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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.
Eis o que neste site Pergunte e
Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
„ controvertidas, elucidando-as do ponto de
M vista cristáo a fim de que as dúvidas se
. dissipem e a vivencia católica se fortalega
*J" no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.
Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.
Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


nassamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte_ e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de pubhcagao.
A d Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaga
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice
pis-

OS ASTRÓNOMOS E DEUS 317

Llvro novo sobre anliga temática:


"O QUE É MILAQRE NA BIBLIA" de Alfons Welser 319

Um mistarlo que preocupa a multos:


O TRIANGULO DAS BERMUOAS 335

Na linha do "misterio":
E A ATLANTIDA ? 348

LIVROS EM ESTANTE 358

COM APROVACAO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO :

O aborto diante da le¡ no Brasil. — «Pecado : o que é ?» — E a


III Conferencia do Episcopado latino-americano ? — «Contaros ime-
diatos do terceiro grau».

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatura anual Cr$ 100,00

Número avulso de qualquer mes Cr$ 10,00

REDAQAO DE PR ADMINISTBACAO
„ * , nM= Livraria Misslonária Editora
Caixa Postal 2.666 Rua w6^eOt leg-B (Castelo)
ZC00 20.031 Rio de Janeiro (RJ)
20.000 Rio de Janeiro (RJ) Tel.: 224-0059
OS ASTRÓNOMOS E DEUS
A imprensa noticiou recentemente que os astrónomos
estáo sempre mais convictos de que o universo se acha em
expansáo; consta de galácias que se váo afastando urnas das
outras com velocidade crescente, como se resultassem de for-
midável explosáo ocorrida há varios bilhóes de anos atrás.
Esta hipótese, que já tem seus cinqüenta anos, a principio
encontrou resistencia por parte de grandes sabios como o
famoso Albert Einstein. Todavia foi-se impondo, de modo
que o próprio Einstein se rendeu á evidencia da mesma. Mui-
tos dentistas teriam preferido admitir um universo estático
e sem comego, pois isto os dispensaría de procurar urna causa
para a origem do mundo; nao teriam que recorrer & meta
física ou á existencia de Deus Criador. Eis, porém, que esta
é cada vez mais perceptivel... Assim a própria ciencia, á
medida que vai galgando os picos do saber, vai-se aproxi
mando mais e mais da intuicáo do próprio Criador:

"Para o dentista, que tem vivido pela sua fé no poder da razSo,


a historia acaba como um pesadelo. Ele escalou as montanhas da Igno
rancia; está na Imlnéncia de conquistar o último pico; quando se ergue
sobre a rocha final, é saudado por um grupo de teólogos que estavam
sentados lá há séculos" >.

Esta interessante noticia nos leva a refletir:

Há pouco mais de cem anos, os homens julgavam existir


inevitável dilema entre a ciencia e a fé. Quem estudasse,
teria que renunciar as suas crencas religiosas, pois estas
seriam a cobertura da ignorancia e do medo! Hoje pode-se
dizer: «A pouca ciencia afasta de Deus, a muita ciencia leva
a Deus» ou, em outras palavras, o estudo superficial e assis-
temático pode afastar de Deus, ao passo que a pesquisa seria
e coerente leva ao encontró do Senhor. Por qué? Como
explicar isto?

— De um lado, a exegese bíblica, beneficiada pelas des-


cobertas recentes da lingüistica, da arqueología e da histo-
riografia, pos em evidencia os géneros literarios da S. Escri
tura; vé-se que as páginas sagradas visam a ensinar aos
homens verdades de salvagáo eterna e nao proposigóes de
ciencias naturais. A consciéncia disto desfez objecóes que

i R. Jastrow, "Teráo os astrónomos encontrado Deus?", no "Jornal


do Brasil", 2/07/78, cad. especial, p. 6.

— 317 —
outrora os teólogos levantavam, em nome da Palavra de
Deus, contra as ciencias modernas (tenha-se em vista, por
exemplo, o que ocorreu no caso de Galileu!). A teología
pode assim abrir-se amplamente ao diálogo com as ciencias.

De outro lado, as posigóes anti-religiosas de muitos cien-


tistas foram cedendo a urna visáo mais serena e objetiva
da verdade. Os cientistas foram percebendo que nem tudo
o que eles ensinavam (e ensinam), em nome da ciencia, é
realmente expressáo da ciencia. Na verdade, cada dentista
tem as suas concepcóes filosóficas e seus referenciais, em
fungáo dos quais ele apreende e interpreta os fenómenos (a
táo almejada neutralidade científica parece ser um mito ou
urna utopia!). Assim os cientistas que utilizavam a ciencia
moderna para negar a existencia de Deus, verificam hoje que
as mesmas conclusóes científicas se coadunam perfeitamente
com a realidade do Criador,... Criador que é distinto da
materia e do mundo e vem a ser o Supremo Artífice das
galácias e dos mundos que conhecemos!

De resto, aqueles que em nome da ciencia recusam a


Deus, em última análise fazem da sua ciencia urna reli-
giáo,... religiáo dotada de rígidos dogmas. Segundo tais
pensadores, a ciencia explica tudo, ou deve poder elucidar
tudo, como se ela fosse um valor absoluto e cabal. Tal pre-
missa nao é provada, mas é aceita e profesesada com fé
dogmática; em última análise, ela consiste em atribuir á
ciencia os predicados de um sistema religioso... Ao invés, o
auténtico dentista nao pode deixar de ser humilde; o pro-
gresso dos estudos, & medida que lhe dissipa certas dúvi-
das, abre novas e novas interrogagóes, evidenciando-lhe a
exigüidade do seu saber.

As conclusóes dos astrónomos que encontram os vesti


gios de Deus na historia do universo, nao tém apenas valor
teórico; significam, entre outras coisas, que na origem do
nosso mundo existe urna Inteligencia,... Inteligencia que
conhece cada criatura, cada ser humano, e que entende
aquilo que os homens nao entendem. É essa Inteligencia que,
através do noticiario da imprensa, parece dizer hoje a todos:
«Paz e confianga! Nao estáis sos. Aquele que vos criou, é
também a Grande Resposta as vossas aspiragóes!»

Na tentativa modesta de contribuir para que os homens


de nossos tempos melhor possam perceber tal mensagem, é
que foram escritas as páginas subseqüentes!
E.B.

— 318 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS.
Ano XIX — N« 224 — Agosto de 1978

Um livro novo sobre antiga temática:

"o que é milagre na biblia"


de Alfons Weiser

Em tíntese: O livro de Alfons Weiser apenas reconhece como


fatos cortamente históricos os milagros de cura realizados por Jesús;
o autor, porém, julga que tais curas poderlam ser equiparadas ás dos
taumaturgos helenistas; os evangelistas as terlo entendido numa vls§o
de fé, narrando-as como testemunhos da crenca da Igreja nascente.

Ora a teología enslna que o milagre é um slnal outorgado por Oeus


aos homens para corroborar a RevelagSo oral; é urna palavra extraordi
naria e enfática que ilustra a ünguagem comum. Os mllagres sao plena
mente compreensivels á luz da Encarnacáo — misterio pelo qual Deus
se faz homem para falar aos homens linguagem humana.

Os teólogos estipularam os requisitos para que se possa diferenciar


um auténtico milagre (sinal de Deus) de fenómenos meramente naturals
psicológicos ou parapsicológicos. Com efeito, o slnal de Deus deve ser

— um falo real histórico (excluem-se as narracSes fantaslstas


populares);

— ... inexplicável á luz da ciencia contemporánea ao fato,

— ... obtido como resposta de Deus a urna atltude auténticamente


religiosa.

Vé-se, pols, que a enfase, no concelto de milagre, é colocada sobre


o elemento sinal ou "parte do diálogo existente entre Deus e a huma-
nldade".

A luz destas premlssas, deve-se dlzer que o livro de A. Weiser


cede gratuitamente a preconceitos de critica e de hermenéutica. Deve-se
professar a realidade histórica das curas realizadas por Jesús; foram
mllagres segundo o conceito de milagre atrás exposto. Quanto aos exor
cismos, seria indigno afirmar que Jesús os tenha praticado por mera
adaptacáo ou acomodacáo á mentalldade errónea do povo Judeu. No
tocante aos demais mllagres de Jesús (ressurrelcáo de mortos, dominio

— 319 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

sobre a natureza...), nao há razáo para negar-lhes a autenticidade histó


rica, visto que pertencem ao estilo da comunicagáq de Deus aos homens:
estilo de encarnacáo, que faz do corpo humano e do mundo vislvel o
instrumento e o espelho de realidades esplrituais e transcenderíais.

Comentario: Acaba de ser publicado mais um livro im


portante sobre o tema «milagre», com o título «O que é mila-
gre na Biblia. Para vocé entender os relatos dos Evange-
lhos» \ O autor, Alfons Weiser, de 44 anos de idade, concluiu
o doutorado em Teología na Universidade de Würzburg e
exerce atualmente o magisterio na Escola Superior de Teo
logía em Vallendar, perto de Coblenga. Em vista das teses
langadas por A. Weiser, vamos, a seguir, resumir o conteúdo
do livro e propor reflexóes sobre o mesmo.

1. As teses do livro

O autor se concentra no estudo dos Evangelhos, nos


quais distingue cinco tipos de milagre:
t

— as curas de enfermos (cegos, leprosos, surdo-mu-


dos...)»

— as expulsóes de demonios,

— os milagres de «dominio sobre a natureza» (conver-


sáo da agua, em vinho, multiplicagáo de páes, caminhar sobre
as aguas...),

— as ressurreigóes de mortos (a filha de Jairo, o jovem


de Naim, Lázaro),

— os milagres concomitantes, isto é, milagres que nao


foram realizados pelo próprio Jesús, mas aconteceram com a
sua pessoa; sao milagres que acompanham a sua existencia,
á maneira de indicadores (a conceicáo por obra do Espirito
Santo, a revelagáo por ocasiáo do batismo e da transfigura-
g&o, os sinais e abalos cósmicos por ocasiáo da morte de
Jesús, a ascensáo ao céu).

iTraduc&o de D. Mateus Rocha O.S.B. Colecáo "Entender a Bi


blia"-3. — EdlgSes Paulinas, Sao Paulo 1976, 185 X 22' mm, 189 pp.

— 320 —
«O QUE fe MILAGRE NA BIBLIA»

Analisando os relatos evangélicos concernentes a esses


milagres, A. Weiser julga que seguem um roteiro literario
semelhante ou idéntico ao das narrativas helenísticas pagas
de milagres (o deus Asclépio em Epidauro, o Imperador Ves-
pasiano, o taumaturgo Apolónio de Tiana e outros também
«praticaram milagres»!). Todavía reconhece que os relatos
evangélicos se inspiram em motivos e intengóes diversos dos
que movem os escritores pagaos. Destas ponderacóes o autor
tira conclusóes no tocante á historicidade dos milagres dos
Evangelhos:

1) os relatos de curas podem corresponder a fatos reais,


que difícilmente conseguimos hoje identificar, pois na verdade
nao temos os milagres, mas apenas relatos de milagres. Jesús,
assim como os taumaturgos pagaos, deve ter realizado fatos
que os seus contemporáneos julgavam milagrosos, mas que
nao teráo sido mais do que fenómenos explicáveis pelas leis
da natureza, ou seja, da psicología ou da parapsicología. O
autor nota que, quando os antigos falavam de milagres, ape
nas intencionavam professar a agáo de Deus em meio aos
homens, sem pretender indicar derrogagáo as leis da natu
reza; essa agáo constante de Deus era muito mais percebida
e enfatizada pelos homens de outrora do que pelos nossos
contemporáneos.

O pensamento de Weiser se exprime nítidamente através


dos seguintes dizeres:

"NSo há um único caso sequer em que os aconteclmentos histórica


mente indiscutivels como as curas e os fatos tidos como exorcismos
aparecam como 'violacfio ou suspensSo das leis naturals'. Talvez julga-
riamos mais acertadamente os aconteclmentos, se os conslderéssemos
como o resultado de torcas que se sltuam para além dos limites da
percepcSo normal dos sentidos. A realldade, de fato, é muito mais ampia
do que aquilo que podemos perceber mediante os sentidos e avallar na
sua relagSo de causa e efelto. A realidade que se sitúa para além da
percepcSo dos sentidos, abrange nSo somente aqueles torcas que Inte-
gram a 'natureza' do mundo e do homem, como também aquele funda
mento último e pessoal que está na base de todo acontecimento: Deus.
Aqueles que acredltam nSo poder passar, neste mundo, slmplesmente sem
acreditar na acSo de Deus, nao admltlrSo que ele atue em alguma cura,
nem mesmo ñas curas extraordinarias. AdmitirSo, no máximo, a presenca
de forcas parapsicologías. Mas aqueles que acredltam em Deus como
fundamento último de qualquer acontecimento, perceberSo a presenca
benéfica de Deus para além dos resultados das forcas parapslcológlcas,
mas ao mesmo tempo agindo nelas, e o proclamarüo em sua fé. So se
pode falar em mllagre dentro desta perspectiva de fé" (ob. clt. p. 162s).

2) Quanto ás expulsóes de demonios, A. Weiser identi


fica-as com curas psicossomáticas. O autor póe em dúvida

— 321 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

nao somente a possibilidade da possessáo diabólica, mas tam-


bém a própria existencia do demonio; este nao seria um anjo
mau, mas apenas criagáo literaria. O autor nao pretende
dirimir a dúvida, mas concluí nos seguintes termos:

"A questfio de saber se o mal existe como poder pessoal r»8o é


tño Importante como ás vezes no-lo fazem ver. O Novo Testamento nao
esclarece a questáo, mas enfatiza que o mal — qualquer que seja a
natureza — foi vencido pelo Cristo" (p. 108).

3) Os demais tipos de milagres (ressurreigáo de mortos,


dominio sobre a natureza, milagres concomitantes...) nao
corresponden! a fato algum, mas vém a ser construgóes lite
rarias realizadas pelos primeiros cristáos, a fim de exprimir
a sua fé pós-pascal em Jesús. Com outras palavras: após
Páscoa, os discípulos compreenderam que Jesús é o Senhor
da vida e da morte, dotado de poderes sobre a natureza; por
conseguinte, exprimiram essa sua convicgáo concebendo «estó-
rias» ñas quais Jesús, já antes de Páscoa, aparece domi
nando a natureza e a morte ou é manifestado como Senhor
das criaturas...

Em suma, dentre todos os milagres narrados pelos Evan-


gelhos, somente a ressurreigáo corporal de Jesús Cristo é tra
tada de maneira diferente; o autor nao lhe procura paralelos
ñas literaturas antigás nem lhe sugere explicagóes natura
listas: «A fé na ressurreigáo (de Jesús), com base nos teste-
munhos do Novo Testamento, é honesta e responsável do
ponto de vista intelectual» (p. 167). Isto... porque ela ocupa
um lugar central nos escritos do Novo Testamento, a ponto
de Sao Paulo poder dizer: «Se Cristo nao ressuscitou, ilu
soria é a nossa fé e ainda estamos em nossos pecados» (ICor
15,17). Foi mesmo a consciéncia da ressurreigáo do Senhor
que levou os discípulos a conceber e confeccionar os ecos
antecipados desse fato durante a vida terrestre de Jesús.
Esses ecos ou relatos milagrosos nao sao informagóes, mas
expressóes da fé dos antigos.

Considerando os taumaturgos da literatura paga, o autor


se detém especialmente sobre a figura de Apolónio de Tiana,
pregador pitagórico helenista do século I d.C, cuja biogra
fía foi redigida por Filostrato no século Ilt d.C., a pedido da
Imperatriz Julia Domna: terá realizado expulsóes de demo
nios e prodigios de dominio sobre a natureza. A respeito
escreve A. Weiser:

— 322 —
<O QUE É MILAGRE NA B1BLIA>

"NSo se pode duvidar de que Apolónlo tenha existido e realizado


coisas extraordinarias. É muito pouco provável que um personagem que
tenha conseguido tanta celebridade seja pura flcc&o. Mas já nfio é pos-
slvel determinar com preclsáo em que conslstlam as capacidades extraor
dinarias de Apolflnlo e mediante quais acOes ele realizou suas curas e
granjeou fama. É bem posslvel, e até mesmo provável, que ele tenha
curado doentes, inclusive doentes que sofriam de perturbagOes pslcosso-
máticas e eram considerados como possessos do demfinio, e que tam-
bém possuisse poderes parapsicológlcos.

Globalmente, os tatos atribuidos a Apolonlo sao da mesma natureza


que os atribuidos a Jesús cem anos antes...

A dlferenga fundamental entre os milagros de Apotfinlo e os mila


gros de Jesús nao está nem na natureza dos fenómenos milagrosos, nem
menos ainda na circunstancia de os prlmelros terem sido Inventados e
os segundos terem sido fatos reals. A dlferenga consiste, antes de
tudo,... na significado que se atribuí aos milagros operados" (ob. clt.,
pp. 160s).

Como se vé, A. Weiser nao dá grande énfase aos mila-


gres nos Evangelhos. Só aceita propríamente as curas reali
zadas por Jesús, comparáveis as de taumaturgos nao cristaos
e explicáveis por fatores naturais. As razóes que levam o
autor a essa atitude, sao duas: 1) o confronto com; narracóes
de milagres da literatura grega e com relatos de exorcismos
da literatura judaica); 2) o próprio conceito bíblico de mila-
gre, que A. Weiser assim formula á p. 21: «Os milagres sao
acontecimentos estranhos, que o crente entende como sinais
da agáo salvadora de Deus».

O adjetivo «estranho», no caso, é intencionalmente vago;


nao implica necessariamente superagáo das leis da natureza.
— Quanto á palavra «crente», restringe o significado do
milagre ao ámbito das pessoas de fé. Ora estes elementos
como também outros dados colhidos no livro de A. Weiser
nos levam a propor algumas observacóes a este autor e a
sua obra. Em conseqüéncia, abordaremos, a seguir, os textos
da literatura helenística assim como o próprio conceito de
milagre.

2. Os textos da literatura extra-bíblica


1. A. Weiser tenta mostrar paralelos literarios entre as
narragóes de milagres helenisticas e as evangélicas. Deve-se
reconhecer tal fenómeno literario nos casos em que realmente
ocorra; na verdade, sabe-se que os evangelistas adotaram for
mas de escrever comuns na sua época para exprimir a men-
sagem evangélica (que, embora revestida de tal roupagem,
era algo de totalmente inédito).

— 323 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 224/1978

Todavía nao se deve exagerar o alcance desta afirma-


gáo. O próprio Weiser reconhece que mais de urna narragáo
de milagre rompe o esquema literario, ora porque lhe acres-
centa elementos próprios, ora porque tenciona mostrar a cor
respondencia entre o fato narrado e as profecías do Antigo
Testamento. O mesmo autor também reconhece que os rela
tos evangélicos sao sobrios e objetivos, evitando ornamentar
a descric,áo com tragos fantasiosos e evidentemente irreais;
ao contrario, as narragóes helenísticas sao marcadas por ele
mentos imaginativos e fantasistas, que denunciam composi-
góes ficticias e nao se coadunam com o estilo de narragóes
históricas; cf. pp. 50s.

A existencia de paralelos entre as narragóes evangélicas


e as helenísticas nao significa, segundo Weiser, que aquelas
nao correspondan! a acontecimientos históricos. Como dito, o
que Weiser contesta, é que se trate, nos Evangelhos, de acon-
tecimentos que transcendam as leis da natureza; tratar-se-ia,
antes, de fatos que a medicina moderna e a parapsicología
explicariam e que a fé dos antigos cristáos entendeu como
sinais da messianidade de Jesús. Mais adiante, diremos que
tal interpretagáo dos milagres de Jesús é gratuita; deriva-se
de urna atitude que de antemáo rejeita o valor ou o signifi
cado de intervengóes objetivas de Deus no ámbito da natu
reza.

Importa, por ora, analisar mais atentamente os relatos


de «milagres» pagaos.

2. Os estudiosos de historia, literatura e religiáo tém


procurado investigar o que haja realmente ocorrido em Epi-
dauro. A arqueología, com as suas escavagóes, e a epigrafía,
com a descoberta de inscrigóes, vém permitindo a reconsti-
tuigáo dos fatos. Sabe-se que em Epidauro (Grecia) havia
perto do templo de Asclépio (o Asclepeion) urna fonte sa
grada; o acesso ao templo era facultado por duplo pórtico;
este, com as suas arcadas, servia de dormitorio (ábaton) •
posto á disposigáo dos peregrinos que aguardavam a cura.
No ábaton os sacerdotes praticavam um rito que adormecía
o paciente (egkoímesJs); este entáo mergulhava em sonó sa
grado, que o dispunha a receber as comunicagóes da Divin-
dade. Esta, como se pregava, aparecía durante o sonó e

i Ábaton, em grego, é o lugar inacessfvel ou o santuario.

— 324 —
«O QUE É MILAGRE NA BIBLIA» 9

explicava ao doente como ficaria curado. Tal sonho era o


grande objetivo da peregrinagáo. Os enfermos visitados pela
Divindade durante a noite davam-se por curados desde a ma-
nhá ou, ao menos, diziam ter recebido as indicagóes terapéu
ticas que os curariam. Depositavam sua oferta no templo e
voltavam para casa.

Ñas paredes internas do santuario de Epidauro, encon-


tram-se relatos escritos de curas ai obtidas. Seis desses nar-
ram os casos de mulheres que, após a aparigáo da Divindade
em sonho ou depois de ter tido relacóes com o deus local,
deram á luz. Assim, por exemplo:

"Cleo estava grávida havia cinco anos. Por isto, suplicante, fol ao
templo do deus; adormeceu no ábalon. Logo que salu deste e se vlu
fora do templo, deu á luz um menino, que, ao aparecer, se lavou na
agua da fonte e se pos a camlnhar junto á sua máe".

Urna dezena de casos refere-se a doengas da vista. A


falta de higiene ocasiona tais molestias. O termo «cegueira»,
em tais relatos, significa «inflamagáo e abcessos das pálpe
bras», os quais podem ser táo violentos que a visáo cesse.
A cura, porém, de tais males está ao alcance da medicina.
Eis alguns espécimens:

"Um homem fol ter ao templo em súplica. Estava caolho. As suas


pálpebras nao recobriam coisa alguma... No templo, as pessoas o tlnham
por multo slmplório por acreditar que recuperarla a vista, pois do seu
olho nada ficava senfio o respectivo lugar. Enquanto dormía, fol agrá*
ciado por urna vlsáo; parecía que a Divindade Ihe preparava um remedio;
abria-lhe as pálpebras e nelas derramava o remedio. Por ocasISo da
aurora, salu e enxergou com os dols olhos",

"Um cegó perdeu o seu colirio durante o banho. Dormiu no ábaton,


sonhou que a Divindade Ihe aconselhava que procurasse o colirio no
grande albergue á esquerda, na entrada. Urna vez nascido o dia, o cegó,
auxiliado por um escravo, fot procurar o colirio. Entrou no albergue, viu
o colirio e ficou bom".

"TlmSo de X. foi ferido por um golpe de langa debaixo do olho.


Enquanto dormía, teve um sonho; pareceu-lhe que a Divindade triturava
urna erva e Ihe derramava algo no olho. Ele está curado".

Há também casos de mudez e paralisia:


"Urna jovem muda perambulava no santuario. Víu urna serpente
descer de urna árvore e penetrar dentro da alvenaria. Espantada, ela
chamou pal e mSe. Voltou curada".

"Clemenes de Argos estava paralitico. Apresentou-se no ábatorr; ador


meceu e teve um sonho: a Divindade o envolveu com urna coberta ver-
melha, levou-o ao banho fora do recinto sagrado, num tanque de agua

— 325 —
10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 224/1978

multo frfa. Tremía de angustia; Asklepios disse-lhe que ele nao curava
os covardes, mas, sim, táo somante aqueles que o procurassem com
confianza. Ele nao Ihes fazia mal algum, mas despedia-os, curados, para
casa. Clemenes acordou, tomou um banho, e voltou em perfeito estado".

Há dois casos de feridas purulentas e um de tumor abdo


minal, que parecem supor urna intervencáo cirúrgica ele
mentar:

"Ferldo por urna langa, Evippos tlnha a ponta da mesma encravada


na maxlla havia seis anos. Adormeceu no ábaton; a Olvindade Ihe retirou
essa ponta de lanca e a colocou em suas máos. Quando despontava o
día, ele se fol curado, levando a ponta ñas maos".

"N.N. de X. está ferido no peito. A chaga é purulenta; foi ter com


a Olvindade em súplicas. Dormiu no ábaton e teve urna vistió: a Dlvln-
dade ihe lavou o peito com lelte fresco e untou a ferida com ungüento.
Depois de té-la enxugado, ordenou-lhe que se lavasse na agua fría. Ao
despertar, mergulhou na agua corrente e ficou curado".

"Um homem sofría de tumor no abdomen. Teve um sonho no ábaton:


a Dlvindade mandou a seus auxiliares que o Imoblllzassem e ihe abríssem
o ventre. Ele fugiu, mas fol apreendldo e atado quando atravessava a
eolelra da porta. Asklepios abriu-lhe o ventre, retirou-lhe o abcesso e
coseu a ferida; o doente foi desatado. Voltou curado; o solo estava
coberto de sangue".

Eis aínda dois casos:

"Eraslpa de C. tinha o ventre inchado e nada conseguía digerir. Dor


miu no ábaton; teve um sonho; a Divindade ihe fazla massagens sobre
o abdomen e a abracava; depois o deus Ihe ofereceu, numa taca, um
remedio, que ele Ihe mandou beber; forcou a vomitar; ela o fez, sujando
a sua roupa. Ao nascer do día, verificou que o vestido estava todo sujo
de vómitos; sentlu-se curada".

"N. N. de X. sofría de um tumor. Entrou no santuario. Nao obteve


o que pedia. A Dlvindade nSo se mostrou durante o seu sonó no ¿batan;
ele julgou entfio ter sido esquecido pelo deus e voltou para casa. Toda
vía, nSo podendo suportar por mals tempo a dor, quis sulcidar-se traspas-
sando o abcesso com urna punhalada. A sua filha encontrou-o desfale-
cido, tomou-o nos bracos, retirou o punhal. O sangue jorrou do tumor
e o doente ffcou curado".

Outras semelhantes narragóes poderiam ser aduzidas.


Estas, porém, sao suficientes para evidenciar que os «mila-
gres» de Epidauro sao

— fatos que as ciencias médicas e a psicología explicam


satisfátonamente;

— 326 —
«O QUE fi MILAGRE NA BIBLIA» 11

— as narrasóes respectivas devem-se, em grande parte,


á fantasía do narrador, que explora a capacidade de admira-
gáo dos leitores; ,

— diferem profundamente das harragóes evangélicas


tanto pelo conteúdo como pela forma. Vé-se que a forma lite
raria dos portentos helenistas nem sempre é a mesma como
também nao o é a forma literaria dos relatos evangélicos. A
propósito apraz-nos citar o testemunho de Wolfgang Trilling,
que, estudando a cura do cegó em Me 10,46-52, se detém
sobre o género literario da narragáo respectiva:

"Os elementos típicos do genero literario de urna narrativa de cura


podem-se obter fácilmente através do confronto com todos os outros
textos, principalmente com os dos Sinótlcos, sem se recorrer á hlpótese
de urna derivacio direta do tipo helenístico de narrativas de prodigios.
O esquema segundo o qual se constroem essas narrativas, devu ser enten
dido antes como esquema narrativo geral popular do que mediante derl-
vacfio direta da baixa literatura helenística. Pode-se supor que todas
essas narrativas seguem, independentemente entre si, as mesmas leis do
modo popular de narrar" ("O anuncio de Cristo nos Evangelhos Sino
cos", p. 142).

Em conseqüéncia, dir-se-á: o confronto das curas narra


das pelo Evangelho com as dos relatos helenistas nao redunda
em detrimento da autenticidade histórica dos relatos evangé
licos nem obriga a reduzir os fatos narrados pelos evange
listas a fenómenos puramente naturais. Ao contrario, póe
em evidencia as diferengas de mentalidade e redacáo exis
tentes entre os textos bíblicos e os textos extra-bíblicos.

Passemos agora a analisar o conceito de milagre.

2. A nojao de milagre

Segundo vimos, A. Weiser define o milagre como «acon-


tecimento estranho que o crente entende como sinal da agáo
salvadora de Deus» (p. 21).

Ora esta definigáo merece duas observagóes:

2.1. Sinal

1. O milagre, na verdade, nao deve ser entendido qual


mera ostentagáo ou «show» do poder divino. Nao é mera
mente o extraordinario que interessa ou importa no milagre,

— 327 —
U «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

mas é o seu caráter de sínal. O Evangelho segundo S. Joáo


usa sistemáticamente o vocábulo «sinal» (seméion) para desig
nar os feitos extraordinarios de Jesús, atribuindo grande im
portancia as obras ou, equivalentemente, aos sinais de Jesús;
cf. Jo 6,26; 10,37s; 12,37; 15,24.

O milagre é propriamente urna palavra de Deus',...


palavra mais forte e enfática do que os vocábulos habituáis
ou oráis; o Senhor Deus dirige as criaturas esse tipo de pala
vra sempre que o julga oportuno..., geralmente para cor
roborar determinada mensagem, para autenticar certo emis-
sário ou mensageiro ou para responder a urna atitude de
prece e expectativa dos homens... Assim o milagre é urna
parte do diálogo entre Deus e a humanidade; vem a ser um
aceno, um indicio ou urna prova da parte do Senhor. Nao é
o portento como tal que importa, mas, sim, o significado do
portento no contexto da historia da salvagáo. A fungáo de
sinal é, pois, essencial ao conceito de milagre; é o que faz do
milagre algo de sabio e harmonioso, em vez de ser algo de
meramente espetacular e assombroso. Em conseqüéncia, veri
ficamos que o milagre, principalmente na Biblia, nao pode
ser considerado a parte do contexto da Revelagáo de Deus
aos homens.

2. Para ilustrar melhor esta afirmagáo, lembraremos o


seguinte:

Deus, em seu plano eterno, nao quis deixar o género


humano entregue a ordem puramente natural,... ordem que
a razáo e a experiencia científica podem penetrar satisfato-
riamente. Nao; o Senhor Deus quis elevar o homem á ordem
sobrenatural, ou seja, ao consorcio da vida trinitaria ou á
categoría de filho de Deus chamado a ver face-a-face a Be-
leza Infinita. Tal vocacáo, Deus a quis revelar aos homens
pelo» misterio do Verbo Encarnado... Deus se fez um de nos
para falar aos homens em linguagem e sinais humanos, de
fácil compreensáo. Mais: o Senhor quis levar ao extremo as
cons2qüéncias da Encarnacáo, oferecendo ao homem sinais
mais eloqüentes e persuasivos do que a simples linguagem
cotidiana, que também os charlatáes e falsos profetas empre-
gam para iludir as multidóes. Deus feito homem quis usar a
linguagem dos sinais mais enfáticos que sao os milagres,...

1 Toda palavra é um sinal.

— 328 —
cO QUE É MILAGRE NA B1BLIA> 33

milagres que só Deus pode realizar e que assinalam de ma-


neira insofismável a presenga e a mensagem do Senhor Deus.

Eis por que Jesús quis efetuar milagres; tencionava cor


roborar a sua pregagáo, por vezes, «escandalosa»: «Para que
saibais que o Filho do Homem tem o poder de perdoar os
pecados, eu te ordeno — disse ele ao paralítico — levanta-te,
toma o teu leito, e vai para tua casa» (Me 2,10s). Jesús tam-
bém quis significar, por meio de curas, exorcismos, vitória
sobre a morte, dominio sobre a natureza.... a restauragáo
da ordem espiritual e da ordem física violadas pelo pecado
dos primeiros homens.

Em conseqüéncia deste plano de Deus, entende-se que o


corpo humano e o mundo material se tenham tornado instru
mentos do Redentor e o espelho no qual se refletem valores
espirituais transcendentais. Diz muito sabiamente M. Blondel:

"O milagro é o recurso desea divina phllanthropla i, da qual fala


Sao Paulo, e que, humanizando-se em sua linguagem e em sua condes
cendencia, faz transparecer por slnals anormais a sua anormal bondade"
(art. Mlracle, em A. Lalande, Vocabulalre technique de la phllosophle.
París 1947, 5? ed., p. 615).

Também apraz citar as palavras de S. Atanásio (t 373),


que póem em evidencia a relagáo entre o material e o espi
ritual ou entre o humano e o divino nos milagres de Cristo:
"Quando Ele quis curar da febre a sogra de Pedro, foi num gesto
humano que Ele estendeu a mSo; mas a sua vitória sobre a doenca fol
divina. Também quando Ele quis curar o cegó de nascenca, a sua boca
secretou urna saliva humana, mas fol a Intervencáo de Deus que abrlu
os olhos mediante esse lodo. E, quando Ele chamou Lázaro dentre os
mortos, proferlu como homem, palavras humanas, mas foi como Deus que
Ele o devolveu á vida" (Or. III contra Árlanos, n? 32, Patr. Mlgne, serie
grega, t. 26, 392).

Urna vez estabelecido que o milagre é sempre um sinal,


e sinal que condiz bem com todo o designio salvífico de Deus,
perguntamo-nos: como o milagre é sinal? Ou como chama a
atengáo do homem?

2.2. Os milagres e as leis da natureza

1. S. Agostinho, ao comentar a multiplicacáo dos páes


realizada por Jesús segundo Jo 6, tenta definir a maneira
como o milagre é sinal ou palavra enfática do Senhor:

i Phllanthropla = amor aos homens. Cf. Tt 3,4.

— 329 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

"Os milagros com que Deus rege o mundo e dirige a criacfio inteira,
ficam tfio velados na vida quotldlana que quase nlnguém se digna con
ceder um pouco de atencño ás prodigiosas e admlráveis obras de Deus
em cada grio de trigo. Por Isso, fiel á sua misericordia, quls Deus
realizar em determinados tempos algumas coisas que flcam fora do curso
normal e da ordem da nalureza, a flm de que os homens que estáo
cegos em relagSo aos milagres quotldianos se comovam com a expe
riencia de um aconteclmento nSo maíor, porém mais anormal. Realmente,
a ordem de todo o cosmos é um milagre malor do que saciar cinco mil
homens com cinco pfies. Entretanto ninguém se admira do primeiro, ao
passo que o segundo semeia admlracSo entre os homens por se tratar
de milagre, nao maior, porém mais raro. Quem alimenta hoje o mundo
intelro senSo aquele que de alguns graos de trigo tira colheitas Inteiras?
Ele aglu, pols, como o próprio Oeus. Pelo mesmo poder com que con
verte alguns grfios de trigo numa colhelta, multiplicou os cinco páes em
suas mfios. Tal poder estava ñas mSos de Cristo, e os cinco páes eram
como semen tes; desta vez, porém, nao as confiou á térra, mas multipli-
cou-as, ele que fez a térra. Isso ocorreu diante de nossos sentidos para
a ediflcacfio de nosso espirito. Mostrou-se a nossos olhos, para que a
razáo o considere, para que descubramos com admlracao o Deus invi-
sivel em suas obras visfveis e, despertados para a fé e por ela purifi
cados, aspiremos a ver de modo supra-sensívei a quem conhecemos como
invlslvel através das coisas visfveis" (Comentario sobre o Evangelho de
S. Joáo 24,1; ed. Mlgne lat. 35, 1592s).

Como se vé, S. Agostinho distingue entre as maravilhas


que Deus. realiza diariamente e que constituem o curso natu
ral das coisas, e as maravilhas que o Senhor se digna efetuar
ocasionalmente e que, por isto, chamam singularmente a aten-
cáo dos homens.

Na base desta distincáo do mestre, dizemos:

Para que o milagre possa ser sinal realmente significa


tivo, requer-se que

— seja um fenómeno objetivo histórico... Nao basta


que seja mera ficcáo ou construgáo literaria. Nem é sufi
ciente que seja projegáo meramente pessoal ou subjetiva da
fé de um grupo; por conseguinte, nao se pode aceitar a defi-
nicáo que Goethe dava de milagre: «des Glaubens liebstes
Kind — o filho predileto da credulidade». O milagre é um
sinal de Deus que se dirige 1) aos incrédulos, para ajudá-los
a conceber a fé, 2) aos fiéis, para corroborar-lhes a fé;

— fuja á ordem normal ou natural dos acontecimentos.


Caso contrario, o milagre nao seria apto a suscitar de ma-
neira eficaz a reflexáo dos homens.

2. Dirá alguém: mas que significa «fugir á ordem natu


ral ou normal dos acontecimentos?» Hoje em dia os cientis-

— 330 —
«O QUE É MILAGRE NA BÍBLJA> 15

tas discutem a respeito de determinismo ou indeterminismo


das leis da natureza. Pelo fato de um fenómeno escapar ao
curso comum das leis naturais, pode-se logo dizer, que resulta
de urna intervengáo extraordinaria de Deus? Este é o ponto
mais nevrálgico de toda a temática que estamos abordando.

Em resposta, observemos quanto segué:

As ciencias naturais contemporáneas ensinam que o deter


minismo dos fenómenos no plano macrofisico nao é senáo o
resultado de um sem número de reagóes no plano microfísico
e que cada urna dessas reagóes é indeterminada. É a repeti-
gáo estatística e constante dos mesmos fenómenos macrofísi-
cos que permite estabelecr leis físicas; estas sao praticamente
táo estáveis que se pode falar de determinismo absoluto dos
fenómenos naturais.

Para aprofundar este estudo, faz-se mister distinguir


entre «determinismo-indeterminismo» no plano ñsico e no
plano metafísico. Os cientistas falam urna linguagem física e
nao entram no setor da metafísica. Os físicos, alias, nao pre-
tendem negar o determinismo metafísico; segundo este, tudo
o que é contingente, deve ter sua causa, que é também a
sua razáo suficiente. Nao se pode negar a veracidade desta
proposigáo, sem negar o principio de contradigáo ou os prin
cipios mais fundamentáis da lógica. Por conseguinte, nao há
indeterminismo das agóes e reagóes dos elementos naturais,
mas determinismo, até mesmo no plano microscópico. A pro
pósito veja PR 176/1974, pp. 338-341.

De resto, a questáo nao importa para se fixar o con-


ceito de milagre. Em qualquer hipótese, deve-se dizer que o
milagre é um fato que foge ao curso normal dos aconteci-
mentos de tal modo, porém, que a ciencia contemporánea ao
mesmo nao veja absolutamente nenhuma explicagáo possivel
para tal excegáo. Se os homens de ciencia entrevéem qual
quer pista para explicar naturalmente um acontecimento tido
como milagroso, este já nao pode ser estudado como provável
sinal divino ou milagre no sentido da apologética católica.
Eis alguns dos casos de curas realizadas em Lourdes, por
exemplo, que a medicina hoje em dia tem por totalmente
inexplicáveis: recuperagáo instantánea da vista após total
atrofia do ñervo ótico; cura instantánea de cáncer do piloro
e do fígado com plena restauragáo das funcóes digestivas;
cura instantánea de meningite tuberculosa com bacilos de

— 331 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

Koch no liquido céfalo-raquidiano, o qual continha 150 linfo-


citos por mmB... Alias, duas das notas características das
curas milagrosas consistem em que
* ■ ™'7V!

1) ocorram em casos de doencas orgánicas e lesóes físi


cas, nao nos casos de doengas funcionáis (que podem fácil
mente ser dissipadas por desbloqueio psicológico),

2) ocorram instantáneamente, pois, quando a natureza


e a medicina curam doencas orgánicas, geralmente o fazem
paulatinamente.

3. Indagará o leitor: mas por que basta que a ciencia


contemporánea ao fato tido como milagroso nao possa expli
car tal fato? Nao seria mais lógico afirmar que o milagre é
um acontecimento que a ciencia jamáis, nem daqui a cin-
qüenta ou cem anos, poderá explicar?

— Nao. Se o essencial do milagre consistisse em ser sinal


maravilhoso ou portentoso, poder-se-ia incluir em seu con-
ceito a cláusula de «inexplicável mesmo em época futura».l
Como, porém, o milagre é, antes do mais, um sinal,... sinal
de Deus que fala aos homens em determinado contexto da
historia, basta que nesse preciso contexto os homens nao
tenham explicagáo natural para o portento nem entrevejam
alguma pista para chegar á elucidacao científica do fato. Se
nao há realmente nenhuma explicagáo ou sombra de explica-
gáo no momento e se o quadro dentro do qual o fenómeno
se produziu é digno de Deus, pode-se crer que o Senhor ai
tenha proferido sua palavra mais enfática que é o milagre.

4. Em síntese, para que a teología; possa falar de mila


gre, háo de se preencher os tres seguintes requisitos:

1) Trate-se de um fato real... Este deve ser averi


guado com exatidáo, para que se tenha noticia fiel á reali-
dade ocorrida. Freqüentemente os relatos de milagres cor-
rentes entre a gente simples devem-se táo somente á fan
tasía popular, que os tornou «portentosos».

2) Trate-se de fato real que as ciencias naturais con


temporáneas ao fato nao possam em absoluto explicar. A
Igreja nao faz questáo de descobrir ou impingir milagres ao
público; desde que qualquer brecha se oferega para urna elu-

!Tal cláusula, alias, seria temeraria, pois logarla com variantes


Incertas do futuro da medicina.

— 332 —
«O QUE fi MILAGRE NA BIBLIA» 17

cidacáo científica, o fato portentoso deixa de ser considerado


pelos teólogos. A Igreja apenas aceita os milagres que, a
luz de crítica objetiva e severa, parec.am realmente ser sinais
de Deus.

3) O fato histórico inexplicável pela ciencia deve ter


ocorrido em contexto que possa merecer a cháncela ou a res-
posta do Senhor Deus. Ve-se, pois, que nao basta o aspecto
portentoso do fato. Com efeito; se o milagre é sinal, deve-se
inserir em ámbito de diálogo entre Deus e as criaturas. Por
conseguinte, nao pode ser milagre no sentido da apologética
católica qualquer fato portentoso que confirme a vaidade,
o espirito mercenario ou comercial, os vicios, o charlata
nismo. .. Se, por hipótese, alguma vez se verifique um fenó
meno inexplicável pela ciencia em moldura de pecado e cor-
rupgáo, dir-se-á que se trata de artimanha do demonio. Tal
caso, porém, é tido como extremamente raro, pois, nos am
bientes de vicios, os portentos sao geralmente explicáveis pela
psicología e a parapsicología...

Feitas estas ponderales sobre o milagre, voltemos ao


livro de A. Weiser.

3. Reflexño final sobre o Hvro


Exporemos o nosso pensamento em quatro pontos:

1) O milagre, entendido como sinal ou palavra enfática


de Deus aos homens, é condizente com a disposicáo divina
de salvagáo; a" Encarnagáo do Filho de Deus é o principio
explicativo da realidade dos milagres. Estes constituem um
sinal apto a despertar a fé dos incrédulos e corroborar a dos
crentes. Tal enfoque explica que a Tradicáo crista sempre
tenha entendido os milagres de Jesús como fatos históricos e
reais; nao se deveria hoje negar tal realidade, mas apenas
procurar discernir os géneros literarios que a exprimem.

2) As curas de enfermidades realizadas por Jesús sejam


compreendidas a luz do conceito de milagre atrás exposto.
Nao importa saber se todas as molestias curadas pelo Senhor
eram incuráveis pela medicina moderna. Mas interessa veri
ficar que foram curas inexplicáveis pelos homens da época,
as quais ocorriam á guisa de resposta do Senhor á fé ou
aos anseios dos ouvintes de Cristo. Preenchiam, pois, a furc-
gáo de palavra nova, mais viva do que a oral, a fim de reve
lar aos homens o plano de Deus.

— 333 —
18 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

3) Os exorcismos praticados por Jesús nao foram meros


atos convencionais, que correspondessem táo somente á cren-
dice do povo judeu de outrora. Seria indigno da parte de
Jesús, que veio dar testemunho da verdade (cf. Jo 18,37),
proceder «fingidamente» como se existisse a possessáo diabó
lica quando esta nao existia. Jesús nao terá feito o papel de
«palhago», confirmando os homens num erro religioso até nos-
sos dias. Deve-se, pois, afirmar nao só a existencia do demo
nio, mas também a possibilidade da possessáo diabólica. Isto
nao quer dizér que nos preocupemos hoje com possessáo dia
bólica; a grande maioria dos casos popularmente apontados
como tais sao casos de epilepsia ou doencjas semelhantes.

4) Quanto aos outros tipos de milagres recenseados por


A. Weiser (dominio sobre a natureza, ressurreicáo dos mor-
tos, milagres concomitantes), verifica-se que é gratuito negar
a realidade histórica dos mesmos. O Deus todo-poderoso pos-
sui naturalmente o dominio sobre a vida e a morte e sobre
as forgas da natureza; se derroga a estas, nao o faz arbi
trariamente, mas, sim, para assinalar mais eficazmente a
sua presenca e a sua agáo entre os homens.

Eis o que, em poucas páginas, convinha observar a res-


peito do livro «O que é milagre na Biblia» de A. Weiser. É
obra erudita, mas preconcebidamente unilateral e exagerada.
Carece do enfoque teológico que nao deve faltar a quem
cultiva a exegese e a hermenéutica!

Bibliografía:

Louis Monden, "Le miracle, signe de salut". Desclée de Brouwer 1960.

W. Trllling, "O anuncio de Cristo nos Evangelhos Sinólicos". Sao


Paulo 1976.

M. Schmaus, "A Fé da Igreja", vol. I. Petrópolis 1976.

PR 171/1974, pp. 91-103 (os milagres de Jesús: historia ou lenda?);

PR 176/1974, pp. 323-337 (milagres e "milagres": como ¡dentificá-


-los?);

PR 176/1974, pp. 338-346 (pode realmente haver milagres?);

PR 173/1974, pp. 203-205 (existencia do demonio);

PR 174/1974, pp. 246-257 (possessSo diabólica);

PR 174/1974, pp. 257-267 (o possesso de Gerasa e os porcos);

PR 180/1974, pp. 496-499 (possessSo diabólica).

— 334 —
Um misterio que preocupa a inultos:

o triángulo das bermudas

Em síntese: O "Triangulo das Bermudas" ó urna área marítima


situada entre a Florida e o arqulpélago das Bermudas, na qual se vem
registrando numerosos e estranhos desastres de navegacáo marítima e
aérea. A Imaginario dos observadores tem procurado expllcacáo para
esses misteriosos fenómenos: há quem recorra á hlpótese de Intervencóes
de habitantes de outros planetas na Ierra, outros pensam em conseqüdrt-
cias da elevada civillzacáo da Atlántida... Todavía a "Coast Guard"
norte-americana, que há decenios vem pesquisando os fenómenos ocor-
rentes no Caribe, julga poder expllcá-los satisfatoriamente pelas circuns
tancias iisicas da área em questáo assim como pela Impericia dos homens
que por al yiajam. Se as teorías mlrabolantes encontram grande voga
entre o público, Isto se explica pelo fasclnio que naturalmente desper
tara nos homens as historias ou estórias misteriosas, fora do comum ou
até mesmo slnistras.

Comentario: De vez em quando ouve-se falar do cha


mado «Triángulo das Bermudas» como túmulo de navios,
avióes e homens, que lá desaparecem bruscamente, sem quase
deixar vestigios de si, de tal modo que se torna difícil con
jeturar a maneira como pereceram. — Os misteriosos fatos
do Triángulo tém suscitado a imaginagáo dos observadores,
que tentam propor explicagóes dos mais diversos tipos para
os mesmos, recorrendo até á parapsicología e a tradicoes
filosóficas antigás. Eis por que vamos, ñas páginas subse-
qüentes, abordar o fenómeno do «Triángulo do Diabo», como
também se di2, examinando as teorías propostas para eluci-
dá-lo e procurando a explicarlo mais fidedigna do mesmo.

T. O «Triángulo do Diabo»

1. A denominagáo «Triángulo das Bermudas> deve-se


ao jornalista Vincent H. Gaddis, que em fevereiro de 1964,
na revista «Argosy», usou pela primeira vez a expressáo.
Esta designava a área marítima compreendida por urna liniha
imaginaria que, partindo da costa da Florida (U.S.A.), iría
até Porto Rico, a Leste; subiría até o arquipélago das Ber
mudas e voltaria á Florida. A expressáo foi consagrada pelo
livro «Horizontes invisíveis» (Chilton 1965) do mesmo autor.

— 335 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

Hoje em dia o próprio V. H. Gaddis reconhece que a denomi-


nacáo é imprecisa. Na verdade, o «Triangulo das Bermudas»
corresponde a urna área de limites imprecisos, que melhor
pode ser tida como um trapézio, ou seja, urna área de qua-
tro lados, que nao tem dois lados ou dois ángulos iguais; há
também quem a assemelhe a um losango.

O Triángulo das Bermudas constituí hoje o quarto dos


temas misteriosos que vém sendo estudados por cientistas,
filósofos e curiosos diversos. Eis a lista completa de tais
assuntos:

1) O «Abominável Homem das Neves», designagáo im


propria para significar seres humanos nao identificados, ultra-
-primitivos;

2) «Monstros Marinhos e de Agua Doce», animáis ainda


nao identificados, de enorme tamanho, existentes em lagos,
ríos e mares;

3) UFOS (Unidentified Flying Objects), objetos voado-


res nao identificados (OVNI), ou seja, o que impropriamente
se chama «discos voadores»;

4) O «Triángulo das Bermudas» ou «do Diabo».

Como dito, a área do «Triángulo do Diabo» é conside


rada altamente perigosa para a navegacáo, seja marítima, seja
aérea, pois nela tém sido destruidos navios grandes e peque-
nos, assim como avióes, de maneira tal que por vezes nao
se puderam descobrir remanescentes (cadáveres humanos, des-
trocos de navios ou manchas de óleo a tona...). Os relató
nos insinuam que ai se registram manifestacóes magnéticas
espantosas, anomalías de visáo dos navegantes ou dos avia
dores, zonas morías de rádiocomunicacáo...

2. O jornalista Vincent H. Gaddis tentou elaborar a


lista das vitimas do Triángulo do Diabo a partir de 1800,
chegando a enumerar 71 desastres até o ano de 1974. Apre-
sentamos, a seguir, alguns desses acidentes:

1800. O «USS Pickering» com destino a Guadalupe,


Indias Ocidentais, vindo de New Castle, Delaware, desapare-
ceu com urna tripulagáo de noventa homens.

1814. O «USS Wasp», com 140 marinheiros, deu noti


cias pela última vez no Caribe no dia 9 de outubro.

— 336 —
O TRIANGULO DAS BERMUDAS 21

1854. Embora em excelentes condicóes, a escuna «Bella» l


foi encontrada sem pessoa alguma ñas indias Ocidentais.

1918. O «USS Cyclops», um navio oarvoeiro da Mari


nha, saiu de Barbados com destino a Baltimore no dia 4 de
margo. Considerado um dos mais estarrecedores misterios da
Marinha, o enorme navio desapareceu com 308 homens, inclu
sive o Cónsul Geral Alfredo L. M. Gottschalk.

1921. Durante a primeira metade deste ano desapare-


ceram tantos navios que cinco departamentos do Governo
norte-americano foram investigar. Todos esses navios tinham
partido de algum porto da costa Leste dos Estados Unidos.
Alguns haviam entrado na área do Triángulo; outros fizeram
o contorno pelo Norte. Entre os navios maiores, misterio
samente perdidos, estavam o italiano «Monte San Michele»,
o inglés «Esperanza de Larrinage», o brasileiro «Cabedelo»,
o navio-tanque británico «Ottawa», o transportador de enxo-
fre «Hewitt», assim como embarcagóes menores, como os
barcos noruegueses «Svartskog», o Steinsund» e o «Florino».
Nada se sabe sobre o paradeiro desses navios. Alguns meses
antes, dois outros navios sairam da costa Leste para o desco-
nhecido. Foram o navio espanhol «Yutte» e o russo «Albyan».

1945. No dia 5 de dezembro o vóo 19, de cinco torpe-


deiros TBM Avenger, saiu do Aeroporto Naval em Fort
Lauderdale, na Florida, para um vóo rotineiro de patrulha-
mento a Leste da Florida. Mensagens pelo radio enviadas
durante o vóo revelaram que os pilotos estavam perdidos, e
todos os giroscopios e bússolas de todos os avióes estavam
«ficando malucos e que nao sabiam qual era a dire;áo
Oeste». Estimaram sua posicáo como sendo de cerca de 225
milhas ao Nordeste do aeroporto da Marinha. A última men-
sagem da patrulha perdida terminou com urna sentenga ina
cabada. Um hidroaviáo Martín de patrulha, com urna tripu-
lagáo de treze homens, foi enviado para o salvamento. Os
cinco bombardeiros, assim como o aviáo de salvamento,
nunca mais foram vistos. A despeito de urna busca que

i Escuna vem do Inglés Schooner, e designa um tipo antlgo de


nave a vela.

— 337 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS! 224/1978

abrangeu 380.000 milhas quadradas, jamáis encontraram des-


trocos, cadáveres ou pistas de óleo sobre as aguas.1

1967. Com quatro homens a bordo, um Chase YC-122,


convertido em aviáo de carga, desapareceu entre Palm Beach
e a Grande Bahama, no dia 11 de Janeiro.

1971. Um jato de combate F-4 Phantom II levantou


vóo na Momestead Air Forcé Base no dia 10 de setembro.
Um radar seguiu a posigáo do aviáo a um ponto cerca de
oitenta e cinco milhas a Sudeste de Miami. Depois o sinal
desapareceu. Urna busca imediata, mas infrutífera, foi feita
naquela área, onde a agua nao tem mais de trinta pés de
profundidade.

1972. No dia 21 de outubro um aviáo da Flamingo


Airlines partiu de Bimini e desapareceu sem deixar qualquer
vestigio.

1973. O «Anita>, cargueiro de 20.000 toneladas, com


urna tripulagáo de trinta e dois homens, partiu de Norfolk
para o desconhecido no dia 21 de margo.

1974. O iate de cinqüenta e quatro pés «Saba Bank»


saiu de Nassau no dia 10 de margo num cruzeiro de inau-
guragáo para Miami. Urna busca vá feita pela Coast Guard
foi suspensa no dia 27 de abril.

Para explicar tais fatos, os estudiosos tém recorrido nao


sonriente a dados da ciencia, mas também a concepgóes fic
cionistas e filosóficas. Deste trabalho resultam diversas teo
rías, que vamos, a seguir, recensear.

2. As explicagoes ficcionistas

Proporemos quatro das principáis teorías de índole ima


ginativa:

2.1. O «mundo paralelo»

Esta tese ensina que existe um mundo paralelo ao nosso,


tridimensional como o nosso, que penetra no nosso mediante

jé este o mals famoso e comentado dos desastres do Triángulo da


morte.

— 338 —
O TRIANGULO DAS BERMUDAS 23

aberturas ou vórtices. Objetos e seres do nosso mundo pode-


riam passar por tais aberturas ou vórtices para esse mundo
paralelo. Por conseguinte, avioes, navios e homens desapare
cidos deste mundo teriam transitado por «vórtices vis» para
outros mundos.1

2.2. Energía psíquica e energía gravitadonal

Semelhante á anterior é esta teoría, que assim pode ser


exposta:

De acordó com o colaborador intimo de Albert Einstein,


o físico Premio Nobel Pascal Jordán, existe forte relagáo
entre a gravidade e a forca ou energía que transmite a tele-
patia. Mais: parece haver lugares sobre a térra nos quais a
energia psíquica e a gravitacional se combinam para formar
um vórtice de teletransmissáo.

Tal teoría é ilustrada por dois exemplos:

a) Em 1899, perto das avenidas Baltic e Florida em


Atlantic City, New Jersey, de acordó com dúzias de relatos
de testemunhas visuais, um homem foi visto subindo para o
o céu, as pernas e os bragos estendidos. Tudo o que os obser
vadores desesperados puderam fazer, foi olhar e ouvir ater
rorizados enquanto o homem repetidamente gritava: «Po-
nham-me no chao!»

b) A algumas milhas de Gallatin, Tennesse, na tarde


ensolarada de 23/09/1880, David Lang saiu de casa e atra-
vessou um pasto para inspecionar um par de cávalos. Seus
dois filhos pequeños, Sarah e George, estavam brincando com
cávalos de madeira e trenzinhos. Gritou-lhe entáo a esposa:
«Volte depressa, Dave, quero que me leve á cidade antes
que as lojas fechem».
Lange parou perto da cerca, olhou para o relógio de
bolso e disse-lhe:

«Estarei de volta em poucos minutos».

i Vórtice = redemolnho, remolnho, voragem (Aurelio, Novo Dtcto-


nárío).
Infelizmente nfio conseguimos mais lúcidas explicacoes desta tese.
O texto ácima foi transcrito do artigo de V. H. Gaddis intitulado "A zona
crepuscular da morte" incluido na coletánea "Bermuda: Triángulo da
Morte" sob a responsabllidade de Martín Ebon. Nova Época Editorial Ltda.
Sio Paulo 1976.

— 339 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

Quando atravessou o campo, acenou mais urna vez,


quando dois amigos, de carro, passavam em diregáo á casa...
Nesse momento os olhos das cinco pessoas estavam obser
vando David Lange, que súbitamente desapareceu no ar, para
nunca mais voltar...

Alias, Charles Fort, no seu livro «Térras Novas»,


escreveu:

"Tenho muitos dados de desaparecimentos humanos. Tenho também


dados sobre a queda de materia orgánica do céu. Devido á minha famf-
liaridade com relatos, nao me parece incrfvel que no céu, aparentemente
desocupado, haja bandos de coisas vivas" (testemunhos transcritos da
citada coletánea de Martín Ebon, pp. 177s).

Ora tais fenómenos explicarían), segundo alguns estudio


sos, o desaparecimento de pessoas que, no Triángulo das Ber
mudas, viajavam em navios ou avióes. Tem acontecido, sim,
que as naves sao encontradas,... intatas ou sem danos, mas
totalmente abandonadas.

2.3. Habitantes de outros planetas

Há pensadores que julgam que habitantes de outros pla


netas sao os responsáveis pelo desaparecimento de pessoas e
veiculos no Triángulo das Bermudas.

Assim, por exemplo, admitem alguns que as tripulagóes


de navios abandonados foram raptadas por seres de outros
planetas. Em diversos casos, as tripulagóes desapareceram,
mas os caes e as mascotes dos navios ficaram a bordo.

Outros pensadores recorrem, em termos diferentes, a


habitantes de outros planetas. Com efeito; lembram que os
astronautas das viagens Apolo a caminho da Lúa se mara-
vilharam com a brancura da agua da área do Triángulo. A
mesma surpresa foi expressa por pilotos que voaram a gran
des altitudes. Dir-se-ia, em conseqüéncia, que as aguas do
bojo do mar estáo em continua agitagáo e efervescencia no
Triángulo das Bermudas. Ora como explicar isto? — Po-
der-se-ia crer que homens de civilizacáo superior á nossa
estiveram na térra em tempos imemoriais e deixaram no
fundo dos mares um poder sofisticado, que cria ocasional
mente campos magnéticos responsáveis pela condenagáo de
navios e avióes. Segundo alguns autores, esses seres inteli
gentes extra-telúricos teriam constituido sobre a térra cam-

— 340 —
O TRIANGULO DAS BERMUDAS 25

pos artificiáis de gravidade, que vém a ser avenidas «super-


colossais», as quais levam a outra parte do universo.

2.4. A Atlfintida

Enfim, há também quem se lembre da teoría da Atlán-


tida, o continente submerso pelas aguas segundo Platáo
(t 347 a.C). O principal arauto da explicacáo do misterio
das Bermudas pela hipótese da Atlantida é Edgar Cayce, que,
para isto, se vale tanto de investigagóes arqueológicas quanto
de revelagóes mediúnicas ou espiritas. Essas revelagóes tive-
ram lugar entre 11 de outubro de 1923 e 3 de Janeiro de
1945; propüem a estória da Atlantida desde os inicios até a
sua idade de ouro e a sua decadencia e ruina final. Os habi
tantes da Atlantida teráo conhecido comunicagóes modernas,
inclusive a eletrónica, transportes terrestres, aéreos e subma
rinos, a neutralizagáo da gravidade, a utilizagáo da energía
solar por meio de «pedras de fogo» e a transmissáo de forga
para veículos aéreos, terrestres e aquáticos. O mau uso dessa
tecnología terá provocado pelo menos um dos cataclismos que
destruiram a Atlantida. Cayce, alias, sustentava através das
suas visóes que a primeira encarnagáo da consciéncia de
Cristo, chamada «Amelius», apareceu na Atlantida.

Ora Edgar Cayce localizou a Atlantida perto de Bimini,


no Triángulo das Bermudas, pois blocos de pedras aparente
mente burilados pela máo do homem foram encontrados a
trinta pés abaixo do nivel do mar na regiáo de Bimini. Os
habitantes da Atlantida localizados no Caribe teráo utilizado
poderosíssimas energias extraídas dos cristais, energías com-
paráveis aos lasers contemporáneos; além disto, sabiam atrair
a energía solar. Pois bem; essas foreas estranhas e potentís-
simas até hoje estariam exercendo a sua influencia no Ca
ribe, provocando as anomalías eletromagnéticas, as falhas de
radio, de bússolas, de ignigáo e outros fenómenos causadores
do desaparecimento de navios e avióes.

Urna vez recenseadas as principáis explicagóes ficcionis-


tas para os fenómenos das Bermudas, passamos á pergunta:

3. Que dizer ?
Como se vé, as teorías até aqui propostas sao mais ou
menos gratuitas e arbitrarias.

— 341 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

Oe modo especial sobre a Atlántida pode-se afirmar o


seguinte:

— a pretensa maravilhosa civilizagáo da Atlántida é


mera construgáo literaria de Platáo, destituida de fundamen
tos arqueológicos e históricos, como se dirá no artigo seguinte
(cf. pp. 348-357); nada prova que, no caso de ter existido a
Atlántida, haja sido povoada por homens de elevada civili-
zagáo;

— a própria existencia da Atlántida (independentemente


do seu tipo de cultura) é objeto de discussdes e hesitagóes
por parte dos cientistas.

Quanto á tese de que os habitantes de outros planetas


sao responsáveis pelos desastres ocorrentes no Caribe, é assaz
inconsistente. Verdade é que pode haver seres inteligentes
fora do globo terrestre; todavia nao temos a certeza de que
existem (até hoje nao se pode provar a existencia da vida
fora da térra); muito menos se pode dizer que tenham estado
outrora em nosso planeta ou que aínda hoje exergam influen
cia sobre este. A fantasía gratuita está na raiz de tais hipó-
teses, distanciando-se dos dados concretos da ciencia empí
rica.

De resto, as interpretagóes ficcionistas sao desnecessárias


para elucidar o misterio do Triángulo das Bermudas. Na
realidade, a ciencia contemporánea julga ter elementos sufi
cientes para explicar os fenómenos desastrosos lá ocorrentes;
em conseqüéncia, o sao alvitre e o bom senso se inclinam
para as teorías científicas, deixando de lado as gratuitas
especulagóes da fantasía.

Vejamos, pois, como entendería a ciencia moderna os


fenómenos do Triángulo da Morte.

4. A explícaselo científica

4.1. A U.S. Coas» Guard

A U.S. Ooast Gnard é o órgáo oficial dos Estados Unidos


responsável pelo policiamento do litoral norte-americano; tem
empreendido as investigares subseqüentes aos desaparecimen-
tos de navios e avióes no Triángulo das Bermudas. É, por-

— 342 —
O TRIANGULO DAS BERMUDAS 27

tanto, a entidade que, com mais conhecimento de causa, está


habilitada a falar sobre os fenómenos em pauta, visto que
tem realizado pesquisas serias durante decenios orientadas
segundo os criterios mais objetivos que se possam conceber.
Em vista disto, vamos reproduzir abaixo o texto de urna nota
oficial da U.S. Coast Guard referente aos fenómenos do
Triangulo da Morte'.

«O Triángulo Bermuda ou do Diabo é urna área imaginaría


no sudeste do Atlántico ao longo da costa dos Estados Unidos,
notável pela alta incidencia de perdas ínexplicáveis de navios,
pequeños barcos e avioes. Os vértices do Triángulo geralmente
aceitos sao: Bermuda, Miami, na Florida, e San Juan em Porto Rico.

No passado, buscas extensivas, mas esteréis da Coast Guard


foram realizadas em casos como o do desaparecimento de um esqua-
dráo completo de TMB Avengers, logo depois de terem levantado
vóo em Fort Lauderdale, Florida, ou do afundamento sem pistas do
Marine Sulphur Queen no estreito da Florida. Essas buscas inope
rantes credenciaram a crenca popular no misterio e ñas qualidades
sobrenaturais do Triángulo Bermuda.

Foram apresentadas teorías sem conta tentando explicar os


varios desaparecimentos. As mais práticas parecem ser as do am
biente e as que alegam erro humano.

A maioria dos desaparecimentos pode ser atribuida as carac


terísticas únicas de ambiente daquela área. Primeiro, o Triángulo
do Diabo é um dos dois lugares da térra em que a bússola mag
nética aponta para o verdadeiro Norte. Normalmente ela aponta
para o Norte magnético. A diferenca entre os dois é conhecida
como variacao de bússola. A percentagem de variagáo se altera
em até vínte graus quando se circunavega a Ierra. Se esta varia
cao de bússola ou erro nao for compensada, o navegante poderá
desviar-se muito do seu curso, provocando problemas.

Urna área chamada 'O Mar do Diabo' ■ por marinheiros japo


neses c filipinos, localizada na costa Leste do Japao, também opre-
senta as mesmas características magnéticas. Assim como o Trián
gulo Bermuda, é ela conhecida por seus desaparecimentos miste
riosos.

Outro fator ambiental é o caráter do Guif Stream. É extrema


mente rápido e turbulento e pode rápidamente fazer desaparecer
qualquer prova ou vestigio de um desastre.

*Tal nota é extraída do já citado lívro de Martín Ebon, pp. 185-187.

— 343 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

As intemperies ¡mprevisíveis do Caribe-Atlántico também desem-


penham o $eu papel. Tempestades locáis súbitas e trombas dágua
freqüentemente significam desastre para pilotos e marinheiros.

E finalmente a topografía do fundo do océano varia de exten


sos bancos de areia ao redor das ilhas até as válelas oceánicas
Diois profundas do mundo. Com a interacao das correntes fortes
sobre os recifes, a topología está em estado de fluxo constante,
tornando rápido o desenrolar de novos perigos na navegacao.

O fator do erro humano nao deve ser subestimado. Um


grande número de barcos de turismo navega pelas aguas entre a
Gold Coast da Florida e as Bahamas. Freqüentemente tentam cruzar
o mar com barcos pequeños, conhecimento insuficiente dos perigos
da área e falta de prática de marinhagem.

A Coast Guard, em suma, nao está ¡mpressionada com as


explicacoes sobrenatural dos desastres marítimos. Temos experien
cia de que as forcas combinadas da natureza e a imprevisibiiidade
da humanidade ultrapassam de longe a mais audaciosa ficcáo cien
tífica».

Como se vé, o texto desta declaragáo é tranquilo. Em-


bora conhegam as explicacoes ficcionistas e «místicas», os
Oficiáis da Coast Guard julgam poder dispensá-las para expli
car o misterio do Triángulo; a natureza mesma, com a riqueza
de suas energías, é capaz de produzir fenómenos que á pri-
meira vista nao tém explicagáo natural e, por isto, provocam
a fantasía e a ficgáo, ... fenómenos, porém, que, mais exa-
tamente investigados, sao perfeitamente cabíveis dentro do
quadro geral e complexo das leis da natureza.

Pessoalmente, o capitáo Adrián Lonsdale, da Guarda


Costeira dos Estadas Unidos, participou das investigagóes fei-
tas após a perda do Witchcraft (1967). Está convicto de
que as más condigóes metereológicas, fainas mecánicas e erros
humanos sao as únicas causas dos desastres do Triángulo da
Morte. Eis o seu testemunho:

«O desaparecimento do Witchcraft exemplifica perfeitamente


minha teoria. A noite estava ventosa e urna das hélices tinha ava-
riado, o que logo limitava a velocidade do barco. O convés deste
era coberto por um toldo típico das Bermudas, feito de cana entron
cada, o qual, quando soprado pelo vento, atua como urna vela.
Desenvolvendo pouca velocidade, puxado pela correnteza e empur-

344
O TRIANGULO DAS BERMUDAS 29

rado pelo vento, o barco foi provavelmente desviado para o Norte,


em direcáo a Fort Lauderdale. Vista do mar, a cidade de Lauder-
dale se assemelha a Miami. Quando do Witchcraft assinalaram
estar ao largo de Miami, achavam-se na realidad* ao largo de
Lauderdale. Nos estivemos procurando no local errado. Depois, o
barco deve ter sido arrestado para o mar, e foi o fim da tragedia».

Concluí o capitáo Lonsdale:

«O Lloyd's de Londres informa que, anualmente, sao dados


como desaparecidos cerca de 352 navios e avioes de turismo. Em
quatro ou cinco casos, eles sao atingidos rao inesperadamente que
seus pilotos nem tém tempo de lancar um .S.O.S. Se um navio
afunda no meio de violenta tempestade na área do Atlántico
conhecida como o Triángulo, para nos nao é mais do que um desas
tre; para outros, que nao tém conhecimento dos detalhes, é o ina-
creditável e o misterioso. Suponho que é urna tendencia normal a
de classificar qualqver coisa de sobrenatural, quando nao se con-
segue encontrar para ela urna explicacao lógica».

A famosa perda dos cinco torpedeiros TBM Avenger do


vóo 19, aos 5 de dezembro de 1945, explioa-se dentro dos
moldes do que pode acontecer em viagens aéreas. Eis como
a elucida James Stewart-Gordon:

O capitáo-chefe Taylor terá perdido o rumo da 'expedi-


gáo. Deveria entáo ter sintonizado o seu radio para o canal
livre de emergencia, que haveria possibilitado as estagóes cos-
teiras informarem-no de sua posigáo. Nao o fez. Isto ocasio-
nou a sua entrada em pánico.

Quanto ao Martín Mariner, a tripulagáo do cargueiro


Gaines Milis observou, as 7 h 50 min da tarde do dia do
desaparecimento dos avióes, urna enorme explosáo numa área
que coincidia com a rota do aparelho. A bem conhecida sus-
cetibilidade dos Martín Mariner para sofrerem avarias no sis
tema de alimentacáo dos motores e para explodirem quando
as condifióes meteorológicas sao más, só por si, fornece urna
resposta.

De resto, alguns estudiosos hoje em dia reconhecem que


há dez áreas equidistantes sobre a face da térra, onde ocor-
rem fenómenos singulares ou desafiadores semelhantes ao do
Triángulo das Bermudas... Se nem todos os dentistas dáo
énfase ao número dez, reconhecem ao menos a existencia dos

— 345 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

perigos que certa regiáo do mar do Japáo e que a Sable Island


(litoral atlántico do Canadá) oferecem & navegagáo. — A
existencia destes lugares escabrosos é explicada por condi-
góes físicas da térra, das aguas e dos ares.

4.2. A fascina;» pelo maravilhoso e pelo sínislro

Quem observa as diversas teorías apresentadas para ex


plicar os fenómenos do Triángulo das Bermudas, verifica que
o público, talvez inconscientemente, é propenso a admitir a
presenca e a agio de elementos estranhos, sinistros, apavora-
dores, desde que se lhe oferega a ocasiáo. Está na psicología
das massas aceitar forgas desconhecidas, poderes misteriosos
a ameaearem a vida do homem. Tudo que nao seja fácil
mente explicado, muitas vezes é tido como efeito de poderes
do além. Mais: as hipóteses mirabolantes geralmente agrá-
dam mais ao público do que a verdade na sua singeleza ou
na sua cientificidade.

É por isto que encontram grande voga os romances de


ficgáo que falam de visitas de astronautas (deuses) á térra,
por mais eivados de erros e imprecisóes que estejam tais
romances; tenham-se em vista os de Erich von Daniken, que
foi processado por ter cometido desonestidades e fraudes na
redagáo do seu livro «Eram os deuses astronautas?». Os mis
terios e as surpresas que a hipotética visita de astronautas
propóe ao leitor, tem algo de «gostoso» ou mesmo fascinante
para o grande público. É pelo mesmo motivo que estáo fre-
qüentemente no cartaz filmes inspirados por fatos mirabo
lantes sinistros, terremotos devastadores, afundamento de
navios gigantescos e incendios em arranha-céus. Últimamente
os temas «demonio» e «possessáo diabólica» tém sido explo
rados, encontrando sempre atitude receptiva da parte do pú
blico. Pergunta-se: donde vem todo esse interesse ou o fas-
cínio por desastres e calamidades, dado que no mundo real
já os há demais? Nao seria necessário acrescentar á reali-
dade toda a onda sinistra de ficgáo. — Parece que a reali-
dade nunca é suficiente! A psicología humana procura, tal
vez inconscientemente, mais e mais imagens ou teorias que
correspondan! á curiosidade pelo maravilhoso, pelo estranho
e até mesmo... pelo sinistro.

Nao estáo fora de propósito as reflexóes de Martín Ebon


na obra citada, p. 205:

— 346 —
O TRIANGULO DAS BERMUDAS 31

«Lembram-se da primeira alunissagem? Todos estovamos gru-


dados na televisáo, até altas horas da madrugada para ver a trans-
missáo ao vivo dos nossos astronautas aterrissando na Lúa e vio
lando em sua superficie. E como nos tornamos blasés! As aterrissa-
gens posteriores na Lúa pareceram anticlimáticas e os astronautas
de ontem agora fazem promocoes comerciáis, revelam suas crises
emocionáis em autobiografías ou se divorcian) sem alarde.

Eles, descobrimos, nao sao super-homens. Nem o sao os nos-


sos dirigentes, os líderes da industria, da religiáo, do divertimento;
nao inspiram terror nem confianca e nos estamos á procura de...
de qué?

Estamos á procura de deuses.

Estamos á procura de seres mais poderosos e mais sabios do


que nos. Estamos á procura de seguranca e á procura do medo e
do terror. Se seres sobrenatural agarram aeroplanos no céu, cap-
turam ou afundam navios e portanto sao criaturas mais poderosas
do que nos, sao seres divinos. Talvez sejam táo poderosos e inte
ligentes que sat'bam as respostas a perguntas a que nao pode
mos responder. Porque aqui estamos aproximando-nos do f¡m do
século XX e nos sentimos como se fóssemos os seres humanos mais
confusos que a térra ¡á conheceu».

Uma vez ponderadas as teorías propostas por este artigo,


concluimos nao haver necessidade de se explicar o fenómeno
do Triangulo das Bermudas por recurso á «mística» ou a
forgas inteligentes invisíveis. Bastam as elucidagóes científi
cas, que concorrem para dissipar a falsa procura do maravi-
Ihoso e do estranho táo cultivada a propósito do Triángulo
• da Morte!

A guisa de bibliografía:

Martín Ebon, "Bermuda: Triángulo da Morte". Nova Época Editorial


Ltda. Sfio Paulo 1976.

James Stewart-Gordon, Oual a verdade sobre o triángulo das Ber-


mudaa?, em "SelecSes" t. IX, tfi 53, outubro 1975', pp. 34-39.

PR 217/1978, pp. 12-21 (a propósito das teorías de Erích von


Dánlken).

— 347 —
Na linha do "misterio" :

e a atlantida?

Em sfntese: O testemunho mais antígo que se tenha da existencia


e da clvlllzacio da Atlantida é o de PlatSo (427-347 a.C.) em seus diá
logos "Timeu" e "Crltlas". Platáo diz ter recebldo as noticias respec
tivas da parte do avó de Crltlas, que atribula a Solón recordacSo de
uma vlagem feita ao Egito. Neste país, os sacerdotes de Sais teriam
relatado ao legislador ateniense a tradicáo da Atlantida: já havla 9.000
anos, terla existido a Atlantida com os portentos de sua civilizado! A
tradlcSo respectiva tem tragos mitológicos: tralava-se de uma ilha-contl-
nente que coubera em partllha ao deus Poseidónlo (Netuno), o qual se
unirá a uma criatura mortal, Cllto, e déla tlvera cinco pares de fllhos
gémeos, protagonistas do progresso e da cultura da Atlántidal... A
seqüéncla da narrativa desenrola-se nesse tom lendário.

Em conseqüéncia, os cientistas e filósofos hoja em dia reconhecem


que Platáo, mediante a sua descncao, apenas quis apresentar o Estado
ideal em estilo de flcgao, á semelhanca do que ocorre com os livros de
Julio Verne e Osear Wells. Os textos de Platáo tém valor filosófico; nada,
poróm, slgnificam no plano da historiografía e da arqueología. Pode-se
admitir, todavia, que PlatSo, ao conceber a sua imagem ideal e ficticia
da Atlantida, tenha tldo em mira alguma catástrofe geológica dessas que
nSo raro abalaram a face da térra no decorrer da historia. É mesmo
posslvel que o filósofo tenha pensado em determinado cataclismo ocor-
rldo no Océano Atlántico. Isto, porém, nSo basta para se dizer que a
elevada clvlllzacio e a profunda sabedoria atribuidas aos habitantes da
Atlantida correspondem a realidades históricas.

O fato de que a narragáo de Platáo encontrou tanto eco na historia


do pensamento deve-se ao senso do misterio e do místico que é profun
damente arraigado na natureza humana.

Comentario: O estudo da Atlantida tem importancia nao


somente por seu aspecto geológico, mas principalmente pelo
fato de que as correntes ocultistas de nossos dias, afirmam
herdar a sublime sabedoria da Atlantida, sabedoria que, como
dizem, só pode ser revelada a iniciados; Mme. Blavatsky, por
exemplo, e o coronel Olcott, mentores da Teosofía moderna,
passavam por já ter vivido na Atlantida em anterior encar-
nacáo... — Interessa-nos, por conseguinte, primeiramente

— 348 —
E A ATLÁNTICA? 33

averiguar o que referem as fontes históricas a respeito da


Atlántida para, a seguir, formularmos um juízo seguro sobre
a existencia e o significado do famoso continente.

1. O testenumho das fontes históricas

1. O vocábulo Atláatida vem de Atlas ou Atlanta, nome


de um dos deuses da mitología grega, pertencente á familia
das divindades do mar; atribuiam-se-lhe inteligencia superior,
ciencia universal e, em particular, o conhecimento de todos
os abismos do océano. Como o nome indica (Atlas vem do
radical grego tal ou tía, que significa «carregar»), o deus
Atlas era o Portador por excelencia, pois sustentava sobre a
cabeca e os fortes ombros todo o peso do Céu (diziam uns)
ou (conforme outros) as enormes colunas que da Térra sepa-
ravam a abobada celeste.

As narrativas mitológicas variam um pouco na maneira


de explicar como Atlas passou a exercer tal fungáo: urna
versáo refere que o herói Perseu, filho de Júpiter, se apre-
sentou um dia ao tita Atlante (os titas eram os filhos gigan
tescos de Ouranos, céu, e Gea, térra), pedindo-lhe asilo; já
que Atlante o negou, o herói, fazendo refulgir aos seus olhos
a cabeca de Medusa, transformou o tita numa montanha cha
mada Atlas (norte da África), sobre a qual haveriam de se
apoiar o céu e os astros!

Diz outra narrativa que foi o próprio Júpiter quem sen-


tenciou Atlas, oondenando-o a carregar sobre os ombros o
• peso do Atlas. Este, segundo Heródoto, era enorme monte
da Libia, cujas altas cumiadas, envolvidas em nuvens, suge-
riam aos libios tratar-se de urna coluna do céu. O motivo da
condenacáo teria sido o apoio dado por Atlas a urna revolta
dos titas contra Júpiter.

Urna terceira lenda completa as anteriores contando que


Hércules foi ter certa vez com Atlas, a fim de roubar os
pomos de ouro do jardim das Hesperides; enquanto Hércules
ficaria sustentando a abobada celeste, Atlas iria colher os
almejados frutos. Aconteceu, porém, que, ao voltar do latro
cinio, Atlas recusou-se a retomar o seu fardo habitual; Hér
cules entáo, usando de um ardil, fez que ao menos por um

— 349 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

momento Atlas aceitasse a carga; entrementes apoderou-se


dos pomos e abandonou seu cúmplice.

2. Deixando de parte a mitología, verificamos que o


nome do deus assim focalizado foi, sob a forma do adjetivo
Atlántida, dado a um continente que a tradigáo dos antigos
narra ter sido submerso pelas aguas.

Donde vem essa tradigáo?

A mais antiga fonte de tal noticia é o filósofo grego


Platáo (427-347 a.C), era duas de suas obras: os diálogos
«Timeu» (21-25) e «Critias». — Vejamos, pois, o que a pro
pósito refere tal escritor.

Platáo atribuí a certo Critias, de Atenas, urna narrativa


da qual Critias teria tomado conhecimento através de alguns
escritos por ele encontrados em casa de seu avo nos anos
de sua juventude. Nesses escritos, dizia Crítias, Solón, o
grande legislador ateniense do séc. VI a.C, consignara recor-
dagóes de urna viagem que fizera ao Egito: estivera entáo
em visita aos sacerdotes de Sais (cidade do delta do Nilo),
os quais teriam relatado ao legista de Atenas algo das suas
venerandas e longinquas tradigóes... Dentre estas se desta-
cava a seguinte: havia 9.000 anos, existia, em frente das
Colunas de Hércules (estreito de Gibraltar), urna ilha-conti-
nente, maior do que a Labia e a Asia reunidas. Tal ilha cou-
bera em partilha ao deus Poseidónio (Netuno), que se unirá
a urna criatura mortal, Clito, vindo a ter cinco pares de
filhos gémeos. Netuno, havendo educado esses herdeiros,
repartiu entre eles o dominio da ilha, tocando ao mais velho,
Atlas, o mando supremo (donde o nome de Atlántida dado
a todo o territorio). Os dez irmáos geraram posteridade nume
rosa, a qual recobriu a Atlántida, levando vida caracterizada
por sabedoria e felicidade.

Muito interessante era a configuracáo geográfica da re-


giáo: constava de urna ilha central, onde se erguiam o tem
plo de Netuno e Clito, assim como o palacio regio. Essa ilha
central tinha o diámetro de cinco estágios (888 m), e era
cercada por um canal largo de um estadio (177,60 m). Ha
via, em seguida, um anel de térra, da largura de dois estadios
(355,20 m), e outro canal de aguas, também largo de dois
estadios. Mais um cinturáo de térra e um terceiro canal

— 350 —
E A ATLANTIDA? 35

se avistavam a seguir, medindo cada qual tres estadios


(532,80 m). Após o terceiro canal, estendia-se mais um anel
de térra, o qual inedia cinqüenta estadios (8.880 m) de lar
gura. Nos limites exteriores deste terceiro cinturáo encon-
trava-se finalmente o mar aberto.

Os descendentes de Netuno ou os Atlantes einda embe-


lezaram a obra de seu divino Genitor, construindo longas
pontes, pujantes muralhas, torres, fortalezas, quarteis, arse-
nais, ginásios, jardins, hipódromos, etc. Notável era a afluen
cia de naves á Atlantida; provenientes de todas as partes do
mundo, podiam penetrar, por meio de cañáis artificiáis, até
o ámago do continente, provocando intenso movimento diurno
e noturno.

Na ilha central, o templo de Poseidónio se estendia im


ponente sobre a área de um estadio (177,60 m) de compri-
mento e tres pletros de largura (88,60m, ao todo); cerca-
vam-no muralhas refulgentes de outro e metáis preciosos.
Condigno era o esplendor do palacio dos reis, situado ñas
proximidades e rodeado de casernas. Duas inextinguíveis
fontes de agua afloravam ao solo da ilha central, urna quente,
a outra fría, alimentando os balnearios, refrescando o bos
que de Poseidónio e irrigando, por sabio sistema de cañáis,
todo o continente até as suas extremidades.

A densa populacáo da ilha se distribuía por 60.000 dis


tritos, constituidos a semelhanga de auténticas circunscricóes
militares: esses distritos forneciam la defesa do continente
10.000 carros de combate, 240.000 cávalos, 1.200.000 guer-
reiros (vinte por distrito), 240.000 marinheiros para 1.200
* naves (cada qual dotada de duzentos homens).

A prosperidade da vida na regiáo era extraordinariamente


favorecida pela bonanga da térra: duas colheitas ao ano,
flora e fauna abundantes completavam as riquezas do solo e
do subsolo: ouro, prata, estanho, oricalco, pedras preciosas...

Durante muitos e muitos séculos, continua a narrativa


de Platáo, os reis da Atlantida se mantiveram á altura de
sua linhagem divina, comportando-se sobria e virtuosamente.
Aos poucos, porém, deixaram-se dominar pela cobic.a e as
paixóes: em vez de fomentar a agricultura e o comercio, res-
peitando os deuses e suas leis, passaram a se preocupar com

— 351 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

a dilatacáo de seu poder, subjugando militarmente as ilhas


vizinhas, toda a África até o Egito, e a Europa até a Tirré-
nida. Á vista disto, Júpiter reuniu a assembléia dos deuses
e resolveu castigar a linhagem pervertida dos Atlantes. A
cidade de Atenas na Grecia tornou-se o instrumento da puni-
cáo, assumindo, sim, a chefia da resistencia aos invasores
insulares. Atenas, embora abandonada por seus aliados, con-
seguiu vencer os inimigos, libertando os povos dominados a
leste das Colunas de Hércules. A seguir, terremotos e inun-
dagóes flagelaram a Atlántida, vindo esta finalmente a pere
cer, totalmente tragada pelas aguas em um dia e urna noite!

Eis o que refere Platáo no séc. V a.C. (notemos o grande


número de intermediarios — Crítias, o avó de Critias, Solón
de Atenas, os sacerdotes do Egito — que o teráo posto a par
do «episodio» ocorrido havia mais de 9.000 anos...; é esta
urna via assaz acidentada!). Outros autores que, na antigüi-
dade, aludem á Atlántida sao posteriores ao filósofo grego e
dele dependem literariamente; nem Heródoto (f 424/402 a.C.)
nem Hornero (séc. VIH a.C.) nem algum dos escritores pré-
-socráticos (contrariamente ao que se pensava há decenios
atrás) pode ser tido como testemunha da sorte da Atlántida:
«A Atlántida só é mencionada por Platáo e por aqueles que
0 leram» (S. Gsell, «Histoire ancienne de l'Afrique du Nord»
1 1913, 328).

Importa-nos, por conseguinte, indagar agora qual seria o


genuino sentido do relato de Platáo. Para chegarmos a urna
conclusáo sólida, examinaremos primeiramente o que a res-
peito pensaram os intérpretes no decorrer dos sáculos.

2. As variadas ¡nterpretasoes

O tema da Atlántida tem sido amplamente explorado


pelos escritores modernos, ora em tom serio de estudos cien
tíficos, ora em literatura de romance e ficcáo.

1. Em primeiro lugar, registram-se intérpretes que muito


estimaram a narrativa de Platáo; coligindo todos os dados
elucidativos fomecidos pelos textos do filósofo, procuraram
reconstituir a carta geográfica minuciosa do desaparecido con
tinente, a lista de seus reis, as peripecias de sua historia...

— 352 —
E A ATLÁNTIDA? 37

Sem descer a tantos pormenores, principalmente sem se


prender as indicagóes de tempo e lugar, outros autores, desde
as primeiras geragóes após Piatáo até nossos dias, admitiram
e admitem o desaparecimento, em época pré-histórica, de um
continente, quigá habitado e altamente civilizado; contudo
muito diferem entre si ao tentarem identificar a malograda
térra.

Rudbeck, por exemplo, colocou a antiga Atlántida na


regiáo da Escandinávia moderna; Latreille, na Pérsia atual;
Bailly (em 1779), no planalto da Mongólia, conjeturando todo
um sistema de migragoes dos povos na base dessa hipótese.
De Baer, que tratou muito longamente do assunto, quis ver
nos habitantes da Atlántida as doze tribos de Israel; o cata
clismo de que fala Piatáo, correspondería ao que aniquilou
as cidades de Sodoma e Gomorra! Nao poucos intérpretes
voltaram suas vistas para a América, sendo que Mac-Culloch
assimilou a Atlántida as Antilhas: as pequeñas ilhas disse
minadas entre a América e a Europa seriam os vestigios da
regiáo tragada pelas ondas; em favor desta opiniáo, cita-se o
fato de que ñas ilhas Canarias foi encontrado pelos desco-
bridores espanhois um povo dito «dos Guanches», hoje desa
parecido, povo que mostrava costumes semelhantes aos dos
egipcios e aos de indios da América, e cuja lingua parece ter
tido afinidades com a destes últimos. De Paw julgaya que a
América mesma nao é senáo a Atlántida, outrora, sim, devo
rada pelas aguas, mas posteriormente abandonada por estas;
a civilizacáo atlántida ainda nos seria atestada pela dos povos
pré-colombianos do México, do Perú e da foz do Guadalquivir.

Hoje em dia a hipótese mais em voga sitúa a antiga


• Atlántida ao largo de Gibraltar, onde se encontram as ilhas
dos Agores, da Madeira, das Canarias e do Cabo Verde (que
seriam os últimos vestigios do continente submerso). Em
1898 sondagens realizadas ao norte dos Agores trouxeram a
tona massas de larvas tais que só se formam sob a pressáo
atmosférica; seriam, por conseguinte, larvas anteriores á
época em que os vulcóes da Atlántida foram tragados pelas
aguas; nota-se outrossim que a fauna dos quatro menciona
dos arquipélagos é de origem continental, semelhante á das
Antilhas e á das costas do Senegal — o que é tido como
indicio de que todas estas térra outrora constituiam um único
continente. O geólogo francés Pierre Termier é decidido
defensor desta tese.

— 353 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

2. Ao lado dos que, sob esta ou aquela modalidade,


admitem a existencia da AÜántida, há os que em absoluto
nao a aceitam. Lembram, entre outros argumentos, o fato
de que já Aristóteles, o maior discípulo de Platáo, conside-
rava a narrativa da Atlántida como fabulosa.

Recentemente Bessmertny dizia que o problema da Atlán


tida de Platáo, por sua natureza mesma, pertence á categoría
dos «fenómenos infra-racionais», só tendo atualidade para as
pessoas que querem «descobrir urna patria e um objetivo».
A Atlántida seria o símbolo da aspiragáo inata em todo ho-
mem a urna patria ideal, aspiracáo que em termos análogos
se exprime na mitología de cada povo: por conseguinte, os
gregos, através de Platáo, teráo falado da Atlántida, como
os suecos falaram de San Brandan; os celtas, de Avalun; os
alemáes, de Viñeta, etc. Em vista do elevado número de
obras literarias, de ficgóes, que desenvolvem o tema da Atlán
tida, regiáo de vida bem-aventurada, Bessmertny chega a
falar do «complexo da Atlántida»; cf. Bessmertny, «L'Atlan-
tide», París 1935 (trad. francesa).

Este catálogo de teorías já é suficiente para ilustrar os


dados do problema. Pergunta-se agora:

3. Qual o auténtico significado da narrativa de Platao ?

Para se chegar a clareza no assunto, distinga-se entre o


aspecto geológico e o aspecto üterárro-filosófioo da narrativa
concernente á Atlántida.

1. O aspecto geológico. É fato inegável que a face da


Térra e seus acidentes geográficos se modifícam lenta e con
tinuamente: catástrofes e cataclismos váo mudando incessan-
temente a configuragáo do globo; pode-se mesmo assegurar
que porcóes de térra tém sido devoradas no decorrer dos
tempos pelas aguas do mar, percebendo entáo os respectivos
habitantes e os documentos de sua civilizagáo.

Um caso assaz curioso a este propósito é o que se pode


observar na famosa ilha de Páscoa, também dita Vai-Hu.
Está situada ñas extremidades meridionais do océano Paci
fico, mais próxima do litoral do Chile do que da costa austra-

— 354 —
E A ATLANTIDA? 39

liana; mede 25 km de perímetro, sendo habitada por urna


populacho de raga mista polinésica, inteligente e dotada de
certa civilizacáo. Ora nessa porgáo de térra encontram-se mo
numentos gigantescos que parecem ser estatuas .de Divinda-
des confeccionadas por antigos habitantes da ilha; estes teráo
desaparecido, extinguindo-se assim urna civilizacáo que, a jul-
gar por tais documentos, deve ter sido relativamente elevada.
Os estudiosos perguntam se esses homens nao pereceram numa
catástrofe, da qual tuna conseqüéncia e um testemunho seria
a pequeña ilha de Páscoa até hoje subsistente. Se nao se
pode dar resposta dirimente a esta questáo, o caso mencio
nado muito concorre para ilustrar o fato — pressuposto por
Platáo — de que regióes e civilizacóes tém surgido e pere
cido sucessivamente na face da térra através dos sáculos. O
filósofo grego mesmo terá observado em torno de si, na Gre
cia e na Italia meridional, a agáo incessante das forgas da
natureza a modificaren! os acidentes geográficos.

Dito isto, faz-se mister abordar o outro aspecto do tema


que focalizamos.

2. O aspecto Uterário-fitasófico da Atlantida de Platáo.


Embora muito plausivel seja a destruicáo de regióes e civili-
zagóes por efeito de cataclismos, nao se poderia daí inferir
que Platáo, ao narrar a historia da Atlántida, aluda a um
episodio real e histórico. Muito ao contrario; a narrativa do
escritor grego tem a aparéncia de um episodio artificialmente
forjado para transmitir idéias filosóficas, nao noticias de índole
historiográfica.

E quais seriam os fundamentos desta afirmagáo?

' 1) Em primeiro lugar, note-se que, embora Platáo des-


creva urna civilizagáo altamente desenvolvida e se refira a
um conflito armado certamente vultoso entre os povos da
Atlántida e os do Mediterráneo, nenhum autor, na antigüi-
dade antes de Platáo, mencionou tais tópicos; no decorrer de
9.000 anos tais temas teráo ficado totalmente envoltos em
silencio... Esta falta de documentos e testemunhos é estra-
nha. Talvez, porém, nao se lhe deva atribuir importancia
decisiva no estudo da questáo. Levar-se-á entáo em conta o
seguinte:

2) A narrativa de Platáo encerra dados anacrónicos ou


incompativeis entre si. Com efeito. De um lado, a Geología

— 355 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

permite-nos admitir a existencia de territorios a oeste de


Gibraltar (atual regiáo do Atlántico) no fim da era terciaria
e até no inicio da quaternária; em todo caso, porém, numa
época que certamente distava de Solón pelo intervalo de mais
de 9.000 anos. A «Atlántida de Platáo», portanto, se apre-
senta recente demais para poder identificar-se com urna pre
sumida «Atlántida dos geólogos». — Do outro lado, porém,
existindo 9.000 anos antes de Solón, a Atlántida de Platáo
está recuada ou longe demais para poder ser o cenário de
urna civilizagáo tal como o filósofo a descreve, civilizagáo que
com esmero utilizava os metáis...; nove mil anos antes de
Solón de Atenas, o género humano ainda vivía, quando muito,
no grau de cultura da pedra polida, nao conhecendo ainda a
metalurgia.

A propósito vém as observagóes do Prof. A. Rivaud, um


dos recentes comentadores do «Timeu» e do «Crítias»:

"Todos os elementos da sua descricáo da Atlántida, Platáo os


colheu em torno de si, no mundo grego, em (Atenas mesmo, ou nos
conflns da clvillzacáo helénica, em Creta e talvez no Eglto...

O templo de Poseidonlo e Cllto é em tudo semelhante a qualquer


templo grego. É um pouqulnho malor do que o templo de Diana em
Éfeso e o de Júpiter Olimpio em Atenas. Os ornamentos sao mais ricos,
mas o estilo da ornamentacfio é o mesmo...

Quase sem salr de Atenas, PlatSo podía encontrar todos os elemen


tos essenclals da sua narrativa. Nao é necessário suponhamos hipotéticas
tradicdes referentes a um antlgo Imperio celta ou ao reino misterioso
do Aztli ou do Metzli. Quando os atenienses Mam o 'Crítias', al reconhe-
clam, talvez retocados e ampliados, espetáculos familiares. Quem sabe,
de resto, se Platáo nao fazia empréstimos á literatura de romances ante
rior a ele?... Em todo caso, é fácil ver que a descricáo da Atlántida
nño está Isenta de Intencdes edificantes" (Platón, éd. 'Les Belles Lettres'
t. X 248-251).

3) Pondere-se outrossim que as cifras indicadas por


Platáo para caracterizar os distritos, assim como os efetivos
militares, as dimensóes do continente, etc., parecem ser simé
tricas demais para corresponder á realidade: apresentam,
antes, caráter estilizado e ficticio (tenham-se em vista os
dados numéricos que atrás enunciamos).

"Um dos traeos mais impressionantes da fiecáo platónica é a regu-


taridade geométrica das ¡nstalacdes da Atlántida. A bem dizer, esta regu-
laridade é característica comum de todas as cidades de utopia" (Rivaud,
ob. clt. 251).

— 356 —
E A ATLANTIDA? 41

4) Estas observagóes sao corroboradas por mais urna


reflexáo. Tudo nos diálogos «Timeu» e «Critias» é narrado
em funcáo de urna doutrina filosófica ou sociológica que o
autor quer firmemente incutir aos seus leitores; Platáo, tendo,
sim, em vista ensinar qual deveria ser o Estado ideal, houve
por bem enunciar os característicos deste nao de maneira
abstraía e teórica, mas á guisa de um poeta e estilista, ou
seja, sob a forma de urna narrativa imaginaria semelhante
aos modernos romances de ficgáo científica (como sao os de
Julio Verne e Wells); tais obras, por seu estilo suave e agra-
dável, sao fácilmente assimiladas pelos leitores...

3. Em oonclusao: a critica sadia admite que a narrativa


de Platáo se possa ter inspirado de alguma catástrofe geoló
gica dessas que nao raro abalaram a face da Térra no decor-
rer da historia (é possivel mesmo que o filósofo tenha tido
em vista determinado cataclismo ocorrido no Océano Atlán
tico). Os tragos, porém, com que Platáo descreve a «sua»
Atlántida háo de ser tidos como imaginarios.

Eis, mais urna vez, o juizo abalizado de Rivaud:

"Poeta como era,... PlatSo por vezes se entregava á sua fantasía,


que era Inesgotável e experimentava prazer sutil em jogar suas belas
Imagens... O mito da Atlántida e, por consegulnte, o 'Critias' Inteiro
sao simples fábulas" (ob. cit. 12).

Donde se vé, em última análise, que nunca tiveram rea-


lidade a «elevada civilizagáo» e a «profunda sabedoria» dos
habitantes da Atlántida, dos quais se dizem herdeiros os «ilu
minados» e ocultistas modernos! Desfaz-se assim o caráter
autoritario e misterioso com que estes apresentam suas dou-
trinas. A fantasía dos homens as elaborou, dando, porém,
destarte o valioso testemunho de que o senso do misterio e
do místico constituí um dos predicados mais profundamente
arraigados na natureza humana.

Estéváo Bettenoonrt O.S.B.

— 357 —
livros em estante
Teología e Prátlca. Teología do Político e suas medlaeSes, por Clo-
dovls Boff, O.S.M. ColefSo CID-Teologla / 15. — Ed. Vozes, Petrópolis
1978, 40 pp., 137 x 210 mm.

Este llvro corresponde á tese de doutoramento apresentada pelo autor


á Unlversldade Católica de Louvaln, onde mereceu rasgados elogios. Na
verdade, Clodovls Boff oferece ao público brasllelro urna obra notável,
cujo conteúdo se poderla assim compendiar:

Está multo em voga hoje em dia a chamada "Teología da L!bertac§o",


que vem a ser também a "Teología das realidades políticas", faceta da
"Teología das realidades terrestres". Este aspecto da teología é legitimo na
medida em que o Cristianismo tende a se encarnar na vida e em todas as
atlvldades do homem, nio excluidos os seus empreendlmentos políticos.
Acontece, porém, que as diversas expressóes da teología da llbertacáo nem
sempre sSo auténticos discursos teológicos, mas, slm, discursos ideoló
gicos. Por isto o autor propde tres momentos para que se possa elaborar
urna auténtica teología da libertacSo:

1} o exame das realidades socio-políticas, económicas, culturáis...,


que háo de ser a base de qualquer reflexáo teológica. Sem o conheclmento
exato de tais realidades, o autor ¡ulga (com razfio) ser Imposstvel construir
algurha slntese teológica referente á Polis ou á Cidade dos homens;

2) felto o exame da situacSo concreta de determinada sociedade


(ou como ó mais comum atualmente, dos povos latino-americanos), o teó
logo deve apllcar-lhe os criterios da fe, que sao Inconfundlveis; a teología
nao se deve transformar em politologia ou sociología; caso se perca a
nocSo dos principios da fó, alimenta-se a confusáo concernente ao concelto
de libertacáo {que hoje em dia é polivalente e ambiguo}. "A teología nao
se deve colocar na estelra de discursos que nao sao o seu" (p. 15). Cío-
dovis Boff realca que nao ó teología qualquer discurso feito sobre temas
religiosos; nao basta que o discurso ceda, no plano verbal, ás sirenes
sóclc-pol(ticas para se outorgar atestado de modernidade (cf. p. 16);

3) por fim, o discurso teológico tem que incidir na prátlca e há


de ser Iluminado por esta; ele visa a cristianizar o mundo. Todavía essa
praxis nada tem que ver com atlvidades Ideológicas. "A teoría produz um
efelto sobre a prátlca, mas há que ser um efeito próprio" (p. 17). A teología
nSo transforma a realidade como tal; se a transformasse diretamente, sena
urna "teología encantada" (p. 16). O que a teología produz é urna transfor-
macao (hermeméutlca) no nivel das Idélas,... idéias estas que levarao os
cristáos a procurar ñas ciencias humanas (política, economía, educacSo...)
os recursos necessários á cristianizacao da sociedade civil.

Assim o livro de Clodovís Boff se aprésente como um quase tratado


de epistemología teológica elaborado em vista das múltiplas e confusas
"teologías da libertagao" que tém surgido em torno de nos, depreciando
a próprla teología. Por conseguinte, é obra que procura a "justeza" ou a
disciplina do saber teológico. Neste ponto, é altamente benemérito. N8o
propSe programas de acao política, mas um discurso sobre o método de

— 358 —
LIVROS EM ESTANTE 43

cultivar a teología. É trabalho meticuloso, resultante de ampias e variadas


lelturas, crlterlosamente selecionadas e aproveitadas. Só podemos felicitar
o autor por tal trabalho, o qual, porém, flcará reservado a estudiosos estri-
tamente especializados no setor da metodología teológica.

Problemas fundamentáis da Filosofía Moral, por Jacques Maritain.


Traducfio, prefacio e notas de Gerardo Dantas Barrete. — Ed. Agir, Rio
de Janeiro 1977, 207 pp., 137 x 210 mm.

O grande filósofo católico Jacques Maritain, embora já falecido, brinda


o público com um livro de Ética, que reproduz o texto de aulas ministradas
pelo eminente mestre. O autor analisa os principáis conceitos de qualquer
sistema de Moral: o bem e o valor, a llberdade, o flm e os melos, o fim
último, dlrelto e dever, a falta, a sancáo...

De acordó com as suas premlssas, Maritain fundamenta essas nocoes


em principios metaffsicos, que dao consistencia e durabilldade aos concei
tos analisados. Ao fazé-lo, o filósofo se distancia consciente e voluntaria
mente de outras escolas modernas de ética: diz Nao a Kant, que preten-
deu basear a Moral sohre a nocfio de dever, concebida como categoría
a prlorl ou "calda do céu" na mente do homem (o dever serla um valor
absoluto, nlo relacionado com valores transcendental); diz Nao tambétn
a Augusto Com te, que concebe a Moral como ciencia dos costumes,...
ciencia descrltlva (desbreve os modos de conduta dos povos e pretende
expllcá-los), nao, porém, ciencia normativa. Diz Nño outrosslm ao empi
rismo lógico, que reduz as normas éticas a questdes de lógica da llngua-
gem. Op&e-se aínda ao pslcologlsmo, que desacredita da razáo e tencíona
reduzlr as normas moráis a expressBes dos sentimentos subconscientes e
dos instintos.

Após examinar essas diversas correntes de Ética moderna é que


Maritain propde a fundamentacfio metafísica das principáis nocoes da
Ética. Preserva assim a objetivldade e perenldade de certos valores moráis,
a llberdade e a responsabllldade do ser humano, o flm transcendental do
agir moral, a nog&o de conscléncia heteronoma (ou Iluminada pela let
eterna de Deus), etc.

Tal llvro é de grande peso neste momento em que reina confusfio no


tocante ás normas do comportamento moral. Dlz-se que "a Moral já era",
pols, sem metafísica, qualquer sistema ético vem a ser subjetivo e Inse
guro ; é somente com fundamentos metafIsleos que se pode erguer um
sistema de Moral á altura da dlgnldade humana.

Como fiel católico, Maritain nao delxa de fazer, cá e lá, referencia a


tópicos da Biblia e da teología, é o que acontece, por exemplo, ás
pp 101-103, quando aborda o conteúdo do Ecleslastes ou Qohelet; no
final do llvro o autor propBe o sermfio da montanha (Mt 5-7) como código
modelar da ética crista.

O leltor talvez estranhe a llnguagem escolástica de Maritain. Esta.


Dorém nño é difícil, tornando-se familiar a quem a deseje compreender.
Perseverando na leitura do llvro, o estudioso colherá, sem dúvlda, copiosos

— 359 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 224/1978

frutos intelectuals, pols as páginas de Marilaln sao lúcidas e ricas em


seus conceltos.

A InterpretacSo do quarto Evangelho, por C. H. Dodd. TraducSo de


Pe. José Raimundo Vidiga! CSsR. Nova Colegáo Bíblica-4. — Ed. Paulinas,
Sao Paulo 1977, 625 pp., 130 x 200 mm.

O autor é famoso exegeta de confissáo anglicana, que se tornou


benemérito por este estudo profundo do IV Evangelho assim como por
outros escritos bíblicos. No volume em foco, propSe primeramente o con
texto histórico e cultural no qual teve origem o IV Evangelho (pp. 11-177);
depois (pp. 181-381) estuda as idéias-mestras do evangelista (vida eterna,
verdade, fé, espirito, Messias, Logos, Fllho de Deus, filho do homem...);
por último (pp. 386-599), volta-se para a estrutura do Evangelho segundo
Joao, no'qual distingue o livro dos slnais (Jo 2-12) e o llvro da PalxSo
(Jo 13-21).

O autor é sólido em suas aflrmacSes, abrindo perspectivas claras e


profundas aos olhos do leltor. NSo chega a discutir a questao do autor do
IV Evangelho ou a chamada "questSo joanéla", para a qual a critica liberal
tem respostas multo diversas. C. H. Dodd clnge-se ao conteúdo do IV Evan
gelho e á sua moldura de origem, tornando-se valioso guia para os estu
diosos dlspostos a Ir ao ámago das questóes.

O desafio de Talzé. Ir. Roger, por José Luis González-Balado. Tradu-


5§o de Alexandre Mcintyre S. J., da edigSo Italiana revista pelo autor.
CoIscSo "Perspectivas". — Ed. Paulinas, Sao Paulo 1977, 184 pp.,
140x210 mm.

Talzé é o nome de um mostelro de tnonges protestantes, que, através


da leitura da Biblia, descobriram os valores da vida monástica e houveram
por bem constituir urna comunldade na Borgonha (Franga), onde se dedl-
cam á oragSo, ao trabalho, á acolhida de hospedes e aos anselos da ju-
ventude. Tém procurado conferir ao seu mostelro as notas de sincera aber
tura *ao catolicismo, de modo que sSo urna expressSo de ecumenlsmo
válido existente entre os irmáos evangélicos.

O fenómeno de Taizé tem chamado a ateng&o nao só de crlstSos,


mas também de homens de boa vontade, porque oferece a todos um reduto
de espiritualldade profunda e sorrldente ao público sem detrimento da sua
Interioridade. Um dos fundadores do mosteiro é seu atuai prior, o Ir. Roger
Schütz, de naclonatldade sulga, filho de pastor protestante.

Ora é a Taizé e, em especial, á vida e á obra do Ir. Roger que o


llvro em pauta é dedicado. Pretende propiciar a ampio circulo de
leitores o conheclmento das grandes linhas de doutrlna e comportamento
que o mosteiro de Taizé cultiva em favor do mundo de hoja. Aos olhos
da Santa Sé, a Importancia de Talzó é tal que o mosteiro tem um repre
sentante Junto ao Vaticano : o Ir. Max Thurian. Els as palavras de Roger
Schütz que explicam.tal fato :

"Para concretizar a comunhSo, creio sobretudo ñas relagóes Interpes-


soals. Esta nova relagSo permitirá um diálogo direto, para nos entendermos
sempre na limpidez do coragSo. N8o veja ainda todo o alcance disto, mas

— 360 —
amo a Igreja 'peregrinante1 que está em Roma, com o seu blspo. Que Ihe
posso pedir senSo que nos ilumine e também que nos aqueca ao calor
do fogo?" (p. 128)

É oportuna a leltura do livro de José Luis González-Balado, porque


pSe em evidencia a ac&o do Espirito de Deus entre os crlst&os de nossos
dias; Talzé significa docllldade aos apelos do Senhor e coragem na exe-
cucflo de suas santas InspiracOes.

Salmos Verso e Reverso, por Santos Benett Traducfio de Ir. Isabel


Fontes Leal Ferreira. — Ed. Paulinas, Sao Paulo 1978, 286 pp., 153x223 mm.

Multas pessoas procuram comentarios sobre os salmos para melhor


compreendé-los e proferl-los em orac&o. Infelizmente a literatura braslleira
a respeito ó multo pobre. O presente livro nao pretende oferecer a exegese
dos salmos, mas apresenta reflexdes que o autor Instituí sobre 25 salmos;
o texto destes serve de ocasISo para que S. Benetti desenvolva a sua medl-
tacfio. As pessoas ciosas de cultivar a oracao (e qual o crlst&o que n&o
é tal ?) encontrarSo nessas páginas alimento valioso para a vida espiritual.
O estilo do autor, por vezes metafórico e poético, é forte e penetrante.

E. B.
«A BOA-NOVA HA DE SER PROCLAMADA, ANTES DO
MAIS, PELO TESTEMUNHO. SUPONHAMOS UM CRISTÁO OU UM
PUNHADO DE CRISTÁOS QUE, NO SEIO DA COMUNIDADE HU
MANA EM QUE VIVEM, MANIFESTAM A SUA CAPACIDADE DE
COMPREENSÁO E DE ACOLHIMENTO, A SUA COMUNHÁO DE
VIDA E DESTINO COM OS DEMAIS, A SUA SOLIDARIEDADE NOS
ESFORCOS DE TODOS PARA TUDO AQUILO QUE É NOBRE E
BOM. ASSIM ELES IRRADIAM, DE MODO ABSOLUTAMENTE SIM
PLES E ESPONTANEO, A SUA FÉ EM VALORES QUE ESTÁO PARA
ALÉM DOS VALORES CORRENTES, E A SUA ESPERANCA EM ALGO
QUE NAO SE VÉ E QUE OS HOMENS NAO SERIAM CAPAZES SEQUER
DE IMAGINAR. POR FORCA DESSE TESTEMUNHO SEM PALAVRAS,
TAIS CRISTÁOS FAZEM AFLORAR NO CORACÁO DAQUELES QUE
OS VÉEM VIVER, PERGUNTAS INDECLINAVEIS: POR QUE E ELES
SAO ASSIM? POR QUE ¡É QUE ELES VIVEM DAQUELA MANE1RA?
QUE É OU QUEM É — QUE OS INSPIRA? POR QUE É QUE
ELES ESTÁO CONOSCO?

SEMELHANTE TESTEMUNHO CONSTITUÍ JA UMA PROCLAMA-


CÁO SILENCIOSA, MAS MUITO VALOROSA E EFICAZ DA BOA-
-NOVA. NISSO JA HA UM GESTO INICIAL DE EVANGELIZACÁO.

AQUELE QUE FOI EVANGELIZADO, POR SUA VEZ, EVANGE


LIZA. ESTA NISSO O TESTE DA VERDADE, A PEDRA DE TOQUE
DA EVANGELIZACÁO: NAO SE PODE CONCEBER UMA PESSOA
QUE TENHA ACOLHIDO A PALAVRA E SE TENHA ENTREGADO
AO REINO SEM SE TORNAR ALGUÉM QUE T6STEMUNHA E, POR
SEU TURNO, ANUNCIA ESSA PALAVRA».

{PAULO VI, «A EVANGELIZACÁO DO MUNDO


CONTEMPORÁNEO» N.08 21 E 24).