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SOCIEDADE DE EDUCAÇÃO DO VALE DO IPOJUCA - SESVALE FACULDADE DO VALE DO IPOJUCA FAVIP COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA

THIAGO DE OLIVEIRA SOUZA

PSICOPATIA E SUAS INFLUÊNCIAS FAMILIARES: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

CARUARU, 2010

THIAGO DE OLIVEIRA SOUZA

PSICOPATIA E SUAS INFLUÊNCIAS FAMILIARES: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

Monografia apresentada à Banca Examinadora da Faculdade do Vale do Ipojuca Favip, como requisito parcial à obtenção do grau de formação em psicologia, sobre a orientação da Prof.ª Ma. Fabiana Josefa do Nascimento Sousa.

CARUARU, 2010

Catalogação na fonte -

Biblioteca da Faculdade do Vale do Ipojuca, Caruaru/PE

S729p Souza, Thiago de Oliveira. Psicopatia e suas influências familiares: uma revisão bibliográfica / Thiago de Oliveira Souza. -- Caruaru : FAVIP, 2010. 42 f.

Orientador(a) : Fabiana Josefa do Nascimento Sousa. Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) -- Faculdade do Vale do Ipojuca.

1. Família. 2. Violência. 3. Psicopatia. I. Título.

CDU 159.9[11.1]

Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário: Jadinilson Afonso CRB-4/1367

PSICOPATIA E SUAS INFLUÊNCIAS FAMILIARES: UMA REVISÃO BIBLIOGRÁFICA

THIAGO DE OLIVEIRA SOUZA

DATA DA APROVAÇÃO:

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BANCA EXAMINADORA:

Profª Ma. Fabiana Josefa do Nascimento Sousa. (Orientadora)

Raffaela Medeiros e Moraes (1ª Examinadora)

Getúlio Amaral Júnior (2ª Examinador)

A Deus, pela sua infinita graça e misericórdia, concedeu-me o dom da vida e até aqui me ajudou. Minha família, uma nova história Deus tem pra nós.

AGRADECIMENTOS

Sou grato ao senhor Jesus o qual é o motivo de minha existência, por estar comigo durante todo o tempo, nunca me abandonado nos momentos mais difíceis, me concedendo força e sabedoria, a ti Senhor toda honra e toda glória, aquele que é o meu universo tudo o que sinto e o que penso. Aos meus pais e irmãos pelo investimento, incentivo e apoio em minhas decisões, obrigado por tudo, vocês são parte dessa conquista, sem vocês nada disso seria real. Amo vocês, me orgulho por fazer parte desta família abençoada.

A minha linda Paula Sabrina ao qual o Senhor Jesus me deu o prazer de

estar namorando, sempre com uma palavra de incentivo diante das dificuldades e me apoiando. Te amo minha linda você é parte desse sonho também nem olhos viram,

nem ouvidos ouviram o que Deus preparou para nós.”

Aos meus amigos, Josenildson, Gilciano, Lucildo e Diego (in memoriam), pelo apoio e amizade, vocês são verdadeiros amigos um exemplo de dedicação e de caráter. O sucesso vai ser conseqüência.

A minha orientadora professora Fabiana Nascimento, pela paciência, apoio e

dedicação no desenvolver da minha formação e deste trabalho. Você é um exemplo pra mim, que Cristo Jesus lhe conceda toda sorte de bênçãos.

A meus irmãos e amigos da igreja pelas orações, meu discipulador e amigo

Pr. Marcus Alexandre, obrigado pelos conselhos e orações, você é uma benção pra

mim.

Aos meus amigos de turma, sentirei saudades do companheirismo, das aulas, sorrisos, brincadeiras e compartilhamento da amizade. Sucesso pra todos nessa nova etapa. Aos meus mestres que contribuíram para minha formação e me ajudaram a escolher o caminho do meu desejo. Sabedoria e paz. Aos demais amigos, que embora não tenham sido citados, de forma direta ou indireta colaboraram e se preocuparam comigo ao longo dessa caminhada. Por fazerem parte da minha vida.

A todos, com afeto, minha gratidão.

―As instruções que você segue, influencia no futuro que você cria‖.

Mike Murdock

RESUMO

Nos dias atuais, tem-se observado psicopatologias que despertam na academia os seguintes questionamentos: De onde surgem? Quais são as suas possíveis causas

e conseqüências? Neste trabalho queremos proporcionar um estudo acerca da

psicopatia e suas possíveis relações com o contexto familiar do sujeito, ressaltando

a importância do trabalho com a família para a contenção de atos anti-sociais em

seus membros mais jovens. Como base principal a teoria psicanalítica será utilizada,

a qual proporciona uma leitura próspera e subjetiva acerca das possíveis causas da

psicopatia. A princípio, é necessário observar e entender que o psicopata não pensa

a si próprio como um doente, e nem sente dores ou incômodos orgânicos, mas trata-

se de uma pessoa estrutura psíquica adquirida por uma desorganização possível dos modelos familiares ou também uma não-elaboração do superego que pode apresentar as seguintes características: auto-referência excessiva, sempre muito centrado em si, dono da verdade, não aceita crítica, grandiosidade, tendência à superioridade, exibicionismo, dependência excessiva da admiração dos outros, superficialidade emocional, crises de insegurança que se alternam com sentimentos de grandiosidade. Assim, nas relações com os outros, normalmente a rivalidade e a inveja é intensa, consciente ou inconscientemente, refletindo na contínua tendência para exploração do próximo, incapacidade de depender das pessoas, falta de

empatia, compromisso interno nas relações com os outros e ausência de culpa.

Palavras-chave: Família. Violência. Psicopatia.

RESUMEN

Hoy en día, se ha observado psicopatologías que despiertan en la academia las siguientes preguntas: ¿De dónde surgen? ¿Cuáles sus posibles causas y consecuencias? En este trabajo se ofrece un estudio a cerca de la psicopatía y sus posibles relaciones con el entorno familiar del sujeto, con un enfoque en la importancia de trabajar con la familia para la contención de los actos antisociales en sus miembros más jóvenes. Basado principalmente en la teoría psicoanalítica, lo que proporciona una lectura prospera y subjetiva de las posibles causas de la psicopatía. En principio es necesario observar y entender que el psicópata no piensa a si mismo como alguien enfermo y ni siente dolores o molestias orgánica, pero es una persona con estructura psíquica adquirida por una posible ruptura de los modelos familiares, o incluso una no-elaboración del superyó que pueden presentar las siguientes características: exceso de auto-referencia, siempre muy centrados en sí mismos, dueños de la verdad, no aceptan las críticas, grandiosidad, tendencia a la superioridad, el exhibicionismo, la excesiva dependencia de la admiración de otros, superficialidad emocional, crisis de inseguridad que se alternan con sentimientos de grandeza. Así, en las relaciones con los demás, por lo general la envidia y la rivalidad es intensa, consciente o inconscientemente, lo que refleja la continua tendencia hacia la explotación de los demás, incapacidad para depender de la gente, la falta de empatía, compromiso interno en las relaciones con los demás y la

culpa.

falta

de

Palabras clave: Familia. Violencia. Psicopatía.

SUMÁRIO

INTRODUÇÃO

10

1.

 

FAMILIA

12

1.1

Aspectos gerais

12

1.2

Os lugares e as funções

13

1.3

A

crise familiar

17

1.4

O

comportamento anti-social da criança na família

18

2.

VIOLÊNCIA

20

2.1

Aspectos gerais

20

2.2

Impunidade, punição e violência

24

3.

PSICOPATIA

27

3.1

Panorama histórico

27

3.2

Explicações fisiológicas

28

3.3

Psicopatia e influências familiares

30

3.4

Possibilidades de tratamento

34

3.4

O

uso da contratransferência

36

CONSIDERAÇÕES FINAIS

38

REFERÊNCIAS

39

INTRODUÇÃO

A psicopatia é um transtorno mental de difícil compreensão, por apresentar características e aspectos que não percebem e nem se diagnosticam facilmente. Ao analisar a história da Psiquiatria, em alguns momentos procurou-se rotular um quadro fechado de diagnóstico compreensivo das estruturas do psicopata. O termo psicopatia deve-se à Escola Psiquiátrica Alemã. Com a introdução do termo psicopatia propriamente dita. I L. Koch introduziu o termo inferioridade psicopática em 1888 (SHINE, 2005). Nos dias de hoje é perceptível que o psicopata, muitas vezes, está interligado a crimes e contravenções, como atos de violência sexual, assassinatos em série, propensão para enganar, ausência de remorso, falta de empatia, histórico de múltiplos parceiros sexuais e ausência paterna e/ ou materna com situações de irresponsabilidade na criação do filho. Portanto, sua marginalidade também faz parte de sua posição social e confunde-se com sua condição clínica (Shine, 2005). Para a Psicanálise, o interesse em estudar as doenças mentais deu início a os quadros mais notórios de investigação analítica, entre elas as principais são as que se estabelecem como as perversões, as neuroses e as psicoses. É importante observar que a criação e as primeiras relações do sujeito influenciam sua conduta diante da sociedade. Ackerman, (1961) alerta sobre a dinâmica familiar comprometida que pode ser denunciada pela atuação psicopática de um de seus membros. Agressividade na infância pode construir uma estrutura psicopata na criança; por isso, é necessário atenção a esses tipos de casos. Crianças com déficit de atenção/Hiperatividade apresenta alta probabilidade de desenvolver o transtorno anti-social de personalidade (Shine, 2005). Freud (1916) escreveu um artigo -Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico, onde cita o termo criminoso em conseqüência de sentimentos de culpa. Para Freud, existem pessoas que através de atos criminosos buscam prazer. Também não devemos descartar a idéia de superego deficitário, vez que o portador de caráter anti-social apresenta um código moral falho, e sua capacidade de julgamento do que é certo ou errado está subordinada à satisfação instintual o que o torna tão inconfiável (FRIEDLANDER, 1945). Segundo o DSM-IV (2002), o diagnóstico de transtorno da personalidade anti-

social só pode ser aplicado a indivíduo que tenha, no mínimo, dezoito anos, pois antes dessa idade comportamentos anti-sociais podem ser diagnosticados como transtorno de conduta; por isso, é necessário cuidado com os termos introduzidos, pois podem produzir efeito estigmatizante na vida do indivíduo. O DSM-IV (2002) aponta dados que a psicopatia é mais freqüente em homens (3%) que em mulheres (1%), na comunidade em geral. Os testes psicológicos são instrumentos de uso indispensável para realização de um diagnostico psicológico às necessidades judiciais (exame criminológico em prisões, pericias psicológica em vara cível, subsidio para laudo de cessação de periculosidade em manicômio judiciário e avaliação inicial de educandos na Febem.) (SHINE, 2005).

CAPÍTULO I: FAMILIA

"Observa o teu culto a família e cumpre teus deveres para com teu pai, tua mãe e todos os teus parentes. Educa as crianças e não precisarás castigar os homens."

1.1. ASPECTOS GERAIS

Autor desconhecido

A origem da família se constitui na relação entre duas pessoas; significa dizer que ela está presente mesmo que de maneira indireta em todas as instituições da sociedade. A família é uma união de pessoas ligadas pelo ritual do casamento e pela filiação, ou sucessão dos sujeitos descendentes uns dos outros. Se tomarmos como exemplo o recém nascido, observamos que ele depende totalmente dos cuidados familiares, isto é, a família também exerce papel de acolhimento e cuidado com seus componentes. Fazer parte de uma família implica em possuir identidade estabelecida, sentir-se enraizado e encontrar possibilidades de apoio e segurança. Falar sobre a instituição família é algo que mexe com os sentimentos mais profundos, pois é um sistema de pessoas em que se relacionam umas com as outras em prol de um bem comum, que é a busca pela felicidade. Implica também em novas mudanças e padrões complexos nos relacionamentos. Os modelos familiares se configuram em novas ordens. Segundo Souza (1997), a família substituiu as casas pelos espaços menores -os chamados apartamentos- e reduziu- se a duas gerações; pais e filhos- família nuclear. Posteriormente, o grande número de separações originou a família monoparental, constituída por mãe e filhos. Para alguns autores, muitas vezes a família é vista como algo em extinção. As crises são condições reais de sua existência em uma época na qual a família tem vivido constantes abalos internos e alvo de várias interferências externas. A família de fato, ―encolheu‖: aquele modelo colonial deu lugar à família nuclear, que, conseqüentemente, diminuiu para a monoparental, reduzida à unipessoal, característica esta que sem dúvida é a menor célula social possível de existir, impensável há poucas décadas, mas que tem tomado proporções significativas nas grandes metrópoles.

Foi dentro da família que os indivíduos conquistaram o direito de ter uma vida privada autônoma. De certa forma a vida privada se desdobra: no interior da vida privada da família surge agora uma vida privada individual. No horizonte dessa evolução estão os lares compostos por uma única pessoa, onde a vida privada doméstica foi inteiramente absorvida pela vida privada individual. (PROST, 1987, p. 61).

Essa diminuição significativa dos componentes da família é atribuída à uma multiplicidade de razões de ordem social, emocional, cultural e econômica, que sem dúvidas têm contribuição da estruturação dos ideais feministas, com o que se conhece como ―revolução sexual‖, que levou a mulher a não mais ser apenas uma reprodutora. A família que se relaciona é aquela que estabelece vínculos, processo fundamental na construção do sujeito; o vínculo normal é aquele que se estabelece entre o sujeito e o objeto quando ambos têm possibilidades de fazer uma escolha livre de objeto, como resultado de uma boa diferenciação entre ambos(Riviere 1980, p. 49). Esses vínculos têm características diferentes. Por exemplo: a mãe deveria elaborar a perda de seu bebê que se constituía em uma unidade física com ela, é importante a quebra dessas relações no seu período correto, pois então o sujeito vivenciará a falta que é estruturante e significativo em seu desenvolvimento. Quando a família falha, surgem os conflitos internos e externos, os vínculos patológicos (SOUZA,1997).

1.2. OS LUGARES E AS FUNÇÕES

No desenvolvimento do contexto familiar, existem sentimentos amorosos e hostis respectivamente, que são dirigidos à mãe e ao pai. Em função da gratificação e frustração vivenciadas, os impulsos de amor são dirigidos à mãe, que estabelece vínculos com o bebê, uma relação fusionada em que ambos não se distinguem, e os hostis são direcionados para àquele que ―frustra‖ esta relação, o pai, que é o representante da lei, no sentido de que impede a relação fusionada com a mãe e a satisfação delimitada dos impulsos do bebê. O pai também é aquele que ama, protege e que é alvo de desejo da mãe; essa função paterna é importante organizadora das relações. Segundo Pereira (2003), quando a norma torna-se norma, na verdade, ela está dando legitimidade ao que já existe psiquicamente. Quando falamos no desenvolvimento das funções parentais é muito importante deixar claro que essas funções não são definidas pelo sexo nem pelo

grau de parentesco exercido por aqueles que são próximos ao sujeito. Schaffer (apud Wallbridge, 1982) pontua que a criança liga-se ao adulto através da segurança, do cuidado, do amor e do envolvimento emocional que estabelece com ele; sendo assim, a mãe e o pai não precisam ser o biológico; pode, todavia, ser qualquer pessoa que simplesmente desenvolva os papéis parentais na vida da criança. Mas quando a criança não recebe o amparo familiar adequado e o suporte emocional materno e nem a autoridade paterna, muitas vezes recorre às figuras substitutivas que exercem essas funções, porém com direcionamento social inadequado, possibilitando a vulnerabilidade psíquica. Sob o ponto de vista da Psicanálise, a interação dos membros de uma família se desenvolve em diversos planos, consciente e inconsciente, que se inter- relacionam através de um significado simbólico, no que diz respeito às questões sociais, legais e econômicas que envolvem uma família, a partir de uma reflexão epistemológica psicanalítica que abrange os aspectos inconscientes, os afetos e suas ligações com as idéias e os atos. Groeninga (2003) afirma que o modelo de família que emerge atualmente, cada vez com maior força, é um modelo eudemonista, ou seja, aquele pelo qual cada um busca em cada família, ou por meio dela, a sua própria realização, seu próprio bem estar, bem estar esse que também é relativo aos outros componentes da família. Pereira (2003) ressalta que a família muda no decorrer do tempo, transformando-se com a cultura, e, com estas transformações, os valores, regras e conflitos daquela família vão sendo transmitidos de pais para filhos. A família tem buscado evoluir em seus modelos. Antigamente se observava características de um modelo ―hierarquizado‖ por uma ordem estabelecida, em que o homem e a mulher desempenhavam funções e papéis diferentes. O poder masculino era extremamente forte, com o domínio de total controle de todos os membros da família, e contrariar essa autoridade seria algo incontestável, pois esse poder se apoiava na superioridade econômica do homem. A mulher, por sua vez, desempenhava um papel em segundo plano, encoberta por um reinado doméstico, onde seu trono era o lar; a fidelidade da esposa era motivo de honra para o homem, único a ter liberdade sexual. O casamento não se fundamentava em uma escolha dos sujeitos, mas sim em uma forma estabelecida de cobranças e obediências familiares e sociais. As relações entre pais e filhos eram mantidas pelas diferenças de gênero, e os pais

entendiam que para obter o respeito dos filhos seria necessário uma postura de distância, pois só assim seria possível impor limites. A base dessa relação era edificada pelo desenvolvimento profissional, econômico, em qualidades morais. Os valores dessa família eram de relevante significação na sociedade, em que os componentes eram julgados em função dos êxitos e fracassos de sua família. Nas classes mais baixas, o distanciamento entre pais e filhos era o mesmo; essas famílias dependiam ativamente do trabalho dos filhos, que eram sempre rotulados como ―a riqueza do pobre‖, o que talvez explique a inúmera quantidade de filhos nas famílias de classe baixa. Outra característica do modelo hierarquizado da família era a aplicação dos ―mecanismos corretivos‖, onde se incluía as agressões físicas. Falar sobre assuntos sexuais era proibido e esse tema só era dialogado entre adultos do mesmo sexo. As crianças desse modelo familiar não recebiam nenhuma orientação sexual. Segundo Souza (1997), é na década de 50 que se iniciam mudanças

significativas no modelo de família, onde a verticalidade das relações cede lugar à busca da horizontalidade, o que caracteriza a família de modelos ―igualitários‖. O homem e a mulher não são mais tão diferentes assim em suas respectivas funções,

e essas diferenças são vistas de forma mais importante do que o sexo do sujeito e/

ou sua posição social. Essas modificações promoveram uma busca intensa das semelhanças e que se fêz presente até na maneira de vestir-se as roupas unissex. Para a referida autora, com o desenvolvimento do anticoncepcional e, conseqüentemente, uma sexualidade mais liberal, a mulher conseguiu uma sexualidade aproximada a do homem, e essa busca de igualdade se fêz em vários

aspectos da vida. A fidelidade sexual passa a ser um compromisso de ambos, marido e mulher, de maneira que o prazer nele se inclui. As relações com os filhos começam a desenvolver uma expressão mais livre de idéias e sentimentos. Quanto

à questão dos castigos físicos, esses começam a ser banidos, dando espaço ao

diálogo. O respeito e a subjetividade do outro torna-se algo que tem feito parte desse modelo. Por outro lado, observa-se que nos dias atuais os pais têm encontrado dificuldades em impor limites à vida de seus filhos, os comportamentos atípicos, de caráter anti-social como, por exemplo, um caso de um homicida possivelmente tem a ver com alguma deficiência na estrutura familiar do individuo, ou na forma como ele enxerga o ambiente familiar ideal, sem ordem e sem subordinação, as crianças e os

adolescentes são inseridos em um contexto delinquencial é necessário segundo Santos (2007), quando se fala em estrutura familiar, temos que tomar cuidado, pois não necessariamente uma família estruturada é aquela que tem pai, mãe e filho. Em uma família que tem uma relação saudável entre seus componentes, existem valores, limites, afeto. Mesmo quando vemos mãe e filhos sozinhos, é possível que aquele ambiente seja referência para saúde mental, sem problemas, enquanto que famílias com todos os seus componentes tradicionais podem possuir filhos problemáticos. A família é um dos pontos centrais da questão, por ser o representante dos contextos sócio-culturais, e importante nos processos de estabelecimento de padrões culturais, das leis e das normas. Winnicott (1987) afirma que a criança, cujo lar não lhe ofereceu um sentimento de segurança, busca-a fora de casa, às quatro paredes: ainda tem esperança e recorre aos avôs, tios e tias, amigos da família, escola. Procura uma estabilidade externa, sem a qual poderá enlouquecer.

A criança anti-social está simplesmente olhando um pouco mais longe,

recorrendo à sociedade em vez de recorrer à família ou à escola para lhe

fornecer a estabilidade de que necessita para transpor os primeiros e essenciais estágios de seu crescimento emocional. (WINNICOTT, 1987, p.

130).

O amparo familiar dá suporte à criança para enfrentar seus impulsos destrutivos, uma vez que ela não desenvolveu mecanismos de defesa, e, se não existir um referencial seguro, a criança poderá sentir medo dos seus próprios pensamentos. Mas, para que a função de pai seja reconhecida, esse amparo se estrutura com a sustentação das funções materna e paterna. Para a função paterna ser representante da lei é necessário que a mãe também o reconheça como este, conforme disse Lacan (1971). Se a mãe denega a função paterna e se a criança recusa a lei, o imaginário persiste, ou seja, a subjugação da criança à mãe. O fato é que a mãe só poderá aceitar a proibição do pai se ela atravessou o seu Édipo e assumiu a castração. Nesse conflito edípico, o pai castra simbolicamente o filho, enquanto detentor desse ―falo‖, separando-o da mãe. Assume, assim, o papel de quem tem o falo desejado pela mãe e a criança, identificando-se com esse pai o suposto dono do poder.

O Édipo pode ser falseado pelas relações da mãe, eroticamente focadas no

filho de maneira inconsciente incestuosa. Estes pais que não vivenciaram a sua castração na infância, e não conseguem estabelecer, mais tarde, limites na relação com o filho, conseqüentemente, estas crianças acabam parando, muitas vezes, no juizado buscando a lei externa para se proteger, já que não tem a interna. (LEVISKY, 1998, p. 117).

As crianças que têm falta da lei paterna, e que estão vulneráveis ao abandono, humilhações psicológicas e violência física, podem apresentar necessidade imperiosa de repetir ativamente o que tiveram que suportar passivamente e, conseqüentemente, apresentar a necessidade de matar seus pais, não somente em nível de desejo inconsciente, mas passando ao ato em si. Então, a partir dessas necessidades, surgem os mitos familiares que buscam explicar as origens e os traumas de uma família que não foram simbolizados.

1.3. A CRISE FAMILIAR

Diante das questões expostas anteriormente, é fato que não se deve negar as mudanças significativas na concepção de família, das quais uma das mais importantes foi a perda de suas ―funções privadas‖. Para Prost (1987), nesse sentido, pode-se falar de privatização da família e em um sujeito que adquiriu o direito a uma vida privada individualista. Souza (1997) afirma ser possível dividir em três partes a existência da família. A primeira, seria a vida pública, da profissão; depois, a vida privada, da família; e, por último, a vida individual. Para a autora, anteriormente a família se sobrepunha ao individuo; agora, é ele que assume a primazia. Essa intervenção é tão real e intensa que hoje é fácil visualizar que o individuo perdeu sua característica de sujeito operante para se transformar em objeto ou objeto de consumo. O importante desse sujeito passou a ser o seu próprio bem estar. Anteriormente havia uma preocupação maior com o grupo; agora, a família aparentemente tem uma ―obrigação‖ de satisfazer as necessidades e desejos individuais. Um exemplo é quando existe incapacidade de evitar as frustrações; geralmente, a solução mais viável para o sujeito é abandoná-la. Para Souza (1997), apesar da família parecer ter perdido sua ―utilidade‖ como meio de prazer, não significa dizer que ela deixou de existir enquanto uma instituição, mas que em algumas situações, ela parece ter-se tornado uma instituição falida. Aparentemente, os valores anteriores antes considerados arcaicos, a família não conseguiu substituir por outros. Para Prost, (1987), ―a sociedade se encaminha para famílias informais.‖

1.4. O COMPORTAMENTO ANTI-SOCIAL DA CRIANÇA NA FAMÍLIA

Baseado no pensamento Winnicottiano, Vilhena e Maia (2002) priorizam a função fundamental da família, qual seja a de suportar a agressividade da criança, que nas suas tumultuadas relações intra-famíliares atuam de forma equivalente ao indivíduo que, por muitas vezes, por seu comportamento bizarro ou anti-social, costuma ser encaminhado aos hospícios ou aos tribunais. Esse comportamento da criança reflete a própria natureza da agressividade enquanto algo que se constitui, motivo pelo qual Winnicott (1983) afirma que ―a tendência anti-social‖ pode ser examinada em vosso próprio filho normal, que aos dois anos de idade tira uma moeda da bolsa da mãe. A partir desse conceito, a família é concebida como um ambiente que responde às turbulentas demandas da criança, sendo que tais respostas são de extrema importância para os rumos que a agressividade infantil irá tomar. Quando responde de forma adequada à criança, a família lhe proporciona as condições necessárias ao desenvolvimento normal da capacidade de inquietude; por outro lado, se a resposta do ambiente familiar for inadequada, poderá proporcionar um desfecho patológico às demandas da criança, resultando, inclusive, na continuidade da tendência anti-social. Nesse sentido, o fenômeno da exacerbação da violência que assola a sociedade contemporânea parece apontar para o fracasso da família em sua função de receber adequadamente a agressividade da criança, no sentido de contê-la no âmbito doméstico. Na verdade, a agressividade é inicialmente apenas um movimento, sem haver de parte da criança uma intencionalidade de ato agressivo (VILHENA E MAIA, 2002). Cabe, assim, à mãe, a tarefa de dar significado a esse movimento, interpretando-o como criativo ou não. Caso isso não ocorra, ao tentar suprir tais funções que falham no ambiente, a criança instaura em seu comportamento a tendência anti-social, direcionando-a ao meio como um pedido de socorro. A princípio, essa falha não é entendida pelo bebê, que em primeiro momento aguarda um retorno da mãe. E, se esta não volta como ele espera, ou demora muito a se recuperar para poder reassumir sua função, acontece a sensação de raiva e abandono. Surge então, a questão que Winnicott define de privação; diante dessa privação, o bebê desenvolve movimentos e atos para avisar a esse meio que ele espera que esse mesmo meio o proteja novamente: seria o que Winnicott chama de esperança da tendência anti-social, esperança que o meio acorde para o que está

deixando de fazer, de atuar e sobreviver, porque, em algum momento, esse meio sobreviveu aos ataques desse bebê, e, de repente, do ponto de vista do bebê, ele esqueceu de sobreviver e o abandonou, segundo Vilhena e Maia (2002). Analisada por essa ótica, a tendência anti-social se origina da privação. Ainda tendo no pensamento de Winnicott uma referência, Vilhena e Maia (2003) discorrem sobre duas tendências observadas no comportamento anti-social e que estão ligadas diretamente ao roubo e à destrutividade, respectivamente. No caso do roubo, a criança busca a mãe, isto é, a preocupação materna e sua disponibilidade para acolhê-la. Já a destrutividade se relaciona à figura do pai, no sentido de buscar um ambiente forte, capaz de suportar os atos da criança, de lhe estabelecer os limites necessários. Nesse ponto, é importante observar que as funções parentais favorecem o desenvolvimento satisfatório da criança, uma vez que a ausência de figuras de autoridade na vida desta leva-la-á à uma manutenção da onipotência e do narcisismo infantil para além da infância, o que comprometerá todo processo de desenvolvimento do sujeito. Quanto a isso, Vilhena e Maia (2003) alertam para o fato da ausência de legitimidade das funções paterna e materna na sociedade contemporânea, em virtude de uma tradição que foi perdida, tornando a figura do sujeito um parâmetro pelo qual esta sociedade está orientada. Abdicando de suas funções no seio da família, muitos pais e mães nos dias de hoje falham em suas tarefas de educar os filhos.

Uma criança normal, se tem confiança no pai e na mãe, provoca constantes sobressaltos. No decorrer do tempo, procura exercer o seu poder desunião, de destruição tentar amedrontar, cansar, desperdiçar, seduzir e apropria-se das coisas. Tudo que leva as pessoas aos tribunais (ou aos hospícios, tanto importa para o caso) tem o seu equivalente normal na infância, na relação entre a criança e o seu próprio lar. Se o lar pôde suportar com êxito tudo que a criança fizer para desuni-lo, ela acabará por acalmar-se através de brincadeiras. (WINNICOTT, 1987, p. 256 / 257)

De fato, se a criança não conta com uma mãe suficientemente boa‖, capaz de lhe facilitar progressivamente a descoberta do meio, se não conta com um pai capaz de lhe fornecer um ambiente forte, que dê suporte à mãe e limite sua relação com a criança, esta não cessará de sustentar sua tendência anti-social, perderá seus referenciais identificatórios e findará por responder ao meio através da violência Vilhena e Maia (2002).

CAPÍTULO II: VIOLÊNCIA

Debaixo do sol, observei ainda o seguinte: a injustiça ocupa o lugar do direito, e a iniqüidade ocupa o lugar da justiça.

2.1. ASPECTOS GERAIS

(Eclesiastes, 3:16)

A violência não é um fenômeno novo. Estudos históricos relatam que o seu

desenvolvimento acompanha o processo civilizatório. O que há de específico nesse

momento histórico, visto que a violência se tornou, nos últimos séculos e neste, matéria de grande consideração e importância social, é: a violência é uma manifestação própria e inelutável dos humanos? Inevitável em certas condições sociais?

O ser humano tende a ser agressivo, mas é uma agressividade disfarçada,

desviada, atribuída a agentes externos, e, quando se manifesta, é sempre uma tarefa difícil identificar suas origens. É necessário ressaltar algumas observações de

ordem geral. Os indivíduos são aparentemente semelhantes em sua essência, mesmo com a predominância dos fatores hereditários, contudo existem peculiaridades que nos diferencia um do outro. Para Costa (1984), a violência faz parte da constituição do psiquismo. Embora ela seja uma marca assustadora do cotidiano e nos deixe sensibilizados, nem sempre é fácil precisar o conceito ou reconhecer sua extensão. Na realidade recorrente, é reflexo da nossa cultura de violência que a sociedade produz e reproduz meios para o desenvolvimento da violência e apenas tem mudado seu olhar sobre ela, aparentemente recriando-a, mas, de fato, diversificando o olhar sobre o tema proposto. A violência está presente em vários acontecimentos de forma explícita e visíveis, tais como os acidentes, homicídios e suicídios, e desenvolve-se em suas formas mais subjetivas da discriminação, da exclusão social, a violência pulsional expressa através de distúrbios mentais e psicossomáticos. Chauí (1998) afirma que existe violência quando um indivíduo ou instituição, através de meios físicos ou psíquicos, impede a manifestação do outro indivíduo na sua singularidade. Para

essa autora, a violência seria a negação do sujeito pelo outro; seria, portanto, uma restrição à manifestação da subjetividade única de cada sujeito. Mas o que diz a psicanálise sobre tudo isso e que contribuição pode oferecer

à abordagem desta questão tão presente na história da humanidade? Será que o conceito atual de violência, que assusta a todos, está apenas relacionado às características dos dias atuais, ou, na realidade, estamos falando do aspecto humano que sempre se repetiu com as razões ou meios diferentes? Desenvolver algo sobre violência através de uma perspectiva psicanalítica implica em retornar aos conceitos de pulsão de morte e seus desdobramentos, conceitos estes postulados por Freud na segunda tópica e que proporcionaram mudanças expressivas na psicanálise. Freud apresentou três aspectos para a pulsão de morte. O primeiro diz respeito à união com Eros, que resulta no sadismo e

o masoquismo; o segundo corresponde à inibição da sua finalidade na sublimação; e

o ultimo aparece como destrutividade decorrente da disfunção em relação às pulsões eróticas. O ódio e a agressividade estão diretamente ligados à tendência destrutiva, tanto do próprio sujeito como do objeto. Estabelecidas as primeiras

relações da vida psíquica, a civilização exerce o papel de estabelecer os limites para as pulsões agressivas, e mantém suas manifestações sobre controle por formações psíquicas reativas, ou seja, a evolução da civilização se dá a partir da luta entre Eros

e Tânatos para os conceitos freudianos. Em Totem e Tabu, Freud (1998) descreve a origem mítica das organizações sociais, relacionando-as à lei e ao direito como produtos da violência. No desenvolvimento da humanidade haveria uma mudança na atitude em relação à morte do outro, na passagem da indiferença à ambivalência do assassinato com a culpa conseqüente. De acordo com o texto de Freud, matar em si não é violento mas sim o desejo de morte. E atos, mesmo os mais banais, podem vir a representar esse desejo. Na base deste texto desenvolvido por Freud está, no crime, o assassinato do pai tirânico que submetia os filhos com seu desejo sem limites. O conflito amor e ódio ao pai leva ao esboço do que mais tarde será considerado um supereu, estruturado a partir do parricídio e da introjeção do pai morto, isto é, resultante de uma dívida de sangue. Discutindo esta idéia do assassinato está sempre presente um crime real ou um desejo assassino, a conseqüência é a mesma. Para a psicanálise, não é o fato em si o mais importante e sim a força do desejo, as proibições tem a ver com o

desejo, pois o que não é desejado, não precisa ser proibido. Totem e Tabu tem como relevância as versões do pai, inicialmente tirânico e, depois de sua morte, transformado em Totem protetor, além da culpa e da insatisfação da lei como conseqüência desse ato (FREUD 1998). A questão da agressividade no ser humano suscita, desde Freud, uma situação paradoxal: alguns teóricos admitem que a agressividade existe no ser humano mas custam a admiti-la e a estudá-la como algo inerente ao sujeito. No texto O mal estar na civilização, Freud, (1930) coloca essa questão de forma irônica, ao dizer que:

Que outros tenham demonstrado, e ainda demonstram a mesma atitude de rejeição, surpreende-me menos porque ―as crianças não gostam‖ quando se fala na inata inclinação humana para a ―ruindade‖, a agressividade e a destrutividade, e também para a crueldade. (FREUD, 1930, p. 124)

Por que necessitamos de tempo tão longo para nos decidirmos e reconhecer um instinto agressivo? Por que hesitamos em utilizarmos, em beneficio de nossa teoria, de fato que eram óbvios e familiares a todos? Teríamos encontrado provavelmente pouca resistência, se quiséssemos atribuir a animais um instinto com uma tal finalidade. Todavia parece sacrílego incluí-lo na constituição humana; contradiz muitíssimas suposições religiosas e convenções sociais. (FREUD, 1930, p. 113)

Para Freud, o homem seria intrinsecamente mau e destrutivo, tendo de ser contido em seus desejos por forças civilizatórias, sem o que estaria condenado ao modo de viver impulsivo próprio dos modos primitivos. Para Freud, a sociedade gera, mas também restringe, a expressão na agressividade individual. Para ele, superego seria a instância que conformaria o homem a se submeter à lei social por está ter-se tornado uma lei internalizada através dos mecanismos de identificação e introjeção. A agressividade, ao contrário da violência, inscreve-se dentro do próprio processo de construção da subjetividade, uma vez que seu movimento ajuda a organizar o labirinto identificatório de cada sujeito, como aponta Vilhena (2002). Ainda segundo essa autora, qualquer sinal de diferença, de risco, de não satisfação, não reconhecimento, pode reconduzir a experiência do desamparo primordial aos becos sombrios e tenebrosos da violência contra o outro que nos ameaça. Costa (1966) coloca que a violência é o emprego desejado da agressividade com fins destrutivos e, principalmente, percebida por quem observa o ato de agressividade; assim, por quem recebe essa agressividade como havendo uma intencionalidade em praticar essa agressão, transformando-a numa ―ação violenta‖.

Para o autor, quando a ação é pura expressão do instinto ou quando não exprime um desejo de destruição, não é traduzida, nem pelo sujeito, nem pelo agente, nem pelo observador, como uma ação violenta. Partindo do pressuposto de que a violência não é um fato isolado, mas que é uma questão de reflexão, proporcionada por uma influência social, não se pode deixar de mencionar a influência externa, a mídia, que tem como base uma ideologia de consumo, que nos dias de hoje exerce um ―controle‖ social e cultural. A mídia tem contribuição atuante na construção da identidade dos indivíduos, TVs, videogame e computadores são instrumentos cotidianos do mundo pós- moderno, instrumentos esses que fazem parte da concretude do imaginário. Diante da gravidade que está se originando no comportamento dos indivíduos, a questão da violência pode estar relacionada com o mau uso dos meios de comunicação, onde são vinculadas idéias destrutivas, em videogames e na internet, com base na liberdade de expressão e do abandono ao senso de responsabilidade social. Existe atualmente uma publicidade que influencia na mecanização do sujeito, induzindo, impondo, persuadindo, condicionando, fazendo com que o individuo perca a noção de seus próprios desejos. Essa indução inconsciente ao consumo de forma descontrolada pode proporcionar conseqüências drásticas à estruturação emocional do sujeito, afetando sua capacidade de escolha. O uso da mídia com sua capacidade difamadora está influenciando negativamente o desenvolvimento da capacidade do aparelho psíquico; esse veículo condicionador afeta a capacidade de criar, pensar e analisar. Segundo Colonnese (1998), grande parte da sociedade ocupa tempo de lazer vendo TV. Ao dedicar tempo significativo à televisão, esta deixa a função de lazer e exerce a função de educadora, muitas vezes delegada pelos pais.

a TV deixa de cumprir as funções de lazer, informação e educação para competir com a autoridade parental. Pais sentem a sua autoridade

[

]

educacional ameaçada em suas próprias casas quando seus valores éticos e morais são contestados pelas idéias vinculadas e manipuladas pela mídia

desatenta, ignorante, inescrupulosa ou interessada apenas nos lucros [

] a

TV adquiri perante os filhos no valor de autoridade alternativa na vida familiar (LEVISKY, 1998, p. 151)

Para o autor acima, a televisão tem sido usada pelos pais como babá, devido aos seus inúmeros estímulos, só que esta é totalmente desprovida daquilo que é base na relação humana: o contato afetivo e a presença física do outro.

É necessário, portanto, que os pais adquiram uma postura diante de seus filhos, conversando com eles sobre as informações recebidas, para que possam filtrar aquilo que é bom e construtivo. Thompson (2004) afirma que quando o indivíduo introjeta as mensagens recebidas pelo meio de comunicação, o sujeito fica dependente deste tipo de instituição, ditando as tendências materiais e simbólicas de como o sujeito deve se apresentar no mundo e na forma como ele se relaciona consigo. De modo que podemos concluir que a violência oferecida pela mídia obedece à demanda e à oferta do mercado; nos fazendo questionar qual será o futuro da vida psíquica da criança e do adolescente submetido a essa estimulação precoce e de como será o superego individual e social que está sendo edificado por força da interferência dos meios de comunicação de massa.

2.2. IMPUNIDADE, PUNIÇÃO E VIOLÊNCIA

Falar de violência como aspecto real e constitutivo da subjetividade da condição humana e da cultura pode trazer alguns riscos. Essa afirmação pode ser utilizada para banalizar e ―justificar‖ os atos de violência e impossibilitar a aplicação das penalidades devidas, pois a aplicabilidade da punição seria circunstancial. No entanto, a despeito das vicissitudes exteriores ou interiores implicadas na questão, existe um abismo entre a realidade do ato e a potenciabilidade do que qualquer um poderia ter feito, e isso precisa, necessariamente, ser reconhecido para que as punições possam ser legitimamente aplicadas e se possa impedir a continuidade dos atos violentos. Arendt (2000) afirma que o ato de punir é importante para a defesa da honra ou a autoridade daquele que foi afetado pelo crime, de modo a impedir que a falta de punição possa causar sua desonra. A desonra pode ser pensada em uma totalidade maior como um colapso do psiquismo; os que foram afetados pelo ataque sofrem indefinidamente a experiência de viver como se nada tivesse acontecido, correndo o risco de que seu juízo de existência fique abolido. Freud, em Totem e Tabu, aponta para o perigo da dissolução social quando o crime, (ou infração) não é punido: os infratores tornam-se modelos a serem imitados, pois revelam o desejo de todos de realizarem o que é proibido. No texto O futuro de uma ilusão, Freud (1927) é pontuado que uma parte dos homens só obedece às

proibições culturais quando pressionados pela exigência externa. O ato de punir é necessário para que o infrator do crime saia da posição de que não se responsabiliza, de quem não sabe ou não se importa com o que está fazendo. A punição provoca uma forma de regulação social de um espaço no qual quem julga e quem é julgado possam fazer uso da palavra. Freud (1916) explica um outro motivo para a necessidade de ser punido por parte daquele que comete uma infração. Diz ele que existem situações nas quais a culpa pré-existe à falta e a execução do ato infrator propicia um alívio psíquico ao sujeito. Ele posiciona duas questões: de onde provêm esse obscuros sentimentos de culpa anterior ao delito? É possível que uma causa desse tipo tenha uma participação importante na execução dos delitos? Em resposta as essas questões Freud esclarece a origem do sentimento de culpa, correlacionando que este se originaria na experiência amorosa infantil e seria uma reação aos dois piores crimes que o homem poderia cometer, os únicos que nas sociedades primitivas são perseguidos e abominados o parricídio e o incesto com a mãe e que se fazem presentes, como desejo e temor, na experiência imaginária infantil. Freud (1916), porém deixa sem resposta a segunda questão, indicando que essas explicações se justificam para certos casos, mas não podem ser generalizadas. Depois, ele iria trazer outro conceito acerca do masoquismo e da pulsão de morte e da necessidade de castigo. A decadência do sistema carcerário, as revoltas, que são constantes e que assustam a sociedade pelo excesso e pela crueldade com que se apresentam, conduziram á tentativa recorrente de reforma do sistema e à tentativa de instauração de seus princípios iniciais. Foucault (1977) ressalta que existem princípios, dos quais ainda hoje se esperam efeitos, são bem comuns e conhecidos da condição penitenciária.

1. Princípio da correção: a detenção penal deve ter por função essencial a transformação do comportamento do individuo. Essa idéia surgiu no campo da ciência e da legislação no Congresso Penitenciaria de Bruxelas

1847.

2. Princípio da classificação: os detentos devem ser isolados, ou pelo menos repartidos, de acordo com a gravidade penal de seu ato, mas principalmente segundo sua idade, suas disposições, as técnicas de correção que se pretende utilizar para com eles e as fases de sua transformação.

3. Princípio da

modulação

das

penas:

as

penas devem

poder

ser

modificadas segundo a individualidade dos detentos, os resultados obtidos, os progressos e as recaídas.

4. Princípio do trabalho como obrigação e como direito: o trabalho deve ser uma das peças essenciais da transformação e de socialização dos detentos. Deve-se permitir aprender ou praticar um ofício, e dar recursos ao detento e à sua família.

5. Princípio da educação penitenciária: a educação do detento é, por parte do poder público, ao mesmo tempo uma precaução indispensável no interesse da sociedade e uma obrigação para com o detento.

6. Princípio do controle técnico da detenção: o regime da prisão deve ser, pelo menos em parte, controlado e assumido por um pessoal especializado que possua as capacidades morais e técnicas de zelar pela boa formação dos indivíduos.

7. Princípio das instituições anexas: o encarceramento deve ser acompanhado de medidas de controle e de assistência até a readaptação definitiva do antigo detento. Seria necessário não só vigiá-lo à saída da prisão, mas prestar-lhe apoio e socorro.

Esse modelo tem obtido resultados satisfatórios na sociedade como sustentáculo do poder normalizador, essa legislação e a naturalização são conflituosas e o fracasso no sistema carcerário pode ser visto como uma derrota do sistema disciplinar ou, pelo menos, como analisa Foucault (1977) no seu fracasso como dispositivo normalizador privilegiado, já que outros modelos tomaram seu lugar - os saberes médico, científico, psicológico, pedagógico.

A especificidade da moralidade moderna atrapalha qualquer atitude normativa, a começar pela administração da justiça: para os modernos, julgar é difícil, e penar é penoso. Pois mesmo o criminoso hediondo ganha, para nós, figura humana (CALLIGARIS, 2005 p. 39).

Essa citação se refere à Justiça como algo que não se confunde com uma harmonia, com uma ordem, e insiste em marcar uma irredutível disjuntura entre o Direito e a Justiça. Para ele, os axiomas do Direito Penal continuaram rudimentares e primitivos, quaisquer que sejam seus aparentes refinamentos e sua sofisticação técnica.

CAPÍTULO III. PSICOPATIA

“Um menino que furta e agride, que é instável e desobediente, é em geral uma criança carenciada de afeto, não amada pelos seus, deprimida e aflita, que só no agir encontra saída para a sua ansiedade”

João dos Santos

O transtorno de personalidade anti-social, em geral, acomete indivíduos que

se comportam afastados das normas sociais e via de regra, sentem-se menos angustiados, por não apresentarem sentimentos de culpa e ansiedade diante de situações diversas. De forma interessante, a maioria dos transtornos são sofridos pelos próprios sujeitos, mas, no caso da psicopatia, a maioria dos problemas são sofridos pelas pessoas que vivem em torno do sujeito psicopata. Se analisarmos um dado epidemiológico, a prevalência do transtorno é de 3% em homens e 1% entre mulheres. Pesquisas revelam que é mais comum em áreas urbanas, pobres e entre residentes móveis dessas áreas. Os homens afetados vêm de famílias maiores do que as mulheres com a mesma condição. Geralmente o transtorno psicopático ocorre antes dos quinze anos de idade. As jovens, em geral, têm sintomas antes da puberdade, e os jovens, até mais cedo. Em populações do sistema prisional, a prevalência do transtorno é de até 75%. (SADOCK, 2007)

3.1. PANORAMA HISTÓRICO

O conceito de psicopatia inicialmente desenvolveu-se através de uma série de

estudos nos indivíduos que se comportavam de forma irracional ou inapropriada, mas não apresentavam outros sintomas. Essa loucura foi referida como manie sans delire por Pinel (1806). A psicopatia, às vezes, é referida como insanidade moral, devido à natureza dos comportamentos como, por exemplo, de mentir, roubar e

enganar. Dominique Esquirol, (apud Shine, 2000), um dos mais famosos discípulos de Pinel, cunhou o termo monomania, enfocando determinado aspecto do comportamento (monomania homicida, monomania incendiária); ele defendia a idéia de que a monomania poderia resultar em atos criminosos passíveis de tratamento, e

não de punição. Benedict Augustin Morel (apud Shine, 2000) sinalizou o fator etiológico. Influenciado pelos trabalhos de Darwin, aplicou a idéia de herança degenerativa. Ele acreditava que agentes externos, como álcool e drogas proporcionaria uma predisposição ao individuo à degeneração, e que o mesmo se podia dizer de um ―mau temperamento‖. Baseado numa concepção neurológica, Valentim Magnan (apud Shine, 2000) ampliou o conceito de degeneração, aplicando a idéia de desequilíbrio mental, pois acreditava em uma falta de coordenação harmoniosa entre diferentes centros nervosos. Emil Kraepelin (apud Shine, 2000), um dos grandes expoentes da Psiquiatria Alemã defendia a idéia de que o desenvolvimento da psicopatia se dava através do método orgânico com ênfase nas lesões e más formações neurológicas. Foi Kraepelin que em 1804 criou o termo - personalidade psicopática - que seria uma etapa pré-psicótica. Kurt Schneider, outro grande expoente da Escola Alemã, difundiu o termo criado por Shine (2000) - personalidade psicopatica - entendendo-o como distúrbio da personalidade que nem afeta a inteligência e nem a estrutura orgânica do individuo. Neste mesmo sentido é que Eugen Kahn (apud Shine, 2000), utiliza o termo personalidade psicopatica, para agrupar vários problemas de desordem da personalidade não classificados como doenças mentais e que teriam como condição precípua comum desajustamento social. Outro passo significativo no estudo do conceito ocorreu quando detectou-se que o transtorno tinha uma base fisiológica. Ou seja, os sujeitos psicopatas sofriam de uma ―depravação moral preternatural‖, uma organização deficiente nas faculdades mentais Holmes (1997). Posteriormente, Holmes falou sobre o ―delinqüente nato‖. E vários outros investigadores refletiram sobre a inferioridade constitucional de tais indivíduos.

3.2. EXPLICAÇÕES FISIOLÓGICAS

O conceito de psicopatia para a Psiquiatria surge da subestimulação cortical,

o

que faria com que os

sujeitos

que sofrem com esses transtornos não se

condicionam bem, e freqüentemente enquadram-se em comportamentos inapropriados para aumentar seus níveis de estimulação. Com base nesse conceito,

espera-se que pacientes psicopatas possam ser tratados com estimulantes corticais, que aumentariam a suscetibilidade ao condicionamento e reduziriam a necessidade

de estimulação. Outras evidências indicam que a administração de estimulantes (ex:

anfetaminas) é eficaz para reduzir os sintomas comportamentais gerais da

psicopatia. Infelizmente, os efeitos de estimulantes são de curta duração e não é viável manter estimulantes por longos períodos de tempo (Holmes, 1997). Pesquisas concernentes á eficácia das drogas para tratar a psicopatia são encorajadoras e sugestivas, mas, no presente, os achados são limitados em número

e natureza. (Holmes, 1997). Na tentativa de um desenvolvimento farmacológico

avançado, têm surgido medicamentos para lidar com sintomas incapacitantes, como ansiedade, raiva e depressão, mas, como estes pacientes por vezes são usuários de drogas, os medicamentos devem ser utilizados de forma criteriosa. Se um deles mostra evidências de transtorno de déficit de atenção/hiperatividade, os psicoestimulantes, como o metilfenidato (Ritalina), podem ser úteis. Pesquisas têm sido realizadas na tentativa de modificar o metabolismo das catecolaminas com medicamentos e controlar o comportamento impulsivo com anticonvulsivantes, como por exemplo, a carbamazepina Tegretol e o Valproato Depakote (SADOCK, 2007).

Casos e estudos retrospectivos mostram a associação entre lesões pré- frontais, mais especificamente lesões nas porções ventromediais do córtex frontal, e

a observação clínica de comportamento impulsivo, agressividade e inadequação

social Holmes (1997). O termo que tem sido freqüentemente utilizado para descrever

a mudança de personalidade observada em decorrência de danos cerebrais em

regiões pré-frontais, ―sociopatia adquirida‖, levaram à idéia de que o comprometimento do funcionamento do lobo frontal ventromedial poderia contribuir para problemas relacionados ao controle de impulso e personalidade anti-social

(DAMÁSIO, 2000). De maneira bastante simplificada pode-se dizer que a análise sobre a função

de determinado neurotransmissor em funções fisiológicas e patológicas poderia ser

aplicada por meio de uso de drogas que ativam ou bloqueiam receptores

específicos. Juntamente com essa possibilidade, a investigação de seus precursores

e metabólitos seria ferramenta considerável para exploração da função de determinado neurotransmissor (SADOCK, 2007).

Considerando o crescente desenvolvimento da psicopatia e o aumento significativo da criminalidade e violência urbana em diferentes locais, os avanços metodológicos obtidos nas últimas décadas, como a técnica da neuroimagem, têm permitido a análise de diferentes possibilidades sobre as bases neurobiológicas de diferentes transtornos mentais. Análise de fatores de risco biológicos para o desenvolvimento do comportamento anti-social é de profunda utilidade para as abordagens efetivas de prevenção e intervenção. Porém, apesar dos desenvolvimentos alcançados nessa área, deve-se ter cuidado na interpretação dos resultados obtidos até o momento, pois a aplicação das informações a respeito das bases biológicas dos transtornos de personalidade anti-social pode gerar diagnóstico precoce e existir o risco de uma classificação errada. Em outras áreas do saber, existiria antes de qualquer coisa uma reflexão ampla e profunda das informações apresentadas.

3.3. PSICOPATIA E INFLUÊNCIAS FAMILIARES

O desenvolvimento da psicopatia não está associada a uma causa específica, mas existe todo um contexto sócio-histórico e cultural, pelo qual se pode observar e identificar as causas possíveis pelas quais o sujeito desenvolveu a psicopatia. Este tema é relevante à Psicologia, considerando tratar-se de uma personalidade abusivamente diferenciada das outras, sendo que as características mais comuns manifestadas na conduta do psicopata são: a incapacidade de relacionamento social; ausência de valores morais; frieza no lugar de emoção; falta de compromisso com os outros e a incapacidade de sentir culpa. Portanto, o psicopata tem prazer em fazer algo que para muitos geraria remorso, mas para ele é substituído por prazer, ou seja, terá satisfação em ter realizado um fato fora dos padrões ditos normais pela sociedade. Embora qualquer pessoa possa mentir, os psicopatas utilizam a mentira como um instrumento de trabalho; normalmente estão bem treinados e habilitados para mentir, pois mentem olhando nos olhos das pessoas e com atitude completamente neutra e relaxada (BALLONE, 2002). Freud escreveu, em 1916, o artigo Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico, no qual ele chama a atenção para criminosos em conseqüência de sentimento de culpa. Segundo ele, sujeitos que sob pressão de um

sentimento de culpa inconsciente buscam através de atos criminosos o alívio e a justificação de tal culpa. Em 1931, em tipos libidinais, Freud encaminha um quadro classificatório definido pela organização da libido. Nessa classificação, Freud parte de três tipos libidinais principais: o tipo erótico, cuja libido é voltada, na maior parte, para a vida amorosa, com angústia de perda do amor e dependência dos objetos externos, portanto, cuja principal necessidade é a experiência de ser amado. O tipo obsessivo, dominado pela ação do superego e pela angústia, que limita o sujeito e o coloca na dependência interna das instâncias interditoras. E o tipo narcisista, sem tensão entre o ego e o superego, nem predominância das necessidades eróticas, o sujeito apresenta-se pouco intimidável; nessa qualidade de ser transgressivo às normas, ele pode ser tanto aproximado à figura do ―herói‖ quanto do criminoso. Sendo assim, o sujeito aproxima-se da figura do psicótico em função dos destinos possíveis do narcisismo.

Para Hare, psicopatia se constituiria em um distúrbio socialmente devastador, definido por constelação de características afetivas, interpessoais e comportamentais, incluindo egocentrismo impulsividade, ausência de empatia, culpa ou remorso, mentira patológica e persistente, violação de normas e expectativas (BALLONE, 2002)

A conduta é psicopática quando a gratificação de motivos básicos é dominante. As funções de controlar e regular o ego são deficientes. Assim, o indivíduo psicopata persegue a gratificação imediata, não dando muita importância aos aspectos do funcionamento psíquico ou às demandas da realidade externa. Sendo que o objetivo principal da conduta psicopática seria evitar a tensão resultante dos impulsos não gratificados, a ansiedade que aparece quando a frustração é iminente, e, ainda, proteger o ego dos sentimentos de inadequação (MACKINNON; MICHELES, 1992). Em uma análise sob o ponto de vista da Psicanálise, pode-se visualizar um contraponto entre os atos cometidos pelos psicopatas e a não elaboração do complexo de Édipo, no qual o sujeito assume posição fálica que cultua o poder, inclusive o poder de decidir sobre a vida. Então, no percurso de realização do homem há o firme propósito de se ir ao encontro do poder. Além disso, o supereu do homem é distinto do supereu da mulher, que cede menos aos imperativos categóricos; em outras palavras, significa dizer que com a mulher se negocia mais

facilmente, pois existe no homem uma nuance que o leva a realizações em nome da honra, do prestigio, e da prestação de favores. A definição dos papéis de cada gênero foi moldada pela história, ideologia, cultura, religião e pelo desenvolvimento econômico, o que levaria a um distanciamento da mulher da vocação ao assassinato, pelos motivos que leva o homem a cometê-los: ascensão ao poder, domínio, demonstração de força, acerto de contas, queima de arquivos e assassinatos de encomenda. Ao longo da história das civilizações, os assassinatos cometidos por mulheres se inserem na rubrica de crimes passionais, nos quais as mulheres vêem seu narcisismo e orgulho feridos pelo abandono de um homem que decide eleger outra como objeto de amor. Outra possibilidade seria aqueles crimes praticados em situações de funcionamento psicótico, como na depressão pós-parto ou em situações mobilizadas por emoção persecutória. A falta da entrada da lei paterna no lar é um fator determinante que pode possibilitar a criança ou o adolescente cometer delito. Pesquisas mostram que, nos casos onde adolescentes cometeram alguma infração, um dado foi constante: vivem ainda numa relação dual, ou seja, imaginária em que um terceiro não entrou na constelação familiar, de forma que possivelmente estes sujeitos inconscientemente arrumariam uma forma de um terceiro entrar de maneira inadequada através de infrações, significa dizer que num momento em que não foi estabelecida a lei interna; em contrapartida faz surgir à lei externa, que muitas vezes vem para interditar essa relação dual. É extremamente normal no desenvolvimento infantil que outras pessoas assumam a função educadora do pai, como muitas vezes aparece na figura do professor, pois, quando uma criança ou um adolescente busca em um outro a função de pai, é porque este possivelmente está ausente do psiquismo deles (isso não significa que eles estão buscando no professor somente um pai, porque talvez não tenha em casa ou no seu mundo interno). Ao contrário, quando a criança transfere esta figura, está denunciando que seu pai simbólico está ausente e que, para sobreviver, precisa de alguém que precisa representá-lo (LACAN, 1971). Quando fala-se de pai ausente é necessário esclarecer que não é no sentido físico, mas, principalmente, na vida intrapsíquica da criança. É importante ressaltar que a presença e ausência do objeto amoroso nos primórdios do desenvolvimento da criança é fundamental para ela ser capaz de simbolizar. Toda lei, de alguma

forma, é frustrante, principalmente quando vem de fora (mundo externo) e é sentido pela criança de maneira muito mais violenta, porque ocorreu de forma atrasada no

seu desenvolvimento psíquico. Para Lacan (1971), o principal papel do pai não é o da relação vivida nem o da procriação, mas o da palavra que significa lei. Para que a função seja reconhecida como representante da lei é preciso que sua palavra seja reconhecida pela mãe.

A mãe, quando tenta realizar-se através do filho, para se sentir inteira, pode

privá-lo de sua imagem autêntica, passando a criança a ser um substituto fálico. O

Édipo dessa relação pode ser falseado, pois existe um conteúdo eroticamente focado no filho de maneira inconsciente incestuosa. Esses pais possivelmente não vivenciaram em sua infância a castração e não conseguem estabelecer limites na relação do filho, gerando, assim, sujeitos desorganizados psiquicamente e não reconhecendo os limites sociais impostos. Dolto (1989) afirma:

Trata-se de colocar os pais em condição de dar a castração; permitir a uma mãe desmama a seu filho, que ela pari de lhe cortar a carne, de dar comida na boca; que a criança se sirva só na mesa, que não lhe seja passado o prato, que ela não seja servida antes do pai (DOLTO, 1989, p. 98).

Quando existe uma tendência anti-social, houve um verdadeiro desapossamento (não uma simples carência), quer dizer, houve perda de algo bom que foi positivo na experiência da criança até certa data, e que foi retirado; a retirada estendeu-se maior do que aquele em que a criança pôde manter viva a lembrança da experiência (WINNICOTT, 1987, p. 138).

A tendência anti-social não é um diagnóstico. Não pode ser diretamente

comparada com outros critérios de diagnóstico, como a neurose e a psicose. O sujeito que sofre a falta de algumas características essenciais da vida familiar desenvolve o que se pode chamar de ―complexo de privação‖. O comportamento anti-social será manifesto no lar ou numa esfera mais ampla; o sujeito poderá, finalmente, ser considerado desajustado e receber um tratamento específico. Existe uma relação direta entre a psicopatia e a privação. E para entendermos essa questão é necessário com base teórica a quem trabalha com sujeito que sofreu privação, entender que o ego imaturo não pode lamentar a perda, não pode sentir o luto.

Um aspecto importante que deve ser ressaltado quanto à psicopatia é que o sujeito se encontra em conflito com a lei. Tal aspecto suscita outra questão, não menos relevante: qual é a lei que o psicopata contesta quando invade o campo do outro? É fato que o psicopata é assim nomeado de um outro lugar, o discurso

jurídico, que está, por sua vez, sob o ordenamento de uma lei com a qual ele tem que se deparar, o chamado texto jurídico. Analisando atentamente a psicopatia, percebemos que, para que haja uma tendência anti-social, é preciso ter ocorrido um verdadeiro desapontamento, não uma simples carência de ordem sócio econômica, embora esta seja muito relevante. Esse desapontamento envolve a perda de algo que foi positivo na experiência da criança nos primeiros estágios de seu desenvolvimento. Winnicott (1999) ratifica isso esclarecendo que a criança anti-social simplesmente olha um pouco mais longe e acaba recorrendo à sociedade, em vez de recorrer à família ou a escola, para que esta lhe forneça a estabilidade que necessita, a fim de transpor os primeiros e essenciais estágios de seu desenvolvimento emocional. É importante observar que, conforme Goldenberg (1991) esclarece, quando o sujeito comete atos infracionais, está denunciando algo que tem forte relação com o mau estabelecimento da função paterna. O sujeito considerado infrator acaba recorrendo, através de comportamentos anti-sociais, à sociedade, em busca de alguém que possa representar o pai, que seja forte e lhe apresente a lei. Segundo Winnicott (1999), o comportamento de modo anti-social não é necessariamente uma doença. Em certos casos, ele é um SOS do sujeito, pedindo o controle de pessoas fortes, amorosas e confiantes. Dessa forma, a função paterna é fundamental para a constituição do sujeito, a grande estimuladora na direção de novas possibilidades e futuros investimentos realizados pelo sujeito.

3.4. POSSIBILIDADES DE TRATAMENTO

Existe uma grande dificuldade em se realizar trabalho com sujeito psicopata, pois a questão da egossintonia do comportamento psicopático é uma afirmação geral por parte dos autores que estudam essa temática. O sujeito psicopata não sofre com seus atos. Como afirmamos anteriormente, a dimensão conflitiva é camuflada. Alguns psicanalistas advertem quanto ao caráter dissimulado, pseudocooperativo e zombeteiro do paciente psicopata. O desejo de mudança geralmente vem de algum familiar que sofre com as conseqüências dos atos psicopáticos. E também por parte do analista. Uma preocupação constante com a iminência dos atos transgressivos pode ocupar a cabeça do analista, de forma que

este fique em uma situação de incerteza que o psicopata não pode conter (Liberman, 1966). Existe uma grande dificuldade em realizar associações livres e isto se correlaciona com a dificuldade para o pensamento abstrato, que é uma forma de suportar a tensão e sublimar o impulso. Para Winnicott (1999), a tendência anti-social pode ser encontrada num indivíduo normal ou num indivíduo neurótico ou psicótico. Ele também afirma admitir que houve período na atuação psiquiátrica em que se evitava receber indivíduos com práticas anti-sociais, pois se acreditava não haver o que pudesse oferecer. Posteriormente, descobriu-se uma ―chave‖ para o entendimento dos atos transgressivos, que deu origem a sua teoria, a qual buscou divulgar e defender amplamente. De certa forma, para que haja entendimento do comportamento transgressivo, é necessário recorrer à teoria dos atos anti-sociais invertida. O ato de transgredir, principalmente em sua vertente agressiva, sempre foi visto como ―sintoma‖, visto também como uma perturbação que impossibilitava a cogitação de análise. Para Winnicott (1999), não havia concordância com a pulsão de morte e sua decorrência quanto à agressividade. Para Klein (1996), a agressividade seria algo natural ao homem, representando a deflexão para o exterior da pulsão de morte como estratégia de sobrevivência, parte dela sendo erotizada e integrada na instância superegóica. Convicto daquilo que tinha desenvolvido em sua teoria, Winnicott (1999) acreditava na possibilidade de tratamento de crianças e adolescentes que apresentam tendência anti-social poderia se dá de duas formas: A primeira, seria o provimento de cuidados à criança, que podem ser redescobertos pela própria criança e nos quais ela pode experimentar de novo os impulsos do id, com possibilidade de experimentá-los. A segunda pelo estabelecimento de um novo suprimento ambiental, ou seja, a psicoterapia individual, com a ressalva de que, esta sem o outro não há grande chances de obter resultado satisfatório. Nathan Ackerman, 1961 (apud Shine, 2005) em seus escritos alertou sobre a dinâmica familiar comprometida que se apresentava pela atuação psicopática de um de seus membros. Para ele, a psicopatia era um quadro clínico menor do que ―uma distorção correspondente às normas da família ou comunidade‖. Trabalhar um indivíduo supostamente ―problemático‖ ou ―marginal‖ acaba sendo algo totalmente improdutivo. Sally Box e colaboradores (1981) realizaram trabalhos com famílias na

clínica que apresentavam várias características, com o intuito de oferecer um amparo emocional a essas famílias, cujos membros apresentassem comportamentos anti-sociais. Para eles casos como o da psicopatia demandam uma estrutura institucional que possa conter as diversas formas de manifestação que o consultório particular não é capaz de proporcionar. Para o autor, a abordagem familiar permite uma visão geral e menos estigmatizadora de indivíduos que são colocados como portadores do ―problema‖. Luiz Meyer (1983) sinalizava as dificuldades de transformar demandas de cuidado individuais em familiares. Para ele, a questão se torna mais crítica quando o sintoma em causa tem uma derivação jurídica, na qual o sistema busca meios de controlar e punir o culpado.

3.5. O USO DA CONTRATRANSFERÊNCIA

Trabalhar com sujeitos que apresentam tendências anti-sociais ou psicopatas traz impacto sobre o psicanalista, que não pode ser ignorado, pois situações frente a esses pacientes podem gerar sentimentos de medo, impotência, frustração, tristeza, raiva etc. Para tanto, é necessário que haja manejo da contratransferência e da transferência, onde o analista pode ser colocado como uma tela protetora contra as ações do psicopata, proteção esta que vai se quebrando à medida que o trabalho interpretativo vai ganhando espaço (SYMINGTON, 1980, apud SHINE, 2000). A idéia que esse autor desenvolveu é que de forma consciente ou inconsciente o analista se sente pressionado e percebe um perigo real ao entrar em conflito com o psicopata, que em situações como esta gosta de ser apelativo como, por exemplo, pedir para que lhe empreste dinheiro, que lhe demos água ou que o deixemos fazer uma ligação telefônica, e assim por diante. Em si, esses pedidos são inofensivos, mas concordar com eles é semear desastre. O psicopata projeta seu próprio desespero interior nas pessoas à sua volta. Ele busca controlar as pessoas através de mecanismos de identificação projetiva, fazendo com que os outros sintam o que ele é incapaz de sentir. O efeito dessa projeção no analista é provocar os impulsos próprios, sádicos e primitivos. A resposta afetiva pode se dá em duas formas: incredulidade ou condenação. Para aceitar evidências dos fatos e não duvidar é importante trabalhar o próprio sadismo e aceitá-lo, o que é mais difícil de se fazer, quando é isto que está sendo provocado.

A reação contrária é negar o próprio sadismo, projetando-o de volta no sujeito

psicopata. Constantemente os sujeitos psicopatas sentem que estão sendo vitimizados, o que pode corresponder, desta perspectiva, a uma percepção correta. Winnicott (1999) recomendava que o analista não apresentasse atitude sentimentalista para com o paciente. Para ele, o sentimentalismo contém uma negação inconsciente da destrutividade subjacente ao ato criativo. Kernberg (1995) vem contribuir, dizendo que a sensação de confusão que pode tomar conta do analista com o paciente ocorre entre aceitar as colocações do

paciente sem criticas e sem rejeitá-las, adotando uma postura paranóide. Para esse autor, a posição sadia seria a oscilação paranóide. Em momentos de preocupação,

o analista teria de ser capaz de se apresentar como pessoa moral, mas não moralizadora; justa, mas não ingênua; confrontante, mas não agressiva.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na tentativa de compreender a psicopatia, foi necessário observar, e perceber, quão complexo se apresenta o tema, pois, diante de tudo que foi exposto, identificou-se que a psicopatia não é um fato isolado, e nem acontece apenas por fatos unicamente sócio-econômicos. De modo que, o presente estudo tentou investigar causas possíveis de desenvolvimento da psicopatia, como a influência das funções familiares, entendendo que os sujeitos que sofrem desse transtorno mental dependem de uma estruturação da relação familiar. Neste sentido, o trabalho baseou-se em torno dos modelos familiares, por acreditar ser essa instituição um representante significativo de valores sócio- culturais, transmissoras das estruturas de comportamento, de referências e da lei, fatores esses considerados importantes para o desenvolvimento do sujeito. Como foi exposto ao longo deste trabalho, a função paterna acontece à medida que os pais proporcionam amparo adequado na vida do sujeito e assumem o lugar de autoridade e de identificação. Nesse sentido, foi necessário questionar como fica a lei e a autoridade paterna quando estas são ausentes e se seriam esses os motivos pelos quais poderia se desenvolver uma psicopatia. Por conseqüência, não houve como se chegar ao foco do presente estudo sem antes compreender os aspectos gerais dos modelos familiares. Estudar as suas transformações proporcionaram visualizar e entender a forma como nos dias de hoje as famílias vêm se constituindo, transformando-se e adequando-se, de modo que essas questões implicam nos relacionamentos entre pais e filhos. Entender que a violência também é um fenômeno real que acontece com o ser humano e que acomete a base familiar, proporcionando um desajuste, fato concreto na vida do sujeito que sofre da psicopatia. Em síntese, conclui-se que a psicopatia é um fenômeno atrelado à estrutura familiar e ausência das funções parentais, sendo necessário observar o contexto no qual o sujeito está inserido, seja ele emocional, físico ou simbólico.

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