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História e Luta de Classes

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Estado e Poder
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REVISTA

Ano 5 - Edição Nº 7 Julho 2009 - R$ 15,00

Antônio de Pádua Bosi Carlos Mignon Demian Melo Diorge Alceno Konrad Dulce Portilho Maciel Edmundo Fernandes Dias Erika Batista Fernando Gaudereto Lamas Gilson Dantas Glaucia Ramos Konrad Hélio Rodrigues José Carlos Mendonça Luís Eduardo de Oliveira Michel Willian de Almeida Ramiro dos Reis Sonia Regina de Mendonça Waldir José Rampinelli

Estado e Poder

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História & Luta de Classes Nº 7 – Julho de 2009
SUMÁRIO APRESENTAÇÃO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 5 ARTIGOS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7 Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 7
Sonia Regina de Mendonça

Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria . . . . . . . . . . . . . . . . . . 13
Luís Eduardo de Oliveira; Fernando Gaudereto Lamas

Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora, o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 19
Diorge Alceno Konrad

“Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul . . . . . . . . . . . . . . . . . . 25
Glaucia Vieira Ramos Konrad

La lectura de Marx en clave clasista: el Si.tra.p. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins, 1973-1975 - una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 32
Carlos Mignon

Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 38
José Carlos Mendonça

O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45
Dulce Portilho Maciel

Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 Anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 52
Ramiro José dos Reis

1986 - A Repressão Fordista no ABC Paulista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 58
Michel Willian Zimermann de Almeida

Estado, Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 64
Gilson Dantas

O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 70
Erika Batista

Estado Democrático e Social de Direito, Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 75
Hélio de Souza Rodrigues Júnior

RESENHAS . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 82
Waldir José Rampinelli

1848: O Ano do Mouro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 84
Antônio de Pádua Bosi; Edmundo Fernandes Dias Demian Melo

A leitura genética dos Cadernos de Gramsci . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 87

NORMAS PARA OS AUTORES . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 89
Organizadores gerais deste número: Gilberto Calil (Unioeste); Demian Melo (UFF) e Lorene Figueiredo de Oliveira (UFJF) Comissão Editorial: Enrique Serra Padros (RS), Eurelino Coelho (BA), Francisco Dominguez (Inglaterra), Gilberto Calil (PR), Lorene Figueiredo (MG), Marcelo Badaró (RJ), Maria José Acedo del Olmo (SP), Mario Maestri (RS), Virgínia Fontes (RJ) Conselho Editorial: Adalberto Paranhos (UFU), Adelmir Fiabani (UNT), Afonso Alencastro (UFSJ), Alessandra Gasparotto (CAVG/UFPEL); Antonio de Pádua Bosi (UNIOESTE), Armando Boito (UNICAMP), Beatriz Loner (UFPEL), Carla Luciana Silva (UNIOESTE), Carlos Zacarias de Sena Júnior (UNEB), Cláudia Trindade (FIOCRUZ), Claudira Cardoso (UFRGS), Danilo Martuscelli (UNICAMP), Demian Melo (UFF), Diorge Konrad (UFSM), Dulce Portilho (UEG), Edílson José Gracioli (UFU), Enrique Serra Padrós (UFRGS), Érika Arantes (UFF), Eurelino Coelho (UEFS), Fabiano Faria (RJ). Felipe Demier (UFF), Francisco Dominguez (Middlesex Universitty), Gabriela Rodrigues (RS), Gelson Rosentino (UERJ), Gilberto Calil (UNIOESTE), Gilson Dantas (UEG), Gláucia Konrad (UFSM), Helen Ortiz (RS), Hélio Rodrigues (CEUB); Hélvio Mariano (UNICENTRO), Isabel Gritti (URI), Joana El-Jaick Andrade (USP), Jairo Santiago; João Raimundo Araújo (FFSD), Jorge Magasish (Bélgica), José Pedro Cabrera (UNT), José Rodrigues (UFF); Kátia Paranhos (UFU), Kênia Miranda (UFF); Lorene Figueiredo de Oliveira (UFJF), Lucelno Lacerda de Brito (PUC-SP), Luciana Lombardo Costa Pereira (UFF), Lúcio Flávio de Almeida (PUC-SP), Luis Fernando Guimarães Zen (UNIOESTE) Marcelo Badaró (UFF), Maria José Acedo Del´Olmo (UNIVAP), Mario Jorge Bastos (UFF), Mário José Maestri Filho (UPF), Michel Silva (UDESC), Nara Machado (PUCRS), Olgário Vogt (UNISC), Paulo Zarth (UNIJUÍ), Pedro Leão da Costa Neto (TUIUTI); Pedro Marinho (MAST), Renata Gonçalves (UEL), Renato Lemos (UFRJ), Ricardo Gama da Costa (FFSD), Rodrigo Jurucê Gonçalves (PR); Romualdo Oliveira (USP), Ronaldo Rosas Reis (UFF); Sarah Iurkiv Ribeiro (UNIOESTE), Sean Purdy (USP), Selma Martins Duarte (UNIOESTE), Sérgio Lessa (UFAL), Sirlei Gedoz (UNISINOS), Sônia Regina Mendonça (UFF), Tarcísio Carvalho (UFF), Teones Pimenta de França (FSSSL) Theo Piñeiro (UFF), Valério Arcary (CEFET-SP), Vera Barroso (FAPA), Virgínia Fontes (UFF/FIOCRUZ), Wanderson Fábio de Melo (USP), Zilda Alves de Moura (UFMS); Zuleide Simas da Silveira (CEFET-RJ) Próximos Números: Dossiê Questão Agrária. Prazo para envio de contribuições encerrado. Dossiê Teoria da História. Envio de contribuições até 31.9.2009. Distribuição: historiaelutadeclasses@uol.com.br. Página Eletrônica: http://historiaelutadeclasses.wordpress.com/ Projeto Gráfico, Capa e Diagramação: Cristiane Carla Johann. Imagem da Capa: 1. Manifestação contra a ditadura; 2. Bombardeio do Palácio La Moneda durante golpe de Estado de 1973, Chile; 3. Repressão policial na ditadura; 4. Lênin; 5. Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – Foto Sebastião Salgado. Revisão e Edição: Gilberto Calil. Impressão: Gráfica Líder, Av. Maripá, 796 – Telefax (45)-3254-1892 – 85960-000 – Mal. Cândido Rondon - PR Foram impressos 1.000 exemplares em Julho de 2009

APRESENTAÇÃO

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om o Dossiê Estado e Poder, História & Luta de Classes chega a seu sétimo número, ao mesmo tempo em que completa quatro anos de circulação. Em nosso primeiro número já manifestávamos nossa pretensão em “servir de canal para reflexão teórica, particularmente para aquela orientada pelos ventos constantemente renovados do marxismo”, com a intenção de “servir como ferramenta de intervenção daqueles historiadores e produtores de conhecimento que se recusam a aderir”. Distinguindo-se pela perspectiva de intervenção e por assumir claramente uma posição político-teórica, e sem abdicar do rigor acadêmico, História e Luta de Classes viabilizou nestes quatro anos a publicação de 77 artigos e 18 resenhas. O primeiro número, publicado em abril de 2005, teve como temática “1964 – Golpe de Estado” e trouxe diversos artigos que claramente respondiam à onda conservadora, revisionista e relativista de reinterpretação do sentido do Golpe de 1964. A segunda edição trouxe o dossiê “Comunicação, Linguagem e Cultura”, com textos sobre imprensa, intelectuais, discursos e ideologias. A edição seguinte concentrouse em “Escravidão, Trabalho e Resistência”, com forte ênfase nas resistências empreendidas pelo trabalhador escravizado e na crítica às visões apologéticas e relativistas da escravidão. O número 4 trouxe o dossiê América Latina Contemporânea, com a discussão de processos históricos decisivos do século XX como populismo, revoluções e ditaduras e dos embates em curso no continente, em países como Cuba, Venezuela, Bolívia, Colômbia e Argentina. O quinto número, com o tema “Trabalhadores e suas organizações” colocou em foco e propiciou a análise crítica de algumas das diversas organizações constituídas pela classe trabalhadora brasileira nas últimas sete décadas, tais como partidos, sindicatos, jornais e centrais sindicais. O dossiê “Imperialismo: teoria, experiência histórica e características contemporâneas”, trazido na sexta edição da revista tornou possível aprofundar a análise teórica e empírica do imperialismo, em suas diferentes dimensões e formas de manifestação. O desafio em produzir, sustentar, manter e fazer circular uma revista com um perfil marcadamente situado no campo do marxismo, sem vínculos institucionais, empresariais ou partidários, é constante. História & Luta de Classes é mantida pelo esforço militante do coletivo de associados que assumiu o desafio de manter acesa a chama do debate crítico no campo da história e da historiografia, livre das amarras institucionais e burocráticas, sem qualquer vínculo com as imposições editoriais ou os modismos impostos a partir da mídia. Igualmente é um periódico que não demanda nem necessita o aval das agências de “classificação”, “qualificação” e ranqueamento, muitas vezes com práticas, critérios e procedimentos uniformizadores, pausteurizadores e esterilizadores do pensamento crítico e do debate e reflexão abertos. Atingir sete edições publicadas, com expressiva tiragem e circulação é certamente um êxito a ser comemorado e uma comprovação das potencialidades da produção coletiva, nos marcos do esforço pela produção de uma nova hegemonia, que corresponda aos interesses históricos da classe trabalhadora. Vivemos hoje fase aguda de uma grande crise capitalista, com conseqüências sociais crescentemente devastadoras. Ao mesmo tempo, as grandes certezas e os discursos ideológicos triunfalistas estão mais desvalorizados do que as ações dos grandes bancos e montadoras estadunidenses. É certo que os capitalistas, seus intelectuais e seus gestores movem-se rapidamente para construir novas certezas, novos discursos ideológicos e medidas que permitam a retomada da acumulação capitalista. Ainda assim, no atual contexto de descrédito das certezas neoliberais, alarga-se o espaço para a reflexão marxista, para a crítica sistemática e radical da ordem do capital e para a análise histórica totalizante dos processos sociais. História & Luta de Classes pretende manter-se alinhada neste campo de reflexão e análise crítica e sistemática da ordem do capital. A temática do dossiê aqui apresentado – Estado e Poder -, é certamente oportuna e se relaciona de forma direta com os impasses do presente. A reflexão e compreensão em torno das formas intervenção do Estado (seja através da produção do consenso, seja através da repressão aberta), dos projetos hegemônicos e dos embates produzidos na luta de classes, nos diferentes contextos históricos do Brasil republicano, mantêm-se como desafio inadiável para as forças sociais do mundo do trabalho. É importante destacar que a dominação burguesa no Brasil jamais abdicou de forte componente coercitivo – como destacam diversos artigos deste dossiê -, mas ao mesmo tempo sustenta-se também na organização classista dos setores dominantes, nas elaborações de seus intelectuais orgânicos, na construção de instrumentos de intervenção política e disseminação ideológica, na construção de consenso em torno de seu projeto. Esta perspectiva é expressa de forma particularmente clara no artigo que abre o dossiê – Estado e Educação Rural: política pública e hegemonia norte-americana, da historiadora Sonia Regina de Mendonça. Servindo-se do referencial teórico gramsciano, a autora analisa as formas de produção de hegemonia que permearam as relações pedagógicas nas décadas de 10940 e 1950, com ênfase nas formas de intervenção que permitiram que agências imperialistas determinassem os rumos do Ensino Rural no Brasil no período. O artigo Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria, de Luis Eduardo de Oliveira e Fernando Lamas, aborda as experiências em comum entre trabalhadores livres

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Estado e Poder

em Estado.6 e escravizados na construção de uma estrada de ferro de ligação entre Juiz de Fora e Petrópolis. Antonio Bosi e Edmundo Fernandes Dias discutem o impacto das lutas de classe de 1848 para o amadurecimento da reflexão de Marx e avaliam sua interpretação sobre aquelas lutas. Os dois artigos seguintes discutem distintos aspectos do processo de centralização política e as iniciativas coercitivas e ideológicas contra os trabalhadores na década de 1930.tra. busca relacionar a implementação do Plano Cruzado com uma política repressora dos trabalhadores por parte dos empresários e do Estado. de Michel William de Almeida.p. mas implicava igualmente em esforços de legitimação. no texto Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini aborda o papel ocupado pelo “Estado” na produção bibliográfica do intelectual dependentista e militante socialista Rui Mauro Marini. o reforço do Poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional. Estado e ditadura militar e Estado e socialismo). não era absoluto nem se dava exclusivamente pela coerção aberta. O movimento sindical é discutido também por Gilson Dantas. O quadro da subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: a visão dos órgãos de segurança e informações analisa um vasto corpo documental produzido pelos órgãos repressivos para avaliar a visão por eles produzida sobre as organizações armadas de contestação à ditadura. Julho de 2009 Gilberto Calil e Demian Melo . considerado como modalidade do Estado capitalista. avançando nas formas pelas quais frações da classe trabalhadora assumem a racionalidade burguesa para o gerenciamento do capital. avaliando a repercussão regional dos eventos que marcaram o ano de 1935. O artigo de Carlos Mignon. desenvolve uma instigante comparação entre as formas de leitura e interpretação das categorias de Marx presentes na imprensa dos anos 1970 do Si. no qual o autor recupera a reflexão de Trotski sobre o bonapartismo para refletir sobre os desafios colocados ao movimento sindical pelos governos nacionalistas burgueses contemporâneos da América Latina. a partir da repressão à greve dos trabalhadores da Ford. de Córdoba. num contexto de implantação de um plano econômico que era aplicado em nome do pacto social. Ramiro José dos Reis. Waldir Rampinelli analisa criticamente recente livro de Moniz Bandeira sobre o golpe de Estado no Chile. Diorge Konrad discute a relação entre o crescimento da ANL e a escalada repressiva. José Carlos Mendonça. A ditadura civil-militar é objeto dos dois artigos seguintes. Utilizando-se de vasta documentação e concentrando-se no caso sul-riograndense. 1973-1975 . no artigo Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. com destaque para a proibição da ANL. bem como sobre o contexto repressivo que se seguiu a sua derrota. através de três eixos temático-expositivos (Estado e economia. destacando-se o superdimensionamento das ações dos grupos guerrilheiros como forma de justificação interna do aparato de espionagem. O artigo de Dulce Maciel. Argentina) e as revistas Quaderno Rossi e Classe Operaia. O artigo “Segurança para o Trabalho e as realizações de interesse geral”: a busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul.tra. mesmo sob a ditadura estadonovista. no contexto da Operação Condor. Poder e Movimento Sindical na América Latina: o diálogo necessário com as teorias de Trotski. O artigo de Érika Batista. discutindo a ação de empresários e do Estado brasileiro e a utilização de mão-de-obra escrava em tal empreendimento. bem como as condições semelhantes de exploração do trabalho a qual imigrantes alemães e lusos foram submetidos.Una breve comparación con el obrerismo italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia.p (sindicato de trabalhadores da fábrica de motores Perkins. La lectura de Marx en clave clasista: el Si. O poder gerencial no Capitalismo Contemporâneo: nova classe ou novas relações entre as classes? apresenta uma discussão crítica das explicações ideológicas produzidas pela chamada “teoria gerencial”. Este número de História & Luta de Classes complementa-se com três resenhas. a repressão contra seus membros e a aplicação da Lei de Segurança Nacional. Demian Melo ressalta a leitura genética dos Cadernos do Cárcere realizada por Álvaro Bianchi em O Laboratório de Gramsci. Mística e Modo de Produção Capitalista: uma leitura que refuta o rótulo economicista analisa as características do Estado de direito. em Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do seqüestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre coloca em destaque a colaboração entre os regimes ditatoriais a partir da reconstituição do seqüestro de Lílian e Universindo Díaz. vinculadas ao “obreirismo” italiano dos anos 1950. coloca em destaque a atuação de diversos intelectuais sul-riograndenses voltada à legitimação ideológica estadonivista. para o que contribuíram inúmeros intelectuais. avaliando tal iniciativa como relevante para a afirmação da nova ordem e considerando que o controle sobre a classe trabalhadora. de Gláucia Ramos Konrad. O texto 1986 – a repressão fordista no ABC paulista. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. Hélio Rogrigues. no artigo Estado Democrático e Social de Direito.

faz com que entre Estado e indivíduos atomizados no mundo da produção emirja outra esfera. baseada. em suma. seria a cultura nacionalpopular ou socialista. Trabalho e Educação: Jovens e Adultos Pouco Escolarizados no Brasil Actual. bem como a hegemonia de um deles. O que Gramsci demonstra. segundo alguns autores. um renovador do marxismo que a ele incorporou. entretanto. que influirá decididamente quer para a formação do “homem-massa”.7 Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Sonia Regina de Mendonça * Estado e Educação Rural no Brasil: preferencialmente. por seu intermédio. A peculiaridade da sociedade civil reside em ser integrada por vários aparelhos de hegemonia de adesão voluntária. 2007.espaço de relações sociais que não estritamente as de produção . 1 RUMMERT. Estado e grupos dominantes no país. É deste ponto de vista que se inicia a reflexão ora proposta sobre as políticas públicas voltadas para a Educação Rural no Brasil. Ademais. com seu peculiar conceito de cultura. por sua vez gestada nas décadas de 1960 e 701. tornando-o consciente de seu lugar social. sua grande inovação foi desmistificar uma visão equivocada acerca da cultura e dos intelectuais. Professora do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Fluminense. A presentação As atuais políticas estatais destinadas à Educação de Jovens e Adultos (EJA) caracterizam-se. Sonia. as dimensões da política e da cultura. Pesquisadora Visitante do Programa de Pós-Graduação em História. Logo. as pressões do desenvolvimento capitalista. em luta ou em aliança entre si. no período compreendido entre o imediato pós-II Guerra Mundial e a aprovação da primeira Lei de Diretrizes e Bases da Educação brasileira. ela conta com função social própria: a de garantir/contestar a legitimidade da dominação de uma classe e seu Estado. portadora de agências distintas daquelas do âmbito econômico e da sociedade política. em muito distantes de livres pensadores diletantes. em nome de um projeto cultural de novo tipo o qual. a “iluminar” os “incultos” com seu conhecimento: o intelectual é aquele que organiza um grupo. Segundo Gramsci. todavia. Gramsci. remeto à construção de seu pensamento. preparando-a para manter ou subverter a ordem estabelecida. complexificaram um novo âmbito social. Para compreendermos este último conceito. resgatando um outro igualmente significativo: o de sociedade civil. que guardam em comum o fato de produzirem cultura . de modo a evidenciarem-se muito mais continuidades do que rupturas. por duas ordens de questões. justamente por isso. destinadas a concretizar seu papel na reprodução ou transformação da sociedade. Poder e Práticas Sociais da Universidade Estadual do Oeste do Paraná. quer para a de atores participativos e conscientes.História & Luta de Classes. Estado e Educação O referencial das ponderações aqui iniciadas bebe do arsenal teórico de um dos mais importantes pensadores do século XX: Antonio Gramsci. responsável pela construção de sujeitos políticos coletivos. numa reapropriação da Teoria do Capital Humano. não prescinde da função educativa do Estado uma vez que. decorrente da ação de intelectuais das frações de classes dominadas. É na sociedade civil que se organizam os projetos dos grupos ou frações de classe. os articuladores dos grupos em torno a seus respectivos projetos. ao promoverem a maior divisão social do trabalho e a proliferação de novas classes e suas frações. é que os intelectuais não “pairam” acima da sociedade sem raízes de classe evidentes. seus valores e idéias. permanentemente disputando a direção sobre a sociedade como um todo. De um lado. pouco tem de novo. pelas repercussões internas do processo histórico recente de reestruturação produtiva que resultou. Lisboa: Educa. deitando profundas raízes na formação social brasileira e merecendo. Gramsci. pela distribuição desigual de bens materiais e simbólicos. a sociedade civil. ser apreendido a partir de uma perspectiva histórica acerca das relações entre Educação. esta sim. além do Estado restrito. De outro.valores e visões de mundo. difundem-se concepções de mundo responsáveis pela estruturação de formas de manifestação cultural que favorecem a emergência de certo tipo de cidadão. Nº 7. É nesta esfera . responsável pela negação dos direitos básicos da classe trabalhadora. no campo educacional. resultante da trama complexa de múltiplas relações entre os aparelhos que a compõem. p.que se gestam e desenvolvem as funções de direção política e ideológica completares à dominação estatal. Os responsáveis pela organização da cultura na sociedade civil. 57. em 1961. Tudo isso significa afirmar que a organização da cultura implica na interação de um conjunto de agentes e agências da sociedade civil. . Dessa forma. na coerção. são os intelectuais. orgânico. segundo Gramsci. de forma até então inédita. produtores/difusores da cultura/hegemonia o que. dotado de materialidade distinta daquele: a sociedade civil. para o filósofo. Julho 2009 (7-12) . Semelhante processo. *Pesquisadora do CNPq.

de todas as formas possíveis. Segundo Gramsci “toda relação de ´hegemonia' é. no entanto. a Escola e a cultura constroem . não é difícil entender porque muitos daqueles que Gramsci denomina de “simples” compartem de muitos dos mesmos códigos dos dominantes. Antonio. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. já que a proliferação de escolas pode ampliar ainda mais o raio de difusão dos padrões de excelência. especialmente.condições para superá-la. Todos os conceitos até aqui apresentados visam explicitar o sentido da expressão gramsciana “relações pedagógicas”. destinado a encobrir o que a própria política estatal perpetua . cujos intelectuais orgânicos atuam junto às sociedades civil e política divulgando. Todos eles têm o comum a preocupação expressa para com o fato de que um processo de transformação estrutural da realidade confira aos trabalhadores o direito de acesso irrestrito às bases do patrimônio científico. Cadernos do Cárcere. este último definido como "subalterno". torna-se a “escola do emprego”. por intermédio de distintas mediações. uma cultura verdadeiramente nacional-popular estará fora de questão. subordinada aos requisitos imediatos do mercado de trabalho. valores. Antonio. O desprezo pela Educação. que se entendem entre si em diversos graus”. Apontamentos e notas dispersas para um grupo de ensaios sobre a historia dos intelectuais4. a escola não deve ser apenas pensada como instância direta da legitimação dos dominantes. Jornalismo. perpetuarse-á a visão das classes dominantes que tanto separa. A despeito disso. O princípio educativo. a escola. desordenadamente. marcante na História do Brasil. busca exercer uma função unificadora das manifestações da sociedade. os núcleos fundantes da hegemonia dos dominantes. autoritariamente.a divisão da sociedade. deveria ter como tarefa precípua contribuir para a elaboração de uma nova cultura. Logo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. o Estado. no decorrer da historia. destaca-se em Gramsci o fato dos vários estágios dos processos produtivos – e o ordenamento sócio-político a eles correspondente – gerarem mudanças no sistema escolar com vistas a atender às demandas da produção e da permanente construção/manutenção da hegemonia dos dominantes. em contato mais ou menos expressivo. na formação integral para todos. dos valores dominantes. ou seja. unifica uma maior ou menor quantidade de indivíduos em estratos mais ou menos numerosos. Introdução ao estudo da filosofia.certamente não integra a agenda dos estadistas. assistematicamente.2. 3 GRAMSCI.mais do que eliminam . Cadernos do Cárcere. costumes. Tal preocupação emerge em diversos textos do autor.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana É partindo da sociedade civil que os grupos dominantes levam adiante uma guerra sem trincheiras aparentes já que.8 . quanto hierarquiza o trabalho intelectual e o trabalho manual. Dessa forma. mas em todo o campo internacional e mundial. a formação integral. potencializadora das mudanças estruturais e necessariamente comprometida com os interesses das classes trabalhadoras. p. Por meio da direção cultural que imprime à sociedade em seu conjunto. cultura enfim. . além de escritos dispersos junto a textos anteriores ao cárcere. Logo. são menos visíveis que a coerção inerente ao Estado restrito. 1980. construir – ou não . p. o sistema educacional e a escola são. “a cultura. A filosofia de Benedetto Croce. o filósofo enfatiza o papel do principal instrumento de disseminação da hegemonia da classe dirigente: a Educação.1. “produto e produtor” de uma cultura subalterna onde convivem. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. pp. a partir dela. Ademais. quando as “lideranças” políticas falam de Educação e Escola para todos não apontam para um projeto de democratização do saber. Os intelectuais. seu projeto. Enquanto perpetuar-se a segmentação entre escola “desinteressada” e escola “formativa”. Na verdade. na medida em que os subalternos.uma relação pedagógica. 2000. 1999. gostos. entre conjuntos de civilização nacionais e continentais”3.as desigualdades sociais. em toda sociedade capitalista. Maquiavel. cultura e outros componentes da concepção de mundo dominante em dada sociedade podendo. prédeterminando de modo instrumental. impedindo aos indivíduos o acesso ao mais elementar instrumento de apropriação do mundo social. a política e o Estado Moderno. a formação do “homem-massa” que se torna. Tal direção propicia ao Estado capitalista. Tal objetivo. Antonio. em seus vários níveis. Da mesma forma. GRAMSCI. para Gramsci. deixam de produzir os intelectuais necessários à transformação. dentre eles o Caderno 12. de modo a situá-las num quadro de relativa homogeneidade. das normas cultas e. ou seja. o Estado estabelece vínculos “sentimentais” e ideológicos com as grandes massas. o conjunto de relações inerentes às práticas sociais por cujo intermédio o homem apreende valores. Assim. exercendo sobre elas a ação educativa. “inorgânicos” no tocante à organização de seus próprios aparelhos de hegemonia. que se verifica não apenas no interior de uma nação. no capitalismo contemporâneo. Uma escola voltada para os valores populares e capaz de enfatizá-los enquanto cultura própria . 2 Segundo Gramsci.e não como cultura “inferior” que necessite ser “iluminada” por intelectuais orgânicos dos grupos dominantes . entre as diversas forças que a compõem. o futuro daqueles 4 GRAMSCI. as relações pedagógicas assumem caráter eminentemente político e não devem ser limitadas à escola. Enquanto o analfabetismo grassar pelo país. v. 399. 36.1253. enquanto a segunda. lhe chegam2. assim como elementos da ideologia dominante e do próprio saber científico que. v. Vale lembrar que por desinteressada entendia o filósofo aquela centrada em seu caráter formativo mais amplo. tecnológico e artístico produzido pela humanidade. Dessa forma. é um claro demonstrativo da atualidade do pensamento de Gramsci. jamais pode ser fecundo se imposto “de fora”. elementos da solidariedade das classes subalternizadas. porém como espaço do embate entre projetos distintos de transformação ou conservação da ordem social vigente. necessariamente. No entanto.

até atores como Austregésilo de Athayde. E um dos “pomos da discórdia” era o controle sobre a Educação Rural. do Ministério da Educação e Saúde (MES). Porto Alegre: Cadernos ANPED. contaria com portavozes de distintos grupos de interesse.História & Luta de Classes. Paolo. O grupo encabeçado pelo ministro Gustavo Capanema. São Paulo: Hucitec. Hegemônicos junto à Pasta da Agricultura.e passando pelos projetos educacionais militares. em 1931. É neste processo que se multiplicariam os diversos tipos de escola voltados à manutenção das classes subalternas na condição heterônoma de dirigidos. alegando tratar-se de “de providência administrativa racionalizadora. fotograma 565. a principal característica das reformas educacionais promovidas na gestão do ministro Capanema. mormente após a institucionalização da problemática mediante a criação. o campo educacional brasileiro esteve marcado. desde 1909 monopolizada pelo Ministério da 5 NOSELLA. atravessando a própria ossatura do Estado restrito. Cadernos do Cárcere. em nome do "equívoco pedagógico" de sobrecarregarem-se as crianças com a preparação para o trabalho.S. o ensino técnico rural nem se constituiu em “invenção” dos novos grupos no poder. até então. 9 Em evento reunindo Secretários de Educação estaduais. entretanto. localizados sempre próximos a grandes propriedades em todos os estados da federação e funcionando como “viveiros” de mão-de-obra gratuita devidamente adestrada. Julho 2009 (7-12) . Nº 7. 49 . como Anísio Teixeira. 6 GRAMSCI. as disputas foram incontáveis. os especialistas do Ministério da Educação argumentavam que as escolas do campo deveriam afastar-se do ensino vocacional. antagonista à grande burguesia cafeeira paulista7 . defensoras de projetos os mais diversos. dirigente ou instrumental”6 . A modernização da produção e a escola no Brasil – o estigma da relação escravocrata. O Ruralismo Brasileiro. encontramo-nos muito mais diante de continuidades. p. Eles igualmente enfrentariam as diversas tentativas empreendidas pelos quadros dirigentes do MES em chamar para si o “ensino prático agrícola”9. ora subordinados ao Ministério da Agricultura”. ARQUIVO GUSTAVO CAPANEMA. Rio de Janeiro: CPDOC. a saber. A política de ensino agrícola praticada pela Pasta da Agricultura guardou fortes continuidades após 1930. Educação Rural: Rumos e Metamorfoses Conflitos Intra-estatais e Educação para o Campo Até os anos 1930. Dos educadores católicos – agremiados na Associação de Educadores Católicos ..E. Se tal dualidade continuou a marcar a Educação brasileira após 1930. grifos no original. os nove Aprendizados Agrícolas e a Escola Agrícola de Barbacena. mais graves ainda seriam seus desdobramentos no âmbito do ensino profissional. reclamada pelo principio da unidade de direção”. de modo a incluí-lo em seu projeto de nacionalização e centralização de todos os tipos e níveis de ensino no país.voltados à formação de setores médios e grupos dominantes. do que de rupturas. op. 5 Agricultura. Por isso. destinado a perpetuar nestes estratos uma determinada função tradicional. agência dominada por grupos agrários organizados junto à Sociedade Nacional de Agricultura (SNA). Sonia Regina de. Carlos Drummond de Andrade.organizados junto à Sociedade Brasileira de Educação (1924) . 1997.após a fundação do MES tais conflitos se acentuariam sobremaneira. Outra continuidade flagrante residiu na preservação da dualidade vigente junto ao sistema de ensino no país. mantinha-se o fosso existente entre o ensino primário de cunho alfabetizante e “popular” . nem sequer 1930 deve figurar como “marco canônico” na redefinição dos rumos da Educação brasileira. Entretanto. dentre outros.auto-representados como capazes de gerir “cientifica e pedagogicamente” a matéria. não devem ser tomadas tão somente enquanto elementos abstratos. este último responsável pela Educação Rural . 7 A este respeito ver MENDONÇA.e o ensino secundário e superior . 1944. Todas essas considerações. nem tampouco limitar-se apenas à História presente do país. contrariamente ao que aponta a historiografia especializada. Antonio. sobretudo após o término da Segunda Guerra Mundial. consistiu em ratificar o ensino secundário enquanto formador das “elites condutoras do país” e o profissional como preparador do “povo conduzido”. destinados a crianças/ jovens do campo. pela presença de inúmeras agências. que atribuía o nível primário à responsabilidade de estados e municípios e os ramos secundário e superior à da União. a rigor. Com isso. n. Por tal razão é fundamental reter que. mistos de reformatórios e escolas práticas. mediante acordos de "cooperação técnica" firmados entre os governos de ambos os países. neste âmbito específico. de modo a assegurar relativo equilíbrio à correlação de forças que assomara ao poder estatal em 1930. Bem ao contrário. por exemplo . estigmatizado pela “marca de Caim” do trabalho manual8 . 1993. p. parti de Gramsci para introduzir um dos mais evidentes exemplos do processo até aqui considerado: as transformações sofridas pela Educação Rural brasileira. Cardeal Leme. as questões educacionais encontravam-se sob a égide de dois Ministérios – o dos Negócios Interiores e o da Agricultura.5. Rolo 28.9 oriundos das classes trabalhadoras aos quais atende . os Aprendizados e Patronatos Agrícolas. no âmbito da sociedade civil. evidenciando a “marca social da escola”. 8 Optei pela grafia em itálico de toda e qualquer expressão extraída da documentação de época pesquisada.destinado ao grosso da população . o ministro Capanema apontaria o que considerava o mais grave problema a ser enfrentado por sua Pasta: a necessidade de “transferir para o M. quando a influência norte-americana aqui se presentificou. no ano de 1940. Em sua disputa com os dirigentes do MA pelo monopólio das atribuições sobre a Educação Rural. Os intelectuais. 17. que é fornecida “pelo fato de que cada grupo social tem um tipo de escola próprio. a despeito de toda uma retórica em contrário.aos egressos do movimento Escolanovista . Se. cit. os intelectuais orgânicos da SNA aferravam-se à defesa das instituições até então encarregadas do Ensino Rural. incluindo tanto “educadores profissionais” .

sim. Em 1945 é firmado entre o Ministério da Agricultura e uma agência privada norteamericana. p. Em contrapartida. p. BRASIL. assim. Rio de Janeiro: S. preparando “trabalhadores rurais” selecionados a partir de um público integrado por crianças com mais de 12 anos e c) os Cursos de Adaptação – esses. b) o Ensino Rural – com duração de dois anos e totalmente baseado em aulas práticas. territórios e Distrito Federal. além da formação continuada de técnicos . de cujas finalidades constava contribuir para “modificar.A. Rio de Janeiro: INEP. Ministério da Agricultura. A justificativa oficial. a partir de um programa educativo teoricamente capaz de incutir nos trabalhadores do campo o “amor a terra e ao trabalho”. Os novos estabelecimentos de Educação Rural perdiam. 12 Idem. 16 A formação dessas lideranças se faria por intermédio dos Centros de Treinamento de Líderes Rurais. todavia. em contrapartida. Muitos dos antigos Patronatos haviam sido transferidos para a alçada do Ministério da Justiça.o funcionamento de três tipos de cursos: a) o Ensino Agrícola Básico – com três anos de duração e destinado a formar capatazes a partir de clientela composta por jovens a partir de 14 anos. cujos primeiros elaboradores enfatizavam não apenas o crescimento econômico.para infância e juventude. Os intelectuais da SNA. 33. do qual resultou a assinatura do primeiro tratado firmado entre governantes daquele o país e a Pasta da Produção. Revista da CNER. via de regra adulto e “sem qualquer diploma ou qualificação profissional prévia”. sobredeterminada pela conjuntura internacional inaugurada com o fim da II Guerra e inícios da Guerra Fria. sequer seriam bafejados pelas insistentes campanhas de desanalfabetização promovidas pela Pasta da Educação. Apolônio. as práticas educacionais do Ministério da Agricultura ainda se destinavam.10 . o decreto-lei n. 327. Ademais. O alcance da Campanha. em inícios de 1945. por sua vez hegemonizada pela emergência de um novo construto: o “desenvolvimento”.000 classes de ensino supletivo. formada em 1942. no caso a de “Produção de Gêneros de Primeira Necessidade”. a Campanha de Educação de Adultos. p. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do Ministério. predominantemente. contaria ainda com 25% das verbas provenientes do Fundo Nacional de Ensino Primário. BRASIL. p. Imperialismo. Já os Aprendizados seriam reclassificados segundo nova tipologia que previa . distribui pequeníssimos auxílios para algumas escolas de agricultura”15 A disputa Ministério da Agricultura versus Ministério da Educação adquiriria novos e mais conflitivos contornos a partir do envolvimento dos Estados Unidos na Segunda Grande Guerra. Tal brecha para a redefinição do Ensino Agrícola no rumo prioritário da capacitação do trabalhador rural adulto provocaria a reação dos “educadores profissionais” aparelhados junto ao MES que. o Ministério da Agricultura implantaria. originando o Serviço de Assistência ao Menor (SAM). porém. p. através da ação de seus líderes naturais.I. no entanto. os novos cursos organizavam-se a qualquer época do ano12. era a de que se estaria “procurando corrigir o erro de se supor que só devem ser objeto da obra educativa os que se encontram ainda em idade propriamente escolar. 1943. Junto a ele gestava-se a noção de Terceiro Mundo. junto ao Ministério da Agricultura. outro tipo de cursos – os Supletivos . a partir de 1942. por Capanema. seu cunho semi-prisional.Até então. o segundo acordo de “cooperação técnica” no âmbito da Educação Rural. 23. de Nelson Rockfeller – pelos “problemas” do então recém-construído “Terceiro Mundo”. Estado e Educação. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura/Ministério da Agricultura. a mentalidade e hábitos das populações rurais”. criado em 1942. posto visar basicamente a operários e trabalhadores urbanos. controle sobre todas as instituições de ensino do país. uma inovação com relação ao período anterior. Dentre suas atribuições figuravam a implantação de Centros de Treinamento (CTs) – destinados a “qualificar” somente trabalhadores rurais adultos .32. originando à já citada Comissão Brasileiro-Americana para a Produção de Gêneros Alimentícios. desenvolver a “capacidade de liderança das moças das zonas rurais” e “desenvolver a personalidade das moças rurais melhorando seus conhecimentos básicos”. de 1933.até a aprovação da Lei Orgânica do Ensino Agrícola10 . desprezando-se todos aqueles que não tiveram oportunidade de freqüentar escolas ou a elas não podem voltar para cursos regulares”.979. fixando-os a seu “próprio meio”16. o Brasil. produzida pelos discursos/práticas desenvolvimentistas. No entanto. 132. Ta l e x p e r i ê n c i a f o i . Atividades do Ministério da Agricultura entre 1936-1940. p. originando a “Comissão Brasileiro-Americana de Educação das Populações Rurais” (CBAR). O Ministério da Agricultura no Governo Getulio Vargas (1930-1944). 314. estados. seria limitado.concebidos no mesmo espírito dos Cursos de Adaptação e destinados exclusivamente a adultos13.a serem especializados nos Estados Unidos – e de “líderes rurais”. 1941. destinadas a adolescentes e adultos 14 analfabetos” . Justamente por isso. ainda que o titular da Pasta insistisse em reivindicar para ela o 10 A LOEA foi promulgada pelo Ministério da Educação e Saúde. mantendo-se seu caráter de “escola de trabalho”11 . no ano de 1946. Ministério da Agricultura As Atividades do Ministério da Agricultura em 1942. 11 SALLES. Desde inícios da década de 1940 observa-se a intensificação do interesse de instituições privadas estadunidenses – como a Inter-American Affairs Association. Grifos na fonte. por certo. por sua vez reclamariam da escassa colaboração do MES que “através do Conselho Nacional de Serviço Social.. mas também a distribuição dos supostos Revista Brasileira de Estudos Pedagógicos. s e m d ú v i d a . 1945. nele incluindo-se.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Antes disso. 13 Tal inflexão não pode ser desatrelada da atuação no país da primeira de uma série de Comissões Brasileiro-Americanas. financiada com recursos da União. lançariam uma espécie de resposta. já havia redefinido as instituições encarregadas do Ensino Agrícola. 15 14 . 328.e de Clubes Agrícolas Escolares. posto não mais direcionarem-se a crianças e jovens. II. mas sim ao chamado “trabalhador em geral”. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação do Ministério. 1947. para enfrentar a concorrência movida por esta. tendo por meta “instalar 10. com vistas a maximizar a produção e exportação dos gêneros alimentícios brasileiros. em detrimento de uma suposta “profissionalização”. em todo o país. 1953. à formação de jovens e crianças. vol.

p. Dessa feita. b) o sistema de poder que regulava suas práticas e c) as formas de subjetividade por ele forjadas e através das quais os indivíduos se reconheceriam como “desenvolvidos” ou “subdesenvolvidos”. da Lei Orgânica do Ensino Agrícola.A. etc. aparato este integrado pelas mais distintas agências e agentes que. Os anos 1950 assistiriam à consolidação da hegemonia estadunidense junto a todo o Ocidente. Saber e Poder. já que a necessidade de expansão/aprofundamento de mercados externos para seus produtos e a busca de novas áreas para investimento de seus capitais excedentes fazia-se premente. desde fins da década de 1940. 37. até as práticas ESPINOSA. a hegemonia internacional estadunidense faria com que a guerra contra a pobreza – igualmente “recém-descoberta” . denominados de “novos especialistas”. BRASIL. Cultural Diplomacy (1936 – 1948). mas transformar as sociedades. longe de ser periférico. descrevendo-o e prescrevendo-o. conhecimentos sobre técnicas de cultivo. p. geógrafos. juntamente com dossiês completos sobre as cidades. se respaldaria num aparato institucional extremamente eficiente. antes de tudo para que o país possa ser mais coeso e solidário”20. como também atuassem junto a ela”18. este ramo educacional da rede primária regular. no Brasil. a realidade onipresente do 17 desenvolvimento . sob a capa “missionária” da “difusão do princípio de desenvolvimento comunitário”.adquirisse relevo visando. grifos no original. J. À época. Julho 2009 (7-12) . O aparato do desenvolvimento hipertrofiava-se. etc. igualmente. definitivamente. Afinal.C. Segundo Escobar. todo um conjunto de agências e práticas de Extensão Rural visando difundir. economistas. da Educação Rural enquanto ramo “especial” e hieraquizante de Ensino – escola para o trabalho – marcado pela subalternidade daqueles por ele formados. parcerias de assistência técnico-financeira com órgãos públicos e privados de Crédito Rural. O ano de 1946 foi decisivo para a consagração. 18 ESCOBAR. 123. com vistas a “combater o marginalismo e educar os adultos. todavia. parecia impossível aos intelectuais estadunidenses conceituar a realidade social em outros termos.História & Luta de Classes. era central para a rivalidade entre as superpotências e a possível confrontação nuclear”19. Nº 7. educadores. uma espécie de “álibi” tanto para a elaboração de “teorias da salvação”. todo um novo domínio de conhecimentos e experiências estava em gestação.I.. segundo o discurso oficial . nutricionistas. O Ministério da Agricultura a Serviço do Desenvolvimento. 2. Manuel. fazendo com que “as representações tornadas dominantes não apenas moldassem os caminhos nos quais a própria realidade era imaginada. transformando os pobres em objetos de Conhecimento e Gestão. procederia através da criação de “anomalias” . 1995. fruto de um conjunto de afirmações sobre o desenvolvimento e seu contrário – o subdesenvolvimento – que autorizavam visões plurais. mantendo-o sob a tutela da Pasta da Agricultura. tipos de sementes. O discurso do desenvolvimento. 20 19 . 17 agrícolas “arcaicas”. elaboravam teorias. muito embora coubesse ao MES a prerrogativa exclusiva de estipular suas diretrizes nacionais. Com isso. etc. a partir de fins da II Guerra. estruturado em torno a três eixos: a) as formas de conhecimento a ele referidas e pelas quais adquiriria existência através de projetos. Inter-American Beginnings of U. falar do desenvolvimento enquanto experiência histórica singular remete à criação de todo um novo domínio de pensamento e de ação. 1976. New Jersey: Princeton University Press. Centros de Treinamento e. pelo Ministério da Educação. pontas-de-lança do Crédito Rural Supervisionado distinguir-se-iam do crédito comercial por sua “extrema Id. 1959. Semelhantes novidades. o que impõe concordar com afirmativas segundo as quais “o Terceiro Mundo.o “analfabeto”. para onde quer que se olhasse. mormente aqueles relativos ao papel dos intelectuais. Rapidamente. alijaria. em paralelo às instituições escolares agrícolas do MA. não apenas criar novos consumidores. Os objetos com que o desenvolvimento começou a lidar eram numerosos e variados. destinado à produção de conhecimentos e ao exercício de poder sobre o “Terceiro Mundo”. p. Encountering Development – the Making and Unmaking of the Third World. bem como atitudes culturais associadas ao “atraso”. S. o “pequeno lavrador”.. alguns argumentos de autoridade foram operados. – garantidoras da necessidade permanente de reformas. multiplicando seu corpo de especialistas e consolidando o que convencionou denominar de “ação educativa de novo tipo”. não cessaram de produzir novos arranjos entre Estado. Em verdade. agrônomos. bem mais amplo do que a escola. Dentre essas novas práticas destacaram-se as Semanas Ruralistas (com forte apoio da Igreja). incluindo desde a pobreza. No. quanto para intervenções pragmáticas dos intelectuais-especialistas. o crescimento da economia norteamericana ainda dependia de matérias-primas baratas enquanto suportes para a crescente capacidade de suas indústrias. Sempre sob a assessoria e treinamento de técnicos norte-americanos implementou-se. resultando em novas estratégias para lidar com o “novo” problema. pela atuação dos Extensionistas Rurais.: US Department of State. 145. sobremodo. A partir daí consagrouse a possibilidade de inflexão categórica nas práticas da Educação Rural destinadas à qualificação da força de trabalho no campo.. o “subdesenvolvido”.4. O discurso do desenvolvimento. p. bem como de uma representação infantilizada da América Latina. as Missões Rurais e os já citados Clubes Agrícolas Escolares proliferando. Rio de Janeiro: S.11 benefícios por ele gerados. Ministério da Agricultura. Partindo dos EEUU e da Europa. Arturo. ademais. a realidade histórica mundial seria “colonizada” pelo discurso do desenvolvimento. celeremente. regiões e países visitados. calcadas na proliferação das “ciências do desenvolvimento” e suas “sub-disciplinas”. A aprovação. entre 1945 e 1955.Washington D. encontrando-se. essas estratégias se tornaram uma poderosa força junto ao Terceiro Mundo. sobretudo.e marcadas. a insuficiência de tecnologia e de capitais. Para que os agentes pudessem identificar seus novos objetos de estudo. Bureau of Educational and Cultural Affairs. em larga escala.

À guisa de conclusão O discurso e as práticas do desenvolvimento instituíram-se em operadores centrais das políticas de representação e identidade na maior parte do Terceiro Mundo no Pós-II Guerra. submetiam-se os trabalhadores do campo a inúmeras intervenções “pedagógicas”. Através do fornecimento de conhecimento “especializado”. 22 CARNOY. através da vulgarização dos códigos e visões de mundo transmitidos por intelectuais estadunidenses e consagrar a Assistência Técnica e Financeira enquanto “modalidade de ação educativa” por excelência. haja vista o processo em curso de substituir a Escola pelo Extensionismo. p. mas também das mulheres – daí o surgimento de nova “disciplina do desenvolvimento”. eles não devem ser percebidos como depositórios de “tradições”. o Extensionismo Rural. .12 . Não somente o trabalho do homem adulto e analfabeto. Neste sentido. O Extensionismo Rural praticado pelas agências de desenvolvimento – dentre as quais algumas ligadas ao próprio Ministério da Agricultura21 . dentre outras. posto que muitas delas eram recentes. política pública de âmbito nacional. 160. mantendo-os atrelados a uma agricultura “atrasada” e “arcaica”. de seus conhecimentos e de sua própria identidade. percebe-se que noções como “desenvolvimento”. Sob tal concepção instrumental das práticas educacionais. por exemplo. destinado a trabalhadores adultos. Martin. nos moldes pregados pelos intelectuais e técnicos brasileiros e estadunidenses. Somente o aprofundamento de pesquisas sobre todo o conjunto de agências imbricadas a tal processo poderá contribuir para desconstruir semelhantes conceitos.brasileiros. resultando no fortalecimento de inúmeras agências produtoras de novos intelectuais-especialistas e novas exigências econômicas impostas sob a pecha da modernidade. tornava-se aceita pelos grupos dominantes latinos e brasileiros. 1974. já que o crédito agrícola convencional não fora capaz de dotar seus usuários dos novos saberes e tecnologias necessários ao desenvolvimento do campo. de inúmeros movimentos sociais rurais. para o âmbito de uma reeditada dicotomia entre “arcaicos” versus “modernos”. 21 Dentre essas novas agências destacaram-se o Serviço Social Rural. Entretanto. A influencia estadunidense tornava-se. criado em 1955 e o próprio Escritório Técnico de Agricultura Brasileiro-Americano. Em verdade. no país. por seu intermédio. como as Ligas Camponesas. não somente ressignificou a noção de Educação Agrícola.Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana preocupação com a integração dos agricultores à economia moderna”.agrários e industriais . Para legitimar a ressignificação em curso no próprio conceito de Educação Rural. quanto para inflacionar as importações brasileiras de máquinas e insumos agrícolas estadunidenses. parte da explicação do êxito desses novos conceitos e ações prende-se ao fato de ser a Educação um importante instrumento da expansão do Imperialismo que. Com tal pano de fundo. preservando a estrutura fundiária e minimizando potenciais conflitos de classe no campo22. Impossível não relacionar semelhante redefinição ao contexto marcado pela germinação. como também tratou de adestrar esses trabalhadores triplamente expropriados: de sua terra. Entretanto. de 1953. “cooperação técnica” ou “elevação do nível de vida das massas”. além de expropriar os trabalhadores rurais de seus saberes próprios. por certo não se está diante do trabalho enquanto princípio educativo integral – tal como o defendia Gramsci – mas sim da Educação como instrumento da maximização da produtividade do trabalhador rural e da segmentação cultural. A redefinição pautada pelas então chamadas “novas modalidades educativas” adequou-se aos interesses dos grupos dominantes . coparticipes do deslocamento dos conflitos de classe da cena real. defendendo uma política “educacional” destinada à qualificação de mão-de-obra adulta e totalmente desvinculada da instituição escolar. tornaram-nos alvos fáceis da disciplinarização pelo capital. ainda em voga em nossos dias. New York: Longman. muito distantes das práticas. Education as Cultural Imperialism. alocando sua funcionalidade na noção de “racionalidade”. destinada a maximizar a produtividade do trabalho agrícola. tornaram-se instrumentais tanto para construir alteridades inferiores e “carentes”. presidido pelo Saber e a Técnica norte-americana. então. a Economia Doméstica – e das crianças. a Extensão Rural e seus correlatos visavam a um duplo objetivo: promover o disciplinamento coletivo. efetivamente educativas. reproduziram-se no país paradigmas importados que.passaria então a conotar todos os produtores dotados de alguma qualificação para o trabalho. os grupos no poder canalizaram esforços para preservar a subalternidade do trabalhador rural . As considerações aqui tecidas visaram apenas “levantar o véu” da desnaturalização necessária e. dirigido à vulgarização de um dado padrão de consumo.

autor de uma obra de cunho laudatório sobre Mariano Procópio. foi construída entre 1855 e 1861 pela CUI. que implicou. pois por volta de 1879 a CUI entrou em processo de falência. ligando Juiz de Fora à Petrópolis1. Pedro II. José M. a construção da rodovia iniciou-se em 18566 e só tomou impulso no ano de 1858 com a chegada dos imigrantes 3 PAULA. UFMG. . pp. desde meados da década de 1860. Paraibuna-Flores e Juiz de Fora-Ubá). 121-145. Mauá 2 STEHLING. Serraria-Mar de Espanha. Op. São Paulo: Companhia das Letras. pp. a Companhia União e Indústria e os alemães. como um dos mais importantes entrepostos comerciais do estado. 6 BASTOS. Industrialização de Juiz de Fora (1850-1930). Julho 2009 (13-18) . PIRES. da ordem de 8.13 Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria rodovia União & Indústria e seu impacto para a economia regional A Rodovia União e Indústria. 28-35 e 46-47. Cabe perguntar se o entendimento histórico acerca da forma de governo de D. com 264 quilômetros de caminhos vicinais interligando aquela estrada-tronco às mais importantes áreas cafeeiras do Vale do Paraíba Fluminense e da Zona da Mata mineira. Juiz de Fora. F. sua obra. D. com seus vários ramais.. entre outras coisas. Tais fatos entram em choque com a visão propalada a respeito do monarca. detentor de uma concessão imperial para manter e explorar a estrada durante meio século – o que não ocorreu de fato.110-113 e GIROLETTI. 2007. O papel da mão-de-obra escrava na construção da União & Indústria De acordo com Wilson de Lima Bastos. 133137. o processo de sua encampação pelo Estado. Em suas instruções à princesa Isabel. criada em 1853 pelo cafeicultor Mariano Procópio. 5 CARVALHO. sua descendência. Dissertação de Mestrado. 60-62. pp. A constituição de um sistema viário tecnologicamente avançado para a época e que possibilitou uma interligação eficaz entre Juiz de Fora e o Rio de Janeiro. Maria C. ao mesmo tempo. Juiz de Fora: Paraibuna. FUNALFA. aguardam ainda um estudo mais criterioso e aprofundado. 1991. p. Belo Horizonte. de intensa circulação de mercadorias e acumulação de capitais3. Cit. levando a um relativo abandono daquela primeira via e seus diversos ramais2.266:342$660. As relações entre o monarca e Mariano Procópio. tal centro urbano passou a aglutinar grandes interesses. Oeste. 4 BASTOS. 1976. parte do Sul e da Zona da Mata) e de Goiás tinha que passar pela cidade. três anos depois4. inúmeras atividades manufatureiras. Mariano Procópio Ferreira Lage: sua vida. pp.24. D. D. a chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Dom Pedro II e o estabelecimento de uma malha ferroviária na Zona da Mata mineira. durante quase todo esse período. capitaneada pela Estrada de Ferro Leopoldina. cit. A Luís Eduardo de Oliveira* Fernando Gaudereto Lamas* As relações mantidas entre a CUI e altas autoridades imperiais. Luiz José. Pedro II aconselha “não indicar pessoas para cargos ou graças aos ministros exceto em circunstâncias muito especiais de maior proveito público”5. Ainda assim. cargo que ocupará até a sua morte. EDUFJF. constitui um marco fundamental para o incremento e diversificação da população e das atividades urbanas daquele município nas décadas 1860 e 70. nos últimos três decênios do século XIX. Além dos 144 quilômetros macadamizados e carroçáveis da Rodovia. permitindo que nela se desenvolvesse um vigoroso comércio varejista e atacadista e. Pedro II. ou seja. As Vicissitudes da Industrialização Periférica: o caso de Juiz de Fora (1930-1970). a CUI construiu também. com destaque. parte significativa dos produtos exportados e importados por diversas regiões de Minas Gerais (Centro. tornando-se a partir de então palco de vultosos negócios. Pedro II não se encontra excessivamente contagiada de anacronismo. Como consequência.5 Km de trilhos da E. Juiz de Fora. em seguida. Wilson de L.História & Luta de Classes. outros quatro ramais (Posse-Aparecida. no perdão da dívida de 200:000$000 que a empresa tinha com a Repartição Geral de Terras Públicas e a transferência para o governo de compromissos financeiros. genealogia. assim como a ação do Estado imperial em relação à CUI pareceram-nos bastante distintas dos conselhos dado à princesa. Mariano Procópio continuou sendo prestigiado pelo imperador. Nº 7. *Doutorando em História Social na UFF e Professor no Instituto Superior de Educação Carlos Chagas. Dentre os eventos da breve trajetória da CUI que exigem uma adequada investigação histórica figura. 1979. 1 Desse ponto para os portos do Rio de Janeiro a viagem continuava pela antiga estrada da serra da Estrela e. em Juiz de Fora. Isto porque. que em janeiro de 1869 nomeou-o pra diretor da Estrada de Ferro D. p. contribuíram também para que Juiz de Fora se configurasse. 1987. **Mestre em História Social pela UFF.. com banqueiros ingleses e companhias nacionais. que não podem ser reduzidas apenas aos fortes vínculos de seu presidente com o monarca. Juiz de Fora. por outro lado. em 1864. pelos 14. até 1868. 89. pp. a de que ele sempre manteve uma respeitosa distância entre seus amigos e os negócios do Estado. Op. A construção da rodovia.

Luiz A. Dissertação de Mestrado. Carlos H. primeiro complexo manufator a ser estruturado naquele município mineiro.wp/wp12. no entanto. nas atividades manufatureiras desenvolvidas localmente na década de 1860. 48 eram empregados na produção de carvão. em benefício do escravo Jorge Carneiro dos Santos. Como atestam os relatos coevos e os dados reunidos por diferentes pesquisadores.pdf. Rio de Janeiro: Presença.000 para 3. havia 804 escravos trabalhando para a companhia. Elizabeth Agassiz. neste caso em associação com artífices e operários livres. Birchal concluiu que os escravos empregados pela empresa provinham de outras companhias. mas não há informação acerca do total de trabalhadores empregados. pp.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria alemães.500 indivíduos. 08-12. cit. 10-11. pp. que essa empresa recrutou no período de maior intensidade de suas atividades. etc. pp. Dissertação de Mestrado. (. num total de cerca de dois mil escravos. 19-21. sem. italianos. 2000.. 900 escravos que constituíam quase 82% da força de trabalho total.) Em 1858. 800 eram escravos. o mito de que a história de Juiz de Fora se fez exclusivamente através da contribuição de imigrantes (alemães. 2002. pp. A 7 OBERACKER JÚNIOR. É possível inferir que mesmo na operação das grandes oficinas que instalou nas imediações da Estação Rio Novo. (. pp. pp. de acordo 11 com Birchal. A preservação do patrimônio histórico de Juiz de Fora.º01.14 .. Nossa pesquisa mostrou que a partir do final do 12 Entre 1857 e 1859 o número total de trabalhadores livres e escravos empregados pela CUI saltou de cerca de 1. cit. cozinheiros etc. Senado Federal. Niterói: UFF. pp. 11 BIRCHAL. nas várias oficinas e seções da estrada. alugados de seus acionistas ou das companhias inglesas de mineração de Cocais e de Congo Soco e de fazendeiros das regiões cortadas por aquela via10. 2006. GIROLETTI. paga “por terceiros”. In História Econômica & História da Empresa. 63-65 e BIRCHAL. com o término das obras da Rodovia. Francisco Foot e LEONARDI. 1985. a companhia empregava 2. São Paulo. passada no Cartório do 1º Ofício de Notas da cidade em 18 de janeiro de 1869. 96 eram empregados como pedreiros. Nesta festa foi lançado por um jornal local um pequeno caderno onde se contou a história dos imigrantes e excluiu a fundamental participação da mão-de-obra escrava8. 1844-88. Jorge Carneiro iria receber 75$000 (setenta e cinco mil réis) mensais. Op. porém..) permaneceu atual através das comemorações de efemérides locais como a festa dos 150 anos da cidade. indicaram também que. D. Em 1855. isto é. Juiz de Fora. entre elas. Juiz de Fora: Esdeva. 2º ed. SARAIVA. pois constataram que “nos trabalhos de certo gênero não se achou meio de substituir essa pobre gente”9. e como seus assistentes e aprendizes. mas não há informação acerca do status destes trabalhadores (. A partir de 1860.. Os padrões das alforrias em Juiz de Fora. Na verdade. realizadas entre 1856 e 1866. In: Tribuna de Minas.13 a CUI não prescindiu do braço servil. 72-74 e 111. Segundo Lacerda: “Este cativo. O mercado de trabalho mineiro no século XIX. essas datas corroboravam a errônea idéia de que teriam sido estes imigrantes germânicos os únicos responsáveis pela construção da afamada rodovia.. o naturalista Louis Agassiz e sua esposa. ano em que se iniciaram os trabalhos de abertura da Rodovia. 144-145.636 trabalhadores: 1.. parte significativa destes cativos atuou na construção dos trechos daquela estrada que não apenas cortaram como também redefiniram importantes áreas do núcleo central e dos arrabaldes de Juiz de Fora. A contribuição teuta à formação da nação brasileira Vol. Antonio H. cit. 297. 9 HARDMAN. A esse respeito. cativa e livre. ceaee. A dívida seria paga em 30 meses. de fazendeiros da região e de alguns dos principais acionistas da CUI. podendo retirar 25$000 (vinte e cinco mil réis) mensais para suas despesas e utilizando o restante para amortizar o débito”14. (. do P. os 756 restantes trabalhavam na construção e manutenção da rodovia.102 pessoas. portugueses. como enfatizam Stheling. pp. Hucitec. em seus empreendimentos rodoviários a CUI não utilizou apenas mão-de-obra livre. é razoável supor que a mão-de-obra escrava representava uma grande parcela”12. com trabalhos de marcenaria efetuados nas oficinas da Companhia União & Indústria.. Para uma crítica desta visão cf. 2001. Op. já que em seu estudo Bastos não mencionou a utilização de escravos no período 1856-58. ao menos no tocante aos serviços mais brutos. libaneses.. tal regra foi ignorada. Op. p. 29-31. p.136 eram empregados na seção da rodovia entre Juiz de Fora e Paraíba (do Sul). Luiz F. partir de informações que encontrou nos relatórios das assembléias gerais de acionistas da CUI. A evidência em questão refere-se à compra de uma carta de alforria. 2. 2000. 1982. Logo. Capturado on-line: 12 jan. 70%.). Giroletti e Birchal. Viagem ao Brasil (1865-1866).. cit. Brasília..) Os outros 1. UFF. houve uma sensível diminuição do número de operários a serviço da CUI. 10 Com base nos relatórios das assembléias gerais de acionistas da CUI dos anos de 1856 e 1857. . PJF / IPLAN. Dos 900 escravos. antigas senzalas. Disponível em: http://www. 1998. Porém.500 eram empregados na seção entre Petrópolis e Paraíba do Sul. Deste número. pp. marceneiro. Carlos Oberacker Júnior afirmou que houve participação de escravos na construção da rodovia.ibmecmg. como obrigava o contrato que firmou com o governo imperial e sugerem ainda hoje certos estudiosos da história local... Luís e AGASSIZ. Possivelmente. apesar de enfatizarem no seu livro Viagem ao Brasil (1865-1866) que normas contratuais proibiam expressamente o emprego de escravos na construção da rodovia que ligava Juiz de Fora a Petrópolis. Sérgio de Oliveira. tornou-se devedor da quantia de 1:500$000 (um conto e quinhentos mil réis) que lhe fora emprestado para a compra de sua alforria. 14 LACERDA.) Em 1857. como demonstra também uma outra evidência concreta sobre o uso de trabalhadores escravizados. Op. a CUI empregou entre 515 e 818 escravos . Op. Victor. 10. Niterói.. sírios. cit. em geral. Ver STEHLING. n.. um município cafeeiro em expansão (Zona da Mata de Minas Gerais. Segundo Birchal: “A companhia empregava 1. 91-92 e AGASSIZ.br. 13 PASSAGLIA. 8 Imigrantes: 150 anos Juiz de Fora. em especial. Birchal produziu uma descrição ainda mais abrangente do conjunto da força de trabalho. 80-83. Elizabeth Cary. contudo precisar a quantidade7. Ver BIRCHAL. na prática. Um correr de casas. entre 70% e 80% da força de trabalho dos serviços de abertura da principal rodovia construída pela CUI compunha-se de cativos.

19 tanto especializados quanto sem especialização. no livro de escrituras públicas de compra e venda da Comarca do Paraibuna e no livro de escrituras públicas de compra e venda do cartório do Primeiro Ofício de Notas.15 ano de 1854 e ao longo do ano de 1855. a Cocais e a Gongo Seco. Belo Horizonte: Itatiaia. 21 GORENDER. 08-09. A quantidade de escravos alugados na região indica que a força de trabalho escrava exerceu um papel fundamental na construção da Rodovia ao longo de todo o Arquivo (. o locatário seria responsabilizado. p. Este mesmo autor afirmou que no trecho que liga Juiz de Fora a Paraíba do Sul cerca de 70% dos 1136 trabalhadores eram escravos15. Contudo. 08-09. Se após 15 dias. p.1º Ofício de Notas. incluindo seus distritos e Barbacena. uma vez que como já foi anteriormente afirmado. 5º ed. Além desse fato deve ser ressaltado o aspecto racista. 22 AHCJF. se não a única responsável pela construção da rodovia. subalocar o escravo para outras pessoas17. As citações foram extraídas do “Álbum do Município de Juiz de Fora” de autoria de Albino Esteves. incluindo mulheres e crianças. Nas escrituras de aluguel de escravos realizadas por Mariano Procópio encontramos escravos especializados em serviços como carpintaria e mesmo cozinheiras. O escravismo colonial. encontramos nos livros de compra e venda da Comarca de Barbacena dos anos de 1853 a 1855. Caso o locador optasse por romper o contrato. se lhe conviesse. ao analisar a participação de escravos em atividades tipicamente fabris. Livro 2. J. 1988. fls. pois como destacou Libby. Os contratos estabelecidos entre a CUI e os proprietários/locatários locais dos escravos baseavam-se essencialmente nos seguintes critérios. O pagamento pelo aluguel realizava-se a cada 03 meses e a CUI poderia. Mariano Procópio alugou uma quantidade considerável de escravos pertencentes a proprietários de Juiz de Fora. os incluiu no caso mais geral de escravidão urbana. 1º Ofício de Notas. sempre pelo mesmo prazo. percebida como preguiçosa e inapta ao exercício regular do trabalho. Giroletti afirmou. 484. podendo ou não ser renovado indefinidamente. deveria avisar com 30 dias de antecedência ao prazo de reengajamento. contrariando desta forma o consenso entre a historiografia local acerca da não utilização de escravos na construção da rodovia. apesar de mencionar que este alugou escravos de outras fontes que não as duas empresas inglesas mencionadas. continuou a ser apontada como a principal. ao analisarmos a documentação cartorária sob custódia do Arquivo Histórico do Município de Juiz de Fora. Esta observação é relevante uma vez que os escravos alugados por Mariano Procópio foram utilizados para a construção de uma rodovia que visava facilitar o escoamento da produção cafeeira da Zona da Mata Mineira para o porto do Rio de Janeiro. Mariano Procópio iniciou a prática ilegal de alugar escravos para a obra em questão. A forte presença alemã totalizando 1. Apesar da grandeza dos números acima apresentados. Domingos Giroletti localizou duas empresas de mineração inglesas. 1984. 64. Nº 7.Op.. o escravo doente não se recuperasse ou o escravo fugido não fosse encontrado. Op. A tabela 01 abaixo indica o número de escravos alugados por Mariano Procópio ao longo dos anos de 1855 e 1856. cit. cit. A princípio o engajamento deveria ser de apenas 06 meses. Gorender. A utilização de escravos em obras públicas era vetada por lei. Giroletti. como locatárias de escravos para a CUI. Livro 2. Se a empresa de Mariano Procópio julgasse que o escravo alugado era inválido para o tipo de trabalho a ser exercido. 63.22 fato que corrobora a visão de Soares e desmistifica a idéia de que os escravos eram utilizados apenas em serviços brutos. 482. ou proto-industrial. Contudo. ambos referentes aos anos de 1854 a 1856. fugisse ou se ferisse a Companhia se responsabilizaria com os gastos. 92. Julho 2009 (13-18) . um relatório de Presidente de Província16. Este ponto é de extrema importância. O caso que mais se aproxima do que pretendemos analisar é o emprego de escravos em atividades de caráter industrial. p. e defendeu que “a escravidão urbana representou. Caixa 01. uma obra pertencente à historiografia tradicional e que citou uma fonte oficial. particularmente da economia juizforana. pioneiramente. inclusive o industrial20. 19 18 GIROLETTI. este era o principal aspecto desta economia no período abordado. não conseguiu encontrar a origem dos escravos locais alugados por Mariano Procópio. avisaria ao locatário para tomar as devidas providências e substituir o referido escravo por outro mais apropriado18. ou seja. pois reafirma o caráter escravista/exportador da economia matense. a saber. 17 AHCJF. A utilização de mão-de-obra escrava em atividades díspares da agrário/mineradora de caráter exportador já foi analisada por outros historiadores. São Paulo: Ática. . Op..História & Luta de Classes. 1855. p. Trabalho escravo e capital estrangeiro no Brasil. Queremos chamar a atenção para o importante papel exercido pela mão-de-obra escrava para a construção desta rodovia. p. havia um grande preconceito em relação à mão-de-obra livre nacional. ficando ao encargo deste o tratamento ou recuperação do escravo. 1855. em contrapartida. que Mariano Procópio alugou 119 escravos para a realização das obras. Caixa 1. 20 LIBBY. 08 e 30.) Fls.193 pessoas. GIROLETTI. Caso durante o 15 16 contrato o escravo adoecesse. a mãode-obra escrava era vista como perfeitamente adaptada ao trabalho. porém esta foi claramente burlada por Mariano Procópio. Fls. a CUI alugando escravos para trabalhar na construção da dita rodovia. um complemento da escravidão rural”21. em todas as formações escravistas. contudo. a historiografia local continuou a aceitar o mito da mão-de-obra livre imigrante. cit. D. o uso de escravos em construções de obras públicas foi ainda muito pouco abordado. GORENDER. Cabe ainda destacar que a utilização de escravos em atividades que não se encaixavam diretamente na produção ou extração de produtos vendáveis no mercado externo se devia basicamente em função da estreiteza do mercado de trabalhadores livres.

)”25. serralheiros. 12. Relatório que a Assembléia Legislativa Provincial de Minas Gerais apresentou na abertura da sessão ordinária de 1856. pelo menos em termos contratuais. onde a empresa instalou suas 28 principais oficinas e a sede de sua administração . no caso. 2. não somente aceita como referendada. Livro 2. As obras realizadas pela CUI incluíam. além da construção do trecho ligando Juiz de Fora à Petrópolis a reforma do percurso BarbacenaJuiz de Fora. relojoeiros. Presidente da Mesma Província. Op.. e conservação da estrada actual do Parahybuna tem exigido constante emprego de não diminuto pessoal (. ferreiros. alfaiates. os imigrantes alemães chegaram Juiz de Fora apenas no ano de 1858. STEHLING. Daí a necessidade de alugar escravos de um proprietário que residisse próximo às obras. 1º Ofício de Notas. ferreiros.. 6-8 e 19-20. a utilização de escravos em uma obra pública foi. 153-160. entre outros)32. 30 STEHLING. fazia parte ainda um grupo de aproximadamente vinte oficiais de ofício germânicos. 28 No corpo técnico e administrativo da CUI era marcante a presença de estrangeiros.). como explicam Stheling e Giroletti. uma vez que. Tratava-se. 32 Idem. Tais dados permitemnos concluir que o papel da mão-de-obra escrava foi muito relevante. Imigrantes.)”24. organizada com vultosos recursos obtidos por essa empresa junto ao governo imperial. Tais trabalhadores provinham. fundamentalmente. e por mim examinados em grande parte quando vim da Corte para esta Capital [Ouro Preto]”27. em sua maioria. esses imigrantes se fixaram no município sob condições bastante diversas daquelas oferecidas. pagos ao final de cada mês. 149-152. p.cit. p. Cf. em janeiro do ano seguinte29.. novas levas de imigrantes germânicos foram trazidas a Juiz de Fora.. mantinha com o monarca brasileiro. Op. Cerca de dois anos depois. e conservação da estrada atual desde a ponte do Parahybuna até a Cidade de Barbacena (. 12. Mão-de-obra livre nos empreendimentos da CUI: germânicos. 1856. deve-se levar em conta também o tempo de engajamento dos escravos já que 03 das 10 escrituras alugavam seus escravos pelo tempo de 2 anos enquanto as outras três pelo tempo de 4 anos. 31 Mais do que garantir a mão-de-obra qualificada e barata que os seus empreendimentos exigiam. É possível que além dos fortes vínculos que o presidente da CUI.. Mais adiante. em resumo. ferradores. 25 Relatório (. parteiras. segeiros. carpinteiros. ferreiros. mas alguns brasileiros e até mesmo portugueses chegaram a integrar postos-chaves na estrutura hierárquica da CUI. Mariano Procópio. pp. um valor considerado alto para a época23. pontoneiros. duas pelo tempo de 5 anos. p. relativo ao ano de 1856 confirma que o número de operários especializados alemães contratados inicialmente pela empresa não excedia duas dezenas. padeiros.16 . Conselheiro: Herculano Ferreira Penna. “o dinheiro existente nos cofres da Repartição Geral de Terras Públicas”. Pelos caminhos do Brasil o que encontrei. arrabaldes dessa cidade. 11 e ESPESCHIT. 27 Relatório (. cit. Isto. primeiramente. funileiros. carpinteiros de carros. L. 149-150..que dispunham de um contrato com a CUI que. seleiros.. uma vez que o período – mínimo de 02 e máximo de 05 anos – cobre boa parte do período de construção da Rodovia. p. podemos concluir que o “não diminuto pessoal” referia-se à mão-de-obra escrava alugada aos proprietários locais por Mariano Procópio. Holstein e Baden e pertenciam a distintos segmentos profissionais (agricultores. Ver BIRCHAL. fundidores. a entrada da CUI no ramo de imigração e colonização visou. contratados em Hamburgo no segundo semestre de 1855 e que chegaram a Juiz de Fora. barbeiros. fls. pedreiros. moradia e alimentação durante todo esse período30. com salários médios de 2$000 por dia. Segundo Birchal. Como é de notório saber. 415 e 429-432.. com suas respectivas famílias. 29 O Relatório da Assembléia Geral dos Acionistas da Companhia União e Indústria. O aluguel de 25 escravos pertencentes á Jorge Afonso de Golveias. cit. cit. pp. pedreiros.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria processo. incluindo a fase em que os imigrantes alemães estiveram trabalhando. sapateiros. do grão-ducado de Hessen. de artífices experientes e de ramos manufatureiros variados mecânicos. marceneiros. Desse contingente de operários não-escravos. marceneiros. 149-207. Ver BIRCHAL. pelas autoridades oficiais da Província. Caixa 1. no mesmo relatório. 12. compreendendo a primeira a reparação.. estações e estradas que a CUI construía na região. Op. Belo Horizonte: Mazza. cit. em sua maioria brasileiros. pp. pp. portugueses e brasileiros. encontramos a seguinte constatação: “A reparação. p. carpinteiros. 18% ou 202 indivíduos eram artífices e jornaleiros livres. Ouro Preto. Op. pp. entre janeiro e agosto de 1858. lhes garantia trabalho durante dois anos. Na verdade. além de transporte. do Tirol.102 homens de que dispunha a CUI em 1856.). desta vez não apenas para trabalharem nas oficinas. ainda no mesmo relatório lê-se que: “os trabalhos desta companhia executados no anno que decorreo do 1º de fevereiro de 1855. carroceiros. folheiros. alguns qualificados e possivelmente recrutados nos AHCJF. pintores e oleiros . residente na vila de Barbacena em maio de 1855 é esclarecido pelo Relatório do Presidente da Província de Minas. Em outros termos. quando neste se afirmou o seguinte: “Dividem-se os trabalhos em duas categorias. uma realizada em 21 de janeiro de 1855 e outra realizada em 06 de maio do mesmo ano Mariano Procópio desembolsou 17 contos e 352 mil Réis pelo tempo de 4 anos. dos 1. 10-12. 24 23 . como também para povoarem a colônia agrícola D. Op. aos artífices germânicos que desde janeiro de 1856 viviam e trabalhavam em Juiz de Fora. da Prússia.. 200 contos de réis antecipados para importação e assentamento de dois mil alemães. Pedro II. 1995. pintores. a existência de uma cláusula que vedava (mas que não impediu de fato) o emprego de cativos nas obras contratadas com o Estado tenha contribuído para que a direção daquela companhia conseguisse a rápida liberação de uma considerável soma de dinheiro público para a importação desses colonos alemães31. 26 Juiz de Fora – 150 anos.26 logo. Os valores pagos por Mariano Procópio também eram consideráveis. Em duas escrituras. Além do aspecto quantitativo.

estações e oficinas aproximadamente 70% da população masculina da Colônia D. desde então muitos colonos se recusaram a pagar a dívida que lhe era atribuída pela empresa. No regime de trabalho em que esses indivíduos juridicamente livres encontravam-se inseridos. Soma-se à estas precárias condições de existência. cit. 06. cit. cerca de um quarto era destinado compulsoriamente à amortização de suas respectivas dívidas com tal firma. Op. 35 36 STEHLING. motivando inclusive o protesto formal do representante diplomático do Reino da Prússia no Brasil. cit.. tinham que se submeter a ordenados bem menores.. crimes e resistência. cit. admitiu estar passando por grandes dificuldades: “Pois estamos agora construindo uma nova casa e há oito meses a Companhia não faz pagamento porque ela está ruim. pp. Embora sejam ainda bastante restritos e fragmentados as dados disponíveis sobre os trabalhadores lusos e brasileiros empregados pela CUI. com cativos de todos os tipos35. neste sentido.. na cidade ou fora dela33. Pedro II apta ao trabalho. cit. dentre outras coisas. Pedro II em fins de 1858. Apesar dessa ameaça de levante ter sido prontamente reprimida pelo destacamento policial local.) não havendo acréscimo de juros por mora. Nº 7. . pp. se mantida a média de sua redução anual em 2. de meados dos anos 1850 até fins da década de 1870. dando a elas um aspecto ainda 33 STEHLING. Em cartas enviadas à Alemanha. Pedro II. a CUI empregava em suas obras. PPGHIS. Segundo Stheling.3 contos em 1870. não estava muito distante da realidade enfrentada. 206-207. o fato de que nas cidades e fazendas das províncias cafeeiras.1 contos de réis. de 1855 a 1861. Julho 2009 (13-18) . pp. seriam necessários mais de trinta anos para integralizá-la”. entre as décadas de 1850 e 1860. 306-310. Conflitos. grande parte dos imigrantes portugueses e alemães. 34 Entre os artífices e trabalhadores braçais estrangeiros engajados pela CUI.17 porque os colonos chegados em 1858. em particular. sobretudo em função da demanda cada vez maior dos cafeicultores da região por cativos. Pedro II. há fortes razões para se acreditar que esses operários recebiam os mesmos salários baixos e aviltantes pagos aos colonos germânicos34. 183-208 e FERRÃO. nessa época. essa realidade degradante – que se tornava mais grave com os constantes atrasos de salários.” Esse cotidiano de exploração e miséria. 10-12. a título de amortização de dívidas. contra “os maus tratos e as explorações que constatara pessoalmente nas visitas” que realizou. barão de Meusebach. Em dezembro de 1860. quando estes se empregavam como operários nas oficinas e canteiros de obra da CUI. Deivy F. portugueses e brasileiros nos empreendimentos e domínios da CUI. a exemplo do que ocorria com muitos jornaleiros nacionais livres.. como notou o autor. Dos salários recebidos por esses operários. nos anos posteriores à inauguração da referida malha viária. STEHLING. como a edificação de pontes e a operação das estações de muda e carga distribuídas ao longo dessas estradas. na maior parte do terceiro quartel dos oitocentos. eram obrigados a labutar. víveres. ou seja. Esse endividamento. predominavam os germânicos e lusitanos. Embora se mostrasse otimista em relação à exploração de seu prazo na Colônia D. segundo cálculos de Giroletti. Contexto após 1865: uso mais intenso de mãode-obra livre No que se refere especificamente à composição da força de trabalho. e também de seus vários ramais. Por contrastar em tudo com o que havia sido anteriormente prometido pelos representantes da CUI em Hamburgo. a situação parece ter se invertido por completo. mais grave. (. a dívida foi reduzida para 67.. deviam saldar também o valor dos seus respectivos prazos na Colônia D. Por outro lado.História & Luta de Classes. Numa carta de abril de 1862. como evidenciam as jornadas de mais de dez horas diárias que tinham que cumprir os salários baixíssimos que recebiam geralmente com atrasos de até onze meses e com descontos que chegavam à metade do seu valor nominal e a repressão e punição daqueles que ousassem se contrapor a esse quadro de injustiças. que encarcerou por alguns dias os seus supostos líderes. aconselhados pelo diplomata prussiano. ombro-a-ombro. pequenos animais de criação). pp. o colono João Ziegler informou a seus parentes. Op. o clima de tensão não diminuiu.. 206-207. as péssimas condições de habitação e a escassez de gêneros alimentícios . UFRJ. ferramentas.. Op.se constituiu na principal causa de uma tentativa de sublevação na Colônia D. Mas os brasileiros livres da região eram também uma importante fonte de mão-de-obra qualificada e não qualificada: Ver BIRCHAL. relatava que metade de seu ordenado era retida mensalmente pela empresa. mantinha grande parte dos colonos atada aos ditames da empresa: “De um montante de 73.) Já há muito tempo porém estávamos esperando o pagamento e como ouvimos falar este poderá demorar ainda três meses36. que trabalhavam então cerca de dez horas por dia em uma pedreira da CUI. Op. pelos operários germânicos. Rio de Janeiro. permeado pelas brutalidades do sistema escravista. em especial. de 1$000 em média.. entretanto. que durante a construção da rodovia que ligava Juiz de Fora a Petrópolis. p. CARNEIRO. Op.8 contos em 1867. à citada colônia agrícola. os artífices não-escravos configuraram-se enquanto maioria apenas em certos serviços especializados. além de serem obrigados a reembolsar as despesas com as viagens marítima e terrestre e pagar por outras “antecipações” eventualmente recebidas (moradia. muitas práticas características do mundo senhorial se faziam presentes. ao percorrer pela primeira vez a ligação macadamizada entre Petrópolis e Juiz de Fora. 2004. enquanto alguns preferiram ainda se mudar para outras áreas. Cabe lembrar. por conseguinte. Com efeito. pp.. (.

(.18 . papéis fundamentais nesse processo de consolidação e expansão da produção cafeeira na região. situação que contribuiu decisivamente para a própria falência daquela Companhia. 240-243 e 311-313. após períodos de chuvas intensas e entre os meses de maio e outubro. AGASSIZ & AGASSIZ. cit. só se admitem trabalhadores livres (principalmente alemães e portugueses). explorando as pedreiras. jan / mar. ocorrida por volta de 1879. Nessa mesma época. o trabalho e a produção permaneceram intensos nessas oficinas. De fato. retificando os taludes. pp. por exemplo.. pp. cit. a CUI necessitou manter numerosas turmas de operários ao longo da extensa malha viária sob sua concessão38. cobrindo o sulco deixado pelas rodas. cit. Com efeito. vinte e poucos anos após terem sido percorridas pelo imperador e por destacados membros das elites locais. . GIROLETTI. da olaria e da telheira que a CUI mantinha nos arredores de Juiz de Fora. quebrando pedras para o macadame. após ter sido amplamente empregado nas obras de implantação da rede de estradas da CUI. pp. a escritora norteamericana Elizabeth Agassiz notou que desde 1865. 80-83 e 93-96. pp. Como sugere o conjunto de informações apresentado até aqui. 40 ESTEVES. Cit. tendo Cf. que perdia a sua importância à medida que novos trechos da ferrovia D. Rio de Janeiro.. 38 37 41 BASTOS. que 40 requeriam e recebiam manutenção constante . 39 STEHLING.. 1956. pelo menos. Op. que a CUI produzia boa parte do material empregado na edificação e manutenção de suas estações. Op.. Era justamente nesse complexo manufator.. cit. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.) inspira-se na idéia de limitar pouco a pouco o trabalho servil às ocupações agrícolas. a julgar pelo volume total de mercadorias transportadas por essa via durante os seus dez anos iniciais de operação até meados da década de 1870. que exigem grande quantidade de trabalhadores constantemente em ação. cabendo quase que exclusivamente a assalariados germânicos. pp. 56... Op.” em vista o crescimento contínuo verificado no volume de cargas e passageiros transportados pela CUI na sua principal estrada e em seus diversos ramais na região. como conseqüência direta da gradativa diminuição do fluxo geral pela Rodovia. op. pp. além das carroças e diligências que trafegavam 39 pela malha rodoviária sob sua administração . Tal complexo manufator só arrefeceu o ritmo de sua movimentação em meados do decênio seguinte. Esse cuidado em excluir os escravos dos trabalhos públicos (. o braço servil foi fortemente confinado na lavoura. a direção da CUI procurava se adequar à política imperial de restringir o uso de mancípios em obras e serviços públicos: “Para a conservação das estradas. PIRES. p. pp. Pedro II eram franqueados ao tráfego. A presença massiva e diligente desses homens se fazia indispensável. Op. entre as décadas de 1850 e 1870. 10-12. Albino... houve a extinção oficial da Colônia D. Mariano Procópio: trabalhos originais. Op. seguramente o mais importante da região até o início da década de 1870. aquelas antigas instalações manufatureiras foram alienadas para um consórcio integrado por industriais e negociantes radicados no Rio de Janeiro. etc. 42-45 e STEHLING. 63-65 e BIRCHAL Op.Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria acompanhando seu marido e outros membros da expedição científica liderada por ele. Ao que tudo indica. em maior ou menor grau. quando se processava o escoamento do grosso da produção cafeeira da Zona da Mata mineira para o seu principal porto exportador. cit. Durante toda a década de 1860. esses trabalhadores livres foram majoritários também na operação das grandes oficinas.) para as reparações. sobretudo. Pedro II 41. cit.. 244-264.. portugueses e brasileiros a realização dos serviços rotineiros de manutenção da referida malha viária. tanto os cativos quanto os indivíduos livres pobres desempenharam. 144-145. afastando os escravos das 37 grandes cidades e suas vizinhanças . Deste modo.

3 Dario Crespo assumiu na Câmara dos Deputados. Setor Comunismo. Nº 7. 3. O fechamento da Federação Operária. Diário de Notícias. por continuar na ilegalidade. sobretudo procurando atingir os movimentos sociais progressistas. portando material de propaganda. aumentava as suas ações visando maior visibilidade política. sacudido por extremismos de toda sorte. MCSJHC/RS. em que o mundo se contorce. APERJ. ganhava no Rio Grande do Sul o apoio de Flores da Cunha1. organizadas pro diversas concepções políticas. quando Dario Crespo. Ao mesmo tempo. proferiu um discurso centrado na manutenção da ordem: “Num momento. de 12/02/1935. no seu prontuário no Fundo DESPS. por ideologias avançadas e antagônicas. em 13 de maio. de apreensões e de incertezas. 185. C re s c i m e n t o d a A N L e re s t r i ç ã o democrática A restrição das liberdades civil e política. um maior fechamento do regime. Porto Alegre. essa lei presida um alto espírito liberal (. chefe de polícia rio-grandense. Diário de Notícias. conseqüentemente. Cinco dias depois foi empossado no cargo Poty Medeiros.)”.. Muitos militares que haviam apoiado o Governo Vargas passaram a chamar o Movimento de 1930 de “revolução traída”. tendo a frente o Partido Comunista do Brasil (PCB) passara a organizar-se em frente popular propondo reformas radicais no desenvolvimento capitalista no Brasil. Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. Esta seria uma das últimas medidas do Chefe de Polícia do Rio Grande do Sul. demonstrando a continuidade da política policial desenvolvida no estado e de acordo com as medidas repressivas nacionais em curso. ao contrário. as diretorias dos sindicatos da capital tratavam da reorganização da Federação Operária do Rio Grande do Sul (FORGS)... em 21 de maio. via ANL. Porto Alegre.. metalúrgicos e operários em fábricas de mosaicos. No estado. p. . (. o temor do PCB de expor os seus principais líderes aumentou. 22/05/1935. O PCB. a oposição liberal-democrata temia a diminuição das liberdades públicas. Quanto mais procurava se organizar o PCB. MCSJHC/RS. Ernani de Oliveira. A repressão também decorria do sucesso do comício da ANL que reuniu no Rio de Janeiro mais de seis mil pessoas. Cf. cabe à polícia missão demarcada e notória. prevenindo os delitos e assegurando a estabilidade social.) Nunca esteve em meu pensamento dotar o governo de um instrumento de compressão. Meu desejo sincero é que. 2 Cf. Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP. Pasta 4. O novo chefe de polícia do estado. visando também os militares antivarguistas. no Rio de Janeiro. Sua marca nacional era a posição antilatifundiária e antiimperialista. p. Setor Prontuários. 16. órgão do Comitê Central do PCB. Na ocasião. 1 Flores da Cunha deu sua principal opinião sobre a LSN em 11/02/1935: “(. Prestes respondeu em carta para Hercolino Cascardo. visando contrapor-se ao avanço do nazifascismo. 1. edição original do jornal do Fundo DOPS.19 o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Diorge Alceno Konrad* m 1935. Cf. resolveu impedir a *Professor Adjunto do Departamento de História e do Mestrado de Integração Latino-Americana da UFSM. Cf. 10/04/1935. No dia 22 de maio. suas declarações no Diário Carioca. todos acusados de comunistas. dentro da qual seja possível o convívio sereno e tranqüilo da grei humana. a polícia prendeu em torno de vinte pessoas. Era um subterfúgio para fugir à ação da polícia comandada por Filinto Muller. ou para a direita na Ação Integralista Brasileira (AIB). como se estivesse em Barcelona e não no Rio de Janeiro4. Porto Alegre.. o Brasil atravessava uma conjuntura política de radicalização das posições ideológicas. MCSJHC/RS. 5 Cf. Ao ser convidado para assumir a Presidência de Honra da ANL. A Federação. e a esquerda.. Julho 2009 (19-24) . a organização política e social organizada em todo o país e criada em março de 1935. em devassa a casas suspeitas. Era uma resposta concreta ao crescimento da ANL. mais a repressão recaía sobre os seus militantes. Notação 454-1. levando-os à DOPS5. através da LSN. 4 A carta foi publicada posteriormente em A Classe Operária. p. mas horrorizava-se com qualquer perspectiva de radicalização à esquerda. em janeiro de 1935. pedindo a intervenção de Dario Crespo2. em ação.História & Luta de Classes. Entretanto. Com a LSN. expunha-se a riscos maiores diante da repressão policial. como o presente. resolveu mandar fechar a Federação. o chefe de polícia do Distrito Federal.) Sou inteiramente favorável à LSN. Comunistas. da Inspetoria Regional do Ministério do Trabalho. que se encontrava fechada desde as greves surgidas entre os têxteis. 17/04/1935. presos no Rio. na edição de 20/06. então abrigado essencialmente na ANL. Vargas e seus aliados estavam em luta pela aprovação da Lei de Segurança Nacional (LSN) e. E reabertura da entidade. na expansão sadia de toda atividade honesta”3. dirigindo-se para a esquerda na Aliança Nacional Libertadora (ANL). A ANL era a expressão brasileira das frentes populares. n. APERJ.

Enquanto isso. tratou de intervir nos núcleos aliancistas do Rio Grande do Sul. 2001. Os três oficiais foram absolvidos pelo TSN em outubro de 1938. Tomo XLV. MCSJHC/RS. AN. medida que repercutiu com simpatia nos meios políticos rio-grandenses. os primeiros-tenentes Felipe Vianna e Prudente de Castro. Sílvio Porto Dias (tenente do 7º RCI de Livramento) e Hugo de Souza Silveira (de Uruguaiana)8. dizia que Vargas não tomava “nenhuma providência radical contra as idéias subversivas. a polícia passou a invadir. 8 O tenente Hugo Silveira. p. visto como a força armada para ali destacada tem ordem de carregar à menor provocação ou grito sedicioso dos comunistas”. 655. todas das sedes da UFB. Em São Paulo. seu presidente Hercolino Cascardo declarou para o jornal A Manhã que desconhecia a medida oficial. 2ª ed. o governo do estado criou a Polícia Especial.20 . de 5 de julho de 1935. Esse processo. fez circular constantes boatos e notícias na imprensa de que o governo tomaria novas providências em relação a medidas repressivas. ex-dirigente do núcleo da ANL de Uruguaiana foi denunciado ao TSN. a íntegra desse decreto. acusando Filinto Müller de “difamar a reputação de milhões de brasileiros dedicados de corpo e alma à libertação de sua pátria”. defendia a luta direta ou velada contra o comunismo. 11 Ainda em julho. Alzira de. em 24/06/1937. nos finais de junho de 1935. LATTMAN-WELTMAN. o capitão Agildo da Gama Barata Ribeiro (VicePresidente da Comissão Provisória da ANL estadual e integrante do 8º Batalhão de Caçadores de São Leopoldo) e. Porto Alegre. 246. sete meses e quinze dias de prisão. especialmente p. jornal dirigido pelos interesses de Flores da Cunha. a polícia gaúcha. Cf. O mesmo acontecia nacionalmente. pelo procurador Honorato Himalaia Virgolino. hoje. Pelo panfleto.. Agildo Barata foi processado e condenado em um ano. exercendo também severa vigilância sobre suspeitos de serem comunistas ou anarquistas. Dicionário históricobibliográfico brasileiro pós-1930. Em todo o país. jornal conservador do Rio de Janeiro. p. Arquivo Nacional (AN). 1º vol. Fernando e LAMARÃO. 10 Neste dia. procurassem “derrubar o regime por meios violentos”12. 201 – Cícero Carneiro Neiva e outros. no dia 21. sob o comando de Dom João Becker. 9 Cf. O crescimento aliancista verificado até então fez com que os setores conservadores reagissem a ela. Barata foi acusado de pregar a subversão da ordem social conforme a LSN e diretamente incitar o ódio contra as classes sociais. em maio de 1938 pelo TSN. as mulheres aliancistas e antifascistas fundaram a União Feminina do Brasil (UFB). Sérgio Tadeu de Niemeyer (Coord. já se divulgava que Filinto Müller entregara a Vargas um relatório sobre as atividades oposicionistas na capital e nos estados. 6 . acusados de tentar aliciar as praças do 7º Batalhão de Caçadores do Porto Alegre. 140-317. fechar e lacrar as sedes da entidade.) ficou restrito ao Rio de Janeiro. principalmente entre republicanos. além de maior atuação pública do PCB.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. O manifesto de Prestes foi a justificativa para Vargas determinar o fechamento da ANL. quando o Diretório Estadual Provisório da ANL do Rio Grande do Sul chamava para o lançamento da entidade. Além destes. Israel. com sete volumes. 26/06/1935. Barata fora denunciado em outubro de 1935 por distribuir e assinar o panfleto “Ao Povo de São Leopoldo”. tanto que no dia 25. Porto Alegre. eram listados os militares José de Andrade Leão (de São Leopoldo)7. em ABREU. juntamente com os tenentes Cícero Carneiro Neiva e Carlindo Gonçalves Lopes. BELOCH. se preciso. com o objetivo de articulação comunista no estado para “secundar o movimento extremista que (. na primeira página. Rio de Janeiro: CPDOC/FGV. Pela atuação específica na ANL do Rio Grande do Sul. 13 Cf. 63 – Agildo da Gama Barata Ribeiro. Fundo Tribunal de Segurança Nacional. a 3ª Delegacia Auxiliar de Porto Alegre enviou para a DESPS. sob n. o Fundo Tribunal de Segurança Nacional. Mas o motivo esperado por Vargas viria com o Manifesto de Luiz Carlos Prestes. organização que não chegou a completar dois meses de existência. Vol. na capital federal. 1994. No dia 24. 1199. 1. marcados pelo anticomunismo11. Um dia após o fechamento da Aliança. À população ordeira da capital. sua presença nas proximidades do Teatro São Pedro. Para os integrantes da minoria. foi qualificado pelo TSN.. escrito por Renato Lemos. Jornal da Manhã. foi fundada a Ação Social Brasileira (ASB). somente por não ter uma lei onde se basear”9. Uma Frente Parlamentar da Maioria e Minoria para combater os extremismos. em novembro de 1935. no caso em que os extremistas. subordinando-a a Secretaria de Superintendência de Ordem Política e Social. 1. 05/07/1935.221. Correio do Povo. Cf. onde morava. ver minha dissertação de mestrado 1935: a Aliança Nacional Libertadora no Rio Grande do Sul. 74. p. 12 Cf. como tentativa da ANL do Rio Grande do Sul. 229 de 11 de julho. Jornal da Manhã. p. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Repressão e maior mobilização era o duplo da conjuntura.. 7. A justificativa foi de que a polícia do estado necessitava de “um aparelhamento de repressão capaz de atuar com presteza e eficácia nos casos de grave perturbação da ordem pública”6. republicanos-liberais e libertadores. No dia 25. Logo após a divulgação do fechamento da ANL. 1935. após terem sido expulsos do Exército. atuação e fechamento da ANL no Rio Grande do Sul. MCSJHC/RS. essas declarações no verbete sobre Cascardo. 14/07/1935. por falta de provas. p. a frente de mulheres do PCB. Negava as acusações de que a ANL era comunista e ameaçava o chefe de polícia de levá-los aos tribunais por aquelas acusações13. no Rio Grande do Sul. pois a campanha da “pacificação política rio-grandense” vinha sendo acompanhada de outra “para neutralizar e impedir a expansão das idéias extremistas” e o “perigo comunista”. Cf. o Correio da Manhã. MCSJHC/RS. a decisão só seria de “combater abertamente o extremismo e apoiar-se na maioria. Apelação n. a Aliança recém estava lançando oficialmente a entidade estadual. indicando todo o poder à ANL10. Cf. Todos eram apontados como integrantes da lista dos oficiais aliancistas do Rio Grande do Sul que lideravam a agremiação. Na Câmara dos Deputados. Processo n. Pouco depois a polícia acatou o decreto governamental que também ordenava fechar. Rio Grande do Norte e Pernambuco. a lista dos seguintes nomes: o capitão Francisco Moésia Rolim. No mesmo dia. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado. 7 Ele se filiara ao PCB em fevereiro desse ano.). Sobre a organização. no Rio de Janeiro. através de decreto n. As atividades extremistas. na Coleção de Leis e Decretos do Estado de São Paulo 1935. através do decreto n. cujo programa próximo ao integralismo. crescimento. O alvo era os movimentos sociais e políticos de oposição. 1. Apelação n. indo da palavra a ação”. Porto Alegre. conclamava a população de Porto Alegre a não se aproximar do local: “O Jornal da Manhã sente de seu dever avisar a população pacata e ordeira de Porto Alegre que evite. Processo n. A ampliação da organização da ANL e a maior mobilização dos trabalhadores. Porto Alegre: PUC-RS. reuniões da maioria com a minoria um entendimento unificava diferentes partidos das classes dominantes brasileiras. no Teatro São Pedro. 1º Semestre. 1. onde se realizará um comício da ANL. 528. por sugestão de Góis Monteiro.

No Rio Grande do Sul não seria diferente. no Governo Popular Nacional revolucionário”. chamado pela imprensa de “chefe comunista no estado”. pois as polícias. o intuito era “reforçar o próprio Partido”16. a ANL passou a servir de exemplo das frentes antifascistas. 244-5. Bernardino identificou Dyonélio Machado como o autor dos boletins. p. que tomou as providências para impedir diversos comícios na “Jornada Vermelha Internacional Contra a Guerra Imperialista”.21 Depois da ilegalidade. a referência sobre o Rio Grande do Sul era de que estavam sendo realizados trabalhos de massa. Jornal da Manhã. quando se tentava organizar a juventude a favor da ANL. Flores da Cunha considerou que todos aqueles que no Rio Grande do Sul agissem como Dyonélio. constatou que ele havia cometido suicídio brincando com o revólver. respectivamente. Vida de um revolucionário (memórias). essas duas prisões. pois ela seria “o organismo” que iria “ocupar o poder com Prestes à frente. 19/07/1935.. acusando o PCB de esconder-se através de sua sigla e de estar a serviço de Moscou.. negando para a polícia “empenho em criar uma situação de embaraço para a coletividade trabalhista do estado.. no dia 15. p 3-5. a ANL chama a mobilização e o governo aumenta a repressão A ANL tentou resistir ao seu fechamento. Pátria. A Secretaria de Segurança Pública distribuiu um comunicado à imprensa.) Não bastam. ainda não era filiado ao PCB. o PCB programou um mês de protestos por todo o país. p. p. Augusto Moreira Lima e Lúcio Soares Neto para acompanhar o inquérito.. Nº 7. também integrante da direção da ANL17. declarando saber que “desordeiros” pregavam a greve geral entre o operariado “visando perturbar a marcha do trabalho brasileiro”15. 4 e 6. PCB (Seção da IC). Em São Paulo. a polícia prendeu em flagrante o gráfico Bernardino Garcia nas oficinas da Livraria do Globo. apesar da reação. foi encontrado morto em um bar do centro de Porto Alegre com um tiro na cabeça. Em todo o Brasil. Arquivo Edgard Leuenroth (AEL/UNICAMP). sofreriam “guerra sem tréguas do governo”. levando-a a uma parede prejudicial aos interesses políticos. 2ª ed. que passou a ser 14 Enquanto era fechada no Brasil. MCSJHC/RS. colocada em prática no Rio Grande do Sul. Agildo. tendo conhecimento prévio dos locais escolhidos pelo PCB. No dia seguinte ao da prisão de Machado. Apesar de ser uma das principais lideranças antifascistas do estado. Dyonélio Machado. especialmente pela seção de Segurança Política e Social. p. 1.. Em 14/10/1935. 17/07/1935. No entanto. conclamando os trabalhadores a fazer greve contra o ato arbitrário de Vargas14. se estendia por todo o Brasil. em entrevista coletiva. Visava desencadear greves nas cidades e luta nos campos.) somente o fechamento desses núcleos não bastaria para reprimir. 1978. O advogado Aparício Córa de Almeida.História & Luta de Classes. por motivo do fechamento da ANL. O PCB também procurou reagir. efetiva e eficazmente a ação anarquista. impetrou hábeas corpus em favor dos detidos. os operários do Lanifício Eilet – Armênio e da Estofaria Matarazzo declararam-se em greve parcial. A promessa repressiva de Flores da Cunha. com a tática da ANL ser a “dirigente geral e coordenadora de todas essas lutas” naquela etapa da revolução. Julho 2009 (19-24) . Estudantil e Popular. em Porto Alegre. Serafim Braga. 15 Cf. aos 29 anos de idade. da Comissão de Agitação e Propaganda Nacional. A família de Aparício contratou os advogados Alberto Pasqualini. suspeita de cometer o crime. porque a polícia não permitiu o piquete. A matéria do Jornal da Manhã esclarece essa posição: “(. a polícia invadiu o local. ocorrido em Moscou entre a última semana de julho e a primeira de agosto. tanto do Distrito Federal como dos estados. chamando movimentos para 1º e 23 de agosto. 19/07/1935. prendendoos preventivamente e enviando o caso para a Justiça Federal. devido à censura comandada pelo governo estadual.. criminosa desses elementos que agem a soldo da URSS (. Porto Alegre. comemorando o primeiro aniversário do Congresso Nacional contra a Guerra e o Fascismo e preparando o Congresso da Juventude Operária. qualquer tentativa de organizar resistência legal ao fechamento da Aliança. MCSJHC/RS. depois de ser inquirido pelo delegado Argemiro Cidade. convocando manifestações para reforçar a Aliança. mas nada conseguiram provar. João Antônio Mesplé. No dia 16.) para o esmagamento completo dos conceitos de Religião. chefe da seção de repressão social e política. a polícia deteve o médico e escritor. o Boletim de Agitação e Propaganda. Jornal da Manhã. principalmente nas minas de carvão e outras. 17 Aparício Córa de Almeida. Em agosto de 1935. Dyonélio assumiu a responsabilidade. 12. conclamando os operários a parar o trabalho em protesto. distribuiu diversas turmas de investigadores por todos os pontos da Capital Federal. ampliava-se em todo o Brasil o discurso contra a ANL.. dissolvente. Porto Alegre. Em seguida. Combate ao extremismo. o anticomunismo se ampliava no Rio Grande do Sul. Rio de Janeiro. as atividades começaram no primeiro dia do mês. Liberdade e Família (. sendo já esperadas pela polícia. era o primeiro secretário da ANL gaúcha e integrante do PCB no Rio Grande do Sul. São Paulo: Alfa-Ômega. MCSJHC/RS. as circunstâncias da morte de Almeida em BARATA. . Cf. prendendo vários. visando principalmente às “atividades extremistas”. Ao mesmo tempo. a morte de Almeida teve pouca repercussão na imprensa. decididas como forma de organização prioritárias pelo VII Congresso da IC. quando distribuía panfletos sobre o fechamento da ANL. Coleção Internacional Comunista. Estudantil e Proletária. sociais e econômicos do Rio Grande”. através do Órgão da Juventude Popular. a fim de impedir que eles realizassem comícios clandestinos.) Chegamos a uma situação em que não é mais possível ter-se a menor contemplação com essa gente”18. Cf. Porém. No Rio de Janeiro. apesar de presidente da ANL no Rio Grande do Sul. idem. Julho de 1935. os comunistas mascarados incitam o operariado à greve geral e Pregando a greve geral entre o operariado paulista. passaram a elaborar planos de ação conjunta. Houve pequeno conflito entre os operários que deixaram o trabalho e os que nele permaneceram. 18 Ver Medidas extremistas? e A prisão de dois elementos indesejáveis. Nesse documento. Mesmo assim. então responsável pela DOPS. a Chefia de Polícia enquadrou Dyonélio e Bernardino no artigo 19 da LSN.. A polícia de Flores da Cunha. Assim. 16 Cf. No dia 17 de julho. porém. em uma reunião no Sindicato dos Empregados no Comércio. advogado criminalista. (. aparecia para os setores conservadores como movimentação dos “extremistas”.

por ter elaborado um panfleto contra a LSN. tendo cassada a sua patente militar em abril de 1936. Pelo ofício n.) incitando a uma greve geral. a fim de serem identificadas e prestar declarações. Depois de decretada prisão preventiva. os operários mineiros estavam distribuindo. mandou prender o capitão Antônio Rollemberg. retirada de ônibus da Avenida Rio Branco. salário mínimo. praças da Brigada Militar e agentes da Guarda Civil. MCSJHC/RS. Isto não é simplesmente uma frase como tantas outras que se repetem vagamente. No Rio Grande do Sul. operários que distribuíam panfletos. Em 26/07. Enfatizava suas influências sobre investigadores e delegados de polícia. Nesse episódio. p. para a polícia. Assim. os quais reivindicavam abolição das comissões sobre a féria diária. 5. foram dadas várias batidas depois de denúncias recebidas sobre “atividades extremistas” no local. Ver Fundo DPS. p. por este ter assumido a distribuição de panfletos na capital federal. determinou o fechamento por seis meses dos núcleos da “União e Luz Operária Russo-Branca-Ucraniana. Ao mesmo tempo. Durante o inquérito ficou apurado ser Dario Garberlotti “cabeça do movimento que se esboçava”. foram chefiadas por vários delegados e pelo comandante interino da Guarda Civil. Foram apreendidos também um mimeógrafo. Calinik Demianchisk e Alexandre Slinko. Ao tomar conhecimento da delação. Ali. Foi efetuada a prisão de muitas pessoas. sempre apoiado por boa parte da imprensa carioca. descanso semanal e modificação do regime de multas. Processo n. dela participando numerosos investigadores. No início de agosto. Em 14 de outubro. contraditoriamente dominada pela censura. Darci Azambuja. A ANL. Setor Prontuários. chamava a atenção de Filinto Müller e do Ministro da Justiça Vicente Ráo sobre o capitão e aliancista Trifino Corrêa.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. foram expulsos do país Daniel Rapcki. lhe dando informações sobre a movimentação ilegal da ANL nos estados do Sul. foi recolhido à Casa de Correção21. AN. entre outras coisas. encarregado da Ordem Política e Social. o ministro da Guerra. o decreto n. a respeito do que será o Governo 21 Dario Garbelotti. apesar de lançada na ilegalidade. de 23/12/1935. AHRS. Porto Alegre: Imprensa Oficial.. APERJ. a polícia divulgava a prisão de Dario Gaberlotti e Alberto Lukinskas. Teodoro Jasyk. Poty Medeiros. considerando que agiam “atividade subversiva da ordem política e social”. o Fundo TSN. 13. “os verdadeiros fins daquelas assembléias”. que centrava os ataques na ANL. Com a participação na Insurreição de 1935. Sub-Série Entrada de Presos. Porto Alegre. de acordo com as leis vigentes na época19. A prisão de Garbelotti se deu após o delegado Argemiro Cidade. que “repetidamente era distribuído em ruas daquele distrito entre a classe proletária” e que expressavam a teoria marxista. primeiro secretário da ANL do Rio Grande do Sul. o jornal A Batalha. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Em Porto Alegre. Esta funcionava clandestinamente e quase que exclusivamente com militantes comunistas. de 10/12/1935. Cumpriu pena na Casa de Correção até 08/04/1936. revelando assim. 42 – Antônio Rollemberg e Outros. 1936. ainda no dia primeiro de agosto. mineiro e natural de Santa Catarina. assinado por Getúlio Vargas e Vicente Ráo. a polícia apreendeu “documentos suspeitos vazados em língua russa”. era feito com os movimentos sociais. A DOPS havia recebido denúncia de que a Sociedade Luz de Russos Brancos e Ucranianos vinha realizando reuniões secretas. a polícia do Rio Grande do Sul considerou a “Sociedade Luz de Russos Brancos e Ucranianos” como uma entidade que desenvolvia “intensa atividade na propaganda bolchevique” o que justificava o pedido de expulsão do território nacional dos membros da diretoria.. por decretos do Ministério da Justiça. Justamente com esta receberá as últimas instruções do Diretório Nacional. P-318. Cf. chamadas na época de canoas e realizadas com grande aparato. boletins (. em atitude policialesca. será a força capaz de dirigir o povo e todos os brasileiros serão obrigados a tomar posição clara nos próximos dias a favor ou contra ela. a fim de obterem. O Estado de Guerra e a LSN. “entre seus companheiros de trabalho. As diligências efetuadas. Rollemberg foi denunciado no TSN em processo conjunto em 12/07/1937 e julgado em 22/03/1938. Luiz Carlos Prestes escreveu para o major Carlos Costa Leite.172. a fim de evitar as manifestações. general João Gomes. numerosas cartilhas e livros elementares. A íntegra do decreto pode ser vista em JORGE. Durante a batida forem encontrados cerca de sessenta homens e dez mulheres durante uma reunião. receber uma denúncia do município de São Jerônimo. Correio do Povo. 15/10/1935. então dirigida por Júlio Barata. 1937. p. incurso no artigo 19 da LSN. oito horas de trabalho. além de grande quantidade de material de propaganda. Rio de Janeiro: Borsos e Cia. que passaram a ser traduzidos pela polícia.22 . quando foi preso tinha apenas 17 anos.. Fundo Polícia. que teriam como objetivo “desenvolver idéias comunistas no Rio Grande do Sul”. Marchamos a grandes passos para uma crise durante a qual ninguém poderá ficar neutro. com base nos termos do artigo 29 da LSN. anunciou que os “agitadores estrangeiros que foram detidos” deveriam ser expulsos do país. Notação 1. No dia 13 de agosto. no dia da morte misteriosa de Aparício Córa de Almeida. Teobaldo José.. onde estavam situadas as minas do “Arroio dos Ratos”. Mensagem enviada à Assembléia Legislativa pelo Dr. . Foi julgado como comunista e condenado a 6 meses de prisão celular em 07/03/1936. 309. Ali. a polícia do Rio de Janeiro conseguiu impedir a deflagração de uma greve de motoristas. 19 O anúncio do chefe de polícia foi cumprido. Série Casa de Correção. conduzidas à Chefatura de Polícia. a reabertura das sedes da ANL”. principal localização operária da cidade. Resulta da análise aprofundada da situação econômica e política em que nos encontramos. Apelação n. 22 Cf. livro de matrículas n. o delegado imediatamente mandou um investigador a São Jerônimo para apurar as denúncias e efetuar a prisão dos indicados22. 1842. foi preso. André Ckoviescivice. em outubro. Biblioteca Nacional (BN/RJ). 1935-1936. em 01/07/1936.20 integrante aliancista. Secretário dos Negócios do Interior no exercício do cargo de Governador do Estado. 90-1. 85. chefe de polícia.. Cf. O mesmo procedimento de vigilância policial. 9 (este foi aberto e fechado por Poty Medeiros). a polícia priorizou a atuação no 4º Distrito. 20 Rollemberg já havia sido peso em março. AHRS. Cf. afirmando: Estamos incontestavelmente nas vésperas de grandes acontecimentos em todo o país. Cada vez mais a polícia apertava o cerco sobre integrantes do PCB e da ANL. Distribuíam boletins subversivos.

Correio do Povo. Se os avanços das greves e a criação da ANL serviram de justificativas para o estabelecimento da LSN. em uma de suas reuniões. Esta carta caiu sobre o domínio policial quando a casa de Ipanema. enquanto que outras categorias eram convidadas para aderirem ao movimento27.23 Popular Revolucionário. traria a justificativa final e esperada para o governo Vargas. após a ilegalidade da Aliança. Em relação ao caso. em 2 de agosto. MCSJHC/RS. Focalizando a ANL como núcleo comunista. Cf. 23 O rascunho desse bilhete foi encontrado no cofre “programado” para explodir. a campanha anticomunista continuava em todo o país. Nesse mesmo mês. 25 Essa informação se encontra no seu prontuário. Manifestaram-se em greve os operários metalúrgicos no Rio. Os integralistas trouxeram para Porto Alegre Gustavo Barroso. Pedro Ernesto. 2009. Porto Alegre. o movimento ainda não tivera “tempo de preparar a mocidade para dirigir o Brasil Novo”26. dando a palavra de ordem de combate ao fascismo”. Notação 264. A herança colonialista e imperialista mpossibilitou a necessária ampliação do mercado interno e restringiu a possibilidade de amplos empregos. em colaboração com o Centro de Cultura Moderna. afirmava para a imprensa acreditar “piamente na vitória do integralismo e. Durante a sua prisão. Ver o conteúdo da carta para Costa Leite e o comunicado para Barata em recortes do jornal carioca Diário da Noite de 10 e 11/01/1952. . Os operários metalúrgicos do Rio de Janeiro declararam-se em parede por motivos salariais. e com total liberdade de ação. No Rio de Janeiro. O sentido histórico da ANL29 Fatores estruturais incidiram sobre a formação do conjunto dos movimentos sócio-políticos brasileiros contemporâneos. chegou a telegrafar para Flores da Cunha. APERJ. os três membros representantes do Komintern eram Luiz Carlos Prestes. César. Ver a relação de todos os documentos no Fundo DPS. p. Por sua vez. Setor Prontuários.asp?texto=3415. O proletariado citadino. 24 Cf. no dia 21. Porto Alegre. 27 Cf. mais breve do que seria de desejar”. a decisão da aplicação tática do PCB. além de uma significativa reserva de força de trabalho barata. infelizmente. os patrões negavam-se a atender as reivindicações. Notação 451. o periódico alegava que o governo de Getúlio Vargas era fraco e “pouco enérgico na repressão ao comunismo28. enquanto participava do Congresso. 26 Essa certeza de vitória era compartilhada pela maioria dos integralistas da época. favorecidos pela situação da Itália e da Alemanha. a AIB gaúcha organizou seu Congresso Provincial. anunciava-se a campanha iniciada no Rio de Janeiro pelo Sindicato Médico Brasileiro. integrante da Coluna Prestes e o braço direito de Prestes na organização da ANL no Nordeste. O jornalista e integrante da direção nacional da Ação Integralista. p. Dimitrov estaria confirmando os esforços conspiradores de Prestes. foi descoberta. D i s p o n í v e l e m http://www. porém sendo tratadas pelo governo como greves políticas. Série Dossiês – Revolução de 1935. Dizia que Komintern estaria “dirigindo a todos os núcleos do mundo uma circular secreta sobre a orientação da campanha vermelha. 118-9. conclamando-o a prosseguir a luta até a vitória da ANL. Fechava-se o regime de vez. Nº 7. Como de praxe. Porto Alegre. 17. Ver idem. opinião esta que naquele momento. 8/11/1935. 1. 29 Este item contém extratos ligeiramente modificados do artigo Movimentos sociais e políticos no Brasil Contemporâneo e a eleição de 2006. no Fundo DESPS. Notação 451. Abordando o VII Congresso da IC. onde se afirmou: “Nossa vitória é fatal. Jornal da Manhã. AEL/UNICAMP. p. Cf. apelando para a liberdade do líder da ANL gaúcha25. Setor Dossiês – Revolução de 1935. 22/10/1935. pela grande desigualdade econômica e social. mas talvez custe muito sangue. quando este estava em Porto Alegre. No início de novembro. onde respondia ação criminal como incurso na LSN24. MCSJHC/RS. mesmo que essencialmente de caráter econômico. por outro. que não fazia apenas reivindicações políticas. 21/11/1935. muitas lágrimas e muito luto”. O jornal carioca dizia que no Brasil. Dyonélio Machado escreveu para Prestes. Julho 2009 (19-24) . no Fundo DPS. as greves convocadas pelos líderes da ANL e que não aconteceram em julho. em 2/08. VIVEIROS. uma reportagem de A Batalha. Prestes escrevera também para Agildo Barata. detido desde julho no quartel do 3o Batalhão de Infantaria da Brigada Militar. então diretor geral do Museu Histórico Nacional e filiado a AIB desde 1933. Custódio de. Por outro lado. atingindo quase trinta mil trabalhadores. curiosamente incluía Getúlio Vargas e Góes Monteiro. 12. voltaram à cena social. instruções às quais estou de pleno acordo23. pois para ele. Viveiros. APERJ. p. APERJ. respectivamente como o primeiro integralista nacional e um dos próceres políticos que semearam a nacionalidade. O. Acesso em 27 mar. não se acomodava tão facilmente. Exemplo disso foi um livro publicado na época. representante dos comunistas de São Paulo.vermelho.História & Luta de Classes. marcados. prefeito do Distrito Federal. José Olympio: 1935. com o aumento da miséria.br/base. esta lógica de desenvolvimento capitalista expulsou um grande contingente populacional do campo. era uma obviedade. publicado o r i g i n a l m e n t e n o P o r t a l Ve r m e l h o . acabando com os poucos resquícios de liberdades civis que haviam sido conquistados na Constituição de 1934. onde moravam Prestes e Olga Benário. Ao mesmo tempo. citava o discurso de Dimitrov e a saudação “quente e vibrante” para Luiz Carlos Prestes para a “elucidação das atividades comunistas no país”. p. formando uma massa de subassalariados. do dia 20 de novembro. devido a monopolização e concentração de atividades fabris e de outras tecnologias em alguns nichos regionais. abordava a os planos do Komintern para a América do Sul e a “agitação comunista” especialmente para o Brasil. A agitação comunista no país. pela dependência às potências estrangeiras e.org. Rio de Janeiro. MCSJHC/RS. visando a libertação imediata de Dyonélio Machado. informandolhe sobre a situação política do Rio Grande do Sul. como que se previsse ou soubesse de algo para acontecer. Camisas Verdes. Jornal da Manhã. e um representante de Pernambuco. 31. através de intermediação de Costa Leite. Enumerando os meios de infiltração comunista nas classes armadas e diz que anulada a ANL logo seria substituída por uma “União Brasileira Libertadora”. Pela libertação de Dyonélio Machado. no início de 1935. provavelmente é uma referência a Silo Meirelles. 28 O “representante de Pernambuco”. por um lado.

visando manter o poder de Estado pelas classes dominantes brasileiras. sob as quais uma conservadora e reacionária classe dominante impediu. criando um forte processo de migração interna entre as cidades. Muitas destas lutas se deram em torno de um novo poder de classe e/ou por transformações políticas e sociais com bases estruturais. qualquer mudança progressista para as parcelas maiores e mais pobres de brasileiros. São Paulo: Ática. O resultado desse processo de repressão pelo alto ganhou seu ápice com o Estado Novo. Mas este processo histórico precisaria outro artigo para ser explicado. seja em lutas e greves da classe operária e nas diversas formas de organização dos movimentos sociais e políticos. diante da crise econômica e social vigente. etc. saúde. . reformistas ou revolucionárias. como identifica Edgard Carone. 1991. 30 Ver Brasil: anos de crise 1930-1944. especialmente pelo primeiro30. a história da luta social tem se contraposto às teses sobre a “índole pacífica” da sociedade brasileira. Ela foi concretizada em novembro. p. aprofundamento da LSN. Não foi diferente quando a ANL foi organizada e. seja através de guerras camponesas. Entretanto. muitas vezes de armas na mão. criação do Tribunal de Segurança Nacional e da Comissão de Repressão ao Comunismo seriam as formas como o Estado reforçaria suas instituições. inclusive pela repressão e pelas ditaduras. colocaram em oposição sociedade civil diante de um Estado dominado pelos interesses privados do latifúndio e do imperialismo e a serviço da dominação externa. desde os primeiros momentos foi atacada. liderada pelo PCB e pela ANL. Muitos segmentos sociais defenderam-se e resistiram. moradia. Estado de Guerra. contra a exploração de classe e a opressão semicolonial. Estado de Sítio. Muitas das lutas de resistência e por transformação social. Dentro deste processo de nossa formação econômico-social.24 . é de se ressaltar que. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional marcada pelo desemprego estrutural. das críticas que Vargas vinha sofrendo da oposição na Câmara Federal e das greves que aparentavam uma determinação crítica do operariado. 217. através da Insurreição Comunista. educação.Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora. sobretudo pela LSN. o que resultou em diversos problemas sociais e precárias condições de alimentação. havia um reforço da idéia de possibilidade de tomada do poder. por diversas vezes.

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A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul
Glaucia Vieira Ramos Konrad*
stamos podendo alargar a história do período do Estado Novo Rio Grande do Sul, entre 1937 e 1945. Desde a sua implantação, o novo governo ressentiu-se de uma base de apoio político e ideológico suficiente que desse respaldo necessário à sua existência. A construção da auto-imagem foi buscada, mas para isso foi preciso o apoio da intelectualidade e dos trabalhadores, através da construção de uma identificação com a ditadura. Talvez a historiografia e as ciências sociais tivessem a ganhar, deixando de lado termos como autonomia e heteronomia lidos como opostos inconciliáveis. Conclusões opostas como a existência absoluta de autonomia dos trabalhadores e do sindicalismo (como exemplos pinçados na Primeira República) ou total heteronomia (no caso do Estado Novo) não nos tem ajudado muito para compreender a diversidade e a heterogeneidade da classe trabalhadora brasileira, independente do período de análise. As novas fontes abertas ao público, sobretudo pela abertura ao público das fontes policiais, ou a releitura de velhas fontes, bem têm demonstrado esta insuficiência, mesmo que o discurso do Estado da época não reconhecesse o direito dos indivíduos, muito menos a luta de classes. Não se trata aqui, de ignorar a repressão violenta ou subestimar o controle do Estado sobre os trabalhadores. Mas considerar totalmente perdida a autonomia dos trabalhadores e seus sindicatos (mesmo os oficiais) não corresponde com as novas fontes que temos encontrado sobre aquele momento da formação social brasileira. A resistência e a autonomia, que, por sua vez, também não podem ser absolutizadas, fazem parte da trajetória de lutas por direitos. O discurso governista do fim da luta de classes não encontrava correspondência na disposição de confronto de muitas lideranças clandestinas, bem como de reivindicações de trabalhadores comuns. Por isso, o Estado Novo precisava e necessitava consolidar o seu poder.

Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”:

E

benefícios que o Estado forte e autoritário poderia fornecer a ela. Essa tarefa não se deu de maneira tranqüila, havendo necessidade da elaboração de uma intensa campanha para mascarar e impedir, até onde fosse possível, a oposição à ditadura. No Rio Grande do Sul não foi diferente do resto do Brasil. Para isso, foi preciso também manter presente o fantasma do comunismo. Em editorial intitulado “Mobilização Necessária”, publicado no Jornal do Estado, vê-se estampada a preocupação com o mesmo: “assumindo uma atitude definitiva contra a ideologia falsa do marxismo, coordenando todas as forças honestas e dignas da Nação para a defesa do Brasil, o governo federal veio ao encontro das aspirações máximas da coletividade”1. Esta situação era considerada preocupante, visto que no Exército praças do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre haviam sido expulsos por serem “extremistas”2. Além do mais, a oposição a Vargas, vinda também dos partidários de Flores da Cunha, exgovernador do estado, estava criando problemas nas cidades do interior, obrigando a que o governo estadual substituísse vários prefeitos. As exonerações ocorriam quase que diariamente: tanto exonerações a pedido quanto aquelas exigidas. As duas formas mostravam que a situação não estava fácil de ser controlada. Exemplo disso foi o afastamento do prefeito de Farroupilha, Armando Antonelo, em vista das agitações produzidas por sua atuação política na cidade, considerada como “em detrimento do interesse público”3. O prefeito de Uruguaiana, Flodoardo Martins da Silva, solicitou demissão do cargo, em razão de não concordar com a pouca “autonomia dos municípios gaúchos” e da diminuição da “autoridade dos prefeitos”4. É claro que muitos prefeitos continuaram em seus cargos, uma vez que foram apoiadores de Vargas desde antes do início da ditadura de 1937. Porém, isso não foi a regra, em vista do número de exonerações registradas na imprensa oficial do período inicial do novo governo.

A busca pelo apoio político Após o Golpe de 10 de novembro de 1937, o Estado Novo passou por um período de estruturação política e de convencimento social. Não bastava impor um novo regime à sociedade: era preciso convencê-la dos
*Doutora em História Social do Trabalho pela UNICAMP, Historiadora e Arquivista, Professora Adjunta do Departamento de Documentação da UFSM.
1 Jornal do Estado, 25 de novembro de 1937. p. 3. Os exemplares se encontram na Biblioteca Solar dos Câmara da Assembléia Legislativa do Estado do Rio Grande do Sul. 2 Jornal do Estado, 19 de novembro de 1937. p. 2. 3 Jornal do Estado, 26 de novembro de 1937. p. 3. 4 Arquivo Nacional - RJ/Fundo Gabinete Civil da Presidência da República (ANRJ/FGCPR), Rio Grande do Sul, Lata 185. Telegrama de Uruguaiana, 7de março de 1938.

26 - “Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul

A centralização administrativa pouco a pouco colaborava para o fechamento das vias de reação. Exemplo foi o decreto extinguindo os partidos políticos. No Rio Grande do Sul, em decorrência da medida, criouse um impasse envolvendo secretários do governo riograndense, os quais solicitavam as suas exonerações ao interventor federal, como demonstra o seguinte telegrama de Maurício Cardoso, Walter Jobim e Oscar Fontoura: “Porto Alegre, 4 de dezembro de 1937. Exmo Sr. Gal. Manoel de Cerqueira Daltro Filho. d.d. Interventor Federal. Tendo sido publicado, com data de ontem, um decreto do Governo da República, dissolvendo todas as agremiações políticas existentes no país, vimos depôr nas mãos de V. Ex. os cargos que ocupamos no Secretariado Rio-grandense, por indicação dos partidos a que pertencíamos e que haviam deliberado colaborar com V. Ex. no Governo do Estado. Representantes que éramos do Partido Republicano Rio-Grandense e Libertador, nossa presença no Secretariado não mais se justifica, uma vez que esses Partidos são declarados extintos (...) (Assinados) J. Maurício Cardoso, Walter Jobim, Oscar C. Fontoura5. As exonerações não foram aceitas e os secretários continuaram em seus cargos. Para o governo do Rio Grande do Sul, essas considerações não deveriam interferir nos interesses do estado, que precisava da colaboração desses membros dos partidos extintos. Não era momento de se criar querelas em torno de questões partidárias e ideológicas, já que o Estado Novo veio para se sobrepor a elas, como o único capaz de entender e resolver os problemas da sociedade, “acima dos partidos”, das “ideologias” e dos “interesses de classes”. Os partidos de âmbito regional e nacional acabaram mesmo sendo extintos. A Ação Integralista Brasileira (AIB) passou a chamar-se Associação Brasileira Cultural. No Rio Grande do Sul, principalmente em Porto Alegre, houve repressão aos integralistas. Quanto aos comunistas, além da perseguição física (prisões, julgamentos pelo Tribunal de Segurança Nacional, etc.), continuou uma acirrada propaganda anticomunista. Mostrar um governo fiel aos propósitos do Estado Novo não se constituía em tarefa fácil. A preocupação principal era a de que, no momento de se fazer a distribuição dos cargos, eles não caíssem nas mãos dos grupos que pudessem ter um controle maior em relação aos interesses do governo federal e, a partir daí, formar-se alguma oposição ao Estado Novo. Essa inquietação ficou transparente numa correspondência de Viriato Vargas, irmão de Getúlio, naquele momento Presidente do Tribunal de Contas, a qual tratava da reorganização desse órgão nos municípios:

“Os dissidentes são muito partidários. É colocar dois juntos e já se congregam para ação partidista. Ora, já pus no Tribunal o Moysés Vellinho e não convém lá outro dissidente, pois sendo quatro os ministros, eles ficariam com a metade dos votos. Na primeira vaga quero pôr lá um frente-unista, com todas as qualidades intelectuais, morais e completamente integrado na nova ordem de coisas. Um getulista enfim”6.

Outro fato veio trazer problemas nos meses iniciais da ditadura estado-novista no Rio Grande do Sul. Em abril de 1938 ocorreu um incidente político que novamente preocupou Viriato Vargas. Tratava-se do pedido de demissão do prefeito de São Leopoldo, Theodomiro Fonseca, em decorrência de um desentendimento com Cordeiro Farias, recém empossado no cargo de interventor. A renúncia do prefeito deu espaço às forças oposicionistas ligadas a Flores da Cunha de articularem-se e buscar um nome comprometido com elas. Em carta a Getúlio Vargas, Viriato esclarecia a situação: “Há pouco deu-se uma desinteligência entre Cordeiro de Farias e Theodomiro Fonseca, prefeito de São Leopoldo. (..) Era uma necessidade que ele continuasse, é a única forma organizada que tem o novo regime aqui, afora São Borja. E o Cordeiro via bem isto. Aliás, o Cordeiro não teve culpa alguma”7. Como era politicamente importante manter o prefeito, ele acabou ficando no cargo. Esse episódio mostra que o Estado Novo não possuía no Rio Grande do Sul lideranças políticas suficientes para colocar à frente das administrações municipais e até do estado, necessitando angariar apoios de integrantes de partidos opositores a Vargas antes de 1937. Não havia getulistas suficientes para administrar a grande máquina pública criada ao longo do tempo pela experiência dos republicanos rio-grandenses. Assim, era preciso confiar em getulistas “de última hora” e conter as oposições mais recalcitrantes. Por outro lado, uma das preocupações era com a imagem da ditadura frente à sociedade. As questões internas eram resolvidas com os conchavos, com benevolência, enfim, os problemas deviam sempre ser solucionados através de reajustamentos. Mas e a população? Como fazê-la aceitar e acreditar que o Estado Novo veio para reparar o mal que os governos liberais até então existentes fizeram e ao mesmo tempo combater os ideais comunistas, tão propícios a resgatar um movimento pela construção de uma “grande nação”? Mesmo que o decreto de extinção dos partidos políticos já tivesse sido assinado, a idéia da criação de um partido único não fora descartada por Vargas e seus aliados. Antes do golpe, em 29 de maio de 1937, no Rio de Janeiro, era distribuído pelo autodenominado Partido Nacional Getulista, um “Manifesto ao Povo”. O
6 Fundação Getúlio Vargas/CPDOC (FGV/CPDOC), Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.03.31. 7 FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.04.20/2.

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Jornal do Estado, 4 de dezembro de 1937. p. 1.

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documento, dirigido ao povo brasileiro, conclamava o reconhecimento dos “inestimáveis benefícios” prestados pelo governo Vargas. O manifesto pedia a reforma do estatuto constitucional para a reeleição de Getúlio ou a prorrogação do seu mandato8. Em dezembro de 1937, o Correio do Povo especulava que “discretamente, nos altos comandos partidários” do Rio Grande do Sul, estava sendo realizado “um delicado trabalho de sondagem junto aos próceres de maior autoridade”. Para o periódico, a intenção era saber como estes encaravam a possibilidade de se fundar no estado, “um partido único, destinado a prestigiar, de acordo com um programa adaptado à atualidade, o novo regime instituído a 10 de novembro”. A matéria dizia que o partido único seria apenas “uma secção do partido nacional” a ser criado, e que “arregimentaria, por sob sua bandeira”, no estado, as forças solidárias com o novo regime9. Em junho de 1938, a possibilidade de um partido único já era mais concreta. Miguel Tostes remeteu para Benjamin Vargas, outro irmão de Getúlio, um estudo que estava sendo realizado no Rio de Janeiro. Dizia que aquilo que fosse decidido, ele se comprometeria “fazer adotar no Rio Grande”. Pedia que Benjamin fizesse com que o “chefe” lesse o documento com atenção. O estudo em questão consistia na criação de uma organização que poderia chamar-se “'União Nacionalista Brasileira” ou “União Nacionalista do Brasil'”. Quanto à organização, Tostes entendia que era “mais acertado começar pelos estados”, onde cada um estabeleceria a sua “Federação”, sem que o centro se comprometesse “ostensivamente”, bastando que, de forma “reservada”, fossem expedidas “as suas instruções aos interventores”. Informava também, que não se deveria fazer referências ao regime, “pois qualquer declaração nesse sentido, importaria em assumir uma atitude política”. Entretanto, como o “veneno vem na cauda, a alma da União Nacionalista” estaria no último item das finalidades. O projeto da criação da União buscava dar eficiência à sua organização, a qual só poderia ser possível “com organizações do tipo militar”, entendidas através de unidades maiores, formadas pela reunião ou agrupamento de unidades menores10.

O estudo destacava dois pontos que deveriam constar do programa da organização: o primeiro referiase ao “engrandecimento do país”; o segundo a defesa da Nação, contra as ideologias políticas estranhas; contra os abusos do “capitalismo internacional” e contra as pretensões territoriais ou tutelares dos países estrangeiros. Fazia uma ressalva quanto “ao movimento de idéias referentes ao tema internacional”, que deveria ser feito com “a necessária prudência”. Outro ponto destacado no projeto era a necessidade de “distrair a atenção popular das questões políticas internas para os problemas que a situação internacional” oferecia para a reflexão do “patriotismo”. Das finalidades da União Nacionalista constava ser esta uma “agremiação de fins patrióticos e culturais”, sendo que seu programa fundamental consistia em, entre outros: (...) incentivar o amor à Pátria e a formação da consciência nacional; (...) cooperar ativamente com os Poderes Públicos na manutenção da ordem, da paz e da disciplina, e com eles colaborar na obra de restauração nacional”11. O Comitê de Propaganda do Estado Novo e os Intelectuais Mas, enquanto o partido único não saía do papel, era preciso a busca dessa aceitação no estado. Assim, foi instalado o Comitê de Propaganda do Estado Novo, em 19 de abril de 1938. Esse comitê tinha como objetivo fazer propaganda do texto da Constituição de 10 de novembro e contava com o apoio de intelectuais de destaque no estado. A Rádio Difusora Porto-Alegrense foi escolhida para irradiar os discursos propagandísticos. Dentre os intelectuais, destacaram-se Moysés Vellinho, Dante de Laytano, Telmo Vergara, Érico Veríssimo e Limeira Tejo, além de advogados, secretários de estado etc. Como presidente do comitê, foi escolhido o coronel Viriato Vargas. A respeito disso, Viriato se justificava a Getúlio Vargas:
“Organizei aqui a mocidade intelectual, para fazer conferências todos os sábados às 10 horas pela Difusora, divulgando as virtudes da Constituição de 10 de novembro. Inaugurei ontem essas conferências com a que foi publicada e aí te mando, para me dizeres se estou certo (...). No próximo sábado vai falar o Secretário do Interior, e ficarei com o direito de convidar outros secretários que não poderão negar-se sem ficarem mal colocados. Dos municípios estou recebendo telegramas de adesão. Fazia-se necessário esse movimento, pois aqui vai ficando cada vez mais frio e confuso”12.

8 Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro (APERJ), Fundo DOPS, Série Panfletos, Pan 667. O Manifesto era assinado por: Pela Comissão Executiva: Presidente – João C. Raja Gabaglia, Médico e Professor.1º.Vice-presidente – José Pereira da Silva, advogado. 2º. Vice-presidente Reynaldo Bastos, professor. Secretário – Paulo Ferreira, contabilista. Pelo Conselho Deliberativo e Fiscal Presidente – Hélio de Brito, editor.Vice-presidente – Bartholomeu Fernandes, comerciante. Secretário – Alencar de Almeida Meireles, operário. Pelo Departamento Jurídico: Dr. A. Nunes Pereira. Na Sede Provisória do Partido Nacional Getulista à Rua Alcindo Guanabara, n°. 17, 6º. Andar, sala nº. 610, encontram-se as listas de Adesões para os que desejam filiar-se ao mesmo. Rio, 29de maio de1937. 9 Políticas e Políticos, Correio do Povo, 3 de dezembro de 1937. p. 5. Os exemplares do jornal se encontram no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre – RS. 10 ANRJ/FGCPR, Rio Grande do Sul, Lata 512. Carta de Miguel Tostes para Benjamim Vargas, em 21de junho de1938.

O posicionamento dos intelectuais era indispensável para dar respaldo ao Estado Novo. Nem todos concordavam totalmente com o apoio que prestavam publicamente, mas estavam envolvidos e não
11 ANRJ/FGCPR, Rio Grande do Sul, Lata 512. Esboço do programa da União Nacionalista do Brasil ou União Nacionalista Brasileira. 12 FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.38.04.20.02.

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comprometer-se seria um risco para suas imagens e profissões. A este respeito Angel Rama se manifesta da seguinte forma: “não somente servem a um poder, como também são donos de um poder”. Este inclusive pode embriagá-los até fazê-los perder de vista que sua eficiência, sua realização só se alcança se o centro do poder real da sociedade o apóia, lhe dá força e o impõe13. Érico Veríssimo representou um caso típico, uma vez que suas posições, até então, sempre haviam sido liberais. Mesmo assim, prestou seu apoio à ditadura nos primeiros momentos. Seu discurso, em um dos programas de rádio do Comitê de Defesa do Estado Novo, foi ilustrativo nesse sentido: “Quem fala a vocês neste momento já foi, e creio que ainda é, apontado como comunista por causa de um punhado de idéias que hoje estão sendo postas em prática pelo governo da República. Sempre achei - e muito escrevi nesse sentido - (...) Senti sempre a necessidade da nacionalização do ensino: aí está. Permitam-me ainda uma confissão. No dia 10 de novembro de 1937, recebi a proclamação do Estado Novo com sérias desconfianças e num grande abatimento. Os horizontes ainda estavam escuros. Tive a impressão de que era a ditadura integralista que se anunciava. Pensei: assim não se pode mais escrever no Brasil. (...) Virão as perseguições e a violência, a intolerância e o ódio.(...) Mas os fatos, meus amigos - tomem bem nota: os fatos se encarregaram de provar que felizmente eu me enganava. Nem esquerda nem direita, mas sim o centro, que é o equilíbrio e o bom senso. Nenhum homem de boa vontade pode negar o seu apoio ao Estado Novo”14. A evidência que se aí coloca é de que Érico Veríssimo se pôs numa posição defensiva, desculpandose pelas posições anteriores, e alguns anos mais tarde “exilou-se” nos Estados Unidos. A importância dos intelectuais para a realização desta mobilização, posta em prática pelo Comitê de Defesa era colocada abertamente, tanto que em editorial do Jornal do Estado se dizia que era necessário o “esforço dos intelectuais, dos homens de letra, daqueles que podem escrever e falar ao povo brasileiro com elegância, agilidade (...) ainda constitui um dos meios mais eficazes para a realização dessa cruzada necessária”15. Segundo o raciocínio apresentado no editorial, os intelectuais tinham uma missão: a de servir uma “boa causa”, a causa da pátria, e para colocá-la em prática deveriam “esclarecer” a população menos informada e não intelectualizada a respeito da doutrina e das realizações do Estado Novo. Paralelamente ao Comitê, organizaram-se nas cidades do interior, núcleos de propaganda como o
RAMA, Angel. A cidade das letras. São Paulo: Brasiliense, 1985. p. 48. Jornal do Estado, 25 de Abril de l938. p. 4. 15 Jornal do Estado, 5 de maio de 1938. p. 1.
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Centro Cívico de Propaganda da Carta de 10 de Novembro, cujos presidente e patrono eram, respectivamente, o interventor federal Cordeiro de Farias e Walter Jobim, secretário de obras. Organizou-se também o Movimento Intelectual pró-Estado Novo, em Porto Alegre, com pretensão de formar núcleos em todo o interior do estado. A seguinte passagem mostra as finalidades do movimento: “Essa nova entidade cultural de caráter cívico-literário representará efetivamente o pensamento e a ação dos intelectuais rio-grandenses e desenvolverá, por meio de publicações na imprensa, conferências, sessões cívicas e excursões pelo interior do estado, uma enérgica e decidida campanha anti-extremista”16. Tais entidades, no entanto, tiveram duração efêmera, à medida que o Estado Novo se fechava e a censura aumentava. Mesmo que concordassem com a ditadura, era melhor, mantê-las fechadas, sem correr riscos de que posteriormente se posicionassem contra o governo. Ainda assim, foram formas eficazes de convencimento, auxiliando o governo estado-novista em sua consolidação no Rio Grande do Sul. Posteriormente, em outro momento de questionamento da ditadura, em 1941, fundaram-se no estado, seções do Instituto Nacional de Ciência Política, organizadas em Porto Alegre, Pelotas e Rio Grande, tendo Pedro Vergara como responsável pela fundação dos núcleos. O escritor demonstrava preocupação com a situação de popularidade do Estado Novo na seguinte passagem: “Senti, sem dúvida, que o presidente é amado no Rio grande, mas não senti a mesma coisa em relação ao regime que ele instituiu e que tem o seu maior título de glória. Por tudo isso, apresso-me, como amigo que está disposto a todos os sacrifícios para servir ao Presidente, em afirmar, é mister agir com urgência, no Rio Grande, para criar uma corrente de opinião que ainda que não existe, a favor do novo regime”17. A consolidação do apoio entre os trabalhadores Os estudos recentes de história social do trabalho no Brasil muito têm contribuído para sabermos mais sobre como as relações entre os sindicatos e o Estado não foram das mais pacíficas, como se poderia supor, e como supõe parte da historiografia sobre o período estado-novista. Segundo parte desta, o Estado Novo no Brasil realizou a completa subordinação dos sindicatos de classes, aos mecanismos de controle do Estado. Análises como de Sérgio Amad Costa, restringem o “Estado como agente do controle social” e propõem a norma jurídica o seu “instrumento mais eficaz” do seu exercício18 . No entender de Costa, se as formas de atuação
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Jornal do Estado, 21 de maio de 1938. p. 1. FGV/CPDOC, Arquivo Getúlio Vargas, GV.41.07.00 XXXV-89.

COSTA, Sérgio Amad. O Estado e controle sindical no Brasil. São Paulo: T. A. Queiroz, 1986. p. 1.

1937-1945. 20 Boletim do MTIC. Deodato Maia. o Estado Novo procurou de todas as formas fazer propaganda dos avanços nos direitos sociais dos trabalhadores. principalmente. Azis Simão. surgiam brechas para o questionamento. nos sindicatos oficiais a ação era restrita ao permitido pela legislação sindical. mesmo para os que nunca tivessem ouvido falar de tais idéias. porque ela absolutiza este controle. desejosos de continuar no poder. 103-116. ed. Faziam parte da Comissão que elaborou o Relatório. a respeito da tentativa de controle do Ministério do Trabalho. para que se tornassem “entidades realmente representativas da profissão”. O discurso estado-novista assentou-se no trabalho. ou se era “vagabundo”. Vargas e seus aliados. 149. Cidadania & exclusão: Brasil. a fim de explicar o continuísmo tão cobiçado21. concatenado com a construção de uma nova moral cujo fim foi a defesa da pátria. a partir de 1937. o sindicato. Uma vez que a obrigação da sindicalização se impunha. Mas se esta associação vier ao Estado pedir que lhe outorgue competência. 21 RODRIGUES. razão precípua para fortalecer o apoio ao Estado Novo entre os trabalhadores. Moreira de Azevedo. Luiz Augusto de Rego Monteiro. atribuindo-lhes um estatuto natural que o vinculou ao corporativismo22. Para isso. O Relatório é datado de 23 de novembro de 1938. s/p. Através deste conteúdo. p. outras mais subordinadas. História do movimento operário e das lutas sociais no Brasil (1922-1946). a noção de cidadania passou a ser definida pelo trabalho. O caminho para justificar o Estado Novo foi construído a partir de um vigoroso discurso da pátria. mas não posso concordar com a análise de Costa. No Relatório da Comissão elaboradora do anteprojeto de lei. greves e. O relatório dizia que “livre é a associação profissional. Dentro dos limites legais. Sem o reconhecimento oficial de seus órgãos de representação sindical. se fizeram sentir desde o início do Estado Novo. ver tb. São Paulo: Contexto. Essas divergências no seio do próprio movimento sindical e dos trabalhadores. The Brazilian Corporative State and Working-Class Politics. sendo o anticomunismo o quarto pilar dessa construção discursiva. na possibilidade da presidência das mesas eleitorais ser confiada ao delegados do Ministério do Trabalho. a resignação para a construção do “progresso da nação”./d. 2. onde o centro foi a retórica do fim da luta de classes. Reconheço a estrutura de controle dos trabalhadores montada pelo Estado. nela entrando quem quer e dela sai quando quer”. 215. da ordem e do trabalho. Setembro. restava ainda a atuação partidária e sindical clandestina ou a ação não-institucional cotidiana. Fora disso. durante aquele período. na exigência da aprovação da eleição. das suas “intervenções estranhas e corruptoras” e das infiltrações de ideologias perturbadoras”. com profissão regulamentada e carteira assinada. que antes do Estado Novo foram palco privilegiado de suas táticas e lutas operárias. constituía-se no espaço de luta possível. sem dúvida. Helvécio Xavier Lopes. FREITAS. tiveram ampla opção institucional de ação fora do sindicato oficial. Aos trabalhadores. na sua importante obra Sindicato e Estado. Sindicato e Estado. ainda que restrita a São Paulo”. Historiografia brasileira em perspectiva. Marcos Cezar de (Org. ERICKSON. O que se fez foi a despolitização das relações de trabalho.. DUARTE. São Paulo: Ática. In. 1998. Kenneth Paul. Rio de Janeiro. A historiografia da classe operária: trajetória e tendências. 15-26. elaboraram a “fabricação” de “subversivos” e “revolucionários”. . 1977. na ampliação das causas de inelegibilidade. em referência ao período anterior ao golpe de 1937. 22 Cf. Nº 7. 1939. Indústri e Comércio (MTIC). Oliveira Vianna. a este caberia impor as condições que entendesse “mais úteis ou necessárias para o cabal desempenho da função”20. estava explícito o caráter anticomunista e controlador da lei que visava “preservar a vida interna dos sindicatos da contaminação dos maus elementos sociais”. ela se constitui quando quer e como quer. mesmo que atrelado. pela ocupação. s. O universo do trabalho. Cláudio Batalha considera a obra de Azis Simão com o “único dos trabalhos (. Em contraponto. Arthur Flores Filho. Julho 2009 (25-31) . apresenta um quadro da “posição oferecida pelas antigas vanguardas do movimento operário”19. Berkeley/Los Angeles/London: University of Califórnia Press. assim. Niemeyer. Como explica Edgar Rodrigues. a lei prometia devolver aos sindicatos “a consciência dos seus novos deveres” profissionais diante da sua comunidade e do Estado.. na inscrição prévia dos 19 Ver SIMÃO. Assim. denúncias. o trabalho apresentou-se como questão central na configuração do regime. para a “prática de atos de autoridade pública”. da UFSC. referindose aos trotskistas. 53. p. p. na ótica dos que construíram esse discurso. nem todo o sindicalizado poderia ser considerado “pelego”. Bragança Paulista: Ed. Cf.História & Luta de Classes. restava. Oscar Saraiva. principalmente entre 1937-1945. Mesmo com a expulsão dos comunistas e outras correntes dos sindicatos. Tudo isto representando um “sistema de meios” que permitiria ao Ministério do Trabalho “realizar com plena eficiência a revelação e a seleção dos elementos dos sindicatos e a formação de uma verdadeira elite profissional”. geralmente reservada.29 dos trabalhadores fora do aparato estatal eram quase inexistentes. Geraldo Faria Batista. Não quero dizer com isso que os trabalhadores. anarquistas e comunistas e como estes se posicionaram diante do “controle estatal” nas entidades sindicais. que passaria a dispor sobre os sindicatos profissionais. Edgar. como explica Adriano Duarte. a exigência de tudo aquilo que o Estado fazia questão de incutir como “doação”: a aplicação das leis trabalhistas. Azis. W. Em consonância com esta estratégia. p. 1999. Novos Rumos. 1981. Ano V. Sobre uma discussão em torno do corporativismo de Estado. da USF. no Estado Novo. O controle se daria através do registro obrigatório das associações profissionais. Certas categorias foram mais combativas. ou com a prisão dos mesmos. não comportou meios termos: ou se era trabalhador. Florianópolis: Ed. a principal base social de apoio político ao regime.). sendo este um dever social. era necessário “um controle mais estreito do Estado” na constituição dos sindicatos. candidatos. buscando. Rio de Janeiro: Mundo Livre. por ele “doado”. n.) em que a análise histórica está fundamentada numa pesquisa empírica de fôlego. os trabalhadores ficaram sem meios legais de reivindicar e de fazer valer os seus direitos. p 393-4. Adriano L.

no caso do Estado Novo. a qual “pautou-se por dois princípios complementares: o apoio do executivo a certas reivindicações do movimento operário (redução da jornada de trabalho. da UFOP. PANDOLFI. ao remeter-nos aos anos 1930. 264 e 294. 1991-2. n.. foi possível a modernização do Estado. Cláudio..) expressando uma incapacidade de universalização de seus objetivos”. Identidade da classe operária no Brasil (18801920): atipicidade ou legitimidade?. um postulado fundamental: o da segurança para o trabalho e as realizações de interesse geral”. incluindo o próprio Getúlio Vargas. DINIZ. simplesmente. 59. Vargas: o capitalismo em construção. senão. etc. n. Ouro Preto: Ed. Paz e Terra. técnicos. In. 2004. NEGRO.30 . 23/24. Este tipo de interpretação sociológica. “o governo. aponta para uma representação dos trabalhadores caracterizada pela “heterogeneidade interna. Capital e trabalho unem-se na cooperação e no congraçamento”23.. Exemplo disso foram as afirmações de Vargas. In. São Paulo: Boitempo. sem criar essa identidade. 27. Cidadania. Eli. em 31 de dezembro de 1937 e 1º de maio de 1938. A hegemonia estado-novista sobre os trabalhadores e os cidadãos. através do apoio de algumas reivindicações do movimento operário e da harmonia entre trabalhadores e empresários. Rio de Janeiro. Benito Bisso. PANDOLFI. aumento salarial. até porque o movimento da sociedade não pode ser visto “apenas como a 'urdidura do poder'.). p. cit. intelectuais e políticos inspirados no corporativismo. PANDOLFI. 1995.Revista de História. fazendo com que se chegue a conclusões simplistas que afirmam que “apesar da repressão. Dulce (Org. o que resta é apenas a “incorporação dos atores emergentes .. LPH . 7.. Não se trata aqui de ignorar que a política social. São Paulo. que procurou articular as pressões e os movimentos sociais com as formas pretendidas pela valorização do capital. (. Em análises desta natureza não há espaço para entender como os trabalhadores criaram sua identidade de classe ou. Pois. falas e lutas dos trabalhadores da Grande São Paulo (1970-80). da sociedade e da economia brasileira”31. estes não estavam se apossando de um território sem história. Vicente de Paula. 40. In. cit. As funções da previdência e da assistência sociais. desde Oliveira Vianna. Repensando o Estado Novo. p. 25 Cf. São Paulo: ANPUH/Marco Zero. do seu Estado e sua industrialização” resultando na cristalização de “uma imagem da classe incapaz de ação autônoma”26. Engenharia institucional e políticas públicas: dos conselhos técnicos às câmaras setoriais. resistiram às imposições verticais e hierarquizadas que a ideologia corporativista procurou lhes impor. Porto Alegre: Palmarinca.. visando à manutenção da ordem social32. Luiz Vítor T. Cultura popular e imaginário popular no Segundo Governo Vargas (1951-54). de que o período de 1937 a 1945 consolidou um modelo que atribuiu ao Estado papel primordial não só nas decisões relativas às principais políticas públicas. ed.). os quais “seriam determinados pelas próprias características da formação histórica da sociedade brasileira.. o trabalho exerce um peso fundamental na formação da identidade de classe”33. No entanto. 1999. Política & cultura. Quando novos personagens entraram em cena: experiências. política ou historiográfica torna homogêneas as ações sociais a partir do Estado. Antonio Luigi. Dulce (Org. dentro da velha tradição positivista29. FONSECA. foi uma tentativa de gestão estatal da força de trabalho. Cortez. p. 31 Ver CAMARGO. Sobretudo. p. 28 . 22. 28. 2004. quando se analisa um período como o Estado Novo. Eder.ao sistema político”30. p. Adriano. 33 BATALHA. 1999. 32. a partir do querer desse próprio Estado e daqueles que exercem a sua hegemonia. assim. p.“Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul Desta forma. 184. como também na administração do conflito redistributivo. Repensando. 431. despovoado e desprotegido”25. 26 SADER.trabalhadores e empresários industriais . 24. p. a dispersão e um comportamento atomizado. 1988. como explica Antonio Luigi Negro. 30 Cf. 183. A opinião construída por Eli Diniz. Aspásia. 1989. Rio de Janeiro: Ed. de. Isso fez com que a passividade não fosse a única marca desses anos. Ver SCHMIDT. 32 FALEIROS. na definição de identidades coletivas de setores sociais em processo de incorporação. em parte. 29 Essa visão consolidada no Estado Novo era oriunda de certa interpretação do positivismo e da “política social dos governantes estaduais” do Rio Grande do Sul pré-1930. Linhas de montagem: industrialismo nacionaldesenvolvimentista e a sindicalização dos trabalhadores (1945-1978). a partir da manutenção do “postulado comteano fundamental que persistiu e até mesmo cresceu (. 27 Ver AZEVEDO. A política social do Estado capitalista. v. Do federalismo oligárquico ao federalismo democrático. Esta. São Paulo: Brasiliense. 23 Ver DINIZ. 5. os trabalhadores não ficaram quietos24. p. idem.) o da incorporação do proletariado à sociedade moderna”. p. resultado da ação exclusiva de protagonistas e elites dominantes”27. antes afirma. como certa análise pode dar a entender. 1995. dos conflitos entre patrões e empregados”. “se o mapa do movimento sindical brasileiro ia sendo redesenhado com base em uma arquitetura projetada por bacharéis. op. Muito menos se trata de desconsiderar que. o projeto modelar e normativo do Estado Novo e a realidade experimentada pelos trabalhadores. Eli. In. Revista Brasileira de História.). torna-se insuficiente para entender como se constrói uma identidade de classe dos trabalhadores. Mesmo que se reconheça que o Estado Novo buscou fundamentalmente destruir a resistência operária. pois mesmo ameaçados pela repressão política. 24 DUARTE. “o discurso ideológico parecia querer provar o improvável: a neutralidade da intervenção governamental”. op. apenas transformando-os em vítimas passivas. Dulce (Org. da FGV.) e a mediação do Estado. 120-1. pois. p. não foi absoluta... ao conceder as leis sociais eliminava a predominância de umas classes sobre outras. situações de miséria e de fome e outras condições de vida dos trabalhadores desarticularam. assim. o refazer historiográfico só é possível quando se procura ir além das aparências empíricas iniciais. “para algumas categorias de trabalhadores. respectivamente: “a multiplicidade de setores em que age o Estado não exclui. onde justamente o discurso oriundo do poder de Estado se dá no sentido de criar uma “identidade coletiva”. de modo que se abole a necessidade de lutas e discórdias. Pedro Dutra Cézar. p. como o faz também José Nilo Tavares. bem como na representação dos interesses patronais e sindicais28. 1991-92. Em busca da terra da promissão: a história de dois líderes socialistas.. In.

Rio de Janeiro: Ed. a do poder. 34 GOMES. afirma que a formulação de uma identidade nacional pelo Estado exigiu que se pensasse o país historicamente e conduzisse à proposição de uma “cultura histórica” como elemento fundamental de comunicação e coesão da sociedade34. Angela de Castro Gomes. o gaúcho deveria estar apto a instaurar a disciplina social e a ordem econômica para a reconstrução do país.História & Luta de Classes. da FGV. p. 35 KONRAD. cumprindo o seu dever para o interesse geral da nação. 1996. 208. 130. Se intelectuais e trabalhadores rio-grandenses se considerassem. Ângela de Castro. contra os mesmos. Nessa ponta. na prática. um regionalismo integrado ao nacional não apresentava maiores riscos35. Dissertação (Mestrado). Julho 2009 (25-31) . o discurso estadonovista consolidava o seu apoio. a favor dos trabalhadores no discurso: essencialmente. como nacionais. Contraditoriamente. No caso do Rio Grande do Sul. Porto Alegre: PUC-RS. o Estado Novo foi se consolidando no estado. antes de tudo. Na outra. a partir do estudo dos historiadores do período estado-novista. A política cultural do Estado Novo no Rio Grande do Sul: imposição e resistência. poderiam sentir-se seguros. p. sendo peça da engrenagem nacional. . Nº 7. Glaucia Vieira Ramos. o qual foi a consolidação de uma discursividade que buscava afirmar a construção da identidade nacional como única identidade possível.31 Também não se trata de negligenciar um dos objetivos centrais dos que dirigiram o Estado Novo no Brasil. 1994. História e historiadores. Nessa ótica.

GRAU. P. las industrias empezaron a requerir cantidades crecientes de mano de obra barata para impulsar el desarrollo de los sectores automotriz y petroquímico. Universidad Nacional de Córdoba y Centro de Estudios Avanzados-Unidad Ejecutora del CONICET. Paris.. 1973-1975 . Paris. la trayectoria de sus obreros y la contribución de éstos al desarrollo de la radicalización en el ambiente obrero cordobés. N. ésta se encuentra vinculada a una dimensión muy compleja.. Tomando elementos de la mejor tradición marxista.tra. 1 . Milan. Les métamorphoses de la societé salariale. H. 1946-1876. 1975. p. porque piensan que bregando por nuestra clase explotada florecerán sus anhelos ver la Patria Liberada.La lectura de Marx en clave clasista: el Si.p. estos elementos modificaron profundamente la estructura social de ambos países1.que van desde sus condiciones materiales de existencia. 5) capitalismo.. Córdoba. Facultad de Filosofía y Humanidades. y Quaderni Rossi-Classe Operaia respectivamente.tra. Aunque siempre existieron estratos de obreros no calificados. La fundamentación de este objetivo no está dado en la búsqueda de una relación directa entre los teóricos del “obrerismo” y los “clasistas” del Si.p.p. Editorial Madres de Plaza de Mayo. CARRERA. como los que se refieren a los ámbitos de sociabilidad en la educación y los ateneos culturales. L'orda d'oro.tra. que encuadra diversas experiencias –en este caso de la clase obrera. A. y MORONI. Giangacomo Feltrinelli Editore. 1973. BRAVERMAN.. crisis y etapas de acumulación del *Licenciado y Doctorando en Historia.F. tanto Si. Aunque no es objetivo de este trabajo -dada la brevedad del mismo-. Este desarrollo podemos enmarcarlo brevemente dentro de un contexto dado tanto en Argentina como en Italia –que comienza en la posguerra y se cristaliza en las décadas del '60 y '70-. del cual era necesario hacer despertar su conciencia. ideológico y político. N. D. 1986.. 1973-1975 órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins.. las que se refieren al conflicto y organización tanto en el plano sindical. surgió una nueva generación de jóvenes inmigrantes que serían protagonistas de importantes movimientos de protesta2..una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia La lectura de Marx en clave clasista: el Si. A 1 (Si. M. Éditions Seuil. Trabajo y Capital Monopolista. El peronismo y la clase trabajadora argentina. año I.. Sudamericana. la influencia de éste reflejada en sus editoriales y artículos. las lecturas de las obras de K. caracterizado por el éxodo del campo. y no es una coincidencia nace de pura conciencia de simples trabajadores que dedican sus mejores horas de vida luchando.32 . con la difusión de la cadena de montaje. Buenos Aires. El intento de este trabajo es relacionar las similitudes y diferencias entre el “clasismo” de los trabajadores organizados en el Sindicato de Perkins en Córdoba y el “obrerismo” italiano a través de sus respectivos órganos de prensa: el Si.p. BALLESTRINI. los análisis de la relación entre capital y fuerza de trabajo. unque numerosos han sido los estudios que analizaron el “clasismo” cordobés de finales de los años sesenta y principios de los setenta. 2 BALLESTRINI. y BRENDER. sino en el análisis relacional que podemos realizar mediante la detección de un factor común a ambas publicaciones. 1968-1977. esto es. La clase revolucionaria. N. como Carlos Mignon* Así nace el SI. 1990. como Quaderni Rossi-Classe Operaia enarbolaron sus críticas a las visiones de época que centraban al progreso como manifestación del desarrollo de las fuerzas productivas. La producción se fragmentó y. Desde nuestro punto de vista.. cierto despegue industrial y por lo tanto un aumento del sector terciario.p. y el reconocimiento de las grietas del sistema. las contradicciones entre tecnología y poder en el proceso de trabajo. 1997.TRA. Argentina. tuvieron la finalidad de encontrar un sujeto potencialmente subversivo: el “obrero masa”.P. Calmann-Lévy. A. poco se conoce de un gremio tan importante como el Sindicato por Empresa de Motores Livianos Diesel Perkins.tra.. 2006.p. Sin duda alguna. Nous Voulons Tout. y la difusión del consumo en masa. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. JAMES. Véase a modo general: AGLIETTA. estos factores deberíamos encuadrarlos dentro del proceso de desarrollo. I. 1973. Ciudad Autónoma de Buenos Aires. M. Agustín Tosco. Resistencia e Integración.. Mediante la postura de impedir cualquier actitud favorable al capitalismo.tra. México D. procesamiento y divulgación de ideas. Marx realizadas propiamente por los colaboradores de estas revistas y por consiguiente. y MARTÍ..tra. Editorial Nuestro Tiempo. I. es necesario señalar que cuando nos referimos a la dinámica de recepción.

Lotta Continua contaba con 30.. en LABICA. sino que fue retroalimentada en su desarrollo con la participación de organizaciones políticas y comités obreros. Entre algunos de ellos estaban: Lotta Continua. proponiendo un programa anti-burocrático y combativo bajo los postulados de: “(…)democracia sindical. En su presentación. principalmente en la ciudad de Córdoba. en Revista Nuevo Hombre.p. Pirelli. Romano Alquati. ella está continuamente en recomposición política. comienza a poner en cuestionamiento elementos fundamentales del análisis y estrategias de dichas organizaciones. sino a que todos los medios de comunicación masiva. p. Luciano della Mea.. Olivetti. 8 “La aparición del Si. etc. Dictionnaire critique du marxisme.M (Sindicato de Trabajadores de Máterfer) se constituyeron como sindicatos “por empresa”. p. En Argentina. Montedison. y por ende la cuestión del poder. 49-56. que representaban a los trabajadores de una misma actividad sin importar a que empresa pertenecen. La unidad de la redacción se rompe después de los enfrentamientos de la piazza Statuto de Turín. etc.p.”9 6 CURUCHET.tra. Año I. En la fábrica se producían distintos tipos de motores. En Avanguardia Operaia militaban 18.tra. 1973. nº 17. es el lugar atribuido a la clase obrera en cuanto a la dinámica y las modificaciones del capitalismo. Potere Operaio. Julho 2009 (32-37) . Vidrio y Calzado entre otros) de la cual surgieron direcciones clasistas y combativas que continuaron luchando por un lugar dentro del sindicato.C (Sindicato de Trabajadores de Cóncord) y el Si. Año I. G. Nº 7. el movimiento de base de Perkins (Obreros Combativos de Perkins) logra en abril de 1973 ganar la Comisión Directiva del Sindicato. 1973. 4 MATHERON. las corrientes y organizaciones político-sindicales clasistas y los sindicatos combativos peronistas. Alfa Romeo. Saint-Gobain. En Motores Livianos Diesel Perkins trabajaban 900 obreros en el año de 1973. Piaggio. 5 En la etapa más alta del desarrollo de estas organizaciones. 1.”. traducido a nuestra lengua castellana. 3 Es en idioma italiano lo que en este trabajo denominaremos “obrerismo”. organizaciones armadas marxistas y peronistas. y el capital está constreñido a reaccionar reestructurando continuamente el proceso de trabajo. en 1962. D. El “obrerismo” no se mantuvo solamente como corriente teórica. 15-16. pp.000 y en Potere Operaio había 10.C y el Si. “Operaïsme”. sacando al mercado aproximadamente 22. Uno de los elementos fundamentales del análisis “obrerista”. que Panzieri valora negativamente a diferencia de los demás redactores. A. G. Estas organizaciones participaron en las luchas desarrolladas dentro de las grandes concentraciones industriales como: FIAT. radio. (detenido en la cárcel de Villa Devoto). Mario Tronti. Vittorio Rieser. fundaron en 1964 Classe Operaia. Dario Lanzaro. El Si. después del cierre de Quaderni Rossi. diferenciándose en su estructura organizativa de los sindicatos “por rama industrial”. Siguiendo este análisis la clase obrera “no se satisface con reaccionar contra la dominación del capital.. así como fracciones de la pequeña burguesía: estudiantes. de sus sindicatos más combativos. M.tra. y tuvo su efecto en las fábricas vecinas a FIAT (Perkins. . Esta fuerza se proponía la superación del orden social capitalista imperante. Estos últimos.tra. Avanguardia Operaia y Comita Unitario di Base (CUB)5. Estas críticas dieron vida a una nueva corriente política y teórica dentro del movimiento obrero y del marxismo: el “operaismo”3. de una corriente que cuestionó desde las bases a toda la estructura gremial reconocida por el Estado conocida generalmente como “clasismo”. Massimo Cacciari. Toni Negri. En el contexto desarrollado de manera muy breve más arriba.000 militantes. 2005. Paris.tra. son más escasos. en Italia se comienza a percibir una crisis del movimiento obrero y de sus organizaciones (partidos y sindicatos). Córdoba. la Unione Italiana dei Lavoro (UIL). el “obrerismo” se constituyó en una alternativa crítica frente a la estrategia reformista del Partido Comunista Italiano. solidaridad de clase. En Córdoba se había conformado desde 1969 una fuerza social en la que se alineaban las fracciones obreras organizadas en los gremios independientes. casi en su totalidad. y eso no se debe a una casualidad. Los principales fundadores de esta corriente fueron: Rainero Panzieri. televisión y diarios. a finales de los años '60 asistimos al surgimiento.tra. Éd.p. Para un análisis más profundo véase: GIACHETTI. Una minoría proveniente esencialmente de estas organizaciones.M fueron una genuina expresión de las bases que rompió con los moldes del sindicalismo tradicional y burocrático. están en manos de las clases dominantes. Retomando las categorías de Marx y confrontándolas al capitalismo de posguerra. y SCAVINO.33 2 A finales de los años'50. Siemens.”8 En ese mismo momento comenzó la historia de Si. IKA-Renault. X Aniversario de Perkins.tra. Uno de los principios fundamentales del “clasismo” fue la reivindicación de la democracia sindical desde las bases obreras: “El Si. y la Confederazione Italiana dei Sindicati Liberi (CISL).. et BENSUSSAN. Michellin. la primera editorial del periódico fijaba su posición y explicitaba el porqué de su aparición: “La necesidad de la aparición de nuestro periódico gremial. contra la patronal.000 motores para ese mismo año7. Paris. Les Nuits Rouges. véase. bajo la iniciativa de la Sub-comisión de Prensa de la nueva Comisión Directiva. L'automne chaud de 1969 à Turin. Luciano Ferrari-Bravo. contra la burocracia sindical. 9 Íbid.000 militantes. la vimos en que cada día los espacios periodísticos destinados a informar sobre las luchas y comunicados de la clase obrera. 7 Estos datos han sido extraídos de la revista que editó la empresa con motivo de su décimo aniversario. Sergio Bologna. Enzo Grillo.História & Luta de Classes. 1999. Lancia. Si. La FIAT aux mains des ouvriers. Éd. el Partido Socialista y de las organizaciones sindicales más importantes como la Confederazione Generale Italiana dei Lavoro (CGIL). Adriano Sofri.” 4 Esta corriente se originó en el entorno de la revista Quaderni Rossi (Cuaderno Rojo) que se constituyó en septiembre de 1961. noviembre de 1971. como órgano de difusión del Sindicato. F. Quadrige.”6 Esta prédica antiburocrática ensalzaba al proletariado en término democráticos de organización sindical.

) Antes de que logren estabilizar el bloqueo de hecho de los salarios. Los obreros se presentan entonces. M.”12 Invertir los componentes del análisis. que llevaban a estudiar a las transformaciones del capitalismo en la segunda posguerra –los treinta años gloriosos-. la revolución pasaba por la radicalización.tra. Antes de que ataquen los niveles de ocupación es preciso golpear la productividad del trabajo. 11 “El descubrimiento de Marx. lo que debería constituir la premisa inmediata de su caída: “Un programa de verdadera y propia agresión a la coyuntura es todavía actual. 14 ALQUATI. el objeto no es el mundo económico de las mercancías. (. TRONTI.). quienes habían sido desposeídos de cualquier bien material salvo la venta de dicha fuerza: “Hemos visto también nosotros antes el desarrollo del capitalismo y después las luchas obreras.. 3. H e r r a m i e n t a . cambiar su sesgo. es <el paso del trabajo real al trabajo que crea valores de cambio. p.com. como forma y como relación de poder. M.herramienta. al trabajo burgués en su forma fundamental>. R. por sí mismo. 12 TRONTI. se desencadenaría la condición de dominio obrero sobre el proceso de producción capitalista. “Teoría y Praxis. la dinámica salarial. a la clase obrera. M. como remedio milagroso. El capital. . 1962.. volver a partir del principio: y el principio es la lucha de la clase obrera. desde la lucha social hacia la lucha política. 1964. p. 1963. no se constituye en clase social. no se halla sólo en relación con el capital. p. Procesos objetivos. Esta visión se bifurcaba en una lectura de los procesos concretos. p. sino la relación política de la producción capitalista.php?op=modload&name=News&fil e=article&sid=347. es la producción capitalista la que <organiza>.. no solamente las transformaciones del capitalismo determinan la conformación de la clase en sí y para sí. En el caso de que éste sea citado textualmente se utilizarán los símbolos “<” y “>”.p. 1965. en Classe Operaia.. con una clara amenaza de represalia.. N º 3 0 . con la industria... el obrerismo ponía el énfasis en los portadores de esta fuerza de trabajo. se destacaba la centralidad política de la clase obrera. “El trabajo como No-Capital”. hay que exasperar. ante sí. obligándolo a cambiar13.. Y para ello era necesario anticipar los movimientos del capital de modo consciente a escala de masa social y. (. de organizadores: organizadores de los obreros con el medio de la industria. la fábrica se convertía en el espacio central del conflicto. U R L http:/www. movido por la fuerza de trabajo. la mayoría de los párrafos aquí citados hacen referencia a la obra de K. en Quaderni Rossi. encontramos referencias al Manifiesto Comunista.p. el obrerismo sentó las bases para una propuesta de inversión metodológica.10 de sus primeras intuiciones y del respaldo empírico que ofrecían los acontecimientos. Nº 1.tra. permitió formular una lectura articulada de los procesos de transformación técnico-productiva en paralelo a la dimensión político-subjetiva. M. el desarrollo del capitalismo podía ser leído como un proceso de ajuste permanente dirigido a contener el trabajo.. 1973-1975 3 A partir de una alusión a las fuentes de Marx. M. sobre este terreno. “1905 en Italia”. p. (. “La fábrica y la Sociedad”. “Lenin en Inglaterra”.. el acento estaba firmemente puesto en la dimensión subjetiva.) Valor-trabajo quiere decir. de modo organizado como intervención política. por lo tanto. en este sentido valor medido por el trabajo. los capitalistas (. 13 MODONESI. Nº 3. por lo tanto. el desarrollo tecnológico y los modelos de producción fordistas-tayloristas..). que abría una perspectiva teórica novedosa. El trabajo productivo. Nº 1. Por la otra. Antes y después de la clase de los capitalistas existe el capital. Partiendo de que el hallazgo fundamental de la obra de Marx11 es el trabajo en cuanto mercancía que expresa un valor.”16 15 16 TRONTI. La experiencia del obrerismo italiano”. sino que esta composición impacta directamente en el capital. en el caso de los párrafos que aquí tomamos de los autores pertenecientes al obrerismo encontramos alusiones a la Sección Cuarta de El Capital. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins.) la existencia de una clase de capitalistas se basa en la productividad del trabajo>. El trabajo es medida del valor porque la clase obrera es condición del capital. por una parte.ar/modules. Trabajo asalariado y capital y Salario. es la organización en clase de los obreros industriales la que provoca la constitución en clase de los capitalistas en general. primero la fuerza de trabajo y después el capital. sino con la clase misma de los capitalistas: en esta última relación es la clase obrera. en Classe Operaia..La lectura de Marx en clave clasista: el Si. desafiando al capital. en la subjetividad obrera y en su expresión más inmediata: el conflicto en la fábrica. Nº 2. En este sentido. liberándose en los márgenes dejados descubiertos por el sistema de dominación. como correlato de la “composición del capital”. la contribución a la crítica de la economía política y el Manifiesto Comunista. De hacerse esto. Marx. Antes de que vuelvan a comenzar a mirar. Es un error. desde la perspectiva de la lucha. El cambio es probablemente histórico: es el trabajo productivo el que produce capital. y cuyo principal componente es la fuerza de trabajo.34 . Nº 2. esto significaba que el capital aparecía como la variable dependiente. 2. precio y ganancia. un espacio de dominación pero también de construcción del antagonismo: “Recordad: <(. por lo tanto.”15 Con base en estos postulados. En cuanto a las obras de Marx referenciadas. la clase obrera ya formada: “Y el objeto. TRONTI. como una clase social más que de empresarios. En esta lógica. también articulándola. a los trabajadores que caminaban siempre un paso adelante. La idea obrerista de “composición de clase”. “El capital social”.. 3. como una clase social de productores: productores industriales del capital. Antes de que lleguen a congelar los convenios ya firmados es preciso denunciar alguno de ellos con acciones de fábrica en puntos estratégicos. en Quaderni Rossi. es decir..”14 10 Como se puede intuir. 3. editorial de Classe Operaia. Tiene la necesidad de ver primero.. 4. a la fuerza del Estado. es preciso recordarles con ejemplos que en la fábrica existe una fuerza mayor. 1964. Hay que invertir el problema. quiere decir capital condicionado por la fuerza de trabajo. En lo que respecta a los escritos de la revista de Si. en Marx –aquí lo sencillo es difícil de entender-.

Año II. p. 2.) no dejar que se introduzca en la fábrica el interés capitalista significa bloquear el funcionamiento de la sociedad.p no pretendieron construir un corpus teórico ni tampoco establecer ninguna innovación metodológica. y por supuesto. el aporte fundamental de Marx fue el de haber establecido que la relación social entre trabajador y patrón es una relación de explotación. determinan el modo y la proporción en que cada clase social percibe la riqueza social. por ejemplo sobre 24. Nº 7. el escritor del mismo luego de hacer una breve reseña sobre las etapas de los modos de producción.p. es decir. la producción debía ser y es del patrón. para los redactores de Si. abril de 1974. En primer lugar. ni tampoco dice nada de: el lugar que cada persona tiene en la producción de las riquezas. que es una deformación conciente de la realidad. un distanciamiento absoluto del obrero con respecto a los medios de producción que se traducía en el sabotaje. donde varios obreros trabajaban juntos en una misma especialidad. ¿qué hace el capitalista en todo esto? SE LLEVA LA RIQUEZA QUE HAN PRODUCIDO LOS TRABAJADORES. Y no es casualidad.. así como los rendimientos de los trabajadores y los motores que sacaba Perkins al mercado. R. y como consecuencia lógica de lo establecido anteriormente. En el mismo. y esa legislación fabril era traducida como “la ley del patrón”: “Es increíble que los grandes avances de la ciencia y la técnica. es de dar vuelta la tortilla. la lucha contra los regímenes de producción. la cual mantiene al régimen del capital. la fábrica era considerada como una maquinaria de la cual el obrero era una pieza más.” 20 19 . al igual que el obrerismo. p.tra. se pasó a otro tipo de producción en común.p. el mismo que era sujeto a la alienación de la “legislación fabril”. 6. como trabajadores. 4. la revista contenía numerosas editoriales y artículos que se ocupaban de un análisis más profundo. la democratización del espacio de trabajo y su enfrentamiento contra la denominada burocracia sindical. como retribución por su fuerza de trabajo en la forma de SALARIO. en la fábrica de Perkins. se enfatiza nuevamente la figura del obrero y sus aspectos subjetivos en esta relación. y tener en cuenta la situación del trabajador de la planta. Nº 2. la forma “Sindicalismo Clasista”. intercambiable cuando se rompe o se gasta. “La estrategia del rechazo”. sobre la necesidad de lograr la unidad de clase y a través de ésta remarcar la importancia de la militancia política. debido a la capacidad del segundo para extraerle plusvalía al primero: “Estas relaciones sociales. de una vez por todas. y esta interpretación es SU IDEOLOGÍA. las máquinas y artefactos fabulosos que se han inventado. en una misma rama. el local donde funcionaba esa fábrica y los instrumentos (máquinas.p era la de concientizar al obrero sobre su condición de explotado. (…) En cambio nosotros. el tema clásico de las reivindicaciones salariales era concebido como un terreno de ruptura y no de negociación: los aumentos salariales debían desligarse de los aumentos de productividad para romper la lógica del capital.tra.História & Luta de Classes. los redactores de Si. aproximadamente 22.) eran y son propiedad del patrón. y cede al trabajador sólo una parte. por lo que el dominio obrero es un dominio posible sobre la producción. los medios de producción.000 motores son PURA GANANCIA”20 4 A diferencia de los obreristas.000 motores producidos al año. etc. 5. p. en Si. LA IDEOLOGÍA BURGUESA.35 En esta secuencia.tra.” “El capitalismo. artesanal. en Quaderni Rossi.. la condición del “obrero masa” implicaba una ruptura ulterior en relación al trabajo. pero también algunas coincidencias con los obreristas italianos. p. sobre un elemento particular de la sociedad. sentar las bases para derribar y destruir el poder del propio capital. Como hemos visto en otro artículo. porque no nos interesa ocultar nada. Incluso. Íbid. Sistema injusto que comienza a decaer”. herramientas. el ausentismo y otras formas de lucha que buscaban dar a la alineación una salida política. buscando impulsar un igualitarismo salarial que rompiera con las jerarquías y las divisiones al interior de la fábrica. Estos conceptos son los que defiende la clase PANZIERI. Pero el dominio capitalista es el dominio real sobre la sociedad en general. Marx. TERMINAR CON LA EXPLOTACIÓN. Dentro de la fábrica. Además de los artículos en los que se informaba al operario de los logros en las mejoras de las condiciones de trabajo alcanzadas por la nueva Comisión Directiva.tra.. hace SU CAPITAL.. ¿quién saca la producción con sus manos? EL OBRERO. El patrón acumula todo el producto del trabajo. es decir. Entonces de lo que se trata. las reivindicaciones por la igualdad de los salarios. En esta lógica. “De la producción manual.. recae en un análisis sobre la cooperación. la misión de Si. por lo que “(. En este artículo se pone énfasis nuevamente en la centralidad del obrero en cuanto productor: “Y. ESTO ES LA EXPLOTACIÓN DEL HOMBRE POR EL HOMBRE. Para ello. 18 17 En segundo lugar. debemos ver la realidad tal cual es. en Si.tra. dominante.. se analizó el balance general de la empresa. mayo de 1974. Ahora bien. enmarcaban una cotidianeidad que para los trabajadores de Perkins se reflejaba en una total alienación. 1962. 10.tra. Año II. qué significaba el sindicalismo clasista18. Julho 2009 (32-37) . Si. Lo fundamental era llegar a.”17 En consecuencia. setiembre de 1974. los obreristas entendían que el capital está constituido de tal forma que precisa de una sociedad para la producción. Dentro del mundo fabril. SOCIALIZAR LOS MEDIOS DE PRODUCCIÓN. En un artículo muy sugestivo que se llamó “El capitalismo..”19 Aquí podemos detectar la influencia del pensamiento de K. Año II. era necesario explicar en qué consistía el capitalismo. no se usen y ni siquiera se hagan pensando en el hombre que está detrás de la máquina. porqué la relación entre las clases dominantes y el proletariado es una relación de explotación y por ende.p. Y. El otro artículo al que se hace referencia es “La explotación patronal en números concretos”. subrayando las diferencias existentes con el comunismo primitivo. Sistema injusto que comienza a decaer”. “Pero este análisis no explica el por qué unos tienen más y otros menos. Por último. p.p. es decir científicamente.

con la enorme diferencia de que en el campo de la sociología tendrán todavía que pasar varias generaciones antes de que pueda aparecer un Einstein. op. cit.. veremos que detrás de las promesas y <soluciones> que ellos nos ofrecen. 15. Mediante el análisis de la gestión del trabajo...La lectura de Marx en clave clasista: el Si. Por eso el sindicato debía ser clasista. La clase obrera en cuanto sujeto central de la producción en la fábrica debía tomar conciencia de que “(…) una fábrica. Año I. p. en Si. p. y así se ven en la obligación de sacar más producción. Uno de ellos era el de disminuir el costo de mano de obra ya que “(. “Nuestro Sindicato.”29 A modo de cierre “Nosotros no podemos hoy dejar de aceptar las afirmaciones marxistas fundamentales más de lo que un físico serio puede ser no-newtoniano. en que trabajamos. en Mondo nuovo. al brindarle centralidad al obrero en cuanto productor. agosto de 1974. 22 21 . por el contrario. 3. defiende los intereses de la clase trabajadora y lucha contra la injusta explotación capitalista.p como para Quaderni RossiClasse Operaia el pensamiento de Marx no podía continuar liquidando sus cuentas con la vieja conciencia filosófica. p. no representa ningún partidismo. El sindicato burocratizado. p. p. están hechos de tal forma. 1962. p. se ha transformado en mediador entre los obreros y los patrones. en Si. las líneas. o bien las pasa desapercibidas. 1973-1975 misma en que está organizado el trabajo. 16. Pero no un obrero aislado. agosto de 1973. Año 1.”27 Similar al obrerismo. Así pues.. “Moral y conciencia de la clase obrera”. se lo lleva el capitalista. Año I.. sino que la centralidad que cobra fuerza es la de los aspectos subjetivos del trabajador en cuanto clase.. sirviendo como distracción de cosas que nada tiene que ver con la explotación en el trabajo25. para producir NO NECESITA PATRÓN”26. ayer y hoy”. tal cual era concebido institucionalmente. los ritmos de producción. como portador de una lógica y de valores distintos a los del capitalista: “Insalubridad”. debía. 6.” Por ende. se encuentra la doble y mala intención que en muchos casos logran sobre ciertos compañeros: trabajarles la moral. 23 Ìbid. Tanto para Si. se denunciaba el fomento del juego y el fútbol. 10. Una de ellas era la “No queremos morirnos en un socavón!”. 28 27 Finalmente.tra. el beneficio de lo producido es INIDIVIDUAL. cit.. 25 Íbid. coadyuvaba a la reproducción del capital y no a romper su lógica28.” Citando a Rudolf Schlesinger. o. “Marx. Aquí aparece nuevamente la centralidad del trabajador como sujeto. éste contiene las herramientas y elementos suficientes como para romper la lógica del capitalismo. como “expresión de la clase obrera en la lucha de CLASE CONTRA CLASE. De esta manera. p..) esas trampas. que en la mayoría de los casos no las detecta.p. como organización gremial. que están bien disimuladas y permiten de esta forma engañar al trabajador.tra. 24 Íbid. Año I. diciembre de 1973. op.”24 “Esta es la razón por la cual planteamos LA SOCIALIZACIÓN DE LAS FÁBRICAS Y LOS CAMPOS. 12.tra. en Si. Pero como organización de la clase obrera que es. M. 11. sino poner en cuestión la orientación y los valores mismos de la producción hacia el mercado. debe confrontar a Marx. El Capital debe juzgarse de acuerdo al capitalismo actual.tra. sostenía que la penetración del fútbol en la clase obrera era un engaño que ocupaba los ratos libres de los compañeros. Mario Tronti parte de una premisa: para una investigación que quiera retomar el discurso sobre la validez actual de algunas de las afirmaciones marxistas fundamentales. En el mismo sentido que Marx sostuvo que la “religión es el opio de los pueblos”. y sin embargo.. sea llevado a cabo por el sindicato.tra.”23 Otro de los métodos denunciados es el fomento del divisionismo entre los compañeros de trabajo: “Si nos ponemos a observar atentamente y analizamos la forma de actuar de nuestros jefes. que el enfrentamiento económico y social entre explotadores y explotados. la revista intentaba develar “(.tra. es decir. Refiriéndose al sindicalismo tradicional el autor del artículo sostiene: “El sindicato. el principal método de explotación eran las horas extras: con éstas la patronal lograba varios objetivos además del aumento de la producción. a todos los compañeros que luego se ven obligados a aumentar la producción. Éste no llegará antes de que la obra de Marx haya dado todos sus frutos históricos. 26 “Insalubridad”. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins. ponerse a prueba mediante un encuentro activo con la realidad más moderna del capitalismo contemporáneo: para comprenderlo y para destruirlo. “Sindicalismo Clasista”. Desde este punto de vista. Si. 30 TRONTI. 7.p.”21 La crítica a la “organización científica del trabajo” estaba orientada a descubrir las trampas implícitas en los métodos aplicados en el lugar de trabajo. que a la corta o a la larga afectan la salud del trabajador. 4.p.) vemos que con las horas extras que valen un poco más que las horas comunes.”22 Esto implicaba denunciar ciertas metodologías que solamente beneficiaban al capitalista y perjudicaban al obrero. la crítica a la fábrica y la organización del trabajo significaba no solamente subvertir la autoridad inmediata de la gerencia. noviembre de 1973. Año II.p. Yo agregaría que debería confrontarse además con el tiempo de los actores que nosotros estudiamos.”. los ambientes. el pensamiento de Marx. Porque la forma en que producimos.p. Primero.tra. sino con el nuestro30.. ES COLECTIVA. 29 “Socialismo”. p. p..36 . un mayor tiempo en la planta.. se logra mantener al personal que la fábrica ya tiene. ES SOCIALIZADA. en Si. podríamos desechar la banal idea de que la obra de Marx es producto y explicación de una sociedad de pequeños productores de mercancías. perjudicando esos pocos. no con su tiempo. se componía de dos partes. directamente en agente de la patronal.p.

la democracia. Nº 7. los artículos escritos en estas publicaciones intentaron la búsqueda de un sujeto: el “obrero masa” poseedor de un poder de decisión sobre los movimientos del capital. como desmitificación teórica de las ideologías capitalistas. A través de Marx. una vez llegados al análisis del capitalismo. La otra es el “análisis positivo del presente”. por lo cual era necesario descubrir las necesidades del desarrollo del capital y trastocarlas en posibilidades subversivas de la clase obrera. que del máximo nivel de la comprensión científica hace surgir la alternativa futura al mismo. tal vez la máxima de “nunca arrojarse a combatir en la práctica sin armas teóricas” resuma la finalidad última de Quaderni Rossi-Classe Operaia y Si. Para terminar.tra. En la obra de Marx. la investigación sobre algunas abstracciones determinadas (el trabajo alienado. hay que partir de nuevo de este análisis. las modificaciones producidas en la composición orgánica del capital. la lucha de clases internacional. estos dos momentos se pueden captar lógicamente divididos y cronológicamente sucesivos: de la Crítica de la filosofía hegeliana del derecho público a El Capital. para estas publicaciones. Una es crítica de la ideología burguesa. el valor en el capitalismo oligopolístico) debe constituir el punto de partido para llegar de nuevo al “conjunto viviente”: el pueblo. el Estado político.37 “crítica despiadada de todo lo que existe”: en Marx se ha expresado como el descubrimiento del procedimiento mistificado del pensamiento burgués y. . Julho 2009 (32-37) . es preciso tomar éste como punto de partida.p. Análogamente. la otra es análisis científico del capitalismo. por lo tanto. Entonces.História & Luta de Classes. una vez adquirido el punto de llegada de la obra de Marx –El Capital-.

htm. as relações entre democracia e ditadura no capitalismo. não sem antes alertar para o fato de que a exatidão 2 MARINI. como o próprio Marini afirmou “(. Disponível em: http://www.] de igual modo. O Mineiro de Barbacena Ruy Mauro Marini (1932-1997) tornou-se conhecido nos meios acadêmicos e militantes do Brasil e do exterior por suas contribuições enquanto intelectual de esquerda e marxista engajado. sobre a crise latinoamericana de meados daquela década.38 . en un país como Brasil. [. esta entendida como o lugar das classes sociais e da economia – apresentará em termos mais estritamente políticos esta relação. Acesso em 22 jul 2008..4 Marini. Memória . As preocupações que foram objeto de sua reflexão sistematizada vão desde a análise do processo de luta de classes que resultara no golpe militar no Brasil em 1964. o papel das novas tecnologias em seus efeitos sobre as condições de trabalho. em especial na AL.”2 Com toda esta horizontalidade de reflexões e posicionamentos. contribuições para caracterizar o poder em Cuba. Ruy Mauro Marini – vida e obra. em agosto de 1977. lo mismo pudiendo decirse de México o Argentina. conviene preguntar hacia donde apunta el Estado.discutindo a relação Estado/sociedade civil. Por razões de espaço. No entanto. João Pedro (orgs. por excelência. bem como às suas causas econômicas profundas e às suas conseqüências. muito em função do contexto em que sua trajetória individual esteve inserida e pode partilhar. a tomada de posição no debate sobre as causas da queda do governo Allende no Chile em 1973. . indústria automobilística e déficit público. 3 MARINI. en una amplia medida.) o centro.. El Estado en la Economía. da adesão à crítica em relação às elaborações da Comissão Econômica para América Latina e Caribe (CEPAL) das Nações Unidas1. Roberta & STEDILE. até a passagem por temas tratados pontualmente como a questão da educação superior no Brasil. Estado e Economia Ao escrever para o jornal mexicano El Universal. além de uma vida marcada por três exílios. Marini demonstrava as umbilicais ligações entre Estado e economia. frente aos regimes políticos do capitalismo na região da AL e na sua relação com o socialismo. por exemplo. Partindo da definição de Gonzalez Casanova de que o Estado é “el poder de disponer de la economia”. consultar TRASPADINI. ultrapassando as próprias iniciativas pessoais motivadas pelo interesse acadêmico ou político. menos na tentativa de procurar extrair um conceito a ser aplicado a estas mesmas relações. encontraria “la clave de la superación de la crisis cíclica esté. de minhas pesquisas continuou sendo o *Mestrando em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina UFSC.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini José Carlos Mendonça* I ntrodução desenvolvimento capitalista latino-americano e o modo como era percebido e influído pelo processo teórico. si se quiere investigar las posibles modificaciones que sufrirá la economía nacional en el curso de la presente crisis y precisar las características que podrá tener en la eventualidad de una nueva fase expansiva.] tanto para la creación de mercado como para la formación de la inversión” e a segunda. Ruy Mauro. O primeiro ao desempenhar um “papel clave en la dinámica económica de nuestros países [.mx/108_latinoamerica_es. Marini . os rumos do socialismo mundial face à crise da esquerda européia em meados da década de 1970.marini-escritos.).unam. a relação entre concentração de renda e movimentos sociais. que lugar ocupa o Estado. como foi ele entendido e em que dimensões por Marini? É o que estas breves notas pretendem apontar. Basta citar que..mariniescritos. nos limitaremos a abordar três destas relações: com a economia. tornou-se um dos principais expoentes da chamada "teoria da dependência" que marcou a maioridade do pensamento social latino-americano na sua relação com o pensamento social produzido nos grandes centros capitalistas. mais no sentido da apreensão do Estado nas suas diversificadas interconexões com outros campos da vida social. as características da crise econômica mundial e suas implicações para a AL.unam. Seu leque de investigações pode ser vasto. o exame de categorias e teses marxistas aplicados ao estudo da AL. para modificar as condições que a mantinham em crise. Some-se o fato de que Marini. num texto de 1994. Ruy Mauro.. presenciou o auge da teoria desenvolvimentista na América Latina (AL) e no Brasil. múltiplos temas de política internacional. Acesso em 23 jul 2008.. a questão do subimperialismo. o que fez o seu pensamento transitar. São Paulo: Expressão Popular..htm#4. Disponível em: http://www. 2005. en las manos del Estado.mx/001_memoria_port. juntamente com André Gunder Frank e Theotônio dos Santos. y sin perder de vista la acción de la economía internacional. o debruçar-se sobre a passagem do sistema mundial de poder da 'bipolaridade' à 'multipolaridade'.”3 Dezessete anos mais tarde. 1 Para conhecimento deste percurso.

Pablo. 164. passemos à próxima relação. sem a realização prévia de uma revolução social anticapitalista e apresentam como alternativa a chamada Democracia Participativa – confundem a autonomia do Estado frente aos burgueses.. obra citada. que se opõem aos interesses pessoais imediatos destes ou daqueles.] veremos o Estado desenvolver-se. ou seja. fazer a defesa “de una verdadera democracia participativa. que nosso autor localiza o ponto de concentração para exercer seu rigor analítico neste tema. Julho 2009 (38-44) . em contraposição ao modelo de democracia representativa.. aos quais. em sua inexorável materialidade. Feitas estas ressalvas. ao contrário das aparências e da ideologia.unam. segundo Marini. 37-39.htm. Relação esta que. tem de impor medidas de interesse geral para a 4 GONZÁLEZ CASANOVA. mas de identificar em sua formulação aspectos que possibilitam uma justificação teórica para um “Estado de transição”. Disponível em: http://www.. sabemos que de nada serve. Ruy Mauro. Nº 7. É da incidência da contra-revolução sobre o Estado.. Três são as vertentes que contribuem para conformar as ditaduras militares segundo Marini: a mudança de estratégia dos EUA. foi a que mais se aproximou da adotada pelas classes dominantes na AL durante as ditaduras militares instaladas na região a partir de meados da década de 1960: uma relação de subordinação da economia à política. sofreu alterações a partir de meados da década de 1980. 37. Tom. Citado por MARINI.. Estado e Ditadura Militar O pensamento político de Marini se deteve ricamente nesta relação que. Ibid. 6 7 5 Id. [. pois já havia sido observado por Marx quando escreveu na Neue Rheinische Zeitung em abril de 1850: “O Estado dos burgueses não é mais do que um seguro colectivo da classe burguesa contra os seus membros individuais e contra a classe explorada”9 . Isto significa que o pensamento de Marini parte da análise da situação concreta para construir os conceitos com os quais integrará o edifício de suas teorizações também neste âmbito relacional. La Crisis del Estado y la lucha por la democracia en América Latina.História & Luta de Classes. entre outros fatores. sustentou que a concepção Hobbesiana. MARINI. com variações no calendário dos paises. Marini chega assim à concepção de que o regime político-estatal denominado Democracia se define como “una forma de organización política que atribuye a la ciudadanía el derecho fundamental de disponer de la economía” para. permanecendo imune às influências que os processos de redemocratização que se processavam desde então porventura fizessem incidir5. e tentar organizar o consenso social.. determinando sua estrutura e funcionamento.mx/022_economia_democracia_es. com a autonomia frente ao “interesse geral da propriedade privada e de seu desenvolvimento enquanto propriedade capitalista”7 e induzem a ilusões.. in: Economía y democracia en América Latina. De resto. para fazer frente ao avanço do pólo sob hegemonia da então URSS que consistiu em abandonar uma postura de relativa contemplação para passar a uma postura que Marini 8 9 Cf. evoluindo para uma relação de autonomia do Estado na gestão econômica. de uma acertada sensibilidade face às contradições expressas teoricamente no interior do campo dominante. 2008.”6 Embora tenha o mérito inquestionável de apontar a insuficiência do modelo representativo da democracia liberal. obra citada. O exemplo francês.] Uma vez que se compreenda que. Karl. ocorrida em fins dos anos 1950/60 durante o governo Kennedy. THOMAS. Articulando as categorias de análise. Id.. p.] Porque insistimos nesta autonomia e nesta função geral do Estado? Porque [. fruto. que afirme la dirección y el control de las masas sobre el Estado de manera directa y permanente. O ponto de partida adotado por Marini foi proceder a uma caracterização da situação política latinoamericana à luz das lutas sociais e de classe na região. perpassa a maior parte de sua existência dado que se trata de um perseguido por duas Ditaduras (primeiramente pela brasileira que se instaura em 1964 e posteriormente pela chilena em 1973). . por vezes. 2003. Acesso em 20 jul. Como bem afirmou Thomas (2003): “O Estado Burguês [. 'o Estado político é apenas a expressão oficial da sociedade civil'. a qual resulta como contra-revolucionária abrangendo um período que vai aproximadamente de 1960 a 1990.] mas também um aparelho autônomo em relação aos seus membros particulares.que abrem a possibilidade para que as instituições do Estado Capitalista possam ser dirigidas e controladas pelas classes exploradas sem a inversão da correlação de forças entre capitalistas e proletários. recorrer ao Estado 'para mudar a vida'”8 .. [. p. Ibid. senão para enganar o povo. La socialisation de l'impot. Citado por THOMAS.] é a forma política que organiza a sociedade burguesa [.39 desta definição sofre variações consideráveis de acordo com a vertente teórica burguesa que se adote.. e até mesmo em relação à burguesia em momentos excepcionais. Lisboa: Dinossauro. esta concepção de Marini padece também de insuficiências ao projetar a concepção de um Estado que pode vir a deixar de servir ao conjunto dos capitalistas enquanto classe. Economia y democracia en América Latina . O Estado e o Capital. Não se trata aqui de atribuir diretamente a Marini a defesa de um Estado “neutro” ou algo do tipo. p. promover alianças entre classes e não apenas entre as diferentes fracções da grande burguesia. que delega in totum a soberania popular para o Estado e com isso retira dos cidadãos a possibilidade de estabelecer limites ao poder estatal.mariniescritos. Formulações deste cariz . ou seja. MARX. reprodução desta sociedade. vale lembrar que tal fenômeno se encontrava nitidamente delineado pelo menos desde a primeira metade do século XIX.

de onde ditam as condições ao conjunto da burguesia. Tarefa que a forma estatal ditatorial apresentava melhores condições de realização comparativamente às formas democráticas. diferentemente do fascismo europeu que conseguiu influencia real na pequena burguesia e em parte do proletariado. quanto pelas burguesias imperialistas para lograrem a reestruturação da economia internacional naquele momento. Acesso em 23 jul 2008. Primeiramente por não se tratar de uma debilidade conjuntural da burguesia e do imperialismo como ocorreu na primeira metade do século XX e sim de uma debilidade estrutural da burguesia dos países dependentes fruto da perda de vigência do modelo de acumulação que vigorou até então. m a r i n i escritos.21-29. Em segundo lugar. .marini-escritos.htm. exercendo os militares tanto a ocupação direta dos postos governamentais. A transformação estrutural das burguesias nativas que além de gerar alterações na composição do bloco de poder dominante. inclusive para delimitar as especificidades de tais formas na AL quando comparadas às formas assumidas pelo fascismo europeu dos anos 1920-45. aos capitalistas latino-americanos o recurso possível é o exercício da força direta para fazer valer seus interesses. quanto o relacionamento direto com as instituições corporativas dos capitalistas. As características específicas desse Estado.mx/052_estado_militar_es. órgano del Movimiento de Izquierda Revolucionaria de Chile en el exterior. agosto-octubre de 1 9 7 6 . Marini sintetiza assim sua concepção: “El Estado de contrainsurgencia es el Estado corporativo de la burguesía monopólica y las fuerzas armadas. Ruy Mauro. así como con otros tipos de Estado Capitalista. gerando a necessidade de redefinição do lugar de tais burguesias na economia mundial.unam. Tal foi explicado pela busca de recomposição da unidade entre as diversas frações burguesas dado o limite de não conseguir reunir força social própria para enfrentar o movimento popular. Isto se explica devido ao critério de Marini em situá-las no arcabouço mais amplo das “formas particulares de la contrarrevolución burguesa”10 . pois ambas as necessidades requerem a submissão do proletariado pela força. passou-se então para o terreno da guerra. Llamarlo fascista no nos hace avanzar un paso en la comprensión de su significado. conferir também em MARINI. D i s p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w. Outra distinção importante destacada por Marini é a impossibilidade da burguesia monopolista nativa de atrair para o seu campo parcelas expressivas dos setores populares. Este conceito explica a necessidade de aplicar à luta política um enquadramento militar tanto pelas burguesias dependentes para conseguirem sua integração no sistema capitalista em condições menos desfavoráveis frente às burguesias centrais.mx/016_contrainsurgencia_es. número 13. MARINI. Marini elabora então o conceito de 'Estado de Contra-insurgência'. Dicho Estado presenta similitudes formales con el Estado fascista. além do texto acima. órgão fundamental do Estado de Contra-insurgência.htm. 11 Para a enumeração que se segue. O primeiro constituído pelos órgãos militares 'puros' (Estado Maior das Forças Armadas. Cumpre enumerá-las11. es decir. diferentemente do fascismo europeu. El Estado de Contrainsurgencia. por fim Marini aponta o ascenso do movimento de massas durante os anos 1960 e até antes. In: “La cuestión del fascismo en América Latina”. Para tentar solucionar as contradições não resolvidas no terreno da política. serviços de inteligência). pp. subordinando as demais e a pequena burguesia. a contra-revolução na AL desenvolveu o discurso inverso. o qual incide sobre as contradições no campo burguês no sentido de agravá-las e que exigia uma reação violenta dos capitalistas. mas também que tal processo afetou Estados que não assumiram esta forma política. sendo capaz inclusive de obter vitórias eleitorais a exemplo do ocorrido na Alemanha de Weimar. independiente de la forma que asuma eses Estado. El Estado de Contrainsurgencia. num. 18. empresas estatais) e ambos se entrelaçando no Conselho de Segurança Nacional.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini denominou de resposta flexível. em que pese a adoção dos recursos fascistas pelas ditaduras militares ser similar. obra citada. Ao debruçar-se sobre o caso chileno três anos após o triunfo do golpe pinochetista.”12 12 10 MARINI. o segundo pelos órgãos civis ocupados por tecnocratas e militares (ministérios econômicos. 1978. Ruy Mauro. Acesso em 23 jul 2008. o da sua defesa. In: “Correo de la Resistencia”. independientemente del régimen político vigente. Marini aponta que enquanto o fascismo europeu desenvolveu um discurso de negação da democracia burguesa. México: Ediciones Era. Cuadernos Políticos. radicam na existência de dois centros de decisão no interior do executivo. Sendo assim. que apresenta igualmente a outras formas de Estado capitalista um poder executivo hipertrofiado. octubre-diciembre. El carácter del Estado Militar y sus implicaciones para la izquierda. Marini destaca que tal caracterização não se resume à instalação de ditaduras militares. ( E d i t o r i a l ) . Disponível em: http://www. pero su especificidad está en su peculiar esencia corporativa y en la estructura y funcionamiento que de allí se generan. Marini apontou que a contra-revolução latinoamericana dispensa a subordinação do exército à mediação de um partido político. um militar e outro econômico.unam. Marini demonstra que a base sobre a qual se assenta o Estado Militar difere da do fascismo europeu. produziu uma burguesia monopolista integrada à burguesia dos países imperialistas centrais resultando na quebra do Estado Populista que favorecia a acumulação de todas as frações burguesas para fazer brotar um Estado voltado para o favorecimento da acumulação das frações monopolistas. No plano ideológico.40 .

. visto desta perspectiva. por esgotamento (caso da Europa) ou por incipiência (caso da AL). Entretanto. e desde que. p. ao relacionar o Estado de Contra-insurgência com o processo de redemocratização..) A manutenção de alguns mitos e. 2003. deve ser entendido como “um princípio de organização geral das instituições [. pois como concluiu Bernardo “O triunfo do fascismo só começa a entender-se. suas formulações também possibilitam um outro campo de compromissos que. consideradas no seu conjunto. Labirintos do Fascismo.”13 Diferentemente do local onde Marini situou sua análise. o fascismo só alcançou a hegemonia depois de haver desaparecido do horizonte a alternativa social incorporada pelas manifestações de luta colectivas e activas. em vez de desvendarem os mecanismos que levaram a dissolução de um a gerar a ascensão do outro. a análise da relação entre as classes em luta consideraria a presença das classes exploradas como elemento subordinado.”14 Ora. e encontra uma perfeita ilustração no primeiro de todos os fascismos. já apresentavam uma debilidade estrutural (das lutas e não das burguesias) o que as tornava incapazes de fazerem frente aos golpes civil-militares que abriram caminho para a implantação das ditaduras. dos golpes militares. onde Marini enxergou 'ascenso' do movimento de massas como um inimigo a ser vencido na AL. Neste âmbito de relações.) Na realidade. quando os fascistas conquistaram as ruas e os campos. ibid. mas somente após essas movimentações terem sido desarticuladas pelas suas contradições internas.41 Posteriormente. Sempre que se confrontou com o movimento operário organizado. 33-34. Com o abandono da esperança revolucionária a hostilidade de classe assumia a forma degenerada do ressentimento. sua percepção de que o Estado de contra-insurgência se funda num momento de debilidade estrutural das burguesias locais enquanto o fascismo foi um momento de debilidade conjuntural das burguesias européias não se sustenta. (.. pela acuidade na percepção das peculiaridades regionais para evitar que a caracterização da contra-revolução na AL desembocasse numa justificativa para a formação de frentes policlassistas. se recordarmos que nessa ocasião as formas sociais inovadoras criadas pelo movimento operário haviam já sido derrotadas e tinham degenerado. podem-se identificar os méritos do pensamento de Marini pelo fato de descortinar as atenções para os fatores internos na explicação..História & Luta de Classes. ao mesmo tempo. se o fascismo foi uma revolta na ordem que procurou recuperar para o capital a revolução dos trabalhadores e o Estado em geral. p. por outro lado. muito mais do que um conjunto de instituições a serviço dos capitalistas. Nº 7. 13 BERNARDO. p. pode-se perceber lutas ainda incipientes que expressavam a elementar implantação do capitalismo industrializado. o apego a certas indecisões fatais dependem de se apresentar o fascismo e o movimento operário como dois mundos distintos e separados.. 14 15 Id. revela a preocupação política clara de evitar compromissos entre o proletariado e a burguesia.] que dita a organização interna da classe dominada”15 sem margens para teorizações que abrem fendas por onde podem passar possibilidades de ocupação e controle desse mesmo Estado pelo proletariado. Esta foi uma regra sem excepções. Em sentido inverso. Percebe-se então que o pensamento de Marini. Marini identificou a tentativa de institucionalizá-lo após a abertura política por meio da preservação do fundamental de seu caráter. Ambos os casos. Bernardo presta-nos o seguinte esclarecimento: “A crer numa versão corrente ainda hoje muito divulgada. Tais lutas. Neste caso. persistissem entre os trabalhadores todos os motivos de insatisfação. foram antecedidos por uma derrota profunda das lutas dos trabalhadores. (. 26.. portanto. evidenciando que a fragilidade estava nos trabalhadores e não na burguesia . analisados na perspectiva do marxismo da luta de classes são. em suma. no mínimo. . ao tratar da relação do Estado com as ditaduras. 35.. ibid. esta última por meio da edição das chamadas 'leis de segurança nacional'. No profundo e abrangente estudo dedicado ao fascismo que realizou. é em outro lugar que se deve procurar o surgimento do fenômeno do fascismo.ainda que por certo prazo. o fascismo teria constituído o último recurso do grande capital ameaçado pelas acções vitoriosas do proletariado. Porto: Afrontamento. para se apoderar em seguida da governação. nas quais a burguesia tendia a assumir papel hegemônico. e pela forma como detectou a estratégia de assegurar a continuidade dos traços dessa forma estatal por meio da sua institucionalização em situações de democracia burguesa. no qual este foi definido como sendo uma “revolta na ordem”.. sem autonomia. Id. porém. Tanto o Estado fascista quanto as ditaduras militares não deixaram de atender a este objetivo com determinação . João. Formula então a concepção de 'Estado de quatro poderes' acrescendo as Forças Armadas ao tripé clássico do Estado representativo moderno (executivo/legislativo/judiciário) que cumpriria a função de tutelar o conjunto do aparelho estatal e a sociedade. indicadores de influências herdadas dos quadros analíticos do bolchevismo16. seja a forma estatal fascista na Europa ou o Estado de ditadura militar na AL. por exemplo. Julho 2009 (38-44) . É o que veremos ao tratar do modo como o seu pensamento articulou a relação do Estado com o socialismo. Do mesmo modo.salvo se estivermos tratando de lutas no interior da classe burguesa. eles jamais conseguiram ascender em confronto directo com as movimentações revolucionárias dos trabalhadores.

Marini. Reforma y Revolución: una crítica a Lelio Basso. número 4. do autor. Marini apresentou em termos teóricos sua concepção de socialismo19. habrá que reseñar de manera menos emocional algunos aspectos que ella reviste”. Também esteve inserindo no debate sobre a transição ao socialismo tanto para polemizar com concepções que subordinavam o socialismo à dinâmica própria do Estado Capitalista. sino más bien afirmaba. S obre o socialismo . aunque no tengan razón). Ibid. História do Bolchevismo.mx/040_sobre_socialismo_port. . D i s p o n í v e l e m : h t t p : / / w w w . neste texto Marini se alinha com os que concebem a natureza social dos extintos regimes do Leste Europeu e da exURSS como socialista. pp. enero de 1982.marini-escritos. como no seu envolvimento e colaboração regular com a revista Chile Hoy até o golpe militar naquele país. o assumia como uma das características centrais da nova etapa em que entrara a humanidade e que ele definia como sendo a era do imperialismo e das revoluções proletárias triunfantes”21. consultar o excelente trabalho de ROSENBERG. Polonia: el socialismo como problema. Acerca de la transición al socialismo. O pensamento de nosso autor neste ponto toma por idênticos os distintos conceitos de 'classe' e 'representação de classe'.htm. ora dedicou-se a combater a ideologia dos partidos comunistas de “revolução democráticoburguesa. Ruy Mauro. Sem operar tal distinção. sempre movido por preocupações concretas. In: CIDAMO Internacional.unam. como un proceso que se critica y se rehace todos los días [.mx/012_reforma_es.. Ora buscou construir um diálogo entre forças de esquerda. Disponível em: http://www. que no comprometía de por sí. obrerismo (que se expresa en ideas de hay que estar con los obreros. Anti-Dimitrov.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini Estado e socialismo Neste âmbito. deve-se inicialmente localizar como nosso autor se situou na célebre tensão entre Reforma versus Revolução e sua concepção de socialismo. vide RODRIGUES. Para conhecer as origens da compreensão bolchevique do fascismo no âmbito da III Internacional e a sua crítica. porém. Acesso em 26 jul 2008. Para chegarmos ao papel do Estado no socialismo no pensamento de Marini. embora reconhecesse que “el movimiento obrero polaco había generado una notable capacidad de iniciativa y organización por la base. Marini desenvolveu elementos de sua concepção de socialismo enquanto processo histórico e procurou situá-lo na perspectiva das lutas de classes nacionais e internacionais. Ibid. el traspaso del poder a la oposición. Ruy Mauro. Ruy Mauro.htm#_ednref3. Acesso em 23 jul 2008. 1974. Marini pode desenvolver seu pensamento e apresentar suas concepções em distintos momentos de sua vida. México. 17 MARINI. Belo Horizonte: Oficina de Livros. como para forjar conceitos que auxiliassem na caracterização das experiências de poder que se reivindicavam do socialismo. 21 Id. Tal se deduz das expressões utilizadas ('comunidade socialista'. el curso socialista del proceso” Marini considerou que “Para situarse ante la dictadura militar polaca. ele considerou o caráter das concepções programáticas apresentadas pela direção do movimento de oposição ao Estado Polonês como base para prever que “la dirigencia que cristalizará en el curso de éste y sus concepciones programáticas hacían probable que. que eles haviam herdado da Terceira Internacional. caracterizada pela superação da propriedade 19 MARINI.htm.que sustentava que não se poderia abolir o ordenamento jurídico burguês durante a transição – Marini afirmou a necessidade da supressão das instituições jurídicas que consagram as relações de produção capitalistas.]” Posteriormente em 1991-93.unam. Buenos Aires: Periferia. Artur. hubiera significado abrir camino a la contrarrevolución”. Marini chega assim à formulação do seu próprio conceito de socialismo: “Período de transição de uma nova era histórica. Neste escrito de 198218. Percebe-se nesta passagem que seu pensamento opera a partir da disjuntiva revolução/contra-revolução aplicada ao caso concreto polonês como sendo governo/oposição sem distinguir o grau de identidade entre a massa proletária de opositores ao governo e sua liderança. apesar de reconhecer que tal medida seria insuficiente para promover a transformação de tais relações sociais num sentido anticapitalista. Conseqüentemente. 1989. quando polemizou contra Lélio Basso . apoiando-se em Marx. nosso autor.. 'construção socialista com base no mercado capitalista mundial') bem como pela forma cabal com que conclui o texto: “La lección que hay que sacar de allí […] no es en suma la de negar que haya socialismo en Polonia: es más bien la de reconocer que el socialismo se realiza históricamente de forma imperfecta y contradictoria y que sus contradicciones pueden engendrar efectos tan terribles como el golpe polaco del 13 de diciembre.42 . Disponível em: http://www.mariniescritos. 61-64. antiimperialista e antifeudal”. 1985.mx/076_polonia_es. Lisboa: Ed. In: VVAA. m a r i n i escritos. Em escrito de 197417. sin incurrir en el reemplazo de la realidad por planteamientos ideales o un dulce pero ingenuo 16 Para conhecer a história do bolchevismo. já na fase final de sua vida. encarou tal supressão como ponto de partida para o proletariado vitorioso revolucionariamente. Es la de alertarnos sobre la necesidad de considerar a la revolución proletaria. Inserindo as tentativas de superação do capitalismo ocorridas nos chamados 'países socialistas' no contexto da crítica do capitalismo enquanto modo de organização das relações humanas e afirmando que a falência do 'socialismo real' não invalida a busca por formas superiores de organização social.unam. Acesso em 26 jul 2008. 18 As citações que se seguem foram extraídas de MARINI. 20 Id. entende que o socialismo se inspira na busca pela “recuperação em um nível superior da propriedade individual”20 e em Lênin que “partindo da noção de socialismo como processo histórico. en su desarrollo histórico. Quando analisou o desfecho da acirrada luta de classes na Polônia que resultou numa ditadura militar parida de um bem sucedido golpe de Estado desfechado em dezembro de 1981. Francisco Martins.

necessidade de realizar a revolução cultural. en la fábrica. 1979. Ibid. por outro. apropriando-se do conceito de “cidadania” que no entender de Marini caberia à democracia socialista “dar-lhe foro efetivamente universal”: uma cidadania socialista que estabeleça a plena igualdade política. Significa el socialismo de Estado. neste sentido. este cuerpo. Reafirma o papel do partido enquanto “condutor e educador” embora critique a estratégia de depositar na vanguarda partidária a produção de novos valores que poderiam realizar o socialismo.43 privada em favor de uma nova forma de propriedade individual. Sólo puede ser realizada por los obreros mismos siendo dueños de la producción. Melbourne. tendo em vista que “La meta de la clase obrera es su liberación de la explotación. bajo la democracia. Tesis sobre la lucha de la clase obrera contra el capitalismo.”24 Adiante no texto Marini afirma que o socialismo pressupõe a conquista do poder político.geocities.. pueden escoger a sus amos. organismos para coordenar a produção enquanto totalidade. uma forma de democracia ampliada. 1947. es la organización de la producción por el Gobierno. porém inseparáveis. e pela substituição da burguesia como classe dominante pelo proletariado. um Estado coercitivo para com as antigas classes exploradoras. en su primer alzamiento. En la economía socialista. escrevendo em 1947. Para além da centralização econômica dos meios de produção.”25 Destaque-se por fim que a concepção de Pannekoek demarca claramente do entendimento bolchevique. encetar a luta PANNEKOEK. y buscaba en el Estado protección contra la clase capitalista por medio de reformas sociales. Democracia socialista e ditadura do proletariado são. formando una burocracia bien organizada. e – na medida em que qualquer dominação estatal supõe o uso da força. . jefes. Para conhecimento dos exatos termos da concepção leniniana vide. Julho 2009 (38-44) . correlativa ao fato de que a nova classe constitui a imensa maioria da sociedade. Em que pesem as observações e os alertas 22 23 O 'Estado de transição' se configura assim num espaço por onde se legitima (na teoria) a reconstrução (na prática) da diferenciação de tipo classista. se sentía impotente. Esta meta no se alcanza y no puede alcanzarse mediante una nueva clase dirigente y gobernante que sustituya a la burguesía. A revolução proletária e o Renegado Kautsky. democracia e socialismo são conceitos distintos. ao fundir no aparelho do 'Estado de transição' democracia e socialismo. Anton. extrair com profundidade as conseqüências das experiências das revoluções russa e alemã para o socialismo do futuro e aclarar o (não) lugar que o Estado nele deveria ocupar: “El socialismo. levando inclusive à adoção do pluralismo sob certas condições. 24 Id. científicos. se é preciso. asignado a ellos por otros. son aún explotados y tienen que obedecer a la nueva clase dominante. para subordinar as demais classes e se manifesta em relação a estas como ditadura – uma nova forma de ditadura. Nº 7. […] Los obreros.”22 feitos por Marini à luz das experiências revolucionárias do século XX sobre o protagonismo insubstituível das massas no processo da revolução. mas não se confunde com uma concepção anarquista de 'abolição' do Estado. incapaz de conquistar por sí misma el poder sobre las fábricas. El socialismo fue proclamado la meta de la clase obrera cuando. apenas dois lados da mesma moeda. Observa-se que a relação Estado/socialismo em Marini reconhece vigência nas suas principais linhas aos parâmetros em que foi pensada por Lênin para o contexto russo. zip Acesso em: 28 jul 2008. pois visa estabelecer outro conteúdo para o conceito marxiano da 'ditadura do proletariado' distinto daquele. Lisboa: Avante. LÊNIN. entendidas como exercício da condução do Estado socialista. um Estado aliancista e democrático para dirimir as divergências entre as classes sociais integrantes da aliança socialista por meio da adoção de métodos persuasivos e. Marini acresce aqui a possibilidade de que o Estado promova o que ele denominou de concessões à burguesia por meio de compromissos. n. tarefa que deve se dar pela própria experiência de vida das massas como condição para o desenvolvimento de suas capacidades revolucionárias. no plano político. erigido como la meta de la lucha de los obreros. A essa dominação de classe corresponde. pero no son ellos mismos amos de su trabajo. Pannekoek sustenta que os proletários devem constituir 'Conselhos Operários'. ele se alinha com uma concepção de socialismo já ultrapassada. entre outros.e. Disponível em: http://www. reciben sólo parte de lo producido.História & Luta de Classes. a classe dos trabalhadores assalariados. luta ideológica por outra moral e visão de mundo. 25 Id. Marini concebe o papel político do Estado em termos muito próximos com os quais Lênin concebeu a aliança operário-camponesa no processo da Revolução Russa23: por um lado. Las formas democráticas.com/cica_web/consejistas/pannekoek/pannekoek_tesis. No lugar do 'Estado de transição' leniniano. In: Abogación Sureña por los Consejos Obreros. Na concepção de Marini. el mando de los funcionarios del Estado sobre la producción y el mando de los gerentes. com relativizações e flexibilizações. Ibid. baseada na socialização dos meios de produção.. no alteran la estructura fundamental de este sistema económico. e é dessa interdependência que extraímos a relação do Estado com o socialismo. teoricamente e em fatos. cujo modo de apropriação da riqueza corresponde à ausência de propriedade privada dos meios de produção. que se supone o se pretende que la acompañen. i. Coube a Anton Pannekoek (1873-1960). pelo menos desde fins da segunda guerra mundial. es el amo directo del proceso de producción. 33. recepcionado pelo pensamento de Marini.

Permitem. situando-se neste particular em relação à teoria que o bolchevismo produziu. não conceber a substituição deste modelo de Estado político é sua maior fragilidade. Afirmar a originalidade de seu pensamento em muitos aspectos. no entanto. Anton.Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini contra o poder do Estado antes e assegurar o poder proletário após a derrubada da classe dominante26. E. para que suas elaborações não servissem para fins políticos reformistas no sentido de que estas pudessem substituir a necessidade da revolução socialista (embora Marini a conceba nas formas pacífica e violenta). forçosamente outras seriam as obras consultadas e se desenvolveria por outros caminhos. 1977. O Estado esteve subjacente ao longo de sua obra e mereceu tratamento constante nos seus escritos. Ao que se saiba. Ela não foi capaz de ultrapassar o referente bolchevista da questão enquanto alternativa radical de teoria do Estado para o movimento socialista.44 . diante dos impasses teóricos e práticos insolúveis do Estado bolchevique (insolúveis do ponto de vista do proletariado). Em não poucas vezes. Considerações Finais Este trabalho pretendeu analisar o lugar ocupado pelo Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini. tratamento dado com originalidade e que contribuiu. As três dimensões analisadas nestas breves notas são insuficientes para afirmações terminativas. Se a pesquisa se concentrasse no pensamento econômico deste autor. esta obra permanece inédita no Brasil. não significa romper com as influências que sofreu. Madrid: ZYX. E aqui reside o aspecto mais problemático da concepção de Marini sobre o Estado. Los Consejos Obreros. como um pensamento que procurou renová-la ao invés de substituí-la. 26 Para conhecimento na integralidade da concepção dos Conselhos Operários. . consultar: PANNEKOEK. duas observações. por exemplo.

Manual de Informações. vamos examinar apenas as partes desses documentos referentes à atuação de organizações de esquerda e ao combate que sofreram pelos órgãos de segurança. Antônio de. em razão do uso de insidiosos expedientes – destruição dos valores morais. subordinados aos respectivos ministros de Estado2. Conforme os formuladores dos princípios doutrinários da ESG. Oriente versus Ocidente. transmutou-se no conceito (depois tornado doutrina) de Segurança Nacional. A estrutura de redação destes documentos e a natureza de seus conteúdos variam. o primeiro representado pelo comunismo internacional. de 1969 a 1974. Ali se gestaram conceitos e princípios concernentes ao papel do Brasil no contexto internacional. ocorridos na sua fase mais cruenta. mas também o nacional: o agente comunista infiltrado. das instituições. no principal celeiro de idéias do meio militar brasileiro. os chamados “anos de chumbo” – governo do general Emílio Garrastazu Médici. seguia orientação 2 PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA/SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES. estreitamente. de um para o outro. Assim. depois. dportilho@uol. lotados nas diversas unidades que o compunham. o subversivo. Vamos tratar aqui apenas dos primeiros. produzidos durante o ano de 1971. da República e a dos subsistemas setoriais. pelo SNI. O Sistema Nacional de Informações (SISNI). teve como finalidade a vigilância e o controle sobre este novo inimigo. Explica-se aí. Neste trabalho. 1983. esta conjuntura era vista como preâmbulo do fenômeno da “guerra total”.com. Brasília: INL.História & Luta de Classes. intitulavam-se.45 O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações Dulce Portilho Maciel* I ntrodução No Brasil. por outro. inicialmente. esta instituição constituiu-se. assim como de outros. O SISNI compreendia duas modalidades de subsistemas: a do Serviço Nacional de Informações (SNI). inseridos nas estruturas dos ministérios civis e militares. de começo. Organizações subversivas versus órgãos de segurança e informações O primeiro documento do conjunto a ser examinado neste trabalho data-se de 31 de maio de 1971 e inicia-se pelo item “Antecedentes”. Nº 7. Volume . Os mencionados documentos. em razão do limite de extensão permitido aos artigos publicados nesta Revista.br 1 ARRUDA. do segmento desta corporação ocupado com atividades de Segurança e Informações. visto que incluía o princípio da “segurança interna”. Os originais destes documentos fazem parte do acervo da extinta (em 1990) Superintendência do Desenvolvimento da Região Centro-Oeste (SUDECO). Deste modo. o antigo conceito de “inimigo” desdobrou-se. “Síntese das Atividades Subversivas no Brasil”. o segundo formado pelas nações integrantes da civilização ocidental-cristã. provavelmente. instituído no Brasil já nos albores do regime militar. Julho 2009 (45-51) . . Criada em 1949. em 1964. 1986.Fundamentos Doutrinários. O exame de tais assuntos. o sentido dado ao termo “subversão” relaciona-se. todos carimbados com a palavra CONFIDENCIAL. 1º. a conjuntura mundial da “guerra fria”. “conhecimentos” obtidos mediante a atuação de seus agentes especializados. como cenário. Na ESG. a principal estratégia de expansão do comunismo era a fomentação da chamada “guerra revolucionária”. com a formulação do conceito de Segurança Nacional. este mais abrangente que o outro. isto é. mais particularmente. Brasília: SNI. o “inimigo interno”. São Paulo: GRD. (Reservado) 3 O conjunto compõe-se de dezenove documentos. mediante a qual.3 distribuídos pela Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério do Interior (MINTER). A Escola Superior de Guerra: história de sua doutrina. oferecendo às autoridades e aos órgãos de repressão do país. que se conheçam certas características marcantes da mentalidade militar brasileira e. atualmente sob a custódia do Arquivo Nacional. compreendendo não apenas o elemento estrangeiro. “O Quadro da Subversão no Brasil – Síntese”. do modo como foram tratados nesses documentos. em relação a possíveis agressões externas. A SUDECO era instituição de natureza autárquica e vinculava-se ao MINTER. estes. etc. dez produzidos em 1971 e nove em 1972. tomando-se. o tradicional conceito de defesa nacional. deste último derivados. alcançava-se o controle progressivo da Nação. de um lado. desenvolvido principalmente na Escola Superior de Guerra (ESG)1. vinculado diretamente ao Presidente *Professora da Unidade Universitária de Ciências Sócio-Econômicas e Humanas da Universidade Estadual de Goiás – UnCSEH/UEG. Tais conceitos resultaram de um longo processo de elaboração. O presente trabalho consiste no exame de um conjunto de dez documentos. que o Partido Comunista Brasileiro (PCB). com suas agências regionais. desde cedo. desde 1922 (ano em que foi fundado). permite. que se tragam a lume numerosos acontecimentos relacionados com a repressão às diferentes organizações de oposição ao regime ditatorial-militar. -.

foi constituída a Ação de Libertação Nacional – ALN –. 5 Segundo Jacob Gorender. A esquerda brasileira: das ilusões perdidas à luta armada. MAR – Movimento Armado Revolucionário. 1995. Jacob. de constituição de uma “Frente Única das Esquerdas”.46 . a VPR era a organização mais atuante e. os “grupos subversivos” haviam iniciado o ano de 1970 executando ações de vulto. “comunizar” o país. com a morte de Joaquim Câmara 4 SAUTCHUK. quanto aos métodos e estratégias de ação. sob orientação estrangeira. da organização Corrente Revolucionária). continuar buscando alcançar aquele objetivo. para levantamento de recursos financeiros. sendo que as que seguiam a orientação russa atuavam no sentido de arregimentar as massas. estas numerosas organizações. contrários ao regime ditatorial-militar então vigente. a cúpula das forças subversivas havia sofrido graves perdas. tais organizações teriam sofrido sucessivos reveses. Combate nas trevas. mediante as quais buscavam formar uma base de apoio para o desencadeamento da guerrilha rural. ibid. 55. etc. este partido cindira-se. p. Carlos Marighella. ao passo que as de orientação chinesa ocupavam-se com ações violentas.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações soviética. pertencente aos quadros deste partido desde os anos 1930 e. Uma dessas inspirações era a luta pela libertação da Argélia. em novembro daquele ano. em 1967. Recuperadas da derrota a elas impingida pela Revolução.. vigente daquele ano até 1985) teria representado um duro golpe para as organizações comunistas no Brasil. vinham de Cuba. ou o “Velho” -. em atuação no Brasil. o manual era impresso onde e como desse. indivíduos formados em cursos de subversão em países comunistas. em atuação no país. ALN – Aliança de Libertação Nacional. as organizações comunistas (não se mencionam outras. CORRENTE (sem menção ao nome por extenso. e seu principal mentor intelectual.. Mas as adaptações. VAR-Palmares – Vanguarda Armada Revolucionária Palmares.e “expropriações” . haviam surgido após a Revolução de 1964.. VPR – Vanguarda Popular Revolucionária.assaltos a agências bancárias. 79. entre Câmara Ferreira e Carlos Lamarca (este. isto é. Luta armada: no Brasil dos anos 60 e 70. Conforme esse documento. Outra vinha do vizinho Uruguai... entre aquele ano e o início de 1969. achavam-se identificadas pelos órgãos brasileiros de segurança e informações: PCB – Partido Comunista Brasileiro. foram sistematizados no Pequeno Manual do Guerrilheiro Urbano. ou seja: a revolução “começa com um pequeno foco de guerrilheiros.. numa região camponesa. Joaquim Câmara Ferreira – o “Toledo”. do principal líder da ALN. o que culminara com a morte. líder da VPR). segundo aquele documento.de pessoas e aeronaves .. originando o Partido Comunista do Brasil (PC do B).. com vistas a aglutinar todas as organizações guerrilheiras. tinha outra inspiração. PRP – Partido Revolucionário do Proletariado. No início de 1969. POP – Partido Operário Comunista.Movimento Revolucionário 8 de Outubro. organização em que: “. mas tratando-se. Elaborado pelo próprio Marighella. Naquela época. -. Quando da elaboração do documento. p. este. COLINA – Comando de Libertação Nacional. os conceitos gerais sobre guerra revolucionária. em novembro de 1969. conforme aquele documento. sob a liderança de Carlos Lamarca.. a morte de Marighela teria representado um rude golpe nos planos antes existentes. em seus quadros. PCBR – Partido Comunista Brasileiro Revolucionário. “típicas de guerrilha urbana”. assim. estabelecimentos comerciais. e amplamente difundido.. atuavam no Brasil diversas organizações “subversivas”. Algumas dessas organizações possuíam. “pela luta armada e pelo terrorismo revolucionário”4. p. 7 Id. MR-26 – Movimento Revolucionário 26 de Março. p. A expulsão decorrera da opção de Marighella. de preferência montanhosa. o “foquismo” era a teoria oficial da Revolução Cubana. . Ala Vermelha. Ao longo de 1969.. Tratava-se de um ex-militante do PCB. PORT – Partido Operário Revolucionário Trotskista. dele expulso.. em especial a criação do que passou a ser chamado de 'foquismo urbano'5. Em 1962. São Paulo: Editora Anita.. sob sua liderança.”6 Até ser abatido pelas forças de repressão.”7 Segundo o documento acima em referência.. na época. entretanto. Ainda conforme o documento. 1987. Jaime. Frieza e eficiência nas operações eram sua marca pessoal. Marighella fora o mais influente líder dos movimentos rebeldes clandestinos. PC do B – Partido Comunista do Brasil. desejosas que eram de conquistar o governo e. segundo o documento. MOLINA – Movimento de Libertação Nacional. de orientação chinesa. REDE – Resistência Nacional Democrática Popular. chefiadas por “elementos nacionais”. Jaime. naquele momento. depois denominado Tupamaros. São Paulo: Ática. provavelmente. cuja atividade de guerrilha urbana foi tão bem retratada no filme A batalha de Argel. a Revolução de 1964 (que instaurou o regime ditatorialmilitar no Brasil. em atividades de guerrilha urbana: “Suas opiniões e ensinamentos sobre como deveria ser o combatente. No segundo semestre de 1970. contrária à orientação “pacifista” do PCB. Depois disto. tais como seqüestros . Pelo que se pode depreender da leitura do documento. 57. MR-8 . as seguintes organizações. Assim. era intenção do novo líder da ALN. um ex-oficial do Exército. 55-56. Op.. AP – Ação Popular. 6 SAUTCHUK. Ala Marighella. mesmo passando por uma crise de liderança. do Movimento de Libertação Nacional (MLN). desde o seu recrutamento até o procedimento nas ações de rua. com exceção do PCB e do PC do B. cit. além das duas acima) teriam reiniciado suas atividades.” GORENDER. passara a coordenar as ações de diferentes grupos clandestinos. devido à disputa então em curso pelo antigo posto de Marighella. MRT – Movimento Revolucionário Tiradentes.

de sua leitura depreende-se que tenha sido elaborado entre o final de setembro e o começo de outubro de 1971. menos dia'.. tanto devido a sua extensão – dezoito páginas datilografadas. ultimamente. os quadros da organização ficaram reduzidos a uns poucos indivíduos. sob a liderança de Carlos Lamarca. serão exterminadas mais dia. Jaime. por seu lado.. ora enveredava-se pelos caminhos do terrorismo. durante uma “ação dos elementos de segurança” no “aparelho subversivo” em que ela se encontrava. segundo o documento. o PCB vinha aprimorando sua capacidade “dirigente”. em Salvador (Bahia). A AP.47 Ferreira. ora seguia os métodos adotados pelo PCB. segundo o narrador. podendo tal interesse decorrer do elevado valor que elas adquiriam nos mercados norteamericano e europeu e sua fácil conversibilidade em moeda estrangeira. assim como na AP. tido como o “braço direito” de Lamarca na VPR e do também ex-militar Eduardo Leite – o “Bacuri” -. Não temos nenhum poder mágico de pronunciar fiat lux e a luz se fazer. Inicia-se pelo item “Atuação dos subversivos”. no interior do estado da Bahia8. em abril de 1971. por Herbert Eustáquio de Carvalho “importante elemento da esquerda radical no Brasil”. Op. Uma segunda parte do documento em referência recebe o título “Situação atual dos grupos terroristas – ano 1971”. As ações executadas pela “Frente” haviam incluído: o seqüestro do Embaixador da Suíça no Brasil. agora. enquanto que a AP. mas não desistimos. Julho 2009 (45-51) . O medo da responsabilidade nos faz esperar o fim. Consta também que. elaborados no decorrer de 1971.História & Luta de Classes. p. isto é. na ocasião. conclui: 'Tentar remontar a VPR e partir de suas forças exauridas é trabalho inútil. “dramático” da narrativa. ocorrida em outubro. por ele apresentado assim: “Após analisar em detalhe a origem da derrota. por integrar em seus quadros “elementos” treinados na China. diversas ações de “desapropriação”. o principal líder da VPR. agora. os órgãos de segurança haviam cercado um 8 SAUTCHUK.. após a prisão de diversos militantes da VPR e a morte de seu novo líder. realização de ações conjuntas” determinara que as ações fossem executadas pelo que chamou de “frente”. Entre as organizações voltadas para a arregimentação de massa. Consta neste documento que Iara Iavelberg suicidara-se. acerca das condições em que se achava a organização clandestina VPR. em razão do “valor qualitativo de seus militantes”. o fim individual poderá chegar durante a espera. . sua companheira Iara Iavelberg e diversos outros indivíduos foram eliminados pelos órgãos de segurança.” O narrador transcreve diversos trechos deste texto.. enquanto os outros possuem entre três e nove páginas -. um distinguese dos demais. e. tanto urbanas como rurais. Segundo se informa ali. a maioria dos grupos subversivos ocupados em ações de guerrilha achava-se. atuava por meios pacíficos. MRT E PCBR. em 28 desse mesmo mês. Temos que reconhecer. sabemos disto e continuamos esperando. as duas últimas. que lhe havia oferecido o comando de um foco de guerrilha rural. Na época. O segundo documento da série aqui examinada data-se de agosto de 1971. avaliando-se aí que o grande número de assaltos que na época ocorriam na cidade do Rio de Janeiro indicava estarem os subversivos novamente se organizando. quanto em razão do tom. por membros da ALN. a fim de que fossem usadas no momento oportuno. Somos apenas indivíduos unidos para a sobrevivência. deixara a organização. que optara pela “fidelidade ao pensamento de Mao Tsé-Tung”. mas de importância qualitativa é porque representávamos a esquerda. entre eles o que vem abaixo. segundo fazia crer. desde que tivessem caráter de massa. integrando-se ao MR-8. representamos o outro extremo: a derrota'. Se fomos a maior organização do país. de Yoshitami Fujimori. Entre os documentos da série em exame neste trabalho. destacavam-se o Partido Comunista Brasileiro – PCB – e a Ação Popular – AP. O documento inicia-se pela transcrição. 66-67. o documento inicia afirmando: 'A realidade está sangrando. vinham se interessando pela obtenção de jóias. líder da REDE. o “justiçamento” de um industrial de São Paulo. a organização de esquerda com maior potencial de sucesso. líder da ALN. cit. Carlos Lamarca. o que se refletia numa atuação mais coordenada e eficiente de seus militantes. Estes. O PCB. identificados com o pensamento de Mao TseTung. desenvolvia trabalho de arregimentação de massas. O texto intitula-se “E haverá perspectivas?”. em 6 de agosto de1971. em dezembro de 1969. ALN. que a VPR acabou e o que sobrou de outras organizações são espectros dos quais já traçamos o caminho. realizadas por diferentes organizações. conforme o documento em foco. era. admitia-se a realização de ações guerrilheiras.” Quando da elaboração deste texto. de um texto elaborado em junho de 1971. não em termos numéricos. de certo modo. Conforme o documento “confidencial” ora em foco. Embora este documento não seja datado. José Raimundo da Costa. entremeada de comentários. No PCB. Nº 7. Havendo este compreendido que a “sobrevivência das hostes subversivas” dependia da “soma de esforços e. MRT e VPR. A Ação Popular Marxista Leninista do Brasil. É mais fácil. O documento em referência narra as condições pelas quais Carlos Lamarca. na época. por integrantes das organizações VPR. que o introduz assim: “Pintando o quadro com palavras desanimadoras. Uma terceira parte do documento em pauta intitula-se “Situação Atual dos Grupos de Arregimentação de Massas”. MR-8.. ocorridas em dezembro daquele ano.

Minas Gerais (1). O documento registra. cerca de 400 mil cruzeiros em jóias e relógios.983 mil cruzeiros. que em 17 de setembro.939 mil cruzeiros.. cercada de absoluto sucesso no período anterior. Pernambuco (1). de começo. os assaltos a estabelecimentos bancários. No período. A redução do número de ações subversivas era resultado. O documento. no mês.” Nos últimos tempos.. os elementos de segurança àquele local. etc. Conforme esse documento. sendo 36 em São Paulo. Destes. além desse total.800 mil cruzeiros em jóias. e ferido Aldemar Campos Barreto”. 28 na Guanabara [atual município do Rio de Janeiro] e os demais nos Estados do Rio de Janeiro (7). os subversivos haviam também praticado “ataques a viaturas policiais. os “agentes da lei” eliminaram Antônio Sérgio Matos – “Moreno”-. em dezembro de 19709. apenas 60 tinham resultado em roubo de dinheiro. O documento contém uma sintética análise de dados sobre a subversão em 1971. no mesmo período – jan a out – o número de assaltos 9 GORENDER. em grupos de quatro “elementos”. Consta. como os assaltos a caminhões de bebidas e a pequenos estabelecimentos comerciais.” Por outro lado. cit. O documento em referência conta que os órgãos de segurança de São Paulo. desde “a morte de Carlos Lamarca e o frustrado assalto a um caminhão do Exército. Nesta operação. os assaltos haviam rendido cerca de 1. aqui. Observe-se. ao resistirem à prisão. “onde foram mortos Luiz Antônio Santa Bárbara e Otoniel Campos Barreto. denominada Inspiração Comunista Cubana – ICC. para iguais períodos – jan a out – o quantitativo roubado em 1971 é superior ao do ano de 1970 (8. foram realizados 55 assaltos. pareciam “estar retraídos”. de que o cadáver apresentava um grande hematoma no olho esquerdo e ferimentos a faca. os subversivos que antes agiam. haviam concentrado atuação sobre “estabelecimentos bancários. antes mencionado. usando como armadilha uma viatura do Exército carregada de armas e munições. esta. finalmente. que após a morte de Lamarca. O documento em foco traz dados estatísticos das “ações subversivas”: “Durante o mês de outubro. em troca da vida do seqüestrado. que esta ação não se efetivaria. op. Goiás (2) e Distrito Federal (1). ex-operário e exmilitante da VPR. entretanto. contra 6. sendo 13 em São Paulo. da série aqui em exame. foi o do embaixador da Alemanha Ocidental. os subversivos. ademais. Darão sua versão de que ele morreu 'sob as mais atrozes torturas'. Jacob. um de sexo feminino.. em breve. ”informações de um lavrador de que dois elementos se encontravam em Pintada [interior da Bahia]. Conforme o documento em pauta. Comenta-se aí. quando foram mortos três terroristas”.e Ana Maria Nacionovich Correia – “Bety” conseguiram fugir. bombas armadas com dispositivos de detonação. Na ocasião. entre eles. no exterior. levaram. comerciais. que os grupos subversivos. na cidade de Juiz de Fora (Minas Gerais). freqüentemente. O primeiro deles registra. Minas Gerais (1). todavia. as organizações clandestinas “pretextando vingar a morte do líder subversivo”. um prisioneiro “subversivo” declarara “ter certeza absoluta” de que. aproveitando notícias inverídicas. ainda. que totalizou 954 mil cruzeiros. iria ocorrer um seqüestro e que seu nome seria incluído na lista de presos políticos a serem libertados. Eles foram produzidos. Bahia (2). .. Goiás (1) e no Distrito Federal (3). em 1970).. 42 tiveram como resultado o roubo de dinheiro. aproveitem a morte de Carlos Lamarca para intensificar a campanha contra o Brasil. por outro lado. foram mortos” Carlos Lamarca e José Campos Barreto. Desses. “da intensa ação dos órgãos de Informações e Segurança.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações “aparelho rural” no município de Brotas de Macaúbas (Bahia). quando capturados por órgãos de segurança e informações. 196. em 1971. É o primeiro. Carlos Sarmento Coelho – “Clemente”. Manoel Mendes Nunes – português – e Alexandre José Ibsen – “Bigode”. provavelmente. no segundo semestre de 1971. conforme o documento em foco. Em vez disto. queima de veículos e lançamento de bomba em uma residência e num estabelecimento industrial.” Durante o mês de setembro de 1971. Dois outros documentos integrantes do conjunto aqui em exame não estão datados. geralmente.” a tratar de revelações obtidas mediante interrogatórios (sob torturas brutais) a que eram submetidos os integrantes de organizações clandestinas. Destaca-se que.. e outras atividades guerrilheiras eram. em comparação com dados relativos a 1970: “. 35 no estado do Rio de Janeiro e os demais nos estados do Rio Grande do Sul (3). totalizando 471 mil cruzeiros. nos últimos tempos. conforme esse documento. entre o final de outubro e princípios de novembro de 1971. ademais. este. em seu interior. O último seqüestro. carros transportadores de valores e grandes estabelecimentos comerciais e industriais. além de deixarem abandonados dois veículos contendo. acompanhadas de ações de “panfletagem e pichamento”. haviam sido realizados 79 assaltos. os grupos armados haviam deixado de praticar ações de reduzida importância. foram roubados. haviam logrado atrair um grupo de terroristas intencionados de assaltá-la. divulgadas pela imprensa brasileira. vinham praticando diversas ações terroristas. realizado por organizações de esquerda.48 . onde. apesar de ferida a bala. p.. 16 e 20 indivíduos. agora vinham realizando atividades em que empregavam agrupamentos de 8. Na época da elaboração do documento em referência.” O outro documento sem data foi produzido. cogita a possibilidade de que: “. o aparecimento de uma nova organização subversiva.

com os quais deveriam estabelecer contacto quando chegassem ao Brasil. . o período que antecedeu sua elaboração teria se caracterizado pela ocorrência de roubos de vultosas quantias.. entre elas. O documento que vamos examinar. atentados a bomba. na época. “os subversivos utilizaram a área paulista como campo para. denominada “Grupo da Ilha”. as seguintes: a) 28 brasileiros haviam feito “Curso de Guerrilha” em Cuba. b) destes. resultando disto a apreensão de passaportes falsos e outros documentos. enquanto que reservaram a área do Rio de Janeiro para o apoio logístico. . em outubro. preso em 4 de novembro último. Conforme o texto em foco. refere-se ao período de 1º. responsável. 14 em confecção. Tratou-se de assalto a um posto do Banco de Minas Gerais. no decorrer de 1971. de um militante daquela organização. quanto ao número de ações subversivas: 48 pequenos assaltos no estado do Rio de Janeiro.. o total de mortos e feridos. Conforme ele. um jovem pertencente a ALN.... assassinado em 2/11/71 pela ditadura que recebe. ocorrido na noite de 30 de novembro. Entre as informações obtidas do prisioneiro. da violência desencadeada. incêndio de automóveis. ao número de assaltos e ao total de mortos e feridos.. a partir de agora. as atividades subversivas realizadas em São Paulo. a expropriação de fundos. No Rio de Janeiro. ao procurarem seus contatos. depreendese que tenha sido elaborado no final de novembro de 1971. cedera suas instalações para a realização de um Simpósio sobre Segurança Nacional. existente nas Faculdades Metropolitanas Reunidas. Avisamos a esses cães de guarda dos imperialistas. fossem identificados e mortos. “subversiva que se encontrava em Cuba fazendo curso de guerrilha”. Viva José Roberto Arantes. em São Paulo. espoletas e cordéis detonantes. apresentavam características diferentes das que se levavam a efeito na região do Rio de Janeiro.” Conforme o documento em referência. naquele período. bem como de roubo de automóveis. visando a criar a intimidação e o pânico. ações psicológicas. em São Paulo.. fora preso...História & Luta de Classes. Nº 7. Conforme o relato. com segurança. os números foram superiores aos do ano anterior. de militantes treinados em Cuba. o período ao qual ele se refere havia sido relativamente calmo. mereceram menção. em 1970). Entre os dias 1º. treze ações – ataques a veículos da polícia. diferentemente. pavios. colaboração ideológica e financeira desta Escola. Fora os da ditadura. em troca do Embaixador da Alemanha. através da obtenção de numerários.49 realizados em 1971 também é superior (563 assaltos em 1971. a partir de agora. permanganato de potássio. em São Paulo. c) em Cuba. o grau de violência dessas ações e o emprego de explosivos. a essas ações somou-se o assalto a uma pedreira. por membros da ALN. revela que neste último ano. No mencionado período. em 1970. os terroristas treinados tinham recebido endereços de militantes da ALN. seus três autores. Conforme se informa nele. organizações subversivas haviam praticado 37 assaltos: 28 no estado do Rio de Janeiro. as ações terroristas haviam ocorrido com uma “freqüência incomum”. em que se lia: “Esta ação revolucionária de hoje. durante o mês de novembro de 1971.. da propaganda e da intimidação pareciam indicar a presença. etc. Um novo documento da série aqui examinada não foi datado. é bastante superior ao total do ano passado. 6 em São Paulo. O documento “confidencial” que vamos examinar. cujos nomes aí se menciona. a 15 de dezembro de 1971 e contém relato de um episódio de “Ação Terrorista de propaganda armada”.. A análise comparativa de dados referentes a 1970 e 1971. neste ano. as diligências efetuadas a partir das revelações feitas pelo prisioneiro. contra 220. entre fins de 1969 e início de 1970. apesar do decréscimo. instituição freqüentada por policiais e que.tinham sido registradas.” Segundo o documento ora em pauta. segundo o referido relato.” Um novo documento da série aqui examinada data-se de novembro de 1971. e 15 daquele mês. Neste período. formada por militantes treinados em Cuba. e dois rapazes. o que confirmava declaração tomada de um subversivo então preso. Somos muitos Lamarcas. diz respeito ao período de 16 a 31 de dezembro de 1971... Após o assalto. espoletas. 8 haviam regressado ao Brasil. veículos e explosivos”. O primeiro registro nele contido refere-se a informações obtidas de um terrorista. entretanto. 3 grandes e 2 pequenos em São Paulo. seis praticadas contra propriedades de cidadãos norte-americanos. etc. sobre atividades da ALN. procedida no texto em foco. Pelo seu conteúdo. foi executada pelo Comando José Roberto Arantes. nesta organização. Somos muitos Marighellas. no documento. Tratava-se de uma moça. Julho 2009 (45-51) . 1 em Pernambuco. 1 em Goiás e 1 no Distrito Federal. Fora a direção nazista desta Universidade. Na visão do autor do documento. os terroristas teriam distribuído um panfleto. supermercados e indústrias. quanto às quantias roubadas. de onde foram levadas grandes quantidades de dinamite. Conforme esse documento. Em São Paulo. os quais revelaram a existência de uma nova dissidência na ALN.” A documentação apreendida com os militantes mortos possibilitara a ampliação das investigações. prosseguiram as ações de assalto a agências bancárias. aluno de Física da USP e do ITA. Em seu “aparelho” tinham sido apreendidos: 3 bombas prontas.. “que haviam sido banidos para a Argélia. que é chegada a hora da justiça revolucionária.. testemunhas da execução tinham podido identificar. “permitiram que três desses terroristas.. pela fabricação de bombas. Este documento contém o relato de um episódio de “justiçamento” (execução sumária). e.

O texto redigido pelo militante preso. “visando a criar um clima de animosidade contra as autoridades”. assinado por sete terroristas” que se achavam. deixando 10 pessoas feridas.” Conforme comentário contido no documento em foco: “A ampla divulgação dada ao documento elaborado pelo terrorista. fora encaminhado à Comissão de Defesa dos Direitos Humanos das Nações Unidas. foram registrados os maiores índices de assaltos e de quantias roubadas de todo o ano”. de Cigarros Souza Cruz e a firma Sidney Ross Co. originária da Ação Popular – AP. neste ano. apenas a quantidade de documentos destruídos. conforme Gaspari.. um grupo remanescente da ALN havia assaltado a Casa de Saúde Dr. contra a Cia. de duas “organizações terroristas”. desencadear a guerrilha rural. produzidos pelo SNI ou a este “referenciados”. forneceu uma boa gama de subsídios para meditação daqueles que não acreditam ou duvidam da existência de um quadro subversivo em desenvolvimento no Brasil. por organizações de esquerda. A análise dos dados estatísticos da subversão permitiu verificar-se que: a) “Para iguais períodos – Jan a Dez – o quantitativo roubado em 1971 é superior ao de 1970. carimbado com a palavra “SECRETO”. ou o foram apenas parcialmente. é bastante superior ao total do ano passado”. começa “contando a sua iniciação políticoideológica. confirmando-se a atuação. pelos diversos órgãos de comunicação de massa. Vamos examinar. No Rio de Janeiro.. Em São Paulo. à Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana do Brasil e à Auditoria da 4ª. na presença de duas testemunhas. durante o mês de dezembro de 1971. esta última. entretanto. Seu conteúdo parece indicar.50 .” Nestes dois anos. os órgãos de comunicação de massa “de todo o País” haviam divulgado um documento de 13 laudas. Nesta mesma cidade. d) “No mês de dezembro. Informa-se aí que. carecem de fidedignidade.. bem provavelmente. a VAR-Palmares e o Partido Revolucionário dos Trabalhadores – PRT -. que tenha sido elaborado no final de 1971.O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações A segunda parte do documento ora em foco recebe o título “Subversivo renega o terror e repele calúnias contra o País”. Essas organizações. a destruição dos documentos “Sigilosos” e “Secretos” provenientes do SNI. pelo qual solicitava que este procedesse. conforme o documento ora em pauta. encaminhados à DSI/MINTER. Este procedimento da parte de terroristas presos obedecia a orientação emanada da cúpula subversiva. Tais procedimentos não foram executados. c) “o total de mortos e feridos. Ltda. realizaram-se 130 assaltos.. levantou dados sobre ações praticadas por cinco organizações guerrilheiras em São Paulo. o diretor da Divisão de Segurança e Informações (DSI) do Ministério do Interior encaminhou ao chefe da Assessoria de Segurança e Informações (ASI) da SUDECO. uma operação realizada por órgão de segurança na região de Imperatriz (Maranhão). a VAR-Palmares. ali. Circunscrição de Justiça Militar de Juiz de Fora. oito a . sob sua custódia.. também sob sua guarda. chegando ao seguinte resultado: “.. assim como o ofício acima. Solicitava. elaborando também um termo de destruição. as populações locais. um documento sem qualquer menção ao período de tempo a que se refere. b) “doutrinar e aliciar. deixando ali três mortos e um ferido. em 21 de dezembro de 1971. Este mesmo grupo praticara ataques a bomba. fazendo deste constar. que o chefe dessa ASI destruísse os documentos. a partir de agora. com graus de sigilo “Confidencial” e “Reservado”. dez em 1970. em que seu autor renegava a subversão e demonstrava “revolta ante as calúnias de documento denunciando torturas. revela as mazelas existentes no submundo da subversão. onde queimou várias bandeiras do Brasil e cartazes de convocação para o Exército. este. tinham com relação a eles os mesmos objetivos: a) “assegurar refúgio para elementos identificados e perseguidos nas grandes cidades.. um grupo praticara ataque a bomba contra o consulado da Bolívia. Notas Finais Em 4 de dezembro de 1989. embora tenha havido um sensível decréscimo no número de assaltos. nos últimos tempos. Eiras. em seguida. em São Paulo. embora empregassem métodos diferentes para a implantação de núcleos subversivos naquela área. os assaltos a bancos caíram de doze em 1970 para sete em 1971. orientado e conduzido segundo técnicas cientificamente elaboradas. organização não incluída entre as cinco referidas acima. acerca de ações de guerrilha urbana levadas a cabo no Brasil. c) “quando oportuno. havia praticado doze assaltos.” b) “No mesmo período – Jan a Dez – o número de assaltos realizados em 1971 também é superior – (725 assaltos em 1971. Ambos estes termos deveriam ser.” Segundo o documento em foco. Já os assaltos a supermercados. fundada em vasta pesquisa em fontes primárias. nela incluídos os documentos “confidenciais” examinados no corpo deste trabalho. um grupo armado tinha invadido um colégio. contra 248 em 1970)”. visto que a documentação sigilosa constante do acervo da SUDECO no Arquivo Nacional alcança volume considerável. Conforme ele. 10/89. resultara na prisão de vários indivíduos subversivos. escrito por terrorista aí nomeado.. ademais. para cada ano civil.” (Grifo nosso) Conforme o documento em referência.. autor de volumosa obra sobre os governos militares. no biênio 1970/1971. sobem para 16 no ano seguinte. O documento “contendo denúncias sobre falsas torturas”. lavrando termo conforme o modelo para isto existente. Após descrever a técnica utilizada pelos subversivos para 'conduzir o jovem militante a um comprometimento cada vez maior'. sendo 102 no estado do Rio de Janeiro e 28 em São Paulo. o Ofício Circular No. O jornalista Elio Gaspari. juntamente com ele. Os dados numéricos contidos nos documentos examinados neste trabalho. as ações subversivas vinham-se caracterizando pelo elevado grau de violência. tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. presos na cidade Juiz de Fora. para a subversão.

cerca de cinqüenta mil pessoas foram presas e. Um balanço das atividades repressivas no Brasil durante os governos militares informa-nos que. tinha em vista justificar. no período. estima-se hoje que. 1994. além de 144 outros que. no semestre anterior. Tais dados podiam justificar. por outro lado. informava que. São Paulo: Moderna.História & Luta de Classes. São Paulo: Companhia das Letras. A produção. A ditadura escancarada. bem assim. a pertinácia com que perseguiram e eliminaram os militantes destas organizações. de dados estatísticos muito elevados sobre ações “subversivas”. embora. perante estas. tenham também sido mortos. p. provavelmente. no combate às organizações de esquerda e. p. dados estes informados às principais autoridades governamentais brasileiras. 386. provavelmente. em todo o Brasil. são dados como “desaparecidos”. Julho 2009 (45-51) . 10 GASPARI. 320 militantes de esquerda foram mortos pelas forças de repressão. Elio. uma relação “autocongratulatória” divulgada em Roma. a existência e funcionamento do enorme aparato de que se constituía o Sistema Nacional de Segurança e Informações. no início de 1972. . as organizações armadas haviam praticado trinta e três ações. seis delas contra bancos10. 2002. Com base em levantamentos realizados por diferentes instituições da sociedade civil brasileira. 11 CHIAVENATO. Conforme este autor. pelo menos vinte mil sofreram torturas11.51 supermercados e os demais a estabelecimentos fabris ou comerciais. pelos órgãos de segurança e informações. no período. a brutalidade dos métodos utilizados por esses órgãos. Nº 7. Júlio José. 131. O golpe de 1964 e a ditadura militar. destas.

pelo menos. o método do terrorismo estatal foi utilizado em larga escala de maneira coordenada para desarticular grupos de exilados que se organizavam de diferentes maneiras para fazer oposição aos regimes autoritários de seus países de origem. utilizavam o Terrorismo de Estado para garantir a exploração de classe e assegurar a hegemonia do capital monopolista internacional e do empresariado nacional. insp. não vacilaram em vulnerar a soberania dos países e matar milhares de oponentes. A conexão repressiva foi “oficializada” na Primeira Reunião de Trabalho de Inteligência Nacional realizada em Santiago do Chile. Lohlé-Lumen. desde o fim do “milagre”. major José Bassani.15 . com o intuito de perseguir e executar seus “inimigos internos” que estavam refugiados em outros países em nome da Segurança Nacional da região. 186 1 também pretende esmiuçar o seqüestro político dos uruguaios em Porto Alegre. polícia secreta chilena e braço direito do ditador Augusto Pinochet. organização e sorte. 1984. Janito Kepler. pretende lembrar. o reconhecimento do Estado sobre a participação brasileira na Operação Condor que atuava à sombra da total impunidade no Cone Sul da Segurança Nacional. O trabalho *Professor de História da rede pública municipal de Gravataí . bem como verificar suas conseqüências para o Estado de segurança nacional brasileiro que. foi o julgamento e a condenação de. (. p. garantia-se o controle da sociedade civil pela aplicação seletiva do poder coercitivo”3. seqüestrou e desapareceu com centenas de latino-americanos em nome da manutenção de um modo de produção injusto. que. Foi nessa conjuntura do Estado de segurança nacional brasileiro que ocorreu o seqüestro dos uruguaios e o posterior julgamento e condenação de dois policiais do DOPS. porém clandestina. (1964-1984) Petrpóilis: Vozes. por astúcia. João da Rosa (“Irno”). as ditaduras. 1998. polícias políticas e militares nos países do Cone Sul em meados da década de 1970. afetado pelo agravamento da crise econômica. Nesta reunião se propôs uma 4 MARIANO. evidenciando a participação brasileira na Operação Condor. dois agentes públicos responsáveis pelo seqüestro do lado brasileiro. Pedro Seelig. de ampla repercussão internacional na época. ao menos. Terrorismo de Estado en Cono Sur.. que ficou conhecido como o “seqüestro dos uruguaios”.p. Camilo e Francesca. Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil A Operação Condor foi a internacionalização do Terrorismo de Estado (TDE) através da cooperação oficial. assim. Universindo Rodriguez Díaz. trinta anos depois da militância obstinada de Lilián e Universindo. Nilson Cezar. Para tanto. buscava diminuir a tensão sócio-política: “A meta global da política de 'distensão' era concluir a institucionalização do Estado de Segurança Nacional e criar uma representação política mais flexível. Operación Cóndor.RS Cap. empilhando cadáveres para dominar populações através do amedrontamento coletivo4. entre os serviços de inteligência. sob iniciativa do general Manuel Contreras.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Ramiro José dos Reis* I ntrodução Há trinta anos ocorreu em Porto Alegre o seqüestro político internacional dos cidadãos uruguaios. inspetor Orandir Portassi Lucas (“Didi Pedalada”). Esse fato significou. insp. bem como. Buenos Aires: Ed. Eduardo Ferro. Finalmente. Eduardo Ramos. 2 Del. Glauco Yannone.. Este artigo visa resgatar o papel ativo do Brasil na Operação Condor que torturou e seqüestrou “requeridos” que estavam exilados ou de passagem por aqui aos seus países de origem. O significado histórico deste fato. explorador e dependente. que. como as demais nações do Cone Sul. sobreviveram à rapinagem inter estatal do Condor que torturou. O seqüestro foi uma ação binacional entre militares uruguaios da Companhia de Contra-Informações1 e policiais gaúchos do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS2) configurando-se numa clássica operação de cooperação e coordenação entre as comunidades de informações dos dois países.52 . chefe da Direção de Inteligência Nacional (DINA). Para consolidar seus regimes de força. Lilián Celiberti Casariego e seus filhos.) Simultaneamente. de 25 de novembro a 01 de dezembro de 1975. 3 ALVES. Maria Helena Moreira. Estado e Oposição no Brasil. em 12 de novembro de 1978. articulou a perseguição de brasileiros em outros países. em 1978. de modo a baixar os níveis de dissensão e tensão que havia tornado muito fortes as 'pressões'. através da disseminação da cultura do medo que de certa forma prevalece até os dias de hoje. Isso só foi possível porque a ditadura cívico-militar brasileira passava por uma fase de “distensão” política no governo Geisel (1974-1978).

em Paris. inaugurou a sucessão de golpes cívicomilitares. no primeiro momento. Como el Uruguay no hay. Enrique Serra. ao contrário da Junta.História & Luta de Classes. 2005. Petrópolis: Vozes.23 6 PADRÓS. as ditaduras de Segurança Nacional utilizaram o TDE de maneira sistemática e coordenada. na guerra psicológica. porém se negando a participar da terceira fase. de maneira seletiva e clandestina. novembro. eram as “fronteiras ideológicas”. que foi criada pela iniciativa de Miguel Enríquez. além das fronteiras de cada Estado. Tese. portanto pela guerra suja. Ramóm Trabal. que nada mais era que reproduzir o que era feito dentro dos territórios nacionais. Doutorado em História – UFRGS. Criada após a II Guerra Mundial (1945) no Pentágono. forçavam o exílio de centenas de militantes que. o nosso país desempenhou um importante papel no operativo sendo. Para entendermos esta articulação subterrânea entre as ditaduras do Cone Sul devemos compreender a Doutrina de Segurança Nacional (DSN). treze são brasileiros. Além deste. na fase dois. 8 O assassinato do ex-chanceler chileno Orlando Letellier em Washington (21/09/1976). órgão da JCR. através de intensa espionagem das comunidades exiladas para constituição de um banco de dados comum aos países membros. Porto Alegre. O golpe de Estado no Brasil. Outra justificativa para a criação do Plano Condor foi o surgimento da Junta de Coordenação 5 ALVES. Uruguai (1969-1984): Do pachecato à Ditadura Civil Militar. já que o que valia. em 1972. através da Operação Condor. São Paulo: Fundação Perseu Abramo. na luta contra a chamada “guerra revolucionária”. Exército Revolucionário do Povo (ERP) da Argentina. Embora a JCR não tivesse conseguido criar condições concretas para a ação ela serviu para justificar a coordenação terrorista inter estatal da Operação Condor que. in LOWI. buscavam refúgio nas nações limítrofes. em 1964. para justificar e legitimar a perpetuação por meios não-democráticos de um modelo altamente explorador de desenvolvimento dependente”5. Argentina. p. realmente. “O imperialismo norte-americano desenvolve uma estratégia internacional para deter a revolução socialista na América Latina. porém. . p. ela suscita um temor pela punição dos responsáveis que estavam acostumados a agirem.53 ampliação da atuação do Terror de Estado em nome da Segurança Nacional. O Plano Condor estava dividido em três fases de execução: a primeira visava uma troca sistemática de informações sobre cidadãos requeridos pelos serviços secretos de cada Estado. a operação teve a adesão do Chile. em 1976. total e permanente. 9 Posteriormente se somariam a Bolívia. p. A segunda fase. a memória militar sobre a Operação Condor é incômoda. na mais pura impunidade e protegidos pela lei de anistia. EUA. A abrangência da DSN não se limitava aos territórios nacionais na aplicação do TDE. Aliás. operou com eficiência dentro e fora da América Latina. também houve o atentado contra o dirigente chileno Bernardo Leigthton e sua esposa em Roma (06/10/1975) e o assassinato do militar uruguaio. Exército de Libertação Nacional da Bolívia (ELN) e Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR) do Chile. na maioria das vezes. em termos de repressão. Conforme Alves (1984) a DSN era “um instrumento utilizado pelas classes dominantes. Uruguai e Paraguai9. 2005. Para desarticular os grupos de contestação que tentavam se reorganizar no exílio. que exige a extradição de 146 militares latino-americanos responsáveis por seqüestros de pessoas de cidadania italiana nas décadas de 1970 e 1980. Che Guevara. A doutrina buscava justificar o combate aos “inimigos internos” por todos os meios. associadas ao capital estrangeiro. visava deter. 1984. Michel.705 Revolucionária (JCR) que era uma organização internacionalista composta pelos grupos armados marxistas: Movimento de Libertação Nacional – Tupamaros (MLN-T) do Uruguai. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). a DSN tinha o intuito de preparar os oficiais latino-americanos para a guerra total e permanente contra o comunismo internacional onde ele estivesse. Segundo Padrós (2005): “O uso do seqüestro. para combater. Não é casual a imposição de regimes fascistas nos países em que o movimento das massas em ascensão ameaça a estabilidade do poder das oligarquias. abrangia territórios além do Cone Sul8. Maria Helena Moreira. torturar e transladar ilegalmente os presos políticos para suas nações de origem para depois executá-los e. A los Pueblos de América Latina. Entretanto. dentre outras. e disseminada nas escolas americanas no Panamá. apoiado pelos EUA. bem mais que qualquer peso na consciência. No Brasil os militares agora temem ser alvos de processos judiciais internacionais. da detenção clandestina e da tortura das vítimas nos procedimentos dos comandos repressivos reproduziu o que já ocorria no interior das ditaduras da região. O marxismo na América Latina. pelo menos três deles estiveram envolvidos 7 DECLARACIÓN constitutiva de la JCR. 2006. violando os direitos humanos. Essa doutrina foi o sustentáculo ideológico das ditaduras cívico-militares que se proliferaram no Cone Sul para conter o eminente avanço da classe trabalhadora organizada no processo de acirramento da luta de classes nos países da região. perseguidos em seus países de origem. restrita à América Latina. por vezes. Porto Alegre: UFRGS. os “inimigos internos” de cada país. Julho 2009 (52-57) . estes golpes que foram tomando o sul da América Latina. como na recente ordem internacional de captura feita pela justiça italiana. Primeiramente. perpetuados em nome da DSN. 1974. Desses. À estratégia internacional do imperialismo c o r re s p o n d e a e s t r a t é g i a c o n t i n e n t a l d o s revolucionários”7. Nº 7. ocultarem seus cadáveres. A terceira fase seguia a mesma lógica da segunda. Entretanto.1. pois. protagonista e não mero coadjuvante como querem nos passar hoje os militares aposentados. O Brasil aderiu efetivamente no ano seguinte.369. o assassinato e a desaparição forçada dos exilados políticos adquiriram uma proporção muito maior que a sofrida nos países de origem (com exceção da Argentina6)”. e. o Peru e o Equador. n. Entretanto. Terror de Estado e segurança Nacional.

Lilián era professora do primário no Uruguai e líder sindical do magistério. em que. “Camilo e Francesca. Tal síntese só pode ser explicada naquele contexto da luta de classes. enquanto as crianças ficaram aos cuidados da escrivã policial. já que o sindicalismo estava totalmente enquadrado e a luta armada desmantelada. uma síntese revolucionária entre o anarquismo e marxismo. all). Assunção: Expolibro/Servilibro. A onda de repressão que se instaurou contra seus membros em Buenos Aires foi tão violenta que seus militantes experimentaram o que tinha de mais cruel e sofisticado em termos de TDE cooperado entre Argentina e Uruguai. Os seqüestrados foram levados ao DOPS onde. Desde o escândalo do assassinato de Vladimir Herzog. especialmente seu Secretário-Geral. Ruggia (1974) e Norberto Armando Habegger – (08/ 1978). como os chamados “vôos da morte” e o seqüestro de crianças pequenas ou nascidas na prisão. braço armado da Federação Anarquista Uruguaia (FAU). atuando na propaganda clandestina contra a ditadura uruguaia e no auxílio aos perseguidos políticos em busca de refúgio. Ex-delegado Marco Aurélio Silva Reis (ex-diretor do DOPS) e Coronel Àtila Rohrsetzer (ex-diretor da Divisão Central de Informações-DCI) 11 Enrique N. Além dos brasileiros desaparecidos ou mortos no exterior. por exilados uruguaios oriundos de grupos libertários como a Organização Popular Revolucionária 33 Orientais (OPR33). Ver: MARIANO. a única estratégia era a militância pela denúncia das violações dos direitos humanos a partir do exílio. O dirigente sindical Gerardo Gatti12 propôs.p. que culminou com o seqüestro dos uruguaios em Porto Alegre. como depois do caso LiliánUniversindo. Lilián Celiberti e Universindo Rodriguez. porém. Universindo era um estudante de medicina no Uruguai. 12 Desaparecido em Buenos Aires em 1976 na Operação Invasão que era um desmembramento da O. um comando binacional seqüestrou Lilián na rodoviária de Porto Alegre e depois. En los Sótanos de los Generales. Hugo Cores. Dissertação de Mestrado. A própria Celiberti. Porto Alegre. 2006. talvez. a Operação visava resgatar parte de U$10 milhões provenientes do seqüestro de um industrial. . seis guerrilheiros montoneros11 argentinos foram seqüestrados e desaparecidos em território brasileiro. teve de sair de seu país exilando-se na Suécia até retornar da Europa para o sul do Brasil. praticamente. que tinha o hábito de fazer seus contatos a pé em longas caminhadas com seus sapatos gastos. A leitura que os uruguaios do PVP fizeram da conjuntura brasileira naquela época não estava equivocada. os generais Geisel e Golbery desejavam livrar-se do estigma de terror dos anos anteriores13. Mônica Susana Pinus de Binstock. O partido foi duramente reprimido e quase aniquilado após o golpe civil-militar na Argentina. Terrorismo de estado no seqüestro-desaparecimento de seis guerrilheiros argentinos . 2002. que esperaram ir ao futebol com Yano (Universindo) enquanto ela. 10 João Osvaldo Leiva Jobs (ex-secretário de segurança do RS). O nosso país participou efetivamente da Operação Condor e o estado do Rio Grande do Sul teve um importante papel geopolítico para a rapinagem da repressão transnacional. já que a correlação de forças havia mudado em favor da luta contra a ditadura no final da década de 1970. Lilián e Universindo estavam elaborando um dossiê denunciando as violações dos direitos humanos em seu país além de manterem contatos com setores da imprensa independente e líderes sindicais. Nilson Cezar. no auge do TDE no Uruguai. Cores estava escondido em São Paulo. quando estava indo para um jogo do Internacional no estádio Beira Rio. era o nome codificado de uma operação da Companhia de Contra-Informações do Exército uruguaio sob comando do coronel Calixto de Armas que tinha por objetivo prender os membros do Partido pela Vitória do Povo (PVP). na Delegacia. O fim do “milagre econômico”. que também detém cidadania italiana é uma das principais testemunhas do processo. ligado ao movimento estudantil que. na fundação do PVP. Los documentos ocultos del Operativo Condor. acelerado pela crise do petróleo (1973) e a estagnação econômica geraram descontentamentos sociais que forçaram o ditador Ernesto Geisel anunciar a “distensão” política. PPGHistória/PUCRS. Francesca que na época do seqüestro tinha apenas três anos. ao exemplo de Celiberti. Jorge Oscar Adur e Lorenzo Ismael Viñas: (1980). A situação política no Brasil não era mais a mesma. Montoneros no Brasil. recebe as descargas elétricas e a PAZ.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre diretamente no seqüestro dos uruguaios.Condor. em 1975. porém mais seletiva e clandestina como na Operação Sapatos Velhos. em março de 1976. Mas a guerra suja continuava vigente. Na capital gaúcha. nua e com arame nos ouvidos e nas mãos. ela teve sua segunda filha.54 . dentre esses. O PVP era um partido socialista independente fundado em Buenos Aires. confirmando assim a participação do Brasil no Mercosul do Terror. Horácio Domingo Campiglia. os adultos foram torturados. Além de desarticular o partido. em Porto Alegre10. Universindo com os filhos dela. dentre os quais podemos destacar a suspeita morte do ex-presidente João Goulart. No dia 12 de novembro de 1978. A relativa liberdade de imprensa favoreceu uma rede de contatos dos uruguaios que depois seria fundamental na denúncia do seqüestro. A cidade de Porto Alegre era o exílio mais próximo do Uruguai e de lá era distribuído o periódico clandestino Compañero do PVP. tanto antes.214 13 Operação Sapatos Velhos A chamada Operación Zapatos Viejos. Em Milão. sendo dois anos depois deportada para a Itália com o marido e seu filho Camilo que em 1978 tinha sete anos. Mesmo sofrendo todas estas atrocidades o PVP continuou sua militância no exílio com quadros atuando na Europa e no Brasil. Ex-integrante da organização de bases Resistência Operária Estudantil (ROE) foi presa em 1972. O caso mais emblemático foi. Alfredo Boccia (et. o seqüestro dos uruguaios ocorrido em novembro de 1978.

Depois. p. liderado pelo major José “Nino” Gavazo que além de notório torturador. Para tanto. como era conhecido. Esse apelo que reflete a dura realidade das ditaduras terroristas comoveu a sociedade no RS e a comunidade internacional voltou suas atenções para o seqüestro dos uruguaios. filhos de Sara Mendez e Emilia Zafarone. as descargas e a água. o papel da imprensa e da Ordem dos Advogados do Brasil (Seção RS) foi fundamental na denúncia e. Segundo Cunha: “Em 17 de novembro de 1978. Por um momento Lílian temeu pelo pior. fotógrafo da revista Placar (que trabalhava na mesma sucursal). Nº3. e enviaram-lhe um telegrama para que ligasse imediatamente para Paris. No entanto. Porto Alegre: L&PM. inclusive. Minha cela. Contudo.História & Luta de Classes. seus filhos e Universindo haviam sido detidos na fronteira ao tentar entrar no Uruguai com armamentos e materiais sediciosos. ficaram de campana no apartamento da rua Botafogo até que chegassem novos contatos.55 água. enquanto Lílian foi levada a POA para preparar o que. Vários repórteres engajaram-se na investigação em busca do esclarecimento e da verdade. Então. o CELIBERTI. mas sob custódia e com seus filhos reféns teve que ligar. às 17 horas. Neste sentido. em vez de uruguaios. Na fronteira (Chuy). 14 principal “requerido” da Operação Sapatos Velhos. No Uruguai. Porto Alegre: L&PM. Os seqüestros de crianças foram efetuados majoritariamente pelos grupos de tarefas argentinos. O momento mais dramático do seqüestro que reflete bem o grau de TDE articulado no Plano Condor foi quando dona Lilia Celiberti. Camilo e Francesca . ajudou a torturar Lílian e Universindo no apartamento e no DOPS. O “Fleury dos Pampas”15. no jargão militar. Nº 7. mãe de Lilián. que eram companheiras dela no PVP. No dia 17 de novembro. as crianças e os demais presos ficaram no Forte São Miguel a menos de 5 km da fronteira. naquela que ficou conhecida como a “farsa de Bagé”. notório torturador. In: Arquivo Pessoal de Omar Ferri A.F (caixa I). veio até o Brasil e clamou publicamente: “Entreguem-me. 23/11/1978. um casal e duas crianças uruguaias permaneciam detidodesaparecidos. GARRIDO. os jornalistas Luís Cláudio Cunha e João B. o que interessou ao capitão Eduardo Ferro que era o comandante operacional do lado uruguaio. pensando no filho de Sara. que me acompanhasse e fomos até lá.”16 A operação teve que ser abortada. Universindo. Eu perguntei o que queriam dizer com 'desaparecido' e me respondeu 'detenido'. no Brasil e na Europa. Depois em comunicado oficial emitido pelo Escritório de Imprensa das Forças Conjuntas de nº1401. Julho 2009 (52-57) . quando Universindo mal pode se reconhecer no espelho desfigurado de tanto apanhar do capitão Glauco Yannone. tentavam de todos os meios. nas investigações. sob tortura. após permanecerem por treze dias na situação de detidasdesaparecidas. GARRIDO. os membros do PVP. Toda esta repercussão fez com que as Forças Conjuntas uruguaias entregassem os filhos de Celiberti ao seu avô no dia 25 de novembro. em Camilo e Francesca.” 14 A maior preocupação de Lilián era com seus filhos que. desconfiaram da falta do contato de Celiberti. A conjuntura de “distensão” favorecia e o fim da censura nos jornais contribuía para o 16 CELIBERTI. que. Fleury. . foram levados para o Uruguai. eram reféns e ela temia que eles tivessem o mesmo destino de Simón Riquelo e Mariana Zafarone. que tinham um organizado sistema de comunicações. Scalco. era amigo de Seelig. A este comunicado agregava-se a versão da polícia brasileira que dizia que os uruguaios haviam sido presos ao tentar ingressar de ônibus no Uruguai portando documentação falsa pela localidade de Aceguá-Melo. Lucy. era um exímio falsificador de dinheiro. Acervo de luta contra a ditadura.12 15 Em alusão ao famigerado delegado da OBAN. era conhecido como “ratoeira”. pedi a Scalco. 1989. Memorial do Rio Grande do Sul. Marco Aurélio da Silva Reis. que haviam sido contatados por um telefonema anônimo que mais tarde se saberia ser do próprio Hugo Cores. naquele momento. A chamada foi feita da sala do diretor do DOPS. Lilián disse que aguardava um contato em seu apartamento. que foram seqüestrados na Argentina através da Operação Condor. O fato é que tanto as Forças Conjuntas uruguaias. Lílian. mas também pelo Organismo de Coordenação de Operações Anti-subversivas (OCOA) do Uruguai. inclusive as crianças que tiveram que deitar no chão. Minha cela. Do lado brasileiro o comandante era o delegado Pedro Seelig.P. proteger os envolvidos e obstruir as investigações. ou seja. as descargas e a água. sobretudo. que tinha no seu currículo o assassinato do seu filho de criação.p. chegaram ao apartamento de Lílian. quanto a Polícia Federal e Estadual brasileira. pois no dia 21 a notícia do seqüestro era capa em todos os jornais. A designação de uma palavra cifrada que significava “imprensa” foi o bastante para que o PVP ativasse seus mecanismos de segurança.972. me dizendo que um casal e duas crianças tinham desaparecido do seu apartamento na rua Botafogo. Sérgio P. 1989. Depois de serem brutalmente torturados. eu era chefe da sucursal da revista Veja em Porto Alegre e recebi um telefonema de alguém falando em espanhol. pelo menos os meus netos”17. mas para seu companheiro fosse estranha e desconexa. os detidos-desaparecidos foram novamente torturados com uma simulação de fuzilamento. na filha de Emilia. Meu quarto. ela anotou uma mensagem que para seus seqüestradores parecesse normal. foi noticiado que Lilián. Lílian. O advogado Omar Ferri foi contatado por Jan Rocha do Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os países do Cone Sul (CLAMOR) e assumiu o caso em defesa dos uruguaios travando uma verdadeira batalha judicial contra a polícia federal e contra o DOPS que não reconhecia sua participação no seqüestro. além de negar a própria ocorrência deste crime. Meu quarto.26 17 Jornal da Tarde.O. capa. Lucy.

delegado Marco Aurélio Silva Reis e o governador do estado.127 22 Termo de declarações de Hugo Walter Garcia Rivas prestado em 03/ 05/1980 ao MJDH.Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre “rompimento da cultura do medo. a bancada da ARENA liderada pelo deputado Cícero Vianna insistia na tese de que não havia ocorrido nenhum seqüestro e que tudo não passava de “invenção do comunista Omar Ferri”. Até uma CPI foi instaurada em 1979 para apurar o “seqüestro dos uruguaios”. O exfotógrafo revelou que antes mesmo de sair do Uruguai já sabia que teriam a ajuda do DOPS gaúcho citando nominalmente o delegado Seelig e o inspetor “Didi Pedalada” que foi reconhecido por todos pelo seu passado futebolístico. Maria Helena Moreira. entre outros. confirmou que a operação havia sido comandada pelo coronel Calixto de Armas que tinha combinado com um oficial brasileiro de mesma hierarquia que lhe dera sinal verde para a operação. conivência de seu superior. Omar.p. presidente do MJDH. A policial e ex-freira. 1984. O deputado da situação chegou a enviar a Montevidéu. para Ferri para alertar sobre o risco que corriam Camilo e Francesca já que Lilián tinha conseguido falar com ela sobre as crianças seqüestradas na Argentina. fora envolvida num lamentável crime em que o maior culpado. Seqüestro no Cone Sul: o caso Lílian –Universindo. (documento fornecido pelo conselheiro do MJDH. conforme seus membros lhe disseram. os condenados eram inexperientes policiais do DOPS que certamente não efetuariam o seqüestro sem a autorização ou. estava submetida ao Estado de Segurança Nacional. In. segundo laudo médico. O menino reconheceu por fotografia o delegado Seelig e o inspetor “Didi Pedalada”. além de descrever o local que esteve preso como “um prédio grande que ficava na frente de um riozinho com duas ruas. Rivas foi um dos primeiros. inclusive. a desertarem das Forças Conjuntas uruguaias por não concordarem com os seus métodos terroristas. de tantos outros. havia telefonado duas vezes. o diretor do DOPS. Este impasse só foi resolvido quando Krischke conseguiu. Camilo de apenas sete anos. a participação do major José Bassani que veio ao Brasil na condição de chefe da Companhia de Contra Informação do Exército uruguaio. esse era o limite da punição da justiça que. Omar. dos filhos de Celiberti sendo inclusive reconhecida por Camilo. exímios torturadores. a propor que não se utilizasse o termo “seqüestro” no inquérito. finalmente. uma de cada lado”20. o asilo político na Noruega para o ex-soldado. O caso Lílian-Universindo. p. para acertar o esquema. por abuso de poder. em se tratando de uma funcionária do quinto escalão da hierarquia policial. FERRI. como executores do operativo. o major Carlos Rossel que veio ao RS no inicio de novembro acertar os últimos detalhes e.217 19 idem. à revelia da comissão. juntamente com o capitão Eduardo Ramos. Os dois inspetores foram condenados a seis meses de detenção e tiveram suas funções policiais cassadas em Porto Alegre por dois anos. Os demais réus foram absolvidos e a justiça não aceitou reabrir o processo. mesmo com a política de “distensão”. No terceiro andar ficava o DOPS onde Camilo esteve detido com sua irmã de três anos. Amaral de Souza.21” Faustina Elenira Severino havia tomado conta 18 ALVES. . e também. O mais curioso foi que em seu enterro compareceram os mais altos nomes da hierarquia militar como o Comandante do III Exército. p. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). 1981. o asilo para Rivas foi negado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) já que. Essa visita teve a inequívoca intenção de intimidar a mãe de Lilián já que o emissário brasileiro foi acompanhado de um oficial das Forças Conjuntas uruguaias.54. sua mulher e sua filha. Ferri. chegando. 212 20 Camilo Casariego Celiberti. general Antônio Bandeira. p. Seqüestro no Cone Sul. Jair Krishke). um “idôneo conhecido” seu. 1981. Segundo Jair Krischke. sem se identificar. os capitães Eduardo Ferro e Glauco Yannone. Porto Alegre: Mercado Aberto. Foi uma cerimônia totalmente inédita. uma delas é cortada pelo arroio Dilúvio. Já “a legitimidade e a independência da OAB permitiram-lhe questionar as pretensões de legitimação do Estado de Segurança Nacional. Entretanto. o chefe de Estado Maior do III Exército. e João Augusto da Rosa. em troca de asilo político. Na justiça estadual as investigações continuavam.56 . vulgo “Didi Pedalada”. Em abril de 1981 o juiz Moacir Danilo Rodrigues leu a sentença do processo que condenava os policiais Orandir P. general Luís Henrique Domingues. Faustina Elenira Severino que falecera cinco dias após depor na CPI. foi fundamental para a posterior condenação dos envolvidos no lado brasileiro e para o esclarecimento do seqüestro. mas autoridades policiais não deram credibilidade ao testemunho de uma criança justamente porque ela estava dizendo a verdade. Petrópolis: Vozes. o “Irno”. chefe da seção de operações. O fato mais obscuro do caso do seqüestro dos uruguaios foi a morte repentina da escrivã do DOPS. Do lado uruguaio. O desfecho do seqüestro foi que Lilián e Universindo permaneceram cinco anos presos 21 FERRI. sem qualquer culpa. Enquanto os parlamentares do MDB queriam esclarecer os fatos. no mínimo. onde vivem até hoje. Lucas. de um “acidente cardiovascular”.”19 A OAB chegou a enviar uma comitiva a Montevidéu acompanhada de jornalistas. pela eliminação do silêncio”18. para persuadir dona Lilia a dispensar os serviços do Dr. depois daquele dia ficariam cinco anos sem revê-la.Porto Alegre: Mercado Aberto. “O aparato oficial tinha apenas um significado: o sistema emprestava sua presença para o enterro de uma funcionária que. De seu lado citou ainda. via Cruz Vermelha. Em realidade. o ACNUR havia sido criado para proteger as vítimas e não os torturadores. para coletar a versão de Camilo. substituindo por “remoção coerciva”. havia descrito aos advogados e jornalistas o prédio da Secretaria de Segurança Pública do estado que fica na esquina de duas largas e movimentadas avenidas de Porto Alegre. O depoimento do ex-soldado Hugo Walter Garcia Rivas prestado ao Movimento de Justiça e Direitos Humanos (MJDH22) em 1980. indubitavelmente era o próprio sistema. já que o agente era ex-jogador de futebol do Inter. e sua mãe que.

Enrique Serra. pagando pelo crime de lutar pela liberdade e justiça social. nesses “tempos cinzentos”28 de hegemonia neoliberal. sobretudo. 15 Anos do Seqüestro dos Uruguaios. Neste sentido. descobrese que o general Octávio Aguiar de Medeiros que substituiu o general João Batista Figueiredo como chefe do Serviço Nacional de Informação (SNI) foi pessoalmente. investigados.5 seqüestro em Porto Alegre ocorreu em 1978. o general aposentado Newton Cruz que durante a ditadura esteve ligado ao SNI e foi Comandante do Exército do Planalto concedeu uma declaração contraditória quando questionado a respeito do seqüestro dos uruguaios em 1978. Em 1993. o 23 “A farsa desvendada” In. Lembro de Geisel tendo uma crise de raiva quando sabia das barbaridades. 24 “Uma farsa para resguardar o regime”. 27 Em depoimento no filme Cone Sul (1984) de Enio Staub e João Guilherme dos Reis. com os coronéis Luis Mackesn Rodrigues (superintendente da PF no RS). pois.57 nos terríveis cárceres de Punta Rieles e Libertad. Além disso. na chamada “farsa de Bagé”24. Lá no quartel general do III Exército ele se reuniu com o chefe do EM. esse não foi muito bem compreendido pelos participantes brasileiros da Operação Sapatos Velhos. pois almejava ser o sucessor de Geisel em uma das maiores crises internas do Estado de Segurança Nacional. “O período de 'distensão' permaneceu nos limites da Doutrina de Segurança Nacional. Portanto.49 . especialmente do seqüestro dos uruguaios em Porto Alegre. porque agiram igualzinho àqueles a quem perseguiam. América Latina: Ditaduras. além de ser amigo particular de Seelig.p. Tanto ele como Celiberti se desvincularam do PVP que hoje. A demissão do comandante do II Exército foi em 1976. Carlos Alberto Ponzi (chefe da agência do SNI no RS) e a inesperada presença do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra (chefe da 16º Grupamento de Artilharia de Campanha de São Leopoldo). Tanto para Omar Ferri como para Jair Krischke. Celiberti chegou a ficar um ano e meio numa solitária. Considerações Finais A Operação Condor unificou o Terrorismo de Estado de maneira coordenada superando. Nº4. Em 1977 foi a vez do general da “linha-dura”. 1984 p. sem que nunca tivessem sido molestados por qualquer tipo de punição. 27/07/2008. Silvio Frota perder seu cargo. Universindo Díaz trabalha na biblioteca nacional de Montevidéu. ousaram derrubar a ditadura uruguaia rumo a implementação do socialismo. As coisas só chegavam ao governo central quando aconteciam grandes rolos. em entrevista ao jornal Zero Hora. se estas demissões foram um “recado” à chamada “linhadura”. por mais que aquela conjuntura de “distensão” permitisse algumas contestações a última palavra era do comando militar. O fim dos Segredos 22/11/1993. Confidências de um General. Julho 2009 (52-57) . sobre. Segundo o ex-preso político: “Os crimes cometidos pela ditadura nestes anos devem ser denunciados. ao RS para tratar em reunião secreta no Estado-Maior (EM) do III Exército. apurada a responsabilidade e posto tudo a conhecimento de toda a população. a classe trabalhadora nos países do Cone Sul latino-americano. In Revista História & Luta de Classes: América Latina Contemporânea. Ano 3. ou ainda. já que organizações de resistência e combate às ditaduras de Segurança Nacional estavam se (re) articulando no exílio. Lílian Celiberti vive no Uruguai trabalhando na Organização Internacional do Trabalho (OIT). Contudo. qual a estratégia do governo federal em relação ao caso do seqüestro dos uruguaios23. provando que a luta dos povos oprimidos não tem pátria. já que é no mínimo surreal imaginar o Wladmir Herzog eletrocutando seus opositores. gozando sua aposentadoria em uma chácara na grande Porto Alegre. ou o Manoel Fiel Filho ocultando cadáveres de militares. julho.História & Luta de Classes.” Jornal Zero Hora. 28 PADRÓS. já que. sobretudo na América Latina. o primeiro no seu próspero negócio hoteleiro em Punta del Este. a visita dos generais Samuel Alves Correia (chefe do II Exército) e Paulo Campos Paiva (chefe do Estado Maior) ao governador do estado Sinval Guazzeli. mudou os rumos do caso Lilián-Universindo. fomentar a memória sobre Lilián e Universindo significa resgatar a história desses aguerridos militantes do PVP que. sem esmorecer na luta de classes. Nº 7. o casal Lilián e Universindo seqüestrando filhos de generais.223 26 “O arquivo de Newton Cruz. inclusive.Caderno Especial Zero Hora. general Paulo de Campos Paiva. Ele retomou o controle da situação quando demitiu o comandante do II Exército. é inaceitável a declaração de Cruz quando diz que os opositores do regime agiam “igualzinho” ao Estado terrorista. é. Hoje. p. faz parte do governo da Frente Ampla. Entretanto. Petrópolis: Vozes. Cremos que não haverá no Uruguai. trinta anos após o seqüestro. Ustra era torturador nato que havia sido chefe do Destacamento de Operações de Informações-Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI) na fase mais dura da guerra suja. lembrar da Operação Condor no Brasil. Enquanto isto os torturadores Eduardo Ferro e Pedro Seelig vivem tranqüilamente. Maria Helena Moreira. por um lado. configurando mais um ciclo de liberalização do que uma efetiva transição para a democracia. constatar que a ditadura de Segurança Nacional brasileira devidamente coordenada e cooperada com a uruguaia e os demais Estados terroristas do operativo contribuiu para consolidação da hegemonia do capital internacional em conluio com a classe dominante. Estado e Oposição no Brasil (1964-1984). a consolidação de um regime democrático enquanto não for desmontado todo o aparato jurídico-repressivo criado em todos esses anos”27. pelo menos duas vezes. históricas rivalidades nacionais no intuito de assegurar e conservar a dominação e a exploração de classe. segurança Nacional e Terror de Estado. e o segundo. 15 anos após o seqüestro. A demissão mostrou à linha dura quem mandava”26. “Houve muitos excessos. depois da prisão abandonou a medicina para se formar em história. idem 25 ALVES. o coronel Brilhante Ustra estava envolvido na tentativa de despistar a opinião pública. A luta deles continua cada vez mais vigente. 2007.”25 Recentemente. Além disto. sobretudo. Ednardo D'Avila Melo.

A estratégia militar de fazer uma transição para um governo civil de forma lenta. Tal estratégia obteve efeito na reversão da balança comercial. além chamar a elaboração de uma nova Constituição Federal. FURTADO. p.In: ABREU. p. que na incapacidade de distinguir os focos geradores de pressões inflacionárias. p. Diniz6 chama a atenção para a posição de 8° lugar. ano em se implanta a Nova república. para tanto. Em 1985. Eli. forte endividamento externo. onde “após um déficit de 2.41. e concessão do voto aos analfabetos.45-54. possuindo bolsa de estudos da CAPES. cerca de 42% da população economicamente ativa. A ordem do progresso: cem anos de política econômica republicana 1889-1989. a possibilidade da Nova República trazia à população esperanças de um futuro melhor. op cit. “à visibilidade de seus aspectos econômicos.58 . como a liberdade de expressão e organização. inclusive os de esquerda. Para Furtado. Assim. procurou-se ao longo do texto caracterizar a realidade econômica pela qual passava o Brasil e que motivaram a criação de tal Plano.323. elevação das taxas internas de juros e a contração da liquidez real. no inicio dos anos de 1980. possuía uma renda mensal próxima a um salário mínimo e próximo dos 60% possuíam uma renda de até dois salários7.1986 . o Brasil sentia-se da escassez de financiamento externo. diante de tal situação. todavia. ocupada pelo Brasil em 1980. disto afloram apelo País grupos de representatividades sociais motivados pelos problemas socioeconômicos que adquiriam naquele momento proporções alarmantes.A Repressão Fordista no ABC Paulista Michel Willian Zimermann de Almeida* presente artigo procura chamar a atenção para a classe trabalhadora brasileira no processo de consolidação da Nova República. 2 ed. 6 DINIZ. Para tanto. sem reduzir a produtividade e sem gerar tensões sociais.327. Celso Furtado4 chama a atenção para o fato de que o problema do combate a inflação brasileira estava na irracionalidade do sistema de decisões. fez com que se afrouxassem os mecanismos de controles sobre a população. O comercial registrou em 1981 um superávit de 1. 1990.69. entre as maiores economias industriais do mundo. representados pela ameaça de hiperinflação. anunciava medidas que vinham ao encontro desses anseios. Disto. o que permitiria manter os níveis desejados das exportações. o desafio situava-se em vencer a inflação e retomar o crescimento. Ibidem. que analisados de forma isolada.A Repressão Fordista no ABC Paulista 1986 . em especial aos movimentos populares. 4 3 . A riqueza produzida pelo Brasil contrastava com a pobreza de sua população. Marcelo de Paiva Abreu. a estratégia mostrou-se falha para o combate a inflação. recessão e desemprego. Eduardo. A nova dependência. governo. Rio de Janeiro: 1997. O novo Presidente.45. p. a Nova República nasce sob grandes expectativas. pretendia-se ampliar as exportações através do controle e reajustes. destacando as relações entre patrões e trabalhares no contexto do Plano Cruzado. também é necessário que os setores com poder de decisão do governo cheguem a um consenso quanto ao “âmbito de ação do governo e às prioridades a que deve obedecer a ação do Estado”5. se apelava para o arrocho salarial. Dionísio Dias.00 da época. Ajuste externo e desequilíbrio interno: 1980-1984. situadas nos incentivos à iniciativa privada e nos sobregastos do setor público. 2 CARNEIRO. que pudessem reparar as desigualdades na distribuição da riqueza do País. ver. a eliminação dos focos de pressões inflacionárias. o que não condizia com o salário mínimo de US$ 40. reforma do Estado e governabilidade: Brasil. a solução encontrada foi à desvalorização do Cruzeiro. políticas e econômicas. pois. 1 DINIZ. Conforme Carneiro2. p. Assim. p. Crise. Assim para o setor econômico. não permitem uma visão ampla de causas e conseqüências. p. 7 Para uma melhor compreensão a quanto das disparidades sociais do Brasil nos anos 1980. adotou-se a estratégia de contenção salarial. Tancredo Neves. somou-se o reconhecimento da gravidade de seus componentes sociais e políticos”1. gradual e segura. nos permite a percepção da diversidade de interesses que estão em jogo em um plano de estabilização monetária e combate à inflação.8 bilhões em 1980. Assim. DINIZ (1997). não basta apenas reforma fiscal. disparando as desigualdades sociais e a concentração da renda. 5 Ibidem. Determinou também a restauração das atribuições do Legislativo e convocou as eleições gerais para 1988.68-69. controle dos gastos governamentais. Celso. Rio de Janeiro: 1982. legalização dos partidos políticos. 1985 – 95. Porto Alegre: Campus. MODIANO. passariam por mudanças nos preços relativos. o artigo chama a atenção para três fatores. a balança *Mestrando em História pela Pontífice Universidade Católica do Rio Grande do Sul. o que dificultava cobrir o desequilíbrio da balança de pagamentos.2 bilhão”3. à população aguardava por reformas administrativas. porem quando analisados de forma conjunta. trabalhadores e patronato.

Desta forma. definidos em tabelas de preços oficiais. as taxas mensais de inflação da nova moeda não manterão qualquer relação com as taxas mensais de inflação do combalido cruzeiro. calculadas as médias dos últimos seis meses. medida pelo IPC. e congelamento da taxa de câmbio do dólar americano. A GM afirmou o mesmo. g)A fiscalização dos preços será exercida pela população e a punição dos infratores ficará a cargo da SUNAB e polícia federal8. Diante do surto de consumo. o país mergulha novamente em um caos econômico. São Paulo e Rio Grande do Sul. Eduardo. a substituição da ORTN pela OTN. In: SCHNEIDER. segundo PETRY. Elizabeth Silva chama a atenção para a denúncia de que a Ford possuía de seis a sete mil veículos estocados para o mercado nacional. José Odelso. o empresariado acusa os trabalhadores e estes amargam o arrocho salarial e a falta de produtos básicos. 11 10 As esperanças de vitória sobre a inflação depositadas no plano eram muitas.59 Entretanto. e a fixação do salário mínimo em Cz$ 804. acrescentando que a produção ainda não havia voltado ao normal devido as recentes paralisações. setores do governo passam a acusar camadas do empresariado de sabotarem o plano. Da inflação ao cruzado: A política econômica no primeiro ano da Nova República. A Volkswagen alegou que o alto nível de seus estoques era em parte devido a problemas relacionados ao controle de qualidade e em parte por serem Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços. No campo da indústria de bens duráveis. p. aplicável às cadernetas de poupança. as grandes montadoras de automóveis adotam como estratégia contra o tabelamento dos preços. com a extinção do cruzeiro (Cr$) e a criação do cruzado (Cz$) correspondente a mil cruzeiro. conforme o IPC. com valor fixado até março de 1987. Porto Alegre: Sulina. diante do tabelamento. op cit. enquanto o normal era cerca de 750 unidades. tanto a FIESP quanto a FIRJAN. Rio de Janeiro: 1986. p. atacadistas e comerciantes começam a forçar o aumento dos preços. e. Almiro. f) Criação do Índice de Preços ao Consumidor – IPC. com o falecimento do Presidente Tancredo Neves. passados os primeiros meses de euforia com o término da hiperinflação. Mercedes Benz e Saab Scania as denúncias foram confirmadas: “A Ford alegou estar estocando os carros devido à falta de componentes. 1988. DINIZ.112-113 . No campo econômico. assume a Presidência gerando um clima de desconfiança a respeito do novo Presidente e suas posições. vigentes em 28/02/86 (congelado no pico). Julho 2009 (58-63) . correção monetária trimestral. a inflação na data-base. Ford. Entretanto. pelo IBGE. Diniz11 chama a atenção à rejeição das Associações Comerciais do Rio de Janeiro. com reajustes automático toda vez que a taxa de inflação acumulada. com os salários congelados e diante da falta de produtos básicos no varejo. et. a não entrega de 60% dos automóveis à rede de concessionárias até que fosse autorizado o reajuste dos preços. por entenderam que prejudicaria aos interesses dos trabalhadores. Tampouco deve-se temer a continuidade da inflação na nova moeda (mesmo num patamar muito baixo) pois a realimentação inflacionária em cruzados é mínima9. Nº 7. Realidade econômica II: Problemas. c)Congelamento das prestações do BNH. b)Congelamento de todos os preços à vista. extinção da correção monetária. respectivamente. d)Reforma Monetária. entre fevereiro de 1985 e 1986 a inflação acumulada ultrapassa os 255% a. mais um abono de 8%. reajustados em 1°/03/86 pela média dos últimos 6 meses.a. e passassem a exercerem pressões sob o Presidente para o seu fim.55. FGTS e PIS/PASEP. passando a ser a medida oficial da inflação. porem a CUT e a CONCLAT12. dessa forma os consumidores tinham que esperar até 120 dias para receberem os seus automóveis. ou porque foram escondidos por grupos econômicos que passavam a cobrar ágio. confirme Modiano: Apagada a memória do processo inflacionário com a desindexação. e)Criação da escala móvel de salários. José Sarney. Disto. tendo seus comércios fechados temporariamente pela SUNAB10. al Realidade Brasileira. mercadorias desaparecem das prateleiras. das mensalidades escolares. 8 PETRY. 9 MODIANO. quanto ao Plano Cruzado. configurando uma hiperinflação de mais de 15% ao mês. O certo. Pois. em especial aos aumentos dos impostos. e era oriundo das alas conservadoras que haviam dado sustentabilidade ao Regime Militar. Em média não deverão superar a marca de 1% ao mês. 12 Central Única dos Trabalhadores e Coordenação Nacional das Classes Trabalhadoras. descontadas as antecipações. manifestaram o seu apoio ao plano.00. logo se colocaram contrários ao Cruzado. que. Após o envio de auditores para a verificação na Volkswagen.114-115. Entretanto. que possuía pouco carisma popular. devido a insuficiência de capacidade produtiva da indústria. General Motors.História & Luta de Classes. os trabalhadores tinham de pagar mais caro por produtos oriundos do mercado paralelo que se criara. até que é deflagrada uma série de greves. consistia nas principais medidas: a) Congelamento de todos os salários. calculado mensalmente. atingir 20%. comerciantes que tentavam aumentar os seus preços passam a ser denunciados pelos “fiscais do Sarney”. o que leva o governo federal a decretar em 28 de fevereiro de 1986 o plano cruzado. p. quanto aos atos do governo. dos aluguéis. é que não demorou para que setores do empresariado reclamassem dos congelamentos.

c) Suspender por um ou dois dias (disciplinarmente) aqueles que entrarem na Fábrica. pois. as empresas passaram a realizar demissões em massa. Um aumento de preços foi finalmente autorizado. os trabalhadores simplesmente pararam ao lado de suas máquinas e permaneceram em silêncio. b) Tentar de todas as formas.1986 . Aphud: SILVA. B. ao mesmo tempo em que a produção de automóveis recuperava o seu crescimento entre 1982 e 1986. publica em sua manchete de capa as intenções do governo federal. p. Apesar de a Ford ter começado suas atividades no Brasil em 1919. isso se deve principalmente a intervenção do Estado nas SILVA. foram perdidas apenas oito dias e nove horas com disputas judiciais”16. Assim.]. desta forma passaram a reduzir o ritmo de produção criando listas de esperas para a aquisição de carros novos. na primeira greve em conjunto nas empresas automobilísticas e em indústrias de autopeças. já que o ato ainda era proibido por lei.. p. por sua vez a montadora conseguiu baixar os preços de seus fornecedores. Os técnicos da SEAP reconhecem. p. Por conta disto. 1991.. com o agravamento da crise econômica.] pedir aos trabalhadores que executem uma certa tarefa. 1957 – 1977. No dia 01 de julho de 1986 o jornal Zero Hora de Porto Alegre. sob condição de trabalharem e não cumprirem o prometido. p..] poderia ser autorizada a importação pela iniciativa privada diretamente dos paises da América Latina. 14 13 As reivindicações por salários e melhores condições de trabalho se seguiam até 1982. sendo que “nos vinte anos seguintes. mas as empresas foram obrigadas a vender os automóveis estocados pelo preço anterior ao aumento”13. Refazendo a fábrica fordista. ao se referirem à indústria automobilística: “mexe com uma área muito delicada”. p. op cit.. São Paulo: Hucitec. o aumento não foi exatamente o que as montadoras esperavam. No entanto.. em nenhuma hipótese. o Ministério do Trabalho interviu forçando a Mercedes Benz a cancelar as dispensas. 11/6/1986. 118. chama a atenção à frase dos técnicos da SEAP. o que fez com que os carros usados se tornassem mais caros do que os novos gerando assim desestabilidades na indústria de autopeças com os cancelamentos de pedidos por parte das montadoras.] [e] exercer uma pressão psicológica sobre o Sindicato do Empregados [.. (A negativa caracterizará um ato de insubordinação)19. por exemplo. Aproveitando-se desta realidade. E. o diretor de marketing da Ford afirmou que “[.280. em conseqüência ao desabastecimento o governo passa a estudar a possibilidade de importar produtos que julgue necessário. como a Argentina. 243. Revista Veja. A Mercedes Benz recusou-se a receber 150 caminhões carregados de autopeças e decidiu dispensar 4.] o mercado externo merece absoluta prioridade.60 . e com base na lei de segurança nacional as greves eram sufocadas com violências físicas e demissão por justa causa.. sendo que na Ford..500 funcionários por dez dias.. Assim. horas paradas e não estabelecer quaisquer acordos de indenização. podiam alegar que as demissões se davam por conta da recessão econômica em que o País se encontrava. No entanto. no entanto que a importação de automóveis depende de uma decisão política. a greve persistiu por um tempo maior18. 249. as empresas passaram a demitir prioritariamente os operários envolvidos no sindicalismo. 1991. dispensar um certo número de pessoas por justa causa. por maior que seja a procura interna [. pois “mexe com uma área muito delicada” adiantam [. 249-250. Governo estuda importação de carros. após [. apesar 17 18 Ibidem. 16 SILVA.. indicando as seguintes táticas: a) Não pagar.. o patronato chamou o sindicato dos trabalhadores a cada uma das fábricas para negociar em nome dos trabalhadores. 15 Jornal Zero Hora. 213. . pois não existindo no Brasil fundo de greve. essas medidas intimidavam e disciplinavam os trabalhadores. que é de suma importância por si só. enfraquecendo o poder de reação dos sindicatos. entraremos em nosso objeto de estudo propriamente dito.. esse será um excelente recurso para as empresas.. a FIESP passou a recomendar que seus membros adotassem estratégias contras as greves. p.. 1983. pneus e têxteis: [. Em última instância. Em fins da década de 70.]15 Além da noticia sobre a possibilidade de importação de produtos do exterior. os trabalhadores passam a desenvolver técnicas alternativas de greve. p. questões trabalhistas através da legislação do trabalho e as medidas repressivas adotadas pelos governos militares. Em entrevista.] não hesitaremos em retirar os automóveis necessários do mercado interno para vendê-los a preços melhores”14.] [para] envolver o poder público [. Somente após cinco dias de paralisação é que a Ford aceitou negociar com os trabalhadores. colocar os grevistas na via pública[.. Segundo SILVA17. as relações industriais começam a se transformar. 25.. 19 RAINHO. sem saber quem eram os lideres. 01/7/1986. apenas em 1957 se registrou a primeira disputa judicial.A Repressão Fordista no ABC Paulista esses automóveis destinados ao mercado externo. Desta forma tornava-se necessário um novo método de greves. A partir desta observação.

acima da inflação. 1987. que dirigia um discurso diretamente às classes populares..152 585.380 782. que passava agora as mãos dos civis. um trabalhador foi impedido por um dos membros da comissão. as dificuldades econômicas do país eram visíveis.141 815. Fingindo desconhecer este fato.834 672. combinando esperanças e expectativas com um sentimento de união nacional. 23 22 ANFAVEA. conforme o quadro abaixo: Produção de veículos na década de 1980 20 Ano 1980 1981 1982 1983 1984 Veículos 933. assim como a falta de produtos no mercado. SILVA. 284. defendendo ainda maiores aumentos salariais. 24 Ibidem. lideranças sindicais tão precipitadas quanto irracionais podem trazer de volta o panorama de alta desenfreada de preços. o congelamento dos preços e o chamamento da população para atuarem não mais como tele-espectadores. estagnação econômica e desemprego superado a largas custas22. mas agora como atores.371 679. e do empenho exercido pelas classes populares em atender ao chamado do Presidente da República para fiscalizarem o tabelamento dos preços. “Não são os sindicatos que são chamados a fiscalizar os preços. que são tratados por parte da mídia como atentados contra o plano econômico: Diante da importância em se manter a viabilidade do plano cruzado. A nova composição do governo federal.] o açodado e irresponsável surto de greves que começa a se espalhar no país [. a promessa do fim do intervencionismo federal no sindicalismo.História & Luta de Classes. “A gerência lembrou-os de que poderiam perder seus empregos se não concordassem com as exigências da empresa”24.53. se aproveitando da sua popularidade passa a atacar a CUT. Entretanto. as reivindicações trabalhistas passam a encontrar grandes dificuldades para atingir a opinião pública. porem a empresa encaminhou o processo de afastamento seguido de demissão por justa causa. Nº 7. O mesmo acontece com os movimentos reivindicatórios. ou melhor. trouxe grande prestigio ao Presidente José Sarney. houve a paralisação Jornal Folha de São Paulo.. a coleta direta das contribuições sindicais dos holerites dos trabalhadores e um decrécimo no pagamento de horas extras de duas vezes para uma e meia”23.589 748. provocando perdas para a empresa. porem não como a de 1981. p. Todavia. acusando-os de inimigos da nação. passaram por desapercebidos pela população. reconhecimento do direito de greve e aumentos reais do salário mínimo. (2007). p.386 Ano 1985 1986 1987 1988 1989 Veículos 759. no entanto poucos trabalhadores compareceram. superando suas entidades representativas. No entanto. que no dia 14/7/1986 organiza um protesto na tentativa de convencer aos demais colegas trabalhadores a não cederem as intimidações da empresa. 21 BRAVA. op cit. mostrando que nem mesmo funcionários que possuíssem estabilidade por exercerem cargos sindicais estavam livres das demissões.02. impossíveis de ser concedidos sem que se comprometa toda a estratégia antiinflacionária. A Ford passou também a impedir os trabalhos da comissão de fábrica. 20 . a comissão de fábrica aceitou o pedido. Ao se investigar o ocorrido não se encontrou provas de tal agressão. p. A escolha de Almir Pazzianotto para o Ministério do Trabalho. ao tentar atravessar a linha de piquete.411 730. Assim o pacto social proposto pelo governo federal com relação ao plano cruzado. numa clara tentativa de intimidação. Desta forma a retirada de direitos importantes dos trabalhadores como: “o direito de beber água na fábrica. o aumento dos preços por causa do ágio e a multiplicação das greves. enchiam os trabalhadores de sonhos e esperanças para a nova fase política que se iniciava com um governo federal civil. mas os indivíduos”21.. Acrescenta-se a isso um plano econômico que prometia recolocar o Brasil nos “trilhos do desenvolvimento”.61 de uma pequena baixa na produção em 1984.992 Greves contra o Cruzado [. absorvendo um discurso nacionalista que beirava ao populismo. pela montadora de automóveis Ford. em protesto. o PT e o então Governador do Rio de Janeiro Leonel Brizola. que passou a pressionar individualmente os trabalhadores.]. Julho 2009 (58-63) .. como fiscais. neste contexto de pacto pelo plano Cruzado. iniciou o seu mandato dando sinais de que se atravessava para uma nova fase nas relações entre trabalhadores e patronato. anistia dos sindicalistas cassados. Tal ato serviu de pretexto para que a Ford alegasse que teria ocorrido no momento uma agressão física e suspendeu o funcionário membro da comissão por 30 dias. Não há dúvida de que os maiores beneficiados pelo plano cruzado foram os assalariados. a devolução dos sindicatos que estavam sob intervenção para as suas categorias.152 683. estimulo para as negociações entre trabalhadores e empregadores. Passados alguns dias a direção da Ford solicitou que os trabalhadores realizassem horas extras. o Presidente da República. In: LUA NOVA. que conheceram uma expressiva melhora em seu poder aquisitivo. desrespeitando a sua estabilidade de mandato. 17/7/1986. a população de modo geral deixou para segundo plano as lutas nas questões trabalhistas e sociais.

] a linha respot. cuja velocidade foi aumentada de 1 minuto e 15 segundos para apenas 48 segundos. após 10 dias de greve a direção da fábrica chamou um batalhão da Policia Militar. onde o custo da mão de obra é significativamente mais barata.1986 . M. e os atestados assinados pelos médicos do sindicato passaram a não ser mais aceitos pela empresa”27. p. A empresa aproveitou-se de um momento onde as grandes montadoras norteamericanas estavam fechando suas unidades nos EUA. da. fábricas poderiam ser fechadas e diante do medo do desemprego. Tal programa já vinha sendo adotado pela Matriz da Ford nos Estados Unidos. idéias e sugestões em troca de prêmios mensais.360 trabalhadores e neste dia. No dia seguinte. já vinha sendo implantado desde 1984. Os dez minutos de descanso. ocorriam 23 greves por aumentos de salários.286. v. o fim das intimidações por parte da gerência e a ampliação dos direitos da Comissão de Fábrica. através de uma profunda pesquisa da Ford sobre o universo de seus próprios funcionários e a implantação de cursos de treinamento. sendo que os 4 restantes estavam em férias. São Paulo. e buscava amenizar os conflitos entre empresa e trabalhadores. Procurava-se assim substituir o poder das Comissões de Fábrica e do Sindicato. 105 carros foram danificados no interior da fábrica ou montados com peças erradas. por pequenos grupos de trabalhadores que passavam a disputar entre si cotas de produção. n. inclusive membros das Comissões Internas de Prevenção de Acidentes (CIPAs) que possuíam estabilidade garantida pela própria legislação do trabalho. jan/mar.000 trabalhadores pedem um aumento de 20% nos salários e mudanças na política interna. o jornal Folha de São Paulo noticiava a greve: Trabalhadores da Ford do ABC param o trabalho Os 11. R. os trabalhadores foram obrigados e entrarem na fábrica por um corredor polonês de policiais militares. A. que agora estava dissolvida. não houve grande resistências à implantação do programa. Desta forma a Ford. alegando que a sabotagem pretendia prejudicar as boas relações de trabalho na fábrica. antes do almoço e ao final do turno foram eliminados. 3. 1987. No entanto. A Comissão de Fábrica foi dissolvida com a suspensão de 24 dos seus 28 membros. declarou que esta era a segunda violência da Ford contra os trabalhadores. ocorreram 61 greves envolvendo 45. mesmo com uma baixa de 204 trabalhadores. um aumento de 20% nos salários. sem obterem sucessos devido às resistências da Comissão de Fábrica.A Repressão Fordista no ABC Paulista dos funcionários do setor onde trabalhava o membro da comissão. e transferindo a produção para países emergentes. pioraram de forma significativa: Jornal Folha de São Paulo. 48-50. “A velocidade das linhas foi aumentada no período da manhã para que a produção não fosse prejudicada por possíveis interrupções ao final do dia [..890 estão em greve em São Bernardo e Diadema25. exigindo a sua readmissão. as condições de trabalho na Ford. Decidida em não negociar com os operários. a CUT e o Partido dos Trabalhadores pelo ato. Segundo Diogo Clemente. Cabe ressaltar aqui que as comissões de fábrica representavam uma importante conquista dos trabalhadores. o Programa de Trabalho Participativo. 16/7/1986. ALVES. No dia 16/7/1986. M. . Nas fábricas. 3. Sem a legitima representatividade da Comissão de Fábrica. Possuíam estatutos e estabilidade de emprego reconhecida por contratos registrados em tribunais do trabalho. op cit. Apesar do amplo apoio do empresariado no que diz respeito à implantação da Nova Esta edição da Folha de São Paulo chama ainda a atenção de que na primeira quinzena de julho. H. conforme ALVES26. Em outubro de 1986. Somente após diversas pressões exercidas pelo sindicado a montadora aceitou pagar os direitos trabalhistas de alguns dos funcionários demitidos. proporcionando que os segundos pudessem participar de decisões relacionadas ao trabalho no interior da fábrica. A direção da Ford acusou a extinta Comissão. um total de 12.62 . 26 25 27 SILVA. para se lavar. que reprimiu os grevistas com violência. em entrevista a Folha de São Paulo. Aproveitando-se da crise de empregos na indústria automobilística norte-americana a Ford argumentou aos trabalhadores que se o programa não fosse aceito.. diretor assistente de relações industriais da Ford. representante da CUT. Um total de 204 trabalhadores foram demitidos por justa causa. Na filial brasileira. p. criando desta forma novas relações entre trabalhadores e empregadores sem a interferência do sindicalismo. que é o interesse da Companhia na implantação do programa de Trabalho Participativo. SILVA. conseguiu ampliar a sua produção em 20 carros por dia. sendo eleita através de voto direto e secreto. Lua Nova. Jarí Meneguetti. os onze mil funcionários da fábrica entraram em greve reivindicando além da readmissão do funcionário e o direito de funcionamento da comissão. Um importante aspecto deve ser ressaltado. a volta dos velhos tempos. As tentativas de retirada dos direitos dos trabalhadores não eram novas. Um dos pontos chaves do programa era justamente o de transferir para o trabalhador a responsabilidade e a oportunidade de optar sobre alguns aspectos da empresa. funcionava desde 1981. sendo que a comissão de fábrica da Ford. as reivindicações contrariam a política econômica do governo.

tais grupos chegam a ocupar 45. já que era transmitida para a população a idéia de pacto nacional pelo plano Cruzado. aproveitando-se de um contexto favorável. onde as grandes empresas conseguem se sobrepor ao poder Confederação Nacional da Indústria. onde o papel do trabalhador era o de fiscalizar os preços congelados.26% das cadeiras constituintes. Julho 2009 (58-63) . transformaram-se profundamente. e na incapacidade de dar uma resposta ao empresariado. Assim. 29 30 28 federal a ponto de quando lhes convém.História & Luta de Classes. Nesse sentido surge no campo político a questão da Nova Constituição. e a existência de um grupo organizado e detentor de grande poder econômico. marginalizando o sindicalismo no interior da fábrica. a derrota dos sindicatos nas lutas por aumentos de salários. A esse respeito. os trabalhadores tiveram pouca representatividade na elaboração da Nova Constituição. como foi exposto no caso da Ford. a disputa de forças pela hegemonia nas decisões. onde os trabalhadores sofreram perdas de direitos que já pareciam estabilizados. DINIZ. como no caso da Ford. 31 Diniz. por exemplo. Ibidem. deixou o sindicalismo em frágil condição reivindicatória para as discussões que se sucederiam. solicitavam também a “intervenção governamental nas atividades sindicais e proibição da formação de comissões de fábrica”29.49. aumentos de salários. como ficou evidente na falta de apoio a greve e na facilidade com que a montadora Ford pode impor a sua vontade perante aos trabalhadores. as atuações sindicais buscavam não somente os resultados imediatos como. Diniz30 chamou a atenção para a aliança entre o empresariado na luta contra os movimentos grevistas e o fortalecimento da economia de mercado. Diante de um quadro onde as reivindicações trabalhistas e sociais passavam a serem criminalizadas. já que as representações dos trabalhadores ficaram próximas dos 10%. mudanças no campo econômico. mas sim algo maior e que pudesse garantir melhores condições de trabalho por lei. Diante da falta de um apoio popular. como: direito de sindicalização no interior da fábrica e estabilidade. Desta forma. por romperem com o pacto social. que pudesse exercer pressões sobre o Estado e ao grande empresariado. de posse de uma série de sugestões que incluíam alterações nas áreas sindicais. pode instaurar um sistema interno que privilegiava o individualismo e competição entre os trabalhadores. a declaração de ilegalidade das greves caracterizou-se como uma das bandeiras defendidas pelos empresários através da CNI28. Isso devido à redução da capacidade de influência popular. op cit. trabalhistas e tributarias. Evidenciamos assim que o estudo de um fato histórico requer uma analise mais ampla do que o estudo do fato por si só. (1997). algo em torno de 1:331. a Ford pode fazer uso de mecanismos repressivos a fim de dissolver a comissão de fábrica que se colocava como um entrave à implantação do Programa Participativo.63 República. ou seja. Ao mesmo tempo em que a população ansiosa por um “novo milagre econômico” abria mão do seu papel reivindicatório se dissolvendo no corpo fiscalizador do Estado. os empresários passaram a concentrar forças a fim de enviarem o maior número possível de representantes para as discussões da Assembléia Nacional. Neste contexto de redemocratização da política brasileira. Pois a partir disto. informa que se considerarmos os deputados que possuíam claros vínculos com os grupos empresariais. nas questões trabalhistas se esperava pela manutenção dos recursos autoritários. . Nº 7. boicotar o plano econômico que guardava as esperanças do controle inflacionário. demonstrando que o sindicalismo havia perdido grande parte do seu poder de barganha. onde apesar do debate já não ser novo. enquanto que a representatividade do empresariado girava em torno dos 30%. o movimento sindicalista ficou com pouco poder de atuação. Assim. A greve desencadeada na fábrica da Ford de São Bernardo do Campo em julho de 1986 revela um Estado dilacerado por problemas socioeconômicos. disputas políticas e de relações de poder entre empresas e sindicados. Este contexto social tornou-se favorável para que o empresariado pudesse agir livremente nas relações trabalhistas. em um contexto onde a greve passava a ser considerada uma traição a pátria. assim. p.

dentre outros. tem havido um reforço de caráter contraditório da dominação dos Estados Unidos sobre governos e burguesias locais. assim pensamos. Ana Maria SANJUAN. Plínio de Arruda SAMPAIO. ou seja.monthlyreview. de resistência – sem rupturas profundas. de resenhar e. e da sua análise desprende-se uma perspectiva que. outubro 2007. outubro 2007.13. may 2007. portanto de um governo que desenvolve uma postura anti-Estados Unidos e. em todo caso . Venezuela: who could have imagined?. no seu O 18 brumário de Luiz Bonaparte. disponível em www. por um lado criou. p. n. outubro 2007. q u e l e v o u a d i a n t e e s t u d o s metodologicamente relevantes sobre o problema2.à devastação econômica de perfil neoliberal. Le Monde Diplomatique-Brasil. Nessas últimas décadas. o Estado burguês semi-colonial ou dependente latino-americano tipo Venezuela. Naturalmente estará sendo enfocado nessa análise. a formação de um aparelho de Estado centralizado. também é um fato que os governos que se colocaram de um ponto de vista de resistência anti-neoliberal e que fizeram campanha eleitoral nesta perspectiva. em seguida. e que pode ser posta nos seguintes termos: um governo ou poder político como Chávez ou outros antes dele (Perón. o objetivo específico deste artigo é o de trazer ao plano do debate sobre o problema levantado. um Bonaparte com ares de eqüidistância. por ele qualificado como bonapartista3. a respeito. Ceip-Leon Trotski. Doug DOWD. Buenos Aires. ao mesmo tempo em será focalizada a questão de um determinado tipo de poder político.3. Trotski formulou um diagnóstico ou uma avaliação teórico-histórica desse tipo de processo. Hugo Chávez. procurando focalizar. Ignácio RAMONET. surgimento de alguma classe social de apoio ao governo. Há uma série de debates na América Latina todos eles referenciados pelas novas perspectivas desencadeadas pela experiência venezuelana. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Estado. não sem prejuízo – na ótica da investigação e também teórica aqui adotada – para quem pretenda alcançar o mais profundo exame da totalidade do processo. através de um processo transformista. personalizado na figura de um árbitro. então. certas dificuldades para o movimento revolucionário. o material publicado no livro de Leon TROTSKI. a respeito. tomado em suas linhas gerais. por exemplo). apareceram processos do tipo Venezuela de Chávez. Este processo. 1999.1. n. na América Latina. A tese de Leon Trotski Trotski levanta uma determinada tese a respeito do poder político em Estados como o México dos 2 Veja-se. Ver farto material a respeito no livro citado na nota de rodapé anterior. Escritos Latinoamericanos. contribui ao debate atual sobre Estado e poder na América Latina e que aqui será submetida à crítica.10. ascenso do movimento de massas sem hegemonia política do proletariado. ao mesmo tempo. p. Argentina ou até Brasil. Em primeiro lugar. n. p. Este foco tomará como recurso teórico um a u t o r. Tr o t s k i . n. o poder de governos que procuram amparar-se nas massas para pressionar por relações mais vantajosas com os países centrais. trata-se. recolhe um apoio operário e popular majoritário ao se colocar dentro de uma perspectiva declaradamente socialista ou de socialismo do século XXI como é o discurso de Chávez. . Este artigo pretende incluir-se no debate dentro do terreno de uma questão que permeia processos tipo Chávez. vol. capitaneando um Estado que além de débil continua tratando de preservar o essencial da relação econômica com o imperialismo pode – nestas bases. Por outro lado. burocrático. 3 Foi Marx quem definiu pela primeira vez a forma de dominação burguesa por ele chamada de bonapartismo.13. ao mesmo tempo em que os laços econômicos do imperialismo sobre essas burguesias locais que se comportaram de forma vassala se estreitaram. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski problema Gilson Dantas* O Nas últimas décadas. preservando as relações semi-coloniais e *Doutor em Sociologia pela UnB. a perspectiva do movimento sindical e operário.org. Monthly Review.Estado. 1 apoiando-se em burocracias sindicais . dentro deles.64 . Claro-escuros bolivarianos. problematizar a defendida por aquele autor. 59. Populismo ou revolução? Le Monde Diplomatique-Brasil. um tipo de Estado.desenvolver mudanças sociais profundas? A partir destes marcos. O Estado bonapartista supõe certo equilíbrio entre as várias forças sociais incapazes de exercer uma dominação hegemônica. de uma maneira geral. Trotski aplica essa definição para processos como os do nacionalismo burguês na América Latina. se converteram em aplicadores diretos das políticas pró-imperialistas e do Banco Mundial.3. O surgimento de governos como Hugo Chávez gera uma série de esperanças e ilusões nos meios de esquerda1. em que o imperialismo norteamericano entrou em um processo de relativo declínio e se instala o lento desencadear de uma profunda crise econômica. Le Monde DiplomatiqueBrasil. embora este continue respondendo ao conjunto dos interesses da classe dominante. um autor que costuma ser deixado de lado. 3. ao mesmo tempo. Ver.

a outros Estados na mesma condição.65 anos 30 e ali propõe elementos mais gerais. da América Latina. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. no limite. (o governo mexicano) trata de dar às organizações operárias uma considerável parte da responsabilidade na marcha da produção dos ramos nacionalizados na indústria”5. suas maiores conquistas são as desapropriações das linhas de ferro e das companhias petrolíferas.História & Luta de Classes. não se trata mais de qualquer processo de revolução burguesa até o fim. Segundo o argumento de Trotski: “Nos países industrialmente atrasados o capital estrangeiro joga um papel decisivo. Os movimentos essenciais desses núcleos burgueses locais terminam confluindo no sentido de adotar certo enfrentamento buscando tirar vantagens 4 Atílio BORON. passa a controlar setores dinâmicos dessas economias.se levantam e lutam por seu espaço e suas conquistas. vale reiterar que esta realidade é completamente atual. . Trotski chama a atenção para a característica debilidade histórica da burguesia de países semicoloniais (caso da América Latina) dominadas pelo capital imperialista. precocemente. e não pode manter-se sem o apoio ativo dos trabalhadores. no momento seguinte de qualquer influxo ou pressão nacionalista. chegando inclusive a fazer-lhe concessões. sob semelhante estrutura de poder político ou de relação com o imperialismo. em qualquer dos casos. que explica muito do caráter do Estado e do poder político na América Latina: uma classe dominante cujo desenvolvimento se vê conflitado com o imperialismo e que tende a associar-se a este. 1999. NT) se situa na segunda alternativa. A atual política (do governo mexicano. Como contraponto. genética. É da natureza da dinâmica de penetração do capital imperialista. 2000. É isso o que explica porque. de índole particular. por exemplo.4 “nossos Estados são hoje muito mais dependentes que antes. configurando-se desta forma um determinado processo onde o país apresenta uma estrutura atrasada em relação aos países metropolitanos e imperialistas. quase como regra. débil. Essas medidas enquadram-se inteiramente nos marcos do capitalismo de Estado. sem conseguir alcançar nenhuma perspectiva econômica autônoma. mão-de-obra barata. A presença mais forte. na condição de burguesias vassalas. Historicamente. Julho 2009 (64-69) . o capitalismo de Estado encontra-se sob a grande pressão do capital privado estrangeiro e de seus governos. classes nativas sem a chance de conquistar a hegemonia industrial e financeira nos seus respectivos países.163. a depender do país . apoiando-se em um imperialismo contra outro. aplicáveis – segundo sua perspectiva teórica . O capital internacional é dominante nessas economias. p. sufocados por uma dívida externa que não cessa de crescer e por uma 'comunidade financeira internacional' que. sobretudo na área industrial. embora não exclusivo. o bonapartismo tipo Cárdenas. mais dinâmica. Isto cria condições especiais de poder estatal. ou manobrando com o proletariado. próprias ou aceitando a condição de sócio menor do imperialismo. sem deixar que o poder real escape de suas mãos. Perón ou Getúlio cada um em seu momento e em suas circunstâncias. p. Este capital recruta uma classe operária local. na prática. eis que aparece a burguesia como ela realmente é. em torno de núcleos industriais concentrados. Eleva-se. jovem. por assim dizer. De passagem. O governo oscila entre o capital estrangeiro e nacional. Aliás. Nº 7. ganhando desse modo a possibilidade de dispor de certa liberdade em relação aos capitalistas estrangeiros. do ponto de vista dos setores chaves da economia vem a ser a do capital estrangeiro que. portanto. localizou nos trabalhadores urbanos – e também no campesinato. É o que a história tem demonstrado sucessivas vezes e a cada tentativa. termina recuando. por cima das classes. pode governar ou transformando-se num instrumento do capital estrangeiro e submetendo ao proletariado com as cadeias de uma ditadura policial. entre a relativamente débil burguesia nacional e o relativamente poderoso proletariado. na mesma medida em que as massas – como parte do mesmo processo . Atílio. Buenos Aires: Fondo de Cultura Econômica. Diagnostica o desenvolvimento de um fenômeno político peculiar. Isto dá ao governo o caráter bonapartista sui generis. que esta classe operária rapidamente fique submetida ao capital estrangeiro. de forma subalterna. No caso de lançar-se a conflitos de interesses abertos frente a um ou outro setor do grande capital financeiro ou da ´comunidade imperialista internacional ´ esses grupos locais cedo ou tarde se dão conta de que não podem ignorar ao proletariado: Cárdenas. no entanto. num país semi-colonial. como aqueles que se deram no alvorecer desta classe. no argumento de Boron. grandes empresas e grandes bancos. movimenta-se uma burguesia nativa que do ponto de vista econômico desenvolve-se à sombra e em conflito de interesses com o capital externo. cedendo e/ou dando passagem aos 5 Leon TROTSKI. Só que. Trás el búho de Minerva: mercado contra democracia en el capitalismo de fin de siglo. Escritos Latinoamericanos. No entanto.seu único ponto de apoio político efetivo na tentativa política de defender seus interesses frente às pressões externas. ou enfrentar-se com ele em alguma medida. os despoja de sua soberania”. Aqui temos uma contradição seminal. Na realidade.125. desenvolve uma classe operária moderna. Daí a relativa debilidade da burguesia nacional em relação ao proletariado nacional. Sua base política e social abarca toda uma massa local de trabalhadores que obviamente inclui os das grandes corporações imperialistas. e que.

Essa é também a base da dependência dos sindicatos reformistas em relação ao Estado”7. e procura organizar seu apoio urbano. para esse desdobramento está no fato de que. tende a desenvolver. ao contrário de Cárdenas. o de não romper os limites de classe. deslocando-se entre as contradições inter-imperialistas. antes como hoje. é que este. A burguesia trata de agir para que a esfera do movimento operário seja controlada. que desempenhem o papel de protetores.Estado. também apoiar-se em setores da burguesia. A criação do partido único do Chávez (PSUV). O sentido é. . apóia-se na burguesia procura construir um “projeto nacional” de pressão sobre o imperialismo. Não podem lançar uma luta séria contra toda dominação imperialista e por uma autêntica independência nacional por receio a desencadear um movimento de massas dos trabalhadores do país. p. não apenas irrompe uma dinâmica de resistência por parte da patronal imperialista. A idéia básica. surgem em situações políticas onde a classe dominante mergulha na crise e a classe trabalhadora e camadas populares em movimento não contam com suficiente força política própria. em outras condições. afloram situações onde o proletariado vai necessitar de sua independência política de ação. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. lhe impede alcançar um nível mais alto de desenvolvimento para além de servir a um senhor imperialista contra outro. 1940. Disponível no site: www. Por outro lado. E uma razão de fundo. Pressão limitada por sua própria condição de “burguesia atrasada sul-americana. estes necessitam o apoio dos governos coloniais e 6 Idem. ameaçaria sua própria existência social”6. sucursal do imperialismo estrangeiro”. Concessões estas sempre subordinadas ao controle do governo sobre os movimentos sociais e sobre o movimento sindical. esgrimindo outro discurso e em diferentes circunstâncias mundiais. 93.insrolux. por conquistar a posição dominante na exploração de seu próprio país – é certo que trata de utilizar as rivalidades e conflitos dos imperialistas estrangeiros com esta finalidade. no essencial. e a partir do grupo político de poder. Na síntese de Trotski: “Em muitos dos países latino-americanos. os Estados Unidos. histórica e social. invariavelmente. Irrompem as massas. apóia-se na classe operária. Com Chávez o processo é semelhante. ou seja. que. como se estabelece uma operação de risco político para a própria classe dominante em seu conjunto. Chávez estatiza e nacionaliza setores econômicos pagando a preço de ouro. A história moderna da América Latina desenvolveu-se nestes marcos. para além da época dos textos de Trotski aqui mencionados. é a de submeter e controlar de forma (caudilhista) os movimentos sociais. a ascendente burguesia nacional. de patrocinadores e ás vezes de árbitros. como dizia Trotski8. e por outro. p. “unindo” patrões e empregados. que se desenvolveu na época de Trotski no México. Esse Estado ou poder político. na administração da produção dos setores nacionalizados ou as mobilizava em favor da nacionalização de determinadas esferas da economia. que surgem formas de poder político como Cárdenas. a partir do Estado. em seu seio. pressionando a Inglaterra. semicoloniais. dos sindicatos e das movimentações e ações operárias. Trotski qualificava tais processos como bonapartistas ou semi-bonapartistas.66 . é nesta conjuntura. para os quais faz concessões. através dos quais setores da burocracia de Estado – em geral do exército – se lançam a formas de governo instáveis que em algum momento recorrem ao apoio político operário ou camponês para pressionar o capital externo.org/textosmarxistas/ 8 Leon TROTSKI. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski seus setores mais reacionários e à oligarquia agrária associada ao imperialismo. processo. buscando uma maior participação no espólio e mesmo esforçando-se em aumentar a medida de sua independência – isto é. embora mais débil. por sua vez. uma dinâmica de controle e atrelamento. em busca de vantagens no funcionamento econômico e no mercado para sua classe dominante: “À medida em que o capitalismo imperialista cria nas colônias e semicolônias um estrato de aristocratas e burocratas operários. Perón ou. procurando angariar força para suas fricções externas. desde o momento em que esses setores nacionalistas dão passagem a concessões de qualquer ordem à classe trabalhadora – política ou econômica –.193. Cárdenas nos anos 30 procurou articular e incluir as organizações operárias. Chávez. a quem busca controlar sob seu comando político. O que aqui se pretende destacar. Esta é a base social mais importante do caráter bonapartista e semibonapartista dos governos das colônias e dos países atrasados em geral. O poder ou o regime político que faz este papel bonapartista é assim chamado por ganhar certa autonomia: de um lado apoiar-se na classe operária. os movimentos do nacionalismo chavista muito mais submetidos ao imperialismo. Mas sua debilidade geral e sua aparição histórica retardatária. A integração das organizações sindicais ao poder do Estado. 1999. pelo Estado e pelo governo. especialmente em torno dos movimentos populares mais pobres. por exemplo. é apenas um exemplo neste sentido. ao mesmo tempo. apesar de toda sua fraseologia e das 7 Leon TROTSKI. do imperialismo (sem marchar para qualquer ruptura profunda de classe). Recorrentes processos nacionalistas se desenvolveram dentro desses limites e riscos. Escritos Latinoamericanos.

tais análises foram desenvolvidas por Trotski referindo-se ao processo de Cárdenas no México dos anos 30. No argumento de Trotski – citado por Coggiola . jovem e concentrado que tende a desequilibrar toda tentativa burguesa de apoiar-se nele para pressionar por vantagens econômicas para si. tende a encerrar-se toda veleidade nacional-burguesa.referindo-se à América Latina: “A debilidade da burguesia nacional. Como já foi mencionado. simplesmente.. O paternalismo do Estado está ditado pelas duas exigências se contradizem: a necessidade do Estado de aproximar-se da classe operária como um todo e ganhar desta forma um apoio para resistir às pretensões excessivas do imperialismo e disciplinar aos trabalhadores colocando-os sob o controle de uma burocracia”10. Leon Trotski.67 declarações socialistas dele. (. Buenos Aires: Ediciones Razón y Revolución. Trotski afirma. neste item fica aquém do primeiro governo de Perón). burguesa. do que na experiência do governo cardenista. economicista.) Com base no programa democrático revolucionário é necessário opor os operários à burguesia ´nacional´. no controle do movimento operário. abortam a evolução política do proletariado ou. tentando buscar apoio entre os trabalhadores e os camponeses. é possível localizar o chavismo no campo de processos semi-bonapartistas como os analisados por Trotski. Em uma certa etapa da mobilização das massas sob as consignas da democracia revolucionária. de uma ou de outra forma. sempre dentro da contradição em que precisam mobilizar a classe trabalhadora em seu favor e. E que o proletariado só tinha futuro desenvolvendo sua corrente independente de classe. dentro da cultura proletária cardenista.História & Luta de Classes. isto é. 10 Osvaldo COGGIOLA. No entanto. do final dos anos 30. os sovietes podem e devem surgir. a falta de tradições de governo local. o rompimento com o jugo imperialista. chamava ao apoio às medidas de estatizações frente a qualquer ação do imperialismo e via como necessário ir construindo. precisam tê-lo sob controle. Necessitam apoiar-se nele. Esta é a perspectiva desse tipo de poder político burguês-bonapartista semi-colonial. ameaçam os fundamentos de todo regime democrático estável. Retomemos um aspecto – decorrente desta abordagem teórica de Trotski sobre certo tipo de poder político em tais tipos de Estados – e aqui tomado como foco de análise: a esfera sindical em tais processos. impedir seu desenvolvimento classista.. o modelo sindical corporativo. 2006. teria que desenvolver-se e afirmar-se contra Cárdenas e não a seu favor. p. a etapa de crises. o crescimento mais ou menos rápido do proletariado. o Programa de Transição da IV Internacional. O primeiro e óbvio problema dessa estrutura de poder político em governos de perfil bonapartista é a natureza de sua relação com o movimento sindical. El programa de transición y la fundación de la IV Internacional (compilación). Estas duas tarefas estão estreitamente vinculadas entre si. CEIP Leon Trotski.. Nesta perspectiva. fogem. A perspectiva que Trotski fórmula para tais processos é a de que. a liquidação da herança feudal e a independência nacional. Buenos Aires.95. Os governos dos países atrasados assumem um caráter bonapartista ou semibonapartista e diferem uns dos outros pelo fato de que alguns tratam de orientar-se em uma direção mais democrática. Julho 2009 (64-69) . Tais governos necessitam incluir a classe trabalhadora através da burocracia sindical – inimiga de classe do proletariado – no aparelho de Estado. estrategicamente. As frações chamadas nacionalistas se associam ao imperialismo e promovem um banho de sangue. Nº 7. isto é. Isto determina igualmente o destino dos sindicatos. a corrente operária que. p. no Chile em 73 e também por essa via se pode compreender o golpe de 1964 no Brasil. 9 . revoluções e guerras impõe a necessária presença de uma eficiente burocracia reformista. Sua impotência como burguesia e. mas antes de mais nada. O reflexo desta dinâmica no movimento sindical (na classe operária). para consegui-lo. Somente eles serão capazes de levar até o fim a revolução democrática e abrir assim a etapa da revolução socialista”9. Não é por outra razão que terminam copiando. dão passagem ao golpe. cedo ou tarde. pela presença de um proletariado moderno.. em especial. Ele partia do real apoio que o proletariado oferecia a Cárdenas. devem ceder em vários aspectos menores. referindo-se aos países atrasados que: “A tarefas centrais dos países coloniais e semicoloniais são: a revolução agrária. ao mesmo tempo em que não promove qualquer mudança agrária substancial e sequer no perfil das importações (ou mesmo na fatia apropriada pela classe trabalhadora da renda nacional. A análise teórica de Trotski localiza e examina a impotência histórica dessas burguesias frente à hegemonia do capital imperialista e. ao mesmo tempo. na medida em que a classe operária dê passos adiante e esboce ou avance em sua independência política. História del trotskismo en Argentina y América Latina. Foi o que ocorreu na Argentina em 75. (. enquanto outros instauram uma forma de ditadura militar e policial. Explicava o limite histórico de classe deste tipo de poder político.) Cedo ou tarde os sovietes devem derrubar a democracia burguesa. 2008.. É a marca registrada desses processos. Chavéz tem comprado algumas empresas ao imperialismo a preço de mercado. com seus limites. 423..

como regime. mas também nos países coloniais. na massa ao mesmo tempo em que lideram Estados cuja fraqueza é transformada a partir da esfera de poder político burguês em impotência política frente ao imperialismo. mais exatamente. o poder político trata de custear todo tipo de bolsa-esmola. com o desfecho da dura repressão das alas direitas que estão dentro ou fora do governo e que não têm como se acomodar na instável perspectiva nacionalista burguesa. p. Mas sua marcha inexorável. mesmo quando buscam apoiar-se. De um lado tal tipo de poder encontra-se frente à sua impotência histórica de ir adiante como movimento burguês independente. ao mesmo tempo em que defende a unidade do movimento sindical. A dinâmica política desse tipo de poder por ele analisado para a América Latina. “o risco reside na conexão dos dirigentes sindicais com o aparato do capitalismo de Estado. tal forma de poder político dura. tem-se desenvolvido recorrentemente. sobretudo do proletariado. na transformação dos representantes do proletariado em reféns do Estado burguês. Considerações finais. o sentido geral desse movimento é o de impedir que a classe operária desenvolva sua independência política. Por essa razão. em particular pela formação nos sindicatos de firmes núcleos revolucionários nos quais. em especial de uma massa camponesa ou das periferias urbanas que o próprio sistema lançou na ruína. a perspectiva analítica formulada por Trotski. Mas por maior que possa ser esse perigo. mais adiante.Estado. não apenas nos velhos centros metropolitanos. parece mais do que acertada. daquela forma bonapartista. de uma doença geral: a degeneração burguesa dos aparatos sindicais na época do imperialismo. Essa é a sua dialética histórica nesta fase de decadência capitalista. não existe outra alternativa a não ser lutar pela independência no movimento operário em geral. o primeiro movimento do governo dá-se no sentido de atrair para o Estado. Getulio. no curso da qual crises econômicas sérias e processos revolucionários são inevitáveis. a falta – que têm recorrentemente revelado . caso contrário. repetem-se de tempos em tempos. foi e tem sido rumo ao desastre. em sua esmagadora maioria dos casos. de assistencialismo. Escritos Latinoamericanos. o que pode ser compreendido a partir daquelas considerações teóricas de Trotski. Foi o caso de Cárdenas. de burguesias débeis que tendem a uma relação de poder político vassalo frente ao imperialismo. Os líderes sindicais são. para construir-se como alternativa deve desenvolver-se em oposição àquele poder político bonapartista. Ainda na reflexão de Trotski. no sentido de reunir apoio dos mais pobres. a de impor formas de democracia operária. todos eles. do seu Estado. . a burguesia local é impotente. Aqui estamos no cerne da argumentação de Trotski: mesmo com tais manobras. terá que lidar. na ótica deste artigo. da dinâmica de classe do Trotski propõe essa perspectiva considerando a natureza daquele poder de Estado: ambivalente. ao mesmo tempo. E promover concessões para os mais pobres. tenda a ir dissipando suas ilusões de uma revolução por cima.166. Os marcos estão dados: o do desenvolvimento do movimento operário da sua independência em relação ao Estado – o que implica em um desenvolvimento político que começa apoiando medidas de democracia operária ou contra o imperialismo e. com a busca de apoio popular. Contra isso. só constitui uma parte do perigo geral. como parte da mesma dialética. na ótica de Trotski. Este quadro. sua busca – a todo custo – de bloquear o desenvolvimento político independente dos trabalhadores e sua aliança revolucionária com os camponeses trava a dinâmica efetivamente emancipatória. como 11 Leon TROTSKI. deixa em aberto uma saída para o movimento sindical e para os revolucionários. tais formas de poder político são completamente impotentes frente ao imperialismo. sejam capazes de lutar por uma política de classe de composição revolucionária dos organismos diretivos”11. já estão se tornando. sem ferramenta política própria. de um reformismo pela via do bonapartismo ´populista´. Ou. que conduzam ao desvinculamento sindicatos-Estado e.de uma estratégia de luta coerente com o correto diagnóstico da natureza daquele poder político. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Para o proletariado. Perón. agentes políticos da burguesia. os ministérios. tais governos bonapartistas ou semibonapartistas costumam aflorar justamente em etapas de ascenso ou ameaça revolucionária de massa.68 . de democracia de base. historicamente. 1999. contraditório. naquela perspectiva. dentro do qual o governo procura funcionar como árbitro. A dificuldade das direções sindicais que conseguem desenvolver certa independência política ou pelo menos combatividade de classe tem sido sucessivamente. ao mesmo tempo em que é parte de um sistema em decadência histórica. Procuram arbitrar. é associada ao imperialismo. poder e como classe. como o Bonaparte de um poder político sem condições de estabilizar-se. ganhar tempo e vantagens apoiando-se aqui e ali no movimento de massas. Buenos Aires: CEIP Leon Trotski. desviar. No pensamento de Trotski. o tempo em que a parte mais ativa do movimento de massa. e. No caso do nacionalismo mais recente. Aliás. Foi o caso de Chávez. Na indústria nacionalizada podem tornar-se. seus agentes administrativos diretos. o movimento sindical. após uma fase de tentativa de cooptação do proletariado. Do ponto de vista das experiências históricas do pós-II Guerra.

mais que um debate teórico. Por isso mesmo considerava como uma condição indispensável para que a experiência da classe operária se orientasse em um sentido revolucionário. a construção da independência operária já deve fazer parte.como agora na Venezuela são chavistas -. junho 2007. não tem como dar a passagem a mudanças sociais profundas.daquele diagnóstico proposto por Trotski. as ilusões ´populistas´. de suas organizações de massas e do partido revolucionário. Para o movimento sindical – já foi mencionado . junho 2007. é desde este mesmo começo que a separação. Se considerarmos que a história do século XX esteve tomada por experiências de nacionalistas burgueses que custou duras derrotas ao movimento de massas13. quando impera. a uma revolução social sem que se desenvolva uma luta na perspectiva estratégica de ruptura com tais governos. GD) como uma ´etapa necessária´(no sentido de um lento e gradual passo adiante) a da hegemonia cardenista sobre o movimento operário. a ruptura não está no começo do processo. de acúmulo chavista de forças. na experiência de massa. la retórica ´socialista´y el marxismo en América Latina. Julho 2009 (64-69) . In: Lucha de Clases (Revista Marxista de Teoria y Política). pode-se afirmar que estamos diante de uma das mais cruciais discussões estratégicas e políticas que se apresenta para o movimento operário e popular da América Latina. podemos afirmar que “Trotski considerava necessário que as massas operárias e populares mexicanas. 12 Juan DAL MASO. Seguindo o argumento de Dal Maso. Perón.História & Luta de Classes. Inexiste uma via evolutiva. a plena independência da classe operária. desprende-se a avaliação de que um Estado fraco. O “socialismo – como argumentava Trotski – não se constrói pelas mãos da burguesia”. da mesma forma que não pôde haver um acúmulo cardenista de forças (a etapa cardenista foi sucedida por um ciclo que dura até hoje. que eram cardenistas . n. 127. em relação ao governo”12.7. por exemplo.69 processo e. p. Nº 7.7. de governos neoliberais e próimperialistas). mas dialeticamente. Não se trata de etapas. y el ´socialismo del siglo XXI´: los derroteros del ´nacionalismo burguês´ en la decadencia capitalista y sus apologistas ´de izquierda´ de ayer y de hoy. mas não apresentava (essa dinâmica. . La ilusion gradualista: a propósito del nacionalismo. In: Lucha de Clases (Revista Marxista de Teoria y Política). Não se trata de uma etapa ou semi-etapa à qual a outra se sucede. 13 Matias MAIELLO. subalterno e associado pelo poder político ao imperialismo. p 107. mas de um processo cuja dinâmica é determinada – para o bem ou para o mal – pela construção da independência política do proletariado. portanto. Chávez. através de organismos de luta operários pluripartidários independentes. fizessem uma experiência com sua direção. n. da imperiosa necessidade da construção da sua independência política através de partidos operários de massa.

Doutoranda (2009).O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? Erika Batista* I ntrodução empresa japonesa Toyota. Os gestores da força de trabalho seriam legítimos representantes do poder do capital ao mesmo tempo em que também seriam controlados por este mesmo poder. principalmente durante a reestruturação produtiva dos anos 1970. especialista em Gestão de RH e Psicologia Organizacional pela UMESP/ SP e mestre em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília.70 . ideológicos e culturais estão inseridos. Teoria ou Ideologia Gerencial? A partir da década de 1950. e mais agudamente no fim da década de 1970. Também é especialista (2004) em Psicologia Organizacional pela UMESP/ São Paulo e licenciada (2008) em Ciências Sociais pela UEL/ PR. de novas relações entre as classes fundamentais? O modelo de organização do trabalho proposto por Ford caracterizou um momento da luta entre as classes assalariada e capitalista. As análises sobre as formas de organização do trabalho e as novas relações daí decorrentes se fazem relevantes para este debate. segundo. Os discursos gerenciais tentam mascarar o antagonismo entre as classes incorporando os conhecimentos da administração científica às correntes comportamentais da Psicossociologia. do estímulo à acumulação predominantemente financeira e da difusão das técnicas de gerenciamento do trabalho utilizadas pela *Bacharel em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília. Atualmente atua junto à rede privada de ensino superior do Paraná e cursa a habilitação de licenciatura plena em Ciências Sociais na UEL/ Londrina. Os limites das técnicas fordistas e tayloristas alteraram a organização do trabalho a partir dos anos 1950. o poder conferido ao grupo dos administradores do capital através da exploração do trabalho alienado. quanto no interior da própria esquerda. Estaríamos diante da formação de uma nova classe formada pelos administradores do capital. ou melhor. a necessidade de comprometimento do trabalhador com a “missão” da empresa se tornou peça chave para a recomposição da acumulação capitalista. ou. Historicamente. quando o capital declarou sua crise estrutural por meio do retrocesso do que ficou conhecido como Welfare State. Também a “cientifização” do processo de trabalho com Taylor foi além de uma mera inovação no campo administrativo para a melhoria da organização do trabalho. tendências e análises são realizadas com o objetivo de apontar qual a melhor opção para se construir uma via alternativa ao esgotamento e degenerescência do capitalismo. cujos aspectos econômicos. ou. Partindo-se desta perspectiva. Atualmente atua como professora de Sociologia na UEM/ PR e é membro do Núcleo de Estudos de Ontologia Marxiana da UNESP/ Marília. mestre (2007) e bacharel (2001) em Ciências Sociais pela UNESP/ Marília. A teoria gerencial na versão da chamada Escola de Relações Humanas (ERH) focou o “lado humano” da empresa. responsável por controlar e disciplinar a força de trabalho por meio da aplicação de uma teoria capaz de produzir uma subjetividade a serviço do capital. e. teria criado novos limites para as relações sociais entre as classes assalariada e capitalista. daí as formas de controle e produção da subjetividade ter sido examinadas e pesquisadas por diversos campos científicos com o objetivo de formular uma teoria gerencial na qual o trabalhador se “identifique com a empresa”. primeiro porque visam contribuir para a construção desta nova forma de sociabilidade superior a capitalista. políticos. Este artigo não pretende formular veredictos acerca de questões relativas ao mundo do trabalho. assalariada e capitalista. e sim participar do debate por meio de reflexões que tragam à tona mais elementos para pensar a relação entre a chamada teoria gerencial e a relação entre as classes fundamentais. tanto pela esquerda e direita. A necessidade de comprometimento do trabalhador com a “missão” da empresa se tornou peça chave para a recomposição da acumulação capitalista. Neste cenário ganhou importância um novo grupo: os administradores ou gestores do capital. e os trabalhadores começaram a ser remunerados variavelmente por cumprimento de metas ou a receberem bonificações pelo “zelo” da maquinaria. seria correto afirmar que tais transformações teriam determinado uma terceira classe composta por este grupo? As transformações impostas ao chamado “mundo do trabalho” contemporâneo trazem inquietações e dúvidas sobre os caminhos que conduzirão a uma forma de sociabilidade diferente da capitalista. formulando técnicas de suavização e ocultamento da natureza real do trabalho alienado. porque é um terreno teórico em permanente disputa. o ajustamento do trabalhador ao processo produtivo partindo de uma combinação da Organização Científica do Trabalho (OCT) com estudos psicossociais. Acirrou-se o movimento de desafecção sindical e de fragmentação da .

História & Luta de Classes. Teoria geral da administração: uma introdução. nº 3.. Incorporando os conhecimentos da chamada Administração Científica às correntes comportamentais da Psicossociologia. A loucura do trabalho. Taylor e Ford7.. Harvard University. É o próprio processo histórico. 1995. Harold J. FORD. 3 Idem.E. São Paulo: Ática. 1967. É importante salientar que subjetividade e individualidade são tratadas aqui como categorias correlatas da consciência e personalidade. Apresenta seus enunciados parciais (restritos a um momento dado do processo capitalista de produção) tornando absolutas as formas hierárquicas de burocracia da empresa capitalista [.P. H. No desenvolvimento desta fase do gerenciamento da força de trabalho. sabotagens. The social problems of industrial civilization. formas de controle e produção da subjetividade foram examinadas e pesquisadas por diversos campos científicos. que torna possível “o modo ontológico da individualidade”. transformando o homem em suas relações sociais. Julho 2009 (70-74) . Monteiro Lobato. São Paulo: Pioneira Thomson Learning. Administração industrial e geral: previsão.71 solidariedade de classe. A Escola Behaviorista também nasce da 5 TRAGTENBERG. TAYLOR. absenteísmo. Na mesma trilha de Ford e Taylor. objetivando-se e exteriorizando-se ao mesmo tempo”3. Nº 7. 4 GRAMSCI. Mais do que uma teoria gerencial. como a Psicologia.. Americanismo e Fordismo. “ a racionalização determinou a necessidade de elaborar um novo tipo humano. onde a objetividade é a “propriedade material primária – inderivável.C.Oboré. juntamente às chamadas “greves selvagens”. 2001. a precursora autêntica da ERH foi Mary Parker Follet. 4. A mais reconhecida das pesquisas promovida pela ERH foi realizada por Mayo. p. Revista Práxis.W. produzidas pela vida material cotidiana e objetiva. mas se o torna na medida em que se eleva para além do seu egoísmo particularista. de educação da classe operária para além da fábrica. 2 1 No final da década de 1920 e no bojo desta ideologia gerencial surgiu a Escola das Relações Humanas. Conforme Gramsci. num universo administrado burocraticamente pelos financiamentos das grandes foundations com o white-collar às suas ordens”. 8 . A subjetividade seria produzida a partir da objetividade numa perspectiva histórico-ontológica de objetivação do homem em sua totalidade social: “O homem não é imediatamente personalidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Leavit. especialmente da marxista. BH. a qual então. comando.p. controle. São Paulo: Livraria Freitas Bastos. o desenvolvimento social. até hoje. 216. G. cuja tese afirmava a existência de grupos informais inter-relacionados e chamava atenção para os incentivos psicossociais no lugar dos econômicos8. [. trata-se do que Maurício Tragtenberg chamou de ideologia gerencial: “A Teoria da Administração. o chamado “Inquérito Hawthorne” na indústria Western Eletric. existem outros teóricos classificados na corrente comportamental. São Paulo: Cortez.. também conhecidos como behavioristas. 6 MOTTA.. coordenação. como estratégias de defesa psíquicas1.] A sociedade é consubstancial à natureza dos indivíduos que agem sempre dentro de um conjunto de condições concretas. de modo que a teoria gerencial transcendeu o espaço fabril e alcançou a totalidade das relações. independente da consciência – de todos os seres e de todas as relações entre o que existe”2. F. Lukács e o caminho marxista ao conceito de “pessoa”. 7 FAYOL.. seguida do psicólogo industrial George Elton Mayo. G. Burocracia e Ideologia. C. 1990. Princípios de administração científica. Os princípios da prosperidade. Vol. boicotes. produzem uma subjetividade alienada que internaliza na “alma” do trabalhador a suposta relação de cooperação e interesses comuns entre “patrão e empregado”. H.] cultiva a neutralidade científica como o ethos ideológico da Ciência. 112. 382. 1965. A. MAYO. In: Cadernos do Cárcere. Irving Knickerbocker e Alex Bavelas. p. Sociologia e Administração de Empresas.. p. indivíduo por natureza. organização. 219. São Paulo: Editora Atlas. Ainda de acordo com Motta. São Paulo: Atlas. M. como um resultado de transformações objetivas. classes a uma “ficção” da esquerda. bem como formas de resistência a tais inovações gerenciais foram desenvolvidas pelos trabalhadores. OLDRINI. 1980. Trad. F.] dissimula a historicidade de suas categorias [. conforme ao novo tipo de trabalho e de produção”4 .] constitui-se na mais sofisticada representação ideológica produzida pela pequena burguesia intelectual : a ideologia do fim das ideologias por quem não possui ideologia alguma [. faz parte da estrutura global da realidade como uma derivação última de um longo e complicado processo de mediação. (grifos nossos) 5. 2002. tendo por objetivo transformar a mente do trabalhador e produzir uma subjetividade conveniente à sua exploração. Segundo Motta. 1992. O surgimento da teoria gerencial se deu neste escopo. que desenvolveram pesquisas empíricas em contraposição aos pressupostos da Escola de Administração Científica6. também os discursos gerenciais tentam mascarar e subverter a luta de DEJOURS.. 1945. esta inaugurada com os princípios de administração do trabalho formulados por Fayol. 117. longe de preceder. concomitante a competitividade e rivalização dos trabalhadores na busca por “reconhecimento e valorização”. como Chester Barnard. Boston: Division of Research Graduate School of Business Administration. reproduz as condições de opressão do homem pelo homem. seu discurso muda em função das determinações sociais. os já conhecidos turnover.

Dissertação (Programa de Pósgraduação em Ciências Sociais). BATISTA. embora ele não produza artigo algum que não seja a operação e coordenação da empresa”13. Depois do marxismo. que apesar de sentido em todas as dimensões sociais. sendo este último o autor da chamada Teoria Y. 14 BERNARDO. 11 BRAVERMAN. Entretanto. e as tarefas de controle e da administração do capital foram transferidos para um corpo técnico gerencial. op. procedente dos novos grupos ligados ao setor de serviços . 9 . Também destacaram-se no interior da perspectiva behaviorista da administração Elliot Jaques. 83. 1977. Trad. cit. de Harry Braverman. O lado humano da empresa. 10 BATISTA. das quais podemos apontar a gestão do empowerment12 como uma das versões atuais. A formulação de McGregor se deu no intuito de contrapor o enfoque dado pela Escola Clássica (Teoria X) e trazer à tona a responsabilidade da organização em criar as condições necessárias para que o trabalhador aflorasse suas melhores capacidades e fosse possível um clima de motivação mútuo9. na medida em que o objetivo era garantir a produtividade a partir da negação do antagonismo entre capital e trabalho e do envolvimento do trabalhador com a tarefa realizada10. Este controle invisível seria o que o autor chama de “Estado Amplo”. e por isso. Daí as formas de organização do trabalho ultrapassarem as fronteiras da fábrica e da administração científica e tomarem formas sociais. João. o dilúvio? Revista Educação e Sociedade. de todas as instituições da sociedade capitalista que executam processos de trabalho. A fantástica fábrica de dinheiro na trilha do empowerment: o discurso gerencial do Banco do Brasil. Trabalho e capital monopolista. São Paulo: Martins Fontes. rompeu com a idéia de que a satisfação do trabalhador por si só era geradora de maior produtividade.. as vertentes híbridas ou compostas pela OCT e técnicas toyotistas de gerenciamento de trabalho se apresentem como novas ou revolucionárias por enfatizarem o “lado humano” da empresa e supostamente terem abandonado o “lado selvagem” do antagonismo inerente à relação capital . foram descartadas por métodos mais requintados: tudo isso representa lamentável má interpretação da verdadeira dinâmica do desenvolvimento da gerência “11 . As teses iniciais da ERH tiveram divulgação a partir dos anos 1930. e. que além de gerirem o processo produtivo. A degradação do trabalho no século XX. em que os gestores são representantes híbridos tanto das classes assalariada como capitalista. seriam. não é visível materialmente. Esta falsa noção contribuiu para que no desenvolvimento da ideologia gerencial até os dias atuais. nº 43. fundamentais na estrutura de dominação capitalista. e daí terem libertado McGREGOR. E. administradores.p.] ou que está “fora de moda”. de fato. Rensis Likert e Douglas McGregor. típica do capital monopolista. 228. sobretudo. p. gerentes. de uma teoria que integra regras e padrões de produção para as relações humanas no trabalho. controladora do tempo dos trabalhadores. op. 13 BRAVERMAN. que ele “fracassou” [. independentemente de serem proprietários dos meios de produção (capitalistas tradicionais). Os corpos biológicos são disciplinados e articulados para absorver e disseminar os comportamentos sociais requeridos para a manutenção da dominação14. Os gestores seriam mais que meros superiores hierárquicos. Chris Argyris. o autor ressalta que enquanto processo de trabalho. uma nova classe efetiva. Existe uma interpretação equivocada de que a ERH tenha rompido ou superado os métodos e princípios tayloristas-fordistas. A síntese da “obediência taylorista” aliada à “iniciativa toyotista”. porque certas categorias tayloristas. Caixeiro. dezembro/1992. e que já havia sido apontada em um trabalho pioneiro. ou somente teria delineado novos limites e complexidades entre estas duas classes fundamentais? O Poder Gerencial: nova classe ou novas relações entre as classes? Para o autor português João Bernardo. mas não menos responsáveis pela fatia do poder da classe dominante. apropriando-se tecnicamente dos padrões fordistas-tayloristas de gestão e produção e combinando-os estrategicamente com os padrões de flexibilidade elaborados pela ERH e pelo toyotismo.trabalho. Nesta nova composição. que propaga a ética do que caracterizo como obedecer com iniciativa. Dessa forma vem à tona a questão do poder gerencial.como diretores. cit.O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? oposição à Escola Clássica e embora partilhasse de quase todos os pressupostos da ERH. “É impossível superestimar a importância do movimento da gerência científica no modelamento da empresa moderna. H. – com funções instáveis e posições de alta rotatividade. em que a imposição de comportamentos disciplinares escamoteia os objetivos econômicos. quando o foco dos administradores era o aumento da produtividade e redução de custos.72 . separou o vínculo direto entre o capital e seu proprietário individual. do ideológico. mas. 12 A gestão do Empowerment seria a nova roupagem da administração americana para a ideologia gerencial. 1980. A noção popular de que o taylorismo foi “superado” por escolas posteriores de psicologia industrial ou “relações humanas”. do tempo da produção. ou ainda. trata-se do que ele denomina de “gestores do capitalismo”. D. Nathanael C. Marília: 2007. em que a gerência do capital assume papel determinante.. Rio de Janeiro: Zahar Editores. mesmo a parte “administrativa” é absorvida por “processo de trabalho rigorosamente análogo ao processo da produção. controlam o ambiente de trabalho empresarial. daí representarem uma nova perspectiva não só do ponto de vista econômico. este poder gerencial teria resultado em uma nova classe social. Universidade Estadual Paulista. sobretudo. Outro ponto fundamental que Braverman ressalta é o de que a administração moderna. o trabalhador. como chefia funcional ou seus esquemas de prêmio incentivo. especuladores.

A. Para Mills.73 Para Bernardo: “A confusão entre concentração do capital e centralização política é um dos aspectos da confusão entre relações sociais de produção e sistemas jurídicos de propriedade [. Rio de Janeiro: Zahar Editores. C. sendo o político (Estado). a tendência da organização moderna é a do processo gerido Idem. New York: Oxford University Press. e aqueles que têm por função perpetuá-la serão. através do controle exercido sobre toda a sua atividade.. a elite do poder moderna estaria concentrada na empresa. o poder pessoal era conquistado pelo “saber”.. Para além do socialismo. formando uma camada mais ou menos unificada dos white-collars. como na grande empresa. O poder era pessoal. A classe dos gestores. o poder é o organograma.. Assim. O autor analisa diferentes enfoques do que denomina ser a natureza desta “elite do poder” através da historicidade das contradições e jogos de interesses que permeiam a sociedade norte-americana. C. Por outro lado. No bojo deste novo grupo. segundo um procedimento definido de antemão. que justamente por serem diretos podiam ser também diretamente questionados. White. Nº 7. Ainda que em determinadas unidades empresariais esta hierarquia pessoal ainda exista. em vez de levar à concentração das formas tradicionais de propriedade. Julho 2009 (70-74) . 2002. Recuperando-se o paralelo entre João Bernardo e Mills. que responde a um superior imediato. onde cada cargo está prescrito por regras institucionais que regem o processo de trabalho. expunha o chefe para o bem e para o mal de forma que o poder podia ser aceito ou repudiado diretamente na figura do chefe.. Adeus ao proletariado. 398-399. que se apropria coletivamente do capital mediante o controle exercido sobre certas instituições é assim apagada e confundida com os trabalhadores. 1975. 16 15 Supondo que as informações e os processos se encadeiam a partir do simples funcionário.Collar: the american middle classes. “O controle operacional recai cada vez mais sobre um funcionalismo gerencial para cada empresa. 72-73. o “conhecer” do negócio. Rio de Janeiro: ForenseUniversitária. op. principal estrato da nova classe média americana. GORZ. que foi inventado por homens para garantir com uma quaseautomaticidade a submissão hierárquica de outros homens”. eles próprios. W. oportunisticamente dividido de acordo com as alianças do momento. o corporativo (grandes Companhias) e o militar16. juntamente à partilha do poder sobre ele. em geral.] não são mais os homens que possuem o poder. p. 50ª Ed. Antes. 19 18 . para o sociólogo americano Wright Mills o poder se dá em três níveis. diluiu-se o poder pessoal no poder funcional. da mesma classe. este não defende a formação de um grupo independente das frações hegemônicas dos proprietários pertencentes à classe burguesa. Paralelamente. O controle e a dominação anteriores. chamando a atenção para o aspecto institucional da ideologia gerencial: “A dominação nunca será exercida por pessoas nem dependerá de sua autoridade pessoal.. importante mecanismo do poder já que os diretores e principais executivos administram uma das principais fontes de riqueza do capital produtivo. cit. O poder pessoal do chefe ou do “dono” se transferiu para a função que determinado gestor ocupa no processo. impessoalmente através do poder funcional. passando a ser funcional. Braverman converge sua análise para a idéia de uma caracterização por aspecto das classes capitalista e assalariada. tendo poder sobre o volume e fluxo dos bens de consumo. na abstração do Povo [. Uma vez que tanto o capital como o gerenciamento profissional – em seus níveis mais altos – são retirados. previamente determinada pela posição que o sujeito ocupa no organograma da empresa18. pelo contrário.W. acarretou a sua fragmentação e dispersão”15..] Engrenagem de um mecanismo montado. Nestas três esferas estão os grupos que tomariam as decisões sobre os rumos do mundo. 17 MILLS. que por sua vez é subordinado hierarquicamente a outro. Há casos em que o próprio presidente de uma unidade de um grupo multinacional não é sequer acionista da companhia.] são conjuntos de administradores quem efetivamente detém cada empresa. o burocrata é o instrumento de um poder sem sujeito: no aparelho de Estado. Gorz trabalhou oportunamente esta faceta das relações de poder e da burocracia empresarial como ideologia de dominação em seu polêmico livro “Adeus ao proletariado”. este também não representa o poder pessoal de fato. os chamados whitecollars17. são as funções de poder que possuem os homens [. é mais uma alegoria simbólica que vende sua imagem e não se responsabiliza pelo processo de trabalho em si. pode dizer que BATISTA. a única proprietária formal dos meios de produção. 1982.História & Luta de Classes.] reduz os capitalistas à burguesia. e assim sucessivamente até o topo do organograma. e a superioridade de “ser chefe” se demonstrava daí. executores dominados e não chefes [. em que se fundamentou a hegemonia alcançada pela classe dos gestores. Ângela Ramalho Vianna e Sérgio Góes de Paula. quando se chega a um diretor-geral ou no presidente da organização. Será exercida pela via institucional. (grifos nossos)19. MILLS. hoje é uma questão de “atribuição da função”. p.. no capitalismo de tipo ocidental a concentração econômica.. e sim uma reorganização administrativa das classes proprietárias. dos administradores do capitalismo. Mills classifica a participação da fração corporativa da elite do poder como o principal estrato que compõe a nova classe média americana. Trad. A elite do poder.

os administradores do capital seriam uma fração da classe assalariada que detém maior parcela do poder por estar diretamente vinculado à estrutura de dominação do topo para baixo. 221. por outro lado. Também admitem a classe média. O grupo dos white-collars ou dos gestores já adquiriram os valores da classe capitalista. Para participar como administrador do capital o gestor não precisa possuir a riqueza ou a propriedade dos meios de produção do capitalista. F. Manifesto do Partido Comunista. 2002. antigamente unidos numa mesma pessoa. as normas. a solidariedade de classe necessária para a tomada de uma consciência emancipada. que. reacionária em sua natureza por agir no limite do oportunismo para ascender ou conservar sua posição21. juntamente aos comerciantes. Em outras palavras. e pelos trabalhadores assalariados vendedores de força de trabalho..al.. proprietário e administrador. se esconda atrás do poder funcional. São Paulo: Boitempo Editorial. de hierarquia e subordinação como inalterável ditame da “própria natureza”. atingindo dimensão social e convertendo-se num processo de “educação capitalista” para a classe proletária que serve ao ocultamento da luta de classes e à manutenção do processo de exploração da força de trabalho e da reprodutibilidade do capitalismo. Neste caso. ENGELS. representados respectivamente pelo capitalista proprietário dos meios de produção. a Teoria Geral da Administração e as práticas gerenciais cumprem um papel ideológico. MARX. C. Para esta finalidade. a única potencialmente revolucionária. os apontamentos de Braverman são mais adequados na medida em que o autor trabalha com uma caracterização dos administradores que utiliza aspectos das classes fundamentais. Tal fração da classe proletária parece dotada de uma subjetividade alienada num nível mais complexo na medida em que ideologicamente representa a classe dominante. como relacionamento determinado de poder. I. não basta que se imponha a divisão social hierárquica do trabalho. historicamente contingente e imposta pela força. agora tornam-se aspectos da classe”20. Tem-se a impressão de que o gestor é dividido entre o homem e o chefe. entendidas em sua oposição e relação permanentes. Para além do capital. sobre os aspectos funcionais/técnicos do processo de trabalho. Dessa forma. O estranhamento no interior desta fração da classe assalariada permite que a figura pessoal do BRAVERMAN.O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? os dois lados do capitalista. os interesses dos que detém a propriedade privada. portanto. o que dificulta. cit. sem deixar de pertencer economicamente à classe trabalhadora. 1998. talvez seja mais apropriado interpretar a formação de uma nova relação entre as classes fundamentais. gerente. 99. pelo qual a desigualdade estruturalmente reforçada seja conciliada com a mitologia de “igualdade e liberdade” 22. sem convertê-los em uma terceira classe. Entretanto. Segundo Meszáros: “Como necessidade igualmente inevitável sob o sistema do capital. permitindo que enquanto “homem” o gestor se aproxime dos subordinados pelo poder pessoal. . dificultando a contestação direta porque dilui o poder gerencial e a figura do opressor acaba por oscilar entre o chefe.descensão suficiente entre as classes fundamentais para a criação de uma terceira classe composta pelos administradores do capital. In: COUTINHO. que se estende para além do espaço de trabalho. Esta transformação nas relações de poder no trabalho possibilitou uma mobilidade de tal segmento gerencial. Utilizando esta formulação como critério para divisão fundamental entre as classes. também dependem do poder pessoal na medida em que em alguns casos é o carisma individual que motiva o funcionário a “vestir a camisa”. o poder pessoal e o poder funcional são manipulados na ideologia gerencial. senão obstrui. Campinas: Editora da Unicamp. as duas categorias claramente diferentes da “divisão do trabalho” devem ser fundidas. Considerações Finais A partir das proposições trazidas neste artigo. daí a composição dos aspectos da classe dominante com a assalariada. a contraditoriedade da ideologia gerencial é conveniente à sua manutenção neste aspecto. independente da posição que ocupe. e enquanto “chefe” imponha o poder funcional. É também forçoso que ela seja apresentada como justificativa ideológica absolutamente inquestionável e pilar de reforço da ordem estabelecida. os manuais. o regulamento. estas classes fundamentais são a burguesia e o proletariado. Conforme Marx e Engels. op. K. N. p. São Paulo: Fundação Perseu Abramo.74 . já foram cooptados ideologicamente pela doutrina administrativa gerencial. [et. Rio de Janeiro: Contraponto. o pessoal e o profissional. de modo que possam caracterizar a condição. 21 20 22 MÉSZÁROS.p. representando. o que facilita a aplicação das técnicas gerenciais de controle.] O Manifesto Comunista 150 anos depois. composta pelos pequenos produtores rurais e industriais. mas que parece não significar uma mobilidade de ascensão .

a dicotomia sociedade civil e Estado. Não obstante. e. não é possível qualquer tipo de reivindicação e disputa por fora das regras estabelecidas. México: Ediciones Era. 4. SARLET. Por sua vez. pelo outro lado. 3).75 Estado Democrático e Social de Direito. uma vez que o Estado democrático e social de direito é considerado como a única forma de organização política da sociedade capaz de garantir os clássicos direitos individuais e promover as ações de bem-estar social. 1977. O costumeiro argumento para contrapor essa tese diz. contrapontos ao puro e desenfreado liberalismo praticado após as revoluções burguesa e industrial. sem se dirigir à causa dessa convulsão –. por um lado. M Reis. É bastante comum a concepção de que só existe o caminho de organização política propugnado por esse modelo de Estado. como se o palco da política fosse exclusividade da esfera estatal. Para conhecer o neoliberalismo. o consenso seja alcançado. 1999. ou como conseqüência daquela compreensão de que o alargamento dos titulares dos clássicos direitos individuais e o surgimento dos direitos sociais foram *Mestre em Direito e Políticas Públicas pelo UniCEUB (Centro Universitário de Brasília). o que significa que: um modelo de Estado capitalista não reflete as diferenças entre os indivíduos existentes na sociedade. isto é. Tratado de economia marxista. internacional e comparado. 112-128. Também é corriqueiro o pensamento de que o Estado democrático e social de direito se opõe ao neoliberalismo. visto que ele compõe e brotou do modo de produção capitalista. Assessor Técnico do Senado Federal. 4 MANDEL. 3 MANDEL. Assim. Todavia. essa tese pressupõe que o Estado democrático e social de direito atenderia aos fins econômicos do capital. Ernest. sociais e culturais – servindo como resposta para evitar uma convulsão social. cap. tanto que. Ernest. E. o que evitaria perder de vista o grande avanço que se supõe para o desenvolvimento da humanidade a emancipação política que esse modelo de Estado garante. . Lisboa: Antídodo (Coleção Argumentos. 1998 2 SALAMA. No seu núcleo estrutural estão às relações sociais do modo de produção capitalista3. Pierre. Jacques. p. muito pelo contrário. é bom lembrar que esse modelo de Estado é apenas rótulo de um Estado capitalista.História & Luta de Classes. pobrezas y desigualdades en el Tercer Mundo. Professor de Direito da Universidade Católica de Brasília. Buenos Aires: Minõ y Davila editores. seja porque este pode ser caracterizado pelo binômio desmanche dos mecanismos de bem-estar social e precarização da classe trabalhadora1. se esse modelo de Estado ampliou os beneficiários dos direitos individuais e criou os direitos econômicos.Direitos fundamentais sociais: estudos de direito constitucional. como se o Estado democrático e social de direito fosse readaptado para os padrões atuais e se transformasse em uma resposta às políticas neoliberais2. 2003. a partir daí. que ela não leva em conta o simbolismo de uma dimensão prospectiva de conquistas. Neoliberalismo. há uma mística apologia ao chamado Estado democrático e social de direito. Ele funciona como controle social. VALIER. se fazem abstrações dessas diferenças para que possa ser declarado que todos os indivíduos são iguais. por um lado. João José. Rio de Janeiro: Editora Renovar. pelo outro lado. São Paulo: Publisher Brasil. mantendo presente. 301-394.). 1972. Nº 7. o olhar crítico sobre o Estado democrático e social de direito focalizaria a perspectiva de um modelo de Estado que diretamente contribuiu para o processo de acumulação e reprodução em momentos de crise capitalista4. 3º edicíon. In: ___ (Org. a concepção de que os indivíduos que são membros da comunidade política são seres abstratos. pois se presume que tal modelo de Estado possibilita que todos os interessados sejam ouvidos e. Ingo Wolfgang. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Hélio de Souza Rodrigues Júnior* I ntrodução O presente texto tem como ponto de partida que o Estado democrático e social de direito exerce a função de salvaguardar e legitimar o modo de produção capitalista. de predomínio neoliberal. É o que se verá a seguir. Teoria marxista do Estado. Tomo II. supostamente. p. Trad. especialista em Filosofia Política pela UFC (Universidade Federal do Ceará) e especialista em Direito Constitucional pela UNIFOR (Universidade de Fortaleza). isto é. Reforma constitucional e proibição de retrocesso. contextualizá-lo e refutar o argumento que busca colar nos críticos ao Estado democrático e social de direito a pecha de economicistas. para desnudar essa concepção mística que envolve o Estado democrático e social de direito. 1 NEGRÃO. Politizando a questão sobre o Estado democrático e social de direito Nos dias de hoje. a maneira escolhida para submeter à crítica o Estado democrático e social de direito foi politizá-lo. Julho 2009 (75-81) . v.

se está dizendo por meio indireto que não há outro caminho a seguir. o Estado democrático e social de direito como reflexo da economia. Controle social. na atmosfera social que influencia as decisões judiciais e a própria estrutura social”6. 6 BOTTOMORE. um argumento para se contrapor a esse ponto de partida é minar o seu pressuposto: de que o Estado democrático e social de direito decorreria do interesse e da necessidade do próprio capital em preservar uma dada estrutura social que com ele fosse adequada. O exemplo concreto sobre o antagonismo da luta dos movimentos sociais e o Estado democrático e social de direito dos dias de hoje é paradigmático. Thomas Burton. 238. enquanto que as idéias sobre o que é. Por conseguinte. 1975. funciona como controle social. a difusão da reforma social e as doutrinas igualitárias. mas interagindo em relação a ela. por um lado. pois estes não agiriam dentro dos parâmetros da lei. mas ao modo de produção que é capitalista.76 . fazendo com que a luta de classe fique descaracterizada de qualquer ruptura com a ordem posta. Não obstante tais hipotéticas refutações ao ponto de partida da crítica desenvolvida neste texto. as abstrações se tornam o fundamento da realidade ou a explicação da história social. mas subordinam a concepção desse Estado ao seu sistema de pensamento. 1-66. e na natureza das decisões judiciais referente às penalidades impostas aos crimes contra a propriedade. o debate sobre a questão do uso de algemas ou de interceptações telefônicas. das regras emanadas de um Estado democrático e social de direito. . Brasília. 6.. ed. As políticas sociais brasileiras: diagnóstico e perspectivas. tudo isso provocou modificações na legislação. De qualquer modo. 7 GRAU. a ascensão no início do século XX do Estado de bem-estar social em alguns países europeus afastaria tal situação. a ampliação do direito de voto. Por outro lado. do capitalismo. poderia ser novamente invocado o argumento de que o Estado é produzido pela estrutura econômica. daí que as relações concretas da sociedade condicionam o Estado e o direito positivo7. a objeção à crítica ocorreria no sentido de que o seu embasamento está em que esse modelo de Estado é exclusivamente reflexo da economia. tende a fazer desaparecer certos costumes e atitudes e a difundir outros. pelo outro lado. tal Texto está dizendo para os socialistas de fé no misticismo do Estado democrático e social de direito que lutar contra a apropriação dos meios de produção é medida inconstitucional.. p. mas o Estado e o direito condicionam a economia. com reflexos em um particular Estado social brasileiro que foi construído ao longo do século XX5. são vários os exemplos atuais da mística que envolve o Estado democrático e social de direito. tais como. Aliás. São Paulo: Editora Malheiros. E isso significa: transformar esse modelo de Estado em processo de evolução natural.Estado Democrático e Social de Direito. Paginação irregular. nela produz alterações. Não é que os teóricos e defensores do Estado democrático e social de direito neguem a existência.. cap. p.. como é e o porquê do Estado democrático e social de direito prevalecem sobre a história social. uma vez que a crítica formulada já parte do patamar de que o Estado democrático e social de direito exerce a função de salvaguardar e legitimar o modo de produção capitalista. 4. a influência e a repercussão das estruturas sociais. não se trata de relacionar. De qualquer modo. 4. argumentar-se-ia que no século XIX o Estado moderno podia ser estudado como reflexo do poder de uma classe dominante. Eros Roberto. Mas.). A concepção do direito deverá ser 5 DRAIBE. 2000. 3. Assim é que “se todo Estado tende a criar e a manter um certo tipo de civilização e de cidadão (. O direito posto e o direito pressuposto. o direito será o instrumento para essa finalidade (. Ou seja. mar. ou alternativa. Por conseguinte. Introdução à Sociologia.ed. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Ora. A economia condiciona o Estado e o direito. v. indicaria a necessidade de serem definidas as noções. Para a Década de 90 Prioridades e Perspectivas de Políticas Públicas. Sônia M. inclusive. Interessante lembrar sobre este último exemplo que o Texto Constitucional brasileiro garante o direito de propriedade privada dos meios de produção. In: __. “o crescimento do movimento trabalhista. exclusivamente. um modelo de Estado que.). das ações estatais. porque simboliza que a concepção que cria uma apologia ao Estado democrático e social de direito – e seus respectivos direitos fundamentais de proteção individual e social – restringe o campo da atuação política ao modelo liberal-capitalista. p. isto é. a tentativa de criminalizar os movimentos sociais. In:__. ocultando o elemento significativo de que o Estado e seus respectivos direitos foram estabelecidos para realizar e reproduzir certo modo de funcionamento social. Como isso. contribuiu para o processo de acumulação e reprodução capitalista e. a não ser o rumo do modelo de organização política da sociedade dado pelo modo de produção capitalista. exclusivamente. elementos e compreensão sobre se isso é tática ou estratégia política de enfrentamento ao modo de produção capitalista. Rio de Janeiro: Editora Zahar. ou ainda.1990. o Texto Constitucional cria restrições às ações de expropriação por meio de proteção especial àquelas propriedades que cumprem a função social. Nota introdutória sobre o direito. pois naquela época as influências classistas sobre as leis podiam ser facilmente percebidas no caráter da legislação. Contextualizando o Estado democrático e social de direito: Economicismo e Ambiguidades Note-se que. ao estabelecer que a propriedade privada deva cumprir com sua função social. 34-35. isto é. E sem que a luta de classe represente ruptura social. este aborda o Estado democrático e social de direito como reflexo do modo de produção capitalista e não. de tal modo que a história social perde-se.

Cit. não ferindo de morte os seus interesses mais genuínos. Eros Roberto. bem como.Lisboa:Moraes Editores. de maneira inequívoca e concreta – ou que permite uma leitura coerente e sustentável –. Uma introdução crítica ao direito. ou representação. Contudo. 10 MILIBAND. ou melhor. e mantêm a formação da base social capitalista. MIAILLE. no que diz respeito à questão da instância neutra. p. 28. o Estado democrático e social de direito é parte de um todo social complexo e específico. 1979. velar pela salvação pública denominada de bem comum.77 libertada de todo resíduo de transcendência e de absoluto. as formas nas quais tal Estado se acha organicamente ligado à reprodução dos interesses desse modo de produção. segundo o modo de produção predominante. na medida em que não se quer extrapolar o objeto delimitado neste texto. Rio de Janeiro: Zahar Editores. 2002. 1972. isto é. é perfeitamente razoável pressupor que esse modelo de Estado possa contrariar interesses do modo de produção dominante. na medida em que os interesses econômicos são satisfeitos em caráter prioritário. o ponto inicial da crítica adotada neste texto ao Estado democrático e social de direito não o coloca como reflexo da economia. uma função. um espaço. No que toca a idéia do consenso. sistema. reconciliar aparentemente indivíduos. p 139-140. políticas. Civilização Brasileira. por isso. O esclarecimento é notório: como o Estado democrático e social de direito está assentado em uma base social capitalista. também. ele é partes desse 8 GRAMSCI. salvaguarda e legitima esse modo de produção. p. Michel. o modo de produção enseja a existência de uma estrutura política. cultura que viabilizam. os modelos de Estados funcionariam de maneira diferente. Com isto. tal parece ser objeto de decisões políticas que se harmonizaram. p. surge um problema: como caracterizar de um modo preciso a preponderância política de uma classe ou fração? O indicador mais seguro dessa preponderância é a repercussão objetiva da ação estatal no sistema de posições relativas de que participam as classes dominantes e as frações de classe dominante. consolidam. Maquiavel. do modo de produção capitalista. o Estado democrático e social de direito não é instrumento da classe burguesa. atribuindo-lhe características próprias. Pode-se apenas dizer que no bojo das classes dominantes. de modo que o 12 13 GRAU. Cit. Mas. O desdobramento da crítica em relação ao prisma do modo de produção indica a noção de que os tipos de Estados não são imagens de um fenômeno social natural e eterno que atravessaria as épocas e as sociedades sempre iguais a si próprias9. estruturas econômicas. garante a prevalência daqueles direitos. O Estado na sociedade capitalista. Ralph. Ao contrário. é preciso ter sempre presente dois aspectos: Primeiro. Portanto. cuja função primeira seja ordenar a desordem. de maneira que se pode sustentar que detém preponderância a classe ou a fração cujos interesses são prioritariamente contemplados pela política econômica e social do Estado12. porquanto ele não é compreensível senão em função deste todo10. Ob.História & Luta de Classes. eles são a representação dessa classe. significa que esse todo dá ao Estado democrático e social de direito uma concepção. uma classe ou fração prepondera politicamente sobre as demais. Ob. o pressuposto é que ele foi obtido pelo combate político travado. praticamente de todo fanatismo moralista”8. via a estrutura estatal distinta e superior aos interesses travados na sociedade13. Cadernos do Cárcere. Nº 7. é perfeitamente razoável pressupor que os interesses do modo de produção dominante contrariados pelo Estado democrático e social de direito sejam pontuais e temporários. Por sua vez. Cumpre acrescer que afirmar que esse modelo de Estado é reflexo. de que existe um consenso. Segundo. quiçá instrumento político manipulável. repita-se. 124-128. 79. Michel. de modo que sob tal prisma o Estado democrático e social de direito decorre do interesse e da necessidade da base social capitalista em constituir. Cit. daí o porquê do valor desta (aparente) função de apaziguamento e de regulamentação pacífica dos conflitos. esse ir ao encontro tem o significado de uma representação harmônica. é preciso apreciar o Estado democrático e social de direito para evitar fazer dele um quadro investido pela classe burguesa. p. no caso. Ed. 9 MIAILLE. Antonio. ele é reflexo do modo de produção capitalista. 45. Quando se sustenta que o Estado democrático e social de direito é reflexo do modo de produção capitalista e. 49. ou mesmo como puro reflexo causal do capitalismo. valores. E tal. Em suma. p. Entretanto. Notas sobre o Estado e a Política Vol 3. de que existe uma instância neutra e técnica onde esse consenso é possível de ser realizado. . e deve ser esclarecido para evitar a ambigüidade de concebê-lo como instância apartada da sociedade e/ou técnica-neutra. A conclusão da crítica de que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista compreende o sentido de que ele vai ao encontro desse modo de produção. o Estado democrático e social de direito não é instrumento a serviço de um sistema sociopolítico. do modo de produção capitalista significa que existem indicadores observáveis que mostram. onde é possível conciliar interesse antagônico das forças políticas. Ob. Julho 2009 (75-81) . Caderno 13. Resignificando Mialle11. consolidar e manter uma dada estrutural social que com ele fosse adequada. eles não são instrumentos da classe burguesa. 11 MIAILLE. Aqui não se faz mais do que levantar a questão. 2º edição. Definitivamente. ele é a representação dessa classe. instituições sociais. O Estado não é instrumento mais ou menos dócil e eficaz entre as mãos da classe burguesa: ele é uma das formas sociopolítica dentro da qual esta classe exerce o seu poder. não aqueles mais genuínos.

Aliás. abaixo. das políticas sociais processos que estão muito distanciados de uma pura conexão causal entre os seus protagonistas. 1975. Desentendimentos na classe burguesa Salama e Valier18 dizem que o Estado. levam alguns de seus atores profissionais a uma relação muito mediatizada com as classes sociais) tornam a formulação GRAMSCI. Isto indica uma das respostas. pode resolver provisoriamente essa contradição. De fato. pois o capital cedeu para manter os negócios do capital. 15 NETTO. necessita do apoio político das camadas subalternas. p.Uma Introdução à Economia Política. ao fato de que existem conquistas sociais no modo de produção capitalista. SALAMA. Capitalismo Monopolista e Serviço Social. Por outro lado. esses autores19 ainda dizem que. 2001. p. ou das leituras possíveis. 1. 16 Idem. correspondendo àquelas disputas dentro do espaço político estatal. e por isso atende aos seus interesses mais genuínos com prioridade. algumas vezes. não pode deixar de ser também econômica. a oferta de políticas sociais em vista da demanda das classes subalternas pode ser oferecida na medida exata em que elas podem ser refuncionalizadas. inclusive enquanto complexificação da análise. Disto. como a dominação política da burguesia funda-se. que sejam levados em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida. 33. com ambigüidades de três facetas: desentendimentos na classe burguesa. 3. ou puro nexo causal. p. 177. cap. decorrem fundamentalmente da capacidade de mobilização e organização da classe trabalhadora “a que o Estado. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira. decorre que. p. é o local onde se armam os conflitos entre as diferentes camadas da burguesia. o Estado. E esse autor desfecha: “Entretanto. tomado em seu conjunto. VALIER. do Estado como instrumento ou capturado pela burguesia. p 48. por exemplo. Portanto. mas de atendimento aos próprios interesses do modo de produção capitalista: primeiro. dado que. capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora e as fissuras da instituição do Estado. José Paulo. que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativa.9. ed. mas de atendimento aos interesses do próprio modo de produção para eliminar parte da própria burguesia e assegurar os monopólios. apenas a título de reforço da argumentação e sem maiores desdobramentos. mas também é indubitável que tais sacrifícios e tal compromisso não podem envolver o essencial. e. essas ambigüidades do modo de produção capitalista podem ser compreendidas da seguinte maneira: resignificando Netto15. 18 17 É importante esclarecer que quando a crítica formulou e sustentou que o Estado democrático e social de direito é reflexo do modo de produção capitalista. p. Ele cedeu para assegurar o seu modo de produção. In:______. elas são resultantes extremamente complexas de um complicado jogo em que protagonistas e demandas estão atravessados por contradições. indubitavelmente. Veja-se. isto é. como a classe burguesa recebe sua legitimidade política das eleições. que ela criou. onde poderão ocorrer os conflitos entre a própria classe dominante20. ela não desconsidera a existência de ambigüidades sociais. o modo de produção capitalista permite compreender o Estado democrático e social de direito. ela implica na eliminação de uma parte da burguesia. 20 Idem. p. que se forme um certo equilíbrio de compromisso. diz Gramsci: “O fato da hegemonia pressupõe. 33. A diferenciação no seio da burguesia. E. In:___. perfeitamente compreendida na dimensão de que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista. A existência deste Estado apenas coloca a sua possibilidade. portanto. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Estado não irá ferir de morte o modo de produção que lhe seja mais característico. 176 19 Idem. confrontos e conflitos. não se trata de ceder. cada uma delas. a dinâmica das políticas sociais está longe de esgotar-se numa tensão bipolar – segmentos da sociedade demandante/Estado burguês no capitalismo monopolista. e que não será capazes de ferir de morte tais interesses. 33. cap. denota-se que a funcionalidade do Estado democrático e social de direito para o modo de produção capitalista não equivaleria a verificá-los como decorrência natural. As condições histórico-sociais da emergência do serviço social. Jacques. Vale acrescentar. não pode deixar de ter fundamento na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica”14. São Paulo: Cortez Editora. e os exemplos são inesgotáveis.Estado Democrático e Social de Direito. pode assim ser levado a impor a uma parte da classe determinadas soluções adequadas ao interesse político da classe em seu conjunto. São exceções que confirmam a regra geral. como por exemplo. vez que os direitos sociais. 177. com autonomização da atividade política. Antonio. os seus interesses e as suas estratégias”17. Pierre. Com efeito. se a hegemonia é ético-política. As intervenções do Estado. em última instância. por meio de composições.78 . por vezes. sobre a acumulação progressiva do capital. responde com antecipações estratégicas”16. Cit. 14 . três outros pontos que permitem a leitura de que não se trata de cessão. os cortes no conjunto dos trabalhadores e as próprias fissuras no aparelho do Estado (que. Ob. na medida em que a concretização dependeria da luta de classes. tal como a sincronia entre previdência Idem.

por meio da conquista de novos direitos. por um lado. subestimando a assinalada capacidade de mobilização e organização da classe trabalhadora. 634-674. na implantação de certos direitos sociais. São Paulo: Editora da Unicamp e Boitempo editorial. 1998. eles foram conjugados com o que se chamou de desentendimento entre as classes dominantes. O Estudo da Política: Tópicos Selecionados. (Org. Segundo. e acentuar. 16. medicamentos 21 . a defasagem entre aquilo que é proclamado e aquilo que é cumprido pelo Estado na aplicação da lei leva os trabalhadores à ação reivindicatória.História & Luta de Classes. 28 Idem. acomodando-se. A taxa de utilização decrescente no Estado Capitalista. proclama a legitimidade e a possibilidade de realização do princípio da igualdade sócioeconômica. certas limitações imediatas da demanda flutuante do mercado. de que pode resultar. 23 SAES. p. as obras e serviços não lucrativos são custeados ou subvencionados pelo Estado. p. vez que do ponto de vista do capital. 29. n. 12. cap. É que contra a operação dessa dialética. na medida em que as lutas populares seriam. 21 As fissuras da instituição do Estado No que tange as fissuras da instituição do Estado. essa capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora.79 pública e privada e as empresas privadas no setor da saúde – serviços. perfazendo com que o Estado democrático e social de direito possa ser melhor compreendido como reflexo inteligível desse modo de produção. seria ponderável buscar atribuir à crítica defendida a pecha de puro nexo causal da economia. portanto. István. resume-se no seguinte sentido: a coexistência. o trabalho não é somente fator de produção. delas podendo resultar a criação de novos direitos”29. a processos capitalistas de concentração econômica que só fazem crescer a disparidade social”26. Julho 2009 (75-81) . inclusive. É nessas circunstâncias que se abrem melhores oportunidades para as lutas populares. a melhoria na qualidade de vida do trabalhador. e. 231-260. Análise de política públicas: conceitos básicos. aquilo que a instauração de direitos civis prometeu e não cumpriu: a realização da igualdade entre os homens.). e terceiro. 28. além do que não são desprezíveis as demandas e gastos do Estado. como faz crer os teóricos da formação do Estado democrático e social de direito. mas também a massa consumidora tão vital para o ciclo normal da reprodução capitalista22. como por exemplo. Todavia. Nº 7. “ela só garante um padrão material mínimo a todos. consubstancia faceta das ambigüidades do modo de produção capitalista. 24 Idem. se a concepção da crítica ao Estado democrático e social de direito fosse restrita aos três pontos acima levantados. p. p. In:___. continua o autor. Efetivamente. 12. para os fins deste texto. que os três pontos levantados são imperiosas fontes de análise para a compreensão do modo de produção capitalista. Mas é importante perceber. Maria das Graças. pois muito embora esta autora esteja situada na restrita e despolitizada ótica de que as políticas sociais são relações entre a sociedade civil demandante e o Estado. Brasília: Paralelo 15. acolhe os interesses do próprio modo de produção capitalista. Ele cita Göran Therborn como quem melhor conceituou essa dinâmica. via o consumo. esse autor diz que “o processo de criação de direitos numa sociedade capitalista é necessariamente um processo conflituoso. p 28. bem como a dos segmentos burocráticos que as representam”27 sempre empenhadas “em reduzir os direitos vigentes na sociedade capitalista àquele mínimo indispensável à reprodução do próprio capitalismo”28. 28. e pelo outro lado. Idem. p. Portanto. desde que potenciadas pelas dissensões internas das classes dominantes nos planos nacional e internacional. Para além do capital: rumo a uma teoria da transição. de uma prerrogativa real (a liberdade de movimentos) e uma declaração ilusória (a declaração de igualdade) provocam com que as classes trabalhadoras procurem obter. em seu aspecto de força de trabalho. 2002. linear. p. embora não contraditório”24. sem nenhuma perspectiva de evolução histórica natural. Assim. In: Maria Carvalho. 27 Idem. na forma jurídica. Idem. porque a política pública compreenderia um conjunto de procedimentos destinados à resolução pacífica de conflitos em torno da alocação de bens e recursos públicos. (coleção relações internacionais e política) 26 25 . instrumental. 29 Idem. 30 RUA. Décio Azevedo Marques. Saes25 constrói uma dialética da forma-sujeito de direito para demonstrar o papel da mobilização e NETTO. no caso. Cit. atendendo ao imperativo abstrato da realização do capital. Assim. Revista crítica Marxista. resta demonstrada a compreensão de que existem ambigüidades sociais no modo de produção capitalista que abrem espaço para os direitos sociais. 2003. p. Com uma pequena política social já se evita. como por exemplo. levanta-se “a vontade política das classes dominantes. pode-se resenhar Rua30 para entendê-las. A nova corporificação da forma-sujeito de direito. p. Essa vontade política só se enfraquece “quando surgem dissensões políticas importantes no seio das classes dominantes. 22 MÉSZÁROS. gradativa e seqüencial. p. Ob. repita-se. 15. na linguagem econômica. 28-29. organização da classe trabalhadora que. 29. o fator determinante no processo global de criação de direitos na sociedade capitalista. Capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora Saes23 nos diz que os teóricos do Estado democrático e social de direito caracterizam este modelo de Estado como processo evolutivo natural.Cidadania e capitalismo: uma crítica à concepção liberal de cidadania. apagando os limites impostos pelo modo de produção capitalista e ocultando as tensões e dificuldades inerentes ao processo de conquista dos direitos.

) Essa efetiva resolução não significa nada tecnicamente perfeito. que seriam os agentes políticos e os burocratas e. todos tendo “algo a ganhar ou a perder com as decisões relativas a uma política”. então. p. ela diz que “tudo é permeado por cálculos políticos.p 236-238. Daí se forma as arenas políticas. de um lado.. bens. Assim. E pode-se finalizar: “Nada disso garante que a decisão se transforme em ação e que a demanda que deu origem ao processo seja efetivamente atendida. p. os chamados atores públicos. o intercâmbio ou a troca de favores. de maneira que. ou entidades de direitos internacionais. Ou seja. tornou-se necessário politizar e contextualizar o Estado democrático e social de direito. 234. sociais e culturais. Todavia. 37 Idem. de apoio e até mesmo de benefícios. O jogo político que é travado na formalização do Estado democrático e social de direito demonstra que esse Estado e respectivos direitos. como dinheiro. em um determinado problema político. ao neoliberalismo. manifestação pela imprensa ou greves de fome. Todos esses complexos e freqüentes conflitos ventilados por Rua reforçam a compreensão de que o Estado democrático e social de direito – e seus respectivos direitos econômicos. p. ou contraponto. com a imposição de obediência. p. quando Rua trata do comportamento dos atores nas formulações das políticas públicas. pode-se dizer que o foco do texto foi submeter à crítica o Estado democrático e social de direito. e tal se dá em função das suas preferências e expectativas de resultados. compreender que o Estado democrático e social de direito reflete o modo de produção capitalista. Ou ainda. do outro lado. . os chamados atores privados. Neste contexto é que surgem as decisões.Estado Democrático e Social de Direito. expressas pela imposição de danos ou prejuízos ou pela suspensão de favores ou de benefícios. mas o poder efetivo e as habilidades políticas dos proponentes e dos adversários de uma alternativa para negociar. 35 Idem. O que moveria o jogo do poder não é a lógica de um curso de ação. as ameaças. 251. 243.80 . nem as rotinas. numa tentativa de encontrar soluções negociadas nas quais “todas as partes sintam-se mais ou menos satisfeitas. organizacionais. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista como exemplo maior para o Estado democrático e social de direito. ela enumera como espécies de atores políticos. 243. apesar de todas as possibilidades de negociação. Conclusão Portanto. advêm das fissuras da instituição estatal. nesse jogo. 238. (. atores transnacionalizados e a mídia32. Idem. médio ou longo alcance”37. Como essa solução é realmente difícil de ser obtida. 34 Idem. Significa o que politicamente se considera uma 'boa decisão': uma decisão em relação à qual todos os atores relevantes acreditem que saíram ganhando algo e nenhum deles acredita que saiu completamente prejudicado. coletivas. 38 Idem. mas apenas uma decisão política que foi uma boa decisão porque foi a melhor possível naquele momento específico. além das políticas públicas – pode muito bem representar não uma resposta. Finalmente. E mais. na razão em que nada garante que a decisão se transforme em ação.. que não representaria os conflitos travados na sociedade. demandando a criação de políticas públicas e/ou direitos sociais. a autora diz34 que para entender o processo de formulação e implementação de uma política pública é preciso saber que os atores fazem alianças ou entram em disputas. como se todos acreditassem que ganharam alguma coisa”36. p. o exercício da autoridade. técnico. e as negociações e os compromissos. agências internacionais. outros governos. Nesse diapasão. além de refutar a pecha de economicista. Rua35 nos afirma que no jogo do poder são diversos os procedimentos ou táticas utilizados pelos atores. tais como a persuasão. 250-251. para obter vantagens individuais. usam de todas as estratégias e de todos os recursos disponíveis. muitas vezes. de modo que estas fissuras são elementos que afugentam a pretensão idílica de um Estado neutro. de curto. Rua31 reconhece a influência da sociedade internacional. E também não existe relação ou vínculo entre o conteúdo da decisão e o resultado da implementação. a saber: empresários. não existe vínculo ou relação direta entre o fato de uma decisão ter sido tomada e a sua implementação. entre outros. os atores fazem todas as alianças possíveis. trabalhadores. 36 Idem. considera-se também uma boa decisão aquela que foi a melhor possível naquele momento específico”38. Ademais. p. e que nesse modo de produção existem ambigüidades que envolvem complexidades e contradições. cargos. 33 Idem. 32 31 Idem. à guisa de conclusão. Assim. desnudando o seu caráter de salvaguarda e de legitimação do modo de produção capitalista. não nega o predomínio marcante desse modo de produção para a constituição daquele modelo de Estado. desmistificando a sua relação com o modo de produção capitalista. 241. isso não significará neutralidade ou tecnicidade da instituição estatal. p. barganhar até obter uma solução que lhes seja satisfatória. além de manifestações coletivas.

a capacidade de organização e mobilização da classe trabalhadora e as fissuras da instituição do Estado como aberturas que viabilizam os direitos econômicos. indicando que esse modelo estatal está assentado no modo de produção capitalista. muito pelo contrário. que corporifica o desentendimento da classe burguesa. o texto sustentou que esse modelo de Estado não é instrumento. sociais e culturais. a tese de um predomínio dos motivos econômicos na crítica ao Estado democrático e social de direito. espaços e características. adotando um ponto de vista que complexifica a questão para a totalidade. funções. tal consideração afasta a concepção do Estado democrático e social de direito do conjunto de concepções míticas.que se opõe ao neoliberalismo. decisivamente. Julho 2009 (75-81) . e será incapaz de ferir de morte os interesses basilares desse modo de produção. técnico e neutro. É importante perceber que a compreensão do Estado democrático e social de direito como reflexo do modo de produção capitalista significa que esse modo de produção atribui ao Estado concepções. que supostamente consagram conquistas de todas as sociedades ou da humanidade e poderá caminhar ao rumo do socialismo. visto que a argumentação exposta refuta. Logo. ele é uma das formas sócio-políticos dentro da qual a classe dominante do capital exerce o seu poder.81 Por conseguinte. além das políticas públicas. Por sua vez.História & Luta de Classes. a crítica ao Estado democrático e social de direito não têm sustentação no monocausalismo economicista. uma vez que a crítica ampliou o leque do debate para as ambigüidades desse modelo de Estado. . pois dificilmente a classe dominante iria usar o poder contra si mesma. Nº 7.

Pretendiam avançar gradualmente no que chamavam de construção do socialismo” (p. pela via pacífica.) El golpe de Estado em Chile. Por isso. não se pode esquecer que o triunfo da Unidade Popular. mas foi a culminação de um prolongado esforço de formação de consciências. isentando a figura de Allende e defendendo a tese da aliança nacional.O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile Waldir José Rampinelli* Resenha do livro: MONIZ BANDEIRA. 346). o Movimento de Ação Popular (MAPU). uma multidão calculada em 800. ao passo que os segundos buscavam a ruptura da legalidade e o desmantelamento do Estado existente. e. como conseqüência do apressamento e da radicalização do processo revolucionário. Agustín. Aponta contradições nas forças de esquerda entre as perspectivas *Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina com doutorado em Ciências Sociais-Política pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. no Chile. “para lançar as classes médias na oposição. desestabilizá-lo e justificar o golpe de Estado” (p. de organização popular e de lutas comunitárias cujas origens se remontam ao início do século XX.82 . que o golpe de Estado acontecido em 11 de setembro de 1973 fora sucessivamente postergado por três razões: a) a defesa intransigente do legalismo do general Carlos Prats. No entanto. 132). Dialéctica del proceso chileno: 1970-1973. ao longo do livro. a transição ao socialismo chegou a ser uma possibilidade nos anos 1970. é o nome que o historiador Luiz Alberto Moniz Bandeira dá para o seu livro sobre a derrubada de Salvador Allende. Isso marcava a ambigüidade política da Unidade Popular e impedia a execução conseqüente de seu programa de governo. Ele afirma que “Allende e os comunistas. 2008. rampinelli@globo. o Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR). Por outro lado. Coordenador do Núcleo de Estudos de História da América Latina (NEHAL) da Universidade Federal de Santa Catarina. Moniz Bandeira responsabiliza os movimentos e partidos radicais de esquerda como também os movimentos e partidos radicais de direita pelo caos no Chile (1970-1973). órmula para o caos. c) a resistência armada de grupos revolucionários próAllende e o conseqüente receio de uma guerra civil. no Chile. p. México: Fundo de Cultura Econômica. o autor mostra. Era exatamente esta conjuntura que dava à esquerda da Unidade Popular as razões para avançar na radicalização do processo rumo ao socialismo.000 pessoas marchava pelas ruas de Santiago em apoio ao presidente. (CUEVA.com F dos gradualistas e dos rupturistas. regional e internacional era totalmente desfavorável. Isso. objetivamente. que cada vez mais se configurava. Recorre à história das guerras de independência e da formação do Estado nacional na América Latina para explicar o surgimento do militarismo. diz que sua radicalização estava servindo. mas que efetivamente o representavam orgânica e ideologicamente. o PC e os setores moderados do PS compreendiam que a . No dia 4 de setembro de 1973 quando o governo de Allende completava três anos desde que fora eleito. que gerou o caudilhismo e que por sua vez criou a cultura do golpe de Estado contra projetos nacional-populares. já que os primeiros defendiam a implantação gradual do socialismo. uma facção da esquerda do Partido Socialista (PS) e uma parte da esquerda cristã do Partido da Democracia Cristã (PDC). em 1970. Quanto ao MIR. pois não se tratava de um projeto de um grupo de intelectuais ou de uma ação limitada de alguma vanguarda desvinculada das massas. Luiz Alberto Moniz Bandeira. 640 p. não se deu apenas por conta de uma divisão interna na classe dominante. mas sim de algo surgido destas mesmas massas e das organizações que não falavam em nome do proletariado. Ele parte do pressuposto de que seria impossível se chegar à implantação do modo de produção socialista pela via democrática como queria Allende. Moniz Bandeira atribui a fórmula para o caos exatamente aos movimentos e partidos de esquerda. apenas sete dias antes do golpe. podendo qualquer um dos lados sair vencedor. tinham consciência da ameaça do golpe de Estado. entre eles. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. 1975. Pedro (Org. palavras tiradas de um telegrama da Agência Central de Inteligência (CIA) dos Estados Unidos. na condição de comandante-emchefe do Exército. 338). In: VUSKOVIC. e menos ainda pelo caminho das armas como defendiam alguns movimentos revolucionários. já que a conjuntura local. Luiz Alberto. mais realistas. Isso nos diz que a sociedade chilena estava profundamente dividida em uma crescente luta de classes. Fórmula para o caos: A derrubada de Salvador Allene 1970-1973. b) a incerteza da unidade das Forças Armadas na derrubada de um presidente constitucional. reduzir mais e mais as bases sociais de sustentação do governo. Enquanto isso “Allende.

Em outro momento do trabalho. secretário-geral. do ferro. a abertura de canais de participação por meio dos quais os próprios trabalhadores vão tomando o controle destas atividades. dentro da moldura constitucional. Chega a defender a tese de uma aliança nacional com a burguesia para restaurar a democracia representativa. Carlos Prats e Toríbio Merino – empobrecendo as informações e argumentações e. Embora tais deficiências não comprometam a leitura. O que levou o historiador brasileiro a escrever sua versão dos fatos e sua análise deste golpe de Estado parece ser o acesso privilegiado que teve às fontes primárias do Itamaraty. Na verdade. A Editora Civilização Brasileira. por outro lado esquecendo-se de alguns livros muito significativos como Una sola lucha. p. precedido de ampla divulgação. assessorada pela CIA. 444) ou de datas alteradas (p. às profundas transformações econômicas que abriram caminho para um desenvolvimento nacional independente em favor das grandes maiorias. de Agustín Cueva et alii. Na verdade. depois que integrantes de movimentos revolucionários e partidos políticos. Nestes escritos está. elogiando o autor do trabalho. concessão inaceitável. 9-10). cit.) op. por fim. (VUSKOVIC. Passa a nítida impressão de ter encontrado uma caixa ou pasta com documentos inéditos sobre aquele regime e querendo aproveitá-los para tornálos público. passando a idéia de um determinismo histórico. o autor se vale demasiadamente de fontes não primárias – como as memórias de Carlos Altamirano.83 Unidade Popular não tinha condições de avançar mais rapidamente o processo revolucionário. Chega a fazer um agradecimento especial ao ministro Hélio Vitor Ramos Filho. tais como a nacionalização do cobre. sem mostrar as relações profundas com o golpe de Estado chileno. em destaque na capa do livro. a redução drástica do latifúndio. Mais proveitoso seria se tivesse apresentado a política internacional do pluralismo ideológico de Salvador Allende que se opôs de forma contundente a de fronteiras ideológicas das ditaduras de segurança nacional. possivelmente pressionada pela data. Moniz Bandeira. o autor dedica um capítulo inteiro (cap. assim como ao término da grande distribuição atacadista. ao mesmo tempo. ausências de preposições e de conjunções. inclusive porque a oposição era predominante no Congresso” (339). In: VUSKOVIC. Dos años de política económica del gobierno popular. de Pedro Vuskovic e El golpe de Estado em Chile. como inevitáveis. do cimento e de outros setores industriais. enviados de Santiago para Brasília pelo embaixador do Brasil Antônio Cândido da Câmara Canto que servia aos interesses das forças conservadoras. no entanto. economistas e sociólogos já tivessem feito suas avaliações sobre a via chilena para o socialismo. ela trabalhou diuturnamente. Augusto Pinochet. tendo-se em conta que este mesmo periódico apoiou enfaticamente o golpe de Estado no Chile. já que as mesmas deveriam estar à disposição de todos os pesquisadores.) sobre a derrubada de Salvador Allende. com o apoio explícito dos Estados Unidos. Por fim. mas pelos PCs de toda a região. a visão de um golpista secundário. diretor do Departamento de Comunicação e Documentação (DCD). esta posição reformista vai permitir a organização e o avanço da contra-revolução.. Moniz Bandeira apresenta um longo trabalho (640 p. intelectuais de universidades chilenas e estrangeiras. não teve o tempo necessário para rever os escritos que apresentam erros de idioma. dedica muito tempo a elas. (Org. Além desta limitação. ao analisar as ditaduras militares que rodeiam o Chile. portanto. preparando o caminho para o golpe de Estado. quando não de traduções do espanhol e do latim equivocadas (p. Por isso. reservou um espaço enorme aquele país. mostram. em seu livro. Por outro lado. não seria recomendável uma citação do jornal Clarín. xv) a analisar e descrever a ditadura uruguaia. contra a resolução dos problemas e. (p. com muitas informações. 124). além de ceder o prefácio ao embaixador Samuel Pinheiro Guimarães. defendida não apenas pelo Partido Comunista chileno (PCch). O livro Fórmula para o caos foi lançado concomitantemente no Brasil e no Chile. pelo seu aprofundamento. As medidas do Programa do Governo Popular não só enfraqueceram a burguesia como lhe tiraram a sustentação de seu poder econômico. O autor não dá a devida atenção. já que apresenta estes governos impostos pelas Forças Armadas. . Julho 2009 (82-83) . a estatização do sistema bancário. Nº 7. Pedro. Moniz Bandeira analisa os acontecimentos chilenos manuseando preponderantemente documentos brasileiros. do salitre. ao fim do controle do monopólio privado da indústria siderúrgica. uma falta de rigor na impressão. fazendo com que ela perdesse parte da dominação de classe. P. 40-41). tal estratégia não deixa de ser uma capitulação. no 35° aniversário da queda de Allende. não se dando conta de que esta mesma burguesia não permitiria tocar na economia de mercado e tampouco realizar as pretendidas reformas. por ter autorizado a desclassificação de documentos que proporcionaram todas as facilidades para a realização da pesquisa.História & Luta de Classes. do carvão e de outros recursos básicos do país.

entre 1842 e 1848. Esta concepção. 1 Além de textos escritos por Marx e Engels. os dilemas enfrentados pelos trabalhadores dos Estados germânicos e a organização da Liga dos Comunistas. Na época em que foi jornalista da Gazeta Renana Marx travou contato com as questões sociais como é fácil de perceber no acompanhamento dos trabalhos da Dieta e. MARX. no debate sobre o roubo de lenha dos bosques. exceto mito e promessa. São Paulo: Global. e seus primeiros trabalhos sobre a questão do Estado e do direito a partir de Hegel. e depois redator deste jornal. Pode-se dizer que quando foi colunista. grande parte de seu esforço intelectual estivera voltado para uma empreitada contra o Absolutismo da Confederação Germânica. Tal plataforma democráticoburguesa concluía com um apelo para uma aliança entre trabalhadores e pequena burguesia: “Para consolidar os interesses do proletariado. Essa ligação com os liberais. informações que ultrapassavam os limites do cotidiano e avançavam sobre a explicação da realidade econômica inglesa2. concebera a revolução proletária como tarefa a ser pensada e realizada em condições determinadas historicamente. 1966. 1977. MARX. **Professor Aposentado do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UNICAMP. o socialismo francês.43) “A revolução está morta! Viva a revolução!” (Karl Marx. Suas atividades de jornalista na Gazeta Renana foram exercidas à custa do financiamento de setores da burguesia descontentes com o governo de Frederico Guilherme IV.N. expressou-se. sobre a liberdade de imprensa. As lutas de classes na França. deixando pouco. Antônio de Pádua Bosi* Edmundo Fernandes Dias** . que iria abandonar mais tarde. 1991. particularmente um árduo defensor da liberdade de imprensa e um crítico do Absolutismo3. Alimentava-se também das informações que seu amigo Engels lhe fornecia. F.54) ento e sessenta anos atrás o continente Europeu foi varrido por uma onda revolucionária. as revoluções de 1848 surgiram e quebraram-se como uma grande onda. Lisboa:Edições Avante. A Era do Capital. 2ª ed. LEFEBVRE. 1850. à época batizada de “Liga dos Justos”. Isaiah. depois de ver frustradas suas expectativas de se tornar professor na Universidade de Bonn1. Lisboa:Edições 70. Seu observatório estava fixado na cidade de Colônia. Marx mostrou-se um democrata. p. London:Penguin Books with New Left Review. por exemplo. Karl Marx. nas conversas com Proudhon e outros socialistas. A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra. onde ele e Engels apresentaram um Programa Democráticoburguês sob o título de “As Demandas do Partido comunista na Alemanha”. 2 ENGELS.84 . *Professor do Curso de História e do Programa de Pós-Graduação em História da UNIOESTE. utilizamos três biografias sobre Marx. no contexto de uma formação social capitalista politicamente organizada e dirigida pela burguesia. et all. As Lutas de Classes na França (1848-1850). 1956. Rio de Janeiro: Editorial Vitória Limitada. foi marcado pela oposição à ultra-esquerda e pela rejeição à militância exercida distante das aspirações dos trabalhadores.. Nasceu desse contexto sua recusa à concepção hegeliana da burocracia vista como classe universal. p. Para Compreender o Pensamento de Karl Marx. Influenciado pela situação política na Confederação Germânica. 1983. era pensada por ele como uma etapa de transição. São Paulo:Edições Siciliano. FEDOSSEIEV. Henri. liquidada pelo recuo da burguesia. etc. BERLIN. Karl Marx. isto é.1848: O Ano do Mouro 1848: O Ano do Mouro Resenha do livro: MAX. 1980. No que se refere aos movimentos franceses Marx os conhecera in loco. Foi nesse contexto também que nasceu a amizade e o trabalho comum com Engels. da pequena burguesia e do campesinato alemães é preciso trabalhar energicamente para implementar as medidas acima [explicitadas no documento]”4. 1973. Sua experiência com os movimentos sociais até então se fizera basicamente a partir de uma atenta observação sobre o cartismo. 4 3 . C Neste mesmo período. Porto Alegre:L&PM. A liberdade de Imprensa. Àquela época Marx tinha 30 anos. onde sobrevivia como jornalista na Gazeta Renana.” (Eric Hobsbawm. K. Seu primeiro contato com a Liga dos Comunistas. K. p... The Revolutions of 1848.103. Karl. em especial. P. 1985. num comunicado de março de 1848 da Liga dos Comunistas dirigido aos trabalhadores alemães. que o “introduziu” no estudo das questões econômicas.

p. “Prefácio”. principalmente porque era fortemente reivindicada pelos povos da Confederação Germânica8. com isso.85 Sua crítica também avançara sobre a esquerda. 11 MARX. Assim. Esta ocupava o trono. Proudhon foi duramente questionado pela suposta ingenuidade de pensar uma organização social baseada no cooperativismo como forma de superação do capital5. Nº 7. Certamente este episódio marcou para ele os limites da ação revolucionária da burguesia. Periodismo Revolucionário. No Manifesto do Partido Comunista. 5 levou Marx a reconhecer também os limites de seu próprio entendimento acerca da realidade. ministros e líderes políticos de direita e de esquerda. O início da década de 1840 foi desastroso para os trabalhadores da Confederação Germânica.164-172. encontrei-me pela primeira vez na obrigação embaraçosa de dar minha opinião sobre o que é costume chamar-se os interesses materiais”9.. conforme ele mesmo indicou no Prefácio de 1859: “Em 1842-1843. já com a colaboração de Engels. Marx soldou sua compreensão sobre a impossibilidade de uma aliança dos trabalhadores com setores da burguesia para a realização da própria revolução burguesa. além do breve período em que participou da organização dos trabalhadores emigrados no debate com as teses de tipo blanquista. A noção de que toda a História era a História da Luta de Classes. São Paulo:Martins Fontes. oferecendo uma interpretação materialista da História. Marx. É neste período que surge a preocupação com os “interesses das classes” na História. 5ª ed. 8 .marxist. resultante da abolição da propriedade privada (Manifesto do Partido Comunista). 9 MARX. Isto foi suficiente para fazer cessar a oposição ao Antigo Regime e à concepção de propriedade ancestral.org>. os reis da Bolsa. K. as classes passaram a ser vistas e analisadas a partir de seus interesses materiais e das relações de forças resultantes entre elas. até 1848. A Gazeta Renana. 6 MARX. à frente da “Nova Gazeta Renana”. comercial e manufatureira. ditava as leis nas Câmaras e distribuía os cargos públicos.. F. Miseria de la Filosofia. 1983. 1975. F. K. Julho 2009 (84-86) . Biblioteca Virtual Revolucionária. 1983. Não se tratava mais de escrever crônicas políticas em tom ácido. fecharia as portas e. havia crivado na literatura de esquerda o significado mais popularizado do movimento histórico. os proprietários de minas de carvão e de explorações florestais e uma parte da propriedade territorial aliada a ela – a chamada aristocracia financeira . “Marx and the 'Neue Rheinische Zeitung' (1848-1849). 10 ENGELS. e é provável que tenha sido de lá que saíram muitas das reflexões que deram forma à “Lutas de Classes na França”10. muito provavelmente. A Nova Gazeta Renana. Embora bastante informado sobre os acontecimentos em todo continente. de maneira mais sistematizada. F. Contudo. falando sobre o contexto de uma revolução burguesa em que os donos de fábricas e seus ENGELS. enredadas nas ações e pensamentos de imperadores. em seguida. A pena de Marx ficara sem apoio. In Select Works. perderiam força as expectativas de Marx acerca do papel revolucionário da burguesia. o próprio Marx só havia pensado que a nova sociedade seria escorada num tipo de propriedade coletiva. Karl. MARX. Foi ele próprio quem esvaiu qualquer ilusão a esse respeito. Oprimidos por privilégios feudais que encareciam a produção agrícola. Sua abordagem passou a cortar mais fundo o tecido social. “Prefácio”. p. os reis das estradas de ferro. à época em que dirigiu a Gazeta Renana. uma das experiências mais importantes vivida por ele foi a curta aliança com setores da burguesia. sem outro meio senão sua ira. 7 ENGELS. os trabalhadores começaram diversas rebeliões que amedrontaram não somente a aristocracia germânica – os junkers -. p. mas uma fração dela – os banqueiros. Respuesta a la 'Filosofia de la Miseria' del señor Proudhon. Disponível em: <http://www. Moscow:Progress Publishers. As Lutas de Classes na França (1848-1850). 1956. A organização capitalista do trabalho e a questão do processo de trabalho ainda não ocupavam um lugar central em seu pensamento. embora tenha esboçado importantes reflexões acerca do processo de alienação do trabalho6. O 18 Brumário. particularmente estudadas em “Lutas de Classes na França (1848-50)”.31-32). e criar uma solução de passagem para uma Monarquia Constitucional onde haveria lugar para a composição dos interesses das classes dominantes. Moscou:Editorial Progreso. Rio de Janeiro:Editorial Vitória Limitada.20. Primeiros Manuscritos Econômicos e Filosóficos.História & Luta de Classes.23. que seria revista à luz das revoluções de 1848. 1956. alcançando os interesses de classe e das frações de classe que cada personagem buscava ensaiar: “Quem dominou sob Luís Filipe não foi a burguesia francesa. p. serem alicerçadas nos interesses materiais das classes e de suas posições. K. México:Ediciones Roca. In Contribuição à Crítica da Economia Política. MARX. 1986. Rio de Janeiro:Paz e Terra. mas também a burguesia financeira. Suas análises partiam de um desenho inicial da divisão da sociedade para. quando iniciou sua primeira avaliação de fôlego sobre os levantes populares de 1848 e 1849: “Nenhuma celebridade republicana tem estado com o povo! Sem outra direção [política]. a ação prática de Marx como dirigente político se desenvolveu muito mais em território germânico. No calor de 1848. Na prática. localizada na cidade de Colônia. [o povo] tem resistido à burguesia e ao exército unidos”7. K. In MARX. 1985. O reconhecimento de que a luta pela democracia política não seria conduzida à frente pela própria burguesia. Foi nesses escritos que. simplificou as possibilidades de conflito a uma contradição bipolar. dos ministérios às lojas de tabaco” (Marx. na qualidade de redator da Gazeta Renana. Este ponto recebera um tratamento lapidar na confecção das “Lutas de Classes na França”. Pode-se dizer que “Lutas de Classes na França” foi a ante-sala do “18 Brumário”11. Karl. sufocados pela organização manufatureira do put out system que necessariamente intermediava todo o resultado do trabalho de tecelagem.

Hobsbawm não teve razão quando avaliou que “as revoluções de 1848 surgiram e quebraram-se como uma grande onda. MARX. 14 MARX. Em meio à reação que tomou conta da Europa. The Revolutions of 1848. Henri. p. Junto com Engels explicitou tal compreensão quando. mas “não a fazem como querem. Nesse ponto.86 . Para Compreender o Pensamento de Karl Marx. 5ª ed. membro da câmara dos deputados no período de 1839-1848. Ali. exceto mito e promessa”. 1966. 1986. sua pena ficaria marcada para sempre pela experiência de 1848-50. enfrentou os anos mais difíceis de sua vida. havia significado: subversão da forma de governo”14. Marx conferiu o maior peso das mudanças ao processo histórico. compreender e explicar os acontecimentos a partir das lutas de classes. Por esse motivo. ministro do Interior (12/1848 a 5/1849). em março de 1848 na França. Leon Faucher ou Bastiat12 só foram lembrados por ele porque expressavam os interesses de seus pares contra um governo dominado pela aristocracia financeira. p. se demonstrara uma habilidade inigualável ao seu tempo para analisar. reascendendo os movimentos sociais e a possibilidade revolucionária17. A luta de classes ganhava tonalidades mais variadas. Grandin. Aprendera no ano de 1849. consomem e trocam.147-159. Rio de Janeiro:Paz e Terra. legadas e transmitidas pelo passado”13. London:Penguin Books in association with New Left Review. E. numa crítica feita à Proudhon. a exemplo de outras lideranças da esquerda como Louis Blanqui. Ainda não chegara à célebre formulação de que os homens fazem sua própria história. Debeladas as revoluções de 184849. escrito em 1859. antes de fevereiro. quando os setores das classes dominantes na França que atentaram contra o governo da aristocracia financeira agiram para conter as mudanças pretendidas pelos trabalhadores mobilizados. são transitórias e históricas”16. Leon Faucher (18031854) foi economista malthusiano. K. mas a base histórica para tal reflexão certamente foi o período revolucionário de 1848-50. sem ignorar os condicionantes ideológicos. (Marxism Internet Archive).205-208.. ao passo que. deixando pouco.17. Lisboa:Edições 70. 15 LEFEBVRE. 17 MARX. Marx definiu a diferença entre Regime Político e Ordem Social. In Miseria de la Filosofia. Karl. 12 histórico retirado de 1789. Contra as evidências da tendência revolucionária. Frédéric Bastiat (1801-1850). Mil oitocentos e quarenta e oito foi o ano do Mouro! E isto pode ser conferido em “As Lutas de Classes na França”. 1985. foi membro da Câmara dos deputados durante as Assembléias Constituinte e Legislativa. Respuesta a la 'Filosofia de la Miseria' del señor Proudhon. a ação dos governos e a debilidade das frações burguesas deram um resultado distinto do esperado. Tal prognóstico indicava ainda que a crise de natureza financeira seria responsável por fortes repercussões políticas. Bakunin e Blanc. O quadro a partir do qual ele desenvolveu os estudos que se consagraram em “O Capital” foi o pior possível. a Europa viveu quase 10 anos de ininterrupto crescimento econômico. Este último artefato teórico foi-lhe fundamental para observar e analisar prováveis trajetos que traçavam o campo de forças político onde a História era decidida. Encontrava-se premido pelo isolamento político (que em regra estendera-se sobre toda a esquerda revolucionária). p. Marx. O 18 Brumário. revelando seus ritmos e reveses: “O 25 de Fevereiro de 1848 deu à França a República. já havia elaborado uma reflexão talvez mais rica – sobre o sentido histórico das transformações sociais.. colocando em plano de exame a Revolução Inglesa de 1640-88: “.V. Para as classes trabalhadoras tais revoluções ensinaram e armaram definitivamente o mais perspicaz dos combatentes comunistas. p. 16 . Annenkov”. que a ordem social dominante poderia resultar de composições políticas esdrúxulas e inimagináveis. havendo um descompasso entre as relações sociais de produção e as formas legais que lhes conferem significado abre-se uma época de “revolução social”. economista liberal. Marx reconheceu sua própria imperícia quando prognosticou para o ano de 1850 o agravamento da crise econômica na Europa. não podia resultar do desejo e da vontade de qualquer vanguarda que fosse. 1956. Porém.1848: O Ano do Mouro representantes buscavam submeter o capitalismo a sua vida industrial. Na comparação direta entre fevereiro de 1848 e junho de 1849. “Marx a P. Rio de Janeiro:Editorial Vitória Limitada. K. enquanto o 25 de Junho lhe impôs a Revolução. e o processo histórico tornava-se mais difícil de ser decifrado. Marx expressara com muita clareza sua visão de que uma revolução não podia ser fabricada. divergiu radicalmente de militantes alemães emigrados que criaram uma “Legião Revolucionária” com o objetivo de “importar” a revolução francesa para a Confederação Germânica15. A interpretação dos acontecimentos apontava os pesos e contrapesos do processo revolucionário na França. a bússola que lhe orientava. 1973.265-277. pp. não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente. e o horizonte revolucionário experimentado no final da década de 1840 desapareceu. De qualquer modo. em 1846. As Lutas de Classes na França (1848-1850).54. desde junho. Não foi isso que ocorreu. as formas da economia sob as quais os homens produzem. arruinado financeiramente e absolutamente convicto de que o funcionamento do capitalismo era mais complexo do que pensara até então.. Relativamente ao parâmetro Victor Grandin foi um industrial francês (1797-1849). Durante a Segunda República foi deputado das Assembléias Constituinte e Legislativa. 13 MARX. Marx concebia “revolução” já nos termos sintetizados na metáfora contida no “Prefácio”. K. Mas antes disso. cada vez mais buscava explicações vinculadas aos interesses materiais das classes e de suas frações. Moscou:Editorial Progreso. revolução significava: subversão da sociedade burguesa. e ministro bonapartista (1851).

Como bem pontuou Dora Kanoussi no prefácio ao livro. p. Benedetto Croce. Rosa Luxemburgo. “bloco-histórico”.História & Luta de Classes. Álvaro. Pode-se dizer mesmo que. Nº 7. Vincenzo Cuoco. por iniciativa de intelectuais ligados aos PCs dos distintos países. Nesse ínterim é importante a crítica que o autor também faz às leituras de Carlos Nelson Coutinho e Juan Carlos Portantiero.87 A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Demian Melo* Resenha do livro: BIANCHI. e atualiza a importante polêmica que Edmundo Fernandes Dias (que Bianchi considera seu “importante interlocutor”. fazendo-o aparecer (e perecer. Não é exagero. Álvaro Bianchi nos apresenta uma leitura pouco usual do sentido das categorias gramscianas.. Para cumprir a tarefa de recuperar o sentido original das categorias gramscianas. o estudo é justificado a partir da constatação de que. Localiza a forma como Togliatti apresenta Gramsci como um teórico da cultura. Trotsky. ancorada na visão de Gramsci como um “teórico das superestruturas”. como a edição dos Quaderni feita por Valentino Guerratana e o estado da arte sobre a datação dos mais de trinta cadernos escritos. seja da tradição originada em Marx e Engels. recuperando as idéias dos seus principais interlocutores. um dos pioneiros e principais responsáveis pela difusão do trabalho do marxista sardo em terras brasileiras e autor de uma leitura canônica sobre Gramsci. este último. esclarecendo alguns nexos importantes e desfazendo algumas confusões comuns. Bianchi resgata o processo de elaboração dos cadernos. é comum verificar sua combinação eclética com conceitos estranhos ao materialismo. como Maquiavel. Giovanni Gentile. certamente um marco na literatura especializada. que envolveu a interpretação feita por Bobbio. ao tornar parte deste senso comum. U reorganizou as notas dos três tipos de cadernos dando um aspecto de obra acabada e apagando a distinção metodológica marxiana entre a pesquisa e a exposição do conhecimento. no contexto da luta contra as ditaduras latino-americanas em compasso com a crise e a decadência das organizações tradicionais da esquerda. nem sempre com o sentido original que estas categorias possuem na formulação original do autor dos Quaderni del carcere. seja daqueles oriundos da cultura italiana. Utiliza o material crítico disponível.9). O autor acompanha a fortuna crítica dos cadernos. “sociedade civil” etc. observando o caráter fragmentário com que os temas aparecem nos mesmos. Lênin. Retoma a importante polêmica em torno do conceito de “sociedade civil”. como é o caso patente da idéia tocquevilliana de sociedade civil. como ironicamente anota) ao lado de MarxEngels-Lenin-Stalin.18) fez com a narrativa de Carlos Nelson Coutinho sobre a publicação dos cadernos no Brasil. os conceitos de “hegemonia”. . para um estudo rigoroso. afastando-se das interpretações consagradas de um teórico da cultura ou da superestrutura. “Estado integral”. foi a base para as edições feitas na Argentina e no Brasil. e aqueles de redação única (B). Para dar cabo de recuperar o sentido original das categorias gramscianas. cotejada com um estudo criterioso das fontes utilizadas pelo marxista sardo é o que possibilita ser O Laboratório de Gramsci um trabalho de grande envergadura. Neste belíssimo trabalho. Categorias como “bloco-histórico”. a partir de autores como Gianni Francioni e o próprio Gerratana. afeito à tese da “conquista de espaços” na democracia. 2008. Em primeiro lugar. e não apenas na latino-americana” (p. Labriola. Vincenzo Giobert. onde é possível distinguir três tipos de cadernos: aqueles compostos de notas (A) que são retomados em outros cadernos (C). Contra tal leitura. onde o mesmo *Mestre e Doutorando em História (UFF). tais categorias afastaram-se e muito do sentido original e. ma leitura sistemática dos cadernos carcerários de Antonio Gramsci. São Paulo: Alameda. especialmente a partir da década de setenta do século passado. que. História e Política. a partir da primeira edição feita pelo dirigente comunista italiano Palmiro Togliatti. “hegemonia” e outras são passadas em revista. como é bem conhecido. já comentada acima e feita no ano de 1975. Julho 2009 (87-88) . suspendem o problema da mobilização políticoinsurrecional da análise da correlação de forças e apresentam Gramsci como um teórico da “longa marcha pelas instituições da sociedade civil”. “sociedade civil”. Discute ainda como tal edição togliattiana. Álvaro Bianchi insere Gramsci no debate cultural coetâneo. começaram a fazer parte de um “senso comum teórico”. cada um ao seu modo. localiza a importância da edição crítica de Gerratana. “intelectual orgânico”. a partir do que diz ser uma “leitura genética” dos Quaderni. Por fim. mais grave. o trabalho que temos em mãos ocupa um “importante lugar na literatura gramsciana em geral. O Laboratório de Gramsci: Filosofia. até o seu missivista Piero Sraffa. que envolvia Plekhanov.

. quanto os fenômenos do fascismo e do americanismo. é o “imediatamente decisivo” (p. Trata-se.199-251). Por fim. na verdade. que Gramsci utilizou para entender tanto o processo do Risorgimento italiano. o que reafirma Gramsci como teórico da revolução socialista no Ocidente. um dos pontos altos do livro é o capítulo dedicado à discussão do conceito de “revolução passiva” (p.88 . Melhor que tal uso seja feito com uma utilização rigorosa de tais conceitos. Discute como na fase mais sectária da Internacional Comunista. em contraste com as leituras reformistas que tomaram (e tomam) o conceito como programa político. tanto Gramsci quanto Trotsky defenderam a mesma tática de frente única. e nesse sentido O Laboratório de Gramsci torna-se uma leitura incontornável. o trabalho de Bianchi é de fundamental importância aos historiadores críticos que. No mesmo sentido. fugindo do estabelecimento de uma “falsa identidade” entre ambos. portanto o momento da insurreição. denunciando as interpretações que colocavam o mesmo ao lado da corrente stalinista. De particular importância é o capítulo dedicado a estudar os conceitos de guerra de posição e guerra de movimento. de um critério de interpretação histórico. onde é afirmado que o nível de forças militares.171). pensando a partir do campo da história. Isto não impede que Bianchi discuta as diferenças entre os dois autores. O autor localiza as posições de Gramsci em relação ao debate no interior do Partido Comunista russo.A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Bianchi lembra o § 17 do Quaderno 13. recolocando seu conteúdo negativo. 1928). têm recorrido ao instrumental teórico de Antônio Gramsci para organizar e conceber as hipóteses de suas pesquisas.253-296). quando da política do “terceiro período” e da teoria de que a social-democracia não passaria de uma ala do fascismo (VI Congresso. que envolve a polêmica de Gramsci com Trotsky (p. mais do que nunca.

reservando-se o direito de exame dos textos enviados espontaneamente à redação. em especial.com. Resenhas. página citada. mês e ano de publicação. ano de publicação. As citações de outros textos deverão estar entre aspas duplas no corpo principal do texto e a referência bibliográfica correspondente deve ser colocada em nota de rodapé. São Paulo: Xamã/FFLCH-USP. 2000. 2. 7.br] nasce em tempos de domínio social da barbárie neoliberal e de hegemonia conservadora no pensamento acadêmico. VIRGILIO. Segunda Guerra Mundial: um balanço histórico. SAMOILOVICH.). Cidade: Editora. 1997. Nome da revista em itálico.br ou para os organizadores de cada número.3. 3. out. Piñera. Julho 2009 . 5. 7.1. Eles definem os marcos referenciais para os interessados em colaborar com a revista ou propor sua integração ao coletivo da revista. nome.000 caracteres. O fim da Segunda Guerra e a contenção da revolução. p. todos os artigos serão submetidos a parecer. 149. 8. 22. os autores procurarão que seus artigos alcancem o mais vasto público leitor.000 caracteres. nome (org. Título do capítulo. Ex.). A rebelião dos marinheiros. Sem exceção.: BARRETO. Nº 7. 4. etc. GIANERA. Cronologia. escola. Teresa Cristófani. Número 9 – Teoria da História.com. em geral. Livros: Nome Sobrenome. página citada. Os artigos poderão ser enviados através de e-mail em arquivo anexado em formato Word para o endereço historiaelutadeclasses@uol. A revista História & Luta de Classes dirige-se aos estudantes e professores de história e ciências sociais. 123. Os originais deverão conter título. obedecendo à seguinte formatação: 7. A revista História & Luta de Classes [historiaelutadeclasses@uol. Ex: BROUÉ.: CAPITANI.2.História & Luta de Classes. Capítulo de livros: Sobrenome. com um máximo de 15. p. In: COGGIOLA. Pierre. com destaque para a área da História e das Ciências Sociais. Daniel. Porto Alegre: Artes e Ofícios. contando notas de rodapé e os espaços em branco. Os objetivos da revista História & Luta de Classes estão expressos na "Apresentação" do seu primeiro número. 7. Ela procura servir como ferramenta de intervenção de historiadores e produtores de conhecimento que se recusam a aderir e se opõem ativamente a essa dominação. A revista está aberta a propostas de colaborações. ano de publicação. p. Cidade: Editora. n. Pablo.89 Normas para Autores 1. Próximos Dossiês: Número 8 – Questão Agrária. Nome.). Ex. . Título do artigo. Os textos enviados deverão ser inéditos. na forma e na linguagem. e não excedendo os 35. (número). Sem concessões de conteúdo. no relativo à publicação impressa. 1995. n. (volume). Revista USP. Osvaldo (org. Título em itálico. v. Artigo de periódico: Sobrenome. Prazo para encaminhamento de contribuições: 30 de setembro de 2009. nome do autor e filiação institucional (universidade. 45. Título do livro em itálico. sindicato. In: Sobrenome. e ao grande público interessado. seguirão as mesmas regras. Prazo para encaminhamento de contribuições: Encerrado. Referências bibliográficas completas deverão constar em nota de rodapé (e não ao final do texto). 6. página citada. Avelino Biden.

Edmundo Fernandes Dias A leitura genética dos Cadernos de Gramsci Demian Melo .tra.p. Mística e Modo de Produção Capitalista: Uma leitura que refuta o rótulo economicista Hélio de Souza Rodrigues Júnior O Itamaraty e o Golpe de Estado no Chile Waldir José Rampinelli 1848: O Ano do Mouro Antônio de Pádua Bosi. o reforço do poder de Estado com a Lei de Segurança Nacional Diorge Alceno Konrad “Segurança para o Trabalho e as Realizações de Interesse Geral”: A busca do apoio político para o Estado Novo no Rio Grande do Sul Glaucia Vieira Ramos Konrad La lectura de Marx en clave clasista: el Si.una breve comparación con el Obrerismo Italiano de Quaderni Rossi y Classe Operaia Carlos Mignon Notas sobre o Estado no pensamento político de Ruy Mauro Marini José Carlos Mendonça O Quadro da Subversão no Brasil nos “Anos de Chumbo”: A visão dos Órgãos de Segurança e Informações Dulce Portilho Maciel Terrorismo de Estado e Operação Condor no Brasil: 30 Anos do sequestro político internacional dos uruguaios em Porto Alegre Ramiro José dos Reis 1986 . Fernando Gaudereto Lamas Contra o empoderamento da Aliança Nacional Libertadora.Estado e Poder ISSN 1808-09X 9 771808 091002 NESTA EDIÇÃO Estado e Educação Rural no Brasil: Política Pública e Hegemonia Norte-Americana Sonia Regina de Mendonça Relações entre Estado e Iniciativa Privada no Século XIX: Estudo de caso da Companhia União e Indústria Luís Eduardo de Oliveira. como órgano de expresión del Sindicato de Trabajadores de Perkins.A Repressão Fordista no ABC Paulista Michel Willian Zimermann de Almeida Estado. Poder e Movimento Sindical na América Latina: O diálogo necessário com as teorias de Trotski Gilson Dantas O Poder Gerencial no Capitalismo Contemporâneo: Nova Classe ou Novas Relações entre as Classes? Erika Batista Estado Democrático e Social de Direito. 1973-1975 .

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