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Fichamento - Educação pelo Avesso

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DEMO, Pedro. Educação pelo Avesso. ASSISTÊNCIA COMO DIREITO E COMO PROBLEMA. 2ª Ed. São Paulo: Cortez 1 – Assistência como Direito

Pág.13 - O lado atraente e fundamental da assistência social é relembrar sempre que a relação de mercado não pode ser a mais importante na vida das pessoas e sociedades, em termos de fins. O que não significa que a relação de mercado seja dispensável ou necessariamente perversa, mas que é meio. O uso instrumentalizado que o mercado faz das pessoas, e que Marx captou classicamente na ideia do trabalho abstrato da sociedade da mercadoria, contraria frontalmente as noções de democracia e direitos humanos, transformando-as também em mercadoria. No capitalismo é impraticável o “pleno emprego”, por mais que a ideia tenha sido perseguida até mesmo por próceres do sistema como Keynes e executada tentativamente em alguns momentos, mas apenas no centro do sistema, porque primeiro não vêm as pessoas, mas o lucro, ou, na linguagem marxista, primeiro vem o valor de troca, não de uso1. Pág.14 – [...] Há que acentuar a importância pelo menos simbólica da assistência social como direito da cidadania, porque realça, antes de mais nada, a perspectiva da cidadania, não do emprego. Os direitos humanos são inalienáveis e devidos por natureza. Deveriam ser garantidos para além de qualquer condição que não seja o simples fato de ser humano. Pág.15 – Olvida-se que a qualidade do Estado não está nele, mas no controle democrático, ou seja, na cidadania. Não é o Estado que garante a qualidade da cidadania, mas é esta que pode garantir Estado mais qualitativo. Na visão da Comuna de Paris, aposta-se muito mais no associativismo dos trabalhadores do que em qualquer pretensa disponibilidade do Estado, que é tomado como tendencialmente mancomunado com a burguesia. Pág.16 – Assim, uma coisa é evitar afirmações extremas de que o Estado somente serve à burguesia, outra é reconhecer que sua tendência mais visível é servir à burguesia. Como concentração de força que o Estado certamente é, sua tendência mais natural não será postar-se do lado dos pobres, mas dos ricos. Estes o ocupam muito mais facilmente que aqueles. Exatamente por conta disso, a assistência tende a tornar-se residual, pois é com resíduos que se trata a
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KURZ, R. 1996. O colapso da modernização: da derrocada do socialismo de caserna à crise da economia mundial. Rio de Janeiro. Paz e Terra. KURZ, R. 1997. Os últimos combates. Petrópolis, Vozes. DEMO, P. 1998. Charme da exclusão social. Campinas, Autores Associados.

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população também considerada resíduo. Em nossa realidade sobretudo, é muito difícil encontrar qualquer política de assistência social que não revele tal pecha1. Ainda creio que é muito mais importante saber dispensar a assistência do que dela depender, a não ser quando indispensável. Encontrar-se nessa situação de dependência não é necessariamente algo infame, mas imposto por vicissitudes da história ou da natureza, como nascer portador de necessidades especiais. Além disso, as pessoas podem, no decurso da vida, passar por tais situações, de modo natural ou eventual – por exemplo, ser gestante vulnerável – ou de modo social – por exemplo, ser obrigado a migrar para lugar desconhecido e em condições de extrema precariedade. Esta consideração leva a distinguir dois tipos mais notórios de assistência: aquela devida de modo permanente, para os segmentos que não podem se auto-sustentar caracteristicamente; e aquela devida de modo provisório, para as pessoas que sofrem de vulnerabilidade intermitente ou ocasional. Em nosso contexto, fazemos mal as duas vertentes: assistimos muito precariamente as pessoas que necessitam de assistência de modo permanente e transformamos facilmente situações provisórias em definitivas, implantando dependência irreversível. Pág.17 – Mas o abuso não tolhe o uso. É certo que assistência não é política emancipatória, porque se volta para a sobrevivência e nisto se realiza plenamente. Isto mostra que tem espaço próprio e que sua justificativa não carece de qualquer outra apelação. Aí reside sua radicalidade própria e é nisto, somente, que é condição prévia para as outras políticas sociais. A ideia comum entre assistentes sociais de que assistência é a “rainha” das políticas sociais, apenas trai sua decadência no assistencialismo, porque, mesmo à revelia, passa a dispensar a vinculação emancipatória ou a mantém apenas no discurso. A assistência é direito radical da cidadania, mas não “faz” cidadania. É efeito, não causa. Se quisermos chegar aos patamares da emancipação, será mister apelar para outras políticas sociais que trabalham melhor a autonomia das pessoas ou a isto especificamente se dirigem, como é educação2. Pág.18 – O superdimensionamento da assistência revela, também, pouca sensibilidade pela pobreza política, neste caso seguindo pegada marxista considerada ultrapassada: a base material como mais essencial que as outras. A necessidade material, geralmente, é mais imediata e pode matar rapidamente. Mas daí não segue que seja mais importante. Mais
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Veja dissertação de mestrado de Maria Raquel Lino de FREITAS, 1999. “LOAS – À luz do enfoque integrado – Uma visão crítica”. Brasília, Departamento de Serviço Social, UnB. 2 TORRES, C.A. 1998. Democracy, education, and multiculturalism – Dilemmas of citizenship in a global world. Nova York, Rowman & Littlefield Publishers. MORROW, R. A. & TORRES, C.A. 1999. “The State, social movements, and educational reform”. In: ARNOVE, R.F. & TORRES, C. A. (ed). 1999. Comparative education – The dialectic of the global and the local. Nova York, Rowman & Littlefield Publischers, p. 91-113.

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importante será aquilo que mais condiciona o todo, não apenas certas partes. Passar fome é grande miséria, mas miséria ainda mais comprometedora é não saber que a fome é imposta, inventada, cultivada e que aqueles que passam fome sustentam o esbanjamento dos ricos. Dentro do sistema neoliberal, um mínimo de consciência crítica vai reconhecer que, quando renda mínima se torna política do sistema, já significa que foi aceita porque permite cultivar o problema. O sistema se beneficia da renda mínima muito mais que os pobres. Mas mesmo em situação idealizada, na qual a renda mínima é bem aplicada, deveria ser concebida como passagem necessária para superá-la. Este tipo de assistência só é coerente se souber extinguirse intrinsecamente. Pág.19 – É necessário distinguir acuradamente entre fazer assistência por direito da cidadania e acabar com a cidadania ao fazer assistência. Em nosso ambiente predomina a segunda parte abusivamente. O correto seria dizer que a assistência cumpre a cidadania. E isto é fundamental. É toda a dignidade da assistência. Pág.20 – [...] é possível recuperar presos da cadeia, mas não será pela via preferencial da assistência. Jamais. Em certa medida, a cadeia é a escola do crime, pois confia em excesso na assistência, sem falar que estamos chamando de assistência o que nem sequer seria caricatura dela. Garantir o direito de sobrevivência é fundamental, mas é só o primeiro passo. Ninguém quer apenas sobreviver. Entretanto, há assistências mais próximas da emancipação, quando se conjugam com outros esforços orquestrados e estratégicos, como é o caso da “bolsa-escola”, por exemplo, ou quando tem caráter preventivo, como pode ser o cuidado com crianças na primeira infância, tendo em vista poderem crescer em condições mais favoráveis. 2 – Assistência como problema Pág.23 – Assistência como problema tem tradição liberal, facilmente visível em país como os Estados Unidos, onde pobre é em primeiro lugar figura suspeita e desprezível. A cidadania assistida é, como regra, problemática, porque tende a definir a pessoa como beneficiária, não como cidadã, à revelia de discursos altissonantes, além de atrelá-la a auxílios estatais residuais e intermitentes. A cidadania tutelada submete a pessoa ao mercado, transformando este como parâmetro definitivo, inclusive da sobrevivência. Cidadania tutelada é contradição nos termos, já que cidadania significa sempre libertação da tutela, apontando para a gestação da capacidade de autonomia. Na prática, porém, é o que mais comumente ocorre, no sentido de que a cidadania é trocada pela tutela, usando-se nesta transação sobretudo formas de assistencialismos. Na cidadania tutelada predomina a falsificação da

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cidadania, porque é destruída na própria tutela. Na cidadania assistida predomina a farsa, porque se usa a cidadania como isca, para, logo a seguir, reduzi-la aos trapos dos auxílios oficiais. Nesta também se pede submissão – traduzida quase sempre no voto e na ordem -, mas existe lastro concreto de direito. Por isso, não nega propriamente a cidadania, mas é capciosa, à medida que retira pela direita o que dá pela esquerda. Pág.24 – Com isto pretendo dizer, ademais, que focar a assistência como problema não implica negar seu substrato de cidadania. Pág.25 – Existiria incompatibilidade entre assistência e emancipação? De modo algum. Mas existe, isto sim, relação dialética tipicamente contrária e complexa. Não é difícil mostrar que todo processo emancipatório necessita de apoio externo, como é o caso notório da criança que nasce em situação de total desamparo social e necessita, para tudo, do cuidado dos outros. Em termos concretos, todo processo emancipatório, sendo social, realiza-se junto e em confronto com os outros. Todo carinho paterno também cerceia, mas, tendo consciência disso, procura reduzir o cerceamento e aumentar a autonomia. Normalmente, a família sabe bem disso: criam-se os filhos para o mundo. Crescendo, precisam desenvolver o senso pela autonomia, a ponto de deixar a família dos pais, para constituir família própria. Se o filho permanecer na família dos pais, algo saiu errado no processo educativo: a tutela prevaleceu sobre a libertação. Esta mesma lógica dialética carece ser aplicada à assistência. Existe aquela que abafa, apequena, humilha, e existe outra que eleva, edifica, motiva. Esta é peregrina, raríssima, muito exigente. A outra é comum, quase a regra. É muito difícil estabelecer limite visível entre uma e outra, pois nas bordas se mesclam e se confundem. Por exemplo, quando damos esmola – digamos, recolhemos roupa usada para dar aos pobres -, podemos estar fazendo boa ação, impelidos pelo sentimento de que é mister fazer alguma coisa. Mas este é o nosso lado. Pág.26 – Do lado dos pobres, o que sucede é, primeiro, ter de conformar-se com os restos da parte nobre, e, segundo, ficar à mercê da caridade alheia. O “bem” que se faz aos pobres pode não compensar o estigma cada vez mais definitivo, não no sentido neoliberal do receio de que os pobres se tornem mal-acostumados, mas no sentido social de cassação da cidadania. Este tipo de assistência pode sepultar de vez o horizonte de alternativas que poderia ser descortinado, caso o pobre descobrisse que, se houver salvação, dependerá principalmente dele. Sobretudo em situações extremas, torna-se difícil – praticamente impossível – esperar que o pobre “filosofe” sobre emancipação. Mas é nesses casos que o doador, se não possuir consciência crítica, principalmente autocrítica, produz, dialeticamente falando, o contrário do que se propõe. A doação mais facilmente confirma a pobreza do que a combate.

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Esta é a dialética do benefício: é melhor para o beneficente, porque dele não precisa; pode ser péssimo para o beneficiário, porque dele passa a depender. E este é o drama da assistência: fabrica beneficiários ou pelo menos confirma a situação de beneficiário. Na dialética contrária e complexa entre assistência e emancipação, esta começa a surgir quando se consegue dispensar a ajuda. Assim, ninguém se emancipa sem ajuda, mas emancipar-se é especificamente saber dispensar ajuda. Pág.27 – Marx falava, de ditadura do proletariado, querendo significar que o proletário não pede assistência pública ou privada, mas quer tomar as rédeas da sociedade, ou seja, do Estado e da economia. Pág.28 – Parece-me impressionante e suspeita a confiança que certa esquerda deposita no Estado. Num passe de mágica, esquece-se que se trata de Estado capitalista liberal, que também na assistência reaparece sempre a relação de classe, que a dialética do poder é a da usurpação, sobretudo que a qualidade do Estado não pode estar nele mesmo, mas em seu controle popular ferrenho. Por certo, Marx alimentava a visão anarquista do Estado, tendia a ver nele quase que exclusivamente a relação de exploração, pregava sua redução ao mínimo dos mínimos, como se fosse, no máximo, mal necessário. Esta perspectiva não cabe mais. Mas continua de pé, mais do que nunca, que toda visão genuinamente democrática é insistentemente crítica do Estado e dos governos, mesmo que não seja inspirada no marxismo. 3 – Emancipação e Pobreza Política Pp. 31-32-33-34 – No espaço do poder não existe “terra devoluta”, porque está toda ocupada, usurpada. Qualquer privilégio é feito à custa dos outros. Não é possível inventar privilégio que não lese os outros. Neste sentido, para reduzir os privilégios usurpados é mister contrapor-se frontalmente, impor-se, conquistar. Precisamente é este o desafio de redistribuir renda. Quando apenas se distribui renda, deixa-se a desigualdade tal qual está, porque tomamos em conta apenas recursos devolutos, resíduos disponíveis. Passamos para os pobres as sobras do sistema, esperando que se “amansem”. Já redistribuir significa tomar de quem tem em excesso, partindo-se do ponto de vista de que a concentração de renda é fenômeno que agride os direitos humanos e democracia. Podemos visualizar tal distinção claramente no MST, sem com isto necessariamente apadrinhar tudo o que este movimento inventa: não se contenta com distribuição de terra, como sempre foi, porque se restringe a terras devolutas, mal localizadas,

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improdutivas, sobrantes; pretende apropriar-se de terra produtiva, forçando a rever todo o processo de apropriação da terra. O MST, como todo movimento complexo de cidadania, nem sempre tem controle de iniciativas localizadas, além de gerar facilmente invasores profissionais, que passam a manipular privilégios pessoais e grupais. Afinal de contas, como mostra qualquer sociologia, igualmente na favela existe estratificação social. Lá também há “pobres” que sabem viver da pobreza dos outros. Mesmo assim, este movimento sinaliza uma direção inovadora ao postular a redistribuição das terras, tocando no pilar sagrado liberal que é a propriedade privada. Aí está sua força e seu susto. O liberalismo teima em transformar a apropriação privilegiada em mérito. Não se apropria apenas das terras. Apropria-se também do Estado, Esbulha-o ostensivamente. Privatiza-o em nome do mercado. Este é o “sangue-frio” desta elite perversa: considerar normal, mérito histórico, que 10% das pessoas concentrem em suas mãos por volta da metade da renda nacional. Diante disso, é inevitável a pergunta: como desconcentrar renda? Dificilmente pela via da solidariedade... Impossível pela via da assistência... Não quer dizer que o caminho violento seja o único, porque a história mostra outras iniciativas possíveis, ainda que “radicais”. Radicais não no sentido da violência, mas no sentido de tocar as mais profundas raízes da concentração da renda. No Welfare State este intento foi logrado, pelo menos em parte, sob a ação concertada dos sindicatos e governos social-democráticos. No Plano Real também ocorreu algum efeito de redistribuição de renda, sob o impacto de certa tecnocracia esclarecida e de governo mais ligado a causas populares. Mas como não foi resultado de processo histórico popular de conquista, acabou servindo muito mais para a reeleição do presidente do que para refazer a estrutura da desigualdade. No pano de fundo desta discussão está a questão da pobreza política, reconhecida hoje até mesmo em ambientes neoliberais como a questão social mais dura. Garantir a sobrevivência das pessoas é direito radical decisivo, mas ainda mais relevante que isso é gestar a competência política de saber garantir a sobrevivência com as próprias mãos. Porquanto, excluído irremediável é aquele que nem sequer consegue e é coibido de saber que é excluído. Por isso pobreza política indica a condição de “massa de manobra”, objeto de manipulação, subalternidade permanente. Pobre, mais que tudo, não é quem é destituído de “ter”, mas de “ser”. De certa maneira, a obra de Mark destinou-se a mostrar ao proletário, por todas as vias imagináveis, que o resultado de seu trabalho só poderia ser dele e que o processo de mais-valia invertia a situação, ao permitir ao dono dos meios de produção apropriar-se do valor gerado pelos outros. No fundo, Marx desenhava os traços básicos da “alienação”, no sentido do trabalho indevidamente apropriado e do trabalhador tornado massa de manobra.

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Pág. 36-37-38-39 – Ser humano ignorante é aquele que ainda não foi capaz de descobrir que as oportunidades podem ser feitas, inventadas, criadas, pelo menos até certo ponto. Sobretudo, não descobriu que pode fazer-SE oportunidade. Não sabe o que é autonomia, ou a tem como algo concedido, controlado. Não vislumbra o que poderia ser e fazer, desde que tenha iniciativa, saiba se organizar, saiba pensar. Por isso, entrega seu destino a mãos estranhas e hostis. Espera que outros resolvam seu problema. Observando deste modo, emancipação apresenta um processo de extrema complexidade dialética, podendo-se ressaltar:

a) Num primeiro momento, emancipação sinaliza a necessidade de consciência crítica, sobretudo autocrítica, pela qual a opressão é percebida como imposta e injusta. b) Como regra, processos emancipatórios precisam de “intelectuais orgânicos”, que seriam gente mais consciente capaz de ativar a consciência crítica dos outros. Esta dialética é de complexidade extrema, como vimos, mas corresponde ao processo social de gestação da autonomia: precisa de ajuda e precisa também dispensar a ajuda. Os intelectuais orgânicos são “orientadores” ou “facilitadores” dos processos emancipatórios, não os donos; por isso, faz também parte da vida deles ser dispensados pelos orientados, se é que estes chegam um dia a ter autonomia plena. c) Num segundo momento, o oprimido, sabendo da opressão, pode conceber alternativas. Este fenômeno coloca à prova, desde logo, a qualidade de sua consciência crítica e autocrítica: se continuar esperando a solução por parte dos outros apenas, a autonomia ainda é incompleta ou mesmo farsante; se conseguir já vislumbrar que é a peça-chave de qualquer solução, por mais que deva contar com apoios externos, a autonomia começa a ser gestada adequadamente. Não é o caso de desprezar apoios externos, mas de vê-los criticamente, ou seja, como apoios supletivos. A assistência, vista deste modo, não faz mal; ao contrário, pode ser empurrão fundamental. O conceito de alternativa não pode, de modo algum, encerrar-se em propostas assistenciais, porque a assistência não é política de alternativas. d) A ideia de alternativa não implica necessariamente rompimento violento, mas certamente radical, no sentido de inverter a relação de poder: passar da condição de massa de manobra para a da capacidade de reagir como sujeito.

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e) Num terceiro momento, o oprimido pode descobrir as vantagens da cidadania coletivamente organizada, aperfeiçoando sobremaneira a competência política; a cidadania individual já é muito importante, porque corresponde à constituição inicial do sujeito individual. Mas efetiva é sobretudo a coletiva, aquela que faz volume, preenche os espaços, pode ser vista claramente, exerce influência e pode definir a história. Porquanto, uma coisa é o trabalhador crítico e autocrítico, outra é o sindicalizado que enche praça, fecha empresa, encurrala autoridades. Neste sentido, todo processo emancipatório supõe o associativismo, fenômeno social de extrema profundidade pelo qual as pessoas deixam de ser sujeitos isolados, para tornarem-se sujeitos coletivos; é questão essencial de competência política, dentro da pretensão de fazer história própria. Por sua vez, o associativismo coloca, de novo, à prova a qualidade da cidadania, porque exige envolvimento político profundo, que podemos chamar de militância. Como regra, as associações são farsantes, porque só contam com os chefes e que foram muitas vezes gerados em processos não democráticos, nas assembléias não comparece quase ninguém, não se auto-sustentam1. Quando se ligam a órgãos públicos, tendem fortemente a conceber-se como táticas de obtenção de assistência, pela qual pagam com crescente subalternidade. f) A cidadania coletivamente organizada precisa coincidir com a cidadania emancipada, dotada de satisfatória competência política para poder ser sujeito de suas próprias soluções. Quem tem o mínimo de consciência crítica e autocrítica sabe sobretudo de seus vazios e precariedades; não toca trombeta na esquina, mas sabe medir suas forças, buscar alianças, fazer parecerias, sempre sob o signo do sujeito, não do objeto. 4 – Defender e Limitar a Assistência Pp.43-44 – Para o mercado, pessoas improdutivas – ou, mais propriamente, incapazes de gerar mais-valia – não interessam. Sobretudo a globalização competitiva descarta a força de trabalho incapaz de acompanhar o ritmo da produção. É muito difícil divisar na assistência qualquer “lucro” para o mercado, ainda que, com alguma boa vontade, se possa indicar que trabalhador mais satisfeito, cuidado, protegido, pode produzir mais e melhor. Por esta e por
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Veja critérios de qualidade associativa em DEMO, P. 1998a. Avaliação qualitativa. Campinas, Autores Associados.

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outras razões, a assistência sempre detém posição suspeita para o mercado, quando menos porque é gasto improdutivo. Acrescem ainda dois motes importantes: dentro do teorema social liberal, quanto maiores as necessidades sociais, menores são os recursos disponíveis, e a assistência tende a viciar os pobres, despertando o parasitismo social. Dentro da lógica do mercado, assistência pode ser feita somente em condições de pobreza residual e de afluência econômica, que permitem gastar sobras para dar conta da questão. Crê-se que pobreza é resíduo do funcionamento do mercado, não questão que possa acometer maiorias. Pobreza para além de certo montante residual já soa a mau costume, inépcia, incompetência, parasitismo. O Welfare State teria caído nesta arapuca e, agora, tem dificuldade de sair dela. Em parte, o desmonte das políticas de proteção percorre esta rota, inclusive o apelo crescente ao voluntariado. Em alguma medida, o assim dito “terceiro setor” alimenta a alternativa de fazer o que o mercado não pode ou não quer fazer em política social1. A crítica que aqui faço às políticas superdimensionadas de assistência nada tem a ver com este pano de fundo. O que critico frontalmente é a tendência facílima de fazer da assistência cultivo da ignorância popular, coibindo a possibilidade de emancipação encoberta pela cidadania assistida. Critico também que, enquanto se busca, com retórica absurdamente vazia, a assistência universal, nem sequer se garante a assistência permanente de que segmentos fundamentais da população precisam. Não há como contestar a necessidade deste tipo de assistência permanente, que só pode ser justificada por compromisso com a democracia e com os direitos humanos. [...] na prática, nenhuma política de assistência social – nem mesmo estas – poderia ser apresentada como pelo menos satisfatória. A mesma brincadeira que a direita faz com a pobreza – tutelando-a de maneira clientelista – foi feita, até certo ponto, pela LOAS e parte da esquerda que a defende, quando abraçou a pobreza inteira como seu espaço de atuação. Dificilmente poder-se-ia imaginar superdimensionamento maior. É, ao mesmo tempo, absurdamente ingênuo e incorreto. Ingênuo, porque nenhuma política isolada poderia meter-se a dar conta da pobreza inteira, muito menos assistência, sem falar que se trata de declaração meramente verbal, pior que as promessas eleitoreiras da direita. Incorreto, porque a lei de assistência não é lugar indicado para desenhar proposta de combate à pobreza, garantindo-se aí que se trata de coisa totalmente residual e bagatelizada. O combate à pobreza precisa ser política tipicamente estratégica, envolvendo todos os setores, inclusive os econômicos. Entretanto, deste truque já sabemos há muito tempo: o Congresso deixa passar leis com retórica de esquerda, desde que se neguem os recursos e seu campo de atuação
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FERNANDES, R. C. 1994. Privado porém público, o terceiro setor na América Latina. Rio de Janeiro, Relume-Dumará.

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seja considerado residual. Não é outro o destino do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Pág.45 – Ao lado desta defesa aberta que faço das assistências permanentes, é mister defender também as assistências provisórias, sempre que necessárias, mas em nome da emancipação. Vale aí que saber dispensar a ajuda é muito mais importante do que dela precisar e sobretudo depender. A maioria das políticas de assistência vive sob este signo: nos casos em que deveriam ser permanentes, são mantidas como provisórias, prevalecendo a expectativa de doações graciosas por parte do sistema; nos casos em que deveriam ser provisórias, tendem a motivar a expectativa de ajuda permanente, com o objetivo de manter o vínculo de dependência. Daí não segue, em hipótese alguma, que a assistência deveria ser descartada. Ao contrário, deveria ser bem-feita. Assistência bem-feita obedece aos parâmetros da democracia e dos direitos humanos: a) É direito líquido e certo que populações incapazes de se auto-sustentarem ou que não deveriam preocupar-se com isso têm direito à assistência permanente, independentemente de qualquer condição de mercado. Sociedade que não cuida de suas crianças pobres, não monta rede abrangente de atendimento a excepcionais e portadores de necessidades especiais, não trata bem seus idosos, revela que mantém democracia farsante, hipócrita, perversa. Entretanto, porque está na lei, alguma coisa se faz, mas apenas alguma coisa, cá e lá, sempre insuficiente e insatisfatória. b) Pág.46 – Pior que o problema de cobertura inadequada é sua falta total de qualidade no atendimento. Basta olhar para as instituições que deveriam cuidar de adolescentes infratores ou para as prisões, onde as rebeliões já se tornaram rotina: falta tudo, espaço mínimo físico, cuidados educativos e assistenciais, programas ostensivos de recuperação, ambiente humanizado, pessoal especializado, e assim por diante. Fazem exatamente o contrário: são escola aperfeiçoada do crime. c) Se o desacerto é desta magnitude nas políticas permanentes, nas outras é ainda maior, constituindo-se no espaço preferencial do cultivo da massa da manobra. Recriam a miséria ciclicamente, alimentando a ignorância sistematicamente. d) Dentro dos parâmetros da democracia e dos direitos humanos, a assistência precisa, pois, de adequada cobertura e qualidade, seja na versão permanente, seja na provisória; precisa fazer parte do orçamento estruturadamente e ser considerada verba intocável, como são intocáveis os direitos humanos. Entretanto, funciona aqui outra face do mesmo teorema social liberal: quanto mais pobre a pessoa,

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menos condições tem de reagir; pode ser facilmente enganada, manipulada, vilipendiada. e) Regra fundamental de toda política social é não se propor como algo isolado e setorial f) Pág.47 – Regra ainda mais fundamental é o controle democrático popular, fonte verdadeira da qualidade das políticas públicas. Aqui, porém, aparece o motivo maior desta regra: o sistema não teme população com fome, mas teme população que sabe pensar. Muitas vezes, assistir é feito para evitar o saber pensar ou para cultivar a ignorância. Ao lado de defender, também é mister limitar a assistência. Tenho três boas razões para limitar a assistência: a) A primeira refere-se à necessidade de gerar assistência que não prejudique o processo emancipatório, criando no assistido vínculo irreversível de dependência. Trata-se da tarefa heróica de ajudar de tal forma que o ajudado perceba ser mister dispensar a ajuda. Esta dialética é talvez uma das mais sensíveis do ser humano, porque é a maneira que a história conhece de fabricar a autonomia, sempre arriscada, complicada e facilmente deturpável. Do ponto de vista do intelectual orgânico, é mister aguda consciência crítica para perceber se a ajuda já está abafando a autonomia do ajudado, e do ponto de vista do ajudado é necessária sábia autocrítica para perceber se já está facilitando a condição de massa de manobra, em vez de despertar para autêntica autonomia. b) Pág.48 – A segunda limitação da assistência refere-se à necessidade rígida de enfocamento das políticas, o que já indica não ser o caso fazer dela princípio universal. Geralmente, as políticas públicas são de má qualidade, não interessando aos ricos; mas, quando ocorre alguma de boa qualidade, invariavelmente seu acesso se afunila em favor dos privilegiados, como é o caso notório das universidades públicas de ponta ou do Hospital Sara Kubitschek. Aparece aqui disjuntiva muito complicada entre fazer políticas públicas de baixa qualidade tipicamente para os pobres – coisa pobre para o pobre – e fazer políticas públicas de alta qualidade tipicamente para os ricos. Daí segue duplo desafio: fazer políticas de qualidade para os pobres e evitar que os ricos se apropriem delas. Para tanto, é mister colocar em ação um duplo movimento: o mais importante é gerar a capacidade dos pobres de garantir seu espaço, fazendo uso da discriminação positiva; a seguir, é fundamental encontrar democracias que sejam capazes de

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implantar esta direção, por exemplo, garantir escola pública de boa qualidade para as periferias. A ideia de limitar a assistência aqui não significa negá-la, mas, ao contrário, potenciar seu efeito por meio do devido enfocamento. c) Pág.49 – A terceira limitação da assistência se refere à necessidade de evitar sua setorialização, tanto no sentido de agir sozinha quanto no de querer fazer tudo sozinha. A LOAS pretende fazer tudo sozinha, aceitando – alegremente! – a pobreza inteira, caracteristicamente se recursos ao menos adequados e condições institucionais de articulação. [...] o saber pensar só se engrandece se souber ancorar-se em devida e adequada assistência. Pág.50 – A dádiva maquiavélica corrói o sujeito, enquanto a dádiva solidária pode promover a libertação. No pano de fundo desta interpretação, estou manejando a dialética do conflito social, sobretudo de olho na relação de classe. 5 – Abusos Corporativistas do Estado Pp.51-52-53 – Seria ocioso apontar no Congresso a representação dos interesses da elite econômica e política, muito mais do que dos interesses populares. Estes são lembrados no momento do voto, comprados com incríveis migalhas eventuais, sobretudo com ofertas assistenciais. Já estamos também acostumados a que partidos de direita, principalmente ditos liberais, se apresentem como peritos em reforma do Estado e moralização pública, enquanto fazem do Congresso a banca de negociatas sem fim e sem pudor. Não há voto que não tenha seu custo. Entretanto, pode nos surpreender que, sendo o poder mais maquiavélico do que capitalista, parte da esquerda também se dedique a espoliar o Estado. À medida que o funcionalismo público, cansado do descaso geral, sobretudo em alguns setores onde a discriminação é descomunal, como no professorado básico, descobriu que poderia encontrar no Estado espaço privatizável, evita o confronto direto com o mercado, para especializar-se em alargar espaços públicos corporativistas1. Muitas bandeiras são nobres, ainda que os resultados pífios, como por exemplo, a bandeira da eleição dos reitores de universidades e dos diretores de escola. Estas conquistas também são nobres e dificilmente teriam acontecido sem a organização política adequada, mas propendem para a proteção de benesses escusas, ainda

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BOSCHI, R. R. (org). 1991. Corporativismo e desigualdade. A construção do espaço público no Brasil. Rio de Janeiro, Rio Fundo Editora.

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que, por vezes, pouco significativas. Perdeu-se, entre outras coisas, a relação com o bem comum e evita-se, de qualquer modo, o controle popular. Trata-se de assistencialismo que começa em casa: primeiro para os funcionários do Estado, depois, se sobrar, para a população. Todavia, antes de avançar neste tipo de análise, convém relembrar o processo de concentração de renda vigente no Brasil, considerado um dos mais perversos no mundo. [...] o país representa mais ou menos a décima economia mundial, mas no ranking aparece por volta do 60º lugar. É sempre muito enfático o reconhecimento de que a América Latina é “a região que maior desigualdade registra em todo o mundo” (BID, 1998:V). “Na média, os países da região se vêem afetados pela maior desigualdade do mundo em matéria de ingressos: no Brasil e na Guatemala, os 10% superiores da população absorvem quase 50% do ingresso nacional, enquanto os 50% inferiores da escala ganham apenas algo mais do que 10%.” E acrescenta pateticamente: “Maior importância tem o fato de que o problema não mostra sinais claros de melhoria. As melhores mensurações de que dispomos indicam que a distribuição do ingresso melhorou nos anos setenta, registrou considerável deterioração nos oitenta e tem permanecido estancada em elevados níveis nos anos noventa. (...) Segue que esta desigualdade parece ser fenômeno perdurável e de raízes profundas” (BID:1). As grandes diferenças salariais, porém, não se devem apenas à distinção entre capitalistas e trabalhadores, mas às distâncias salariais entre os próprios trabalhadores. No decil1 superior só 14% seriam empregadores, quer dizer, a concentração de ingressos se realiza também pela distribuição extremamente desigual entre as pessoas que vivem de salário. Aparece aqui marca típica de países muito desiguais: a desigualdade de ingressos é mais forte na comparação entre capitalistas e assalariados, mas pode ser também espetacular no seio dos próprios assalariados, quando pequena parcela deles passa a ganhar rendimentos tão elevados que mais os aproxima dos capitalistas que dos assalariados. Pág.57-58 – Os chefes de domicílio dos 10% mais ricos se caracterizariam por quatro marcas mais ostensivas: nível de educação, tipos de emprego/trabalho, zona de residência e número de filhos. Na média, possuem por volta de 11,3 anos de escolaridade. “As distâncias educacionais mais pronunciadas entre os decis mais ricos se encontram no Brasil, México e Honduras, onde são superiores a três anos, e somente no Peru são menores que dois anos” (BID, 1998:22). [...] passou o tempo em que os “trabalhadores” eram – todos – categoria explorada. Cada vez mais aparecem trabalhadores que estão francamente ao lado dos
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As comparações são feitas, como regra, por decis, ou seja, dividindo a população em blocos correspondentes a 10%, em dez decis. Decil superior significa, então, o décimo decil, ou aqueles 10% que estão no topo da escala de ingressos, assim como decil inferior há de representar o primeiro decil, ou aqueles 10% que estão na base da escala, percebendo os menores rendimentos.

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detentores dos meios de produção, alojando-se no decil superior, onde, segundo o relatório, somente 14% seriam empregadores. Há assalariados que estão também na causa da concentração da renda, quando se distanciam em demasia das bases. Tanto na empresa privada como no setor público existem camadas de assalariados absolutamente privilegiadas, chamando a atenção sobretudo assalariados públicos que, estando dentro da máquina estatal, souberam cercar-se de benesses duvidosas, sem que estas possam um dia chegar à maioria da população. Esta “cultura” do privilégio instalou profunda desordem salarial, que já não obedece a padrões mínimos de relação com produtividade, importância social e econômica, escolaridade, mas funda-se em trambiques ostensivos, seja pela manipulação da lei (agregação de vantagens salariais, pensões e aposentadorias absurdas, confusão entre direito adquirido e usurpação), seja pela reserva de poder (salários de deputados e similares ou de juízes), seja pelo apadrinhamento político e acumulação de salários. Por isso, deve-se afirmar que a desconcentração da renda é sobretudo fenômeno político de conquista histórica. A cidadania ainda é a cláusula central da equidade. Pág.59 – Caricaturando as coisas, o projeto inclui que 90% da sociedade “se esfole” para manter os privilégios de 10%. Pp.60-61 – À medida que o funcionalismo foi se organizando, fenômeno necessário dentro de grupo dotado de suficiente educação, por saber da importância da cidadania organizada, soube moldar legislação propícia, que sacralizou alguns princípios de auto-defesa, como a isonomia e a estabilidade, além da aposentadoria integral, para falarmos apenas em três bastiões centrais. Em determinadas carreiras, a estabilidade é necessária para seu exercício desimpedido, bem como seria de esperar que, pelo mesmo serviço, se possa ganhar salário similar. Quanto à aposentadoria integral, é mais difícil de defender, porque representa, para salários altos, espoliação inqualificável da sociedade. É sempre o caso distinguir entre salários muito altos e aqueles tidos como normais ou baixos, para os quais talvez fosse possível defender aposentadorias integrais, porque não precisariam estar acima ou pelo menos muito acima daquelas privadas. Estando a aposentadoria privada de maior valor algo acima dos R$ 1.000,00, torna-se afrontoso imaginar que qualquer salário público possa gerar aposentadoria integral sem limite. Estarrece que se queira usar para aposentadorias integrais elevadas – típicas do decil superior – o argumento do “direito adquirido”, pois privilégios desta ordem são claras usurpações, obrigam a sociedade inteira a sustentá-los, privatizam o setor público. Mesmo alcançadas “dentro da lei”, não é aceitável “roubar” a população dentro da lei. Se assim fosse, não teríamos argumentos para reclamar da direita, quando mostra extrema perícia em

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“roubar” dentro da lei. Ademais, recursos públicos não podem gerar direito adquirido, pela razão de que não são disponíveis diretamente. Por sua vez, a estabilidade foi o consolo para salários baixos, que, acompanhada da aposentadoria integral, ainda mantém algum interesse em carreiras públicas mesmo decaídas. Todavia, o movimento de autodefesa corporativista passou a superar, com frequencia maior, o compromisso com o serviço público. Embora a imagem que a sociedade tem do funcionalismo público seja em grande parte equivocada e injusta, porque encobre – por força da detração liberal sobretudo – em muitos lugares relações indignas de trabalho, detém alguma razão de ser. Não se pode esquecer, hoje, que a maioria do funcionalismo não tem aumento há mais de quatro anos. Todavia, a luta renhida em torno das remunerações, em particular no Judiciário, sem falar no Legislativo e em menor escala no Executivo, escancara o abuso do Estado por parte de segmento público [...]. Não é, pois, diferente dos ideais da burguesia, que os partidos pretenderiam combater. Com certeza, o magistrado que alimenta tal expectativa salarial não pode ter noção adequada de justiça, nem o congressista pode estar vinculado às causas populares e o governante interessado em redistribuir renda. Esta situação bizarra lembra a crítica acerba feita ao Banco Mundial: tem por meta promover o desenvolvimento, sobretudo, de regiões pobres, mas angariou para si a condição de instituição extremamente privilegiada, em particular para seus técnicos. Estes mostram, com total perícia, que sabem melhor cuidar de si do que dos pobres. Pp. 62-63 – A discussão atual em torno da reforma da Previdência nos parece característica. Segundo a experiência da maioria dos países desenvolvidos, aposentadorias integrais são impraticáveis, porque impõem ao Tesouro nacional peso desmedido, que terá de ser dividido com a sociedade como um todo. A direita, tradicionalmente, saqueou o Estado, sobretudo pela apropriação privada dos gastos orçamentários mais importantes, bem como através de trambiques legais com respeito a indenizações, dispensas fiscais, acessos facilitados a financiamentos. Este jeito de agir como o Estado é tradicional, e marcou nosso entendimento comum de que o Estado é feito para ser saqueado. Governantes que não fazem isso são ingênuos, despreparados, incompetentes. O melhor que já conseguimos em nossa história é governante que “rouba, mas faz”. É certo que ultimamente tivemos a experiência de governos da esquerda que, a par de naturais fracassos, também souberam mostrar que é possível governar sem roubar. As três gestões sucessivas do PT na Prefeitura de Porto Alegre nos parecem exemplares. Mas isto ainda é história peregrina.

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Pág.64 – Enquanto isso, os trabalhadores do setor privado observam, perplexos, esta farra pública, porque, além de serem a origem básica dos tributos, são condenados a migalhas de oferta pública inaceitável, como é o atendimento hospitalar, previdenciário, escolar, assistencial. Pp.65-66-67 – Para nossa discussão aqui, este “assistencialismo caseiro” revela como a assistência vem sendo entendida, não só pela direita, mas também por certa esquerda instalada no funcionalismo público de modo corporativista. Exemplo flagrante é a universidade pública gratuita. Se levarmos em conta que por volta de 40% dos alunos não completam o ensino fundamental, já poderíamos afirmar que os pobres de verdade jamais estudarão de graça na universidade pública. O argumento da gratuidade é feito em nome dos pobres, mas serve aos ricos. Política social redistributiva exige desfazer privilégios ostensivamente. Por isso, é sua função central desprivilegiar claramente os mais ricos. Seria necessário fazê-los pagar, precisamente para que os pobres não precisem pagar. A gratuidade universal somente poderia funcionar, de alguma maneira, se a sociedade não fosse tão desigual. Não se pode aceitar o argumento de que todos já pagam impostos e que, por isso, a universidade não é propriamente gratuita, porque isto é estritamente comum. Precisamos ir muito além disso e saber obrigar os ricos a pagarem a conta. O superdimensionamento da assistência dentro do Estado é muitas vezes alimentado pelo próprio Estado, o que revelaria que sua tendência mais fácil não é proteger os pobres, mas praticar o assistencialismo. 6 – Para Combater a Pobreza Pág. 69 – Assistência social não é política social diretamente vinculada a combater a pobreza, porque sua função central é garantir o direito à sobrevivência. Porém, pode contribuir para o combate da pobreza, aliando-se a outras políticas, entre as quais não pode faltar o compromisso econômico. Pág.70-71-72 – Primeiro, deixa-se de perceber que o combate à pobreza no Welfare State não foi obra da assistência social, mas resultado de percurso histórico complexo de conquista popular, secundada certamente por florescimento econômico considerável. Neste percurso, descobriu-se sobretudo que a renda não pode ser apenas distribuída. Se assim fosse, bastaria assistência. Para atingir o nível específico da redistribuição da renda, toda a sociedade e toda a economia precisam ser mobilizadas e isto somente pode ocorrer –

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principalmente no capitalismo – com extraordinário controle popular, que, por sua vez, supõe cidadania ativa e organizada, além da universalização da educação básica. Segundo, esta não é toda a história. Trágico mais que tudo é ter de reconhecer que o Welfare State já é canto da sereia: durou apenas trinta anos e somente no centro. A tese marxista do trabalho abstrato e da sociedade da mercadoria – mais que a tese da relação de classes possivelmente – mostra-se profundamente correta, porque assinala que no contexto capitalista o combate à pobreza só pode ocorrer de modo intermitente e seletivo, como são, para a maioria das pessoas, intermitentes e seletivos bons salários. O Estado já não tem recursos para tais políticas consideradas apenas eventuais. Estranhamente, também é aceita a tese de que jamais tivemos sociedade tão rica e afluente, extremamente produtiva e competitiva, cada vez mais globalizada. Os pobres, de novo, já não são detentores de direitos, mas sobretudo ineptos economicamente. Sua focalização será sobretudo negativa, estigmatizante, também para forçá-los a voltar ao mercado. A combinação entre mercado e justiça social foi perseguida com afinco 1, também por vastos setores da direita, não tanto por convicção, mas por temor diante da “ditadura do proletariado”. Berlim Ocidental, encravada na Alemanha Oriental, foi um dos signos mais potentes desta luta também ideológica: pretendia-se mostrar o quanto o sistema capitalista seria superior ao socialista. Ironicamente, porém, com a derrocada do socialismo real ao final da década de 80, completa-se também a derrocada do Welfare State, cujo indicador mais claro parece ser o estilo de globalização que vivenciamos hoje: trata-se de centralização violenta no dinamismo econômico dos Estados Unidos, único país que se mostrou menos afetado pela crise. Longe de ser fenômeno alvissareiro de redistribuição das chances de desenvolvimento, ocorre forte “americanização” do mundo, processo sustentado por duas forças decisivas no mercado atual: a competitividade produtiva e sua base na intensividade do conhecimento2. Pág.73 – Não se trata de desconhecer o brilho histórico do Welfare State, tendo em vista que algumas populações tiveram dele proveito notável, mas de apontar que jamais foi capaz de reverter a concentração da renda e do poder. No capitalismo é impossível colocar democracia e direitos humanos acima do mercado. Não é o lugar da democracia e dos direitos humanos, embora precise deles para maquiar-se.
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KONRAD-ADENAUER-STIFTUNG. 1992. Desenvolvimento econômico com justiça social: A economia social de mercado. São Paulo. Traduções 3, Centros de Estudos. KONRAD-ADENAUER-STIFTUNG. 1992. Economia social de mercado: um modelo transferível? São Paulo, Traduções 4, Centro de Estudos. KONRADADENAUER-STIFTUNG. 1995. O difícil caminho para a justiça social. São Paulo, Debates 7. 2 PRZEWORSKI, A. 1989. Capitalismo e social-democracia. São Paulo, Companhia das Letras. PRZEWORSKI, A. 1994. Democracia e mercado no Leste europeu e na América Latina. Rio de Janeiro, Relume-Dumará. PRZEWORSKI, A. 1995. Estado e economia no capitalismo. Rio de Janeiro, Relume-Dumará.

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Pág.75 – Para combater a pobreza, no concerto dos fatores, o mais estratégico tende a ser a cidadania, porque esta é claramente fim, juntamente com conceitos fundamentais como democracia e direitos humanos. Volta-se sobretudo à superação da pobreza política, pois esta expressa mais a pobreza dos fins do que dos meios. A cidadania implica, antes de mais nada, sujeitos capazes de história própria, individual e coletiva, politicamente competentes para organizar-se de forma adequada em torno dos fins e também em torno dos meios. [...] o primeiro passo do combate à pobreza é desfazer a massa de manobra, se quisermos ir além da simples sobrevivência. Esta visão indica, ademais, que é impraticável combater a pobreza sem ter o pobre como figura central. Tê-lo como cidadão é absolutamente mais decisivo do que têlo como beneficiário. Assistência social malconduzida pode obter efeito contrário, à medida que agrava a ignorância do pobre, tornando-o ainda mais dependente dos próprios algozes. Pp.76-77 – Por conta dos respingos do Welfare State, predomina entre nós a expectativa do Estado como dono absoluto das políticas sociais, a ponto de fazê-lo redentor das massas excluídas. Na verdade, o Estado realiza as políticas sociais que lhe foram cometidas pela cidadania, não o contrário, e só as faz bem sob estrito controle democrático. Quando se instala a ideia de que o Estado cuida dos pobres, sendo estes, ademais, segmentos expressivos, por vezes majoritários, da população, o assistencialismo se torna regra, dentro da contradição flagrante de tratar como resíduo social e econômico o que, na verdade, é a representação mais legítima da respectiva sociedade. Tomando como fulcro o conceito de emancipação, parece cada dia mais claro que a política mais fundamental é a política social do conhecimento, porque, com base na aprendizagem reconstrutiva de teor político, está mais próxima da formação da competência política. [...] põe-se o grande desafio de ser autônomo solidariamente, combinando os direitos próprios com os dos outros. Não se trata da noção dominante de solidariedade, manejada capciosamente para aquietar os excluídos, mas da solidariedade a partir dos excluídos, de acordo com a standpoint epistemology: saber ver a realidade não apenas a partir de nós mesmos ou dos donos do conhecimento, mas sobretudo a partir dos excluídos do conhecimento e do poder1. Mesmo que todo mercado seja seletivo, porque afunila as carências, não é mister permanecer em sua versão capitalista. Mesmo que a renda não possa ser igualmente distribuída, pode ser sempre redistribuída de acordo com critérios mais equânimes.

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HARDING, S. 1998. Is science multicultural? Postcolonialisms, feminisms, and epistemologies. Bloomington and Indianapolis, Indiana University Press.

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Assim, o critério fundamental do combate à pobreza será conseguir que o pobre se faça sujeito de suas próprias soluções. Pág.78 – O segundo fator mais fundamental do combate à pobreza é a adequada inserção econômica no mercado de trabalho. Uma das maiores ingenuidades da assistência social, sobretudo quando apregoada como universal, é a de “passar por cima” do mercado, inclusive de seu financiamento. Por certo a assistência é devida acima do mercado, mas isto permanece letra morta sem a devida cidadania, como é o caso notório no Brasil. É letra morta, nada mais. Sendo a relação liberal de muito mais que “belas palavras” para colhermos algum efeito social. A confiança excessiva no Estado, sobretudo a fantasia de recursos infinitos de preferência disponíveis para os pobres, é apenas outra ingenuidade gritante, que somente favorece a posição residual das políticas assistenciais. O confronto com o mercado é parte substancial do combate à pobreza. Pág.79 – Um dos grandes problemas é o crescimento sem emprego, por conta da intensividade do conhecimento: é possível produzir mais e melhor com redução da mão-deobra. O mercado, deixado a si mesmo, exacerba a exclusão social, ao mesmo tempo que pode avançar, de modo espetacular, no campo da produtividade1. Esta contradição não será resolvida pelo próprio mercado, como imagina o neoliberalismo. A presença da cidadania se fará cada vez mais decisiva, já que a competência econômica precisa ser monitorada pela competência política. Porém, como no capitalismo é impossível colocar os direitos humanos acima do mercado, estamos diante de disjuntiva radical, buscando superar a sociedade da mercadoria. Por falta de concorrente, o neoliberalismo se imagina senhor absoluto da situação, mas surgem cada vez mais vozes contrárias, que vão desde o assim dito terceiro setor, até os temores de degradação ambiental irreversível, passando pelo mundo das drogas como alternativa de renda. Sabemos fazer riqueza, mas ainda não sabemos redistribuí-la. Continua faltando mais competência política do que econômica. Pág.80 – E o terceiro fator no combate à pobreza é assistência social, quer na versão permanente, como expressão da democracia e dos direitos humanos, quer na provisória, como expressão de salvaguarda da emancipação. Qualquer mínima concepção de dignidade histórica vai aceitar que pessoas improdutivas, por não representarem interesse para o mercado, não podem ser abandonadas à sua sorte, porquanto algumas são improdutivas por razões permanentes ou porque não devem ou podem preocupar-se com isso, enquanto outras o são porque o mercado não as incorpora. Esta função da assistência é algo que poderíamos
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RIFKIN, J. 1995. O fim dos empregos. O declínio inevitável dos níveis dos empregos e a redução da força global de trabalho. Rio de Janeiro, Makron Books.

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chamar de “sagrado”, como é sagrado o direito à sobrevivência. Entretanto, não combate a pobreza a assistência que alimenta a pobreza política dos excluídos. Esta tem predominado de modo insistente nas políticas do Welfare State, sobretudo quando é apenas imitado canhestramente. Não é por outra razão que a direita já adotou este tipo de assistência, até mesmo a renda mínima, porque se apercebeu de seu efeito desmobilizador. Gasta-se pouco e consegue-se mais facilmente o voto. Todavia, o abuso não tolhe o uso. Será sempre fundamental manter a rede institucional pública de atendimento assistencial adequado a segmentos populacionais mais expostos [...]. Pág.81 – O combate à pobreza implica, ademais, mudança cultural radical, a começar por superar as “bagatelizações” comuns, inclusive na assistência, de que algumas sobras dão conta do problema. 7 – Desenvolvimento Como Oportunidade e Liberdade

Recordando a notória postura marxista, o fato de o modo de produção capitalista ser tão adverso aos trabalhadores não impediu que Marx reconhecesse seu traço revolucionário, porque, pelo menos teoricamente falando, toda passagem de modo de produção acarreta processo revolucionário, pois muda a relação infra-estrutural. Pp.84-84 – Atualmente, outra discussão similar está em campo [...]. Trata-se da ideia de Sen de definir desenvolvimento como liberdade1, no contexto de defesa bem articulada da distinção dentre fins e meios. O mercado passa para a condição de meio, por mais fundamental que possa/deva ser considerado, tornando-se fim o que o autor chama de capability, ou seja, competência política. Reconhece que vivemos hoje com opulência sem precedentes, dentro de um mundo caracterizado também por mudanças marcantes além da esfera econômica. A democracia tornou-se forma predominante de governo, e conceitos de direitos humanos e liberdade política fazem parte da retórica prevalecente. A expectativa média de vida ampliou-se consideravelmente. O fenômeno da globalização liga regiões diferentes do planeta, por conta não só dos negócios, comércio e comunicação, mas igualmente em termos de pensamentos interativos e ideais. Todavia, reconhece igualmente que vivemos em um mundo com privação, destituição e opressão marcantes. Há muitos novos e velhos problemas, incluindo a persistência da pobreza e o atendimento precário das necessidades elementares, ocorrência de fome e vasta carência nutricional, violação das liberdades políticas e básicas, negligência extensiva dos interesses e organizações das
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SEN, A. 1999. Development as freedom. Nova York, Alfred A. Knopf.

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mulheres, atentados crescentes ao ambiente e à sustentabilidade da economia. A confiança no mercado está se esgotando, embora o discurso neoliberal tenha sido conclamado para recuperar as virtudes esquecidas do livre mercado, como verdadeira “superstição”, no dizer de Sen. Desenvolvimento significa superar todos esses problemas. P.p86-87 – Desenvolvimento pode ser visto como processo de expansão das liberdades reais que as pessoas desfrutam. Focar sobre as liberdades humanas contrasta com visões mais estreitas do desenvolvimento, tais como identificar o desenvolvimento com o crescimento do produto nacional bruto, ou com o aumento da renda pessoal, ou com industrialização, ou com avanço tecnológico, ou com modernização social. Crescimento do produto nacional bruto ou das rendas individuais podem, por certo, ser muito importantes como meio para expandir as liberdades desfrutadas pelos membros da sociedade. Mas as liberdades dependem também de outros determinantes, como arranjos sociais e econômicos (por exemplo, facilidades para educação e cuidado com saúde), bem como direitos políticos e civis (por exemplo, a liberdadede participar em discussão e questionamento público” (p.3). Trata-se de voltar a atenção para os fins, mais do que para os meios, expressando a reação contra a tendência liberal marcante de fazer dos seres humanos instrumento do mercado. “Liberdade é central para o processo de desenvolvimento por duas razões distintas: a) razão avaliativa: a avaliação do progresso deve ser feita primariamente em termos se as liberdades que as pessoas têm são aumentadas; b) a razaão da efetividade: o desempenho do desenvolvimento é profundamente dependente da iniciativa livre das pessoas” (p.4). Assim, para decidir se existe ou não desenvolvimento, o critério mais fundamental é apreciar se as liberdades das pessoas estão sendo incrementadas, e, a seguir, constatar a congruência entre desenvolvimento e iniciativa livre dos indivíduos, porque a expectativa é que o desenvolvimento decorra da liberdade. “A habilidade do mercado como mecanismo para contribuir com crescimento econômico elevado e com progresso econômico em geral tem sido largamente – e corretamente – reconhecida na literatura contemporânea sobre desenvolvimento. Mas seria equívoco entender o lugar do mecanismo do mercado só em termos derivativos. Como Adam Smith observou, liberdade de troca e transação é parte e parceira das liberdades básicas que as pessoas têm razão de valorizar” (p.6). O laivo neoliberal reponta facilmente na expectativa de que com regra é possível combinar mercado capitalista e liberdade, seja pela via da suposição de que o mercado capitalista é o modelo universal, seja porque deve ser o mercado mais aproximável das liberdades individuais. “É difícil pensar que qualquer processo de desenvolvimento substancial possa ser feito sem uso extensivo de mercados, mas isto não exclui o papel do suporte social, regulação pública, ou

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presença do Estado quando podem enriquecer – mais do que empobrecer – as vidas humanas” (p.7). Pág.88 – Toma como exemplo a questão do emprego e do desemprego, vista quase sempre como mera relação de mercado. “Desemprego não é apenas deficiência de renda que pode ser corrigida por transferências feitas pelo Estado; é também fonte de efeitos debilitadores de muito longo alcance sobre a liberdade individual, iniciativa e habilidade. Entre os múltiplos efeitos, o desemprego contribui para a „exclusão social‟ de alguns grupos, e leva a perdas de auto-sustentação, autoconfiança, e saúde psicológica e física (p.21). Preocuparia mais, assim, a falta de oportunidade na vida do que a falta de recursos materiais. Pág.89 – Prevalecem, comumente, duas visões de desenvolvimento: uma o vê como processo selvagem ou de dura disciplina; outra como processo amigável. Sen tende para a segunda postura, pois as finalidades da vida não podem esgotar-se em procedimentos instrumentais. Pág.90 – O que a perspectiva da competência política faz na análise da pobreza é aprimorar o entendimento da natureza e causas da pobreza e da privação, empurrando a atenção primária além dos meios (em particular daquele mais superdimensionado, que é renda) para os fins que as pessoas têm razão de perseguir, e, correspondentemente, para as liberdades de ser capaz de satisfazer a tais fins” (p.90). Esta argumentação parece clara no plano lógico, já que a noção de meios se coloca em patamar mais elevado que a de meio, ainda que os fins não justifiquem os meios. Menos ainda, porém, os meios podem tornar-se fins. Neste sentido, o mercado é claramente meio e deve estar a serviço dos fins, que Sen define como liberdade ou competência política. Pág.91 – “Educação básica melhor e cuidado de saúde aprimoram a qualidade de vida diretamente; também incrementam a habilidade das pessoas de ganhar renda e de estar livres da pobreza de renda igualmente” (p. 90). Dá o exemplo de Kerala (estado da Índia), marcado por baixa renda per capita, mas boa redistribuição, onde se confia mais na expansão da educação básica, cuidado de saúde e distribuição equânime da terra do que no acesso à renda. “Só a redução da pobreza de renda sozinha não pode ser possivelmente a motivação última de política antipobreza.” Não se pode confundir meios e fins, como se a importância da educação fosse apenas de melhorar a renda. “As conexões instrumentais, mesmo sendo importantes, não substituem a necessidade de entendimento básico da natureza e características da pobreza” (p.92). Pp. 93-94 – Acredita que é possível combinar democracia e crescimento, começando por constatar que o autoritarismo não funciona bem como se imagina por vezes. Argumentos

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empíricos não sustentariam a tese do conflito inevitável... “Direitos políticos e civis, especialmente aqueles relacionados em garantir clima aberto de discussão, debate, crítica e dissensão, são centrais para o processo de geração de escolhas informadas e reflexivas” (p.153). Democracia não é algo automático, mas é fundamental para o desenvolvimento. Por fim, mostra que é mister superar a visão do “capital humano” em favor da competência humana, já que o primeiro volta-se para a produtividade, enquanto o segundo para a liberdade. Pág.95 – A referência fundamental, para nosso ponto de vista aqui, é que pobreza política é mais preocupante que a pobreza material e a superação daquela é mais estratégica que desta, embora não se trate de “duas” pobrezas, mas de faces do mesmo processo de exclusão social. 8 – Contradições da Ajuda Pág.97 – Assim como o discurso sobre solidariedade tende a ser daqueles que a obstaculizam, também o da ajuda tende a ser daqueles que a usam para dominar. Dizia já que, na lógica dialética da emancipação, ninguém, em condições normais, realiza seu processo de libertação sem a ajuda de outros, ainda que o processo implique, mais que qualquer coisa, saber libertar-se também desta dependência. Emancipação total é quimera e, no fundo, prepotência pelo avesso. Trata-se, assim, de buscar certo meio termo, capaz de equilibrar a necessidade de ajuda com a prevalência da emancipação. Pp.98-99 – Toda relação humana implica pelo menos outra pessoa e, como somos constituídos para viver em sociedade, “necessitamos” destas relações, o que já implica alguma dependência. É claro que existe também autêntica generosidade, onde prevalece o altruísmo. Em termos dialéticos, procura-se entender que a dinâmica desta relação se deve a sua polarização histórica e estrutural. Relações iguais seriam paralelas ou a mesma coisa. As pessoas, em si, são iguais – perante a lei, por exemplo –, mas na prática, quando se relacionam, também se medem, confrontam, discriminam. Se as pessoas fossem, de fato, na prática, iguais, não precisaríamos da lei. A necessidade de leis, digamos, dos direitos humanos, expressa, mais que tudo, a prática da discriminação. Na expectativa funcionalista, a sociedade é sobretudo sistema integrador, complementar, adaptativo, predominando o consenso sobre a dissensão. Na postura dialética, predomina o conflito, não no sentido negativo destrutivo, mas no sentido construtivo da unidade de contrários, tipicamente dinâmica porque polarizada. O que une ou aproxima as pessoas não é apenas atração somatória, mas relação contrária, em parte sempre divergente,

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inconfundivelmente individual, na qual as diferenças se tornam também desigualdades. As relações sociais não são reprodutivas, no sentido da mera repetição, mas produtivas, no sentido da mudança como algo estrutural, além de histórico. Podemos colocar isto também no contexto do poder: o fenômeno do poder é intrinsecamente constituído de desigualdade, não apenas de diferença, porque se não existir um lado que predomina e outro que se submete, não comparece o fenômeno, sobretudo sua dinâmica. Em teoria, as culturas, por exemplo, são apenas diferentes, nunca inferiores ou superiores. Na prática, quando se relacionam, o confronto surge de forma natural, porque a dinâmica dialética imediatamente se instala e comanda o intercâmbio1. Pág.100 – Cita frase dura de Przeworski:
“A ideologia neoliberal, emanando dos Estados Unidos e de várias agências internacionais, prega que a escolha é óbvia: existe apenas um caminho para o desenvolvimento, e deve ser seguido... Todavia, se um marciano fosse indagado a apontar os sistemas econômicos mais eficientes e humanos na Terra, certamente não escolheria os países que confiam mais nos mercados. Os Estados Unidos são economia estagnada, na qual os salários reais estão constantes por mais de uma década e o ingresso real dos 40% mais pobres da população declinou. É sociedade desumana na qual 11.5% da população – por volta de 28 milhões de pessoas, incluindo 20% de crianças – vivem na pobreza. É a mais velha das democracias na Terra, mas tem uma das mais baixas participações de voto no mundo democrático e a maior população per capita na prisão do mundo” (p.57).

A subserviência ao mercado liberal aparece sobretudo na ideia obsessiva da educação como investimento, à luz do capital humano, considerada teoria perfeita. Como víamos, Sen se opõe a isto, por conta de sua definição de desenvolvimento como liberdade. Aprender deixa de ser meta prioritária, priorizando-se simples frequencia. Não se promove o lado crítico da educação, apenas a eficiência. Sobretudo ocorre redução da aprendizagem à instrução bancária, no contexto reprodutivo mais frontal.
Pág.101 – “A retórica apaixonada de McNamara criou a impressão de que o Banco estava se concentrando em combater a pobreza, mas suas estatísticas mostram outra coisa. A maior parte dos US$ 77 bilhões de empréstimos feitos durante seu reinado sustentou a industrialização através de projetos de infra-estrutura tradicional: estradas, represas, oleodutos, portos, facilidades de transporte, e coisas do gênero. Menos de 10% foram para educação, saúde, planejamento familiar, suprimento de água, e outros programas que poderiam ajudar o pobre diretamente. Nesta categoria, além do mais, a maior
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FOX, C. 1999. “The question of identity from a comparative education perspective”. In: ARNOVE, R. F. & TORRES, C. A. (Ed.).1999. Comparative education. The dialectic of the global and the local. Nova York, Rowman & Littlefield Publishers, p. 135-147.

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parte dos recursos foram gastos em construção e na importação de equipamento de alta tecnologia, não em provisão de serviços” (p.106).

Pp. 103-104 – E conclui Caufield:
“O meio século passado de desenvolvimento não favoreceu as pessoas mais pobres, nem os países mais pobres. Antes, pagaram caro – e seus descendentes continuarão a pagar caro – pelos benefícios desproporcionadamente pequenos que receberam. Por outro lado, há muita gente que se aproveitou do desenvolvimento. Certamente, o Banco como burocracia prosperou, bem como as burocracias nacionais e internacionais – com as quais fizeram negócios. Muitos chefes de governo, especialmente aqueles que governam sem suporte da população, puderam contar com o Banco para suprir os fundos que não teriam encontrado em outro lugar” (p.338).

Como busquei mostrar em outros momentos, a pobreza tem indisfarçável charme para esta tecnocracia desvairada, tendo se tornado refinado negócio de privilégios1. O pobre, como sempre, fica de fora, é sobretudo massa de manobra. Se isto ocorre em instituição dotada de grande reconhecimento público e, mais ou menos, visível à sociedade, o que não ocorre por baixo dos panos em propostas de ajuda manejadas pelos donos do poder em nossas sociedades! Parece-me claro que se a direita começa a interessar-se por coisas como renda mínima, solidariedade e outras bijuterias sociais, é porque algo mais que suspeito está por trás. O que menos está em jogo é combater a pobreza. São táticas sibilinas e efetivas de cultivo da pobreza política. Com certeza, existem assistências sociais que cultivam a pobreza política, e diria que predominam no cenário brasileiro. Muitos cursos de Serviço Social produzem discursos excitados em torno da cidadania popular, por vezes com tons marxistas mais ou menos perceptíveis, mas, na prática, realiza-se a assistência que mais convém ao sistema, não aos excluídos. É muito difícil indigitar alguma política social que seria autêntica minimamente no campo estatal, mesmo aquelas decorrentes das determinações

constitucionais como da LOAS ou do ECA. Tudo é miseravelmente pequeno, irregular, mal organizado, residual, caricatural. O apelo emancipatório apenas enfeita o discurso, prevalecendo no dia-a-dia a assistência como mau-trato do pobre. Alguns traços desta imbecialização são:

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DEMO, P. 1980. Pobreza sócio-econômica e política. Florianópolis, Ed. UFSC. DEMO, P. 1998. Charme da exclusão social. Campinas, Autores Associados.

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a) Promessas para além das reais possibilidades, como é comum nas campanhas políticas, mas igualmente nos programas estatais; abuso de iniciativas assistenciais nas campanhas e programas como tática de propaganda, aliciamento, atrelamento. b) Cidadania assistida prevalecente, no sentido de que é garantida e dada pelo Estado, em particular por intermédio de seus agentes mais diretos, que são geralmente os assistentes sociais, implicando para o pobre o desarme do controle democrático. A mesma ingenuidade dos agentes estatais, que imaginam servir à população servindo ao Estado ou ao sistema, é repassada para os pobres, à medida que se solidifica neles a acomodação extremamente perversa na condição de eternamente assistido; c) Pág.105 - Assistencialismos de toda ordem, que não só não dão conta das necessidades materiais mais urgentes dos excluídos, como, sobretudo, se tornam o engodo corriqueiro para evitar qualquer tipo de confronto. d) Ideologias alienantes, como a da solidariedade, pacto social, consenso nacional, ordem e progresso, temperadas com farelos assistenciais, repassando a ideia fátua, no fundo perversa, que tamanha exclusão social se arruma com os mais variados “jeitinhos” distributivos e que servem, sobretudo, para evitar a necessidade inelutável de redistribuição da renda e do poder de sentido radical; e) Linguagens de esquerda no contexto da direita, como é o caso notório da LOAS e do ECA, e que, no fundo, tendem a enfeitar a direita, deixando os pobres onde sempre estiveram, ou seja, tutelados como massa de manobra. A valorização constante de “avanços verbais” nas leis faz também parte do arsenal de maldades públicas da direita, que sabe engenhosamente combinar avanços verbais com total falta de recursos financeiros; f) Superdimensionamento do Estado como patrono da cidadania popular, esquecendo que se trata de Estado capitalista e que jamais tivemos algo similar ao Welfare State, sem falar que, com o advento do neoliberalismo, o Estado assumiu, com ostensiva verve, os traços capitalistas mais duros, apenas em parte adocicados pelo Welfare State; g) Parasitismo estatal, não no sentido neoliberal, mas no sentido marxista do Estado privilegiado à custa da sociedade, tendo como um dos efeitos mais típicos a oferta pobre para o pobre, ou, quando qualitativa, apropriada pelos ricos; se temos de criticar o parasitismo do Banco Mundial, que encontrou na pobreza via promissora

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para arrecadar privilégios monumentais, não há por que não vituperar este mesmo efeito nos planejadores e gestores das políticas assistenciais. Pág.106 – Muita assistência, enquanto dá pedaço ridículo de pão passado, mofado, mata a consciência do pobre. 9 – Assistência e Educação Pp.107-108 – Do ponto de vista da cidadania emancipada, a assistência é parte integrante como direito radical à sobrevivência. Será inútil procurar dicotomia entre ambas, pois uma necessita da outra naturalmente, como vimos. Entretanto, permanece entre elas uma relação tipicamente dialética e complexa, tal qual a relação sempre problemática entre ajuda e autonomia. Um dos programas importantes em que a relação entre educação e assistência se tornou bem visível foi o da “bolsa-escola”. De modo geral, dizia-se que o centro da proposta estava na educação e que os aspectos assistenciais seriam complementares, ainda que muito importantes. Nesta maneira de ver já aparecia o erro comum de considerar a assistência apenas como algo “complementar”, enquanto, na verdade, é parte integrante fundamental da política social. Para famílias muito pobres, este tipo de “renda mínima” pode sempre ser justificado como direito de sobrevivência, portanto necessário no programa. Outro problema é que as famílias acabam valorizando mais a assistência que a educação, pela razão corrente de que as premências materiais são percebidas como mais imediatas. O que deveríamos dizer é que o contexto mais abrangente do programa era educativo como estratégia de fundo, incluindo naturalmente – pela própria integridade do programa – o cuidado com a assistência. Os efeitos da assistência são, por sua vez, mais visíveis, controláveis, razão pela qual podem ser melhor tratados e percebidos. As expectativas educacionais – consideradas mais estratégicas – aparecem apenas a longo prazo, embora possam ser extremamente favorecidas por iniciativas assistenciais bem conduzidas. Pp.109-110 – Chamamos de “contradição performativa”, na linguagem de Habermas e Apel, aquela que faz exatamente o contrário do que prega o discurso1. O pedagogo facilmente declara-se adepto da “educação transformadora”, à sombra de Gramsci e Freire, mas, na prática, facilmente “imbeciliza” os estudantes. Da mesma forma, muitos assistentes sociais se dizem comprometidos com a cidadania dos excluídos, mas nada mais ou muito pouco fazem
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HABERMAS, J. 1989. Consciência moral e agir comunicativo. Rio de Janeiro, Tempo Brasileiro.

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do que contribuir para o status quo. É muito difícil não ter de aceitar que, por exemplo, nas entidades que tratam de adolescentes infratores, não se “imbecilizem” os excluídos, com a agravante de que saem delas ainda mais “preparados” para a vida do crime. Neste caso, temos o concurso perverso dos dois lados: da assistência assistencialista e da pedagogia imbecilizante. Entretanto, tenho de reconhecer que isto é fácil de criticar, muito difícil de consertar, sobretudo tomando-se em conta o contexto do capitalismo neoliberal. Trabalhar em entidades assistenciais e educacionais implica, em termos de política social emancipatória, aceitar o desafio de confrontar-se com o sistema. Este confronto pode assumir níveis variados, de acordo com a ideologia, convicção, militância do “intelectual orgânico”, cabendo à consciência histórica de cada um decidir até onde quer ou pode ir. Por exemplo, a falta crônica de recursos nas entidades de assistência precisa ser claramente denunciada, as autoridades questionadas, os programas revistos, o que sempre implica risco de desemprego, para dizer o mínimo. Até certo ponto é preciso decidir se estamos a serviço da população ou da primeira-dama. Não se trata de “moralismo”, até porque as convicções merecem respeito, desde que não sejam extremistas. Mas é incongruente manter discurso plantado na cidadania e praticar o assistencialismo friamente. Pág.111 – Seria equívoco enorme imaginar que assistentes sociais e pedagogos sejam os principais responsáveis pelo efeito contraditório dos programas sociais respectivos. Mas estamos envolvidos na trama. Precisamos saber disso autocriticamente, sobretudo saber reagir. Ou, pelo menos, mudar o discurso, para que a contradição performativa não seja tão flagrante. Como regra, todo processo emancipatório precisa de assistência, mas precisa sobretudo da competência política de manejar esta assistência, principalmente de a dispensar em nome da autonomia. Emancipar, por isso, é bem mais decisivo que assistir. Pp.112-113 – Assim como, em educação, apenas alfabetizar não basta 1, também porque é sempre possível “imbecilizar”, na assistência ocorre o mesmo: dar benefício pode ser muito prejudicial ao pobre. “Ajudar o pobre” é menos simples assistência do que ato político complexo e contraditório, que pode tanto engrandecer o pobre e o assistente social, bem como denegrir por completo a ambos. No exemplo da “bolsa-escola”, esta foi uma

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KICKLING-HUDSON, A. 1999. “Beyond schooling: adult education”. In: ARNOVE, R. F. & TORRES, C. A. (ED.). 1999. Comparative education. The dialectic of the global and the local. Nova York, Rowman & Littlefield Publishers, p. 233-255

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lacuna comprometedora, pois os resultados históricos poderiam insinuar que, enquanto as mães obtiveram ajudas materiais consideráveis, muito pouco “aprenderam” para a vida. Por fim, é importante investir na cidadania do pobre como “educador”, ou seja, facilitador, motivador, orientador, não como preceptor. Instituições de assistência se notabilizam pela tendência de dar as coisas na mão, chegando a organizar as comunidades de fora para dentro. Em educação é comum que ter filho na escola pública faz dos pais automaticamente membros da associação de pais e mestres. Esta “cidadania automática” é ridícula e serve apenas para a fachada pretensamente democrática das escolas. O critério mais fundamental sempre é a autonomia do excluído, inclusive diante do assistente social, o que significa dizer remar contra a corrente oficial de atrelamento das associações, sem falar nas dificuldades de qualidade organizativa, militância sempre renovada, controle democrático. Eis o desafio maior do “intelectual orgânico”: ser autêntico a ponto de fomentar o controle democrático também sobre si mesmo. É também a beleza e a dificuldade da democracia.

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