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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memorísun)
APRESErsTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaieca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice
pag.

"PRONTOS A DAR CONTAS DA VOSSA ESPERANCA" (1Pd 3,15) 413

Documentarás Importante:
O DIALOGO DA K3REJA COM A MACONARIA KA BAHÍA 415

Ecos do estrangei o :
MACONARIA NO CANADÁ 430

Medicina e Moral:
ABORTAMENTO TERAPÉUTICO HOJE (II) 434

A III SEMANA INTERNACIONAL DE FILOSOFÍA 444

Ecos da Semana de Salvador:


FILOSOFÍA HOJE: PARA QUÉ? 446

LIVROS EM ESTANTE 3? capa

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO :

— O caso de D. Lefébvre. — Quem era María Made-


lena? — Abortamento terapéutico hoje (III). — O fenómeno
Uri Geller. — Discos voadores e mística.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Assinatura anual CrS 60,00
Número avulso de qualquer m§s Cr$ 6,00
Volume encadernado de 1975 Cr$ 85,00

EDITORA LAUDES S. A.
ItEDAQAO DE PR ADMINISTRAgAO
Calxa Postal 2.666 Rúa Sao Rafael, 38, ZC-09
ZOOO 20.000 Rio de Janeiro (RJ)
20.000 Rio de Janeiro (RJ) Tela.: 268-9981 e 268-2796
"PRONTOS A DAR CONTAS DA YOSSA ESPERANZA"
(lPd 3,15)

Por volta dos anos de 64/67 o Apostólo Sao Pedro exor-


tava os cristáos a que estivessem prontos a dar oontas da
esperanza que nutriam em seus coragóes, apesar das persegui-
guicóes pelas quais passavam.
Esta palavra do Apostólo dirige-se também aos fiéis de
hoje,... e com todo propósito. Vivemos numa época em que
nem sempre ha perseguigóes violentas, mas geralmente há
contradigóes e objegóes ao «ser cristáo»; nao nos achamos em
clima homogéneamente inspirado pela fé.
Esta situagáo, iluminada pelos dizeres do Apostólo, sugere
algumas indagagóes:
1) «... da vossa esperanza». Temos esperanga em meio
aos problemas com que o «ser cristáo» tem que se defrontar
hoje em dia?
Esperanga significa ter certeza da vitória final do Bem
sobre o mal, da Verdade sobre o erro, da Palavra de Cristo
sobre as variegadas palavras do Anticristo. Esta certeza
redunda em firmeza e coeréncia de atitudes. Quem tem espe
ranga, está firme como a nave ancorada, diz a carta aos He-
breus (6,19).
Esperanga implica também entusiasmo. O filófoso Nietz-
sche (f 1900) dizia que acreditaría no Cristianismo se os cris
táos tivessem um semblante mais condizente com a certeza
de estarem redimidos; urna fisionomia triste, um comporta-
mentó indefinido nao se conciliam com a certeza de termos
sido libertos do pecado e da morte. Com outras palavras:
«nao ter esperanga» nem sempre se traduz por «recuar na
caminhada». Pode também concretizar-se em falta de cora-
gem:... falta de coragem para ir adiante e aceitar o desafio
da estrada ou, também, falta de coragem para recuar e des-
dizer-se. A estagnagáo, a rotina mais ou menos voluntaria, o
arrastar-se mórbido no dia-a-dia sao expressóes de falta de
esperanga. — Ora sem esperanga ninguém vive. Sem espe
ranga todo homem, aparentemente vivo, torna-se na verdade
um cadáver ambulante. A esperanga é o dínamo da nossa
vida.

Em última instancia, esperanga supóe fé. Creio eu real


mente na Palavra de Deus? Sim; digo que creio em Deus...,
mas talvez nao tenha muita certeza de que Ele é o Senhor da
historia... ou, se tenho alguma certeza disto, é mais teórica
do que vivida e prática. Talvez eu me atemorize como se

— 413 —
estivesse acompanhando, através dos tempos, a luta de duas
grandes Potencias, ambas adestradas táo somente com equi-
pamentos humanos. Minha fé chega a crer, em todas as oca-
sióes (mesmo ñas mais desconcertantes), que a historia é o
desdobramento do plano do Senhor?... Plano que eu só nao
entendo porque, afinal de contas, procede de urna sabedoria
que ultrapassa a minha!
Eis a primeira serie de indagagóes que a Palavra do
Apostólo sugere hoje. A segunda se segué:
2) «Prontos a dar contas...» Se nao temos esperanga
ou se a temos lánguida, isto acontece talvez porque ignoramos
(ou só conhecemos vagamente) a razáo pela qual eremos.
Póem-se entáo muito oportunamente as perguntas: Posso eu
justificar a mim mesmo e aos meus semelhantes por que digo
ter fé?... por que me aprésente nos recenseamentos do IBGE
como católico, e nao como membro desta ou daquela socie-
dade filosófica e benefÍcente?
A fé se torna débil e a esperanga anémica se o cristáo
nao tem seguranga a respeito do embasamento do seu Cris
tianismo. Observa-se que fácilmente os fiéis se deixam abalar
hoje em dia por alguma pregagáo nova e aparatosa, as vezes
inspirada por urna mística tanto mais «respeitável» quanto
mais complicada e confusa,... outras vezes mística portadora
de moralismo sufocador (nao acompanhar a televisáo, nao
tomar café...). Esses abalos acontecem porque tais fiéis nao
conhecem suficientemente o teor da sua fé; ignoram,. infeliz
mente, que ñas proposigóes do Credo cristáo existem os prin
cipios da mais alta mística e da mais pura conduta moral»
sem diminuigáo do ser humano.
A verificagáo destes fatos nos incute mais urna vez a
importancia enorme que tem para os fiéis católicos urna for-
magáo doutrinária sólida e consciente. Sem esta fundamen-
tagáo, a vida católica é sujeita a inclinar-se segundo a diregáo
de todos os ventos ou a perecer ante o surto de qualquer tem-
pestade. E quem vive sujeito a tais vacilagóes, nao pode ser
feliz. Precisamente urna das causas da nossa felicidade é a
seguranga, principalmente a seguranga em relagáo ás grandes
interrogagóes: Donde vimos? Para onde vamos? Por que
sofremos? ... trabalhamos? ... morremos?
Sirva, pois, a palavra do Apostólo a despertar as cons-
ciéncias de todos os fiéis, a fim de que procurem adquirir
sólida formagáo ñas verdades da fé e assim se disponham a
viver de esperanga mais viva... Esperanga que é penhor de
alegría e felicidade, enquanto peregrinamos pelas estradas,
deste mundo em demanda da Plenitude!
E. B.

— 414 —
«PEGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XVII -^ Ootubrp de 1976

Documentagáo importante: i . . ~~7 ~~

o diálogo da isreja^corSTarmáíonaria
na bahía
Em sfntese: Estas páginas oferecem ao público a leitura de tres
documentos Inéditos que esclarecem a aproxlmagao ocorrida entre a
Maconaria e o Sr. Cardeal D. Avelar BrandSo Vllela, arceblspo de Sal
vador (BA). Varios comentarlos tém sido feitos aos acontecimentos sem
que os comentadores (jornalistas e observadores) tenham tido conheci-
mento dos precedentes e de certos dados históricos que permitem for
mular um juizo sereno e objtlvo sobre o assunto. é, pois, em vista da
objetividade necessária a um estudioso que PR aprésenla aos seus leitores
o documentarlo subseqüente.

Comentario : Nao há quem ignore a aproximac.áo ocorrida


entre o Emo. Sr. Cardeal Dom Avelar Brandáo Vuela, arce-
bispo de Salvador (BA), e a Loja Magónica Liberdade n» 1
da Grande Loja Unida da Bahia.

Com efeito. Aos 25 de dezembro de 1975, S. Eminencia


celebrou na catedral-basílica de Salvador a S. Missa de Natal
com a presenga dos membros da referida Loja e de suas es
posas, em comemoragáo das bodas de rubi da Loja.

Como testemunho de gratidáo por este gesto, a Loja


Liberdade, aos 11 de junho de 1976, recebeu em sua sede o
Eminente Prelado, conferindo-lhe entáo o título de «Grande
Benfeitor».

Posteriormente, aos 29 de junho de 1976, o Gráo-Mestre


Geral da Ordem, Dr. Osmane Vieira de Resende, houve por
bem outorgar a S. Eminencia a comenda da Ordem do Mérito
Pedro; I «como reconhecimento pelos relevantes servioos pres
tados 'á Ordem Magónica e á Fraternidade Universal».

— 415 —
i «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

A imprensa divulgou amplamente estes acontecimentos,


que, como era de esperar, causaram especie no grande público.
Muitos dos observadores dos fatos lembraram o antagonismo
vigente entre a Igreja e a Magonaria até os nossos tempos;
nao compreendiam como o Sr. Cardeal-Arcebispo de Salvador
pudera proceder de tal modo !

Ora, visto que, meses após ocorridos, os fatos ainda sao


comentados e deixam multas pessoas perplexas, PR volta ao
assunto no intuito de fornecer ao público alguns documentos
que ajudem os interessados a formular um juízo objetivo e
fundamentado sobre o assunto. Trata-se de documentos iné
ditos que, com a permissáo do Eminentissimo Sr. Cardeal D.
Avelar Brandáo Vuela, a nossa revista publica nesta sua
edicáo. Antes, porém, de transcrever os referidos documentos,
resumiremos as mais recentes normas da Santa Sé a respeito
do relacionamento da Igreja com a Magonaria, fazendo eco
assim ao que já foi mais detidamente exposto em PR 9/1958,
pp. 383-390; 121/1970, pp. 3-15; 171/1974, pp. 104-125;
179/1974, pp. 415-426; 188/1975, pp. 372-375; 194/1976, p. 64.

1. A Declaragao de 19/VI1/74

Aos 19/VÜ/1974 a S. Congregacáo para a Doutrina da


Fé em Roma havia por bem declarar que

— continua em vigor o canon 2.335. Este inflige a exco-


munháo aos fiéis católicos que se inscrevem em Loja Magónica
que trame contra a Igreja;

— todavía a Santa Sé interpreta o canon 2.335 de ma-


neira estrita (como sói fazer a jurisprudencia em tais casos),
de tal modo que, no caso de haver alguma Loja que nao
conspire contra a Igreja, nao incide em excomunháo o fiel
católico que nela se inscreva.

Note-se1. bem: a Santa Sé nao entra na questáo de saber


se há ou nao há Loja que trame contra a Igreja. Mas ape
nas encara a hipótese de haver Lojas inocuas á Religiáo e
formula sua atitude para esse hipotético caso. Ao Bispo dio
cesano e aos seus fiéis compete certificar-se da orientacáo
filosófko-religiosa das Lojas Magónicas situadas na respectiva
diocese.

— 416 —
MACONARIA NA BAHÍA: DOCUMENTOS

Sobre este fundo de cena há de se entender o gesto do


Sr. Cardeal D. Avelar Brandáo Vilela. É a tais disposigóes
da Santa Sé que S. Eminencia alude na correspondencia que
vai transcrita a seguir.

Proporemos os documentos mencionados, seguindo ordem


cronológica e de maneira sobria; o leitor poderá ponderá-los
a fim de tirar daí as conclusóes que julgar mais pertinentes.

2. Documentarlo esclarecedor

S,áo tres os textos que de mais perto interessam ao


estudioso.

2.1. Um pronunciomento epistolar da Loja Liberdade

Vai em primeiro lugar apresentada urna longa carta do


Sr. Antonio Carlos Pórtela, Venerável da Grande Loja Liber
dade, que fala em nome dos seus companheiros de Loja. Como
se verá, essa carta é o ponto final de urna serie de conver-
sagóes havidas entre os membros da referida Loja e S. Emi
nencia. É a essa carta que faráo alusáo os dois documentos
posteriores. É de notar que tal carta traz a data de 19 de
dezembro. Constituiu, pois, o fator decisivo para que S. Emi
nencia aceitasse celebrar seis días depois a Missa de Natal
para os Magons de Salvador.

A Gl.\ do GR.\ ARQ.\ do UNIW.


Aug.'., Resp.'. e Ben.\ Lo].'. S¡mb.\ LIBERDADE
N« 1 da GR.\ LOJ.\ UNIDA DA BAHÍA
Caniidorado do utilidad» pública pola lol municipal do n» 1505 da 20/8/1943

Rúa Carloa( Gomes N? 6 - EdH. Castro Alves - S/ 603 - Tel.


SALVADOR - BAHÍA - CEP 40.000

Or.\ de Salvador, 19 de dezembro de 1975.

Eminentíssimo SenJior
D. AVELAR CARDEAL BRANDÁO VILELA
MD. Aroebispo de Sao Salvador da Babia e Primaz do Brasil,

Ainda sob a agradabilissima sensagáo de fraternidade,


deoorrente do entendimento que mantivemos oom Vossa Emi
nencia, ante-ontem a noite, com a participagácl de outros
Dignitários da Igreja Católica na Bahia, voltamos, oom muita

— 417 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

honra para nos, a presenga do nosso queridíssimo Pastor


— ja agora através deste documento — para, ratificando1 os
termos do nosso tao proveitoso diálogo, oferecemos a sna
meditacao, sejnpre inspirada no amor de Jesús Cristo, os
seguintes elementos que esperamos possam ser de importancia
fundamental para o nosso almejado encontró, ao ensejo do
Natal, aos pés, do Altar do Senhor:

1 — Como já ficou evidenciado, as múltiplas razdcs que


determinaram o afastamento entre a Igreja Católica e a
Ordem Masónica, sobretudo no mundo ocidental, foram, pra-
ticamente, todas elas, mais de caráter eraergencial, político,
frutos das paixces de um longo período histórico em que a
primeira aínda se constituía em religiáo do Estado! e a se
gunda disputava altos cargos políticos, do que, efetivamente,
de sentido doutrinário, desde que, se examinarmos detida-
mento as nossas origens comuns, plenas de grandeza espiri
tual, chegaremos a cojnclusáo salutar de que, em sua essencia,
ambas se inspiram e se nutrem da seiva sagrada do Antigo
e do Novo Testamento ;

2 — Temos de convir, ademáis, que, se delitos foram


cometidos, eles mergulham ñas brumas de um passado remoto
e passam a existir, taJof-somente, para os anais da historia,
quer porque os tempos sao outros, quer porque, até por urna
analogía das mais simples com o Direito Penal adotado no
que chamamos de «mundo profano», toda e qualquer pena tem
sentido típicamente individualista e nao se pode nem se deve,
de sá consciéncia, transferi-la a outras pessoas e muito menos
a outras geragoes;

3 — Aínda neste sentido, acresce, ademáis, a circunstan


cia de que, dentre as profundas- questoes de direito intem
poral, urna das que mais preocupam ao legislador, é se um
fato considerado crime pela lei vigente ao tempo em que o
mesmo foi pnaticado, deixaria de sé-lo por lei posterior; e
essa hipótese, á luz da evolucao dos conceitos políticos, moráis
e religiosos do mundo atual, já está perfeitamente res
pondida;

4 — O mais edificante exemplo de renovacao e de revi-


sao de conceitos está, pois, na própria Santa Igreja Católica,
predominantemente depois do II Concilio Vaticano; e, oon-
quanto multas questoes se constituem em problemas da mais

— 418 —
MACONARIA NA BAHÍA: DOCUMENTOS

alta indagacáo, estamos certos de quo, mais compreensiva


e mais atoante, a Igreja de JOAO XXm e de PAULO VI,
— o que vate dízer, a «Igreja de todos e, mais particular
mente, a Igreja dos pobres» — tende a abrandar até os seus
Jnizos Eclesiásticos, imbuida daquele espirito de mansidao
que reflete o caráter do seu Fundador e Mestre Supremo:
JESÚS CRISTO;

5 — Ora, Eminencia, se penas eclesiásticas foram apli


cadas, no tempo, a muitos macons ou mesmo, mais genéri
camente, á Maconaria, elas se perdem no tempo, desde que,
dentre as mais graves definidas pelos já citados Juizos Ecle
siásticos, a de excomunháo, conceituadamente considerada
como urna coacjío legal, «nao fere o Católico que se submeteu
á Igreja» ; e, se a Maconaria, nao obstante o seu sentido uni
versal no que concerne aos anseioS de fraternidade e de amor,
teve em muitos dos seus Obreiros e, mesmo, em muitos dos
seus Ritos, certos aspectos e conceitos divergentes daqueles
esposados pela Igreja Católica, já neis é possível testificar
que, exatamente hoje, quando essa onda de doutrinas mate
rialistas ameaga avassalar o mundo e envenenar a Grande
Sociedade Humana, é exatamente a Sublime Ordem que mais
se aproxima da Igreja Católica na grande busca de luzes
para a reconstruyo do Homem, no melftor sentido espiritual
e moral; acrescendo aínda a circunstancia de que mais de
90 % dote seus membros sao declaradamente Católicos;
6 — No que concerne ao Oriente da Bahía, a GRANDE
LOJA UNIDA DA BAHÍA, a qual está jurisdicionada e deve
obediencia esta Uoja Simbólica LJBERDADE, obedece e pra-
tica o RITO ESCOCÉS DOS MACONS ANTIGOS, LIVRES
E ACEITOS, eminentemente deísta, merecendo seja posto em
relevo que, em nossas leis fundamentáis, dentre as quais os
LANDMARKS, estáo textualmente expressos, dentre outros,
os seguintes principios em que se assenta a organizagao das
GRANDES LOJAS:

a) É indispensável para todo Macón a crenca na exis


tencia de um principio criador ou DEUS como
GRANDE ARQUITETO DO UNIVERSO»;

b) «Todo Macón deve crcr na ressurreicáo, isto é, na


imortalidade da auna»;

c) «Um Livro da Leí (A BIBLIA) nao deve faltar


nunca em urna Loja quando em trabalhC».

— 419 —
S_ «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

7 — Por sen turno, a nossa CONSHTUI£ÁO proclama


textualmente no sen Preámbulo:

«A Blasonaría é urna instituida© universal que tem por


principio o amor a DEUS e a Humanidade. Instituicao sobre-
tudo filosófica, proclama a liberdade de consciéncia como
sacratíssimo direito do homem;

«Respeitando as idéias religiosas e políticas de cada nm


dos seus membros, proibe em seu seio toda e qualquer dis-
cussáb sobre materia religiosa ou político-partidaria;

«Seu genio, que ha tido sempre o instinto verdadeiro, a


levou ao conhecimento da verdade e a conduziu ao rcconheci-
mento1 de um Ser Supremo. A crenca, pois, em nm DEUS
único e o amor á humanidade sao as bases fundamentáis de
sua doutrina e manancial fecundo de beneficios para seus
adeptos e para a sociedade de que estes fazem parte».

8 — Por sen turno, dizem os nossos RITUAIS, aínda


no seu Preámbulo:

«A Ordem Macónica é urna associacao de homens


sabios e virtuosos que se consideram Irmaos entre
si e cujo fim é viver em perfeita igualdade, última
mente ligados pelos lagos de recíproca estima, con-
fianca e amizade, estimulando-se uns aos outros na
prática das virtudes. Í2 um sistema de Moral velado
por alegorías e ilustrado por símbolos».

E odiante:

«A Maconaria tem por fim combater a ignorancia


em todas as suas modalidades; é urna escola que
Impoe este programa: obedecer as Leis do País;
viver segundo os ditames da Honra; praticar a
Justica; amar o Próximo; trabalhar incessante-
mente pela felicidade do género humano e conse
guir sua emancipacád progressiva e pacífica».

9 —i Tendo a figura magnífica de Sao Joáo Batista como


seu Patrono, a Maconaria se credencia, ademáis, a inspira-
cao divina, e busca nos principios da severa moral daquele
«que velo dar o testemunho da LUZ» e que, segundo as pró-
prias palavras de Jesús Cristo, «entre os nascidos de mulhe-
res, nao se levantou outro maior que Joáb Batista», a forca
da Fé no seu mais profundo1 sentido espiritual;

_ 420 —
MACONARIA NA BAHÍA: DOCUMENTOS

10 — Por tantas e táo edificantes razóes, pols, é que


nos indagamos a nos mesmos: Por que motivo perdemos
tanto tempe» trabalhando paralelamente, e nao de macis dadas,
pela grande causa da Fraternidade Humana, se tudo que
fazemos, fazémo-lo a gloria de DEUS ?...
. 11 — Diante de tudo isso é que, Eminencia, resolveu a
Maznaría Baiana — deste Oriente que serviu" de berco a
civilizacáo crista — dar os primeiros passojs decisivos para
uní reencontró de amor, para urna definicáo de Iuta em ter
mos daquele bom combate a que se refere o Apostólo Sao
Paulo, em prol dessa humanidade que, mais do' que nunca,
necessita de amor e de esperanca, de orientacáb e de rumo
no sentido da Estrela de Belém;
12 —• Assím, pois, vimos rogar-lhe humildemente qus
defira o nosso pedido e que atenda aos nolssos ansetos cristaos,
celebrando, ao ensejo do Natal, a Santa Missa de amor para
toda a Fraternidade Macónica do Oriente da Bahía;
13 — Estamos certos de que algo de extraordinario acon
tecerá nesse encontró onde a presenca divina será o Grande
Testemunho das nossas mutuas intencoes;
14 — Nada queremos para nos, em particular; mas,
antes e ácima de tudo, urna comunhao de idéias, de torcas
robustecidas pela Fé, no! sentido matar da Humanidade;
15 — Segundo Sao MATEUS, «qual é o homem que,
se seu fiEio Ihe pede pao, Ihe dará urna pedra?»...
16 — Pedimos, Eminencia, o pao do espirito.

Respeitosa e fraternalmente,

(a) ANTONIO CARLOS PÓRTELA


Venerável

(a) JOSÉ EGYPTO PEREIRA


Orador

(a) WALFRIDO MORAES


Grande Orador
da GLUB

Com a cháncela da GRANDE LOJA UNIDA DA BAHÍA


(a) FLORIVAL BASTOS FERREIRA
Grao Mestre

— 421 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

A esta missiva respondeu S. Eminencia aos 21 de dezem-


bro de 1975, declarando ter ponderado atentamente a expo-
sigáo do Sr. Antonio Carlos Pórtela e, conseqüentemente,
aceitar o convite para celebrar a S. Missa solicitada para o
dia 25 de dezembro seguinte.

Aos 26 de dezembro escrevia D. Avelar Brandáo Vilela


outra missiva, desta vez dirigida ao Sr. Nuncio Apostólico.

2.2. A explicajóo dos falos de 25/12/75

Logo no dia seguinte ao de Natal, quis S. Eminencia


esclarecer oficialmente ao Sr. Nuncio Apostólico, legado de
S. Santidade o Papa, a situagáo que se criara. Fé-lo através
da seguinte missiva:

Salvador, 26 de dezembro de 1975

Eximo. Revino. Sr. Nuncio Dom Carmine Rocco1,

Paz!

Venho tratar-üie, hoje, de rnn assunto que, pela sua


natureza, precisa de urna explicacáo.

Depois da última interpretado do canon 2335, por parte


da Sagrada Congregaca» para a Doutrina da Fé, e após os
debates sobre Igreja e Maconaria pela CNBB, quando se
firmón que era preciso* dar-se a palavra k Maconaria para
que ela manifestasse o sen sentir e pensar acerca da Igreja,
fui aaui, em Salvador, procurado, varias vezes, pela Mago-
naria para diálogos.

Nesse fim de ano, antes de seguir para Roma, altos re


presentantes da Maconaria pediram-me celebrasse urna Santa
Missa, por ocasiáo das Bddas de Rubí da Loja Liberdade.
Nao aceitci, dizendo-Ihes que era preciso antes aprofundar
o diálogo.

Ao voltar de Roma, e já perto do Santo Natal, novo


pedido me foi dirigido; para que celebrasse a Missa de con-
fraternizacá'o, na Catedral, para os niagons e seus familiares.
Nao atendí ao pedido, mas'aceitei um diálogo em profundi-

— 422 —
MACONARIA NA BAHÍA: DOCUMENTOS 11

dade, em nossa Residencia. Comparecen o Estado Maior da


Maznaría e, de nossa parte, além de mim, dois assessores
— Mons. Eugenio Yeiga e padre José Hamilton.

O encontró de duas horas foi bastante proveitoso, pois,


em ambiente cordial, pennitiu se ventilassem todos os pro
blemas, objetivamente, inclusive sobre doutrina filosófica e
religiosa.

Sentí que eles estavam mesmo querendo urna aproxima-


cao sincera, tais os sentimentos revelados. Nessa altura do
encontró, pedi-lhes que dissessem, por escrito, as razoes pelas
quais desejavam a Missa. Aceitaram a proposta.

Dois dias depois, recebi a exposicao que segué em anexo,


vasada em termos delicados e firmeza de propósitos. Natural
mente, nao me seria licito exigir precisoes teológicas absolu
tas. Em face, porém, do que escreveram e do que me dis-
seram, julguei-me com certeza moral suficiente para atender
ao pedido da Missa, sem que eles comparecessem com insignias,
mas em trajes comuns, acompanhados de suas esposas e filhos.

Respondi-Ihes a carta, que vai juntamente com esta, carta


que me pareceu aliar as normas vigentes aos bons propósitos
de ir ao encontró da extrema boa vontade pelos macons
manifestada.

Estou absolutamente seguro de que procedi corretamente,


urna vez que a Loja, pelos seos mais altos representantes,
deu-me os elementos capazes de julgá-la como instituicao que
nao conspira contra a Igreja.

Nao me dirigí a todas as Lojas nem muito menos a


todos os ramos da Maconaria. Estou certo de que prestei um
servico a Igreja,. dando um passo na liiiha do entendimento
real entre Igreja e Maconaria. Muitos desses macons já viviam
participando de Cursilhos e de outros movimentos e freqüen-
tando a Eucaristía. Durante a Missa, notare momentos como,
por exemplo, na hora da paz, quando houve lágrimas de
dezenas de homens.

A repercussa» da Missa, em ambiente serio e piedoso, foi


admirável.

— 423 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

Eis ai, Excelencia, um modo especial de vívennos o


encerramento do Ano Santo, em nossa Arquidiocese, no espi
rito da reconciliacáb e da renovacao.

Aquí, 90 % dos macons se declaram católicos.

Com estima e apreco, em Cristo Jesús,

(a) Dom Avelar Branda© Vilela


Arcebispo de Sao Salvador da Bahía, Primaz do Brasil

Passaram-se semanas e meses...

Tendo a Loja Liberdade e o Gráo-Mestre Geral do Grande


Oriente do BrasU manifestado efusivamente sua gratidáo para
com o gesto do Sr. Cardeal D. Avelar Brandáo Vilela, novos
comentarios dos fatos foram publicados pela imprensa. De
modo especial, o jornalista Gustavo Corcáo e o advogado
Dr. Heráclito Sobral Pinto se pronunciaran! contrariamente
ao gesto de S. Eminencia.

Ao Dr. Sobral Pinto quis D. Avelar responder nos ter


mos da missiva abaixo.

2.3. Mais urna vez p histórico dos fatos

Eis o texto da resposta do Sr. Cardeal da Bahia ao advo


gado Heráclito Sobral Pinto:

Salvador, 12 de julho de 1976

Prezado prof. H. Sobral Pinto,

Paz!

Rccebi sna carta- de 6 de julho do torrente ano, cheia


de santa indignacáo pelo meu gesto dialogal de ter recebido
urna comenda e um título da Maconaria.

Antes que eu tivesse tido suficiente tcmpo para ler e


para esperar ctutros escritos do prof. Gustavo Corcáo, antes
de ter oferecldo á opiniSo pública os argumentos do meu
proceder, porque a imprensa apenas registrou os fatos, e
quase sempre com o destaque do sensacional, sua carta me
chegon as maos, vasada em outro tom, embora integramente
solidaria com as latitudes assumidas pelo prof. Corcáo.

— 424 —
MACONARIA NA BAHÍA: DOCUMENTOS 13

Considero o prof. Sobral um católico que vive a Igreja


com intensidade, sem receber as pressoes e distorcoes que
afetam o outrC também filho da Igreja. A veneracao que
sempre tive pelo senhor, e tenho, me leva a dar-lhe priori-
dade na resposta.

1. Dentro da perspectiva na qual o senhor se coloca, e


dentro do quadro histórico e eclesial pelo! senhor desenliado,
eu também faria como o professor Sobral.

2. Houve época em que a Igreja, pelos seus Pontífices


Máximos, condenou explícitamente a Maconaria. O Canon 2335
que proíbe a entrada, sob excomunnao, dos católicos na Ma
conaria, aínda está em vigor.

3. A partir do Concilio Vaticano II, um novo espirito


comecou a conviver com a Igreja no trato das pessoas e das
instituicóes. O Santo Padre Joao XXm e o atual Pontífice
¡números gestos tém praticado no sentido da reconciliaeáo.

4. No caso especifico da Maconaria, o assunto está em


estudos. O Código de Direito Canónico encontra-se em fase
de análises profundas, procurando atualizar seu texto, através
de urna Comissáo Especial nomeada pelo Santo Podre.

5. Enquanto isso, foi feita urna consulta, faz poucos


anos, a todas as Conferencias Episcopais Nacionais pela
Santa, Sé. O resultado nao logrou unanimidade, é claro, mas
se constituiu em farto e variado material de estudos e infor-
macocs, ad intra.1

6. A CNBB reservadamente mandou fazer um estudo, á


base de consultas, inclusive aos macons e a organismos masó
nicos. E este documento é de grande valor informativo.

7. Em sua última Assembléia, a CNBB examinou o pro


blema, num duna em que as opinioes foram de varios mati-
zes, nrnna tendencia, porém, de diálogo e de compreensaJo.
Urna Nota foi divulgada declarando; que a Igreja mantinha
disposicóes para o diálogo, mas gostaria de onvir a Maco
naria ; era chegado o momento de a Maconaria dizer algo
de si mesma, quanto a seus propósitos de aproximacáo da
Igreja.

Intra, Islo é, para uso Interno da Santa Sé. (Nota da redagSo).

— 425 —
Jt4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

8. Abriu-se, entáo, etn todo o País um novo horizonte.


Eu, de minha parte, me mantive sem provocar contactos.

9. Depois de ter sido procurado1 por macons bem inten


cionados sobre a necessidade da aproximacáo, me mantive
sem demonstrar qualquer interesse até o momento em que,
ano passado, a cúpula da Loja Liberdade, filiada a Grande
Loja Unida da Babia, me pediu celebrasse Missa para suas
familias, no1 tempo do Natal. Nao aceite! a proposta. Dois
meses depois, voltaram os mesmos senhores á minha procura.
Pedi-lhes um encontró ampio para urna tentativa de exame
de seus reais propósitos.

10. Durante mais de duas horas, com a presenca dé


dois sacerdotes idóneos, dirigi-lhes as perguntas mais diretas
e obtive as respostas mais razoáveis que poderia esperar da
Loja Macónica e de seus adeptos.

11. Exigí que dissessem por escrito o que haviam de


clarado oralmente. E recebi a resposta que, em xérox, segué
com esta. Nao é um tratado teológico, mas apresenta afirma-
coes dignas de apreco.

Estudei e rezei, colocando-me dentro, nao daquele quadro


histórico do passado, mas do atual, e procurando exprimir o
espirito do Concilio Vaticano II.

12. Confesso ao prof. Sobral Pinto1 que fiquei em dúvida,


durante dias, mas depois, sem a menor intencáo de quebrar
a comunháo ou a disciplina com a Sé Apostólica, o que seria
um absurdo, resolví aceitar o convite.

13. 90% dos macons da Bahía declararam-se católicos.


Alguns deles, por concessoes especiáis, tem participado de
movimentos religiosos, e aínda participam de maneira exem-
plar, inclusive de cursilhos.

A última Instrucáb da Sagrada Congregacáo para a Dota-


trina da Fé (1974), embora Iembre que aínda está em vigor
o canon 2335, «até que nova lei canónica seja publicada pela
competente Gomissáo Pontificia para a Bevisao do D.C.»,
com estas palavras admite a possibilidade de mudanca do'
«estatus».

— 426 —
MACONARIA NA BAHÍA: DOCUMENTOS 15

14. Declara aínda que, «no exame dos casos particulares,


pode-se ensinar e aplicar eom seguranza a opiniáo daqueles
autores segundo os quais o canon 2335 se refere únicamente
aos católicos que dao> o nome as associacoes que de fato
conspiram contra a Igreja».

15. Cabe ao Bispo, em sua Diocese, examinar esses as


pectos pastarais do problema. E, no caso peculiar de Salvador,
os casos particulares cresceram de número, e eu tive de per-
guntar-me se a Loja Macónica Liberdade era ou na» entídade
que estivesse a conspirar contra a Igreja.

16. Confesso aoí prof. Sobral que minha resposta foi


negativa, resposta de minha consciéncia pastoral. Para dar-me
esta resposta, nao precisava ferir o canon, mas amparar-me
nele e na interpretacáo da S.C. para a Doutrina da Fé. Nao
tomara medidas de natureza jurídica, mas somara os casos
particulares que me deram um total expressivo, e analisara
as declaracoes de humildade dos cliefes do movimento ma
sónico na Bahía, sobretudo da Loja Liberdade, apoiada logo
depois pelo Gráb Mestre.

17. O meu gesto1, professor, conseguiu sensibilizar todos


os meios masónicos. E o tempo foi passando, enquanto eu
me recothera ao trabalho pastoral, sem maiores preocupacoes
quanto a Maconaria.

18. Este ano1, fui novamente procurado pela mesma


cúpula da Loja Liberdade. Quería oferecer-me o titulo de
Grande Benfeitor. Perguntei-Ihe por qué. Responderam-me:
<o gesto de V. Emcia. teve profunda repercussáo no seio dos
macons que já admitem existir clima para um diálogo de
maior envergadura.

19. Aceitei o título como quem recebe urna cortesía,


traduzida num sinal, e fui até á Loja, e as esposas dos macons
e os macons me receberam com imensa alegría, em ambiente
de profunda coimocáo. Se o senhor conseguir provar-me que
nao havia sinceridade naquele encontró, eu Ihe agradecería
o favor.

20. Conhecia e conheco todas as declaracoes de nossos


Santos Padres sobre a Maconaria e terího po(r tedas elas o
maior apreco. Mas nao estávamos discutindo essa fase da
Igreja e da Maconaria. Eu estava preocupado em saber até

— 427 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREM0S> 202/1976

onde eram sinceras as afírmacóes recebidas, hoje, e me en-


contrei diante de elementos nofvos que exigiam atitades dife
rentes, no campo pastoral. Foi assim que recebi o título da
Loja Liberdade.

21. Depois desse título da Loja Liberdade, de Salvador,


Babia, foi que o Grande Oriente, com sede no Rio, me comu-
nicou que me havia outorgado urna Gomenda pelos servicos
prestados á causa de reaproximacao, em marcba.

Foram á minha Gasa e ma entregaram, sem maior ruido.


Mas os meios de comunicacao descobriram o fato e fizeram
alarde. Nao dialogue! com o Grande Oriente, nem com os
seus corifeus. Interpretei a entrega da Gomenda como sinal
de que aceitavam o diálogo já instalado, de que estavam
dispostos a coñviver bem com a Igreja.

22. De tudo venho dando ciencia á Santa Sé. Se todos


os meus gestos, geradores de elementos para estudo, Ieva-
rem a Santa Sé a nao aceitá-los como tais, e, sim, como ato
de indisciplina grave (n3o creio), terei o direito de defen-
der-me. Se, realizada a minha defesa, o Santo Padre exigir
de mim algo de retratacáo oficial, estaré! pronto, humilde
mente, a aceitar sua dccisao.

23. Pelo exposto, prof. Sobral, o que existo é mais um


problema de comunicacao do que de indisciplina.

É mais um caso de quem procura servir e abrir cami-


nhos do que ferir a lei canónica.

É mais urna tentativa, digamos, ousada de quem fez,


diante de Deus e da Igreja, urna interpretacáo especial das
normas vigentes do que a posicao de quem pretenden passar
por cima da Autoridade Máxima.

24. É com este espirito de simplicidade, despojamento e


confíanca que me coloco diante de sua consciéncia e de seu
coracáo, para ser novamente julgado.

— 428 —
MAQONARIA NA BAHÍA: DOCUMENTOS 17

25. Eu aprendí, prof. Sobral, a lei do amor e acredito


na conversao.

Pe^o snas piedosas <ora$5es por mim.

Que a luz do Divino Espirito Santo nos ilumine.

Um abraco e urna béncá'o.

(a) Dom Avelar Brandáo Vilela

Cardeal-Arcebispo de Sao Salvador da Bahía,

Primaz do Brasil

Aqui termina o documentário que interessava dar ao


conhecimento do público estudioso.

A leitura destas cartas que revelam fatos ocorridos na


discricáo dos gabinetes de trabalhos, permitirá ao leitor conhe-
cer melhor, entre outras coisas, os antecedentes dos aconte-
cimentos que os jomáis noticiaram em seu estilo próprio,
que está longe de ser o da escola e do estudo objetivo e
sereno. A imprensa nao podia noticiar tudo o que tais do
cumentos oferecem para melhor entendimento da situacáo.
O leitor poderá, ao menos, concluir que os fatos registrados
pelos meios de comunicagáo nao foram levados a efeito sem
reflexáo e amadurecimento por parte do Sr. Cardeal D. Avelar.
Ainda que alguém discorde da maneira efusiva como S. Emi
nencia respondeu aos apelos da Loja Macdnica Liberdade,
saberá, ao menos, que o Sr. Cardeal da Bahia julgou, diante
de Deus e em sá consciéncia de pastor, ter motivos ponde
rosos para tomar a táo comentada atitude. Em última ins
tancia, só Deus é o Juiz adequado e fiel das consciéncias
(o que nao quer dizer que estas nao se devam esforcar por
seguir normas objetivas e umversalmente válidas).

— 429
Ecos do estrangeiro:

maznaría no cañada

Ainda a fim de oferecer aos nossos leitores subsidios


para urna avaliacáo objetiva dos fatos ocorridos em Salvador
entre a maconaria e o Sr. Cardeal Dom Avelar Brandáo
Vilela, apresentamos a seguir, em tradugáo portuguesa, o
texto de urna declaracáo de tres sacerdotes membros de comis-
sáo especial instituida em Québec (Canadá) para estudar a
Maconaria existente na Provincia de Québec. Este texto foi
publicado no boletim da diocese de Montréal («L'Eglise de
Montréal») aos 25/m/76, sob o título «Catholiques et Francs-
-macons au Québec». Foi reproduzido pelo informativo «La
Documentation Catholique» tí> ^.701, de 4/VII/1976, p. 649.
— Eis o documento em foco :

CATÓLICOS E MAC/ONS EM QUÉBEC

«Perguntam-nos mnitas vezes se as relacoes entre a Igreja


Católica e a Franco-Maconaria sofreram alteracoes.

No día 19 de julho de 1974, o Cardeal Seper, Prefeito da


Congregacáb para a Doutrina da Fé em Boma, dirigiu urna
carta aos Presidentes de todas as Conferencias Episcopais
do mundo. Tratava do canon 2.335 do Código de Direito Ca
nónico, que proibe aos católicos, sob pena de excomuríháo,
inscrever-se na Magonaria e em outras sociedades do mesmo
género que tramem contra a Igreja olí as legitimas autori
dades civis.

Estados recentes levam a estabelecer urna nítida distin-


cáo entre a Maconaria regular, de inspiracáo inglesa, e a
irregular, de inspiracáo latina. A grande maioria dos macons
no mundo (cerca de 6.000.000) adere a Maconaria regular,
que se pauta, pela Grande Loja Unida da Inglaterra. Para
inscrever-se nesse tipo de Maconaria, o candidato deve crer
em Deus, Arquiteto do! Universo, em sua Providencia e na
imortalidade da alma; ele deve querer progredir na prática

— 430 —
MACONARIA NO CANADÁA 19

das virtudes moráis e humanas. A Mojonaría regular apre-


senta-se como urna especie de sociedade fraterna intercon-
fessional.

O Cardeal Seper, aguardando a publicacao do novo Código


de Direitol Canónico, que está sendo preparado, propóe as
diretrizes seguintes:
i

Tode-se ensinar com seguranca, e seguir na prática, a


opinioes dos autores que afirmara que o canon 2336 diz res-
peito tao somente aos católicos que se inscrevem em socieda
des que tramam contra a Igreja'.

Compete, pois, aos bispos das Conferencias Episcopais


dos diversos países discernir se as Lojas Masónicas da sua
regiáo 'tramam contra a Igreja' ou náb.

No Canadá, a Maconaria é organizada por provincias.


Em cada urna das provincias encontra-se urna Grande Loja,
que se constituí do conjunto das Lojas locáis. Assim a Grande
Loja de Québec compreende 109 Lojas locáis (das quais qua-
tro sao de língua francesa). Essas Lojas contam, em sua
totalidade, cerca de 14.500 membros. A Grande Loja é autó
noma, embora mantenha relacóes de afinidade com as outras
grandes Lojas regulares dol Canadá e do mundo inteiro.

É verdade que em Québec, nos anos de 1900, a Loja de


emancipacáo associada ao Grande Oriente de Franca se ergueu
contra as instituicóes da Igreja Católica, feto contribuiu cer-
tamente, entre outros motivos, para confirmar um preconceito
que afirma que toda a Maconaria, sem distincóes, é antica
tólica.

Desde abril de 1973, urna Comissao constituida de macons


e católicos responsáveis esforcou-se po* restabelecer os fatos,
estudando a atual situacáo da Maconaria em Québec Num
contexto de diálogo, tratava-se de repensar as atitudes e as
novas relacóes a serem estabelecidas na verdade e na justica.
Os resultados desse estudo, que tracou de novo! o histórico
das origens e da evolucao da Maconaria, levaram a verificar
que as 109 Lojas associadas á Grande Loja de Québec aderem
a_ Maconaria regular. Ora esta 'nada tem em suas Constitui-
coes que possa legítimamente levar a crer ou afirmar que ela
trama contra a Igreja Católica'. Tivemos a ocasiáo de averi
guar os sólidos fundamentos desta afirmacao.

— 431 —
^0 «tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

Xa base destes dados, perguntamo-nos se é oportuno


manter a excomunhao dos católicos que estejam inscritos
numa Lo^a filiada a Grande Loja de Québec... Nao o ere
mos, a menos que motivos serios (longe de qualqirer precon-
ceitó) possam ser apresentados para tanto. Num espirito de
objetívidade, nao seria necessário que nos encaminhemos para
a aceitacáo efetrva dos valores próprios da Igreja e dos valo
res próprfos da Maconaria regular ?

(a) Irénée Beaubien S. J.


(a) Adríen Brunet O. P.
(a) Paúl Morisset S. J.
membros da Comissao de Pesquisa a
respeito da Maconaria em Québec».

A margem deste texto, desejamos propor tres obser-


vagóes :

1) A distingáo entre Maconaria regular e Magonaria


irregular a que aiude o artigo citado, se acha exposta em
PR 171/1974, pp. 106-110.
A Magonaria regular é a que se mantém fiel aos prin
cipios da Loja-Máe fundada em Londres no ano de 1717.
Professa principios religiosos deístas ou mesmo cristáos (pelo
fato de se referir á Biblia). A Magonaria irregular é aquela
que se originou na Franga em 1877 ; tornou-se anti-religiosa,
chegando mesmo a combater a Igreja nos países latinos da
Europa e da América. Nao há dúvida, foi a Magonaria irre
gular que atuou no Brasil durante o Imperio, provocando a
famosa Questáo Religiosa, em que foram vítimas os Srs. bispos
Dom Freí Vital, de Olinda, e Dom Macedo Costa, do Para.
Isto, porém, nao quer dizer que toda e qualquer Loja Magó-
nica existente hoje no>. Brasil ou alhures seja necessariamente
anti-religiosa e anticatólica. Assim como há possibilidades de
que seja tal, também há possibilidades do contrario. Em con-
seqüéncia, a sabedoria e a prudencia mandam que se examine
caso por caso ou Loja por Loja, a fim de se formular um
juizo sereno e objetivo sobre cada stiuagáo, evitando-se in-
justigas.

2) Os relatores que assinaram o artigo atrás transcrito,


cingem-se exclusivamente ao ambiente da Provincia canadense
de Québec, onde realizaram a sua pesquisa. Nao tém em mira
proferir algum julgamento (muito menos aprovar) a Maco
naria fora dos termos aos quais se limitaram os seus estudos.

— 432 —
MACONARIA NO CANADAA 21

A certeza a que chegaram tais estudiosos, é certeza moral


ou é a certeza que se pode obter quando se investígam fatos
históricos humanos. Como quer que seja, pode-se dizer que
os resultados a que chegaram tais peritos designados pelo
Sr. Arcebispo de Montréal, sao suficientes1 para que os bispos,
sacerdotes e leigos católicos possam formar a sua consciéncia
e avaliar melhor o que é a Magonaria hoje em dia.

3) Ao publicar os dados referentes á Magonaria que


este fascículo oferece aos leitores de PR, nao tencionamos
tomar partido preconcebido na questáo «Igreja-Magonaria».
Interessa-nos apenas a objetividade dos fatos e a apresenta-
gáo dos mesmos sem lhes tirar nem acrescenter dado algum.

O que PR tem em mira, é evitar que se condene a Igreja


ou alguns de seus membros injustamente. O amor a Igreja
e a adesáo fiel ao seu Chefe visível, o bispo de Roma, nor-
teiam a nossa revista. Isto nao quer dizer que nos tornemos
cegos a, eventuais fainas, mas implica que, antes de censurar
ou condenar, porcuremos averiguar exatamente a materia em
questáo com todas as suas circunstancias concretas, a fim de
evitar juízos precipitados ou mesmo injustos.

Condenar a Igreja ou algum de seus membros (principal


mente em se tratando de pessoa especialmente credenciada
aos olhos da fé) significa langar sombras sobre certos valores
que nao sao simplesmente humanos, mas que se derivam da
presenga do próprio Cristo em seu Corpo Místico e nos mem
bros deste.

Com estas observagóes, julgamos poder tranquilizar a


consciéncia dos nossos leitores e assegurar-lhes total objetivi
dade ñas posigóes assumidas por PR. Quem cita textos dos
Pontífices Romanos dos sáculos XVIII, XIX e XX contrarios
á Magonaria, terá em mente que

— nao se trata de definigóes dogmáticas, mas, sim, de


medidas disciplinares contingentes, talvez oportunas e neces-
sárias numa época, mas nao mais oportunas ou necessárias
em época posterior;

— os tempos, de fato, tém mudado... Tém mudado tam-


bém no que diz respeito 'á Magonaria. A Igreja nao afirma
isto simplesmente porque todos o afirmam, nem pretende dar
valor generalizado a esta afirmagáo. Mas a palavra da Igreja
— que sempre foi tida como prudente — se baseia em exames
cautelosos dos fatos, levando em conta cada situagáo de per si.

— 433 —
Medicina e Mora!:

abortamento terapéutico hoje (II)

Continuamos a publlcagáo da comunlcagáo asslnada pelos médicos


Drs. Jo§o Evangelista dos Santos Alves, Carlos Tortelly Rodrigues Costa,
Dernlval da Silva Brandáo. e Watdenlr de Braganga Intitulada "Considera-
gees em torno do problema da gravidez com Intercorrdncia de enferml-
dade grave na gestante e o chamado 'abortamento terapéutico'". Essa
comunfcacSo fol editada originariamente pela "Revista da Assoclagáo Mé
dica Brasllelra", vol. 22, n? 1, Janeiro 1976, pp. 21-27. Dada a Importancia
desse estudo, que representa o testemunho de numerosos médicos de
alto valor, a revista "Pergunte e Responderemos" o reproduz em fascí
culos sucessivos. O nosso rfi 200 já publlcou a primelra parte de tal
artigo, em que se encontram os segulntes dados:

1) Considerares sobre a chamada "causa com duplo efelto" (1):


um médico que tencione tratar de senhora cancerosa e, para tanto, nio-
tenha outro recurso senio eliminar o útero grávido e canceroso dessa
pessoa, está moralmente habilitado a fazé-!o. O que ele realba, é ditado
pelo objetivo de combater urna doepca, nao de dar a morte a alguém ;
a perda da crianca nao é diretamente e como tal Intencionada, mas é
aceita indiretamente e como mera conseqüéncla de urna agio médica
que visa a debelar um cáncer. A agfio do médico entSo tem duplo
efelto: um efelto bom, que é diretamente intencionado e que é o único
motivo da acfio (ellminagSo de um órgSo canceroso); outro mau, que
nSo é diretamente desejado, mas apenas aceito porque Inevitavelmente
associado ao efelto bom (a morte da crlanga). Tal procedlmento dlfere
daquela conduta que diretamente e por si visa a eliminar a crlanga, con-
duta que nSo ocorreria se nfio fosse ó desejo de abortar.

2) Após estas consideragOes gerals, foram propostos os pareceres


de eminentes médicos relativos a "Gravidez e Cardiología" (2.1) e "Gra
videz e Tlslologla" (2.2); tais pareceres davam a ver que nSo há casos
mórbidos que exljam o chamado "abortamento terapéutico". A medicina
cardlologlsta e tlslologista moderna tem recursos varios que permltem ao
médico tratar da paciente sem recorrer diretamente a ellmlnagáo da
crlanga que esteja em seu útero.

Prosseguimos na transcrlcfio da referida comunicaggo:

2.3. Psiquiatría

«Aqui nao podemos conter nossa indignagáo em face de


tentativas de denegrir a Psiquiatría e a Obstetricia: obstetras
abríndo abortários e psiquiatras fazendo as mais descabidas
indicacóes com o fim de favorecer a difusáo de práticas se-
xuais desordenadas e irresponsáveis.

— 434 —
ABORTAMENTO TERAPÉUTICO (II) 23

Transcrevemos a seguir, para honra destas especialidades,


a resposta do psiquiatra Leme Lopes:

"A pergunta: "Existe IndlcacSo psiquiátrica para o ohamado "abor


tamiento terapéutico?" — a resposta firme é nao. Explico: 1) nSo há
bases para um abortamento por motivo eugénlco. Nao há doenca mental
obligatoriamente transmitida por heranca; 2) abortamento terapéutico'
sonso strlctu nio existe em psiquiatría. As psicoses, no curso da gravidez,
tém bom prognóstlco. Urna slntomatologla aguda (agltacSo pslcomotora
violenta) pode ser manejada sem prajulzo para a míe e o filho. — Há
registro de gestantes com boa tolerancia ao eletrochoque".1

Em outra oportunidade, o mesmo Professor assim se


manifestou:

"Venho trazer-Ihes com esta carta meu decidido apolo á campanha


que vem empreendendo para corrlgir no Código Penal a anomalía de
urna especiosa caracterizado do chamado aborto terapéutico. No mo
mento em que a dessacralizacSo da vida humana é táo profunda a nao
respeitar o dlrelto de vlver do nasclturo, a posic&o assumlda pelos Ilustres
colegas vale como urna tomada de conscláncia e urna partida para resis
tencia e luta em/ favor dos Ideáis crlstáos. Como Professor de Psiquiatría
quero acrescentar mlnha voz á dos que negam argumentos psicológicos
e pslcopatológlcos para a prátlca llvre do abortamento".

2.4. Hematología

Monteiro Marinho, em trabalho sobre hematopatias no


curso da gravidez (analisando, inclusive, os varios tipos de
leucemia), assim concluiu:

"Em nenhuma das condlc5es ácima referidas tem cabimento a prá


tlca do abortamento. NBo haverla objetivo a visar. Urna boa conduta mé
dica, fundamentada no conhecimento perfelto dos problemas, na expe
riencia clínica e no bom senso, fará sempref o encamlnhamento adequado
e o Insucesso ocorrerá nos limites do seu causallsmo. Nenhum suporte
ético, moral, religioso ou técnico Justifica, em tais circunstancias, a prátlca
da InterrupgSo da prenhez".

Herbert Práxedes respondeu á consulta por nos formu


lada nos seguintes termos:

"Tenho cada vez mais dúvldas sobre a validado da IndlcacSo clínica


para o chamado aborto terapéutico, principalmente com os recursos da
medicina contemporánea, mas mesmo sem eles. Sob o ponto de vista estrl-
tamente médico, se é posslvel dlssoclar da prátlca clínica qualsquer con-
sideracSes moráis, pensó ser o organismo humano mals perfeito do que

*Lemei Lopes, J.: Depolmento pessoal, cartas datadas de 18/2/1972


« 11/11/1972.

— 435 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

o que multos julgam, pois, como há alguns anos me dizia ilustre cardlo-
logista paulista, se a gravidez é incompativel com algum estado mórbido
da gestante, a própria doenca se encarrega de interrompé-la. Se nao há
llmitacSo moral ou legal ao uso de medicacSo necessária á mSe, capaz
de lesar ou mesmo matar o feto, qual a Justificativa clínica para optar-se
por matá-lo preventivamente ? Se considerares eugenicas comecarem a
ser pesadas, a justificativa para o aborto delxa de ser terapéutica para
ser eugenica e dai ás cámaras de exterminio para recém-natos defeltuosos,
á eutanasia e á eliminacSo de velhos Imprestávels ou doentes é questSo
apenas de tempo. Se alguém dlsso duvlda, basta consultar algumas edicdes
recentes do 'Time', onde o assunto já é discutido seriamente, como o foi
anteriormente a llberacfio do aborto na leglslac§o de alguns Estados ame
ricanos. Se é isso o que se deseja, ainda que inconscientemente, porque
o chamado mundo civilizado tanto se erguiría da vltória sobre o nacional-
-socialismo alemio, o nazismo, que nao apenas preconizava como colocou
em prátlca medidas como essas? A Corte Suprema dos Estados Unidos,
ao liberar o aborto naquele país, fez com que nos nos perguntássemos
os motivos pelos quais somos chamados de subdesenvolvidos, se desen-
volvimento quer dizer aviltamento da pessoa humana. Como hematologista
clínico, nunca tive qualquer caso qué justificasse a existencia, na legisla-
gao, de urna permissividade para o assassínio deliberado sob o manto
pseudoclentifico da terapéutica e tenho, como disse anteriormente, dúvidas.
sobre a validado de sua IndicacSo ñas demals especialidades médicas".*■

2.5. Farmacología

Ribeiro do Valle, respondiendo á consulta por nos for


mulada :

"Sou contra o aborto sob qualquer forma, dependendo ou n9o da


mal interpretada indícacSo terapéutica. Viví na minha própria familia o
drama dessa indicacSo. A máe recusou a sugestáo médica, dadas as suas-
condicoes físicas precarias. A filhinha nasceu sadla, nao deu trabalho e
foi lenitivo e consolo da mSe nos seus dois últimos anos de vida. A
IndicacSo era formal na oplniáo do colega. Nao foi seguida, gracas a
Deus".2

2.6. Endocrinología e metabologia

Rodrigues Ferreira, em recentes consideracóes sobre o-


problema do abortamento provocado, assim se definiu :

"De modo especial, subscrevemos a tose de que nSo existe argu


mento algum de ordem científica, jurídica ou moral que justifique o aborto-
terapéutico, • sentimental ou eugénlco".3

1 Práxedes, H.: Depoimento pessoal, carta datada de 16/8/1973.


2 Valle J. R.: Depoimento pessoal, carta datada de 13/6/1972.
3 Ferreira, A. R.: Memorial ao Ministro da Justlca, datado da
19/7/1972.

— 436 —
ABORTAMENTO TERAPÉUTICO (II) 25

2.7. Ginecología

Na associagáo de ginecopatias e gravidez, deparamo-nos


com os casos mais particularmente trágicos e extremamente
dificeis de resolver. Aplica-se também aqui o principio do
duplo efeito, pelo qual a paciente grávida, quando enferma,
tem direito aos mesmos recursos disponíveis e aplicáveis fora
da gravidez, aínda que tais recursos possam afetar o concepto.

Sendo variada a intercorréncia de ginecopatias e gravidez,


lirnitar-nos-emos a considerar as circunstancias que oferecem
maiores dificuldades, as quais, afortunadamente, sao pouco
freqüentes.

2.7.1. Afecsóes mamarías

Interessa-nos aqui a associagáo de carcinoma da mama


e gravidez. Constituindo intercorréncia pouco freqüente, sao
pequeñas as estatísticas de cada centro especializado, o que
nao permite o estabelecimento de urna conduta geral. É fato
aceito, porém, que o prognóstico de cáncer de mama instalado
em mulher grávida é pior do que o ocorrente fora da gravidez.
Contudo, os autores que conseguiram reunir maior experiencia
admitem que a evolucáo do carcinoma nao se modifica com
a interrupcáo da gravidez e até, segundo alguns especialistas,
os melhores resultados foram obtidos entre as pacientes cuja
gestacáo prosseguiu normalmente.

No I Congresso Brasileiro de Patología Mamaria, reali


zado no Estado da Guanabara em setembro de 1971, o tema
foi varias vezes abordado.

Urban, convidado especial para aquele Congresso, em urna


de suas exposicóes referiu-se a associagáo de cáncer da mama
e gravidez. Opinou, naquela oportunidade, que o abortamento
nao melhora o prognóstico dos casos curáveis e aconselhou
tratar o cáncer desconhecendo a gravidez. Sobre as pacientes
operadas, disse nao acreditar que urna nova gravidez possa
ser prejudicial, embora nao a aconselhe. *

1 Urban, J. K.: Conferencia pronunciada no I Congresso Brasileiro.


da Patología Mamarla, Guanabara, setembro de 1971.

— 437 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

Também Arié afirmou que nao interrompe gravidez em


gestante com cáncer de mama, nem desaconselha gravidez
posteriormente ao tratamento. Em linhas gerais, assim resu-
miu sua conduta: até o &> mes, tratar como se a paciente
nao estivesse grávida; após o 6* mes, induzir o parto e tratar
o cáncer.x

Silva Neto chegou á mesma conclusáo, após rever subs


tanciosa literatura sobre o tema e estudar 47 casos de carci
noma de mama associados a gravidez ou lactacáo. Publicou
seu estudo e preconizou o seguinte tratamento:

"É quase unlversalmente aceito que o tratamento clrúrglco oferece


os melhores resultados. No caso de cáncer assoclado á gravidez existem
alguns pontos de discordancia a respeito da época oportuna para a
operacSo e do uso das irradiacdes.

"A elevada percentagem de metástases axilares no nosso material,


tanto no cáncer assoclado á gravidez como á lactagSo, tem sido confir
mada amplamente na literatura. Este fato Indica-nos que o tratamento
deve ser Iniciado o mais cedo possfvel. Nos dols primelros trimestres da
gravidez operamos ¡mediatamente. No 3? trimestre, aguardamos ató que o
feto seja viável, quando entáo indicamos cesárea e mastectomia radical a
seguir: esta espera é condicionada pelo alto risco de abortamentó nesse
periodo de gestacáo. Enquanto aguardamos a vlabllldade fetal, usamos
radioterapia.

"Existem dois aspectos do tratamento que merecem comentarlo malor,


a saber: a oportuntdade da operac&o durante o 39 trimestre e o problema
do uso das irradiacSes durante a gestacSo. Há autores, como Mlller e
Schmld, que advogam a operacSo Imedlata também no 3? trimestre. Entre
tanto, Bunker e Peters nao verificam plora nos resultados, naqueles casos
que aguardaran! o parto para depols Inlclarem o tratamento do tumor; ao
contrario, foram exatamente estes casos que tlveram melhor sobrevida,
enquanto os resultados menos favorávels da serle foram os das pacientes
que Inlclaram o tratamento no 3? trimestre da gestacSo. Por causa deste
fato, Peters atualmente mantém essas pacientes sob observacfio, nSo usando
qualquer tipo de tratamento até o parto e so após este é que dá Inicio ¿
terapéutica. Harrlngton também veriflcou melhores resultados nos casos
operados após o parto. Entretanto, Holleb e Farrow referem resultados
superiores ñas pacientes operadas no 39 trimestre. Pensamos que o ponto
de vista de Peters aínda deva merecer urna investlgacSo mals longa.

"Quanto ao uso das irradiacdes, nos as indicamos no pós-operatórlo


sempre que houver ganglios axilares comprometidos, bem como nos tumo
res de quadrantes Internos ou central, mesmo sem metástases axilares.
No cáncer da mama comum, a percentagem de casos com metástases na
cadela gangllonar mamarla Interna nos tumores centráis ou internos, sem

lArlé, P.: Exposlcflo oral no I Congresso Braslleiro de Patología


Mamarla, Guanabara, setembro de 1971.

— 438 —
ABORTAMENTO TERAPÉUTICO (n) 27

metástases axilares, gira em torno de 10 %. No cáncer assoclado a gra


videz ou lactacSo, em que há aumento da vascularlzacio tanto sanguínea
como linfática, é provável que essa percentagem seja mals elevada.

"NSo temos visto em nosso hospital Inconvenientes, pelo menos


imediatos, ao feto. Usamos a radioterapia pré-operatórla, no 3? trimestre
da gestacfio, enquanto aguardamos a viabilidade fetal, quando entáo é
pratlcada a cesárea e mastectomla radical. No cáncer, em lactacSo, ope
ramos ¡mediatamente e Indicamos a radioterapia nos mesmos moldes ora
referidos para a gravidez".

Adiante concluiu:

"A gravidez subseqüente, nos casos de carcinoma da mama opera


dos, niq parece piorar o prognóstico. A revisto da literatura permltiu-nos
verificar que, até o presente momento, nSo há Indicios de que a Inter-
rupgáo da gravidez produza melhora nos resultados a 5 anos, quer ñas
pacientes com gravidez simultánea quer naquelas com gravidez subse
qüente ao tratamento do carcinoma". *

2.7.2. Afeccóes uterinas

As mais desconcertantes situagóes verificam-se na inter-


corréncia de gravidez e doengas da matriz.

a) Mioma, uterino

Por ser tumor reconhecidamente benigno, ainda que so-


frendo certa influencia do estado gravídico (embebigáo, amo-
lechnento, hipertrofia), a melhor conduta, para a gestante e
para o concepto, é a expectante. A intervencáo cirúrgica só
se justifica em face de complicagóes, que sao as mesmas veri
ficadas fora da gravidez (degeneragáo, torgáo de pedículos,
necrobiose com infecgáo secundaria, etc.). Complicagáo ine-
rente á gravidez observa-se nos miomas volumosos, em que o
crescimento uterino, a expensas do estado gravídico e do pró-
prio tumor, acaba por acarretar conflito de espago, com dor
e desconforto.

Ñas circunstancias em que o tratamento cirúrgico se


impóe, este deve ser sempre conservador e limitar-se á exérese
dos nodulos de mioma responsáveis pela complicagáo, salvo
em certos casos, feto viável, em que a histerectomia, quando
indicada, pode seguir-se á cesariana.

1 Silva Neto, J. B.: "Carcinoma da mama associada á gravidez ou


lactacSo", em "Revista da AssoclagSo de Médicos do Brasil" 13:347, 1967.

— 439 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 202/1976

b) Carcinoma do coló uterino

Nos limites deste trabalho, nao vem a pelo tecer comen


tarios em torno da discutível influencia da gravidez sobre o
cáncer da cérvice, nem discutir as dificuldades que esta
afecgáo possa constituir para a boa evolugáo da gravidez.
Ater-nos-emos 'á conduta terapéutica nesta dramática cir
cunstancia, de reduzida freqüéncia, oferecendo, por isso, dados
estatísticos escassos e inconclusivos.

Independentemente de gravidez, dois sao os métodos te


rapéuticos aplicáveis á cura do carcinoma do coló uterino:
cirurgia e radioterapia. Ambos so tém eficacia curativa
quando aplicados em extensáo radical, isto é, «isolando» pela
exérese cirúrgica ou pela acáo actínica todo o útero, para-
métrios e anexos, de preferencia incluindo também o tecido
adiposo ganglionar pélvico.

Nos casos melhores, o uso adequado desses métodos,, iso-


ladamente ou associados, oferece elevado índice de curabili-
dade. Nos casos avangados, todos os recursos terapéuticos sao
impotentes e só se aplicam em caráter paliativo. Assim, pode
mos desde já selecionar os casos de associacáo de cáncer do
coló uterino e gravidez, em 2 grupos : pacientes curáveis e
pacientes incuráveis (casos avangados).

Nos casos curáveis, fazemos nova selegáo : fetos viáveis


e fetos inviáveis. Se o feto for viável, deve-se proceder á
operacáo cesariana como tempo previo da histerectomia radi
cal (operagáo de Wertheim) ou, conforme o caso, do trata-
mento pelas irradiagóes. Na gravidez incipiente (feto inviável),
ambas as condutas adequadamente aplicadas teráo como con-
seqüéncia, paralelamente á cura da máe, a morte do concepto,
conseqüéncia esta indireta, nao visada nem desejada, embora
prevista.

Objetivando-se, em casos particulares, salvaguardar a vida


do feto, com prejuízo da máe, foram realizados tratamentos
radioterápicos especiáis, com técnicas adaptadas : Mammanax
cita Pouey, que refere bom resultado com radiumterapia sem
causar danos aos fetos; no Brasil é clássico o caso de Rodri-

1 Mammana, C. Z.: "O aborto ante o Dlreito, a Moral, a Medicina


e a RellgiSo". Sao Paulo, Letras Editora Ltda. 1969.

— 440 —
ABORTAMENTO TERAPÉUTICO (II) 29

gues do Lago \ que tratou, com radium, carcinoma do coló


uterino em paciente com gravidez gemelar, cujos gémeos nas-
ceram de parto cesáreo aos 7 meses de gestacáo e evoluiram
dentro dos limites da normalidade, ficando a máe clínicamente
curada. Existem autores, porém, que apresentam resultados
opostos, com prejuízo materno e danos fetais.

Tais tratamentos de excegáo, com técnicas adaptadas e,


portante, deficientes, nao podem servir como regra, visto pre-
terirem o direito materno a tratamento correto com os re
cursos terapéuticos usuais, quais sejam, a cirurgia radical ou
as técnicas clássicas de radium e cobaltoterapia, também
radicáis.

A nosso ver, nao sendo possivel aguardar a viabilidade


fetal, a melhor conduta consiste na histerectomia radical que,
nessas circunstancias, parece oferecer melhor possibilidade de
éxito e ainda permite o batismo do feto.

Lembramos ainda que, no segundo trimestre da gravidez,


embora nao sendo conduta obligatoria por constituir certo
risco para a gestante, é possivel aguardar a viabilidade fetal
para só entáo intervir, salvando a crianga. Neste procedimento
é indispensável submeter a gestante a exames semanais, a
fim de que se possa surpreender qualquer progresso da doenga,
circunstancia em que o tratamento nao deverá ser mais adiado.

Como vimos anteriormente, aplica-se aqui o principio do


duplo efeito. A nm ato bom ou indiferente (no caso a histe
rectomia) seguem-se duas conseqüéncias : urna boa, visada,
a qual diretamente se dirige o ato (a cura da máe), e outra
má, nao visada nem desejada, á qual nao se dirige o ato,
porém inevitável ,(a morte do concepto).

No grupo das pacientes incuráveis (casos avangados),


parece-nos mais sensato aguardar a viabilidade fetal para só
entáo, efetuada a cesariana, iniciar o tratamento paliativo.
Obviamente, cada caso deverá ser analisado de per si, levan-
do-se em conta todas as implicagóes que o envolvem.

A seguir transcrevemos a conduta preconizada por Wolff


Netto 2:
1 Rodrigues do Lago, G.: "Radiumterapla do carcinoma do coló
uterino e gravidez gemelar com fetos vivos". Rio de Janeiro 1955.
s Wolff Neto, A.: "Carcinoma do coló do útero e gestado", em
"An. Clin. Fac. Med. Univ. S. Paulo" 4:335, 1950/1951.

— 441 —
30 iPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

"No tratamento do carcinoma do coló uterino em gestante devenios


distinguir os casos operáveis dos inoperáveis. Nos casos operáveis (esta
dio I), quando a gestacüo se encontra no inicio (19 trimestre), deve ser
feita a cirurgia radical Imedlata (operacio de Wertheim), de vez que a
espera da viabilidade fetal tornará o neoplasma inoperável. Mesmo do
ponto de vista moral, esta conduta é correta, porque nao se trata de abor-
tamento direto, mas Indireto. Aquí nao se visa destruir a vida fetal, mas
retirar-se urna neoplasia maligna. A morte do feto nao é flm, nem meló,
mas conseqüéncia do tratamento necessarlo. Nao é o caso do chamado
abortamento terapéutico, onde a destruicSo da vida do feto é um meló
de tratamento (?) e, portento, a flnalidade da acáo.

Depois do 1? trimestre já se poderá esperar pela viabilidade e,


entáo retirar um feto com possibllidades de vida ao lado da operacSo
radical. É necessário, entretanto, examinar periódicamente a paciente, a
fim de se avaliar da situacSo local da neoplasia e, ao menor sinal de
propagacáo, intervir.

Se o carcinoma é Inoperável, a aplicacáo de radium deve ser feita.


No inicio da gravidez é multo freqüente a morte do ovo com a
curieterapia.

No 29 trimestre o feto nao sucumbe táo fácilmente e pode chegar


á viabilidade, quando será retirado por cesárea.

No 3? trimestre de gestacfio, entretanto, os casos inoperáveis deverSo


ser tratados de maneira um pouco diversa. Pratíca-se primeramente a
cesarla e, depois, submete-se a doente á aplicacio de radium. A malorla
dos radioterapeutas aconselha so a cesárea e nSo a histerectomia, i
salientando a importancia da conservacSo do útero para a boa prática da
curieterapia. E quando, nesses casos, a histeractomia tiver de ser feita,
pedem os fisioterapeutas a conservacSo, pelo menos, do coló uterino."

c) Carcinoma do endométrio

Constituí associacáo muito rara, visto incidir esta enfer-


midade em faixa etária ácima do período reprodutivo da
mulher. Quando ocorre, o diagnóstico desta afecgáo é muito
difícil e o abortamento espontáneo é a regra. Só entáo, pelo
exame do material, a doenga é revelada. Nos casos, porém,
em que é feito o diagnóstico simultáneo de gravidez e cáncer
do endométrio, a conduta correta consiste na exérese 2 do útero
doente, embora grávido. Esta operagáo é moralmente permi
tida, como já vimos ao estudar o principio do duplo efeito.

d) Afeccoes ovarianas

A associacáo de tumor ovariano e gravidez constitui ocor-


réncia das mais raras.
1 Histerectomia: extracáo tota! do útero.
* Exérese : exíirpafáo círtirgisa.
ABORTAMENTO TERAPÉUTICO (ED 31

Todos os tumores ovarianos devem ser tratados cirurgi-


camente, conduta válida também durante a gravidez. Os tu
mores benignos podem benefidar-se com a simples ooforecto-
mia,1 procedimento adotado em pacientes jovens. Já os tumo
res malignos sao geralmente tratados, em qualquer idade,
com cirurgia mais ampia, que consiste na ablagáo do útero
e ambos os anexos, mesmo nos carcinomas localizados. Como
o diagnóstico definitivo de malignidade depende do exame
histopatológico, muitas vezes o tratamento é feito em dois
tempos, sobretudo em padentes jovens, ñas quais se cuida,
sempre que possível (tumores nao malignos), de conservar o
outro ovario e o útero, a fim de preservar o equilibrio hor
monal, a menstruaeáo e a funcáo procriadora. Assim, no 1»
tempo, faz-se ooforectomia simples e aguarda-se o laudo do
exame histopatológico. Se o resultado o exigir, procede-se a
cirurgia mais ampia em 2» tempo, excisando-se útero e anexos
restantes. O mais correto consiste no exame histopatológico
peroperatório do ovario tumoral, para prosseguimento ¡me
diato da cirurgia, quando condusivo e positivo para maligni
dade o laudo do patologista.

Do ponto de vista ético, aplica-se aqui também o prin-


dpio do duplo efeito, que permite o adequado tratamento
materno, como se nao houvesse gravidez.

Embora a ablagáo do útero e anexos, na intercorréncia


de gravidez e cáncer do ovario, seja conduta válida e a mais
segura, devemos considerar sempre a possibilidade de, após
a exérese ovariana, aguardar a viabilidade fetal para concluir
a terapéutica, sem esquecer, porém, que entre os tumores
ovarianos encontram-se os de maior malignidade. Alias, exis-

tem trabalhos em que bons autores aconselham a preservagáo


do útero para possibilitar a aplicagáo de radium no pós-ope-
ratório.

Também aqui, cada caso deve deve ser considerado par


ticularmente, com todas as suas implicacoes.
(Continua no próximo número)

1 Ooíofecíoniia: exürpajáo de ubi ovaré.

— 443 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

A III SEMANA INTERNACIONAL DE FILOSOFÍA

De 17 a 23 de julho pp. teve lugar em Salvador (BA)


a ni Semana Internacional de Filosofía, promovida pela So-
ciedade Brasileira de Filósofos Católicos. Contou com a par-
ticipagáo de cerca de cento e cinqüenta professores ou cul
tores da Filosofía domiciliados no Brasil e aproximadamente
quatrocentos estudantes. Do estrangeiro, vieram vinte e cinco
mestres, representando quinze países da Europa e da América.
O tema central do certame foi a Filosofía do Dcsenvolvimento,
que os congressistas explanaram e aprofundaram tanto em
assembléias plenárias como em sessóes especializadas. Estas
eram em número de oito : Filosofía do Direito, Estética e Filo
sofía da Educa?áo, Filosofía das Ciencias, Filosofía da Lin-
gem e da Comunicagáo, Metafísica e Filosofía da Religiáo,
Ética e Filosofía dos Valores, Filosofía Social e Filosofía da
Historia.

Foi grande a riqueza de proposicóes e debates que se


foram desencadeando dia por dia durante a semana. Os es
tudiosos brasileiros tiveram a ocasiáo de ouvir experimenta
dos mestres europeus, os quais, por sua vez, puderam conhe-
cer as linhas que váo orientando o pensamento jovem do
Brasil e de nagóes jovens. No intuito de resumir as proposi-
góes para as quais convergiram os debates das diversas assem
bléias, enunciamos as seguintes:

1) O ponto central de qualquer plano de desenvolvimento


é o homem, devendo a técnica e a máquina subordinar-se ao
servico deste. Nao se admitirá, pois, que o homem seja mar-
ginalizado pela civilizagáo do consumo, mas, ao contrario,
respeite-se a pessoa de todo homem, o qual deve ser engran
decido pelo uso da materia.

2) Conseqüentemente, a nocáo de desenvolvimento nao


se pode limitar aos interesses meramente económicos, mas
há de atingir o homem em todas as suas dimensóes. Este é
um ser relativo e contingente, aberto ao Transcendental, de
modo que o auténtico desenvolvimento leva em conta tam-
bém as aspiragóes do homem aos valores espirituais e re
ligiosos.

3) Com outras palavras, o desenvolvimento nao se pode


restringir ao ter mais, mas há de tender ao ser mais. O ter

— 444 —
ni SEMANA INTERNACIONAL DE FILOSOFÍA 33

mais, exclusivamente entendido, pode ser fator de destruigáo


da paz e do auténtico bem-estar entre os homens e os povos.

4) O desenvolvimento, concebido como humanismo, há


de se exercer em tres setores :

— no do fazer (poleo, em grego), que é atuagáo do ho-


mem sobre a materia ; corresponde ao comportamento artís
tico;

— no do agir (prasso, em grego), que é a atuagáo do


homem sobre a sua vontade; corresponde ao comportamento
moral;

— no do contemplar (theoréo, em grego), que é a atua


gáo do homem sobre a sua inteligencia; corresponde ao
comportamento sapiencial.

5) Á Filosofía cabe importante fungáo no momento pre


sente. É ela que continua o trabalho da ciencia e integra os
resultados das pesquisas dos dentistas numa escala de valores
que salvaguarda e promove a pessoa humana. É necessário
que filósofos e cientistas estejam em diálogo permanente, a
fim de contribuirem juntos para o bem comum da humani-
dade; procuraráo afastar a perspectiva de catástrofes que
pesariam sobre a humanidade, caso esta se orientasse apenas
por criterios cientificistas e tecnicistas.

6) Elaborando urna auténtica Filosofía do desenvolvi


mento, os filósofos contribuiráo para o desenvolvimento da
Filosofía. Nao há antagonismo entre um e outro binomio,
mas, ao contrario, um entrelagamento que merece ser cul
tivado.

Com efeito. Em nossos dias registra-se o perigo de irra-


cionalismo ou de atitudes cegas e fanáticas como aquetas
que as ideologías suscitam. Se o homem nao recorre á sua
razáo, nao dialoga com seus semelhantes; vé-se entáo na
contingencia de usar a violencia. O homem só poderá superar
esta atitude irracional e passional se voltar a atribuir á razáo
o crédito que lhe compete. — É o bom uso da razáo que
leva o homem á metafísica (visáo globalizante e escalonadora
da realidade). É também o sadio raciocinio que impede o
cristáo de se fechar no fideísmo (fé baseada únicamente em

— 445 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

autoridades) e lhe permite entrar em diálogo com o pensa-


mento moderno, mesmo ateu. Requer-se que também os cris-
táos como cristáos participem do processo de reflexáo susci
tado pela problemática de nossos días.

7) O Brasil e a América Latina, habitados por popula-


góes jovens, tém a possibilidade de construir o seu modelo
próprio de desenvolvimento, evitando reproduir servilmente
modelos importados. Se os povos mais evoluidos hoje se véem
a bracos com problemas ocasionados pela corrida ao ter mais,
é para desejar que as populagóes mais jovens se beneficiem
da experiencia das outras.

Nao acontega na América Latina o que está acontecendo


em outras regiSes : os homens criaram urna máquina gigan
tesca cujo combustível é cada vez mais raro ; construiram
urna cidade na qual os homens mesmos já nao podem habitar.

8) O desenvolvimento é processo necessário e irrever-


sível. Para que nao se torne desumano ou anti-humano, é
preciso seja acompanhado pelos valores do Cristianismo, que
apregoa a amizade e a benevolencia mutua como fatores
essenciais de paz e prosperidade entre os povos.

Para ilustrar esta afirmagáo e, de modo geral, algo das


idéias veiculadas durante a Semana, citamos abaixo, em tra
dujo portuguesa, a parte final da conferencia proferida
pelo Prof. Alberto Caturelli, da Universidade de Córdoba
(Argentina), sobre «Filosofía e Desenvolvimento Integral» na
sessáo plenária do domingo 18 de julho. As palavras do mestre
suscitaram objecóes; todavía nao deixam de merecer a aten- '
dos estudiosos. Ei-las :

"A Idéla Imanentista do desenvolvimento — que implica a seculariza


do total do mundo e da vida — é a causa principal da tragedla da
clvilizagao contemporánea e talvez do provável anlqullamento desta. O
prlmeiro resultado do ¡manentismo foi o de propugnar um desenvolvi
mento nao integral e, por isto, autodestruldor. A reflexSo sobre esta trá
gica realidade pode levar-nos a considerar seriamente a missáo que a
América Latina pode cumprlr no mundo atual. A América fol descoberta
pela conscléncla crista... Se bem que este tema possa ser objeto de
ampia e necessária medltacao, basta por ora compreender que nenhum
povo da térra, tora a Europa geográfica mediterránea, pode superar a
América Latina, como herdeiro direto do espirito greco-latino-americano.
Disto se segué que o tipo de desenvolvimento que devem procurar as
nacSes herdelras de Espanha e Portugal é o desenvolvimento Integral
crlstSo, que, por ser Integral, é desenvolvimento de todas as dlmensSes

— 446 —
ni SEMANA INTERNACIONAL DE FILOSOFÍA 35

do homem, e, por ser cristáo, considera o homem no estado de 'nova


crlajáo'. Asslm, precisamente hoje, quando a Europa mediterránea e
clásslca (a antlga Crlstandade) entrou no torvelinho de sua próprla nega-
cáo e de seu esgotamento, a Europa do espirito encontra na América
Latina a última reserva do verdadelro espirito do Ocldente. Apesar da
imaturldade da América Latina, e talvez por Isto mesmo, apesar do 'sub
desenvolvlmento' flsico-económlco, e, talvez por Isto mesmo, a América
Latina pode p6r em movlmento a noc&o do verdadelro desenvolvlmento,
que ou será Integral e crlstSo, ou nada será. América, a herdelra da
Grecia e de Roma, de Espanha e de Portugal, aínda nio fol totalmente
penetrada pela (déla Imanentlsta de desenvolvlmento, que destról as outras
dlmensdes do homem e acaba dando orlgem ao mals trágico e feroz
subdesenvolvlmento desintegrador do homem. Justamente porque a América
Latina aínda está relativamente preservada do mundo por sua larga tra-
dlcSo católica, ela pode assumir o desenvolvlmento sem absolutlzar
nenhuma das dlmensSes deste, mas, ao contrario, elevando todas simul
táneamente á relativa plenltude que se pode atingir durante a existencia
terrestre. Asslm nos, filhos da Grecia e de Roma no plano natural, e da
Igreja Católica no plano da "nova criacáo", somos os únicos homens
que, como comunidades naclonais, e diante do desastre, da autodlssolu-
cac e do choque destrutlvo de doís conceltos de desenvolvimento aparen
temente opostos, podemos abrir o futuro de urna Crlstandade fundada na
nocSo do desenvolvlmento Integral crlst3o".

Em síntese, o Prof. Caturelli julga que a América Latina,


em virtude de suas origens, está apta a praticar um desen
volvimento auténtico ou integral, levando em conta todas as
dimensóes da pessoa humana. Sim ; herdeira do pensamento
greco-romano através de Portugal e da Espanha, assim como
herdeira da riqueza espiritual do Cristianismo trazido pelos
descobridores, a América Latina pode cultivar um desenvol
vimento que atenda ás aspiragóes mataríais e espirituais do
ser humano, ... aspiragóes para as quais o Cristianismo abre
as perspectivas da realidade sobrenatural.

Nao podemos deixar de fazer votos para que a tese do


Prof. Alberto Caturelli encontré eco nos pensadores latino-
-americanos e nos governantes deste vasto continente!

Eis, em poucas proposigóes, os ecos mais sonoros do


grande encontró de filósofos promovido em Salvador pela
Sociedade Brasileira de Filósofos Católicos. — O próximo foi
marcado para Curitiba, tendo por data os dias 3 a 9 de ja-
neiro de 1978. Possa continuar a valiosa serie das semanas
anteriores!

447 —
Ainda a Semana de Salvador:

filosofía hoje: para qué?

Em síntese: Reproduzimos aqui em traducáo portuguesa o texto


da conferencia proferida no encerramento da III Semana Internacional de
Filosofía (Salvador, julho 1976), em comemoracáo do 50? aniversario da
morte do Cardeal Desiderio Mercler. O texto, elaborado pelo Prof. Georges
van Riet, Presidente do Instituto Superior de Filosofía de Lo vaina, descreve
as grandes linhas da obra daquele eminente prelado, que renovou a Filo
sofía, especialmente o tomismo, fundando urna Escola que tem sido até
hoje freqüentada por estudantes das mals diversas partes do mundo.

As diretrizes de estudo tracadas pelo Cardeal Mercier tém valor


¡mpereclvel. Acentuam a necessidade de nao permanecermos em frases
ou chavóes de ciencia "já feita", mas, ao contrario, procuramos "fazer
a ciencia", que deve acompanhar as descobertas da pesquisa moderna.
Enfatizam a compreensSo e a pesquisa mais do que o saber rígidamente
formulado em esquemas e repetido "brilhantemente" perante bancas de
examinadores. Propoem outrossim o diálogo da Filosofia tomista com os
filósofos de todos os tempos (amigos e contemporáneos) sem exclusáo
de ninguém, mas também sem ecleticlsmo filosófico. Incentivam também
o diálogo com os dentistas e com os teólogos (sem que, por isto, a
Filosofia se torne um discurso religioso).

Em suma, as normas de estudo do Cardeal Mercier sao de profun-


didade e clarividencia tais que merecem ser conhecldas e aplicadas
mesmo em nossos días e em nossa patria, onde todos tém a sua "filo
sofía", mas poucos conhecem ao certo o valor da Filosofia e do cultivo
sistemático da mesma.

Comentario: A m Semana Internacional de Filosofía,


da qual apresentamos breve crónica as pp. 444-447 deste fas
cículo, despertou mais urna vez algumas questóes discutidas
da Filosofía, inclusive a questáo básica : terá a Filosofía guar
dado o seu significado e o seu valor ainda em nossos dias ?

A resposta a esta pergunta já foi, em parte, esbocada na


crónica que PR apresentou após a II Semana Internacional
de Filosofía realizada em Petrópolis (RJ) no mes de julho
de 1974; cf. PR 176/1974, pp. 337. Ela se encontra também
ilustrada na conferencia elaborada pelo Prof. Georges van
Riet, Presidente do Instituto Superior de Filosofia da Univer-

— 448 —
PARA QUE A FILOSOFÍA? 37

sidade de Lovaina ; tal conferencia, proferida no último dia


da m Semana (23/VH/76), apresenta as linhas principáis
da obra filosófica do Cardeal Desiderio Mercier (1851-1926),
que foi o fundador do Instituto Superior de Filosofía de
Lovaina (Bélgica). Descreyendo essa obra, o conferencista
nao só homenageou a memoria desse prelado no cinqüente-
nário de sua morte, mas também mostrou em que termos
a Filosofía pode ser concebida nos dias atuais de maneira
viva e construtiva, como a grande dialogante que é de todos
os dentistas e pensadores.

Sempre que se fala de Filosofía, parece que o orador


tende a passar para a esfera do abstrato, do difícil e do
árido. É possível que o leitor tenha tal impressáo ao percor-
rer urna ou outra passagem da conferencia que, a seguir,
transcreveremos. Todavía pode-se crer que o conjunto de tal
exposigáo será útil a quantos se dedicam ao estudo em geral
no nosso Brasil. Entre nos a Filosofía é tida como luxo
estéril ou ultrapassado, pois nao oferece perspectivas de car-
reira lucrativa; sao os cursos de técnica e tecnología os que
mais atraem o público estudantil. Contudo a geragáo presente
(e, mais ainda, a futura) corre o risco de ser vitima do cul
tivo unilateral da tecnología; o homem, que cria a máquina,
pode vir a ser súdito da mesma e superado pela própria
máquina, visto que esta é muito mais «produtiva» e «ren-
dosa» do que o homem. Se a humanidade nao se dedicar
seriamente á reflexáo sobre os valores que a ceream e nao
se dispuser a fazer nítida e corajosa escala de valores, poderá
condenar-se á desgraca e á ruina através das obras de suas
próprias máos. É a Filosofía que mostra ao homem a posigáo
exata de cada valor e o ajuda a dirigir a sua vida de modo
a colocar a máquina a servigo do homem e o homem na
via certa em demanda do Bem Infinito !

O Cardeal Mercier, já em sua época (fins do século pas-


sado), experimentava o desinteresse de sua geragáo pela Filo
sofía, visto que esta nao é pragmatista. Mas soube encontrar
o estilo e o método certos para despertar o estudo eficaz da
sabedoria por parte de milhares de estudantes, que durante
todo o século XX tém afluido a Lovaina, provenientes dos
cinco continentes do globo. Até hoje o Instituto Superior de
Filosofía daquela cidade é um foco de saber e de estruturagáo
humana da juventude dos mais diversos países.

— 449 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

Pergunta-se: por que nao se poderia renovar o estudo


da Filosofía no Brasil ? Por que nao se poderia mostrar ao
público intelectual de nossa patria que todos nos somos filó
sofos, mesmo sem o saber, e que, conseqüentemente, cultivar
a Filosofía é corresponder a um dos anseios mais espontáneos
do ser humano ? Como se entende, o estudo da Filosofía há
de ser sempre atualizado ou sempre posto em diálogo com
os varios ramos das ciencias naturais e os problemas que
estas suscitam: origem do mundo, estrutura da materia,
vida em outros planetas, sentido da* historia universal, signi
ficado da morte, realidade postuma, o misterio da pessoa
humana, a liberdade e a responsabilidade do ser racional, o
psiquismo do homem e o dos outros animáis, a linguagem
oral e o seu mecanismo, a lógica e a palavra, a verdade e
a falsidade, a possibilidade de conhecimentos objetivos e se
guros.. . Quanto mais as ciencias empiricas progridem, mais
lancam questóes ao. pesquisador, que desafiam a argucia filo
sófica do mesmo e de seus contemporáneos.

É, pois, no intuito de atender a urna necessidade latente


e, as vezes, também explícita de todo homem que publicamos
o texto abaixo, traduzido do francés por D. Vicente de Oli-
veira Ribeiro Ó.S.B., a quem a redagáo de PR muito agra
dece. Seja também aqui consignada a gratidáo de nossa re
vista ao eminente Professor Tarcísio Meirelles Padilha, Pre
sidente da m Semana Internacional de Filosofía, que houve
por bem permitir que a conferencia, destinada a ser impressa
nos Anais da referida Semana, fosse em primeira máo e desde
já editada por PR.

Eis o texto do Prof. Georges Van Riet:

O CARDEAL MERCIER E A FILOSOFÍA

«Para honrar a memoria do Cardeal Mercier, neste quin-


quagésimo aniversario de sua morte, desecaríamos evocar a
renovacáo que ele imprimiu á Filosofía em fins do século
passado no mundo católico, e a maneira pela qual o Instituto
Superior de Filosofía que ele fundou, vem tentando realizar,
há oitenta anos, as suas intencóes por urna fidelidade sempre
viva ao espirito do fundador.

— 450 —
PARA QUE A FILOSOFÍA? 39

1. A fundasao do Instituto Superior de Filosofia

Históricamente, a criagáo, na Universidade Católica de Lo


vaina, do Instituto Superior de Filosofia se inscreve no qua-
dro geral da renovagáo tomista desejada pelo Papa Leáo XIII;
ela só foi possível gracas á eficaz ajuda e ao constante apoio
do mesmo.

Convicto de que os males de que sofre a sociedade, pro-


vém de profunda desordem intelectual, devida a erros de
índole filosófica originarios do Positivismo e do Cientificismo,
Leáo XIII, em sua encíclica 'Aeterni Patris', de 4 de agosto
de 1879, convidava a Cristandade a restaurar o ensino da
Filosofia de S. Tomás de Aquino. Tendo sido, por algum
tempo, Nuncio na Bélgica, o Papa estava persuadido de que,
em nenhum outro lugar como em Lovaina, um renascimento
tomista poderia encontrar terreno mais propicio: a Universi
dade de Lovaina abre-se a numeroso público composto de
estudantes leigos; confere diplomas reconhecidos pelo Estado;
nela ensinam-se todos os ramos do saber e trabalha-se com
os instrumentos necessários aos pesquisadores; em nenhum
outro lugar se poderia melhor aproximar a ciencia da Filo
sofia, aproximado esta que deveria, no pensamento do Papa,
renovar toda a sociedade, fornecendo-lhe sólida base inte
lectual.

Sob as instancias do Papa, os Bispos belgas nomearam,


em 1882, o Padre Desiderio Mercier 'professor de Filosofia
conforme Santo Tomás1 e, para lhe assegurar um auditorio,
decidiram que o novo curso seria gratuito, acessível a todos
e obrigatório para os estudantes de Teología bem como para
os doutorandos em Filosofia e Letras, em Ciencias Políticas
e Administrativas.

O novo curso alcangou brilhante sucesso gragas as emi


nentes qualidades de espirito e de coragáo que todos os discí
pulos do jovem professor rivalizaram em proclamar. Mons.
Mercier concebeu o projeto de desenvolvé-lo por um ensino
completo, em que os diversos ramos da Filosofia seriam estu-
dados de modo aprofundado e relacionados com as ciencias
modernas e com as grandes correntes do pensamento con
temporáneo. O .Papa aprovou esse projeto, que correspondía
exatamente aos seus anseios; por um Breve de 8 de novem-
bro de 1889, sancionou com a sua autoridade a criacáo do

— 451 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

Instituto Superior de Filosofía ou Escola de Santo Tomás de


Aquino, e concedeu importante auxilio financeiro para apres-
sar sua realizagáo. A despeito de numerosas dificuldades,
Mons. Mercier logrou constituir urna equipe de colaboradores
decididos a trabalhar num mesmo espirito; adquiriu vasto
terreno, onde mandou construir os edificios do Instituto, bem
como um Seminario, ao qual, por deferencia do Papa, deu o
nome de 'Seminario Leáo XIII'.

O Instituto rápidamente prosperou sob o impulso do seu


fundador. Numerosos estudantes leigos, inscritos em outras
Faculdades da Universidade, nele seguiram cursos comple
mentares, mas, geralmente, sem poderem prolongar sua for-
macáo além do bacharelado. Foi sobretudo do estrangeiro que,
desde os primeiros anos, vieram estudantes regulares, que
prosseguiam até o doutorado o ciclo dos estudos filosóficos;
pela qualidade do seu ensino e o valor de suas publicagóes,
notadamente por meio da 'Revista Neo-escolástica' criada em
1894 (hoje 'Revista Filosófica de Lovaina'), o Instituto con-
quistou desde a origem renome internacional.

O Instituto estava sólidamente organizado quando, em


1906, Mons. Mercier foi nomeado Cardeal-arcebispo de Mali-
nes. As preocupagóes pastorais iriam doravante afastá-lo da
Filosofía; mas a nova dignidade de que estava revestido e o
prestigio conquistado durante a primeira guerra mundial, con-
tribuiram para ampliar a irradiacáo do Instituto que ele
fundara.

2. Como conceber a Filosofía ?

Se quisermos caracterizar com urna palavra o essencial


da concepcáo de Mons. Mercier e da renovagáo que ele sus-
citou, poderemos dizer que, para ele, a Filosofía é, antes
de tudo, urna pesquisa racional. Hoje tal definigáo pode pare
cer banal. Em sua época era nova, e mesmo em nossos dias
aqueles que a julgam coisa em si evidente, deveriam medir as
suas implicagóes e conseqüéncias.

No último quartel do século XIX, as Universidades oci-


dentais oriundas da Revolugáo Francesa eram, em sua maio-
ria, instituigóes de ensino profissional, onde se comunicava um
saber sólidamente estabelecido; chamava-se isto 'a ciencia
feita' (la science faite). Mas o prodigioso desenvolvimento

— 452 —
PARA QUE A FILOSOFÍA V 41

das ciencias e o espetacular progresso técnico que estas


engendraram e que suscitava a admiragáo de todos, deram
origem a novas concepcóes; ao lado da 'ciencia feita', era
preciso dar um lugar preferencial á ciencia 'que se faz' e que
está ainda 'por se fazer', isto, é, á pesquisa científica. Em
Lovaina, em tomo de 1880, essas novas concepcóes encontra-
ram eco principalmente na Faculdade de Teologia, Filosofía e
Letras entre os orientalistas, na Faculdade de Ciencias entre
os biologistas, na Faculdade de Direito entre os professores
de questóes sociais e políticas, na Faculdade de Medicina entre
os neurologistas. Desde a sua nomeagáo para Lovaina em
1882, Mercier resolutamente se colocou do lado dos inovado-
res: concebeu a Filosofía, antes do mais, como urna 'pesquisa';
mais precisamente, como urna pesquisa 'racional', e a mais
elevada de todos. A 'razáo', com efeito, em seu mais nobre
sentido, é essa exigencia e esse poder que, residindo em nos,
nos define como homens; questionar, refletir, afirmar, sabendo
que temos o direito de fazé-lo, sendo capazes de demonstrar a
'razáo* de nossas afirmagóes, tal é a mais alta e mais impor
tante atividade do homem; ela fundamenta nossa liberdade e
nossa personalidade. Toda Filosofía digna desse nome, toda
Filosofía é essencialmente urna formulacáo de questóes, urna
busca de fundamentos, um aprofundamento; aquilo que comu-
mente se denomina 'urna tese' ou 'urna doutrina' filosófica,
nao é a supressáo de toda mdagacáo, nem é a visáo satura-
dora da verdade plena, mas, antes, urna maneira bastante
elaborada de enunciar um problema e de sugerir urna solucáo.

Esta nocáo de Filosofía concebida como pesquisa racional


suscita tres tipos de questóes: urnas dizem respeito a organi-
zagáo do ensino, outras se referem a estrutura da instituigáo,
outras enfim á própria natureza do empreendimento filosófico.
Abordemo-laá brevemente.

3. Organizajáo do ensino

Num programa completo de ensino da Filosofía, Mons.


Mercier queria que se distinguissem dois níveis. O mais im
portante era (e é) o segundo, o qual deve preparar futu
ros pesquisadores. Nele os cursos de Filosofía sao cursos
'aprofundados', onde se trata de 'questóes especiáis'; deve-
riam ser modelos de trabalho científico, que apresentam o
método a ser aplicado a outras questóes. A materia desses
cursos é nova em cada ano. Eles exigem do professor um

— 453 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

trabalho incessantemente renovado; mas, por outro lado, que


prazer, para o professor, nao há em prosseguir a sua pesquisa
no próprio curso, refletir bem alto, expor as dificuldades, veri
ficar as hipóteses, experimentar vías de solugáo! Esses cursos
em nada se assemelham a cursos 'já prontos', nos quais de
antemáo já se sabe aonde se deve chegar, em quanto tempo
e em quais etapas! A colaboracáo de um auditorio que tam-
bém procura ou intervém, é inapreciável; ela se manifesta,
pelo menos, nesses encontros de fim de ano chamados 'exa
mes'; ai nao se trata, para o aluno, de fornecer a resposta
'correta', a do curso, mas a sua própria resposta, e, princi
palmente, a justificagáo que déla possa dar; o que vale, nao
é a-assimilacáo de resultados adquiridos pela 'ciencia feita',
mas urna qualidade de espirito, urna aptidáo a participar do
trabalho da ciencia 'que está por ser feita'.

Nesse nivel, muitos cursos sao optativos; os estudantes


assim conservam a iniciativa, a possibilidade da própria esco-
lha; desse modo tornam-se mais responsáveis pela formagáo
que eles mesmos se dáo.

Enfim, ainda nesse nivel exige-se um trabalho pessoal de


maior fólego: para a licenciatura, urna 'memoria'; para o
doutorado, urna dissertagáo. Sao como que embrides de tra
balho científico, cujo objeto e método dependem interiormente
daqueles que os empreendem; tem-se assim a entrada na Filo
sofía-viva.

Já que tentamos aqui exaltar o segundo nivel de ensino,


poder-se-ia crer que o primeiro nivel seja destituido de valor.
Na realidade, isto nao ocorre; é certo que o primeiro nivel nao
é o segundo e só pode encaminhar a ele. Mas, precisamente,
é essa a sua fungáo: levar ao segundo nivel. Os cursos do
primeiro nivel nao sao 'elementares', 'dogmáticos', conden-
sáveis em manuais; tampouco visam a comunicar urna 'cien
cia feita'. Sem dúvida, dirigem-se a estudantes que ainda
nao estudaram Filosofía; a pedagogía exige entáo que o plano
seja manifestó e a marcha progressiva; nada impede que a
materia permaneca a mesma, de ano para ano. Mas os cur
sos do primeiro nivel sao — e devem ser — cursos de intro-
ducáo, de despertar para a maneira filosófica de pensar, um
modo de questionar conforme as exigencias da clareza e do
rigor. A seu modo, sao iniciagóes 'á pesquisa. Do lado dos
que ensinam, importa que os mestres sejam os mesmos dos
cursos do segundo ciclo; de modo nenhum se poderiam aceitar

— 454 —
PARA QUE A FILOSOFÍA? 43

mestres de qualidades menos aprimoradas; sem paradoxo, dir-


-se-ia mais precisamente que é aqui, principalmente, que os
ensinantes devem ser pesquisadores, capazes de fazerem pres-
sentir as dificuldades, muito embora só mais tarde váo res
ponder a estas. Aqui ainda, os exames de fim de ano sao reve
ladores: pelo brilho que iluminam seus olhares, certos estu-
dantes provam que eles 'compreenderam'; outros, infeliz
mente, ainda que déem respostas materialmente exatas, teste-
munham, pela própria servidáo ao ensino recebido, que a
graca da iluminacáo filosófica ainda nao os tocou; a verdade
lhes parece algo de patente, nao comportando mais nem obs-
curidade, nem misterio...

4. Estruíura da instituido

Para dispensar um ensino filosófico coerente, sao neces-


sários professores, alunos, um ambiente e meios financeiros.
Cada um desses quatro elementos apresenta dificéis problemas,
que convém assinalar.

1) Os mestres, encarregados de ministrar simultanea-


mente os cursos do primeiro nivel e os cursos aprofundados,
devem possuir urna formagáo filosófica geral e ser especiali
zados em um setor determinado. É preciso que formem urna
equipe homogénea em seu espirito, animada da mesma von-
tade de pesquisa; é preciso que se auxiliem mutuamente e
colaborem numa tarefa comum. £ por isso que Mons. Mercier
quería um Instituto e, a fim de assegurar-lhe a unidade, cha-
mou para colaboradores seus os discípulos que ele mesmo
havia formado.

Consagrado á pesquisa, esse Instituto seria um Instituto


«superior», urna Escola de Altos Estudos; assim marcaría sua
originalidade relativamente as Faculdades tradicionais da Uni-
versidade de 1880, onde se ministravam geralmente os resul
tados adquiridos de urna 'ciencia feita'. Todavía esse Insti
tuto devia-se inserir na Universidade, porque, se, de um lado,
cada sspecialidade filosófica só se pode desenvolver pelo con
tato com os diversos ramos do saber científico, de outro lado
é toda a Universidade que é chamada a renovar-se e a entre-
gar-se á pesquisa. A Universidade — urna Universidade com
pleta, comportando todo um leque de disciplinas — é cam
bíente mais apto para um Instituto Superior de Filosofía.

— 455 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

2) Em printípio, a estrutura da instituigáo é assegurada


desde que seus mestres sejam recrutados no seio da Univer-
sidade. Com efeito, duas dificuldades devem ainda ser aplai-
nadas neste particular. Primeiramente, nao se pode conceber
urna Escola sem alunos e os alunos só se inscrevem se a for-
macáo que lhes é oferecida lhes permite fazer carreira. Na
Bélgica, país de gente 'prática', a Filosofía nao tem grande
prestigio; os estudos secundarios nao comportam aulas de Fi
losofía; as perspectivas de emprego sao, pois, raras para aque
les que terminaram o ciclo completo de estudos filosóficos.
Mons. Mercier conseguiu, em seu tempo, contornar essa pri-
meira dificuldade. Constatando que é nos estudos preparato
rios para o sacerdocio que um lugar importante ainda é reser
vado a Filosofía, fundou um Seminario; e assim prestou ser-
vico á Igreja, já que oferecia aos candidatos ao sacerdocio
sólida base intelectual; ao mesmo tempo, assegurava um audi
torio de escol aos professores do Instituto. Além disso, pela
qualidade de seu ensino, atraía alunos do estrangeiro, parti
cularmente aqueles que eram destinados a ensinar nos Esco-
lasticados religiosos e nos Seminarios diocesanos de seus res
pectivos países. A crise atual da Igreja e a notoria diminuicáo
do número de vocac.5es sacerdotais tornam agudo, hoje em
dia, o problema do recrutamento.

3) A esse problema sobrevém o dos recursos financeiros.


No séc. XIX, Mons. Mercier pode recorrer aos mecenas, em
particular a generosidade do Papa Leáo Xill. Hoje geral-
mente sao os poderes públicos que assumem o encargo do
ensino e da pesquisa científica. Ora o Estado — e a opiniáo
pública, que ele deve respeitar — nao tém dificuldade em reco-
nhecer a legitimidade das despesas efetuadas em favor dos
progressos materiais e culturáis, mas precisariam de ser toca
dos pela graga filosófica para apreciarem da mesma maneira
o que diz respeito ao destino último do homem ou ao problema
de saber o que significa e o que vale a vida humana 'ao final
das contas'! A Filosofía lhes parece freqüentemente um luxo
inútil, do qual os cidadáos de modo geral se podem desinte-
ressar.

5. Como cultivar a Filosofía?


Mais importantes que os problemas de estrutura, que
somente por fora condicionan! o empreendimento filosófico,
apresentam-se os problemas que concernem 'á própria natu-
reza desse empreendimento e as suas relacóes com a historia,
a ciencia e a Religiáo.

— 456 —
PARA QUE A FILOSOFÍA? _45

5.1. Verdade e liberdade

Verdade e liberdade: tais sao as duas palavras-chaves


que caracterizan!, de modo geral, a pesquisa filosófica; a ver
dade é o objetivo almejado; a liberdade é a primeira condicáo
e o clima no qual a pesquisa se efetua.

A nogáo de verdade é complexa. Há, se se pode dizer


.assim, diversas ordens de verdades. Assim há a verdade do
inundo familiar, que é principalmente prática; ela nasce de
"nosso contato diario com c mundo e é valorizada por nossa
agáo. Há a verdade das ciencias positivas: nestas o pesquisa-
dor parte de fatos empíricos e busca tima inteligibilidade que
.é, ela também, verificável e controlável por fatos. Há também
a verdade religiosa, que concerne o misterio de Deus e de
suas intengóes sobre o homem. Há, por último, a verdade
filosófica, que é propriamente racional; ela se apoia sobre a
experiencia global, buscando-lhe o sentido último com a exi
gencia de justificá-la, torná-la racional e, assim alcancar urna
'visáo' ou urna 'evidencia'.

Pela própria qualidade que ela reivindica, a pesquisa filo-


-sófica só pode ser livre. A verdade filosófica nao pode resul
tar do capricho, da paixáo, da desordem; nao pode ser im
posta por constrangimento; ela se conquista num clima de
liberdade interior e exterior. Como já escrevia Mons. Mercier,
cultivar a Filosofía é procurar com sinceridade radical, com
desinteresse, a verdade, toda a verdade, sem se preocupar com
as conseqüéncias. Sem dúvida, nessa pesquisa dirigida com
plena liberdade, pode acontecer que se tome um caminho falso,
que conduzirá a erros. Mas, responde Mons. Mercier, se fosse
sempre proibido o engaño, quem ainda se entregaría á pes-
. quisa? Aquele que nao se quer jamáis engañar, nao terá outro
recurso senáo o de renunciar ao trabalho científico e conde-
nar-se á inercia. O que se exige do pesquisador, nao é que
seja infalível, mas que seja sincero e sempre pronto a renun-
.ciar á sua opiniáo, desde que a reconhega frágil.

Assim concebida, a pesquisa filosófica se desenvolve no


Instituto Superipr.de Filosofía (e nos Centros especializados
„ que ele abriga) em ttrés diregóes principáis.

_ 457 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

5.2. Estudo dos grandes filósofos

A primeira diregáo é a do estudo histórico e crítico dos


grandes filósofos. Se a Filosofía consiste essencialmente em
fazer que o homem pense por si mesmo, jamáis ela o dispensa
de escutar os outros. Os outros, sem dúvida, sao, antes de
tudo, os contemporáneos, porque só se cultiva a Filosofía para
os homens de hoje; mas sao também os grandes filósofos do
passado, porque nao podemos compreender os contemporá
neos se nao os concatenamos com os seus predecessores.
Para certas épocas da historia desse estudo comporta técnicas
particulares, concentradas em Lovaina no Centro De Wulf-
Mansion, assim chamado pelo nome de dois professores que
ensinaram no Instituto, bem como no Centro de Filosofía
Árabe, que se interessa pelas pesquisas da Filosofía antiga e
medieval.

Entre os pensadores da Idade Media, Santo Tomás no Ins


tituto goza de favor excepcional; o Instituto denomina-se 'Es
cola Santo Tomás de Aquino'. As razóes desse privilegio nao
se encontram apenas ñas circunstancias históricas da fundacáo
do Instituto; ponto de cnegada do pensamento grego e de seus
prolongamentos árabes e latinos, Santo Tomás é um dos maio-
res genios filosóficos, ao qual convém, com plena objetividade,
reservar um lugar privilegiado. Mons. Mercier muitas yezes
lembrou que nao se tratava, de modo nenhum, de 'sujeitar
nosso pensamento a um mestre, fosse esse mestre Santo To
más de Aquino'. Já em 1882, ao dar inicio ao seu primeiro
curso em Lovaina, ele proclamava: 'Encarregado de inter
pretar perante vos o pensamento de Santo Tomás, considero
como um dever iniciar as minhas aulas com esta declaragáo,
pela qual ele mesmo comega: 'Locus ab auctoritate quae fun-
datur super ratione humana est infirmisimus'; o que se pode
traduzir: 'Nada mais frágil do que um argumento filosófico
que se apoie sobre a autoridade de um mestre'. Quinze anos
mais tarde, em 1897, escrevia Mons. Mercier: 'Nos nos vale
mos de Platáo, Descartes, Leibnitz, Kant, Fichte, Hegel, Wundt,
táo plenamente talvez, e certamente com igual sinceridade,
quanto aqueles que nos colocam num partido oposto ao deles;
se nos diferimos deles, é porque nao deixamos de estudar
nenhum filósofo somente por ter ele vivido em tal ou tal
época'. E como um dia lhe pedissem que reunisse sob forma
de 'teses' as afirmagóes ñas quais se compendiaría a doutrina
defendida pelo Instituto, respondeu Mons. Mercier: 'É licito
ao professor apresentar a seus alunos, em vista dos ensaios

— 458 —
PARA QUE A FILOSOFÍA? 47

preliminares a seus exames, os principáis resultados adquiri


dos pelo estudo e condensá-los ñas aulas do professor; é útil
expor esses resultados, mesmo com certa amplitude, por causa
do público letrado; de fato, aplicamo-nos a essa tarefa com
todo o zelo. Mas a obra essencial da Escola deve ser vida;
ela é método e espirito, mais do que doutrina'.

Ao lado dos filósofos antigos e medievais, outros pensa


dores também sao auscultados no Instituto, sempre no mesmo
espirito; como se compreende, os filósofos contemporáneos
ocupam vasto espaco. O Centro de Estudos Fenomenológicos
se interessa pelo movimento fenomenología) e, mais parti
cularmente, em colaboracáo com os Arquivos Husserl, se inte
ressa pelos escritos da Husserl; nos Arquivos Blondel, faz-se a
triagem e a classificagáo sistemática dos manuscritos de Mau-
rice Blondel — o que testemunha a preocupagáo de estudar a
Filosofía contemporánea.

5.3. Diálogo com as ciencias

Outrá diregáo na qual se desenvolve a pesquisa filosófica


do Instituto, origina-se de contato vivo com o mundo das cien
cias. Na época da fundagáo do Instituto, os filósofos estavam
impressionados pelos espantosos sucessos da ciencia; o clima
geral era cientificista; esperava-se que, por seus métodos, a
ciencia chegasse logo a resolver os problemas outrora reser
vados á Filosofía. Mons. Mercier nao cessou de defender a
originalidade da Filosofía; ele acreditava que esta deveria
ultrapassar a ciencia, fornecendo-lhe urna especie de prolon-
gamento de outra ordem: desejava que a Filosofía, como a
ciencia, comportasse um movimento de análise dos fatos e um
movimento de sintese; alias, se o Cardeal Mercier se entusias-
mou pelo aristotelismo tomista, foi porque encontrou neste um
perfeito equilibrio entre análise e sintese. A missáo que ele
havia recebido de Leáo XIII era a de trabalhar pela aproxi-
macáo da ciencia e da Filosofía e fazer repercutir na socie-
dade os beneficios da sintese superior inspirada pela Filosofía.
A partir da época de Mons. Mercier, as ciencias conservam
todo o seu prestigio, mas a crítica das ciencias, principalmente
no inicio do século XX, modificou profundamente as perspec
tivas das mesmas. O Instituto continua a tributar as ciencias
a maior atengáo. Para o bacharelado, se o estudante se pode
orientar para as Letras antigás ou modernas, ele pode igual-

— 459 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 202/1976

mente iniciar-se ñas técnicas e nos métodos das ciencias


tanto das ciencias exatas como das ciencias naturais e das
ciencias humanas; matemática, física, biología, fisiología, psi-
cologia, economía, sociología, lingüística, estética, sao assim
oferecidas ao estudante. Para a Licenca e o Doutorado, um
Centro de Filosofía das Ciencias, de orientagáo interdiscipli-
nar, coordena as pesquisas e os ensinos especializados. Um
Centro de Lógica estuda os recentes desenvolvimentos da Ló
gica moderna. Um Centro de Estética e um Centro de Antro
pología Filosófica procuram as implicagóes filosóficas das
recentes perspectivas da arte e do comportamento humano.

5.4. Diálogo com a fé

Por fim, urna terceira diregáo da pesquisa, tida ás vezes


como primeira e fundamental, vem do contato com a fé crista.
Aqui também as posigóes sao perfeitamente definidas desde as
origens do Instituto. Em nenhum momento se confundirán!
Filosofía e Religiáo, razáo e fé; ao contrario, sempre se acen-
tuou sua distingáo. Em nenhum momento, a Filosofía, no Ins
tituto, foi urna Filosofía 'intrínsecamente crista'; obra racio
nal, a Filosofía só pode tirar as suas evidencias da experiencia
ou da razáo. Pode-se afirmar, entretanto, que em seus come-
gos o Instituto, para bem marcar a diferenga entre Filosofía e
Teología, fazia abstragáo metódica da Revelagáo Crista bem
como das concepgóes religiosas nao cristas. Nestes últimos
anos, ao mesmo tempo que se desenvolviam no mundo con
temporáneo fenomenologías e filosofías da Religiáo, levou-se
mais em consideragáo no Instituto o fato de que, como existe
urna Filosofía do Direito, das Ciencias, da Arte, da Economia,
pode também existir urna Filosofía da Religiáo Crista; nao se
trata contudo de Teología, mas de urna reflexáo racional so
bre a experiencia religiosa, sobre as expressóes e os fenó
menos religiosos, que tanto o incrédulo como o crente podem
estudar. Além disso, — e ninguém pensa em escondé-lo — em
Lovaina a Filosofía é obra de cristáos; esses cristáos estáo
convictos de que é possível aliar urna reflexáo racional autó
noma e rigorosa com urna fé religiosa inteligente e fervorosa.
Alias, como acontece em tudo que é vivo, essa alianga com
porta tensóes, que é preciso reconhecer com a mesma since-
ridade que se requer em toda reflexáo seria. Em definitivo,
se o Instituto Superior de Filosofía de Lovaina pode gozar,
desde as suas origens, de irradiagáo internacional, tanto no

— 460 —
mundo dos nao crentes como no universo católico, foi por ser
notorio que o problema das relacéas entre a fé crista e a
razáo nele é reconhecido como problema, sem compromisso e
sem fraude, e que, tanto aqui como em qualquer outro setor,
a Filosofía só é libertadora caso continué a ser sempre urna
pesquisa radicalmente sincera».

Até aqui o Prof. Georges van Riet. Possa a obra do Card.


Mercier, táo brilhantemente ilustrada por este mestre, inspi
rar numerosos discípulos também no Brasil!

Estéváo Bettencourt O.S.B.

livros em estante
Biblia Sagrada. Edigáo Popular. — Ed. Paulinas, SSo Paulo 1976,
'.30x275 mm, 1357 pp. Prego: 40,00 cruzeiros.

É premente o problema do barateamento da Biblia Sagrada. Sem


financlamento especial, ccmp;eende-se que as edigóes da S. Escritura
resultem caras ao comprador. Os Srs. Blspos estSo conscientes da ques-
táo e anseiam por resolvé-la. iMendendo a tal situagSo, as EdigSes Pau
linas resolveram reeditar a antiga tradugáo portuguesa de Mattos Soares
baseada na Vulgata Latina; as introdugaes, porém, e as notas que acom-
panham o texto, foram atualizadas e ampliadas de acordó com a exegese
recente. O papel é de qualidade ordinaria, mas o tipo gráfico é grande
e legfvel.

Nota-se que o texto de Mattos Soares foi revisto de modo que nem
sempre reproduz as imperfeigñes da Vulgata latina Asslm era 1C°r 15.51
("nao morreremos todos", como no original grego); em Hab 3,18 ( Deus
rneu Salvador", como no original hebraico, em vez de "Deus Jesús meu
da Vulgata). Todavia em Is 11,10 ficou a palavra "sepulcro da Vulgata
em lugar de "mansáo" do texto hebraico; o salterio se ressente das im-
oroDriedades da Vulgata. — Estas observagñes nSo pretendem desmerecer
a iniciativa das EdigSes Paulinas, que certamente deram um passo válido
para facilitar a divulgagao da S. Escritura. As pecuMar.dades da Vulgata
latina n8o afetam senSo urna parte mínima do texto bíblico. Contudo con-
vém registrar que aínda nao está resolvido o problema de urna edigao
copular da Biblia no Brasil. Nem a edigSo protestante, embora seja ven
dida a oreco módico (em virtude de financiamento estiangeiro), preenche
a lacuna, pois aprésenla o texto de Joáo Ferreira de Almeida; este yeiteu
a Biblia para o portugués no século XVII; embora retocado nos últimos
anos pela Sociedade Bíblica do Brasil, este texto deixa a desejar por
ser ainda pouco fluente, além de n§o incluir os sete livros deuterocandni-
cos (Tb, Jt, Sb, Sr, Br, 1/2Mc).

As grandes etapas do ,misté:io da salvacao, por Paúl de Surgy, 2?


edigfio. TradugSo de Irma María Manoelita. — Ed. Vozes, Petrópolis 1976,
135x210 mm, 207 pp.
A primeira edicBo deste livro em portugués saiu em 1968. Se ele é
hoie reeditado (e reeditado pela Ed. Vozes, que nao publica livros ultrapas-
sados), isto se deve ao seu real valor. Com efelto, a obra nSo perdeu a
atualldade. Aborda em estilo simples e claro as grandes fases da historia
da salvagfio, pondo em relevo principalmente o seu conteúdo doutrinárlo
ou a sua mensagem ; abstem-se de discutir hlpóteses de nivel académico
e cinge-se á exposicSo dos temas em (Idelidade ao pensamento da Igreja.
Esta é particularmente evidente ñas pp. 27-30, em que o autor trata da
questao de "pollgenlsmo ou monogenlsmo" (embora neste setor se pudes-
sem apresentar certos matlzes nio considerados por P. de Surgy). Muito
útil será o cap. IV ("Lugares e datas da historia bíblica"), com seus
mapas e quadros cronológicos. Em suma, o livro merece confianca e
aprego, principalmente em vista de cursos de ¡niciagáo bíblica e de orien-
tacSo pastoral.

Deus da esperanza, por Ladlslau Boros. TraducSo de Jesús Hortal


s j, _ Ed. Loyola, Slo Paulo, 140x210 mm, 70 pp.

O livro consta de duas partes. A primeira informa o leitor a respeito


das principáis correntes da filosofía moderna e sua influencia sobre a
teología O autor exp6e sumariamente a tendencia ao ateísmo (que re
dunda, para o crlstao, em dificuldade para a oracao, para se confessar,
para experimentar o Cristo, e para vlver a fidelldade crista); aborda tam-
bém a propensSo ás verdades aparentes (sem misterios), a tónica colo
cada sobre a experiencia do valor do lu ou do irmao (personalismo, exls-
tenclalismo...). A leitura destas páginas será ¡nteressante a quem deseje
ter urna visfio panorámica de alguns tópicos salientes da mentalidade
contemporánea. — A segunda parte oferece duas meditacóes sobre a
esperance crista, aptas a nutrir a vida espiritual e o senso teológico.
Asslm o livro carece de certa unidade; oferece "flashes" de valor, espe
cialmente dignos de estima por terem sido redigidos por Ladlslau Boros,
cujo estilo é sempre profundo e penetrante.

Da prostituido á liberdade. Diario de Mlchéle. Traducao de Joáo


Pedro Mendes. — Ed. Paulinas, Sao Paulo 1976, 130x200 mm, 177 pp.

Este livro narra, pela pena da próprla protagonista, a historia de


urna jovem, Miehéle, que, premida pela miseria, foi colhida.por explora
dores Após a dura experiencia da escravidao branca, encontrou a eouioe
do "Ñinho" (obra criada para libertar as vitimas da prostituicSo), aue Ihe
deu a m8o para que mudasse de vida e se reintegrasse na sociedade.
Mais tarde, Mlchéle freqüentou a Escola da Fó dirigida pelo Pe. Jacques
Loew em Friburgo (Suíca), e, a pedido deste, escreveu a sua autobiog-afia
em estilo de acáo de gracas ao Senhor, que a retirara de um abismo do
qual a salda é difícil. O Pe. Jacques Loew é o autor do Postfácio do
livro Postfácio no qual propBe reflexfies sobre a vida de Michéle e as
Ucees aue ela oferece á humanidade. No fim do livro encontra-se a lista
dos enderecos das Obras de (Amparo á Mulher Só e Desamparada exis
tentes no Brasil desde Sao Luis do Maranhao até Porto Alegre.

Recomendamos vivamente a leitura desse livro, que é ¡mpressionante,


pols informa a respeito de urna realidade muito propagada, mas tida
como tabú e da qual é responsável, em certo grau, a sociedade inteira.
S8o palavras de Michéle: "É preciso que o mundo saiba que nos, as
•mulheres da vida", n8o estamos perdidas para sempie. Mas que precisa-
mo3 de que a sociedade nos permita viver como todo o mundo. Eu tenno
o devar de ir levelar-lhes a incrlvel novidade: que elas podem saír
daquilo e que existe um mundo de pessoas que acreditam nelas...
(p. 156). E B