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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENCTAQÁO
DA EDIQÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
•<<::-r
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
* • • • ■■

T7>. *"**:IM

MORAL

Mirróaia
CfüíTJAWKMO

ANO XIV — N? 159 MARCO DE 1973


índice

Pág.

O CANTO DA PALAVRA 93

Tentando desemaranhar:

QUE É MAGIA ? QUE É RELIGIAO ? 95

Dentro do mais famoso "besl-seller" :

ANTIGO TESTAMENTO : HISTORIA OU ESTÓRIAS ?

VERDADE OU LENDAS ? 106

Um "furo" da eletrónica :

"FALTA UM DÍA NA HISTORIA DA HUMANIDADE" 121

Carta Pastoral:

SOBRE AS "IGREJAS BRASILEIRAS" 132

Canibalismo ou nao ?

CONSUMO DE CARNE HUMANA NOS ANDES 138

LIVROS EM RESENHA 3? capa

NO PRÓXIMO NÚMERO :

Aínda se pergunta: Deus existe mesmo? E o demonio é


mito, Juventude, quem és? Aínda as «igrejas brasileiras».

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual CrS 30 00-


Número avulso do qualquer mes CrS 4,00
Volumes encadernados de 1958 e 1959 (proco unitario) CrS 35,00
índice Geral de 1957 a 1964 CrS 10,00
índico de qualquer ano CrS 3.00

EDITORA LAUDES S. A.
REDACAO DE PR ADMINISTRAQAO
Caixa Posta! 2.666 Rita Sao Rafael, 38, ZC-09
ZC-00 20000 Rio de Janeiro (GB)
20000 Rio de Janeiro (GB) Tels. : 268-9981 e 268-2796
O CANTO DA PALAVRA
A palavra é um dos elementos mais freqüentes e, infeliz
mente, banalizados da realidade cotidiana. Ela ocorre «a tres
por dois», com ou sem propósito. No entanto, a palavra é algo
de extremamente serio e importante. Consciente disto, o tro
vador popular concebeu a seguinte cangáo:
"Palavra nao fol feita para dividir ninguém.
Palavra é a ponte onde o amor vai e vem,
Onde o amor va! e vem... ..._
Palavra nao foi feita para dominar.
:< í-.-t.c v.
Destino da palavra é dialogar.
Palavra nao foi feita para opressáo, .•»•!, vi.

Destino da palavra é uniáo.


Palavra nao foi feita para a vaidade
Destino da palavra é a eternidade. ,
Palavra nSo fol feita para cair no chao, y //j/7
Destino da palavra é o coracáo. ■¿-*—?-¿—£—
Palavra nao foi feita para semear
A dúvida, a tristeza ou o mal-estar.
Destino da palavra é a construcao
De um mundo mais feliz e mais irmao".
O poeta foi feliz em sua composicáo. Ele sugere ao leitor
um mundo <ds idéias...
Com efeito. O homem é o único ser, na térra, que tem o
dom da palavra. Esta, portanto, é a expressáo da racionali-
dade do ser humano:, pela palavra o homem comunica suas
idéias; mas nao somente suas idéias,... também seus afetos,
seus sentimentos, em suma, o tesouro de sua realidade íntima.
Daí a enorme importancia da palavra. Ela transmite vida,
reergue ánimos, rasga horizontes, quando bem pensada e opor
tunamente proferida. Mas também por ela pode alguém comu
nicar sua desordem interior, sua miseria oculta; a palavra
torna-se entáo venenosa e mortífera; pode arruinar a fama e
a carreira de alguém, como pode desfazer o ideal de urna vida.
Já disse o sabio: «A morte e a vida estáo á mercé da língua>
(Prov 18,21).
E qual o segredo do éxito da palavra?
Para ser o que deve ser, isto é, veículo de vida, a
palavra supóe o silencio. O silencio — geralmente pouco esti
mado — nao é algo de meramente negativo, mas é um clima:
o clima no qual se restaura e desenvolve o íntimo de urna

— 93 —
personalidade; precisamos de silencio para nos recompor inte
riormente após o reboligo de urna ardua tarefa; é no silencio
que podemos ver com mais objetividade o valor de idéias e
afetos. Ora a auténtica palavra é fruto do silencio. Ninguém
«fabrica», por encomsnda, palavras fecundas e construtivas;
estas, caso sejam tais, supoem o hábito do recolhimento e da
reflexáo. Quem se acostuma a viver em profundidade, aínda
qus fale de improviso, falará da plenitude do coracáo. Todavía
quem nao cultiva a reflexáo silenciosa, poderá proferir pala
vras de alta retórica; difícilmente, porém, dirá algo da
profundo.
Tais ponderagóes tém significado nao somente para os
cristáos, mas também para todo e qualquer homem de bem.
Já antes de Cristo a sabedoria dos povos tcceu o elogio do
silencio e da palavra que dele emana. Assim, por exemplo, os
árabes forjaram o proverbio:
"Nao abras a boca senáo quando estiveres certo de que
tuas palavras serao mais belas do que o silencio".
O pensamento chinés desenvolveu outro aspecto do tema:
"Antes de dizeres a tua palavra, és senhor déla ; depois,
porém, que a disseste, ela é que é o teu senhor".
Sim. A nossa palavra nao atinge apenas os nossos semc-
lhantes; ela nos atinge também, e nos atinge como juiz. A
palavra dita nos empenha e obriga.
Estas verdades vém a propósito neste mós de mareo que
é, para os cristáos, mes de Quaresma, ou seja, de recolhimento,
de contato com a Palavra de Deus, Palavra que purifica e
renova interiormente a quem a aceita. Se a palavra é sempre
comunicacáo da vida, a Palavra de Deus, contida ñas Escri
turas, é sempre portadora da vida do próprio Deus; ela esta-
belece comunháo íntima entre o Senhor e seu discípulo...
Margo é também o mes de reinício das aulas, ou seja,
desse intercambio de palavras entre professores e alunos. Que
os msstres, unidos ao Divino Mestre, sejam realmente trans-
missores da Verdade, do Amor e da Vida do próprio Deus!
A fungáo do mestre é, muitas vezes sem que este o perceba,
decisiva para o futuro do seu discípulo: será vida ou será
ruina... O auténtico mestre fala por aquilo que ele ó, mais
do que por aquilo que ele diz. Os discípulos, por sua parte,
lembrar-se-áo do adagio de Pitágoras: «Quem fala, semeia;
quem escuta, colhe».
É na perspectiva destas proposicóes que apresentamos
mais um fascículo de PR. Seja ale palavra de verdade e de
vida para todos os seus leitores!
E.B.
— 94 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XIV — N? 159 — Marco de 1973

Tentando desemaranhar:

que é magia?
que é religiáo?
Em síntese: Por 'magia' hoje em dia entende-se toda tentativa de do
minar as torcas ocultas da natureza, mesmo as transcendentais, mediante a
aplieacáo de fórmulas, ritos, encantamentos, despachos... Distinguem-se
magia branca (destinada a provocar beneficios), magia negra {... male
ficios), além de longa serie de realizares do espirito mágico. A magia
pretende constranger seres superiores (semideuses, espiritos diabólicos, angé
licos, forcas neutras...) a vlr em auxilio dos interessados ou prejudicar a
outrem; nisto consiste o elemento característico da mentalldade mágica.
— Ao contrario, a Religiáo propriamente dita professa que Deus é soberana
mente livre em relacfio ao homem; este nao o pode obrigar mediante rito
ou despacho algum ; nao obstante, o homem religioso é convidado a confiar
filialmente em Deus, pois este é Pal e nao há de abandonar a criatura. Os
ritos e sacramentos do catolicismo nSo derrogam a esta afirmagáo; nada
tém de mágico, pois supóem sempre a dlsponibilidade do cristáo para a
graca de Deus.

Os ritos da magia podem ser eficazes nao por intervcncáo de forcas


transcendentais, mas geralmente por funcionamento parapsicológico dos in
teressados. As ciencias positivas v§o dando explicacóes racionáis aos fe
nómenos da magia. Todavía é de crer que esta continué sempre a persis
tir, até mesmo em ambientes altamente civilizados (como hoje cm dia se
vé), porque a magia é urna expressao da dimensáo religiosa do homem.
Esta é inata ou congénita; quando devidamente educada e orientada, ex
prime-so na religiáo propriamente dita; quando destituida de orientacSo e
entregue á'fantasía, produz as artes mágicas; ora em nossos días a au
téntica orientacSo religiosa vai-se tornando rara e tenue — o que abre
campo para a supersticáo e as crendices, até mesmo ñas grandes cidades.
Só se poderá opor um dique eficaz á magia se se incrementar a auténtica
formacáo religiosa das populacSes contemporáneas.

Comentario: Há certas formas de religiosidade que se


chamam magia e fácilmente sao identificadas com a religiáo
propriamente dita. Por conseguinte, o vocábulo «religiáo» pode
equivaler, na conceltuacáo comum, a auténticos átos de culto,

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4_ -PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

como também a encantamentos, práticas esotéricas, ocultistas,


despachos, «trabalhos», etc. Já que tal identificagáo acarreta
serias conseqüéncias para os valores da Religiáo, importa-nos
descrever fielmente em que consista a magia propriamente dita
e em que se diferencia da Religiáo. — Estas considerares teráo
sua_ aplicagáo concreta na situagáo religiosa do Brasil, onde o
binómino religiáo - magia se faz sentir vivamente.

7. Magia : que é ?

A palavra «magia» vem de «magos», urna das seis tribos


dos antigos mcdos \ dada as práticas da astrologia e da adi-
vinhagáo. Na antigüidade, eram chamados «magos» todos aque
les que cultivavam tais artes. Hoje o vocábulo tem significado
mais ampio; por «magia» se entende toda tentativa de dominar
as forgas ocultas da natureza, mesmo as transcendentais, me
diante a aplicagáo de fórmulas, encantamentos, despachos...
— É neste sentido que empregaremos tal palavra no presente
artigo, tendo em vista contribuir para se conceituar e caracte
rizar a magia africana no Brasil.

Faz-se mister, antes do mais, procurar catalogar os ritos


e fórmulas da magia.

1.1. Profilaxia, capta;So de beneficios

As práticas da magia sao quase inumeráveis, variando se


gundo os objetivos que a pessoa interessada queira atingir; os
mais freqüentes sao os que se ligam á fecundidade, ao amor,
á doenga, á morte, ao destino, á prosperidade; procuram atrair
tudo que haja de positivo, e afastar os efeitos negativos em
tais setores.
Eis alguns dos mais curiosos ritos neste contexto:

Os negros tóbús do Sahara colocam um anel de cobre no


dedo de quem cometeu um assassínio, certos de que isto pre
servará o criminoso contra as incursóes do espirito negativo
da vitima.

As criangas da mesma tribo, quando atingem o sétimo dia


de vida, sao submetidas a queimaduras em diversas partes do
corpo, porque isto as imunizará de doencas.

'Os medos eram árlanos Iniclalmente nómades, estabelecidos na Pér-


sia, com capital em Ecbátana, no séc. Vil a. C.

— 96 —
MAGIA É RELIGIAO ?

Os dancais, populagáo da África Oriental, provam a sua


inocencia moral, tomando em máos o ferro em brasa de um
machado. Caso nao se formem queimaduras, sao tidos como
insentos de culpa numa situagáo ambigua ou duvidosa.

A fiín de obter chuva, os aborigénes da Melanesia e da


Nova Guiñe agitam ramos como que para provocar o vento
portador da chuva. A seguir, mergulham esses ramos nagua e
os sacodem, de modo a fazé-los gotejar sobre o solo. Os austra
lianos, no mesmo intuito, enchem a boca de agua, que eles fa-
zem espirrar em todas as direcóes.

Quanto aos indios do Arizona, desenham nuvens e fura-


cóes, convictos de que estas imagens provocaráo os fenómenos
desejados.

Para conseguir sol em período chuvoso, na Melanesia e na


Nova Guné, atiram-se pequeños seixos no fogo, aceso especial
mente para este fim; depois recitam-se fórmulas mágicas.

A adivinhagáo também se faz mediante ritos especiáis. Na


Sibéria e na Mongólia, por exemplo, certas populacóes recorrem
a uma espádua de rena ou de carneiro, que eoloeam sobre o
fogo; a crepitagáo, os ruidos e as reagóes daí decorrentes sao
indicios do que há de acontecer futuramente. Os siikuma da
Tanzania julgam poder descobrir as causas de um falecimento,
uma doenga ou uma desgraca, servindo-se de pequeños casca-
lhos, latas e perfumes; a interpretagáo dos resultados é dada
por um adivinho em estado de transe.

A magia que visa r. dar ao mago a posse de forgas vitáis


superiores, toma a forma de antropofagia e caca de cránios.

1.2. Antropofagia c caca

Algumas tribos primitivas estáo convictas de que órgáos


como o coracáo, o fígado, a cabega.... sao sede da forga vital
e de especiáis predicados do individuo. Por isto quem se apode
ra ou se nutre de tais órgáos, aumenta seu valor pessoal. Prin
cipalmente a cabera é tida como sede da forga vital ou da alma.
Assim se explica o culto dos cránios e a caga de cabegas de de-
funtos. Há mesmo certas tribos que, estando para montar uma
cabana, eoloeam um cránio humano debaixo da pilastra prin
cipal ou a penduram a uma das paredes depois de pronta a ca-

— 97 —
■■PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 159/1973

baña; assim esperam conseguir solidez e prosperidade para a


nova mansáo.

1.3. Magia negra

Para prejudicar alguém, fazé-lo enlouquecer ou causar-lhe


a morte, também se usam ritos mágicos ou magia negra ou
quimbanda (da qual se distingue a .magia branca, que visa a
fins benéficos). A pessoa que pratica tais artes, é dotada de po
deres especiáis (que ela herdou ou aprendeu), e se chama
«feiticeiro(a)».

Alguns aborígenes da Nova Zelandia, por exemplo, dese-


nham a imagem ou confeccionam a maquete do seu inimigo;
depois ferem-na com flechas ou alfinetes, julgando que assim
provocaráo o ferimento ou a morte desse adversario.

Os feiticeiros da tribo Ona (Térra do Fogo), quando dese-


jam causar a morta de um inimigo, procuram obter um punhado
de cabeíos do mesmo e urna prega do seu manto; eoloeam tudo
em um saco, que tales comprimem, triíuram, pisam e expóem
lentamente ao fogo ou imergem nagua. Segundo tais aboríge
nes, essas opevacóes agem á distancia, de tal modo que o ini
migo visado, dentro de quinze dias no máximo, se torna presa
da morte.

Á magia negra S2 podem equiparar 05 despachos, o mau-


-olhar, o sortilegio e outros artificios usuais no Brasil.

1.4. Tabú mágico

A palavra «tabú» tem origem na Polinesia; significa «in-


tocável. proibido, poriíioso»; todavía na raíz do vocábulo nao
ó indicado o motivo por que tal pessoa ou tal coisa seja intocá-
vel ou proibida.

Na prática dos povos primitivos, verificam-se tabus ou


proibic.óc.3 da natureza nítidamente religiosa; quem viola essas
proibicóes, transgride urna lei divina e contrai -urna culpa mo
ral (em linguagem crista: comete um pecado); mediante ora-
"áo e penitencia, o culpado pode obter o perdáo de tal falta.
Mas há também tabus mágicos, isto é, pessoas e objetos que nao
podem ser tocados porque deles se desprendam forcas especiáis,

— 98 —
MAGIA É RELIGIÁOV

benéficas ou maléücas; quem viola esses tabus ou proibigóes, só


pode iseníar-se dos males dai decorrentes caso recorra a um rito
mágico que possua eficacia superior áquela que o tabú desenca-
deou; o rito mágico (e nao o arrependimento da consciéncia)
afastará os maléficos que se devem seguir á transgressáo do
tabú. Eis alguns exemplos ilustrativos:

Os semang de Malaca constituem uma populacáo extrema


mente primitiva, mas profundamente mística. Afirmam que o
Ente Supremo, além de ser o Doador da vida, é também o au
tor da lei moral. A violagáo dessa lei é violagáo de um
tabú. Quando se desencadeia uma tempestada violenta, os
semang a interpretam como manifestagáo do castigo de
Deus por causa de alguma culpa Imoral ou da trans
gressáo de um tabú. Entáo dirigem-se á Divindade, pe-
dindo-lhe perdáo mediante um sacrificio expiatorio unido
á oragáo. Com efeito, o culpado faz pequeña ferida sobre
uma de suas coxas; recolhe as respectivas gotas de sangue em
uma cuia com agua; a seguir, langa o todo para o céu, pedindo
perdáo e repetindo as palavras: «Pago a minha divida».

Bem diverso é o comportamento dos pigmeus babbuti do


Ituri. Também estes acreditam em um Ente Supremo, mas tém
uma concepgáo religiosa impregnada de magia. Para eles, tam
bém existem tabus, mas tabus que só se podem neutralizar
com forgas mágicas de eficacia superior. Em conseqüéncia,
quando so desencadeia um furacáo, em vez de pedir perdáo á Di
vindade pela transgressáo do tabú, acendem o seu cachimbo
«serrote», cuja fumaga tem o poder mágico cíe afastar os raios
e dirigi-los segundo o rumo por eles desejado.

1.5. Pessoas e circunstancias

Nem todas as pessoas gozam dos mesmos poderes má


gicos ou extraordinarios; nem todas «trabalham» do mesmo
modo. Por isto dislinguem-se magos, feiticeiros e xamás1, de
acordó com a maneira de pensar e agir desses mediadores.

Os magos geralmente se aplicam a finalidades úteis ou,


ao menos, inocuas.

Os feiticeiros visam a efeitos maléficos.

1A palavra xamá talvez venha do sánscrito cramanas, asceta, ou do


tunge xaman, esconjurador, exorcista.

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E E RESPONDEREMOS» 159/1973

Os xamás pertencem mais á primeira do que á segunda


destas categorías; caracterizam-se pelo fato de poderem entrar
em transe (condicáo esta indispensável ao xamanismo). Gozam
de outras facilidades mágicas, como a de fazer aparecer e de
saparecer imprevistamente certos objetos sob o olhar espanta
do dos espectadores; engolem carvóes acesos, perfuram-se com
punhais. Usam certo aparato mágico, como capuz com orelho-
nas, taimbor com campainhas... Ao rumor do ritmo cons
tante e acelerado do tambor, acompanhado por palavras, o
xamá entra em excitagáo e em transe; o espirito o possui («bai-
xa» sobre ele) e fala por boca desse mediador. Os xamás sao
numerosos na parte setentrional da Asia e entre os esquimos.

2. Os tempos da magia

1. Retrocedendo á pré-história, verifica-se que nos tem


pos paleolítico superior e medio já se praticava a magia.

No paleolítico superior, por exemplo, isto é, há quinze ou


vinte mil anos, defrontamo-nos com ritos mágicos, principalmen
te cultivados para se obter bom éxito na caga. Com efeito, ñas
grutas idaquela época, ancontram-se imagens de animáis, geral-
mente a sos, feridos por flechas ou necobertos de chagas a san
grar; encontram-se também imagens de feiticeiros camufla
dos por peles de animáis. Sao particularmente conhecidos: o
feiticeiro dos «Trois Fréres», estranha pintura que representa
um ser fantástico, meio-homem, meio-animal; os «loucos» de
Tayat, com cabeca de cabra selvagem, a pular e dangar; o ho-
mem e a mulher da gruta da Madeleine, os homens de
Altamira.

No paleolítico medio, que nos faz retroceder cem ou du-


zentos mil anos, existen! testemunhos, ao menos prováveis, de
ritos mágicos. Um dos mais significativos é o da gruta Guatarri
no monte Circeo; ai encontrou-se um cránio com a cobertura
ocipital intencionalmente alargada; estava depositado sobre
urna especie de altar. Pergunta-se: tratava-se realmente de rito
mágico?... ou de culto funerario?... ou de cerímónia reli
giosa propriamente dita? O que inclina o estudioso á primeira
hipótese, é a semelhanca .desse cránio com os que se acham
nos ritos mágicos ainda hoje praticados pelos aborígenes (daia)
de Borneo.

Nao é possivel retroceder ainda mais na pré-história, por


que os documentos se tornam de tal modo fragmentarios e

— 100 —
MAGIA É RELIGIAO?

controvertidos que é quase impossível dar-lhes urna interpre-


tagáo isenta de contradigáo. É certo, porém, que, desde que se
tenham nítidos vestigios de existencia do homem, se encon-
tram igualmente vestigios de mentalidade mágica. Note-se que
ao mesmo tempo se encontram também vestigios de mentalida
de estritamente religiosa, pois se acham no paleolítico medio
e no superior sepulturas devidamente ornamentadas e apare-
lhadas para a viagem do defunto ao além — o que é testemu-
nho de crenga na sobrevivencia da alma e na retribuicáo pos
tuma feita pela Divindade (em suma: é elemento de religiáo
propriamente dito).

2. Por mais incrível que parega, a magia persiste até


hoje em plena era da técnica e das viagens espaciáis. Parece
até que, com o enfraquecimento do espirito religioso, se tem
ampliado o recurso a ritos e práticas mágicas de todo tipo:
véem-se pequeños chifres pendurados ao pescogo para afastar
o mau agouro ou o azar, amuletos clássicos ou origináis e exó
ticos, bentinhos, figas... Além disto, estáo em grande voga
a quiromancia (leitura das máos), a cartomancia (adivinhagáo
por cartas), a astrologia, os passes, despachos, feitigos, os mais
variados tipos de ocultismo, espiritismo, etc. A difusáo destas
práticas se registra nao somente nos países de civilizacáo pri
mitiva, mas também ñas sociedades <te consumo e em ambien
tes ditos «permissivos». Magos, há-os em toda parte, apenas
com nomes que variam de sociedade para sociedade: ora pode-
rá ser um «pai-de-santo», ora um «iniciado» em ciencias ocul
tas, ora um «professor», ora um astrólogo, ora um quiroman-
te..., valendo-se muitas vezes de conhecimentos ou livros ou
objetos adquiridos no Oriente... Em urna palavra: o mago
mudou de nome e aspecto; urbanizou-se e aculturou-ss, sem
deixar de ser substancialmente o mesmo. Dizem, por exem-
plo, que em París os profissionais do ocultismo sobem ao nú
mero de quase seis mil, concedendo diariamente cerca de 50.000
consultas, que Ihes proporcionan! um lucro fabuloso. Há na mes-
ma cidade perto de 2.000 sociedades pseudo-místicas. — Em
Nova Iorque, no ano de 1961 fundaram-se quinientas lojas de
astrologia cigana e dois mil boletins diarios, ditos de «astrologia
seria». Nao poucos magos recebem cotidianamente centenas de
cartas de consulta.

Donde se vé que a magia nao é praticada apenas por ho-


mens ou povos primitivos (voltaremos ao exame deste fato no
fim do presente artigo).

Importa-nos agora considerar as relagóes entre

— 101 —
JLO <PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

3. Magia e Religiao

3.1. O essencial da magia

Observando as diversas manifestagóes da magia, os estu


diosos nela descobrem um elemento comum e essencial, que
as define: a magia é a prática de certos ritos ou artes que tém
o poder de constranger seres superiores (semideuses, espiritos
diabólicos, angélicos, forgas neutras...)'. O mago julga que o
ente divino ou transcendental obedece ao poder constrangador
do rito aplicado, de modo a vir em auxilio dos interessados ou
prejudicar a outrem; como se compreende, para que esse rito
seja realmente eficaz, tem que ser rigorosamente executado em
todos os seus numerosos pormenores (circunstancias de lugar,
de hora, de número de pessoas ou coisas, de cor, de perfume...).

3.2. O essencial da Religiáo

1. Os diversos ritos mágicos tém evidentemente certa


semelhanca com os ritos da Religiáo propriamente dita: uns e
outros se constituem de fórmulas, palavras, gestos, cerimónias,
objetos simbólicos... Por isto nao poucos estudiosos identifi-
cam uns e outros entre si; tenham-se em vista os dizeres de
Claude Lévi-Strauss: «Nao há religiáo sem magia, e nao há
magia que nao contenha urna sementé de religiáo» («La Pen-
sée sauvage». Paris 1962, p. 293).

A identificagáo, porém, nao resiste a exame atento:, a men-


talidade do mago difere profundamente da do homem religioso.
Com efeito; a magia pretende obrigar fore.as ou seres superiores
a seguirem o programa do mago; para tanto, serve-se de ritos
ou fórmulas arcanas, isto é, ignoradas pelos «profanos» e trans
mitidas reservadamente da um mago a outro, as vezes como
heranga de familia. A atitude do mago é a de quem domina,
de certo modo, o mundo transcendental ou divino; ele capta ou
canaliza, de maneira segura e inexorável, os favores ou os ser-
vigos de entidades do Além; por isto o mago pode ser profun
damente temido; dispóe de forgas divinas, que ele aplica ou
afasta...

1 Entre os indios iraqueses a torca neutra que o rito mágico desen-


cadeia, é chamada "oronda"; entre os plgmeus, "megue"; entre os habi
tantes da Melanesia, "mana".

— 102 —
MAGIA É RELIGIÁO ? 11

2. Ao contrario, a Religiáo propriamente dita supóe urna


concepgáo totalmente diversa dos valores transcendentais. Ela
professa que Deus, infinitamente sabio, poderoso, deu livremen-
te existencia a todas as criaturas; os homens Ihe pertencem
inteiramente. Deus nao pode ser constrangido ou oBrigado nem
por pessoa nem por coisa alguma. A nogáo crista de Deus
acrescenta que o Senhor sabio e todo-poderoso é também
Amor,... é o amor que teve a iniciativa de amar o homcm.
Diante de Deus o homem religioso se coloca numa atitude de
humildade; apresenta confiante as suas súplicas, sabendo que
nao tem poder constrangedor sobre aquele que é o Principio e
o Fim; mas, ao mesmo tempo, está convicto de que nao será
abandonado por Aquele que é radicalmente Amor; o homem re
ligioso nao se julga dono (direto ou indireto) dos favores divi
nos, mas se sabe amado por Deus e, por isto, dialoga filialmente
com o Pai Celesta. — Os ritos e os sacramentos do Catolicismo
nao derrogam a esta atitude; nada tém de mágico, de constran
gedor ou mecánico, mas sao cañáis pelos quais Deus se comu
nica 'á criatura; esta comunicacáo pode ficar estéril ou ineficaz
caso a criatura nao se disponha a recebé-lo mediante pureza
de vida e amor sincero.

3. Note-se também o seguinte: as práticas da magia sao


algo do cegó, irracional ou ilógico. Com efeito; quem garante
que, espetando com alfinetes um boneco de paño, estou pro
vocando futuros ferimentos em urna pessoa viva? Quem asse-
gura que urna figa afasta o mal? Nao há propongo entre a
suposta causa e o almejado efeito; nem há revelacáo divina,
auténticamente credenciada, que nos faca ver a relagáo entre
o rito mágico e as conseqüéncias que se desejam obter.

Ao contrario, a religiáo suscita o cultivo da razáo e da


ciencia. É certo que a religiáo exige fé, pois é a adesño a Deus
c aos designios divinos, que ultrapassam as capacidades da ra
záo humana; religiáo sem fé nao ó re-liga gao com Daus, mas é
sistema de pensamento filosófico, ó construcáo humana apenas.
Todavía a fé que a auténtica Religiáo propóe, ó credenciada; ela
tem seus motivos de credibilidade; é-me licito indagar por que
motivos poderia ou deveria eu crer nesta ou naquela proposigáo
de fé; hoje em dia mais do que nunca preconiza-se o estudo dos
fundamentos da fé, a fim de que o homem religioso saiba por
que eré,... por que faz esta profissáo de fé, e nao aquela ou
nquela outra; a fé cega arrisca-se a dissipar-se no primeiro
embate.

Póe-se entáo lógicamente a pergunta:

— 103 —
12 *PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

4. Como explicar os efeitos da magia ?

1. Através de despachos, trabalhos e ritos mágicos ocor-


rem efeitos que, á primeira vista, surpreendem e parecem dar
testemunho de que realmente forgas superiores respondem aos
encantamentos do mago ou feiticeiro. A magia fascina muitos
precisamente por causa dos seus efeitos maravilhosos.

Como explicar isto?

— Pode-se tranquilamente responder que os fenómenos


portentosos na magia (desde que sejam reais, e realmente por
tentosos) se explicam quase sempre por meio da parapsicolo
gía; trata-se de efeitos da percepgáo extra-sensorial, da telepa
tía, da criptestesia, da auto-sugestáo, da hétero-sugestáo... O
funcionamento paranormal é ssmpre surpreendente, pois foge
ao corriqueiro; em conseqüéncia, a primeira reagáo do obser
vador consiste em atribui-lo a forgas do Além; é na base desta
atitude que se constroem as artes mágicas; estas, sem que os
magos ou feiticeiros o saibam, criam as condigóes oportunas
ou condicionamentos para que se desencadeiem fenómenos
parapsicológicos.
Pode-se afirmar também que nao poucos dos fenómenos
mágicos tém caráter psicopático; trata-se de ataques epiléticos,
alucinagóes, crises de histeria...

Alguns magos recorrem a truques que iludem o público.


Entre os faquires da india, tal recurso já foi comprovado em
mais de um caso.

2. Visto que as ciencias positivas váo mais e mais ex


plicando os fenómenos misteriosos atribuidos pelos magos e
feiticeiros a forgas do além, poder-se-ia pensar que, com o
tempo, a magia e suas manifestagóes venham a desaparecer por
completo.

Nao poucos dentistas afirmam isto. Desde que se conhe-


gam todas as leis da natureza e se possa provar que os fatos
maravilhosos sao naturais, a magia cessará.

Todavía esta previsáo parece insustentável. Pode acontecer


que certas práticas mágicas desaparegam desda que se descu-
bram as suas causas científicas. Mas nem por isto a magia dei-
xará de ter voga, e até mesmo... voga crescente, como se vé
atualmente em nagóes técnica e científicamente desenvolvidas.

— 104 —
MAGIA É RELIGIAO ? 13

O motivo desta afirmagáo é o seguinte: magia e religiáo, em-


bora representem duas atitudes diversas do homem diante do
sobrenatural, tém um fundo comum: sao formas de relaciona-
mente com o Divino, e correspondem a urna dimensáo profun
da do ser humano; este é, sim, naturalmente feito e voltado
para Deus. Esta disposigáo, congénita e espontánea em toda
criatura racional, precisa de ser educada, desenvolvida e orien
tada; caso isto se dé, ela se torna auténtica Religiáo; caso nao
acontega, temos formas aberrantes e desviadas do senso reli
gioso, que se chamam «magia».

A existencia da magia entre os povos primitivos se expli


ca pela falta de orientacáo do senso religioso daqueles homens;
a ignorancia fomenta a superstigáo, a crendice, a feitigaria...
Entre os homens e povos de civilizagáo evoluída, a persistencia
ou mesmo a recrudescencia das artes fetichistas e supersticio
sas pode-se explicar do seguinte modo: em nossos centros ur
banos a educacáo e a formagáo religiosas sao cada vez mais
tenues; o estudo e o cultivo dos valores religiosos váo rareando.
Nao obstante, o homem nao pode viver apenas de pao; em
conseqüéncia, ele procura por caminhos espurios e irracionais
alguma coisa que satisfaga á sua necessidade de sobrenatural;
daí a prática de artes, encantamentos e feitigos mágicos... Vé-
-se, pois, que só será possível dissipar a magia (com tudo que
ela tem de irracional) caso se fomente a auténtica formagáo
religiosa do homem de hoje.

Eis a conclusao a que se destinavam as reflexóes deste


confronto entre magia e religiáo.

A guisa de complementado, observamos que o termo "Religiáo", em


nossos días, ó posto de lado petos chamados "teólogos da morte de Deus",
que preferem usar o vocábulo "(ó". A palavra "religlSo" é, para eles, Idén
tica a "rellgiosidade popular, supersticiosa, mágica". Em conseqüéncia, nao
fariam a dislincao entre Rellgáo e magia, mas entre fé e magia. — A pro
pósito note-se o sogulnle: o uso dé nomenclatura técnica está a criterio de
cada estudioso e escritor, contanto que explique as sua3 opcSes de voca
bulario. Profllguem os estudiosos a palavra "religiáo" se a querem identifi
car com crendice e supersticao; nao será lícito, porém, profligá-la caso se
Ihe atribua o seu sentido clássico de "religacáo" do homem com Deus.
Há raligacóes falsas, supersticiosas, como as há auténticas; neste artigo
defendemos a Religiáo no seu sentido de auténtico relacionamento do ho
mem com Deus.

As páginas deste artigo representam um condensado do artigo de


Vitlorio Marcozzl: "Magia e Religlone" publicado em "La Civiltá Cattolíca"
a. 123,. n? 2933, 2/IX/1972, pp. 3S0-363.

— 105 —
Dentro do mais famoso "best-seller":

antiso testamento: historia ou estórias?


verdade ou lendas?

Em síntese: As conclusóes dos estudos bíblicos contemporáneos con-


cernentes a certas passagens do Antigo Testamento tém levado multas
pessoas a julgar que todo o Antigo Testamento nao passa de um con
junto de historias ficticias ou estórias e lendas.

Na verdade, porém, os estudiosos observam o seguinte:

1) A religiáo judaica (que se prolonga no Cristianismo) é essencial-


mente urna religiáo histórica, isto é, ligada a fatos históricos, ao contrario
das religides naluristas (ligadas a fenómenos da natureza, como sao o to
temismo e o animismo) e das religides filosóficas (ligadas a idéias inde-
pendentes da historia, como o budismo).

2) É por isto que o povo de Israel cultivou a historiografía com


carinho especial; considerava a historia como veículo da revelacáo de Deus
(Javé) aos homens. Os povos antlgos vizinhos de Israel nao nos delxaram
senáo crónicas fragmentarias, ao passo que Israel escreveu a sua histo
ria de maneira continua.

3) é preciso, porém, reconhecer que a historiografía israelita (bíbli


ca), embora goze da assisténcia do Espirito Santo para ser portadora de
auténtica mensagem religiosa, depende estritamente dos modos de pensar
e escrever dos antigos e, em particular, dos semitas. Em conseqüéncia,
ela apresenta características que o leitor da Biblia em nossos dias deverá
sempre levar em conta; tais sao: viva conscléncia da presenga e da acáo
de Deus (por isto os autores bíblicos nSo dlstlnguiam entre o que Deus
que; e o que Deus permite); dramatizado (recurso freqüente a Imagens,
metáforas e cenas teatrals); narracáo etiológica (apresentagao de causas
e rcspostas mediante a narragáo de episodios forjados), esquematizado,
círculos concéntricos, compilacao, certo simbolismo dos números...

Quem toma consciéncia destes procedimentos da historiografía se


mita, evita dois graves perigos: o de entender as páginas do Antigo Tes-
lamento ao pé da letra e o de negar por completo a historicidade do An
ligo Testamento.

Comentario: As perguntas que encabegam este artigo, sao


freqüentes. Eis por que se eoloeam: os modernos esturlos bíbli
cos tém levado os exegetas a reformar algumas concepcóes que

— 106 —
ANTIGO TESTAMENTO : VERDADE OU LENDAS ? 15

se haviam tornado clássicas nos manuais de historia sagrada:


já nao tém por históricos muitos dos episodios que outrora eram
tidos como tais; tenha-se em vista, por exemplo, o modo como
hoje se explicam as páginas do Génesis que narram a criagáo
do mundo e do homem, a origem da mulher... Acontece, po-
rém, que muitos cristáos, impressionados pelas proposigóes da
nova exegese, sao inclinados a langar o descrédito sobre toda a
historiografía do Antigo Testamento: pouco ou nada se salvaría
das narragóes bíblicas, principalmente das que se encontram
nos primeiros livros sagrados. Eis por que abaixo considerare
mos a questáo em tres de seus aspectos mais importantes: 1) o
Antigo Testamento e a historia; 2) a historiografía oriental;
3) a historiografía israelita.

1. Antigo Testamento e historia

Á diferenga de todas as demais crengas religiosas da hu-


manidade, a Religiáo apresentada pela Biblia pretende ser es-
sencialmente revelada por Deas através da historia dos horneros.
Distingue-se, pois,

a) das religióes «naturistas», que se derivam da obser-


vagáo dos fenómenos da natureza (ciclo das estagóes do ano,
ritmo do dia e da noite...). Tais sao os sistemas religiosos dos
povos primitivos (fetichistas, totemistas, animistas...); tais
sistemas nao dependem de fatos históricos propriamente, mas
se baseiam no curso dos fenómenos da natureza (endeusa-se
urna planta, um animal, atribui-se vida á agua, á rocha, ao sol,
á lúa...);

b) ... das religióes meramente «filosóficas». Tais siste


mas apresentam aos seus adeptos algumas proposigóes doutri-
nárias e normas éticas que sao tidas como válidas em sí mes-
mas, sem estrita relagáo com determinados fatos históricos. É
o que ss dá no budismo, no taoísmo, no chintoismo... Alguém
pode ser perfeito budista sem afirmar a historicidade do que
a tradigáo conta a respeito de Buda. Ao contrario, a religiáo
judaica, que se continua no Cristianismo, está essencialmente
ligada á historia dos homens; ela se constrói mediante episo
dios que os homens constroem.

Dizia muito bem Pascal em nome dos cristáos: «O nosso


Deus é o Deus dos pais, o Deus de Abraáo, o Deus de Isaque,
o Deus de Jaco». Numa palavra, é o Deus da Revelagáo.

— 107 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

A revelacáo— entendida em sentido judeo-cristáo— quer


dizer entrada de Deus na historia dos homens; Deus intervém
para cumprir o seu designio salvifico em favor da humanidade
inteira, a qual nao somente recebe a salvagáo, mas é chamada
a colaborar responsavelmente no cumprimento de tal designio.

Os livros do Antigo e .do Novo Testamento pretendem ser


a documentacáo dessa intervencáo de Deus e, ao mesmo tem-
po, da resposta do homem (aceitacáo ou recusa) frente ao cha
mado divino.

Todavía quem estuda os livros bíblicos, toma consciéncia


de que nao pode compreender as suas páginas, antiqüíssimas
como sao, caso nao se despoje de certos conceitos próprios da
mentalidade moderna ocidental, a fim de reviver os costumes
e a mentalidade dos orientáis antigos. Com efeito, a Revelacáo
de Deus tomou forma humana em sentido muito concreto; a
palavra de Deus se manifestou ou se encarnou num ambiente
determinado, utilizando a mentalidade e os costumes do Antigo
Oriente. Daí as diretrizes que em 1943 o Papa Pió XII promul-
gava na encíclica «Divino Afflante Spiritu»:

"É necessário que o intérprete (da Biblia) quase volte com a mente
aos remotos séculos do Oriente, a fim de que, com o auxilio da historia,
da arqueología, da etnografía e de outras disciplinas, possa distinguir e
perceber que géneros literarios os escritores daquelas antigás épocas pos-
sam ter utilizado e hajam realmente adotado... Nao aparece sempre com
clareza, ao Invés do que se dá com os escritores de nossos lempos, qual
soja o sentido literal que se oculta ñas palavras e nos escritos dos antigos"
(Enquirídio Bíblico 558).

Ainda o mesmo Pontífice:

"Os nossos estudiosos de assuntos bíblicos voltem com a devlda di


ligencia a sua atencáo também para este setor e nao negllgenciem o
que de novo possam proporcionar a arqueología, a historia anllga e o co-
nheclmento das literaturas antigás, a fim de que so torne sempre mals
clara a mentalidade dos escritores de outrora, o seu modo e a sua arle
de raciocinar, de narrar e de escrever" (Enquirídio Biblico 561).

O Concilio do Vaticano II dcixou normas equivalentes na


Constituicáo «Dei Verbum»:

"É preciso levar em conta os géneros literarios. Com efeilo, a ver-


dade é diversamente proposta e expressa nos textos históricos, profétlcos,
poéticos ou atnda nos de outros géneros. É necessário, pols, que o intér
prete procure o sentido que o hagiógrafo Intendonou exprimir e de fato

— 108 —
ANTIGO TESTAMENTO : VERDADE OU LENDAS ? 17

exprlmlu em ctrcuntfinclas datermlnadas, segundo as condicoes do seu


lempo e da sua cultura, medíanle os géneros literarios que entao esta-
vam em uso" (n? 12).

Em suma, os escritores do Antigo Testamento pretende-


ram apresentar, e realmente apresentaram, historia. Todavia
os seus modos de narrar sao bem diferentes dos nossos.

Examinemos de mais perto o conteúdo de cada urna destas


afirmagóes.

2. A historia oriental antiga

Ató o século passado ignorava-se quase por completo a


historia dos antigos povos orientáis, embora tenham sido prós
peros: conheciam-se apenas noticias fragmentarias do Oriente
transmitidas pelos escritores gregos Heródoto e Xenofonte, por
Berosso da Babilonia, por Maneto do Egito e por Filáo de Bi-
blos (Fenicia)... De alguns povos havia-se conservado única
mente o nome; da outros, como os sumeros, nem mesmo o nome
se conhecia. Registrava-se, porém, urna grande excecáo: a histo
ria do povo hebnsu, que os livros do Antigo Testamento haviam
transmitido de maneira assaz concatenada e as vezes com no-
tável riqueza de pormenores.

Todavia na primeira metade do século passado as descober-


tas arqueológicas fizeram emergir um mundo surpreendente-
mente rico do ponto de vista literario e cultural. Com efeito,
em 1822 o sabio francés Champollion conseguiu decifiar os hie-
roglifos do Egito; em meados do século XIX estudiosos france
ses, ingleses e alemáes encontraran! a chave para interpretar
a escrita cuneiforme da Mesopotámia... Em conseqüéncia, os
historiadoi'cs passaram a dispor de ampio material literario que
pcrmitiu reconstituir a vida económica, social e política dos po
vos orientáis antigos no decorrer de tres milenios que termi-
nam no século IV a. C, ou seja, na época de Alexandré Magno
da Maosdónia c da helenizacáo do Oriente.

De posse de toda essa documentacáo, os estudiosos puse-


ram-se a estudar as notas da historiografía extra-biblica (assí-
ria, babilónica, egipcia...). Verificaram que tres grandes tra
gos, entre outros, a caracterizam:

— 109 —
13 oPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

1) Imobilismo

Os povos da Mesopotámia e do Egiío careciam de perspec


tiva propriamente histórica: nao tinham consciéncia do vir-a-ser
ou da evolugáo da historia; a sua visáo das coisas e dos aconte-
cimentos era estática; em conseqüéncia, pode-se dizer que, em
viaz de historia no sentido pleno, nos transmitirán! crónicas de
acontecimentos importantes — políticos e religiosos — justa-
lisios uns aos oulros, nfio, porém, avalladas ou julgados nem
concatenados;... crónicas de cidades ou dinastías isoladas,
destinadas aos arquivos dos templos ou das cortes, ao servigo
dos deuses ou á glorificagáo dos soberanos. Os acontecimentos
humanos, nessa perspectiva, nao sao considerados como pro-
duto lento da agáo reciproca do homem e do seu ambiente; pa-
recem as vezes «caídos do céu» como se tivessem sido «prefa
bricados». Eis o que a propósito escreve o famoso arqueólogo
S. N. Kramer:

"O pensador sumérico' julgava que a térra, Sumer, térra que ele
conhecia com suas cidades, suas aldeias, seus campos prósperos, e na
qual florescia um conjunto variado de instituicSes, de técnicas politicas,
religiosas e económicas, tlvesse sido sempre mals ou menos a mesma
desde o inicio dos dias.

O fato de que Sumer outrora havla sido um pantano desolado, com


poucas habilacóes dispersas, e só gradualmente se tornara o que era, atra-
vés das lutas e fadigas de militas geracóes, lutas que traziam a marca da
vontade e da determinacáo do homem, de planos e experiencias humanas,
de diversas fnvencoes e descobertas fellzes..., tal fato provavelmente Ja
máis allorou á mente nem mesmo do mais douto dentre os sabios de Su
mer" ("Sumerian Historiography" em "Israel Exploratlon Journal" 3 [1953]
217).

Em outro setor do mundo antigo — o Egito — a mentali-


dade era análoga, como verifica o egiptólogo L. Bull:

"Os egipcios anligos nio podem ter tido urna idéia da historia seme-
Ihante ao que a expressao 'historia' indica nos nossos días nem mesmo ao
que ela indicava há vinte e quatro sáculos, nos lempos de Heródolo e
Tucidides. Nao parece que tenham concebido urna filosofía da historia,
que tenham pensado em termos de causa e efelto, observando grandes
linhas no curso da sua hist8rla ou no dos povos vlzlnhos do mundo an
tigo. No conceilo que os egipcios tinham da vida e do passado, havla urna
nota fundamentalmente estática. O elemento mais Importante na sua con
cepto da vida, era a conviccáo de que as sortes do povo egipcio sempre
tinham sido govemadas pelos deuses no passado e o havlam de ser sem-

1 Os sumeros sao os primitivos habitantes da Mesopotámia, anterio


res aos assírios e babilonios. Datam do 5? milenio antes de Cristo.

— 110 —
ANTIGO TESTAMENTO : VERDADE OU LENDAS ? 19

pre no futuro. Inútil seria perguntar a razáo desse regime dos deuseo, pols
a vontade e as Intenses dos mesmos eram totalmente insondávels" (na
obra coletlva "The Idea of Hlstory In the Anclent Near East". New Haven
1955, p. 32).

2) Eterno retorno

Em ulguns povos anügos, o imobilismo da historia toma


urna modalidade própria: a do eterno retorno.

A historia nao seria senáo a repetigáo cíclica dos mesmos


acontecimentos: a periodos de prosperidade se sucedem perío
dos de desgraga; o que acontece no presente, por certo já acon-
teceu no passado e há de se reproduzir no futuro. Alias, era
esse ritmo de constante retorno que os antigos povos de pas
tores e agricultores observavam em torno de si, na natureza
que os cercava: o reflorescimento da primavera alternava com
o desnudamente do invernó; a sementeira sucedía á colheita, e
a colheita á sementeira; os rebanhos davam as suas crias, o seu
leite e a sua lá ano por ano. Conseqüentemente — pensavam
—■ também a historia dos homens tem as suas estacpes, isto é,
um curso fixo, no qual nao ha novidades nem surpresas.

Tal modo de ver estava intimamente relacionado com as


convicgóes religiosas dos mesmos povos. Com efeito, estes jul-
gavam que os ciclos de prosperidade e desgraga reproduziam
sobre a térra a historia dos deuses — deuses que nao eram se
náo as forgas da natureza divinizadas. As festas que assinala-
vam o retorno das estagóes, evocavam, para aqueles povos, os
mitos ou as aventuras dos deuses.

Aínda por outro motivo historia e religíao estavam asso-


ciadas entre si, na concepcáo de muitos dos homens antigos,
•jomo se depreenderá do que se segué.

3) índole religiosa

A historiografía dos povos orientáis está intimamente re


lacionada com o pensamento religioso daqueles homens.

Sabe-se que na Mesopotámia, bergo da cultura da Asia


anterior antíga, a civilizagáo nasceu e se desenvolveu junto aos
templos. A vida económica e social, as organizagóes civis e poli-
ticas, as exprsssóes artísticas e culturáis, as observagóes cien
tíficas, as normas de sabedoria eram profundamente penetra-

— 111 —
20 «PERGUNTK E RESPONDEREMOS> 159/1973

das pelas concepgóes religiosas. Por conseguinte, nao nos sur-


preande o fato de que naquela regiáo os documentos historio-
gráficos estejam intimamente associados ao culto, aos templos
sagrados e á vida religiosa. As crónicas e os anais dos reis eram
nao raro redigidos como hinos de louvor aos deuses; neste par
ticular, o relato da oitava campanha bélica de Sargáo n, da
Assíria, é especialmente digno de nota, pois constituí urna fér
vida homcnagcm ao deus Assur, tutelar do reino.

Descendo a particulares, notamos que, para os sumeros,


por exemplo, o fator decisivo da historia nao é a livre opcáo
do homem, mas a vontade dos deuses, que guia o curso dos
acontecimentos,... e isto segundo principios, por vezes, arbi
trarios e incompreensiveis aos homens. Verdad© é que as divin-
dades tutelares podiam intervir em favor de seus protegidos
contra os designios malévolos de outros deuses; todavía tam-
bém nessas circunstancias, o homem ficava passivo.

Sao os deuses que decretam a vinda de tempos prósperos


e de tempos infelizes (ritmo característico da historia em geral
e da vida da Mesopotámia em particular). Sao também os deu
ses que estipulam as sortes de determinada dinastía outrora
descida do céu, estabelecida cm urna cidade A, mas fadada a
transferir-se para a cidade B.

Especialmente importante era o conceito de culpa na his-


riografia oriental antiga. A historia nao era concebida tanto
como urna seqüénda de fatos, mas antes como conseqüéncia
de atitudes e gestos dos homens. Daí o julgamento que faziam
os orientáis sobre alguma desgrasa que acometesse um indivi
duo ou urna comunidad©: essa desgraga nao era considerada
tanto como o resultado de arbitrario decreto dos deuses, mas
como a conseqüéncia lógica d>3 urna falta ou de um delito come
tido contra a divinclade.

A famosa crónica babilónica dita «de Weidner» refere bem


tal concepcüo: dá a saber que a queda da primeira dinastía pós-
-diluviana foi provocada cela culpa de um de seus reis contra o
maior santuario de Babel, o Exaguila, templo do deus nacional
Marduciue.

Á luz ¿testas consideragóes, voltemo-nos para a historiogra


fía de Israel, contida nos livros bíblicos.

— 112 —
ANTIGO TESTAMENTO : VERDADE OU LKNDAS ? 21

3. A historiografía israelita: importancia

1. 0 fato de que o poyo de Israel considerava a historia


como cenário ou mesmo veiculo da Revelacáo divina explica
que a historiografía em Israel tenha merecido grande estima,
ocupando lugar eminente na Biblia; em váo procurar-se-ia ñas
antigás literaturas orientáis um senso histórico táo apurado
como o dos hebreus. É o que reconhecem geralmente os críticos
contemporáneos: trata-se de «um fato táo obvio que nao exige
ulteriores elucidacóes» (E.A. Speiser, na obra coletiva »The
Idea of History in the Ancient Near Éast», p. 67).

Mais precisamente: a Biblia constituí urna literatura essen-


cialmente religiosa, mas de urna religiosidade cuja nota domi
nante é a historicidade. O enlace entre religiáo e historia, que
na historiografía oriental nao israelita foi nocivo (por causa
das deformacóes que acarretou, como vimos), na historiografía
bíblica tornou-se altamente vantajoso. Com efeito, o fato de
que a religiáo de Israel é essencialmente histórica, explica que
os historiadores de Israel tenham superado o nivel de urna do-
cumentagáo fragmentaria, particular, destituida de movimento
e dinamismo (como a historiografía dos povos vizinhos) para
propor urna historia que revela um grande designio ou o pro-
gressivo desabrochar de um plano, em que os acontecimentos
humanos sao cada vez mais prenhes de sentido.

Eis como M. Burrows delineia o significado da historia bí


blica:

"O pressuposto fundamental e característico do conceito de historia,


entre os antlgos hebreus, é a conviceSo de que na historia humana o
único e eterno Deus, o Deus vivo, val realizando o seu soberano designio
em favor das criaturas: antes do mais, em favor do povo eleito; depois,
em favor de todo o genero humano. Por Isto, a historia nSo pode ser con
cebida como urna serie de circuios que recorrem sem mudancas substan
ciáis, nem como a via relilínea, quase automática, da civilizacáo. Ao contra
rio, a historia é obra da vontade dos homens; é um lecido de piomessas
e admoestacoes, condenares e destrulefies, assim como de preservacáo
e salvacáo...

Alravés dessa longa iuta, em que há escolha, compromiso, falhas,


repulsas', mas também um incessante lecomecar, val-se cumprindo penosa
e pacientemente o designio de Deus, designio de criar um povo santo,
um reino de sacerdotes, mediante o qual poísa chegar a todaa as nacoes
da Ierra a béncáo divina. No momento mais tunéalo, quando o orgulho
humano parece ter frustrado por completo o programa de Deus, levando o
povo eleito á ruina extrema por haver recusado seguir o camlnho trabado
pelos seus legisladores, profetas e sabios, reteoa mais foite do que nun-

— 113 —
22 «PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

ca a promessa, a garantía de um novo inicio" (na obra coletlva "The Idea


oi HIstory in the Ancient Near EasI", p. 128).

Conseqüentemente, a historia na Biblia aparece como te-


cido sabiamente concebido, em que cada fio tem sua funcáo
precisa e do qual Deus é o Soberano Senhor. Ela pode ser com
parada tambérn a um cone que se vai dilatando cada vez mais,
sempre mais prenhe de realidade; segundo a Biblia, a historia
é movida por um dinamismo possante; ela tende andenlemente
ao seu fim, que será também a sua plenitude ou consumagáo.
Ao contrario, para varios dos antigos povos pagaos, a historia
se assemelha a urna serpente que se enrola sobre si mesma,
em forma de espiral, de tal modo, porém, que a cabega morde
a cauda, o fim coincide com o principio, tornando inúteis ou
frustrados os ciclos do perourso.

As festas religiosas do povo de Israel nao celebravam o


retorno das estagóes ido ano, como entre os pagaos, mas evo-
cavam acontecimentos da historia passada, ou seja, as grandes
obras realizadas por Deus em favor do seu povo; tenham-se em
vista, por exemplo, as festas de Páscoa, dos Tabernáculos, de
Purim... Os acontecimentos passados, festivamente evocados
pelos judeus, eram para Israel a garantía e o penhor de obras
ainda maiores que Deus havia de realizar no futuro em prol
dos homens. A comemoragáo do passado tornava-se assim ex
pectativa do futuro e alimento da espcranca.

2. Utilizando, pois, fontes de diversos géneros, como tra-


digóes oráis, arquivos de familia, memorias, anafe... os israe
litas nos transmitiram urna narragáo assaz minuciosa da histo
ria da salvagáo. Com a Biblia em máos, pode-se acompanhar o
povo de Israel anterior a Cristo ñas diversas etapas da sua
historia.

O GSnesis, a partir do seu capítulo 12, informa principal


mente sobre a fase inicial dessa historia, marcada pelos feitos
dos Patriarcas que peregrinaran! pelas térras de Canáa e do
Egito (sáculos XVIII/XVII a. C).

O Éxodo refere as faganhas que constituirán! Israel como


povo de Deus, ou seja, a libertagáo do Egito e a alianga ao pé
do monte Sinai (séc. XIII).

O livro dos Números narra as peripecias dos israelitas no


deserto a caminho da Térra Prometida (séc. XIII).

— 114 —
ANTIGO TESTAMENTO : VERDADE OU LENDAS ? 23

O livro de Josué trata da conquista da Palestina, ao passo


que o idos Juizes descreve as faganhas através das quais se con
solidou essa conquista ameagada por varios inimigos como os
cananeus, os madianitas, os amonitas, os filisteus... (séc.
XH/XI).

Os dois livros de Samuel mostram como se erigiu um poder


central em Israel: o juiz e profeta Samuel, a pedido do povo,
instituiu a monarquía, com seus dois primeiros reis Saúl e
Davi (séc. XI/X).

Os dois livros dos Reis (que tém como paralelos os livros


das Crónicas) narram as sortes .da monarquía em cada urna
das duas partes do reino dividido após a morte de Salomáo:
Samaría ao Norte, e Judá ao Sul (séc. X/VI).

Nos trechos narrativos dos livros dos Profetas, léem-se


noticias, minuciosas por vezes, dos graves acontecimentos que
ppscederam a queda de cada um dos dois reinos (séc. Vm/VI)
e o exilio de Israel na Mesopotámia.

Os livros de Estiras e Neemias referem a restauragáo reli


giosa e política da comunidade judaica após o exilio (séc.
VI/V).

Por fim, os dois livros dos Macabeus narram a viforiosa


resistencia dos judeus aos sirios, que pretsndiam helenizar a
Palestina, impondo-lhe idéias e costumes pagaos fséc. n).

3. Estas consideragóes, porém, nao significam que se pos-


sam aplicar á historiografía bíblica" os criterios da historiogra
fía moderna. Os historiadores sagrados, mesmo sob o influxo
da inspiragáo divina, sao filhos da sua época: manifestam men-
talidade própria, observam regras de estilo e normas literarias
que se assemelham as dos outros povos antigos e nao tém para
lelo na metodología contemporánea. Eis por que nos deteremos,
a seguir, sobre as características de pensamento e estilo da
historiografía bíblica.

4. A 'historiografía israelita : estilo

Assinalaremos sete notas principáis:

1) Viva consciéncia da presenca de Dsus. Para os orien


táis em geral, a historia era religiosa. Os israelitas manifesta-

— 115 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

vam ter consciéncia disto, atributado do mesmo modo a Deus


todos os acontecimentos da historia; nao distinguiam entre acáo
direta, agáo indireta ou mediata (em que o Senhor se serve de
causas ditas «segundas») e simples permissao de Deus. Apre-
sentavam, pois, o Senhor como Causador nao somente de mi-
lagres ou de agóes providenciáis, mas também do mal...

Tenha-se em vista, por exemplo, o texto de 2 Sam 24,1,


em que se lé: «A cólera ,do Senhor se inflamou ainda contra
os israelitas e Ele (o Senhor) excitou Davi contra os israelitas,
dizendo-lhe: 'Faze o recenseamento de Israel e Judá'». Ora tal
recenseamento era pecaminoso segundo a mentalidade da época
(era tido como ato de arrogancia do rei de Israel; este parece
ría contar com a forga de seus homens, e nao com o auxilio
do Senhor). Nao obstante, o autor de 2 Sam, em seu modo de
falar semítico, atribuiu-o á instigagáo divina. Posteriormente,
outro cronista, relatando o mesmo episodio, exprimiu-o de raa-
neira mais exata, afirmando que a provocagáo ao pecado pro-
viera nao do Senhor, mas de Sata: «Sata levantou-se contra
Israel e incitou Davi a recensear os israelitas» (1 Crón 21,1).

Estas observagóes nos dáo a ver que seria simplista ou in


genuo considerar como intervencóes de Deus todas as obras que
a Biblia atribuí ao Senhor; há feltos que Deus permite apenas,
deixando o homem agir livremente.

2) Dramatizac&'o. Os hebreus nao eram dados á abstra-


gáo nem a cfefinigóes filosóficas. Ao contrario, exprimiam os
conceitos mais sutis, os dramas Íntimos do individuo e os miste
rios do mundo invisível recorrendo a imagens e cenas mais ou
menos teatrais, ou dramatizando..., como, alias, se faz por
vezes ainda hoje em narrativas de índole popular ou infantil.
Os semitas preferiam ver a verdade e colocá-la em cena a ex
primí-la em fórmulas abstraías. Assim procuravam impressio-
nar vivamente o espirito e a fantasía dos leitores, comunicando
com toda a clareza possível idéias difíceis ou transcendentais.

Tenha-se em vista o prólogo do livro de Jó (1,6-12), em


que um cenário realmente teatral se descortina: Deus, cercado
de seus anjos, dialoga com Sata acerca das sortes de Jó... To
da essa bela página quer incutir ao leitor algo do que sejam a
sabedoria e a Providencia de Deus. Os acontecimentos mais
trágicos da térra sao sabiamente previstos pelo Senhor Deus,
que os engloba dentro de um plano irrepreensível.

— 116 —
ANTIGO TESTAMENTO : VERDADE OU LENDAS ? 25

3) Narracáo ctiológica. Para responder as questces «Por


que tal ou tal costume? Donde provém tal instituicáo? Qual
a origem de tal nome?», os judeus, em vez de formular urna
frase simples, por vezes narravam urna «historia», historia
que nao devia ser entendida como expressáo de realidade passa-
da, mas como resposta as questóes «Por que...?» ou «Don
de...?». Como exemplo, pode-se citar o hexaémeron (Gen
l,l-2,4a): este texto propóe o Senhor Deus a criar o mundo
em seis dias de modo a repousar no sétimo. Trata-se certa-
mente de urna narracáo etiológica1, que quer incutir nao o mo
do como se originou o mundo, mas, sim, a razáo de ser do re-
pouso sabático; este é proposto no hexaémeron como «imita-
gáo» do que fez o próprio Deus quando «fabricou» este mundo.

4) Esqireanatizacáo. Os orientáis nao raro negligencia-


vam a ordem cronológica dos acontecimentos, expondo-os de
preferencia segundo urna ordem lógica, psicológica ou artística.
É o que se dá, de maneira típica, no citado texto de Gen l,l-2,4a,
onde a origem das criaturas é apresentada nao em sucessáo
cronológica, mas conforme um esquema lógico e artístico de
seis dias, que se dispóem harmoniosamente em duas series
de tres dias cada urna («Obra de criagáo» e «Obra de orna-
mentacáo»).

5) Círculos concéntricos. O narrador por vezes descrevia


determinado acontecimento nao de maneira retilínea, exondo
progressivamente as sucessivas fases do mesmo, mas propu-
nha-o como que em espiral, repetindo suas afirmagóes com
minucias cada vez mais abundantes até completar a narragáo.
Á guisa de exemplo, pode-se citar Dt 12, onde o legislador in-
cute a lei do «santuario único (Jerusalém)», reiterando em
círculos concéntricos os seus dizeres; cf. Dt 12,5.11.1418.26.

6) Compilacáo. Quando um escritor tinha ante os olho.-s


duas ou Iros rodacóes do mesmo fato, ncm scmprc as fundía
num relato harmonioso, mas, por vezes, justapunha simples-
mente essas narrativas. Em conseqüéncia, temos na Biblia nar-
ragoes duplicadas, cujos pormenores por vezes diferem entre si
porque supóem diversos pontos de vista.

É o que se dá, por exemplo, com os dois relatos da origem


do mundo e do homem em Gen l,l-2,4a (hexaémeron), da fon-

'Allia, em grego, quer dizer causa. Etiología, portanto, é o estudo


da(s) causa(s).

— 117 —
2G «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

te dita P (Priesterkodex) e Gen 2,4b-3,24, da fonte dita 3 (ja-


vista).

Em Gen 6-9, duas narrativas do diluvio se entrelagam en


tre si: a narraeáo dita J (javista) e a narracáo P (Priesterko
dex) ; assim, ora Noé recebe ordem de levar um par de todo e
qualquer tipo de animal (cf. Gen 6,19-21; 7,8. 14s), ora recebe
ordem de levar um par de animáis impuros e sete pares de
animáis puros (cf. Gen 7,2s); ora se diz que as aguas flage-
laram a térra durante quarenta días e quarenta noites (cf. 7,
4.12.17), ora se afirma que choveu durante 150 dias. Estas di-
ferengas sao o sinal de que o autor sagrado encontrou, já redi-
gidas, duas narracóes do diluvio (cuja finalidade era moral e
religiosa, nao cronística), e nao quis julgar entre urna e outra,
mas simplesmente aceitou e justapós os dizeres de ambas.

7) Simbolismo dos números. Os números, para os anti-


gos, nao eram sempre sinais de quantid&des, mas, sim, de quali-
dades. Em outros termos: os orientáis, em vez de usar adje
tivos, recorriam por vezes a cifras, que convencionalmente
designavam predicados: 3,4,7,10,12, por exemplo, eram símbo
los de plenitude, totalidade ou perfeicáo. Isto nao quer dizer
que todos os números na Biblia carecem de valor matemático
ou sao meros símbolos. É o contexto ou o género literario que
indica uo leilor se deve interpretar tal ou tal número em sen
tido quantitativo ou em sentido qualitativo.

Assim, por exemplo, os números de «anos de vida» dos


Patriarcas bíblicos (930, 912, 905, 910, 895, 962, 365...)
em Gen 5,1-32 sao evidentemente símbolos de venerabilidade,
e nao de longevidade, como atestam documentos semelhantes
da literatura babilónica. Assim o catálogo babilónico de Beros-
so refere que Aloro reinou 36.000 anos (= 10 saros), Alaparo
reinou 10.800 anos (3 saros), Almelon reinou 46.800 anos
(13 saros), Amenon reinou 43.200 anos (12 saros), Amegalaro
reinou 64.800 anos (18 saros), Daono reinou 36.000 (10 sa
ros) ...

Os 40 dias e 40 noites do diluvio (cf. Gen 7,4.12.17...) in-


dicam um período importante e de significado bem definido
(período cuja duracáo, para nos como para o autor sagrado,
fica sendo urna incógnita ou x).

— 118 —
ANTIGO TESTAMENTO : VERDADE OU LENDAS ? 27

Longa vida é, conforme os autores israelitas, premio que


Deus concede á virtude (cf. Dt 4,26; 8,1; ll,8s). Donde se se
gué que extraordinaria longevidade tem por pressuposto ex
traordinarias virtudes. O declínio da longevidade desde Adáo
até Abraáo é sinal de que a corrupcáo, o pecado váo exercen-
do cada vez ,mais os seus efeitos no género humano.

Em suma, quem leva em conta as particularidades da his


toriografía bíblica que acabam de ser registradas, evitará dois
graves escolhos:

a) o de tomar ao pé da letra todo e qualquer pormenor


do texto sagrado. O apego á letra do texto nao é necessaria-
mente sinal de maior fé da parte do Isitor da Biblia; pode ser
sinal de incompreensáo; a auténtica féé a que adere á Palavra
de Deus nao como nos julgamos que ela deva ser ou como ela
nos parece ser, mas, sim, como ela de fato é, transmitida pelo
veiculo dos homens de quem Deus se quis servir para nos falar.

b) o de negar a historicidade dos Iivros bíblicos. Quem


exija .dos documentos bíblicos o estilo e o uso de criterios da
historiografía moderna (que costuma basear-se em pesquisas
rigorosas de documentos), pode decepcionar-se com os dados
bíblicos o, em conseqüéncia, passa a rejoitar o texto sagrado.
Tal atitudo, porém, se dcveria nao á deficiencia do livro bíblico
(que é suficientemente significativo quando devidamente en
tendido) , mas ao despreparo e á simploriedade do leitor.

Na verdade, o Antigo Testamento refere fatos históricos,


transmitidos, porém, segundo as regras do estilo da historio
grafía oriental. Discernir essas regras de estilo e, conseqüente-
mente, definir se determinado texto bíblico deve ser interpre
tado ao pe da letra ou nao, nao é tarefa entregue ao arbitrio
ou ao bom senso subjetivo de cada leitor. Ao contrario, há re
gras objetivas e obrigatórias para interpretar os textos sagra
dos: sao as regras da lingüística e das ciencias orientalistas
(as quais se associam as normas da fé). O leitor contemporáneo
nao tem obrigacáo de conhecer filología antiga para ler a Bi
blia, mas encontra em publicagóes modernas, correspondentes
aos mais diversos graus de cultura, os resultados dos eruditos
estudos da critica bíblica. É a essas publicagóes que o sabio
leitor recorrerá para entender adequadamente o texto sagrado.

— 119 _
23 fPERGUNTE E RESPONDEREMOS* 159/1973

Bibliografía:

G. Auzou, "A Palavra de Deus". Sao Paulo 1968.

E. Bettencourt, "Para entender o Antlgo Testamento". Rio de Janeiro


1965.

ídem, "Ciencia e Fé na historia dos primordios". Rio de Janeiro 1958.

W. Keller, "E a Biblia tinha razáo". SSo Paulo 1959.

Ch. Marston, "A Biblia disse a verdade". Belo Horizonte 1959.

Robert-Feuillet, "IntroducSo á Biblia", 5 vols. S3o Paulo 1967-1969.

Perrella-Vagaggini, "Introducáo á Biblia." Petrópolis 1968.

A. Lancellotti, "Storia e preistoria nella concezione bíblica e oriéntale".


Assisi 1967.

R. de Vaux, "I Patrarchi ebrei e la storia". Brescia 1967.

Luis Alonso Schokel, "L'uomo d'oggi di fronte alia Bibbia". Brescia


1967.

P. Dacquino, "Incontro con la Bibbia". Torino 1968.

"6 Espirito Santo, dai-me um coracao grande, aberto á


vossa silenciosa e potente palavra inspiradora, fechado a todas
as amblcdes mesquinhas, alheio a qualquer desprezível com-
peticáo humana, todo compenetrado do sentido da Santa Igreja.
Um coracao grande, ávido de se assemelhar ao Coracao do
Senhor Jesús, desejoso de encerrar dentro de si as propor-
cfies da Igreja e as dimensdes do mundo; grande e forte para
amar a todos, para servir a todos, para sofrer por todos; grande
e forte para superar todas as provacdes, todo tedio, todo can-
saco, toda desilus§o e toda ofensa. Um coracao grande, forte
e constante, quando for necessario, até o sacrificio; um cora
cao cuja felicidad© seja palpitar com o Coracáo de Cristo e
cumprir humilde, fiel e virilmente a vontade de Deus. Assim
seja!"
(Paulo VI)

— 120 —
Um "furo" da eletrónica :

"falta um dia na historia da


humanidade"

Em sintese: O texto do llvro bíblico de Josué 10,7-15 tem dado mar-


gem a se erar que o sol (ou a térra) parou em sua trajetória ou que ao
menos um fenómeno cósmico se reglstrou outrora de modo a fazer que a
nossa contagem de días esteja deficiente. Segundo recente noticia da im
prensa, nos EE. UU. um computador terá acusado a falta de um dia na his
toria da humanidade — o que parece comprovar o texto de Josué.

Na verdade, se a contagem dos dias está deficiente, tal fenómeno


nada tem que ver com as páginas do llvro de Josué. A seceáo de Jos 10,
7-15, que parece Insinuar o portento, tem sido interpretada últimamente
de novo modo: verlficou-se, sim, que tal seceáo compreende dois relatos
da Vitoria de Josué contra os amorreus. No prlmelro relato (10,7-11) em
prosa, diz o autor sagrado que o Senhor permltiu o desencadeamento de
urna tempestado para rematar a batalha já vencida por Josué. No segundo
relato (Jos 10,12-15), o mesmo fato é descrito por um poeta, que, para
mencionar a tempestado, usou a metáfora do estaclonamento do sol. Com
efeito, para os antigos, o sol girava em tomo da térra deslizando sobre a
abobada celeste. Quando o sol parava, detendo-se em sua tenda, a atmos
fera se escurada — o que era sinónimo de mau tempo (chuva, granizo...).
Por conseguinte, o autor sagrado em sua poesía nao Intencionava ser to
mado ao pé da letra, mas metafóricamente; a sua narracáo coincide com
a anterior; ambas referem apenas urna tempestado de granizo concedida pelo
Senhor a rogo de Josué para ajudar Israel a vencer urna batalha contra
os amorreus.

Comentario: A imprensa deu noticia de um fato que vam


impresionando a muitos dos seus leitores. Ei-la, transcrita do
jornal «O Dia» do Rio de Janeiro (edicto de 19/DC/1970):

Falta um día na historia da humanidade

"Um computador eletrónlco, utllbado em Green Belt, Maryland, Esta


dos Unidos, em trabalhos cientHlcos para determinar a posigao do sol, da
lúa e de outros planetas em relacáo á Ierra, através dos tempos, acusou
a falta de um dia no calendarlo da humanidade. Este dia que falta no ca
lendario, serla aquele día — de 23 horas e 20 minutos — em que Josué
fez parar o sol e a lúa sobre o Vale de AJalon, para que os israelitas acá-

— 121 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

bassem de vencer os amorreus nos arredores de Gabaon, completado com


as linhas de sombra do relóglo de Acaz — de 4 minutos cada linha — que
o Senhor fez o sol retroceder, conforme fafou pela boca do profeta Isaías
a Ezequias, rei de Jerusalém: Tare! com que a sombra das linhas pelas
quais tínha passado no relóglo de Acaz, em razáo do giro do sol, volte
dez linhas atrás. E retrocede» o sol dez linhas pelos graus por onde li
nha descido'. O que perfaz, exatamente, 24 horas, ou soja, um dia solar.
Assim a verdade da ciencia confirma a da Rellgiao e o computador eletrd-
nico testemunha a favor da Biblia. Que repercussoes pode esse fato ter?
Os dentistas ¡rao acertar o calendario para o futuro, incluindo o dia que
falla? Os historiadores corrigiráo as dalas históricas de acordó com a no
va contagem do tempo ?" '

Como se vé, trata-se, em última análise, da interpretagáo de


dois textos bíblicos: Jos 10,7-15 e Is 38,1-8 (par. 2 Rs 20,1-11).
Dado que indiquem dois fenómenos cósmicos (dois estaciona-
mentos ou dois recuos dos astros de nosso sistema solar), tería-
mos a confirmagáo científica de que realmente se deu tal «pa
rada» da térra na sua rota de translagáo. — Para julgar o va
lor da noticia assim concebida, o primeiro passo há de ser
naturalmente urna análise objetiva dos textos bíblicos; procu
raremos, pois, ñas páginas que se seguem, averiguar, antes do
mais, o significado exato de Jos 10, 7-15 e 2 Rs 20,1-11.

1. O «estacionamento do sol» em Jos 10,7-15

Toda e qualquer reflexáo sobre o assunto deverá ter por


base o próprio texto bíblico.

1.1. O texto de Jos 10,7-15

O contexto narra o avango dos israelitas sob o comando


de Josué na térra de Canaá. Após ter vencido varios povos lá
residentes, Israel teve que enfrentar os amorreus. Esta bata-
Iha ó assim descrita:

Jos 10: 7 "Josué subiu de Gáigala, ele e todos os homens


de guerra com ele, todos corajosos combatentes. 8 Entáo o
Senhor falou a Josué: 'Nao os temas, pois os entregare) em
Utas máos, e nenhum deles resistirá diante de ti'. 9 Josué,
pois, irrompeu sobre eles repentinamente; durante a noite
inteira tinha subido de Gáigala. 10 E o Senhor lancou confu-
sáo sobre eles em presenca dos israelitas, de modo que Israel

■A mesma noticia fol reproduzida, até com mais pormenores, no "O


Estado de Sao Paulo", do qual um recorte nos foi enviado sem a data
respectiva.

— 122 —
ESTACIONAMENTQ DO SOL E ELETRONICA 31

Ihes infligiu grande derrota perto de Gabaon; perseguiu-os


pelo caminho que sobe para Betoron e abateu-os com seus
golpes até Azecá e Macedá. 11 Ora, quando fugiam dos israe
litas, na descida de Betoron, o Senhor fez cair do céu sobre
eles grandes seixos até Azecá, e morreram. Mais numerosos
foram os que pereceram pelos seixos de granizo do que os
que morreram pela espada dos filhos de Israel.

12a Entao Josué falou ao Senhor, no dia cm que o Senhor


entregou os amorreus aos filhos de Israel, e falou á vista de Israel :

12b 'Sol, detém-te sobre Gabaon,


E tu, lúa, sobre o vale de Ascalon !'
13a E o sol parou, a lúa se manteve imóvel,
Até que o povo se vingasse dos seus ¡nimigos !

13ib Nao se acha isto escrito no 'livro do Justo' ? 13c Assim


o sol parou em meio ao céu, e nao se apressou .por chegar ao ocaso,
durante quase um dia inteiro. 14 Nao houve, nem antes nem depois,
dia como aquele, «m que o Senhor obedeceu á voz de um homem,
pois o Senhor combatía por Israel.

15 E Josué, e todo Israel com ele, voltou ao acampa


mento em Gálgala".

Pergunta-se: como se há de entender o episodio de Josué


assim narrado?

1.2. As diversas interpreta$óes

Comecemos pela clássica interpretagáo:

1.2.1. «O sol parou !»

Os antigos, seguindo o válido principio de hermenéutica


conforme o qual nao se deve abandonar o sentido literal de um
texto enquanlo nao naja indicios de metáfora, entendiam lite
ralmente a passagem de Jos 10,7-15: julgavam que Josué obte-
ve urna intervencüo extraordinaria de Deus no curso dos as
tros. Basando-se na opiniáo de que o sol gira em torno da tér
ra, afirmavam que Josué fez parar o sol, a fim de alongar o
día e poder consumar a vifória sobre os amorreus.

Ora esta interpretado devia sofrer a sua crise no séc.


XVII. De fato, entáo Galileu chegava á conclusáo de que nao
é o sol que se move, mas é a térra que gira em tomo do sol.

— 123 —
32 'íPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

Os teólogos, surpresos com esta averiguagáo, julgaram de ini


cio que contradizia ao ensinamento do livro de Josué; pelo que
aos 24/Ü/1616 a posigáo de Galileu foi condenada pelo Santo
Oficio.

A condenacáo de Galileu pelo S. Oficio deu ocasiáo a que


eorressem rios de tinta. Na verdade, pode-se tranquilamente
reconhecer que a sentenga nao foi feliz. Mas diga-se também
que o fato nao afeta a infalibilidade do magisterio da Igreja-
Este só é infalível: 1) em materia de fé e moral (nao em ques-
tóes meramente científicas); 2) quando os bispos ensinam algo
com unanimidade (magisterio ordinario da Igreja) ou quando
o Sumo Pontífice ou um Concilio Ecuménico proferem algo em
termos definitivos, válidos para todos os fiéis; nao, portante,
quando urna Congregacáo Romana (como o Santo Oficio) pro
nuncia alguma sentenca, embora esta mercca sempre toda a
atencáo dos fiéis.

Os progressos da ciencia a partir do século XVII só con-


tribuiram para confirmar as conclusóes de Galilau, levando os
exegetas a assumir urna atitude tnais esclarecida no caso. Par-
tindo do principio de que a S. Escritura nao quer ensinar cien
cias profanas, reconheceram que as premissas de astronomia «Jo
livro de Josué nao sao de fé. O autor sagrado apenas serviu-se
das opinióes científicas vigentes no sau tempo para afirmar a
intervencáo do Senhor em favor do seu povo na batalha con
tra os amorreus. De resto, ainda hoje os nossos sentidos, antes
de ser corrigidos pslo raciocinio, nao nos levam a afirmar que é
o sol que «se levanta» e «se póe»? Ora percebeu-se que basta-
va essa veracidade popular, pré-científica, para que o autor bí
blico se servisse de tal proposicáo ds «astronomia» para trans
mitir a sua mensagem de índole estritamente religiosa.

Ponderadas estas razóes, os teólogos deixaram de consi


derar o sistema de Galileu contrario á S. Escritura: a proposi-
gáo de astronomía do texto de Jos 10 devia ser entendida como
modo de falar popular que obsdece a criterios diversos dos das
dissertagóes científicas.

Todavía, apesar de se reconhecer como errónea a antiga


interpretagáo de Jos 10 («o sol parou!»), ficava aberta a ques-
táo: como entáo entender o episodio? Como explicar o «mila-
gre» á luz da nova astronomia?

Eis algumas das novas respostas:

— 124 —
ESTACIONAMENTO DO SOL E ELETRONICA 33

1.2.2. «A térra é que parou !»

Nao poucos comentadores do texto bíblico fizeram a trans-


posicáo da linguagem popular para a linguagem científica: nao
o sol, mas a térra é que teria estacionado; tendo permanecido
fixa sob a luz do sol, ocasionou um dia mais longo para que
Josué e seu exército obtivesssm a vitória sobre os amorreus.
Que prodigio estupendo nao se teria dado em lodo o .sistema
cósmico! — Outros estudiosos recorreram a explicares mais
sutis:

1.2.3. Outros fenómenos atmosféricos

a) Em meados do séc. XVII, Hugo Grócio e Isaque da la


Peyrére admitiam um reflexo do sol numa nuvem situada so
bre o horizonte; o reflexo, ocorrendo após o ocaso, teria produ-
zido a impressáo de um estacionamento do sol e de urna pro-
longacáo do dia.

b) Há quem suponha urna ch-uva de meteoros, que teriam


iluminado extraordinariamente o céu após o por do sol.

Assim autores recentes lesmbram a explosáo de um meteo


ro verificada na Sibéria Central aos 30 de junho de 1908, ex-
plosiio que provocou notável prolongacáo das horas do dia; os
fragmentos do grande corpo que explodira, difundiam a luz
solar ñas carnadas superiores da atmosfera. A luminosidade foi
tal que pode ser percebida perto de Gothenburg na Suécia
urna hora antes do por do sol, durando até as 2 horas da ma
drugada seguinte. Foi também observada em Aberdeen na Es
cocia, onde o céu, em vez de se escurecer, se tornava impre
vistamente mais claro. Por duas noites consecutivas, nao se
fez plena escuridáo em todo o sul da Inglaterra.

c) J.D. Michaelis (i 1791) apelou para relámpagos que


teriam iluminado extraordinariamente a noite.

d) Outros admitem um fenómeno de refracáo dos raios


do sol. Esta teria feito que, depois do ocaso á hora costumeira,
o céu tenha continuado a aparecer luminoso aos combatentes,
como se o sol nao tivesse desaparecido no horizonte. Assim,
em 1670 B. Spinoza, cuja opiniáo continua a ter adeptos até
hoje.

— 125 —
34 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

e) Nao faltou também quem quisesse considerar o texto


de Jos 10,7-15 como a descrigáo de mera ilusáo ótica: enquan-
to o sol, de manhá, subia no horizonte, Josué descia da monta-
nha para a planicie; por isto o sol pareceu-lhe permanecer imó-
vel. Tal é a sentensa de Stanley Thoburu, missionário anglica-
no na India, que atestou ter experimentado semelhante ilusáo
nos montes Himalaia.

Diante de tal leque de interpretacóes do episodio bíblico,


é obvio perguntar:

1.2.4. Que dizer ?

Nenhuma das sentengas explicativas ácima recenseadas


propóe um fenómeno impossível. Por conseguinte, poder-se-ia
dizer: cada qual délas é aceitável. Mas resta saber se ás fato
algum desses fenómenos se deu. Para responder a esta dúvida,
vamos abaixo propor lima nova maneira de ler o texto, que dis-
sipará plenamente o problema.

1.3. Novo e auténtico entendimento

1. As solucócs que acabamos do catalogar, supóem todas


um milagre ou portento qualquer. Nao discutem esta premissa;
apenas se preocupam com a identificacáo do portento aparen
temente descrito em Jos 10.

Ora a exegese moderna procura, antes do mais, estabele-


cer os dizeres precisos ou o género literario do texto a ser in
terpretado; assim pode o estudioso chegar a saber exatamente
qual o genuino teor do texto e qual a afirmacáo nele contida.
— Apliquem-se, pois, estas normas ao estudo de Jos 10,7-15.

2. Quem lé atentamente esta passagem bíblica, é levado


a concluir que há ai duas narracóes paralelas provenientes
de duas diversas íontes: unía em prosa, devida ao autor mesmo
do livro, que abrange os w. 7-11; e outra, poética, citagáo
transcrita de outro livro (vv. 12-13b) e ornada de breve co
mentario (vv. 13c-14). O versículo 15 é a conclusáo comum as
duas narrativas. Á p. 30s .deste fascículo procuramos distinguir
as máos dos diversos redatores por meio de diferentes carac
teres tipográficos.

Com efeito. O v. 11 refere ao leitor o fim da batalha com


a vitória de Josué, que perseguiu os inimigos c exterminou

— 126 —
ESTACIONAMENTO DO SOL E ELETR6NICA 35

grande número deles. Israel, nesta campanha, foi poderosa


mente auxiliado por violenta tempestade de granizo que «o
Senhor desencadeou» (esta expressáo parece insinuar um fenó
meno imprevisto ou urna intervengáo extraordinaria de Deus).
Após o v. 11 nao se esperaría mais nenhuma facanha bélica de
Josué, pois os inimigos estavam vencidos e prostrados; lógica
mente seguir-se-ia o v. 15, ou seja, a mengáo da volta de Jo
sué ao acampamento. — Eis, porém, que entre os w. 11 e 15
se insere uan episodio (w. 12-14) que reconduz o leitor as pe
ripecias da batalha em curso e se concluí, como o anterior,
com a volta dos israelitas ao acampamento (v. 15).

3. Como entender este outro trecho (vv. 12-14)?

A sua posicáo no contexto e a análise do seu conteúdo in-


•dicam que os w. 12-14 referem um particular da mesma bata
lha transcrito de outra fonte; sao urna citagáo inserida em Jos
10.

Analisemos, pois, os vv. 12-14:

a) Os w. 12-13a apresentam duas vezes urna fórmula


inlrodutória c quatro breves frases, que constituem urna estro-
fe poética, ao passo que todo o livro de Josué é redigido em
prosa;

b) o v. 13b é a indicacáo da fonte donde foi transcrito o


trecho poético; nao é indicacáo muito precisa, mas é conforme
aos costumss dos antigos, que nao numeravam páginas nem ca
pítulos ,de seus livros. Considerando-se outra citagáo em 2 Sam
l,17s, conclui-se que o «Livro do Justo» era urna colegáo de
cantos seletos de Israel, onde também foram consignadas as
lamentacóes de Davi peía morte de Saúl e Jonatas1.
cr) Por finí, os vv. 13c o 11 sao um comentario em pro
sa da sGffunda parte do texto citado (v. 13a): devem-s:? ao au
tor da transcrigáo. O comentario em 13c diz positivamente que
o sol parou; repete o mesmo negativamente: «nao se apressou
por chegar ao ocaso»; e, por último, acrescenta que essa fixi-
dez do sol durou quase um dia inteiro. O v. 14 remata com o

'Eis o texto de 2 Sam 1,17s: "Entáo Davi entoou esta lamentado a


repeito de Saúl e Jónatas, seu filho, e mandou ensiná-la aos filhos de
Judá; é o canto do Arco. Eis que ela está escrita no Livro do Justo".
"Livro do Justo" significa "Livro da Justica" ou "Livro que narra feitos
ou ditos de Justica e Heroísmo de grandes israelitas".

— 127 —
36 <-PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

louvor de dia táo estupendo e glorioso. Nots-se bem que o


comentador só fala do estacionámento do sol, nao do da lúa,
pois no canto citado a mencáo da lúa («Lúa, detém-te») era
dsvida únicamente a motivos poéticos (sabemos que urna das
leis da poesía hebraica era o paralelismo, ou seja, a justaposi-
gáo de membros .de frase idénticos ou semelhantes entre si);

d) O v. 15, supondo encerrada a luta, mencionava a vol-


ta de Josué ao acampamento.

Após estas reflexóes, já nao é difícil admitir que os vv.


12-14 se referém á batalha descrita em 7-11, com a particula-
ridade de realgar em estilo poético o que ela teve de glorioso.

Ora justamente este trecho poético (e o seu respectivo


comentario) é que menciona a extraordinaria «interrupgáo do
curso dos astros». Tal fenómeno nao é mencionado no texto
prosaico; este, porém, nao dá a impressáo de estar lacunoso;
nem poderia silenciar circunstancia táo importante, caso fosse
realmente histórica. Sendo assim, tem-se base para perguntar
ss o estacionámento do sol, de que fala a citagáo, nao é mera
figura de poesía que, transposta em linguagem prosaica, diría
o mesmo que a descric.no prosaica antecedente.

A esta psrgunta se deve dar resposta afirmativa depois


de examinar a linguagem poética dos hebreus e de outros ori
entáis antigos.

4. Realmente, na linguagem lírica dos judeus, dizer que


o sol parara ou silenciara significava que o sol deixara de dar
a sua luz, por motivo de eclipse ou por razáo de nuvens ou
t^mpestade. Assim, por exemplo, se lé no cántico de Habacuque
3,11, que descreve a aparigáo do Senhor em meío a fortissimo
temporal:

" 0 sol e a lúa permaneceram em suas lendas;


Os homens caminham ao clareo da tuas (lechas,
Ao brilho dos reflexos de tua langa".

Esta passagern exprime bem o conceito judaico de que o


sol e a lúa tinham suas moradas no céu, ñas quais permaneciam
imóveis durante as tempestades, quando o céu fica escuro. O
SI 18,5s supóe que o sol tenha urna tenda no céu, donde sai
todas as manhás para percorrer o seu ciclo diurno. — Da
mesma forma, conhecem-se documentos babilónicos em que o

— 128 —
ESTACIONAMENTO DO SOL E ELETR6NICA 37

cscurecimento da atmosfera é apresentado como um «parar»


ou «silenciar» do sol.

Aplicando estas observagóes ao texto de Jos 10, verifi


camos que o «parar» do sol no trecho poético de Jos 10,12-14
nao significa senáo a terrivel e tenebrosa tempsstade (de gra
nizo) de que fala, sem figura literaria, o v. 11. Essa tempesta-
de terá durado quase um dia inteiro, conforme o v. 13c. Táo
longa tempestade, que foi o principal instrumento de dispersáo
dos amorreus, terá sido especialmente permitida por Dsus para
atender a Josué, que implorara auxilio na batalha. O que houve
de extraordinario neste episodio, nao foi a tempestade como
tal, mas o modo inesperado e violento como esta se produziu.

O fato de, por tantos séculos a fio, se ter procurado um


fenómeno cósmico correspondente ao pretenso estacionamento
do sol narrado em Jos 10 se deve a mal-entendido: nao se le-
vavam em conta os dois géneros literarios dessa passagem
bíblica (prosa e poesía). O mal-entendido era admissível, pois
quase nao se conheciam a lingüística e o exprsssionismo dos
antigos orientáis. Nos tempos atuais, porém, nao tem mais sen
tido procurar-se ainda algum fenómeno astronómico que «sa
tisfaga» aos dizeres de Jos 10; tal atitude significa ignorancia
dos resultados da sadía exegese contemporánea.

Resta aínda abordar o segundo episodio a que se refere a


sensacional noticia transcrita no inicio deste artigo (p. 29s).

2. Estacionamento do sol em 2 Rs 20,1-11 ?

Reinava Ezequias em Judá (716-687 a. C.), quando certa


vez adoeceu gravemente. O profeta Isaías foi entáo admoestá-
-lo a se preparar para a morte. Profundamente entristecido
com a noticia, Ezequias com grande ardor rogou ao Senhor
que lhe poupasse ainda a vida. A sua prece foi atendida, de
sorte que Isaías pouco depois lhe pode anunciar, da parte do
Senhor, a pronta cura. E acrescentou:

"Eis o sinal que te dará o Senhor para que saibas que se ná de


cumprlr a sua promessa: que res que a sombra se adiante dez graus ou
recue dez graus ? — É fácil, replicou Ezequias, que a sombra se adiante
dez graus. Nao. Quero que ela recue dez graus. Orou o profeta Isaías,
e o Senhor fez que a sombra recuasse dez graus no relógio solar de Acaz"
(2 Rs 20,9-11).

— 129 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 150/1973

No livro do profeta Isaías (38,5-8), a narrativa volta em


termos mais concisos :

Isaías é enviado a Ezequias para comunicar-lhe da parte do Senhor:


"Ouvi lúa oracáo e vi tuas lágrimas; prolongarei tua vida por quinze
inos... Eis o sinal da parte do Senhor, para convencer-te de que cumpri-
rá a promessa: farei a sombra recuar os dez graus que o sol Ihe fez des-
cer no relógio solar de Acaz. E o sol vollou dez graus para tras".

Do confronto desles dois textos deduz-se logo que o sinal


nao consistiu em estacionamento nem em retrocssso do sol,
mas em «recuo de uma sombra projetada sobre quadrante»
(2 Rs 20,11). É este recuo que o livro de Isaías, por forga de
expressáo, designa como «recuo do sol» (Is 38,1); na verdade,
uma sombra rscuou como se o sol tivesse recuado aos olhos do
observador.

Pergunta-se agora: que sombra seria a que recuou?

Os comentadores reconhecsm unánimemente que se trata-


va da sombra de um ponteiro ou de uma haste que devia indicar
o movimente do sol, ou seja, as horas do dia. Nao saberiam,
porém, indicar com ssguranca se essa sombra se projetava so
bre um quadrante de relógio graduado, ¡mais ou menos seme-
lhante aos nossos quadrantes, ou apenas sobre os degraus de
uma escada... Nesta última hipótese, haveria uma haste fin
cada no topo de pequeña colina; e a csse topo o «icpsso so faria
por degraus de escada colocados de todos os lados ao redor
da haste. Um tal obelisco existia no Campo ds Marte em Ro
ma para indicar as horas do dia. Também se poderia admitir
que a haste estivesse fincada sobre um pedestal munido de do-
ze .degraus de escada.

É preferível a primeira destas hipóteses. A invencáo do re


lógio de sol com seu quadrante se deve, conforme Heródoto
(II 109), aos babilonios; ó bem possivcl que o rei Acaz (736-
-716) ds Judá, admirador dos assirios como era, tenha adota
do essa invencáo dos ffnesopotámios e construido no palacio
regio em Jerusalém o «relógio de Acaz» de que fala o texto
bíblico em 2 Rs 20,11. Mais: em 1923/25, os arqueólogos exu-
maram, na cidade mesma de Jerusalém, um quadrante bem
conservado, que dá idéia do qaie possa ter sido o quadrante gra
duado do rei Acaz.

Deve-se ainda indagar: e que fenómeno terá provocado


esse recuo da sombra do ponteiro?

— 130 —
ESTACIONAMENTO DO SOL E ELETRONICA 39

— Julgam alguns estudiosos que sa tratava de um fenó


meno de refragáo dos raios solares. Notam mesmo alguns que,
aos 27 de margo de 1703, na cidade de Metz (Alsácia), seme-
] hante fenómeno se produziu: a sombra dos ponteiros dos re-
lógios solares recuou de hora e meia por efeito de refragáo dos
raios do sol na atmosfera (cf. Knabenbauer, In Is 38,8).

Tal explicagáo ó aceitável. Observe-sc contudo que já seria


suficiente, para corresponder aos dizeres do texto bíblico, admi
tir mero efeito na retina do rei Ezequias. Esse efeito de retina,
inegavelmente maravilhoso ou fora do comum como era, bas
taría para ser sinal dado ao rei pelo Senhor Deus como penhor
do seu próximo restabelecimento de saúde. O essencial, em
qualquer hipótese, é que o rei Ezequias tenha sido impressiona-
nado por um acontecimento nao habitual, acontecimiento que,
á primeira vista, equivaleria a um recuo do sol e do ponteiro
que indicava a marcha do sol. Assim impressionado, Ezequias
compreendeu que sua prece fora atendida e que de fato ele
havia de ser curado.

Após estes escudos exegéticos, vé-se que os textos de Jos


10,2 Rs 20 e Is 38 nao insinuam fenómeno atmosférico ou cós
mico. Por conseguinte, se falta um dia no calendario da huma-
nidade, procure-se a explicagáo em outra fonte que nao os re
latos bíblicos.

A propósito veja :

E. Bettencourt, "Ciencia e Fé na historia dos primordios". Rio de Ja


neiro 1958, pp. 245-255.

PR 25/1961. pp. 373-378 (episodio de Josué).

PR 73/1964, pp. 19-21 (episodio de Ezequias).

A. van den Born, "Dlclonárlo Enciclopédico da Biblia", verbete "Sol.


Milagre do". Petrópolis 1971, cois. 1457s.

— 131 —
Carta Pastoral:

sobre as "igrejas brasileiras"

O assunto «Igreja Católica Apostólica Brasileira (ICAB)»


já foi abordado em PR 149/1972, pp. 218-228. Procuramos ai
analisar a situagáo da ICAB sob os aspectos histórico, teoló
gico, jurídico... Ora, aos 8/XÜ/1972, os bispos da Provincia
Eclesiástica de Sao Paulo houverajm por bem publicar urna
Carta Pastoral sobre a mesma temática, com o título «Igrejas
brasileiras» (visto que a ICAB está realmente dividida em mui-
tas comunidades independentes urnas das outras). Os signata
rios sao onze bispos cujos nomes se encontram no fim do do
cumento. Dada a grande importancia deste texto do episcopa
do paulista, pareceu-nos oportuno transcrevé-lo ñas páginas
que se seguem. O documento é por si mesmo assaz eloqüente,
de modo a dispensar ulteriores comentarios.

INTRODUgAO

"Tomamos conhectmento, por observacao pessoal ou por Insistentes


interpelacoes dos fiéis mals esclarecidos, de que se multiplican! grupos
religiosos alhelos á Igreja Católica Apostólica Romana, mas organizados
e apresentados de tal forma que inevitavelmente atingem os fiéis católicos.
Referimo-nos aquí especialmente á asslm chamada 'igreja católica apos
tólica brasllelra', que, no quadro da renovacáo conciliar, contradiz e pre-
judica tudo quanto o Concilio deseja e incentiva como renovacáo.

Sabemos que numerosos fiéis católicos procuram os templos dessa


organizado. Fazem-no, em sua maloria, de boa fé, julgando tratar-se nao
de outra igreja, mas da Igreja de seu batlsmo, a Católica Apostólica Ro
mana, urna vez que os ministros da 'igreja brasileira' usam de maneira
equivoca a designacfio de 'católica', adolam vestes e ritos empregados
desde lempos imemoriais pela Igreja Católica, ostentam imagens de san
tos que ela tradicionalmente venera, tomam para si os títulos de 'padres',
'bispos', etc. 'Desde o nome adotado até o culto e ritos' — lamentava em
1948 o Arceblspo do Rio de Janeiro — 'tudo é feito com o objetivo de
mistificar e confundir'. As coisas nao mudaram de 1948 para cá. Hoje em-
pregam terminología como 'curia diocesana', e 'concillo', e falam ató de
'canonizacío'. Trata-se realmente de mislificacao que nao pode ser aceita
sob pretexto de liberdade de conscléncla e que é repelida pela pureza da Fé
que o Evangelho exige e mesmo pela elementar honestidade humana.

Por ¡sso, conscientes de um dever sagrado — o de enslnar e de de


fender a doutrlna verdadelra — dirigimo-nos ao nosso povo fiel para escla-

— 132 —
SOBRE AS «IGREJAS BRASILEIRASx» 41

recé-lo sobre urna situacáo que lamentamos e sobre os perigos que ela
cria para a fé e a vida religiosa desse mesmo povo.

Propor esse esclarécfmento é direito irrecu3ável da Igreja Católica


Apostólica Romana, até em virtude das leis civis. Mas é também, como dls-
semos, seu dever. Ela nao o faz por impulso sectario. O convivio fraterno
mantido, na linha do Concilio, com outras conflssñes cristas ou nao, res-
peitadoras do culto católico, demonstra tartamente o espirito ecuménico
da Igreja. Se sentimos a necessidade de acautelar nossos fiéis, é porque
os vemos desnortead03 pelas ingerencias perturbadoras das 'igrejas brasi-
leiras'.

1. ORIGENS DA 'IGREJA BRASILEIRA'

Muitos hoje desconhecem que a asslm chamada 'igreja brasileira' nas-


ceu de urna rebeliio e revolta contra o Papa e contra a Igreja Católica.

Em 1945, Dom Carlos Duarte Costa, ató enláo bispo católico, colo
cado pelo Papa á frente de urna diocese, Incorreu, por gravíssimas razdes,
na pena de excomunhao. Com isso vlu-se afastado da comunháo católica
e perdeu o titulo episcopal de que estava investido. Ficará conhecido como
o 'ex-bispo de Maura'.

Foi entáo que decldiu fundar a 'sua' igreja, a 'Igreja crista nacional',
rompendo definitivamente com o Papa e, por consegulnte, com toda a
Igreja Católica. Prossegulndo em sua nefasta rebeliáo, sagrou 'bispos',
que, por sua vez, foram sagrando outros 'bispos' e ordenando 'padres'.
Estes foram separando-se uns dos outros, formando constantemente novas
'igrejas' sob varias denominacóes.

Diante desse quadro da 'igreja brasileira', tendamos presente que a


Igreja de Cristo é urna só — 'a minha Igreja', disse Jesús — constituida
sobre o inabalóvel alicerce e a Rocha firme de Pedro e seus sucesscres
e chamada, desde os tempos mais remotos pós-apostólicos, católica ou
universal. Asstm, com efeilo, falou Jesús: 'Tu és Pedro e sobre esta
pedra edficarel minha Igreja e as portas do inferno nao prevalecerao con
tra ela. Eu te darei as chaves do Reino dos céus: tudo que ligares na
Ierra, será ligado nos céus, e tudo que desligares na térra, será desligado
nos céus' (Mt 16,16-19).

A Pedro e aos Apostólos também disse : 'Quem vos ouve, a mim


ouve; e quem vos rejeita, a mlm rejeita' (Le 10,16).

Revoltar-se contra Pedro, Islo é, o Papa, é naufragar na fé. A asslm


chamada 'igreja brasileira', em qualquer urna de suas denominacóes, nao
pode, pois, apresentar-se como legítima Igreja de Cristo católica; está
separada do centro de unldade visivel da Igreja de Cristo, que é o Papa.

2. LIBERDADE RELIGIOSA

O II Concilio Vaticano em varios de seus textos falou do diálogo re


ligioso. Quis aínda consagrar um documento, o 'Dignitatis Humanae', ao te
ma da liberdade religiosa, direito e prerrogativa da pessoa humana.

— 133 —
•PERGUNTE E RESPONDEREMOS^ 159/1973

Conhecemos e respeitamos essa doutrina do Concilio e, ao falarmo3


das 'Igrejas brasileiras', suas origens e ativldades, nao nos move a in-
tencao de pleitear ou exigir um monopolio de culto, que seria contrario á
liberdade religiosa. É, ao contrario, em nome dessa liberdade religiosa e
em sua defesa que nos dirigimos a nossos fiéis para esclarecé-los. Pois
julgamos que, por seus métodos e sua maneira de agir, as 'igrejas bra
sileiras' nao respeitam a liberdade religiosa, antes sao urna ameaca contra
ela, merecendo neste sentido franca reprovacáo.

É ensinamento do Concillo: 'Nenhum homem pode sofrer coacáo em


materia religiosa por parte de pessoas particulares nem de grupos sociais,
nem de qualquer poder humano' (DH 2). Essa liberdade deve ser garan
tida tanto individualmente quanto comunitariamente.

É em defesa da liberdade religiosa que o Concilio estabelece os II-


mitcs da apio da comunidade religiosa: 'Na dilusio da fé religiosa o na
introducáo de costumes, sempre se há de abster de qualquer tipo de
acáo que possa ter sabor de coibicio ou de persuasio desonesta ou me
nos carreta, sobretudo quando cstáo em jogo pessoas rudes ou indigentes.
Este modo de agir deve ser considerado como abuso do dlreito próprfo
e lesSo do direito alheio' (DH 4).

A luz desses principios táo obvios, nao há como nao censurar o com-
portamento dos que se apresentam como responsávels pelas 'igrejas brasi
leiras'. É evidente a confusao e desorlentacao que, consciente ou incons
cientemente (Deus o julgue!), eles provocam entre o povo católico. Nem a
mais benévola aplicacao dos principios da liberdade religiosa permitiría
justificar essa atilude. Antes basta o simples bom senso para classlficá-la
como verdadelro abuso da libe:dade e dcscarideso atentado á conscicncia
religiosa de nossa gente católica.

3. PRINCIPIOS TEOLÓGICOS

Já nos parece bastante g:ave que fiéis católicos, sobretudo os de fé


ardente, mas simples e de pouca formacáo, estejam sempre expostos ao
perigo de trairem sua Igreja, desorientados pelas amblgüldades da 'igreja
católica apostólica braslleira'. Mas há algo aínda mais grave: os responsá-
veis por essa 'igreja' conferem 'béncoes' e administran» 'sacramentos', isto
é, exercem um poder sacerdotal. Ora sobre a autenticidade desse poder
pesam serias dúvidas. Os próprios fiéis mostram-se perplexos c ansiosos
e interrogam-nos com freqüértcia sobre a validade desses atos sacramentáis
e sobre a significacáo real das .mensagens desses 'bispos' e 'padres' que
nao poucas vozes recorrem á publicidade dos programas de radio e te-
levisáo.

Essa pcrplexidade tem certamente procedencia, pois a própria Santa


Sé consultada sobre como agir quando 'ministros' da 'igreja brasileira' pe-
diiem admissao na Igreja Católica, respondeu através da Sagrada Con-
gregacao para a Doutrina da Fé, com a aprovacáo de Paulo VI, que só
fossem aceitos, e ¡sso em caso de seria conversáo, como simples leigos,
nunca como clérigos (bispos, padres ou diáconos). Em algum caso excep
cional, supostas todas as demais condicoes, podei-se-ia encarar a possi-
bilidade de urna re-ordenacáo para presbítero, sob condicáo. Esta reorde-
nacáo presbiteral seria necessárla mesmo se eslivesse em causa um

— 134 —
SOBRE AS «IGREJAS BRASILEIRAS 43

'bispo' da 'igreja'. Se a Santa Sé exige a re-ordenacáo sob condicáo, é


que ela nutre graves dúvidas sobre a validado da 'ordem sacerdotal1 dos
'ministros' da 'igreja brasüeira' e, conseqüentemenle, sobre a validade do
ministerio que exercem.

Se interrogamos a teología da Igreja de Cristo, as dúvidas, longe de se


desfazerem, acentuam-se aínda mais. As origens da referida 'igreja brasüei
ra' estao marcadas indelevelmente pela rebeüáo ao Papa por parte do seu
'fundador' o ex-bispo de Maura. A referida 'igreja brasüeira' nunca leve
nem tem povo próprio. Seus 'ministros' atuam entre gente que já está com
prometida com a Igreja Católica e já tem seus legítimos pastores, os quais,
conscientes de suas insuficiencias, se sentem no entanto íesponsáveis pelas
suas respectivas dioceses ou paróquias. O povo que conseguem, pelos
melos e modos ácima mencionados, convocar para seus templos, é povo
que nao dá conta do equivoco a que é induzido, nem pensa em abandonar
a ¡greja do seu batismo!

Possui 'bispos' e 'padres' que nao formam hierarquia legitima, nem


'corpo episcopal', como Cristo Jesús determinou para a sua Igieja. Nunca
estiveram unidos á hierarquia da Igreja Católica, ao seu corpo episcopal,
nem mesmo na origem da referida igreja, pois foram criados depote e por
causa da separacao do ex-bispo de Maura. No entanto, a comunhao epis
copal, o corpo episcopal é da expressa vontade de Cristo, como urna
forma sacramental dele, o único Pastor da sua Igreja. Nem como povo,
portanto, porque nao o possui, nem como hierarquia, a assi.T) chamada
'¡greja brasileira' existe realmente como igreja e muito menos como igreja
de Cristo. O que entáo pensar da validade de suas ordenacóes episcopals
ou saco.'dotais e do ministerio que vcm cxercendo?

4. NORMAS PRÁTICAS

Recordada a origem da 'igreja brasileira', considerada a liberdade reli


giosa á luz do II Concilio Vaticano e examinado o aspecto teológico do
caso, íesta-nos flxar algumas normas pláticas para nossos Irmáos, culabo-
radores e fiéis.

1) Dada a especial seriedade das realidades sacraxentais e o cui


dado com que devenios cercar a administracao destes misterios de Deus,
e como nao há garantia de validade para os sacramentos lecebidos na
'igreja brasileira', sejam reiterados sob condicáo cada vez que se apresen-
tar o caso.

2) Saibam nossos fiéis ser gravemente ¡licito freqüentar os atos re


ligiosos da 'igreja brasileira1, lomar parte neles e recorrer a seus ministros.

3) Nao podem ser admitidos entre nos, como pad.inhos de Batismo


e Crisma, os que, conscientemente, freqüentam o culto daquelas 'ig;ejas'
ou aderiram a elas, a nao ser após seria e verdadera conversáo claramente
comprovada.

4) As palestras ou aulas de preparacao para os sacramentos — so-


bretudo o Batismo, a Crisma e o Matrimonio — e para Missas de formatura
e outros movimentos populares, normalmente requeridas ñas nossas pa
róquias e ostensivamente desvalorizadas pelas 'igrejas brasileiras', devem
manter-se e aperfeicoar-se para serem cada vez mais instrutivas e agradáveis.

— 135 —
44 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

5) Sejam também os fiéis avisados de que nao sao da Igreja Cató


lica Apostólica Romana os seguintes movlmentos: 'Sociedade de Sao Mar
cos Evangelista', certos 'santuarios' que usurpam a denominado de 'Me
nino Jesús de Praga' ou Santo Antonio de Categeró, 'Curia' 6Üa á Rúa
Santa Tereza n? 20, 20? andar, sala 2005, em Sao Paulo, 'lg:eja ecuméni
ca crista do Brasil' — com seu 'santuario' intitulado 'Sagrada Familia',
'Santuario de Sao Jorge e do Menino Jesús', á Rúa Figueira n? 267 em
Sao Paulo, 'Santuario N. S. do Jardim das Oliveiras'. em Itaím Paullsta,
'Santuario de Santo Antonio de Pádua,' á Rúa Serra da Bocaina rr? 598,
■Paróqula de Sao Benedito', á Rúa Tanandé, n? 20, Vila Formosa, o tem
plo de 'Nossa Senhora do Perpetuo Socorro' no Ipiranga, a 'Gruta do Bom
Jesús' em Santo André, o 'Santuario Nossa Senhoia da Penha' em Jundlai,
a 'diocese' de Embu-Guacu; os programas matutinos na Radio Marconi,
nada disto é da Igreja Católica Apostólica Romana, mas, sim, das 'igrejas
brasileiras', as quais pertencem também na Baixada Santista um 'santuario
e sede catedral,' com dols oratorios filiáis em Santos e Sao Vicente. Em
outros lugares na regiio da Grande Sao Paulo, onde ainda nao construi-
ram seus templos, ministros da 'igreja brasileira' vém funcionando em ter-
relros de umbanda e candomblé, onde chegam ao cúmulo de 'adminlstrarem
sacramentos'!

Nao pretendemos aqui oferecer a lista completa, mas os exemplos


mals comuns sobre os quals continuamente os católicos ludibriados vém
perguntar se verdadeiramente sao da nossa Igreja, como infelizmente fa-
zem crer.

No caso de dúvlda, recorram aos Párocos e Vigários de suas Igre


jas, que orlentaráo os fiéis católicos sobre os casos concretos.

5. APELOS

Nosso primeiro apelo é aos responsáveis e líderes das assim chama


das 'igrejas brasileiras'. Como Pastores legítimos da Igreja, sentimo-nos
no dever de chamar-lhes á consciencia, em nome da sincerldadc e da
verdade, apelando para que cessem de usar indebitamente os ritos ca
tólicos, os ñames dos santos, os paramentos e as ve3tes, etc., que sao
de nosso uso, e pedindo-lhes que se apresentem ao povo como Igreja
Católica, mas claramente como sao. Bem sabem os 'ministros' das 'igie-
jas braslleiras' nao ser verdade que seu culto seja o mesmo culto católico.
Sabem que nao é licito aos católicos fieqüenta.em-no. Este apelo, nos
o fazemos nao só para resguardo de nossa liberdade, mas — muito mais
desejosos de que aqueles que os buscam, pensando em boa jé en
contrar ali a santificacáo do Cristo Salvador, nao sejam iludidos espiriluaj-
mente por atos vazios e nulos, que nao transmiten! nem podem transmití.'
a gra;a, porque desligados de Jesús e da Igreja. Que a luz do Espirito
Santo os ilumine e Ihes dé a coragem da verdade c da sincesidade!

A esta altura gustaríamos de dirigir-nos, de coragao sincero, a esses


responsáveis pelas 'igrejas brasileiras' para dize.-lhes que as portas da
Igreja estáo sempre abertas para receber aqueles que, reconhecendo o seu
engaño, qulserem voltar-se inteiramente para a verdade do Evangelho, na
única Igreja do Senhor Jesús. E será Imensa a alegría da igreja ao acó-
Iher os que, sinceramente convertidos, pedirem um lugar na casa do Pai.

— 136 —
SOBRE AS «IGREJAS BRASILEIRAS» J5

Nosso segundo apelo val aos nossos colaboradores. Recomendamos


naja continuado esforco de catequeae para Instruir os fiéis na compreen-
sao da fe, no que ela implica e em que se fundamenta, distlngulndo bem
seu alto sentido sobrenatural que, mal orientado, conduz á superstigáo, ao
sincretismo religioso, ao formalismo ritual, ao devoclonismo de coloracio
folclórica, defeitos estes nio criados mas fortemente fomentados pelos
programas radiofónicos e pelos escritos das 'igrejas brasileiras'.

Um terceiro apelo dlrige-se aos nossos fiéis. Deles esperamos que,


procurando crescer cada dia mais em sua fé e na adesao á familia de
Deus, que é a Igreja Católica, nao se deixem desorientar pela propaganda
e evitem deixar-se iludir pelas aparéncias católicas das 'igrejas brasileiras'.
Se procurarem de espirito aberto, encontrarao em sua Igreja tudo quanto
Ihes é necessário para sua fé e piedade.

CONCLUSÁO

Dlrigindo esta inslrucáo pastoral e estas recomendacóes aos nossos


colaboradores Jnais próximos e, por seu Intermedio, ao Povo de Deus,
queremos reafirmar que o fazemos por estrilo dever de Pastores, a quem
o Espirito de Deus colocou para reger a sua Igreja (At 20,28).

Confiamos ao zelo de todos os sacerdotes desta Provincia Eclesiás


tica a tarefa de explicar claramente esta nossa carta ñas Mlssas de pre-
ceito dos próximos domingos. Aos grupos de retlexáo, as equipes de apos
tolado, aos movimentos religiosos, ao3 círculos bíblicos, aos ministros lei-
gos da Palavra e da Eucaristia, apresentamos este documento para lei-
tura, estudo e divulgacáo.

Abencoando a todos, invocamos a infinita bondade de Deus Pai, a


riqueza de Jesús, o Fllho, a paz e a graca do Espirito de Amor sobre
todos.

Sao Paulo, 8 de dezembro de 1972, festa da Imaculada Conceicao.

Dom Paulo Evaristo Arns — Arcebispo Metropolitano

Dom Jorge Marcos de Oliveira — bispo diocesano de Santo Andró

Dom Gabriel Paulino Bueno Couto — btspo diocesano de Jundiai


Dom Paulo Rolim Loureiro — bispo diocesano de Mogl das Cruzes

Dom José Thurler — bispo auxiliar do Sao Paulo

Dom José Melhado Campos — bispo coadjutor e administrador apos


tólico de Sorocaba

Dom David Picáo — bispo diocesano de Santos

Dom Silvio Wlaria Darlo — bispo diocesano de Itapeva

Dom Lucas Morelra Neves — bispo auxiliar de Sao Paulo

Dom Roberto Pinarello de Almeida — bispo auxiliar de Jundiai '**


Dom Benedlto de Ulhoa Víeira — bispo auxiliar de Sao Paulo".

— 137 —
Canibalismo ou nao?

consumo de carne humana nos andes

Em sintese: O caso das vitimas de desastre de aviáo no Chile que


comeram a carne de seus companheiros modos para sobreviver em fins de
1972, deu margem a calorosos comentarlos.

Na verdade, o canibalismo, que consiste em matar um homem para


o comer, é hediondo e reprovável. Todavia, no recente episodio dos Andes
as vitimas do acídente nao mataram seus semelhantes para os consumir, mas
apenas utilizaram os despojos mortais dos mesmos. Alias, o aproveitamento
de cadáveres em transplantes tem sido praticado com a aprovacao da ética
profisslonal e da conscléncia crista (como se compreende, dentro de certos
limites), como também (em varios casos) com o consentimento dos próprios
doadores e dos familiares respectivos, é o que justifica o comportamento
das vitimas dos Andes, que preferiram comer (talvez com certa repugnancia)
carne humana encontrada morta a deixar perecer todo o grupo (com maior
luto ainda para as familias uruguaias).

Quanto á comparagao com a Ceia do Senhor Jesús, é improcedente


e abusiva.

Comentario: Em fins de 1972 — e ainda depois — muito


se comentou o caso de dezesseis rapazes uruguaios vitimas
de desastre de aviagáo nos Andes chilenos. Para poder sobre
viver durante setenta dias passados em ambiente de todo
inóspito, comeram a carne de seus companheiros falecidos,
realizando assim um ato que a opiniáo pública muito discutiu:
lícito ou nao? Os sobreviventes do referido desastre de aviacáo
mereeem a reprovacáo da humanidade ?

Para se justificar perante o público, tais jovens lembruram


que Cristo na Última Ceia deu sua carne a comer aos Apos
tólos e mandou que tal gesto fosse repetido em toda celebragáo
eucarística até o fim dos tempos. Todavia o Sr. Bispo D. Anto
nio María Corso, de Maldonado (Uruguai), declarou improce
dente a comparagáo e lamentou que «a imagem do Uruguai
e da religiio católica tenha sido bastante diminuida com a
divulgagáo desse acontecimento e ds suas motivacóes
religiosas».

Que dizer a propósito, numa perspectiva serena e crista?

— 138 —
CONSUMO DE CARNE HUMANA NOS ANDES 47

1. Canibalismo e «canibalismo»
1. Por «canibalismo» se enbsnde a conduta de quem mata
seu semelhante a fim de lhe comer a carne; é o que fizeram
os indios antropófagos e outros grupos humanos no decorrer
da historia. Os motivos dessa prática tém sido os mais diver
sos: há quem assim proceda por odio e crueldade; outros, por
motivos supersticiosos (julgando que o consumo do coragáo,
do cerebro ou do fígado de outro homem comunicam ao consu
midor os predicados da vítima; cf. pp. 97s deste fascículo);
outros, para extinguir a fome e sobreviver em casos de guerra
ou perigo de morte (assim as máes comiam seus futios no
cerco de Jerusalém em 66/70 d. C).
Tal procedimento é, sem dúvida, condenável do ponto de
vista ético, pois implica num morticinio; a pessoa humana
nao pode ser equiparada a um animal de matadouro. É neces-
sário que se respeite a sua dignidade. Ademáis urna certa
repugnancia natural diante do ato parece indicar que se trata
de algo de desumano e indigno.

2. No caso, porém, dos jovens uruguaios perdidos ñas


neves dos Andes, note-se urna diferenca: nao mataram seus
semelhantes para lhes comer a carne. Viram-nos mortos
(assim ao menos se supóe). Os seus cadáveres estavam des
tinados talvez a ficar para sempre perdidos na cordilheira
ou, caso voltassem ao Uruguai, seriam sepultados, reduzidos
a pó ou incinerados.

Doutro lado, sabe-se que hoje em dia os cadáveres sao,


dentro dos limites de certas normas de ética, utilizados para
fins humanitarios, com a permissáo do próprio doador, de seus
familiares e da consciéncia crista em geral. Assim tém-se
feito transplantes de coracáo (desde que esteja realmente
falecido o doador), de rins, de córnea...

Ora as vítimas do desastre estavam para morrer de ina-


nicáo... Encontraram mortos alguns companheiros, cuja
carne lhes poderia ser útil como comestível. Resolveram
entáo consumi-la (é de crer que com certa repugnancia), de
preferencia a virem a morrer também eles, deixando maior
número de lares privados de filhos, irmáos, esposos, pais,
profissionais, etc. Verdade é que, assim procedendo, os sobre-
viventes condenavam definitivamente as familias dos faleci-
dos a nao receber os despojos de seus familiares; nunca mais
os parentes veriam essas vítimas... Todavia nao era certo
que, se nao tivessem sido consumidos os cadáveres, os fami-

—" 139 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 159/1973

liares os teriam recebido no Uruguai para um último adeus.


A situacáo dos sobreviventes nos Andes era por demais obs
cura; o uso da carne dos defuntos parecía ser a única maneira
de aínda evitar a catástrofe total ou a perda completa (dos
componentes do grupo.
Vé-se, pois, que, no caso, nao se pode falar de caniba
lismo no sentido clássico da palavra: nao houve homicidio,
mas apenas a utilizacáo de cadáveres consoante o que se tem
licitamente feito em outros setores da atividade humana con
temporánea. Quanto ao fato de haverem os consumidores
privado as familias do hipotético reencontró dos familiares
defuntos, parece menos grave do que a extincáo completa da
turma de cidadáos que corriam psrigo nos Andes (e que só
poderiam sobreviver caso utilizassem os despojos de seus com-
panheiros).

2. E a Ceia do Senhor ?

O apelo para a Ceia de Cristo como justificativa para a


conduta dos sobreviventes uruguaios é de todo inadequado,
ou mesmo abusivo (seria sacrilego, se nao tivesse sido prati-
cado de boa fé). Jamáis se deveria pensar em tal fundamen-
tacáo. Cristo deu aos seus discípulos a sua carne e o seu
sangue como sacramento, isto é, como veículo de graga e
vida eterna. Com efeito, depois que Jesús prometeu um pao que
seria a sua carne para a vida do mundo, os seus ouvintes
replicaram: «Como pode Ele dar-nos a comer a sua carne?»
Disse entáo o Senhor: «Em verdade, em verdade vos digo:...
Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, tem a vida
eterna e Eu o ressuscitarei no último dia» (Jo 6,52-54). Mais
adiante, Jesús dava a entender de novo e claramente que Ele
nao propunha antropofagia, mas algo de único e inédito: atra-
vés da sua carne feita pao, comunicaría algo de transcenden
tal: «O Espirito ó que dá a vida; a carne para nada serve»
(Jo 6,63).
Nao é necessário insistir na diferenga entre uso da S.
Eucaristía e antropofagia. Foi o que motivou a justificada
intervencáo do Sr. Bispo de Maldonado no Uruguai.
O episodio dos Andes 1972 já deu suficiente materia para
comentarios, por vezes apaixonados. Nao parece oportuno ali
mentar a controversia; basta que o público tenha clareza
acerca dos principios moráis que estáo em jogo no caso.

Esteva© Bettencourt O.S.B.

— 140 —
livros em resentía
Evangelho, amor e fecundhlade, por Alfred Ancel. Tradugáo
de M Cecilia de M. Duprat. Colegáo «A Célula» n" 6. — Edicocs
Paulinas. Caxias do Sul 1972, 120 x 200 mm, 222 pp.

Este livro contém os artigos publicados por Mons. A. Ancel,


bisno auxiliar de Liáo (Franga) no semanario diocesano «L'Essor»,
de outubro 1968 a Janeiro 1970, a respeito dos problemas suscitados
pela encíclica «Humanae Vitae» (sobre o controle da natalidatle).

Compreende tres partes: a primeira expde o problema da expío


sao demográfica e as respostas que ele tem provocado por parte
de pensadores contemporáneos. A segunda parte expóe os conceitos
de vida moral e conversáo do coragáo propostos pelo Evangelho;
este é santamente severo e exigente; todavía, junto com deveres,
aponta ao homem os meios para ser fiel a Deus. A terceira parte
do livro após as consideragdes gerais da anterior, encara direta-
mente á vida conjugal crista: desenvolve o sentido do amor
conjugal e, finalmente, trata da limitagáo da prole. Esta é legitima,
contanto que respeite o ritmo natural do organismo feminino e
evite o anticoncepcionismo. Estabelecida esta posigáo da ene. «Hu-
manae Vitae», Mons. Ancel analisa minuciosamente as objegoes que
contra ela teñí sido levantadas: «a doutrina da Igreja e inexeqai-
veh> « PapT nao tinha o direito de legislar sobre tal assunto»
«o Cristianismo ainda nao superou os tabus do sexo», «... aínda nao
reconheoeu a dignidade da mulher»... O autor dialoga com o obje
tan?" em termo! simples e amigos; procura responder c noto: <O
mais importante nao consiste em responder as objegóes, mas um
SmpreSider-o significado profundo das relagóes conjugáis ou o qus
remésenla o ato conjugal no plano de Deus* (cí. 157s). Mons. Ancel
a ™da losca'osem que os cónjuges julganj ter que infringir
os principios da encíclica por nao os comprenderán... Aponta a
sólida preparagáo para o casamento como premissa básica para re
resolveremTos problemas de relagóes conjugáis e natahdade.

O ciue impressiona na leitura desse livro. é a coeréncia do


autor; fiel á doutrina da Igreja, mostra a amplidáo das concluso»
a que e;sa íidelidade deve levar os casáis cnstaos. Nem por isto
Mons Ancel deixa de ser humano e compreensivo, pois e pastor de
almas posto ern conTato com a realidade do povo de Deus. Notase
om suma, quo 6 um homem do fé que escreve tal livro, urando
de muita coragem e abnegacáo. Por curto, muito mais simpático
e anradável ao autor teria sido acomodar-se a tendencia geral anti-
conüpcionTste Talvez muitos leitores nao aceitem a lógica muito
lúcida do autor do livro; mas parece que nao poderao deixar de admi
rar o destemor sadio e a coeréncia de espirito desse homem de Daus.
Faz bem encontrar personalidades de tais dimensñes: muito firmes
na doutrina, mas, ao mesmo tempo, muito marcadas pelo amor cr.stao.
E.B.

Milagros em Mateus, por Jerome Murphy-O'Connor O.P. Cole-


cáo «A palavra viva» n» 2. — Edicócs Paulinas, Sao Paulo 1972,
110 x 190 mm, 45 pp.

Freí Gilberto da Silva Gorgulho e a Prof Ana Flora Anderson,


ilustres lentes de materias bíblicas nos Estudantados de Sao Paulo,
resolveram dar origem e orientacáo a urna colero de comentarios
bíblicos destinados ao grande público, mas inspirados na erudicao
católica contemporánea. A finalidadc desses livros de formato peque-
no e leitura acessivel é transmitir a espiritualidade bíblica e levar o
leitor ao saboreio da Palavra de Deus. Saudamos o empreendimento.

O autor do livro atrás assinalado é um jovem proíessor domi


nicano irlandés da Escola Bíblica de Jerusalém, que divide o seu
tempo entre estudo, aulas e palestras de espiritualidade. Abre o seu
trabalho com as seguintes e oportunas observacóes:

•..lá se tornou haslanli1 oonliooido o falo <lo quo <>■; reoontos


osludos de Escritura, em muitos seloros, doram origem apenas a dcsá
nirao e ansiedade. PJxegctas estáo comegando a recusar convite para
rcunióes sociais porque alguém certamente perguntará: 'Últimamen
te, com que acabaram voces?' O sorriso foreado que acompanha a
pcrgur.ta. gcralmente indica que nüo é brincadeira. Isto é surpreen-
dente — e triste —, porque a pesquisa sobre a Escritura é o trabalho
da homens cujo único motivo é a exposicáo honesta da riqueza de
significado contido na Palavra escrita de Deus. A reacüo é devida,
em grande parte, ao modo pelo qual tém sido anunciados os resul
tados desses trabalhos. O sensacionalismo tem ressaltado as conse-
ciüéncias negativas, mas os saldos positivos tém sido negligenciados.
A íinalidade deste trabalho é tentar íazcr pender um pouco a balanca
"Sara o outro lado, demonstrando de maneira concreta quanto se des
cobre do Novo Testamento, quando sao utilizados os resultados de
■ pesquisas recentes» (pp. 13s).

Fr Jerome Murphy O'Connor atingiu.a sua meta, pois explícita


yara o leitor ti mcnsaqom que S. Mateus terá huondonario nos capí
tulos 8 e 9 do seu Evangolho; o autor valc-sc dos scus conheeimontos
do Ántigo Testamento e do estilo de Mateus, procurando assim fami
liarizar o público brasileiro com dados geralmente desconhecidos. O
livro i>oderá sor útil nao somonte aos estudiosos da Biblia, mas tam-
lx';m ao público do corlo nivel de formacao crista.

Do mesnio autor mencionamos tambóm o livro Siio 1'aul» « ¡i


moral dos nossos tenipos, na mesma colecao n1 1. Este trabalho acen
túa o caráter comunitario da vida crista: -Ser-nm-Cristo c syr-com-
•outros... É na vida em comunháo que se pode discernir a verdadeira
vontade de Deus, a norma de toda aguo moral e sentido para a exis
tencia humana* (p. 6). Esta afirmacáo nao doixa de ser verídica,
mas nao escota todo o conteúdo da monsajíom moral do Sao Paulo;
osla abrange varios outros aspectos, que o autor nfi» levo a inloncao
abordar em seu livro.

K.B.

ERRATA

Em PR 157/1973, pág. 47, lelam-se assim a 6? e a 7? linhas de cima


para balxo :

5 32 : "E quem se casar com a mulher repudiada, cometerá adulté-


iio". Estes dizeres rejeitam, de maneira peremptória, as segundas nupcias -
que se sigam á separado de um casal.

Pág. 17, I. 18, ler; ".....exceto Rio Branco no-Acre".

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