Personalidade Africana

Introdução No presente trabalho pretendo fazer uma resenha crítica do artigo “Personalidade Africana” da obra de Severino Ngoenha (1993), “Filosofia Africana: Das Independências às Liberdades”, onde irei cruzar as ideias por ele trazidas, com outros autores que abordam o mesmo assunto noutras perspectivas. O trabalho divide-se em três partes, a primeira traz uma pequena introdução e contextualização do tema em abordagem, a segunda parte apresenta, de forma articulada, o desenvolvimento das ideias trazidas por Ngoenha com outros autores e a última parte traz as considerações finais. Ngoenha (1993) traz uma abordagem sobre os vários discursos desenvolvidos por pensadores da filosofia Africana sobre a Personalidade Africana, se essa Personalidade existe ou não. Evoca contribuições de várias autores ligados à história da filosofia Africana, dentre os quais evidencia as contribuições, mesmo com algumas divergências de Blyden e de Nkrumah que remontam desde o surgimento do Pan-africanismo à Negritude. Ao longo do texto o autor demonstra a oposição entre pensadores da Negritude (raízes Francófonos) e pensadores influenciados pelo bloco Anglófono e dos Estados Unidos. No geral existia convergência de ideologias entre os pensadores, mas existiam também, com o evoluir da história, divergências, que Valdés (2008) considera uma força motora na medida em que essas divergências davam a perceber que existem avanços na constituição do pensamento africano. Ngoenha (1993), diz que a Europa sempre olhou para a filosofia como um monopólio exclusivo do ocidente, o mundo dos negros não tinha história, argumentavam que os negros não tinham atingido um nível de razão, portanto eram considerados seres inferiores guiados por uma mentalidade pré-lógica e mítica diferente da lógica do homem civilizado. Desta forma, durante um longo período na história, o negro foi silenciado. Seja na África ou em qualquer outro continente, ele foi arbitrariamente   1  

Este movimento surge contra essa ordem histórica-racial-social. seria a procura de um passado sobre o qual fundar a sua própria dignidade humana. Para Senghor a emoção é o que nos possibilita o elevar-se a um estágio elevado de consciência. Desta maneira. Ainda na linha da Negritude. Assim a ideia de filosofia Africana surge e desenvolve-se como afirmação de uma personalidade própria do negro e pela revindicação da liberdade negadas pela cultura ocidental (NGOENHA: 1993).   2   . Blyden. A preocupação do Africano era de elaborar uma filosofia própria. para que se pudesse justificar a sua escravização (DOS SANTOS: 2007). Este é o dilema mencionado pelo Valdés (2008) ao dizer que em todas zonas periféricas.rebaixado. a produção filosófica. SANTOS. O ponto de partida de Blyden no contexto de revindicação da personalidade Africana. et al:2007). diz Valdés (2008). enraizada no seu contexto histórico e social (MANCE: 1996). influenciada pelo ocidente. Ngoenha (1993) traz a figura de Senghor que defende a ideia de que a personalidade e a raça Africana pressupõem a existência de uma responsabilidade onde cada um tem o dever de lutar pelo desenvolvimento universal. para Blyden a raça negra deve evitar a cópia de modo de ser dos europeus e achar um modelo próprio que expresse tal contribuição. Ngoenha (1993) evidencia alguns pontos importantes de Blyden que também foram defendidos pelos pensadores da Negritude. “ser ou não ser nós mesmos”. sustentava que a raça negra foi criada com missão de realizar contribuições específicas à humanidade que devem confluir para uma civilização universal. O pan-africanismo surge como antítese as estas abordagens ideológicas ocidentais. Para Blyden a raça negra tinha sua história e uma cultura das quais podia orgulhar-se. Teorias científicas foram elaboradas com o propósito de provar a sua inferioridade frente às raças brancas. Senghor foi um dos maiores divulgadores da Negritude que o consolidava como um movimento cultural de resgate da identidade negra onde se evidencia a alma negra cuja a característica essencial seria a emoção. sempre está a questionar-se sobre como responder ao dilema: “ser ou não ser como os de centro”. os defensores do mesmo se insurgiram propondo a união de toda raça negra contra os preconceitos a que estavam a ser submetidos (ANACLETA: 2007. Segundo Mance (1996).

mas mais tarde veio ser um dos críticos fortes da Negritude. Fanon acusa a Negritude de ignorar a África actual e os seus problemas. Adopta o “consciencismo” como uma filosofia que pretende assegurar o desenvolvimento de cada indivíduo. concretamente nos Estados Unidos. um momento histórico destinado a destruir-se. Quando se olha para o Africanismo de intelectuais Anglófonos. Sartre afirmou que a Negritude era um momento negativo de uma progressão dialética. e revitalizar as tais concepções e usos. por isso defendia o retorno de todos os negros a África. Nkrumah pretendia uma África consciente de si. Para Garvey. As preocupações de Nkrumah não eram tanto culturais quanto políticas. Fanon criticava esta posição. Estes intelectuais eram caracterizados por um certo empirismo do tipo Inglês que os levava a distanciar-se das generalizações. Ngoenha (1993) destaca o Kwame Nkrumah pela sua oposição em relação a Negritude ter se evoluído ao longo do tempo. Marcus Garvey comungava das premissas ideológicas do DuBois. o negro nunca teria igualdade no ocidente. As divergências conceptuais entre as duas ideologias acentuaram-se quando Nkrumah priorizou a questão da unidade do continente.Outras figuras trazidas por Ngoenha (1993).   3   . Via uma África mítica para devolver o orgulho e a iniciativa ao negro humilhado. e seguiram uma perspectiva de estudar as singularidades de instituições Africanas. Sartre. que fosse síntese de todas as experiências que conheceu ao longo dos tempos e não antítese destas experiências. divergem de certa forma com os ideais da Negritude. são o DuBois e Marcus Garvey. Entre as várias figuras. esvaziado. Mance (1996) diz que Fanon olhava para a situação da raça negra utilizando o conceito de alienação em função da análise dos mecanismos de dominação na formação da consciência do dominado. pois grande parte da grandeza da Europa e América devem à exploração da raça negra (NGOENHA: 1993. o papel da raça negra na história da civilização não se devia procurar unicamente no passado. apesar de alguns autores terem sido influenciados pelo movimento. também é trazido por Ngoenha (1993) com ideias também opostas à Negritude. MANCE: 1996). ainda na visão da Negritude onde situa-se o Blyden. DuBois criava um retorno mítico para África ancestral com uma civilização esplêndida e autossuficiente e criador da civilização. destaca um antagonismo entre o dominado e o dominador. diz que o colonizador é que faz o colonizado . diz Ngoenha (1993). mas com algumas divergências.

mas esta revindicação deve ser compreendida na medida em que a história e a identidade do Homem são vinculadas entre si. tal como Nyerere e antes o Blyden. Para formar uma personalidade africana não se pode alimentá-lo com mitos. a identidade Africana deve se construir e compreender historicamente. É da opinião de que os intelectuais Africanos devem voltar a si próprios e procurar mostrar que a África não ignora o pensamento e a cultura da civilização. Na sua visão não é contra civilização de brancos que se devia lutar. Esta abordagem corrobora com as ideias de Mandela e Nyerere acerca das ideologias Africanas na educação para a formação do Africanismo. a recuperação da cultura. a alternativa para pensadores Africanos seria agir no meio da sua própria sociedade como consciência. Trazidas várias abordagens sobre a Personalidade Africana. pois a consciência de si só existe a partir do momento que é reconhecida. moral. desprezo e piedade. simplesmente deve se perceber que a cultura e a razão se manifestam de maneiras diferentes. propõem um discurso em conexão com a Personalidade Africana. Segundo Ngoenha (1993). a busca de instituições próprias que convergissem com o conjunto de reflexões no qual estivesse inserido o tema da educação.   4   . pode dialogar com os argumentos de Adotevi quando reclama a identidade Histórica dos povos negros. Implicitamente. mas sim coloca-los diante da verdade. fica a dúvida em relação a questão de saber se realmente ela existe ou não. Soyinka via na Negritude um luxo intelectual com importância para minoria de elite. como testemunha lúcida da realidade do tempo sem evocar preocupações universalistas (MANCE:1996). Mandela. Valdés (2008) afirma que ao incentivar o Africanismo. medir a sua personalidade em função de quem nos olha com gozo.Outro pensador reacionário à negritude é Soyinka. Deve-se acabar com os preconceitos a fim de se reconhecer o mundo Africano por aquilo que é. a confrontação dos seus ideais já ultrapassavam as simples atitudes anticolonialistas. O negro deve ser sujeito histórico capaz de mudar o curso da história vivida e construir a sua própria história. no olhar de Mance (1993). mas com a estupidez humana seja ela branca ou negra. Ngoenha tende a distanciar-se dos pensadores que olham para si próprios com os olhos dos outros. era sim. a sua revolta não era racial. Desconstruir o discurso ocidental acerca de educação e olhar para educação em África em função dos seus interesses e contextos. Esta abordagem de Soyinka.

diante de várias abordagens trazidas por Ngoenha articuladas com outros autores. no geral surgem como oposição e desconstrução às ideologias ocidentais. mas sim para as características que são autênticas do Africano. Tanto a construção. quanto o desenvolvimento da Filosofia e Personalidade Africanas. apesar de divergências ideológicas entre os pensadores em alguns aspectos. ao olhar para a construção da Personalidade Africana sem olhar para questões raciais. concluí que a primeira manifestação explícita sobre a Filosofia Africana propiciou uma tendência da construção da Personalidade Africana assente numa origem do contexto social com a Filosofia Africana a surgir e desenvolver-se como afirmação de uma de uma identidade própria e pela revindicação da liberdade e direitos negados pelas ideologias ocidentais. Concluí também que o autor tende a alinhar as suas ideias na linha de abordagem de pensadores que se opunham em parte da Negritude.   5   .Considerações finais Nesta análise sobre a Personalidade Africana.

Retrieved March 10. pp 53-67. 2008.. E. R.8 Nº 1. “Historicidade e Etnocidade” in Filosofia Africana: Das Independências às Liberdades.... 1993. D. 2008.br/questoesnegras/pdf/pam-africanismo-108%20anos.) O Pensamento Africano SulSaariano. 1993. D. A Tarefa Civilizadora. “O Início do Pensamento Africano sul-Saariano.br/1315/148943. DOS SANTOS. São Paulo: Clacso – EDUCAM. NGOENHA. 1996... Retrieved March 4 2009 from http://vetoradm. 2007. Maputo: Edições Paulistas. E. E. E.pdf VALDÉS. São Paulo: Clacso – EDUCAM. MANCE.. 2007.. S.unicruzeiro. Jan/Jun 2007. Figuras e Discussões (Segunda Metade do Século XIX)” in VALDÉS. SANTOS. 2007.com. pp67-77. 4 Ano IV Nº 2. Abril/Maio/Junho 2007. Maputo: Edições Paulistas. S. “Pan-Africanismo e Movimentos Culturais Negros” in ANACLETA v.org. Conexões e Paralelos Com o Pensamento Latino Americano e o Asiático (Um Esquema). E.) O Pensamento Africano Sul-Saariano. 2008 from http//www. et al. Conexões e Paralelos Com o Pensamento Latino Americano e o Asiático (Um Esquema). Vol.   6   .. (org.Referências Bibliográficas DOS SANTOS. 108 Anos de Pan-Africanismo. “A Época Clássica: As Grandes Escolas e as Grandes Figuras (O Segundo Terço do Século XX) in VALDÉS.html?*session*key*=*session*id*val* NGOENHA. “Poetas de Todo o Mundo” in Revista de História e Estudos Culturais. (org. Temas. pp 15-51. As Filosofias Africanas e a Temática da Libertação. pp 101-136.. “Personalidade Africana” in Filosofia Africana: Das Independências às Liberdades. VALDÉS. pp 67-87.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful