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ASPECTOS MICROBIOLÓGICOS DA CÁRIE DENTAL

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ASPECTOS MICROBIOLÓGICOS DA CÁRIE DENTAL

Antonio Cesar Bortowiski Rosa Leites Márcia Bueno Pinto Ezilmara Rolim de Sousa

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1Doutorando em Dentística pela Universidade Federal de Pelotas, RS - Faculdade de Odontologia de Pelotas. 2Doutora e Mestre em Endodontia pela Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Odontologia de Piracicaba. 3Doutora em Materiais Dentários pela Universidade Estadual de Campinas Faculdade de Odontologia de Piracicaba,

RESUMO
A cárie é uma doença infecto-contagiosa, de caráter crônico e multifatorial. Sabe-se da indispensabilidade de microrganismos na superfície dental para que tenhamos o desenvolvimento da doen ça cárie, porém só a presença deles não é o bastante. Fatores como higiene, hábitos alimentares, colonização bacteriana, composição da saliva, entre outros, influenciam o metabolismo das bactérias sobre os dentes, modulando a atividade da cárie. Até a década de 60, os Lactobacilos eram tidos como os principais agentes etiológi cos. Entretanto, quando mais informações sobre a composição microbiana do biofilme fo ram obtidas, observou-se que os Lactobacilos constituem apenas uma pequena fração de sua com posição. Atualmente sabe-se que esses microrganismos são mais uma conseqüência do que causa do processo de iniciação da doen ça. O S. mutans, após sua redescoberta em 1960 por Fitzgerald e Keyes, tem sido, conforme relata a literatura, apontado como a principal bactéria em relação à etiologia da cárie. Entre as espé cies incluídas nos Estreptococos do Grupo Mutans (EGM), o S. mutans e S. sobrinus apresentam potencial cariogênico em huma nos. Os trabalhos indicam a diversidade de microrganismos que habi -

Recebido em: 20/12/2004 Aceito em: 30/10/2005

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Factors such as hygiene. sobrinus have a cariogenic potential in humans. mutans and S. Ezilmara Rolim de Sousa. Currently. among others. fazer uma revisão sobre os principais aspectos microbiológicos envolvidos com a cárie dental. Research indicate the diversity of the microrganisms hosted on den tal surface. it is known that these microrganisms are rather a consequence than a cause of the initia ting process of the disease. microbiology.tam a superfície dentária. S. Marcia Bueno. there being at least four different types of caries. KEY WORDS: dental caries. n. causada pelo processo de desmineralização da superfície dental por ácidos orgânicos provenientes da fermentação dos carboidratos da dieta. 2. It is known that the presence of microrganisms on dental surface is essential for the development of caries disease. mutans. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. after being re-discovered by Fitzgerald e Keyes in 1960. it was observed that Lactobacillus constitute only a small fraction of its composition. INTRODUÇÃO A cárie é uma doença infecto-contagiosa. the S. However. mutans LEITES. Until 1960. Among the species included in Mutans Streptococci Group (MSG). modulating caries activity. influence the metabolism of bacteria on the teeth. and sali va composition. The purpose of this paper is to review the major microbiological aspects involved in dental caries. de caráter crônico. 136 . bacterial colonisation. when more information about the microbiological composition of the biofilm was obtained. Salusvita. Lactobacillus were regarded as the main etiological agents. According to literature reports. 25. S. pelas bactérias. S. alimentary habits. p. Bauru. existindo no mínimo quatro diferentes tipos de cáries. PINTO. PALAVRAS-CHAVE: cárie dental. 135-148 2006. microbiologia. Este artigo tem por objetivo. SOUSA. has been pointed out as the main bacteria related to caries etiology. acrescentou um quarto fator – o tempo – que deve ser considerado em qualquer discussão sobre a etiologia da cárie. v. Antonio Cesar Bortowiski Rosa. NEWBRUM (1988). mutans ABSTRACT Dental caries is an infectious-contagious disease that has a chronic multifactorial pattern. despite only their presence is not enough.

25. corando e identificando bactérias nos laboratórios de Robert Koch. Nesta publicação relatou a tese revolucionária de que os microrganismos atuando sobre os carboidratos da dieta resultavam na produção de ácidos que determinavam a descalcificação do esmalte dentário (Teoria químico-parasitária) (UZEDA. quando o açúcar estava presente no meio de crescimento (BUISCHI. No entanto. O desenvolvimento da cárie somente ocorre na presença de microrganismos na superfície dental. a presença de “animálculos” em um material esbranquiçado. Antony Van Leeuwenhoek descreveu. 1992). 2.LEITES. através do uso de uma lente de aumento. com os estudos de Miller isolando. contudo. Os dentes são colonizados por bactérias que existem no biofilme. Ezilmara Rolim de Sousa. Antonio Cesar Bortowiski Rosa. mas modulam sua atividade. Considerando a indispensável participação dos microrganismos no processo. cujo metabolismo ocasiona flutuações no pH. EVIDÊNCIA DA CÁRIE COMO UMA DOENÇA INFECCIOSA A relação entre cárie e bactéria é discutida há muito tempo. Além dos fatores determinantes. 2002. Em 1683. 2002).. Estudou a participação microbiana na cárie. 2005). este artigo tem como proposta fazer uma revisão sobre os principais aspectos envolvidos na microbiologia da cárie dental. a simples presença destes não é suficiente para o desenvolvimento da doença. existem os fatores confundidores. FEJERSKOW e MANJI (1990) demonstraram as relações entre o biofilme e os múltiplos determinantes biológicos que influenciam a possibilidade de desenvolvimento da lesão de cárie. encontrado sobre os seus dentes quando estes não eram limpos (LINDHE. p. Nesta mesma linha de estudos. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. Buscando determinar qual o tipo de estreptococos presente na 137 . n. composição e capacidade tampão da saliva. com consistência de manteiga. v. em 1989 Black chamou o acúmulo de substância do tipo gelatinosa de “placa microbiana” e isolou estreptococos desta placa. 135-148 2006. Este metabolismo é influenciado por fatores determinantes que por si só não levam ao desenvolvimento de cárie. PERINETTI et al. que são aqueles que variam de população para população nos quais se incluem os fatores sócio-econômicos. Marcia Bueno. avaliando clinicamente seus pacientes. doença periodontal e infecção pulpar. educacionais e comportamentais (WEYNE e HARARI. PINTO. a era científica no estudo da doença cárie teve inicio em 1890. Salusvita. Bauru. velocidade da secreção salivar e composição e freqüência da dieta. 2000). levando à publicação do livro “Microorganisms of the Human Mouth”. Entre estes encontramos a composição do próprio biofilme. SOUSA.

o qual denominou Streptococcus mutans. levando a intermitente perda e ganho de minerais na superfície dental (MANJI et al. PINTO. 1991). O papel decisivo na indispensabilidade das bactérias no processo da cárie foi demonstrado por Orland e colaboradores em 1954 na Universidade de Notre Dame. estudos mostram a relação causal entre o consumo de carboidratos fermentáveis e o desenvolvimento de 138 . LEITES. apesar de estarem sob dieta cariogênica. em 1946 quando observaram a inibição de cáries em ratos tratados com penicilina. 25. é uma das mais prevalentes (CAUFIELD e GRIFFEN . 2. A comprovação de que as bactérias eram responsáveis pelo surgimento das lesões. pois sua morfologia celular e da colônia em meio de cultura contendo sacarose. 1989) e a atividade metabólica causa flutuações de pH até mesmo em condições de repouso. das doenças infecciosas que afetam os humanos.Os microrganismos precisam aderir-se firmemente a uma superfície porque se não serão levados pelo fluxo salivar e deglutidos. ocorria com mais freqüência do que o de espécies de lactobacilos (BUISCHI. Tais flutuações de pH causam alterações no fluído do biofilme ou placa dental. 2000).. SOUSA. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. foi visto por Mc Clure e Hewit. Ezilmara Rolim de Sousa. Essa homeostase bacteriana resulta de um processo dinâmico nas interações microbianas (MARSH. Sabendo-se que a dieta exerce um papel central no desenvolvimento da doença cárie. notaram que os ratos livres de germe não desenvolviam a doença. em 1924 Clarke isolou um tipo específico de estreptococos das lesões.placa estava mais envolvido com o processo de cárie. 2006. Na cavidade oral as superfícies dentais são recobertas por depósitos microbianos. O processo de desmineralização dental só ocorre na presença de microrganismos.135-148. Salusvita. enquanto que o grupo controle resultou em alta atividade de cárie (MALTZ. A cárie. p. 1996). 2000). Em um trabalho com ratos “livres de germe” e ratos convencionais (grupo controle). Demonstrou que o isolamento do S. apresentava grande variabilidade em relação às demais espécies de estreptococos então conhecidos. 2003). n. mutans de lesões iniciais de cárie. BIOFILME DENTAL E ASSOCIAÇÃO COM DOENÇA CÁRIE. dessa forma a maioria dos microrganismos são encontrados em áreas de estagnação (MARSH e NYVAD. O biofilme dental assim formado é composto por um grupo heterogêneo de microrganismos nos diferentes sítios e tende a se estabilizar com o passar do tempo. resultando em um distúrbio no equilíbrio na interface dente e placa. Bauru. Marcia Bueno. v. com espessura determinada de acordo com sua localização. sob uma dieta cariogênica por certo tempo. Antonio Cesar Bortowiski Rosa.

podem sintetizar vários tipos de polissacarídeos ou convertê-la em ácido. v. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. 2006. Os polissacarídeos formados podem ser: polímeros de glicose (Glicanos). a composição da saliva. padrão de ingestão de alimentos. bastante solúveis. O biofilme cresce rapidamente. NISENGARD e NEWMAN. ocasionando o processo de desmineralização dos tecidos dentais. Também podem ser formados os polímeros de frutose (Frutanos). p. na presença de grandes quantidades. Diversas espécies bacterianas do biofilme dental. n. Bauru. formados pela enzima glicosiltransferase a partir da sacarose. aumentando a concentração de ácido na interface dente-biofilme. quando em contato com a sacarose. lesões cariosas (JOHANSSON e BIRKHED. Se os ataques ácidos forem muito freqüentes ou tiverem longa duração em relação aos períodos de pH neutro. A fermentação de carboidratos no metabolismo anaeróbio das bactérias resulta na produção de ácidos. 1995). enquanto que os dextranos formam cadeias flexíveis sendo mais solúveis. 2. Muitas bactérias do biofilme utilizam açúcares presentes na dieta (sacarose. Estes últimos são altamente insolúveis e rígidos e podem formar agregados fibrosos. que são formados em uma extensão menor do 139 . Salusvita. mas. O aumento na concentração do íon hidrogênio (pH ácido) causa subsaturação do cálcio e do fosfato na fase fluida ao redor do dente. com ligações b 2. Este pH é um dos responsáveis pela instalação no biofilme dental de uma comunidade microbiana acidúrica e acidogênica. Os glicanos com a maioria das ligações a1-6 são denominados dextranos e os com predominância a 1-3 são chamados mutanos.6. Os carboidratos são fermentados de modo direto. Os PEC formados na parede celular da bactéria. Os frutanos são polímeros extracelulares de frutose. formados pela enzima frutosiltransferase a partir da sacarose. Ezilmara Rolim de Sousa. principalmente o ácido láctico. 1995. 135-148. Marcia Bueno. glicose. O equilíbrio destes é determinado por diversos fatores como o conteúdo nos alimentos de indutores ou protetores contra a cárie. 25. são armazenados na forma de polissacarídeos intra (PIC) e extracelulares (PEC).LEITES. SOUSA. O pH próximo da neutralidade encontrado em biofilmes na ausência de carboidratos significa um período de repouso onde há saturação de cálcio e fosfato. frutose e lactose) para seu metabolismo energético. O amido (polissacarídeo da glicose) pode ser utilizado após a degradação em carboidratos de baixo peso molecular (por ex. Antonio Cesar Bortowiski Rosa. além de serem importantes na adesão bacteriana também contribuem para as propriedades de difusão da matriz da placa. a suscetibilidade da superfície dental e a concentração de flúor no ambiente do biofilme dental (JOHANSSON e BIRKHED. o resultado final será uma lesão cariosa. 1994). maltose) pela amilase salivar e bacteriana. PINTO.

Antonio Cesar Bortowiski Rosa. 2006. através de evidências bioquímicas. 1975. n. 25. e que o nível de infecção da mãe é um preditor do grau de infecção e do desenvolvimento das lesões de cárie da criança (ALALUUSUA e RENKONEN. maltose e sacarose) e são metabolizados quando outras fontes de carboidratos estão ausentes. mutans da mãe e o risco de infecção por estes microrganismos em seus filhos. 135-148. pois. Bauru. 2. NISENGARD e NEWMAN. PINTO. há uma correlação positiva entre dieta rica em sacarose e aumento da produção de PIC e PEC no biofilme bacteriano (GAWRONSKI et al. além de ser substrato para a produção de ácidos. foram então chamadas de S. sorológicas e morfológicas aos que causavam cárie em animais. Porém. Assim a sacarose mostra-se mais cariogênica. LEITES. desenvolviam cáries. Salusvita. mutans (105 UFC têm maior chance de infectar seus filhos do que as mães com baixos níveis salivares) especialmente no período de tempo chamado por CAUFIELD et al. BERKOWITZ et al. Ezilmara Rolim de Sousa. SOUSA. Mães com altas concentrações salivares de S. (1981) encontraram associação significativa entre os níveis salivares de S. Diferente dos polissacarídeos extracelulares. 2003). FITZGERALD e KEYES observaram que ao inocular biofilme de hamsters infectados com estreptococos em hamsters não infectados. Quando termina a sacarose. p. BERKOWITZ. quando estes hamsters eram engaiolados com hamsters infectados sob coprofagia. O caráter infecto-contagioso da cárie começou a ser demonstrado experimentalmente com KEYES (1960). cujas mães haviam recebido antibiótico (penicilina ou eritromicina) durante o período de gestação e lactação. como no período entre as refeições. consequentemente estes causariam cárie em humanos. 1994). Nesta pesquisa o autor verificou que filhotes de hamsters. Os estreptococos que foram isolados em humanos eram semelhantes.. estes desenvolviam cárie. 1993. Marcia Bueno. que são formados essencialmente a partir da sacarose. v.que os glicanos. Também em 1960. As bactérias orais também apresentam a capacidade de estocar carboidratos como polissacarídeos intracelulares como o glicogênio. os PIC podem ser formados a partir de qualquer tipo de açúcar que possa ser convertido em glicose 1-P (incluindo glicose. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. frutanos são rapidamente metabolizados pelas bactérias do biofilme dental. Há evidências de que as mães são a fonte de infecção primária nas crianças. mutans. 140 . lactose. não desenvolviam cáries. TRANSMISSIBILIDADE. mesmo com dieta potencialmente cariogênica. Como as bactérias identificadas por Fitzgerald e Keyes eram idênticas às descritas por Clarke em 1924.

anaeróbios fa c u l t a t iv os e às vezes microaerófilos. Antonio Cesar Bortowiski Rosa. v. L. de cepas de S. 135-148.0 no pH e que após sete dias o esmalte dentário apresentava descalcificação superficial. ácido lático) além do etanol e dióxido de carbono (UZEDA. uns dos outros. conforme observado por EMANUELSSON e WANG (1998) que mostraram que os pais e filhos de famílias chinesas adquiriam cepas de S. Bauru. L.LEITES. (1993) de “janela de infectividade” que compreende entre 190 e 360 meses de idade. BUNTING e PALMERLEE (1925) declararam que os lactobacilos eram os fatores etiológicos da cárie depois de realizarem um experimento em que inocularam lactobacilos acidófilos em caldo glicosado contendo dente. Ezilmara Rolim de Sousa. 2006. Marcia Bueno. fermentum. PINTO. brevis. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. Observaram queda para abaixo de 5. mutans. acidophilus. poderiam se multiplicar no pH baixo observado no biofilme e nas lesões cariosas além da constatação clínica de que os sítios de crescimento dos lactobacilos correspondiam aos sítios das lesões cariosas clinicamente diagnosticadas (FITZGERALD et al. 1981). São bastonetes Gram positivos. L. As espécies L. SOUSA. sendo acidogênicos e acidúricos. L. n. 1980. produzem ácido lático. bu chneri e L. a idéia que os lactobacilos eram os agentes etiológicos da cárie dental não era universal. casei. cellobiosus são heterofermentativos. plantarum. salivarius. são homofermentativas. Salusvita. p. À medida que foram obtidas mais informações sobre a composição microbiana do biofilme. Entretanto. 2. (2002). L. L. A justificativa para tal era que os lactobacilos. os autores relatam também ser possível a transmissão entre adultos. 25. observou-se que estes constituíam apenas uma pequena fração do 141 . produzem vários ácidos org â n i c o s (ácido acético. LACTOBACILOS As bactérias do gênero Lactobacillus compreendem um grupo de organismos que tem um papel mais importante na progressão do que na instalação da cárie dental. mutans. Em outro estudo realizado por NIE et al. 2002). Uma característica importante é a sua capacidade acidogênica (produzir ácido) e acidúrica (sobreviver no meio ácido) e sua capacidade de realizar tanto o metabolismo ox id a t ivo como fermentativo. Esta idéia de que os lactobacilos seriam os principais agentes etiológicos da cárie durou até a década de 60 (Era dos Lactobacilos). Este caráter de contágio que acontece entre mães e filhos também ocorre entre pais e filhos e entre irmãos.

ferus. espécie esta isolada da boca de ratos SpragueDawley. n. S. Salusvita. Por não serem capazes de formar polissacarídeos extracelulares. Das espécies acima.01% (GIBBONS. foi demonstrado que os lactobacilos eram mais uma conseqüência do que causa de iniciação da cárie. sobrinus. Bauru. nov. S.biofilme. como o consumo freqüente e alto de sacarose (MALTZ. o S. da qual propuseram o nome de Streptococcus oristatti sp. Existem sete espécies que estão incluídas no EGM: S. mutans e S. S. mutans. mutans permaneceu por aproximadamente 35 anos praticamente ignorado. S. se estão presentes em humanos. não parecem ser altamente cariogênicas (MALTZ. S. e capazes de formar polissacarídeos extracelulares. As outras espécies são encontradas em animais e. anaeróbios facultativos. PINTO. A situação taxonômica dos estreptococos cariogênicos está bem definida no “Estreptococos do Grupo Mutans” (EGM). downei. p. não se aderem a superfícies lisas. Marcia Bueno. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. 0. devendo contribuir para a progressão destas graças as suas caraterísticas acidogênicas e estão associados ao desenvolvimento da cárie dentária sob circunstâncias específicas.. Os lactobacilos parecem ser invasores secundários em algumas lesões de cárie. 2. 2006. fissuras e regiões interproximais). esse microrganismo parece não desempenhar papel preponderante como agente etiológico do início da lesão de cárie. até que em 1960 foi “redescoberto” por Fitzgerald e Keyes. Os autores relatam também ser necessário cuidado quando ratos Sprague-Dawley forem usados como modelo para estudar os efeitos desta bactéria oral em cáries dentais. 1996). indicando ser esta bactéria o principal agente etiológico da cárie. Porém ZHU et al. sobrinus apresentam potencial cariogênico em humanos. (2000) sugeriram uma nova espécie de Streptococcus oral. pois esta nova espécie é morfologicamente similar aos membros do EGM. 1974). A partir daí a sua correlação com a doença cárie tem sido extensivamente estudada. 142 . Com o desenvolvimento e o emprego de métodos quantitativos e de meios de cultura seletivos em estudo bacteriológicos do biofilme. Ezilmara Rolim de Sousa. rattus. acidogênicos e acidúricos. 1964). microaerófilos. Antonio Cesar Bortowiski Rosa. v. 135-148. São cocos Gram positivos. o S. 2000}. S. Em relação à cárie de superfície lisa de esmalte ou superfície radicular. ESTREPTOCOCOS DO GRUPO MUTANS Após a descoberta por Clarke em 1924. LEITES. macacae. Sua freqüência predominava em áreas profundas de cárie de dentina (EWARDSSON. 25. SOUSA. cricetus. necessitando de sítios retentivos para a sua colonização (sulcos.

EGM são cariogênicas em animais e humanos.. As revisões dos trabalhos sobre cárie dentária e EGM apontam que: 1. Este estudo também demonstrou que este grupo está mais fortemente associado com cárie inicial do que os Lactobacilos. Fermentadores de grande quantidade de carboidratos. 1979) 3. Portanto. 2. (SHKLAIR et al. Capacidade acidogênica: a produção de ácido láctico é determinante fundamental para a patogenicidade. É um pré-requisito essencial para que um microrganismo seja considerado cariogênico (MENAKER et al. 3. n. Capacidade acidúrica: sobrevivência do microrganismo em pH ácido. Marcia Bueno. acrílicos). 6. 1973). Poucos indivíduos com baixo número de EGM têm alta prevalência de carie. Antonio Cesar Bortowiski Rosa. 2004). v. Bauru. 1975. (HAMADA e SLADY. 2. pois a cárie é uma doença multifatorial. Ezilmara Rolim de Sousa. Acúmulo de polissacarídeos intracelulares de glicose do tipo amilopectina a partir de carboidratos da dieta do hospedeiro.. 135-148. DUCHIN e VAN HOUTE (1978) evidenciaram altas concentrações do EGM em áreas de cárie incipiente de esmalte. 25. p. Salusvita. SOUSA. A maioria dos indivíduos com alta prevalência de cárie tem alto número de EGM.LEITES. Capacidade de colonizar a superfície dentária: Essas bactérias colonizam superfícies que não descamam (dentes. resultando na formação de ácido lático. incluindo manitol e sorbitol. 143 . permitindo que o microrganismo desenvolva suas atividades metabólicas em ambientes de pH baixo. só colonizam a cavidade bucal após a erupção dos dentes e em pacientes edentados. 2. 4. Produzir polissacarídeos extracelulares do tipo glicana (dextrana e mutana) a partir da sacarose. 1984). 4. PINTO.. Os EGM são um grupo de microrganismos altamente cariogênicos pelas seguintes características: 1. 1980) 5. desde que portadores de próteses (BERKOWITZ e JORDAN. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. o que favorece a formação de biofilme espesso. Os níveis de EGM não implicam automaticamente em um certo nível de cárie dentária. tais como sulcos e fissuras dos dentes. O EGM precede o desenvolvimento de cárie em uma superfície sadia (IKEDA. sendo responsável pela desmineralização do esmalte na etapa inicial da cárie. Esses polímeros são metabolizados quando os açúcares exógenos estão esgotados. 2006. quando comparadas com áreas adjacentes saudáveis. na qual vários fatores desempenham papel importante. FLÓRIO et al. materiais restauradores.

25. sobrinus também pode ser isolado em cárie de superfícies lisas. (THYLSTRUP e FEJERSKOV . exercendo papel importante no processo da cárie.MICRORGANISMOS ENVOLVIDOS NOS DIFERENTES TIPOS DE CÁRIE Os estudos sobre cárie indicam que diferentes microrganismos desempenham alguma seletividade na superfície dentária a ser atacada e sugerem que existem no mínimo quatro tipos de processos envo l v i d o s : CÁRIE DE SULCO E FISSURA As cáries de sulco e fissura são os tipos de lesão mais comuns nos humanos. o S. CHHOUR et al. Tem sido observado que cocos são as formas predominantes nestas lesões. Marcia Bueno. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. SOUSA. Apesar do S. Além desses. entretanto seu papel na formação de cáries em humanos não está totalmente esclarecido. mutans e bactérias Gram negativas (EDWARDSSON. Salusvita. 1988). PINTO. 1974. O S. sanguis predomina. Propionibacterium o b s e rvando-se um menor número de S. 1995). p. 144 . CÁRIE DE SUPERFÍCIE LISA Este tipo de lesão tem uma microbiota bem caracterizada. 1995) LEITES. tais como: Lactobacillus. mutans ser um constituinte minoritário no biofilme (2 a 7%). Na área profunda da lesão há predomínio de bastonetes Gram positivos. 2005). n. mutans e lactobacilos. que são considerados os principais agentes etiológicos. Bauru. As bactérias na dentina habitam preferencialmente a área necrótica mole e áreas mais profundas (THYLSTRUP e FEJERSKOV. 2006. Os microrganismos encontrados com maior freqüência são o Streptococcus mutans e S. Ezilmara Rolim de Sousa.. Eubacterium. ele é considerado o principal agente etiológico pelo seu grande potencial cariogênico (NEWBRUM. v. Inicialmente o S. salivarius foi capaz de produzir lesão cariosa em animais. 135-148. Antonio Cesar Bortowiski Rosa. com o envelhecimento do biofilme aumentam o número de S. salivarius. 2. CÁRIE DE DENTINA Ao exame da lesão cariosa que atinge a dentina observa-se material necrótico e colonização de bactérias acidogênica e acidúricas Gram positivas.

CÁRIE DE SUPERFÍCIE DE RADICULAR A cárie de raiz é uma lesão mole e progressiva da superfície radicular que envolve biofilme e invasão microbiana. Bauru. sendo a cárie um processo infecto contagioso. SOUSA. 2004). a prevenção e a diminuição desta contaminação e o seu controle químico-mecânico devem ser objeto de preocupação quando o objetivo é controlar e eliminar a doença. predominantemente lactato. 135-148. 25. A dentina cariosa contém ácidos orgânicos.. propionato e butirato. 1991). Ezilmara Rolim de Sousa.Alguns microrganismos envolvidos em lesões de cárie de superfícies radiculares são diferentes daqueles que causam cárie de superfícies lisas em função da natureza da lesão inicial que ocorre no cemento e dentina.LEITES. Lactobacillus acidophilus e Actynomyces israelli tem sido considerados agentes primários de cáries de superfície radicular em humanos (SHEN et al. e não no esmalte. e de propionato pelos Eubacterium.. mas quando a dentina amolecida subjacente é cultivada. mostrando a diversidade de microrganismos que habitam as mesmas. Salusvita. Streptococcus mutans. 2. A. PINTO. Propionibacterium e Veillonella. (UZEDA. mutans e S. e o alto número destes últimos gêneros no habitat sugere a presença de cadeias alimentares e algumas vantagens ecológicas dadas a essas bactérias pelo ambiente (HOJO et al. Pode-se concluir que. mutans. de acetato por Actinomyces. Marcia Bueno. p. 2002). O papel dos Estreptococos do Grupo Mutans (EGM) e dos Lactobacilos em relação ao processo cárie está bastante claro sendo o EGM o principal agente etiológico da cárie e as espécies S. Amostras bacterianas de cárie cementárias mostram predominância de Actinomyces viscosus. Os Lactobacilos desempenham papel importante na progressão da cárie. Outros microrganismos também são encontrados. Os estudos relatam à existência de quatro tipos de cáries. A produção de lactato por Lactobacillus. odontolyticus são isoladas. espécies como A. naeslundii e A. v. CONSIDERAÇÕES FINAIS A literatura consultada é unânime em afi rmar que a cárie é uma doença multifatorial e que os microrganismos são essenciais para seu desenvolvimento. acetato. viscosus. sobrinus as que apresentam potencial cariogênico em humanos. incluindo Nocardia e S. 2006. 145 . Antonio Cesar Bortowiski Rosa. n. Aspectos microbiológicos da cárie dental microbiological. e não na sua etiologia.

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