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Portugal Contemporaneo vol. 2 - Oliveira Martins

Portugal Contemporaneo vol. 2 - Oliveira Martins

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OLIVEIRA MARTINS, J. P. - Portugal contemporaneo. 3ª ed. Lisboa: A.M.Pereira, 1895.
OLIVEIRA MARTINS, J. P. - Portugal contemporaneo. 3ª ed. Lisboa: A.M.Pereira, 1895.

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03/24/2013

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J
•,
..
J. P. OLIVEIRA MARTINS
3.
6
EDIÇÃO (POSTHUMAJ
e com as alterações e additamentos deixados pelo auctor
TO:hi.I:O :I:I
LISBOA
LIVRARIA DE ANTONIO MARIA PEREffiA- EDITOR
5e.- 52,-Rua Augusta-52, 54
1895

PO RrflT -Lc\.JJ
C f) N 1
1
-p lt 1\ l\ ()
LlYRO QUARTO
A.. A...N'" LIBERA...L
I
O H E <-LA_ B O FE
L - A SESSÃO DE lti34-!>
No dia 15 de agosto, D. Pedro abriu solemne-
mente as camaras. A physionomia da assembléa era
diversa em tudo da de 26-8. Bem se póde dizer
que não estava alli a maior parte da nação, exter-
minada pela guerra, ou jazendo esmagada sob o
pé do vencedor. Era o Portugal-novo que reinava,
sobre os destroços e ruínas da nação antiga. A ca-
mara reunia-se n'um d'esses conventos saqueados,
onde á pressa se levantou uma sala com paredes
pintadas de azul e branco e um tecto de vidraças
a que a rhetorica posterior chamou abobadas. Tudo
era novo e cheirava ainda ás tintas, como o sys-
tema improvisado. D. Pedro, o faxina das trin-
PORT. CONT. - TOM. II
1
..
2 L. IY.- A AKARCHIA LIBERAL-I
cheiras do Cf'rco, vira-se o mestre das obras par-
lamentares, t' um desembaraço egual fez com que
a casa se achal:!se tambem prompta a horas. Des- /.-:=
presando ministros e conselheir\)s, tratou a obra
com um rapaz havia pouco chegado de fch·a, o ar-
chitecto Possidonio. Este fel-a, e teve a idéa de
pôr nas paredes, como ornato, uns medalhões com
os nomes dos homens celebres de Portugal.
escreveu o do rnarquez de Pombal. E Z1nando os
ministi·os vieram vêr as obras exasperaram-se: eco
rnarquez lle PvrnLal! é lisongear Saldanha, meus
senhores.» Seria o architecto da opposição? Houve
conselho de ministros, em que se resolveu snppri-
mir allusão perfida, dando-se ordem ao ar-
chitecto para cobrir os nomes corn urna aguada
que em dia& hurnidos rnal esconde as letras dou-
radas subjacentes. rertpont. d.1 vida, etc.)
Tal el'êl, ainda depois dos accôrdos do
o receio que inspirava o chefe da opposição. As
carnaras iêlm abrir-se; e por mais que tivessem
feito, os ministros não tinham podido irnpedir que
o l\'Iinlw Luculico enviasse ao parlamento l\Ianuel
Passos, chefe syrnpathico e ingenuo de uma oppo-
sição pessoal ao regente e ao seu governo, e de
urna opposiçào forrnal ás doutrinas da CARTA. Os
saldanhistas possuiam uma especie nova de LIBER-
DADE, e propunham-se decididamente a fazei-a
vingar sobre as ruinas da anterior. Fóra da ca-
mara, o .1.Vacional, do Rio-Tinto que não gozava
de boa fama, apoiava a opposição parlamentar.
Constituiu-se a camara e começou a guerra. A
primeira batalha foi a da questão Pizarro. O coro-


1.- .-\ SESSÃO DE

nel, eleito deputado por Traz-os-l\Iontes, viera
para o reino, d'onde o expulsava um for-
• mal e pessoal do regente, e filra preso e encerrado
em S. Julião. Era um attentado á immunidade par-
lamentar, clamava a opposição; e o gon·rnu res-
pondia que a filra nulla pela inelegibilidade
de um homem pronunciado por crime de alta trai-
ção. taes formulas legaes se encobria de parte
a parte a verdadeira questão : defender Pizarro,
era atacar em cheio D. Pedro, seu pessoal inimigo.
Levado pelo impeto fle uma séria crença na
liberdade, de uma esperanÇa formal nas institui-
ções, Passos que lucta,·a á frente, como já 'Terda-
deiro chefe da opposi<;ão, embora Saldanha se ti-
vesse sentado no banco mais alto da mais extrema
esquercla: Passos ahandonava o pretexto,
e punha nitidamente a questão. A camara era
coisa nenhuma, nem representava a opinião do
paiz. Xã.o houvera liberdade nas eleições. A cen-
sura prévia aguilhoava as manifestações do pensa-
mento. havia liLerdade de imprensa, nem ca-
maras municipaes, f,)ra Lisboa e Porto : apenas
commissões nomeadas. Durante as eleições ti-
nhalll.-Se suspendido as garantias. - Qne se devia
fazer? Era claro, simples e urgente: estabelecer
a liberdade de imprensa, supprimir a suspensão
de garantias, eleger camaras municipaeP., e por fim
dissolver o parlamento, convocando côrtes consti-
tuintes. (Disc. de 25 de agosto)
Pois a constituição não estava feita? "Não, por
fórma nenhuma: esse corpo de doutrina que fôra a
bandeira de uma guerra e em cujo nome se tinha
invadido e revolucionado o reino, era renegado
por uma opposição enthusiasta e moça, a quem o
futuro sorria. Ai de :\Iousinho, que estava certo de
ter encontrado a fórmula verdadeira e definitiva!
4 L 1\".- A .-\'\.-\KCHL\ Lli3ER.-\L-I
E quem era o culpado de tão flagrantes infra-
cções á doutrina liberal, segundo a entendia a op-
posi<;ão? Quem, mais do que esse ministerio obno-
xio- para não dizer o nome de D. Pedro, com
o qual todos sabiam que o ministerio fazia um "I
Depois da convenção de elles, oppo-
si<;ão, queriam a paz, a liberdade e a ordem ; mas
os ministros (leia-se: o regente) deram á nação, em
premio de seus serviços, o regime da arbitrarie-
dade, e a honra de pagar sessenta contos annuaes
ao tYranno vencido. - cc () infeliz coronel Pizarro
ao ponto -de partida) jaz n'uma mas-
morra porque o ministerio actual se constituiu im-
pio testamenteiro d'aquelle Coriolano tres Yezes
traidor á patria)}. O Coriolano de Passos (a quem
a educação jacobina inspirava nomes romanos 1 era
o fallecido Candido José Xavier que pegára em
armas contra a patria.- Acamara, de pé, clamou
por ordem. IDisc. Je :!5 Je agostol
Era o que todo o reino pediria, se tivesse alma
para pedir alguma cousa. A metade vencida gemia
porém, esmagada; e a ,·encedora borborinhaYa
tonta na faina de disputar o despojo da guerra.
Cada qual chamava a si uma parte maior ou me-
nor da victoria, considerando-se com direitos par-
ticulares adquiridos. Havia uma grande voracida-
de ; mas acima dos que faziam das opiniões o ro-
tulo da sua fome, erguia-se Passos, o stoico, exigindo
a victoria dos princípios, não a dos homens e seus
desejos e ambições. Outros lançavam-se desespera-
dos ao ministerio e ao regente, «porque essa roda
comia tudo»; elle dirigia o côro das imprecações,
.
'..r

1.- .-\ SESS.-\0 DE ]ti3-!-5 5
mas sereno, com os olhos fixos na imagem etherea,
nebulosa das suas cogitações e sonhos: uma libt=>r-
dade candida, pura, pacifica!
Entrou na camara a questão da legalidade com
que D. Pedro exercera e exercia o papel de re-
gente, pGmo das discordias antigas e sabidas da
emigração; e Passos dizia: ((Eu sou um impla-
cavel inimigo das dictadnras )) . Como era novo
ainda, e crente, o homem que s<Í com essa dieta-
dura detestada veiu dois annos depois a outorgar
a sua liberdade !-E falseando um pouco os factos,
continuava «que, porém, se no momento de Paris
fosse necessario um plebiscito para elevar o impe-
rador á terrível dignidade de dictador, todos elles,
opposição, estavam promptos a assign:il-o com o
proprio sangue. Agora o caso mudava : era mistér
voltar á legalidade, e que se reconhecesse a sobe-
rania do povo nas suas assembléas.-Referindo-se
logo ao príncipe, falava em termos que na bocca
de outro seriam crueis ironias, e na d'elle eram de-
sejos ingenuos, tanto a virtude se confunde com
a simplez! « Sacrificae o pae da patria! .. E quan-
to o conheceis pouco e mal! S. )I. I. é um prínci-
pe philosopho. Cansado da purpura para gozar a
vida privada, com que philosophia não rejeitou
ainda ha pouco a corôa imperial ! I> 1Disc: de :!5 de agosto)
Cansado da vida, golfando sangue, estava pros-
trado no leito o desilludido príncipe que morreu a
tempo. Perante este facto que trazia um novo ele-
mento de complicações á trama cerrada dos emba-
raços desencadeados pela liberdade, Palmella, com
uma auctoridade que era soberana, pois já lh'a
não disputava o ex-emulo Saldanha, interveiu a
tempo: demittiu o ministerio, collocou-se-lhe nas
cadeiras, dando a rainha por maior, afim de preen-
cher esse logar vago a que o liberalismo chama
li
L. 1\".- A A:'\Al<.CHIA LIBERAL-I
throno. Kinguem melhor serYia para isso do que
uma creança apenas mulher, pessoa sem querer,
symbolo t>m vez de realidade, como os vultos de .
palha que se põem nas cearas para afugentar os
pardaes vorazes. Estonteada, ainda a opposição
clamou; e nos pares, Fronteira e Yilla-Real, Lu-
miares, Loulé e Taipa, votaram contra a maiori-
dade da rainha, pedindo a regencia da Infanta D.
Isabel 1\laria. Taipa dizia alto e hom som que o
rninisterio era uma camarilha feita para devorar o
paiz á sombra de urna creança. A infeliz CARTA,
já violada na questão da regencia, era segunda Vt:>Z
rasgada na da maioridade da rainha!
Enterrado D. Pedro, caído o seu velho rnmis-
terio, extinguia-se um pedaço do passado incom-
rnodo : começava com a rainha a vida nova parla-
mentar-liberal. ~ I a s , se para os radicaes a cova
engulira o tyr anuo regente, para os liberaes o es-
pectro de D. l\Iiguel mantinha-se-lhes perante a
vista esgazeaJa, ainda antes da vinda da noticia
do protesto do exilado em Genova.
K o ardor da guerra, abandonadas todas as idéas
stoicas de l\Iousinho, decretara-se (31 de agosto
de 3;J) a expropriação de um partido pelo outro,
sob o nome ele Indemnisações. Tinham-se tornado
responsaveis os auctores da usurpação (todos e
cada um in solidum., por suas pessoas e bens) pe-
las perdas e damnos causados pela usurpação. Os
bens miguelistas eram sequestrados e vendidos em
praça: isto é, transferidos por nada aos arrema-
tantes liberaes, quando não eram adjudicados dire-
ctamente aos vencedores lesados por não haver na
c
1. -A SESSÃO DE 183-!-5 7
praça lanço egual á m·aliação. Tinham-se creado
commissões avaliadoras das perdas e damnos, as
• quaes davam aos interessados cedulas acceitaveis
como dinheiro nas arrematações dos bens.
D'este modo se fartou muita gente, e o devorar
teria continuado, se, ainda antes da intervenção
das camaras, não tivesse intervindo o embaixador
inglez, exigindo o terminar da faina. Parara-se
pois ; mas o decreto não revogado estava suspenso
sobre a propriedade dos vencidos. Considerava-se
indispensavel essa ameaça, porque o medo de uma
restauração era grande. Circulavam boatos aterra-
dores. Dizia-se que D. l\Iiguel desembarcara em
Hespanha, e atravessara a serra ::\Iorena com
40:000 homens. A guerra carlista ardia para lá
das fronteiras, e, se vencesse, venceria em Portu-
gal o miguelismo. Havia uma emigração considera-
vel para os exerci tos cm· listas: tão grande que,
apesar da LIBERDADE, se propunha na camm·a a
negação de passaportes aos emigrantes. Fervia o
roubo, o assassinato, a desordem, a vingança, por
todo o reino ; e a nau liberal, fundeada no porto,
amarrada com as ancoras da quadrupla alliança,
ainda balouçava como n'um mar banzeiro. A tri-
pulação não se considerava salva. Nas guardas na-
cionaes só se admittiam os fieis a D. l\Iaria, ini-
migos sabidos de D. 1\iiguel.
O decreto das indemnisações confiara ás cama-
ras municipaes as funcções de tribunal supremo
para as causas disputadas; e coube a José Passos,
sosia burguez do irmão poeta, a honra de atacar
de frente, pela primeira vez, a iniquidade. O Porto
elegera-o presidente do seu primeiro senado em
março (34) e elle recusou-se formalmente a exer-
cer as funcções de juiz n'esses processos de es-
poliação. A camara foi dissolvida, mas tambem
8 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL- I
o decreto suspenso até que o parlamento resol-
vesse.
1
O parlamento decidiu, abolindo-o. Ergueu-se, ,
para o condemnar, l\Iousinbo que abolira no codigo
penal o confisco, na Terceira os sequestros, e no
Porto não consentira se bolisse na arca santa da
liberdade individual. Ergueu-se Passos, falando
em paz, em amor, convidando a nação a um abra·
ço no seio da democracia. Ergueram-se Rodrigo,
Seabra, e por fim, vencido, o proprio Agostinho
José Freire que fôra o auctor da lei da vindicta .
.Já a esse tempo (janeiro de 36) os medos se
iam dissipando. Viera o "protesto de D. 1\[iguel,
mas não lhe respondera uma revolução : apenas
lhe respondeu a camara, rasgando tambem a con-
venção de Evora-monte, banindo-o e á sua gera-
ção do territorio portuguez, declarando-o revel e
traidor. (Decr. de '9 de dezembro de 34). Assim o novo Por-
tugal via desapparecerem de todo da scena os ul-
timos restos do passado. A estructura da nação
caíra ás mãos de l\Iousinho; D. Pedro acabara
n'uma golfada de sangue; D. l\Iiguel matava-o o
novo reino pela voz dos seus mandatarios. Come-
çava uma vida nova com o reinado da joven rai-
nha, a quem era mistér dar um marido, para ha-
ver herdeiros que satisfizessem a uma das formulas
do systema. Estava pois fundeada a nau do libera-
lismo? Oh., não! Principia agora uma viagem nova
1 Pela primeira n•t: tenho occasiáo de me referir ao interessante li-
vro do snr. Macedo. -n·acos da lustnria contempnrmzea ; e no decurso
d"este trabalho o leitor v e ~ < i quanto me valeram os subsídios que encerra e
de que me utilisd a mãos largas. Quando este facto me não auctorisasse a
confessai-o, obrigava-me a isso a nímia benevolencia com que, inspirado
por uma amisade que o levou a ver em mim meritos que não possuo, o
snr. Macedo me honrou dedicando-me o seu livro. Estas palavras são o
testemunho de um agradecimento que devia ser publico, assim como a
otferta o foi.

2. - CS BENS NACIONAES 9
para o navio c t ~ o commando numerosos pilotos
disputam- cada qual com sua carta, seu rumo,
• seu norte, sua bussola. Ha tantos destinos quantas
cabeças, e assim deve ser no governo da Anarchia ;
mas antes que a viagem comece, é mistér estudar-
mos os fastos da anarchia positiva, exprimindo a
realidade da doutrina nos primeiros momentos do
seu imperio.
::!. - OS BENS NACIONAES
A suppressão do decreto de agosto de 33 reti-
rava bruscamente da meza, onde os vencedores se
viam sentados com um appetite genuinamente por-
tuguez, o succulento serviço dos confiscos migue-
listas; mas Silva Carvalho, que auscultara os es-
tomagos, sentia a necessidade de os encher. De-
sertariam do Lanquete e talvez abandonassem a
causa, se se não substituíssem os pratos. Os peri-
gos eram muitos, a situação grave : o habil mor-
domo não hesitou. Apresentou-se ás camaras (_34)
com o plano da kennesse. As leis de l\Iousinho e
o decreto do ·mata-frades punham á disposição dos
famintos uma vasta ceara de propriedade, ceifada
a seus donos, dispersa em mólhos por todo o vasto
campo do reino assolado. Eram os bens dos con-
ventos, das capellas, commendas e mais proprieda-
des, da Corôa, da Patriarchal, da casa das rainhas
e da do infantado ; eram campos e palacios, alfaias
preciosas e mobílias riquíssimas: o espolio da na-
ção assassinada, avaliado em dezenas de milhares
de contos.
O ministro sabia que de varios modos se podia
utilisar esse domínio collectivo: mas que modo me-
lhor, mais util, mais urgente, do que saciar os ap-
petites vorazes, chamando em defeza do systema
10 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I
mal f?eguro os instinctos egoístas de todos os que
mais on menos escandalosamente se apoderassem
das parcellas do saque? Era sabido o que succedera-
á França republicana; e urgia tambem crear uma •
aristocracia liberal para pôr no logar das velhas ·
classes dominantes, arruinadas e demittidas. No
proceder do nosso estadista não havia apenas uma
commiseração pela fome dos seus clientes: havia
um pensamento politico, que seria i11instiça não
reconhecer.
Os bens nacionaes seriam vendidos em praça ;
porque essa publicidade e uma legalidade apparente
convinham para resaka; sem nada prejudicarem,
pois a praça ficaria deserta por não haver dinheiro
nem licitantes. Não havia dinheiro, é sabido; mas
havia os papeis em poder dos clientes, e esses pa-
peis recebia-os o Thesouro como dinheiro. Assim,
sem se bolir nos numeros nem na legalidade, obti-
nha-se o resultado desejado, porque o ministro não
dava os bens: dava os papeis com que elles se
iam comprar em praça. Esses papeis eram os tí-
tulos de divida pelo seu valor nominal, (um valor
fictício) eram o papel-moeda, os recibos de OI"de-
nados vencidos, os titulos de commendas e _direi-
tos de pescaria extinctos ; eram finalmente os roes
de indemnisações por perdas e sacrificios da guer-
ra: papeis extravagantes, contas onde grau-ca-
pitães chegaJ·am a sommar por centenas de mi-
lhares de réis as ferraduras perdidas de cavallos
mortos!
E' evidente que o ministro não confessava o
seu inteiro pensamento á camm·a; e insistia so-
bre as vantagens economicas do seu systema; an-
tecipando lucidamente os tempos ulteriores, queria
que as propriedades se fragmentassem no maximo
numero de parcellas, para dividir a riqueza. (V.
2. - OS 11
Prop. de J. S. Carvalho, sessão de 34) Dizia mais que a venda
dos bens nacionaes fomentaria o progresso, e d'ahi
.viria um augmento da decima com que se preen-
cheria o deficit assustador de ;):000 contos do exer-
cício de 3·4-5. Boas palavras, desmentidas porém
pelos factos. Toda a gente saLia e queria que os
bens se sem se retalharem, trocados
pelos títulos das indemnisações com que os próce-
res do novo regime tinham inchados os bolsos das
sobre-cazacas. Toda a gente sabia que para preen-
cher o deficit o habil ministro tinha outros meios,
mais commodos e praticos: pois não tinha o )Ien-
dizabal com a sua cohorte de banqueiros e agio-
tas? pois não era evidentemente melhor pedir di-
nheiro ao inglez, em vez de abandonar uma occa-
sião tão boa de enriquecer? A geração vencedo-
ra, conscia do grande serviço prestado á nação,
achava natural que as gerações futuras pagassem,
nos juros dos emprestimos levantados, uma parte
do preço de uma redempção inestimaYel. Ainda
lucravam, e muito!
Por isso ficaram sem echo todas as vozes, e á
frente d'ellas estava protestando. Uns
queriam que na compra dos bens se não admittis-
sem os famosos títulos das indemnisações; outros
queriam que o producto das vendas se applicasse
comesinhamente á amortisação das dividas; outros,
lamentando a ignorancia do povo, e considerando
a instrucção a melhor ancora da que-
riam, finalmente, que as propriedades da nação
se convertessem n'um fundo de instrucção· puLlica.
O governo encolhia os hombros compadecido da
ingenuidade boa dos utopistas, e ia vendendo,
'\endendo, queimando, queimando. E o numero
L. 1\".-- A A:XARCHIA LIBERAL-I
.das adhesões fieis e firmes á causa crescia, var-
rendo o medo de uma possível restauração do pas-
sado. Um comprava os campos de AlcolJaça, ex.-
pulsando de ];i a feliz população rural que os fra- •
eles tinham creado;
1
outro remia o seu antigo mi-
guelismo ficando com o Espirito-Santo de Lisboa;
outros em sociedade, tomavam si as lezírias
do Tejo e Sado; Palmella ficava com a serra da
Arrabida confiscada ao Infantado, que a confiscara
aos- duques de A v e iro no tempo de Pombal. Ter-
ceira tomava para si o Sobralinho de Alverca.
Era positivamente uma conquista :i maneira das
conquistas historicas. o que succedera
no tempo dos godos: uma expropriação dos venci-
dos pelos vencedores, salvo a franqueza da confis-
são, outr'ora manifesta sem rebuço, agora enco-
berta sob tiirmulas e sophismas de legalidade libe-
ral. E d'essa falta de sinceridade provinha uma
nova conseqnencia. Quando os cães disputam um
osso, ladram e mordem; e tambem n'esta faina do
devorar havia latidos e dentadas, denuncias for-
maes dos que tinham comido menos, contra os que
tudo queriam para si.
O escandalo das Lezírias provocava protestos
formaes das opposições. Os pares, os deputados,
Fronteira, Loulé, Sá-da Bandeira, os Passos e ou-
tros imprimiram (10-q de nov. de 35. V. os Protl!stos nos iornaes
do temroJ declarações contra o decreto do dia 3 que
I "Tudo ,;orna: e não se di,·isava redaço de terra sem lavoura: o sys-
tema das irrigações lomt>ardas era admirawlmento rercet-ido e executado·
Todas as resrirando um !:>em-estar industrioso, tinham hortas
t-em ,-e,.guardadas com seus meloae:; e at>oboras, sua lonte. e ceras. fi-
gueiras e macieiras em latadas. O,- camronezes bem vestidos. olhavam-nos
atfawlmente. rorque tinham o coração al-erto relo t>om trato, os celleiros
cheios, numerosos os ret-anhos. e nos frades de Akot>a.;a senhorios. nem
avarentos nem tyrannos.•• Rt•C()l/ectirms. etc. llj(l4l do au.::t. de Yathek.
(Heçkford.)
2. -OS BE:-.S ::\ACIO:S.U:S 13
punha á venda «por junto e n 'um s,'j lote todas as
propriedades nacionaes das margens do Tejo, de-
~ t'lominadas Lezírias e das margens do !';ado, deno-
minadas da Comporta)), mandando acceitar o lanço
de dois mil contos feito por mlla companhia. Era
urna infracção da lei de L .. l de abril, outorgada
para fraccionar a propriedade rural: era um_ se-
nhorio que se creava «onde podia haver cinco ou
seis centos de proprietarios livres').
Já então Saldanha, nas agonias do seu radica-
lismo, presidia ao gaLint:>tt-> chrwwrro e contra elle
voavam os tiros dos seus Yt>lhos amigos e defen-
sores de Paris, os Passos .. Ainda em 33, do Car-
taxo, quando talYt>Z já oscillasse entre a democra-
cia e a conservação, lhes escrevia para o Porto :
«l\linha mulher (que acaba de pariicipar-me que
está feita dama da ordem de Santa IzabelJ manda-
lhes dizer que quando vierem a Lisboa não quer
que tenham outro quartel senão a nossa casa."
122 de outubro; carta autogr. Corr. ined. dos Passos ã qual recorremos
mais uma ,·ez). Agora, porém, tinha já virado comple-
tamente de rumo.
Ia-se vendendo, vendendo sempre e bem, ape-
zar dos protestos. Já em agosto, o conde da Taipa
pedira na camara que se suspendesse a queima
até que se determinasse alguma ordem na venda
((porque não corresponde aos fins para que foi
determinada)). Fins? que fins? O unico fim posi-
ti,·o era dispersar as massas de propriedade que
podiam ser nucleos de contra-revolução; era con-
verter os tíbios, saciar os soffregos, tapar a bocca
aos maledicos, e consolidar o sentimento da satis-
fação universal na plenitude farta!
Em junho de 36 já havia realisados 5:266 con-
tos das vendas. E' verdade que o Thesouro rece-
bera apenas 2:158; mas o resto, ou 3:108, fôra a
L. IY.- _-\ _-\:XARCHIA LIBERAL-I
chnnt de ouro do governo, sob a f,'11·rna de títulos.,
indemnisações (:!:-!OOl, diYidas: papelada! E para
confirmar a sincéridade dos desejos do ministro; •
quando propunha se retalhasse a propriedade,
convém saber, além do caso das Lezírias, que es-
ses cinco mil contos das vendas se distribuíam por
GH2 compradores, IColl. do! contas da comm. inter. da Junta,
10 .te set. de 36)- o que dá a média de nove contos a
cada um. A' velha aristocracia da côrte e dos
mosteiros succedia urna aristocracia nova de aven-
turt>iros- os barões do castello de Chuchurmnelo!
'Garrett L
Sih·a CarYalho conformaYa-se com o mallogro
das suas idéas de economista, perante o exito do
seu plano de politico: via a clientella farta; e o
rubro Aguiar socegava: os frades não voltariam,
porque os herdeiros dos seus ha,·eres os haviam
de defender com a tenacidade do egoísmo. Cabia-
lhe a melhor parte da gratidão dos novos donos;
pois fôra elle quem; contra todos, redigira e pu-
blicára o decreto da aboliçã.o das ordens religio-
sas, cujos bens eram a melhor parte do opíparo
despojo.
1
.
1 Desde muito qul!. no conselho, Aguiar, contra a opinião da maioria,
insta,-a pela at>oliçáo dos conventos. :\'o dia em que em se
assignaYa a conYenção, terminando a guerra, Aguiar Yoltou a insistir e
tornou a ser ,-encido. D. Pedro, porém, reteYe-o. depois da saída dos coi-
legas, e ordenou-lhe •lue lauasse o decreto. O ministro foi do paço para
a imprensa. ahi redigiu o decreto, que se compõz e imprimiu em segredo,
a sua ,-ista. e não saiu da imprensa senão quando o Diario saiu tamt>em.
Os collegas sout>eram. pois, pela folha, da decisão tomada, e que, a não
ser assim, nunca se elfectuaria.- Comm. verbal de Vuarte .\",r;.areth.
que a houvera do proprio Aguiar.
Eis aqui a estatística das corporações monasticas e os seus rendimen-
tos em 1834. IV . .\lappa das corp. ext. pub. 42.)
a} Ordens militares ... Christo com 3 casas
S. Thiago
Re1l.:iime1ztos
:\yiz
2.- OS !\ACIO!\AES
Além das propriedades, casas e terras, tinha
havido um diluvio de alfaias, mobilias, ouros, pra-
• e caldeirões das baterias das cosinhas panta-
gruelicas ; e esta copia de bens moveis vudera
sumir-se, devorar-se, sem neces':lidade de f•írmulas
e processos liberaes-legaes.
Por isso mesmo a era maior ainda
n'esta especie, e mais repetidos os clamores, as
denuncias, as accusações. N'esse mar reYolto vinha
a flux o lodo da rapina desenfreada. Do cubiculo
escuro da sua redacção, o . diogenes do Porto,
Bandeira, commentava assim os acontecimentos
parlamentares :
O Claudio chamou ladrão ao Seabra. Olhe que lhe fez
grande injuria! Não é similhante nome tão estimado'? Xão
andam os ladrões nas palmas das mãos? X<.\o são muitos
votados para empregos e eleiciíes? Kào ha tanta gente de
gravata Ia-.ada que os protege? Xão são dles uma verda-
deira potencia, com exercitos, caixa militar, capitães, ca-
pellães e cornetas? têem elles o direito de vida e de
morte ? :K à o impõem elles contribuições forçadas ? rcA.rti
lheiro, 9 março de 36).
A allusão é clara ao bandidismo que imperava
b) Ordens monachaes. Cruzios
Loyos
Cartuxos
Bentos
Bernardos
Jeronymos
c) Congregações ••...• Neris
Rilhafoles
Camillos
" 12 com;. e 5 hosp. l::!o:::!..J..J m. rs.
n
A
8 e 1 55:o66
2 6:::!53
">?
15
9
8
4
6
4
106:665
63:1j8
44:.Jgr
3o:o53
Congregados 11
Theatinos I
9:015
6:4::!7
r:6]4
I:IJ6
d) Ordens mendicantes Paulistas
Gracianos
Carmelitas
Dominicos
com I3 conv. e 2 hosp. 25:g63
A 17 2 4S:749
11 13 2 22:913
11 22 2 65:563
16 L 1\".- .-\ A::-;AH.CHIA J.IBEH..-\L-1
á municiado e protegido pelos partidos. Cada
chefe tinha os seus clientes no fôro, comprados a
dinheiro; e as suas guerrilhas no para do-' c
minar e vencer a tiro nas eleições. Logo iremos
vêr o que eram as proYincias e a sua orgia
sangrf>nta: agora, estamos na capital, onde corre
o ouro dos emprestimos de onde o
::\Iedicis-Farrobo dá largas á sua phantasia de ar-
tista, agasalhado com as luYas do Tabaco. Pro-
gride tudo: ha ha o tivolt: da rua de
Bento, á imitação dos jardins parisienses. Yae-se
dançar: annos antes, ia-se ás egrejas ouvir os ser-
mões dos frades. No C'i'l'co olympico Avrilon faz de
D. Pedro n·, com grandes barbas e a farda de co-
ronel de caçadores 5, no Porto, ao som do hymno da
CARTA. Ha um vivo enthusiasmo. 'Apo11t. d,l J•ida, etc.)
Trocou-se o E,·angelho pela Liberdade; o ser-
mão pelos discursos de Bento; as procissões
pelas danças nos tivolis ; os solemnes Te-De um,
com largas capas de asperges recamadas de ouro
e fulgurantes de pedrarias, com tochas numerosas
e thronos de luzes á hostia em custodias magnifi-
cas, pelas representações da opera que Farrobo
dt Ordens mendicantes Trinos H
Hosritaleiros 11 G
Fnm..:iscanos " 57
eJ ld. relormadas ...•. Paulistas
Grillo:> 11 17
:\\arianos ,, 1 S
Trinos
Caruchos •
Terceiros • :!O
::\lissionarios • 4
[1 lli,·erso!' ........... Conceição
:\tinimos

Bart-adinhos •
Carm. alL
4
3
10
6:335 m. rs.
-t:566
lg:-t-37

q:/{)0
:!6:8-t-t
19=79-J
13::!89
476
:!:051
53
63o
3:1:!4
1.-
2. -OS BENS NACIONAES 17
dirige, pelas soirées do seu theatrinho das Laran-
jeiras, um eden de merceeiro rico : otia tllta! As
egrejas estão abandonadas e vasias, nus os alta-
• res ; os frades vagueiam perseguidos, expulsos dos
seus conventos, esmolando. Fundiram-se as alfaias,
andam as livrarias dispersas, vendidas a peso,
para embrulho nas lojas ; e os templos profanados
pelo padre :Marcos -Papam habemus l\Iarcum ! -
servem de estrebarias ou graneis; os conventos
aquartelam soldados ou esperam os teares e en-
grenagens com que o proteccionismo setembrista
promette regenerar as industrias. Já se não ou-
vem bemditos p e l a ~ ruas; em S. Carlos dá-se com
geral applauso o Turco em, Italia; e Pizarro, logo
solto e livre depois da morte de D. Pedro, põe na
bocca de todos a palavra popular do heroe da
opera : « Y oglio mangiare ! voglio mangiare ! »
(Apont. etc.)
3.-0 THESOURO QUEIMADO
Aguiar abolira os conventos; José da Silva Car-
valho abolira o papel-moeda: foram as duas unicas
fi Diversos ..•....•...• Dom. irland. •
3:364 m. rs
Total: 3Rg estabelecimentos com o rendimento de 763
contos de réis; sem contar 12 conventos de
freiras egualmente supprimidos.
Para que se possa comparar a decadencia das corporações no período
das luctas civis desde 20, eis aqui a estatística do {ft{appa, pub. em 22:
Conventos e hospícios do sexo masculino, 402; com 6:249 pessoas,
(sendo 628 creados) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 6o7 con-
tos.
ld. do sexo feminino, 132; com 5:863 pessoas, {sendo educandas 912
e 1:971 creadas) e rendimento em dinheiro, fóra os fructos, 341 contos.
O sr. Soriano (Utopias desmascaradas, op.) calcula assim o total doii
bens-nacionaes provenientes das leis de 32-4:
POR't. CONT.- TOM. II
2
18 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I
medidas energicas· em que se empregou o resto de
força da dictadura.
O papel-moeda vinha de longe; como documento,
da miseria portugueza, declarada desde o fim do
seculo xvni e todos os dias aggravada. Era uma
vegetação parasita que se enraizara no corpo da
economia nacional como fungo de varias côres: ha-
via-o legitimo, havia muito falso. A emissão feita
pelo Thesouro, desde o 1.
0
de agosto de até 6
de dezembro de 99, para accudir á guerra do Rous-
sillon, sommara 16:613 contos, e tendo-se amortisa-
do no mesmo periodo 5:820, ficou em l 0:693. Em
1805-6 (_28 de junho a 31 de março) cresceu 500
contos. Depois amortisaram-se e feitas as
sommas e deducções, o saldo existente devia ser
de 8:293 contos. rColl. de Contas da Comm. int. da Junta, 10 de
set. de z6) Observara-se porém que n'esses 2:901 con-
tos amortisados entravam 618 de papel falso, quasi
a sexta parte: quanto haveria, pois? De outro
lado, os incendios e outras causas teriam sem du-
vida amortisado muito; e o facto é que em 1830,
exigindo-se o carimbo do papel, o Thesouro só ,re-
conheceu a existencia de S:008 contos. De 8 a
Rendimentos dos conventos . 763 contos
Deduzindo o valor dos dizimos, direitos se-
nhoriaes, quartas, oitavas, jugadas, etc.
abolidos.. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Rendimento da propriedade . . . . . . . . . . . . . . . . S?3
O que equivale a um capital de contos............. 12:ooo
Propriedade dos 12 conventos de freiras supprimi-
dos ...........................•.............
Alfaias de todos os conventos, sumidas............ (400)
Bens da Universidade de Coimbra, da Patriarchal,
de S. Maria-Maior, das capellas da corôa, das casas
do Infantado e das Rainhas.. . . . • . . . . . . . . . . . . . • 4:ooo
Até 1836 tinham-se vendido cinco mil contos ; e no orçamento de
1838-g apparecem como para vender u:5g5.
("
3. -O THESOCRO Ql"EI!\-IADO 1
8:500 contos de papel-moeda, eis ahi o legado elo·
velho ao novo regime.
A França revuluciomtria, como é sabido, procu-
rara nos seus bens nacionaes a garantia para a
circulação elos e a consequencia fGra uma
ruína colossal. Entre n/,s, a perspicacia clu minis-
tro evitou esse perigo, que outras causas tambem
afastavam. Os nossos bens nacionaes eram recla-
mados para fins diversos. Converter pois o papel-
moeda em dinheiro com o producto dos emprestimos
arranjados por l\Iendizabal, decretar uma banca-
rota parcial, para evitar uma ruína futnra, cha-
mar os metaes preciosos á circulação: eis o pen-
samento do decreto de 23 de julho (34) que inau-
gura a edade nova do regime monetario nacio-
nal.
Era uma banca-rota parcial, mas só poderia
deixar de o ser, se o ministro tivesse perante si
elementos políticos bem diversos, bem melhores,
do que os que havia. O papel-moeda
extincto a partir de 31 de agosto, data além da
qual todos os pagamentos seriam feitos em especie.
Os detentores do papel receberiam no banco o seu
importe em ouro, com a perda da quinta parte; uu
sem ella, em títulos que desde 37 a Fazenda rece-
beria por metade nos pagamentos, e desde 38 inte.,
gralmente. O desconto de 20 por centu era assim
equivalente á múra de dois annos e meio. E em
vez de comprar metaes com o producto do empres-
timo destinado á conversão do papel, e cunhal-os,
o ministro preferiu admittir á circulação a moeda
extrangeira, dàndo-lhe um valor legal: os sobera-
nos de ouro rs. e os duros de prata 870 rs.
(Decr. de 23 de julho de 34} O desconto de 20 por cento,
QU a banca-rota da quinta parte do valor do
pel-moeda não era pois a unica perda, porque o
20
L. 1\".- A A::"ARCHIA LIBERAL-I
valor legal dado á moeda extrangeira era excessi-
vo. Substituía-se moeda sem valor intrínseco por
moeda fraca. O soberano não valia realmente mais·
de 3/,750 rs.
1
nem a pataca ou duro mais de l;00
rs. tL. J. Rit-eiro. Critica do rei. de J. ~ - Cm·alho, 3-t-1 Havia, pois,
um exagero de dez por cento que, com vinte de
reducção no troco do papel, elevavam a quasi um
terço o que realmente o Estado devedor deixava
de pagar aos seus crédores.
Ao mesmo tempo que 16 ou :?0 mil contos de
propriedade caíam na posse do Estado, o Thesouro
tinha de pedir emprestado o dinheiro para fazer
uma composição com os seus crédures : taes são as
consequencias naturaes das revoluções-têem de
enriquecer os seus sectarios. Os clientes do minis-
tro enriqueciam, com effeito, por ambos, por todos
os modos : engulindo os bens nacionaes e agiotando
com a banca-rota. O decreto de julho, porém, enca-
rava o problema do restabelecimento da circulação
exclusivamente metalica apenas nas suas relações
para com o Thesouro, não attendendo ás relações
contractuaes entre particulares. A isso veiu occor-
rer a lei de 1 dP. setembro, cortando os embaraços
pela raiz, dispondo que todas as obrigações entre
particulares se mantivessem taes-quaes até 38, ex-
primindo-se d' ahi por diante as som mas na unica
moeda legal, o ouro. A natureza d'esta disposi-
ção, tornando solidarios da banca-rota do Thesouro
1 Se o leitor quizer exprnmr o valor real dos numeros com que
se dlnominam todos os emprestimos, expropriações etc. que vamos estu-
dando, tem n'este preço um meio. Como se sabe, Yarias causas, e princi-
palmente a descoberta das minas da California, diminuíram posterior-
mente o ,·alor dos metaes preciosos. Se a libra sterlina valia (em 34)
3 ~ j ' 5 0 rs. e hoje vale -t-.'!b5oo, é claro que os numeros que temos estu.iado
tcem de ser augmentados com a quinta parte. Assim, o Yalor dos bens dos
conventos orçado em doze mil contos era o equivalente de 14:-t.OO de hoje.
3. -O THESOCRO QCEII\IAIJO
21
os particulares que tinham pactuado n'um regime
de circulação mixta-a j ~ ; r m a ela lei em que en-
trava um papel dt:'preciado-obrigou mais tarde a
reformai-a.
Esse incontestavel serviço da restauração da
circulação metalica era pago á custa de graves sa-
cnficios. A historia dos emprestimos da dictadura
(V. Relat. de Carvalho, 341 era um tecido de confusões em
que a maxima parte dos críticos viam trapaças
vergonhosas. Sem duvida, a emissão de empresti-
mos durante as epochas desesperadas da guerra
só pt'jde ser feita á custa de enormes agios ; mas
a confusão era tal e tão pequena a confiança na
limpeza de mãos dos pr?curadores do Thesouro
que, invertendo com espírito e agudeza a locução
ordinaria, dizia-se «haver muito quem não clllvi-
dasse da boa fé». (Ribeiro, Critica do rei. etc.)
Nos primeiros tempos vivera-se dos subsídios do
Brazil: 66-! mil libras ou 2:9-!3 contos, mais -!37
gastos pela Junta do Porto, mais cerca de 300 nos
Açores: ao todo 3:700 contos effectivos tV. Relat. Car-
valho) com que Palmella e a primeira regencia libe-
ral se tinham subsidiado a si, aos emigrados e ás
varias tentativas e aventuras mallogradas. Tal
fôra a confusão d'esses gastos, que se passou uma
esponja por cima das contas, prescindindo-se d'el-
las, considerando-se tudo approvado. Com D. Pe-
dro entrou em scena l\Iendizabal, e, afóra pequenos
emprestimos levantados no Porto e depois em Lis-
boa, os principaes recursos da guerra vieram dos
emprestimos londrinos. O de dois milhões ( 23 de
setembro de 31) de 5 por cento liquidou os encar-
gos anteriores:
L. IY.- :\ :\:SARCHL\ LIBERAL-I
a
12:6oo l:>onds por .{ IO):too
a commissáo de apres-
tos Yendeu ror 5:!:ooo titulos no nominal de I5o:ooo
nef:OCiando-se a 48 por 1> 83j:3I:! o resto 11 1.744:000
Totaes ... nominal. . . 11 :!.ooo:ooo
D'esse producto só as duas primeiras verbas
eram porém reaes: uma por ser diYida positiYa,
outra por ser dinheiro applicado á. compra de ar-
mamentos, soldo de mercenarios, etc. O resto re-
presenta-se d'esta f,.Jnua:
Juros e outros encargos atrazados .. .
Com missões e premio da emissão .. .
Dinheiro .................. - ...... .
r
29S:oo3
:!88:5:!9
De sorte que o producto dos dois milhões era real-
mente f 353:12!1, a terça parte (ou r se se
lhe juntarem os juros atrazados) saindo ao juro an-
nual effectiYo de 16 por cento. 1Rit-eiro. Critml, etc.)
O primeiro ensaio não proYou feliz, mas o segun-
do foi ainda 1wior: é verdade que as condições
tambem tinham peiorado e haYia já muitas esperan-
ças perdidas, mas a politica em materia de
finanças estava conhecida. Que outra cousa podia
ser, senão agiotagem, o systema acciamado pelos
bolsistas de Londres? A emissão de .f 600:0UO
(::?:-1 de outubro de 3::? 1 produzia, liquido dt:J premi os
e commissões, .f 151 :n2;J, custando pois a razão
de quasi :?O por cento ao anno .. Já em Lisboa, de-
pois r)-! ele setembro de 33\ contratam-se outros
dois milhões ; e por fim, destinado á conversão do
papel-moeda, um ultimo milhão. Os tres milhões
produzem, ainda captivos de commissões e premios
que se encobriam, .f 2.356:756, (V. Relatorio, etc.) que
não dariam mais de dezoito ou dezenoYe cente-
3. - O THESOLRO QUEIMADO 23
nas de milhares de libras, custando entre 8 e 9
por cento.
Somma total, a divida externa, que do empres-
timo de 1823, contava um milhão esterlino, subia
a quasi sete ou 29:400 contos da nossa
moeda com o encargo annual de 1870.
para 35-6)
Falta-nos vêr agora, para completar o nosso es-
tudo, o estado da divida interna. A importancia
d'ella era em princípios de 28: (ap. Bulhóes, Dividaport.)
Com juro: Consolidados de 1796 a 1827 ...•
Padrões, a cargo do Thesouro ..
Sem juro: Papel-moeJa, orçado em ...... .
Divida Huctuante (atrazados) .. .
Emprestimos diversos ......... .
Exercidos findos ............. .
contos 13:402
7:000
6:ooo
6:4go
1:430
4=778
18:6g8
Total. .. contos 3g: 100
Depois da conversão do papel-moeda; depois do
decreto (23 de abril de 35) que converteu em 4 por
cento, com juro a metal, a divida antiga de 6 na
forma da lei; liquidada a guerra e consummadas as
bancas-rotas, podemos apreciar o estado em que se
achou o Thesouro : (V. Coll. de Contas da Jullta; Ribeiro, Cri-
tica e Bulhóes, Div. port.J
Divida reconhecida
Com juro: Emprestimos liberaes dos Açores,
do Porto e de Lisboa ........ .
Títulos de divida antiga ....... .
Sem juro : Papel-moeda, por amortisar ....•
Divida fluctuante (atrazados) ... .
Juros por pagar .............. .
contos 2:520
12:375
3:5oo
5:68g
8g7
Somma ... contos 24:g81
24 L. IV.-- A ANARCHIA LIBERAL-I
Dh•ida nâo reconhecida
Legitima : Padrões de juros reaes .......... .
Outros emprestimos anteriores .. .
Atrazados de 23-4 .............. .
Indemnisaçóes approvadas, por
pagar ; e diversos.. . . . . . . . . . .
Illegitima : Emprestimos de D. Miguel em
contos 4:8oo
1:670

11:000 28:013
28-3o ........................ .
4=443
Som ma. . . contos 32:456
Total..... 57=437
O Thesouro, pois, devia em 1828.................... contos
e confessava dever em 1835 :
por titulos passados a extrangeiros......
nacionaes................... 25:ooo
Excesso ........ .
Deixando de reconhecer creditos legitimos por ...... .
Excesso ........ .
54:400
15:3oo
28:000
43:3oo
A esta somma devem juntar-se ainda os títulos
naturalmente amortisados pela abolição das corpo-
rações possuidoras d'elles. Quanto a encargos, po-
rém, a situação do Thesouro é diversa: pois a di-
vida com juro era, em 1828, de 20 mil contos e
agora é de 44:300. Apesar da somma de bens
confiscados, o encargo do orçamento duplíca, em-
bora se não paguem os juros dos padrões, ainda
representantes de um capital de cinco mil contos.
E' impossível dizer que sommas a crise custou
á nação, porque se não medem por numeros as
perdas de riqueza e trabalho por todo o paiz, e
menos ainda a perda de gente e de força,-consu-
midas pela guerra e pela intriga. Menos se póde
\
3. - O THESOCRO QUEIMADO
contar ainda o valor perdido das energias gastas
em sustos e afllicções !
Póde talvez, porém, calcular-se o que financei-
ramente se perdeu, reunindo numeros conhecidos :
Por parte dos Liberaes
Valor da divida que contrahiram no reino e fóra ...... .
ld. dos subsídios do Brazil, recebidos ............. .
ld. dos atrazados por pagar em 34 ................ .
Valor das indemnisaçóes a solver .................... .
ld. das dividas legitimas náo reconhecidas ......... .
ld. do terço do papel-moeda, na conversáo ........ .
ld. dos confiscos de prorriedade inimiga .......... .
Por parte dos .\liguelistas
2]:522
2:g43
4:000
]:000
lj:OJ3
2:Soo
Valor da divida que contrahiram...................... 4:443
ld. dos vencimentos e juros náo pagos durante o seu
governo........................................ 8:o83
ld. dos dons voluntarios e confiscos ............ · .. .
Setenta, oitenta, cem mil contos, custou decerto
á economia da nação a guerra que terminára sem
conseguir acabar ainda com a crise, porque á
lucta entre o velho e o novo Portugal iam succe-
der as luctas dos partidos liberaes. Secco, devas-
tado estava o reino com os vomitos da cholera, as
agonias da fome gemendo por todo elle : e da
mesma fórma o Thesouro, imagem viva do paiz,
nú e vasio, gemia tambem com a lepra da corrup-
ção, da agiotagem, do puro roubo. O anno de.
33-4 dera apenas tres mil contos para uma despeza
de treze mil;
1
e o orçamento de 3ã-6 apresentava
1 V. as Contas, na sessáo de 35 (g de janeiro), de agosto 33 ao fim de
junho de 34:
Receita : Ordinaria......................... contos 3:513
·J
li
L. IY.- A AK.\RCHIA LIBERAL-I
um deficit de mais de quatro mil,
1
com receitas
E-xageradas.
Começaram a pronunciar-se vivamente os cla-
mores contra a sociedade l\Iendizabal-Carvalho e
suas combinações em que tantos lucravam agios,
conunissões
7
premios, bonus. l\lendizabal furava
pelo meio das bolsas de Paris e Londres, dando lu-
vas aos Rothschilds, aos Ricardos, aos Foulds, aos
Oppenheims, para pGrem o seu nome nos annuncios
das emissões portuguezas. (A dynastia e a revol. deset. anon.)
Carvalho furava pelo meio da selva das intrigas,
como uma estrella caudata de ouro, fechando os
olhos: era dinheiro inglez ! O seu processo evitava
que a causa se despopularisasse exigindo impos-
tos, contentava o povo, pagava tudo em dia, e
dava ainda para vencer resistencias que as alfaias
dos conventos e os bens nacionaes não satisfaziam.
Era uma chuva de libras esterlinas: quem viesse
E:!l.traordinaria: Emprestimos ..... .
7=8.17
Prop. nacion .. _ .. _
2::-16 10:363 13:876
Despeza : Ordinaria: Casa real. ............ .
Reino, Extr. Justiça ... _
Marinha ........... _ ..
Guerra ........ _ ..... .
Fazenda .. _ .......... .
1
77
672
1:299
-1=932
411 7=49'
Especial: Sen·iço da divida e oper. de fundos ........ . 3:415
lliversas .....................•...... · · · ·. · 2:970 1 2 : ~ ; 6
\"_ Orçamento de 35-6, sessão de 35:
Receit.1
lmp. directos .......... .
• indirectos ........ .
Proprios e diversos .... .
Ultramar ............. _
Deficit .... ·-._ ........ .
Contos .. .
1:638
5:60-!
1:178
1:4ll.2
4=454
14:356
De:.1•e;.a
Sen·ico dos ministerios .
llividà interna ...... __ ..
externa ........ .
Ultramar .............. .
Contos ...
8:8go
1:984
1:870
1:612
q:356
3. -O THESOURO Q_l;EIMAIJO
depois, que se arranjasse! Não se podia opprimit· o
povo, nem ser muito exigente com um funcciona-
lismu inventado assim, do pé para a mão, para pa-
gar os serviços á causa. A decima rendia apenas
oitocentos contos; e até 18-!0 nem um dos recebe-
dores geraes nomeados em 3-! tinha prestado con-
tas: uns fugiam, outros escondiam-se; e depois,
ainda em vão o Dicwio, em 3!), publicava a lista
dos remissos.
O ministro, indifferente, compassivo, passa-cul-
pas, deixava ir, considerando que o período era
transitorio. Afinal, chegára o momento da des-
forra : não tinham sido muitos os annos de amar-
gura? Mas as pretenções da opposição, exigindo
limpeza de mãos ao governo, e ameaçando com
essa necessaria banca-rota onde acabam as via-
gens de todos os Laws, veio transtornar a placi-
dez dos dias felizes. Carvalho caiu ( 27 de maio
de 35) e no seu •logar entrou o sincero Campos,
mais escrupuloso, menos atilado. Impellido para
além do que a prudencia mandava, o ministro ex-
pôz, em lagrimas, o triste sudario do Thesouro.
Cho:tar é bom; desacreditar o adversario púde não
ser mau; mas que remedio? Diz o povo que tris-
tezas não pagam dividas. Campos tinha sú lagri-
mas e invectivas: caiu logo. ( 15 de julho) O Banco
e a agiotagem em peso exigiam a entrada de Ro-
drigo e de Carvalho. Saldanha, na presiden-
cia, que. havia de fazet·? Deitou ao mar o lastro
radical do gabinete, admittiu os homens babeis em
finanças. Estava imminente a banca-rota : não ha-
via um real, e os da opposição não mereciam con-
ceito aos argentarios. (Carnota. of Sald.J O ma-
rechal, entre os dois partidos, com a sua vaidade
ingenua, já se acreditava um arbitro- quasi um
rei. Não o tinham convidado para monarcha no
fi
'I
I
(.
28 L. IY.- A A:'\ARCHIA LIBERAL-I
Rio Grande? Não escrevia elle mais tarde, já
depois de ter sido apenas o méro instrumento
cabralista, «estou persuadido que seria um bom
chefe n'um Estado qualquer>>? (V. carta de 69, em Car.
nota. ibid.J Deitou fln·a Loulé e Campos; metteu
Rodrigo e Silva Carvalho. -
Yia-se que o Law portuguez, liberal em todos
os sentidos e para com todos, era indispensavel.
Endividamo-nos: que tem isso? O futuro a Deus
pertence- dizem o turco e o portnguez. Nação
de morgados hypothecados, Portugal sentia-se
bem empenhando o futuro. As dividas cresciam;
pagavam-se os juros com dividas novas; e assim
se iam pedindo, consolidando e pagando.- Não é
o que ainda hoje
1
succede?-Só a opposição cla-
mava, e como a intriga era muita, apezar do fiasco
do verão, Campos voltou ao governo no inverno.
t 1 de novembro)
Desorientaram-se as cousas e o rival expulso
esfregava as mãos satisfeito: bem o dizia! Utopis-
tas os que pretendiam viver dos recursos d'uma
casa arruinada! Pois não era evidentemente me-
lhor aproveitar do inglez que nos dava o que lhe
pedíamos? Era dinheiro que vinha para cá. Ti-
nhamol-o? Não. Custava muito caro? Deixai-o
custar. Quando não houvesse nada para os juros,
não se pagavam : eis ahi está! Quem perdia? O
paiz? não; o inglez. Carvalho, que assim pensava,
não deixava de ter rasão; mas a hypocrisia poli-
tica impedia-lhe que o dissesse. D'ahi provinha o
ser batido pelas sonoras palavras dos adver-
sarws.
Como os factos, porém, o vingaram! A desor-
dem continuava a ser a mesma, aggravada com a
1
La ed. 1881).
3.- O THESOURO QUEIMADO 29
suspensão dos pagamentos. Os mercenarios clama-
vam pelos soldos, suspirando por voltar para casa.
Já conformados com a falta das terras prometti-
• das, peuiam apenas um dinheiro que não havia.
Davam-se-lhes letras sobre Inglaterra, e empre-
gados do thesouro, que já tinham aprendido muito,
iam a bordo descontar-lh'as a dez por cento e
mais. (Shaw, Lettas) Tudo jogava : a vida era uma
sorte. Farrobo fura cudilhado pela lei do papel-
moeda. Faziam-se e desfaziam-se as riquezas como
nuvens passageiras. Bens de sacristão, cantando
vêm, cantando '·ão!
O rígido Campos não era homem para tal gen-
te, nem para tal epocha. Levantava-se contra elle
um clamor unanime dos prestamistas sem juros,
dos empregados sem vencimentos, dos soldados
sem pret.- «Em que se parece o sr. Campos
com um cometa? Em ser barba to e caudato. E
em que mais? Nos resultados influentes. O do ou-
tro dia deixou-nos o frio, e este a fome». (Bandeira,
,yt,-lillzeiro, n.
0
IQI Maldito governo que não paga! «Isso
é falta de paciencia... O !ir. Campos, quando
entrou para o thesouro, que achou lá? Pulgas!>>
(lbid.J Mas d'esses bichos, Carvalho fazia libras,
e por isso o foram chamar outra vez. (20 de abril
de 36) Era unico na sua especie.
Comtudo os tempos iam durando, e nada ha
peior do que o tempo para todos os Laws. Se as
cousas não andassem ! Andavam, porém, e rapida-
mente: com aquella velocidade progressiva da ma-
china capitalista, prolífica por meio dos juros,
amortisações, capitalisações. Dois annos tinham
30
L. IY.- A AC\ARCHL\ LIBERAL-I
bastado para progredir d'este modo: (V. Coll .• ie Con-
tas, ro de setembro de 36)
Divida externa capital
.. interna
Som ma
Accrescimos- capital
juros
DiYida sem iuro :
Papel moeda
Diversos
Encargos totaes da dh-ida: juros
1834 1830
::!9:400 40:3qS
14:895 ::!0:748
44:205 ÓI:q6

313

3:5oo
6:58ó 6:852
amort.
lJiYida mansa
(Padrões, atrazados, etc.)
E n'esses dois annos decorridos, estava consu-
mido, além do mais, o melhor dos bens nacionaes.
Ardia tudo n'um fervor de appetite que já para
muitos começava a infundir receios de uma indi-
gestão tremenda. Dois annos de paz tinham cus-
tado quasi tanto como seis annos de guerra: muito
mais, se se contar o que o Thesouro não pagou.
A guerra Íl)ra cara, mas a victoria era ruinosa.
No meiado do verão (14 de julho de 36) pegou
fogo no thesouro. Já tudo ardia, lá dentro d'esse
palacio onde á inquisição religiosa succedera a in-
quisição agiota, com as suas tenazes de papel tim-
brado, os seus troncos de juros, retornos, commis-
sões, premios; com a sua algaravia bancaria,
herdeira do historico latim das sentenças singula-
. . Qual dos desvarios dos homens valerá
mms?
Ardeu em verdadeiro lume o Thesouro emju-
lho; mas já vinha ardendo havia muito em lepra
que o roía de torpezas, e n'um vasio que o amar-
gurava de contracções, como as dos estomagos
4.- A FAMILIA DOS POLITICOS 31
famintos. O povo dizia que o fogo fôra posto, para
saldar muitas cont'1S; mas o ministro, Pombal da
moderna finança, Law portuguez, iniciador da na-
. ção nova nos segredos do capitalismo; o ministro,
como o velho_ marquez no seu terramoto, mandou
pagar o semestre no dia seguinte. Ardia o The-
som·o? Agua ao fogo, e paguem ! - traducção
do «enterrar dos mortos e curar dos vivos>>. Ar-
dia o Thesouro! Boas, francas labaredas, impelli-
das por uma ventania fresca, subiam crepitantes,
levantando no ar os farrapos da papelada. Du-
rou doze horas o incendio, do meio-dia á meia
noite. :Muitas horas mais, muitos dias, bastantes
annos, ia durar outro incendio, acceso pelas ambi-
ções mal soffridas, pelas illusões crentes, pelo pro-
testo contra o systema da veniaga e da delapida-
ção, contra o regabofe que a uns enchia de coleras
e a muitos mais de invejas. Tambem tinham sof-
frido: tambem queriam gozar!
Em julho ardeu o Thesouro; em setembro re-
bentou a revolução.
4.- A FAMILIA DOS POLITICOS
Mas antes de setembro e da nova face que as
cousas tomam n'essa data, falta-nos ainda estudar
mais de um dos lados da nação, no seu primeiro
período liberal ...
Além das causas anteriores conhecidas, a pro-
pria victoria do novo regime concorria mais ainda
para que Portugal fosse uma nação de emprega-
dos publicos. A suppressão dos conventos, o res-
friamento dos sentimentos religiosos, diminuíam a
offerta e tambem a procura de lugares na Egreja.
As causas economicas anteriores já tinham, póde
dizer-se, supprimido a navegação; as tentativas
32 L. 1\".- A ANARCHIA LIBERAL- I
industriaes manufactureiras do marquez de Pom-
bal não tinham vingado; e a recente crise de oito
annos, rematada por um terramoto das velhas ins-
tituições sociaes, viera talar os campos, arruinar
a agricultura. Portugal achaYa-se, pois, forçado a
substituir por um communismo burocratico o extin-
cto communismo monastico. Durante a guerra, a
nação fôra um exercito; agora, licenceadas as tro-
pas e supprimidos os soldos, de que viveriam os
soldados? E' verdade que o governo podia ter
feito como se fazia outr' ora em Roma; mas a dis-
tribuição das terras conquistadas não podia ter
lugar, porque os capitães queriam-n'as para si,
por grosso. Força era portanto optar por outra
saída: e qual, senão os empregos publicos?
Por sobre esta necessidade social appareciam
as necessidades politicas. Em que peze ás seccas
affirmações doutrinarias e ás chimeras dos philoso-
phos, todas as nações consistem realmente na
aggregação de clientelas para as quaes um chefe
é ao mesmo tempo um instrumento, um represen-
tante e um defensor. Essa primeira fórma da so-
ciedade romana exprimia uma verdade natural que
os systemas encobrem mal.
1
Quando, mais tarde,
se imagina subordinar a doutrinas abstractas a
existencia dos povos, observa-se que os factos na-
turaes espontaneos, reagindo, tiram a realidade
ás formulas. Assim, nas velhas monarchias havia
chefes e partidos, cujo poder era maior do que o
do rei ; assim, nos governos formalistas liberaes, o
poder pessoal dos chefes políticos, apoiado sobre
instrumentos como as eleições, a imprensa, etc.,
é a força positiva que impera sophismando uma
constituição, a qual os chefes confessam e dizem
1
V. Quadro das institzlifÕes primitivas, pp. S7 e segg.
4. - A FAMIIJA DOS POLITICOS 33
respeitar pur um sentimento de conveniencia e de
pudor publico, mais ou menos consciente.
Quando a machina social se desorganisa, appa-
recendo o que se chama rt=>volução ou crise, Yêem-se
mais ao vivo como as cousas são na realidade.
Era isto o que succedia entre nós, nos tempos
que agora atravessamos. Constituíam-se as cliente-
las; e como a sociedade era ainda quasi um acam- ·
pamento assente sobre um territorio desolado;
como não havia outros meios de vida patt>ntes a
numerosas classes desorganisadas, essas cliente-
las eram o que podiam ser: bnrocraticas e mili-
tares.
«Para um homem ser ministro de Estado basta
que um batalhão, de mãos dadas com um perio-
dico, o queiram 1>. tBandeira, n.
0
:ô)
como a portugneza, lançadas de chofre n'uma vida
nova, sem precf'dentes nem raizes na historia im-
mediata; povos de um temperamento violento ou
ardente, sem instrucção nem riqueza: estão con-
demnados a um revolvêr desordenado, em que
idéas, ou falsas ou mal concebidas, se combinam
com os instinctos íntimos que a anarchia traz á
flôr da realidade. Entre os debates de doutrinas
extravagantes e as lnctas dos bandos armados,
vae pouco a pouco effectuando-se, de um modo
naturalistamente espontaneo, a reconstituição do
corpo social desorganisado. E' como quando o fu-
racão levanta e ennovela o pó das estradas que
se agita, mistura-se, e gradualmente vae outra
vez assentando.
Nada nos deve pois admirar o que succedeu em
Portugal: outrotanto succede ainda hoje á Grecia
e aos paizes do Oriente slavo; e o mesmo que nos
aconteceu a nós, foi o que se deu na Italia e na
visinha Hespanha. Os homens da Europa central,
PORT. CONT. - T0!\1. II 3
3-! L. IV.- A LIBERAL-I
francezes, inglezes, allemàes, belgas, filhos de so-
ciedades differentes, não podiam cornprehender,
nem o nosso bandidismo, nem o systema das nos-
sas clientelas ou partidos, nem o nosso commu-
nismo burucratico, nem a nossa fm·ia politica,
paixão dominante que a occasião, o interesse, e a
doutrina ela anarchia intliYidualista concorriam
para fomentar. D'esta incompn.:hensão do cara-·
cter da sociedade pelos extrangeiros que mandavam
n'unr paço occupado por uma rainha q uasi extran-
geira, Yeiu a principal causa das reacçues e revo-
luções q ne alagaram o paiz em sangue, consnm-
mando a obra dt> uma ruína já anmcada. Dir-se-ha
porém que, se tal motivo não' a vida
portugneza de 3-! a 61 teria sido uma paz? Xão,
nunca. Haveria apenas um elemento menos de
guerra. Os cliYersos bandos, com seus chefes e
clientes, seus pt·incipios e interesses, seus pro-
grammas e guerrilhas, teriam combatido da mesma
f,)rma entre si, até que o cansaço universal impu-
zesse uma paz que nenhuma clientela podia impôr
com a Yictoria, por falta de força bastante para
a ganhar.
O motivo de uma tal fraqueza está llas condi-
ções necessarias de uma sociedade no caso da
nossa. Os debates e as lnctas dão-se entre a mi-
noria miníma dos politicos, ach·ogaclos ou milita-
res, eom discursos ou correrias, formulas ou
guerrilhas.
Esta qualidade de homens é quasi a unica qne se inte-
ressa nos negocios publicos; occnpando todos os cargos da
administração, constitue o que chamam opinião. domina as
eleiç-•)es e toma assento nas côrtes. D'ella se compuem os
4. -•A F.UHLIA DOS POLITICOS 35
poderes executivo e legislativo, sendo ao mesmo tempo
governo e povo. O numero d'estes políticos não é conside-
ravel. mas é demasiado relativamente ao magro orçamento
de Portugal. (Lastcrie, Portugal etc., na Revue des deux mond. 1&p)
cc Cada governamental, dizia o conde da Taipa,
é um artigo da CARTA.>> E se, com effeito, o
mento era magro de mais para sustentar os poli-
ticos ; se o communismo burocratico era bem mais
difficil de manter do que o monastico, pois os pe-
dintes não se contentavam com o caldo e a brúa
das portarias: é tambem facto que os homens de
alguma cousa haviam de comer. E se não havia
outra occnpação para onde se voltassem?
C ma nação de empregados
E· Portugal? Certamente.
Até D. do throno
De D. :Maria é pretendente.
(Bandeira, .4rtillleiro, n. 22).
Não podia ser dP outro modo, e já vimos o por-
quê. :\Ias o orçamento era magro, magrissimo: se
se pagava, honra seja á arte do nosso Law, que
achára em um corretor e em Londres
uma colonia excellente para a lavra das minas de
libras.- Comtudo essas fortunas sempre duram
pouco; e o Thesouro soffria de interm.ittentes, com
os ataques de escrupulo da opposição. Os pobres
empregados n'uma situação triste : c1 Em
que se parecem com os papa-moscas? Em que es-
tão todos com a bocca aberta>>. (lbi.J. 3r;
Se é verdade que quem «ataca o governo não
saiu despachado» ; flbid. s; não é menos verdade,
comtudo, que seria injusto vêr na constituição da
família politica o mobil exclusivo da fome ou da
36 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I
cubiça. Outros motivos, não menos graves, con-
corriam para a formação das gentes e para as ri-
validades e luctas dos chefes e clientt-s. « N uuca
póde haver ministros bons; e porque? Porque os
ministros são seis e os pretendentes seis mil».
ribid. :28) Nas velhas sociedades patriarchaes ou feu-
daes, a tradição e a lei mantinham o lugar de
cada um; mas agora as fúrmas de authorillade
natural. surgiam do seio da anarchia positi,·a, e a
doutrina da anarchia individualista e da concorren-
cia livre de todos a tudo, consagra,·a a ambição
do mando com a authoridade de uma theoria.
A ambição, eis ahi, pois, o principal dos moti-
vos pessoaes, superior ainda á cubiça e á fome,
cujo papel é mais anonymo e collectivo, mais tal-
vez dos clientes do que dos patrões. A franqueza
com que todas as portas se abriam a toda a gente;
a segurança com que todo o «individuo» por so-
berano, se achava apto para tudo ; o systenw, que
destruíra a administração especialisada nas anti-
gas juntas e conselhos, e confiava a solução de to-
dos os negocios ás assembléas saídas do cháos da
eleição; a victoria que «deitára tudo abaixo>> e
enchia de orgulhos os demolidores: tudo concorria
para inchar as vaidades e aquecer as ambições.
Pullulavam os lwmens-novos, soletrando V olney e
1\Iirabeau, Dnpuy, Rousseau e o Citator, cheios
de affirmações, philaucia, e desprezo desdenhoso
pelo antigo saber fradesco. E ao lado dos pellan-
tes, havia por todo o reino os ingenuos, cheios de
crenças quasi religiosas n'um Evangelho novo. A
camara de Ribaldeira escrevia assim a Passos 1\Ia-
nuel:
Nào somos doutriuarios nem aristocratas; muito presa-
mos :\Iontesquieu, mas não é só ellc que fórma a nossa
4.- A FAMILL\ LJOS POLITICOS 37
propria bibliotheca; desde Hobbes até Rousseau, desde
l\lachiavel até Batham (wic) algües outros temos lido; em
nossas aldeas tambem consultamos a Historia dos 'Vashin-
toiJs, dos Triunyirs (!) dos Neros, etc., etc. 10tf. de 20 de dez.
autogr. na corr. dos Passos)
Os jornaes diziam tudo, conheciam todas as
questões, resolviam todos os problemas, porque
nada ha mais atrevido elo que a ignorancia. E
sentados sobre as ruinas da 1 ~ a t r i a assolada, cus-
piam-lhe em cima, com desprezo, renegando-lhe a
historia, com as cabecinhas empertigadas e occas
vo1tadas para a França, acclamada em phrases
banalmente pomposas. A emigração edncára-os, e
voltaYam «enfatuados de sábia», escarnecendo dos
goticos_, infelizes que nunca tinham saído ele Por-
tugal.
)luitos se julgavam sabios por aprender um cumpri-
mento em francez, misturando de vez em quando um good
nigld seguido de uma pirueta; por aprender meia duzia de
nomes de autores, usar de charuto, alugar uma cara de
tolo, raspar-lhe a vergonha, namorar a torto e a direito,
entrar nos bütequins, lêr por desfastio, fallar de politica e
de não sei que contracto, metter a religião a ridículo.
(Handeira, cA.rt. 23).
Tudo era necessario e natural, embora seja in-
dubitavelmente grutesco. A pretensão de que a
LIBERDADE era a formula absoluta, o systema a
verdade reYelada e a historia uma peta; a preten-
são ela infallibilidade da razão individual e da· so-
berania das vontades humanas, tinham de for-
çosamente trazer os costumes a um estado que
corresponde aos outros lados ela physionomia so-
cial. A anarchia na escola era, e não podia deixar
de ser, a anarchia na realidade ; e a negação sys-
tematica ela authorida.de collectiva e do caracter
I
I,
ti
I
~
(t
I
I
38 L. IY.- A ANARCHIA LIBERAL-I
organico da sociedade, depois de condemnar a his-
toria, condernnava a actualidade, Yalendo-se dos
abundantes documentos que ella lhe fornecia. Tudo
t>ra peta, bur1a, infamia :
Em que consiste o direito de votar? E' o direito banal
pelo qual eu sou obrigado a conduzir um papel de que não
faço caso ..
Que são os grandes, os chefes, junto ao throno? Si\o
canos .reaes por onde se despeja toda a immundicie da
alma dos seus protectores; delegados á latere do Yicio,
vendem os interesses do J!IOVO por um crachá, fazem e
desfazem ministerios com a mesma sem-ceremonia com
que despejam o regio ourinol ...
Leilões de generos avariados: Boa-fé no largo das Ne-
cessidades; Egualdade de Direitos nas secretarias d'Es-
tado; Liberdade de voto, nas assembléas eleitoraes, etc.
(Bandeira, .4rtillzeiro, n. 2 e 23).
Com effeito, os chefes não se tornavam crédores
de um respeito demasiado.
A' morte de D. Pedro, segundo vimos, Palmella
apoderou-se do governo, fundindo-se a sua clien-
tela, ou partido, com o da regt:>ucia n'esse momento
acabada. O caracter revolucionario do governo da
dictadura terminára, e dos antigos ficavam no mi-
nisterio apenas Freire, e Carvalho o financeiro
indispensavel. Era necessario pôr ponto no «deitar
abaixo». Já Palmel1a, no conselho de Estado, tinha
votado com a maioria contra a extinccão dos con-
ventos, que apezar d'isso Aguiar deCI:etou em se-
creto accôrdo com D. Pedro; já pozera depois o
seu veto ao remate do p1ano de a abo-
lição dos morgados. :l\Ioderado sempre e m·isto-
CI'ata, o radicalismo dos philosophos parecia-lhe
tão mau como a demagogia : que1· a vencida de-
magogia miguelista, quer a demagogia ameaçadora
4.- A F:\:!\IILIA DOS POLITICOS 39
da opposição radical. Com os olhos invariavel-
mente voltados para a Inglaterra, não concebia
outro typo de nação, além do typo aristocratico,
liberal e conservador. governo succedia-lhe
agora o que sempre lhe succedera : era antipa-
thico e ninguem o recebia. Reconhecendo todos a
sua habilidade, parecia a todos que só a ambição
pessoal o movia. O povo, já minado -pelas theorias
democraticas, considerava-o um tyranno; e a cauda
dos odios pessoaes que as intrigas e os erros da
emigração lhe tinham feito, voltava-se agora e mor-
dia-o. Quando pela terceira vez a CARTA se rasgou
para casar t 1 de dezembro de 34) a rainha com o
primeiro dos seus dois maridos allemães, quando a
opposição pedia «um fidalgo portuguez», dissera-se
muito que Palmella pensava em fazer da rainha
sua nora.
l\Ias esse príncipe contratado para dar herdeiros
á corôa portugueza (os nossos vif'inhos hespanhoes
chamam coburgos a taes maridos) durou pouco; e
a sua morte (::?8 de março de 36) foi motivo de
uma crise. Lisboa appareceu crivada de pasquins
accusando Palmella de envenenador, e attribuin-
do-lhe a ambição de querer para seu filho a mão
da rainha: ellington, de lá, apoiava o plano ! O
povo acreditou e saíu. Houve tumultos graves
pedindo-se a cabeça do traidor. Terceira que
já em 27, nas Archotadas, cmTegm·a essa_ cawtllw
desembainhou outra vez a espada fiel e manteve a
ordem.
só uma ordem apparente, porque no fundo
havia uma anarchia real. V m·ias clientelas, com os
seus chefes e os seus programmas varios, ambicio-
navam o poder. Palmella era um estorvo e contra
elle se fundiam as opposições todas, congregadas
para o ataque.
i
I,
I
40 L. 1\". -- A A:"ARCHIA LIBERAL- I
Cm pasteleiro queria
Fabricar um pastelào
E porque tinha de nada
Deu-lhe o nome de fusão
Arde o forno, o pastel dentro
Principia a fermentar
perde a massa:
ficou o alguidar.
(Bandeira, Artillz. 12 sd.)
Esse alguidar era Saldanha, que nunca tJareceu
mais Yasio, mais de bltrro, que agora. O rival ti-
nha um pt-nsamento, elle apt-nas um nome. Pal-
mella dispunha de nma clientela firme ; Saldanha,
já desacreditado perante os radicaes, embora ainda
reprt-sentasse o papel de st'u chefe, era um gene-
ral sem exercito, condt'mnado a presidir a um ga-
binete mi:x:to. Esturrou-se logo o pastel, e o algui-
dar appareceu trasbordando de gente radical: um
ministerio puro dê opposiçào. (Sã. Loule. Caldeira, Campos,
25 de llOY.)
V arios tempos, licções t::'loquentes, arrependi-
mentos já tardios, enchiam a cabeça de Saldanha,
lembrando-se do papel qui:' fizera em 26-7, das
cousas qne authorisara com o seu nome em Paris.
Achara-se leYado por nm ardor de gloria nas azas
da reYoluçào, e não ti,·era podido medir bem o
destino d"esse vôo. Já de ha muito que reconside-
rara. O leitor lembra-se dos episodios do Cartaxo.
1\Ias, sem o talento do riYal, que ficaria sen-
do, se dêixasse de ser o chefe de um radicalismo
já então por elle renegado? Uma espada apênas,
prompta st'mpre a obedecer e incapaz de mandar,
como Terceira? Não: isso não podia admittil-o a
sua vaidade. Seria descer muito. l\Ias para não
descer- elle provavelmente já nem queria subir
mais- era impossiYel ficar inunovel. O partido de
4. - A FAMILIA [lOS POI.ITICOS 41
que se dizia chefe, tinha-o apenas como um rotulo,
um pendão, sem dar a miníma importancia ás suas
vontades ou desejos pessoaes. o seu cami-
nho, guiado por outros; e para que ::Saldanha,
agora no governo, não fosse francamente renega-
do, era mistér que saísse da inacção e se decla-
rasse o dictador que Passos fui no anuo seguinte.
Já em 27 succedera o mt-smo, e lembrava esse
el>isodio: quando faltava apenas extender o braço
e sagrar-se chefe da revolução, Saldanha, tendo-a
acompanhado até ahi, parava, tremia com t-scru-
pulos, fugindo.
Depois do Cartaxo quizera, como dissemos, re-
mir os t-I-ros da emigração, encostando-se ao car-
tisnlo (H•mtem, lznje e amanlzan, op. anon.) ; mas OS cartistas
que lhe pagariam bem e usariam com prazer da
sua espada, como faziam á de Terceira, não lhe
davam importancia ás opiniõt-s nem o reconhece-
riam chefe. Por seu lado os radicaes, vendo a fra-
queza inconsistente d'esse clwfe theatral, sem re-
pellirem o instrumento que ainda lhes servia, já
se esforçavam por mostrar Lem claro que lhe não
obedeciam. Nas eleições de 3-!, Saldanha acompa-
nhara D. Pt-dro ao Porto. Ia n'uma posição singu-
lar, para convencer o principe do poder do sell
partido, dando por tal fórma um grande peso á
sua adhesão ao throno. D. Pedro, por seu lado, le-
vava por fim bater no Porto, com a presença do
marechal, a influencia do radicalismo dirigido pelos
irmãos Passos; e com Saldanha á mão, Saldanha
que lhe asseguraria a oLediencia dos que ainda tal-
vez suppozesse seus clientes, esperava tudo da
conversão do caudilho militar ás opiniões conser-
vadoras. (;\lacedo, Tracos.)
Os chefes e fortes do futuro Setem-
brismo deram uma licção ao principe e ao seu aco-
.1
42 L. 1\'.-A ANARCHIA LIBERAL-I
lyto. :o;aldanha, candidato, foi batido no primeiro
escrutinio da eleição: onde estava o seu poder?
l\Ias para dizer a D. Pedro que a victoria lhe não
pertencia, e para dizer ao general que apesar do
seu procedimento o não renegavam, usando de
uma magnanimidade qne talvez o desviasse do tor-
tuoso caminho que seguia, elegeram-no no segundo
escrutínio. (:\Iacedo, 1h1fos> Era uma victoria mortal,
uma_ estocada em cheio no inchado balão das es-
peranças elos dois viajantes. Tornaram ambos a
Lisboa corridos.
apesar de tudo, ainda foi sentar-se
no ultimo e mais elevado baneo da esquerda da
camara. Illudir-se-hia ainrla com a boa figura que
fazia de lá a sua presença nobre e pomposa? Tal-
- vez; porque se tinha ingenuamente n'uma grande
conta, e dava ouvidos abertos á adulação. rHrmtem,
hoJe e am.) Quando Palme lia teve de cahir, o chefe
natural do governo era mas, como já
,·imosJ a sua falsa posição creou um pastel mixto
pouco duradouro ; ( 4 de maio a 18 de no v.) e a
entrada do seu partido obrigou-o a elle a sahir,
(2?> de nov.) corrido, desacreditado e renegado.
Paga,·a o dev-ido preço da sua politica dubia: via
fugir-lhe toda a clientela; era um homem perdido
e abandonado pelos que tinham sido os seus e o
apeavam definitivamente de um throno que durara
oito ou nove annos. Retirou para Cintra a ensaiar
lavouras. (Carnota, .\!em.)
Não foi a queda d'esse chefe que pouco podia e
já 11ada queria fazer, foi a impotencia da nova
clientela exaltada quem a precipitou do governo
(lD de abril de 36). Voltou a antiga gente, 1penos
Palmella que tambem no isolamento remia velhas
culpas. Os dois próceres rivaes, por tanto tempo
inimigos poderosos, achavam-se egualmente redu-
4.- A FAMILIA DOS POLITICOS 43
zidos a nada, agora que já se entendiam, depois de
feitas as pazes. Havia um outro duque, sem idéas
politicas á waneira do diplomata, sem fogachos de
ambição e rompantes de soldado á maneira de
Saldanha; um outro duque, boa pessoa, politica-
mente nulla e por isso sempre fiel, excellente in-
dividuo para pôr á frente de um governo onde a
antiga gente {Freire, Aguiar, Carvalho) restau-
rada queria começar uma vida I1Qva, pensando
soffrear com o utilitarismo e urna administração
energicamente pratica, o torvelino de confusões
politicas, de pessoaes. Seria outra dieta-
dura. l\Ias onde estava D. Pedro? Terceira presi-
diu a esse ministerio que a revolução de setembro
der;-ubou, encerrando o primeiro período da vida
liberal portugueza.
Affiicto pelos pedintes, pois da sua clientela an-
tiga só os mendigos restavam fieis, despeitado, fe-
rido no seu orgulho, prejudicado nos seus interes-
ses, Saldanha via-se na falsa posição de não poder
ser cousa nenhuma. Para o governo, vivamente
atacado e decidido a dissolver as camaras, o gene-
ral buliçoso e ávido, era, porém, a ameaça viva
de urna revolta militar. Accusararn-n'o os seus
amigos de outr'ora de se ter vendido n'esta occa-
sião: «desde aquella epocha, de deserções em de-
serções, chegou á situação em que hoje (1854)
está, desp1·ezado por todos os _partidos : porque se
algum ainda lhe faz festa não é porque o estime,
é por ser um tronco velho, sobre que ainda al-
guern se sustenta». (Liberato, &em.)
Corno é desoladora, rnelancholica, a historia fn-
nebre de todos estes homens que a desesperança
ou a fraqueza atiram corno farrapos, successiva-
rnente, para o lixo das gerações ! Que singular
poder tem a anarchia das idéas, o irnperio dos
4-! L. n·.- A ANARCHIA LIBERAL-I
instinctos soltos, das chimeras aladas fugitivas,
para despedaçar os caracteres e perverter as in-
telligencias! Já um caiu- Mousinho; hoje é ou-
tro, o heroe de 26, o soldado do Porto- esse
brilhante Saldanha! E ainda agora a procissão
começa; ainda agora vae no principio o devorar
impossi,·el do Baal da LIBERDADE, cujo ventre,
como o do phrigio, pede honras, talentos, forças e
sangue, para o seu consumir incessante !
· Com o fim cl' este primeiro período da anarchia
positiva acaba Saldanha, da mesma fôrma que
l\Iousinho acabou ás mãos da sua anarchia theo-
rica. Acaba, dizemos; porque, embora a sua vida
se prolongue muito- demasütdo!- ainda ; embora
o seu genio irrequieto, as suas necessidades, a sua
ambição, lhe não consintam abdicar e sumir se,
como fez l\Iousinho e como fará Passos : a ,-ida
posterior que vae arrastar, se tem ainda momen-
tos theatraes, é uma triste miseria. De chefe de
um partido, passa a janisaro de um throno. De
Cid, transforma-se em \Yallenstein. O que brigara
para não ser a espada de Palmella, vem a ser o
punhal com que os Cabraes submettem o reino
ao seu imperio. Sempre simples, seguro de si,
crendo-se muito, não tem a. consciencia de quan-
to desce. Lembra-se do que foi e ponde; crê
tudo o que os aduladores lhe dizem, confia no
soldado que ama por instincto e genio; incha-se
com as ovações que mais ele uma vez ainda a
turba ignara fará á sua figura theatral, aberta,
viva e san, sempre moça, nas proprias cans da
velhice que lhe emmolcluram o rosto, angmentando
ainda a seclucção do aspecto cl'esse actor politico:
ccestou persuadido que seria um bom rei n'um Es-
tado qualquer!»
Rebellado ou submettido, contra ou pelo throno,
4. - A F Al\llLIA DOS POLITICOS 45
no campo e em toda a parte, comprado ou temido,
Saldanha, suppondo-se um arbitro, não sente
quanto desce; não se reconhece um instrumento,
nem que o deprimem as cousas que faz. A con-
fiança que tem em si chega a ser infantil: com a
mesma franqueza com que suppõe goYernar, ima-
gina saber; e assim como as suas politicas são
chimeras, são tolices as suas obras homoepathicas,
ou inspiradas pelo catholicismo ardente que nunca
perdeu. Quiz fazer concordar o Genesis com a
Geologia, e essa tentativa, ainda quando soubesse
o que não sabia, era a mesma que a sua propria
pessoa apresentava: a concordancia de um catho-
lico e jacobino. D'essas chimeras ficaYam apenas
livros maus e acções peiores. E' verdade que os
livros, luxuosamente impressos, tinham douradu-
ras nas capas : tambem a vida do marechal tinha
uma capa dourada de commendas, cordõ(•S e far-
das bordadas, que sobre um vulto bem apessoado,
com a sua face bella e a tradição da sua branua,
o faziam um excellente embaixador nas curtes
extrangeiras.
Depois, caiu ainda mais, sem o saber, sem o
sentir: crendo-se sempre um grande homem. Agar-
raram-n'o os industriaes especuladores e servi-
ram-se da sua pompa para os seus negocios, su-
jando-o com trapaças. . . Assim acabou a historia
a que agora veriws o começo. Em tão deploravel
cousa veiu a parar o homem que em 26 fôra como
um heroe e o arbitro dos destinos da patria.
Primeiro dos chefes políticos, reunindo á in-
fluencia parlamentar a cortezan e uma influencia
militar superior á de todos, a segunda phasé da
vida de Saldanha devia ser esboçada aqui, n'este
momento : é um typo revelador. Ninguem teve
uma clientela maior. Abandonou-a, renegando-a
46 L. 1\.- A ANARCHIA LIBERAL- I
pelo paço; e esses antigos salclanhistas de Paris,
livres do eston·o que já os sopeava, preparavam-se
para o seu dia. Uma revolução andava no ar:
re,·oluçã.o que forçaria :-;alclanha a desembainhar a
espada contra os seus ,·elhos clientes.
A pproxima-se a crise; mas o leitor comprimirá
a sua impaciencia, porque, se já Yin as fôrmas
mansas elo regabofe, o dissipar elo clominio nacio-
n a ~ , o be-ber a cluwa ele libras elos emprestirnos
inglezes, não \'Ítl o outro lado da scena. ~ \ orgia
era tambem cruel. Havia banquetes e matanças.
Estalava chmnpagne, mas tamLem estalavam re-
petidos, insistentes, os tiros dos tralmcos na caça
elos ,·encidos. O portuguez mostrava a outra fúrma
da sua sanha natural, respondendo com a bala á
forca.
5. - V.'E VICTIS !
A eloquencia do nobre Passos conseguira que.se
revogasse o decreto iniquo das indemnisações:
Tendes \'Ós calculado d'onde hão de sair os meios para
provê•· á mise1·ia de tantas familias que nós vamos fazer
desgraçadas? Ou havemos de ta}Jar os ouvidos e fechar os
olhos ao coração, para não vermos espectaculo tão lasti-
moso'? Quando um filho vos pedir pão, dar-lhe-heis uma
pedra, ou um punhal ou o cadafalso? (Disc. de 28 de janeiro
de 35)
A camara, como é sabido, aboliu o decreto, mas
os miguelistas ainda pagaram muitas «perdas e
damnos»; pouparam-nos ao cadafalso, mas deram-
lhes pedras, punhaes e tiros de trabuco em des-
forra. A segurança de uma victoria tão custosa,
tão disputada, sobretudo incerta por tanto tempo,
emhriagava homens que ouviam aos mestres dou-
trinas feitas a proposito para os desenfrear. Solta-
5. -V--E YICTIS ! 47
ram-se com effeito todas as cubiças e odios; paga-
ram-se a tiro todas as offensas; roubou-se e ma-
tou-se impunemente. O miguelista era uma Yicti-
um inimigo derrubado: o Yencedor punha-lhe
o joelho no ventre e o punhal sobre a garganta.
como se os lobos, e cada offen-
sa anterior, cada crime, era punido com uma morte
sem processo. Os vencedores, suppondo-se arhitros
de uma soberania absoluta, retriLuiam a cento por
um o que antes haviam recebido.
Kão era sú, comtmlo, a vingança que os movia,
nem tamhem a cubiça: era um grande medo de
que o monstro vencido erguesse a cabeça, á ma-
neira do que ás vezes faz o touro no circo, pros-
trado pelu bote do matador, levantando-se e inves-
tindo, matando ás vezes, já nas ancias da morte.
Além do medo, havia ainua a fraqueza da autho-
ridade liberal, fraqueza inevitavel em quem pré-
g<n-a_ ao poYo a sua soberania, fraqueza natural
no dia seguinte ao da victoria; mas fraqueza
infame, pois d'ella viviam os chefes, passando cul-
pas aos seus clientes, fechando os olhos aos rou-
bos e mortes: quando positivamente os não orde-
navam para se livrarem de rivaes incommodos ou
de inimigos perigosos. Tal é a ultima face da anar-
chia positiva; assim termina a serie de manifesta-
ções de uma doutrina aggravada pelas condições
de um momento. Destruíra-se na imaginação do
povo o respeito da authoridade, condemnanclo-se-
lhe o principio com argumentos de pbilosopho;
destruíra-se todo o organismo social; e em lugar
d'elle via-se, portanto, a formação espontanea das
clientelas, chocando-se, disputando-se, consumman-
do a ruína total, explorando em proveito proprio a
confusão dos elementos sociaes desaggregados.
Toda esta dança macabra de partidos e pessoas
L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-i
corria sobre uma m1çà:o faminta, apesar das libras
que rodavam em Lishna, e dos tivolis e dos bailes
das Laranjeiras. Força- fiJra accudir com soccorros
aos lavradores. (Lei de_, de outubro de 341 Uns queriam
que o governo comprasse gados e sementes e os
distribuísse; mas a doutrinrt ergueu-se, chamando a
isso communismo, exigindo liberdade. Decidiu-se
emprestar dinheiro-oh, t•mta tyrannia dos syste-
mas !-para que o pequeno lavrador comprasse
grão e rezes n'um paiz assolado.
1
Toda esta
dança macabra de bandidismo infrene, dizemos,
corria por sobre um paiz devastado. No governo
não havia força para impiJr ordem, e havia inte-
ressados em fomentar a desordem. Cada ministro
tinha o seu bando, os seus úravi, para resolverem
a tiro nos campos as pendencias que a phrases se
levantavam nas camaras. :\Ias ainda quando isto
assim não fosse, a condemnação em massa de todos
os que no antigo regime exerciam as funcções pu-
blicas ; essa universal substituição do pessoal do
Estado, indispensavel para pagar os serviços, tra-
zia aos lugares os aventureiros, os incapazes, e
verdadeiros bandidos.
Em vão se tinha duplicado (de 70 a 1-!U) o nu-
mero dos julgados: era impossível corrigir uma
desordem que a tantos convinha. Guerrilhas arma-
das levavam de assalto as casas do miguelista ven-
cido, roubando, matando, dispersando as famílias.
Havia uma verdadeira, a unica absoluta liberdade
-a da força! :Na Beira houve exemplos de uma
habilidade feroz singular. L\Iatava-se a familia, dei-
I _\_ lei de 4 de outubro de 34 mandou emprestar até 65o contos (a
juro de 5 por cento e amortisaçáo em 5 annos) assim distril:iuidos por
provincias: Algarve 108; Alemtejo 123; Beira-.\lta 21 ; Beira-Baixa 2S;
Douro 103; Extremadura 161; ~ l i n h o 55; Traz-os-Montes 2K-Em no-
vembro ha,·ia metade dos emprestimos feitos.
5. - \".E YICTIS !
xanclo a vida· apenas ao chefe, em troca de um
testamento a favor de alguem. Dias depois o po-
bre apparecia. morto e enriquecia-se cl'esse modo.
, .t .:Jy11. e ,z revol .• te sL"/ .•
Os tribunaes, com o seu novo j ury, eram machi-
nas de vingança. De Campo-maior, um hum homem
escrevia a ::\Ianuel Passos o que oLservara. (29 de maio
de 3ó; corr. autog. dos Passos) Saíra maguado de uma au-
diencia, em que um negociante da terra pedia seis
contos de perdas e damnos a sete miguelistas que
tinham deposto como testemunhas contra elle, no
tempo do Usurpador. O povo invadira-lhe os ar-
mazens, partira lhe as janellas: nem uma teste-
munha, comtudo, accusava os réus de terem prati-
cado ou ordenado esses actos; mas o advogado
«concluiu dizendo aos jurados que já que não po-
díamos tirar a. vida aos realistas por causa da con-
venção d'Evora-:Monte, lhes tirassemos os bens, pois
que era esse o unico mal que lhes podíamos fazer.
-Os jurailos eram quasi todos da guarda-nacional
e querem tambem indemnisações: condenmaram os
réus na conta pedida. Isto me fez tremer pela li-
berdade!>> (Carta dt! José :\"unes da \latta)
Os magistrados novos roubavam desaforadamen-
te; e o juiz de Angeja conseguiu tornar-se nota-
vel: sú lhe faltou levar as portas e os telhados das
casas. (A .:Jyn. e a ,.el•ol. de set.) Era um positivo saque. O
povo creou tal raiva a esse ladrão que a gente do
Pinheiro foi esperai-o, quando ia a Ovar, obrigan-
do-o a fugir n'uma carreira que sô parou no Alem-
tejo. tlbi.:J., Na propria Lisboa succediam cousas in-
críveis. Por ordem do governo foi saqueada a casa
do visconde de Azurara, ausente, e dois amigos do
ministro ficaram-lhe com as mobílias. (IN.:J.J O que
succedeu ás dos conventos sabe-se-ou antes nin-
guem soube. Bandeira, o Esopo liberal, que bom
PORT. CONT.- TOM. II 4
50 L. IV.- A A".-\RCHIA LIBERAL-I
foi não ter morrido em publicava no noYo diccio-
ml.rio: « Delicto-Delirio. -A significa<; ?to cl'estas
duas palaYras ainda não está bem fixada, e varia
em tempos e paizes diversos».
se imagine que escurecemos as cilres do
quadro. Leia qualquer as memorias do tempo, ouça
os que ainda YiYem, e ficará sabendo como a :mar-
chia na doutrina, que era uma anarchia no_ go-
verno, era tambem uma anarchia de bandidos por
todo o reino, matando e roubando impunemente.
E por cima de tudo isto pairava um medu po:;itiYo
que entorpecia a acção dos mandantes, e justifica-
va, no sentido de uma defeza feroz, a caça do mi-
guelista.
Aos corcundas promette-!'!e D. )liguei; aoslibcraes Yer-
tiginosos a carta de 20: reyo}uçàosinha nn l'a:;:al-dos-
o,;os; .J nntinha na Pederneira: .T untinha cm Barrozas :
ahi est:í tudo em aguas tmTas; e é entàn que D. )liguei
pesca. D"nm lado o Ect'O, o Interessante, o p,.I"Citrsnr e o
Contrabandista: e do outro o o Diabrete, o
.... l.ltn·,•lte-JJ,o·clte e a Yeclefa dão com vocês dnitlns: e no
meio cfesta COnfusão chega O CrtSilS .frederÍ.</
7
inniCa-se a
estupidez da nação, o desejo do absolutismo-e apparece
o Homem ! lllan..icira. A1·till!eim n.
0
16)
.A' sombra cl"esta confusão € cl'este medo havia
impunidade para tudo; e n'um sentido era bene-
merito o bandido que assassinava e roubaYa o ini-
migo. De facto não terminara a guerra: continua-
va, sob a fúrma de uma caçada. Em Setubal haYia
infinidade de ladrões e os proprios militares não
se atreYiam a sair sem armas. (Shaw, LettersJ 05 saltea-
dores faziam batidas, traziam cadaYeres o povo,
tomado de um fu:ror egual ao antigo, mas im·erso no
fi. -\":E \"ICTIS !
objecto, enterrava, cantando e bailando. Pareciam
selntgens. riN.i.) Serpa ficou celebre pela gente rrue
ali foi morta a tiro, sem combate, pelas janellas
e pelas portas. Batia--,e: vinham abrir, e uma bala
entrava e o infeliz morria. Era um mig·uelista:
não vale a pena incommodos. A justiça se mo-
via; pagou culpas antigas! E os eram
henemeritos. No Porto de março de ::1:ll •> fa<;h.-
nhudo Pita Bezerra, antigo carrasco cuja morte se
comprehende melhor, indo á Relação a
foi assaltado pela multidão que o tiron ú escolta,
levando-o á Praça-Nova onde o matou; arrastando
o cadaver puxado por nma corda, pela ponte, a Vil-
la-nova, como quem mostra um lobo mnrto ús al-
deias, e deitando-o por tim ao rio. As quadrilhas
de l\lidões assolavam toda a Beira. Arganil, ..Avil,
Coja, Polques, Goes, Villa-cova foram positiva-
mente saqueadas, levando os bandidos o despojo em
comhoyos de carros. rsecco, .\Iem.J O lJancloleirismo flo-
rescia n' essa região serrana, como raiz de uma ve-
lha planta que rebenta assim que bebe um raio fh ..
sol. Eram os descendentes de Viriato. U migu8-
lismo armara-os, e agora, bafejados 1-.lo ar bent>-
:fico da anarchia, uns, implorados e defendidos pelos
senhores de Lisboa H quem serviam, voltavam·St->
contra os miguelistas, indifferentes·· a partidos e
opiniões, seguindo o· seu instincto de uma vida
aventurosa e bravia. Outros, porém, inantiuham·St->
fieis aos padres, e nos broncos cerebros cl'esses
qnasi selvagens apenas os fetiches do catholicismo
1
podiam ás 'Tezes mais do que os instinctos esponta-
neos. Era uma Italia meridional, nas suas serras, o
paiz que acabara sendo em Lisboa uma
As Beiras viviam, á maneira da Grecia de ha pon-
1
Y. Syst. dos m_ythos reli:l:. pp. e segg.
L. IV.- A ANARCHIA" LIBER.\L-1
cos annos, uma exiHtencia primitiva da tribn ar-
matla, alimentando-se elo rouLo, admirando a des-
treza e a coragem dos seus chefes.
Havia na st>rra da Estrelia a guerrilha migue-
lista do padre Joaquim, ele Carragozela, irmão. du
celeLre Lniz Paulino secretario da lJ ni,·ersidade no
tempo de D. l\Iiguel. llavia contra ella as dos
Brandões, l\Iidões, que serviam o Rodrigo e o
chefes-de-vartidu em LisLoa. Fundi-
ram-se um dia esses inimigos no convenio de Gavi-
nhus; mas ficaram des8identes os do Caca, fieis
au miguelismo, e acaLaram queimados n'uma ade-
g.:t, depois de a defenderem conti·a os sitiantes.
(Secco, .\lt!m.J A fusão das guerrilhas da lleira creou
na serra um verdadeiro terror, porque ningnem
ousava desobedecer, e imperavam, saqueavam:
houn· casas queimadas e, á luz dos incendios, or-
gias de vinllü e estupros. rl'-'i.i-J
E nas revoluções e pronunciamentos que vã•)
principiar em B6, n'essa segunda epoch:1 em que
a anarchia passa violentamente para o governo,
tornando todo o exercito· n'um corpo de guerri-
lhas, v& -se• a tropa, ora alliada, ora inimiga dos
bandidos; e os palikaras portnguezes fazendu elei-
ções, pela Patuléa ou pelos Cabraes, levando as leis
nas buccas dos trabucos e resolvendo a tiro as pen-
dencias locaes.
Yem distante, porém, isso ainda. Agor'l a faina
é saquear e eliminar o mignelista. De 3-! a 39 s,·,
em Olinára-do-Conde e mts Cabanas houve mais
de trinta assassinatos impunes. ribi.t.J E nas ctlrtes
de Franzini apresentou uma nota do período
dP julho de 33 a i37, que diz assim:

assassinatos :2ti:-l roubos 5mt
C as te llo-branco " ti-! » !III
?'1. - \".E YICTIS !
Purtale!!"re
f-:.nar•la·-
assassinatos l-!!1 rouh•)S .-,!1.)
Porto
Brag·a
))
))
I) 4_1
))
.,-.-,
010
)) ;j78
G20
O minhoto roubava melhor; na Beira e n•) Ai-
gan-e matava-se com mais furia. Xo Porto hou-
vera mais de quinhentos mortos; mas a capital,
onde em nm anuo apenas (Disc. de Franzini. sess. de 38) se
tinham visto H}J assassinatos e 61-! roubos-ho-
mem morto, um dia sim um dia não, e d.-,is roubos
em cada dia !--a capital levava a palma a tudo.
Xão era ahi o centro, o foco, o tabernaculo '?
Yoltemos ao nosso Esopo : <'Filho de lJmTo não
pc',de ser cavallo, dizia meu avô,), e valentlo-se
da ftjrma popular da fabula, põe o burro em dia-
logo com a Liberdade:
Xào fujas, diz-lhe o jumento.
Burro, que havia eu fazer'?
Durro nasci e s6 burro
1::' meu destino morrer !
Burro, co.u1o se sabe, queria dizer miguelista;
e o poeta exprimia a convicção intima da nossa
incapacidade para comprehender a nova lei. Com
effeito, assim parecia, ao observar-se o rttle pas-
sava por toda a parte: a mi seria
dos caracteres, a absoluta impotencia das vonta-
des no sentido de reconstituírem di:' qualquer
modo o organismo derrubado pelos gülpes do ma-
chado de )lousinho. As lascas do velho tronco, os
ramos e as folhas da arvore antiga, caídos por tt-r-
ra, apodreciam no charco das lagTirnas e da::; ::5au-
L. IY.- .\ A:"'ARCH!A LIBERAL-I
dadt'S dos ,·encidos, do sangue copioso dos caclave-
t•es. Era uma decomposição rapicla e já tudo fer-
mentava.
l\las no lodo elos paúes, nadando solH·e as aguas
es,·erclt'adas e putriclas, ,-ê-se abrir, elegante e can-
dida, a ftt,r do nenuphar. Assim Lrotanl pura no
charco nacional a esperança ele um a mi-
rag-em -ele um destino, a chimera de uma doutri-
na, o encanto de uma Yoz-a meiga Yoz ele Pas-
um messias, pedindo paz, ensinando amor.
Eu detesto os homens rancorosos. E::;sa é má.
(Juem ab.,rrece e uào ama, uào pôde ser virtuo'so. nem púch•
::;pr line,-porque a libenlade é a humanidade. tDisc. de w
de :>d. de 3-!)
A liberdade era para o nO\·o apostolo uma cousa
di,·ersa, porque as expressões Yagas çonsentem
qne cada qual introduza n'ellas os mai:::; Yariaclos
pensamentos. Para l\Iousinho fDra um estoicismo
secco e urna negação do passado, uma doutrina ra-
cional e ntilitaria: agora surgia uma LIBERDADE
noYa, especie de vestal sagt·ada e e\·.<lJ1g·elica, en-
n,lYitla n'uma nuvem doirada ele amhiç·ões podicas.
O liberalismo portuguez Yia nascer-lhe um Lamar-
tine; e no descreclito ela primeira cletiniçao, as es-
peranças voltavam-se para a no,·a ftjrmula.
Temo muito a libcnlatle uns discursos, mas pouca nos
• Ila muitos que a intendem, mas poueos 'lue a ::;ai-
bam amar. Tt>mos mais liheraes nas bibliotheeas t'lo i"tue nas
prac;as. JJO:; trilmnaes, no gabinete. ha lJllC tc:·m liclo,
lille sabe111 toda a liberdade, e IJUC aiuda tt'·m coração para
a amare111, Htrts II<tO o tém para a defendt'rem. :Disc. de 10 de
no\. de
A rrlia t>ntão na camara o odiu aus ,·enciuos,
e as palan·as de paz t>ram um actu de cor:1gem.
5. - Y:E HCTIS !
5.)
Essas palan·as do parlamt:lnto, ainda ouvidas com
attenção dt- colera ou de esperança, eram commen-
tadas pelas pro,·incias; _e de muitos pontos, em nu-
merosas cartas sem nome, chega,·am ao tribuno
eloquente os abraços, os applausos. <cXào estranhe
chamar-lhe amigo, sem nunca o ter conhecido:
quem trabalha para o meu bem, tem jus á minha
amisade», dizia um; e outro: ecO modo por que
se hou,-e na questão das indemnisaçues denota um
saber profundo. E' nimiamente liberal porque é
tolerante, e humano porque é sabio. Acceite o si-
gnal de reconhecimento de um militar que rece-
beu duas feridas na guerra e se gloria de pensar
pela cabeça dt- Y. s. >> E assim outros, muitos.
(Corr. anthogr. dos Passos, 34-5)
::\Ias, por duros e resequidos que a guerra e a
baixeza tornem os corações dos homens, raro será
o instante em que os não commo,·a uma pal:p:ra
sentida, de uma bocca virtuosa. Intemerato no seu
nome, seductor na sua voz, candido, ingenuo, Yir-
tuoso, tamLem estoico, Passos destaca v a-se e E-r-
guia-se por sobre os outros com a superioridade dos
_genios caridosos sobre os espíritos sómente htcid•JS.
Era mais do que uma rasão, era uma ,-irtude; mais
que um homem, quasi um santo. Em baixo, muito
em baixo, ficavam, chafurdando em odios e Yilezas,
as turbas dos politicos. A palavra d'elle subia, eva-
porando-se nas nevoas de uma aspiração poetica,
superior ao que a condição dos homens permitte
realisar. X a sua cm·idosa chimera peuia mais do que
paz. pedia egualdade e um estreito abraço dos ven-
cedores e dos vencidos.
A minha firme convicção é que todas as opini•)es de-
vem ser representadas e que todas devem ter garantias.
Isto que eu l u c r o ~ querem-no tambem os opprimillos ... )i ào
ij()
L. 1\·.- A ANARCHIA LIBER\.L-I
•tnero a pena de morte para nenhum ci,ia·lil.o portugnez:
oxalú que mmca mais ella seja e:-..ecntada sobre a terra!
1\ ào quero tambem penas perpetuas, porr1uc até no fundo
tle uma prisão a ncnlnun desg-raçado de,·e faltar o balsamo
eonsolador da E:sperai'lça ... .Peu::;o que as I ag-rimas de um
parricida, regando o tnmulo do pac truci1hulo, são bastan-
tes para lhe fazer perdoar tào p:r:mdl' crime. !Disc. de 28 de
jan. de 3S)
A liberdade é a humanidade, dissera o novo
apostolo da doutrina; mas o seu EYangelho não
era, como o antigo, um discurso, falando
ao sentimento indefinido, á piedarle, A caridade, ir-
reductivel a formulas e doutrinas, fundo de luz
nebulosa do puro espírito humano, que o eleva
acima da realidade triste e o poetisa amaciando-
lhe as agruras e espinhos: o En1.ngelho de Passos
era um canon, uma lei, uma doutrina-e por isso
uma chimera. Era uma poesia, posta na prosa ne-
cessariamente rasteira da politica. D'esses migue-
listas que a sua caridade_ penloaYa, e a sua huma-
nidade rel:!taurava ao gremio de citlaclãos, dizia:
Deixai-os ... S(' ainda não tém olhos para fitar a Crua
e vêr que ali i est:\ a libenlade tle todos os homens ! -(Di se.
de 10 de nov. de 34)
Os Lellos sentimentos tornavam-se opnuoes, e
faziam-se idolatria; das nuvens doiradas de espe-
ranças e desejos ficava o pú ele mnas formulas e a
illusão de um symbolo. A Urna era outra Cruz. E
onde os artigos doutrinarias punham a soberania
da razão individual e o aLs.olutismo elo direito do
homem, a nova que Passos _dava <Í. Li-
berdade, rejuvenescendo -o jacoLinismo da sua in-
fancia com a poesia tla sua alma, punha a sol,era-
nia do povo, a voz da multidão, congregada nos
f1. - Y.-E YICTIS !
. _-,,
seus conucws. O paiz perdia- se por não a qut>rer
ouvir; Portugal caia por vê r na Liberdade uma
doutrina de individualismo, não uma doutrina de
democracia. Tudo o que se fizera fôra um erro:
tudo havia a fazer de novo. Assim, nas ruínas da
velha cidade lJOrtugut>za assentê1ra o domínio de
um systema que, arruinado em dois annos, ia ce-
der o lugar a outro systema novo e a novas rui-
nas.
Havia cá fúra, para connuentar e aplJlamlir as
palavras calorosas do tribuno, prégandu a nova
lei, um vasto numero de homt>ns armados, e uma
opinião unanime condemnando a gt:-nte Yelha. lia-
via, além d'isso, esse estado ele espírito aventu-
roso, excitado, prompto a romper: estado de espí-
rito proprio de quem chega ele uma gut>rra. Ao
voltarem á capital, os Latalhões de voluntarios não
tinham desarmado; percebiam vagamente que,
apesar ele terminada a campanha, a guerra não
acaLm·a ainda. Tudo o que o governo fez para os
desarmar por Loas foi inutil: punham guardas
ás portas dos lugares indicados para a entrega das
espingardas, afim de impedir que os pusillanimes
obedecessem. (A dpzastia ~ <l revol. de sr:!.) De arma ao
hombro, _pois, havia uma legião prompta a apoiar
as palavras do tribuno que a força das cousas ia
obrigar a descer da camara para a rua, do céu
ethereo das -suas esperanças para o triste fim das
suas desillusões. Passos acabará, como acaLou ::\Iou-
sinho.
De tal f ú r m ~ termina o primeiro período d'esta
historia: dois annos que principiaram com o aca--
bar ela grande guerra. Vamos estudar a stglmdtc
liberdade ; depois estudaremos a terceira} a f_Jllarta,
etc.-até ao fim.
II
1.-A RE\"OLCÇÁO DE SETE:\lBRO
A antiga gente do governo nàu se aeha,·a me-
lhor com a substituição de Pahnella por Terceira:
o segundo duque valia pouco e estava ameaçado de
cair depressa. Esse primeiro semestre de iW corria
prenhe de ameaças. Já Carvalho não podia sacar
dinheiro de ft_',ra e a sua fecundidade desacredi-
tava-se. atrazar os pagamentos, como
a qualquer outro. Já se deviam Hl:OO(I contos, por
vencimentos e clespezas dos ministerios (6:-!::!6), por
letras e escriptos do Thesouro (3:6.1()J, por adianta-
mentos elo banco, -Y. Rei. de P.zssos, sess. de 3;l sem
falar na matilha de credores por divida mansa
não reconhecida, ou esquecida, em 3-J. X'um re-
gime de communismo burocraticu, como o nosso,
isto era : casa onde não ha pão ...
Por isso, não falando elos clanFJres rlas ruas,
h a ,·ia no seio da cama:ra uma opposi(j:lO \·ehemente
e applaudiua. Eram os dois Passos e Sampaio, era
.José Este,·ão e o banqueiro éram Costa-
Cabral, o X unes, e .] ulio Gomes. O
mini::;terio sentia-se tão mal que em julho dis-
soh-era a camcu·a, para reunir gente sua, com·o-
cada para setembro. De f/n·a batia-o o á
frento:- da imprensa inimiga; é no cluh celebre dos
1. -A kE\"OLüÇÂO IJE SETE:\IBRO
Camillos 1 os ministros diziam Camellus) troa,-a aci-
ma de • a voz de Costa Caural pedindo uma
tyraunia da plebe, o sangue dos aristocratas e di-
zem que até a cabeça da rainha. (Cos/,1 Cabr.11 em relevo,
anon.J Era o nosso l\Iarat: porque nús, copi:mclu a
França, imitaYamos sempre os figurinos dé Paris.
O goYerno fez as eléiçues, que furam como to-
das; e cumo sempre, venceu. O reino inteiro o que-
ria com uma unanimidade e um enthusiasmo, que
poucas semanas bastaram para demon:strar. Y en-
ceu Hll toda a parte: salYo no Porto rebelth .. , im-
pério, cidaclellu, dos irmãos Passos, de Bouças .. H
que tudo era copia, digamos tarnbern qué a clte-
gada dos deputados do Porto a Lisboa fui como a
dos nwrselhézes a
isso no dia V, no T erreiro-clu-Paço,
onde gente armada fui esperar os recem,·indos é
acclamal-os, com morras á CARTA e ao guYerno,
vi,·as constituicão de e á re,·olucão.
«Indo-nus déitm: na cama á somlJra da
acordúmos debaixo das léis da ccmstituicão dada
pélo poYo no anuo de ll':i20. Todos esfrega,·am u:::;
olhos e perguntavam se era um sonho o qué uu·
Yiam : mas era com effeito urna realidade.)) (Liberara,
.\It·m.J Fui assim, com esta simplicidade, qué as cou-
sas mudaram; o que pru,·a, nãu a força elos que
vénciam, mas a podridão das cousas ,·enciclas. Ha-
Yia a consciencia de que a machina social, por
desconjuntada, não marchaYa; é um tal sénti-
mento deu o caracter de uina saldanlzrtCla á réYO-
luçâo ele sétem bro, contra a qual ninguem protés-
tou. dia 10, de madrugada, a gnarda-nacionti.l
foi ao Paçu éxigir a queda do gabinéte e a procla-
mação ela constituição de ':.?4 I. dia 11 o mini:sterio
caía, e de tarde foi a rainha aos Paços do concell10
jurar a antiga-cunstitniçilu. Inutil ó
L. 1\".- A A:>:ARCHI.\ LIBEI{.\L- I I
dizer· que a camara .f"t:,ita nã.o se reuniu: era nect>s-
sario fazer outra, de ft>itio din•rsu. Entrt--"tanto ac-
clamara-se a dictadura de Passos, Yieira-•1 .... Castro
e da BanclPira. A victoria surprt>henclera a to-
dos, e mais du qut> ningut>m aos Vt--"llcedores que
a não t>spenn·:un. Era mistér dt=>cisão. pun1ne o ba-
rometro não é tiel quando sobe rapidamente. Cha-
mou-se a capitulo: o clictaclor-em-chefe, com Leo-
nel e .J Ltlio Gumt>s, de,·iam orclt·nar a maneira de
t>leg·er as novas cílrtes. O Rio-Tinto offerecia di·
nheiro. Havia um formigar E-spesso de gente dedi-
cada, prumpta a sacrificar-se pela patri:1, pedindo
os lugares qne os vt.-ncidos derorw.:rtm h<n·ia tempo
demasiado. Passos «tinha o lJraç·o canç·ado de assi-
gnar dt>missues ».
já conhecemos, dt>sde :?6, o tribuno do
Porto elen1Clo ao fastígio elo podf'r. O:s dois Pas-
sos, tilhos de um proprietario de Douças, pertt.-n-
ciam a essa Lurguezia do norte du reino por
estirpe e temperamento. Tinham nascido na abas-
tança, desconhecendo as privações da infan-
cia que umas vezes formam os homens, mas mui-
tas mais os t>stragam. Seus pat>s, sem gran-
des propriedades ruraes- ninguem as tem no
l\Iinho-possuiam bastos capitaes moveis, o que
tambem no :\linho é commum: em tinham na
companhia dos vinhos e em casas ele commercio
elo Porto o melhor ele sessenta mil cruzados.
easa de nuifi)es havia frequentes lJanquetes á an-
tiga portugnt>za, st>rvidos E'lll velhas pratas; e os
dois moços furam mandados a Coimbra, ünde sú
iam os abastados. O pae destinava o mais velho,
José, au clero; o segundo takez á magistratura.
1. - A llE SETEMP.RO
l•or qnart>nta mil cruzados a dinheiro tinha con-
tratada a compra do priorado de Cedofeita para o
que vein a ser vice-presidente rla jnnta em -16,
bachat·el formado em Canunes. 1 destruiu todos
estes planos, arrastando os dois irmãos á emigração,
onde & riqueza da família começou a fundir-se. De
2)) a 31 a mãe mandou-lhes trinta mil cruzados
par:t Paris : alti os moços irmãos Passos, dos raros
emigrados ricos, eram uma providencia dns com-
panheiros pobres, entre os qunes estava
{Cm-resF. de Ptwt. I3 de dez. Xo)
Agora, supprimida a CARTA, começava-lhes uma
vida nova, e um reinado ; mas a seu lado Yê-se
um nome r1ue não ficaria decerto esquecido depois
dvs lum·os dê honra conquistados no exodo pnra a
Gallizn, em
Sá da Bnndeira nascera em ele setembro de
179:). Tinha pois agora quarenta annns: o ,·it.·or
da Yida, e nm braço de menos leYado por uma
bala no lugar que, mutilando-o, ll.e accrescenton
o nome. Cadete em 1810, aos quinze annos, foi
para a guerra da Península, ficando até á paz
prisioneiro em França. O liberalismo entre
tista e demagogo do imperio napoleonico apren-
deu-o, pois, na infanc-ia. Voltou a Portugal com a
paz, e ao lado dos jacobinos em :?O, tor-
nando a França do seu degredo de Almeida. In-
telligencia recta e caracter forte, nem podia per-
ceber nnrmces das cousas, nem dobrar-se ao
imperio das conveniencias. l\Iilitar fiel êl bandeira,
suhdito fiel ao rei, cidadão fiel patria, espirito
fiel aos pdncipios, Sá-da-Bandeira não podia ser
um condottiere como nem um politico
como Palmella, nem simplesmente um instrúmento
militar como Terceira, 11em tampouco um tribuno,
idolo reYolucionario, como Passos.
L. IV.-.-\ Al".-\H.CHIA l IBEH.AL-1 I
A reaeeilo ele 1 acha-o em Lisboa com vinte
e oito mn;os e nfio o seduz. Em vez de pregar no
peito a medalha d({ poeim) como fizeram Salda-
nha e Yilla-FHir, emigra outra vez; para rt-gressar
em 2G, collocando-se ao lado do go,Terno, f<lZIC'ndo a
campanha contra os apostolicos e acalJantlo-a em
nomeado majur por distincção. :Kn anno seg-uinte
foi prestar os seus serviços ú Junta do Porto, e
bem se p,.Jde dizer qtw lhe salvou o exereitiJ e a
honra militar na retirada para a Galliza fple o fez
chorar de amargura. Tinha trinta e tres annos.
. e firme, estoico e virtuoso, julgava-se o
ht)IJWU!-1i!Jt' da liberdade pnrtugueza. Lig:a1lo por
princípios ao rallicalismo, andon separad•J 1las suas
intrig·as na ernigração. Yin sempre a qu•:stão cnmo
uma guerra e sobretudo queria desembainhar a sua
espada, obedecendo, sem ambiç.ões de mandar, com
a serena ambição ele seguir o seu de,·er, servindo
onde. como e 11nando fosse necessario. Por isso, logo
em :.?!J pa:;sou de Inglatena á Terceira ; e tendo
sido aprisionado pelo cruzeiro miguelista, escapou
da cadeia de :-:;_ 1\liguel, indo apresentar-se a Yilla-
flílr com o qual fez a campanha dos Açores.
Yeiu com a expediç·ão ao reino; e D. Pedro
nomeou-o governador militar do Porto em :Hi de
julho, substituindo o antecessor 1D. Thomaz .Mas-
carenhas l qne fugira na noite panica de De-
pois foi ministro; e em 3-! gO\·ernador elo Algarve,
para hater as guerrilhas do Remechifln. Consoli-
dada a paz, tributado o preito de ao
tltrPno que a guerra levant{tra, embainhou a es-
pada e sentou -se na camara do Jndo e.squerdo,
pois, no seu entender, de ambos os lados se era
egnahnente fiel A monarchia liberal. I mpertnrLavel
na sua serenidade, com '..1111 systema de opiniões as-
saz concatenadas para mn espirito a'Tesso a profun-
1. - A REYOI.CÇÁO DE SETE.MBH.O
dar as cousas, a humanidade era a sua religià:•J, o
dever a sua moral_, a monarchia o seu principio, a
espada o seu amor, o po-,;o o seu dilecto. Esta,·a
pois longe de ser um demagogo como os dos Ca-
millos, nem um tribuno da plebe, á maneira dos
de H•)ma-como de facto era Passos.
A revolução de setembro surprehendeu-o tanto
como a todos; mas inquietou-o mais, porque dt-sor-
ganisava a ordem da sua vida, pondo em contlicto
diversos aspectos da sua opinião. Decidira-se pela
unica solução adequada ao seu genio-abster-se.
~ I a s se na rua o amavam, no p a ~ o conheciam-no.
Elle era o homem unico para evitar que a monar-
chia, assaltada, caísse. Talvez esperassem fazer
d'elle um ::\Ionk, ou um Saldanha, mas se as-
sim pensavam, illudiam-se, e illudiram-se. Sà-da-
Bandeira foi um Lafayette. Trahir t>ra um verbo
que elle desconhecia por instincto. ~ e a monar-
chia julgm·a que nem a revolução, nem os prin-
cípios de 18:?0 eram inconciliaveis, elle, que no
fundo .dL• seu coração amava o povo, elle para
quem a liberdade era a lwmanidade_, folgava em
não ter de mentir a nenhum dos seus deveres; e
faria o possível por alcançar a conciliação, corri-
gindo todas as demasias democraticas que pnzes-
sem em perigo a solidez do throno. Instado, accei-
tou, porque lhe disseram ser isso, exactamente
isso, o que lealmPnte se queria; e com leal se-
renidade foi sentar-se ao lado do tribuno para o
aconselhar, moderando.
Ora o paço esperava sempre que elle fizesse mais
alguma cousa: não conhecia o fundo do seu estoi-
cismo, e logo que o percebeu mudou de rumo.
L. 1\.-- A ANARCHIA l.IBER.-\1.-l I
E' ,·erdade que, tambem, a marcha das cousas
arrast:n·a-o e Yia-se perdido no meio da onda da
demagogia solta, que já o tü'lo renegava a elle
sc·,, mas até ao seu antigo ídolo, ao nobre, adorado
Passos. Os f1amillos rugiam pela bocca de .José-
. EstE:>,·ão que se julgava um l>anton, e de Costa-
Cabral psendo-1\Iarat. Havia alJi quem, tirando
classicamente o punhal da algibeira da sobre-ca-
s:_wa e brandindo-o, ameaçasse medir com elle adis-
tancia das Necessidades ao caes-rlo-Tojo. E José
EstE:>,·ão, agarrando a golla de pelle de cabrito
da psendo-toga do pseudo-Hrnto, grita,·a-lhe: ((Cal-
la-te, miseravt>l! n-N'um momento de franqueza
inconsequente, natural dos bons, Passos excla-
mara: cc A nossa imprensa! Eu não tenho com
que a comparar senão com o theatro do ...
Desgraçada nação, se tivesse de ser governada pe-
los arbítrios dos follicularios! » cDisc. de 1h de jan. de 36)
l\Iais de uma vez, tambem, conrlt>mnara as dieta-
duras em nome da rigidez dos princípios. E agora
a das cousas, erguendo-se para dissi-
par as fazia-o servo d'essa imprensa e
ubriga,·a-o a ser um ·vil rle.'Tota. cc E' o governo
dictador sobre as leis; dictadora a imprensa sobre
o governo : dictadores os assassinos sobre o gover-
no. Ninguem conta com o seu empregn
7
nem com
a sua reputação, nem com o futuro da sua pa-
tria. 11 ro 'Tribuno portuf{ue;_, outuhrol O emprego apparece
á frente, como é dever n'mn communismo buro-
cratico. Doía o braço do dictarlor assignando de-
missões, mas nem assim const>gnia vencer a fome
dos pedintes. Antes, era uma oligarchia mais facil
de contentar; agora, a denwcracia
7
o governo de to-
dos, obrigaria a uma partilha universal, se se qui-
zesse saciar os desejos miiversaes. ccNão ha quem se
não lembre d'essas medonhas columnas de descami-
1. A RE\.OLl:ÇÁO DE SETEMBRO
(ji)
sados que, vindo em cardumes do Porto e de ou-
tras partes do reino, pejavam as escadas das seCI·e-
tarias e atulhavam as avenidas de todas as reparti-
ções publicas)). (Hontem, hoje e amanhã, op. anon.) A guar-
da-nacional imperava; havia toques de rebate em
permanencia e um susto constante na população.
Que seria ámanhan? Quem podia contar com o
futuro, quando tudo estava á mercê das nwrcas,
que dominando a milícia civica, faziam d'ella um
instrumento de agitação permanente? Tocc1:va o re-
bate nos sinos, e por toda a parte soaYa o rebate
da extravagancia das opiniões, da embriaguez da
basofia, com que todos, liberalmente, dotados de
urna soberania indiscutível e de um conhecimento
das cousas mais especiaes, dissertavam, debatiam,
decidiam, cada qual certo de possuir a formula in-
fallivel para dar remedio a tudo.
queres sabio ser. ·recipe: Toma
De Benjamin, outavas duas
E nos theatros, nos cafés, nas ruas
Falia em comícios, em em Roma.
Corta o cossaco audaz que strue, que doma
Da porta no Balkan o esforço, as luas;
Falia d'Egas tambem, e Fuas,
De Palmira, Paris, London, Sodoma.
Do Palmelia a politica retalha,
Abocanha o Carvalho em porcas phrases
E sobre a chamorrice grita e malha.
Estas do sabio são agm·a as bases:
Terás os bravos da servil canalha.
Serás um sabichão dos mais capazes.
' (Bandeira, son. abril de 36).
A allusão é transparente. O sabio é Passos,
com a sua confusa massa de doutrinas e de factos,
PORT. CONT.- TOM. II 5
66 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I I
de naturalismo e idealismo, de tradições antigas,
maximas moraes, e opiniões singulares sobrtil a his-
toria nacional. N'esse vasto mar de conhecimentos
anarchicos, apenas a poesia da sua imaginação e
o stoicismo e a santidade do seu caracter masca-
ravam a do seu pensamento. Era
um cháos de elementos intellectuaes sobt'e que pai-
rava, como Jehovah na Bíblia, a luminosa ingenui-
dade da sua alma.
A desordem que elle tanto concorrera para desen-
cadear, sob a nova ftjrma demagogica, com o en-
canto e a seducção da sua palavra, já começava a
affiigil-o, por não saLer com que meios dominai-a.
Embaraçado na teia das suas opiniões contradi-
ctorias, inspirado por um vivo amor pelo povo,
crente na verdade mysteriosa, quasi mystica da
voz da multidão, Passos via approximar-se o mo-
mento da sua queda infallivel e desejava-o arden-
temente. Era um sonho que se ia esvaindo, uma
nuvem que se dissipava. Por isso, quando caiu de
facto, achou-se apenas com os doces affectos do-
mesticas, e, destruidas as esperanças, maldisse da
patria, fazendo-a a e!la responsavel pela inviabili-
dade da doutrina.
·Ainda esse instante não chegou, porém. Ainda
o dictador impera, com o seu aberto sorriso,
a lhaneza popular que na praça encanta a turba.
Ainda impera, e o seu dia melhor, mais glorioso
não passou ainda. Ainda impera; e se organisa
a seu modo a machina eleitoral e administrativa
(cod. de dezembro 10) -porque sem ella não púde viver
a revolução; porque é necessario substituir pela de-
mocracia o liberalismo da legislação de 1\Iousinho--
espera tudo da restauração da instrucção publica.
«Eduquem o povo, e elle saberá ser livre»; por-
que a liberdade era um rotulo que se pregava em
1. - A RE\"OLU(_.:ÂO DE SETEMBRO
67
todas as cousas. «Continuado o pensamento in-
terrompido de da Silveira: com
a maxima impropriedade Rebello da Sih·a. e ap-
plicando as forças da sua dictadura triumphante,
o primeiro ministro da revolução de setembro ve-
rificou na esphera dos interesses moraes e rHlmi-
nistrativos o que o de D. Pedro já cunsummara
na das grandes reformas politicas e economicas >>.
(Passos .\lmmel, na Rev. cmztemp.J A' dictadura de Passos de-
vemos, com effeito, as escholas polytechnicas dt>
Lisboa e Porto, as menos felizes acarlemias
de Bellas·-artes, e o conservatorio da capital; mas
á sua doutrina da paz na liberdade democratica
pela instrucção, não respondem acaso as reYolnções
dos nossos dias, e commu·nas como a de Paris 1< o
cerebro do mundo», na phrase de muita gente sim-
ples? mas á doutrina da solidariedade da instrucção
e da não respondem os paizes
que não são livres ·
Passos era a incarnação de todas as JJhrases de-
mocraticas; mas como essas expressões, ainda va-
gas e indeterminadas, continham em si a sementt:"
de verdades criticas, os homens que com ellas for-
mavam a sua alma eram poetas, sim, e por isso
chimericos, sendo ao mesmo tempo, como os poe-
tas são sempre, nuncios de um futuro longiqno,
victimas de um presente cruel.
Essa crueldade estava nos demagogi-
cos e na reacção decididamente planeada pelo
paço. Sabemos que a rainha enviuvara: em abril
( 1 O) tornou a casar-se com o joven príncipe de C o-
L. IV.-- A A:'\AKCHIA LIBERAL-I I
hnrgo. D. Fernando. U rei dos belga:s, Leopoldo,
com n influencia que exercia soln·e a tambem joYen
::;o bera na de InglateiT<l. foi durante um certo" pt::'-
riodo o accessur dos monarchas portuguezes. Com
o príncipe veiu para Li:sboa Yan der \\. t:-yer. tra-
zendo na sua pasta de ministro da Delgica o rol de
instrucçi)e.s necessarins para chamar Portugal á ra-
z?i.o, pnra Cllnsolidar a dynastia e organisnr o libe-
ralismo entre nós. Leopoldo era então o pontitice
da doutrina, e a Inglaterra não só o ouvia. como
punha :ls ordens dos seus planos portuguezes as
suas forças navaes. E qnnndo a Inglaterra assim
obedecia, que hasiam de fazer senão. con,·encidus,
agradecidos, obedecer tambem os dois monarchas
portuguezes, moços sem experiencia do mundo, e
sem conhecimento directo do paiz sobre que reina-
vam"?
Tal t:'ra a situação na cílrte, quando os mm·se-
lhezes chegaram do Porto em setembro. tarde
de <Í. espera do vapor, o Terreiro-do-Paço estava
cheio de gente e os vivas e foguetes estalaram ao
desembarque. De noite tocou a rebate e a guarda-
nacional reuniu-se, proclamando a constituição de
22. Mandaram-se tropas contra ella, mas essas tro-
pas fraternisaram.
1
(Sá,Lcttreaucomte Goblet, etc.) paço
1 Eis a-1ui um documento authentico: (Corr. de Re;e11Je)
Hegimento
4 de cav.
3
m.mo Sr.
He do meu de,·er Je,·ar ao conhecimento de V. s.a -1ue hontem alguns
sargentos e soldados do Regimento dicérão que não -1ueriáo para os Com-
mandar o .\lajor Taborda Capitães Leal, Amaral e Cunha e só sim a todos
os subalternos sendo eu o Commandante, o que V. s.a já saberá; em con-
seo.iuencia d"isto tratei de conservar a disciplina (!) e boa ordem, em o.ille
nada se ácha alterada !?) ; hoje por oucazião da Parada de fiz ver
ao Hegimento q. éra preciso segundo minha opinião, que ,·iessem os offi-
1. - A kE\"OLCÇÁO lJE SETEMBRO
ha,·ia uma grandl::l inquietação e Yan der "\Yeyer
exigia do moço rei que mont&sse a cavallo e tosse
com os batalhões fieis suffocar a revolta: D. Fer-
nando recusou-se. (Goblet, Ét.zbl. des Cobourg.J Iteconhe-
cendo então não haver para oiule appellar, o ac-
cessor dos reis lembrou Sá-da-Bandl:'ira que fui cha-
mado, e veiu á presença dos tres. Que impressão
faeia no espírito grave do nosso militar achar-se
de tal mudo perante uma rainha qne no
Brazil de mãe austríaca, perante um rei allemào,
e um belga que OlS gove,·nava a ambos, em ll•Jille
do Sdl rei e com o apuio da Inglaterra: achar-se,
dizemos, perante I:'Sse grupo, dando em franeez leis
a Portugal rebellado? Pois uma tal desnacionali-
saçlw do governo nàu influiria no animo ele :-'ú-rla-
Bandeira no sentido fle o inclinar ainfla mais l-'ara
o jJOVfJ, pl:'lo qual tinlJa um grande fraco'! Elle não
o diz: mas deve-se crer. Em todo o caso, fosse
pelo qne recusou o papel de salYêlllor que
lhe queriam cuntiar. )las a guarda-naeiunal cla-
mava na praça e os seus gritos chegavam à sala.
D. Fernando, affavel, bondoso, e já taln·z sct>ptico
apesar de ser ainda moço, tumuu-lhe Ju braço, se-
duzindo-o: ((Era um grande favor! »-0 nubre
general que amando o povu, queria mnitu á mn-
ciaes e :\lajor lpara o f{egimento e bem assim V. s.a ao que me r.:-sronde-
rão que só querião \". s.a, e que nada dos outros, visto isto pessoa V.
que quanto antes queira vir tomar o Commando do Regimento, e então
V. s.a verá o modo de fazer o 'I· julgar com·eniente para ver se os Sold
anuem á recepção dos·nossos Camaradas no R.
0
, podendo eu asse\·erar a
V. s.a q. só dezeio oportzmid.z.ie e boa camaradage no R."
l>eos Gd.e a\'. s.a (.luartel em Belem I J de setembro de
III.""' Snr. João X.er de Rezende.
Precursor opportunista, o nosso tenente!
Francisco :\laria \"ieira

lO L. n·.- A A:"'.\H.CHL\ LIBEH.AL- I I
narchia, cedeu então. Não esperassem d'elle os ser-
Yiços de um l\Ionk; não. Era pelo poYo; reconhe-
cia os erros da CARTA, e detestaYa a politica se-
guida até alli. O seu plano consistia em defender os
princípios da revolução, harmonisando quanto pos-
siYel a CARTA, (26) com a (:2:2). Sob
taes condições resignava-se a acceitar. (Sá, LeJJn: .w
com/e Gnbl.:J, etc.) Rainha, rei e o belga olhaYam-se: que
remedia? Ainrlaera a melhor solução; e sobre tudo
nàú se tinham podido preYenir as cousaR. Fôra
uma surpresa: remediar-se-hia. A conta em que
os extrangeirus podiam ter-nos, infere-se da historia
deploraYel da emigração e da guerra, de certo
conhecida por elles, melhor ainda do que nús a co-
nhecemos e a contámos. A cunYicçân de sermos
um puYo r1ue necessitaYa de- tutella era geral.
saíu, formou se a trindade dos
dictallures, publicou-se o decreto reYogando a
CARTA e proclamando a constituição de 2:!, que
seria refL•rmarla pelas côrtes. A mão da rainha be-
sitaYa, tremia, ao assignur u papel. riN.-i.J E que
admira '! Esse decreto reduzia-lhe a curôa a cousa
nenhuma; tirant-lhe o direito do eeto e todos os
direitos soberanos; ficaYa sendo, ella, a nobre se-
nhora tão cheia de caracter e Yontade, o mesmo
que ft,ra seu avô; e não tinha, como tiYera D.
João n, fleugma bastante para se sentar de ma-
nhan rindo e abrir a Gazeta «a Yêr o qut• tinha
mandado na ,·espera». Rainha no sangue, homem
no caractt'r, o pensamento de uma desforra tah·ez
partisse d 't·lla; e não partiu, mas sim dos con-
selhos do ministro Leiga, é certo que o abraçou,
e peior lhe qaeriamos se o não tiYesse feito. De-
ploraxel condição de um systema que exige dos
reis a falta de brio, nus contlictos (la cort•a com o
poYo, ou a indifferença sceptica pelos debates das
1.- A RE\"OU:ÇÁO DE SETP.tBH.O 71
questões do puvo sobre que lhes diz reinarem!
Deploravt-l idéa a que obriga a acclamar na pre-
sidencia de uma nação a fraqueza, a indolt-ncia, a
indifferença!
O caracter da rainha era o inverso de tudo isso;
mas os conselhos belgas e a protecção ingleza fa-
ziam com que, em vez ele buscar apoio e força
dentro da nação, os acceitasse de f/,ra, tornando· se
de tal modo ré de um crime que desvirtua o mE--
rito da sua energia. Que nacionalismo se podia,
comtudo, esperar de uma côrte inteiramE-nte ex-
trangeira? E' verdade que, nem Saldanha, nt-m
Terceira, tinham querido jurar a constituição res-
taurada; mas o ultimo era uma espada apenas e
não um partido, e o primeiro descera á condição
dos bravi, desdt- que renegára o eminente papel de
chefe dos jacobinos. Podiam juntos levantar alguns
batalhões e fizeram-n'o depois; mas não conseguiam •
com isso senão aggravar a situação de um throno,
que o poT"o já desadorava por causa das influencias
extrangeiras, e mais desadoraria quando o visse
imp0r-se, defendido por La talhões de ja-
mzaros.
:Xão tinha, não, é facto, o nobre caracter da
rainha outra força a que apoiar-se, mais do que
esses dois generaes, mais do que as tropas e os
navios inglezes, mandados para o Tejo por consE--
lho do :rei dos belgas e corretagem do seu omni-
potente embaixador. D'este modo, o plano da reac-
ção, coevo de setembro, amadureceu com o
desbragamento crescente das cousas da revolução;
e dois mezes d'ella, achando-se maduro bastante,
decidiu-se dar o golpe d'Estado.
Quando Terceira ia para Belem tomar a parte
que lhe tinham destinado, encontrou Passos, o tri-
buno do povo de Lisboa. Falaram, altercaram. E
72 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I I
os ministros porque não restabe.lecern a CARTA?
perguntava-lhe o duque.- <(Porque não são trai-
dores» respondia-lhe Pássos com uma pompa mais
apparente do que sincera; «encarregaram-lhes a
defeza da revolução e ella será defendida. A re-
volução tem sidu generosa, porque é furte; mas se
tornam a nossa generosidade por fraqueza, se ap-
pellarern para as armas, se provocarem a guerra
ai, dos vencidos ! » -E tornando um ar ter-
rível, o Londusu homem fazia a voz grossa, a vêr
se intimidava: «Em duas huras hei de ter fusilado
mais chmnorros do que tenho dernittido em me-
zes ... » -E a prova de que a ameaça era fingida
está no tom cum que prosegue: 11 Estamos na ves-
pera da guerra civil: úmanhan v. ex.a vae com-
mandar os exercitus da Rainha e eu os da Repu-
blica: se a espada de Bouças se medir com a
1
espada de Asseiceira, nem por isso ficaremos ini-
migos». (V. Discurso de Passos, IS de out. de 4-1)
Estava-se cum effeitu na vespera de uma guetTa
civil que duraria quinze annos, mais ou menos
ensanguentados. Tudo era sornLra e duvida no
edificio da e que melhor symptoma o
demonstra do que a mistura de ameaças e iro-
mas, com reminiscencias classicas (Republica),
rhetoricas, e laivos de um scepticisrno que punha
por cima das amizades politicas as amizades pes-
soaes ? O tribuno aperta a mão do general na
vespera da batall1a? Que singular comedia é esta?
e que papt?l têem n'dla os poLres córos de um
povo trazido pam a rua pelas phrases ardentes da
tribuna? Entendem-se us actores, e representam
uma tragedia em que o poYo, soberano, omnipo-
tente, origem de toda a auctoridade e destino de
toda a acção, é um comparsa apenas? E' as-
sim, é.
J
2. -- A BELEMZADA 73
:Mas não se despedace a bella estatua do tri-
buno, porque elle era sincero na sua diJbrez. A
fatalidade p1.Jde mais do que os homens, e muito
mais ainda do que os poetas, no monH•nto em que
as visões de esperança começam a clissipar-se.
Era o que sncceclia a Manuel Passos, já abatido e
semi-acabado por dois mezes de dictaflura. O seu
melhor dia, cumtndo, não chegára ainda, e, como
o cysne da falmla, ia entoar o seu canto, nas
vesperas de morrer.
2.- A BELE:O.IZADA
Van 1ler \\' eyer preparára tudo: o dia estava
aprazad11. Era inllispensavel vingar o brio da jo-
ven rainha (1 "i annos) que deLulharla em !ag-rimas
tinha jurado a constituição (2\lacedo,
1
; et·a ne-
cessario acreditar o reinado do moeo (:!O annos)
D. Fernando, que o monarcha da enviára
para cá. U corpo diplumatico tinha pedido ga-
rantias; os pares da direita, presididos por Pal-
mella, tinham protestado. Passos e :4á tinham
sido chamados a palacio, a dar explicações pe-
rante o belga, perante o inglez Howard. Temia-se
tudo: o miguelismo, a republica, a re;..;-encia · de
Isahel-l\laria, velha preoccupaçào de outros tem-
pos, ou ela imperatriz viuva em quem se falava
agora. Os clictadores affirmavam a sua lealdade
ao throno, gamntiam, asseguravam que se lhe não
boliria ribid.J; mas o caminho que as cousas toma-
1
_\ narrativa do erisodio da Helemzada, conforme se acha no livro
citado do sr. :\lacedo, é transcripta do Eclzo Popular. jornal de José
Passos, no Porto, e que Manuel, de Alpiarça, inspirava em 57 quando a
noti.:Ja viu a luz. E" certo, rortanto, que se :\lanuel Passos a não escre-
veu, como se suppóe, 'iu-a, emendou-a: tem pois o caracter authen-
tico.
74 L. I\'.- A ANARCHIA LIBERAL-I I
Yam fazia· com effeito receiar que não tiYessem
força egual á boa vontade.
Van der \Yeyer poz, portanto, em execução as
instrucções que trazia. Tutor dos jovens e obedien-
tes metteu mãos á obra. Seria um golpe
cl'Estado rapido, a que tudo se suLmetteria; mas
o Leiga, tendo estudado Portugal, estudára pouco
a inteireza 1lo animo heroico do seu ephemero
dictador. Não fosse elle, e o plano teria vingado.
Tudo estava combinado com o rei Leopoldo, que
mandaria tropas suas; mas emquanto não chega-
Yam, Palmersttm, de accôrdo- porque a rainha
Yictoria adorava o tio- pozera ás ordens uma es-
qna,lra cum tropas de desembarque, fundeada no
Tejo. Nada se faz sem dinheiro: Portugal não o
tinha, e claro está qne havia de pagar o preço da
sua educação liLeral. A Belgica Hcleanta,ya o ne-
ces:sario, mas com penhor, porque os belgas são
segm·os e mercarlores; e u penhor seria uma das
possessões de Africa. {Sá. l.e/lre au comte Gol:>let, etc. Oh,
pubre Portugal, mandado pur todos, ludibrio das
gentes, triste nação já saqueada do que possuías
no Oriente, para ganhares a dynastia brigantina,
e agora ameaçada de perderes a Africa, para con-
st::orvares us teus reis liberaes e forasteiros!
Elles, que não tinham nas veias sangue portu-
guez, nilu cúraYam de vender a nação; mas tam-
pouco fervia o sangue dos cartistas qne, ávidos,
coiltantm com o regresso d•JS tempos perdidos.
Fui u dia dois de novembro, dia lugubre dus fina-
dos, o da tenebrosa combinação. Armados a bordo,
cum as lanchas equipadas, estavam os inglezes; e
us conspiradores a postos esperaYam que as far-
das vermelltas chegassem, ou a rainha fosse para
bordo. Não se tinha D. João VI 1·efugiado tambem
na C'astle l Sermos uma especie de Tu-
- A BELEMZAúA
nis parecia natural aiJs lwmen.s gastos por tantas
aventuras, tão varias intrigas, . onde lhes tinha
ficadiJ todo o brio e caracter que a natureza lht-s
déra; st-m parecer extranho ao rei extrangeiro, aos
diplomatas sabedores da nossa historia, e ú rainha
que lv1via ganho o thruno á força de batalhas n'um
paiz inimigo.
l\Ias Passos disse terminantemente- não! E a
sua ordem era apoiada por Lisboa em armas ha-
via tres dias. Fui ao paço, no dia de finados ; e
pareciam lhe cadaveres, cousas nwrtas, esses por-
tuguezes que, ladeados pelos á som-
bra d'elles lhe t-xigiam a re::itauração da CARTA, e
que renegasse a revolução, isto é, o seu nome, o
seu brio, a sua honra. Fui, ouviu-os, e ú rainha
disse que se fugisse para burdu dos naviiJs ingle-
zes f'ra o mesmo que se e se chamasse
para terra os sPldadus f'xtrangeiros, era como se
declarasse a guerra á nação ::;uLre que reinava. Já
não sorria, como quando falara ao lluque da Ter-
ceira. Agora, o sangue pula\·a-lhe e a sua bella
face illuminava-se com o enthusiasmo : era a ima-
gem da honra nacional. Se a rainha tramasse a
contra-revolução, arrepender-se-hia; se o não fi-
• zesse, ,·eria quanto era amada. (:\la.:edo, As
palan·as saíam-lhe fluentes, com um timbre sereno
porque brotavam sincera:', canJidas, da sua grande
alma. E, como finados, os conspiradores utn-iam-no,
calados, corridos- cousas mortas que eram . .i\Ias
na alma da joven rainha não ha,·ia uma corda que
respondesse aiJ bater incessante da palan·a elo-
qu.f'nte du priJcurador dos povos? Quem sabe? E'
natural que hesitasse entt·e us duis que a disputa-
vam.
Os ministt·os offerecer:un-lhe a •lemissão. que ella
nem acceitotl, nem negou. riNd.J hesita,·a, deci-
"j't}
I. 1\".- .\ .\:-.:AHCHIA 1.113EH.:\L-II
diu-se por tim pelo b(:'lga, contra o portugnez. Se-
duzida a guarnição pelos gent:>raes, tudo estava
combinado e pre,·isto. a tarde do tlia 3,
quando a ctirte saíu elas Necessidades para Be-
lem, onde os reginwntos de Lisboa foram jnntar-
se, sem urtlem do goYérno, obedt:>cendo aos gene-
raes conspiraclort:>s. Rodearia de soldallns, sombra
dos inglezes, a rainha sublt:>\·ada manrlou
chmnar os ministros.. Eram dez horas da noite e
•·st:tYam rPtmi•los em casa ele Passos. Ih .. legaram
Yieira de-Castro, e sem rebate, caladamt:>nte, reu-
niu-se guarda-nacional. O emissario voltl)n: amda
hem que não tinlwm irlo tutlos, porfpte o plano
era prendt>l-os: a cuntra-reYoluçàn esta,·a consum-
mada.- Isso nãn! respondeu Passos; e levantan-
do se, llt>cüliu qne fossem n Belem, á frente da
guarda-nacional, vêr cara a cara o inimigo. :--ici da-
Bandeira ticaria em Lisboa. Tocasse-se a rebate
em todos os sinos, rufasst:>m todos os tambores, hou-
vesse alarme contra uma dlt·te inimiga: a ameaça
a forcaria a recuar.- Fez-se como o dictador
maml,;u ; mas a côrte, vendo ·O chegar com Lu-
miares e Pscarneceu-os, tlernit-
tindo-os, pondo em lugar d'elles um ministerio,
dn dia em que fnra combinado- um gabint'te de
finados!
A noite acabou em paz. Em Belt'm contava-se
gêll1ha a victoria; mas em Lisboa ninguem dor-
mia, todos se prepanwam.
() dia 4 comecuu com um assassuno. J;í a turba
armada, com os"" animos excitaflos, fazia das ruas
baluartes, fortificando-se á espera dê uma invasào .
• T:i as m·enidas deBelem esta\·am guarnt'cida::;, para
impedir o passo atJs que pretendt'ssern ir apoiar us
2.- A BEI.EMZADA Ti
conspiradores. De Belelll chamaYa-se a capitulo :
viE-sse toda a Yelha guarda liberal, fiel êÍ CARTA,
que o t-xtrangeiro estava promptu a restaurai-a.
Agostinho José Freire vt-stia-se, fardaYa-se dt> t-n-
carnado, todo rt-camado ,le u u r ú ~ para ir rect>Ler
as ordens da sua rainha, i::;to é, pm·a Yoltar a Hill
poder de que a reYoluçâu o t-xpulsara.
Freire nasct>ra em :2t; ele agosto de 1780; con-
tava ô6 annos, mas apesar da villa traballwsa, es-
taYa robusto e são. Seguira a carreira militar sendo
porém St>mpre politico. Apparect>n aos quarenta
annus St>cretario das côrtes em 2U, emigrando elll
23, Yoltamlo em 26, tornando a t>rnigrar t>m 2 ~ .
D. Pedro chamara-o a si elll França, nomeando-o
lllinistro da guerra, lugar em que o vimos quando
. o historiálllOS. (l"id,1 e tragicojim de A. J. Freire, anon.)
Agora afivelava o espadim, pencluraYa os crachás
sobre a farda vermelha, preparava-se, brunia-se,
para apparecer glorioso no paço ondt> o chama-
vam. Era nm velho, todo branco, alto, magro, ele-
gante, com uma phisionomía fina que_ revelava o
seu temperamento nervoso e excita,;el. Falava
com elle Aguiar, mais positivo, e tambem conYi-
dado para ir a Belern; falava, aconselhando-lhe
prudencia: eram odiados, bem o sabiam, e podiam
reconhecei-os no caminho e soffrer algum insulto.
Freire não concordava. A sege esperava-o em
ha.ixo, e já fardado descia, convidando o collega
a acompanhai-o. Aguiar recusou; saiu a pé, abo-
toado, sem insígnias nem fardamento, direito a um
caes para embarcar. Ainda assim o reconheceram,
largando botes a perseguil-o: deveu a vida ao pul-
so dos seus quatro remadores. cA dpwsti,u a reJ•ol. de set.)
Sopeada pelos cavallos, travada, corridas as cor-
tinas engraixadas, a sege de Agostinho José Freire
descia a ladeira íngreme da Pampulha. Em baixo,
iS L. IV.- \ LIBERAL-II
onde vêem dar as viellas que dizem para o rio,
havia um posto de guarda-nacional de arma ao
hombro, para impedir as viagens a Belem. Fizeram
parar a sege, correr as cortinas, e deram em cheio
com o personagem na sua farda vermelha constel-
lada de commendas e bordaduras. Conheceram-no
todos ? De certo não; mas o facto é que a farda
bastava para denunciar um inimigo, e o comman-
dante do lb.
0
batalhão deu-lhe a voz de preso. Es-
talou um tiro quando Freire se apeiava: dobrou-ser
e cahiu morto. (l"i.f,l e tm;:icofim, etc. I ""'
Logo que um caso cl'estes succede, vem a sa-
nha, como de cannibaes, a aggravar o acto commet-
tidó. Ha muitos a querer a honra do feito; ha mui-
tos mais a afogar n'um desvario de atrocidades o
remorso espontaneo de um crime. Sobre o cadaver
fen-iam os tiros. Despojaram-no de tudo, deixan-
do-o de rastos, semi-nu, contra um lado da rua,
crivado de feridas, escorrendo em sangue, com
uma tüella de barro ao lado para receber as es-
molas dos transeuntes. tarde foi levado em
maca ao cemiterio, seguido por uma turba furiosa
que duas vezes o exhumou, negando-lhe a paz na
propria cova. (//oi,t.)
Essa furia da populaça, victimando o mmtstro,
fazia-o expiar os crimes de muita gente. Os juizos
do povo são como os que se attribuem a Deus:
1
cégos. apparentemente injustos muitas vezes, são
os juizos do Fado que, indifferente a nomes,
escolhe á sorte um homem para victima expiatoria
de crimes mais ou menos seus. Da mesma fôrma o
povo escolhe os idolos e os réus.
Essa fnria da populaça era a consequencia da
1
V. l11stit. p·imiti1•,1s, pp. rSil-66.
2. - A BELEMZADA
t-xaltaçào t-m que o acto aggressiYo do paço lan-
çava Lisboa e o seu povo, já soberano segundo a
lei, verdadeiramente soberano agora que as guar-
das nacionaes imperavam armadas. AtJ som do re-
bate, formavam, em ordem de batalha, no Campo-
de-Ourique na manhan do dia 4. Parecia immi-
nente um combate entre ellas e a guarnição reu-
nida em Belem, em torno da rainha. Passos esta\·a
no seu posto á frente do povo a r m a d o ~ quando
vieram do paço chamar o dictador. Qne lhe que-
riam? Fosse o que fosse, elle partiu, arriscando a
vida.
Sá-da-Bandeira, a quem a Junta do Campo-
de-Ourique convidára para o commanclo, rt>cusára
a principio, da mesma fúrma que antes haYia re-
cusado o papel de .1\Ionk offerecido por Howard;
mas agora _a agitação crescente, a imminencia
da crise obrigavam-n'o, e ficava, mais para conter
do que para guiar o povo armado. rLmre au comte
Goblet.)
Passos entrou no palacio, e dir-se-hia que vol-
tavam essas antigas scenas da Edade-media,
quando os tribunos da plebe iam á frente dos mo-
narchas. Em volta da rainha estavam o rei e os
diplomatas e os pares do reino, os conselheiros
d'Estado, a infanta D. Isabel l\Iaria: e a impera-
triz viuva. Era toda a côrte reunida para ouvir,
para condemnar, para seduzir? Era toda a côrte,
perante o homem de Bouças, rei verdadeiro de
Lisboa. Passos curvou-se, beijou a mão da rainha,
e esperou que lhe dissessem o que d'elle preten-
diam.
_ Então, pela soberana falou- quem? O seu mi-
nisterio dos finados? Não. O inglez Howard, o
belga Van der 'Veyer, e só depois_dos extrangei-
ros, Villa-Real, Lavradio e Palmella no fim. As
L. n·.- A ANARCHIA LIBERAL- I I
falas eram mansas; não se allndia ao lllllllSterio
dos finados. porque a attitude de de ma-
nhan, infnnJira medo. Tratava-se de seduzir, não
de ameaçar. S. 1\I. não podia con8entir na aboli·
ção da CARTA, mas estava decidida a
entretanto, o inglez affirmava qut:- o seu governo
não toleraria em Portugal a constituição quasi re-
puLlicana ele :22. Involuntariamente, os olhos diri-
giam-se para o rio onde o vento soltava a bandeira
vermelha da Inglaterra na pilpa das suas naus. E
do lado da rainha todos continmwam a não extra-
nhar a figura ele idiotas que faziam.
Repetia-se a scena da vespera; e Passos repe-
tiu, em francez, mas com ullla firmeza mais calma
e o que dissét·a na vespera. Fôra nomeado
ministro cum a constituição de :22, e não com a
CARTA, a cuja sombra se desbaratara a riqueza
nacional por não haver garantias politicas contra
a oligarchia reinante. Não renegaria a revolução,
embora desde o principio tivesse affirmado a ne-
cessidade de emendas que consolidassem o throno.
Não era uma questão de fórmas, era a questão do
principio, da origem ela authoridacle. A CARTA fôra
um dom do throno, a constitnição uma conquista
da soberania popular. Socegasse, entretanto, S. 1\I.
que o povo não queria inal ao throno: haveria duas
camaras, t·eto absoluto, e direito de dissolução,
«como na CARTA. Será como na Belgica, dizia a Van
der 'y eyer : não podereis condemnan>. -E vol-
tando-se para o inglez impertigado e impertinente,
dizia-lhe que a lealdade portugueza não recebia
lições britannicas. Eramos um povo En·e, e não
acceitavamos a intervenção de ninguem. As cousas
inglezas que elle amava e admirava, haviam de
entrar ás boas, em navios mercantes, para terem
despacho livre. Vindo em navios de guerra, as leis
~ - -A BELEMZ.\D.\ 81
da Inglaterra só servirimn para lh'as devolver sob
a fórma de cartuchos. S. l\I. tl"ria dignidade bas-
tante para repeli ir a::; offertas da Inglaterra; se as
não acceitasse, Portugal deixaria por uma vez de
ser uma prefeitura britannica e o seu soberano
uma espeC'ie de commissario das ilhas J onias. «Se
desembarcarem, dizia por fim a Howard, serão
batidos>>. A' rainha, convidava-a a ir para o
Campo .d'Ourique, onde veria qne amor lhe tinham
os subditos; e- aos generaes em ultima instancia :
«A Inglaterra ameaça-nos: ninguem se rleshonrará.
O vosso logar é no Campo de Ourique, á frente
dos portuguezes que ahi defendem a independen-
cia da patria.)) (:\lacedo, 'frafOS, CtC.)
Era um doido, varrido, poeta. Ptlr os pontos
nos ii, falar com sinceridade em politica! E uma
audacia! E um orgulho, n'esse indígena! Howard
estava absorto, o belga confundido, a rainha per-
plexa, os seus portuguezes corridos. Havia silencio,
ouvia-se o arfar do peito do tribuno que derramara
a flux as ondas da sua indignação. . . E o facto é
que talvez se não enganasse: Lisboa era por
elle. . . Talvez os inglezes fossem batidos, talvez
os regimentos portuguezes fraternisassem como
em setembro.
1
Talvez ... Talvez ... E havia uma
hesitação singular, e uma longa pausa, quando a
voz lenta e fanhosa do moço rei, n'uma phrase
indiscreta, exprimiu em francez o seu despeito
colerico. JJlonsiell'r le '1"01: Passos, com.nwnt 1:ont
vos sujets à L1"sbomze?- Reprimindo-se, elle res-
1
Foi antes ou depois d'isto que a artilheria engatou em Belem para
fugir para Lisboa, sendo necessario mandar cavallaria cortar-lhe a van-
guarda; sendo necessario que D. Fernando fosse pela estrada fóra, a ga-
lope, escapando por um triz á cutilada que um soldado lhe despediu ?
PORT. CON1'. -TOM. II 6
82 L. IV.- A A:\ARCHIA LIBERAL-I I
pondeu qut- não tinha subditos: eram-no da rai-
nha. E D_ Fernando objectou: :\Ias não lhe obe-
decem!- ,<Porque S. l\L manda o que não púde
- e o que não deve ! » E outra vez excitado pela
temeraria ironia do rei, voltou dizendo que orde-
nára uma r[-sistencia energica- até ao fim: c<Se
morrermos, morreremos bem ! » tlbi.:f.J
"Xinguem duvidava de que elle fosse capaz de
morrer. A scena, começada com o apparato de
uma opera, para a seducção de um tyranno ple-
beu, acabm·a n'um drama pungente. :Xa face da
sua côrte, á frente dos embaixadores, a soberana
estava abatida e humilhada pela soberania d'esse
homem, que não era sú o idolo de um povo prom-
pto a defendei-o : era um heroe para quem nã.o
valiam lisonjas, nem adulações, um estoico indoma-
vel, uma virtude inaccessivel. Em vez de· seduzido,
Passos acabava seduzindo os proprios inimigos. Os
que se n;\o penitenciavam do erro, sumiam-se cor-
ridos. Trigoso dizia á rainha que depois de uma
tal imprudencia s{, uma solução restava.- E qual?
perguntava ella, arfando.- Abdicar.- Pois não
haverá outro recurso?- Para reinar com honra,
nenhum; para reinar . . um sú.- Então qual?
-Entregarmo-nos á discrição de :\[anuel Pas-
sos... (.\laceJo, TrafOS, etc.)
A rainha queria reinar. E o tempo corria, sem
que nada resultasse das habilidades com que Pal-
mella buscava embair o J'ei de Lisboa. E começava
o fogo das avançadas nos seus postos (pois correra
s_ue Passos não voltava por estar preso) sendo
nece::;sario um bilhete d' elle para cessarPm os tiros.
Quem valeria em taes angustias, senão o fiel ~ á
da Bandeira, para impedir á rainha a vergonha
de se render ~ í discrição do seu émulo da capital?
Era j:í. noite quando P a ~ s o s regressou á cidade ;
2. - A BELE:\1ZAfJA
e, na manhan de ü partiu para
Belem a cobrir a retirada da infeliz rainha.
durante essa noite, os seus const>lheiros,
ou impenitentes ou timoratos, fi.zt>ram desembarcar
na .Jnnqneira seis ou soldados inglezes.
Era a guerra. Era apenas uma tolicP 't uma ordem
mal cumprida t () facto é que a guarda-nacional
desceu do Campo d'Ourique a Alcantara, gritando
em curo- a BelPm ! E se lá chegasse a if, ai da
rainha e de todos! X a vespera, o nolJre Passos
defendera o povo perante a côrte: contra o
povo enfurecido, defendia a vida da rainha. A ca-
vallo, atraYessado sobre a ponte do ribeiro qu13
corta a estrada, vedava em Alcantara a unica
passagem da turba enfurecida, falava-lhe, acal-
mava-a, ameaçava-a. "Para Bel em não se passa,
senão por cima do meu cada ver!>> E não era tuna
phrase banal, porque o podiam esmagar n\nn<t
onda que viesse rolando de mais longe. O povo
desforrava-se, gritando, blasphemando,
nas suas phrases grutescas o nenhum conheci-
mento que tinlm dos motivos do conflicto, e como
ia arrastado por uma fatalidade, sem
movido por instinctos: « (-luerem duas cama r as"?
deixem estar que não se lhes ha de dar nem uma!>>
Passos, ouYindo isto e o mais, sentia invadil-o uma
nevoa de tristeza que varria a luz das suas espe-
ranças. . . Tal era o povo, o soberano, cuja sabe-
doria lhe tinham ensinado tantos livros inclJados
de periodos rotundos! E a mó da gente, clamando,
revolvia-se, fluindo, refluindo, contra a ponte, onde
Passos, a cavallo, parado, se julgava a si e julgava
o povo.
Sá-da-Bandeira conferenciava então com Salda-
nha no palacio do conde da .Junqueira, e exigindo
como condição préYia da composição o reembarque
L. 1\"o- A Al':AkCHIA LIBER.\L-1 I
das tropas inglezas, exigia o cumprimento da pro-
messa da Yespera: que a rainha demittisse os mi-
nistros du golpe d'Estado, nomeando-o a elle presi-
dente do conselho, restaurando o ministerio anterior.
A demora fazia nascer suspeitas e mal se podia con-
ter a populaça em Alcantara, onde Sú tambem
fui acalmai-a a pedido da rainha, d'onde YoltaYa
dizendo qne, sem o decreto as_signado, nada se
conseguiria. (Sá, Lel/re {!/( COI1lte GoNetJ •.
Saíram pois os decretos, restaurou-se o ministe-
rio, Yoltaram as tropas para bordo dos naYios, e
com ellas se sumiram tambem a bordo os minis-
tros de finados e a gente de Belem. A' tarde a
rainha, confessando-se devedora do throno e da
Yida a l\Ianuel Passos, Yoltou egualmente de Be-
lem para as Necessidades, vencida, humilhada,
por entre as alas das forças setembristas que occu-
paYam as rnas. (lbid.J A noite acalmára tudo; e D.
1\laria II continuava a reinar. Com honra?
Ct m·unclo como o seu primeiro aYÔ
Affonso, je1'ebatur.
1
A rainha, ou por ella os que
a aconselhavam, cediam á força -mas só mo-
mentaneamente. Fôra um plano mal traçado: Yol-
tar-se-hia á carga, logo que as circumstancias o
permittissem. Na guerra é licito proceder assim;
e D. l\Iaria II declarara, ou tinham-n'a feito de-
clarar guerra á nação setembrista. Van der
\Yeyer olhava para Terceira, para Saldanha, di-
zendo comsigo que, se não seryiam para isso, de
que serYiam t1ntão? ...
3.-AS CORTES CO!':STITl"I!'TES
Era obrigação dos diplomatas, que tinham lan-
1
V. Hist. de Portugal, (3.
8
ed.) 1, pp. 66-9.
3.- AS CORTES CONSTITl'INTES
8f)
çado a côrte na aventura frustrada de Belem, ga-
rantir a sorte dos numerosos i·efugiadus a bordo
dos navios inglezes e dos não refugiados, mas
compromettidos. Howard exigiu de
deira um perdão, que tanto elle como Passos como
Yieira de Castro, os triumviros, desejavam dar.
(Sá, Lettre au comte Goblet.J A clemencia é virtude dos
bons, a magnanimidade symptoma da força. Com
o resultado dos dois dias de o setembrismo
ganhára uma auctoridade que ia baixando muito.
Rendida, sem ficar convertida, a côrte reconhecia
o poder da re_voluçào: era mister agora cumprir o
que se promettera, discutindo e votando uma cons-
tituição que resalvasse o principio de origem na
soberania popular, dando porém ao throno o veto
e o direito de dissolucào e ás altas classes uma
segunda camara. Um; semana depois da Bt>lem-
zada saía ( 12) o decreto convocatorio ; e a 2fj de
janeiro de 37 reunia-se em Lisboa o congresso
constituinte . ..Abolida a CARTA, havia que recons-
truir o mechanismo politico, e as divergencias de
interesses e doutrinas accentuavam-se.
Expulsos do poder, os cartistas eram obrigados
a construir em partido o que antes fôra um aggre-
gado de bandos cada qual com seu chefe, porque
agora apparecia no governo uma doutrina adversa
á de todos elles. Gotjão Henriques definia no con-
gresso esta attitude com a pm·tida de apresentar a
CARTA por emenda ao projecto de constituição.
Eram dois unicos os deputados cartistas, e apenas
podiam protestar, esperando a decomposição fatal
dos vencedores. Por seu lado, os miguelistas come-
çavam a crear esperanças, perante a desorganisa-·
ção do novo Portugal. Alguns soldados velhos saí-
ram de Lisboa para as l\Iarnotas, (13 de maio) en-
tre Loures e Friellas-a esperar os touros? não,
L. IV.-- A LIBERAL-I I
a proclamar D. l\Iignel. l\Ias os camponezes, j<1 es-
qut:-cidus, crendo-os prendPram-nns e
dt:-strucararn-nos.
1
1\ão, era pois das direitas que o goYerno tinha a
tt-mer: t-ra da cauda temin·l da sua esquerda de-

FerYiarn os eluLs, d'omle os tribtÍnos leYaYam
para a carnara as exigt:-ncias mais radicaes. Leo-
nel- rn:IndaYa do Bll1jaca. Custa-Cabral
não consentia que ninguern lhe passasse ú frente,
porque toda a preoccupação do tempo era ser mais
do que o Yisinho. Cabral tinha o seu club
tarnbem, no Arsenal (que depois fechou), e ahi dis-
cutia paus<ldarnente com os carpinteiros da Ri-
com o philanthrupo Formiga, a mnneira de
dar maior latitude ás ideias dernucraticas. bio-
J"Ol.J Era todo mansidão, deferencia, q llasi humil-
dade, para com o poro soln;rano, ao qual pedia qne
o illustrasse e o dirigit;se. Yinha
:::H:•cco e hirto, petulante como quem traz o rei em
ct:-rtas Yisceras, aggredir no congresso o go,·erno e
H sua moderação, exigir que huuYesse uma camara
apenas, e não hmlYesse Yetu, e nem sombra de
á liberdade· de imprensa. , ,._ Diar. Sessão de 37; e o
Ncc. cit.J Ao lado cl'esse homem frio que, ou mudou
intE-irmuente depois, ou seguia o exemplo antigu
dos tyrannos, conq nistandu o poder pelo caminho
(1a demagogia: ao seu lado Yia-se um rapaz em
I ·Em quanto ús :\larnotas é que \·. erra de todo: era uma vasta
l.ton,..rira.;áo, abortada pela denuncia .-rum mi<;uelista que se \endeu, e
annos depois pagou a trai.;áo com a Yidan. C.1rt.1 do sr. Carreira de :\lello
ac• A.
3. -AS CORTES
quem um sangue generoso pulaYa com ardor, dis-
cípulo melhorado, avançado
7
de l\lanuel Passos,
a exemplo do que este fôra para com Fernandes-
Thomaz. :Ko seio do liberalismo era proprio que
cada geração progredisse no sentido da anarchia;
pois os moços, cada vez menos doutos, incapazes
de perceber as distincções e subtilezas da eschola,
viam os principias em grosso, e exigiam, com a
violencia propria dos tempPrarnentos generosos da
Península, que os princípios se tornassem factos.
José Estevão nascera em Aveiro em ::?6 de de-
zembro de 1131 contava agora 27 annos apenas.
Aos dezenove alistara-se no batalhão academico,
militando sob o cornrnando do Refoios em
l\Iorouços e no Y ouga. Emigrara para a Galliza,
depois para Inglaterra, d'onde foi á Terceira e de
lá veiu ao Porto, cabendo-lhe um lugar na defeza
da Serra. (F. OliYeira, Esboço llistorico) Bravo, honrado, a
sua mocidade contava já urna historia meritoria.
Possuia todos os dotes de um temperamento pe-
ninsular, com os defeitos correspondentes: tinha a
hombridade castelhana, o valor portuguez, a elo-
quencia de um andaluz, e uma face aberta, illurni-
nada, '!lyrnpathica, a que a voz e a fala da,·am
um poder de seducção. l\Ias nem tinha saber, nem
juizo, nem prudencia, nem a consistencia, portanto,
sem a qual não ha homem verdadeiramente supe-
rior. Era o Lello vehiculo de um instrumento com-
posto de sentimentos valorosos e nobres, expresso
em phrases que saíam e soavam como m·ias. Foi
o primeiro, tah·ez o unico, dos tenores sinceros da
lilHrdade purtugueza.
No congresso declarava «pertencer á seita da
mocidade e glorificar-se d'isto n .rDisc. de 25 de.1bril1 E essa
seita da mocidade, na qnal tinha a sen lado Ca-
bral, Vascoucelios, Santos-Cruz, sentan1.-se na ex-
88 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL- I I
trema esquerda, e reclamaYa: «Juiz s6, a julgar
só; um rei só, com ministros responsaveis a exe-
cutar só ; uma camara só-eis a minha monar-
chia, eis o meu governo representativo». (José Este-
vão, Disc. de 5 de abril) Era simples, claro como agua:
um solo de instituições abstractas, uma aria de
abstracções liberaes. Como não lembrava ainda que
a logica exigia uma purificação maior : o governo
do. povo pelo povo, o governo directo, ou antes ne-
nhum governo, nem sombra de Estado, a anarchia
absoluta? Nem a tradição, nem a economia das
forças sociaes, nem o estado das classes, nem cousa
alguma do que real e positiYamente constitue uma
nação, se tinha em vista n'essas opiniões avançadas
que obedeciam á tyrannia terrível das ft',rmulas ab-
stractas. Triste, pois, desanimado, o demagogo la-
mentava-se: «Vejo que o throno póde demittir os
legisladores populares, púde estorvar que a lei se
faça; vejo que o throno tem o veto absoluto, o di-
rei to de dissolver, e o de nomear senadores ... )>
(Disc. de 5 de abril)
E todas essas concessões-porque assim, forço-
samente, eram considerados os direitos soberanos
pelos defensores da soberania popular-enchiam
a opposição de colera contra o governo que se di-
zia ter renegado a Revolução. E os clubs, onde
Cabral e José· Estevão iam chorar as suas ma-
gnas: o do de Leonel Tavares; o do A1'se-
onde reinavam França que thlha co'raçi1o (Hontem,
hoje e am.J e Soares-Caldeira, ambos athletas, am-
bo!'3 ignorantes e queridos do povo: os clubs com-
mentavam o proceder do gove1·no não poupando
já o proprio Passos por ter dado a mão aos mode-
rados (Sabrosa, Raivoso, Derramado, Taipa, etc.)
em vez de a extender ao puro setembrismo, patu-
léa, descamisado.
3. - AS CORTES CO::"STI1TI::"TES
O singular da revolução de setembro, e o que
particularmente assignala- u estado da nação, nao
é a cauda de radicaes que todas as revoluções
criam. O singular é o desanimo dos chefes, a es-
pontaneidade irnmediata com que se accusavàm dos
proprios actos. Veremos a que estado rnelanco-
lico de scepticismu politico chegou Passos; mas
Taipa logo na primeira sessão do congresso (18 de
janeiro) se levantava para fazer o seu acto de con-
trição: «Aboliu-'ie a CARTA, mas todos sabemos
que nem a CARTA é um codigo tão insufficiente para
as nossas circumstancias que valesse a pena de
uma revolução para o destruir, nem a constitui-
ção de 22 tão perfeita que valesse a pena de uma
revolução para a restaurar». (Y. Sã, Lettre .m comte Goblet,
etc.) E, entretanto, era contra a CARTA que desde
30, ou ainda antes, todos esses homens vinham cla-
mando, como causa dos males nacionaes. Chega a
revolução que a supprime, e todos a lamentam; se-
guem por não poder deixar de ser, mas «ninguem a
desejava, ninguem a applaude». ribí.i.J Porque de-
clamavam, pois? Porque lançavam á terra de um
povo anarchisado a semente de uma revolução?
Vêem-na germinar, e lamentam?
O porquê é simples. Xão mediam nem sabiam
o alcance do que diziam; e a g o r a ~ a braços com
as consequencias, deitavam á culpa dos homens o
que provinha da natureza das cousas, por não te-
rem a coragem ou a lucidez bastante para se con-
fessarem desilludidos, mortos, como fez Passos. Os
mais arrependidos mas não _ confessos, affectando
uma segurança que não possuíam, sú buscavam
alijar sem muita deshonra um fardo que lhes
pezava. Rasgar o programma ou o rotulo, sentiam
que seria despedaçarem-se a si proprios, porque,
para dentro das suas pessoas de politicos, não ti-
L IY.- A AC\ARCHIA LIBERAL-I I
nham. como o gt·ande tribuno, uma alma feita de
sinceridadE' estoica e YÍrtude santa. Destruir a re-
Yolução sem a negar; cortar a cauda incommoda
dos descamisados, defendendo-se contra os inimi-
gos da direita para nã-o perderem o posto; equili-
lJrar, ponderar as cousas; fazer uma constituição
tà:o parecida com a CARTA <tue para o paço fosse a
mesma cousa. sem deixar de ser no
nome-eis ahi o pensamento dominante nos homens
que. mau grado seu. se Yiam mandatarios da reYo-
luçào. tSa. Lr!ttre, etc.) EYidentemente, isto daria de si
um pender gradual para o estado anterior a setem-
bro, e assim foi: a Passos succede depois de
Yem Pizarro, (ou segundo o haronato
que teYe ), depois de Sabrosa, Bom fim, depois
Palmella, Terceira e por fim a restanra-
<;ào da CARTA ( 1 l.
Agora, com a demissão de Passos, (1 de julho)
andaYa-se a primeira legua. Que moti,·os expulsa-
Yam do goYerno o Yencedor da rainha em Belem?
O pretexto fui o Yoto que a maioria do congresso
deu contra os sub-secretariados de Estado por elle
propostos. O motiYo foi, proYaYelmente, essa Yi-
ctnria de que todos se arrependiam tanto. que
da-Bandeira, contando o dr;tma em que fui actor,
,Lettre .m .. ·omtr! Goblet) a esconde tão cuidadosamente que
se nà:t) percebe porque razão teria cedido a rai-
nha, rasgando a nomeação dos seus ministt·os, res-
taurando o rt;i de Lisboa e todos os decretos da
su.'l dictatlura de dois mezes.
1
Além cl'este moti-
-I O sr. R. de F. rP0rL. contemp.) attrilme a outra causa umeja? ,ies-
peito ?1 o silencio J·e S;i-da-Bandeira acerca do episodio do paço Je Be-
l em: crendo t,tmDem ,1ne Passos deixou o go,·erno, forçado mas não d.:s-
crente. :'\áo me rarece isso a mim, á vista dos antecedente:> e dos .:onse-
•lllentes.
3.- AS COkTES CO:'\STITU="TES
vo, porém, haYia outro, muito doloroso : era a pe-
nuria extrema, eram os pontos, os saltos, nos Yen-
elos cidadãos de um communismo huro-
cratico; era tambt:'m a agiotagem escandalosa que,
brotando espontanea sob todos os goYernos de
todos os partidos, tiraYa ao setemhrista o credito
que tinha quando clamaYa contra os deroristas de
.35, contra os argentarios engordadus por Law-
CarYallw.
Não tinham os setembristas um Law, nt:'m po-
diam tel-o com os princípios ele honestidade estuica
dos seus chefes. Campos chorara, choraYa: mas
em Yez de pagar em ouro, pagaya em explicações
longas, massadoras, recheiaclas da adhesão á causa
popular. Huntem, !zn.Je e am.J Essa sinceridade, inimiga
elas finança::;, desacreditára o unico financeiro do
partido; e a principal pasta em um paiz cleYoraclo,
teYe dt:' ficar nas mãos pouco habt:'is, mas limpissi-
ruas de ele Passos .i\Ianuel, cujo estoicismo des-
preza,·a o dinht:'iro, cujo YerLo ou cuja espada
clesdenhaYam dos algari::;mus e das contas.
Entretanto, o que peior lhes fizera ft11·a a sua
rectidãu: deixaram ele pagar quando não tinham
-com quê; exigiram dos contribuintes a decima que
os antecessores, para nâo afugentar partidarios,
prt:'scindiam de cuhrar. Elia cla,·a ·agora mais do
dobro : e cumparanclo os mnueros, Passos na ses-
são de 37, tinha motiYos para se gabar. O deficit
que encontní.ra (3G-7) cal_culado t:'ra de 1 :3:tj00-
ll J contos, deYendo-se ao banco
e a outros haYenclo ainda contus ele
papel-moeda eu{ junho (3131 e de títulos
.aclnüssi,·eis na compra clt:' heus naciunaes. rLei de I5
de ,Jf:.ril de 35} O g•wt>rno amortis{tra ;)()) contos de
papel-moeda e ele titulus; e o orçamento
para ;J7 -B não aprest:'ntaYa um clt:"ficit superior a
L. IV.- A ANARCHIA LIBEkAL-1 I
contos. E com isto não se
tomára emprestimo nenhum de fóra, e· os encar-
gos da divida total, se tinham sul,ido de
a 2:iJUO contos, era porque se reconhecera o di-
reito esquecido dos possuidores de Padrões
7
con-
vertendo-os em títulos de 4 por cento, por
contos com o juro de 118. (V. Relatorio .te :Lf. de .ll•ril .:te
I83;)
_I< Quando t?ntrei, dizia Passos, achE> i nos cofres
da capital seis contos, e não havia com que pagar
os dividendos em Londres. (7Jisc. de 2.r d<?j.m . .:ic _'i;
1
E
defendendo-se a si e aos actos da sua clictaclura,
sentindo que o tE>mpo corria e o fim se approxi-
mava, definia todo o seu pensamento: ccA rainha
não tem prerogativas, tem attribuições : é o pri-
meiro magistrado da nação. Eu fui o primeiro mi-
nistro que executou o programma do Ilotel de V"ille
de Paris: cerquei o throno de instituições repu-
blicanali! ... Não houve só liberdade de imprensa,
houve licença, houve desafôro». riN.:i.J
Liberdade e licença! liberdade e desaforo! )las
que linha as divide, ou qual é o criterio que as
distingue? Ah! eis ahi onde a doutrina naufraga,
assim que a põem a navegar no barco de uma
constituição. Uns pilotos caçam logo as velas e
bolinam; outros mettem de capa; outros dão a
pôpa ao vento e correm desarvorados acclamando
o temporal da anarchia que os leva. . . onde?
Contra uma pedra a despedaçarem-se.
Passos não era homem para nada d'isto : nem
bolinava, como outros; nem se mettia de capa,
esperando e resistindo ao vendaval; nem lhe obe-
decia. No meio das nuvens cerradas, com o vento
a assobiar, f'lle teimava em vêr uma nesg-a de céu
azul, prenuncio de bonança e fortuna. A linha qtw
dividia a liberdade ela licença, esse criterio sup-
3. -AS COKTES
posto seguro, tinha-o elle na sua humanidade, na
sua virtude. era mister theoria, lJastavam
sentimento e caracter. . . l\Ias se todos f••ssemos
Passos, para quê, leis, governos e forças organi-
sadas "!
Elle, no seu optimismo, em pensar que
eramos, ou seriamos, ou de,·iamos optimos, o
que é bem diverso. Uma nação affigura,·a-se-lhe
uma família de irmãos, e a lei um osculo de Paz.
Annos passauos, depois de toda a sua historia
.acabada, e Ja revolução extincta, ainda glorioso,
lembra,·a como o amor e a humanidade tinham ven-
cido tudo:
Tínhamos a luctar contra o cartista ... D. )li-
guei preparava uma insurreição em Portugal e nas ilhas.
O Hemechido esta,·a levantado no Algan·e . .-\_causa da rai-
nha Christina sofli·era innumeros reYPzes: o general car-
lista marcba,-a sobre a nossa fronteira (lo norte e o
general Gomez com uma força consideraYel chegou a tocar
o territorio de Portugal ... O go,·erno armou a guarda na-
Cional e ficou esperando ... A revolta de Bel em foi anirtni-
lada e os Yencidos foram recebidos nos nossos bracos . .-\_ re-
volta miguelista não appareceu.-EscrP,-i aos acÚninistra-
dores ge1·aes para c1ue fizessem saber aos realistas que ne-
nhum cl"elles seria inquietado nem perseguido. mas que
todo o atacante seria punido. (Disc. de de out. de r8..J...J.l
E não se arrependia do que fizera. A paz, o
perdão, o amor, eram as. ancoras das nações :
verdade os homens não o criam, mas nem por
isso elle chegava a perder a sua esperança, em-
bora deixasse um governo em que se achava des-
locado. Saíu em julho, como dissemos; mas não
ah:mdonou os seus antigos companheiros, senão
quando elles mais tarde, perante o cartismo suble-
vado, abandonaram a doutrina do perdã.o pela do
castigo, atulhando de presos as pe1·sigangrts. Ul>i.i.)
94 L. IV.- A A!'\AKCHIA LIBERAL- I I
Foi então que descreu dos homens, e se ,·oltou
para dentro de si, como um eremita-por estar
longe, muito lunge, a salvação dá terra, pela paz
e pelo amor!
Quando os inimigos viram expulso ou retirado
do go,·erno esse homem temido, e que em seu lu-
gar ficava Rpenas, além de políticos, o bom e fiel
:-;á-da-Bandeira, as esperanças nasceram. A. revo-
lução estava suffocada. Havia porém insoffridus
que se nào conformavam com a demura dos cami-
nhos ordinarios; e ninguem mais se exasperava do
que Yan der "' eyer, talvez com a vista nu pe-
nhor do territorio africano. hom·e meio de o
conter; disse então aos marechaes que a hora ti-
nha soado-«Hombro, armas!>>
±.-AS REYOLTAS DOS E DO POVO
Yan der "r eyer mandou-os marchar, e elles fo-
rmn. O belga esperava poder armar em Lisboa um
pronunciamento cartista, pôr o reino inteiro n'uma
desordem maior do que havia já, para d'ahi saír
com um bocado de Africa entre os dentes. Portugal
decerto resistiria á restanracão da CARTA, mas vi-
riam os extrangeiros Entretanto Pahners-
ton, ou a\·isado pela triste figura que as suas fardas
,·ermelhas tinham feito na Junqueira, ou desconfian-
do do zelo belga, resistia, corno resistiu clE·pois, em
-! 7, ás solicitações da Hespanha. Cedeu mais tarde
perante a força das cousas, mas agom o mau exito
da aventura ,·eiu auxiliar os seus desejos. l Got-Iet,
Etab. des Cobourg.)
Com effeito, nem Van der ,y eyer pôde conseguir
que Lisboa se pronunciasse, nem os marechaes
que o exercito obedecesse, conforme convinha. A
correria foi rapida e o resultado grutesco, para tão
4. - AS REVOLTAS DOS E DO P0\"0 H.-)
nobres personagens. O barão de Leiria principiou,
acclamando a CARTA (1:! de julho) na Barca. De-
clarou-se logo o estado-de-sitio, dividindo-se o reino
em duas lugar-tenencias militares: Sá-da-Bandeira,
com José Passos por secretario, no norte; Bomtim,
com Costa-Cabral, no Alemtejo. Saldanha partiu
de Cintra a 2ü, Tejo acima até Abrantes e Cas-
tello-branco, chamando á revolta os regimentos
com que veiu descendo pela serra até Coimbra.
Eram 10 de agosto quando ahi entrou. Em 1 iJ es-
tava em Leiria, em 22 em Turres-Yedras, onde se
lhe reuniu Terceira, saído de Lisboa a 17 ou
A :?H, os dois marechaes e a sua tropa chegavam
ao Campo-grande, ás portas da capital, esperando
o promettido pronunciamento que não apparecia.
(Sã, l.ettre, etc).
Quatro dias esperaram em vão. Que faziam en-
tretanto as tropas do governo? Bomfim recolhera
a Lisboa, porque as guarnições do AlemtE-jo tinham
fugido para Saldanha. visinhanças da capital
devia dar-se a batalha inevitavE-1, mas os mare-
chaes, vendo a mudez da cidade, retiraram ( :!7)
para Rio-l\Iaior; e o exercito do governo achou-se
em frente d'elles, a 28, no lugar do Chão-da-Feira.
Começou a acção, e quando chegava o instante
decisivo viu-se um caso singular. Corriam a galope.
esquadrões de cavallaria, com a lança em ri::;te uu
a espada erguida, ameaçando fazerem-se pedaços;
e n'um momento, em frente uns dos outros, os sol-
dados paravam, olhando-se, levantavam as· lanças,
baixavam as espadas, dando vivas, de um lado, á
CARTA, do outro á CONSTIT"CIÇÃO. Xão se bandea-
vam, mas tinham resolvido não combater. !Sá, Lettre,
etc). A's vezes, nas touradas em Hespanha, quando
a féra mostra mais juizo do que os toureiros, o
povo das bancadas acclama o toiro : é o que nc.'1s
L. 1\·.- A A::\"ARCHIA LIBERAL-I I
agora fazemos aos soldados! Com um juizo supe-
rior, deram uma lição aos generaes, aos diploma-
tas, á rainha, á côrte, e a todos.
Começou então uma scena egnal ás muitas que
se conhece_m dos tempos medievaes, quando os ban-
dos dos senhores e das communas se encontravam
nas suas contendas. Os generaes avançaram para
o meio das columnas armadas, e para o quadro
acabar como cumpria, devia seguir-se um bufur-
dio, um juizo-de-Deus.
1
l\Ias os tempos eram ou-
tros, mais pacíficos. E os generaes, á maneira dos
soldados, não queriam uzor1·er por ello. Combina-
ram um armistício, retirando os sublevados para
Alcobaça e os do governo para Leiria, a vêr se
podiam entender-se. Yieram á fala em 30, em Al-
jubarrota; e ao outro dia, por llão conseguirem
nada, recomeçaram as hostilidadt>s. (Sá, Lettre, etc.) Que
houve então? l\Iuito sangue? batalh:ts mal-feridas?
Oh, não! Os marechaes vão-se t->mbora para a
Beira-baixa, Bomfim deixa-se fi(•ar em Santarem,
e Sá regressa a Lisboa. (lbid.J Se os soldados, com
todo o juizo, não queriam bater-se!
Andava por esse tempo em Hespanha, auxilian-
do a rainha contra os cm·listas, nma divisão por-
tugueza, sob o commando do conde das Antas.l\Ian- .
dou-se voltar; mas quando ella entrou por Traz-
os-1\lontes em direcção do Porto, já os marechaes
tinham chegado a l\Ioncorvo, e furtaram-lhe uma
brigada de infanteria. Reduzido, chegou pois An-
tas ao Porto, onde encontrou já Sá-da-Bandeira,
vindo de Lisboa (setembro, 13) com um unico ba-
talhão de cacadores. Os marechaes tinham Traz-
. os-l\Iontes; Leiria, desde que se pronunciara na
Barca, possuía o l\Iinho. Por aqui se devia come-
1
V. H is/. de Portur;al (3,
8
cd.) 1, p. 66; e Instit. primit. pp. 162-6.
4.- AS REVOLTAS DOS !\IARECHAES E DO P0\"0
çar a batida, para não deixar a rectaguarda ao ini-
mig-o. Antas, com effeito, occupou Famalicão a 16
e Brngn a 16. L<:>iria recua,·a pelo Ca,·ado, a reu-
nir-se aos marechaes e-m Traz-os-1\Iontes: fortifi-
cou-se em Ruivães; mas o inimigo desalojou-o
d'ahi
7
depois de um breve combate (18) obrigando-o
a seguir até Chaves. Antas vinha quente das
guerras de Hespanha: as suas tropas, costuma-
das, não se recusa,·am a m:uchar. Proseguiu, e os
marechaes, vendo-se perdidos, a capi-
tulação na noite de 1 Antes uma composição
má, do que uma boa demanda, pensavam: e do
lado opposto não ha,·ia tambem vontaJe de le,.,.ar
as cousas ás do cabo. Fi"ira -uma experiencia. a
vêr : não ,-ingon? Pois bem : nem st? fale mais
n'isso! Bem no fundo, eram todos amigos: tinham
combatido juntos contra D. :Miguel, e isto agora
não passava de arrufos. As tropas haviam de sub-
metter-se ao go,·erno, é claro ; os mnrechaes não
podiam deixar de emigrar, é evidente; que figura
viriam fazer para Lisboa'? que diriam a Van der
'Veyer ?-:Mas os pobres officiaes que não tinham
culpa, não podiam ficar sem pão: conservavam-se-
lhes as patentes, com o soldo de reforill:ados. !Sá,
Lel/re, etc.)
Assim acabou em nada a revolta dos
que saíram d'alli para Hespanha, indo acolher-se a
Paris, á espera de tempos melhores. Acabou esta
revolta, mas o exemplo de generaes transformados
em condottieri E-stava dado e frtlctiticaria: este en-
saio era uma iuiciacão. De lado a lado se comeca,·a
a sentir a necessida"de dos golpes-de-mão e da; re-
sistencias violentas. Declarara-se a guerra, e O<; libe-
'raes appellavam para a força. Durante o conflicto
referido, o governador ci,·il de Aveiro a,·isava Pas-
sos (16 de agosto) de que chamara tudo ás armas,
PORT. CONT.- TOM. II í
98 L. IV.- A A::'\ARCHIA LIBERAL-I I
((0 que não vier voluntariamente, ha de vir cons-
trangido''. :-'e o J oào Carlos t_ Saldanha) entrasse
no districto e algumas pessoas d't:·lle o acompan:has-
sem, o governador estava resoh·ido a, «não os po-
dendo apanhar e passar pelas armas, arrazar-lhes
as casas)). Eram as nnicas medidas acleq nadas ás
circumstancias. Começara por querer levar tudo
por mt:-ios brandos e de suasão, mas vendo o ne-
nJmm resultado, virara-se para o lado opposto.
cCorr. autogr. dos Passos) Assim tambem D. Pedro fi'lra
forcado a libPrtar-nos!
Por seu lado o belga, frustrado duas vezes o
plano de nus fêlZer felizes, j<.i em Belem. j<1 agora em
Traz-os-)lontes, perdendo a espe"rança do pedaço de
Africa, abandonou-nos á nossa ::;orte. Yan e r , , ~ eyer
foi substituído. (Goblet. E1,1bliss . .tes Cobour;;1 )[udon de po-
litica a Belgica, mas o inglez que ella sen·ia ainda
de Lisboa aconselhava f'aldanha, já emigrado em
Londres: «Porque não levanta um corpo de tro-
pas em Hespanha para salvar a rainha? Talvez
isso lhe proporcionasse o meio de voltar aqui, ao
seu paiz, com éclat ''. (Carta de Howard a Sald. -t- de out. de 37;
em Carnota, .\lem.J :Xào pôde ou não quiz Saldanha
seguir o consellw, e a Inglaterra mudou tambem
de pl:mo. Em vez de promover as revoltas no
reino, declarou uma guerra diploruatica ao go-
verno.
)las as licçues dadas aos jovens monarchas pre-
pararam-lhes, educaram-lhes o espírito. Iniciada a
rainha, senhora varonil e nobre, nas cabalas ela
rt>sistencia; ensinada a desprezar as fórmulas cons-
titucionaes e a p6r em pratica as conspirações, a
fomentar os pronunciamentos, a servir-se dos ge-
neraes como l11·avi de um tyranno á italiana, e a
contar com a força extrangeira para dominar urna
nação de que tudo a separava: iniciada a rai-
4.- AS H.E\"OL T.\S llOS :\1.-\RECH.-\ES E DO PO\ O
nLa, dizemos, estes primeiros t>pisodios do go,?erno
são o prologo de avt:>nturas maiort>s, mais seri::ts.
Emquanto a sedição lavrava no campo, ia o
COngreSSO debatendo-Se COntra OS ViVcJS ata<illt:'S
uma esquerda acirrada pelo medo da rt:"acçà•J, ea-
poreada pelos clubs que zumbiam em Li::slJ•Ja ar-
mados. 1 [avia dt>clamações, invectivas chimeriras,
apustrophes eloquentes, theorias radicaes, formula:-;,
phrases;: peior du que em l:O:::?()! O ministt:'riu, de='-
conjuntadu, podia pouco ou nada contra a l•tHla •la
Campos não se calava; e .Julio-G•J-
me:;: qne pedia urdt>m, via-se renegado pelos nitras,
Bernardo da Rocha t> Barreto-Ft>io. .Jias o pe͕Jr,
o mais doloroso de tudo isso, era a penuria uni-
versal em que se vivia. Depois da saída de Pass•JS
entrara na fazenda um homt>m novo, rico, sem
politica, banqueiro, inglezado: T•Jjal, de quem
esperava muito. Os portuguezes não provavam ser
babeis para a finança : mas agora este inghz appa-
recia como successor de José da Silva Carvalho,
unico entre os antigos. ( 'om a saída de Passo::; •J
gabinete ia todos os dias prommciando-se mais
moderado, mais 1'asoavel; e ao mesmo tempo, ape-
zar da irritação das esquerdas no parlamento e
nos clubs, a constituição progredia por fijrma qnl::j
viria a ser a propria CARTA. Em outubro (1-! 1 ga-
nhou-se uma batalha grave: duas camaras. Era
um senado electivo por seis annos. E á força d.,
trabalhos, depois de serias campanhas, conse-
guiu-se por fim votar, jurar (-! de abril de 1
uma constituição muito soffrivel. S{L-da-Bandeira,
acn·ditava ingenua e seriamente ter concluido a éra
das revoluções: via chegada a paz desejada e con-
too L 1\'.- A Al'AH.CHIA LJE;EH.\L-1 I
ct·édor das melhores graças do seu paiz.
·\·. Lctlre .w coml<! Goblel.)
O pdotão clamoroso dos tlemagogus não u as-
SHstnYa muito: eram o puro, o bom poYo seu
cto. a <1nem elle queria como os aYÚs aos netos,
achando-lhes graç-a em tudo,. mas não chegando a
eomprehenclt·l-os quando um dia começam a falar
eomo homens. Do poYO n:lo tinha medo; para con-
quistar o ftlra admittindo nu gu,·erno ho-
nwns quasi cartistas, muitiJ moderauos, como
Bnmfim. l\[a8 não ficaYa, se-mpre 'I Kào era
elle a garantia t O pov() não o julgava assim, na
prima,·era de 3X. A. ingenuidade de S<í.-da-Ean-
deira crem·a dois goYernos n'um só gabinete :
Bnmfim e os moderados, contra Campos e os da
montanlw que se entendiam com us clubistas. Eis
allÍ a paz que haYia.
Os f 'wnillos tinham-se fechado; Costa-Cabral
mudci.ra muito: já não perora,·a. e adherira á mo-
A Associrtçi'io ch:ica passara para o Arse-
nal: c!nb do batalhão de operarias naYaes dt> que
t•ra chl::'fe o capitão-tenente Franç-a. A marinha es-
tanl á frente da demagogia, que tinha um imperio
ll(tS t>staleiros. O capitão-de-fragata Limpo, inspe-
ctor do Arsenal, era clubista; e a seguranç-a de
Lisboa estava nas mãos do Yermelho
ra. deputado, administrador-geral ! nome dos goYer-
nadores-civis d'entâo·l, e por isso director da guar-
da-nacional da capital. Rã-da-Bandeira, repetimos,
não receiava nada d'isso: confiava de mais em si
e na pureza das suas intenções. Era optimista por
bondade. 'Tinha os seus espias entre os demago-
gos; e um era o judeu Pacifico de quem recebia as
partes em arabe, porque o general sempre amara
o saber. Conhecia o que elles queriam, mas não
acreditaYa que se desmandassem: bulhas dos rapa-
4-.- \.S RE\"OLT:\S DOS :\1.-\H.ECHAES E DO P0\"0 101
zes! Ralhou paternalmente; e Limpo, enxofrado,
démittiu-se. (S.i, Leltrc?, etc.)
_-\. guarda-nacional reunia mensalmente, por or-
dem do dirPctor: a -! de março Caldeira chamou-a
e representou com ella A rainha, pedindo a qttella
dos ministros moderados, isto é, Bomtiw. Foi en-
tão que se offendeu contra a au-
dacia d.)s rapazes. Deita\·am as mãos de •
déra-lhes êtrmas para se distrahirem, e volta\ am-se
contra elle! Que lhe doesse, não via remediu se-
não castig·al-os. Por isso demittin Cnldeira 1 "i) e
poz t'lll lugar d'elle (
1
osta-Cabral, que dava t>.Spe-
rauças de submissão, e promettia rep1·imir a wwr-
chitt. assim, rudemente, os radicaes res-
ponderam na manhan do dia apparecendo em
armas o batalhão do Arsenal e parte da gnarrla-
nacional, exigindo um ministerio puro. Era nu Pe-
lourinho, a cuja esquina havia ainda o antigo bo-
tequim, politicamente CPlebre, do Marcos-Philippe.
A tropa cercava 08 e no rio esta,·a de
canhões corridos um navio prompto a metralhar o
Arsenal, baluarte da sedição. 1\Ias Sá-da-Bandeira
não queria que se derramasse sangue, nem podia
desejar qne se esmagasse o povo: não iria logo o
poder cair nas mãos dos cartistas que o espera-
vam?
situação dubia e triste, não qniz vencer:
pactuou a convenção de ::\larcos-Philippe, prumet-
tendo impunidade e conseguindo a dispersão das for-
ças. Não podia com tudo deixar de demittir o França,
nem de dissolver o seu batalhão : isso fez, (Dt:.:r . .ie
9 de março) com grave escandalo dos condemnados
que lhe chamavam traidor. A opposição rugia na
camaras e o ministerio caiu no mesmo dia : mo-
derados (Julio-G-omes, Bom fim) e raclicaes ( f
1
am-
pos) tiveram egual sorte. Ficou apenas Sá-da-Dan-
L. 1\'. --A A:'\ARCHIA LIBE!<.AL-1 I
dt:-ira, com o homem tla Fazenda, o que não
tinha cÍir pohtica 'I
Na•• é assim: pois detraz llo guYerno e mais go-
Yerno do qne elle, esta\·a o admini:5trador de Lis-
h.ta, Co8ta-CaLral, cujo verdadeiro destino come-
(·ant a tleseultar-se. C011Yinha sua amhieão a po-
• falsa do ministro, e ao seu tenaz,
St'lll :tpparato, o trabalhar deb;lixo do nome de
otLtru, preparando o futuro em favor proprio.
N'este momento j{t elle, eYidentemente, sahia o ca-
minltn que tinha a seguir. :Xão havia um homem:
sel-u-hia! Não havia uma doutrina, na dt:-sor-
dem de opiniões que se chocaYam : ellf> restauraria
a antiga tloutrina da CARTA. Os rnarecl.aes: por
isso mt:-smo que esta,·am exilados e comprometti-
dos: seriam instrumentos doceis. E a rainha, por-
que era varonil e cheia de talento, comprt>henderia
a rasão de ser dt:- taes ,-istas, a salwdoria do
pl:mn e a capacidade do homem.
Fl,ra dt>magogo? Tmnhern :--\aldanha. Isso nada
importa,·a á politica: nem lH"o,·avehnente o affii-
gia a elle. Ou tivera de facto essas opiniões e mu-
dara. cousa que o devia fortalecer na opinião de
agora; ou desde o começo representara um papel,
caminhando por vias tortuosas direito a um fim,
e isso d.ar-lhe-hia um grande orgulho, quando
via confirmadas as suas preYisões. \rrependimento
ou apotheose, a sua mudança não diminuía a força
propria do seu genio. Para os simples ha,·ia de
passar por trai<l01· e falso: que importa? sempre os
pnliticos o foram; e para go,·ernar basta uma cou-
sa, sem a qual toda ·a ,-irtude é fumo: a força
victorinsa. O politico ha de ser temido e não ama-
do: ai, dos que espt:-rmn e crêem nos bons instin-
ctos dns homens, como o fraco e ,·irtuoso :-;á-
.da Bandt:-ira, reduzido it condicção de pára-choques
4.- AS RE\"OLTAS DOS :O.L\l<.ECHAES E DO P0\"0 103
-entre o pO\yo e a côrte, rt:>cluzido a nada, renegado
por todos!
A demagogia não se calara e reclamava uma
desforra do dia 9. O ministro nada podia, porque
em vez de a vencer, obedecera-lhe, para depois
a acirrar com os decretos ela tarde. ( 'lama,ya-se
pela revogação d' elles; e o paço anda,ya palliclo de
susto. Diz-se qne d'entào data o primeiro accordo
entre a rainha e Costa-Cabral. Diz-se que elle foi,
e prometteu resoh-er a crise ; expoz o seu plano, .
e ele tal modo, manifestando a sua força, logo se-
duziu a rainha. Afinal encontrava-se um homem!
Com a tropa desarmaria o po,yo, e sem espingar-
das a democracia. restaurar-se-hia a ordem. Era
simples, era e seguro. Permittil-o-hia po-
rém :-\á-da-Bandeira? Até certo ponto permitti-
ria; depois não. Mas para esse tempo estaria já
desacreditado ele todo, e cleita,ya-se r.Jra.
a rainha nem o planeasse, nem pensasse tão crua-
mente. Costa-Cabral não podia pensar ele outro
modo.
tinha mau genio, era teimoso e
rabugento na sua bondade. A teima e as ameaças
com que exigiam a re,Togação dos decretos de
9 irrita,yam-no, dispondo-o bem para o papel que
aos no,yos planos convinha qne elle reprt>sentasse,
e com effetto representou no dia 13. De madruga-
da a guarda-nacional appareceu a pofltos com os
seus commandantes que exigiam a reintegração de
França. Toca,ya a rebate em todos os sinos, rufa,·a
o tambor por toda a cidade. A tropa furma,ya no
largo da Estrella para defender as Côrtes, e no
das ecessiclacles para clefeza elo paço. Cabral
mandava. :O:::á obedecia, e Bomfim, Reguengo, pre-
paravam-se para dar wwt lição. Ha,Teria mortes?
Provavelmente. :\Iarcharam as tropas, e a sua pri-
11)! L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I I
meim acção foi desalojar os rebeldes elo convento
de Jesus, tomado de assalto: correu ahi sangue,
mas pouco. Dos outros pontos a guarda-nacional
debandou: não para fugir, mas para ir reunir-se,
com artilheria, no largo da Graça. A Estrella e a
Graca estão nos dois confins oeste e leste da ci-
que ardia toda em desordem e gritos. E
gritando orava nu Congresso a esquerda, confian-
do no exito da revolta que trabalhava por sua
conta lá f<'n·à.
Costa-Cabral levou Sit-da-Btmdeira á Graça, e
depois de muito falar conseguiu que os revoltosos
descessem. Era um ardil de guerra. Quando che-
garam ao Rocio, viram-se cercados por Bomfim
que de todu8 os lados, nas ruas das encostas, fe-
chava essa baixa, de molde feita para curral de
gado tresmalhado. ahi tiroteio e cou::;a de
uma duzia de mortos. Caía então a noite: estava
acabada a funcçào. Os sediciosos debandavam e
Costa-Cabral celebrava uma victoria incontestavel.
Cumprira o que promettera, mostrando ser homem
para muito mais. agradecia-lhe,
punha-se ás suas ordens, considerava o o seu bra-
ço direito. e::;sa gente vencesse? que seria de
tudo? Com effeito, não podiam dar-se armas ao
povo que tã.o mal usava d'ellas. Era urgente dis-
solver os batalhões : não direi todos, mas os peio-
res, os mais vermelhos. . . Cabral começou pois a
trabalhar, a dissolver batalhões; e era em Lisboa,
na administração, um Pina l\Ianique: mais! o prin-
cirio de um Pombal. O genio organisador, admi-
nistrador apparecia, depois da arte e da bravura
com que esmagara a revolta. Fazia regulamentos,
organisava cadastros, arruava as mulheres de má
vida. Evidentemente subia, e nã.o se descortinava
quem lhe fizesse sombra. r\ rainha dera-lhe a com-
4. -AS RE\"OL TAS MAH.ECH -\ES E DO P0\"0 10;)
menda da Conceição- oh, tempos antigos! (Y. Costa
Cabral apont. lzist. anon.)
Quatro dias depoi::; do 13, o moderado Eomfim
voltava para o governo; e sem-
1-'re crente, cheio de esperança, considerava termi-
nado o episodiu dos tumultos, sellafla a paz -
com sangue, é verdade!- e conqui::;tau•> para a
sua obra um lwrnem novo, precioso. principio
de abril, em sessão solemne 1):), a rainha e o rei
foram jurar a constituição nova, bem rasoavel.
Todos approvavam, todos estavam ::;atisfeitos, tu-
dos gabavam ou antes, acreditava
elle isso. Howard e a Inglaterra, Gu1let e a Bel-
gica, appoiavam decididamf'nte. Tinham terminado
ambas as revolta::;, a do povo, e a dos marechaes
que de Paris se sulm1ettiam, jtu·andu u no,-o codi-
go. Era uma regeneração, de lealdade e de \Írtu-
de; ainda que o vencedor não deixava de ter uma
vaidade in;;enua pelo modo como conseguira des-
viar a revolução do perigoso caminho onde a le-
vava o seu bom amigo Passos. lllusues desculpa-
vt-is de um espírito todo poesia ! Elle, via-se pra-
tico, sabio. la coroar-se a rainha Yictoria em Lon-
dres; e Palmella, afinal riquíssimo com a fortuna
da herdeira da Põvoa sua nora; Palme lia que
desde 36 amuara, fazia as pazes, inu•> ostentar
o seu luxo na terra onde passara dias tão crueis.
(Sá, Lettre, etc.)
)las que singular tumulto é esse, no meio de
uma paz tão firme? que desordem se le,-anta no
dia do Corpo-de-Deus? Era já tarde 1_1-! de junho),
a procissão recolhia á ::;é. Que surpreza, para os
ouvidos de quem se julgava acclamado, os insultos
despedidos contra o rei, contra a rainha, e contra
L. IL- A A:"ARCHIA LIBERAL-I I
t>llt> proprio, o crédor da paz unin:.·rsal '"!- )laledi-
cos disseram flue essa paz fazia mal ú ambição do
lwmem-nonl: 5t•. nas bulhas podia mostrar bem
quem era e quem seria. elle, com effeito, ar-
ranjou essa desordt>m para seu uso o re-
sultado ia-lhe sendo ficar sem ,-ida.
A triste procissão t>ntrou na Sé destroçada. Lu-
ziam as bayonetas agitando-se, e as ,-ozes do
armado pediam sangue e cabeças. Cacla qual fu-
gira para St>U iado, escondendo-se pelas t>Scadas.
Era grutesco Yêr as fardas bordadas com espadins
e commendas, os chapeus de plumas e mantos de
tilt't; era grntesco vêr os personagens correr: su-
mirem-se, atarantados com o susto. O Law purtu-
guez reformado e o Pombal nascente, um passado
e um fnttu·.-., encontraram-se socios no perigo. es-
condidos n'nma t>Scada, cuja porta defendia, irri-
tado mas firme, o ministro surprehendido. Uma
bay•meta luziu com a ponta direita ao peito de
:-;á-da-Bandeira, Yindo cra,·ar-se-llJe no a
qut> de,·eu a ,-ifla: como as condecoraçiJes ás Ye-
zes setTem C ) falhado o golpe, ,-ia-se per-
dido: mas mandou qne deixassem
«passar es::;e homem». () homem fugiu, a solda-
dt>::;ca popular foi correndo, clamando atraz da
sege, onde, um lJolieiro sah·ant Costa-
CalJral e Sih-a-Can·alho. Em Santa-Justa, CalJral
extenclen o braço, disparou a pistola contra a turba
que o segnia. como lobos. E a sege uatia, fugia,
até entrar no Castello, onde se refugiaram. A
carruagem de Costa-CaLral, foi corrida á
pedrada. ('lpontJmentos Jzistoricos, anon.)
Que surpreza singular! O ministro não caía em
si. De certo, nã.o ha,·ia remedio: força era suppri-
mir mais hatalhões, inclinar ainda mais á direita,
dar todo o apoio ao homt>m nO\·o, o unico homem
4. -AS RE\ OLTAS I>OS .M.\RECH.\ES E DO P0\"0 ]117
capaz de pi>t· colJrü its de um povo qut-
teima,·a em não St'r CtJrdato: uma pt'na! Costa-
Cabral, commendadtJr ·em marçu, subia a conse-
lheiro, e no fim do anno passant, da administra-
para a camara. Yultava ahi com uma pellt-
no,·a, lJomem Ílüt'iramente diverso do antigo dt--
putallo da muntanha. Desct>ndo a hancus mais
baixos-subia, sulJia sempre.
Faltava agora, au infeliz d.t'pui:;
da ingratidfto du povo, a das putt'ncias! Que a
Sessão parlamentar f}e m1 havia J.e St'l" borrascusa,
já o t>spera,·a: lun·iam de o accusar, e accusa-
vam-n'o, pur pender para a direita, pur atacar na
guarda-nacional o palladio da liuerclade, etc. Es-
tava preparatlu para is:so: salJia o que devia res-
ponder, t' tinha na camara o seu Costa-Cabral.
1\las o comportamento da Inglaterra? Pois era o
mesmo Howard, o propritJ qut' o anno passado lhe
dava parabens, felicitando-u, approvmulo tudo'!
Agora se desilludia: a Inglaterra que
sempre contra Setemuro; a Inglatl"'tTa da Bt'lem-
zada via chegado o momt'ntu de apunhalar n'elle
o pu-ro. Eram exigencias sobre as que:stut's do
cruzeiro,
1
qnandu ningtwm tinha mais a peito
abulir a escra,·atura. Havia um prop•Jsito ... Pe-
dia-se a bolsa ou a vida, exigindo se meio mi-
lhão esterlino de contas de soldo:; atrazados, ou em
compensaçàu a Inclia. lSá, Lettre au comte Gobh·t, etc.) I la-
via um pensamento: obrigai-o a sair, expulsai o do
governo. Porquê? Teriam já adiantado os planos
entre o homem-novo e a cori,a para restaurar a
1
V. (I 'Bm;il e as colmz. rnr/. 11, 1.
L. 1\.- A ANARCHIA LIBERAL-I I
CARTA "I e seria unut f6rma diversa, mais caYillosa,
de Belemzada? Quem sabe? Começaria Sá-da-
Bandeira a desconfiar do papel que representaYa '!
Yoltar-se para o já o não podia: tah-ez ti-
Yesse tido mais juizo o Passos, retirando-se ...
Que ha,·ia- um proposito, era -f,',ra de duYida.
se exigem impossíveis. E poflia elle dar êl
India "I E podia elle dar o meio milhão, quando o
Thesouro, como sempre, esta,·a phtisico? De certo
não. As finanças, essas malditas finanças, iam de
uwl a peior. Tojal, por fim, não dera nacla. A•
falta de homens ftlra mistér restaurar (17 de abril
de o antigo barão de f'hancelleiros, que dei-
xára os negocius desde :!8. Nem um; nem outro:
ning·uem era capaz de pôr ordem n'esse que
era o descredito da reYolução. Agora vinha a In-
glaterra pedir meio milhão ! Era hom de pedir ;
mas como nào havia que dar, Sá-da-Bandeira per-
ceueu que a exigencia encobria outra vontade- a
de o expulsar do governo. Abdicou, pois (11) de
abril de 39 ).
(_) tempo que separava Costa Cabral do poder
corria. successivos momentos do seu plano rea-
lisaYam-se. Xão se podia ainda precipitar a acção,
nem isso convinha. O resto que ha,·ia de força na
gente setembrista consumil-o-hia um governo ephe-
mero, mais moderado, o governo do sagaz Pizarro,
malicioso e as tu to, improvisador facil sem e loquen-
cia, habilidoso sem talento, aristocrata por índole,
setembrista por ter sido inimigo de D. Pedro: do
Pizarro, feito barão da Ribeira de
Sabrosa. rHontt?m. !znje e amem/um, op. ar10n.)
A exigencia do meiO milhão ,·inha a ponto, op-
4.- AS lJOS 1\l-\RECHAES E lJO P0\"0
portuna, porque nada rlesac.rediMra tanto n setem-
brismo como a sua gereucia :financeira. A' rnina
conhecida do paiz juntava-se a incapacirlarle de
homens sem talento para gerir, ne111 artes, nem ca-
racter para mascarar. Yia-se its clanls, aggraYado,
o sudario que um Silva Carvalho enrolant habil-
mente no bolso. Elle com a sua arte chama\ya, os
setembristas com a sua franqueza o
judeu de Londres, que era a melhor fonte, o ul-
timo recurso do Thesouro de uma nação queimada.
Em \yào o setembrismo creava a protecçtio, em
pautas qua::;i prohibitivas para muitos generos: a
industria não surgia; encareciam apenas as cou-
sas, e engrossava o numero d'esses operarios fa-
brís que em LislJoa eram as nuu·cas da guarda-
nacional com que se faziam tumultos.
Para animar e favorecer a uossa .agricultura,
e artes, devem marcar-se direitos protectores a toclos os
generos e merc·adorias qne produzimos e fabricamos, em
ponto tal que possa dispensar-nos já ou Yir a displ'nsar-
nos da prodncçào ou manufactnrrt. estrangeira. (•Rgf. de José
Passos ; ref. de pautas; sess. de
((Já temos alguma fiação, observa v a com espe ·
rança o relator, e se a legislação não mudar, te-
retnos mais. n Talvez a Inglaterra não applaudisse
o novo pom_balismo da revolução. Se o temia, fazia
mal, porque elle só creava elementos dP desordem
muito mais dispendiosa do que o augmento de re-
ceita das :ilfandegas. A pobreza não cessára de
crescer. Pela legislação de 3-! todo o papel-moeda
devia acabar em 38, traduzindo-se em mêtal as
obrigações contractuaes anteriores. 1\Ias como pa-
gar tres mil colltos ou mais, ainda em circulaçã.o?
Força foi, portanto, deixar á sua extincção natu-
•·al, indefinida, o que restava, prE:judicando muito
1111 L. IV.- A A::-;AH<"HIA LIBERAL- I I
gravt>s pois que as espt>cies contractuaes
anteriores se prurugavam indefinidamente tambem,
nem podia ser de outra f,jrma. tD. de dezemt.ro de
Era mais uma banca-ruta. a somm<u aos successi-
\yos pontos, saltvs, de vencimen tus, etc.
em titulos dt> uma divida de qut> não havia com
que pagar o jnro. Uma naçà.o de empregados ti-
nha caimbras de fonw. Todos os estomagos davam
horas.
Passos conseguira que a clt>cima produzisse o
dobro, de mil a dois mil contos; mas isso t'ra um
copo de ngua no mar. O orçamento para
apresenta\ya um deficit de contos
no qual entranun ;>:107 de ,-encimentos
atrazados. E a di,-ida, que era 7U:iJ)-(U com o
juro de :?:-!1 7 ep1 dezt>mhro de 3G, cht>gant a
com o juro de em dezt>mbro de 3:3.
(.-\. Alt-ano, Jil·. ptb. po,-t., r83gJ A maré subia, subia, de
um modo tlSsnstador. (\".os numeros anteriores em 28 e 3S)
Um anno depois, em nu\yembro de já não
eram ·"0, eram Sô mil contos, pois se iam capita-
lisando ,-encimentos, dividendos. E nà.o escolhemos
um inimigo, antes um defensor e ex-ministro da
re,yolução, que para a defender compara os duis
períodos de setembro de ;;lj e novembro ele m•, de-
nunciando um accrescimo de cinco mil contos ao
·1nno. tSanches. O est. Ja.iil·iJ.1ptb., rS-tgl
E a Inglaterra pedia meio milhão ou a bulia!
:-3á-da-Bandeira demittira-se; em novem-
bro, ao sair, dizia que a ci'lrte era a serva ela In-
glaterra que o expulsa,-a: « Fi"lmos despedidos com
mais sem-cerimonia do que costumo despedir os
meus creados >>. , Lit.erato, :!:\Iem.) Foram despedidos . ....\.
re,-olução acaba, e começa. com a ORDE:M, uma
historia de novas dt>sordens. Bomfim serve de plas-
fJ'f)ll ás duas figuras seccas e frias, sem illusões,
5. - AS FOLHAS CAÍIJAS 111
Rodrigo e Costa Cabral que se acotnYt-laJ!l no ga-
binete ( :?f) de novem1ro ). Qual d'ellt>s Yencerá?
Rodrigo tem a ironia e o scepticismo : «a que;:;-
tâo ingleza são alguns saccos de ouro». tlit-erato.
étlem.J CalJral tem a violencia e um plano. Dis::;olve-
ram a velha camara (25 de de 101; e
emquanto um acceitaYa a constituição, acceitaYa
tudo, porque tinha fé nas suas manhas e artes; o
outro, como doutrinario, puzera a peito
as cousas sob um typo noYo de instituições. Qual
dos dois vencerá.? Primeiro, o doutrinario; porque
o paço partilha as suas ideias, porque ainda ha
quem espere e creia. Depois, quando esse novo
typo, f6rma de liberdade, tiYer tido o destino natu-
ral, e tudo ficar em farrapos, os princípios e as
esperanças, os marechaes e os partidos, então, so-
bre as ruínas das chimeras, no seio do cansaço
uniYersal, reinará o perfil ironico de Rodrigo, ven-
cedor final ...
O futuro pertence agora a ambos ainda, e sú a
elles: porque um passado que não Yoltará mais
atirou com os coripheus do setemhrismo para
longP. Sá-da-Bandeira sóme-se;. Pizarro vae enter-
rar-se em Chaves onde morre; Passos, o nohre
Passos, j{t esquecido, no seu exilio de Alpiarça,
aguarda o momento de voltar a publico fazer uma
confissão geral, dizer as novas impressões e idéas
que o exame directo da realidade acordou em seu
espírito.
i">.- AS FOLHAS CAÍDAS
O anno de -!4, pelo outomno, ouviu a final con-
fissão do tribuno. Seis annos ou sete havia que dei-
xara o governo e se exilara. N'esse período tinham
occorrido cousas graves. Costa Cabral vencera Ro-
drigo, restaurando a CARTA em 42, começando o
ll:l L. IY.- A AN-\RCHIA I IBERAL-1 I
rt>inaJ,l; e no principio do anno em que Pas-
sos l\Ianut->l orou, frustrara-se a seJição Turres-
KontsL preparada para galvanisar o sett?mbrismo.
Passns j<í subia que elle esta,·a bem morto: não
adheriu .• \ sedição fi'Jra suffocarla.
l\"um dia pa:;:son por Alpiarça o tctwnte Portugal, que
ia juntar-se re,-oltosus. X o dia seguintf' passou o coro-
nel Pina, que ia unir-se {ts forças 1lo gon•mo. X em offen-
demos um, nem coadjm·ámos o outro. En era estranho a
t>stes mnYimentos que nito tinha aconselha1lo, cnja conYe-
nif'neia ni'io conhecia ... Quando a rp,·olta trinmphasse nào
estwraYa d'ella grand1·s u<·m mellwramentos
para . o paiz. Alpiarça não tlueria ser eh.>Yada a cidade;
nem eu nem os Jncus Yisinhos a paes da patria. Xào tinha-
mos natla com estas Lambochatas. tDisc. de 18 de out.
BamlJochata, a revolucão! Quantum nwtatus ab
illu. . . Bmnboclu{ta fclra para elle todo o
cartismo até emquanto punha a sua fé e as
suas esperanças na Democracia, expressão genuina,
Yerdadeira e pura da Liberdade. Bambochata fôra
a ,-ida de tod1JS esses homens, a quem o g·ove_rno
coubera até setembro: mas depois"? Depois tam-
hem. recunlwcia-o agora, quanrlo á empreza para
restaurar a democracia dava um nome egual; por-
que· a gente a quem fGra confiada a defeza dos
principios não pudera com o peso do encargo :
:-\e a RcYolnçào está. morta, nào foram os seus inimigos
que a mataram. {lbi.i.;
O tribuno presentira o passamento, e retirou-se
r .. ara não assistir ás exeqnias. Era uma grande
agnnia, uma affiicção dolorosa que o tomavam?
Kào ; eram as nauseas do desengano.
Este fastio, esta indifferença, Yieram-me no dia em que
o meu prorrio partido comnwtteu nm g:ranlle erro, e, di-
rri fi:aneanw11te, nm grande crime: foi no dia da persi-
5. - AS FOLH.\S CAÍD.\S 113
ganga ... Desde então consi1ierei a revolução como per-
dida, porque estava deshonrada. . . e assisti melancholico
ao seu passamento e suas exequias. Retirei-me da
vida publica e fui buscar o descanço e as consolações da
vida priY"ada. tlbid.J
o erro de uns homens não póde ser a con-
demnaçào de um principio. Como Cincinato, Pas-
sos toma,-a o arado, á espera que a doutrina o cha-
masse outra vez ao campo? Xão nos illudamos,
conforme elle parece querer illudir-se. E' muito do-
loroso e difficil de confessar que a nossa opinião foi
um sonho, uma chimera
7
ou um erro; mas quando
se tem a sinceridade propria das grandes almas,
essa confissão vem do pensamento aos labios e
faz-se. Era o que succedia n'essa hora ao tribuno.
Em vão encobrira as ruinas das suas idéas com
o fastio pelos homens a que tinham sido confia-
das. A sua descrença, a sua indifferença abraçava
homens e idéas, restando apenas a energia dos sen-
timentos do poeta e do moralista. Eram estes que
condemnavam como imiteis e vans as doutrinas e
systemas.
O melhor governo será sempre aquelle que applacar e
não infl.ammar os odios civis; o que souber inspirar amor
e não inimisade; o que fôr mais humano e não o que fôr
mais cruel. .. .A generosidade é o predicado da força, o lau-
t·el da victoria. Só a cobardia é vingatiY"a : o medo não póde
ser magnanimo... X ada põde ennobrecer tanto os homens
publicos e os partidos como a firmeza na adver-
sidade e a moderação no triumpho. rlbi.i.)
E a coragem, a audacia, a fé, para propagar e
impô r uma doutrina? Pois já o politico não é um phi-
losopho e um apostolo? "São, não é. As illusões per-
deram-se, veiu o outomno e as folhas caíram: eram
sonhos as doutrinas, chimeras as esperanças. O ve-
neno do scepticismo invadiu a alma do antigo apos-
PORT. CONT.- TOl!. II
114 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I I
tolo; e elie que fUra por mais de dez annos o S.
Paulo da democracia, despia agot:·a o ardor de ou-
tr'ora e ficava um Christo de amor, de paz, eh• mei-
guice ternamente compassiva, levemente ironica.
Os homens não mereciam mais. Portugal não lhe
inspirava outro sentimento. Essa Liberdade que
nas phrases occas dos vaidosos filra uma conquista,
era de facto nm dom do acaso : não a tinham ga-
nho, dera-lh'a um destino.
Quem inspirou a Portugal o amor da libertlade '? Foi
)lanuel Feruandes Thomaz, o patriarcha '? Fui o venerando
l\Ianuel Borges Carneiro?· Foram esses ora1lores das nos-:
sas primeiras camaras? ~ :l.o! não! foram os sauguinarios
ministros de D. l\liguel que, abusando da inex.periencia do
príncipe, em seu nome exerceram sobre o paiz a mais in-
supportavel t:nannia.
Se D. Miguel em 1828 não proce,]Psse com a precipit.a-
çào de l\Iinucio, se por mais tempo tivesse conservado o es-
cudo da carta constitucional, e se como regente f'm nome
de D. Pedro tivesse desligado nns apoz outi·os os cmnman-
dautes dos corpos, ·a revolução de lli de maio de 1 ~ 2 R se-
ria impossível: o throuo de D. Pt>dro, a liberdade do paiz
teriam caído então como caíram ·em 1R23, sPm qne se dis-
parasse um tiro em sua defensa, sem que uma gotêt de san-
gue se derramasse pela liLenlad1: do ptJVO.
Estas palavras resumem e confirmam a historia
que nós contámos; mas na hocca de um dos chefes
vencedores, não serão um triste commentario da
propria obra? uma annotação grave <Í.s palavras de
outro tempo? Caíram os homens, caíram os sy::;te-
mas : pois agora tambem se apaga no espírito do
h ibnno a victoria da Liberdade! O ar é muito
mais transparente, a vista muito mais penetrante
pela tarde, ao descair do sol: em pleno dia o cla-
rão offusca. Na tarde da sua vida, Passos era mais
perspicaz. A victoria? um acaso. As doutrinas?
vaidades. Os homens? bambochas.-Como deve
,.
5. - .-\S FOLHAS CAÍDAS
ser. mt:>lancolico o approximar do tumulu, enY•"Ih·idn
no renegar de uma existencia inteira!
Ft:>lizes, porém, os poetas que, acaso por verem
mais longe, vêem pouco e mal o que e::;tá perto!
Assim Passos, no nwi•J das rninas, appellan•lu p<lra
o amor, para a paz, appellava tambem para a or-
dem e para a legalidade.
Acredito nos llleios lt>gaes aiuda llne debei:;, un trinm-
}Jho da liberdade aiuda que tardio: uào ambieiouo a gl•-.ria.
militar, nem corôas de lnm·o ... Xa politica uào ha ata-
lhos: a estrada real é a. legalidade.
Singulares exprt:>ssões na bocca do dictad••r er-
guido por uma re,·olução, do homem do Campo-de-
Ourique, no dia da Relemzada, á frente da guarda-
nacional contra o throno! expressões
que se diriam uma apotheose do go,·erno crtrti ...
sentado alli a ou vil-o, a apoiai o de certo: ellt->
que em nome da legalidade restaurara a CARTA,
chamando a todo o período setembrista um crinw
contra a lei.
Lei, legalidade: mas qual? Se se discute a ori-
gem do proprio poder. Onde está? no thronü como
uns querem, reconhecendo a CARTA que o thrunl)
deu; ou no povo, como querias, oh incon-
sequent'e orador? Como púde haver lei, qu:mdo st>
discute a propria origem da authoridade que dá
força ás leis ?-Passos protestava, sim, contn1
as sedições militares, não queria «corôas de lou-
ros»; mas desde que a origem tradicional do po-
der se contestara; desde que a nova origem, de-
mocratica, não podia enraizar-se, como o }H"o,·ára.
a historia de 36-39 ; desde que vingava o constitn-
cioilalismo hybrido em que a authoridade, nem por
ter (ou antes por isso mesmo) duas fontes, deixa
de ser uma anarchia doutrinaria; desde que, tina!-
llli L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL-I I
menti", a victoria da liberdade fin·a um acaso-
que podia ser a vida do paiz senâ.o uma st>rie de
e revoltas 't
desoladora sorte, a de Portugal! Nt>m
homen8, nem systemas, nem apropria religião nova,
da r,mERDADE vingava! Nã.o era para descrer da
patria? 1\ão era para intt>rrogar a historia, a vêr
se_ n.'•s não seríamos um erro- como tantos!-
que u tt>mpo _arrasta pelos seculos?
franeo. Fni sempre grande partidista da união de
li <.'span h a a Portugal: desejaYa mui to fi lU' a poli ti c a não
por mais tempo aqnelles 'tlU' a natureza tinha
unido. No P:-;tadn aetnal da Enropa as naçi)cs pequenas
soffr('m muito. Era helio yêr a rica peninsula ib<.'rica re-
presentar no mundo como grande potencia. como nação que
a natureza fez cabeça da Europa!
A independencia portugueza era com effeito uma
tradição da monarchia que a fundara, e, salvas
amLições intercorrentes, a defendera sempre. Agora
que a tradição caíra, e que, van·idas todas as
idéas antigas, os homens buscavam na Katnreza o
principio das cousas achando sú desolação e anar-
chia, era justo, era necessario que a confissão
do tribuno acaLasse por um renegar da historia.
Kã.o começara J\Iousinho renegando-a tambern,
com as suas opiniões de jurista e de economista,
n!ls instituições e no organismo? Afinal a politica,
indo tambem ao fundo, auscultar o seio de urna
KaturE\za que suppunha prenhe de todas as verda-
des, chegava onde devia chegar: á negaçã.o de
urna nação feita contra ella pelas artes dos ho-
mens; chegava ao moralista conduzia o es-
pectacnlo da sua actual rniseria-á condemnação
fl. - AS FOLHAS CAÍDAS 1n
formal. l<No estado actual da Europa as na<;iJes
pequenas soffem muito)).
1
E muito, acaso mais do que ninguem, suffria
Portugal, as::;olado, queimado, com os bravi
da tribuna e do campo, ceifeiros rlesapiedadus que
devoravam as searas sem deixarem grão lh:'m para
a semente. Passos, já ensinado pela experieneia,
respondera aos de Torres-"Xovas:
Estou muito gordo para me dar á Yida aYenturos;.t
romnntica das guerrilhas: não tenho pressa de entrar uo
Pantheon. A gordura e o casamento são duas grandes ga-
rantia::; de ordem ... Coutinúo no men remanso a apauhar
a minha azeitona, a comer os meus feij.Jes e a lt'·r a mi-
uha gazeta, sem ter mais parte nos negocias pnblieos. fle-
pois que me retirei inteiramente á vida pri\·ada.
1
Accusa-me o sr. R. de F. rPort. cont.) de ter interpretado er-
radamente o famoso discurso de :\lanuel Passos, especialmente n'este
ponto. Relendo o texto vejo que, etfeCti\·amente, e licito inferir-se do
que escre,·i que em 44 Passos veiu a camara prégar o iberismo. é
assim. Depois do período lranscripto, o orador diz: .. com tudo, depois
do que tenho visto praticar no reino visinho. . . eu não po.iia agora
dar o meu voto rara uma união ... Se \Íerem, ainda regarei n'uma espin-
garda e farei fogo aos im·asores•.
Esclareçamos pois este ronto, Já que assim se julga necessario. Pas-
sos quer ou não o iberismo? Quer; comtudo, não o quer ar:m·a. E' pois
uma questão de oprortunidade e occasiáo que nada altera o fundo do seu
pensamento: por isso julguei que, embora necessa1·ia esta nota, não devia
alterar o que diz o texto.
Accrescenta o meu amavel critico que o discurso de 44 não sáofo//z,ls
caz.ias; que ahi se diz aos setembristas: .. não desespereis nunca da caus,t
da pan·ia; e lia sera sah-a r da efficacia da lei, pela perseverança dos che-
fes. e pela confiança dos cidadãos• ; que Passos Manuel ainda continuou a
figurar na rolitica, etc.
São modos de ver. Figurar, figurou: mas como? Ou,·e-se jú por ven-
tura a fe, o enthusiasmo de outros temros? Figurar na torna-se
um habito, e, como habito. necessidade .. \voz do antigo tribuno amolle-
ceu. porque se lhe entibiou' a fe. Que attitude rropóe, que rrogramma
formula aos seus partidarios? Uma attitude rassi\·a, um programma de
legalidade. Ponha-se isto ao lado das palavras transcriptas nu texto. e
concordar-se-ha que sáofo/lws caid,Js.
118 L. IV.- A LIBERAL-I I
Precipiüíra o pois a politica nu scepticismu abso-
luto ou n'um pessimismo amargul'ado? Não. A
pot.e·sia salvava-o; e se perdera a cunfianc;a nos ho-
mens, nos systemas, nos princípios, 11a historia e
na patria, não perdera aquillo fl'le tinha no fundo
intimo da sua alma: u seu amor, a sua Yirtude, a
paz serena da sua conscieneia, a luminosa e meiga
dc)(_·ura da sua bondade.
,_
:-:;e a politica me irrita, teuho uma catapla8ma ermno-
lieute a r1ne me soccorro. Tomo a filha 11os braços,
aperto-a contra o men peito, e procuro assim esc1necrr os
infortnnios da miuha patria.
Q_uem não vê d'aqui o grupo smtYe, melanco-
lico? o homem cuja face sorri carielosamente para
a innocencia? o homem que é nma rui na, mas
eom uma flélr no seio, como succeele aos ecliticios
derrocados?
As::;im, embalandu nos joelhos a filha, ahraçan-
do-a, beijando-a, acaba aquelle que nô::; Yimos co-
meçar, estoico, em :21j ao jurar da CARTA no Porto.
YiYeu annos ainda, mas ticou outro e que pouco
importa á historia. Dos soldados que a ANARCHIA
matou, elle é o segundo: 1\Ion:únlw fí,ra o primein1.
Entra agora a ORDEM a fazer victimas: Cabral,
Hodrigo, Herculano. Y el-os-hemos morrer de va-
rio::; modos: oxahí tivessem acabado todos, como
acalJun Passos: com a filha sobre os joelhos, em-
balando-a, beijando -a !
Esses beijos eram o clespedir, o finar-se da chi-
mE>ra setembrista; mas o amôr que traduziam ti-
nha sido e é ainda o symbolo de uma Ílléa futura,
mal concebida nos dias de o symLolo da
-ilemoeracia, egnalisadora elos homens ...
Com Passos caiu a segunda definição do libera-
lismo: a ruina ela idéa derrubaYa o seu defensor.
5. - AS FOLHAS CAÍDAS

1\Ias, ago ·.:t, apparecia em 3D, com o ministerio
ordeiro, .ma definição noYa- d' esta vez a genuína,
a a definitiva? Repellia ao mesmo tempo o
radicalismo de l\Iousinho e a idolatria da soberania-
nacional setembrista. YoltaYa aos tempos de 30,
ás doutrinas estudadas com ardor na emigração
pelos livros flos mestres. Queria e pedia tudo á
liberdade indiYidual, condemnando a democracia;
mas em vez de renegar a historia, ia buscar á
tradição a base para um throno vacillante. Torna-
va-se á «melhor das republicas», e o coripheu
d'essa opinião era Rodrigo, se é que o sceptico
possuía opinião; se é que não preferia
esta exactamente por ser parda: cGr sobre que
assentam bem quasi todas as outras. Xào é poisá
politica, é á litteratura que nós iremos pedir a
explicação do novo systema, prenhe de esperan-
ças, que só durariam dois annos. (39-42, restau-
ração da Carta).
III
O
1. - A VOZ DO PROPHET A
A primeira fúrma politica sob que o romantismo
appareceu em Portugal foi a doutrina aprendida
pelo duque de Palmella no retiro principesco de
Coppet. Já falámos d'essa doutrina, mas nunca é
de mais insistir nas particularidades de cada es-
pecie de liberalismo, porque só assim distinguire-
mos os partidos. De outra fórma, o indetermin.ado
e o vago dos fundamentos das doutrinas não nos
deixarão perceber, nos varios agrupamentos de
homens, mais do que motivos pessoaes. Esses mo-
tivos havia, mas é errado suppôr que não houvesse
outros. O proprio caracter do liberalismo, com a
sua falta de criterio a não ser a palavra LIBERDADE,
-uma palavra e nada mais, -era a causa da
multiplicação dos modos de a traduzi·r.
Duas d' essas traducções, a de Mousinho e a
de Passos, já nós conhecemos. Quanto á de Pal-
mella nunca chegou a vingar entre nós, porque
até 28 impediu-o o absolutismo, e depois da guerra
já o não consentia a legislação da dictadura que
destruíra toda a sociedade antiga. O liberalismo
de Palmella era a doutrina de um politico, habil e
sceptico. Era a moderaçi1o
7
á maneira da que
Luiz com um temperamento analogo, a en-
1. - A VOZ DO PROPHET A 121
tendia: uma cousa pratica. l\Ias, esta pulitica teve
como sustentaculo a doutrina do primeiro roman-
tismo, catholico, tradicionalista, monarchico, aris-
tocratico, medievista, de Chatt.-aubríand e dos al-
lemães. Sabt.-mos como Pahnella Sê oppiJz á abolição
dos convt.-ntos, st.-m o conseguir; e como obteve
que se uão bolisse.nos morgados.
O primeiro romantismo, pois, concebido, ou pelo
menos personalisado em Palmella, operou apenas
como obstaculo á plena expansão de um outro pt.-n-
samento liberal sem ser romantico, o de :i\Iousi-
nho. Conhecemos assaz a doutrina do reformador
para voltarmos a demorar-nos sobre ella. Radi- ·
cal, individualista, utilitario, no systema das suas
idéas não entrava por cousa alguma a tradição:
nem historica, nem religiosa, nem aristocratica. Era
um absolutismo individualista. A t.-xistencia de nma
religião d'Estado e de uma camara de pares, bem
como a conservação dos vínculos, deixavam a sua
obra incompleta, e o novo editicio social truncado.
Palmella conseguira que houvt.-s8e pares e morga-
dos; mas a aristocracia, sem adherir ao regime
novo, fazia da camara alta um problema serio,
porque a natureza tem horror ao vacuo.
Ao lado cl'estes dois liberalismos, um rornantico,
o outro utilitario e radical; um, filiado mais ou
menos directamente no idealismo allemão, o outro,
filho directo do sensualismo inglez: ao lado de am-
bos e comprimido até á revolução de setembro, vi-
nha existindo o liberalismo racionalisia, de pura
origem franceza, e que em francezes e portugue-
zes se transformára, do velho jacobinismo, n'uma
doutrina democratica só diversa da antiga nas for-
mulas e accidentes, mas em essencia fiel ao typo
transacto.
Taes são as tres fúrmas de liberalismo, as tres
}·N L 1\".-A ANARCHIA LIBERAL-III
clin ... rsas traducções da palavra idolatrada, que o
critico deseoln·e na sociedade portugneza de
No fim cl'este periodo, a desordem, o descre-
ditu e o cansaço já congregavam ns homens em
novos agrupamentos, ao mesmo tempo que, do
absolutismo das doutrinas de l\Iousinho e do cant-
cter em demasia historico das doutrinas de Pal-
mella, saía uma combinação media, cujo interiHete
politico era Rodrigo da Fonseca, e cujo melhor
defensor fui Herculano. Era um segundo roman-
tismo, indiYidualista sem engeit:u a tradição, e
até popular sem deixar de ser brandamente aris-
tocrata. Era a constituição de 3t-i, com um senado
electiY_o e temporario.
Eis ahi o ,·erbo novo, a palaYra dt-> paz, o eY:m-
gelho da liberdade redemptora. O prophefrt sonhasa
com ella (lesde 3-!, sem ainda a t ..... r <ldinido bem
claramentt-.. : mas entrevendo a nas affirmêtciJes dnu-
trinaricis «le 1\Ionsinho e nas de Pal-
nwlla pelas Yelhas instituições. E foi n'isto que
rebentou o tumor democrata (lS;JG). E aos que
jnlganuu a ,-ictoria ganha, conquistada a paz,
Yein a re,·olnçào dizer que tudo havia a recome-
çar. E qnem era esse no,To apostolo da desordem?
E que monstro «le plebe solta ,-inha cle tal f/n·ma
perlnrl,at· a paz dos philosophos "I E clesmanchar
com uma lufada de simún as suas sabias archite-
ct,tras politicas?
ttm·m a preparou e a fez surgir '? X ào sei. ( )stensi ,-a-
llll'Dte os seu:; authores tin·am a plebe de Lisboa e alguns
soJ,]ados que se negaram a dispersar os amotiua1lns. Os
indi,·idnos •tne. depois de consumHHHlo o facto. tomaram
na:; m:los as redeas do governo, rccusaram para si a pa-
t1•rnid:ult:> •l":t•tnrlle féto politico.
(Her.:ulano. 1 ••
1.- A \"OZ DO PROI'HETA 123
Então o propheta subiu ao seu Sinay e om-in a
Yoz de Deus que lhe disse cousas paYorosas:
A licença mata a liberdade, porttné se linemente op-
primes. lin·emente podes ser oppresso; se o assa:-;sinio é
teu direito, dirt"Íto será para os outros o assassinarem-te.
Porque a naçào se dilacerar:í, e enfi.·a,ltwcida passará
das mios da plebe as mãos de algum •lespnta qne a
de,·ore.
porventura (rainha!) que (· helio e getH'roso as-
sentares-te n'um throno que a relé do poYo de
ludo e infamia
(Herculano, .I 1'01 do proJ·Iteta).
E a democracia era lodo, éra infamia. E porque
u poYo irritado matara um e r a assassina
a doutrina. E ésse po,·o era plelJe. E por sobre as
ondas da turba desenfreada apparecia ao Yidente
biblico, rumantico, o espectro de D. 1\Iignel, um
tyr2nno dE-mocrata:
Xas orgias de Roma, com tens sroeios
Folga, Yil oppressor !
Fol7a com os hypocritas iniqnos
teu Yencedor ...
EnYolto em maldicçi)es, em susto. em crimes,
Fugiste miserayel.
Elle, srtbindo ao céo, ouYiu s•j 'lneixas
E um chôro lamenta,·el.
(Herculano, Poesias (1.
3
ed.) D. Pe.iro).
E o romantismo desvairaYa o pensamento do
Yidente, porque D. l\Iiguel não fugira: ftn·a ex-
pulso; porque ao lado do chúro lam..:-nta,·el, D. Pe-
dro, se esti,·esse no céo, haYia de tamlwm ouYir
ainda o bater das pedradas nos tampos da sua car-
12-! L. 1\'.- A ANARCHIA LIBERAL-I I I
ruagem fugindo a galope de San-Carlos. E as or-
dens que no Sinay, o deus dava ao propheta
Plante-se a acacia, --o liberal arbusto
J nn to ás cinzas do forte :
Elle foi rei e combateu tyraunos :
Chorac ! chorae-lhe a morte !
(lbid,)
nã_o eram cumpridas, porque ninguem se importava
já com o homem que morrera em peccado "liberal.
E o propht:>ta que, no calor das suas conversas
com os deuses, falava a lingua de urna poesia
sentida e bella, descendo á terra e vendo a deso-
lação dos diluvios, vestia o manto de um Jeremias,
ou a capa de um Diogenes, ou a toga de um ~ u e ­
tonio:
Homens que teriam legado á posteridade nomes glorio-
sos e sem maueha e que, mais modestos nas suas ambiçoes
HJ<ttcriaes seriam vultos heroicos da historia, pagaram-se
como condottieri mercenarios ; ao passo que outros. de-
pondn as armas e voltando n vida civil. exigiam ser reves-
tidos de cargos pnblicos, p4ra exercer os quaes lhes falta-
vam todos os predicados.
(Opusculus, 1 ).
E perguntas ainda, propheta! quem preparou e
ft:>z surgir a revolução ? Quem? senão a colera do
Senhor, como n'aquelle dia em que mandou o dilu-
vio"? E de toda a humanidade perdida apenas hou-
ve dois Noés, que merecessem graça aos olhos do
Senhor! E um foi Passos, a quem t:>lle chamou ao
seio da eterna sabedoria, embalando risonho a filha
solJre os joelhos, já esquecido da Liberdade; outro
foi S<í, a quem confiou o commando da Arca sobre
as aguas do diluvio. E dentro da Arca havia casaes
de todas as especies. E quando o tt:>mporal cessou,
Noé-Sá abriu a Arca. E havia a constituiçã.o nova
2.- A POESIA DAS IU.ii:XAS 125
de 3t', íris de bonança, fructo na copula das gera-
ções condenmadas cujas sementes se guardaYam na
Arca. E era uma especie diversa do romantismo
antigo .. :
2.- A POESIA DAS RUNAS
Portugal apparecia, com effeito, como emergindo
de um diluvio que alagara e destruira tudo: as ins-
tituições e os caracteres, a riqueza e os costumes.
1\las, por cima de todos os destroços, a imaginação
dos poetas e artistas via os dos conYentos. Xão po-
dia deixar de ser assim, n'um paiz que fílra um
communismo monastico. Os frades tinham saído a
campo a defender-se. Em 31 quasi todos os mos-
teiros ficaram abandonados á guarda de um ou
dois leigo::;, porque as communidades arregimen-
tavam-se:
Kegros, uns vultos vaguear se viam
A cruz do Salvador na esquerda erguida
K a dextra o ferro, preces blasfemando:
Kão perdoeis a um só! feros bradando
Entre as fileiras, rapidos, corriam.
(Herculano, Poesias).
Já a doutrina os tinha condemnado; já ~ I o u s i ­
nho na Terceira haYÍa escripto a sentença da sua
abolição ; e depois, e mais em nome da vingança
dos Yencedores do que em nome da doutrina, fo-
ram exterminados. «Negros, uns vultos vaguear se
viam>> agora, esmolando miseraveis, ou foragidos
pelas serras, homisiados, precítos, caçados e escar-
necidos. Herculano, com uma corajosa humanida-
de, protestava: era «uma elas realidades mais tor-
pes, mais ignominiosas, mais brutaes, mais estupida

L. 1\'.- .\ A'\ARCHIA LIBER.\L-I I I
e covanlemente ct·ueis do seculo presente i>. rus et:res-
sos, op.j FDra um ruubo a expropria-;ào:
um juro modico dos valores lJUe nos apr(lpri[t-
mn::;. :o'e o fizermos. em lugar de sermos mil vezes nma
com•a cnjo nome não escre,·erei aqui. sel-·• hemos só
porque teremos re:;tituido a milesima parte d0 fJUt' louca-
mente ha,-emns cle:;baratado. tlbr.:i.J
O sentirnentü de nma justiça hUS•)lnta imperava
já, no do poeta stoico, por sobre as paixiJes
clt=> uma guerra pa!:<sada, por sulwe o enthusiasmn
ele urna ,-icturia- tão por suure o
das upinitje::; politicas e o conj nncto das
partidarias. Era um acto de justiça humanitaria
que nem puderia remir os crimes cuúuuetticlos.
educação kantista do poeta fazia-o, corno a )l.Jusi-
nho, ter urn culto pela propriedade. expressão so-
cial positi,·a do individuo. )Ias a theoria era con-
demnada pela politica. se não tiYesse seques-
trado no Porto, ter-se-hia morrido; se os bens elos
frade::; se não tivessem confiscado e retalhado, o
liberalismo teria caido no dia seguinte ao da vi-
ctoria.
Xão era porém sô o kantismo qn.::- entnwa na
c:)mposiçà•) do estado de espírito dos novos rornan-
twos. Era a tradição, o amor vago elo passado.,
que os levava á inconsequencia de renegar o kan-
)Iousinho, reprovador da hi::;toria nacional.
Era a tradição religiosa: ·
Os tempos são hoje outros: os liberaes já c0n"ftecem que
devem ser tolerantes e que precisam de set· religi0s0s. A
relig-ião de Cht·isto é a mãe da liberdade, a religià0 do·pa-
trioiismo a sua companheira. O que não respeíta t•s tem-
:!. - A POESIA DAS Rüi:>OAS 1:!7
pios, os monumentos de uma e outra cott::;a, é man inimigo
da Liberdade, deshonra-a, deixa-a em dt>samparf,. entre-
ga-a (t irrisão e ao orlio do poYo. !Garrett, l'i,1;.:e1N
Atacando por este lado a tradição ··adical de
l\Iou::;inho, abraçavam por isso os romanticos a es-
chola opposta, tambem e
todas, por que sejam, são libtJJ-rtes) de
Palmt-lla e do :Xã.o. Dt-pois
do diluYio da revolução setembrista ticára no ar
uma nevoa de indt-cisõt-s poeticas. no-
mes, nã-o se queriam cousas: aristocr:wia, sem
pares vitalici1Js; religião d'Estado, mas tolerante e
liberal; antiguidades, tradições, mas apenas como
thema para romances e xacaras. Anutva-se com
furor a Edarle-media, mas no papel. Era a sombra
do primeiro romantismo, este de agora. Palmella
não tinha querido que os conventos se abolissem:
Garrett não os queria restaurar, lamentando porém
que os frades tivessem desappàrecido: davam um
tom pittoresco e c(,r local aos quadros: cam-
pos o dfeito era ainda muito maior: caracterisa-
vam a paysagenn. {Viagens) A doutrina dissoh·ia-se
politicamente n'uma anarchia positiva; e moral-
acabava n'um desejo vago de artistas ou em
contradictorias exclamações de poetas. Qual era o
novo codigo da novissima, da terceil·a eschola li-
beral? Quem o sabe? Tudo; nada- o
que o diluvio sobre as terras quando, pe-
rante os clamores unanimes dos neo-romanticos, o
setemlJrismo acabou.
Não se creia, porém, que homens como Hercu-
-lano e Garrett, pouco importantes na politica e por
L IV.- A A:"ARCHIA LIBERAI- I I I
isso mesmo mais lin·es: homens cheios de talento
e estudo, não pl::'rcebessem o fundo real das cousas.
A propria inconsistencia, a indeterminação mais
ou menos sentida das doutrinas que seguiam,
da,·am-lhes aimla uma facilidade maior par:t verem
a ,-erdadP. conhecemos em que termos Her-
culano apreciava os homens do rlia ; e Garrett,
além dos motivos de artista, via outros para la-
mentar a qnerla do passado.
O barão murden no frade, devorou-o .. _ e escouceou-nos
a nós depois ... l\Ias o frade não nos comprf'hemleu a nós,
por isso morreu: e nós não comprehendemos o frade, por
isso fizemos us bari'it>s de que havemos de morrer ... E
quando vejf' os C(nn-entos em rninas, os egressos a pedir
esmola e os bm·•',es de berlinda, tenho saudades dos frades
-nào dos que foram, mas dos frades fJUe podiam ser
(lbid.)
Kào podiam ser, nã.o; não pudiam ser outros do
que tinham sido, do que ficaram até hoje, onde
ficaram, do que serão emquanto existirem. Como
poderia o frade, crendo na ordem rlivina de um
mundo formado tal-qual por uma vontade absoluta,
admittir a doutrina que põe na razão do homem
a origem de torlas as cousas? Iria adorar, em vez
da Trindade, o vosso Architecto-supremo, ó ma-
çons? o frade vos comprehendia, nem vós ao
frade; e assim devia ser: porque a broca da ana·
l!fSe não profund:í.ra ainda a natureza das vossas
doutrinas, varrf'ndo as chimeras das vossas illu-
sões. O frade vinha ligado a um passado real, e
v,',s appãrecieis prégando uma doutrina de incon-
sequencia, em que esse passado vivo se tornava
em miragem poetica, e o presente, com as vossas
idéas nebulosas, IUt realidade crua do novo impe-
rio dos barÕPs.
Tal aristocracia, materialista, brutal, sem lustre
2. -A POESIA DAS Rlll"-:AS
nem dignidade, manclava a natureza qne saísse da
concorrencia livre entre indiYi(htos sohPranos. Ou
renegar o individualismo, voltando ao romantismo
velho; ou reconhecer no barão um filho legitimo.
Não o faze1·, demonstra sem du,·ida falta absoluta
de senso. Chorar-e ainda bem !-pro,·a que os
homens não tinham seccado de todo. :\Ias, t>m vez
de chomr em pnblico, na frente dos b:uõ.es que se
riam digerindo, não era m··lhor fazer como o de-
mocrata condemnado: recolhc-::.r-se a casa baloi-
çando a filha soln·e os joelhos?
Nào seria; e já que os escriptores, redigindo a
doutrina do terceiro ou quarto liberalismo, sentiam
a inutilidade das combinações, a das espe-
ranças e a victoria ine,·itavel dos barões; j{t que,
sem se convencerem, se submettiam, melhor era
com effeito que, deixando a politica, baloiçassem
outra filha queritla-a arte, as lettras. Litterato
sobretudo é, com effeito, o segundo ro·mantismo,
no qual os princípios do primeiro se tornaram the-
mas de poesia. Aos barões que imperavam na
sociedade positiva, apesar das e dos pre-
ceitos da novíssima constituição ordeir<l, havia que
pedir esmola para os frades para os es-
tudos abandonados.
Pão para a velhice desgraçada! Pão para metade rlos
nossos sabios, dos nossos homens virtnusos, do nosso sa-
cerdocio! Pão para os que foram victimas das crenças,
minhas, vossas, do seculo, e que morrem de fome e frio !
(Herculanq, Os op.)
Passos clamara misericordia para ·o miguelista,
Herculano pedia pão para o frade: nenhum foi ou-
vido. O primeiro demittiu-se; o segundo abando-
nou a politica pelas lettras; e com as ruínas da
PORT. CONT. - II
9
130 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL -1 I I
Yelha poesia, elle, Garrett, e os discípulos de am-
bos crear a tradição que convinha
ao novo regtme.
3 - RENASCIMENTO
A historia nacional, que a nova geração se de-
cidiu a estudar, restaurando a erudição academica
e monastica, offerecia tradições varias. A pri-
meira e mais importante; a que distinguia Portu-
gal do commmn das a do imperio de vas-
tos dominios ultramarinos, fit,llanda do extremo
occidente, que vivera da exploração de regiões
extra-europêas, nação de navegadores e colonisa-
dores -nem foi lembrada. Além de não estarem
em moela os estudos geographicos, primando a
tudo a historia das instituições; além de ter ficado
arruinado completamente o systema colonial por-
tuguez com a separação do Brazil e com a aboli-
ção do trafico de escravos em Africa:
1
o pensa-
mento economico da eschola era o de 1\lousinho, e
n6s sabemos como elle condemnou o passado, que-
rendo q ne a nação vivesse por si, de si, com o
seu trabalho, sobre o chão que tinha na Europa.
Apenas :-;ê1-cla-Bandeira instava pela volta á poli-
tica colonial ; mas fazia-o de um modo indiscreta-
mente humanitario, esperando construir um Bra-
zil em Africa. com o trabalho livre e a concor-
rencia e garantias liberaes. N'isto se mostrava o
seu romantismo. A sua preoccupação colonial pas-
sant por mania, e chegava a sel-o.
Outra das tradições portuguezas, bastante li-
gada com a anterior, era a do absolutismo ou do
imperialismo: a fórma organica adequada á exis-
1
v.' O 'Bra;Jl e as colon. port. 11, 1,S
3. - O liJl
tencia de uma nação, viYendo contnt naturam
da exploração de terras distantes: a monarchia de
D. João n e D. l\lanuel, a D. João v, e por fim a
do 1\larquez de Pombal. Como reconheceria o ro-
manti::;mo esta tradição, quando a alma do seu
pt-nsamento politico era a soberania do indiYicluo?
E' ocioso in:t.istir em dt-monstrar as causas de an-
tipathia.
A terceira, finahnentt::', das tradições portugue-
zas era a catholica. O l;Pino creara-se como feudo
do papado; as ordens monasticas tinham sido um
dos principat-s elementos da sua povoação na me-
tadt- austral;
1
e por fim, em tempos mais recentes,
o jesuitismo invadira o espirito da nação os seus
domínios ultramarinos. A Companhia foi a educa-
dora e colonisadora, em Portugal, na Africa e no
Brazil,
2
depois de ser missionaria no Oriente, na
Africa e na America. De taes motivos resultara a
nação de sacristães, frades e beatos do XVIII se-
enio, estonteados no seguinte, quando lhes fal-
taram as rendas do Brazil. Não fôra contra esta
se batalhara por annos? Como havia de conti-
nuai-a, a gente que a destruíra? Tradição propria-
mente aristocratica não existia, porque toda a
monarchia de Aviz se occupara com exito em de-
primir a nobreza medieval, e depois, a de Bra-
gança teve de acauar com ella, por castelhana, no
tempo de D. João rv, por teimosa, no tempo de
Pombal.
3
Que tradição de historia invocar, pois, quando
a revolução romantica era a negação da historia
nacional? Iria o liberalismo acclamar os despotas?
Iria dt-fender a escravisação das raças africanas e
1
V. Hist. de Port. (3.
3
ed.) I, pp. I:!3-5.-
2
V. OBrmiil e as col.port.
{2.
3
ed.) 1. I,).-
3
V. Hist. de Port. (3.
3
ed.) 11, pp. 12g-3o e I77-8.
L IV.- A ANARCHIA Lli3EH..\L- I I I
americanas, o individualista iueluulo com a noç·ão
da solJt"rania do lwnwm espiritual r Iria
-o liYre-camLista, discil'ulo fle Smith, applawlir as
protee<;ues e monupolius it soml1ra dos q naes se
formara a riq neza ·
Nfw. demasiada inconsequenci<L Inconse-
quente era o romantico, pretendendo conciliar uma
com o seu abstrnc_to ; incon-
seLluente, comtudo, po1· neces::;idade, pois ainda <<a
hroca da analyse» não patenteara o sy:5tema. das
leis <la evolução, que lll\1:5h'am nfio haver na rea-
lidalle absolutol:l, apenas formas transitarias, rela-
cionaclas sempre, deduzindo-se naturalmente, es-
pontaneamente. O romantismo ou eschola lâstorica
pre\·ía, precedia esta doutrina; mas o espiritua-
lismo racionalista que lhe aud<wa ligado não o dei-
xava :wançar, e precipitant-o em aventuras sin-
gulare8.
Uma das mais conspicnas fui de certo a tenta-
tiva de crear uma tradição nacional portugueza,
contra os elementos ele uma historia ele cinco se-
culos, quando a duração total da nossa historia
não excedia sete. l\Ias esses dois primeiros affigu-
ravam-se os puros: sendo o resto erros, desvios
da genuína tracliçâo. De tal fúrma se obedecia á
moda que lavrava nas nações germanicas; mas
n'esses paizes a tradição meLlieval era viva, esta-
vam ainda de pé as institni<;ues ant1gas; pois só
na França e na Hespanha se tinham constituído
absolutismos, e só a Peninsula tinha tido, para
além dos territorios europeus, vastos dominios ul-
tramarinos.
Embora dirigidos por um criterio errado, os
propugnadores do romantismo, a cuja frente se
3. -O RENASCIMENTO 133
VIam Herculano e Garrétt, mdtiam mãos a uma
obra em todo o caso lléCéssaria. A abolieão dos
conventos destruira o systéma dos e se
cumpria aos goYernos organisar a instrucção pu-
blica, era a obrigação dos escriptores noYus con-
tinuar a obra dos frades. Do valor esthdico ou
scientifico d 'esses trabalhos litterarios da gt>ração
que nos precedeu nfio temos que nos occupar aqui,
pois não tratamos da historia aprovei-
tmulo flas lettras :tpenas como documento historico
da sociedade.
As estauc·ias do Tasso. retumuamlo das bocas rlf•S bar-
queiros nas margens do lln•nta e do .Adige e os rnmguces
de Burg-cr. C'ant.ãdos cm sons IIH•nodicos á lareira uas lon-
gas noites da Gennauia, e as tro\·as de Beranger rPpeti-
das por milh•)es dP bocas e1n todos os angulns da França,
dizem. mais a fann· da poesia em ({Ue transluz a naciona-
lidade do r1ue larga:; • mctaphisicas.
r:Tonz<ll .ta soe. dosam. das tettras;.
Herculano escreYia isto em 34, applaudindo o::;
Ciumes do Burdo de Castilho, prtstiche crú, nem
portuguez, nt=>m cousa nenlmma. l\Iau symptoma:
porque o critico confundia o genero em litteratura
com o renascimento da nacionalidade.
Bnrger empregou aclmiravelmente a poesia nas tradi-
ç•)es nacionaes; e é a dle a a Y oss que devemos a renova-
ção cl'este ,qe11ero inteiramente extinct.o na l<.:urnpa depois
do xn secnlo. . . A poesia de,· e ter. além do bello (le to-
dos os tempos, de todos os paizes, um caracter de nacio-
nalidade, sem o qual nenhum povo se pt)de gabar de tPr
uma litterat.ura propria.
(Herculano, nas .l!t:m. do Consen.-.)
l\Iãos, portanto, á oura. A «sociedade dos mni-
gos das lettras», elos Castilhos, não vingara. Com
Bernardino Gomes, no Porto, já Herculano tinha
fundado a «sociedade das sciencias medicas e litte-
ta! L. 1\.- A A;\ARCHIA I.IBERAL- I I I
ratura>> -duas cou.,as talvt>z admiradas de se acha-
rem reunidas. Agora, em Lisboa, o renovador dos
estudos, o chefe da nova eschula, creava a «Socie-
dadE> propagadora dos conhecimentos uteis» cujo
orgãn, o Pwwrmna, adquiria uma circulação ex-
traordin:lria. Xão havia outra cousa que lêr, e 1,-.r
comt>çava a ser moda na sociedade das luzes,
corno diziam, cum ironia e despeito, os antigos. O
Panurama trazia bonecos e receitas, além de trazer
os estudos iniciadores da tt·aclição nova, assignados
«A. H.>>
Que eram, que são esses trabalhos? rLen.:las e .\"c11"
r,ltil'a.,·, .:/c Cistcr, Bobo, etc.) e:s:trahidos
das chronicas por um enulito, que relação havia
t:-ntre elles e as memorias e lembranças ,·ivas na
imaginação popular? Nenhuma. Falasse a littera-
tnra au povo nas aventuras das Yiagens, ·nas his-
torias dos naufragios, e de certo acharia ainda um
ecco: mas em D. Fuas ou no celebre Paio-Pt>res-
Corrt>ia? Quem se lt>mhrava de tal? que senti-
mentos, que memorias esta,·am ligadas a essas fa-
<;anhas ele tempos hre,-es e sem caracter particu-
larmente portngnez? O !Jenero porém Impunha
estes assnmptos, e a educaÇão litteraria, de mãos
dadas cnlll a philosophica e economica, repelliam
os outros, oriundos da positiva historia da nação.
O modelo era ".alter Scott, traduzido pelo Ra-
malhu. Nas noYellas elo escocez se acha,·a o typo
das t1·adiçues nacionnes.
l\Tais perspicaz, Garrêtt punha em scena o mar-
quez de Pombal (.I sobriulza ,f,l typo YÍ\To, pre-
sente, popular; e se tambem ia à Edade-media
r.lrco-dc-S,mr 11111•1, .llfagcme;, era para explorar a nwda,
apro,·eitantlo os nonws antigos em dramas on co-
. medias da actualiflade. l\Iais perspicaz, YÍa que no
}JOYo portugnt>z não haYia tradi<;Ões medievaes, e
3. - O REr\ASCll\lENTO
13.)
que as lendas das chronicas eram objecto de erudi-
ção, mas não de litteratura ou poesia nacional. Em
vão se procuraria ahi o renascimento. Cavou mais
fundo e fui aos romances e historias da tradi6io
oral: essa era a poesia da raça, não a poesia l;is-
torica ou nacional. O Romanceiro, feito com um
proposito litterario e não ethnologico- Garrett
não era como os Grimm -não tinha comtudo al-
cance para o renascimento da nacionalidade, porque,
em Portugal, a nação provinha de uma historia e
não de uma raça indi,·idualisada. A poesia popular
funde as nossas populações no corpo das popula-
ções ibericas.
Em vão, portanto, o romantismo procurava uma
tradição. Não a achava, porque as idéas philoso-
phico-economicas condemmwam as conhecidas ; e
não havendo outras a descobrir, os romanticos im-
plantavam um 9enero litterario de importação da
Escocia, ú TTTalter-Scott, sem conseguirem acordar
no povo lembranças d'esses dois secnlos de Edade-
rnedia de que elle não tinha recordações, porque
n'elles a vida da nação não ti,·era caracter proprio.
Senhorio rebellado, corno tantos outros, até ao fim
do xm seculo
1
é srj com a vida marítima então ini-
ciada que principia uma historia particularmente
portugueza.
No lugar onde a Inquisição tinha sido, fôra o
Thesouro que ardera, e ficara- ficou até hoje!-·
em ruínas. ~ ' e s s e lugar historico se levantou o
templo romantico do renascimento da tradição na-
cional. PuLre theatro de D. )Iaria u! que vives da
traducção das comedids francezas. En.:i vez de re-
presentarem ahi as tragedias portuguezas : a histo-
ria das viagens, dos naufragios e aventuras do UI-
136 L. IV.- A ANARCHIA LIBERAL -I I I
tramar, a historia das cruezas da Inq nisição e a
tortura do judett, talvez até a historia da propria
qut>ima do dominio do velho Estado, no bgar onde
o Thesouro anleu- representaram scenas tão lwr-
rendas quanto frias: os melodramas romanticos, de
montantes e couraças, n'um e::;tylo arrevezado e
cheio de «sus! eias! Lofés! t'arrenegos! » força
de adormecia-se, em vez de se acordar
a renascença de urna tradição apagada, tanto
mais que nunca existira. Garrett disse-nos corno
essa tradição se fazia:
Yae-se aos figurinos francezes ele Dumas, de de
Yictor-Hugo. e tecorta a gente de cada um d'elles as figu-
ras que precisa. gruda-os sobre uma tolha de papel da côr
da moda, verde, pardo, azul ; fôrma com elles os grupos e
situações que lhe parece: não importa fJUe sejam mais ou
menos disparatados. Depois vae-se ehroni<·as, tiram-se
uns poucos de nomes e de palavrões velhos ; com os nomes
chrismam-se os figuriies, com os palavrões illumhwm-se, etc.
(Viagens).
Assim era no theatro; assim na imprensa, Her-
culano, condemnando a aristocracia e os seus vín-
culos, o Estado e a sua anthoridàde, o throno e o
seu poder; condemnando todas as instituições his-
toricas, apenas descobria uma, unica n'esses tem-
pos breves, antigos e genuínos, depois dos quaes
tudo fôra erro,- o município. (V. Hist. de Portugal} 1\Ias
esse município redemptor, verdadeira e pura tra-
dição nacional, qne era? Elle nol-o diz tambem:
t'Paroclw d'aldeia, Carta aos eleitm·es, etc.) uma assembléa de
cretinos.
A sociedade é materialista ; e a litteratura que é a ex-
pressão da sociedade é toda excessivamente e absurda-
mente e despropositadamente espiritualista! rei
de facto! Quixote, rei de direito! ... E' a litteratura que
é uma hypocrita. (Garrett, Fiagens).
3.- O REi"ASCIMEi\ TO 137
Hypocrisia? não: innoceucia, propria de litte-
ratos ou doutrinarios. O st:ndo
um gene1·o e a suciE'dadt: st:guia o sen cami-
nho. Sancl10 rt:inava. U municipalislllo ficava st:ndo
o que era, o que porlia ser, um instrumento admi-
nistrativo. Dir-st:-hia, pois, que tudo ennu tamlJem
ruína::; por e::; tE:' ladu, e tudo anarchia Quando
os homens valt:m, as suas obras frnctificam, apesar
das formulas a que oht>dt:cE:'m. A natureza é mais
forte do que as doutrinas, a as
Como obra de homE:'ns ficaram os traba-
lhos de t:rudiçàu historica de Herculano; ficou,
para attestar o genio do artista Garrdt, uma tra-
ged ia em que a tradição real meu te o inspirou, o
Frei Luiz de Sousa.
Ka sua comwoYe(lora simplicidade, o drama representa
o fundo intimo da "\'ida portugueza, com a mistura de an-
ceios e tristezas, esperanças envenenadas de fiwtunas ap-
parentes e illipossi,·eis que conduzem a essa devoradora
melancolia r1ue se chama saudade. O ett'eito é tanto mais
desolador, qu::tnto a esperança realisada apenas serve para
despedaçar os corações. X o fim, quando os personagens
principaes dizem adeus ao mundo pHra entrar no convento,
parece que a nação inteira pronuncia os votos.
(Quinet, Vacances e7l Espagne).
O F1·ei Luiz de Sousa é a tragedia portugueza,
sebastianista.
1
O fatalismo e a candura, a E:'ner-
gia e a gravidade, a tristeza e a submissão do ge-
nio nacional, estão alli. Não é classico, nem ro-
mantico: é tragico, na bE'lla e antiga accepção da
palavra: superior ás ec:;cholas e aos generos, dando
a mão, por sobre Shakespeare e Goethe, a So-
phoclE:'s . .N'um momento unico de intuição gE'Ilial,
Garrett viu por dentro o homem e sentiu o palpi-
1
V. Hist. de Portugal, I. v, 4·
L. n·.- A A!'ARCHIA LIBERAL- I I I
tar das· entranhas portnguezas. Que ouviu? Um
choro dt- affiicções tristes, uma resignação heroi-
camente passiva, uma esperança Yaga, etherea, na
imaginação de uma rapariga phtysica, e no tres-
vario de um escudeiro sebastianista.
Quando o genio tinha uma revelação d'estas,
estaria furtt-, viva, crente n'uma tradição seguida,
áYida por um futuro certo, a nação e.ntregue aos
bracos da Libt-rdade?
nos joelhos do tribuno a filhinha sor-
ria, e elle tristemente se consolava, esperando, es-
perando ... mas para longe, quando, tudo acabado,
D. Sebastião Yoltasse em uma manhan de nevoa ...
um D. SeLctstiã.o iberico ...
4.-A ORDE.M
Por ora, não. O povo inteiro pronunciava os vo-
tos cada dia mais formaes de uma deci-
dida. Deixai-os, os políticos, fazer· systemas e re-
cartas, juntas, programrnas, curtes, leis;
deixai-os comer e engordar e devorarem-se: elles
cancarà.o!
J;i de::;anirnados, tinham êançado l\Iousinho e
Passos; mas havia gente noYa, paru uma terceira
inYestida, um terceiro liberalismo: a Ordem. l\Ias
como pc'•de haver ordem nos factos, se as idéas
são uma desordem? Como conciliar as instituições
e as idéas, quando as primeiras, reconhecendo a
aristocracia n'uma segunda camara, a theocracia
n'uma religião cl'Estado obedecem ainda ao pensa-
mento do primeiro romantismo, ou da tradição
llistorica? quando o segundo fez recuar essa tra-
. dição para o campo vago de uma poesia, além de
insufficiente para dar consistencia ao organismo
social, falsa e artificial, obra de littt-ratos, paixão
4.- A OIU!El\1
de archeologos e eruditos, inaccessivel ao povo?
Como conciliar essas instituições com o principio
da soberania do individuo, jit combinado pela re-
voluç:lo com o da soberania do povo? e com o
systema da concorrencia livre, prejudicado pela
revolução, tambem, com o systema tia protecção
ás industrias? Essa ordem é um cháos, de institui-
ções e idéas. Já não h a, é claro, uma Anarchia
systematica, tal como a concebera ::\Iousinho; mas
em vez d'ella ha uma mistura de elementos con-
tradictorios, liberaes, democraticos, romanticos,
d'onde sae a supposta ordem tia constituição de ;38.
Assim, tambem, já não ha banidos: os mare-
chaes voltaram e juraram; mas sob a. paz appa-.
rente lan·am os germens de novas desordens. A
anarc]tia fiJra até 3G um systema. Agora pedia-se
ordem; mas a vida antiga ia continuar contra a
vontade dos homens já saciados, jà desejosos de
gozar em paz o fructo dos seus trabalhos. Rodrigo
apparecia it frente dos setembristas e cartistas fu-
sionados para o descanço: Rodrir;-o sceptico desde
o berço, mas talvt"z crente em que no sct"pticismo
estivesse a sabedoria, e por isso na constituição
de 38 o porto desejado tia vida liberal.
Não, não pudia ser: a confusào dos elementos
não podia dar a ordem nas instituições. Foi a rai-
nha quem fêZ de Costa Cabral um instrumento
para restaurar a CARTA cudilhar Rodrigo,
e os fusionados, e os romanticos? Talvez
fosse ; talvez não fosse: logo o vert"mos. )las o
facto é que o statu quo não era viavel, apezar das
affirmações em contrario dos vencidos.
Palmella com o seu romantismo m·i::;tocratico
pugnára pela conservação de uma camara de _lJares
vitalícia, hereditaria ; mas a revolução veiu e des-
truiu-a. Depois, em 38, o meio-termo creou a ca-
1-!Ü L n·.- .\ A:s'.\RCHI.-\ LIBERAL -I I I
mara elos senadores tempon1rios, electivos. E' ver-
dade que, extincta ou protestante por miguelista,
a antiga aristocracia não podia os luga-
res da camara; ruas não é nwnos verdade que um
senado temporario e electi,'o s•) é viavel dentro de
um systema de representação de orgãos e classes
ela sociedafle ; sendo uma c himera, um accessorio
inutil, urna duplicação vau agora mesmo se
·vê em França), quando procede, como a cmnara-
baixa, do suffragio populctr, directo ou indirecto.
antiga aristncr<teia deruittira-se, é verdade;
mas a liberdade e a concorrencia tinham creado
um podfr real e novo, mna plutocracia: a classe
dos burguezes ricos que não podiam deixar o sen
poder, os seus interesses, á mercê dos acasos das
eleições; que não pactuavam com o individualismo,
nem com a democracia, querendo para si o domí-
nio seguro a que de facto lhes dava direito o seu
poder estavel. Derrubadas todas as authoridades
em holocausto doutrina, s{J uma não podiam os
cloutrinarios destruir: o dinheiro. O dinl1eiro, pois,
creou para si urna doutrina nova, que teve por
defensor Costa-Cabral. Era um quarto, ou quinto
liberalismo que surgia e vencia tnclos os anterio-
res.
Gnizot e Luiz-Philippe tiveram de fazer em
França o mesmo que D. :l\Iaria n e Cabral fize-
ram cá. Aos bnrguezes diziam- enriquecei-vos!
e ás instituições e garantias reformavam-nas no
sentido de crear e consolidar a nova aristocracia
dos ricos. Era uma fúrma de Ordt>m que escapou
ás previsões elos romanticos: os seus medos e co-
leras tinham-se voltado e consumido contra a de-
mocracia! O inimigo surgia abruptamentt:> d'onde
o não esperavam, e bateu-os com a maxima for-
tuna. Restaurou-se a CARTA, sem ser necessario
4.-A OH.DDI Hl
um tiro: é '?erdade tamlwm que rla mesma fúrma
caíra em 10 de setembro. 0::; romanticos sinceros,
ingf'nuos, esperando a acção _d11s meios moraes,
esqueciam a força dos elementos positiYos: a or-
dem que tinham fundado era uma bola de saLão.
Um s• •p ro desmanchou -a.
E assim de,?ia ser tamLem, perante a natureza
das doutrinas. Pois se a unica fonte da autlwri-
dade moral e politica era o indi,?iduo, pois se a
propri ... dade era a sagração ele uma personalidade
soberana, onde se havia de ir buscar u mandato,
se.nào á ,·ontade da maioria? como se haYia ele
descu11hecer a importancia suprema da riqueza?
Porque protestavam, pois, contra os setemlJristas,
chamando iynrtras ás maiorias? e contra os cabra-
listas chamando nomes aos argentarios? Ou o do-
minio do numero, ou o imperio de) dinheiro : eis
ahi onde a conduzia fatalmente. Onde
conduziria, senão á affirmação de uma authoridade
cega do numero ou das forças brutas, a doutrina
negára a authoridade social em nome da na-
tureza do individuo?
Falhára a conclusão democratica; mas ia ,·en-
cer a aristocracia nova: assim terminavam no
absolutismo illustrado os di,?ersos liberalismos.
D'esta ultima ruína qual é o cadaver que surge?
Quem é agora o successor de ::\Iousinho ou de
Passos? não ha, porque não houve
tempo bastante para fazer desilludidos. O tempo
virá, e d'aqui por dez ou doze annos, ,·eremüs
como acabam de vez as illusões de Herculano, o
romantico ordeiro. O temt)O virá, e na mesma
hora veremos Rodrigo, já cabalmente educado, já
1-!2 L. 1\".- A ANARCHIA IIRERAL-1 II
de todo em todo sceptico. Aprendera atinai a co-
nhecer a sua terra, a sua gente, o seu tempo!
Singular cegueira fôra o qne suppunha em si pers-
picacia : <mão o c nclilharia m outra vez)).
Agora, ainda o consunuuado actor não compu-
nha bem o seu sorriso final, satanico, de uma iro-
nia e desprezo universaes; ainda tinha despeito e
até colera, vendo a victoria do rival duro e forte.
Agora, representava-se o F1·ei Luiz de Sousa e as
platéas, commoYidas, .chorasam, pensavam tristes.
Ruin:ts, sempre rninas!. . . Ergue-se, porém, um
homem novo: será um messias? será D. Sebas-
tião? 1\Ias recordavam-se de o ter ouvido nos Ca-
millos, e extranhavam ao vêl-o agora nos degraus
do throno. Entre duvidas, tristezas,
submissões, desesperos, acabava a anarchia liberal,
para dar logar ao absolutismo novo, erguido sobre
a Babel das riquezas obtidas, Deus sabe como! nos
tempos da desordem.
A magnificencia de Lisboa é mais triste do que as char-
necas de Hespanha: ruas sumptuosas, praças immensas, a
cabeça de um grande imperio,- e o silencio, a solidão
d'uma terra, on tfnma Gomhorra snb\·ertida. Feria-me so-
bretudo esta melancolia, quando a comparava á embria-
guez das cidades de Castella e da Andaluzia. A Hespanha
dança por sobre as suas ruinas: Portugal agonisa no atrio
de um palacio. (Quinet. l'ata11ces m Espagne)
-I'
LIVRO QUINTO
O
(183D-61 l
I
COSTA-CABRAl_.
1. - OS ORDEIROS
Rodrigo dissera que a questão ingleza, causa da
queda de Sabrosa «era um sacco de OlHO>>, e en-
' trou no governo, sob a presidencia de Bomfim,
tendo Costa-Cabral por lugar-tenente na Justiça,
disposto a dar esse ouro e a passar por cima de
tudo, rapido, breve, dissimuladamente unctuoso,
affavel, risonho, cheio lá por dentro de orgulho e
imperio, <Hontem, lzoje e am.) sem olhar aos cachopos,
navegando para ir dar fundo no porto seguro da
Ordem, e ser ahi acclamado como o mais habil dos
pilotos. O seu norte não era um principio, era um
resultado pratico. Achava egualmente singulares
as preoccupações theoricas dos democratas e dos
1-l! L. V.- O CAH.TIS:\10- I
carti::;tas, e st·m partill1ar m·nhuma fl'ellas, mira\·a
apenas a uma paz. para ganhar a qual nii11 ht>si-
ta\·a em atrupPlar, nem <Í. dignidade, ao ,lec•)ro,
ao brio da naç:lo. Elle julgant c•mhecel-a tlP perto,
e de ha nmito::; annus!
:--;alflanha. qne des,le a paz cnn:::otitneiunal de 38
tinha da sua emigração, Pra o lwnwm
mandar a Londres, amansar Palmerston. O
inglez, com t-ffeito, cht>gara ao perante
a re!"-istencia pa:::osiva e snnb: a
dns enfermu:s, ::;imilhante á do Egypto ou da Tur-
quia dos nossos ReclawaYa o cumprimt•nto
do tratado pam a ahuli<;ão do tranco dos nt>gros,
tratado fl'Ie os nossos negTeiros n:to po,liam con-
sentir se ext>eublsse a serio.
1
Reclamava flS despe-
zas da divisão auxiliar de Clinton em '27 ( f
e mais os soltlos por pagar a Beresfonl e "T ellin-
gton (í 1 ::?-!::!0:> ), ao tudo uns 1 :-!00 coutos. Sá-
da-Bandeira, e agora Sabt·osa, tinham caído, sem
poder resoh·er a questão. Esperava Rl)•lt-igo con-
seguil-o com suas artes? llluflia-se. Em maio, " '"-
Pahnerston maiHlou onlt>ns positivas ao seu em-
baixador de Lishoa: até li"> (maio de lt-i-!11) não
fossem attendidas as reclamaçíies ingl ...... za:::o, expe-
disse o vapor que tinha Lisboa para l\Ialta,
d'onde uma esquadra sairia a tomar pol'Se de Goa
e l\Iacau ; e se se fizesse algum mal aos
britannicos em Portugal, outros na,·ios iriam apo-
derar-se da :;\ladeira .. V. Carnota, Jlemoirs.)
Em tat>s apuros Yalia Saldanha, cuja rt>pntação
militar seryia aimla perante extranhos de fiador ao
nosso descredito. l IowardJ em Lisboa, suspendeu
êl execução das ordens; Saldanha partiu para
Londres e obteve-se uma combinação dt3 paga-
1
V. U Bra;Jl e as colo11. par/. I. 11, 1.
1. - OS ORDEIROS 145
rnentos a prazos, appellandu para a generosidade
dos nossos protectores pela hocca du marechal di-
plomata.
(-luanrlo as camaras se abriram nu principio do
anuo, Rodrigo, á frente do gabinete, on\·iu sert'UO
as apostrophes setemLristas: era um lacaio -de Pal-
merstun, e o governo portuguez uma delegação da
Inglaterra. (V. os debates, sessão 40; espec. o Jisc. Je José Este"áo
em 6 de fever. dito do Porto-do-Pireu) OuYiu, e Cvnvencido de
que os inimigos se não conYertiam, ,}issulveu o
parlamento (::.?5 de fevereiro): gente
sua, necessitava silencio para puder resuh·er a
questão ingleza. Fez novas elt .. ições e, como sempre
succedera e succederá, venceu-às. O paiz era una-
nimemente onleiro. Tres rnezes depois (_26 de maio),
reuniu-se a camara nova, mas-oh, triste surte
dos habeis! -o que se dissoh·ia era a maioria.
Formou-se uma culligaçàu para a restauração da
CARTA pura (Seabra-.Magalhães), contra o eccle-
do governo ordeiro que não rla\·a sufficiente
ordem_
Com effeito o setembrismu, expulso da camara
pela genuinidade dos processos de rt--presentaçãu
nacional, appellara para a revolta. Fui d'então que
Rodrigo viu o seu erro, aprendendo a comprar os
deputados como se faz ás casas, em vez de lhes
disputar o ingresso no templo dà nação. D'esta vez,
porém, o mal estava feito: não havia cura. X o dia
11 de agosto uma turba de gente sublevada reu-
niu-se no largo da Estrella, descendo a con\·idar
para uma 1·evolução a guarda das côrtes, a do
banco e a de caçadores 2. A tropa não quiz; e
elles foram então para arrombar o arsenal do
exercito, no Caes dos-soldados, mas encontrando
uma força que os deteYe, debandaram. Era nada
como facto, mas gra\·e como ameaça. O setem-
PORT. CONT.- TOM. II
10
14(i
L. V. -O CARTISMO- I
brismo, tão liberal, não se convencia, nem se cm:-
vava ao juizo-da-Urna! Duas semanas devois do
caso de Lishoa, chegou a noticia da revolta das
guarnições de Castello-Branco e l\Iarvão (26). O
tenente-coronel :Miguel-Augusto arrastara os sol-
dados: era uma guerra civil. l\Iandaram-se tropas
que facilnwnte repelliram os pronunciados; e fu-
gindo, os soldados rebeldes mataram na Guarda o
tenente-c01·unel, debandando, emigrando para Hes-
panha, ou snbmt:>ttendo-se. A ordem vencia a hy-
dnt da revolução, mas não podia vencer a desor-
dem que se formava.
Conhecemos assaz os motivos, isto é, o cara-
cter incoherente das doutrinas da situação ordeira
a que o romantismo não podia dar principios, peL·.
razão breve de os não ter para si. Elle era uw
gene1·o litterario apenas; e o governo era tambem
um genero de governo : o genero sceptico, ainda ,
prematuro. Não ha nada que mais exalte as àou-
trinas e exacerbe os odius do que a fome, e en-
tão havia fome entre nt'•s: só quando chegasse uma
tal ou qual fartura, acabaria o periodo dos syste-
mas e das 1·evoltas, o reinado da phrase e do tiro.
Então venceria, sem duvida, Rodrigo. Por em-
quanto, o seu scepticismo offendia os ingenuos, e
como não dava o que faltava sobre tudo- pão!
-era duas vezes condemnado.
O primeiro clamor vinha da turba dos empre-
gados-publicos, a que, sobre os pontos e atrazos,
se tiravam dez por cento (6 de novembro de 41).
Se no reino, Rodrigo, ao leme da Urna, levava o
barco a salvamento; se Costa-Cabral, na Justiça,
mostrava o que podia, a pobre Fazenda, coitada!
1. - OS ORDEIROS 147
via succederem-se os medicos 1liranda,
Tojal), sem que surgisse um digno successor ao ve-
lho Law reformado. Xào podia durar tampouco,
por mais tempo na Presidencia, o plttstrun que
Rodrigo escolht-ra; e força foi reorganisar a tripu-
lação do barco ordeiro ( 9 de junho de 41 1. Aguiar
tomou o lugar de Bomfim; e na Fazt'nda pl'lz se
um homem novo, crédor de esperanças, que em
pesados relatorios tinl•a mostrado saber as opera-
cõt-s. Poderia Avila descobrir a open1cí'io mestra
de encher o Thesouro? :-5e o fizesse co;1sulidava a
Ordem, porque já de certo, a este tempo, o di-
nheiro poderia mais do que as doutrinas. não
o fez: era impossível! E em vez de encher, vasou
ainda mais os bolsos dos pobres empregados, corno
já se disse.
Xas camaras, o homem novo, de quem Sfl exigia
um impossível, soffreu as coleras de Garrett, e os
epigrarnmas do conde da Taipa que reclamava o
!JOnto para todas as dividas, salvo os consolidados.
!Sess. de I5 de julho·e q de agosto) Cá de fóra, batiam a
Ordem, o )..-r,__tcional e o ronstitucional, os setem-
bristas e os cartistas scisionados. Ferrt-r e Seabra,
ambos colericos, faziam um tal escandalo, que o
grave economista com o seu tom manso,
a custo evitou o pugilato. (Sessão de 14- de agosto) O riso
de Rodrigo amarellecia, ·vendo sossobrar o barco
da sua dissimulada ambição contra os cachopos da
penuria amarga.
«O verdadeiro e unico remedi o para as finanças
de Portugal é uma banca-rota universal, e d'ahi
por diante rigorosa economia. Desenganae-vos:
este é o especifico, tudo o mais são palliativos ; e
a elle havemos de ir: nlt.o sei quando, mas a elle
iremo". Se os homens de setembro tivessem lan-
çado mão d'elle, os homens de setembro seriam
L \". -O L\RTISMO- -1-
t>ternos no puder, pontue em Portug<d ha de go-
vernar inabala,·el u g•nTernu que tiver o <linheiro
<le q ne precisar.» r l/ontem. //fJje e A
falant pela bocca do autlwr do opnscnlu anoitymu:
o prognunma da futura Regerieraçã:.o est<t\Ta es-
cripto.
l\Ias nem as cundições tla Eur11pa nem as de
Portugal consentiam ainda que elle se pozesse em
pratica. se tiBha accelltuadt) ainda a epo-
elta indnstrial-utilitaria que a larga applicaçào
do vapor ús manufacturas e it viat;ão veiu a abrir;
e havia em França e na ] lespanha, para onde nós
olhavamus, uma doutrina vencedora, acclamada,
que parecia a ftírmnla <lefiniti,·a do liberalismo.
Era a aristocracia dos rieos, apoiada a um abso-
lutismo hypocrita no thronu, e a uma burocracia
nu g-overno. Guizot, Gouzales-Dravo, pareciam
modelos a seguir; e Custa-Caural sentiu em si
força para os imitar, vultando-sP tlest•rdeiranwnte \
contra a Ordem de que era ministro, para organi-
sar a outra, a definitiva ordem liberal.
. E' já nossa conhecida a pessoa do ministro da
.Justiça ordeiro. Yimol-o, rabido, a declamar nos
dnLs; vimol-o depois a dirigir u braço de Sá-da-
Bandeira para suffocar os tumultos de em Lis-
boa. setembristas começaram desde logo a odiar
o tmnsfuga, chamando-lhe ambicioso, como se al-
guem, sem ambição, algmna coisa conseguisse ! A
n<js cumpre-nos estudar o valor d'essa ambição, em
vez de condemnar puerilmente o sentimento gera·-
dor de todos os actos humanos. Esse ambicioso
era uma resurreição de Pombal nas qualidades e
nos defeitos. Se tivesse encontrado ainda de pé al-
guma ordem verdadeira, alguma authoridade fixa,
1.- OS ORDEIROS
como a que o pt·eclecessor achou no absolutÍ!'ll1U,
teria tãn grande como elle fui. Caiu, por falta
de apoio: assim todos tinham· caído, porque nada
_se mantém de pé qnando falta o chàu firme ch·
uma doutrina enraizada nos animos, con:ÚstPnte
furte. lia um modo de se coúserYar erec.to, no
meio do Yacillar de todas as cousas, ha; e é quando,
sem andar, se flispl-'ndem as attençues e os cuida-
dos inteiros nos equiliLrios necessarios á attitnde.
Parece entã,,, que se existe, mas é apen<ts uma
SOlllUra de YÍda ...
Ao tempo em que nos achamos, haYia ainda
furtê tlt'seju clê Yiver; e além um mal-e:::tar,
uma polJreza, que forçav<lm au movimento. Cabr:Il
fí•ra denu-tgogo: por calculo, para gritar tão alt•J,
que rei1Cf'1' na concotTt>ncia do leilão poli-
tico? por sinc'='rid<tde e opinião, aL<mdnnada de-
pois!" Elle o sabe; e a n•)s importa isso pouco. X a
politica, os lwnll::'ns são vehiculos de plan•Js varios:
a esses mais do c1ue ás virtudes priYadas,
attencle n List•Jria. Qnandu ella encontra um :-:anto,
como P:tssus. abençoa-o; quando encontra um furtt:·,
como admira-o; quando encontra um ha-
Lil, como R•Jdrigo, applaude-u. Xa arte de gu\·er-
nar os a força e a habilidade Yaler:nn,.
valerão sempre mais do quB a virtucle. Costa Ca-
bral padecia da falta de plastici,lade do seu émulo
no Rt>ino: era hirto, duro, secco, aggrt:-s=--i\·o. Yin-
lento, como a rlr,utrina que fizera sua. :--;entlu Por-
tugal, como de facto €'ra, um reflexo da França,
acodem aos bicos da penna as appruxinut<;éJes :
Cabral era um Guizot, Rorlrigo um Thi'::'rS.
Qual venceria: a habilid:ule sceptica. ou a
doutrin:u·ia? Em França, em Portugal. Yenceu
temporarianwntt' a segunda. Fui necessari•J lá,
e cá uma guerra triste e lt>nta, para dt'struir a
L Y. -O CARTIS\lO - I
doutrina do argentarismo. Não venceu elle, porém'
depoi--, com a das cou::;as, de um modo real?
:Não foram os seus instrumentos
definitivus. mas sem consciencia, nem força, já,
para o defenderem como system'_t ?
.Ka administração de Lisboa, Cabral dera em
08 a medida dos seus talentos; no ministerio da
Justiça, agora, portanto, durava a ordem pro,·iso-
ria, ia-se reYelando cada vez mais o seu g-enio
pombalino. Restabelecidas as relações com Uoma,
que desde 3-! estavam suspensas, o ministro reor-
ganisuu a machina ecclesiastica, prP-enehendo as
sés, regulando, construindo tnd•l o que a anarchia
derruL<íra. Outlwrganclo a re}JrJnrt ju-
diciaria, aclaptaYa a legislação antiga aos princí-
pios novn::; estabelecidos pela reYoluçã•J, organi-
sando tambem o pessoal da j nstiça, pondo regra e c-"'\..
ordem n'esse deploraxt'l cú,,s. era nm demoli- \
dor, a continuar a obra de :JI•msinho, ulo era um
philosnpho. guia.llo por principios absolutus: era
nm lwmem prittico, laborioso, intelligente, serzindo,
• alinhanmdo o::; f<trrap•JS Yellws e nn-
,·os, os retallws ainda existentes do passado, c.om
as amostra:;, breves e jú do futuro.
A sua fama crescia, e trabalhando, agora e sem-
pre, uma inflnencia muito mais solida
do qne a du émnlo cum as :suas manhas e arcli::;.
O Set->ptic.i::;mo e a ironia, com as artes e os ditos,
vencem e por ,-ezes seduzem; mas a impressão é
Lren:l, e fica sem raizes. A força ganha uma tena-
cida<le clitfe rente. força pessoal do homem q ne
vinha subindo era mais uma causa de naufragio
para a ordem appan,ute das e::;peranças de R1J-
1. - OS ORDEIROS
drigo. Já o astuto chefe percebia que, em vez de
era dominado; e empregava todas as smts
artes para encobrir a derrota. Depois de certa vo-
tação, obtida na camara pela influencia pessoallle
Cabral, Rodrigo á saída, n'uma effusão de agrade-
cimento, deu-lhe um beijo. (Apont. lzist. cit.) Era um
beijo de J nelas, a denuncia de um condemnado, a
de uma guerra que appareceu Iugo?
Esta desordem do gabinete ordeiro trazia para
o governo a scizão qne desde o começo lavrara
na direita da camara. Uma parte d'ella seguia Rl)-
drigo e a sua ordem; ontra queria uma ordem tue-
lhur,- a restauração da CARTA- e punha em Ca-
bral as suas Afinal, apparecia Ulll
capaz de metter homLros á-hi:sturia denltJ-
racia, dramatica e triste da renovação de Portugal.
Er::t baixo, macilento, commum e vulgar ele aspe-
cto! (Lichnowsl,y, Record.J E quem pensa\·a ainda no
liberalismo palmellista, aristocratico? nâ.u Vt>n-
• cera decididamente a burguezia de letrados e agiu-
tas?- Tinha no olhar e no sorrir um nào sei q nê
de fals<! ? {Costa Cabral em reíevu, a;1on.) A espe1·teza se lll-
pre fui condão de letrados e judeus. A testa era
breve, St'ill nobreza, o cabellu corredio e tudo re-
gular «como se diz nos passaportes))? tlbid.J Assim
devia de ser, porque o typo dus democratas Lyro·
nianus não convinha ú gr:tvidacle da doutrÍJlft. Cor-
recto, commum, severo, Cabral, porém, tinha um
fraco: era irascível, apaixonado e violento. Di-
verso tempPramento, mais frio e magistral, cu1uo
o de Guizot, convinha ao papel que tumitra para
si. Em vez de e.J..pur sem cliscutit·, comu fazia u
ministro ele Luis-Philippe, Costa-Cabral perdia-se
arrebatado por uma anlencia meridional. Brilha-
vam-lhe os olhos como carhuncnlos, (Ltchnowskyl g•·:s-
ticulava, gritfisa a ponto de enrouquecer. Era tun
L. V.- O CARTISJ\IO- I
temporal cada um dos seus discursos: mas para
ser inteiramente forte deveria poder encobrir me-
lhor a sua forc;a. A voz soava falsa, sem esponta-
neidade, nem fhwncia: era-lhe necessario irritar-se
para ser eloquente. Nã.o tinha correcção, nem ele
gancia no dizer, ·apenas virulencia. (Costa Cabn1l em re-
lc!'ol 1\hulara de opiniões, mas a fala, o gesto, a
ora_ção eram os do antigo clemagogu, e /
nuus natur:tes dos ( amdlos do que do chefe da
doutrinrt. Uodrigo, ao vêl-o, possesso de ira, per- ·
der o sangue-frio e o governo, devia esperar que
1
essa fraqueza (Houtcm, hoje e cimanliâ) lh'o viria a entre-
1
gar rendido, depois de algum combate infeliz. l\Ias
enganava-se. A audacia do tribuno conservador,
a força que lhe davam uma opinião e um plano
sustt-·ntavam-no: cada batalha era uma victoria.
Hodrigo descia sempre. «A dedicação por wna
convicção politica cessa ordinariamente quando pe-
riga a segurança individual: n'esta terra parece
que os homens activos e energicos, os que• a si
proprios se sacrificam, são ainda níais rarJs elo
que nos outr"os paizes. >> (Lichnowsky, ·J<.çcord.J Percehe-se
ou não, o motivo da ascendencia crescente do ho-
mem novo?
Esse fraco da irascibilidade, da ardencitt no ata-
que, da virnlencia nas respostas, do plebeismo da
phrase; esse fraco, importante em qualquer ca-
mara, não o era tanto na portugneza, pouco habi-
tuada a obedecer á authoriclacle moral do saber e
ao prestigio do talento. Salvos raros mome11tus em
qut3 o portngnez, como nwriclional, se deixava em·
halar pela musica de algum orador-poeta; salvos
esses momentos breves, apagadas essas impressões
mais estheticas do que moraes ou intellectuaes, o
temperamento ch_âo e violento le,·ava a melhor, e
a camara parecia «espelunca de clul, revolu-
(.
2.- A RESTAllRA(\o DA CARTA
eionario. Esta,·a-se como na rua, jogawlo-se ·com
o lodo e as pedras da ada.>> (Lidmowsk), ·:Rfcord.}
Tal ei·a a urdem dos orch .. iros, em toda a parte,
no govt>rno e nos partidos, no thesouru e no par-
lamento. Evidentemente, o liberalismo nào marcha-
va; e era indispensavel restow·ro· flualq uer· cousa,
erguer qualquer pessoa. Quê, senão a CARTA?
Quem, senão Cabral ? -
2.-A RESTAL"RACÁO DA CARTA
O symptoma mais decisi,·u do compldo descre-
dito do st'temhrismo fui o facto da elt>i<_;à.o da ca-
mara municipal do Porto nos primeiros dias ,]e -12.
O Porto, lmluarte dos irmãos Passos, ti)co da de-
mocracia. jacobina, virado êlssim acclamandu a
rainha! sem um vint para a constituição nova!
(2 de jant>iro) A ciflade bnrg-ueza, ct>lelJI·e em tu-
multos clesde os tempos feo1lae:::, preparar-se para
um tumulto cunsen·mlor '(
Cabral j;í era o homem indicmlo por todos como
um .l\Ionk cartista; e ou fui elle . quP dirigiu as
manobras do Porto, ou apprnvon-as, e adheriu
qumHlo lhe escreveram chamando-o. r.tpfJnt. !zist., cit.)
Era ministro: não podia i1·, assim, claramente,
. reLe !lar-se contra o governo fle que f;tzia parte.
Pretextou pois negocios domesticos, e partiu : sendo
recehido entre palmas e ,.i,·as no caminho da
egreja da Lapa, onde foi resar, como os soberanos,
quando entravam nas suas terras tl n de janeiro').
Formou-se logo uma JUNTA (27 ), ,·oltanflo-se contra
o inimigo as armas de que elle nsara. A guarnição
levaria pelo general Santa-l\Iaria apoiava inteira
esta revolta singular, re.prorlucção das de ou
2-1, declarando o soberano coacto, e propondo-se a
libertai-o.
154 L. Y.- O CARTISMO- I
Taes eram as palavras do ministro aos seus
companheiro::;, tal a opinião corrente no Porto. A
rainha, positivamente coacta, elegera Cabral para
a libertar; elle Yinha com um caracter de enYiaclo
do throno pedir poYos que lhe accndissem, con-
tra outros povos em mãos se via perdido.
Era Yerdacle? parece que sim; parece que desde
3t' a rainha em pessoa, ou as influencias diploma-
tiéas extrangeiras que a rocle:wam, consideraYam
Cabral o seu homem; parece que o ministro, além
ele ir dia a dia demolindo em publico o seu émulo
Rourigo, cudilhava-lhe a finura com um calcuio
mai::; seguro: apoiar-se ao throno, contra a liber-
dade e suas f,)rmulas, batendo o- systema na raiz,
com a nnica força ainda um tanto positiva: a
monarchia.- em Yerrlacle não foi assim, e a
restauração do Porto não procedt>n de onlem do
paço, é fúra de dm·ida que a andacia do restau-
rador agradou ;i soberana, conquistando-lhe para
sempre uma adltesà.o temerari<t. Ou Cabral seguia ot
ordens, ou superior ainda aos fieis que só obeue-
cem, salJia perscrutar os desejos e antecipar os
mawlados.
Outros 1wgam que hotn·esse no paço o proposito
de uma restauraçà.o, e fazem de Cabral um traidor
que forç•m a rainha a adherir a poder de intrigas.
rCosta C.1bral em -,eleJ•oJ "Kão é in ,·erosimil esta Yer::úto pe-
rante a historia po:;terior!> Admira tanto qne a rai-
uha, conspiramlo contra a constituição, hesitasse
e Que ortlens pollia elle dar em publico,
senão onlens legat:'S? Cor:tgem não lltt-' faltava,
para amarrotar as leis e atirai-as como bolas de
papel Yellw, sujo, á cara dos seu::; contr;u·ios ; fi-
zera-o em 3G em Belem, e havia tle repetil-o com
melhor fnrtuna, dez annos depois no mesmo lu-
gar. Porém agora, se plano lun-ia, o plano era Ji-
2.- A RESTAUUr:Ão UA L.\lU.-\
verso do antigo. A rainha já nã.o carecia de cha-
mar soldados inglezes: tinha os de Santa-)faria;
nem precisava ele um Leiga, porque achara mu
portuguez. O SEm throno ganha,·a raizes, á medida
que as do setemLrismo apodreciam.
Em Lisboa, o governo via-se nullo, impott=-nte.
Fugira-lhe a sua unica força: restava apenas a
manha que mordia os Leic;os, sentindo-se absoluta-
mentê vencida pela audacia do "ri,·al temerario.
Diziam-se as palavras mais extnt\·agantes: o caso
do Porto só era compáravel a AlcacerquiLir! um fim
de mundo! E na affiicçào atordoada escreviam-se
proclamações que a rainha e corria-se a
casa do caduco Palmtlla, como quem appella para
a lwmceupathia nos casos perdidos. A prudencia e a
moderaç:lu - homcepathia, ou agua-pura da po-
litica- sah·ariam o doente? A's vezts, com ef-
feitu, a nattu·eza d ... ixada a si faz mais e melhor
do que os medicos: mas a natureza estava agora
do lado da força, e todos itPsit<t\·am, todos se su-
miam, prestntindo a fatalidade do fim. R•Jdrigo
tomava um ar solemne, vendo que teria de reco-
mt'çar na opposiçã.o o papel de chefe de um par-
tido cartista genuíno, inimigo do _, para
no dia da ,·ictoria final soltar a ultima risada
sobre as ruínas de todos os partidos.
Xo Porto hesitava-se. Talvt:-z se contasse com
uma immediata da rainha: e em vez d'isso
viera a proclamação condenmatoria e o
Sarmento que tevt largas conferencias com a
TA. Corria que a rainha, pessoalmênte, desappro-
va\·a, repdlindo toda a idéa 1le cumplicidade. Ca ·
bral passaYa por um impustur. C.1br.zl em releJ•o.) e
a ser exacta esta versão, achan(lo se perdido, pe-
dira chorando aos companheiros que o não deitas-
sem a0 mar. f/bid.J Conhecedor da restauração tra-
J;ilj
L.\".- O CARTISMO- I
mada, teria querido confiscai-a em pron?ito pro-
prio, d:1ndo-se cumo confidente e ma111latario da
rainha? E' o que alguns rlns restannulores alle-
gam. :"':mta-l\[aria responderi:t : ((O
meu fim é restaurar a CARTA, e não, fazêr ministe-
rios: avenham-se l{t como poderem n. (lbid.J
Corno qner que fosse, o facto é que as tropas saí-
ram elo Porto para fioimLra, (;l de fevereiro) indo
(
1
ábral na fli,·isão. :-;e a rainha o não encarreg-ara a
elle da empreza, 1..· f1'n·a de· flnvida que adheria ao
mo,·imento. O ministerio perdera as estriLeiras, e
a rainha, segura de n_,ndo a mndez llo reino,
a facilid;ule com que as tropas snhlevatlas o atra-
vessavam. cvnstitucionolmente annnia a tudo. Cabral
er:t o medo rlns de Lisboa; o seu jornal (( 'vrreio-
pm·tuguez) fílra supprimido. A vila que tanto lhe de-
vera, renegava-o, lançando-se nos· braços do ini-
migo e enehendo as columnas da Reroluçi'io de dia-
triht·s contr:t t>lle, e contra Terceira rpte, <i frente
da sua divisão, esperava na capital de braços nber-
tos a divisão de Os ministrí1s leva-
vam á rainha, e ella uma carta para
CalH·al, convidando-o a sulmwtter-se. 1.lpmt. llist. cit.)
Era uma comedia? Era. Estava se no entrudo.
E do entrudo se chamou ao ministerio novo, em
que A vila g.mhara a consetTaçã.o do lugar <i custa
dos artigos da Revoluçilo. Era de entrudo o minis-
tPrio setemhrista-palmellista que durou os tres dias
( 7 de farça, chamando em Yão pela gnanla-na-
cional para o defender, servindo de ridícula passa-
gem (la situação ordeira caída em desordem, para
a sitnac;ã.o cartista proclamacla pela tropa. 1/Nd.J
C:tlmll e continmlYam em Coimbra,
esperando o que aconteceu. Xa madrugnda de
mw1 sah-a real dn castello armnnciou a Lisboa a
da CART.\. (-J_nP fez o ministerio do en-
2.- A RESTACR\t:Áo DA ·C.-\RTA
trudo ? Cma entrudada, uma pseudo-revoluçào.
Abriu os arsenaes, mandou desembarcar os maru-
jos e armar o povo, fazPr barricadas. Abandonado
pela tropa, o governo aprellaxa para as turbas:
mas qnem era esse guveruo ':' Palmella o cunsen·a-
dor ari:;VJf'ratico; c1ue em desar-
mara, fusilara no Rocio esse vo,·o para que appel-
lava hoje. Era de facto um entrudo, nà.o s1j o go-
verno, como tudo: o systema, exprimindo-se na
voz de falsete das mascal"êtS; os homens, que dia
a dia mudavam de domin«js e caraeas. Palmella
descia a rua; Cabral sulJia dos Camillus para
o paço; ia aos tombos; Pas::;os
estava esr1uecido e só; Tiodrigo despeitado contra
si prop•·io. Apenas Terceira, de espalla á cinta,
conseJTaYa o st:ou papel de condesta,·el du throno.
Demittiu-se o entrudo; veiu a quaresma, e-
coisa singular Cabral o condemmtdo a je-
juar do go,·erno. O noYO ministerio crtrfista (fi de
fevereiro) C•Jnsistia no condestavel com os seus an-
tigos ajuclantes de campo, Loureiro e !\Iousinho.
Transição, para não dar na vista? DP facto a rainha
não queria accusar tão publicamente a sua conni-
vencia, por um escrupulo constitucionrd! Ou nã.o
haveria compromissos com o Costa-CalJI·al? ou ha-
vendo-os, achar-se-hia prudente não se entregarem
t;to completamente nas mãos de um homem audaz e
forte? .. Rodrigo, observando a exclusão do émulo,
teve uma esperança, e propoz a Terceira uma con-
ciliação: a CARTA, mas revista e reftJrmada por
côrtes constituintes. O general voltou-lhe as costas
e mandou Fronteira entender-se com as tropas de
CoimLra.
Cabral, porém, não concordava: ,-ia-se cudi-
lhado, e fôra elle o authur venlad.eiro da victoria.
Instava com Santa-)laria para marcharem sobre
L. \". -O C.\RTIS:\10- I
Lisboa. Entrar na C'apital, vencedor, trinmphante,
á frente ·dt> tres ou quatro mil soldados angruen-
tar-lhe-hia muito o prestigio politico. )las o gene-
ral «que nfto f]_twria fazt>r ministros>>, apt>nas res-
taurar a CARTA, rPCllSOU-Se i Cabral emJ·elc?vn) e O
futuro rt>i de Portugal VE'iu s,), desembarcar no
Terreiro-do-Paço (:!!I de fevereiro), ondtc> o car-
tismo lhe preparou. entretanto, uma ovação. Cinco
dias dt'pois, Cabral t>lltnwa nn ministerio do Rei-
no, posto emiiwnte para organisar o seu }J<Htirlo,
instrumE'nto dt> um sy::-tema novo de liberalismo
ao avesso.
Entr:n·a naturalmente, como conseqnencia da
empreza? Dizem alguns rlbid.J que não; que o não
qne força lhe foi, a elle, usar dos ele-
mentos já seus e rle que no gabinete ia ser o or-
gão; dizem qtw tt'\·e de levantar tropeços a Ter-
ceira e levar o Banco a pôr a faca aos peitos do
Thesouro, como st>mpre, ,·asio. ribid.J Compromet-
tia-se a enehel-o, enriquecer os agiotas, transfor-
mar o reino todo.
Abria-se, pois, uma erlade nova. Santa-)(aria su-
bia a conde, l\[t>llo a visconde. Enchia-se de pares
novos e tit>is a camara-alta; e novas eleições iam
trazer uma C'amara-baixa de empregados publicos
doceis. a sophisticação de todas as fórmulas,.
com o reinado positi,·o das forças novas, reconhe-
cidas, defetHlidas: pela hocca do audaz ministro.
Abriu-se o parlamento em julho (HIJ e choveram
accnsações. ccEu rebellei-me? E v,·,s, dizia Cabral,
e vós todos ?>l E como ninguem podia responder,
calavam-sE>, cm-vavam-se. Levantara-se afinal um
tyranno do sein da anarchia.
3. - -\ IJOUTRI::-;A
(
1
om a restauracào da CARTA não subia
ao poder um homelll-novo colll a maiOr
de todas as clientellas politicas do liberalismo por-
tuguez : via-se a inauguração de um systema di-
verso governo. A aristocracia liberrtl, da gente
que tinha conseguido enriquecer e classe
nova formada pela anarchia de 3-!-38, rt-clamava
o imperio: era a força mais positiva que se levan-
tára -flas ruinhs da sociedade antiga, e muitos dos
homens velhos, ou saciados de liberalismo ou in-
a doutrinas, só desejosos de ordem, pu-
nham-Sf ao sE-rviço d'essa aristocracia nova, cujo
representante, chefe e instrumento Costa-Cabral
soubera tornar-se.
Restabt>lecendo a camm·a dos pares vitalícios e
hereditarios, a CARTA dava aos novos fidalgos um
lugar eminente e seguro para defenderem e zela-
rem os seus interesses; para satisfazerem a vai-
dade burgueza, suppondo-se herdeiros dos nobres,
isentando-se da sujeição humilhante de irem pe-
riodicamente esmolar e exigir os votos populares.
Palmella reclamara sempre a conservação da ca-
mara dos pares, e n'um sentido contradizia-se não
adherindo á restauração; mas as revoluções dos
. ultimos quatro annos, a abstenção de grande parte
da velha nobreza, a ruina das casas_ vinculadas
liberaes, faziam com que o restabt>lecimt>nto da
instituição antiga não podesse j<í agora ter o papel
que o antigo romantismo conservador desejára. A
nova camara só na fórma correspondia á velha, ou
esfrtdo da nob'reza : na essencia era de todo outra,
pois essa nobreza podia dizer-se acabada. En-
chiam-se os bancos da camara, dominavam nas
suas decisões os vencedorPs da concorrencia libe-
ral_, os homens dinheirosos e os altos funccionarios,
barões da finança e da secretaria.
160 L. V.- O CARTISMO- I
Cunstitnida a5sim nn fiJro a nova
classe dominante, ern necessario modificar o sys-
tema das leis or:;-cmicas, puclando ttHlu o q ne de
longe ou de perto trouxesse para o jogo das for-
ças os t->lementos democraticos, soLre que
a revolução «le setembro imagin(u·a fun«lar o poder
e que a reacc;àtl unleira não eliminàra, temperara
apenas. Uma nova lei eleitoral, um novo codigo
ádministrati\·o, emm indispensaveis, e esta\·a in-
dicada a tenrlenr·ia rpte o novo ministro havia de
seguir. Tornar indit·ectas as eleições, levantando
bem alttJ u censo eleitoral, era o meio de impedir a
intervenção «las plebes, dando representação o
unico, absulutamente unico criterio que, repellida
.a sobe1·rmirt popuhu·, restmTa- e resta- ac) libe-
ralismo: o dinheiro. Desde que o individuo é a
fonte da autlwridacle uni,·ersal, ou se -hilo de dar
fóros políticos a todos os homens, dando á anthu-
ridade uma ot·igem indi,·idual moral; ou se se lhe
dér uma origem material, positiva, social, como
fazia a noYa doutrina, resta apenas a riqueza para
metro da representação.
l\Ias, as idéas ela IWva doutrina e as licções
crueis da anarchia anterior levavam a confiar muito
pouco na discrição das massas da classe-media a
que o censo dava ainda authoridade representa-
tiva. Não haja duvida de que nos desejos dos dou-
trinarios estivesse uma reduccão ainda maior do
paiz-legal. como se dizia em" França, porque a
tenclencia do systema para chegar a definir-se na
sua pureza era a constituição de uma oligarchia
dos ricos. Não a proclamando, os estadistas oLe-
-deciam mais ou menos conscientemente á força de
uma tradição democratica, recente, mas enraizada,
-e com a qual tinham de pactuar e transigir.
Podiam, comtudo, chegar indirectamente ao mes-
3. -A DOUTRINA 161
mo fim: centralisando todas as funcções achuinis-
trativas para mandarem nas eleições, e escolhendo
para candidatos a deputados os proprios funccio-
narios. De tal modo se viciariam os elementos de-
mocraticos que era forçoso manter, destruindo
todo o resto ele influencia, não só das plebe!il, como
das classes médias. Tal foi, com efft·ito, o plano
systematico do codigo administrativo, que vein
substituir o setemLrista. Os municípios existiam
sob a tutella elos administradores; o papel das
Juntas-geraes, ou assemLléas de disti·icto, redu-
zia-se a nada; e os parochos dispunham das Jun-
tas-de-parochia. Desde a freguezia até ao distri-
cto, mantinham-se pro-f,)rma as instituições repre-
sentativas, mas subordinando-se á discrição dos
delegados do governo, governadores-civis, admi-
nistradores-de-concelho, parochos e rt"geclores. Se
nas leis judiciarias já se tinha supprimido o jury
de ratificação de pronuncia, agora transferiam-se
para a nomeação regiã os antigos cargos f'lectivos:
400 administradores ele concelho, 4:000 regedores,
20 ou 30:000 cabos ele policia. N'um systema de
communismo burocratico, infere-se com facilidade
que extraordinaria força taes medidas dariam á
nova clientella cabralista.
Procedia o ministro movido apenas pela ambi-
ção pessoal de se consolidar, fomentando-a? Não
o acreditemos, porque, para além d'esta conse-
quencia, taes factos teem maior alcance. Pois não
era verdade, confessada, reconhecida por todos, a
incapacidade do povo, e o mallogro das experien-
cias democraticas e localistas? Que havia pois a
fazer, de que recurso lançar mão: senão centrali-
sar o poder, chamar o a uma minoria con-
sistente e forte; deixando de pé, para não aggra-
var questões, todas as f{H·mulas que podendo ser
PORT. CONT.- TOM. II 11
162 L. V.- O CARTISMO - I
viciadas não prej1.dicassem o plano? Encerrado
um circulo da sua existencia, o liberalismo vinha
cair n'uma oligarchia de facto, revestida de fór-
mulas e garantias fictícias. Na Hespanha e em
França acontecia outro tanto ; e lá e cá, depois
reacções que o absolutismo novo,
provocou, o liberali:-mo cedeu o lugar ao scepti-
cismo politico mais ou menos cesarista do imperio
f1;ancez, e da Regt'neração portugueza.
Conhecemos, pois, nus seus traços essenciaes, o
novíssimo systema, e como não póde haver politica
sem uma base de elementos e forças positivas a
que se ap.oie, resta-pos saber quaes eram as do
cabralismo. No dt->curso do nosso estudo achámos
duas já: a aristocracia nova da propriedade e da
finança, e a burocracia. l\las estes dois elementos,
preponderantes e decif::ivos na paz
7
não bastavam
para resistir á força material das numerosas ple-
bes agitadas pela democracia setembrista. O go-
verno, desarmando e dissolvendo as guardas na-
cionaes, eliminára a melhor arma de que ellas
dispunham nas cidade-:; mas restavam os campos,
com os habitos de gut:>rrilha, enraizados por annos
de guerra e anarcltia. Contra esses tinha o go-
verno o exercito: porque todos os commandos es-
tavam nas mãos de neraes fieis e a officialiclade
fôra depurada.
A restauração consummada por uma porção de
tropa, tinha, de facto, nos soldados o mais firme
apoio, porque a aollesão decidida do throno valia
menos em uma nação a que pe1· vim. se impozera
uma dynastia· nova, discutida desde a origem e
atacada, escarnecida, hnmilhada muitas vezes. A
rainha era, comtudo, o primeiro funccionario da
nação, e não valia mais nem menos do que a
burocracia toda, com a qual se inscrevera na nova

3. - A DOt;TRI:'IIA
clientt>Jia cab,·alista. Se lhe não succedeu como a
Luis-Philippe, ou a· Isabel u, caír com n systema,
foi porque a Hespanha, a Inglaterra e a França
vieram juntas defende l-a em 4 7.
Burocracia, riqueza, exercito: t>Ís os tres pontos
de apoio da doutrina; (1ligarchia:
eis o sen processo; mas nem as fl'n·mas nem as
forças bastam para constituit· um systema: são
consequencias subsidiarias d'elle. Quf> era,
no fundo; a idéa? Seria o racionalismo espiritua-
lista do seculo xvm que prégava, contra o C<ttholi-
cismo, pela bocca da maçonaria, uma religião
nova? Não; a doutrina reconhecia o catholicismo,
lavrára já a sua concordata com Roma, e via nos
padres excellentes instrumentos de gm'erno. A
maçonaria perdera havia muito o caracter revolu-
cionario, e a revolução perdera tambem as ambi-
ções religiosas. Como os casulos do bombyx ficam
depois que a borboleta voou, assim ficavam as lo-
jas_, rede de sociedades secretas subsidiarias das
sociedades politicas visíveis, a que o segredo e o
mysterio, porém, seductores dos simples, augmen-
tavam até certo ponto a força. Costa-Cabral afei-
çoara essa machina ao serviço dos seus
desígnios e ambições.
Se elle se propunha defender os ricos para con-
solidar a ordem, á maneira do religioso Guizot, ou
se, menos idealista nas suas vistas, que.ria a ordem
apenas como instrumento de enriquecimento do
paiz, é o que nos não sentimos habilitados a di-
zer; pensando, com tudo, mais provavel a segúnda
hypothese. Como quer que seja, era por esta que
a sociedade opinava, já começada a converter ao
164 L. V.- O CARTISMO - I
nultt->rialismo, sob a primeira fc:n·nut com que elle-
rnoclernamente appare-ceu; era para o materialismo
pratico que- a sociedade, desilludida das chimeras
libemes) começava a pender.
Isso a que depois Yeiu a chamar-se nudlwramen-
tos-materittes) isto é, a construcção das obras pu-
. hlicas e o fomento da riqueza, eis o que nôs Yemos
co_mo essencia do novo cartismo. A do antigo, sa-
hemul-o bem, fônt aristocratica. E, singular ene,·-
gia da realidade! C o ~ t a Cabral, o percursor da
noYa edade portugueza, veiu a ser a victima da
Regenerm;,i'io que, por outras palavras e com ou-
tros meios, havia de executar-lhe o programma. A
antiga educação jurista e liberal do ex-tribuno dos
Camillos compromettia curn doutrinas um moYi-
rnento que, para vingar, exigia apenas scepticis-
mo: assim em França, tambem acontecia a Guizot,
e os 'regeneradores foram o nosso Segundo Im-
perio.
1\Ias, além d'estes defeitos de educação, o plano
de Custa-Cabral falhava por outro lado. José da
SilYa Carvalho antes, Fontes depois, cornprehen-
deram que a melhor finança para um paiz exhausto
era importar de fc)ra o dinheiro. Costa-Cabral, se-
guindo n'este ponto os erros setembristas, pensou
que os nnmerus, calculos e operações phantasticas
dos agiotas hastavam para inventar uma riqueza
que nã.o existia. D'ahi vein uma banca-rota preci-
pitar a ruína do systema, batido tambem por ou-
tros inimigos.
Costa-Cabral foi o iniciador dos carninhos-de-
ferro, principal instrurnento com que depois se
operou a restauração da riqueza nacional; e a sua
idéa de construir uma linha entre o Porto e Lis-
hoa e outra de Lisboa a Badajoz era considerada
pelos políticos da opposição a doidice de um vidente.

3. - A DOUTRINA 165
O conde de Lavradio, na camara, (Sess. de 3 de te,·ereiro
1846) assegurava que entre LislJoa e Porto não ha-
veria, ao anno, mais de seis mil passageiros; e
CalJral perguntava-lhe: «E se forem trezentos mil "I
-Isso não é possível, porque não ha no paiz viajan-
tes para tanto movimPntu)). Qual dos duis via mais
claro no futuro? Os caminhos-de-ferro rematariam
o systema ele estradas macadamisadas, contratadas
com a companhia das olFrrts-puUicas; e rE>gulari-
sada a questão do Thesouro-hoc opus!-estaria
completo o programma da rE-generação economica
do paiz.
U E-stadista que com tamanha audacia e tão va-
riadas artes pretendia cl1amar á industria uma na-
ção que fôra desde séculos u emporio ou a depen-
dt:-ncia de um systema colonial, agora abandonado
e caduco na parte que -se não penler<t, esquecia
que no reino extenuado e doente, costu1t1ado á pro-
tecção e á preguiça, não havia os capitaes moveis
necessarios para realisar as obras projectadas. Ha-
via, sim, grossas quantias dispersas e infructiferas;
mas a maxima parte d'ellas, ou a parte de que o
Estado podia dispôr sem ir atacar a propriedade
individual, pertencia ainda ás corporações de mão-
morta que tinlmm escapado ao cutellu liberal: ás
misericordias e confrarias, instituições religiosas
de beneficencia, cujos fundos o povo nàu estava
aillda costumado a vêr mobilisar. Fazei-o, parecia
um roubo. E o governo, atrevendo-se a tanto, e
propondo ao mesmo tempo augmentos de impostos,
tornava facil aos seus inimigos um ataque apoiado
em instinctos de populações vexadas já por uma
administração oppressora.
~ ã o está porém n'isso a causa particular da
ruina do edificio cabralista, mas. sim na essencia
do seu plano de restauração da riqueza nacional.
11.){)
L. V.- O CARTISMO- I
Implantando entre nós o systema seguido lá por
ft'n·a ele enfeodar os pulJlieos a companhias
de t'Speculadort"s, o cahralismo obedecia ao prin-
cipio da sua forma<;ão: era nma clientela dos ricos.
ContianJo a aventureiros o encargo de realisar o
plano das olHas-publicas, o governo chamava em
seu auxilio a intervenção da agiotagem. hto não
era original, nem particularmente nosso: tambt"m
Gnizot dizia aos seus: enrichessez-vous! l\Ias uma
nação como Portugal, ainda commo,·ida pelos odios
pessoaes e partidarios, demasiadamente afastada
da Europa central, quer geogr<lpltica, quer eco-
nomica, quer scientifica e religiosamente, para ter
solidariedade com ella, nem podia conta1· com a
paz imlispensavel ás regt"nt"rações economicas,
nem esperar que os capitat-'S europeus viessem
encher os cofres das companhias de agiotas portu-
guezes. Nem a formação de companl1ias estrangei-
raz, nem a importação de muito dinlwiro por em-
prt"stitnos successivos, eram possi,·f'is ainda, como
depois o foram ; e sem elles as comLinações eram
cTlinwras.
D'ahi resultou qne as companhias, formadas ape-
nas com os recursos de que a naçàt) dispnnha, não
viram o ouro a authorisar os munt"ros; e mirra-
das, seccas, encastellando algarismos e trapaças,
sem const-'guirem bater moeda, volta,·am-se implo-
rantes para o governo que as creara com o fim de
o auxiliarem a elle. E, entretanto} vencidas por
fas on por nefas, as eleições de -±:>, o governo ap-
pctrece como triumphador, patentt-'aiHlo um plano
largo e vasto de administração e fomento. (V. Diario
de:! de ianetro. 46) Tres annos de paz e trabalho liaviam
permittido já desE-mbaraçar o terreno obstacu-
los praticos; e organisados os serviços, cumpria
realisar o pensamento. A divida externa conver-

3. - A DOCTRINA 167
ter-se-hia n
7
um typo unico de -! por cento, equili-
brava-se o orçamento, e a companhia das Obms-
publicas apparecia para restaurar a viação d'nnde
viria a fortuna ulterior. Havia espt->rança e fé. O õ
por cento estava a 70; o -!a 07; e as companhias
{Confiança, banco, etc.) solidarianwnte ligadas á situação
cartista. viam na conservaçâ·J do governo e na vi-
ctoria do seu systema futuro::; tle riquezas doura-
das. Nunca a emissão do• banco fôra tão longe:
passava de contos.
l\Ias a victoria politica do guverno dava lugar
a uma derrota do systema, ('omo veremos ; a pros-
peridarle do Pdificio encoLria mal a sua
falta de alicerce. "C"m vento ele desordem que so-
prasse, e ficaria feito em p•j. Era um amalgama de
suppusições de valores, Íf-"'ml•• como realiclade unica
um vasio absoluto .. \s companhias pediam a pro-
tecção do Thesouro; e o Tl1esouro sacava-lhes
todo o dinheiro disponível, pm·a com elle poder
apparentar abundancia. 6:001 I contos se deviam ao
banco; 6:000 á E como não havia di-
nheiro e sú esperanças; e como as companhias
não passavam -afinal de ag1 ntoo do governo, ao
qual iam entregar tit>lmente fl ponco qnt> obtinham;
e como o governo não porleria, ainda que o qlllzesse,
encobrir as fraudes, os roul,os, dos agiotas cujo
representante era- o systema alluia-se por todos
os lados, quando parecia ter chegad.o êÍ sua per-
feição.
Bastou uma revolução ,leitar por terra os
castellos de cartas dos cahralistas; mas houve
fomes e sangue derramado, porque a doutrina não
tinha outra base alérh do ouro e o ferro. Agiotas
e soldados a defendiam ; acahou com uma guerra
e uma falcatrua.
168 L. '·-O CARTISMO- I
A sua grande falta, a sua fraqueza invencivel
eram a ausencia de um principio moral, porque
nem a ordem imposta pela força, nem a riqueza
creada contra a justiça chegam a ser principios;
nem o é a idéa de que urna nação obedeça ao pen-
samento t:'xclusiY"o de se enriquecer. Quando isto
se préga, succedern c a s o ~ analogos aos que succe-
derarn aos jesuitas: :cetTertem-se os om-intes e
logo se corrompem os prégadores. Ou se criam
monstros, corno as missões do Brazil e do Para-
guay
1
e as companhias cabralinas, ou se cáe na
profunda atonia pm·tngueza do seclllo xvm ou na
singular, C'hatin ngenenu;ão.
Enriquecer é bom, indispensavel até; mas a ri-
queza é um meio e não um fim.
2
Errando n'este
ponto, dando á força bruta um papel excessivo,
confiando de mais no entorpecimento do povo e na
fraqueza dos inimigos: o caLralisrno tinha na sua
doutrina a causa fatal da sua ruina, e o motivo
necessario dos erros- e do descredito de chefes que
precipitaram a queda inevitavel do systema. Le-
vanta,-am-se contra homens e systema elementos
de varias ordens: era a repugnancia instincti,-a do
ca'racta seternbrista pelas trapaças agiotas, eram
os odios pessoaes, eram as resistencias do povo
contra os ataques a restos de instituições histori-
cas e costumes religiosos, era o- bandidismo guer-
rilheit·o fervendo por ,-oltar a uma existencia de
aventuras, era a tradição democratica do setem-
brismo que se não convertera, eram a resistencia
t o protesto contra a tyrannia da administração e
as violencias das eleições, era finalmente a exis-
1
V. O Bra;Jl e as colon. port. r, 4-S. --
2
V. O Regzme das Rique;.as,
introd.
3. -- A DOLTRI::'\A 16!J
tencia de numerosos officiaes expulsos das fileiras
por opiniões politicas.
Eis os elementos positivos da reacção que va-
mos vêr erguerem-se, para condêmnar a ultima
tentativa de liLeralismo doutrinario; para lançar
ao ostracismo o seu defensor ; para concluir por
fim o período propriamente liberitl
7
alJrindo uma
6ra nova de scepticismo politico, em que o velho,
idolo da LIBERDADE, apeiado, cede o altar ao deus
novo: o utilitarismo, pratico, positivo, conciliador
e rnoderno
7
ou antes, actual.
II
1. -A COALISÁO DOS PARTIDOS
No decreto (w de fevereiro) em qne a rainha decla,..
rara adherir it re\·olta armada em Coimbra di-
zia-se que a CARTA set·ia reformada, inas logo que
o gabinete se constituiu, quinze flias depois, com
Costa- Cabral, viu-se que a promessa ficava em
cousa nenhuma: era a CARTA, tal qnal existia an-
tes de 1836; pares hereditarios, eleições indire-
ctas. 1\Iousinho d' Albuquerque, reconhecendo que
apenas passára pelo go,·erno para preparar a en-
trada de Costa-Cabral, abandonava o seu duque e
collocava-se t-m opposição.
Ia haver eleições, porque o novo systema não
era nem pretendia ser uma dictadura, mas apenas
a maneint de fundar uma legalidade que servisse
de t-:'SCndo a um absolutismo de facto. E na ,·es-
pera d' essas t-leições ligaram-se todas as clientelas
ou partidos contra o inimigll declaradamente com-
mum. Er<llll os velhos setembristas da gemma,
com a gt-:'ração nova ainda mais radical ; eram os
ordei1·os_, antigos cartistas, expulsos do poder;
eram cartistas não cabralistas, e por fim miguelis-
tas. No seio do constitucionalismo via-se exacta-
mente o nwsmo que a Edade-media, com o seu
feodalismo, apresenüíra. A sociedade, dividida em
1.- A COALISÁO DOS PARTIDOS 171
bandos rivaes e inimigos unidos em volta de um
chefe, existia á mercê dos pactos, e riva-
lidade dos Larões. Contra o ft'liz, vencedor tempo-
rario, eram todos alliados, para :se formarem com-
novas, assim que o 1·am•J da victoria
passasse a mãos diversas. X os seculus pas5ados, com-
tudo, não havia as mais das vezes por motivo de-
ciarado senão a pessoal, ainda que não
fosse raro vêr-se, como agora_, sen·irem p1·inci'pios
-de capa aos despeitos e interes:ses. seculos
. passados, os debates eram campanhas, e agora
pretendia-se que comicius e discussões e
votos; mas como isso não La:stava muitas vezes,
log·o se appellava para a ultinlft rrtfiu_, a revolta.
A coalisào dos partidos preparou a L>atalha das
eleições com um Jlrmifestu (i)C) de março de -!2):
«Haverá um simulacro de lo nacional, ·
dizia. A universalidarle da nação purtugueza, fmc-
ciunada pdus diversos opini'i'íes }JfJliticas, verá pas-
sar pt-lo meio d'ella um Lando peqnenc1 de homens
compactos e liga(los por seus pessoaes,
e obter um falso triumplw, deYid,) não sú á sua
forca. mas á divisão seus cuntrarius. » )Iau
para quem desenhant tão reali:;tameute
uma situação que pretendia dominar. Como espe-
rava a coalisào vencer, se o rli!:>panl.ta•.lo das am-
bições congrt--gadas a declarat· a indepen-
dencia dos credus pr,[iticus_, e se a tinha
por fim unico a batalha? Se ganhasse a victoria,
de quem seria o ramo? X ovas ccmtenllas surgi1·iam
sem duvida, e com ellas o estad1) antet·iur de des-
ordem.
Costa-Cabral venceu, e devia se1· a:-:sim. Quem
o havia de matar não pudia ser a oppo::-ição, mas
sim a deaorganisaçào e o desCJ'eflitcJ do seu novo
'"' tambem ephemero liL>e,·alismo. --\g.,ra, porém,
172 L. \".-O CARTISMO- I I
começava apenas a viagem e tudo eram confianças
e esperanças. Havia adhesões numerosas, e traba-
lhant-se. Palmella, convertido depois da sua triste
t?ntrudada, daxa ceremoniosamente a mão ao go-
verno, e ia a Inglaterra negociar o novo tratado
que congraçaria de noYo comnosco a nossa prote-
ctora, coarctando as temeridades proteccionistas
do setembrismo. Publicára-se o codigo administra-
tivo. (18 de març•J de-!:!) Reconstituía-se a
por dentro e por fóra; e confiava-se que tivesse
chegado o momento de pensar no futuro. Por isso
se legislava soln·e a Instrucção, se levantava o
theatro rornantico, se estradas e pon-
tes.
Tinham-se, porém, constitucionalmente,
convencido os collig;ados da adhesão do reino ao
seu novo regime? Xão, nunca: pois que catla qual
possuía uma verdadeira tracbcção de LIBERDADE, a
questão era para todos radical, e viciosa qualquer
legalidade qne não fosse a propria. O principio da
anarchia constitucional desvairaYa, os sim-
ples, servindo os programmas de capa aos habeis
para esconderem os seus motivos particulares.
Batidos na URNA, appPllaram para a guerra. Urna
lucta desabrida de improperios, na camara em
discursos e fóra d'ella nos jornaes e folhetos avulso,
preparaYa o terreno para a desejada insurreição
em armas.
A coalisão dizia que «Palme lia, por mandado do
vil e infame governo, fUra negociar o tratado de
L:Ommercio: por }Jatriotismo, os fabricantes deviam
fechar durante quinze dias as suas officinas. »
(Circular de 9 de agosto) Duas semanas sem pão, ociosos
nas ruas os operarios de Lisboa, repetir-se-hiarn
as scenas de 38 e caíria o governo. Planeava-se a
revolta, a que Passos chamou « bambochata». E,
1.- A COALISÁO I.JOS PARTIDOS 173
com Pffeito, era tal a desorganisação, que os mi-
guelistas começavam já a esperar e por isso a
abster se, vendo circumstancias npportunas para
~ e effectuar uma restauração nacÍl•nal. >> :Circ. de Sa-
raiYa, 24 de junho de 431
A revolta declar·ada ia precipitar o ministro no
campo das rPpressões violentas, forçando-o a des-
mascarar a sua legalidade q ne, no fundo, era de
facto a brutalidafl.e da força; levando-o a mostrar
com fr·anqueza o genio duro e secco, esse genio
que em outros tempos e com outra estabilidade de
instituições, ~ e r i a levado os inimigos ao mesmo
<>aes de Belem, onde Pombal conduziu os que lhe
resistiram.
1
Como o ministro de D. José, tambem o novo
Pombal do constitucionalismo era abocanhado e
discutido na sua honra . ..Não era credor, ou affigtt-
rava-se a muitos não ser, do respeito com que
uma reputação limpa ampara a força. Era temido,
mas nem era venerado, nem chega,-a a ser tomado
a sério pelos antigos companheiros que o tinham
conhecido humilde, esbaforido, a declamar nos Ca-
'Jnillos. Vêl-o assim erguido sobre todos, desespe-
rava os que, por lhe não terem ouvido phrases
pomposas e poeticas, lhe negavam um talento que
para romanticos estava principalmente no estylo e
na imaginação. Não era admirado : pelo contrario.
E o peior era q ne a sud. honestidade não deixava
de ser discutida. V aliam mais e iam mais fundo
esses ataques, do que as investidas declamatoriás
e os protestos contra a tyrannia. A' força de as
ouvir, os ouvidos estavam saciados d'esse genero
de esgrima; mas quando se dizia que o ministro
se vendia, conciliavam-se todas as attenções.
1
V. Hist. de Pm·tugai, (3.a ed.) 11, 176-8
11-1 L. \. - O CAH.TISMO- I I
Usar do dinheiro como instrumento fel-o
de certo. «Dêt:'m-me dinheiro e deixem o resto por
minha conta», parece que dissé1·a ao t>ntrar no
governo, nas vesperas daa eleições de rCosta Ca-
bml em relevo} E os seis contos- oh modestia spar-
tana! - que receLeu e gastou, furam o ponto d.P
partida para as accusações da ven:didadt:'. Yen-
dera um pariatu, dizi;t-se, recebendo como prenda
um palacete. Quem du Ultramar queria commen-
das, mandant o pedido acompanhado por uma or-
dt:'m de dois cnnto::; para um Lanqut:-iro. (lbi,f.J E
sem á sombra do ministro que gm·ernava
com o dinheiro, formara-se um batalhão de gente,
especulando com tudo : contractos, empregos e
graças. Xo norte do reino parece que lun·ia um
intimn, outr'ora preso por falsario e ladrão, a-
quem os pretendentes se dirigiam para resoh·er as
pendenc·ias que tinham em Lisboa, discutindo-se,
não o direito, mas sim a quantia. tlbid.J
A propagação de taes accusações mostrm·a o
calcanhar do no,·o Achilles. Quando todas as fon-
tt:>s de authoridade politica se estancam, resta ape-
nas a authoridade pessoal: e nada ha melhor, para
a destruir, do que o uso da arma acerada que fere
um homem com o labéo de Yenal. O po,·o crê
sempre, porque é pessimista: tinha Portugal mo-
tivos para ser outra cousa? E para destruir urna
tal crença. não raro illusoria, nem provas bas-
tam. O politico é como a mulher de Cesar: além
de honrada, ( q nem sabe? até não o sendo) é mis-
tur que o pareça. _
O nosso ministro não conseguia parecei-o, e sof-
fria as conseqnencias do seu plano de governo :.
«Enriquecei!» era o conselho de Guizot; a quem
ninguem taxou de deshonesto. Em Portugal, os .cos-
tumes eram mais soltos, a virulencia maior ; e se
2.- TORRES NOVAS E ADlEIDA 175
ninguem fôra ainda atacado de um modo tão cruel,
isso prova que ninguem, tampouco, ainda lllOS-
trára uma força e um genio tão superiores. Ou-
tro Pombal, repetimos, o novo ministro ficaria tão
celebre como o antigo, se achasse ainda de pé
uma qualquer authoridade social. Nas ruínas uni-
versaes não tinha com que construir, e os elemen-
tos que iam rebellar-se contra elle obrigal-o-hiam
a empregar francamente a força mia como instru-
mento de conservação.
2.- TORRES NOVAS E ALMEIDA
O melhor d'essa força era a tropa, mas usar
d' ella na defeza de um governo e de um systema
origem era discutida, tornava logo o exercito
em instrumento partidario, roubando-lhe esse cara-
cter mudo e passivo, sem o qual vem a ser um
perigo permanente. As condições da nossa historia,
o abatimento caduco do nosso povo, tinham feito
com que, desde 20, as revoluções portuguezas
-sem excluir a de 32-4- fossem em prezas mili-
tares. Os chefes de partido, Silveiras, Terceira,
D. Saldanha, Sá-da-Bandeira, eram inva-
riavelmente generaes; e agora, com Costa-Cabral,
pela primeira vez se via o governo positivo nas
mãos de um paisano, mas soL a presidencia de
Terceira, com a adhesão de Saldanha, marechaes
do exercito.
Educado desde largos annos na tradição dos
pronunciamentos, o exercito era, portanto, como
que uma prolação dos partidos: uma parte, arma-
da, das clientelas. Vê-se que desordem isto pro-
duziria. A parcialidade vencedora dispunha em
proveito proprio do material de guerra: soldados,
espingardas, canhões, etc., expulsando os officiaes
171j
L V.- O CARTISMO- I I
hostís para o quadro da inactividade, e mantendo,
assim, uma como que emigração dentro do reino,
constantementP preoccnpada de politica e tra-
mando a victoria dos seus, a queda dos contra-
rios. Com a exaltação ele Costa-Cabral, as cousas
tinham chegado ao ponto de os coroneis pedirem
aos officiaes arregimentados prtlrwra d'lwnra de se
não bandearem; e os officiaes clavam-n'a e falta-
vam por dinheiro qne recebiam, e quando a não
davam eram riscanos do (Apont. Jzist. c1t.}
De tal situação nasceu a revolta de Torres-
Novas, a qne Passos-l\Ianuel chamou bambochata.
Commandava ahi cavallaria -1 o coronel Cesar
V asconcellos, (depois feito conde do lugar da fa-
çanha) que se pronunciou contra o governo ( -1 de
fevereiro de 4-1), e ao regimento foram juntar-se
os militares inactivos. No" dia seguinte, Costa-Ca-
bral pediu ás camaras a suppressão de garantias
e as leis marciaes, e obteve-se no meio dos cla-
mores da opposição: 1\Iousinho cl' Albuquerque,
Aguiar, Gavião e Silva-Sanches, Garrett, nos de-
putados; Lan·aclio, Taipa, Sá-da-Bandeira, Fonte-
Arcada, nos pares. Clamando, os opposicionistas
encobriam mal, sob expressões juridicas, a sua
cumplicidade na sedição militar; appellanclo em
gritos violentos, exclamações dirigidas ás galerias,
para um motim popular.
Bomfim, o ordei-ro antigo, pozera-se á frente da
desordt':'m, e a praça de Almeida pronunciara-se
tambem: ahi se achavam o coronel Passos e José-
Estevão que cleixára a camara pelo campo. <Oliveira,
Esbofo Jzist.J A coalisão dava de si uma revolta mili-
tar, e o governo via os miguelistas a levantar a
cabeça no meio ela anarchia. Beirão que viera á
camara, eleito por elles, alliciava os estudantes
realistas em Coimbra, recrutando soldados para
2.- TORRES r\OYAS E ALMEIDA
177
Almeida, d'onde lhe escreviam que mandasse o
Rehocho, para l\Iinzella, a!Jifo.r-se. (Disc. de Cabral, 18 de
outubro de44) Para Almeida foram de Torres-Novas
as tropas, e sem poderem arrastar comsigo ne-
nhuma parte do paiz, acharam-se ahi encerradas
em abril. O exercito fiel ao governo cercava-as.
Em vão saiu José-Estevào, romantica, aventurei-
ramente, a revoluciona'r Traz-os )[ontes, passando
a fronteira e indo entrar em )lonco•·vo; em vão
bateu ás portas de Chaves, de Bragança e de
.Murça: ninguem respondeu; mas ninguem tam-
pouco entregou o estou,·arlo romantico, pelo qual
Costa-Cabral offerecera, ao que se affit·ma, o pre-
miu de dois contos. (Oii\"eira, Esbofo hist.J Almeida ca-
pitulou, os vencidos emigraram, o governo ven-
ceu; mas a victoria obrigava-o á crueldade e a
derrota exasperava os animos dos submettidos á
t y ~ a n n i a de um homem que desprezavam.
Das ruínas da revolta renasceu mais firme a
coalisão, para as eleições de 45. Havia uma guerra
declarada contra o governo, ct0a existencia era
um incessante combate. Todos os chefes e cliente-
las apertavam as mãos, esquecendo odios antigos
no ardor do odio novo contra o aventureiro que
os batia a todos. O calor era tal que o povo como
que accordava, interessando-se e intervindo nos
debates dos políticos, emittindo opiniões e parece-
res. «A mania politica tem acommettido todos os
habitantes da capital, desde o fidalgo e o par do
reino até ás fezes da plebe. Apenas os pobres
pretos de Africa que passeiam aos milhares pelas
ruas de Lisboa não discutem politica». 1Lichnowsky,
Record.J A rede de sociedades secretas, que mina-
PORT. CONT.- TOJl. II 12
178 L. V.- O CARTISMO- I I
vam o reino, estabelecia um sub-solo á politica
apparente. Costa-Cabral era chefe de uma maço-
naria sua, herdando o malhete que fura de Silva-
Carvalho e de l\Iiranda: o centro cartista. Salda-
nha perdera o posto supremo da maçonaria opposta,
desde que se bandeara em 36, deixando o grão-
mestrado a l\Ianuel Passos, que dirigia tambem
outros conventiculos: templarios, vendas-carbona-
rias, etc. (Macedo, 'lraros)
A alliança das opposições já tinha um jornal, a
Coalisão que, francamente, accusava tanto o go-
verno pela sua tyrannia
7
como o povo pela sua in-
dolencia.
Ha no paiz muito homem que não sabe lêr. Ha muito
homem que sabe lêr, mas não lê. Ha muito homem que lê,
mas não entende. Ha muito homem que lê e que entende,
mas que tem medo, que é vil como um porco e cobarde
como um veado. Ha muito homem que vê as desgraças pu-
blicas, mas não as quer remediar; ou porque treme de
susto, ou porque ganha com a carrapata. Aos que vivem
da sopa gorda, da olha podrida do orçamento não ha que di-
zer ... Folgam com as listas de côr, de carimbo e de tarja,
morrem pelas trans}larentes. Fingem que vão coactos, mas
vão contentes. Votam pela comezana: gostam da boa fatia_
do pão do nosso compadre Povo.- o· Costa-Cabral! quan-
tas vezes terás tn dito como Tiberio. venrlo estes poltrões,
estes sauchopansas da liberdade: ó lwnlines ad servitutem
pm·atos! (Coalisáo, 10 de janeiro)
1\Ias e s t ~ tom, de uma sinceridade triste, não era
o que convinha na vespera da batalha: «A' urna!
á urna! abaixo todos os ladrões e comedores! Em-
pregados, ladrões, falsarios e prevaricadores, votae
com o governo: não vos queremos. Tratantes!
pertenceis de corpo e alma ao ministerio ». (Coalisáo,
JS de janeiro.)
2.- TORRES NOVAS E ALMEIDA 17!1
Costa-Cabral ainda confiava, ainda esperava do-
minar a tormenta que todos os dias crescia. Tinha
o exercito, tinha a burocracia, via-se apoiado pe-
las nacões alliadas; o balão da financa entumes-
cia-se, "e o proprio Tojal, da Fazenda, mdtera
tudo quanto tinha n'uma operação de fundos, de
sociedade com banqueiros de Londres. A rainha
entregara-se nas mãos do seu homem-novo, no
qual via uma coragem e uma força! t>lJa que, se
fosse homem, faria exactamente o mesmo, ou mais
ainda por ser monarcha.
O ministro plelJt>U não podia rPsistir ás tentações
da vaidade palaciana: não via que as honras com
que a rainha o exalçava, o diminuíam no espírito
commum. A sinceridmle democratica do povo e a
inveja dos ambiciosos juntavam-se para ridiculari-
sar o pa'rvenu. A fortuna que juntára no poder,
alvo de tantas accusações, permittira-lhe comprar
as terras de Thomar, com o velho castello ternpla-
rio, onde o moderno burguez afidalgado, occupando
as salas historicas povoadas de sombras romanti-
cas de cavalleiros, as enchia de festas banaes por
occasião da visita da sua liberal soberana:
Na cathedral de Lisboa
Sinto sinos repicar :
Serão annos de princeza '?
D'a1gum santo o festejar?
E' a rainha que se parte·
- Té ás terras de Thomar.
Em vez das armas antigas
Dos nobres valentes Paes,
Na fachada, sobre o portico,
Vêem-se hoje as dos Cabraes
Que cm seu campo ensanguentado
Por brazào tém tres punhaes.
(Sacara da visit.1 da rainha, etc.)

1 ~ 0 !... \".-O CARTISMO- I I
O romantismo vinga,·a-se, e as formulas da no,·a
êtrte-poetica mostra,·am sen·ir para muito. Era um
romance á imitação dos da cullecção de Garrett,
t> em que a mais desbragatla calumnia não per-
doa,·a a ninguem. Já n?í.o bastaYa a honra do mi-
nistro, exigia-se-lhe a da esposa e a da propria
J"'a.inha. Os dois casaes, o das X ecessidades e o de
Thomar, ,.i,·iam n'uma indecente promiscuidade.
A castellan dizia á rainha:
Mas não venhas tu st}!!'inha
Traz tambem o teu esposo
Lá das terras (L\.llemanha
Esse moço tão formoso.
De louros, finos, cabellos
Gentil, nobre, raloriJsn.
E ao castellão <•todo vestido de gala- cinge-lhe
a fronte a armadura))' ao mesmo tempo que <<pra-
ticava mui de manso)) com a rainha «recostada em
molle sophá. )) Um temporal interrompe as festas,
e vem o mendigo-povo cantar a lenda que ter-
mma:
E o Senhor decretou
Extermínio á geração
Sobre essa raça maldita !
Assim, em artigos e tro,·as, se tira,·a a desforra
de uma revolta suffocada, infiltrando no animo do
povo um desprezo e um odio condenmadores do
ministro e da rainha, do systema e das pessoas.
A colera politica subia de g r a u ~ e. a liberdaàe na
imprensa- tão verberada por Passos!- invadia
as alcovas principescas, mostrando-as ás plebes.
Onde conduziria um tal systema? Não tinham os
miguelistas razão para se prepararem e esperar?
2.- TORRES f'O\"AS E ALMEIDA
Batidas por fim de frente, por um homem su-
perior e forte que lançiu·a mão dos elemt-ntos ainda
resistentes da sociedafle as parciali-
dades politicas, relatinmwnte tulerantt--s entre si,
não podiam admittir a im?Rsào e o imperiu d'esse
intruso importuno : mas elle proprio, que não se
atre,·ia, nem poderia, nem pensaria, em rasgar a
CARTA, mandar á faYa o liberalismo, e voltar ao
goYerno pessoal, puro: que lhe restaYa senão cur-
var a cabeça á tyrannia das f/11·mulas "! E se as
influencias de todos os chefes políticos, alliados
contra elle; se a acção ele um ataque incessante á
sua pessoa e á sua l•onra, tinham concitado uma
tempestade que o faria ser batido na unw: que
remedio lhe restaYa. esse expediente Ja ,-io-
lencia sob a capa de legalidade? o processo de
mentira descarada, em vez de como
d'antes? esse p.1·ocesso que o mantinha, desacre-
ditando-o, arruinando-o cada Yez mais?
Yencer, por fas ou por nefas, as eleiçiJes, n 'esse
anno de 46 da decisiYa lJatalha, era para f
1
osta
Cabral o mesmo que vi,·er ou morrer. Lançou,
pois, mão de turlo, e f.Ji ás do cabo. Tres camaras-
municipaes protestaram, vindo a Lisboa os verea-
dores implorar a rainha: á de Evora voltou-lhe
ella as costas, a de Yilla-Franca foi presa, e am-
bas, com a de Faro, dissolvidas. A opposição es-
taYa inteira a postos; o programma era o antigo
Jlanifesto da coalisão, com o discurso dl3 )lanuel
Passos, em IX de outubro anterior. Em Lisboa
reuniam-se )lousinho de Albuquerque, Aguiar,
Sá-da-Bandeira. Herculano, .José )laria Grande,
llarreca, Rio-)Iaior, .JerYis, Garrett; .José Passos
tinha o Porto; Bertiandos, o )linho; PoYoas, não
annuindo á abstenção ordenada por D. )liguei, da
Guarda mandava na Beira; o conde de ::\I::>llo em
lti2
L V.- O CARTISMO- I I
Portalegre ; l\Iamwl Passos e o harão de Almeirim
em f'antarenl. (\lacedo,
Nenhuma das conhec,idas tricas para levar a
Urna a dizer o que se deseja- como nos velhos
oraculos sagrados!- fGra esquecida pelo governo.
Os recenseamentos tae'S que não incluíam
nomes como os do marquez de :Xiza, do Fonte-
Arcada, do Felgueiras juiz no supremo tribunal, de
Gat·rett, etc. Incluíam, porém, mendigos e lacaios,
aguadeiros e defunctos ; incluiam nomes imagina-
rios, e soldados e marinheiros. As listas eram
marcadas: transparentes, pautadas, carimbadas,
ta1jadas, numeradas. Os individnos influentes e
perigosos eram presos arbitrariamente: assim acon-
teceu a Hezendé em Aveiro, a Balsemão em Pena-
fiel. Us governadores-civis distrilmiam aos galopins
mandados ae captura em branco. E unde as tricas
não bastayam: apparecia a força bruta. Em Al-
varães e Porto de 2.\Ioz houve descargas cerradas
de fi1silaria. D. João de AzeveLlo foi espancado
no Porto, onde as assembleias se rt:>uniam cercadas
de tropa, jnnto dos quarteis. O visconde da Azenha
teve de emigrar de Guimarães; o de Andaluz, em
Pernes, bateu a tropa com um bando de gente
armaria. Para Villa-Franca foi man0a e artilheria.
No a tropa ele bayoneta calada impediu a
entrada dos eleitores na assembleia. Por toda a
parte houve prisões, mortes em muitos lugares. A
Yiolencia vinha rematar o systema ele perseguições
fiscaes: iniquidade na repartição do imposto, cruel-
dade com os devedores das misericordias e irman-
dades, denegações de justiça, etc. (:\lacedo, Para
fo1jar um simulacro de parlamento, para aguentar
a sophismaç?l.o da doutrina, chegava-se êÍ maxima
tyrannia, atacando-se as mais necessarias garantias
dos cidadãos.
3.- A MARIA-DA-FONTE 183
Costa-Cabral venceu : se victoria se púde cha-
lnar a empreza qne o precipitou n'nma revolução.
No seio da sua camara unanime de clientes e
funccionarios expoz então o Yasto plano dos seus
projectos; mas na outra camara, os pares protes-
tavam clamorosos, erguendo-se acima de todas a
voz sibilante de Lavradio, e dominando a scena a
figut·a de Palmella que, moderado sempre, incli-
nava outra vez para o lado da opposição.
Cá por fóra os protestos corriam soltos e sem
piedade:
Que podemos nós esperar, rtnando a nossa vida, a nossa
fazenda, a nossa liberdade estão á mercê de um punhado
de devassos? Se esta nossa terra, se os nossos fóros e li-
berdades são emphyteose dos Bragauças ou fateosim dos
Cabraes? (Souto-Mayor, Cartas de Graccho a Tullia)
Os ministros são «doutores do pinhal d'Azam-
buja», que illudem a nação com «tretas vís»; são
-<<ladrões cadimos, salteadores, assassinos, trafican-
tes, ratoneiros, corsarios, bandoleiros>> ; e o povo
não ouve ? não se mexe ?
Povo ! meneia tres vezes a C'abeça, reflecte. Não tens
um pulso para a espada, um hombro onde encostes a es-
:pingarda, olhos para a pontaria, dedos para o gatilho '?
{ld. Ultimas adeus, 44)
3.- Â .MARIA-DA-FONTE
Accudiu o povo aos clamores dos que se apre-
sentavam como seus procuradores? Elles disseram
·que sim: á historia parece com tudo que o povo
era indifferente ás doutrinas e systemas da oppo-
sição; porque nem ellas tornaram complet:tmente
a vencer, nem o povo se levantou para as defen-
.der, quando a rainha por um acto de absolutismo
184 L Y.- O CARTISMO- I I
expulsou do go,·erno os homens que ali tinham
entrado sob pretexto da l\Iaria-da Fonte. Como
espontaneo rnovimento das populações, a revolução
do l\linho tem apenas um caraeter negativo.
contra os Calwaes, de quem a propaganda activa
fizera uns monstros mais que humanos, que appa-
reciam á irnaginação popular como réus de todas
as desgraças:
Comem as cearas os pardaes "?
E' por culpa dos CaLraes.
E' contra os impostos, contra os enterramentos
ern cemiterios ao ar livre,· contra a mobilisaçào
dos bens das l\Iisericordias, contra o systema de
leis que tendiam a consolidar o novu Portugal, a
acabar de arruinar um Portugal antigo que ainda
para as ruraes era o verdadeiro, o di-
toso, o born. Tal caracter se obsen·a no movimento
espontaneo das po!Julações, confiscado á nascença
pelos seternbristas como se fúra seu, e apresentado
sernpre como um documento J.a vitalidade e raizes
das suas doutrinas no seio da nação ...
Quando na camara dos pares os ataques sibi-
lantes de Lavradio ao conde de Thomar zuniam
corno o vento nas corclagens do nm·io ameaçado;
quando a eloquencia apopletica de José-Bernardo
se entornava para defender o irmão, ameaçando
terra, rnar e mundo; quando a batalha parecia de-
cisi,·a e final- chegou a Lisboa, subitamente, a
n0ticia de motins populares no ( 10 de abril}
O governo assu:;tou-se e os "limigos Esperaram.
Entre clarnores e protestos, votaram-se as leis
marciaes usadas em taes casos, porque nos rno-
mentos de crise o constitucionalismo liberal vê se
forçado a ahdicar: tal é a sua consciencia posi-
3.- A MAkiA-DA-FONTE 185
tiva. Suspenderam-se os deLates para irem come-
çar os tiros. A opposiç.ão tinha organisado por
todo o reino a sua machina eleitoral coalisrulrt : os
embryões das Juntas revolucionarias estavam for-
mados, a postos todo o pessoal dos partidos, para
accudir ao levantamento das populações, dirigin-
do-o,_ interpret;mdo-o. Por seu lado o governo
mandou para o Porto José-Cabral, a quem o odio
da cidade do Douro chamára o José dos Conegos,
e agora dava por escarneo o titulo de Rei-do-norte.
Levava, com effeito, o 1'ei poderes deticrieionarios
e a alma cheia de coleras, a bucca vomitando
amea<;as, o Lraço levantado para e ~ m a g a r tudo
com a sua furç<t. E assim que desemLarcou, passou
dos planos ás oLras, perseguindo, prendelHlu, amea-
çando, aterrorisandu, até que o oLrig<tram a vol-
tar, fugindo para !:.lalvar a vida.
E a tropa? .l\las que podia a tropa contra uma
suLlevaçào de facto popular, levantando a caLeça
por toda a parte, oscillHmlo, fug<tz, e nw,·ediça,
lavrando e minando, com a vastidão e moLilidade
dos fogos fatuos no vasto cemiterio de um reino?
O governo não tinha cem mil bayunetas, e tantas
ou mais seriam necessarias para pGr guarnição em
todas as aldeias, uma sentinella ao lado de cada
minhoto. O caso era diverso de -!-!, quando uns
batalhões se tinham pronunciado : outros Latalhões
ruais numerosos foram ter com elles, encerraram-
nos em Almeida, oLrigando-os a capitular. Que
praça ou curral havia, sufficientemente g1·ande
para encerrar meia população do reino e obrigai-a
a render-se pela fume? Praça ou curral era o
reino inteiro, e dentr·o da fortaleza a propria guar-
nição levantava-se. Que fazer? Onde accudir? A
força ensarilhava as armas pur não achar alvo de
pontaria; e do mesmo modo qtte a tropa reconhe-
1 ~ 6 L V. -O CARTISMO- I I
cia a sua impotencia, via-se em Lisboa a manada
dos agiotas correr, sumir-se, apertados uns contra
os outros, furando como os bandos de carneiros
acossados por um aguaceiro a trotar miudinho. Ai!
bancos estoirados, companhias fallidas, papellada
esfanapada! O balão dos calculos tombava enro-
dilhado, a Babel de algarismos caía por terra em
estilhas! Pobres fundos do conde de T•Ual, almoe-
dados em Londres! quem dava por elles um cha\·o?
No logar da Fonte, concelho da Povoa-de-La-
nhoso, no coração do l\Iinho, existia a que foi a
Joanna d'Arc do setembrismo. No 1\Iinho, como
em todas as regiões de stirpe ct:ltica,
1
a mulher
governa a casa e o marido ; excede o homem em
audacia, em manha, em força; ara o campo e
jornadêa com a carrada do milho á frt>nte dos
boisinhos louros. Requestada em moça nos arrayaes
e romarias pelos rapazes que a namoram, conver-
sando-a com as suas caras paradas, basta vêr um
d'esses grupos para descobrir onde está a acção e
a vida: se no olhar alegre, quasi ironico da moça
garrirla, luzente de ouro, se na phisionomia molle
do rapaz, abordoado ao cajado, contemplati,·o,
submisso, como diante d'um idolo. A vida de pe-
quenos proprietarios põe na familia uma a\·idez
quasi avarenta e na educação dos filhos instinctos
de governo. Quando se Cétsam, as lll•Jças conhecem
o valor do dote que levam, e os casamentos são
negocios que ellas em pessoa deLatem e combinam.
Não é uma esposa, quasi uma sen·a, que entra no
poder do marido, á moda semita que se infiltrou
1
\" . . ls rafas humanas, 1, pp. 19/-213.
3.- A !'.lARIA-DA-FONTE 1K7
nos costumes do sul do reino: é uma companheira
e associada ein que o espírito pratico domina soLre
a mollt-za. constitucional do homem desproviuo de
uma intelligencia viva. A mulher parece homem ;
e nos attritos da dura vida de pequenos proprit'ta-
rios, quasi mendigos se as colheitas escasseiam,
cercados ele numerosos filhos, apagam-se as lem-
b t ~ a n ç a s nelmlosamt-nte doiradas da luz dos amores
da mocidade, e fica do iclolo antigo um ruclo tra-
·- balhaclor musculoso, com a pelle tostada pelos soes
e geadas, os pés e as mãos coriaceas das ceifas e
do andar descalça ou em soccos nos caminhos pe-
dregosos, ou sobre a bouç.a de urzes espinhosas.
Não se lhe fale então em cousas mais ou menos
poeticas: já nem percebe as cantigas da mocidade
no desfolhar dos milhos!
A vida cruel ensinou-a: é pratica, positiva, dura.
Odeia tudo o que não sôa e tine, e tem um culto
unico-o seu chtio. Vae á egTt-ja e venera o «se-
nhor abbade», mas com os idyllios ela mocidade a
sua relig·ião perdeu a poesia: ficou apenas um ro-
sario secco de superstições, funda, tenazmente ar-
raigadas. Ai, de quem lhe bolir ou nos seus inte-
resses, ou no culto! na egreja, ou no chãosinho!
Ai, d'aquelle que para tanto lhe investir com os fi-
lhos, com o marido, que são para e lia os seus ope-
rarios. O sentimento innato da rebeldia, (que não
deve confundir-se com a independencia) essa vis
intima dos celtas submissos da Irlanda e da Fran-
·ça, existe no minhoto, com o lastro de presumpção
e manhas, d'oncle saem os nossos palradores elo
norte e os astutos emigrantes do B1·azil; com a
segurança que a vida responsavel e livre ele pro-
prietarios, não-salariados, lhes chi.
188 L. V.- O CARTISMO- I I
O systema cauralino, seccamente era
em tudo opposto ao temperamento do norte; e o
facto da CARTA haver siflo restaurada no Porto
mostra quanto essa empreza foi uma oura de quar-
tel e secretaria, sem raizes no coração do povo. O
governo, dt>pois, atacou as superstições, mandando
que os mortos se não enterrassem nas egrejas ; e
para que se veja quanto esta ordem judiciosa ba-
ti-a de frente os usos religiosos e quanto elles es-
tavam arraigados, basta dizer que ainda hoje por
todo o )linho se encontram villas, e não aldeias
afastadas, villas como Barcellos por exemplo, st'm
cemiterio. O governo queria ainda que a decima
rendesse o que devia; mas o povo que já esque-
cera o tempo dos dízimos, via no imposto lançado
por uma antlwridade para elle extranha, desconhe-
cida, a extorsão, a lrtdroeira, dos homens de Lis-
hoa, o ataque ao seu iclulo adorado: o chão la-
vrado de milho on de linho, a carvalheira toucada
de pampanos com os acres bagos de uma uva in-
grata pendentes em cachos negros.
E esses homens, que tanto exigiam, nem fala-
vam em Dens, nem em cousa alguma que os la-
vradores entendessem. Vinham sobraçando a pasta
cheia de papeis, com plu·aseados singulares, caras
desconhE>citlas, cousas extravagantes; e retorquiam
ás replicas eom a fusilaria dos soldados. Esses ho-
mens já tinham vindo a pedir-lhes o boto, e elles-
coçando a nuca l1esitavam; mas as mulheres, pra-
ticas, attewlendo ao antigo poder do senhur jidal-
e a submissão ingenita mand;m<lo obedecer
quando o ca::.:o era sem conseq nencia, tinham le-
vado os cam pnnit)S arregimentados, com o papeli-
nho entre os dedos, até á Urna. Qne lhes impor-
tava isso? ltléas dos fillalgos! e voltavam ao seu
trabalho.
3.- A MAlUA-DA-FON fE
Agora o caso era outro: enterrarem os pobresi-
nhos dos mortos como cães, n'um quintal! leva-
rem o nosso vinho e o nosso milho colllido com
tanto flnor: isso não! E em apoio cl'esta rebeldia,
vinha o fidalgo, vinha o padre (setembrista) com
sermões e falas doces, esconjuros e meiguices, in-
citando·os a resistir a quem lhes queria tanto mal,
tão duramente os tratava. O administrador era
mais cruel do que o capitão-môr, por ser de fóra,
e secco, bacharel, plumitivo; o senhor capitão·
mór, ás vezes, fazia cada urna ás raparigas! 1\Ias
o minhoto, naturalista, não é susceptível nos pec-
cados de carne: fraquezas humanas! l\Iuitas, mui-
tas raparigas, casam sem ser virgens, e isso, ape-
zar de sabido, não escandalisa.
A l\Iaria da-Fonte tornou-se o symbolo dos pro-
testos populares. A imaginação collectiva, provou
ter ainda plasticidade bastante para crear um my-
tho, uma fada, Joanna d' Are anti-doutrinaria.
1
O
heroe da revolução minhota devia ser uma mulher,
não um homem ; devia ser desconhecido, lendario :
antes um nome do que uma pessoa verdadeira. Na
Bretanha, os casos de Paris em 4 ~ eram assim
explicados : um grande guerreiro le dru Rolland
{Ledru-Rollin) saíra a campo para libertar a fada La-
lVIartyne (V. Michelet, Revol.fra11ç.J Os minhotos, affins
dos bretões, crearam um heroe feminino- guer-
reiro temível que iria a Lisboa bater esses tyran-
nos do sul conhecidos ainda hoje sob o nome de
senhor-Governo: um monstro mais ou menos defi-
nidamente humano!
Entretanto, parece que de facto houve uma certa
:Maria-da-Fonte que soltou o primeiro grito da se-
1
V. Syst. dos mytlzos relig. xn1.
1 ~ 0 L. V.- O CARTIS\10- I I
dição. A rebeldia, fomentada pela nova legislação,
declarou-se perante os e x c e s s ~ s dos tyrmmetes lo-
caes, bachareis enviados para o campo a ganhar
jus a um logar no parlamento ou nas secretarias.
Um cl' esses chegára a ferir com um guarda-sol o
pequeno de um lavrador, e o pae foi á torre da
igreja e tocou a rebate. Acudiu povo, queimou os
archivos, as papeletas da ladroeira, dando «1\Ior-
rasl> aos dois Cabraes, .(D. João de Azevedo, Os dois dias de
outubro) e marchou sobre Braga. (:\lacedo, Tr.Tfos) Nas
villas e cidades a tropa levava a melhor, porque o
numero vale ahi pouco e muito as armas: eram
fusilados á queima-roupa. ::\Ias nos campos podiam
tudo: se a tropa viesse, abafavam-na. Kem tinham
espingardas, nem poh·ora: só cajados, foices, ma-
chados, chuços, e era o bastante. Xa Senhora-do-
AI vio reuniram-se mais de dez mil. <lbid.J E os pa-
dres e os fidalgos applaudiam, incitavam: o conego
l\Iontalverne, o padre Casimiro, o padre José-da-
Lage, e os Costas, o Peso-da-Regua, o Balsemão.
Os fusilamentos, os confiscos, as prisões, toda a
pasta draconiana de José Cabral, do Porto, era
inutil : via-se a fragilidade da força cabralista.
Do ::\linho, a sedição lavrou, perdendo o caracter
popular, tomando um caracter militar e politico. A
1\Iaria-da-Funte ficava na sua aldeia: apenas o no-
me, como um ecco ou um rotulo, ia de um lado a
outro do rt=>ino. Por toda a parte nascem logo Jun-
tds. Toda a força do rei-do-norte estava na divisão
do Yinhaes; e quando o general, bandeado ou com-
movido, lhe disse que não bateria no povo, o rei
emalou os papeis, fugiu do Porto, abandonando tudo.
rlbid.J Do :\linho a revolta, galgando o Tamega, en-
controu em Traz-os-1\Iuntes o conde de Yilla-Real
para a commandar e os Carvalhaes para a fomen-
tar. As authoridades, corridas, foram fechar-se na
3. -A !\lARIA-DA-FONTE
praça de Chaves, soL a protecção do Yinhaes que
passou para os do povo e lhes entregou a villa.
Appareceu um programma: era a voz, o grito,
a reclamação da )lm·ia-da-Fonte? Xão; era, ape ·
nas uma comhinação de politicos moderaflos, que
nem sequer exigiam a restauração do setembrismo;
que apenas reclawavam a dissolução das côrtes, a
queda do ministerio, a organisação da guarda-na-
cional, e a revogação da lei do imposto de repar-
tição (•9 de abril de 45) da reforma da magistratura
(I de agosto de 44) e da lei de saude. (26 de novembro de 45•
(V. Ignacio Pizarro, ,1/emor. de Chaves) X o Porto governava
uma JCNTA, e a Extremadura, sob o commando de
:l\Ianuel Passos, tinha em San tarem uma capital pa-
tuléa. Outro já, com sezões e desilludido, o Passos
de agora apenas reclamava a demissão dos CalJraes:
a sua JUNTA dava vivas a «todo o existente».
(V. a Proclam. da Junta de San/arem) De um movimento po-
pular espontaneo formara-se uma sedição politica;
e a fraqueza doutrinaria dos politicos coalisados
via-se n'este momento em que, omnipotentes, redu-
ziam a grande revolução á condemnaçào pessoal de
um homem. Expulso elle, conservar-lhe-hiam as
obras, porque nada melhor podiam pôr em seu lu-
gar, caso as supprimissem. Singular revolução, de
que os chefes são logo os suffocadores !
l\Ias em L is boa, no paço e no governo? O des-
tino fatal dos audazes sem apoio, dos que, arrasta-
dos pela consistencia dos seus planos, imaginam que
planos bastam para crear elementos de
dos que embriagados pela força e pela vida pro-
pria não observam a inercia alheia que só pede
socego e atonia e por isso é a primeira a renegar
192 . L. V.- O C:ARTISM')- I I
as temeridades, as ousadias; o desejo de ser e mo-
ver-se; o fatal d e s ~ i n o dos audazes n'uma socie-
dade cachetica, perseguia o temerario ministro. O
seu edificio abria fendas por toda a parte. Os que
o seguiam por collvicção entibiavam; os que iam
por interesse, fugiam, renegaYam; os fanaticos co-
meçaYam a descrer, desde que viam sossobrar o
homem furte; a clientela dispersaYa, o exercito
bándeava-se, a banca-rota batia com a mão des-
carnada á porta dos templos da nova religião do
Dinheiro.
Üd Cabraes pediram a sua demissão. á rainha.
Batiam, arrependidos, nos peitos, confessando o erro
da sua audacia, os crimes do seu goyerno exces-
sivo e tyrannico? Não. Elles eram ambos feitos de
ferro e fórmulas: homens que cáem, mas não se
curYam. Duros beirões, faltava-lhes a humanidade
sincera e bondosa, que se torna em scepticismo no
decair da Yida-a humanidade de um Passos-sem
terem tampouco as manhas beiroas dos descenden-
tes de Yiriato, á maneira de Rodrigo. Caíam, por-
()_Ue o exercito faltara; caíam porque houvera um
terramoto e abatia-se-lhes o chão debaixo dos pés;
caíam porque os derrubavam e não porque desces-
sem. Caíam porque «O presidente do conselho e
ministro da guerra e como tal commandan te em
chefe do exercito, no momento em que deviam des-
-envolver-se as forças do dito exercito, declarou não
ter força e que o unico meio de debellar a revolta
-era a prompta demissão do ministerio)). r.uanif. de Ca-
.dzx, 27 de maio de 46) Para que tinham arrastado o mol-
le, caprichoso, aristocratico duque da Terceira a
em prezas arriscadas? Elle não tinha opiniões, e
por isso não percebia o valor d' ellas para os outros.
Achara excellentes os Cabraes, emquanto vira n'el-
les penhores de ordem; mas, doutrinarios atrevidos,
3. -A MARIA:DA-FOi'TE 193
bulht'llt•Js, "1-'iniosos? Nunca. Porque n:to tinham
os miuistr•J:'> pt·eferido mais llOm··m, nvtis
denrHlarl", menus escnlpul•Jso, e, p •r genin, tã.o
amig-o ela:':\ aventuras quanto u collega o era da
plaeidez Lem ordenada"?
A!:\sim renP-g;adus por totlos c:tiram os Cabraes,
(iU •le maio) fugindo elo reino para He:-;panha, ho-
rni:Úatlos cumo réus. Em tal passo a rainha não
via para onde voltat·-se. u g•JVerno <i
l\la1·ia-da-Funte? 1\Ias a lavra,leira dt> Lanhoso não
cheg·ára a Lisboa: vieram apenas o nolllt:' e os ma-
nifestos das Eram elles o nnnifesto do p(JVO l
Não eram. () povu s•j manifestára hotTur a ..-uter-
rar-se nus campos, recusa a pagar a decima, e odio
aos cabralinu:s. )Ias na1la •l'istu pudia
faze.- um plano 1lt: g.,vern•• novo, e nma no,·a ex-
périencia de liLeralismo. As upposições, coalisan-
do-se, tinham em parte abclicarlcJ. U mi.g-nelismo
resuscitava, dan•lu mà.os aos ra,licaes no mro
do:s partidos e pelos confins das pt"o\·incias. Xo
norte do D.mru, na Beira burbulhanun esperanças;
em Evot·a <10 e:spirito dos seus habitantes he mi-
guelista ou setembri:ita», rliz o curon,_.l do corpo
em officio para o genet·al fla di visão. rCorr. autogr. de l{e-
zende) Que pudia ser a da re\Toluçã.o, imagem
de Jano, olhando para um passa.lo perJidu e pa1·a.
um futuro chimerico "? 1\Ias qne surtt' esperava a
rainha dépois da ruína rl'essa cohc11·te com que se
tornára soli•laria? Não h:wia no ho1·isunte politico
sol novo para adorar; mas havia por detraz do
th1·ono tres astt·us mais ou menos • p•)-
rém ainda utilisaveis. Façam-se ministros_ us tres
chefes: Tt>t"cc:ira, Paluwlla. Et·a o expe-
PuRT. CONT. -TOM. II
13
L. Y.- O CARTISMO- I I
diente mais acceitavel; embora o primei1·o, que an-
dava por r.·,ra, em Bruxellas, não quizesse intervir.
(Carnota, 81em.)
Porém as JUNTAS acreditavam que tinham ven-
cido, e o setembrismo chamava sua á l\Iaria-da-
Fonte, reclamando os despojos da guerra. Palmei-
la, por seu lado, queria voltar á ordt:m de 38,
continuando em 46 a historia interrompida pelo
episodio cabralino: alastrou pois o gabinete com
elementos ordeiros. (.:\Iousinho-d'Albuquerque, La-
vradio, Soure; 26 de maio) Terceira retirou-se.
Restaurada a ordem, o reino foi dividido em. tres
cabendo o do norte ao visconfle de Beire,
o do centro a Rodrigo, o do sul ao ministro )lou-
sinho. A Revoluçi"lo de Sett:mbro, escarnecendo,
chamava a isto a divisão do imperio romano (7 de
junho·); e as JL'KTAs, vendo empalmada a que sup-
punham ,·ictoria sua, protestavam sem desarmar.
Em vão o governo se cansa,·a, cal-
mantes em circulares mansas e sensatas, cheias de
uncção e esperanças, chamando o povo a decidir
dos seus destinos na proxima w·mtda lin·e. Em
vão chamm·a para casa os emigrados ue Torres-
O\Tas, fatigando-se a mostrar que todo o mal vi-
nha dos Cabraes, agora expulsos. Os emigrados,
recordando 38, com José-Estevão á frente, entra-
ram como em triumph , desde a fronteira até
Lisboa. (Oliveira, Esbo;o lzist.J Traziam a paz? .Xão; a
guerra, cantando:
::;e é lin·e um povo. não quebra
De Xeros as correntes!
N eros eram os Cabraes, mas não menos o era
Palmella, com as suas branduras, impedindo a vi-
ctoria da democracia. Estava-se outra vez em 38:
3.- A MARIA-DA-FONTE
l!t;,
mas porque motivo se rest:uu·ara a C-\RTA, s.-.não
porque a o·rdern de Dumtim-R•)(lrigo t-ra uma des-
ordem insupp•>rtavel! Estava-se outra VE'Z em
ma:i acaso t'ntà.o a flemocracia annuira? Como an-
nuit·ia pois agora? Os jornaes vermelhos protesta-
vam contra a paz; a:; Jl"NTAS não desarmavam,
por não quererem perdPr uma victoria qut-> julg;n·am
sua.
Parece qne o gon'rno fez pacto com n flialJo e filie for-
ceja vor nos commandns homens nos quaes o povo
não confia nem p•'•dc confiar. r'l{ç1•ol. de Set. 3 de junho)
Os militares não <JUerem as demisstJCS Leve-lh"as o
ministerio cscriptns em sangue. O thrnno uào C)lH'r abraçar
de,·cras o vovo '? Pois retire-se o ministcrio do seu lado. E
se a c•irte vier depois para nos abrir os l11·aços. já temos a
prompta,-:- é muito tarde! tGr;tfJ :-de junho)
Vida nova! Começar outra vez! Cc'Jrtes consti-
tuintes! eis nhi o clamor de toda a esquerdá, jul-
gando-se o ecc() do povo, a voz da l\Iaria-da Fonte,
vencedora contra o throno, contra os Cabraes,
contra a ordem. Palmdla, oscillando, bolinando,
na sua. esperánça de fundar as cousas sobre o
equiliLrio, mE'tteu novo lastro no governo, lastro
mais seteml.Jrisfrt -Sá-da-llanflt>ira, .Julio GL'meg e
o antigo Aguiar. Estavam satisft->itos?
A muito custo de rogos e promt-s8as se conse-
guira o desarmamento das JUXTAS. Xo Porto as
authoriJadt-s foram de chapéu na mão pedir por
favor ás forças populares que dt-bandassem; e em
Santarem viu-se clifficuldade ainda maior, mais gra-
ves perigos. Os patuléas, em VE'z de reconhecer o
governo, queriam marchar soln·e Lisboa e le\·al-a
de assalto. O bum Passos levantou-se da cama
onde curtia a fdJre das St->ZÕt-s ribatejanas, teve de
montar a cavallo acompanhado pelo GalamLa, para
1 L. \·.-O CARTIS!\10 - I I
cortar n pa!'So its forças c1ue, depois de se armarem
nus· clt->positos arromLados, iam já em Villa-Franca.
(\lacedo, 'Tr.1ç"sJ O desilludi1lo tribuno chorou, pediu,
rugou, e o seu prestigio antigo salvou Li:::;Loa da
im·asllu. Ko meado ele junho as JUNTAS estavam
dissoh·idas; no nwiado de julho (I entravam os
setembristas no gaLinete. EqniliLraram-se as cou-
sas, a ordem, selluu-se a paz? Não; nin-
gnem o creia. Como p,),le haver paz quallfl•J não
ha pão? quando a capital e o reino ardem n'nma
crise? quando a agiotagem intriga para se salvar
do naufragio? De certo se não· acertou com a Yer-
dadeira estrada: ha que voltar ao ponto de par-
tida.
Qual? O radicalismo do Sac'l·amento diz que a
1\laria-da- Fonte quer liberdades e constituintes. Os
conservadores, os agiotas no Banco dizem que o
reino e a riqueza c1uerem CARTA E' calJralismo.
Qual dos dois levaní a melhor? Nenhum; e st) de-
pois de terminada a guf'rra que vae começar, a
liberdade reinará soLre o vasio das idéas, com o
aLsolutismo dos interesses.
III
.._-\_ ( iT J E H H \._ C I \" I L
1.- O lj DE O"CTCRRO
N'este dia, pelas dez da noite. a rainha
ao paço o duque presidente elo conselli•J, e fechan-
do-o por sua propria mâ.o n'uma sala obrig·on-o a
lavrar o decreto da sua demissão e o da nomf:'açào·
de :-;aldanha. Era uma segunda Belemzacla '? Era;
menos Passos e a guanla-nacional, menos Van-der-
'Veyer e os soldados inglezes. A educa<;à•1 liberal
progredira a ponto de crear entre os puliticos um
partido de absolutismo e rle reclnzir á impotencia
a sobe'rania nacionaL Era outra Belemzada, e a
desforra de Ruivães; 1wrque aos marechat:>s venci-
dos f:'lll 37 confiava a rainha agora a lleieza do
seu throno. Saldanha pt·esirli:t o governo, Terceira
ia para o norte socegar o Porto ( depois da pa-
rada da no Ten-eiro-do-Paço, onde a trnpa
a(·damára a CARTA. Estava definitivamente aca-
bmla a Maria-da-Fonte, restaurado o cabralismo,
mas SPin Cabraes apparentes. Saldanha
de lhes obedecer no qne mandassem: e íle os
defender e rehabilitar até dar tempo a uma repa-
triação por emquanto prematura. Desdi:' largos
annos, dez ou onze, que o marechal clesct:'ra. a
não poder servir para mais do qne para instru-
mento da politica alheia.
L \'.-O CAH.TIS.MO -III
Depois das snas campanhas tliplomaticas de
Londt·es e de )[adrid (emquanto durou o incidente
irritante fla navegação do Douro), o marechal,
desnecessario e incommodo, tinha sido enviado para
Vienna no outomno de 41 a gozar os ocios de uma
espectaculosa embaixada. A rainha e os seus con-
fidentes tinham-no lá de reserva para u momento
em que fôsse necessario, quawlo t:>lll 42 a restau-
ração da provocou a scisão do cartismo. Con-
tra os CaLraes, inclinando para o st:'tembrismo com
u qual ,·ieram a colligar-se, os ordeiros (Rodrigo,
Palnwlla, Silva Carvalho, etc.) preparavam com in-
trigas as dt>sordens que os r:ulicaes fo1javam em
TotTt:'S- u\·as e AI meida. Em Vit:>mut, o marechal
applaudira a rt:>staur:u;ão da CARTA; e sendo em-
baixad••r portuguez, era o contidt:>nte do Paço que
tinlm Dietz por orgão: <<O paiz inteiro está tran-
quillo t:> tlett:>sta- á excepção de alguns velhacos
ou doidos -a revolução que vegeta em Almeirla.
(27 de mar.;o) Se as intrigas de Pahnélla e Silva-
Can·alho não tivessem ,·indo naufragar perante a
firmeza de S. 1\I. a rainl1a e perante o bom-senso
da nação, estm·,:wnos j{t a caminho de o
poder ans setembristas t:' rle vêr rt>Ínar t>lll breve
tempo Bomfim, Cesar e c. a)) (25 de de 4-l· Cartas de
1 )iet7 a em Carnota, .Uem.J
O pobre marechal ia servindo. Em Lisboa re-
ceia,·am qne elle voltasse, e que, dando ouvidos,
como sempre dava, tentaçõt:>s da lisonja, viesse
complicar mais as questões com o seu genio aven-
tttreiro, o St>U prestigio militar e uma provada nul-
lidade politica que ·o entregava :iqudle que melhor
o soubesse assoprar. «Fique onde está, escreviam-
lhe d'"' Lisboa, porque pt:>nso que ainda hade ter de
salYar a rainha dt> ser posta pela LaJTa fúra)>.
(Carta de Reis e Vasconcellos, 9 de março de 46; em Carnota, ibi.:i.J
1. - O 6 DE Ot;TUBRO 199
A ::\Iaria-da-Fonte rebentou quando Saldanha se
achava na Belgica. Com os annos, :ts raizes catho-
licas do seu genio reverdeciam e entretinha-se a
Quvir sermões em Liege, opinando entre o merito
relativo dus prégadores. tibid.J Desde Yienna que
trazia em plano uma grande obra : a concor-
dancia das sciencias com os mvsterios da re-
ligião, e o alcance do seu espírito "'vê-se n'estas li-
nhas escriptas ao futuro cunhado, para Inglaterra:
«Peço-lhe que indague ahi quaes são os melhores
authores, antigos e modernos, que tém escripto
sobre a existencia de Deus e a immortalidade da
alma; quaes d'essas obras se p(•dem obter e seus
preços». (Carta de 31 de maio de 46, ap. ibid.J Já então Por-
tugal ardia em guerra, e Saldanha deixou a scien-
cia pela politica : valiam ambas a mesma cousa !
Embarcou em Inglaterra, chegando a Portugal a
23 de julho.
Quem o conquistaria? Palmella com o seu go-
verno? Os radicaes? O paço? Facto é que todos
<> queriam, todos o adulavam, todos lhe chamavam
salvador da patria, homem unico, arbitro, etc. ; e
o marechal, inchado, não era capaz de medir o seu
valor, nem de aferir a verdade das adulações . .Ao
mesmo tempo que cada qual o queria ganhar
.a si, todos receiavam as tentações alheias, por
bem conhecerem com quem tratavam. A rainha
déra ordem para que de bordo fusse directamente
ao paço, «Sem falar a ninguem antes». ICarnota, .\Jem.J
Elle fui, e conta rCurtissima expos. etc.) que a rainha o
.advertira dos planos dos cabralistas, dissuadindo-o
de tomar a direcção do movimento que se prepa-
rava contra os actos de maio e junho, passo que,
na opinião d'ella rainha, augmentaria em vez de
diminuir as desgrat;as da patria.
:-;aldanha principiou, pois, por não ouvir os pe-
2011 L \".-O CART!Sl\10 -I I I
didus dos cahralistas que renegavam os Cabraes
pur terem J'llfjiciiJ (O d. de s,,u. e o c. de Tlwmar, anon.) De-
pois mudou: a rainha mwlon tamLem. Agora Leo-
nel e os setembristas queriam seduzil-o; Palmella
cht"gon a oLter d'elle :mnnencia para a expulsão
dos CaLraes do Conselho rl' mas, pelo fim
de ag-osto, já n nwrechal se entenrlia com Gnnza-
lez Dravo, ((lte1· de C'aLral em Lisboa. O seu
amigo How:ud, da Inglaterra, :ulver-
u particularmente, como a uma crt"ança tonta:
fvr Gvd's su/;e, lw Cffltli(IIIS!- tenha juizo. pelo
amt•r rle !Carta de :.>9 .:!e agosto; em Cm·nota) A In-
glaterra nã.o approvava de mudo algum a restau-
nH;ão c:dwali:sta e foi o qne se viu
clanllllt"nte no da A preponderan-
cia da influencia frnncu-lu-spanhula em Portugal
não lhe convinha.
Entre as varias tent<tçilt>s com que o disputavam,
levou por fim a m(:'lhor o Em 24 de
sett"mLru acceitou a }JI·esidencia d'esse partido; e de
l\ladrid, o conde de Thoma1· confessou-se-lhe obe-
diente snld:Hlu. Com a sn<t fílfa basufia, Saldanha,
ing"'mwmente pacifico, propôz a Palmella um mi-
nistPrio de conciliação. Pois se elle em pessoa, elle,
o grande mhrechal, queria a paz e se lhe sacrificaYa,
-elle o arbitro, elle u tudo! PuLre infeliz que não
via em si aquelle f1·onco de que José Liberato nos
Íêtluu! PuLre simples, sem talento, de que a :mar-
chia <tpenas fazia um chefe- corno a cortiça que
tam Lem Loia e co1-re sobre a agua reYoh·ida! Pal-
nJella recusou; e então· o mareC'hal sentiu o passo
que déra e como estaY:t obrigado a ir até ao cabo,
a rt>presantar o papel para que, sem o sHher,
muito a rainha o escollter<l: seu marechal, d'elln e
do C'Onde de Thomar.
Et·a indispensavel outra ·Belemzada; e Saldanha
1.- O lj lJE Ol"TUBRO 201
que assistira á primt-ira, receiava o. No paço esta-
vam f'lle, a rainha, o esposo, o padre .Marcos e
Dietz: n'essa confereuci:1, a soberana t:oxpôz o seu
despeito e o st:ou plano. Saldauha observou a S. l\1.
que se nâ.o fôsse bem succedido e nào morresse na
empn·za, seria ineYitavf'lnwnte fusilado, e t:olla, a
rainha, expulsa do reino. O professor ohjectara ser
n't:osse caso mt:olhor ptlr de parte o projecto, ao que
a rainha, voltando-se para o marechal, retorcptira:.
«Deixa o lá; manda-o para um con,·ento de frei-
ras. Antes quero perdt>r a corôa do que seguir
st>ndu insultada todos os dias. filr necessario,
tamLt>m t>u sairf'i, tamLem irt-i ás )).
(Carnota, .\/cm.) Pittm·esco esboço de uma scena da
Edade- media !
Terceira, porém, nfio era como Na
sua mansidão t:ora. gra,·e, e Sf'rio na sHa curta capa-
cidade. Aristocrata por temperamento e
esti,·era t>m ::m ao lado do rei, contra as cDrtes ja-
coLinas; mas desde que mudara f'lll 2G, conser-
vou-se o mt-smo Sf'lll}Hf'. Bondoso t' pHcato, brioso
e valt'ntt-, nada chimerico, amando u Loa-vida e o
cump•·imento dos deveres, nâo era odiado pt>lu:s ini-
migos, t>mbora fôsse o apoio mais seguro do tltruno
liberal. E mais seguro, dizemos, porque a sua
são não proviera f'lll :?G de uma opinião favoravel
á doutrina Ja CARTA: opinião que tf'ria mwlado
sem duvida, como a tantos outros, a tudos, suc-
cedt>u.
A sua arlhesão provinlta de uma prt>ferencia pes-
soal por D. Pedro, de quem se sentia o Vêtssallo,
o homem-ligio: para onde o imperador filsse, llll a
rainha sua filha e herdei1·a, ia ello. De doutrinas
não sabia; tinha só instinctos, sentimentos, e es-
i02 L. Y. - O -I I I
ses eram aristocraticos e conservadores; nem po-
diam ser outra com a linhagem. o tempe-
ramento e a educ-ação do duque. O constituciona-
lismo, e as fúnnulas e discursos, eram ape-
nas uma distracção e um habito do seu genio: cus-
tar-lhe hia a vi,·er sem o systema representati,·o,
porque o entretinham muito os debates da imprensa,
as discns8ues do parlamento, e não podia passar
sem as animadas e ás vezes cltistosas
dos corredores da camat:a. l:\lacedo, <Jr,lçosJ Cortezão,
homem-do-mundo, era um persunag-t>m rlas antigas
curtes arrastado para a vida do liberalismo bur-
guez pela fidelidade ao suzerano.
Se a demagogia o irritava, provocando n'elle
um odio desdt?nhoso, o das Archotadas, o dos
tumultos de Lisboa em H;), etc., a burguezia
de petul<mtes parvenus provocava-lhe uma frieza
ironica. As'3im, repellira os Cabraes do governo,
negando-lhes o exercito contra a :Maria-da- Fonte;
mas logo se retimu tambem, por não ter aquelle
desejo pueril de Palmella de nilo ficar de parte.
Xàu pactuaria com os patuléas como o diplomata
pactuava com elles, com todos, com o diabo em
pes:;ua, a ver se conseguia e'ptiliúrr.lr um throno,
ou um monte de degraus desconjuntados, para
sobre elle reinar com a sua moderação e a sua sa-
bedoria. Yendo-o assim descer, inclinar-se para a
democracia clamorosa, Terceira naturalmente se
arrependeu do acto de abandonar os Cabraes á
condenmação popular e de certo as cnmhinações
que tinham precedido a « revolta dos marechaes >>
(_3T) se renovaram para uma outra a\·entura. )las
os conservadores tinham feito dos Cabraes nutis do
que chefes, uma bandeira, e não viam no seu gre-
mio pessoas que, em talentos, em coragem, em au-
dacia, pudessem medir se com elles. (:\laceJo,
1. - O 6 IJE OCTCRRO 203
Os (;aLraes E-stavam t-m Hespanl.a, onrle tamhem
reinava o calJndism.o da união-liberal, e de accôrdo
com o reino vi:únho, podiam suffucar-se de uma vez
a demagogia e o miguelismo q ne ameaçava levan-
tar cabeça. Costa-Cabral governaria de f{n·a o
barco n't-sta sua nova derrota, Saldanha ficaria em
Lisboa, Terceira iria para o norte.
E a rainha? Que papel Pra o seu, n'esta segun-
-da aventura, j<i o vimos. Não sú apoiava: insti-
gava, ordenava. Não tremia jogando talvez a ca-
bt-ça, decerto a corôa, porque tinha coragem para
tanto; porque essa corôa estava, ou pensava ella
estar, em maior perigo, antes, do que depois do
golpe-d'Estado. ~ e se não pozesse cobro á dema-
gog-ia- e Palmella não qut-ria, não sabia, ou não
podia fazei-o!- a historia precipitar-se-hia; e de-
vemos lembrar-nos de que as recordações dus casos
-de Paris e da sorte de Luis xvi, que por falta de
audacia morreu, davam fundamento á resistencia.
A rainha, por não te1· a perfidia de um Luis Phi-
lippe, não podia sophismar o systema: atacava pois
-de frente, com audacia viril, á portugueza. Filha
-de reis, fiJra educada por me:;tres que lhe ensina-
vam o caLralismo como a expressão pura do sys-
tema lilJeral. A sua sinceridade noLre não preten-
-dia ao absolutismo antigo, mas q u ~ r i a a doutrina
-da CARTA de seu pae, repellia com energia os ataques
-da patuléa reproba, pé-jJ·esco_, ataques dirigidos ao
seu caractt-r soberano e á sua honra de mulher.
Havia pois uma guerra declarada t-ntre a rai-
nha e o povo, assim a patuléa se dizia. O hymno
20! L. V.- O C.-\RTISl\10 -I I I
da )[aria-cla-Fontt> enntava-se com uma Iettra fran-
camt>nte denunciadora de> estado dos ammu:-::
Appn'tHle, rainha, apprende
)lede ag-nra o teu pndcr:
Tn tle um lad(,, o poYo (]"outro,
Qual dos dois hadc Yencer!
)las e:sse sentÍUlt'lltu propag-ado da hostilillade
da coní:t, sentinwnto que ganhara com a
vwlencia e os crimes do gcwerno cabralista; essa
percepçà.o vaga de um direito novo, de facto "P-
postc1 ao direito sagradn dos monarchas, quando-
queria transformm·-se t>m opiniões e prngrmnmas,
só produzia as :mtig-as chimeras jacobinas, flt->s-
acreditadas; e se
7
por nm dos acasos da Iucta
conseguia vencer, era derrotado pela força elas
cousas (como em setembro), dessoranrlo-se logo na
mão dos mediocrt>s (_como em e ctgora), se
entregar á moder:•çà.cl palmellista. A doutrina li-
bPral achara em Cahral um homem; a duntrina de-
mocratic:t nào o achava, n:lo o podia ach:tr, porque
longos armos, ainda não decorridos, seriam Iwces-
sariu:s para clwg:ar a definir os princípios organicos
do direito novo.
( ):; programmas dos democratas em 46 eram
uma repeti<;fio fle :-;t>temhro, já renegado pelo seu
homem eminente, Passos ; e com rc1zâo se previa
que a dictaclura ele José-Estevfin não seria nutis
flo que a rt-petição ag-gTaYada das scenas anarchicas.
de b:tvia dez annns. perliam, do seu club do Sa-
CI amento, .José-Estevão, Fosccía l C:uupos ),
paio e os socios, na das elei<;ões imll'penden-
tes :mnunciadas por Palnwlla do govemo? Consti-
tuinte! a antiga p:macéa 8etem hrista: mas- oh,_
fatal condição das chi meras!- os que exigiam
uma nnva, saícla da vontade do
1. -O lj L>E OCTCBIW 205
iam ao mesm'J tempo dizemlo jêí. qual essa vont:tcle
ha,·ia de ser, e o que a constituiçâ." havia de fi-
xar: ,,Proclamação da sobenmia naci •. nal como fc.nte
de toda a authoridatle:- Reforma da camara dos
pares;- Eleições de as-
sociação e de imprensa;- Approvaçâo d.,s cun·
tractos pelas côrtes;- Reorg·anisac;ão (la guarda-
nacit.nal;-Economias na despeza até equilihrio do
orçamento;- Reducção do eftectivo do f'Xt->rcito;
- do conselho-cl'Estadu;- Fumt>nto
industrial e economico;- Rt>fonna da lei da re-
gencia, para que esta não pol::l8a recair em extran-
geiro, embora uaturalisado;- Exame dos contra-
ctos desde 42 e abrogação dus ilh .. gaes:-
nali8:Içà.o do pessoal da casa real;- Pruhibição
deputados rect>bert>JU emprt>gos ou lllt>rcês.
l V. o .\J,mif. Ja Ass. eleit. setembr. S out. 461
Era um rol de receitas infallin,is: a patria se-
ria, St'lll duvida alguma, sah·a. )las qut>m analy-
sar, cada uma de per si, as propostas, e todas no
seu conjuncto, obtem uma singular. Não
toruaremos a falar já da cuntr·aclicção org.:tnica in-
dicada antes; não entraremo:, nu minucio:;o estudo
do papel. Acima de tudo, Yt>mos: constituintes,
eleições directas (mas que o govecno n:lo possa
comprar esses soberanos repre8el1tantes elo povo
sobt->rano!) e guarda-nac.hmal, isto é, a volta a
Ora os dez annos decorridos e as confissões
do proprio Passos não seriam uma resposta cruel
a tribunos tão ardt>ntes, mas tà.u pouco
A precipitat;ão com que as cousas, entregues ús mãos
já trémulas de Palmt>lla, iam pe1Hlendo para o ladn
da •·evoll!(;ão, é um dos motivos rla decisâu toma(la
em (j de mas no programma dn Sacramento
lemns items que obrigam a scismar: Fomento t:-co-
nomico? Economia na despt:-za? Exame dus con-
211(j
L. \".-O CARTISMO -I I I
tractos?- Que intenTen<"ã.o é esta da tinanca nos
projectos dus ideulog-ns," tão mal conceituaclos fa-
zendistas?
E' que a solução 'Ti.,lenta de 6 de outuln·o foi
tamLem determinaria pelo crescer da crise. A ~ I a ­
ria-da-Funte declarara a; e os seus ministros nem
a sabiam resolver, nem pofliam com os agiutas,
suzeranos do Thesouru, ameaçados de urna ruina
total. De abril a junho o 5 pur cento Laixa,Ta de
G7 a 50 e com elle, na mesma razão, todos os pa-
peis de bolsa. Tres dias depois da queda de Costa-
Cabral, declara,·a-se o curso forçado das notas do
hanco. 1Dec. :!3 de maio) Hou\Tera uma corrida, e os
cofres ficaram vasios: todo o pwducto da emis-
E-ào, e mais ainda, esta,·a no Thesonro. De tal fór-
ma se tinha mascarado por quatro annos a sua
pem1ria: fílra como uma restauração de papel-
moeda; e agora
7
decretado o curso-forçado, era de
facto outra vez a pr<1.ga que 34 quasi supprimira.
]\Ias se o Banco e1·a credur do Thesouro, e o The-
souro lhe não podia pagar, que havia de fazer o
governo? Importar dinheiro? D'onde? com quê?
Pedil-o aos agiotas? Elles, em vez de darem, pe-
diam, reclamavam, e obtinham tambem uma mo-
ratoria para as promissorias da Conji•mça, que de
outra fôrma quebraria. (Dec. :!9 de maw) Tambem o di-
nheiro d'ella feira todo parar ao insaciavel Thesouro
portuguez faminto, desde 1 R20 até hoje, e talvez
para todo o sempre condemnado á fome.
E a 1\Iaria-da-Fonte, a que reclamava em pro-
grammas o exame dos contractos, era a propria
cujos ministros aggra,·a,·am a crise, tornando soli-
darios o Banco e a ('onjirmça, preparando a ruína
1. - O fj DE OL"TL"BRO 207
já começ:ula da emissã.o fiduciaria portng-ueza. E
porque? Porque esses ministros, e todos, eram for-
çados a obedecer á aristocracia noYa creada pela
liberdade: com a differença de que un5 a reconhe-
ciam, e outros, nem por se relJt ... lJarem cnntra
ella, eram menos os seus servos. Em i5, o b por
cento ainda valia depois do flec1·eto (lt:'
desce a 60. Nos primei1·os dias de ag-osto as notas
rebatem-se a -!00 e 480 rs. (V. Boletms da bolsa, nos 'Dim-ios)
Os financeiros perdiam-se, olhando o Thesouro
vasio; e sob o nome de economias 1lecretavam uma
banca-rota duas vezes má: porque remata,ya a
crise, acabando de arruinar o credito; e porque
cerceava os vencimentos dos empregados, sem
ficarem com isso habilitados a pagar o resto dos
juros, nem dos orde11ados. A divida interna, com
o desconto de uma decima, recebia segunda; e duas
de uma vez a externa. Perdida a esperança de
emprestimos extrangeiros, podia-se, com effeito,
cortar as unhas aos judeus de fúra. Ao mesmo
tempo, os empregados soffriam urna deducção de
duas decimas. <Dec. 21 de agosto) A bolsa fecha: não
ha quem dê um real pelas inscripçues; (18 agosto-
setemhro) e o rebate das notas cresce, cresce sem-
pre. Já tinham expirado as moratorias e, como
expediente, prorogaram-se por mais quarenta dias.
Os tortulhos nasciam da crise: agiotava-se larga-
mente em rebates.
E não se via o meio de sair dos embaraços, por-
que as declamações contra os Cabraes nada faziam;
e a victoria do setembrismo, com as suas cllime-
ras de rectidão, com a sua incapacidade financeira,
não conseguiria nas eleições proximas senão quei-
mar tudo ... E depois? depois? ... D. )liguei? A
Hespanha? A cabeça andava-lhes á roda.
Em 1 de outubro uma medida acompa-
L. V.- O CARTISMO -11 I
nha.la de cunselhos prudentes e exortações patrio-
appareceu no J)irtrio. As muratnrias, o cm·so-
força•lu da:; notas pt·orugavam-se até ao tim do
ann••. n:lo have•·ia mais agiota-
gem, ponpte o g1J\·erno punha um fiscal seu no
Banco, e u'esses tt·es mezt:>s ia ananjar-se o di-
nht>iru para lhe pagar, e elle. então pagar as notas.
Com a (-'ai.rrt de onun·tisflçi'i.u, crea1la na Junta, sol-
ver-se-hia a divida tluctu:-llltt:>, ominoso Ca-
bralista. Essa caixa havia encher-se
adjllllica,·am-se-lhe os lwns-nacionaes ain1la rest<m-
e o fôsse rendendo a cobrança das di,·idas
actin1s dos conventos! e os impostos em <-h·Lito até
41! e os juros de qnaesquer inscripções amortisadas!
e uma dutaçã11 annual de 100 contos sob1·e o rendi-
meJJto das Alfan1legas. (Dec. de • de outubro! Os cem
ao anno não da,·am para o juro de uma di-
vida superio1· a vinte mil : tudo o mais eram pala-
vras ou poeira, a vêr se cegavam a vista dos et·é-
dores.
Baldado empenhn, qttH sô deu de si píll-Õs deci-
did:tmente do lado da reacção tramada, uma vez
que a fraqueza palmell!sta não era capaz de resol-
ver uma crise, na qual tinham as fot·tunas <UTis-
carlas. Ao lado de Saldanha com a sua espada, es-
tavam elles, pois, com as suas bolsas. P;tssou o dia
6 de outubro; ganhou-se a victoria: mas deram
todos com inimigos imprevistos. Protestava, insm·-
gia se o reino inteiro- e o rebate das notas, su-
bia, subia! Em vez da paz. era a guerra; em vez
da fortuna, a ruína total. Saldanha desembainhou
a espada; os agiotas os dentt>s: mul-
tado em 50 a 500 mil réis quem recusar receber
notas! (Dec. q de nov.) l\las como impedit· a subida dos
prt-ços? l\[as como usat· da espada, se Antas no
Porto se bandeou? Os capitalistas apressaram-se a
1. - O 6 DE Ot;TLBRO
exigir as arrhas da sua adhesão ; e a 19 appareceu
decretada a fusão do Banco e da Confiança: com-
plicada, aggravada a crise com um ne.r;ocio em qut>
.a agiotagem salvava os seus capitaes, abrigando-os
á sombra do curso-forçado permanente de 6:000
·contos outorgado ao novo banco, verdadeiro papel-
mot>da que valeria para a totalidade dos pagamentos
até junho de -! 7 e para dois terços até ao fim de -!8,
devendo ir sendo amortisado gradualmente n 'esse
período. <Dec. rg de no\'embro) As acções da Confiança
triplicavam de valor, e as notas baixavam sempre.
A agiotagem déra o seu golpe-d'Estado, salvan-
do-se para arruinar a nação: mais feliz do que os
po!iticos, a ponto de irem a pique no .naufragio do
pmz.
ou antes Cabral, de quem elle era o
contara com a resistencia do reino
e prevemra-se.
Estou persuarlido de que a ultima repentina mudança
da administração em Portugal foi em parte levaria a efi'eito
por conselhos de Madrid, e que o marechal Saldanha tem
estado, sem o saber, servindo de instrumento para põr em
pratica os planos do conde de Thomar e de Gonzales Bravo,
nos quaes me parece que uma influencia hespanhola e uma
uuiào intima dos governos de l\Iadrid e de Lisboa para o
futuro se apresentam como causas principaes. (Southern a
Palmerston, 22 de out. Livro ai_ul)
A Hespanha, com effeito, representava n'esta se-
gunda Belemzada o papel que a Belgica e a Ingla-
terra tinham tido na primeira; e o ministro inglez
de Lisboa só se enganava supponclo Saldanha igno-
rante dos planos do conde de Thomar, de quem
elle era o instrumento. Ü5 acontecimentos precipi-
taram-se, pondo a claro a verdade, e collocando a
PORT. CONT.- TOM. II
14
210 L. V.- O CARTIS!\10 -I I I
Inglaterra na postçao falsa que durou até ao tim,
de não tolerar a intervenção da Hespanha, sem
poder deixar de acudir a sustentar o throno da
rainha, mas sem se conn•ncer tampouco de que
esse throno perigasse com os ataques dos setembris-
tas. Restaurou-se todo o antigo pessoal administra-
tiYo e militar cabralista, annullou-se a convocação
das côrtes pelas eleições directas, e o rei D. Fer-
liando tomou o commando em chefe do exercito,
que tinha de entrar em campanha.
O Porto rebella,·a-se com a diYisào de Antas,
prendendo o proconsul Terceira ahi mandado ; mas
pedindo apenas, moderadamente, a demissão do
ministerio. Porém ao mesmo tempo as proclama-
ções circula,·am em Lisboa, respondendo á da so-
berana n'estes termos:
Povo portuguez ! A revolução do )linho. a revolução
mais gloriosa da naç·ào portugueza foi trahida pela Sobe-
rana! Xào a acredites! Olha qne ella mente como sempre
tem feito!
Povo portuguez! Olha que a rainha. chefe do Estado,
que devia ser a primeira a respeitar a opinião dos povos,
com de paz na bocca e veneno no coração. saiu
para o meio das ruas da capital e poz-se em guerra decla-
rada com a nação! Xào com o sangue e ossos de
que é composto o seu throno. ainda continua a fazer mais
victimas- ainda este vampiro quer mais saugue ! - é a
paga c1ue este tigre dá ao povo infeliz que lhe deu um
throno!
Povo portuguez ! Tu nada lucras em conservares no teu
seio esta vibora- ou ella hade respeitar os teus direitos
0u então que tenha a sorte de Luiz xn- este porém foi
menos culpado!
Povo A tua rainha diz que quer paz, mas
consente llue os janisaros assassinem e roubem, como o es-
tão fazendo.
Povo portuguez! A's armas! Senão serás fusilado ou
deportado! YiYa Portugal! A"s armas! e seja o no\·o grito
de guerra : ViYa D. Pedro v ! (ap. Li1•1·o a;ul; corr. 11 out.J
1. - O 6 DE Ol:Tl"BRO 211
Em Coimbra, Loulé, governador civil, ao saber
do golpe d'Estaclo, rebella-se, proclama, reconsti-
tue o Latalhão academico. Foi isto a )'); no dia se-
guinte Aveiro segue o exemplo. Campos, no Grif"
naciunal, dizia claramente:
Ha poucos dias arrojámos dois (traidores se. Cabraes1 ]Wla
barra fóra: pódem ir mais alguns. )farche todo o paiz a
Lisboa e esmague a cabeça -da hydra (a rainha"? J Sf'
quanto antes a facçao parricida não esconder a sua ycrgo-
nba nas ondas do oceano.
A guerra estava formalmente declarada: chegava
o momt-nto de appellar para as prevenções toma-
das. então, officiou, pedindo a interven-
ção aos governos de Londres, Paris e 1\Iadrid,
gundo o tratado de de abril de 3-!, allegando
que os miguelistas saíam a campo. tRelat. do min. lleg.
estr. em 481 De 1\Iaclrid estava certo, e os hespanhoes
mandaram logo um corpo de olJservaç·ão para a
fronteira; (lbid. otf. de Istnriz a Rendufte) mas a Inglaterra,
não vendo miguelistas, queria impedir a interven-
ção hespanhola e a rainha á paz. Em toda
esta historia ver-se-ha a funesta consPquencia eh ..
uma tal politica, protrahindo uma guerra desola-
dora; porque, se a Inglaterra não queria consen-
tir na intervenção da Hespanha para dar a victo-
ria á rainha, tampouco intervinha para impDr uma
conciliação. Nôs, em casa, evidentemente não tí-
nhamos força para nos governarmos ; e depois eh·
doze annos de liberdade, o Portugal novu acha-
va-se, como o antigo se achára, dividido em duas
fracções sem que nenhuma tivesse poder bastantP
para submetter a cor.traria.
Palmerston ordenava para .l\Iadrid ao seu dele-
gado que não consentisse na intervenção; ruvm-a.,ul
P. a Bulwer, s nov.) e para cá mandava-nos um
L.\".- O -I I I
u \\'ylde, afim de negociar uma paz entre os bel-
ligerantes. :Jlelancolica situação antiga t-rn que nus
acha vamos, de c1ue a liberdade nos não tirava ...
Costa-Cabral jú era nosso embaixador t-m l\[adriil,
e a Hespanha, de acconlo comnosco, procedia bi-
zarramente, apt-zar de soffreada pela Inglaterra.
l\Ianclara para a frontt-ira um t-xercito, e enviava
para Lisboa trt-zentos contos : (/bid.Southern a Palm\!rston,
:!2-3 de out.) assim pudesse trazer a Lisboa e ao
Porto os seus soldarlos! -fluspirava Cabral em
l\Iadrid, e na capital f'aldanha.
Porque a insurrt-ição lavrava, e para pt-ior, o
miguelismo não se pronunciava bastante para jus-
tificar a intt-rvenção extrangeira. rlbid. 22, 3, 9 de out.)
As noticias que lhe iam ele Lisboa mantinham
Palmerston na sua reserva. «Era uma revolução
como outra qualquer: o de -!2; a propria
batia os miguelistas, raros e sem importan-
E tudo ardia! as guerrilhas surgiam de todos
os lados. O Galamha e o Batalha com 800 homens
corriam o Alemtejo; José-Estevão estava ern Al-
caçovas com liOU; ribid_ 22-J) Taipa e Sú-cla-Dan-
deira no Porto ; Aguiar ern Coimbra; l\Ionsinho-
cl'Albuquerque e Bomfim tinham desertado de Lis-
boa; Antas vinha, caminho ela capital,jci em Leiria,
com :!:;JtlU homens, f()ra guerrilhas, devagar., aggre-
ganclo gente todos os dias. rit>i.i. • Que seria ele
Lisboa, a que o inglez não cleixa,·a o hespanhol
acudir'? 0 governo, entretanto, prepara\ya-se, lan-
çando mão de tudo. A rregimenta,·alll-se os em pre-
gachs-puLlicos. II<wia rusgas; nas Loccas das ruas
os cabos d..e vigia prendiam. Todo o homem de
a annos tinha de pegar em armas. Formara-
se um hatalhão das Obras-publicas, outro do Com-
mercio. FortiticaYam-se, artilha,·am-se as linhas.
O Banco dera 0UU contos para acudir urgen-
2. - A JC:-;T A DO PORTO 213
cias. Prendiam-se os suspeitos nos navios no Tejo:
tudo o fugia, e Palmella em pessoa
estava homisiado. ribi.t. 22-J) Embargavam-se as ca-
valgaduras e as pessoas, obrigando-as a trabalhar
nas linhas.
)las apesar de tão grandes esforços e de meios
tão Yiolentos, o rei D. Fernando, commandante
t-m chefe do t:.l_·ercito, não podia passar reYista a
mais de 3:000 homens. riNd. 29) ia ser da rai-
nha, alvo de todos os tiros "! resultado, o
d'essa guerra encetada? :-;e a Inglaterra não ha-
via de vir a consentir que os Ytncedores acabas-
st>m de vf:'ncer, que singular escrnpulo a émbara-
çava? - E se os sulJlevados não fossem atinai
agrilhoados pela intervenç·ão, que teriam feito ?
DE"pôr a rainha? E' natural. Proclamar uma repu-
blica? Provavelménte. )las nénhum cl'esses dois
actos destruiria ·os males constitucionaes do paiz,
causa da sua desgraça: nem a anarchia das dou-
trinas, nem a penuria uniYersal.
2.- A JC;\;T A DO PORTO
.José Passos era o presidente da camara do
Porto. Já o telegrapho dissera o golpe-d'Estado de
Lisboa, quando em sessão abriu os officios do
novo governo, e o aviso da Yinda do duque da
Tercéira. << You fazer a revolução! n exclamou, le-
vantando-se e saindo. (D. João de Aze,·edo. Os dois dias de
nutubro, ex. annot. ror J. Passos) Chegava ao mesmo tempo
cn l ao Douro o vapor com o duque, :-;anta-)laria,
Vallongo e Campanhan, um estado-maior para o
exercito do norte .. José Passos desceu da f'asa-Pia
ao Carmo, esbafc)rido, mandando tocae a rebate,
convocando os patriotas ás armas; é feito isto, p1·o-
L. \".-O CARTISMO -I I I
mwciou a guarda-municipal e os regimentos 6 e 3.
Depois, montou a cavallo, dirigindo-se a Yillar, na
margem do rio, a receber condignamente o duque
já desembarcado. A cidade estava sublevada, a
guarnição por ella, os sinos batiam a rebate, o povo
horborinhasa na!ii rnas, pedindo armas, e os gritos
nasaes da turba destacavam-se no cDro do rufar dos
s«Í_ccos sobre as lages das calçadas. Entardecia:
Passos era um r ~ i . U sussurro da agitação ondeava
até ao fundo da grota de Yillar, a poente da ci-
dade, onde os generaes de LisLoa se tinham reco-
lhido na casa do Conde de Terena, quando, j ~ í
pelo escuro da noite, o rei do Porto chegou, se-
guido e acclamado pela sua turba, perante o lu-
g;ar-tenente da rainha de Lisboa. A cidade nàu
obedecia,· rendesse-se o duque. Elle recusava-se,
com firmeza, assegurando que cumpriria a missão
a que viera. F«)ra, o povo clamava, exigindo o
reembarque dos generaes para o Jlfindl:.llo que os
trouxera. Um certo "Kavm-ro suLiu, e em nome do
povo prendêu o .duque.- «)leia duzia de rotos
que estão lá em baixo?» - t<Ü bastante para re-
petir as scenas de Alcantara! '' f//:>i.i.J Passos come-
<;OU então a perceber que o poeo se excederia, que
era capaz de trucidar alli o duque, se elle o aban-
donasse. Tomou-lhe pois do Lraço e desceram, as-
sim, até ao Ouro, sobre o rio, para emLarcar. O
Juqne estava effectivamente preso, e mais enleiaclo
do que elle o seu guardião, defendendo-o contra a
pleLe amêaçadura. Era uma noite negra e espessa
de nevoeiro penetrante que suffocava., alagando.
Nada se via; apenas do meio do susurrar ela turba
já se destacavam, já se repetiam os gritos-
mata! mata! Ao longe distinguia-se o rodar breve
elas seges que fugiam com os timoratos, ouvia-se o
1·ebate desesperado dos sinos; por entre o nevoeiro
:!. -A Jt·c-;TA f)O POH.TO 215
moviam-se os archotes de lume vermelho, despe-
dindo faiscas e rolos dA fumo, pondo manchas de
luz na massa espessa e humida do ar.
:--\eguiam pela estrada fla Foz: ao lado, no 1lio ne-
gro, fluctuavam os reverberos da procissão que pa-
recia um enterro, on o levar Je um reu ao patí-
bulo. A turba clamava- mata! mata! e as suas
ondas cresciam, ameaçando passar por cima dos
que iam adiante. Passos que levava o duque pelo
braço era corpulento, muito gordo; e o duque, se-
reno, indiflerente ao perigo, quando a onda do
povo crescia impellindo-os, dizia-lhe:- «0 José
Passos é uma formidavel trincheira!)) f\lacedo, Trafos)
Assim chegaram á Cantareira, para embarcar;
mas o escaler desapparecera .. José Passos, receando
que o embarque fosse o signal da manda-
ra-o embora, projectando já guardar os presos no
castello para OS salvar. (Disc.do conde das .\ntas, sess. de 15
fever. 48) '
O barco não apparecia; nada vinha do rio, ne-
gro e indifferente. Caía a chuva, roncava o mar
proximo nos baixios e cachopos da barra, e a fu-
ria do povo crescia n'um terrível - mata!
mata! O gordo Passos sutfocava: o cordão dos
que com elle defendiam o duque, o Browne, os
Limas, os dois Navarros, Custodio Teixeira e os
mais, continham a custo as ondas do povo. E a
chuva fria, miudinha, encharcava, deixando dis-
tinguir mal a massa negra dos muros do castello
bordados de recifes contra os quaes o mar grunhia:
SIJ na densa bruma scintillavam as lanternas entre
as ameias, como pharoes a uma tripulação em na-
vio corrido pelo tempo. Dando a pGpa ao venda-
val, acossados pelas ondas da turba, hatidos pelas
rajadas de vozes pedindo morte, foram correndo
a entrar no porto de abrigo, dar fundo no castello.
L. Y.-0 CARTISMO-III
O duque estava sako, e preso." Passos socegado,.
regressou ao Porto.
No dia seguinte, com a adhesão do general da
divisão do norte, o conde das Antas, definiu-se a
attitude do Porto sublevado: os E:'Xtrangeiros que
dirigiam a rainha tinham-na obrigado a mudar o
ministerio ; S. l\1. estava coacta e era mistér cor-
rer ás armas para a libertar. -O programma da
nova JUNTA repetia ao avesso o da de -!2; e as re-
voluções liberaes eram forçadas a usar de expe-
dientes antigos de :?H e :?-!: os expedientes apos-
tolicos. Nada h a novo á luz do sol !
Para libe'rfm· a rainha saiu, então, para o sul o
conde das Antas com o seu exercito, a juntar-se-
em a Bomfim: reunidos salvariam Lisboa.
O norte do Douro considerava-se seguro e por isso
na urgencia de congregar forças, retiraram-se as
guarnições do l\Iinho. Vianna, proclamada a JUN-
TA, ficara sem tropa: os cartistas aproveitaram.
Expulsaram da o inimigo e fortificaram-se.
V eiu em milhares o povo dos campos dar um assal-
to, e a cidade capitulou: na refrega ficara morto o
tenente que a defendia. Os camponezes enfurecidos
-eram quatro mil- pediam vingança e mortes,
exigind\1 as chaves do castello (onde o velho go-
vernador reformado prendera tambem 1:ls mais
compromettidos') mas o homem prudente perdera
as chaves a tempo, enfurecendo ainda mais a turba
com o seu ardil. Começavam os tiros, prepara-
vam-se os machados, ia começar o assalto, o ar-
rombamento e a matança inevitavel, quando uma
piedosa senhora teve uma idéa abençoada.
Viu-se apparecer no meio das ondat. do povo
em furia uma procissão de padres de cruz alçada,
caminhando solemnemente, cantando-Benedictus!
Benedictus! D01rânus Deus, ls1·ael! E os minhotos
2. - A JC!I:T o\ DO PORTO
solJresaltados paravam, escutavam, como tocados
por um milagre. A furia começava por ceder ao
espanto. Que vinham fazer os padres? que man-
daria Deus agora?. . . A' sombra do crucifixo er-
guido, um sacerdote lh'o disse; e caíratu todos de
joelhos, contritos, b:ttendo nos peitos:- Bemdito·!
bemdito e louvado seja! (D. João d'_\znedo, Os dois di.1s. et..:.)
Era uma scena primitint, e eloqnente para nos
mostrar até que ponto o povo tomava parte na re-
surreicão do setembrismo no norte. Seria José Pas-
sos a 1\Iaria-da-Fonte?
Não era de ct>rto elle a encarnação do genio das
populaçõe::; minhotas, superiormente individuali-
sádo na poetica pt>ssoa do irmão; mas era uma
resurreiçào do espírito 1Jurguez e portuense, de
tradicionaes arruaças, na Edade-media, contra os
bispos, e depois contra os reis. Bacharel tambem,
aprendera em CoimlJra as fórmulas benthamistas
em que agora se moldava o antigo espírito de re-
beldia Lurgueza. O Porto era um reino seu, por-
que o genio portuense, em todas as suas varias
camlJiantes, se aclwxa n'elle individualisado. Era
pratico, popular, e no fundo bon-
doso, com uma ironia rasteira que os prth·iotas nào
chegavam a percebt>r e por isso os não offendia.
Era corpult>nto, quasi obeso, e com o seu chapeu
alto, sempre na cabeç·a, os collarinhos antigos que
chegavam á raiz dos olhos, a sobrecasaca longa,
o cinturão e a espada pendente, esbaforido, com-
municativo, abraçando toda a gente nas ruas, sa-
tisfeito de si, feliz, na paz da sua consciencia e na
importancia da sua pessoa : José Passos era a
imagem d'essa burguezia ingenua das cidadt>s de
tradições feodaes, rebellada contra os irmãos bur-
::!18 L. V.- O CARTISMO -I I I
guezes que o noYo systerna leYantára á classe de
aristocratas.
José Passos reinaYa no Porto corno um pater ·
: todos eram tilhos, amigos, patriotas, ir-
mãos. A rua era uma permanente assembléa, e o
goYerno similhante ao qne a historia nos conta
das ,-elhas republicas da Grecia, e das comrnunas
ou concelhos da Edade-meclia. Resoh-ia-se tudo
familiar, popular, patriarchahnente. Falta,-a o di-
nheiro? O Passos ia em pessoa ao banco, (Com-
mercialj entrava na thesouraria, daYa no balcão
um sonoro murro, e exclamaYa: ((Arre! D'aqui
ninguem sae! >> E contaYa, at:tYa o sacco e par-
tia. r:\lacedo. Tracns) tirou Ü I contos ao banco
Commercial, .e 1 6 á comp:tnhia dos ,-inhos. f/bi.J.J
Xinguem punha em dm-i(la a sua honradez e o
seu espirito de economia burgueza era falado com
moti,-o. A1Truyou o governo e a guerra, durante
quasi um anno, com mil contos, se tanto. Conhecia
a fundo tod•)S os pormenores da administração :
era um homem do officio politico, pratico, sem a
sombra de uma idéa, apenas com as fórmulas e
rotulos decorados na mocidade. Yia-se o con-
trario do irmão.
A sua bonacheirice, a sua franqueza popular
alegravmn, incutin«lo esperanças, dissipando duvi-
das, afagando lisongeanclo ,·aidades. Pro-
rnettia sempre, tudo. Que proporções Yiria a ter
a Alfandega, se lá entrassem todos os que pediam
empregos, e a quem o tribuno popular os pro-
I"Y!ettia sempre, A Alfandega era
o eldorado dos prllriotas e.dmios. Com o chapeu
enterrado na cabt>ça descaída sobre o hombro
esquerdo, José Passos de6cia da Casa-pia, onde era
o palacio do goYerno, e os grupos de curiosos, ou
de assustados, perseguiam-no. Queria fugir-lhes:
- A JC:"T A DO POI<.TO
não podia. apressado, e atraz d'elle, como
um rebanho, furando, á:::; corridas, seguia a cauda
dos perguntadores. Que h a?- Isto está aqui, está
acalJaclo!- E com um tom ele rnystt->rio, corno quem
revela altos segredos (já de todos conhecidos} ia
de grupo em grupo animando os espi_ritos, picand·o
as ambições. Isto ia bem. O nosso conde (das An-
tas) era para a cousrt. E a ,·aquinha lá dt=> baixo
ia rendendo. . . ia rendendo. Grande gente!-
Queria sumir-se; outro grupo acendia: E ele Lis-
boa?- Excellente! Ha de ir tudo pelo pó elo ga-
to. . . sah·o o respeito devido á rainha!- )lu-
dando ele tom e assumpto: E' verdade, já sentou
praça? A h, sim "I Bom patriota! é que se
querem! -Escapava-se: era em vão.
Outro chegava, mysteriosamente, segurando-lhe
a banda da sobrecasaca, dizendo-lhe ao ou\·ido:
Ha cartistas dentro da Junta! -Elle, virando-se,
com um ar fino, baixinho, respondia: Socegne;
bem sabemos ; escrevemos direito por linhas tor-
tas. Isto vae bem, vae bem. . . 1 lJaixando mais a
voz, ao ouvido), mas é para n,)s: nào espalhe o
que lhe estou contando, om'iu "!-O outro incha-
va-se; elle queria proseguir. Debalde. "Cm patriota
chegava com um plano de campanha infallivel,
seguro.. . Dê cá; traz isso escripto? Es-
cre\'a-rn'o, escreva-m'o, meu general! -A pacien-
cia começava a fugir-lhe, quando outro vinha com
uma combinação dynastica para substituir D. )la-
ria n e resolver tudo pela raiz.- Pois sim, pois
sim, meu patriota. Eu já tenho cinco memoriaes
para rei. ·l\Iancle o seu, e será attendido na occa-
.siâo competente ...
De tal modo conseguia romper, chegar pela Ba-
talha á Aguia quartel general do setem-
brismo, no íneio ela confusào ela gente congregada.
220 L. V.- O CARTISMO -I I I
José Passos chamava a isto o methodo
,T. de Yasconcellos, Pmto d'arru; doce) e COlll effeito nen)nun
outro methoclo podia servir no meio de uma agita-
ção vaga, em que as plebes, sem vontade determi-
nada, sú com odio aos CaLraes, seguiam os dema-
gogos presididos por chefes cujo proposito era
moderar a revolução, convencer a rainha a que
pactuasse com elles. O metlwdo co11j"uso era o me-
thoclo natural ele uma cidade em confusão, de um
confundido. Todo o Porto era um ágora e
realisava o programma radical da omnicracia- o
governo de todos por todos.
Da Batalha e do Postigo do Sol, as
janellas da Casa-pia, espiando a saída de
dos da JUNTA, vinham os magotes enchendo as.
ruas até á Aguia-d'Ouro e em frente do Estanis-
lau. A Praça-Nova e os Loyos, a rua ele Santo-
Antonio e as Hortas, os Clerigos, a rua elas Flo-
res até S. Domingos, e por S. João até á Ribeira:
todo o coração elo Porto borborinhava de gente,
falando, resolvendo, discutindo, ameaçando, com
a Yerbosidacle e a sufficiencia ingenitas nos filho!3-
da cidade da Yirgem. Os mercadores estavam ás
portas sentados nos seus bancos, com a cabeça des-
coberta, os pés nos sóccos, trocando os seus pare-
ceres com os transeuntes. Estalavam nas lages das
calçadas as ferraduras de cavallos a galope, vinham
ordenanças da municipal correndo: que seria? Que
novidade? O soldado no seu caminho, atravessava
os grupos com o officio de papel branco entalado
no peito, e abriam-se as janellas para vir vêr: que
haveria?- Outras vezes eram cavalleiros que che-
gavam aos grupos, do outro lado do rio, com a
banda a tiracollo, a sobrecasaca desabotoada, em
vez de harretina um chapeu desabado; uns sem
esparla, mas na argola do sellote um bacamarte de
2.- A JUI'<TA DO PORTO
bocca-de-sino; outros á paisana, montando bons
cavallos, seguidos por creaclos de farda á velha
moda da pruvincia: eramfidalg()s que vinham jun-
tar-se ao povo. A tnrLa acclamava-os, elles para-
vam, e havia dfnsõt-s dt-> sentimento, apertos de
mãu, sandes, ,-ivas:
Eia avante ! E ia avantP!
avante! :N"ào temer!
Pela santa liLerdalle,
l'elejar até morrer!
Kão descobre o leitor n'esta estrophe o que quer
que é de litte1·wrio, pouco espuntaneo? Que santrt é
essa santa liberdade? Compare o Rei clzeg()u, franca-
mente plebeu, nada metaphysico; compare o caso
de v·ianna- Bemdito! e louvado st-ja ! -franca-
mente catholico, tambem nada cloutrinario: e di-
ga se n'essP. hymnu que agora o povo canta, ha
a expressão do que elle sente. Xão irá o po,·o le-
vado sem saber para onde, nem porque: apenas
impellido por protestos negativos contra os males
que o affligem "!
São burguezes não são o povo em re-
volução, aquelles que sob a presidencia do Passos
se reunem na Casa-pia, o palaciu da JUNTA. E'
uma revolta de commulla á antiga, a elo Porto. :-;ão
os popolani grassi, que se levantam contra o podestâ
de Lisboa. Passos, entendido em politicas, bacha-
rel, plumitivo, não é decerto um 1\Iasaniello. O
litterato Seabra não vem da rua : traduzia I I ora-
cio, falara nas camaras, contara já por alguma
cousa na politica (V. a biog. por T. de V. na Re1•. contemp.) ;
outrotanto Lobo d'Avila, o general; outrotanto os
mt-rcadores de grosso trato; ontrotanto o humorís-
tico Almt-ida e Brito, ouvido nas trilJunat-s, advo-
gando. Na Casa-pia reinavam patriarchal, esparta-
222 L.\".- O C\RT!Sl\10 -I I I
namente. Passos tinha os ministerios da fazencla e
dos extrang·eiros, que ambos calJiam n'uma sala
com duas mezas: n'uma elle, na outra o secretario,
official maior, amannenses e tudo, n'um homem s/1.
Quando baYia conselho, o pessoal ia para fúra patu-
lew· com os patriotas que enchiam os corredores,
á espera de noYidades. Terminada a sessão, Pas-
sos alJria a porta, de chapeu na cabeça, penna
entre os dedos, ehamaYa o pessoal (f. de Yasc. Prato
:rarro; doce) Xão illuda porém tudo isto: a installa-
çào era proYisoria, porque a clefinitiYa esperaYa-os
em Lisboa. queriam destruir: apenas aca-
bar de expulsar os Cabraes para governarem
com as suas opiniões e pessoas, das quaes
sinceramente julgavam dependt?r a fortuna do po-
Yo. O povo era um bom instrumento, mas se tudo
fossem soldados, melhor ainda. uJosé, fiquei de
cama por causa de uma constipação. Esta gente
(os populares) deYe serYir-nos como exercito auxi-
liar, mas a nossa força real deve consistir nos sol-
dados, ou ao menos em homens que o pareçam».
(Carta de .\lmeida e Hrito a José Passos; em .\lacedo, :rr.1fOS, etc.)
Esta porém, chamada á reYolta sentia
pulsar-lhe nas Yeias o antigo sangue de nómada::;
barbarescos, de lJandidos historicos, serranos guer-
reiros: não os minhotos,- mas os transmontanos,
os beirões, os extremenhos, e toda a população
transtagana. A sedição lan·aya pelo reino inteiro.
A tyrannia cabralista acirrara o instincto adorme-
cido, e as politicas do setembrismo relJelde daYam
o pretéxto para .a explosão. Por toda a parte sur-
diam guerrilhas; de todos os lados o exercito se
LandeaYa. .José-Estevão e Yasconcellos tinham
2. - A JC:'\T A DO PORTO 223
saído de Lishoa a sublevar Santarem, quartel de
cavallaria -!; e tres guerrilhas esperavam, domi-
nando na Extremadura, a chegada do exercito que
vinha do Porto, com o conde das Antas : Y ascon-
cellos no centro, flanqueado por José-EsteY"ão pda
direita e pelo conde da Taipa pela esquerda. A
nomeara Braamcamp goYernador ci,·il da
cap!tal, in pm·tibus, porque Lishoa era do governo;
mas pelo districto o governador, com o conde dt-
Villa Real e outros, anda,·am de terra em tt-rra
alliciando sectarios, fome:r;tamlo a revolta. (Elog.
ltist. de .-t. :J- Braamcamp, do a.) Ao sul, ruanfla,·a )!antas
em o conde de )lello e Galamba no Alem-
tt-jo; o general Celestino levantara-se no Algarve
com a guarnição; Castello-Branco, Eh·as, e :-\an-
tarem onde )Ianuel Passos creara uma
(D. João d'Azevedo, Do[s dias, etc.)
7
eram contra O goYerno.
A 6 de novembro saiu de Lisboa :'aldanha com
o seu exercito para se hater com o de Antas. Na
capital lavrava um terror verdadeiro, e completa
anarchia nos partidos. Presentia-se uma catastro-
phe, porque os do governo, vendo a opposição da
Inglaterra ao auxilio da Hespanha, acredita,Tam-na
alliada da JCNTA e consideravam 'Vylde um emis-
sario mandado a expulsai-os do poder. Corria que
os inglezes davam todo o dinheiro aos rebeldes. E
porque fomentariam assim a rebellião? Para minar
a ordem reinante em Hespanha, creando tambem
lá um partido exaltado que contrariasse a influen-
cia franceza, dominante desde o fatal successo dos
casamentos de Guizot. Assim a Inglaterra era a
supposta alliada da Jl:NTA, e não só ella o inimigo
do throno portuguez : tambem os falsos cartistas,
os pedidos ordeiTos. «Cartistas! (dizia uma procla-
mação) O inglez Palmella, o rapoza )lagalhães, o
inglezado Athouguia e outros que taes, tratam com
L \.-O C.\RTIS:\10 -I I I
um coronel inglez ele nos Yender á Inglaterra. Fóra
com os traidores ! f,.Jra com 0"5 mai·otos ! Se não
c1uerem deixar-nos a bem, saiam a mal: a pau ou
a tiro! Fujam ou morrem!>> Lil•ro ,z,ul, ,,, de
Tal era o estado do centro e do sul. Xo norte,
áquem Tamega, olJedecia tnclo ao Porto; mas em
Traz-os-)Iontes Cazal, declarando-se pelo g'•)Yerno
_de Lisboa, Yein descendo, na esperança de combi-
nações cartistas preparada::; dentro da ciJade da
JU);TA. Dois reg-imentos se bandeariam, indo sol-
tar o duque da Terceira e Cazal apoderar-se-hia
da cidade. 1\Ias dos officiaes comprados, uns não
estaYam seguros dos sargentos, outros receiavam
as consequencias do combate: logo que os dois re-
gimentos (3 e liYl se denunciassem, seriam proYa·
Yelmente esmagados pela populaça; e a
iria á Foz, e a consequencia seria o do
duque e seus companheiros. IT. de \"ase. ibid.J Em vão,
portanto, desceu Cazal até Yallongo; em vão es-
perou; e despeitado por ter de recuar, YingtJu-se
trucidando barbaramente as aldeias qm· fug·iam
d'elle para os altos das serras- Agrella, Yillaran-
dello, Constantim, (D. João d'_\ze,edo, Os dois Jias, Po-
bre gente sacrificada ás contendas liberaes! Era o
primeiro sangue que corria em abundancia, n'este
noYb episodio da historia sangrenta de Yinte annos!
l V<H-51)
!Jazal retirou sobre Chaves, e do Porto saiu
da-Bandeira com uma diYisão para o bater. Encon-
traram-se em Yal-Passos, (l(j de noY.) onde dois
dos regimentos do Porto se bandearam para o ini-
migo., dando-lhe a Yictoria. Batido, o general re-
gressou pelo Douro ao Porto, onde haYia uma des-
ordem tão grande cmiw a da capital. A JUNTA era
um cháos patriarchal: cada cabeça, cada sentença.
Apenas a sedição se declarara, e j<i os hurguezes
2. - A JUI'T A DO PORTO
rebeldes Cftnwçavam em rixas: que faria se vences-
sem! 1\Ianuel Passos chegara ao Porto, fugindo ao
-conde da Taipa de quem os soldados tambem fu-
giam, por elle os a epigrwnmas. CAzeYedo,
Dois etc.) Antas não Lolia de :-\antarem, esperando
que Saldanha o f.J<;se desatiar, em vez de aprovei-
tar da frar1ueza d•J inimigo. Cazal ticàra dominando
-em Traz os-::\Iontes. A sedição parecia um fogo-de-
palha: tão Lreve crescera, como ia morrer. "'ylde
chegára, falara, apresentara as suas propostas,
como delegado de Palmerston que de Londres re-
soh·era conciliar os inimigos; mas era inutil. O
burguez é teimoso. meio de tão graves difficul-
dades, occupavam-se os da JUNTA a mascarar-se de
fidalgos, distribuindo entre si títulos, commendas,
cartas-de-conselho. ( \leYedo, 7Jois dias, etc.) Sempre as-
sim tinham sido as communas rebelladas contra os
barões. A principio, o Porto s«j falara em }Jaz :
agora que a derrota de Y ai Passos o ameaçava de
morte, a sua voz tinha ameaças. Levantára-se con-
tra o «systema de sophisma, fraude e corrupçãon;
houvera «< bayonetas contra o peito dos eleitores
desarmados, ( 4;)) descarg-as de fusilaria : o sangue
-dos cidadàos correra J). E era um tal governo que
a rainha restaurara em 6 de outubro! «lan-
çar grilhões ao paiz? » Não; por força estava coa-
cta. 1\las «seu augusto esposo descera da sua ele-
vada posição á de simples empregado de um
ministerio protervon.- «A Europa (leia-se "\Yylde-
Palmerston) não consentirá que extrangeiros (leia-se
hespanhoes) venham roubar um paiz innocente á
liberdade!» r.\J,mif. d,l Junta do Porto, 3 de dezemt-ro) Que sin-
gular insistencia no qu i-pro-qu,o! D' onde vem o
motivo? Do facto de a JUNTA pedir auxilio a um
povo cuja soltura receia; de querer os revolucio-
narios sem a revolução; de appellar para as ple-
PORT. CONT.- TUll. II 15
221)
L. V.-0 CARTISMO-III
bes, para ficar burgueza ; de proclamar a demo-
cracia e ao mesmo tempo um respeito oj}icirtl á
rainha, que injuriava em particular e por vontade
quereria vêr derrubada, necessitando por politic.a
mantel-a no throno- mas coacta, de uma verda-
deira coacção, e não supposta, como a allegada no
llfanifestu e em que ninguem acreditava.
As consequencias de uma situação tão singular,
qnasi ridícula, viram-se quando, no fim, victoriosa,
a JUNTA achou que a victuria lhe não servia e lhe
era indispensavel ser vencida ; essas consequencias
viam-se já na falta de unidade nos planos, na riva-
lidade dos commandos, deploravel mal que deu de
si a morte de muita gente.
A guerra, generalisada a todo o reino, em ban-
dos, columnas e guerrilhas, tinha porém a Extre-
madura como theatro principal. Antas e Bomtim
com o grosso das forças estavam em o
conde de Villa-Real em Ourem. Foi contra este,.
para o bater, que Saldanha destacou uma brigada
sua ( 4 de dezembro) ao mesmo tempo que .Anta8
destacava Bomfim para cortar a retirada d' essa
brigada, cousa que não conseguiu. Em Leiria,
porém, uniu-se a Yilla-Real, e, reforçado com
mais tropa mandada de Santarem, Bomfim com-
mandava cousa de 3:000 homens, quando foi snr-
prehendido por Saldanha, vendo-se obrigado a re-
colher-se a Torres-Yedras. Dizem que ao começar
a batalha (22) o pobre general sempre infeliz se es-
condera n'uma egreja, mettido n'nm confessionario,
com uma bandeira preta cravada no telhado a in-
dicar um hospital de sangue. (_\zeYedo, "Dois di.ls, etc.)
Diz-se mais que Antas, do seu quartel-general, ou-
via a acção e não quiz acudir. fifozd.J Como quer que
ftJsse, Saldanha obteve uma victoria cruel, ficando
entre os mortos o illustre 1\Iousinho d' Albuquerque,
iJ. -O ESPECTRO 2'27
merecedor de melhor surte. .O governo ganhava
uma batalha, mas vencer era-lhe impossível. A
guerra fervia por todos os lados e de todos os mo-
dos. Desde que os litigantes tinham declarado a
intransigencia, acontecia absolutamente o mesmo
que se observara em nenhum dos comlmten-
tes podia vencer, nenhum ser anniquilado. A guerra
chronica é a sorte das nações arruinadas. O go-
verno não podia vencer, mas podia vingar-se: po-
dia repetir D. l\liguel em cuja sítuação se achava,
e fel:o, perdendo mais com a do qne lu-
crara com a victoria. Os prülioneiro·s (-!H) de Tor-
res-Vedras, degredados para Africa no Alldrtz (I
de fevereiro de 47) aggravaram o labeu de sangui-
nario qne a affinidade cahralista punha no goYerno.
H. - O ESPECTRO
Quando vencido em Yal-Passos,
depois de ter retirado pelo Pinhão e embarcado_,
descia o Douro para recolher ao Porto, ao passar
em frente das Caldas d'Aregos, foi incommodado
por tiros que partiam das montanhas agrestes da
margem. Era o C&zal que o perseguia? :Kào; o
Cazal retirara tambem para Chaves.- Desembar-
cou. Era o espectro miguelista : um bando de quasi
um milhar de homens tendo á frente JUacdonell,
nosso conhecido de Santa rem em 3-!. . . Como
espectro, sumiu-se, dissipou-se, mas deixando um
negro terror no animo de todcJS.
Quem evocára tão cruel apparição? Q.nal o réu
d'esse crime de leso-liberalismo? ...-\. diziam
de Lisboa. O partido de setembro já desde 3-!
:parcial pelos vencidos, coalisado com elles em
em 45, estaYa agora positivamente alliado para
L. \".- 0 CARTISl\10 -1 I I
a i-!.·•tt·I-ra. l\Ias não tinham os guerrilht>iros do
donell feito fogo contra Sà da-Bandeira? E' qne a
Jl:X r A, ao que parece, sem positivamente se alliar,
deixava creseer a desordem. Elia appellav<t para
os exercitns da )faria-da-Fonte, o pot·u-urmado, e
es:st> povo que em Yianna caíra de joelhos ouvindo
a homilia dos sacerClotes, tinha ainda Yivas as rai-
zes d<t velha religião que reverdeciam. A JDHA,
dizimn do Porto, (LiJ•rn a;ul, cartas do consul, 1l' de no\-.) «não
tem dado nttençào às guerrilhas miguelistas e ha-
de arrepender-se. A força d"tdlas vae todos os dias
crescendo. mais para temer do que pensam.
(c. 27l Tudo o :\Iinho jura essas Landeiras, e ha
planos positi,·os. l\Iuita gente dará dinheiro; talvez
até a companhia dos vinhos: cujos directores na
maior parte são miguelistas. D. 1\Iiguel tem já
sido positivamente acclamado. Ha pois tres parti-
dos hostis em campo, porque se os mig·uelistas se
Wem batido até aqui sob a bandeira da opposição
constitucional, agora voltam-se contra os setem-
bristas, depois do episodio de Aregos». rLivro a;ul,
Suuthern a Palmcrston, 3 de dezembro)
Xo proprio dia em que o ministro inglez man-
dava dizet· isto para Londres, affirrna,·a a Jl:NTA
no seu que «a facção sanguinaria orga-
nisou guerrilhas para acclarnarem D. l\Iiguel! ))
1\Iacdtmell era para muitos um enygma, e não fal-
tava qttern, com effeito, o acreditasse mandado pelo
governo, ou ernissario da Fnmça para le,Tantar o
miguelismo, dando assim motivo intervenção que
esmagaria o setembrismo, fot·çando a Inglaterra a
sair da sua reserva. Se assim foi, o cartismo jo-
g<tnl. com fogo; e tanto em Lisboa corno no Porto,
querendo utilisar em proveito proprio o povo ge-
nuinn, cnrriam o risco de serem saccudidos por
elle. Iam acordar ao seu tumnlo um cadaver?
3. - O ESI'ECTH.O
Iam gah·<misar um morto? Querimu
culll .-lle u poder, ou e:slll<Igar os relwldes '? )las
o espectro e a sua vüz roucH, mas
longa e retmuLantt-, acorda,·a as puiHllaçiJes da
inditfen:-nça, fa]a,·a-lht-s uma ling·uagem salJicla de
tempos antigos, falava-lhes no Throno e nu Altar
dPstrnidus.
E a voz do espectro carninha,·a, cunvt-rtia. J
e Garcia, um hespanhol, (.\zne..io, .tias,
etc.) tinham t-ntrado t-lll Guimaràes, 1 :?:l de novem-
bro) já occupavam Braga. Todo o )linho accla-
ma,·a D. )liguei. Corria que havia de ca:sar com
urna tilha do marqut-z de Loulc;., fidalgo alistad•J no
setemLrisrno, partidario da JUnA, e r1ue nada fa·zia
para com·ctar a pr .. fl'esta nuva e
tiva Em Guimarães havia illumi-
e festas 1-! de dezembro): e no Porto acre-
dit;va-se que a infanta Isabel-)laria estava á
frente da restauração. )lacdonell em Brag<l já re-
cusava gente: iam do Porto ufferecer-se-lhe em
massa, fugindo á tyrannia hurgu.:-za do gordo .Pas-
sos, i1s rn:sgas CIJm que se alista,·a gente em rnun-
COlllO a lobos, rLu•ro <lílll. carta ..io consul. 1S ..ie nm.-.)
iam procurai-o de todo o )linho por onde corria
um protesto formal contra esta Cahraes e
nào Cabrat-s. rlbi.:i. carta do consul, 11 ..ie .:iezemt"oroJ
E a a affirmar que eram olJras d•l go-
verno p<tra a comprometter! E o g•J,·erno a dizer
que era o crime da patuléa! Quando era a
const-quencia da lilJerdade e dos seus coripheus,
qnaesquer que ti,·essem sido as primiti,·as ori-
gl::'ns da sedição: ou o tacito applauso do :P•Jrto,
L. V.- O CARTISMO -I I I
ou as intrigas ft·anco-hespanhulas de Lisboa, ou
mnhas simultmwanwnte. Se ftira o plano do gover-
no, t:>lle devia folgar pot·que o exito t:>xcedia as es-
peranças. O povo tomara ao pé tla letra as falas
insidiosas dos agitadores, e St:'lll curar, sem saber
de intrigas, via chegado o mometüo de liquidar
contas antigas. Errantes vogavam pelo rt:>ino as
somLrns das Vt:>lhas classes t:>Xtt-rminadas, rouba-
das. E ao mesmo tempo que o espectro mig·ue-
lista falava pela bocca dos fradt-s guerrilheiros,
htlava pt:>la Locca do jornalista Sampaio o ].,_,'spe-
j[lcol•ino, st'tt:>mhril:lta, patnléa. Ua 1lirt:>ita e
da esquerda ouviam-se as mesmas de
Cttlera, eguaes anw:u;as. U jornal, uccultanwnte
impresso a bor1lo dt:> nm navio no Tt>jo, apparecia
Plll toda a partt-, cumo t:>S}lt:'Ctro que era, conde-
nmando em pessoa a rainha, a CARTA, a. munar-
cltia, todo o
em pre:,;t>n(,'a dois priueqnns, o p•tpuhu· t' o pes-
:\Ias o gnyeruo }ll-'Sf;nal u:1n trimnpha t• o priu1·ipio r<'-
vnlneionario v:u' supplautal-o. O que tic·a sendo uma. n·a-
leza • pn·stig·io p•'Hl!• kr mn rei qne
haiuha a esp:ula e qn1• depois é oLrig-:ulo a des-
pir a fanl:t no meio da. ma"? A realeza não ú
:s•',mente inntil, é nm mal. O p:u:o I· ineorrigin·l : eouspira
:sempre. t;'tna rainha qne SI' dl't·lara enaeta s1:is m('zes t•m
1·atla ailllü. nào é raiuha. I I paç-o t'· a l'Speluuea de Caco,
n111l!• sempre se tt>em n•nni•lo ns enu:-;piradnres. A pnrpnra
dos reis tem serYillo para \'arrer a inimmulicie do::; p:tla-
c·ins c· dns eortl'zàos mais ahjPctos. rl: . .'spectrn. O estado da questüo)
As!:lim vociferava o espectro jacobino, rt-clamando
a aLtlicaçào da rainha; e ás suas vozes respondiam
os eccos do espectro miguelista, comlemnando a
nova accla.m:mdo o l't:>Í vencido em iJ-1. E
qnaiHlo, no seu primeiro numero, o Espectro dt-sen-
3.- O ESPECTRO
rula,·a o sudario da crise financeit·a, a restauração
nu l\Iinho, com uma voz mais vt?rdadeira, não ac-
-cusanl Pedro nt?m Paulo, CalJraes nem Passos:
o liberalismo de ter emprazado o reino á
praça de Londres, recordava D . .:\Iiguel que rei-
nara cinco annos sem tomar dinht?iro emprestado
.ao extrangeiro, e contava as riquezas desbaratadas,
da patriarchal e da casa das rainhas e do infantado
e dos conventos, ,·enclo-se agora os fradt?s famin-
tos a pedir esmola miseravelmente.
E tomado de um accesso de franqueza e luci-
llez, o espectro de Lisboa, contra á rainha, con-
fes:;a,·a o crime jurídico do libt?ralismo:
O throuo da rainha s•'• pódc St'r sustentado pelos libe-
raes: a sua corr)a é cotHlicional, seg-nurlo a c_-\.nTA. A um
throno despotico, o direito de D. Miguel é melhor. rEspt•c/1-o
n." 2)
Et·a o que dizia o espectro minhoto, monar-
chico e legitimi:;ta: o nosso direito é o ,·erdacleiro!
O ,·osso rei um usurpador! O nosso rei é pot·tn-
guez, o vosso extrangeiro. E' uma rainha filha de
mãe austríaca e pae brazileiro, ca8ada com alie-
mão; allemães são os mestres e os medicos do paço,
o Dietz e o Kessler; inglezas a:; amns de leite, in-
g-lez o cocheiro, franceza a modista. s.·, ha um por-
tnguez, o capellão, um padt·e indigno, o padre
l\Iarcus!
E os frades animavam-se, contamlo já com a res-
tauração dos • e os carlaveres da nação
murta E'lll ;H erguiam-se dos seus tmnulos para ou-
,·ir, envoh·iam-se nos seus lençoes, saíam. caminha-
vam, em procissão lenta e funebre pam Brag-a,
onrle l\Iacdonell reinava, em nome do rei esperado
dia a dia, outra vez adorado nos altares, chamado
232 L. V.- O CARTISI\10 -I I I
t-m l'reces fen·o,·osas. )Ias Cazal quH segunda vez
descera de Traz-os-1\Iontes e élll volta do Porto
andara farejando a ver se achava a combinada bre-
cha, (_\a\·edo, ·JJois di,zs, etc.) de novo teve de retirardes-
illndido. A sua cruel<lade vingara-se primeiro so-
bre as populações das aldeias SPrranas, agora ia
vingar-se na capital miguelista do .1\Iinho que ata-
cou. U·Jl de dezembro) Vencida uma lJatalha ::;an-
grenta, começou pelas ruas a matança desapieda-
da. Eram tiros, gritos de nlist>ricordia, impreca-
ções de desespero, e um matar cruel e dnro na
g-ente amontoada pelas ruas. <) sonho de uma es-
perança morria breve afogado t-m e os ca-
daveres com os seus leneoes tintos de vermell•o
tornavam pt-sadamt-nte ás" suas covas. Caía a tar-
de, escurecia a noite, pelas esquinas d:ts rnas lHl-
via montiles de mortos e poças de sangne
por entre as pedras. Os que ficavam, abraçados a
Deus, varrida a esperança do Hei, foram po111lo
nos lugares da matança nicl10s sagrados cnm ern-
zes lugubres, allumiadas á noite por lampadas, com
a triste lenda: Hesae por alma de nossos irmãos
que foram IUOl'tos n'esta rua! (_\tewdo, lJois .ii.zs, etc.)
Então a voz do espectro miguelista sumiu-se
n'um largo pranto ...
l\las o espectro jacobino de Lisboa, mundano t-
suu piedade, rangera os dentes, prorompera em
bramidos ao presencear a carnagem de. Torres-Ye-
dras ( :?:! de dezembro); e a sua colera 1dlo teve li-
mites .contra a rainha a quem-oh, velhas, men-
tidas esperanças!- dera em Lomlres o sceptro dP
ouro e a CARTA ençadernada a primúr.
3. --O ESPECTRO
;:!:-)3
A côrte quando ouviu dize1· que houn•ra muito
sanl!ue derramado. (I Yalido e os protectores beberam ii
das Yietimas! A rainha den beija-mão ;Í. sua c-riada-
gem! rEspec:tm n.
0
51 Quando a rainha soube da morte e apri-
sionamento dos ln·avos. saiu ás janellas do palaeio. e eomo
uma bacehante gritou para a sua guarda-Vietoria! vi-
ctoria!- X o dia da chegada dos prisifJneiros saiu a pa:;-
seio em >::ignal regosijo. (/bid. n.
0
6)
E o espectro, lembrando-se da lunga e dura
g·uerra de seis annos, do exílio e dos suffrimt-ntos
padt-cidus para exaltar essa rainha. dizia-lhe do
fundo da sua imprensa:
)lo1Tf'll10S ÍOflOS }JOf YÍa de ti! )lorrendo te ace)amá-
11108, ·e tn exauthnraste-nos e mandaste-nos assassinar! O
nosso sangue cairá sobre ti e sobre a tua descen•leneia!
(lbi.:i. n.
0
6)
)las quem oh:;erva, não acha na voz cl'este espe-
ctro a sinct-ridade simples, a solemnidade 12pica das
vozes espon taneas do povo- « Resa12 por alma de
nossus irmàus! » \ rtlnw que aqui gemia era com-
posta de doutrinarias, intrigas politic'!s,
odios e ambições p12ssoaes. O sdt-mbrismo f<tlara
sempre t-m nume do mas esse po,-o era uma
f{n·nmla rethurica, mais ou mt-nos sinct-ra no animo
da gente democratica. )!ais ronumticos, menos dou-
trinarios, mais calorosos mas mt-nus audazes e in-
tellectualmente menos fortes, os setembristas eram
mais sympathicos e mais chimericos. O pol:o de
que falavam apenas acordara duas vt-zt-s: uma
para queimar as pupeletas drt em maio,
outra para acclamar D. :\liguei. para cair. e tica•·
resando por alma dos martyres, 12m d12zembro.
Partidos, intrig-as, pessoas.
Por isso a palavra do ERpectro é contradictoria
L. Y.- O CARTISMO -III
comsigo propria; por isso a lingua se lhe l::'nrola
e as phrasi::'S Laças, desde que,
cessando de injuriar a rainha, prl::'tenfll::' attinnar
as amhições da nação. «Ü povo respeita a rai-
nha, respeita o throuo. » (n.o '!.} (lne a truz ironia
é esta, dl::'pois do EstmlfJ d't questão que assl::'ntou
o pro;_!.Tamma do Espectro! «Para o ri::'Í ser in·es-
ponsavel é necl::'ssariu que não faça o mal.» rlbi.:i.J
Singular abl::'tTa<;ã.o, a idéa ele um rl::'i irresponsa,·el
no l)em, resporba,·el no mal! E' es::;a a doutrina
libcrol, gt>nuina, q ne oppunham ao carti:mw?
Taes sing·ularidades, que pintam o desnortl::'a-
mento das eabl::'<;as sett>mL.n·istas, poderiam multi-
se f,,::;::;e necessario insistit· n'nm facto jà
conheci,lo e dt>monstra•lo pot· varios modos. À guer-
ra tinha principalmente por alvo o throno: pois
que esse tlu·ono. no lll<:"ÍO fla incompatibilidade das
clientelas politicas: era forçado a optar e O}Jtant
por uma d ·I::' lia::;; poi::: que a fome e a excita<; :lo
dos animos faziam da politica uma campanha;
pois que, finalmentt>, a rainha nã.o possuía o cat·a-
ctt-.. r astuto para usar das artes de um Luis Phi-
lip}w, mas sim a força ,·iril para entrar pessoal-
mente mt lucta. Declanula a crise, o liberalismo,
com dt't->ito, tem de ab•licar, e I!lanha ou força sã.o
no throno illurlir nu para ras-
gar as tl::'ia-; con::;titncionae:;. Quando \·oltam a paz,
a e a fartura, por isso, quatHlt) nào ha
fJUest'iles. apparecem entào os venla•leims reis cons-
titucionaes, pela razão simples de qne a sociedade
prPseindiria perfeit<tnll::'nte de chefe.
3. -O ESI'ECTR0
A rainha <c h ate o pé no paço e diz que se ven-
cer, a maior parte dos seus inimi;;•JS harle_ saí r do
reino. E se não Vf:'-llCt>r?)) rEsJ·ectro n.
0
ól Pois nem
depois de Braga e Torres-Vedras tinha vencido "I
Nàu, não tinha; porque as forças orlientas das
politicas exprimiam a crise constitucio-
nal do paiz. Xão tinha vencido ; e para vencer se-
t·ia mister que viesse de f•jra uma intenTençào
apoiar e defender, ao l)lesmo tempo, o throno amea-
c;ado pela re\·ulução armada, e proprios cheft:>8
d'essa revolução que tinham medo da victoria e
qnt-riam ser forçados a ficar vencidos.
Clame. clame embora o Espectro que <co tra-
tarlo (;J-± 1 morreu, apenas se cunst-guiu o fim espH-
cialissimo para que se contratara; e senão, ris-
qut:>m dos diplomas a plu·ase --rainha pela graça
de Vens e da constituição, e substituam: por graça
dos alliados e Yontacle dos extrangeiros>> ; clame,
clame t;>mbora o Espect1·o. Essa intervenção, pedida
a principio por Lisboa é no fim egnal-
mente necessaria para o Porto embaraçado e atHi-
cto com a quasi victoria cunsummada.
Essa intervenção é egualmente indispensavel,
porque depois dos morticinios de Braga e de Tor-
rt:>s- Y t:"dras, os setembristas vencidos deram fran-
canwnte <l mão ao miguelismo que, tamLem esma-
gado n'um ponto, se levanta em Yarios outros de
um modo já prudente e politico, reconhecendo a
liht'rdade patuléa. l\Ianuel Passos mantinha ainda
a \·elha esperança de nacionalisar o liLeralisnw, e
faze l-n equivalia a converter os sectarios de I).
l\liguel. -Puvuas que saíra a campo na Beira, di-
zia-se convertido; mas rt'petit·ia o dito o partido
intt>iro, St:' acaso a revuluçào Yt-ncesse ·!
A' lll<lllt'ira que o migueli::smo fôra crescendo, antes
·dt:> Torres e Braga, crescera em .Jla<.lritl a Yontadt>
231j
L \".-O CARTISMO -I I I
de inten·ir, poi:::, além das instaneins rlo conde de
Thomar qne os hespanhoes queriam para seu
descanso vêr restaurado ao g-o,·erno em Lisboa,
(LiJ•ro <ll.lll. Southern a Palm. 28 de nov.)- havia um medo pp-
sitivo das falatl<lS combinações entre o mignelismo
e o carlismo du conde de )Iontenwlim. (Hulwer a Palm·
dez.) Assim, no meian•l de rlE"zE'mbro, a
Hespanha soffreada pela Inglaterra e reduzida a
obsen·ar a fronteira com o seu exPrcito e a abas-
tecer e auxiliar o de Cazal em Traz-os-)luntes,
(Southern a Palm. nov.) declara terminantemente que
intervire\, com ou sem o auxilio das potencias, se o
miguelismo continuar a crescer, (Hnlw.:!r a· Palm. \laJrid.
,3 dez.) A Franea falava pela bocca rla nacilo nossa
visinha; e pei=ante o miguelismo. aberta: publica-
mente alliado aos setembristas depois de Torres, a
Inglaterra teve de ceder. () embaixarlor em )la-
drid apenas conseguira que pre,-iamente o a,·isas-
sem ant12s de os t:>xercitos se pôrem em marcha.
!Ibid.J :Xo fim do <mno de -!ti a pedida
no ultimo trimestre, já parece o caso decidido qne
,-ein a ser no meiado de -!7.
O pobre estonteado, inconsequente,
enrouquece para proferir palavras (lt:> paz. Tambem
elle teme a victoria elos seus: <I Para que é incitar
o po,·o a qae entre no palacio dns nossos reis e
ahi pratique acções de cannibaes? O paço dos nos-
sos reis é um foco de corrupção politica, mas nào
o é de corrupção moral. .Xão ha rainha mnis vir-
tuosa como esposa, nem como mãe fnmilias ,>.
cn. 271 O Espectro, cabisbaixo, com a voz que fura
eloquente, parece pedir perdão do clamoi' que le-
vanhira outr'ora, exigindo a abdic:1ção rl'es:5a pro-
pria rainita e a limpeza da de ('rtcv. Por-
que é uma tal mudança? Foi o ing-lez
que veiu (fevereiro) a vêr se conseguia comptir os
3. -O ESPECTRO 237
partidos em m·ma::;, a vêr se ain<la a acçlcJ
da Hespanha; e u Espectru
7
e a gente que esco-
lhera para seu orgão a voz de uma sombra, na
esperança do poder, moderavam & fm·ia, muda,·am
o rumo. :Jlas como rainha e govt:'rno se recusa-
ram a pactuar com a revolta (_alJril), a voz do Es-
jJecfro voltou a vilipendiar aquella que tres mezes
antes era o muuelo das virturles:
A côrte vela :ma parte, toda sybarita, toda g:u;trono-
mica, entra aimla. ua lncta com iuteJH;ào tlvble. Se veuce,
n systema absoluto trinmpha; sf' succumhe, acceita as ccm-
diçt,(>s e cntrf'ga OS C'adaveres UOS S('IIS amigos em hnlo-
t.•austo :í naci,Jmtliuaue otfendida, :í moral publica nltra-
j:ula ...
E quando, afinal, a Inglaterra teve de annuir
cabalmente <:is exigencias da França-Hespanha,
conseguindo apenas tomar tamhem parte na inter-
venção ; q uanllu as forças extrangeiras chegaram,
para que os chéfes da revolta, não sabendo que
fazer d 'ella, se lhe entregassem, fingindo obedecer
á força, o Espt>ct1·o
7
voltando a achar a eloqnencia
dos primeiros dias, dizia nos ultimos :
A cinte, o miuisterio, o rei, tudo isso desappareceu.
X i\o caíram ás uossas mãos, que nol-as ataram : mas sumi-
ram-se na voragem 1le nm protocollo. hso IJLIC ahi se cha-
ma rei é um espantalho, os minif,tros são os lacaios de
lnrcl Palmcrstnn. Foi a rainha, foram os Cabra(>s, quem
11os yendeu, (jlll'm nos trahiu ... (n. 63, julho, 3)
Não seria acaso tambem o conde das Antas, indo
metter-se com toda a sua gente na Locca do loLo
inglez qtle Yiam aLerta á barra flo Douro'!
seria tambem por não querer pas-
sar de a Li::;boa? Nàu seriam tamlJem os
<'ht-fes da revolução armada, politicas, generaes,
L. V.- O CARTISMO -1 I I
cortezãos em vez de tribunos, com medo da de-
magogia que passaria por sobre elles, se acaso
consmuma:5sem a victoria? A intervenção servir-
lhes-hia, se a Inglaterra a fizesse a favor do seu
partido: como a fez a favor do inimigo, a inter-
venção era um crime.
Quanto este f!.Spectro é com effeito a imagem
sumida da viva personalidade do tribuno Passos em
Belern! Dez annos bastaram para mumificar a de-
mocracia; n'esses dez mmos, os seus chefes tinham
fechado o Arsen((l) dissolvido os batalhões, entre-
g<mdo-se nos braços da m·dem. Del. annos
tinham bastado tambem para que o desenvolvimento
necessario das premissas postas na legislação li-
beral apparecesse: a liberdr((le era um absolutismo
da nova aristocracia dos ricos nascida da concor-
rencia; e em vez de l\Iousinho, um Bentham, ap-
parecia imperando um homem duro e pratico, o
conde de Thomar, imagem ossea de um systema
já consolidado.
Democratas, liberaes, agora todos, as som-
bras dos que tinham sido. A miseria crua do paiz
reduzia-os á condição de seres famintos, amesqui-
nhando-lhes os caracteres, baixando-lhes a estatura,
avolumando s/, a podri•.lão natural das conts. Que
o extrangeiro viesse a este cemiterio afastado, man-
dar a cada espectro para a sua tumba, acabar a
funebre revolta de cadaveres, não admirava nin-
gnem, porque a liberdrtde trouxera-a elle. Estava
obrigado a manter o S/fsfema. l\las, dez annos ha-
VIa, o extrangeiro encontrara cá um povo singular,
extravagante, um dos sete dormentes da Europa,
inaccessivel ás idéas novas, mas vivo, abraçado de
j(lelhos ao tbrono-altar . .Agora, voltando, o extran-
geiro se', via tambem o espectro d'esse povo antigo:
sombras errantes falando uma linguagem archaica
-!. - A PRIMA \"ERA "DE -! 7
tremida nos laLios brancos de frades rotos e sene-
ctos; cordões de mulheres luctnosas ajoelhadas pe-
rante os nichos allumiados, resando <<por alma dos
nossos irmãos qne foram mortos n'esta rua!"
uns dos mortos voltavam para sempre aos eter-
nos jazigos; outros fugiam do velho cemiterio das
doutrinas, deitavam fc)ra o lençol da liberdade, e
a correr batendo os ossos, vestiam as fardas rege-
neradoras lantejouladas, e, mirando-se em trajos
de vivos, ficavam crendo ter resuscitado.
1
4. - A PRIMA \'ERA DE 4 I
Encetaremos a narrativa dos casos cl'esta se-
gunda e ultima epocha da guerra dizendo o que sa-
bemos das relações entre setembristas e miguelis-
tas armados, depois do desbarato ele )lacclonell em
Braga. FGra a 28 de novembro que o caudilho, le-
vantando abertamente a bandeira da restauração
1
Dua:> palauas de despedida a esse homem que desappareceu da
scena (13 de setembro de 1882) em que por trinta annos representou
o papel de guardião do partido regenerador. Curado tambem dos roman-
tismos democraticos, resurgiu em Sampaio a sua primith·a
fradesca. Era na figura e na bonacheirice um 'e lho portuguez: tinha o
ventre nacional e no estylo dos seus artigos lardeados de latim um tom
de sermão :\:a mocidade chegara a prégal-os (T. de Vasconcellos, () Stllll-
paio .ia Revolucâo;, e as reminiscencias não se apagam assim! Varrida
a illusão ficou-lhe a vis sarcasticamente plebéa com que
ataca\'a os a;:h·ersarios á direita-e á esquerda, sem consciencia nem fé, sú
por politica, nas questiunculas pessoaes dos partidos. Foi o José-Agosti-
nho do liberplismo, com menos talento do que o frade. \'ia-se-lhe no es-
tylo a tonsura e fenlla do antigo mestre de latim. Uma das muitas arbitra-
riedades da tyrannia miguelista lançou-o para o lado dos·Jiberaes, abrindo
um parenthes1s de ,-inte e tres annos (1828-S1) no desem·olvimento logico
da sua personalidade. Tornou ao que fura, \'estindo a farda depois de ter
deixado a sobrepelliz. Ilizem que acabou dizendo assun: uSah·emos a mo-
narchia .... Quero ,-er as prm•asn :\cabou como de,·ia. pensando na im·
prensa que o fizera gente.
L. V.- O CARTISMO- I I I
de D. Miguel, entrara na cidade catlwlica, primaz
das llespanl•as. Com o escucez an.Ia,Tam as guer-
rilhas do i):vlt·e Casimiro e d•J paflre l\lanuel Agra
contando ao todo de dois· a tres mil hunwns, do-
minamlo no e. em parte de Traz-os-1\Iontes,
como dissemos. Não lhes faltasa dinheiro: davam
cinco moedas a cada cavalleiru e uma a cada in-
fante armaflo, que se apresentassem, p:1gandtJ o
elevado soldo de 2-!0 réis á cavallaria, de 1 ôU réis
infanteria. Cazal dispersou e anniquillou, segundo
contúmos, esse f,)cu miguelista de l3•·aga, quasi ao
mesmo tempo que Saldanha. derrota,Ta em Torres
o::; setemLri:;tas; e a crueldade do general no l\li-
nho não fui menor, antes excedeu a do governo
de Lisboa. Cento e quarenta pessoas foram truci-
dadas em Braga pelo vencedor que não perdoou
aos prisioneiros. tl.i1•ro a-;ul, Southern a Palm., 5 de jan.J
1\Iacdonell conseguira fugir, apenas acompanhado
pelo seu estado-maior, pondo-se a caminho de Traz-
os-1\Iuntes, onde um piquete de cavallaria da divi-
são de Yinhaes, acossando-o, o prendeu e m'ltou
nus ultimns de janeiro. (.\zewdo, Dois etc.)
Da morte de l\Iacdonell, com o qual acaba,·a a
sedi-;ão francamente restauradora de D. Mig-uel,
come<;a uma ltistoria nova com o anno de -!7. A
crueldade de Cazal em Braga, a morte do cabeci-
lha, foram o rebate para um levantamento geral,
mas menus atrtJvido, do miguelismo. U padre Casi-
miro esperava o apparecimento de guerrilhas car-
listas do outro lado dn fronteira, para organisar as
cl'este; mas, ao mesmo tempo, os antig·os generaes
Povoas e Guedes eram enviados ao Porto ·pnra tra-
tarem com a JUNTA as bases de uma alliança. Di-
versas foram as versões correntes. Uns falaYam da
sinmltanea abdicação de D. e D. l\Iaria II
o tio e a sobrinha, noivos de outro tempo, accla-
4. - A PR.L\IA \"ERA DE 4 "j
mando-se D. Pedro v com o governo représentati-
vo, ma:; gabinete miguelista. (Livro .r;ul, a Palm.,
5 de jan.) Outros diziam que a JUNTA se disposera
a acclamar D. l\Iiguel em pessoa, e que para tanto
já .Manuel Passos partira para Londres, o que era
falso. (.\ze,·edo, Dois dias.
Era comtudo verdade a fuga de D . .i\liguel, de
Roma, e de crer que projectasse vir a Portugal.
(Thomar a Bul\\ef. .\[adnd, :!()de dez.) Esta noticia enthnsias-
maYa muita gente no Porto, embora os planos em
que se falava provocassem descontentamento em
alguns corpos. Esses planos dizia-se consistirem
na entrada de dt•Ís generaes miguelistas na JUNTA,
no subsidio de homens, na acclamaçào de D.
1\Iigut::'l rei constitucional, na successão da c01·i'la á
casa Cadaval. (LiJ,ro a;ul, cartas do consul Johnston. I. Í• e I I de
janeiro! (iuaesquer, pürém, que tivessem sido as ver-
dades traduzidas por esta serie de boatos, o facto
é que, no meiado de janeiro, a situação definia-se
claramente. Punham-se de parte as combinações,
sem se chegar a convenio de t=-specie alguma. A
JUNTA acceitava o auxilio incondicional dos migue-
listas, deixando -lhes os Jogares e patentes, caso an-
nnissém ás decisões que ella tomasse depois de
vencedora. ribi.i. Southern a Palm. 3o de jan.) Era a coalisilo
em armas. E Povoas saíu logo a campo, da sua
casa da Beira, proclamantio a religião catholica
apostolica romana, a nação portngueza e o seu he-
roico pronunciamento; (\T. proclam. de Ií de jan.) deixan-
do, como se vê, éill aberto todas as questões poli-
ticas e dynasticas. Acaso á sombra do equivoco se
Yéncesse o que não vencera a denodada affirmação.
Xem D . .Miguel, nem uma parte grave do seu
partido no reino, parece que este pro-
ceder duLio e politico. A tradição custa a morrer, e
a tradição legitimista era pela nitidez das affirma-
PORT. CONT.- TOM. II 16
L. \".-O CAH.TISMO -1 I I
<;Ões. D. l\Iiguel escapara com effeito de Homa dis-
far<;<lllo em creadu de um capitào llemwtt. e a po-
licia ingleza saLia do seu esconderijo de Lcmdres;
:5auia que pensa\·a partir para pllr-:::;e ao
lado de )[ac(hmell no (lbid. Palm. a Bul\\er em
r6 de r .. ,-.) E' desde então que o ministro in-
g;lez princi}'ia a acreditar no miguelismo. Elle e:::;-
pera comtudu que derrota de ::\Iacdonell, ll•Jticia
qtie acaLava de chegar, faria mudar de tençà•> o
pretendente; ribi.iJ e com eft'eito assim foi. o que
leva a crfr que o principe não appruvas.se a poli-
tica da coalisào, jil anteriuriuente condemnad;l nas
circulares de
Coalisadl) com a JlSTA, o miguelismo perdt> a
individualidade politica, sem por isso deixar ele
ser um risco; porque se a _Tt;NTA cheg:as:Se a ven-
''er, teria tle começar a debater-se com os seus al-
liallos: os miguelistas á direita, os demagogos á
uns accordando em pedir D. )liguei, ou·
tros D. Pedro Y: amLus a queda da rainha, am-
l!_OS uma revolução que levaria Portugal, ou <l rt>S-
tauraç·ão do absolutismo, ou á implanta<;ão de uma
repul•lica. Qualquer das liypotheses era antipa-
thica á Inglaterra, que desde então reconheceu a
necessidade ele intervir. )[as essa interveneào •1e-
sejava ella que fosse um pacto, um t=-ntre
us partidos constituciunaes Lelligerantes, e não viesst>
alargar a Portugal a influencia da França doutri-
naria, já exclusiva em Hespanha, defendendo a
todo o transe o partido cartista e a clientt-lla dos·
Cabraes.
Depois de Torres-Yedras
7
o conde das Antas
evacuou A :!-; estava em .\lcobaça,
4.- A f'RL\IA\'EkA lJE .J:j"
retirando sulJre Coimbra. Saldanha perse.g-ma-o,
ru,·rn,l:;ul. Palm. 29dez.) sem força 11ara o ),ater.
O resultado da \'Íctoria era nenhum, porque, pa:-5-
sada a primeira impressão, a revolta,
a tudo o rt>ino, em YeZ d.., amansar, creScia.
Fui t>ntâ•> fple PuYoas desceu da serra fla E:;-
trt>lla, a Y&r se podia obrigar o general de Li:;lwa
a não cheg·ar ao Porto. :--\aldanha pat·ou no :--'m·d;lo,
t> Antas t>ntraYa na cidade da preparan•lo a
defeza (.\Le\'e.:lo. Voix .tias. etc.) Ia repetir-se um cerf'o t
Ia outra Yez haver o que houvera t'lll :.}:?-:; I lave-
ria, se agora, como então, os do Porto
obter de fl'11·a soldados, munições, flinheiro. T•HTes-
y t>flra:; limpa1:a inimigos o Ct>ntro do reino: mas,
t>mqnanto o Porto se mantinha firmP, e, no )linho
disputado, ( 'azal e Antas jogavam o xadrez, no
sul do Tt>jo succedia proximanwnte o me:smo entre
:o;chwalbach e o conde de l\I..,llo que t'lll Ylio atacaYa
Estremoz ( de sendo obrigado a retir;tr
sobre )lan·ito, rlbiJ.; t>speramlo. Saldanha, entretan-
to, aYançaYa até Uliveira-de-Azemeis: e . \ntas,
abandonaudo o )[inho, recolhia ao Porto, fria-
mente recehiclo pelos jnnteiros r1ue o accusa,·am dt'
nada ter feito. rlhi.t.; E Saldanha que fazia? Xada
tamhem, porrp1e lhe faltava tudu. Pedia pam Lis-
boa armas e dinheiro, mas o govt>rno nà.o os tinha
para llt'os dar. isto continua, o caso pt'ule ser
grave». J<i o povo de Braga arrazara a casa onrlt'
Cazal dormira, e a Jt;"XTA fc'Jra acclamada logo qnP
o vencedor Yoltara costas, e os ex-frades e fidalgos
preparasam uma insurreição medonha. O caso pódP
ser graYe ... (l.ivro a:;ul, \\'ylde a Palm. I8de jan.)
O mez de janeii;o cons1imiu-o a prt>paran-
do-se para o cerco, lançando contribuições sobre os
bancos, trabalhando activamente na deft:>za .• \ :?lt
estaYa acabado o primeiro circulo de 1Jarricadas .,.
24! L. V.- O CARTISl\10 -I I I
muito adiantado o segundo; mas as deserções con-
tinuavam : dez ou doze homens por dia. rLi1•ro .1,111,
Cart,zs .to cmzsul, 1, j, 11, 21i de ian.) E ao llWSlllO tempo que
Antas perdia o tempo no 1\Iinho, Cazal recelJia pela
fronteira da Galliza centenas de recrutas ht"spa-
nhoes e material de guerra. rlbid. Carta de Yigo, 2-tl Sem
poder intervir directamente, a Hespanha fazia agora
aos. c·artistas o que em 2G-7 fizera aos apostolicos.
Em Yigo fuúdea,Tam duas fragatas, armadas, ap-
pat·elhadas, promptas a saír para o Douro á pri-
llleira ordem. f/bid.J A JUNTA ainda se mantinha chl-
vidosamente fiel á rainha, mas ameaçava destln·o-
nal-a, se Saldanha avançasse do Sardão, e o mi·
nisterio teimasse em não cair. Os meios não falta-
vam no Porto, mas já se sentia no l\Iinho uma ca-
restia insupportavel: o milho regulava a 52U o al-
queire. r/bi.f. Cartas do cmwtl, 21 jan. 17 fever.) Saldanha,
anmçanclo até Azemeis, obrigara Antas a recolher
ao Porto: que ia haver? Um cerco? Katuralmente.
Resolveu-se, pois, repetir a historia anterior; e
para abreviar os episodios, começar desde logo pela
expedi<_;ào do Algarvü confiada a Sá-o Terceira
de agora. A divisão, forte de mil homens, emharcou
(2K de março) indo tomar terra em Lagos, atraves-
sando livrf'mente o Alemtejo, de correrias celebre,
vindo entrar em Setubal onde se reuniu ás for<;as
do conde de ::\Iello, inactivas desde fevereiro. l\Ias
para cobrir a capital, já o governo destacara Yi-
nhaes para o sul, fortificando-se nas collinas d t ~
Azeitão que, prolongando a serra d'Arrabida, divi-
dem as duas bacias do Tejo e do Sado. No Yizo,
comoro das vertentes austraes, ás portas de Setn-
bal, feriu-se uma batalha (1 de maio) cujo vencedor
se duvidou quem fosse. Se a vantagem ficou por
alguem, não foi pelo governo; mas jit a esse tewpo
os inglezes protegiam a rainha., como Yamos Yêr,
4:. - A Pl<.L\1.\ n:HA IJE -1 I
irnpedindt• o general relwlde de prosegnir. DeSe-
jant, pedia elle outra cousa r Quereria entrar em
Lisboa venceclor, para ter d.:> se voltar, na::; :suas
ruas, contra os que C'Ommandavn? para defender o
throno, como em ~ 3 ~ ? Xão, decerto. A ponto de
vencf'r, via-se percliclo; e protestando, exultaYa pur
achar os ing;lezes a vedar-lhe o passo, obrigando-o
a render-se.
~ o l'orto succt'dia o mesmo ao conrle das Ant;ts.
Felizmente os inglezes tinl1am bloqueado a barra
(27 de maio l: estava chegado o momento de saí r
da posição falsa em que se collocara. Nem a rai-
nha nem o ministerio cediam, e para os chefes a
reV•Jlta não tinha mais vnlor do que uma ameaça .
. Jogando com fogo democrnta, miguelista, temiam
a labareda que tinham soprado. Quem viria apa-
gai-a. sem os expijr ao labéo de traição ou cobar-
dia? Pois não chegava a tempo a intervenção, tão
necessaria a Lisboa como ao Porto, ao governo
como á Jl"NTA? .A.bençoafla esquadra ingleza! pro-
videncial bloqueio do Douro!
Porque, se não fossem ambos, era forçoso ven-
cer. ~ o dia ~ U tinham chegado os vapores de =-'e-
tub;ll para conduzir segunda expedição á ultima
campanha. Os qtwtro a cinco mil homens das ex-
cell ... ntes tropas do conde das Antas deviam des-
embarcar na Extremadura, cortando a Saldanha a
retirada de Li:;boa, ao mesmo tempo que Povoas
o acossaria do lado das Beiras. (.\ze,·edo. Dois Ji.1s, et.:.)
Esse plano de campanha pnrecia feito a pn•posito
para tf'rminar tudo conforme convinha. Tres dias
havia que os inglt'zes bloqueavam a barra. e sa-
bia-se isso muito bem nu Por.to,- como se igno-
raria?- quando a 30 o conde das Antas emlJarcou
a sua divisào e a sua pessoa. A's seis da manhan
do rlia sf'gninte, os vapores saíam a barra ... para
L V.- O ·C.-\RTIS:\10 -I I I
t:>ntrar no seio salvador da esquadra ingleza. Pri-
sioneiros, protestando em e graYes phrases,
Yiam-E-e sah·os. Os inglezes foram deixai-os t'lll
.J nliào. na lJarra de Lisboa, presos
já amnistiados por uma con,·en-;ào.
Ao mesmo tt:>mpo uma di,·i:;lo ltespanhola
pnnha a raia do )linho e t'
tlani.a a,·,meant de Oli,·eira de Azemeis sobre o
Qne ;.esta\'a da reYolta? A JCXTA ainda, em
ag•.llllHS.
nada salJemos da c·apital, n't:>sse priuwiro t'
funebre semestre de -!7. Yimus o qnt:> a gente ar-
mada fez, mas ignoramos u que o gabinete fazia,
e y ne SL•rte a guerra Ll<·n-a ü miseranda populaçâ•J
dt:> L.isbua.
Des•le o principio do anno qne as cadeiHs esta-
Yam cheias de setemlJristas e miguelistas; desde
t'lltàu as emigrações ferYimu. 1Li1•ro .1;ul, Southern a Palm_
ll• de jan.) O go,·erno comtllnnil'cira potencias a de-
eisFl•J de lJloqnear o Dunru, mas isso nà.o ·passant de
nma r.·,rmnla, porque a marinha portugueza aca-
barã de todo, e os poncos Yapores que haYia tinham
caíd•J em puder dos rebeldes, senhores du mar.
l\las t' mais triste, u mais gr<we, era o caso das
notas do banco, infern<ll papdada qne, t>ngôrdando
os rebatedores, lentYa a miseria a toda a parte.
Cada moeda iá tinha " desct,nto de nutis de trt::>s
pint11s e tlas amt>aças st'1 recebia nota:; quem
nà.J podia eYital-as. Papeis, nF:.o tinham
compradores. As acçéJes do banco tinham baixado
de a 300 mil réis: sú os homens da Coufi•mett,
a quem o decreto de Hl de noYembro
Yiam subir as acções de a :!:!, ft custa elo poYo
arruinado Ctllll o sacrificio ela t>missão elo banco.
4.- A I'I:UMA\"ER\ DE 41
O ,·iscun(le de Algés, no Thesouro, acha,·a-se
perdido, p.n·qne de fúra não vinha dinheiro, e em
nâ.u o J.a,·ia antes- quanto mais agora, no ca-
lor da sediçfto. nem para Saldanha chegava! Em
1\I::tdrid e::stava embaixador o cunde de Thomar e
para elle se vr_•lht\'am os olhos, se dirigiam as sup-
plicas e os pedidos de Kãu seria po::;-
sin·l arranjar em l\ladrid um emprestimo 't Em
Lisboa }->reparar-se hia tudo: custava pouco. Snp-
primiam-se cts decimas das in:scripçi1es, externa::s,
internas; (ile..:. de 2y jan. e 2S re,·ogandn o de 21 de agosto)
e para pagar o coupun do 2.
0
semestre de 46, em
divida, crea\·am-se bonds (fiUO:OUO li h.) garantidos
pelo renflimentu das alfandegas. Q,uantu ás notas,
revogaYam-se as penas, e o Estarlu reconhecia-as
C(tlllO suas : nm verdadeiro papel mueda. Xã.o te-
messe o povo: iam-se carimbru· e em Lreve clwga-
ria ouro bastante para as queimar todas! (I>t>cr. • de
fe, er. art. do 1 )iarin)
Com effeito, o conde de Thomar em :Jladrid con-
alguma cousa. Os banqueiros propunham-se
dar tres milbões esterlinos a .J;J cum a conuni::s-
sà·o ele dois e meio. Um ovo por um real. l\Ias ...
davam no primeiro anuo só um milhão, o resto
depois. Um milhão seja: twlo o q ne Yier. . . 1\la::s
«queremos tres annos de juros -U
governo, desanimado, caín em si. Um pouco mais,
e os banyueit·us, cobrando arliantados os juros, não
dariam nada, ficando credores de muito. O qne
promettiam emprestar vinha a sair a 2õ,ü por
ct-ntu. a Palm. no Li1•ro a;ul, 3• jan.)
O gon,rno não teve coragem para tanto: o -mi-
nistro sumiu-se, deixando o lugar a Tojal. (2o de fe,er.)
E o reLate das notas a c1·esct>r, e gemendo todos
com fome. e a bordo do Audrtz cobt>rtos de feridas
os de Torres, ú espera do eh·-
2-!H L Y.- O CARTISMO -III
gredo! ·E uma rebeldia surda a sussurrar por todos
os cantos! .. No governo-civil o marquez de Frontei-
ra, com seu irmão lJ. Carlos Mascarenhas á frente
da guarda municipal, mantinham diffieilnwnte urna
ordem similhante á de Varsovia. Lisboa parecia um
acampamento;· tudo estava armado em batalhões
de cílres e feitios voluntarios, fusileiros,
caçadores da rainha, caçadores da CARTA. l (avia
ex.ercicios constantes, e paradas, e revistas, e o
commandante em chefe, D. Fernando, que não
nascera para emprezas hellicosas, via-se forçado
a arrastar a sua indolencia, correndo os quarteis,
vivendo n'mn estado penoso de agitação por cou-
sas que, bem no fundo, lhe eram, ou antipathicas,
ou indifferentes. E por entre este borborinhar de
tropas mais ou menos grutescas, pullulanuu os
turlmlentos, os homens de má-nota, emprezarios
de benuwdas. Aos empregados não se vagava
desde outubro, em Lisboa que é uma cidade-se-
cretaria .. v. Lil'ro-a:;ul, Southern a Palm. ,s te\·er.) A desor-
dem, a excitação, a fome, traziam á tlôr do charco
social os detritos humaniJs das cidades; e como nem
na reYoluçãu, nem na reacção, havia profundos moti-
vos rnoraes, o caracter da crise, em vez de ser
tragico, era grutesco; e Lisboa que já fcJra em
uma .J erusalem, era em -!1) como Byzancio cercada
por um turco-setembrista.
Vendo chegar Tfdal, o commercio bateu pal-
mas. f/bi.t. 2ti re,·er.) O homem valia e trazia com sigo
boticadas novas: «absurdo esperar dinheiro de fi ira,
quando a exportação, sempre inferior á importação,
era agora, com a guerra, nulla; o ouro fugia para
pagar o que compravamos fóra; a guerra engulia
o resto, e não lhe chegava; a desconfiança aferro-
lhava as economias; havia juros em divida, e o
Thesouro vasio, e o curso-forçado das notas ex-
4.-A PH.Il\1-\YEH.A DE -!t
pulsava o ouro do merendo. Uma chim.=ora o ern-
prestimo! Arranjassemu-nos com a prata de casa.))
<'"· IJi.trio, an. fe,er.> que prata r se havia apenas
cobre e falso! A prata eram notas, notas infames
com o rebate de metade! (2:2So, at>ril> Moderar o
cursc-fêJrçado, fazendo só por metade as no-
tas nos pagamentos; dar curso legal ás moedas
americanas e hespanholas de ouro e prata; elevar
a 50 contos por mez a amortisação das notas ;
crear um emprestimo intu·1w de 2:400 contos para
abre,·iar a snppressão das notas-eis ahi o recipt;
de Tnjal. (V. Hec. w mar..;o) O doente vomitou-o, ou não
o quiz tomar: u medicamento hdenw não valia mais
do que o eJ·terno. Farejaram-se os armarios e
vein de lá o Dulcamara com drogas antigas, da
velha alchymia: o emprestimo seria uma loteria,
com premios de papel, e bilhetes pagos a notas.
fúecr. 9 de at>rill A fazenda receberia em notas tudo
o que lhe de,·iam fóra de Lisboa: isto é, onde o
inimigo colJrava os debitos. tvecr. 6 de at>ril) Os títu-
los do emprestimo manso de seriam converti-
d(•S em inscripções sob condição de pagamento de
um quarto nominal em notas. (lJecr. 23 abril) E por
fim us papeis andavam tão de rastos, tão rebati-
dos, que se reduziu a pr'"•porção d'elles a um terço
nus pagamentos. rLJecr. 1S de junho)
Pu!::itiva fome lavrava em Lisboa no segundo
trimestre do anno funebre de 47. Para lhe accurlir
distrilJniam-se diariamente 2:500 pães. (\'. as listas e
contas no Vim·ifJ) E o vasio dos estomagos, e
ção das cabe-;as, o desespero do governo ameaçado,
batido por toda a parte, fazem d'essa epocha um
melodrama, lngubre nos sofft·imentos du povo, na
morte dus soldados, entremeiado de fumes e cada-
veres, de intrigas e miserias, de sangue e lodo:
farrapos de pobreza universal, pobreza de genio e
L V.- O C.\RTISI\10 -1 I r.
de pu1reza ele dinheiro e de forta. Era
Yenladeiramente uma lncta de espectros. ""
_ Corno S•Jmbrns se tinham mui-
tas forcas dn :,.:·uYerno. A columna (llle em Alca-
cer defendia L.i:<l,.,a da patuléa do fUra
uma noitt> apri::-iunada inteira. A do
Yapor lll<HHlmlo a Yigo e a Yianna em ser-
prendeu em Yiagem os officiaes na camara e
leYou o Larco ao Porto, a entl·egar-se JL"'i'<TA.
(\\"yl.:l\! a Palm. 1!:'. '2/ fi!Yereiro, no Livro a;u/j u· mez de março
approximaYa-se o abril terriYel. Em Lis-
J,l,a haYia rnsg·as para arreginwntar vo-
lunt,rius: e imnwYel por impotente, aYi-
saYa do seu quartel general (llle resignaria a presi-
dencia do se não Yie::;sem soldados dt> lles-
l'anha, ou um accl•nl., com o inimigo. () gahinete re-
solYeu então decididamente implorar o soccorro ao
reino Yisinho, que anlia por que lh'o pedissem,
nwrdendo impal'it--'nte o freio posto pela Inglaterra.
(lbid. Seymour a l'alm. 14. 18 de m•tr.;o)
:Ko principio de fen'reiru a historia diplumatica
da guerra clwgúra a um momento dt>cisiYo. com o
faeto da das migtwlistas da .JUN-
TA: dt>pois dt> T • Vedras. Costa Cabral, nosso
ministro 12111 Jf<Hlrid, conht>cedur das rt:>sistencias
ela Inglaterra. dt>clitrara a Bulwt>r Littun que se as
migtwlistas engrossassem, t>lle. pediria soc-
COITOS <i llespm1ha, Ín\·ucando o tratado dt> 3-l- on
da quadrupla tlbi.J. 3o de! janeiro) e o inglt>z,
ao mt>smo tt'll1}'0 lptt> protesta\·a contra, t>SCI"t>\'ia-o
para LIJn.-lrt>s contando os fundamentos das insis-
tt:-ncias do purtngnez: que a mignt->lista-
setemln·ista t>ra nm facto, um artificio o não se pro-
4.- A PH.l:\1.\\"J::!U IJE -li
clamar D. )liguei, positi ,-o u ca.sus fo dais; que o
irmà.o de !"á-da-Bandeira 1 \ntonio Cat:-ralJ f•ira a Lnn-
dres eompntt· munições, e l'a:;so::; )lanuel :t Rt•ma
hu:;car D. )liguei (Reg_nntlo falsamente corria é con-
Yinha ao governo de Lisboa fazer crer). A He:5pa-
nha. terminava, deci(liua a intt-rvir. nào o fará co-
tudu sem accordo comnosco. ,fbiJ. Bnlw..:r a Palm. je fev >
() lE-itor ::-aLe que Paliuerston t-n,·iára e::-pecial-
um legado milita1·, o coronel \Yylde, para
obter a paz entre os Lelligerantes. para (! sen·ir de
medianE-iro entre a e o duqne de !"alclanha. 1>
Hestabl:'lecer-se-hia a constituição de 3 . ...:, C(Jn vocar-
se-hiam cúrtes, expuls;u·-se-hiam us eaLralista::; do
go,·erno. (Palm. a Wilde, 5 de feq seria bélll a YÍ-
ctol·ia da JCXTA., mas sim a do gTnpo rn·d"iru
7
,-en-
eido e111 4:!. E quando lt-'ll os fundamento::; da núta
d" conde de Thumar a DuiwE>r, u ing-lt-z pt-guu da
}JE'lllHl I:' mandou dizer a \\"yl(le qne o tratado de
;l-l acaL;u·a, que fôra especial e nào permanente,
nf-:.u s•) não havia motivo para inten·ir, mas
ainda q uandu h ou v esse, não se podia in ,-oca r mn
tratado acaLado. (Palm. a Buh,er. 11 de teq
\Y ylde nada conseguira da JL'XTA.. nem talllbem
do go,·E>rnu. Via-se impos::;Ível a transacção, im-
pedida pda Inglaterra a intenTençào da Hespanha,
qnrtl a sorte de Portugal"! Ficaria aLando-
nado ao resultado de uma re,·olta
7
di;' quE> us gene-
raes temiam os soldados? \-enceria o gu,·erno "!
Yenceria a e com ella passariam por sulJrE'
as cabeças dos chefes, as columnas d•-'S demago;.::•JS "!
e as legiões dos migudistas ·? Em man;o, corno o
leitor olJ::;etTou, parecia prova,·el a victoria final da
rev,Jlta. E f'lll taes apuros, ,·endo que a
Inglaterra teimava em não cleixar a Hespanha in-
ten·ir, licença ao go,·erno ,·isinho para ali:star
trt>B nlil homE-ns. (Lil•ro a;ul. P.llm. tq-:!t de mar.;o)
L. Y.- O -I I I
A Hespanha recusa, <<mas se isto durar
tBuh,·er a Palm. :ql Com etft>ito, o aperto era tão gr:mde
que o minii'5tro francez fui às uift>re-
Ct>r a sua protecçlo á rainha. (Seymour a Palm. :!o)
Perante urna situação assim, Palmerston come-
ÇL'll a lwsitar. Com o seu empenho de Later em
Purtugal o cabralismo que era o alliado diJ duutri-
narismo hespanhol, e amlJos a copia do ministerio
G-uizot, ambos a expressão da influencia fnmceza
na Península: com esse empE-nho, não iria elle,
acaso, SE'r\·ir a demagogia ou o absolntismo? Desdt>
a Hespanh<t e a França esta\'<Ull de êlC-
cordo em considerar vigente o tratado de iJ-!, (IJulwer
a Palm. :.!3 de fewrciro, Madrid; lfUê elle Palmerston insis-
tia em declarar abolido. Xào seria um erro, uma
Com effeito, a linguagem da Ingla-
tena a lettra, nE-m o espírito do
tad" de são applica \'eis a Portugal O!J01Yl)). Ue-
conhece pois a E'xistencia do tratado, e já chega
a adrnittir a l1ypothese da intervenção, mas insis-
tindo pelas condiç·ões anteriores: amnistia geral E'
plena, restabelecimento das leis constitucionaes, mi-
nisterio nem cabralista nem setemlwista tministerio Ro-
drigo, or.:it'iro) expulsão do Dietz- instituição portu-
gueza, oh miseria! Assim que o governo annuir,
parta \Yylde para o Porto a convencer a JC::-nA.
(1-'alm. a \\"yl.:le,; .:!e abriiJ
Ora o gon·rno não annuiu, e a crise precipita-
va-se. desespera\·a-se, porque os seus amigos
Barings dê Londres recusa\·am as trf'zentas mil li-
bras com que se havia de pagêlr o di\'idendo extt>r-
no : OS temerarios não Sêlbiam que. a victoria (}a
rt:"vuluç:lo sl"ria um traço, riscando a divida extran-
geil'a! irritaclo, oppunha se à amnistia.
ISeymour a l'alm. 21Í de março) em Lisboa uma gran-
de miseria, uma excessi\·a de tnLlü, um
4.- A PRIM.\\"Ek.A IJE Jj"
2.)3
doloroso mal-estar, perseguições e recrutamentos, os
batalhí'ie;:; sempre em armas, e as notas fluctuando
corno os trapos de nen:• caindo, cobrindo tudo, nos
dias mornos que precedem o desencadear da tor-
menta.
A procella descia pelo Alemteju com a divisão
de que a de abril se juntava em
ás tropas do conde de ::\Iello, do G.:1lamua,
a todas as guerrilhas do sul, para virem, reuni-
dos, conquistar Lisboa. Em o Logar-te-
nente da JUNTA (assim se intitulava
deira) formava uma especie de governo: Braam-
camp era o secretario civil, .l\Iendes Leite tinha a
l\Iarinha, José Estevão dizia-se Quartel-mestre
general. (Elog. hist. de Bmamcamp, do a.) Em Lisboa os
correram a Seymom· implc-
rando soccorro; e elle de accordo com o ministro
hespaúhol que tinha no Tejo tres centenas de ho-
mens, prometteu defender a rainha n'esse dia 11'
aprazado para a chegada da patnléa a Almada.
{Seymour a Palm. 9 de abrii) A força das cousas transtor-
nava os planos da Inglaterra; o seternbrismo ven-
cia mais uma vez a e as suas combinações;
e as potencias viam-se oLrigadas a fazer urna
nova Lelemzada.
E porque não cheg·ant no dia
11 aprazado? Porque elle, u infeliz homem de bem,
.achava-se outra vez. na triste situação de ;)j', á
fn:·nte de urna revolução para a modt-rar. Porque
via perdido todo o seu improbo trabalho de ;Jt:.
Porque media as consequencias da sua t-ntrada
em Li::;boa. Porque não qut-ria, elle o munarchico
leal-, o sincero amigo do pO\-o, ser o instrumento
da anarchia destruidora do throno, o orgão da
L. V.- O C\k.TISMO -1 I I
pl .... he acelamatla. Ponpte, finalmente, sabia
planns comlJinadns para lhe facultar a f'lltrada na
capital,- planos flt->ploraveis. I [aYeria tu-
multos de noite, lançm·-se-hia fogo a di,·et·sas ca-
sas e arromLar-se-hiam as cadeias, soltando-se os
presos. As prevenções estannn, tnmad<ts:
quando o ca::;tello tres tiros, as in-
glezas e hespanholas desembarcariam. Não tive-
r-am dP o fazer, porque os sediciosos tPnwram.
Apenas no Terreiro-do-Paço brigaram soldados
com officüws, indo se8senta presos para o Bugio
e um cadaver para a coYa .
. -\lmêllla e::;taYa já fortificada e D. Fernando,
g-eneralíssimo, arrastaYa melancolicamente a sua
de Li::;boa para a aborrecido,
flescontente do :;;eu emprego de. rei em uma na-
ção tão pouco ê\juizada, tão mesquinha e miser:t-
vel. Dias depoi::; honYe um tumulto em Cintra, mas
já YinhaPS no sul do rio gnardaYa a capital; e se
não fo::;se Latido, o perigo immediato estaria con-
jnrarlo, a não ser o perigo constante do espírito
serlicioso rle Lisboa. Contra a cidade, contra o
caso da victoria de :--;;1-da-Bamleira, para o salvar a
elle e êt rainha, haYia poróm sempre o ultimo recur-
so: as forças an;::lo-hespanholas fundeadas Ihl Tt:jo.
c:-.:ymour a Palm. q- Pi de abril)
::\Ias, no acume da crise, abandonava-se o plano
dos soccorros hespanhoes? soceg·:wa o condt> de
Tlwmat· em )[adrid, esquec€ndo os delegadns que
tinha em Lisboa""! Insistia cada vez pa-
tenteanl o l10rror das consequencias, e vLtinha
por tim a ordem de marcha de um exercito dt>
doze mil homens para a fronteira, prompto <t trans-
pol-a para embargar a marcha da patnlt•a soln·e
Lisboa. E quE> fazia o dc·leg-ado de l'ahnerston '(
v .... sde que a Inglaterra reconhelWI'a a existencia do
4.- A DE 47
de ;j.J, e o principio da intern·nçàu- em-
bora não reconhecesse a upportnnidade- a f,_.rça
das uLrigava-a a seguir a Hespanl1a, se) lhe
consentia moderar-lhe os ímpetos. Fui o que
-fez. Eulwer em )ladricl conseguiu que a
nha enviasse um emissario a :-'á-da-Dancleira com
um ultimrdum, e que se esperasse o rt:'sultatl•J
d'essa tentativa para proceder ou nào á interven-
ção armada. Com o marqut-z rle en,·ia-
d-o, vein da embaixada ingleza Fitch por parte •lo
seu governo com instrucçt•es de que «folgaria que
a sua linguagém fosse mais para acunselhar du
que para ameaçar: porém até a ameaça • :Se:-'1"
empreg-ada com delicadeza". (Bnh,er a Palm. 191
Entretanto, o erubaixadur inglez de Lisl,oa pro-
curava fazer acceitar as bases de conciliêlçào pro-
postas por Palmerston, mas Latia em ,-àu na teima
do governo. (Seymour a Palm. 16) Corajosamente, u ea-
Lralismo debatia-se contra a guerra ci,·il, contra a
prutec<;ào falsa dos inglezes, promptos a defender a
rainha, sob condição de condemnar u systema "' 0:5
defensores. Restava porém a estes a Hespa-
nha-e a rainha em pessoa que nàu queria ser
defendida, sendo ao mesmo tempo humilhada; res-
tava-lhes a capacidade do chefe, a cuhesào dos par-
tidarios, a· timidez de inimigos temerosos de ven-
cer, e o panico de uma perspectiva de restauraçào
miguelista ou de desordens setembristas.
:Xo dia Lisboa presenceou um ensaio cl'essa:5
scenas pre,·istas: era o plano fo1jaclo para 11 e l!Ue
fílra adiado. Ao cair ·da tarde, pelas cinco e mt:>ia
abriram-se as portas do Limoeiro e os presos saíram
em columna, com populares, direitos ao castello,
L.\".- O CARTIS.MO -III
para o 1t:11narem. Eram seis centos, e vendo se re-
celJidos a tiro, fugiram. Repellidos do castello, ban-
didos, e políticos, espalharam-se em grupos
por toda a cidadé. Houve durante uma hora com-
batE>s nas ruas. As casas fechavam-se, os habitan-
tes recolhiam-se ; fortE>s patrullJas circulavam e
D. Fernando, arrastando a sua espada, era apu-
pado. A h·n·do dos seus navios, o almirante Parker
tinha j<i as guarnições formadas, promptas a des-
embarcar. Yiera a noite, a fusilaria continuava,
não jcí. em combates, mas na caça dos presos fugi-
dos, dos quaes (_sobre um tuthl de 1:111-!)
conseguiram eYadir-se para os sumin-
do-se. E d'este bello ensaio de revolucào denwcra-
tica ficavam mortas oitenta pessoa;, diz para
Londres o ministro inglez; oito ou dez, accusa o

ace1·ta? Pouco importa. O gra,·e é que Sá-
da-Bandeira de certo não podia querer vencer, para
ser vencido pelos bandidos ou por qnem os solta-
va. Por isso, embora jitrnais o confessasse, é mais
do que seguro acreditar que a chegada dos emis-
sarios da Ilespanha e da Inglaterra lhe tirou um
grande peso de cima do coraç·ão. Perdeu 6UO ho-
mens na acção do alto do Yizo, o general setem-
brista: mas o 'Veto que os emissarios pozeram á sua
marcha valia para elle muito mais. Já entre Fitch,
o marquez de Hespanha e o governo de Lisboa (que
mudara de pessoal, sem mudar de politica 1 se as-
signara o protocollo de 28 de abril, estatuindo a
amnistia como condição de paz e impondo um ar-
mistício.
A campanha diplomatica do conde de Thomar
em consegnia uma victoria, porque, em-
hora cedesse a amnistia, ganhava o essencial, que
era a CARTA, obrigando a Inglaterra a desistir das
J.- A l'Ril\1-\VERA DE 47
suas pretensões ordeiras. O doutrinarismo vencia,
depois de intrincadas complicações; e o partido de
;_>:-;, eom o seu chefe H11clrigo, via perdidas as es-
peranças de herdar o governo, batendo com a In-
glaterra eartistas e sete1ubristas, Lisboa e Porto,
a coríla e ::t JCXTA.
E::;tá, porém, onrle os elPmf>ntos democraticos
dominavam. recusou-se a acct.·itar as comlições do
convenio; disposta a ceder, sini, mas sem mentir
ás patentes que distribuíra a miguelistas e patu-
léas, ás meclidas tiscaes que tomara. O seu exer-
cito estav:t ele pé, não f,íra batido: mas quereria o
outro gem·ral, Antas, h·,-al-o :i guo::-rra 't Era isso
o qne as calwças exaltadas rPclama,Tam- uma
loucura. Ainda antes de ter chegado a acta do
prutocollo finalmente assignaflo em Londres (t1 de
maio) para a inteiTençà•) combinada das potencias
signatarias do tratado de H-!, já em Lisboa SPy-
muur e Ayllon, de mãos dada::;, tinham resolvido
mandar para o Porto navios, afim de impedir um
den·amarnentiJ inutil de sangue.
Porém os na.Yios anglo-hespanhoes não impediam
(J general do Porto de levar a expedição por terra,
se acaso elle tambem não desejasse sobretudo vêr
terminada a arriscada empreza em que se mette-
ra. Por isso embarcou para ser aprisionaclo, con-
forme contámos. De que valiam, depois, as recla-
mações e os protestos,_senão para mascarar a quéda
com uma certa dignidade apparente, e manter no
animo dos ingenuos a idéa de que se obedecera á
fatalidade da força? senão para conservar de pé a
accusaçã.o de extrangeira, contra uma cíJrte que,
vencida em Belem, realisava agora o seu plano,
esc1·m:isrmdo o pf)VO com as forças inglezas e hes-
panhnlas? Taes palan·as serviriam para as cam-
panhas ulteriores da politica, mas não têem valor
PORT. C(INT. - TOM. II
17
L. \.-0 CARTISMO-III
para ã historia. Caindo, a JCXTA sabia muito bem
o motivo porque caía, e não se lhe dava de acabar
assim. Qne estimaria mais as primeiras condições
inglezas, é f,)ra de du'\"ida; mas q ne preferisse á
inten·enção a guerra e a propria ,·ictoria, é o que
não é licito acreditar perante o procedimento dos
seus chefes. Os inglezes occupararn a Foz, os hes-
panhoes o Porto, e a ::?-! de julho esta,·a tudo aca-
bado pela conYenção de Gramido.
Da Jl"XTA dissoh·ida nada re::;tcwa. Saldanha e
os cabralistas continuavam a go,·ernar com a CAR-
TA. O Porto vira nos dois irmãos Passos as duas
faces da physionomia espontanea e popular da re-
volução: em um a poesia minhota, em outro o
genio burguez antigo. O poeta ,·olta,·a para casa
chorando: chorando assistira entrada de Concha.
O burguez, pomposamente, declara,·a ser necessa-
rio morrer! E morreu, veiu a acalJar, mas demente,
dezeseis annos mais tarde. O leitor não carece de
que se lhe explique, nem a rasão das lagrimas,
nem a causa da clemencia. Yiu como as folhas caí-
ram depois d'esse outomno chegou o in-
,·erno frio e morto ...
IY
J"\IPEXITEXTE:3
}. -O CAilA VEJt D.-\ N.AÇÀ•J
Yultara a paz, para o leitor não proteste
contra as cGres funt>lJres com que pint<Ímos a guer-
ra, seja-nos licito transcrt>Ver aqui a opinião C•Jll-
teruporanea um dos nOSSOS mais levantatl•)S
piritos:
Hoje nos achamos entre um passauo impa::;sivcl
(depois das leis de :\lousinho1 entre um futnro tremendo pontue
é obscuro, insondavel e de ue11hum modo preparai!•'· e
com um presente tão abstmlo, tão dcsconnexo. tão inc(on-
gruente, tão chimerico, tão ri1licnlo emfin,. que se a pers-
pectiva não viesse, como vem. tão chei:t de lagrimas, se-
ria pm·a rir e tripudiar df' gosto, ver enmo vivemos. como
nos tributamos, como nos administramos, como somos em-
fim um povo, uma nação, Ulll reiuo! (Garrett, .\/rmsinlz<J .ta Sil-
veim)
Voltara paz, dissemos. Era chegado o·mu-
mento de encarar de frente a situação do
que parecia mais incuravel depois do ultimó""- ac-
cesso. Extenuado, jazia exangue, não diremos nas
vesperas da morte, porque o seu existir já não se
podia chamar vida. As nações, como os indivíduos,
tambem p1jdem arrastar-se vegetando, sem propria-
mente viverem. A guerra acabara, não ha duvida,
mas faltava ainda liquidar a crise, e corno a paz

L \·. - O c IV
não signiticaYa ahu111laueia, ma::; sim a cuntinmu;ào
da miseria, cuntinua\·a a mesma indecisão me-
didas, ora dirigidas a manter o credito das notas,
ora a sacrifical-as ás necessidades do Tltesouro.
U ministerio nomeado depois tla paz reage contra
as re:solneiJes tomadas n'este ultimo sentiLlo. e res-
tal,dece "a propon;ão de metade apenas cli-
nos pagamentos du Estado. A causa d" ngio,
di·z. fc3ra a guerra e a excessiYa procura de moeda
metallica para o exercito; mudaram as circnms-
tancias e o na relaeão das notas nos
pagamentos para diminuir o rebate.
(llecr. de 11 de ::\Ias o problema era mais com-
plicado, as causas mais profundas, e tres mezes
bastam para que esta doce illnsão se dissipe. A
loteria das suas esperau):tS ticaYa t:'m papel; e
Ut:'m por se ter acabado a guerra podia appare-
cer dinheiro, porque o não haYia t:'m casa, nem
de ti) r a ningut:'lll o daria, quando os j nro::; da
diYida estanun por pa;;a•·. Tres n1ezes bastam, di-
zemos, p:tra couYencer de que o unico meio de re-
soh-er a questão é snpprimil-a, por meio clt:' banca-
rota declarada. Tire-se ás notas o caracter de pa-
pel-moeda; negue-lhes, por uma ,-ez, o Estaclo a
sua garantia; declare que as considt:'ra um papel
commercial, cotavel, e já nã? fadt mais do qtte re-
conhect:'r o facto nas relações pri Yadas, augmen-
tando as receitas publicas insnpporta,-elmente ames-
quinhadas pelo reLate d'a(1uella parte, o ou
metade, realisada em notas. Os decretcJS de e 14
de dezembro fizeram com effeito isto. Largas con-
siderações, rneritorias por serem sensatas, francas
e Yerdacleiras, justificavam a medida que abolia o
curso-forçado, retirava a garantia do Thesouro e o
caractt:'r de moeda a umas notas que o banco já
não podia ser cornpellido a conYerter c't vista, o
l.-0 C.\1,_\\"EH.Il.\ 1\.\t"AO :!ti 1
que St"ria obrig·al-o a falli1·, por is:;n •1ne a sua
fiJra <mteriornwntt> pactu<Hla por m'='iu::;
e f•)rmas varias . .-\ C11ntar clt-· :!O de • •
nuta:; poderiam t"lltrar por metarle nns pagamentos
ao The:wnru, ma:; nà•' pdo valor nominal, ::s•'• pelo
valor real, Sl:'g-mHlo as da
E:;t<t banca-rota pusitiva, mas uppurtnna e iue-
vitavel vinha con::mmnuu· a ruinn. da circulae:1o ti-
duciaria augmentando os
de uma nac;à:o de capital:":;; circulantes
e por isso mais neces:.útada de inn·ntar um instru-
mento artificial de circulação que padesse substi-
tuir a moeda escassa. )[as, para que o:; artificios
sirYam, é sobretudo rnistér juizo, prndencia, e
paz, cousas que ncís desconhecíamos.
A rt->vulnc;ào e a guerra, deitan•lo por terra o
castdlo de cartas da ag-iotagem cabralista, tinham
arruinw-Io na queda, a circulação
ria portugueza. Era mais um passo andado no ca-
minho de uma decarlencia E-cunomica, declarada
desde o principio do secnlo, e que até agora o libe-
ralismo nào conseguira corrigir. As E-statísticas do
commercio ,,._ • ll::itSI demon::;tram-no dt>-
um modo e loq uen te :
Export,Jc.Ío
1 (conto,; Je r.:is1 w/
11\16
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lmportac<ÍfJ
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Somllhl
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3-J:O-JS

16;-JOÓ

Dt-pois da primeira vem a invasão franceza.
e a franquia do Brazil ao commerciu
L. Y.- O CAH.TIS;\10- IY
depoi:s da st-gnnda, a e independencia da
uossa colunia; depois da terceira, as re,·uluções li-
Leraes e a anarcllia cun":ltitucional: E'is as causas
snccessiYas ele Agora começa,·a a
soprar uma arêlgem, prenuncio ele melhores tempos:
Yiria uma regeneração "t Ainda era cedo para o
crer. tant•J mais que a França, infelizmente mes-
tra dos nossos homen:s, ia lançar-se n'uma aven-
tui·a dt'rnocratica, fazt>r a sua reYuluçào-de-setem-
bi.-o: tem fe,·ereiro), proclamando a repnlJlica. Kão
falta,-a entre n{•s quem suspirasse por en:saiar esta
ultima definição ,-erdadeira, aLsoluta elo liLeralis-
mo, _depois de desacreditadas as anteriores e suc-
(·essi ,-as.
Xào crescia, caía todos os dias o commercio ex-
terno, metro da prosperidade- ele um poYo
culto. l\Ias augmentaYa sempre, assu:stacloramente,
a di,·ida cuntrahida para ensaiar, colll intrigas e
reYultas, Yarias fúrmas dfl. cloutt·iua. E a di-
Yicla crescia. porque os ensaios,. arruinando inter-
namente a nação, não consentiam que os seus reei-
ditos ang:mentas:sem. () imposto não daYa:
lJt'âl/1<1 /Jecima !>i recto
Fa[:lrica:; industrial preJial em geral
(mil reisl
210::!51
9:-6::!j"4 1.3-l/=547
1:--:.p-2 3l)o3 23-l:2:;r 1.416:338
IS-l6-j 3556 2q:669
9
-l:-:s:-3

3816
214:409 1.3//:536
l":;o 3:;/1
l.-ll1:43í
Jú appareciam as uLsen·ações retrospectiYas e
confi::;sues sinceras dos males accumnlados. Eram
reconhecidamente muitos: os erros adrninistrati-
Yos e financeiros, as eleições corrnptoras uu bar-
baras, as Sl)ciedades secretas, a licença da im-
prensa, os excessos da tribuna, e sobre tudo a
1. - O CAOA \"ER OA NAÇÃO
mendicidade dos empregos : «as guerras civis de
Portugal são evidentemente as guerras dos empre-
gos publicos J). (.lutnpsia dos p.u·ti.los politicos, op. anon.)
nem podiam ser outra cousa, porqne o communismo
httrocratico substituíra o monastico, no regime de
nm:t nação cachetica:
babd em ctne Yivemos, tudo passa ina}-lercebillo,
no meio da confusão ele todo o peusar e seutir. Esta é a
terra classica da in;.::raticlào regada pelo Lethes rlo Desma-
zelo e do Xào-se-111E'-dá, da mais estupenda cadncirlade em
que pcídc cair um po\-o. (Garrett, .1/ousinlzo)
Nào-se-me-rlá é a expressão natural dos pobres
que nada teem a perder, e por isso a ninguem se
lhe daYa qne as cousas caminhassem para uma
banca-rota, já desde 38 considerada inevitavel, e
util pelos que propunham o ponto geral. Xão se
descobria, com effeito, o modo de solver encargos
progressivamente crescentes, permite recursos, ou
paralisados ou decadentes. O governo confessava o
deplÕravel estado das cousas, (V. o relatorio notaYel do
min. Falcáo; março de 48) e os observadores comparavam
os numeros e apertavam a cabeça com as mãos,
vendo a irremediavel. !V. Autopsia,_ etc.)
Em junho de 33 a divida era de.... conht:;
f' pelo orçamento de 45-7, H:Ccrescen-
ta?a yela emissão recente de ins-
cnpçoes, de.................... n
Augmentara em til annos, a razão de
qnasi 5::)(1() por anno........... 10:111 n
Quintuplicara, e para que? para ensaiar syste-
rnas, matar gente com revoltas, e pauperisar cada
vez mais o reino.- E além d'essa divida, havia a
mais a fluctuante, em mais de c;lez mil contos que
dariam o clôbru, expressos em títulos fundados. E
L. V.- O CARTISMO- IV
não se contava a <li vida mansa; e os bens naeio-
naes vendidos tinham ainda assim produziu•J Ct:'rca
tle vinte mil contos, e ás classes activas de,·ia-se
mais de mn anno, {ts inactivas quasi tlois, apesar
das das capitalisações e dos pontos an-
teriores SllCCeSSÍ\"OS. (.lutnpsi,J, etc.)
(;orno se h<'lsia de existir, com uma fome assim "t
Londres renegara-nos. Os tempos rlourados de )[en-
dizaLal-Carvalho não tornavam. O pnço elos jmleus
inglezes, o Stock-exchangt', dera- nos com as portas
na cara, não nos julgando crédores da honra de
sermos apresenüulos e cotados. Yaliamos nada.
interessante saber se no meio da pennria,
da anarchia e da guerra, a população crescia. ào
que crescesse, pois a indigencia é proli-
tica, pois a legislação reduzira o numero dos f'eli-
l,atarios, pois as guerras eram mais ,·ergonhosas do
que propriamente mortíferas. l\las os subsídios fal-
tam, e os poucos existentes merecem pequeno
dito. (V. Luis i\lousinho, na ref. admin. 1S:.'l6; C. \Jriano Ja Costa.
Rcz· . .te 1838; Rela!. do minist. do reino, e 5o)
1836 1838


(fogos) (haPit.) (habit.) (haPit.i
\linho
204 8o3 8So
Traz-os-\lontc::. j6

3uS
Bcír.1-.\lta 208(
1067 1131
13eira-baixa 241
Estremadura
177
668
n"
í-J.X

70 :!90
:!X5
3o 125

14:!
\lilharcs
íR9
3224 :;4/1
J
i
1. - O CAIH \"Ek DA l'\A(\.0
21i.)
A dar antlwridaíle a estes numero:=:, conclue-se
que a poJ..mlação crescera duzentos mil habitantes
em quatorze annus; ou a razão Lle 6,;, por mil ao
anuo. A elos recenseamentos llt> 1 s:?G
A.lmanadt de Lisboa) E\ de J aprt'>Senta Ulll pro-
greSSO quasi egual, (:':UJ3-3:2:q, augm. 210) mas a esta-
tística d 'esses dois annos contradiria o resultado
obserYado acima no periudu posterior ao segundo,
{\'. f.!.uadrn, no 'Di,u·in. :!I de abril de 40)
• Obitns t
JX2fJ 66:.po
1Kit';
Ç<l:Ol)/ li7:5-ll
porque, ao }Jasso que em :!li ha uma sobra de
( 102-Gô) 36, em essa sobra é de ape-
nas: a mortalidade seria no primeiro caso lle me-
nos de (j() p. 11 lO da natalidade e nu st':'gnndo de
quasi (i7.
l\Ias seria perdermos u tempo architectar hypo-
theses sübre alicerces tão falliveis e groBseiros.
Chama-nus a conclusão d'esse balaneo economico do
paiz para um caleulo interessante clu custo da sun
ultima l'E'VOILH;ào. (V. Diario de 8 de junho de -.1/1
•J'er.tas de credito
Fundo de 5 r- 100: c. de 74 a 5o.
-l » 6o a 40.
Acções do Banco. w:oou de a 23o:ooo .
Depositos, um terço de 700 c. .
_ \ccões da ConjiLlllCLl .
Pro.missorias idem,'recmbolso em notas. '
.\c.;•ies da l"niâo. de 112 a 55.
40 p. c. do valor das notas
I lerreda.;ão do credito externo
.:ontos 4:6<j{>
2:6jl
5:400

412
JíO
1:6oo
L. \". -O CARTISMO - 1\'
'Per.t.1s du thesouro
do exer.:ito e marinha.
I lescontos de notas. .
Tres quartos da receita de 110\ e meLes
Ruut>os, contribui.;é1es forçadas, etc.
:6 a 3o mil braços sem trat>alho prodncti,·o:
mezes e 20 dias a 200 rs.. . .
Incendios. ruinas, f'tc.
Capit<ll humano: mortos e feridos .
Tot.!l determinado .
.:ontos 1 :5oo
íOO
í:)oo

1:62o
31:000
A:s n:>rbas indeterminadas calcule-a::; qnem pu-
der, E' achaní que a e a gut:'ITa deram
uma ultima sangria nlto inferior a fJO mil contos ao
corpo jêi. qnasi E'xangue da nação. Que admira pois
a cachexia universal? <c Recordei-me com
e desconsolação dos trE'nH:·ndos sacrificios a que foi
condemnada ·esta geração, Dens sabe para quê,-
Veus sabe se para (:'Xpiar as faltas dos nossos pas-
sados, se para comprar a felicidade •los nossos vin-
dom·os. >> (Garrett, poeticamente, se ex-
primia Garrdt, mt->1110rando casos transactos ; e o
que succêdia depoi::; não authorisava a crer que se
tivesse comprado então a felicidade dos vindouros.
Expiar-se-hiam as faltas passadas? Expiavam-se,
t-xpia,·am-se ele certo a::; consequencias ele uma de-
ploran:'leducação historica: mas tambem se soffria
o resultado natural de nma illusão êphemera creada
por uma philosophia erronea. Como ll<',s, a Hes-
panha saía das mãos do illmninismo jesuíta para
caír nas mãos do espiritualismo liberal_, e a his-
toria da Hespanha era o mesmo que a nossa. l\las
a Franc;a, que toda a Europa seguia, sem
- O COXDE I1E THOM.-\1<. 2G7
ter tido essa educa<;ão mortifera, soffria como n«Ís
as consequencias elo romantism11 politico, do dou-
trinarismo individualista, e da anarchia positiva:
do g-o,·erno immoral, além de tyranno, da bnrgue-
zia rica, imperio formado espontaneanwnte sobre
as do vell1o Estado monarchico.
2.- O CO:'\LIE I1E TH0!\1:\1<.
O setembrismo morrera de vez depois de térem
desempenhaclo o seu triste papel os chefes tímidos
que por suas mãos tinham abafado a revolu<;ào.
1\Ias teria a historia dos ultimos dois annos conver-
tido os cahralistas, tyrannia brutal, cuja avi-
dez deshunesta, alliarlas á t>nergia no mando e á
audacia no l)ensamento, provocaram o desespero e
a re\·olta do povo? Yiu-se que não. Consideraram-se
vencedores; e se o extrangeiro lhes não permittiu
Ying-arem-se, e se o desmoronamento da machina
agiota não consentia voltar-se aos fl,Jirados tempos,
os cabralistas st>guiam, mai::; modestos, mais mode-
rados, governando o reino como cousa :ma.
Como rasto de um terramoto, a segunda métade
dê -±7, depois de Gt·amido e ela victoria elo gu,·er-
no, agitada com o borborinho das eleições proxi-
mas, arrastou-se com um de vinganças e
desordens. A soldadesca desenfreadamente espan-
cava nas cidades e especialmente 110 Porto- agora
tão odiado como antes o fiJra no tempo de D.
l\liguel. Artilheria ;-j era apontada como E-ximia
em arruaças cabralistas. Os ,-iclros das casas patu-
léas, do José Passos e d'outros, voavam em estilhas
com pedradas. O .LVacional_, o Eccn popular, orgãos
dos. vencidos, eram colhidos elas mãos dos clistribai-
dores e rasgados aos centos. Por todo o reino ha,·ia
2ns ·
L. \".-O C.\RTISJ\10- 1\'
rouLos, espancanwntns, assassinatos. l:'lll
nu::; tres mezes d ... puis de Gramitlo, IIOHYera duze-
attentados em publicfl pt>la soldadesca. (Rt!J•. d.: s<·Lem-
bro. ':i de set. -t/J O cuja typogra.phia filra as-
saltada, e a cummissão oppusicinnista para as t>h·i-
çue::;, pt>diam protecção ás potencias alliadct:;. rt>-
clamando a amnistia promettida. Era um rt tlexu
palliclo elo que succedera l:'lll 3-! ao migtwlismo,
t<üubem amnistiado <lt>pois dt>
As elt>icões de -!8 trnnxt>ram o conde de Th,Jmar
it camar:. trinmphante, depois um
flesterro, jà transfurmwlu em uma emlJaixada,
ll'onde guiara o St>ll lugar-tt>nente Saldanha, d'onclt>
urdira a trama da intervenção lwspanhola rptt>
afinal arrastara a Inglatt>ITa, congn·gallflo os
elementos ela Yictoria. Os Yencidos, Yendo-n
sar ao seu posto, á camara, primeiro dt>gTau ,} .... um
segundo thron11, foram- se :is anuas, pegaran1 rlas
munições, desde logo para unHl nova
camp<mha. Costa ( 'abral, o condt> de Thom:tr. ern
mais do que um homem: tra nm systema e um phan-
tasma. So ocliu cum que o recehiam mostraYam-lht:'-
quanto elle Yalia, pPlo me1lo quP lhe tinham. -
A cadeira de depnt<Hlo fui, com dfeitu, a ln·eYt>
transiçà:u da embaixada para o governo, onde :mbs-
tituin Saldanha. de junho de 4ql Essa restanraeãu
teria tido lug·at· muito antes,- se a guerra nàu "ti-
Ye:sse respunditlo ao gulpe-d 'Estado de lj ele outu-
bro, no qual • era apenas a força brnta elo
exercito destinada a a Yolta do
lmnido em maio.
Eis, portanto, de noYo as cousas no estndo em
qw-· a primaveril de -!li as achára; eis pt>r1blo fl
':!.-O CONI>E UE fHOMAR
tempo, é o dinheiro, e as vidas, e dois annos de
reYühu;ilu e guerra. Congregam-SI" outra vez
'I agita-se de novo o povo? :Xii.o. A ::\[a-
ria-d:t-1-\nite morreu; )[acdouell morreu; os cam-
pnnt·zes VL•ltaram para IJatidos por uma
sarcti nula de decididos a não querer
sal.Jer mais do governo; migneli::;tas
lllente se fecharam nas ::mas Keullllm espt"-
ctro surgia ...
Apenas a imprensa desvairada do::; politico::; La-
tia sem piedade· o homem a quem se costu11mra a
coLrir de lama. E a velha calumnia da lenda do
castt->llo de Thomar levantava a cabeça, nã.o pua-
panelo a reputação pessoal da rainha a quem, con-
fundindo a politica e a modestia, eq nivocamen te
chama,·a tolerada. Accusanun de seu amante o
ministro, e elle, o homem forte, commetteu a
maior das fraquezas, mmHland,, processat· em Lon-
dres o .Jlu1·ning que :..·ept--tin as infamia:; das
folhas de Lisboa. E tambem caía, tambem
descia, o antigo tril.Juno dos Crunillos, o can::;ado
ty:ranno de Lisboa.
S,', não cansava a imprensa, no seu desalmad•J
ataque. A na capital, imprimia um reque-
rimento á rainha: <<Senhora! o vosso ministro é
accusado de receber um calecl1e e dar por elle uma
commenda_. Senhora! o vosso ministro pedia-vos
uma conuuenda para pagar os caleches com que o
peita,·am». E o .. Naciunal, no Porto, pnblicaYa uma
scena dramatica, entre burlesca e tragica, amorosa
e torpe, em que o côro exclamava- ó ladrão!
larga o caleche ! (ass. c. Castello-IJraHCO, 19 de dezcmt>ro,
o aupplemento lm'J·lesco, em lithographias toscas e
caricaturas grosseiras insultava diariamente ris Ca-
hraes e a sna gente, mostrando que o anti;..!.·o genio
suez da satyra portugueza não se exting·uira. Aqui
c
270 L. \". -O C.\RTISMO - n·
Yinha o Triumplw do f 'hibo: um bode (o condt> de
Tlwmar) com nm sacco aos homhros e o lt::>tn·iro
?'OllVtJ; o chibo sobrt> nm andor que é nm co-
o ThE>sonro, leYadu por e por .José
f'abral, o dos conegos, dt> Yestes talares. deL. 2J
de 4/l Além é o ChilJo d'Al!)(Jdres-' um grande bodt>
com a face do conde de Thomar, ele pé, tendo uma
Yara ao hombro e pendentes, á laia de sacco, os
palacios famosos: Thomar, a Estrella; o rabo do
hicho está enla':ado com folhas tendo os
nomes das companhias do tt>mpo. (n. 2S nO\. 1:'-1
tro apparece o famoso padre .)[arcos, o A1·cebispo
do Carta.l:o, Porto e C'lut'lmusca: é uma botija, tendo
na bocca a cabe':a do padre mitrada, e azas ou
mãos, o haculo de um lado, o copo do outro. (n. 32
11oY. 291 O Jos{ dus Conegos tambem é chibo com o
trajo talar arregaçado, pistolas ao cinto, na mão a
Arte de furtar. tn .. p jan. 3 de -t:)J Yeem tamhem os
empregados publicos, aranhas, esqueletos, mirrados
e seccos, e no centro da folha o conde de Thomar
com nm Yentre inchado, monstruoso «cheio como
nm OYOl>. (11. 29 11ov. 18 de 4/l f<tlta o S&lclanha na
Arrure drts caras, em que os ramos, os rebentos, os
tortulhos do chão, tudo são caras diversas elo Yer-
satil, regadas pdo jardineiro ele Thomar com di-
nheiro em Yez ele agua. (n.
0
41 dez. 3o) E assim por
diante, os pasquins pintados coadjuYaYam as dia-
tribes escriptas. Yeiu a lei-das-Tolhas, e Cazal
Ribt>iro, bem moço ainda, mas ensopado no Yirus
politico, cheio ele talento e enthusiasmo, homem de
t,ma geração noYa que mal fazia em se enYolYer
nas questões da antiga, cleclamaYa n'um t>stylo
obeso:
Conde de Thomar. sois um conenssionario porque en-
trastes para o poder pobre e tendes adquirido uma fortuna
- O CONDE DE THO:\L\R :til
immensa por meios torpes e vergonhnsos. Conde de Tho-
mar, sois um traidor, porque ,·endestes ao paço a causa do
}lOYo em Uí4U; porque vos revoltastes eontra a
que servíeis em ; porr1ue arrastaes agora o throno e a
nação a um precipício certo e talvez á im·asào extrangeira..
Conde de Thurmu-, sois um despMa ignnbil pnn1ne ealeae::;
a decencia. as leis. a constituição, e governaes sô pela Li-
tola do vosso caprieho. Conde de Thnmar. sois um imbeeil.
porque a vossa habilidade cifra-se ua intriga e o vosso pn-
der depende só do fa\·oritismo. C'onde de Thnmar, sois um
miseravel, porque vos servís. como meio pnlitieo. da houra
de uma seu hora, de uma rainha: pontue a sacrificaes im-
}mdentemente aos vossos uefaudos tius. (Caza! Rit-eiro, A lm-
p·ensa e n co11de .:Je Tlwmar, f8So.)
E a decadencia dos caracteres era- e continuou
a ser- tal e tanta, que os inimigos trocavam en-
tre si as maximas injurias, sem logo se apunhala-
rem, ou se baterem a tiro, a tres passos. Xão! era
politica. Dias depois sorriam lado a lado, sentados
juntos na mesma camara. Era politica ! Xão se est{t
sentindo a necessidade de uma regenerrtçào l Xào
se percebe que o momento da victoria final da ra-
poza se approxima? De gritar estão fartos, de no-
doas todos sujos, de gritar todus surdos: abra-
cemo-nos todos! Vinte annos escassos de uma
historia que o conde de Thomar, como um dor-
mente, protrahia de mais, levavam a esse abraço
fatídico.
De um e de outro lado já se encontram nomes
novos : Cazal e Latino na opposição ; Corvo, pelo
governo, mostrando aos adversarios a incnnsequen-
cia de atacar o gabinete por se apoiar no exercito,
quando tinham por chefe um general, 1.\ntas) paten-
teando o vasio dos seus desejos, o indeterminado
dos seus programmas. (Corvo. Fallou ,z Of].'OSÍf<lO.' op.) E
dos velhos jacobinos, dispersos, aborrecidos, des-
illudidos, apenas um restava para condemnar não s•)
L. \.-O 1\
u g-u,·erno, C•JlllO o soLeranu; não ::;i) a rainl1a, como
a dynastia inteira dos Bragant;as:
I )e qnnntas dyuastias st•nhoream hnjt• a Enrupa. é a de
Bra:.!.':ttll:a. tt'IE' nos g-•n·erua. a mais de tndas, como
•piem t•·\ t• prinripio em eriuws e traiç-•)cs abominan•i::;.
( D. matara o cuu•ll' D. Pedro cm .-\.lfa.rroLeira: e
-o ueto f•'tra •leg·ullado por 1>. Jocl.o u cm EYnr:t) Ifcssa fa-
mília não se l"."le enutar nf'nlmut rei que fos!'e e
se uào fo:-::;em os e:\.trang-eiros (em J 7) tf•r-sc-hia dado o
espe('taculouoYO de um l:t•i expulso pelo povo portng-nez.-
Por 1 )eu::;. seuhnra D . .Maria u! Y cja \·. :\L o paradeiro
que te\·e em pala.cio, :l ,-ist:t da rainha D. Leonor Telles,
o cow.le Audeiru! (J. B. Rocha, ·JV,•J•. d<' Portu[.:,ll, :'>2)
() concle Amleiro ria sarcasticamente. Cbama-
Yam-lhe estafador, concussionari,,, ladrão publico;
e elle mordia-se de colera, se é que o habito lhe
nàu dera jêl. impassibilidade. SabiR demasiado o
llliJ(ln de não irritar o po,·o: deixar-se de inno-
Yat;iles deixar seguir o barco da conser-
Yaçào na maré da banca-rota. Seguro o exercito,
conhecido o modo de f"flzer as eleições, legalisado
o sy::;tema, que lhe irnporta,·a o ladrar dus ini-
migos? 1\las é que esses ataques passaYarn por so-
bre elle, iam direitos ao soberano: «Protege V.
1\I. os homens saLerlores? Favorece os artistas?
Acode á polJI·eza des,-alida?- :X ada d'isso: só
deu a Costa-Cabral o Alfeite. » tlbid.J E os perio-
distas e follicularios não se pejaxam de propa-
gar, elara. abertamente, a urgencia da abdicação
da rainha.
Tà.o longe não iam os pares na sua camara,
mas Jlenhuma ,-oz era mais cruelmente desapie-
dada do que a yoz sibillante do terriYel Lan·a-
dio. 0 ministro rira até então, mas quando Sal-
2. - O CO:-.IJE DE 213
danh<l, pelo que fosse, pa:;son para a opposi-
çâo, tornou-se serio, e nas vesperas de acabar viu-se
ainda o homf'm antigo. O marf'chal, passando-se,
via o exercito inteiro a bandear-se : imagine-se
com que abr:tços a opposiçâo o não receberia!
Quem se lembra já de Turres- e das inju-
rias, e dos degr·edos ! Politica ! )las Costa-Cabral
propuz-se demonstrar que :-:iald:mh1. era nada: um
homem-de-ferro, como o de S. Jurge na procissão
de r'urpus; no que se não engana,Ta
como iJ 1 o demonstrou e veremos. O marechal foi
demittido do e logo pediu a demissão de to-
das as suas honras e cargos. Deu-se-lhe; e o mi-
nistro, outra vez temerario, não se lembrou de
que um antigo Cid, um condottiere, patrono de tão
consid"'ravel clientela, não se mata por meta-
des. Ou se fusila, ou se compra. O povo sempre
disse: c1qnt>m o seu inimigo poupa, nas mãos lhe
morre.»
V a rios symptomas indicavam a morte proxima
do cahralismo; mas, assim como os doentes· nas
vesperas de acabar têeru ás vezes eomo um clarão
de saude, assim é necessario, antes de apreciarmos
as causas directas da quéda proxima do conde de
Thomar, contar o seu ultimo dia, quando a antiga
força pareceu reviver e o sangue todo circular com
energia antes de o coração parar.
Saldanha renegara-o; os pares da opposiçào
(Taipa, LaHadio, Loulé, etc.) tinham pedido á rainha a de-
missão do ministro odiado, accusado de crimes tor-
pes que manchavam de lotlo o governo e até o
throno. Abertas as camaras no principio de 50, os
PORT. CONT.-TOM. II
18
274 L V. -O 1\
deLates }J<treciam anlliencias e o mini::;tro um rén.
As galerias dos l'art>s, cheia::; de povo, estanun Colll
a accnsaçào : o conde de Thomar era, cumn Guizot
e os lloutrinarios em antipathico. O povo não
ama a seccura e a rigidez das formulas pedantes;
o povo est:í. prompto a crêr sempre na eriminali-
dade llos que o go,·ern:un, tlesde que o principio
da reLt>ldia cou::;titnciomtl contra o Estarlo appare-
ceu e venceu; destle qu\:3 se poz no direito puLlico
um dualismo organieo entre a liberdmle e a rmtlw-
supposta autinomia. O conde de Thomar
era antipatltico, é não tinha para contrariar esta
consequencia da índole da sua politica, nem os ore-
ditos de integro, neih o::; de sabio, que escudantm
o seu modelo Guizot.
«Eu não posso ser considerado colllo oLnoxio á
IW<;ão que sendo chamw.la á urna me favorece sem-
pre com a sua opinião quasi geral.» li>isc. de 12 de jan.)
Em vez de atacar, defeiHlia-se, o ministro: evidente
prova de fraqneza; e a defeza era triste, molle. A
qu'='m pretendia enganar, ou convencer? Pois sala
e galerÍ<ls_, pares é povo, não sabiam todos o que
eram eleições e urna? Tanta sabiam, que estrepi-
tosos risos acoll1eram a saill:t do diogenes Lnrocra-
tico : fraco cynismo, se provoca o riso !
)[as essas gargalhatlas e::;porearam-no. Pulou.
Torcia-se-lhe a face, luziam-lhe os olhos, e resus-
citava o homem de -!:?. Então, depois da an•ntura
du Porto, olhando a desatiar os inimigos, dissera-
lhes: Conspirei? tambem n',s! conspinimus todos.
Agora aeensa<;ào era outra, mas o processo iden-
tico: HouLei "! tmul,em vc)s! rouL{unos todos.
E sarcastieo, odiento, inverteram se os
o réu passou para o Lanco da accusa<;ão. Tinha
diante de si um masso de jornaes impressos, e
aLrindo-os, via-se cada folha trt"HH'l' com a con-
:!. -O COXLJE I•E THO\IAR
:r1.-,
vuh;àu du pulso du mini:;tro: .Accnsam-me de la-
dr.i•J "I E quem! :-saltl.:mha não saberia que a pru-
pria Revoluçtlo de 8tdem1JI'tJ lhe dissera u mesmo a
'! Porque nà.o a processou, e quer que a
prucf'sse agora. eu?- E abria u papel, lia o que
eccurrera elll certa arremat:u;ito das te -Casas :
<<A praça estant aberta, as con.liçues furam umas
e a arrematação fui feita p••r outras. Xão isto
uma burla t•> Que lll•Jtivos houvera·? «Estavam jéi
crtlçwltts as luvas. Yencedor de Torres! nã.o c•'•res;
tuflo Se sabe». (R.t?v. de Sei. 10 de jan. de 4S)
Nem a sala, nem as g-alerias riam j<í.. O cara-
cter não era ainda. uma ficc;lo, como a Urna. O
ministro feria com acerto, e, áxicla de escandalu, a
assembléa, muda, obedecia-lhe.- mais "I
Ouvi: vergonhosa ainda é aquella historia
do retrato. O retratista recebeu 18{•·'000 rs. para
elle; para -!OU, vão 22U que faltam. Onde se sumi-
ram, duque de :-5altlanha h> Outro artigo:
ria, sr. mini::ltro, é u roubo de mil réis; miseria
é v. ex.;;. considerar uma miseria a accusação por
esse roubo. . . Quem recebeu ll)ais de sete contos
por um ernpreg·o que nunca exerceu, não admira
que considere 2:!0 mil ré is uma miseria». (Rev. de Set.
Jj) de jan.)
O bote estava dado em cheio no refalsado peito
do marechal que o atraiçoara, depois de por tanto
tempo o servir. ::\Indaudo o tom e a voz, com uma
gravidade de secretaria, o ministro obsen-ava, do-
brando os jornaes, c1ue era «O primeiro a fazer ju::;-
tiça á honra e probidade do digno par», mas que
se achava na obrigação de defender-se. Todos os
homens d"Estado cl'este paiz tinham sido accusados
de ladrões pelos jornaes diffamadores, e todos os
tinham desprezado, nenhum os chamara ao jury:
elle faria outro tanto, seguiria tão bons exemplos.
1.. \. - O CARTISMO - 1\"
E a(hnirant-se de que fosse o quem se
,·nltasse contra elle; o marechal que, <to sair da
pre::;iclencia du conselho, declarár:t ser com elle,
ministro, << Ulll<t e a mPsma cousa»; o marechal que
t:'lll dezembro de -17 o mandara embaix<-Hlor para
Paris; o marechal, etc. rJJisc. de 12 de jan. de 5o)
Fnstig·ado, bem moído, este primeiro e no,·o
i11imigo, o conde de Thomar ,·ultou-se para os an-
tigos. A npposiç.ão, no seu reclama,·a a
demissão d'elle sob pena de uma n.·Yolm;ào tt-tTÍ\·el
ou do domínio hespanhol; e o ministt·o, firmando
bem os pés no chão, n'um accesso de furia, res-
sutfocado, rôxo:- «Não sairei d'aqui !>>
D11minou-se, porém, logo, a contar como as cousas
dispunham na camara para o atacar. «Ha,Tia
pelotões para dar apoiados.>> (A sala inteit·a riu
francamente_). Observara-se como certos dignos pa-
res (lu e nunca falavam, se agrupavam no cumpri-
mt-nto cl'esse dever. Faziam bem: para nada ser-
YÍ:uu ! ribid.J
Com este sarcasmo voltara a accnsar. O conde
(la Taipa dissera que <<o presidente do conselho era
do odio geral>>, e quando repetia estas
palavras, o conde de Thomar exprimia aquelle or-
gulho quasi voluptuoso que os homens da sua tem-
pera sentem ao perceber, no odio, a importancia
· que têem e o medo que inspiram.- Era objecto de
odio geral, dizia o conde: logo falariam; mas elle,
ministro, buscava as demonstrações legaes, e dizia
qn'j nos governos representativos a U rua era toda
a legalidade- resvalando outra vez o doutrina-
rio para a perigosa selva das fórmulas. Ha,·ia ru-
mor, sussurro, na sala e nas galerias, sempre que
se falava na Urna.
a guerra é contra mim, tenham a coragem
de me accusar em f{,rma : se o não fizerem hão
:L - O CONDE DE THOM.-\R :til
pernnttlr que lhes diga que são hypocritas. ))
A voz trenlÍa-lht"', e agitando-se, crescendo-lhe o
odio, clwgava á el(l(ptencia verdadeira e. furtt>. Com
a awlacia tle um \'diceclor, encarando de frente üS
inimigos, t'nsiwn·a-lht=-s como haviam de form:u· o
libello. --Digam, vamos: 1.
0
U presidente do eon-
selhn commetten o crime lle peita, dando uma com-
meneia e. receLen(lo por ella um caleche.- ::-iig-am:
2.
0
Tem palacios, tt'm 'luintas; tem tem
ricas tape<;arias t-\ um luxo ... A camara,
pasmada verga,·a: era Hill monstro de l',YllÍ:smo!
Elle apruvt'itant a enw<;ão, continuando: i;.
0
Tem
um tintein> de ouro!- e \'t'ncia, arrancando aos
ouvintes uma gargalbada unisona.- Xào parem:
4.
0
Quando a rainha o bonrou, visitando-o no seu
palacio de Thonuu·, ellP .. apresentou lhe um ser-
viço de ouro tão rico q ne a solJerana disse: é mais
rico do que o meu! -1\Iais ainda: 6.
0
ERtá editi-
urna sumptuosa sala de Laile, aproveitando-
se dos marmores e madeiras do }Jalacio d'Ajurla.
-Outra: 6.
0
Empalmou uma letra de mais de mil
libras, mandada do Brazil por um )J<tra
as urgencia::; do Estado.-:Mais: 7.
0
() Jlindt'lln
veiu carreg·ado de e.'5pelhos para u seu
::\Iais: 8.
0
Possue a mais rica garrafeira.- Mais:


Recebeu por peita um cavallo.- lllêli:s (
Dizia a impreusa alguma outra cousa? Juntassem,
sommassem i mas tivt>ssem a coragem de. o accu-
sar, êtlli, clara, pul,JicamentE'. >>
Até alli o seu discurso galopava, esmagando
tudo; mas quan•lo, ao para.r, regressou, perdeu se.
teve habilidade para <tcahar, e quiz defender-
se. Guizot vencia pedagogicamE>nte leccionando i
não respondia a ataques. vencia tam-
Lem, á peninsular, investindo: porque se. deixava
Later, discutindo? Algum motivo incon::;ciente o
I. \. -O CARTIS:\10- 1\
impellia a l'Xpliear C<t::5os que não St:>riam inteira-
llH·Htt:> ealmnnias 'I a!-f::Ím era, pruYaY::l a
fraqw·za ; do contrario, a s\1a simplic-idade. O
cuntinna emhrulbadn, pasto::;o, monotonn.
As explieat;íles podem sati:-Jazt>r, lll<IS com o odio,
eum as paixões, 11ãt1 se dt>l1ate. :'Pria mistér que
ao 1wriodo dos se uma ll'estas
proYas tlteatraes. dramaticas, eapazes de imprt:>s-
:1 r a t:>lll Ul•ra não conYelH_;am a ra-
zão fria que é sempre o dl1te do nwnor mmwro.
Era Í:Sso o que f<dtaYa ao ministro, a
t;?t.o era i:,to o (ptt:> ao outro homem que
a lti::otoria pile ,]iante Pa::o:-os. ]falti Yinha a
um o ser odiado, adorado " outro: apt-sar do se-
• SPr muito ::;uperior, como furça t>
talento. E era Yirtnosn, poclencln clPixar dt>
n st>r St:>lll penlt:>r por a lwpulari,ladt:>; e Ca·
l,r:d pelo nào ser, sem qne podesse ga-
llltar ainda que ll fusst:>.
U poYtl. C<.llno um motlo lle SPntir e
de SI:' (h·cidir, para o (1ual n.:lu colht:>m Hs f,',nuas
;-;iml'lt>Sitlt'llte lug-ieas tla l,""oi u que
o condt· dt:> Tlwmar e toda a esclwla
ri:l j<ímai::; p•:reeLPram, tt·imando em cnnYt:>11Ct:>r as
ma!"'sas · CPlll r:teiocinios I:' e oppriminrlo
on Lurlando qnaiHll) viam não sert:>m Clllll}ll"t:>hen-
dit.los. );t->nlmm sp;tema P"litieo se }Hf'sta mais <i
tyrmmia êÍ. burla do que o systema aritlmwtico
do da::; maiorias.
ou :-;e perde na confusão da
eltia, ou c:te na paz da inditft:>ren<;a apathiea, ou
Jl·uma currnpt;:lo n'mu processo dt>
lmrlas e sol'hismas. U leitor ,·iu a primeira .con-
dnsão, Yt>ril dt:>ntro t:>lll pouco a segunrla: a ter-
•·eira é a dt-' agora. E a fraqut>za do Guizot pot·-
tn,:.;·ttt:>Z no aeanhanwntn do St'll espirito
CONDE DE
I '\
sêccu, tomando as formulas a sério.
1 lirto, duro, Pra um ariete para bater; _mas sem
pla::;tici<lade, sem o que quer que é de commnni-
cati,·o e seductor que o povo, em qualquét"
sentid;J. Era a Antipathia pPrsonalisarla. Yencia,
mas nâ11 convertia. O advctg·mlo argumentaYa, rle-
pois que o triLmw aggredira; e o lJOvo, impres-
sionado péla viulPneia, ficava inílifferente ás ar-
gucia::;. X <lu a:-; comprehenJia, .e repugnavam-lhe.
V cun(h.. de Tlaomar era a persnnalisação. como
que o ::;ymLuliJ da antiga historia dP delapidaçues:
o povo esp•mtant->anwnte o apednjava, como vi-
ctima expiatoria. Pagava us ct·imés ele muitos.
"Xào era o sangue, eram os roubos de uma gera-
ç:lu que lhe caíam SltLre a cabeça. Para se salntr
uma tal situação, SPriam mistL"'l" qualitladt:'s, ge-
niu, imaginat;ào, plarast:'s, qnt:' não tinha. O clamor
de roul,ns : era necessario mostrar-se
ILUllt·stu e desvalido. De tple sérvia saber-se qnt:'
a •·ainha lhe arrend;íra o .X os g•rvernos de
pn'>licidaJe o rei é nada. (lnando a opiniilo g·oyer-
na, é nect->ssario qué fiqne, ou pareça ficar pobre,
aquelle que para o governo não entrou rico. Ai,
dos que enriquecem, emhora lisa. honestamente.
O politico é como a mnlher de Cesar; e na psy-
clwlugia da npiniito t·ntra sempre e por muito a
Ín\·t:'jct. () marqnez dt' Pumhal podia ter agztrts1i.u·-
f,tdas, porque na ÍIHlole do velho régime
monarchico-aristocratico o enriqtH'cimento dos mi-
V<tlí,Ios d'um rei, dmw ainrla ela nação.
1\las agura o rei j<t não Pra sPnhor, nem amo,
cousa alg·uma: desl.,cara-se a noção da origem
do pud ... r, e com t'lla o eriterio da moralidade na
politica.
E::stas considerações fizenwl-as, émquant.J o mi-
do seu lugm·, alinhavou como
:.··0 L.\.- O C-\RTISMO- I\
um advogado, a sua Sã.o 'alia a ou-
'il-o. )las tranc;;.posta a park molle do seu
discur.::o: agora o ag-JrbSIJr ·n,Jta. f- a vuz se
lhe aquece e o olhar st- lhe aviva, i: indispt-nsavél
observar a cunclusão da batalha.
para o jury. porque
as calumnias. o éXt:mplu d(ls accusador .... s.
(,oméçara por a a '\""t:Z do conde da
Taipa. agora.- rm par houve ladrão
t até d .... t-"pião Taipa: E qu.-m é ésse
par!'- Y. Ex. a-Eu lt:io voltou a desenrolar
um jornal, já antigo, amardlo do tempo. como um
t-sp.,..ctro evocado do tumulo: «Âo ladrão, o
assim c.-Jme-;ava o artigo. E:5:5e gago éra um
desprezi\·él saltimbanco &m honra e virtudes.
}{ a consdlw de guerra por l<idrào da fa-
zo:nda publica. )lancl1a .t CíJin o ha.-
lito immundo. Era devasso, vivia t:-m orgias
lutful. récéhendo 3::!•JO por dia para ser in:;trum.-ntO
do )larinho: atulharam as pri-
rR.aw, 21 de maio de: Era o ladrão da caixa mi-
litar do régimf-nto de cavallaria 7, o f->:5fJiào dos
3::!(J0, o urco de ainda t-mpof-irado c m a
viag.-m df' Yilla-Franca, o militar cohard ... fu:óndo
e"'m s ... sabt-r porquê, ('J{ar 9 .:Je agot;to de .:16) etc. Tudo
isto o Raio, e o digno par nã.o apft:llara
para o j ury !
O odio crescia nd camara indignada contra o te-
mf-rario que, para se ddt.nder, ia revoh·er assim,
em publico, sujas corridas, 1.-vantando lodos
'lUt legi-ladiJrt-s. E era urg .... nte ol-
,·idar o t as suas c-ampanhas. Tt'Jdos sé
Sf-ntiam anciüsos de esq llécimtnliJ. Rodri:.5o come-
çava a abrir (JS seus hraçus para (J amplexo final,
fraterno ... F0ra, o importuno, o impf-nitente, que aos
séus junta o crimf- d .... aecusar o pruximo !
:?. - O C0:-.111:: DE THOioi.-\R
F<ttigada esta\·a a camara, extt-nuado o orador:
todos .:mcia,·am pelo tim, por uma regenel'açJu. A
voz do ministrn t>Xtinguia-se, e n corpo pt-dia-lht-
uma «Para ganhar tt-mpo, t- não ou,·ir a
l"Pspusta? n pt-rguntou Taipa. o condt-
saiu ainda : « àtl é, nào: ticart>i até <is dt>z da
unite, se prt-ciso T<lip<l: «Eu nitl nt-ct-s-
sito t-studar! I)- Thomar: «Preciso eu: mas para
rt>sponder ao digno par·- nunca ! »
U resto foi um di:::htrhio parlamentar, qut> os
:tos dt-, ordt•m! a custo thHttinavam. Acaba,-a a
l t-m unw. desordem : que era tudo st-nà.o anar-
c·hia.
1
esdt> os principios e até :ws cara-
ctt>rt-s <i moral "I
_-\ssim 4-'oi o ultinw dia do CLlntlt- dt- Thomar.
o qu tinha. Durante no,·e amws t -1:.?-:l J 1 eon-
tivera a ma do <t
patria n:ts avt' turas umliht•,.,dismo mwo. Agllr<l,
o padrà.o d •ltnttrina, o padrà.o francez de Gui-
zot, j<i dt>Sf t'lll P:tris pela re,·oluc;&o
( fevt-reiro de -l:--\): ·>s tempos mnda,·•un, e a :ttmos-
pht-nt adt-quada ao tempt>r:uut-nto dL) ministrtl des-
apparecera. .\ ft)rc:. das cousas t)rden:tva-lltt- a
abllicac;â.o, mas o ge ·io rebt-llava-st--lhe. l'onw o
t\.lit·o que o Ut<ttador Sll conseg-ue dt-pois de
succt-ssivas estocadas. mas tt>lll IHt espada o
instntlllt-nto nm<t mortt- <t:;sitn o ministrtl
ainda marrou, erguendo-st>, in,·t-stindtl
1
appt-llando
ainda para cl. tribumt. para as bt•,·nardas, mas per-
dt-ndo sempre sangut>, esvaiudo-st• até se rt,jar
,-t'ucido na fria an•na das t•mbaix:tdas.
E. mais Ulll dtlS succt•ssi,·os nwrtt)S do libt·ralis-
mo, este duro lwirlo dt- :\ltts qut• lllllrtt-
a sua, tâ.o din·rsa dtl sacritieÍll t>Sptlnt<mt•o do mi-
nhotL,, ptwticL) Passos, caminhandtl para o altar
conmdL) th• fl,in·s, ah•grt·,

rt>signadn: Cllll-
L. \". - O C.\l<TISMO - 1\.
fpssando os St>HS o dissipar das suas
illnsut>s, 1wgando a Vl'r<larl .. elos s,vstt'mas, a força
homPns, a Yitalidarl" da patria ! E' qn'=' para
dt>ntro dt' tndo isso o pot>ta sentia no-
Yas, para alt'>m d' PSSl'S dias fugiclos, auroras
ao pasStJ qnt' o politico, uma YPZ rasgadas [,·,r-
mulas, achava-st> pt'rdido n'um vaC'no.
LIYHO SEXTO
A.. REGEN"ERA..ÇÂO
I
1.-- A li Tl!\J..\ IU"\'C'LTA
() 1}1_\mem que em 1 ."i:!G iniciou a historia liLeral
é o pt·oprio que <tg'IJra Yae a espada
para encerrar com uma militar a SPI' ie de
prtJII!l11('imueutus a que temos assistirln. As sncces-
physiiJnumia::; politicas dP Saltlauha são o traço
t-minente dl1 sen retratiJ e do dos tempos em que
t-xistin. Homem sem idéas, os partidos e program-
llU\:3 silo pant elle ucc;tsiues
1
e nada lllais; e como
esses prngrammas e partitlus nasciam, cresciam,
fle!:lfaziam-se constantPUlente, na atmosphr·ra dn-
plamt·nk dP nm paiz arruinado tlt> uma
doutrina inconsistt>nte, o man·chal L'llCOlltnn·a·st·,
ao dt·caír da Yid:t, tão eatTt·g-adu tlt· amws como
de opiniões din·rsas, St>lll qw-· os annos
a sua rija constituição, nem as cuntradicç·iles pod.Ps-
sem affiigir um espírito a serio, Lt·m 110 fundo
da alma, s/1 tinha mna cr"nça : o catlw-
licismo portnguez, cptasi tt.tichi!';t:l.
Em 1 vira-SP :o;a!tlanha appl:mdir a C'onsti- •
jacoLina; t'lll :?;J l't-'Cuar, com Tt·rceira t• mui-
tos ma_is, até Yilla-Franea, na jornada ela
t· applamlir a snppressão das côrtes. Em 1 k:!G ap-
pa.rece-nus proclamando a seu ministro, e
t-'le\·aclo a comlt>. E' então P por alguns annos o
clwft-' da oppusição ao e isso u atfasta da
eampanha eumpç-ada t"lll .Nns apuros elo Porto
vem dt:· Paris; e snccessiv<tmente de um
t->Xercito, nHtrqut-z, dutadu com 1 OU contos bens
na<"Íonaes, Yae ptHlCO a ponco ineliBanclu p:u·a a di-
reita, at-ó que em 1K3i) um mini:steritJ car-
tista. A curtia conquistou-o. E tlesdl' ent?l.o colllt:"ÇOU
a ptlr ás unlt•lJs (_l'ella a sua influencia P a t:'S-
pada. Conspira em Belt·m contra us sl'lt·mbristas;
sulJlent-se nu :mnu seguintt-'. A cunstituic_:ào de HX
tml-o da t:'llligração ao reino, e até -!G -uãu Lole.
Xu G de uutubro é porém 1:-'lle a t>spada com que
a rainlta t>xpulsa os sett>mLristas do governo; e por
mais de dois amws, até ao meiado dt> junlw de 4!),
é u prt>sidPntt? tlo conselho cahralista, t·mLnra em
dezembro dt:> -fi queira impedir a volta ao reino
do t>minente chefe do seu partido. Cedendo-lhe em
-!0 o governo, Yirou-se logo contra elle, e d'ahi co·
meçou a g-uerra deelarada que ,·ein a aeaLar na
ltegf'neracào .
.;\las podia regenerar quem, clepuis de tantas
avt-'ntnras, devia achar-se dorido, e mais ou menos
enlameiado depois de tão largas viagens ?
E' Yaiduso e cheio tle si. l>f'ma:;ia1lo abatido 11:1 m:Í for-
1.- A l REYOLTA
tuna. e boiante na pro!'lp,Rridade. e pouco agrade-
<·idr) aos amig-os do iufortnuio. E untdan·l e cnutradicto-
rio. muito Yelho e e como de edacle
temos uMado n 'e li e um pendm· e turno rleei,Íitlo Jl<lra a mys-
tica. onde parece que acabaní. comr, to•los os bourlHms, nos
brac,;ns de uma superstir·iosa cleYoÇàf': e taml,em pensamos
que :-;(• J.(,je houn'sse fradt>!'l iria. JH'r do g-rande
conclestaYeL Yestir a roupeta do l'armello. )lontalcmbert e
Yaltlegamas conYcrtl'rctm-no em l'aris. Estuda thcologia.
(Rocha, '1\_ev. de Port. t85t)
O retratista perspicaz, que tà.o a proposito no-
tava a physionomia de Saldanha, esboçando-o como
um typo medieval, entre Larfio e munge, não es-
quecia, porém, um tra<;o que é commum aos heroes
da Etlade-media, aos mudernos. e aus de todos os
tempos: a necessidade de dinheiro. «Allega que
não póde passar sem 'Tinte contos por anno», f/bid.J
e as cousa.:; tinham-no forçado a Jemittir-se ele to-
dos os seus rentlosus cargos. Como Yi n·ria sem os
vinte contos? "Xão foi Saldanha o primeiro dos ba-
rões rebellados por dinheil'O; mas em caracteres
taes, de si confusos, sem lucidez nos planos e de-
sígnios, não se póde dizer que o dinheiro seja· o
estimulo immediato e directo, como é nos genios
frios, políticos, em que a habilidade predomina.
Com effeito, erraria quem suppozesse o marechal
avarento ou sybarita. Pelo contrario: no fundo ti-
nha uma bondade ingenua e simples que, mistu-
rada com o orgulho balofo, lhe impedia de vêr a rea-
lidade das cousas. Se nem quando o compravam o
percebia! Se ingenuamente o confessava! Ouçamos
as suas proprias palavras :
Sou pobre de fortuna, mas rico de amigos. Em dezem-
bro de 49, o conde de Thoma1· declarou-me g-uerra de morte,
e dois mezes depois era eu demittido de todos os meus car-
gos. Alguns dias passados. procuraram-me os srs. Sih·a Fer-
rão e Tayares d' Almeida dizendo-me que o segundo estava
L. \"1.- A REGE:"ERAc.-AO- I
c•nearregatlo pnr alguns amigo:- ele me pagar mcu:;almt•ute
o í'•JLÜ\·alt'IIÍI' uos veueinwuto:;. Cma condit,:i\o haxia
u·t·sta gf'ul'rosa of:l"c·rta a 'JLH' Clllll<' snLmctti eom rclnetau-
eia. 1-:ra l}llt' l'll u:l.o illllagaria os nomes ele quem tão nobre-
meu te C'l•utrilmi'l. J )l·sclc eutào no primf::'iro ele eada mez
t' er•bo oitl'uta e llnas libras. (llisc. 211 de de 51) •
Esta simplicidade, esta ingenuidade, esta since-
ri_dade, espantam nos. ( )rgulha,·a-se de ser pobre,
de ter amig-os: mas não é verdade que só se pede
para pão"! e que, por grande que fosse a clientela
de nunca u pào importaria em tanto?
Elle não o percebia: por isso o confessava; e se a
uma compra halJil chamava amisarle, contimla\·a a
suppDr-se arbitro. quando era ca<la vez mais aquelle
tronco em que falara José Liberato. Satisfeito, sim-
ples, bom, irresponsavel como uma esfre-
gando as mãos contente, ou quebrando os joguetes,
militares, políticos, nos seus despeitos infantis, o
marechal, entrado na velhice, ia, com a sua espe-
daculosa espontaneillade, seduzir um grupo de ho-
mens ainda não desilludidos.
A sua villa tinha sido já tão longa e cheia de
aventuras e tlescreditos, eram raros que
não tinham tido occasião de u vêr e avaliar por
dentrc.t.
Os antigos ordeiros, com Rodrigo à frente, esta-
vam pn:Hnptos a seguil-o para confiscar a victoria,
fazendo do vencedor a unica cousa para que ser-
via: nm rotulo brilhante de honlacluras e cra-
chús, um psemlü-cht:>fe ele para:da, :i sombra do
qual viveriam, lisungeanclo-o e pagando-lhe.
teriam us ordeiros, por si sc',s, força bastante para
mover o paiz contra o tyranno que rematara a
:ma olJra amordaçando a imprensa? :-\eria mistér
acceitar as offertas dos velhos de Pa-
ris, a quem voltara as costas dt:>stlr:>
1. - A L; L TIMA KE\"01 TA
contra qut:'m combatera: esses em cujo
St:'ÍO a inflttt-·nci&. de José-Estevão crt:'aYa um grupo
novo, tilho da Vt:'lha-guarda do::; nt-'tO da
qna::;i extincta geração dos vintistrts! Porqtte não "t
:-;aldanha confundia o St:'U despt'Íto com o intt:'rt:'sse
puolico, da mesma maneira que confundia o St:'ll
orgulho com a sua falta de meios.
Tendo-se recusado a acceitar a embaixada de
Paris, com que em Thomar pretendia evitai-o,
(como Hodrigo o evitara em ..J:( 1, mau dando o para
Yienna) :-;aldanha, que n'um bre,·e intervallu de
ocio se occ!..tpara em Cintra da crt:'açào da:s vaccas
de leite :carnota, ,, ·:m.J, depois de em Yit:'nna St:' tt:'r
occupado da existencia de Deus e da immortali-
dade da alma: Saldanha desmascarou hreve as
suas baterias, pedindo á rainha a qm·da do minis-
terio. Reconheceria elle agora o St-'ll erro de -J.tj "I
h=:rnbrar-se-hia dos conselhos de Howard: be cau-
tious! Yeria o papel de janisaro que desempenha-
ra? Talvez. Arrependia-se, poi::;; e voltava-se con-
tra o partido de que fiJra a t'Spada. se tor-
nava, porém, um chefe da democracia como até 3-!,
embora tivesse feito as pazes com os St:'US inimigos
da )Jaria-da-Fonte. Antas visitava-o; mas quando
lhe propoz o plano de uma sedi<;à•J sete1uln·ist,t, o
marechal, affavelmente, rindo, senhor de si, respon-
deu que não. Tambern elle tinha a sua revolução,
uma boa, afortunada revolução a fazer: veria !
(Carnota, .\/em .. )
(.lue esperanças novas eram essas?
Conquistar um grupo de homens, mais pensado-
l't:'S do que políticos, libt:'raes sem St:'rem dt:'mocra-
tas, cartistas St:'m serem Cabralistas, homens como
Ferrer, :-;oure, Pestana, no meio dos quaes se des-
tacava o talento já l'Onsagr:ulo ele Herculano, com
um pensamento de pura liberdade doutrinaria.
L. \"1.- A I{Ef;El"ERACAO- I
I [ercnlano Pmigrára, e ouvimol-o chorar na soli-
dão do exilio. EI-nqnant.o, porém, a sua musa ly-
rica lhe i n ~ p i r a Y a poesi:1s selladas com um pro-
fundo ctmho de sinct:'ridacle e lwllt:'za, o poeta, ho-
lllt'm Yigoruso no temperamento intelle<"'ttwl, portn-
guez de lei, affirmatiYo e duro, o inn·rso do artista
Garrett: o poeta aprendia na moci•lêlJlé, como l\Iuu-
sinho já qilasi na velhice, os dogmas e princípios
da crenea liberal. A critica clt-> K:mt mostrava-lhe
no Indi;iduo um rei, na ConsciPncia um dt->us; ao
mt'smo tempo que os sabios, com a nova direcção
dos seus estudos, lhe mostravam na tradição e na
historia as raizes das socied;Hles fl._.ploravehnente
abaladas· pelo jacobinismo. As cont.raflicções que
produziu esta dupla concepçâ.o, indivillualista e so-
cial, nunca em Portugal se manifestaram tanto
como no espirito do homem eminente que, talvez
unico, media o valor elas doutrinas.
As tendencias eruditas e litterarias do seu genio
philosophico fizeram-no metter mãos á obra do
renascimento das lettras portuguezas, assim que
no Porto houve lugar para pôr de la1lo a espingar-
da. Assistira, combatera em todo o cêrco; e, termi-
nado elle, entrou como bibliothecario da livraria
municipal. N'um paiz revolucionado, a politica é
absorvente, e por isso Herculano, ao mesmo tempo
que iniciava os seus trabalhos historicos, acompa-
nhava a agitação dos partidos. :-5etembro, isto é, a
acclamação do jacobinismo que o philosopho suppu-
nha para sempre refutado e condemnado, provo-
cou-lhe uma ira portugueza que se vasou nos thre-
nos bíblicos da v·oz-do-Ptt·opheta. Demittiu-se em
37 para não jurar a constituição de 20; mas dois
annos depois, apaziguada a procella, retirado Pas-
sos, restaurada a m·dem, reconhece a constituição
de Z.)8 e abraça a fusão. Em 40 vae deputado ás
1. - A (;L TIMA REVOLTA
cmnaras, confiado em flue o liberalis111fJ tal como
elle o concebia ia afinal enraizar-se; ma8 lJreYE.' se
desenganou e sumiu-se. Fui então que o rei D. Fer-
nando o convidou para bibliuthecario ela A j u d a ~ e
d'ahi, afastado, ,-ivendo com os documentos da his-
toria, entregue aos estudos com uma energia ar-
dente, conquistava a passo e passo o primeiro lugar
entre os escriptores nacionaes do nosso seculo, ao
mesmo tempo que lá por f•'•ra seguia, desorientada
~ ferina, a procissão das revoltas e o desvario dos
go,-ernos.
Em tal estado o vt>iu encontrar Salcbnha. con-
vid<mdo-o a prestar a authoridaclt" do s ~ u Illllllt:' e
elo seu cun'selhu á empreza em .. que i<t l<mçar-se.
1
Herculano, cntwJ todos os que lidam mais com
ieléas d.-, que com homens, era quasi infantilmentt"
ingenuo. lntelligencia formalista, não era tampouco
dot<lClo ela perspicacia que ·adivinhct os c:u!acteres,
deslindando as confusões da inconsciencia alht"ia, e
dt"fininelo com clareza as situações. A sua imagina-
çàu poetica viu no marechal um penitente de anti-
gos erros, a sua nobreza ingenita viu uma dt>dica-
çào nobre; e o seu patriotismo e a sua doutrina
viram tambem chegado o momento da paz, da or-
dPm, da organisação definitiva do libéralismo. En-
tregou-se todo, de corpo e alma, e abriu as portas
da sua casa da Ajuda ft.s rétmiões dos conjurados.
Alli se pactuaram as reformas urgentes que o ma-
rechal realisaria assim que tornasse vencedor: <lS
f'lPições directas, a abolição da hereditariedade nos
pares, a dos vínculos gradualmente convertidos em
1
O que se conta, sempre que a origem se não cita, provém da nar-
rativa que ha cinco ou seis annos o seu chorado mestre e amigo f<!z ver-
balmente ao author. ~
PORT. CONT. - TOM. II
l!J
L. Yl.- A REGE:."\ERAt_;ÁO- I
pt>quena proprit>dadt· emphytht>otica. Herculano t>XÍ-
gia que tudu SE' fizessE' C(llll gentt-- t>xclnintlil
os Yt>lhus todos, «dE' outra f,'•rma. seria o llH'::mlü
que d'antt>S>>; t>xiginclo para si qut> t> nào 'tizeSSt>lll
ministro. Traba.lhari<t, .:tjudaria. cum o SE'll conselho,
mas pnra govt>rn<t r << nào tinlw q Ut>da l>. :--;,tld<tnha,
provavt>lnwntt> applaudia, enthusia::nua-
obt>decia, promettia.
X o dia I de abril dt> 1 sainSahlanba para Jázt-:1'
'l rtvuluçílu no Porto. )Ias o govt>rno, St'lll fnrt;a
para o prt>ndt>r, st>guia-llw os pa:ssos e machin<u;ut>s.
A como • snccedia, dt>via
St'l' o J?ronuncia.mE>nto da tropa; porém :-\aldanha
,-iu com nwgna quanto havia dt>scic1o, pois Bt'lll t•s
comlllandantt>::; twm os officiat>s St> pre:staY<tlll a
acump:mhal-o. Os progTt>Si:Ú:-:tas do Porto con:sidt---
ravmn tudo ]knlidu, E' o 1U<II"t>Clwl fugia tristt>lllt-'llk
para Ilt>spanha, indo parar a Lt•bit>S aqndlt'
para nhi mandara t>1ll o St>U t>Xt·rcito. J<i t'Sta-
V<tlll prt'sos na Rt>lação os officiaes cunjurad•JS. e
Yictorino Damasio, antigo solda(lu clct JCXTA, t'll-
genht>iro emprt>ht'lldt>dor qut> ficant no Porto Crt><llld•)
fabric<ts; Damasio, a.ppt>llamlo p<tra os e
Yt>ndo que o gon:·rno tmubeni os prt'ndia, appellun
para os cnlJos: appt>llaria p<tra o rt>g;inwnto clt>
npt>rarios t'lll ultima instancia! Xão foi neCt'SSario,
porqut> com cltavt>s falsas fotjad<i:s n<_:> Bolhàu, in-
troduziu da França no qnartt'l dt> :--;anto-
Uviclio, e os cabos t' solclnclos do 1"' proclam<trnm <1
Rt;voluçílo. !Delgado, Elog. hist . .ie J. 1". D.wzasioJ Saldanha
rt>grt>ssou, t>, com a tropa atraz dt> si, fni sol.re
Coimbr:t.
1.- A I"I.TI:O.IA HE\"OLTA
De Li::;Loa para Coimbra tambem saíra n :;··JJ•>-
ralissimu D. Fernando com tropa atr;tz mas.
quando tinl1a de atravessar a pontt, flo JlontlP;!;"-
achnu uma trancct passacla dt· lado a lado e n:-;
tudantt:"s qne llw spg·uraram as r•·dPas do ca,·allo,
mandando-llu, tirar o chapéu e dar vivas an
danha. O r"i, qut' Pra a nrLanidadt· PlH 1wssoa, nih
pudia recnsar-sP, P fel-o; rt,tirando logo para Li:-:-
hoa a contar a tranca da ponte, P a rPclamar a
f!lt"da do ministerio. Jlinist"rios 'J partidos valiam
aca::;o o tntbalho partir por nwio um matl•·ir"
valiam; ningttPlll já tinha força para cnu:-:a
alg-uma. e dt·silluditlns, todos, nu ;Jl,.,.-.
rPcimentn müversal, admittiam tudo, t> tinham r a-
zà•J para isso. O maior crim" do condt· Th!J-
mar Pra dPsconhect·r o d,, agora, qut'rt·ndo
usar da força contra uma n·sistt·ncia pasto:"a
mollP. Haivoso e dt->se,.;perado, quando vin cltt-gar
D. FPrnando no SPU cavallo a passo, t' opinar 1wla
queda do ministerio com a voz fanlwsa e
com qut' dera os vivas ao raivoso, ·• a
do paço dizia o conde de Tlwmar cito-
rara grossas lagTimas e com as suas mãos lalJn·g·a:-;
f:'P agarrara ao puro manto da rainha: valha-m,.
SPnhora! prutPja o seu ministro!» (Rocha, /?e!•. d.-
Port.J é natural a rainha an-
dar pur casa dt-> purfJ mrwto, tJmbora seja de cn·r
que o ministt·o appellasse para aqw·lla que tant•)
lhe dPYiu, qnt- churassP de raiva obserYandt>
rlt->serçiit-s rapidas dos homens que t=-lle tirara ,],,
nada. até o proprio irmão, o José-dos-coneg•,:.:,
se voltou contra elle no dia em que s"
bandeara!
TPYe de fugir outra \yez, e o duque da Terceira
occupon-lhe o posto (:?lj de abril') conservando o mi-
nisterio decapitado. Era a esperança de ma11tt=>r o
L \"1.- A REI_;E:'\Ek.\1:.\0- I
partidn, sacriticantlu o ehefe '"! uu o cÚmh· de Tho-
mar t:'lll ir repetir a L'ampanha diploma-
tica 1le .J-ti, e 1wdir aus seus amigos de fúra 'lue
o viessem restaurar { Esses mnigos, tinham
caítln. U duutrinarismu morrera com (íniznt em
fe\·ereiru de -!S, e já não havia migueli:::;tas. Tac-s
fortunas não se rept'tem na vida: d'esta vez a
fptéda era para sempre. U duntrinarismo, disse-
mos, morrera em .J-s, e a Fran<;a vi,·ia ao tempo
sob o governo republicano: iria pois haver uma
republica entre nús { Nàu faltava quem o desejas-
se: :--;ampaio e José-Estevão, Cazal, Braamcamp,
Nazareth- os ltumens novos do velho setembris-
mo. Portugal, porém, caminhara mais depressa do
que a França: a republica de .J-t-i tivera-a em HG,
e o imperio de vinha sendo reclamado desde
era a traducçào real da palan·a nova, REGE-
NERAÇÃO. llodrigo era um )[orny, beirão e bur-
g-uez. (lne motivo havia para este nosso adianta-
mento 't em motivo evidente e simples: a supe-
rior consistencia social da França, a nossa extrema
miseria, a nossa fraqueza singular. O principio do
indi ,·idnalismo anarchico e liberal, destruidor do
passado e da tradição, creador de uma no,·a classe
ricos saídos da concorrencia, tinha de acabar
n'um scepticismo systematico e n'uma confissão for-
mal da idolatria da Utilidade, depois de ter percor-
rido o circulo de experiencias e ensaios possíveis
dentro das fórmulas, e depois de ter demonstrado
() vazio de todas ellas. N'um paiz caduco, essa
eYolução fazia-se muito mais rapidamente : por
isso era já impossível saír do doutrinarismo
o idealismo republicano, como em França ; por
isso os moços republicanos como José-Estevão adhe-
riram á ·re!Jeneraçiio, proclamando a necessidade
de mellW'IYWl.entos mafe1'iaes; fOii,·eira, F:sr. lzist.J por
- O Fl:\1 DO H0:\1.-\.:"TISJ\10
I8SO H·ldrigo, um precur.,or, batido por um intruso
em -!-:?, ia vencer detinitivamente em 51.
2. - O Fnl DO R0:\1.-\:"TISMO
capital havia uma miCiPdade singul<tr pela
volt<t do trinrnphadur. Tinhmn-llte mandado vapo-
rt·s, para ell12 com .:1 sua gente vir du Porto, e cada
qtwl fazia o possivt:'l p<tra o conquistar para si.
Choviam .:ts cartas. ( )s ortlt:'iros pediam-lhe prn-
dencia, pedia-lllP and<tcia: <<Ponha d12 partP
todos os uhstaculos: colluque-se n<t situação dt:' um
clwfe revoluciona rio>>. 1 Carta de 5 de maio: em Carnota. -'l<'m.J
"K o paço, D. Ft:'rnamlo chora v a-porque? 12 a rainha
anciosa entrt:'via a possi1ilidadp dt:' uma abdicaçã-o
f,.rçada. Qne f<tria Dt->iXal'-st> -h ia
zir pt->l<ts .:tcclamaçut:'S dt:' rt:'gPntt-' que a turba llw
ia d.:w ao desembarque"! Outros temian' uma tr.:ti-
çào palaciana para o abafctr, mata l-o- quem sabe?
A r<1inha em pesso.:l era furç.:td<t a t:'SCrt:'VE'r-llw, pru
testando a sua lealdadt-'. 1Y. a carta em 8 de maio; em Car-
nota, ibi.:i.J Uns aconselhavmi1-lht-> que não dt:'St->lllbar-
casse nu Terreiro-do Paço, rttw fosse á Pampulha
-os vi,·as eram perigosos! outros aconselhavam-
lhe Cascaes: havia machinas armadas para o ma-
tar! Este via a esquaflra frallCt-'Zêl apn·sando os
vapores na costa, aquPlle os na,·ios inglPZt:'S aprt-'-
sando-os no Tejo: ,-pnha por tt-'rra! E o vrup·io
Herculano, assustado, llw escrp,·ia: cc )Iarechal!
marechal! lembre-se de qtw a sua vida, a sua sal-
vação, a sua liberdade, sào a vida, a salvaçào
a liLt:.rdade du paiz! n tY. a carta: ibid.J
A entrada tlt-> t:'lll Lisboa ( 1:1 de maio)
foi um triumplto. Tomou posst-' do governo. e o rt·i
t-ntregou-lhe o bastào do commandu-t:'lll·chefe. Cun-
tentP, radiantt-', dt->spicara-SP. A rainha
L. \"1. - .\ RE<iE:'\EH..\t .. \0- I
<'lll no tlwatru, t,.,.,. ele acclamar, dt· pé na
:-;ua tril11ma, o-mais ttma vez-rei tlt' Portugal.
( 'IItunavmn-llw dt· novo D. Joã.o YII. Eu bum do ma-
rt·chal acrHlitava-Sl' um A ug-n:-tu,
Yt·nct·dor d" ( \tlmtl e de
e dos setPmbristas, fundaclor do nuw1 im-
peric) I"CfJt'nerodo. Em vão " .José (•abral,
nn clnL tla rua dos l\Ionros, palacio elo fi-ah·âo,
restaurar a CARTA pura d .. cabralis-
mn, t<-ntando snblP\·ar a guarnição Lisboa. 1.1 ')
de maio) ·
:--;,.!.lanha tinha-S<' contprom .. ttido a abandonar
ao <lescrPtlito us hom<·ns n-·llws, a
t'tJlll gente nc,va a paz elos partirlos; e no prÍin<·it·•J
liJUillet1tu, afognt·aclo com a sinceridadP satisfi·ita
<l<· ,·,·nct·r, inq)loraxa d" Herculano cptP ncct>ita:;:se a
pasta do lteino, ao f{tH' o escriptor termin:mtem"tlte
:<<' nppnz, fi('awlo de f,',ra como um cuusellwir,J ,},·-
dicadu, lt>al P convido. Sourt' e Pestana <le um
laflo .. -\tonguia pelos onleiros, Franzini
as finauc;a<; pelos cartistas, P Loulé por parte tlu
sdt·mhrismo: ei; o ministeriu que haYia tle rege-
nerar a uaçào, convocando uma caulé.lra que
a lt'!fitimrt representante da vontade elo paiz.
l\[b.s, na <·ommissão da lei eleitoral debatia-se um
problema grave: teriam, nã,,_, teriam voto us gnar-
<las do tabaco? Cuntinnaria, não continuaria a ser
o cnufractu (inteiramente atfecto ao urdeiro Hodri-
;tintla de fiíra) um poder <lu EstadL• "! um pa-
trono da "! Fontes, homem novo, de instinctos
imperiaes, amanhados por seu mestre e prott"ctor
Hodri;.!·o, era pelos guardas, a que se não poflia ne-
gar o direito de cidadãos, etc.- discursos e phra-
!;es que irritavam 1 Ierculano e o lentvam a protes-
tar desaLridamente contra a falta de brio ela moci-
clade. U ingenno philosopho appellava ingemunueiÜt>
:!. -O Fll\1 DO RO.:\IAXTIS;\10
para Saldanl!a, agraclt>cidu ao favor de amigo, com
que, em confidencias intimas, o marechal lhe con-
tava os embaracos da sua holsa.-E se mettesse-
mos o Hodrigo "!"dizia e 1 lt-rculano res-
pondia que sairia elle, pois seria continuar a vida
anti:-:·a, quando o seu proposito era crear uma ,·ida
nova de liberda•le, sinceridade, honr:t, brio, e no-
hn·za moraL U marechal applaurlia: aLraça,·a-o: e
no dia seguinte voltava: «E se mettessemos o Ro-
drigo? )>-contando mais uma vez os apuros em
(lUf' se achava e os embaraços crescentes cadà dia.
Herculano começou a reparar, a meditar, e des-
C•Jbriu por tim a razão das confidencias e pergun-
ta::; Era um Portu;_!·al rt->gl-:::'neradu, era,
ILas havia modos varius de c;mct>lJer a regent-ra-
t·Ao: e debatia-Se entre o modo de Her-
que inc;;pira,·a o miniskrio, e o modo de Ro-
modo pratico e politico, qne se propunha
sulJstituil-o e o havia de Estavam pelo
sf'u lado a fraqueza podre de todas as clientelas,
a anetaia da nação exhausta por uma serie de ca-
tastrophes, a começar da primeira, a vinda dos
francezes. Chegara o dia da victuria do scepti-
cismo antigo, e do utilitarismo moderno. Rodrigo
e Fontes, um velho e um moço, duas faces de um
s•', twnsamento, mestre e discípulo, o antigo letrado
rrdllllft "'o novo f'ngenheiro habil, janota e pratico,
são as tiguras eminentes da definitiva regeneração.
1\lin. de í de julho)
O breve intervallo de uma esperançá de reforma
moral terminava. Saldanha voltava á realidade. «A
sua bondade levou o a crêr na santidade dos ho-
m.=.ns e na de formar um governo de
anjosll, dizia Algés(\". Carnota. Jlem.J que não era ne-
nhum anjo, applandindo a isenção com que o ma-
rechal saccudira a tyrannia. Levado pela mão de
L VI.- A I
Rudrigo, respirava lwm, porque Stl o adulm·am,
nàtJ o importunando cum exigencias estoicas. A l:P-
gHwra(_;ão foi o ultimo <tcto de porque o
seu Hl dP (li-:70'1, saldanhlfrltt por excellencia,
é um episodio da senectnde, proprio para de-
monstrar a cachexia politica da Jú
no governo, o marecbal pi,de mostrar que tambem
se regenerw·u) quando caiu •lo poder em i">G. Entre-
g;ou-sP a outras batalhas: e o qne ft,ra lJandeira de
revoluções passou a rotulo de rLusn-Hr::-p.l-
•lllol,l, Guano chimico, :\lin.?s de Lciri,lJ Boiara sem prP <llllerct:
dus acontecimentos: eram elles que o levavam para
o campo das contendas. Assim como sonhara
pre com a pompa clamorosa e halufa, assim agura,
acabando, sunbava Íl1rttmas, di\·idendos, riqueza
para tuda a sua família ae pedintes: «.Xàn ha\·er:1
parPiltPS pobres!>) (Carnota, .\/em.) O bum marecb.'l.l
não era cuhiçoso: era apenas simples. :--;imples nu
galJinete, simples no escripturio das élll}Jrt->Zas. :-im-
ple::; na. carteira de escriptor: depois da Fé, t:>n-
ti·egara os ocius á Pl·cuaria; e pur fim acaLou na
} I onHeopatliia, vencedor do dr. Bernardino. 1 l
Castilho, com a sua lisonja ironica de litterato, t>scre-
via-lhe: «Adeus, meu Cê;ro Achilles; gnerrt:'iru, me-
dico e escriptor a um tempo: porém A.·hilles ba-
nbado na preciosa agua da \'Ída desdP <l até
ao calcauhar-inclusiYameute>). (Y.carta: if:oi.i.J lng;e-
mw, o marechal tumaYa-se sempre a sério. é
triste vêr assim escarnecida a figura de um como
heroe, pela gargalhada perfi(la dtJ litteratu "?
:-:.alclanha acabou. YoltPmos á
Publicado o Actn addiccional, não se bolin mms
na constituição; ticaram em paz os pares, os \·in-
:?. - O Fl.\1 00 R0.\1.\:STIS.\10
culos, o Contracto .. J<i em 3::! tinham escapmh,, sem
se saber como, á furia de )lonsinho: sah·a ,·am-se
agora milagrosamentP das ameaças llerculano.
() excentrico, sem ambições, \"olt•-'u aos seus es-
tudos. Ainda em bti o vemos inscript•J no centro
eleitoral progressista, mas as suas espPranças poe-
ticas lUI•lTeram. Uomu não chegara a governar,
eomo nào vira desmanchar-se-lhe nas mà.os a sua
chimera liberal, ficou pensawlo qw-::' a libl::'rdade era
excellente, apenas tletestaveis os seus sacerdoks.
Como vinha de> pois do cartismo e d" hrismo,
como aprendera com a queda de ({uiznt e com os
dPsvarios dfl segunda republica francez:t, a sua in-
telligencia descobria lhe respostas e t-llldlflas a to-
dos os erros, pois a doutrina que chegou a conce-
bt-r e fnnuulat· trazia raizes de Y<trias origens. Era
radical como kantista, era C•JlllO eru-
dito, sem ser democrata, mas tewlo lai,·us de so-
cialismo pnltico: era sobretwlo a conc-epção de
uma sücierlade de estoicos, á imag-.,.m d•J caracter
do flue a formara. Era a condemnat;ilo «l•J materia
lismo pratico, do scepticismo: a condemnat;ào cl'esse
movimento em que entrara, por nàu ter a twr;:;p!ca-
cia hastante para ver que a Il<l<;<1o pedia exacta-
mente o inverso do que elle queria 1lar-lhe. Portu-
gal já nào tinha nervos para ser nem virtuuso,
nem doutrinario de especie alguma.
E o philosopho, voltando aos seus estwlus, le,·ou
a sciencia cl'este facto, que mais ain1la o empeder-
nia no fanatismo da sua opinião. o tempera-
nwnto poetico e doce de um Passos, a sua des-
cren<;a não se traduzia em lmmanitarios,
fonnnlava-se em sentenças terri,·eis; e mais
intelligente e sabio do qne o flemiJcrata: o desman-
char das suas esperanças nào destrnia a sua con-
vicção no valor dos systemas e idéas. A singular
L. \I. -A REtiENEKAC:\o - I
pltysionomia de um ltomem c1ue de f,)ra da vida
publiea tanta infhwncia exerceu soLre ella, ha de
ohrigm·-nos a estudai-o no seu exílio volnntari•J.
Escarmentarlo pela mmH:'i1·a piJr fl ne fílra illlHli-
do, a lSua eolera rompeu viulenta nos dias imme•lia-
to:-; á vt-I·-ladeira Hegeneração:
A l1i::<toria pnlitif"a (· nma St:'rie de •ll':;;ec•HchaYos. de tor-
JH'Zas. de ÍIH'pf"ias. de ineohcrt:'ncias, lig-adas por nm Jlt:'ll-
:;ault'uto coustaute,-o de se c·nriquPeerenl os ehcf«·s de
partidn. I•lt'·as, u;(o SP eucontram em tf)(la essa historia. SP-
u:1o as cpte esses ltnnwus LelJl'ram uns livros fraueezes mais
YHI!.!·arPs e bauaPs. Hoj(' :t«·hal-ns-heis prngressistaf. :'nna-
ultau rPaeeionarios: hoje eonsen·adorc·s, ámanhan refnrma-
don·s: olhae com atteuc;ào e encoutral-os-heis sem-
)ll't' nnllos. rJ>.li.,, 29 de outubro)
E:;ta con•lemn:u;ão furmal dos homens, de todos
os homens, exprime a misantlu·npia do que não en-
tt'nlle nem nlJellece á corrente fatal flue êllTêlsta a
snciecl:tcle:
I, erro deploraYel dos ali•'ptos de certa esehola é des-
Jll'l'zan·Jn a clistinf·c;ào ('Htrc o progresso LJlle intlne no me-
lhonlllH'Ilto moral e snl'i:tl dos pnYos e afJUelle 'ilH' s,·, lllP-
Iltora a sua cowlit;ào physiea. rus 1•inculos)
Era essa escl10la que o vencia e Latia; e Her-
culano, sem reconhecer qne, como cunelusão natu-
ral da anarehia lilJtTal se chegava ao
rt>cunlwcer qul' para isso concorriam no,·as
classes aristocraticas formaclas pela concorrencia.
as nu,·as urganiswlas com os capitaes mo-
VI'ÍS e a terra lin·e, a tt="nclencia industrial fomen-
taria pelas de::;cnbertas scientificas; sem Yer que
2.- O FIM DO R0:\1.\:\
taes phenomt-nos t-ram cummltnS a toda a Europa:
llt>rculano attriLuia tudo á pt-rYersidade du::-; sen:s
conknaneo:s é á mesquinhez da sna patria.
Em eiYilisaeào.- dizia. f' era Yenhide- estamos d11is
furo:; abaixfJ da· Turquia <' (•litro;; tautns aeima elos lwtt •'11-
tote:,;. no eireu},, estreito da:< rf'\·ohw
ineessautes e estereis: a lf'g-alicl:ule tornou-se impos!'in,l,
a. aec;ào gon·rnativa nm problema insolm·el. rP.lií, 2-J de
julho)
era mini:":tro ha,·ia dias e ia desmentil-o.
Desmentiu-o com effeitu, dando á nação o goYerll•J
ella pedia, e ao tempo aquella legalidade ap-
parPnte, aquelle :sys.tema de burlas,
ao fnncciunar da machina constituciunal.
E tanto I:•)c:lrig·•J tinha razãu, tanto o estoicismo
nolJre de Herculano ,·inha f,',ra de tempo, que tuda
a gente acclamou Yencedc)ra a rapo)za ordeira. CIJill
a sua cria, Lrnnifla, sécia e petnlante. Totla a
apedrejava o cuwle de Thomat·- nm importuno !
tudos, Passos- um louco! tudos, Herculano -um
catuna de genio azí·do () pruprio U.arrett, ajan•J·
ta(_lo, com os cabellcJS pinta(lns, espm·tilho e cullde:s
miralJolantes, artista que, obedecendo ::1 moela
rumantica, chamara ao mmHlo <c uma vasta Barata-
ria em que domina el-rei t1'iagozsJ, urd'"'iro
que_ assim condemnava o cabralisrno precur:sor :
Plantae batatas. ó gf'raç-ào do ntpor e do pó-de-perlra:
maeadamisae estrallas: fazei l·aminlws de ferro; l"••n:--trní
passarolas (le lcHI·o, para andar a 'Jualmais depressa e:-ta:-;
horas de uma Yida tnd:l mah·rial. ma:-;swla e g-rossa. N11UO
tf'tlllPs feito esta (lue Vens lliJS deu tão ditfei.-ente (l(J r1ne
a YÍYemos hoje. Andae, g-anha-pàf's, anclae: reduzi tudo
a cifras, todas as consicleraçlíes cl'este mundo a ec1n:u:-'•es
d<' interesse corporal, cnmprae, YPIHki. agiotae.- :\•1 fim
i)llll
lle tudn isto. qnl' luer"n a e:-:J't'eie hnm:ma:? ha 1uais
umas p .. nca:-: de dnzias de huuwns ricos. E en perg-nuto
aos aos moralistas. se j:'1 calcularam
o nllmPro dt• iudi,·idnos tpte .;. :i llliSf>ria.
ao tr:tbalhn df':sproporeifonatlo. :i de:-:moralisa<;ào. <Í iufamia.
:Í. ig·u(lraueia erapnlosa, :í clPsgra<;a :'1 pennria
absolnta para produzir mn r\"i.l{!c:ns)
o inconseqnente artista, com todas as frarl'1ezas
proprias typu tlt> laonwns, hrnnidn, pintado,
posti\'o: encobrindo a edade del'ois de ter inYPntadn
o non1e para se atidalg-ar, 1\' .. \morim, G,u-rcllJ t;unLem
eunsag:rn a Yictoria tla g;eraçàu do ,·apur, St>ntan-
tlo-se r-! de J no ministeriu entre Ro-
drigo .e Ftmtes., A sna Yaidade pneril exigia-lhe
t>SSê praz'::'r; mas a sna intnit;àtJ m<u·ayiJhosa tles-
cobrira o caracter da edadt>-HtJYa: o tim 1lu l'll-
mantismo e da liln'l'dflrle, sna tilha lt>gitima; o
comêço d., ntll:l historia 'lne, principiatlllo pt'l•1 im-
peritJ anarchictl tla aristocracia (los ricos, pt>lo g·•I-
Yerno immnral 1la connpção intima dt' todas ns
cousas. P'='la <l'l,H·açã.n tlu l,ezet-ro-d'cntro, haYia de,
por t:ll preço, rec,mstituir primeii'l) a.;; forç:ts ecOllll-
micas das sociedadt's por longas eri5es
tlontrinarias, p:u·a depoi=-- Yoltar ú moral e ao direito,
n·constitnintlo os e fnncçiles sociaes. Entre
o ronwntism11 liberal e a democracia fntura está a
(nomf' pnrtug-nez do capitalismo), um
pel'io!lo mas inrlisperba,·d comu Ctl'ilseclnt'B·
eia do antecellente e preparat;à:J do ulterior.
A no,· a esperança de I lt·rcnlano appareceu como
epi8odiu flwtni to no meill da e,·olnção natural ; e a
eorrt'nte dns cousas fataes enYoh·eu-a, rolou-a, dt>i·
xando a <Í. margt>m, ahandona•la como sin-
g·ular e anachrunico.
Yidente, especie dt> .J t>renlias, suln·e as rui nas
'i. - O 1-1:\1 L•O H.OM.-\1\ TIS:\10 301
J,) Templ•-': ficou o philosopho, a quem a poli-
tica - tyrannia fatal elas nac;c)t'S
intt'tTompia, perturlJa,·a, levava a abandonar os
seus t-studus sahius. Us tempos furam c•HTt-mlo, e
a miseria nacional crescendo. Y eiu um rl::'i. t=>:;pecie
de D. St'ba:stiàu lilwml, tamht'm anachrunico, e
Herculanu acaso te,·e ainda alguma esperanc;a.
Amou -o. <c Se t-u ti ,·esst- um ti lho e me nwrresse,
não me custava mais a nwrte d'elle dn que me cus-
tou a d'aquelle poLre rapaz ! " :\las I>. Perlrü v
acabou cedo, moço: ftJi-se como uma appariçãu, le-
,·ado n'uma de lagrimas; e u philusopho pre-
parou-se para morrer, t:-nterrando-se n'tnn t-xilio
voluntario. Ahi, essa imagem viva de outros ho-
mens, deu calor, vida, licção t- amisade a mnit.-,s
homens novos que aprenderam com t'lle a
nar o presente, t'mbora o fizessem com idéas e prin-
que lhe irritavam a intelligencia, sem diminui-
rem a ami:sade do antig·o e irtcon,·ertivel roman :ico.
A sua hora chegou por fim, t-, ao sentil-a ,·ir, af-
fagou-a. Olhava em roda e dizia comsigo: «Isto dá
,-ontade ela gente morrer!» (Pato, Utimos nzom. de .-l. H.)
LstfJ, deviam ser muitas cousas: a Liberdade nau-
fragada, a ,-ida ,·ivida em vão, a patria nÜst=>ravel,
os homens cada ,·ez mais razos ! Elle foi o ultimo
dos que possuíram alma bastante para protestar,
para accusar. Depois d'elle, as geraçõe:s con,·erti-
clas ao optimismo, commodo para a in telligencia
que assim descansa e para o corpo que assim en-
gorda, acharam qne ,-iviamos ilo melhor dos mun-
dos possíveis; que Portugal é pequeno cernas um
torrão de assucar», como dizia a Link o correge-
dor de Vizeu. Os Pancracios ou Falstaffs acba,·am
atinai a re1'Cladeira liberdade: consummara-se a re-
volução definiti,·a, morria afinal o ultimo e impor-
tuno .J ert-mias.
L. \"1.- .\ REGE:"Ek:\l· .\0- I
((Portug-al é uma Yasta Barataria em rt:-ma
1 liLt:-ralmente 1 t:-l-rt>i Sanch•J. »
SOLIT:\IHO DE Y AL-llE-LOBOS
.-\ cuva dn Ct>mitt>riü de Azüia onde haixcm o
catlavt>r de llt:-rculano lltJ verão de 11 é, nu seu
i:::ul_amentu, o symbnlo da inst:>nsibilidade com flllt:-
o sepultou. Os camp.:•nezt>s arrancm·am
das ,_.tivt>iras Yal-de-Lobl)s tristt>S ramos d't>ssas
partias ;u,·ures mt:-lanculicas, t>m lllt>llloria do qtit:-
vi,·era entre ellt>s: St->jam tamh.:·m estas palavnts,
pouco depois da murte de Ht>rcnlano
1
t>
a;;·ura de novo t:-scriptas: sejam tamhem como um
r:uuo de saudades depnstü pur m:lo tit:-lmente muig-a
a peLlra do St>pnlchro.
c )s campnnezes celt:-bnwm!l. poetica, rnralmentt=',
nm saímento que dt>ixanl in•lifft>rentes os
lH•mens de Lisbna; e assim 1levia ser, porque o
mnrtt• fcírct em vifla um ac;uitt> para os pudt·rusos,
t· um p<w, um protector, um ainig-o, para t-s:;es lm-
milde:; t:-lll cuja sociedade YÍYia. ComcJ um Yoltairt:-
no :::PU rdiro, Ht>rculano t:-ra nma especie •Je pa-
tJ"I•nn 1los camp.:•nt:-zes, tlt>fencl.:-Ihlo-os contra os casos
arltitrarios de uma justiça, dt=> uma politica, muitas
Yeze:; cruel. O mesmo que jêi reclaitl<ll'a uma esmola
para as pobres freiras de L .. n·;to, era o que sal-
vant do de;;redo um condemna(lo da Azoia, victi-
ma 1le um erro judiciaria, St>m podt->r evitar qnt:-
a cadeia o matasse com as düencas alli g·anhas.
H··rculano, prncurallor do infeliz, a LLislNa,
pe1lia, batia dt· porta t:-111 porta. suhia ás casas dos
con::;elheiros- e com que ironia contaYa <t sorte
a que se via reduzido! -para alcanç-ar ü perdão
1
Y. (Jx .fr,j_, mundr.s. ont. de /7-
3.-- O SOUT.-\RIO DE \".-\L-DE-LOBOS
d.t victima injustamente condemnada em ttJdas as
instancias. SoL uma descrença convicta nns ho-
nwns, elle, atinai, tinha no coraçàfJ uma ing'='nui-
dade feminina, e SfJL o aspecto rude de uma q nas i
affeetada dureza, uma verdadeira meiguice, uma
cariclade doce, uma candura diaphana.
U seu genio produzia o seu 1wnsamento. Era
uma intelligencia lucida Pnkystada em f,jrmnlas
duras, e mn coraçâo bondoso e ml:'igo, encolJerto
pt>la educação, soL um t>Xterior rigido e appareu
mente hostil. Quem o ou,·ia, depois fle o ter }i,Jo,
irritava-se muitas quem u tratava nàtJ pu
dia deixar de o amar. Ingenuo como tmu crean<:a,
mais de uma VE'Z fui Yisto dando o braço, nas suas
pale!Stras peripateticas do Chiado, a algum janota a
quem expunha a theoria de Saxigny soLré os mu-
nicípios da Edadt-'-média: o jmwta ou,·ia, orgulho-
so, mostrando-se,-porqne então E:'ra moda, COllltJ
algtwm disse, <<trazer o Herculano ao peit1) >J.
u advertiam, elle, sem se offender, ao contra-
rio, respondia com' uma fala arrastada e
ol1, di.a. bo!
Era a candura propria dos bons; mas o singular
no genio de Herculano estava na for';a de uma
conYicção que, em vez ele reli;:::iusa, era cívica, e
que, portanto, em lng!l:::- G.e se <rffirmar condemnamlo
abstracta1uente o mundo como um mystico, affir-
ma,·a-se condemnando individnalm'='nte os lHJmens,
seus nomes, como um J uvenal ou um Sut>to-
nio. lhe falasse no no Rodri-
go! E esta direcção que o SE'u estoicismo tomcira
levado pela vida de Portugal, fazia com que, para
muita gente, llérculano passasse por um ser dnr'J-,
aspero, intractavel, construido apenas com l)rgulhos
e odios.
1\Ias, se no fundo do seu coração ha,·ia notta:-;
L. \"1. - .-\ REliE:\ERAC-\0- I
doces rle meiguice e uma candidez ingenua, não foi
::;em duvida estt> o traeo dominante du seu cara-
cte-r. Ao lwlo da tinlw Herculano a
dureza e a for<;a lwútana; e por cima da esponta-
neidalle, aLafawlo muitas vezes o coração, dando
sempre uma f/,nna intelligi,·el á força. viera a eclu-
caçào racionalista dar uma unidade, mais uu menus
consistente. nos seus pensamentos e aos seus senti-
nientus. A:ssim, a palan·a qne o retrata é o Cara-
cter. pnrque n'elle a vida mural e intellectual
eram uma e unica: o contrario do sceptico, não
raro santo, o proprio do estoico, não raro obtuso.
Dizt>mos pois no sentido e valor que a
palaYra tt>Ye na Antiguidade, e não na vaga acce-
pçào moderna. Xão é a Yida intemerata, não é u
desprezo dt•s bens munrlanos, o odio á ostentação
van, a recusa desabrida dt• titulos, de honras, de
lugares, que em si constituem o Caracter: embora
a repugnancia pelas cousas mesquinhas seja conse-
quencia indispensavel cl'esse modo de existit· que
consiste essencialmente na afinação perfeita das re-
gras da moral e dos principius da intelligencia, da
vida do cidadão e da existencia do philosopho. O
typo do caracter á antiga é o estoico, e este é o nome
que propriamente define a physionomia de Hercula-
no: este é o typo que passo a passo veiu crescendo
até dominar nos ultimos annos, quando as licções
successivas do mundo, nunca estoico e muito menos
do que nunca em nossos dias, e muito menos do que
em parte alguma em Portugal: quando os desenga-
nos do mundo o degredaram para o exilio, não
como um martyr, mas como um homem que, pro-
testando sempre, se não converte, nem se cor-
rompe.
Por isso o estoico é por natureza austero e duro;
e na pessoa de Herculano esse genero agg-rava- '
3.-- O DE Y.-\L-IJE-LOBOS 31).-,
va-se com efl'eito por varios motivos: já pelo seu km-
peranwntu lusitano, já pt:'la dt->pluravel baixPza do
nin:·l moral da sociedade portugueza, já p.,.Jo saber
consideran:·l systematisaflo pelo philosupho e sem
d uvifla alguma desproporcionado para a illustração
média do paiz em que vivia. Olhando para as mi-
::;erias alheias e para a alheia ignorancia, por mo-
desto que fosse-e nào o era-via-se muito acima,
como homem e como sabedor. Isto, e não a co-
horte dos aduladores ineptos a que não dav-a im-
portancia, embora a stw. bondade os não fustigas-
se, fazia-o inconscientemente orgulhoso, porque
nenhum orgulho nem pedantismo tinha para com
todos os que via crédores de attençàu e respeito.
Do accôrdo da iutelligencia e da moral vem ao
estoico um pensamento bem e até opposto
ao dos santos, que do antagonismo sentido partem
para as soluções mysticas. Esse pensamento é o
individualismo, cujo traço fundamental consiste na
idéa de que o homem é em si um ser completo e
a unica verdarleira realida1le socia,l; a idéa de que
-a razão humana é a fonte do conhecimento certo
-e absoluto, a consciencia a origem da moral im-
perativa, e a liberdade, portanto, a fórmula da
existencia social. D' este modo de ,·êr as cousas
nasce aquillo a que podemos chamar o orgulho
transcendt-nte, isso que os antigos estoicos disseram
Caracter, quando pela primeira vez uma tal f•_jrma
de pensamento appareceu systematisada em dou-
trina.
Se na mocidade, pois, ao vêr terminada a ini-
ciação dolorosa que as suas poesias nos contam,
Herculano, ainda impellido por illusões generosas,
ainda incerto no destino fatal do seu genio, entrou
na batalha da vida como soldado, esperando che-
gar a vêr realisadas as normas esboçadas em seu
PORT. CONT.- TOM. II 20
306 L. \"1. -- .-\ I
espírito, esse enthusiasmo caiu depressa; e Ja no
ardor com que escreveu a roz do Prupheta
7
para
condenmar a rlemocracia, anti-liberal ern seu con-
ceito, se vê esboçada fugitivanwnte a condemnação
futura dos partidos todos sob a fúrma artificial de
um estylo prophetico, á Lanunenais. O momento
de se cmn-enct-r das razões de uma tal sentença
c_heguu em 1 Si)], quando fugiu corrido de vergo-
nha e tédio pt>rante urna corrupção que se lhe
figurava excepcional e unica. Passou á condição
dP. caturra ;)ara os homens practicos, de orgulhoso
para os simples, e de prott-sto symbolico contra a
decadencia portugueza, e contra o abatimento uni-
versnl da Europa, utilitaria e imperiulisfa
7
para os
que, dt- fc'n·a do mundo, como críticos, observam e
classificam os phennnwnos. Tornou-se o remorso
1
vivo de uma nação dt-generada. E' n'este 1110mento
que as cousas leVctlll o genio de Hercul<tnO a defi-
nir-se na sua pureza; e é por isso que ao t>xtin-
guirem-se-lhe as illnsões politicas, principia a tor-
nar-se um typo característico da vida con-
temporant-a. Púde dizer-se que, ao morrer para o
mundo, nasce para a- historia. O lugar que lhe
na galeria dos nossos homens modernos,
é este. Embora já antes o st>u nonH:' tivesse andado
nos prng1·nmmas e polemicas, a sua individualidade
não se destacava ainda senão pelo valc)r addicional
da reputação litteraria conquistada.
No revoh·er da Yida agitada em que se acluí.ra,
iam pouco a pouco reuninrlu-se, como que cristali-
sa1111o, os elementos da incli,·idualidade futura, dis-
tincta e typif'a. A nobreza e a rectidão itleal do
seu espírito tinham na sua profundidade o motivo
de uma cegueira systematica para pesar e medir
as cousas reaes com a imparcialidade fria de um
critico, un com a • de Hill santo. Com o seu
3.- O SOLITAH.IO DE \ AL-DE-LOBOS 3111
metro absoluto e integro; Herculano, na agitação
do mundo, corria atraz da chinwra de achar aquel-
les homens que o sen estoicismo concebia, aquel-
les raros, dos quaes dle E-ra em Portugal um e
unico. O critico, se é politico, manobra com os
homens como um general com um exercito, aus-
cultando as vontacles e os caprichos, dirigindo as
forças direito a um fim, sem attenção pelos instru-
mE-ntos d't?lle. Perante os homt--ns, o s<mto h·m na
piedade uma força intima: a coragem que não
abranda; tem o E'nthusiasmo que o move e a cari-
dadP que lhe explica e lhe faz compreht?ndt?r, t'IU
Deus, as fraquezas e as miserias da terra. Combate,
pois, sem recuar, levando nos labios a palavra de
uncçâo e o sorriso de uma ironia boa, ao mesmo
tempo cauterio e balsamo. O estuico, porém, ft--rido,
pára. O mundo era elle e nada mais além da sua
razão_, da sua consciencia, da sua liberdade. E
quando as feridas, as pt--rseguições, os ataqnE-s, os
ultrages são profundos e agudos como os que ex-
pulsaram da politica-e tambem das lettras-
Alexandre Herculano, o estoico, rE-petindo a plu·ase
historica do Africano, suicida-se. E' E-ntão flue vi-
vamente nasce, pois Sfj E-ntão o caractE-r apparecP
em toda a sua pureza.
Não o mata o scepticismo, mata-o o excesso de
uma doutrina imperfeita. Xão descrê, e é por cacla
VE'Z mais acreditar em si que foge a um mmulo
rebelde a ou,·ir a verdade .• \ morte não é pois um
acto dt> desespero, é um acto de fé. Srj a clifi'E-renc;a
dos t .. mpos fez qne no suicídio de Herculano
não E-ntrasse o ferro, como entrou nos suicídios
estoicos da Antiguidadt". A vida assim coroada, o
homem as:úm transfigurado n'um typo e a sua pa-
lavra e o seu exemplo n'um protesto, superior ao
mund? e {ts suas fraquE-zas, ficam aureolados cum
311S
L. YI. - .-\ REGE:"ER.-\1; -\0 - I
o forte clarão dos heroes, lume que a•IS naYt->gan-
tes, erratHlo no mar esctH•I da vida, güia a derrota
e in(lica o porto.
O racionalismo kantista fui o molue onde se va-
saram em systema as naturaes do espí-
rito de Herculano, um D .. Joà.o de Castro da bur-
guezia e do seculo XIX. O antigo estoicismo portu-
guez era catholico e monarchico; o estoico de agora
foi romantico e individualista, exprimindo a reac-
çàd contra a religião dos jesuitas e contra a dou-
trina ela Haz:to-d'Estado qut->, depois de ter feito
as monarchias absolutas, fizera a Convenção e Xa-
poleão.
O kantismo l'Omo o individualismo
como politic<t, o livre-cambio como economia, eis
ahi as tres phases ela doutrina qtw, por ser um
philosupho, H"rcnlano media em todo o seu alcmlCe.
Eu. meu caro demoerata e rqmblicano, nunca fui muitn
para as idéas que mais voga té.n hoje entre os moços e
que Jn·nt·m·clmenfe 'l:il"(tO a predominar por algum tempo no
seculo xx, predomiuio l!Ue as nào tornar(t nem peiores, nem
melhnn•s do qne são. A liberdade humana sei o r1ue é:
uma ,-erdafle da consciencia. como Deus. Por clla chego
facilmente ao direito absoluto; por ella sei apreciar as
instituições soeiaes. Sei 'lue a espbera dos meus actos li-
vres só tem por limites naturaes a esphent dos actos livres
dos outros e por limites facticios restricç•)es a r1ue me con-
vem submctter-me para a sociedade e para eu
achar n"clla a garantia do exereicio das minhas outras li-
berdades. Todas as instituições que não respeitarem estas
idéas serão pelo menos Yiciosas. Absolutamente falando, o
complexo das questi)es sociaes e politicas contém-se na
questão da liberdade imli,·idual. Por mais remotas que pa-
reçam, bí. ,-ão filiar-se. )lantenham-me esta, rtne pouco me
incommoda que outrem se assente n'tun throno, n'uma pol-
trona ou n'uma tripeça. Que as leis se affiram pelos princi-
3.- O SOIIT.-\HIO OE \'.\1 -DE-LOBOS
pios etPrnos do hom c do justo, e u:lo 1wrgnntarei se estão
accordf:'s ou uào com a vontade de maiorias igmu·as: {Extr.
da co•..-esp. com o _\_ carta de 10 de dez. de tS;o)
Ht>rculano é o lPgitimo discipulo .Jiou:sinlw,
que tanto admirava: t->
7
dPpois do que disst'mos
ácerca da tht'oria inf]i,·idnali::-:t;t, ao estudar o pri-
mt-it·o d't>lla entre 11Ós, part>ce-nos
Ct:'ssario entrar em repetições. Já avaliámos o lllt'-
recimento, tambem vimos as consefptencias pra-
cticas dP uma idéa que, suppriruindo tod;t a
de authoridaflP coliPcti,·a, resumindo nct conscit'ncia
i-ndivichwl a origem do direito, fm1da a sociedade
soLre uma nova do antigo pr((·to dus juris-
tas. HenE-g:nu],_, o direito-divino dos monarchas,
expre:;:sfio tradicional, rt·nega a soLt->rania popular
da democracia, t-xpressào ainda com efit.ito por dt·-
tinir, ensaio rude, aritinnetico, tyrannia brutnl do
numero, irnperiq de nutiorias m:ts
são embryonaria da futura auth•Hida1le organica
do Estado.
Tomando a nuvem por Juno, o indi,·idualismo
nã.o distinguia o que 1wcessariamente tem de gros-
seiro e rude um primeiro t-nsaio. Ainda então as
sciencias naturaes não tinham C3.ractet·isado dt·fini-
ti,·amente o movimento das irléas do seculo, llt'lll
a verd:tdt'ira natm·t'za nr·ganica das socierladt>s hu-
manas, outra e:;pecie de coh!1eia.s ou formiguei-
ras;
1
ainda o espit·itualismo fazia do homem um
milagre e das suas socied:vles actos vohmtarios,
pactuaes. )las, inconsequente, o inrlividnalismo não
propõe <tfinal outra fórmula St'não a flo governo dos
numero:; brutos, da:i maioria:; ignaras: que lw de
propiir, senão essa f,)rma int'xpt·essiva dt· uma força
1
\'.E/em . .:/e .lntliropol ed.) pp. c lnxt. primit. ,-·\"11.
positÍ\'a inclispensavel á cohesã:o social, desde que
não ha nas idéas um LHÍncipio organicn?
Para r1uem tl'm estas ct·enças, a rpH•stào das mnuarchias
e das revnhlicas é uma questão secnwlaria. t:;e entende Ltne
a uwnarchia cnrresponrle melhor aos tins, prefere-a; pre-
fere a n'}Htblica, se entcutle o cnutrario. Tào illegitimo
acha o direito dirinn da solwrauia régia, como o direito di-
rinn da snlwrania popular. l'ara Pile. a twlwrania não é di-
reito, é faeto i fado ÚIIJn·ctt•ril"f•l para a n:'alisaçito da lei
JIS!f,_.hnlngit•rt e af,: da sociahilirlade i mas rm l"i-
gnr, ucr;ar;rco, ponpte re:,;tricçào, nos sens etfPitos, elo direito
absnlntn, c cnjas cnudiç.c)cs são portanto determinadas se'•
por motivos Ue C0/11"1'1/.Íew·ia jJI"II{/:Cf(
7
e Lleutro doS limites
precisos da neecssicl:tde. Fóra d'isto, toda a é
illP.gitima e monstrnosa. a tyrmmia 1lP rlez milhl•es se
excn;a sobre um indiYidno, rpte a cle nm individuo se excrc;a
snhre dez milhcles ,]'elles, ú sempre a tyrannia, é sempre
uma cousa ahomin:t\'el. (/bid.)
Este periudo, eloquente, é reveladut· da energia
que as idéas aclquirem qnanLll) se tornam o sangue
do nosso sangue, chegando a rlesul'Íentar a rectidão
da nossa intellig.,ncia. Herculano,
bom-senso, cujo saber lhe não ir até
aondt' logicamente manda a doutrina., é, até á
Anarehia systematica, negação ele toda e qualquer
sociedade, apotheose do esta1lo selvagem de qu:..tsi
puro in1liviclualismo: Herculano qtw .não é Rous-
seau, vê-se obriga1lo a chamar conveniencia pra-
ctica, ao que linhas psychulugica e
até physiologica do lwmem- a sociedadt>.
E' que, com effeito, não hasta o principio incli-
vidualist:l para nos explic:n· a physionumia intelle-
ctual de Herculano. Yarias cansas concorriam para
o temperar, ou desviar das suas cunclm;Ões logicas.
O saber é uma d'essas, mas a princip<ll é o seu
tempt-n·amento estoico. Para Herculano, e geral
para o estoicismo, uma doutrina não é um producto
3.- O SOLITARIO DE YAL-DE-LOBOS 311
da intelligencia pura, que p•jde ser, ou não, amado
e vivido. O estoico vive com o cp1e pensa, o seu pen-
samento est{t no seu coração: é carne, da ..
-carne, o sangue do seu sangue; e uma fe, nao e
apenas uma opinião. Eminentemente forte, é por
isso mesmo positivo e practico. As doutrinas são
para elle realidades, não são abstracções; e· nada
valem quando nada representem na esphera da
-consciencia e da moral, quanrlo nada valham na
do direito e da económia. Por isso as conclusões
extremas dn individualismo, irrealisaveis, practica-
mente absurdas, immoraes até, repugnantes para o
proprio instincto, contradictaclas pelo saLer mais
mesquinho: essas conclusões, delicia de espíritos
seccos, de philosophos abstrusos, de ignorantes in-
genuos, não podia Herculano, sabio e estoico,
abraçai-as. Parava, pois, afim de conciliar a sua
opinião com o seu sentimento, e, se em resultado
s::JÍam inconsequencias, ellas não fazem senão de-
monstrar a verdadeira nobreza da sua alma e a
tempera rija da sua intelligencia.
Lado nenhum das suas idéas mostra isso mais do
que o economico. Tão livre-camlJista como indivi-
dualista, ou ainda mais, porque sentia e temia
o socialismo, vendo n'elle um positivo e declarado
inimigo e o problema vivo do . futuro : ou ainda
mais, dizemos, porque não parava, nem limitava
as conclusões ultimas, Herculano radical no
pois acreditava firmemente n'elle como
n'uma panacéa. Estoico sempre, a doutrina da con ·
correncia apparecia-lhe principalmente por um lado
secundaria para os economistas. O livre-cambio,
proclamado como a melhor receita para crear a ri-
312 L VI.- A REGE:-;ERA(\o- I
qneza, era para Herculano sobretudo a melhor fór-
rna de a dif'triLuir. Queria que as leis pulverisas-
sem o solo, no qual. não reconhecia outro valor se-
não o que o trabalho consolidara n'elle; e esperava
que a desemLm·açada de todas as
peias, creasse uma sociedade promlhoniana, em que
todos fossem capit<tlistas e prnprietarios. Como es-
toico, era um socialista ; mas o seu socialismo rea-
lism·-se-ltia twla liberdade, péla concorrencia. E
quando se lhe contaVálli OS CaSOS rt->petidos, actuaes,
do sem numero de monopolins de facto,
não das leis, mas sim da guerra natural ec•JIWmica,
elle parava, seisnwva e não respondia.
Via se flue lá dentro luctavam a doutrina e a lu-
cidez; e, sem se convencer, sem mudHr, apparecia
o moralista invectivando os vencedores d'e":lsa lucta
d'onde t'llt._, esperava a justiça, e d'onde apenas saía
o dolo. o excediêt então; e ao onvil-o,
dir-se-hia algum fugido de Paris, dos tempos da
Communa, pois nos referimos agora aos seus ul-
timos a1mos, ás vesperas da sua morte, fluando a
agiotagem liv1'e de Lisboa e Porto provocou nma
crise bancaria. (lniz então o governo cohiLir a li-
berdade dt-> emissão, mas não u piJde.
Do folheto do meu amigo 1 o que infiro é fJUe esses han-
quistas d'ahi são uma alcateia de tratantes e burliics e que
o gon'rno fJUer o mmwpolio da cousa para uns amig-os seus
de Lisboa que yam tratando da vida, mas com fJUCill o go-
verno se acha nos apertos trazidos por despezas tantas ve-
zes, posto que nem sempre, irretlectidas c insensatas. As
façanhas e cavallarias dos bmHtneirns do Pol"tu re:::;ultam
claramente do seu folheto : as do govC'rno são infereneias
que tl'elle tira a minha tlamna<la má fé.- O governo que
faç·a a sua obrigaç·ào ; rtne í<'nha bem azeitados os gonzos e-
1
n.:orgmz. do banco de l'ort.
3.- O SOl IT\R!O DE VAL-DE-LOBOS 3W
fechaduras das cellulas e bem safas as escotilhas tlos na-
vios da carreira d'Africa. Por indulgPnf:·ia eom a imhecili-
datle hmmma (sPjamos intlulg-Pntc·s) 'inando a tratantatla.
fosse de algum banco, bastaria dissolvei-o e filar a dirf'cçào.
rltid. c. de fe\'. de /í)
gon,·rno que caín! Pobre Estaclo, sem força
para ;b:tter-se com os Iwvissimos Senhorios creados
pt-la lib ·rlade que o philosopho prégava! Porque
até perante 'llll claro exemplo das consequencias
da concorrencia, como que ferido por nm rt>morsu,
por· uma Yaga cln :ela, Herculano insiste, dt->fen-
a sua opinião ai .. igada:
Preto velho não apret11le lingn A questão nuica de
doutrina rp1e me pareee haver em toda "l emhrnlh:trla é
a emissão dP uotas: Sf' ha de st>r livrP, se J"C :ç·ta, se mo-
nopolisada. Lihenladeim no p(•ccatlo, a1lopta
a primeira solução em toda a sua a111plitndt•. O meu amig·o
vae para n monopolio: taulbem isso é natural. n soeia)i::;tn
vê no i!Hlividno a Cl,nsa da societla•lc: o liberal VI; ua so-
ciedade a cunsa do imlividno. Fim para o snciali::;ta, ella.
não é para o liheral sf'nào Ulll IIH'io: do individuo
que a prpcedeu, que lhe estampou o sPn sello: porquP, fat;a
ella o 'Ine nuuea l''-'derá manifPstar a sua existPncia
e a sua acçào sen:io por aetns inrli\"i,]naes, unidos on sepa-
rados. O cnllectivo n essas numifesüu;f•es nào passa de uma.
concepç<to snhjecti \'a i não existe no lllllllllo real.
1
Jbid.J
1\Ias, se essa liberdade expressa na concorrencia.
economica-a franca emissfto de notas, no easo es-
pecial tomado para exemplo: mas se liber-
dade conduz a taes resultados, sendo em si excel-
lente, força é qne haja um vicio no mechanismo elas
instituições. E h a, ha sem dn viela, diz Herculano,
é o anonymato.
Na essencia, a lmnl.·nnte t'· a expressão rlo c·rerlito que o
individuo attrilme a si. Que se rennam 7,111 nu 71111 indiví-
duos para sonmutren1 essas avaliaç•'•es i que se ehamem
banco e que exprimam colleetivauwute o total, ir:so não
31! L. YI. - A REGENERAÇÃO - I
muda. a. cssencia rl:t cousa.. Hupprimia. todas as
lidalles lúnitados. A respnnsahilidarlc é de sua natureza
illimitada até onde chegam os recursos e a pessoa do res-
pousavel. haúct in pm:;..,r, dit·ttt in c011Jnrc, é nutxima
{JUe se não devia tlesprPsar n'e::;ta 'luestào do abuso do cre-
dito. Note fJUC eu desejaria snpprimidas todas as respousa-
bilitl:üles limitadas, ou expressas, manifestas ou dis-
farçadas. ribid.J -
Vimos antes como o espirita do historiador eru-
dito corrigia em certo ponto a doutrina individua-
lista; vemos aqui o jurista a corrigir u livre-cam-
bio; vamos ver o canonista a corrigir para a
direita o ultramuntanismo, para a esquerda o atheis-
mo. A educa<;ão do homem temperava os princípios
do philosopho, e essas correcções eram-lhe indis-
pensaveis para que os seus pensamentos se manti-
ves'5em de accôrdo cum os seus rectos instinctos,
com as suas bt-llas aspiraçõe8: eram-lhe indispen-
saveis, porq ne o estoicu não admitte divergencia en-
tre a intelligencia e a moral, entre o mundo das
idéas e o das realidades.
1\Ias, se ha pouco notámos a inconseqnencia, não
é VP.rdade que a opinião de abolir o anonymato é
paradoxal-fúra do socialismo que reconhece a ins-
tituição anonyma por excellencia, o Estado? Sem
anonymato, como levareis a cabo as obras colos
saes, a que nenhuma responsabilidade individual
basta? On condemnareis a realidade fatal em nome
dos princípios? Como Herculano claramente o via,
o anunymato, isto é, a fragmentação do Estado em
senhorios economicos, uma especie nova do feuda-
lismo, conseqnencia necessaria de todas as anarchias:
o anonymato é a refutação do individualismo na
economia social. Destruindo toda a propriedade coi-
lectiva, roubando ao Estado toda a força real, resta
apenas á lei um prestigio abstracto que é logo ven-
3.- O SOLITARIO DE \AL-DE-LOBOS 315
cido pelas influencias anarchicas ou feodttes do ca-
pitalismo individualista. Liberdade quer dizer res-
ponsabilidade; e, se urna é um principio absoluto, a
outra ha de tarnbem ser Esta é a regra; e
n'este ponto não era Herculano, era a fatalidade a
origem da inconsequencia. Por cima das theorias
galgam e vencem sempre os factos necessarios.
Assim no direito publico o processo das maio-
rias apezar de ignan1s; assim na economia o ano-
nymato, apesar de juridicamente infundado, pas-
sam por cima do individuo, da liberdalle, da res-
ponsabilidade. E, os que vêem com outros olhos os
phenomenos sociaes, encontram n'esses factos os pri-
meiros esboços do futuro Estado, que se recons-
truirá depois de terminada a evolução natural dos
princípios liberaes-individualistas. Das maiorias, or-
ganicamente representadas, sairá a revresentação
da vontade collectiva; das companhias, opportuna-
mente transformadas, sairá a unificação do poder
publico. 0 voto universal e o anonymato são o
esboço rudo da constituição do novo direito politico
e da nova constituição economica de sociedades em
que o liberalismo destruiu as instituições de protec-
ção e o direito monarchico.
Com fundado motivo dizia Herculano que pe-
rante os princípios-liberal e socialista, ou indivi-
dualista e collectivista- era indifferente a ques-
tão das fórmas do governo: «pouco me incommoda
que outrem se sente n'um throno, n'mna poltrona
ou n'uma tripeça». E essa questão da republica
ou monarchia, é para elle um problema não S(J his-
torico, mas tambem religioso.
;jll)
L. \ J.- A REGE::'\ER.\C:.\0 - I
na o mesmo o cah·inismo e o puritaubmo,
e o calvinil3Hl0 penPtrnn tão profundamente na Yida moral
dos suissos, como o puri tauismo nas antigas col.-111ias ing-le-
zas emancipadas. )las o cah·inismo e o puritanismo que
sào, senão a dPmocracia republicana na sociedade espiri-
A vida politica das dnas sociedades foi. 1ligamos as-
sim1 uma prnlac;ào da sua vida moral. (lnando as institui-
e as idéas politicas de um po,·o derivam das suas cren-
<:as e instituiçt',es religiosas. a manutenção Í('naz das pri-
mei_ras nada tem ue extraordinario. rlbi.i. c. de JS de noY. de
Pondo de parte, pois, a questão ela opportuni-
clacle no momento de uma crise, a republica não
parecia a Herculano adequada <lá Yelha Europa,
sobretudo a estas soL"iedades mt>io-germanicas na
indole e celto-romanas na
1
que estanceiam
ao occidente. . . educadas pelo q ne,
na pureza ela sua índole é o typo da monarchia
representatiYa ». ribid.J
A tradição religiosa, ou antes aquella psenclo
tradição de um catlwlicismo liberal im·entada pelo
romantismo, pois, ao philosopho para tem-
pt'rar o seu indiYidualismo, conciliando-o com um
resto dt' authoridade social consagrada nas prHo-
gativas do throno reprt>sentatiYo. De tal mildo se
combina,·a o racionalismo com o romantismo, P
este traço é o que d<í a l It·rcnlano, ou antes á sua
doutrina, um caracter dt:' indi,·idualiclade orig-inal,
depois do ensino apenas racionalista de )[ousinho
da Sih·eira.
Tmnlwm o temperamento entra,·a, ao lal!o da
educação, para acabar dt· afeiçoar a physionornia
religiosa de Herculano. O mech<mismo dn frio Deus
k<mtista não Lasta,·a <i sua indnle peninsular. A
pedia-lhe a :mtiga historia tradicional;
1
Y. Hist . .J,z civil. iber.: mtrod.- Hist. de Porlllf:<ll. L 1, 3.
3.- O SOl IT AlUO [lE YAL-m:-I.OBOS 317
() St'ntimento reclamava o fpter que é de affectuoso e
meigo-a doce cm·idade catlwlica -f' o bom senso
exigia o culto e pompa que impressionam as mas-
sas. O protestantismo, :thTo das suas acerbas S:lty-
ras, não satisfazia a sua alma, nem as suas exi-
geiicias de canonista. Nada propenso ao mysticismo,
e até rebelde a comprehendel-o fóra da cnridacle pra-
ctica, vin, porém, n-a religião principalmente a
Egreja-instituição e disciplina. Homa e a politica
ultramontana, n'isto se resumia para elle a histo-
ria do catholicismo a p:u·tit· de certo concilio em
que pela primeira vez se infringiram certos cano-
nes. Por este lado, o seu pensamento, ali;is tão
grave, aproxima-se mais do espírito superficial e
em demasia IH·g:tti,·o do seculo xvm, do que (lo
espírito placido e comprehensivo do seculo em que
vivemos. Fazendo da questão religiosa uma ques-
tão de datas e uutrca\·a a éra em que a Egn:ja
começara a mentir ao seu papel, e aos que lhe fa-
lavam em nome do Espirito, respondia com a His-
toria: a morte veiu achai-o occupado na
van de converter um rapaz mystico e catholicu. Ti-
nha odios ao papado, e <l paixão do sectario, quando
se erguia contra os desvarios dos seus contempo-
raneos, cegava-o até ao ponto de cle3eonhecer o
passado e de applicar as fórmulas da nossa éra a to-
das as edades. Assim, para elle, a solução da ques-
tão religiosa estava no regresso ao vuro espírito do
catholicismo 'representativo, religião que L'Oncebia
como canonista e não como philosopho. Punha Diil-
linger muito acima de Luthero; Hegel, Feuerbach
ou Strauss mereciam-lhe apenas um sorriso desde-
nhoso.
Esta maneira, evidentemente incompleta, de
comprehender a religião levava-o a considerai-a,
por um lado, como cousa puramente individual, e
3lt; L. H. -A REGENEH.A«,:AO- I
n ·este senticlo apoiava a celebre f,.Jrmula « Egreja
livre no Estado livre>>; em quanto por outro, olhan-
do-a como instituição positiva, a julgava simples
materia administr.<ttiva. o publicista liberal assns-
tado pela força da neacçào, cttio n·rdadeiro ca-
racter nã.o percelJia, erguia-se, pois, para
lar com leis o que sú a prégação moral póde en-
c:u_ninhar e dirigir, vencer: a irresistivel
tt>ndPncia do espírito collectivo para affirmar reli-
giosamente a sua unidade.
A Libertlade, supposto principio que para elle
resumia a. essencia de um espírito racional e abso-
lut:unente COf!SCientt>, era afinal o sen verdarleiro e
intimo deus. E essa a religião do estoico; e o deus
da 1 fm]Jft do ()rt>ufe é um ser eminentPmente li-
vre que por um acto de vontade absoluta creou
tudo o que existe: n dc·us flo estoico é a clivinisa-
ÇtltJ da personali«ladt"·. E, como todos sabem por
fptanto esta antign philosopltin entrou na formação
dn christianismo, é desnecessario mostrar, desen-
,·olvidamente como e até que ponto, Deus era para
l lt·rculano o deus eh ris tão.
Unas palavras agora ácerea do escriptor: duas
palavras apc·nas, porque não tratamos da historia
litteraria, mas temos de nos occupar de litteratura,
senlp!·e que ella influe, como n'este caso, na vida
ger:\1 ou total da sof'iedade.
Obras de tres naturezas diversas nos revelam
pelo (•stylo tres physionornias distinctas. A primei-
ra, oflieial e grave, os seus trab<tlhos historicos,
o111lt> o periodo redonclo e classico, mas sem affe-
ctação qninhentisb1, se desenvolve alimentado pe-
3.- O SOLITARIO IJE VAL-DE-LOBOS 3H•
los caldos de 17eira que nos receit:tva, a n/•s os
moços, para educar a mão. A segunda são os seus
romances e escriptos humorísticos, onde, mal ata-
viado o período jesuítico, ás veZl'S combinado com
fórmas e tou1's extrangeirados, transparf'ce sempre
o gout du ten·oi1·, o cunho de portugnezi•mo duro
e pesado, mais nggressivo do que t>ngraçado. Na.
terceira, finalmt>nte, em nossa opinião a mais Lella;
nos escriptos de polemista, a phrase rotunda é
quente, aggressão é viva, as palavras têem calor,
e a dureza do genio lusitano acl1a nos.sentimentos
expressos em orações duras, uma convicção, uma
indt->pendí·ncia que a ennobrecem. Ouve-se a voz do
estoico, e ha mpa harmonia perfeita L·Iltre o pt·n-
samt>nto profundo, grave e forte, e o estylo redondo,
sobrio e nobre. A rhetorica classica é o molde pro-
prio do classico pensamento estoico. )Ias entre estas
obras ha uma, Ulll3 unica, (Carta á cl/c.zdemia das scienciasf
onde o homem intimo, sensível, cari,loso e simples,
esse homem que nôs esboçámos fngitivamente, iJor-
qu(' a vida, a educação, o temperamento, de mãos
dadas concorriam para o ao homem
estoico: ha uma, dizemos, em que as palavras não
falam apenas, choram e vociferam, têem lagrimas
e imprecaçôes e ironias. Ferido no vil;o coração
da sua existencia, o homem poz no papel o mdlwr
do seu sangue. O que o genio do artista obtem
com intuição, consegue-o o poPÜL com t·moçâo. A
Cm·ta á Aca{lemi't é tão l)ella como as melhores
das poesias intimas de Hercnltmo.
Para elle que, como lusitano, nada tinl1a de ar-
tista (prova, os seus romances l, a litteratura era
uma missão e não um dilettantismo. O universo, a
historia, a sociedade não se lhe apresentavam
como assumpto de e.stndos subtís e curiosos, de
observações finas ou profundas, dr· quadros brilhan-
L YI.- A REGE:'\ERAÇÁO- I
tes, vi,·os un commo,·entes; mas sim como objecto
de ;dnrma<;Ões ou negações, inspintdas pela convi-
cção estoica. "Xos sens lin·os póde seguir-se ao mes-
mo tempo o desen,·olvimento rlo seu pensamento e
a da sua conscienci<t. São o retmto da alma
do ora apaixonada, c1ra lllt:'lancholica; quasi
sempre triste, sempre c01wicta, e
fr-anca.
As Poesias e o Eurico rt·,·elam-nos o L"rente na
pro,·i<lPnte libt>rdafh• dt> um Dens podt·roso e justo,
a alma rijamente temperada contra o acaso funesto,
o coraeào aberto t:'lllOC'ues da naturt:'Zêl que se
lhe nw;lifestam com o C<u:.teter Lle unw
cmel L' de um desaln·inll'nto <·egtl. Deus, a :Xatu-
reza, o Homem, são, n'essas obras, per::lonagt:"ns de
uma tragedia bihlica, tendo a ronca por
musicas e por fundos de scena bulcues de nuvens
neg-ra5 a ,·elar u azul do céu.
Yêem depois as ubras polemicas, n1sta e riquís-
sima collecçào (reunida nos Opuscu/os, 1-JY e segg. em via de publ.)
que patenteia a omnimoda acti,·idade do pensa-
lllt:'Uto de Herculano, e lhe dá o carader de um phi-
losopho, pensamento, em vez de se manifestar
em tratados, se exp1·ime em controversia5. Profis-
siunalmente, era historiador. A Histuria de Pol'fugal
e us tmLalhos que com ella formam o corpo dos
esturlos do erudito (a Hist. d,1 Ori[:em e Est. da
os opusculos sobre a batalha de Ourique; o IJo est,ldo das c1,1sses sen•as;
os diversos ensaios no Hnzorama; o ined. sobre o feodalismo em resp. a
Carde nas; as edições da Clzro11. de D. Sebasti.íu, de Bernardo da CruL,
dos .it? D. Jo.ío Eu, de Fr. Luis de Sousa. do Roteiro de l'asco
.1,1 Gama; a collecçáo dos Pvrtugalli.-r: 11Z01llll1lt?1zta historie a: etc. 1 > são
a obra mais importante do escriptor e o solido fun-
1
\'.Hist.dePorluf:al:app.Ill."
3.- O SOLIT'\RIO DE VAL-DE-LOBOS 321
daml:'nto do seu nome immorredvnro na historia lit-
tera.·ia portugueza. Reunindo a um saber geral
vasto e furte a paciencia do erudito e o escrupulo
do critico, esses trabalhos· não respiram a seccura
pPdante do especialismu; e, se não constituem nem
pudem constituir uma historia nacional, fiz ... r<un com
que us proLlPnHlS das origena sociaes e politicas da
naçfio purtugueza fossem por uma Yez resolvidos.
A historiographia peninsular tem em Herculano o
seu mais illustre nome: um nome que se conser-
vará ao lado du de ou de Gnizot; cu-
jos golpes de vista comprehensivos partilhava; e
do de Thierry, a quem acompanhava na faculdade
de representar vivas, nos seus habitos, costumes
e leis (senão em sua alma, como um :1\Iichelet) as
passadas gerações; avantajando-se a ambos na co-
ragem com que arcou com o trabalho improbo de
colligir, coordenar, traduzir, interpretar os monu-
mentos historicos de um povo que não tivera be-
nedictinos eruditos. Robinson de nova e'3pecie,
Herculano achou-se comcJ n'um paiz deserto e
teve de descobrir us materiaes antes que podesse
pôr mãos á ohra.
Prodígio de trabalho, de saber, de paciencia, de
talento, a Flistoria de Portugal é um monumento ;
entretanto, devemos dizei-o, se quizermos ser in-
teiramente justos, mais de uma cousa lhe falta,
para pocler ser considerada um typo, e o seu au-
thor um grande historiador, como um Ranke. Fal-
ta-lhe ar na contextura sobrecarregada de discus-
sões eruditas; falta-lhe, sobretudo, aquella alta e
serena impa.·cialidade, aquellas vistas rigorosa-
mente objectivas, aquella isenção critica, impassí-
vel perante as eschulas, os systemas, os partidos,
a qual a historia deixa de o ser. Herculano
peccava, com toda a eschola romantica, Guizot á
PORT. CONT. -TOM. II 21
322 L. \"1. - A REGE:\ERAÇÁO - I
frente, porque a opinião e a politica de mãos dadas
o leYaYam a fazer da historia da Edade-media uma
apologia do systema representatiYo. Como Gnizot,
tambern estoico, Herculano era demasiado convicto
e apaixonado para poder prescindir de si, das suas
crenças, das suas opiniões. LeYa,·a, pois, p:tra o
estudo do passado as preoccupações do presente,
porque essas preoccnpações eram a essencia da
sua Yida moral. O romantico de iJO, o liberal ar-
dente, o soldado da CARTA, enfatuado com as suas
theorias coustitucinnaes e tinha de
condemnar in lim.ine a centralisacào monarchica
dos seculos xn e xvn, indiscutiYel-
mente necessaria, conseq uencia euro pê a da Edade-
media e preparação dos tempos mouernos.
Além cl"isto, ha uma falta de nexo na Histvria
de Purtug,tl, resultado do modo como primeiro foi
concebida. «Eu comecei por imaginar apenas uma
historia do povo e das suas instituiçues, alguma
cousa no genero da IfistoiJ·e du tias étot, de Thier-
ry, mas mais dest>nYolvida- dizia-nos Herculano
-tJorém tendo colligido rnateriaes para a primeira
epocha, vi que n'elles tudo o (pte era ne-
cessario para a historia politica: d'ahi veiu a reso-
lução de esclY\'er uma llistoria de Purtugal>>. E'
por isso que as duas faees elo liYro se não ligam;
é por isso que os homens e os seus actos nos ap-
parecem corno um appendice, subalterno, indiffe-
rente, dando a impressão de que se tivessem sido
outros e diversos, nem por isso a Yida anonyma
da sociedade poderia ter seguido rumo dift'erente.
E, se não vemos a acção elos elementos Yoluntario-
individnaes ou fortuitos sobre os elementos so-
eiaes, nem a itwersa, perdendo assim a historia o
seu caracter eminente de realidade, juxtapondo
artificialmente, a uma chronica Yeridica desinçada
3.- O SOLIT ARIO DE YAL-DE-LOBOS
dos erros e das invenções fradescas, uma disser-
tação erudita sobre o de::;envolvimento da:-; institui-
ções: succede tambem que a apreciação dus ele-
melltos moraes, crE'nças individuaes, pht-'nomenos
de psychulogia collt-'etiva, é feita á luz de doutri-
nas quasi voltairianas; e, no avaliar das ll::'ndas re-
ligiosas e da acç:lo do clE'ro, o historiaflor pres-
cinde ele profundar 08 motivos moraes, ou cede a
palavra ao sectarin que ll\)S bispos e em Homa não
vê outra cousa mais do que da astucia
e uma Bal1ylonia de perversão.
Tal foi a Historia de Porfu!Jol que o romantismo
concebeu; e demonimo-nos tanto sobre E'lla porquH
vimos ahi um symptorna caracteri::;tico para apre-
ciar o valor d'essa f•)nua de Liberdade que teve
em Herculano o seu derradeiro e mais illustre
tario. Para o romantismo, a renovação social era
uma volta a tradiçíJes scindidas péla rnonarchia
absoluta: já o dissemos, e não é portanto necE'ssa-
rio i:epetil-o. E essas tradi<;ÕE's que deviam SE'r-
oh, singular confusão da intelligencia !-o alicerce
de uma liberdade racionalista, inspiravam a Gar-
rett o F1·ei Luis de Sousa, E'legia mystica, a Ht_.r-
culano um fragmento de !listaria para uso dos
sahios, apenas popular por ter sido mais um ata-
que ao catholicismo tradicional portuguez.
O clero pagou com guerra o odio que o •ria-
dor lhe dispensava nns seus livros aggressi,·os.
Conjuraram-se os padres, e Portugal as:-;istin a mais
um do e:-;pirito antigo, inconvertível, im-
penitente. Em vt>z de congregar o povo na com-
munhão de um pensanwnto nacional, a Ilistorirt
32-! L. n. -A REGEI"ERAÇÁO- I
saía como uma arma .le com bate. As trarlições vi-
vas, possiVeis, E'ram tu1las como o
leitor já snb••. As guerrillms do 1\linho em -±li to-
ram trucidattls em Braga, mas o enraizado espí-
rito catl1olico nilo se podia vencer nem com armas,
nem C<.•m livros: sú com 08 camillhos-de-
ferro, com as pontes e ·estradas, com a Regenera-
ç-ão utilitaria, materialista e practica.
Herculano, vewlo-se isolado, vendo no pnl pito o
padre excommungandc•-o, no governo «o Lom ho-
mem qne, nas horas vagas de certas funcções ele-
vadas, espairecia os teclios da viela revolvendo com
o 1Jico da bota a velha cori'la de D. João 1 n'uma
celha de lodo que viera do Tibre>); Herculano, cla-
mamlo sem sE' r ouvidu, a Bandeira: L-\cor-
cla, moderno Bayard, que te matam! » (A 1·eacfáo ui-
tramontana, •851) abdicou e lwrnisiou-se, levando para
a sua thehaida a crença lla ruina fatal. Os antigos
não se convertiam, os novos entregavam-se ele C•Jrpn
e alma á Rt>generaçàu: elle, st'•; clwra,·a as desgra-
ças ela patria qne saía (la para entrar na
tavolagem, trocando a egreja pela e os hen-
tinhos e os rosarios pelos arrebiques dos perah·ilhos
e 1wlas de financeiros: o Brt"YÍario pelos
l\Ielhoramentos.- E o evangelho? oh, gente per-
dida! E a justit;a? e a moral? e a liberdade? e a
poesia? A tnrLa nàn podia mais ou vil-o: com a li-
berdade fiira-se a religião; com o romantismo sal-
vador, a perdida mu;ão jesuita! Yelhos e novos, de
mãos dadas, wloraYam o deus novo- Regenera-
ção! sacen!ote era Rodrigo, o diacono,
e Saldanha o idulu bem fardado.
Herculano abdicou, ptJis. Durante o perioclo que
medeiou entre a sua abdicação e a sua morte, o
espírito europeu, alJanclonando a vereda romantica
de um que desde l3D assolava o mundo
3.- O SOLIT.\R!O úE Y -\L-DE-LOBOS
com • as latinas pelo
utilitarismo imperialista que a::; enricpteeeu outra
Yez : o espírito europeu, dizemos, retemperou-se
na tradi(,;àO naturalista, constituindo um corpo in-
teiro de conhecimentos novos, transformando o::; me-
tlwdos das sciencias, esbo-;ando philosophias origi-
naes. O antigo estnico, .o kantista de 30, com as
sua::; idéas exclusi,·as, com o seu racionalismo frio,
com o seu methodo subjectivo, com a sua com-
prebensão formal elas c·onsas, com o seu deus me-
chanico, e a sua liberdatle <logmatica: humem cumo
que abstracto, ve1Hlo os lwmens f•'11·a do mundo e
da evolução, como um milagre di,·ino: esse ho-
mem, solitario em Val-de-Lobos, adoraclo por quan-
tos o conheciam, estudado como um momunen to da
historia por muitos dos que o tractasam, não podia
mai::l dirigir a educação da gente nova.
Nem o conhecimento intimo da Iwturêza vi,·a
obtido pela sciencia, nem o sentimento idt>al elo
Universo, profuu,ladu pebs philosophias .alh·Hwns
(concepções até agora oppos ias, mas que o tempo
approxima todos_ os dias e virá a combinar afinal);
nenlnnna das feeumlas do espírito lm-
mnno nos ultimas quarenta annos, po(leram dêstruir
no pensanH·nto d,:.. o ::-y::;tema granítico
das snns ifléas. O maravilhoso corpo !lê seiencias
philulogicas que a Allemauha constrnira e que são
como que a embryogenia das s•Jciêdatles e suas
icléas politicas, j urid.icas é reli;;io:::as, revelando uma
Liologia social tão positiva e verda<leira comn a
zoolugica, mostranclo-nos a sociedade comu rt:oal-
mente é-um organismo vivo: ésse mundo novo
do saLer que destruia o individualismo e ctpeiava
do seu thruno a Libercla<h·, não sú era desconhe-
cido para o solitario e::;toico, mas t:orn objecto das
suas ironias mélancolicas-ccos das symbo-
L. \"1. -A REGENERAÇÃO- I
lieas, das e.sthetica::;, elas syntheticas, rlas «logma-
twas, chs heroicas, das harnwnicas, etL·. » (CmT. com
o a. mrta de I86 gJ em q ne cdhe faria pena vê r penliclo))
escriptor muço.
E quando, elle que observara impenitente o velho
Portug<tl, aLandunados ao loLlo utilitario os seus
eoevos, via tambem a mocidade nwdiocremente res-
peitosa por essa religião dt) lmlividuo r1ue era a sua;
qttaiHlo via as tenflt·neias centralistas e
-confessas ou incon::;ciente::l-dominarem nos go-
vernos e opposi<_;ões, partidos conservadores e
nos revuluciunarios, dle clwra\·a, ontro l::!aía::;, so-
Lre as ruinas «lu templo aLatidu, sem reconhect>r
que as pedras d'esse edifício dt>ITnLado já começ·a-
V<tm a formar um novo monumento.
l\Ieu amigo; prova\·elmente não tardarú muito tfHe eu
vá dar um passeio ao ontro mnncln sem tenção de voltar.
Pa:;sado um secnlo, é muito possivel que o liberalismo te-
nha desapparecitln. _\s gcntçt)es precisam ús vezes retem-
perar-se nas ]netas lla anarchia on nas dores da servidão:
conecntram-se para a explosão calcadas sub n pé ferreo da.
fon:a hrntal. Deixe-me levar, para me entreter a rmuinal-a
pelo a convit·t;ào <lc qne, entalada entre tlnas be-
tas ncgras,-a cm notne du céu e a tyrauuia. em
nome i:lo algari:;mu
1
-SUl"g·ir:Í, l'Olllü Ulll foCO de lnz, nas
pag-itws ela historia, a ('poeha. em •1ne se prnelatHaYa.m os
1lireitos individnaes al,snlutns e imprescriptiyeis, t'mbnra
as paixões humanas nPm sempre os respeitatõ:>em. (lbid. carta
de de Til
1\lt->zes depois morria; mas esse fóco de luz não
se extinguia, porque entre os varios symptoma::; da
vida organiea de uma sociedade o e
a admiração pelos seus grandes honwns. Esse f,)co
de luz não se extinguia tamLem-ainda hoje o elos
estoicos da Antiguidwle nos allnmia !-ptH·qne os
direitos indivicluaes sfio funcções impres<·riptiveis elo
organismo social, emLura não sejam a expressão
3.-- O SOLITARIO DE VAL-DE-LOBOS 327
summaria ela sociedade; porque as duas betas ne-
grns, se têem essa côr quando o desvairamento dos
homens ou a fatalirlade das cousas dão lugar á ty-
rannia, têem realmente côr diversa, uma côr viva e
pura! São a propria existencia do organismo coi-
lectivo, destruido sempre que deixar porém de ter
uma unidade moral e economica, uma authoridade
positiva, eminente, real, e poderosa. Assim é nos
centros nervosos do animal que, recelNnllo as im-
pressões externas as unificam, as synthetisam, e
d'ahi imprimem a acção, a vontade e o pensamento
ao homem, que é tambem, flizem-no os naturalis-
tas, uma sociedade de imlividuos physiologicos.
No declinar da vida, teria fraqnejado a convic-
ção do estoico? Bati, lo por tantas e tão vm·iadas ten-
dencias: umas que odiava sectariamente, outras
que justamente condemnava, outras finalmente que
a sua alma nobre e bondosa instinctinnnente res-
peitava; contrariado pelo passado catholico, pelo
presente 'regt:neJ·ador, e por um futuro que reco-
nhecia conquistado para o socialismo-não hesita-
ria? Quem sttbe? Não houve algnem que em pa-
lavras espontaneas, irreflectidas, lhe descortinasse,
ou um. symptoma de duvida intima, ou um vislum-
bre de conversão? Talvez houvesse. Como porém
morreu sem se confessar, a pedra do tumulo guarda
esse segredo. Antes de expirar disse apenas: «Isto
dá vontade de morrer!» Traduza cada qual o
enygma ao sabor da sua opinião.
II
A LIQUID.r'\ÇÃO DO P
1.-A RAPOSA E SUAS Má:'\HAS
Enxutas as lagrimas devidas á memoria do ul-
timo dos liberaes, passemos a tratar dos vivos,
?·egeneraàos. Como um Saturno devorador dos ti-
lhos, assim a Liberdade tragara os melhores dos
seus: :l\Ionsiuho, Passos, Cabral, Herculano- tudo
victimas! Dos antigos, para herdar os restos, ficam
apenas dois bastardos: Saldanha e Rodrigo o sce-
ptico, nem liberal nem cousa alguma, sem duntri-
nas, sem illusões, com o instincto negativo apu-
rado pelos annos, e a dura licção de prt=>sente.
Figura perficla, sulcada pelas rugas da e
pelos antigos despeitos reprimidos, é a imagem Llo
Portugal velho catholico e liberal, da na<;ão que
tudo abandona, de tudo dd;crê com um riso de iro-
nia amarga. A face é a do beirão, quadrada, cheia
e forte ; mas os labios finos não exprimem colera
senão desdem, e nos olhos Yivos ha hu·gas revela-
ções de intrigas miseraveis, de podridões sabidas,
ha dardos que atravessam o recalcitrc:mte dizendo-
lhe: vi-te em t:tl dia, conheci-te em tal hora: se te
sei podre, porque vens falar-me em honra? Sem o
dizer com a bocca, insinuava-o com o olhar; e ele-
pois de submetter o hypocrita que lhe falava, aper-
1. - A RAI'OZA E SUAS !\1.\1\H.\S
tava-lhe as mãos com sorri::;o::; e palavras
meigas, confessando a sua amiswle.
De tal modo irnperasa sulJrt' todos; e como, sem
preconceitos doutrinarius, dizia sempre que sim,
cortando uma diffic.:il com um dito. t:ptando
não era possível um emprego, todus o
rei novo, acclama<lo pela mesqui11hez unin·r:-:al.
Elle era a unica das velhas an·ures altas que o
tufão liberal deixúra de pé; e, n-mlo
as calJeças. rasteiras <pw o ,·ento nãl) dobrara: por-
que a insigniticancia é· resistente, tinha com a
ironia desdenlwsa o contrario das coler'as: uma
compaixão protectora sua côrte reiE:>s. Costa
Cabral fllra a imagem da Antipatltia; Rodrigo era
a mascara do Desprezo. Já eduso quan1lo a victo-
I·ia o coroava, como acompanhan1 a Lihenlarle
desde 2ü assistindo-lhe á nascença e á vida, co-
nhecia-a bem por dentro, sabia como era feita .. Aus-
cultara muito a Urna. Tomara o pubo ú Opiniào.
E, médico perspicaz, vendo que a moles tia era or-
ganica, só receitava pro formfl, para satisfação da
Íêlmilia, certo de que todos o::-; medicamentos eram
vãos. No decurso da Yida de antigo Loticario po-
litico, experimE:>llÍ:tra já o efft>ito de todas as ti:::a-
nas e simples: tamlwm ti,·era nos Brandi'Jes os
seus bandillos, tambem .fizera cumn os
mais. 1\Ias levara um cw]illw du o
atrevido! -lévara um eudilho, elle o homem de
outra geração. A Liberdade peflia SE:'lll duvirla tra-
tamento di,·ersu. Diz-se que prt->feriu comprar os
deputados como as casas: dPpois de feitos.
A sua tornava-o popular, .:-t::; suas ma-
nhas celebre. O povo chamant lhe rapoza. Haros
o odiavam- só alg-um cuturra como Herculano :
elle, tambem, Pncolhia os lwmbros, sorria. Là piJr
dentro é natural que respE:>ita::;se; e quem sabe se
330 L YI.- A REGEi'\ERAÇÁO- II
o mtmdu em ~ ) 1 fosse outro, se elle tambem não
seria diverso? ();;; homens, o tempo, a doutrina, ele
mãos dadas, porém, concntTiam para tornar op-
portuna a effiort>sceneia elo scepticismo, o reinado
da ironia, a victoria de um cesarismo que em uma
nação de empregados sô podia ser lmrocratico. Ro-
drigo era um l\Iorny tle secretaria, e no imperio
portuguez, Saldanha, o Haint-Arnaud, tinha um pa-
pél secundario, ele pararia apenas.
Yalia muito pouco; estaYa já velho e em dema-
sia clesacTetlitwlo, o marechal, para puder alguma
cousa: vivia <Í sombra da anthoriclacle consoliLlada
elo politico. E Itodrigo tinha de pessoalmente repre-
sentar scenas de comedia p:tra lhe acwlir, porque
esse rultu era inclispensavel aos seus planos : elle
bem sabia qne a nebulosa Liberdade era uma il-
lusão fugaz, que o culto da chi mera exigia som-
bras por sacerdotes, e que o mais conveniente e
practico para marear o barco portugnez era fazer
do governo uma peça de theatro. O povo ouviria
os actores gravemente mascarados dizer os seus
papeis, olharia o scenario: bastava. A sinceridade
estava comlemnada por vinte ou trinta annos de
tentativas varias e diversas, qual d'ellas mais in-
feliz. lto1lrigu era o melh11r actor do seu tempo.
A eclade, o trnjo antigo, o aspecto clesembargatorio
não o deixavam confundir com os peralvilhos mo-
ços. O povo cnm•• q ne via n' essa face barbeada,
com os collarinhos desafiando as orelhas, um col-
lete grande e antigo, a sourecasaca de amplas abas
pendentes, as calças lle ganga amarella classica,
nma imagem lle outros tempos, chorados sempre,
apezar de tnclo! Os infortnnios dão por via de
regra aos povos, e principalmente ao portuguez
apathico, miragens doiradas do passado, dos bons
dias fugidos! Violento, o portuguez não tem o tem-
1. - A RAPOZA E SUAS MANHAS
peramento revolucionario, nem conservador: tem
o genio d'onde sahiu o sebastianismo.
O a:.;pecto antigo elo ministro era mais um mo-
tivo de exito para o actor perante o seu puLlico.
As galerias ouviam-no; e a sua a sua
mansidão, seduziam. Nós seus bancos, os pat·es, o8
deputados como comparsas nos bastiLlores, suLli-
nhavam as phrases d,> exímio actot·, cuufessawl" o
talento, applaudiudo a arte irresi:;tivel. Assim os
oclios se fundiam em risos, assim o riso como uma
esponja lavava as nodoas, assim esquecidos os cri-
mes tão benignamente perdoados, os réus passa-
vam a sentit·-se outros, pnros, e uma vida nova
saía dos labios ironicos, nunca abt•rtos para o sar-
casmo nem para a
Por isso, quando o contle de Thom:u·, o velho
rival venceLlor, a,gora vencillo para
sempre, tornou á camara Ct>lllO um do:-; sete tlur-
mentes acordado, e quiz ainda entrar nu combate
com as suas antigas armas já embotacbs, repbltldo
o marechal, expondo o swlario das suas :
Rodrigo com a bonhomia mansa e a gntvitlade af-
fectada proprias do palco, levantou-se para dt>fen-
der o homem, presidente que fanlava a situação,
mas sem o exaltar, para o n3.o perder.- «Para
se enriquecer, Saldanha!» dizia com lagrimas sen-
timentaes na voz ; Saltlanha tão boa-pessoa!- <<E
entre todos os incentivos que imperam nu coração
do homem, sú o digno par achou esse da mais
indigna vileza, para o attribuir ao seu acl Vét':·.;a-
rio ?>> Pausa: com ar eoncentrarlamente
soltava logo o dardo: «E quem d'este modo ar-
gúe, como poderá ser j ui gado?» (Disc. de 14 de fev. •85-.J.)
O fen·o tinha dois gumes : um feria em cheio o
indiciado de roubos; o outro abria no coração de
todos a porta da contrição, demonstrando a ur-
332 I • \"1. - A - II
gencia· dt> pôr ponto a um systerna de recrimina-
ções crneis que us desaei:editaYam a todos pt-rante
as platéas. As roupas sttias laYam-se em família:
não é pruprio fazei-o á Yista do publico. Decúro,
senhores! Tape-se a· bocca a esse Yillào importuno
que desconhece as regras da boa socit>dade P nus
compromette. Cada qual sabe ele si e Deus de to-
elos: para que o ha de tamlJem saber o poYo? Es-
peraes que depois d "isso nos respeitará mais e SP.
deixará goYernar melhor?
Taes eram a:::; conYersas dos 1Jastidores que se
exprimiam na scena em estylo mais solemne. O
ministro affiigira-se muito, ao ouYir o ·digno par
(com uma cortezia) dizer que o duque de
haYia descido ao campo da rt>Yolta porque tinha
fume e queria Pnriquecer-se.- Que temeridade,
meu Deus! Pois seria criYel tã.o grande infamia?
Para énriqtwcer-se o duque de -Pausa:
que an mt:-'smo tPmpo desacreditant o 1n·oprio du-
que, e o defenLlia. E depois, n'nm tom importante
e graYe de homem d'Estaclo: «Esta phrase proferida
pt-lu di;.;·no par affigura-se-me de grande improprie-
dade, filha de nntan·l hallucinação, e que pôde ter
consequencias pessimas», perfidamente sublinhadas.
(Disc. de q e 16 de fev. de I'>itl
Chegara a RuLlrigo a hora de desforrar o antigo
beijo de 40 na face do seu émulo d'então. Os tem-
pos, afinal, tinham trabalhado, preparando pouco a
pouco ao Yencedor, por uma dissolução éYolutiva
das ft;nnnlas de Liberdade, o throno
de sobre que reinant. A. sinceridade bata-
lhara Cllln armas, dt=opois com improperios, sem con-
st:>guir Yencer, conseguindo apenas mata.r na vida,
na fé, no juiztl, ou no C<lracter, os varius cOinLa-
tentes. arena estaYa cheia de mortos, e os espe-
ctadores saciados de espectaculo. Dep,Jis de tt·age-
1. -A RAPOZA E SUAS MANHAS - 333
dias de sangue, houYera melodramas de phrases:
agora vinha o entremez final. Dt:'poii; do terramoto
de 3-! que l1avia de restaurm· a nação, as gut"rras
e os debates, a E:-;pada e a Urna de mãos dadas
tinham consumaclo a ruína. T•,dos choravam frio
e fome. A penuria é má consdl1eira. Uma nação
exangue pórle ter colt"ras épÍh'pticas-tiveramol-as
em 2::;-mas não é c:tpaz de força. Por i::;so a Li-
berdade acalJa entre nós n'uma Rt'generação, em
vez fle acabar, á franceza, n'nm Imp.;:-rio. l\Ias, cá
e lá; o que vence é um militar ou buro-
cratico, segunrlo as condições dos paizes; um cesa-
rismo que além nega, e aqui apenas sophisma as
instituições; um cesarismo qnP além opprime e cor-
rompe, e aqui intriga corrompendo tamhem; um
cesarismo r1ue em ambas as nações vence, porque
a ambas dá, em vez de fórmulas, pão.
Rodrigo era um já se disse; Sal• lanha um
Saint-Arn:md, peninsulat· e cathulico; o moço Fon-
tes, inicia•lo como Ronher, viri:t a ser o futuro vi-
ce-monareha. l\Ias Napoleão, rei, imperador, cesar,
·quem era? D. l\l;tria II? Não; a nobre, infeliz se-
nhora cl.egava opportunamente ao fim (iS de nO\-. de 53)
-da sua viela atribulada. A sua coragem viril, o
seu levantado caracter, as suas virtudes, a sua intel-
ligencia forte e recta faziam d'ella o contrario dos
·Cesares, por necessidade scepticos. A r.tinha. era a
sinceridade ,-iva. Tambem concebera de certo modo
o liberalismo; e, como tinha no temperamento a vi-
rilidafle, no coração a virtude, na imaginação as
licções aprendidas n'nm berço coroado, empenhou-se
na lucta, lançou mais rle uma vez a cod)a na ba-
lança-lançaria a esparla se pudesse usai-a!-
para fazer vingar o sen liberalismo. E se n:to ti-
vesse sido tão pessoalmente virtuosa, é de crêr que,
.apesar do auxilio repetido dos extrangeiros que de-
33± L. YI. - A REGEi\ERAÇÁO- II
pois de a sentarem nn throno mais de uma yez a
sustentaram n'elle, é rlP crêr, dizemos, que tiYesse
tido uma sorte diYt-rsa.
D. :Jlaria n, pois, não tinha o temperamento ce-
sarPo. TalYez que tambem a edafle e as licções do
tempo a YÍessem a conYerter á apathia, mas essa
proYa f,Ji desnecessaria porque morreu a prnposito,
deixando o throno no nosso Xapoleão m-D. Fer-
nando: humano, eiveur, sceptico, artista, cheio de
intelligencia e de luunour, Yasio de fórmulas, vasio
de crenças, modf'r1w, e Lom. Como um Cesar, des-
ceu de) paço e atfect:mdo um aristocratico plebeís-
mo, passeaYa a pé fnmando o seu charuto ...
Xão era uma positiYa regeneração, oh manes
de D. João n chocalhado no seu coche doirado,
com a E-scolta eh• caYallarias chouteando "? Eis a
eerdruleir't libenlade! eis o reinado da paz e da
fartura!
2.-.-\ CO:.XYERSÁO DA DIYIDA
Este é o euphemismo liberal com que se deno-
mina a ultima bane a-rota portugueza- urgente,
jú desde mmos reconhecida por rnnitos
como a unica solnçilo, não s,j para sair do circulo
Yicioso das agitações, como para entrar no caminho
da pontualidade financeira indispensaYel á regent>ra-
<;ilo economica do paiz, exclusiYo proposito actual
da politica cesareo-Lurocratica portugueza. nós
em :J6 já tínhamos tido o nosso 4_:-:, tambem tiYe-
mos com Yinte annos de antecedencia um oppor-
tuno tYoltará elle, d'aqui por tempo!:!?
E' natural; parece ineYitaYel.
1
)
1
Yolton em • e cnnhe ao A. a triste sorte de pro-
cecler ú exeen!;àn. (3.a ed.)
2. - A CON\"ERSÁO Do\ IJIHIJA 33;)
O acto addicional á CARTA proclamado dietato-
rialmente. evitando as constituintes, t>ra atinai a
banca-rota de vinte annos de n·volucões: um mí-
nimo de politicas para pacifi-
car os partidos que j<i não pediam senão paz. A
conversão fiJi o acto addicional da Divida, qne era
o duro comlllerltario do cndigo de As duas me-
didas7 iniciando uma edafle nova, completavam-se:
eram a liquidação do passado tinancE'iro e politico
e o prologo da edade presente.
Entre as varias causas das desordens successi-
vas dos tempos anteriores, a mendicidade do The-
souro de uma nação mendiga foi, comu témos dito,
a principal. Casa onde não ha pão ... E das revol-
tas e crises resulta,·a uma ngg-ra,·ação sempre cres-
cente da ruína publica. A divida, com a sua histo-
ria accidentada, retrat<lVa esta situação. Corno o
lt:·itor sabe, a CARTA comprara- se com urna guerra
paga a emprestimus em Londres. Ganha a victo-
ria sobre um paiz inimigo e confiscados os bens
das instituições abolidas, nem se lht-s pudera appli-
car o valor para amortisações, por S('r necessario
para retribuir os serviços e crear partido; nem se
pudera pedir á nação exhausta o necessarin para os
gastos ordinarios, porque era con\·t-niente crêr
que a CARTA supprimia o imposto. Talvez assim o
camponE:'z se con,·ertesse.
Quando o sdembrismo venceu, a !'Ítuação appare-
ceu outra. Condemnado o principio de vi,·er ele em-
prestimos, os democratas acharam no proteccionis-
mo fabril uma arma duplamentE' util: os dirE:'itos pan-
taes, fomentando a CI·eaçào de fabricas, creavam ba-
talhões de operarios democratas, e davam ao The-
souro uma receita impurt<mte. Mas, por engenhosa
que fosse a combinação, nem o setembrismo tinlu1
um PomlJal nem sobre tudo teve em Passos um fa-
L. \"1.- A REGENERAÇÃO- II
Continuou -se a perlir e á ma-
neinl qtw as cousas inclinavam p:1ra a Ordem, iam
tamhem in('linawlo para o Ponto. De 37 a 40 ha-
Yia SPtt> seme-;tres de juros por pagar.
f\nn os ct·érlores nacionaes Lem iamos, porque,
sal1e111lo-se que o reino não tinha que emprestar
ao Thesout·o, o clescrerlito nãt) prejmlicava a eco-
nnmia da divirta. F:ram mais pensinni:;;tas E'lll atra-
zo. l'lllll os crédores lnntlrinos n caso
purrl'w, lh"'p••Í:.-; tle quatro ou cinco annos de tenta-
ti t'l"il que .fosé rla Silva
(
1
an·allw tinha razi'iu, e qne s1j elo 1linheiro extran-
g···iro se )Hilli:t esperar a regent•raç:t,> economica
d" rPilll). ( )ra como nos t'lllprestaria dinlteiro quem
reclamava o jnro e não o conseguia? A divitla ex-
tern:t era, )'IIÍ:;, dnas gnwe como problema:
já por Í:-;to,, já 1wla sua importancia ab.:;oluta. !V. Bu-
lhóes, /Jil'id,Jpurt.J Em clwgava a mil contos, ou
1lnze stPrlinu:-;, sewlo quatro e meio
de ;) e u rt"'Stt) de por Ct->tlto. E no fim de -!O, ag-
com os cOUJiOilS por pagar, attingia a som-
ma de ! 1:?
Xilo }JPrguntPmns agora que Yalor real de di-
nlwim etf ... cti,·muente impnrta1lo representam estes
Um tereu? mnitu menos. Lembremo-nos
dt· que o::; empt·esti;llOS nltt->riores tiveram em grande
partP P''r fim pagar os encargos dos anteriores; e
talvt'z nà11 erremos snppondo qne de 12 milhões
R«'' quawlo muito, se teriam visto em Portugal.
E isto, convém dizel-o, para salariar tropas,
sah·o o que SP.rvin á · amcwtisação do papel-moeua.
nu3 dt->mnremos porém ag-ora em calculos. O
facto era (lever-se. o dinheiro mal compraqo
e peior applicado? E evith·nte que o crédor nada
tinha qnt> ,·êr com isso. A nossa ingenuiuade não
nos con:;entia especular com a propria ruina, e
2.- A CONVERSÃO DA DIVIDA 337
-quanrlo o pensassemos fazer, erraríamos; não só
porque a Inglaterra crédora mandava no governo
ordeiro, como porque sempre tinha de curvar a
·cabeça quem não meditava senão em obter novos
-emprestimos. ·
Dt> tal situacão nasceu o decreto de 2 de novem-
bro de 40, pri;ueira tentativa da regeneração. Era
ao tempo em que Costa-Cabral já decerto planeava
a sua restauração da CARTA; e com ella e com a
escala ascendE-nte, com a ordem na politica e na fi-
nança, esperava iniciar o utilitarismo, fazendo do
velho Portugal sebastianista nma Belgica. O leitor
sabe já porque e como este plano falhou com o dou-
trinarismo. Por detraz da Liberdade, ettios syste-
mas eram como as nuvens rotas que muitas vezes
fluctuam ao nascer do dia, levantava-se o sol ven-
·cedor, o sol utilitario que as dissiparia todas. O
leitor sabe como foi a crise, mas não lhe dissemos
.ainda os termos da combinação em que vivia, so-
·cegada, a divida externa.
O decreto citado consolidava os coupons em atrazo
-e convertia ao typo de 5 p. 100 toda a parte da di-
vida de 3, dando aos crédores como indemnisação,
premio·, ou o que quer que fosse, a quinta parte
mais do que se lhes devia. Assim
100 ;t de 5 p. 100 eram representadas pelos novos titulos em 120
100 n 3, convertidas em 6o de 5, eram etc. 11 72
D'esta combinação resulta que, havendo
~ milhões de 5 passava a haver 6 l .
1
6 3 5
! titu os novos
R R R >4 ~
.o nominal da divida ficava proximamente o mes-
PORT. CONT. -TOM. II
22
338 L. \"1. - A REGEI"ERAÇÁO - II
mo, mas o juro subia proximamente de 4, em mé-
dia, a 5. Era pois o premio de um por cento ou
5-10 contos ao anno? Era; ou antes seria, se a com-
binação podesse ir até ao fim; porque os juros dif-
feriam-se, por meio de uma escala ascendente:
De 1841 a 4 pagar-se-hiam 2,5 p. 100
45 a 8 3
40 a 52 4
53 a 6o 5
Depois de 6o 6 até amortisaçáo
do que nos anteriores periodos se pagara menos do que 5.
Durante o praso de Yinte annos a ordem politica
e financeira permittiria fazer estradas e Yias-ferreas,
a agricultura progrediria, etc. Sabemos de que fór-
ma o cabralismo pensou realisar este plano, com a
ordem doutrinaria e com a babel das companhias
de agiotas.
Em 41 (9 de no\embro) o moço financeiro Avi-
la, ainda não duque mas já importante, entregou
a arlministração da diYida externa á Junta do
Credito Publico, impondo ao mesmo tempo aos
crédores da interna a deducção do decimo dos ju-
ros. Ti\Tessem paciencia esses pensionistas do Es-
tado: tambem os funccionarios a tinham!
Com os crédores londrinos é que se não podia
bulir: era indispensaYel consolidar o systema da
t>scala ascendente a \êr se se conformaYam com elle
•e nus contaYam no seti stock-exchange. Só depois
rl 'isso se conseguiria algum no\ o emprestimo ! Cos-
ta-Cabral concebendo uma ordem di,ersa da ordei-
•·a, uma ordem cartista, concebeu outra chimera:
a de obter recursos internos, para com a riqueza
2. - A CONVERSÃO DA DIVIDA 339
da nação-exhausta !-supprir o que o extrangeiro
nos não dava. De um tal plano era orgão ·o legado
cabralista no Thesouro, o conde do Tojal.
~ I a s os embaraços cresciam, o dinheiro faltava.
Os titulos externos estavam recebendo a i3 p. I 00
em 4ã, quando para vêr se se obtinha uma paz, o
governo resolveu (lei de 19 de abril) reconverte l-os para
4 compromettendo-se a uma amortisação annual de
f. 26:000. Ainda se não reconhecera esta verdade
elementar: que pedir emprestado para amortisar
é uma illusão ruinosa. Erro, illusão era, porém,
tudo, e a l\Iaria-da-Fonte veiu demonstrai-o. l\Ias
não er:a mais sensato, nem mais practico o seu go-
verno que lançava a reducção de 20 por 100 aos
juros das duas dividas, juros que elle não podia
pagar, e assim, lucrando nada, desacreditava-se
por dois caminhos. Abolidos esses descontos impen-
sados, voltou-se ao estado anterior da decima unica
na divida interna, capitalisando se os dividendos
por se não poderem pagar.
Tojal saíra por uma vez, como quem para nada
prestava já (22 de agosto de 47). Havia paz durante
o reinado de Saldanha, .i\[onk de Costa-Cabra!, (18
junho de 49) que poz na Fazenda Avila, esperan-
ças da patria. O segundo ministerio cabralista não
foi melhor na finança do que na politica. Apesar
de moço, A vila sempre fôra velho no pensar: ju-
rava pela amortisação! E jurando, as cousas iam
indo de mal a peior; e, se Costa-Cabral caíra em
46 precipitado do alto de uma torre de papeis, agora
ia pouco a pouco enterrando-se n'um olheiro de pe-
nm·ia. Desde julho de 48 que se supprimira o sys-
tema de capitalisar os juros em divida: para se pa-
garem? Sim, menos a q um· ta parte ; mas nem
isso, cousa nenhuma se deu, nem a nacionaes, nPm
a extrangeiros.
3!0
L. VI. -A REGE:.-.:ERAÇÁO- 11
Kão se está vendo a urgencia de 1·egenerar as
cousas?
Com um espírito novo- a Regeneração veiu pro-
clamar o contrario do que até então se dissera e
estava desacreditado. Como introito, para simplifi-
car, capitalisou em fundo de -! p. 100 todos os di-
videndos por pagar desde 50. (decr. í de julho de SI) E
como affirmaçào de princípios supprimiu o da amor-
tisação. (decr. 3 de dezembro) Fontes era moço, na edade
e no espírito. Não vinha de Coimbra: estava limpo
das doutrinas classicas e caducas. Amortisar, o
quê? para quê? Amortisar, pedindo emprestado,
nós que temos de nos endividar para solver os
encargos annuaes ordinarios, é aggravar as con-
sequencias do juro composto que tal situação nos
impõe . .Amortisar, o quê? A divida? não, que deve
ser f u n d a d a ~ permanente, eterna, como caixa-de-
economias, instrumento de distribuição de riqueza,
de capitalisação de migalhas. Outr'ora dissera-se
ser necessario pagar o que se deve. Doutrinas fos-
seis! Um Estado não é um particular. Quanto mais
uma nação dever, mais rica será!
O san-simonismo infiltrára-se nos pt>nsamentos
da geração no,·a, com os seus dogmas chrematis-
ticos e communistas. Prégando a religião da ri-
queza, e o culto do capital como meio de a crear,
e1·a natural que trouxesse theorias novas para o
problema das dividas nacionaes. O Thesouro, com
as rendas annualmente distribuídas, era uma func-
ção normal do Estado, cuja divida adquiria um ca-
racter social, perdendo a natureza commum ás di-
vidas particulares. Por outro lado, que melhor
modo de desenvolver a riqueza do paiz do que der-
2. - A CO:'\\"ERSÁO D.\ DI\ IDA 3-H
ramar sobrE' elle uma ch_nva de oiro extrangeiro?
Custaria caro? muito? Seria nada: os rerlditos do
Tlwsouro cresceriam n'uma progressão superior á
progressão dos encargos da divida.
Taes opiniões, geraes no tt>mpo, e convictamente
abraçadas pelo financeiro regenerador, entraram com
t>lle no Thesonro portuguez. A' parte o valor da
doutrina, á parte as consequencias d'ella-com que
nos achamos hnje, dizem uns que E-mbaraçados, di-
ZE'lll outros que afortunados-é mistér vêe na fi-
nança regeneradora a continuação do antigo pensa-
mento de José da Silva Carvalho. Uma naçã:o E'X-
hausta só poderia regada por chm·t>iros de
libras esterlinas. Quando, batidos os doutrinarios
financeiros, os Campos e os Passos, os Tojal e os
A vilas, voltou o espírito practico, a Regener<tção E'n-
caminlwn para cá os capitaes ele f6ra. Ü:; milhões
dos antigos emprestimos servir.:1m, no todo, para
guerras; os milhões dos novos sE-rviram n'uma parte
para estraclas e caminhos-dP-ferru ; cl' ahi a recons-
tituif'ào da economia rural da nacão.
Abolido o principio da substituída
a 1"e1ula ou di\ida fundodrJ ao systema de empres-
timos tt>mporarios, faltava unificar essa renda, ado-
ptando um padrão unico. E' evidente que se uma
conversão se faz de um juro menor para um juro
maior, o nominal dos títulos baixa; e, se exi::;te o
principio da amortisação, esse facto ou o inverso
podem importar muito. )Ias se o principio das
emissões é o da fnnrlada em vez de amorti-
savel, permanente e não temporaria, pouco importa
que a conversão se faça de um juro maior para
menor, e que cresça corrt>lativamente o nominal
dos titul,)s, pois que esse valor não é reembolsavel.
Os numeros por que se exprime o capital da divida
publica significam nada, e tudo o E-ncargo annual,
3-!2 L. \"1.- A REGE:'\ERAÇÁO - II
ou renda que o Thesouro tem de sen·ir aos porta-
dores d'ell:t.
O decreto de 1 S de dezembro de 62 é a inaugu-
ração da 111Wa edade financeira em Portugal ; e se
o lei to r tem presente como em uma na-;ã.o, q nal a
nossa vinha sendo desde o The6ouro e a sua
di\·id:t têem um papel eminente: o leitor não recu-
o justo applauso ao estadista que teve a iu-
telligencia e a coragem de pôr o ponto final na his-
toria anterior, reconhecendo e liquidando com uma
banea-rota o systema dos pontos e Lanca-rotas
precedentes. Esse decreto foi simples e breve,
como convém êÍs leis. Creou, para substituir os an-
tigos títulos, um typo nnico de di\·itla fundada de
3 p. 11111, mantenLlo porém a distinc<;ão apenas for-
mal de di\·ida externa e interna. Tomou para typo
da con\·ersão o 6 p. 100 externo, creaJo em no-
vembro de 41, re-duzindo-lhe o juro a e subor-
dinou a conversão da di\·itla interna a uma razão
correspondente: 100 de 4 p. 100=t\0, de G p.
lUO= 1::?0 do no\·o typo de ;J. Era uma positiva
Lanca-rota, pois não sú a con\·ersão era forçada e
não facultativa, como o juro etfectivo se reduzia de
5 a 3 p. 100 (embora em -!ti j<i o ti\·essem redu-
zido a ;J,6 7) sem ao menos se differir a indemni-
sação, como se projectara fazer em 41. DiJferida,
isto é, s,j com direito a juro a contar de GJ, ficava
a divida dada em pagamento dos di\·idt->ndos atra-
zados de a 6:!.
Eis aqui um c1uadro desenvoh·ido da di\·ida in-
terna em junho de ü 1, quando o novo regime poli-
tico se installuu: (\·. L. J. Ribeiro, Est. da div. int.J
2. -A CONVERSÃO DA DinDA 3-!3
Depois
Antes de 33 de 33
Apolices de 1823, consol. do papel moeda
1826 dividas d'Ajuda
1827 fornec. 14-19
l11scripçóes r837 (Passos) conversão de Padrões de 6 p. 100
r83j (Carvalho) Titulos
r837 (Passos) Pagamento á c. dos \inhos
r836 (id.) Emissão
J835 (Car\"alho) id.
1848 (Falcão) comersáo de Padrões 5 p. 100
do juro de 4 p. 100
Apolices, consolid. letras do commissariado 21
182o-2 de di,·ida publica
r823 idem
1827 idem
J833 idem
r83g idem
1840 idem
1841 idem
1843 idem
1845 idem
1848 idem
do juro de 5 p. 100
Inscripçóes de 3 p. roo, capit. dos juros de 4;-8
dos Açores, etc.
Totaes
Totaes geraes
ao juro medio annual, liquido da deducçáo de 2j p. 100 (de
agosto 48) de 3,5 p. 100
1:334
70
25j
2:5o3
4:010
204
;54
1:o2j
8oo
2:186
3gr
4:oSo
•=483
5:142
2:874
2:5g8
373
Para além d'esta somma de divida :ficava ainda a
chamada mansa, titlllos azues, indernnisações, etc.,
etc. (V. Divid. port.J que com o papel-moeda por
amortisar, subia á somma de 11:887 contos. Os nu-
344 1.· YI. --A REGENERAÇÃO -II
meros que expozemos acima, referidos ao meiado
de 41, tinham crescido nu fim do anno seguinte; e
o decreto de 18 de dezembro operou sobre estes
valores : ribid.)
Divida interna, contos 38:827 juro 1:166
e11.terna 46:9 I3 , 1 :407
Se addicionarmos a diYida mansa, e comparar-
mos o total com a diYida de 28, veremos que a Li-
berdade e os seus ensaios custaram ao Thesouro
58:500 contos, amra os bt>ns nacionaes \·enclidos ou
queimados, st>m com isso mellwrar a situação eco-
nomica do reino, segundo já deixamos patente.
A conYersão propunha-se regularisar um estado
proYadameute intoleraYt>l. Abolindo as Yerbas de
amortisação e reduzindo as de juro, que nu meiado
de 52 attingiam sumrnauas 3 : 4 ~ 1 1 contos (lbid.J, lirni-
taYa os encargos á summa acima indicada. Alli-
viado assim o Thesouro, seria fiel aos seus compro-
missos? Eis o que se não acreditava. Tinha-se as-
sistido a tantos pontos, a tantas capitalisações suc-
cessivas e todas apregoadas como decisivas e finaes,
que os crédores, de certo bem dispostos a receber
menos, mas sequer alguma cousa, não viam com
bons olhos o ministro moco e audaz. Choravam-se
as victimas de mais u m ~ espoliação: eram n:511
particulares e 519 corporações, os portadores da di-
vida interna. (Ribeiro, Divida) Aos que defendiam os
actos do governo, recordavam os crédores a famosa
instituição do Credito-nacional, de 1841, para «se
porem os pagamentos em dia>>; as decimas lança-
das nos juros; as metades, a que tinham siuo redu-
zidas as classes inactiYas em 1844; toda a serie de
2.- .-\ CO::"\"ERSÁO D.-\ DI\ ID.-\
34:)
miseraveis banca-rotas que desde 35 se tinham re-
petido com uma constancia invencível.
Enganavam-se, porém, os accusadores. Os tem-
pos tinham mudado, em Portugal e l'm toda a
parte. Chegara a saciedade de liberalismo e as at-
tenções voltavam-se para um norte diffl'rente das
antigas chimeras doutrinarias. Reconlaecia-se con-
quistada a Liberdade nu seio do scepticismo. Cus-
tára muito? Ao reino, é Í1t1possivel dizer quanto;
ao Thesouro, cincoenta, sessenta, oitenta mil con-
tos? Ponto, sobre essa historia antiga! De joellws,
perante o deus Fomento! Cum esse culto nuvo po-
dia gastar-se á larga, á farta, porque á maneira ao
verdadeiro Dl'HS (ainda por halJito ou laypocrisia se
era claristão, mas li!Jer,tl) o Deus novo pagaria
com muitos mil os emprestinws que se lhe faziam.
Caminhos de ft->rro! caminhos de ferro! Circulação,
liberdade respiraturia para o corpo ecunomico!
Viela nova! E assim o moço mini::;tro engenheiro,
introduzido na scena pelo seu patrono Rodrigo,
entrava pela mão do scepticismo velho prégando a
religião nova. Patrono e cliente, mestre e discí-
pulo, pae e filho, eram o mesmo em dois corpos,
um representando a negação do passado, o outro
as affirmações elo presente.
Reformaram-se as pautas setembrio;;tas n'nm sen-
tido mais livre; começava a picareta a abrir as
trincheiras do caminho de ferro; fundia-se o his-
torico Terreiro com as Sete-casas, estabelecendo-se
um octroi; reformavam-se os correios, adoptando-se
a estampilha, symbulo da mobilisação universal
idealisacla no comboyo correndo como o vento:
346 L VI.- A REGENERAÇÃO- II
um comboyo que t>ra ainda apenas sonho e um de-
sejo! Em vez de uma sociedade agitada por parti-
dos e doutrinas, aspirava-se para uma agitação de
gozo, de riqueza, de utilidade positiva.
Em JV houvera uma exposição de Industria em
Lisboa, mas não era o fabrico o enlevo da idéa
nova: era o movimento. O pombalismo acabara
com os setembristas, e as tendencias economicas
eram levadas agora n'urn caminho diverso. Já as
nações se não olhavam corno organismos autóno-
mos, porque o cosmopolitismo infiltrara-se nas dou-
trinas. O cabralismo fi'lra um precursor da edade
nova, mas errava imaginando ainda, á antiga,
que para a realisar fosse necessaria a reconsti-
tuição de uma classe aristocratica. Assim aconte-
em França a Luis-Philippe. o socialis-
mo tambem reagira contra o governo dos ricos, e
o segundo imperio francez e a Regeneração portu-
gueza, egualmente democratas, realisavam por ou-
tras fôrmas, com outros meios, o pensamento capi-
tal dos regimes precedentes. O imposto de repar ·
tição, motivo da qne1la dos Cabraes em 46, servia
agora para recompGr esse la.do da machina admi-
nistrativa.
Cheias as vélas com nm vento de esperanças
aladas, o barco da Hegeneração vogava, com Fon-
tes, pimpão, moço e janota, ao leme; Rodrigo, pers-
picaz, de gageiro á prôa; :-;aldanha na camara,
fardado, solenme, falaiHlo ás visitas. Nem uma nu-
vem no horisonte? apenas o sapatear da
agua no costado, as ondas pequenas, mansas, dos
crédores de casa, agiotas e pensionistas, clamando
contra a conversão. Deixar: larg-a! l\Ias, vi<yando,
acossou-os a vaga mais temive"t dos crédores de
Londres. Escarmentados pela conversão de 40, de-
pois pela de 45, não acreditavam na de 52. O caso
2. - A DA DIVIDA 3-!7
era gran', porque sem dinheiro londrino para que
serviria o ministerio creado ás obras-publicas? (30
de agosto de 5:?; Com a fallencia aberta, riscados
da sociedade das nações-de-bem inscriptas na bí-
blia do de que valiam os talentos
e desejos dos estadistas novos? Inuteis as cartas,
Fontes preparou a mala e S:lÍU para Londres em
dezembro de 55, embaixador perante o congresso
soLerano do capitalismo londrino.
Vinte annos Palmella implorara em fa,Tor da Li-
berdade a protecção dos verdadeiros monarchas.
Agora ia Fontes confessar as culpas, protestar o
arrependimento, pedir o perdão, e prometter um
abandono formal de theorias tão funestas. O filho
prodigo emendar-se-hia : tinham sido verduras da
infancia!
A França de :Xapoleão III fizera pazes com a
Inglaterra, agora sua alliada para a guerra (da
Crimêa), para a exploração Lancaria das nações pu-
pillas. Em Londres, Fontes achou Thornton, Fould
em Paris, promptos a annuir á de 5:?, a
restituir o credito a Portugal, a dar-lhe os dezeseis
mil contos que pedia, mas soL condições em ver-
dade onerosas, e mais graves por que hypotheca-
vam o futuro. Fontes annuia, annuiu a tudo. Que-
rem que se lhes dê em titulos differidos o que a
conver.são lhes tira? Xão ha dtlYida. Querem os Lan-
queiros (Thornton, Fould; o direito de preferencia
em todos os empre::;timos futuros? De accordo. Que-
rem os engenheiros (do Credit nwóilie1·, de nlorny-
Pereire, sob a protecção de :Xapoleão) a preferencia
nos contractos de construcção de obras, e desde já
estudos rendosos? Tambem vul-o dou; mas cotem-
me os fundos, deem-UH:=' mil contos! (V. Ro-
ma, Rejlex. sob1·e a quest.iojillanc.) E necessario hypothecar
o futuro para liquidar o passado? Fa<;a-se. Fa-
L \"1. - A REGE'XERAÇÁO- 11
ça-se tucln, tuclo, mas haja e
caminhos de ferro.
Regressado dt=> Londres, os farrapos dos velhos
partidos caíram sobre o homem na sessão de [)6.
As antigas dHwminações tinham acalJado, e havia
contra os regem_·radores o amalgama que cha-
mou historico, e que com efFeito o era, sumlJra
historica vida: por um grave, mudo:-
Íínpassivel: Loulé. ():; rei;tos do cartismo acabado
protestavam tamlu:·m: Roma no Jornal do Com-
merda, .. .\vila e na camara. Na im-
prensa o ministro Lobo-d'Avila e José-
Estevão na Rcv(Jluçil'o; na cmuara defendia-se elle
a si proprio, com a verhosidade que parecia elo-
qnem•ia por Sf'r nont a rhf'torica empregadn : me-
lhoramentvs. fomento, etc. em vez de princípios,
alJoba•hts da sala (que é e1widrnçnda), etc. Ernrn
vivos o ataquf' e a e tamanl1a a
dade do ministro-Esnn cedera tudo por um
E·mprt":-::timo, tamnnha a juvenil com
que nos arr;tstava, ú Yt·locid:ule d'um expresso, na
P!"trada do que a apathia portngueza
hi . .:;forica derrnl,on-o. tG de junho de lt-:06) Caiu um
lllÍllÍStPrin i maS :1. nl'g'E'nernçffo 11à0 CaÍU, llt:'lll }10-
dia, porque na necessida<le das cousas. Como
um moderador passivo apeuns, levanta-se pe-
rante o grupo dos and:1zes, o grupo dos historicos
}Hesidirlo por Loulé; mas nPm já o

nem poli ti c a alguma su i genen's o inspirava.
3. - OS HISTORICOS
() novo gon•rno, snccessor ela Regenera<;ão em
6 ele jnnho de 5G, Yinha, como dissemos, fadado para
ser :tpénas nm mndl:'rador do enthusiasmo, da pre-
cipitaç-ão, da largueza-ele-mãos dos predecessores.
3.- OS HISTORICOS
Já de3pidas as togas democratica:; pelos restantes
do antigo setembrismo, já trocado o nome de pro-
gressistas pelo nome inconscientemente eloquente
de historicos, a nova gente nada significava como
.affirmação no puder . ..A sua inconsistencia prova-se
na conüante mudança do pessoal governativo, du-
rante os tres annos escassos da sua gerencia. Eram
todos homens bons, ronceiros, pacatos, liúeraes sem-
pre, ainda que isto nada jit quizesse dizer. Como
que sombras de outras éras, 'rinham presididos por
uma sombra ambulante, muda e nobre ...
D. Pedro v tomara posse do governo {16 de se-
tembro de 55), e o temperamento melancholico e pes-
simista do novo rei preferia esta gente antiga aos
regeneradores modernos e moços, cujo materiali:;mo
não agradava á metapltysica regia. Somnambulos,
;t·ei e ministro, ambos alheios á indole dos tempos
no,yos, ambos sem pensamento nem f•Jrça para os
-condemnarem, iam caminhando, ou ante<> deixando
.a nau do Estado seguirá mercê da direcção da cor-
rentP.. )las desde que o estabelecimento do imperio
.em Franca restaurára ahi as influencias ul tramon-
tanas, depois de as desillusões de -!8 terem ccmver-
tido Pio IX ao jesuitismo, a esperança de recon-
·quistar para o catholicismo puro todas as nações
latinas abaladas pela Liberdade impia, inspirou
urna politica acti,ra. Habilmente sentiam os novos
.apostolos que não eram missionarias nem sermões
o meio adequado á novissima propaganda. As ge-
rações passadas ou actuaes tinham-se perdido ou
eram inconvertiveis: restava appellar para a edu-
cação da infancia. E de que modo? Repetin_do o
-que no seculo xvi se fizera?
1
Xão; seria ternera-
.rio. :Xão se podendo pretender desde logo ao mo-
1
V. Hist. de Port. I. v.
L. VI. - A REGENERAÇÃO - II
n11polio da instrucção official, o caminho indicado
era o da Caridade e o da Liberdade.
As irmans de ~ - Vicente-de-Paulo, soldados pie-
dosos e humildes do exercito apostolico; as irmans-
da-Caridade que a guerra da Crimêa vira nos hos-
pitaes e campos de batalha, tão eorajosas como de-
dicadas, eram quem devia vir a Portugal ensinar a
infancia desvalida nos asylos creados pelas senho-
ras ricas da fidalguia. O ultramontanismo é nos
nossos tempos eminentemente aristocratico. Rodri-
go, perspicaz e sceptico, jámais annuiu á vinda ;
mas agora o rei catholico e neo-romantico, amante
de uma esposa beata, e o ministro com o seu genio
principesco e molle, que mal podiam achar na
introducção d'essas mulheres piedosas, tão celebra-
das na sua caridade, tão simples na sua humildade
obscura? Pois não valia mais que as creanças ti-
vessem um amparo protector? Por toda a parte as
firlalgas cantavam o elogio das pobres irmans-da-
Caridade, tão boas, tão santas, tão bonitas nos
seus babitos negros, com a alva touca de linho de
abas soltas como azas de pombas! Este renasci-
mento de piedade religiosa nada tinha, porém, de
commum com a antiga religião vencida em H-!. Era
aristocratico, a outra fôra plebêa; e a mesma plebe
que ainda nas procissões, nas semanas-santas, no
fo;pnhor-dos-Passos da Graça, conservava um resto
de culto pela religião antiga: era essa mesma plebe
de Lisboa que apedrejava as irmans da-Caridade,
missionarias da religião nova, aristocratica, afran-
cezada.
Loulé consentira a entrada das Irmans (D de fe-
vereiro de [)7) quasi ao mesmo tempo que pela pri-
nwira vez a locomotiva assobiava conduzindo os
convidados á inauguração da primeira secção do.
caminho de ferro ( ~ 8 de outubro de 5G). Tudo se
3.- OS HISTORICOS 351
modernisava n'esta nação que, feudataria da In-
glaterra, era a copia da França- em 33, em 42,
-e agora, depois de 51, a copia do segundo im-
perio. Agradecia nos ella a fidelidade com que
aprendíamos? Não, e brutalmente nol-o pro,·ou
com o deploravel episodio da Chm·les et
que derrotou por fim o ministerio historico, batido
com vehemencia pt-la voz de José-Estevão.
Foi na primavera de que Loulé caíu, arras-
tando comsigo Avila da Fazenda. A Regeneração
abrira-no!!! de novo as portas do sanctuario do cré-
dito ; A vila, senão convertido, adherindo ás idéas
novas, deixava-se ir na corrente. A possibilidade
de en-âtti1· era uma tentação irresistivel para nós
que, desde 20 até hoje, nunca podemos prescindir
de emprestimos para pagar as despezas correntes.
1\Ias desde 51, a parte que se empregava no fo-
mento servia de pretexto plausível para encobrir
a parte maior com que se preenchiam os deficits.
Assim, a divida que a Regeneração deixára em
n6 mil contos com o juro de 2:900, deixavam-na
os historicos em 120 com o juro de 3:600-tres
annos, a 233 ao anno, 'ratio que subirá sempre
d'aqui para o futuro.
Depois dos tres annos ( 56-9) historicos, viu-se
um intermedio regenerador 16 de março de 59 a
4 de julho de 60) apenas importante quanto ao
pessoal politico. Como presidente, isto é, pendão
e apparato, Terceira succede a Saldanha, para
deixar por morte o logar a Aguiar. Fontes substi-
tue o fallecido Rodrigo na direcção do partido; e
ao lado do chefe vêem-se os homens novos: Ca-
zal, Serpa, J\Iartens, que com Sampaio e Corvo for-
352 L. \"1.- A REGEi'ERAÇÁO- II
marão a gnarda politiea, o pessoal de governo no
futuro reinado de D. Luiz. Era uma geração nova,
já educada no liberalismo novissimo. Todos os an-
tigos se somem nas casas ou nas covas, á ma-
neira do que succedera em 36, quando morreu D.
Pedro. Cabral exilado é o D. l\Iignel de agora; e,
se o quixotesco imperador acabou vomitando sangue
e_ abraçando ainda os seus soldados, Rodrigo, sum-
ma e synthese de trinta annos de miserias, Rodrigo
a imagem do Desprezo, dizem que se finara mur-
muranrlo assim-« X ascer entre brutos, viver en-
tre brutos e morrer entre brutos é triste!,, O Des-
prezo, eis a transição da éra das doutrinas para a
edade das conveniencias ...
A segunda Hegeneração nada regenerou. Fize-
ra-se, da primeira vez, tudo o que havia a fazer; e,
como parti• lo de homens practicos, clientela de gente
rica, inimiga de reformas, doutrinas e movimentos,
não podia consummar o que ainda faltava para
completar entre n6s a revolução liberal.
Podia-o L ~ J u l é , que voltou 'I (julho -! de 60) Não
elle, mas sim o homem-novo, especie de resurreição
cabralü;ta, tão duro, tão energico, tão ambicioso,
como o conde de Thomar- Lobo-d'Avila, depois
tambem conde, de Yalbum. Fallecido D. Pedro v,
Braamcamp, o novo ministro do reino (1862),
pilde acabar com o incommodo espinho das irmans
da caridade, expulsando-as (junho 9, de 62) e
subscrever a lei de abolição dos vinculos (maio 19,
de 6i3) rElog. hist. de A11s. J_. Braamcamp, do a.) complemento
da obra destruidora de l\Iousinho da Silveira, por-
ventura temerariamente promulgado n'um paiz que
a historia não deixara acabar de construir rural
e demographicamente. (Prof de lei defom. rural, do a.) Ti-
nham-se, porém, abolido finalmente os morgados,
tinha-se instituido o credito-predial, franqueada a
3. - OS HISTORICOS
barra do Douro, ex:tinguidu o contracto <lo tabacu,
reformado as alfandegas, e por fim o primeiro cum-
Loyo corria desdP Lisboa até Badajoz
1 maio 30; de fj3 J. maneira qlil', porém, crescia a
influencia de -Lobo d'Avila, o homem novo, c<.tía o
chefe appan•t1te do governo, o duque de Loulé. Na
camat·a ouvia-se o accusando fria e dt>s-
apiedadamente de burl<to o da unha pretf1,; ou-
viam-se outros crivando ele epigrarnmas o de
Sião, duque, ministro somnambulo. Por f{n·a, nas
rna!:i eram grandes lanternas de papel pintado com
uma cruz negra, e os garotos apregoando a hist,J-
ria de um assassinato e de um roubo. (V. a Cru;: .lt>
.. utullw, op. 186S) Lobo-d' A vila via-se precipitado do
antes de ter realisado a sua hegira du
Porto; e o Bomfim de agora, se não conseguia
vencer, conseguia pelo menos esmagar o rival im-
portuno e :mtipathico.
Se Costa Cabral com a sua doutrina viera pGr
um termo ás de6nições da Liberdade,
desacreditando-a, similhante (lestino tinha a aven-
tura de Lobo-d'Avila para com as clientelas politi-
cas formadas depois de 51. A sua quéda era o fim
dos historicos. Em vão Lonlé se apresentou á ca-
mara com um gabinete singnlar, (março 5 de 65)
t:' um financeiro joven, lavmlo em lagrimas. Houn·
um riso universal, e ambas as 1.mlws caíram triste-
mente na valla dos mortos.
E como tudo tostava safado, molle, roto, podre,
fundiu-se. tudo. A Fusão (setembro 4 de 6j) era,
porém, o modo grave do partido historico se sumir.
twocada <le um passado extincto, guiada
J'<•RT. CO:ST.- TOli. II 23
354 L \"1. -A REGENERAÇÃO- II
por um fidalgo somnambulo, querido de um re-i
excentrico e misanthropo, devia ter-se dissipado
quando o rei morreu. Trouxe-lhe um :tr de vid:t a
força de um ministro moço, mas a physionomia an-
tipathica d "essa força enodoou-lhe os ados. Se lhe
prolongou a durat;ão, foi para lhe preparar um fim
mais triste ainda: a cruz negra de um assassinato,
as lagrimas ingenuas de um financeiro, a garga-
lhada unisona da plateia popular.
E era triste, triste vf·r acal1ar assim um homem
sympathico na sua molleza aristocrati<'a, um bello
typo da raça apurada portugueza, um
é tão rara a distinl'çãu! O duque de Loulé, ve-
lho l\lendoça, procedia da estirpe dos senhores ue
Biscaya, em tudo reis, menos no nome. Os l\Ien-
doça tinham-se ligmln aos Yal-de-Ueis, Yindo a
ligar-se aos Rolim, da descendencia do flamengo
a quem Affunso-IIenriqnes dera o senhorio de
Azambuja.
extravagancia da historia que tizera de
um tão nobre senhor o membro e mais tarde o chefe
do partido qt!e primeiro fui e depois se dizia ainda
democrata! E que a sua vida principiara no meio
de condições proprias a destn·ientar a educação.
pae, condemnado á morte por ter sido um dos
que invadiram Portugal com os francezes de l\Ias-
sena, perdoado em 21 por D. João VI, morrera
assassinado em Salvaterra, tres annos depois, ·<is
mãos do partido apostolico. o espectro do pae
a causa da inclinação politica do filho? Entretanto,
em moço não abandonou a côrte e era o mais bello
e seductor dos fidalgos d'então. A infanta, per-
dendo a cabeça, casou-se com elle; e os noivos ti-
veram de fugir, porque D. l\Iiguel vinha irritado
por esse escandalo cortezão. Assim o bello marqut·z
t->migrou; assim se t:'HControu, descench·nte dos -:\Ien-
3. - OS HISTORICOS
doça de Biscaya, marido de urna infanta portu-
gueza, envolvido no partido revolucionario.
O seu lugar natural ao lado de Palmélla,
na côrte da futura monarchia represt>ntativa; mas
préferia o lado opposto, e foi setf'mbrista, fui patu-
léa, fui pé-freEco. Era outro Egalité? outro louco'!
um mau? um ambicioso? X ada d'isso era; apénas
um discípulo do que á sua intélligen-
cia, limitada mas nobre, apparecia démocratica-
mente poetico, em Yf'Z de liberalmente
Afastal-o-hiam tambem da d)rte representati,·a as
répngnancias pélo feitio antipathico e menos limpo,
nada nobre, dos conservadores? E' tambem natu-
ral, em quem teve uma· existencia immaculada.
A tradição de honradez e virtude, constante no
partido dos Passos, do Sá-da- Banueira, deve con-
tar-se por uma das furças mais energicas com que
o setembrismo bateu em 3fj os cartistas e dez an-
nos depois os cahralistas. E essa tradição, ainda
viva depois da Regeneração, era tambem ainda uma
das mf'lhores, senão a melhor arma do partido
historico, personalisado no seu chefe, o duque de pe-
dra, frio, mudo, impassível, mas sem uma nodoa, e
com um ar de superioridade soberana que vencia os
pr-oprios sabedores do pouco valor aspect•J.
O duque não tinha de certo o olhar profundo,
escrutinador das leis a que obedecem as socieda-
dt's, nem a audac-ia, instrumento da victoria em
epochas da natureza d'aquella em que vivera. Era
medíocre, mas não como caracter. O papel élllÍ-
nente que lhe distribuíram depois de 51 acaso o de-
via mais á tradição} aristocratica do seu nome, á
amisade do rei - historico tambem ! - do
que ao merito prnprio. )las a educação fidalga, o
temperamento frio, a serenidade de uma conscien-
cia limpa, a facilidade dt> uma vida opulenta, de-
L. \I. -A REGEI'ERA<_;ÁO- II
ram-lhe sempre uma inditferem;a alti,·a, proverbial
e caracteri:stica, que por vezes se tornou, em cer-
tos episodios turlJülentos, n'uma placidez quasi he-
roica. Fui entre n1Js o typo mais perfeito, senão o
unico, 11' esses fidalg·os-democrata:s inglezes, que
amam o aLstradamente, uws não d:lo o braçu
<i porque desceriam. ( \tmo um peninsular,
pQrém, era benigno e atfa,·el, emLora reservado
e mais a,J que Todos se lemLr<tm
ainda de o vêr, impassível e frio, quasi ou intei-
ramente indifferente, responder em seccos monosyl-
lahos aos discur:sos vehementes tribunos tlas
opposições. Elle passava, impavido e mudo
1
pelü
meio das tempestades parlamentares; pisava a ca-
mara como a sala do throno, e a politica implaca-
vel e plebt·a, irritada e cheia de despeitü, poz-lhe
por nome o
Xào via incompatibilidade alguma em ser estri-
Leit·o de el-rei e ao mesmo tempo ehefe de um par-
tido que ft',ra, e se dizia ainda, nas suas folhas, de-
moerata. Em pé, llescolJerta e curvada a caLeça,
aLria, com uma servidão fidalga, a portinhola do
,·oche real, para em seguida ir collocat·-se á frente
dos ministros; e esta dupla, incon:sequente,
mais de uma vez lhe trouxe dissabores. Um grande-
fidalgo não p{>de entrar na politica, senão para
a a ella e para impíJr a sua vontade aos
reis: só assim remirà, perante o seu povo, o seu vi-
eio de origem. E mistér ser-se 'Vellington, de quem
tJ·emen Jorge IV, e a rainha Yictoria foi pupilla;
a quem deu vi,·as D. :l\Iaria 11; ou Bis-
marck, o que levou pelo beiço o imperador Guilher-
me. De outra fúrma o povo vê sempre o cortezão,
e raro o politico. Pol' isso Loulé jámais foi popular,
apesat· (lt• sério, fiel, honrado e bom. 1 I umano e
earidoso á antiga, qnasi perdulario por desdem, não
3. - OS HISTORil.OS
3.-,"j
por luxo, que vivia poLn:'mente, era adorado pelos
st?us clientes privados; mas os st?us clientes E' ad-
versarios políticos, saídos da massa do povo avaro,
parve1ws mais ou menos petulantes, não lhe perdoa-
vam a sua fidalguia. E a indolencia invencível do
cluque dava-lhes frf'quentes motivos para o accuea-
rem com fundamento. Diz-se que o vergonhoso re-
sultado da questão f "lzru·les ef Geo1"ge proveiu de
uma nota franceza que o ministro metteu no bolso
e a que júmais se lembrou de responder.
Ferveram sobre elle as, calumnias, e por VE'ZE'S
estiveJ·am para ft:'rver as pedradas da plebe amoti-
Chegaram a· accusal-o de envenenaclor da. fa-
milia •:f'al, para succeder no tlu·onu; mas ás ca-
lumnias nã.o respondia: nào responde quem se
présa ; e uma vez q ne o povo clamoroso rodeava a
carruagem, ameac;ando o, mandou parar, abriu a
porta, desceu e disse: «Que me querem? Dei-
xem-me. Yão para casa e soceguem». Disse-o pla-
cidamente, sem erguer a voz, e o povo rendeu se.
pose
7
tinha uma r·oragem fria, verdadeira. Ar-
dia-lhe a de noite: vieram os creados atHi-
ctos, chamai-o; e elle, ouvindo-os, disse-lhes que
quando o fogo cht?gasse aú quarto immediato o avi-
sassem. Assim deixava arder a sua casa, porque
era histo1"ico
7
e nada tinha do ávido temperamento
burguez, imperante nas companhias, nas bolsas, nos
caminhos de ferro. Era um D . .João vi, mas bello;
ou como o rei que tanto lhe queria, como um D.
Pedro v já velho. llistorico por descendencia fi-
dalga e politica, duas -illusões o acompanharam ao
tumulo: a do sangue e a da LIBERDADE. Uma das
suas ambições era a de <<fazer umas eleições pro-
hihinclo sériamente a intervenção ás authoridades
administrativas» .. l\Iorreu sem vêr realisado esse
desejo, confissão plena da genuinidade da repre-
3.-):-;
L. \1.- A -II
St>ntação, proferida por quem de perto conhecia as
cousas; e ao mesmo tempo documento da sinceri-
dade com que os homens são capazes de acreditar
em chimeras.
Confrange, é verdade! entristece, o lembrnrmo-
nos da somrua de reetidã.o, de lealcbde, de quasi
heroismo gastos por nossos paes em levantar um
edificio aereo que nem sequer lhes foi licito deixa-
rein de ir vendo cai1·, pedaço a pedaço, hora a
hora, até á da final subYersão no riso seeptico,
regenerador!
Em ql filra mna parte do setembrismo mais ru-
bro U..;ampaio, .José Estevão) que se convertera; em
li;',, na converteu-se a parte do partido
historico. A unlw-p1·da, t"ctuda democratica de um
partido forçado a ser conservador; a unlw-preta,
menos o seu ehefe ( tambem cunvertidiJ), restaurou
as dedamat;ões setembristas pruferida::3 na tribuna
por na imprensa pelos Tanas do Pur-
taguez. Por outro lado, .José-Estevão desquitara-se
da segunda reg-etwraçZil) ministerio adtlicto
{ts irmans-da Carirlade, e teimava ainda em c1·ear
uma democracia com t!lt!menfos novos. l\lurreu na
faina (nov. 4 de 6:!) o tribuno peninsular, e as duas
caudas dos dois partidos extinguiram-se pouco a
pouco, sumindo-se pelas covas, ou pelos empregos
-da alfandega, principalmente. A unha netJ,Ta do
fado condemnava-os to4lo-, a urna sorte cummum.
ÜL,tra garra, branca como o halitu da locomotiva,
novo ídolo do tempo, chamava á conservação poli-
tica nu seio da revolução economica, a gente s,:,·irt
de todos os lados, fusiunarla, abraçada n'um liLe-
ralismo pratico sem doutrinas, n'tuu· catholicismo
3. -OS HISTORICOS
tamhem pratico sem exageros, n'uma religião de
sala, perfumada, afrancezada, burguezmente aris-
tocratica, n'uma moral facil, n'uma vida commoda,
já que de todo não podia ser regalada.
E porque? porque apesar de quasi vinte annos
de 'regeneração, o Thesouro teimava em se não en-
cher, e era indispensavel moderar a furia com que
pediamos emprestado. O povo ((podia e devia pagar
mais». l\Ias qnandn a Fusão, já inteiramente rege·
neradora desde fiG de maio), reclamou impostos
de consumn, os negociantes do Porto aJa-
net:rinhrt de Houve a sombra de uma revolu-
ção, houve um terror palaciano, muitas phrases,
ondas de cousas ricliculas, e por fim, como orgão
da novissima rlemocracia, o duque d'Avila primei-
ro, o bispo de Vizeu depois. A Regeneração aca-
bava; a nova é abria-se entre um baculo e um
h razão.
III
1. - A INICIAÇÃO PELO FOI\IENTO
l\Ias, em quanto todo o alto- pessoal dos partidos
pouco a poHco se ia fundindo desde 51, até clPpois
de 68 se constituir sob o nome antigo de regenera-
ção n'um partido conservador, é mistér estudarmo!:'
o desenvolvimento oLscuro, desordenado mas grave,
das idéas que vieram substituindo a da Liberdade
no espirito das gerações novas e nos projectos dos
homens destacados elos partidos antigos, como José-.
Estevão sempre moço até {t morte.
O primeiro em data dos_ homens novos, orgãos
dos pensamentos modernos, é sem duvida alguma
Fontes, cuja physionomia procurámos já esboçar.
Imperialista por temperamento, engenheiro por edu-
cação, alitteratado por um resto de romantismo,
e por indole portugueza; de resto sem malicia,
prosaicamente crente na limitada capacidade ideal
flas sociedades, por não ter genio e por obedecer ás
correntes ela epocha; convictamente sectario da
oyinião dos economistas ex-sansimonianos, como
Chevalier, que viam na producção da riqueza o
segredo da fortuna dos Estados e nas associações
capitalistas, n'isso a que chamou com razão feoda-
lismo novo, o instrumento adequado do progresso:
Fontes tinha na palavra juvenil um calor quasi
1. - A 1:"\ICIAc :ÁO PELO FO)IE:"\TO 361
poetico, um enthusiasmo tão ardente que sedu-
zia o temperamt'nto .José-EsteYão, em phra-
ses de que, ao tempo, sú os velhos se riam, e que
hoje não é pnssivel deixarem de acirrar a ironia
dos moços.
Eu já era fanatico pelas vias de comuHmicac:ào, sr. vre-
sidente; e, se fosse pnssin·l pa:-;sar uma IPi para que a na-
ção portngnez:1 viajasse por tres mezes, estavamos salvos.
(Disc. de 2 de abril de S6)
Isto seria ridiculo, se tülo fusse sentido. Sendo-o,
prova apenas a natureza do yenero novo da poli-
tica e a cap:teitlade do cereLro do O ea-
minho de ferro é para elle verdadeiramente, não
um symbolo, ·ruas a realidade do progresso. Correr
a vapor, ganhar, trocar, gozar, que outra cousa é
a vida?
Ceci fuent dizia: porque Hugo sulJstituira
Cicero, da mesma ft.'11·ma qne os jacobinos tinham
substituido os Prophetas pelos ltomanos.
Se a imprensa pt•de matar a architectura, como meio de
traduzir o }JPnsanwuto de um imlivíduo ou de uma epocha,
-porque não hade o caminho de ferro matar a estrad:-t.,
como elemento da vi1la das·nacões e como ultima f,',nna dH.
civilisação modema'? (Vozes: 1111;ito bem.' llisc. de 18 de abril de j6)
Este novo Antony da viação a vapor, pt'rfuma-
do, bem vestido, leão da moda, tinha expresso no
rosto o retrato do novissimo romanti:-:;mo. A poesia
baixara de de motivo, de estylo: era
banal e vulgar como um empreiteiro endumingado
nas salas aristocraticas invadidas. Parece que D. Pe-
dro v lhe poz por alcunha o Dom l\Iagnifico! A pa-
lavra do moço orador, posse-pru·-tollt facil, verbosa,
fluente, sem cunho de peraonalidade, já antes da
impurtancia consen·adora lhe impôr a reserva cal-
3ü2 L. YI. -A REGENERAÇÃO- Ill
cnlada, atin:lYa-se por todos os tons, possuía todos
os dotes, sem se elevar em nenhum d'elles:
Tem um punco do phautasti(•o 1lo SI'- José-Estevão; do
positi\'o e t·scholastico do sr .. -\\·ila; 1lo sarea:-;tieo 1lo sr.
e ati· do nchul•.so do sr. Carlos Bento. retor-
quir ao s1·. Adia com algarismos; ao sr. Antonio da l'u-
uha eom ditos • ao :>r. l'arlos B•·ntn eom algumas
.phrases tmni•las e ho111basticas sohn• a theoria transcen-
dPntal do ert>ditn, ou soure a philosophia hypcr-eritiea dos
(•an·is de ferro. (c-/punt. s. os P•lrf,wz. 53)
Assim o aYaliavam, nfto sem maliciosa ironia,
os contemporaneos. E nós que ainoa. o somos,
tamLem lhe temos ou,·ido essa linguagem .liftllsa,
sonora, longa, re.londa, e banal, por custoso que
seja dizei-o de um vi,·o. Nem uma imaginação L'O-
lOI·ida (como a José-EsteYà.u), nem um talento
,·erdacleiro (como a Cazal-Tiiheiro J, nem uma veia
sarcastica (como a :-;uuto-:\IaiorJ, nem finalmente o
saber e sufiieiente úcerca do que se trata
(como a Serpa ou Con·o·), apenas a habilidade
Yerhosa o distinguia. Subiu levantado n'um castello
de pala\Tas. :\Jantem-se n'um tl'apezio de emlmstes.
E á nwdida que a eda.-le crescia, como lhe fal-
tara sempre a pnciencia e o tempo para estudar,
o seu estylo baixava sem diminuit· a sua f<wundia.
Addicto sempre a esse velho culto, tradü;ão e até
certo ponto gloria da sua Yida, a rhetorica leYa-
nt-o a proferir pltrases qne, sem commentarios,
soariam ao futuro como excentricidades de um Ln-
rocrata maníaco:
E não audu todos os •lias em caminho de ferro por•tne
uào posso; porc1ue as minhas occupat;c)es públicas m'o im-
pcclem : ali;is t:'ra tourilife dos nossos caminhos de ferro.
1. - A PELO FO:\lEI'iTO 3ü3
Isto comprehende-se da minha parte porque propup;nei por
estas idéas; padeci muito por ellas! muito. . . e nem eu
quero diz1:r! lDisc. de 18 de jan. de 65;
Meihor era com effeito calar tão crueis agonias,
depois de obtido o efi'eito rhdorico; e, se pudesse
ter supprimirlo a antiphona, não teria sido muito
melhor ainda?
Acima do cavallo da diligencia est:í. o tramwa.'·, acima
(leste a locomotin1, e acima de tutlo o progresso! (lbid.J
Parece inventado, e não é.
É que se chocavam singularmente os moldes da
rhétorica antig-a com os motivos da vida moderna.
Hymnos, antiphonas, acclarnações, apostrophes, ma-
deixas desgrenhadas, olhos em alvo, palmadas so-
bre o coração, diziam com a antiga ideolog-ia libe-
ral ou democrata: diziam melhor ou peior, mas
não chocavam; avaliava-se o talento, a logica na-
tural, avaliava-se tambem a sinceridade. :1\Ias can-
tar o caminho ele ferro em discursos rhetoricos pa-
receu sempre tão ridículo como pôr em verso as ma-
chinas fel"ris. Fontes introduziu na politica este
genero ele litteratura, romantismo bastardo paral-
lello ao do sociêtlista Castilho que ·vinha resuscitar
Dellile, Gessner ou Saint-Pierre para presidirem ás
lettras nacionaes. A regenera<;ào era moralmente,
intellectualmente, um Era-se ainda ro-
rnantico, por se não puder ser outra cousa; mas ,
de um romantismo litterato apenas, exterior, jano-
ta: romantismo de sala, que não entrava na intel-
ligencia, conquistada já pelo utilitarismo. Todos os
36! L. \"1. -A REGENERACÁO - III
litteratos d'este tempo acabarmn mais ou menos na
Alfandega, on no da Assim foi ·
Serpa, o author de madrigaes: assim
assim muitos, assim todos. A libenlade nã.o era
uma deusrt, 12ra uma menina que se namora:
Poet,. da liberdade
Fiz (resta no,·a dei1lade
A damn do men pensar
Prostrei-me aos pés fla donzella
Heide com ella e por dia
.A minha terra cantar!
(Palmeirim, Poesi,Js).
O chefe cl'este neu-romantismo, entre burocratico
e piegas, artificial, sem raizes no coração dt' uma
gente prosaica ou devassa; o cht.fe d't·sse roman-
tismo, cujos derradeiros furam Clwgas e Thomaz
Ribeiro, <1christão, portuguez e bacharel formado»,
r Prol. do D • .Tayn.e. 2.a e.:I.J; o chefe de uma eschola arrebi-
cad;;, e pedante, fui Ca:;tilho, um velho Fontes d:t
poesia!
Ao seu temperamento feminino ou infantil agra-
davam as ternuras doces dos llyrons do Terreiro-do-
Paço; e, se lá no funclo tinha uma ironia aguda para
os crivar de Ppigrammas antigos, vingando-se, não
podia deixar de os lisongear, de os acolher, de os
encher de louvores e mimos, chamando Isto a um,
Aquillo a outro: um congresso de genios! A hypo-
crisia natural em sociedades que, tombando na
chateza do utilitm·ismo, não querem confessar, pu r
um resto de pudor Psthetico, o wnericanisnw dos
seus sentimentos e motivos; esse estado de desac-
cordo da intelligt-ncia moral, da Psthetica e da lJra-
tica, reclamava o governo politico de nm homem
eumo Fontes, e o governo litterario de outro homem
1. - A 1:'\ICIA(\o PELO FO:\IE:'\TO
tambem vasio de idéas, repleto de sábia poetica,
um arcade como Castilho.
E se o primeit·o cantava em discurso a « locomo-
tiva,- e sobre a locomotiva o progresso!>> se o pri-
meiro obedecia á corrente do Capitalünuo moderno:
o segundo, cantanrlo a Felicidade pela arvicultura,
o Jf.'flllHO do traballw, obellecia ú corrente do
fum·ierismo; e ambos recel,iam e davam a inicia-
ção propria da edade do Fomento, nas suas duas
faces.
Capitalismo, Socialismo, eis ahi, com effeito, o
que se achava no fundo da Regeneração; sem que
os nossos reg·eneradores tivessem uma con;:;ciencia
nitida do que faziam e do que eram. Succecle qnasi
sempre assim aos homens, e muito mais succedia
então, quando tudo apparecia ainda confuso, inde-
terminado, n'um crepusculo de Libt=>rdade ainda con-
fessada, n'uma combinação ainda vaga dos elemen-
tos futnr.os das questões sociaes. Fourier, Saint-Si-
mon, Owen, Cabet: capitalistas ou socialistas? As
duas cousas a um tempo. Era o socialismo pelo ca-
pital: tamhem na politica era a liberdade pela ri-
queza. E por cima da vasta confusão de idéas e
preconceitos, de phrases ingenuas e astucias cal-
culadas, havia apenas na sociedade purtugueza um
desejo ardente de paz, riqueza e goso. ();:; jo,-ens
políticos aprendiam corajosamente o crtn-can com
as francezas do .lrtrdim 'ln!Jthologico.
Esta conseq nencia immediata da iniciação do Fo-
mento, apoz a longa historia das duras campanhas
liberaes, levava a mocidade regeneradora a não prt>-
sentir as inconsequencias das suas opiniões, nem o
caracter ás vezes infantil elas suas distracções. Emi-
grados da miseria, no dia da abastança não se far-
tavam tle gosar; e no seio da paz, assim cumo as
lettnts eram uma distracção amena de homens.gra-
L. YI. - A III
ves, assim o era a politica. Lisboa teve o quer que
é de rococr) burocraticn e litterato, n'esses tempos
doirados da mocidad•:> regt>neradora, t>lll que,- como
creanças perante um brinquedo, a lo<·omotiva,-se
via no e na cohorte dos lwmnzes
res que dt>sciam da Europa a faire-le-Portugal
7
uma aurora do futuro, sa1jada de rails, com aurE-o-
las de clarões de fornalhas entre nuvens de um
forte cheiro a sE-bo queimado.
Se Castilho tinha os st>us saraus, onde os poe-
tas de fartas melenas iam recitar pt>ças lyricas ou
hymnos trabalhadores, os politicos pisavam tapetes
em salões celebres que recebiam de portas abertas
uma pleiade de estadistas novos-os filhos da Li-
ber•lade! Os nomes conhecemnl-os todos; mas tal-
vez j:.i não lembrem êtlgmnas das diversões inte-
ressantes das noites de conmdres. Cada cavalheiro
tirava á sorte a coma1he, n<l quinta-feira propria; e
cafla cumaclre, uma dama, tinha uma divisa: Li-
herdade. Democracia, .Joanna-d'Arc, Corday, a Pa-
deira? Não: inwgens de agora, vivas. Uma era a
ProspPridadL'-publica, e saiu a Fontes; outra a Ca-
mara-dus-depntados, e saiu a José-Estevão; outra
a Fazenda-nacional, e a Cazal-Ribeiro; outra
a Imprensa-periodica, e srtiu a Sampaio; etc. rRev.
penins. Chron. fev. de 56) Não tivemos razão de chamar á
Rt>gent>ração um cezarismo dt> sel'retaria?
Quasi vinte annos le,Tou a dissipar-se ( 51-ôB) esse
ueo-romantismo da geração t>lll que primt>iro se en-
xertaram as idéas sociaes modernas, pelos modos e
ít'n·mas que rapidamente. Outros modos,
fúrmas diversas: nm neo-setembrismo, um socia-
lismo platonico, a Iberia, a Republica, vieram en-
tretanto invadindo os Ct->rebros de outras ('amadas,
t-> forçando as antt>riores a congregarem-se definiti-
vamente em partido conservador. Foi o que já vi-
2. - O IBERISMO
mos, faltando-nos ainda estudar as novas influencias
do período da Regeneração.
Depois de 6t> nada ha que regenerar, ou todus re-
generam de um modo egual. Depois d'esta epocha,
e consummada uma tal ou qual restauração da ri-
queza nacional, todos apparecem convertidos ao
opportunismo pratico. Não ha mais distincções de
partidos, ha apenas grupos divt>rsos. Não ha mais
programmas, pm·que ha a liberdade pratica bas-
tante e toda a ideologia liberal morreu. Os bandos
políticos já não têem rotulos, Lasta-lhes o nome dos
chefes: é o d'este, o cl'aquell'outro. E uns succe-
dem-se aos outros, até que ... Ponto. Não preeipi-
temos o discurso.
2.--0 IBERISMO
O leitor sabe que nos ultimos reinados da dynas-
tia de A viz a politica de fusão dos dois estados, já
ao tempo unicos da Península, inspirou por mais
de uma vez a côrte portugneza.
1
SaLe tambem a
deploravel historia da annexação de Portugal, e a
da occupação castelhana, mais deploravel ainda.
Em 1 G-!0 uma conspit·ação palaciana, com a protec-
ção dos jesuítas e da França, restaura a indepen-
dencia portugueza, levantando a dynastia de Bra-
gança. No meiado do XVII seculo acontecia o que
succedera no seculo XII e no fim do x1v : as tres
dynastias portuguezas foram, nos seus primeiros
períodos, o symbolo da independencia nacional.
A' maneira, porém, que com o tempo se oblite-
rava a lembrança das crises successivas, renascia,
com as complicações dynasticas, o pensamento na-
tm·al da união. Assim aconteceu no tempo de D.
1 V. Hist. de Port. (3.
11
ed.) II, pag .. p-5.

L. \"1.- .\ REGE;'I;ERAÇAO- III
.Fernando; assim tlP.sde D. Affunso v até l;)tiO. E
quandn fui a crise determinada pela in-
vasão franceza, D . .Toã.o n, do Rio, onde se acha-
va, viu despuntat· a perspecti,·a da uniã:o, e a
eiírte voltou a ser ilwrica. O duque de Palme lia
estava então enYiado junto it Hegeneia de Callix
( 1 O 1 e dizia-se du Brazil que se o throno viesse
a pertencer a Carlota Joaquina, uma esquadra iria
levai-a a llespanha, e essa soltu;ão teria «as v;m-
tagens de preparar e facilitm· a reunião das duas
nwnarchias )) . (Otr. no Cmzimbricellst?, n. 366-!)- Depois, na
crise dynastica, determinada em Portugal pela morte
de D .. Joãu n, voltavam os planos ibericos.
A ambos os pretendentes se attriLue o pensa-
mento de resolYer, por meio do iberismo, o pro-
blema em que se ,·iam affiictos. (Port., seus gov. e d_nz. op.J
Logo que a volta de H. l\Iiguel em 28 levou Sal-
tlanha a emigrar, o Cid purtuguez escrevia de Lon-
dres para· o Rio a D. Pedro excitando-o, acenan-
do-lhe com planos iLericos, confln·me já vimos. (Li\".
prim. 1, 3) Em 31, regressado D. Pedro á Europa, e
ernquanto não havia ainda decisão assente sobre a
ma1·cha a seguir, Saldanha d'accordo com o gene-
t·al Mina fui a Londres conYidar o príncipe para a
empreza, a que Palmerston se teria opposto. (Car-
nota . . \!em.)
Pensaria D. Pedro 1Únn imperio mais ou menos
napoleonieamente liberal, herdando Fernando vn
e expulsando H. Miguel? D'este, diz se, como já
vimos, que no nwis momento da guerra
tet·ia pensatlo t:>lll correr sulJre l\ladrid, <lO tempo
q uasi tlesgnarnecida, to mal-a, e fazer causa com-
mum com 1 >. Carlos, então a ponto de vencer.
Qualquer que seja o grau de verdade d'estas
nllegações, é facto que, resokida a questão dynas-
tica em Portug:tl, vencedor o liLeralismo, a sua

historia deploraYel arraigou em muitos a opimao
unionista. Pahnella toda a sua vida dizém ter affir-
mado que «Portugal, depois da séparaçào do Bra-
zil, nà•J tinha mais remedio do que unir-se á Iles-
panha,,. Do lado opposto, Yimos Passos cunféssar
na tribuna que o futuro nacional estava na união.
A opinião do duque de Palmella firmava-se natu-
ralmente na historia do paiz Yivera por quatro
seculos da exploração de territorios ultramarinos,
<' que desde 20 se achava reduzido ao canrtpé eu-
ropeu de D. Juão VI, porr1ue o re<sto das suas co-
lonias, armazem de escravos apenas, de nafla Yalia
desde que o tráfico dos negros era prohibido. As
finanças nacionaes, exprimindo a ruina economica
portnguéza, f'ram o commentario eloquente da
doutrina e a causa immediata mais grave das agi-
tações da politica.
Chegaram as idéas de união a inspirar os actos
das curtes de Lisboa e de ::\ladrid? Querem alguns
que sim: o futuro o dirá, quando se poderem vêr
os tombos das embaixadas e ministerios. Como
sabe, Portugal, ailiado á Hespanha pélo tratado
de 34 que expulsara D. )liguei, tinha mandado
uma divisão com o conde das Antas auxiliar Isa-
bel II a expulsar D. Carlos. So theatro da guerra,
diz-se, o conde e o general Cordoba teriam proje-
ctado combinações, que dos seus gabinetes faziam
tambem )lendizabal e o primeiro marido de D. )la-
ria II. Es8e príncipe morreu breve, mas a nossa
rainha casuu-se logo, e em 3>' já tinha os seus dois
primeiros filhos. Por casar ainda em 44 a rainha
de Hespanha, accrescenta-se que adquirira grande
acceita\'ã•J a idéa de um duplo enlace de Isabel II
com o herdeiro de Portugal, e de D. Luiz com a in-
fanta hesp:tnhola. (Borrego, Hist. de una idea, ap. Rios, J/i mi-
sirm, etc.) O duutrinarismo vingou porém em Hespa-
roRT. CONT.- TOM. II 2-l
3111 L. \"1.- A REGE!\ERAÇÁO- III
nha; Guizot casou a rainha E'lll -!G, de modo a
tornar provavel a successão de l\Iuntpt?nsier ao
throno; t?steve a ponto de havt?r uma gut:>ITa; e,
dissipada a espérança de enlaces dynasticus, veiu
a intE.'rvt?nção hespanhola de -! 7 em Portugal ter-
minar completamente este episodio da historia mo-
dt?rna do iberismo. <Rios, .\lisio11)
Os emigrados que, ás centt:>nas, o doutrinarismo
1H·spanhol expulsava para Paris eram ibericos; e
emqnan to no t:>Xilio os progref:sistas do reino visi-
nho punh:nn a união no seu programma, em um
canto afastado do mundo, em )lacau, estava, con-
sul pela Hespanha na China, D. :-;inibctldo de )f<is
que con\·ertt?u ao ibt?rismo o bispo portugnez. rlbid.J
Ftlra isto em e no anno st?guinte deu-se a R.e-
generação, cuja physionomia moderna o leitor co-
nhece.
O escasso ou nE'nhum valor que o utilitctrismo
dá ás idéas, a import:mcia exclnsi,·a ligada ao fo-
mento material estaxam dizendo que a união en-
contraria adt?ptos entre os moços. seria a vi-
são de um imperio poderoso, como o que V. João II
plant?ara, como o que enchia democraticamente os
sonhos de Passos. Era a demonstração rigorosa e
exacta de qnanto havia a ganlun·, apagando as li-
nhas raianas, unificando a economia, subordinando
a rt?de da viação a v:1por geographia commercial
da Pt:>ninsula, em vez de a torturar por motivos
politicos. « Fr:lternidade, Egualdade, União, entre
portuguezes e héspanhoes», trazi:l como epigraphe
o livro de I I. traduzido em portuguez e
prefaciado pelo jovt?n Latino Cot?lho. r.l Iberia, por D.
Sin. de :\las: tr. List-oa I8S3)
Os emlJaraços, com que então se luctava entre
nc.Js para levar a cabo o caminho de ferro de Leste,
eram o moti,·o immt?diato para dt?PiaraJ· urgente a
- O IBERISMO
:-J'Cl
união que agora procedia de razões economicas,
como se ve, sem se ligar a chimeras politicas, no
genio de homens que tinham o espírito afinado
pelo tempo. I). dizia que se u,js queria-
mos o caminho de ferro, adherissemos á união.
Como? I >e um modo pratico e simples: casando
o rei portuguez com a herdeira hespanhola, 1 >.
Pedro v com a princeza aas Asturias, «Construir-
se-ha o caminho dé ferro a riberiaJ Fon-
tes passava por partidario d'esta combinação
(Rios, .\lision); e um dos publicistas mais gra,·es e
entendidos escrevia asl"im: «O paiz menor tem um
varão reinante, o paiz maior tem uma princeza
por successor ao throno». (CI. .\d. da Costa, \/em. sobre Por-
tugal e a Hespa11lraJ Emquanto D. :--;inibaldo se fixava
mais sobre as condiçôes de politica internacional,
sobre as opiniões da geração nova, sobre as consi-
derações de geographia conunercial e politica, de-
terminando já a capital- ao mesmo
tempo que desenhava a futura bandeira iberica
quadricolor: ta, o estatiatico, alinhavava os al-
garismos, multiplicava os calculos para demonstrar
as riquezas que nos viriam da união. Era um ibe-
rismo positivo, pratico, regenerador.
com este no,·o espírito portuguez tinha-se
tambem insinuado em Portugal um corpo de senti-
mentos ainda mal définido em idéas,
mixto de socialisillO humanitario e repulJlicanismo
cosmopolita, federalista: a atmosphera necessaria
de idealismo que alimf'nta,·a o espírito dos moços,
f.,rmando a vanguarda dos partidos revolucionarios
portuguezes de 51 a ():--:, forçando os regeneradores
a tornarPm o Fomento solidario da Conservação.
Concebe-se facilmente como a semente do iberismo
devia germinar em um solo 1Jem preparado pelas
coamop,_,litas e humanitarias, pois qne «:>stas
312 L \"1. - A REGENEHAÇÂO - III
idéas, em vez de penderem para o lado dos anti-
gos liberalismos, se alliavam á doutrina elo fo-
mento economico eivada de democra-
tico e não cesarista. Além d'isto o phenomeno
singular do pessimismo portuguez, oriundo do ca-
racter apathico do povo, justificado pela historia,
corroborado com eloquencia pelas miserias "preeen-
tes, conduziam a vanguarda da geração nova a vêr
ria solução iberica a conclusão natural da historia
patria.
Latino, publicista imaginoso, artista nas idéas,
no temperamento, no estylo, aprésentava no seu
prologo á Iberia as opiniões vagas e nebulosas da
gente que, ligada partidariamente á Regeneração,
como José-Estevão se achava ainda, se não satis-
fazia já culll o mutismo politico regenerador. Latino
via auroras para além do zollverein peninsular. Não
via Fontes «sobre a locomotiva o progresso?»
)fas o progresso do ministro era a riqueza apenas;
e as auroras do publicista eram ::t Humanidade,
uma Republica europêa, a Paz universal! a fe-
deração europêa não é tão cedo possível, não será
mesquinho o nosso desejo, se aspiramos á diminui-
ção progressiva do numero dos Estados indepBn-
dentes.-A península iberica que já formou uma
só nação pela conquista, poderá, deverá ser um só
paiz pela fusão espontanea». (Prol. da Iberia, anon.) Era
tambem a opinião de Cazal Ribeiro que acclamava
a lberia, sob a fórma de uma republica federativa.
rRev. lusit. maio 5.3) Era tambem a opinião do moço,
mallogrado Nogueira, (Fed. ibe1·ica, S4; ap. Th. Braga Sol.
pns. da pol. port.J que chorava sentida mente a nossa do-
lnr·osa situação: pobre patria! escuta a voz
do ultimo e mais obscuro de teus filhos. Sacode
essa nuvem de harpias (pte especulam com a tua
passada grandeza, para se nutrirem em teu corpo
2. -O IBERISMO
... - ......
•J I•J
extenuado! Quando volverem dias mais auspiciosos
lança-te resolutamente na vanguarda do movimento
peninsular, onde tu e os teus briosos companheiros
tens tudo a ganhar e nada a perden1. (ap. Jberia, tr.
port.) Tambem o prologo da Iberw dizia: << Portu-
gal, s<), como está, de!';ajudado, moriLundo, que po-
derá jámais tentar? Exhauriu-se de forças na lucta:
precisa que llte injectem sangue novo. E', depois
da Turquia, o povo mais atrazadoll.
Podia este pessimismo agradar á Regetwração
glorios<t, magnifica? Podia ag1·adm·-lhe <t Iberia,
quando o pensamento da união, democratisando-se, ,
passa\·a do segredo das secretarias para a publici-
dade dos papeis? quando, em vez de comLinação
de gabinetes e arranjo dynastico, se torna,·a a ex-
pressão de ambições revolucionarias, mais vagas,
mais nebulosas, mais graves do que nunca? O fo-
mento pugnava pró, mas não pugnaria contra a
conservação indispensavel ao progresso da riqueza'?
E, se tudo isto era assim, não valia mais recuar,
abandonando as esperanças dos caminhos-de-ferro
vastos e geometricos, da futura Lisboa- outra
Londres -para conservar a nossa pobreza e a
nossa monarchia? Em Hespanha pensava-se outro
tanto, antepondo-se á união a conservação, por medo
das revoluções. E desde que, accordes n'esta poli-
tica, (V. Rios, JlisionJ os conservadores dos dois p a i z t ~ S
abandonavam os planos de enlaces dynasticos, o
melhor partido que os regeneradores podiam tirar
do iberismo era o de usar d'elle como arma para
condemnarem os revolucionarios novos, aos quaes
afinal o tinham ensinado.
D'alti veiu para nós uma situação que mais de
L. \"1. -A REGENERAc:AO- III
uma vez se tornou grotesca e sempre ridícula.
D'abi veiu inventar-se o 1.
0
dt· Dezembro, festa
patriotit?a em que annualmente arrenwttemus contra
us visinlws com Lombas, fogut'tes, philarmunicas,
e peior ainda! com apopléticos de uma
rht:'torica plebêa. I fahi veiu o ter-se aasistido á
queda de successivos gabinetes por esse labeu de
il>erismo explorado pelos partidos, lançado como
uma pélla de um a outro fazendo crêr qnt'
no meio de um o1lio mliw·r:;;al Iberia, todos t'm
Portugal :::ão ibéricos! lf<tl.i veiu o accendPr-se no
do povo passi,·o, e em proveito da intriga
um odio archaico, absurdo, tah·ez respon-
savel ele futuro sangue iunocentP derram<ulo, se um
dia os vae-vens «lo t'<Jllililn·iu europeu ti.zert'lll com
que a nos conquistP. fYahi veiu o ridí-
culo de uma naçào fraca, mal go,·ernarla, sem ma-
rinha, com um exercitu nem instrui-
do, nem aguerrido, nem nnmero:5u, com as frontei-
ras abertas, as costas pur defender: de uma
que não poderia resistit· <i mais pettllena das inva-
sões, dar ao mm11lo-se o mmHlo olhasst' para
w.'1s !-o espeetaeulo ridículo da fanfnrrunice mais
disparatada. «Urre ... bc:.·nn ... too de fo. o. rça! »
djz n'mna couwdia bespaniJUla um portugut'z, in-
elwndo-st', com as faces rubras; e os hespanhot:.·s
vingam-se não nus ouvindo, chamando-nos ama-
velmente porlUffllecitos.
Tal fui a situação crealla pela iniciação ilHjrica
de j0, clt·pois aggravada quando a reYoluçào de 68
ft z da snccessàc) ele llespanha um prul.Jit'llHt. Re-
nasceram, é natural, :ts combinações l1ynasticas;
mas o iLerisnw, jú ao tempo declaradamente fede-
ralista, era a revolução: não se repetia, pois, a his ·
to ria anterior? :\ão eram forç<idos os conservado-
res a cohibir quaesqner ambições que tivessem, para
2. -O IBERISMO
defender a para se defenderem a si, para
esmagarem os contrarias, explorando o patt·iotismo
em proveito proprio, condemnando em nome d'elle
• a revolução que affinnava ser ut·gente 1·enegar a
(Quental, Port. per. a remi. d<? Hesp.)
:Mas antes que este segundo momento appare-
cesse para crear dt>finitivamente a que de-
senhcímus h a pouco e é a de hoje; antes, entre as duas
que attiturle era a da HPspanha? TamLem
na côrte .:\Iaflrid se sabia que a Iueria seria a
rt:volução e a q uéda elos Bonrbons: como poderia
haver planos rle annexac;ão? Os partidos conser-
vadores, nos dois paizes (regeneradores, mzionis-
f,-u3), tinham chegado áqnelle triste ponto ele nada,
absolntamente nada, poderem fazer no sentido de
melhorar a sorte elo povo, pela razão ele que toda
e qualqn"r idéa fecunda era, e é,-a situação con-
serva-se a mesma-confiscada, apropriada a si
pela opinião revolucionaria, atmosphera hostil que
rodeia e paralysa. Se, portanto, em Hespanha exis-
tia um medo, não de uma invasão portugueza, mas
do iberismo como arma revolucionaria, em Portu-
gal havia-se j{t insinuado, generalisado no povo um
odio a Castt>lla, que aos conservadores convinha
que houvesse, para com essa irritação, cuja falta
de fundamento t>lles mais do que ninguem df•\?iam
conhecer, obterem a protecção decidida elo paço e
uma arma tle parada para baterem as opposições.
os conservadores portuguezes, excitando as-
sim um sentimento anarchico para se servirem a si
e á monat·chia, foram réus de graves desvarios. Logo
á morte de D. Pedro v o povo de Lisboa, choroso e
commovido, misturou_ o iberismo no corpo de pro-
testos com que exprit!lia a condemnação constan-
te, ora tacita, ora expressa:, pela ordem das cousas.
Ha, sem duvida, uma pathologia collecti,?a sem o
31G L. YI. -A REGE:'iiERAÇÁO- III
t>studo da qual o historiador j<imais poderá ini-
ciar-se no intimo dos sentimentos dt> urn povo. As
doenças mysticas do catholicisrno do x\·n seculo
constituem um corpo de symptomas eminentes; e
Portugal cujo organismo raros momentos gozou de
uma sande perfeita; Portugal cujo ultimo ataque
Je febre monarchico-catholica 111Ís estudúmos em
:W 30; Portugal que desde a irnplantação do libe-
rali::.mo, ou em cullapso não se ou passa,·a
da inacção a alguma fm·ia: Portugal aprt'sen ta um
symptoma curioso para diagnostico au medico po-
litico. Todos os seus reis envenenados, todos os seus
estadistas, lJurlões, eis a genuína opinião do po"o;
que qualquer púde obter interrogandtJ-o. Enwne-
nado D. João vi, D. Pedro sem du,·ida
enn·nenado, D. )lm·ia n- quem o ignora? E de-
pois de tudo isto, morriam U. Pedro \. e os infan-
tes (D. Fernando, D. João) en,·enenados tamlJem.
Envenenados morreram, com effeitu, mas com os
miasmas do cliarco de Yilla- char-
co ! diziã o po,·o ; um eharco sim, mas o Jus po!i-
ticos: o de Loulé que quer ser rei, acudiam uns;
e outros diziam que não, affi rrnando terem bido o
Salamanca e os socios para nos venderem á lfespa-
nlw. Assim, lan·ando na imaginação popular, a se-
mente do iberismo lançada pela iniciação Jo Fo-
mento, tornava-se agora contra os que por interesse
eram os adversarios da união iberica.
Nus tumultos do inverno de 61, por occasião uas
mortes na côrte, o protesto t'5pontaneo do po,·o re-
bentlttt de um modo symptumatico, declamando ab-
surdos, exigindo crueldades: querendo a cabeça de
Loulé que para a guardar te,·e de fni:;:ir pelos te-
lhados das secretarias ; propondo-se saquear a casa
de Salamanca, o que envenenara no alrnoçu ele
Santarem a família real na ,·ulta de Yilla-Yiçosa!
I
2.- O 317
(:\ota de Valenci:-o .;c nov. ap. Rios, \Jisiv11) Quen1 d..=munciava
est""" ...:rlminnsos? todos. De quem é a
voz que nas tempestades fala em trovões re-
boando pelas quebradas das serras? A turba, como
as massas da électricidacle, tem uma fala cujas ex-
pressões a ninguem pertencem.
l\Ias assim como <i trovoada nàu VPlll st:-m causa,
assim os clamores populares, embora absurdos nas
palavras. teem um motivo intimo e grave. na
historia houvera dt:-lirios, e sempre, no fundo da
loucura, appareceram verdades. Tambt'rn os alluci-
nados no seu tresvario vêem longe muit<lS vt-zes.
envent:-nara os principes, ninguem pro-
jectava ven(ler· nos a Hespanha. Loulé. em n·z de
burlão, era um ltomem de Lem. que importa?
Algut:-rn ha de ser o réu, alguem o ubjectl) da nossa
colera, do nusso mal-estar, da ,·aga consciencia da
nossa mi:5eria, e quem, senão qut-m nus govt:-rna?
o organismo portuguez tin•sse ainda energia
se rt-Lellar, u fim de 61 teria provavelmente-
assistido a uma revolução: mas não sabemos nós,
acaso, que depois da l\laria-da-Funte a guerra de
46-7 foi já um cumLate de t-spectrus? E depois
d'esse episodio funébre, não viera a
medicar-nos com tisanas ele sceptici!"mo e caldos
substanciaes de melhoramentos! o enft:-rmo le-
vantava cabeça, não podia ser ainda para pensar:
era apt-nas a convalescença em qut- o organismo
pouco -a pouco se robustecia com a transfusão de
de libras inglE-zas, por emprestimos succes-
sivos.
Quando chegou o dia do rt-i D. Luiz se casar,
e a Hespanha que, mais vi,·a, est;wa proxima
a ajustar contas com o libaulismo de IsaLel u,
viu que a nuiva era a ti"lha do piemuntez rei da
Italia unida, temeu-se em :\Iadrid que a tradição
L YI.- A REGENEkAÇÂO- III
tla família saLoyana, o exemplo da outra península
llleridional fizessem de Portugal um Piemonte hes-
panhol. inj n3to faYor nos concediam! Que
temerarios pl<mos attrilmiam ao nosso modesto rei,
aos nossos estadistcts timiJu:s, O embai-
xaclcn· que a Ilespanha tinha em LisLoa apressou-se
a dissipar os sustos palacianos:
(I rei D. Luis é nm jo,·en sem experiencia, de enrto al-
cance f' pnnco a prnpnsitn para dirigir um negocio rle tanta
consequencia. (Llesp. do m. de la Ribera) me perguntasse
qnal eu en·io que seja o c-aracter rlistinctinl cresta socie-
dade, diria que ,·. o de n111a profunda prostração. :io temo
•1ue, no cnr:,;o da p11litica, rputlqncr qne clla seja, Portugal
possa iutlnir nos destin•JS da IIcspan h a. i\ êlO h a arpti lll'-
nhnm flns Plcnwntns qne se n•tmiram no Piemonte; 11<io
vejo partiflo bastante euerg-icn e para ter uma po-
litic·a externa lh• verdadeira iuiciati,·a; nem distingo em
neuhum homem publico nm venla.:leiro homem ri' Estado.
(Llesp. de Coello y l!uesada, ) di! set. ap. l<ios, Jliswn)
Dissipadas as somLras tle sustos, apertaram-se
outra Yez as mãos entre )[wlri•l ·e LisLoa, conten-
tes, espet·ançados, os e os Bragança::;,
os regenera•lures e os em que o
revolncionariu da Ibet·ia ficasse para todo o sempt·e
llludo. lJe repénte, purém, snrge em Hespanha
uma revolução Oj dt-> outubro ele que n'mn
instante expulsa a rainl1a, acclama Prim, e fica {t
espera de saLer qne <lestino ha de d:u· a na<_;ào.
RepuLlica? Jlunarchia? Ibet·ia 'I Centralisação 'I Fe-
deralismo? ... Dl'puis a guerra assolou a
aLatendo o segundu imperio. As duas grandes na-
ções latinas acharam-se desprovidas de governo,
entregues aos Yae-vens das opiniões partidarias,
abertas a· toda a de experiencias, como
naYios desgarrados de uma esquadt·a açoitada pelo
tempo. Faltava a unidade de dit·ecção almirante, e
2. - O IBERISMO
dentro de cada nau o commando fluctnava á mercê
do acaso ou da fatalidade. A Hespanlw tentou urna
monarchia e varias fórmas de republica. A França,
gemendo, não se decidia a dar á luz fórma alguma
conhecida de governo. )las em llespanha e França
o socialismo appareceu soL a fúrma de deplora-
veis revoltas communaes, eivado de preoccupações
federalistas e demagogicas, cnwl, rudemt:mte esbo-
çado em Paris e em Cat·thagena. Não eram, po-
rém, mais nem menos violentas, sanguinarias e ri-
diculas do que as da Edmle-media, raizes de um
liberalismo Lurguez hoje acclamatlo por ser ven-
cedor. Em França ·e Hespanha portanto a re-
volução, denunciada sob o seu novíssimo aspecto,
levou as classes médias a congregarem-se para se
defenderem. D'ahi nasceram, nos dois paizes, go-
vernos analogos, egualmente uppurtunus, embora di-
versos como ft'n·ma: a monarchica para itq nem, a
republicana para além dos Pyreneus.
Com a revolução hespanlwla de GS o iberismo
acordou por varios modos. Em outubro liam-se nas
esquinas de Lisboa pasquins dizendo:
YiYa a unu\0 iberica! Viva o sr. D. Lniz 1 ehefe dus
dois paizes unidos!- Ponhamos de parte estupi1los pre-
conceitos; pnrtugnezes e hcspanhoes são irmãos pela reli-
gião, pelos costumes, pelo iclioma, e sobretudo pelo seu de-
cidido amor á liberdade. N<lo percamos, portngttezes, a nc-
casiào que a Prü\'idencia nos utferece para nos eng-rande-
cermos, constituimlo uma nação que será im·ejada. de todas
as naçiJes dn mundo, podendo clar leis a todas, sem de ne-
nhuma as receber.-Yi v a a uniào iberica. !
E'3ta proclamação, supposta portugueza, era pro-
L. \"1, -A REGENERA(.\o - l1I
vavelrnente hespanhola: fot:jada· pelos emi:5sarios
qne Prim, ao tempo, sabidamente tinha em Portu-
g<tl. Se o gt>neral relesse os despachos de Qnesada,
quatro annos atraz, se tivesse genio para auscnl·
tar bem o temperamento do paço, do go\·erno e do
povo, reconheceria lll<tis cedo como perdia o tempo.
D. Luiz nunca foi Yictor-)[anuel, nem (
1
arlos·Al-
berto, nem Gnilhernw n·; Fontes não era e\·idente-
Jliente um Ca\·our, nt-m um Bismarck: menos o era
ainda o (luque d' .. 1vila presidl:'nte da Janeirinha.
Por outro lado, Prim, nem tinha atlllacia nem
força para fazer de nús o que Bismarck fl:'z dos du-
cados do Elba. l\las a Ht>s})anha necessitava um
rei ! Ainda a gut=>na alleman não destruíra o im-
perio em França: uma repu hlica seria um e:5cau-
dalo. Um rei! pelo amor de Deu5, um rei! diziam
affiictos de )[adrit.l. E bt-m perto, em Lisboa, ha-
via um, em inacti\·idade temporaria, nos casos de
servir. )[as casado! Dariam á IIe5panha a con·
dessa d'Edla como rainha? Por ahi a negociação
falhou. 1\·. Rios, .!1/isirmJ E tambem porque, embora al-
lemão, embora já com fillws o rei portugnez, os
conserntdures viam na affinidade das dvnastias um
longínquo receio de iberismo. Apparecim;1 graves fo-
lhetos sombrios (Cor'"o, ·Perigos; Duas palm•ms. etc.) pintando
com sinceridade, ou sem ella, as ameaças irnminen-
tes. E acordar no pm·o o vdio a Casft;lla foi ainda,
como sempre fcíra, um meio de fa;;er opposiçiJ.o.
regeneradores tinhêlln ag-•)l'Cl. a conquistm· o podt'r
ao ·J·efurmismo da janeirinha, e para tanto, o me-
lhor meio era chamar-lhe iLerico e encher de sus-
tos a cabeça do bom do rei.
E entretanto, nem o Bispo, nem Latino, nem
ninguem era ibt>rico; embora o ·reformi:mw tivesse
lai\·os de rf>publicano, embora Latino tivesse pre-
faciado o lin·o de n. Illusões tambem
3. - O SOCIALIS'l0
passadas! A iniciação do fomento convertera as
gerações e os ideologvs de 5-! eram oppor-
tunistas em 70. Tamhem os federalistas platonicos
tempos passados eram conservadores de
agora, como Cazal. O federalismo iberico, mais
ou menos eivado de socialismo démagogico, era
já em Portugal apenas o credo de uma minoria
miníma, sem 'Talor politico de especie alguma. E
passada a crise, restaurada a monarchia em Hes-
panha, a situação voltou a ser, com os partidos
novos, o que fGra com os antigos. Conservadores
de ambos os lados da raia: conservadores regene-
radores, conservadores canovistas, conservadores
progressistas, etc., etc.,- opportunistas todos.
3. - O SOCIALIS!\10
Esta doutrina saía mais directamente do que a
idéa precedentemente estudada, do progresso ma-
terial defendido pela regeneração. Os regenerado-
res não estavam de todo limpos da mancha socia-
lista, como vimos. Che,Talier, o mestre economista
do partido,- trouxera da egreja de ::\Ienilmontant
para o mundo as rnaximas da económia sansi-
monista.
l\Iais do que ao iberismo ainda, porém, aconte-
cia ao socialismo o que antes vimos succeder: abra-
çarem os re, ... olucionarios a idéa, fazerem-na sua,
obrigando os regeneradores a renegai a, recuando
cada vez mais, accentuando todos os dias o seu
caracter consen-ador. 0 individualismo das antigas
escholas e partidos finara-se, porém, como lettra
morta; e quer cesarista, conservadora ou imperia-
listamente, quer democratica e revolucionariamente,
«o melhoramento da sorte dos desvalidos da for-
L. YI.- A REGEXERACÁO- III
tuna >> era uma preoccupação tão dominante dos
espíritos, como n'outro tempo o f,lra (<a garantia
dos direitos sobe:·anns do indi,·icluo». Os socialistas
francezes eram geralmente lidos. U:' moços chega-
ram a ensaiar phalansterios. A classe dos enge-
nheiros, nova em Portugal, com a sua educação
mathematica, 8eguia os exemplos dos discípulos
eschola polytechniea de Paris. Conmmngavam
n'um sansimonismo, mais ou menos accentnado,
Carlos Hibeiro e Rolla, Garcia. Bettamio, Delgado,
e Brandão, anthor da Economia social (8.
0
ISS7J com
epig-raphe: Cnicu.ique sectnulum operrt Fou-
rier apparecia como um precilrsor, Proudhon como
um apostolo. Para além do presente entrevia-se
um futuro doi1·ado de fortunas.
Por acreditar na e na perfectibilidade da
ra<?a humana. ningucm pecca por fourierista ou proudho-
niario. _-\_ poesia romantica tem. não ha dnYida, muito de
socialista mas annuncia um socialismo mais sabido que
ainda est:í. por Yir. _\ poesia é toda inspira<?ào e Yaticinio.
_\ magia existiu antes dos caminhos-de-terro. do gaz e do
magnetismo. Dante Yin as estrellas do hcmispherio austral
antes que este se Seneca Ya·tieinon a desco-
herta da _\merica: no Prnmetheu a redcmpçào: e
Yirgilio atliYinhou alguma cousa da moral christan e até o
progresso ci,·ilisador da Europa. extendendo por todo o
mumlo os seus costumes, o seu poder. a sua religiào, a sua
sciencia. f']\el'. 'l'ellillsular. 55)
Isto era escripto commentando Espronceda, o au-
thor do Pirafrt e do J[Pndigo, o poeta néo-roman-
tico que puzera nus seus Yersos todo o desespero,
todas as ironias, todo o srtfmzismo de uma alma já.
sem olJediencia a nenhuma especie de anthoridade
mora], mas cheia de imp.:"tos e aspiraç·ões demo-
cratic<ls e socialistas.
('fom effeito: a re,·olução das idéas approximara
3. - O
estas duas opimoes; e seJa não havia jacobinos,
tambem ainda o socialismo não ganhara a E-xpres-
são exclusiva, odienta, de uma ;.:·ut:'lTa de classes,
como partido de populani magros resn!3citado da
velha historia das republicas italianas. L"ma atmos-
phera nE-bulosa de humanitarismo chE-io de espe-
ranças philantrupicas envoh·ia as doutrinas rE-\"O-
lucionarias: cfwravam-se as desgraças dos italia-
nos, dos polacos escravisados; e a liberdade que
para os passados fUra um criterio racional e a ba!3e
de um systema de idéas, era agora invocada com
um caracter mais de politica antonomica das na-
ções, do que de soberania constitucional dus indi-
víduos. A republica seria a paz universal! Pouco
importava, a ninguem offendia que as E-phemeras
republicas de -!8 fossem tyrannas com laivos de
commnnismo. Tudo isso era liberdade! Aos homens,
educados pelo espírito jurista e· pela critica de
Kant, s.nccediam os discípulos de Louis Blanc e de
Lamartine.
Na c:tmara portugueza- como as idéas correm,
como as naçõf's mud:un rapi(lamente, n'este seculo
revolucionario !-na camara portugueza, na sessão
de 49, Souto-.. Maior, sem ser expulso nem apupado,
defende «a nobre, santa e jnsta em que se
acha empenhada a Italia intE-ira para constituir a
sua liberdade, firmar a sua independencia, e esta-
belecer a sua unidade». E no seu jornal, Estrm-
drtrte, o orador escrevia do papa: "Resumo de uma
grande hi :toria morta. p11de ainda ser o symbolo de
um grande povo vivo». A di-
rigida pelo mystico repnlJlicano )lazzini: alargando
os seus ramos por toda a Europa, para fundar a
repulJlica e redemptora, infiltrara-se en-
tre n/1s tambem com a sua ((lfrt-renda ou choca-uú'ie
d"ondP dependiam as vendas ou choças e as
L. Yl. - A REGE;'\ERAÇÁO - III
barracas. Em Coimbra ha,·ia a choça de Kossuth,
o hungaro. (1\L CarYalho, Hist. c:olllt!mp.} N'esta maçonaria
novissinu alistavmn-se os moços, e d'e1hi saía a di-
recção politica, republicana e democratica.
N'este estado veiu a Regeneraçâc) encontrar os
elementos desordenados e fracos dos revulncionarios
portuguezes; e os laivos de socialismo que n'elles
havia fizl:'ram com que dia em grande parte absor-
vesse a cauda moça do partido St->tl:'mbrista, já
tamhem ei,·ada de doutrinas ou sentimentos cos-
mopolitas e philantropicos. Das vendas carbona-
rias passou l:'ntâ:o o foco da agitação revoluciona-
ria para as sociedades operarias. Fundou-se em
Lisboa o Centro-promofo'r. <<As idéas societarias
que desde 4 ~ tinham ido calando no coração dos
desvalicJos da fortuna» inspiravam ;to mesmo tempo
os typographos que se faziam litteratos-politicos
(Vieira-da-Silva; Albuquerque, etc.), os engenhei-
ros mais ou menos socialistas (Rolla, Latino, Bran-
dão), e os antigos setembristas que viam a ergen-
cia de infiltrar idéas e sangue novo no partido. Ao
theatro romantico de ·l\Iendes-Leal, heroes panta-
façudos, homens-de-ferro com uma linguagem de
medos, substituiu-se um outro genero: eram os
homens un as mulheres de 1}W'I'nwre, dramas sata-
nicos mostrando ao povo a corrupção dos ricos;
eram as peçr_ts operarias, inspiradas pelas obras de
Sand e Eugenio-Sue, em que o homem de tt·aba-
lho apparecia l1eroe, luctando com energia e talento
contra os crimes e preconceitos de uma sociedade
madrasta.
Desgarrados, sem cohesã.o nem consistencia to-
dos estes ell:'mentos re,·olucionarios, a Regeneração
tendia a indinar todos os dias mais no sentido re-
vnlucionario, :í imagem do que succedia por toda
a Europa latina.
3. - O SOCIALISMO 385
Rodrigo, que a principio se apoiara no grupo se-
tembrista da Revoluçi'l'o
7
foi pouco a pouco boli-
nando tanto no sentido opposto, que a presidencia
official do partido passou de Saldanha para Terceira
(_no gabinete de 59). Já em 54 D. Juãu de Azevedo
escrevia de Lisboa a José Passos: «Conte que an-
tes de pouco tempo muitas notabilidades do par-
tido cabralista hão-de obter graças e mercês, po'r-
que estrate,q·ia de Rodrigo estú hoje posta, »
(Carta, na corr. autogr. dos Passos) Assim tinha de ser. Que
era a Regeneraç;to, senão o utilitarismo cahralista
sem doutrina? Que ft')r:.:t o cabralismo, senão uma
regeneração sem dinheiro nem scepticismo, só com
cloutrina e violencias? 48 levantara uma labareda,
mas o incendio apagou-se rapido. A Polonia, a
Italia: a Hungria ficaram quaes se aehavam antes;
a França restaurou o papa em_ Rnma, e tolerou
t>lll l\Iilão o austríaco. Depois dos dias de junho em
que o socialismo de Paris foi esmag·ado, viera Na-
m pôr um freio ás temeridades revolucio-
nanas.
O romantismo politico
7
a que nós estudámos as
duas faces successivas (I826-I838, Palmella, Herculano), fi-
nara-se de todo com uma revolução em que já en-
travam elementos de diversa origem.
O que caracterisa esse periodo é a gt·andeza genet·osa
das aspiraç«}es, combinada com a indeterminação das idéas;
um vago idealismo ou antes sentimentalismo que envolve e
abraça, sem dar por isso, as maiores contradicções praticas
e se lança no caminho das mais perigosas aventuras com
nm sorriso de confiança ingenua e quasi infantil. Este phe-
nomeno de uma revolução sem pensa mcnto explica-se pe-
las condições particulares do meio em que se desenvolveu.
Era em primeiro lugar um individualismo sentimental,
ao mesmo tempo cheio de c de effus•}es e que
pretendia corrigir o egoismo das reclamaç•}es do direito
individual com os preceitos moraes c poeticos da fraterni-
PuRT. CONT. - TOIIL II 25
386 L VI.- A REGENERAÇÃO- III
dade.-Em segundo lugar, a attitude determinadamentc
hostil das monarchias dominadas pela alta
burguezia :i.vida e agiota, tornava-lhes imminente a queda
sem que se podesse dizer f{Ue essa queda implicava uma
verdadeira revolução porque as classes contra ellas insur-
gidas não tinham principalmente em vista destruir, no seu
principio, o regimen existente, mas pelo contrario, entrar
n'elle, apossar-se d'elle, alargando-o (pelo sutfragio) até ás
pro}JOrçues da nova democracia.--Em terct•iro lugar, fi-
a attitude das classes operarias vinha lançar no
meio d'csta confusão intellectual e politica mais um ele-
mento de perturbação, e o mais formidavel de todos. O So-
cialismo, tào mal comprehcndido pelos seus ath-ersarios,
como mal definido pelos seus partidarios, foi transformado
n'um monstro, o famoso et:õpectro 1·ermellw: c o terror alJI"ia
caminho a uma reacçio tào geral e irresistivel que arras-
tou comsigo não SIJ o Socialismo, não só a HepuLlica, mas
ainda o prnprio regimen liberal e todas as garantias le-
gaes tão custosamente COIHJUistaclas.
O drama rumantico vciu a dar por toda a parte n'tuna
conclusão tragica. A Hungria foi esmagada, esmagadas a
Italia, a Uumania, a Polonia. Na Allemanha, na Austria,
o cezarismo dissolve os parlamentos nacionaes, rasga as
constituiçt,cs ll'te o susto lhe fizera jurar no primeiro mo-
mento de suqneza e estabelece solidamente e por muitos
annos o regímen militar. 1-.:m .França, ll"ondc partira o im-
pulso rcvolncionario, o Socialismo, torna1lo a execração
de todos os partidos, cae exangue nas barricadas de junho,
e o movimento reaccionario, uma lançado, não pára
sem ter destruido a republica, as garantias liberaes cons-
titucionaes, humilhado a democracia, e sobre todas estas
ruinas estabelecido o imperio conservador, ao mesmo tempo
rural, militar. bancario e clerical.
Taes foram os resultados da cvolncào romantica. l\Ias
a geração que a preparou e a podia pre-
ver taes resultados. A sua confiança era tão longa, como
vastas as suas aspirações : e se aquella era infundada, es-
tas eram generosas e alevantadas. Talvez nunca a historia
registraHse uma tão completa catastrophc, saída d'um tal
concurso de Lcllos sentimentos, de elevados intuitos, de
personalidades brilhantes e heroicas. Os promotores e fau-
tores d'aquelle movimento, os Lamartine, Ledrn Rollin,
Arago. Luis Blanc, Proudhon, Raspai]. ::\Iazzini, Garibaldi,
Manin, Gagern, Rusctti, Bem, Kossnth, e todos os que in-
directamente o prepararam, oradores, pensadores, poetas,
3.- O SOCIALISMO 387
Lammenais, Michelet, Quinet. Hugo, Sa))(l, t'ne, Leroux,
l\Iickiewicz, Uioberti, l\lanzoni, l'autn, !\I:uniani, Fener-
bach, Ilcine, formam urna plciade iucomparavel pelo ta-
lento e pelo caractc>r; e não admira que, apczar rlo vago c
do inenherente das suas doutrinas, dominassem tilo comple-
tamente o espírito da geração que atraz d'elles se lançou
fanatisada no caminho rle inevitavel d<'sastrc. (.\.de Quental,
Lopes de Melldunfa, no Openzrio.)
Em Portugal, varias causas concorri:uu para que
a revolução de 48 não chegasse a nascer. Era o
cançasso dos partidos, era a miseria da nação, era
a influencia de Rodrigo, epilogo sceptico da histo-
lÍa liberal. Era tambem a circumstancia de que
dos dois motivos do 4 ~ europeu, o democratico já
entre nós fôm ensaiado e ficara desacreditado em
36; e o socialista não tinha classes operarias fabrís
bastante numerosas para o fazerem vingar. Em vez
de uma revolução, tivemos uma Regeneração a que
os revolucionarios como José-Estevão, Lopes-de-
:Mendonça etc., adheriram, conforme sabemos. lHas
quando todos esses viram o partido novo tornar-se
cada dia mais velho; quando assistiram ao accordo
de Regeneradores e Historicos a favor das irmans-
da-Caridade, que era a questão ardente, separa-
ram se, para fundar o Futu.1·o, jornal, partido das
al:;pirações vagas de um romantismo serodio ctüo
chefe era José-Estevão. A ausencia de numerosas
classes operarias principalmente impedira antes a
revolução, e impedia agora o novo partido de ga-
nhar estabilidade. E como não chegou a haver
Iuc ta, não houve motivo para repressões: e como
uma das c·ausas da paz era a fraqueza, manteve-se
a liberdade por não haver interesses nem motivos
fortes em conflicto.
Opportunamente morreu o tribuno (nov. 4 dt:> 62)
que durante a vida não cessara de praticar nobres
L. \"1. -A REGENERAÇÃO -III
actos Como typo e symholo de uma
geração que nunca chegou a ter voz, passou para
o tumulu deixando os companheiros dispersos, en-
tregues á d.esillusão, absorvidos pelos seus traba-
lhos protissionaes. Ao Futuro succedeu ainda a Pu-
á o cluh do Pateo-do-Sa-
lema, d'onde saiu ainda a força bastante vara em
janeiro rle 68 derrubar os conservadores do governo.
Yeiu logo a revolução de IIespanha complicar a
situação com esperanças republicanas e intrigas ibe-
ricas ; veiu depois a guerra do Paraguay seccar a
fonte dos ingressos de dinheiro do Brazil: tudo isto .
declarou em crise o resto das antigas esperanças.
DelJanclaram todos, cada qual para seu lado. Os
excentricos ficaram esperando pela republica doira-
da ; os praticos, ou se alliaram aos conservadores,
ou se congregaram em reformismo opportunista. E
as velhas idéas societarias? Tambem a iniciação do
fomento influiu sobre ellas; mas a dureza do regime
capitalista da burguezia, em vez rle lhes fazer como
a politica 'realista fazia aos romauticos: em vez de
as reduzir a um pó de l'himeras, obrigou-as a de-
clararem-se em partido dos pobres contra os ricos,
n'uma guerra de classes, anachronica de certo,
mas ameaçadora. A Hespanha teve Carthagena, a
Franca teve ainda a Communa de 71: nós tivemos
umas" gréves apenas, por não possuirmos sufficiente
industria fabril.
Tal foi o caracter que o Socialismo tomou, sob
o influxo do Utilitarismo, sem que se veja ainda
que outro e melhor o espera. Dissipadas as chime-
ras, conquistadas as garantias indi,?iduaes, confe-
rida ao povo uma soberania negada ao throno : crê
alguem que tudo está feito? Espera alguem que
esse povo, soberano e mendigo ao mesmo tempo,
não reclamará uma revisão da legislação economi-
4. - D. PEDRO \"
ca? Perigosa teima será negai-o, porque ·as revolu-
ções inevitaveis, se se não consurnmarem de cima
para baixo, far-se-hão ao inverso, de baixo para
cima- como a labareda que sóbe crepitante!
4. - D. PEDRO \'
Esquecemos, n' estes suceessivos relances, o thro-
no. E entretanto em Portugal nunca deixou de ha-
ver monarcha. Depuis lle D. l\Iaria n, matrona an-
tiga coroada., vein o rei-artista, cezar sem amor á
guerra; depois D. Pedro v; por fim o rei actual.
O seu finado irmão era um romantico posthnmo.
Contava dezoito annos quando subiu ao throno (n. 16
de set. de 37; r. 551 e com um temperamento observador,
grave, desde creança o fcn·am impressionando os
episodios dE>ploraveis tla historia cl'esse tempo. Tem
o leitor presente a mt>moria de D. Dnarte, o infe-
liz rei, tão sabio, tão bom, tão cheio de terrores e
de escrupnlos? Foi como elle D. Pedro v «esse
pobre rapaz» que o destino condemnara a ser prín-
cipe. Já não estava nos usos consultar lJruxas e
adivinhos, mas o rei tinha em si o feitio de espírito
que pede milagres. Consiflerava-se predestinado,
ao inverso de D. para um fim breve
e funebre; via-se coberto de terra, mettidn n'uma
cova, imagem viva da morte, fatalidade ambulante
movido por uma sina triste. Era uma saudade, a
sua alma; e o batendo, parecia-lhe um do-
bre de finados! Saudade de uma honra esqueci1la,
dobres pela morte de um povo desditoso? Symbolo
de uma nação cada ver, considerava-se, elle rei, mi-
nado por todas as pestes. Roía o um remorso in-
consciente que o fazia apparecer bisonho e triste,
com um sorriso doentio na face, a mudez nos labios,
no olhar o quer que é de somnambulo. lnterpre-
L. \"1.- A REGENERAÇÃO -III
tando os acasos com o seu fado, explicando tudo
pela sua sina, achava em si a causa de muitas des-
graças. Quando o patriarcha voltava de o baptisar,
partiram-se-lhe as rodas da carruagem e caiu ...
Ans dez annos, já o príncipe tinha pesadelos que o
faziam scisrnar: uma grande ag·uia negra tornava-o
nas garras, levantava-o ao ar, deixando-o caír e
... A aguia tornava a subir levando
para os ares o mano Luiz. . . Tinha então dez an-
nos e contava os terrores ao seu 1nestre. \Bastos, Mem.
tio. de D. Pl'.iro n Depois chegou a crer que matava o
que tocasse. O general Loureiro morrera de apo-
porque elle o atH.igira com certos ditos. D.
Carlos de l\Iascarenhas mnrrera? porque elle o obri-
gara a um passeio excessivo. E o ('urso-superior,
o filho do seu amor ás lettras, era baptisado com o
cadaver de D. José d'Almada, CL•m a loucura de
Lopes de l\Iendonça! (.\ndrade Ferreira, nd,1, etc.) Tragica
figura dt' um rei que se acredita a má sina do seu
povo! :Kão seria elle o surnmario de urna historia
miseravel, o symbolo de uma nação pobre, o espe-
ctro de um povo caduco? viria como resultado
de trinta annos de rniseria, lentamente cristalisa-
dos n'um cerebro impressiouavel, definir com o seu
genio a epocha?
:-;e ás superstições funebres pi',de achar esta
razão de psychologia histot·ica, não é mistér appel-
lar para tão longe quando se oberva o outro lado
do seu caracter. Com olhos de pessimi:-;ta, e esses
e1·am os bons olhos para vêr Portugal, tinha em
tanta conta os que o rodeavam, cria tanto n'elles,
que mandou ptlr á porta do seu palacio uma caixa-
verde, cuja chave guardava, para que o seu povo
podesse falar-lhe com franqueza, queixar-se, accu-
sar os crimes dos governantes. modo de
conceber o seu papel de rei de urna nação livre,
4. - D. PEDRO V
parlamentar! Os ministros que não escarneciam
d'elle, principiavam a temel-o; outros a odial-o. O
povo começa,·a a amar a bondade e a justiça de
um rei tão triste. Já corria de bocca em bocca a
lenda do novo monarcha: um infeliz! E o amor
não era feito de esperanças, mas de presentimen-
tos funebres e de uma consciencia certa da fatali-
dade commum do povo e do rei. «Se elle podes-
se ! >> l\Ias entre elle e o povo simples havia de
Fermeio os politicos.-«Como o rei é justo, bom e
nobre! Nem quer que lhe beijem a mão, nem que
dobrem o joelho, nem quer matar um s6 crimi-
noso, o santo! Se não fossem os políticos!>> E esta
corrente de intimidade entre o povo e o rei cresceu
a ponto de se chegarem a formular votos pelo abso-
lutismo. (Th. Braga, Hist. do mm.J A alma espontanea dos
povos latinos, idealistas, sem os calculos, as reser-
vas, os planos de outras raças, só acclama os fados
simples: é inaccessivel ás fórmulas. Quem no meio-
dia quizer ser grande, seja forte, seja 1·ei: Pom-
bal, D. 1\Iiguel, Saldanha ainda, ou seja um bom
pae,- um bom protector do povo!
Como o seria porém D. Pedro v, se se acredi-
tava marcado por uma estrella funesta; se, fu-
mando como um estudante o seu cigarro, ouvia a
licção do seu mestre Herculano, licção em que ás
fórmulas liberaes-romanticas se juntava o ensino de
uma reprovação universal-dos políticos, um ban-
do ; do povo, um desgraçado? As fórmulas sabias
murchariam a flt_",r da ambiçã.o, se ella viesse a des-
abrochar, porque as jeremiadas do propheta em·ai-
zavam na alma do rei o seu pessimismo. Como que
abdica,·a, instruindo-se; e, f\lll vez de se entregar ao
officio proprio do seu posto, velava as noites a es-
tudar, os dias passava-os aferindo a realidade por
uma historia vista com oculos de metaphisicas ne-
392 L. YI. -A REGENERAÇÃO- III
bulosas, de idealismos mysticos. Parecia um me t11ge
somnambulo ; mas a mocidade, a virtude estam-
pada no seu rosto, ganhavam um encanto de me-
lancholia com essa perda das noites veladas. O dia,
a ln?. do sol, a realidade, os homens, tudo enOlo se
lhe affignrava um sonho : pesadelo triste, a sua
má sina! Quando não t>ra funebre, era ironico, E>pi-
grammatico: o seu reino parecia-lhe o peior da
Europa. Lera o livro de ALout La Grece contem-
e annotando-o, poz no titulo: La Gri_-ce-
et Portugal.
Ora Portugal já por fi'n·ma alguma era como a
Grecia contemporanea. Fôra-o sem duvirla, mas
desde que o espírito pratico vencera em 51, ccm-
quistando a si o primeiro dos palikaras portugne-
zes, Saldanha, todas as ambic;ões nacionaes f>st<tvam
tornadas para uma Beocia antiga, farta de cearas.
O genio do rei não chegava a conceher um ideal
tão mesquinho, e s/1 via o passado, com os olhos cé-
gus para o futuro iniciado. Elle era o fim de uma his-
toria, o epilogo summario de um tomo, inserido por
erro depois das primeiras paginas do livro seguinte.
Por isso lhe chamámos posthumo. Considerava-se
a si um nuncio da morte e via moribunrlo o seu
p_ovo. Estimaria que o eaminho de ferro se fizesse
com inglezes « para metter sangue novo nas veias
d'esta raça atrophiada)). Como se sabe, os opera-
rios cruzam com as camponezas e o caminho de
ferro ia atravessar o reino em dois sentidos. Singu-
lart>s, dramaticas deviam ter sido as conversas en-
tre o mystico príncipe e o Salamanca, o aventurt>iro
audaz das novíssimas emprezas que se propuzera
regenerar Portugal. O embaixador que as ouviu,
apresentando ao rei antigo o moderno barão ela in-
dustria e do banco, dizia que para descrever bem
a scena «seria necessario la pluma ele un Cervan-
4:. - D. PEDRO V
tes. ,, Salamanca, affectando gravidade
na sua face castelhana, como um Gil-Blaz, ouvia
D. Pt-dro que queria lllcir-se. O picaro confessava
a sua ignorancia : nem era philosopho. nem sabio !
um homem-de-negocios, senhor! E D. Pedro v con-
tava-lhe a nossa pobreza, a incapacidade de sus-
tentarmos caminhos ele ferro, filiando estas opinii)es
tristes no quadro luguhre da decadencia das ra-
ças latinas. Saindo, o emprezario sagaz, que estu-
dando um doente vira um homem, disse para o
embaixador companheiro: «Deus nos lin·e ele que
este rei tivesse os meios e o valor das suas con-
viccões. ,,
:Óe casa do filho, foram amlJos a casa do pae.
Que mudança! Tambem Salamanca era
tambem apaixonado pelo bric-à brac, dt-rradeira
poesia dos scepticos; tambem sybarita, rh.:eur aris-
. tocratico, clistincto, palaciano. << Pnrecian hechos el
uno para el otro)). Yiram os museus, commenta-
ram as faianças, os charões, as porcdlanas, os
quadros, rindos como gréculos. O pensamento de
ambos, inconscientemente, nadava na expressão
classica do papa da Renascença : Quod cummoda
da Deus otia, Ch risti .' « Quedaran en-
cantados.)) E partt rematar a amisade, o rei D.
Fernando fazia indirectamente a apologia dos po-
vos latinos, confessando o seu desamor pelos ingle-
zes que maltratava. (V. Desp. de Pastor Dias, 10 dez. Sg ap.
Rios, .\lisi_tzJ Triste engano do acaso, que invertera o
lugar proprio das pessoas. O pae devia ser o rei;
o filho o principe que, sem os cuirlados do throno,
acaso teria tido, no Portugal novissimo, o papel ele
D. Henrique no de Aviz -o papel de um inicia-
dor na scieucia !
L YI. - A REGE:-.ERAÇÂO - III
Quem se não lembra de ter ,·isto o rei, attento
como um discípulo, a ouvir nas salas do seu Curso
as lições dos professores, com o aspecto grave, a
mão cofiando o pequeno bigode, denunciando a
acti,·idade do seu cerebro? Porque lhe não con-
cedia a sorte vi,·er a vida para onde o seu genio
o l'hama,·a? Porque a sua sina era perdida e uma
estrella má o condemna,·a a E>lle a reinar, e ao
reino a padecer as consequencias de um destino
cruel. A bofetada que a França nos deu, vindo
buscar armada ao Tejo o negreiro apresado em
Africa, arroxeou-lhe a face, e o rei chorou affiicto.
Y eiu uma epidemia ele cholera E>m ü6 ; outra de fe-
bre-am<lrella em 67; ,·eiu a irritação cruel das ir-
rnans-da-Carida!le. As desgra<;as, os Pmbaraços te-
ciam a rede de malhas ce1Tadas em que se lhe afo-
ga,·a a existencia; sem lhe occultar, mostmnd.o-
lhe sempre, fatídica, a estrella má do sE>u destino.
um sceptico tem superstições- contra-
dicc;ào sô apparente, e de resto vulgar, do espírito
humano -não reage, obedece; não resiste, cae.
Quando ellas atacam um mystico, fortalecem-no
com uma coragem transcendente. D'ahi os
monges heroicos, stylitas e outros. A alma de um
santo que havia em D. Pedro v, retemperada pelo
estoicismo aprendido nas licções de sua nobt·e mãe,
mostrou-se quando Lisboa dizimada o via passar
nas ruas, visitando os enfermos, caminhando para
os fócos do contagio, como um Isaac para o sacrifi-
cio bíblico. O amor do po,yo tornou-se então uma
vaixão; e corriam as anedoctas com que a imagi-
nação popular cristallisa os heroes. :Mandara a um
medico medroso descalçar a lm·a para tomar o
pulso ao enfermo. E se Portugal já tivera em D.
Sebastião um rei Arthur, não é verdade que se
formava uma lenda, diversa sem ser menos bella: a
4. - D. PEDRO \
lenda da santa rainha de Hungria, ou do rei santo
de França? Nas pestes milanezas, o Borromeu ga-
nhou a canonisaçào; nas de Lisboa, D. Pedro v foi
-canonisaào pelo povo. E quando, quatro annos de-
pois, morreu, na aureola da caridade o povo en-
gastou palmas de martyrio.
Nas angustias d'esses dias affiictivos, o moço,
infeliz rei achar-se hia bem, sem o crer, sem o pen-
sar, sem o sentir. Assim a cevadilha só floresce
nos terrenos da malaria. Assim os maus só crescem
no seio da pravidacle. Tambem os temperamentos
funebres, com o espírito feito de presagios, se pra-
zem no seio das desgraças. Elias vêem como con-
firmação dos presagius. E nada affiige mais o ho-
mem do que a duvida, quando o que o rodeia
não obedece ao que pensa, ou ao que sente. Como
não viria a peste, se a estrella do rei era mortal?
Cumpria-se o fado da sua existencia. Os presagios
não mentiam; o seu coração falava verdade. E
esta affirmação externa do seu sentimento intimo,
afogava-o mais, cada vez mais, nas suas supersti-
ções funestas, no seu pessimismo ingenito.
Em taes momt>ntos, os temperamentos como o de
D. Pedt·o v raras vezes caem : quasi involuntaria-
mente requintam. Formula-se então em doutrina o
que era apprehensão. O acaso, segredo ou mysterio
do Universo, torna-se Providencia; e, quando :;e é
christão, por via de regra, entra-se nos moldes co-
nhecidos, que tantos my;;ticos formularam, desde
Alexandria até l\Ianreza. A religião arde como
chamma a que se dá, em novo combustível, a somma
de apprehensões coordenadas. Era D. Pedro v chris-
tão? ou apenas deísta á moda romantica, isto é,
reconhecendo no christianismo a mais pura fórma
de deísmo até hoje concebida? Não sei. As licções
de Herculano, os livros modernos da sua leitura
...
L. \"1.- A REGE!'ERAÇÂO- III
deviam ter abalado a sua orthncloxia; mas os espí-
ritos rornanticos, na inconsistencia das doutrinas,
na poesia dos St>ntimentos, conservavam sempre
aberta a porta para o arrependimento. E tantos
foram os que, penitentes, se curvaram beijando a
terra: tantos, tão dignos, tão nobres, obedecendo
tão espoutanea e sinceramente, que l1esitamos em
dizer se o rei teria ou não sido um cresses.
A occasião levava a um tal fim a vida mornl de
D. Pedro v, quando o casarnen to 118 de n1.1io de S8)
trouxe para o seu lado uma rainha piedosa, can-
dicla, pura, como anjo que vinha, entoando os
canticos da Egrej::.t, acompanhai-o a bem morrer,
ou mostrar-lhe, apparição fugitiva, n ~ p o r o s a Bea-
triz ele religioso encanto, o paraíso que o espt>rant
dt>pois da selva escura da existencia terrestre. Ti-
nha vinte e um annos Dona Estephania, (n .• s iulho 37>
quando casou com o rei que contava eclade egnal.
Eram duas creanças? Não; apesar elos annos. Por-
que a elle a imaginação tinha-lhe feito viver já
uma longa existencia ele pensamentos, presagios e
angustia::;; e a rainha desde cre:mça v asara toda a
sua bondade angelica nos 1uoldes da devoção ca-
tlwlica. Apesar dos mmos, pois, eram ambos, em
moços, como se já fossem velhos; e a t>clade jun-
tava ao encanto cl'esse par tão nobre, tão cheio de
sympathia. Elia tinha retratada a candura da sua
alma na suave expressão de um rosto meigo ; e o
rei, no aspecto carregado, mostrava a força elo seu
caracter, a tristeza do seu espírito. Um pre:senti-
mento tragico assaltava quem os via passar nas
rua::; da cidade: nenhum dos dois parecia bem d'este
mundo- elle urna victima expiatoria, dia um anjo
custodio! ·
A devoção da rainha e a superstição do rei da-
vam de si urna authoridade espontanea á primt>ira
4. - D. PEDRO V
no espu·Ito do segundo. Era então o tempo em
que a questão das irmans-da-Caridade, complit:!ada
com a politica, se tornara um espinho irritante; e
a rainha devota e o rei funebre CoJnieca,·am a ser
accu::;ados de clericaes e Com f!f-
feiro, nenhum dos fi)ra feito para o throno. Ti-
nham detuasiada virtude, ambos, para reinar em
qualqller ·das nações latinas, sobretudo em Portu-
gal. A sua sinceridade não era comprehendida, e
arrisca,·a-os a soffrer as consequencias ele uma po-
litica desalmada.
D. Estephania morreu a tempo (julho de SgJ, antes
que se desmanchasse ás mãos àuras de quem não
tinha coração para a amar, a cristallisação poetica
formada no espirito do povo sensível com a sua
formosura angelica, com a sua de,·oção ingenua,
<!OIU a sua caridade fervente. )lorreu, e ainda bem!
E como quando no meio da charneca desolada e
secca, fatigado, o viandante depara com um puro
.arroyo cristallino, e bebe: assim nos acontece a
IHÍs deparando com um typo de candura e poesia
na vasta charneca de urzes cl'esta historia. Que im-
porta morrer? )!ais vale que o arroyo logo se per-
sorvido por alguma fenda. . . Se corresse e se-
guisse atra,·ez do chào empoeirado, não é verdade
qut:' as suas aguas se haviam de sujar, misturan-
do-se com as gredas do solo e as folhas podres das
urzes?
)las o pobre rei, mais a sua sina fatal, quando
se viu só, depois dos breves mezes de casado, mais
se enraizou ainda nos seus presagios. Era a morte,
elle que matava tudo o que tocava. Yia-se já nos
ares arrebatado pela agnia negra dos seus pesade-
los. Sentia sobre si o peso de muitas vidas ceifadas;
L. VI. -A REGENERAÇÃO - III
e, chorando, lamentava o seu triste isolamento. Não
estaria cumprido ainda o seu fado? Que novas dt>s-
gr aças havia de causar? (:luando llte seria dado
terminar o seu desterro d'este m .ndo
1
para ir n'um
céu, Yisto em sonhos, sentar-se ao lado do anjo que-
para lá fugira? Como uma pomba branca Yoando-
breve no horisonte da sua vida, tocando-lhe com
a aza a face a dispt>rtal-o dos seus sonhos tristes,.
assim passara a idolatrada rainha, assim fugira,
assim desapparecera no seu vilo. De longe, accena-
va-lhe agora. Era a Beatriz dos seus pensamentos.
mysticos: não uma Laura de ahlores humanos.
Assim um novo motivo de tristeza se juntava.
aos anteriores; assim tudo ganhava um caracter·
fatidico para o espi1 itu do rei. A fatalidade estava
n'elle, e não nas cousas. (:lnando um relampago.
azulado illumina a noite, tudo nos apparece azul.
Caía triste o outomno de 61: havia dois annos que
D. Estephania morrera; quando o rei e os príncipes.
foram a Villa Viçosa caçar, e voltaram de lá enve-
nenados pt>los miasmas de um charco dlas jardins.
Eloquente symbolo, porque os miasmas do charco
portnguez eram o veneno que o rei tragara no berço
e lhe fizera da vida uma enfermidade chronica.
As mortes galoparam rapidas como na ballacla
de Burger. Caiu primeiro o joven infante D. Fer-
nando, e o rei tinha a certeza ele morrer tamhem.
Já no leito ardia com ft-<bre delirante. Em frt>nte-
do palacio, fundeada no rio, a corveta Esteplwnia
de espaço a espaço soltava um tiro- como o ba-
teJ' do rt>logio lugubre da morte. E esses tiros ou-
via-os o rei, chamavmn-no, davam-
lhe GS desejos de acabar por uma vez com a viela
miseravel, para ir abraçar no céu a Beatriz do
seu delírio. Se a voz dos anjos podesse ser o troar
dos canhões, não era ella que o chamava? Talvez;
4. - D. PEDRO V
3!19
porque os tiros chegavam á camara do rei, já bran-
dos, como um ecco, um murmurio, e vinham do
navio que tivera o nome d'ella- Estt>phania! Se-
guidos, constantes, infalliveis como um destino, re-
petiam-se; e o delirio do rei, interpretava-os: eram
vozes! A sua vista conturbada já perdera a noção
da rea:idade; e vivo ainda, já se julgava transpor-
tado ás regiões sonhadas n'uma longa existencia de
vinte annos ...
Dizem que na agonia murmurava os threnos de
Dante:
Per me si vá nella citá dolente .. .
Per me si vá n'ell' e t f ~ t · n o dolore .. .
No largo do palacio o povo espesso, na sua af-
flicção, dividia-se entre as lagrimas e as coleras.
Era um espectaculo antigo, como quando outr'ora,
nos seus pequenos reinos, os reis eram pae::.:, pro-
tectores, quasi idolos. A um povo desgraçado, a.
desgraça do rei apparecia como symbolo dos pro-
prios infortunios; e a crueldade de uma estrella
funesta tinha o condão de ferir ainda a alma de
uma gente já descrente e scepticamente regenera-
da; tinha uma virtude que decerto não teria tido
o talento, a audacia, a ambição de um rei heroe.
A morte no paço era symbolica, e a turba obede-
cia inconscientemente a um cl'esses movimentos de
psychologia collectiva, tão mysteriosos· ainda. A
morte no paço era o symLolo da morte no reino, e
por isso, repetimos, na sua affiicção, o povo divi-
dia-se entre as lagrimas e a colera. Os oll1us cho-
ravam a sorte do rei, a sorte de todos! e o sangue
pulava nas veias contra os réus do assassinato-
do rei? da nação? Envenenadores, salteadores, bur-
lões, homicidas!
-11 I( I
L. YI. -A REGE!':ERAÇÁO -III
Quando tinahnente se soube que D. Pedro v ti-
nha expirado (I I de novembro de I86I)
7
o damor das co-
leras reunidas soltou-se, extravagante, aLsurdo,
cruel, mas incon::;cientenwnte justo, como é sem-
pre o povo em massa. U symLulo do J u.izo-de- Deus,
grosseira expressão de um mysterio de electrici-
dade popular, via-se no calor com fpte pelas ruas,
:Q.'essas noites attribuladas, a turba corria procla-
mando a sentent:a final de uma historia miseravel.
Partiam its as vidraças dos palacios dos
!Jrcmdes, pediam as vidas dos ministros, tombavam
ela sua carruagem e deixavam por morto na es-
trada o typo dos amoucos du palacio. Todos t:'rmu
réus.
Tinham envenenado o rei ! Tinham envenenado
tudo! Tinham roubado, tinham vendido, tinham
retalhado o povo, o reino, a fazenda, e a nossa
miseria era a consequencia dos seus crimes. Agora
este queria para si a corGa, aquelle queria ven«ler-
nos a Castella: queriam toclcJs a desgraça do povo.
Havia ahi partidos? Não; esse clamor provocado
pt:'la morte do rei martyr t:'ra uma condemna<;ào to-
tal, mli\'ersal, espontanea! Era um ultimo adeus
ao ultimo dos reis amados, um dissolver da monat·-
chia, em lagrimas tristes, soluçadas!
Objectarão os homens seccos que umas compa-
nhias ele tropa Lastaram, para emmwlect:'r as vozt:'s
desvairadas da turba. E verdade. Nem de outro
modo podia ser. As revoluções não saem dos tumu-
los. As covas provocam lagTimas (' arrancar de
cahellos. -:\Ias o que historia importa agora, não é
a força d' t:'Ssas turbas atllictas, pois sabt:'mos todos
por que vias a nação chegara a sentir crava«la em
si a t:'Strella fatídica do rei; pois sabemos todos que
pessimismo intimo, que desesperança absolnta, qu.e
vaga tristeza, que anemia organica, a historia de
4:. - D. PEDRO V 401
meio seculo nos trouxera. Xão é pois uma força
que todos sabemos extincta, é o caracter do pro-
testo, é a :natureza dos clamores condemnando a
cGrte e o governo na sua totalidade, os partidos,
os estadistas e a historia: é esse caracter singular
que tem para nós uma gt·avidade reveladora ...
As companhias de tropa acalmaram a turba; e
quando se fez o enterro, só já se ouvia o sussurro
languido dos soluços. Cem mil pessoas estavam nas
ruas. Tambem o azul do céu de Lisboa entristece-
ra, tambem se cobrira de dó n'esse dia nublado
€ triste; tambem chorava lagrimas, ennegrecendo
com chuva o basalto das calçadas. aDeus mandou
a chuva, para até as pedras vestir de luto! » di-
ziam mulheres carpindo. E todos ouviam os solu-
ços murmurar, como se ouve o bater das azas
quando passa nos ares um bando. Eram esperan-
ças, aladas, brancas, fugindo tambem, voando!
PORT. CONT.- TOM. II
IV
CC) :i\" C
1. - AS Ql-ESTÓES CONSTITliCIC'NAES
Com o finado rei desappareceram as irmans-da-
Caridade. 0 successor expulsou-as, liberalmente,
sempre em nome da liberdade! e seccas as lagri-
mas, esquecido o passado, rasgados os crepes, tam-
lJem o throno se t:>ntregou nos braços da Regene-
ração. cGrte onde reinara o mysticismo deYoto,
rt·inaYa agora catlwlicamente ao lado do monar-
cha, por esposa, a filha du rei excommungado da
ltalia: sempre fie.is religião! X'mn systema de
f,',rmnlas, mais do que nunca vasias da realidade,
liberalismo, catholicismo, que são? Ilypocrisias in-
conscit:>Iltes de quem não tem na alma a força, nem
na nwnte a capacidade de conceber e defender
idéas. Velhos bordões rhetoricos, políticos, ou como
escoras de madeira carunchosa, pintada para illu-
dir, aguentando o edificio desconjuntado.
Em 68, como já vimos, houve a sombra de uma
revolução contra a sombra de uma tyrannia. Em-
buçada logo ao nascer pelo duque d 'A vila, veiu
com o tempo achar no bispo de Yizeu o seu defi-
nidor. Singular povo! singular revolução! Já se
pensou bem no valor psychologico d' esse movi-
mento? Que reclamava, que promettia, que applau-
dia? Negação tudo.
1.- AS QUESTÕES CONSTITUCIO;-;.\ES 403
Nem uma s6 palavra affirmativa. « 1\Ioralidade,
econl•mias! » Esse programma patenteava o vasio,
porque nenhum jámais préguu a corrupção
nem o desperdício. l\las praticavam- nos am Los, os
reg-eneradores? Era pois uma questão de homens,
nada mais.
Não paremos, comtudo, aqui. O pessimismo cons-
titucional do caracter portug·uez via tamhem no
Bispo outra cousa: um Luta-abaixo! Os derroca-
dores foram os unicos homens acclamados pelo povo,
desde que em 1 >-i::W se declarou a crise: por esta
raz:lo simples de o povo ter a consciencia da po-
dri,lão universal. Além d'estas negações que havia?
Porto, uns mercieiros lesaflus pelo imposto do
consumo, que se cotisaram para fazer arruaças; em
Lisbna uns conspiradores platonicos que, apesar de
já terem distribuído entre si os cargos da republica,
se declararam satisfeitos com a quéda da Regene-
ração. O duque d'Avila preenchia bem o lugar de
porta-voz da revolução! .K'esta éra nova iniciada,
o duque tornou-se a bomba-de-choque para amor-
tt=>cPr a violencia das transicões.
Yeio a revolução de complicm· as cou-
sas de um modo suLito; veiu a guerra brazileira,
Laixamlo o cambio, seccar o riu de dinheiro que
annualmente vasava no Thesouro para o alimentar
a elle e nus sustentar a n1ís. Aggravararn-se as
cuusas, cresceram us perigos: a nação pedia um
demolidor! Bota-abaixo ! ::\Ias como ninguem sabia
que pílr em lugar do existente, o sentimento accla-
mador do Bispo era uma g•·itaria van de gente pos-
sidonea, e consolava os conservadores vingados. De-
molir é facil, mais duro o construir. Derrubar pare-
des arruinadas, qualquer hombro o púde; mas levan-
tar novos muros com os materiaes velhos, ninguem.
E que nova materia-prima existia? Nenhuma. Ho-
40-l L. \"1. -A REGEI"ERAÇÁO- IY
meus? Zero. llléa::;? 1\Ienos. O fundo do sacco das fc)r-
mulas liberaes era pó. :Kc)s tinharnosjit vasado tudo;
e depois de tudo isso já Rodrigo, mostrando o ave:3::;0
com uma careta, como um arlequim n'um taLiadu
de feira, viera dizer, «meus senhores, peça nova!»
Agora os discipulos, st>guindo o mestre, volta-
vam. Pois que querem? Falta ainda alguma cou::;a
á LiLerdadé? Pois h a, devéras, omissão? Querem
reformados os Pares? Porque não 'I Suifragio uni-
versal? Tamlwm. E viu-se os cunserntdores faze-
rem o que a revuluçiJ.o nilo fizera; viu-se alargar o
direito de sufi'rHgio, st'm qué longas, prévias cam-
panhas o exigis::;em. E ningnem o exigia, porque
jit passara o tempo em que se esperm:a nas altera-
ções de fc)rmulas. E fizeram-no os conservadores,
porque tinham visto em França K apoleão dar-se
bem com isso; e salJiam que quantos mais campu-
nius votassem. maior seria o poder formal-e P"-
sitivo, pois fc)rmulas, apparencias são tuJo- de
cada um dos barões ruraes, de cada um dos senho-
res da finança que nas cidades compram a dinheiro
os votos da plebe. lJesde que no espirito <l'essas
plebes a loucura setembrista se acabara, que pe-
rigo havia em lhes dar a soberania? Nenhum, de
facto; se) a vantagem de bater o inimigo reformis-
ta com as suas armas, e consagrar mais uma con-
quista da liberdade.
Este facto curioso mostra ao critico uma das
feições da apathica physionomia nacional. O lL•itor sa-
be que 33 não saiu do sangue da nação, como um
Foi uma conquista á mão-armada, que substi-
tuiu a classe governativa do rt'ino. No da
historia que narrámos, o facto da separação do go-
verno e do povo cresceu com o descredito do pri-
meiro e com a miseria do segundo, até que RodrigcJ
veiu confessar que «comprando-se feitos depu-
1.- AS QCESTÓES CO::'I:STITUCIO"'AES 4()5
dos e casas» era tudo uma comedia; até que o
povo, percebendo-o, poz de banda o bacamarte de
guerrilheiro, deitando-se á enxada e esperando em
casa o politico, para lhe pedir estradas, isenções
de recruta, e uns cobres pelo dia perdido com a
UJ"na. Consummado este accordo tacito, houve logo
paz e liberdade. Os políticos bulharam de palavras:
já não havia guerrilhas; e o povo deixou fazér leis
sobre leis em Lisboa. sem dar por isso. Cada qual
vive como gosta, e Portugal é verdadeiramE:-nte
agora aquelle torrão de assucar de que falava o
corregedor de Vizeu. Falstaff e Prndhomme fazém
bem as suas digestões, e considt=-ram este canto
occidental do mundo o modt·lo das nacões Ji,-res.
E é, com effeito, é. Corno não haveria" liberdade,
se não ha opiniões diYt>rgentl=!s? Yiu-se já tamanha
paz? tão grande accordo? póde deixar de ha-
ver paz, concordia, libt>rdade, entre os por-
tuguezes, desde que todos elles, corno uma boa po-
pulação de provincianos, chegando ao cumulo da
sabedoria salomonica- ranitas vanitatzun! desco-
briram que no mundo ha só dois home-ns, Quixote
e e que só o segundo é credor de applau-
so. Opiniões, partidos, paixões, esperanças? Fumo,
meus amigos. Xohreza, ju:.tiça, virtude, heroismo?
Poesia! Espantado com a nossa dizia-me
alguem uma vez, perante a sala das côrtes : « Yeinte
amigo veinte curas ... y todos libe-
rales! )) Com effeito, n'este «jardim da Europa á
beira-mar plantado))' até o clero, combatente em
França, na Belgica, na Allemanha, é liberal. ((To-
dos liberales ! )) Alguns extasiam-se com isto; ou-
tros, sem patriotismo nenhum, acham que esta li-
berdade prova um entorpecimento deplora-vel da
in telligencia e do caracter. São modos de vê r diffe-
rentes.
4116 L. \"1.- A REGENERAÇAO- I\"
O leitor já sabe que as populações, indifferen-
tes, alheias ao govt:'rno do paiz, só reclamam que
elle lhes dê obras-pulJlicas e lltt'S torne o mais doce
possível o recrutamt:'nto. Enriquecendo, pouco se
lhes dá o resto. Nas aldeias sàtJ políticos os em-
pregados, nas cidades os bachareis : por toda a
parte os que vivem ou aspiram a viver do The-
som·o. Os trabalhadores, os rendt'iros, os pequenos
proprietarios «não qnert:'m saLer d'isso» e no fun-
do, in::;tinctivamente, uesprezam o politico pela ra-
zão simples de o Vt:'rem dt'pender d'elle para os
votos. Dt'sprezam,· mas não lhes passa pela cabeça
o supprimil-o. Para que? Isso não rt:'nde; e entre-
tanto arderia a ceara. Até ahi cbega o instincto,
e instruceão não têem llt'nhuma.
)las niTo é raro, antes commum, e n'um sentido
até nornwl, verem-se populações, embora sobt:'ra-
nas de direito, viverem sob o go-
verno de minorias, ou aristocraticas ou burguezas,
a que a riqueza ou a illustração dão a ft•rça. Com-
rnum é tamLt'm que classes directoras exista
a consciencia do facto, e p1Jr systema ou interesse
se procure manter esse estado social: foi o pt:'nsa-
rnento do dontrinarismo em França, na Hespanha,
e foi até entre nús a idt-a dos cabralistas . .:\Ias
dt'sde que a democracia vaga e sentimental de 48
destruiu similhante plano, condemnando o machia-
velismo liberal dos authores, o Íàcto, embora
cuntt:'stado, manteve se por outras ft'.rmas em toda
a parti:' onde essas classt:'s directoras tiuham, com
a consciencia da sua força, a illustração bastante
para go,·ernar. D'ahi saiu o cezarismo francez. Ora
o triste em Portugal, e acaso o primeiro moti,·o da
physionomia singular da naç:to, é a ignorancia, ou,
peior ainda, a sciencia desordenada nas classes me-
dias. Todos sabem de que genero é a educação se-
1.- AS QUEST6ES CO"'STITUCIONAES '107
cundaria; todos sabem o qut> é a instrucção supe-
rior, em tudo o que não diz respeito ás profissões
technicas (medicina, engenharia, etc.) cuja impor-
tancia é para o nosso caso subalterna. Com tal en-
sino se cria em Coimbra um viveit·o de estadistas
qu'3 annualnwnte cáem sobre Lisboa pedindo fama
e empregos. O propri .... tario é em geral illetrado, o
capitalista é brazileil·o. A fortuna dos ricos, a sorte
dos pobres, vão pois guiados por uma cousa peior
ainda do que a ignorancia- a sciencia falsa, pe-
flante sempre.
Que algnem se atre,·a a dizer a sombra de uma
verdade e serA con1lt>mnado. (lue alguem se lem-
bre de Lolir n'nm qualquer dos idolos do tempn, e
sení apedrejado -liberalmente! Por isso a liber-
clade que proYém da apathia parece ao critico o
symptoma do contrario da vida: da verdalleira
liberdade forte, indep(:'ndt>nte, na concorrencia de
opiniões conscientes e Por isso w)::; apre-
St>ntamos c:tracteres singulares. LI''Íam-se os jor-
naes, ouçam-se us discursos. Xinguem fala mais
de JU7po, flesc-ulpt>m a expressão. De quê? De
tuflo. Os Pico-de-1\[irandola, senhores de si, ana-
fatlos, satisfeitos, sempre na rna, sempre verbosos,
com as cabecinhas álerta, a resposta prompta, a
bre\·e, um andar miwlinho de pedante,
um livrinlw azul dl'Laixo do braço se não são ja-
notas, nos miol11S a consciencia du seu sabt>r, da
nê'rdade dt>finitiva da «sciE:-ncia modE-rna», uma
grande prosapia ingt-nna, uma grande segurança e
eutono: os Pico-de-l\Iirandula, que sejam conser-
Yadores ou demagogos, dt->pntad11s da dirt:'Íta ou
rabiscadores de jornat>s esqul:'rdos, têem uma phy-
sionomia commum. A patria. são elles; a sciencia
sabem-na toda, a mudl-'rna. 8f)mente uns acham
que é mouerna a que já governa, outros fossil a
L. VI.- A REGENERAÇÃO- I V
de hoje: só verdadeira a de ámanhan, quando el-
les derem a lei !
Pêccos fructos de uma arvore contaminada, se
dão um passo Um dos phenomenos curiosos
em Portugal é o de,·orar dos homens pelo governo.
Hoje sobem, :hnanhan somem-se, corridos, despre-
zados. Porque? porque a arvore, secca, apenas
tem vida para reconhecer o seu definhar, para
desprezar os que no seu pedantismo ingenuu, mais
ainda do que na sua corrupção, successi,·amente
se lhe seguram aos ramos. Outro phenorneno é a
facilidade com que a opinião muda n'essas classes
directoras da sociedade portugueza. Como um ca-
tavento, sobre um pião giratorio, batido, movido
pela brisa le,·e, assim anda o juizo dos homens
gra,·es. Se lhes falta o alicerce do saber, e mais
ainda o alicerce social de raizes lançadas pelo meio
das classes vivas da sociedade! Se são um rifaci-
mento, uma superfetação politica em um povo que
nada qtier saber do governo! Assim os vereis hoje
em solemnes relatorios declarar a patria á beira
de um abysmo, e ámanhan com egu:tl entono cha-
mar a Portugal um primor, á sua condição aben-
çoada! Yirarem os cata ventos políticos, é caso
vulgar, individual apenas, em re.!imes anarchicos;
mas girar de tal modo a opinião sobre os proprios
sentimentos essenciaes de uma nação, seQão é
unico, é raro: hoje ibericos, ámanhan nacionalis-
tas-; hoje tudo negro, árnanhan tudo azul; hoje ar-
ruinados, ámanhan opulentos- quem vos entende,
ô sabia gente?
Entende-vos o critico, venclo n'este agitar de
opiniões como as rasteiras nuvens de poeira tonta
que ás vezes o vento se diverte a mover sobre uma
larga campina: indifferente, o chão fica immovel.
Assim os ministerios succedem aos ministerios sem
\
1
1
-AS QUESTÕES CONSTITCCIO:'<IAES 409
haver mudança. E que alteração poderia dm· se,
não existindo forças moraes vivas, nem questões
economicas ardentes? outra cousa ha a fazer
senão ir, mansamente, deixando o tempo correr:
dando mellwmmentos ao campo, consolidando no
Thesouro os dinheiros do Brazil, despachando o
Pxpediente, comprando algumas armas e naYios
por distracção ou simplez "! Xà.o falta qném Rince-
ramente creia serem as cousas sua natureza
assim, assim as nações-a-Yaler, assim o mundo, as-
sim a realidade. O resto"? sonhos de poetas, lJilis
de homens amaréllidos! Vamos indo assim
7
que Ya-
mos bem.
Outros pensam, comtuclo, de um modo diYerso.
Ha nos seus postos. dis_tantes, c•gual-
mente desarraigados da nação, o pessoal inteiro ela
Repuhlica salYadora, scientifica, patriota, federa-
lista7 vermelhissima. Quem observa: descobre logo;
um é Robespierre, outro um sotfriYel )larat; não
faltá Desmonlins, e Theroigne ele .:\Iericourt jit préga
ás massas. E' um velho cliché jacobino, sem l>an-
ton, é verdade! um cliclu; jacobino enverni-
zado de novo. E' tambem uma poeirada que pas-
sa; mas quando a atmosphera está incerta, de um
para outro momento vem um agnaceiro que preci-
pita o pó, e pousa sobre o chão uma camada de
lodo. O tempo a seccará breve, o Yento a leYan-
tará outra Yez em pó, mas entretanto de nm
se h a de atolar.
E' pruvavel essa revolução possível? TalYez;
porque a nação não tem força para a impedir, e
os conservadores vivem da fraqueza alheia e não
de energia propria. Talvez, porque, se não ha
quem a evite, as cousas concorrem para a provo-
car. Será proxima? Ninguem u póde dizer: é ma-
teria de acaso. Tanto póde ser ámanhan, como
410
L. \"1.- .-\ REGENERAÇÃO-- 1\"
d'aqui a bastantes annos. Todos concordam em
que ·isto
7
se não houver tropeços, ainda pcjde du-
rar. Quem sahe se os demagogos de hoje ficarão
na historia como os da geração precedente, acan-
tonados pela força <las cousas nas mesas das secre-
tarias?
Talvez assim venha a succeder, e talvez não.
Ila poucos annos dizia algnem que esta vamos <<a
peclir bispo». de haver outra jrweirinha
7
e
bi.o::po será a quéda da monarchia constitucional.
Em rebentou em furi<ts o tumor historico portu-
guez ; e para essa data futura uma puncçã.o vasará
a agua cpte existe no ventre da hydropica Liber-
da,_h·. Ver-se ha então como cheira e a que sabe.
E::;se inciclente politico é necessat·io por ,·m·ias can-
sas, particulares e geraes. As primeiras demandam
estucln mais demurad11 a qne passaremos já; as se-
gumlas estão na atmusplwra que as nações latinas
respiram actualmente, atmosphera viciada mais
ainda entre nús pela desurdem intellectnal atraz
esboçada.
O jacohinismo não acabou ainrla. Como um ca-
maleão, quando vestiu a cílt· elo romantismo fez-se
munarchia parl<llllentar; mas falta que se faça ou-
tra vez repuhlic<t radical, federalista, naturalista,
positivista, porqne, sem ter consnmmado:a destrui-
ção dos ,·elhos a sua missão não termi-
nou. O org·anismo futuro das nações nãu pod(·ní
formar-se emqnanto o n·lho organismo não ti,·er
acaLarlo lle se dissoh·er inteiramente pt:>lo classico
aplwrismo: corpurrr non a!Jllnt nisi soluftt.
depois d'isso se o Estado e a
democracia achar<Í a definiç?to que vem pedindo lta
um seculo, sem a encontrat·. ru.e clwnrwtis in de-
serfo7 ninguem lhe responde, por isso que a icléa
individualista-espiritualista, consen·adora ou jaco-
1.- AS Ql'ESTlJES CO:>iSTITl-CIO:'\.\ES 411
binamente expressa, tyrannisa ainda as intelligen-
cias. ::\Ias jà hoje do corpo das sciencias naturaes
sae esta definição: a sociedade é um organismo
vivo, contradizendo a definição de q nasi um seculo :
a sociedade é uma ficção, o individuo humano a
unica realidade. Esta idéa nova, que todos os
conquista partidarios, encontra a contra-prova nos
factos economicos e nas tradir;ues da historia. A ci-
vilisação de um po,·o apresPnta os mesm•JS pheno-
menos que a e\·olução progressi,·a de qualquer in-
dividuo animal: especialisação de funcçues, ddl.ni-
dos orgãos, cohesão de mo,·imentol3
7
centralisa-
eào de commanclo. O é como um cerehro.
" já hoje crê em milagres, e nwnos do
que em nenhum outro no do direito di,·ino. Entre-
tanto, é mistér \;êr, n'essa concepção transcemlente,
o syrnlJOlo de uma irléa positiva. O espírito colle-
ctivo nunca errou; e a historia não é mais do que
a explicação succe::;si,·a dos enygmas por milagres
symbulicos, e afinal dos milagres pelas idéas na
sua pureza. O direito divino era a expressão reli-
giosa, ou, se quizerem, metaphysiea, •la s:Jberania
popular. À nação personalisa\·a-se n'um rei, da
mesma fórma que a hmnaniuaue se personali:;ant
n'um D··us-homem. Desde que nJ:o ha direito-di-
vino toJos são dt->moeratas, isto é, todos põem no
po,·o a origem da authoridade: resta de::;cuhrir as
fúrnmhts adequadas· ao exercício d'essa autlwri-
dade. Xo direito-divino a f,írmula era a hierarcltia,
a cla::;se. X a democracia, o criterio é a Egualdwle;
a fôrmula acha-se na realidade das funcç-;Jes orga-
nieas da sociedade. Xu direito-di,·ino rege a vun-
tade da pessoa svmholo do monareha: na democra-
cia a vontade d;s cidadãos. '
N'este momento se chega pela doutrina <i politi-
ca, e pela theoria á practica. De que modo se ex-
-!12 L. Yl. -A REGENERAÇÃO - IY
prime essa vontade? l riritim, individualmente, peia
som ma elos votos? Assim se tem dito; e d'ahi têem
vindo as revoluções, a anarchia, o mod__.rno feoda-
lismo Oxalá que a broca da analyse·
- bella expressão de l\Iousinho!- penetre rapido
e rlelllnnstre que esse processo confunde deploravel-
mente a administra<_;ão com a politica; scinde a
duração e ataca a consistencia aos
pt>nsmnentos governativos; põe tudo, todas cou-
sas mais especiaes, á mercê das opiniões menos
competentes; e torna os interesses cullectivus ele-
pendentes dos interesses individuaes amalgamados,.
sem poderem fundir-se n'uma synthese
orgamca.
o nome dt> tlemocracia existe apenas uma
anarchia, !JOnstittwional, sim, quando atr:wessfunos
calmarias politicas, mas que se desenfreia logo que
se levanta o minimo temporal. E a libt>rdade con-
siste em nma cuncorrencia franca, da qual sae o
consequente femlalismo-bancario, industrial. lmro-
('r;ttico. f<tctus naturaes, moclifiea1los il}Wnas nos
aspectos por condições diversas. Assim, qu:mdn o
Estado imperial romano até tombar de todo,.
se distribuíram as terras a protectores armados;
assim, quando o Estnclo mon<trehico acabou, se dis ·
tribuiram os instrumentos de força collectiva. aos
noYus da finança e da industria. Sào dois -
ext>mplos de pulverisação da authoridade colledi-
va: um violento, o outro pacifico; um sanccionado
pel<lS armas, o outro pelas leis liberaes: ambos fa-
taes, ambos espontaneos.
Ora emqnanto a nação prescindir de cerebro, isto
é, de Estado, mantt>r-se-ha acephala; emqnantn o
Estado não tiver como pensamento a Egualdade, ou
emqn<mto, mantendo-se uma ficção de poder, se
obt>(lect>r de facto ás ordens dos patronos das va
2. - AS QUESTÕES ECONmliCAS 413
t·ias clientelas politicas, bancarias, industriaes; em-
quanto esses niJVOS barões fizerem de povo: a De-
mocracia será uma chimera, por isso mesmo que
.a demonsti:ará não ter capacidade para
seuã.o o que é. sombra de urna liberdade sem-
pre crescente, dia a dia, com o crescer da rique-
za, irá crescemlo a scizào dos pobres e dos ricos,
em virtude cl' essa lei simples que dá a victoria a
·q nem mais p1)de.
2. -AS QUESTÕES ECONü:\IIC.AS
Resta-nos agora estudar as causas crise
-que provavelmente nos ha de arrastará revolução,
pois no conjuncto singular dos caracteres nacio-
naes nem se vêem elementos com juizo bastante
para o conflicto, nem facções com energia
.capaz de derrubar o existente. Os baldanha mor-
reram todos; e se na ultima saldanlwda de 19 de
maio se viu como seria facil uma revolução, é fa-
-cto que se acabou a tradição dos golpes-de-mão da
soldadesca, especie quasi unica das revoluções em
Portugal. Quem nos leva para a crise são as C<lll-
-sas geraes, e uma fatalidade superior ás forças c:e
-conservadores e demagogos.
Este sentimento arraigado, geral nas classes mé-
dias, esta convicção de um destino desastrado, com-
mum nos homens de governo, são tambem um sym-
ptoma pat·ticular que a apathia nacional explica;
·Lastando a basofia portugueza para nos explicar a
simplez com que alguns teimam em se convencer
-de que somos um povo feliz, rico, ditoso. Quanrlo
a opinião assim gira do norte ao sul, e desembara-
-çada de preoccupações partidarias, não é verdade
que os seus dois pólos mostram por fórmas diver-
:Sas uma enfermidade constante?
41-! L. VI.- A REGE:"ERAÇÃO- 1\-
E, entretanto, ser nuLre, feliz, honrado e
até furte na pobreza. A opnlencia é até certo ponto
imlifft>rente ao mero facto da existencia das nações.
::\las não é decerto inditferente ao seu progresso,
nwrmente quando se ticon em tamanho atrazo. A
questão da capacitlarlt-> de enriquecimento em Pur-
tu;_!.·al é complexa. Tambem, como IH·,s, a tírecia
tem população pouco densa, vastos territorius de
escalnHlas e improducti,·as; mas tamlJem,
como nús, tem no ingresso das riquezas das suas
colunias commerciaes mediterraneas, o qne nós tt>,-
mus no ingresso das fortunas clus E
uma fonte (le riqnt:>z:t anormal. Com etfeito, desde
que as nossas guerras civis ncaLaram, desde qne
por outro lado a indl'}Wntlencia do Bn1zil se con-
soJi,lnu, a emigração e a fnnccionando
regularnwnte,t cleram em resultado um ati-luxo con-
l"ideravel de dinheiro. Junte-se-lhe o que entra por
via <le emprestimos ao Thesunro, e tt>remos as prin-
cipaes causas do enriquecimento relativo da nação,
se nus lembrarmos tamhem das leis que desamor-
tisaram o resto da mão-morta e aholiram os vin-

([nt> se p,.Jde ser ao mesmo tempo rico e incapaz,
demonstra-o a c1nalcpwr a olJsen·açào do proximo .
.As nações são n'este ponto como os homens. De
par:-t o valor do nosso commercio e o ren-
dinwnto das nossas alfandegas triplicaram; mas
para prevenir os optimistas cnn,·ém dizer que, ainda
triplo, não v:-te alL·m de VJ:i"ll lO rs. a capitação do
commercio externo : qnasi u mesmo que em
1 1 depois dos francezes,2 e sem contar com ;1
snhida tlo Yalur dos generos, proveniente do da di-
minuição do valor da moeda. "Xào exageremos pois
1
\._ O CJ/ra'-il e as colon. por!.-
2
V. J-list. de ·Por!.
2.- AS QllESTÓES ECOI'OMICAS
a nossa fortuna. E menos o devemos fazer ainda,
quando observarmos que, sem uma crise, sem
uma guerra, apenas com estradas e caminhos de-
ferro; sem justitica';fio cabal, a não ser a do n ~ ~ s s o
desgovE-rno, nos temos endi,·idado de modo qne,
se em 64: cada portuguez pagava ôOO rs., ca1ta
portuguez paga pur anuo, em 79-:)0, rs. 3:077 de
juros da divida nacional.
Não ha duvida que a riqueza collectiva tende a
crescer, embora o accre:;cimo da população seja
lento: outrotanto snccede em França, e todos sa·
bem que os dois movimentos podem não correspon-
der, p"odem ser até inversos. E' de esperar, com-
tudo, que em outro quarto de seculo triplique ain-
da? De certo não. Houve cansas especiaes que de-
terminarnm um salto, e ha causas organicas a im-
pedir as progressões rapidas, s,) com efi'eito obser-
vaveis nos paizes onde a iwlustria occasiuna uma
singular condensação de riqueza, como na Ing-la-
terra, na Belgica, na França du norte, na Alsacia,
etc. Os paizes principalmente agrícolas só enrique-
cem lentamente. A nós succede-uos qne, nlém de
nos faltar o carvão, nwteria prima industrial, nus
üdtam materias primas incnmparnvelmente mais
graves ainda: juizo, saber, educação adquirida, tra-
di';àO ganha, firmeza no governo e intelligencia no
capital. Todas estas faltas essenciaes, e o avanço
g ~ m h o pelos outros puvus da Europa, affiigura-se-
nos condenmarem-nos a ficar decididamente occn-
pados em la,Trar terrns e emigrar para o Brazil.
Os lucros agrícolas e o dinheiro dos repatriados são
o mais liquido das nossas economias nacionaes. ~ \
h·ntativa fabril do setemLrismo não foi mais feliz
do que a pombalina; e o vapor matou a nossa in-
dustria historica de transportes marítimos, porque
tamhem fomos uma Grecia marinheira, no extremo
4llj
L. n. - A REGENERAÇÃO- IY
opposto da Europa. Estava na natureza da Rege-
neração o ser livre-carnlJista: esse proto-naturalis-
mo ainda não definira as nações como organismos:
via ape11as massas, e a circul:lção lin·e como vivi-
ficação. () meiu atrophia e extingue muitas espe-
cies; e contra a influencia tl'elle reagem os cruza.
mentus, as domesticações, tuclas as a-rtes humanas.
A soeiedarle é em grande parte. um pruducto d'el-
las; e também o homem é um animal domesticado
por si proprio.
1
Hegenerada á solta lei da natureza, a vê
que, em parte consideravel, a riqueza creada sobre
t>lla não lhe aproveita. Os caminhos de feiTO que
não sã.o elo Estado, pertencem a estrangeiros; a
estrangeiros u melhor dns nossas minas; t>:strangei-
ros lenuu e trazt>m o que mandamos e recebemos
por mar. o solo nus pertence, s{, o liql}ido do
rendimento agrícola nos enriqnéce? Não. A fartu-
ra de uma população rural ignorante, junta-se a
npnlencia das classes capitalistas de Lisboa e das
cidades elo norte, não mais culta, porém mais vi-
del:ra. Uma granja e um lJanco: eis o Portugal,
portuguez. Onde está a officina? E sem esta func-
ç:lu eminente do organismo ecunomico nãu ha na-
ÇÕt>s. lYHle haver populações p6de ha-
YE'r .1\Ionacos; mas falta um orgão á circuhu;Fio, um
membro ao corpo humano. Um-povo constituído em
wtção é como um abecedario: toclas as lettras lhP-
são necessarias para escrever o que pensa.
E como em Portugal faltam lettras, os escriptus
portuguezes não se entendem. Assim as popul<u;ões
rnraes e as urbanas, a propriedade e o capital, sem
o nexo da industria, isoladas, não se pe1wtram. Se
o capitalista compra terras, é para as arrendar, vi-
1
V. E/em . .ie Anthropol.
2.- AS QCESTÓES EC0:-.10:\IICAS ±17
vendo sempre rlo juro. E capitalista e proprietario,
provinciano um, cosmopolita o outro, nenhum sente
palpitar f'lll si a alma da nação. Um olha para os
milhos, o outro para os papeis, absorvidos ambos
no seu intt=•resse egoísta, inclifferentes a tudo o mais.
A economia consumma rle tal f,)rma o que a historia
preparou: o governo é um rifacúnento. Os políticos
são uma classe áparte; as finanças e o Estado um
outro, um extranho a que o proprietario pede me-
llwramentos e o capitalistajnros. Como corretor, o
politico, de permeio, recebe de um os emprestimos,
•lá aos outros as obras, e vive da corretagem. Pro-
clama pois a excellencia de tnrlo, e quando apregGa
o credito que temos lá jt)nt, esquece dizer que os
hanr1ueiros de Paris são tambem outros corretores
qne sabem o destino final dos papeis em mais ou
menos bre,Te praso: a hurra .lo brazileiro.
Que se lhe dá o proprietario do que passa em
Lisboa? Imagina com razão que nada lhe arran-
cará d'alli ao pé o caminho-de-ferro ou a estrada.
E ao capitalista que se lhe dá? Os jurinhos vã•J
vindo; rabiscando por aqui, por ali, jogando um
pouco, assignanclo emprestimos, creando o seu ban-
co, etc. vive bem, satisfeito, os annos que lhe res-
tam. E' positivo e pratico, como os que não vêem
um dedo adiante do nariz. E finalmente o politico,
esfregando as mãos, demonstra em discursos e re-
latorios que se não póde ir melhor: os rendimentos
crescem: vejam! Como é grande o nosso paiz! E
a platéa de Sanchos, mas sem ironia sequer, San-
chos conservadores, Sanchos demagogos, Sanchos
monarchicos e republicanos, metaphysicos e positi-
vistas, proprietarios e capitalistas, nobres e bur-
gnezes: toda a platéa applaude, grita, acclama a
f•)rhma do grande reino ela Barataria.
1 )eeerto é um desvairado misanthropo, nada mo-
PORT. CONT.- TOM. II 21
L. \"1.- A n·
derno, que contesta o fundamento de
tão unanimes. 1 >esvairado o que pergunt;t qual
cresce mais: se a receita, se a despeza ( Desvai-
rado o que pergunta com que recursos se fará o
que falta: a instrucção que não tt>mus, as obras
publicas de que possuímos apenas nma amostra.
J o que indaga a raiz das cousas " ::;e
não contenta l'om Ol:) aspecto::;. Desvairado, o que
pensa no que seria de w',s se o brazileiro flescon-
tiasse, e deixasse de comprar a diYida com que sal-
damos contas anmmlmelltP; ou se uma guerra, ou-
tra crise na Anwrica, em haraçasse o ingresso
eapitaes.
1
Desvairado o que pergunta o que de
nús então: que fazt>r de toda a gente: orfan::;,
viuvas, hospícios, asylos, hospitaes, com os seus
fundos conve1·tidns em papel do Estado? Então, na
crise da penuria, se a limpo a verdade
da contianca !
E entr;tanto essa erise affigura-se a espíritos
desvairados como o nosso, tão fatal, tão necessaria.
corno a crise constitucional, e muito mais séria do
que ella. Se a nossa liberdade é a expressão da
nossa absoluta anemia politica, a nossa fortuna ap-
parente exprime a nossa cegueira economica. E
assim como a todos convém não bolir na consti-
tuição, assim convém a todos que se não Lula na
de ricos. Como ao enfermo ou ao arruina-
do, sobre tudo nos convém guardar a immoLilidade
e as apparencias. (cJ.uem lucra em as negar? Quem
tt'lll coragem e força para dizer da tribuna do go-
Yerno : peccámos, senhores, peccámos: perdoae-
nos! Quem tem genio para indicar o caminho do
arrependimento? As causas vêem de l!lais longe:
1 Foi o que snccedeu com a revolução do Brazil em 1889: deitou
abaixo o castello-de-cartas portnguez. (3.a ed.)
•:'Stào na fatalidade das com-as, de que a
elos homens é-.1penas o instntment•l.
E como se haveria exigir d'elles uma con-
h:3sào de arrependimento fpte os arruinaria a to·
aos políticos nt_IS sens interesses e vaidades;
au:3 capitalistas nus :-;eus j nrn:3 e papeis ; aus pro-
prietarios nas urgencias que têem de novos cami-
nlws? seria querer mais do que as forças hu-
manas consentem 'I
Por uma floirada estrada, tam bem se vae para
o snpplicio. Em Roma, que pensaria o Loi quando
o adornavam eh .. cullares e faxas preciosas, para o
C(lncluzirem ao altar nos suovetrwrilios lnstraes?
Como uma. rez, nôs marchamos todos, seguindo os
sacerdotes que nns levam, perfumarlos de myrrha,
coroados de plantas odoríferas: Lellas phrases,
sorrisos de satisfação alegre, passo gra\Te e gesto
largo. :Mas em Roma o sacerdote sabia que ia ma-
tar o boi: em Portugal ignora o politico que talvez
conduza <1 nacão ao seu fim? .:\lede bem o alcance
do ponto futu;·o, inevitavel? O da Regeneração foi
n fim da Liberdade: como se chamará o que nos
espera?
3. - AS QCESTÓES GEOGRAPHICAS
Já em outra obra,
1
já em paginas anteriores
d'esta, dissemos o fple devíamos ácerca do lugar
da nossa terra na Península. E se o leitor tem
presente, o que escrevemos, decerto faz uma obser-
vação. E a mais singular das feições singulares
que temor:, successivamente indicado. l\Iais ou me-
nos, um ou outro dia, todas as nações pequenas
1
V. Hist. de Porlllgal.
L. VI.- A REGEI\ERAÇÁO- I\'
tiYeram a receiar a perda da independ .. ncia: não
é isto o que nos partieularisa. Em nôs succede que,
no decurso de uma historia de jit quasi oitocentos
annos, é constante o sentimento, ou de medo, ou dP
esperança em uma fusã.o no corpo da nação Yisi-
nha. Este oscibr da. opinião tambem de norte a
sul, como um cata,·ento, sem estctbilidade, não
está mostrando a falta do que qlwr que é similhante
au- lastro que mantém seguros, enterrados n'agua,
os na,·ios "I Agora, são guerras feridas para nos
defender, logo planos para nos annexar ; agora de-
clamações de odio a Castella, logo confissões de
impotencia no isolamento. E isto vem assim, du-
rante oito seculos, como these e antithese, que se
não resolvem. "Xão parece que, no des-
dobramento dos nossos pensamentos collecti,·os,
nunca chegou a formular-se cathegoricamente o da
independencia? Kão parece que, no desen,·oh·i-
mento do nosso organismo, se por um laclu attin-
gimos a. independencia politica, a litteraria, a lín-
gua independente, falta ainda -faltará sempre?-
um que quer que seja bastante, para dar a populações
provincialmente cliffprenciaclas, a differenciação ra-
dical que aflirma as nações? Um protesto p•',de
ter furça para consen·ar de pé quem o pronuncia,
e a prova é a nossa separação de facto ; mas não
é singular que, apezar de ás vezes parecer esque-
cido o sentimento de negação e ganhar segurança
consciente o da autonomia: não é singular que,
declarada uma crise, appareça invariavelmente, e
até hoje, o espírito nacional di,-i,lido entre as
ameaças do patriotismo, as confissões da fraqueza,
e as esperanças da união-?
:Kotado este caracter da nossa historia, ainda
patente em nossos dias, não nos cumpre agora
indagar-lhe as cansas nem expGr-lhe a theoria :
3.- AS QLESTÓES GEOGR.APHICAS -!21
trata-se de estudar a influencia que pócle ter nos
destinos ulteriores da nacão.
E' fura de toda a duvida que a Europa se cons-
titue no seculo actual em um grupo de grandes
Í!nperios, Cl0n contorno definitivo ainda não está
inteiramente desenhado. Y arias cousas concorrem
para isso: a complexidade crescente do organismo
das naç-ões, a centralisação de conunando conse-
quente, a natureza dos mf'ios de cornmunicação,
de aggressão. N'esta lucta para a vida collectiva
são tambem devorados os pequenos, e por isso,
quando c-ausas imprevistas nào venham impôr
uma direcção differente ás tendencias constitucio-
naes das naçiJes europêas, parece nt-cessario que
n'um período mais ou menos distante Portugal f'
todas as demais na«;Ões minusculas desappareçam.
~ ã o é, corntudo, essa ainda propriamente a ques-
tão. Por grande que seja a nossa basofia e a ma-
nia da clesproporção com que entre nós se avalia
tndo, é facto que teríamos de obedecer, voluntaria
ou involuntariamente, a um destino geral e neces-
sario. Se o concerto europeu decretasse, e a Hes-
panha podesse cumprir o decreto de ah;orpçào,
para onde se havia de appellar? Pelo amílr de
Deus, supprima o leitor aqui as phrases inchadas
que a tal respeito escrevem os joruaes e dizem
os deputados: morrer até ao ultimo, alviões por
armas, etc. Tambem os chinezes pensaram fazer
parar as tropas franco-britannicas, vedando-lhes o
caminho com monstros de papel pintado! l\Ias o
palacio de Pekin ardeu.
~ ã o temos exercito digno d'esse nome, é ver-
dade; nem a raia, nem os portos defendidos. ~ I a s
não é essa a questão, porque havendo vontade e di-
nheiro o problema resoh·e-se, ainda que a relação
en re a extensão das frontf'iras, terrestres e·mari-
timas, e a área e população de um reino estreito
e longo ag-gravam as difficuldades. Embora. ()
portuguez é, como o turco, um bom soldado; krupps
compram-se; e quando não ha generaes, alugam-se.
Assim n•Ís fizemos sempre: :-:;d10mberg, Lippe,
Beresford, Sulignac, Buurmont, "Xapier.-Hesta po-
rém dizer que tudo is::;o seria em pura perda: a Di-
namarca estava armada até aos dentes e bateu-se
clenodadaruente. E::;ta hypothese de urna absurpçà•J
sentenciada pel.-,s congTessos europeus, é porém re-
lati\·amente in1lifferente para o nosso caso. Estci
claro que a sentença se cumpriria por vontade nos-
sa ou per eim. Contra a não ha resistencia.
O que nos interessa a nós saher, é se da mar-
eha natural das nossas cousas sairá ou não, decla-
rada uma crise, a perda da in!lependencia; por-
que, se não queremos perdei-a, convém tamhem es-
tudar o hlOdo ele o conseguir. Ura n'este momento,
se escutamos os pareceres dos homens graves, ,·e-
lllO-nos sériamente emLaraçados, porque tambem
achalllos os pensamentos dos estadistas correndu
como cata-ventos, elo norte ao sul, de um polo au
polo oppostu. Singular terra em qne tudo gira á
mercê do vento, e permanentemente se discute a
propria raiz da vida naPional! se diria que
ella, arrancaLla do solo, lmtida pelo ar, ::;em ali-
mento, se mirra?
)luusinho e Palmdla, na crise da primeira me-
tade do seculo, tiveram opiniues oppostas: e du-
rante a paz da segunda metade essas duas opi-
niões continuam antagonicas. Um dizia que, per-
dido o Brazil, nús perderamos os elementos de vida
independente: D. João VI chamant a isto o seu
canapé da Europa. Outros, variando agora sobre o
mesmo thema, apoiam o parecer quando declaram
á vida portngueza fazer da Africa
3.- AS QCESTi5ES GEOGRAI'HlC.-\S
nm novo Brazil.- De outro laflo, com senos ar-
g·nmentos, mostra-se a ditferença dos tempos e dos
1-neioa, e conrlt'mnando-st> o dinlwiro gasto nas co-
lonias-dinhE-iro perdido!- rept>tf'-se a opinião de
)fousinho, affi rmanclo-sP q ne q ualq ner porção de
g-ente, trabalhando e Yi\·endo em qualquer zona de
territorio, pcSde constituir uma naçà•J: Portugal tem
âentru de si, na Europa, E-lt:'mêiltos de Yida e pros-
peridade! St'rÜ facílimo destruir os argu-
de uns JWlus dos outros, e concluir por uma
nt'g-ação total? Takez se chamasse temerario, e
1lt•certo se lapidaria qut:'m o fizt:'sse. )las o que é
necessario affinnar, embora choYam pedras, é que
nma tal flivergt:'ncia de opiniões sobre o proprio
n,·, vital p•Jrtuguez depõe muito pouco em f;n·ur de
uma conclusão
n leitor sauf' como, ancorada em Lisboa a pa-
tria pelos seus principiámos a sair o
Tt>jo, a rodear a Afriea e vit'mos a Yi\·t:'r da ln-
dia, e elo Brazil depois. Sabe que meios se empre-
garam, e tambem que (lifl'erenças de condições e
id8as l1a hoie : o conunercic, é uma concorrencia,
n:to um mon;)polio ; o trabalhcJ é livre, não forçado,

1
Se portanto inquirinwJs a historia, achare-
mos na tradição fundamento para o primeiro pa-
recer; mas se estudarmos as idt'-as e condic;ões
actuaes, parece-nus claro que essa tradição se scin-
(liu, e 'lue é pf'lo menos prohlematico o exito da
f'mpreza (le a restaurar.
Em- que· fi,·mnos, pois? Sim cm nàu? Quem sa-
bE>'? () vento assouia, ê1 agnllta gira, clü norte para
" sul, do sul para o norte. . . Se nào ha opiniões
tirnks, como ha ele o critico descohril-as t Quem
sabe t Talvez? () ministro fulano disse, o conse-
1
V. () Bra;tl e ,zs cfJl 11. }-''Jrt.
L. VI. - A REGENERAÇÃO -IV
lheiro sicrano opinou ... E emquanto, rodando, gi-
rando, a agull1a obedece aos movimentos mais des-
encontrados, o critico observa que a nação, nas
suas granjas e nos seus bancos, ceifando cearas e
juros, provincial ou cosmopolita, yae andando. Va-
mos indo; vamos vivendo. :Não é a unica olJserva-
çào positiva que se pôde fazer?
O egoísmo deita para depois de si (I diluvio; o
espírito pratico olha apenas para o pão-nosso de
cada dia. A verdade é que Palmella enf!;anava-se
quando suppunha o l3razil perdido. O Brazil dit-
nos muito dinheiro, sem o traballw de o governar-
mos. l\Ias o llue poupamos por esse lado perde-
moi-o por outro. Outr'ora vinham qllintos para o
Thesouro, hcde vêem saques para particulares. Es-
ses saques breve se convertem em inscripções, é
verdade; mas o processo é mau, porque, assim, o
Thesouro tem dividas em vez de rendas; e se por
fim, quando o pauto final vier, o resultado tivér sido
o o punto trará com8igo a mais grave das
cnses.
Perdemos ainda por outro modo. Ontr'ora o por-
tuguez ia, voltava, sem se desnacionalisar; hoje
não renega a patria, mas casa-se com brazileiras,
desenraíza-se da sua aldeia e vem para o Porto
ou para Lisboa formar uma classe opu-
lenta, mas com um papel desorganisador da ho-
mogeneidade e do funccionar normal da economia
da sociedade. Cosmopolitas, esses caçadores de
juros, nada vêem fóra dos papeis: nem o trabalho,
1:em a industria, nem o estudo.
Que remec1io? Um unico, evidente, 1mnwdiato:
explorai-os._ E o que félz a politica pratica, sacan-
do-lhes o dinheiro em emprestimos com que com-
pra por mellwramenfos a adbesão dos campos;
8acando-lhes tamlwm sub:sidios para directamente
3. -AS QVESTÔES GEOGRAPHICAS 42.)
comprar os eleitores soberanos das cidades. Que
rernedio?
O diluvio dista ainda; e no armazem dos expe-
dientes ainda os ha com fartura. Com o dinheiro
do Brazil, directa ou indirectamente se resolvem
as questões internas; com a tradição brigantina da
alliança ingleza consegue-::;e manter uma indepen-
dencia de acrobata no trapezio. As colonias, dadas,
pedaço por pedaço, desde 1640, servem de maro-
ma. Havia um resto de India que nos servia para
nada, aos inglezes para muito: enfeodou-se, e
muito bem. Porque se hesita em dar l\Ioçambi-
que, o Zaire? Porque a agulha com um sopro de
vento apontou ao norte: as colonias são a salvação
do paiz!
l\Iantém-nos, comtudo, de pé só esta protecção
da Inglaterra? Não, de certo. Defende-nos a des-
ordem da Hespanha, por tantos lados sirnilhante á
nossa; defende-nos o haver lá aquillo mesmo que
faz o nosso mal organico: a falta de alma ou pen-
samento consciente na direcção do Estado. D ~ f e n ­
de-nos tambem, vagamente, a historia, com os seus
sete seculos tão fustigados pela rhetorica, com a
língua clifferenciada, com uma dynastia, com um
Camões, até com o estalar dos foguetes e phrases
nos Primeiro-de-Dezembro. Tudo isso tem o seu
valor, embora muitas vezes o perca pela mania de
desproporcionar tudo, grave symptoma do nosso
juizo avesso.
ÜÍitros motivos mais pesados nos defendem tam-
bem, no sentido de que poderiam trazer sérios
embaraços digestivos á Hespanha, se ella irrE-flecti-
damente decidisse engulir-nos, e o fizesse. Primeiro,
é difficil assimilar uma população de quatro milhues
a quem não conta mais do quadruplo; depois, é
difficil, com essa relação numerica, realisar uma
com binat;ão dualista, como a K uu a
que foi Inglaterra-Escocia. Para nos fundirmos so-
mos demasiados, para o dualismo poucos.
caso pocleriamos reagir o lJastante para impedir a
da unidade, nu outro não contariamn::;
o· sutficiente para ter em respeito o collega.
Além cl'isso, est<Í. Lisboa, excentrica, á maneira de
X oYa-Y ork. ::\Iaclrid é como um 'y onde
ficaria a capitnl "! D. Sinibaldo e o iberismo da He-
generat;ão, bem n'este caso, propunham
:--;antarem. ::\Ias quanto Yae el'ahi aus Pyreueus? E
ficariam em Portugal a capital politica e a capital
commercial? Lisboa, que a geographia destinou
para magestoso porto da Peninsula, tornou-se pe-
los acasos ela historia o maior embaraco <i unifica-
t;ão elos Estad•ts peninsulares. Sobre" o seu porto
ancorou Portugal, como uma cabeça de gigante
n'um corpo de pigmeu, e d "ahi lançou braços pelo
mundo transatl<mtico. Yieram inimigos posteriores
com armas aceraclas cortar os tentaculos cresse
mon::;truoso polypo elo secnlo XVI, mas ficou a ca-
beça ainda e o pigmeu. Por outro lado, tarnbem
a Hespanha bracejou para o mar: Yigo do nor-
te, Caclix: do sul, duas portas subalternas, ga-
nharam Yida e importancia. A unificação politica
ela Peninsula traria comsi;;o reYolnções graYes á
Hespanha: Cadix:, \-igo, decairiam, reduzidos ao
seu trafego natural; Lisboa tornar-se-hia a XoYa-
York do occidente da Em·opa.-)Ias urna XoYa-
y ork portngnE'za? Sim. Ou seria mistér repetir
as scenas ele oppressâo Yiolenta para a fazer cas-
telhana.
Taes emlJaraços, resolYem-nos os phantasistas
com a phantasia federal. Dir-me-heis qne federa-
ção ha entre a cabeça que dirige e a mão que obe-
dece, entre o estomago que digere e o musculo que
:t - IJ_lt-Sri)ES GEOGlUPHICAS 4:!c
se alimenta? Em vez de federação, chimera
cida do erro de suppor aggregados as nações,
dizei coordenação organic<t_, para exprimir o func-
ciunar d'esses corpos collectivos. O afamado prin-
eipio federativo já em 64, restaurado
agora peio néo-jacobinismo, é um crasso erro de
olJservacào sociolugica e uma aherracào do es-
tndo poÚtico, historico.I t uma fúnna p;.imitiva das
republicas; e do mesmo modo a fcjnna embryonaria
•las aggregações animaes inferiores. Um uma
federação, uma colmeia é uma sociedade. A ma-
neira que o typo se define e cresce a eminencia das
:mas fnncções, coordenam-sP os O exem-
plo dos Esta•lus-"Cnidos tem feito um grande mal
aos que da Europa não vêem que a aggregação co-
lossal de gentes desvairadas, em territurios illimi-
tados, exprime um typo rudimentar dt=> sociedade,
repetindo em nossos dias e com os meio:; materiaPs
de uma consumada civilisaçà•J, os exemplos p imor-
cliaes da historia. D"aqui por um ou dois seculos se
,-erá em que pára a federação americana. Da Suis-
sa, quem a estudar, vê como, á maneira qtle hoje
os caminhos-de-ferro, perfurando as suas monta-
nhas, a afastam fla vida primitiva agrícola em que
se mantivera, como se térn mantido tantos animaes
ante-diluvianos: vê, dizemos, que vae pouco a pou-
co rasgan«lo a sua eonstituiçào federal, obedecen-
do á forca das cousa::;.
Que ; f,jrma definitiva de coordenação das func-
ções, fórma vindoura, mas bem distante ainda!
tenha no Estado democratico um caracter federa-
tivo, ele orgãos equipêtrt?ntes, dirigidos pelo forte
cerebro de um Estado, pensamol-o; mas esse crite-
rio pouco importa agora, se ás esperanças senti-
V. bzstituifâr!s pnmiti1•as, pp. 290 e
'
L. \"1.- A REGEI'ERAÇÁO- IY
mentaes ou ás chimeras doutrinarias, !':.e trata com
effeito dE' substituir na politica o espiritn positivo.
A observação mostra-nos que tudo concorre para
apressar uma marcha cada vez mais accentuada no
sentido da centralisação e elas dictaduras pessoaes
ou collectivas.
Em Hespanha, o antigo espírito jacobino, E:'ncor-
porando-se nas tradições locali:.;tas, e inspirando-se
na doutrina de Proudhon, deu de si a depluravel
historia cantonalista. Yin-se agitarem-se alliadas as
idéas mais incongru12ntes: era a ultima revolta fne-
rista, era um novo 1812 indi,·idualista, eram com-
munas sociali:.;tas. O passado, o pres12nte, o futuro,
n'um turbilhão, corriam, prégando loucuras,
meanclo anarchias. N"a SE'tTa-:Morena ha,·ia já al-
fanclE>gas como na Edade-média; em .... \lcoy ineen-
dios como os de Paris; por toda a parte declama-
ções como as de Cadix, le,·antanclo em r1.ltares a
soberania? a divindade, do Individuo! lJm equi,·oco
de observação, um erro de doutrina, e o faeto .Ia
unifieaeão ainda não consmumada das racas penin-
deram isto de si. Já em em França, os
gironclinos não poderam f<lzer outro tanto: e, se em
França ha federalismo, é socialista, communalista;
e não historico, geographico, ethnico. O atrazo re-
lati,·o da fusão das raças peninsulares, esse facto
em que os néo-jacobinos, com o seu chefe Pi y
l\Iargall, viam um argumento em favor proprio, (\·.
Las nacionalidadt'S) era, e é, o maximo argumento
contra a oppurtunidade da revolução, cujos laivos
socialistas se desmandav:uu em preoccupações tra-
dieionaes. Como se o ideal c,nsistisse em restaurar
a Edade-media com os seus cantões e povos diffe--
renciados, isolados pela força das cousas, e pelo
isolamento, hostis!
Em Ilespanha o partido caiu com a deploravel
3.- AS QL ESTÓES GEOGR.-\PHICAS -:1::2!1
ruina da Pmpreza. Entre nós, porém, não deixou
de haver qt,em Yiesse offerece:--nos esse prato re-
quentado da cosinha revolucionaria. Xào se saL<=',
comtudo, ás ,-ezes bem se o nosso j•n·en federalis-
mo é iberico, se o não é; ainda que J'elle saiu a
singular idéa de fazer de nós os anthores da hege-
monia peninsular. Onde leva a falta de proporção
no a,·aliar as cousas! Xão parece um cumulo de
ironia, a in,·enção de um espirito humorista, o di-
zto>r a uma nação que Yive perguntando se pódp
existir, dizer-lhe que d"ella depende a existen-
cia alheia? X a se ri e de syrnptoma::; singulares do
nosso estado mental, deYe ficar como documento
esta idéa da novissima geração.
Xinguem, porém, tema que a precedente, e é
ella quem nos governa ainda, se deixe seduzir
por tã.o extravagantes politicas. Ella é pratica, e
como tal, não tem mais ambição do que a de man-
ter o que existe, acompanhando passi,·amente, passo
.a passo, o desen,·olver espontaneo dos elementos da
vida nacional. O seu liberalismo pro\·ém da sua pas-
sividade calculada. Yamos andando. A Inglaterra
7
confiam elleg que nos ha de pruteger: e quando
não houver Africas para lhe pagar? Entretanto, o
minhoto -vae, o brazileiro ,·em, e os emprestimo:;
tornam-se; entretanto as estradas fazem-ge e o pro
prietario enriquece. E cada vez mais esta pequena
Turquia do occidente, com a sua Lisboa que é ou-
tra Constantinopla, ganhando a força de uma exis-
teneia rural, provinciana, e de uma ,·ida bancaria
perde o caracter organico de nação.
Entre-se no Tejo, entre-se até no Douro, e Yer-se-
hão as bandeiras de todas as côres, menos a por-
tugneza; formigam, fumando, os vapores inglezes.
Lisboa é uma estalagem, nós os reco,·eiros.
que .-lesfle que ha caminhos-de-ferro nem o lucr•J
L. \I.-.\ REGE:\ERAc_:.\0-
tlas recm·agens E>mbob:lmos; somos o llliJÇO da ar-
riaria, porrpte "nosso capital prefere aos
de-ft>tTo, Se não SãiJ cliJ go\.t'l"l}l), aS Ínscrip\íJOS
tlt-> cú . .. e dt> Pruprietarios on jurista:;
os huq,;-ut>zes t> os lan·aclores, caix.:>iros e artitiCPS
flt> industriaes forasteiros os prolt:'tarios, a nossa :::;i-
tn:teào é de factcJ como a do turco. A l1i nos con-
duziram qualidades dt> um genio por tantos la-
atfín, os result;tdus dt> uma COIHliçào a tantos
I"t>Spt>itos similhante. Lisboa é para nt'•s um t>lenwn-
to dl' n·sistt>ncia passi,·a: Constantinopla é-o para
ellt>s. :Não se está Yt:'ntlo quanto custa a resolYer
t·s:-;e problema? O nosso é proximamente egual. Tam-
l,em á Eur11pa convid mais tPr n•J Tt>jo uma esta-
\ã" franca, do que a cabeça de um imperio concor-
rt>nte. assim é, com éffeito, temos de optar en
tre duas hypotheses, nenhuma d'ellas, por certo,
inteintmPnte satisfactoria: ou abdicar da autono-
mia em favor de um futuro distante ele grandeza
peninsular; ou conformarmo-nos a ir vivéndu, rl:'-
;_!.·enera<lamente, á 1-'Spera do que está para vir. E'
uma crise? Decerto. Um cataclysmo! TahTez sim,
talvez não: depPncle das cireumstancias. Sl:'rá, como
consequencia 11atural dos factos actuaes conheeidos,
um futuro honroso, nobre, nwritorio! Herá outra
VE'Z a n·petição de D . .:\Ianuel, ou do Brazil de D .
.Toão v? Não se vf. como possa ser.
() que eu d'aqui estou vendo, ao pí)r as
palavras n'esta obra triste, é o leit• . ..r irritado
fanhar o livro nas mãos, pisai-o com os pés, Yin-
gando-se do HtrE'vimento de quem lhe disse cou-
sas que tanto o offendem. :Nunca os jornaes tal
"screveram, nunca o parlamento ouviu taes here-
!5ias: nem os velhos, ném os moços jámais as pro-
feriram ! Tambem os medicas, por via de regra,
t>SCon<lPm :is famílias a gravidadP- das doenças:
3.- AS Ql ESTÓES GEOGl{APHICAS -!:j}
umas vezes não as perceL""m, outras cunYem lhes
nwntir, para não estão as classt>s
fJHe nos governam; e até hoje, força é dizer
que o povo não descobriu <linda de se liber-
tar d'ellas .
.Nem descobriu o meio, nem demonstrou a Yon-
tadc. Dorme e sonha? Ser-lhe-ha cladtJ acordar
ainda a tempo?
_i\ J) -1
1
I , 1 C E S
A
1826-Março-G. :Komeaçào da Regencia do reino por
IJ. João vr: a infanta D. lzabel )faria presidente.- 10.
)forte de D. João vr.-20. Reconhecimento de D. Pedro
rv, r<'Í, pela Regencia.
Abril-26. D. Pedro rv, do Hio, confirma os poderes da
Hegencia.- 27. Amnistia os crimes políticos.- Ou-
torga a Carta Constitucional.- 30. os pares do
reino, segunflo a Carta.
Maio - 2. D. Pedro rv aLdica a corôa em D. l\Iaria n
sob condição de jurar a constituição e casar com D. )li-
guei.
Julho-2. Chegada de Stuart a Lisboa na corveta Leal-
dwlP com a Carta. -12. Publicaçào da Carta em Lisboa,
pela Regencia. -31. .Juramento da. Carta.=22-6. Pronun-
cianwntos militares absolutistas no )linho e Traz-os-)Ion-
t('S: suft"ocados.
Agosto -1. lzabel-)faria, regente em nome de D. )fa-
ria u.- 3. Composição do miuistcrio constitucional. = 21.
T('utati\·a de pronunciamento absolutista do corpo de po-
lieia em Lisboa.
Outubro- 4: .• Juramento da Carta por D. em
Yienua de AuHtria.- ;:;. Prouu11eiameuto do mar,tnez de
( 'h:n-cs em Yilla-Rcal; pron. militares e111 Yizen, Yilla-
PURT. CONr.- TOIII. II 28
43! PORTUGAL CO:\TDIPOR.-\:'\EO
pouca, e no Algarve.- H. Elciç<'ies das camaras. -
lnYasào dos absolutistas rf'fngiados em Hespanha:
por Tdles-Jordào por Almeida, )lagessi pelo
Alemtejo. Guerra ei,·il. de toda a proYineia 1le
Traz-os-)loutes.- CelelJrat;ào dns espunsaes de D. )li-
gm·l e de D. :\laria 11 em Yienna.- 30. Abertura das c•lrtes
geraes em Lisboa.
Dezembro- 1:-). de Ca,·ez, indecisa.- 11i. I:c-
composit;àn tln tuinisterio nn sentido reaeeiouario; l'Htrad;t
do bispo de Yizeu.- :!iJ. Encerramento das c•irtes. = :!-t-.
Chegada da diYisào ing-leza de Clinton a Lisboa, partindo
pa!·a o theatro dn. guerra.
1827- .\bertnra das c amaras.- I >er-
rota dos absolutistas em .Aç;uiar da l'mtn•neào
ang-lo-pnrtngueza para a da l'arta. '
Fevereiro- 5. Aeei'ít>s da Ponte dn Prallo e 1la Barca:
repellidos os absolutistas para aU·m da ti·onteira.
Março -1-i-10. lh·sarmameuto llos exercitos absolutis-
tas interuados cm llespauha; fim da guerra ciyil.- 31.
Encerramento llas camaras.
Abril-li{. Amnistia 1los emigrados, que a não acc<"itam.
- :-;aldauha seg·uwla ,-ez miuistro da gw·rra. reacção
ahsolntista <la guarnit;i'i.n de Elnts.
Junho-ti. Hecm11posit;ão ministerial, no sentido
tueional; saída do l1ispo de Yi7.ett.
Julho- P. no Hio, uomeia n. )liguei Sl'll ln-
p:ar-tt.·uentl' cut PortugaL- :!:t da lle dn mi-
nisterio.- :!-1. Tumultos rc·lml•lieanos em Li:-;}_,, •a
Ag-ita"';1o do Porto.
Agosto-j"j". l'ht>ga a Londrl's o decreto lle j de julho.
l'hl'ga a Lisboa n portador do
1le Lisboa a fragata Perola para condu-
zir I> .. Mig-uel.
Dezembro-i;. n. )liguel sae lk \"ienua. O hanco sus-
pende o paganwutn tlas notas, restahdeeidu a em
Paris:-3U.- em luglaterra.
1828-Janeiro-2. AlJPrtnra das camaras.
V. -'li!!"nel embarca em
C'ht>ga a Lishna.- :!lj. :tnra a Carta. assnn;e a regencia,
nomeia miuisteriu. sttl•stitnP os g·o,·ernadores militares.
Março - ·1!. })igsolnçào das camaras. :Xonwaçào 11a
Junta das in::-trnel·•\es rll'itontL'S. l'roltibie;:(o do hnuno da
Carta.- 18. dos lentes de ·em Con-
deixa. .
Tietirada da divisão ingleza.- Tumultos
c·HRO:'\OLO<;u.
ahsolutistas Pm Lisboa. Acelamaçãn de I>. :\ligud 1 pelo
do da e a pi tal, dP ( 'nimlJra e de Yeiro.
Maio- 3. Representação da nohreza dn reino 1wdindo
a acelamae:.l.o. l>eneto cnnnlC'atorio dos Tres- Estados.-
(Xo uo I:io, 1>. l'eflro declara elcfinitiYa a sua
aluhcaçào e Uf•JHeia V. )liguei regente em nome <le D. :\Ia-
ria 11).-1-l. elos hatalhc)es flo coBJillereio e ua-
cinnaes em LislJf•a.- lli. PrnmmeiauJcnto
fla guarnic;uo do Porto, fonnaçào da Junta de goYerno: se-
dição de AYeiro.- lS. _-\.celamaçào de I>. )ligue·} nos Aço-
res.- 22. Hestaurae,)o da Carta. ua Terceira: aec·laHuH:ào
de I>. Pcuro em - :!.-•. Prnnuueiame·utn
don::ll no AlgarYe, sntt'óca<ln.- :!G-::>o. Crca<;ào dos bata.-
lhôes ele n•lmltarins realistas. f-;aícla dn exereito do goYerno
para o norte. Prommciauwnto constitucional da prae;a de
AlBwicla.- :!S. ela .Junta elo l'urto; creaçào de
batalh•)es de Yolnutarir•s <le I). Pedro ''"·
Junbo -2-:!0. )[arc·ha do exercito da .Junta até l'omlei-
xa.-:!1. Retira sobre CoimLra. Organif'a-se olJatalhào aca-
dt·mico.- :!11. Execncào dos estudantes de Coimbra.- ;!:L
Reuui:ão dos Tres-Estados no paço da .-\jnda. Ueiutegrac;ào
dos Pmigrados de 27 f'lll Hespauha., qne yoJ tam ao reillo.-
:22. A )Jadf'ira adhere Íl Junta do Porto.- :!-l. da
Cruz de )loroucos.- 21i. O exereito da .Tuuta retira' Sf•bre
o Yonga. Chega.ela ao Porto do J:c(ti.rst com l'almella, Ter-
(·eira. etc.- Acção do Y ong-a; o exen·ito da
Junta retira suln·e Azemeis.- 30. D. )liguei assume o ti-
tulo de rei.
Entrada do exereito no Porto; retirada dos
da Junta pdo )liuho, direcção da ( Partida llo B•·l-
com os emigrados que trouxera. Hissolnçào da .Junta.
- :-,. PaTticla de -D. )laria u do Brazil para Yir ca:,:ar com
o tio.-(i. Entrada elo exerc·ito Cf•ustitLLCif•llal na f ;;tlliza.-
7 .• Jurauwuto de H. l\lignd, perante os Tres-Estaclns.-11.
.. l.o do H·i.- 1-:1:. Alcada ao Porto.-1:>. l>issoln-
t·ào da elos Tres-Estaelos .. -\ TercPira recehe
;, goYernaflor enYiarlo por 1>. )liguel.-11j. ('apitulaçào da
guarnição ele Almeida.
Agosto-tj. Alçada á )[adeira.--:1:-lX. Deerf'tos do Ter-
ror: creaci;o elo ennsellw militar. confisco bens dr.s emi-
grados, c;m.missào dos crimes c]p lesa-magestmle, dPYasf'as.
-1.-,. f'hf'g-ada ela esfpLa,lra :í :\[;ult·ira.- :!0. Df'sembar-
qne ele ottieiaes cnnstitLtPiouaf's do l'fn·to: resistcncia da.
ilha.- pela esquadra, desemlJar'lnf', rPstaura-
elo de V. )liguei.- Começa na ( :alliza o
43f)
PORTCGAL CO:-;TE.!\IPORA:>;EO
emharr1uc tlo Pxereito d:;t para Inglaterra, h'rmi-
namlo em de setemln·n.
Setembro-2. ClH•ga a (;ilJraltar D. Maria n, do Bra-
zil, e sabe da usurpação, partitHlo para lnglatf'rra.- l-i.
Desembarque de offieiacs constihwinnacs ua Ten•eira, Yin-
dos de IngJatPrra ua fragata brazileira
de nm nucleo de resistt·ncia.-2-!. l'hegatla t_le D. :\Iaria II
a Falmonth.
Outubro -lj. Id. a Londres, nndP fica.- 4. Acção dn
Pico do Cdleiro, e snhmissi1o de toda a ilha Terceira ao
.go\·erun co11stitueional : installacào de uma J nnta proYiso-
de gon•ruo. '
Novembro- 9. Accidt•nte em que 1 ). fractura
uma })Crna caindo da carruagem.
Dezembro-DlotJUeio da Terceira por nayios de guerra
inglezes.-1. Dissolução dn deposito dos emigrados consti-
tneionacs em l'lymouth, por onlem dn goYerun inglez.
1829- Janeiro -1). Partida de com c1uatro
nayios de emigrados para a Terceira. Tentati,·a fi·us-
trarla de rcYolta militar em Lisbna.-16. O cruzeiro inglez
impede o dcsembarrtue de 30. Hegressa a ex-
pedição, chegando a Brest: intenta-se em
Fevereiro-2. I )escmb:u·tJUC dos Yolnutarios da Hainha
na Terceira.-1-!. ;\oyo deseutbarrp1e 1le emig;rados de In-
glaterra. .
Março- 3. Xm·o id.- G. Exeenção em
Lisboa dos cnndemnados da conspiração rlo brigadeiro
reira. - Suppressão do bloquPio inglez da Terceira.- t-i.
('hega1la de (jO(I emigrados dP lug·latcrra.
Maio- I. Execução, no Porto, dos réus da insurrciçàtJ
da .Junta de 1G de maio
Junho -1t). Partida de Lisboa da expedi<;:1.o para suh-
mettcr a Terceira. - 2:!. Chegada de Terceira a Yilla-da-
Praia como capitão-general, nomeado por l'ahnella em
Lourlres.
Àpparecimeuto da esquadra do gon·rno
nas agnas da Terceira: bloqueio.
Agosto-11. Acçào da Yilla-da-Praia: repPllirla a tcn-
tatiya de desembarque das tropas do go,·erno: retirada da
€sqnatha. -13. Introducção dos jesuitas cm
Protesto tle Barbaccnn em I .outlres em nonw da rainha. con-
tra a politica ingleza.-31. Partida da rainha para o llra-
zil, com a noticia da Yictoria da Yilla-da-Praia.
Outubro- 2. Uecouhecimento de D. l\Iiguel, rei, pelos
da America:-11. pela IleS}Jallha.
CHKO:'\OLOGL\
1830-Janeiro-7. )lOI·te da Raiuha \"Ínva D. Carlota
Joaquina. em Lisboa.
Março-7. )forte do marquez de Chaves.-1:-). Chegada
de l'almella :i Tereeira: eonstituiçào da Regellf·ia.
Junho-15. D. Pedro, do Hio, continua a Hep;eucia da
Terceira. (Palme lia, Terceira, ( :nerrei.ro ). -Chegada a
llrest do marqnez de :-;auto Amaro, en,·iaclo de V. -Pedro.
Outubro-H'. uaneleira portngneza, bicolor.
1831- Tentati,·a frustrada de sedicào
militar em Lisboa. '
Abril"-7. Emprestimo lenmtaclo na Terf'eira.- Abdi-
eac;ào de D. Pedro. imperador do Brazil, no Ino.-l:J. :-;aí-
ela do ex-imperaclor do lhazil. para a Europa.-Jd. de D.
)laria 11 para Drest, ua Saine.-17. Expedic;:l.u tla Terceira
{ts ilhas de oeste.-1\J. Hnptura de relaç•}es do goHrno de
Lisboa com a Franc;a; saída do eousul. tle Lisboa.
Maio--!. Em Yiagem, D. Pedro toca uo Fayal, esere-
veudo a Occ·npaçào da illta de S. Jorge pelos
cousti tucionaes.
Junho- Chega<la cle J l. Pedro a
Oecnpaçào do Fayal, seguida pela de Flores, Corw1 e (;ra-
ciosa.- 2Cj. Chegada ele I>. Pedro a
emprestimo na Tf'rceira.
Julho-11. Entrada da escptadra franceza no TPjo. apre-
samento elos navios portug·nezPs.-:21i. Yisita de I). Pedro
a D. )Jaria 11 em França.- Partida da e:qJelliçào da
Terceira a :-;. )liguei.
Agosto-1. Veselllbarque ua lacleira da Yelha. occnpa-
ção de l\lignel. -11j. D. Pedro tixa a residencia em
Fram·a.- l'ronnueiamcnto coustitucinnal de infanteria
-! em ·Lisboa. snffucaclo.
Setembro-21. Hecouheeimento de JJ. )liguei, rei, pelo
papa.
Outubro-:2. Mnrte de Agostinho df' )!acedo.
1832- Fevereiro-::!. de V. l'e1lro.-HI.
Orgauii·<atla a expe<lic;ào em Inglaterra. armada em Delle-Is-
le, D. Pedro parte para os Açores.-2::!. Chega a S. )ligud.
Março- 3. Chega D. Pedro 1Í TPrceira. A:;sume a re-
gem·ia. miuisterio. ( Palmella. )[onsinho, FreirP)
Terceira generaL Sf•b o regente. - )Jauifesto 1le V.
)liguei.- Bloqueio da )ladeira pela esqu:ulra cnn:;ti-
tncional, em main, sem resultado.
Abril--!. JJeereto de aboliçno pan·ial de mnrgadns.-
1 !I. lu. da siza, portagens e direi tus I>. Pe-
dro vae a )liguei preparar a ao reino.
PORTUGAL CO'\TEMI'ORANEO
Maio-11). I )cereto organisamlo a admiuistraçuo, a jus-
tica e a fazPwla.
Emhm·r1ue.-'2í. Parti1la da expedi':ào 1le
l';. )Iig·uel para o eontii!eHte.
I )esembar•Jne cm Palllpelidn.- Entratla
no P•Jrto, evacuado pPlas tropas do govf'nw.-1-1. Primeiro
atar1ue dos miguelistas, rechassa1lo.-lt'. df' Pena-
Ht'CI>nhecimeJ;to de \"allongo. retirada para Hin-
Tintn.-lX .. Jtmc\ào ll••s g('Heraes miguelistas :o;anta-:\Iartha
e PoYoas em :-;ontn ltcdontlo, ao sul do Douro. Bata-
lha dt} Aeçào de • Ch·gani-
·saçào da nnlPm da Torre-e-I·:::-pada.-00. Heereto de abn-
liç::io dos dizimos.
Agosto--1. Acç.ào de e reti-
•·ada sobre n Porto-ti. Reconheciml'utn ruig-m·lista sohre
o norte do Portn.-l:t 1 )ecreto de aholi':ào da:; doas•)es
n·gias.-1 1 )l'cretn de dos lwus da eor•'•a..
Ataqnes <Í rlo Pilar e ao Porto,
relH·lliclos. Uccupaçào •le pelus mig-uelistas. Priueipio
do hnmbanl .. amento. Teixeira (Pezo ela Heg-oal toma o c·om-
mawlo do <'XI'rl·ito mig-nelista.-lli. :-5ortida eoHstitneioual,
occupaç:1o do ct>rro das Ata•1ue gt'ral dos mi-
guelistas a•J Porto, rept•llido.
Outubro-11. Batalha naval nas aguas do uorte, iude-
cisa.-}:;-1-!. Ataques :i n•pellidos. 1 )ese-
nha-se o eerco, artilhaiulu-sl' a urarg·em eSIJUt'rda dn l>ouro.
-}li. Partida de l ). :Miguel para :-ianta l\lar-
tha substitue Teixeira uo r·nmmando.
Novembro-H, 11, :-;urtitla.s successints dos sitia-
dos, batidos.
Dezembro-li. a bati•la.-HeYista de
] ). l\Ii,o;nel ao e-..:ercito sitiaute.
183.3-Janeiro -1. :o;olignae, geuernJ do f'xercito cous-
tihwional.- Atafjue frustrado :ts mig-uelistas
do C 'rasto c 1lo (lncijo, a uoroeste do Porto.-:?ti. Chegada
de :-ialdanha.
Fevereiro-21. O cnnde de :-;. Lourenço g-eueral do exer-
cito miguelista. -
AtaLJues miguelistas ás linhas leste e
noroeste, repelliclos.-11j. Yiuda de ]). l'arl••s para Por-
tugal.
:-iorti•la e occuptu;ão do rctlucto do (\H'ello.
Junho-1. Chegada au l'orto de l'almella n
com reforços.- X. a,picr almirante.- lit Demiss•)es de
Sartorins e chefe du Estado-maior;

Tercei:a comma!Hlante da expelliçno do snl. com Xapier, e
l'almelh. goYernador civil.-21. Partida da expediçào do
Algarve.-2--1. Desembarque e occupaç:lo de TaYira.
Julho-5. Batalha nanll do Cabo dc Yicmte, apre-
samento Cl<t esquadra miguelista.-14 Bonrmont conmHm-
dante dn e;,;:CI·cito miguelista no l'orto.-2.) . .Ata11He :ís li-
nhas, repell11lo.-2::. Acção da Piedade. dl•stroço dos llli-
gnelista:;.-2-l Entrada de Terceira em Lisboa. eyacuada
1-:ela gnarniç:l«' mip:nelista.-21.i. l'artida de D. l'edro, do
Porto, para Lit-uoa: por mar. -27. l\Iorticinio llus presos
de
de Bourmont do Porto para o sul.
Reconheeiuwnto fio govt>rno de V. II l'"la Ingla-
terra.-10. l> . .:\Iigut'l em C'oimbra.-15. c .. nYo-
callllo Sahlanha bate a llivisà.:; mig·ndista do
Porto, levanta o pelo norte e migue-
listas retiram da margem sul.-D. l\ligncl e o exercito
ayançam de Coimbra sobre Lisboa.-:!.-,_,;_ Concentração
das forç-as miguelistas em turno de Lisboa.
Setembro-:)-1--1. Ataques ás linhas con:;titncionaes, re-
pellidos.-lK. de Bl>tmnont. p.•r :\Iacdonell no
eommando do exercito miguelista.-22. t'lH•gacla de D.
)faria II ao por mar. de .Fnuu;-a.-27. Prorogaç-ào da
conYocaçào das cú1·tcs.-Exigencias de He:;panha perante
D. 1\Iiguel para a expnlsào de D. Carlos do territorio por-
tugnez.
Outubro-HI-ll. Sortida de Lishoa para leste. :o;alda-
nha obriga os sitiantes a retirar sohre onde se
fortificam.-HeconhceiniPnto do governo de V. :\[aria 11
pela França ;-23, pela Belgica
Novembro-3. Expedição constitneinnal ao r\lemtejo;
aeç·ilo de Aleacer, morticínio dos prisioneiros.
1834-Janeiro-U. toma e fortifiea Leiria.
-011. Acção e Yictoria de l'erues.
Batalha de Almoster.
Março-lK. Decretos de do D. :\Ii-
guel e al10lição da easa dn Iufantado, encorpnratlns os bens
nos da naçào.-Uperaçi'íes no toma
l'alllinha.-27. Yi:u1wt e Ponte de Lima.-Cahr«'ira entra
:-;auto TlnTso.
·c kcnpaçào (ll' Braga.-3. de Yalença.-E:x-
pediçào de Terceira ao ccutro do reino; eheg-a ao l'nrto;
npenu;i)es no Tratado da 'tnaclrupla al-
liall(·a.
Maio-8. Occnpaçào de Coimhra.-10. Confirmação do
4-!0 PORTUGAL
tratado em Lisboa.-11;. Batalha da .-\.s;-;eiceira.-:"1. l:e-
tirada de D. de :"iantarem para f lecu-
paç-ào de :-\antarem.-:21. de
l'on\·ocaeào das c•lrtes ordinarias.-Deert'to de al_li•Iie;;o rlas.
ordens Emban1ue de I>. :\ligue). .
Junho-:!tl. :\laliife:;to de I I. :\liguei, de ( ;CJlnYa.
Julho--!. Expnlsào dos jesnitas.-Interrnpçio de rela-
(•o)es com a ctlrte de I:uma.-:.!3. I >ecreto dt do
1;apel-moetla. ·
Agosto-l:-1. nenniào das Ctirtes.-2:-i. CouhriiHt<;ào da
de H. J'edro.-iJII. Juramento da carta pdo re-
gente.
Setembro-211. I>. :\Ia ria 11 cmneca a reinar.-:?-!. :\[ .. rte
de D. l'edro.-)IinistPrio l'almella.' priueipio do regime·
parlamentar em Portugal
Outubro--!. Yota.,.ào da lei de soccorros aos Jan·a.-
dort's.
Dezembro-1. Casamento da rainha eom o priucipe de·
Lenehtenherg.-HI. D. )ligue] e seus tlescemlentes bani-
dos por lei.
:\Iorte do rei-esposo. Tumultos de
Lishoa contra l'almella e o sen goyerno.
Abril-2iJ. ( 'onYersàn da diyi.:la de tj
0
/
11
em -!.
Idaio-:21. do gabinete I'almella. no
aoYerno.
Casamento da rainha com o prín-
cipe ll. Fernando de L'obnrgo.
Julho-H. Incentlio do palacio do Thesonro. no Hocio.
de Lisbna.-Dissolnçào rlas eamaras. conYüNt.tlas pam 11
de setemlJro.
:-;edi<;ào em suppres:;il.o da
('arta. 1lo ministPrio. 1 >icta•lura de
-11. Jnranwnto da Constituição de pela rainha.
Novembro-4. l'onspirat;ào palaeiana.. ahortaola. para
restaurar a Carta. ( J .\.ssas:;;ina.to de .\.go::otiuhiJ
Jllsé Freire.-1:!. ConYocaeào de cllrtes constituintes.
1837- Janeiro- 2ti. ·Abertura do congre:,:so consti-
tuinte.
Idaio-13. Sedieào mi!tuelbta das :\[arnotas. sutfoca.la.
Junho-1 Quecla de l'assos-)Jauuel. l-:altinete
Rand(·ira.
Junho-12. militar cartista. reyolta dos Jlm·e-
chaes. ( ).
Acção do (·hão-da-feira.
Setembro-1ti. de D. Pedro Y.-lS.
-!-!1
de Ruivães, convenção de Chaves, emigração dos mare-
chaes vencidos.
1838--Março-!1-13. Revoltas dos radicaes, clubistas
do Arsenal, em Lisboa.
Abril-4-. Juramento da constituição novamente feita.
Regresso dos marechaes.
Junho-H. Tumultos radicaes cm Lisboa.
Outubro-31. Xascimento de D. Luiz 1.
1839-Queda. do gabinete S;'L. Ministerio
(Jueda de :-;alJrosa. )lini:->teriu Bomfim-
Cahral-Uodrigo.
1840-Fevereiro-Dissolur3:o da Camara.
Maio-21;. Abertura do maioria cartista.
Agosto-11. Tumulto setctr.brista cm Lisboa. suffoca-
do.-21j. Pronunciamento em C'astello-Branco. (.Jliyuel
gusto) idem.
Fevereir0-1i"J. Execut;ào ele Diogo Alves, na forca.
Julho-2.:->. Homieidios de Mattos Lobo, em Lisboa.
Maio- 21. Publicação da s,wissima reformrt jltdi-
rim·ia. RPstahcleeimento das relaci'íes rom a ci)rte de
Homa. .
1842-Janeiro-1-!. Partida do ministro Costa Cahral
para o Porto.-21. Pronunciamento militar no Porto, res-
tam·ando a Carta (de
Fevereiro-5. Os pronunciados marcham sobre Coim-
bra.-1. do gabinete: ministerio Palnwlla-Soure-
Avila.-ti. eartista em Lisboa.-!1. c;abincte Ter-
ceira-:\Iousinho . ..:.__ 10. I>ecreto restaurando a Carta com
promessa de uma reforma.-1±-11;. Dissnluçào lias Jnntas-
cartistas do Porto e Coimbra.-1!1. Hegresso de Costa. ('a-
bral a Lisboa.-2-!. C. C. ministro (}<,-reino; principio da
longa admiuistraçào Cabral-Terceira.
MarQo-lR. Promulgação do novo codigo administrati-
vo.-30. Manifesto da coalisào das opposiçi'íes, setembris-
ta, miguelista e cartisht dissidente.
Julho-lO. Abertura das camaras.-lG. Execucào de
Lobo na forca: a ultima em Portugal. '
1843-Julho-1. Lei de reforma. das coutrilmie•1es:
decima de repartição. '
1844--Fevereiro-4. Pronunciamento militar em Tor-
sutlocado.
Abril-8. Sedição da praça de rPndida.
Agosto-1. Reforma da organisaçào da justic;a.-Xova
lei eleitoral.
1846-Abril-15. popnlar no )liuho (Jlo-
PORTn;AI CONTE:\IPORANEO
Formação rle Juntas revolucionarias no rei-
Decreto de suspl'nsão de garantias.
Maio-20. llncda do gabinete perante a revolução. Exí-
lio dos irmãos Cabraes.-2ü. )[inisterio Palmella; desar-
mamento da:-:: .Juntas. Curso foreadn das notas do banco de
Lisboa. Regresso elos de -!-l.
Agosto-21. ] >ecreto impondo segunela decima ás ins-
cripç·i;es. Prorogaçào do curso força1lo das notas.
Outubro-1. Xova prorogaçàn.-6. Golpe (rEstado, de-
missão do gabinete Palmella. Sahbnha no
Rt•stabelecímeuto da antiga h•i p]eitnr:tl. Dissnltu;ào das
<"amaras.- Terceira, mandar lo ao Porto, C'OlllO lugar-te-
nente, é ahi preso.-10. Snble\·açào do Porto, ereaçào da
Junta, propagaç-ão do movimento de resistencia em yarios
pontos do reino.-16. O ministPrin pede a intervenção ex-
traugeira para debellar a rcvnluç-àn.-2.). Pronunciamento
de S. )liguel.-21i . .:\Iarcha do exercito da Junta sobre

Novembro-i. Occupação de :-;antarem pelos rcYolto-
sos.-ü. Costa Cabral embaixador em )ladrid. ,]e
Salrlauha, com o exercito fiel, de Lisboa.-1-l. Decreto do
curso forçado pennaucnte das notas do banco.-lG. Ac<;ào
de Yal-passos, entre S[t-da-Bandeira e Cazal.-1!1. De-
-c·reto de fusão do Banco tle Lisboa e da Companhia Con-
fiant;a.-::!:-J. Entrada dog miguelistas em (
Dezembro-3. Tomarla tle Yalf'nça. pf'los de Lisboa.
-!. Ataque de Yianna pelos mignelistas.-)lauifestn da
Junta do Porto.-Ae<;ào de . .Acção de Tor-
\T edras, vietori:t df' pela rainha.-215. Crea-
Ç<lO do banco de Os migueli:stas trucidados
em Brag-a, morte de 1\lacd'Jllf'll.
1847-Fevereiro-1. l>eg1·edo tlos prisioneiros de Tor-
res- Y etlras para Afriea, no Andl(z.-27.-Ataftne de Estre-
moz pelo coude tle UPllo, patnléa.
Março- ::!'3. Parti ela da de
})111' mar, do l'orto a desembarcar em Lagos: marcha sobre
Lisboa.
Abril-11. :-;edição em Lisboa, mallograd:t.- Tn-
wnlto de Lisboa: abertura das cadeias. Fome: começam
.as di:-::trihnições ele sopa-economica, até junho.- Pronun-
ciamento da )ladeira.
Maio -1. Accào do A.lto-do- 21. Protocollo de
Lemdres para a i;ltcn·ençào extrangeira.- 2:!. Pronuncia-
meuto da, Tercl'ira.- 21. Rlmjlteio tlo Douro, pela esqua-
dra ingleza.- 311. Embarttne tla expedição llo conde das
CHRONOLOGJ.\
Antas no Porto.- 31. Aprisionamento pela esquadra in-
.gleza.
Junho- 3. Eutrada da divisão hespanlwla de Coueha,
'lue occnpa o Porto. Os inglezes em .. João da :!4.
ConYencão de Gramido, dissolueão da Junta e fim da
guerra '
Dezembro- !J-14.- I>eeretns aboliudo o curso força«lo
chs untas e retirando-lhes a garautia do Estado.
1849- -Abril-4. l\lorte de l\Iousinho ela
Junho Qtwda do gabinete O comle de
Thomar presidente do conselho. .
1850-Fevereiro-7. Demissão de :-;alllanha, de
mnnlomo-mt'tr do paço. Oppnsição ao ministC'rio.
1851- Abril- I. l'artida de para o Porto.
l'ronuuciaut(•utn militar do um·te; marcha sobre Lisboa.
{ Rr!Jl'I!Praçi'íoj.
Maio·- 1. (lueda 1lo collfh• de 'I'homar. ::;aldanha no
goveruo.-1:-,. _l._;utrada em Lisbna.-11-1. Teutativa tlc
prouuuciamcnto caiJralista, sutfocada. Reforma da lei elei-
toral.
Julho -7. Constituição do ministcrio: :-;altlauha, Ho-
drigo, _Fouft'S.
1852-Julho-5. Acto addieional ú Carta Constitu-
-f•ional.
Dezembro -1ti. Decreto de conversão da divida, cm
títulos de il
11
/n·
1853 -Novembro-15. l\Iorte de 1 ). )laria u. Regen-
cia de D. Fernando.
1855 - Setembro - 16. Principio do Reiuado de D.
Pedro v.
1856- Junho- 6. Queda da Regenera';'ão. Gabinete
Lonló: o partido bistorieo.
Outubro - 2x. Iuauguração da 1." secção da linha de
Leste.
1857 - Fevereiro -- Ahará de introduecão das ir-
maus <la Caridade. '
Maio - 18. Casamento de D. Pedro v com D. Este-
phania.
Agosto-Dezembro -Febre amarella em Lisboa.
1858 -Julho - 17. l\I(Jrte de JJ. Estephania.
1859 -Março - liJ. Queda de Loulé. G-abinete Fontes-
Martens-Cazal-:o;erpa. (2." regeneração),
1860- Junho- 30. Reforma das instituições vincula-
res.
Julho- 4. l\Iinisterio Loulé-Lobo cL-\.yila.
PORTUGAL CONTEMPORA!'\EO
1861- Abril- 4. Lei da dcsamortisacào dos l)('us !los
conventos e estabelecimentos pios. '
Novembro- 6. )lm·te do iufaute D. Feruaudo.- 11.
Id. de D. Pedro v.- Hi. Enterro do rei.
Dezembro- Reinado de D. Luiz 1.-
de Lisboa.
1862- Janeiro --1H. :\Im·te de Pa8sos-)Iaunel.
Junho- Expulsão das irmaus de Caridacle.
Setembro-1:). Revolta de Draga. suffocada.-27. Ca-
samento do rei com a priuceza tle :-;aLoya, n. )faria l'ia ..
Novembro-4. )lm·te de .José Estevam.
Abolição dos morgados.- :;o. Aber-
tura do camiuho de ferro a Badajoz.
1865- Setembro-4. l\liuistf'rio Agoniar. (Fnsào).-
1;-,_ Abertura da exposi<;ào universal do l'orto.
1868-Janeiro-4. TmmtlttJS no l'orto e Lisboa. Ja-
nciriulw. )linisterio Avila.
E
OS LIBE1-L1ES
1
1
V. a dos .\Jilz. e Secr. Estado etc. (Lisboa 1871).-Dividimos
-cs gabinetes em cinco series ou epochas, conforme o regimen constitucio-
nal vigente: na :!.a ep. entra a Carta em exerc1cio; na 3.a substitue-se-lhe
.a constituição de 20, e depois a de 38; na 4·a volta a por-se em vigor a
Carta de 26: na s.a finalmente fazem-se n'ella alterações constitucionaes.
- Os gabinetes, pois, não vão classificados por partidos politicos, cousa
que seria quasi impossivel, atten.:lendo á excessiva versatilidade de muitos
ministros; mas o leitor, cotejando este catalogo com o texto, fica sabendo
.a cór ou caracter de gabinete.
Como muitos dos políticos, adornando-se de ti tu los, mudaram de nome,
c isso possa dar lugar a confusões, usámos sempre do ultimo nome por que
sâo conhecidos.
I
1:-1:1:! ....
.li d lw. . . . .
Scteml,ro. 25
!\ovembro 10
113
lh:zembro. 3
11333 - .laneiro . . 12
.... 26
Abril .... 21
.Julho .... 26
<>utubro .. I5
I[o\34- Abril. .... 23
Setembro. 24
re,·erciro. J(i
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(1." Epocha- Dictaclura ela Regencia)
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(2." Epocha- Regime parlamentar- cartista)
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(3.n Epocha- Revolução de Seternbro)
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(4.n Epocha- Restauração da Oarta)
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!\vila ___ --
.\maral J. Dias Canto
o
lJuque de Cadaval; min. assistente (até I julho ).
Conde da Louzan, O. Diogo :fa;end<l.
Conde Villa Real; ;;uerra e estm11geiros (até 3 março
de Santarem; estr.:m;,:eiros (desde r3 março 1S2S1.
Conde do Rio ;;uerra (de 3 março 1828 a :!O fevereiro
Conde de S. Lourenço: id. (desde 20 te\·ereiro
Conde de Barbacena; id. interino (desde 21 fevereiro ate 16 julho
durante o commando do exen:lto pelo etfecth·o).
Conde de Basto; reino e marinha (ate a sua morte em 2 agosto rl:i33).
Guião; rei11o ldesde 22 setembro rS33)
Rill de Mendonça (ate 11 abril 1829).
Barbosa de :\lagalháes; id. (até 27 junho IS31).
Paula Furtado; id. (desde 27 junho 1831).
Bourmont; guara im. , desde 15 agosto 1KU ).
INDICE
1)0 TOt\10 SEGUNDO
LIVRO QU.\RTO
A AN ARC:H:I.A LIBERAL

O REGABOFE
1- A sessão de 34 .....
2. Os bens nacionaes. . •
3. O Thesouro queimado
4- A dos politicos
5. Ya: victis! ...... .
II PASSOS MANl'EL. . . . . • . . • . . . . • . • • • • • • • • • • • . • • 58
1. A de setembro. 5H
2. A Belemzada. . . . . . .• 7
4
3
3. As ciirtcs constituintes H
4· .\s revoltas. . . . . . . . . . 94
5. As tolhas caidas . . . . . . . 111
III O ROMANTISMO . • . • . . . • . . • • . . • • • . • . . . • . . • • • • 120
11
III
1. A voz do prophcta .
2. A poesia das ruinas .
... .
4- A ordem ...... .
LIVJW t_!UINTO
O CARTIS:JY.[Q
( 11-i:J!J-r, 1)
COSTA-CABRAL
1. Os ordeiros . . . . . . . . . . . . . .
2. A restauração da Carta. . . . . . . . 15]
3. A Doutrina. . . . . . . . . . . . . . . 158
q3
A REACÇÃO................................ ljO
I. A coalisiío dos partidos . . . 170
") rrorres-NO\"(IS e Almeida . . . . . . . 175
:;_ A 1\laria-da-Fonte • . . . . . . . . . . 1H3
A GLJERI{A CIVIL . . • • • • . • . • • • • . . • . • . • • . . • • . . .
1- 0 6 de OUIUbro. . . . . IIJ7
2. A Junta do Porto . . . 2i3
3. O Espectro. . . . . . . 227
4· A primavera de 47. . .
IV US 11\II'ENITENTES • • . • • . . • • . . • • • . . • . • . • • • . . . .
1. O cadaver da nação . . . • . . . . . . 25o
2. O conde de Thomar. . . . . . . . . . 26g
!NDICE
LIVRO SEXTO
A REGEN"ERAÇ.Â.O
(18iJ1-6R)
ALEXANDRE HERCULANO •••••
1. A ultima revolta . . • . • . . . . . . . 283
2. O fim do Romantismo. . . . . . . . . 293
3. O Solitario de Yal-de-Lobos . . . . . 3o2
II A Ll<-lUIDAÇÁO DO PASSADO . • • . . • • . • . • • • • • . • • • 328
1. A rap:na e suas manhaa . . . 328
2. A conversáo da divi..ia . . . . . . . . 334
3. Os historicos. . . . . . . . . . . . . . 348
III AS GERAÇÕES NOVAS • • • • . • • • • • • • • • • • • • • • • • • • 36o
1. A iniciaçáo pelo fomento . . 36o
2. O iberismo . . . . . . . . . . 367
3. O socialismo. . . . . • • • . 381
4· D. Pedro v. . . . . . • . . . . 389
l \' CONCLCSÓES •.•..•••.••••••.•••.•..• - • • • . . . 402
r. . \s questões constitucionaes. . . . . 402
" .\s questões economicas . . . 4d
3. As questões geographicas. . -ti<)
APPE;o.IOlCFS
A Chronologia ............... .
H Os ministerios liberaes .............. .
C Os ministros de O. Miguel . . . . . . . . . . . . .