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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriarñ)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanca a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanca e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confisca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
nmmm
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111 d i c e
pao-

TEMPO OPORTUNO 93

O senso leligicso no mundo de hoje :


E AS SEITAS CONTEMPORÁNEAS ? 35

U.ti livio em foco :


"A IGREJA E O HOMOSSEXUAL" 107

Dais depoimentos pungentes:


DOENTES MENTÁIS OS DISSIDENTES POLÍTICOS ? 120

Os Bispos da Alemanha:
AÍNDA O EXORCISMO 125

Um livro em foco:
"A GRACA LIBERTADORA NO MUNDO" 130

UM ENCONTRÓ DE EDUCADORES (ABESC) 137

LIVROS EM ESTANTE 140

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

a * •

NO PRÓXIMO NÚMERO :

As aparicoes de El Palmar de Troya. — A Igreja Messiánica


Mundial. — Que é a Missa de S. Pió V ? — Ainda o caso
Lefébvre. — Ensino Brasileiro e humanidades.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual Cr$ 75,00


Número avulso de qualquer mes Cr$ 7,00

Já temos o volume encadernado de 1976 (584 pp.).


Prc§» : Cr$ 140,00 (somente 40 exemplares).

EDITORA LAUDES S. A.
REDAQAO DE PR ADMENISTRAQAO
Caixa Postal 2.666 Rúa Sao Rafael, 38, ZC-09
ZC-00 20.000 Rio de Janeiro (RJ)
20.000 Rio de Janeiro (RJ) Tels.: 268-9981 e 268-2796
TEMPO OPORTUNO
Pode-se dizer que quase todos os homens tém a conscién-
cia viva de estar em demanda de... E que procuram ? A
resposta cabal para as suas interrogagóes e os seus anseios.
Faciimente esta vida é experimentada como algo de lacunoso,
passageiro e... provisorio. Quem nao senté isto, perde o
sentido da vida; esta seria ironia e farsa se nao levasse o
homem a algo mais, que tenha o caráter do Definitivo e
Absoluto.

A fé crista corrobora esta intuicáo.

Afloram-nos entáo as perguntas: quando terminar o tempo


do provisorio e chegar o Absoluto, como estarei eu? Que uso
terei feito deste tempo, que é essencialmente voltado para o
Transcendental? Como me terei preparado para entrar na
posse e na fruicáo do Eterno? Ou — em linguagem evangélica
a quantas estará o preparo da minha veste nupcial? Estará
pronta no dia em que serei chamado as nupcias? Ou estará
ainda necessitada de remate por causa de minha negligencia
e leviandade no uso do tempo oportuno? Ainda em outros
termos: qual será a minha estatura interior no dia em que a
exterior e visível desfalecer? Terá atingido a plenitude das
suas dimensóes ou será estatura ana e subdesenvolvida?
É sobre este fundo de cena que ressoam as palavras do
Apostólo : «Eis o tempo oportuno, eis os dias da salvacáo...
Exortamo-vos a que nao recebáis em váo a graca de Deus»
(2Cor 6,ls).
Na verdade, os gregos tinham dois vocábulos para desig
nar o que nos chamamos «tempo» : chrónos e kairós. Chrónos
era o tempo medido pela astronomía, que, do ponto de vista
ético, é neutro; é o tempo como medida da existencia das
rochas, das plantas, dos animáis e do próprio homem (en-
quanto ó ser biológico). Kairós, ao contrario, designava as
grandes chances ou as ocasióes em que a pessoa vive mais
plena e conscientemente. Ora a natureza humana, propensa
á superficialidade, leva muitos homens (mesmo cristáos) a
viver simplesmente o seu chrónos ou o seu calendario, sem
conceberem outros problemas que nao os ¡mediatos; exis-
tem,... e existem dentro de certa rotina; sao carregados pelos
acontecimentos, jugueteados pela vida, mas nao regem plena
mente os seus diversos atos. Sem dúvida, costuma haver na
vida de toda criatura humana alguns poucos momentos altos,
(plenamente?) conscientes ou kairói *; tal é,-pep™e«eropto, ..o-
» Kairói é a forma plural grega de kairós. i ^^'Z U' f) **'
i

— 93— • CE^
kairós em que o (a) filho(a) sai da casa paterna para abragar
o seu futuro estado de vida — casamento, consagragáo a
Deus ou missáo longinqua (ninguém o faz normalmente sem
ter deliberado e sem mobilizar todos os seus valores, embora
só mais tarde a pessoa vá avaliar todo o alcance do passo
que deu). Kairói podem ser também as doengas, os golpes, as
frustragóes, que impelem o ser humano a atuar todas as suas
energías a fim de os atravessar dignamente, sacudindo a
rotina... Todavía no comum dos seus dias, quando tudo corre
segundo o programa previsto, o homem tende a se anestesiar
ou a viver na periferia de si mesmo.

Pois bem. O ano cristáo propóe regularmente na Quaresma


um apelo a todos os fiéis no sentido de que procurem liber-
tar-se da superficialidade do seu tipo comum de vida, a fim
de se abrirem mais eficazmente á riqueza da graca de Deus,
que é sempre oferecida ao homem, mas nem sempre reconhe-
cida e aceita. Segundo o designio do Criador, todo o chrónos
deveria ser vivido em atitude de kairós, isto é, tempo de graca,
de vida intensa e consciente. Precisamente a Quaresma é a
ocasiáo oportuna para que os cristáos se exercitem nesta arte
de viver a fundo, tornando-se mais presentes ao Eterno Presente.

A espiritualidade de Quaresma poderia ser ilustrada pelas


palavras de Joáo Batista postas no limiar da Boa-Nova de
Jesús : «Chegou o momento de juizo, de opgáo...» (Le 3,7-18).
Isto quer dizer: nao é possivel a urna pessoa de brío viver
sem opgáo básica ou fundamental ou viver sem rumo e pola-
rizacáo. Quem é instável como o vento ou a crianga, assuma
urna posigáo e defina-se, procurando dar unidade e harmonía
á sua vida. E quem já optou por Cristo e pelo Evangelho,
trate de renovar essa opgáo, tomando consciéncia de tudo o
que ela implica; é oportuno, ou mesmo necessário, vivermos
sob o impacto de estarmos no tempo oportuno, no tempo de
decisáo; é todos os anos cada vez mais verdade que se passou
o tempo da fuga covarde e infantil, como também é cada vez
mais verdade que está perto o tempo em que já nao será pos
sivel decidir ou optar porque já se terá perdido irreversivel-
mente a ocasiáo (o kairós) de escolher e definir-se,

Sao estas algumas reflexóes que nos sugere o mes de


margo marcado pela mensagem quaresmal. É tempo de livrar-
mo-nos de «anestesias» e de crescer. E notemos: este pro
grama há de falar nao sonriente aos fiéis católicos, mas a
todo homem que nao queira ceder á pusUanimidade e & covardia.

E. B.

— 94 — .
«PERQUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XVIII — N' 207 — Marco de 1977

O senso religioso no mundo de hoje:

e as sellas contemporáneas?
Em sfntese: O fenómeno da multipllcacao do seitas chama a atencSo
dos pensadores. Algumas características sao comuns as diversas seitas •
ambiente fraterno, fechamento em relacSo a outros grupos, antiintelectua-
lismo, expectativa de ¡minente punicSo ou catástrofe, promessa de curas
e revelacóes.

As causas de prollferacSo das seitas sSo varias: contestagáo á clvi-


lizacfio de consumo, adaptacSo social em pequeños grupos que diferem
da socledade masslfléante, promessa de certezas e seguranca, quando os
valores aparentemente mais sólidos desmoronam, satisfacSo do senso reli
gioso, que é Inato em todo homem.

A resposta que os fiéis católicos podem dar ás sellas, ó múltipla:


torna-se necessário mals e mals fomentar o espirito fraterno ñas comuni
dades cristas; dé-se atencSo nfio só aos aspectos sócio-económicos da
mensagem crista, mas também, e principalmente, aos seus aspectos de
interioridade e mística; a Biblia há de ser proposta como a primeira fonte
de alimento da esplrltualldade (desde que se proporcione aos fiéis a devida
Inlclacfio bíblica e se lela a Escritura em familia, ou seja, em consonancia
com a TradicSo do povo de Deus); acentue-se o valor da inteligencia e
da razéo para penetrar ñas proposlcóes da fó (o Cristianismo nSo é anti
intelectual nem fldelsta); a missfio dos fiéis católicos neste mundo há
de se voltar para aqueles que, mesmo ñas cldades, estio longe da Igreia-
tais pessoas nada pedem á Igreja, mas estfio á procura daquela mensagem
que está genuinamente depositada na Igreja fundada por Cristo sobre a
Rocha de Pedro Apostólo.

Comentarlo: Nao há quem nao tenha conhecimento do


estranho fenómeno das seitas ou dos pegúenos grupos religio
sos que se váo multiplicando tanto no Brasil como no estran-
geiro á margem da Igreja Católica e das clássicas denomina-
Sóes do Protestantismo. Dir-se-ia que muita gente deixa as
«religióes oficiáis» a fim de se transferir para as «religióes
informes e borbulhantes» que váo surgindo: tais sao nao

— 95 —
4 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

sonriente os grupos afro-brasileiros, mas também os que pro-


vém do Oriente (a Meditacáo Transcendental, o Zen-budismo,
a Yoga...), os que dizem ter fundamento numa «releitura»
da Biblia (Testemunhas de Jeová, Amigos do Homem, Mór-
mons, Ciencia Crista...), os que apregoam o oculto, o irra
cional e o mágico (espiritismo alto e baixo, culto do demonio,
magia negra, teorías sobre discos voadores ou «Objetos Vo
lantes Nao Identificados»...), os que resultam de sincretismo
e ecleticismo1.

A proliferagáo das seitas e o número crescente de seus


adeptos nao somente em países pobres e ignorantes, mas tam
bém em meio a populagóes ricas e cultas leva o cristáo a
refletir e a interrogar-se sobre o sentido que tal surto reli
gioso possa ter. Na verdade, as seitas fazem os elementos
religiosos retornar aos ambientes em que o ateísmo e a indi-
ferenga pareciam ter extinto a crenga em Deus. O encontró
da religiáo clássica, do ateísmo e das seitas cria um pano
rama assaz confuso, principalmente quando sao os jovens que
se tornam os porta-vozes das novas «religióes».

Vamos, pois, procurar estudar algumas caracteristicas do


fenómeno das seitas, a fim de discernir a mensagem que elas
pretendem anunciar ao mundo de hoje.

A propósito já publicamos um artigo em PR 172/1974,


pp. 155-165.

1. As seitas : suas características

. A palavra «seita» vem do latim «secta» e se reduz ao


verbo sequi, secutas sum. Indica o movimento dos que seguem
um «profeta» ou um líder religioso.

O vocábulo secta pode também ser relacionado com


secedere, separar-se, indicando entáo separacao, ou seja,
— no nosso caso — a separacáo de um pequeño grupo que
se afasta da Igreja ou mesmo de urna seita já existente.

*A palavra "sincretismo" exprime o "crescer com (syn)". Denota os


sistemas religiosos resultantes da fusáo de elementos heterogéneos.
"Ecleticismo" é o conjunto que se forma pela escolha (ek-lego), mais
ou menos arbitrarla, de elementos de diversos sistemas religiosos.

— 96 —
AS SEITAS CONTEMPORÁNEAS

Embora as seitas se diferenciem entre sí (e muito, por


vezes), elas tém todas algumas notas comuns, que constituem
o seu espirito ou a sua mentalidade:

1) Fechamento do grupo sobre si mesmo e sobre as


suas idéias, como se fora do grupo só houvesse erro doutri-
nário e deprayagáo moral; este fechamento redunda, por
vezes, em hostilidade dos membros da seita para com os que
a ela nao pertencem. É esta atitude mental que o nome
«sectario» costuma indicar em primeira instancia. Nao raro
tal atitude pode degenerar em obcecagáo, intolerancia e
fanatismo;

2) Antiintelectualismo. As seitas se contentam com es-


tudo sumario e pouco critico de alguns livros ou textos reli
giosos (inclusive a própria Biblia) ; submetem esses textos
a simplificagóes subjetivas. Guiam-se, muitas vezes, por «intui-
Cóes proféticas», que tém algo de irracional e emotivo. A afe-
tividade e as paixóes impulsionam freqüentemente os mem
bros das seitas. Os seus pregadores nao costumam prqvar as
respectivas afirmacóes, mas repetem indefinidamente certas
expressóes como «É evidente que...», «É inegável que...»,
«A Biblia diz que...». A repetigáo dispensa a prova. Em
outras ocasióes, recorrem ao encadeamento de «portante» e
«por conseguinte» — o que faz as vezes de prova ou de-
monstragáo.

3) Nao raro registra-se a expectativa de catástrofe


eminente desencadeada pelo Senhor Deus ou por forgas supe
riores para punir a iniqüidade dos homens imersos no pecado
e na depravagáo. É o que explica o zelo de muitos arautos
das seitas, que ñas pragas públicas e ñas rúas proclamam a
urgencia da conversáo e a necessidade de procurar a salvagáo
enquanto aínda é tempo.

4) Em varias seitas, há promessa de curas, dons ex


traordinarios, camunicagóes e intervencóes do AJém ou de
espíritos dos quais dependem os homens.

5) Últimamente algumas seitas tém recorrido a pres-


sionamento moral c condicionamcntos psicológicos, a fim de
atrair adeptos ou forgar os seus membros a permanecer
no grupo.

6) Deve-se admitir sinceridade em numerosos adeptos


das seitas; todavía nao é este o caso de outros, que, na qua-

— 97 —
6 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

lidade de líderes ou de propagandistas, exploram a boa fé


dos seus semelhantes para promover seus interesses sociais
ou financeiros.

Tentaremos, a seguir, catalogar os principáis fatores que


explicam a proliferacáo das seitas em nossos días.

2. Por que tantas seitas ?

A guisa de resposta, proporemos os cinco fatores se-


guintes, que, em grande parte, tém sua raiz na própria psi
cología humana :

1) As seitas hoje em dia constituem urna resposta á


frustragáo que o homem moderno cada vez mais experimenta
diante do tipo de sociedade que o mundo ocidental lhe apre-
senta. A tecnocracia, que sacrifica o homem á máquina, a
produgáo, ao dinheiro, ao consumo, tem provocado diversas
reagóes por parte dos que se sentem vitimas, principalmente
por parte da juventude. O conjunto dessas reagóes se chama
«a contracultura», que ó um protesto contra a cultura mo
derna, impregnada do materialismo. Em meio as multidóes
e ao bem-estar, o cidadáo contemporáneo sofre de solidáo,
falta de amor e procura o sentido da vida. Sente-se reduzido,
nao raro, á qualidade de produtor e consumidor, escravizado
por estruturas cegas.

É, pois, ñas seitas (entre outros dados) que o homem


de hoje encontra a ocasiáo de seu desabafo e de sua expan-
sáo. Adotando, por vezes, modas e atitudes exóticas, exprime
o seu protesto contra os hábitos sociais vigentes na sociedade
de consumo.

A imagem de Jesús que os movimentos norte-americanos


«Jesús Freaks», «Loucos de Jesús», «Jesús People» apregoam,
tornou-se o símbolo da contestagáo ou da recusa dos valores
da sociedade de consumo.

2) As seitas oferecem um ambiente de fraternidade ca


lorosa, em que cada um é acolhido e reconhecido pelo seu
nome. As pessoas que ñas cidades sao tratadas como gente
anónima, envolvida em grandes engrenagens, encontram ñas
seitas comunidades amigas. — Muitos jovens que sofrem de
desajuste e solidáo em seu lar (no relacionamento com os

— 98 —
AS SEITAS CONTEMPORÁNEAS

país), na escola (frente aos mestres) ou na profissáo (redu-


zidos a números), procuram um grupo onde possam falar e
ser ouvidos; ora as seitas prestam tal servigo. Os «Meninos
de Deus», os «Amigos do Homem», os discípulos de Mórmon
e de Moon chamam «familia» o seu respectivo grupo. Eis o
depoimento de urna jovem publicado no jornal francés
«L'Exprés» de 26/1/76 :

"Eu voltava para casa, quando no metro um rapaz me abordou : era


sorridente, aberto, simpático. Naquele dia eu nSo me achava bem. Meu
pal morrera .em Janeiro. Eu tinha 17 anos e meio. Ainda nao comecara
meus cursos de Secretariado. Estava também abalada do ponto de vista
sentimental.

Primeiramente fomos á Villa Aublet (sede do Grupo Moon). Um bando


de jovens cercou-me. Logo que alguóm se aproxima do grupo, sente-se
grandemente prestigiado. Todos se ocupam com vocé; vocé se torna
"alguém1... Urna menina, Nádia, deu-me toda a atengáo. Em breve ela
se tornou muito importante aos meus olhos... Fiquei lá ainda tres dias
Pediram-me que fizesse um estágio de sete dias. Hesitei Perguntei a
Nádia..." '

Assim é que ñas seitas muitos jovens, tendo deixado o


lar, váo encontrar a afeito de um irmáo ou de urna irmá
bem como a at.enc.ao de um pai ou de urna máe espiritual.
Há mesmo grupos que acautelam seus membros contra a
reagáo da familia ; os país, «impelidos por Sata», poderiam
ir tirar do grupo seus filhos; tratam de criar urna dependen
cia total — material, social e afetiva — do (a) jovem em
relagáo ao grupo.

Assim acontece que muitos rapazes e mogas ou também


muitos adultos, sentindo-se marginalizados em seu ambiente
social ordinario (em parte, talvez, pelo fato de terem tomado
drogas), váo-se sentir altamente valorizados na nova «fami
lia», pois ai sao recebidos como eles sao, e nao segundo pa-
dróes impostos1. Encontram, desta forma, a sua «readapta-
cáo social».

3) Em meio as mudangas bruscas da sociedade civil e


da própria Igreja, muitos jovens váo procurar ñas seitas urna
certa seguranca, algumas certezas, pontos de referencia fir
mes e respostas precisas que os ajudem a se estruturar. Muita

1 Dizendo Isto, ainda ruto tencionamos proferir algum julgamento de


valores, mas contentamo-nos por ora com o registro dos fatos como sSo
apresentados pelos observadores dos mesmos.

— 99 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

gente precisa de encontrar «um livro ou um mestre que tudo


explique e que responda a todas as dúvidas». O Manual das
Testemunhas de Jeová, por exemplo, trazendo o título «A
verdade que leva á vida eterna», já tem urna tiragem de
mais de 74 milhóes de exemplares e foi traduzido para 91
línguas ; ali se esclarecem dúvidas sobre a data e as moda
lidades do fim do mundo, oncontram-se «profecias», exorta-
g5es precisas e imperiosas, etc.

Para muitos jovens, o mundo dos adultos está abalado


em seus fundamentos. Até a Igreja foi levada pela corrente!
Por isto recolocam constantemente as perguntas: «Para
onde vamos ? Por que caminho seguiremos?» Ora cada seita
propóe urna visáo total da existencia do mundo, do homem
e do desencadeamento da historia. E propóe-na com certezas
absolutas, referindo-se a revelagáo tida por um «profeta» ou
a um Livro Santo (a Biblia, o Livro de Mórmon, as intuig5es
de Charles Russell...). Essas certezas, alguns membros de
seitas as «experimentam» em sua euforia e seu entusiasmo
ou mediante sugestionamento a que se submetem ou sao
submetidos.

4) O segredo do éxito de muitas seitas é a recusa (ao


menos verbal) de dogmas rígidos e um certo relativismo dou-
trinário. Para os indianos, a religiáo é questáo de experiencia,
e nao de dogma. O que os indianos procuram, é urna espiri-
tualidade (técnica de purificagáo moral), mais do que um
Credo. É isto que facilita o acesso de muita gente as seitas
indianas ou inspiradas pelo hinduísmo. Já que vivemos numa
fase de certa irracionalidade ou desdém pela razáo, com-
preende-se que a emotividade, o afeto, a experiencia sensivel
venham a ser os criterios do comportamento de muita gente,
... gente que em certas seitas vai encontrar o seu clima
ideal; lá nao há controle intelectual ncm agudo senso crítico.

É isto também que torna difícil o diálogo de um cristáo


com um memoro de seita. As proposigóes que, em nome da
filosofía ou da razáo, sejam formuladas, pouco ou nada dizem
a este; nao sao as categorías da lógica, mas, sim, as da
emotividade que mais falam as seitas.

O fato de que os membros das seitas sao antidogmáti


cos, pode por vezes torná-los tolerantes do ponto de vista
doutrinário. Essa tolerancia, porém, é assaz relativa. Quanto
menos culto é alguém, tanto mais tende ao fanatismo. Além

— 100 —
AS SEITAS CONTEMPORÁNEAS

disto» sabe-se que as seitas sao proselitistas, isto é, procuram


fazer adeptos de maneira ferrenha e, por vezes, agressiva,
levando sua mensagem de casa em casa. Nutrem assim a
esperanca íntima de fazer de sua denominagáo religiosa a
Religiáo do Mundo.

5) Por fim, mencione-se o que c mais importante. As


seitas canalizam e manifestam vivazmente a dimensao reli
giosa que é inata em todo homem, e que a civil izacáo secu
larizada de nossos dias tende a apagar. Bem dizia Nicolau
Berdiaev : «Sem Deus ja nao há homem». A exuberancia das
seitas é a contra-parte do esvaziamento do sagrado e do ritual
a que a sociedade ocidental vem assistindo. É nos Estados
Unidos da América que tanto a técnica como o movimento
de seitas atingem o máximo de sua expressáo.

Diga-se também : visto que certas instituicóes religiosas


se voltam atualmente mais para os acontecimentos sócio-
-económicos e políticos do que para os do íntimo do homem,
o cidadáo contemporáneo cria, ao lado e fora dessas institui
cóes, o seu reduto de interioridade e de mística. Os redutos
ou seitas que assim aparecem, correspondem a urna necessi-
dade ou a um apetite espontáneo de todo homem. Com isto
nao queremos dizer que as seitas sejam ou oferecam a autén
tica resposta as aspiracóes do homem, mas apenas désejamos
significar que, quando se empalidece a clássica e genuína
resposta, o ser humano cria para esta seus sucedáneos fan-
tasistas e ilusorios (mas indispensáveis, na falta de au
ténticos) .

Cumpre agora examinar a pergunta :

3. Que atitude tomar?

Nao se deve olhar com indiferenca para o fenómeno das


seitas ou minimizar o alcance destas. Elas sao um sinal dos
tempos ou mesmo.. . um sinal de alarme, que é preciso pro
curar entender e levar a serio. O que até aqui foi dito, mostra
que as seitas correspondem a anseios do homem contempo
ráneo ; embora tenham suas aberracóes, o dinamismo que as
move merece ser levado em consideracáo. Eis, pois, as refle-
xóes que tal fenómeno parece sugerir aos fiéis católicos:

— 101 —
.10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

1) É necessário que as comunidades católicas se tor-


nem mais e mais acolhedoras e fraternas, valorizando, na
medida do possível, cada um dos seus membros. As chamadas
«comunidades eclesiais de base» tém preenchido esta tarefa.
É certo, porém, que esse espirito de fraternidade nao deve
implicar

— banalizacáo, porda do respoito as pessoas e aos va


lores sagrados;

— fechamento e elitismo em relagáo aos demais homens


(católicos ou nao católicos).

2) Urna comunidade católica nao pode dar menos aten-


cáo aos valores da interioridade e da mistica * do que aos
valores sócio-politicos. É mister falar de oragáo e contempla-
cáo e por em prática tais exercicios. O homem de hoje senté
necessidade de silencio, de aprofundamento e de prece. A
mecanizagáo e a robotizacáo da vida incitam os nossos con
temporáneos a procurar a dimensáo nao matemática, mas
transcendental, da sua existencia. É somente na oracáo que
o homem encontra os grandes estímulos para sustentar a
luta de cada dia. Alias, o Cristianismo sempre teve urna nota
de misticismo muito acentuada (tenham-se em vista as tra-
digóes beneditino-monástica, agostiniana, franciscana, domi
nicana, carmelita...); nao é, pois, necessário que os homens
váo procurar em fontes orientáis ou indianas o que na espi-
ritualidade crista se encontra sobejamente.

3) A leitura assidua da Biblia deve tomar-se mais e


mais urna das notas da espiritualidade crista. A propósito
convém fazer tres advertencias :

a) a Biblia há de ser penetrada mediante os subsidios


da exegese contemporánea científica. Nao se pode pretender
ler um livro da antigüidade pré-cristá oriental ou do séc. I
da era crista, sem iniciacáo previa, como se falasse segundo
a linguagem e as categorías do homem moderno. É preciso,
pois, que se ministrem cursos ou palestras de introdugáo á
Biblia, a fim de despertar nos fiéis crLstáos o gosto e o enten-
dimento do Livro Sagrado;

1 Por "mística" nSo se enlondem arrebatárnosos ffsicos nem devánelos


far.'.asls'as, mas 3 experiencia de Deus presento ao Intimo do cristSo.

— 102 —
AS SEITAS CONTEMPORÁNEAS 11

b) urna vez levada em conta essa exigencia intelectual


(a ser dosada segundo os grupos e as comunidades respecti
vas), faz-se mister nao ficar no estudo apenas, mas ler a
Biblia em atitude de fé, como Palavra de Deus e alimento
da vida espiritual :

c) leia-se também a Biblia em espirito de familia, isto


ó, em consonancia com todo o Povo de Deus ou a Igreja,
evitando interpretagóes particulares e pessoais que dcstoem
de quanto professa oficialmente o Povo de Deus ou a Igreja.
Sao precisamente as interpretagóes subjetivas, destituidas de
fundamento na ciencia e na Tradisáo que inspiram os fun
dadores de seitas.

4) Faz-se mister valorizar a inteligencia e o estudo,


em oposigáo ao irracionalismo e ao sentimentalismo subjeti
vos que tanto marcam as seitas. É pela inteligencia e o
raciocinio que o homem mais se aproxima da verdade obje
tiva ; quanto mais alguém se descuida do estudo inteligente,
tanto mais corre o perigo de cair em divagares arbitrarias
da fantasía e da imaginagáo. Tenha-se consciéncia de que a
fé crista prolonga o conhecimento da verdade que a sá razáo
é capaz de adquirir pelo estudo.

Com outras palavras : se Deus outorgou ao homem as


faculdades intelectuais, está claro que estas devem ser sadia-
mente utilizadas para que o homem se eleve ao seu Criador.
Assim se evitará o fideísmo, ou seja, urna atitude de fé que
se despreocupa dos sinais de credibilidade ou que se feche
em si mesma.

5) Os fiéis católicos (leigos ou clérigos) devem saber


dirigir-se aos que nao costumam freqüentar a igreja, indo-lhes
ao encontró onde quer que se achem. Há muitas e rnuitas
pessoas, de todas as classes da sociedade, que nada pedem á
Igreja, mas que procuram sequiosamente um sentido para a
sua vida. Nem todos os que nao váo á igreja, estáo desinte-
ressados daquilo que a Igreja propóe; ao contrario, procuram
realmente essa mensagem; por falta de a conhecerem autén
ticamente é que se rendem ao primeiro convite de aparente
mística que lhes é apresentado.

6) É importante distinguir entre sinceridade e verdade.


A grande maioria dos membros das seitas sao pessoas sin
ceras (tenham-se em vista principalmente os simples segui-

._ 103 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

dores de um fundador de seita). Essa sinceridade é um grande


valor; nao quer dizer, porém, que os homens sinceros sem-
pre professem a verdade. Ser sincero é ser coerente consigo
mesmo (aínda que o sujeito esteja em erro); ser veraz é
ser coerente com o objeto ou com a realidade objetiva. A
sinceridade, portanto, nao é necessariamente a verdade. Um
daltónico é sincero quando enuncia as cores como as vé (tro
cando o vermelho e o verde); todavía nao ó veraz (sem culpa
sua). Ninguém há de contratar um daltónico para dirigir
um veículo. Assim também nao se dará fé á mensagem de
determinado mestre ou grupo pelo simples fato de ser sin
ceramente proferida; essa mensagem bem pode ser errónea;
é necessário examinar, pelos criterios de estudo objetivo, se
corresponde realmente á verdade ou se está objetivamente
fundamentada para merecer aceitagáo.

7) O relativismo nem é cristáo nem corresponde á es-


trutura da mente humana. A inteligencia foi feita para
captar a verdade e trabalha sequiosamente em prol da con
quista crescente da mesma, como o olho existe por causa
da luz (que ele procura), o ouvido por causa do som (que
ele procura), o pulmáo por causa do ar (que ele procura)...
Mais do que nunca, o homem de hoje anda ao encalco da
verdade... Ele quer respostas, e respostas que o ajudem a
estruturar ou construir a sua vida. Nao há quem possa, viver
sem ter grandes certezas ou sem ter a seguranqa que lhe
provém da percepgáo da verdade. A busca da verdade e o
questionamento sao atitudes honestas ; pertencem á integri-
dade intelectual do cristáo; mas nao podem ser a única ati-
tude da mente humana. É preciso afirmar certezas e conclu-
sóes resultantes da busca da verdade. Ora o Cristianismo
pode (e deve) dizer que recebeu, da parte do Senhor Deus
(mediante a razáo natural e a Revelagáo), algumas grandes
certezas. É mister que os cristáos as saibam apresentar aos
seus semelhantes, observando dois criterios:

— nao exagerar o alcance das proposigóes da fé crista


ou nao esvaziar o que de insondável tém a vida e os designios
de Deus. Há, sim, urna procura de certezas que é infantil,
exagerada, medrosa, e que se agarra cogamente á letra de
um texto ou a urna autoridade «profética».. . Nao seja esta
a atitude do cristáo ;

— é preciso também nao confundir as proposicóes da fé


com hipóteses ou teorías pessoais deste ou daquele grupo
grupo ou

— 104 _
AS SEITAS CONTEMPORÁNEAS 13

autor. Hoje em dia militas teses novas tém livre curso entre
católicos, mas nao representam fielmente o patrimonio da fé
católica.

É á luz dcstes principios que se deve analisar a afirmacáo


táo freqüente em nossos días: «Todas as religióes sao boas
ou sao equivalentes entro si». — Nao se pode negar que todas
as religióes contenham urna parcela da Verdade e de ética
sadia. Sim ; todo homem tem o senso religioso em si; por
conseguinte, há algo de comum e auténtico ñas manifestares
religiosas de todos os homens. Isto, porém, nao quer dizer
que todas as concretizacóes do senso religioso sejam igual
mente fiéis á verdade e ao bem. Visto que, por vezes, elas, se
contradizem entre si, deve haver algumas auténticas e outras
falsas. A muitos dos nossos contemporáneos é preciso afirmar
que existe verdade em questóes de religiáo, como a há em
matemática e ñas chamadas «ciencias exatas».

Por conseguinte, evite-se o sincretismo religioso ou a


(con)fusáo de Credos ou ainda o relativismo. Disto só re
dunda maior distanciamento em relasáo a verdade, que se
tornaría mais e mais opaca. O que importa a um cristáo, é
aderir á Palavra de Deus revelada por Jesús e professada
pela Igreja de Cristo.

Ademáis quem afirma que todas as religióes sao equiva


lentes entre.si, admite que, afinal de contas, nenhuma vale
a pena.

Quanto aos dogmas e aos misterios da fé, nao sao bar-


reiras para a inteligencia, mas sao simplesmente a expressáo
da verdade que Deus houve por bem revelar aos homens.
Compreende-se que Deus atinja a Verdade (que é Ele mesmo)
em sua infinitude, ao passo que a criatura só a pode atingir
de mancira finita e limitada. Conseqüentementc, é claro que
Deus podo revelar aos homens proposigóes cuja profundidade
a inteligencia humana nao alcanca plenamente; sao estas
proposicóes que se chamam «dogmas» ou «misterios da fé».
Perante estes, a inteligencia humana nño se comporta de
maneiru meramente passiva; cabe-lhe, ao contrario, investi
gar a credibilidade de tais proposicóes (quem as propós pela
primeira vez e como foram transmitidas posteriormente ?) ;
compete-lhe também ilustrar o conteúdo das proposic.óes
dogmáticas, pois estas podem ser penetradas pela razáo até
certo ponto ; caso se comprovasse que algum dogma é desar-

— 105 —
14 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

razoado ou absurdo, a sá razáo deveria rejeitá-lo sem hesi-


tagáo. A fé crista nada tem de ilógico ou incoerente; ao
contrario, ela convida a sá razáo a um diálogo amigo e
frutuoso.

4. Conclusao

Após as ponderales até aquí apresentadas, pode-se dizer


que, se as seitas tém um aspecto agitador e semi-irracional,
elas podem também ser encaradas como a manifestacáo pas-
sional e conturbada da saúde mental e afetiva da humanidade"
contemporánea. Com efeito, elas significam que o homem
nao se anestesiou perante o fascinio da máquina e da auto-
macáo; mas tira de seu íntimo a expressáo de urna procura
do Maior, do Transcendental ou do Infinito ; essa procura
é selvagem, bruta, mais sentimental do que formulada pela
razáo ; todavía é valiosa e auténtica.

Aos fiéis católicos toca a tarefa de responder a esses


anseios do homem moderno, apresentando-lhe a mensagem
evangélica de maneiru pura c lúcida, pois, em última análise,
o que o homem contemporáneo busca ñas seitas c o tesouro
da Palavra de Deus que Cristo trouxe á térra c que vive na
Tradicjáo do Povo do Deus ou un Tgrojn fundada por Cristo
e entregue a Pedro.

A propósito pode-se citar:

Jean Vernette, "La prolifération des sectes: question posee aux


Eglises", em "Études", tome 344, mai 1976, pp. 739-745.

ídem, "La rocrudescence des sectes, question posee á la pastorale".


Dossior Documonts-Episcopat, octobre 1975.

H.-Ch. Chéry, "Les sectes qui nous viennent de l'Oricnl". París.

P. Le Cabellec, "Les témoins de Jéhovah et la Foi Chrélienne".

"Fétes et Saisons", n? 292 : "Les Sectes".

"Fétes et Saisons". n<? 305, mai 1976 : "Sectes... La nouvelle vague".

— 106 —
Um livro em foco:

"a igreja e o homossexua!"

Em sintcso: Conformo noticia do "O Globo" do 29/XII/76, o Pe.


John McNeill S.J. publicou o livro "A Igreja e o homossoxual", em que
pretende apresentar o homossexualismo como prática normal a ser oficia
lizada pela Igreja e a socicdade. Para tanto, vale-se de razóes bíblicas,
psicológicas e sociológicas.

Á argumentagao, como é transmitida pela imprensa, pode-se responder


o seguinte :

a) Os autores bíblicos conheceram muito bem a prática do homos


sexualismo vigente no mundo pagáo (os gregos a apregoavam através de
obras filosóficas). E a repudiaram com suficiente conhecimento de causa.
Pode-se admitir que nao tenham tido a penetragSo psicológica no íntimo
do homossexual que hoje é facultada aos psicólogos e pastores de almas.
Esta penetracáo, porém, nio leva a retratar a condenacáo do homosse
xualismo como tal (que fica sendo sempre urna aberracSo física e moral),
mas induz os psicólogos e orientadores a procurarem compreender as
causas do comportamento erróneo dos homossexuais, a fim de se Ihes dar
o remedio adequado (psicoterapia c incentivo a que tentem sublimar seus
afetos e superar seu instinto de solidáo com alguma ocupacao adequada).

b) Nño so confundarn nmor c uso do soxo. Podo haver auténtico e


profundo amor sem este. Entro homossoxuais, o uso do soxo nao é expres-
sáo do amor, mas é procura estéiil de prazer, destituida de sentido e
finalidade.

c) O fato de que a Igreja aceita a cópula de marido e mulher


mesmo nos dias esteréis da esposa nao justifica a cópula estéril de
homossexuais. Na verdade, marido e mulher entregaram um ao outro o uso
dos seus corpos tais como a natureza os fez, ou seja, com a esterilidade
periódica feminina, que é protecSo e garantía da fecundidade da mulher.
Ora entre homossexuais a esterilidade está longe de ser tutela da fe-
cu ndidade!

d) A Igreja nao recusa a reconciliacáo aos homossexuais desde que


déem sinais sinceros de arrependimento e de procura de vida nova.

Eis por que nio se pode aceitar, na perspectiva da doutrina da


Igreja, a tese de McNeill apresentada pela reportagem.

Comentario: Aos 29/XII/1976, o jornal «O Globo»,


1' oaderno, p. 35, dava noticia da publicagáo, nos Estados
Unidos, de um livro do Pe. John J. McNeill S. J., com o título

— 107 —
16 «PERCUNTE E RESPONDEREMOS? 207/1977

«The Church and the homosexual» (A Igreja e o hornos-


sexual). O artigo suscitou surpresa no público, pois aprésenla
a nova maneira como um escritor católico julga poder encarar
e justificar o homossexualismo.

Solicitados a dizer algo sobre o assunto, publicamos as


reflexóes que se seguem, tomando por base exclusivamente
a página de jornal em foco. Como se sabe, as noticias da
imprensa nem sempre sao redigidas por pessoas especializadas
no respectivo assunto, de tal modo que muitas vezes nao
transmitem a integra dos fatos nem mesmo os aspectos mais
relevantes dos mesmos; tendem, antes, a despertar sensacio-
nalismo, que alardeia o público sem lhe deixar referenciais
para melhor julgar as sitúaseos reais.

Como quer que seja, comentaremos a noticia, procurando


apresentar a posicáo oficial da Igreja perante o problema
Janeado.

1. O conteúcfo do livro

1. O Pe. John McNeill S. J. é teólogo e um dos funda


dores de urna organizagáo novaiorquina chamada «Dignity»
para homossexuais católicos. Essa sociedade reúne homens
desejosos de discutir com seriedade seus sentimentos mais
íntimos. O Pe. McNeill, treinado em psicoterapia de grupo,
estuda no Instituto de Religiáo e Saúde de Nova Iorque, e
escreve para diversos periódicos. É doutor em Filosofía pela
Universidade de Louvain (Bélgica) e já foi professor uni
versitario.

O livro «The Church and the homosexual» 1 passou pela


censura antes de ser publicado. Finalmente, após dois anos
de hesitacáo por parte dos responsáveis, obteve permissáo
para ser impresso. Depois do vir a lume, está provocando
celeuma.

2. Qual seria propriamente a tese do livro ?

0 autor afirma que a Biblia nao condena o homossexua


lismo. Os escritores bíblicos, na sua época (até o fim do
séc. I d.C), nao tinham nojáo do homossexualismo como
hoje é entendido, ou seja, como conseqüéncia de disturbio
mental ou defeito psicopatológico; o homossexualismo, para

1 Sheed Andrews and McMoel, 211 páginas, 10 dólares.

— 108 —
«A IGREJA E O HOMOSSEXUAL» 17

eles, seria sempre o insultado de urna opcáo viciosa e per


versa do individuo homossexual. O homossexualismo era pra
ticado outrora pelos guerreiros que, tendo vencido urna ba-
talha, «sodomizavam» os inimigos; ora é táo somente esse
tipo de prática, decorrente da crueldade e do odio, que os
escritores bíblicos condenam.

A Biblia, pois, (o, com ola, a Moral crista), continua o


escritor, nao condena o homossexualismo praticado com amor,
compreensáo e carinho numa tranquila convivencia de dois
homens ou ditas mulheres.

A atividade homossexual nao é somente procura de pra-


zer momentáneo, mas 6 expressáo de amor, ou seja, de um
valor fundamental da pessoa humana.

DIr-se-á, porém : o amor é fecundo por si mesmo, e a


Igreja sempre insistiu na fecundidade do amor.

Sim, responde o Pe. McNeill... Todavia a Igreja últi


mamente evoluiu muito e aínda evoluirá. Ela aceita, por
excmplo, que os cónjuges tenham entre si relacóes sexuais
mesmo nos periodos de esterilidado da mulher. Ora, se isto
se dá entre homem e mulher, por que nao admitir que se
dé ontre duas pessoas do mesmo sexo ? O sexo é urna ex
pressáo do amor ; por conseguinte, deve ser lícito o exercicio
do sexo, desde que haja amor, mesmo que isto ocorra entre
pessoas homossexuais. Sao palavras atribuidas ao Pe. McNeill:

"A Igreja permitiu a publicado do meu livro, porque defendí nele o


direito do amor de duas pessoas, ainda que sejam do mesmo sexo.
Deferido o direito dessas pessoas se realizarem fisicamente. Esta é a
mensagem-chave do llvro. O sexo pode ser entre heterossexi>a!s ou entre
homossexuais desde que exista amor, desde que o amor seja o motivo
da uniao física. Note que nao estou apoiando atividades sexuais apenas
pelo prazcr; sou contra; mas quero dizer que aceito qualquer uniao moti
vada pelo amor. O fato de serem dois homens ou duas mulheres é real
mente secundáiio" (pág. citada, coluna 4).

Diz mais o autor que a nossa sociedade muito facilita


o amor livre, o sexo livre, a troca de casáis e urna serie de
experiencias absurdas. Todavia nao quer conceder aos homos
sexuais os mesmos direitos que tocam ao homem e á mulher
casados: «Sao eles as maiores vítimas desta sociedade que
tanto incentiva e facilita a promiscuidade» (ib. col. 4). Ora
isto, segundo o escritor, é hiprocrisia e injustioa.

— 109 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

John McNeill é da opiniáo (que ele atribuí a psicanalis-


tas e psicólogos e que contraria a Freud) de que os homos-
sexuais nao sao docntes pelo fato de terem inclinagáo para
o mesmo sexo, mas, sim, por causa das repressóes perversas
que sofrem por parte da sociedade. «Se houvesse um clima
social mais civilizado, esses homossexuais seriam perfeita-
mente saudávcis, nao loriam culpas, nao se esconderían!, nao
se scntii'iam diferentes, perseguidos» (ib.). Julga, porém, que
«dentro de algumas geragóes tudo entrará nos eixos», isto é,
os homossexuais seráo reconhecidos como pessoas sadias e
normáis.

Esta sumaria apresentagáo do conteúdo do livro sugere


algumas reflexóes.

2. A voz oficial ¡da Igreja

Antes de procurarmos penetrar no significado das posi-


cóes do escrito de John McNeill, convém observar que este
nao representa a voz oficial da Igreja, mas escreve táo so-
mente em nomo de urna corrento de pensadores, embora seja
sacerdote e tenha, segundo diz a reportagem, obtido a auto-
rizacáo eclesiástica para publicar o seu livro. O «Imprimi
potest» concedido pelos Superiores e censores do Pe. McNeill
significa, na melhor das hipóteses, que o livro podía ser im-
presso á guisa de estímulo e provocagáo ao estudo dos pro
blemas relacionados com o homossexualismo. É certo que os
homossexuais merecem ser compreendidos (o que nao quer
dizer:... justificados e apoiados ou incentivados); eles
sofrem um drama que pode ser, em parte, evitado ou mino
rado pelos demais homens (sem que se dé aprovagáo ao
homosssxualismo). Foi este, provavelmente, o objetivo que
as autoridades eclesiásticas tencionaram atingir quando per-
mitiram (como diz o jornal) a publicagáo do livro de McNeill.
A voz oficial da Igreja nao se modificou após a publicagáo
da Declaragáo sobre alguns Pontos de Ética Sexual por parte
da S. Congregagáo para a Doutrina da Fe aos 29/XII/75
(cf. PR 196/1976, pp. 139-150; 200/1976, pp. 337-348). É
precisamente neste documento que se léem as seguintes
observagóes:

"Nos nossos días, em contradigo com o ensino constante do magis


terio e com o sentir moral do povo cristáo, há alguns que, fundando-se
em observares de ordem psicológica, chegam a julgar com indulgencia,

— 110 —
«A IGREJA E O HOMOSSEXUAL» 19

e até mesmo a desculpar completamente, as relacoes homossexuais em


determinadas pessoas...

Os atos de homossexualidade sao intrínsecamente desordenados e


nao podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovagáo" (n? 8).

Contudo a Igreja nao pretende repudiar com dureza


aqueles que padecem de homossexualismo. Antes acrescenta
as seguintes ponderagócs:

"Certamente na atividade pastoral os homossexuais nao de ser aco-


Inidos com compreensao e apoiados na esperanca de superar as próprias
dificuldades pessoais e a sua inadaptasáo social. A sua culpabilidade há
de ser julgada com prudencia. No entanto, nenhum método pastoral pode
ser empregado que admita serem esses atos conformes com a condicáo
de tais pessoas e, por conseguinte, venha a conceder a estas urna justi
ficativa moral. Segundo a ordem moral objetiva, as relacoes homossexuais
sao atos destituidos da sua regra essencial e indispensável" (ib. n? 8).

Esta Declaragáo, publicada em fins de 1975 inspirou


muitos bispos e teólogos a escrever em 1976 comunicagóes,
estudos e artigos que contribuiram para evidenciar e explici-
tar os principios contidos em tal documento oficial da Igreja.
Nao pode, pois, haver hesitacáo por parte de católicos e
náo-católicos a respeito do magisterio da Igreja no tocante
ao homossexualismo. Este é considerado como antinatural e,
por isto, aberrante, embora as pessoas marcadas por este
mal merecam ser ajudadas ou para que recuperem a nornia-
lidade sexual ou para que consigam minorar o sofrimento
ao qual se véem sujeitas.

Passemos agora a analisar alguns dos tragos mais signi


ficativos do livro de John McNeill.

3. Revendo os tragos salientes. . .

Sao tres os principáis pontos do escrito de John McNeill


que importa comentar em particular.

3.1. Biblia o- homossexualismo

1. Para facilitar o juízo do leitor, citamos de imcdiato


os textos bíblicos que mais adequados parecom quando se
trata de avallar o homossexualismo :

— 111 —
20 -rPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

Rm 1, 24-27: Sao Paulo fala da idolatría e aponta-a como


causa do obscureciniento e das aberraeóes moráis dos pagaos.
Eis as suas palavras textuais :

"Deus entregou-os (os gentíos), segundo o desejo dos seus coracdes,


á impureza em que eles mesmos desonraram os seus corpos. Eles trocaram
a verdade de Deus pela mentira e adoraran) e serviram a criatura em
lugar do Criador, quo 6 bendito pelos sóculos. Amém. Por Isto Deus os
entrcgou a paixdes avillantes: suas muihores mudaram as relajóos naturals
por relacdos contra a natureza; igualmente os homens, deixando a relacSo
natural com a mulher, arderam em desejo uns para com os outros, prati-
cando torpezas homens com homens e recebondo em si mesmos a paga
da sua aberracáo".

Em ICor 6,9s diz o Apostólo :

"Nao vos iludáis ! Nem os efeminados, nem os sodomitas, nem os


ladrees, nem os avarentos, nem os bébados, nem os injuriosos herdarao
o Reino de Deus".

Em lTm l,9s, aínda se lé :

"Sabemos que a Lei... é destinada aos iníquos e rebeldes..., impu


ros, pederastas, me reactores de escravos, mentirosos... e para tudo o
que se oponha á s3 doutrina".

Tenha-se em vista também o famoso episodio dos homens


de Sodoma, cujo comportamento homossexual foi a causa
(ou, ao menos, urna das principáis causas) pela qual Deus
quis punir a cidade de Sodoma; cf. Gn 19,1-29. Foi precisa
mente este episodio que deu origem a palavra «Sodomía»,
sinónima de «prática homossexual». Por certo, tal compor
tamento foi severamente punido polo Senhor.

2. A propósito destes textos, principalmente os do Novo


Testamento, que proferem explícito juízo sobre a sodomía,
note-se o seguinte:

a) Sao Paulo conhecia bem a vida das cidades gregas


e as baixas práticas luxuriosas nelas vigentes. Conhecia, pois,
o que hoje se chama «homossexualismo» e é este vicio que
ele, como autor sagrado, tenciona condenar.

O mundo grego, com efeito, era imbuido das idéias que


a filosofía de Platáo e outros autores disseminavam : Platáo,
por exemplo, em alguns diálogos seus, apregoava o homoero-
tismo, que é urna forma especial de homossexualismo, e que
exalta a inclinac.áo erótica de um homem diante da corpo-

— 112 —
<¿A IGREJA E O HOMOSSEXUAL» 21

reidade de um parceiro do mesmo sexo; haveria agrado


mutuo e admiracáo recíproca da beloza, da forga, da vitali-
dade corpórea entre dois homens. Tais atitudes chegavam a
ser glorificadas por escritores gregos, que assim deixaram
marcas ñas popuJacóes do Imperio greco-romano, onde Sao
Paulo pregava o Evangelho.

b) Podc-so admitir que Sao Paulo o os autores bíblicos


em geral, embora soubessem definir e repudiar nítidamente
as práticas homossexuais, nao tivessem a nocáo psicológica
mente elaborada do pecado homossexual que hoje em dia os
psiquiatras e pastores de almas podem ter. Este aprofunda-
mento psicológico leva-nos a reconhecer melhor os fatores que
subjetivamente atenuam ou anulam o mal do vicio. Isto,
porém, nao quer dizer que em si o homossexualismo nao seja
urna aberracáo ou um vicio contra a natureza.

O reconhecimento das condicóes que diminuem ou apa-


gam a culpa subjetiva, nao deve lavar a oficializar o homos-
Bexualismo e cancelar a sua nota de «antinatural» e aberra-
gáo (física e moral). O homossexualismo fica sendo hediondo
como tal; mas, no trato com os homossexuais, os pastores
e ministros religiosos (e, com eles, os demais homens) nao
os devem considerar necessariamente como pessoas volunta
riamente perversas e, por isto, culpadas ; antes, háo de pro
curar compreender por que sao tais, evitando juízos precipi
tados, pois, na verdade, podem ser pessoas mais «vítimas»
do que «réus» perante a sociedade.

Tenham-se em vista as seguintes palavras de Paulo VI


na encíclica «Humanae Vitae». Repudiando os anticoncepcio-
nais (o que certamente foi arduo para muitos fiéis), o S.
Padre acrescentava algo que posteriormente a Declaracáo
<'Persona Humana» reproduziu :

"Nfio minimizar em nada a doutrina salutar de Cristo é forma de


caridade eminente para com as almas. Mas isto deve andar sempre acom-
panhado também da paciencia e da bondade de que o próprlo Senhor
deu o exemplo ao tratar com os homens. Tendo vlndo para salvar e nao
para julgar. Ele fol Intransigente com o mal, mas misericordioso para com
as pessoas" (Ene. "Humanae Vltae" n<? 29; Declaracáo "Persona Hu
mana" n? 10).

Em qualquer hipótese, porém, a atitude correta frente


aos homossexuais nunca será a procura de justificativa e
legalizacáo, mas, sim, a de empregar os esforcos cabíveis

— 113 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

para que tais pessoas ou se recupei'em (ao menos parcial


mente) ou possam viver a sua solidáo muña visáo de fé e
de entrega ao Criador (isto é especialmente desejável no
caso de homossexuais católicos, como sao aqueles a quem se
dirige habitualmente o Pe. McNeill na organizacáo «Dignity»).

Os autores bíblicos, se conhecesscm o homossexualismo


como hoje o conhccomos, forinm eertamenle proposto a dis-
tincáo ácima. Mantendo a condenagáo da aberragáo ou do
vicio, teriam olhado para o homem ou a mulher homossexual
como o Cristo olhou para a mulher adúltera (cf. Jo 8,1-11) :
o Senhor nao a quis punir como ré, mas lhe disse: «Vai, e
de agora em diante nao peques mais» (Ja 8,11). O que equi
vale a reconhecer o mal como mal e a repudiá-lo, embora
a mulher nao tenha sido apedrejada.

«Nao peques mais» ou «nao voltes a cometer os atos que


tens praticado», tal é a resposta que, em qualquer hipótese,
o ministro do Évangelho deve dar áquele que se entrega ao
homossexualismo.

3.2. Homossexualismo e perdóo

John McNeill chama a atencáo para o tratamento


— aparentemente ambiguo — que a Igreja oferece aos ho
mossexuais ...

Com efeito, diz: há aqueles que, sem ter um parceiro


fixo, se unem sexualmente a qualquer companheiro (mesmo
descónhecido) quando se sentem violentamente impelidos pela
paixáo — o que pode acontecer, por exemplo, num sábado
á noite quando se reunem varios homens igualmente marca
dos pela anormalidade para beber algo num bar. No domingo,
o homossexual católico, arrependido do que fez, vai-se con-
fessar do pecado e recebe a absolvigáo, podendo até mesmo
comungar na S. Missa. — Todavia em ocasiáo próxima (tai-
vez no sábado seguinte) volta a reunir-se com o mesmo grupo
ou outro grupo e cede de novo á tentacáo. Comete o ato
homossexual, mas no domingo torna a confessar-se e recebe
o perdió. E assim se repete a historia indefinidamente, resul
tando em aparéncia de honestidade e piedade para o homos
sexual que nao tem parceiro fixo.

Ao contrario, diz McNeill, os homossexuais que tém com


panheiro com o qual habitualmente convivem em uniáo de

— 114 —
«A IGREJA E O HOMOSSEXUAL^ 23

amor firme e estável, nao sao aceites pela Igreja no sacra


mento da reconciliacáo e da absolvigáo. Seria justa essa
praxe ?

— A esta observagáo de McNeill devem-se fazer dois


comentarios: o primeiro referente á auténtica atitude da
Igreja; o segundo atinente ao conceito de amor (título 3.3.
dcste artigo).

Vejamos, pois, a auténtica atitude da Igreja frente a


quem falha.

Nenhum homossexual é excluido do sacramento da re


conciliacáo pelo simples fato de ser homossexual. Todavía é
necessário que, como qualquer outro penitente, se arrependa
sinceramente do pecado e conceba o firme propósito de nao
voltar a ele e, conseqüentemente, de evitar as ocasióes que
próxima ou remotamente conduzam ao pecado. Sem que tenha
estas disposicóes, nao é possível ministrar-lhe a absolvicáo
sacramental. Isto se compreende bem: o repudio sincero de
um ato incluí naturalmente o desejo profundo de evitar as
ocasióes de o repetir; sem o que, o arrependimento é mais
verbal do que genuino. Está claro, porém, que o penitente,
aínda que. sinceramente disposto a evitar as ocasióes de pe
cado, pode ser traído por sua própria natureza (nao suficien
temente dominada, mas aínda espontánea demais). Recairá
talvez, mas á revelia das medidas tomadas para nao recair
e como que colhido de surpresa. Neste caso, terá a oportuni-
dade de nova absolvigáo se renovar com plena sinceridade o
propósito de retomar a luta contra o vicio (aproveitando-se
naturalmente das ligóes da experiencia anterior). Se, porém,
o penitente reincide habitualmente no mesmo pecado e nao
dá mostras de se empenhar sinceramente na luta contra o
mesmo, o sacerdote tem a obrigagáo de nao o absolver roti-
neiramente, mas, antes, procurar novos mcios que o ajudem
a se desviar do mau caminho.

Quanto ao caso dos homossexuais que vivem habitual


mente com um eompanheiro de vida estável, nao se lhes
poderá ministrar a reconciliagáo, a menos que resolvam ter
minar essa uniáo estável e nao se deixar envolver em ne-
nhuma outra (nem estável nem transitoria). Esta condicáo
— muito lógica e compreensível — faz que os homossexuais
«casados» nem se aproximem do sacramento da reconcilia-
Cáo, pois nutrem preconcebida e sistemáticamente o hábito,

— 115 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

ao passo que aqueles que nao tém uniáo estável estáo livres
para conceber urna mudanga de vida adequada.

Ve-se, pois, que a atitude da Igreja, longe de ser injusta


para com uns, é coerente com os principios do bem e justa
(ou mesmo benévola) para com todos.

Dir-se-á : mas os que cntrnm otn uniáo estável fazem-no


por amor... Ora o amor legitima o comporlamcnto humano
que os legistas e juristas condenam.

Que dizer a propósito ?

3.3. «Ama, e faze o que quiseres» (S. Agostinho)

A famosa frase de S. Agostinho poderia ser evocada


como fundamento da legitimacáo de urna uniáo homossexual
estável. íl o que faz McNeill.. .

1. A propósito faz-se mister distinguir entre genuino


amor e uso do sexo.

O genuino amor 6 benevolencia ou querer bem a outra


pessoa. As vezes implica sacrificio ou renuncia da parte de
quem ama. Dlz-se popularmente que «amar é querer construir
o outro, e nao querer o outro já construido». Ora, para cons
truir alguém, é necessário, nao raro, que a pessoa dé,... e
dé de si mesma sem pensar em compensagáo no plano da
sensibilidadel. Donde se vé que nao se deve identificar amor
com fruigáo sexual ou com uso do sexo.

O uso do sexo é urna expressáo especial do amor, nao


necessariamente incluida no conceito de amor como tal. Com
efeito, o uso do sexo supóe estabilidade de vida entre um
homem e urna mulher livres que se queiram espontáneamente
comprometer a compartilhar entre si o que tém de mais
íntimo e pessoal, por inspiragáo de amor-benevoléncia. O uso
do sexo supóe o namoro, o noivado e, finalmente, o compro-
misso de entrega mutua total assumido de maneira incondi
cional, estável e pública. Só depois destas etapas o uso do
sexo vem a ser a manifestagáo auténtica de genuino amor.
O amor torna-se entáo unitivo e fecundo, como é de sua
natureza mesma.

1 Na verdade, 6 Imposalvel dar sem rocobor, pols "é dando que se


recebe". Todavía oseo recebor muitas vezes nfio é senáo um recobor espi
ritual e transcendental, cuja tonte ó o próprlo Deus.

— 116 —
«A IGREJA E O HOMOSSEXUAL» 25

Ora entre homossexuais diga-se, por hipótese, que possa


haver amizade no sentido de um querer bem entre amigos ;
essa amizade, porém, nao pode chegar ao sexo, pois a natu-
reza nao propicia fisiológicamente o sexo no caso. O sexo
seria entáo procura hedonista de prazer e fruigáo, pois nao
teína a característica natural da fecundidade que o sexo tem
quando exercido por quem de diroito, ou seja, pelo homem
e a. mullici' un uniáo conjugal.

2. Replicará alguém : mas a Igreja aceita que esposo


e esposa tenham relacóes sexuais mesmo nos períodos este
réis da mulhcr, quando o sexq por si nao leva á fecundidade.
Entáo como nao aceitar a uniáo sexual estéril dos homosse
xuais desde que proceda de ternura semelhante a de marido
e mulhcr ?

Eis a resposta :

Entre esposo e esposa a esterilidade é algo de contin


gente e periódico; é mesmo a protegáo que a natureza dá
á fecundidade para que esta possa existir sem desgaste ex-
cessivo para a mulher. Ela so ocorre, porlanto, em vista da
fecundidade." Além do mais, o esposo e a esposa fizeram a
doacáo mutua dos respectivos corpos tais como eles sao ou
como a natureza os constituiu; é esta a índole característica
do matrimonio, instituido pela natureza e santificado polo
sacramento. Por conseguinte, entende-se que esposo e esposa
tenham entre si relagoes sexuais sempre que estas procedam
de amor reto, pois este amor entre eles está plenamente jus
tificado e só nao é fecundo em certos dias porque a própria
natureza (feita pelo Criador) nao chega á fecundidade; a
eslerilidade entre eles está inserida nura contexto de fecun-
didadtí. Por conseguinte, no caso de marido e mulher que se
unem nos dias esteréis, nada ha que contrarié a natureza
e o timor, ao passo que ñas relacóes sexuais entre duas pes-
soas do mesmo sexo a natureza é subvertida. A esterilidade
entre homossexuais está longe de ser tutela da fecundidade,
mus 6 pura esterilidade e tibcrracíto. Portante o amor entre
tais pessoas so.tem sentido se ó generosa doagüo até o uso
do sexo exclusive.

Unía vez passados em revista os principáis tópicos do


livro de McNuiil tais como nos sao apresentados pela repor-
tagem, detemo-nos aínda rápidamente sobre unía

— 117 —
26 sPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

4. Reflexfio final

O Pe. McNeill nao é o primeiro autor que pretende legi


timar e oficializar o homossexualismo.

Deve-se reconhecer a intengáo humanitaria daqueles que


propóem urna nova maneira de considerar e tratar as pes-
soas que sofrem do homossexualismo. A psicología moderna
permite dizer que nem todos sao voluntariamente perversos,
mas, antes, sao merecedores dos cuidados e da atencáo que
se podem tributar a um doente.

Todavía nao se pode, em sá razáo e consciéncia, ir além


deste passo. Querer apregoar a normalidade das relacóes
homossexuais e equipará-las as heterossexuais significa sim-
plesmente ignorar a realidade da natureza; cada criatura
tem sua razáo de ser e sua finalidade, de tal modo que, se
alguém nao respeita a finalidade natural de cada criatura,
longe de ser beneficiado, destrói a criatura e frustra-se a
si mesmo como usuario inepto.

De modo particular, o aparelho genital masculino e o


feminino tém sua índole e sua finalidade próprias. Existe cada
qual em vista de urna fungáo bem definida, como o olho, o
ouvido, os pulmóes, no ser humano, existem em vista de
funcóes bem definidas. Assim como nao tem sentido querer
captar o som com os olhos e as cores com os ouvidos, nao
tem sentido aplicar a aparelho genital masculino a outro que
nao seja o feminino. Caso isto seja feito, as fungóes nao se
realizam, tem-se urna aberracáo, urna caricatura, urna farsa.
Esta, caso venha a ser praticada, seja reconhecida como
farsa, devida a urna tara; nunca, porém, poderá ser reco
nhecida como algo de auténtico, como nunca se reconhecerá
como auténtica a tentativa de digerir com os pulmóes e res
pirar com o estómago.

Pode haver amizade e amor-benevoléncia sem uso do


sexo ; a mentalidade moderna muito contribuiu para desfi
gurar o conceito de amor, identificando-o geralmente com o
de prática sexual. Nao há dúvida, c muito difícil que dois
homossexuais nutram amizade recíproca sem experimentar
a tentacáo do sexo. Por isto, o homem, afetado por este atra-
tivo, há que procurar viver a sos ou com familiares (do sexo
feminino) mais chegados; há também de se manter em linha
de austeridade ñas suas relacóes sociais. Procure sublimar

— 118 —
*A IGREJA E O HOMOSSEXUAL* 27

suas tendencias homossexuais transfermdo-as para objetos


aptos a polarizar-lhe o interesse (trabalho, estudo, pesquisa,
esporte...). É claro que varias destas cautelas significaráo,
para o homossexual, urna cruz. Todavía ele nao é a única
criatura chamada a carregar a cruz; todos a carregam, cada
um do seu modo. Mesmo unido a outro homem, o homosse
xual tem o seu quinháo de cruz (diferente, sem dúvida, do
que ele oarrega a sos) ; ora ó mais pesada a cruz de quem
cede a aberracóes contra a natureza do que a de quem se
preserva destas. Donde se vé que a solidáo da qual padecem
os homossexuais que resistem ao vicio, se nao é um estado,
humanamente falando, ideal, pode ser um estado de digni-
dade e honradez, o que certamente nao acontece no caso das
unióes homossexuais.

Muito sabiamente observa o Prof. Johannes Gründel, de


Munique, que, sem dúvida, é avanzadamente aberto a novas
posicóes:

"Urna apreciacáo diferenciada, um cuidadoso trato e urna direcáo


pastoral daqueles homens que possuem inclinacáo para o mesmo sexo,
revelam-se hoje absolutamente necessários. Mas cuidado pastoral nao signi
fica que se legalizem ou se dé a béngáo eclesiástica ás associac.5es de
amizade entre homossexuais nem que se idealizem tais comportamentos e
tendencias, embora nao se desqualifiquem socialmente os atingidos, mas
antes se Ihes propicie — conforme as possibil idades e com esforgo serio —
a participado na vida religiosa e eclesiástica.

... É preciso advertir homens predispostos homotropicamente para


nSo escolherem profissóes que Ihes dém ocasISo especial para entrar em
contato com menores e os seduzirem. Em tal caso, esses homens nao
podem assumir, de forma alguma, urna profissáo pedagógica ou pastoral.
Mas também nos parece tolice e ilusio tentar sanar um homossexualismo
que se reveiou derivado da constituicáo1 por meio de um sadio matrimonio"
("Temas atuais da teología moral". Petrópolis 1973, pp. 95-97).

É com as palavras do Prof. Gründel que encerramos o


comentario de um livro e de urna tendencia que, em vez de
construir o homem e a sociedade, só podem contribuir para
maior desatino de todos.

A guisa de bibliografía, citamos :

S. Congregagáo para a Doutrina da Fé, DeclaracSo "Persona Humana".


PR 196/1976, pp 139-150; 200/1976, pp. 337-348.
"La Documentation Catholique" n? 1692 e 1693 de 15/11/76 e 7/111/76
respectivamente (Comentarios da referida Declaragáo).
Johannes Gründel, "Temas atuais da Teología Moral". Petrópolis 1973.

1 Isto é, congénito (nota da redagáo).

— 119 —
Doís depoimentos pungentes:

doentes mentáis os dissidentes políticos ?

Em junho de 1976, foi internado em hospital psiquiátrico


da U.R.S.S. o jovem Alexandro Argentov, cristáo ortodoxo
de 25 anos de idade, cujos pais sao ateus militantes. Os mo
tivos da internac/áo foram as crengas religiosas do rapaz.

Através do Samizdát (movimento que divulga no estran-


geiro noticias clandestinas da U.R.S.S.), foi dada á luz no
Ocidente a carta que esse jovem escreveu ao Patriarca Pimen,
de Moscou, descreyendo a sua situagáo no hosiptal c psdindo
a intervengáo do prelado em favor da vítima.

A esta carta segue-se, nestas páginas, o testemunho de


um grupo de amigos de Argentov, que afirmam a plena
sanidade mental do jovem cristáo.

Estes dois documentos sao traduzidos do francés, língua


em que os publicou o periódico «La Documentation Catho-
lique» n? 1706, de 17/X/76, pp. S93s.

1. Carta ao Patriarca Pimen

Assim escreve o jovem Alcxandre Argentov em sea


hospital psiquiátrico :

"Santidade,

Dirijo-me a Vos como Chefe da Igreja russa ortodoxa, a


fim de Vos pedir que me prestéis socorro.

Aos 14 de Junho do corrente ano, embora jsmais tivesse


sido submetido a qualquer tipo de controle psiquiátrico, inter-
naram-me por torca em urna Clínica de Alienados. Segundo
me declararam abertamente os médicos, a única razáo da

— 120 —
DISSIDENTES POLÍTICOS NA U.R.S.S. 29

minha internagao era a minha fé em Deus e a minha pertenga


á Igreja Ortodoxa'.

Embora esteja em gozo de boa saúde e tenha excelente


sonó, aqui dáo-me, com insistencia, soporíferos. Se bem que
eu seja um homem de caráter equánime e pacato, coagem-me
a tomar um medicamento fortemente psicotrópico (aminasina),
a titulo de me tranquilizar, e ameacam-me, em caso de
recusa, de me impor um tratamento de injegóes.

Vejo-me em meio a loucos furiosos, que estao amarrados


aos seus leitos por meio de correias.

Estou obrigado a ouvir os seus berros selvagens; esse


ambiente, assim como a acáo dos medicamentos, me oprime.
Mas o que me acabrunha ainda mais, é o comportamento dos
médicos a meu respeito: ignorando por completo tudo o que
concerne á reügiao, proeuram insistentemente persuadir-me
de que as minhas crengas religiosas sao, na realidede, urna
doenga psíquica. Sustentam que a religiáo crista proibe aos
fiéis a defesa da patria,... que os progressos da aviagao e
das ciencias do universo provam que nao há Deus,... que
os eclesiásticos celebram os oficios religiosos únicamente a
troco de dinheiro,... que os jovens cristáos sao fundamen
talmente idiotas patológicos.

Se bem que meus genitores sejam ateus militantes, con-


sideram-me como um homem de espirito sadio; exigiram, mas
em váo, que me facam sair desta casa de alienados. Os me
cos opuseram-lhes urna recusa, pretextando que eu era um
doente psíquico e que eu precisava de seguir um tratamento.

1 Em outra carta aberla, dirigida ao Presidente do Conselho para os


Assuntos Religiosos junto ao Conselho dos Ministros da U.R.S.S. e assi-
nada por váiios amigos e conhecidos de Argcntov, acha-se reproduzido o
diálogo seguinle entre o jovem internado c um médico :

— 'Vocé, portante eré em Deüs ?

— Sim, creío.

— E vocé, vai á igreja ?

— Vou.

— Mas entáo como é que vocé pode crer em nossa época e rezar
dianto dos icones ?'

— 121 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

As advertencias do médico, segundo as quais aqui 'me


libertariam de toda essa cretinice' — ele tinha em vista a fé
em Deus —, espantaram-me pelo que tém de desumano ;
mas o que atualmente fazem de mim, prova que tais palavras
nao eram vas ameacas.

Santidade, tende a bondade de interceder em meu favor.


E, se isto Vos é impossível, abencoai-me, ao menos, em
silencio, para que eu possa testemunhar a minha fé pelo
martirio.
21 de junho de 1976

(a) Alexandre Argentov"

Segue-se o depoimenlo de familiares e amigos de Ar


gentov a respeito do doloroso caso.

2. Apelo á 'opiniao pública

"Aos 14 de junho de 1976, Alexandre Alexandrovitch


Argentov, nascido em 1951, cristáo ortodoxo, recebia urna con-
vocacáo para ir ter ao Departamento de Recrutamento Re
gional de Touchino, suburbio de Moscou. Lá deram-lhe a
ordem de se apresentar com urgencia no Dispensario Psiquiá
trico do Distrito para ser examinsdo. Nun-ca antes A. A. Ar
gentov passara por controle psiquiátrico.

Desde a sua chegada, pediram-lhe que mostrasse os seus


papéis, os quais Ihe foram ¡mediatamente confiscados pelo
pessoal de enfermagem. O médico (cujo nome nao nos é
conhecido) deciarou entao a A. A. Argentov que a única razio
de estar ele detido eram as suas conviccóes religiosas. E
acrescentou: 'Váo-te libertar de toda-arenca religiosa'. A seguir,
os enfermeiros levaram Argentov, epesar dos seus protestos,
ao Hospital Psiquiátrico n? 14 de Moscou e o internaram na
3? Secgáo, onde ainda se encontra atualmente (o médico
encarregado dessa Seccáo chama-se Degtiarev Simón Moí-
seevitch). Retiraram com violencia urna cruz que Argentov
trazia consigo.

Nos, abáixo-assinados, que bem conhecemos Argentov há


varios anos, julgamos ser nosso dever declarar que é um
homem mentalmente sadio e que a sua internacáo forcada em
Hospital Psiquiátrico é ilegal e desumana.

— 122 _
DISSIDENTES POLÍTICOS NA U.R.S.S. 31

Exigimos que ¡mediatamente deixem sair de um Hospital


de Alienados um homem mentalmente sadio e que castiguem
as pessoas que se tornaram culpadas de táo grave delito.

Lancamos um apelo á opiniáo pública soviética e mundial


para que intervenha em favor de Argentov.

Foram enviadas copias da presente declaracáo ao Pro


curador do Distrito de Touchino (suburbio de Moscou), ao
Ministro da Saúde Pública da U.R.S.S. e ao Secretario Geral
do Conselho Ecuménico das Igrejas.

(a) T. A. Argentova
H. B. Blokin
A. A. Bougayan
C. A. Boudarov
B. B. Bourdioug
M. Bedenski
D. K. Bolskaia
M. A. Probatov
A. K. Sidorov
G. M. Chimarov

Moscou, aos 16 de junho de 1976".

Estes dois depoimentos fazem eco ao que já publicamos


em PR 199/1976, pp. 279-293, a respeito da psiquiatría posta
a servico da ideología imperante na U.R.S.S.. É notorio
que os cidadáos dissidentes ideológicos e políticos sao ai tra
tados como doentes psíquicos — o que se explica do se-
guinte modo :

Se a filosofía normativa e normal na U.R.S.S. c o


marxismo-leninismo, entende-se que os cidadáos nao confor
mistas sejam tidos como anormais naquele ¡menso país. Per-
gunta-se, porém: os criterios de um médico nao nao de ser
os da própria medicina e táo sao somente estes ? — í: licito
a um medico declarar doente mental um determinado cida-
dáo pelo fato de nao compartilhar a filosofía materialista e
atéia do seu governo? Se os criterios para se reconhecer a
sanidade mental sao ideológicos, é válida a recíproca: doente
mental é todo cidadáo que professe o marxismo ou o mate
rialismo.

— 123 —
32 «PERPUNTE E RESPONDEREMOS* 207/1977

Na verdade, medicina (ou ciencia) e interesses parti


darios políticos devem ser independentes entre si. O médico
que se norteie por razóes partidarias políticas na formulagáo
de seus diagnósticos, já nao é médico; merece descrédito; é
um político partidario, que abusa dos valores da medicina
para prejudicar setis clientes em favor de urna minoría pre
potente o imperialista.

Possam os dois depoimentos aquí transcritos contribuir


para o esclarecimento e a formaejio da opiniáo pública bra-
sileira a respeito do marxismo e de seus procedimentos
habituáis !

(Conlinuacáo da 3? capa)
mos ainda a reuniao dos dados e a aprecíacáo crílica sobre o pensamento.
brasileiro neste aspecto.
A periodizacáo é ponto alto do trabalho. Balizando o pensamento
católico pela crise do 1873, o autor pode estabelecer urna justa proporgao
sendo a obra de slnlese — de conjunto do pensamento católico bra
sileiro, (iel á düerenca entre o que houve de reproducáo e o que de cria-
iividade em nosso pensamento.
Certos pontos, "axiais", como diria Jaspers, foram captados pelo
autor com facilidade : o das conversSes ao catolicismo (Julio María, 1800;
Joaqulm Nabuco, 1892; Joaquim Felicio dos Santos, 1897); o das tomadas
de posícáo na questáo religiosa (Zacarías de Gois e Vasconcelos, Antonio
Ferreira Víana e candido Mendes de Almeida); o tradicionalismo de Laet;
a sensibilidade Inclusive social, do Julio María — "povo superticioso, igno
rante élite célica, agnóstica"; a pastoral do D. Sebastiáo Leme; a fundagáo
do Centro D. Vital; a transigió do Jackson de Figueiredo para Alceu
Amoroso Lima, e outros.

Outro ponto alto da obra ó o último capitulo, "a dialética da ciencia


e da fé" no qual Villaca estuda a obra de dois religiosos que, em con
textos diferentes, estabeleceram tal retaclonamento: o botánico Freí José
Mariano da Conceicao Velloso, no século XIX, e o físico padre Francisco
Xavier Roser, nesto século. Sua conclusflo, a propósito da obra deste último,
vem de encontró a muito que se tem felto em termos de Historia e Fllosolia
da Ciencia: "Confrontar filosofía e física ó tarefa que constituí um desafio
para a nossa goracáo..." (p. 197).
Pederíamos Ismbrar, também, que a obra ganharia em conclusoes
se expandisse alguns pontos menos desenvolvidos : a difusao das idéias
do Seminario de Olínda pelo interior do Nordeste ; as posieñes regalietas
no Impóiio ; a ranovacáo. material e teológica, das Ordens religiosas com
o advento da República; o a articulado do pensamento brasllelro com
o europeu.

Toda sinlese, porém, envolve por definí;3o o difícil problema de


selecionar o, sem dúvida, o autor saiu-se muito bem nos seus cortes
históricos e na atiibuigao das proporcionalidades.
Obra, pots, fundamental, a partir da qual necessanamente seráo assen-
tades es estudos posteriores sobro o tema.

— 124 —
Os Bispos da Alemanha

aínda o exorcismo

Em sintese : Um episodio de suposta possessáo diabólica ocorrido


na Baviera suscilou urna Declaracao do episcopado alemáo a respetto da
existencia dos anjos bons e maus aos 22 de selembro de 1976.
Os Bispos afirmam a constante doutrina da Igreja (baseada no teste-
munho da S. Escritura), que sempre professou a realidade dos anjcs bons
e dos demonios. Estes últimos sao anjos, que, abusando de sua liberdade,
se tornaram infcnsos a Deus e aos homens, embora sujeilos ao poder do
Criador e á senhoria do Cristo Jesús.

Quanto á possessáo diabólica ou á acao extraordinaria dos anjos


maus sobre os homens, a Declaracáo dos Srs. Bispos a reconhece como
possivel, embora afirme a necessidade de prudencia e cautela para se
diagnosticaren! os casos que a voz popular considera como "de possessSo
diabólica". Os criterios apontados outrora pelo Ritual Romano para se
averiguar a ocorréncia da possessSo diabólica estao sendo revistos, pois
os antigos tendiam a admitir a possessáo onde hoje se reconhecem táo
somente estados psicopatológicos.

A Declararlo do episcopado alemáo tem autoridade, pois se trata


de um documento emanado daqueles que, "com a sucessSo do episcopado,
receberam o cansma seguro da verdade" (Const. "Dei Verbum" n1? 8, do
Concillo do Vaticano II).

Comentario: O tema «exorcismo», cspalhafatosamente


lancado ao público pelo livro e o filme «O Exorcista», con
tinua em voga.

Últimamente na Alemanha ocorreu um caso que merece


atengáo pelo significado de que se revestiu c a Declaracáo
que ele provocou. A TV-Globo, no scu programa «O Fantás
tico» de 2/1/77, chamava a atengáo para o fato: apresentou
urna entrevista de um sacerdote que, devidamente autori
zado, aplicou o exorcismo a unía jovem doente, que seis mé
dicos nao haviam conseguido curar. As imagens c as pala-
vras do programa impresskmaram muito o público brasileiro.
Eis por que nos sentimos na obrigacáo de dizer urna palavra
a respeito, esclarecendo os fatos a'partir de fonte auténtica
e abalizada. Cf. «La Documentation Catholique» n" 1709,
5/XII/1976, pp. 1038s.

— 125 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

Em coméeos de 1976, na regiáo de Klingenberg (Ba-


viera), a jovem Anneliese Michel, de 22 anos de idade, sofría
de crises de tipo epiléptico... A renitencia e a hediondez
do mal levaram os genitores e amigos a pedir ao Sr. Bispo
de Würzburg (diocese local), Mons. Stangl, que permitisse
a aplicacáo do exorcismo» á jovem enferma. O prelado de-
signou ontáo dois sacerdotes para que exorcizassem a menina
tida como posscssa. Estes dois ministros pralicaram o exor
cismo durante dois meses; a jovem entrementes recusava
alimentar-se. Faleceu finalmente em principio de julho de
1976. Após o desenlace da enferma, o Sr. Bispo de Würzburg
foi acusado de homicidio involuntario, de modo que se abriu
um inquérito judiciário a propósito.

Como se compreende, o caso interessou o público em


geral. Foi o que moveu os Bispos da Alemán-ha, reunidos em
assembléia plenária de sua Conferencia Episcopal, a publicar
a Declaragáo que adiante transcrevemos em traducáo por
tuguesa. O oiiginal alemáo foi publicado pelo jornal dioce
sano de Colonia «Kirchlicher Anzeiger für die Erzdioezese
Koln» de V/Xl'76 e dado á luz em francés pelo periódico
«La Documentation Catholique» n? 1709, de 5/XII/76,
pp. 103Ss.

1. O texto da Deciara^áo

Eis o documento em foco :

"Visto que os ¡nquéritos movidos pela justica e as ins


tancias competentes da I g reja vao seguindo o seu curso,
ainda nao é possível pronunciarmo-nos definitivamente sobre
o caso de Klingenberg.

Ultrapassando os termos desse caso concreto, os Bispos


desejam chamar instantemente a atencao dos sacerdotes e
dos fiéis pare os seguintes pontos:

Só se pode afirmar a existencia da possessao diabólica


num enfermo após exames realizados com a máxima cir-

1 O exorcismo, como se sabe, é um rito destinado a expulsar o demo


nio que supostamente esteja infestando o corpo e a mente de alguóm.
Nada tem de mágico, mas consiste num conjunto de preces a Deus e inter-
pelacoes ao Maligno.

— 126 —
EXORTISMO NA ALEMANHA 35

cunspecgáo. É preciso também evitar a precipitacáo que leva


a ver, nos fenómenos sintomáticos de alguma doenga, a acáo
¡mediata ou mesmo a expressáo dos demonios.

As rubricas e os textos do Exorcismo Maior1 no Ritual


Romano correspondem á mentalidade e á sensibilidade de
outra época; conseqüentemente, precisam de revisáo, que já
vem sendo feita deste muíto.

Todavía nem as falsas interpretacóes da doutrina tradi


cional nem as práticas abusivas nem as declaracóes de teó
logos particulares justificam que se abandone o conteúdo da
fé. Nao se podem, pura e simplesmente, apagar da Biblia as
numerosas passagens que falam dos Poderes e das Domina-
góes, dos anjos e do diabo. Aínda hoje os homens individual
mente considerados e a humanidade em seu conjunto estáo
fazendo a experiencia bastante significativa do misterio do
mal! Seria simplório da parte do homem, crer que ele é
o único ser criado que tenha sido dotado de um espirito.

O IV Concilio do Latráo (1215) declarou solenemente :

'No comeco dos tempos, Deus, em sua onipoténcia, criou,


a partir do nada, urna e outra criatura — a espiritual e a cor
poral, a saber: os anjos e o mundo. A seguir, criou o homem,
que se constitui de urna e de outra, pois é composto de espi
rito e corpo. Pois o diabo e os outros demonios foram criados
por Deus naturalmente bons, mes por si mesmos tornaram-se
maus' (Denzinger-Schonmetzer, "Enquirídio" 800 14281).

A tarefa atual da teología consiste em apresentar, a res-


peito do mal e do Maligno, a verdade ¡rrefragável, de tsl
sorte que o homem de hoje possa ter acesso a ela com
seguranca. Além disto, a pregacáo crista há de por sempre
o acento sobre a senhoria de Jesús Cristo e a sua vontade
de sslvsr todos os homens, visto que Ele triunfou sobre o
poder do diabo e dos demonios.

Fulda, aos 22 de setembro de 1976"

1 O Exorcismo Maior ó o mais solene dos exorcismos. So pode ser


acucado com explícita autorizacáo do Bispo diocesano, que para tanto
delega sacerdotes criteriosamente escolhldos.

— 127 —
3G ^PERGUNTE E RESPONDEREMOS; 207/1977

2. Comentario

1. Este texto tem autoridade, pois exprime o magiste


rio ordinario de urna parcela do episcopado (o da Alemanha)
reunido em assembléia solene a fim de esclarecer os fiéis a
respeito de um problema que tem provocado hesita góes e
posieóes contraditórias. Nao se trata, pois, da opiniáo de um
teólogo ou de teólogos, mas, sim, da doutrina daqucles que,
unidos ao bispo de Roma, receberam «a sucessáo do episco
pado e o carisma seguro da verdade» (Const. «Doi Verbum»
n" 8, do Concilio do Vaticano II).

2. A Declaracáo dos Bispos da Alumanha afirma explí


citamente a existencia dos anjos bons e maus (estes se tor-
naram maus por abuso do seu livro arbitrio ou por soberba),
referindo-se ao clássico magisterio da Igreja (Concilio do
Latráo IV, 1215). Na verdade, a existencia dos anjos é algo
que nem a Filosofía nem as ciencias empíricas atingem, mas
que a fé professa, baseada sobre fundamentos que sao, do
ponto de vista teológico, suficientemente sólidos (textos bíbli
cos, Tradigáo continua o magisterio da Igreja ordinario e
extraordinario).

3. Quanto 'á possessáo diabólica (acáo do demonio sobre


as pessoas), os Bispos da Alemanha a admitem. Todavía
mostram-se reservados no tocante aos criterios que a denun-
ciam ou que háo de servir para diagnosticá-la. Rcconhecem
que certos síntomas de possessáo diabólica" outrora accitos
como tais hoje em día nao tém o mesmo significado. É ne-
cessária circunspeccüo ou grande cautela da parte de um
teólogo ou de um pastor de almas para que nao apregoe
precipitada e afoitamente haver possessáo diabólica onde nao
naja senáo um estado patológico exacerbado.

É certo que, antes de fakir de possessáo diabólica nos


tempos atuais, ó necessário tentar diagnosticar o caso cm
foco segundo criterios de medicina.

Quanto ao3 episodios narrados pelos Evangelhos, a exc-


gese reconhece que Jesús libertou os homens seus contem
poráneos de males que, segundo a mentalidade entáo vigente,
eram possessáo diabólica; cf. Me 3,22.30; Le 11,14-23; Mt
12,22-28. Dado que Jesús conjurou o demonio dos possessos
que lhe eram apresentados, deve-se dizer que se tratava
realmente de casos de possessáo; Jesús nao terá assumido

— 128 —
EXORTISMO NA ALEMANHA 37

comportamentos «adaptados» que redundariam em confirmar


os homens cm arengas erróneas e infantis.

A Igreja até hoje admite que a possessáo diabólica seja


possivel, embora Ela se mostré sabia e reservada em seus
diagnósticos sobre os casos que popularmente sao tidos
como tais.

4. Sobre as causas da possessáo, a Igreja nada pode


clizer de preciso. Apenas se deve afirmar que nao é necessa-
riamente a conseqüéncia de pecados pessoais do paciente; a
possessáo diabólica por si nao significa depravacáo moral da
vítima. No programa de televisáo mencionado atrás («O Fan
tástico» de 2/1/77), o exorcista declarou ao entrevistador
que a jovem, aliác muito piedosa, caira sob o poder do de
monio, porque «antes de nascer fora amaldigoada por urna
inimiga de sua máe». — A propósito convém observar:

a) Seria necessário averiguar mais exatamente o sen


tido que o sacerdote-exorcista desejou atribuir as suas pala-
vras. Sabemos como é fácil haver equívocos em noticias trans
mitidas sumaria e rápidamente através dos meios de comuni-
cacáo social.

b) Dado que o sentido do depoimento do sacerdote seja


o que, em primeira instancia, se deduz de suas palavras,
deve-se observar que tal depoimento nao passa de mera
hipótese pessoal e gratuita. Nao se vé por que a maldicáo
de urna pessoa inimiga de outra possa acarretar possessáo
diabólica sobre a filha desta outra pessoa. Tal conjetura
lembra o que se diría em ambientes da magia. Numa pers
pectiva auténticamente crista, afirma-se que nenhuma mal
dicáo é por si mesma eficaz ; ácima do «poder» das maldi-
cóes, está o poder de Deus, que é Pai providente e que acom-
panha os homens, seus filhos; nao há receitas ou fórmulas
cujo efeito seja infalivelmente mau ou bom. O que acortece
aos homens, só acontece porque Deus o permite num plano
de sabedoria e de amor; segundo esse plano, «para os que
amam a Deus, tudo coopera para o bem» (Rm 8,28).

É, pois, oportuno que nao se procurem causas conjeturáis


de possessáo diabólica, e muito menos se diga que alguma
maldicáo humana é capaz de a provocar.

No que diz respeito á Escritura e á possessáo diabólica, desejamos


citar o livro de Alfons Weiser, "Was die Bibel Wunder nennt" (O que a
Btblia chama milagre), KBW Verlag, Stuttgart 1975. Obra que em breve
será publicada em traducáo brasileira pelas Edicoes Paulinas.

— 129 —
Um livro em foco:

"a sraca libertadora no mundo"

Saiu há poucos meses mais um livro de Freí Leonardo


Boff O.F.M., este com o titulo «A Grata Libertadora no
mundo», Ed. Vozes de Petrópoiis 1976, 135 x 210 mm, 273 pp.
É obra que se irnpóe pelo peso de sua erudicáo teológica,
filosófica, psicológica, sociológica, lingüística, etc., e que nao
podemos ignorar ñas páginas de PR.

Teríamos prazer em só apontar os aspoctos positivos de


tal livro. Todavía julgamos, em consciéncia, nao poder evitar
o diálogo com o erudito autor, diálogo que fica no plano
das idéias e que, como tal, é sempre legitimo entre irmáos.
— Após atenta Ieitura da obra, eis algumas reflexoes que a
propósito nos ocorrem, salvo melhor juízo :

1. As difículdades

1) Antes do mais, leve-se em conta um elemento im


portante para quem vai abordar o livro : trata-se de urna
tentativa de expor o tratado teológico da graga a partir da
filosofía de Martín Heidegger (f 1976). Temos a impressáo
de que Freí Leonardo deveria dizer isto logo de inicio. Tal
advertencia daría ao trabalho do autor as suas devidas e rela
tivas proporgóes. Também ajudaria o leitor a compreender
melhor as afirmagóes do autor, que ás vezes devem ser enten
didas no sentido (nem sempre obvio) que M. Heidegger lhes
quis conferir. É o que se dá, por exemplo, no caso flagrante
de Ser (Scin) e Ente (Dascin); na verdade, eremos que a
literatura brasileira nao faz, entre Ser e Ente, a distingáo
que Heidegger faz entre Sein e Dascin. Se, pois, o autor nao
explícita seu pensamento, este torna-se hermético ou susce-
tível de mais de urna interpretacáo.

Notemos, alias, de maneira geral, que o expressionismo


usado por Freí Leonardo é assaz singular, nao só por exprimir
as categorías de pensamento heideggerianas em teología, como
também pelos seus numerosos neologismos: entificagáo, rei-
ficacáo, reducionismo, refontalizagáo,' satelitizagáo, extraor-
dinariedade, historizar, criticizador, mediatizado...

— 130 —
«A GRACA LIBERTADORA NO MUNDO» 39

O estilo recorre também á semántica (tenham-se em


vista as ponderacóes propostas sobre «experiencia» as
pp. 52-55), sem fazer as devidas distincóes entre o sentido
originario das palavras e o sentido em que hoje em dia sao
entendidas. Também este proceder pode induzir o leitor em
erro : através da semántica (que é muitas vezes hipotética e
dúbia), pode alguém elaborar teses filosófico-teoló^icas que
a palavra, no seu uso real, nao quer significar. A terminología
técnica, especializada de urna ciencia é precisa e fixa; arris-
camo-nos a errar se supomos que tal linguagem técnica ainda
seja o eco dos seus étimos ou dos radicáis originarios.

2) Frei Leonardo tenta exprimir as verdades da fé em


termos do pensamento contemporáneo. Ao fazer isto, atende
a um anseio do Papa Joáo XXIII e do Concilio do Vati
cano II. Todavía perguntamo-nos : pode a filosofía de Hei-
degger oferecer um instrumental apto a exprimir a fé cató
lica ? — Quer-nos parecer que fundamentalmente nao o pode;
com efeito, a náo-distinc.áo que Heidegger professa entre sub-
jetividade e objetividade, é premissa que nao se concilia com
as verdades da fé e o pensamento cristáo de todos os tempos.
A fé sempre ensinou que atingimos a verdade a respeito de
Deus e do seu plano salvifico segundo criterios de objetivi
dade, embora em analogía. Deus é realmente Amor, Justica,
Bondade, Misericordia..., como o homem é amor, justica,
bondade, misericordia; devo, pois, depurar tais conceitos de
todas as limitagóes que as criaturas lhes impóem, e assim
consigo aproximar-me sempre mais da objetividade de Deus.
— É claro que todo homem conhece e fala a partir de suas
premissas pessoais (educacáo, inclinagóes psicológicas, grau
de inteligencia, etc.); é claro também que a Revelacáo de
Deus aos homens se fez mediante categorias de culturas
orientáis antigás. Todavía isto nao nos impede de atingir,
em grau maior ou menor, a objetividade; apenas teremos de
procurar compreender a linguagem de Deus e dos homens a
partir das categorias da cultura utilizada por quem fala.

Por conseguínte, a distingáo (nao simplória, mas devi-


damente averiguada) entre sujeito e objeto c pressuposto
básico da fé crista, que o pensamento heideggeriano nao
observa (as conseqüéncias de tal nüo-distincáo se revelam
especialmente desastrosas ñas concepcóes exegeticas do Rudolí
Bultmann).

— 131 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

A propósito desejamos citar o documento da Sagrada


Congregacáo para a Educagáo Católica datado de 22/Ü/76
e concernente á formacáo teológica dos futuros sacerdotes:
"O teólogo... deve deixar-se guiar... pelos saos principios filosó
ficos acerca do valor objetivo do conhecimento humano" (rV? 33).

"Nao é possivel admitir um pluralismo filosófico que comprometa


aquele núcleo fundamental de afirmares que estao conexas com a Reve-
tacáo, como acontece com certas filosofias caracterizadas por relativismo
historicista e por imanenlismo tanto materiatístico como idealistico" (n? 52).

3) Em consonancia com essa recusa de distingáo fun


damental, a filosofía heideggeriana leva a negar outras dis-
tinc.5es... Frei Leonardo nao aceita distinguir entre natural
e sobrenatural, imanéncia e transcendencia, presenca de Deus
para os crentes e presenca de Deus para os náo-crentes, corpo
c alma ... Ora nao se pode x^ecusar a dualidade sem cair
num certo monismo absurdo; a natureza consta de elementos
incompletos e distintos uns dos outros, os quais se comple-
mentam dois a dois. — Note-se também que duaüdade nao
é a mesma coisa que dualismo. O dualismo opóe antagónica
mente entre si as partes distintas, estabelecendo o platonismo
ou o maniqueísmo filosófico — o que nao é cristáo. Assim é
normal e cristáo afirmar que o corpo material ó distinto da
alma espiritual, mas nao ó cristáo admitir a oposigáo onto-
lógica entre um e outro, chegando-se a professar que o corpo
é o cárcere ou o sepulcro da alma. N

4) O conceito de «graca» apresentado em varias partes


do livro em foco é coerente com as premissas do autor. Ve
jamos, por exemplo, a seguinte passagem :
"Graca nao é um conteúdo, algo ao lado de outra coisa, conteúdo
definlvel e detectável no mundo. Caso assím fora, grapa seria urna deter-
minacáo fenomenología e cairia sob a ótica da ciencia. Grasa é a pre
senca e atuacao de Deus no mundo; ó Deus enquanto comunicacSo a
criatura, enquanto é esplendor no mundo e beteza no cosmos. Como
aparece ? Vimos que ela aparece sempre como fundamento. O fundamento
surge na radicalizado de qualqucr articulagao, no caso vertente do nossa
ar.álisc, na radicaiizacao da ordem da ciencia e da técnica" (p. 79 ; cf.
p. 80. 85).

Isto quer dizer que graoa é tudo o que de born e belo


aparece no mundo, soja na linha da natureza, seja no setor
das artes c das criagoes do homem, seja no plano ético e
moral. O autor acrescenta que descobrimos Deus, que é o
autor da beleza e da bondade, no fundo de todo ente, como
Heidegger diria que descobrimos o Ser (Sein) no fundo de
todo ente (Dasein). O misterio do Ser que Heidegger encon-

— 132 —
«A GRACA LIBERTADORA NO MUNDO» 41

tra no fundo de cada ente, é por L. Boff identificado com o


misterio de Deus, de modo que o autor chega a dizer:
"A Intimidado e ¡nteriorldade colocam o misterio do homem em
afinldade com o misterio slmplesmente. E o Misterio no homem, chamamos
de Deus" (p. 223; cf. também pp. 49. 142. 157. 217).

Ora isto tudo é ambiguo. Na verdade, o homem é um


misterio, porque tem aspiragóes e capacidades voltadas para
o Infinito: tudo que c visivcl, ó pequeño e insuficiente para
o homem, que por isto se apresenta como um eterno inquieto.
Foi Deus quem fez o homem assim; em última análise, o
homem chega a Deus se atende as suas aspirares mais ge-
nuínas. Todavía é impreciso dizer que no fundo ou no fun
damento do homem está Deus; poderia isto ser entendido
em sentido panteísta ou monista.

Mais : se dizemos que a graga é a beleza das coisas e do


comportamento do homem sem mais, confundimos duas or-
dens de ser que nao podem ser confundidas á luz da fé e
do magisterio da Igreja: a ordem natural e a sobrenatural.

A ordem natural é a que decorre das potencialidades da


criatura considerada como tal. Assim o homem, por sua na-
tureza intelectiva, tcm a capacidade de conhecer (ou ver inte-
lectualmente) a Deus através da analogía das criaturas, isto
é,' «em espelho e enigma» (ICor 13,12) l ; na outra vida
mesmo, a natureza humana por si só apenas pode ver a Deus
análogamente, pois nao tem capacidade para enfrentar a Deus
face-a-face; o intelecto do homem é como os olhos de urna
coruja diante do sol; a luz é táo forte que tal tipo de olhos
nao a pode sustentar. Ora a Escritura nos diz que o homem
foi chamado a ver a Deus face-a-face, como Ele é visto por
Deus (cf. ICor 13,12; Uo 3,2). Já que a criatura nao tem
potencialidade para tanto (tem os olhos de coruja, no caso),
requer-se que, para tornar possível este designio, Deus eleve
o homem ácima das virtualidades de sua natureza, ou seja,
a um plano ou ordem sobrenatural. É por isto que, no ba-
tismo, o cristáo recebe um dom que, desde a vida terrestre,
o faz participar na vida do próprio Deus ; este dom é cha
mado «a graca santificante ou habitual»; é de índole sobre
natural, ou seja, nao pode ser exigido pela natureza do

1 Esta expressSo do Apostólo lembra o imperfeito espelho de metal


que os antigos usavam. Imaginemos tal espelho colocado ao lado e á
frente de um conduior de vefeulo para que veja o que Ihe está atrás...
Verá confusamente "em enigma" ! Assim é que vemos a Deus, diz S. Paulo,
enquanto peregrinamos na térra.

— 133 —
42 *PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

homem*, embora dentro do homem haja a capacidade de


receber tal dom ou de ser elevado á ordem sobrenatural.

Se nao distinguirmos entre ordem natural e ordem sobre


natural, deveremos dizer que o homem, finito como é, tem
a capacidade de ver diretamente ou face-a-face a Deus, infi
nito como Ele é. Ora isto c ilógico.

Em síntese : para se entender o que é o sobrenatural,


tenha-se em vista o FIM ÚLTIMO a que o homem é cha
mado segundo as Escrituras. Este FIM e tudo o que o ante
cipa na térra (a graca habitual ou santificante e seus efeitos
ou seus concomitantes) tém índole sobrenatural. — O natural,
ao contrario, compreende as criaturas no que elas tém de
nativo ou de originario, com as suas potencialidades limita
das, incapazes por si mesmas de chegar á visáo de Dsus
face-a-face.

5) No tocante as manifestacóes da grasa, o autor nos


apresenta dois exemplos curiosos, as pp. 129-131. Segundo
tais casos, o fim justificaría os meios: no primeiro episodio,
o concubinato seria conscientemente abracado por Severino
para por termo á prostiluigáo de urna mulher de má vida, e,
no segundo, a prostituigáo seria instrumento conscientemente^
utilizado para possibilitar o atendimento aos doentes de urna
cidade. Está claro que quem pratica tais coisas de boa fé
ou candidamente, está isento de culpa ; nem sempre onde há
pecado material (objetivo), há também pecado formal. Toda
vía é ousado e arriscado dizer, de maneira genérica e global,
que a graga «acontece» em tais casos, pois permanece válido
afirmar que o fim nao justifica os meios. Quem póe urna
causa com duplo efeito (um bom, intencionado, e o outro
mau, simplesmente tolerado), cuide de que esta causa nao
soja intrínsecamente má : «Nao facíamos o mal para que
venha o bem !», diz o Apostólo (Rm 3,8).

6) Seguindo urna corrente de teólogos, o autor muito


se preocupa com urna teología da graga autoctone, elaborada
para os povos da América Latina, que cstáo em regime de
captividade (cf. p. 102).

1 Para ¡lustrar melhor o pensamento, digamos : a luz, o som, o ar...


podem ser exigidos pela natureza do homem, pois este tem olhos, ouvidos,
pulmSes, cujo único sentido é captar tais elementos. A nossa natureza,
porém, nao estando aparelhada para voar; por isto nio pode exigir o voo;
este nSo Ihe é natural !
. .:... -.-M¿'
— 134 —
<A GRACA LIBERTADORA NO MUNDO» 43

Na verdade, o livro contém longa explanagáo referente


á situagáo sócio-económico-política da América Latina (cf.
pp. 77-98). Tais consideragóes, se apresentam aspectos verí
dicos, sao por vezes exageradas e tendenciosas ; analisam a
atitude da Igreja no passado de nossos países mediante afir-
macóes genéricas, que, em nome da justic.a, vém a ser injustas
(cf. pp. 06s). Alias, as situadnos políticas sao sempre (prin
cipalmente em nossos dias) algo de complexo ou um conjunto
de fatores e variantes que tem facetas múltiplas ou mesmo
contraditórias entre si. de modo que qualquer julgamento
peremptório se arrisca, nao raro, a ser unilateral e injusto.
Além do mais, tais consideraos sao desnecessárias no con
texto em que se acham. O autor, porém, nao as dispensa
porque adota um conceito de teología assaz diverso do classico:

"Fazer teología nao é mais buscar a racionalidade presente na fé


como adesao a verdades abstraías. Fazer teologia significa refletir critica
mente sobre a praxis da fé crista. Como acenamos ácima, no continente
houve urna praxis da fó que nao levou a transformacces sociais mais
humanitarias; ela foi fácilmente manipulada para sacralizar urna situagáo
discricionária" (p. 102).

As duas primoiras frases deste inciso, entendidas a rigor,


nos ofereceriam um conceito de teologia totalmente detur-
pado (o autor as tempera de algum modo as pp. 86s). — Na
realidnde, a teología é sempre a penetracáo racional das
verdades reveladas por Deus e aceitas pela fé. Tal penetragáo
racional nunca é meramente especulativa ou teórica; tende
sempre a produzir frutos de amor a Deus (oracáo íntima,
contemplacáo saborosa) e amor ao próximo (servico que con
tinua o servigo de Cristo aos homens), pois a Palavra de
Deus é Verbum spirans amorem (Palavra donde procede o
Amor). A praxis política nao é senáo urna decorréncia da
teologia propriamente dita, como a praxis ética, a praxis jurí
dica, a praxis cntequética sao decorréncias ou aplicacóes da
teologia. Querer elaborar a teologia em funcao direta da
praxis política lembra o conceito de teologia dos «Cristáos
para o Socialismo»; em outras palavras, é colocar as verdades
a servico de um sistema ideológico (cf. PR 182/1975, pp. 51-69).

7) Estas observacóes nao pretendem comentar exaus-


tivamente o conteúdo do novo livro de Freí Leonardo Boff.
O fato de que é redigido em estilo muito pessoal e apoiado
em premissas de filosofía heideggeriana, obriga muitas vezes
o leitor a procurar retraduzir o que o autor diz, a fim de nao
lhe atribuir falhas teológicas ou heresias, que ele nao quer

— 135 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

professar. Tenham-se em vista, por exemplo, entre outras,


as passagens seguintes:

"Dizer que o homem participa da natureza de Deus é sempre implicar


também o inverso: Deus participa da natuieza do homem. Destarte o
homem é teomorfo e o Deus antropomorfo" (p. 218).

A precisáo de linguagem exigiría fossem mais matizadas as expres-


sóes desta seceáo. Eis outra:

"Todos os entes sao criados e naturais... Nao pode haver sobreña-


tural criado" (p. 49 ; pressuposto escotista ?).

"Deus nunca é e pode ser pensado como ácima do mundo ou, o


que seria pior, como fora do mundo" (p. 51).

"Nao se pode falar com sentido da graca de Deus como presenca


de seu amor no mundo, aqueles aos quais falta o mínimo para a subsisten
cia em comida, roupa, direitos assegurados e em dignidade humana" <p. 45).

Nao nos deteremos em apontar outros tópicos do livro


que nos pareceriam merecer observagóes, porquanto o que
acaba de ser proposto já corresponde as grandes linhas
da obra.

2. Conclusóo

Nao poderíamos deixar de reconhecer o grande cabedal


cultural do autor Freí Leonardo Boff. Este sabe associar eru-
dicáo, de um lado, c, de outro lado, piedade, delicadeza de
alma e espirito fraterno. É por isto que seus amigos tém
ánimo para dialogar com ele. Frei Leonardo vem langando
varios livros, que sao ensaios ou tentativas teológicas, nao,
porém, a última palavra em seu setor respectivo (embora o
autor critique todas as tentativas anteriores de expor o tra
tado da graca e sobre este fundo de cena comece a sua expo-
sicáo teológica; cf. pp. 31-39). O fato de utilizarem esses
livros o instrumental filosófico heideggcriano nos parece ser
urna das causas das ambigüidades e dos problemas. Nao há
dúvida, o pensamento heideggeriano ou, mais amplamente, o
pensamento existencialista é apto a levar os teólogos a acentuar
aspectos reais do ser humano, como, por exemplo, o do mis
terio, o do nó de relacóes, os vaiores comunitarios e sociais,
as dimensóes históricas da vida dos homens e dos povos...
Todavia, segundo nos parece, a aversáo á dualidade Sujeito-
-Objeto fica sendo o grande e fundamental obstáculo a um
pleno aproveitamento do pensamento de Heidegger em
teología.
Estéváo Bettencourt Q.S.B.

— 136 —
UM ENCONTRÓ DE EDUCADORES (ABESC)
1. A ABESC (AssoclagSo Braslleira de Escolas Superiores Católicas)
é um órgao que congrega Universidades e Faculdades Católicas do Brasil,
no intuito de proporcionar intercambio e colaboracSo entre as mesmas.

Realizou o seu IV Encontró Nacional na cidade de Salvador, de


20 a 29 de Janeiro pp. Desse encontró partidparam quarenta e um educa
dores (bispos, sacerdotes, Religiosos e leigos), que ocupam cargos de
dlrecáo em nossas escolas superiores desde o Ceará até o Rio Grande
do Sul, passando por Campo Grande (MT).

A Assembléla teve como tema central de seus debates "A Universidade


Católica como via do pluralismo cultural a servico da Igreja e da socie-
dade", tema este que será retomado pela 12? Assembléla da FIUC (Federicao
Internacional de Universidades Católicas) a se realizar em Porto Alegre (RS)
no mes de agosto de 1978; por Isto, alias, estava presente em Salvador o
Secretario Geral da FIUC, Pe. Édouard Boné S. J. (da Universidade Católica
de Lovaina). Na sessáo de encerramiento do Encontró, o Sr. Ministro Ney
Braga, da Educacáo e Cultura, fez-se representar pelo seu Chefe de
Gabinete, Prof. Carlos Alberto Direito, que até 1974 lecionava na PUC-RJ.

Deve-se dizer que o Encontró foi altamente proveitoso, nao só pela


variedade de seus participantes, mas também pelo conteúdo das palestras
apresentadas e dos debates que se Ihes segulram.
Do programa constaram

a) urna conferencia do Professor Thales de Azevedo, presidente do


Conselho Estadual de Cultura da Bahia, sobre a Cultura Brasilelra: as
tentativas de deflnicao e caracterizacao da cultura brasilelra propostas pelo
conferencista, que citou diversos estudiosos e pesquisadores, mostraram
quanto é difícil indicar as linhas tipicas e comuns da cultura de todas as
regioes do Brasil, dada a ex'.ensáo territorial e populacional do nosso país;

b) urna palestra do Prof. Diogo José Ayrimoraes Soares, do Con


selho Federal de Educacao, a respeito da Universidade no Brasil. Com a
sua experiencia, o conferencista apreseniou as nossas Universidades como
instituicóes que, nascidas em 1931 por decreto do Governo Provisorio,
ainda procuram sua identldade num Brasil variegado e em fase de desen-
volvimento;

c) urna exposicSo do Prof. Pe. Joao Augusto Mac Dowell, Reitor da


PUC-RJ, sobre "A Teología Católica face ao pluralismo cultural". lA tónica
deste trabalho foi a apresentacao do diálogo como via de intercambio entre
a Universidado Católica, portadora dos valores do Evangelho, e as diversas
faixas da cultura e da civilizacáo contemporáneas ;

d) urna palestra do Prof. Pe. Alberto Antoniazzi, Dlretor do Instituto


de Teología e Filosofía da Universidade Católica de Belo Horizonte, sobre
"A Igreja local e a Universidade", palestra que mostrou -ser a Universidade
um ponto-chave para a encarnacáo da mensagem do Evangelho no contexto
da regiSo onde se sitúa;

e) urna explanado do Prof. Pe. Urbano Zilles, Diretor do Departa


mento do Teología da PUC-RS, sobre "A Universidade Católica e o plura
lismo cultural". Foi este um estudo muíto denso, que pos em relevo o
valor da Filosofía e da Teología frente ao empirismo e aos irracionalísimos
com que tem de se defrontar a Universidade Católica hoje em día;

— 137 -T-
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 207/1977

f) dois relatónos do Pe. Édouard Boné sobre a FIUC e as escolas


católicas de nivel superior hoje. Estas somam 600 unidades, estando 133
filiadas á FIUC. Espalham-se por todos os continentes, sendo que o leque
das insütuifoes federadas na FIUC assim se configura:

Europa: 38 Escolas Superiores católicas; Asia, 45; América do


Norte, 25; América do Sul, 24; África, 1.

Note-se o grande número de escolas católicas na Asia. Tem sua


explicacSo na grande vilnlidado da Igreja mlssionária, principalmente) na
india o ñas Filipinas, no Japáo o em Formosa.

Essas escolas constituem importante rede de pesquisa e ensino em


fidelidade á mensagem crista. Todavia véem-se arriesgadas por dois perigos:

— o dos nacionalismos exacerbados, que se fazem sentir principal


mente nos países recém-descolonizados ;

— o da mundializacáo dos problemas, que tende a apagar as ca


racterísticas peculiares da cultura, arruinando e nivelando valores humanos
e cristSos.

2. Destas e de varias outras comunicares e manifestagoes ocorridas


durante os dias do Encontró, desejamos sallentar algumas notas, que bem
parecem representar os rumos principáis do pensamento dos participantes:

1) Passaram-se os anos em que se perguntava se as Escolas Cató


licas tlnham ou nSo a sua razfio de ser na socledade de nossos días. O
cetlclsmo que afetava alguns, cede á confianca na mlssáo das lnstltui$6es
de ensino católicas; estas sfio pontos medulares da acSo pastoral da
Igreja, que nlo é somente pastoral direta (de paróqulas ou comunidades
de base), mas é também Indlreta, atinglndo ñas Escolas elementos Impor
tantes da vida pública e líderes, que devem nortear o futuro dos povos.
Sem as Escolas Católicas a Igreja perderla os seus porta-vozes quallficados
para a evangelizagáo da cultura contemporánea.

2) Para que a Escola Católica possa preencher a sua missáo, há


de esforcar-se constantemente por satisfazer a algumas condigoos básicas:

a) Seja fiel ao modelo de urna Universidade moderna, dotada de


equlpamento humano e material rigorosamente adaptado ¿s suas tarefas.
Urna Escola Católica, pelo fato de ser católica, carrega responsabilidades
peculiares, ou seja, a honra do nome crlstfio, que nfio Ihe é licito delxar
obscurecer; o titulo "católico" nfio é mero rótulo aos olhos da Igreja e
da sociedade;

b) dé o testemunho de seu servlco benévolo a alunos, prolessores


e funcionarlos, fazendo que se percebam na Escola Católica os traeos
característicos do amor crlstfio ; o "clima" peculiar do ambiente da escola
seja por si só um slnal da presenca do Evangelho vivo entre nos;

c) é de interesse capital que o corpo docente da Escola Católica


seja homogéneo, de modo que represente, principalmente frente aos alunos,
os principios básicos da filosofia da casa. Isto nfio é posslvel se nño hé
eelecSo dos mestres felta nfio somente segundo os criterios da habllitacfio
proflssional, mas iambém de acordó com as suas disposicoes em relaefio
as grandes llnhes da mensagem da Igreja.

— 138 —
UM ENCONTRÓ DE EDUCADOR!-:"* 47

Asslm como se pratica a pastoral dos alunos, assim também se há


de levar a termo a pastoral dos professores de cada Escola Católica,
oferecendo-se-lhes ocasióes de encontros de reflexSo, oracao, reciclagem
profissional, etc. Alias, é de bom alvitre (embora nao seja norma exclusi
vista) que cada Escola procure preparar os seus futuros docentes a partir
do próprto corpo díscente.

3) É certo que nossos alunos (com raras excecóes), premidos pelas


necossidades de nossos lempos, procuram, quase exclusivamente, na Escola,
os elementos indisponsáveis i sua porfissionalizacáo. Assim as nossas
Instituicóes correm o risco de se tornar meras depositarlas e transmisoras
do saber em moldes cada vez mais imedlatlstas e pragmatistas, ficando
grandemente prejudicada, se nao apagada, a funefio da Unlversldade como
centro de pesquisas ou de aprofundamento e extensáo do saber. Diante
disto, a Escola Católica há de se esmerar por procurar atender á formacao
integral de nossos futuros profissionais, ministrando-lhes nao somente as
disciplinas que os habilitem técnicamente, mas também as que concorrem
á estruturacáo de seus valores humanos e cristaos. A reflexáo filosófica
sobre a ciencia, a técnica, assim como a comunicacáo de urna vlsáo crista
do homem e de seu destino s3o elementos que geralmente integram os
currlculos dos cursos de nossas Escolas Católicas, a fim de que estas nSo
reduzam suas fungóos á prestacSo de um servico meramente técnico ou
'administrativo.

Alias, a Escola Católica há de procurar valorizar as ciencias huma


nas, na medida em que Isto Ihe seja posslvel, atendendo nao somente aos
valores que estas representam, mas também á perplextdade em que sa
véem muitos estudiosos da área das ciencias ditas "exatas". Em diversos
países os dentistas manlfestam a necessldade de passar da "pragmática"
para a "sistemática", visto que eem a reflexfio filosófica nflo se dfio por
satlsfeltas as exigencias fundamentáis do espirito humano. Atlas, nenhum
dentista, por mals tecnicizante que pareca, dispensa um certo filosofar,
dado que a escolha mesma da área das ciencias exatas ou da tecnología
já supSe urna certa opcSo de vida e o esboco de urna cosmovisSo.

4) O diálogo com o mundo de hoja, marcado pelo pluralismo de


euas culturas e facetas, é urna das funefies mais atuals da Unlversldade
Católica. A palavra "diálogo" foi preconizada por Paulo VI na encíclica
"Ecctesiam Suam" (1964); desde entáo tem sido altamente apregoda pela
(groja, cuja vocacSo Incluí cortamente o confronto amigo com todos os
homens e todos os povos. Por certo, nSo ó fácil praticar um diálogo
objetivo e auténtico; como quer que seja, compete & Igreja renovar cons
tantemente a consclencla desta sua mlssSo, a fim de que possa concorrer
para urna sintese dos valores evangélicos e da civillzagáo contemporánea;
esse diálogo há de ser corajoso, conservando plena fldclidade aos princi
pios da fó católica a ser expressa ao mundo de hoje.

S&o estas as principáis características do Encontró da ABESC em


Janeiro pp. Aínda toráo de ser ulteriormente elaboradas em vista do grande
córtame da FIUC om agosto de 1978. A tarefa nfio assusta os educadores,
pois sabem que toda chegada vem a ser ym novo ponto de partida, e todo
fim é um principio om plano mais denso e elevado, até que cheguemos
todos a Plenltude!
EstOváo Bettencourt O.S.B.

— 139 —
livros em estante
Os sete sinais do amor, pelo Pe. Milton Lacerda S. J. Colegio "Rota
para Cristo" tfi 9. — Ed. Loyola, SSo Paulo 1976, 120x180 mm, 172 pp.

O Pe. Lacerda tem-se dedicado á juventude, para a qual já escreveu


alguns llvros, como, por exemplo, "A formagáo da Comunldade de jovens"
e "O Despertar" (cf. PR 177 e 179/1974, 3? capa). O trabalho ácima apre-
sentado aborda os sete sacramentos em estilo acessível, de sorte que se
destina tanto a jovens como a adultos do nosso laicato; tora especial utill-
dade nn prcparacfio do "rollo" dos Sacramentos nos Cursilhos o em Movl-
mentos congéneres. O autor (ol feliz mesmo ao explicar os dificels temas
do pecado, da reconciliacáo sacramental e do matrimonio, mantendo-so em
tudo fiel á doutrina da Igreja. A guisa de espécimen do conteúdo do livro,
citamos o trecho seguinte :

"Qualquer mal que se faca — como qualquer bem, felizmente! —


tero urna repercussáo incontrolável ¿ nossa volta, multo mals para longe
do que eupomos, da mesma forma que é impossível evitar que se formem
círculos de ondas concéntricas ao redor do ponto da ¿gua atingido por
urna pedra" (p. 113).
Fazemos votos para que o autor prossiga a sua obra literaria, que
sabe associar a vivacidade da comunicacáo com a solidez da doutrina.
A vesperal do milagro, por Jorge Claudio Noel Ribeiro Jr. — Ed.
Loyola, Sao Paulo 1976, 140x210 mm, 92 pp.
O autor é um jovem estudante de ComunicacSo e Jornalismo, que
publica seu primelro ensaio. Este encerra dezesseis estórias ou contos
que, de certo modo, aludom a episodios do Evangelho, parafraseando-os
com dlgnldade, a fim de por em relevo os enslnamentos moráis do texto
sagrado. O livro leva o aprendiz a tomar contato com as páginas do Evan-
qelho, servlndo de primeira abordagem do livro santo. A obra de Jorge
Claudio destina-se á catequese, podendo ser utilizada até mesmo em aulas
de sexta serle. O auestionário e a proposta de ativldades que se seguem
a cada estória, facilitam a aplicacSo do texto em grupos de estudo.
Ao mesmo tempo que nos congratulamos com o autor pelo conteúdo
de suas estórias, ricas em sugestSes, tomamos a liberdade de observar que
o prefacio "Pra comeco de conversa..." (pp. 7s), com suas alusSes cris-
tológicas, parece fora de propósito; além do que, merecerla ser mals claro
e burilado. Isto, porém, n?.o diminui o valor catequétlco do corpo do livro.
0 pensamento católico no Brasil, por Antonio Carlos Vlllasa. — Ed.
Zahar, Rio de Janeiro 1875. >
1. O estudo das ¡délas no Brasil é recente. Após a tentativa do
Silvio Romero em 1878, será preciso esperar até 1955, quando surge a
obra de Joáo Cruz Costa. Posteriormente, outros estudos vierarn enriquecer
o tema, como os de Antonio Paim, Miguel Reale, Luis V/ashington Vita,
Joao Camilo de Oiiveira Torres e outros.
Quando se trata mals específicamente do Pensamento Católico, a pro-
ducSo é ainda mais oscassa, limitando-se fts obras qorais de Joüo Camilo
de Oiiveira Torres, Historia das Idéias Religiosas no Brasil e Arruda Campos,

1 Esta reeensáo se deve ao Prof. Amo Wehling. Bachare! e Licenciado


riela Universldade do Brasil. Doutor nm Historia pela Universidado de Seo
Paulo. Professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, <ia UnWcrsidcde
Gama Füho o da Universidade Sania Úrsula.

— 140 —
Tomismo e Neo-Tomismo no Brasil, além do que existe esparso em perió
dicos especializados, como a "Revista Braslleira de Filosofía" e a revista
"Verbum".
O historiador, e o homem católico, tém muitas perguntas a fazer
sobre o assunto. Entre outras:

— Em que momento surgiu um pensamento católico brasileiro ?


— Quais as marcas de originalldade e as de dependencia doutrinária
cm relacio ás correrles católicas europóias ?

— Qual o significado social das idéias surgidas ou imporladas no


coio do catclicismo brasileiro ?
— Quais as correntes que podemos encontrar na catolicidade b:a-
sileira ?
2. A obra de Antonio Carlos Villaca, O Pensamento Católico no
Brasil, procura responder a algumas destas perguntas.

O autor fundamenta-se em ampia bibliografía e em fontes ¡mpressas


referentes a seu tema. Possui, além disso, vivencia da problemática religiosa,
além de variada cultura, o que Ihe permite urna abordagem aprofundada
das questdes.
Como premissa, estabelece que o pensamento católico brasileiro — e
nao simplesmente o catolicismo sentido, pensado e praticado no Brasil —
é recente. Para ele, esta consciéncia se esboca a partir da questáo dos
bispos, em 1873, acarretando urna "reacáo católica", que cria novo espirito
religioso no pais.

Fiel a esta premissa, o autor baliza seu tema. Dos vinte capítulos,
apenas quatro tratam do catolicismo na Colonia e no Imperio (pp. 17-52).
Do c. 5 ao c. 20 estudam-se a questao religiosa, as posicóes de Carlos
de Laet, Julio María e Joáo Gualberto do Amaral, a pastoral de 1916, o
movimento de Jackson de Figueiredo e o pensamento dos intelectuais cató
licos que trabalharam com "A Ordem" ou em paralelo com esta : Leonel
Franca, Alceu 'Amoroso Lima, Mauricio Teixeira Leite Penido, Gustavo
Corcao, Hamilton Nogueira, Jónatas Serrano, Joáo Camilo de Oliveira Torres,
Damiáo Berge e Henrique Lima Vaz.
O autor, ao tomar como eixo a "reacáo católica", simbolizada na
agáo de D. Vital, justifica-se :

"...nao tivemos pensamento católico no Brasil, nem ao longo dos


dois séculos de influencia escolástica, nem muito menos ao longo do
sáculo XIX, de presenga quase exclusivamente francesa..."
''Se quiséssemos escolher urna data e urna figura, escotheriamos a
figura de D. Vital e a data de 1873.. ." (p. 10).
No periodo que se segué, de auténtico pensamento católico brasileiro,
segundo o autor, Villaca escolhe outro divisor de aguas : nao Jackson de
Figueiredo, mas Alceu Amoroso Lima :

"Podemos dividir a historia do pensamento católico no Brasil em antes


e depois de Tristio de Ataide..." (p. 16).
3. A obra de Antonio Carlos Villaca é importante contribuicao á
historia do catolicismo e á historia das idéias no Brasil.

É, antes de tudo, urna síntese do assunto. Sintese indispensável a


qualquer aprofundamento futuro do tema, pois, se ja possuimos vísóes
gerais dos dois ángulos — o do catolicismo e o das idéias —, nao possui-

(Continua na pág. 32)


CARO AMIGO,

SE VOCÉ ESTIMA A SUA REVISTA PR, SOLICITAMOS


INSTANTEMENTE A SUA VALIOSA E INDISPENSÁVEL COLA-
BORAQÁO.

VOCÉ SABE QUANTO O CUSTO DE VIDA VAI AUMEN


TANDO. SABE-0 ESPECIALMENTE NO SETOR DOS SEUS
ORNAMENTOS DOMÉSTICO E PROFISSIONAL. ORA ELE
TEM SUBIDO ASSUSTADORAMENTE TAMBÉM NA ESFERA
DO PAPEL, DAS GRÁFICAS E DAS EDITORAS. TIVEMOS
UMA ALTA DE 66% NO PRECO DO PAPEL EM JANEIRO
PP., E OUTRA ALTA NESTE COMECO DE ANO EM MATERIA
DE SALARIOS, DE MODO QUE O NOSSO PR NOS SAI POR
UM PRECO MAIS ELEVADO DO QUE O QUE PREVÍAMOS.
SENDO ASSIM, PEDIMOS-LHE ENCARECIDAMENTE:

1) QUEIRA RENOVAR QUANTO ANTES A SUA ASSI-


NATURA DE PR.

2) PROCURE ANGARIAR NOVOS ASSINANTES PARA


A NOSSA REVISTA. TALVEZ PR SE TORNE DE INTERESSE
VITAL PARA ELES, COMO ELES SERAO CERTAMENTE DE
INTERESSE VITAL PARA PR.

SABEMOS QUE HOUVE FALHAS ADMINISTRATIVAS DA


NOSSA PARTE EM 1976. ESTAMOS DISPOSTOS A REME
DIA-LAS, DE MODO QUE NAO DEIXE DE COLABORAR
CONOSCO, VISTO QUE TRABALHAMOS COM IDEAL, NO
INTUITO DE AJUDAR E SERVIR.

CONTAMOS, POIS, COM VOCÉ E COM OS NOVOS ASSI


NANTES OUE VOCÉ NOS OBTERÁ.

GRATOS.

A DIRECÁO DE PR.