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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).
Esta necessidade de darmos
conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda queslóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.


Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
i
índice
¿ti——* pág-
PARA VOCÉ, QUEM É JESÚS CRISTO ? 281
Paradoxo do nosso lempo :
OS SEQÜESTROS : DESAFIO A SOCIEDADE 283
Em plena época de ecumenismo:
E AS ORDENACOES ANGLICANAS ? 294
Filme viólenlo:
GIORDANO BRUNO NA HISTORIA E NO CINEMA
A INQUISICAO 302
Em fase de transigao:
O CANTO NA IGREJA 317
LIVROS EM ESTANTE 327

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO :

Católicos e judeus em diálogo. — Neurose e santidade


se conjugam ? — Os Santos através da graiologia. — Ainda
a Maconaria.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatural anual Cr$ 50-00


Número avulso de qualquer mes Cr$ 5>0l)
Volume encadernado de 1974 CrS 70,00
índice Geral de 1957 a 1964 Cr$ 10,00

EDITORA LAUDES S. A.
DE PR ADMINISTBAgAO

^"S
20.000 Rio de Janeiro (GB)
STXSAl
SS.TSXSAlgS
Tels.: 268-9981 e 288-2796

No Rio, a Rúa Real Grandeza, 108, a Ir. María Rosa Porto


tem um depósito de PR e recebe pedidos de assinatura da
revista. Tel.: 226-1822.
PARA VOCÉ, QUEM É JESÚS CRISTO?
Esta pergunta, análoga a que o próprio Jesús dirigiu aos
seus discípulos (cf. Mt 16, 13), continua a ressoar através dos
sáculos. Jesús Cristo é sempre ponto de convergencia e diver
gencia dos homens.

Recentemente a revista «Fétes et Saisons» realizou entre


personalidades do público francés um inquérito com o titulo
ácima. Da grande coletánea de respostas assim obtidas apraz-
-nos destacar aqui a do Pe. R. L. Bruckberger, dominicano,
que testemunhou a partir da sua experiencia de vida ilumi
nada por profunda fé:

"Os homens colocam número ao lado de número. Nao


sabem que estáo sendo observados. Contam. Contam o di-
nheiro, as medalhas de condecorares, os votos de urna
eleicao, contam os clientes, contam os homens, as mulheres,
os prlsloneiros, os carnelros, os cávalos de corrida... Depols
repentinamente urna mao se coloca sobré o seu ombro. 'Um
outro te pede a tua alma 1*

Eu sei quem é que me pede de volta a mlnha alma, é


aquele mesmo que me ensinou que eu tenho urna alma. Eu
sou o homem desse homem (Jesús Cristo). Desprezo na minha
vida e no meu ser tudo o que nio venha dEle ou nao volte
para Ele.
Todas as outras formas de (idelidade que a vida me
Impds ou que eu assumi por mlm, desojo que estejam todas,
contídas nessa fidelidade fundamental, ou, se n3o for posslvel,
sejam amputadas. Eu nio saberla ser o homem de quem quer
que seja ou do que quer que seja: fosse amigo, fosse mulher,
fosse professor,... fosse partido. Todo vínculo que Ele con
sagra, me liberta; todo vínculo que Ele reprova, é para mim
urna cadeia.

Já há perto de dois mil anos que Ele viveu. E, apesar


disto, Ele me está presente constantemente, com urna presenca
total, envolvente, íntima. Jamáis estou vazio dessa presenca.
Pensó nela tanto ao me escovar os dentes quanto no interior
de um trem ou de urna igreja.
Mas, ao invés, eu nunca sonho com Ele; nunca. Ele é o
contrario do sonho. E, mesmo quando fago o que Ele reprova,
fico debaixo do olhar dEle: 'Contra TI é que pequel, e diante
de Ti é que cometí o mal' diz o salmo.

— 281 —
Campos de batalha, prisdes, hospitals... Ele eslava ali.
Ele está ali sempre, mesmo quando tudo e todos debandam
em tomo de mlm.
Será que o meu passado, a minha educacáo, a minha
moral, a minha cultura, a minha língua, será que isso tudo
ainda está adaptado aos tempos que vém ? Estamos nos no
flm de um mundo, no limiar de um caos ? Esse barulho con
fuso que percebemos, será o avanco dos bárbaros dispostos
a quebrar tudo, ou será o primeiro indicio de urna nova cons-
trucáo mala bela ? Em última análise, essas coisas para mim
slo indiferentes.
Urna so certeza tenho eu. Ele estava conosco ontem;
Ele estará conosco amarina. Imprevisivel, mas fiel. E nos
todos seremos Julgados na base do amor, do amor dEle. Que
sorte grande! Será esta a única verdadeira sorte. Sim. O
amor falsifica sempre a balanca. Tudo me condena; mas
será grecas ao falso peso do amor que eu passarei através
da balanca".
Este notável depoimento merece ser lido e relido... Seja
licito destacar algumas de suas notas mais marcantes:

Jesús Cristo é o Eterna Presente, cuja presenga nunca


falta aos homens, estejam em campos de batalha, em prisoes,
hospitais... Tudo o que seja feito com Ele, é libertagao e
vida; tudo o que nao seja sancionado por Ele, é agrilhoamento
e sufocagáo. Vivendo com Ele, os homens encontram a cora-
eem necessária para enfrentar o futuro, qualquer que seja.
Concebem confianca mesmo diante da própria morte. Esta
deixa de aparecer como ruptura e fim, para apresentar-se como
oassagem para a plenitude da vida. £ o encontró final com
Cristo, sem véus nem sombras... Com Cristo que julgara os
homens na base do amor, nao amor deles (geralmente osci
lante e tenue), mas amor dEle, que pode dar á minha pobre
vida um prego gratuito.
Esta figura de Cristo colocada no limiar de mais um
número de PR contribuirá para que o leitor percorra com olhar
sereno e confiante as facetas da vida de hoje abordadas por
este fascículo: seqüestros e escala de valores, cinematografía e
influencia sobre as massas, arte sacra e arte profana, ecume-
nismo ou volta dos irmáos separados á unidade...
Que Ele seja a Fonte de luz e ánimo, para que os cris-
táos, refetindo sobre os desafios dos tempos, lhes respondam
á altura do seu Divino Mestre!
£. B.

— 282 —
-PERPUNTE
i>. «r. <*. -
E RESPONDEREMOS»
Ano XVI — N' 187 — Julho de 1975
íNTil vi.

Paradoxo do posso tempo:


■i«i H *1

os seqüestros: desafio á sociedade


Em síntese: A onda de seqüestros tem tomado proporcoes cada vez
mals vultosas, com singulares requintes de malicia e crueldade no mundo
Inteiro. Alguns dados concernientes á Italia ilustram de manelra viva esta
aflrmacao, visto que lá até as criancas tem sido vltlmas de raptos.

A opinifio pública em geral tem-se preocupado com tfio estranho


fenómeno, cuja índole bárbara faz contraste com os slnals de evolucfio
humanitaria e social de nossos dias {tenha-se em vista, por exemplo, a De-
claracSo Universal dos Direltos do Homem promulgada pela ONU em 1948).

Para conter a onda de seqüestros, os governantes dos povos tém


pensado em medidas represslvas de índole jurídica e policial. Estas sao
oportunas e útels, mas nao tocam as ralzes do problema, é necessárlo
que as raízes sejam postas á tona.

Ora o mal dos crlmes contemporáneos parece nao ser senfio decor-
réncla de um "mal obscuro" de que padece a sociedade de consumo ou
do "bem-estar": ó o mal do culto ao dlnhelro, ao prestigio-poder e ao
próprio "eu". Quem admite o dinhelro como o valor externo mals alme-
|ável, nfio recusará sacrificar o seu semelhante á posse de mals dinhelro
que venha satlsfazer ao próprio "eu".

Em contraposlcáo a esta sltuacSo mórbida, exlstem os valores evan


gélicos, que já salvaram da barbarle o mundo greco-romano e podem de
novo libertar os homens atordoados em nossos dias. O Evangelho apregoa:
1) o primado do ser sobre o ter; 2) a dlgnldade Inconfundlvel da pessoa
humana; 3) o primado do espiritual sobre o material; 4) a manlfestacSo,
por excelencia, do espiritual na face e na obra do Cristo Jesús.

Os homens de hoje, embora parecam alhelos a tais valores, tam-


bém demonstram anselos pelos mesmos ou por um mundo mals fraterno e
humano. Isto bem se compreende, pols, desde a encarnacSo do Filho de
Deus no seio da Vlrgem, se pode dlzer que toda a natureza humana fot
penetrada pela graca de Cristo ou por fermentos de vida auténtica e de
genuino amor; em todo homem (mesmo ateu e pagfio) existe a presenca
atuante do Filho de Deus que, ao fazer-se homem, assumlu em si todo e
qualquer homem. — é a conviccáo disto que leva a Igreja e seus fllhos a
nSo cessar de apregoar corajosamente a mensagem do Evangelho em sua
plenltude.
• • •

— 283 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 187/1975

Comentario: Nao é raro dar-nos a imprensa a noticia de


seqüestros ou raptos, que envolvem urna familia, um povo ou
mesmo os interesses da humanidade inteira. Dir-se-ia que os
autores dessas faganhas sao cada vez mais requintados, de
modo a desafiar de novas e novas formas a agáo dos que dese-
jam defender e promover o bem público.

Muito já se tem escrito sobre o assunto. Talvez, porém,


nao se tenha ainda atingido o ámago do problema que táo
estranho fenómeno representa. É, pois, á procura de um enfo
que mais profundo e eficaz do problema dos seqüestros que
dedicaremos as reflexóes seguintes.

Antes do mais, abordaremos em termos sumarios a ques-


táo colocada, para, depois, a procurar compreender e elucidar
devidamente.

1. O problema

1. O homem do séc. XX ufana-se do grau de civilizagáo


a que chegou, e considera com superioridade as épocas pas-
sadas marcadas nao somente pelo atraso científico-técnico, mas
também pela barbarie de costumes. Em nosso século a Orga-
nizagáo das Nagóes Unidas elaborou a Deciaragáo dos Direitos
do Homem e a opiniáo pública mundial parece sensibilizar-se
(ao menos teóricamente) pelo respeito á dignidade da pessoa
humana. Aboliu-se a escravatura em quase todas as nagóes
(ao menos, o tipo clássico de escravatura); existem leis inter-
nacionais para proteger os prisioneiros de guerra, as tfopula-
góes civis de urna nagáo beligerante, as instituigóes da Cruz-
-Vermelha; existem salario-familia, ferias remuneradas, apo-
sentadorias...

Nao obstante, se se Ievam em conta certos fatos ocor-


rentes em nossos dias, parece que a humanidade contemporá
nea vive urna fase paradoxal; nao poucos desses fatos, cruéis
e ferozes como sao, nada deixam a desejar em confronto com
as faganhas de passadas épocas obscurantistas. Ao contrario,
os requintes que a ciencia e a técnica dos nossos tempos ofere-
cem, sao nao raro colocados a servigo do mal, comunicando
assim novo colorido de barbarie a graves acontedmentos.

A fim de avivar melhor no estudioso a consciéncia do pro


blema, podem-se citar alguns dados referentes 'á Italia, onde
os seqüestros se tem realizado com especial argucia.

— 284 —
O DESAFIO DOS SEQÜESTROS

Até 1970 os seqüestros se verificavam na Italia, em regióes


bem definidas como as ilhas da Sicilia e da Sardenha. Da-
quele ano em diante, eles vém-se verificando no próprio con
tinente, tomando mesmo seu cenário mais importante no norte
da península itálica (Miláo), em regiáo altamente civilizada —
o que significa nova forma de acinte á sociedade.

As técnicas de rapto postas em prática pelos bandidos da


Sardenha eram primitivas, pois as próprias regióes montanho-
sas da Sardenha e da Sicilia ofereciam mil esconderlos aos
malfeitores que tivessem raptado um rico proprietário do lu
gar. Ao contrario, seqüestrar um homem numa grande cidade
como Miláo, manté-lo prisioneiro durante meses e conseguir
receber o resgate, sem cair ñas máos da policía, já nao é pos-
sível sem organizagáo complexa de rapto altamente aperfei-
goada. Foi o que deu origem a verdadeira industria de seqües
tros de pessoas.

Observe-se também que os casos de rapto verificados em


1970 foram nove, ao passo que em 1974 chegaram a quarenta.
O motivo desta ascensáo é compreensivel. A prática revelou
que, de todas as industrias de crime, a menos perigosa e a
mais rendosa ainda é a dos seqüestros. Com efeito, os aten
tados armados a Bancos se tornaram mais difíceis e perigosos,
dado o policiamento reforgado de tais instituigóes. Além disto,
verifica-se que um só seqüestro bem sucedido (com resgate
que pode subir a quantias vertiginosas) é muito mais produ-
tivo do que varios assaltos a Bancos ou lojas.

Juntamente com a quantidade, também o tipo de seqües


tros merece atengáo, pois vai assumindo índole sempre mais
brutal; sim, em muitos casos as vítimas de seqüestros nao sao
adultos maduros, mas meninos, como Daniele Alemagna (de
sete anos de idade), meninas, como Nicoletta di Nardi (onze
anos), jovens de vinte e poucos anos como Daría Melloni.

Tais fatos tém movido a opiniáo pública nao só na Italia,


como também no mundo inteiro, pois varios países tém sido
cenário de um ou mais casos célebres de seqüestros, que dei-
xam margem a serias preocupagóes: seja lícito mencionar a
Argentina, o Uruguai, os Estados Unidos da América, a Amé
rica Central, a Franga, e o próprio Brasil...
O S. Padre Paulo VI se tem pronunciado repetidamente
sobre o assunto. Eis urna das últimas noticias a respeito:

— 285 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

"O Papa Paulo VI declarou-se 'alarmado' diante da 'Impresslonante


escalada da crlmlnalldade e da Intolerancia na Italia' e denunciou a 'atmos
fera de terrorismo que quer-se Introduztr ató ñas escolas', além da 'exlbl-
gáo descarada da corrupcSo moral'.

A Intervencflo do Papa foi felta 48 horas depols que o Secretarlo


do Partido Demócrata Crlstfio, Amlntore Fanfani, apresentou ampio pro
grama para superar a onda de dellnqüéncla e violencia política que atinge
atualmente a Italia. O programa, no entanto, foi alvo de criticas dos comu
nistas e socialistas de esquerda.

Ao receber os milhares de peregrinos que comecam a chegar a


Roma para o Ano Santo, Paulo VI lancou um apelo a todas as 'forcas
sadlas' para que 'atuem em massa' com o objetivo de modificar o presente
quadro do país, de modo que os visitantes encontrem 'um sentido profundo
de familia' e de 'generosa hospitalidade'.

O Papa acentuou que se refería a esse problema nao apenas por


suas conseqüencias negativas sobre o Ano Santo, mas tambóm por sua
repercussSo na seguranca dos cidadáos" (Boletlm "Ecclesla" n? 369,
24/1/75, p. 6).

Refletindo sobre a atual onda de seqüestros, os jornalistas


e pensadores apontam a necessidade de combater a crescente
onda de tais crimes. Para tanto, preconizam-se novas leis,
novas atitudes da policía, a introducto da pena de morte onde
ela nao existe, etc. Todos estes antídotos ao mal podem ter
eficacia e, em parte, já demonstraran! ter seu mérito na defesa
da ordem pública e do bem comum. Todavia nao se poderia
crer que sejam suficientes para coibir decisivamente a deplo-
rável onda de seqüestros; os diques podem conter as vagas,
mas nao extinguem o nascedouro das mesmas, nem impedem
a formagáo de novas correntes de pressáo. É por isto que,
diante da situacáo criada pelos raptos de pessoas, somos inci
tados a procurar quais as raízes mais profundas que inspiram
e sustentam táo hediondas facanhas e como lhes opor o autén
tico ou mais fundamental remedio.

2. Os principios do mal

Na verdade, pode-se dizer que a presente onda de seqües


tros nao é senáo a expressáo de um mal obscuro e subjacente
a estas e outras aberragóes da sociedade contemporánea, socie-
dade que, ao mesmo tempo, tem seus inegáveis valores.

E esse mal obscuro e subjacente tem tres facetas que se


concatenam lógicamente entre si:

— 286 —
O DESAFIO DOS SEQÜESTROS

2.1. O imperio do dinheiro

Nao se pode negar que vivemos na sociedade do consumo


e do bem-estar, na qual o dinheiro é o grande inspirador e
movente dos empreendimentos mais marcantes. É do «ter»
que os homens esperam a felicidade; e, em particular,... do
ter dinheiro, pois quem tem dinheiro encontra acesso a tudo
mais:... nao só a geladeira, televisáo a cores, carro, casa de
campo, viagens ao estrangeiro, mas também... ao dominio,
ao poder sobre os outros, ao éxito em multas iniciativas, á
«carreira», etc. — Em vista do «ter mais» sacriflca-se n§o
somente o «ser mais», mas também o próprio ser. Multas pes-
soas, para ter mais, vendem o seu ser (= o ser digno, o ser
honesto, o ser leal, o ser homem), perdendo honra, nome e
qualificaeáo humana. Sobre o ser aviitado ou desfigurado colo-
cam-se as máscaras da ostentacáo, do prestigio, da «posigáo»,
que o ter pode proporcionar aos seus clientes.

É, pois, o ter e o ter dinheiro o primeiro idolo da socie


dade de consumo.

2.2. A exaltascío do poder

Verifica-se também o culto ao dominio e á forca, por ve-


zes mesmo violenta. Entre os predicados mais apregoados para
o homem de nossos tempos, estáo a eficiencia e a racionali-
dade frías. Conseqüentemente, os tipos jovens, belos, fortes,
atiyos e eficazes sao preferidos aos fracos, doentes, excepcio-
nais e andaos. Desta tendencia compreende-se que se origi-
nem em nossa sociedade grupos destituidos de compalxáo e
coraeáo, movidos principalmente pelo cálculo, o interesse ma
quiavélico e a violencia desnaturada, que arrisca tudo para
atingir suas metas prepotentes.

2.3. Amor ao próprio «eu»

A corrida ao dinheiro e ao poder excita e alimenta o


egoísmo inato em todo o homem. Diante de assunto de inte
resse comum entra freqüentemente em jogo nao o desejo de
promover o bem coletivo, mas, sim, o individualismo e a pro
cura da mais gorda fatia para cada um; é o egoismo que
entáo prepondera. Muitos sao, em conseqüéncia, levados a ver
no seu semelhante um rival, um adversario real ou, ao menos,
potencial, e nao um companheiro de jornada.

— 287 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 187/1975

Assim é que se terá urna sociedade em conflito, dividida


por interesses contrastantes, sulcada por rancores e odios pro
fundos, na qual a «morte» de um é condigáo para a «vida» do
outro.

Dinheiro, poder e egoísmo! Parecem ser estes os tres


ídolos dos nossos tempos, ídolos que fascinam, consciente ou
inconscientemente, muitos dos mentores da sociedade. Nao é,
pois, para surpreender o fato de que em nossos dias a onda
de crimes se propague cada vez mais, atingindo mesmo for
mas ferozes e repugnantes, como sao os seqüestros de pes-
soas, principalmente de criancas! Com efeito; o crime é con-
seqüéncia lógica, desde que se atribua ao dinheiro o valor
supremo e se considere a violencia como prerrogativa do
homem forte, interessado apenas pelo próprio eu- Neste con
texto de idéias, compreende-se que, se os seqüestros sao a
forma mais eficaz e rendosa de obter dinheiro, os seqüestros
seráo também o instrumental mais freqüentemente aplicado.
Pensará talvez o homem desvairado: «O ser humano — prin
cipalmente a crianza, o filho do outro — vale muito pouco
em comparagáo ao dinheiro ou a centenas de milhares de
dólares que entrevejo através das peripecias de urna faganha
habilidosa». Que importa a vida de um homem diante da pers
pectiva das vantagens que a riqueza pode proporcionar a um
espertalháo ou a um grupo de espertalhóes?

Donde se vé que a criminalidade é um subproduto muito


lógico ou um filho normal da sociedade que se deixe guiar
pelos criterios do dinheiro, do poder e do egoísmo. Ora é jus
tamente essa lógica que deve levar a refletir profundamente.
Já nao se pode tratar apenas de denunciar a onda de males
que afligem a sociedade, nem de lhes procurar «remedios»
repressivos, policiais ou jurídicos (os quais vém a ser táo
somente paliativos), mas trata-se, sim, de realizar urna pro
funda revisáo daquela escala de valores que, consciente ou
inconscientemente, é o substrato das desgragas da sociedade
de consumo ou «do bem-estar». Em outras palavras: chegou
o momento de se conscientizarem os homens de que a crise
de nossos dias nao é somente política, social ou económica,
mas urna crise moral, crise de valores e de objetivos.

Por conseguinte, quem deseje colaborar para reerguer a


sociedade contemporánea ou, ao menos, para aliviá-la de seus
males, deve, antes do mais, dispor-se a abater os ídolos que
a devoram. A tarefa, á primeira vista, é difícil, se nao deses-

— 288 —
O DESAFIO DOS SEQÜESTROS

peradora, pois a sociedade do bem-estar, por todo o seu teor


de vida, tende a agucar as paixóes que mais fortemente arrai
gadas estáo em todo homem: a procura egoística de si mesmo,
a sede de dinheiro e poder, o espirito de agressividade e domi-
nagáo. As dificuldades, porém, nao devem desencorajar o pen
sador sensato, principalmente o cristáo; este, ao contrario,
diante da evidencia clamorosa dos fatos, há de se sentir ainda
mais incitado a procurar responder a tais fatos, propondo
mais uma vez a seus irmáos os únicos valores que, em última
análise, podem dar fundamento seguro á vida civil de um
povo.

E quais seriam tais valores?

3. A revisóo de valores

Os valores que o cristáo tem a apresentar aos seus seme-


lhantes na crise contemporánea, sao os do próprio Evange-
Iho — antigos, mas sempre novos. Talvez a amargura resul
tante do esquecimento de tais valores concorra para que o
homem moderno os reconsidere com olhar mais objetivo e
maduro, apto a descobrir toda a riqueza que eles encerram.
Passemos a enumerar os que no momento sao mais prementes:

3.1. O primado do «ser» sobre o «ter»

Alguém pode ter riqueza, prestigio e posicjio, mas nao


ser homem no sentido nobre ¿esta palavra; é, antes, fera ou
monstro. Ora a verdadeira grandeza do homem está em cul
tivar os valores típicamente humanos, que sao intrínsecos ou
inerentes ao próprio homem, e nao extrínsecos: o amor á ver-
dade, ao bem, ao genuino amor, a lealdade, a honradez, a
coeréncia, a coragem de atitudes... Sao esses valores que
fazem a dignidade humana; constroem a personalidade de
quem os cultiva e lhe conferem uma capacidade de irradiagáo
discreta, mas penetrante e singular.

A primeira tarefa de todo e qualquer homem é a de


desenvolver a si mesmo, fazendo desabrochar as virtualidades
latentes que nele existem desde o nascimento. Caso alguém
negligencie esta tarefa, poderá atingir elevada estatura física e

— 289 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 187/1975

altas posigóes económicas ou sociais, mas permanecerá «anáo»


por toda a vida (o anáo é alguém que tem idade adulta ou
provecta, mas s6 cresceu em anos, nao cresceu segundo as
suas virtualidades físicas). Se poucos sao os anóes no plano
físico ou corporal, é de crer (sem pessimismo nem juízo teme
rario) que muitos e muitos homens sejam anóes no plano da
sua personalidade embrionaria, nao desenvolvida, mas afaida
«amarrada»; e sao tais ou porque desviaram a sua atengáo
para tarefas menos importantes (como, por exemplo, a con
quista de bens materiais ou extrínsecos) ou porque se aco-
vardaram diante da ardua tarefa de fíxar principios e metas
para si e cultivar a coeréncia com esses objetivos. Quem ter
mina seus dias «anáo», deixou de fazer o que tinha de mais
importante na vida presente; perde algo que nenhum bem
extrínseco ao homem (dinheiro, prestigio, honrarías...) pode
substituir. Quem, ao contrario, luta, antes do mais, por se
desabrochar tenaz e corajosamente (ainda que tenha tido suas
pequeñas derrotas) viveu a sua vida e deu-lhe sentido, mesmo
que só haja conhecido simplicidade e modestia no plano mate
rial extrínseco.

3.2. A dlgnidade de todo homem

Quem tem (ou procura ter) a virilidade necessáría para


ser pessoa humana, sabe igualmente estimar a dignidade de
todo homem, de qualquer faixa social, económica ou etária
que seja. Reconhece que o que faz o valor dos seus seme-
lhantes nao sao os bens extrínsecos, mas, sim, a riqueza inte
rior que cada qual traz desabrochada ou latente em si.

Em suma, as consideracóes que sao aqui propostas, con-


vergem para um terceiro item, que as engloba:

3.3. O primado do espiritual sobre o material

O ser humano é de tal modo feito que nenhum dos bens


materiais lhe pode satisfazer adequadamente; tudo é pequeño
e exiguo demais para a mente humana, que aspira ao Bem,
e ao Bem sem fim. O dinheiro, a saúde, os prazeres, o pres
tigio ... que momentáneamente empolgam o ser humano, pas-
sam rápidamente, deixando o seu cliente sequioso de algo que
corresponda plenamente 'á sua insaciável sede de vida e de res-
posta as suas aspiragóes mais espontáneas. Ora esse Bem Infi-

— 290 —
O DESAFIO DOS SEQÜESTROS 11

nito existe. Nem poderia deixar de existir, pois, em caso con


trario, o homem seria a mais absurda e frustrada das cria
turas (cf. PR 118/1969, pp. 411-416). Esse Bem Infinito é
Deus. Por Ele feito, é para Ele que o homem aspira, ainda
que nao o conheca explícitamente ou mesmo o desdiga: «Tu
nos fizeste para Ti, Senhor, e inquieto é o nosso coragáo
enquanto nao repousa em Ti» (S. Agostinho). É, pois, em
fungáo de Deus que os demais bens tomam sentido; sao valio
sos na medida (e táo somente na medida...) em que possam
ser dirigidos para o Supremo Valor.

Foi a esta condusáo que chegaram numerosos pensadores


de todas as épocas da historia, muitos depois de haver pro
curado ardorosamente outra formulacáo do problema da feli-
cidade e da vida. É mais urna vez á mesma condusáo que
encaminham os fenómenos da sociedade contemporánea, extre
mamente conturbada por males internos.

Ora o Senhor Deus, ao qual todo homem aspira, reve-


lou-se de modo especial na face do Cristo Jesús e no Evange-
lho. Foi o Evangelho que levantou o mundo subjugado pelo
ceticismo, a decadencia dos costumes e a barbarie no fim da
historia do Imperio Romano. Afastando-se posteriormente do
Evangelho, o homem recaiu na idolatría, idolatría marcada
pela roupagem do séc. XX. Ora o mesmo Evangelho é pode
roso para reerguer a humanidade na crise atual.

3.4. A alegría do servido

A figura central do Evangelho é a do Cristo Jesús, que


veio para servir, e nao para ser servido (Me 10,45). Ele
mesmo ensinou que «há mais felicidade em dar do que em
receber» (At 20, 35). Em aparéncia, nao poderia haver propo-
sicóes mais paradoxais e desarrazoadas do que estas; acham-se
em contraste frontal com a filosofía do rapto e do crime. Po-
der-se-ia pensar que estejam fadadas a permanecer esteréis
no mundo de hoje.

Todavía deve-se afirmar com seguranza que as verdades


do Evangelho, apesar de tudo, encontram hoje ressonáncia
oculta, mas profunda, nos coragóes de muitos contemporáneos.
Sim; nao obstante o egoísmo, a cobiga de dinheiro e poder
reinantes, existe em numerosos povos de hoje a aspiragáo a

— 291 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

um mundo mais humano e fraterno,... o desejo de que ces-


sem as oposigóes, os conflitos, as guerras, e os homens pas-
sem a colaborar entre si para debelar os males que ameagam
a humanidade como tal: a fome, a doenga, o desabrigo, a
ignorancia, etc. Dáo testemunho disto os Congressos Interna-
cionais que últimamente tém sido realizados para estudar os
problemas da poluigáo dos ambientes, da alimentagáo mun
dial, da explosáo demográfica, do controle da natalidade, das
armas nucleares, etc.

A convicgáo desta verdade nos leva mesmo a desenvolver


essa posigáo otimista sob um título próprio:

4. A esperanza crista

Na realidade, o género humano, que labuta sob o pecado,


sentindo cada vez mais as tremendas conseqüéncias deste,
também é trabalhado em seu íntimo pela graga de Cristo e
pela agáo do Espirito Santo.

Esta afirmacáo decorre da consciéncia que o cristáo tem


do misterio da Encarnagáo e das profundas conseqüéncias
deste. Precisamente pela Encarnagáo Deus quis entrar na
historia, assumindo a condigáo humana com tudo que esta
comporta de grande c pequeño, de maravilhoso e horrendo;
Ele o quis nao para ser dominado e esmagado pelo peso do
pecado, como o foram os outros homens, mas para libertar
do pecado o homem e refazé-lo segundo a imagem do Criador.
Em Cristo Deus se fez Filho do Homem para que o homem se
tornasse filho de Deus, ou para que a miseria do homem se
tornasse portadora de um principio intimo de transfiguragáo.

Esta verdade pode ser ilustrada por urna proposigáo assaz


cara aos antigos escritores da Igreja. Diziam, sim, que na
humanidade de Cristo estava incorporado de maneira virtual
todo o género humano: «Erat in Christo Iesu omitís homo.
Estava presente em Cristo Jesús todo o género humano»
(S. Cirilo de Alexandria). O filho de Deus, assumindo urna
natureza humana individual, terá assumido a natureza hu
mana ou todo o género humano: «Naturam in se universae
carnis adsumpsit» (sentenga freqüente entre os Padres da
Igreja). A Encarnagáo do Filho teve o seu momento culmi
nante na morte e na ressurreigáo de Cristo. Ressuscitando,
porém, e subtraindo-nos a sua présenga visivel, Cristo nao se

1111
oqo
&*J¿* ■
O DESAFIO DOS SEQÜESTROS 13

afastou dos homens, mas, ao contrario, penetra até hoje todas


as geragóes humanas com a sua graca e com a agáo do Espi
rito Santo. A natureza de cada homem (pagáo, budista,
maometano, judeu, cristáo ou ateu) está prenhe da graga de
Cristo nela latente; esta vai atuando em todo homem como
um fermento, que é freqüentes vezes contraditado pelas forgas
da cobiga desregrada; em algumas épocas os elementos sufo-
cadores e deletérios parecem mesmo prevalecer sobre o fer
mento de Cristo (tal é possivelmente o tempo atual); nunca,
porém, conseguem extinguir a graga do Senhor existente em
todo homem; é o que se verifica também hoje, quando mesmo
dos ambientes -nao cristáos procede um clamor vivo em de
manda de um mundo mais humano e fraterno. É por influxo
da agáo de Cristo que os homens hoje procuram sacudir o
jugo do pecado e desejam, ainda que confusamente, a sal-
vagáo.

Em conseqüéncia, o cristáo tem certeza de que os valores


evangélicos, ainda que rejeitados ou contraditados por muitos
dos cidadáos de hoje, correspondem ao que há de melhor e
mais nobre no coragáo do homem, como também as aspira-
góes mais auténticas da humanidade contemporánea. Por isso
é que a Igreja e os discípulos de Cristo nao se devem cansar
de os propor aos homens de nossos tempos. Estes, pelo fato
mesmo de sentirem especialmente forte toda a amargura da
idolatría e do paganismo «civilizados», sao talvez em seu
intimo, mais do que nunca, abertos a receber a Palavra da
Verdade e da Vida!

A FÉ EM DEUS NAO FARÁ QUE TEUS DÍAS

SEJAM MAIS LONGOS, MAS, SIM, QUE TU AS

NOITES SEJAM MENOS ESCURAS.

— 293 —
Em plena época de ecumenismo:

e as ordenares anglicanas?

Em elntese: A aproxlmacáo, crescente nos últimos anos, de cató


licos e angllcanos parece depender, em grande parte, no seu futuro pró
ximo, da questSo segulnte: a Santa Sé (Roma) poderá vlr a reconhecer a
validado das ordenacfies sacerdotals e epfscopais anglicanas?

A reforma religiosa do sóc. XVI deu ocaslfio a que comecasse urna


nova hierarqula de blspos e presbíteros na Inglaterra a partir da pessoa de
Mateus Parker; é a hlerarquia da ComunhSo Angtlcana, também dita "Igreja
eplscopaliana". Mateus Parker fol sagrado blspo aos 17/XII/1559 pelo blspo
Barlow, cuja ordenacáo episcopal era válida. Todavía o Ritual adotado para
a ordenacáo de Mateus Parker era o "Ordinal" de Eduardo VI; ñas suas
fórmulas sacramentáis, nao indlcava que se tratava de ordenar presbíteros
e bispos dotados da faculdade de consagrar a Eucaristía e oferecer o
S. Sacrificio da Mlssa. Por conseguíate, urna nova concepcáo de sacer
docio inspirava o Ritual de Eduardo VI e havia de repercutir no significado
e no valor das ordenacoes realizadas segundo esse "Ordinal".

O Papa Leáo XIII em 13/IX/1896, tendo mandado estudar rigorosa


mente os fatos históricos, publlcou a bula "Apóstol Icae Cu rae", em que
declarava pesarosamente nao poder reconhecer a validado das ordenacóes
anglicanas, principalmente por levar em conta a Insuficiencia do Ritual de
Eduardo VI. Pergunta-se hoje se tal bula equivale a urna deflnlcSo Irrevo-
gável, de modo que seja a última e decisiva palavra da S. Sé sobre o
assunto. Ou pode-se crer que nfio se trate de documento definitivo, e,
sim, de urna declaracáo disciplinar, sujelta a ser reexaminada oportuna
mente?

Comentario: O movimento ecuménico tem feito notáveis


progressos após o Concilio do Vaticano II. As conversacóes
entre católicos e luteranos, católicos e anglicanos tém tido
resultados alvissareiros. A Comunháo Anglicana (também dita
«episcopaliana») é, no Ocidente, a que mais se aproxima do
Catolicismo. Últimamente comissóes de teólogos católicos e
anglicanos estudaram a teología da Eucaristía e a dos minis
terios, chegando a elaborar dois documentos assinados por am
bas as partes, através dos quais se depreende convergencia
de pensamento frente a esses dois temas.

Acontece, porém, que um dos obstáculos tidos como mais


serios ao diálogo católico-anglicano é urna questáo de fato ou
de realidade histórica, a saber: os anglicanos afirmam ter

— 294 —
E AS ORDENACOES ANGLICANAS ? 15

conservado ininterruptamente até hoje a sua serle de bispos


legítimos, procedentes dos Apostólos e do próprio Cristo; neste
ponto assemelhar-se-iam aos cristáos orientáis cismáticos. Tal
tese nunca foi reconhecida pela Santa Sé (Roma). Contudo
hoje em dia pergunta-se se a Sé de Roma nao poderla tomar
atitude diferente, facilitando assim aos irmáos da Inglaterra
separados a reconciliagáo com a Igreja Universal confiada a
Pedro e seus sucessores.

Já que a solucáo do problema depende de fatos históricos,


vamos sumariamente analisar tais fatos e averiguar como de-
ram fundamento á posicáo negativa dos teólogos.

1. Urna serie de acontecimentos

Sabe-se que o rei Henrique VIH da Inglaterra, diante da


recusa do Papa Clemente VÓ alheio a reconhecer a pretensa
nulidade de casamento do monarca com Catarina de Aragáo,
resolveu prodamar-se Chefe Supremo da Igreja na Inglaterra,
ato que o Parlamento confirmou em 1534. Separando-se da
Igreja universal, o soberano nao quis modificar o Credo e o
culto entáo vigentes no país.

O seu filho Eduardo VI (1547-1553), porém, sucedendo-


-lhe com nove anos de idade, possibilitou a Eduardo Seymour,
duque de Somerset, e a Crammer, arcebispo de Cantuária, a
introducáo das inovacóes protestantes na Inglaterra: livros de
doutrina e de oracáo portadores das idéias luteranas e calvi
nistas foram sendo preparados e propagados no reino. Dentre
estes interessa destacar um «Ordinal» ou um novo Ritual de
Ordenacóes sacerdotais, que, por ordem do governo civil, en-
trou em vigor em 1550 e foi em 1552 inserido, com algumas
mudanzas, no segundo «Prayer Book» (grande coletánea de
preces).

Durante o subseqüente reinado de María Tudor (1553-


-1558), verificou-se a reconciliagáo da Inglaterra com a Sé de
Roma e a volta aos livros litúrgicos antigos.

A restauracáo católica, porém, foi efémera, pois a rainha


Elisabete (1558-1603), subindo ao poder, implantou de ma-
neira definitiva doutrinas e práticas protestantes na Ingla
terra. Aos 28 de abril de 1559 o chamado «Ato de Uniformi-

_ 295 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

dade» impós a todo o reino o «Prayer Book» e o «Ordinal»


de Eduardo VI; no dia seguinte, 29 de abril, o «Ato de Supre
macía» conferia á rainha o título de «Moderadora Suprema
da Igreja da Inglaterra», exigindo de todos os cidadáos jura
mento de fidelidade á autoridade religiosa de Elisabete. Os
bispos se recusaram a prestar tal homenagem, exceto um só,
Kitchen, bispo de Llandaff, o qual, tendo dado resposta eva
siva, conseguiu conservar a sua sé, mas de entáo por diante
se absteve de qualquer funcáo episcopal; os demais pastores
diocesanos foram depostos e encarcerados. Assim é que no
inicio de 1559 nao restava na Igreja de Elisabete mais ne-
nhum bispo em atividade; era absolutamente necessário pro
ceder á criagáo de nova hierarquia.

Em vista disto, foi eleito arcebispo de Cantuária um


antigo capeláo da rainha, Mateus Parker, o qual recebeu e
ordenacáo episcopal aos 17 de dezembro de 1559, as 5 horas
da manhá, na cápela de Lambeth, segundo o «Ordinal» de
Eduardo VI. O sagrante foi um bispo deposto, que se quis
prestar a tal oficio: William Barlow, ex-titular da diocese de
Bath, sagrado aínda sob Henrique VIII; assistiam-lhe os bis
pos John Scory e Miles Coverdale, depostos das dioceses res
pectivamente de Chichester e Exeter (ambos sagrados segundo
o Ritual de Eduardo VI), e John Hodgkin, sufragáneo de Bed-
ford, ordenado segundo o antigo rito, ainda sob Henrique VIII.

A ordenacáo episcopal de Mateus Parker ficou muito tempo


envolvida em silencio, nao se sabe por que motivo. Isto deu
ocasiáo a que alguns autores negassem a realidade histórica
da mesma; outros forjaram a lenda do «Nag's Head» (cabega
de cávalo). Scory teria «ordenado» Parker, impondo-lhe urna
Biblia sobre a cabega e dizendo-lhe: «Recebe o poder de pre
gar a palavra de Deus em sua pureza»; está claro que tal
proceder jamáis poderia ser tido como ordenacáo episcopal.
Hoje em dia, porém, nao há historiador que negué a reali
dade da cerimónia de Lambeth.

De 21 de dezembro de 1559 a 1' de setembro de 1560, o


novo arcebispo de Cantuária, seguindo o rito de Eduardo VI,
ordenou treze bispos, os quais passaram a integrar a hierar
quia da Inglaterra. Esta, como se vé, foi reconstituida, depen
dente toda de Mateus Parker. O problema, portanto, consiste
agora em saber se Parker era realmente bispo, capaz de trans
mitir a ordem episcopal á hierarquia anglicana.

— 296 —
E AS ORDENACOES ANGLICANAS ? T7

Nos séc. XVII e XVm os teólogos católicos (aos quais se


associavam no caso os orientáis ortodoxos cismáticos) se mos-
traram contrarios a tal hipótese; era, por conseguinte, praxe
reordenar os ministros anglicanos que se convertessem ao Ca
tolicismo. No séc. XIX, em virtude da crescente aproximacáo
entre anglicanos e católicos, a questáo foi estudada de maneira
sistemática, ocasionando finalmente urna dedaracáo papal so*
bre o assunto, que será apresentada sob o titulo abaixo.

2. A bula «Apostolícae curae» de Leao XIII (13/IX/1896)

1. No séc. XDC, o chamado «Movimento de Oxford», favo-


recendo entre os anglicanos o estudo da Tradicáo crista, pro-
vocou numerosas conversóes á Santa Igreja. O resultado da
evolugáo do século foram as conversas entabuladas nos anos
de 1894/1896 no intuito de unir definitivamente católicos e
anglicanos; os pioneiros da aproximacáo eram, por parte da-
queles, o Pe. F. Portal, lazarista, e, por parte destes, Lord
Halifax, os quais tomaram como primeiro ponto dos seus estu-
dos a questáo das ordens sacras anglicanas. Percebia-se que
a volta dos irmáos anglicanos a Roma seria muito facilitada
se a Santa Sé um dia julgasse possível reconhecer a validade
das ordenagoes anglicanas.

Após a publicagáo de livros e artigos de varios teólogos


sobre o assunto, o Papa Leáo xm resolveu mandar estudar
exaustivamente a questáo; no inicio de 1896, portanto, nomeou
para isto urna comissáo internacional de teólogos, recrutada
dentre partidarios (tais eram Monsenhor Gasparri, Mons. Du-
chesne e o Pe. Augustinis) e adversarios (assim o Cardeal
Gasquet, o Cónego Moisés e o franciscano Flemming) das
ordenacóes anglicanas. Os arquivos do Vaticano foram postos
á disposigáo de tais estudiosos.

A comissáo se reuniu em doze sessóes de 24 de margo a


7 de maio de 1896; foi muito focalizado o aspecto histórico da
questáo, com a colaboracáo dos anglicanos Lacey e Puller,
que, especialmente convidados para residirem em Roma, apre-
sentaram toda a documentagáo que lhes parecía oportuna a
um estudo objetivo. Após analisar todas as pegas do arquivo
«pro» e «contra», e após comparar entre si as fórmulas de
ordenacáo dos varios grupos cristáos cismáticos, a comissáo
aos 8 de junho de 1896 apresentou suas conclusóes a urna

— 297 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

junta de Cardeais; estes, após um mes de ponderagáo, confir


maran* o resultado do minucioso inquérito, declarando que a
análise atenta dos documentos corroborara a sentenga ja pra-
ticamente adotada pela Igreja: as ordenagóes anglicanas de-
viam ser tidas realmente como nulas.

Diz-se que Leáo XIII esperava ardentemente poder dar aos


anglicanos urna resposta agradável, considerando suas ordena
góes ao menos como duvidosas, o que obrigaria os convertidos
a urna reordenagáo condicional apenas; esperava, se isto nao
lhe fosse possível, ao menos abster-se de algum pronuncia-
mentó sobre o assunto, a fim de nao melindrar os ánimos.
Verificou-se, porém, que os estudos previos haviam chamado
a atengáo do público a tal ponto que a observancia de silencio
por parte do Papa seria demasiado ambigua, capaz mesmo de
induzir em erro. Diante disto, Leáo XIII ainda dedicou tres
meses á reflexáo, após os quais publicou, aos 13 de setembro
de 1896, a bula «Apostolicae curae».

2. Qual o conteúdo desse documento?

No preámbulo, o Pontífice lembrava a simpatía que sem-


pre devotara aos movimentos de uniáo entre os cristáos; recor-
dava os esforgos que desempenhara nesse sentido, mediante a
carta «aos ingleses que procuram o Reino de Deus na unidade
da fé» (15 de abril de 1895) assim como mediante a epístola
dirigida ao mundo inteiro sobre as condigóes de unidade da
Igreja. Declarava, a seguir, haver sido movido pelas mais
benévolas disposigóes no estudo do assunto que Sua Santidade
passava a abordar.

O S. Padre expunha entáo as tres razóes pelas quais se


via obrigado a declarar nulas as ordenagóes anglicanas:

1) A praxe da Igreja: desde o séc. XVI a Santa Sé sem-


pre se recusara a reconhecer a validade do sacerdocio angli-
cano; ora «consuetudo óptima legum interpres» (o costume é
o melhor intérprete das leis).

2) A insuficiencia do rito: nos sacramentos os elementos


essenciais sao os sinais sensíveis chamados em linguagem teo
lógica «materia» e «forma». A materia é algo assaz indeter
minado, cujo sentido em cada sacramento é explicitado pela
forma ou pelas palavras que acompanham o uso da respectiva

— 298 —
E AS 0RDENAC6ES ANGLJCANAS ? 19

materia. Ora na Ordem a materia é a imposigáo das máos,


sinal que de maneira geral significa a comunicagáo de um dom
óu de urna graga; o «Ordinal» de Eduardo VI (segundo o qual
Mateus Parker foi sagrado) prescrevia como forma concomi
tante as palavras: «Accipe Spiritum Sanctum» (Recebe o Es
pirito Santo). Tal fórmula é assaz indeterminada, ficando
longe de indicar qualquer atividade específicamente sacerdotal;
e isto, porque os autores do «Ordinal» trataram propositada-
mente de remover do antigo Ritual todas as palavras que indi-
cavam os poderes sacerdotais e, em particular, o de consagrar
a Eucaristía e oferecer o S. Sacrificio da Missa (poder sacer
dotal por excelencia). Tal cancelamento de vocábulos nao era
senáo a expressáo da tese protestante segundo a qual a Euca
ristía nao é genuína ceia sacrifical.

Verdade é que os anglicanos de 1662 acrescentaram aos


vocábulos «Accipe Spiritum Sanctum» o complemento «ad of-
ficium et opus presbyteri» ou «episcopi» (isto é, para o encargo
e a atividade de presbítero ou de bispo). Este acréscimo, po-
rém, se fez tarde demais, quando haviam sido insuficientes ou
inválidas as ordenagóes realizadas durante um século; além do
que, as palavras complementares aínda nao especificavam os
poderes transmitidos pela imposigáo das máos. Donde se de-
preende, concluía o Pontífice Leáo XIII, a deficiencia do rito
ao qual Mateus Parker e em geral a hierarquia inglesa deviam
as suas «ordenagóes»; estas só podiam ser nulas.

3) A falta de inten$áo devida: sabe-se que, para a vali-


dade de qualquer sacramento, se requer, da parte do ministro,
a intencáo de fazer aquilo que faz a Igreja ou aquilo que faz
Cristo por meio da sua Igreja. Ora o «Ordinal» de Eduardo VI
se deve a retoques infligidos ao antigo Ritual justamente para
exprimir um designio diferente do da Igreja, ou seja, para
exprimir a intengáo de ordenar ministros que nao consagrem
a Eucaristía nem oferegam o Sacrificio da Missa. Disto se
segué que os anglicanos conceberam a intengáo de fazer coisa
diversa da que faz a Igreja; por conseguinte, nao administra-
ram o sacramento da Ordem.

Até Leáo Xm os teólogos perguntavam com certa insis


tencia se Barlow, o bispo sagrante de Mateus Parker (como
atrás foi dito), possuia de fato a ordem episcopal, de modo a
poder transmiti-la (caso preenchesse as exigencias de rito e
intengáo). A razáo de duvidar era o silencio dos documentos
da historia a respeito da ordenagáo de Barlow. Leáo XDI,

— 299 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

porém, já nao deu importancia a tal questáo, visto que o argu


mento do silencio era insuficiente para se concluir pela nega
tiva. Os teólogos contemporáneos nao tém dificuldade em ad
mitir haja sido Barlow auténtico bispo; a validade das orde-
nacóes que conferiu, depende, antes, do rito que ele aplicou e
da intencáo que ele concebeu.

Explanadas as razóes ácima, Leáo xm declarava final


mente «ordinationes ritu anglicano actas, irritas prorsus fuisse
et esse omninoque nullas» (... que as ordenagóes realizadas
segundo o rito anglicano foram e sao de todo inválidas e, sem
dúvida alguma, nulas).

A bula se encerrava com urna exortagáo paterna do Pon


tífice aos cristáos anglicanos, principalmente aos membros da
hierarquia, no sentido de voltarem ao aprisco do Bom Pastor.

Tal documentacáo era de enorme importancia para o que


dizia respeito á unidade de católicos e anglicanos. Punha termo
a dúvidas e também a certas esperanzas em torno do ponto
mais nevrálgico de toda a questáo. Aos 19 de feyereiro de
1897 os arcebispos anglicanos enviaram a todos os bispos cató
licos urna resposta á bula de Leáo XIII, tentando dissolver os
tres argumentos explanados pelo Pontífice; teve inicio assim
urna certa bibliografia de opúsculos e artigos atinentes ao caso,
bibliografía da qual um dos temas principáis hoje em dia é a
questáo: até que ponto deve a declaracáo de Leáo XHI ser
dita irreformável? Donde o novo parágrafo deste nosso estudo.

3. D«cloro$So infalível ou nao?

Como se compreende, a bula «Apostolicae curae» deu ori-


gem entre anglicanos e católicos a certo debate, no decorrer
do qual aqueles e alguns destes emitiram a opiniáo de que a
decisáo de Leáo XIII nao era definitiva. Foi o que suscitou
urna carta do mesmo Pontífice ao Cardeal Richard no dia 5
de novembro de 1896, carta em que Sua Santidade afirmava
a intengáo de dirimir a questáo: «Consilium fuit absolute iudi-
care penitusque dirimere. Idque sane perfecimus eo argumen-
torum pondere eaque formularum tum perspicuitate tum auc-
torítate ut sententiam Nostram... catholici... omnes omnino
deberent obsequio amplecti, tamquam perpetuo firmam, ratam,
irrevocabilem».

Em vista destes dizeres, muitos autores católicos julgaram


que a bula «Apostolicae curae» tinha índole de definicáo infa-

— 300 —
E AS ORDENACOES ANGLICANAS ? 21

livel, pois parecía animada pela intencáo de apontar um fato


cuja realidade é tal que afeta o dogma; sem dúvida, a afirma-
gáo de nulidade das ordenacóes anglicanas se prende ao con-
ceito teológico de sacerdocio e de sacrificio da Missa, conceito
que seria solapado, caso se admitisse a validade de tais orde-
nagóes. — Tais fatos dogmáticos, ensinam os teólogos, podem
ser objeto de definicóes infaliveis.
Eis, porém, que, reconsiderando o assunto, alguns autores
observam o seguinte: Leáo xm afirmou explícitamente no fim
da bula «Apostolicae curae» que tinha toda a questáo na conta
de um «caput disdplinae», um ponto de disciplina («idem caput
disciplinae, etsi iure iam definitum...»); por conseguirte, a
decisáo do Pontífice nao terá Índole dogmática, mas discipli
nar. Ora as medidas disciplinares dos Papas e das autoridades
da Igreja em geral costumam visar a determinadas circuns
tancias transitorias, podendo ser revogadas. Estaríamos assim
diante de urna nova interpretagáo do documento pontificio.
Talvez, porém, se possa dizer que esta outra sentenca nao
corresponde -á intencáo do Pontífice, pois o texto oficial da bula
«Apostolicae curae», como foi publicado no tomo 16 da cole-
gáo «Leonis xm Pontificis Maximi Acta» (Roma 1897), eli-
minou o vocábulo «disciplinae» na expressáo «caput discipli
nae». O significado doutrinário deste cancelamento tem sido
objeto de estudos especiáis por parte dos teólogos católicos;
cf. G. D. Smith, «The Church and her Sacraments», em «The
Clergy Review» 33 (1957), pp. 228-230. Como quer que seja,
enquanto ainda pairam dúvidas sobre o assunto, parece nao
ser ilícito admitir a revogabilidade da declaracáo de Leáo Xm
(a qual teria em vista apenas a disciplina a ser adotada na
Igreja de acordó com as circunstancias de urna época); entre
os partidarios recentes desta tese, pode-se citar o Pe. L.
Renwart S. J. no artigo «Ordinations anglicanes et intention
du ministre», em «Nouvelle Revue Théologique» 79 (1957)
p. 1034.

Estamos, pois, diante de urna questáo difícil, que ainda


poderá passar por novas fases de estudo. Somente os aconte-
cimentos dos próximos tempos e a palavra oficial da Igreja
Romana poderáo projetar luz dirimente sobre os argumentos
e as observagóes que hoje em dia se movem em torno da
famosa questáo das ordenagóes anglicanas.
Documentagao ampia e minuciosa sobre o assunto ancontra-se no
artigo "Ordinations anglicanes" de Sydney Smlth, em "Dlctionnaire Apolo-
gétique de la Foi Catholique" III .París 1916, cois. 1162-1228.

— 301 —
Filme violento:

Siordano bruno na historia e no cinema


a inquisicáo

Em alntese: O filme "Glordano Bruno", de Cario Ponti, roproduz o


processo a que esse pensador fol submetldo por parte da Inquislcáo entre
1592 e 1600, quando termlnou seus días executado no Campo das Flores
em Roma. Na verdade, Qlordano Bruno, frade dominicano, que delxou a
Ordem, prolessava Idéias singulares e eclóticas, Inspiradas pelo neoplato
nismo (panteísmo) e outras correntes da filosofía grega. Vlajou peta Europa
a fim de difundir tais conceptees. Todavía Incompatibillzou-se nfio somente
com as autoridades eclesiásticas católicas, mas também com as calvinistas
(Genebra) e com os intelectuals de París, Londres e Oxford. •

O filme "Glordano Bruno" coloca a Igreja Católica em posicfio som


bría. — Em verdade, a InquIsIcSo é um fenómeno histórico que tem de
ser reposto nos ambientes da Idade Módla e de Infcio da Idade Moderna.
Naqueles sáculos, o pensamento das populacñes ocidentals era homogé
neamente crlstáo, a tal ponto que na Igreja Católica difícilmente se entendía
pudesse alguém destoar da fé católica sem ser um demoniaco ou um per
verso. Tanto os eruditos como os homens simples compartllhavam este
modo de pensar e nao podlam conceber a tolerancia como atitude licita
ou ató necessárla. Em conseqüéncla, mesmo para os santos medievals e
modernos até o século XVIII, a Inqulsicáo {ou perquIsIcSo) e o julgamento
dos herejes era um Imperioso dever de consciéncia. — A execucBo dos
processos fazla-se segundo as categorías de justlga dos séculos passados,
que eram assaz diferentes das nossas; dlziam os mestres medievais, por
exemplo, que, se o falsificador de moedas era réu de morte porque punha
em perlgo a vida dos seus conddadSos, muito mals passlvel de tal pena
serla o hereje, porque falsificava a fé, que é o sustento da vida da alma.
A Igreja hoje repudia qualquer erro, mas compreende que, dada a evolucSo
dos tempos, n8o se pode seguir o raciocinio dos antigos no tocante a
manelra de reprimir os erras.

Comentario: Está percorrendo os cinemas do Brasil um


filme ítalo-francés intitulado «Giordano Bruno» e apresentado
por Cario Ponti. A película retoma, em cenas a cores, a his
toria do famoso pensador italiano Giordano Bruno, que, tendo
professado idéias estranhas e viajado por diversos países em
defesa e cultivo das mesmas, acabou preso e executado pela
Inquisicáo da Igreja. O enredo é violento e impressionante,
despertando no espectador diversas perguntas referentes á his-

— 302 —
GIORDANO BRUNO E INQUISICAO 23

tória e á doutrina da Igreja. Alias, o caso de Giordano Bruno


também foi explanado em estilo de romance pelo famoso escri
tor Morris West, autor de «As sandalias do pescador» e outras
obras de ficgáo religiosa.

Eis por que proporemos abaixo a figura histórica de Gior


dano Bruno e alguns comentarios sobre o respectivo filme e
as interrogagóes que ele langa.

1. Giordano Bruno na historia

Examinaremos algo da vida e da doutrina de Giordano


Bruno.

1.1. Trajos biográficos

Filipe (em religiáo, Bruno) nasceu em Ñola (provincia


de Ñapóles) no ano de 1548 em pleno periodo de ebulicáo reli
giosa devida ao Protestantismo. Aos quatorze anos, entrou no
Convento de S. Domingos, onde, depois de haver professado
a Regra Dominicana, foi ordenado sacerdote em 1572. Esses
anos de estudos foram decisivos para a sua formagáo intelec
tual: leu filósofos e teólogos da antigüidade e da Idade Media;
estudou obras clássicas e outras dentre as militas que o Renas-
cimento havia posto em evidencia no cenário intelectual da
Europa. Em breve comegou a conceber idéias estranhas, que
entravam em conflito com verdades da fé; Bruno mesmo con-
fessou que, desde os dezoito anos de idade, se pos a duvidar
da SS. Trindade e da Encarnacáo do Verbo. Inclinava-se desde
entáo a urna interpretagáo racionalista dos artigos do Credo,
concebendo o Filho como «o intelecto do Pai» e o Espirito
Santo como «a alma e o amor do universo». As práticas do
culto religioso lhe pareciam ser formas de superstigáo, devidas
á ignorancia; as religióes seriam boas na medida em que con-
tribuissem para morigerar os povos e orientar os governos.
Assim Bruno já antecipava o racionalismo e o iluminismo dos
séc. XVII e XVHI.

Em conseqüéncia, foi acusado de heresia no seu convento


em Ñapóles. Em 1576 fugiu para Roma; depós o hábito reli
gioso, e comegou a viajar a fim de disseminar as suas idéias.
Esteve em Savona, Turim, Veneza, Pádua; nesta cidade dei-
xou-se persuadir de que devia retomar o hábito. Partiu para

— 303 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

Liáo. Ali foi desaconselhado de ficar; por isto seguiu para


Genebra (Suíga), esperando «lá viver em liberdade e estar
seguro»; tirou de novo o hábito, e inscreveu-se no Calvinismo,
religiáo dominante na cidade; em breve, porém, entrou em
conflito com um dos professores de teología locáis; donde
resultou ser encarcerado e processado. Bruno doravante con-
cebeu aínda maior aversáo do Calvinismo do que do Catoli
cismo. A fim de reconquistar a liberdade, prometeu emen-
dar-se e, pouco depois, partir para Tolosa e París (1582);
nesta cidade publicou algumas obras, entre as quais «Cande-
laio» (Candelabro), comedia das mais vivazes e obscenas da
sua época. Em Paris deram-se tumultos em torno de suas
idéias; Bruno tinha Aristóteles na conta do mais estúpido dos
filósofos e dizia que, após a morte, a sua alma emigrara para
dentro de um asno. Por isto, com os favores do rei Henri-
que m da Franga, foi para Londres,, onde ficou de 1583 a
1585. Tendo-se indisposto com os intelectuais de Londres e
Oxford, voltou para Paris, onde nao pode permanecer; pas-
sou entáo para a Alemanha, detendo-se em Mogúncia, Wit-
tenberg, Helmstadt e Francoforte; entrementes foi a Praga
na Boémia. Fácilmente Bruno atribuía aos seus adversarios
os cognomes de «asno, porco, urso, lobo, besta, louco». Va
rios de seus escritos eram permeados de lascivias e obsceni
dades ou mesmo de blasfemias; defendiam a poligamia.

Estando Bruno em Francoforte, recebeu de Giovanni Mo-


cenigo, rico comerciante de Veneza, um convite para ensinar
a este a arte da memoria. Bruno se dirigiu entáo a Veneza,
mas Mocenigo, escandalizando-se por suas idéias, denunciou-o
ao S. Oficio (Inquisicáo) como sendo hereje. O primeiro pro-
cesso do S. Oficio comecou em 1592; parecía que acabaría em
favor de G. Bruno, pois este reconhecia ter falado «demasiado
filosóficamente, desonestamente e nao como bom cristáo»;
pediu perdáo e mostrou o desejo de voltar á Igreja Católica.

Terá sido sincero? Há quem julgue que Bruno se retratou


apenas para reaver a liberdade e conseguir voltar a Roma,
onde tencionava dar nova repercussáo á sua doutrina.

Bruno nao chegou a ser absolvido pela Inquisigáo de Ve


neza, pois Roma pediu que o acusado lhe fosse enviado; pelo
que o mesmo partiu para lá em 27/11/1593. O processo, cujas
atas se perderam, desenvolveu-se lentamente em Roma. Sa
bemos que comegou aos 27 de fevereiro de 1593; mas só temos
ulterior documentacáo datada de fins de 1599 e inicio de 1600

— 304 —
GIORDANO BRUNO E INQUISICAO 25

(trata-se, alias, de curtos protocolos). Os escritos de G. Bruno


foram examinados; destes foram assinaladas oito proposigóes
heréticas na Congregacáo do S. Oficio de 14/1/1599. Intimado
a abjurá-las, o autor pediu prazos sucessivos, pois hesitava.
Finalmente foi julgado solenemente, condenado á degradacáo
e entregue ao braco secular. Depois de proferida a sentenga,
foram-lhe dados mais oito dias para se retratar. Acompanha-
ram-no entáo alguns sacerdotes, assim como os irmáos da Fra-
ternidade de S. Giovanni Decollato, que se destinava a recon
fortar espiritualmente os prisioneiros condenados á morte. Mas
Giordano persistiu em recusar qualquer forma de religiáo posi
tiva; rejeitou mesmo o Crucifixo que Ihe apresentaram quando
finalmente, aos 17 de fevereiro de 1600, foi entregue ao fogo
no Campo das Flores (Roma).

O filme reproduz as palavras que G. Bruno terá profe


rido ao ouvir a sua sentenca de condenagáo: «Eles (os juízes)
tém mais medo do que eu». Ora tais palavras nao sao referidas
por Gaspar Schopp (Sciopius), que é tido como pouco fide
digno. Cf. L. v. Pastor, «Geschichte der Pápste», t XI. Frei-
burg i./Breisgau, 1927, p. 465. Os protocolos dáo a saber que
Bruno nao foi viril quando a Inquisigáo Ihe apresentou sen-
tengas tiradas das suas obras, tanto em Veneza como em
Roma; nao teve a coragem de sustentar o que escrevera.

Giordano Bruno foi condenado nao (como por vezes se


diz) por ter defendido o sistema de Copémico (heliocentrismo)
nem a pluralidade de mundos habitados (doutrinas que, de
fato, ele professava), mas, sim, por causa de erres filosóficos
e teológicos, como também por ter cometido apostasia e per
jurio.

Passemos agora a urna apreciacáo das idéias desse filó


sofo.

1.2. Doutrina e significado de G. Bruno

As obras e o pensamento do filósofo G. Bruno encontra-


ram pouco eco entre os intelectuais do séc. XVm (Kepler
recordou-o ao tratar da pluralidade dos mundos habitados).
No séc. XVDI, Bruno tornou-se mais citado, principalmente
entre os livres pensadores; exaltavam os conhecimentos de
matemática e astronomia desse autor? no setor da filosofía,

— 305 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

diziam que abrirá novos caminhos. A sua morte foi tida como
o martirio de um pioneiro que se sacrificava em favor da
liberdade de pensamento.

Na verdade, deve-se dizer que um exame sereno das obras


de G. Bruno dá a ver que, em grande parte, apresentam ou
doutrinas antigás ou idéias singulares e estranhas.

Assim, no setor da filosofía Bruno aproximou-se do neo


platonismo de Alexandria. Adotou o panteísmo (a Divindade
se identifica com o mundo visível); Deus seria a mónada ini
cial, que por emanagóes estaría envolvida em todos os demais
seres; a esséncia divina seria a própria materia, que é infinita,
como o espaco é infinito. As almas podem emigrar de um
corpo para outro, até mesmo para outro mundo; urna única
alma pode habitar dois corpos... O mundo existe desde toda
a eternidade, e o Espirito Santo é a alma do mundo (é assim
que Bruno interpreta a passagem de Gn 1, 2, na qual se lé
que o Espirito de Deus «aquecia» as aguas!).

As concepcóes religiosas do autor sao muito pessoais.


Apenas os hebreus seriam oriundos de Adáo e Eva; os outros
homens teráo nascido de dois outros seres anteriormente cria
dos por Deus. Deus é a bondade mesma; nao punirá os ho
mens em outra vida, pois a morte produz urna simples meta-
morfose. No universo nao há lugar nem para o céu nem para
o inferno, embora o cosmos seja ilimitado e cheio de mundos
habitados. O próprio demonio pode ser salvo. O livre arbitrio
nao existe. Moisés reaiizou seus milagres por meio da magia,
que é coisa boa e licita. Jesús Cristo mesmo nao foi senáo
um mago muito notável.

No setor da política Giordano Bruno foi apreciado pelos


liberáis do «Risorgimento italiano» e pelos demócratas de
esquerda nos séc. XVIII e XIX. A maconaria e as correntes
anticlericais fizeram dele o arauto de suas teses avessas aos
regimes instituidos e ao poder temporal do Papado.

Nos seus estudos de astronomía, G. Bruno propós algu-


mas nogóes válidas, entre as quais o adocáo do sistema helio
céntrico do cónego Nicolau Copernico de Frauenburg (t 1543),
sistema que Galileu havia de explanar em termos definitivos.

Em suma, pode-se dizer que G. Bruno é o último represen


tante do grande surto de idéias do Renascimento. Este pro-

— 306 —
GIORDANO BRUNO E INQUISICAO 27

curou reagir contra o pensamento escolástico medieval, exu-


mando antigás doutrinas, desde as pré-socráticas até o neo
platonismo; o afá de voltar ás fontes gregas pré-cristás impe-
rava em numerosas escolas humanistas e renascentistas do
séc. XVI. — G. Bruno parece ter-se inspirado ñas diversas
correntes da filosofía grega, sem se preocupar com um prin
cipio de unidade e coeréncia para as suas idéias: estas trazem
vestigios do pitagorismo e do orfismo (matemática e reencar-
nagáo), do atomismo de Empédocles e Demócrito, do neopla
tonismo (panteísmo, emanacóes), da magia e também... do
racionalismo; disto tudo resultou um sincretismo carente de
linhas de harmonía.

É muito significativo o fato de que G. Bruno se tenha


incompatibilizado nao somente com as autoridades da Igreja
Católica, mas também com as do protestantismo, ao qual ade-
riu em Genebra, e com os intelectuais de Paris, Oxford e
outras cidades. Os monarcas Henrique III da Franca e Elisa-
bete da Inglaterra, embora o tenham, a principio, acolhido
com simpatía, nao puderam tributar a Bruno a sua protecáo
depois de certos conflitos havidos em Paris e em Londres-
-Oxford.

A personalidade do filósofo era singular a tal ponto que


se poderia pensar em alguma anormalidade psíquica (coisa,
alias, que o filme «Giordano Bruno» insinúa).

Pergunta-se agora: como ou em que sentido terá Cario


Ponti explanado a historia de G. Bruno no cinema?

2. G'rordono Bruno no cinema

1. O filme, do ponto de vista artístico, é digno de elo


gios. Trata-se de película a cores, na qual o que mais se
recomenda, é o jogo de luzes e sombras em que aparecem
os diversos personagens: visto que o enredo da película é trá
gico e pungente, as figuras dos seus diversos protagonistas sao
muitas vezes colocadas na penumbra,... penumbra que con-
diz com o ambiente de prisáo e o clima de incerteza em que
se desenrola a historia de G. Bruno.

2. O enredo comeca com a chegada do filósofo a Ve-


neza, aonde Mocenigo o chamara para que ensinasse a este
«a arte da memoria». Apresenta a denuncia de G. Bruno, por

— 307 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

parte de Mocenigo, á Inquisicáo e o processo realizado em


Veneza; segue-se a entrega de Bruno ao tribunal de Roma,
onde o pensador é interrogado e finalmente condenado. O con
junto é profundamente impressionante, tanto pela veeméncia
de numerosas das suas cenas como também pela sucessáo de
imagens, em que a dureza das prisóes é amplamente entrecor
tada por cenas pitorescas de Veneza, de Roma, e pela filma-
gem de belas igrejas...

3. Note-se, porém, que todo produtor, ao explanar um


episodio histórico no cinema, costuma estilizá-lo, ou seja, pro-
pó-lo de modo que signifique urna tese ou urna mensagem para
o público. Foi este, sem dúvida, o caso de Cario Ponti: o
cineasta procurou por em relevo a figura de G. Bruno como
propugnador da liberdade de pensamento, pioneiro do valor
absoluto da razáo, reinvidicador da democracia e dos direitos
dos pequeninos, da igualdade de todos os homens, cons.testador
de certas instituicóes. «Nova concepgáo do universo... Nova
concepgáo do universo» ou ainda: «Errei quando julguei que
podia reformar o poder mediante aqueles que detém o poder»,
sao estas duas das frases mais características atribuidas a
Bruno pelo cineasta.

Em síntese, a figura de Giordano Bruno é apresentada


como simpática (alias, toda vitima perseguida tende a atrair
a solidariedade do público). £ tida como um símbolo de con-
testagáo, ás autoridades civis prepotentes, ambiciosas, sangui
narias, como também e principalmente,... contestacáo ás auto
ridades da Igreja, descritas como presas a tradicóes e precon-
ceitos.

A Igreja é apresentada em termos marcadamente nega


tivos e sarcásticos. A mensagem do Evangelho é descrita como
algo de problemático; tenham-se em vista as ponderagóes que
o cineasta atribuí a G. Bruno no tocante á SS. Trindade, á
Encarnacáo do Filho de Deus, á virgindade de Maria. A fun-
cáo da Igreja «Máe e Mestra» é apresentada de maneira que
provoca o riso e a burla do público, mais de urna vez. Ver-
dade é que, entre os membros do S. Oficio encarregados de
ouvir e julgar G. Bruno, há os que tentam compreender e
defender o acusado. O próprio Papa Clemente VIH desempe-
nha um papel benigno; recomenda cautela aos inquisidores mais
acesos; Bruno declara que so se abrirá plenamente ao Pontí
fice. O Papa afirma muito sabiamente, retomando urna expres-
sáo de S. Agostinho (t 430), que a Igreja deseja a extirpagáo.

— 308 —
GIORDANO BRUNO E INQUISICAO 29

do pecado, e nao a do pecador. — Estas notas, em seu con*


junto, concorrem para despertar nos espectadores urna ima-
gem sombría e antipática da Igreja. Alias, a escolha mesma
do episodio de G. Bruno como enredo de cinematografía difí
cilmente podía redundar em outros efeitos. Cario Ponti já se
tornou notorio pelos filmes que tem produzido em sentido hos
til á Igreja; isto deu ocasiáo a que o Vaticano Ihe movesse
um processo por motivos de inverdade e desonestidade.

Resta agora encarar, com objetividade, as interrogacóes


que o filme nao pode deixar de suscitar na mente dos seus
espectadores.

3. As grandes dúvrdas

Consideraremos tres principáis questóes suscitadas pela


película.

3.1. A

1. Em PR 8/1957, pp. 23-33 e 87/1967, pp. 134-140 foram


publicados dois artigos respectivamente sobre a Inquisigáo.

Em resumo, o histórico dessa instituicáo é o seguinte:

No séc. XI, apareceu na Europa urna corrente de pensa-


mento dualista ou neomaniqueísta; repudiava a materia e as
instituigóes civis da sociedade da época. Essa corrente era
chamada «dos cataros (puros)» ou «Albigenses» (da cidade
de Albi, na Franca meridional, onde os cataros tinham sua
sede principal). Os cataros nao eram somente antagónicos á
fé crista, mas ameagavam a ordem civil estabelecida, repu
diando o matrimonio, a autoridade governamerrtal, o servigo
militar...

As primeiras represalias contra os bandos agitadores dos


cataros foram empreendidas espontáneamente pelas populagóes
civis ameagadas e pelo poder regio ou civil, na Franca, na
Alemanha e nos Países-Baixos. Entrementes, os bispos limita-
vam-se a impor penas espirituais aos herejes (excomunháo,
interdito...); mais de urna vez, bispos e sacerdotes tomaram
a defesa dos cataros que o povo perseguía e pretendía punir.

— 309 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

Em meados do séc. XII tornou-se insustentável a atitude


náo-violenta do clero frente aos cataros. Os reis, magistrados
e o povo faziam pressáo a fim de que as autoridades eclesiás
ticas colaborassem mais diretamente na repressáo do cata-
rismo.

Em conseqüéncia, no ano de 1184 foi instituida a Inqui


sigáo episcopal: os bispos, coadyuvados pelo poder civil, man-
dariam inquirir ou procurar os herejes em suas dioceses; estes,
urna vez apreendidos, ou abjurariam seus erros ou seriam
entregues ao brago secular, que lhes aplicaría a justa sangáo
(sangáo entendida segundo as rudes categorías judiciárias da
época).

Já que tal procedimento anti-herético se mostrava insufi


ciente para conter os cataros, em 1233 foi instituida a Inqui-
sigáo Papal: o Sumo Pontífice passou a nomear Inquisidores
(geralmente dominicanos), que, dotados de ampios poderes,
iriam ao encalco dos herejes em todo o territorio de urna
nacáo (Franga, Alemanha, Italia...).

A Inquisigáo Papal era regulamentada por instrugóes e


bulas dos Pontífices que visavam a moderar os ánimos e evitar
que paixóes ou instintos de vinganga se exercessem nos pro-
cessos inquisitoriais. Tais normas, porém, nao conseguiram
impedir que muitas vezes os inquisidores e seus oficiáis incor-
ressem em graves erros no desempenho de suas fungóes.

No séc. XIV, com Filipe o Belo, da Franga, comegaram


a surgir as monarquías absolutistas na Europa. Difícilmente
os reis doravante tolerariam que a justiga fosse aplicada em
seus territorios segundo outro código legislativo e outros inte-
resses que nao os do próprio rei. Conseqüentemente, o poder
regio (que sempre tivera ingerencia nos processos da Inquisi
gáo) passou a dominar mais e mais os trámites inquisitorios
(nao era difícil aos medievais admitir este entrelagamento de
autoridade religiosa e poder civil, já que os reis da época pro-
fessavam oficialmente a Religiáo crista).

Assim a Inquisigáo foi-se tornando cada vez mais o ins


trumento que o Estado manipulava a fim de impor a sua poli-
tica e atingir os seus objetivos nacionalistas; os juízes ecle
siásticos e os rótulos religiosos que continuavam a marcar a
face externa da Inquisigáo, eram apenas capa para o exercício
de planos que no fundo pouco ou nada tinham de religioso.

— 310 —
GIORDANO BRUNO E INQUISICAO 31

Tenham-se em vista, por exemplo, o processo dos Templarios


empreendido por Filipe IV o Belo (cf. PR 16/1959, pp. 169-
-174) e o de S. Joana d'Arc (cf. PR 8/1958, pp. 340-346).

2. No séc. XVI, o surto do Protestantismo levou o Papa


Paulo HI (1534-1549) no ano de 1542 a instaurar a Inquisi
gáo em Roma; seria a Inquisigáo Romana, dita mais tarde
«Santo Oficio». Urna comissáo central, composta de seis car-
deais, deveria de entáo por diante vigiar sobre a pureza da
fé em toda a Igreja e intervir contra os apóstatas e suspeitos.

Sobre o procedimento da Inquisigáo Romana, o filme


«Giordano Bruno» da a entender que era drástica; entregava
ao brago secular a maioria dos acusados, ao passo que em Ve-
neza a Inquisicáo era branda. — Na verdade, é difícil avaliar
o número de sentengas de execugáo proferidas pela Inquisigáo
Romana durante toda a sua historia, pois a documentagáo res
pectiva escapa ao historiador (as próprias atas do processo de
G. Bruno se perderam). Todavía pode-se tomar, de certo
modo, o pulso do que aconteceu, levando em conta as seguin-
tes observagóes fornecidas pelo principal historiador do Pa
pado, Ludwig von Pastor, na volumosa obra «Geschichte der
Pápste», que é reconhecidamente o fruto de rara erudigáo:

"Com referencia aos procedimentos da InqufsicSo Romana contra os


herejes, os mals recentes historiadores da época de Paulo III adotaram o
julzo de Seripando1, que estava multo a par do assunto. Este dlsse que
aquela corte de justlga procedeu com a brandura e a moderacfio que carac-
terizavam o Papa Farnese (Paulo III); so excepclonalmente houve penas
corporals graves e execugSes. Reglstraram-se mesmo numerosos casos de
absolvIgSes contrarios ás expectativas. Pode-se dizer a mesma colsa dos
tempos de Julio III (1550-1555), ao menos na medida em que se pode Jul-
gar sem conhecer as atas dos Inacesslvels arquivos da Inquislcfio Romana.
Está absolutamente comprovado que o Cardeal Carafa, o hornem mals
influente na Inquislcfio, nao se dava por satisfalto com as medidas prudentes
tomadas por Julio III nesse setor. O representante de Bolonha conta tam-
bém que o Papa, nos processos contra os herejes, tlnha vistas multo mals
brandas do que o Cardeal Juan Alvarez de Toledo, cuja mente se asseme-
Ihava á de Carafa. Por exemplo, o naturalista Ullsses Aldovrandi, levado
de Bolonha a Roma em 1549, fol logo libertado; outros padeceram penas
leves.

Julio III, que, como Cardeal, se mostrara longe de toda dureza pes-
aoal contra os que havlam sido acusados de heresia, concedeu, por Bula
de 29 de abril de 1550, a absolvIgSo a todos os que tlnham caldo na

1 Jerónimo Seripando (t 1563) fol o Superior Geral dos Eremitas de


S. Agostinho, homem de ampia erudlgSo e principal expoente da escola de
teología agostlniana.

— 311 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

heresla o nSo ousavam voltar á Igreja, por medo da penitencia pública e


da Infamia; deveriam apenas apresentar-se pessoalmente aos Inquisidores,
abjurar privadamente os seus erros e Impor a si mesmos urna penitencia
secreta.

Quanto ás execucóes daqueles que se obstlnavam em seus erros, so


houve alguns casos ¡solados em Roma sob Julio III. O jornal de Cola
Coleina menciona, aos 6 de junho de 1552, que sete luteranos foram leva
dos a Santa María sopra Minerva, onde ab|uraram seus erros...

Os poucos casos de herejes punidos com a morte sob Julio III foram
apresentados na Alemanha por panfletos que davam a crer que se movía
violenta perseguic&o aos protestantes Italianos. A verdade a este propó
sito transparece de urna carta de Vergerio e Bullinger, de 8 de outubro
de 1553, a respeito do estado de coisas na Italia. Al se lé: 'Poder-se-la
crer que centenas de pessoas foram queimadas diariamente, mas serla
falso; nenhum acusado foi queimado, se bem que leve persegulcfio se terina
movido em algumas localidades'" (L von Pastor, "Hlstoire des Papes depuls
la fin du Moyen Age", t. XIII. París 1931, p. 198-201).

Donde se v§ que é necessário ler com certo senso crítico


os comentarios que, de vez em quando, vém á baila sobre os
horrores da Inquisicáo. Esta foi certamente algo que a Igreja
rejeitaria hoje em dia, se alguém propusesse restaurá-la; nao
teria sentido; antes, seria um contra-testemunho no ambiente
dos tempos modernos. Náq há düvida também de que nos
processos da Inquisicáo as paixóes por vezes prevalecerán!,
dando lugar a injusticas e males diversos. Era suma, os pon
tos negativos da Inquisicáo devem ser objetivamente reconhe-
cidos; todavía é preciso nao generalizar julgamentos sobre o
assunto, desde que nao haja evidente fundamento para isto.
De resto, a Inquisicáo é um testemunho enfático de como o
Senhor Jesús permite que a fraqueza humana seja associada
á obra da Redencáo ou á historia do Cristianismo através dos
sáculos. Apesar da fragilidade humana, o Senhor sustenta efi
cazmente a realídade divino-humana da Igreja.

3. Em ultima instancia, observamos que, se a Inquisicáo


é algo de abominável ao homem moderno, ela passava por
válida ou mesmo necessária aos olhos dos homens da Idade
Media e do inicio dos tempos modernos. Será, pois, imprescin-
divel que procuremos penetrar na mentalidade daquelas gera-
góes passadas para compreendermos o seu procedimento; nao
as condenemos a partir das nossas categorías modernas de
pensamento, categorías que em absoluto eles nao concebiam.

Quais teráo sido, portante, as notas da mentalidade que


inspirou a Inquisicáo?

— 312 —
GIORDANO BRUNO E INQUISICAO 33

— Os antigos tinham consciéncia profunda do valor da


alma e dos bens espirituais, consciéncia que hoje está assaz
diluida; nao hesitavam em colocar ácima dos bens materiais
os valores espirituais. Era mesmo táo grande a sua estima
pela fé (esteio da vida espiritual) que consideravam a detur-
pagáo da fé pela heresia como um dos maiores crimes que o
homem pudesse cometer (tenham-se em vista os textos que
adiante citaremos). A fé era táo viva e espontánea, era tam-
bém algo de táo generalizado, que difícilmente nos séculos
passados se podia admitir que alguém negasse com boas inten-
góes um só dos artigos do Credo; muitos e muitos dos antigos
só podiam compreender um hereje como sendo um possesso,
perverso, iníquo, em suma: alguém que erra culpadamente.

Em nossos dias, quando a consciéncia dos valores espi


rituais está táo atenuada e o pluralismo de crengas é fato
evidente, é claro que já nao se entende o procedimento dos
antigos.

4. Quanto á pena de morte, reconhecida pelo antigo Di-


reito Romano, estava em vigor na jurisdigáo civil da Idade
Media. Sabe-se, porém, que as autoridades eclesiásticas eram
contrarias á sua aplicagáo em casos de lesa-religiáo. Contudo,
após o surto do catarismo (séc. XII), alguns canonistas come-
caram a julgá-la oportuna, apelando para o exemplo do Impe
rador Justiniano, que ño séc. VI a infligirá aos maniqueus.
Em 1199 o Papa Inocencio III dirigia-se aos magistrados de
Viterbo nos seguintes termos:

"Conforme a le! civil, os réus de lesa-majestade sSo punidos com a


pena capital e seus bens sño confiscados... Com multo mals razáo, por-
tanto, aqueles que, desertando a fé, ofendem a Jesús, o Filho do Senhor
Deus, devem ser separados da comunháo crista e despojados dos seus
bens, pois multo mals grave é ofender a Majestade Divina do que lesar a
majestade humana" (eplst. 2, 1).

Como se vé, o Sumo Pontífice com essas palavras dese-


java apenas justificar a excomunháo e a confiscacáo de bens
dos herejes; estabelecia, porém, urna comparagáo que daría
ocasiáo a nova praxe... O Imperador Frederico II soube dedu-
zir-lhe as últimas conseqüéncias: tendo lembrado numa cons-
tituigáo de 1220 a frase final de Inocencio III, o monarca,
em 1224, decretava francamente para a Lombardia a pena de
morte contra os herejes, e, já que o Direito antigo assinalava
o fogo em tais casos, o Imperador os condenava a ser quei-
mados vivos. Em 1230 o dominicano Guala, tendo subido á

"-~ OJ.O ~~~


34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 187/1975

cátedra episcopal de Bréscia (Italia), fez aplicagáo da lei im


perial na sua diocese. Por fim, o Papa Gregorio IX, que tinha
intercambio freqüente com Guala, adotou o modo de ver deste
bispo: transcreveu em 1230 ou 1231 a constituicáo imperial
de 1224 para o Registro das cartas pontificias e em breve edi-
tou urna lei pela qual mandava que os herejes reconhecidos
pela Inquisigáo fossem abandonados ao poder civil para rece-
ber o devido castigo, castigo que, segundo a legislacáo de Fre-
derico n, seria a morte pelo fogo.

Os teólogos e canonistas da época se empenharam por jus


tificar a nova praxe; eis como o fazia S. Tomás de Aquino:

"é multo mals grave corromper a fé, que é a vida da alma, do que
falsificar a moeda, que ó um meló de prover á vida temporal. Se, pols,
os falsificadores de moedas e outros malfeitores sao, a bom direlto, conde
nados á morte pelos principes seculares, com multo mals razSo os here
jes, desde que sejam comprovados tais, podem nSo somonte ser excomun-
gados, mas também em toda justlca ser condenados á morte " (Suma
Teológica 11/11 11,3c).

É possível que hoje se critique este raciocinio, nao pelo


fato de estimar, ácima de tudo, os valores espirituais, mas pelo
fato de concluir em favor da pena de morte para os herejes.
Certamente S. Tomás nao é paradigma neste particular de suas
obras. O que importa considerar, porém, é que os santos dos
séc. Xn/xm (S. Tomás, S. Boaventura, S. Alberto M., Sao
Francisco de Assis, S. Domingos de Gusmáo e outros), longe
de se escandalizar com a Inquisigáo e a repudiar, a aceitavam
e procuravam mesmo justificá-la. A consciéncia daqueles san
tos, que era certamente inflamada de amor, nao via porque
recusar um procedimento que preservava a fé dentro dos mol
des e estruturas da época respectiva (estrutura de cuja vali-
dade ninguém duvidava).

Ademáis note-se que a «normalidade» da pena de morte


pelo fogo ou pela forca ou por modo «bárbaro» era táo aceita
entre os homens dos sáculos passados que se apontam entre
os calvinistas de Genebra no séc. XVI, como também entre os
anglicanos da Inglaterra de Elisabete I (1558-1603), procedi-
mentos semelhantes aos da Inquisigáo. Os tribunais de Cal-
vino, por exemplo, de 1541 a 1546, pronunciaran! 58 sentencas
de morte e mais numerosas condenagóes ao exilio. Na Ingla
terra, quinze dos dezesseis bispos católicos que em 1559 nao
aceitaram o «Ato de Supremacía» da rainha Elisabete I foram
presos e morreram no cárcere; os fiéis leigos católicos que

— 314 —
GIORDANO BRUNO E INQUISICAO 35

resistiram á imposicáo do Protestantismo inglés, viram-se opri


midos pela dura crueldade de urna justica sanguinaria.

Nao dizemos que estes fatos sejam padróes para o com-


portamento do homem religioso moderno; apenas julgamos que
devem ser levados em conta para se entender o procedimento
das autoridades católicas; o zelo da fé na época podia levar a
tais expressóes sem que houvesse grande estranheza.

3.2. Igreja e Estado

Os medievais aspiravam á perfeita colaboracáo entre a


Igreja e o Estado em vista de instaurar e propagar o Reino
de Deus na térra. Dai a uniáo entre o braco eclesiástico e o
brago civil. Se essa aproximacáo trouxe beneficios á sociedade
(pois fomentou a vivencia do Evangelho sob certos aspectos),
deve-se reconhecer que nao raro foi prejudicial & Igreja e ao
Estado. Este tentou mais de urna vez servir-se da Igreja e
dos valores religiosos para propugnar seus interesses políticos;
manipulou a Religiáo — o que redundou em detrimento da
Igreja.

Hoje em dia a Igreja só aceita a uniáo com o Estado


mediante Concordatas que assegurem a incolumidade dos direi-
tos e da liberdades das instituigóes eclesiásticas.

3.3. O Espirito Santo

No filme respectivo, Giordano Bruno diz nao compreender


que o Espirito Santo seja pessoa. — Ora a teologia ensina que
o misterio da SS. Trindade (um só Deus em tres Pessoas),
embora ultrapasse os limites da razáo, nao é irracional nem
contrario as categorías da lógica. Pode mesmo ser ilustrado
mediante analogías; tenha-se em vista a trilogía apontada por
S. Agostinho á guisa de ilustragáo (memoria, inteligencia e
vontade). Nao estaría a propósito desenvolver reflexóes teo
lógicas sobre a SS. Trindade nestas páginas; contudo é impor
tante frisar aquí que nao se trata de um absurdo ou de urna
verdade que exija a abdicacáo da razáo humana.

Sao estes alguns comentarios que o filme «Giordano


Bruno» sugere em vista das indagagóes que ele deixa no público
espectador.

— 315 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

Bibliografía:

A. Carlini, "Bruno (Giordano)", em "Enciclopedia Cattolica". Cittá


del Vaticano, t. III, cots. 150-154.

L. Loevenbruck, "Bruno Giordano", em "Oictionnaire de Théologle


Catholique", t. 11/1, París 1923, cois. 1148-1150.

P. Gullteux, "Bruno (Giordano)", em "Dictionnaire Apologétique de la


Foi Catholique", t. I. París 1911, cois. 431S.

L. von Pastor, "Geschlchte der Pápste seit dem Ausgang des Mlt-
telalters" 16 volumes. Freiburg i./Breisgau.

E. Vacandart, "Inquisition", em "Oictionnaire de Théologie Catho


lique", t. VII/2. Paris 1930, cois. 23-33. 2016-2068.

PR 8/1957, pp. 23-33; 87/1967, pp. 134-140.

(Continuacáo da 3a capa)
Os méritos do volume sao acrescldos pelo fato de trazer em sua
parte final um Quadro Histórico das Escolas de Filosofía. Isto permite ao
estudioso situar cada filósofo e suas obras principáis no respectivo con
texto histórico. Percebe-se assim claramente a sucessáo dos homens e
das idéias, com as possíveis influencias e Interferencias de uns para outros.

O assunto 6 mulher, por Lucia JordSo Villela. — Ed. Vozes, Petrópolís


1975, 97 pp., 130 x 180 mm.

Celebrando o Ano Internacional da Mulher, a escritora Lucia JordSo


Villela (já algumas vezes mencionada em PR) quis oferecer ao público
mais este livro. Comeca propondo algumas reflexóes sobre o papel da
mulher hoje, sobre a matemidade vista á luz da Máe das máes (Maria SS.)
e sobre o envelhecimento, que, para a mulher, se pode tornar especialmente
penoso. A maior parte do livro, porém, aprésenla biografías, em número
de nove, que exemplificam as grandes mulheres nos últimos cem anos ;
sSo assim perfilados os vultos de Zélia Pedreira de Castro, Ellsabeth
Leseur, "Conchita", Irma Ignés do S. CoracSo, Amalla de Subercaseaux,
Blanca de Valdés, Raíssa Maritain, Marie Noel e Lavlnia Luis GuimarSes.

O estilo da obra tem seu encanto simples e muito feminino de


Lucia JordSo Villela. A autora, ao mesmo tempo que val relletindo e his
toriando, sabe comunicar urna mensagem de fe,... muito oportuna numa
época em que (com acertó) se apregoa a emancipacSo da mulher, mas
nSo se entende sempre o que isto significa; a mulher é grande n§o na
medida em que imita o homem, mas na proporcáo do exerclcio de todas
as ricas e Inconfundiveis prendas da sua tempera feminlna.

Se a vida é urna escola, o livro de Lucia J. Villela também o pode ser.

E. B.

— 316 —
Em fase de transicáo:

o canto na igreja

Em sinlese: O canto sacro pastoral passa hoje por urna fase de


adaptacáo, visto que os estudiosos da Liturgia focalizam melhor o valor
do canto como oracSo de urna assembléia litúrgica. Tém-se composto
novas melodías com letras inteligiveis ao povo cristio. Todavía nem sem-
pre estes ensaios sSo felizes.

O presente artigo pSe primeramente em relevo a grande Influencia


que a música desde os tempos pré-cristáos sempre teve na expressáo e no
avivamento de afetos, na educacao e na disciplina como também no culto
religioso.

A seguir, mostra-se que na Liturgia católica a música n§o é fator


decorativo nem romántico nem mágico, mas é oracáo; faz parte integrante
da maneira de orar, pois contém e exprime a realidade sobrenatural dos
crlstáos em oracio.

Dai deduz-se que o canto sacro deve ser simples, para poder ser
executado por urna assembléia Inteira. Mas nem por Isto pode ser banal;
conserve sempre as devidas notas de dignldade e estética musical. As
letras e melodias postas em uso nao devem evocar ambientes profanos,
mas levem ao recolhimento e á piedade; o mesmo se diga dos instru
mentos musicais a ser usados na Liturgia.

Comentario: É notorio o problema que o canto sacro vem


atravessando. Outrora cantava-se pouco durante as celebra-
góes eucaristicas; as melodias ou eram de estilo gregoriano
(canto-cháo), que certamente tem sua beleza e arte, mas é
pouco conhecido do povo e nao encontra grande eco na música
popular, ou seguiam ritmo um tanto sentimental, que acompa-
nhava urna letra pobre em conteúdo teológico.

A reforma litúrgica veio em boa hora atender á proble


mática. Mas acarretou consigo os riscos inerentes a toda
reforma: houve, e ainda há, os exageras, as tendencias a tor
nar demasiado popular ou mesmo vulgar urna forma de mú
sica ou canto que só se entende se conserva algo do seu cará-
ter hierático, litúrgico, orante.

— 317 —
33 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

Em vista da perplexidade que num ou noutro ambiente


de paróquia ou diocese se vem registrando em torno do canto
sacro, procuraremos abaixo oferecer alguns subsidios á refle-
xao do povo de Deus.

1. Canto e canto sacro

1. O canto e a música em geral sao ricos meios de


expressáo dos sentimentos humanos.

Excitando afetos e tocando fibras sensíveis do psiquismo,


a música pode despertar intuigóes e reagóes em seus ouvintes
que a palavra proferida em discurso por vezes so consegue
transmitir mal. «A música atinge regióes as quais o simples
vocabulario nao chega» (Froebes, «Lehrbuch der experimen-
tellen Psychologie» II. Freiburg i./Breisgau 1929, p. 347).

De modo especial, o canto é tido como expressáo do amor,


pois supóe um afeto mais veemente que nao se contente com
a simples palavra, visto que esta em certos casos parece dema
siado cha. Dizia muito sabiamente S. Agostinho: «Cantar é
próprio de quem ama» e «A voz de quem canta, é o fervor
de um amor sagrado» (serm. 336, 1, Migne ed. latina, 38,
1471s). Froebes observa: «Uma pega musical penetra a alma
de modo totalmente diverso de qualquer outra obra de arte;
suscita, como por encanto, uma trama de sentimentos que,
em exuberancia, energía e surpreendentes contrastes, nao tem
igual; produz no ouvinte uma imagem ideal de uma profunda
vida interior» (ob. cit, p. 348). Assim se compreende que o
homem comovido (exaltado ou abatido) se ponha a cantar;
visa com isto a expandir o seu animo. Os antigos pagaos che-
gam mesmo a julgar o canto produto de um espirito superior
que se apossasse da pessoa e excitasse a sua afetividade; donde
os nomes de arte «música» (= inspirada pelas Musas), «entu
siasmo» (= estado de quem é possuído por um theós: «entheou-
siasmós). Estas idéias aínda ressoam quando hoje se fala do
«espirito do vinho», que faz cantar. Por este motivo a música
sempre esteve unida as demonstragóes religiosas entre os mais
diversos povos.

Mais: desde remotas épocas a música foi considerada fator


ético. Atribuia-se-lhe valor moral, educativo, já entre os gre-
gos — o que bem se entende, pois a música exige disciplina,
desperta e burila afetos. Conforme Platáo, a música pertencia

— 318 —
O CANTO NA IGREJA 39

á «énkyklos paidéia» (formagáo enciclopédica) ou á formagáo


geral de um jovem. Outros autores gregos aceitavam esta tese,
designando por «mousilcé» toda a cultura do espirito em opo-
sigáo á «gymnastiké», que era a cultura do corpo. Aristóteles
(t 323) considerava a música como urna terapéutica ou tuna
medicina, apta a erguer ou curar o ánimo. A «andréia> ou
virilidade de um cidadáo grego era avaliada tanto por seu
heroísmo bélico quanto por suas realizagóes musicais. Cf.
Pauly-Wissowa, «Real-En2yklopádie der classischen Altertums-
wissenschaft» 16/1, col. 182-40.

O aprego pela música entre os gregos era tal que os pita


góricos afirmavam o seguinte: os astros, movendo-se nos ares,
executam urna sinfonía encantadora. É justamente a diferenga
de qualidades dos elementos cósmicos, perfeitamente tempera
dos entre si, que possibilita a melodía do universo, da mesma
forma que é a diversidade das cordas de um instrumento que
lhe dá a sinfonía.

2. O canto, táo estimado pelos gregos anteriores a Cristo,


foi valorizado também pelos cristáos. O afeto religioso é dos
mais profundos e veementes no ser humano; é por isto que as
palavras da linguagem comum freqüentemente se revelam po
bres para exprimir o senso religioso j em conseqüéncia, os cris
táos sempre tiveram o canto como expressáo de intuigóes reli
giosas mais ardentes. Já Sao Paulo exortava os fiéis de Éfeso
a que «se enchessem do Espirito Santo, entretendo-se uns com
os outros em salmos, hinos e cánticos espirituais, cantando e
salmodiando ao Senhor em seus coragóes» (Ef 5,18s). Por
conseguinte, o canto sacro é a expressáo suprema dos afetos
sobrenaturais dos fiéis cristáos, como o canto profano é a afir-
macáo mais pujante dos sentimentos naturais da alma. S.
Agostinho (t 430) atestava isto do seu modo no séc. V:

'Sinto que os nossos ánimos, ao ouvlr as palavras sagradas asslm


cantadas, se acendem numa chama de pledade mais religiosa e ardente
do que se nfio fossem asslm cantadas; vejo que todos os efeitos do nosso
espirito, em sua diversidade, tém sua expressáo próprla na voz do canto
e se delxam excitar por urna famlllaridade oculta com essas expressOes
melódicas (famlllaridade que eu nfio saberla explicar)... Quando me lem-
bro das lágrimas que derramel ao ouvlr os cantos da vossa Igreja nos pri-
melros días da minha conversfio, e quando, aínda agora, me slnto como-
vldo nSo pelo canto, mas por aqullo que ele exprime, se a voz do cantor
é clara e bem ritmada, reconheco de novo a utllidade de tal instltulc&o...
Assim pelas alegrías do ouvldo a alma lánguida sempre se fortalecerá na
pledade" (Confissdes X 33).

— 319 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

A Tradigáo crista elogiou amplamente o uso do canto na


Liturgia. Muito antigo e gracioso é o testemunho de Tertu
liano (f após 220:

"Ressoam entre dois crlstáos salmos e hinos ; estimulam-se mutua


mente a ver quem melhor cantará ao seu Deus. Ao ver e ouvir ¡sto, ale-
gra-se Cristo" ("Ad uxorem").

Vai aqui citada ainda urna interessante passagem de Sao


Joáo Crisóstomo (f 407):

"Tal é o costume dos que amam: nao deter o amor no silencio,


mas anunciá-lo aos vizinhos, e dizer que amam. A natureza do amor ó
algo de muito ardente, e a alma nao pode sofrer que o detenha em silen
cio" (In Ps 41,3, ed. Migne grego 55, 160).

Observa ainda o mesmo escritor:

"Vendo Deus que muitos homens sao indolentes e difícilmente se


entregam á leitura das coisas espirituais, n§o suportando o esforco que
isto exige, quis tornar o trabalho mais suave e como que fazer esquecer
a fadiga; para isto, associou a melodía á profecía, a flm de que todos,
animados pelo ritmo do canto, com toda a alegría Ihe cantem os hinos
sacros. Pois nada, nada, como a modulacSo de urna sinfonía e um canto
divino bem ritmado, eleva tanto a alma, Ihe dá como asas, a liberta da
térra, desprende dos vínculos do corpo, Ihe comunica sabedoria e a faz
desprezar as coisas mundanas...
(Cantar), fazem-no as mulheres, os viajantes, os agricultores, os
navegantes, desejosos de suavizar com o canto a pena da obra que reali-
zam, já que a alma, ao ouvir urna melodía, mals fácilmente suporta qual-
quer dureza e fadiga. Sendo, pois, a alma muito sensivel a este género
de deleite,... Deus concedeu os salmos, os quais trazem prazer e pro-
veito para a alma. Os cánticos profanos acarretam detrimento, muitos
males e morte...; dos salmos espirituais suscitados pelo Espirito, porém,
provém grande lucro, muita utilídade, elevada santidade; eles sao a ocasiáo
de se adquirir sabedoria; isto tudo, porque as suas palavras purific,am a
alma, e o Espirito Santo prontamente desee na alma de quem salmodia.
Para que saibas que aqueles que cantam conscientemente, atraem a si a
grasa do Espirito, ouve o que diz Paulo: 'Nao vos embriaguéis com vlnho.
em que há luxúria, mas enchei-vos do Espirito'. Indica também a maneira
como se encheráo: 'Cantando e salmodiando a Deus em vossos coracSes'
(Ef 5,18s)" (In Ps 41,1, ed. Mlgne grego 55. 156s).

Saltando onze séculos, durante os quais a Tradigáo crista


sempre cultivou ciosamente o canto sacro, podemos citar ainda
o testemunho de Martinho Lutero (1483-1546). Consoante os
antepassados, este atribuía á música elevada funcáo moral;
quería que fosse incluida entre as disciplinas de formagáo da
juventude; recorreu nao raro ao folclore germánico para com-
por o repertorio de cantos sacros do Protestantismo. Eis as
suas palavras:

— 320 —
O CANTO NA IGREJA 41

"A música é urna seml-dlsclpllna, que torna as pessoas


mais pacien
tes e brandas, mais modestas e razoávels. Quem a despreza,
como fazem
todos os fanáticos, nSo aceita estas aflrmagSes. A música ó
um dom de
Deus, e nSo dos homens; por Isto ela expulsa o demonio e
torna alegre.
Com ela esquecemos a cólera e todos os vicios, é por Isto que estou
convencido e n§o recelo dizer que, após a teología, nenhuma arte pode
ser Igualada a música" (Carta a Senil, citada por Guy Bernard, "L'art de
la muslque". París 1961, p. 57).
3. O poder de penetragáo e formagáo do canto sacro é
tal que as heresias e seitas derivadas do Cristianismo sempre
se empenharam por difundir as suas idéias mediante melodías
sagradas; foi o que se deu com os gnósticos (séc. H/IH), com
os arianos e os apolinaristas (séc. IV) e outros grupos dissi-
dentes da Igreja. Em nossos dias verifica-se o mesmo em todos
os grupos populares de crengas novas; a catequese ai é forte-
mente confirmada pelo canto sacro popular. Urna melodía que
faga vibrar o intimo do homem, associada a urna letra que
tenha conteúdo doutrinário, é ótimo instrumento para incutir
ñas pessoas simples as idéias que os teólogos elaboram ñas
escolas. Por isto também nos primeiros sáculos os bispos e
mestres cristáos, solícitos do bem dos fiéis, compuseram nume
rosos hinos litúrgicos, fórmulas da reta doutrina, que eles
mandavam que o povo cantasse ñas basílicas; com isto visa-
vam a sustentar a fé e o fervor dos fiéis ñas perseguicóes, que
nao raro os cristáos ortodoxos deviam sustentar por parte das
autoridades imperiais, que aderiam ao arianismo ou outra here-
sia. Tal foi o caso, por exemplo, do diácono S. Efrém (t 373),
que desejou assim fazer frente 'ás composigóes musicais do
gnóstico Bardesanes e de seu filho Harmonio de Edessa. No
século IV ainda S. Gregorio de Nazianzo compós hinos de fé
para responder aos salmos heterodoxos dos apolinaristas. No
Ocidente latino, o fundador do canto sagrado foi — pode-se
dizer — S. Ambrosio (t 397), que tinha em mira nao só a
edificagáo dos fiéis, mas também o combate á heresia ariana;
o meio era altamente eficaz, como atesta o próprio S. Am
brosio:
"Alguns afirmam que fasclnel o povo pela grasa melódica dos meus
hinos. Por certo, nao o negó. Confesso que a música possui um encanto
de grande poder. Que há de mals forte do que a confissfio da Trindade,
renovada todos os dias pela profissfio de fé do povo Inteiro?"

Os efeitos dos hinos de S. Ambrosio foram imediatos e


prodigiosos, a tal ponto que os arianos difundiram o rumor de
que havia fascinado o povo (S. Ambrosio, Sermáo contra Au-
xéndo 34, ed. Migne latino 16, 1017).
Referindo-se a Miláo, dizia ainda S. Ambrosio:

— 321 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

"O salmo é cantado pelos Imperadores, executado com Júbilo pelo


povo. Cada qual se empenha por proferir o (salmo) que a todos aproveita.
Ñas casas canta-se o salmo; (ora de casa, refere-se o que há no salmo.
Ouve-se o salmo sem cansado; conserva-se na memoria com deleite. O
salmo une os dlssldentes, consocla os dlcordantes, reconcilia os ofendidos"
(In Ps 1,9, ed. Mlgne latino 14, 968).

4. Os antigos mestres da Igreja ensinavam outrossim


que o canto sacro é nao somente expressáo da fé e da piedade,
mas constituí também auténtica escola de ascese e de purifi-
cagáo interior. «Quem procura realizar a harmonía com os
labios, cultivando a estética musical, deve também realizar a
harmonía em seu íntimo, isto é, em seus afetos e sentimentos.
Diante de Deus, o canto da voz é inseparável do canto dos pen-
samentos e dos afetos do homem; o cantor sacro nao pode dis-
sociar os binomios «voz e afetos», «palavra e vida», «melodía
e ascese», «arte e renuncia».

Em outros termos: a voz do canto sacro, para que seja


viva e nao morta diante de Deus, deve emanar de um salterio
vivo, de um corpo humano cujos movimentos estejam devida-
mente equilibrados entre si, de tal modo que a criatura toda,
com seus pensamentos, suas aspiragóes íntimas e sua voz sen-
sível, louve a Deus. É o que incutia S. Basilio:

"A estrutura do corpo humano é, por analogía, um salterio e um


órgSo que fol adotado, conforme as lels da música, a cantar niños ao
nosso Deus. As acSes do corpo sio um salmo; elas dflo gloria a Deus,
se nada produzlmos em nossos movimentos que nao esteja de acordó com
a sá razfio bem harmonizada" (In Ps 29,1, ed. Migne grego 29, 305).

5. Agostinho, por sua vez, dizia:

"Louvemos, pois, o Senhor nosso Deus, nfio somente com a voz, mas
também com o coracSo... A voz para os homens é o som; a voz para
Deus é o afeto" (serm. 257, 1, ed. Migne latino 38, 1193).

Importa-nos agora passar á consideragáo do que deva ser


o canto sacro pastoral, inspirado pela reforma litúrgica do Con
cilio do Vaticano n.

2. Após o Concilio

O Concilio do Vaticano n, propondo um renovado con-


ceito de liturgia, avivou no povo de Deus a consciéncia de cer
tas verdades, que poderiamos sintetizar nos seguintes termos:

-• 322 —
O CANTO NA IGREJA 43

1. A música e o canto sacros nao sao mero revestimento


externo, ocasional, dos ritos litúrgicos; nao sao meras formas
de solenizar uma funcáo religiosa ou de constituir um espeta-
culo apto a distrair ou elevar os seus assistentes. Nao devem
ser ocasiáo de se ostentarem dotes e talentos pessoais. Ñas
religióes pagas, pode-se dizer que a música visa a suscitar um
ambiente, provocar o recolhimento ou suavizar a cólera dos
deuses; a música ai pode ter um sentido mágico, destinada a
ser o artificio de encantamento de espirites superiores ou infe
riores ao homem. A concepcáo da música litúrgica também
é diversa da concepcáo romántica, que encara a música como
meio de afetar a sensibilidade pelo ouvido ou de provocar a
imaginacáo ou de produzir experiencias estéticas e emotivas.
No Cristianismo, ao contrario, a música é oracáo, é culto
sagrado; nao é algo que subsiste ao lado da oracáo; ela deve
conter e manifestar realidades sobrenaturais ocorrentes no
íntimo dos participantes da liturgia.

2. Daí se entende que o canto sacro deva ser algo que


toda a assembléia possa cantar. Por isto nao há de ter índole
de ópera. Será algo de popular no sentido de «participado pelo
povo de Deus por ser a voz e a oracáo do povo de Deus». É
para desejar mesmo que todo o povo nao somente possa can
tar, mas realmente cante no culto sagrado. Este anseio é
especialmente forte no Brasil, onde o povo se dá fácilmente ao
canto e expande com prazer a sua alma através das suas melo
días. Isto, porém, nao quer dizer que o canto sacro deva ser
banal ou carente de senso estético e artístico. Ao contrario, se
o canto sacro é prece ou elevacáo das mentes a Deus, deve ter
o cunho de dignidade e nobreza que convém a quem está na
presenca de Deus. Por conseguinte, simplicidade, de um lado,
e estética, harmonía, de outro lado, sao duas notas que nao
podem faltar á música sacra; é certo que uma nao excluí a
outra.

Eis, por exemplo, o que ensina a Instrucáo sobre a Mú


sica na S. Liturgia promulgada pela Santa Sé em 1967:
"Tenha-se em conta que a verdadelra solenldade da acfio litúrgica nao
depende tanto de uma forma rebuscada do canto ou de um desenrolar
magnifícente das cerimonlas quanto daquela celebracfio digna, religiosa, que
tem em conta a integrldade da próprla acfio litúrgica... Uma forma mals
rica de canto e um desenvolvlmento mais solene das cerlmOnlas de certo
que sao desejávels onde naja molos para bem os realizar; mas tudo quanto
possa contribuir para que se omita, se mude ou se realiza Indevotamente
algum dos elementos da acfio litúrgica, ó contrario a sua verdadelra solé*
nidada" (Instrucflo, n? 11).

— 323 -r-
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

Compreende-se bem que numa mesma cidade urna assem-


bléia de bairro popular possa sentir como auténticamente sua
urna música que nao se pedería adaptar a outra paróquia de
nivel cultural mais elevado. As diversidades de nivel musical
sao toleráveis contanto que respeitem as normas da dignidade
estética e da simplicidade nao teatral.
3. Em conseqüéncia ainda do que foi dito atrás, vé-se
que certas músicas já consagradas pelo uso profano em am
bientes de leviandade e divertimentos nao devem ser levadas
para a igreja. É mais imperiosa ainda esta cautela em se tra
tando de música que inspire a danga ou arraste a ela. Ainda
que se facam retoques a essas pegas musicais, elas seráo desa-
conselháveis desde que continuem aptas a lembrar a quem as
ouve, os ambientes profanos donde foram tiradas.

4. Certas letras, principalmente as que falam de amor,


tém as vezes origem fora de ambientes religiosos, e sao trans
feridas para o culto sagrado. Tais letras, em varios casos, nao
mencionam o nome de Deus nem o de Jesús Cristo nem tém
conteúdo religioso. A palavra «amor» nelas ocorrente fica
tando de música que inspire a danga ou arraste a ela. Ainda
namorados ou noivos entre si quanto o amor do homem a
Deus e de Deus aos homens.

Ademáis é necessário que na celebragáo da Eucaristía os


cantos tenham letra correspondente á fungáo precisa que está
em curso; signifiquem «entrada» quando postos logo no limiar
da celebragáo; ... meditagáo sobre a Palavra de Deus, quando
se seguem a alguma leitura bíblica (a primeira ou a segunda);
... oferecimento, quando acompanham a oblagáo do pao e do
vinho no altar; ... uniáo e comum-uniáo, amor a Deus e ao
próximo, acáo de gragas, quando executados durante a distri-
buigáo da S. Eucaristía;... louvor, exortagáo, quando devem
encerrar a celebragáo sagrada. Donde se vé que nao se deve
adotar qualquer canto (ainda que estético e religioso) em qual-
quer fungáo ou em qualquer parte de determinada fungáo; mas,
se o canto é oragáo, exprima o tipo de oragáo que a Liturgia
deve realizar.

Estas normas se acham contidas numa Carta-Instrugáo de


D. Clemente Isnard, Presidente da Comissáo Nacional de Li
turgia, datada de 25 de julho de 1973:

"A Oracfio Eucarfstica cabe exclusivamente ao presbítero celebrante.


Ao povo cabe apenas dizer as aclamacfies (o Santo e a que se segué á

— 324 —
O CANTO NA IGREJA 45

ConsagracSo) bem como responder o Amém no llm. Fazer o povo recitar


partes da Oracáo Eucarístlca é urna falta serla contra a estrutura da
Liturgia.

2. Os cánticos da Missa devem estar relacionados com os momentos


em que seo cantados: Entrada, Meditacao, Otertório e ComunhSo. Dese
duca o povo e perturba a harmonía do ato litúrgico cantar coisas bonitas
que nada tem que ver com o momento da Missa que se está celebrando.

3. Os cánticos da Missa s8o parte Integrante da Liturgia. Nfio tem


sentido, pois, cantar letras sem conteúdo de ié, sem dimensfio de louvor.
Como também nfio convém usar melodías ligadas na memoria auditiva do
povo a letras pecaminosas ou slmplesmente alheias a um sentido religioso,
embora com texto religioso.

4. Nfio é posslvel substituir a Proflssáo de fé por cánticos em que


a palavra 'Crelo' é usada em sentido equivoco: 'crelo no automóvel, etc.'.

Estes quatro pontos foram vivamente recomendados na última Assem-


bléla da CNBB em Sao Paulo".

5. Quanto aos instrumentos musicais, verifica-se o


seguirte:

Os antigos cristáos eram assaz austeros neste ponto. In-


sistindo no fato de que o homem inteiro deve constituir urna
harmonía, um salterio vivo, costumavam rejeitar o uso de ins
trumentos de música mecánicos no culto divino. Tais instru
mentos eram utilizados pelos pagaos para produzir urna mú
sica que geralmente nao era expressáo de harmonía interior
ou virtude, mas, sim, música de orgia; o instrumento mecá
nico parecía assim suprir a falta do instrumento natural e
vivo; era, antes, sinal de morte do que de vida, nos tempos
do antigo Imperio Romano; donde sua rejeigáo. Cf. Clemente
Al., Paedag. 2,34, ed. Migne grego 8,443; Eusébio Ces., In
Ps 91, ed. Migne grego 23, 1171s; Ps. Justino, Ad orthodoxos
107, ed. Migne grego 6, 1353.

Com o tempo, porém, urna vez passado o fundo de cena


do Imperio Romano, os cristáos houveram por bem aceitar os
instrumentos musicais como esteios para a melhor execucáo
do canto sacro; os instrumentos nao deveriam preponderar
sobre a voz humana, mas, antes, sustenta-la e concorrer para
que seja mais harmoniosa: órgáos, harmonio, violino eram os
instrumentos preferenciais até o Concilio do Vaticano II.

Após o Concilio, a Instrugáo sobre a Música na S. Litur


gia em 1967 fazia a seguinte observacáo:

— 325 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

"A Igreja nao recusa ñas acoes sagradas nenhum género de música,
contanto que responda ao seu espirito e ó natureza de cada urna das suas
partes e nfio Impeca a necessária particlpacáo ativa do povo" (n<? 9).

Este texto abre margem a que se introduzam na S. Litur


gia o violáo, a harpa e outros instrumentos que concorram
para o maior brilho do culto e a viva participacáo dos fiéis.
Há, porém, instrumentos que, ao menos em ambientes ociden-
tais, sao, de certo modo, característicos de bailes, desfiles, fol-
guedos carnavalescos, etc.; o seu uso, associado como está a
ambientes profanos, em vez de contribuir para urna oracáo
mais profunda e piedosa, concorre notoriamente para distrair
os ánimos, suscitar recordagóes ou ecos que sao empecilhos ao
genuino espirito de recolhimento e prece.

A discriminacáo dos instrumentos pode variar de regiáo


para regiáo; o criterio de selecto será objetivo e sempre idén
tico (suscitar urna oragáo mais perfeita e profunda), mas as
repercussóes subjetivas de cada instrumento variam de lugar
para lugar, segundo os costumes musicais de cada regiáo. Na
África, por exemplo, podem-se usar no culto sagrado instru
mentos de percussáo que favorecem a auténtica piedade, ao
passo que nos países ocidentais o mesmo nao se daria.
Sao estas algumas perspectivas tiradas de fontes puras,
capazes de orientar o canto sacro e pastoral em nossas igre-
jas. Estamos conscientes de que a materia poderia ser mais
amplamente explanada. Todavia tencionamos apenas abordar
o assunto do ponto de vista teológico, apresentando alguns prin
cipios que inspirem a vivencia concreta do canto sacro. Os
especialistas em arte e canto, assim como os estudiosos e agen
tes de pastoral daráo a complementacáo particularizada e téc
nica que estas páginas nao pretendem oferecer.

Bibliografía:

A. de Ollvelra, "A liturgia ó urna acáo sonora", em "Ora et Labora"


(Slngeverga, Portugal) ano XV, n? 3, 1968, pp. 150-169.

"Revista Litúrgica Argentina", a. XXXV, n? 238, octubre-diciembre 1970.

"L'Eglise qul chante", revista bimestral, 31 Rué de Fleurus, París (6e).


H Leclercq, "Chants populalres llturglques", em "Dlctlonnalre d'Ar-
chéologie Chrótlenne et de Liturgia" III, 1. París 1913.

A. Gatard, "Chant romaln et grégorlen", Ib. cois. 256-321.


"La VIe Splrituelle", a. 54, n? 588, t. 126, |anvier 1972.

Esteva© Bettencourt O.S.B.

— 326 —
livros em estante
Exltte o dlabo ? Responden) os teólogos, por J. E. Martins Térra S.J.
Prólogo do Cardeal Arns. — Edlcoes Loyola, Sfio Paulo 1975, 185 pp.,
140 x 210 mm.

O novo llvro do Pe. Jofio Evangelista Térra, exegeta braslleiro, aborda


corajosamente um tema difícil e discutido da hermenéutica bíblica. A exis
tencia do demonio vem sendo questlonada nos últimos anos; tornou-se
masmo objeto de Interesse público recentemente, por ocaslfio do lanca-
mento do romance e do filme "O Exorcista" de Wllllam Peter Blatty.,
Há varios anos que o Pe. Térra se dedica ao estudo do capitulo de
exegese e teología Intitulado "Os anjos (bons e maus)". Como fruto de
suas pesquisas, publlcou o livro ácima (ao qual se deve seguir outro, aná
logo, como anuncia o autor), no qual recolhe nao somante as suas con-
clusñes pessoais, mas também as posees (amplamente apresentadas) de
seis estudiosos contemporáneos frente á questfio: Theodor Herzl Gaster
(israelita), Cecil Roth (Israelita), L L. Morris (protestante) e os católicos
Plerre Qrelot, Stanlslas Lyonnet, Johann Mlchl, Damasus ZShringer, Helnrich
Schller (outrora protestante). Cada autor ó Introduzldo mediante breve "curri
culum vltae", que ajuda o leltor a ]ulgar do peso da respectiva poslcáo.
Em síntese, os diversos exegetas aduzidos pelo Prof. Pe. Térra, após
examinar meticulosamente os textos bíblicos, concluem convergentemente
(embora cada um do seu modo) em favor da existencia do demonio ou
dos anjos maus; sem dúvida, recusam qualquer tentativa de conceber o
Maligno como um segundo Deus ou urna figura mitológica; afastam tam
bém as concepcfies populares que tem índole de crendlce, para flcar fiéis
¿s nocóes bíblicas. Estas se elucldam principalmente nos escritos do Novo
Testamento, onde Jesús e Sao Paulo apresentam a salvacfio como Vitoria
sobre o Principe deste mundo (cf. Jo 14,30) e sobre os esplrltos maus,
que desencadearam o pecado na historia dos 'homens (cf. Cl 2,14s). — A
verlficacSo de que autores contemporáneos de nomeada aceitam tfio níti
damente a demonologla bíblica tem inegável alcance; dá-nos a ver que,
embora a existencia do demonio n&o seja objeto de observacSes empíricas
ou de silogismos filosóficos, é, nao obstante, proposlcao de fé; a erudlcáo
nao leva necesariamente o cristfio a recusar a demonologia como se fosse
mero produto de Ignorancia e' imaglnacfio dos antigos.

Interessa-nos transcrever aquí, á guisa de exemplo, a conclusflo com


que o Pe. Térra encerra a exposlclo do pensamento de Damasus Zahrlnger:

"A doutrlna da revelacio e da teología é bem precisa e multo serla.


Devldo a debilidade da natureza humana ferida em todos os seus nivel»:
físico, psíquico e moral, esse enslnamento foi, As vezes, deturpado, nao
consegulndo evitar exagerares, omlssfies e deformaeoes condicionadas
pelo momento histórico.

Nosso tempo nio está completamente liberado desses equívocos, mas


sobretudo se esquece hoje em dia de valorizar a dbnensio moral e religiosa
que constituí o verdadeiro núcleo da doutrlna sobre a existencia do, Dlabo.
Mals freqüentemente se preferei colocar em evidencia, com roprovável In-
lencao sensaclonallsta, certos fenfimenos demoniacos. Porém, as conse-
qQénclas religiosas e moráis decorrentes do (ato det nossa vivencia crista
estar ameacada por urna conhtencla com o Dlabo, nao 8§o suficientemente
ponderadas.

— 327 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 187/1975

Somente através da (é podemos contar com o poder de Cristo que


nos garante toda protecao. Trata-sé; para todo memoro da Igreja de renun
ciar tncondtcionalmonte ao Diabo, como será exigido, mais do que nunca,
no flm dos tempoe" (p. 179).

Na parte final do llvro (pp. 193-281), em que o próprlo autor Pe.


Térra expSe o seu pensamento, a demonologla é considerada através de
quatro tipos de abordagem: a lingüística, a histórica e filosófica, a bíblica e
a teológica. Estes quatro capítulos revelan) vastos conhectmentos de filo
sofía, historia das rellgiCes, Escritura Sagrada e Teología sistemática; sao
especialmente notáveis as suas considerares sobre a dimensSo religiosa
do homem (pp. 206-214). Também merece particular atencSo o quadro
esquemático que propde a origem e a evolucSo das concepcdes sobre
Deus e os espirites ñas rellgiSes da pré-histórla e dos povos primitivos
(pp. 221-230).

Quando aborda os textos bíblicos, o autor se mostra hábil exegeta.


O episodio dos porcos de Gerasa (Me 5,1-20), por exemplo, é analisado
com maestría, pois o Pe. Térra sabe apontar al os traeos de género litera
rio próprlo: os evangelistas narraram a cura de um endemonlnhado, dentro
de moldura que visa a por em relevo a signiflcacSo messlánica e escato-
lóglca do fato.

Em seu enfoque teológico, o autor tenta explicar a acSo do demonio


no mundo, chamando a atencSo para o mal moral ou o pecado, que certa-
mente é urna das expressSes mais requintadas de Satanás; este revela-se
mals freqüentemente ñas formas cruéis (e quase tidas como "naturafs")
da vida de hoje do que em fenómenos extraordinarios; os teólogos mo
dernos chegam a falar da "demonlzacáo da historia", lembrando a dlvini-
zacSo do Estado ou do Poder estatal, os crematorios de Dachau, as ca-
deias de crlmes que, hoje mals do que nunca, asslnalam a presenca do
Dlabo na historia dos homens. De modo geral, em suas aflrmacSes sobre
o demonio o Pe. Térra faz questSo de distinguir sempre entre as autenticas
proposicoes <da Biblia e da teología e as deturpagfies que a credulidade
popular tem produztdo sobre o assunto. É, pois, multo conscientemente
que o autor assevera: "A existencia do dlabo é um dogma de fé" (p. 276).

Em suma, o estudo do Pe. Térra é de alto valor; encara de manelra


exaustiva (evitando superficialIdade e preconceltos), e com grande Inteligen
cia, urna questSo que nos últimos tempos vem sendo tratada com precipl-
tacao. Parabens sinceros ao autor I

Céu e carne no casamento, por JoSo Mohana. — Ed. Agir, Rio de


Janeiro 1975, 276 pp., 207 x 137 mm.

Jofio Mohana, médico e sacerdote, é escritor maranhense consagrado


por numerosas obras tanto de ficgSo literaria como de profunda doutrina
religiosa (multas vezes, abordando temas relacionados com a psicología).
De modo especlahtem-se dedicado a questSes atinentes ao casamento e
á familia. O livro ácima indicado é mais um dos que abordam tais ques-
toes; encara primeramente a dlmensao crista e sobrenatural do matri
monio para, depols, encarar os temas relacionados com a vida sexual
do casal.

Na sua prlmeira parte (Céu), o autor propóe a fundamentacSo bíblica


e teológica do casamento; nao deixa, porém, de ser concreto e prático,

— 328 —
quando considera a realidade do casamento cristSo no dia-a-dia; é com
prazer que o leltor acompanha os exemplos e os casos reais citadO6 por
Mohana. No tocante aos casamentos mistos, o autor mostia que nfio sao
desejáveis nao somente em nome da fé, mas também em nome do bem-
-estar e da uniao do casa!, pois a comunháo religiosa é de importancia
fundamental para a mutua doacao dos cónjuges.

A segunda parte (Carne) do livro é assaz realista em suas observa-


cSes de fisiologia e psicologia; o autor desee a minucias inspiradas pelo
olho do médico; fá-lo, porém, no intuito de mostrar o valor e o significado
transcendentais da vida sexual no matrimonio cristáo; procura asslm dife
renciar a cópula conjugal da que se realiza entre dois irracionais. Especial
mente interessantes sao as longas observacdes do autor a respeito da líber-
tac&o da mulher e do uso da pilula como arma de vinganca (pp. 145s),
a respeito da prostltulcáo e das "programistas" (pp. 147s), ...a respeito
da fidelidade conjugal e do amor livre (pp. 139-142). No fim do livro Mohana
propoe algumas reflexdes sobre a morte em perspectiva crista (pp. 239-241),
procurando evidenciar a necessidade de se pensar na grande consumacSo
desta peregrinado que é a vida presente.

O estilo do livro ó simples e profundo, valendo-se de freqüentes me


táforas ilustrativas do pensamento; nao sobe a elevadas especulares de
filosofía ou teología, mas é nutrido da boa doutrina católica, de modo
a merecer apoto e recomendagáo da parte de quantos se interessam pela
felicidade conjugal.

Vocabulario de Filosofía, por Régis Jolivet. Traducáo e Prefacio de


Gerardo Dantas Bárrelo. — Ed. Agir, Rio de Janeiro 1975, 254 pp.,
140 x 205 mm.

O Prof. Régis Jolivet, de Lyon (Franca), tornou-se conhecido entre


nos pelo seu Tratado de Filosofía, que consta de quatro volumes (Lógica
e Cosmología, Psicologia, Metafísica, Moral) editados pela Agir.

O presente Vocabulario vem a ser urna complementagSo dessa obra.


Verlficam os estudiosos (e com razio) que há hoje urna crise de llngua-
gem, cujas conseqüéncias sao graves na cultura contemporánea. Os mo
dernos meios de comunicac.no social veiculam idéias; todavía os vocábulos
que as pretenden) transmitir, nem sempre sao entendidos do mesmo
modo pelas pessoas que compóem o grande público. Com efelto, as pala-
vras "amor, democracia, liberdade, revolucáo, paz" e outras sSo utilizadas
diversamente por diversas ideologías e filosofías, de modo que se prestam
a conlusaes, ou por vezes nada mais significam para quem sa habituou
aos noticiarios cotidianos. Tal crise, alias, nSo se dá apenas na vida
pública, mas também no interior dos lares, onde os país nao entendem a
linguagem dos filhos e vice-versa.

Fis por que saudamos com prazer o Vocabulá'io de Filosofia Escolás


tica (dita "perene") de Régis Jolivet, que o Prof. G. Dantas Barreto teve
a feliz idéia de traduzlr para o portugués. Os verbetes explicativos de
cada termo nao sao longos; ao contrallo, caracterizam-se por brevidade e
clareza — o que nao os impede de ser panorámicos (o vocábulo é exposto
em todas as suas accepcoes). Asslm a razao do leitor é, por cada verbete,
solicitada a depurar as concepgdes, por vezes ambfguas, da linguagem
popular cotidiana. Apenas desejarfamos menos brevidade e mais explicita-
cáo para cada verbete, visto que o hábito de filosofar ainda está para ser
criado na media do nosso público (mesmo intelectual I).

(Continua na pág. 36)


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