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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanza a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
¥_ vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice

HOMEM E MÁQUINA 1

Psicología e ética:
ÉXAMES PSICOLÓGICOS E DIREITOS DO HOMEM 3

Um livro "ousado":
"O PECADO DE NOSSA ÉPOCA" 14

Mais urna escola religiosa japonesa:


"PERFECT LIBERTY" 27

"Ciencia" e "Mística" :
E A CIENCIA CRISTA : QUE É ? 37

LIVROS EM ESTANTE 45

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO :

Indiferenca religiosa : fenómeno de nossos dias. — Que


fez Jesús dos doze aos trinta anos ? — "Jesús responde a
um padre" (livro).

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatwa anual Cr$ 75,00

Número avulso de qualquer mós Cr$ 7.00

EDITORA LAUDES S. A.

C DE PU ADMINISTRAQAO
Calxu Postal 2.666 Rúa Sao Rafael, 38, ZC-09
ZC-00 20.000 Rio de Janeiro (RJ)
20.000 Rio de Janeiro (RJ) Tels.: 268-9981 e 268-2796
HOMEM E MAQUINA
O novo ano se abre sob o signo da máquina e da auto-
magáo, cujas expressóes sao cada vez mais flagrantes.

A máquina é inegavelmente fator de progresso e bem-


-estar para o homem; basta lembrar os beneficios das comuni-
cagóes imediatas, dos transportes rápidos, da medicina e da
cngenharia modernas... Todavia nao ó sem razáo que bons
pensadores levantam um brado de alerta fren le ao crcscente
uso da máquina. Com efeito,
— esta marca profundamente a mentalidade dos homens;
torna-os pragmáticos, utilitaristas, ou seja, voltados cada vez
mais para a produgáo e o rendimento. A própria pessoa hu
mana corre o risco de ser menos estimada do que a máquina,
porque esta é mais eficiente e veloz em seu trabalho do que
o homem. Assim os seres humanos — de toda e qualquer
carnada social — correm o perigo de ser avassalados pela
máquina;
— a civilizagáo da máquina é também a da poluijáo
(das aguas, do ar, do som...) — o que redunda mais urna
vez em detrimento do próprio homem; este vai assim prepa
rando a ruina de si mesmo. O Clube de Roma, reunindo den
tistas do mundo inteiro, tem manifestado as suas preocupa-
cóes a propósito das conseqüéncias do ritmo da civilizaeáo
contemporánea. — Em suma, a vida humana tende a tor-
nar-se cada vez menos humana e cada vez mais roboüzada
ou mecanicizada pela influencia sempre maior dos fatores
mecánicos na vida de hoje.
A verificagáo destes fatos sugere ao cristáo urna refle-
xáo e um desafio.
Já o Concilio do Vaticano II observava muito oportuna
mente algumas das conseqüéncias do cientificismo e do tec
nicismo:
"O progresso atual das ciencias e da técnica, cujos métodos nao
conseguem atingir as profundezas das realidades, pode favorecer certo
fenomenlsmo e agnosticismo, quando o método de pesquisa usado por
estas disciplinas é indevidamente admitido como norma suprema na pro
cura de toda a verdade. Existe ainda o perlgo de que o homem, confiando
demasiadamente ñas descobertas atuais, julgue bastar a si mesmo, descui
dando os valores mais elevados" (Const. "Gaudium et Spes" rfi 57).
"A nossa época, mais do que os séculos passados, precisa de sabe-
doria para que se tornem mais humanas todas as novidades descobertas
pelo homem. Realmente estará em perigo a sorte tutuca jflc^. murjgojse
nao surgirem homens mais sabios" (ib. n? 15). w-,t*»

_ 1 _ f CENTRAL
Em resposta ao problema assim esbogado, compete ao
cristáo ser, mais do que nunca, coerente com os principios
que professa. Essa coeréncia será um servigo aos homens, que
nao lhes é lícito recusar. A sabedoria crista ensina, com
efeito, o valor de certos «desvalores», tais como

— o valor da inutilidade... Entenda-se aquí a inutilidade


do que nao é calculável ou ponderável, mas diz respeito ao
misterio do próprio homem: a arte, a ética (os gregos costu-
mavam associar o bem e o belo), a religiáo e o culto sagrado,
a filosofía... É alravés destas manifcslngócs de si que o ho
mem se encontra consigo mesmo e se torna mais auténtica
mente humano, porque pela intuicáo e a mística se eleva ao
Infinito e Transcendental;

— o valor da gratuidade... Esta significa «agir por agir»


ou «agir porque a agáo como tal vale ou merece o esforgo
do homem», independentemente de qualquer retribuigáo mate
rial. Assim o amor de benevolencia, que quer táo somente o
bem do ser amado, sem cobiga de vantagens para quem ama,
é um espécimen dessa gratuidade que dignifica o homem;

— o valor do silencio... Este propicia um clima de saúde


mental, no qual o homem se restaura, libertando-se das dila-
ceragóes impostas pela luta ruidosa de cada dia;

— o valor da contemplacáo e da otaca»... É no exer-


cício destas que o homem se aproxima mais explícitamente do
Infinito e passa a criar nao com máos humanas, mas com as
máos do próprio Deus;

— o valor do contato com a natureza... Esta lembra


ao homem o misterio do mundo, dos espagos, dos mares, das
florestas, dos insetos, dos pássaros, da vida... Lembra ao
homem que ele nao é senhor do que o cerca, mas está envol
vido num misterio de sabedoria, que lhe fala da Primeira e
Suprema Inteligencia.

É mistcr, pois, que os cristáos, longo de ceder á onda


do pragmatismo, se disponham a cultivar tais bens, cuja falta
vem sendo altamente nociva á sociedade contemporánea. Quem
pode compreender esses valores (que nao sao propriamente
valores de fé, e, por isto, sao patrimonio da humanidade in-
teira) senáo aqueles que tém consciéncia de que o homem se
diferencia radicalmente da máquina, porque aberto para novas
e novas formas de criatividade, em demanda do Bem Absoluto?
Que Ele conceda a todos a virtude da fidelidade a tal
tarefa!
E.B.

— 2 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XVIII — N' 205 — Janeiro de 1977

Psicología e ética:

exames psicológicos e direitos do homem


Em síntese: Este artigo estuda os testes psicotécnicos e os de per-
sonalidade, chegando ás seguintes conclusoes:

1) Os exames psicotécnicos ou os testes psicológicos que visam


apenas a averiguar aptidóes profissionais ou a avaliar características habi-
tualmente externadas pelo paciente, via de regra nao constituem pro
blema ético.

2) Os exames que tendem a penetrar no intimo psíquico ou moral


do paciente, só se tornam lícitos depois de obtido o consentimento escla
recido e livre do cliente interessado. Este estará obrigado a nao revelar
os segredos que Ihe tenham sido confiados, nem se poderá expor a
ocasióes próximas de pecado ou a reviver situacóes pecaminosas de sua
vida passada.

3) O psicólogo estará também obrigado a segredo, de modo que,


sem o consentimento do interessado, nao Ihe será lícito comunicar a
quem quer que seja, os conhecimentos adquiridos através do exame da
personalidade.

4) Os mestres reconhecem que os resultados de tais exames sao,


freqüentemente, duvidosos ou ¡ncertos.

Comentario: Vai crescendo no mundo dos estudiosos e


no grande público o interesse pela psicología e as suas apli-
cacóes: varias empresas, escolas e firmas só contratam fun
cionarios ou colaboradores após realizado teste psicotécnico
ou mesmo exames aínda mais profundos. Também em Semi
narios e Institutos Religiosos os candidatos sao, por vezes,
selecionados de acordó com o resultado de tais exames. Ora
tal praxe tem despertado graves problemas éticos. Com efei-
to, pergunta-se: até que ponto é lícito penetrar no íntimo de

3
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

alguém? Será permitido exigir que passe por exame analí


tico? Pode-se proceder a tal exame sem o consentimento
explícito e livre do candidato?

A estas questóes nao somente os autores cristáos tém


procurado responder. Também os pensadores e filósofos nao
cristáos se ve ni interessando pelo assunto e tém proposto su
bastóos quo visam a salvaguardar a dignidade e os inconfun-
díveis direitos da pessoa humana. Vamos, pois, abordar o
problema ñas páginas que se seguem, sob a luz das mais
recentes declaragóes que a propósito tém sido feitas por auto
ridades médicas e religiosas, valendo-nos do artigo do Pe. Vit-
torio Marcozzi: «Indagini psicologiche e diritti del)a persona»,
em «La Civiltá Cattolica» 3024, 19/VI/1976, pp. 541-551.

Comecaremos por indagar:

1. Teste psicológico : que é ?

O tosté psicológico consiste em submeter urna pessoa a


situado estimulante que tenda a provocar determinado com-
portamento; tal comportamento poderá ser dimensionado
numéricamente e comparado ao de outros individuos postos
em circunstancias semelhantes.

A expressáo «teste mental» foi utilizada, pela primeira


vez, pelo psicólogo norte-americano J. M. Cattell em 1890, a
fim de designar provas psicológicas impostas a estudantes
universitarios.

Em 1905, Binet concebeu um teste para aquilatar a inte


ligencia na idade escolar. Outros testes foram sendo sucessi-
vamente preparados para se reconhecerem as tendencias, as
habilidades, os graus de memoria, as capacidades profissio-
nais e outros predicados de estudantes e candidatos a pro-
fissóes.

Durante a primeira guerra mundial (1914-18), o Dr. Ter-


man aplicou testes aos recrutas do Exército, colhendo daí
bons resultados. Foi o que levou alguns psicólogos norte-ame
ricanos a preconizar a aplicacáo de exames psicológicos tam
bém a civis que pleiteassem alguma funcáo social.

— 4 —
EXAMES PSICOLÓGICOS E ÉTICA

O uso de testes foi-se estendendo mais a mais nos Esta


dos Unidos, contando com a aceitacáo de muitos mestres, mas
também enfrentando críticas e oposicóes, pois em alguns casos
os testes discriminavam os meninos nao propriamente por
diferengas intelectuais, mas, sim, por criterios de lingua, raga
e cultura...

Atualmcntc distinguem-se tres tipos do lestes psicoló


gicos:

— os de medida de inteligencia. Referem-se a urna escala


que se constrói na base da complexidade dos problemas pro-
postos ao candidato. Há testes de inteligencia a ser aplicados
a enancas e adolescentes (idade evolutiva) como os há para
adultos;

— os testes de aptidao. Destinam-se a avaliar as dispo-


sigóes e capacidades da pessoa em vista de atividades espe
cíficas (profissóes liberáis, artes, magisterio...). Sao utili
zados em empresas, firmas, escolas, etc.;

— os testes de personalidade. Sao aplicados quando se


trata de descobrir os traaos psíquicos, principalmente os mais
ocultos e pessoais de alguém; tentam penetrar no íntimo do
candidato.

Os teste de personalidade podem ser classificados em duas


categorías:

a) testes estruturados, que constam de perguntas, as


quais o interessado deve responder («self-report inventory»).
O mais famoso é o teste M.M.P.L («Minnesota Multiphasic
Personality Inventory»);

b) testes nao estruturados, os quais constam de técni


cas projetivas. Apresentam cenas ou manchas vagas e inde
terminadas. O cliente, diante délas, deve dizer o que as man
chas lhe recordam ou o que as cenas significam para ele.
Dado que as manchas e as cenas nao tém significado definido
(nao sao estruturadas), julga-se que os comentarios feitos pelo
paciente sao a projegáo do que existe no psíquico do mesmo,
principalmente no seu inconsciente. Assim o psicólogo admite
que possa depreender as tendencias, as repugnancias e os
afetos mais profundos e ocultos da pessoa analisada.

Dentre os numerosos testes de personalidade, um dos


mais famosos é o de Rorschach (1884-1922): apresenta dez

5
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

tabelas, que contém manchas simétricas, algumas de urna só


cor, outras policrómicas. O paciente deve dizer tudo o que
vé, enquanto o psicólogo leva em conta os comentarios do
cliente, o tempo de que necessita para proferir o que quer
dizer, e outros dados. Este tipo de teste fez sucesso enorme,
a ponto que em Nova Iorque foi criado o Instituto Rorschach,
ao qual cstava associada urna revista ilustrativa dos estudos
de Rorschach. Em 1961, Sundbcrg julgava que o teste de
Rorschach era aplicado nos Estados Unidos a um milháo de
pessoas por ano. Isto implicaría cinco milhóes de horas de
trabalho (571 anos) e as despesas de 25 milhóes de dólares.
Compreende-se que táo ampio uso dos testes de Rorschach
tenha dado ensejo a abusos, exageros e fanatismo, provo
cando a crítica dos estudiosos mais equilibrados; tais críticas,
porém, nao invalidam o método como tal.

O «Thematic Apperception Test» de Murray consta de


tres series de dez tabelas, que apresentam cenas nao bem
definidas com figuras em atitudes vagas. Aplicam-se quando
se trata de analisar conflitos existentes no cliente.

Os testes figurativos de Szondi constam de seis series de


oito figuras cada urna. Cada serie representa diversos sujei-
tos: um homossexual (ou urna lésbica), um sádico, um homi
cida, um histérico, um epiléptico, um paranoico, um maniaco,
um catatónico, um deprimido... O paciente, colocado diante
dessas diversas figuras, é convidado a escolher dentre elas as
duas que lhe sao mais simpáticas e as duas que lhe parecem
mais antipáticas.

Além dos testes de personalidade até aqui mencionados,


existem outras técnicas psicológicas especiáis, que visam a
penetrar no intimo do ser humano. Vejamos sumariamente
algo a respeito.

2. Penetrando no íntimo do ser humano

Dá-se o nome de «traeos íntimos» ou «interioridade» ao


setor da alma (ou psyché) que essa pessoa nao costuma reve
lar a ninguém ou só revela a parentes ou amigos íntimos:
assim sao desejos íntimos, tendencias profundas, afetos, repug
nancias, recordagóes... Muitas vezes esse setor do nosso psi-
quismo é desconhecido mesmo ao próprio sujeito; é o seu
inconsciente ou subconsciente, que, embora ignorado ou mal

— 6 —
EXAMES PSICOLÓGICOS E ÉTICA

conhecido pela pessoa, pode influir amplamente no compor-


tamento e no género de vida desse sujeito.

Para penetrar dentro das profundidades do psiquismo


humano, existem hoje em día varias técnicas, sendo algumas
de índole preponderantemente fisiológica e outras prevalente-
mente analíticas.

2.1. Processos prevalentemente fisiológicos

Entre os processos prevalentemente fisiológicos, enume-


ram-se o Lie-detector ou polígrafo e a narcoanálise.

O Lie-detecto!r é um instrumento que registra as reagóes


fisiológicas da pessoa (aceleracáo das pulsacóes cardíacas,
freqüéncia da respiracáo, dilatagáo das pupilas, suor e outros
sintonías...) resultantes de perguntas habilidosas e aptas a
revelar (ao menos indiretamente) dados que a pessoa inter
rogada queira silenciar.

A narcoanálise aplica ao paciente substancias químicas


próprias para provocar estados de semiconsciéncia semelhan-
tes ao da hipnose; em tais condicóes o paciente perde o con
trole ou os seus poderes de inibicáo e deixa que falem as
suas faculdades mnemónicas e inconscientes. Submetida á
narcoanálise, a pessoa, hábilmente interrogada, pode fazer
revelagócs que em circunstancias normáis nao faria ncm pode-
ria fazer.

2.2. Técnicas psicanalíticas

Mais usuais do que as anteriores sao as técnicas psicana


líticas. Recorrem geralmente á livre associagáo de idéias.

A livre associacáo consiste em manifestar ao psicólogo


as idéias que as palavras e expressóes dcssc psicólogo desen-
cadeiam na mente do paciente ; este nao deve silenciar ne-
nhuma recordacáo ou imagem que lhe ocorra. Para que tal
procedimento seja facilitado, a pessoa analisada se senta cómo
damente em uma poltrona ou se deita em um diva, e o psicó
logo lhe fica atrás, deixando ao cliente toda a liberdade para
falar. O analista levará em conta os silencios, as reticencias
e as resistencias do paciente. A partir do que ouve e observa
da parte deste, procura conhecer o íntimo do seu paciente.

Coloca-se agora a grave pergunta atinente 'á

— 7 —
8 /-PERGUNTE E RESPONDEREMOS;» 205/1977

3. Liceidocfe dos testes psicológicos

Para julgar a liceidade ou iliceidade dos testes psicoló


gicos, é preciso distinguir entre as técnicas que nao revelam
a intimidada do paciente e aquelas que a revelam.

3.1. Testes psicotéenicos

Os testes que nao revelam a intimidade do paciente, sao


os que se destinam apenas a verificar e medir certas aptidoes
e capacidades da pessoa... Tais aptidoes ja sao manifestadas
espontáneamente pelo próprio comportamento habitual do pa
ciente; podem ser observadas por quem o acompanha de perto,
embora menos claramente do que mediante testes psicológicos.
Ora pode haver casos em que é nao somente oportuno, mas
também necessário, que se conhegam as habilidades próprias
de determinada pessoa, principalmente se esta pretende assu-
mir alguma fungáo de responsabilidade. Por isto é lícito, de
modo geral, impor testes psicotécnicos ou testes de desenvol-
vimento intelectual ou de aptidáo profissional a quem se enca-
minhe para determinada profissáo ou determinado emprego:
tenham-se em vista, de modo especial, as fungóes de moto
rista, piloto, aviador, maquinista, enfermeiro, médico, etc.

3.2. Testes que revelam a intimidada

Há testes que contribuem para penetrar a «privacidade»


do paciente, tornando conhecidos certos traaos de sua perso-
nalidade ou do seu modo de vida que tal pessoa poderia legí
timamente nao querer revelar. Para que tais testes possam
ser licitamente aplicados* é necessário, antes do mais, que o
psicólogo informe o paciente a respeito da natureza dos men
cionados testes e a respeito dos riscos que eles podem acar-
retar. Só será licito proceder a tais exames de personalidade
depois que o interessado tiver assegurado ao psicólogo o seu
consentimento dentro dos limites em que o paciente possa
realmente dar tal consentimento (há casos em que o paciente
nao pode abrir máo de sua «privacidade»; é o que ocorre prin-

_ 8 —
EXAMES PSICOLÓGICOS E ÉTICA

cipalmente guando essa privacidade está associada a legítimos


direitos de terceiros).

Se um psicólogo tenta penetrar no intimo de alguém sem


a autorizagáo deste sujeito, está violando um direito natural
próprio da pessoa humana como tal. Por isto qualquer intro-
missáo nao autorizada na intimidade de outrem é grave ofensa
a dignidade humana. Significa ignorar o que a pessoa tem
de específico e rebaixá-la ao nivel de objeto ou coisa. Na ver-
dade, a pessoa humana, dotada de consciéncia e de livre arbi
trio, é «sui iuris» ou é senhora de si mesma.

Mais ainda: intrometer-se na intimidade de alguém sem


consentimento constituí urna ingerencia irreverente no rela-
cionamento que o ser humano deve ter diretamente com Deus.
Com efeito, o homem, tendo sido feito diretamente por Deus
e para Deus, nao pode ser devassado por alguma criatura;
toca a cada qual assumir as suas responsabilidades direta
mente diante de Deus, sem imposi^áo ou constrangimento da
parte de quem quer que seja. Está claro, porém, que Deus,
tendo feito o homem social, pede a todo homem ausculte a
sociedade e procure conhecer o plano de Deus através dos
auténticos meios pelos quais Ele se comunica aos homens; a
nmguém seria lícito (salvo raras exeecóes) formar sua cons
ciéncia e pautar sua vida sem aprender por vias humanas os
designios de Deus.

Esta doutrina é recomendada tanto por mestres eclesiás


ticos como por fontes civis e leigas.

Assim tenham-se em vista as palavras de Pió XII aos


participantes do XITI Congresso Internacional de Psicología
Aplicada (10/W/1958):

"O conleúdo do pslqulsmo como tal pertence exclusivamente ao pró-


prlo sujeito; so a este toca conhecé-lo. Todavía o suieito mesmo já manl-
festa algo desse conteúdo através do seu comportamento. Quando o psicó
logo se ocupa com o que é assim revelado, nio viola o psiquismo Intimo
do sujeito... Mas há urna ampia parte do seu mundo interior que a pessoa
so manlfesta a poucos confidentes e defende contra a ¡ntrusáo de outrem.
Por consegulnte, certas coisas seráo guardadas em segredo a todo prego
e em relacáo^a quem quer que seja. Há no Intimo de cada pessoa outras
coisas de que o próprio sujeito nio consegue tornar-se consciente. A psl-
cotogia ensina que existe urna regiüo intima do psiqutsmo — especialmente
no que se refere a tendencias e disposicdes — táo oculta que o individuo

— 9 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS* 205/1977

nunca chegará a conhecé-la, nem mesmo a supo-la. E, como é Ilícito apro-


priar-se dos bens de outrem e atentar contra a sita Integridade corporal
sem o seu consenlimento, assim também nao é lícito entrar no intimo de
alguém contra a vontade desse alguém, qualquer quo seja a técnica ou o
método aplicado" ("Acta Apostolicae Sedis" 50 [1958] p. 276).

O Concilio do Vaticano II, na sua Constituicáo «Gaudium


ct Spos», cnsitüi:

"Cresce... a consciéncia da dignidade eximia da pessoa humana,


superior a todas as coisas. Seus direltos e deveres sao universais e invio-
láveis. é preciso portan'.o que se tornem acesslveis ao homem todas aque-
las coisas que Ihe sao necessárias para levar urna vida verdadeiramente
humana. Tais sao: alimento, roupa, habitacSo, direlto de
escolher livre-
mente o estado de vida e de constituir ramilla, direito á educagáo, ao tra-
balho, á boa lama, ao respeito, á conveniente informacáo, direito de agir
segundo a norma reta de sua consciéncia, direito á protejo da vida parti
cular e á justa liberdade, também em materia religiosa" (n? 26).

O Conselho Económico e Social das Nagóes Unidas em


1973 dedicou-se tongamente ao estudo dos problemas relacio
nados com o exame da personalidade humana. Sugeriu nor
mas referentes á formagáo profissional dos examinadores, á
discricáo dos exames e á aplicagáo de algumas técnicas como
a narcoanálise. No tocante ao exame da personalidade, propós:

"Exija-se que o interessado ou o seu tutor dé o respectivo consenti-


mento com pleno conhecimento de causa; esse consentimento deverá abran-
ger também o uso que se há de fazer dos resultados do exame e a iden-
tidade da pessoa ou da organizado ás quais os resultados se rao comu
nicados.

A protecáo da dignidade humana deverá merecer atencáo particular


no caso dos testes cujo éxito se funda essencialmente sobre a revelagao
inconsciente, por parte do interessado, de aspectos da personalidade que
ele preferiría guardar em segredo" ("Nations Unies, Conseil Economique
et Social. Commission des Droits de l'homme et progrés de la science et
de la technique". E/CN. 4/1116, 23 janvier 1973, pp. 96s).

Também a «American Psychological Association» publi-


cou em 1973 alguns «principios éticos a serem observados na
pesquisa psicológica feita sobre seres humanos». Dentre estas
normas, há urna que afirma que a pesquisa nao deve ultra-
passar os limites estipulados pela pessoa examinada. Ou,
como se lé textualmente em outra passagem: «O direito de
livre escolha requer que a decisáo de submeter-se ao exame

— 10 —
EXAMES PSICOLÓGICOS E ÉTICA 11

seja tomada á luz de adequada e exata informac.áo». («Ethical


Principies in the Conduct of Research with Human Partici-
pants». Published by American Psychological Association,
Inc. Washington 1973, p. 27).

Em suma, para que um teste de personalidade seja lícito,


o psicólogo ou o analista deverá obter do paciente um con-
scntimento esclarecido e livre. Em outros tormos, deverá

— informar o cliente a respeito da índole dos testes e


dos objetivos que ele tem em vista. Advertirá o interessado
de que, durante o exame, lhe poderáo aflorar a mente senti-
mentos, indinacóes e aversóes, dos quais ele nem suspeita.
Há de lhe manifestar outrossim a margem de incertezas e de
dificuldades moráis que tais exames acarretam. Além do mais,
deverá obter a licenga do paciente para comunicar a terceiros
as revelagoes que este lhe venha a fazer, caso isto seja neces-
sário (deveráo entáo esses terceiros guardar segredo a res
peito do que lhes tiver sido transmitido) ;

— respeitar a liberdade do paciente, de tal modo que


este possa dizer um Sim isento de qualquer tipo de constran-
gimento:

"Se o consentlmento for extorquido injustamente, a acáo do psicólogo


será ¡licita. Se for viciado por falta de liberdade (devida á ignorancia, ao
erro, ao engaño), qualquer tentativa de penetrar ñas profundidades da alma
será imoral" (Pió XII, Discurso acs participantes do XIII Congresso Inter
nacional de Psicología Aplicada", I. cit. p. 277).

Resta agora observar um ponto importante, apto a pro


porcionar urna visáo equilibrada do assunto:

4. Incerteza dos resultados

É preciso notar que, apesar de quanto por vezes se afirma,


as pesquisas psicanalíticas nem sempre oferecem resultados
seguros. Em todos os testes há urna cota, mais ou menos
ampia, de interpretagáo subjetiva que depende das teorías
adotadas pelo psicólogo e da natureza dos métodos de pes
quisa. A inseguranga é maior quando se trata da narcoaná-
lise e da aplicacáo do Lie-detector ou polígrafo.

Os mais abalizados estudiosos concordam entre si ao


afirmar isto. E. Planchard, por exemplo, escreve:

— 11 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

"Os testes projetlvos baseiam-se sobre principios Incontestáveis. Mas


a experiencia reduzida, limitada no tempo e no espaco, que constituí a
materia dos testes projetlvos, é, multas vezes, desproporcionada — devemos
coníessá-lo — em relagSo ¿s conclusSes numerosas, precisas, dogmáticas,
que da! sao deduzidas. Grande parte da aparente riqueza de diagnóstico se
deve, sem dúvida, á imaginacáo, á engenhosidade, ás Idéias preconcebidas
do examinador. As técnicas projetivas, extremamente (ou mesmo demasia
damente) numerosas, sSo, na verdade, de valor desigual; neste setor, a
Imaglnacáo parece ter tomado llvre curso, emancipando-se por vezes do
freio do espirito científico" (E. Planchard, "Théorie et pratique des tests".
Paris 1972, pp. 320s),

R. Meili observa a seu turno:

"Nada é mais difícil de se julgar do que uma afirmacSo psieodiagnós-


tica referente a uma pessoa: será exata ou nao? Por vezes, tem-se valo
rizado excessivamente a eficacia de tais testes. Últimamente conhecemos
melhor o emprego destes e, conseqüentemente, a interpretado dos resul
tados se torna mais segura" ("Psychodlagnostik", em "Lexikon der Psycho-
logie". B. 3. Freiburg i./Br. 1973, col. 24).

Pode-se citar outrossim o testemunho de R. Stagner e


C. M. Solley:

"Muito se tem discutido a validado dos testes projetivos. Alguns psi


cólogos sustentam que as estimativas dos traeos de personalidade derivadas
de tais melos sao notavelmente exatas. Por exemplo, muitos psicólogos que
trabalham no ámbito da Industria, aplicam os testes para avaliar a aptidao
dos candidatos a postos de direefio, pols julgam que a capaeldade de
suportar frustracóes pode ser medida através de tais meios. Também a
maioria dos psicólogos clínicos que trabaiha nos cárceres de menores, ñas
Clínicas de Higiene Mental, nos hospitais e em consultorios particulares,
recorre largamente a esses testes. Por outro lado, muitos psicólogos, pes-
quisadores científicos, procuraram verificar as predicSes feitas através de
testes projetivos, e obtlveram resultados modestos. Asslm a controversia
sobre a validade dos testes projetlvos continua; serSo necessárias aínda
numerosas pesquisas de longa duracSo antes de chegarmos a dar res-
posta definitiva" ("Le basl della Psicología". Roma 1973, p. 710).

As advertencias relativas a falhas dos testes de persona


lidade poderiam multiplicar-se. Veja-se, por exemplo, Rosen-
zweigart, «Personality», em «Encyclopaedia Britannica», vol. 17
(1969); J. Perse, «Projectives (Méthodes)», em «Encyclopae
dia Universalis» 13 (1972), p. 634; P. Greco, «Psychologie»,
ib. pp. 759s; W. Allport, «Psicología della personalitá, Zürich
1973, pp. 358-372.

— 12 —
EXAMES PSICOLÓGICOS E ÉTICA 13

5. Conclusoo

As consideracóes até aqui apresentadas podem-se reca


pitular nos seguintes itens:

1) Os exames psicotécnicos ou os testes psicológicos que


visam apenas a averiguar aptiddes profissionais ou avaliar
caracteristicas habitualmente externadas pelo paciente, via-de-
-regra, nao constituem problema ético.

2) Os exames que tendem a penetrar no intimo psíquico


ou moral do paciente só se tornam licites depois de obtido o
consentimento esclarecido e livre do cliente interessado. Este
estará obrigado a ñáo revelar os segredos que lhe tenham sido
confiados, nem se poderá expor a ocasióes próximas de pecado
ou a reviver situagóes pecaminosas de sua vida passada.

3) O psicólogo estará obrigado a segredo, de modo que,


sem o consentimento do interessado, nao poderá comunicar a
quem quer que seja, os conhecimentos adquiridos através do
exame da personalidade.

4) Os mestres reconhecem que os resultados de tais exa


mes sao, freqüentemente, duvidosos e incertos.

RECEBEREMOS COM GRATIDAO QUAISQUER OBSER-

VAQOES E CRÍTICAS DE NOSSOS LEITORES A RESPEITO

DO CONTEÚDO DA REVISTA PR. NAO DEIXEM DE NOS

ESCREVER: PR, CAIXA POSTAL 2666, 20.000 RIO DE

JANEIRO (RJ).

— 13 —
Um livro "ousado" :

"o pecado de nossa época"1

Em síntese: O Dr. Karl Menninger é famoso psiquiatra norte-ameri


cano, que no livro "O pecado de nossa época" estuda o fato de que a
palavra e o próprio conceito de "pecado" estáo sendo esquecidos e banidos
em nossas sociedades modernas. O banimento comecou pela substituido
da nogao de pecado pela de críaie (a nocáo ética cedeu á nocao jurídica);
esta, por sua vez, foi substituida pelas nocoes de síntoma e doenca; o
pecado de outrora seria hoje o mero resultado de condicionamentos, trau
mas e complexos. O autor exempiifica esta sua tese citando numerosos
exemplos concretos de tal ocorréncia. Em especial, refere-se aos grandes
males da época contemporánea, como as guerras, os genocidios, a por
nografía, a violencia, o uso de drogas, a mentira, a crueldade com animáis,
com criancas, as formas de escravidáo, o tráfico de drogas... Na socie-
dade de hoje, na qual cada cidadSo é reduzido a unidade ou peao, nin-
guém se julga responsável por tais abusos; as corporacóes tém olhos e
ouvidos, pensam, planejam e lembram; mas nao tém consciéncia nem
remóreos.

Ora, seguido o Dr. Menninger, esta süuacdo de fndiferenca em rela-


cáo aos valores éticos e ao pecado é nociva ao próprio bsm-ostar da socie-
dade. Reoonhscer as responsabilidades e as culpas é fator de reostruturacáo
dos individuos e da sociodade; seria principio da renovacao dos homens,
os quais, em conseqüéncia, conccberiüm a espüranipa de mclhores días.

Consciente dicto, o Dr. Mennir.ger procura estimular os ministros


religiosos de qualquer Credo a fím de que realizem sua miss&o cem a
pl&na conviecáo do valor ¡ndispercsável que Ihes toca: ajudar os homens
a cenceber responsabilidades pessoais o coletivas, ajudá-los também a
distinguir entre o 'ce:r. e o mal éticos, ois formas de üorvitjo que a título
algum podem cessar em nossos dias.

0 livro é paiticula-rpcp.'o rotávcl polo fato de so oriíjinr.r da pona


de um psiquintra, quo, como pioíissioncl, floiiuncia a covnrdia da sociedade
contemporfinea frente r.o pecado ci:e nela existe. O autor nao so delino
por algum Credo, mas esvima profundamente os vaiores religiosos. — Em-
bora o seu livro ienha páginas que a teología completaría com os dados
da fe, ó obra de valor.
* • o

Comentario: Apareceu no mercado brasileiro um livro


«audaz», porque fala de «pecado»... Nao é obra de sacer
dote ou ministro religioso nem de teólogo, mas de famoso
psiquiatra — o Dr. Karl Menninger, que assim se aprésenla:

1 Publicacao da Livraria Jocó Olympio Editora 1975. Autoría de Karl


Menninger e traducáo de Clarice Llspector.

— 14 —
«O PECADO DE NOSSA ÉPOCA» 15

"Nao sou teólogo, profeta ou sociólogo, sou um médico, talando


urna llnguagem médica com um acento psiquiátrico. Para os médicos, a
saúde é o bem supremo, o estado de ser ideal. E a saúde mental — alguns
acreditam — inclui todas as saúdes: fisica, social, cultural e moral (espi
ritual)" (Hvro citado, p. 221).

O Dr. Menninger fundou um Centro Psiquiátrico em To-


peka, Kansas (U.S.A.), conhecido no mundo inteiro. Escre-
vcu varias obras e pcrlcnce a grande número de organizares
psiquiátricas norte-americanas.

Se no seu livro «Human Mind» (1930) o Dr. Karl Men


ninger abordava as enfermidades mentáis de que sofre o ser
humano, nésta sua última obra ele considera as enfermidades
moráis do homem. Mostra que, apesar da aversáo que hoje
em dia se tem 'á palavra «pecado», a realidade deste existe
e o simples fato de nao a reconhecer é causa de maiores
males do que a denuncia sincera e leal da realidade.

O livro resulta, como diz o autor no seu «Postfácio», de


experiencia adquirida nao somente em consultorio médico, mas
também em Seminarios de estudos; verificou entáo que sacer
dotes e outros ministros religiosos se acham, hoje em dia,
perplexos, porque lhes parece que a sua missáo é inútil. Ora
ceder a essa impressáo seria trair o próprio género humano,
como afirma Menniníjer, apoiando-se em urna pnssagem do
fnmoso historiador inglés Arnold Toynbee (que nao era cris-
táo):

"Poderlamos acusar a raca humana com Imparcialidade, urna vez


que somos humanos, de urna 'brecha moral', urna brecha que vem uimen-
tando & medida cus a tecnología tem um processo cumulativo e a moral
fica estagnada...

A rxfatftnein dessn brncha moral e a importancia ria necessfdade de


fccha-la tem sido reconhenlda pelos genios espiriluais do mundo. Os ensi-
namentos de Buda nao diferem neste aspecto daqueles dos filósofos chi-
neses Confúcio, Laotsé, dos antlgos filósofos gregos Sócrates e Zeno (o
fundador da filosofia estoica) ou de todos os profetas hebreus, desde
Amos no oitavo século a. C. até Jesús. Os líderes espirituais estavam no
camlnho certo. Devemos seguir sua indicacáo.

A ciencia nunca suplantou a rellgiao, e espero que nunca o faga...


A ciencia também comecou a descobrir como curar os males físicos. No
entanto, até agora nio deu slnais de ser capaz de arcar com os problemas
mais serios do homem. Ainda nao foi capaz de curar o homem de sua
pecaminosidade ou de sua sensacáo de inseguranga ou de evitar a dor
do fracasso e o medo da morte. Além disso, nao conseguiu ajudá-lo a

— 15 —
W «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

sair da prisSo de seu egocentrismo inato para a comunhSo ou uniao com


urna realidade muito mafor, mais importante, mals valiosa e mals duradoura
do que o próprio individuo...

Estou convencido de que o problema fundamental do homem é o seu


egocentrismo. Ele sonha fazer do universo um lugar que Ihe seja agradável
com muito tempo livre, descontracao, seguranea e saúde, e sem tome
nem pobreza..." ("Surviving the Futura". Oxford University Press 1971,
citado por Menningor á p. 217s).

Consciente desta realidade, Menninger tem-se dedicado


em sua «Menninger Foundation» também á orientagáo clínica
de sacerdotes e pastores confusos perante a situagáo moral
da nossa sociedade ocidental.

Vamos, a seguir, propor os principáis tópicos do livro


em foco.

1. O desaparecimento do pecado

Os homens de nossos dias já nao falam de pecado e tém


horror a ouvir esta palavra. Quando ocorre algo que Ihe
corresponda, qualificam-no de «nocivo, prejudicial, pernicioso,
vergonhoso», nao, porém, de «pecaminoso». Para ilustrar o
fato de que o pecado desapareceu, Menninger cita episodios
da historia norte-americana:

Em 1952, o Presidente Truman, a pedido do Congresso,


instituiu um Dia Nacional de Oracáo. Em 1953, o Presidente
Eisenhower, fazendo a sua primeira declaragáo presidencial,
referiu-se ao pecado; inspirava-se em um discurso do Presi
dente Abraham Lincoln proferido em 1863. Todavía comentou
um articulista da revista «Theology Today»:

"Nenhuma das convocacoes subseqüentes de Eisenhower para a prece


mencionou o pecado. A palavra nao era compatível com a vis&o do coman
dante supremo de um povo orgulhoso e confiante... Desde 1953, nenhum
outro presidente menclonou o pecado como urna fraqueza nacional. Nem
Kennedy, nem Johnson, nem Nlxon. Para maior seguranca, evitaram a
palavra. Os republicanos referiram-se aos problemas de 'orgulho' e 'justlca1.

Os demócratas referiram-se a 'deficiencias'. Mas nenhum usou o


ampio concelto de pecado. Nao consigo imaginar um presidente atual
batendo no peito em nome da nagáo e rogando 'Deus seja misericordioso
conosco, pecadores', embora na oplnifio de especialistas esta seja urna
das melhores manelras de comecar" (livro citado, p. 1Ss).

Feitas estas observagóes, o Dr. Menninger procura recons


tituir as etapas que levaram ao desaparecimento da nagáo e
da palavra «pecado» em nossos dias.

— 16 —
«O PECADO DE NOSSA ÉPOCA» 17

2. Etapas do desaparecimento

Em súrtese, o Dr. Menninger afirma que o concertó de


pecado foi sendo aos poucos substituido pelo de crime; depois
este foi removido pelo de doen^a. Isto quer dizer: o pecado
deixou de ser urna falta moral para ser táo somente urna
transgressáo jurídica, ou a violacáo de urna ordem conven
cional. ' Posleriormonte, a ordem jurídica foi substituida pela
psicopatológica; o pecado deixou de ser algo que afete a res-
ponsabilidade de alguém para ser considerado um desequili
brio de reacóes psicológicas, do qual o sujeito nao tem culpa,
pois é simplesmente a vítima de defeitos de educagáo e de
traumas incutidos pela sociedade.

Examinemos sucessivamente cada urna destas etapas,


como sao apresentadas por Karl Menninger.

2.1. Do pleno moral para o plano jurídico

A primeira metamorfose do concertó de pecado consiste


em que foi deslocado do foro da consciéncia e da lei moral
natural, objetiva, para o plano do Direito, e do Direito posi
tivo. «O policial substituiu o sacerdote. Com isto, muitos
'pecados' doram a impressáo de desaparecer, tendo recebido
novo nome e novo monitor» (p. 49).

Ora essa mudanza de foro nao beneficiou, mas, ao con


trario, prejudicou a sociedade. As sangóes jurídicas impos
tas pela polícia e pelo Estado sao, muitas vezes, mais vinga-
tivas do que medicináis e regeneradoras. A maquinaria repres-
sora do Estado (ou da Polícia) «é imponente, poderosa e
monstruosa; mas é ineficaz e tremendamente dispendiosa;
como controle do crime, ó um completo fracasso. E, urna vez
que processa apenas urna pequeña porcentagem dos transgres-
sores ..., representa mais urna farca moral, um dispositivo
simbólico, do que um controle prático dos desvíos de compor-
tamento... Existem, em resumo, duas especies de 'justiga':
urna para os pobres, e outra para nos» (cf. p. 51). «As pessoas

1 Entende-sa aqui o direito ou o foro jurídico separado do ético ou


do foro moral. Tal separacao é aberrante, mas decorre do chamado "posi
tivismo jurídico"; este considera as leis como meras convengdes estabe-
tecidas pelo Estado para preservar o bem comum, sem fundamento na
natureza do próprio ser humano.

— 17 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 205/1977

que nao podem pagar a um advogado hábil para representá-las


e que... sao «inapelavelmente encarceradas em prisóes horrí-
veis, aguardando o sempre adiado julgamento, tém muito
poucos 'direitos' verdadeiros» (p. 52).

Em conseqüéncia, «muitos bandidos e suspeitos apodre-


cem em calabou^os fora das? nossas vistas, nutrindo seu odio e
planejando vinganea. Outros, entretanto, continuam scus cri-
mes sem serem intimidados, advertidos, capturados, julgados,
sentenciados ou punidos. Cinqüenta por cento jamáis sao pre
sos, vinte por cento nunca sao considerados culpados» (p. 55).

O Dr. Karl Menninger se alonga sobre o duro e ineficaz


tratamento infligido aos prisioneiros : saem dos cárceres em
piores condigóes de saúde física, psíquica e moral do que as
que traziam ao ser encarcerados. Tal é o resultado de se
negligenciar o foro da consciéncia, da educagáo ou reeducagáo
ética do ser humano, para se dar atengáo táo somente aos
valores do foro externo ou jurídico.

2.2. Do plano jurídico para o plano medico

Com os progressos da psicología e da psicanálise, muitos


pensadores foram aos poucos tendendo a considerar o pecado,
e também o crime, como conseqüéncias de doengas psíquicas.
Por conseguinte, em vez do recurso a punicáo para certos
males do comportamento, instaurou-se o recurso á medicina.
Um homem pode matar seu melhor amigo ou seu pior inimigo
durante um delirio, e ainda assim nao cometer crime; caso
nele se evidencie urna condigáo denominada «doenga mental»
influente no ato criminoso, é-lhe cancelada a culpa legal e
o paciente é confiado aos cuidados dos médicos.

Na verdade, há diversos graus de voluntariedade do com


portamento humano. Estes dependem das condigóes de saúde
física e psíquica do pretenso réu, de sorte que nem tudo aquilo
que no foro externo é gravemente eondenável, é sempre cem
por cento imputável ao «réu» como culpa. A consciéncia desta
verdade se foi estruturando paulatinamente a partir das pes
quisas realizadas

— no campo da hipnose, por Mesmer em 1775, Braid


em 1841, Liebault e Bernheim em 1880, Charcot em 1886 ;

— 18 —
«O PECADO DE NOSSA ÉPOCA» 19

— no campo da psicanálise, por Freud, de 1910 em diante;

— no campo dos reflexos condicionados, por Pavlov, de


1900 em diante, por Watson em 1915 ;

— no setor do uso das drogas, que provocam efeitos espe


cíficos de alteracáo no humor e no comportamento do consu
midor.

As descobertas realizadas em conseqüéncia de tais pesqui


sas levaram muitos estudiosos a conceber urna «nova moral
social» ou urna «moral sem pecado». Tudo que outrora se
chamava «pecador», passaria a ser tido como doenca psíquica.

O maior impulso em directo a essa nova maneira de en


carar os defeitos de comportamento deve-se á instauragáo do
método psicanalítico por parte de Siegmund Freud.

Verdade é que a clássica moral religiosa reconhece graus


de voluntariedade, como também circunstancias que atenuam
ou cancelam a responsabilidade do pecador; todavía os autores
da clássica moral crista nem por isto excluem a possibilidade
de pecado, pois nao se pode dizer que todos os homens sejam
irresponsáveis ou doentes mentáis ; a sociedade geralmente
atribuí a cada um dos seus membros direitos e deveres, su-
pondo-o capaz de os exercer com responsabilidade. Se nem
todos sao 100 % mentalmente sadios (o que, de fato, é raro),
admite-se urna pequeña faixa de anormalidade que é normal
e admissível no homem responsável.

Como fator influente na estruturagáo das novas concep-


cóes éticas, deve-se mencionar outrossim o estudo dos refle
xos condicionados de Pavlov. Este foi difundido nos Estados
Unidos pelo Prof. John B. Watson, da Universidadc de Chi
cago, através das teorías do «behaviorismo» (cf. PR 194/1976,
pp. 65-77). A estas associaram-se escolas psicológicas como
a da «Gestalt» (figura), que contribuiram para reduzir o com
portamento humano ao plano da mecánica : a pessoa reagiria
a estímulos como um ser irracional ou como um robó, sem
que se lhe pudessem atribuir liberdade de opgáo e responsa
bilidade. Assim as premissas materialistas de nao poucos estu
diosos levaram-nos a negar o comportamento típico humano
e, conseqüentemente, as nogóes de consciéncia moral e pecado.

— 19 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

As novas teorías psicológicas nao somente provocaram


modificagóes na prática da medicina e do policiamento das
cidades, mas também alteraram costumes e padrees sociais.
Sugeriram novos métodos de educagáo da crianga, nos quais
o conceito de pecado nao tinha mais lugar. «Nao existem
criangas más ; apenas existem maus país», veio a ser o novo
«slogan». Em conseqíiéncia, muitos pais concebcram o pro
blema ilo educar sous filhos ; p:is:;ar;un a procurar nao os
«condicionar» e praticar o certo e evitar o errado. Essa tática
os levou a surpresas ; com efeito, «inexplicavelmente» mani-
festava-se o comportamento errado dos filhos. Que fazer
entáo ? Chamá-lo «pecado» ja nao tinha sentido; seria ultra-
passado. Encarar essa má conduta como síntoma de doenga,
de desajuste ou de angustia da crianca ou do jovem? — «Nem
pensar !» — Mas entáo considerá-lo como síntoma de educacáo
falida ou errada por parte dos pais ? — «Também nem
pensar!» — Todavía, apesar desses raciocinios, muitos geni
tores nao conseguiam nem conseguern libertar-se da impressáo
de que sao responsáveis pelo comportamento erróneo de seus
filhos; seguindo as teorías dos condicionamentos e dos nao
condicicnamcníos, engsnaram-se e prciudícaram os filhos por
su?, omissáo.

Foram estes fatores, concatenados através dos últimos


decenios, que provocaram «o crepúsculo do pocado». Este aínda
ó mencionado nos rituais da Igreja, mas nao é mais objeto de
conversa, debate ou discussáo; o vocábulo «pecado» foi sepul
tado no silencio dns rodas sociais. Mesmo os crentes, que acre-
ditam haver pecados ou falhas moráis ofensivas ao Amor de
Deus, evitam usar a palavra «pecado»; confessam a si ou a
Deus diretamente os seus pecados, mas reservam esta prática
para o foro meramente interno ou pessoal. «Pecado» tornou-se
unía palavra que provoca o riso ou a sátira.

O pensamento do Dr. Menninger estende-sc aínda a outro


aspecto do problema.

3. A irresponsabili:'cde coJcíiva

O aumento da populagáo mundial em nossos días faz que


a sociedade se transforme, por vezes, em massa, na qual a
pessoa humana é diluida á guisa de um peáo.

— 20 —
«O PECADO DE NOSSA ÉPOCA» 21

Em conseqüéncia, verifica-se muitas vezes que um grupo


tem comportamento erróneo: pratica violencias, assaltos, mor
ticinios, guerras, genocidios, mas dentro do grande grupo o
individuo parece tornar-se cada vez menos significante e, cer-
tamente, cada vez menos responsável por seus atos e pelos
atos do grupo.

"Exórcitos, 6 claro, s3o grupos formados com o objetivo de eslabelccer,


em nome de grupos maiores, a intimidacao, a destruicao, a carnificina, a
tortura, o massacre, a vlolacao e o terror desejados pelo grupo malor.
Ninguém discute a maldade dos terrfvels atos da guerra, mas quem é o
culpado ? Eu, nao ; obedecí a ordens. Eu, nao; apenas transmití as ordens.
Eu, nao; emlti as ordons com base ñas decisóes do comando. Eu, nao ;
era apenas o executivo do grupo administrativo. Nos, nao ; espeficamos
um objetivo generalizado de acordó com a determinacáo nacional.

A medida que os grupos se multlplicam, o individuo parece tornar-se


cada vez menos significante e, cortamente, cada vez menos responsável
por seus atos e pelos atos de seu grupo" (p. 96).

O autor se detém, a seguir, sobre varios tipos de pecado


cuja responsabilidade repousa sobre mais de urna pessoa ou
mais de um grupo, sem que todavía alguém chcge a estar
consciente da sua parte: assim certas guerras, a escravidáo
vigente em algumas partes do mundo (escravidáo branca, trá
fico de mulheres e de criancas), a miseria de certas classes
sociais, os pecados ambientáis (como a poluicáo resultante de
urna desenfreada corrida ao «ter mais», em detrimento do
«ser mais»), o uso das drogas, o desperdicio das materias
primas...

"Possuo varias pastas repletas de exemplos de grupos que absorvem


culpas e fogem da responsabilidade de erros. O escándalo da ITT, por
exemplo, envolvendo dois procuradores-gerais dos Estados Unidos e fun
cionarios da organizacao do Partido Republicano, trouxe á baila que a ITT
era um ¡menso e poderoso conglomerado que havia 'engolado' muitas outras
companhias de pequeño porte, sendo que algumas délas contra a vontade
de seus acionistas. Aparentemente ela se esquiva á instauracao e'etiva do
processo por seus atos, através de varios artificios tipo suborno — coisas
pelas quais um individuo poderla ser preso" (p. 111).

Quem é responsável por estes e outros males? Certamente


sao pecaminosos; mas quem cometeu o pecado? Ninguém quer
ser responsável por isso. Alguém disse a alguém que dissesse
a alguém que fizesse isso ou aquilo. Alguém decidiu comecar
e alguém concordou em continuar. Mas quem é o responsável
pelo resultado final? Como me coloco diante de tal situagáo?

— 21 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

A filosofía desse procedimento é exposta por um famoso


professor de Economia da Universidade de Wisconsin, que
iniciou certa vez o estudo do que seja corporagáo com as se-
guintes palavras :

"O homem é criado por Deus individualmente; a corporacáo é um


individuo criado pelo homem. Como um homem, a corporacáo possui um
corpo. Possui Dragos e pernas; n§o possui apenas quatro, mas milhares
de membros. Tem urna mente e um objetivo. Tem olhos e ouvldos e urna
especie de cerebro; ela pensa, planeja e lembra. E pode crescer até flcar
¡mensa e forte. Mas nao possui consciéncia!

Assim a corporagio jamáis sofre de sentlmentos de culpa. Pode matar


e ser morta; pode fazer o mal e o bem; pode flcar doente e pode morrer.
Mas, por outro lado, nSo tem piedade e n3o importa o sofrimento ou pre-
juízo que cause; nao tem remorsos" (p. 110).

Após estas verificagóes, o Dr. Karl Menninger expóe a


sua tese :

4. A tese do livro

1. O descrédito em que caiu a palavra «pecado», leva o


pensador a urna reflcxáo seria e profunda. Nao adianta dizer
que o pecado nao existe : os homens se véem cada vez mais
envoltos ñas malhas de seus erros e em situacóes sombrías.
Existem desvíos moráis que nao podem ser classificados sim-
plesmente como fainas jurídicas (ou crimes de foro externo)
ou como doencas físicas ou psicossomáticas. Existem, sim, com-
portamentos nao éticos, imorais. Muitos até chegam a reco-
nhecer isto, embora nao falem de pecado (para evitar qualquer
referencia implícita ou indireta a Deus); preferem falar apenas
de imoralidade ou comportamento anti-social.

Todavía — diz o Dr. Menninger — há vantagem em se


guardar o conceito de «pecado» e mesmo a palavra respectiva.
É o que sugere Paúl Tillich (teólogo protestante) ao escrever :

"Existe um fato misterioso relacionado com as grandes palavras da


nossa tradlgSo religiosa; elas nao podem sor substituidas. Todas as ten
tativas de substitüicSo — inclusive as que eu mesmo tentei fazer — falha-
ram.... conduzlram a dlscussSes esteréis e superflclals. NSo existem subs
titutos para palavras como 'pecado' e 'graga'. Mas existe um meio de
redescobrlr o seu significado: é o mesmo camlnho que nos leva ás profun-
dezas de nossa existencia humana. Nessas profundezas essas palavras
ganharam poder através dos tempos, e é lá que devem ser reencontradas
por cada geragáo, e por cada um de nos em particular" ("You are accepted",
A. D., 1:36, setembro 1972).

— 22 —
«O PECADO DE NOSSA éPOCA» 23

A afirmacáo destas verdades provoca no Dr. Menninger a


necessidade de responder a urna objegáo. Poderiam, sim, os
leitores e amigos acusá-lo de ser retrógrado, ele um psicana-
lista treinado e conceituado. Estaría preconizando a volta do
moralismo antigo, que incutia nos discípulos a obediencia as
normas éticas mediante ameagas de castigos severos e defor
madores da personalidade ? O conceito de pecado, utilizado
para justificar tremendas punicóes, estaría para ser de novo
apregoado ?

— Nao, diz o Dr. Menninger. O moralismo que se pre


ocupa mais com a formalidade, a legalidade e a vinganga do
que com a formagáo e o engrandecimento da pessoa humana,
merece ser reprovado. Pode ser mais criminoso do que o pró-
prio crime que tal moralismo pretende extinguir.

A propósito, cita o autor a carta que um colega, o Dr.


Lawrence S. Kubie, autoridade pioneira no movimento psica-
nalítico, lhe escreveu. Essa carta é a resposta do signatario
a urna consulta que lhe fez o Dr. Menninger a respeito da
oportunidade de publicar hoje em día um livro que desperté
os homens para a consciéncia de pecado. Eis o trecho que
vem ao caso neste contexto :

"Certamento nao é necessárlo que ninguém nos lombre (mas talvez


seja necessário que se lembre ao público) que os antibióticos e a aspirina
também sSo empregados de manelra errada. Nao os atacamos por isto.
Obviamente concordamos em que, so por ter sido freqüentemente mal
empregado, o conceito de doenca nSo deixa de ter valor para um conhecl-
mento mais profundo do pecado. Do mesmo modo, o fato de que o conceito
de pecado tenha sido tanta vez usado como urna desculpa para a brutal!*
dade e a vinganca (mascarada de castigo justo), nao quer dizer que nao
tenha valor, se e quando usado adequadamente.

Acredito que vocé prestarla um grande servlco faiendo urna exposl-


c§o critica da tendencia ao uso erróneo de ambos os conceitos de pecado
e doenca em relagáo ao comportamento incorreto! iA partir daf, poderla
apontar maneiras mais sabias de usar ambos os conceitos" (p. 47).

Acrescenta o Dr. Menninger :

"Encorajado por esse colega sagaz e por muitos outros, busque! a


possível utllidade de fezer reviver o uso da palavra 'pecado' — nao por
amor á palavra, mas pela relntroducao dos conceitos de culpa e respon-
sabilldade moral. Chamar a algo 'pecado' e lidar com ele como tal pode
ser urna salvaguarda útil ou urna manelra de solucionar o problema. Arre-
pender-se de um síntoma nao traz grandes beneficios, mas n§o se arre-

— 23 —
24 -PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

pender de um pecado pode acarretar um grande mal. Vice-versa, apenas


o fato de analisar um pecado nSo é táo benéfico e ás vezes ignorar um
síntoma pode vir a ser muito prejudicial" (p. 68).

Como se desenvolve a tese de Menninger ?

2. O autor afirma que, se os homens de hoje voltarem


a roconlioccr a sua rosponsabilidade pessoal nos males que
ocorroni tanto cni sua vida individual como na sociedade, scráo
psicológicamente aliviados e recuperaráo um pouco da paz e
da felicidade perdidas.

"O miasma e a depressáo do mundo atual sSo em parte resultado


da r.ossa convicgSo auto-induzida de que, desde que o pecado deixou de
existir, apenas os neuróticos precisam de ser tratados e os criminosos
punidos. O resto pode ficar por ai e ler os ¡ornáis. Ou ver televisSo. Cuide
da sua vida e fique de olho no camlnho que leva á melhor chance.

Tal como é, o vago e amorfo mal aparece á nossa volta, e, quando


esta ou aquela coisa terrível está acontecendo o esta coisa horrfvel con
tinua e esta triste circunstancia se desenvolve e, quando apesar disto nin-
guém é responsável, nlnguém é culpado nem sao feitas perguntas moráis,
quando, em resumo, nao há nada a fazer, nos afundamos num desamparo
desesperador. Esperamos a cada dia urna melhora, expectantes, mas nao
esperangados.

Por isto, digo que a conseqüéncia de minha proposta nao seria urna
malor depressáo e, sim, menor. Se o conceito de responsabilidade pessoal
e para com o próximo reíornasse á aceitacáo pública, a esperanca voltaria
ao mundo junto com ela" (p. 180s).

Reconhecer as próprias faltas e confessá-las, diz o autor,


é fator de reconstrugáo da personalidade; esta se liberta entáo
e se recompóe.

Assim K. Menninger insinúa o valor da confissao do pe


cado, que — como se comproendo — ele nao explana no sen
tido da confissao sacramental (visto que nao é um teólogo),
mas que, como psicanalista, ele entrevé claramente.

Sao dignas de nota as observacces do autor, que nao


deixam de ser translúcidas apesar da linguagem técnica e um
tanto pesada do analista :

"A difundida necessidade de declaracSo aberta, reconheclmento e


confissSo vem á luz ocasionalmente no desenvolvlmento de um novo culto,
no qual a comunicacáo e divulgaoáosSo consideradas parte da auto-reali-
zacáo. Tais cultos freqüentemente sSo efémeros, pols dependem muito

— 24 —
«O PECADO DE NOSSA ÉPOCA?

de solucóes superficiais, mas sio no entanto populares, uma vez que


sentlmentos de culpa Inconfessos sSo difIcéis de tolerar. Eies precisam
de ser confessados a alguém.

E o sacerdote é um 'alguém' muito especial. Ele se encontra num


lugar especial; ele tem uma autoridade especial. Nao apenas por ter rece-
bido uma educagáo teológica e talvez psicológica, mas por ser ele um
'homem de Deus'. É dedicado, é desprendido. Nao deseja ferir ninguém,
mas apenas ajudar — e isso é raro.

Se o sacerdote diz 'Isso é claramente um pecado', em geral aceita-


mes sua decisao. Criminoso ou nao, sintomático ou nao, ele diz que é
pecaminoso, e o pecado paga-se com a morte. Mas há uma solucáo:
penitencia, confissao, restituicáo, expiacáo. O alivio do sentimento de culpa
vem automáticamente.

A consciéncia humana é como a policía; pode ser ¡ludida, sufocada,


entorpecida ou subornada. Mas nao impunemente. Nos conhecemos algumas
dessas penas.

Certos sacerdotes evltarn a responsabilidade aconsejando: 'O pe


cado é uma 110580 antlquada. Nao há necessldade de sentir-se culpado e
vir penitenclar-se comlgo, amigo. Vocé n§o é um pecador, e, slm, doente
ou criminoso, de modo que preciso apenas dlrlgi-lo para a esquerda ou
para a direita, para um médico ou para a policía'.

O sacerdote nao pode minimizar o pecado e manter sua funcáo em


nossa cultura. Se ele ou nos 'dissermos nio termos pecados, estamos a
nos engañar, e a verdade ná0 está conosco' (Uo 1,8). Precisamos do
sacerdote como um arbitro para guiar-nos, acusar-nos, censurar-nos, exor-
tar-nos, Interceder por nos e absolver-nos. Nao o fazer é o pecado dele"
(p. 191).

O livro de K. Menninger apresenta aínda numerosas fa


cetas interessantes e surpreendentes pela sua lealdade e cla
rividencia. Tem autoridade para o grande público pelo fato
de se originar da pena de alguém que é técnico analista e
que nao mostra compromisso com algum Credo religioso ; é
difícil, se nao impossível, perceber através das páginas do livro,
qual a exata posigáo religiosa do autor; apenas se pode dizer
que, como cientista, ele estima a religiáo.

Desta forma K. Menninger vem a ser também um grande


animador dos ministros religiosos de qualquer confissao, pelo
fato de contribuirem para despertar as consciéncias dos homens
e nao permitirem se iludam a respeito de suas responsabili
dades. Como clínico e analista, o Dr. Karl Menninger mostra
ter grande experiencia também do que ocorre no íntimo de
sacerdotes, pastores e rabinos. Estes por vezes se manifestam

— 25 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 205/1977

perplexos e abatidos diante do progresso do materialismo;


parece-lhes inútil ou ultrapassada a sua missáo no mundo de
hoje e, por isto, entram em crise. Karl Menninger os interpela
para lhes dizer que tal atitude é inadequada da parte dos mi
nistros religiosos :

"Dos 8.000 leigos e sacerdotes com os quals conferenciamos, cinco


problemas fundamentáis surglram: a porda do resistencia, a perda de
dlrogño, a erosSo da cultura, a confusfio de pensamento, a exaustfio...
Tornaram-se palhas secas, lampiSes enfumagados, vasos de barro..., fle
chas sem dlrecao. Perderam a coragem. Mas eles podem ser reanimadosl"
(p. 215).

A interpelado do Dr. Meninger dirige-se outrossim aos


colegas médicos, pois estes, como mais profundos conhecedores
das causas e raízes da angustia do homem contemporáneo, sao
chamados a exercer indispensável fungáo na recuperacáo da
paz e do bom senso que a sociedade e os individuos perderam
em nossa época.

Congratulamo-nos com o Dr. Karl Menninger e sua obra,


e fazemos votos para que o livro aqui analisado encontré ampia
difusáo em nossa térra. Repitamo-lo : nao se trata de estudo
de teólogo (do ponto de vista da teología, poderia ser tido cá
ou lá como insuficiente), mas, sim, do escrito denso e sabio
de alguém que fala ao homem a partir dos mais genuínos valo
res humanos (sem esquecer a abertura das consciéncias para
o transcendental).

— 26 —
Mais urna escola religiosa japonesa

"perfect liberty"

Em síntese: A "Perteita Uberdade" é urna forma de religiáo de


origem japonesa. O seu fundador, Tokuharu Miki, foi monge budista da
seita Zen; recebeu, pois, seus principios básicos do budismo. Em 1923,
após especial "revelacSo" divina, houve por bem fundar a Ordem Hito-
-No-MIchl, a qual fol perseguida pelo Governo japonés, que a dissolveu
em 1937. Todavía o patriarca Tokochika Miki em 1946 restaurou a Ordem
com o noms de "Perfeita Uberdade", logrando entSo aceitacSo por parte
das autoridades governamentals. Hoje a PL está esparsa nao somente no
Japáo, onde tem sua sede central, mas também na América do Norte
e do Sul.

A mensagem da "Perfeita uberdade" é principalmente de índole


ética, visando k formacáo da pessoa e da sociedade. A sua teología ó
relativamente simples : propSe um conceito de Deus que se Inspira ora
no panteísmo ora no monoteísmo (ó de crer, porém, que a inspiracáo fun
damenta! seja panteísta); o Patriarca que rege a PL, tem atributos de Sal
vador, que o tornam muito superior aos demais homens (embora se diga
igual aos outros seres humanos). Ouanto á vida postuma, a doutrina da
PL é extremamente sobria ; esta concentra-se principalmente na morigeragfio
em vista da vida presente. A PL propñe curas e efeitos maravilhosos a
serem obtidos pelas preces dos seus adeptos. Este tópico é propicio a
angariar-lhe novos e novos adeptos, visto que muitas pessoas consideram
(talvez Inconscientemente) a reügiáo como sistema de profilaxia contra os
males ou de psicoterapia ñas horas de afllcáo.

Comentario: Vem-se propagando rápidamente no Brasil


a corrente ético-religiosa chamada «Perfect Liberty» (PL).
Transmitindo normas de formacáo da personalidade com colo
rido religioso, tem atraído varios adeptos, enquanto muita gente
se questiona sobre a origem e o conteúdo da mensagem da PL.
Em vista destas perguntas, proporemos, a seguir, as notas
mais características de tal corrente religiosa japonesa.

1. Orígens

Conforme os próprios peelistas, o fundador da sua deno-


minagáo é o patriarca Tokuharu Miki, dito «Kyosso» (= fun
dador). Nasceu em Matsuyama, provincia de Ehime (Japáo).

— 27 —
23 ^PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

Com oito anos de idade, fez-se monge budista da seita Zen.


Todavía aos quarenta e cinco anos conheceu o mestre Toku-
mitsu Kanada, iniciador de nova corrente religiosa, e tornou-se
discípulo do mesmo. Após o falecimento deste, Tokuharu con-
tinuou a seguir a orientagáo deixada pelo mestre. Cinco anos
mais tarde, recebeu a iluminaeáo divina em certo alvorecer
do dia.

Ilustrado por tal «revelacáo», resolveu em 1923 fundar a


Ordem Hito-No-michi (=o Caminho da 'Humanidade), que se
propagou rápidamente, chegando a atingir um milháo de adep
tos no prazo de dez anos. Todavía a sua doutrina nao encontrou
aceitagáo por parte do Governo japonés, que passou a perse
guir as novas comunidades e em 1937 as dissolveu. Este golpe
terá provocado a morte do Patriarca no ano seguinte.

Sucedeu a Tokuharu-Miki o patriarca Tokuchika Miki,


que também foi vítima de perseguigáo, mas finalmente logrou
ser reconhecido como inocente e ser posto em liberdade. Em
conseqüéncia, aos 29/DC/1946 fundou urna comunidade reli
giosa dita «Perfeita Liberdade» na cidade de Tossu (provincia
de Saga). Este marco deu inicio a nova fase da sociedade,
que passou a se expandir rápidamente, fixando em 1953 a
sua sede central em Tondabayashi, provincia de Osaka, onde
ocupa urna área de dez milhóes de metros quadrados; nessa
área encontram-se numerosos estabelecimentos como o Templo
Central, palacetes laterais, o Mausoléu do Fundador, a Torre
da Grande Paz, Edificios de Treinamento, Hospital da PL,
Centro de computador eletrónico, instituigóes educacionais e
esportivas.. .

Alcm do Japáo, a PL atingiu tambcm os Estados Unidos


da América do Norte, o Brasil, a Argentina, o Perú, o Para-
guai e alguns países da Europa.

Em 1969 o Patriarca Tukuchika Miki visitou o Brasil pela


segunda vez, sendo entáo agraciado com o título de cidadáo
honorario paulistano. O atual Patriarca da PL chama-se
Tsugui-Oyá.

Vejamos agora o que a PL propóe aos seus seguidores.

— 28 —
«PERFECT LIBERTV» 29

2. Doutrina

A mensagem da «Perfeita Liberdade» é, antes do mais,


de Índole ética ou moral. Apresenta normas para que a pessoa
se liberte mais e mais de suas paixóes e consiga bom relaciona-
mento com todos os homens. Este código ético tem certas pre-
missas teológicas:

2.1. Deus

A respeito de Deus, certas afirmacóes da PL insinuam o


panteísmo (a Divindade, o mundo e o homem seriam urna só
substancia), embora outras suponham o conceito de Deus Cria
dor próprio do monoteísmo. Os textos da PL falam muito
freqüentemente de Deus, as vezes com certa ambigüidade.
Vamos citar alguns dos que poderiam ser interpretados em
sentido panteísta:

a) «A crianca é fiEio de Deus... £ Deas em estado


puro c expressa o espirito divino. O espirito divino para a
crianza é reflctir os seus país. Foi assim que Deus criou a
crianza» (Instrucoes para a Vida Religioisa da PL, p. 54).

Neste texto a crianca aparece como o próprio Deus e


também como criatura de Deus. Nisto há incoeréncia, desde
que se levem a rigor os termos utilizados. Na verdade, a cria
tura é radicalmente distinta do Criador; jamáis é o pró
prio Deus.

b) «Há casos em que urna crianca quer certo tipo de


alimento e os país Ihe dad. Mas como a crianza está comendo
dentáis, resolvem tirá-lo déla. Isto está errado. Quando a
enanca «uer, devc-so dar até da se satisfacer. Impedir os
desejos de urna crianca é nao rcconhecer a natureza divina de
urna crianza» (Iivro citado, p. 47).

A frase final do inciso pode ser tida como expressáo de


panteísmo.

Alias, nao é de estranhar que a PL abrace o panteísmo,


visto que suas origens estáo muito associadas ao budismo, o
qual é panteísta. As fórmulas de oragáo em que o fiel se dirige
a um Tu divino (como se Deus fosse distinto do orante) sao,

— 29 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

na PL e em toda corrente panteísta, expressóes da consciéncia


que todo homem tem, de que Deus é Pai, é Amor, é Justiga,
é Misericordia ou, em síntese, é a Grande Besposta. para o
homem. Por mais que o homem se identifique com a Divin-
dade (como se ele fosse urna centelha da Divindade envolvida
na materia), nao lhe é possível perder a nogáo de que Deus
ó radicalmente diverso do homem, pois é o Grande Tu, sem o
qual o homem nao explicaría nem a sua vida nem a historia
universal.

2.2. O Patriarca

A PL atribui grande importancia á figura do Patriarca


(Oshieoyá), que a orienta espiritualmente.

Periódicamente a PL apresenta aos seus fiéis um Patriar


ca, que tem a mesma autoridade que o próprio Fundador. É
este fator que, segundo os peelistas, distingue a PL de qualquer
outra religiáo. Tal crene.a é justificada pelo atual Patriarca da
PL nos seguintes termos:

"Nao é possível salvar as pessoas se os enslnamentos nSo se harmo-


nlzam com a época em que sao pregados. Por isto é necessárlo para cada
época um Patriarca atualizado. Eu, compreendendo a verdade transmitida
por Kyosso, moldo-a de maneira a torná-la harmónica com a sociedade
atual. Neste processo, evidentemente, surge urna característica própria para
a verdade, expressa por mim. tulas é assim mesmo que deve ser. As pró
ximas gera;5es de Oshleoyás, provavelmente, i rao moldar os enslnamentos
de urna forma nova, expressando suas características próprias. Assim é
que está certo" (Jornal Perfeita Liberdade, setembro 1S76, p. 1).

O Oshieoyá é «a única pessoa no mundo capaz de conhecer


o espirito divino e transmitir os ensinamentos aos homens».
Ele é «a esséncia dos ensinamentos e tem a func.áo de ser um
intermediario entre Deus e os homens». É ele quem ensina
aos homens o caminho da perfeita liberdade e assim os salva.
Todavía nao deve ser adorado como Deus (Jornal Perfeita
Liberdade, ib.).

Mais: «o Patriarca sabe o porqué do estudo, o porqué


da infelicidade, o porqué das doengas, o porqué das coisas mal
sucedidas. Sabe também qual o método para aloangar o su-
cesso, a saúde, e a concretizagáo dos ideáis» (ib. p. 2).

A fungáo do Patriarca (Oshieoyá) é mais explícitamente


caracterizada na seguinte passagem : .

— 30 —
«PERFECT LIBERTY» 31

"Devemos pensar profundamente no espirito caritativo de Oshleoyá-


-Samé. É ele quem recebe os crimes, doencas e Invirtudes e infelicidades
pratlcados pelo homem que ora a prece de Oyashlklrl, em seu corpo, e
assume todas as responsabilidades por esses atos. Oshleoyá-Samá devolve
esses atos a Deus no dia do Agradecimento (dia 21 de cada mes), limpando
o seu corpo. E asslm, por mais um mes, ele se responsabiliza pelos atos
humanos, para que nos possamos receber as gracas de Oyashlklrl. O
Patriarca faz com que, de qualquer forma, o homem possa alcancar a íell-
cldade. É so tor fó para seguir os onslnomentos.

Siga vocé também os ensinamentos com ardor, para receber as gracas


de Deus e do Patriarca. Alcance, através da PL, a graga de ter nascido, a
felicldade de ser urna pessoa. Tenha urna fé seria, ouvindo os ensinamentos,
e nao se esquecendo de orar pela manhS e á noite. Praticando os ensina
mentos, qualquer pessoa pode alcancar a felicldade.

Receba muitas gracas de Oeus e de Oshleoyá-Samá..." (InstrucSes


para a Vida Religiosa da PL, p. 110).

O Patriarca comunica grasas aos homens. Se nao é Deus,


parece compartilhar, até certo ponto, a eficiencia salvífica do
próprio Deus.

2.3. Os preceitos da PL

As publicacóes fundamentáis da PL sao mais voltadas


para a ética do que para a metafísica e a teología. A PL assim
aparece essencialmente como urna escola de permanente edu-
cagáo ou formacáo da pessoa e da sociedade, levando os ho
mens a viver em arte ou beleza; com efeito, «Vida é Arte» é
urna das afirmacóes mais freqüentes dos escritos da PL.

Essa vida em arte será realizada se os peelistas seguirem


algumas normas que os mestres da PL codificaram em dois
catálogos básicos: o «Guia da Vida cotidiana baseado na
crenga da PL» e os «Vinte e um preceitos da PL».

A seguir, transcreveremos um e outro.

1) Aqueles que seguem o «Guia da Vida Cotidiana» a PL


promete que «se livraráo dos seus sofrimentos, desenvolvendo
assim a própria capacidade, com a qual alcangaráo a felici-
dade». Eis as normas do «Guia» :

"1. Aplicare! o Makoto1 ñas acfies e ñas palavras, procurando atrl-


buir-lhes a atenc&o necessária.

1 Makoto = dedlcacSo.

— 31 —
32 -PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

2. Deixarei de reclamar das pessoas, das coisas e do lempo;


assim procurare! descobrir os defeitos em meus pensamentos e ñas mintias
afees, lembrando-me sempre de empregar o espirito criativo e idealizador.

3. Saberel viver agradecendo ás pessoas e ás coisas.

4. Procurarei beneficiar os meus semelhantes, lembrando-me do


espirito altruista.

5. Evitare! zangar-me conlra alguém ou contra alguma coisa.

6. Desistí reí de apegar-me ao pensamento próprio e cair na teimosia.

7. Afastarei a impaciencia, as preocupacoes e n§o me desanimare!


com as coisas, nem com os meus próprios casos.

8. Esforcar-me-ei para nao ser levado pela ganancia.

9. Repelirei em qualquer ocasiáo o desejo que me torna astucioso.

10. Levare¡ urna vida de casado com verdadeira harmonia.

11. Considerare! que meus filhos sao criancas de Deus, e crlá-los-e!


para que venham a ser úteis a humanidade e ao mundo; reconhecendo
também que sao eles reflexos dos país, nao os criare! com carlnho ex-
cessivo simplesmente para satistazer meus sentimentos.

12. Acordarei todas as manhSs com bastante dísposicáo.

13. Largare! de reclamar dos alimentos ou dar-lhes preferñncia, nem


beberé! ou comeré! em excesso ou desordenadamente.

14. Deixarei de ser preguicoso e (¡car descontente em servico,


queixando-me e preocupando-me com as coisas alheias.

15. Controlar-me-ei para nao passar do limite ñas coisas.

16. Largare! de me vangloriar e tornar-mc arrogante.

17. Evitare! fazer ou falar quaisquer coisas que causem desagrado


aos outros.

18. Deixarei de pensar em desprezar alguém.

19. Lembrarei sempre do espirito de oblagáo.

20. Retribuiré! as gragas recebldas fazendo esforco para conseguir


novos elementos para a PL.

21. Reconhecerei as gracas de Deus e as de Oshleoyá-Samá".

("Guia á Perfeita Liberdade", sem


páginas numeradas)

— 32 _
«PERFECT LIBERTY» 33

Os comentarios destas normas oferecidos pelos mestres


peelistas equivalem a auténticas ligóes de higiene mental e
corporal (com relagáo á comida, á bebida, ao sonó, iás doen-
cas...) ou também ligóes de harmonía conjugal, de boa edu-
cacáo dos filhos, de fraterno relacionamento com todos os
homens, de perdáo aos ofensores, etc. A prática de tais normas
leva o adepto á «Perfeita Liberdade», isto é, a um estado
livre de qualquer preconceito e das tendencias negativas do
caráter; quem consegue isto, alcanga a plena felicidade.

2) Eis agora os «Preceitos da PL». Como se vé, tém


índole um pouco mais teológica; todavía a tónica dominante
é a ética. Foram estabeletídos pelo Patriarca Tokuchika Miki
aos 29 de setembro de 1947, constituindo a base da doutrina
peelista:

"1. Vida é arte.


2. A vida do homem é a seqüéncla da sua própria expressáo.
3. O homem em si é a manifestacSo de Deus.
4. Sofre quem nao expressa a própria personalidade.
5. Quem se precipita nos sentimentos emotivos, arruina a perso
nalidade.
6. A verdadelra qualidade da pessoa revela-se quando seu ego
nfio atua.
7. Todas as coisas existem em relagáo mutua como integracáo única.
8. Viva evidente e positivo como o Sol.
9. Todos os seres humanos sSo Iguais na condic§o de serem
expressoes de Deus.
10. Procure abengoar e beneficiar o próximo e a si.
11. Basele-se, ñas coisas que fizer, Inteiramente em Deus.
12. Cada coisa tem o seu principio peculiar de acordó com o que é.
13. Há um dever aos homens e outro ás mulheres.
14. Tudo existe em prol da paz mundial.
15. Tudo reflete os fatos como um espelho.
16. Tudo progride e evolui.
17. Assegure corretamente a esséncia de cada coisa.
18. Esteja sompre decidido para urna escolha certa, perante a bifur-
cacáo do bem e do mal.
19. Entre ¡mediatamente em acfio assim que perceber a necessidade.
20. Viva no perfeito estado de equilibrio material e espiritual.
21. Viva dentro da Perfeita Liberdade".

("Guia á Perfeita Liberdade")

— 33 —
34 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

A leitura destes preceitos e da filosofía que os inspira,


suscita ao leitor algumas questóes e dúvidas, que vamos sin
tetizar sob o título abaixo.

3. Reflexoes fináis

1) A «Pcrfeita Liberdade» pretende ser uma religiáo,...


e religiáo independente das demais. Tem seus templos, seu Pa
triarca, suas fórmulas de oragáo... Quem segué a PL, evi
dentemente nao pode ser cristáo, máxime se leva em conta
que a PL é, a quanto parece, panteísta, ao passo que o Cris
tianismo admite um só Deus radicalmente diverso de qualquer
criatura, porque transcendental (o que nao quer dizer que seja
distante do homem ; tenham-se em vista as páginas bíblicas).

2) Embora ligada ao budismo por suas origens, a PL é


muito mais otimista do que o budismo em relagáo ao mundo
e ao homem; exalta a beleza da natureza e dos artefatos
humanos; propóe a procura da felicidade pela satisfagáo come
dida dos desejos do homem ; em suma, esforga-se por induzir
os homens a sorrir para a vida e o mundo.

3) A PL dá importancia as curas de males físicos e


mentáis,... curas obtidas mediante a prece. As publicagóes
peelistas nao deixam de incluir em seu noticiario a narragáo
de extraordinarios beneficios corporais obtidos através da prá-
tica e das preces prescritas pela PL. Isto, sem dúvida, con
corre para atrair novos e novos adeptos para os núcleos peelis
tas, visto que muitas pessoas apreciam na religiáo principal
mente os efeitos «curandeiros» que ela possa aearretar (sem
se preocupar com a mensagem filosófica ou teológica da reli
giáo). — Quanto a essas curas maravilhosas ou milagrosas,
6 de crcr que, cm grande parle, sao as conscqüéncias benéfi
cas da sugestáo e da psicoterapia que a PL ó capaz de suscitar
em seus adeptos.

4) A PL insiste no recurso freqüente á oragáo. Propóe


com ónfaso especial a oraráo matinal ou mosmo a «missa
matinal (aasamairi)», a qual nao ó sonúo um conjunto de pre
ces a ser feitas em casa mesmo.

É oportuno que todo peelista coloque diariamente num


envelope o seu hóshó, ou seja, urna pequeña contribuigáo des
tinada a atividades sociais e públicas (os mestres peelistas nao

34
«PERFECT LIBERTY> 35

falam explicitamente de pobres nem de esmolas). Esse dinheiro


servirá a expandir os ensinamentos da PL e salvar a huma-
nidade. «O Patriarca usa essa quantia para que haja mais
pessoas com espíritos evoluídos como o seu, depois que tiverem
aprendido os ensinamentos» (Instrucóes para a Vida Religiosa
da PL, p. 97).

A Divindado se comunica aos homens mediante os «mishi-


rassé» (advertencias divinas ou sinais admoestadores, que visam
a desviar o homem do mau caminho). O peelista pode receber
da Divindade um «mioshie», ou seja, urna orientacáo lúcida
em casos perplexos. Essa iluminacáo pode ter caráter repen
tino e impressionante. É preciso que a pessoa saiba recebé-la
e segui-la dócilmente.

6) Nao se encontram nos escritos da PL eselarecimontes


precisos referentes á vida postuma. Tenha-se em vista esta
lacónica passagem:

"Sem prometer as alórias do céu nem atemorizar com Divindades


punitivas, a PL dirige-se "aqueles que buscam urna atitude religiosa. Só
assim ser5o capazes de usar sou próprio potencial psiquico-espiritual para
o encontró com Dcus.

O melhor modo de nos prep3rarmos para a vida futura — ensina a


PL ó viver esta v'da tSo bsm quanto possível. Através da reforma das
emocoes. do controle do egoísmo, do respeito á própria Hdividualidad9,
do respeito aos semelhantes — sejam familiares, amigos ou desconhecidos.
Só assim ela será auténtica. Devemos também ser permanentemente re
ceptivos ás novas idéias e ao amor pelos outros.

Molestias e sofrimentos esplrltuais sSo apenas reflexos de um modo


erróneo de pensar e agir. Sao como avisos divinos, para que oompreenda-
m-ss a necessidade de reformular comportamentos e pensamentos. N3o
dsvemos no? conformar com a infelicidade, pois Deus nos deseja somente
niorjri.i. Precisamos descobrir a raz3o real daquilo que nos acontece. F.
isso rorA pnssivel com a onen¡ac,5o espiritual da PL, nue nos reconduzirá
á tranpüilidade" (Revista "Perleita Liberdado" n<? 7, p. 5).

Difícil é depreender se os mestres peelistas professam a


reencarnado ou nao. Nao fazem mcnc/io da Isi do Harina,
cmboni freqüentemente se refiram üs lcis divinas (alsumas
íxlorcatos a alinionlagrio e a saúde), as quais o hemem está
sujeito.

Visto que as crencas orientáis geralmente adoíam a tese


reencarnacionisto, seria de supor que também a PL o fizesse.
É, porém, estranha a sobriedade des respectivos escritos a

— 35 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

respeito da morte e das eventualidades que se lhe sigam. A


verificagáo desse silencio concorre mais ainda para incutir no
estudioso a impressáo de que PL é urna escola de formacáo
moral, que tem certa base religiosa; a predominancia dos inte-
resses da PL é ética, ficando a teología em fungáo da ética.

Este artigo foi escrito após ausculta fiel de publicares peo listas como

"InstrucSes para a Vida Religiosa da PL" (sem editora nem data).

"Guia á Perfeita Llberdade" (impresso em portugués pela PL Kyodan


em Tondabayashi, Osaka, Japfio).

"PL. Revista para a Paz Universal" (publicada trimestralmente em


Sao Paulo, capital).

"Jornal Perfeita Liberdade" (mensa!, publicado em S9o Paulo, capital).

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— 36 —
"Ciencia" e "Mística":

e a ciencia crista: que é?

Em sintese: A Ciencia Crista tem por fundadora a Sra. Mary Baker


Eddy, nascida nos Estados Unidos em 1821 e lá falecida em 1910.

De constituicSo nervosa, a Sra. Mary Baker sofreu de dores na espinha


durante grande parte da sua vida. Foi certa vez consultar o Dr. Phineas
Qulmby, mesmeriano, que Ihe Incutiu a tese de que as curas físicas se
obtém por torcas mentáis ou por Influxo da mente sobre o corpo do
paciente. A Sra. Mary Baker Eddy deu a tal doutrina um rótulo cristáo,
afirmando que a fé em Cristo e a oracSo realizam curas de doencas cor-
porals... A esta afirmagáo básica se associam algumas propostc5es de teo
logía fantasista, que constituem a sintese da chamada "Ciencia Crista".
Esta tem caráter fortemente pantetsta; nega a realidade da doenca e do
pecado, de tat modo que o adepto da Ciencia Crista é exortado a crer
que esses males nao existem e, conseqüentemente, a Übertar-se da ¡mpressüo
que eles causam sobre o sujeito I — A seita da Sra. Mary Eddy acrescenta
á Biblia o livro da fundadora chamado "Science and Health" (Ciencia e
Saúde), que é mesmo mais valorizado pelos "dentistas" do que a própria
Escritura Sagrada.

Comentario: Em números anteriores, temos apresentádo


denominagóes do Protestantismo. Voltamo-nos agora para a
Ciencia Crista («Christian Science»), da qual existem núcleos
também no Brasil, muito interessados em promover curas
mediante a fé religiosa.

Proporemos as origens da «Christian Science» e as prin


cipáis doutrinas professadas por essa denominagao.

1. Ciencia Crista : origens

A fundadora da «Christian Science» é a Sra. Mary Baker,


nascida aos 16 de julho de 1821 em Bow, Estado de New
Hampshire (U.S.A.). Pertencia a familia protestante da
denominagao congregacionalista, que a educou na fé dessa deno-
minacáo. Era crianga de tempera forte e caráter nervoso. Por
volta do doze anos de idade, alimentava discussóes com seu

— 37 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

pai sobre religiáo — o que a prostrava muitas vezes no leito.


Em certa ocasiáo, depois que os socorros médicos haviam fa-
lhado, sua máe conseguiu restaurar-lhe a saúde mediante calma
sugestáo.

Dizia a Sra. Mary Baker que, aos doze anos de idade, ela
refutava os mais velhos da Igreja Congregacionalista em
Tilton, N. H. Dizia tambcm que seu irmáo Alberto lhe ensinara
hebraico, latim e grego — o que é sujeito a dúvidas por parte
dos biógrafos.

Em 1843, Mary casou-se com o coronel Glover, que morreu


de febre seis meses depois. Após a morte do marido, teve um
filho, a quem nao conseguiu dedicar afeigáo; nao podía supor
tar o menino perto de si, embora os familiares insistissem em
que Mary exercesse suas funches maternais.

Em 1853 casou-se pela segunda vez com um dentista cha


mado Daniel Patterson. Todavía divorciou-se, alegando infi-
delidade do marido.

A Sra. Mary Baker sofría de um mal de espinha, que a


afetava nao só física, mas também mentalmente. Esta molestia
a acompanhou durante grande parte de sua vida, prejudicando
tanto o primeiro como o segundo matrimonio, Em 1862 re-
solveu consultar o famoso Dr. Phineas Quimby em Portland,
Estado de Maine, que seguía a escola do Dr. Charles Poyen,
célebre mesmerista >. A Sra. Mary Patterson passou horas a
fio com tal médico; este lhe dizia nao acreditar em remedios
farmacéuticos, mas admitir a cura de doengas físicas mediante
a correcáo dos erros mentáis correspondentes a tais molestias;
a dissipagáo do erro mental e a posse da verdade redundariam
em cura física da paciente. Rejeitando produtos farmacéuticos,
o Dr. Quimby introduziu a cliente em estado de sonó mesmé-
rico; mediante essa terapia, a Sra. Patterson deu-se finalmente
por curada. Discutía com o médico os ensinamentos e métodos
por ele aplicados; acabou felicitando-o pelos resultados obtidos,
resultados, porém, que a Sra. Patterson atribuía nao ao mes-
merismo, mas «á compreensáo profunda que o Dr. Quimby
tinha da verdade trazida por Cristo».

i Franz Antón Mesmer (t 1815) era um médico alemSo que pretendía


ter descoberto no fmá o remedio para todas as doencas. Todo ser vivo
possuma um fluido magnético misterioso capaz de passar de um individuo
para outro, estabelecendo Influencias reciprocas e curas. Posteriormente
os posqulsadores ¡dentliicaram o "magnetismo animal" com o hipnotismo.

— 38 —
«CIENCIA CRISTA» 39

As doutrinas e práticas do Dr. Quimby marcaram profun


damente o espirito da Sra. Patterson, que os foi incorporando
á sintese que mais tarde veio a ser chamada «Ciencia Crista».
Escreveu posteriormente a Sra. Mary Patterson :

"Foi depois da morte de Quimby que descobri, em 1866, os fatos


importantes relacionados com o espirito e com a superioridade deste sobre
a materia, e denominei 'Ciencia Crista' a minha descoberta".

Por certo, a fundadora da Ciencia Crista aprendeu do Dr.


Quimby a eficacia dos poderes da mente sobre a materia e
o corpo.

Em 1866, a Sra. Patterson caiu sobre o gelo em Lynn,


Massasuchetts. Sentiu-se entáo «milagrosamente» curada de
seus sofrimentos. O episodio foi divulgado com o título de
«a queda milagrosa de Lynn» e é tido como o milagre básico
da Ciencia Crista. A Sra. Patterson referia que o Dr. Cushing,
após a queda, a achou insensivel, sofrendo de varias lesóes
internas, que provocavam espasmos c sofrimentos internos...
«O Dr. Cushing declarou incurável o meu mal, e disse que eu
nao poderia sobreviver tres días». — Eis, porém, que o pró-
prio Dr. Cushing, ainda vivo em 1907, foi consultado sobre
tal declarngáo, o rospondeu ncstes termos :

"Nunca fiz semelhante declaracSo. Achei a paciente muito nervosa,


em parte inconsciente, semi-histérica, e queixando-se de forte dor atrás
da cabeca e do pescoco. Tratei-a e nSo me surpreendi com o seu resta-
belecimento. Na ocasiao ninguém falou de cura milagrosa".

Depois de curada «milagrosamente», a Sra. Mary come-


qou a ensinar os seus métodos de «Ciencia Crista», cobrando
trezentos dólares por sete ligóes. Escreveu a mesma: «Fui le
vada a pedir trezentos dólares em virtude de estranha Pro
videncia. Deus mostrou-me de múltiplos modos a sabedoria
desta decisáo». A fundadora da «Ciencia Crista» morreu dei-
xando perto de tres milhóes de dólares !

Em 1875, a Sra. Mary publicou o manual de seus conhe-


cimentos com o título «A ciencia e a saúde, com chave para
as Escrituras» (Science and Health, with Key to the Scriptu-
res). Um ano depois fundou a primeira Associagáo da Ciencia
Crista.

Em 1877, casou-se, pela terceira vez, com o Sr. Asa Gil-


bert Eddy, vendedor de máquinas de costura, a quem ela con-
feriu o título de Doutor, tornando-se assim Mrs. Dr. Eddy.

— 39 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 205/1977

Embora contasse 56 anos de idade, os documentos de seu


casamento assinalavam-lhe a idade de 40 anos.

Por mais de trinta anos, a Sra. Eddy ainda trabalhou


com extraordinaria energía. Em 1882, o falecimento de seu
esposo constituiu dura provacáo para os adeptos da «Ciencia
Crista». Com efeito, perguntava-se por que a própria Sra.
Eddy nao o pudora curar... — Na vordado, qimndo o marido
adoeceu, a Sra. Eddy chamou o Dr. Noyes, um dos principáis
médicos de Bostón. Este diagnosticou enfermidade do coragáo;
a Sra. Eddy recusou o diagnóstico, e afirmou estar o seu
esposo envenenado por arsénico mentalmente administrado por
espíritus maus e inimigos! Todavía a autopsia realizada sobre
o cadáver do Sr. Asa Gilbert Eddy acusou disturbio valvular
do coragáo e nenhum vestigio de arsénico. A Sra. Eddy negou
também esse resultado da pericia dos médicos.

Aos 2 de dezembro de 1910, com a idade de 89 anos e


meio, faleceu a Sra. Mary Baker Eddy, como todos os seres
humanos falecem, apesar da doutrina da fundadora segundo
a qual «Deus é Tudo, Deus é Vida; portanto a doenca e a
morte nao existem». A Sra. Eddy negava a realidade da
doenga e da morte — tese esta que era fundamental para todo
o sistema da «Ciencia Crista». Como dito, a fundadora deixava
tres milhóes de dólares.

O Reitor do New College (Oxford), H. A. L. Fisher, resu-


miu uestes termos a figura da Sra. Eddy :

"Fol urna estudiosa da Biblia, sincera, embora Intelramente acrltica;


fof a mulher de tres maridos, que escreveu um 'best-seller', e morreu del-
xando perto de tres ml!h6es de dólares" ("Our New Religión").

A Sra. Eddy tinha elevado conceito de sua missáo, a ponto


de escrever:

"Ninguém pode tomar o lugar da Vírgem María, o lugar de Jesús


Cristo, o lugar da autora de 'Ciencia e Saúde', a descobridora da 'Ciencia
Crista'" ("Retrospectlon and Introspection", p. 70).

Exigía de seus adeptos que acreditassem nela como acre-


ditavam em Jesús Cristo e que aceitassem o seu livro «Ciencia
e Saúde» como uma nova revelagáo paralela á Biblia Sagrada.
Nos seus escritos ela se apresenta como a mulher maravilhosa
chamada a salvar os seus semelhantes detidos ñas garras
da morte.

_ 40 —
«CIENCIA CRISTA» 41

"Curei a difteria tubercular maligna e ossos cariosos que cediam á


pressao do dedo, salvando-os quando os instrumentos do cirurgiSo se
achavam sobre a mesa prontos para efetuar a amputacao. Curei em urna
visita um cáncer que tinha corroído de tal forma a carne do pescoco que
a veia jugular ficava exposta a ponto de sobressair como urna corda"
("New York Sun", 19/12/1898, conforme dtacSo de Martín and Klann).

Vejamos agora em síntese

2. A mensagem da Ciencia Crista


A Sra. Eddy foi mulher de pouca instrugáo e urna auto-
didata, que se interessou por problemas postos muito além
do seu alcance. Em conseqüéncia, o seu livro «Ciencia e Saúde»
se apresenta confuso, embora tenha passado por edicóes suces-
sivas e «memoradas». O sucesso da fundadora da «Ciencia
Crista» deve-se, em grande parte, ao fato de que suas afir-
macóes confusas e constantemente repetidas deixavam em
certos leitores a impressáo de ser profundas e altamente cien
tíficas. O estudioso que leía objetivamente tais escritos, veri
fica neles o gosto pelas divagacóes ilógicas, de tal modo que
se pode resumir em algumas proposicóes o conteúdo da men
sagem da Sra Eddy.

1. A Ciencia Crista professa o panteísmo, afirmando que


Deus é Tudo, eco Bem Onipotente; portante, tudo o que
nao é Deus, deixa simplesmente de possuir realidade objetiva.

Deus, a Verdade e a Saúde representan! a única realidade:

"Se Deus ou o bem é real, entáo o mal, a dissemelhanga de Deus


é irreal" ("Science and Health", edicao de 1910, p. 470).

"O mal nao tem realidade. N§o é nem pessoa, nem lugar, nem colsa,
mas simplesmente urna crenca, urna ilusáo do senso material" (ib. p. 71).

2. Se o mal existe sob múltiplas formas (espiriluais e


físicas), cercando constantemente o homem, a Sra. Eddy o
explicava admitindo a «Mente Mortal», ou seja, um principio
que existe em oposigáo a Deus e ao Bem. Essa Mente está
repleta de erros, devendo ser-lhe atribuido todo aparente mal.
Ao admitir isto, a Sra. Mary Eddy caia em contradigáo con
sigo mesma (admitindo algo fora de Deus); mais precisamente,
caia no dualismo maniqueu, atribuindo o mal a um Principio
independente de Deus e antagónico ao Senhor Deus. Visto
que o mal tem por causa a Mente Mortal, ele deve ser debe
lado nao por remedios, mas pelo raciocinio e a fé.

— 41 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

3. O pecado e o sofrimento nao tém existencia física;


devem ser banidos por um processo de «pensar corretamente».

A alma humana é algo de divino ; ora o que é divino, nao


pode pecar; logo a alma humana nao pode pecar.

4. A materia nao tom roalidade em si mesma ou por si


mcsma: «Nao há vida, vcrdado, inteligencia ou substancia na
materia. Tudo é Mente Infinita». A materia parece ser,
mas nao é.

Em conseqüéncia, a obesidade é urna «crenga adiposa».


«Nao temos auténtica evidencia de que o alimento sustente a
vida, mas apenas urna falsa evidencia disso».

Também a medicina e os remedios nao preservam a saúde


do corpo. As curas se obtém por via mental, isto é, pela fé e
pela oragáo tanto do enfermo como daqueles que lhe assistem
(principalmente os ministros categorizados da Ciencia Crista).

5. A oracáo nao é propriamente um diálogo com Deus:


«O mero hábito de pleitear com a Mente Divina como se
pleiteia com um ser humano perpetua a crenca em Deus
como humanamente circunscrito» («Science and Health, p. 2).

Por isto a oracáo tem sentido e é eficaz na medida em


que ela exerce efeito sobre a mente do orante, fazendo-a atuar
mais poderosamente sobre o corpo :

"As petlgóes trazem aos mortals somente os resultados da próprla


fé do mortal" ("Sclence and Health", p. 11).

"O efeito benéfico da oraca"o para os doentes é sobre a mente


humana,... é urna crenca expulsando outra" ("Selence and Health", p. 12).

Assim a religiáo na Ciencia Crista vom a ser um sistema


psicoterapéutico organizado segundo as linhas gerais de urna
sociedade religiosa. A intencáo originaria da Sra. Eddy era
apenas a de obter curas mediante a fé e a oracáo (= ins
trumento psicoterapéutico).

Escreve aínda a Sra. Eddy :

"Dizeis que um tumor é doloroso. Mas Isto é imposslvel, pols a ma


teria sem a mente nao é dolorosa. O tumor simplesmente manifesta, por
meio da inflamagSo e da Inehacfio, urna crenca na dor, e esta crenca é
chamada tumor. Ora administra) mentalmente ao vosso paciente urna alta
dose de Verdade, e esta logo curará o tumor" ("Sclence and Health", p. 153).

— 42 —
«CIENCIA CRISTA» 43

6. Ainda segundo a Sra. Eddy, a pobreza é um mal como


a doenga; por isto ela pode ser curada pelo reto pensar. Em
sua primeira edicáo de «Science and Health», a autora dizia
que tal livro oferecia oportunidade para se adquirir urna pro-
fissáo pela qual se pode acumular urna fortuna !

7. Quanto á morte, ó «ilusáo, a mentira da vida na ma


teria; é o irreal c a inverdade» («Science and Health», ed.
de 1910, p. 584).

"Aquilo que aos sentidos parece morte, é apenas urna ilusáo mortal,
pois, para o verdadeiro homem e o verdadelro universo, nao existe processo
mortal" (ib. 289).

"Os discípulos acreditavam que Jesús estava morto enquanto estava


oculto na sepultura, ao passo que Ele estava vivo, demonstrando dentro
do estreito túmulo o poder do Espirito para sobrepor-se ao senso mortal
e material" (ib. p. 44).

A morte nao pode sobrevir a quem nao creia na reali-


dade déla.

8. Ainda a respeito de Deus, a Sra. Mary Baker Eddy


escreveu :

"Vida, Verdade e Amor constituem a Pessoa trina chamada Deus, ou


seja, o Principio triplamente divino, o Amor..., o mesmo em esséncia,
embora multiforme em suas fu ñeñes: Deus, o Pai-Mfie; Cristo, a idéia espi
ritual de filiacáo; Divina Ciencia ou Santo Consolador" (ib. p. 331).

Em síntese, a fundadora da Ciencia Crista negou a SS.


Trindade, como se equivalesse a politeísmo. Concebía Deus
como sendo urna só Pessoa com facetas diferentes : Pai-Máe,
Filiacáo e Ciencia Crista ! Por isto também ela modificou a
invocaeáo inicial da oracáo dominical, mudando o «Pai Nosso»
em «Pai-Máe, Deus nosso» !

9. No tocante a Jesús Cristo, as idéias de Mary Eddy


sao extremamente confusas. Em síntese, Jesús terá sido urna
idéia de Deus manifestada em um ser humano dotado do
nome «Jesús». A segunda vinda de Jesús de que falam as
Escrituras (cf. At 1,11), é entendida em termos coerentes :

"A segunda aparicSo de Jesús é ¡nquestionavelmente o advento espi


ritual da ayancante Idéia de Deus na Ciencia Crista" ("Retrospection and
Introspection", p. 96).

— 43 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

Em estilo sintético, J. K. van Baalen assim exprime o


pensamento da Ciencia Crista referente á obra redentora de
Cristo:

"Em linguagem velada e com muito palavrório duplo, a Ciencia Crista


ensina que Jesús foi colocado, em conseqüéncia de urna morte aparente,
om túmulo ficticio, com corpo irreal, a fim do ofctuar urna redengáo des-
necessária por pecados que jamáis loram urna rcalidado, pralicados em
corpo imaginario, e que ele salva do mal que nao existe aqueles que váo
caminhando para um suposto inferno, imaginacao falsa da errante Mente
Mortal" ("O caos das seitas", p. 76).

Eis, sumariamente expostas, algumas das teses que carac-


terizam a doutrina e a mensagem da Ciencia Crista. Como se
vé, trata-se de proposicóes nem sempre lógicamente concate
nadas ; nao sao o fruto de elevado genio teológico, mas muito
mais a expressáo de um espirito imaginoso e original.

3. Cenclusao

A Ciencia Crista é evidentemente urna seita protestante.


Tem o manual da Sra. Eddy em conta superior á própria
Biblia. Nos oficios de culto respectivos, o primeiro leitor lé
um trecho de «Science and Health» ; ao que se segué urna
passagem bíblica lida pelo segundo leitor no intuito de con
firmar as teorías da fundadora.

A propagagáo da mensagem e das instituigóes da Ciencia


Crista explica-se por fatores varios :

— a promessa de curas associadas a valores religiosos é


algo que atrai mais e mais o público no mundo inteiro. — É
certo que a Ciencia Crista, propondo o recurso a mcios psico
lógicos para obter curas, pode realmente lograr éxito em mais
de um caso. É inegável a influencia da mente sobre o corpo ;
ansiedade, aborrecimentos e depressóes psíquicas podem pro
vocar baixa da saúrle física e males psicossomáticos ; em tais
casos, a restauracáo da paz mental (obtida através de fatores
religiosos) resulla em melhoras da saúde corporal. Todavía
nao se creía que tais curas vém obtidas em conseqüéncia de
auténtica interpretacáo do Evangelho; os valores cristáos, no
caso da Ciencia Crista, sao mais ocasiáo e rótulo do que o
ámago da mensagem dessa seita ;
«CIENCIA CRISTA> 45

— a promessa de Vitoria sobre a pobreza também impres-


siona o grande público. Como dito, a Sra. Eddy julgava que
também a pobreza pode ser superada pelo reto pensar;

— a aparéncia de nova revelagáo, imbuida de mística e


expressa em linguagem peculiar, as vezes rebuscada («allness,
somethingness...»), contribuiu para que a Ciencia Crista
cxcrcessc corlo fascinio sobro pessoas pouco críticas ou exi
gentes.

Nao sao necessárias ulteriores ponderacóes para que o


leitor compreenda que a Ciencia Crista pretende atender a
aspiragóes fundamentáis de todo ser humano (saúde, vida,
vitória sobre o mal) ; todavía oferece aos seus adeptos muito
mais urna psicoterapia banal do que urna auténtica adesáo á
mensagem do Evangelho.

Á guisa de bibliografía :

L. Humble, "A Ciencia Crista". Col. "Vozes em Defesa da Fé" n"? 25.
Petrópolis 1959.

Jan Karel van Baalen, "O caos das seitas". Sao Paulo 1974.

Esteva*) Bettencourt O.S.B.

livros em estante
A fé da Ig-eja. Vol. II: Cristologia: 1. Os pre9supostos, por Michael
Schmaus. Traducio do original alemSo por Marcal Versiani. — Ed. Vozes,
Petrópolis 1976, 160x230 mm, 154 pp.

Já em PR 199/1976, p. 234 apresentamos o volume I desta obra de


peso (seis volumes). O autor é um dos maiores teólogos alemáes da atua-
lidade ; embora nao seja dos mais novos, conserva todo o valor de grande
pensador e escritor. Além do que, segué fielmente o pensamento da Igreja
(que Schmaus sabe situar corretamente em nossos dias). Merece, pois,
toda a confianca do estudioso.

Sob o titulo "Cristologia: Pressupostos", o autor apresenta a dou-


trlna referente á Imagem de Deus no lAntigo Testamento (c. 1), á Criacáo
(origem do mundo e do homem, c. 2), ao Pecado Original e ao Pecado
Hereditario (c. 3) e aos Anjos (c. 4). O título "Pressupostos da Cristologia"
é algo de novo nos tratados de Teología Sistemática ; significa o Cristo-
centrismo de Michael Schmaus. Este desenvolve os aspectos bíblicos, his
tóricos e dogmáticos de cada tema com riqueza de dados e profundidade,
que satisfazem ao leitor.

— 45 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

Schmaus aborda assuntos delicados e discutidos em nossos dias,


tomando poslcdes equilibradas. Assim, por exemplo, no tocante ao surto
do homem admite que, sendo este um composto de corpo e alma, aquele
pode-se ter originado da materia preexistente; a alma, porém, foi direta-
mente criada e infundída por Deus na materia do primata devidamente
evoluído. O que importa nesta sentenca, é a distincSo de corpo e alma e
a atribuicao de origem própria a cada urna dessas partes componentes do
ser humano; a alma humana, sendo espiritual, nSo se pode derivar da
materia em evolucao, mas deve ter seu "vir-a-ser" peculiar. Cf. pp. 75-101.

No que diz respeito ao pecado dos primeiros pais, o autor afirma,


como a Igreja oficialmente desde o séc. V (controversias pelagianas), a
existencia da justiga original com seus dons gratuitos, e expóe magistral-
mente os conceitos de "natural" e "sobrenatural". Como se compreende,
Schmaus nao pretende afirmar que os primeiros homens (é assim que ele
se refere aos protagonistas de Gn 1-3) tenham ultrapassado as condicoes
físicas e culturáis do homem primitivo: "NSo temos dúvida em dizer que
a graca dos primeiros homens nao pressupunha um estado cultural ou
espiritual especialmente elevado" (p. 115). — O pecado inicial consistiu,
diz Schmaus com a sadia exegese, na soberba, que levou os primeiros
homens á desobediencia — o que nada tem a ver com o abuso das fun-
cóes sexuais. É importante que Schmaus reafirme a doutrina oficial da
Igreja sobre o assunto, pois muitos fiéis católicos se véem perplexos no
tocante ao pecado dos primeiros país, havendo mesmo quem julgue "ser
o paraíso terrestre urna esperanca e nSo urna saudade". Na verdade, a
doutrina concernente á culpa original nao é da aleada da arqueología ou
da paleontología nem do alcance da filosofía ou da razáo natural, mas é
proposicáo de fé; sendo assim, só é possfvel formular tal doutrina á luz
dos documentos da fé, que sSo a Escritura Sagrada entendida segundo os
ensinamentos oficiáis do magisterio da Igreja. Qualquer reformulacáo que
nao leve em conta tais documentos, vem a ser teoría de pensadores, nao,
porém, o eco dos ensinamentos da fé.

Quanto aos anjos bons e ao demonio, Schmaus, fiel ao seu método,


afirma a existencia dos mésmos, baseando-se também, para Isto, ñas ex-
pressdes da S. Escritura tais como sempre foram entendidas pela S. Igreja
e, ainda recentemente, por S. S. o Papa Paulo VI. Cf. pp. 141-154.

Em suma, o Manual de Teología Dogmática da autoría de M. Schmaus


é das melhores obras no género, nao só pelo conteúdo doutrinário como
também pela maneira de apresentar a materia. É acessivel aos fiéis católicos
de cultura media e vem a ser especialmente recomendável aos estudiosos e
estudantes de Teología.

Escuta, metí poVo, por Mlchel Cüenot. — Ed. Paulinas, SSo Paulo 1976,
140x205 rom, 265 pp.

Mlchel Cüenot é um sacerdote francés, que sucedeu ao Pe. Jacques


Loew na direcSo geral da MIssSo Operarla SSo Pedro e SSo Paulo (MOP),
que tem Importante núcleo em Vila Yolanda (Osasco, SP). Míchel Cüenot
esteve no Brasil desde novembro 1974 até agosto 1975; conviveu com o
povo simples, principalmente em Osasco, procurando transmitlr-lhe urna
iniciacSo blblico-lltúrgica, inspirada nos métodos da "Escola da Fé (Ecole
de la Foi)" dirigida por Jacques Loew em Friburgo (Suíga).

— 46 —
LIVROS EM ESTANTE 47

O presente livro é precisamente o fruto dessa docencia simples e


viva realizada por Cüenot em Osasco. A fim de tornar o sentido das Escri
turas mals acesslvel a pessoas de pouca cultura ou mesmo analfabetas,
0 Pe. Cüenot e seus colaboradores procuram acompanhar com mímicas o
expressionlsmo dos textos bíblicos: gestos de máos e atltudes do corpo
traduzem o conteúdo bíblico de manelra vivaz — o que, alias, é muito
fiel ao estilo dos autores bíblicos (os orientáis eram exuberantes em ex-
pressio corpórea), é o que explica naja no livro varias Imagens de gestos
litúrgicos a ilustrar diversos trechos bíblicos. O éxito que o Pe. Cüenot
obteve, está documentado no próprlo ilvro em foco; para o autor, o
contato dos cristaos com a Palavra de Deus se deve realizar em tres
etapas: escutari compreender, mudar de vida. Ora a respeito de mudanca
de vida Cüenot transcreve os seguintes depoimentos col h idos entre os
fiéis de Osasco:

"O que foi extraordinario, é que mesmo as pessoas que nSo sabem
ler nem escrever participaram, com as palavras, da experiencia que vivemos
juntos" (p. 12).

"Eu estava completamente derrotada em mlnha vida. Tudo corría


muito mal: brigas, gritos, cansado de todos. Agora consegui recuperar e
isso mudou completamente o meu lar. NSo se i como agradecer a Deus"
(p. 12).

"Eu nao quis faltar nem um día. No aperto do ónlbus rezo por todo
esse pessoal, recitando o salmo 138: 'Senhor, espía bem o meu coracño,
prova-me, conhece bem tudo que pensó, vé se estou trilhando o mau ca-
minho e conduze-me pelo caminho da eternidade'" (p. 12).

O livro apresenta 25 roteiros para reunióos blblico-litúrgicas, que


consideram a historia da salvacSo desde Abraao até Jesús Cristo: o aUor
propoe, além de textos, as IndicacOes propicias a se criar urna encenacSo
simbolista digna da Palavra de Deus.

So podemos congratular-nos com o autor pelo feliz trabalho que tem


realizado e que, mediante o seu livro, ele torna possivel aos agentes de
pastoral blbllco-litúrglca. O livro será de grande valor em comunidades
de base ou paroquiais ou aínda em educandárlos. É para desejar, porém,
que se guarde sempre a justa medida e a devlda sobriedade no recurso &
mímica; esta nao é senao um instrumental de edificacfio e compreenslo.

Deus se esconde na vida. Temas para reflexao e orienlacáo, por


Inácio SJrieder S. J. — Ed. Loyola, SSo Paulo 1976, 140 x 210 mm, 221 pp.

O Pe. Strieder é jovem professor de Teologia em Sao Leopoldo (RS).


Apresenta-nos um livro que é o eco escrito de palestras radiofónicas rea-
1 izadas na Alemanha: relíete sobre 57 Jemas de atualldade relativos á ple-
dade, á Biblia, á apologética, procurando dirimir dúvidas e definir o signi
ficado que cada problema abordado toma para o homem de hoje. O con
teúdo é claro e acessivel a todo leitor de cultura media. O autor exprime
fielmente o pensamento católico frente ás diversas ¡nterrogagoes e situacóes
que interpleam o homem de hoje. O propósito do autor nao é o de um

— 47 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 205/1977

especialista e pesqulsador; por Isto ás pp. 9 e 10 refere urna exegese de


éx 3,1-6 que poderia ser mals técnica e rigorosa (Javé = Aquele que é?,
Anjo semelhante a ser humano ?), mas que nSo diminuí o valor da obra.

E. B.

Américo Jacobina Lacombe, Para a Historia das Origens da Univer-


stdade Católica, na Revista "Verbum", tomo XXXII, fase. 2, julho de 1976,
pp. 71-85.

A reconsBo do um discurso nflo ó, som dúvida, usual. Em so trotando,


porém, do discurso proferido pelo Professor Américo Jacobina Lacombe
em sua aula inaugural de 1976 na Pontificia Unlverstdade Católica do Rio
de Janeiro, o comentario nao so se justifica, como se impoe.

"Para a Historia das origens da Unlversidade Católica" é trabalho


que ficará na historia da historiografía brasilelra como contribulcáo á
historia da educacáo, da Igreja e das idéias religiosas no Brasil.

O autor historia os estabelecimentos existentes e as tentativas de


formalizacSo dos cursos superiores no Brasil desde a colonia. Menciona,
assim, o Colegio do Terreiro de Jesús, na Bahía (1568 e 1572); o Real
Colegio da Bahía (século XVII); e as tentativas dos jesuítas de elevá-Io a
Universidade ; a tentativa dos mineiros de estabelecer urna escola de Medi
cina (1768); os cursos de humanidades ministrados nos demais colegios
jesuítas, no mosteiro benedltlno do Rio de Janeiro, no convento de Santo
Antonio da mesma cidade e no convento do Carmo da Bahia (este, com
um inieressante exemplo de 1839 extraído de Kldder).

Concluí, a este respeito, o autor:

"Nao nos demoraremos na referencia a essas atlvldades intelectuals


das Ordens Religiosas para demonstrar que os conventos constituiram n§o
somente centros de devocSo, mas também importantes núcleos de estudos,
únicos lugares onde encontravam acolhlda as atividades culturáis.

Para isso dlspunham de bibliotecas que, se nSo s3o comparávels aos


grandes centros europeus, ao menos estavam aparelhadas com as obras
principáis de influencia no momento..." (p. 77).

No Imperio e no inicio da República a Idéla da Unlversidade brasi


lelra reapareceu e fol postergada varias vezes. Pelo lado católico, Lacombe
refere-se á proposta de Cándido Mendes de Almeida, em 1866, para que
se "organlze urna Universidade no sentido católico".

A Idéia de Cándido Mendes de Almeida reapareceu nos Congressos


Católicos da Bahía (1900) e do Rio de Janeiro (1908); neste mesmo ano
o Abade do Mosteiro de Sao Bento de Sao Paulo fundou a primelra Facul-
dade de Filosofía do Brasil, agregada á Universidade Católica de Louvain.
Também em S9o Paulo, e em 1908, o Seminario Arquldlocesano transfor-
mou-se em Pontificia Faculdade de Filosofía e Letras.

A estas tentativas embrionarias sucedeu-se a fundacSo, em 1932, do


Instituto Católico de Estudos Superiores, embriSo da futura PUC do Rio
de Janeiro (organizada a partir de 1940). Também Faculdades de Filosofía

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católicas se crlaram, de acordó com a leí Francisco Campos: em Sao
Paulo, a "Sedes Sapientlae" (1933), e, no Rio de Janeiro, a de Santa
Úrsula (1939).

A Universidade Católica, portento, derivou-se do movimento geral de


criacSo do ensino superior no Brasil e da aspiracao, bem mais antiga, á
existencia de uma Universidade religiosa.

O Professor Américo Jacobina Lacombe pertenceu á geracao dos


que, sob a lideranga de Jackson de Figueiredo e Alceu Amoroso Lima,
renovaram o catolicismo brasileiro, tendo, como principáis instrumentos,
o Centro D. Vital (com a revista "A Ordom") e a Pontificia Unlvorsldade
Católica do Rio. Seu histórico ó, em conseqüéncia, depolmento importante
do participante.

O autor, numa de suas conclusóes, afirma :

"Fiz questáo de ressaltar que a enaguo de estabeiecimentos católicos


de cultura superior é uma linha constante em nossa formagSo desde a
colonia.

Teremos correspondido ás esperanzas das geracóes que por nos


ansiaram ? Só o futuro responderá" (pp. 82s).

A despeito das dificuldades e das dúvidas que o Professor Américo


Jacobina Lacombe menciona, poder-se-ia responder afirmativamente. Sobre-
tudo se a Universidade Católica continuar preocupada na articulacSo da fé
com a razio, da "Sapientia" com a "Scientia". Ou, como se diz num
dos documentos do Concilio Vaticano II, citado pelo autor: "Cada disci
plina seja cultivada segundo principios e métodos próprios e com a liber-
dade peculiar da pesquisa científica, de forma que se atinja uma sempre
mals profunda compreensáo das diversas materias. De maneira multo cons-
clenclosa, levem-se em conta os novos problemas e as pesquisas do pro-
gresso atual, para chegar-se a perceber com mais profundeza como a fé
e a razao colaboram para a percepcSo da verdade, que é uma só. Sigam-se
as pegadas dos doutores da Igreja e, em especial, de S. Tomás de Aqulno"
("Gravisslmum Educationis" rfl 10).

Esta recenslo é da autoría do Prof. Arno WeMing, Bacharel e Licen


ciado pela Universidade do Brasil, Doutor em Historia pela Universidade
de Sao Paulo, Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, da
Universidade Gama Fllho e da Universtdade Santa Úrsula.
NADA TE PERTURBE,

NADA TE ESPANTE.

TUDO PASSA!

SO DEUS NAO MUDA

A PACIENCIA TUDO ALCANCA.

QUEM A DEUS TEM,

NADA LHE FALTA.

SO DEUS BASTA 1

Santa Teresa de Jesús