A CIDADE E AS SERRAS

SINOPSE A Cidade e as Serras é um romance composto por 16 capítulos que contam a transformação de Jacinto de Tormes de homem superurbano e adepto incondicional da civilização e do progresso (a cidade de Paris), entregue a um cansaço e a um tédio inexplicáveis, em homem apaixonado pela natureza e pelo campo (as serras de Tormes, em Portugal), cheio de entusiasmo e apetite pela vida. Podemos dividir os 16 capítulos do livro em duas partes, cada uma delas dedicada a uma das fases da vida de Jacinto. A primeira parte é formada pelos capítulos de 1 a 7 e metade do oitavo; a segunda parte vai de metade do oitavo capitulo até o final do livro RESUMO CAPÍTULO 1 Jacinto nasceu "em um palácio, com cento e nove contos de renda", que vinham da exploração das terras de sua família, de tradicional nobreza portuguesa. Era neto de outro Jacinto, que um dia foi socorrido de um tombo na rua pelo próprio infante Dom Miguel. A partir de então, o velho Jacinto se tornou o mais fiel devoto da monarquia e do infante. Defendeu-o como pôde dos liberais, e quando o rei partiu para o exílio definitivo, partiu ele também, em viagem cheia de acidentes, para a França. Em Paris, comprou um palacete na Avenida dos Campos Elísios, nº 202. Passou a viver da "boa mesa", até que morreu de indigestão. Sua mulher, Dona Angelina, com medo da viagem de volta para Portugal, ficou em Paris cuidando do filho, o Cintinho, rapaz magro, amarelo, muito doente. Cintinho apaixonou-se por Teresinha Velha, moça de família nobre e prendada; casou-se com ela em 1851, apesar de condenado pelos médicos. Morreu logo em seguida e "três meses e três dias depois do seu enterro" nasceu o Jacinto de nossa história. Jacinto nasceu sob as simpatias da avó Angelina para que não tivesse a "sorte ruim" do pai. A simpatia não podia ter dado mais certo: cresceu ele forte, sadio e inteligente. Entre os amigos, era um líder; nunca sofreu de paixão; seu maior interesse eram os livros e as idéias ʹ e todas as suas opiniões e idéias mereciam respeito e admiração; até a sorte e a natureza lhe premiavam. Por tudo isso, Jacinto era chamado de "Príncipe da Grã-Ventura". José Fernandes, o narrador da história, conheceu Jacinto nas escolas de Paris, onde foi estudar por ter sido expulso da universidade em Portugal, depois de ter esmurrado um professor. Era por volta de 1875 e Jacinto já havia formulado sua tese sobre a vida: "O homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado", entendendo -se isto assim: só o homem que domina toda a ciência e a filosofia acumuladas ao longo da História e sabe fazer uso dos progressos técnicos alcançados pelo conhecimento pode gozar e aproveitar a vida ao máximo. Saber e poder proporcionam felicidade ou ʹ como colocou em "equação metafísica" um amigo de Jacinto:

Jacinto começou a colocar em prática sua tese: comprou uma enciclopédia e um telescópio e explicou para o amigo Zé Fernandes: enquanto um olho comum só enxerga o outro lado da rua, com o telescópio se conhece Marte, tem-se uma outra noção do mundo; assim Renan, um homem culto, seria mais feliz que Grilo, o criado do 202. Zé Fernandes não via utilidade em conhecer Marte nem sabia dizer se um homem de ciência era mais feliz que o Grilo, mas concordava e propunha que bebessem. O único lugar onde Jacinto podia exercer sua tese, o lugar que ele amava, era a cidade. A cidade grande com seus milhares e milhões de habitantes, suas ruas incontáveis sempre cheias de gente, suas indústrias, seus supermercados, seus bancos, com sua

complicada engrenagem de carros, telefones, telégrafos, canos de água, gases e esgoto; com seus labirintos onde a maioria dos homens buscava o pão de cada dia e suava para garantir o gozo eterno e o poder de alguns privilegiados como Jacinto. No campo, pelo contrário, tudo era incerto. De nada valiam o saber dos livros e as máquinas no meio da natureza. Em um passei o na floresta, perto de Paris, Zé Fernandes viu o desconforto e a falta de jeito de Jacinto fora da cidade: o chão de grama não lh e era seguro; as pedras, os riachos e os galhos eram obstáculos irritantes; todo buraco e toda planta desconhecida representavam uma ameaça. O Príncipe quis voltar correndo para o aconchego da cidade, da civilização. Tinha ele, então, 23 anos: era um moço fo rte, digno representante da nobreza rural portuguesa, embrulhado por roupas inglesas e enfeitado por uma flor artificial, composta por uma florista. No início de 1880, Zé Fernandes recebeu uma carta do seu tio Afonso Fernandes, que lhe ordenava parar os estudos de Direito e voltar para sua casa rural em Guiães, região do Douro, Portugal, para cuidar dos negócios da família. O narrad or lembrou-se das flores e do céu da sua fazenda, da comida de sua tia Vicência, animou-se e arrumou as malas para partir, com um Tratado de Direito Civil dentro da mala, para não esquecer os estudos. Jacinto recebeu a notícia com "espanto e piedade", despediu-se do amigo que ia para o campo como se ele fosse para o próprio enterro. Zé Fernandes ficou sete anos em Guiães, atarefado com os trabalhos da propriedade do seu tio e aproveitando a vida no campo; nunca abriu o livro de Direito. Quando o seu tio morreu, resolveu voltar para Paris [1]. CAPÍTULO 2 Em Paris, Zé Fernandes encontrou Jacinto, vestido elegantemente, na entrada do 202. Por fora, o palacete conservava os mesmos jardins bem tratados, mas por dentro era o próprio resumo da civilização. Já na entrada, havia um elevador (num prédio de doi s andares!) espaçoso, atapetado, com um divã, um guia de Paris, charutos e livros. No segundo andar, um empregado cuidava do aquecimento e dos perfumadores de ar. Na biblioteca, havia mais de 30 mil livros ricamente encadernados, iluminados prontamente pelas luzes elétricas imediatamente acendidas por Jacinto. No gabinete de trabalho do Príncipe, decorado de maneira muito sóbria, quase sem luz, espalhavam-se inúmeros objetos para as mais diversas tarefas cotidianas. No entanto, Jacinto parecia cansado, desanimado. Estava mais magro e não mostrava a antiga energia. Enquanto o amigo atendia o telefone e Zé Fernandes brincava com os objetos, o telégrafo começa a transmitir uma mensagem: era um comunicado sobre um problema com um navio russo em Marselha! No fundo da biblioteca, havia um relógio que "marcava a hora de todas as capitais e o curso de todos os planetas". Jacinto vai escrever uma carta (a "caneta elétrica" est raga o papel e ele fica enraivecido) enquanto Zé Fernandes termina de passear pelo gabinete e pela biblioteca: fios trançavam pelo tapete, havia uma máquina de escrever e outra de calcular, tubos acústicos faziam a comunicação entre os cômodos da casa. Na biblioteca, estantes de economia, filosofia, ciências naturais, história religiosa, poesia. Por úl timo, um "conferençofone" (rádio que transmitia conferências) espantou Zé Fernandes. Jacinto convidou o amigo para jantar com ele e dois convidados ʹ um psicólogo feminista e um pintor mítico. O português recém chegado da calma do campo recusou; estava esgotado de civilização por aquele dia. Mas aceitou o convite para ir morar no 202 a partir do dia seguinte e ficou feliz de reencontrar o velho criado negro, o Grilo. Antes de ir embora, perguntou a Jacinto qu al a utilidade de todos os instrumentos e este lhe explicou que serviam para facilitar suas tarefas: cortar papéis, numerar páginas, encadernar documentos e tantas outras; mas todos falhavam constantemente. Saíram pela sala de jantar: muito luxo na decoração e uma mesa com mais de seis tipos de garfos e vários talheres aguardavam os convidados; águas de vários tipos estavam à disposição do Príncipe, que temia as águas sujas da cidade. Zé Fernandes volta pa ra o hotel pensando no seu Portugal distante e no quanto precisava aprender sobre civilização com o seu amigo Jacinto, o Príncipe da Grã-Ventura[2]. CAPÍTULO 3

angustiado pelo erro descoberto. pediu perdão e prometeu corrigir o erro em entrevistas e edições posteriores. o Príncipe sentava-se reclamando da vida. mas nada disso o animava e algumas vezes ele chegava a se irritar. tomava seu café turco e acendia uma cigarrete russa. os carros de conhecidos seus. Limitava-se ele a apontar para o amigo. No fundo da biblioteca. Jacinto já conversava com o Conde de Trèves ʹ marido da Condessa ʹ e com o banqueiro judeu Efraim ʹ amante da Condessa. enxugava-se em quatro toalhas de tecidos diferentes. Depois deste ritual. mostrou a eles uma original criação da moda parisiense para a Quaresma ʹ um chapéu envolto por uma delicada coroa trançada de espinhos ʹ e saiu. Era uma alimentadora de vaidades. até que o Duque de Marizac apontou um grande erro na obra: o autor vestira a personagem principal. com tédio. conheciam os aparelhos da casa. Na biblioteca. fazia a barba em outra. lançado naquela semana pelo psicólogo feminista. Os dois tentavam convencê-lo a entrar como sócio em uma Companhia das Esmeraldas da Birmânia. beliscava sem apetite algum prato. a pressa da população e o contato com a multidão o aborreciam e sonhava ele com emborrachar as ruas da cidade para tornar mais agradável o passeio. bebia uma das suas águas especiais. entediado. escovava os dentes em uma torneira. no palacete. finas roupas se perderam e uma multidão de curiosos e a polícia foram atraídos pela névoa e confusão. ele encontrou a Condessa de Trèves e o historiador Danjon que. falavam do romance Couraça. mas Jacinto recusava-se a admitir que Paris não era a suprema delícia da vida. convida Zé Fernandes para um passeio "simples e natural": ir ao zoológico ver a girafa [5]. penteava-se durante vários minutos com incontáveis escovas. Jacinto praguejou mas a luz logo voltou. Uma ou duas vezes. com Jacinto como guia. uma duquesa. convidou os amigos para ir ouvir o sermão do padre Granon (um eloqüente pregador que fazia sucesso em Paris). rebentou o encanamento. a eloqüência do historiador e paparicou até Zé Fernandes. A água fervente inundou o banheiro e outros cômodos. não parava de sorrir. Todos cobriam de elogios o autor e o livro. uma "sublime falsidade". maquiava-se com perfeição. envolvia a todos com uma conversa que mais parecia o canto dos pássaros. Por fim. À hora do almoço. No mesmo domingo à noite receberam a visita da Madame de Oriol. O amigo logo percebeu que o Príncipe não se satisfazia com os passeios como antigamente: as lojas não lhe interessavam mais. Zé Fernandes provocou o companheiro com palavras sobre a dureza da cidade ou a falta de brilho do Bosque. a luz do 202 pifou. O dia-adia de Jacinto era preenchido por compromissos sociais ou tarefas que pudessem oferecer-lhe ainda mais civilização. todos sabiam que as duquesas usavam colete branco! O psicólogo ficou desconsolado. dedicava-se à sua agenda. no gabinete. entre suspiros e bocejos. madame de Oriol era uma flor de civilização: vestia-se com elegância e sensualidade. CAPÍTULO 4 No domingo seguinte. com um colete de cetim preto! Ora. Bajulou Jacinto pelos telegramas e elogiou o do grão -duque. B anhava-se em um lavatório cujo jato de água era graduado de zero a cem. A notícia saiu no Fígaro[3] do domingo seguinte e choveram telefonemas e telegramas para Jacinto: do Grão-Duque Casimiro à cocote[4] Diana. ele e Zé Fernandes saíam à tarde para passear por Paris. que queria ver as "ruínas" do acidente. uma orquestra de ciganos tocava. que lhe mandara um "peixe delicioso e raro" de presente. Jacinto preparou uma ceia majestosa para o grão-duque. Jacinto se arrumava para o dia. Zé Fernandes desceu para a ceia: na entrada da sala de jantar. tentavam disfarçar a negociata com amabilidades e boas referências. Nem mesmo as visitas de carruagem ao Bosque de Bolonha ʹ onde passeava a elite que Jacinto antigamente considerava a força da civilização ʹ animavam o Príncipe. Pouco antes do banquete. Quando a agenda de Jacinto permitia. Certa noite. O Príncipe. Desde o início da manhã ele falava o tempo todo ao telefone. junto à estante dos livros religiosos. . recebia e respondia bilhetes e atendia visitas de comerciantes de todos os tipos. A Madame se maravilhava com tudo! Elogiou o gosto e o saber de Jacinto. os fios elétricos faiscaram. mas Jacinto desconfiava e exigia estudos sobre a viabilidade da empresa.No início das manhãs.

Assim poderiam divertir-se jogando uma bomba na mesa: no fim do século. animada pelas futil idades dos homens e mulheres. Zé Fernandes. afastou-se um pouco do 202 porque se envolvera com uma mulher. Descarregou sua raiva esmurrando o banco da carruagem que o levou para o 202. Livros e livros eram comprados e empilhados pela casa. principalmente. . Um dia. O Grão-Duque se animou com a idéia e esqueceu a cólera. bebeu muito. segundo o moço. até que Todelle. chegou ao campo inundado de livros. conversou com Zé Fernandes sobre suas terras e escreveu ao procurador ordenando que se reconstruísse a igrejinha [6].Na sala de bilhar. quarto andar. o poeta neo-platônico e místico Dornan fumava. furioso. aconteceu a desgraça: o mordomo avisou a Jacinto que o elevador dos pratos emperrara entre os andares com o peixe do Grão-Duque dentro! O Grão-Duque. Jacinto ficou impressionado com a tragédia. O mordomo anunciou o jantar. que riam das histórias. subiu ao céu e encontrou o paraíso coberto por estantes. o homem só sentia satisfação em destruir. Voltaram. por esta época. até que o mordomo avisou a chegada do Grão-Duque e todos se atiraram para a porta de entrada. ao visitar a amante. Três dias depois. O Grão-Duque chegou para o jantar reclamando dos restaurantes de Paris. desanimado. pelo crítico de teatro Joban e por um moço ruivo. O procurador da fazenda avisava que começara o trabalho de recuperação dos ossos e pedia instruções sobre o que fazer com eles. Zé Fernandes vagou pela cidade até entrar em um restaurante. teve a idéia de pescá-lo. Resolveram então abandonar o prato principal e voltar para a mesa. CAPÍTULO 5 Jacinto. rodeado por um velho que contava histórias grosseiras de mulheres. Tomado de paixão e desejo. Jacinto recebeu de Portugal a notícia de que uma tormenta passara por sua propriedade em Tormes. O palacete entrou em obras. avistou Deus ʹ e ele lia uma edição barata de Voltaire [7] e sorria. as pessoas ʹ tinha o formato de livros. porta à esquerda". Um moço ruivo lamentou não haver à mesa um bispo e um general para completar um quadro da elite. dirigiu-se ao poço do elevador para tentar fazê-lo funcionar. mas Jacinto aguardava com agonia o fim da festa. um jovem. Todos se sentaram à mesa. Madame Colombe. Atordoado. De repente. região do Alentejo. Os convidados se divertiam mas Jacinto mostrava-se aborrecido. mas não conseguiu. Zé Fernandes resolveu se entregar às conversas do grupo. enquanto novas máquinas chegavam e continuavam a maltratar de algum modo os dois amigos. comeram. tantos livros que um dia Zé Fernandes teve um pesadelo: saiu caminhando por Paris e tudo que via ʹ os prédios. O esforço de Jacinto e a fúria do Grão-Duque de nada adiantaram. durante sete semanas gastou com ela seu dinheiro. não a encontrou e foi avisado pela porteira que Madame Colombe fugira com outra mulher para longe de Paris. Durante um tempo. o elevador nem se mexeu. Foi dormir aliviado. as ruas. sentindo já o fim da sua cegueira de paixão. o que só aconteceu às três horas da madrugada. vomitou tudo o que comera e bebera. comeu e. continuou caminhando. Todos se juntaram atentos à volta dos dois aparelhos de teatrofone para ouvir. Foi o criado Grilo que melhor resumiu o problema que enfrentava seu patrão: ʹ Sua excelência sofre de fartura. Acordou no outro dia e reencontrou Jacinto mergulhado no mais profundo tédio. provocando o desabamento da velha igrejinha que abrigava os ossos dos seus antepassados. ficou tentando pescar o peixe com um anzol e vara improvisados. menos Zé Fernandes. Em casa. que morava na "Rua do Hélder. seus anéis e tudo que possuía de valor. Então todos se juntaram à volta do poço contemplando o peixe. "vomitou Madame Colombe". nas ciências ou nas artes. seu relógio. humilhado pelos desastres no 202. nunca em criar. que se lembrava de suas terras em Portugal. entregou-se à mulher como um cego louco. não havia prazer ou emoção no amor. beberam e conversaram. resolveu reformar toda a engrenagem do prédio. 16. Sua atenção foi atraída primeiro pela Madame de Oriol e logo pelo teatrofone: chamou Jacinto para se certificar de que poderia ouvir pelo aparelho uma cocote que estreava uma nova canção obscena. Assim corria a festa.

tudo estaria bem. Mauríci o. Correndo atrás deste desejo. os palacetes confortáveis. pudessem gozar os prazeres que ela oferecia ʹ as roupas de luxo. impressionado. no mês de agosto. No entanto. CAPÍTULO 7 Naquele ano. só . Zé Fernandes. Se tinha toda a sorte. a diversão incessante ʹ muitos se esforçavam para sobreviver na miséria ʹ cobertos de trapos. desanimado e triste. tão consistente quanto o pó-dearroz que usava. sem qualquer argumento. as comidas finas. com sede. Voltaram então para Paris e Zé Fernandes pôde matar sua sede com boa cerveja. mas na volta do Cristo! Terminaram a discussão. ferro e arame que seduzia o homem e atiçava o seu desejo por dinheiro e poder. vivia "na babel de éticas e estéticas" das modas intelectuais e espirituais que iam e vinham por Paris. Encontrou Jacinto ainda mais descorado. não! Ele tinha um nome a defender! Apertou a mão de Jacinto e se foi. como Jacinto. Jacinto respondeu que era um rapaz de família nobre. hotéis. mas o Príncipe foi atraído pela vista de Paris que se tinha do terraço do edifício: uma cidade cinzenta. em costureiros. boa água e bom vinho. restaurantes. resolveu realizar uma viagem pela Europa que programara há tempos. passando fome e frio nas ruas. Sentia faltar ar no 202 mas não suportava enfrentar a poeira do progresso das ruas de Paris. vista do alto da colina. Durante trinta e quatro dias enfrentou uma correria: trens. ele e Zé Fernandes foram até a casa dela e encontraram na entrada o seu marido. Maurício despediu-se dos dois amigos. o homem perdia sua nobreza e sua moral: as amizades eram baseadas em interesses. o Príncipe estava com vontade de fumar e Zé Fernandes. A basílica ainda estava toda coberta por tapumes e lonas de construção e não era nada interessante. Nas cidades. que ela o traísse com gente "de sua roda". catedrais e museus. Gastava o seu tempo em reuniões de coluna social. um conhecido que ele não via há três anos. Começou então o esforço do Príncipe para compreender racionalmente o próprio tédio e vencê-lo. para que poucos. Cansava-se da agitação. Jacinto bocejava a civilização que tanto amava. Disse ele ao Príncipe que brigara co m a mulher porque ela se tornara amante de um criado. não queria mais passeios ou compromissos sociais. Além disso. Zé Fernandes aproveitou para provocar o amigo com um longo discurso sobre a cidade: aquela enormidade de civilização. nos benfeitores. nem mesmo Madame de Oriol conseguia animar Jacinto. acendia outro cigarro e voltava a bocejar [8]. sua vida resumia-se a fazer-se sempre bela e agradável para os de sua classe. Jacinto se divertiu com a simplicidade das paisagens e pessoas dos subúrbios que viu pelo caminho. CAPÍTULO 6 Mas em um domingo em que nada havia a fazer. Certo dia. trabalhando sem parar e sem poder se cansar. mas há três anos largara tudo e viera morar em Montmartre com um guru budista. Ao saírem da basílica. fina e cativante. o amor era comprado e vendido nas ruas. contra qualquer outro regime. limitava-se a reproduzir o que a moda ditava sobre qualquer obra de arte e a defender a monarquia. coberta por um céu cinzento. quando Zé Fernandes propunha um passeio ao campo. Zé Fernandes convenceu o amigo a visitar a Basílica de Sacré-Coeur. No caminho. Sua inteligência. não passava de uma teia de concreto. E que aquele seu budismo também era uma chatice. Zé Fernandes continuou: a solução para a humanidade não estava nos políticos. que estava sendo construída em Montmartre. Jacinto concordou com o discurso do amigo e eles desceram do terraço. Visitava-a sempre e começou a levar Zé Fernandes para as conversas que mantinha com ela às tardes. perguntou a Jacinto quem era o "bruxo". inteligência e conforto. Jacinto tornou-se amante de Madame de Oriol. em passeios pelos bosques e igrejas. Madame de Oriol era a encarnação da elite parisiense: bonita. mas com empregados. Apesar de sua beleza e do seu permanente sorriso nos lábios. a inteligência se resumia aos que repetiam idéias e fórmulas e aos que inventavam novidades para aparecer. nos filósofos nem nos revoltados.De fato. o Príncipe ficava indignado e enfurecido. em quermesses de caridade. o homem se tornava escravo de uma ilusão infeliz. praticamente fora da cidade. Zé Fernandes. um homem gritou por Jacinto: era Maurício. se era o mais civilizado dos homens. Voltou para o 202 sem dinheiro e cansado. furioso. enquanto o Príncipe sonhava em construir uma casa em Montmartre para "descansar de tarde e dominar a cidade [9]". como Jacinto.

administrador da fazenda. Para animá-lo. de 70 mil livros. assistir ao transporte dos ossos de seus antepassados para a capela nova. Com ironia e aborrecimento. Zé Fernandes? Uma maçada![13]" Mas Jacinto se cansou até do pessimismo. CAPÍTULO 8 Pouco tempo depois. este animou-o. satisfeito com a possibilidade de levar todos os seus confortos para o campo graças às f acilidades da transportadora. E para exercitar seu tédio Jacinto não poupou esforços: deu uma magnífica festa em que tudo (da comida às roupas à decoração) era cor-de-rosa ʹ as "festas de cor" estavam na moda em Paris. Encaixotaram-se móveis. Zé Fernandes se divertia. chocolate e tangerina gelada. Mas o Príncipe resolveu reformar a casa e esperou pela opinião de Zé Fernandes. Para o Príncipe. melancolicamente. O Príncipe aceitou. Zé Fernandes. Jacinto não tinha notícias. Portugal. espantado. um asilo e um hospital para crianças. o sofrimento só podia ser uma lei universal: todos sofriam. ligou o 202 ao telégrafo do Times[12] para estar sempre prontamente informado sobre tudo que acontecia na Europa. mas logo se viu irrit ado pela mesa de Efraim. Zé Fernandes adormeceu depois do almoço mas foi acordado pelo Grilo. de espírito e de inteligência. Jacinto. melancolicamente. Zé Fernandes perguntou pela reconstrução da igrejinha de Tormes. cortinas. perguntou então a ele quem era uma "lavradeirona rechonchuda" que aparecia em um retrato. . xingando.havia um motivo para Jacinto ser triste e entediado: viver era algo entristecedor e tedioso. Começaram então os preparativos para a viagem: Jacinto escreveu ao administrador da fazenda para reformar a casa e contratou uma transportadora para levar todo o conforto do 202 até as serras de Portugal. frutos secos. segundo carta que recebera do Silvério. onde cruzaram com todos os refinados amigos e conhecidos do Príncipe. brindaram aos antepassados e foram ler jornal. propôs que partissem logo para Tormes. mexeu em todos os seus aparelhos e remexeu na vasta biblioteca. pára-raios e dezenas de livros. Depois de cada esforço de prazer. preocupado com o patrão que passava o tempo picando papel. coberto de calda de cereja. E Jacinto tornou-se um pessimista. Recusaram o arroz-doce. Jacinto concordou mas antes demorou-se uma semana preparando o roteiro de viagem e escolhendo um vagão de trem confortável. águas e mais águas. afrancesado. tornou-se um benfeitor ʹ fundou um hospício. irritado. O seu amigo encontrara uma razão para viver: maldizer a vida. No jantar. abria os braços e exclam ava: "ʹ Vês tu. O aniversário de 34 anos de Jacinto não foi comemorado. os restaurantes e as festas. Zé Fernandes propôs que tomassem uma xícara do raríssimo chá que fora presente do Grão-Duque. por um momento revoltou-se contra a própria imobilidade: levantou-se. mas o que veio da cozinha foi um doce de arroz "acanalhado". sua prima. Mas tão logo terminou o encaixotamento. anunciando que iria para suas terras em Tormes. Zé Fernandes. que não conseguiu ajustar em uma altura adequada. entrou Jacinto uma manhã pelo quarto de Zé Fernandes. Os dois amigos despediram-se de Paris com um passeio pelo Bosque de Bolonha. Jacinto vagou pelo quarto sem rumo e encontrou as fotos da família de Zé Fernandes dispostas sobre uma mesa. os teatros. O Príncipe voltou ao velho tédio com indisposição redobrada. O Príncipe se reconciliou com Paris. não atendeu os telefonemas e só se interessou pelo presente que o banqueiro Efraim enviara: uma mesa que se abaixava ou levantava por um mecanismo próprio. com um jornal debaixo do braço [14]. avisou ao amigo que a casa que havia na fazenda era inabitável. Zé Fernandes exigiu respeito e explicou que a moça era Joaninha. assustava Zé Fernandes com conversas sobre suicídio e o irritava com sua indiferença a tudo na vida. tapetes. O Eclesiastes[10] e Schopenhauer[11] provavam isso. que fazia a barba. fez experiências com Maurício ʹ o rapaz budista ʹ e seu guru. que já estava construída. mas acabou subindo para seu quarto. todos os apetrechos de cozinha. O chá veio logo: tinha um gosto horrível e Jacinto o cuspiu. Voltou a freqüentar o Bosque de Bolonha. desde os mais remotos tempos até aquele século X IX em que vivia. do mais simples cigarro às decisões mais importantes. inquieto. o Príncipe leu os telegramas e bilhetes que recebeu. assim que o provou. outro fiasco: Zé Fernandes encomendara um prato de tradicional arroz-doce com canela para comemorar o aniversário do Príncipe. andou pelo apartamento. voltou ele ao tédio mais profundo. comida em conserva.

Desceram para a fonte passando pela cozinha. Anatole e as malas não haviam vindo com eles no mesmo trem! Além disso foram informados por Pimenta. A construção era inabitável: o soalho rangia e o teto ameaçava cair. as pequenas aldeias ou casas solitárias espalhadas pelo caminho. rústicos garfos e facas e uma porcelana amarelada. O Príncipe provou do prato com desconfiança. há quatro meses?. por entre a fumaça da lenha e velhas panelas de ferro. Jacinto foi visitar o solar. que os levaria a Portugal. Jacinto odiava favas. sua terra e sua gente. o ar era fresco e o céu azul. Jacinto bebeu com sofreguidão da água da bica e foram passear no campo. esqueceram-se dos seus males ao contemplar a beleza das serras: a fartura das oliveiras. e começou a contar que ninguém esperava por ele! Silvério desde março estava na casa da mãe. os amigos subiram para o solar dos Tormes montados em uma égua e um jumento. o gado e os laranjais espalhados pelo campo. que mal foi apresentado a Jacinto por Zé Fernandes. Mas da maior das salas se avistavam as serras ao longe e o pinheiral que cercava a quinta. O trem que tomaram em Paris e os levaria até Medina. Depois. que avistava deslizando entre as serras. Do trem. em fevereiro. Uma beleza! Jacinto avistou uma horta e uma pequena fonte de água e teve sede. viajara para visitar a mãe doente e que ninguém aparecera para os levar serra acima até a fazenda! Profundamente abatidos. Foram se deitar em colchões de palha. serviu-se a galinha ao molho pardo. O Príncipe deitou -se desolado. em Guiães. Após o jantar. Zé Fernandes partiu para a casa de sua tia Vicência. emprestados por um caseiro compadre do Pimenta.. engasgou-se. perguntou sobre Tormes. para que ele pudesse viajar. um pôr-do-sol na natureza. Zé Fernandes iria para a casa de sua tia Vicência e enviaria ao Prí ncipe roupas limpas. não embarcaram juntos com o Grilo e o Anatole (outro criado). era abril e só esperavam a chagada de Jacinto para setembro! A casa não tinha ainda sequer telhado! "ʹ Mas os caixotes. os vales cobertos de árvores. nervoso e. que cuidavam das malas. Silvério. quase chorando. Acordaram em terras de Portugal. O "senhor de Tormes" gostava do que via. Tão maravilhados ficaram que mal se deram conta do tempo que levaram para chegar até o solar da quinta dos Tormes. Jacinto apreciou o azul do céu. Em seguida veio arroz com favas. onde. Mas no caminho. os caixotes mandados de Paris. Recebeu-os o caseiro Melchior. Chegaram à estação de Tormes. por pouco não conseguem pegar o outro trem.. por fim.. atrasou-se no caminho. disse que não recebera nenhum caixote. Em Medina. Tudo era sujo e empoeirado. telegrafou novamente. o que deixou Jacinto enraivecido. pálido. Jacinto explicou a Zé Fernandes que iria no dia seguinte para Lisboa e retornaria quando o casarão estivesse habitável. e o bom ar das montanhas. desceram e logo foram surpreendidos por más notícias: Grilo. Assim foi por todo o jantar e com o vinho da fazenda: o Príncipe magro que beliscava requintados pratos em Paris. desesperado. apesar dos desastres da viagem. que o administrador de Tormes. Em uma sala velha. mas gostou tanto que acabou raspando a sopeira velha. Furioso e cansado. o pijama de Jacinto foi uma camisa de estopa. Melchior comandava as mulheres no preparo do jantar dos dois amigos. Uma semana depois recebeu suas malas extraviadas na viagem e telegrafou para Lisboa cumprimentando Jacinto. uma escova e água de colônia..A viagem começou debaixo de muita chuva e com problemas. CAPÍTULO 9 No dia seguinte. Os amigos comeram fartamente e Jacinto. sobre uma mesa com toalha grossa. . os regatos que corriam entre pedras. Na confusão da pressa. Mais uma semana se passou e. Voltaram para o solar e Jacinto presenciou pela primeira vez na sua vida. o rio Douro. na Espanha. Foram chamados por Melchior para o jantar." ʹ berrou Jacinto. o chefe da estação. como não obteve respostas. os amigos filosofaram a olhar para o céu. à luz de velas de sebo. à noite. Mas o pobre Melchior. suspirando. mas elogiou a frescura dos lençóis [15]. mas depois de provar o prato passou a comê-lo com gula e a elogiar Melchior e as cozinheiras. comia como um guloso a comida caseira das serras de Portugal. curioso.

para maior inquietação do Silvério. Assim. foram passear. Silvério e Melchior procuravam enrolar Jacinto. Também nessas semanas Jacinto passou da contemplação da natureza à vontade de criar algo na natureza. Tomaram café na biblioteca improvisada e Zé Fernandes lembrou-se da moda do pessimismo do amigo em Paris. os amigos prepararam o translado dos restos mortais dos antepassados de Jacinto para a igreja nova. um pombal com milhares de pombos. Zé Fernandes. o criado ainda não se conformara com a súbita simplicidade assumida pelo patrão. os que querem tornar sua desgraça e humilhação uma lei universal. Melchior e o Silvério foram surpreendidos por uma grossa chuva. resolveu se acautelar. Silvério pediu a Zé Fernandes que este convencesse o Príncipe do absurdo daquelas idéias: por que gastar dinheiro em terras tão rudes se ele tinha outras propriedades em outros lugares de Portugal onde aqueles projetos custariam muito menos? Mas Zé Fernandes não interferiu e Jacinto fincou pé em suas idéias. que lhe pareceu abatido. O Príncipe foi atender ao carteiro que chegava com jornais de agricultura que ele encomendara enquanto Zé Fernandes encontrava-se com o Grilo. idéias e ilusões imperava. o silêncio e a paz. uma t eoria que servia para os miseráveis e os sofredores. A princípio tímido e receoso. sentira-se livre e pacificado. enquanto houvesse chouriços com ovos e água da fonte. almoçou chouriço com ovos e decidiu ficar. para poder ler de verdade pela primeira vez na vida. Lá chegando encontrou o solar em reformas. cabrito assado e cabidela. os planos cresciam: uma imensa horta de luxo. que ele não fora para Lisboa! No dia seguinte. andando no campo. Foi uma cerimônia muito simples: um velho padre e o sacristão foram à frente dos oito caixões. como pequeno proprietário e conhecedor das dificuldades do trabalho no campo. nada se repetia.. ao voltar de uma visita à sua prima Joaninha. Jacinto explicou-lhe que quando acordara no dia seguinte ao da chegada. na natureza tudo era diversidade. acostumados à simplicidade de anos de tradição. atrás seguiram Jacinto e Zé Fernandes. CAPÍTULO 10 Certa manhã. De fato. muito limpo e arrumado com simplicidade. o Grilo e. Assim. o que lhe dava enorme prazer. abriu um livro de Virgílio e começou a ler. exótica. mas que a mulher deste estava doente e.Dias depois. Silvério disse que pensara em se esconder na casa de um caseiro. os regatos correndo por caminhos esmaltados de azulejos e porcelanas. apesar de todas as coisas trazidas de Paris pelo Grilo. Pensou então em encher os campos de Tormes com vacas de raça. Jacinto exercitava sua curiosidade: de tudo que encontrava queria saber o nome. Nas duas semanas seguintes. Jacinto explicou ao amigo que todos os caixotes do 202 haviam ido parar em Tormes da Espanha porque o homem da transportadora se enganara ao despachá-los. um domingo. Pensou em plantar árvores mas elas demoravam a crescer. os regatos. ao contrário da cidade. mais atrás Silvério. Zé Fernandes admirou-se do novo Jacinto: forte. De tarde. cercada por plantações de flores. onde a mesmice de formas. ali perto. na verdade. Melchior e um grupo de mulheres soluçando ave-marias. Voltaram para o jantar: trutas. Zé Fernandes adormeceu durante o discurso e acordou com o Príncipe rindo alto com a leitura do Dom Quixote. quase tão grande quanto o de ouvir os rouxinóis cantando no laranjal da quinta [17]. Mas Jacinto não tinha pressa de recebê-los: estava saboreando o prazer de só ter uma escova para se pentear e poucos livros. Filosofou que . Esconderam-se em um alpendre. O Príncipe também aprendeu aos poucos a lidar com os trabalhadores e a gente da sua terra. com os olhos brilhantes. que se satisfazia apenas com projetar seus sonhos em planos que não saíam do papel. Jacinto indagou da doença da mulher e se havia médico nas . encontrou um sobrinho de Melchior que lhe informou que Jacinto estava em Tormes. por último. Como Jaci nto não estava. as trilhas. Estas idéias esdrúxulas desesperavam Silvério e Melchior. agitado. partiu para Tormes. Jacinto se deliciava com tudo: as árvores. Jacinto discursou que o pessimismo era uma teoria criada por pessoas desconsoladas com seu destino ou invejosas da felicidade alheia.. Adormeceu durante a leitura e foi acordado pelos berros do Príncipe. construir queijeiras e currais em arquitetura de ferro e vidro. ria do deslumbramento do Príncipe com a natureza. era outro homem!. Jacinto. aos poucos adquiriu confiança e conhecimentos para conversar com todos. Zé Fernandes. como podia ser maleita.

quando apresentaria o Príncipe aos seus vizinhos. Também ordenou que construísse casas decentes e mobiliadas para todos os seus trabalhadores e que fossem revistos todos os contratos de trabalho.. profetizava que Jacinto era El-Rei Dom Sebastião[19] que retornara[20]! CAPÍTULO 12 O domingo de 3 de setembro. CAPÍTULO 13 A festa de Zé Fernandes foi um fiasco. Zé Fernandes tentou quebrar o silêncio embaraçoso com forçadas exclamações sobre o apetite de Jacinto e a história do arroz-doce de Paris no aniversário do Príncipe. Os homens aproveitaram a deixa para conversas reservadas sobre questões cotidianas e as mulheres para cochichar. sendo a mais bela e inteligente a sua prima Joaninha. em Guiães. que chegou elogiando a casa de Guiães. até o cansar completamente. Silvério tentou. exaltando as virtudes dos homens e a beleza das mulheres que freqüentavam o 202. Depois do almoço. Foi sua própria tia quem o interrompeu.. As obras de construção avançavam. Jacinto apareceu na sala cheia vestido com suas finas roupas de Paris. a casa de uma pobreza tristonha e medonha onde viviam o caseiro e sua família. junto com os demais. À mesa. remédios e alimentos para a mulher doente. as mulheres o abençoavam e os homens louvavam suas obras. Também cativou imediatamente tia Vicência. avançou em direção à casa da mulher doente. palavras doces e um apetite enorme. legumes. quanto mais se tratar com remédios! Todos se calaram e Jacinto ficou sombrio. o médico já havia sido providenciado e o "benfeitor de Tormes" fazia planos: construiria uma escola. data do aniversário de Zé Fernandes. mal comia. Jacinto gostava da idéia . traria uma lanterna-mágica (cinema) para ensinar história ao povo. uma biblioteca. Jacinto colocava em prática os melhoramentos de vida para os seus pobres. De novo interrompeu Zé Fernandes. comparando-o a alguém que começa uma carreira de santo [18]. Por tudo isso sua popularidade crescia: as crianças o rodeavam. Espanha. Mas foi com alegria que Zé Fernandes recebeu ainda para o almoço o amigo Jacinto. escondido atrás das paredes. e o solar de Jacinto. o que não interessou a ninguém. com a história do peixe do Grão-Duque. No caminho. Silvério se espantava com tudo e corria até um boato de que João Torrado. não começou muito bem. Jacinto espantou-se com a aparência do menino. mas não o conseguiu deter.. Jacinto observou calado. Silvério respondeu que havia um boticário em Guiães e um médico a não longe distância. Todos os domingos ele assistia à missa na capelinha nova e presenteava o povo com vinho e doces. mas temia que todas as moças de Guiães se parecessem com legumes: boas para a cozinha e muito sadias mas. não podia sair de casa. Jacinto foi descansar. Logo começaram a chegar os convidados[21]. Então apareceu um menino magro e amarelo. Sua prima Joaninha logo cedo mandou avisar que não podia ir para a festa porque seu pai. O Príncipe espantou-se mais ainda: havia fome em Tormes?! Silvério e Zé Fernandes retrucaram que era óbvio que havia fome! Jacinto. com naturalidade. Preparava sua festa de aniversário. Tia Vicência desculpou-se por não haver peixes à mesa. em Tormes. com uma caldeirinha de prata lavrada.. Como Jacinto conversasse . que era apenas fome. Zé Fernandes cumprimentou o amigo pelas decisões e o elogiou. o que só provocou enorme desconforto à mesa. principalmente às moças. adoentado. uma creche . e tomou o rumo de volta para casa. que mantiveram-se calados e reservados. Era um dos filhos da mulher doente. mas que o povo era muito pobre. Enquanto isto. o que imediatamente impressionou e assustou a todos. ordenou a um espantado Silvério que providenciasse médico. Zé Fernandes antecipou para o amigo os defeitos e virtudes que encontraria nas mulheres que estariam na festa.redondezas. Silvério esclareceu. um velho misterioso que vagava pela serra. O Príncipe felicitou o amigo e presenteou-o com finos objetos que retirara dos caixotes que finalmente haviam chegado de Tormes. Ao final da tarde. Zé Fernandes arrastou Jacinto por toda a propriedade e pelos cômodos da casa. CAPÍTULO 11 Zé Fernandes passou a dividir seu tempo entre a casa de sua tia Vicência. homens e mulheres. com determinação. porque era difícil encontrá-los na serra.

visitara as suas outras propriedades em Portugal e reformara-as todas. o tédio. Zé Fernandes desistiu de animar o jantar e deixou à vontade os convidados.. corada e risonha. João pediu a mão de Jacinto. lamentou o fracasso da festa. nenhuma comida decente nos restaurantes. nenhuma notícia nova. Dom Teotônio. Jacinto brindou espantado. iam a trote lento e pararam em uma taberna da estrada para beber um cálice de vinho. o Príncipe apenas aproveitou alguns móveis." A partir desse momento. Era uma tarde de setembro. Jacinto e Joaninha casaram-se em maio do ano seguinte[24]. "ao ausente". o tio Adrião. encontrou o Grão-Duque. Jacinto enfim tomara posse do principado da grã-ventura. Zé Fernandes as deu e o Grão-Duque lamentou o fim da vida parisiense do Príncipe. à porta da casa. Como o tempo começava a ameaçar chuva de um momento para o outro. que antes de jantar perguntara a Jacinto se ele visitava muito Viena. De tudo o que chegou de Paris. organiza mesas de cartas para os senhores. CAPÍTULO 15 Cinco anos depois.. CAPÍTULO 14 Na tarde do outro dia. bebendo o café e conversando com o Doutor Alípio. as engrenagens antigas não funcionavam. Zé Fernandes retira Jacinto da roda de homens e o leva para a das mulheres. Pelo caminho. Pouco tempo depois Jacinto se levantou e propôs brindarem ao amigo e sua tia. todo o ambiente de camaradagem já não existia . Chegaram à sede da Flor da Malva e procuraram Joaninha pelo jardim. No 202. Ao se levantarem da mesa. acreditava que Jacinto herdara do pai a devoção pelo rei e viera em missão política para Tormes. preparar a ressurrei ção de Dom Miguel[22]! Por isto todos os presentes evitavam um contacto direto com Jacinto: imaginavam-no um antiliberal conspirando a serviço do príncipe exilado! Irritado com a história. Nos Campos Elísios. Ao mesmo tempo. pelo pomar e pela horta da bela quinta. Zé Fernandes indagou-lhe sobre a volta de Dom Sebastião. mas ela mesma sempre o convencia a permanecerem em Tormes. mas Jacinto disse ter adorado as moças e que. propôs-lhe um brinde em particular. e alguns carros movidos a um óleo fedorento de petróleo atravancavam o caminho. o velho respondeu enigmaticamente e se despediu. Zé Fernandes e Jacinto foram à Flor da Malva visitar Joaninha e seu pai adoentado. Instalou alguns telefones na região de Tormes mas o progresso parou por aí. uma voz bradou: ʹ Bendito seja o pai dos pobres! Era o João Torrado. Jacinto e Joaninha têm já um filho e uma filha. boas mulheres e boa diversão. muitas bicicletas. Como não a encontrassem. foram para a casa. a moda do momento. os convidados. faria ali bons amigos [23]. resolveram se retirar para evitar problemas no caminho de volta para casa. desconsolado. Mas elogi ou uma peça e uma cantora ousadas.animadamente com a moça ao seu lado. Zé Fernandes compreendeu: Dom Teotônio era monarquista ferrenho. Na sala. só havia a busca animalesca pelo lucro e pelo gozo. o estranho velho. Ou. sem nada entender. Jacinto tornara -se um responsável e disciplinado proprietário de terras. que lhe pediu notícias de Jacinto. Zé Fernandes retribuiu a gentileza. que lhe contou estar Paris e os antigos freqüentadores do 202 como sempre estiveram: "-Todo esse mundo circula. tudo estava mudado: os móveis e livros cobertos por lonas eram tristonhos e solitários. tapetes e cortinas. extraviado na viagem. Mal saíam e já começava a chuva. "muito despidas". profeta da serra. encontrou se com o Duque de Marizac. Na viagem. A caminho do 202. Encontraram Joaninha de surpresa. Certo dia. desorganizadamente. assim que se desfizesse o engano do seu miguelismo. todo enverdecido pela chuva da noite anterior. o cansaço e a irritação começaram a dominar Zé Fernandes: em Paris eram sempre as mesmas pessoas correndo sem rumo pelas ruas e as mesmas fotos de mulheres nuas estampadas em todas as propagandas de jornais. apertou-a longamente e elogiou-o. quem resolveu voltar a Paris foi Zé Fernandes. Também falou mal de Paris: a falta de boa comida. Zé Fernandes. nos dizeres de Grilo: ʹ Sua Excelência brotou[25]! CAPÍTULO 16 Jacinto sempre falava em levar Joaninha para conhecer Paris e o 202. Quando Zé Fernandes apresentou Jacinto ao taberneiro. Em Paris.

. Madame Verghane. o autor do romance. Zé Fernandes sentia-se como se estivesse no caminho do Castelo da Grã-Ventura!. Foi recebido na estação por Jacinto. principalmente por Apolo (deus d a beleza. no Teatro das Variedades. Zé Fernandes. que o protegia. é amado pela bela e culta Paris. na felicidade e na beleza da paisagem da serra que subiam.[26] FOCO NARR ATIVO A Cidade e as Serras é narrado em primeira pessoa. é observar que tudo o que acontece e é contado da história foiselecionado pela memória do eunarrador (Zé Fernandes) a partir da sua memória dos fatos e da sua subjetividade. Zéfiro. o personagem principal de A Cidade e as Serras.mais. Apolo. No Bosque de Bolonha.) apenas com a roupa do corpo e sem conhecimentos. o narrador da história. neste caso. sem fim e sem sentido prático. encontrou prostitutas.. É claro que não podemos confundir Zé Fernandes. Até em Motmartre a multidão de mulheres e homens movidos pelo desejo haviam fincado bandeiras. assistiu a uma peça onde só o que importava era a nudez.. Zé Fernandes pergunta a um velho ao seu lado o porquê da confusão. Em um anfiteatro. Jacinto de Tormes é uma representação da elite nobre de Portugal que. com Eça de Queirós. O importante. como o fazia antigamente Jacinto. de prazer e novidades. resolveu voltar para Tormes. Assim também Jacinto de Tormes. que conta o que vê e pensa sobre o que ficou sabendo de tudo o que aconteceu. da música e da poesia). algo que possa permanecer no seu espírito. Joaninha e as crianças: Teresa e Jacintinho. fez com que ele desviasse e acertasse a cabeça do jovem. matando-o. seu povo e sua cultura. a "bandeira do Castelo". Zé Fernandes não toma a atitude de narrador onisciente. E. Depois disso. como explicou a Zé Fernandes. Jacinto tem tudo para ser feliz mas não é: falta -lhe algo em que se fixe seu pensamento.. O narrador. Madame de Trèves. mas esta. muito saudável e inteligente (por isto chamado de Príncipe da Grã-Ventura ou Príncipe. apitos. No café. gritos e patadas dos alunos. um professor falava das cidades antigas e era interrompido seguidamente por urros. simplesmente). Indignado. Ele é um "narrador-testemunha". quase lhe tira a vida. era o nome de um rapaz de rara beleza. as mesmas figuras imutáveis: o romancista feminista. Apesar de narrar a história no passado. O português atirou-se sobre o rapaz e jogou-o ao chão com um soco. que iludem e desumanizam seus habitantes. Apolo lançou o disco e o deus dos ventos. Zé Fernandes pediu silêncio. é português apenas por direito de nobreza e porque é de lá que vem a enxurrada de dinheiro que lhe permite saciar sua busca. na mitologia grega. as paisagens e os acontecimentos são apresentados com base nas opiniões e sentimentos deste sujeito que conta. Um sortudo que nasceu em berço de ouro. que tumultuavam a aula. para renascer mais belo e forte. PERSONAGENS JACINTO DE TOMES Jacinto. A Paris que ele julga ideal não pode lhe fornecer isto: lá nada permanece. Curioso. amado por muitos deuses. Zé Fernandes voltou para o hotel bocejando. Ou melhor: é preciso que o Jacinto de Paris realmente morra e retorne à terra (como as flores. com ciúmes da relação entre Jacinto e Apolo. mas foi respondido com uma brincadeira de um aluno. resolveu visitar o Bairro Latino e se lembrar dos seus tempos de universidade. À noite. tudo é moda. representante da crença do século XIX no progresso e no conhecimento como meios para o homem atingir a felicidade plena. Mas Eça de Queirós ʹ o criador ʹ se utiliza da sua criação ʹ Zé Fernandes ʹ para defender a tese que está por trás das transformações por que passa Jacinto: a vida no campo é superior à vida nas grandes cidades. de fato. Certo dia em que os deuses se divertiam praticando esportes. que tudo sabe sobre tudo o que acontece. o diretor do Boulevard. Então os personagens. é personagem da história. Por fim. sem que ele perceba. Ele responde que agora era sempre assim em todos os cursos: os alunos não se interessavam pelas aulas. imortalizou-o na forma de uma flor que leva o seu nome. Jacinto sequer nasceu em Portugal. como homenagem a Jacinto. Este levava consigo uma bandeira branca. uma espécie de lírio. tudo é . perdeu definitivamente os laços ancestrais e patrióticos com sua terra. com a chegada do liberalismo ao país.

para finalmente chegar a ser o homem português moderno. desenterre os caixões e ossos de seus antepassados. o Duque de Marizac. enfim uma sociedade que vive de aparências e que ao correr desesperadamente atrás de prazer e novidades esquece mesmo de viver e cai na mesmice: "-Em Paris. Neles. Por outro lado. o Melchior. no final da narrativa. progressivamente.. Em Portugal ele pode fixar suas raízes: lá estão sua terra e seu povo que há séculos não mudam. Talvez por isso não seja exagero dizer que os dois. o narrador. o banqueiro judeu Davi Efraim. Ao longo da narrativa. . Assim. acaba por encontrar-se com a realidade. que é a caricatura. em Paris. o Grão-Duque Casimiro. a superficialidade das modas da capital. Ele é o personagem mais bem construído do romance. Eça de Queirós exercita uma das principais características do seu estilo. a Madame Verghane.) Na feira da Roqueirinha quem sabe com quantos reis antigos se topa.fingimento e ilusão. não deixa de se irritar com um ou outro pequeno problema em sua vida e chega mesmo a se irritar até com seu príncipe Jacinto. vive à sombra de Jacinto. não deixa de observá-las sempre com ironia ou cinismo. o psicólogo feminista. nas finas festas de Paris. na vida do Príncipe da Grã -Ventura. Zé Fernandes é o Sancho Pança realista e prático que cuida do seu Príncipe e nos diverte com suas histórias. Jacinto é o Dom Quixote que com suas teorias sobre civilização ou com seus sonhos absurdos de reformas mirabolantes. a sensualidade puramente carnal. a degradação da arte.. formam uma dupla no estilo de Dom Quixote e Sanch o Pança[27]. Jacinto passa do homem parisiense inteligente (mas superficial e inútil) ao homem parisiense deslumbrado com a natureza e a vida no campo. Zé Fernandes possui uma personalidade muito mais estável e bem construída: alegre. apesar de homem equilibrado. econômica e artística de Paris. Os demais personagens têm importância na narrativa apenas para sustentar o eixo central. sempre impressionado com as pessoas ultracivilizadas que passam pelo 202. mas não vê as almas que estão dentro. tudo continua". comporta-se maravilhosamente. a Madame de Oriol. em Tormes. com elegância e discrição. É necessário que o destino estremeça a terra de suas raízes. um pouquinho rústico nos modos mas muito amigável e compreensivo. Jacinto e Zé Fernandes. encontre também o seu repouso e o seu destino. o Silvério. Enquanto Jacinto passa por profundas e abruptas transformações (que exigem de Eça de Queirós uma descrição nem sempre convincente dos processos dessas transformações). cativa o leitor com sua malícia e algumas vezes. está a comida que é sua seiva. Mas o narrador não pode ser considerado personagem simplesmente coadjuvante: ele é a única constância.. para que ele se livre desta ilusão que é como a morte e. no acolhimento da natureza. (. o exagero de determinados traços da personalidade para tornar bastante característico aquilo que o personagem encarna ou representa. Além disso. o João Torrado. conta o Duque de Marizac a Zé Fernandes. quando se anda aos encontrões entre os vaqueiros. mas consegue estragar o próprio aniversário em Guiães. o jovem Todelle e outros vão representar a afetação das elites política. que é a transformação de Jacinto. dotado da quantidade de cultura e conhecimento necessários para olhar o mundo com senso prático. Seu pe nsamento pode descansar na paisagem das serras e dos céus infinitos e seu corpo. a tia Vicência. a Condessa e o Conde de Trèves. a simpatia e a sabedoria popular da ancestral cultura portuguesa: " ʹ A gente vê os corpos. o Pimentinha e toda a gente de Tormes representam a simplicidade.. a Joaninha. o diretor do Boulevard. desde o início. a mesquinhez e falsidade na busca pelo poder e pelo dinheiro.. ativo e interessado por sua terra e seu povo. JOSÉ FERNANDES José Fernandes. ao voltar a Portugal para cumprir a formalidade de dar descanso aos restos mortais de seus avós.. com sua graça de desajustado: admir a a fineza e a sensualidade das mulheres que freqüentam o 202 mas acaba perdendo o juízo e o dinheiro com uma Madame magrela que lhe abandona para fugir com outra mulher. nos primeiros dias. o poeta Dornan." ʹ é a sentença de João Torrado. José Fernandes de Guiães será sempre o Zé Fernandes: um bom português.

Portugal. O quinto tempo corresponde à maior parte do capítulo 8 (a complicada viagem e a chegada a Tormes) e aos capítulos de 9 a 14. visando dar ao homem o máximo de conforto. O 202. Apenas na narração das sete semanas em que esteve com Madame Colombe. Zé Fernandes volta a Paris e assiste à decadência física e ao progressivo desânimo e entediamento de seu amigo Jacinto. Dos capítulos 1 a 7. Zé Fernandes resume a história. que está concentrado em Paris. e uvas que vindimam. Ao invés da monotonia do calendário de Paris. as cenas retratam agora o progressivo encantamento e sedução de Jacinto pela vida rural.A fazer a ligação entre os personagens secundários de Paris e Tormes. o nº 202. Dom Galião parte para Paris.Por volta de 1875. como é afetuosamente chamado por Zé Fernandes. Assim. mas progressivamente estabelece-se a superioridade de Tormes. IV. A 10 de janeiro de 1854. a casa de Jacinto. entre roseiras que rebentam.No final de 1853. ESPAÇO O espaço é um elemento essencial na construção de A Cidade e as Serras. avô de Jacinto. entusiasma -se com a vida no campo e casa-se com Joaninha. Podemos tomar este "E agora" como indicador do presente da narrativa? Não. II. o passar lento dos dias e das modas para o entediado Jacinto. A primeira frase do capítulo 15 é: "E agora. TEMPO A narrativa segue uma cronologia linear ʹ isto é. Em 1880. à Avenida dos Campos Elísios. Também nesse bloco a passagem do tempo é narrada com detalhes. Jacinto e Zé Fernandes se conhecem na universidade e Jacinto formula a sua idéia do mundo: "O homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado". Jacinto e Joaninha já têm dois filhos. o seu palacete. O narrador Zé Fernandes seleciona os episódios que. mas já não tão marcada por datas. cinco anos depois. ao longo do tempo que durou a história. onde se reunia a fina flor da elite parisiense para o seu passeio de fim de tarde. O sexto tempo corresponde aos capítulos 15 e 16. Zé Fernandes faz uma rápida visita a Paris e retorna definitivamente para Portugal. Zé Fernandes é chamado a Portugal por seu tio para cuidar das suas propriedades. Montmartre. nasce o Príncipe da Grã Ventura. o brilho e o luxo da cidade nos são apresentados através de muitos dos seus pontos de referência: o boulevard sempre superpovoado por carros e pelos 2 milhões de habitantes que faziam funcionar Paris. III. Ambos os espaços são apresentados como magníficos. Aqui a ação é bastante datada: Zé Fernandes constantemente indica as estações e os meses do ano.De fevereiro de 1887 a abril de 1888. da tradição sobre o progresso desenfreado. está o Grilo. .Entre as décadas de 1820-1830: Dom Galião. V. julga importante narrar com mais ou menos detalhes. no início do livro. O quarto tempo corresponde aos capítulos de 2 a 7 e início do oitavo. o Bosque de Bolonha. podemos esquematizar o tempo da seguinte maneira: I. E dentro de Paris. É através do contraste entre a grande cidade de Paris (que representa a civilização e o progresso) e as serras de Tormes (que representam a tradição e a estabilidade) que se const rói a tese da superioridade da vida rural sobre a urbana. acumulado ao longo de séculos pelo homem. começa no passado e vem avançando até o presente ʹ mas sem continuidade.Abril de 1888 a maio de 1889: Jacinto chega em Tormes. Com a expulsão de Dom Miguel de Portugal (1834). é socorrido pelo infante Dom Miguel nas ruas de Lisboa e se torna seu súdito fiel. como um resumo do progresso e agitação da cidade. VI. porque Zé Fernandes vai contar ainda da sua viagem a Paris e do seu regresso definitivo a Tormes. O bom e sábio criado a princípio se espanta e sofre com a pobreza e a falta de luxo do casarão de Tormes. morre o pai de Jacinto.Em 1894. Jacinto. estava. mas em pouco tempo fica familiarizado com o lugar e o povo e se acomoda. Grilo que Zé Fernandes desde o início aponta como o único verdadeiro amigo de Jacinto além dele mesmo. Os três primeiros tempos esquematizados acima são apenas rápidos resumos para introdução da história e correspondem ao capítulo 1 do livro. de onde se avistava t oda a capital. é um monumento de arquitetura do progresso: tudo nele funciona graças às engrenagens da últimas tecnologias. louva constantemente todo o progresso. já cinco anos passaram sobre Tormes e a serra".

o pó-de-arroz. há sempre uma ironia do narrador. mas vista à distância de Montmartre por Zé Fernandes não passa de uma mancha cinzenta. o elevador que emperra. A condenação final e sem recursos de Paris virá no último capítulo. dificilmente um estudante de nossos dias leria A Cidade e as Serras sem recorrer constantemente ao dicionário. que é o teu gênio. a ironia de Zé Fernandes ante o deslumbramento de Jacinto: ʹ Meu filho. Além disso. que liberta e fortalece o corpo e a alma para a vida plena. Progressivamente. as inúmeras máquinas atulhadas pelo apartamento só servem para atravancar o caminho. mas mesmo isso a própria Paris recusa: os estudantes da Sorbonne não querem ouvir o mestre que dá uma palestra e Zé Fernandes os agride. responsável por uma revolução na maneira de escrever em português. linguagem Em qualquer manual de literatura que procurarmos informações sobre Eça de Queirós. olha que eu não passo de um pequeno proprietário. de fato. a luz elétrica que vai embora. transforma-se em um museu de inutilidades. de ilusões que não conseguiram ir além do seu tempo. que os homens se entregassem à miragem que é a grande cidade: a miragem do dinheiro fácil e dos desejos realizados. elegante e caro. encontraremos a afirmação de que ele é um dos maiores estilistas da língua portuguesa. reconhecer a superioridade das serras. Também. Para entender esta "modernidade" é preciso considerar que dizemos isso de Eça quando o comparamos aos escritores que vieram antes dele ou aos . era necessário que milhares trabalhassem sem cessar. para só então desfrutar delas com conforto. ao subir a serra não consegue deixar de exclamar: "-Que beleza!" E mesmo sabendo que dormiria no chão coberto e comeria em pratos velhos. A maneira como nesse último capítulo se acentua a busca obsessiva pelo sexo fácil em todos os cantos da cidade é bem um indício de como por trás de todas as "armaduras" da civilização (as roupas. pudera: as serras são descritas pelo narrador como a própria sala de espera do Paraíso. mas se a terr a é boa.O problema é que por trás de cada elogio de Jacinto ou espanto de Zé Fernandes ante a todo esse progresso. sempre uma crítica. para tarefas que dificilmente os personagens teriam que executar ou para informar sobre assuntos que não interessam realmente. esta paisagem das serras conquistará definitivamente Jacinto. abandonado. quando Zé Fernandes visita pela última vez a cidade e não consegue ver nela nada de bom. O 202. mais uma vez. O Príncipe precisará merecer o lar dos seus avós. Somente os lavradores é que sabem o preço desta idealização: as tempestades de inverno e as crianças que passam fome. sem sabedoria e sem moral. E mesmo chegando apenas com a roupa do corpo na estação de Tormes. Durante a conturbada via gem Paris-Tormes. os carros. Dizer que Eça utiliza uma linguagem "moderna" pode parecer estranho para um colegial que lê seus livros hoje. passando pela Espanha. e este não gasta mais que o esforço de sua lábia para convencer Jacinto de que para que poucos como o Príncipe e seus amigos gozassem das vantagens de Paris. lá o receberei na serra pelo correio. e por trás desta ironia. É esta a sentença do narrador para Paris: ʹ Pois adeusinho. Resta apenas. mas com rapidez. outra vez não me pilhas! O que tens de bom. aliviado do peso da civilização. Paris é linda. assim como Jacinto. não há defeitos na natureza. Mas logo ao entrar em Portugal não pode deixar de reconhecer a beleza do país. mas nunca as coisas estão funcionando perfeitamente bem: é um cano de água que estoura. não consegue deixar de suspirar. ao contemplar o pôr -do-sol do casarão dos seus antepassados. O casarão está caindo aos pedaços. de enganos que não permaneceram. renovando e modernizando a nossa língua. a não ser a sabedoria acumulada nos livros e em alguns homens. Adeusinho! O capítulo 8 fará a transição entre esta Paris das ilusões e a Tormes das lindas serras e riachos. Jacinto se arrepende e se aborrece de ter deixado a civilização. os prédios) o homem parece estar cada vez mais parecido com um animal. que muitos sofressem frio e fome nas ruas. Para mim não se trata de saber se a terra é linda. Mas Jacinto não teme as chuvas e a miséria é prontamente amparada pelo novo Senhor de Tormes. até nunca mais! Na lama do teu vício e na poeira da tua vaida de. O 202 é uma maravilha.

apoiado a um bordão. podemos apontar o uso de comparações arrojadas: "Dois poços fundos não luzem mais negra e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros".. Por exemplo: "Toda a sua pessoa. a falta de vida social e a má educação para as mulheres (O Primo Basílio) . podemos apontar outras característica s do estilo de Eça de Queirós presentes em A Cidade e as Serras. o "profeta da serra").. como um ramo tenro sob o bulício dos pássaros a chalrar. "(. também c om a finalidade de ser mais direto e expressivo ao comunicar uma idéia. "(..). podemos encontrar passagens em que a ironia de Eça se destaca. colhido de espanto e terror como diante de uma avantesma" (sobre Melchior. Mas apenas eu lhe revelei. a invasão dos livros no 202!". reunidos posteriormente em Prosas Bárbaras. a objetos ou substantivos abstratos.. Por exemplo: "(. principalmente nas cenas de Tormes. Além do perfeito domínio da linguagem para dar mais expressividade e dinâmica ao texto. Só o sorriso.. Outra característica é a atribuição... se virou logo para o meu complicado Príncipe". mais adiante.. vibrava.. de desejo e de pasmo". desde as plumazinhas que frisavam no chapéu até a ponta reluzente das botinas de verniz. Um desses procedimentos é o uso de expressões estranhas ou incomuns com a finalidade de exprimir ou explicar melhor um pensamento.. o escritor consegue revelar imediatamente o retrato final que quer dar dele.) vomitei Madame Colombe".. e o romance (escrito em parceria com seu amigo Ramalho Ortigão) O Mistério da Estrada de Sintra . É a fase em que Eça coloca em prática uma espécie de projeto de análise da situação da sociedade portuguesa de seu tempo. Além disso.. a que faltavam dentes.. como uma agulha para o norte." "Claramente percebia eu que o meu Jacinto atravessava uma densa névoa de tédio"..seus contemporâneos. CONTEXTO DA OBR A Os críticos costumam dividir a obra de Eça de Queirós em três fases: ʹ a primeira fase compreende os seus principais artigos e ensaios jornalíst icos. Assim.) com a melada flor dos seus vinte anos. Por exemplo: "As letras. todo o meu espírito." "(. "(.. Em quase todas as páginas do livro. toda a boca se lhe escancarou num riso hospitaleiro. por trás do véu espesso. a tabuada... naquele cavalheiro de bigodes louros que descia da égua esfregando os quadris. de longos cabelos brancos.. Apenas me reconheceu. atacará o clero atrasado e hipócrita ( O Crime do Padre Amaro). com uma caixa de lata a tiracolo.. "Oh. Era o tio João Torrado" (sobre João Torrado. conservava um brilho imóvel" (sobr e Madame de Oriol. barbas brancas que lhe cobriam a face cor de tijolo. É a fase do apogeu artístico do escritor: com os livros desta fase ele se consagrou como o m aior romancista da história literária de Portugal. apesar de já aparecer neles a defesa do Realismo como ideal artístico. de capacidades ou características humanas. "E um estranho velho. os meios literários corruptos ( A Capital). sem amuos". juntamente com o humor. devemos registrar o perfeito domínio do autor na naturalidade dos diálogos Por último. principalmente nas cenas de Paris. não podemos deixar de registrar o descritivismo que domina no livro. "(. o casei ro..)". "Então.)e o sol mesmo parecia rep ousar (. que faiscavam. o latim entraram por ele tão facilmente como o sol por uma vidraça". curado. se agitava. ʹ a segunda fase vai de 1875 até 1888. Mas com que recursos Eça fez esta revolução no português escrito? Podemos responder a esta pergunta listando alguns procedimentos que ele utilizou constantemente em sua obra e que estão presentes em A Cidade e as Serras. e cravou em Jacinto dois olhinhos de um brilho negro.). o senhor de Tormes ʹ o bom Melchior recuou. "Era o Melchior. a "flor de civilização"). quando a beleza da região das serras é muitas vezes explorada em descrições cuja plasticidade é admirável [28]. a alta burguesia e as elites rurais ( Os Maias).) e com inefável gosto afundara a minha razão na densidade da sua estupidez (. " A eletricidade permaneceu fiel. Você poderá ler algumas destas passagens descritivas na coletânea de textos. Trata-se de escritos ainda cheios de influências românticas. brotou nele outro sentimento.. o caseiro de Tormes). . como o uso da caricatura: através do exagero de determinados traços de alguns personagens.)".) e levantando para o ar os cinco dedos em curva como pétalas de uma tulipa (. assomou no vão da porta..) desesperado com tantos desastres humilhadores (. Por fim.

isto é: um romance que pretende defender um determinado ponto de vista sobre um assunto. ʹ apesar de preservar no livro seu talento de escritor. esse romance é. É um amor extremamente caro e quase inacessível". se considerarmos que todo o romance caminha no sentido de valorizar de maneira quase escandalosa as serras quando comparadas à cidade. O que significa ainda: para amar as serras é preciso ter sido antes Jacinto. Sem dúvida. EXERCICIOS 1. Mas é preciso fazer uma ressalva: por que Jacint o se apaixona tão rapidamente pelas serras? Será porque elas merecem este amor? Porque elas são superiores a Paris? Talvez não. na sua propriedade rural em Tormes. "Jacinto e eu. Pertencem a esta fase os romances A Ilustre Casa de Ramires. A solução para valorizar o livro. O que devemos levar em consideração sobre a história que foi narrada. ʹ o autor abusa das descrições para tapar buracos que a falta de tramas e personagens bem construídos cria. ambos nos encontramos e acamaradamos em Paris. na verdade. segundo Álvaro Lins. o autor passa longe da capacidade de escrever um romance de tese em que a argumentação seja construída a partir da própria força do livro. considerou A Cidade e as Serras como "uma vergonha" de romance. em um livro sobre Eça de Queirós. INTERPRETAÇÃO Um dos maiores críticos literários brasileiros. É possível dizer que Eça de Queirós consegue provar sua tese? Sim. o desenvolvimento de um conto que Eça de Queirós escrevera anteriormente e que se chamava "A Civilização" [29]. O problema é queA Cidade e as Serras é um romance: tem uma história que fala de personagens que em determinados lugares. de progresso e de civilização para depois se cansar de tudo isso. sabendo qual é esse foco narrativo? . A solução então (e nada mais apropriado para um livro de um escritor considerado "realista") é considerar o romance como um romance de tese. envolvem-se em mais de uma situação diferentes. Álvaro Lins. se comparado com os livros da fase anterior do escritor. Eça assume um partido muito subjetivo das serras e esquece-se de construir uma história que realmente justifique a superioridade do campo sobre as cidades. há muitos defeitos em A Cidade e as Serras se o compararmos a outros livros de Eça: ʹ há apenas dois personagens que são trabalhados (Jacinto e Zé Fernandes).ʹ a terceira fase é menos engajada. Correspondência de Fradique Mendes e A Cidade e as Serras. Isto se faz narrando a progressiva transformação de um descendente da nobreza portuguesa ʹ nascido e criado no luxo em Paris. O que significa: o amor das serras vem do desencanto da cidade. indique qual o foco narrativo de A Cidade e as Serras. Pôde realizar a sua fórmula perfeita de progresso. Eça se desliga dos problemas portugueses e da militância realista e se volta para o passado de Portugal. José Fernandes. com o passar do tempo. A Cidade e as Serras foi publicado pela primeira vez em 1901. à custa das rendas proporcionadas por suas terras em Portugal ʹ de entediado e decadente homem aprisionado às ilusões e falsos prazeres da cidade grande em homem interessado e saudável. nas escolas do Bairro Latino (.)" Com base no trecho acima.. O ponto de vista defendido em A Cidade e as Serras é o de que a vida no campo é superior à vida nas grandes cidades. Em A Cidade e as Serras. seria considerá-lo não um romance mas um ensaio. É o mesmo Álvaro Lins quem responde: "O amor de Jacinto às serras forma -se como um derivativo e uma conseqüência. É um tédio de uma situação que o leva a outra. não vem delas mesmas. um estudo sobre a vida no campo comparada à vida nas cidades. um ano depois da morte do seu autor. dedicado às suas terras e ao seu povo.. Portugal. o que constitui uma necessidade difícil: exige a posse de uma fortuna fora do comum e de uma desembestada fantasia. Mas o tédio de Jacinto origina-se de uma condição excepcional e privilegiada: Jacinto pode concentrar no 202 o máximo de conforto. e quando terminou não tinha mais nada que fazer. e mesmo estes são compostos a partir de modelos existentes em outros romances do escritor.

No caso. em um momento de afinação de espírito. 3. acompanhei a sua cauda sussurante e cor de açafrão. A "equação metafísica" acima foi criada por um colega de faculdade para condensar o pensamento que foi a base da vida de Jacinto até a sua descoberta de Tormes. que o narrador é um narrador-testemunha. como poderíamos relacionar a mudança nestes dois espaços da narrativa com as transformações por que passou Jacinto ao longo de toda a história? 6. Quais características do estilo de Eça de Queirós podemos encontrar no texto acima? Tente justificar sua resposta com passage ns ou argumentos identificáveis no próprio texto. maternalmente. gabarito 1. Entendendo civilização como a compreensão e o acesso à soma de todo o conhecimento acumulado ao longo da história humana e a sua aplicação na vida cotidiana para melhor compreensão do universo e desfrute do progresso. no burro de Sancho" dito por Zé Fernandes e a maneira como os dois personagens são construídos na narrativa. os problemas que acontecem nele ao longo da história e a maneira como ele é descrito no final do livro e comparando com a maneira como o solar de Tormes é descrito na chegada de Jacinto às serras e como ele se transforma até o final da narrativa. no burro de Sancho. a cada passo. Explique por que A Cidade e as Serras pode ser considerado um romance de tese. O trecho indica que o livro é narrado em primeira pessoa. Eça exagera o . Zé Fernandes e Jacinto. o exagero ou destaque de alguma qualidade do personagem para fixar mais rapidamente e com precisão a sua personalidade. Explique em que consiste esse pensamento. Considerando este " E eu atrás. murmurava: ʹ Que beleza!" No trecho acima aparecem. a quem poderíamos comparar esta dupla? Por quê? 5. Veja a descrição que Zé Fernandes faz da Condessa de Trèves: Mesmo para mim (de quem ignorava o nome) arranjou junto do fonógrafo. A equação expressa a idéia de Jacinto de que "o homem só é superiormente feliz quando é superiormente civilizado". 3. na sua égua ruça. devemos levar em consideração que tudo o que está sendo narrado passa pela subjetividade do narrador: é ele quem escolhe os episódios que julga importante narrar e os analisa do seu ponto de vista. uma lisonjazinha redondinha e lustrosa. Analisando a maneira como o palacete de Jacinto em Paris (o 202) é descrito no início da narrativa.2. Sabendo isso. Uma das características que podemos encontrar no texto acima é o uso da caricatura. 2. murmurava: ʹ Que beleza! E eu atrás. Sôfrego de outro rebuçado. isto é. 4. "Jacinto adiante. e acerca de vozes de amigos que é doce colecionar. ela nutria uma vaidade. que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vai atirando o grão aos frangos famintos. esclareça qual é essa tese e qual a importância do descritivismo (uso constante de descrições) para a justificação dessa tese pelo autor.

como as de um . Os dois espaços espelham o estado de ânimo de Jacinto ao longo das transformações por que passa durante a história: à medida que vai ficando entediado e deprimido." [2] "Era de novo fevereiro. Outras características que podemos identificar são a ironia ("Sôfrego de outro rebuçado. 5. o 202 o acompanha na decadência e vai se desmanchando. sustentava uma bengala grossa com castão de cristal. Assim também Zé Fernandes se assemelha a Sancho Pança por sua fidelidade ao seu Príncipe da Grã-Ventura. está inabitável. desde as botas rebrilhantes até as abas recurvas do chapéu de onde fugiam anéis de um cabelo crespo. que só conseguirá descansar de sua busca de felicidade no final da história. e um fim de tarde arrepiado e cinzento. Nas mãos. um idealista. Zé do bigode corredios e sedosos. de cortiça e de olival. com cento e nove contos de renda em terras de semeadura. mas progressivamente vai se tornando uma residência simples mas muito confortável. O 202 é apresentado inicialmente como o mais bem equipado. o casarão também vai adquirindo uma bela aparência e uma alma de lugar habitado. os fios Oh. o nariz afilado. seu bom humor e seu jeito um tanto atrapalhado em algumas passagens da história. no final. No final. valorizando sempre os espaços e acontecimentos nas serras e desvalorizando estes nas cidades. o 2 02 também se torna apenas uma espécie de memória sem brilho daqueles tempos de Paris. As descrições são importantes para provar esta tese porque é através delas que o autor estabelece o contraste entre um espaço e outro. moderno e confortável das residências. [1] "O meu amigo Jacinto nasceu num palácio. o palacete é comparado pelo narrador. e que o nariz se lhe afilara mais entre duas rugas muito fundas. Porque. caindo aos pedaços. à semelhança de Dom Quixote. Poderíamos compará-los a Dom Quixote e Sancho Pança. onde Jacinto se estabelece.comportamento bajulador da Condessa para com todos os presentes (elogiou até Zé Fernandes. ressumava elegância e a familiaridade das coisas finas. Jacinto é um alienado do mundo real. Jacinto medrou com a segurança. de vinhedo. acompanhei a sua cauda sussurrante e cor de açafrão") e o humor ("lisonjazinha redondinha e lustrosa. levemente curvado. a rijeza. quando eu desci os Campos Elísios em demanda de 202. a sua residência. a valorização das tradições. 4. 6. relacionamentos humanos mais sinceros e duradouros). um homem que. que eu chupei como um rebuçado celeste"). cruzadas atrás das costas. E só quando ele parou ao portão do 202 reconheci ʹ ʹ Oh. onde a avó espalhava funcho e âmbar para afugentar a sorte ruim. que sequer conhecia) e comparaa a uma camponesa (casaleira) que seduz os frangos com grãos para melhor apanhá-los. calçadas de anta branca. Assim também o casarão de Tormes: Jacinto chega às serras apenas com a roupa do corpo. Já o solar de Tormes. em um estado de decadência física que se compara ao solar. em meio à naturalidade serrana. quando Jacinto chega às serras. Jacinto! Fernandes!" "Reparei então que o meu amigo emagrecera. A Cidade e as Serras pode ser considerado um romance de tese porque nele Eça de Queirós pretende provar uma idéia: que a vida no campo (nas serras) é superior à vida na cidade grande. Mas vários acidentes acontecem com os mecanismos responsáveis por seu funcionamento até a partida de Jacinto para Tormes. Adiante de mim caminhava. Zé Fernandes. mas à medida que ele se afeiçoa à terra e adquire gosto pela vida e energia e disposição cada vez maiores. a seiva rica de um pinheiro das dunas." "Desde o berço. quando todas as relações de Jacinto com Paris estão definitivamente cortadas e sepultadas. cada vez menos interessado na vida. a um "museu de antiguidades". porque esta não passa de uma ilusão artificial de felicidade enquanto que aquela proporciona realmente aos homens uma existência carregada de significados e vitalidade (o contato com a natureza.

. Depois . muito caro. Todo o prazer que se extraíra de criar. que ele remexia com um pau de canela!" [6] "No entanto o moço de loura penugem voltara à sua estranha mágoa. ele. Que belo fim de ceia. nem o amor. no seu moroso desalento. nas derradeiras semanas da minha infecção sentimental. o divino prazer de destruir!" [7] VOLTAIRE (1694-1778) ʹ famoso escritor e filósofo francês. que. [8] "Então.. Nem a ciência. seria aniquilar a civilização. à pressa. desde o Eclesiastes até Schopenhauer. começava por se encharcar com um imenso copo de água oxigenada. abafada em tapumes e andaimes. [5] "Espalhava pela mesa um olhar já farto. todos os líricos e todos os teóricos do pessimismo. de pedra muito nova. Significa alguma coisa como "Que chatice!". eu entrevira sempre descaído por cima de sofás. [11] SCHOPENHAUER (1788-1860) ʹ um dos mais importantes filósofos do século passado e de toda a história da filosofia. Toda sua filosofia é construída em volta da idéia do pessimismo. e é bem o grito de guerra do Jacinto entediado. suave em que meu todos os seu caro seus anéis báculo!. e um bispo ʹ Ele atirou Para um gesto com quê. toda branca. nem o dinhei ro. misturada de um conhaque raro. na sua imobilidade e na sua mudez. [12] The London Times é um prestigiado e famoso jornal inglês. que perdera a antiga serenidade de mármore bem polido. com um grão-duque no meio.. curado. o seduzia." . e. e seca. [14] "Foi então que o meu Príncipe começou a ler apaixonadamente. ou carbonatada. Nenhum prato. [13] Esta expressão "Uma maçada!" é usada o tempo todo por Jacinto no livro. é o autor de O Mundo como Vontade e Representação. todo o meu espírito. atirada da porta!. declarou que hoje a única emoção. podiam já dar um gosto intenso e real às nossas almas saciadas. de moscatel de Siracusa. Imagine uma bomba de dinamite. cocote é uma prostituta de luxo. ainda sem alma. toda cinzenta. senhor? faiscaram: ʹ Para uma bomba de dinamite. a contemplar Paris. E jacinto. Não possuirmos um general com a sua espada. todos os atos são em vão. por mais engenhoso. mais tênue e ralo que o fumear de um escombro mal apagado. como uma vasta e grossa camada de caliça e telha. picava aqui e além uma lasca de fiambre. [4] Grão-Duque é um título de nobreza dado a soberanos." [3] Fígaro é um grande e tradicional jornal francês. Só restava. Os anéis do seu cabelo lanígero rareavam sobre a testa. sem gosto. na planície cinzenta. como através do seu tumulto matinal fumava incontáveis cigarrettes que o ressequiam. murcho. só murmurava um seco ʹ 'é calor!'" [9] " Mas a basílica em cima não nos interessou. agora.. entre outras obras.. caminhou gulosamente para a borda do terraço. s ó lhe lançava um distraído ʹ 'que é isso?' Ele. como uma agulha para o norte. por um impulso bem jacíntico. ou vagueando através da biblioteca entre os seus trinta mil volumes. caído em fios pensativ os. Também notei que corcovava. autor de um humorismo irônico e céptico mas muito refinado. Temos aqui um esplêndido ramalhete de flores de civilização. estava esgotado." [10] O Eclesiastes é um livro da Bíblia cuja autoria é atribuída ao Rei Salomão e desenvolve a idéia de que no mundo tudo é vaidade. nem as artes. verdadeiramente fina.comediante cansado. um café de Moca. na minha pressa indigna. fervido à turca. num fim de século! E como eu o considerava assombrado. e reclamava impacientemente o café. se virou logo para o meu complicado Príncipe. So b o céu cinzento. uma febra de lagosta. horrendamente adocicado. com arrastados bocejos de inércia e de vacuidade. bebendo goles de Chateau-Iquem. ou gasosa. E. algum rolo de fumo. muito espesso. Não frisava agora o bigode. mandado cada mês por um feitor de Dedjah. Nestas leituras encontrava a reconfortante comprovação de que o seu mal não era mesquinhamente 'jacíntico' ʹ mas grandiosamente resultante de uma lei universal.. era todo o vestígio visível da sua vida magnífica. a cidade jazia. Eu. com a ponta incerta do garfo.

e por toda aquela justiça feita à pobreza da serra. por onde devia aparecer o meu Príncipe. saltando um cancelo. esta tua reconciliação com a natureza. Não sei." [19] Dom Sebastião foi rei de Portugal e morreu em uma batalha em 1578." [17] "Mas. Mas essas senhoras aí das casas dos arredores. e até de fervores humanitários. Agora. Eça adaptou os versos à situação do romance e o próprio narrador Zé Fernandes assim os traduziu: "Afortunado Jacinto!. tão deliciosamente ocupados. infelizmente para a inquietação do Silvério. languidamente caramba. ao saírmos da vereda para um caminho mais largo. de interesses novos de espirito. Apesar de ter jurado perante a constituição e o rei pelo direito de seu irmão mais velho (Dom Pedro I.. enfim. E nós seguimos." [15] "Ao fim desse inverno escuro e pessimista." [21] "Assim chegou setembro. [20] "E esta Tormes.. que estão nas Bucólicas. Jacinto. e de manhã cedo. Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupação grata ʹ maldizer a vida! E para que a pudesse maldizer em todas as suas formas. com uma ternura que não disfarcei. pelo azul alegre que reaparecia. Galião: ʹ Para Tormes? Oh. de um tão saboroso interesse. de uma alvura de açucena. a maior nação do mundo. Jacinto lançara raízes. sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pálido um bafo de primavera ainda tímido ʹ Jacinto assomou à porta do meu quarto. mas estou pensando que se devem parecer com legumes. com M grande. vigiando a estrada. sobrecarregou a sua vida própria de novo luxo. novamente. e. com passos que eram ligeiros. ʹ dias tão cheios. e o renunciamento às mentiras da civilização com a natureza é uma Ele linda concordava. como as árvores que ele tanto amava. pela hora do almoço que se retardara. rindo. as mais intelectuais. colherás sombra e frescor". dizem: "Fortunate senex. eu lentamente não quero mais estas a horríveis misérias na cigarreira: quinta. tirando ʹ Pois." [22] Dom Miguel era filho do rei Dom João VI. entre campos que são teus e águas que te são sagradas. nutritivas. e com ele o meu natalício. tão do chão. ʹ O pulo deixou Zé com que me desabar Fernandes. um golpe para se . Parou lentamente à beira dos colchões. me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Afonso. que era a 3 e num domingo. os versos de Virgílio. E depois o que o prendia à serra era o ter nela encontrado o que na cidade. aqui. com a ajuda de sua mãe. Carlota Joaquina. como numa festa ou numa glória. e preso ao chão. uma manhã que eu preguiçava na cama. as mais ricas. nos preparativos da vindima. ʹ Não perdeste hoje o teu dia. Toda essa semana a passara eu em Guiães. não encontrara nunca. e o antiquíssimo humo refluísse e o penetrasse todo." "Meteu a corta-mato. estendido na faltam cadeira de mulheres! vime: ʹ Com efeito. Jacinto ʹ disse eu. no ombro do meu amigo. há aqui falta de mulher. nesse domingo ilustre. Jacinto."Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido do seu tédio. com gravidade. apesar da sua sociabilidade. legumes. e amorosas raízes na sua rude serra. colhes enfim a sombra e a paz. e o andasse transformando num Jacinto rural. as mais puras. e até de curiosidades supranaturais. entre rios conhecidos e fontes sagradas. Jacinto parou. história. em 1828 tentou. Mas." [18] "Bruscamente. entre um socalco e um renque de vinha. revestido de flanelas leves. Era realmente como se o tivessem plantado de estaca naquele antiquíssimo chão. do Brasil) de assumir o trono. como o foi durante a época dos descobrimentos. hic inter flumina nota et fontis sacros frigus captabis opacum" que podemos traduzir por : "Afortunado velho. Sãs. quem assassinaste?" [16] Na verdade. que sempre penetrava nelas. sentei abalou o sobre vou rijo leito de mim esta partir pau preto declaração para do velho D. como se anunciasse o seu casamento ou a sua morte. batendo. formidável: Tormes. Seu corpo nunca foi encontrado e criou -se em torno de seu nome uma lenda: a de que voltaria para fazer de Portugal. que enfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. Silvério. e rijas. excelentes para a panela ʹ mas. de onde brotara a sua raça... quase vegetal.

[29] José Maria Eça de Queirós nasceu em Póvoa de Varzim. indo estabelecer-se em Viena. em Lisb oa. com um vestido claro um pouco aberto no pescoço. luminosos olhos negros. Morreu em 1900. que o Príncipe D. o esplendor branco de sua pele. transfere-se para a Inglaterra. Ambos são personagens do clássicoDom Quixote do escritor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616). Melo Rebelo chegou o seu bigode à minha orelha: ʹ Até corre. técnica artística em que a realidade é expressa a partir da sensibilidade imediata do artista. o que deu início à disputa pelo poder entre Dom Miguel e os liberais. apenas coberta com uma camisinha. e levantando para o ar os cinco dedos em curva como pétalas de uma tulipa: ʹ Sua Excelência brotou!" [26] "Então. é uma caricatura do homem cuja fé em um ideal. não é referência a Jacinto. é levada até o fim. bocejei. a esperança passou a ser a volta de seu filho. que fundia mais docemente. apareceu minha prima Joaninha. viu aquela com quem casou em maio. de saciedade. nessa tarde de setembro. pa rticipa das "Conferências do Cassino Lisbonense" (1872). que de repente se abriu. da célebre polêmica denominada Questão Coimbrã. e o louro ondeado dos seus belos cabelos. Jacinto está firme. Vai para Leiria exercer o cargo de Administrador e começa a escrever O Crime do Padre Amaro. agora realmente bem podemos dizer que o senhor D. como certo. Dom Miguel foi banido. Grilo." [25] "ʹ Pois. francamente. exilado de Portugal. . onde conheceu Antero de Quental e Teófilo Braga e participou. [30] "Príncipe". mesmo impossível ou ridículo. Os miguelistas tinham esperanças de que ele voltasse. na surpresa que alargava os seus largos. sem intervenção da racionalidade que seleciona o que reproduzir ou não da realidade. o "Príncipe da Grã -Ventura". à porta. na capelinha de azulejos.auto-proclamar imperador absoluto de Portugal. o "cavaleiro da triste figura". Inicia sua carreira literária com artigos para revistas e jornais. que marca o início das idéias realistas na cena cultural portuguesa." [27] Dom Quixote. É a fase do impressionismo. durante uma viagem de passeio pela Europa. quando o grande pé de roseira se cobria todo de rosas. os amigos imaginam que o Jacinto veio para Tormes trabalhar no miguelismo? Muito sério. gorda e cor-de-rosa. E foi assim que Jacinto. quando aparece mais acentuadamente esta sua capacidade de mestre para criar paisagens muito mais fiéis a um ideal de beleza que à realidade. Em 1874. e trazendo ao colo uma criancinha. Vencido. grupo de amigos que se reuniam para manter acesa a chama da amizade universitária e discutir os mais diversos assuntos. através de sorrisos estafados. com uma palestra sobre literatura realista. sem muito destaque. participa do Cenáculo (1868). lindamente risonha. como cercado já de gentes muito vistas. numa larga claridade. que era príncipe de fato. com uma estranha sensação de monotonia. [28] A Cidade e as Serras pertencem à terceira fase da produção literária de Eça de Queirós. no comportamento solitário. que também se chamava Dom Miguel. Sancho Pança é o escudeiro de Dom Quixote em suas aventuras por um mundo que não condiz com os seus inusitados sonhos de cavaleiro. na flor da Malva. com a sua morte. para Paris. [23] "ʹ Então. corada do passeio e do vivo ar. murmurando histórias muito sabidas. Faz uma viagem ao Oriente para assistir à inauguração do Canal de Suez (1869). nesta ocorrência e em outras deste capítulo. Miguel está com ele em Tormes!" [24] "Mas. Entra para a carreira diplomática em 1872 e vai para Havana. mas ao GrãoDuque. em 1888. e coisas ditas. O Grilo arredou os óculos para a testa. em 1845. onde morreu em 1866. Estudou Direito em Coimbra. De volta a Portugal. de grandes laços azuis. Cuba.

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