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Fernando Correia Pina A Igreja Matriz de Fronteira em 1760 A Igreja Matriz de Fronteira em 1760 1. IntrodugGo Para obviar ao “grande detrimento” que a omissdo de seus antepassados havia causado nos bens da comenda de Santa Maria de Fronteira, requereu a comendadeira D. Maria Madalena de Portugal ao rei D. José, enquanto governador e perpétuo administrador da Ordem de Sao Bento de Avis, a mercé de Ihe ser passada proviséo para que o licenciado Bernardo Anté- nio de Matos, pudesse proceder ao “tombo, medigéo e demarcagéo das terras e tudo o mais que lhe pertence”, na forma dos definitérios da Ordem. Despachou favoravelmente o mo- narca a petigéo da dama de honor da rainha sua esposa através de diploma da Mesa de Consciéncia e Ordens de 11 de Janeiro de 1760 e, trés meses mais tarde, a 17 de Margo, iniciaram- se os trabalhos de inventariagéo que vi- riam a ser concluidos aos 26 de Junho do ano seguinte pelo Juiz de Fora de Cabeco de Vide, Lopo José Corte-Real e Vasconcelos. A minuciosa demarcagéo dos bens Fernando Correia Pina* da comenda entdo levada a efeito viria a materializar-se na elaboragéo de um monumental “Tombo da Comenda de Santa Maria da Vila de Fronteira”, hoje no Arquivo Distrital de Portalegre, que constitui elemento indispensdvel para o conhecimento da localidade em mea- dos do Séc. XVIII. Dele se extrairam os autos de medi- go da Igreja Matriz de Nossa Senhora da Atalaia e do respectivo Adro que a seguir se transcrevem, documentos particularmente importantes, mormente no que ao interior da igreja se refere, i6 que constituem a Unica descrigéo co- nhecida do templo no periodo em que este conservava ainda muito do seu primitivo aspecto, anteriormente as grandes obras dos séculos posteriores que lhe viriam a conferir a sua actual fisionomia. 2. MedigGo da Igreja Matriz desta villa de Fronteyra a que hoje dao por Invocagdo Nossa Se- nhora da Atalaya, e sua com- frontagéo * Bibliotecério do Biblioteca Municipal de Fronteira Callipole - N° 5/6 - 1997/1998 89 ‘AIGREJA MATRIZ DE FRONTEIRA EM 1760 Fernando Correia Pina Medigdo da Capella mér Tem esta de largura do espaldar, de huma parede a outra, seis varas', e huma quarta, e de comprimento do arco cruzeiro ao mesmo espdldar, qua- tro varas, e meya, e tres dedos, do qual arco se néo medio a altura por ser muy alto, e nao haver comodidade para se tomar a medida delle e tem de largo sinco varas, e duas tergas, he de pedra com seu capitel na correspondencia da simalha real, e tem de grossura meya vara, e quatro dedos; e he o této da dita capella mor de abébeda com seus lavores embotidos na mesma, e no meyo tem huma claraboya’; néo tem esta capella mor tribuna em que se ex- ponha o Santissimo Sacramento, de que muito necessita, e tem a mesma hi retabolo* muito velho, que esta todo ameagando ruina com perigo evidente arneyra? tem em baixo seu pedrestal que esta por detrds do sacrario encons- * Anliga medida de comprimento que equivalia, no concelho de Fronteira, a 1,091 m (Livro de Ac- tas das Vereacées da Camara Municipal de Fronteira, 1858-1859, £84) ie. Granito * Sobre 0 tecto da capela-mor, no zimbério, existia um espelho que reflectia a luz para o interior da mesma capela que no tinha, & época, nenhuma janela. Este zimbério foi posteriormente demolido por ocasiéo dos trabalhos de consirugéo dos abébadas (PARENTE, Pe. Bernardino R. Pereira. Antigui dades de Fronteira, p. 25), em 1789. * Curiosamente, a totalidade da informagéo disponivel relativa ao reiébulo da capela-mor da ma- triz foi compulsada do Livro de Arrematagées da Camara Municipal de Fronteira de 1595, f. 63 a 68. Pela importéncia de que esses documentos se revestem no émbito do presente trabalho, aqui os trans- crevemos para logo de seguida tecermos algumas consideragdes que se nos afiguram oporiunas. Doc. 1 E na dita Camara 0 vereador e procurador do c® fizeréo perginta aos porteiros desta vila que de- sem suas fez as pessas do retavolo da igreja que nos dias possados se trouxerdo pera a Caza da Ca- mara e declarasé per ho jrmlo que finhdo de seus officios declarasé as pessas que ahi trouxerdo elles. per ho dito jrmto q 8 declaréo que elles trouxeréo que trouxerdo sete paneis e des pilares e hd nicho do cristo hias meias colunas do remate das ilhargas e héa bola que he do remate de sima e dous re- mates q 16 duaas salvages e de ude mandaréo fazer este fermo em que asinardo os ditos porieiros & asi deréo suas fez que nd avia mais na igreja per has demais pessas esta em caza do pe prior e 0 asi- néo todos. (1595.08.12) Doc. 2 Ena dita Camara os dios officiaes della mandaréo chamar aos officiaes .s. 0 carpinteiro e mai eiro e osim o pintor que ora faziéo e hestavéo nesta vila pa asentarem he fazeré o retavolos da igreja desta vila os quais © Comendador dom Lucas de portugal mandou vir da cidade de Iboa fazer a dita ‘obra dos retavalos e ora sermos emformados que se querido asentor hos velhos que hesiavio desba- ratados e the demos jrmto .S. a gaspar pireira carpinteiro de marsania e a diogo bernaldes pintor Ihe derdo jrmto dos santos evaogelhos em que pos sua e sub (2) cargo do qual Ihe pos sua méo Ihe man- daréo que declarasé pello dito jrmlo que reseberdo que declarasé o modo e maneira em que estavéo 05 relavolos e se heslavéo pera se por e asentar na igreja e elles pello dito irmio que reseberéo prome- terdo dizer verdade e declarao que hos retavolos velhos ndo eslavéo pera se asentaré e armaré e que era césiemsia armarése per estaré algias pesas podres e desemquaseadas desgovernadas e Ihe fal- faré mios pesas e aviéo mister todas céseriados e grudados de novo e que postas em sima as ditos pessas ero outra vez embaixo per estaré de moneira que dito tem e 0 asinaro cé hos ditos officices da Camara. (1595.08.12) Callipole - N° 5/6 - 1997/1998 90