segundo? 10 . Dois calouros já haviam notado o show gratuito e não paravam de olhar para a bunda da moça. Sentia minha cabeça sendo apertada a cada trançada. abriu um sorriso tão grande que o canto dos olhos ficou enrugado. leggins ou no mínimo uma calcinha moderna. ou se meu zíper estivesse aberto. pois. – Releia minhas anotações sobre o Método Socrático.Nós éramos assim tão jovens? Dava para perceber que Autumn estava tentando absorver toda a alegria e as possibilidades que exalavam dos calouros à nossa volta. menos essa pobre caloura sem noção. veja! Autumn apontou em direção a uma garota cujo corpo era cheio de curvas e seus cabelos encaracolados. Também sorri. — Ei – disse para a garota. Mas não era uma perspectiva que me deixava particularmente animada. Fiquei pensando se devia ou não dizer alguma coisa. Em um minuto você é uma garota normal.Foi assim que passamos pelo corredor dos calouros. A realista dentro de mim tinha de aceitar que as coisas não seriam mais as mesmas. pela pele ruim e a estranha algazarra.. só que eu não percebi até minha cabeça ser puxada para trás. se eu tivesse um pedaço de espinafre nos meus dentes.

e os sapatos batiam com tanta força no piso impermeável que todo mundo começou a prestar atenção. – Seu tom era amigável e ao mesmo tempo desconfiado. – Tem certeza de que não está me confundindo com alguém? — Tudo bem — ela disse fechando os olhos e balançando a cabeça para lá e para cá algumas vezes. Ela esperou. 11 . Mas era óbvio que a garota era caloura. para o meu grande alívio. — Spencer Biddle? — A garota de oito anos que eu tomei conta durante um verão inteiro quando eu tinha doze anos? Que não usava o banheiro do andar de cima se não tivesse alguém do lado de fora da porta. Minha própria deficiência em relação à dança fazia com que eu não percebesse se ela era boa ou apenas muito esforçada. Algo que. que eu a reconhecesse. Sim. – Hum. começou uma dancinha. provavelmente por ter tomado sol usando enormes óculos escuros. Claro. No máximo. você é Natalie Sterling? — Hum. que dava o maior show de sapateado bem no meio da sala de estar? Seu peito pulsava enquanto ela tentava recuperar o fôlego. não muito pacientemente. Suas pernas bronzeadas chutavam o ar como se fossem tesouras. Dei de ombros como que me desculpando. – disse e então passei a ter um tom desconfiado. depois de respirar bem fundo. seu rosto bronzeado parecia um pouco mais claro ao redor dos olhos. na frente do armário. abriu os braços e exclamou: ―Riverdance‖!3Só que disse isso com um terrível sotaque irlandês. — Não acredito que vou fazer isso — e então.Ela se virou para olhar para mim. 3 Riverdance é um espetáculo de sapateado irlandês. 2 SAT (Scholastic Aptitude Test) – teste de avaliação de conhecimento exigido para entrar em curso superior nos EUA. bem rápido. animado. sabe? – Seu jeito não parecia bravo. — Espera um pouco. ela se agitava tão fervorosamente que seus cachos saltavam como se fossem milhares de pequenas molas. Seus olhos castanhos eram grandes e cheios de expectativa. que só comia macarrão com queijo se esse último fosse alaranjado. brilhando como a sombra que havia passado. reconhecido pelo rápido movimento de pernas dos dançarinos e aparente imobilidade da cintura para cima. que honestamente não poderia ter sido mais rápido. parecendo mais Rivadaaaans! Foi aí que eu me lembrei. – Qual é o seu nome? Ela piscou os olhos um pouco e depois se levantou. Depois de um giro final. então não fazia sentido algum. bem ali. resolveu imediatamente o problema da sua escolha infeliz de calcinha. – Você não sabe quem sou. De qualquer forma. Minha mente passou pelos rostos do meu curso de verão preparatório para o SAT 2. — Sou Natalie Sterling — disse. achando que era melhor me apresentar primeiro.

– Você está bem diferente. Ela abriu uma boca tão enorme que dava para ver todas as obturações. — Espera aí. Mas ela se divorciou do meu padrasto. na verdade. estou aliviada por você não ter me reconhecido. Era demais! — A sua família não tinha se mudado para St. Quer dizer. por que veio falar comigo então? Tirei um fiapo de algodão da minha saia e de repente desejei que não soubesse a cor da calcinha da Spencer. Quando a minha mãe casou de novo.. Spencer tirou meus cabelos molhados do ombro. E tinha uns rapazes apreciando a vista. – Eu mal te reconheci também. comecei a lembrar de como era irritante. — De repente.— Honestamente. olhando bem para a maquiagem dela e imaginando seus cachos se transformando no rosto de uma garotinha de cabelos encaracolados despenteados. Aproximei-me o suficiente para sentir o perfume de algodão doce que exalava dela e sussurrei: — Enquanto você estava agachada. Meu quarto tem armários enormes. 0 sorriso iluminado de Spencer transformou-se em uma ruga. — Alugamos um apartamento em frente ao Liberty River. O que? Quase seis anos? É melhor que eu esteja bem diferente mesmo. soltando sopros silenciosos de ar que saíam do nariz como fogo rápido. Lembro-me de uma vez que você ameaçou fazer o Eddie Guavera comer pedra quando ele fez xixi nas flores que havíamos acabado de plantar ao redor da caixa de correio. do tipo que a tia Doreen ou a vovó fariam. Não é nada mau.. então voltamos este verão – concordei com a cabeça. — Não se preocupe — disse. Se você não me reconheceu. apesar de achar estranho estar ali falando sobre divórcios com a Spencer. olhe como você está grande e linda! – Era um elogio estranho. dava para ver tudo. Faz. — Você tá brincando? 12 . do ponto de vista de uma babá. cheios de espelhos e eu posso praticar minha dança. Questionei: — Fiz isso mesmo? Spencer riu da mesma forma que costumava rir. – Sério. Eu mal conseguia fazer a Spencer ficar sentada. Louis? — Mudamos. — Todos os garotos da vizinhança tinham medo de você. Estava certa que nossa última conversa tinha incluído apenas a minha opinião de que a pizzaria Lucky Charms tinha os piores recheios. Não de alguém três anos mais nova que eu. Natalie! – ela continuou – você foi a melhor babá que eu tive. — Você dança na frente de qualquer coisa! Nas propagandas de televisão e também naquelas campainhas de vento que a sua mãe costumava pendurar na frente da varanda.

Na verdade. definitivamente planejo explorar o fato de ser amiga de uma veterana! Todos os outros calouros vão morrer de inveja. como se Spencer tivesse emitido um som agudo. em uma freqüência que só os garotos conseguissem detectar. Mike Domski. Spencer concordou. Um deles. 13 . mas começou a olhar por detrás de mim. Spencer se virou e recostou no armário. Você ficou tão entretida conversando com a Spencer que se esqueceu de falar para ela sobre a calcinha? Virei-me e vi Spencer agachada novamente. Uma sensação de amargor fez com que meu estômago contraísse. Apesar de se sentir constrangida. fale comigo. — Parece que a Spencer cresceu e se tornou uma dama. e ela olhou para o corredor. mas ouvir Spencer dizer fez com que eu me sentisse muito bem e saí apressada pelo corredor para evitar ser atropelada pelo time de futebol inteiro. 0 mesmo olhar que tinha me convencido há um minuto. tentando entender quais eram os garotos que estavam olhando para ela. acho. até levantei minha própria saia um pouco para mostrar meus shorts de lycra azul-marinho que eu sempre usava. 0 sinal tocou. espera aí. 0 livro de jogadas estava em suas mãos e seus colegas de equipe orbitavam ao seu redor. Spencer conseguiu sorrir. Só que nenhuma de nós achou graça. — Então. E se tiver alguma dúvida sobre a escola. Um olhar de constrangimento fingido. Precisei correr para a classe para que pudesse me organizar e me concentrar antes da prova. — Com certeza nos veremos por aí. Os olhos dos jogadores de futebol que por ali passavam viraram para a esquerda. alto e magro. o melhor a fazer é vestir alguma coisa embaixo da saia — dei a ela um leque de opções. Os demais jogadores se amontoaram uns sobre os outros num ataque de riso. mas suas pregas são horríveis e a cor parece de papelão. — Sabe de uma coisa? Aqui na Ross também tem calcas femininas. Até mesmo por cima da meia-calça no inverno. Spencer. liderava o grupo de rapazes. tirou a prancheta das mãos de Connor e a abanou com toda força na direção do traseiro de Spencer. — Pode acreditar. sua bunda estava à mostra para quem quisesse ver. de falsa modéstia surgiu em seu rosto. com seu cabelo castanho ondulado encostado no colarinho da camisa. — Não sei onde você arruma coragem. Autumn fechou meu caderno e o devolveu para mim. tentando fazer um vento forte o suficiente para que a saia dela se levantasse ainda mais.Balancei a cabeça negativamente. Connor Hughes. Jamais conseguiria falar uma coisa dessas para uma desconhecida. É claro que era para ser uma piada. Contei a história para Autumn. Natalie. Sabia que isso não era bem verdade. Ergui a sobrancelha. — Ela não é desconhecida.

fazendo com que seus sapatos caíssem no banco. mas foi assim que devorei a série toda de Goosebumps no ensino fundamental. Suas sandálias pretas estavam por cima dos livros. uma senhora de camisola me olhava por detrás da porta de tela. cor de creme estava pendurado em seus ombros. atravessando descalça o gramado. 14 . constrangida. Meus cartazes estavam presos debaixo do braço dela. Ultimamente. Era o primeiro dia oficial de campanha para as eleições do conselho estudantil e eu queria pendurar meus cartazes antes que os outros começassem a brigar pelo espaço na parede. presas às mãos. buzinei junto com a música que tocava entre uma notícia e outra da rádio. Eu sempre fui madrugadora. Quando cheguei à casa de Autumn. Autumn se agachou para abrir o vidro do passageiro e inclinou os livros. mas Autumn adorava dormir. então sempre procurava deixar um livro debaixo do travesseiro quando ela vinha dormir na minha casa. Seu rosto se iluminou quando viu o saco de papel branco. leio apenas os manuais de preparação para o SAT4.Capítulo 2 E u saí de casa supercedo na manha seguinte e peguei dois sanduíches e dois sucos de laranja na mercearia da rua Principal. preferindo dormir vinte minutos a mais em vez disso. Balbuciei uma desculpa. ao lado da minha amiga que roncava. Autumn finalmente apareceu. um par de meias três quartos. — Cuidado! Não amasse! — adverti. Dava para ver que Autumn nem tinha se preocupado com o banho matinal. Do outro lado da rua. — Ooh! Café da manhã! — Sua recompensa por ter acordado cedo para me ajudar! 4 Algo como o nosso vestibular.

O nosso carro foi o primeiro a chegar ao estacionamento dos alunos. tentamos nos lembrar dos slogans divertidos que nos fizeram morrer de rir durante o fim de semana. Durante o restante do caminho para a escola. Eram mais ou menos assim: "Votem na Natalie. Ela deu uma enorme mordida no sanduíche e ficou com um pouco de ketchup no rosto. Sei que era algo que ela deveria fazer por si própria. você tem de deixar isso para lá. Uma pequena parte de mim achou que ela estivesse pensando na idéia. entre uma bocada e outra — significa muito para mim você achar que eu. Não podia forçar minha melhor amiga a se candidatar ao conselho estudantil. — Queria que você fosse minha vice-presidente oficial — disse. sentia-me frustrada. só eram engraçados por causa das ilustrações que os acompanhavam. Senti-me tão tocada pela beleza da escola que só percebi que todas as janelas tinham sido cobertas com um papel branco na metade do caminho. Só que eu não preciso ser vicepresidente para ajudar em todos os seus projetos. Dei um guardanapo para ela. — Natalie. espalhando o orvalho pela grama espessa. jogando os livros no banco de trás. Mesmo assim. — Que estranho — disse. de fato. mas Autumn ficou reclamando que eu havia desperdiçado um cartaz perfeito. Os responsáveis por analisar a admissão na faculdade não se importam se você participou de atividades extracurriculares. se você pode ser responsável por alguma coisa. — Parece que o Kevin Stroop está levando o jogo muito a sério — disse Autumn. Pintei um cartaz escrevendo o nome de nós duas.— Não preciso de recompensa — disse. sou sua gerente de campanha oficial. ela sempre estará por perto!" Contudo. — Olha — disse. baixinho. A idéia passou pela minha cabeça inúmeras vezes durante o verão e no último fim de semana ficamos acordadas até as três da manhã pintando os cartazes. colocando meus cartazes por cima com delicadeza — afinal de contas. Autumn abriu o suco e o devorou em cinco goles. Estou falando de viver na potência máxima. Autumn suspirou ao se jogar no banco do passageiro. o sol nascia atrás dos muros de pedra. Mas isso não é verdade. — Não se trata de comparecer a reuniões. Irei à todas as reuniões do conselho do mesmo jeito que tenho ido nos últimos três anos. É só uma desculpa conveniente para que não seja notada. conseguiria fazer algo assim. prendendo o cinto de segurança com mais força do que necessário. Eles querem ver habilidades de liderança. A Academia Ross estava bonita. Você sempre diz que é o tipo de pessoa que fica por detrás das câmeras. É difícil deixar boas idéias para lá. 15 . Mas então ela mudou de assunto e perguntou: — Quais eram mesmo aqueles slogans engraçados que você criou? Estava tentando me lembrar deles hoje de manhã.

Mas o cara era totalmente desprezível. deixando-o usar a copiadora. Sabia que Kevin não tinha coragem de aprontar uma coisa dessas. — O que vamos fazer com todos os seus cartazes? Ele não deixou espaço para pendurá-los. Era uma folha de papel xerocopiada. Claro. E então pendurei meu maior cartaz bem em cima de vários dos sorrisos de caricatura do Mike Domski. E ele nem se incomodou em arrancar a página adequadamente — o canto inferior esquerdo estava rasgado e ele tinha xerocado com orgulho a margem espiralada que havia sido arrancada. havia várias bolas de futebol flamejantes desenhadas nela. era popular. Embaixo do desenho ele tinha escrito "Domski p/ Prez". Tivemos de impor uma regra severa de apenas uma fatia por pessoa na noite da pizza que fizemos no fim do ano. — Kevin Stroop era o bonitão do último ano e. Vi uma fila de rapazes na 16 . e ela acabou considerando os cartazes contra as regras da eleição. os cartazes de Mike começaram a desaparecer. sim. porém os garotos estavam arrancando de propósito. Abri a porta principal e centenas de pedaços de papel saíram voando com a brisa de outono. Estava contando com uma campanha fácil.. Mike Domski realmente fazia com que as garotas gostassem dele. espalhados pelo corredor.. Bee que a secretária da escola tinha caído na conversa dele. as portas do banheiro. Havia vários outros jogados no chão. mas também porque Kevin tinha cometido um erro idiota de contabilidade que quase nos levou a falência. os quadros de aviso. Um rolo de fita adesiva vazio ficou preso no meu sapato enquanto andava. — Vou ficar tão satisfeita em ver você destruí-lo — disse Autumn enquanto examinava uma das paredes. o desenho não era uma fantasia doentia. meu único concorrente. e. Bee? — Não se preocupe — disse. Os papéis não estavam apenas nas janelas. — Mike Domski — disse em voz alta. Tirei apenas uma das folhas de cima do bebedouro. e ninguém tinha ficado feliz com isso.Mas isso era razão suficiente para alguém como Mike querer fazer isso. todos os armários e isso incluindo o de troféus. Por que Mike Domski está concorrendo para o conselho estudantil? Na verdade. — Eca.— Acho que sim. tive de parar um minuto para pensar — talvez para ajudar a entrar na faculdade? Ou ele está apenas sendo um imbecil? . principalmente por ter sido a vice-presidente ano passado. Não foi isso. Infelizmente. era jogador de futebol. — Você está de brincadeira — Autumn pegou o papel e fez uma careta. dando em cima de garotas burras só para se sentir mais esperto. Isso é ilegal! Você quer que eu vá procurar a Srta. A escola inteira estava coberta por eles. E parecia que essa moda estava começando a pegar. Até a hora do almoço. pelo que eu soube. Talvez tivesse chegado aos ouvidos da Srta. e uma caricatura de Mike Domski fumando um cigarro ao lado de duas garotas de seios fartos usando biquínis.

se ele não estivesse agindo como um completo cretino. fazendo sinal de positivo com as duas mãos e gritando algo como "minha péssima caligrafia". Durante o restante da semana. Aproximou-se todo cheio de pompa da nossa mesa. Ela estava tremendo inteira. Ele entraria em uma faculdade medíocre. Olhei para ela esboçando um sorriso. Mesmo assim. Alguém ia dizer aquilo no nosso 17 . começando com doravante e concluindo com assim seja. E então. naquele momento. As bochechas de Autumn ficaram vermelhas de raiva. Mas Autumn odiava ver o Mike tirando sarro de mim. Não consegui me mexer. e exigindo que as pessoas o chamassem de Prez. finalmente compreendi que jamais aconteceria.lanchonete pedindo para que Mike autografasse os cartazes. na cara do imbecil. batendo com tanta força na mesa que meu refrigerante caiu por toda a folha do laboratório. para ela era muito pior. e rezava para que ela se lembrasse de respirar. e certamente não temos nenhum amigo em comum. fiz o que pude para ignorar Mike Domski. Meu coração ficou partido ao ver como Autumn era uma boa amiga. perderia todo o dinheiro em um daqueles esquemas da internet de ganhar dinheiro rápido. Se já era difícil para qualquer pessoa fazer algo do tipo. fazendo decretos ridículos em linguagem arcaica. Não foi difícil. Dava para vislumbrar o futuro totalmente deprimente escrito bem ali. Eu até sentiria pena de Mike Domski. pois eles seriam "valiosos" algum dia. Ele não participa de nenhuma das aulas do grupo avançado. levantou-se com tudo. observar a sua maneira artificial de gesticular sobre a candidatura me deixava louca. quando Mike ficou bem embaixo de um dos cartazes que havíamos pintado juntas. Só sentia o silêncio que emanava dela bem ali. Mas. Sempre me perguntei quando o restante da escola ia entender que a piada não tinha mais graça. Mas eu fiquei calma e controlada. O que basicamente me deu vontade de vomitar. — Deixe-a em paz — disse. Ou talvez eu apenas tivesse esperança de que isso um dia acontecesse. sem aviso prévio. enfatizando cada palavra em uma voz tão brava quanto alguém tão doce como Autumn consegue pronunciar. Nem me incomodava muito com aquilo. isca de peixe! Não tinha sentido seu cheiro por aqui! Aquelas palavras sugaram o oxigênio de toda a lanchonete. mesmo quando Mike se dirigia diretamente a mim. cortando um pedaço de gordura sem parar com um garfo de plástico que estava prestes a quebrar diante do seu toque mortal. Ela não tirou os olhos do bife. e parou bem na frente dela: — Ei. Não consegui olhar para Autumn. O ensino médio era o melhor que Mike Domski ia conseguir na vida. Também o modo como ele se comportava. Provavelmente porque eu era uma das raras pessoas na Academia Ross que viam Mike como ele realmente era: um cabeça de bagre completo que fazia tudo para arrancar risadas do público. chocada pela sua coragem de dizer alguma coisa. eles a deixavam com muita raiva. se apaixonaria por uma dançarina grávida. Como dessa vez na lanchonete. à distância. Mike reagiu como se Autumn tivesse aparecido de súbito. fingindo surpresa e medo. ao meu lado. refletindo o bife mal passado em seu prato. e não importava o quanto os insultos eram idiotas. aspirando o ar como se fosse um cão de caça guiado pelo cheiro.

algo com que vinha sonhando e trabalhando nos últimos três anos? Os olhos de Autumn se encheram de lágrimas. Mas. por dentro eu entrei em pânico. Procurei o objeto mais próximo e o atirei em Mike. e teve até quem achou graça. 18 . molho de tomate e flocos de pimenta em sua camisa antes de cair com tudo nos sapatos de veludo marrom. colocando nossas coisas na minha mochila. Vou te dizer uma coisa. — Opa! — disse com minha voz nada ressentida. A raiva cresceu dentro de mim como lava. e Autumn teria de explicar a situação ao marido dela. resoluta. Mas tenho certeza de que há uma seção inteira sobre as regras da eleição e esse tipo de coisa pode desqualificar um candidato. Natalie. — Você não tinha que me defender — resmunguei. Era o meu pedaço de pizza. aquilo não teria acontecido. Bee me deu. — Que é isso! — disse. Vou morrer se você for desclassificada! Autumn andava tão devagar que a segurei pelo braço e a empurrei pelo corredor.encontro de vinte anos de formatura. — Droga! Sabe de uma coisa? Joguei fora o manual do conselho estudantil que a Srta. Se ela tivesse ignorado Mike como eu. Revirei os olhos quando Mike foi embora. pelo resto de nossas vidas. Mike entortou os lábios. — Vamos para a biblioteca. Isca de peixe arrancaria a risada de alguém. — Sinto muito. Será que tinha arruinado tudo apenas para defender a honra de Autumn? Será que tinha dado a eleição inteira de bandeja para Mike Domski. e pegou bem no meio do peito dele. Ela balançou a cabeça e disse. — É isso o que melhores amigas fazem. E era extremamente injusto que alguém como Mike Domski jamais compreendesse o quanto aquelas palavras haviam destruído a minha bela amiga. Natalie — ela sussurrou — espero não ter te colocado em encrenca. em algum lugar. Alguns respiraram fundo. Não queria que ela se humilhasse mais ainda. vou ver se ela tem mais um para me dar e conto para você. — Autumn enxugou os olhos com uma das mãos e com a outra apertou a minha com força. Era fácil demais. da mesma forma como eu sempre apertava a dela. na verdade. Malvado demais. deixando uma marca triangular de óleo.

por causa do cloro. pois toda aula terminava com uma corrida de pranchinha. Autumn freqüentava a Academia Ross desde o maternal. Embora eu provavelmente fosse a nadadora mais rápida da piscina. Autumn e eu nos conhecíamos há séculos por causa da natação. Era porque Autumn era a nadadora mais agitada da piscina.. Tínhamos 6 anos quando nossas mães nos matricularam. Eu sabia bem que Autumn e eu não tínhamos chance alguma. reclamei. e escutei obrigada um milhão de vezes. Também era surpreendentemente boba.. Uma vez.E E E Capítulo 3 N ão sou o tipo de pessoa que procura encontrar o lado positivo em todas as coisas. como o interior de uma casca de limão. dividi minha toalha com ela. Os cabelos loiros eram claros. Gostava da forma como flutuavam na água. pois ela havia esquecido a dela. e iam até a cintura. soltava um jato de água. Mas não foi só por isso que prestei atenção nela. e os vencedores podiam escolher uma bala no enorme pote de balas que ficava no escritório. Só que aquelas coisas não faziam de nós amigas. Quando o salva-vidas nos colocou em dupla. e observava com total fascinação o jeito como ficavam verdes durante as aulas. Ensinou-me um jeito de fechar a mão na piscina que. e não tivemos mesmo. Eu até teria ficado brava. mas é inegável que uma coisa boa resultou do original fracasso da isca de peixe: ele salvou a minha amizade com a Autumn. nunca consegui ser rápida o suficiente para compensá-la. apenas garotas que nadavam juntas. Meus pais trabalhavam em empregos que exigiam muito deles — a mamãe tinha uma empresa 19 . quando apertada com forca. Ela espalhava mais água do que qualquer outra e sempre parecia estar meio aflita. mas eu ia à escola pública. Mas Autumn era tão legal. Prestei atenção nela logo de cara. então nunca a tinha visto antes. Nunca conseguimos uma balinha sequer.

Foi só na última aula. Autumn meio que foi puxada por mim. Eu não estava com medo. talvez porque todas elas usavam maiô de duas pecas e um salto daquela altura faria com que a parte de cima saísse. quando o salva-vidas nos deixou pular do trampolim mais alto. mas estava escondida lá no fundo. Eu tinha uma coleção de ursos de pelúcia que ficavam em uma rede de nylon pendurada em cima da minha cama e chorei como um bebe quando Christopher Clark jogou em mim uma cobra de jardim que tinha encontrado atrás da garagem. mas a sensação era de que nunca mais iríamos parar de subir. rindo do estilo de natação dos garotos que se movimentavam como ninjas ou gritavam como o Tarzan. como se a aula de natação fosse um aquecimento para a diversão que viria em seguida. Adorei ver como ela testava a si mesma. no ensino fundamental II. Autumn era como água com gás. Tantas pessoas a cumprimentavam nos corredores. tossindo muito. mesmo antes de conseguir me secar direito. Ela saiu da piscina nadando cachorrinho. Autumn ficou paralisada de medo. e eu entrava no carro. Ela falava que eu era a pior manicure do planeta e que conseguia fazer as unhas melhor com a mão esquerda do que eu com a direita. gritando o percurso todo e ficando com a água ate o nariz quando afundamos. Eu a segui. Eu sempre soube disso. Mas. mas assim que me transferi para a Academia Ross. Mas antes de Autumn. Principalmente porque nenhuma das outras garotas ia subir. Não havia nenhuma na minha rua. Ela aparecia na minha casa de saia e sandália. Elas ficaram na parte rasa. vi com que facilidade Autumn fazia amigos. e decidi ficar sentada ao lado dela pelo resto da aula.de arquitetura e o papai um consultório oftalmológico. Autumn foi correndo para a escada e continuou pulando sozinha. um pouco mais longe. já ia fazendo planos de brincar com uma das garotas. Assim que nossas mães chegaram para nos buscar naquele dia. Eu não era levada. nunca tinha feito amizade de verdade com uma garota. Lembro-me de me sentir com sorte por ter me 20 . Autumn e eu éramos definitivamente uma dupla estranha. E toda vez saltava um pouco mais alto. nos apresentamos como melhores amigas. com uma sensação péssima. Eles sempre chegavam exatamente às 14h55. leve e borbulhante. Com Autumn era diferente. eu pulei. mesmo eu tendo avisado que queria tentar fazer com que os garotos do quarteirão nos convidassem para brincar polícia e ladrão. Lá no topo. tive a certeza definitiva. nossos dedinhos enrugados se entrelaçaram com firmeza e eu contei até três antes de pular. Pela primeira vez. É claro que as roupas que eu vestia vinham do meu primo Noah. muito mais fácil que eu. Autumn tinha muita coragem. que Autumn e eu nos unimos de verdade. mas eu a forcei a subir a escada comigo. Bem. Tudo aquilo de que ela precisava era um empurrãozinho meu. em vez disso. assim que saía da piscina. mesmo que não fôssemos para a igreja ou jantar fora. mas às vezes eu até usava um vestido de verão.

cortesia do kit de bijuterias de Marci. Naquela época. Marci vinha tentando interferir na minha amizade com a Autumn há meses. Fazíamos charadas na hora do jantar. Ela era convidada para noites do pijama. Foram sete dias de pura tristeza para mim. estava na casa dela praticando um diálogo para um projeto de Francês quando Chad ligou e a convidou para encontrá-lo com alguns amigos perto do Liberty River. mas creio que a promessa de uso de Jet skis. Acho que esse tipo de competição devia ter me preparado para o Chad. os outros garotos do quarteirão não eram mais amigos. E ela usou as contas mais legais — esferas de vidro lilases alternadas com pedras brilhantes furta-cor com o formato de minúsculos grãos de arroz. Eu não tinha mais ninguém. não era páreo para Chad. mas definitivamente me deixava mais esperta do que a maioria das pessoas que conhecia. e esse tipo de coisa permeava tudo o que fazíamos em família. Tínhamos o nosso rádio da cozinha sempre sintonizado em estações culturais. Eu não neguei. eram só rapazes que se sentiam estranhos quando estavam por perto. Ele deixava Autumn completamente hipnotizada. E nossas viagens em família eram para centros científicos. fervia de raiva. Fiz minha mãe me levar à biblioteca quatro vezes. Dividíamos o jornal de domingo. Nem falávamos sobre eles. Ainda guardo algumas na minha caixa de jóias. Claro que não intencionalmente. Ela fez uma cara de decepção e então me explicou que tinha aceitado um convite da Marci Cooperstein para passar uma semana na casa dela no lago. mais bronzeada do que jamais a tinha visto. Havia sempre garotas que queriam sentar ao lado dela na hora do almoço. podia sentir que ela estava se distanciando. Usei até quebrar. Talvez isso fizesse de mim uma pessoa entranha. Toda vez que Marci via a pulseira. Com sorte e um pouco assustada. Os rapazes não faziam parte da nossa equação. Eu tinha convidado Autumn para ir comigo e minha família a um show de laser no planetário. Quando Autumn voltou. churrascos e beliches era demais para resistir. dormiu na minha casa por quatro dias seguidos e me deu uma pulseira da amizade que fez especialmente para mim. Mas acho que dizer não aos convites e tentar conseguir para mim convites de piedade já estava ficando meio ultrapassado para nós. pois tudo o que eu fazia era sentar no meu quarto e ler. e então recolhi todas as contas que consegui encontrar. Eu levei na boa. Isso pode até parecer estranho. Autumn se manteve distante de Marci. Autumn 21 . Uma vez. mas não foi o que aconteceu.tornado amiga dela antes. Mas inteligência não necessariamente abre caminhos no ensino fundamental. E apesar de saber que podia competir com as Marci Coopersteins da vida. expedições de fósseis ou monumentos históricos. Apesar de Autumn sempre ficar comigo. mas ela disse isso de uma maneira muito mais educada e gentil. mas a nossa amizade tinha essa estranha inocência atemporal. Autumn explicou que às vezes eu era meio sabe-tudo. mas por dentro estava fervendo. Meus pais eram do tipo intelectual.

) 22 . mas ela amassou o bilhete e jogou no vaso sanitário. Idiota. definitivamente. E tomei seu lugar com muita alegria. Andava na frente de Autumn. e até mesmo algumas garotas ficaram muito metidas e subitamente passaram a ser boas demais para serem suas amigas. Acho que algumas pessoas tinham medo de mim. Seguimos por um caminho de terra. tomando cerveja e soltando a fumaça do cigarro no céu do anoitecer. Disse à Marci que ela era patética. Depois de algumas curvas e voltas. Fiquei feliz ao ver como ela ficou animada pelo fato de querer acompanhá-la. Para todo o restante da escola. "Voce certa de estar brava comigo". 5 Meriwether Lewis e William Clark formavam uma dupla de exploradores que liderou primeira grande expedição exploratória do continente norte-americano. Pensando bem. Mas rapazes mais velhos. com posterior retorno. Autumn sabia que eu estava fingindo. cheio de lixo e bitucas de cigarro. Estava entusiasmada a ponto de gentilmente me encorajar a usar um de seus casacos e passar um de seus batons. Achei que a tivesse perdido. partindo do leste e indo em direção ao oeste até a costa do oceano Pacífico. Marci pediu desculpas para Autumn em um bilhete escrito durante a aula de coral. Bem na frente de Autumn. exagerei. e me deixou voltar para casa sozinha. (NT. Depois disso. chegamos a uma pedra enorme. ela ficou marcada. Éramos as únicas garotas por lá.supôs que eu não quisesse ir. Nunca senti tanto orgulho dela. Então aconteceu o incidente da isca de peixe. mas Autumn caminhava como se ela fosse ao mesmo tempo Lewis e Clark 5. assentada em meio à água prateada. Depois de dez minutos. usando o campo de força da melhor amiga para distraí-la dos fungadores e das caras de nojo. escuridão e mata cerrada estavam muito além do meu domínio. mas disse a ela que queria. Fiquei bem desnorteada apesar de conseguir ouvir o rio. Fiquei conhecida como a nerd com intensidade assustadora que fazia qualquer coisa para proteger a isca de peixe. Os garotos tinham nojo dela. Marci até chegou a rir algumas vezes das piadas que as pessoas faziam. Algumas semanas depois. Alguns rapazes estavam sentados nela. fingi estar passando mal. Marci escreveu. Autumn mostrou para mim. Tive uma sensação esquisita quando Autumn pegou na minha mão e desviamos da calçada para um caminho estreito na mata. Achei que Autumn escreveria de volta para Marci. e eu fui a única pessoa que ficou ao lado dela. ela só convidou Marci. Estava cheio de erros gramaticais. ou começava a falar bem alto sobre absolutamente nada. cerveja.

Depois de Chad Rivington.Com a minha ajuda. e naquele primeiro semestre do primeiro ano quase repetiu por causa do estresse com tudo o que aconteceu. conseguiria escolher a faculdade de sua preferência. Juntas. canalizamos nossa energia para o estudo. O que era tudo que sempre quis ser. e. Autumn nunca foi uma ótima aluna. contanto que não fizesse nenhuma besteira no SAT. Levávamos o almoço para a biblioteca e estudávamos ou fazíamos lição de casa juntas. E eu. Isso a salvou de várias desilusões inúteis. Autumn nunca mais teve outro namorado. Mesmo assim. tudo isso apenas me permitiu ser uma boa melhor amiga. mas entrou na lista das honras comuns da escola. bem. Eu até consegui incluí-la no conselho estudantil. Autumn transformou o lado negativo em positivo. 23 . para começo de conversa. Autumn não se saiu tão bem a ponto de conseguir freqüentar as aulas avançadas.

desenhado dois pênis enormes (um em cada uma das minhas mãos) e vários pontos de interrogação flutuavam sobre a minha cabeça. mas não ficaria assim por muito tempo. Seus cabelos brancos espessos eram cacheados na altura da testa. Ele havia feito um bigode em mim. Mike (obviamente) pegou uma caneta e fez alguns rabiscos às minhas custas. resolvi ir direto ao escritório da Srta. Mas o ataque dele era pior do que qualquer mancha de óleo. Bee estava em sua mesa. com a fita adesiva original ainda presa a ele. E a palavra não vinha bem apertadinha antes de experiência. Depois de pular algumas vezes em uma tentativa desesperada e sem sucesso de alcançar o cartaz. o mesmo cartaz estava pendurado próximo ao escritório central. As salas de aula ainda estavam trancadas por causa do fim de semana. Bee. líder com experiência". é claro.N N N Capítulo 4 N a segunda-feira. Ela tinha uma pilha de papéis e 24 . uma trança com contas de vidro vermelhas e turquês. Sabia que ele ia querer me envergonhar da mesma forma como eu o envergonhei. Era degradante. parecendo a crista de uma onda do mar. a Srta. bonita e esbelta e estava usando um vestido solto preto. 0 corredor estava vazio. achei um dos meus cartazes preso na parede acima do meu armário. Possuía a minha foto segurando uma jaqueta em cada uma das mãos durante a doação de casacos para o inverno do ano passado e dizia: "Vote em Natalie. Eu esperava uma retaliação por parte do Mike Domski depois do incidente da pizza na sexta-feira. assoprando a fumaça que saía da xícara de cerâmica que tinha em mãos. Bee era bronzeada. então não dava para pegar uma cadeira. Na sexta-feira anterior. Apesar de ter 60 e poucos anos. Ele riscou a palavra líder e escreveu virgem por cima. A Srta. caindo nos ombros. e fivelas de couro cor de mel. andando tão rápido que minhas meias três quartos começaram a escorregar.

pastas à sua frente. Eu sempre quis impressioná-la. Ela complementava as palestras com fotos pessoais. Tinha ódio por Mike me dar nos nervos dessa forma. e os guardou em uma bolsinha de seda. Mas você deve se manter forte e equilibrada assim como tem sido nos últimos três anos do ensino médio. Levou alguns segundos e uma pequena tossida fingida para ela perceber a minha presença. — Sim. até mesmo as eletivas. Domski sentem-se intimidados por mulheres poderosas. eram incrivelmente interessantes. os alunos iam começar a chegar e olhariam para o cartaz. — Você tem certeza de que foi ele? — Sim — disse. é verdade. mas estava com medo demais. Que bom. devo admitir que estou feliz em ouvir essa história do cartaz. tinha feito exatamente o contrário. — Garotos como o Sr. — Apesar de você estar chateada. sentindo meu rosto queimar — mas sei que foi Mike. olhando para o relógio na parede bem acima dela. Bee. que eram bem mais difíceis do que as outras. — Posso to dar um conselho de amiga. inclinando-se até sua cadeira ranger. cuja armação era preta e angular. Ela tirou os óculos. — Entendi — disse a Srta. — Você o viu fazendo? — Não — respondi. A Srta. Todo semestre. E feche a porta. Bee olhou para cima e disse: — Natalie. como o Vietnã e os anos de 1960. Bee colocando a xícara na mesa. rindo de mim. Se não agíssemos rápido. como cerâmica. 25 . — É verdade que você jogou um pedaço de pizza em Mike Domski sexta-feira passada? — Meu queixo caiu. mas já que Mike Domski também decidiu percorrer um caminho não tão digno nessa campanha. de garota para garota? — Fiz que sim com a cabeça. E agora. A única forma que ele tem de diminuir você é simplesmente o fato de você ser mulher. Contudo. com recordações e até lia trechos de seu diário pessoal. Queria falar com você hoje. graças a Mike Domski. as infrações podem ser canceladas mutuamente — disse. deixava minha orientadora louca preenchendo formulários para que pudesse freqüentar todas as aulas de história ministradas pela Srta. E ele escreveu coisas terríveis sobre mim — pensei em contar a ela que tipo de coisas. então fiquei em pé no escritório com a maçaneta pressionando as minhas costas. Estava muito brava para me sentar. Natalie. — Mike Domski desenhou em um dos meus cartazes — minha voz tremia. Não deve permitir que ele ganhe a eleição de você. e eu parecia uma criancinha. Entre. Estava preocupada com o fato de talvez ter de puni-la.

Mike só conseguia recorrer a golpes baixos porque eu o superava em todos os outros aspectos. isso nem chegava perto do que eu sentia naquele momento. acho que seria uma ótima experiência formativa para você. na verdade. Achei uma lata de lixo vazia que pudesse ser virada para que eu subisse em cima para alcançar o cartaz e retirá-lo. A pessoa que administra a conferência foi minha colega de quarto durante o mestrado. a manhã começava a chegar ao auge da agitação. — Haverá uma conferência de liderança para jovens mulheres em Boston durante o feriado da primavera. Mas não precisei fazer isso. Mas. e pode ser que eu consiga um desconto para você. — Obrigada — respondi. Bee abriu uma gaveta e começou a procurar por algo. Caminhei até o meu armário com a cabeça erguida. mas isso simplesmente não seria verdade — ela me entregou um panfleto brilhante. O corredor começou a ficar cheio de alunos. A Srta. Alguém tinha passado na minha frente. Se você ainda não fez as malas para Cancun. Vai tratar exatamente desse tipo de desafio.Uma onda de energia tomou conta de mim. 26 . Bee estava certa. — Queria poder dizer que você não vai encontrar um milhão de outros Mike Domskis durante a sua vida. No mínimo é uma oportunidade de se relacionar com algumas das mulheres mais incríveis e inspiradoras no auge de suas carreiras. A Srta.

Natalie Sterling chorando por causa de uma eleição do conselho estudantil. mas eu não saía do lugar. recusava-me a dar a Mike a satisfação de me humilhar na frente de todo mundo. 27 . apertando as mãos de Mike. Ia me proibir de chorar caso perdesse. Eu me afogaria por dentro antes de permitir que uma única lágrima rolasse pelo meu rosto. nem um centímetro. Isso seria exatamente o que ele iria querer. Parecia que a escola inteira havia se reunido ali para ouvir o resultado. parecendo uma mancha caqui. Por mais difícil que fosse. Várias outras vozes uniam-se ao coro. Em um mundo perfeito. pois é assim que um perdedor educado faz. sentei-me no meio de Mike e Kevin em frente a biblioteca. dando-me a maior coceira. Vislumbreime tendo de sorrir. Mas Mike Domski tinha muito mais amigos que eu. Rapidamente tentei me preparar. Minha saia de preguinhas espetava minhas coxas. muito mais. Ele fazia de propósito. estavam úmidas e frias. Não queria arriscar tocar em Mike acidentalmente. Connor Hughes sentou-se na fileira da frente. e o assoalho rangia tão alto que soava como um golpe em minha testa. essa competição não existiria. mas Mike estava tão dolorosamente próximo que os braços das nossas cadeiras conseguiam se tocar. nem mesmo que nossos uniformes se tocassem. é óbvio. Kevin estava um pouco mais distante.Capítulo 5 N o dia da eleição. caso as coisas não saíssem do meu jeito. qualquer coisa para me irritar. virando-se quando alguém atrás dele começava a cantar. O candidato mais qualificado venceria. Dom-ski". "Dom-ski. com a gravata solta ao redor do pescoço. O ambiente todo ficou barulhento e subitamente tive dificuldade de engolir a bala que estava em minha boca. Sua perna esquerda pulava para lá e para cá. Esfreguei as mãos nas pernas.

assim nem tentaria me convencer a ficar. e ele esfregou o queixo com a barba por fazer. ela não desejava que a minha participação custasse a minha dignidade. Bee em vez de falar pessoalmente com ela. o que me deixava preocupada por razões óbvias. Quando nossos olhares se cruzaram. batendo no colo estou até sentindo uma movimentação bem aqui. Não queria isso. Mike Domski queria me ofender. Natalie. que mantinha seu olhar preso ao chão. Só estou brincando com você — falou. ela acenou e me mandou um beijo. esboçando um sorriso major. — Tenho de dizer. — Você jamais me deixaria de pau duro. não havia meio de lidar com isso. Kevin ganhava tudo. Você é como um. E eu teria feito isso se não fosse a Srta. Precisei de todo o meu autocontrole para não lançar a maior e mais tímida cusparada bem no meio dos olhos dele. E para mim. Seu cenho parecia mais cerrado do que o comum. Apertei os lábios e o ignorei. — Nervosa? Mike me olhava de forma presunçosa. Não ia fazer isso comigo mesma. ou ele não estava nem ar em ver um cara que dizia coisas repugnantes para uma garota. Podia até ter sido uma estratégia de campanha. Bee ficaria desapontada. com a mão levantada chacoalhando um pedaço de papel — Muito bem! Obrigada pela paciência de todos! Vamos lá! Spencer apareceu na porta ao lado de outras garotas. claro. Bee estava sentada no escritório da biblioteca. E por mais que soubesse o quanto a Srta. deixa disso. A raiva percorria todo o meu corpo. Eu podia dar conta disso sozinha. Olhei para Kevin Stroop. Dava para vê-la pelo vidro. um gesto mais constrangedor do que 28 . o que foi bem mais curto do que a resposta dura que esperava dar a ele. suas sobrancelhas grossas como taturana encontravam-se no meio da testa. — Ei. então segurei firme os braços da cadeira. — Pare de falar comigo — disse. Ele tentaria fazer de mim sua secretaria particular. Enquanto Mike e eu brigávamos. O ruim seria ter de sair do conselho estudantil. seu nível de intensidade é ardente — disse. Bee movimentando-se em meio à multidão. É claro que Mike não ia se incomodar em barbear-se para o dia da eleição. A Srta. absolutamente. O mais provável era que Kevin tinha medo de Mike Domski. de cabeça baixa. Antídoto para o tesão. Não que eu precisasse que Kevin me defendesse. mas o que mais poderia fazer? Decidi que a melhor atitude seria escrever uma carta de demissão à Srta. alguém em quem pudesse mandar.. Eu sabia o que aconteceria: Mike ficaria entediado com toda a responsabilidade e o trabalho e jogaria tudo para cima de mim. mas eu duvidava disso. contando as cédulas.Perder nem seria a pior parte. Natalie.. e o melhor que conseguia fazer era me chamar de feia. Sentei-me ereta e tentei manter contato visual. Um sorriso passou pelo rosto dele.

Todos os amigos dele estavam ouvindo. com um sorriso que revelava uma ambição descarada e indesculpável. Sorri para Martin para parabenizá-lo. Sabia que minha camisa branca estava com enormes marcas de suor na parte das axilas. E eu estava adorando cada segundo. impedindo a passagem da multidão com a sua enorme mochila.. que batia louca e aceleradamente. e ela gritava o máximo que conseguia. tivemos o resultado mais apertado da minha história como orientadora. e ele me retribuiu com um olhar de preocupação que me rachou ao meio. Esperei. exceto o meu coração. e espero que aproveitem esse entusiasmo para se inscrever em pelo menos um de nossos comitês. Senti a semelhança logo de cara. De algum lugar do fundo da sala. — É maravilhoso ver tantos de vocês interessados no conselho estudantil este ano. Creio que achou minha comemoração engraçada. — E na eleição para o nosso novo presidente do conselho estudantil. A Srta. mas eu não estava nem aí. Percebi que Mike estava de pé com seus amigos. por apenas alguns votos. em que os retratos dos antigos presidentes do conselho estudantil da Academia Ross estavam pendurados. Um sorriso vazio congelava em minha face enquanto ouvia os nomes dos vencedores. Martin Gedge. Mas Mike não conseguia esconder sua repulsa. sorrindo tanto que até doía. 29 . Dipak Shah. como não consegui. — Você não vai me parabenizar? — disse no tom mais sarcástico que consegui. sem parar. Nossa primeira reunião será na segunda-feira. como tesoureiro.reconfortante.. Connor sorriu para mim. Separei-me de Autumn e fiquei bem na frente dele. O cheiro apimentado do seu perfume me reconfortava. Todo mundo. fiquei olhando para a parede à esquerda. Autumn veio rapidamente em minha direção. Tentei encontrar o rosto de Autumn no meio da multidão. Não que isso tivesse importância. O cabelo dela estava na frente do rosto todo. David Goss ganhou como secretário. como vice-presidente. Bee ficou na frente da biblioteca. Levantei-me. Pulamos para cima e para baixo. gritando e rindo. mas. A biblioteca abafada sentia o morno aplauso das pessoas que esperavam pelo evento principal. nós duas. A Srta. Depois de rapidamente prender meu cabelo em um rabo de cavalo. Bee pigarreou e o local ficou em silêncio. O vencedor. A maior parte era composta de retratos de garotos de blazer. Só havia algumas garotas. Alguém dentre os simpatizantes de Mike começou a vaiar. Tudo quieto. todas carrancudas. nada de sorriso. Connor Hughes. é Na. e eu não consegui ouvir o restante do meu nome. Autumn me abraçou com muita força. só um pouquinho. e balançamos tanto que quase caímos no chão. estendi a mão e esperei o aperto de Mike.

Como todos aqueles momentos que alteram a nossa vida devem ser: fáceis. Srta. Autumn me tirou de perto e perguntou: — Tudo bem. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa. mas ainda havia vários alunos que ficaram por perto para me parabenizar.Mike olhou para a minha mão e tirou sarro. tão Belo. A biblioteca começava a esvaziar. Presidente? — e começou a massagear minhas costas como se fôssemos lutador de boxe e treinador depois de uma longa luta. Como o destino. O momento pareceu-me tão adequado. — Parabéns por ser o tipo de fracassada para quem esse tipo de coisa é realmente importante. 30 .

31 . alguns dias eram quentes como o verão e outros frios como o outono. uma sexta-feira típica – alugaríamos algum filme da nossa lista (estávamos tentando completar a lista dos 100 melhores filmes da AFI 6 que eu havia recortado e plastificado com todo critério no escritório da minha mãe). Senti-me um pouco mal. pelo menos para ela. Além disso. e os trailers dos filmes eram em francês e italiano. Era para ser. uma organização independente e sem fins lucrativos de filme. Não que eu precisasse me arrumar. uma blusa preta de gola careca e as pequenas pulseiras prateadas que a vovó me deu quando fiz 16 anos. não era o próximo filme da nossa lista. pois vestia uma saia de veludo vermelha. Só que eu tinha ouvido no rádio durante o café da manhã que Um Bonde Chamado Desejo estava passando em um pequeno cinema independente em uma das cidades vizinhas. fui buscar Autumn. Uma cortina de veludo vermelha escondia a tela até um pouco antes de o filme começar. tudo parecia melado. Mesmo com o ar-condicionado do carro ligado. naquela noite. Buzinei e Autumn veio correndo de jeans e um agasalho que eu havia comprado para ela em uma das minhas visitas às faculdades. Eles serviam vinho e petiscos. mas esse cinema. depois máscaras faciais ou manicure e então por qualquer programa sem graça na televisão que assistiríamos até cair no sono. O tempo em setembro sempre nos deixava sem saber. era muito diferente do complexo dentro do shopping Center Summit. considerando que eu tinha ganho a eleição há apenas algumas horas. Na verdade. seguida por lanches. 6 American Film Institute.Capítulo 6 M ais tarde. mas a chance de ver um deles na tela grande era excitante demais para deixar passar. tornaria a noite especial. como pipoca caramelada e barras de chocolate. em particular.

Nem me diga! Nós vamos festejar! – disse ofegante.Então. sorrindo. Não estávamos nada perto do cinema. Apesar de não querer estragar a surpresa.. Suas palavras não fizeram sentido para mim a princípio.Autumn soube que eu estava aprontando alguma coisa assim que me viu. expliquei o que havia planejado. provocadora. Tentei parecer animada ao descrever os petiscos sofisticados e a cortina de veludo. . Reconheci alguns por causa dos adesivos da Academia Ross. mas Autumn não pareceu interessada. não é isso que nós vamos fazer hoje à noite? – disse ao mesmo tempo em que a excitação se esvaía de seu rosto. A música vinha de uma pequena casa da rua. animado pelo alívio de ter ganho a eleição e pela surpresa de Autumn. estacionados com pressa. apinhada de gente. o meu rádio patético estava tão alto que os falantes chiavam. De qualquer forma. Balancei a cabeça e disse: . Tive de descer das nuvens e olhar ao redor para entender. – Aonde vamos? . como se o estoque de cerveja fosse acabar a qualquer momento.Você tá de brincadeira? – Como é que Autumn podia imaginar que eu a levaria a uma festa? . Autumn não parava de tentar adivinhar quais eram os nossos planos. ela estava sempre bonita.Não se preocupe. você está ótima. Decidi pegar a estrada secundária e deixar Autumn sem saber – um labirinto repleto de montanhas e ruas sinuosas que faziam nossos estômagos revirar. Balancei a cabeça. apontou para um lugar pela janela e ficou toda animada. Então. Não parecia que estávamos dentro do carro.. Sentia meu coração leve. mas se Autumn era tão lenta para se arrumar para a escola. mas eu acelerava na hora certa. Havia carros por toda a extensão do acostamento. – O que está acontecendo? – ela perguntou. Algumas pessoas estavam conversando no gramado. cobertos pela folhagem de outono que ninguém havia se importado em recolher.É segredo – respondi. Ela não parava de olhar para a rua enquanto passávamos pela casa em que havia a festa. quem diria quando tinha de realmente escolher uma roupa para sair. cantamos todas as músicas que tocavam. . 32 . tínhamos a sensação de estar flutuando. É melhor eu trocar de roupa? Eu devia ter dito sim. Tudo o que eu consegui dizer foi: . Juntas.Mas você está tão bonita.

E se a gente simplesmente entrar? .Uau. Em vez disso. Se havia uma coisa no mundo todo que eu não queria fazer era aparecer de surpresa em uma festa de escola para a qual não tivesse sido convidada. . dando a Autumn a chance de mudar de idéia. Para deixar todo mundo louco? Não no mau sentido. Pisei no freio o mais rápido e forte que pude. mas eu estava preocupada com o fato de Autumn tentar sair correndo para a casa se parássemos para ver o garoto e eu acabasse tendo de correr atrás dela. Seríamos como.Ei. . Não conseguia acreditar nas suas palavras. Não ficaria ali esperando.Finalmente. . nunca fomos juntas a uma festa antes. acenou e fez sinal de positivo com as mãos.. nem mesmo olhou em nossa direção. vomitando em um arbusto. cheia de pessoas de quem nem gostávamos. abriu o vidro e esticou o corpo para fora para sentir a música que a brisa trazia. e parece ser algo que provavelmente devêssemos fazer antes de nos formarmos. ―Acho que sim‖ era uma resposta suficiente boa para mim. está tudo bem? O garoto não disse nada. certo? E você está tão bonita hoje.Podemos ir agora? . dizendo: . Então. Então. ela se virou para mim e disse: . Celebridades ou convidadas especiais ou algo assim. Virei-me para Autumn. depois trancar as portas. Sem falar que eu tinha feito planos melhores para nós.Por que faríamos isso? . Você aí. Autumn gritou quando eu pisei no acelerador.Não sei. Além disso. desligou o rádio. vomitando.. Mas nem precisei explicar tudo isso. Ainda tínhamos um bom tempo para chegar ao cinema. não acha? Olhei para o relógio.. O que fiz foi apontar para um garoto que estava ajoelhado na calçada. fazendo com que o carro parasse de 33 .. parei o carro e abaixei o vidro. rabugenta. Parece mesmo que estamos perdendo a maior diversão.Devíamos estacionar para ver se ele está bem. achava que seria recebida de braços abertos. E Autumn estava iludida.Acho que sim – ela disse.

Paul Zed e James Rocker. . Autumn ajeitou-se no banco. . Quatro garotos bêbados estavam paralisados na frente do meu pára-choque. Mike Domski.Obrigada pela dica – disse com sarcasmo. Meu batimento cardíaco começou a diminuir. .Deixa para lá – disse Autumn. apontando para a escuridão.repente. não há problema algum em ser 34 . então pisei fundo no acelerador. Alguém todo desarrumado deu alguns passos em nossa direção. Os olhos dele eram azuis e lacrimejavam por causa da bebida e por estar fazendo sei lá o que mais. Nossos olhares se cruzaram por uma fração de segundos. mano!‖ Mike Domski jogou uma cerveja de lado e começou a subir no meu capô. sentindo minha mão tremer ao apertar a buzina. bufando de raiva: . . Deus! Estou tentando! Depois de fingir ter levado o meu Honda ao orgasmo. A movimentação dos rapazes iniciou-se com uma risada barulhenta ao perceberem que tinham acabado de escapar da morte.Sabe. Scott Philips. forçada a testemunhar sua comemoração embriagada. Eles se abraçaram mutuamente e disseram em coro: ―Caramba. apenas a noite. Os dedos estavam enroscados nos buracos do casaco.Tem certeza de que você não quer ir? . Ele parou para ver dentro do meu carro com um olhar de curiosidade. Autumn virou-se em seu lugar. fazendo movimentos sexuais. O cheiro de borracha queimada pairava no ar.Vamos nos atrasar para o filme.Olhe por onde você anda! – gritei. .Parece que Mike já superou a perda da eleição – disse Autumn. mas não consegui evitar. Tentei mover o carro para frente. . O corpo dele exalava cerveja quente e amarga. Os faróis do carro balançavam para cima e para baixo na rua escura. Connor Hughes.Estou tentando! – gemeu.Por que você não vai sozinha? – perguntei com raiva. tentando amenizar o clima e acrescentou: . – Ah. Olhei pelo retrovisor e não vi mais nada. mas fui impedida pela barreira humana.Há uma vaga no fim da rua – disse. soando como quem não ia sair do lugar.Saia do meu carro – gritei. e isso poderia ser interpretado como um convite. . os garotos voltaram para a festa rindo. .

Apenas dirigi o mais rápido que pude para me afastar daquela casa. 35 .espontâneo. Nem me preocupei em responder.

mas o SAT seria em menos de um mês e queria que estivéssemos o mais preparadas possível. mas apareceu no domingo para fazermos juntas alguns simulados para o SAT. Sorri para ela e coloquei minha bolsa na bancada de uma pia seca. Era o meu lugar predileto para fazer xixi. queria me refrescar e dar uma organizada em tudo. Dava para perceber a sua falta de concentração. As outras garotas evitavam usá-lo por medo de serem pegas falando ao telefone ou fumando. Obviamente. colocando o dedo na frente da boca e apontou a cabeça para o respiro do teto. Mas eu não estava sozinha.Capítulo 7 O restante da minha semana foi um tédio. . Havia uma camada de poeira em cada uma das fendas.Shhhh! Spencer fez sinal de silêncio. os simulados não eram o mais legal a se fazer. Dockey está falando mal do diretor Hurley por ele não ter aprovado o 36 . Antes de ir para a reunião. As saboneteiras estavam sempre cheias de sabonete líquido cor-de-rosa. Ela sussurrou: . e constantemente havia papel higiênico e papel-toalha sobrando. mesmo com o cronômetro acionado. mas a falta de uso significava que estava sempre mais do que limpo. Ela estava se esticando toda até o teto. Eu havia vencido Mike Domski e agora podia finalmente começar a trabalhar. estava muito mais nervosa do que pensei que estaria para a primeira reunião do conselho estudantil na segunda-feira.A Sra. Autumn não dormiu na minha casa na sexta nem no sábado. Não parava de lembrar a mim mesma que o estresse da eleição já tinha passado. como se estivesse fazendo um estranho exercício de yoga. apesar de ter praticado meu discurso incontáveis vezes. O lugar perfeito para isso era o banheiro feminino da sala dos professores. ela estava espiando pela janela da cozinha. e pelo menos cinco páginas atrás de mim. Sempre que olhava em seu rosto. pois. Era como um banheiro para garotas executivas. Não que tenha sido sempre assim. Abri a porta e vi Spencer ajoelhada em cima do aquecedor.

uma melhora relativa. com várias franjas no bumbum. nem chegava perto disso. . Mas tinha que dar algum crédito a Spencer.O que você quer dizer? Ela amassou os cachos do cabelo olhando no espelho.Obrigada – disse.Segui seu conselho – disse Spencer. – Mas acho que você não pode culpá-lo por isso. provavelmente não ficaria nervosa em ter que apresentar um discurso ao conselho estudantil. como se eu estivesse sendo modesta. Com certeza havia tensão entre Mike Domski e eu.Mesmo? . – Viu? – Ela saiu de perto do aquecedor e levantou a saia. Mais pronta que isso impossível. mas era praticamente impossível. – Mike está louco para transar com você. . mas aquele só com os lábios. Chegou a dizer que não pode estrelar O mágico de Oz com malditos lençóis e sacos de estopa idiotas! Tentamos segurar o riso. Não dava para imaginá-la falando dessa forma. Procurei minha escova na bolsa para dar um jeito nos nós do cabelo.Então. mas eu as forcei a votar em você. – Na verdade.Mesmo. e coloquei a camisa para dentro da saia.orçamento para os figurinos do musical da escola. . Algumas garotas do meu grupo estavam planejando votar em Mike porque ele é bonito. Certifiquei-me de que a fita estava bem colocada em minha cabeça. isso é parte da minha fantasia do can-can que apresentei no show Moulin Rouge. Passei batom. balançando a cabeça com desaprovação. parabéns por ter vencido a eleição. Era.. mas não tinha nada a ver com sexo. Balancei a cabeça e falei: . Não aquele sorriso que mostra os dentes.. A Sra. É tão óbvio. Ergui a sobrancelha.Hmm. Nunca tinha tido a chance de aparecer dessa forma. mostrando a roupa de baixo de cetim cor-de-rosa. Sorri.Vi o que Mike escreveu no seu cartaz – falou.A tensão sexual faz os caras agirem como perfeitos idiotas. mas por dentro meu estômago revirava. Nós nos odiamos. 37 . não. . Spencer piscou para mim. . dizendo: . Se ela usava roupas daquele tipo para dançar. ele não está. Será que foi Spencer quem tirou o meu cartaz? Virei-me para ela e perguntei: . Contudo. levava suas produções teatrais muito a sério. Dockey tinha uns 80 anos de idade e falava de uma forma completamente macia. de ser líder.

Bem legais. mas com certeza não aprovaria a travessura da roupa de baixo chamativa de Spencer. É amanhã. não é tão difícil. Mas me dava nos nervos ouvi-la analisando Mike e a mim daquela forma. mas. daqui a cinco minutos. é bem típico dos garotos.Ainda não.O maior trabalho é a professora – Spencer reclamou. Não havia limite para esse tipo de coisa. . por dentro. tá. . A Srta. Mas Spencer se inclinou na pia ao lado da minha. Gostava disso nela. parecendo irresponsável. . Talvez eu vá à primeira reunião. havia uma parte de mim que achava que talvez Spencer tivesse razão. Spencer.Você tem de mostrar seu interesse em aprender. .Tenho certeza de que gosta – disse. – Ela não gosta de mim. – Queria mesmo que a escola tivesse um clube de dança.Então. se você fizer parte do conselho estudantil. e era bem dura com as meninas. – Você já se inscreveu em algum clube? . Se ela achar que você não está interessada.O quê? Você tá brincando? A Srta.Ele jamais vai conseguir ter uma garota como você. na verdade. Não queria ser a última a chegar na biblioteca. E toda a frustração explode. fazendo com que ele aja dessa forma. E talvez fosse legal ser a garota por quem todos estavam esperando. certo? . É a melhor professora de toda a escola. Quem era ela para saber de tensão sexual? Ela só tinha 14 anos.É hoje.Fiz essa aula no primeiro ano. – Temia que este fosse o maior problema de Spencer. impedindo minha passagem. mesmo eu não tendo a mínima idéia do que ela estava falando. Gosto de tudo. – Isso é demais. Honestamente. Queria conversar. menos de História da Civilização Moderna. – Era algo estranho de se dizer. Fechei a mochila e a coloquei nos ombros. . Ela estava se concentrando nas coisas erradas. . era só participar. então não vai querer saber de você. – Como é que ela não sabia disso? 38 . Spencer olhou-me de forma questionadora. Na verdade. pode fazer essa proposta para o corpo diretivo da escola. Era legal ouvir Spencer dizer elogios sobre mim.Sério? Os alunos têm poder para fazer isso? – ela perguntou e eu concordei. – Ela bateu o dedo na boca algumas vezes pensando. Talvez ele te odeie por fora – concordou Spencer -. . como vão as aulas? – perguntei. Você é muita areia para o caminhão dele. pois o que havia para ser avaliado por Spencer? Se você queria participar de um clube. Na verdade. Bee era uma professora difícil.Então. Estou avaliando minhas opções. . . a coisa vai muito mais além. . e ele quer morrer por causa disso.Bem. Acho que podia ficar mais alguns minutos.. contanto que você não se atrase nas leituras. Fazer uma entrada dramática. Bee é demais. mas.

Queria muito poder comparecer hoje. – E você me conhece. E havia anúncios pendurados por todos os corredores da escola. O entusiasmo dela era uma surpresa agradável. mas tinha a sensação de que Spencer podia se beneficiar mais participando de uma atividade escolar mais tradicional. O dia de abertura dos jogos é levado bem a sério por aqui – disse enquanto verificava se minhas anotações ainda estavam no bolso da minha camisa. não dá para ficar melhor que isso. Bee anunciou a reunião. Não que o envolvimento com a dança não fosse uma boa.Spencer esta na biblioteca na sexta-feira quando a Srta. – E planejei coisas bem animadas para as festividades deste ano. estão está numa posição privilegiada. Natalie.Ohh! Então você é a pessoa perfeita para me responder isso. será responsável pela organização das decorações dos corredores para a turma dos calouros. 39 . Ela fez uma careta. Algumas das minhas colegas e eu estávamos pensando em desenhar nossas próprias camisetas. sorrindo. automaticamente. Spencer soltou um suspiro profundo e feliz. Sabe. Não consegui me lembrar da última vez que havia feito algo assim. eu mesma os tinha pendurado. . Senti que estava corando. para mostrar o espírito da escola. Vai ser algo épico. . Ele. . vou me atrasar e isso não seria nada bom. Uma em que não fosse preciso usar figurinos sexies.Sim. – Ainda não consigo acreditar na sorte que tive em ter você como babá. Minha mãe vai me levar ao estúdio de dança em Main para que eu me inscreva em algumas aulas. 7 Quando duas pessoas batem as suas mãos levantadas. então ainda não sei quem é.Não se preocupe. de verdade. Natalie! – ela disse. e agora. Tenho certeza de que sua ajuda seria bem-vinda. sou amiga da presidente do conselho estudantil. .Legal. Você ainda pode participar do conselho estudantil mesmo se perder a reunião de hoje – disse. Também queria que ela pudesse. mas me procure amanhã e te digo. – Você definitivamente precisa se reunir com o representante da classe. na reunião. Vamos decidir quem será hoje. o som foi maravilhoso. ou ela. . É verdade que podemos usar roupas normais nos dias de jogos? Ouvi alguém dizendo isso no corredor. Sinto como se estivesse desapontando você de alguma forma.Boa sorte. – Bem. – Desculpe. Quando bati na mão de Spencer. levantando a mão para fazer high Five7. . Com certeza. – Droga.Legal – Spencer mordeu o lábio. desde que as cores sejam iguais às da escola.

mas a sala já estava cheia. perto da porta. – Acho que você deveria falar com ela. não acha? Concordei e tentei não prestar atenção na pequena caspa que pairava em um tufo do fino cabelo preto de Martin. Acho que ela se beneficiaria muito com isso – e então tive uma ótima idéia. . laranja e amarelo – queimavam o vidro espesso das janelas. as copas das árvores – em tons de vermelho vivo. puxando-as até caírem. Lá fora. dizendo-lhe como foi bom para você. E se ela quisesse mesmo se sentar na frente. Ainda faltavam alguns minutos. até que me lembrei que o meu era aquele bem na frente da sala. mas antes que conseguisse fazer isso. Várias mesas de madeira foram unidas formando um enorme retângulo. teria que ter competido para o cargo de vice-presidente. Procurei um lugar vazio. 40 . Ela entortou a boca e perguntou: . e achei que não era o melhor momento para começar uma conversa sobre o incidente da isca de peixe. como eu havia sugerido. expondo a biblioteca à fraca luz do sol de setembro.Tem muita gente por aqui. – Deixa para lá – respondi. Dipak estava em uma luta com as persianas de plástico da janela. Martin aproximou-se e disse: . Não queria parecer estar favorecendo minha melhor amiga. O que era uma droga.Capítulo 8 A s cabeças se viraram para me ver entrar na biblioteca. . tentando convencê-la a participar do conselho estudantil. Autumn.O que você quer dizer? Dava pra ver que estava ficando brava. Pensei em pedir para alguém trocar de lugar para que Autumn ficasse ao meu lado na frente.Estava conversando com Spencer no banheiro. ela pegou uma cadeira na última fila. mas provavelmente era o que devia ser feito.Por onde você andou? – Autumn perguntou.

A Srta, Bee fechou as portas e a conversa diminuiu. Ela acenou com a cabeça para que eu começasse. Levantei-me e segurei minhas anotações. - Olá a todos. Obrigada por virem – disse, projetando a voz da melhor forma possível, e então fui para o próximo cartão. Eu devia ter escrito mais de uma frase em cada um deles, mas minha caligrafia era muito feia e queria ter certeza de que conseguiria ler tudo. – Estou emocionada por ter sido eleita presidente do conselho estudantil da Academia Ross e declaro esta nossa primeira reunião aberta – algumas pessoas aplaudiram, o que causou uma boa sensação. - Vai ser um ano muito estimulante e agitado, com muitas expectativas a nossa frente. Todos os que participaram do conselho no ano passado sabem que minha responsabilidade é imensa – citei com orgulho a lista das muitas realizações de Will Branch, o presidente anterior. Além dos deveres comuns de presidente do conselho estudantil, Will também criou a sala dos veteranos com sofás de couro, militou contra a proibição de The chocolate War8, incitando uma reunião secreta do corpo diretivo e fazendo uma greve branca inspirada em Ghandi, e coordenou um jogo de basquete entre alunos e professores para angariar fundos para um aluno com leucemia. Will presidiu mirando alto, mas eu queria ir ainda mais longe. – Não se preocupem – falei -, também tenho idéias inovadoras. Incluindo... Nesse momento, a porta rangeu lentamente ao ser aberta, e Spencer enfiou a cabeça para dentro. Ela tentou entrar em silêncio, mas todos se viraram para olhar. – Desculpe! – falou, e foi pedindo desculpas para atravessar a sala, passando por vários assentos livres até encontrar um lugar para sentar, apertada, à mesa. Obviamente, não foi o melhor momento. Mas não conseguia ficar brava. Estava feliz por Spencer ter aparecido no fim das contas. Não só estar lá, mas ter forçado a sua presença na frente, local em que ficavam os alunos mais velhos. A garota era destemida. Sorri e fui para o próximo cartão. - Para as festividades de abertura dos jogos, decidi que meu primeiro ato como presidente do conselho estudantil será nossa primeira fogueira, que ocorrerá imediatamente após o time de futebol destruir o da escola Saint Ann. – Os cochichos imediatamente dominaram o ambiente. Era exatamente essa a reação que eu esperava. - Prometi trabalhar o máximo possível para elevar a Academia Ross a uma posição melhor, mas não posso fazer isso sozinha. Vou precisar que vocês se inscrevam no máximo
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Romance juvenil publicado pela primeira vez em 1974 e adaptado para filme em 1998. Não há publicação em língua portuguesa. Favor tradutoras, será que a gente consegue fazer este?? rsrs

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possível de comitês e se unam a mim, que me ajudem. Juntos, sei que seremos capazes de realizar grandes coisas. Obrigada. – com um aceno de cabeça, sentei-me e ouvi mais uma rodada de aplausos. David pegou o meu lugar no palanque e explicou a lista de comitês que precisavam de membros imediatamente, começando com os de celebração aos jogos. Dipak falou sobre a situação da tesouraria: fraca. Resisti ao desejo de fazer cara feia para Kevin Stroop. E isso, explicou Dipak, poderia possivelmente anular meus planos em relação à fogueira. - Não me leve à mal – ele disse -, acho a idéia legal, mas como vamos pagar por isso? Precisaremos de autorização, comprar a madeira e... - Estamos isentos da tarifa de autorização – expliquei. – Já resolvi isso com o corpo de bombeiros do bairro. – Claro que tinha resolvido isso. Não teria sugerido a idéia se não tivesse pelo menos refletido um pouco, e não estava gostando do tom condescendente de Dipak. Não havia pensado, porém, em como pagaríamos pela madeira. – Vamos tentar conseguir um patrocinador para a fogueira – comentei. - Não sei se isso funcionaria de acordo com as regras da Academia Ross – disse a Srta. Bee. – Você sabe que o corpo diretivo não aprovou as máquinas de refrigerantes há alguns anos. Spencer pigarreou: - Podíamos vender kits para assar marshmallows e cachorros-quentes. Isso ajudaria a contrabalançar os custos. - Que idéia maravilhosa, Spencer – disse. Sério mesmo, estava impressionada. Dipak balançou a cabeça: - Contrabalançar é um bom começo. Mas, para começo de conversa, nem temos um fundo de caixa. A sala ficou em silêncio. Senti a minha idéia se esvaindo como fumaça. Autumn levantou a mão. Você não precisa acenar com a mão para ter a palavra em reuniões do conselho estudantil, mas era tão raro Autumn falar, que provavelmente nem tinha percebido isso. – E se falássemos com Connor Hughes? Talvez ele possa fazer uma doação. Tive vontade de dar um beijo nela. Era a solução perfeita. A família de Connor era proprietária da Fazenda Hughes de Árvores de Natal. Seria bem provável que tivessem várias toras para nos doar. O restante da reunião seguiu com leveza. Anotei todos os detalhes e adorei a forma como as pessoas ali me viam, como falavam olhando em meus olhos. Eu era o centro das atenções. 42

A Srta. Bee ficou surpresa quando Spencer levantou a mão para ser a representante dos calouros. E talvez tenha sido até um pouco exagerado, mas ela se inscreveu em quase todos os comitês e grupos. Depois da reunião, a Srta. Bee perguntou se poderia falar comigo um minuto. Ela me levou até a parede dos retratos, longe de todos os demais. - Adorei a idéia da fogueira, Natalie. Lembrei-me dos meus dias de faculdade. Você está mesmo pensando além. E estou ansiosa para ver os outros projetos que irá propor este ano. - Obrigada, Srta. Bee. Ela se aproximou um pouco mais. – Não queria te contar isso antes, caso algo terrivelmente injusto acontecesse e você não ganhasse a eleição. Mas houve apenas oito mulheres presidentes do conselho estudantil na história da Academia Ross, e nenhuma desde que eu voltei para dar aula aqui há onze anos. O que, honestamente, como uma mulher que se importa de forma profunda com esse tipo de coisa, fez com que eu me sentisse um fracasso completo. Virei-me para dizer alguma coisa, mas a Srta. Bee ficou ali em pé, admirando a parede com fileiras de retratos levemente empoeirados dos antigos presidentes do conselho estudantil. Levei um segundo para perceber que o retrato dela estava bem na minha frente. Sabia que a Srta. Bee tinha se divorciado do marido, um professor de filosofia há vários anos. Eles moraram no exterior e nunca tiveram filhos. Depois da separação, ela voltou para a cidade em que havia crescido, Liberty River, e começou a dar aulas na Academia Ross. Ela foi bonita no passado. Cabelos negros presos com fivela, olhos escuros, brincos de pérola. Em seu retrato mais ria do que sorria, uma sobrancelha arqueada com um tom travesso. Nancy Bee. A Srta. Bee apontou para o espaço vazio na parede ao lado do último retrato, o de Will Branch. Infelizmente, ele havia piscado na pior hora possível. Imaginava se em dez anos as pessoas iriam pensar que ele fosse cego. – É aqui que o seu retrato vai ficar, Natalie. É um clube exclusivo, mas sei que você será um membro maravilhoso. E será conhecida para sempre como a número nove. Parecia, no momento, a melhor forma possível de ser lembrada.

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sendo alvo de trotes no meio da noite após a bebedeira. . – Daria o meu braço esquerdo por uma chance de falar com Connor Hughes. Teria preferido falar com Connor quando ele estivesse sozinho. Mas Spencer e Connor? Ou Spencer e qualquer um daquele grupo.. – Vá colocar esses materiais no armário e me encontre aqui – disse a ela. – Lá está ele. E não queria que Spencer pensasse que me sentia intimidada pela presença de Mike Domski. mas precisava saber sobre a situação da madeira o mais rápido possível. Olhei na lista para encontrar o de Connor Hughes e digitei uma pequena mensagem para ele sobre a madeira para fogueira e pedi que me enviasse. 44 . Olhei no fim de cada aula até a hora do almoço. Spencer pegou no meu braço. Natalie. profanamente sensual. era como se todo o conjunto criasse uma bela harmonia. Não havia uma coisa que se sobressaía nele. por favor.. mas decidi não fazer isso. Seu jeito era muito tranqüilo. Parece que foi criado à base de leite e bolinhos caseiros de amora. Terrível idéia. para começo de conversa? Péssima idéia. – Estávamos organizando o material de arte e cobrindo as mesas com papel craft para deixar tudo preparado para os alunos pintarem os cartazes para a abertura dos jogos após a aula. uma mensagem em resposta para que pudéssemos discutir os detalhes. quando o vi na mesa de pingue-pongue da lanchonete com ninguém menos que Mike Domski e mais alguns parasitas como Marci Cooperstein. Connor era mesmo bonito. Spencer fez uma cara de decepção ao tentar colocar todos os materiais em seus braços. E provavelmente não se importava.Talvez seja melhor eu ir com você – Spencer estava toda animada com essa possibilidade. Vá falar com ele. pois o sucesso da fogueira dependia disso. parecia não se importar com nada no mundo. Ele é. Pensei em passar-lhe o número do meu celular.Capítulo 9 T odos os alunos da Academia Ross têm um endereço de e-mail fornecido pela escola. No dia seguinte ele não havia respondido. Não precisava do meu número espalhado por aí dentre aqueles caras.

pois seriam eles quem mais se beneficiariam. depois de respirar fundo. Posso pagar pela minha própria madeira 45 . Riu como se eu tivesse acabado de contar uma piada. Peguei-a para ele. Sterling. A força do seu movimento fez o meu cabelo esvoaçar. sem problemas. Só que a expressão em seus rostos era de austeridade e de falta de entusiasmo. A voz dele era rouca. . Recebi.Ei. pois não sacou. A coisa toda estava acontecendo praticamente por causa deles. – Sim. Todos abafaram o rido. . Fiquei parada. Só que eu não saí. fingindo sussurrar -. Todo mundo está muito animado com a fogueira. – Ou à tarde? Só quero confirmar os detalhes com você para que possa coordenar tudo com o bombeiro. prometo. – Ótimo. E não parecia ter vindo de sua boca. desesperadamente. pois sabia que aquilo ia deixá-lo com raiva. Mas acho que ele viu que eu estava brava. mas não podia perder a oportunidade de esfregar isso na cara de Mike Domski. pois Connor não era o tipo que falava muito. tentando fazer com que eu saísse do caminho e o jogo continuasse. Mas não de um jeito em que talvez estivesse se solidarizando com o tempo e o esforço que eu estava dispensando para que tudo fosse feito.mas assim o fez. Você recebeu meu e-mail? Connor terminou a jogada. como se tivesse saído do fundo do peito. Mike jogou a bola para Connor. mas ficou presa na rede. tirando de vez essa pendência da minha lista de coisas a fazer. Connor riu. mas de algum lugar mais quente. E. E. Ele a pegou no ar em vez disso. incluindo as garotas. esperava que o restante das pessoas ao redor da mesa mostrasse uma reação positiva. – A madeira vai chegar aqui na sexta de manhã? – questionei Connor. Você receberá a madeira na primeira aula. – Sério. Mike Domski balançava a raquete para mim. na realidade. Vou trazer a madeira na sexta de manhã. – Então ele jogou a bola no ar para sacar. Natalie quer a sua madeira. como se tivesse começando uma dor de garganta. .Mano – disse Mike. Pode até ser que vire uma tradição da escola – sei que pareceu forçado. batendo a bola com toda força antes de se virar para mim.Não preciso da madeira de ninguém. fui falar com Connor. mas os outros jogadores de futebol. RSVP feito ou coisa do gênero. Parecia meio enferrujado. – Pode considerar confirmado. Menos Marci – a garota não me suportava -. Estava preocupada se teria de pensar em um plano B. o que fazia muito sentido.

retruquei. 46 . Foi só quando percebi que todo mundo estava morrendo de rir que entendi o que ele quis dizer. expondo a minha óbvia irritação. Saí de lá o mais rápido possível e fantasiei um trágico acidente em que os órgãos genitais de Mike pegavam fogo.

– Você quer que eu pegue uma régua? – brincou. ok. era cedo demais para eu fazer isso. professor de literatura comparada. Além do mais. respondendo: – Entendi.Vamos amarrar bexigas nas grades de todas as escadas. que dormiu no banco do passageiro com a cabeça recostada no cinto de segurança durante todo o percurso até a escola. Autumn tinha subido numa cadeira que pegou emprestada da sala do Sr. Talvez seja a minha personalidade perfeccionista e obsessiva. mas tive que cuidar de todos os detalhes. Esticando-se o mais que conseguia. ela o colocou na boca e aspirou.Vamos lá. Depois levei as mãos à boca e gritei do corredor: . e ela deu uma gargalhada tão grande que ficou até vermelha. O céu ainda estava escuro quando peguei Autumn. mas em vez de dar nó. ela levantava a ponta do papel crepom azul um centímetro por vez. – Vamos lá. Então. Honestamente. Uma bexiga azul brilhante saiu do botijão. havia elaborado um projeto bastante ambicioso para a sala dos veteranos. Ignorei a brincadeira. não quando todo o sucesso da abertura dos jogos dependia totalmente de mim. – Dá uma olhada nela. Não queria dar nenhuma chance para o azar. Peguei um pedaço de fita adesiva com os dentes e prendi os cantos na parede. usando o uniforme de líder de torcida. veteranos! . durante duas horas antes do início das aulas. pois estava estressada demais e Autumn deveria saber como aquilo era importante para mim. trabalhei como nunca em minha vida. veteranos! – repeti. Carlie? Carlie Glaskov. Darby. Só tínhamos quinze minutos para terminar tudo. tá bom? – 47 . manejava o botijão de gás hélio que eu tinha conseguido como doação do supermercado. meio assustada. Natalie! – A voz dela parecia a de um rato de desenho animado. e olhei no meu relógio.Capítulo 10 N a manhã da abertura dos jogos eu estava ansiosa demais para tomar café da manhã.

Era tão improvável assim que o tivesse? – A Fazenda Hughes de Árvores de Natal está na lista telefônica. mas ela tinha vindo mesmo assim. sapatos 9 Willy Wonka é o personagem principal do filme A Fantástica Fábrica de Chocolate. o segundo ano fez uma decoração cheia de penas. Trajava um elegante vestido azul-marinho. Mas. só fizeram uns dois cartazes. Dipak veio pulando pela escada. sentindo-me um pouco insultada. parecia um doce colorido branco e azul-marinho. admirando tudo.Bem. . como Carlie. A Srta. 48 . . como estão os outros corredores? – perguntei. Até mesmo membros da turma dos populares. na verdade. um grupo de veteranos que não fazia parte do conselho apareceu para ajudar na decoração. Ótimo para elevar o ego. Cobrimos com fita cada centímetro daquele lugar: os armários. ninguém nem chega perto.Não – admiti. abri a cabine do telefone público e me sentei no banco dentro dela. Spencer tinha dado várias dicas durante a semana toda sobre ter planejado algo muito especial. Era exatamente o que eu esperava ouvir. – Mas nenhum corredor ganha dos veteranos – ele disse -.Eu devia ter ligado ontem para lembrá-lo – odiava ter de depender de outras pessoas. O pessoal do terceiro ano é fraco. Dipak arregaçou as mangas do casaco do uniforme da Academia Ross e disse: . Não tinha conseguido vê-los. Eles criaram jornais com manchetes sobre a vitória da Academia Ross – sorri ao vê-los. . O corredor dos veteranos estava maravilhoso. recolhendo pedaços de fita adesiva.Acho que ele ainda não chegou – Dipak deu de ombros. Olhei para o corredor e fiquei ali. o teto. Bee apareceu no corredor. o chão.Ei. fita de tecido e bexigas estouradas. surpreso. Mas estou meio preocupado que pareça que tenhamos matado alguma águia bem ali no meio do corredor. sempre acabava me decepcionando.Você tem o telefone de Connor? – Dipak perguntou. Parecia um cenário da fábrica de chocolates de Willy Wonka9 ou de um parque de diversões. E agora só havia mais uma coisa a ser verificada: . Rasgamos uns travesseiros e espalhamos tudo pelo chão. Cheguei ao fundo do corredor. Sabia que ele tinha votado em Mike Domski. – Mas eu estava mesmo bem impressionada com os calouros. . Uma hora antes de evento.sussurrei para Autumn e percorri o corredor. isso não era nada comparado à minha fogueira.Você viu se o Connor trouxe a madeira da fogueira? – perguntei. .

Natalie. Autumn veio correndo. . . olhando para a pena que tomava um lado todo da cabeça de Autumn.Qual é o problema? 49 . esperava que estivesse.Não. pressionando a ponta de um lápis branco contra a minha bochecha. porque tinha ganho as eleições de Mike Domski? Martin balançou a cabeça: . Reparei que estava meio insosso. Um pouco depois. não sei se a madeira está aqui ou não.Pintando seu rosto! – disse. Ela empurrou meus ombros e me encurralou contra meu armário. Pelo menos.Pare de se mexer – advertiu.Nada grande demais. . E se Connor tivesse planejado não trazer a madeira só para me deixar em uma situação ruim? E se tudo não passasse de uma grande piada às minhas custas.Natalie. A escola está maravilhosa – disse. temos um problema sério. . Bee teria calças de moletom. .O quê? A madeira não chegou? .de couro e salto alto e vários colares com enormes pérolas brancas. – Você ainda não entrou totalmente no espírito da escola do jeito que a presidente do conselho estudantil deve entrar.Tudo vai ficar pronto – prometi. – Creio que o bombeiro está planejando vir em algum momento durante a segunda e a terceira aula para dar uma última olhada na fogueira antes de assinar a autorização. Deixei Autumn me pintar e curti a agitação. Pensei se alguém como a Srta. . . quer dizer.Shhhhh – ordenou Autumn. me diverti muito caminhando pelos corredores hoje. colocando a mão no meu ombro. a febre e a excitação dos corredores.O que você está fazendo? – perguntei rindo. Desviei-me do lápis de Autumn: . Estava tão ocupada com as arrumações que não tinha pensado muito no que vestir. unindo igualmente os espíritos de animação e inteligência da escola. Mas o problema não é esse.olhei ao redor para procurar por Connor Hughes e comecei a entrar em pânico. jeans e meus tênis de ginástica. Senti-me no topo do mundo até que Martin apareceu e disse: . Você sabe se já está tudo pronto? . Escolhi um agasalho azul. está bem? – disse.

Vou tentar. – Connor! – gritei o mais rápido que pude.Nick Devito está com gripe. Tudo correria bem. . só que o ritmo estava mais rápido e grave. apertando os olhos. Autumn e eu fomos empurradas para trás até ficarmos pressionadas contra os armários. Relaxe. Mas ele fez sinal positivo: a madeira havia chegado. Os corredores estão lindos.E daí? . O lápis deu um escorregão até a minha orelha. certo? Está tudo bem. a Águia. tentando abrir caminho para chegar até ele.Martin. o barulho dos corredores começou a aumentar.E você? – perguntei. afastando-me dela -. 50 . você está me dizendo que eu tenho que ser Ross.E o Dipak? . para o jogo de hoje à noite. hoje à noite? . mas muitos deles já estão fazendo parte de algum time ou banda. Era hora de curtir o resultado do meu trabalho.Desculpe. . Autumn – disse.Sim. Presidente – afirmou com uma expressão séria. . só mais um segundo. vestindo jeans e coletes de lã. provavelmente por causa do rabisco no meu rosto. – E a madeira? Connor virou-se e pareceu confuso. Música. . .Não tem nenhum dos representantes dos calouros para fazer isso? . . mas eu nem liguei.E daí que não tem ninguém para se vestir de Ross. Ela tinha razão. mais barulho. Respirei fundo e questionei: . Connor Hughes e outros veteranos do time de futebol. Logo em seguida. a Águia. A multidão subitamente se separou. Todo mundo aplaudiu. Ele fica com falta de ar dentro da fantasia.Está bem. vamos nos divertir! . segurando meu rosto e ajeitando o lápis. está bem – disse.Tenho que vender as mercadorias na hora do jogo. Srta.. Fique parada! – Disse Autumn. De repente. .Ei. todos ao mesmo tempo se aproximando de seus armários. Um som dançante que já tinha ouvido no rádio. – Prometa que você não vai ficar estressada e triste em todos os eventos do conselho estudantil este ano.Dipak tem claustrofobia.

e shorts brancos atoalhados que eram curtos demais para qualquer atividade atlética de verdade. Não reconheci todas elas. vaias. . As garotas tinham os cabelos presos em rabos de cavalos com cachos de fita de cetim branco. Dez calouras marcharam pelo nosso corredor em duas filas. posicionadas bem na frente dos seios.Que diabos é isso? – Autumn balançou a cabeça. os quais não paravam de se mexer. As pessoas podiam andar por onde quiserem. calouras!‖. Será que ela não sabe que os calouros não podem caminhar pelos corredores dos veteranos no dia de abertura dos jogos? Claro. esforçando-se para ver. Percebi a alegria nos rostos dos jogadores de futebol e as caretas nos rostos das líderes de torcida. Autumn pulava. Domski 27 Philips 4 E nas costas de Spencer: Hughes 14. Estavam sendo guiadas por Spencer.Fiquei na ponta dos pés. Mesmo assim. Todas usavam o mesmo uniforme. Era como um exercício de quebra dos radicais da palavra do SAT. E parece que havia muitas que Spencer não conhecia. assobios. Ouvi algumas risadas. um em cada uma das mãos. Ela tinha um ipod cor-derosa preso no braço e segurava dois falantes portáteis brancos. havia o nome e o número de um jogador de futebol impresso nas costas das camisetas delas. conforme as garotas marchavam no ritmo da música. a mesma camiseta baby look azul. Os sussurros e cochichos superaram os gritos de ―Voltem para casa. fazendo um arco perfeito. Seu andar era como o de uma modelo em fuga. ―Rosstituta‖. regras como essa eram ridículas. De repente. 51 . Academia Ross + Prostituta = ―Rosstituta‖. E acima. que era outra das minhas representantes das calouras. essas eram as regras. mas vi Susan Choi. As camisetas tinham duas bolas enormes. Essa percepção parecia estar saltando da minha cabeça e entrando na de toda multidão. Fui empurrando até ficar na frente da multidão. como se estivessem desfilando. As garotas passaram e percebi que debaixo dos rabos de cavalo. entendi tudo. a mesma palavra impressa no peito.

Senti dificuldade em respirar. Spencer aumentou o volume da música no máximo. Bee levou a líder do grupo embora. deu uma piscadela. Ela era a estrela do show. Mas antes que mais alguém tirasse a roupa. Usava um sutiã corde-rosa de algodão. Spencer – disse a Srta. . Seus movimentos eram extremamente precisos e sensuais. A agitação voltou ao corredor. Vocês devem trocar de roupa imediatamente. e. Ela tirou a camiseta bem ali. pelo que dava para ouvir. Só vi por um segundo. mesmo com os cachos do cabelo chacoalhando na frente do seu rosto. provavelmente procurando por mim. Algumas pessoas até vaiaram a Srta. olhando o tempo todo para Spencer para saber o que fazer. com o bojo dando tudo de si para elevar e turbinar uma pequena protuberância. Ela olhou pelo corredor. Todos estavam vendo o que ia acontecer. Bee -. no meio do corredor. O corredor ficou quieto. com uma pequena rosa no centro. sem camiseta.Subitamente. as garotas pararam. O sorriso voltou ao mesmo tempo em que Spencer. Parecia até câmera lenta ver o sorriso de Spencer. definitivamente sim. só se ouvia a música. mantendo contato visual com o público. segurando-a pelo braço. A movimentação da maioria das garotas era tão estranha que dava só. problema resolvido. 52 . – Eu vou virar do avesso. sem falar que são completamente contra as regras da escola. Spencer era diferente. dançava bem. nunca a vi tão brava. Srta. A Srta. Bee. Era energia pura e os calouros estavam se alimentando dela. Seguia a coreografia com muita confiança. A maioria rapazes. antes de o rosto dela ficar coberto. a Srta. Bee por ter parado a dança. Mudei de lugar para ficar escondida atrás de todo mundo. Elas mudaram o posicionamento e então começaram a dançar. virava sua roupa para o lado de dentro. Bee pegou no braço de Spencer e a tirou de lá. Quando Spencer passou por mim.Essas camisetas são ofensivas demais. Era constrangedor demais e não queria me envolver naquilo. As outras pegaram nas barras de suas camisetas também. Estavam tensas e nervosas. girando na hora errada.

– Isso é uma bela droga. – Bebe. fumando um cigarro no estacionamento da Vila Sésamo? Nem sei como estou aqui hoje. – Você não está se divertindo nada? – Autumn escondeu o sorriso. É sério. Ela colocou o canudinho da Coca-Cola na pequena abertura da fantasia. sorrindo para o céu. agora estou presa à carcaça de um animal empalhado. e para piorar. não se esqueça de que nenhuma previsão do tempo mencionou a chegada de nuvens cinzentas ameaçando destruir minha fogueira. ou meias furadas que acabam ficando muito tempo sem lavar. Embora o vento estivesse forte. como aqueles cestos com roupa de baixo que não servem mais. Autumn beliscou o meu bico. – O que é pior? Isso. Ao perceber que ia passar mal se não respirasse ar fresco. – Quero dizer. Revirei os olhos. colocando os lábios no canudinho da Coca-Cola. morrer de insolação na lateral do campo? Poxa. Essa sim é a verdadeira definição de demais.Capítulo 11 H onestamente. com certeza. você está demais. a Águia. – Não bastasse a marcha humilhante das Rosstitutas esta manhã. esquecendo que ela não podia ver meu rosto pela pequena abertura da fantasia. Ah. ou ver Ross. Pode procurar no dicionário que você vai encontrar a minha foto. não acho que vá chover – disse Autumn. tentei usar minhas asas para retirar a cabeça da águia. Estou com muita sede. – Você não pode tirar a cabeça aqui fora! Há muitas crianças aqui! Você não se lembra como surtei ao ver Garibaldo sem cabeça. Aquela cabeça enorme tinha cheiro de roupa suja. como se isso pudesse intimidar as nuvens cinzentas. a Águia. O 53 . Autumn. ainda estava quente e pinicante dentro da fantasia conhecida como Ross.

os refletores foram acesos e os poucos insetos remanescentes do verão formavam uma nuvem escura junto à iluminação. furioso. Apenas balancei as asas e rezei para que não chovesse. e eu resmunguei: – Quantas vezes eles vão tocar essa coisa? Autumn bateu no meu ombro e disse: – Hora do show. Connor tinha se superado. tentando localizá-la. a torcida ia à loucura.. formando uma enorme pirâmide que praticamente superava o pé direito 11 da lanchonete. Não entendi o motivo. Ele ficou muito bravo. Ao olhar para trás.. Quando terminei minha volta ao redor do campo.jogo já está quase acabando. Corri pela lateral do campo como uma boa mascote faria. Autumn virouse. A banda começou a tocar o grito de guerra da escola. Enquanto eu tomava um pouco de refrigerante. roubar ou vandalizar a fachada da escola. O que as ―Rosstitutas‖ fizeram não parecia ser tão ruim como brigar. Tinha de admitir. não me arrisquei a julgá-la. vi Spencer e seu agora not ório grupo de ―Rosstitutas‖ voltando para as arquibancadas com bandejas de nachos. O lado positivo foi que pude contemplar a minha pilha de madeira. 11 54 . Não saí dando piruetas e socando o vento. responsável pela interceptação. Connor Hughes deu um passe longo que não chegou às mãos de Mike Domski. levando com ela o refrigerante. movendo-me para os lados. botas e capacetes já estavam a postos. Talvez tivesse até corrido mais rápido se não fossem as garras plásticas da águia amarradas no meu tênis. Pé direito de uma construção significa a altura entre o piso e o teto. havia muita lenha e galhos das árvores de natal de sua família. Na fogueira. Mesmo 10 O futebol descrito aqui se refere ao futebol americano. tirou o capacete e gritou com os seus colegas até ficar roxo. Já Connor socou o chão de raiva. como teria feito Nick Devito. – Desde quando você gosta de futebol? – perguntei. Bombeiros com uniformes amarelos brilhantes. Tive de cuspi-lo. A punição pelo episódio das camisetas ainda não tinha sido declarada. mas deixando o canudinho balançando na minha boca. Dividiam seu tempo entre assistir ao jogo e vigiar o céu. Mesmo triste com a Spencer. Um dos juízes apitou e o jogador do Saint Ann. Ele havia participado dos três touchdowns10. pois estávamos ganhando de vinte a zero. decisões e precedentes precisavam ser considerados.

O grupo de ―Rosstitutas‖ veio correndo das arquibancadas. vestia paletó e gravata todos os dias. Mais do que isso. Mas antes que eu pudesse dizer alguma coisa. me desapontava. antes que a foto fosse tirada. E naquele momento parecia mais irritado do que nunca. mostrando a ela como seu comportamento era ridículo. esfregando-se nas minhas pernas. – Capricha no zoom – disse Spencer instruindo Susan Choi. Queria que Spencer se sentisse uma verdadeira idiota. – Não tenha medo de mim. meninas! Voltem para a arquibancada – acenou suas mãos. apenas torci para que esse pesadelo terminasse logo. Como se não bastasse. Foi então que avistei Autumn a poucos metros de distância. Era bem possível que ela estivesse certa. Sr. Balancei minhas asas na tentativa de mantê-la à distância. – Será que alguém pode tirar uma foto nossa com a águia! – gritou Spencer. Não via a hora de dizer para ela que era eu naquela fantasia de águia. dispensando as ―Rosstitutas‖. Caminhava em direção a Autumn quando Spencer apontou para mim e gritou. – Muito bem! Chega. que ficasse envergonhada. ela agarrou uma de minhas asas e começou a dançar. mas toda a minha boa vontade tinha ido por água abaixo. Nick Devito? – Spencer disse suavemente. – Isso não tem nada a ver com você. Ela observava a cena horrorizada. À medida que tentava me soltar. forçando-me a ser seu par. – Essas garotas estão causando mais problemas? 55 . o castigo precisava ser rigoroso para coibir atitudes semelhantes no futuro. Careca. escorreguei na grama molhada e quase caí de cara no chão. As coisas que tornam alguém popular na escola chegam a ser irritantes. desviou para si toda a atenção que deveria ter sido dada ao meu trabalho de decoração no corredor dos veteranos. sério e com a postura de um oficial do exército. Recuei. mesmo assim aquilo me incomodava. fez um círculo ao meu redor e caiu na risada. – É você aí dentro. mas ela aproximou-se ainda mais. Afinal. O diretor Hurley era o me mbro mais velho da Academia Ross. Felizmente. Águia! – gritou – Não vou te machucar. mas as ―Rosstitutas‖ ficaram todas ao meu redor. busquei envolvê-la no conselho estudantil. ouvi a voz do diretor Hurley ecoando em nossa direção. que estava com a máquina fotográfica. Algumas das ―Rosstitutas‖ que estavam perto de mim evitaram a minha queda. Bee apareceu. – Não sei por que está tão brava – Autumn me disse depois que as ―Rosstitutas‖ haviam passado. tentei. Tentei ajudar a Spencer no banheiro naquele dia.assim. Já sem forças. A Srta.

Mas não queria ficar ali parada. acho que aquelas que vestiram as camisetas deveriam ganhar uma semana de detenção. você se esqueceu de que a festa é na minha casa? Que a cerveja que você mencionou. – Nunca vi alguém se alongar tantas vezes como o Bobby Doyle. Achei fora de moda. Bobby Doyle tirou o capacete e esticou os braços. alongando-se. suspensão. só cerveja light. – Sim. Mike Domski fingiu socar Bobby como se ele fosse um saco de batatas. O nosso ataque voltava para o banco e a defesa tomava seu lugar no campo. mas algo ridículo como ―coelho gordo cintilante‖. – Você não estaria tão cansado se não tivesse toda essa banha. Os jogadores reservas eram incumbidos de abastecer com garrafas e toalhas aqueles que saíam do gramado. Hoje à noite. Enquanto me acomodava no banco. A Srta. – Três dias de suspensão? A Srta. Conto com sua presença. apresentando a identidade do irmão mais velho. é minha? E que a hidromassagem. Tudo porque ela fez algo incrivelmente estúpido. mas Autumn já não estava mais lá. Poderia pesquisar esses caracteres e mostrar ao Bobby que não dizem ―força e coragem‖. correr o risco de ser interpelada novamente. Bobby deu uma gargalhada. Ele queria que as pessoas vissem os caracteres chineses tatuados em seu quadril. Dirigi-me ao alambrado. Bee concordou. Mike Domski havia interceptado outro passe de Connor. Já a líder do grupo deveria ser usada como exemplo e receber uma punição maior. Uma mancha permanente como essa no currículo poderia afastar suas chances de estudar em uma faculdade descente. Puxa vida. O único local seguro era junto ao banco de reservas do time. eu gostaria de ter memória fotográfica. se a minha opinião for válida. já que esse assunto também interessa ao conselho estudantil. – Está na hora de acabarmos com esse jogo. orgulhoso por ter feito uma tatuagem ainda menor de idade. Nessas horas.– É por isso que rezei para que Martha e eu nunca tivéssemos filhas – lembrou o diretor Hurley. e que está agora gelando. Ela não era uma má pessoa. Bee olhou para o céu. – Cara. a torcida ia ao delírio. 56 . Toda a raiva que sentia da Spencer transformou-se em pena. – Bem. claro. Para quê? Impressionar o Connor? Então o diretor Hurley disse: – Vou chamá-las na diretoria segunda-feira bem cedo. Ouvi dizer que a maioria desses símbolos chineses nem correspondem ao significado que dizem ter. apenas desorientada. Até achei que tinha ido buscar uma garrafa de água.

A Dança da Chuva. Se o time de futebol fosse embora ainda no início da fogueira. Oh.Cara. Connor tirou uma barra de cereais de sua mochila.que liguei no almoço para ficar bem quentinha e aconchegante. dando de ombros. gostaria de cair de boca nos seios da Spencer – Mike disse às gargalhadas. ainda temos dois minutos. juro que aprontaria o maior barraco. Pelo menos. já vi que terei de bancar o herói dessa história – começou a pular para cima e para baixo e a bater a mão contra a boca. Mike suspirou: . Cerrei os punhos. gargarejou suavemente e cuspiu toda a água: Ela não é tão gostosa assim. meu Deus! James Rocker encheu a boca de água. foi o que ouvi dizer. cara de sorte. Não era lá muito agradável. – Ei. Construiu uma casa de hóspedes só para ele.Isso foi a coisa mais idiota do mundo – disse Connor. – Fala sério. – Só espero que essa história estúpida de fogueira termine logo – disse Mike. – Tudo bem. Connor! – disse James – A Spencer mandou fazer uma camiseta com o seu nome. Mantenham a concentração. Não quero ver ninguém amarelando agora. 57 . Era praticamente o ponto de encontro da nossa escola. . pois ele vivia como um porco. O treinador Fallon aproximou-se com sua prancheta. Connor queria continuar no jogo. Connor e eu finalmente concordávamos sobre alguma coisa. – Perfeito. – Vamos. Você viu como ela dança? Parece até uma stripper. com latas vazias de cervejas por todos os lados e vários buracos de socos nas paredes. – Sabe de uma coisa. Até jogaria a cabeça da águia bem no meio da fogueira. o jogo ainda não acabou. você colocou querosene na madeira? – Connor concordou. Mal pude acreditar. Connor. Fiquei pasma. também é minha? A família de Bobby Doyle era muito rica. mas acabou ficando no banco de reservas e começou a arrancar as travas da chuteira sem ao menos desamarrá-las primeiro. o que importa mesmo é que ela tem fogo.

– Mindy estava no segundo ano. Mostraria à Spencer e àquelas garotas exatamente o que aqueles rapazes. não ficaria nada surpreso em saber que a Natalie Sterling tem um pau maior do que o meu. Senti meu revirar.Idiota. É como se estivéssemos amarrados. vou terminar com a Melanie. Ninguém deveria ter uma namorada fixa na escola. – Ela quer o Connor. Não queria ouvir suas piadas. Mas não consegui sair do lugar. – Esse foi o maior erro da minha vida. Bobby olhou para as arquibancadas. Mas a Spencer e aquelas garotas estavam tentando nos enviar uma mensagem. vou furar esse bloqueio. Domski. – Você acha que uma garota como ela vai ficar pura e casta esperando o Connor? Vai por mim. James agiu como se tivesse esquecido esse detalhe. 58 . quero aquela baixinha de covinhas – disse James. Ela fez todos acreditarem que era do tipo de garota que ficaria com qualquer um. Eu. sempre lhe escrevia bilhetes detalhados em quatro cores diferentes durante as aulas. – Você já tem namorada. tentando proteger os olhos dos refletores. Minha temperatura se elevou a mil graus.. As ―Rosstitutas‖ eram vagabundas. Eu tinha de ouvir. – Aquela loira magrinha do primeiro ano daria para o gasto se não parecesse uma tábua de passar – brincou. que tanto veneravam. Connor riu. não você – disse James. sim. Fiquei imaginando a pobrezinha da Melanie Walsh ao lado da mão do James nas arquibancadas. cara. para serem usadas e descartadas. Na semana que vem. James entrou na brincadeira. Ela praticamente venerava o James. – E a Sterling? – perguntou Bobby. Na verdade. – Eu ficaria com ela em vez da Mindy Polchek. e se o Connor não está afim da Spencer. Que pena não ter levado um gravador. – Ela é do tipo de garota traiçoeira que te cortaria as bolas do saco no meio da noite se tivesse a chance. – Bem. E nenhum de você vai tentar me impedir. Mike Domski colocou a língua para fora como se estivesse sufocando. O fato de a Spencer realmente gostar do Connor não tinha importância. O pai dela trabalhou na mesma empresa de arquitetura que a minha mãe. Escuta o que eu estou falando. Eu não queria ouvir o que iam dizer sobre mim. cara. mas é muito feia de rosto. pensavam delas. – Já que é assim. a Mindy faz ginástica entre outras coisas. sou o próximo da fila. Elas nos querem – disse Mike –.

Você está bravo porque a Sterling te deu uma surra nas eleições. do tipo que ecoa no peito. ou que o James era tão baixo que as garotas. Eu queria dizer sim. 59 . Precisava arrumar algo para cobrir a madeira ou o meu primeiro grande feito como presidente do conselho estudantil iria por água abaixo. sentindo-me orgulhosa por um reles elogio? E que direito tinham esses caras de me julgar? Eu não era como a Spencer. tudo bem. Não havia me colocado como uma mercadoria para ser avaliada. ou ainda das inúmeras marcas de catapora no pescoço do Bobby. Algumas garotas gritaram de susto na arquibancada. Mas seria mais vergonhoso para mim se soubessem que era eu quem estava lá o tempo todo. Connor levantou a cabeça e fez cara de cansaço. precisavam usar rasteirinha. Presenciei seu esforço na tentativa de cobrir a pilha de madeira com um tecido impermeável azul. A torcida gritou ―ohhh‖. Mas essa luta solitária para manter a madeira seca já estava perdida. Senti alguém me levantando. minha fantasia ficou encharcada. — Você está bem? – perguntou baixinho. Tentei me levantar. rápida e forte. O chão estava muito escorregadio e a fantasia grudava em mim como uma camisa de força. a chuva começou a cair. Aquela garota é durona. de quebra. – Ela tem um rosto decente – disse James. Seu cabelo estava encharcado. Soltei-me de suas mãos e fui em direção a Autumn. Eu não me meteria com ela se fosse você. E. Mas o que mais me preocupava era a minha fogueira. Tentei correr. Devito. mas com aquela fantasia era impossível. Imagino como se comportariam se eu falasse sobre os braços extremamente peludos do Mike Domski. Em um instante. ouvindo todas as coisas nojentas que diziam. Fui tomada por uma sensação de bem-estar. Mas onde estava com a cabeça. Posso jurar que ele me reconheceu pela pequena abertura da fantasia. para dançar com ele. Quando me virei. – Cuidado. no meio da chuva.Tive vontade de ir até lá e lhe dar um chute bem no meio das pernas. Ninguém ofereceu ajuda. – Meu. e obrigada. cheio de nós e colado ao rosto. Talvez pelo choque. lá estava Connor. Cruzei as minhas asas com orgulho. Mas congelei novamente depois de tudo o que ouvi. mas escorreguei na grama e caí de costas. Naquele momento. ou pelo orgulho de ver Connor Hughes me defendendo. Um minuto mais tarde. te jogou uma pizza na cara. ouviu-se um grande trovão.

você é um gênio! Eu poderia usar o mesmo método. mas por causa da fogueira. faria com que incidentes como aquele na festa do fim de semana passado não voltassem a acontecer. tive vários calafrios. e juntas corremos até o meu carro. algo positivo. Não porque estava toda molhada. Infelizmente é em Boston e começa só nas férias de verão. – E se você organizasse um encontro de mulheres na escola. Foi quando contei para ela sobre o primeiro dia de aula.. – Tem certeza? Acho que a chuva está parando. mas ainda assim queria que soubesse de tudo. era doloroso admitir.. porque a Spencer era uma idiota. Pelo menos.. Ouviu-se outro trovão. dizendo: 60 . Não é seguro subir aí. Autumn roeu as unhas. Apenas deixei de fora o que o Connor disse a meu respeito. Sabia que ela ficaria chateada. — Desça. Mas não quero. No caminho para casa. Natalie. Autumn olhou para as unhas roídas. Mas como explicar para a teimosa da Spencer que suas escolhas era realmente péssimas? E também para o resto das garotas? Gostaria que houvesse uma forma de ajudá-las como ajudei a Autumn. A fogueira já era – embora soubesse disso. Poderíamos organizar tudo juntas. Autumn seria a convidada palestrante de honra. Teria a chance de fazer algo bom. discussões. — É uma pena não podermos levar todas as garotas da escola à conferência das jovens mulheres que a Srta.. – Conte comigo. Bee nos contou. – Autumn. porque estava chateada e enojada com os absurdos que ouvi e por talvez ter sido reconhecida pelo Connor. Autumn sabia exatamente o que aquelas garotas queriam.Corri até ela e estendi a minha mão. esquece isso. — Estou quase lá. Não devíamos nos associar a certo tipo de pessoas. ajudando-a descer. por exemplo? Fazia mesmo todo o sentido do mundo. já que isso era irrelevante naquele momento. Contei para Autumn todas as coisas terríveis que havia escutado. — Autumn. Sobre as minhas idéias para mudar a orientação escolar dos calouros. Segurei a mão da Autumn. Autumn virou a cabeça. Vai do outro lado que. Autumn virou a cabeça para trás e a chuva escorreu pelo seu rosto. Palestras.

mas não fez. E começou a passar o dedo no vidro embaçado de uma forma lenta e triste. Ela recostou a cabeça na janela. Era a pura verdade. — Eles falaram alguma coisa de mim? — Não – respondi. Achei que isso faria com que Autumn se sentisse melhor. deixando escapar um longo suspiro. 61 .— Posso te perguntar uma coisa? Você não fica brava? — Sim. Havia algo muito errado com as garotas que eu conhecia.

Depois do primeiro sinal. esperando para ouvir o veredito. segundos antes do término da primeira aula. e uma névoa densa pairava no ar. Susan parecia uma boa menina. Quieta. alcançando os meus dedos. que simulou um sorriso meigo. 12 Autor da saga O Senhor dos Anéis. Foi então que apareceu. por sua vez. ainda teria valido a pena. Ela se escondeu a maior parte do tempo atrás de um exemplar volumoso de O senhor dos anéis. exceto Susan Choi. Suas risadas e gritos ecoavam pelo corredor. mas movendo-se como se não quisesse escapar. tinha uma missão. pisando a grama e sentindo a umidade infiltrar em meus sapatos. – Para você. tenho todo o tempo do mundo.Capítulo 12 C hoveu o fim de semana todo. Tolkien 12. R. — Você não tem que ir para a aula? Esperava conseguir um passe livre da secretaria. Spencer chegou por último. — Precisamos conversar – disse. 62 . e na segunda-feira o dia parecia triste e desanimador. demonstrava claramente possuir uma característica forte e magnética. Spencer. Nenhuma delas olhou para mim. Mas mesmo que não conseguisse. Quando me viu. R. A maioria das ―Rosstitutas‖ já estava lá. Mas isso não me incomodou. Spencer. parou de sorrir. O chão estava repleto de folhas escorregadias caídas das árvores. fui direto para a diretoria e sentei no banco do lado de fora da sala do diretor Hurley. Não era do tipo ―Rosstituta‖. Por isso. estudiosa e obcecada por J. ou se fosse punida por me meter onde não fui chamada. intervir era uma necessidade. A secretária chamou uma por vez. Coloquei o cabelo para trás e caminhei pelo quintal. o qual não retribuí. Mal podia esperar para chegar à escola. Já havia percebido isso quando conversamos no banheiro. Ouvi sua voz antes mesmo de vê-la. Percebi que sempre deixava o exemplar aberto e em cima do colo durante as reuniões do conselho estudantil. correndo como se estivesse em perigo.

Olhei para Spencer. sei tomar conta de mim mesma. — Era brincadeira! – esperou que me convencesse disso. Susan nunca havia tirado menos do que A antes. O maiô que usei durante a aula de natação. – Natalie – sussurrou -. e me desculpe por isso. repreendendo-a -.. Mas Spencer estava mais interessada em passar maquiagem na ―zona T‖ do rosto. Se a Spencer tentasse se explicar para o diretor Hurley e a Srta. Uma prostituta? Para o time de futebol? Fala sério. 63 . quando fui chamada com o resto do time de decatlo13 acadêmico para tirar uma foto com o troféu que ganhamos. Uma que realmente pareça sincera. provavelmente na esperança de tornar o que era uma cela de prisão em algo mais aconchegante. Não havia plantas. Senti um aperto no estômago. – Aquelas camisetas eram muito ofensivas. mas continuei firme. Spencer. Era o meu maiô. enxugava os olhos vermelhos com um lenço de papel todo amassado. – Você precisa pensar em uma desculpa melhor. tomando a frente. ainda assim senti um calafrio na barriga. nenhum outro tipo de 13 É uma competição de atletismo composta por dez provas. Mas ainda acho que estão fazendo uma tempestade num copo d’água. A sala cheirava como o mês de agosto. — Não se preocupe comigo – disse ao levantar-se -.Spencer deu de ombros e sentou-se no banco ao meu lado. As paredes de concreto foram pintadas de bege claro. – Tudo bem. juro. Talvez o corredor não fosse o local ideal para trocar de roupa. — Você ficou só de sutiã! – não consegui me segurar. A secretária espiou pela porta aberta e chamou seu nome. não fiquei. o que você está fazendo? O governo afirma que tomará medidas drásticas para garantir que nenhum brasileiro vá para a cama sem comer: Vai recolher todas as camas! Estou livrando a sua barra – disse. para ser publicada no jornal da escola. e muito menos recebido uma semana de suspensão. Esperava remorso ou. – Sei que você deve estar brava comigo. Mesmo estando lá por um motivo positivo. Tinha visto a sala do diretor Hurley apenas uma vez. Bee desse jeito.. não um sutiã. e Susan Choi saiu. pesado e quente. quadros. – Uma encrenca enorme – disse. Sem tom desafiador me pegou de surpresa. mas não fiz nada errado. e rápido. – No meio do corredor! — Não. Você entende o tamanho da encrenca que arrumou? – Meus olhos recaíram sobre ela. Não me convenci com suas explicações. como quem diz: ―Está vendo? A coisa é séria‖. fotos. pelo menos. daquelas bem grandes! A porta do diretor abriu-se. mas foi exatamente o que fiz. – Ela nem imaginava que ia acompanhá-la. Com os óculos sobre a testa. talvez fosse expulsa da escola. medo de uma punição iminente.

— Esta é uma reunião particular – disse o diretor Hurley. Mas se punirmos e isolarmos essas garotas. — Acho que seria uma ótima oportunidade para discutirmos os acontecimentos recentes e talvez aprendermos comportamentos e estratégias melhores para o futuro. mas precisava me mostrar confiante. Precisava fazer com que o diretor Hurley me levasse a sério. pelo menos dez minutos na frente do espelho do banheiro. seria mais como uma atividade noturna. um simpósio de delegação de poder. – O que aconteceu sexta foi terrível. abriríamos um diálogo sobre ele. Ignorei os dois e sentei-me em uma daquelas cadeiras estofadas de couro. Em vez de abafarmos esse incidente. escorada em um conjunto de armários majestosos. Natalie. Faríamos workshops e debates e arrumaríamos patrocinadores para cada uma das horas que ficássemos acordadas. O diretor Hurley olhou para a Srta. mas a verdade é eu ensaiei mesmo. Bee estava em pé em um canto da sala. O comportamento dessas calouras foi de extremo mau gosto. — Sim. — A população feminina da Academia Ross obviamente está seguindo o caminho errado. Seria um Encontro Feminino. sem saber exatamente o que dizer. um apelo desesperado para serem notadas.Um o quê? – Spencer perguntou. Bee tinha me entregado. Bee. A Srta. feita de algodão especial e com as letras bordadas à mão. Censurei-a com o olhar. bem em frente à mesa do diretor. doando todos os ganhos a uma instituição de caridade ou abrigo feminino. — Gostaria de organizar um seminário para abordar esse problema. As garotas estão satisfeitas em serem rotuladas como objetos sexuais. seus cérebros e não apenas por seus corpos – acho que meu discurso pareceu ensaiado. Seria obrigatório para as garotas em questão. Natalie – a Srta. Peguei na mochila o panfleto que a Srta. como seus objetivos. Ficou surpresa ao me ver. Com certeza uma atitude ousada. Tive de pensar rápido. tenho algo a dizer – ele entrelaçou os dedos e acenou positivamente com a cabeça para que eu continuasse. Está mais interessada em obter a atenção da população masculina do que em suas próprias realizações. perderemos a chance de transformar esse acontecimento em um aprendizado verdadeiro. ela disse: — Continue. – Um seminário? Isso não me parece uma punição apropriada. O rosto do diretor enrijeceu. É como se não acreditassem que podem ser reconhecidas por outras coisas. Quero que nossas 64 . algo que seria benéfico a todas as garotas da escola.decoração além de uma faixa enorme da Academia Ross. – Na verdade. queria que ele soubesse que pensei no assunto de maneira cuidadosa. . Deixando escapar um sorriso tímido. — Diretor. O incidente com as camisetas foi exatamente isso. Bee acrescentou. – Passe na minha sala mais tarde e então conversamos. e facultativo para todas as alunas da escola que quisessem participar. provavelmente contrariando sua intuição.

Na hora. – Você está disposta a realizar tudo isso? Por quê? Não havia me preparado para essa pergunta. Olhei para Spencer. diretor Hurley. E não farei sozinha. ela mostrou liderança na sexta. além de talvez uma semana de detenção. vamos tentar o seu seminário. Gostaria que Spencer me ajudasse. ainda acho que não fiz nada de tão errado assim. Mesmo não fazendo a coisa certa. e de repente não conseguia organizar meus pensamentos. Parte de mim queria voltar e pegar outro caminho.garotas saibam que são muito mais do que meras mercadorias sexuais. mas se a Srta. que não fazia a mínima idéia dos meus motivos. Bee parecia estar muito orgulhosa. 65 . Decidi fazer o mesmo. Preocupava-me muito com essas garotas. Então. ou a qualquer outra pessoa da escola. faria com satisfação. A primeira aula já havia começado. Bee está de acordo. Ainda não tinha certeza se ele tinha me reconhecido na fantasia. E essa responsabilidade. continuei andando calmamente. lembrei-me dos chiliques que ela tinha quando criança. Sabia que. A Srta. mostrou-se lisonjeada com meus elogios. — Só para constar. ou se sabia que ouvi tudo que disseram. seria uma punição perfeita. já que ela foi líder do incidente. De repente. Apensar de tudo. O último ano é extremamente trabalhoso. Spencer olhou para mim. Ela colocou as mãos na cintura e disse: — Não sou tão burra quanto você imagina. teria de mostrar determinação. O diretor Hurley virou-se para mim. Natalie está se mostrando uma verdadeira líder. que precisam ter objetivos e aspirações mais altos. E que a melhor forma de lidar com eles era virar as costas e sair andando. Saí pelo corredor. Fora da sala. — Certo — disse o diretor com um suspiro. Mas isso não era obstáculo para fazê-la me ouvir. — Porque isso é importante para mim. contudo ainda se oferece para ajudar as garotas da Academia Ross a encontrar um novo caminho. nem mesmo hesitei quando choramingou meu nome. diretor Hurley. Mas evitá-lo de propósito daria a ele controle sobre mim. e foi exatamente o que fiz. – Acho essa idéia fantástica. fiquei muito nervosa. Apressei-me até o laboratório de química. Ao virar o corredor. Percebi que o diretor estava pensando no assunto enquanto me observava fixamente. — Acho essa idéia um tanto incomum. E se pudesse ajudá-las. só para não cruzar com ele. se quisesse realmente organizar esse evento. Spencer encurralou-me imediatamente. Spencer era pior do que uma irmãzinha travessa. sei o que estou fazendo. avistei Connor Hughes curvado no bebedouro. um passo após o outro. Gostaria de dar a ela a oportunidade de usar essa liderança para o bem.

mais do que havia planejado. Como muitas coisas na vida. Embora ele tivesse dito coisas boas a meu respeito naquele dia. você não vai me agradecer? Se o ignorasse naquele momento.Olha só. Estavam levemente sujas e calejadas. – As madeiras estavam molhadas e escorregadias. . Estávamos sozinhos. Ele passou as mãos sobre os cabelos. desnorteado. vi que ele levantou a cabeça enquanto a água ainda jorrava do bebedouro. Meu pequeno evento? – Não precisava da sua ajuda – engrossei a voz. . Ao passar por ele. Fiz isso para te ajudar – mostrou-me suas mãos. – Teria resolvido esse problema sozinha.Por quê? – usei um tom defensivo. Então.Com o canto do olho. ainda molhados do banho matinal. não pedi para fazer isso. Quando senti que meu rosto começou a corar de vergonha. Connor sorriu. estava longe de ganhar minha confiança. . Acabei ficando com algumas farpas nas mãos. tirei o elástico do cabelo e deixei que caísse como uma capa sobre ele. 66 . amarelo. ouvi-o dizer: . O meu sentido de alerta guiou-me rapidamente pelo caminho. .Eu sei – falou. . Quem diria.Não.Ei. nunca havia sido tratado daquela maneira por uma garota.Levantei cedo e recolhi a madeira da fogueira com meu caminhão. ficaria muito na cara. . – Caramba! Só queria ouvir um obrigado. Foi só então que tomei consciência do meu andar (em marcha direta). acusatório. farpas profundas. Nem mesmo garotos como você – enquanto me observava desaparecer pelo corredor. da temperatura do meu corpo (extremamente acima do normal) e da minha respiração (quase insuficiente). – Fiquei triste por seu pequeno evento ter dado errado. Com certeza. me fez muito bem ser a primeira. . Sterling. peguei alguns garotos para ajudar. parei. Connor? Aí vai uma lição importante.Você retirou toda a madeira sozinho? – perguntei. isso sempre acontece quando estou sendo observada. provavelmente como se sentia em suas aulas de reforço de matemática. Connor me fazendo favores de repente? Mal podia acreditar. Podem me custar o próximo jogo. Nem sempre conseguimos o que queremos. As salas de aula estavam todas com as portas fechadas.Sabe de uma coisa.

quando vesti uma fantasia de DNA. As fotos mostravam um céu cada vez mais escuro. Bee me chamou na sala dela para conversarmos sobre o seminário. – Minhas férias de verão. como a venda das flores do outono e o baile de Halloween. Bee. Bee sentada em uma mureta cor de areia.Capítulo 13 N o fim de semana. Fiquei pensando se a Spencer deveria também fazer parte da conversa. – Quando você viaja sozinha – explicou com um piscar de olhos . Cheguei até a tomar notas. A Srta. Contou que havia barganhado de dez euros para três em um mercado ao ar livre. Tínhamos vários projetos programados.Barcelona – disse. Recentemente havíamos feito uma reunião do conselho estudantil. A Srta. para o qual precisaria de uma fantasia. Falamos sobre os países e as possíveis paradas pelo caminho. você está livre para ser imprevisível. Naquele momento.. mas gostaria de preparar tudo com antecedência. Bee que era exatamente assim que planejava viajar pela Europa antes de a faculdade começar. a senhora poderia escrever minha carta de recomendação para a Faculdade. . enquanto narrava a viagem. decidiu ir a Milão. e a sua aprovação foi tão boa quanto um abraço. Balancei a cadeira em entusiasmo e disse à Srta. A Srta. Bee pendurou seu casaco vermelho de casimira. Colocou os cabelos para trás e mostrou-me um par de brincos de ouro. Não usava uma desde os meus 13 anos. Bee deixou de ser uma professora e pareceu mais uma tia legal. do tipo que tem uma foto na capa. a Srta. Havia algo importante. Sei que ainda estamos em outubro. com vista para o mar mais lindo que já vi. Bee. Foi também a maneira perfeita de introduzir um assunto do meu interesse e disse: . Sentei-me na cadeira em frente à mesa dela. que precisava perguntar para a Srta. E quando a chuva chegou. Bee concordou com a cabeça. 67 . mas na última hora decidi que não. na qual havia um álbum de fotos.Srta. do tipo que convence a sua mãe a deixar que você peça uma taça de vinho tinto em um restaurante elegante. algo pessoal. – Fiquei surpresa quando ela abriu o álbum e me deixou olhar as fotos. A foto mostrava a Srta.

Uma linda garota adornava a capa. Natalie. Acho que a Srta. como estão os preparativos para o seminário? Na verdade. é uma boa garota. tornando-se a sua primeira presidente. – Então. – Portanto. – Quero te ajudar – disse. – Peguei das mãos dela. Se todos fossem responsáveis e atenciosos como você. A união faz a força. E.Estou preocupada. Ah! Folheie também a Bíblia da mulher e O segundo sexo. sorrindo ao vento. – Claro. – Espere! Esqueci o livro mais importante de todos. Natalie. é um grande prazer tê-la em minhas aulas e trabalhar com você no conselho estudantil.Srta. dando a elas diversas oportunidades. Apenas não tivemos tempo de conversar ainda. Eu sabia que Spencer iria me ajudar. Bee entendeu. na verdade. Amélia fundou a Organização Internacional de Aviadoras conhecida como Ninety-Nines.Sim. nem sei como agradecer por toda a sua ajuda e atenção neste ano.Ela sorriu. sem falar dos preparativos para o SAT. Francamente. Alguns alunos deixam sempre para a última hora. Se a Srta. Vi Spencer andando pela escola. tentei mostrar entusiasmo. – Devorei esse livro durante as minhas férias. Bee continuava satisfeita. seria uma honra poder escrever a carta de recomendação mais bela de todos os tempos. não demonstrou. ainda não entendi por que você escolheu proteger alguém como ela. o meu serviço seria bem mais fácil. A Srta. Este é só para você. certo? Esse era o acordo. Essa organização ajudou a legitimar mulheres que perseguiam carreiras tradicionalmente masculinas. e tudo mais. . – E a Spencer. Estava muito ocupada. Fico atolada de trabalho com essas requisições em março. fui babá de Spencer – expliquei. O título era East to the dawn: The life of Amélia Earhart. Por que a Spencer só dificulta as coisas? – Há muito tempo. Além disso. Seus olhos moveram-se do meu rosto aos meus ombros. . Além 68 . – Você precisa ler A mística feminina. Fiquei envergonhada. tentei mostrar serviço. Já havia escolhido para quais lugares iriam as doações e selecionado o cardápio para o seminário. Você ouviu falar da Ninety-Nines? . me sinto responsável por ela.Bem. sem imaginar como era pesado. Usava um boné de couro e exibia óculos de proteção sobre a testa. Enquanto observava a pilha de livros no canto da mesa aumentar. Bee compreendeu meus motivos. Obrigada. Essa não é a atitude de alguém que se arrependeu. . principalmente. Portanto. toda feliz com a fama que conseguiu. está te ajudando. estavam devagar. porque ergueu as sobrancelhas. E um sorriso esperançoso floresceu do seu rosto em seguida. mas. Acho que você e Amélia têm muito em comum. e a culpa era minha. Tive muita lição de casa naquela semana. – Menti. Baseei minha tese de mestrado nas obras de Simone de Beauvoir. Bee. Mesmo assim.Não. Isso até me ajuda. O mito da beleza. E isso me lembra muito seu seminário. . É verdade que está fazendo péssimas escolhas. Mas. que será muito relevante para os seus debates. puxando livros da estante. fiquei completamente assustada. no fundo.

. honestamente. elas só pensam em garotos.. Tem inteligência.Obrigada. Bee. colocando a mochila sobre os ombros. e. 69 . é totalmente independente. Sorri. . Sempre soube que você era especial. pesasse muito menos do que a pressão escondida atrás do sorriso da Srta.disso. embora. me dá esperança de que o feminismo não morrerá com a sua geração. minha querida. Natalie. Pesava mais de mil quilos. Outras garotas da sua idade. Srta. bem. Bee.. francamente. o número nove se encaixa muito bem nessa história. Você.Estou orgulhosa por tudo o que você está tentando fazer aqui.

Desde a noite da fogueira. já estudava francês na escola há três anos. mas isso não faz sentido.E você Autumn? – Spencer continuou. – Não. Isso daria a Spencer uma oportunidade a mais de se gabar. Pensei por um momento como ficariam surpreendidas em saber que Connor estava interessado em mim. como aquelas dos biscoitos da sorte. . . E eu. e sim de Paris. seria exatamente como Spencer havia descrito. Poderia facilmente ver você namorando um cara com sotaque. por exemplo. não tenho – disse orgulhosa.Quem. Virou a cadeira na direção da Autumn. A Lisa. Teria de ser útil algum dia. Parei de escrever. Autumn também compareceu. percebi que ele vinha me observando. infelizmente ela não entendeu. com a instrução de que deveríamos procurar citações ou mensagens inspiradoras para distribuirmos à população feminina da escola em forma de tiras de papel. livre para ignorá-lo. Spencer mordeu a ponta da caneta que segurava.Capítulo 14 N a semana seguinte. – Natalie. – Não vou discutir isso com você – disse. Não que isso me interessasse. eu? – disse Autumn. Ele estava livre para olhar para quem quisesse. Dividi o material de leitura da Srta. E conversaríamos em francês o tempo todo. Ooh! E aposto que ele é de outro país. como a Inglaterra. Ele provavelmente usa óculos. – Alguém que será um neurocirurgião brilhante ou um conselheiro de Estado. De qualquer forma. Afinal. abaixando a cabeça. Bee com elas.Aposto que você só namora universitários – Spencer desenhava corações em seu caderno. mas não do tipo nerd. – Tem namorado? . por exemplo. Olhei para Spencer em reprovação. Mas se eu quisesse namorar alguém. não era da conta da Spencer. Spencer e eu marcamos uma reunião antes das aulas para finalizarmos nossos planos a respeito do seminário e prepararmos as fichas de inscrição e outros materiais. . – Bem. você tem namorado? Autumn deu uma gargalhada que me deixou irritada. Ela não deveria ter deixado escapar sinais da minha inexperiência. Aqueles de metal fino que os modelos usam.Não. mesmo com aqueles 70 . Exceto que não seria da Inglaterra.

Você seria facilmente eleita como rainha de qualquer baile de formatura. o que vou te contar agora só não te contei antes porque não queria te magoar.Como assim? Autumn e eu nos olhamos.. após o incidente de sexta. Spencer via tudo de outra forma. tenho um histórico. . Mas isso não significa que não possa me divertir com eles enquanto estiver aqui.Natalie – Autumn tentou me falar.Oh. e tive de aceitar sua decisão. afastar-se de garotos não é algo natural. Spencer era o oposto. já tem namorado. – Devíamos pegar o Chad Rivington e cortar as bolas dele. sei que foi.Portanto. Autumn. por que os adolescentes têm tantos hormônios se não devem ser usados? – cerrou os dentes. Era estranho vê-la contar tudo com tanto autocontrole. – Não! – gritou. Além disso. – a pergunta da Spencer ficou no ar. Seu sorriso foi diminuindo cada vez mais. tipo uma comida desagradável que melhora um pouco com ketchup? Autumn sorriu. .. Fechei meu livro e olhei direto em seus olhos. Autumn caiu na risada. eu sei que ninguém me merece nesta escola. 71 . Dei-lhe um beliscão amigável no braço para trazê-la de volta à realidade... nem nenhuma de nós. – Humm. é uma das garotas mais bonitas e legais da escola. Nunca deveria deixar um idiota como esse fazer você se sentir mal consigo mesma. Deve ter sido para o meu bem. Spencer continuou não entendendo.. Além disso. Então. Ouvi por acaso Mike Domski e outros rapazes dizendo coisas horríveis sobre você e as ―Rosstitutas‖. – As palavras isca de peixe têm algum significado para você? Spencer parecia absolutamente confusa.. Spencer. Autumn respirou fundo e fechou o livro à sua frente. Mesmo assim. – Autumn não parecia muito convencida. . . Spencer não entendeu nada. contou a ela sua história. Fui obrigada a mudar o discurso. nadinha. . Autumn mordeu os lábios e confirmou. parte de mim queria que ela se abrisse com a Spencer. Mas você. – Querida. quase sem emoção... – Não acho que foi isso que a Natalie quis dizer.dentes de vampiro. quer dizer. . Nunca teria as notas que tenho hoje para me matricular em uma boa faculdade se isso não tivesse acontecido.Eu. – Autumn! Aquilo foi provavelmente a pior coisa que você já fez. – Mas não faz mal. Quer dizer. Balancei a cabeça em reprovação. que universitário me namoraria? Gente! Só tenho 14 anos e não quero cair nas mãos de um pervertido. Ela não queria ser minha convidada de honra no seminário. o seu último namorado.Não há um único cara nesta escola que mereça.

Por outro lado.Falta alguma coisa – disse Spencer. mas aquilo foi ainda mais doloroso. Reli rapidamente nossa lista. Já o Mike alegou que você faria tudo o que ele quisesse. – Tudo bem. Apenas garotas.Alguma diversão. – E o teste de confiança? Spencer fez uma cara engraçada.Bem. tocávamos músicas de bandas antigas e dançávamos juntas por algumas horas. mas Autumn me interrompeu. – O quê? . Convidávamos todas as garotas da escola para uma festa da nçante. Ninguém precisava se preocupar com garotos ou com a sua aparência. parecia estar tudo certo. Se ele pensa que é meu dono. Essa era a atitude correta que esperava dela. certo? Então. balançando o cabelo. Temos apenas uma hora. – Algo essencial. Está sempre passando pelo meu armário ou me encontrando por acaso. Observei Spencer enquanto ela assimilava tudo. Depois disso. A minha esperança era de que ela finalmente caísse na real e mudasse o seu comportamento. só que vestindo pijamas. . fazíamos isso na escola de dança que eu freqüentava. – Adorei! 72 . Chamávamos de ―dança do moletom‖. Sabia que precisava apoiá-la. Spencer mostrou um de seus cachos com o dedo. a Spencer só queria ser útil e participar. Natalie! Não tem nada de divertido nessa lista! Apontei para a atividade seis da lista. Quando terminamos as citações. fizemos a lista de atividades para o seminário. Devemos nos apressar se quisermos terminar tudo a tempo para as inscrições. – O que. Tudo parecia estar dando certo.. Já não tinha sido fácil ouvir o que aconteceu com a Autumn. por exemplo? . – É por isso que o Mike Domski não larga do meu pé. precisamos dar a elas um bom motivo para passarem a sexta-feira à noite conosco. foi difícil para ela saber o que as pessoas pensavam a seu respeito. – A Spencer está certa – disse. Connor deixou bem claro que não estava nem um pouco interessado em você. Autumn aplaudiu. . Qual é a sua idéia? . Bee me deu. – Você quer lotar o seminário de garotas da escola.Bem. Além disso. então que se prepare. Poderíamos fazer o mesmo. mataríamos um bom tempo dessa maneira.. alguém te chamou de stripper. E acho que foi o James quem disse que você nem era bonita.No início. – Veja. Com certeza. Copiei a maioria delas da internet e do panfleto que a Srta. Uma das garotas ficava de DJ.Inacreditável – disse. Todas deveriam usar calças de moletom e camisetas do tipo regata. Spencer não se sentiu intimidada. Queria dizer a ela que o seminário era mais sobre aprendizado e menos sobre diversão. – Deve ser uma noite educativa. Suspirei profundamente. mas também precisamos de diversão. – Tenho uma idéia.

preciso. vários materiais de leitura e citações inspiradoras de mulheres famosas por sua habilidade de liderança. só porque eu posso. mas algumas garotas pareciam genuinamente interessadas nas citações que Spencer e o restante das ―Rosstitutas‖ estavam entregando. você é um gênio. – Ah. Em razão do meu comportamento. A atração principal era a ―dança do pijama‖.. marcando um ponto no ar com os dedos.Ponto pra você. e um grupo de garotas veio direto para nossa mesa. uma oportunidade. – Quero pedir desculpas pelo que aconteceu no dia de abertura dos jogos – disse em tom sério. . Isso é um seminário. mas queria encorajá-la. agora entendi. Esse seminário de garotas é um decatlo vaginal. Colocamos uma mesa no corredor principal da escola com as fichas de inscrição. .Elas olharam para mim. – É uma ótima idéia. e fiquei feliz por ser verdade. um toque especial. . – Portanto. parece que você não está convidado. mas ele não deixou. mas isso não muda nada.Chame como quiser.Mas isso não é uma punição – expliquei. esperando ouvir minha opinião. Mike só entendia quando nos dirigíamos a ele como se tivesse 3 anos de idade. ela me surpreendeu.. Em quinze minutos. Mike. Com certeza. Spencer.Confie em mim. Defendendo-me daquela forma.Largue essa caneta – disse.Você não precisa fazer isso – disse. – Claro que exagerei um pouco. Só por diversão. imbecis e idiotas. Natalie. Queria soltar os cachorros em cima dele. Nada de croquetes. fomos forçadas a essa punição.Por quê? Só porque somos garotos? Isso não é discriminação? – tentei pegar a caneta de volta. mas Spencer agiu primeiro. arrancando a caneta da mão dele. já tínhamos 30 garotas inscritas. muito bem mesmo. Os alunos começaram a chegar à escola. . agradeço de coração por tudo que você fez por mim na sala do diretor. Todos os adjetivos que te descrevem muito bem! – disse. chouriços. Garotos não entram. Sorri. E. mas o significado foi o mesmo. até que o Mike Domski pegou uma caneta e tentou colocar seu nome na lista de inscritos. acho que vou infernizar a vida dele. Em resposta. A resposta de Mike? Ele mostrou o dedo do meio para a Spencer e foi embora. Sei como lidar com esses tipos – disse. Spencer – sussurrei. me desculpe. . .É isso que amigas fazem – foi a primeira vez que disse isso para alguém que não fosse minha melhor amiga. 73 . testículos. .Sim. . . Spencer insistiu em usar seu iPod para tocar músicas cantadas por mulheres. Tudo corria muito bem. – De fato. É isso mesmo. – Uma punição seria a suspensão. pintinhos.

mas porque Spencer finalemnte começava a me dar ouvidos. 74 .Coloquei meus braços em volta dela. Não porque me importava com o jogo psicológico que ela planejava usar com o Mike Domski.

Havia cerca de 50 garotas presentes.Sim. permitindo que uma das delicadas tiras de seu casaco caísse sobre o ombro. mas acho que Mike Domski as assustou com aquelas piadas sujas. 75 .Ótimo. claro – concordei. Talvez até se passasse por um. Estava com o casaco de lã aberto e a ponta do cinto deslizando pelo chão.Natalie. Ficarei trabalhando em minha sala. . mas foi você que idealizou tudo. . É você quem tem a experiência de liderança necessária. Eu não quero que esta noite se transforme em um mero pernoite divertido. .. fiquei satisfeita com o resultado.Natalie! – gritou. Srta. Natalie – disse a Srta. mas não consegui achar engraçado. se não fosse pela almofada decorada em baixo do braço e pelo saco de dormir pendurado nas costas. – Como poderíamos te esquecer? – senti que a Srta. Bee estava tentando fazer piada comigo. Mesmo assim. Você tem uma missão importante para cumprir.Tudo bem. Bee.Capítulo 15 D e jeito nenhum a Spencer usa isso para dormir. Vou pegar a Spencer e. . Bee recitou sentada.. com um laço branco onde as bordas apertavam suas coxas. . talvez as garotas se sintam mais à vontade para conversar. gostaria que você fosse a mediadora hoje à noite. como se estivesse usando um vestido de festa que fosse bonito demais para ficar escondido. Foi isso que pensei quando ela apareceu vestindo aquela camisola baby-doll xadrez verde e azul. riscando seu nome da lista de presença. Sei que a Spencer ajudou no planejamento. Esperava que mais garotas se inscrevessem. Bee? . mais as ―Rosstitutas‖ e outras alunas do conselho estudantil convocadas por mim.Spencer Biddle – Srta. Se eu não ficar por aqui. – Acho que você pode começar. – Fiz uma lista com músicas incríveis para tocarmos hoje à noite! – Ela sacudiu um pouco o corpo. Spencer apressou-se para alcançar suas amigas. – registrou minha presença.

Gostaria que todas você se sentissem seguras em compartilhar seus sentimentos e pensamentos. Primeiro. Mas nós. Spencer sorriu. Quanto mais eu a ignorava. porque Spencer e eu éramos as únicas alteradas. da forma mais gentil possível. – Vocês só queriam chamar a atenção. mordendo os lábios.Atravessei o ginásio até onde todas estavam reunidas. Olhei por sobre seus dedos. A calça hospitalar do meu pai. Spencer sentou-se ao lado de Autumn. – Mal havia terminado de falar quando Spencer levantou a mão.Tenho uma declaração a fazer antes de começarmos. que costumava ser marrom. pessoal. um pouco magoada. um moletom de capuz e zíper bem largo e as minhas pantufas. obrigada pela presença. ao contrário da Spencer. especialmente porque. – Viram? Esse é o problema. . – Acredito que muitas de vocês tenham pensamentos e opiniões diferentes e quero ter certeza de que todas terão uma oportunidade para falar – Spencer começou a balançar o corpo e a abanar a mão desenfreadamente. Spencer – puxei-a para perto e sussurrei. . . Com o queixo indiquei a ela um assento vago na arquibancada. – Devo dizer que fiquei surpresa com a reação das pessoas por causa das camisetas. – Spencer. Andei calmamente até as arquibancadas. Você disse que não haveria críticas ou julgamentos hoje. mais ela queria ser notada. estava vestindo algo que realmente usava para dormir.A minha idade não tem nada a ver com isso – disse Spencer. Foi tempo suficiente para que Spencer tomasse minha frente. É isso que deveríamos discutir hoje! Os garotos podem fazer de tudo sem qualquer punição. Bee que estava saindo do ginásio. Aqui não haverá julgamentos ou críticas. dando às garotas algum tempo para que se acomodassem. mas que ficou cor-de-rosa depois de tantas lavagens. 76 . uma camiseta branca do tipo regata. garotas.Não acredito que aquilo tenha sido sensual – falei para Spencer. parecia ressentida. e talvez. Senti-me estranha de pijama. Temos muitos lanches e salgadinhos para servir mais tarde.Acho que a melhor forma de começarmos a noite de hoje é discutindo o que aconteceu no corredor da escola duas semanas atrás. Sorri para a Srta. – Muito bem colocado.Tudo bem. Natalie. Por que as garotas não têm permissão ou não são encorajadas a mostrar a sua sexualidade? . gostaria de explicar algumas coisas – respirei fundo e sorri. . . somos proibidas de ter necessidades sexuais. – Estou sentindo muita negatividade vinda de coe. – Não se preocupe. vamos nos acalmar – o que soou ridículo. por que não começa? Spencer levantou-se e encarou as participantes.Necessidades sexuais? Você está falando sério? Você só tem 14 anos. – Oi. – Por que você não me deixa começar e depois assume? – Spencer ficou confusa.

que estava sentada bem atrás de Autumn. Uma sorriu para a outra. ela estava sentada ao lado da Spencer.Bem. Vou apenas ficar aqui e ser a garota malvada que está aqui para ajudá-la. Realmente quero que você sinta que tem todo o direito de se expressar. cruzando os braços. Qualquer coisa que você quiser. longe dos ouvidos. sinto muito se te interrompi. mas você precisa expressar suas opiniões de forma que sejam benéficas ao grupo. Olhei para Autumn como que pedindo ajuda. Eu estava perdendo o controle da situação.Entenderam agora o que eu quis dizer? – indagou Spencer. – Spencer olhou fixamente para Autumn. – Por que você me interrompe cada vez que abro a boca? Estava dizendo coisas importantes. Tenho certeza de que ela me viu. – Isso está errado! Aposto que o seu irmão gostaria que uma garota fizesse isso para ele. Spencer jogou as mãos para o ar. – Não deveríamos fazer isso juntas? . As garotas se dividiram em grupos. Natalie. agora você não presta mais. – Gostaria que vocês recortassem quaisquer imagens femininas positivas ou negativas que encontrarem. e todas perceberam. . Spencer marchou até mim... ok? Spencer olhou diretamente nos meus olhos. então anunciei rapidamente: Agora que resolvemos isso. por ser irmã dele. Seja como for. – Meu irmão descobriu que masturbei um de seus amigos. Eu a vi apertar levemente os ombros de Autumn. incluindo Marci Cooperstein. . Algumas garotas concordaram. é você quem manda. Mas. Francamente. .Olha só. que se virou surpresa. Melissa Sanchez levantou a mão e Spencer deu-lhe a palavra. e agora ele nem olha mais para mim. Mas tudo o que fez foi olhar para Spencer e sorrir. Mas também preciso que siga a minha liderança. vamos iniciar nossas atividades com a divisão de grupos – coloquei algumas revistas femininas sobre a mesa.. deveríamos mandar todos aqueles que nos julgam para aquele lugar. – Escute.Não é isso que está acontecendo – disse. não faço nada que me deixe desconfortável. Arrastei-a até as portas. Por que a Spencer estava tornando tudo tão difícil? Nem tudo gira em torno dela. mas não parece – retrucou. Ninguém quer nos ver discutindo. 77 . e eu queria vomitar. Não ficarei envergonhada. qualquer coisa. Estou sempre no controle. – Tudo bem. que direito tem alguém de dizer o que eu posso ou não posso fazer com o meu corpo? Não vou me sentir culpada só porque gosto de ser sensual. Parece que esta escola tem um grande problema com esse tipo de coisa. – Forçar as garotas a ficar envergonhadas por terem comportamentos que são naturais é um preconceito ridículo.Sim. Se ela pudesse fazer alguma coisa. É que temos muitas coisas planejadas e pouco tempo para realizá-las. Afinal de contas.

. não tenho a mínima idéia. Fala sério. . – Acho essa foto muito preconceituosa. – Mas pensei que fosse exatamente isso que você queria com este evento. portanto eu mesma fiz o comentário. na verdade.Mas você não acha que ela detém o poder nessa situação? Os garotos estão literalmente se jogando aos seus pés. somos nós quem controlamos a situação.O que está acontecendo? – perguntou Autumn.Honestamente.Na verdade. mas mesmo assim disse: . passando os dedos pelo cabelo. exatamente? 78 . Não pude acreditar. Ela estava em cima da mesa. você pode conduzir o próximo debate. – Ela está tumultuando tudo. sim. – Spencer mostrou parte de um ensaio com tema ―volta às aulas‖ em que a professora personificava uma mulher fatal. . Ela não tinha a Srta.. vestindo meia arrastão e salto alto. . implorando sua atenção.Viram! Isso é exatamente o que eu quis dizer. Bem que você poderia ter me ajudado antes. Vamos começar com esta imagem. . Talvez a Spencer até tivesse razão. Apertei os lábios com toda força. É visível que esta mulher está sendo tratada como um objeto. com alunos rastejando pelo chão. não.Não estou! – disse. Depois de alguns minutos. Suspirei. Olhei a figura novamente.O que você quer dizer com isso.Como você quiser – falou e depois saiu. – Por que você está maltratando a Spencer? . Spencer reuniu todos novamente nas arquibancadas. quando.Acha mesmo? – perguntou Spencer.Veja. Como a Spencer não conseguia enxergar a grande oportunidade que havia recebido? .Alguém gostaria de comentar? Ninguém levantou a mão.Ah. O que foi aquilo? . se não estivesse ocupada fazendo as pazes com a Marci. . Fiquei ao seu lado para que pudesse intervir facilmente se ela dissesse algo de errado. – Autumn pareceu-me sincera. porque a Autumn não conseguia entender. Em que momento o tópico da noite passou a ser: como a Spencer adquiriu o direito de se prostituir? Autumn levantou a mão: . Quando uma mulher ousa mostrar seu poder sexual. Bee fungando em seu pescoço. logo presumimos que está sendo vitimada ou abusada.

foi algo que eu tentei ignorar. Com o Connor. Encontrei um lugar na arquibancada e fiz de conta que estava lendo um artigo de uma das revistas que ninguém se preocupou em pegar. Você já se sentiu querida alguma vez? Um cara olhou para você tão fixamente que se esqueceu de piscar? Dei de ombros. Natalie. Foi naquele momento que compreendi que a Spencer nunca iria mudar. 79 . Você precisa saber quem você é. Spencer continuou falando sobre como é bom termos o controle da nossa sexualidade e como usar esse poder para fazer com que os garotos nos venerem. Mas não foi algo que eu tivesse sob controle. apenas os espaços em branco entre as linhas. o que você quer. . Spencer pediu que todas as garotas presentes dessem uma calorosa salva de palmas a Michelle. Resmunguei. e então usar seus poderes femininos para dominar os meninos. Michelle Heller contou que induziu um rapaz a comprar seu vestido da festa de formatura porque ele queria desesperadamente ser seu par. fui burra ao tentar. mesmo sabendo que a resposta era sim.Spencer sorriu e começou a oferecer os seus conselhos. Estava tão brava que nem enxergava as palavras.Confesse. – Tudo é uma questão de confiança.

Bee retomou ao ginásio. Quando a Srta. é melhor você ir buscálas antes que a Srta. Natalie. era minha função fazer com que pelo menos uma garota ficasse acordada durante a noite para que ganhássemos doações pelo nosso pernoite. — Quê? Quando? — Shhhh — sinalizou Susan —. Não porque o seminário não tivesse sido um grande sucesso. senão seremos todas expulsas! 80 . Ela foi a DJ da ―dança do pijama‖ enquanto eu recolhia as embalagens e os restos de comida do chão. deixando-me apenas a incumbência de manusear 15 câmeras de celular diferentes. Ela organizou uma sessão de maquiagem enquanto eu recolhia as bolas de algodão e os cotonetes usados. Outras garotas dormiam à minha volta. entrei no meu saco de dormir m protesto. Se ao menos a Spencer não tivesse. tentei mostrar um semblante de alguém que estivesse no comando. basicamente. que dividia o travesseiro comigo. Bee acorde. — Sim? — perguntei com voz sonolenta. arruinado a minha noite. — Natalie? Abri os olhos e vi a Susan Choi agachando para falar comigo. para a qual não fui convidada a posar. foi. — Acho que a Spencer deixou alguns dos jogadores de futebol entrar — Susan sussurrou. e depois mais duas garotas. mas isso não fazia nenhuma diferença. improvisou uma sessão de fotos das garotas de pijamas. Não tinha certeza de quando peguei no sono. — Onde está a Srta. Mas porque não participei dele. Tecnicamente. Mas quando ela foi se deitar. Bee? — Ela está dormindo no sofá do escritório do ginásio. incluindo a Autumn. — Fiquei acordada em silêncio. ainda há pouco vi a Spencer sair do ginásio. Como se não bastasse. uma de cada vez.Capítulo 16 A lguém me acordou.

Uma abriu a boca para dizer alguma coisa. — Deixe disso. Se a Srta. — Volte para o ginásio — disse a ela o mais firme possível. Sterling. Três garotas estavam atrás deles. — Ei! Cuidado — gritou. Bee descobrisse. Entrei no corredor. fugiu para o banheiro feminino que ficava no meio do corredor. — Vocês querem realmente arrumar mais problemas para o seu lado? — perguntei. 81 . salvo por algumas luzes de emergência próximas às escadas e a iluminação azul das telas dos monitores e televisores que não foram desligados para o fim de semana. Eram todas ―Rosstitutas‖. excitada e envergonhada por ter sido pega. e a iluminação era suficiente para mostrar Connor Hughes em cima do aquecedor. Os estalos fizeram com que rissem e gritassem ainda mais alto. Sombras se mexiam do outro lado do quadro de avisos e das fileiras de armários. Uma silhueta enorme. — Esqueci de pegar um livro. — Deixe suas desculpas ridículas de lado. Vários garotos desapareceram escada abaixo.Minha vontade era virar para o lado e deixar a Spencer se dar mal. mas mudou de ideia ao ver meu olhar enfurecido. Os corredores estavam escuros. Sua feição mudou quando me viu. Se eu colocasse tudo a perder. parecia estar um pouco assustado. — O que você está fazendo aqui? — perguntei com reprovação. Estamos apenas nos divertindo. Sem falar no diretor Hurley. As outras garotas pararam e me olharam irritadas. As três voltaram tristes para o ginásio. nunca mais me respeitaria novamente. Connor desceu. Virei-me e abri a porta do banheiro. silhuetas de pessoas correndo. movendo-me o mais cuidadosa e silenciosamente possível em minhas pantufas e seguindo as risadas e gritos travessos que vinham do laboratório de ciências no fim do corredor. com os pés estalando no chão. Passei pela ala de matemática. Mas sabia que não ia conseguir. camisa de flanela e uma jaqueta de linho verde-escura. Ele não esperava que fosse eu a segui-lo e. A lua brilhava majestosa pela janela. — Já — rezei para que ela realmente me atendesse. definitivamente de um garoto. temi que a camisola rasgasse em minhas mãos. vestindo jeans. Tirei as pantufas e corri atrás delas o mais rápido possível. Segurei uma das garotas pela alga da camisola até que parasse. Parecia o ambiente assustador e perigoso de um filme de terror. Mesmo assim. realmente. poderia ser suspensa junto com a Spencer. Você e os outros garotos precisam ir embora imediatamente antes que todos nós sejamos expulsos.

— Tudo bem — ele disse. não é mesmo. Ou você vai embora agora ou vou chamar a Srta. estou falando sério. Portanto. 82 . Bem grande. Ele esperava que eu desmaiasse ou algo parecido? Dei um passo na direção dele também. Quando nos separamos. A forma como sorria para mim com o canto dos lábios. menos convencer a mim a deixá-lo ficar ali. Algumas garotas ficariam insultadas. Agarrou-me e me beijou. Ele mostrava confiança. começou nas pontas dos pés e depois espalhou-se por todo meu corpo. — Agora faça o que mandei e saia daqui. quando ele se afastou. e todo o corpo dele ficou tenso logo em seguida. — Você não tem ideia de como sou durona . resolvi dar outro passo à frente e colocar as mãos na cintura. camuflando a minha inexperiência com entusiasmo. Mas. Senti a temperatura do corpo esfriar. Não havia necessidade de permissão. entendi o poder verdadeiro que alguém como Connor possui. Mesmo assim.Observei o seu jeito de agir. Portanto. Bee. Foi um beijo ardente. Precisava mostrar ao Connor que não cairia a seus pés como as outras garotas da escola. — Você não faria isso — disse. A forma como ficava tão relaxado e casual. Queria beijá-lo outra vez. — Connor. E também a palavra durona. Ele sorriu sem graça. precisava acontecer. abrindo um espaço entre nós. Sterling? Gostava quando Connor me chamava pelo sobrenome. Gargalhei. Ele deu outro passo. da mesma forma como foi naquele dia no banco de reservas. Não podia deixar que escapasse. me beijar sem nem ao menos pedir primeiro. Foi quando ele deu um passo para trás. Quis acreditar que ele estava sendo sincero. cruzei os braços e cheguei ainda mais perto. Naquele momento. meu coração disparou loucamente. Considerei aquilo um elogio. indo embora. E então ele me beijou.disse a ele. fazendo com que uma covinha aparecesse na face esquerda. porque é assim que os garotos tratam uns aos outros. não conseguia pensar em outra razão para ele me dizer aquilo além da de querer me convencer a não chamar a Srta. em vez disso. — Gostei do seu pijama — ele disse. Foi uma atitude ousada dele. Bee. e uma sensação estranha tomou conta de mim. fechando o espaço que havia entre nós. Poderia convencer uma garota a fazer qualquer coisa. aproximei-me e o beijei com mais força ainda. — Você é bem durona. definitivamente. — É mesmo? Então pague para ver. Por alguns segundos nos entreolhamos. vindo em minha direção. era totalmente seguro de si. juntei algumas palavras e disse calmamente. — Fique quieto — respondi. Mas eu não.

para ter certeza de que não havia mais ninguém. reunindo os outros garotos e dizendo: — Vamos embora! Atrás de mim. ouvi uma porta se abrir. 83 . havia acabado de beijar. Natalie — disse. todo o meu corpo: eu. — Até mais tarde. Connor Hughes. pois sabia que ninguém no ginásio acreditaria. Um único momento tomava toda a minha mente. zombando. Estava fingindo. Senti uma paz estranha carregando esse enorme segredo. Tinha um enorme sorriso idiota no rosto. Dei uma última volta pelos corredores da escola. Quando virei. e dispensar. Nem eu mesma conseguia acreditar. Connor já estava no fim do corredor. Ao voltar ao ginásio.Fiquei imóvel por alguns segundos. vi Mike Domski saindo do laboratório de Ciências e correndo para junto dos outros garotos. Natalie Sterling. mas resolvi não dizer nada. Quando saí do banheiro. vi Spencer deitada em seu saco de dormir com os olhos fechados.

— Excelente. eles simplesmente apareceram. já que vinha do treino. Eu nunca faria nada que pudesse te causar qualquer tipo de problema. aquele tipo de riso travesso cheio de segredos. foi. A Srta.. Connor olhava para mim e começava a rir. Felizmente. colocando uma das mãos sobre o brasão da Academia Ross em seu uniforme de moletom. Sua figura se destacava por causa das proteções que usava para o futebol.. De qualquer forma. Ela parecia estar falando a verdade. não foi? Foi. — Juro. depois daquela noite no banheiro. que deixou um livro em seu armário. Aí tentei tirá-los de lá. — Acho que não. Bee tinha sido fria comigo na manhã após aquele pernoite.. Fiquei olhando para a Spencer. Natalie — disse. então tá tudo bem — sorriu Spencer.. Ela parecia mais interessada em achar água quente para o seu chá do que em falar comigo. Comecei a ver o Connor com mais freqüência. na lanchonete. e eu o ignorava o mais rápido possível. a irritação dela era resultado de uma noite mal dormida no sofá do escritório do ginásio.Capítulo 17 P osso falar com você um minutinho? — Spencer praticamente me encurralou em meu armário. 84 .. Fiquei fora até mais tarde. É. começamos a colidir um com o outro bastante. — Quero que você saiba que não convidei aqueles caras para a escola. Bee lhe disse alguma coisa? — Não. — A Srta. Ou talvez tivesse percebido mais a presença dele. Parecia que estávamos brincando nos salões. — Foi excitante. na secretaria. trabalhando nos enfeites para o baile de Halloween e esperando por Autumn. por quê? Você acha que ela sabe? Tinha minhas suspeitas.. Ficamos apenas ele e eu. A maioria dos carros estacionados entre os nossos naquela manhã já tinha saído. Um dia nos esbarramos no estacionamento após a escola.

simplesmente voltou para o carro. — Tenho certeza de que não faltarão lindas fãs — tentei ficar calma e olhando para o chão. Meu coração parou. — Tenho de ir — disse depressa e passei por baixo do braço de Connor. de verdade. de qualquer forma. tomando Gatorade e molhando os lábios que eu tinha beijado. — Temos uma ótima chance nas eliminatórias. Escutei uma das pesadas portas metálicas da escola se abrir. Sinto muito — falei com sarcasmo. Não consegui saber se estava tirando uma com a minha cara ou se estava se achando ridículo pelo que tinha acabado de confessar. mas aí não teria graça. Um fofo. Ele também deve ter visto a Autumn. . Então passei a colocar os livros. Mas Connor obviamente nem imaginava que eu era uma das melhores debatedoras na Academia Ross. Sterling — disse Connor. — Você vem ao jogo desta sexta-feira? Virei-me para olhar melhor para ele e tive que proteger meus olhos do por do sol.— Ei. — Então. — Mas não é delas que eu gosto — disse. boa sorte! — falei sem emoção. por mais que ele tentasse defender seu ponto de vista. como se estivesse conversando e gemendo ao mesmo tempo. E aí. pois não disse mais nada. estufando o peito. Ele sorriu. venha ao jogo! Fechei o porta-malas. — Por que eu faria isso? — Porque vou jogar . isso não faz parte das atribuições como presidente do conselho estudantil? Você sabe. com os olhos fixos nos meus. furiosa. apoiar os times da escola. Até podia ter entrado no meu carro. Não respondi. — Poxa.ele disse. Sua voz estava engraçada. Ele estava sentado no pára-choque. Era Autumn. minha temperatura subiu.E. ele estava lindo. Ele levantou e deu uns passos em minha direção. achando que estava conseguindo me convencer. Quando levantei o olhar. — Isso não faz parte das minhas atribuições. 85 . Apesar das manchas da grama e do suor e toda aquela sujeira. no porta-malas. De qualquer forma. um a um. vi Connor praticamente em cima de mim. eu sempre iria rebatê-lo.

T. e não ia permitir que Marci ficasse entre nós. não havia muita escolha. Desde o seminário. fazíamos o nosso próprio programa. não quero que você se decepcione. Mas por algum motivo. onde fizemos exercícios e suamos. Santo Graal ou Santo Gral é uma expressão medieval que designa normalmente o cálice usado por Jesus Cristo na Última Ceia. parecia mais um aniversário estranho que nos fazia lembrar de tudo o que aconteceu. (N. Nos anos seguintes. E para um lugar que anunciava ser uma espécie de Halloween megastore.exclamei com cautela. Parece até que estudamos em casa e nem vamos à escola! O fim do namoro de Autumn com Chad foi um pouco antes do baile de Halloween.disse. e que tem cheiro de chulé. — Tudo é para crianças. Agora que as duas tinham feito as pazes. — Não vejo fantasias para adultos . Mais alegre. portanto nem fomos. — Muito bem . quando éramos calouras. como um baile escolar pode ser tão bom assim? Vamos estar no ginásio. — Você é muito negativa.) 14 86 . Ela estava dedilhando uma enorme cortina feita de contas como se fosse um violão gigante. — Pelo jeito você encontrou a sessão de adultos. Sabia que deveria ficar feliz por ela.retrucou Autumn. acho. só para completar todas as minhas outras obrigações de sempre. Uma luz rósea e fluorescente vinha daquela sala. Natalie. Autumn lhe perdoou.Achar uma roupa legal para o Halloween pareceu mais difícil do que encontrar o Santo Graal14. Autumn era minha melhor amiga. Nesse dia. mas isso não significava que elas pudessem retomar do ponto em que haviam parado antes daquela coisa toda da isca de peixe. Quer dizer. Autumn estava agindo de forma diferente. — Nem tudo . Ela fez uma cara feia e perguntou: — Por quê? — Bem. Autumn entrou e fui atrás dela. Autumn disse: — Não acredito que a gente não tenha ido a um único baile sequer juntas. — Não ficaria muito entusiasmada com esse baile — disse. queria ter certeza de que Marci não viesse com ideias. Sem falar que organizar um baile dá uma tonelada de trabalho. — Eu também — falei e pensei em Marci Cooperstein. entrando em outro corredor. — Espero que a gente consiga encontrar roupas iguais — disse Autumn. isso me dava mal-estar.

Havia um gostinho de passado. — Deixa para lá. Ela puxou um verdadeiro arco-íris de tubinhos da prateleira e pôs na sua frente. Era uma rede solta e havia estrelas-do-mar cor-de-rosa e cavalosmarinhos verdes colados a ela. Parecia um tanto grudento. — não sabia o que dizer. você está procurando algo do tipo mocinha francesa.) 15 87 . — Autumn segurava um vestido cintilante com um colorido azul e verde.. Alguns dos outros clientes pareciam estar irritados com a gente. Fiquei chateada. pendurando de volta no cabide.. especialmente porque ela estava tão desesperada para se divertir no baile? Seria como entrar na cova do leão. ou quem sabe. — O quê? — perguntei. chegando até o chão.. devo confessar que nós estávamos praticamente gritando. — e riu tanto que quase perdeu o fôlego. — Mas você está superocupada com as tarefas do conselho estudantil — lembrou-me. Mal conseguimos sair desde a eleição e o baile é na semana que vem. — Excelente! Então posso ser uma prostituta nojenta ou uma vagabunda de peitos grandes. — Espere um pouco. mas por que a Autumn estava me culpando por mostrar o óbvio? Que tipo de amiga seria se a deixasse usar aquela fantasia.. — Tudo bem — ela disse. mas pelo menos era longo. — Vamos fazer nossas próprias fantasias. Esse aqui é até bonitinho. — Você não vai ter tempo.. — Não. — Então. Sete irmãos que transformaram sua companhia de teatro no maior circo dos Estados Unidos no fim do século 19. Em sua defesa. Eu não estava nem perto de encontrar uma roupa e isso me deixava louca. Honestamente. Será divertido. — Vamos embora — disse. — É uma fantasia de sereia! O que você acha? Não é legal? — Autumn.T.Autumn deu uma olhada nas prateleiras. — Autumn colocou subitamente uma peruca longa e loira e amarrou um Xale em volta dos ombros. vestindo uma roupa feita de filé-mignon. (N. estava tão na cara. Mas eu não estava nem aí.. dizendo: — Os irmãos Ringling15 dizem que sou uma garota muito má! Passamos os dez minutos seguintes morrendo de rir daquelas roupas de extremo mau gosto: várias roupas pareciam feitas para vagabundas e outras para seres andróginos. com uma voz amarga. — Uma prostituta palhaça? Quem é que vai comprar uma coisa dessas? Mordi o dedo. das épocas em que nós duas parecíamos tolas e não nos importávamos com isso. — Apresentadora de programa de televisão? — tentei adivinhar.

o que seremos? Será que ainda dá para fazer duas fantasias que combinem? Eu disse que sim. prometo. E era a minha vontade. quando vi um boné marrom imitando couro e grandes óculos de proteção. e era por isso que eu queria que Autumn tivesse aceitado ser a minha vice-presidente.Fiquei incomodada. Soube imediatamente: não ia bancar a prostituta ou algo do tipo no Halloween. Mas já era tarde para tanto. pois essa era minha maior preocupação em setembro. Eu iria de Amélia Earhart. — Vou dar um jeito. 88 . pelo menos até sairmos da loja. — Então.

Não dava para ver a marcação das quadras no chão nem os colchonetes e tudo o mais. olhando para a sua fantasia justa. então peguei emprestado da minha mãe para ficar mais autêntico. como os olhos arregalados: — Você está usando maquiagem? Dei de ombros. estava amando a fantasia de Amélia Earhart. mal consegui acreditar na beleza que contemplava. Já tinha ficado bonito quando terminei de decorar depois da aula. dizendo: — Finalmente você chegou! — Não acreditei no que vi. Os corrimãos das arquibancadas estavam cobertos de teias de aranha. Apesar do meu machucado. Antes mesmo que eu pudesse dizer qualquer coisa. O ambiente todo estava no meio da névoa. Não acredito que você mesma fez. E ainda estava com chapéu e óculos de piloto de avião. 89 . a alegria de Autumn me deixava constrangida. Cacheei as pontas do cabelo e prendi tudo pra cima em um coque. Acho que Amélia teria usado. o maior abraço que ela conseguiu dar.Capítulo 18 ssim que pisei no ginásio na noite de Halloween. quer dizer. Havia abóboras delimitando a área de dança do restante do ginásio e o DJ que contratamos trouxe as luzes piscantes e a máquina de fumaça. — Sua fantasia está maravilhosa. mostrando como meus dedos estavam feridos por cortar o papelão com uma tesoura cega. Os túmulos de papelão que havíamos feito na semana passada pareciam reais à meia-luz. — Não tive tempo de fazer a minha — admitiu Autumn. — Ah — não sei o que ela queria que eu dissesse. A Autumn veio correndo em minha direção. Tinha uma blusa de seda creme que comprei para usar nas entrevistas para a faculdade e calça marrom com a barra enfiada dentro das botas de couro. mas tudo estava muito melhor no escuro. — Só batom. pois eu estava em pé dentro de um avião de papelão preso aos meus ombros por suspensórios. — Mas custou caro — disse. Autumn estava usando a fantasia de sereia que vimos na loja. Ela já sabia que achava aquilo uma má ideia. Mas o avião impedia meus movimentos — devia ter feito asas mais curtas. Autumn chegou mais perto e disse. ela me deu o maior abraço.

Virei-me e vi Spencer. vestindo suas fantasias. Ela trajava um minivestido justo em um corte de macacão. Bee. Mas gostei de usar a cor vermelhocereja e depois. por causa das luzes. Não conseguia parar de pensar se Connor iria notar. os garotos do futebol tinham vindo. dava para Ver pedaços de um calção laranja brilhante. Só gloss. Era bem provável que só estivessem lá por causa da comida. de deixar a marca de batom no papel higiênico. — Quer beber alguma coisa? — gritei novamente. para finalizar. com todo cuidado. usava botas de amarrar de salto alto no estilo Timberland. estava difícil identificar as pessoas. pois não dava para falar com o barulho da música. Era bem feita. O diretor Hurley estava totalmente adequado com sua fantasia de oficial do exército e as botas pretas brilhantes. da fumaça e das fantasias. E — vai saber onde ela arrumou aquilo —. deixando os peitos explodindo para fora. mas. A saia chegava bem embaixo do bumbum e quando ela se abaixava com a música. mas nada tão dramático.Não era verdade. por alguma razão. Natalie! Adorei sua fantasia! Prometa que vai tirar uma foto comigo antes de a noite acabar — seu sorriso virou uma careta quando olhou por detrás dos meus ombros. com o formato de um beijo Nunca tinha usado batom antes. senti um pouco de pena dela. e com certeza ela tinha se transformado em uma vagabunda da construção civil. 90 . Os olhos dela se iluminaram quando me viu. Autumn pegou na minha mão e me arrastou para o meio do ginásio. a Srta. A única professora sem fantasia era a Srta. mas o modelo era como um espartilho. E apesar de fazer com que todos os outros parecessem idiotas. — Oh. Um colete justo da mesma cor estava jogado de forma displicente em seus ombros. Bee não conseguisse se vestir dessa forma mesmo que quisesse. Queria ver qual seria a fantasia de Connor. E não tem só garotas. Não sabia se as músicas seriam ―legais o bastante" para eles. Mas sua fantasia não parecia barata nem de plástico como as fantasias prontas que se compram em lojas de fantasia. — Não acredito que todas essas pessoas estejam dançando — gritei. Amélia fazia o tipo andrógino. com certeza era uma de suas fantasias de apresentações de dança passadas. O diretor Hurley e eu estamos pensando na possibilidade de criar regras para uso das fantasias no ano que vem. bem amarradas. — Eu sei. Já esperava que sua fantasia fosse meio exagerada. Então. Como se. Era lá que todos os professores estavam. Usava uma regata branca por baixo. Olhei em volta. Imaginei que o armário de Spencer provavelmente tinha uma loja inteira de fantasias de Halloween. — Queria que as outras meninas seguissem seu exemplo. Alguns dos jogadores de futebol também estão aqui. se é que ele tinha se dado ao trabalho de usar uma. Era uma imensa multidão de garotos e garotas pulando para cima e para baixo. Ela concordou e fomos juntas até a mesa de bebidas. Usava capacete de peão de obra e um cinto cheio de ferramentas de plástico.

com um par de algemas soltas se agitando em seu pulso. Como se não tivéssemos feito exatamente essas mesmas piadas semana passada. que não usava fantasia. uma garota que faz aula de francês avançado comigo. — Olha só para ela. Ele não conseguia tirar os olhos dela. Meu coração se despedaçou. Mas senti-me 91 . Só quero me divertir. Ela usava um espartilho xadrez com meias arrastão brancas e mocassim de salto alto. — Diana puxava a barra da saia e dançava conforme a música. Atrás dela. É claro que garotos como Connor vão prestar atenção em garotas seminuas dançando na frente deles. Estava dançando no meio de dois jogadores de futebol. Ri tanto que quase derrubei meu copo. percebi que Diana Berry estava dançando. Foi então que vi Connor Hughes. pensei. Dava para ver que o Mike estava ligadão na Spencer. Mas a fantasia dela apertava em lugares estranhos do corpo. Parecia que ela estava se divertindo como nunca.Ela parecia uma stripper de verdade.. usando um uniforme de listras brancas e pretas de presidiário.. Tentei desviar o olhar. Como não? Era praticamente instintivo. Bee. e então danço no seu colo! Pala sério. só uma enorme peruca afro. Os dois se empurravam para cima de Spencer. tentando manter o traseiro coberto. Não existe imunidade a peitos e bundas para adolescentes. fumando cachimbo. — Parece mesmo que ela está se divertindo? Ou parece que está desesperada querendo a atenção de qualquer um? Autumn torceu o nariz e questionou: — Você vai agir dessa forma a noite toda? — Dessa forma como? — Nenhuma. Tá. disse: — A Diana está usando a versão piranha de Sherlock Holmes? Ooooh! Resolvo mistério. vendo Diana dançar. E o outro cara que completava o sanduíche de Spencer era Paul Zed. apertando-a no meio deles. mas o que quer que ele estivesse ouvindo não era tão interessante a ponto de desviar o olhar de Diana. Primordial. pensei que ela fosse mais esperta. Balancei a cabeça e perguntei: — O que isso tem a ver? — Ela só está se divertindo — respondeu como se tivesse jogando na minha cara. — Eu também — não entendi o que estava acontecendo. Como se aquilo não tivesse nada a ver com Diana. Ocorreu-me que talvez estivéssemos tendo algum tipo de conversa secreta. também vestido de presidiário. Deixa para lá. mas não consegui. — A Diana é uma garota legal — disse Autumn. Depois que Autumn e eu estávamos longe do alcance de audição da Srta. Ela parecia bem mais bonita usando o uniforme escolar. Diana era uma garota bonita e cheia de curvas. Autumn praticamente bloqueou minha passagem quando tentei andar e sei que ela estava tentando arrumar briga por causa da fantasia da Diana. Um deles era Mike Domski. Bobby Doyle sussurrou alguma coisa no ouvido de Connor. Alguns garotos estavam sentados em uma pilha alta de colchonetes.

Diana foi para a arquibancada. Estava morrendo de ciúmes. — Eu estou bem. procurando uma pessoa invisível no meio da multidão. Mas só chamei a atenção dele por um segundo. Era quase tão constrangedor quanto dançar. não dava nem mesmo para ter certeza se ele tinha me visto. Natalie. Usada. A música recomeçou. Soltei minha mão e falei: — Acho que vou só ficar por aqui. Ela me conhecia muito bem. — Vamos. Todo mundo curtiu. — Dance comigo. Começaram a dançar. Autumn olhou feio para mim. Respirei fundo e olhei por detrás dele. Foi aí que ele me viu. — Autumn retrucou e carregou sua cauda de peixe para longe. — Então. sabia que não devia fazer isso. Será que tinha imaginado as coisas com Connor? Sei que nos beijamos. Não com aquela fantasia ridícula. Queria contar para ela sobre essa história toda com Connor. 92 . Ela acenou para Autumn e elas praticamente se abraçaram quando Autumn correu em sua direção. Ou talvez meu beijo seja muito ruim. Até Autumn. Não ouvindo um rap ridículo na potência máxima. a fantasia dela era um lápis dançarino. A mesa está meio bagunçada. E estou me sentindo um pouco mal por te chegado atrasada. — Dei um passo para trás e ela fez uma careta. Insegura. Uma sensação terrível se alojou na boca do meu estômago. — Ela começou a se mexer no ritmo da música. Odiava a forma como estava me sentindo. Pois. Na verdade. mas não conseguia. Ficasse em mim da mesma forma que tinha ficado em Diana. não quero deixá-la aqui sozinha. Fez com que sentisse raiva de mim até mesmo por ter tentado. — Venha. Tentei não sentir ciúme. Fez com que me sentisse tão desesperada quanto Diana e todas as outras garotas. Marci Cooperstein já estava na pista. girando e fazendo movimentos coreografados e engraçados que o pessoal inventava o tempo todo. arrastando seus saltos pelo caminho. na verdade. Quando a música acabou. Talvez tenha sido só uma ousadia. Autumn segurou minha mão dizendo: — Nem eu. mas senti. Mas isso não significa que não podemos dançar. Tudo aconteceu muito depressa. Estúpida. tá. Vamos dançar! — Não sei essa coreografia — disse. tentando pegar meu braço novamente. — Por favor! — Autumn implorou. Acho que vou ajudar. procurando um guardanapo para tirar o batom. Vai lá. Queria que o olhar dele congelasse em mim. mas ele sempre estava fazendo isso. balançando o meu braço. Connor desviou o olhar para dar uma geral no ginásio. Talvez nem um segundo.completamente idiota por ter passado batom.

Fazia com que me sentisse pequena. Pois eu já tinha o cara que queria.. — Você estátão. arrumar o cabelo e a maquiagem. fazendo-me perceber o quanto estava inapropriada para a ocasião. como se estivesse decidindo dizer ou não uma coisa para mim. — Obrigada pelo conselho — disse. obrigada — minha fala parecia tudo. Ela já estava pulando no meio da pista de dança. — Implorei. — Não estou escondendo nada. Os movimentos dela eram suaves e autoconfiantes. Quando não havia mais nada a fazer. Spencer ficou ao lado do meu avião de papelão e mordeu os lábios. irritada. Ouvi Connor vindo por detrás de mim. Natalie. mesmo sendo mais alta que ela. Aquilo fazia com que me sentisse inacreditavelmente solitária. — Sabe. toda vez que tentava não olhar em sua direção. Sua bunda fica linda com essa calça. Por que você esconde isso de todo mundo? Não gostava da sensação de ser avaliada por Spencer. Ela sorriu e disse convencida: — Fácil demais. menos um agradecimento. tirei o avião de papelão e o chutei para debaixo da mesa. E então comecei a arrumar coisas que nem precisavam ser arrumadas. Por cima do ombro. — Então. Em um intervalo entre as músicas. E ela tinha que tomar cuidado com o quê? Connor atravessou o ginásio e veio para perto de mim. Mas Spencer não me ouviu. dançava com a escola inteira — meninos e meninas. Todo mundo olhava para ela. mas ele não me queria mais. elegante — foi a palavra que ela decidiu usar. certificando-me de que os petiscos estavam sendo servidos e de que tínhamos gelo o suficiente na geladeira. — Parece que você está com Mike Domski aos seus pés. Spencer veio até a mesa de petiscos. só para parecer que estava fazendo alguma coisa. mas bati nela com uma das minhas asas. Tentei sair de perto dela. Suas amigas foram ao banheiro. Eu vi.. — Não dá para entender você — Spencer virou e se apoiou na mesa. por que não está dançando? Quer que te ensine uns passos rápidos no corredor? — Estou bem. Spencer se aproximou de mim e sorriu para a minha fantasia. ouvia a galera gritar o tempo todo a cada nova música. fiquei observando Spencer. incluindo Connor. mesmo estando totalmenteridícula com aquela fantasia. Ela pegou uma lata de Sprite da geladeira e a esfregou no rosto. era exatamente onde meusolhos iam parar. Está se divertindo? 93 . Sterling.Passei a me ocupar imediatamente. — Só tome cuidado. Antes de me dar conta do que estava fazendo. — Você pode ter o cara que quiser daqui se você se soltar só um pouquinho. A testa dela estava toda suada. Era quase fácil demais. — Oi. Apesar de todos os meus esforços. mostrando ainda mais os peitos. Ela não dançava somente com um ou doiscaras. você tem um corpo tão bonito. seguida de várias amigas.

para ter certeza de que ia segurá-lo. — Tome — tirei o papel do bolso e tentei devolver a ele. mas não conseguia acreditar. tá bem? Cruzei os braços.Ri. Fez aquilo como se fosse um mágico escondendo uma bola de espuma vermelha nas mãos para um truque. Mas a mão dele parou bem acima da tigela. Ele pegou a minha mão e a fechou com o número de telefone dentro. Connor deu um passo em minha direção. A mão dele me deixou quente como carvão. Como ousava resmungar de mim! Como se eu fosse uma pessoa impossível? O olhar dele era sonolento e suave. — Disse e senti o bafo de cerveja na mesma hora. Olhei bem para ele. 94 . — Sterling — ele riu a princípio. Estava agindo como louca e não achava que conseguiria me controlar. E depois foi embora. E por mais que soubesse disso. tinha certeza de que a tigela ia derreter. E então. resmungou. — Nada. E quando ele abriu a mão. Senti minha voz presa na garganta quando disse: — Não fique se gabando. Ele não disse mais nada. Virei-me para encará-lo e perguntei: — O que é isso? — apesar de já saber a resposta. — Não vou pegar um pedaço de papel imundo da sua mão. Perto o suficiente para perceber que ele tinha feito a barba e tinha um pequeno corte onde o queixo se encontrava com o pescoço. quando viu que não estava brincando. — Veja você mesma. Ele esticou a mão imediatamente para pegá-los. e quando ele esticou o braço para pegar um M&M's. deu para ele chegar bem perto. — Não tanto quanto você. Não estava nem tentando. — Por que você não dá isso para uma das piranhas que estava olhando? Tipo sei lá. mas sua beleza não diluía minha raiva. Spencer. vi um pedaço de papel no meio da palma. A arrogância dele me dava nó no estômago. então Connor enfiou o papel dentro do meu bolso. então fiquei de costas para ele e despejei um saco de M&M’s numa tigela. — Então você está me observando? — Ele piscou tímido e ao mesmo tempo arrogante. — Por que você é tão ruim comigo? — Porque não confio em você — o que era verdade. Pelo menos achei que fosse pegálos. Vi você babando por todas as garotas do ginásio. — Pega isso. — Não estou interessada. Perto o suficiente para poder sentir o cheiro de plástico da fantasia dele. Tenho certeza de que adoraria ficar com você. Ela tinha o seu número na estúpida camiseta de ―Rosstituta‖. Sabia. Como não estava mais usando o avião. a agitação que sentia quando conseguia a atenção de Connor ainda me fazia sentir embriagada.

Estava em minhas mãos. E percebi o que tinha acabado de acontecer. ou eu começava a jogar ou era fim de jogo. Não era um truque. 95 . Nossa paquera no corredor ou naquela noite do banheiro não iria muito longe. Mas Connor tinha feito uma jogada.Abri a mão e vi o papel.

Queria tanto dizer a ele que tinham sido seus adorados atletas que tinham decidido jogar doce uns nos outros. Aquilo não era um convite. — Tem uma galera que vai para a casa de Bobby Doyle. o conselho estudantil teve de retirar toda a decoração e recolher as sobras de comida. A maioria dos alunos já tinha ido embora.. não parei de tocar em meu bolso para sentir o papel. Quanto mais eu ficasse ali. 96 . — E vou. No máximo por uma hora. Não a garota que estava limpando a sujeira feita pela brincadeira de todo mundo. Só vou fazer um pequeno desvio primeiro. Estava com raiva por ela não estar ajudando a limpar.. Você quer vir comigo? — Pensei que você fosse dormir na minha casa — dava para sentir a mágoa em minha voz. O técnico Fallon ia me dizendo o que fazer. E aí? — Então. Autumn estava sentada na arquibancada. Ainda mais quando ele passou por mim na porta sem ao menos lançar um olhar. o que me dava ódio. — Oi — disse Autumn atrás de mim. vou dar uma passada lá. Era uma humilhação.Capítulo 19 Q uando o baile acabou. como a Cinderela. apontando para os doces amassados e as manchas grudentas no chão. Acho que realmente o constrangi. praticamente fui ignorada a noite toda. conversando com Marci e umas outras garotas. e os encontrões e tropeços deles tinham espalhado refrigerante por toda a parte. mais tempo demoraríamos para voltar para casa. — Tá. como se precisasse ter certeza de que aquilo não era um sonho. pois assim que me largou para dançar com a Marci. só havia umas poucas pessoas por lá e eu era a única que estava trabalhando de verdade. Estava exausta e imaginava o quanto Autumn devia estar cansada. Depois que Connor saiu do baile. só parou depois da última música. e não eu. Bem.

Mas não conseguia. Apesar de ela ter basicamente partido meu coração. mas lentamente. meio impacientes. Autumn veio atrás. Era provável que estivesse falando de mim. apaguei a luz e me joguei na cama. Havia pedaços de papelão e materiais de arte por todo o meu quarto. Mesmo estando brava com Autumn. pensando em Autumn naquela festa. — Marci pediu desculpas. — Como foi o baile? — Ela sussurrou. — Onde está Autumn? — Ela passou mal — menti e fui para o meu quarto. Ponto final. Deixei meu celular ao lado do travesseiro. Especialmente sabendo que ficaria ali sozinha a noite toda. O avião de Amélia Earhart havia colidido e incendiado. Olhavam para nós. Já passava da meia-noite. Estava deitada. Tentei dormir. Não estava a fim de arruma aquilo. Fechei os olhos. — Não entendo — disse assim que estávamos sozinhas —. parei o carro na garagem. Eu lhe perdoei. como uma criança a sendo arrastada por uma loja de departamentos. Quero que você venha junto — Autumn abaixou a cabeça e disse. Era bem provável que sim. Achei o número do telefone de Connor amassado no bolso da minha calça. imaginando Autumn na festa. Marci Cooperstein traiu você e agora você está me largando para ir a uma festa cheia idiotas que tiraram sarro de você — disse tudo isso. mas eu não estava nem aí. Deus sabe que Marci não iria defendê-la. mas acordada. E foi exatamente o que Autumn fez. Ela não ia perder essa oportunidade. Abri o armário e enfiei a vassoura lá dentro com tudo. caso ela me telefonasse chorando. A mamãe e o papai estavam na sala. então juntei tudo no chão. esperava que ninguém tirasse sarro de Autumn. Não queria que parecesse que eu estava correndo atrás dele. Então. Imaginava se ela estava se divertindo. Estaria pronta para dar meu apoio a Autumn. Natalie! É só uma festa. como sempre estava. olhou atrás de mim um pouco surpresa. ou atrás do que quer que fosse que Autumn estava. ainda me preocupava com ela. mesmo sabendo que uma parte de mim queria ir. Abri meu telefone e escrevi uma mensagem. Aposto que Marci estava fazendo questão de ajudá-la na diversão. Era óbvio que eu estava atrasando os planos delas. mas não estava nem aí. sem mim. dizendo a Autumn que ela fez a coisa certa me deixando sozinha. E não estou largando você. 97 . Não ia facilitar as coisas para Autumn. indo em direção ao armário de materiais. — Meu Deus. virei-me e fui me distanciando dela. Papai estava dormindo e a mamãe aninhada nos braços dele. — Vou para casa. Sem ao menos se despedir. Em seguida. Joguei o avião de papelão na lixeira que ficava em frente à minha casa. mas não podia. Uma hora mais tarde. Você pode fazer o que você quiser.Olhei por cima do ombro dela e vi Marci e as outras garotas.

98 .Oi Então esperei pelo que parecia uma hora. Um troféu da minha humilhação completa. Meu telefone vibrou. estava saindo escondida do meu quarto. Talvez ele tivesse aberto o telefone para mostrar para todo mundo. sentindo-me tonta e patética. ou. quem sabe estivesse na festa. E quando dei por mim. Venha aqui.

Capítulo 20 D irigi pela longa estrada particular que levava à Fazenda Hughes de Árvores de Natal. Isso arruinaria o restante do meu último ano na escola. Tudo bem. confiante. pois percebi que talvez Connor tivesse caído no sono. Havia abóboras enormes com cabos cheios de folhas em cada degrau. com exceção de uma suave luz na cozinha fazendo sombra para um fogão com uma chaleira vermelha brilhante. pois não estava acordado. Tirou a mão do bolso e acenou para mim. Foi aí que o vi sair de dentro da casa. ele estava ali. Os faróis piscavam para as várias placas de boas-vindas pintadas à mão. com persianas de madeira brancas em todas as janelas e uma cobertura na varanda. mesmo eu tendo vindo logo em seguida. tão quente que abri um pouco a janela. e todas as probabilidades apontavam para o fato de que íamos ficar juntos. poderia dizer que tinha decidido não ir. VISITE-NOS NA PRIMAVERA. A porta da frente tinha uma daquelas telas que sempre fazem barulho quando batem. PASSEIOS DE CARROÇA. A casa de Connor ficava no pé de uma montanha — era enorme. moletom com capuz azul-marinho e um gorro de lã cinza. EXPERIMENTE O CREME DE ABÓBORA! Elas davam a impressão de mau agouro no meio da noite. presas a postes de madeira a cada 50 metros ao lado da tubulação de esgoto. Caminhava lentamente. junto com pacotes de feno arrumados de forma perfeita. Um constrangimento profundo começou a percorrer meu rosto como fogo. eu ia morrer. Ignorei a entrada do estacionamento de visitantes. Estava mesmo acontecendo. mas fechei logo em seguida. já que era óbvio que estava bebendo desde antes da festa. Que eu tinha dado o cano nele. Se Connor visse minha mensagem só no dia seguinte. continuei dirigindo até chegar à entrada da casa dele. pensei em um plano — se não mandasse nenhuma mensagem para ele. O cenário não parecia real. parecia ter saído de uma pintura. Em vez disso. O tipo de história da qual as pessoas gostam de rir para sempre. Ele ia ficar sabendo que estive lá e voltei para casa. Por mais 99 . Abri meu telefone para mandar uma mensagem para Connor. Desliguei o motor e os faróis. As janelas eram escuras. Respirei bem fundo. Ou talvez tivesse desmaiado. Então. Ele tinha trocado seu uniforme de presidiário por calça jeans. Eu estava ali. pois não ia andar naquela escuridão sozinha de jeito nenhum. em estilo vitoriano.

Ele correu de volta para casa. Mas permiti a mim mesma afastar essa sensação. — Tudo bem — respondi. Talvez ela soubesse mesmo do que estava falando. — Então. Vi enfeites 100 . parecendo cansado subitamente. qual era o problema de estar ali? Não era uma romântica inveterada. Provavelmente porque não fazia a mínima ideia do que ele tinha na cabeça. Balancei a cabeça e respondi: — De jeito nenhum. Então. Porque não era mesmo. Atrás de mim. uma à direita e uma na montanha. Não conseguia parar de pensar em todas as outras garotas que ele já devia ter levado lá. seguro de si: — Eles não vão acordar. Queria companhia. — Oi — ele sussurrou. como plantação de milho. pois queria parecer relaxada. Eu sabia que queria Connor naquele momento. — Eu fui lá. — Pensei que você estivesse na festa do Bobby. como se não fosse grande coisa. Algo ao longe chamou a atenção dele. espere aqui. tive uma ideia. e eu fiquei ali sozinha. não queria nada nem perto disso. E se seus pais acordarem? Ele afastou as pernas mudando o peso do corpo. tá bom — disse. Assim que pensei em Spencer. Ele se virou. Queria esquecer Autumn. Na verdade. Ele olhou para o banco de trás do meu carro e propôs: — Podíamos ficar no seu carro. saí do carro e recostei-me na porta como quem não quer nada. — Eca.uma à esquerda. Ele não era grande coisa. para garotas como Spencer. Estávamos em um impasse e a questão era a seguinte: eu não queria ir para casa. contanto que não estivesse procurando nada além de uma distração. Havia pinheiros enfileirados milimetricamente.. Mas saí quando você me mandou a mensagem — ele sorriu e senti todo o meu corpo tencionar. rezando para que Connor se apaixonasse por mim. A solução estava em deter o poder. Qual é? — Tá bom. Havia três miniflorestas nos arredores da casa de Connor . — Você veio. o momento ainda me parecia completamente surreal. Esperei que ele viesse até mim.. Talvez para as outras garotas da escola. Usá-lo para conseguir o que eu queria. Então. — Vim — disse olhando para a escuridão. havia uma lojinha construída de forma a parecer um depósito. falando. animado e disse: — Olha só. você quer entrar? Revirei os olhos e disse: — Não vou entrar na sua casa. mas pareceu mais que estava perguntando.verdadeiro que fosse. comecei a pensar nas coisas que ela tinha dito na noite das garotas. mas não para mim.

— Está ficando tarde — disse impaciente. tentou empurrar a chave. mas ela não abriu. Bem no limite da propriedade. 101 . O céu estava carregado de um milhão de estrelas que jamais havia visto da minha casa. Muitas das árvores eram enormes. Estendi a mão e toquei nas folhas. E era muito silencioso. — Venha. Dava para ouvir a minha respiração. Connor voltou. Empurrou a porta com força. — Vamos dar um passeio. Parecia uma casa de boneca. Todas elas custavam 20 dólares. chegamos a um depósito com telhas de madeira e teto inclinado. mas ela ficou presa dentro da fechadura. apontando para a mata à esquerda. Garanti a Connor que estava bem e lembrei a mim mesma que estava no meio da mata e que ninguém tinha ouvido aquele barulho. — Você está bem? — Ao meu lado havia uma prateleira cheia de serrotes velhos de metal. ao girar a chave. Um ruído interrompeu o silêncio. Só em dezembro — ele explicou. Depois de uma longa discussão sobre se poderíamos justificar as repercussões ecológicas de comprarmos uma árvore. Não conseguia parar de olhar ao redor. havia estrelas tão pequenas que pareciam poeira. um aroma doce e esverdeado. Derrubei alguns nos chão. Sterling — disse. empilhados um em cima do outro. Era tão intenso que fiquei tonta. O depósito tinha cheiro de pinho. Assustadoramente silencioso. As dobradiças de metal rangeram como se fossem cordas de violino fora do tom. que também eram de vários tamanhos. acho. Minha família nunca havia comprado uma árvore de natal ali. geleias caseiras e mantimentos. a luz da lanterna vagava pelas paredes do depósito. Não conversamos. Pequenos pedaços de feno tinham sido colocados ao redor de cada uma das árvores. Aqui. ninguém ia nos encontrar ali. bem propensos a causar um acidente. Então. e velas aromáticas em pequenos recipientes. Segui no meio da escuridão e bati o joelho em alguma coisa. pois eram caras demais. oleosas. mas algumas tinham a minha altura. para mantê-las aquecidas. Clique. Havia um cobertor em seus ombros e uma lanterna nas mãos. pagava-se pela experiência. Eu o segui pela trilha estreita de pinheiros. — Não usamos muito esse depósito. Connor destravou o cadeado e a porta se abriu. fomos a uma loja de departamento que montava um quiosque de venda de árvores no estacionamento. Connor abriu o cadeado. Entrei atrás dele. macias. iluminando os primeiros pinheiros de natal ao nosso redor. Ele xingou baixinho. Connor apontou a lanterna na minha direção. Duras. Estava bem frio ali. Mas me senti exposta. Esperei atrás dele. pois já era madrugada e estava cada vez mais difícil controlar o impulso de não me virar e sair correndo para pegar o carro.de natal pendurados lá dentro. provavelmente porque fiquei o tempo todo um pouco atrás dele. Ao lado da loja havia uma horta de tamanho considerável. com as mãos bem enfiadas nos bolsos da calça jeans.

soltando pequenas nuvens de fumaça no ar. Ele não sabia o que fazer ou dizer. mas antes que me desse conta. Meu corpo todo se dobrava de calor. mas brilhantes como dois lagos em um dia de inverno. Pressionei meus lábios contra os dele. e abriu o cobertor no pequeno espaço que tinha arrumado. Estava nervosa. e estendeu a mão para mim. fazendo perna de índio. Fechei os olhos e tentei acompanhar o ritmo do momento. e foi aí que nos deitamos. Natalie! Volte para o carro!‖ Então Connor tirou meu cabelo da frente do rosto e os colocou atrás da orelha. mas. pois parecia o tipo de informação que se deve saber sobre alguém com quem você está se agarrando. nos movendo. Estava tão quente e estávamos um em cima do outro. ―Levante. Fiquei cheia de dúvida. Descobri que ele tinha três irmãs 102 . Ele ficou bem perto do meu rosto. trazendo-me mais perto. Ele me perguntou sete vezes se eu queria água e eu acabei aceitando. deixando uma ínfima luz em um ambiente repleto de coisas. Ele se sentou. nos virando. enrolando-o em nós. deixando meu cabelo cair na frente de nossos rostos. Ele tirou meu cabelo da frente antes que tivesse chance de abrir a boca. com a luz da lanterna bem em cima de mim. Só que estava hesitando. Então. um carrinho de mão. Dava para perceber tudo que estava se passando na mente dele. Essa era a parte que menos gostava. Minha mente se fechou completamente e parecíamos peças de um motor: circular. É claro que devia saber o que aconteceria em seguida. Vi mais equipamentos — várias luzes de natal. inclinei-me e o beijei rapidamente. Dessa vez com os lábios abertos. preciso e perfeito. Ele estava quente — ardente. Os movimentos dele eram mais suaves e mais lentos que os meus. Ele tinha me dado seu número de telefone. e eu liguei e fui lá. me abaixei no meio da sombra para pegar o que tinha derrubado. achando que Connor fosse tentar levar as coisas para além do que eu queria. Sabia que Connor estava percebendo que eu estava nervosa. falei para ele deixar para lá. Connor e eu éramos forçados a conversar para preencher as lacunas de estranhamento. Connor prendeu a lanterna em um prego acima da porta. como se estivesse sussurrando em minha boca. na verdade. e ele abaixou a mão. Está vamos cozinhando lá dentro. mas ele não fez isso. Em algum momento perguntei para Connor se ele tinha irmãos. Só parávamos de nos beijar para recuperar o fôlego. Imediatamente comecei a tremer. trenós. seus olhos eram escuros. Envolvi minhas mãos em seu pescoço. E aí ele me beijou.vulnerável. Finalmente sentei-me ao seu lado e estiquei as pernas. Ele mudou algumas coisas de lugar. empilhando novamente alguns sacos de semente e rolos de tecido. quando percebi que ele tinha de ir até a casa dele para pegar. Connor parou de me beijar e segurou as pontas do cobertor. Ele colocou as mãos em meus ombros. Estava com ódio da respiração forte dele. colocando os dedos dentro da camisa dele. nos pressionando. Meus pensamentos gritavam em minha mente.

não porque não quisesse ter dito aquilo. Mal podia acreditar como um simples gesto como aquele podia me fazer sentir. juntos. Depois de um tempo. mas porque pareceu muito presunçoso. quando ele me tocava. mas foi o último beijo. ou se teria dormido na casa de Marci. Não pensei na minha briga com Autumn desde que tinha entrado no carro para ir até lá. deixando Connor para trás. Sterling. mas em vez disso acabei dizendo — Ninguém pode saber que estive aqui. — Depois inclinou-se para me beijar e eu correspondi. Quando o peguei.mais velhas. os beijos diminuíram. com o símbolo do futebol da Academia Ross bordado no centro. — Não quero ser sua namorada ou algo do tipo — me arrependi do que disse na mesma hora. Consegui esquecer todos os meus problemas por um tempo. Era lá que aquilo pertencia. Estar ali era como passar a noite presa em um sonho. dizendo: — Você é engraçada. E aí fui sozinha até o meu carro. como se não tivesse entendido. e só ficamos ali. tudo parecia tão perfeito. permiti a mim mesma saborear a forma como deslizava as mãos pelo meu cabelo. não o começo de alguma coisa novamente. E então ele me segurou e me puxou para perto dele. como se minhas veias subitamente bombeassem eletricidade em vez de sangue. — Acho melhor ir embora — disse e comecei a olhar ao redor à procura do meu casaco. perguntando-me se ela teria ido para casa depois da festa. — Aqui está — ele foi até um canto escuro e pegou o meu casaco. minha cabeça aninhada em seu peito. quis dizer obrigada. Mas estava pensando nela agora. Estava meio empoeirado e eu o sacudi. Connor era o caçula. esqueci imediatamente os nomes delas. Deixei o passado dentro daquele depósito. Ele tinha a expressão de quem estava tentando entender se eu estava brincando ou não. Só que estava começando a acordar. 103 . Levantei a cabeça e olhei para a jaqueta de Connor. Apesar de nada disso ter acontecido. certo? — ele fez uma careta. o que achei estranho. para trancar tudo. mas tinha certeza de que todos começavam com a letra C. Porque. Não ia fazer parte do restante da minha vida. no qual Connor se afastasse dos meus lábios para dizer algo profundo ou poético e belo. Uma parte bem pequena de mim queria que um milagre acontecesse. Ele parecia orgulhoso disso.

e ia tomando pequenos goles. Afinal de contas. limpar meu quarto e meu banheiro. Mas a dor era boa e secreta. E o filme era bom. Mas minha mãe e meu pai estavam desconfiados. o próximo filme da lista da AFI. também. colocar minha vida em ordem. Na verdade. Pareceu-me uma punição adequada. Sabia que íamos resolver as coisas. mas esperava o telefonema de Autumn. Ao perceber que ela não ligou no domingo à noite. por volta do meio-dia. Meu corpo doía por ter rolado para lá e para cá no chão de madeira implacável do depósito. Não queria falar sobre a minha briga com Autumn. fiquei. A sensação me acompanhou durante todo o dia. Até peguei o telefone algumas vezes para ligar para ela. Eles subiam o tempo todo para dar uma olhada em mim. Ela teria gostado. Na verdade. Deveríamos nos acostumar em passar um tempo separadas. senti-me como se tivesse mergulhado em uma floreira.Capítulo 21 Q uando acordei. O 104 . não estava com medo. não desse jeito. e ele também não teve notícias minhas. Precisava tomar muito cuidado para não acabar com tudo antes de conseguir mais. era só uma pausa entre nós. Mesmo com o rosto enterrado no travesseiro. traziam comida e bebida e o primeiro caderno do jornal de domingo. Então. Os lençóis eram extraordinariamente confortáveis e macios comparados ao cobertor de Connor. mas convidei minha mãe para assistir comigo a Cantando na chuva em meu quarto. esperando um telefonema dele. Imaginei que fosse apenas questão de nós duas precisarmos de um tempo para acalmar os ânimos. éramos melhores amigas. Também não me senti mal por assistir a ele sem a Autumn. Tinha de fazer lição de casa e me preparar para o SAT. Não tive notícias dele durante todo o fim de semana. Romântico e água com açúcar. comecei a perder o apetite. mas sempre parava no meio do caminho. Fiz das minhas lembranças dos momentos com Connor o meu néctar do dia. Nunca havíamos nem brigado antes disso. afastando meus pensamentos da briga com Autumn. era uma preparação para o que ia acontecer na faculdade. apenas o suficiente para saciar a minha sede. era possível sentir o perfume extremamente doce. Não fiquei com o celular nas mãos o tempo todo.

Pelo menos. Por causa do frio e do nervosismo. olhando o tempo todo para a direita para conseguir me ver parada no farol. olhando para a rua vazia à esquerda até que outro carro parou atrás de mim. Sentei-me rapidamente em meu lugar. Viraria à direita para pegar Autumn. Mal consegui dormir no domingo à noite. — Oi! 105 . Estava com um colete vermelho de nylon e seu gorro predileto de lã. números e valores e X e y giravam em minha cabeça. feito pela sua avó assim que ela iniciou o ensino médio. mesmo sem falar com ela desde o dia do baile? Ou Viraria à esquerda. pensando em como seria na escola no dia seguinte. em disparada pelo corredor até seu armário. Até pensei em mandar uma mensagem para Connor para ver se ele estava acordado. A ida à escola acabou sendo bem mais curta por não ter que cruzar a cidade para apanhar Autumn. Não queria parecer desesperada. um de cor marfim com cobertura para as orelhas. Mas por dentro. depois de tudo que havia acontecido na sexta e do silêncio que se instalou logo em seguida? Será que ela esperava que eu fingisse que estava tudo bem? Não podia fazer isso. Fiquei o tempo todo na porta. rolei na cama durante horas. tremia. não logo de cara. pois temia que as respostas fossem sim. E nem estava tão frio para um gorro daqueles. Dez minutos em vez de vinte e cinco. Como seriam as coisas quando visse Autumn? Como deveria agir quando visse Connor? Não tinha precedente algum para nenhuma das duas situações. um lembrete ameaçador de que o inverno não tardava a chegar. Autumn precisava saber que havia me magoado. e sempre que possível dava uma olhada para o armário de Autumn no corredor. Ela finalmente chegou quase um minuto antes do último sinal tocar. eu a ouviria. Não fazia ideia do que fazer assim que parei o carro no farol vermelho no fim do quarteirão. mas não lhe perdoaria. Tinha que mostrar algum autocontrole. Sempre achei aquele gorro meio tolo. Quando saí do carro. abri meu caderno e fingi estar estudando equações de cálculo que já havia memorizado no fim de semana. algo que um pastor sueco usaria para entoar suas canções. Devia ter ido buscá-la. Mas será que Autumn realmente esperava por isso. O vento frio penetrava de forma cortante em minhas meias de lã. mas desisti da ideia. indo direto para a escola? Fiquei ali alguns segundos. ao lado das cortinas cor de ameixa de sua mãe.que eu ia dizer? Divertiu-se na festa sem mim? Ficou feliz por me deixar sozinha? Não queria fazer essas perguntas. Decidi que se Autumn tentasse falar comigo. Não mesmo. Ficava imaginando-a no centro da enorme janela da sala de estar. Segunda-feira foi o primeiro dia de extremo frio da estação.

Olhei para cima assim que Autumn passou por mim e foi se sentar com outras garotas no fundo da classe. Uma dor terrível penetrou meu estômago quando percebi que Marci não era uma delas e eu já estava ficando sem pessoas a quem culpar. 106 .

Disse a mim mesma que ela não estaria lá. Primeiro. 107 . então colocava a saia. sem que ninguém tivesse visto nada. Sabia que não ia cair. assim que o abotoava. Também ergui o meu. Então.Capítulo 22 N o primeiro ano do ensino médio descobri um jeito de tirar o maiô de natação sem ter que jamais ficar completamente nua. O sinal tocou. tirava as alças do maiô para fora. Não era exatamente o tipo de talento que se observa nas inscrições da faculdade. Mas me especializei nisso. Ele estava recostado no enorme corrimão de madeira. Ele acelerou o passo até ficar ao meu lado. Havia espaço livre suficiente para evitar que parecêssemos estar juntos. onde Autumn normalmente esperava por mim. colocava o sutiã por cima do maiô. colocava a camisa de botão e os fechava. Dava para ver que tinha percebido minha presença pela forma como ergueu o canto da boca. Continuei andando. Depois disso. abaixava o maiô até o umbigo. conversando com dois rapazes. e ignorei os cabelos louros e trancados de Autumn saltitantes descendo as escadas em direção à próxima aula. caminhei lentamente até as escadas do corredor dos calouros. Essa era a parte mais difícil — mover-me rapidamente para evitar que a água da piscina molhasse o algodão. Usava um maiô azul-marinho da Speedo. conseguia fazer mais rápido do que qualquer garota do vestiário. Não que as outras garotas estivessem olhando. e agora. o que era tão desconfortável quanto parece. Um segundo a mais e o bojo do sutiã ficaria úmido até depois do almoço. discretamente trocava o maiô pela calcinha e pela bermuda de lycra. como veterana. Depois. A dança complicada não era graciosa e certamente faria com que Spencer caísse na risada. mas mantinha os cotovelos presos do lado. Connor se afastou de seus amigos. que comportava o esforço extra. mas uma habilidade que atendia às minhas necessidades. E ela não estava. Mas Connor estava. como se estivesse usando um modelo tomara que caia. Mas não comigo. e.

Spencer ficou de braços dados comigo. que todo mundo já estava sabendo. achando que Connor tinha deixado algo escapar. Vou andando com você até a sala de aula. Spencer piscou. há um boato maluco espalhando por toda a escola sobre algo chocante que aconteceu neste fim de semana. 108 . — Oi — disse e vi.— Você está quebrando as regras — sussurrei. por detrás dos ombros de Spencer. Faltando cinco minutos para as 20 horas. — Se você não sair de perto de mim. Tinha certeza de que ela ficaria orgulhosa pela maneira como estava tratando Connor. pensando no meu segredo. A forma como ela havia se esfregado nele no baile de Haloween e o flerte na festa de Bobby Doyle foram suficientes para deixá-lo maluco. — Natalie! Passei o fim de semana todinho louca para falar com você. Mas antes que eu pudesse responder. Ela disse a Mike que se encontrariam no cinema às 20 horas. então comprou vários tipos — chocolate. E a sensação boa que senti há um minuto evaporou. Ela não queria perder nada da história e dessa forma ele poderia contar tudo para ela. — O tom de sua voz. estava desconfiado e maroto. Mike conseguiu o telefone de Spencer. Ele ligou para ela. Pediu a Mike para entrar no cinema e ir guardando lugar. pretzel com recheio de queijo. Empurrei Spencer para um canto e perguntei: — O quê? O que aconteceu? — Venha. mas que esse encontro seria um jantar na casa da avó. Spencer disse sim. Ele não sabia quais petiscos Spencer gostaria. Estava todo arrumado. normalmente agudo. — Quando posso ver você de novo? — ele sussurrou para mim. fazendo um convite para ir ao cinema. A história se espalhou rapidamente: no domingo. dizendo: — Então. Connor desaparecer pelo corredor. — Sua avó não morreu? — perguntei. Disse que devia parar de enrolá-lo. — Espere aí. Então sorri para ela. pipoca. Spencer ligou e disse que estava presa no trânsito. Spencer apareceu na minha frente. Ficou esperando lá fora. E pelo caminho vou te contar a história milagrosa da garota que humilhou Mike Domski. Mike comprou os dois ingressos e deixou o de Spencer na bilheteria. Mike chegou cedo. Por um segundo fiquei preocupada. nunca. Eles tinham que sair juntos. Estou até começando a sentir pena dele — disse.

dentes cerrados. O sinal tocou e fui correndo para a aula de filosofia oriental. a raiva voltou.. que. — Tudo bem. eu e umas garotas estávamos escondidas na última fila. Ele merecia ser humilhado. esse é o cara que destruiu o seu cartaz. e dava para ver o cara todo agitado na poltrona. Natalie. disse. — Então. Agachei-me e fui atrás do gerente para que ele soubesse que havia um cara de calças arreadas no cinema 12. Vejo você mais tarde. Mike Domski vinha no corredor na outra direção. Cara fechada.. 109 . Isso lhe faria muito bem. mas era isso que sentia. Tenho que ir. parecia mais bravo do que nunca. decidiu apenas expulsar o cara. épico. Spencer mandou uma mensagem de texto para ele dez minutos depois. o que parecia algo estranho de se dizer. Não senti pena dele. Continue.— Lembre-se. mas estava chegando. — Estou orgulhosa de você — disse a ela. que invadiu a noite das garotas. — Disse a ele para ir tirando a calça. — Tudo bem. Foi. — Não acredito! — Acho que o gerente queria chamar a polícia. ficando pronto para mim. mas quando viu as garotas rindo. Ele respondeu dizendo que eu era uma garotinha safada. O trânsito não anda... segurando a alça que prendia os livros com os punhos fechados. E acho que com certeza dei uma lição nele. — Como você sabia que ele ia fazer isso? — Porque nas últimas três semanas tenho feito com que ele pense que o nosso flerte ia acabar em algum tipo de relação nefasta. — Eca! Ele não fez isso! Spencer mal conseguia controlar o riso. E então acrescentou mais uma coisa.

suas mãos agarraram minhas roupas. Connor me pegou em seus braços. Fiquei surpresa e ao mesmo tempo não me surpreendi. Levantei e perguntei: — O que você está fazendo? — Ãh? — as bochechas de Connor estavam vermelhas e ele estava sem ar. envolveu os braços ao meu redor e nós dois estávamos ofegantes. alcançou a porta e brincou com o cadeado. ele pegou minha mão. soltando fumaça pela boca por causa do frio.Capítulo 23 C onnor me mandou uma mensagem depois da meia-noite na sexta-feira. desafiando-o de forma silenciosa a vir me pegar. — Nada. 110 . senti suas mãos no meu casaco. Connor aceitou o desafio. Por quê? — Que bom — disse cautelosamente. Eu comecei a recuar o passo. Ele veio por trás de mim. Estavam tão frias que fiquei chocada. tive a chance de me soltar novamente. Senti-me embriagada. O caminho todo até o depósito foi um flerte só. Connor rolou no chão. Deixei que tirasse o meu casaco e continuei. olhando para ele ao mesmo tempo em que saí de cima para deitar-me ao seu lado no chão. Ele ligou uma pequena lanterna e em seguida nos jogamos no cobertor de lã. Ele chegou mais perto para me beijar e. quando fechou os olhos. Nós dois estávamos rindo e nem mesmo paramos para pensar que alguém pudesse nos ouvir. fazendo-me ficar em cima dele. Ele estava esperando na entrada de carros quando estacionei. Ele logo chegou em mim. Assim que saí do carro. Não consegui chegar lá rápido o suficiente. E ao mesmo tempo em que corria dele. apesar de não estar. Suas mãos escorregaram para dentro da minha blusa. então me virei e corri para a mata. aproximava-me cada vez mais do depósito. conseguindo ficar longe do alcance dele correndo em círculos e me escondendo atrás dos pinheiros.

como se eu tivesse passado dos limites e disse: — Não sei o que isso tem a ver com a gente. — Não sou desse tipo. o que me deixou confusa. mas não sou como as outras garotas da escola. Rir mesmo.Ele deitou de lado. 111 . começou a me beijar novamente. Em primeiro lugar. Não estou tentando forçá-la a fazer nada que não queira. — Ouça. Parecia estranho saber como os cabelos dele eram espessos. Achei que você fosse capaz de entender como me sinto e assim poderíamos nos divertir juntos sem que o clima ficasse pesado. Connor franziu a testa. não consegui evitar. Com certeza. Fechei os olhos e deslizei as mãos pelos cabelos ondulados dele. E em segundo. Então. — De que outras garotas você está falando? — Não banque o inocente comigo — ia reprimir meu próximo comentário. — Que foi? Sinto muito. mesmo com essa sensação concreta. Connor me colocou em cima dele e suas mãos deslizaram pelas minhas costas novamente. — Sei que você perdeu a virgindade no oitavo ano. tirando meu cabelo da frente do rosto. perdi o senso de gravidade. Não vou me deitar aqui e deixar você fazer o que quiser comigo. Ele balançou a cabeça. ou não vão acontecer. As coisas vão acontecer no meu ritmo. Saí de cima dele e disse: — Sério. Seus dedos penetraram as alças do meu sutiã e foram até o fecho. No pescoço. todo mundo sabia que Connor tinha bebido todas e transado com Bridget Roma no carro da irmã dela na véspera do Ano Novo. Olhos bem abertos e rindo como um tolo. dizendo: — Você não é de que tipo? Sentei-me e cruzei as pernas. Era irritante. tentando abri-lo. Sei que venho aqui escondida no meio da noite nesse depósito imundo para ficar com você. Estava em algum lugar entre flutuar e cair. sentindo-me ao mesmo tempo assustada e maravilhada. Não quero — disse com firmeza. mostrando que não me importava e disse: — Muitas pessoas. Connor. não é? Connor ficou vermelho. Entendeu? Esperava evitar esse tipo de conversa. mas não de vergonha. E verdade. Ele olhava para mim. Dei de ombros. seus lábios mal tocavam minha pele. Connor começou a rir. mas como Connor continuava rindo. os garotos viviam se gabando desse tipo de coisa. Você não quer? — Não. de um jeito suave e doce. — Quem te falou isso? — ele parecia irritado. bem atrás da orelha. Mas.

— Ele pegou o elástico da calcinha e abaixou só um pouquinho. não sei se consigo voltar ao clima tão rápido assim. Agora que tudo parecia resolvido.— Que bom — me arrependi de ter tocado no assunto. Só que ele se afastou. para que não pegue uma infecção. Deixe-me ver — disse Connor. Seu tom era sério o bastante para me assustar. Talvez colocar um remédio ou algo assim. Connor aproximou a lanterna. senti o lado esquerdo do meu bumbum queimar forte o suficiente para me fazer perder o fôlego. Assim que ele removeu a farpa. — Vem cá. Lá se vão os limites. — É melhor você ir para casa para cuidar disso. Está bem fundo — ele procurou um canivete suíço no bolso. Já vi. Não em um dormitório. dói pra caramba. Fiquei de joelhos e levantei o bumbum. Mas definitivamente nunca em um lugar como esse. pensei. Sentei-me rapidamente e estava pronta para dizer algo perspicaz e afiado quando. — É tão difícil de acreditar? Olhe onde estamos. — Ai. Sabia que ia acabar acontecendo um dia. e. A maldita entrou bem no meio do algodão. Connor percebeu. — Respire fundo. — De jeito nenhum. são nojentos. Respirei — e logo acabou. mas precisava ter certeza de que Connor me respeitava. Agh. — Acho que foi uma farpa! — Você está brincando? — Connor tentou abafar o riso. 112 . Quase engasguei. Era completamente humilhante. meu bumbum ficou melhor. — Nossa — falou. — Tudo bem — não tinha imaginado minha noite terminando exatamente assim. deitei-me novamente e tentei trazê-lo para perto de mim. nem tanto. — O que aconteceu? Apertei meus olhos de dor. a pinça. — De que outro jeito vou ver o que aconteceu? — ele levantou e pegou a lanterna que estava pendurada em nossas cabeças. Connor trouxe a pinça até meu rosto para me mostrar como o pedaço de madeira era grande. Meu coração acelerou até perceber que não pegou a lâmina. Meu ego. — Você está sangrando. subitamente. Jamais tinha tirado a roupa na frente de um garoto antes. Connor! Olhe para esse lugar! — Acho que era o meu castigo. mas que escolha eu tinha? — Você vai ter que tirar a calça. — Sabe de uma coisa? — falou —. — Tudo bem. Relaxe. Abri o zíper e abaixei as calças. Vou ter que levantar a sua calcinha só um pouco para ver melhor. Talvez em uma pousada ou em um quarto legal de hotel. sim. Senti o calor.

Connor foi comigo até o carro. Mas deixei que ele me desse um beijo de boa noite. 113 . Andei um pouco na frente para esconder o fato de que ainda estava corando. Não demos as mãos.

esforçando-me para ficar pronta. O colarinho apertava. Era um castigo que. e a privação de sono estava definitivamente mexendo comigo. a minha foto não iria ficar somente no anuário. Seria imortalizada na parede da biblioteca. Todas aquelas garotas de olhar poderoso. E então eu. Bee. Afinal de contas. Aquela marca havia chupado toda a dignidade das minhas realizações. Tentei deixar dois botões abertos. Primeiro achei que fosse uma espinha. Era o dia da foto do anuário. Mas estava totalmente plano. Mas a única forma de esconder completamente a chupada era deixando todos os botões fechados. Bem onde Connor tinha me beijado na noite anterior.Capítulo 24 A cordei tarde na segunda-feira de manhã. Estava bem no meio do meu pescoço. mostrando os capilares estourados. mal tive tempo de tomar uma ducha. sérias. Pensei no meu retrato de veterana pendurado na parede da biblioteca. talvez do tamanho de uma moeda e havia vários pontinhos roxos. Havia passado as últimas três noites com Connor. assim como a jovem Srta. e bati a porta. além do fato de que já fazia dez dias que Autumn não falava mais comigo. a Presidente Chupão. 114 . pouco mais de um centímetro do meu colarinho. esperando sentir o calombo ou algo que pudesse espremer para que desaparecesse até a hora das fotos. Passei os dedos de leve. As pessoas no futuro iriam supor que eu tivesse dormido com vários para conseguir ser presidente do conselho estudantil. Depois um. Coloquei uma camisa de botão e a abotoei da forma que todas as garotas da escola faziam — deixando os três botões abaixo do colarinho abertos. Mas a chupada brilhava como um farol de luz vermelha no meio do pálido mar da minha pele. Realizadas. Só que não parava de apertar o botão soneca. de alguma forma. Só quando acabei de me enxugar e comecei a escovar os dentes que o vapor do espelho secou o suficiente para que visse o que magicamente tinha aparecido da noite para o dia. e eu deveria ter levantado da cama assim que o despertador tocasse. E quando finalmente consegui sair da cama. Uma chupada. Isso. eu merecia. parecia aqueles antigos protetores de pescoço. Corri para o quarto antes que minha mãe e meu pai pudessem ver. Uma enorme chupada no meu pescoço no dia da foto do anuário. número nove. Seria para sempre lembrada como a piranha.

— Sinto muito. um.O ginásio virou um estúdio fotográfico. Mike Domski passou por nós e tanto Connor como eu ficamos em silêncio. Era tudo que precisava para completar meu dia: que alguém nos visse conversando e então percebesse a minha chupada e somasse dois mais dois. Três. aproximei-me de Connor novamente. mas duvidava totalmente disso. Uma das assistentes do fotógrafo bateu palmas e nos reuniu nas arquibancadas. dois. — Tive que fazer isso. então se você não está com os dois por aí. Éramos chamados por série. Um careca com cara de artista. Seu cabelo tinha o ondulado perfeito. traçando o perímetro do ginásio. remexendo na bolsinha de maquiagem umas das outras. Mas ou ela fingiu que não me viu ou não viu mesmo. Fui parar a dois passos de Mike Domski.. Marci passou um brilho rosa em seus lábios e o deu para Autumn. dois. Você me deu uma chupada ontem à noite. Sem falar no fato de que estava marcada. quando um cão faz xixi na árvore para marcar o território com o seu cheiro. Recostei-me nos colchonetes de ginástica. ficava com o rosto pressionado na câmera. pop! Autumn estava do outro lado do ginásio. fingindo ler os avisos do quadro e disse: — Você está bonita. mostrando os ácaros que voavam pelo ar pelos feixes projetados na cortina de veludo azul. Não estava usando maquiagem. Marci se importava demais com o que caras como Mike Domski pensavam dela. que fez o mesmo. Juro que não fiz de propósito — respondeu. sorriu e disse: — Oi. Alguns alunos do ensino fundamental caminhavam pela beira da quadra. E meu cabelo ainda estava molhado por causa do banho. Não quero a sua marca em lugar nenhum do meu corpo. porque ela se virou. Marci Cooperstein estava atrás de Autumn. pop! O fotógrafo gritava: ―Próximo!". a cabeça inclinada para o lado desfazendo a trança. mas agora respondia quando chamada de isca de peixe? Olhei para ela. Mas estava tão brava que saí de perto. — Chupadas são absolutamente nojentas. um. e a fila dava um passo à frente. Três. Mas assim que Mike estava fora de alcance.. Autumn não tinha apenas perdoado Marci. só o gloss de sempre. Um pouco abotoada demais. — Vamos precisar que todos vocês usem a roupa designada aos veteranos — ela pegou várias tiras de tecido de dentro do avental e falou: — Gravatas e paletós são obrigatórios para os rapazes. isca de peixe! A forma como me senti foi puro reflexo. Fiquei imaginando se Marci iria defender Autumn como eu costumava fazer. Domski. São como. e parecia estar dizendo a verdade. Luzes fortes estavam em cima dos altos tripés. Amaldiçoei a mim mesma por não ter levantado cedo para me arrumar direito. Não teria prestado atenção em nada que ele tivesse dito se ele não tivesse falado: — Oi. venha falar comigo — e foi para trás das cortinas 115 . Connor saiu do vestiário masculino. meu retrato de veterana ficou arruinado. Só que Marci nem precisava defender Autumn. junto com outras garotas. Agora. Não acreditei. vestindo calça de lã. Não pertenço a você. A luz pulsava o tempo todo.

Tem. É sexismo não poder usar o meu. coloquem-nas e verifiquem se a alça do sutiã está aparecendo.. Ela me lançou um olhar estranho. Tinha me esquecido completamente de que era aquilo que as meninas usavam no retrato de veterano. Minhas mãos tremiam.. essencialmente. valor sentimental! Além do mais. Não tinha tempo para explicar nada. Outras garotas do meu lado já foram colocando e desabotoando as camisas. usam os próprios uniformes. Infelizmente. Queria saber se posso tirar o retrato usando meu uniforme. — Mas este é o uniforme que uso há quatro anos. — Oi. Tinha roubado um pouco de base da minha mãe antes de sair de casa. — Com licença. meninas. tire isso do rosto. tornando impossível respirar. Pui até a assistente. os garotos. Uma picada de inseto. Bati os dedos no pote. Então. A marca oval arroxeada agora tinha se transformado em alaranjada. enchendo-os do líquido espesso e aveludado. — Uau! Quem fez isso em você? — É uma picada de inseto — disse. Natalie! — disse. Olhei para o papel molhado que fazia uma poça no chão e disse: — Estou bem. isso acontece o tempo todo. acabava chamando ainda mais atenção. — Eca! Dissequei um sapo na última aula e apesar de ter me lavado centenas de vezes ainda sinto o cheiro do formol. Em vez de esconder a chupada. Os ombros ficavam totalmente descobertos. a pele da minha mãe era alguns tons mais escura que a minha. mas a assistente do fotógrafo riu de mim. indo para a pia. Por favor. 116 . graças à minha avó siciliana. — Então. Ouvi a porta abrir. Fui até a caixa e peguei uma das becas. As lágrimas começaram a escorrer. — Você é veterana? — Sim. estava muito chateada. — Certo. Spencer entrou. Em novembro — disse. secamente. Ela sabia exatamente o que era aquilo no meu pescoço. procurando algo na bolsa —. Enquanto todo mundo entrou na fila.pegando uma caixa grande de papelão arrastando-a até nós. com abertura na cabeça em decote V. E subitamente a realidade da situação apertava em meu peito. distraída. tentei maquiar as marcas de forma mais leve nos cantos e mais intensa no meio. temo que isso não seja possível. Dava para perceber o tom de sarcasmo de Spencer. — Tenho becas pretas para as. Tentei parecer séria. Obrigada. — Vamos. Ela se aproximou com um pedaço de papel molhado e a bolsa de maquiagem debaixo do braço. Era como um poncho. — Ela se virou para mim e percebi seus olhos se estreitando em meu pescoço. peguei minha beca e corri para o banheiro.

certificando-me de que meu queixo estava abaixado. vi Connor olhando para mim. Você está bem bonita. Do canto do olho. estava quase decente. — começou a remexer a bolsa de maquiagem e continuou. dois. Spencer passou uma última camada de pó no meu pescoço dizendo: — Pronto. como Spencer tinha me orientado. — Procure posar com o queixo um pouco para baixo — ela me instruiu. A garota de quem eu costumava ser babá tinha livrado a minha barra. Pare de ser tão orgulhosa e me deixe ajudá-la.. — O amarelo faz com que sua pele pareça menos vermelha.— Natalie. — Olha só. isso é uma picada de inseto. E estava mesmo agradecida. Então. Spencer parecia querer dizer alguma coisa. — Ela também me emprestou um pouco de batom e colocou minha cabeça debaixo do secador de mão ao mesmo tempo em que penteava meus cabelos molhados com as mãos. — O que é isso? — perguntei. — Não se preocupe. A menos que você queira uma enorme chupada bem no meio do seu retrato de veterana. Vou colocar isso primeiro. Você e eu temos quase o mesmo tom de pele. A Srta. — Vou passar um pouco de pó. No fim de tudo. e então. tirou a tampa de um lápis amarelo brilhante. — Ela tirou meu cabelo dos ombros para Ver melhor e perguntou: — Quem é o sortudo? Peguei o papel-toalha com força e esfreguei meu pescoço rapidamente. Se não. — Obrigada — disse. apesar de nem conseguir olhar para ela. um. caia fora daqui. Três. observando. ótimo. tirando meus cabelos dos ombros. Natalie. Bee estava por lá com outra professora. está bem? Se você quer me ajudar. depois uma camada de base. Passei por ela. a picada de inseto sumiu. Voltei para o ginásio usando a beca e segurando a camisa nas mãos. Três minutos mais tarde havia me transformado em uma boa garota. pop! 117 . uh. mas deixou para lá e inclinou minha cabeça delicadamente..

Secretamente. Então. esperando que. Connor abriu a porta e me deu a lanterna. Sétima. O perfume de sabonete na pele dele era intenso. já que está ficando bem frio aqui — o que era verdade. mas ele queria que eu entrasse primeiro. Tentei tirar um pouco da poeira. pois não podia perdê-la de vista. que por sinal ele também tirou. ficando somente de calção e meias brancas que suspendeu até o joelho. — Achei que podíamos usar uma cama mais quente. — as palavras dele flutuavam no ar. — Isso é da sua mãe? — perguntei envergonhada. já estava me sentindo bem confortável no depósito. Tinha que manter a perspectiva. Ao lado dele havia um saco de dormir macio. Havia um travesseiro encostado numa caixa de papelão e os cantos tinham fitas nos ilhoses. sexta vez. Na oitava vez. A luz tremeluzia pelos cantos do depósito. Não sei a razão. Não havia nenhuma serragem. 118 . nenhuma poeira — Você não precisava ter feito tudo isso — murmurei.. Já tinha sujado um pouco. — Ela tem um armário cheio deles. Tentei não ficar olhando. aberto o suficiente para deixar à mostra o interior feito de lã. Não era nenhum chalé romântico na floresta e Connor não era meu namorado. Nem vai perceber — Connor pendurou meu casaco num prego.Capítulo 25 C ontinuamos nos encontrando não só nos fins de semana. eu mudasse de ideia. O cobertor que pinicava estava dobrado ao meio no chão. O abdômen dele era trabalhado e bem definido. Mas. Connor havia varrido o chão. ondulando até a cintura das calças de nylon. pegou algumas velas no bolso do agasalho e as colocou em cima de uma viga. — De nada — Connor sorriu. A camiseta saiu junto e ele jogou os dois em um carrinho de mão vazio. É claro que havia gostado do esforço dele. Pela quinta vez. — Foi a melhor solução que encontrei já que você se recusa a entrar na minha casa. Olhei para baixo. Nas últimas duas vezes estava tão frio que perdi a sensibilidade nos dedos. depois tirou o agasalho. talvez. no depósito. fazendo com que parecesse uma catedral.. apesar das circunstâncias. mas em dias letivos também. levantando-o do chão.

Sterling. Na verdade. O vento lá fora penetrava pelas telhas de cedro. Olhei para o sorriso em seu rosto. Sempre esperava ansiosamente pelo inverno. — Bem. — O que você faz quando não está aqui comigo? — perguntou. Foi então que percebi que. As perguntas dele me deixavam ansiosa. mas seus olhos não viam nada. com ou sem saco de dormir. pelas luvas e luzes coloridas. chocolates quentes e fitas de veludo. Estávamos tão apertados que nossas testas e as pontas dos narizes se tocavam. A regata por baixo também foi junto. inteligentemente. deixando as velas ainda mais trêmulas. Connor riu. mas só havia um vazio. Nós nos beijamos um pouco e suas mãos deslizaram suavemente pelas minhas costas. arrancando a minha roupa térmica. quando chegasse a época de natal haveria pessoas trabalhando o tempo todo por ali por causa dos suprimentos e clientes andando por todo o nosso labirinto particular de pinheiros à procura da árvore de natal perfeita. Connor não parecia se importar. -— Não acho que caibo aí dentro. moletom.— Pode me chamar de louca. não havia quase lugar. — Tem espaço suficiente para nós dois -— ele foi mais para lá. dois pares de meia. e pendurei junto com o casaco. vesti para combater o frio. sorrindo. — Subitamente. não tinha mais como Connor e eu nos encontrarmos ali. vai morrer de suar. Era perto demais para ficar olhando um para o outro sem sentir dor de cabeça. As mãos dele tocavam meu corpo todo. — Você tá brincando? Esse saco de dormir é para ser usado a 10 graus abaixo de zero. Só levou um minuto para a minha temperatura corporal elevar. E. então fechamos os olhos. mas sentia-me triste também. não tinha a vida social de Connor. A probabilidade de não trocarmos presentes este ano era mais real do que queria que fosse. mas acho que você vai se sentir mais quente se ficar de roupa. Usei quando meu pai e eu fomos pescar no gelo no inverno passado. E. todas as camadas de roupa que. geralmente fico com a Autumn — procurei em minha mente outras coisas para dizer a ele. Definitivamente. Se você não tirar a roupa. Talvez tivesse sentido mais vergonha. pelas canções de Natal e pela busca para o melhor presente possível para Autumn. Logo ficaria frio demais. 119 . apesar da fazenda estar tranqüila agora. mas ainda estava usando a legging e o sutiã e dentro do saco de dormir não dava para ver nada. pareceram me sufocar. batendo com a mão no espaço vazio ao seu lado. — Tire — disse ele. ainda não tinha ficado completamente sem roupa na frente de Connor. camiseta e regata. Um vazio patético. apesar de estar molhada de suor. — Durmo — disse. Ele entrou no saco de dormir e disse: — Venha. Parte de mim estava aliviada por ter essa data de validade se aproximando claramente. — Não. roupa de baixo térmica. a calça jeans e o moletom. Foi meio trabalhoso sentir-me confortável ao lado de Connor. de verdade. Tirei a minha primeira camada de roupas.

— Ela é legal. Eu a tenho visto por aí ultimamente. Por que você não vai às festas com ela? Virei para lá e para cá, tentando ficar confortável. — E claro que ela é legal. Por que não seria? — Sabia que Autumn queria ser mais sociável, mas não sabia que ela tinha voltado à cena completamente. — Não... não quis dizer nada com isso. — Para seu conhecimento, as coisas que Chad Rivington disse não eram verdadeiras — disse, tentando tirar os braços para fora. — E para responder a sua pergunta, Autumn e eu não vamos a festas porque estamos brigadas — e quase acrescentei: ―E é por isso que venho aqui ver você‖, mas não fiz isso. Não era com Connor que estava brava, era com Autumn e um pouco comigo também. — Por quê? O saco de dormir tinha virado um forno de micro-ondas. — Podemos abrir essa coisa, estou sufocando. Connor livrou os braços e abriu o zíper. Senti-me como se tivesse recuperado o fôlego depois de voltar à tona do fundo da piscina. — Desculpe. Não quis... — Tudo bem. Só me sinto melhor se não ficar pensando nisso. — Tudo bem. Vou mudar de assunto. Você vai fazer alguma coisa na sexta? Apertei os olhos. Será que ele estava brincando? — Não. O SAT é no sábado de manhã. Connor deu de ombros. — Espera aí. Você não vai fazer? — Não. — Mas, e a faculdade? — Não vou para a faculdade. — Connor deve ter percebido a surpresa no meu rosto, pois começou a balançar a cabeça como se eu tivesse entendido tudo errado. — Espere, não é bem assim. Vou fazer alguns cursos na faculdade pública daqui. Mas daqui a um ou dois anos vou assumir os negócios da família e meu pai vai se aposentar. — Legal — disse, mas meu tom não era convincente. Assumir uma empresa como a Fazenda Hughes de Árvores de Natal era impressionante, mas isso significaria ficar em Liberty River para o resto da vida. O que, para mim, parecia a pior coisa possível.

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Tentei pensar em uma maneira graciosa de mudar de assunto com Connor e comecei a beijá-lo novamente. Era como se, no fundo, nenhum de nós quisesse admitir como éramos diferentes. Então, não admitíamos. Em vez disso, nos agarrávamos um ao outro como se fôssemos duas cobras deslizando no saco de dormir. Um pouco mais tarde, Connor levantou para pegar água de uma jarra na prateleira. Quando ele voltou ao saco de dormir, sua pele estava congelada. Ele se agarrou a mim para se aquecer e disse: — Gosto de ficar com você — virou para o lado e começou a olhar para o teto, como se estivesse vendo as estrelas e não um punhado de sacos de semente presos entre as vigas. Como não falei nada, Connor me puxou para cima dele e perguntou: — Você gosta de vir aqui? — Não estaria aqui se não gostasse — respondi. Não era exatamente uma declaração de sentimentos, mas era tudo que podia dar a ele.

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Capítulo 26

A

o voltar para casa naquela noite, decidi que era hora de conversar com a Autumn. Já tinha dado a ela o tempo que queria, talvez até demais. A questão era como me aproximar dela sem que Marci estivesse por perto.

Autumn deve ter sentido a mesma coisa porque na sexta, depois da aula, encontrei-a do lado de fora da biblioteca com uma pilha de livros nas mãos, um dos joelhos encostado na parede. Sabia que ela estava esperando por mim, pois, pela primeira vez desde o baile de Halloween, ela olhou nos meus olhos. Eu havia deixado de ser invisível, o espectro da amiga que ela costumava ter. — Oi. Podemos conversar? -— questionou. Olhei o relógio.A reunião do conselho estudantil começaria em cinco minutos. Por mais que quisesse que isso acontecesse, havia muitos alunos passando por nós na biblioteca. E não queria parecer que estava com pressa. Tínhamos muito que falar. — Você pode esperar até a reunião acabar? Posso levar você para casa. Ou podemos ir a algum lugar e comer alguma coisa — muitas possibilidades passavam pela minha mente. Poderíamos jantar em nosso local predileto, resolver finalmente as coisas e depois voltamos para minha casa. Ainda estava com o DVD do Cantando na chuva a que assisti com a minha mãe só de raiva. Fingiria não ter assistido e ter esperado por ela. Ela balançou a cabeça. — Não vai demorar muito. O chão se abriu à minha frente, não dava para acreditar nela. Ela finalmente tinha decidido que devíamos conversar e eu tinha que deixar tudo de lado? Agora, definitivamente não queria falar sobre isso antes da reunião, pois já estava sentindo minha garganta apertar. — Não sei o que você precisa me dizer tão subitamente. Você deixou claro que não quer mais ser minha amiga — tentei falar baixo, mas senti-me como se estivesse gritando. — Vou sair do conselho estudantil — disse, levando a mão à boca para morder as unhas, mas abaixou rapidamente.

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— Uau . Não consegui evitar o riso. Agora sei por que você queria que eu me sentisse tão mal comigo mesma. você não teria tido amigo algum. É como se você tivesse passando por uma crise de meia-idade. — Você não entende. — Você percebe o quanto está sendo tola. — Também não quero me arrepender. — Isso não tem nada a Ver com você. na verdade. Sim. mas aparentemente estava enganada.disse —. Como pedir a Connor para colaborar com a fogueira e participando da noite das garotas. tudo bem. Ninguém queria ter amizade com você. — Não faça parecer que você era uma santa. — E de todos os comitês dos quais você participa? Vai simplesmente fugir de todas as suas responsabilidades? — Minha falta de dedicação não é justa com ninguém — sentia que era doloroso para ela ter que se explicar. Como vai ficar a sua inscrição para a faculdade se você desistir do conselho no último ano? — joguei as mãos para cima. — Talvez não. 123 . E o conselho não foi uma coisa ruim para você. Então. tão melhor do que todo mundo. Marci fez uma lavagem cerebral completa contra mim. sempre me preocupei com a ideia de Autumn se afastar de mim. Autumn estava genuinamente irritada. três anos da nossa amizade foram tempo perdido? Por detrás dos ombros de Autumn vi alguém esticando a cabeça no corredor. isca de peixe? Queria que Autumn ficasse com raiva. Natalie. Foi a gota d'água. Era uma droga. — E pare de se sentir tão chocada. fiz com que perdesse a cor. E nem ouse me julgar. ou Marci. não percebe. Vou recuperar o tempo perdido antes que o ano acabe. nunca achei que você fosse estúpida o bastante para cometer o mesmo erro terrível de novo. — Julgar você? Eu fui a única pessoa na escola inteira que não julgou você! Você acha que era fácil para mim ser sua amiga? Ter sempre que protegê-la? Não era. Se isso não tivesse acontecido. teríamos deixado de ser amigas há muito tempo. tão mais inteligente. retrucando: — Não estou cometendo erro nenhum. Mas em vez de fazer com que seu rosto ficasse vermelho. ou ninguém. ―Sou uma boa amiga‖. Só não quero mais fazer parte do conselho. Ninguém nemgostava de você! Você anda pela escola com o nariz empinado. Você sabe que nunca me interessei muito pelo conselho. nos observando. E por isso que quero passar o último ano do ensino médio fazendo outras coisas. Mas nunca tentei fazer com que ela se sentisse mal consigo mesma só para ficar comigo. mas você sempre deu boas ideias. Sem mim. — O quê? Por que você faria uma coisa dessas? Você me odeia tanto assim? Meu Deus. pensei.Balancei a cabeça. Autumn. ―Uma boa amiga que não merece ser tratada dessa forma‖. com tanta raiva quanto eu estava. Marci Cooperstein. Autumn não recuou. Não quero que você faça algo de que vai se arrepender depois.

E você deveria fazer o mesmo. é você quem faz com que me sinta a pior das pessoas! Você constantemente traz à tona essa história da isca de peixe. Autumn? Você não tem respeito próprio? — Era isso o que devia esperar de você. 124 . mas não podia. que também estava coberto por lágrimas. porque os outros riem de mim. para que elas pudessem aprender com seus erros. Ela o humilhou na frente de todo mundo. Mas. Não conseguia parar: — Mas este é o seu nome. Tinha enxugado suas lágrimas milhares de vezes. Mas não preciso mais que você me proteja. — Senti pena de Mike depois do que Spencer fez com ele. Uma fumaça negra soprava dentro de mim. Especialmente. Natalie. Cheguei a pensar que Autumn iria me abraçar. Tudo o que conseguia fazer era chorar. jamais pensei que você fosse dizer isso para mim — ela respondeu. chama você. Dei muito poder a elas. Não preciso mais de você fazendo com que sinta pena de mim mesma. chorar sozinha no corredor parecia algo completamente impossível. Ou pelo menos se desculpar quando percebesse o quanto estava me magoando. As palavras dela eram tão claras que não conseguia dizer nada em defesa própria. Bem. — Você foi uma boa amiga para mim. Afinal de contas. estou cansada disso! Então. me lembrando de uma coisa estúpida que fiz há três anos. — Você tá brincando? Mike sempre tentou dificultar nossas vidas. tinha ficado ao lado dela em todas as suas choradeiras. Pala sobre como eu devia contar isso para as outras garotas. Como eu não deveria ser amiga de mais ninguém além de você. queria engolir as palavras de volta. as pessoas falaram mal de mim. certo? É como o seu amigo. quando não era nem verdade. Jamais devia ter deixado uma coisa tão ridícula me afetar como afetou. Autumn falou isso como se fosse algo fácil. Sabia que tinha que calar a boca.— Nunca. não estou dizendo que não foi. e agora você está do lado dele? Que é isso. Mike Domski. Mas ela estava do outro lado da fronteira invisível. para mim. e enxugou seu próprio rosto. Afinal de contas. Estou numa nova fase da minha vida. e talvez fosse para ela.

por dentro. Não podia estragar isso. algumas lapiseiras favoritas e um elástico de cabelo. repassei todos os itens da redação e arrumei a mochila com o essencial para o dia de provas — duas barras de proteína. Tentei assistir à televisão. Passei uma hora revisando listas de vocabulário. sentia estar na posição fetal. ler um livro. limpei o vapor do vidro. Meu corpo queimava energia que eu nem sabia que conseguia armazenar. até que fui tomar banho com a água mais quente possível. Olhei para ver quem era. Em algum momento nas últimas duas semanas eu havia me tornado noturna. mas não conseguia responder.Capítulo 27 L iguei o piloto automático. sentei na ponta da mesa e presidi a reunião do conselho estudantil enchendo quatro páginas do caderno com ações a serem tomadas e discussões de projetos e pensamentos para a pauta da próxima semana. Ainda dava para sentir o gosto sujo das palavras em minha boca. Entrei na biblioteca. As cicatrizes da mordida que o cachorro da vovó me deu faziam parecer que eu tinha sentado no cascalho. Espantei os pensamentos de Connor da minha cabeça para manter o foco. Usando a ponta da toalha. E então tentei dormir. mas sabia que não conseguiria. Virei de lado e olhei para as coxas. Quando saído banho. Enxuguei as lágrimas e recuperei o controle. os meus eram bem pequenos. hoje não. apreensão. Quase instantaneamente os pontos negativos sobressaíram. Não podia encontrá-lo. Queria ter seios maiores. não importava o quanto minha vida estivesse confusa agora. Mesmo deitada o mais quieta possível. Faltavam só algumas horas para o SAT. isso seria bom para mim. Era ansiedade. tristeza. vi minha silhueta no vapor do espelho. a prova mais importante da minha vida. Qualquer chance que tínhamos de resolver as coisas tinham sido completamente arruinadas por mim. todos os meus órgãos e músculos chiavam como uma locomotiva. e era assim que me sentia mesmo. Mas fiquei rolando na cama pelo que pareciam horas. Então fui para casa. Ainda não conseguia acreditar que tinha chamado Autumn de isca de peixe. Virei-me para ver a 125 . Uma força desconhecida controlava meu corpo enquanto. comi o macarrão que minha mãe havia preparado e me arrastei pela escada. Queria tanto me retratar que até doía. Parecia um fantasma. O telefone tocou dentro da mochila.

. Peguei o telefone. naquele depósito. Ele me apertava com muita força. por alguém que a fizesse sentir-se bem consigo mesma. Não conseguia olhar para ela. a coisa toda era estúpida e estava prestes a explodir na minha frente.. 126 . mais curvas apareceram. apaguei a vela e caminhei nas pontas dos pés pelo corredor até o meu quarto. Parecia que eu sabia o que estava fazendo. com certeza. Não que isso importasse. Autumn. Então desliguei a luz do banheiro e acendi uma vela que ficava na pia. com fome. Desprezava a garota que me olhava. que era tão projetado para fora da barriga que parecia um terceiro mamilo. Não parecia eu mesma. Pensei: ―É isso o que Connor vai ver se eu ficar nua na frente dele?‖ Sabia que ele gostava do meu corpo no escuro. Não tinha mesmo nenhuma outra forma de isso terminar. na escuridão. Ele escreveu: Por favor? Duas palavras e lá fui eu. A luz do banheiro era cruel. era óbvio que não sabia. Parecia alguém. planejando escrever para ele que não iria até lá hoje. sempre me tocando. A garota de quem ninguém gostava. Não. Inclinei-me para frente. Mais sombras. O telefone estava tocando de novo.marca de nascença no quadril e depois para ver o umbigo. contudo. na verdade. de fato. Nunca mais Autumn. Tirei a toalha da cabeça e deixei os cabelos caírem nos ombros como volumes frios. Suas mãos estavam sempre deslizando em mim. como se tivesse medo que eu desaparecesse se me desse algum espaço para respirar. As marcas da coxa desapareceram. Pois não entendia como estar com Connor parecia tanto ser a coisa certa em um momento e tão sem propósito no outro. Aquela era a garota que Autumn odiava. Tudo ficou mais suave. colocando as mãos no beiral da pia. Connor. Enrolei-me na toalha novamente. mas senti que merecia aquilo. Faminta por afeição. Estava vivendo a vida em momentos. Pois.

Mas essa era a minha vida. a fiscal da minha sala. dessa vida que tinha destruído subitamente. Quando olhou para cima e me viu correndo pelo corredor. Bee entregou os libretos do teste. Era um grande tapa na cara. estava em pé na porta da sala. Bee. Cheguei à escola em cima da hora. Olhava para o meu futuro. Natalie. Fui praticamente sua professora particular. ela balançou a cabeça e apontou para dentro. evitando olhar para mim. Isso. ou que eu passaria as noites no meio do mato. fazendo careta para o relógio. no fim das contas. o aquecedor estava muito forte 127 . Se poderíamos nos reinventar como pessoas totalmente desconhecidas. uma página cheia de círculos vazios. Só que quando a prova começou. quando abri a boca para falar. Pensei em um milhão de desculpas num milésimo de segundo. cavando buracos em seu crânio. — Não há tempo. considerando que Autumn provavelmente não teria feito sequer um curso preparatório se não fosse por mim. era a minha passagem para fugir de Liberty River. Havia trabalhado bastante e por muito tempo me preparado para este dia. passando todo o conhecimento recebido no curso de verão e em todos os manuais que tinha lido. Então. Tinha ido à casa de Connor na noite passada e o beijei com tanta força que mal conseguia respirar. Assim que entrei na sala. O último lugar vago na classe era bem atrás da minha ex melhor amiga. sua expressão era um misto de alívio e desapontamento. mas. junto com o fato de que Autumn e eu não seríamos mais amigas. mas nunca diretamente. A Srta. Será que ela pensava nisso? Passei por ela sem chorar nem dizer nada. a ideia de chegar atrasada para o SAT era uma piada. mas por dentro perguntava-me se realmente conseguiria agir dessa forma um ano inteiro. há algumas semanas.Capítulo 28 P ara mim. ignorei meu libreto e comecei a olhar para a cabeça de Autumn. não deveria estar chocada. ela se inclinou na mesa e começou a revirar sua mochila. Temos que começar. tentando pensar no que poderia estar se passando na mente dela. E a verdade era que me sentia cansada. no fim. Precisava tirar tudo isso da minha cabeça e levar a sério. Além disso. A Srta. não demonstrou. Já a tinha visto brava antes. Se Autumn ficou preocupada por eu não ter chegado na hora.

todo mundo na sala olhou. pois tinha dado uma topada tão forte na minha mesa que meu lápis caiu e saiu rolando pela sala. mas não havia nada que pudesse fazer com a marca transparente de baba bem no meio do libreto. Enxuguei o rosto molhado. Ela tirou o sapato e se inclinou um pouco para examinar o dedo do pé. — Desculpe-me — disse a Srta. só do terremoto que me acordou. ainda me sentia um fracasso absoluto. Recompus-me e completei tudo o que consegui no teste. a temperatura seca e o chiado do aquecedor tomavam o ambiente perfeito para uma soneca. Bee. O olhar que ela me lançou ao retornar para frente da sala era inconfundivelmente de desapontamento propositado.na sala. Mesmo assim. Não me lembro de ter dormido. como se tivesse sido um acidente. 128 . A Srta. Bee usou a minha mesa para se equilibrar. Olhei para cima.

— Em quem você votou na eleição para presidente do conselho estudantil? De repente. — Isso faz com que me sinta um troglodita. — O que você está fazendo? — perguntei quando ele se afastou no meio do beijo. comum sorriso bem doce e fingido. mude de assunto. Isso era exatamente o que vinha tentando evitar. Connor parou de me beijar e começou a pensar. Mas não vou ficar me agarrando com você vendo que está desse jeito. — Da para perceber que você está chateada. — Isso não é invasão de privacidade do eleitor ou coisa assim? — Então você votou em Mike — puxei com força o cobertor para ficar com um pouco mais. 129 . mas as respostas no meu cérebro estavam todas bagunçadas e não estava com vontade de organizá-las.Capítulo 29 E m algum momento no meio da nossa sessão de pegação. Levantei a cabeça e olhei para ele. — Não sou idiota. Virei de costas e afundei o rosto no travesseiro. — Você sabe o que quero dizer. Tenho uma pergunta para você — disse. Connor era daqueles que pegam todo o cobertor. — Connor. por favor. — Por que não? Pensei que os garotos sempre estivessem a fim. então tá. — Muito obrigado. — Então tá. — Não estou. — Tudo bem. não quero falar sobre isso agora. Sterling — Connor saiu de perto de mim e perguntou. — Já sabia. — Qual é o problema? Era uma pergunta direta. Connor pareceu desconfortável.

o que era uma estupidez. Connor aninhou-se em mim dizendo: — Se valer alguma coisa. Connor. especialmente Mike. Connor tinha alguns amigos bem questionáveis. — Odeio futebol. Não sabia por que era tão doloroso. — Sério? Isso não melhora nada? Nem um pouquinho? Olhei com raiva para a escuridão. — Você fez isso? — Por favor. com raiva de mim mesma por ter tocado no assunto para começo de conversa. — Pode ser que não conheça você. — Olha só. mesmo não sendo exatamente isso o que eu queria. sem falar na longa história de garotas com quem já tinha ficado. Ele não tem muita noção das coisas. mas obrigada mesmo assim. Quero entender você. sem falar dos outros caras do seu time. — Não. eu não conhecia você na época. Afastei-me. fiquei com tanta raiva que eu mesmo o tirei de lá. — Odeio dizer isso a você. e não posso culpá-la por isso. acho que você está fazendo um ótimo trabalho como presidente. — Sei que você tem problemas com os meus amigos. Senti bem nas minhas costas. tenho irmãs. ficaria louco. Senti um aperto na garganta. mas estou tentando. no fundo. Ele deu um suspiro profundo e cansado. — Por quê? 130 . Mike não pensa às vezes. só deixa as coisas piores. Sabia todas as razões de Connor. Tinha de ser cuidadosa. mas você ainda não me conhece. Você ainda não foi a nem um dos meus jogos de futebol. mais doce do que originalmente pensava. — Você também não é especialista em mim. Sabia por quê. — Connor sentou-se e falou: — Mas eu não sou o Mike. — Talvez você não devesse fazer isso. Você sabe disso.— Mike é meu amigo. e se um cara escrevesse uma coisa dessas sobre elas. Votaria em você agora. Connor pegou a ponta do meu rabo de cavalo e desenhou um círculo na palma da mão. Sterling. Mas também não podia ignorar completamente a verdade. como se não houvesse nenhuma possibilidade de ele votar em mim. Quando vi que ele estragou o seu cartaz de campanha. Enrubesci. é claro que votei nele — disse como se eu tivesse obrigação de saber a resposta. esperava que Connor tivesse secretamente votado em mim. não sabe? — Talvez — queria acreditar que Connor era mais esperto. Talvez porque. — Não vale. mas gostaria que fosse. como se fosse um pincel.

Deixei que Connor me abraçasse. mas nunca algo assim tão abrangente. Por sorte. Connor não disse nada. 131 . Procurei as meias no chão. — É melhor eu ir — comentei. que a nossa relação era puramente física? Ou ele me diria que tinha sentimentos verdadeiros em relação a mim? Qualquer resposta me deixaria assustada. Havíamos tocado em muitas partes diferentes um do outro. Aproveitei o silêncio e levantei. andando na ponta do pé no meio da escuridão de um chão congelante. Era bem possível que estivesse tão confuso quanto eu. De um jeito estranho. Apesar de sentir necessidade de afastá-lo. Será que ele iria confirmar os meus mais profundos temores. fiquei preocupada com o que Connor iria dizer em seguida.— Porque não é assim que deve ser. não fiz isso. Connor envolveu os braços ao redor do meu corpo. isso era reconfortante. Assim que disse. E então senti que estava sendo virada. partes independentes que completavam o todo. Ouvi Connor levantar-se. Foi então que percebi que nunca tínhamos oficialmente nos abraçado antes. e acho até que o segurei ainda mais forte.

você não pode se explicar. entrar em contato com o abrigo local. Era óbvio que precisava diminuir o tempo que passava com Connor. — Já terminei um rascunho da sua carta de recomendação para a faculdade. Minha culpa era enorme. não me obrigue a revisá-la. Era a segunda-feira depois do SAT. repetidas vezes. mas o seu comportamento atual me preocupa. distraída. me desculpei incisivamente.. E o tempo em que passava pensando nele. cruzando os braços ao redor do corpo para se aquecer. apesar de não haver folhas nos galhos das árvores. peguei o casaco e saí de lá o mais rápido possível. A única coisa que podia dizer era desculpe. Movimentei o corpo na cadeira e fiquei olhando para os sapatos de salto alto da Srta. Aquilo me pegou completamente de surpresa. porque estava pensando demais nele. sei que você tem trabalhado muito e que tem muitas responsabilidades... Será que a Srta. Ela não estava animada. A Srta. Bee estreitou os olhos. Bee. e se ela quisesse me repreender milhares de vezes. você está me ouvindo ao menos? — questionou. Ela não estava usando casaco. Por favor. 132 . — Eu sei. era bem provável que concordasse com ela. levando a xícara de chá à boca com força demais e algumas gotas do líquido marrom escaparam de seus lábios. Ver quantas famílias. sinto muito. Tinha acabado de ligar o carro quando Spencer bateu na janela. — Natalie. — Natalie. O dia de Ação de Graças será nesta semana e você está completamente despreparada para montar as cestas de alimentos. Precisamos começar a fazer os anúncios para que os alunos tragam doações de alimentos. Bee faria mesmo uma coisa daquelas? Será que a boa reputação para qual tinha trabalhado tanto para conseguir estava em risco? Concordei. Esse é o problema dos segredos. — Sim.. claro.Capítulo 30 — P ercebi que você anda.

— Oi, Natalie. Você acha que pode me dar uma carona para casa? Minha mãe ficou presa no trabalho, e o próximo ônibus não vai passar antes de uma hora. — Claro — disse e me inclinei para abrir a porta do passageiro. Esse gesto trouxe à tona uma triste lembrança sensorial. Parecia um século que havia feito aquilo para alguém. — Obrigada — Spencer entrou e fechou a porta do carro. Seus dentes batiam, e ela começou a esfregar as pernas nuas. Liguei o aquecedor e apontei todas as passagens de ar para ela. — Te devo uma — agradeceu. Depois do sermão da Srta. Bee, não estava a fim de conversar. Por sorte, Spencer estava a fim de falar por nós duas e ficou fazendo fofoca sobre várias pessoas e me dando instruções para chegar ao apartamento dela. Então, eu não precisei falar muito. Em seguida, olhou para o meu pescoço e me provocou: — Então... tem levado muitas picadas de inseto ultimamente? Era estranho. Em vez de ficar na defensiva, pensei em contar tudo a Spencer. E teria contado, se não fosse Connor a pessoa quem estava beijando. Em primeiro lugar, Spencer já tinha gostado de Connor. Ela tinha escrito o nome dele na camiseta de ―Rosstituta‖. Não achava que ela ainda tivesse sentimentos por ele, mas não tinha certeza a respeito. Além disso não confiava muito na discrição de Spencer. Tudo que ela precisava fazer era contar para uma pessoa apenas, e meu segredo já era. Eu ficaria sendo a maior hipócrita do mundo, o que acho que era mesmo. Mas então lembrei-me do que Autumn tinha dito a mim no corredor. Ela tinha seguido em frente, feito novos amigos. Por que eu queria tanto manter Spencer distante? Ela tinha provado que queria ser minha amiga algumas vezes. E, gostando ou não, Spencer entendia os garotos de um jeito que eu não conseguia. — Tudo bem. Estou saindo com alguém — disse, casualmente. E rapidamente acrescentei. — Ninguém daqui. Se não fosse o cinto de segurança, Spencer teria voado do assento. — Eu sabia! Ah, meu Deus, me conte tudo. Ele é bonito? Aposto que ele é bonito. Virei-me para ela e sorri. Tantos adjetivos encheram a minha boca. Mas dava para ver o prédio de Spencer se aproximando e não queria parar para deixá-la em casa. Era tão bom ter uma amiga. Por que não havia feito isso semanas atrás? Então, quando brequei no farol, me virei para ela e perguntei: — Você quer comer alguma coisa? Estou convidando. Spencer sorriu de orelha a orelha. Ela parecia tão agradecida como se tivesse a maior sorte de ter recebido um convite meu. Fomos ao lugar que costumava ser o preferido de Autumn e meu, um trailer de aço antigo com várias mesas e uma placa de neon cor-de-rosa. Estava bem vazio, pois faltava muito para a hora do jantar. A garçonete nos deixou escolher nossos lugares, e Spencer decidiu pela última cabine à direita. De lá dava para ver o estacionamento e tínhamos o nosso próprio tocadiscos individual, cheio de música antiga. Spencer procurou moedas para ligar o som. 133

Pedimos Coca-Cola e sopa com cobertura de queijo borbulhante e dividimos um prato de batatas fritas perfeitamente crocantes, cheias de molho. Sentia-me incrivelmente feliz. Felizmente, Spencer me deixou falar de todos os detalhes da minha versão levemente alterada de Connor. Não modifiquei a maior parte. Falei de como ele era bonito, de como tal rapaz se sentia atraído pelo fato de eu ser uma garota tão inteligente e tão forte. A única coisa que havia mudado eram os detalhes de como tínhamos nos conhecido: meu namorado novo tinha sido meu tutor numa aula preparatória para o SAT, um brilhante calouro de faculdade. — Então, qual é o problema? — Spencer perguntou. — Isso tudo parece maravilhoso. Ouvi-la dizer aquilo feriu meu coração. Connor e eu estávamos tão próximos da perfeição e ao mesmo tempo tão distantes. — É que somos pessoas muito diferentes. — E? — E nada. Não vejo futuro para nós. É como se nós dois estivéssemos perdendo tempo. Havia uma ruga de preocupação no rosto de Spencer. — Como assim, futuro? Você não é daquelas garotas que pretende se casar aos 18, é? — O quê? — disse, pegando um guardanapo. — Não! Claro que não. — Bem, então de que tipo de futuro você tá falando? Pensei no nosso depósito frio. — Ele vai mudar de faculdade depois do Natal. E não quero me prender a ele. Spencer mergulhou a batata numa poça de ketchup e disse: — Você não vai se prender — disse, objetivamente. — Não vou? — Não. Porque você já sabe que não pode. E um fato, Natalie. Você não pode se apegar, então não se apegue. Simples assim. — Ah. — Aproveite o máximo que puder. Quer dizer, se passar o tempo com ele te faz feliz, então passe. Não pense demais nas coisas. Lembre-se, o poder está com você. Ele quer ficar com você, é você quem manda. De alguma forma, consegui mover a cabeça. Era óbvio que Spencer tinha controle sobre sua sexualidade. Ela podia ligar e desligar os botões, dependendo do que ou de quem ela quisesse. Não sentia que era eu quem mandava. Mas também não achava que Connor mandasse em alguma coisa também. Era a imprudência que mandava em nós. — Não fique quieta comigo, Natalie. Quero detalhes! 134

— Tipo 0 quê? — Você sabe! — disse Spencer mexendo o dedinho para mim. — O que isso quer dizer? — Você não viu todas as garotas fazendo isso no corredor? — ela mexeu o dedinho novamente, mas eu ainda não fazia a mínima ideia. — Inventei esse gesto para Mike Domski. Significa pinto pequeno e está bombando na escola. Pisquei, surpresa. — Ah, Deus! — É, eu sei. Sempre suspeitei, e a pegadinha no cinema só comprovou que estava certa. É triste, mas faz todo sentido, se você pensar bem. Quer dizer, Mike tem o maior SUVW 16 do estacionamento da escola — deu risada e então apontou para seu colo. — Então, seu namorado é bom lá embaixo? Fiquei desconfortável na cadeira. — E. Quer dizer, não sei. Acho que é normal. — Bem, ele é bom de cama? — Quê? Spencer cerrou os dentes. — Não seja modesta comigo. Não sou mais criancinha. — Spencer, não estou dormindo com ele — ela ficou me encarando como se eu estivesse mentindo. — Sou virgem — disse e olhei para procurar a garçonete. Afinal de contas, nem estávamos mais comendo. Só conversando. Spencer parecia confusa. — Totalmente virgem? Ou virgem só no sentido de penetração direta? Porque eu também não transei completamente com ninguém, mas já fiz várias outras coisas. Peguei o copo de refrigerante. Estava vazio, mas mesmo assim chupei todo o gelo derretido porque não queria mais falar sobre aquilo. Estava imaginando Spencer com sua camiseta de ―Rosstituta‖, com a fantasia do Halloween e com qualquer outra coisa que tenha usado para convencer Mike Domski a abaixar as calças no cinema. E não queria ser aquele tipo de garota. Mudei de assunto para o conselho estudantil e a pressão que estava sofrendo para montar as cestas de Ação de Graças. Estava me sentindo muito estressada. Spencer ouviu tudo com a mesma atenção dispensada à conversa sobre sexo, o que me deu certo alívio.

No Brasil, atualmente, também se fala SUV (sport utility Vehicle - veículo utilitário esportivo) para os carros tipo van. (N .T.)

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— Estou do seu lado. 136 . me procure. — Se precisar de uma ajuda extra com as cestas ou somente conversar. levei Spencer de volta para casa. Mas Spencer e eu não íamos mais ter esse tipo de conversa novamente.Depois que terminamos de comer. Natalie — ela disse quando parei na frente do prédio. Agradeci apenas porque precisava da ajuda dela com as cestas. Parte de mim achava que Spencer era uma garota inteligente e outra parte achava que ela era uma ―Rosstituta‖ de 14 anos que sabia muito menos que eu.

Capítulo 31

N

aquela noite estávamos bem próximos do depósito quando me virei e comecei a andar na direção oposta.

Não sei por quê. Sabia que não tinha todo o tempo do mundo. Meus pais tinham ido dormir tarde, o que me impediu de sair escondida em uma hora respeitável. E eu não podia ficar muito tempo, tendo uma prova enorme de trigonometria no dia seguinte para a qual mal havia estudado. Precisava de uma noite decente de sono, falei exatamente isso a Connor pelo telefone. Talvez pudesse ficar no máximo uma hora, nem valeria a pena. Ele pediu que eu fosse de qualquer jeito. Então eu fui. E, apesar de saber que hoje seria corrido, Connor não disse nada sobre o fato de eu não querer ir direto para o depósito. A primeira vez que tinha ido a fazenda a noite tudo parecia bem assustador, a escuridão, os estranhos barulhos na mata. Mas agora sentia-me confortável ali, andava por lá como se fosse dia. Meus olhos quase não precisavam de tempo para se adaptar à noite depois que eu apagava os faróis do carro. Estávamos próximos a lojinha, então resolvi ir até lá. Sempre quis dar uma olhada de perto. — A mamãe mandou fazer há dois anos. Ela achou que seria bom vendermos lembrancinhas. Na verdade, foi ideia dela mantermos a fazenda aberta o ano todo em vez de apenas no Natal. Ela tem uma mente bem empreendedora — disse Connor, recostando-se no gradil da varanda. — Você iria gostar dela — acrescentou. Ouvir aquilo me deixava feliz. Mas só por um segundo, pois não tinha certeza se a Sra. Hughes também ia gostar de mim. Não se ela soubesse quantas noites tinha entrado escondida na propriedade dela para me agarrar com o Connor enquanto ela e o marido dormiam. Nenhuma mãe em juízo perfeito iria gostar de uma garota assim. Essa era a pior parte de tudo: saber que era errado, mas fazer mesmo assim, não me importando com o quanto aquilo ia profundamente contra o tipo de pessoa que eu era. 137

Coloquei as mãos nas laterais dos olhos para olhar para as prateleiras pela vitrine. Vários potes estavam perfeitamente enfileirados. Etiquetas escritas à mão marcavam geléia de morango, pasta de maçã e torta de abóbora numa caligrafia encantadoramente perfeita.Todas possuíam uma tira de tecido retorcido ao redor da tampa.Algodão vermelho, como as toalhas de mesa de piquenique no verão. — Ela faz tudo sozinha, com ingredientes frescos do jardim. Uma padaria elegante na cidade começou a vender os produtos dela — disse Connor, que estava atrás de mim bloqueando o vento frio da noite com o corpo. Seu queixo estava apoiado em meu ombro e ele também olhava lá para dentro. Nossa respiração embaçava o vidro. - Você não vai acreditar no quanto algumas pessoas se dispõem a pagar por essas coisas. Uma ideia passou pela minha mente, uma ideia enorme. Virei o corpo para ficar de frente para ele. — Connor! Sabe de uma coisa? A sua família poderia doar algo para as minhas cestas de Ação de Graças! Só precisamos de 20 potes. Talvez 30, se vocês puderem. Até quartafeira. Connor começou a beijar meu pescoço; eu fechei os olhos e respirei fundo. Ele fez a barba um pouco antes da minha chegada. Sabia porque sua face estava inacreditavelmente macia. Por isso, e pelo cheiro de pós barba, um perfume de madeira picante e aconchegante. Depois de alguns beijos, me abaixei para me soltar dele. Não podia me desviar do assunto. As coisas com as cestas de Ação de Graças estavam indo devagar, aliás, tudo estava nesse compasso. - É verdade, Connor. Você está me ouvindo? — Estou bem distraído — disse, aproximando-se. Levei as mãos à cintura. — Há muitas famílias em Liberty River que não têm nada. Elas não podem pagar por um peru de Ação de Graças, muito menos por todas essas geleias chiquérrimas. Você não acha que deveria doar algo aos menos afortunados que você? Não seria a coisa certa a ser feita? Ele apontou o queixo em direção ao depósito. — Vamos, Sterling. Está muito frio. Não saí do lugar. E não estava com frio, estava começando a ferver. — Sabe, seria muito legal se você pudesse me ajudar. Honestamente, é o mínimo que você pode fazer. Ele colocou o capuz e perguntou: — O que isso quer dizer? — Bem, vamos ver — disse em um tom sarcástico —, não é você quem atravessa a cidade de carro todas as noites. Você só levanta da cama e me encontra bem aqui, esperando. Suas notas não estão sofríveis. Você não precisa se preocupar com o fato de cair no sono no meio da aula. — Só o fato de ouvir a mim mesma dizendo tudo aquilo me deixava ainda mais com raiva. Connor olhava para mim com cara de quem não estava entendendo nada, como se nada daquilo tivesse passado pela cabeça dele antes. Apontei o dedo para ele e falei — Você não tem trabalho nem faz esforço nenhum nesse nosso trato. Connor esfregou as mãos. As pontas dos dedos estavam ficando avermelhadas de tanto frio. — Você está dizendo que tenho que ir para sua casa? 138

— Não, Connor! — essa era a última coisa que eu queria, estar com ele num lugar em que realmente poderíamos ser pegos. Connor não pensava nessas coisas, ele não precisava pensar. — É diferente para você. Você não tem que se preocupar com a faculdade, em manter boas notas. Estou bem estressada com essa captação de alimentos. Coisas assim não acontecem como que por magia. Demandam muito tempo, trabalho e esforço. E preciso que as pessoas me ajudem — sei que para ele parecia que estava irritada com ele, mas por que Connor não podia concordar em doar algumas coisas para as cestas? Será que ele não queria me ajudar? Ele balançou a cabeça, magoado. — Então, basicamente, tenho que dar a você uns potes de geleia porque você vem aqui para ficar comigo? Como se fosse um pagamento? — O quê? Não! Não é isso que estou falando! — apesar de que talvez fosse. Todos os meus músculos ficaram tensos, dos dedos do pé até o maxilar. — E não gosto nada do que você está insinuando. Não sou uma piranha da escola. Você não pode me comprar com geléia. — Talvez seja melhor você ir embora — disse, desenhando curvas no cascalho com a ponta do tênis. — Pode me chamar de louco, mas não consigo imaginar a gente se divertindo hoje. Queria dar um soco nele. — É engraçado! Porque há uma hora eu disse que não devia vir hoje, mas você me convenceu. — Eu não a convenci de nada, Sterling. Essa é uma habilidade que eu realmente não tenho. — Ãh? O que você quer dizer com isso? — perguntei. E depois pensei melhor e disse: — Quer saber? Deixa para lá. Vou embora — gritei como se não me importasse. Raiva pura e simples. Mas assim que fui em direção ao carro, comecei a me sentir mal. Connor me deixou ir, ele me deixaria ir embora, não tentaria me impedir. Queria me virar, queria pedir desculpas, mas era orgulhosa demais para fazer isso. Estava procurando a chave do carro quando o ouvi atrás de mim. — Sinto muito. Estou muito estressado também. As eliminatórias serão na quarta-feira e nosso treino está um lixo — ele suspirou profundamente. — Não vamos brigar. — Acho que está meio tarde para isso, né? — Senti-me tão tola, desesperada e imatura que minhas mãos começaram a suar. Tentei mudar o tom rapidamente para limpar a barra, para esconder o fato de que esperava que Connor se importasse comigo e com os problemas do meu conselho estudantil. — E não estava tentando me aproveitar de você, a propósito. Achei que seria uma boa propaganda para a sua família. O jornal local vai mandar um fotógrafo para tirar fotos da montagem das cestas. Eu colocaria os potes em evidência, e a sua família teria uma menção especial no artigo. Esperei que Connor fosse dizer alguma coisa, mas ele ficou quieto. Um silêncio extremamente doloroso. 139

Subitamente.E então. queira muito que ele me desejasse a ponto de fazer qualquer coisa por mim. como comentei. — Tentei dizer obrigada. virei-me para ele e coloquei meus dedos na alça da calça dele. a que estava presa à calça dele. são produtos caros. — Vou falar com a minha mãe. e a colocou dentro do bolso do casaco. Mas nós dois fomos para o depósito mesmo assim. pois. Nossos sapatos arrastavam no cascalho em sincronia até começarmos a pisar na serragem caída das árvores. mas vou pedir. Mal consegui mover a cabeça para concordar. mas minha garganta fechou. — Está ficando tarde — falou. antes de perceber o que estava fazendo. Era esse o tipo de poder que queria exercer sobre Connor Hughes. Connor pegou minha mão. 140 . a ponto de me dar tudo o que eu pedisse. está bem? Não posso prometer nada. e então não ouvíamos mais nada.

Bee veio de seu escritório. E. Ricky e Phil tinham construído um forte com latas de geléia de amora. Phil. Outro representante. Claro. até temiam. como ninguém ousaria falar a menos que eu permitisse. A Srta. — Fogo! — gritou Ricky. 141 . como todos me respeitavam. era exatamente o oposto. irritada com o barulho. que tentavam se proteger das bombas com seus enormes livros-texto. riam como hienas. Você tem um plano para hoje à tarde? Ou está voando conforme o vento? — sua boca contorceu com a pergunta. transformando-as em munição. Sabia que ela iria me dar mais um sermão. — Parem! Enquanto eu estava ocupada tentando organizar as cestas. abaixando a cabeça. Rasgaram mais duas páginas do caderno. Mas. um dos representantes dos calouros. creme de milho e de espinafre. Lembrei-me da minha primeira reunião e de como minha liderança era clara. era véspera de feriado e todo mundo estava animado com o fato de ficar de folga da escola por alguns dias. mostrando seus sorrisos travessos nos rostos oleosos. Só que aparentemente eu era a única que estava levando a coisa a sério. gritou: — Foi isso que ela disse! Os garotos. sentados juntos numa cadeira de mogno da biblioteca. havia perdido o controle sobre o conselho estudantil. — Meninos! — gritei do outro lado da biblioteca. Atualmente. — As coisas parecem estar meio devagar por aqui. Eles se escondiam atrás da parede de lata a cada segundo para lançar ataques em uma mesa de garotos vulneráveis do outro lado da biblioteca. de alguma forma. Era para ter sido uma coisa fácil.Capítulo 32 O dia de montar as cestas de Ação de Graças chegou rápido demais. Quase todas as doações dos alunos estavam empilhadas em colunas em cima da mesa deles. senti que merecia. antes de atirar uma bola de papel para o alto. mais uma vez.

Basicamente ameacei a mercearia da cidade a doar perus. Precisávamos de vinte cestas e o que tinha ali mal dava para dez. — Vai ser o bastante — disse. A caneta começou a falhar. teria feito muito melhor. Queria muito dar às pessoas uma cesta de Ação de Graças bem legal. Foi ideia da Natalie. Uma que fosse memorável. Nesse momento Dave veio correndo e comentou: — Devo fazer todo mundo começar a repartir a comida? — Sim — eu e a Srta. quando fui buscá-los hoje de manhã. você é um cretino. Se Autumn estivesse ali. Mas o que eu podia fazer? Fiz o que pude para lembrar os alunos de trazer as latas. Foi nesse momento que uma bola de papel pegou bem no meu rosto. repreendendo-a. Bee dissemos ao mesmo tempo. mesmo sabendo que não seria. Bee estava do outro lado da sala. mas logo em seguida toda a sala estava abafando o riso. especialmente quando devia ter comprado mais alimentos para as cestas. Olhei ara os garotos e decidi que o agressor em questão tinha sido Phil. tentando mostrar a melhor caligrafia possível. Ela estava sentada. sentia-me idiota por ter gasto dinheiro com as cestas e com o tecido. Phil. Seria bem provável que tentaria me matar. O dia de Ação de Graças era amanhã. Um suspiro me fez ver que foi um acidente. pessoal? — Spencer falou do outro lado da sala. o que me deu vontade de matar quem quer que tivesse feito aquilo. Bee secamente. Foi ela quem escreveu a maioria dos meus cartazes de campanha. — Vá em frente. Fiquei tão feliz quando convenci a padaria a doar pão. — Isso não está lindo. mas dava para ver. cortando pedaços de algodão vermelho para acolchoar as cestas feitas de salgueiro. Se a minha cesta de Ação de Graças fosse feita com as coisas de que dispunha. A Srta. Natalie — disse a Srta. Sentei-me ao lado de Spencer e. Bee. Pedi que alguém arrumasse outra. — O tecido realmente dá o maior realce. apesar de estar olhando diretamente para a Srta. até lá já teriam virado pedra. que já estavam amanhecidos. Ela olhou ao redor da sala e eu tentei não olhar para ela. — Shh! 142 .— Estou tentando. — Não me deixe atrasá-la. — Spencer! — disse. não sentiria muita vontade de comemorar. — Isso é tudo que você tem? — questionou. A vista era decepcionante. pois o rosto dele era o mais cotado de todos. como aquelas que vemos nas revistas elegantes. escrevi Feliz Dia de Ação de Graças em pequenas etiquetas com formato de folhas de árvore. — Sério mesmo. Mas a minha caligrafia era horrível. Por mais que apreciasse o que Spencer estava tentando fazer. Gostaria que as minhas cestas fossem bonitas e especiais.

Bee esticou o pescoço do outro lado da biblioteca para ver. Connor colocou sua caixa na mesa e pegou um dos potes. dizendo: — Não fui eu. casualmente —. As caixas estavam absolutamente cheias. também carregando caixas. Nesse momento Connor apareceu na porta. não se dirigindo a ninguém em particular. Havia latas por toda a parte. — Ah. abobrinhas e cenouras com cabos longos e cheios de folhas. — Há geléias. Será que é melhor. voltar mais tarde? Mordi os lábios e segurei as lágrimas enquanto levantava. lembrando-me que devia responder. qualquer lugar está ótimo. As latas começaram a cair pelo chão fazendo o mais inacreditável dos ruídos. Foi o Rick! Rick correu para mesa e respondeu: — Mentiroso! Não venha querer me meter em encrenca! Rick tentou lutar com Phil por detrás do forte. derrubando somente uma das torres. — Natalie! Você precisa tomar a liderança! — Com licença. meu Deus! — gritei. Bee correu para mim. — Em qualquer lugar — disse. carregando uma enorme caixa de papelão. Queria chorar novamente. usando o uniforme de futebol sujo de terra que parecia não ter sido lavado uma única vez durante a temporada toda. — Onde coloco? — ele perguntou. — Meninos! — a Srta. Enormes abóboras. Outros cinco jogadores uniformizados apareceram atrás de Connor. — Você não precisava ter feito tudo isso — sussurrei quando consegui ficar próxima o bastante. Foi preciso muito autocontrole para me impedir de me jogar nos braços de Connor e enchê-lo de beijos. Fiquei de joelhos para recolher a sujeira que vazava das minhas mãos como areia.Phil apontou o dedo para o ar. Um jovem com uma câmera no pescoço olhou para mim. alguns amassados. Uma lata de batatas abriu espalhando flocos brancos por toda a parte. uh. tirando uma foto. — O que tem dentro delas? — perguntou o repórter. Senti o rosto corar. senhorita? Olhei para cima. mas dessa vez era de alívio. Spencer se aproximou de mim e apertou meu braço. 143 . Rótulos rasgados. — E era verdade. tentando fazer com que o maremoto de latas parasse. — Estou aqui para tirar umas fotos para o jornal. A Srta. recheios de torta e legumes frescos da nossa fazenda.

Gostamos muito da sua ajuda. você fez demais — por mais animada que estivesse. mas eu não conseguia rir. Ela não tinha tirado os olhos de Connor desde que ele havia chegado. E também sussurrou —. aproximei-me para abraçá-lo. Connor chegou mais perto. — Não temos que voltar ao vestiário antes que o treinador Fallon nos faça dar voltas extras no campo? — Claro. Antes que me desse conta. quando os jogadores mais novos saíram. Ele estava sorrindo quando me deu uma pilha de envelopes verdes. — Connor. São desse tamanho — disse. Abotoei o casaco e enfiei os braços dentro para 144 . vai indo — disse Connor. Depois que as cestas estavam prontas. Uma ponta de preocupação passou pelo meu rosto. Sabia que Spencer estava olhando. — Queria ajudá-la. Avistei-a toda enrolada em uma coberta com outras garotas quando fui até a grade que cercava o estacionamento. tudo bem. sabia que estavam vendo. Dei um enorme passo para trás e disse de maneira tensa e formal. — Falei para minha mãe do seu projeto e ela quis ajudar. A família de Connor gastou muito dinheiro com aquelas coisas. Ou talvez apenas confuso.Bee estava olhando para mim. Bee se aproximou toda contente: — Essas coisas são maravilhosas — mas então olhou para mim e argumentou de forma implacável: — Aquele garoto te salvou — ela não estava feliz com isso. Apesar do restante dos alunos estarem descarregando as coisas das caixas. Já estava escuro e os holofotes iluminavam o campo. Então. Ela queria que eu tivesse me salvado. A Srta. fui ao jogo de futebol. Não tive tempo de me sentir culpada. Mas ele se virou e foi embora. colocando a mão na frente do meu nariz. Brincalhão e meigo. Só das de 20 dólares que vendemos às pessoas que moram em apartamentos. pensei que quisesse um beijo. — O que é isso? — Cupons para árvores de natal gratuitas. mas em vez disso perguntou: — Você vai ao jogo? Hoje é dia de campeonato. Havia pelo menos várias centenas de dólares em mercadoria ali. Ou se algumas famílias são judaicas ou sei lá. Afinal de contas. não são cupons para árvores caras. Você não precisa usá-los. Sabia que Autumn estava lá. O local estava cheio apesar de estar absolutamente frio lá fora. mas ele sorriu e disse: — Queria que você ganhasse alguma coisa do nosso acordo — era brincadeira. Mas parei porque a Srta. Achei que você pudesse colocá-los nas cestas. Soltei os braços. — Muito obrigada. Connor pareceu magoado por um segundo. Um jogador de futebol veio por trás de mim. sentia-me um pouco culpada. Por favor? — Olhei por cima do ombro dele. Se você acha que não combina com Ação de Graças.— Eu sei disso — Connor sussurrou também. eu o tinha praticamente forçado a fazer isso por mim.

— Por favor. nem se aproximou da arquibancada. O cachecol estava enrolado no meu rosto. mas como Connor jogava na defesa. O chão congelava de forma dura e implacável. Olhei pelo buraco da grade como se fosse um telescópio e disse: — Connor sabe. as pessoas iam começar a falar. Ninguém sabe de nada. E feio. Não conseguia sentir os pés. fazendo-me recuar o tempo todo. — Por que você não me contou naquele dia? Havia várias razões. Spencer? Desse um beijo apaixonado nele? Oferecesse a ele uma masturbação gratuita? Se tivesse tratado Connor de forma diferente de todo mundo que doou alimentos. Mas. — Desculpe falar. E tudo o que estou tentando dizer é que você deveria fazer algo legal para ele. Sou ótima para me apaixonar. então escolhi uma delas aleatoriamente. Mantive o olhar no campo. Não havia como negar o que Spencer tinha visto na biblioteca hoje. — Pensei que você gostasse dele.me aquecer. dava para vê-lo. Você está praticamente no estacionamento. Eu sei. não conte para ninguém. — Claro que não. — Você não está me vendo aqui. Parecia que estava muito marcado. Queria assistir ao jogo todo por Connor. o que Connor fez hoje não foi brincadeira — ela bateu o dedo no meu peito e lembro — E você mal agradeceu! Senti a raiva tomando conta de mim. falando sério. Além do mais. mas não tem como Connor saber que você está aqui. — Natalie. Era muito longe para conseguir ver todo mundo. Ele sabe que estou aqui. E quando as pessoas começam a falar não param mais. mas estava absolutamente congelante. — Assistiria até a uma competição de xadrez se Connor Hughes estivesse participando. Natalie. — Não pensei que você gostasse de futebol. deixando apenas os olhos de fora. Acredite em mim. Bee já está suspeitando de alguma coisa. morrendo de tédio e quase congelando? Spencer riu. Peguei uma e comentei: — Não gosto. A Srta. Eu gosto de todo mundo. Você não está torcendo por ele. estávamos perdendo. — O vento ficou mais forte e Spencer colocou o capuz do casaco por cima dos cachos. Spencer olhou para mim como se eu fosse louca e comentou: — Não seja paranóica. Virei-me para ver Spencer segurando duas xícaras de cidra de maçã fumegantes. Ela riu. 145 . por favor. — O que você esperava que eu fizesse.

146 . A única coisa certa era que o frio subitamente tinha ficado mais forte. menos convencida ficava também.Spencer não parecia convencida. E quanto mais pensava naquilo.

Connor ficou me esperando lá fora. Nunca mais vou jogar futebol novamente. massa e potes de vidro com legumes enormes e vivos mergulhados em um líquido amarelo. — Não acredito que a temporada acabou. como uma torta de abóbora com cobertura extra de noz-moscada e cravo. não jogo mal como hoje — disse. E fez sinal para que eu subisse nas costas dele. E estava mesmo. soltando fumaça pelo nariz como se fossem balõezinhos de pensamento vazios. Principalmente porque mal podia esperar para ver a reação de Connor. mas sorrindo apesar disso. Envolvi minhas mãos com as luvas de lã nas dele e o fiz parar. excitada. Connor virou-se para olhar para mim. A casa inteira tinha um perfume doce e apimentado. suspirando. — Que batalha. Ele apertou a minha mão e recomendou: — Fique perto de mim. Ele não me desapontou. Fomos de fininho até a lateral da casa e entramos por uma porta dos fundos que dava para uma despensa cheia de sacos de arroz. hein? — Engraçado que no único jogo que você aparece nós perdemos. Olhei para a casa dele ao longe. nervosa. Connor apontou para o corredor. Passamos pela cozinha e pela sala de jantar com uma enorme mesa de madeira pintada de branco e um lustre de ferro com pequenos abajures de linho. — Tem certeza de que não vamos ser pegos? — estava nervosa. Normalmente. — O quarto dos meus pais — sussurrou. Abriu a boca só um pouco e falou — Sério? — Está muito frio — disse. — Quê? — por essa eu não esperava. assustada.Capítulo 33 N aquela noite. 147 . Saí do carro e comecei a caminhar em direção ao depósito pisando a terra congelada do caminho. rindo. Senti-me exatamente como na primeira noite: com tontura.

empurrando duas de suas irmãs. Depois era um garoto de cara fechada. rodeado por quatro meninas mais velhas que pareciam estar se divertindo muito. Subi nas costas dele da forma mais graciosa possível. daquele Connor que estava me carregando. que eram bonitas. — Carlie e Corinne estão em casa para o feriado de Ação de Graças. A cada retrato.— A escada é velha e barulhenta. na neve. Finalmente. Você nunca pensa no quanto é pesada até alguém te carregar nas costas. Acho que saíram para se encontrar com os amigos do ensino médio. Seus passos eram leves e nada desajeitados conforme subíamos para o segundo andar. Quando Connor colocou a mão na maçaneta. passando em ritmo acelerado até aquele momento. provavelmente estava no ensino fundamental II. típico dos garotos — roupas espalhadas pelo chão. os dois segurando um machado nos ombros. havia uma foto recente de Connor. Elas me forçaram a ser a Barbie delas durante anos. as outras que ele havia carregado nas costas. Ao lado. uma pilha de revistas de esportes. Só pode ter o barulho dos meus passos. usando vestido e maquiagem. Connor ficava mais velho. Parecia uma linha do tempo. com uma cabeleira castanha que mais parecia um topete. o que por sinal não tinha nada de gracioso. mas é melhor a gente ficar em silêncio. talvez um pôster de carros de corrida ou de uma mulher de seios fartos segurando dois copos de cerveja nas mãos. 148 . uma foto em que ele estava de avental. Queria ir devagar. Rapidamente imaginei um quarto bagunçado. ajudando a mãe na cozinha. Senti-me como um saco de batatas. percebi que não tinha pensado muito na aparência do quarto dele. Ele agachou. — É. Quando chegamos ao topo da escada. apesar de tentar afastar esses pensamentos da cabeça. — Meus pais não conseguem ouvir a gente agora — disse com tanta convicção que não consegui evitar pensar nas outras garotas que ele tinha levado para o quarto. ao lado do pai. desci das costas dele. a força de Connor me deixou surpresa. Mas o quarto de Connor não era nem um pouco assim. Apesar dos machucados. — Parece que as suas irmãs aprontavam muito com você — sussurrei no ouvido dele. É que judiaram bastante de mim hoje — Connor colocou os braços atrás das costas para fazer apoio e deixar o peso mais estável. Ele era um bebê de olhos vivos. Apoiei o rosto na camisa de flanela dele e olhei para todas as fotos de família penduradas na parede. talvez com 7 anos. Connor respirou fundo. Depois Connor ficou mais velho. Ajudou. — Você está bem? — Sim. queria admirar cada uma das fotos. segurando a corda de um trenó antigo. Tapetes trançados cobriam o chão de madeira.

orçamentos. Não queria mais me esconder.Era limpo. só um vácuo. — Planos de negócios.As coisas estavam diferentes agora. Não estava com medo da luz. Dessa vez. Não havia medo nem constrangimento. ele não ficou bravo. 149 . Era pura liberação. Connor esticou a mão para desligar o abajur. nenhum ar. Arrependi-me de ter dito isso. confiava nele me surpreendeu de forma acolhedora. — Não acredito que você está aqui — disse. mas tinha que tocá-lo. Havia uma pilha de papéis — folhas espalhadas com números e cálculos mais difíceis do que os do meu livro de cálculo avançado. projeções para o ano que vem — Connor sentou na cama e eu me sentei ao lado dele. O corpo dele estava machucado. Porque não queria pensar em Connor com outras garotas e por causa da forma como tinha ficado bravo quando falei sobre como ele havia perdido a virgindade. mas impecável. Olhou fundo em meus olhos e comentou: — Nunca uma garota como você. Desabotoei o sutiã e tirei a calcinha. do que Connor iria ver. Frágil. Dava para ver que Connor me viu exatamente da forma como queria ser vista. Precisava estar com Connor. mas estava confiante de uma forma como nunca tinha estado no depósito. Não dava para senti-lo o bastante. Ferido. Eu tirei a mão dele. Pensei que ficaria nervosa. Ele arregalou os olhos sem acreditar no que estava vendo quando tirei a camiseta e a calça. o tapete bege havia sido aspirado. Não só limpo. abdômen. como roupas que acabaram de sair da secadora. Também tirei a roupa de Connor. pronta para aceitar Connor pelo que ele realmente era — um bom rapaz que não faria nada para me magoar. Tirei o casaco e pendurei na cadeira da escrivaninha. Eles brilhavam sem poeira alguma. O espelho não possuía mancha alguma. Senti um aroma de frescor. senti que minhas mãos eram pequenas demais. Nenhuma luz. E quando o toquei. — O que é isso? — perguntei. Fiquei em cima dele e deixei a gravidade pressionar nossos corpos um contra o outro. Meu corpo. lábios. coxas. minha mente e tudo em mim gritava que essa era a coisa certa a ser feita. apesar de todas as roupas dele estarem guardadas. mas agora era tudo o que eu queria. Eu estava diferente. Estava apaixonada por ele. E não soou piegas. Não queria espaço algum entre nossos corpos. A percepção de que eu. implícita e incondicionalmente. Não estava planejando transar com ele. Deitei-me ao lado dele e o toquei com muito cuidado. forte. peito. O momento era bem diferente do que havia imaginado. entretanto. segurar sua pele o bastante. — Por quê? Você já trouxe muitas outras garotas aqui antes. As prateleiras não contavam com livros. mas troféus de vários tamanhos. nem como uma cantada ou uma mentira ou qualquer outra coisa que teria suposto na primeira vez em que ficamos juntos. Bonita.

Sexo é algo que aprendemos de forma abstrata. Ele era mais experiente.E a clareza desse fato impulsionou uma avalanche. Parei de tentar me impedir de algo que queria desesperadamente. as aulas de saúde fornecem livros com ilustrações das partes e dos procedimentos. — Você não está fazendo isso por causa de hoje. Senti-me tomada por essa liberdade de expressão dos sentimentos que tinha tentado esconder de toda forma. Meus sentimentos estavam trancados naquele depósito porque estava com medo demais de expressa-los. Era a única coisa que queria. não estava com medo de mostrar a ele o que sentia. está? Das cestas de Ação de Graças? Porque não quero que seja por isso. as ações que fisicamente aconteceriam entre nós. As camisinhas vêm com instrução. — Você tem algo que podemos usar? — sussurrei. Poderia ter chorado. Sabia como deviam ser as coisas. O mundo inteiro desmoronou e só havia Connor e eu. — Espere aí — ele afastou meus cabelos para que caíssem apenas sobre um dos ombros. mas dava para ver que o que estávamos fazendo era diferente do que ele já tinha feito com outras garotas. Tinha deixado Connor tão distante de mim por tanto tempo que ele não tinha a mínima ideia do quanto eu gostava dele. por conceitos clínicos. — Não é por isso. Parecia que estava mais inseguro do que eu. Finalmente. Connor perguntava baixinho se estava tudo bem. suas mãos trêmulas segurando-se em mim como se estivesse sem equilíbrio. por alguma razão. 150 . A euforia absoluta de saber que Connor e eu não tínhamos como ficar mais próximos fisicamente um do outro. Só que agora.

Absolutamente. Vamos fazer o seguinte. Por um segundo. Meu coração estava apertado. Era dia de Ação de Graças. Não falamos um com o outro. desconfortável demais. Não era arrependimento. Um acidente como esse jamais teria acontecido no depósito. colocando as roupas.Capítulo 34 A cordei com o sol da manhã no meu rosto e o braço de Connor por cima do meu peito. E então me levantei. A calcinha e o sutiã estavam gelados por terem passado a noite no chão. Precisava voltar para minha casa antes que meus pais percebessem que não estava lá. Ele parecia cansado demais para falar e eu estava acordada demais para conseguir encontrar o que dizer entre as milhares de palavras que rodeavam a minha cabeça como um alarme. Agora. não exatamente. pareceu-me a melhor coisa do mundo. E era mesmo. Mas todos os sentimentos maravilhosos da noite anterior tinham sido substituídos por medo. Então vou entrar na cozinha e distrair a minha mãe enquanto você sai pela porta da frente. 151 . Era frio demais. — Tenho que sair daqui. mas a mamãe sempre acordava mais cedo para fazer uma torta. xingando baixinho. Connor vestiu uma calça de moletom e uma camiseta. Droga. olhou para o relógio. Connor levantou as mãos para o alto e disse: — Tudo bem. Aquilo não era nem um pouco divertido ou excitante. Connor levantou a cabeça. como costumava ser quando nos escondíamos no depósito. Geralmente íamos para casa da tia Doreen. Sentiu o aroma que vinha do corredor — Minha mãe já está Cozinhando. Eu já estava de pé. Talvez tinha razão de ser assim. Connor abriu um pouco a porta do quarto. — Preciso ir. Vou te levar no colo até lá embaixo. Como vou sair daqui? — Sabia que falava como uma louca em pânico. Mal conseguia olhar para Connor.

Tinha nevado bastante durante a noite. tentei. o rosto. fazia meus tornozelos queimarem. Tentei centenas de combinações com o fecho e não parava de empurrar com toda a força. Saí e fechei a porta atrás de mim com mais força do que pretendia. as mãos. Pensei que talvez fosse Connor. Lá em cima. — Sim. deixando marcas de sapato na neve. estava tudo vermelho em mim. olhei para a casa.Dava para ouvir a mãe de Connor com as panelas da cozinha chiando quando ele me carregou para baixo. A Sra. estou acabando de fazer panquecas. Enfiei as mãos dentro do casaco e limpei apenas o suficiente para enxergar. A trava finalmente abriu e puxei a porta. Mas dessa vez não. Ou pelo menos. liguei o carro e acelerei. Ouvi o barulho de descarga. Mas estava trancada. Connor desapareceu e eu fiquei parada até ouvi-lo conversar com a mãe. — Bem. depois o empurrei para a cozinha. A porta da frente estava logo ali. — Escuta. O frio me atingiu como um tapa. Quando estava saindo. O branco refletia por toda a parte. sinto-me melhor do que quando chego. Então entrei com tudo. mamãe.. mas eram os meus pais. A neve molhava as minhas pernas. Hughes estava na varanda. Minha mão estava fria e úmida na maçaneta de metal. vendo-me ir embora. E aparentemente ela também conseguia ouvi-lo. — Senti o cheiro da comida.. Então. A maçaneta enroscou. 152 . O número da minha casa apareceu inúmeras vezes desde as cinco da manhã. quando saio da casa de Connor. Meu carro estava coberto. Ele parou e senti como se o ritmo dos nossos corações acelerados fosse um só. — Connor? — ela chamou. — Tudo bem — ele sussurrou. Connor me pôs no chão quando chegamos ao pé da escada. provas por todo o caminho. Saí correndo em direção ao carro. — Mando uma mensagem para você mais tarde — sussurrei também. Meu celular tocava. Geralmente. fui na ponta dos pés e abri a porta. Ouvi passos na escada atrás de mim. onde as irmãs de Connor deveriam estar dormindo. eu. Verifiquei minhas chamadas perdidas. — Você acordou cedo. Ele e a claridade. Vá acordar suas irmãs e seu pai.

mas estava. — Achei que você não estivesse conversando com a Autumn — a voz da mamãe estava estranha. Como os tinha decepcionado. Tentei pensar em um plano. Os dois vieram correndo até mim. Não sabia se estavam procurando por algo do tipo ―Notícia Urgente: garota da região encontrada morta em uma vala‖ Eles pareciam mais pálidos. Ela não estava acreditando exatamente em mim. Não tinha percebido que estava chorando. assistindo a um daqueles canais 24 horas de notícias. com lágrimas nos olhos. limpei o restante do pára-brisa e deixei o aquecedor ligado. mais velhos do que jamais os tinha visto. Minha mãe estava chorando. Liguei para ela ontem à noite para finalmente conversarmos. Meu pai estava tenso. Porque estava mentindo e porque queria que a minha mentira fosse verdadeira. Mas em vez de curtir as lembranças. estava pensando nas mentiras para acobertar o fato de que aquilo tinha acontecido. E Autumn me convidou para ir até a casa dela para que pudéssemos conversar pessoalmente. foi exaustivo e acabei dormindo por lá. Sinto muito mesmo. 153 . vislumbrava o toque da pele e o calor aconchegante.Estacionei no acostamento. Como pareciam terrivelmente preocupados. E eu estava com sorte: por causa da minha briga com Autumn. Eles me deram mais um abraço antes de me colocar de castigo. A forma como olhavam para mim me dava vontade de vomitar. — Sinto muito — disse. Choramos muito. — Estava na casa da Autumn e peguei no sono. mas dava para ver que queria acreditar. Eles exigiram saber onde eu estava. me abraçando e me olhando todinha. Se jogando em mim. — Nós fizemos as pazes. Meus pais estavam sentados no sofá. A alegria por simplesmente saberem que estava viva rapidamente desapareceu. Eu só pensava no que tinha feito com Connor. aparentemente a mamãe não tinha telefonado para ver se eu estava lá.

Capítulo 35 C onnor me mandou várias mensagens durante todo o feriado de Ação de Graças. 154 . Onze no total. mas tinham engolido a história. perceber o quanto as outras pessoas julgariam o que eu havia feito estragava tudo. como desculpe e seus pais estavam acordados? Escrevi de volta: Estou bem. Absolutamente. Por mais certo que o fato de dormir com Connor tivesse parecido no momento. Só me diga se você está bem. escondida no quarto de Connor. Eu era uma péssima mentirosa. Que outra escolha podiam fazer? Não queriam pensar que a filha deles era capaz de fazer as coisas que fez. Só que na vida real não existe um lugar assim. E desliguei o telefone. Havia muitas mensagens de texto de Connor. Nem eu mesma queria pensar que era capaz de fazer essas coisas também. Queria poder me desligar também. E bravo. Minha caixa de mensagens de voz tinha várias ligações interrompidas. Por que você está me ignorando? E na defensiva. no início das aulas. parecendo levemente mais desesperado a cada mensagem. Mal conseguia olhar para os meus pais. Não depois de ter mentido para eles com tanta facilidade. Não tinha feito mesmo. Estava tudo bem no depósito. Não liguei o telefone novamente até segunda-feira. onde éramos só nós dois em um local livre de julgamentos. Eu não fiz nada! Ele estava certo. O tom era diferente a cada uma delas. Primeiro eram mensagens de desculpa e preocupação. Todas as outras pessoas na minha vida faziam com que minha relação com Connor desestabilizasse.

Os garotos gritavam ―Uau!‖ e tomavam fôlego entre as risadas. você quer que a gente junte as mesas ou quer fileiras? — Qualquer coisa — disse. Era mais um olhar de confirmação. Parecia o tipo de fofoca que literalmente pega fogo. Na oitava aula. na história que elas estavam contando. que se virou para os demais alunos que vieram à reunião. Claro que tinha esses ataques de pânico desde que havia começado a ficar com Connor. conseguia ver o corredor em que Dipak. O mesmo que tinha acontecido ano passado. Estavam tão compenetradas que nem perceberam que bloqueavam os caixas totalmente. Fiz tanto esforço para ouvir o que falavam que meus ouvidos até zumbiram. Nunca dá para comer pizza quente na escola. Só temos literalmente cinco minutos para comer a fatia. quando Walter Desmon teve uma ereção na aula de natação e se recusou a sair da piscina por quinze minutos. Dei uma olhada na biblioteca. Só que dessa vez não estava sendo paranóica. Meu estômago revirou. Não era exatamente um olhar de raiva. aparecendo bem à minha frente — Ah. já era. Estava na fila da lanchonete. Cheguei até a dizer ―com licença‖ de um jeito bem arrogante. Passei o restante do dia observando as pessoas e os seus comentários. Passou disso. Essa percepção fez 155 . Se esticasse a cabeça até doer o pescoço.Autumn parou de cochichar e me lançou um olhar. cochichando. Ao passar por elas. pois estava muito irritada com a minha pizza que esfriava. levantando os pés para que pudesse ver por cima da cabeça dela —. pode escolher. parcialmente embrulhada nas dobras de uma enorme bandeira dos Estados Unidos. — Natalie? — disse Susan Choi. um olhar de quem sabia de alguma coisa. de alguma forma.Percebi que as pessoas estavam comentando sobre alguma coisa na hora do almoço. Autumn. Foi então que comecei a ficar nervosa. — Tudo bem! A Natalie disse que podemos arrumar as mesas hoje. era óbvio que o assunto de toda a Academia Ross era algo extremamente apimentado. — Legal! — disse Susan. foi totalmente desnecessário. pois subitamente três cabeças jogaram-se para trás. então me concentrei no bigode do Martin para tentar ler os lábios dele. As lâmpadas de aquecimento não adiantavam nada. transcendendo grupos e panelinhas. Então vocês querem votar? Agora tinha conversa demais na biblioteca para que pudesse ouvir o que falavam. Fiquei bufando e reclamando enquanto me apertava para passar no meio delas para chegar ao caixa. que vai estar no máximo morna. Como se eu estivesse envolvida. Entretanto. Martin e David estavam reunidos. Será que Connor tinha contado aos outros o que tínhamos feito. como punição por não ter respondido às mensagens dele? Sabia que ele estava bravo comigo. Marci e mais umas outras garotas estavam cochichando na maior agitação. mas não dava para acreditar que ele faria algo assim.

Ela estava julgando de forma bem incisiva para alguém que idolatrava Spencer completamente há algumas semanas. Susan? — Tem uma coisa que preciso te contar — respirou fundo e arrumou a franja —.com que minhas pernas tremessem ao ver os garotos vindo para a biblioteca. Não podia acreditar em meus ouvidos. Senti muitas coisas diferentes. contudo. uma foto da Spencer nua está circulando entre os celulares de todo mundo. Que. tomar uma decisão estúpida. me mostrou — ela falou como se tivesse orgulho de ter visto. Mas se ela não sabe. — Acho que foi encaminhada e reencaminhada muitas vezes a essa altura. Ele tem no celular. Susan voltou e disse: — Natalie? — ela mordeu os lábios e olhou ao redor. é com essa rapidez que a percepção das pessoas muda. é realmente desagradável. senti o maior alívio por saber que não era de mim que as pessoas estavam falando. já que são amigas.retorceu os lábios e completou —. E dava para perceber que nenhum dos três queria olhar nos meus olhos ao passarem por mim. quando não consegui acreditar que uma amiga minha pudesse fazer algo tão estúpido. Lembrei-me do momento em que Autumn me contou sobre ela e Chad Rivington. E também não quero que as outras pessoas fiquem olhando. Balancei a cabeça. Por outro lado. milagrosamente tinha escapado ilesa dessa vez. — A Spencer sabe disso? — perguntei. Decepção.A menos que ela faça esse tipo de coisa o tempo todo — o significado das palavras dela pairava no ar. é provável que você seja a única pessoa da escola que não tenha visto. — Não quero ver uma foto de Spencer nua. Susan deu de ombros e respondeu: — Talvez. No fim da reunião. —Você tá brincando? Susan sorriu e comentou: — Achei que quisesse saber. — Se você quiser ver. de alguma forma. pode pedir para o Dipak. vai ser difícil descobrir . — Posso falar com você um segundo antes da reunião? — Que foi. — É meio tarde para isso. 156 . logo vai saber. pegando pimentão do sanduíche dele. — Queria saber se ela sabe quem tirou a foto. Vergonha por Spencer. Só é preciso errar uma vez. O telefone de todo mundo tem a foto. Raiva. Eu a vi sentada no colo de um garoto do segundo ano na hora do almoço. em dúvida. Olhei para Susan. Susan balançou a cabeça e falou: — Não tenho certeza. Mais do que qualquer coisa.

que ficou pior quando saí do carro. fui direto para o meu carro e telefonei para Connor. Estava com certo medo de que ele não fosse atender. as pessoas ficavam olhando no celular. Chego lá em dez minutos. tudo virou vergonha. Silêncio. suspirando. No meio de tudo isso. Senti a reprovação no silêncio dele que em seguida desligou o telefone. — Há uma estradinha de terra antes da minha casa.. 157 . então a gente só conversa quando você quer conversar? — ele estava muito bravo mesmo. Já era o nosso depósito. Ficamos ali. Dava para sentir que ele estava tentando juntar coragem para dizer alguma coisa. acabei pensando em Adão e Eva. Então. — Por onde você andou? Telefonei para você o fim de semana todo. Senti como se um esparadrapo tivesse sido arrancado com tudo. Tudo estava arruinado. brincando nus pelo jardim. Abrimos para o Natal um dia depois da Ação de Graças — disse. — Ah. Parece um retomo. como se esperassem receber a foto. — Tive que guardar o saco de dormir e todo o resto. Eu. — parei de falar e perguntei: — Onde podemos nos encontrar? — Alguns clientes estão na fazenda agora. por um só momento. E então. não sei. olhando para os pés um do outro. Mas não pegou bem. Estranhamento. lembrando da mãe dele olhando para mim da varanda. Cruel. Não fiquei surpresa. Não conseguia olhar para mim e eu também não levantei meu olhar em sua direção. Em como eles eram felizes. mas necessário. Ele pegou o telefone e começou a gritar comigo.Spencer não apareceu na reunião do conselho estudantil. Tive um pressentimento ruim no caminho. — Não achava que fosse possível nossos encontros ficarem ainda mais sombrios — falei brincando já que as coisas entre nós estavam estranhas e queria deixá-las menos tensas. E então. na neve. — Desculpe. subitamente. Durante toda a reunião. Pode ser que eles nem soubessem o que estava acontecendo.. resolvi ser a primeira a dizer. Deu para ouvi-lo pensar alto. — Precisamos conversar. Depois da reunião. Não conheciam nada além da alegria. Connor estava encostado no pára-choque da caminhonete dele. — Não quero ir à sua casa — falei. mas ele atendeu no segundo toque. à esquerda. veio a hesitação.

dava para ver tudo. Spencer se achava sexy. Ela não era poderosa. os seios nus bem na frente do fotógrafo. Spencer tinha um tecido preso atrás do pescoço. E então descobri quem tinha tirado a foto. parecia que estava tirando algo dela em vez de cobri-la. mas isso só me deixava triste. Os cachos. 158 . Senti meu coração partir e implorei: — Mostra para mim. Não tinha o controle das coisas. As crianças eram inocentes naquela época. ao fazer isso.— Então. Mas fiquei incomodada. Você só viu ou tem a foto? Ele tirou o telefone do bolso. Nada podia ter me preparado para ver Spencer daquele jeito em uma minúscula tela de pixel. Dei um tapinha no braço dele dizendo: — Não tem graça. Reconheci na hora: era a camisola xadrez. A não ser que isso me deixe ainda mais encrencado. toda molhada. Corri para dentro de casa e fiz Spencer colocar uma camiseta por cima. os lábios retorcidos. Mal cobria o corpo dela. Uns garotos do bairro vieram brincar também. Minha mente viajou até o verão em que fui sua babá. As alças estavam curtas. porque sabia que não estava certo. Tentei pegar. Ela queria dançar no meio dos jatos de água do jardim. E. — Vi o quê? — A foto da Spencer. um armário cheio de tubos de ensaio. Ela não era nada do que achava que fosse. Ele apertou uns botões e me passou o telefone. pingando e implorando por um picolé foi que percebi. Só quando Spencer se aproximou de mim. — Talvez. — Vai. Atrás dela havia várias bancadas de laboratório. Ia devolver o telefone quando percebi uma coisa. O único que não estava sujo era o do verão passado quando Spencer era bem menor. toda a frente estava curta demais. então disse para vestir o maiô. Forcei-me a olhar para a foto novamente. Não notaram nem ligaram. mas ele esticou o braço lá no alto. você viu? Ele estava completamente confuso. Me deixa ver! — Por que você quer ver? — Porque ela é minha amiga. — Então é melhor você não ver.

E fofoca. Pode ser que você nem ligue. Não seu. — Sei lá. não se envolva. — Quem falou? — virei-me e fui voltando para o carro. Posso proteger a mim mesma. como se não fizesse a mínima ideia do que eu estava falando. — Você não pode contar isso para ninguém. certo? Bem. — Olha só. Sterling. Se ela quiser contar para alguém. Posso entender isso. Na noite em que dormimos na escola. E Deus sabe que 159 . quer saber de uma coisa? Não estou mais me divertindo. Porque Spencer já sabia que isso ia acabar acontecendo depois do que ela fez com ele no cinema? Porque Spencer pode fazer o que ela quiser? Porque não é da sua conta? Não dava para acreditar que Connor estava dizendo aquilo. Connor? Estamos nos divertindo. Sei que foi ele. Porque é isso o que acontece . E culpa. Você não é dona dela. Não quando tenho que mentir para os meus pais. — Por favor. — Quê? — Mike tirou essa foto. Connor olhou para mim sem entender nada.— Mike Domski. Estou tentando proteger você. Era como se tivesse tirado a máscara que sempre suspeitei que estivesse usando. — Sabe o que eu acho? Que você está usando Spencer com uma desculpa para não ter que lidar com o que está acontecendo entre nós. é problema dela. Olhei para Connor e disse: — Como foi que nunca vi que você é tão cretino quando Mike Domski? — Você está com raiva. Estou cansada de me divertir. E mau juízo. — O que está acontecendo entre nós. Mas não desconte em mim. — Por que não? Ele deixou a cabeça cair para trás. Spencer vai fazer o que tiver que fazer. vi Mike saindo do laboratório com aquele sorriso nojento. — O que você quer dizer com isso? Não preciso que você me proteja. Isso só gerou confusão.não dá para ver? — Devolvi o telefone dele dizendo: — Deixa de ser divertido e se transforma em outras coisas. nem quando tenho que desistir da minha vida para poder ficar com você. Connor segurou meu braço. Como mágoa. — Você está brincando comigo? — Sério.

mas sabe de uma coisa? Sinto que esperei por esse momento a vida toda.. — Sterling. E de qualquer forma. Mas eu me importo. Suas palavras atingiram as minhas costas. 160 .Mike Domski não está nem aí. Sei que você não quer que eu o confronte diretamente. era tarde demais para não. Porque nosso não já havia acontecido. pois fui embora. não..

Só que ela não apareceu. Fui para aula de química avançada. O diretor Hurley estava lá. mas acabou me dando um passe para o corredor. Quando cheguei à escola no dia seguinte. montei acampamento no armário dela. Senti-me mal ao olhar para o espaço aberto. — Spencer foi suspensa hoje de manhã. Fui direto ao estacionamento. Parei o carro e arrisquei dizendo. mas a encontrei a alguns quarteirões da escola. Sabia que ela não iria falar comigo sobre isso. 161 . Sentei-me no chão até tocar o sinal da primeira aula. — Vamos. E. Entre. Fui até o escritório principal. fui para o meu carro. esperando para atravessar a rua. conversando com a secretária. Esperei para falar com ela assim que ele entrou no escritório e fechou a porta. ao ver que Spencer não estava lá. Quinn? Posso ir ao banheiro? Ele pareceu irritado com meu pedido repentino. Era bem de frente para a sala em que Spencer tinha tirado a famigerada foto. mas eu não me importava. pensando no que ela havia feito com Mike Domski.Capítulo 36 S pencer não atendeu a nenhum dos meus telefonemas. — Quando? — Há uns quinze minutos. — Com licença? — disse à secretária com o tom de voz mais educado possível. Fui de carro até o condomínio dela. Spencer não olhou para mim e respondeu: — Estou bem. Tive que dirigir um pouco. Era óbvio que estava me evitando. — Mas você poderia me dizer se Spencer Biddle veio hoje? Eu tenho que dar a ela um recado especial do conselho estudantil e não consigo encontrá-la. mas não consegui me lembrar qual era o edifício em que a havia deixado. — A secretária se aproximou da pequena samambaia que ficava em sua mesa e comentou: — O diretor Hurley ficou sabendo da foto. Droga. Obrigada mesmo assim. — Sr.

— Engraçada? Suspensão é engraçada? — Uma semana de suspensão não é nada. — Eu quis posar para a foto. Depois de um longo suspiro ela veio até o cano e se inclinou na janela: — Não quero que você me dê sermão. Spencer. — Olha. Mike e eu estamos quites.— Spencer. não seja infantil. — E isso dá a Mike total liberdade para te explorar? Spencer. foi o que me disse. pensei que ele tivesse apagado a foto. Só quero ir embora. — Bem. ugh. Ele não me forçou. está bem? Porque não estou nem aí. — Você sabia que Mike Domski era um canalha. Um calouro fez ontem de manhã. então ele também deveria. — Se você vai se encrencar por causa disso. mas aí. eu ainda sinto medo do C+ que tirei em economia doméstica no segundo ano. em nome de Deus. Ele só fez isso para se vingar de mim. — Não foi — ela disse. Foi a primeira vez que vi a garotinha. E você tá de pijama na foto. 162 . — Vai ser quando você começar a procurar uma faculdade! Quer dizer. Ela penteou os cabelos para trás. Honestamente. não seria justo? Ele se aproveitou de você. O ar de ousadia se esvaiu na hora. — Então. Era óbvio que ela estava fazendo cena.. então está tudo bem. Por que você fez uma coisa tão idiota? E por que. Pelo menos. se vingue dele. você se deu mal por causa do que ele fez. Spencer. você está acobertando ele? — A foto era apenas parte do meu plano para que ele abaixasse as calças no cinema. — Natalie. mas os garotos também. Eu estava soltando fogo pelas ventas. — Foi sim. — Sei quem tirou a foto. não é? Quer dizer.. Tive que fazê-lo pensar que estava interessada. Pensei que já tivesse passado. acho até engraçada a maneira como todos estão se movimentando por causa disso. Sei que foi Mike Domski. Deixe-me levá-la para casa. aquela de quem costumava ser babá.Todo mundo tá fazendo. e achei que Mike fosse explodir. Entregue-o. Honestamente. Acho que deve ter sido a gota d'água. não tenho planos de ir para Harvard. acabou. — Queria vomitar ao pensar nela com ele. fique fora desse assunto. — O quê? — Aquele aceno do dedinho que inventei. Não só as garotas. Spencer! Eu vi quando ele saiu de fininho do laboratório.

você é uma grande farsa. E então. — Que pena! Você parece estar precisando de uma! Para mim bastava. Agora o meu tom é que estava afiado. De uma forma ou de outra. Spencer que voltasse para casa no frio que eu não estava nem aí. — Me deixe em paz. incisiva. delatando-o por ter feito isso. sabia que tinha que fazer a coisa certa. E tinha que ter esperança de que Spencer me agradecesse por isso mais tarde. Eu tinha mesmo que voltar para a escola. — Não sou nem um pouco igual a você. Você age como se fosse boa demais e só porque você namora Connor às escondidas. Entretanto. Acelerei o carro e prometi a mim mesma que não ia mais me envolver. Talvez Spencer não tivesse coragem de enfrentar Mike Domski. Ou então era algo ainda mais simples. deixaria claro que realmente tinha um problema com ele. ` De qualquer forma. Porque geralmente os Mike Domskis da vida sempre ganham. problema dela. De súbito. — Você não aprendeu nada do que te ensinei? Sei que você consegue entender. Com tantas pessoas para ficar com raiva. — Você está deixando Connor Hughes usar você. do nada. — Não é a mesma coisa. mais tarde naquele dia. E esse era um papel que ela não queria desempenhar. Nem um pouco. Mas acusando Mike. entendi por que Spencer não ia dizer nada. Se Spencer queria destruir sua vida. Spencer passaria a ser a vítima. — Ir embora? Você passou na mão da escola toda! Você não tem respeito próprio? — Claro que tenho — disse. Você não é mais a minha babá. viveria muito bem com a história da foto sem roupa. é bem melhor que eu. 163 .Eu ri. É mais fácil mesmo ficar brava comigo do que com você mesma. Ou você está usando ele. vi Mike Domski na hora do almoço dando o maior sorriso quando as pessoas vinham pedir para ver seu celular. e ela foi logo ter raiva de mim. mas você está fazendo exatamente a mesma coisa com Connor. Spencer. Spencer! Ela começou a rir. — Adoro a forma como você está basicamente me chamando de piranha. Se ela conseguisse manter Mike fora disso.

. Uma semana de suspensão. claro. dizendo: — Foi a Spencer quem quebrou as regras. — Ligo para você depois — ele disse. mas. mas. Bem. Foi ela quem tirou a roupa. fui ao escritório do diretor Hurley. A secretária disse que ele estava ocupado. — Sim. Mas como acabei de dizer.. — E tenho certeza de que Mike Domski não foi o único a encaminhar a fotografia. — Sim. aproximando-se de mim e disse naquele seu tom tão indefeso que chegava a ser ridículo para um diretor: — E o que você sugere que eu faça? Não era óbvio? Mike deveria receber o mesmo que Spencer tinha recebido. você precisa de um passe para voltar para a aula? — Não precisava de um 164 . Ele se inclinou na mesa.. — Então é isso? O senhor vai suspender Spencer. Nem dei chance de ele perguntar o que eu estava fazendo lá. — Talvez ele tenha tirado. não haveria nenhuma foto a ser tirada. Mas será a sua palavra contra a dele. apesar de duvidar que ele confesse. Ele tirou a foto. mas Mike só vai receber um tapinha na mão. já que Spencer se recusa a envolver o fotógrafo. mas a ignorei e abri a porta mesmo assim. colocando o telefone no gancho. foi Spencer quem se expôs dentro do ambiente escolar.Capítulo 37 A ssim que acabei de comer. — Certamente não vou conduzir uma caça às bruxas para tentar descobrir todos os envolvidos. Eu mal conseguia ficar sentada. Foi Mike Domski. Fui logo dizendo: — Sei quem tirou a foto de Spencer nua. foi Mike Domski quem começou tudo isso.. Se ela não tivesse feito isso. — Não estou dizendo que o senhor deveria fazer isso. — Vou ter uma conversa com ele — disse o diretor Hurley —. E de qualquer forma. O diretor Hurley balançou a cabeça.

Cuidei disso sozinha. Bee tivesse razão. Pode ser que o diretor Hurley a suspenda também. verificarei se a participação do Sr. — Ah? Você cuidou? — disse a Srta. respire. E então repeti tudo devagar. seja qual for a decisão do diretor Hurley — disse. uma pessoa como Spencer tem de aprender que suas ações têm conseqüências. — Natalie. — Natalie. ela perguntou: — Como você sabe que foi ele? — Porque Spencer estava usando o pijama que ela trouxe para a noite das garotas. Talvez a Srta. — Natalie. — Sim? — Mike Domski enviou uma foto de Spencer nua. Você tem que ajudá-la. Mas ela não estava lá. mas nada aconteceu com ele. e eu a apoiei nisso. E então percebi que também ia ficar encrencada. Fui direto ao escritório da Srta. Mas temo que dessa vez ela vai ter que sofrer a punição. Bee fechou a porta da sala. — Não estou entendendo — mas ela estava entendendo. — Por favor. enxugando uma gota de suor da testa. Domski será investigada. e foi exatamente lá que encontrei Mike Domski escondido. Mas isso não vai livrar a barra da sua amiga. estava dando aula. Tinha que defendê-la. Agora diga o que está acontecendo. E dá para ver que a foto foi tirada no laboratório de ciências. — Certamente. — A senhora tem influência sobre o diretor Hurley.passe. para dizer o mínimo. — O que eu tenho de fazer é voltar para a minha aula. 165 . totalmente injusto. Você tentou ajudá-la depois daquele episódio ridículo da camiseta ―Rosstituta‖. Quando terminei de contar. A senhora poderia dizer a ele que Mike deveria ser responsabilizado da mesma forma que Spencer. depois que a senhora foi dormir. — Fiz o que ela mandou. você tem sorte de não ter sido oficialmente envolvida nisso. Agora. Respirei. que pareceu chocada com a minha interrupção. Ele a ouviria. volte imediatamente para a aula ou vou ter que te dar uma advertência. Ela foi suspensa. Fiz com que fossem embora. Bee. mas Spencer era minha amiga. Não queria chateá-la. Sei que sim. Parecia que apenas tinha conseguido protelar a chateação dela. Bee balançando a cabeça. Bati na porta e chamei por ela. Andei pelos corredores e finalmente a vi em uma das salas. E isso é completamente. A Srta. Ela franziu a testa. — Alguns rapazes entraram escondido na noite das garotas.

— Ele é meu melhor amigo. Mike negou tudo. sabia que eu estava envolvida. E sobre o que você fez com Connor. E a minha amizade com a Autumn parecia uma lembrança distante. Bee achava que eu era uma idiota por apoiar Spencer e.Capítulo 38 Q mim. como a história poderia ser provada?A foto foi enviada para tantos telefones celulares. pois. Estava guardando meus livros depois da aula quando Mike veio direto ao meu ouvido e sussurrou: — Sei tudo sobre você. quando Mike saiu do escritório. — Não sei do que você está falando — consegui dizer. ualquer um pensaria que eu teria percebido as coisas rapidamente. sua ninfomaníaca idiota. é claro. pior ainda. Contudo. Quem sabe? Mas ele chamou Mike em seu escritório para uma conversa difícil. joguei meus livros no chão e corri. sai correndo. estava totalmente confusa. então achou melhor se envolver na história antes da polícia. na verdade. 166 . Já tinha desistido de ter esperança de que haveria algum tipo de justiça para Mike. Afinal de contas. Connor e eu não estávamos mais nos falando. E nenhum dos garotos da escola iria entregar Mike Domski. Não havia saída digna para isso. E sabia que assim que Spencer tivesse descoberto que eu havia metido o nariz onde não fui chamada. O diretor Hurley deve ter mencionado o fato de haver uma testemunha. Sei desde a primeira vez que você foi até a casa dele. com certeza. estremeci. já tinha visto isso acontecer antes com a Autumn. Deixei a porta do meu armário aberta. A Srta. era impossível determinar de onde havia sido originada. provavelmente jamais falaria comigo novamente. Nunca tive medo de Mike Domski antes. Mas. E ele não quis perder tempo em se vingar de mim. por deixar os garotos participarem da noite das garotas. E. Talvez ele tenha percebido que tirar fotos de garotas menores de idade nuas era ilegal. Mas levei até a metade da quarta-feira para perceber que todo mundo estava falando de Mas. vaca. o diretor Hurley cumpriu sua palavra. naquele momento. Você acha que ele não me contou tudo? Praticamente sei como você é pelada. Então. E apenas dois dias antes com a Spencer.

assim como eu também não tinha dormido. Confiei que você fosse deixar isso entre nós. me deixe em paz. Nada. acabei salvando Spencer. Pode acreditar em mim. você foi logo contar para o Mike? — Mike é o meu melhor amigo. — Nunca quis nada disso. mesmo. mas ele tinha chegado mais cedo ainda. É que. Mas também queria que você não protegesse Mike e queria que a escola inteira não pensasse que sou vulgar. O cenho estava todo enrugado e uma veia estava bem proeminente. Ele não falou nada sobre o assunto até você o meter em encrenca! Falei para você não se envolver. Cheguei à escola bem cedo para evitar as pessoas. de todas as pessoas. Era a primeira vez que o via tão bravo. — E eu queria que Spencer tivesse mantido seus malditos seios cobertos. 167 .. e você não deixou. queria que ele não tivesse feito isso.De certa forma. — Me poupe. jogando na minha cara. achando que isso acalmaria um pouco as coisas. Parecia que ele nem tinha dormido. do mesmo jeito que eu. — O quê? E que o quê? — Veja. — Você é inacreditável — disse. Ele parecia assustado. nunca quis ter nada a ver com você! Sabia que você. da mesma forma que eu estava arrasada. Sua foto nua só foi motivo de vergonha por aproximadamente 48 horas e então a tocha passou para a minha mão.. Mas estava tão brava quanto ele. Não quero que ninguém veja a gente conversando. — Já te falei que não queria que ninguém soubesse o que estávamos fazendo! E. ninguém precisou cochichar. foi exatamente o oposto. Como eu não estava lá. então a errada aqui sou eu? Mike tira fotos nuas de uma garota de 14 anos e eu fiz a coisa errada? — Não. sendo bem sarcástico na última frase. Você deixou todo mundo penetrar em nosso mundo particular.. Eu também joguei na dele. Fiquei em casa doente no dia seguinte. Acho que até mais brava. Pensei que você se importasse comigo para nunca deixar que isso acontecesse. — Ah. — Por favor — disse a ele —.. nesse momento quero matar o Mike. Sexta-feira foi o pior dia de toda a minha vida. verdade. Não vou forçá-la a se rebaixar ao meu nível — disse. Na verdade. Ele dava a impressão de estar bravo. Ele estava apertando as mãos. Começou com Connor vindo ao meu armário. Sterling.

Então não venha querer fazer com que eu sei a malvada aqui. Talvez você ainda pense assim. em como a havia protegido disso tudo. está bem? Gostei de você desde o começo. — Você só marcou mais um ponto. — Você é a única que fez com que parecesse que estávamos fazendo uma coisa errada. Para ele? Para mim? Nem sabia dizer. eu sou a piada. Permiti a mim mesmo sentir algo por você apesar de não saber como tudo acabaria. pois. Mas não fazia ideia de como era de fato. o tipo de história que todo o mundo adora contar. já entendi. não de você! — eu gritava. Você vai embora de Liberty River e eu vou ficar aqui. Muito obrigada por fazer com que me sinta melhor. Como é que Connor não conseguia ver? Ele tinha escapado da história toda ileso. mas então voltou e disse: — Cansei de tentar convencê-la de quem eu sou e por que sou digno de você. — Nunca chegaria a lugar nenhum. o peso do olhar de todo mundo estava sobre mim. Corri para o banheiro feminino perto da sala dos professores para fugir. Vá em frente e faça de mim o cara malvado para que você seja a boazinha.— Falei para você que precisava deixar as coisas em sigilo desde o começo. Era uma loucura. tremia. de como as pessoas podiam ser terrivelmente cruéis. na frente da pia. Mas sabe de uma coisa? Gostei de você mesmo assim. Só quando todo mundo começou a chegar à escola é que me senti completamente sozinha. Ele se virou como se estivesse indo embora. Mas eu. Olha. A maioria delas é verdadeira. Mas você não consegue perceber que a culpa é sua? Eu ri e disse: — Você é ótimo em animar as pessoas. Só que lá no fundo. 168 . Foi a minha reputação que ficou manchada. Sei que está tudo uma droga para você agora. a presidente do conselho estudantil que virou vagabunda. Repeti: — É tarde demais. Mas eu gosto de você. Pareciam olhares bem pesados mesmo. sei que você tem um milhão de razões. sei que você não acredita que as coisas sejam assim nem por um segundo. Era perfeito demais. Todo mundo está rindo de mim. — É tarde demais — sussurrei. por algum motivo. Chorei bem ali. É bem provável que depois da formatura não sejamos mais um casal. — Sinto muito. E pode interpretar a história da forma que quiser. até mexer as pernas era difícil. Pensei em Autumn. — Porque você não deixaria chegar a algum lugar. já sei. — É tarde demais porque você está dizendo que é tarde demais. acha que não sou bom o bastante para você. Só quando ele foi embora é que comecei a chorar. ruins e cheias de julgamento. Senti-me patética.

Peguei um papel-toalha para enxugar o rosto. Abaixei a cabeça para lavá-lo. Dediquei muito tempo e atenção a ela — disse a Srta. Outra professora concordou: — Natalie sempre me pareceu uma garota tão boa. essa é a pior parte. Contudo. Jamais pensei que Natalie fizesse algo assim. Tinha de sair do banheiro senão ia vomitar. Estava áspero como uma lixa. Eu sempre achei que soubesse que tipo de garota eu era. sendo amiga daquela Spencer. mas sabia que a Srta. — E de todas as pessoas. ela vem aprontando demais. Meu rosto todo estava vermelho e inchado. Só que o que todo mundo pensava de mim nem chegava perto do quanto eu mesma me via com maus olhos. A Srta. Queria me defender. era minha culpa por estar nessa situação. devia ter sido várias outras coisas. Sabia muito bem que não devia ter me envolvido com alguém como Connor. Tinha noção dos riscos. mas fiz mesmo assim. ouvi uma voz inconfundível pelo respiro acima da minha cabeça. a escola toda estava comentando. Fechei os olhos para parar de sentir o banheiro girando. Bee estava certa. Achei que ela fosse especial. Bee. — Não achei que ela fosse esse tipo de garota — corri para o respiro e me estiquei para escutar. Mas eu sou uma boa garota — tive vontade de gritar. Devia ter sido mais esperta. 169 . Bee dando um profundo suspiro de dor. — Eu sei disso. — Ouvi duas das minhas alunas falando sobre ela na primeira aula ontem. Pensei que ela fosse mais esperta. Como é que podia achar que os professores não ficariam sabendo disso também? Afinal de contas. Por mais que quisesse culpar Mike e Connor e Spencer. Quando fechei a torneira. Sinto-me desolada com essa história toda. Connor Hughes. só que não sabia.Tinha de aceitar.

assim o evento poderia ser cancelado. Apesar de ter sido um prazer trabalhar com a senhora. A pauta da reunião de hoje do conselho estudantil era finalizar os planos para a cerimônia em que meu retrato seria pendurado na parede da biblioteca. rascunhando minha carta de demissão para a Srta. Bee os tinha imprimido. as pessoas ainda estavam falando de mim. falei demais sobre como estava decepcionada comigo mesma. Bee também pensaria da mesma forma. A Srta. No primeiro rascunho. Estava dando desculpas quando na verdade a única culpada por tudo era eu mesma. Pensei que a demissão faria com que me sentisse melhor. espero que considere minha demissão efetiva imediatamente. fechei a porta do meu armário e lá estava Spencer. passei mal. Natalie Sterling. Coloquei a carta debaixo da porta dela. Abri meu coração completamente. Atenciosamente. Bee. Depois da aula. Estava me humilhando para conseguir seu perdão.Capítulo 39 T inha esperança de que o fim de semana fizesse tudo desaparecer mas é claro que isso não aconteceu. Contei toda a longa e triste história entre mim e Autumn. segurando a minha carta de demissão. Como tinha estragado tudo com Connor. Só que quando a reli. Dava para ver isso pelas marcas das lágrimas e pela terrível caligrafia. arrancando das mãos dela. Estava sendo infantil e sabia que a Srta. Naquele dia. fui até meu armário. Peguei os livros. acho. Natalie? — Onde você pegou isso? — perguntei. mas não fez. Fiquei no carro na hora do almoço. Na segunda-feira. Com toda razão. 170 . o que eu precisava fazer ficou óbvio. depois da aula. O próximo rascunho resumiu-se em apenas uma longa frase. — Que diabo é isso. Eu havia renunciado bem na hora. junto com os preparativos de envio dos convites.

Você é a presidente! — Claro que posso — disse e saí com raiva pelo corredor. as lágrimas saltavam dos meus olhos. Na verdade.— Onde você acha? Fui até o escritório da Srta. — Não. Respirei fundo para dizer algo. Na verdade. Parei de pensar no que o restante da escola estava pensando. Natalie. você estava certa. Tudinho. — Não é verdade. mas desisti. Mas não era isso que estava me deixando de coração partido. Bee para deixar as lições que fiz durante a minha suspensão. Estraguei tudo com Connor. Mas agora eu me importo. Com a Srta. E sabe de uma coisa? Antes de você. O que fiz com Mike foi estúpido. Vamos ver. Agora vou parecer ainda mais irresponsável por nem aparecer por lá! Spencer não saiu do lugar. — Então o problema é esse? Não é o sexo? Tive que pensar nisso um minuto. — Não é assim tão fácil. ouvi a Srta. Como. E era tudo verdade. eu não teria me importado. de pensar nas provocações de Mike Domski e no olhar de confiança dos 171 . de me preocupar em deixar a Srta. — Então. Spencer pegou a minha carta de demissão e a rasgou ao meio. — Você tem ideia do que fez? Eles vão enviar os convites da cerimônia do retrato hoje. Decepcionei todo mundo. Bee orgulhosa de mim. contanto que esse seja o seu julgamento de si mesma e não o dos outros. quem dirá para todos os outros da escola. O que me faz perguntar: quando é que você vai começar a apoiar a si mesma? Balancei a cabeça. vou esquecer que a escola toda pensa que sou uma piranha hipócrita. Bee. — É o fato de ter magoado as pessoas que amo. naquele momento parei tudo. tá. está bem? Almejei patamares altos demais para mim e fracassei. — Natalie. — E tem mais uma coisa que eu sei — ela segurou meu braço e me fez olhar para ela. Queria fingir que não me importo. Bee no banheiro dizendo coisas terríveis sobre mim. Pare de sentir pena de si mesma! — Sinto mesmo pena de mim mesma! Você estava certa. Graças a Deus tirei isso de lá antes que ela visse. Spencer. E fez a mesma coisa por Autumn. Bee. — Tudo bem. — Você me apoiou quando ninguém mais o fez. não é o sexo — suspirei. Spencer! Nem consigo olhar para a Srta. a realidade de que todo mundo na Academia Ross estava me julgando pelo que havia feito com Connor era horrível. — Fico muito feliz por você. E você sabe disso. Com Autumn. — Não vou deixar você desistir de algo que sei que é importante para você. Spencer veio atrás de mim. — Você não pode sair do conselho estudantil. E de forma extrema. preocupando-me apenas com o que penso de mim mesma. Com você — apesar de estar tentando ser sarcástica. Tinha vontade de estrangulá-la. Humm. por magia. Claro.

meus pais em relação a mim. 172 . Desliguei todo aquele barulho para me fazer uma simples pergunta: O que realmente importa para mim? E foi respondendo a essa pergunta que descobri a resposta.

Parei em frente ao pára-choque. Os faróis estavam acesos e estreitei os olhos diante da luz. Tentei ser corajosa e coloquei um pé na frente do outro. Ainda estava tentando organizar o que dizer bem no momento em que ela jogou o peso para o meu lado. 173 . Parecia um sonho. pois não conseguia me segurar. mas não consegui ouvir por causa dos meus soluços. Ou talvez tenha se despedido. e o aperto que sentia no corpo não foi embora. Autumn me ajudou a sair do carro e caminhou comigo até a entrada. Percebi a preocupação em sua voz. esperando que Autumn ainda não tivesse ido embora da escola. Apoiei-me nela com todo o peso do meu corpo. sentada no capô do carro com Marci e outras garotas. sorrindo. — Está tudo bem — E o milagre foi o seguinte: assim que ela disse isso.Capítulo 40 C orri para fora. Autumn não se despediu de suas amigas. Um lembrete de que eu tinha realmente estragado tudo. Chorei porque não queria acordar. Ficaram quietas. levantando-se. Ela estava feliz. Juntei fôlego suficiente para dizer — Isso está se transformando no pior pedido de desculpas — Nesse momento. Era como andar contra o vento espesso e pesado. Chorei o caminho todo. — Vou levar você para casa — disse Autumn ao sentar no banco do motorista. como se o vento gelado estivesse me congelando de dentro para fora. Encontrei-a no estacionamento. O vento do inverno levou meus cabelos à boca quando a abri. um sonho muito bom para o pesadelo que estava vivendo. as coisas ficaram bem Como se eu tivesse chegado aonde precisava. Não conseguia respirar. — Natalie — disse Autumn. um esforço. Autumn procurava a chave extra que abria a porta dos fundos de casa. Tossi. assistindo à minha luta. Autumn e eu sentamos uma de cada lado da cama. Ela me fez entrar no carro e vi suas amigas indo em outra direção. Quando não tinha mais lágrimas. Todo mundo percebeu que me aproximava. não que eu merecesse. Estavam com os vidros abertos para ouvir música. Ela ainda se importava comigo. Era cruel viver um momento como os que costumavam ser a nossa amizade. Cada passo. como uma balança ou uma gangorra.

Um fato indicutível. mas agora conseguia. era minha. — Eu sei. Era porque Connor realmente sabia a pessoa que era. porque eu sou a rainha das decisões acertadas. Pensei em Connor e nas últimas palavras que ele me disse. Concordei. pois sempre agia com o coração. Houve outras vezes. — Mas Autumn. — Sim. com o fato de como um garoto de quem gostava fazia com que me sentisse. — Bem. suspirando. mas não consigo acreditar que você tenha transado com Connor Hughes. havia uma vozinha na minha cabeça que me dizia para não ir. não iria ignorá-la. Porque a voz finalmente voltou e me disse que eu era superior à isca de peixe. — Viu?A melhor coisa em se tomar decisões erradas é que isso não a proíbe de acertar depois. — E eu costumava deixá-la bem perto de mim. E também não era a primeira vez que não a ouvia. Os lábios dela começaram a tremer. não tinha como você saber que. — Eu sei. Mas estava tão envolvida com tudo. — Eu quis — disse à Autumn. quando na verdade eu era apenas uma garota que havia cometido um erro estúpido.. E essa era a verdade nua e crua.— Você nunca me perdoou pelo que aconteceu com Chad.. a forma como for dita soava como palavras calculadas por um advogado. Estava brava por você se deixar magoar. Falou que não deveria mais me conter. — Não estou dizendo isso para ser maldosa. Natalie. e isso não era culpa sua. que achei que estivesse apaixonada por ele. — Já pensei nisso um milhão de vezes. Não foi sua culpa. mas não a ouvi. Não devia ter culpado você. Se tivesse ouvido aquela voz. ou como eu. Apesar de ser uma acusação amarga vinda da raiva de uma pessoa. mas acho que lá no fundo sabra que Chad não era boa coisa. mas não é impossível. Acho que e por isso que fiquei brava com você. Nunca consegui entender como ele sempre estava seguro de si. talvez nada daquilo tivesse acontecido comigo. Como eu conseguia fazer com que as coisas fossem da forma que eu queria. Ele era exatamente o oposto de alguém como Chad Rivington. Então prometi a mim mesma que se a ouvisse novamente. Era muita culpa para carregar por cima de tudo. 174 . O que torna o que aconteceu ainda mais estranho — disse. É mais difícil. que eu não era uma pessoa ruim. Não tinha outros amigos. Confio que tomará as decisões certas para si mesma. você é uma garota inteligente. Ele não se arrependia. E que você estava fazendo com que eu me sentisse uma pessoa ruim. Ela respirou fundo e tentou se recompor — Quando fui me encontrar com Chad no vestiário naquele dia. Autumn pegou na minha mão. Nunca fui boa em me abrir com as pessoas.

E agora ela estava ensinando a mim.O tempo tinha ensinado a ela. 175 .

A maioria deles eram minivans ou SUVs. Sterling. fazendo um som incrível. posso falar com você? — Agora não posso. A família aplaudiu.Capítulo 41 E stava arrependida por ter transado com Connor? Um pouco. Eu estava protegida pela minha parca e perguntava-me como ele não estava congelando quando percebi que uma das pessoas do grupo tinha escolhido uma árvore. For aí que ele me viu. Estava magoada por ter estragado um momento bonito. A lojinha tocava músicas natalinas e havia uma mesa arrumada do lado de fora onde se podia comprar chocolate quente ou cidra quente de maçã para se manter aquecido. ajoelhou-se e começou a cortá-la. trabalhando duro. homens fortes empunhavam machados. Connor pegou o machado. Mas não chegava nem perto do arrependimento bombástico que esperava sentir. Lá estava ele no chão. estava confusa demais para ver as coisas boas que tínhamos feito juntos. Connor prendeu uma corda no tronco e a arrastou pela neve para eles. Havia até uma rena em uma área cercada e as crianças a alimentavam com ração. Esperava que ele viesse falar comigo. Um rapaz orientava o trânsito. Fui até ele e perguntei: — Por favor. Percebi seus músculos flexionarem A árvore caiu na neve. Havia trânsito até a entrada para a casa. parecendo pequenos flocos de confete. As famílias esperavam pela sua vez de caminhar por entre as árvores. Um homem segurando uma lanterna orientava os carros no estacionamento. por favor. crianças se vestiam de elfos. A neve caía forte enquanto eu ia de carro até a casa de Connor. Vi Connor levar uma família de quatro pessoas pela neve. Meu limpador de pára-brisa movimentava-se pelo gelo como um metrônomo. Ele só usava um casaco e um chapéu de esquiador. para ver o ato como algo compartilhado entre duas pessoas que se gostavam muito. mas desviou o olhar e continuou atendendo a família. A Fazenda de Árvores de Natal estava cheia de gente. 176 . cheios de gente com gorros e cachecóis de lã. — Connor.

Apesar de ter colocado toda a honestidade possível em minhas palavras. — Mãe. como ficamos agora? — perguntou. sentindo o frio penetrante. Ficamos na mata e eu disse a ele o que precisava dizer. nos envolvemos antes de nos conhecermos. Estava com medo de me envolver com você. Ouvi sua mãe chamá-lo e ele também escutou. vou fazer um intervalo rápido. Já passei por isso antes. — Você tem que entender. — Quero que você vá comigo na cerimônia do retrato. com Bridget Roma. ele deixou. o nosso silêncio era abafado pelos sons das famílias. eu achava que conhecia você. como meu namorado. não queria admitir que gostava de você. — Mesmo? — Mesmo. das árvores caindo. E foi horrível — a voz dele ficou presa na garganta e ele inclinou a cabeça para trás. Não entramos na casa. Dessa vez.Tenho certeza de que ele percebeu a dor em meu tom. Ela olhou para mim. isso não chega nem perto do que aconteceu com a gente. não mesmo. — E então. Estava com medo do julgamento das pessoas. mas me ofereceu uma xícara de cidra e chocolate quente a Connor. Não sei se me reconheceu do Dia de Ação de Graças. — Connor. Tentei pegar na mão dele. quando tentei pegar sua mão. A lua estava baixa no céu e quase não havia luz para enxergarmos. — Não posso ficar com alguém que não me aceita pelo que sou. Deu para ver as lágrimas em seus olhos. Ficamos assim por um tempo. mas ele não deixou. onde a mãe dele estava sentada. com chantili caseiro por cima. Mas não conhecia. Pensar que você me odeia pelo que aconteceu. da música festiva que tocava ao longe. — Tudo bem — disse. sem saber ao certo se era o que precisava dizer. Fomos até a mesa da cidra. Ele não ergueu o olhar. isso é novo para mim. éramos o centro do mundo. — Você se arrepende do que fizemos? — perguntou. Ele estava tremendo. — Porque isso tem sido a pior parte de tudo. Connor e eu caminhamos. estava concentrado nas pegadas que havíamos deixado na neve. E ele não olhava para mim. Não fomos para o depósito. E nós dois agimos errado. Connor ainda parecia inseguro. 177 . Quer dizer. — Quero me desculpar pela forma como agi.

Tinha percebido isso agora e ia continuar percebendo pelos anos que vinham: não importa se eu for a garota que faz sexo. Só preciso ficar bem com todas as garotas que são como eu. — Tem certeza? — Claro. pelo menos íamos tentar. 178 . presente e futuro. Pareceu tão fácil e mesmo sabendo que nem sempre seria. a garota que entra na melhor faculdade. fiquei na mata. a garota que conta tudo para os pais ou a garota adorada pelos professores. Ligo para você mais tarde.— Vá — disse a ele. Ouvi as vozes das pessoas ao longe. Senti o frio em minha pele. Mas principalmente estava atenta à minha respiração. ao meu passado. Eu não fui embora logo em seguida. aos meus pensamentos. a garota que tem o retrato na parede da biblioteca. vá.

Mas Connor parecia em paz com a forma como as coisas tinham se resolvido. pois as coisas tinham definitivamente ficado tensas no círculo de amizades de Connor. Tinha de acreditar que a amizade entre eles ia acabar terminando mesmo. Ela comprou uma toalha de mesa bonita. cortou o queijo em pequenos quadrados perfeitos e deixou a cidra no gelo. jogam pingue-pongue na hora do almoço e se encontram para beber na casa de Bobby Doyle. precisava confiar que Connor faria o que fosse melhor para ele. Spencer tinha se colocado à frente. E ele teve a mesma cortesia comigo. mas antes estava animadamente conversando sobre jogadas de futebol com Martin. Ainda dava para perceber algumas pessoas sussurrando. Talvez Connor dissesse isso para fazer com que me sentisse melhor. David e Dipak.Epílogo A biblioteca estava bonita. sabendo que em algumas semanas eu receberia notícias de alguma faculdade. só que nenhuma tão séria assim. simplesmente amávamos um ao outro. Não sabia se algum dia eles conversariam novamente. Por mais que odiasse Mike e jamais fosse perdoar-lhe pelas suas atitudes comigo e com minhas amigas. Mas fiquei sabendo que já tinham brigado antes. Estava sozinho agora. Todos do conselho estudantil apareceram. 179 . era isso o que Connor dizia sempre quando eu mencionava Mike. transformando-se na líder do comitê de decoração. Mike também não falou mais com ele. Era legal ver isso. ainda sentia o peso do término de uma amizade por conta do segredo que havia tentando esconder. Vi Connor ao lado da parede em que ficavam os retratos. No fim das contas. A forma como ela se orgulhava de mim era incrivelmente doce. De qualquer forma. mas isso não importava. ocorreram outras discussões antes de mim. Enquanto isso. Os rapazes ainda saem juntos. Meus pais. Mas Connor não falou mais com Mike desde que decidimos resolver as coisas. o diretor Hurley. como uma irmã mais nova.

Por um segundo. Der um beijo no rosto dele na frente de todo mundo. Bee tinha escrito algo desagradável sobre mim. Ela havia me entregado a carta de recomendação a faculdade há uma semana. — Estamos tão orgulhosas — completou a número cinco. Eu havia voltado para o jogo e a Srta. Estava em um envelope lacrado. conforme o procedimento-padrão. Bee que se aproximava e nos viu de mãos dadas. subitamente. mas em vez de nomes havia números escritos. jamais tinha visto a Srta. — Como você é bonita! — disse a número seis. Três mulheres mais velhas estavam perto da prateleira que continha os anuários da Academia Ross. fiquei preocupada se a Srta. você poderia vir comigo um minuto? . Foi um enorme alívio. número nove. dizendo: — Já volto. Sinto-me realmente honrada. apontando para a Srta. nosso relacionamento tinha mudado. Dei a elas o meu melhor sorriso. a Srta. — Lembrarmos de toda a confusão que costumávamos causar. E talvez nem fosse por causa de Connor. — Nada comparado ao que a número quatro aqui fazia — disse a número sete.disse a Srta. Estranha. Sabia que ela estava desapontada comigo. A Srta. — Parabéns! — falou a número sete. Bee me levou até elas e exclamou: — Apresento-lhes Natalie Sterling. Bee ia acabar percebendo isso. em meio às fotografias. Bee corar. Nossa. Irresponsável. 180 . A Srta. apertando a minha mão. Bee. Ele se aproximou e sussurrou — E nem dá para ver a chupada. Bee de outra forma que não fosse a postura perfeitamente ereta. Mas tudo aquilo tinha mudado agora que Connor e eu assumimos. Havia vários deles espalhados na mesa. Era difícil aceitar como. — Natalie.— Você está bonita — disse Connor olhando para o meu retrato. Acho que ela deve ter percebido a minha cara. mas pela forma que vinha agindo. pois logo acrescentou — Qualquer faculdade terá sorte se aceitar você. — Muito obrigada por terem vindo. Ela não precisava formar uma opinião sobre o que fiz ou deixei de fazer com a minha vida pessoal. Afinal de contas. Bee e eu fomos para o outro lado da sala sem conversarmos uma com a outra. Bee não era a minha mãe. — Está brincando? Isso é a maior diversão para velhas senhoras — disse a número cinco. Nunca tinha visto a Srta. Todas as senhoras tinham crachás de identificação presos aos vestidos.

Não tenho dúvida de que daqui a três anos seu retrato também estará nessa parede. Autumn apareceu e me fez virar. novos namorados. — Eu também — disse e nos abraçamos bem forte. a maior de todas era que Autumn e eu éramos amigas novamente. recolhendo guardanapos sujos e copos vazios. A mudança não era mais algo a ser temido. Contanto que nunca me esquecessem. comentando: — Estou tão orgulhosa da minha melhor amiga. De todas as coisas que podiam me fazer feliz. Spencer sorriu: — Podem me chamar de Perfeito Dez. novos caminhos — sabia que estaríamos na vida uma da outra para sempre. Não importava o que o futuro trouxesse — novos amigos. não me importava nem um pouco com a forma com que seria lembrada. Bee quase engasgou. A Srta. Fim 181 . uma das representantes dos calouros deste ano. Segurei o braço dela e disse: — Gostaria de apresentar--lhes Spencer Biddle. E apesar de o meu retrato estar pendurado na parede.Spencer perambulava com um saco de lixo.

182 . Trabalhou como editora em muitos romances e best-sellers do The New York Times. onde se envolveu em encrencas na escola. em 1979. Ela estudou na Universidade de Artes e é graduada em Escrita para Filmes e Televisão. e como roteirista para o canal da Disney. mas cresceu em Nova Jersey.SIOBHAN VIVIAN nasceu na cidade de Nova York. Atualmente é professora na Universidade de Pittsburgh.

183 .

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