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P rojeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESEIVfTAQÁO
DA EDKJÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice
páe.

NAO DEIXE DE DAR CORDA AO SEU REL&GIO 413

Importante novfdade:
AÍNDA MACONARIA E IGREJA 415

Questáo de todos os tempos do Cristianismo:


IGREJA E POBRES ; 427

Quem sao ?
ANTONIO FREDERICO OZANAM E OS VICENTINOS 444

AOS NOSSOS ESTIMADOS LEITORES 452

A questáo social:
CARIDADE OU JUSTIOA ? 453

ESTANTE DE LIVROS 459

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

• * •

NO PRÓXIMO NÚMERO :

Acaso ou Inteligencia Criadora? — Virgindade de Maria:


como ? Por qué ? — Jesús teve irmáos ? — Tradigáo e Pro-
gresso no Cristianismo.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Assinatura anual Cr$ 40,00
Número avulso de qualquer mes Cr? 5,00
Volumes encadernados de 1958 e 1959 (preco unitario) ... Cr$ 35,00
índice Geral de 1957 a 1964 Cr$ 10,00

EDITORA LAUDES S. A.

REDAQAO DE PB ADMINISTRADO
Calxa Postal 2.666 Rúa Sao Rafael, 38, ZC-09
ZC-00 20000 Rio de Janeiro (GB)
20.000 Rio de Janeiro (GB) Tete.: 268-9981 e 268-2796

Na GB, a Rúa, Real Grandeza 108, a Ir. Maria Rosa Porto


tem um depósito de PR e recebe pedidos de assinatura da
revista. TeL: 226-1822.
Na tradigáo judaica, o Rabino Israel Friedman, o Rizhiner,
contava a estória seguinte:

Morava ele em pequeña aldeia, que, embora fosse modesta,


tinha as instituigóes de um municipio: foro, hospital, casa de
banhos pública, cemitério e diversas industrias de interesse ime-
diato: carpintaria, alfaiataria, fábrica de calcados, etc. Só fal-
tava um ramo de negocios, pois nao havia ali relojoeiro. No
decorrer dos tempos, muitos dos relógios da aldeia já trabalha-
vam táo mal que seus donos resolveram pó-los de lado, pois se
tinham tornado inúteis. Nao havia quem pudesse consertar a
maquinaria, que se ia deteriorando cada vez mais. Na aldeia,
porém, um ou outro morador, metido a sabicháo, insistía com
seus amigos para que nao abandonassem os relógios, mas lhes
fossem dando corda regularmente. Absurda recomendagáo esta,
á qual poucos «desmiolados» se prestavam a atender! Para que
dar corda a relógios que nao regulavam? — Ora eis que um dia
se espalhou no povoado a noticia de que chegara lá um relo
joeiro... Oferecia seus prestimos a todos os interessados; ele
•sabia consertar relógios!... Os habitantes da aldeia entáo
acudiram pressurosamente, levando-lhe cada qual a sua maqui
naria. Infelizmente, porém, só puderam ser consertados os
relógios daqueles que «íolamente» haviam continuado a lhes
dar corda; os demais, parados por muito tempo, haviam-se
enferrujado irrecuperavelmente!

Esta estória se assemelha á dos dois sapos de que falamos


no editorial de PR de setembro pp. — Lembra nao somente o
valor da perseveranga, mas recorda também que as sugestóes
da sabedoria (a ser abragadas com tenacidade) vém, muitas
vezes, revestidas de capa de absurdo. Claro está que nem todas
as sugestóes aparentemente tolas sao, na realidade, sabias; mas
é certo que existem aquelas que sao tais.

. Se estas verdades tém valor no plano natural ou mera


mente humano, elas o tém mais ainda no plano da fé e da vida
crista. Deus nos fala, nao raro, através de sinais a primeira
vista escandalosos ou tolos. Pede creíamos na importancia de
sitüagóes ou de coisas que o nosso simples bom senso tendería
a desprezar; pede acreditemos que, sustentando forte e viril-

— 413 —
mente um arduo programa de fé, chegaremos a indizivel sur-
presa da visáo face-a-face ou do feliz encontró final.

Mais precisamente: qual o crlstáo que á noite, depois de


um día exaustivo, nao se dispóe muitas vezes a recapitular a
sua jornada para fazer um balanco? Verifica entáo falhas e
omissóes; senté a amargura do abismo entre o que tencionara
fazer e o que fez, entre o seu nobre ideal e a sua pobre reali-
dade. O grande Miguel Angelo desapontava-se desesperadamen
te com as suas obras art.sticas esculpidas ou pintadas; sonhava
sempre com criagóes mais perfectas, mais fiéis ao seu genio. O
romancista Graciiiano Ramos desabafava-se por vezes, dizendó:
«Jamáis realizamos plenamente as obras literarias que idealiza
mos. Há urna eterna desproporgáo entre o que escrevemos e o
que desejariamos escrever». O Apostólo S. Paulo, por sua vez,
exclamava: «O bem que éu quero, nao o fago; mas o mal que
nao quero, é o que pratico» (Rom 7,19).

Na verdade, estes depoimentos retratam bem a angustia


de todo homem que nao se queira entregar á mediocridade, mas
tenha um ideal. Pois bem; apesar de todos os balancos nega
tivos, a fé crista ensina «loucamente» que é necessário nao
capitularmos na incessante procura do bem. É preciso que o
cristáo continué a lutar em sua vida pessoal para ser mais
conforme a sua vocagáo de filho de Deus. Continué também a
esforgar-se denodadamente em prol da cristianizagáo do seu
ambiente, ainda que nem sempre veja os resultados da sua
perseveranga tenaz.

O sofrimento de verificarmos a distancia entre o que somos


e o que deveriamos ser, entre o que fazemos e o que deveríamos
obter, é dos mais cruciantes, porque toca valores definitivos;
mas também é dos mais salutares. Expandir essa dor na pre
senta do Senhor sob a forma de anse'.os cheios de esperanga é
auténtica atitude do cristáo. E, depois de ter assim orado, po-
nha de novo máos á obra e dé corda ao seu relógio, sacudindo
a ferrugem, a rotina, a inercia, pois na realldade o Reiojoeiro
está as portas. Quando Ele vier, dentro em pouco, manifestará
a cada um todo o alcance do seu tenaz esforgo.

«Ainda um pouco, milito pouco tempo, e vira Aquele que


há de vir, e nao tardará. Eatrememtes o meu justo vivera pela
fé» (Hebr 10,37s; Hab 2,3s).

E.B.

.— 414 —
«PERdUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XV — N> 179 — Novembro de 1974

Importante novidade:

ainda maznaría e igreja


Em slnlose: Estendendo o artigo de PR 171/1974, pp. 104-125, o
presente artigo comunica Importante decisSo da Santa Sé datada de
19/VII/74: já nSo cal sob excomunh§o o fiel católico que se Inscreva em
Loja masónica que nao conspi e contra a Igreja... Ainda flca de pó o
can. 2.335 do Código de Direlto Canónico, o qual prevé a excomunhSo
para os católicos que se matricuiem em tojas conspiradoras... A Igreja,
porém, reconhece, na base de estudos cuidadosamente realizados, que
exlstem Lojas masónicas inocuas á RellgiSo, pols voltadas exclusiva
mente para interesses humanitarios ou de mutua ajuda de seus membros.
A estas um católico pertencerá tranquilamente enquanto puder com sin-
cerldade dlzer que nelas nada há que contraríe a consciéncia católica...
Tal determinacSo oriunda da Santa Sé velo, sem dúvida, dlssipar escrú
pulos de consciéncia e sltuacSes embaragosas, sem detrimento para a fé
e a moral católicas.

A prudencia da Igreja em relacSo á Maconaria deve-se ao fato de


que nesta há pontos ambiguos, ou seja, suscetlvels de mal-entendidos:
tais serlam, a quanto parece, a apregoada autonomía da razfio, a fórmula
"Grande Arquiteto do Universo", e o conjunto de segredos e juramentos
da Magonarla. é de crer que mals e mais se irfio aplainando os caminhos
de aproxImacSo da Maconaria e da Igreja, sem prejuizo para a Verdade
é o Amor.

Comentario: Em PR 171/1974, pp. 104-125, foi publicado


o artigo «Magonaria e Igreja Católica se reconciliará©?» O
tema, candente como era e ainda é, foi ai abordado em estrita
fidelidade aos documentos da Igreja até entáo publicados. Eis,
porém, que aos 19/VH/1974 a Santa Sé emitiu nova e ponde
rosa determinagáo sobre o assunto, abrindo mais ampias pers
pectivas sobre a questáo. É o que motiva as páginas seguintes,
ñas quais a recente posicáo da Igreja Católica será exposta e
comentada.

— 415 —
4_ «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

1. O teor da novidade

Comegaremos por recordar as condusóes práticas propos


tas no artigo de PR 171/1974, pp. 104-125.

1.1. ...Até ju!ho 1974

1. O Código de Direito Canónico, promulgado em 1917,


reza em seu canon 2.335 :

"Aqueles que dSo seu nome a seita masónica e a sociedades seme-


Ihantes que conspiram contra a Igreja e as legitimas autoridades civls,...
incorrem sem mais. na excomunhao simplesmente reservada á Santa Sé".

O exame consciencioso deste canon levava bons canonistas


a dizer que todo católico que se inscrevesse na Maconaria, cala
sob a pena de excomunhao (desde que soubesse da existencia
desta censura). Por conseguinte, nao seria possível a um cató
lico tornar-se magom e continuar a receber os sacramentos dá
Igreja. Por sua vez, o magom que se quisesse tornar católico
praticante, deveria deixar a Loja; isto nao havia de ser feito
de modo necessariamente violento, mas bastaría que o interes-
sado deixasse de freqüentar as sessóes da Loja respectiva ou
de observar os regulamentos e estatutos da mesma. Caso o
magom receasse conseqüéncias daninhas do fato de suspender
logo a sua partidpacáo na vida da Loja, poderia adiar o seu
desligamento por um espaco de tempo conveniente (evitando,
porém, suscitar perplexidade ou mal-entendidos entre os fiéis
católicos) ; na primeira oportunidade afastar-se-ia decidida
mente do convivio da Loja.

No tocante ao ingresso de um fiel católico na Maconaria,


a pena de excomunhao estava sujeita a ponderagáo seguinte:
Em virtude do decreto «Christus Dominus» n» 8b do Concilio
do Vaticano II e por efeito do Motu proprio «Episcoporum
-Muneribus» (15/VT/1966), os bispos diocesanos podem hoje
em día dispensar das leis universais da Igreja (nao explicita-
:mente excetuadas) os fiéis que o pegam em casos particulares,
desde que haja razáo pastoral para isso. Por conseguinte, usu-
fruindo dessa atribuicáo, o bispo de determinada diocese po
deria dispensar a quem lho pedisse por motivos relevantes,...
dispensar da proibigáo eclesiástica de entrar na Maconaria e,
conseqüentemente, da incursáo na pena de excomunhao anexa
á filiaclo á Maconaria.
aínda igreja e maconaria

Na realidade brasileira, acontecía (e acontece) freqüente-


mente que as pessoas interessadas nao sabem que há pena de
excomunháo para quem se inscreva na Magonaria.; apenas
tém consciéncia de que a Igreja Católica e a Magonaria divei>
giram publicamente entre si e a Igreja condenou a Magonaria,
proibindo aos fiéis o ingresso na mesma. Em conseqüéncia,
muitos católicos que aderiram a Magonaria no Brasil nao in-
correram em excomunháo (embora tenham incorrido em deso
bediencia á Igreja), pois a excomunháo (pena de foro externo)
nao atinge a quem nao saiba que tal pena está anexa a tal
delito.

2. Sob tal legislagáo, vigente até julho 1974, as relagóes


entre a Igreja e a Magonaria eram delicadas. Em numerosos
paises os bispos se viam preocupados com a índole aparente
mente anacrónica de tais dispositivos canónicos. Com efeito,
muitos católicos se tornavam magons por motivos profissionais,
promocionais ou humanitarios sem a intengáo de contrariar ou
combater a fé católica e a S. Igreja; afirmavam outrossim,
após certo período de adesáo á Loja, nada encontrar nesta que
se opusesse aos principios da Religiáo ou do Catolicismo; nao
obstante, ficavam privados dos sacramentos da S. Igreja e os
bispos nao os- podiam convocar para colaborar com as obras
diocesanas, em virtude do can. 2.335 ; numerosos pastores de
almas viam-se assim cerceados em sua agáo pastoral, pois de-
viam renunciar á cooperagáo direta e explícita de pessoas im
portantes de suas respectivas dioceses ou paróquias (prefeitos
municipais, juízes de direito, médicos, advogados...) pelo fato
de serém tais pessoas filiadas a Magonaria.

1.2. Em julho 1974...

1. Diante da realidade de tais fatos, nao poucos bispos


se dirigiram á Santa Sé, interrogando-a a respeito do sentido
exato do can. 2.335 em nossos dias : teria a amplidáo que clas-
sicamente se lhe atribuía ? Ou poderia ser entendido de modo
a se evitarem situagóes dolorosas em certas dioceses, sem pre-
juízo para a fé e a moral católicas ?

. Tais perguntas de bispos dirigidas a Roma suscitaram fU


nalmente, aos 19/VÜ/1974, urna carta dirigida pela S. Congre-
gagáo para a Doutrina da Fé ao Presidente da Conferencia dos
Bispos de cada país, carta da qual vai.extraído o.seguinte tre
cho (que constituí o teor quase inteiro da missiva) : - -

— 417 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 179A974

"Duranle o longo exame da questSo, a Santa Sé consultou diversas


vezes as Conferencias Eplscopals, interessadas de modo particular peto
assunto, a flm de tomar conheclmenlo mala acurado tanto da natureza
e da atuacSo da Macona: la em nossos días quanto do pensamento dos
BIspos. a respello.

A grande divergencia de respostas, pela qual transparecem as situa


res diletantes de cada nacSo, nüo permlllu a Santa Sé mudar a legis
lado geral vigente, a qual por laso continua em vigor, alé que nova leí
canónica seja publicada pela competente Comlssáo Pontificia para a
revlsio do Dlrello Candnlco.

No entanto, no exame dos casos particulares, é necessérlo levar em


consideracSo que a lei penal esté sujelta a InterpretacSo estilla. Por con*
segulnte, pode-sa enslnar e aplicar, com seguranza, a opInlSo daqueles
autores segundo os quals o canon 2 335 se refere únicamente aos caló-
Heos que d3o o nome ás assoclacffes que de (ato consplram contra a
Igreja.

Em qualquer sltuacSo, porém, continua íl¡me a prolblcáo aos cléri


gos, aos Religiosos e aos membros de Institutos Seculares, de darem o
nome a quahquer assoelaedes macAnlcas" ("Noticias", Botettm Semanal
da CNBB, n? 34 [230], 23/VIII/74).

2. Este importante documento pode ser assim explitítado:

a) O panorama da Magonaria, para quem o observa hoje


em dia, é assaz complexo — o que corresponde a urna real di-
yersidade de correntes e atividades da Magonaria no passado
e nos días atuais. Sabe-se que existe a Magonaria regular, com
sua sede principal em Londres, que professa a crenga no Grande
Arquiteto do Universo e na imortalidade da alma, como existe
a Magonaria irregular, que cedeu ao indiferentismo religioso,
ao ateísmo e ao anticlericalismo. Enquanto aquela (a M. re
gular) atuou e atua principalmente nos pa'ses anglo-saxónicos,
esta (a M. irregular) exerceu suas atividades mormente nos
países latinos da Europa e da América.

Por conseguinte, entende-se que a Santa Sé, ao receber


dos bispos consultados as informagóes pedidas com referencia
á Magonaria, se tenha visto diante de dados extremamente va
riados. Tal resultado dificulta qualquer reformulagáo de ati-
tude da Igreja diante da Magonaria, aínda que parega necessá-
rio pensar em reformulagáo. Esta será efetuada, nao há dúvida,
pois o novo Código de Direito Canónico está sendo elaborado e,
como se diz, modificará os cánones penáis da Igreja, inclusive
os que se referem á Magonaria. A Santa Sé, porém, pareceu
prematuro proceder desde já a reforma ou á ab-rogagáo do
cÉtn. 2.335.

— 418 —
aínda igreja e maconaria

b) Todavía, sem retoque deste canon, uma solugáo, ao


menos momentánea, oferecia-se as autoridades eclesiásticas e
foi por estas adotada. Com efeito, alguns estudiosos, como os
Padres J. A. Ferrer Benimelli S. J., Michel Riquet S. J., M.
Dierickx S.J. e o advogado Alee Mellor, nos últimos anos
yinham acentuando a diferenga entre Ma-onaria regular e Ma-
gónaria irregular. Já que a primeira nao trama contra a Igreja
e a ordem pública, concluiam tais autores o seguinte : os cató
licos que se inscrevam em uma Loja masónica regular, nao
incorrem na excomunháo que o can. 2.335 impóe aos fiéis
que déem seu nome á seita magónica e a sociedades semelhan-
tes que consplram contra a Igreja e as legítimas autoridades
civis. Cf. PR 171/1974, pp. 115s.

A expressáo «Magonaria ou sociedade que trama contra a


Igreja» seria, no caso, entendida em senf.do estrito, do. tal modo
que, se determinada sociedade magónica ou nao magónica nlo
conspire contra a Igreja, já nao seria atingida pelo can. 2.335.
Tal interpretagáo do can. 2.335 é filológicamente plausivel. O
aposto «que trama contra a Igreja» pode ter valor restritivo ;
visaría a atingir a Magonaria supondo que esta seja uma socie
dade conspiradora contraria á Igreja; o canon assim deixaria
ilesa a Magonaria que nao conspire... Os mencionados cano
nistas, propondo tal sentenga, nao faziam senáo aplicar ao caso
um principio geral de hermenéutica jurídica: «As leis penáis
háo de ser interpretadas sempre em sentido estrito» — o que
quer dizer: nao se estendam as penalidades além dos casos aos
quais elas evidentemente devem ser aplicadas.

Ora, já que a interpretagáo dada ao can. 2.335 pelos refe


ridos autores gozaya de fundamento e autoridade, a Santa Sé
houve por bem oficializá-la. Em conseqüéncia, diante de cada
caso concreto de adesáo a Magonaria, doravante será preciso
examinar, antes do mais, o tipo de Loja magónica de que se
trate; desde que se possa honestamente assegurar que a Loja
é inocua ou isenta de intengóes antirreligiosas, o católico que
nela se inscreva nao sofrerá excomunháo. Em caso contrario,
porém, (ou seja, averiguada a índole anticristá da respectiva
Loja), aplicar-se-á ao candidato o can. 2.335 no seu teor preciso.

Tal solugáo vem, sem dúvida, aliviar profundamente as


consciéncias de leigos católicos e de magons, como também de
bispos e sacerdotes. Torna a legislagáo mais correspondente á
realidade em que vivemos. Com efeito; é certo que a Magonaria
anglo-saxónica nao conspira contra a Religiáo (sabe-se mesmo

— 419 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

que nos países escandinavos os bispos, com o consentimento da


Santa Sé, recebem como fiéis na Igreja Católica macons con
vertidos, sem os obrigar a deixar a Magonaria). — Quanto á
Maconaria dos países latinos da Europa e da América, verifi-
ca-se que hoje em dia parece, em muitos casos, ter perdido sua
orientacáo anticlerical ou antieclesial, tornando-S3 mera socie-
dade de mutua ajuda e promocáo social. Condenar tal tipo de
sociedade redunda em criar situacóes problemáticas e embara-
cosas sem necessidade; supóe a subsistencia de quadros histó
ricos que hoje estáo ultrapassados. Por conseguinte, a distingáo
entre «Lojas que conspiram» e «Lojas que nao conspiram», se
outrora nao tinha lugar ou oportunidade, hoje é sumamente
oportuna ou mesmo necessária para salvaguardar a justiga e
as suas exigencias.

c) Quanto aos clérigos, Religiosos e membros de Institu


tos Seculares, permanece-lhes vedada a inscrigáo em Lojas ma
sónicas de qualquer tipo. — Esta ressalva da Santa Sé tem
paralelos na legislagáo da Igreja; aos clérigos e Religiosos tém
sido proibidos atividades ou compromissos que aos leigos cató
licos sao lícitos. Entre as razóes desta restricáo, salienta-se a
seguinte : É necessário que os sacerdotes e Religiosos estejam
isentos de qualquer suspeita; nao assumam posicóes discutidas,
ou seja, posicóes que os fiéis (com algum fundamento razoável,
ainda que solúvel) possam por em dúvida ou contestar. Ora a
Maconaria é sociedade sobre a qual nao há unanimidade de
opinióes nem dentro nem fora da Igreja Católica; em conse-
qüéncia, permitir em geral aos clérigos e Religiosos a pertenga
á Maconaria poderia, sem necessidade, sujeitar essas pessoas
a mal-entendidos e prejudicar gravemente a missáo que devem
exercer em meio á sociedade: missáo de conciliagáo e de amor
universal.

d) Perguntará alguém: E como saber se alguma Loja


masónica conspira ou nao contra a Igreja ?

— Em resposta, só se pode apontar o método empírico:


procure o fiel católico interessado saber que pessoas compóem
a Loja a que se candidata; ninguém entra em alguma socie
dade ou associacáo sem primeiramente se esclarecer a propósito
do que ela é ou pode vir a ser. Deve ser respeitado o direito
que toca a todo cidadáo, de nao assumir as cegas compromis-
■sos-que poderiam afetar. a sua.personalidade

— 420 —
aínda igreja e maconaria

Enquanto o fiel católico puder dizer sinceramente que na


Loja nada se encontra em oposicáo a sua qualidade de católico,
ser-lhe-á licito entrar e permanecer na mesma. Todavia, desdé
que verifique o contrario, compete-lhe retirar-se imediatamente
da Loja; a coeréncia e a honestidade o exigem.

Os outros fiéis católicos e os sacerdotes poderáo ajudar


o candidato católico a formar um juizo a respeito da Loja,
observando o teor de vida e as atividades dos membros com
ponentes da mesma; numa cidade pequeña esta tarefa é, como
se compreende, bem mais fácil do que em grandes centros
urbanos.

Deve-se também levar em consideragáo que as Lojas ma-


cónicas, embora contem em seus registros de matrículas nume
rosos membros, sao dirigidas por apenas pequeña porcentagera
destes. Com efeito; varios dos membros de cada Loja, por mo
tivos diversos (afazeres profissionais, condigóes sociais, avan-
cada idade, distancias, horarios...), nao costumam compare
cer as respectivas retmióes ; em conseqüéncia, para se averi
guar o tipo de orientacáo seguida por determinada Loja, é
importante considerar, antes do mais, as pessoas que a fre-
qüentam e nela militam habitualmente; urna minoría pode dar
o cuiího decisivo a tal Loja. Para ilustrar esta afirmagáo, vai
aquí transcrito trecho do Relatório do Conselho Masónico de
Kadosch n' 18, Marília (SP), abrangendo o período de 1« de
Janeiro a 31 de dezembro de 1970:

"Foram realizadas no periodo 19 sessSes asslm distribuidas: duas


sessSes magnas, urna de posse e outra comemoratlva do primelro aniver
sario de instauracño do Conselho, com 77 presencas, media de 38,5 % :
onze sess6<3s magnas de InlclacSo, com a presenca de 326 irmSos, media
de 29,6 % ; seis sessSes económicas (de InstrucSo) com a presenca do
98 irmáos, media de 16,3% ; num total, dezenove. sessOes, com 501 pre
sencas e urna media geral de 26,3 %" ("Boletlm do Supremo Conselho
do Brasil para o Rito'Escocés Antlgo e Aceito", ano VIII, 1971, n? SO, p. 27).

Está, alias, averiguado que no interior do Brasil há mais


reunióes e proporcionalmente mais freqüéncia ñas Lojas do
que ñas capitais do pais. Dai se segué que a Maconaria é mais
ativa no interior. Isto, porém, nao quer dizer que a Maconaria
(como tal) l seja necessariamente urna forsa pujante e in-

1 NSo nos referimos aos macons individualmente ou como pessoas


dotadas de responsabilidade própiia. Cada qual pode exercer grande
Influencia.

— 421 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

fluente em nosso país; os escritos e a propaganda masónicos


exaltam por vezes lutas e feitos do passado, encobrindo a rea-
lidade descolorida e enfraquecida da Maconaria contemporá
nea; esta se ressente principalmente de dolorosas divisóes
internas.

Passemos agora a

2. fteflexóes fináis

Compreende-se a prudencia de que a Igreja Católica está


usando na sua abertura para a Magonaria. Existem, sim, ñas
formulagóes doutrinárias e disciplinares desta alguns principios
que, embora nao sejam diretamente anticatólicos, vém a ssr
ambiguos ou suscetíveis de interpretagáo nao crista. Aponta-
remos, a seguir, tres dos mesmos:

2.1. Autonomía de pensamento

A Magonaria apregoa absoluta liberdade de pensamento,


em oposigáo a todo «fanatismo, dogmatismo ou a crendices».

Esta proposigáo pode ser entendida em sentido perfeita-


mente cristáo: ninguém há de ser coagido a abrasar Credo
ou sistema filosófico alguna. A todo homem será sempre neces-
sário reconhecer o direito de usar da razáo para aceitar ou
rejeitar qualquer proposigáo religiosa ou filosifica. — O pró-
prio cristáo assim procede; e, atruvés do uso mesmo da razáo,
reconhece que Deus existe e que a fé em Deus, como também
ñas verdades reveladas por Deus, é um «obsequio razoável»
para o homem. A razáo nao se opóe á fé, mas, antes, aponta
as atitudes de fé como auténtica complementagáo das verdades
racionáis.

Todavía a autonomía da razáo, apregoada por certos do


cumentos magónicos, pode ser entendida em sentido raciona
lista, como se nao pudesse haver verdades que ultrapassassem
os exguos limites do alcance da razáo humana. Em tal caso,
as proposigóes da fé crista, reveladas por Deus, seriam frontal-
mente rejeitadas pela filosofía magónica. A Igreja, com seu
magisterio portador e transmissor das verdades comunicadas
por Cristo (Deus e Homem), nao teria sentido dentro dos
parámetros de tal modo de pensar.

— 422 —
aínda igreja e maconaria n

2.2. "O Grande Arquiteto do Universo"

A Magonaria regular professa a crenga no «Grande Arqui


teto do Universo» e em suas sessóes nao dispensa a presenta
do Livro da Lei Sagrada (a Biblia, como Livro de Revelagáo
Divina). Os magons dos primeiros decenios após 1723 tencio-
navam, a quanto parece, guardar a sua fé crista (geralmente
protestante) 1; davam-lhe, porém, urna explicitagáo genérica
ou vaga, a fim de poder receber em suas Lajas pessoas que
compartilhassem outros Credos ou alguma filosofía religiosa.
Sabe-se que a Magna Carta da Grande Loja de Londres exigía
que os irmáos magons professassem «a religiáo na qual todos
os homens concordam entre si»; assim ficavam excluidos das
Lojas Magónicas apenas os ateus e os libertinos.

A intencáo dos fundadores da Grande Loja de Londres era


compreensível no seu contexto histórico. Acontecs, porém, que
a crenga no Grande Arquiteto do Universo foi, por vezes, en
tendida, no decorrer dos tempos, em sentido explícitamente
deísta e racionalista ou foi mesmo apagada. Este último caso
deu-se no Grande Oriente de Franca em 1877 e ñas obedien
cias magónicas de outros países, inclusive da América Latina,
que aceitaram as linhas de pensamento do Grande Oriente de
Franga.

A Magonaria racionalista tornou-se também pol'.tica e an


ticlerical. .. No Brasil sabe-se que houve influencia de tal cor-
rente magónica na segunda metade do sáculo passado e no
inicio deste.

Note-se aínda: a designacáo «Grande Arquiteto do Uni


verso» condiz com a fé de quantos créem em Deus Criador.
Pode, porém, contribuir para se atenuar a consciéncia de que
esse Criador também é Pai, é Amor, que se revelou explícita
mente através do Evangelho. O relativismo religioso estaría
assim incluido no título de «Grande Arquiteto». Tal conclusáo
nao se segué necessariamente do uso do referido titulo, mas,
em certos casos, seguiu-se dele. Eis por que um católico que se
faga magom, jamáis poderá deixar-se ficar na simples concep-
gáo de Deus «Criador ou Arquiteto do Universo». — Verdade
é que nao poucas Lojas magónicas hoje em dia, mesmo na
América Latina, sao compostas por homens que se dizem cató
licos e desejam guardar fidelidade a sua crenca católica.

> James Anderson, que elaborou a primcira Constituido da Grande


Loja de Londres, era pastor presbiteriano.

— 423 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

2.3. Segredos e juramentos

Os Rituais magónicos impóem aos candidatos que se ini-


ciam, a guarda de segredos sob juramento e tremendas anisa
bas de sangóes para os infratores de tais juramentos. As adver
tencias dos Rituais de iniciagáo sao severas e, por vezes, recor-
rem a dramatizagóes chocantes. Contém imprecagóes terríveis
anexas as fórmulas de juramento: ameagam o perjuro de ter
a garganta cortada e a lingua amputada, de ter o coracáo ar
rancado e feito pasto de abutres, de ver o seu corpo dividido ao
meio... I

Os segredos tém por objeto nao somente práticas, pala-


vras ou deliberagóes conhecidas, mas também as que venham
a ser comunicadas ao candidato no futuro. Ora tal tipo de
compromisso em relagáo a autoridades e valores meramente
humanos é algo que o fiel católico nao pode aceitar... O ca
tólico só se compromete irrevogavelmente com Deus e a von-
tade de Deus expressa pelos seus auténticos porta-vozes, que
sao as legítimas autoridades eclesiásticas.

Ora, diante da dificuldade assim concebida, os magons


costumam responder o seguinte :

a) Tais Rituais, com seus símbolos e suas fórmulas, fo-


ram redigidos em épocas remotas, trazendo mesmo vestigios
do estilo arcaico; tomadas ao pé da letra, certas de suas fór
mulas sao atualmente ridiculas. Entendam-se, porém, no con
texto de sáculos passados, em que as cerimónias rituais serviam
de sadio passatempo para os interessados: na Magonaria, essas
cerimónias servem de motivagáo psicológica para a prática da
justiga, da lealdade, do bem,... e nao devem ser tidas como
veículos de conceitos e doutrlnas; a sua fungáo é mais pedagó
gica do que propriamente filosófica. Há quem as compare ao
«trote» pelo quai passam os calouros da Universidade desde
fins da Idade Media: esse «trote» pretende apenas significar
que, se alguém quer ter a honra e o privilegio de pertencer á
élite universitaria, deve sujeitar-se, com espirito esportivo, a
provas e humilhagóes para «desformalizar-se» e conviver em
solidariedade com seus novos companheiros de ambiente.
— Mesmo assim nota-se que o «trote» violento hoje em dia vai
caindo mais e mais em desuso !

b) Quanto á exigencia de segredo em relagáo a comunl-


cagóes presentes e futuras, os macona a atenuam hoje em dia,

— 424 —
aínda igreja e maconaria 13

observando solenemente que o macom é Iivro ; esta é uma das


pilastras do pensamento magónico. O Ritual visa apenas a for-
necer ao candidato a proposta de um engajamento fraternal,
que será interpretado e aceito (ou nao) conforme a capacidade
intuitiva de cada um. O segredo principal, dizem, nao é formu
lado verbalmente; é descoberto individualmente por cada can
didato e, já que seu conteúdo é misterioso, torna-se intransmis-
sível, inclusive de magom a magom. — Ñote-se também: muitos
magons, interrogados a respeito da Maconaria, calam-se ou dáo
respostas evasivas e incompletas. Assim procedem nao pela ne-
cessidade de guardarem supostos segredos, mas simplesmente
por discrigáo ou por nao conhecerem profundamente a Maco
naria ; por conseguinte, nao se sentem seguros e nao sabem se
lhes é licito ou nao responder ao que se lhes pergunta.

O principio «magom livre» enquadra-se dentro de outro


mais ampio: «Mac.om livre na Loja livre». Cada Loja é fun
damentalmente soberana. Deve estar aberta para federar-se
com outras Lojas, mas a uniáo com estas nao lhe tira a auto
nomía. Nao existe hierarquia internacional que comande todas
as Lojas e Federagóes nacionais; há apenas mutuos reconhe-
cimentos e tratados de amizade reciproca, como também há
proibigóes de contatos. Este estado de coisas, segundo os ma
gons, explica que os juramentos nao sujeitem necessariamente
os irmáos á obediencia cega a comandos desconhecidos, como
pode ocorrer em organizagóes terroristas ou de subversáo
política.

Dizem mais : o magom é livre para permanecer em sua


Loja ou retirar-se déla. Nada lhe acontece, se, ao sair, guarde
a discrigáo que guardarla se nela ficasse ; mas, se a violar ou
se tornar inimigo da fraternidade jurada, poderá sofrer san-
gSes e passar por serias dificuldades como traidor. Tenham-se
em vista as tremendas ameagas formuladas pelo Gráo-Mestre
Geral Moacyr Arbex Dinamarco contra os que se revoltaram,
empunhando o punhal da traigáo, por ocasiáo da cisáo da Ma
conaria em 1973 (cf. «Politika» n* 96, 20 a 26/VIII/73). To
davía nao se tem noticia de assassinato algum cometido em
consecuencia da ruptura.

Em suma, os juramentos e segredos justificam-se, para


os magons, porque a sua instituigáo pretende ser uma Frater
nidade ou um Centro de uniáo de homens que se interajudam
para o aperfeigoamento moral (seu e do próximo), tendo por
base a fé em Deus. Este é invocado como testemunha. presente

— 425 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

á consciéncia pessoal de cada um, o qual fica sendo sempre


livre para se encaminhar voluntariamente aos objetivos pro-
postos..
Assim entendidos, os juramentos e segredos macdnlcos
perdem muito da sua Índole suspeita e negativa. Todavía po-
de-se dizer que añida sao suscetíveis de dupla interpretagáo
ou de ambigüidade, que a consciéncia crista desejaria ver deci
sivamente esclarecida ou supressa.
Em conclusáo, sao estes os tres tópicos doutrinários e dis
ciplinares que, do ponto de vista católico, maior impasse pare-
cem causar á aproximacáo da Igreja Católica e da Maconaria.
A Igreja já reconheceu que alguém pode ser simultanea-
mente católico e magom ; reconheceu-o, porém, levando em
conta casos pessoais e particulares. Isto quer dizer: há pessoas
que podem dar >á Maconaria urna interpretagáo crista ou, ao
menos, inocua ao Cristianismo. Mas parece ficar de pé a pos-
sibilidade (oferecida pelos principios da própria Maconaria)
de que outras pessoas déem á Magonaria urna orientagáo anti-
crista ou mesmo anticatólica. Esta eventualidade poderá ser
removida... Fazemos votos para tanto !
Na execugfio deste artigo multo nos valemos do3 estudoo realizados
spbre o assunto por Mons. Hiláilo Pandolfo, oncarregacío pela Conferencia
Nacional dos Blspos do Brasil para pesquisar a filosofía e a historia da
Maconaria. — Gratos ficamos a este grande estudioso da questfio.
• • •

(Continuado da 3? capa)
tinuacüo de "O Despertar" apresentado em PR 177/1974; depols de haver
estudado a pré-evangelizacSo dos jovens ou os meios de preparar os
camlnhos para a (ó, o Pe. Lacerda, em "A formagáo da comunidade...",
trata dos "instrumentos" que favorecem (nSo causam) a experiencia intima
da fe e a sua expressSo numa vida de comunidade o do • apostolado.
Para chegar a constituir urna comunidade de jovens (tarefa ardua,
diante da qual multos desanlmam), o autor sugero programas para días
de formacfio: estes s5o chamados "Día do Encontró", "Días das Ten
dencias", "Día da Amlzade", "Día da ComunlcacSo". cada qua! constando
de palestras e medltacOes (com rotelro esquematizado), horario mala opor
tuno... Há também programas para "reunISes vestibulares", que sSo ves
tíbulos - de rellexáo e consclentiza;8o sobre o Evangelho, a oracSo pes
soal e comunitaria, a Penitencia, a Eucaristía, a direcSo espiritual, etc.
— Assim o novo livro do Pe. Lacerda apresenta-se como valioso reper
torio- de IndlcacSes técnicas minuciosas e ulllissimas á pastoral da Juven-
tude. Num terreno tSo arduo como este, ninguém camlnha a sos, mas
todos se valem da experiencia positiva dos colegas; os sacerdotes e
dirigentes ' poderao beneficlar-se principalmente da sabedoria teológica e
da riqueza de recursos técnicos que o Pe. Lacerda oferece em sua interés-
santo obra. Quelra o Senhor Deus conceder a este apostólo a ocaslfio de
continuar por muito tempo a tarefa tSo frutuosamenle Iniciada em pro)
da iuventude brasllelra I; ■
E. B.
,— 426 ,—
Questlo de todos os tempos do Cristianismo

igreja e pobres

Em sinteso: Cristo incentlvou (ortemenle o amor aos pobres e afll-


tos, dando Ele mesmo o exemplo do despo|amento voluntarlo em favor
dos irmfios sofredores. Este testemunho suscitou a ImltacSo generosa dos
cristSos, que desde cedo se organlzaram a fim de asslstlr, moral e mate
rialmente, aos seus semelhantes necessltados. As expressSes dessa cari-
dado crisis sSo numerosas através dos tempos: nos tres prlmelros sé-
culos, Instltulram-se as dlaconlas, confiadas aos diáconos ou ministros da
Igreja. Depols da paz de Constantino (313), os cristSos gozaram de plena
llberdade para Instituir hospitals, asilos, crochés... Os bispos, tldos como
"defensores clvitatls" (na falta de competentes oficiáis do Imperio), a3
paróqulas e os mosteiros se encarregaram de prover á educac&o, á Ins-
trucSo, á saúde, ao preparo agrícola... dos novos povos, que invadlam
o Ocidente nos séc. IV/VI. A Idade Media conheceu o desenvolvlmento
dessa obra asslstencial mediante varias Ordens e Contrarias Religiosas
destinadas ao exérclclo da carldade.
No séc. XVI, a Reforma luterana provocou o fechamento de nume
rosas Instiluicdes católicas de assisténcia, com detrimento para os pobres
o enfermos. Todavía o Concillo de Trento (1545-1563), renovando a vida
católica, Inspirou nos séculos XVI e XVII o surto de diversas Congrega-
coes Rellgosas, que passaram a se dedicar aos necessltados de toda
especie; SSo Vicente de Paulo e Sta. Luisa de Marlllac sao o símbolo
dessa grande generosldade cristS.

O sáculo XVIII fol marcado pelo racionalismo, que culminou na


RevolucSo Francesa (1789). Esta acarretou nova onda de conflscagSes de
obras de carldade católicas. Todavía o Estado, desejoso de se tornar auto-
-suficiente no solor da assisténcia, nSo pode dispensar as iniciativas par
ticulares, que voltaram a revivar nos países católicos; destas, a mals
notável é a Socledade de SSo Vicente de Paulo, de que . fala o artigo
seguinte.

Comentario: Ouve-se por vezes dizer que a Igreja se pmi-


tiu em relacao aos pobres no decorrer da historia; terá dado
sempre muito mais atencáo aos ricos e poderosos. Ó marxismo,
dizem, é que despertou a consciéncia dos católicos para nova
compreensáo da pobreza e de suas necessidades.

Para se poder julgar tais objejóes levantadas contra a


Igreja Católica, vamos, a seguir, percorrer um pouco do histó
rico das expressóes de amor fraterno dos cristáo?. desde as suas
origens até os tempos recentes. ......

— 427 —
16 «PERGUNTEE ^^_^

1. Na Wade Antiga

Procederemos em tres etapas: 1) o exemplo de Cristo e


a sua imitaeáo ; 2) as diaconias da antíga Igreja; 3) as obras
assistenciais do séc. IV ao séc. VIII.

1.1. Cristo e a imitacao de Cristo

A pregagáo de Jesús Cristo referente aos pobres teve im


portancia decisiva na historia do tratamento dos indigentes.
Antes de Cristo, nunca deixou de haver compaixáo e soacitude
para com os semeinantes; todavía preconceitos nacionalistas,
políticos e outros prejudicavam nao raro a demonstracao de
amor oo homem pagao ao seu próximo.

Jesús Cristo, porém, resumiu toda a Lei de Deus no duplo


preceito do amor a Deus e ao próximo (cf. Mt 22, 37-40;
Me 11,28-34) ; esse próximo é, por vezes, o inimigo mesmo do
cristao que o deve amar (cf. Mt 5,43-48 ; Le 10, ¡¿5-37). Cristo
também enfatizou o principio de que, ao tratar o seu próximo,
o homem trata o proprio Cristo (el. Mt 25,40). Mais: o Senhor
dignüicou a pobreza, inclusive a pobreza livremente adotada
por quem se queira despojar em favor de seus semelhantes.
Assini, por exemplo, diz Sao Paulo: «Cristo, de rico que era,
lez-se poDre por nos, a íim de que nos tornassemos ricos pela
sua poureza» (2 Cor 8,9).

As palavras e a vida de Jesús suscitaram nos antigos cris-


táos a estima espontánea da pobreza. Nao poucos discpulos se
despojaram das suas riquezas para se tornar pobres volunta
rios, em imitagáo a Cristo. Tenha-se em vista, por exemplo,
Santa Melania, da ilustre familia dos Vaierii Maxuni; com seu
esposo Piniano, resolveu vender seus avultados bens, que se
espalhavam por territorios diversos, a fim de distribuir o prego
aos pobres... A seguir, Melania, vestida pobremente, visitou
S. Agostinho em Hipona, os solitarios no deserto do Egito,
S. Jerónimo em Jerusalém... Deteve-se nesta cidade, onae a
Imperatriz Eudócia a foi visitar; jejuava cinco dias por semana,
comportava-se com rara humildade e trabalhava intensamente
pela Igreja. Finalmente morreu em 439... A p. 433 fajaremos
de Fabioia, outra nobre dama que fez. algo de semeihante.

Aqueles que nao chegavam a tal grau de despojamento,


os bispos e mestres da Igreja recomendavam a pobreza interior.

— 428 —
IGREJAS E POBRES 17

Merece atengáo, por exemplo, o bispo S. Astério do Ponto


(t 410 aproximadamente), que assim escrevia:

"Pertencemos a Deus só, que é o único verdadeiro e supremo pro


prletário. Somos apenas os ecónomos e dispensadores de seus bens...
Teu próprlo corpo na*o te pertence. Que diremos entSo daqueles que
julgam ser os senhores do seu ouro, da sua prata, do seu campo e do'
rosto de suas posses ?" (Hom. II "De oeconomo infidel!" PQ 40, 191).

Era em termos semelhantes que os mestres procuravam


alimentar nos cristáos a atitude de despojamento interior,...
despojamento interior que era sempre acompanhado de doagáo
aos mais indigentes.

Importa agora verificar como os antigos cristáos pratica-


vam o amor aos irmáos mais pobres.

1.2. As diaconias

A palavra grega diakonia quer dizer «servigo».

Os primeiros diáconos foram instituidos pelos apostólos


em Jerusalém, a fim de atender as necessidades dos irmáos
indigentes; cf. At 6,1-7. Também foram instituidas diaconisas,
que exerciam seus servigos principalmente em favor das mu-
lheres da comunidade ; cf. Rom 16,1; 1 Tim 5,9s.*

Em Roma, os Papas dividiram a cidade em quarteiróes,


nos quais estabeleceram centros de culto a Deus e de servigo
aos irmáos, que eram chamados diaconias. Aos diáconos tocava
prover ao bem dos pobres em nome do bispo respectivo : «Seja
o diácono o ouvido, o olho, a boca, o coragáo e a alma do bispo!»
diziam no séc. IV as Constituigóes Apostólicas II, 44. Aos diá
conos competía, segundo o mesmo documento, «informar-se
com solicitude a respeito de todos os que sofrem na carne;
deviam indicá-los ao povo, caso o povo desconhecesse as suas
enfermidades ; deviam visitá-los e fornecer-lhes aquilo de que
tinham necessidade, tomando o cuidado de comunicar ao bispo
aquilo que tivessem doado».

Urna das expressóes mais significativas do amor cristáo


era outrora a ceia chamada «ágape» (amor, em grego). Em

i Os teólogos Julgam que tais mulheres nSo receblam o sacramento


da Ordem, mas apenas um sacramental.

— 429 _
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

fins do séc. n, Tertuliano, apologista cristáo de Cartago, assim


descrevia essa instituigáo : '
"A nossa refelcSo se manlfesta pelo seu nome. Chamam-na por
palavra que significa amor entre os giegos. Qualsquer que sejam as
despesas que ela cuate, ó vantagem fazer despesas por um motivo de
piedade... Nenhum de nos se póe á mesa senSo depois de ter provado
urna orajáo a Deus. Comemos tanto quanto a fome exige; bebemos tanto
quanto a casüdade permite. Saciamo-nos como homens que se lembram
de que, mesmo durante a noite, devem adorar a Deus; conversamos como
pessoas que sabem que o Senhor as espera. Depois que nos lavamos as
mSos e acendemos as luzes, cada um é convidado a se levantar para
cantar, em honra de Deus, um canto tirado, segundo as posslbllidades,
das Sagradas Escrituras ou do espfíito de cada um. Assim se verifica
como cada qual bebeu. A refeicáo acaba como comecou, isto é, pela
orasáo. Quando terminada, cada um loma seu rumo... com a mesma
preocupagáo de modestia e pudor, como pessoas que á mesa receberam
urna ligio mais do que urna refeicao" ("Apologetlcum" 39).

Ñas grandes cidades, os servigos prestados aos pobres me


diante as diaconias e os colaboradores do bispo eram vultosos.
Assim, por exemplo, o Papa Sao Cornélio (t 253) falava de
mil e quinhentos pobres que diariamente a Igreja de Roma ali-
mentava; mais tarde, o diácono Sao Lourengo reuniu todos os
pobres que a Igreja, sua máe, costumava sustentar e apresen-
tou-os aos perseguidores «como sendo os tesouros da Igreja».
Na mesma época a Igreja de Antioqu'a nutria diariamente tres
mil pobres; a de Constantinopla, também tres mil nos tempos
de S. Joáo Crisóstomo (t 407).

Os antigos cristáos tinham consciéncia dos poss'.veis abu


sos no servi:o da caridade. Por isto procediam á sindicáncia
dos indigentes, exigiam dos novatos cartas de recomendagáo;
o pobre que pudesse trabalhar, era levado a tanto (Didaqué
11 e 12) ; distribuiam-se instrumentos de trabalho; os órfáos
eram confiados a familias cristas, que se encarregavam da sua
educa gao (cf. Didaqus lis; Const. Apost. IV 1). Em suma, os
antigos procuravam tornar a esmola frutuosa; além de dar o
socorro material, esforgavam-se por elevar e moralizar o in
digente.

Pergunta-se agora: donde provinham os recursos das dia


conias utilizados em favor dos pobres ? — Enumeram-se as
seguintes fontes:

1) as contribuijóes espontáneas dos cristáos generosos:


«Cada um traz modesta oferta no comego de cada mes ou
quando o quer, sempre segundo as suas posslbilidades», diz
Tertuliano («Apologeticum» 39) ;

— 430 —
IGREJAS E POBRES 19

2) as oferendas dos fiéis no ofertorio da Missa : «Faz-se


urna coleta para a gual contribuem todos os que o desejam e
podem. Essa coleta é entregue ao presidente da assemblóia, que
vai ao encontró das viúvas e dos órfáos, dos pobres e dos
doentes, dos prisioneiros e dos estrangeiros, em suma,... que
cuida de todos os indigentes», diz S. Justino (f 165 aproxima
damente) na sua Apología I 67 ;

3) os donativos, nao raro vultosos, que os cristáos de


posses faziam por ocasiáo do seu batismo ou guando se julga-
vam próximos do martirio ;

4) os dizimos e as coletas feitas em ocasióes extraordi


narias ;

5) o jejum... Quem jejuava dava aos pobres urna quan-


tia de alimentos igual agüela de que se abstinha. Os antigos
bispos e escritores da Igreja muito insistiam nessa norma;
assim, por exemplo, Sao Joáo Crisóstomo (t 407), fazendo
eco a testemunhos mais antigos, observava:

"O Jejum n§o é urna operagáo comercial, na qual podaríamos pro


curar proveUo pelo fato de nSo comermos. É preciso que outro coma
em teu lugar o que terlas comido se nao tivesses jejuado, a flm de que
da[ resulte um duplo beneficio: para li, a expiacSo; pata o teu limáo,
o fim da fome" (Seimao sobre o jejum).

Diz air.da Sao Leáo Magno (t 461) :

"O jejum sem a esmola é menos a puriflsacSo da alma do que a


aflicüo da carne. Quando alguém, abstendo-se de alimentos, se abstém
também de obras de carldade, dizemos que se trata antes de avareza do
que de abstinencia ctistS" (Setmáo IV sobre o jejum do 10? mes), i

Caso se admita que nos tempos do Papa Sao Cornélio


(t 253) eram 1.500 os pobres de Roma e 10.000 os cristáos
dessa cidade sujeitos ao jejum,... caso se estime em 100 o
número de dias de jejum do ano (na verdade, eram 132), veri-
fica-se que dai resultavam cerca de um milháo de refeicóes
por ano, ou seja, para cada pobre 666 porgóes por ano — o
que equivale a quase duas refeicóes por día.

i Alias, note-se que esta prátlca subsiste ainda hoja na Igreja: os


fiéis, na Quaresma, s§o exottados a se abster de alimentos e outras des
pesas, a ffm de prover com Isto ás necessldades dos mals pobres na
chamada "Campanha da Fraternldade".

— 431 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

Dado que este cálculo corresponda, ao menos aproximada


mente, a realidade, verifica-se a importancia do jejum como
fator de amor fraterno na Igreja antiga.

1.3. A assisténcia social do séc. IV ao séc. VIII

1. O edito de Müáo em 313 concedeu paz e liberdade á


Igreja no Imperio Romano. Isto permitiu aos cristáos que or-
ganizassem abertamente os seus servigos de caridade sem
receio de perseguigáo. O próprio Imperador Constantino
(306-337) doou á Igreja numerosos bens para que Ela aten-
desse amplamente aos necessitados. Em 321 Constantino auto-
rizou os cidadáos a «legar á santa e venerável Igreja Católica
a parte dos bens que eles quisessem outorgar» (Eusébio, «De
vita Constantini» I, 85 e n, 39). Em conseqüéncia, os bispos e
fiéis foram criando uma serie de instituicóes novas, impossiveis
até entáo, e mais ampias e eficazes do que as diaconias. Tais
eram:

a) O xenodochimn ou xenón, hospedaría para os estran-


geiros e viandantes. Os cánones do Concilio de Nicéia (325)
estipularam que houvesse em todas as cidades casas reserva
das aos estrangeiros, aos enfermos e aos pobres; teriam o
nome de xenodochia (no plural). O Imperador Juliano o Após
tata, cioso de estimular os sacerdotes pagaos, escrevia em 362
a Arsácio, gráo-sacerdote da Galácia :

"Por que nao vollamos os nossos olhos para as instituicoes as quais


a Impla rellgiSo dos cristios devc o seu cresclmonto? Por que nSo leva
mos em conta os seus cuidados solícitos para com os estrangeiros?...
Mande, pois, construir em cada cldade muiios xenodochia... É vorgonhoso,
para nos, que entre os judeus ninguém mendigue e que 03 impíos gall-
leus alimentem nao somente os seus pobres, mas tambero os nossos, que
parecem asslm destituidos dos auxilios que nos Ihes devenios propor
cionar" (Juliano, Obras, ed. Talbot, pp. 413s).

Sao Joáo Crisóstomo, verificando que o xenodochium de


Constantinopla era pequeño demais, exortava os fiéis :

"Fazel em vossas casas tim xenodochium; coloca! em tal sala, para


o viandante, um leiío, uma mesa, um candieiro... Que vossa casa seja
um abrigo aberto dlante de Jesús Cristo. Aqueles que roceberdes, pediréis
como recompensa nSo dinheiro, mas que ¡ntercedam junto a Cristo a (im
de que Esie vos roceba em suas mansóes" (S. Joáo Crisóstomo, "In
Actlbus", hom. 45 PG 60).

b) O nosocomium era o hospital para enfermos, muitas


vezes construido ao lado do xenodochium. A propósito, é fa-

— 432 —
IGREJAS E POBRES 21

moso o nome de Fabiola (séc. IV), nobre crista de Roma, que


vendeu o seu rico patrimonio para construir o primeiro noso^
comium de Roma. É Sao Jerónimo quem refere :

"Quanlas vezos Fabiola fol vista a carregar sobra 03 ombros os


pobres marcados pela sujelra ou por alguma horrenda molestia I Quantas
vezes a viram lavando chagas que exalavam mau chelro tal qus ninguém
as podía sequer olhar! Com as próprlas mios ela dava de comer aos
enfermos; allviava os extenuados, dando-lhea alimento em colheradas...
Ainda que eu tivesse cem llnguas e cem bocas e que minha voz fosse
do ferro, nao conseguirla enumerar todas as doencas ás quals Fabfola
prestou seus cuidados. Os pobres que gozavam de boa saúde, invelavam
a condicao desses doentes" (Sao Jerónimo, ep. 77, 6 PL 22, 694).

Mesmo que se reconhega o tom hiperbólico das palavras


de Sao Jerónimo, é oportuno fazer o confronto das mesmas
com o texto de Platáo na sua «República» :

"TerSo trabalhos apenas aqueles cujo corpo e alma forom vigorosos.


Quanto aos outros, os responsávels delxarño morrer aqueles cujo corpo
for mal conütitufdo e condenarSo á morte aqueles cuja alma for natural
mente má e incorrigfvei" (República, I. III).

c) O brephotrophium era, como o nome o diz, o lugar em


que se alimentavam as crianzas recém-nascidas (creches).
Estas eram nao raramente abandonadas por seus pais tanto na
Grecia como em Roma.

d) O orphanotrophium era o orfanato, instituigáo á qual


os Imperadores bizantinos concediam privilegios.

e) O gerontocomium era o hospital de anciáos, também


assaz comum no Imperio bizantino. O Papa Sao Gregorio Magno
(t 604), sabendo que o gerontocomium do monte Sinai carecía
de Jeitos, colchóes e cobertores, escreveu ao abade do mosteiro
próximo dizendo que os mandaría, e acrescentou á remessa
urna quantia de dinheiro destinada a comprar travesseiros ou
lencóis ou a pagar outras despesas (Regist., Epp. XI 6).

f) O Ptochotrophium era a casa em que os pobres eram


alimentados.

Seja mencionada de modo especial a Basiliada ou Basileida,


fundada pelo bispo Sao Basilio em Cesaréia da Capadócia em
369. Era quase urna cidade ao lado de Cesaréia, na qual eram
recebidos os diversos tipos de indigentes, inclusive leprosos,
mantidos no devido isolamento; havia ai também manufacturas

— 433 —
22 «PERGUNTE E RESP0NDEREMOS> 179/1974

e urna escola industrial. O Imperador Valente, impressionado


por essa obra, doou a S. Basilio térras, cujas rendas serviriam
para nutrir pobres e leprosos. Sao Gregorio de Nazianzo (t 390
aproximadamente) assim se referia a essa obra na oragáo fú
nebre de Bas'.lio :

"Dal alguns passos para fora da cldade, e veréis urna cldade nova...
Nossos 'olhos já nio se entristecem com o mals triste e doloroso do3
espetáculos que se ofereclam. Já nao vemos esses cadáveres vivos, carre-
gando para cá e para lá os membras que urna terrlvel doenc.a Ihes tlnha
deixado sobre troncos mutilados. Rejeitados para longe das cidades, das
habiiacSes, das pracas públicas, quem os podía reconhecer sob os des
gastes da hedionda molestia que os desfigurava? De forma humana ape
nas tinham o nome... Fol Basilio quem orientou a ca:idade na dlrecáo
desse excesso de dores... Ele os abracava como limaos, e por seus
ósculos amigos inspirava a coragem de os abordar e de os socorrer"
(OracSo 43, § 43 PG 36, 578s).

Em suma, dirigidas pelos bispos, auxiliadas pelos Impera


dores, as instituicóes de caridade foram-se multiplicando do
séc. IV ao sác. VI, a tal ponto que quase todos os territorios
eclesiásticos tinham suas obras de atendimento em fins do
séc. VL

2. Alias, deve-se notar que as invasóes bárbaras nos


séc. IV/VI desencadearam um estado de desordena ou pánico
mais ou menos generalizado nos territorios do Imperio Romano
assediado. Os representantes do Imperador bizantino no Oci-
dente eram figuras iracas, destituidas de autoridade e de meios
para garantir a ordem e o bem-estar das populagóss da Europa
Central, da Gália e da Italia. Em conseqüéncia, o povo das
regióes cristas se voltava espontáneamente para os bispos, cuja
autoridade assim ia crescendo tanto no plano espiritual como
no temporal; o povo nao hesitava em aclamar os bispos como
magistrados civis e «defensores civitatis> (título este que seria
próprio dos oficiáis do Imperador); na verdade, os bispos ze-
lavam eficazmente pelos interesses temporais de seus concida-
dáos, até mesmo em circunstancias trágicas.

3. Ao lado da agáo dos bispos, é prec'so registrar outros-


sim a dos mosteiros, que foram surgindo na Europa a partir
do séc. VI (Sao Bento é o Patriarca dos monges do Ocidente).
Os monges desempenharam papel notável na historia da ca
ridade. Nao somente procuraram minorar os sofrimentos e a
pobreza das populagóes atingidas pela guerra, mas também
rnstituiram a profilaxia contra a indigencia, ensinando aos p>
vos bárbaros a agricultura, os trabalhos de artesanato e as

— 434 —
IGREJAS E POBRES ¿3

letras; instruiram a juventude em suas escolas; ergueram casas


para doentes, andaos e viandantes. Nao raro os rr.onges ensi-
naram os camponeses a procurar as fontes de agua, a corrigir
os cursos dos ríos, a prover á irrigagáo artificial dos campos;
ensinaram também a manusear certos utensilios, a proceder
ao enxerto de árvores frutíferas, a combater as epidemias e
diversas doengas...

Todo esse trabalho se prolongaría e desenvolverla nos sé-


culos subseqüentes, como abaixo veremos.

2. Idode Mécfía

Esta fase, que vai do séc. VIH ao séc. XV, foi marcada
por numerosos ñagelos, entre os quais a guerra, a peste e a
fome. Estas circunstancias excilaram ardorosamente a cari-
dade dos cristáos, que, dentro das suas possibilidades, procura-
ram aliviar a miseria dos irmáos. Sejam, como exemplos, re
gistrados os seguintes tópicos:

1) A Igreja sempré aspirou á Paz Universal. Do séc. IV


ao séc. XI os Concilios empenharam-se especialmente por obter
este ideal estipulando a tregua de Deus e a inviolabilidade de
certos lugares e pessoas; assim eram impostes limites as guer
ras, que a experiencia mostra serem constantes na historia
dos homens. A tregua se estendia geralmsnte da quarta-feira
á tardinha até a segunda-feira de manhá; abrangia todos os
días do Advento, da Quaresma, do tempo pascal, as vigilias e
as festas de Nossa Senhora. Os clérigos, os lavradores, os co
merciantes, os viajantes, as mulheres eram invioláveis; os edi
ficios sagrados, os cemitérios, as cápelas colocadas á margena
das estradas eram lugares de refugio intocávels aos guerreiros
que perseguissem alguém.

2) Quanto á assisténcia aos pobres, distingam-se as re-


gióes campestres e as cidades.

Nos campos, onde se observava o sistema feudal, o ssnhor


era o defensor natural dos servos e dos pobres que recorriam
a protecáo do casteláo contra os bandos armados que percor-
riam as regióes. Prestavam-lhe colaborarlo, neste particular,
os sacerdotes das parcquias rurais e os mosteiros, que fnham
geralmente um xenodochinm e um nosocomium entre as suas
dependencias.

— 435 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

Ñas cidades de maior importancia, era o bispo que criava


essas obras de assistencia em anexo a igreja catedral e confiava
a administragáo das mesmas aos cónegos.

Além dessas formas de atendlmento, deve-se registrar o


trabalho de corporagoes, confrarias e Ordens Terceiras, que se
dedicavam ao próximo necessitado. Havia outrossim Ordens
Hospitaiares, das quais a mais famosa foi a de Sao Joáo de
Jerusalém; os estatutos desta Ordem foram copiados e apli
cados na maioria dos hospiíais da Europa. A agao dessas ins-
tituisñes era táo vultosa que um historiador do séc. XVI,
Jacques de Vitry, referindo-se as Ordens hospitaiares, podia
escrever:

"Há em todas as regISes do Ocldente um número inestimável de


Congregares tanto de homens como de mulheres que tenunciam ao mundo
e vivem.segundo urna Regra Religiosa ñas casas dos leprosos e nos hos
pitais dos pobres, entiegues com humildade e dedicacáo aos cuidados
dos indigentes e dos emermos" ("Historia occidentalis". Douai 1597:
"De hospiíalibus pauperum et domibus leprosorum").

Muitos pormenores se poderiam citar referentes ao modo


como os pobres e enfermos eram tratados por seus irmáos na
Idade Media. Os estatutos dos hospitais dessa época, por exem-
plo, nos falam da maneira como os pobres eram recebidos em
tais casas,... dos cuidados que se deviam ter para com a dieta,
o leito e os cobertores dos enfermos,... da assisténcia religiosa
que se lhes devia dispensar... Nao raro ocorre a advertencia
evangélica de que deviam ser tratados como o próprio Cristo;
os estatutos dos hospitais de Lille, Pontoise et Vernon, por
exemplo, recomendavam «toute diligence pour voir et warder
les malades et honorer si cmn signeurs et servir á eux si cum
a Diu» (honrá-los como senhores e servi-los como a Deus).

A Idade Media ficou conhecida por suas expressóes ar-


dentes de fé espontánea,... expressóes que os homens do sáculo
XX, inspirados por outras premissas culturáis, nem sempre
abonam, mas que podem entender caso procurem reviver as
circustancias da historia medieval.

Sobreveio nova fase da historia:

3. Os sáculos XVI/XVII

Distinguiremos a Reforma luterana e a Contra-Reforma


católica.

— 436 —
IGREJAS E POBRES 25

3.1. Reforma luterana (iniciada em 1517)

1. É notorio que o movimento luterano, embora tenha sido


marcadamente religioso, teve vastas conseqüéncias políticas,
sociais e económicas. Os principes e nobres que aderiram a
Lutero, aproveitaram-se da ocasiáo para confiscar numerosas
obras de assisténcia e caridade pertencentes a mosteiros, pa-
róquias ou instituigóes católicas. Confiscaram..., mas de ime-
diato nada puderam criar de equivalente para preencher a
lactina. Os principios mesmos de Lutero, contradizendo á vida
religiosa regular ou conventual, assim como as boas obras (no
sentido clássico), contribuiram para a dissolugáo de varias
obras de caridade. Sao numerosos os testemunhos desse novo
estado de coisas, dos guais váo agui citados alguns.

O próprio Lutero reconhecia a situacáo nos seguintes


termos:

"Desde que demos a ouvir a palavra llberdade, os ouvlntes só falam


dlsso e aproveltam a ocaslSo para recusar-se ao cumprimento dos deveres.
Se sou livre, dlzem, posso fazer o que bem me parece; se nSo ó pelas
obras que alguém se salva, por que hei de me Impor prlvacOes para dar
osmolas aos pobres, por exemplo? Se as pessoas nao dlzem Isto literal
mente, toda a sua conduta demonstra que tal é o seu secreto modo de
pensar. Comportam-se sete vezes plor sob este reinado da tlberdade que
sob a tiranía papal" (citado por Doelllnger, "La Reforme, son développe-
ment Intérieur, les résultats qu' elle a produits dans le sein de la société
luthérlenne", trad. Perrot, tomo I, p. 296).

Georg Wizel, sacerdote que se fez luterano e se casou,


escrevis. em 1535 :

"Censuro os reformadores por destrulrem quase inteiramente ou tor-


narem Inúteis os estabeleclmentos fundados com grande custo por nossos
pafó em favor dos pobres — o que é contrario tanto ao amor quanto á
Justina para com o próximo. Censuro-os por se apropriarem dos tesouros
da Igreja, sem fazer os indigentes aproveltar-se... Todos concordan) em
reconhecer que os pobres levam urna vida multo mais dura e sao bem
mais mlserávels do que outrora, nos tempos da Igreja Romana" (ib. I,
pp. 47. 51-59).

O humanista Erasmo de Rotterdam, descomprometido de


partidos religiosos, observava:
"Que pode haver de mais detestável do que expor as populacSes
ignorantes a ouvir chamar publicamente o papa do Anticrlsto e os sacer
dotes de hipócritas?... a confissSo de prática detestável?... as expres-
sSes 'boas obras, méritos, boas resolucSes' de toréalas puras?" (ib. I p. 10).

2. Ao passar da Alemanha para a Inglaterra, verifica-se


análoga situacáo. A reforma religiosa introduzida por Henri-

— 437 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

que VIH teve desastrosas conseqüéncias no setor da assisténcla


aos pobres. Escreve, por exemplo, J. Trésal:

"Desde o ano de 1540, o Parlamento fol obrlgado a socorrer a 57


cldades vltimaa de decadencia por causa da destrulcio das abadías. A
ptlmelra coleta em favor dos Indigentes, Inicio do famoso Imposto dos
pobres, teve lugar em 1538. O paupetlsmo, urna das mals felas chagas
da Inglaterra atual, data da destruic&o dos mostelros" ("Les origines du
schlsme angllcan" p. 190).

O Cardeal Gasquet O.S.B., erudito historiador em nosso


sáculo XX, comenta o fato :

"O pauperismo, que se desencadela furioso logo depols da supres-


sSo dos mosteiros, ó detldo enquanto estes subslstem... O total extermi
nio dos mostelros, 13o benfazejos e Indlspensávels á vida do pafs, causou
Imensa miseria; pouca gente nega o fato, mas nem todos percebem o
seu alcance. Os autores que trataram do assunto do ponto de vista eco
nómico, sSo quase unánimes em ver nessa supressáo a auténtica fonte
dos males decorrentes do pauperismo" ("Henri VIII et les monastéres
anglals", trad. francaise, t. II, pp. 482-501).

Nao menos de oitocentos mosteiros — baluarte da edu-


cagáo dos pobres e da assisténcia aos anciáos — foram confis
cados por Henrique vm. O rei vendeu-os ou doou-os a seus
cortesáos e ia nova aristocracia, que se tornou um dos mais
fortes esteios da reforma anglicana.

Nao sendo .poss'vel multiplicar estes testemunhos, volta-


mo-nos para novo subtítulo do presente estudo :

3.2. A Contra-Reforma Católica

A fim de enfrentar a difícil e complexa situagao religiosa


que se instaurara na Europa do séc. XVI, reuniu-se o Concilio
de Trento (1545-1563), que, tendo levado em conta os diversos
aspectos da Igreja na época, elaborou um conjunto de cánones
ou normas importantes. Dentre os que dizsm respeito as boas
obras e ao exercício sistemático do amor fraterno, merecem
destaque os seguintes:

"Os blspos devem apascentar o seu rebanho, dando-lhe o exemplo


de todas as boas obras; tenham cuidado paterno para com os pobres
e todos os aflllos" (sess. XXIII, decret. de Reform. c. I).

"Os blspos se empenhar&o por que todos os hospltals sejam bem


e fielmente administrados por quem de direito, qualquer que seja o titulo
desses administradores" (sess. XXII, decret. de Reform, c. 8, e soss.
Vil, c. 15).

— 438 —
IGREJAS E POBRES 27

"Se as casas Instituidas para receber determinado tipo de peregri


nos, de doentes ou de outras pessoas nfio llverem pensionistas ou tlverem
número exfguo destes, o Concillo ordena sejam as rendas das respecti
vas fundacóes aplicadas a alguma outra obra que se assemelhe tanto
quanto possível á anterior. Tocaré ao blspo, assessorado por dols mem-
bros peí ¡tos do Cabido, tomar as medidas mals apropiladas" (sess. XXV,
decret. de Reform. c. 8).

Mais : o Concilio recomendou aos bispos que visitassem os


hospitais, pedissem as contas aos administradores e, caso hou-
vesse irregularidade da parte destes, os obrigassem a devolver
o que nao lhes pertencia; os bispos poderiam mesmo infligir
censura eclesiástica aos funcionarios desonestos.

O impulso de renovagáo dado pelo Concilio de Trento sus-


citou novas Congregacóes e famüias religiosas na Igreja, des
tinadas a atender as necessidades espirituais e materiais dos
homens contemporáneos. Sejam mencionadas as seguintes :

1) Entre 1540 e 1550, Joáo Ciudad (ou SS'o Joáo de Déos),


de origem portuguesa, fundou urna Congrega áo dedicada aos
enfermos: além de professar pobreza, castidade e obediencia,
os irmáos faziam (e fazem) o voto de socorrer aos doentes.
Na Italia os irmáos sao ditos «Fate bene Fratelli», em memoria
das palavras que Sao Joáo de Deus repstia ñas rúas de Gra
nada, quando pedia esmola para os seus pobres: «Fazei o bem
a vos mesmos, meus irmáos». A Ordem de Sao Joáo de Deus
subsiste até hoje.

2) Sao Camilo de Lelis (1550-1614) fundou em 1582 urna


associagáo de homens destinados a visitar os enfermos e aju-
dá-los a morrer santamente. Tal familia religiosa tornou-se a
Congregagáo dos «Ministros dos Enfermos» ou «Camilianos».
Nos trinta primeiros anos, 220 Religiosos sucumbiram ao con
tagio de doencas contraidas junto á cabeceira de enfermo i. Em
1630, 55 padres camilianos pereceram em conseqüéncia de
guerras, fome e peste. Em Roma e Ñapóles (1656), em Murcia
(1677) e Messina (1763), os camilianos foram brutalmente
dizimados por molestias decorrentes do exercício da sua missáo.

3) As Filhas da Caridade tiveram origem no zelo de urna


dama chamada Lu'sa de Marillac, que envruvou em 1625, fi-
cando com um filho de doze anos. Aos 35 anos de idade, con-
cebeu o ideal de se consagrar totalmente ao servico dos pobres
e dos enfermos. Tendo-se colocado sob a direjáo de Sao Vicente
de Paulo («Monsieur Vincent»), Luisa reuniu algumas jovens

— 439 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

companheiras, e em 1934 íundou a Congregagáo das Filhas da


Caridade. Esta haveria de assumir varias tarefas desde os tem-
pos de Sao Vicente : a) o tratamento dos enfermos, b) a. edu-
cagáo das enancas abandonadas, c) a asslsténcia aos prisionei-
ros, reduzidos a trabalhos forcados, d) a dedicajáo aos an
daos, e) o cuidado dos soldados caídos em campos de batalha.

As Filhas da Caridade tornaram-se uma familia numerosa


e umversalmente conhecida. A seu respeito afirmou o pregador
dominicano Pe. Lacordaire: «Uma irmá de caridade é uma
demonstragáo completa do Cristianismo».

A figura de Sao Vicente de Paulo tornou-se no séc. XVII


o símbolo vivo e eloqüente da caridade crista. O seu zelo, sus
citado por evidente santidade, fez que a própria autoridade do
rei da Franca, além de numerosos colaboradores, se Ihe asso-
ciasse nos seus generosos empreendimentos. Nao se poderia
silenciar aqui, entre outras famosas obras de Sao Vicente,
o Instituto das Damas de Caridade, até há pouco existente em
numerosas paróquias e voltado especialmente para a «pobreza
envergonhada».

4) Seja mencionada aínda a agao da Companhia de Jesús,


da qual alguns filhos notáveis se dedicaram na Franca aos
«Bureaux de Charité», aos «Hopitaux Généraux» e a um con
junto de instituicóes caritativas, que tomaram os mais diversos
nomes através dos países da Europa : Franca, Espanha, Italia,
Suiga, Alemanha, Inglaterra, Holanda, Bélgica...

Vé-se assim que o Concilio de Trento, com seu movimento


de auténtica reforma da face humana da S. Igreja, deu á cari
dade e ao fervor dos fiéis católicos um novo impulso ; o sá
culo XVII pode mesmo ser chamado «o século dos Santos» ;
a vitalidade da Igreja, sacudida pela tormenta do século XVI,
mostrou-se entáo estupendamente revigorada.

Sucedeu-se, porém, nos séc. XVHI/XK uma nova fase na


historia do exercício do amor fraterno :

4. Os sáculos XVIII/XIX

Distinguiremos a Revolucáo Francesa e a resposta crista


a mesma.

— 440 —
IGREJAS E POBRES 29

4.1. A RevolugSo Francesa

Todo o século XVm foi caracterizado por forte onda de


racionalismo, principalmente na Franca, na Alemanha e na
Inglaterra, chegando ao seu auge a Revolucáo Francesa de
1789. Esta foi marcadamente secularizante; o Estado procurou
assumir a si as obras assistenciais exercidas pela Igreja, con
fiscando ou mandando vender hospitais, orfanatos, asilos das
Congregacóes Religiosas...

Assim um decreto da Convencáo Francesa datado do 19


de germinal do ano m (8 de abril de 1795) mandava suprimir
sociedades de beneficencia, dispensarios de géneros e demais
sociedades caritativas particulares. Tal decreto, alias, nao fazia
senáo executar urna norma pouco antes promulgada pela mes-
ma Convencáo, segundo a qual «nao haveria mais na República
nem pobres nem escravos ; somente do Estado é que o cidadáo
indigente teria o direito de reclamar e deveria dlretamente
receber o necessário para prover áa suas indigencias» («Moni-
teur», 28 prairial do ano m). Inspirado por esse principio,
Joseph Le Bon, membro extremista da Conven;áo, propunha
eni Arras (Pireneus), fossem gravadas á entrada dos hospitais
e asilos de iniciativa particular «inscricóes que proclamassem
a sua futura inutilidade, pois, dizia ele, se, urna vez consumada
a Revolucáo, aínda tivermos indigentes em nosso meio, nossa
obra revolucionaria terá sido vá» (Lecestre, «Arras sous la
Révolution» n 106).

A titulo de ilustracáo, segue-se aqui ainda o texto de outro


documento semelhante, a saber: a Convencáo, por proposta
da Comissáo de Finangas, sancionou a seguinte lei, datada do
dia 23 de messidor do ano n:

"As rendas dos hospilals, das casas de socorio médico, dos aloer-
gues, dos postos de auxilio aos pobres e de outros estabeleclmentos de
beneficencia, qualquer que seja a sua d-snomlnapao, sSo declaradas ren
das do Estado. O patrimonio dessas sociedades ó Incorporado ao patri
monio do Governo; será administrado ou vendido de acordó com as !ei3
que regem os bens da nacSo. A Comissáo d9 Socorros Públicos proverá,
com os fundos colocados á sua disposlcfio, ás nocessidades que esses
ostabeleclmontos possam vlr a experimentar".

Os historiadores observam que a Convengáo estava cons


ciente de que a mencionada «Comissáo de Socorros Públicos»
nem sequer existia, servindo tal nome apenas para tranquilizar
os ánimos do público (cf. Lallemand, «Histoire de la Charité»
IV 2, 1912, p. 402).

— 441.—
30 <PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

Diante do decreto adma, varias comunas de Franga en-


viaram protestos á Convencáo, predizendo funestas co.iseqüén-
cias, ou seja, a ruina dos hospitais do país.

Tais efeitos nao tardaram a se registrar, como atestam


documentos guardados nos Arquivos Nacionais de Franga.

Assim, por exemplo, os administradores da Casa Nacional


de Beneficencia (antes da Revoluto, chamada «Maison-Dieu>
ou «Santa Casa») de Auxerre escreviam aos 15 de fructidor
do ano III:

"Nesta momento, tcndo cento e clnqüenta Indigentes Internados e


quase outros tantos mais remotamente condados á nossa sollcllude, care
cemos tanto de ttigo como de molos flnanceiros para o adqul.lr" ("Archives
Nalionales de Franca". F 15 276).

Os dirigentes do Hospital Central de Douai, no mes de


fructidor do ano HE, proclamavam:

"O invernó está para nos acometer desprovidos de material para o


aquecimento e a iluminacSo da casa, destituidos de era metro sequer de
paño para cobrlr a nudez de nossos anclaos e de nossos pequeninos,
que se acham trajados de farrapos" ("Archives Nationales de Franco"
F 15 267).

A diregáo do Asilo Civil de Douliens, aos 17 do mes de


pluvióse do ano VT, exprimía nos seguintes termos urna situa-
gáo generalizada na Franca :

"Um crepé fúnebre e stnais do luto foram colocados á entrada dos


asilos desde a lei do 23 de messidor do ano II...; a morte ceilou um
número assustador de indigentes, desgranados e Infelizes de todas as
idades e de ambos os sexos, pois foram privados de um depósito que é
sagrado aos olrtcs da juslija e da humanidade" ("Archives Nationales de
France" F 15 357).

Em conseqüéncia da situacáo calamitosa, o Governo fran


cés se viu obrigado a recuar paulatinamente.

Aos 2 do mes de brumário do ano IV, a Convengo decla-


rava que cada hospital voltaria a gozar provisoriamente das
rendas que outrora Ihe tocavam a titulo de propriedade parti
cular. Finalmente urna lei de 16 do vindemiário do ano V man-
dava devolver o respectivo patrimonio as instituigóes caritati
vas particulares.

Mais tarde, sob o regime do Consulado, Chaptal, ministro


do Interior de Franca, convidava de novo as fungóes hospita-
lares as Irmas Vicentinas, louvando «a sua oaridade suave e

— 442 —
IGREJAS E POBRES 31

ativa» (circular do dia 10 de nivóse do ano X). Pouco depois,


era o Imperador Napoleáo I quem promovía a restauragáo das
comunidades de Religiosas enfermeiras e ensinantes ; em. 1807
mandava ele dizer as representantes de 75 Congregagdes Reli
giosas destinadas a obras de caridade :

"Voseo Soberano, com todo o sou poderlo, nfio julgo cer suficiente
mente rico para pagar os vossos cuidados a prestimos" (Lallemand, ob.
clt. IV 2, p. 447).

Assim dez anos de perseguicáo haviam contribuido para


por em evidencia nao só a oportunidade, mas a necessidade
mesma das obras de iniciativa particular em prol dos indigen
tes. Experiencia semelhante á da Franga foi feita por outras
nagóes européias que, pela mesma época, quiseram laicizar a
caridade.

4.2. O novo surto das instituidas de caridade

Embora o Estado em geral, nos países europeus, se tenha


mais e mais interessado pela assisténcia social, esta nao pode
dispensar a caridade particular, principalmente quando orga
nizada pela Igreja. É o que explica que o séc. XIX tenha visto
surgir numerosas iniciativas de caridade que visavam a res
ponder as exigencias da época. Dessas recensearemos apenas
a principal entre outras : a Sociedade de Sao Vicente de Paulo,
com as suas famosas Conferencias Vicentinas, da qual trata-
reruos no artigo seguinte.

Na confeccio do artigo que ora (inda, multo nos servimos do estudo


de Louls Prunel: "Pauvres (les) et l'Église", em "Diclonnahe Apologálique
de la Fol Cathollque" de A. d'Ates, t. III. Pa:is 1916, cois. 1635-1735.

Veja também
PR «8/1S61, pp. 522-528 (jucilcn e caridade);

PR 53/1S62, pp. 184-194 (Igreja e miseria dos povos);


PR 6/1963, pp. 247-236 (Cristianismo e filantropía);
PR 53/1962, pp. 194-202 (caildatíe é hcmilhanle ?).

— 443 —
Quem sSo?

anténio frederko ozanam e os vicentinos

Em síntese: Frederlco Ozanam (1813-1853) nasceu em Mílio (entao


territorio francés), de familia católica piadosa. Destinado aos estudos de
Direito em París, tornou-se prolessor da Sorbonne, e tomou parte ñas lutas
políticas de sua época conturbada. Frente ás ¡délas socialistas e anticle
rical que bafcjavam a Franca, Ozanam tomou posicáo nítidamente crista,
epondo-SG ao materialismo, sem, porém,, compartilhar a agresslvldade de
outrcs arautos do Catolicismo. Admitía a democracia, querendo funda-
mentá-la sobre o próprio Evangelho — o que nem sempre (ol devldamente
entendido pelo3 seus contemporáneos.

Para atender aos desafíos de sua época e apresentar aos incrédulos


o tQ3lemunho de um Cristianismo atuante, Ozanam deu inicio em 1833 á
prirneira Conferencia de Sao Vicente de Paulo, destinada a,socorrer aos
pobres; os sete estudantes fundadores, apesar da oposicSo que encon
traran), consegulram difundir seu ideal, de modo que sem demora a Con
ferencia pdde fundar novos e novos núcleos vicentinos.

A Sociedade de Süo Vicente de Paulo, asslm constituida tem dado


batos frutos de caridado. Preocupa-se nSo so com a dlstrlbulcño de
esmolas, mas tambóm com a promocSo.do Indigente, evitando o paterna-
lismo ou a dependencia do pobre em relacfio ao seu benfeltor. No Brasil,
os vicontinos sao beneméritos, dignos .da gratldSo e do apolo do nosso
público.

Comentario: As tristes condigóes dos pobres no sáculo


passado afligiam de modo especial cristáos e nao cristáos. Na
mesma época viviam dois homens de estudo e agáo que se dedi-
caram a esse problema seguindo orientagóes opostas: Karl
Marx (1818-1883) e Antonio Frederico Ozanam (1813-1853).
Este parece, em sua época, ousadamente avanzado. Deu pro-
vas, porém, de espirito genial dentro das Iinhas da perfeita or
todoxia católica. Deixou também urna obra — a Sociedade de
Sao Vicente de Paulo (com suas Conferencias Vicentinas) —»
que é testemunho do zelo cristáo em favor dos necessitados. As
Conferencias existem até hoje, tendo dado notáveis frutos espi-
rituais e temporais. AtuaJmente procuram adaptar-se ao espi
rito de nossos días, que acentúa nao somente a caridade, mas
também os deveres da justiga social. Os vicentinos sabem que
nao se deve indefinidamente dar esmola, mas tentar emancipar
o pobre da necessidade de pedir esmola.

— 444 —
OZANAM E VICENTINOS 33

Falecido aos 40 anos como ilustre professor da Sorbonne,


Frederico Ozanam viveu intensamente os poucos decenios de
sua existencia terrestre. Teve o olhar. aberto para a problema»
tica social; conheceu diretamente as teses do socialismo mate
rialista; preferiu-lhes, porém, os principios da fé crista, que ele
procurou traduzir em obras com a máxima eficacia possíveL
É o que nos leva a encarar diretamente, ñas páginas que se
seguem, os tragos biográficos desse pioneiro católico e as gran
des idéias que inspiram a Sociedade Vicentina.

1. Ozanam, o homem público

Aos 23/IV/1813 em Miláo (cidade francesa naquela data)


nascia Antonio Frederico, filho do médico francés Joáo Antonio
Ozanam e de María Nantas. Em 1816, a familia transferiu-se
para Liáo (Franga), onde Frederico fez seus estudos no Colegio
Real, chegando ao baoalaureado em Letras. Aos 18 anos, con-
seguiu superar urna crise de fé, suscitada pelas variadas cor-
rentes de pensamento que o bafejavam; ele procuraría dora-
vante firmar a sua crenca católica principalmente mediante
estudos de historia.

Em 1831 foi para París, a fim de estudar Direito, por de-


sejo de seu pai. Naquela capital, encontrou-se com o grande
dentista Ampére, que houve por bem hospedar o jovem estu-
dante em sua casa durante dois anos. Em 1836 doutorou-se
em Direito; ao que se seguiu o doutorado em Letras no ano
de 1839. Além de conhecer o francés, o inglés, o alemáo, o
italiano e o espanhol, Ozanam quis também estudar o hebraico
e o sánscrito.

Em 1840, por concurso, tornou-se professor suplente de


Letras estrangeiras na Sorbonne (París). Finalmente em 1844,
por morte do catedrático Prof. Claude Faurieí, veio a ser titular
da cadeira, de acordó com proposta do Conselho Académico.

Em 1841 casou-se com Amalia Soulacroix, da qual teve


urna filha, que sempre muito amou.

Desde os seus tempos de estudante, Ozanam tomou parte


nos embates científicos, filosóficos e religiosos que moviam os
pensadores de París. Entrou em contato com Chateaubriand,
Lamartine, Renán, Lammenais, Veuillot, Montalembert, Lacor-
daire, propugnando enérgicamente a liberdade da Igreja e da

— 445 —
31 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

escola particular frente ao poder civil e aos avangos do socia


lismo ou do materialismo. Procurou, porém, ser sempre com-
preensivo para com seus adversarios, e, por isto, desaprovou
as atitudes violentas de jornallstas católicos (como Louis
Veuillot). Em 1848, quando a Franga se viu agitada, Ozanam
tomou partido pela liberdade pública. Em época monarquista,
acreditava na possibilidade de urna democracia crista como
termo do processo político ; tal atitude naquele tempo era sus-
peita de heterodoxia ou de traicáo' aos sabios principios crís-
táos. Ozanam, porém, professava tais idéias com firmeza lúcida
e plenamente crista, como: se depreende das palavras abaixo,
datadas de 1848:

"Acredite), e aínda acredito, na possibilidade da .democracia crista,


e até nao crelo noutra colsa em materia política...

O quanto sel de. historia, me permite crer que a democracia ó o


termo natural do progresso político para o qual o mundo vai sendo con-
duzido. Mas confesso que val sendo conduzldo. por veredas bem ásperas
e que, se acredito na democracia, é apesar dos excessos que seiiam
capazes de fazer os homens.de bem a aborrecer...

Toda a Europa tende para a democracia. Ora a democracia nao


pode vlver senSo pelo sacilficlo, pelo devotamento, pela. inspiracSo crista;
no Vaticano ó que reside esse principio Inspirador...

Nossos país, nossos Irmfios e nos mesmos trabalhames na estatua


da Liberdade..., mas cumpre fazer vlver essa estatua, cumpre procurar-
-Iha a vida onde Prometeu a buscou, Isto é, no céu. O Cristianismo ó que
será a alma da Llberdade.

É tempo de retomarmos o nosso bem, quero dlzer: ...essas velhas


e populares Idéias de Justica, de caridade, de fratemldade. £ tempo de
mostrarmos que se pode pleitear a causa dos proletátlos, devotarmo-nos
ao alivio das classes sofredoras e prosseguirmos na aboIlcSo do paupe
rismo, sem nos tornarmos solidarlos com as prédicas que desencadearam
a tempestado de junho". *

Ozanam teve ooasiáo de tomar posi-áo diante das duas


atitudes que dividiam os católicos no tocante aos adversarios
da fé. Eis as.palavras do mestre escritas em 1850:

"Exlstem duas escolas que querem servir a Deus pela pena. Urna
p&e á (rente o Sr. de Malstre, que ela exagera e desnatura. Val em busca
dos paradoxos mals ousados ou das teses mals contestáveis, cbntanto
que irrltem o espirito moderno. Essa escola aprésenla a3 verdades ao
ho'mem nSo pelo lado que as torna atraentes e, slm, pelo lado que a9
torna repulsivas. Nao se propOe a reconduzlr os Incrédulos, mas a amo
tinar as palxóes dos fiéis. . ■ ■

tTratava-se de Idólas socialistas antlcrlstfis.

— 446 —
OZANAM E VICENTINO5 33

A outra tem por flm procurar no coracSo humano todas as cordas


secretas que o possam ligar de novo ao Cristianismo, despertando nele
o amor da verdade, do bem e do belo, para em seguida mostrar-lhe na
fé revelada o ideal dessa3 tres coisas á3 qúais aspira toda alma; procura
enflm trazar para a fó os espirites desviados e aumentar o número de
crlstSos. Confesso que prefiro ser deste último partido o .nunca esquecerei
esta palavra de Sfio Francisco de Sa1e3: 'Apanham-se mals moscas com
urna colher de mel do que. com urna tonelada de vinagre'".

O grande mestre faleceu prematuramente em Marselha aos


8 de setembro de 1853 em conseqUéncia de molestia entilo.in-
curável. Acabava de regressar de urna viagem a Italia, onde
tratara dos interesses da asslsténcia social vicentina que insti*
tuira. Sentindo o seu fim próximo, pediu os santos sacramen
tos ; como o sacerdote o incitasse a confiar sem temor na bon-
dade de Deus, respondeu Ozánam: «Oh ! Como posso temer
a Deus, eu que tanto O amo ?»

Importa-nos agora considerar mais detidamente a obra


vicentina que Ozanam fundou como expressáo de seu zelo
cristao.

• 2. O apostólo do amor e da Justina

Desdé os seus primeiros anos de estudante em París, Fre-


derico Ozanam se sentiu desafiado por correntes nao cristas,
que o obrigavam a procurar pensar e viver com a máxima coe-
réncia a sua fé crista. As discussóes e debates com colegas indi
ferentes ou incréus deram finalmente ocasiáo a que, em maio
de 1833, Ozanam, acompaíihado de mais cinco estudantes de
medicina e um de direito, fundasse a primeira «Conferencia de
Caridade».

É o próprio Ozanam quem, vinte anos mais tarde, assim


explica o surto dessa obra :

"éramos entSo Inundados por verdadelro diluvio de doutrlnas filo


sóficas heterodoxas que se agltavam em redor de nos; sentíamos o desejo
e a necessldade de fortalecer a nossa fé em meló aos assaltos que Ihe
davam os diversos sistemas dessa ciencia falsa. Alguns dos nossos jovens
companheiros de estudo eram materialistas, alguns salnt-slmonlanos, outros
foutlerlstas, outros aínda deístas. Quando nos, católicos, nos esforcávamos
em chamar esses IrmSos transvlados do Cristianismo, eles -nos dlzlam
todos:

Tendes razfio se vos referís ao passado; o Cristianismo fez outrora


prodigios; mas ho]e o Cristianismo está morto. Coni efelto, vos, que vos
ufanáis de ser católicos, que fazeis? Onde estfio as obras aue demonstren)
a vossa fó e que nfi-la possam fazer respeltar e admitir.?': ■ .

^-447 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179A974

Eles tinham razfio; esse reparo era multo merecido. Foi entfio que
dlssemos: Ela, pols I MBos a obra I Estejam os nossos atos de acordó
com a nossa fé I Mas que fazer ? Que (azor para ser verdaderamente
católicos senio aqullo que multo agrada a Deus: socorramos, portante
o nosso próximo, como fazia Jesús disto, e ponhamos nossa fé sob a
protecáo da caridade,,. I"

Foi sob o impulso destas idéias que nasceu o primeiro


núcleo de apostólos do amor fraterno que se colocava sob a
tutela de Sao Vicente, o grande arauto da oarídade no séc. XVIL
Esse núcleo chamar-se-ia Conferencia, porque os sete estudan-
tes fundadores se haviam conhecido e instigado mutuamente
ao freqüentarem «Conferencias de historia» na Sorbonne sob
a presidencia do Prof. Baílly; essas «Conferencias de historia»
congregavam católicos e acatólicos que entáo exprimiam livre-
mente suas dpinióes.

Os membros do pequeño grupo se reuniriam semanalmente;


depois de oracáo e leitura espiritual, deliberarían! sobre os seus
trabalhos de caridade e relatariam as suas visitas aos pobres.
No finí, realizarían! modesta coleta, que serviría para prover
as necessidades dos indigentes no decorrer da semana seguinte.

Nao tardaram a aparecer os adversarios do pequeño grupo,


socialistas que impugnavam a prática da esmola em nome da
nova organizado da economía, na qual nao haveria nem ricos
nem pobres; propugnavam a justica a tal ponto que desdenha-
vam a caridade e repeliam a prática desta. Tais pensadores ti
nham razáo em repelir o «paternalismo» que torna o pobre um
perene dependente do rico. Ozanam, porém, apontou a inconsis
tencia de suas posicóes radicáis em dois artigos publicados no
jornal «Ere Nouvelle», com os títulos respectivos: «Da assis-
téncia que humilha e daquela que honra» e «Da Esmola». No
primeiro destes escritos, dizia Ozanam :

"SIm ; a aaslsténcla humilha quando toma o homem pelo mals baixo,


pelas necessidades terrestres somonte, quando ela olha apenas para os
solrlmentos da carne e do frió... que procuramos minorar também nos
animáis... A asslsténcla humilha se nada tem de reciproco, se apenas
leváis ao Irmfio um pedaco de pSo, urna roupa, um punhado de palha,...
se o colocáis na contingencia dolorosa... de recebar sem retribuir...
Mas a asslsténcla honra quando ao pfio que nutre se acrescenta a visita
que consola, o conselho que esclarece, o aperto de mío que soergue
a coragem abatida..., quando trata o pobre com rospelto, nao somonte
como um Igual, mas tambem como um superior, porque sofre aquilo que
nunca sofremos...

Entfio a asslsténcla torna-se honrosa porque pode tornar-se mutua.


SIm; todo homem que diz urna palavra, que dá um conselho, que leva

— 448 —
OZANAM E VICENTINOS 37

um consoló hoje, pode amanhS necessltar de tuna palavra, de um con*


selho; a mao que aportáis, aperta, ao mesmo tempo, a vossa. Essa fami
lia Indigente que amáis, vos amará, certo como é que ela se terá já qui
tado para convosco desde quando esse ancISo, aquela pledosa máe de
familia, esses pequenlnos houverem rezado por vos".

No artigo sobre «A Esmola», escrevia Ozanam :


"é tese favorita dos socialistas essa de denunciarem a esmola como
sendo um dos detestávels abusos da sociedade crista. Dlzem que a
esmola insulta o pobre, porque nSo Ihe permite partir seu pfio sem que
reconheca devé-lo aqueles que se dizem seus benfeitores; tornándose
obrlgado aos ricos, o pobre deixa de ser igual a estes. Dai concluem
que a esmola, longe de consagrar a fratemldade, a destról...

Essa doutrina se dirige ao mals pirrónico dos sentlmentos humanos,


áquele que palpita tanto sob o andrajo quanto sob a seda e o ouro;
queremos referir-nos ao orgulho. Slm; a eterna esperanca do orgulho
humano está em desllgar-se de tudo quanto obriga, porque toda obriga-
cSo implica dependencia. Mas essa esperanca ó eternamente vS. NSo
conhecemos um só homem, por mais aqulnhoado dos bens deste mundo,
que se possa deitar urna só nolte afirmando que nada deve a nlnguém.
NSo sabemos de um único filho que tenha Jamáis pago o que deve a sua
mSe, nem de um pal de familia honesto que alguma vez nada mais deva
ao amor de sua mulher ou á juventude de seus filhos... A Providencia
nao permlllu que as relac&es soclals se balanceassem como o atlvo e o
passivo de um comercio bem dirigido, nem que os negocios da humanl-
dade fossem regulados como um Mvro em partidas dobradas. Toda a
arte da Providencia e, por assim dizer, todo o seu esforco estSo, pelo
contiário, em ligar o passado ao futuro, as geracSes ¿s gera^Ses, o
homem ao homem por urna serle de beneficios que comprometem e de
servlcos que nSo se qultam.

... Nem digáis que... queremos perpetuar a miseria: a mesma


autoridade (Jesús Cristo) que nos anuncia que ela sempre existirá entre
nos (cf. Jo 12,8), é também aquela que nos ordena tacamos tudo para
que nSo exista mais. é precisamente 'essa eminente dignldade dos pobres
na Igreja de Deus', na frase de Bossuet, que nos langa aos pés deles.
Quando receals obrlgar aouele que recebe a esmola, crelo que Isto su*
cede porque nunca'experlmentastes que ela também obriga a quem dá.
Os que conhecem o camlnho da casa do pobre, os que Já varreram o
pó das suas escadas, esses nunca Ihes batem á porta sem um certo
sentlmento de respelto. Sabem eles que o Indigente os honra recebendo
deles o pBo assim como de Deus recebe a luz; sabem que se pode
pagar a entrada dos teatros e rtas diversbes públicas, mas que nada
jamáis pagará duas lágrimas de alegría nos olhos de urna pobre mSo,
nem o aperto de mSo de um homem honrado que tenhamos colocado em
condigOes de poder voltar ao trabalho...

NSo há malor crime contra o povo do que esse de ensinar-lhe a


detestar a esmola e a arrancar ao desgrasado o reconhecimento — a
última riqueza que Ihe resta, mas a maior de todas, porque nada existe
que ela nao possa pagar".

Como se vé, Ozanam e seus companheiros tencionavam


pratíoar a caridade ignorando ou mesmo contrariando a justica

— 449 —
38 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

social. Também sabiam que dar esmola a quem pode trabalhar,


pode ser fomento da preguiga. Ora, para se livrar desses es-
colhos, contavam com a colaboragáo da Irma Rosalía, muito
popular no 12' quarteiráo de París, Irma que indicava quais as
famJias realmente necessitadas de visita e atendimento em
Paris.

A consciéncia do valor impresclndivel da justica na socie-


dade era assim expressa por Ozanam :

"A carldade pública deve intervlr ñas crises. Mas a carldade é o


Samaritano que delta óleo sobre as chagra do viajante atacado. — é a
Justlga que cabe prevenir os ataques".

Nem sempre compreendido mesmo dentro da Igreja, o


pequeño grupo de sete estudantes foi-se impondo pelo ardor
de sua fé e de seu amor, de tal sorte que novos e novos mem-
bros se lhe foram agregando. Em 1834, um ano após a funda-
gáo, a Conferencia já contava cem membros — o que a obrigou
a dividir-se e subdividir-se em núcleos menores. Um sáculo
mais tarde, em 1933, havia 13.164 Conferencias Vicentinas es-
parsas pelos cinco continentes, com um total de 179.389 con-
frades. Hoje em dia a Sociedade de Sao Vicente de Patüo cons
tituí o maior grupo de leigos católicos que militam diretamente
a f.avor da caridade.

Procuremos agora noticiar sucintamente '

3. A Sociedade Vicentina no Brasil

Em nossa patria, a Sociedade foi introduzida no ano de


1872 por ocasiáo da celebracáo da festa de Sao Vicente de Paulo,
aos 19 de julho ; eram os padres da Missáo ou Lazaristas que
assim a implantavam no Rio de Janeiro. Em 1874 a Sociedade
já se achava em Sao Paulo, devendo aos poucos propagar-se
por todo o Brasil.

Os vicentinos organizam-se em grupos tradicionalmente


chamados «Conferencias», que se reunem com regularidade e
freqüéncia. As Conferencias sao unidas entre si por meio de
Conselhos, de escalño local, regional, nacional e mundial. Ñas
reunióes sao avaliadas as experiencias de cada, um dos con-
frades, os problemas encontrados e as maneiras de servir
melhor.

— 450 —
OZANAM E VICENTINOS 39

Após o Concilio do Vaticano II (1962-65), a Sociedade


reformou seus estatutos, de modo a inseri-los na espiritualidade
e na linha de agáo suscitadas pelo Concilio. Consegüentemente,
é assim expressa a tarefa da Sociedade em sua nova Regra,
parte I, § 4 :

"Nenhutna obra de carldade é estranha a Sociedade. A ac.3o desta


compreende qualquer forma de ajuda por contato pessoal no sentido de
aliviar o sofrlmento e promover a dlgnldade e a Integildade do homem.
A Sociedade nSo somante procura mitigar a miseria, como também des-
ccbílr e remediar as situares que a geram. Leva sua ajuda a quantos
déla precisam, independentemente de cor, raga, naclonalldade, credo polí
tico ou religioso e poslcao social".

O Presidente Geral da Sociedade Vicentina, Sr. Pierra


Chouard, assim apresentou ao público as novas diretrizes que
animam a Sociedade:

"A Sociedade de Sao Vicente de Paulo, no conjunto, e todos os


seus membros, um por um, se sentem mals claramente Interessados pelas
dimensóes novas da solidariedade dos homens. Os entreves á justlca social,
ás miserias da fome, os sofrlmentos do subdesenvolvlmento referem-se a
todos os vlcentinos, mesmo que parecam estar afastados no espago.
É-lhes Imposslvel furtar-se a eles: a ImaginacSo criadora deve conduzNos
a conferir as virtudes do diálogo e do contato pessoal com todos esses
problemas mundlais que nio estSo reservados únicamente ¿ política In
ternacional.

As dlmens6es de 'nosso próximo de hoje' cresceram; ó preciso res


ponder a elas. O Tercelro Mundo, por seus estudantes, seus trabajadores,
seus emigrantes, está presente no selo das cldades mals 'desenvolvidas*.
O engajamento ñas profissQes da cooperado pode ser considerado como
urna expressio de vocacáo vicentina. Ñas Jovens comunidades cristas dos
países do Tercelro Mundo, o Ideal vlcentíno já leva os mals pobres a
socorrer eficazmente outros pobres, e a vlver as dimensfies do amor
crlstáo. Tudo está por construir nesta etapa do mundo moderno" (texto
extraído de um opúsculo que a Sociedade Vicentina do Brasil dlstrlbulu
sem data, em tradufáo portuguesa).

Nao tencionamos relatar pormenores da organizado vicen


tina ; fugiriam ao ámbito deste artigo, que visa apenas a apre-
sentar as Conferencias de Sao Vicente de Paulo como expres-
sáo do penetrante pensamento de Ozanam, até nossos días ple
namente válida. Em todo o Brasil contam-se hoje oito mil Con
ferencias Vicentinas, com um total de mais de 100.0C0 socios de
todas as idades, pessoas de* ambos os sexos e das mais diversas
posácóes sodais : Vice-Presidentes da República, Govenjadores
de """""gfeMV», Ccogressistas, Ministros de Tríbunais, Desembarga-
dores, Almirantes, Marechais, Brigadeiros, representantes varios
da classe media, ao lado de humildes funcionarios, trabalhado-

— 451 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

res bracais, rudes camponeses, eStudantes, soldados, marinhei-


ros, todos dentro do maior anonimato.

Possam as Conferencias receber em seu gremio ainda


numerosos arautos da caridade de Cristo, empenhados em aju<-
dar seus irmáos tanto no plano espiritual como no corporal!

Os textos de Ozanam citados ñas páginas anteriores foram colhldos


no opúsculo de Claudio Peyroux: "Frederlco Ozanam", Rio de Janeiro
1925. Merecem aten?So outroesim os livros

P. J. C. M. Colombo, "Frederlco Ozanam". Petrópolls 1942.

Mgr. Baunard, "Frédérlc Ozanam d'aprés sa correspondance". Pa


rís 1913.

Aos nossos estimados leitores

Comunicamos estar encerrado o inquérlto a respelto da


mudanca de título da nossa revista "Pergunte e Responde
remos". De coracao agradecemos a todos quantos nos pres-
taram o obsequio de su a resposta escrita ou oral. Colabora
ran) nao somente com um "Sim" ou "Nao", mas também
com opiníóes valiosas, que nos seráo úteis.

Podemos dizer que a grande maioria dos pareceres rece-


bidos foi contraria á troca de nome. Isto basta para que,
num gesto de respeito á oplniáo dos leitores, mantenhamos
o já conhecido titulo "PERGUNTE E RESPONDEREMOS",
abreviado em PR. Se o nome da nossa revista se tornou vín
culo e elo entre a redacSo e seus leitores, fazemos votos
para que esses llames de amizade e colaboracao se estrei-
tem cada vez mais, a fim de realizamos urna tarefa auténti
camente cristS em nosso Brasil. Queiram os amigos continuar
a enviar-nos sugestoes e críticas para nossa orientacáo.
Gratos a todos.

A REDACAO DE PR

— 452 —
A questao social:

Em símese: As lels e as normas da Justica tem penetrado cada vez


mals no setor das relacSes entre os homens. Em conseqOéncla, multas
atitudes de benevolencia outrora assumldas apenas a titulo de carldade
hoja sao obrigatórlas por efeito das leis da justica:. abonos familiares,
aposentadorias, ferias remuneradas... Asslm a justiga toma o lugar da
carldade, que por vezes tem mesmo um sentido pejorativo, segundo alguns
'comentadores.
Devem-se louvar tais Iniciativas da justlca. Todavía elas nSo podem
remover as exprassoes da caridade ou do amor fraterno, pols a justiga
sem caridade é um corpo sem alma, como a carldade t-em justiga é vlo-
lacfio dá ordem e hlpocrisia.
■ A justiga distribuí dlreitos e deveres de maneira por vezes Impes-
soal. é a carldade ou o amor que leva em conta as pessoas Ir.teressadas
em um justo relacionamento. Ademáis a caridade nao é, por si, humllhante.
Existe urna dlgnidade em saber dar, como existe também a dignidade de
saber receber. Quem "saba receber, está multas vezes prestando um favor
ou dando ao seu doador. No intercambio "dar-receber" há enriquecimento
mutuo de doador e receptor.

Comentario: A palavra «caridade», que durante sáculos


foi unánimemente valorizada no vocabulario cristáo néo-latino,
hoje em dia suscita por vezes certo ceticismo: é, nao raro,
associada a fuga dos deveres da justisa social, maneira falsa de
.«tranquilizar» a consciéncia de quem deveria procurar promo
ver os seus semelhantes. É por isto que se pergunta se hoje
aínda é lícito apregoar a caridade e a prática da mesma me
diante esmolas ou obras meramente assistenciais («assisten-
cias», neste contexto, opóe-se a «promocionais»).

Tentaremos abaixo responder a tal questáo, comparando


entre si o papel da justica e o da caridade nos dias atuais.

1. Justina social

Justiga é a virtudé mediante a qual o homem, com vontadé


constante, dá a cada um o que lhe é devido. Donde se vé que
é virtude eminentemente social; ninguém a exerce para consigo
.mesmo. ... ., . . . ,, .>

— .453 —•
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 179/1974

De modo especial, interessa-nos aqui a especie de justiga,


que se chama explícitamente «Justina social». Esta se baseia
nao em troca de bens materiais, mas ñas obrigagóes que resul-
tam imediatamente da natureza social do homem e da finali-
dade comunitaria que tém os bens terrestres.

Em nossos dias, acontece que nao poucas das prescrigóes


da justíga social váo sendo explícitamente promulgadas pela
lei civil; tomam-se objeto de justica legal quando outrora eram
tidas como objeto da virtúde da caridade: os abonos familia
res, as diversas formas de pensóes, aposentadorias, as institui-
góes de protegáo ao operario... Isto se deve ao caráter cada
vez mais complexo da vida social: a multiplicacáo de encargos
e responsabilidades dos trabalhadores em empresas, fábricas,
escritorios, etc., levou os legisladores a explicitar cada vez mais
-o que é estritamente dever de just'ga (seja comutativa, seja
social), e o que fica sendo mera atuagáo da caridade. Assim
se verifica a tendencia crescente a transferir do dominio da
caridade pu da livre iniciativa para o setor da justica ou da
obrigagáo certas práticas e instituicóes que antigamente fica-
vam dependentes apenas do bom senso cristáo dos proprietános.

É altamente desejável que a legislacáo procure garantir na


sociedade a observancia das necessárias obrigagóes que decor-
rem da natureza social do homem. Ninguém pode por em
dúvida o valor do progresso da legislacáo social.
, Todavía na exaltagáo dos deveres impostes pela justica
nao se deveria negligenciar ou menosprezar o valor e a neces-
sidade do exerc'cio da caridade. A prática da justica nao su
prime a do amor, principalmente amor cristáo. Com efeito;
a caridade é a alma da justiga social, de tal modo que o cída-
dáo deve procurar cumprir a lei em espirito de amor ou cari
dade. Com outras palavras: a justisa há de ser considerada
nao como algo de absoluto, mas como um requisito da cari
dade, ... o primeiro e mais indispensável requisito da caridade.

Eis sabias palavras de Pió XI:

"A lustra social deve penetrar completamente as InstltuigSes e a


vida Interna dos povos. Sua eficacia verdadelramente operante deve-se
manifestar sobretudo pela ciiacao de urna ordem jurídica e social que
Informe toda a vida económica e cuja alma seja a caridade". (ene.
"Quadrageslmo armo").

De resto, o próprio filósofo pagáo Aristóteles (t 322 a. C.)


exortava os legisladores a fomentar a compreensáo amigáveí
CARIDADE OU JUSTTCA? 43

e mutua entre os cidadáos; isto os deveria preocupar mais,


dizia, do que fazer observar simplesmente a justiga, pois a jus-
tiga regula apenas a conduta exterior do homem, ao passo
que a amízade une os coragóes: «A justiga nao seria necessárta,
se entre os homens reinasse perfeita arnizade», concluí o
filósofo.

2. Juslija e caridade

Em última análise, justiga e caridade sao inseparáveis urna


da outra, de tal modo que justiga sem caridade se torna corpo
sem alma; doutro lado, caridade sem justiga equivale a viola-
gao da ordem e hipocrisia. Multo a propósito observa Pío XI:

"Urna pretensa caridade que priva o operarlo do salario a que tem


dlrullo, nada tem da verdadelra caridade; nfio é mais do que falsldade e
slmuiacSo. Nao se deve dar ao operarlo, a titulo de esmola, o que Ihe
toca a titulo de justlca; a ninguém é licito furtar-se ás graves obrlgacoes
impostas pela justiga, concedendo presentes a titulo de misericordia"
(ene. "Dlvlnl Redemptorls").

A necessidade de que justiga e caridade se entrelacem mu


tuamente, completando reciprocamente as suas fungóes, de-
preende-se das seguintes consideragóes:
1) A justiga leva-nos fácilmente a considerar o próximo
cómo mitro cidadao, com o qual cada um de nos deve conviver;
o seu papel, portanto, consiste em delimitar e definir rigoro
samente direitos e deveres de cada um ; por isto, tende a acen
tuar barreiras e distancias.

A caridade, ao contrario, une, pois leva a considerar o


próximo como um outro Bu, que devenios amar como a nos
mesmos. Com razáo diz-se que a justiga estabelece a ordem,
os moldes, as estruturas, que a caridade deve encher de vida.

2) A justiga tem por objeto apenas o cumprimento de


obrigacóes exteriores, sem levar em conta a personalidade ou
o intimo do ddadáo. A caridade, ao invés, atinge os coragóes,
procura compreender casos e problemas pessoais, preservando
a lei de cair no esquematismo e no mecanicismo esteréis ou
mortais.

• A justiga pode talvez extinguir as raízes de conflitos so-


dais, mas por si só nao consegue aproximar e fundir os ánimos.
Quando falta um vinculo pessoal e afetivo para unir os dda-
dáos,.a experiencia ensina que se tornam vas as melhores fór-

._ 435 ?-
44 iPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

ínulas e as mais sistemáticas organizagoes. Em conseqüéneiaj


afirma-se que a justiga, por si só, constrói um mundo rígido,
capaz de subjugar, sem contudo atrair.. .,• ou urna casa bem
arrumada, mas destituida de calor...., ou ainda urna máquina
técnicamente perfeita, mas carente de lubrificante para suavi
zar o seu funcionamento.

3) Verifica-se que a justiga dá apenas o que é estrita-


mente devido. Contudo, mesmo depois de preenchidas as es-
tritas obrigacóes da justiga, resta freqüentemente um vasto
setor de angustias e indigencias cuja solugáo nao está contida
dentro de categoría ou sob título algum de justiga. Mesmo o
individuo cujos direitos sao plenamente respeitados, freqüen
temente ainda apresenta lacunas dignas de atengáo, para as
quais só a caridade pode dar remedio adequado.
Leve-se em conta também que o género humano estará
sempre sujeito ao flagelo de inundacóes, terremotos, erupsóes
vulcánicas, invasóes de povos belicosos..., em conseqüéncia
do que haverá sempre órfáos, mutilados, anciáos desampara
dos ;. também existiráo sempre mais industriosos e putros me
nos industriosos, os. quais, como se compreendtíj se encaminha-
ráo diversamente na vida. Por mais que se aperfeigoe a huma-
nidade, jamáis será possivel evitar as miserias e os sofrimentos
decorantes destes varios fatores; nao há, nem haverá, forma
de Governo, por mais aprimorada que seja, quepossa.isentar
os povos de tais males..... E, para dar a estes p devido remedio,
será.sempre necessária a abnegagáo generosa q,úe as leis do
Estado nao conseguem obter, mas que o amor a Deus e; a ca
ridade crista podem suscitar.

Em suma, «quem age por justiga é um homem correto,


mas sem a caridade nao é ainda um homem bom. E mesmo,
levando as coisas, com rigor, nem é ainda perfeitamente cpr-
reto. Porque summum ius, summa iniuria — a justiga rigorosa
toma-se ás vezes odiosa injustiga; O filho de pais indigentes
qué énriqueceu e dá a seus pais apenas a pensáo alimentar pres
crita pela lei, nao é justo; é horrivelmente injusto. Há urna
única maneira de ser justo: é ser caridoso. A justiga que faz
abstragáo do amor, nao é mais justiga» (C. van Gestel, «A
Igreja e a questáo social». Rio de Janeiro 1956, p. 161). :

• 4)- Por fim, pode-se observar que. a justiga. social, preco


nizada pela encíclica «Quadragesimo anno», nao é egtritamente
inspirada pela fé. crista (ela se deduz. dos principios mesmos
da sabedoria humana.anterior á-revelacáo sobrenatural). £ofr
CARIDADE OU JUSTECA? ; 45

tudo ela sosa desabrocha plenamente na base dos conceitos de


Deus. e.do homem que a fé crista incute. Com efeito, é o Evan-
gelho que leva a considerar os bens materiais como criaturas
e propriedades de Deus, entregues ao mero uso dos homens;
é também o Evangelho que faz apreciar o género humano todo
como.-a familia dos filhos de Deus. A «justiga social» adquire
entáo seu colorido mais vivo : vem a ser a «justiga de familia»
dos filhos de Deus.

Voltamos agora a nossa atengáo para urna questáo muito


ligada ás anteriores:

3. Caridade é humilhanfe?

Abordaremos o assunto por. etapas :

' ■ 1) Existe urna caridade que, pelo modo como é praticada,


avassala e hümilha o indigente. Tal caridade sempre foi e será
condenada pela Moral crista. Observe-se que a nota má dessa
caridade está únicamente no modo como é executada : .. .com
ostentagáo, com arrogancia, com exigencia de certa compen-
sacáo.

Está claro que nao é esse tipo de caridade, táo deturpada


pelas" suas circunstancias, que visamos a defender. Interessa-
'■nos focalizar a caridade em si mesma ou como tal.

2) A caridade é urna virtude,... expressao genuína da


nobre alma humana. Por isto é valor perene, como a dignidade
humana é valor perene.

Note-se que a justiga tende a canalizar a atividade do


.homem, mostrando a linha divisoria entre o que é dever e o
que nao é dever; assim a justiga pode fácilmente tornar me
cánicas e «esclerosadas» as expressóes da personalidade. Acon
tece, pórém, que a-alma humana é essencialmente «elástica» e
dinámica; é indefinidamente aberta para o bem; desde que ela
se feche dentro dos limites do devido e do náo-devido, depau-
pera-se.

"Depols que alguém tenha dado ao seu semelhante tudo a que este
tem dlreito, aínda fica aberto ampio setor para a caridade... So llavera
verdadelra colaborasáo de todos para o bem comum quando todos pos-
sulrem a convicgSo Intima de ser os membros de urna grande familia e
os filhos de um mesmo Pai celeste, formando um só corpo em Cristo'!
{Pío XI," ehc; "Quádrageslmb anno").

— 357 —
46 «PEftGUNTE E HESPONOEREMOS» Í7&/1974

Há um genuino valor humano em «dar» e um genuino


valor humano em «reconhecer a dádiva», «ser grato ao doador».
Ora esses valores jamáis poderáo ser sufocados por modalidade
alguma de progresso, sem que se mutile ou deforme a alma
humana mesma.
É o que Claudel táo bem incute na seguinte passagem:

"A carldade nao é, como alguns flzeram erar,... o exerelelo de


urna superioridade, da superiorldade de quem possui sobre quem nao
possul; ela é simplesmente o nomo religioso do amor; ela é a necessi-
dade que temos do próximo, n&o somente do bem que o próximo nos
pode fazer, mas do bem Indispensável que ele nos faz permllIndo-nOB qu«
nos Ihe fagamos o bem. Comete a mals injusta, a mals tremenda das
ofensas aquele que destrói ou dlmlnlul em nos o dlrelto sagrado que
temos de fazer o bem uns aos outros... O máximo de bem posslvel I
E prestal atencáo: ...nSo temos somente o dlreito, mas temos também
a capacidade de fazer o bem I E nao é tarefa de pouca monta, a de
aprendemos a nos servir desse personagem que ó cada um de nos, com
toda a riqueza de seus recursos" ("Qui ne souffre pas..." 1959).

Aínda a propósito vém as palavras com as quais Ozanam,


no sáculo passado, respondía aos que consideravam a caridade
como algo de aviltante para o pobre:

"Sem dúvlda, nSo basta aliviar o indigente día por día; é preciso
p6r máos á raíz do mal e, mediante sabias reformas, diminuir as causas
da miseria pública. Nos, porém, afirmamos que a clónela das reformas
benéficas se aprende menos nos llvros e ñas tribunas das assemblelas
do que no trabalho de subir os degraus da casa do pobre, de flcar a
sua cabecelra, de sofrer o mesmo frió que ele, de Ihe arrancar, na efusfio
de urna conversa amiga, o segredo do seu coraefio desolado. Depols de
ter desempenhado essa tarefa, nfio por alguns meses, mas durante longos
anos,... comecamos a conhecer os elementos desse tremendo problema
da miseria'e temos o dlrelto de propor medidas serlas; entfio, em vez de
tancar o pánico na socledade, levamos-lhe consolo e esperance" (cf. Lan-
zac de Laborío, "Le Fondateur de la Soclété de Salnt-VIncent-de-Paul",
em "Ozanam. Le Llvre du Centenalre". París 1913, pp. 140-142).

Estes sabios dizeres de Ozanam dispensam qualquer co


mentario.

Estéváo Bettencourt O. S. B.

— 458 —
ESTANTE DE LIVROS^ 47

estante de livros
O homem a procura de Deus, por Abraham J. Heschel. TraducSo do
Inglfis por Euclides Camelro da Silva. — Ed. Paulinas, SSo Paulo 1974,
110 x 190 mn, 195 pp.
Abraham Joshua Heschel ó um israelita que fez seus estudos na
Alemanha e depols, coagldo pelo nacional-socialismo, omlgrou para os
Estados Unidos da América, onde leclonou Ética Judaica e Mística no
Seminarlo Judaico da América. Faleceu em 1972, com 65 anos de Idade.
Teve urna visSo religiosa tSo aberta que foi recebido em coloquio pelo
S. Padre Paulo VI. Este, alias, em sua alocucfio de 31/1/1973, cltou um
llvro de Abraham Heschel Intitulado "Deus a procura do homem", obser
vando que, através da leitura dessa obra, "teremos a surpresa de desco-
brir que Deus velo & nossa procura multo antes que nos comecássemos a
procura-lo e que Ele nos procura infinitamente mals do que somos
capazes de fazd-lo" (cf. "La Documentatlon Cathoüque" n? 1626, p. 153).
Tres sSo os livros mais conhecldos de Heschel: "Deus & procura
do homem", "O homem á procura de Deus", "O homem nfio está só",
publicados em traducño portuguesa. É o segundo dos mesmos que aquí
apresentamos.
O tema dominante do llvro é a oracáo, na medida em que esta
exprime a procura de Deus por parte do homem. O estilo ó "sltuaclonal"
mais do que especulativo ou académico; Heschel "quer aprofundar nSo
os conceitos, mas as sltuac6es, que sfio anteriores aos conceltos"; asslm
tenciona propor "urna teología da profundldade". Em conseqüéncla, o llvro
está chelo de episodios tliados do Talmud e da tradlcio judaica, em que
o homem aparece na sua sofreguld&o de Deus; nessas sltuacSes pode
haver oracao altamente agradável a Deus, embora nao expressa por pala-
vras ou fórmulas clásslcas, mas, sim, pela simples oferta que o homem
faga a Deus de seus anseios e de sua dor de nao ser o que desojarla ser...
Verdade é que o autor, sendo judeu, nfio alude a Cristo e aos va
lores explícitamente cristSos para fundamentar a vida de oracfio; serve-se
principalmente de psicología, da filosofía de Martín Buber e de concep-
c5es rabínlcas. Todos estes dados, porém, sao perfeltamente aceitáveis a
um cristio; o Cristianismo foi, sim, preparado por Israel e é nos auténticos
valores de Israel que o cilstfio encontra os primordios da sua esplrltua-
Ildade.
Eis por que saudamos com prazer a traducáo brasllelra do llvro ácima
enunciado e julgamos que poderá ser altamente útil ao nosso público de
cultura media, nfio só pelo seu conteúdo teológico, mas também por colo
car cristSos e judeus em contato mais direto e fraterno.
Deus te espera, pelo Pe. Alfredo Pérez. — EdlcSo particular, Rio de
Janeiro 1974, 140 x 210 mm, 273 pp.
O autor é professor da Unlversidade Gama Filho (GB), onde leciona
Dlrelto Canónico e Cultura Religiosa para estudantes de Direlto. Como
resultado ds suas aulas, o Pe. Pérez escreveu o llvro ácima, no qual ofe-
rece um compendio de teología e de moral católicas. A obra, rediglda em
estilo sucinto e preciso, destlna-se de modo geral aos estudantes, mesmo
de ginásios e colegios, assim como a todas es pessoas que, tora da es
cola, desejem adquirir alguma foimacSo religiosa. Talvez alguns leltores
estranhem a maneira esquemática como sfio formulados no livro os prin
cipáis tópicos da doutrlna católica; precisarfio de urna apresentagáo oral
da materia que de plena vida e signlflcacao ao texto do livro.

.— 459 ~
48 <PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 179/1974

Em um ou outro de seus comentarlos bíblicos, pergunta-se se o autor


seguiu a sentenca mais provóvel: assim, por exemplo, á p. 172, parece,
supor a universalldade do diluvio (Gen 6-9} — o que realmente nao é
tese aceita, mesmo ñas escolas exegétlcas católicas mais ortodoxas; á
p. 46, o autor prefere, como mais provável, a hlpótese fixista, segundo a
qual o corpo do homem nao procede do de um animal Irracional; o evo
lucionismo nao se aplicaría á origem do corpo (nSo dlzemos:... das
almas) dos prlmeiros homens. Ora também os mais seguros autores cató
licos hoje em dia tém por sentenca verossímll que a evolugSo do corpo
humano (nSo da alma) a partir do prlmata é um fato; a doutrlna da fó
católica nSo se opóe a esse tipo de evolucionismo, desde que se admita
que toda e qualquer alma humana é dlretamente criada por Deus (cf.
Pió XII, ene. "Humanl generls").
Estas observagdes nao pretendem diminuir o apreso que merece a
obra do Pe. Pérez. Ela tem seu valor como texto-base de aulas mais talvez
do qué como livro de leiiura Individual.

Introducáo á Biblia, V/1: Atos dos Apostólos, SSo Paulo e as epís


tolas aos Tessalonicenses, 1 e 2 Corintios, Gálalas, Romanos, por T. Balla-
rlni, S. Ciprlani, C. Ghidelli e outros. Traducfio de Ephralm Ferrelra Alves.
—. Ed. Vozes, Petrópoiis 1974, 170 x 273 mm, 558 pp. \
Acaba de aparecer a traducáo de mais um volume da colecüo (em
cinco volumes) de Introducto á Biblia, dirigida por Ballarlnl, Virgulin e
Lyonnet, e elaborada por bons exegetas italianos. Dessa colecSo já exls-
tem em traducSo portuguesa o volume I (Introducao Geral), o vol. IV
(Evangelhos) e o vol. V dividido em dols tomos (Atos, Epístolas e Apo-
callpse). Aguardam-se aínda os volumes de introducSo especial nos tivros
do Antigo Testamento.
A obra é minuciosa e bem orientada. Constituí urna verdadelra mina
de documentacSo e de indicacoes historlográflcas, teológicas, arqueológi
cas..., sem perder o seu estilo claro e acessivol. Comeca por apresentar
o mundo greco-romano no tempo dos Apostólos — o que serve de fundo
de cena para introduzir o llvro dos Atos e as cartas paulinas; também a
vida do Apostólo Sao Paulo é reconstituida com as oscllacóes que a
cronología delxa abertas. Além das nocSes introdutórias em cada umá das
chamadas "grandes epístolas", os autores oferecem a exegese de secc6es
importantes desses esciitos, elaborando urna teología paulina ou bíblica;
isto vem suprlr, em parte, a falta de comentarlos científicos do Novo Tes
tamento no Brasil. Nao se pode deixar de mencionar as 26 fotografías
Ilustrativas que a obra reproduz esparsas entre os seus tratados.
Fazemos votos para que se complete sem demora a publIcagSo da
coletanea, para que possa servir aos nossos estudantes de teología e aos
lelgos de cultura em nosso Brasil.
Por tras das palavias, por Carlos Mesters. Vot. I: Um estudo sobre
a porta de entrada no mundo da Biblia. PublicagSes CID : Exegese/T.
— Ed. Vozes, Petrópolis 1974, 137 x 210 mm, 257 pp.
O autor jé é muüo conhecido no Brasil por suas numerosas obras
de introducáo e de exegsse bíblicas. Desta vez, apresenta-nos urna Intro-
ducSo á leiiura da Biblia de caráter popular. Freí Carlos tem-se esmerado
no apostolado bíblico entre a gente simples; para tanto, procura usar lin-
guagem extremamente clara e cha; embora Mesters possua notável eru-
dicáo, nSo faz ostentagáo da mesma, mas Ilmita-se a expor as conclusSes
que decorrem de estudos profundos; assim a sua.obra se torna acesslvel
a vasto circulo de leüores, principalmente aos que desejam comecar a
familiarIzar-se com as Escrituras Sagradas.

«. 460 «s.
A tarefa que Prei Carlos Mesters vem desenvolvendo, atende a real
necessidade da pastoral bíblica. Varias das imagens e comparares que
usa, sio feüzes e .vivazes, contribuindo .para ¡luminar poderosamente o
espirito dos leitores (tenha-se em vista, por exemplo o c. 9, com o titulo
"Quatro comparacóes", pp. 231-235). .Todavía pode-se. perguntar se nSo
exagera um tanto, preocupando-se demais com determinada forma de
vulgarizacáo da Biblia, que diminuí ou silencia notávels riquezas .esplri-
tuals do texto bíblico; o autor tem em vista quase exclusivamente certos
anselos do homem . de hoje, mas nem sempre realca suficientemente o
que o texto bíblico quer dlzer em si mesmo ou em.toda a sua profundl-
dade e amplidao. ■
é esta ob&ervacSo de base que desojamos propor ao autor; nao
Ihe seria possível (mesmo dentro da perspectiva de vulgarlzacio) colocar
em seus llvros um pouco mate de teología bíblica ou desenvolver certos
temas segundo todos os aspectos doutrlnals com que a Biblia os prop8e?

As faces do sofrimento, por Roque Schnelder. ColegSo "Evangelho


e VIda-2". Ed. Paulinas,: Sao Paulo 1974, 110 x 180 mm, 91 pp.
Quem fala em sofrimentoi toca urna tecla que todo homem senté
vibrar dentro de si, pois n5o há quem nio carregue a sua cruz, é pre
cisamente em vista disto que Roque Schnelder, autor de varios opúsculos
de espiritualidade, apresenta ao nosso público este precioso volume.
Encara as diversas facetas do sofrimento (a. da doenca física, a da dor
moral...), procurando mostrar que a configuracSo a.Cristo padecente é
penhor de partlcipacSo na ressurrelgáo e na 'gloria do mesmo Jesús
Cristo. O volume se inicia com, as seguintes palavras:
"Dedico este livro a< todos os coráceas sofridos que ainda nio des-
cobrlram o sentido profundo do sofrimento... .Estamos todos no mesmo
barco um pouco avariado, singrando pelo mar tempestuoso da vida...
Companheiros .de jornada, de idea!, colegas dé alegrias <e tribulacSes,
escutem bem : Deus dá as cruzes e os ombos também. E até hoje no
mundo ninguém como Ele foi tSo eximio e genial ¡na arte das propor-

O fecho do llvro menciona o seguinte episodio: "Certa ocasISo,


alguém confidenciou ao grande músico Hayden: "Mestre, multos crillcam
a sua música de Igreja, por ser alegre e festiva1. — 'NSo tenho outra
salda, repllcou Hayden. O pensamento de Deus, no meu coracSo, suscita
urna alegría Infinita, que n8o sel esconder1" (p. 87).
É entre estes tópicos que o autor desenvolve suas 'simples e pro
fundas reflexdes sobre o sofrimento. Possa o- llvro levantar o ánimo de
muitos IrmSos que, talvez sem motivo decisivo, se sentem prostrados 1

A formacáo da comunidade de jovens, pelo Pe. Lacerda S. J. Cole


gio "Juventude e Cresclmento na fé" n<? 2. — Ed. Paulinas, Sfio Paulo
1974, 110 x 190 ■rom, 299 pp.
O Pe. Milton Paulo de Lacerda S. J. é o coordenador da Pastoral
de Juventude da diocese de Santos (SP), já tendo mais de oito anos de
experiencias e pesquisas neste setor. O presente livro vem a ser a con-
(Continua na pág. 426)
• • •

(ContlnuacSo da 4? capa)

Eu nao sabia, ó nao, que eras Tu.


— Eu te perdoo, disse Ele, mas a gloria de servir-me
Nao poderá tocar a ti.
Deixando de fazé-lo a um dos meus,
Deixaste de fazé-lo a Mim'".
R. p. Yubero
o cristo desconheddo
Há tempos li famoso poema Inglés cuja essénda desejo
transcrever: ' . • •
"A aldeía estava em festa. Naquele día o Mestre la vlsl-
tá-la e se hospedaría em urna casa, nlnguém sabia qual.
<Oh, se viesse ter aquí em casa 1', dízia consigo mesma
urna mulher. E redobrava os seus esforcos para ¡impar, arru
mar e embelezar todos os recantos do seu lar. Quena pre-
pará-lo para receber o Senhor com toda a dignidade.
Bateram á porta. Emocáo I Seria Ele? NSo; era urna.
pobre vizinha atribulada qué a procurava em busca de consolo.
'Nao te posso atender hoje, respondeu a dona de casa.
Tenho coisas mais importantes, que absorvem a mínha
atencáo'. ;
A mulher desolada foi-se. Dentro em pouco bateu a porta
um anciáo magro, fraco e coxo.
'Permita-me que pare aqui um pouco e descanse, disse
o desconheddo. Caminhei a manhá inteira; agora estou com
fome e sinto-me cansado'. /—
'Lamento, mas hoje nao te posso acolher', respondeu a
piedosa senhora.
Depois destas Ínterinpedes, ela retomou seu trabalho com
mais afinco. Tornava-se tarde. O Mestre podia chegar a qual-
quer instante.
Bateram pela terceira vez. Era entáo um menino de sem
blante terno e formoso. Notava-se que tinha chorado. Tra-
java roupa velha e andava descaigo. A quanto parecía, tinha
caido; aínda se via sangue em seus dedos.
'Pobrezinhol, exclamou a mulher. Sinto que venhas neste
momento: Se fosse outro dial1 O menino entao olhou-a supli
cante por uns segundos. E logo desapareceu.
A tarde se adiantava. Era quase noite. O Mestre teria
ido para outra casa? Contado a mulher contirtuava espe
rando e rezando. Fez-se meia-noite e o Mestre n3o viera.
Todo o seu trabalho havia sido váo!
De repente apareceu o Mestre. Seu semblante era nobre;
seu olhar, serio... Assim falou Ele á dona de casa:

'Tres vezes hoje batí á tua porta


Implorando socorro e compaixao,
E tres vezes Me despachaste,
Sem me dar auxilio, sem caridade.
Perdeste hoje a béncao que Eu te trazia;
A oportunidade de servir-Me esvaiu-se.
— Senhor, Senhor meu, perdáo!
(Continua na 3? capa)