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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LIME

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoríam)
APRESENTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenca católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propoe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abencoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico • filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicacáo.

A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confisca


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice
pág.

ALELUIA EM 1977 185

Fala Andrei Sakharov:


"MEU PAÍS E O MUNDO" 187

Um documento da Santa Sí:


AS ORDENAQOES SACERDOTAIS DE MULHERES 202

Um filme de espanto :
"A PROFECÍA" 214

Um "best-seller" teológico:
"SER CRISTAO" DE HANS KÜNG 225

O DESPERTAR DE UM SENSO CRITICO CRISTAO 230

LIVROS EM ESTANTE 232

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO :

Haré Krsna : que é ? — Ordenacáo sacerdotal de mulheres

e ecumenismo. — "Aparicóes" de Erich von Dániken. — "A

face humana de Deus" de John Roblnson.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual Cr$ 75,00


Número avulso de qualquer mes Cr$ 7,00

Já temos o volume encadernado de 1976 (564 pp.).


Prero: Cr$ 140,00 (somente 40 exemplares).

EDITORA LAUDES S. A.

REDAQAO DE PR ADMINISTRAQAO
Calxa Postal 2.666 Rúa Sao Rafael, 38, ZC-09
ZC-00 20.000 Rio de Janeiro (RJ)
20.000 Rio de Janeiro (RJ) Tcls.: -¿68-9081 e 268-2706
ALELUIA EM 1977
Já se tornou chaváo dizer-se que o mundo está contur
bado. .. Os motivos de perturbagáo vém a ser sempre novos:
a crise do petróleo, cujas repercussóes sao imprevisíveis, a
ameaga á familia, principalmente em nosso Brasil, as denun
cias de «comunismo», que dividem os irmáos..., os criterios
de producáo e lucro colocados ácima dos valores típicamente
humanos...

Muitas pessoas se abalam ao considerarem tal quadro...


O fim do mundo nao estará próximo? Pode a historia con
tinuar a desenrolar-se apesar da sanha do mal? Ou, con
forme outros, será que Deus pode coexistir com tanta desor-
dem no mundo?

Os estudiosos e «curiosos» procuram resposta para tais


quesitos ñas mais diversas fontes : o ocultismo parece entáo
fornecer explicacóes (embora mirabolantes e gratuitas) para
as calamidades e as indagares da humanidade ; dir-se-ia que,
quanto mais fantasiosas sao tais explicagóes, mais autoridade
parecem ter junto a muitos!1 Quem imagina e inventa no
setor da religiáo e da mística, está na linha do sucesso (em
bora barato e desonesto).

Ora diante do quadro que assim se póe, o cristáo é inci


tado a recorrer a dois grandes referenciais, sem os quais se
arrisca a socobrar no mar tempestuoso de nossos dias : a
razáo e a fé.

1) Razáo. Pode-se dizer que a época atual está mar


cada por varios tipos de irracionalismo : muita gente só ra
ciocina quando se trata de matemática; fora deste setor,
parece nao haver lugar para a razáo; a fantasía c a emoti-
vidade passional imperam; as pessoas se tornam cegas c dei-
xam-se guiar pelas teorías e pelos «profetas» que mais ala
rido produzam. Dir-se-ia que os abusos da razáo verificados
nos séc. XVIII e XIX provocam a reagáo contra o próprio
uso da razáo; as correntes existencialistas representam bem
esse descrédito; ora o existencialismo suscitou um clima no
qual vive a sociedade contemporánea. Pois bem; é preciso

1 Precisamente na linha do ocultismo-esoterismo, apareceu recente-


mente o Hvro de Pier Carpi intitulado "As Profecias do Pap<
A historia da humanidade de 1935 a 2033". O conteúdo do liv
credencials; por isto nao tem autoridade em absoluto. BTBI-.IOTHH
CENTRA.
— 185 —
notar que, mesmo no setor da religiáo, nao se deve aceitar
proposigáo alguma que nao tenha suas credenciais ou certa
fundamentagáo lógica e científica que a recomendé á inteli
gencia e, mediante a inteligencia, a fé.

2) Fé. Mormente no tempo de Páscoa, a fé tem algo,


a dizer ao cristáo. Ela póe ante os olhos da mente a vitória.
de Cristo sobre a dor e a morte. O significado dessa vitória
é muito enfáticamente explanado no livro do Apooalipse, onde
Cristo aparece logo de inicio como «o Primeiro e o Último,.
Aquele que vive; esteve morto, mas vive pelos séculos dos
séculos, tendo as chaves da Morte e da regiáo dos mortos»
(Ap l,17s). Ele tem em suas máos o livro dos designios de
Deus; cada selo desse livro que se abre, provoca o desenca-
deamento de fatos da historia. Esses fatos na térra provocam
gemidos e angustias da parte dos homens; todavía no céu ou
na corte celeste sao ocasiáo a que os anjos e santos cantem
o Aleluia e déem gloria a Deus. O contraste que assim se
propóe, sugere a conhecida imagem do tapete persa: este tem
a sua face direita e o seu avesso. Enquanto a face direita
(ou de cima) é extremamente bela, colorida e trabalhada, a
de baixo é suja, cheia de fiapos e monótona. Quem, pois, vé
o tapete persa de baixo para cima ou pelo avesso, nada
entende nem encontra ai valores artísticos. Mas quem con
templa o tapete de cima para baixo, admira-se pela riqueza
de suas cores e de seu tragado. Para quem, olhando pelo
avesso, condenasse o tapete, a resposta a dar seria fácil: o-
tapete ó valiosíssimo, mas nao foi feito para ser visto pelo
avesso; corrija a sua ótica !

Assim é também a historia: se a olhamos de baixo para


cima ou a partir dos pontos de vista humanos, nao a entende
mos. Mas, se a consideramos de cima para baixo, ou seja,
como Deus a vé, tranqüilizamo-nos e cantamos, com os cida-
dáos da patria eterna, o Aleluia da vitória já obtida por
Cristo. Entáo os problemas e desafios se diluem numa visáo.
de conlianca e esperanza : osiño envolvidos em um plano sabio
de Deus; vém a. ser o joio sem o qual o trigo nao poderia
crescer devidamente.

Sao estas as perspectivas que a fé sugere ao cristáo nesta.


hora dita «conturbada». O discípulo de Cristo nao se abala,,
pois sabe que o Senhor da historia é o próprio Cristo, que
contení todos os acontecimentos em suas máos e ao qual, por
isto, se deve o Aleluia vibrante tanto dos cidadáos da patria,
como dos peregrinos na térra.
E. B.

— 186 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XVIII — N? 209 — Maio de 1977

Fala Andrei Sakharov:

"meu país e o mundo"


Em síntese: Andrei Sakharov é um dos grandes físicos russos, Pre
mio Nobel da Paz. Escreveu o livro "Meu país e o mundo", em que propoe
urna visáo panorámica da situacio do povo russo sob o regime soviético.
Chama a atencáo para o fato de que essa dolorosa situacao interessa nao
apenas á nacao russa, mas também aos demais povos; com efeito, o poder
soviético penetra em todos os continentes de maneira sorrateira e deso-
nesta, Impondo ás nacoes ocidentais a necessidade de se armarem em
proporcao á supermllitarizacáo soviética.

Em conseqüéncia, Sakharov dirige um apelo aos intelectuais ociden


tais cuja tendencia seja o liberalismo, no sentido de que nao se deixem
iludir pela propaganda soviética, mas, ao contrario, contribuam para a
melhora das. condicóes de vida do homem na U.R.S.S.

O livro, traduzido para o portugués, foi publicado pela Editora Nova


Fronte! ra.

Comentario: A imprensa multiplica as suas noticias a


respeito das atitudes do Governo soviético frente aos dissi-
dentes políticos e, de modo especial, em relagáo a alguns
cientistas e escritores que vém sendo perseguidos por con-
testarem instituicóes do regime comunista russo. Tornou-se
fumoso neste contexto o nomo do Alcxandro Soljenitzyn,
autor de «O arquipélago Goulag», que cm 1974 foi expulso
da U.R.S.S. Os jomáis tém falado outrossim de Andrei
Almarik, detido em maio de 1970 por causa do seu ensaio
«A Uniáo Soviética sobreviverá até 1984?»; foi condenado a
trabalhos forcados, mas conseguiu abandonar o país. Outro
pensador que está muito em foco, é o físico Andrei Sakharov,
pai da bomba H soviética, premiado com o Premio Nobel
da Paz em 1975; embora incomode o Governo soviético por
suas denuncias vivazes, Sakharov nao é expulso nem obtém

— 187 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

a licenga para emigrar da U.R.S.S., porque é detentar de


segredos de Estado que em absoluto nao podem ser divulga
dos no estrangeiro. Sakharov tem escrito varias obras, que,
como as de seus compatriotas atrás citados, passam para o
estrangeiro através do «samizdat» (izdat = publicado, dati-
lografado; sam = por conta própria ou por si mesmo).
Samizdat é a organizac.no que divulga clandestinamente os
escritos que a censura soviética, por motivos políticos, nao
tolera na U.R.S.S., che-gando a obter grande éxito através
de urna agáo corajosa e bem concatenada. Urna das últimas
obras de Andrei Sakharov é o livro «Meu país e o mundo»,
traduzido para o portugués e publicado pela Editora Nova
Fronteira (Rio de Janeiro). Sakharov prop5e nessa obra
urna imagem minuciosa e negra da reaüdade soviética, e ter
mina com um apelo aos pensadores ou intelectuais das nagóes
livres ocidentais para que nao se deixem iludir pelas afirma-
góes e promessas do comunismo. Nao é sem escrúpulos sin
ceros que o autor descreve a triste situagáo em que vive o
seu povo, pois na verdade ele professa amar seu país e sua
gente; todavía julga que o bem da patria e o da humanidade
exigem conhegam os povos ocidentais o que ocorre na Rússia
comunista; o estado de coisas vigente na U.R.S.S. afeta de
certo modo todos os demais povos e só poderá ser modificado
se houvcr, da parte destes, urna consciéncia esclarecida c a
eolaboragáo oportuna.

Dada a importancia do livro citado, vamos, ñas páginas


subseqüentes, transmitir aos nossos leitores urna síntese dos
principáis quadros de vida apresentados por Andrei Sakharov,
assim como o apelo daí decorrente.

1. A soriedoefe soviética

O autor se estende na descricáo dos diversos aspectos


desla rcalidade, porque sabe que a ilusño no tocante a mesma
alimenta atitudes das nagóes ocidentais que só contribuem
para prejudicar mais aínda o povo soviético e por em perigo
a humanidade inteira.

1.1. Preliminares e generalidades

Logo no inicio do cap. I o autor faz a seguinte profissáo


de patriotismo:

— 188 —
SAKHAROV: «MEU PAÍS E O MUNDO» 5

"Amo profundamente a natureza, a cultura e os habitantes da minha


patria, e nSo desejo em absoluto entregar-me aqui a exerclcio de detragao.
Mas julgo hoje necessário chamar a atencSo para alguns traeos negativos
decisivos ñas relacoes internacionais, que permitem compreender melhor
a situacao real do nosso país. Esses traeos negativos, a propaganda sovié
tica e pro-soviética os silencia" (p. 15).l

Após esta profissáo de lealdade, Sakharov propóe urna


visáo geral da vida na U.R.S.S. Por detrás de urna fachada
marcada pelos arranha-céus de Moscou, aos pés dos quais
milhares de pessoas transitam animadamente, estende-se um
mar de desgranas, amarguras e crueldades, que solapam os
fundamentos da sociedade soviética:

"Nosso país encerra um número excepcionalmente elevado de infelí-


zes, acabrunhados pela sorte: anciáos solitarios, que recebem pensoes
irrisorias; pessoas que fracassaram na vida e nao tém nem trabalho nem
possibilidade de estudar, nem pousada conveniente...; doentes crónicos
que nao encontram lugar nos hospitais; um inumerável bando de alcoóla-
tras inveterados; um milháo e meio de detldos, vítimas de urna máquina
judiciária cega, multas vezes injusta, venal, submissa as autoridades e a
'magia' local, um milhSo e meio de detidos que estaráo para sempre
rechazados da existencia normal; simples infelizes que no momento opor
tuno nao souberam oferecer a gorgeta adequada á pessoa competente"
(p. 14s).

Nao obstante, um dos arligos de fé da propaganda sovié


tica propóe urna tese inabalável: o sistema político económico
soviético é excepcional; constituí prototipo universal válido
para todos os outros países. £, sim, o mais justo, o mais
humano, o mais progressista, garante a mais elevada produ-
tividade do trabalho, o nivel de vida mais alto, etc. — E,
para que a populacáo possa acreditar nisso apesar das decep-
góes sofridas, é privada de qualquer possibilidade de con
fronto com o estrangeiro: nao só há severa censura sobre
os instrumentos de comunicaejio que tentem penetrar na
U.R.S.S., mas há também seria oposigáo a que um cidadáo
soviético viajo para o estrangeiro, seja a titulo do ferias,
seja a título de tratamcnlo de saúde, seja a titulo de estudo...
Porque haveriam de procurar aprender no estrangeiro, quando
os russos estáo longe mais adiantados do que os demais povos
nos planos científico e social? Há mesmo intelectuais estran-
geiros que aceitam tal tese, ao menos em parte, como foi o
caso do escritor que declarou exageradas as noticias de fome
na URSS: «Em parte alguma comi táo bem como na URSS»,

1 Citaremos sempre a edicáo francesa, intitulada "Mon pays et le


monde".

— 189 —
6 <rPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

escrevia ele enquanto as tropas da NKVD abatiam com metra-


Ihadoras as criancas russas famintas que tentavam atravessar
as fronteiras da U.R.S.S. Tais testemunhos de cegueira da
parte de pensadores estrangeiros nao sao raros.

Na verdade, a sociedade soviética é urna «sociedade de


capitalismo de Estado» (p. 16s), o qual se distingue do capi
talismo ocidental pelo fato de que c o Partido ou o Governo
o grande detentor dos capitais em vez de serem os cidadáos
particulares. E nao somente a economía está toda em máos
do Governo, mas também a cultura, a filosofía e todos os
outros esteios da vida do povo.

O monopolio do Estado absolutista gera inevitavelmente


a servidáo e o conformismo. Nos períodos críticos, a servi-
dáo se exprime em pavor e terror; nos mais tranquilos mani-
festa-se como apatía e tristeza.

O autor encara, a seguir, as principáis facetas da vida


do país:

1.2. A economía

Sem dúvida alguma, a U.R.S.S. nao conhece a maior


produtividade de trabalho no mundo, nem há esperanca de
que o consiga num futuro previsível. Urna das principáis
razóes deste fato está na gigantesca militarizacáo do país,
que pesa duramente sobre os ombros do povo e constituí
ameaca para o mundo inteiro. Outra razáo do mesmo fato
é a carencia de reservas apesar das riquezas naturais da
U.R.S.S.: térra negra, carváo, petróleo, madeira, diversi-
dade de climas...

O trabalhador de qualqucr país capitalista, mesmo da


Italia, recusar-se-ia a trabalhar na Rússia em troca dos sala
rios e dos direitos outorgados aos operarios neste país. Com
efeito. na U.R.S.S. o salario mínimo mensal é de 60 rublos,
enquanto o salario medio é de 110 rublos. Em termos de
poder aquisitivo, esse salario mínimo corresponde a USS 30,00
por mes (desde que se suponha o cambio «um dólar = dois
rublos», o que é exageradamente otimista e só vale propria-
mente para a compra de alimentos; no mercado de roupas,
calgados e outros produtos manufaturados, o cambio é de
«um dólar = quatro rublos»). — Ora, nos Estados Unidos, o

— 190 —
SAKHAROV: «MEU PAÍS E O MUNDO»

salario medio mensal é de 600 a 800 dólares. Urna familia


que receba menos de 400 dólares mensais já é subsidiada
pelo Governo norte-americano (coisa que nao se poderia ima
ginar na U.R.S.S.). Na Rússia aqueles que vivem do seu
salario, aplicam a mor parte do mesmo á alimentacáo, quando
um operario americano mal gasta um quarto do salario para
comprar alimentagáo de muito melhor qualidade do que a
da U.R.S.S.; a familia norte-americana vive bem, aínda
que a mulher nao trabalhe por salario.

A esta altura Sakharov considera os protestos dos povos


ocidentais em conseqüéncia da inflagáo, do desemprego, da
crise da energía, etc. E responde:

"Embora nao queira subestimar os efeitos psicológicos desses proble


mas do Ocidente, desejo dizer-lhes: ... mas voces nao estáo monendo
de fome, nao estío encostados á parede e, ainda que tivessem de abaixar
de 4/5 o seu nivel de vida, este ainda seria mais elevado do que o dos
cidadaos do país socialista mais rico do mundo" (p. 19).

Pergunta-se por último : como gasta o Estado Soviético


as enormes quantias de dinheiro de que dispóe, gragas ao
baixo nivel dos salarios ?

Urna boa parte desse dinheiro é aplicada ao desenvolvi-


mento da produgáo. Mas outra parte, nao menor, vai servir
a custear as gigantescas despesas militares, a expansáo
— clandestina ou aberta — do comunismo russo em todas
as partes do mundo desde o Próximo Oriente até a América
Latina ; vai possibilitar a elevacáo do nivel de vida das cama-
das privilegiadas da sociedade russa e o financiamento de
absurdas exigencias da burocracia soviética. — Por último,
urna parcela dos recursos acumulados pelo Estado atenderá
a necessidades sociais, como aposentadorias, tratamento mé
dico e instrucáo, que, por conseguinte, nao podem ser consi
derados «servidos gratuitos».

1.3. O plano social

Sakharov salienta em especial, entre outros, os seguintes


pontos :

a) A duragáo das ferias é muito curta (duas semanas


para a maioria da populagáo). É o Governo quem fixa as
respectivas datas.

— 191 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

b) A duragáo da semana de trabalho ó de 41 horas ;


é, pois, mais longa do que na maioria dos países ocidentais;

c) O direito de greve nao existe, como nao existe o


de apelar para instancias superiores. Ñas minas e ñas indus
trias químicas, os operarios vém lutando por obter melhores
condicóes de seguranga, que, em algumas empresas, estáo
totalmente esquecidas.

d) Todos os anos alguns sábados ou domingos sao pro


clamados «dias úteis». Em tese só trabalham entáo os «vo
luntarios» ; ai, portm, de quem nao queh*a ser «voluntario» !
O salario correspondente a tais «dias úteis» é diretamente
depositado ñas caixas do Estado !

e) As condicóes de morada sao precarias para a maio


ria da populagáo, apesar do grande esforgo de construgáo
realizado em numerosas cidades. Geralmente os apartamen
tos assinalados as familias fazem parte de enormes edificios,
que carecem de conforto e de espago suficiente; só urna ínfima
parte da populacáo dispóe de urna peca para cada membro
da familia. Os géneros e produtos industriáis sao mediocres
em geral, com excegáo de algumas cidades de élite. O pao,
fabricado com diversos ingredientes, ó de má qualidade.
Quanto á carne, é pior; na maioria das cidades, as pessoas
fazcm fila durante horas para comprar um pedazo insatis-
fatório.

Em milhares de aldeias e cidadezinhas do país, desde a


manhá há filas as portas das lojas de produtos alimenticios;
as pessoas esperam a chegada do pao. Esperam também que
seja liberado algum outro artigo ; e, caso se trate de género
deficitario, como bacalhau, o distrito inteiro vai formar filas
de espera. As pessoas (geralmente mulheres), sentadas ou
em pé, ficam varias horas por dia á espera diante das portas
das lojas, mesmo ñas fases de trabalhos agrícolas mais
urgentes.

f) O nivel do ensino é muito baixo, principalmente ñas


zonas rurais. As salas de aulas, superlotadas, sao escuras e
abafadas. As cantinas escolares sao deploráveis. Ao contrario
do que se dá em numerosos países nao socialistas, a gratui-
dade do ensino nao se estende nem 'á alimentagáo das crian-
gas nem ao fornecimento de uniforme e de livros escolares.
O acesso á escola superior é entravado por varios e injustos

— 192 —
SAKHAROV: «MEU PAÍS E O MUNDO»

obstáculos; sao particularmente indesejados os judeus, os


filhos de dissidentes, de fiéis religiosos, de alemáes...

g) Os servigos médicos oferecidos á maioria da popu-


lagáo sao de baixo valor. O paciente tem, por vezes, que
perder metade do seu día para ser admitido a urna consulta
de hospital, consulta que nao pode ultrapassar dez minutos.
Ao enfermo nao é facultado escolher o seu médico. O orga-
mento de um hospital medio prevé a despesa de um rublo
diario para cada doente internado — o que mostra que tudo
pode faltar a um paciente hospitalizado. Existem, porém,
Clínicas privilegiadas ñas quais se prevé a despesa de quinze
rublos diarios por paciente. Como quer que seja, os estran-
geiros a servigo em Moscou costumam enviar suas esposas
aos países ocidentais para darem á luz, embora lhes sejam
asseguradas melhores condigóes do que ao comum dos cida-
•dáos soviéticos.

A farmacia dos hospitais medios de Moscou é menos bem


sortida do que as congéneres do Ocidente ; ñas regióes pro
vincianas ignoram-se praticamente os medicamentos moder
nos. Aa leis proibem que os médicos receitem, ou mesmo que
mcncioncm, medicamentos que estejam em falta ou estran-
geiros. Ora tal proibicáo constituí urna violagáo da tradicio
nal ótica medica ; o paciente deixa de sor informado a res-
poilo de Inilamentos que, a rigor, seriam recomendáveis no
seu caso. Muitos enfermos, apoiados por seus familiares, fa-
riam todo o sacrificio necessário para aliviar seus sofrimentos
ou mesmo obter a cura se o médico indicasse o caminho para
lal. Uitv decreto do Ministerio da Saúde prescreve sejam aten
didas com particular atencáo as pessoas que trabalham — o
•que constituí outra violagáo da ética médica.

h) Para locomover-se dentro do próprio país, o súdito


russo necessita de salvo-conduto; é o que dificulta ou impos
ibilita aos camponeses emigrar para as cidades. Todavía os
jovens se esforgam por consegui-lo; aqueles que terminam o
■servigo militar, nao costumam voltar para os campos.

Quanto as viagens ao estrangeiro, sao impraticáveis para


a maioria da populagáo, nem mesmo quando a finalidade seja
lucrativa ou profissional. Para confronto, observe-se que em
1975 dezesseis milhóes de cidadáos da Alemanha Federal
íoram, com suas familias, passar ferias no estrangeiro.

— 193 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

i) «O consumo de álcool é tres vezes mais elevado hoje


do que nos tempos czaristas» (cf. p. 27). As autorirades go-
vernamentais, diante deste fato, assumem duas atitudes: de
um lado, lamentam haver grande número de operarios que
nao comparecem ao trabalho ou cujas máos tremem desde
a manhá ; de outro lado, observam : «Assim o povo se man-
tóm mais tranquilo, levanta menos reivindicagóes o entra
mais dinheiro nos cofres do Estado. Alcm do mais, trata-se
de antigo costume na U.R.S.S., contra o qual nada podemos
fazer». Desta forma, vai acontecendo todos os anos que de-
zenas de milhares de bébados se afogam ou morrem de frío
em plena rúa.

j) «A justiga social é ignorada em nossa sociedade»


(p. 27). Desde os anos de 1920/30 formou-se na Rússia urna
carnada social de élite, que representa a burocracia do Par
tido ou a nomenclatura (como se designam os seus membros);
constituem os chefes e patróes do povo, dotados de seu modo
próprio de vida, com seu linguajar e seu modo de pensar
peculiares. A pertenca á «nomenclatura» tem-se tornado here
ditaria e inalienável. Gragas a um sistema complexo de pri
vilegios secretos, gragas também a salarios elevados, os mem
bros dessa classe social (a «nova classe» de Djilas) tem
melhores condigóes de morada, de alimentagáo e de vestuario
(muitas vezes a prego módico) assim como o privilegio de
poder viajar para o estrangeiro.

A propósito nota Sakharov que o Governo soviético tem


expulsado do centro de Moscou os cidadáos «ordinarios», ofe-
recendo-lhes um apartamento para cada familia (muito pe
queño, sem dúvida, mas melhor do que os apartamentos,
comunais), apartamento este situado em grandes blocos de^
dez andares nos novos bairros da periferia de Moscou ; tais
cidadáos se dáo por muito contentes com a troca. Ao mesmo
tempo, as autoridades mandam demolir os hoteis e outros.
monumentos do núcleo antigo de Moscou para construir ai
alojamentos de luxo destinados a urna élite cuidadosamente
selecionada; tais mansóes dispóem do equipamento e dos.
servicos mais modernos. A cidade de Moscou é cercada por
um anel de luxuosas vilas individuáis, protegidas por mura-
lhas indevassáveis. «Ali está o baluarte principal da 'nomen
clatura' triunfante, símbolo do poder e do bem-estar» (p. 28
n. 1). E acrescenta Sakharov : «A vila que me fica do meu.
passado, é mais ou menos desse tipo» (ib.).

— 194 —
SAKHAROV: «MEU PAÍS E O MUNDO» 11

Em vastas carnadas da populagáo russa observa-se um


sentimento de irritagáo diante dos privilegios da «nomencla
tura», que sao custeados pelos cidadáos ordinarios. Mesmo
as pessoas que vivem afastadas da política, tém a ocasiáo
de perceber os absurdos resultantes do elitismo : o apodreci-
mento anual de importante porgáo da colheita de legumes,
frutas e cercáis ; a pcrda, por ocasiáo do transporte para os
campos, de metade dos adubos químicos; os métodos devas
tadores utilizados na pesca; a destruicáo das florestas; as
reservas destinadas á caga empreendida pelos maiorais que
desejam divertir-se; a indiferenga em relagáo a-os transportes
comuns...

Essa irritagáo popular nem sempre se volta contra os


responsáveis da situagáo, mas — sob a pressáo das tradigóes,
da ignorancia e dos preconceitos — é muitas vezes dirigida
contra os intelectuais (que constituem eles mesmos urna
classe explorada) e contra membros de outras nacionalida
des : contra os judeus, os armenios, os russos das repúblicas
da Asia Central e do Báltico... Os estagiários e hospedes
de cor provenientes de países do Terceiro Mundo sao objeto
de aversáo racial.

Deixando o plano social, Sakharov passa ao plano poli


cial e as suas facanhas na U.R.S.S.

1.4. A policía

Os cidadáos que se mostram inconformados com o regime,


sao perseguidos como dissidentes. A U.R.S.S. conta entre
2.000 e 10.000 detidos políticos, além do número, provavel-
mente maior aínda, de pessoas que sofrem por suas convic-
góes religiosas. Os prisioneiros políticos sao tratados como
criminosos de direito comum (carecem de estatuto particu
lar) ; em conseqüéncia, compartilham com estes vexames e
humilhagóes pesados: trabalho obrigatório exaustivo, fre-
qüentemente imposto sem consideragáo da saúde do detento;
quantidade e qualidade insuficientes de alimento, agravadas
pela impossibilidade quase total de se enviar algum pacote
aos prisioneiros; limitagóes severas no tocante as visitas, á
correspondencia, á posse de livros; punigóes ferozes e arbi
trarias. As greves de fome, empreendidas pelos prisioneiros
políticos com freqüéncia crescente nos últimos tempos a fim

— 195 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

de pedir respeito aos direitos humanos, via de regra só obtém


um reforjo de repressáo aos grevistas.

Note-se, alias, que os prisioneiros políticos em geral sao


pessoas que nao preconizaram nem cometeram alguma agáo
violenta contra o Governo, mas leram, guardaram ou pas-
snram adianto manuscritos do samizdat ou obras tidas como
indesejávcis; tais scriam, entre oulras, «O Doutor Jivago» de
Pasternak, «As fontes e o sentido do comunismo russo» de
Berdiaev, «O arquipélago Goulag» de Soljenitzin, «1984» de
Orwell...

Os hospitais psiquiátricos abrigam nao somente tal tipo


de dissidentes políticos, mas também aqueles que tentaram
sair clandestinamente do país e, para tanto, se introduziram
numa Embaixada, depois de haver procurado em váo as vias
oficiáis.

A Igreja Ortodoxa e outras comunidades religiosas tém


sofrido veemente perseguicáo. Hoje a Igreja Ortodoxa russa
está privada dos seus direitos e quase reduzida a dependencia
ou órgáo do Estado. Os filhos sao subtraídos á educacáo
dada pelos pais a fim de serem preservados de «funesta»
formacáo religiosa. Ora isto tudo constituí indevida ingeren
cia do Estado no foro íntimo e ñas conviegóes pessoais dos
cidadáos.

É dura a sorte dos cidadáos que ousem pronunciar-se


contra algum veredito iniquo dos tribunais russos. Tal foi o
caso, por exemplo, de Leónidas Pliouchtch, matemático, que
foi submetido a torturas quase assassinas no hospital psiquiá
trico de Dniepropetrovsk; foi o caso também de Boukouski e
Glouzmann, que foram condenados a sete anos de detencáo
por terem denunciado a repressáo psiquiátrica; foi outrossim
o caso de Andró Tverdokhlcbov e de Sergio Kovalev, encar-
cerados... A esta altura observa Sakharov:

"Estou convencido de que a defesa dos presos políticos na U.R.S.S.


e de outros detenlos, a luta em prol da humanizacSo das condicOes de
detenego, a luta em favor dos direitos humanos em geral nao constituem
tSo somente um dever moral para as pessoas honestas do mundo inteiro ;
ela está ligada á defesa direta dos direitos humanos em todos os países
do globo. Por vezes verificamos que há certa indiferenca em relacáo ás
nossas desgragas. lAssim, após a visita do Primeiro Ministro Harold Wilson,
da Grá-Bretanha, & U.R.S.S., a quem eu dirigirá um apelo, ouvi pelo
radio o tranquilo comentario de um jornalista: 'Wilson nSo podía imlscuir-se

— 196 —
SAKHAROV: «MEU PAÍS E O MUNDO» 13

na questao dos direitos humanos na U.R.S.S., pois em geral sao homens


de direita que se interessam por esses problemas, e Wilson nao se podia
solidarizar com eles'. Quero crer que, apesar de tudo, a atitude de Wilson
seja outra. A que ponto pode chegar o cinismo!" (p. 40).

Sakharov nota ainda que nos decenios precedentes mi-


lhóes de homens na Rússia morreram na ignorancia do que
lá acontecía. As mudangas ocorridas na situacáo do país tor-
naram possívcl urna brecha nessa conspiragáo do silencio;
muitos sao os homens corajosos, talentosos e abnegados que
resolveram utilizar essa possibilidade e conseguiram comuni
car ao público a realidade sinistra que o silencio ocultava.
Esta faganha, por sua vez, causou novas vítimas. Nos tem-
pos mais recentes, tém-se salientado como beneméritos os edi
tores da revista anónima publicada pelo samizdat: «A Cró
nica dos Acontecimentos». Durante anos, a KGB (Policía
Secreta) pós-se ao encalco de quem participasse, de algum
modo, da difusáo da «Crónica»; os tribunais, embora nao
tivessem provas, qualificaram-na de «caluniosa» e proferiram
numerosas condenagóes sobre pessoas suspeitas de a promo
ver, inclusive sobre o conhecido astrofísico Kronide Liou-
barski e o matemático Alexandre Bolonkine. Todavía nin-
guém conseguiu demonstrar a existencia de qualquer inver-
dade ñas páginas da «Crónica».

Sakharov realca também e elogia o papel dos escritores


que tentaram manifestar ao mundo os aspectos ocultos da
sociedade soviética. Nao somente fizeram revelagóes sobre
os campos de trabalho forgado, mas projetaram luz sobre a
situagáo psicológica, moral, social e económica do povo russo.
Por ter revelado o que se dá de criminoso nos campos de
concentragáo, alguns desses escritores foram condenados urna
on duas vezes. Tal foi o caso de Anatoli Martchenko, Daniel
Skoumonk e de Iuri Choukhevitch. Vitor Khauoustov e Ga
briel Superfine foram atingidos por longas penas de prisáo.

Além das perseguigóes judiciárias e violentas, regis-


tram-se as extra-judiciárias, com suas mil facetas: demissóes
de funcionarios, que assim perdem seu trabalho, tentativas de
impedir os filhos dos cidadáos indesejáveis de continuar seus
estudos ou de encontrar trabalho, expulsáo para o estran-
geiro... Sakharov cita especialmente o caso do físico e mate
mático Valentim Tourtchine e do físico Iuri Orlov, membro
associado da Academia das Ciencias da Armenia; perderam
suas fungóes por terem tomado a defesa de Sakharov em

— 197 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

1973. Hoje difícilmente eonseguem dar aulas particulares. As


pessoas que caem em tal desgraga, dáo-se por felizes se eon
seguem trabalhar durante dez dias como substitutos de pe-
dreiro, ganhando em troca cem rublos (quarenta dólares).

1.5. Por que o povo nao reage ?

Tendo catalogado tantos males que afligem o país, per-


gunta Sakharov por que o povo russo nao toma medidas des
tinadas a pór-lhes termo...

A resposta, diz o escritor, nao é fácil.

Em primeiro lugar, a elevagáo do nivel de vida lenta,


mas real, constituí um dos fatores de estabilidade do regime.
Está claro que os cidadáos soviéticos comparam o seu nivel
económico nao com o de París, mas com o seu passado mise-
rável.

Outro fator também pesa: o poderío do regime totalitario


que inspira, medo, inercia e passividado. Nenhum povo sofreu,
numa só geragáo, tantos sacrificios. Podem os alto-falantes
gritar aos ouvidos do cidadáo soviético: «Tu és o senhor do
país!», esse homem comprcende que os senhores da nagáo
vém a ser os cidadáos que, manhíi e tarde, transitam em
limousines pretas blindadas através de rúas mortas com acesso
bloqueado. Ele se lembra de como foram tratados seus avós
e sabe que hoje ainda a sua sorte pessoal depende totalmente
do Estado, do presidente da Comissáo de alojamentos, do
presidente do Sindicato, que poderá ou nao conseguir um
lugar para seu filho no jardim da infancia. . . e também tai-
vez do espía da KGB que trabalha aos seus lados.

Por ocasiáo das eleigóes, o cidadáo soviético deposita ñas


urnas urna cédula de chapa única. Ele nem tem meios de
tomar consciéncia de qüanto sao humilhantes essas eleigóes
sem escolha. Ele ó domesticado c dobra-se á domesticagáo
para poder sobreviver. Iludo-se a si mesmo. O cidadáo sovié
tico é produto de sociedade totalitaria e, ao mesmo tempo, o
seu principal esteio.

O capítulo I da obra se concluí com urna ponderagáo de


interesse geral.

— 198 —
SAKHAROV: «MEU PAÍS E O MUNDO» 13

1.6. O significado mundial dessa situacao

Sakharov observa que o bem-estar da Rússia e o do


mundo inteiro estáo intimamente associados entre si. A dolo-
rosa situagáo russa tem repercussáo em todo o globo.

O poderío do redime soviético, os seus enormes recursos


finaneciros, a vigilancia excrcida por esso regime sobre o
comercio, a ciencia e os negocios internos de outros países
fazem que a Rússia comunista sustente os regimes tiránicos
de Amin Dada em Uganda, de Kadhafi na Libia, alimente
com armas poderosas o genocidio do povo ibo na Nigeria, o
dos Kurdos no Iraque, etc. A Rússia se serve dos odios
nacionais e políticos existentes no mundo inteiro para esten
der a sua influencia; recorre á corrupgáo, á fraude, á chan-
tagem, á organizagáo de «quintas colunas», á violagáo de qual-
quer tratado e a outros meios desonestos e clandestinos para
se impor ao mundo, constituindo um perigo e um desafio
para toda a humanidade.

Mais: a supermilitarizacáo da U.R.S.S. faz que outros


países sejam obrigados a arcar com pesadas despesas de
armamentos. O fornecimento de armas da Rússia a outros
países alarga as zonas de conflitos e bloqueia o desenvolvi-
mento económico dos povos que recebem essas armas.

O lamentável estado da agricultura da Rússia — que foi


antes da Revolugáo o celeiro da Europa — constituí um dos
entraves essenciais para a solugáo dos problemas alimentares
do mundo.

Eis por que os povos todos deveriam estar interessados


em colaborar na restauragáo de auténtica ordem na Rússia
Soviética; os problemas desta vém a ser indiretamente os de
todos.

No fim do capítulo I Sakharov aínda se detém numa


reflexáo, que, pelo seu valor e significado, merece aqui ser
transcrita:

"Este capitulo... poderá parecer assaz 'malévolo1. Ñas horas de


prova que se seguem ao meu trabalho, um sentimento de mal-estar, quase
de vergonha, me invade por vezes. Será que estou fazendo algo de real
mente útil ? Pensó nos muitos que cumprem a sua tarefa ¡mediata e indis-
cutivelmente útil: os que colhem o trigo e a beterraba, os que constroem
casas, pontos, fabricam automóveis, cuidam de crlancas, tratam dos doentes,

— 199 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

escrevem versos, trabalham em laboratorios, pensam em ser úteis aos


outros e á sua felicidade pessoat. Eu, porém... 1 — Nao estou traindo
nenhum deles, nao estou lancando sombra sobre o seu trabalho honesto
nem sobre os seus sonhos. Também nao estou traindo a m¡m mesmo (que
há de píor do que urna traicáo ?). Talvez me falte o talento necessário ao
trabalho que empreendi... Mas, se sou honesto para comlgo, nada tenho
a censurar a mlm mesmo, e esse trabalho por mim executado deve parecer
táo útil quanto o de qualquer outro trabalhador" (p. 51).

Urna voz percorrido o capitulo em que Sakharov expóc


os problemas da vida na U.R.S.S., interessa-nos passar ao
capítulo V da mesma obra, em que o autor se dirige aos
rntelectuais liberáis do Ocidente, fazendo-lhes veemente apelo.

2. A «¡ntelligentsia» liberal do Ocidente

Antes do mais, no cap. V Sakharov reconhece as nobres


intengóes dos seus colegas ocidentais, quando cultivam o res-
peito á liberdade interior, a ausencia de preconceitos naciona
listas, um modo de pensar realista e prático... Todavía per
cebe um trago comum a muitos desses pensadores do Oci
dente, que o deixa preocupado: é a «moda do liberalismo de
esquerda». Tais pensadores sao levados a cometer erros peri-
gosos em relagáo á política internacional ou porque carecem
de informagóes suficientes ou porque tendem a seguir a
«moda de pensar» ou aínda porque receiam ficar aquém das
atitudes de seus filhos; por isto sao, por vezes, simplistas
frente a aspectos complexos c trágicos da vida nos países
socialistas, e nem sempre dáo o devido crédito a relatos que
se Ihes fazem a propósito da situagáo da populagáo de tais
países.

Sakharov cita o caso de um familiar de sua sogra (se-


nhora que passou numerosos anos em campo de concentracáo
como «membro da familia de um traidor da patria»), o qual
perguntou um dia a tal senhora: «Haverá ao menos um grao
de verdade naquilo que Soljonitzin escreveu?» Esse senhor
pertencia á cúpula do Partido Comunista Francés!

Diz textualmente o físico russo:

"A moda esquerdlsta domina hoje o Ocidente. Um complexo de fato-


res diversos favorecem este estado de coisas. Em prlmeiro lugar: a eterna
aspiragáo da juventude as mudancas mais radicáis, e o medo que nutrem
os homens mais experimentados e prudentes da velha geracSo de ficar
atrás dos seus próprios filhos ... Os meios radicáis sugerem sempre a
ilusSo de que é possivel regrar esses problemas com rapidez e simplici-
dade sedutoras.

— 200 —
SAKHAROV: «MEU PAÍS E O MUNDO» 17

Outro fator de peso para explicar a predominancia das idéias de


esquerda é que durante decenios o fluxo da propaganda pró-soviética ou
pró-chinesa, mesclando idéias soclais justas com semiverdades e mentiras,
se derramou sem tregua sobre o Ocidente" (p. 84s).

A leviandade irrefletida com que muitos pensadores oci-


dentais aderem á moda do liberalismo de esquerda, pode pro
vocar graves perigos: um deles seria a perda da unidade do
Ocidente; outro seria o socialismo estatal totalitario. So os
intelectuais do Ocidente, com seus filhos e seus netos, tives-
sem que viver sob regime eomparável, ainda que de longe,
ao regime russo ou ao chinés, compreenderiam quanto sao
repudiáveis. Talvez, porém, nao lhes fosse deixada a possibi-
lidade de se libertar de tal regime, pois é fácil querer provar
o socialismo totalitario; difícil, porém, desfazer-se dele. Tra-
ta-se de regime que incute o medo, a inercia e a passividade.

Tais sao as grandes linhas do capítulo final do livro «Meu


país e o mundo» de Andrei Sakharov. A sua eloqüéncia e o
seu significado tém a autoridade de quem vive o problema e
o experimenta. Sakharov se dirige a quem, ignora a vivencia
de um regime comunista e talvez inconscientemente «esteja
a brincar com o fogo».

Possam as palavras do físico russo premio Nobel encon


trar a sua merecida ressonáncia em nossos ambientes oci-
dentais !
S * :¡s

FICA CONOSCO !

«FICA CONOSCO, SENHOR, PORQUE A NOITE SE


APROXIMA».
QUANDO OS DISCÍPULOS DE EMAÚS TE FIZERAM
ESTA PRECE, CONSENTISTE EM FICAR COM ELES.
TAMBÉM NOS TE DIZEMOS : JESÚS, COMPANHEIRO DE
CAMINÍIADA, FICA CONOSCO, NAO NOS DEIXES. . .
FICA CONOSCO, SENHOR, NO DECORRER DO DÍA,
SOBRETUDO ÑAS HORAS DE TREVAS, QUANDO SOFRE-
MOS, QUANDO ESTAMOS TRISTES, QUANDO SOMOS
TENTADOS...
DÁ-NOS A MAO NESSAS HORAS ; FAZE-NOS SEN
TIR TUA PRESENC.A, PELO MENOS ALERTANDO-NOS,
E DANDO-NOS A INTIMA CERTEZA DE QUE NAO ES
TAMOS SOS...
B. MARAUX

— 201 —
Um documento da Santa Sé:

as ordenacóes sacerdotais de mulheres

Em sínlese: Nos últimos decenios tem-se posto com insistencia,


entre os cristáos, a questáo do sacerdocio ministerial de mulheres. A dife-
renca do que acontece no luteranismo e no anglicanismo, a Igreja Católica
e as comunidades eclesiais ortodoxas do Oriente tém rejeitado a perspectiva
do sacerdocio feminino. Em outubro de 1976, a S. Congregacao Romana
para a Doutrina da Fé publicou urna Declaracáo dita "ínter insigniores",
que propóe as razoes por que a Igreja Católica nao adota a nova tese:
o exemplo de Cristo, o dos Apostólos, a praxe constante da Tradigáo
crista, o próprio misterio de Cristo e o da Igreja levam a dizer que nao
está em poder da Igreja hoje estender a ordenacao sacerdotal ao sexo
feminino.

A grandeza e a importancia da mulher tém sido mais e mais reco-


nhecidas na Igreja e na sociedade contemporáneas. O catolicismo valoriza
altamente a funcáo da mulher; lembra, porém, que "os maiores no Reino
dos céus nao sao os ministros, mas, sim, os santos" ; e o que faz os
santos, é a caridade ou o amor perfeito. Que todos, homens e mulheres,
exercendo cada qual a sua funcáo própria e inconfundível na Igreja, cul-
tivem a caridade, evitando divisoes e rixas por causa dos ministerios a ser
exercidos. Nem se diga que o sacerdocio ministerial é direito da mulher,
visto que o batismo nao confere nenhum titulo pessoal ao ministerio público
na Igreja. Esta, de resto, nao é simplesmente urna sociedade como outra
qualquer, mas é um sacramento, urna realidade sobrenatural, cujos criterios
nao sao puramente sociológicos ou psicológicos, mas os da fé transmitida
pelas Escrituras e a TradicSo, que o magisterio da Igreja propóe autentica-
mente em cada urna das fases da historia.

Comentario: Sabe-se que, aos 15/X/1976, a S. Congre


gacáo para a Doutrina da Fé publicou urna Declaracáo so
bre a admissáo de mulheres ao sacerdocio ministerial. Este
documento veio dirimir urna questáo calorosamente discutida
nos últimos tempos; o movimento feminista ascendente dava
a crer que a Igreja Católica resolvería conferir a ordenacao
sacerdotal as mulheres. Isto, porém, nao aconteceu. Vista a
importancia desta atitude de reserva da Igreja, procuraremos
abaixo transmitir as grandes linhas da citada Declaragáo e
os argumentos a que ela recorre.

Logo de inicio, notemos o que os comentadores do do


cumento observam muito oportunamente: a Declaragáo deve-

— 202 —
ORDENACAO SACERDOTAL DE MULHERES 19

ría ter sido inserida no contexto de um estudo mais ampio


sobre a questáo da promogáo da mulher no mundo de hoje.
Assim o caráter negativo da Declaragáo teria sido diluido
dentro de perspectivas grandiosas. Contudo ainda nao se
pode propor um estudo completo da promogáo da mulher
hoje, visto que muitas das pesquisas empreendidas sobre o
assunto ainda estáo em curso. De outro lado, nao era opor
tuno protelar urna Declaracáo pública da Igreja sobre o
sacerdocio das mulhcrcs, dado que a questáo era agitada den
tro e fora do Catolicismo. É o que explica tenha sido publi
cado recentemente um documento que apenas diz Nao, sem
mostrar o relevante papel da mulher na Igreja e no mundo.
Seja, porém, considerado á luz da estima que a Igreja e a
sociedade de nossos tempos tém tributado á mulher.

A Declaragáo compreende seis partes: 1) o fato da Tra-


digáo; 2) a atitude de Cristo; 3) a prática dos Apostólos;
4) o valor permanente da atitude de Jesús e dos Apostólos;
5) a luz do misterio de Cristo; 6) a luz do misterio da Igreja.
— A primeira parte está praticamente incluida na terceira e
na quarta.

1. A atitude cíe Cristo

Observa-se que Jesús nao chamou mulher alguma a fazer


parte do grupo dos doze Apostólos. Procedeu assim nao por
tencionar conformar-se aos costumes sociais de seu tempo,
pois na verdade Jesús teve, em relagáo as mulheres, atitudes
que rompiam corajosamente com os hábitos dos seus contem
poráneos.

Com efeito, o Senhor fazia-se acompanhar em suas via-


gens nao só pelos doze, mas também por um grupo de mulhe
res (cf. Le 8, 2s). Quis que as mulheres fossem, para os
Apostólos, as mensageiras da sua ressurreigáo (cf. Mt 28,7-10;
Le 24, 9s; Jo 20,11-18), embora o Direito judaico pouco valor
reconhecesse á palavra das mulheres. Perdoando á mulher
adúltera, Jesús quis mostrar que nao se deve ser mais severo
para com a mulher do que para com o homem (cf. Jo 8,11).

Estes e outros dados evangélicos nao sao, por si mesmos,


argumentos decisivos. Háo de ser considerados á luz de toda
a Tradigáo da Igreja, que viu na atitude de Jesús urna orien-
tagáo decisiva para determinar o sujeito do sacramento da

— 203 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

Ordem. Essa Tradicáo foi a mesma tanto no Ocidente como


no Oriente; tal unanimidade é digna de nota especial, visto
que em outros pontos nao se verificou; até hoje, alias, tanto
os cristáos orientáis como os ocidentais recusam o sacerdocio
as mulheres, tencionando assim ser fiéis ao modelo de mi
nisterio intencionado pelo Senhor e fielmente mantido pelos
Apostólos.

De resto, é de se notar que, embora María SS. tenha


sido intimamente associada ao misterio de Cristo, desempe-
nhando fune.áo sem par, nao foi investida do ministerio sacer
dotal. Este fato foi tido como altamente significativo na teo
logía católica. Assim, por exemplo, escrevia o Papa Inocen
cia III (f/1216):

"Aínda que a bem-aventurada Virgem María ultrapassasse em digni-


dade e excelencia todos os Apostólos, nao foi a ela, mas a estes que o
Senhor confiou as chaves do Reino dos Céus" (Epístola de 11/XII/1210 aos
bispos de Paléncia e Burgos).

Alias, desde o século III os escritores da Igreja lembram


o fato de que Maria, táo exaltada como foi pelo Senhor Deus,
nao reccbeu a ordenac.no sacerdotal. O lugar de Maria, no
plano de Deus, é único; Ela nao deve ser comparada aos
Apostólos, pois está ácima deles. Isto bem mostra que na
Igreja há fungóos diferentes: se, de um lado, nao há accepgáo
de pessoas diante de Deus, de outro lado existe complemen-
tagáo de tarefas; o ministerio sacerdotal nao é a única forma
de dignidade, mas é urna maneira de servir entre outras.
Maria SS. nao precisa do «acréscimo de dignidade» que cer-
tos autores de espiritualidade lhe quiseram atribuir, cha
mando-a «Virgem Sacerdotiza».

2. A praxe dos Apostólos

O colegio dos Apostólos permaneceu fiel ao Senhor Jesús.


Embora Maria fizesse parte do círculo daqueles que aguar-
davam o dom do Espirito após a ascensáo do Senhor, nao foi
chamada a entrar no colegio apostólico quando os apostólos
elegeram Matías; somonte os nomes de José Barsabas e Ma
tías foram entáo propostos (cf. At 1, 23-26). Embora tivesse
recebido o Espirito Santo em Pentecostés, o anuncio da Boa-
-Nova foi executado por «Pedro e os onze» (cf. At 2,14).

— 204 —
ORDENACAO SACERDOTAL DE MULHERES 21

Quando os Apostólos foram pregar fora do mundo ju


daico, tiveram que romper com as tradicóes da Lei de Moi
sés — o que foi feito pelo Apostólo Sao Paulo de maneira
enérgica e decidida. Os Apostólos poderiam entáo ter consi
derado também a possibilidade da ordenadlo de mulheres,
pois no mundo helenístico o culto de varias divindades pagas
era confiado a sacerdotizas; de resto, embora os filósofos
menosprczassem a mulhcr, houve corlo movimenlo de promo-
gáo feminina durante o período imperial.

Ora o que se lé no livro dos Atos dos Apostólos e ñas


cartas paulinas, é que os Apostólos tiveram a colaboracáo de
mulheres em sua obra evangelizadora; cf. Rm 16,3-12; Fl 4,3.
Algumas, como Priscila e Lidia, exerceram influencia impor
tante em certos casos de conversáo; Febe foi diaconisa da
igreja de Cencréia (cf. Rm 16,1). Estes fatos evidenciam que
no tempo dos Apostólos se deu urna evolugáo em relagáo ao
judaismo no modo de tratar as mulheres, mas nem por isto
houve ordenagáo sacerdotal de mulheres.

3. Valor permanente de Jais atitudes

Os textos bíblicos foram tomados como norma pela Igreja


de todos os tempos, que por isto jamáis conferiu o ministerio
sacerdotal a mulheres. Eis, porém, que em nossos dias alguns
pensadores julgam que a igreja poderia mudar a sua praxe
neste particular.

Ponderemos os seus argumentos:

1) A atitude de Jesús explicava-se pela influencia do


seu ambiente e da sua cultura; a mulher em tal contexto nao
ora valorizada. Por conseguinte, as circunstancias históricas
nao pormitiam ao Senhor agir de oulro modo.

A esta observado pode-se responder o seguinte: seria


preciso demonstrar que a atitude do Senhor se inspirava úni
camente em motivos sócio-culturais. Ora é fato notorio que
Jesús rompeu com preconceitos de seu tempo, nao obser
vando certas discriminagóes impostas as mulheres. Por con-
seguinte, é difícil ou arbitrario sustentar que, nao chamando
mulheres para o colegio dos Apostólos, o Senhor se tenha
táo somente conformado aos usos do seu tempo.

— 205 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

2) Afirma-se que certas prescrigóes do Apostólo Sao


Paulo em relagáo 'ás mulheres tinham caráter transitorio;
hoje seriam incompreensíveis; tal é, por exemplo, a que se
refere ao uso de véu por parte das mulheres ñas assembléias
de culto (cf. ICor 11,2-16). Observe-se também a imposigáo
de silencio e de submissáo ás mulheres por ocasiáo dos atos
litúrgicos (cf. ICor 14,34; lTm 2, 12). Se, pois, o Apostólo
tomou atitudes de caráter transitorio em relagáo ás mulhe
res, pergunta-se: por que insistir no procedimento do Apos
tólo para excluir do sacerdocio ministerial as mulheres?

— A esta argumentagáo pode-se responder que a pres-


cricáo do Apostólo relativa ao uso do véu das mulheres é,
sim, questáo de cultura e de época. Quanto ao falar na
igreja, note-se que o Apostólo nao se opóe a que as mulheres
exergam o dom da prófecia ñas assembléias (cf. ICor 11,5) *;
o que parece nao ser da intengáo do Apostólo, é que as mu
lheres assumam a fun?áo oficial e hierárquica de ensinar a
mensagem revelada, pois essa fungáo supóe a missáo recebida
de Cristo pelos Apostólos e transmitida por estes aos seus
sucessores. Vale a pena lembrar, porém, que, apesar disto,
a Igreja julgou poder atribuir o titulo de «Doutora» a Santa
Teresa de Ávila e a Santa Catarina de Sena, como o atribuiu
a grandes mestres de Teología (S. Alberto Magno, S. Lou-
renco de Brindisi...). A proibigáo, segundo o Apostólo,
prende-se a urna concepgáo antropológica, que Sao Paulo
assim formula: «A cabega de todo homem é Cristo, a cabeca
da mulher é o homem» (ICor 11,3. 8-12; Ef 5,22.24). Essa
primazia ou chefia do homem em relagáo a mulher é enten
dida pelo Apostólo nao como dominio, mas como doagáo que
chega ao sacrificio do próprio homem; cf. Ef 5,25-33. De
resto, é a Sao Paulo que devemos um dos textos que mais
enfáticamente incutem a igualdade fundamental do homem e
da mulher: «Nao há judeu nem negro, nao há escravo nem
livre, nao há homem nem mulher, pois todos vos sois um só
em Cristo Jesús» (Gl 3,28). Estes dizeres bem mostram
quanto o Apostólo era livre e dilatado em seu modo de pensar.

A esta altura convém mencionar outrossim o fato, muito


citado pelos arautos da nova tese, de que algumas abadessas
na Idade Media exerceram atos de jurisdigáo, normalmente
reservados aos bispos, como sao a nomeagáo de párocos ou

1 O dom da profecía, no caso, significa as diversas formas de ensina-


mento que tenham caráter preponderantemente edificante.

— 206 —
ORDENACAO SACERDOTAL DE MULHERES 23

de confessores. Ora tais atos foram, em grau mais ou menos


explícito, reprovados pela Santa Sé em diversas épocas; ainda
hoje tem-se urna carta de advertencia do Papa Inocencio ni
(t 1216) 'á abadessa de Huelgas. De resto, é notorio que
também os senhores feudais arrogavam a si o direito de
exercer certa jurisdigáo na Igreja. Justificando essa praxe,
os canonistas da época admitiam que a jurisdigáo pudesse
ser separada do sacramento da Ordem — o que hoje nao é
aceito.

3) Os que preconizam a ordenagáo das mulheres, lem-


bram que a Igreja, no decorrer dos séculos, exerceu certo
poder sobre a disciplina dos sacramentos; como testemunhos
recentes deste poder, citam-se as intervengóes de Pió XII no
ritual do sacramento da Ordem e as de Paulo VI nos da
Crisma e da Ungáo dos Enfermos.

— Nao há dúvida, a autoridade da Igreja tem modificado


aspectos do Sacramentário, nunca, porém, alterando o essen-
cial dos sacramentos instituidos por Cristo. Os sinais sacra
mentáis nao sao meramente convencionais; eles devem expri
mir a sua relagáo com os acontecimentos iniciáis do Cristia
nismo e com o próprio Cristo. Ora a qucstáo da ordenagáo
das mulheres toca de muito perto o sacerdocio ministerial;
nao pode ser tida como aspecto acidental do sacramento da
Ordem.

Em última instancia, como se vé, é o magisterio da Igreja


quem define o que é essencial e o que é acidental na praxe
litúrgica e jurídica dos cristáos. E a Igreja exerce tal magis
terio porque sabe que lhe foi confiado por Cristo, que lhe
assiste, a fim de que o depósito da Revelagáo Divina seja
conservado incólume apesar das vicissitudes humanas. É o
que professa a Declaragáo em foco :

"Se a Igreja julga que nao pode aceitar certas mudancas, ¡sto ocorre
porque Ela se senté ligada pelo procedimento de Cristo ; a sua atitude
entáo, n§o obstante as aparéncias, nao é de arcaísmo, mas, sim, de fide-
lidade; somente sob esta luz pode ser compreendida essa sua atitude. A
Igreja pronuncia-se em virtude da promessa do Senhor e da presenta do
Espirito Santo, com a finalidade de melhor proclamar o misterio de Cristo
e de salvaguardar melhor e manifestar integralmente a riqueza do mesmo"
(Declaracao n<? 4).

Passemos agora a novo ítem da Declaragáo :

— 207 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

4. ... Á luz do misterio de Cristo

1. É constante doutrina da Igreja que o sacerdote, no


exercício do seu ministerio, nao age em seu próprio nome,
mas representa o Cristo, que por ele age; cf. 2Cor 5,20;
Gl 4, 14. Esta fungáo se evidencia muito especialmente quando
o sacerdote pronuncia as fórmulas sacramentáis: «Eu te
absolvo dos tcus pecados... Isto ó o mcu corpo». Se, pois,
o sacerdote é urna representagáo ou um sinal do Cristo, pelo
qual Cristo mesmo age, conclui-se que deve haver semelhanga
natural entre Cristo e seu ministro. Ora Cristo é Deus, que
assumiu a natureza humana do varáo de maneira inconfun-
dível e indelével. Isto nao quer dizer que o varáo seja superior
á mulher (o que Sao Paulo nega; cf. Gl 3, 28), mas é urna
questáo de fato, que repercute em toda a dispensagáo da
salvagáo.

O designio de Alianga, que é característico das Escrituran


Sagradas, é simbolizado pela Biblia como alianga nupcial;
O Senhor Deus aparece como esposo e a virgem de Israel ou
filha de Sion como esposa; cf. Os 1-3; Jr '2. Conseqüentemente
Cristo é apresentado como o Esposo da Igreja ou da natureza
humana; cf. 2Cor 11,2; Ef 5,22-33; Jo 3,29; Ap 19,7-9. Na
linguagem do Evangelho, Cristo é o Filho de um Rei para
quem o Rei ou o Pai quis preparar urna festa de nupcias
(cf. Mt 22, 1-14). É, pois, através de simbolismo que atinge
a identidade íntima do homem e da mulher, que nos ó reve
lado o misterio de Deus e de Cristo. A imagem da Alianga
— e da Alianga nupcial — está táo arraigada ñas Escrituras,
que nao pode ser preterida; ela tem seu valor inconfundível
na revelagáo do amor de Deus. Concluí, pois, a Declaragáo :

"é por isto que n§o se pode transcurar o (ato de que Cristo é um
homem. E, portanto, a menos que se queira ignorar a importancia de tal
simbolismo para a economía da Revelagao, será preciso admitir que na-
quelas aedes que exigem o caráter da ordenacSo e em que é representado
o próprio Cristo, autor da Alianca, Esposo e Chefe da Igreja, a exercer o
seu ministerio de salvagáo — como sucede em mais alto grau no caso,
da Eucaristía —, o seu papel há de ser desempenhado (é este o signifi
cado primigenio da palavra persona) por um homem; isto nao significa
haja superioridade pessoal na ordem dos valores, mas táo somente diver-
sidade de fato, ao nivel das fungóos e do servico".

2. Eis, porém, que alguém dirá : na atual oondicáo ce


leste em que se acha, Cristo é indiferente a ser representado-
por um homem ou por urna mulher, visto que «na ressurrei-
gáo nem os homens teráo esposa, nem as mulheres teráo>

— 208 —
ORDENACÁO SACERDOTAL DE MULHERES 25

marido» (cf. Mt 22, 30). Se a Igreja admite que homens de


todas as ragas possam representar validamente o Cristo (que
foi de raga semita), por que nao admitiría que pessoas de
sexo feminino O possam representar ?

— A esta observagáo diga-se o seguinte: a distingáo


entre homem e mulher, na medida em que determina a iden-
tidade própriu da pessoa* nao será supressa na gloria celeste;
o que nao ocorrerá, será táo simplesmente o uso das fungóes
sexuais, que sao correlativas á reprodugáo e ao caráter pere
grino da humanidade. Note-se outrossim que, conforme a
biologia e a psicologia modernas, as diferengas sexuais aínda
sao mais profundas e marcantes do que as diferengas entre
ragas, pois marcam todas as células da pessoa humana; táo
profundas diferengas (que nao significam contraste, mas com-
plementagáo), o próprio Deus as quis, como refere Gn 1,27:
«Deus... criou-os homem e mulher».

3. Ainda se poderia redargüir : mas o sacerdote, quando


preside as agóes litúrgicas e sacramentáis, representa igual
mente a Igreja e age em nome desta, «tendo a inteng.áo de
fazer o que faz a Igreja».

— É preciso, sem dúvida, reconhecer a veracidade desta


afirmagáp : o sacerdote representa a Igreja, que é o Corpo
de Cristo! No entanto, Ele só o faz porque, em primeiro lugar,
representa o próprio Cristo, que é o Cabega e Pastor da
Igreja. É nesta qualidade que o sacerdote preside á assem-
bléia crista e celebra o sacrificio eucarístico.

Observe-se que o sacerdote preside as assembléias de


culto nao por haver sido eleito ou designado pelos fiéis para
esta fungáo, pois a Igreja nao é o resultado da criatividade
dos homens, mas, sim, o fruto de urna convocagáo (ekklesia,
em grego) feita pelo Cristo. É Cristo quem chama, reúne e
chefia a sua Igreja; o sacerdote preside as assembléias de
culto, fazendo, antes do mais, as vezes de Cristo Chefe ou
Cabega. — É significativo o fato de que as comunidades
eclesiais oriundas da Reforma do séc. XVI nao tenham ex
perimentado dificuldade em abrir as mulheres o acesso ao
pastorado. Isto se explica pelo fato de que tais comunidades
véem na Igreja apenas ura agrupamento de fiéis que se
estimulam mutuamente na leitura e na vivencia da Biblia;
esse agrupamento é relativamente acessório ou secundario;
o (a) pastor (a) nessas comunidades é táo somente um(a)

— 209 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

cristáo(á) batizado(a); o ministerio pastoral é ai urna fun-


gao exercida em nome dos fiéis; embora o (a) pastor (a)
receba urna consagragáo para o ministerio, essa consagragáo
nao é reconhecida como sacramento. É precisamente esta
temática que o título abaixo desenvolverá.

5. ... No misterio da Igreja

1. O cristáo nao esquece que a questáo da ordenagáo


das mulheres está intimamente associada ao conceito de
Igreja. Esta, por sua vez, nao pode ser entendida táo somente
á luz de criterios de sociología, psicología ou historia, mas
só é adequadamente compreendida á luz da Revelagáo ou
da fé ; as ciencias humanas nao podem compreender plena
mente as realidades qué a fé professa, pois sao sobrenaturais.

Em conseqüéncia, notemos que, sob a luz da fé, a Igreja


é sociedade diferente das outras sociedades quanto á sua
natureza e á sua estrutura. Os encargos pastarais, na Igreja,
nao sao formas de exercicio da autoridade comparáveis as
modalidades de autoridade ocorrentes ñas sociedades e nos
Estados civis.' Essc ministerio pastoral ou sacerdotal nao é
o objeto de um direito que todos os cristáos poderiam ter
em conseqüéncia do seu batismo ou em virtude de autopro-
mocáo ou aínda como resultado de eleicáo ou de vontade da
coletividade; ainda que alguém seja eleito presbítero ou bispo,
como acontecía nos primeiros séculos do Cristianismo, nao
é a eleigáo que habilita o candidato ao ministerio sacerdotal,
mas a imposigáo das máos e a oragáo dos sucessores dos
Apostólos é que habilitam o candidato e dáo ao povo de Deus
a certeza de que o próprio Deus escolheu tal cristáo para
o ministerio. É preciso nao esquecer as palavras de Cristo :
«Nao fostes vos que me escolhestes, mas fui eu que vos es-
colhi e instituí» (Jo 15,10; cf. Hb 5,4).

Vé-se também que nao se deveria propor o acesso das


mulheres ao sacerdocio como conseqüéncia da igualdade dos
direitos de todos os homens ou de todos os cristáos. Essa
iguaktade, proclamada por Sao Paulo em Gl 3,28, refere-se

1 Alias, fol freqüente na historia a tentacSo de comparar a Igreja com


as outras sociedades, procurando-se, a partir desse confronto, solucSes
para os problemas da tgreja; freqüente também foi a tentacao de definir a
Igreja segundo categorías políticas. Todavía, sempre que prevalecerán! tais
tendencias, registraram-se impasses teológicos.

— 210 —
ORDENACAO SACERDOTAL DE MULHERES 27

á vocagáo universal e indiferenciada que o homem e a mulher


recebem á filiacáo divina e a santidade, e nao ao ministerio.
O ministerio vem a ser um tipo de servico, que nao é confe
rido para a honra ou a vantagem de quem o recebe. O que
torna alguém grande no Reino dos Céus, nao é a especial
atividade que ele exerce, mas, sim, a santidade. Ora a san
tidade, sim, ó objeto de vocacáo universal e incondicional
para todos os homcns. Por conscguinlc, so alguém considera
o sacerdocio ministerial como um direito, ignora a natureza
desse sacerdocio; o batismo nao confere nenhum titulo pes-
soal ao ministerio público na Igreja, mas é o termo de espe
cial designio ou chamado que tem sua iniciativa em Deus.

Muito a propósito escreveu D. Bernardin, Presidente da


Conferencia dos Bispos dos Estados Unidos, em outubro
de 1976 :

"Serla erróneo reduzir a questáo da ordenacao das mulheres, como


acontece por vezes, a urna questáo de justica. Tal ponto de vista só se
justificarla se fosse um direito concedido por Deus a todas as pessoas e
se as virtualidades humanas da pessoa só se pudessem realizar mediante
a ordenacao. Dado, porém, que o encargo episcopal e o sacerdotal sao
fundamentalmente ministerios de servigo, a ordenacao nao completa de
modo nenhum a humanidade de quem quer que seja" ("Origins documentary
service", 16/X/1975).

2. Dizem, porém, certos autores haver mulheres que


sentem em si a vocagáo sacerdotal. A propósito observe-se
que o atrativo experimentado por tais pessoas é muito nobre,
mas aínda nao é indicio de auténtico chamado divino. O
atrativo — que por si é algo de subjetivo — tem de ser
autenticado pela Igreja, que Cristo constituiu como prolon-
gacáo do seu corpo, e na qual Cristo mesmo chama e santi
fica os homens e as mulheres. Diz o Evangelho que Cristo
«escolheu os que Ele quería» (Me 3,13).

3. £ natural que a mulher hoje, lomando consciéncia


das discriminagóes de que foi vítima outrora, tenha suas
reivindicagóes ; entre estas, algumas incluem a aspiracáo ao
ministerio sacerdotal. Todavía é necessário lembrar que o
sacerdocio ministerial nao é propriamente objeto de um di
reito da pessoa humana nem do cristño, mas se prende ao
plano de dispensagáo da graga, que é gratuito da parte do
Senhor Deus. O encargo sacerdotal nao se pode tornar o
ponto de chegada de urna promogáo social; nenhum pro-
gresso puramente humano da pessoa ou da sociedade lhe

— 211 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

dá, por si mesmo, acesso, pois pertence a outra ordem de


valores.

4. Em conclusáo, duas observagSes constituem o fecho


da Declaragáo:

a) a igualdade de vocacáo dos cristáos nao significa


idenlid.uk? de fungóos, a Igreja ó um corpo diferenciado,
onde cada membro tem o seu papel próprio. As fungóes sao
distintas e nao devem ser confundidas, nem háo de se tornar
ocasiáo de soberba ou inveja. O único dom de Deus que
deva ser incondicionalmente almejado, é o da caridade (cf.
ICor 12-13).

b) É para desejar que a mulher e a sociedade em


geral tomem mais e mais consciéncia da incomparavel missáo
da mulher na sociedade de hoje. É a mulher que compete,
de modo especial, contribuir para a renovacáo e a humani-
zacáo da sociedade hoje como também para a redescoberta,
entre os fiéis, da verdadeira face da Igreja. Á mulher Deus
quis dar os dons da intuigáo e da delicadeza de sentimentos
de que carece o mundo de hoje, cada vez mais marcado pelos
criterios da técnica e da produtividade. Esteja a mulher ao
lado do homem (e nao no lugar do homem), e vice-versa...,
e teremos urna sociedade mais feliz, urna Igreja mais rica
de valores humanos.

Aqui termina a nossa síntese da Declaracáo da S. Con-


gregagáo para a Doutrina da Fé sobre a ordenagáo de mu-
lheres. Resta acrescentar-lhe nossas observagóes fináis.

6. ObservagSes fináis

É nos termos atrás propostos que a Igreja responde hoje


a um importante quesito que os movimentos feministas con
temporáneos tém langado. Esta resposta há de ser entendida
á luz da fé. Se a Igreja fosse mera instituigáo humana, a
sua posicáo frente á ordenagáo de mulheres difícilmente seria
compreendida. Já, porém, que é urna realidade sacramental,
que se rege segundo criterios transcendentais, os fiéis cató
licos reverenciam a palavra da Igreja e se abstém de com-
paracóes fora de propósito, que tenderiam a assimilar a
S. Igreja a urna sociedade puramente terrestre. Nao tem
sentido o confronto entre os dons de Deus e as fungóes con-

— 212 —
ORDENACAO SACERDOTAL DE MULHERES 29

fiadas aos membros da Igreja. A grande preocupagáo dos


cristáos há de ser a de mais cultivar a caridade,... a cari-
dade que é fator de uniáo, antídoto de inveja e vaidade, e
que é o auténtico título de nobreza de cada um dos fiéis;
com efeito, é a caridade que faz os santos, e os santos é
que sao os amigos íntimos do Senhor Deus.

A preocupadlo com o sacerdocio ministerial nao deveria


fazcr que as mulheres esquegam a tarefa importantíssima
que, sem o sacramento da Ordem, lhes compete exercer na
Igreja e na sociedade. Á mulher, como centro do lar, toca
a grande missáo de estruturar a sociedade a partir da sua
célula mais íntima e vital; é ela quem mais de perto orienta
os filhos pequeños, os quais se tornaráo um dia os mentores
da nacáo. Na Igreja, á figura feminina toca papel especial;
sim, a mulher, na Biblia, sempre foi tida como sinal ou
símbolo religioso por excelencia ; assim a filha de Sion sim
boliza o povo de Deus e a mulher no Apocalipse representa
a.S. Igreja. Que toda mulher se compenetre dessa sua voca-
cáo essencial a ser a expressáo viva e convincente da cria
tura que recebe o Senhor Deus e Ihe dá vulto em sua cor-
poreidade c em sua vida espiritual!

Vé-se que a Declaracáo Romana concernente á ordena-


cáo de mulheres procura basear-se ñas Escrituras e na Tra-
dic.áo, as quais sao os cañáis mais adequados da Palavra de
Deus. Em última análise, porém, faz-se mister reconhecer
que é o magisterio vivo da Igreja que, interpretando os dados
da fé sob a assisténcia do Espirito Santo, os formula autén
ticamente de sorte a dirimir dúvidas e firmar atitudes. Possa
o Espirito agir em todos os fiéis cristáos, de tal modo que
a questáo da ordenacáo de mulheres nao venha a ser mais
um tópico que distancie uns dos outros os discípulos de
Cristo !

Em nosso próximo número publicaremos breve esbogo


histórico da questáo a partir do século passado.

Ver a propósito o n? 1714 de "La Documentation Catholique", de


20/11/1977, pp. 158-175.

— 213 —
Um filme de espanto:

"a profecía"

Em sínlese: O filme "A Profecía" alude a ciados bíblicos referenles


ao Anticristo, a Megido, ao número 666..., apresentando um menino, filho
de urna fera, como o próprio Anticristo, portador do n? 666 debaixo dos
cábelos. A presenca desse menino acarreta desastres e lutos ; seu pai e
sua máe perecem vítimas de tais desgrasas, ao passo que ele, ferido mor-
lalmente, sobrevive ao lado do Presidente dos Estados Unidos.

Na verdade, o enredo do filme muito se distancia da mensagem bíblica.


O autor estava muito mais interessado em provocar sensacionalismo do
que em traduzir o conteúdó dos textos bíblicos. Como quer que seja, tal
película testemunha o interesse que o público dedica a filmes religiosos.
é de lamentar, porém, que o autor tenha contribuido para alimentar urna
religiáo de medo e pavor, presa a portentos e sinais extraordinarios, ba-
seada em credulidade emotiva ou mesmo irracional, em vez de colaborar
para avivar a Imagem de urna religiáo de fé, confianca e otimismo.

O filme "A Profecía" é talvez mais impressionante do que "O Exor-


císta", pois este apresentava a acfio do demonio em termos t5o estron-
dosos que fugiam as raías do verossimii. Ao contrario, "A Profecía" mostra
o demonio agindo mediante desastres e mortes,... desses que freqüente-
mente ocorrem, e que o público, impressionado, poderá julgar que ocorre-
rao na vida de cada um dos espectadores.

é para desejar que os cristaos n§o se preocupem tanto com as inter-


vencoes extraordinarias do Maligno na vida dos homens e déem muito
maís atencáo ás artlmanhas "ordinarias" do mesmo.

Comentario: Nos últimos anos tem estado no cartaz


com relativa freqüéncia a figura do demonio e de sua aqáo
no mundo. Entre os motivos que explicam o fato, há, sem
dúvida, o perene interesse religioso existente em todo ser
humano ; todavía convém mencionar outrossim o desejo de
provocar o sensacionalismo no público, ainda que totalmente
dissodado da auténtica mensagem da fé; o sensacionalismo
religioso, ainda que destituido de fundamento doutrinário, é
suficiente para produzir dinheiro; por conseguinte, torna-se
válido tema para filmes em nossos dias.

Após «O Exorcista», famosa película desse tipo foi lan-


cada a 21 de fevereiro pp. em diversos pontos do Brasil,.

— 214 —
«A PROFECÍA» 31

com o título «A Profecía» (The Ornen). Apresenta com muita


vivacidade o conteúdo do livro homónino de David Seltzer,
já tendo obtido no cinema a renda de US$ 93.500.000 — o
que ultrapassa todos os récordes de bilheteria após «O Exor-
dsta». Convém, pois, propor alguns comentarios a esta pelí
cula, que tanto vem chamando a atengáo do público bra-
sileiro.

1. O enredo

A película abre-se numa Clínica de Roma, onde urna


crianca morre logo depois de ter sido dada á luz; trata-se do
filho do embaixador Robert Thorn, dos Estados Unidos. Um
sacerdote da Clínica persuade entáo o genitor de adotar um
filho cuja máe acabara de morrer depois de o ter gerado.
Robert termina aceitando a idéia e póe a crianga nos bragos
de sua esposa, que nao desconfia do artificio. — Logo depois
o embaixador é transferido para Londres, partindo entáo com
a esposa Kathy e o «filho» Damien.

Aos cinco anos de idade, o menino comega a revelar algo


de estranho: por ocasiáo de sua festa de aniversario, fixa os
olhos no de um cao estranho e muito feio, que imprevista
mente aparece em cena. Logo após, a governanta do menino
chama Damien e se atira de urna das janelas do alto da
mansfio com urna corda no pescogo. O fato provoca alarde,
principalmente pelo seu caráter inexplicável.

A seguir, o Pe. Brennan, de Roma, vai procurar o. em


baixador e o incita veementemente a se converter a Cristo e
receber a1 S. Comunháo para poder resistir ao furor do Anti
cristo, que o ameaga. Todavía o embaixador nao lhe dá a
mínima importancia.

A esta cena segue-se a de urna governanta misteriosa,


que, sem ter sido chamada pelo casal, se apresenta para
tomar conta de Damien. Após hesitagáo dos genitores, entra
em fungáo e se dá muito bem com o menino; ela coloca um
cao horrível em companhia deste, que senté prazer em ter
esse animal consigo. Por ocasiáo de um casamento em igreja,
a governanta advertiu os país de que nao levassem Damien
ao templo; estes insistem, mas finalmente voltam logo que
chegam á igreja, visto que o menino se assustou ao ver o
recinto. Poueos días depois, no Jardim Zoológico o menino
afugenta as girafas e provoca o ataque dos macacos sobre

— 215 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

o carro em que passoia. Este fato abate profundamente a


Sra. Kathy Thorn, que resolve submeter-se a tratamento mé
dico, enquanto o Pe. Brennan faz nova exortagáo ao embai-
xador e lhe prediz o fim do mundo para breve, devendo entáo
o padre e o embaixador morrer vítimas do Anticristo. Dito
isto, o padre é colhido por urna tempestade e morre perpas-
sado por urna vara de pau que caí do alto.

Mais tarde, a máe de Damicn é vítima de um desastre


em casa, enquanto o menino lhe passa perto em seu triciclo;
tal acídente, com o tempo, se tornaría mortal.

É entáo que o embaixador é procurado por um fotó


grafo que acompanhou o Pe. Brennan em diversos momen
tos de sua vida; esse profissional observa que o sacerdote
tinha sobre a pele o número 666; escrevera diversas notas,
ñas quais dizia que as 6h de 6 de junho do ano em que
nascera o filho do embaixador, urna estrela se transformara
em cometa e dera inicio á era do Anticristo; os judeus vol-
tariam para a sua térra de origem, suceder-se-iam guerras,
pánico, etc.

Estas noticias impressionam o embaixador, que resolve


apurar quem fora a máe real de Damien. Finalmente, após
diversas sindicáncias, descobre num cemitério etrusco a 50 km
de Roma urna lapide com o nome do Maria Scianna, falecida
a 6/06; abrindo cssa sepultura, descobre os ossos de urna
fera, ao passo que no túmulo ao lado encontra o esqueleto de
urna crianga. Nao há dúvida, esta era o verdadeiro filho do
embaixador, que havia sido morto por urna quadrilha de
agentes do Anticristo e substituido por Damien no lar de
Robert Thorn. Prosseguindo em suas pesquisas, o embaixa
dor foi a Israel; ñas ruinas de Megido — lugar indicado por
Brennan como cenário da batalha final da historia —, encon-
trou o profeta Bugenhagen, que deu a Robert Thorn cinco
facas para matar seu filho Damien, tido como o Anticristo.
O embaixador, porém, compadecido, jogou fora essas facas.
Mas, regressando a Londres, descobre que Damien traz na
cabega, sob os cábelos, o número 666. Decide-se entáo a
matá-lo numa igreja, segundo as instrugóes de Bugenhagen.
Quando desfere o golpe contra Damien, a policía também o
fere e mata. Em conseqüéncia, o filme apresenta a cena da
enterro de Robert Thorn e, presumivelmente, de Damien
(véem-se dois caixóes)... Urna vez terminada a cerimónia,
porém, aparece o menino Damien sorrindo ao lado do Presi-

— 216 —
«A PROFECÍA» 33

dente dos Estados Unidos (presente ao enterro), como se


nada houvesse acontecido ao menino. Tal é a cena final: o
Anticristo, ainda que mortalmente golpeado, nao morre, mas
sorri tranquilamente e se dispóe a continuar as suas faca-
nhas... ao lado do Presidente norte-americano !

Procuremos agora confrontar este enredo com os autén


ticos dados da Biblia c da fé católica, ñas quais a trama do
filme pretende apoiar-se. É certo que todo autor de filmes
cinematográficos costuma criar suas peculiaridades, mesmo
quando reproduz fatos históricos ou elementos doutrinários
religiosos. Interessa-nos, porém, saber até que ponto o enredo
de «A Profecía» tem base segura no texto bíblico.

2. Reflexóes e crítica

Proporemos dois títulos:

2.1. Que é o Anticristo?

1. Vejamos, antes do mais, o que nos diz a Biblia a


respeito.

A palavra «Anticristo» ocorre ñas epístolas de Sao Joáo


(Uo 2,18a.22; 4,3), designando o Adversario Supremo de
Jesús Cristo. O autor sagrado julga que o Anticristo deve
aparecer no fim dos tempos; mas, dado que a última hora
já chegou (cf. Uo 2,18), Sao Joáo identifica o Anticristo
com os falsos mestres do seu tempo, os quais negavam ser
Jesús Cristo verdadeiro Deus e verdadeiro homem; por isto
fala também de «Anticristos» no plural (cf. Uo 2,18b; 2Jo 7;
Uo 4,3). Desta forma a idéia de Anticrislo, em Sao Joáo,
nada tem de prodigioso ou terrível no sentido físico; vé-se
tambóm que Anticristo, segundo o autor sagrado, pode ser
urna coletividade (a dos herejes).

Sao Paulo nao usa a palavra «Anticristo», mas propóe


como equivalentes os conceitos de «homem do pecado, filho
da perdicáo, adversario, ímpio» (cf. 2Ts 2,3-S). Este Adver
sario deverá manifestar-se no fim dos tempos, precedendo
imediatamente a segunda vinda de Jesús, e será por este
vencido. Ele imitará o Cristo, com sua vinda retumbante
(parusia), seus prodigios engañadores, que seduziráo muitos
homens para a apostasia em relagáo a Cristo.

— 217 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

O Evangelho, por sua vez, prediz, para o fim dos tempos,


o aparecimento de «falsos Cristos», que por seus portentos
arrastaráo os homens para a impiedade (cf. Me 13,5s. 21s-
Mt 24,11).

O Apocalipse recorre ao símbolo de duas Bestas mons


truosas: a primeira significa o poder político endeusado e
blasfemo; a segunda, a falsa rcligíño, que realiza falsos pro
digios e leva os homens a adorar a primeira Besta ou o
poder político (cf Ap 13,1-18). É a primeira Besta que tem
número de homem, isto é, 666 (número que resulta da soma
das letras que compóem o nome de um individuo). Ao pro-
por estes símbolos, Sao Joáo nao tem em vista somente o
final dos tempos, mas também a sua própria época (séc. I),
quando o Imperador Romano atribuía a si títulos e honras
divinos e se servia da religiáo oficial do Imperio para pro
mover o culto do Imperador.

Na Tradigáo crista dos primeiros séculos, o conceito de


Anticristo voltou a ser explanado em alguns escritos; cf. Di-
daqué 16,4; Apocalipse de Pedro 2, Sibila 3, 63-74...

2. Os exegetas discutem a questáo: será o Anticristo


um individuo ou uma coletividade? Nos escritos de Sao Joáo,
parece ser uma coletividade, ao passo que Sao Paulo é ambi
guo: ora fala de «homem do pecado», ora fala do «misterio
da iniqüidade», que já no inicio da era crista estava em ativi-
dade e que nos últimos tempos terá expressóes mais violentas
de sua maldade (cf. 2Ts 2,7s). Talvez se possa dizer que o
Anticristo, segundo Sao Paulo, é instigado pelo demonio desde
o inicio da historia da salvacáo e tende a se tornar ainda
mais requintado e sedutor no fim dos tempos. O Homem do
pecado seria, pois, um individuo que, em grau supremo, per
sonificaría a impiedade e a blasfemia que desde o inicio do
mundo se opóem a Deus.

3. Vé-se que os dizeres bíblicos nao sao suficiente


mente claros para poderem servir de base a uma reconsti-
tuicáo da figura do Anticristo. David Seltzer serviu-se dos
textos bíblicos com grande liberdade e exuberante fantasía,
apresentando-nos mesmo uma estória que está longe de cor
responder á mensagem bíblica e ás auténticas concepgóes
cristas. Observem-se, por exemplo, os seguintes pontos:

— 218 —
«A PROFECÍA» 35

a) a crianca «Anticristo» nasce de um chacal ou de


urna fera — o que absolutamente nao cabe nem ñas concep-
góes da ciencia nem ñas da teología;

b) urna estrela se transforma em cometa, quando a


crianca nasce. Ora, se a Biblia fala de transformagoes da
natureza no fim dos tempos («as estrelas cairáo do cóu, o
sol nao m;i¡s dará a sua luz...»), usa de figuras próprias
do género apocalíptico, que nao devem ser tomadas ao pé
da letra;

c) o Anticristo estaría relacionado com o Mercado Co-


mum Europeu, o que ó absolutamente gratuito da parte de
David Seltzer. O mesmo Anticristo, no final do filme, apa
rece ao lado do Presidente norte-americano — o que é outra
insinuacáo política descabida;

d) a Biblia nao contém indicacáo alguma a respeito da


data do fim do mundo. Jesús mesmo se recusou terminante
mente a revelá-la (cf. Me 13,32; At 1,7). Nao se deve, pois,
insinuar que esteja próxima ou que seja o fim do século XX
(2000 d.C.?). Embora os tempos atuais sejam calamitosos,
é preciso lembrar que já houve outras épocas de confusáo e
tribulagáo, em conseqüéncia das quais os homens imagina-
ram estar perto do fim dos tempos (séc. V, VI e queda de
Roma, séc. X e proximidade do ano 1000, séc. XV e pestes
na Europa...);

e) o enredo do filme lembra que Megido será o lugar da


batalha final da historia. Na verdade, o Apocalipse (16,13-16)
diz que no fim dos tempos os espíritus ¡mundos reuniráo em
Harmagedom os reis da térra inteira «para a guerra do
Grande Dia do Deus todo-poderoso» (Ap 16,15).

Bons exegetas entendem «Harmagedon» como sendo


«Monte de Magedo ou de Megido» '; Megido é urna cidade
da planicie que acompanha a cadeia montanhosa do Carmelo;
foi ai que Josias sofreu tremenda derrota (cf. 2Rs 23,29s)
— o que deu a Magedo ou Megido a fama de ser o clássico
campo de batalha da Palestina, marcado por desastre de vio
lencia inaudita (cf. IRs 14,25; Zc 12,11). — Outros exegetas,
porém, interpretam Harmagedon como tradugáo grega do
hebraico Har-mo' ed (monte de reuniáo; cf. Is 14,13); Har-

1 Har = monte, em hebraico.

— 219 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

magedon seria, pois, o lugar estabelecido por Satanás para


congregar as forgas do mal. — Van den Born prefere enten
der Harmagedon como tradugáo grega de um suposto nome
hebraico Har-(ham)magedon, monte do Macedónio (Alexan-
dre Magno).

Esta exposigáo de sentengas dá-nos a ver, ao menos, que


Harmagedon, emborn seja um lugar geográfico, vem a ser
no Apocalipse um símbolo ou um tipo da reuniáo das forgas
do mal e de batalha. Os autores bíblicos falavam segundo o
expressionismo usual em Israel, nao pretendendo, nos casos
de Zc 12,11 e Ap 16,16, ser entendidos literalmente. Qual-
quer batalha ardua ou catastrófica devia estar associada,
para eles, com Megido ou Harmagedon;

f) os sinais que aparecem ñas fotografias do Pe. Brennan


e que prefiguram o tipo de morte deste sacerdote, incitam o
público a procurar (e imaginar) sinais de bom ou mau agouro
na vida cotidiana. Provocam a credulidade, a crendice e a
superstigáo, em vez de educar o senso religioso na sua autén
tica linha de té, confianga e amor. O mesmo se diga com
relagáo ao cao e aos caes que aparecem do lado do Anticristo
no filme; tendem a tornar fantasistas ou imaginosos certos
conceitos cuja índole própria dovcria ser respeitada.

Importa agora considerar, de modo particular,

2.2. O número da Besta (666)

Em Ap 13,18 lé-sc o seguinte:

"Aquí é preciso discernimento! Quem é inteligente, calcule o número


da Besta, pois é um número de homem ; seu número é 666!"

Tal Besta, no contexto do Apocalipse, c o símbolo do


poder político que arroga para si honras e culto divinos. Se
gundo a gematria, * na qual a passagem do Apocalipse 13,18
se inspira, é necessário procuremos um nome de homem cujas
letras somadas déem o total 666. Esse homem há de ser
algum dos personagcns políticos conhecidos a Sao Joáo e a
seus leitores; deve, pois, encontrar-se no séc. I d.C. ou antes,
nao, porém, em séculos posteriores da historia da Igreja,
visto que Sao Joáo nao tinha conhecimento destes. Os exege-

1 A gematria é a arte de atribuir valor numérico ás letras.

— 220 —
«A PROFECÍA»

tas, desde o século II, tém apresentado as mais diversas intei--


pretagóes do famoso número, das quais vamos aqui enumerar
táo somente as mais dignas de atengáo:

a) S. Ireneu (Adv. Haer. 5,40), no século II, propunha


o nome Lateinos em grego (Imperio Latino, Romano) :

LA TEI NO S

30 + 1 + 300 + 5 + 10 + 50 + 70 + 200 = 666

b) Hugo Grócio (f 1645) propóe Marcus Ulpius


Traianus:

O Y L P I OS

70 + 400 + 30 + 80 + 10 + 70 + 6 = 666

ou ainda o imperador Ñero, cujo nome seria escrito com


caracteres hebraicos:

N R W N Q S R

50 + 200 + 6 + 50 + 100 + 60 + 200 = 666

c) E. Stauffer, exegeta contemporáneo, lembrando que


0 Apocalipse foi escrito sob Domiciano, propóe seja 666 o
valor numérico do nomo deste Imperador, como era encon
trado algumas vezes ñas inscrigóes (só as primeiras letras
de cada palavra, postas em negrito abaixo):

Autokrator Kaisar Dometianos Sebastos Germanikos

1 +31+419 + 207 + 8 = 666

d) Van den Berg e Van Eysingha, contemporáneos,


observam que 666 é o número triangular de 36, isto é, a
soma do 1, 2, 3,4 ... 36 = 666. Por sua vez, 36 é o número
triangular de 8 (1 + 2 + 3 + 8 = 36). Ora em
Ap 17,11 o número 8 está relacionado com a Besta; 666,
portante, seria táo somente um ampliamento de 8.

e) Note-se ainda que no século II alguns manuscritos


do Apocalipse, em 13,18, já davam a ler 616, em vez de 666.
Isto significa que a consciéncia que os cristáos tinham do
significado desse número, se ia esvaecendo. Alguns exegetas
interpretam 616 como sendo o equivalente a Gaios Kaisar,
isto é, Imperador Calígula (37-40).

— 221 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

De todas as interpretares propostas, a mais verossimil


é a que identifica a Besta com o Imperador Ñero, visto que
foi este o primeiro perseguidor dos cristáos; ficou, pois, na
memoria dos discípulos de Cristo como o prototipo ou o
modelo do Anticristo ou do Adversario. Os nomes «Nerón
Kaisar» estariam escritos em caracteres hebraicos, embora
fossem de língua grega, precisamente para dissimular mais
aínda a alusáo ao Imperador no fim do século I, quando foi
escrito o Apocalipse. Grande perigo para os cristáos haveria,
se os pagaos conseguissem decifrar a linguagem gemática ou
simbolista de Apocalipse 13,18.

A variante 616 se explicaría muito bem pelo fato de que


Nerón também podía ser escrito sem n final (Ñero); ora o n
valia 50. Donde 666 — 50 = 616.

Como quer que seja, o número 666 é símbolo que indica


um personagem prototípico ou modelo de perseguidor do
Cristo. Esse número nao estava gravado na pele de Ñero
nem na de Calígula ou Dominiciano, nem estará gravado
sobre a tez de qualquer hipotético perseguidor da Igreja que
assuma proporgóes do Anticristo final da históra.

Por conseguinte, quando o filme propóe o nascimento de


Damien 'as 6 h do dia 6 do mes 06, está fazendo uso imagi-
noso ou fantasista do texto bíblico. Muito menos tem que
ver o tríplice 6 ou o 666 com a SS. Trindade (Pai, Filho e
Espirito Santo). Tais associagóes sao totalmente arbitrarias,
táo somente aptas a gerar confusáo.

Passemos agora a urna

3. Gonclusao

O filme «A Profecía» é mais um testemunho de quanto


os temas religiosos interessam ao público de nossos dias, ape-
sar do fenómeno da secularizagáo e do ateísmo. É por isto
que o cinema (e, em geral, os meios de comunicagáo social)
os vém explorando.

1. É de lamentar, porém, que os produtores se interessem


táo pouco por apresentar a religiáo em seus auténticos aspec
tos. Empenham-se quase exclusivamente por despertar ondas
de sensacionalismo, deturpando ou desfigurando valores reli
giosos e alimentando a crendice e a superstigáo (que nao

— 222 —
«A PROFECÍA» 39

sao a fé propriamente dita). Suscitan? imagens de urna reli-


giáo de medo ou pavor (principalmente quando entra o
demonio em cena), ou seja, de religiosidade primitiva, irra
cional, emotiva — o que nao deve ser confundido em absoluto
com a auténtica religiáo; esta é um incentivo á confianga,
ao amor, ao otimismo e á paz. Satanás e os anjos maus
existem, sem dúvida, pois a Biblia e a Tradigáo crista (expli-
citada pelo Magisterio da Igreja) no-lo atestam. Todavia
Satanás é figura secundaria ñas perspectivas do cristáo. O
que importa a este, é ter consciéncia de que Deus é Pai, é o
primeiro Amor, irreversivel e todo-poderoso; Deus permite a
Satanás que tente o homem em vista de acrisolar a virtude
e a fidelidade dos homens; todavia a acáo de Satanás é
sabiamente delimitada e dominada pelo Senhor Deus.

2. É para desejar que os fiéis cristáos procurem cada


vez mais ter urna fé esclarecida, apoiada no estudo da Pala-
vra, de Deus e da doutrina oficial da Igreja. Nao se conten-
tem apenas com os rudimentos da cateqtiese, nem se deixem
levar táo somente por emotividade e fantasía no plano reli
gioso; a razáo iluminada pela fé deve reger o comportamento
do cristáo e contribuir para que este faga a triagem de seus
sentimentos religiosos. Mais do que nunca, hoje em día é
necessário valorizar a inteligencia e sua fungáo iluminadora
e crítica.

3. Comparando «A Profecía» e «O Exorcista», julgamos


dever dizer:

a) O filme «O Exorcista» supóe mais estudo teológico


do assunto focalizado. O autor procurou informar-se com os
padres jesuítas sobre a possessáo e o exorcismo e fez obra
que, teológicamente, está correta. Ao contrario, «A Profecía»
foge a mcnsagem intencionada pelas Escrituras e associa
livre e fantásticamente os dados bíblicos, iludindo o povo e
explorando a capacidade de se impressionar sensivelmente que
existe no grande público. Isto nao é.muito honesto; David
Seltzer parece nao ter feito grande caso de mensagem reli
giosa, mas se interessou muito mais por sensacionalismo.

b) «A Profecía» é filme talvez mais nocivo ao público


do que «O Exorcista». Este mostrava a agáo do demonio
em termos táo estranhos e inverossímeis que era fácil ao
público perceber ai artificios da arte cinematográfica; muitas
pessoas riram ou zombetearam diante das cenas de «O Exor-

— 223 —
40 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

cista», táo poueo prováveis pareciam... Todavia o mesmo


nao se dá com «A Profecía»; este filme apresenta a acáo do
demonio em termos de desastres,... desses que costumam
acontecer; leva assim o público a esperar que talvez algo de
semelhante venha a ocorrer na vida de cada um por influen
cia do demonio. Ora tal efeito equivaleria a deformar a reli-
giosidade do público; seria mesmo algo de desonesto, pois, na
verdadc, nao se dove dar tanta importancia aos pretensos
fenómenos extraordinarios atribuidos a Satanás (sao geral-
mente efeitos de psicología ou parapsicología); mas, ao con
trario, é necessário que os homens se preocupem seriamente
com os efeitos cotidianos e «naturais» da agáo diabólica, como
sao a conculcagáo inteligente ou requintada da verdade e da
honestidade, a venda de tudo (brio, honra, corpo...) em
troca de dinheiro, a pornografía industrializada, o prome-
teismo ou o desafio do homem a Deus...

Possa o filme «A Profecía» despertar a atengáo do


público para esses aspectos reais e cada vez mais daninhos
da agáo do diabo! E, assim, um filme de pouco valor reli
gioso poderá deixar seus frutos positivos no povo de Deus.

As pessoas interessadas em ulteriores pesquisas sobre o Anticristo e


a escatologia, sugerimos consultem os verbetes "Anticristo, Escatologia,
Luz e trevas" e outros semelhantes nos seguintes dicionários :

A. van Born, "Dicionário Enciclopédico da Biblia". Petrópolis 1971.

X. Léon-Dufour, "Vocabulario de Teología Bíblica". Petrópolis 1972.

J. A. Baur, "Dicionário de Teología Bíblica", 2 vols. Sao Paulo 1973.

— 224 —
Um "best-seller" teológico:

"ser cristao"
de Hans Küng

Saiu em tradugáo brasileira o livro «Christ Sein» do


famoso teólogo suígo Hans Küng, trazendo o titulo «Ser
cristáo» (publicacáo da Imago Editora Ltda., Rio de Janeiro,
1976). O texto original alemáo de tal obra já foi comentado
em PR 186/1975, pp. 246-282. Visto, porém, que o livro é
agora muito mais acessível aos leitores de língua portuguesa,
julgamos ser útil propor mais urna vez algumas ponderagóes
a respeito.

1. O cruror

Hans Küng nasceu em Lucerna (Suíga) há cerca de cin-


qüenta anos. Educado na fé católica, foi ordenado sacerdote
aos 10 de outubro de 1954. Dedicando-se á teología, sofreu
influencias protestantes da parte de Karl Barth como tam-
bém influencias nnti-romnnas da Escola do TübinRpn (Ale-
manha), onde se tornou professor.

Küng escreveu tres livros que provocaram grande alarde


pelas suas posigóes cada vez mais críticas e radicáis em rela-
gáo a Igreja e as clássicas expressóes da fé católica, a saber:
«Die Kirche» (A Igreja), «Unfehlbar? Eine Anfrage» (Infa-
lível? Urna pergunta) e «Christ sein» (Ser cristáo). Os maio-
res teólogos europeus tém-se dado ao trabalho de comentar
as obras de Küng, geralmcntc para denunciar ai varios pon
tos falhos propostos com intuito «pastoral» ou ecumenista.
Muitos criticos perguntam por que Hans Küng ainda perma
nece na Igreja Católica visto que a censura duramente. Inter
rogado a respeito no dia 10/X/1974, quando completava vinte
anos de ordenagáo sacerdotal, H. Küng respondeu:

"Guardei lealdade e fidelidade á Igreja, trabalhando, estudando e


lutando em favor déla, ao mesmo tempo que a critiquei incessante e ine-
vitavelmente no decorrer desses vinte anos. Para falar sinceramente, estou
cansado de ter que afirmar constantemente que tenho a intencáo de per
manecer na Igreja Católica e que as razoes da minha atitude se encon-

— 225 —
42 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

tram no Evangelho... Após vinte anos, nSo me sinto, em absoluto, menos


católico que no día da minha ordenacSo, o que nao exclui, mas, ao con
trario, impóe, a obediencia ás exigencias do Evangelho em nossa época
ecuménica" <cf. "La Documentaron Catholique" 16/11/1975, n<? 1670, p. 172).

Realmente as atitudes de Küng sao singulares: desejoso


de tornar o Cristianismo mais compreensível ao homem de
hoje como também adepto de aproximagáo ecuménica entre
católicos e protestantes, csse autor tonta reformular as ver
dades da fé e repreende a Igrcja; fá-lo, porém, de modo que
ultrapassa os limites do legítimo trabalho teológico católico;
as suas posicóes, principalmente no livro «Ser cristáo», já tém
nítido cunho de racionalismo ou de protestantismo liberal.
Apesar disto, o autor quer conservar fidelidade á Igreja
Católica...!

Vejamos, pois, sumariamente alguns dos pontos mais sig


nificativos desse liberalismo teológico de Hans Küng — o que
completará quanto já foi dito em PR 186/1975, pp. 246-262.

2. Algumas teses do livro

No intuito de dizer a todos os homens o que é «ser


cristáo», Hans Küng parte da figura de Jesús Cristo. Julga
que os Evangelhos nao nos transmitem a imagem real de
Jesús Cristo, mas, sim, aquilo que os antigos cristáos em sua
piedade subjetiva pensaram a respeito do Senhor. Em conse-
qüéncia, elimina dos Evangelhos tudo o que lhe parega ser
influencias helenísticas ou concepcóes míticas; nao reconhece
nem a concepgáo virginal de Jesús, nem os milagres de Jesús,
nem as aparigóes do Ressuscitado, nem as declaragóes que,
segundo os Evangelhos, Jesús fez a seu respeito; assim reduz
Jesús a urna figura histórica assaz modesta: terá sido um
arauto do Reino de Deus, Reino que Jesús julgava iminente;
nada terá afirmado acerca de si mesmo nem quis instituir
obra alguma que perdurasse pelos séculos. A Igreja, por con-
seguinte, nao foi fundada por Jesús. Quanto á ressurreiqáo,
ela nao significa que o corpo físico de Jesús tenha voltado á
vida, mas, sim, que a pessoa de Jesús após a morte do res
pectivo corpo continua viva, sem que algum sinal no espaco
ou no tempo tenha indicado aos Apostólos essa sobrevivencia.
A Eucaristía, que através dos séculos prolonga a obra de
Cristo, nao terá sido concebida pelo Senhor como sacrificio,
segundo Küng. Este nao aceita a genuinidade literaria do
preceito: «Fazei isto em memoria de mim» (ICor 11, 23-26).

— 226 —
H. KÜNG: «SER CRISTÁO 43

A última parte do livro, denominada «Praxis» (compor-


tamento prático), propóe linhas de conduta para quem queira
ser auténtico cristáo (no sentido de Küng). Realgaríamos ai
o trecho no qual o autor expóe por que fica na Igreja:

"Depende da Igreja o modo de vencer a crise. A faina nao está no


programa. Portanto, por que ficar na Igreja ? Porque a fé nos infunde
esperanza de que o programa, a causa de Jesús Cristo, como sempre,
continua sendo mais forte do que toda a confusao criada na Igreja e com
a Igreja. E, por essa causa, vale a pena o decidido empenho na Igreja e
o especial esforco no servico da Igreja, apesar de tudo. Fico na Igreja,
nao apesar de ser cristáo ; nao me considero mais cristáo do que a Igreja.
Mas porque sou cristáo, fico na Igreja" (p. 455).

Esta afirmagáo de fé contrasta, de certo modo, com


outras do mesmo livro que tém sabor racionalista.

No fim do livro, o autor justifica o ser cristáo como


sendo a mais auténtica forma de ser verdadeiramente hu
mano. Os valores humanos sao enaltecidos pelo Cristianismo
como o foram em Cristo Jesús. Com o olhar fixo em Cristo,
o cristáo é impelido a viver, trabalhar, sofrer e morrer. É
nos termos seguintes que se encerra o livro:

"No seguimento de Jesús Cristo o homem, no mundo de hoje, pode


viver, agir, sofrer, morrer verdadeiramente como homem : em ventura e
desgraca, vida e morte, amparado por Deus a servico dos homens" (p. 523).

3. Que dizer?

Nao foi sem motivo que a S. Congregaoño para a Dou-


trina da Fé se, pronunciou publicamente a respeito dos escritos
de Hans Küng sobre a Igreja e a sua infalibilidade, chamando
a atenqáo para as posicóes explícita ou implícitamente hete
rodoxas que tais livros professam; cf. PR 186/1975, pp. 260-
-262. Na verdade, as posicóes assumidas pelo autor em «Ser
cristáo» ainda sao mais avangadas e, por conseguinte, mais
sujeitas á nota de «heterodoxas» (qualquer que seja a inten-
cáo subjetiva do autor).

O leílor talvez se deixe seduzir por certos traeos do livro,


entre os quais se pode sublinhar a intengáo de propor o sen
tido da vida crista para os nossos días, á guisa de resposta
para crentes e nao crentes. Logo no Prefacio Küng nos diz :

"O autor escreveu estas páginas nao por se julgar bom cristáo, mas
porque vé no ser cristáo urna causa sobremodo boa" (p. 10).

— 227 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

Esse amor á causa crista, porém, que pretensamente


transparece ñas páginas de Küng, nao deveria levar o leitor
a esquecer que o Cristianismo é essencialmente obra dLvino-
-humana, e nao obra de homens que se tivessem entusias
mado pela mensagem do «profeta» Jesús Cristo. Jesús nao
foi mero mestre, nem mero líder ou mártir, mas foi Deus feito
homem. Esta proposicáo é básica para todo e qualquer cris-
táo (sem ola nao ha Cristianismo). Nole-se, porém, que o
misterio da Encarnagáo de Deus Filho se prolonga na Igreja,
que Jesús intencionou e fundou, como resulta de varias pas-
sagens do Evangelho (entre as quais a parábola do joio e do
trigo em Mt 13,24-30.36-43, a do grao de mostarda em Mt 13,
31s, a instituigáo do primado de Pedro em Mt 16,16-18 e em
Jo 21,15-17, o envió a todas as nagóes em Mt 28,18-20...).
Se, pois, a Igreja é realidade divino-humana, entende-se que
nela as falhas cometidas pelos homens podem ser objeto de
censura (todavia dentro dos quadros da caridade e da pureza
de intencáo); há, porém, aspectos da Igreja (doutrina ensi-
nada pelo magisterio e estrutura essencial) que pairam ácima
do juízo dos homens e, por conseguinte, merecem ser aceitos
na fé e com respeito profundo. O cristáo que assim nao
proceda, arrisca-se a fazer o que Martinho Lutero fez no
séc. XVI: este, passando a ver na Igreja a obra de meros
homens, tencionou «refazer» a Igreja a seu modo; ora a
Igreja de Lutero, por sua vez, foi refeita por outros reforma
dores, que criticaran! Lutero e tiveram a sua intuigáo pes-
soal ou subjetiva; em conseqüéncia, a obra de Lutero se vai
esfacelando, dividida em centenas de comunidades eclesiais,
independentes urnas das outras, e portadoras de divergencias
na fé; as últimas denominacóes, como a dos Mórmons, a da
Ciencia Crista, a das Testemunhas de Jeová... já pouco ou
nada tém de cristáo.

Eis o perigo a que induz o livro de H. Küng, sem dúvida


influenciado pelo protestantismo e um ecumenismo irenista.
Quanto as teses teológicas do autor referentes a Jesús Cristo
(nascimento virginal, ressurreicáo, milagres...), já foram
consideradas em PR 186/1975, pp. 246-262. Cedem as inspi-
racóes racionalista e liberal que tém marcado a exegesc re
cente, principalmente em áreas protestantes.

Vé-se, pois, que o livro de Küng está longe de ser car-


tilha ou manual. É um desabafo passional que, em materia
de doutrina, subscreve a hipóteses e esquece as diretrizes pro
postas pela fé de maneira intocável; a virgindade de María,

— 228 —
H. KÜNG: «SER CRISTÁO» 45

a ressurreigáo corporal de Jesús, a Eucaristia como perpe-


tuagáo do sacrificio da Cruz intencionada pelo próprio Cristo,
a Igreja como Corpo prolongado de Cristo também intencio
nada por Jesús, a ordem de coisas sacramental (em que os
elementos materiais sao sinais comunicadores da graca de
Deus...) ... sao artigos de fé que o cristáo professa em
comunháo com o Povo de Deus, que tem no magisterio ofi
cial da Igreja o seu porta-voz abalizado, porque assistido
pelo Espirito Santo. Quem esquega que a Igreja é vivificada
pelo Espirito Santo, póe-se a caminho da destruigáo total do
próprio Cristianismo, pois é impossivel aderir a Cristo Deus
e Homem sem aderir incondicionalmente a Cristo prolongado
na Igreja dele derivada. Quanto aos milagres de Jesús (que
eram sinais da autenticidade da doutrina do Senhor), se os
críticos os negam ou os retiram do Evangelho, cabe-lhes ex
plicar o sucesso da pregagáo de Jesús e a profunda impressáo
que ela exerceu sobre as multidóes. Um Jesús muito humano
e igual aos demais homens nao teria tido a repercussáo fas
cinante que de fato teve Jesús de Nazaré; foi do convivio
com Cristo que os Apostólos e a populagáo da Palestina
hauriram a convicgáo de sua mensagem.

Por conscguinte, scja tido o livro «Ser Cristáo» como


obra destinada aos que se interessam por alta teología e
sabem discernir a verdade e o erro, nao, porém, como inicia-
gáo á fé crista:

A propósito desejamos citar o artigo de crítica ponderada escrito por


Mons. Weber, antigo bispo de Estrasburgo (Franca), e publicado em "La
Documentatlon Catholique", 16/11/1975, n? 1670, pp. 176-182.

Veja-se também a obra coordenada por Karl Rahner com o título


"O problema da infalibilidade. Respostas á Interpelado de Hans Küng".
Ed. Loyola, Sao Paulo 1976.

Estóvao Bettcncourt O.S.B.

— 229 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

0 DESPERTAR DE UM SENSO CRÍTICO CRISTÁO


AOS CRISTÁOS DO NOSSO BRASIL

Dirigimo-nos aos irmaos em Cristo, rapazes e mocas, país


e máes, de todas as condicoes sociais e económicas, que
condividem conosco o "habitat" desse nosso ¡menso Brasil
e o amor pela querida patria.

É hora de despertar do sonó antigo e de partir em missáo


de paz e de amor, conscientizando outros irmaos para a ne-
cessidade de criar um senso crítico cristao, capaz, se autén
tico, de confrontar com a própria vontade de Deus, manifesta,
cujas bases se podem colher ñas Escrituras pela interpretacáo
da Igreja do Senhor, todas as atividades humanas do nosso
século.

É sabido o grande progresso científico e técnico que


alcanca o mundo, e, também, os enormes problemas, sobre-
tudo de ordem moral e social, com que se debate a humani-
dade angustiada. Esse desequilibrio, ou essa nao conformi-
dade dos índices de progresso com a superacáo dos males
moráis e sociais humanos, deve-se única e exclusivamente a
que o homem, a determinada altura de suas conquistas, julgou
possível libertar-se da moral, cortando, portanto, o vínculo que
ela significa entre a Religiso e a Acao Humana.

Mais que a imoralidade geralmente permitida, o mal de


nossos tempos é a nao cogitacáo da Mora! como dado ne-
cessário de construcáo. Ñas mesas de decisóes, quaisquer
que sejam os campos de atividade humana, a Moral nem
sequer é cogitada, confundindo-se, pois, o Mal com o Bem e,
conseqüentemente, Progressáo da humanidade com Destruicáo
da humanidade. Que a Moral é essa distincáo necessária; é
esse senso crítico em prática. Enquanto cresceu o homem
ñas suas ciencias e autossuficiéncias, a Moral nao cresceu
com ele, nao logrou desenvolvimento nele á altura de acom-
panhar os progressos científicos, técnicos e culturáis. Por
tento, nao pode dar testemunho dele em termos de verdadeira
civiliz&cao.

Mas nao basta situar o problema, nem lamentá-lo. O cris


tao foi chamado á missáo. É profeta no seu tempo para "ir e

— 230 —
O DESPERTAR DE UM SENSO CRITICO CRISTAO 47

pregar", como Igreja e com a Igreja, a Palavra Redentora.


Porque Ela existe. Encarnou-se, um dia. Fez-se homem, vive
em nos e no nosso meio. É nossa vida, nossa torga, nossa
luz, nossa única esperanca. A Salvacáo conosco. Mas nao
só para nos cristios. Sim, para a humanidade que Jesús
Cristo veio salvar.

CONCRETAMENTE, O QUE SE HÁ DE FAZER ?

1 — Viver unido com Deus pela Graca;

2 — e unido aos irmáos pelo Amor;

3 — disposto a ajudar a Santa Igreja na reconstrucáo do


mundo em Cristo;

4 — difundindo a doutrina crista;

5 — interpretando os acontecimentos á sua luz;

6 — e influindo nesses acontecimentos por um apoio de


cidido as boas obras;

7 — e urna resistencia serena e forte as más.

Mais concretamente, aínda: ouvír a voz do Espirito Santo


que fala em nos, dando-lhe pronto atendimento em obras.

MOVIMIENTO POR UM MUNDO CRISTAO


(Cx. Postal, 1205 — Belo Horizonte, MG)

— 231 —
48 tPERGUNTE E RESPONDEREMOS» 209/1977

livros em estante
A fé em Israel. Aspectos do pensamenlo do Anttgo Testamento, por
H. H. Rowley. Traducáo do Pe. Alexandre Macintyre S. J. — Colecáo "Estu-
dos Bíblicos" n? 11. — Ed. Paulinas, S§o Paulo 1977, 130x200 mm, 217 pp.

O autor é famoso exegeta inglés que sabe escrever livros de nfvel


medio para o grande público interessado. A principio nota que o Antigo
Testamento tem sido objeto de menosprezo por parte de alguns estudiosos:
seria "urna pedra de moínho atada ao pescogo do Cristianismo" (J. Woods,
p. 9, nota 3); com efeito, há quem nao entenda o porgué da leitura do
Antigo Testamento em ambiente cristao. Ora o autor afirma que a Biblia
tem sua unidade, a quat incluí os escritos do antigo povo de Israel; des-
creve-nos, sim, a historia do povo de Deus em marcha, povo que teve sua
infancia rude e progressiva e que nao poderia ser entendido se se Ihe cor-
tassem os séculos de seus primordios e de sua adolescencia. "Nos, cristáos,
somos espiritualmente semitas", dizia Pío XI, ou o verdadeiro Israel
(cf. Rm 9,6s).

Feita esta observacSo de base, Rowley anallsa os principáis tópicos


da teologia do Antigo Testamento, abordando cada tema com o apoio de
vasta bibliografía. Assim o livro se torna interessante e rico em ¡nformacSes,
assumíndo posigóes exegéticas equilibradas. O leitor ficará sabendo, por
exemplo, que a tao propalada designacSo Jeovah era desconheclda aos
judeus até a Idade Media (século XIII, talvez); nao pronunciavam o nome
Jahveh, mas diziam em seu lugar Edonay; Jeovah é forma híbrida, que
associa as consoantes J V H (de Javeh) e as vogais E O A (de Edonay);
cf. p. 54s. Também ficará o leitor sabendo que, apesar da rigorosa pres-
crlcáo de éx 20,4 e 34, 17, os israelitas confeccionavam imagens relacio
nadas com o culto divino; vejam-so, por exemplo, os textos de 2 Rs 18,4;
Jz 6,27; 17,3; 18, 14-16.30: Os 8, 5 ; 13,2 (cf. p. 82s).

Em suma, o livro, embora n§o seja exaustivo (há "Teologías do Antigo


Testamento" muito mais completas, como a de Gerard von Rad), tem valor
como introducSo ao pensamento do Antigo Testamento destinada ao público
estudioso.

Filosofía do Yoga, por Julio Maran. — Ed. Loyola, Sao Paulo 1977,
140x210 mm, 139 pp.

A bibliografía a respeito da Yoga é cada vez mais volumosa, visto


que o assunto desperta interesse crescente. Ao abordarmos o tema "Yoga",
faz-se mister distinguir, de imediato, entre a arte ou a disciplina yogui e
a filosofía da Yoga. A disciplina yogui, com suas posturas e seus exerclcios,
é algo de sadio, tendo dado comprovados beneficios de saúde física e
mental a quem a pratlca. Todavía é preciso n§o esquecer que o treínamento
yogui teve origem na India, por parte de pessoas que professavam filosofía
panteísta; a InsplracSo inicial dos exercícios da Yoga é cortamente pan-
teísta; foram concebidos em vista de libertar o que de "divino" naja dentro
do homem. Isto, porém, nSo quer dizer que nao possam ser praticados
independentemente de tal concepcSo ou mesmo em vista de valores crls-
taos (tenha-se em vista o livro do Pe. Monchanln : "Yoga para cristáos").

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Hoje em dia há quem pratique a Yoga sem preocupado pantelsta como
também há mestres e escolas que, de forma explícita ou velada, ensinam
as posturas yoguis instilando simultáneamente o panteísmo.

O livro de Maran "Filosofía do Yoga" nao entra propriamente em


questóes religiosas; propóe certa maneira otimista e confiante de encarar
a vida, a natureza, o amor, o mundo...; apregoa a paz interior e a equa-
nimidade, para as quais devem contribuir as posturas e os exerclcios yoguis,
visto que o ser humano é essencialmente psicossomático. O autor cita
Krishnamurti e pensadores indianos como também autores católicos (Eva
risto Arns, Jean Guitton, Teilhard de Chardin, Valfredo Tepe...); propóe
outrossim a Ieitura de salmos e da Biblia em geral (pp. 27. 77s. 102). Apenas
á p. 62 algumas frases, inspiradas pelo auténtico pensamento indiano,
poderiam ser entendidas em sentido panteísta ; assim :

"A expressáo ÑAMASTE (Deus em mim saúda o Deus em ti), tao cara
aos yoguins, é o suporte do yoga. É urna expressáo carregada de um
sentido teológico profundo ! Para o yoga, o corpo encerra urna dimensfio
divina, ele é aspecto da realidade de Deus. Para o hindú, Deus nao está
fora, mas dentro do homem".

Esta pássagem, com sua nota pantelsta, talvez nao chame a atencüo
de muitos leitores desprevenidos; nSo compromete o livro. Este se apre-
senta principalmente como um manual de incentivo á serenidade interior
a ser obtida mediante a prática da Yoga (que é Ilustrada mediante nume
rosas fotografías).

A violencia no mundo atual, pelo Pe. Orlando Vilela. — Ed. Loyola,


Sao Paulo 1977, 140x3 210 mm, 65 pp.

Após um hiato de quatro anos, o Pe. Orlando Vilela, professor de


Filosofia em Belo Horizonte, volta a publicar urna obra de Filosofía. Aborda
de maneira didática e clara o tema "personalidade humana" e as principáis
formas de violencia que a esta sao aplicadas em nossos días: tortura,
lavagem cerebral, hipnotismo, narcoanálise, detector de mentiras, pena de
morte, prostituicSo, eutanasia, aborto... O livro cita ampia bibliografía e
numerosas sentencas de pensadores que ilustram proficuamente o pensa
mento do Pe. Vilela. Apenas o capitulo referente á eutanasia nos parece
breve demais (pp. 59-61); o autor podia ter distinguido entre "eutanasia
direta" (acSo ocisiva) e "eutanasia indi reta" (corte dos meios que ordina
riamente entretém a vida). Podia ler distinguido outrossim entre meios ordi
narios e meios extraordinarios de conservacáo da vida. Estas distincSes
teriam contribuido para urna conclusáo de capítulo menos ambigua ou
lacónica do que a que se lé á p. 61 : "A consciéncia nos pertence. Nao
pertence á Igieja, nem á sociedade". É importante realzar aquí que, de
um lado, ninguém tem a obrigacáo de entreter a próptia vida mediante
recurso a meios tidos como extraordinarios (viagem de tratamento á Europa
ou aos Estados Unidos, por exemplo) como também ninguém tem o direito
de suspender os meios ordinarios de conservacáo da vida, provocando a
eutanasia indireta (a eutanasia direta é sempre ilícita).

Estas observacóes nao diminuem essencialmente o valor do livro,


cujo conteúdo será muito útil a estudantes e estudiosos, principalmente pela
forma sistemática como aborda o assunto.

E 3.
MARÍA, MAE DOS HOMENS!

DÁ A MINHA ALMA O IDEAL DAS GRANDES COISAS

E A FIDELIDADE AS COISAS PEQUEÑAS.

DÁ A MINHA CONSCIÉNCIA A FELICIDADE DO DE-

VER CUMPRIDO.

DÁ A MEUS OLHOS O BRILHO TRANSPARENTE DE

QUEM TRAZ A LUZ DE DEUS DENTRO DE SI.

DÁ A MEUS LABIOS O SORRISO QUE TRANSBORDA

DE UM CORACÁO CHEIO DE PAZ E AMOR.

DÁ AS MINHAS MÁOS A DEDICACÁO AO TRABALHO,

A CARICIA PURA E OS GESTOS NOBRES DA

BONDADE.

DÁ AOS MEUS PÉS OS PASSOS SEGUROS NO CA-

MINHO DAS LEIS HUMANAS E DIVINAS.

DÁ AO MEU CORACÁO UM AMOR GRANDIOSO E

PURO, DIGNO DO MEU DEUS E DA MINHA

PATRIA.

DÁ, ENFIM, A TODO O MEU CORPO A MAJESTADE,

A BELEZA E A DIGNIDADE DE UM TEMPLO

VIVO DE DEUS !

Pe. HÉBER SALVADOR DE LIMA SJ